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Julio de Santa Ana

A Igreja dos Pobres

Produzido por um
grupo ecumênico de trabalho
do Conselho Mundial de Igrejas

1111mprens8 metodista
© Copyright - Imprensa Metodista e Programa Ecumênico de Pós-Graduação
em Ciências da Religião - 1985

o Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião, agradece "Por esta razão, a justiça humana requeri da por Deus
ao Setor de Publicações do Conselho Mundial de Igrejas, a ajuda financeira e e estabelecida em obediência - a justiça que segundo Amós
autorização de publicação desta obra. 5.24 jorraria como poderoso rio - tem necessariamente
caráter de vindicação de direito em favor do inocente
ameaçado, do pobre oprimido, das viúvas, dos órfãos e dos
estrangeiros. Por essa razão, nas relações e eventos na vida de
seu povo, Deus sempre se coloca incondicional e
Tradu tor: Jaci Maraschin
apaixonadamente deste lado e deste lado apenas: contra os
soberbos e ao lado dos humildes; contra os que já gozam
do direito e do privilégio e -l10 lado dos que são excluidos
Departamento Editorial da Imprensa Metodista: desses bens e renegados. Que significa tudo isso? Essas
Editor: Laan Mendes de Barros coisas não podem ser entendidas pelo estudo abstrato
Revisão: Leonidas Tavares da tendência política e especialmente do caráter -forense do
Marilia Schüller Ferreira Leão Antigo Testamento e da mensagem bíblica em geral.
Capa: Criação coletiva do Setor de Arte
Não podemos ouvir essa mensagem nem crer nela sem o
sentimento de responsabilidade em relação à
orientação indicada".

KARL BARTH, Church Dogmatics


11/1, p. 386, Edimburgo,
T. & T. Clark, 1957.

Imprensa Metodista
Departamento Editorial
Av. Senador Vergueiro, 1301 - 09700
Caixa Postal 536 - São Bernardo do Campo - SP

Programa Ecuménico de Pós-Graduação


em Ciências da Religião
R. do Sacramento, 230 - 0~720
sao Bernardo do Campo - SP

3
Prefácio à Edicão
, Brasileira
Conteúdo

Prefácio a Ediçã'o Brasileira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 5.

Prefácio 7

Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ~. . . . . . . . ... .. . . .. 12

Primeira Parte: As igrejas e a condição dos pobres . . . . . . . . . . . . . . . . 23


Entre os fenômenos que marcam a vida da Igreja Cristã, nos
I. Duas vozes mas um só clamor 24
11. A situação dos pobres . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 dias atuais, com força indelével, percebe-se especialmente o da
Ill. Acúmulo de riqueza - crescimento da pobreza 56 erupção dos pobres, que invadem os espaços de templos e comuni-
N. A religião e a cultura popular em relação com a pobreza 70 dades. Não é apenas um fenômeno que acontece no "Terceiro Mun-
V. Os pobres na Igreja 87 do", também é percebido nos países mais industrializados. Através
VI. A luta contra a pobreza 98 deste processo as igrejas cristãs tornam a redes cobrir a dimensão
VII. Objetivos da luta contra a pobreza 106 evangélica que constitui "a boa npva aos pobres", deixada de lado,
em grande parte, enquanto as instituições eclesiásticas compartilha-
Segunda Parte: O desafio dos pobres e sua importância para a Igreja . . . . 117 vam o poder com "os fortes deste mundo".
VIII. Os pobres desafiam a Igreja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118 Este processo, pleno de conteúdo neo-testamentário, está pro-
IX. Teologia a partir dos oprimidos 135 duzindo uma extraordinária renovação nas igrejas. Estas que, por
X. O papel da Igreja no processo da libertação . . . . . . . . . . . . . . 160 muito tempo deram prioridade a uma pastoral à serviço dos setores
influentes da sociedade, estão experimentando, agora, como são
Terceira Parte: O caminho à frente: propostas para açao . . . . . . . . . . . . 179 evangelizadas pelos pobres. Surgem novas linhas de testemunho,
novas formas de presença no mundo, novas manifestações da ação
Xl. Evangelízação, Bíblia e Liturgia na Igreja dos pobres 180 social dos cristãos em serviço aos indigentes e oprimidos, novas
XII. Das Estruturas Eclesiásticas 192
liturgias, novos cânticos, novas maneiras de celebrar a fé.
XlII. Envolvimento social. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 198
XlV. Esforço comum pela nova sociedade 208 É a igreja dos pobres. Tomando consciência desta situação, o
XV. Propostas às Igrejas 214 Conselho Mundial de Igrejas, iniciou um processo de reflexão
ecumênica sobre o mesmo em 1976, que se estendeu até 1980,
CARTA As IGREJAS 224 quando foi apresentado ao Comitê Central do CMI um relatório,
que foi aprovado com a recomendação de que as igrejas o estuda-
Apêndice: lista de participantes 230
riam com vistas a traduzí-lo através de formas apropriadas de ação.
Este volume recolhe a parte mais importante deste estudo,
fruto de uma reunião que teve lugar em Chipre, em setembro de
t978. As conclusões da mesma continuam sendo atuais. E, além
disso, são especialmente pertinentes para uma situação como a do
Brasil, onde a força do Espírito de Deus está conduzindo as igrejas
à essa tremenda renovação que se manifesta na opção pela vida
abundante para aqueles que sentem que sua vida lhes é roubada
pelos poderes deste mundo. Esta opção é também a opção pelos

4 5
pobres, aqueles que, de acordo com Jesus, serão felizes, pois dos Prefácio
mesmos é o Reino de Deus (Lucas 6.20).
É nossa esperança que a leitura e estudo das páginas que se
seguem, seja de ajuda para impulsionar e afirmar cada vez mais a
igreja dos pobres.

Julio de Santa Ana

Desde o começo da experiência do Conselho Mundial de Igre-


jas na Comissão sobre a Participação das Igrejas no Desenvolvi-
mento (CCPD) tornou-se claro que são os segmentos pobres da
sociedade que fornecem a dinâmica para o processo do desenvolvi-
mento nacional. Daí a ênfase, nos programas dessa Comissão, na
importância da participação popular no desenvolvimento, na ne-
cessidade de tecnologia apropriada para expressá-Ia, e na priori-
dade dada às mudanças estruturais para enfrentar condições de
dominação e dependência. São todos fatores destinados a tornar
possível o processo do crescimento econômico organicamente rela-
cionado com a luta pela justiça social e com a busca da auto-de-
terminação.
Este procedimento, com ênfase especial nos pobres e nas raí-
zes visivelmente bíblicas e evangélicas, foi ratificado pela Quinta
Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em Nairobi, 1975.
Observou-se, então, que o desenvolvimento é fruto dos esforços do
povo oprimido em favor da libertação e da justiça. Ao ouvir sobre
"justiça e desenvolvimento", pois, os membros da Assembléia pro-
puseram que a tarefa prioritária da CCPD deveria consistir no
auxílio aos pobres e oprimidos em suas lutas, e, ao mesmo tempo,
em ajuda às igrejas na tarefa de manifestarem solidariedade para
com os pobres € de apoiarem seus esforços para a construção da
sociedade mais justa e participatória.
Quando o grupo central da CCPD se reuniu em Bossey em
maio de 1976, tinha que definir a tarefa, com a clara opção em
favor dos setores populares, referindo-se mais precisamente 'aos
programas da CCPD de participação no desenvolvimento. Ficou
claro, então, que existiam poucos exemplos de participação das
igrejas no desenvolvimento, na linha dessa opção. Mas daí para
a frente, as igrejas em várias partes do mundo, tanto nos países
"desenvolvidos" como nos "em via de desenvolvimento", começa-
ram a refletir cada vez mais esta linha de ação voltada para a so-

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lidariedade com os pobres e oprimidos. A CCPO considerou es- dos direitos humanos, e para coim o povo sofredor da injustiça eco-
sencial, contudo, começar o processo de reflexão a partir da ex- nômica e da opressão racista. Ern face do desafio que lhes apresen-
periência prática existente nas comunidades cristãs. Com isso, as tam os pobres, as igrejas começam a demonstrar nova sensibilidade,
igrejas membros do Conselho Mundial de Igrejas capacitavam-se coisa que, por sua vez, inspira movos estilos de reflexão teológica,
para discutir com profundidade a opção, para dar aos experimen- missionária, eclesiológica e sobre o desenvolvimento, partindo da
tos correntes compreensão mais aprimorada e iniciar outras expe- perspectiva própria dos despriviilegiados com o abandono dos mo-
riências onde fosse necessário. Os programas de grupos relaciona- dos de pensamento desenvolvidos no passado e ainda hoje, a partir
dos com a CCPO na Índia, Camarões e Indonésia, passaram, natu- de posições comprometidas com os centros do poder secular.
ralmente, a ter muita importância, bem como novos experimentos O terceiro estágio desta tarefa foi a reunião de estudo e re-
apoiados pela mesma Comissão em certas igrejas da América La- flexão realizada no Centro Ecumêníco de Ayia Napa, em Chipre,
tina,no campo dos programas de treinamento de lideranças ecumê- em setembro de 1978. O principal propósito desse encontro foi re-
nicas para a participação no desenvolvimento humano, nos países fletir sobre as principais tendênc:ias visíveis hoje nas relações entre
da região. os pobres e as igrejas, e oferecer às igrejas propostas destinadas a
No nível da reflexão teológica, iniciou-se o estudo sobre "a fortalecer seus programas seguncloas linhas da Assembléia de Nai-
Igreja e os pobres". Os primeiros resultados desse trabalho foram robi, incentivando a prosseguir nos esforços para o desenvolvimento
publicados em Good news to the poot+, onde são examinados os dos povos aos quais pertencem e aos quais querem servir. Vários
problemas das relações com os pobres nos primeiros séculos da era grupos relacionados com a CCPD e muitas igrejas foram convida-
cristã e no fim da Idade Média. Este estágio inicial do estudo ser- das a mandar representantes a esse encontro (ver a lista dos partici-
viu para sublinhar a importância da idéia messiânica da justiça pantes no final deste livro). Embors pequeno, o grupo representou
de Deus na qual os pobres e oprimidos ocupam lugar privilegiado plenamente o movimento ecumênico contemporâneo tanto do ponto
e são, muitas vezes, os próprios instrumentos dessa justiça. Essa de vista confessional como cultural,
idéia messiânica não é apenas dimensão fundamental da mensa- Foram produzidos dez ensaios em preparação do encontro (cada
gem bíblica mas também tem sido fonte de escolhas decisivas por um em inglês, francês e espanhol). Evidenciavam a maneira como
muitas igrejas no decurso da história cristã. as diferentes igrejas e grupos cristãos trabalhavam em favor dos
Seguiu-se o segundo estágio com um estudo sobre as relações pobres e expressavam solidariedade para com eles em diferentes
entre os pobres e a Igreja no período crucial da expansão colonial partes do mundo. Os dez ensaios circularam entre muitos amigos
do Ocidente e da revolução industrial. Surgiu o livro Separation e instituições relacionadas com a CCPO, além de terem sido envia-
without hope? 2 preparado por diversos especialistas, demonstrando dos também aos convidados à reunião de Chipre. Pediu-se que todos
que embora presentes na vida das. igrejas, os pobres tendem a ser enviassem à CCPO suas reações e comentários. Tratou-se de etapa
relegados a posições menos importantes e mais opressivas. Nessa importante de muita ajuda uma vez que foi na base desse mate-
época, as igrejas falharam mais do que nunca na missão de ser rial, ao lado dos relatórios preparados especialmente para o encon-
campeãs dos pobres. Esse fato explica, em parte, a crescente indi- tro sobre experiências de solidatiedade como membros de alguma
ferença dos segmentos mais baixos da sociedade em face da pro- comunidade cristã, que se tornou possível a preparação de uma
clamação do Evangelho cristão no século passado. Ao perceber agenda anotada destinada à discusão no encontro de Ayia Napa.
que suas lutas pela justiça não recebiam apoio das igrejas e que O encontro não durou mais do que duas semanas e foi divi-
suas expressões culturais não eram compreendidas por elas, dis- dido em três partes. Na primeira parte, que durou toda a primeira
tanciaram-se das organizações eclesiásticas na mesma medida em semana, o grupo discutiu a agenda anotada. Ao final da discussão
que estas também não mostravam interesse por esses grupos sociais. de cada capítulo proposto, fez-se um resumo do consenso até então
Em nosso tempo, graças a Deus, já existem sinais claros de alcançado pelo grupo. No começo da segunda semana, organizou-se
que essa separação não vai durar para sempre. Tanto por meio do um plano editorial para 19 capítulos baseado no consenso alcan-
Conselho Mundial de Igrejas como de corpos ecumênicos regionais çado, cabendo um capítulo a cada membro do encontro.
e nacionais, o movimento ecumênico vai demonstrando sua solida- Cada membro do grupo responsabilizou-se pela preparação de
riedade prática para com os pobres, para com as pessoas privadas parte do manuscrito. Já com mais ou menos 200 páginas, foi dis-

8 9
cutido amplamente na terceira parte do encontro. As sugestões fo- sição à situação da Ásia, problemas específicos do mundo desenvol-
ram anotadas para melhorar o trabalho com acréscimos e correções. vido em oposição à América Latina, ou diferenças dentro de qual-
quer dessas áreas geográficas não são tratadas a fundo.
O autor deste prefácio recebeu a incumbência de editar o ma-
nuscrito em sua forma final. Teve que preparar as referências biblio- Este estudo pretende, isso sim, chamar as igrejas a se envol-
gráficas e completar as notas de rodapé necessárias às principais verem com os pobres nessa luta de dimensões mundiais. As propos-
teses desenvolvidas. Quando esse trabalho ficou pronto foi enviado tas às igrejas constituem, portanto, parte integral do texto. Este
a todos os participantes da reunião de Chipre e a cerca de cem documento é um convite às igrejas para se envolverem mais profun-
outras pessoas para que fizessem. comentários ao texto. As suges- damente na reflexão relacionada com a ação junto aos pobres, para
tões recebidas, valiosas, em geral, foram levadas em consideração e experimentar na dinâmica da história o pleno significado do que
assimiladas na revisão final do livro. Além disso, membros de sub- representa ser Igreja dos pobres. Enquanto fenômeno mundial, a
unidades do Conselho Mundial de Igrejas também participaram em pobreza pode ser confrontada pela Igreja mundial, em responso ao
reuniões de debates sobre o tema estudado e suas contribuições e Senhor que tornou sua a causa dos pobres.
comentários muito nos ajudaram. Somos, portanto, gratos a todas Quero concluir com uma palavra final de agradecimento e
essas pessoas. apreciação a C. I. Itty, diretor da CCPD. Se a solidariedade com
Em fins de fevereiro de 1979, um grupo de seis pessoas designa- os pobres e oprimidos começa agora a ser expressa em diversos
das pela conferência de Chipre, reuniu-se em Genebra para dar os modos em muitas igrejas e no Conselho Mundial de Igrejas em par-
toques finais a esta versão do manuscrito que representou, afinal, o ticular, é por causa da profunda sensibilidade à importância da ma-
labor coletivo da CCPD e de representantes de grupos e igrejas a téria, desse diretor, a quem somos tremendamente gratos e a quem
ela relacionados. Gastou-se uma semana no estudo de todos os co- muito devemos, principalmente por ter instado com seus colabora-
mentários recebidos e o texto deste livro foi revisado à luz do con- dores imediatos a explorar as consequências do tema para as igre-
senso alcançado. Além disso, foi produzido um outro ensaio para jas. Sem sua visão duvidamos que o programa tivesse se desenvol-
resumir o processo de mais de três anos de reflexão baseada na vido ao ponto refletido nas páginas deste livro.
ação; este ensaio foi submetido à CCPD para consideração e pro-
vável discussão pela comissão central do Conselho Mundial de Julio de Santa Ana
Igrejas.no verão de 1980.
Ao apresentar esta versão final às igrejas e aos seus membros
para reflexão, é importante deixar claro que este livro resultou de
trabalho coletivo. Nosso constante ponto de referência ao longo do
trabalho foram os pobres e os oprimidos. Nossa preocupação prin-
cipal foi manter a fé com eles mas também com as Igrejas a quem
agora submetemos o livro. Esperamos que seja alimento para a
reflexão do povo de Deus inspirando-o a trabalhar mais efetiva- ~
mente pelo desenvolvimento de uma sociedade mais justa e parti-
cipatória. Oramos para que o movimento da renovação espiritual
nas muitas comunidades cristãs que estão respondendo criativa-
mente ao desafio dos pobres se espalhe por todo o povo de Deus,
e que a obra alcança da pela CCPD e por tantos amigos possa con-
tribuir para esse fim.
Sabemos que este volume não contém análise exaustiva da si-
tuação. Nem era esse o nosso alvo. As notas de rodapé fazem refe-
NOTAS
rência a material mais completo sobre os tópicos discutidos. Tam-
pouco este livro quer ser guia adequado às peculiaridades regionais 1. Julio de Santa Ana, Genebra, WCC, 1977.
do fenômeno: marcas características da situação Africana em opo- 2. Julio de Santa Ana (ed.), Genebra, WCC, 1978.

10 11
Introducão
>
dos oprimidos do mundo vivem nos países do Terceiro Mundo. A
dor da opressão e da pobreza manifestam-se de maneira mais dra-
mática em suas vidas. E são também a maioria dos habitantes do
Terceiro Mundo, quase a metade da família humana.
Essa gente vive ainda em estado primitivo e subdesenvolvido.
Sua pobreza é atribuída ao ritmo vagaroso do processo do desen-
volvimento que ainda não os teria alcançado. De fato, a verdade é
o contrário. A grande maioria dos pobres do Terceiro Mundo é
formada de gente tomada pelo processo de desenvolvimento ou de
"modernização", como se diz às vezes, e empobrecida pelo pro-
cesso. B gente destituída de tudo o que tinha - bens materiais,
capacidade e técnica, cultura e dignidade. O sistema econômico
Nas últimas duas décadas a comunidade mundial tem-se preo-
prevalescente na maioria dos países do Terceiro Mundo cria a po-
cupado profundamente com a situação dos pobres. As Nações Uni-
breza e depois aprisiona os pobres num estado de miséria deterio-
das e suas agências têm trabalhado para aumentar o rendimento
rante. A introdução de tecnologia moderna e de novos modos de
econômico dos países subdesenvolvidos. Muitos governos desses
produção tornaram obsoletos e redundantes os antigos métodos
países estão adotando métodos e tomando medidas para acelerar
de produção e as técnicas tradicionais. A estrutura política e os
a taxa de crescimento, na esperança de que os pobres venham a, afi-
nal, se beneficiar. Diversas agências voluntárias e a maioria das processos em operação no Terceiro Mundo criam a marginalização.
O impacto da cultura Ocidental dominante e de seus valores con-
igrejas cristãs têm aumentado substancialmente os esforços na área
testam a cultura e os valores locais. Os pobres de hoje começam a
do serviço e do desenvolvimento em relação aos mais pobres dos
pobres. Agora que a segunda década do desenvolvimento está ter- perder tudo o que tinham, seu orgulho, sua identidade e sua dig-
nidade.
minando, muitas pessoas, agências voluntárias, governos e corpos
intergovernamentais avaliam o trabalho feito e planejam o futuro. Esse processo não começou agora. Sua origem remonta ao
Portanto, é justo e apropriado que as igrejas também se envolvam período inicial da colonização do Terceiro Mundo. Quando se com-
nesse balanço do passado e discirnam o papel a representar no fu- para a situação do povo antes do período colonial com a presente
turo neste campo. situação tornam-se patentes os efeitos do processo de "moderniza-
ção" à maioria pobre.
Os pobres de nosso tempo Durante o período pré-colonial, a maioria das sociedades do
Qual é o estado dos pobres no mundo contemporâneo compa- Terceiro Mundo caracterizava-se por unidades locais auto-subsis-
rado com o que era há duas décadas? Terão os esforços dos gover- tentes que se auto-perpetuavam - vilas e agrupamentos tribais.
nos, das agências intergovernamentais, das agências voluntárias e Em geral, os meios de produção, principalmente a terra, pertenciam
das igrejas nos últimos anos modificado essa situação? ao grupo social. A..;produção relacionava-se com as necessidades do
povo e era adequada, a não ser nas épocas de calamidade nacional.
As evidências indicam que a condição dos pobres se deteriorou, Distribuia-se com certa justiça o que era produzido entre os mem-
que seu sofrimento se tornou mais agudo do que antes e que seu bros da vila, da casta ou da tribo. Em geral, a economia nacional
número aumentou consideravelmente nas últimas décadas. Os po- produzia lucro excedente que era apropriado por pessoas e grupos
bres de hoje não sofrem apenas do agravamento da pobreza. São especiais na base de aprovação social. Na medida em que usavam
submetidos também a enormes privações, exploração e marginali-
esse excedente para bens e serviços não produtivos, o sistema per-
zação. São também os oprimidos em nossas sociedades.
manecia basicamente não acumulativo. Certas sociedades manti-
Quase todas as nações do mundo têm seus pobres e oprimidos. nham graus de desigualdade, principalmente social, embora também
Nos países ricos da América do Norte e da Europa os que sofrem econômico. Entretanto, a desigualdade econômica baseada na pro-
pobreza material representam minoria, mas é grande o número dos priedade e na apropriação de excedentes não aumentava o processo
discriminados e dos marginalizados. Mas a maioria dos pobres e de produção.

12 13
As empresas colonizadoras introduziram nessa situação mui- tribuição dessa riqueza baseia-se em procedimentos injustos. Au-
tas sementes de mudança. A exigência de bens para os centros me- menta assim a riqueza dos ricos e os pobres ficam cada vez mais
tropolitanos requeria não apenas produção adicional de bens tra- pobres. As duas coisas resultam do mesmo processo. Um estudo
dicionais mas também a produção de novos bens não necessários feito na India compara a situação dos pobres em 1960 com a
à sociedade. Inversamente, certos novos produtos e mercadorias mesma situação em 1968 e conclui da seguinte maneira: "Os lucros
dos centros metropolitanos introduziam novas necessidades, em do desenvolvimento permanecem em geral confinados à classe mé-
substituição às necessidades tradicionais. Assim, a economia tradi- dia alta e com os segmentos mais ricos da sociedade que constituem
cional baseada nas necessidades reais começou a ser transformada. 40% da população. " O consumo per capita da classe média e
A criação de novo mercado de trabalho não apenas desviou a força baixa que constituem 40% da população urbana caiu de 15 a 20%.
de trabalho das economias tradicionais, mas também gradualmente Nas áreas rurais. .. o consumo dos 5 % mais pobres caiu 1%." 12
aumentou o desemprego. A tecnologia importada substituiu a tec- Outro estudo realizado nas Filipinas mostrou que o trabalho habili-
nologia e as habilidades tradicionais. Pior do que isso, como resul- tado caiu em 76% e o não-habilitado em 63% de 1972 para
tado da introdução do novo desejo de acúmulo de riqueza e da 1978".3 Conclusões semelhantes podem ser lidas em relatórios pro-
introdução da lei do mercado, alguns que tinham poder sobre os cedentes de outros países do Terceiro Mundo. Assim, os processos
recursos não-humanos começaram a aumentá-lo pelo excedente po- de desenvolvimento orientados para o crescimento frustram as aspi-
tencial do sistema, começando dessa maneira o processo de acumu- rações dos pobres.
lação de capital. Até mesmo as agências governamentais e as particulares desti-
A tendência do sistema, sob as leis do mercado, ia na direção nadas a servir os pobres acabam servindo os ricos. É de tal maneira
de jogar não só a nova riqueza produzida,mas também os recursos a tendência do sistema social que mesmo os melhores esforços para
das massas, cada vez mais nas mãos dos que controlavam o novo ajudar os pobres transformam-se em auxílio para os ricos, contra
processo de produção, o capital, a tecnologia, a distribuição do mer- eles.
cado e o poder político. A maior parte disso acabava nas mãos das A pobreza não é estática hoje em dia, mas se deteriora de ma-
empresas estrangeiras, cabendo o resto aos empresários locais emer- neira assustadora. Em parte, por causa da desmedida ambição dos
gentes. Conseqüentemente, surgia a nova classe dos ricos, bem como ricos. Os processos do acúmulo do excedente, do aumento da rique-
a dos pobres, sem terra, sem propriedades e sem tecnologia. Esse za e da lei do mercado predominantes em muitos países criam e
I,: processo, começado e continuado durante o período colonial, foi sustentam a riqueza para os ricos e a pobreza para os pobres. As
acelerado nas últimas duas décadas e continua imbatível, recebendo raízes da pobreza de nossa época acham-se no sistema econômico
apoio da ordem econômica internacional de nossos dias. vigente e nos valores que o apóiam.
A feição mais clamorosa dessa estrutura econômica na maioria O sofrimento dos pobres não se limita às necessidades mate-
dos países do Terceiro Mundo manifesta-se na má distribuição dos riais. Sua vida caracteriza-se, também, por dependência e opressão.
recursos não-humanos dos meios de produção. Tomemos o caso da Têm pouquíssimas oportunidades para decidir sobre as próprias
índia. Em 1964 "a parte correspondente a 1% no topo da pirâmide vidas. Que comer e quando comer,_onde e quando trabalhar, que
social possuía 16% da terra, a seguinte fatia de 5% era proprietá-
ria de 40%, ficando para os 10% seguintes, 56%, enquanto que
e
salário receber que pagar, onde e como viver, quantos filhos ter
e como educá-Ios, que dizer e como dizer, até mesmo quando rir e
os 50% já na camada mais baixa possuía apenas 4% e os restan- chorar e como rir e chorar - tudo isso bem como outros aspectos
tes 20 % absolutamente nada. .. Quanto à propriedade do capital da vida são determinados ou condicionados pelo sistema econômico,
industrial estimava-se que um décimo da faixa mais alta de 1 % pelo poder político, e pelas sanções religiosas controladas pelos
dessa mesma pirâmide, classificada segundo os dividendos rece- ricos, pelos poderosos e pelas pessoas influentes. Os pobres vivem
bidos, possuía mais da metade da riqueza pessoal em forma de uma vida dominada por outros seres humanos na própria sociedade
ações". 1 e até fora dela. O outro lado da moeda é o conluio entre os ricos,
A maioria dos países pobres não tem feito nenhuma tentativa poderosos, influentes, e as autoridades religiosas. Assim, de comum
para mudar o sistema. Esforços orientados para o crescimento do acordo, esses grupos dominantes de diferentes tipos perpetuam a
desenvolvimento ajudam a aumentar a riqueza nacional, mas a dis- vida dos pobres numa vida de opressão e de dependência.

14 15
Outro aspecto do mesmo círculo vicioso é a crescente margi- consciência ou para pacificar os pobres impedindo, assim, reformas
nalização dos pobres na vida econômica, política, social e mesmo radicais. Ao mesmo tempo, deliberadamente ou não, fortalecem as
religiosa de suas próprias sociedades. Eles não contam nos afazeres estruturas vigentes e se unem contra qualquer levante eventual.
da vida. Não têm voz nos processos decisórios. São considerados A maioria dos governos dos países do Terceiro Mundo age da
ignorantes e indignos. São os sacrificados, os marginais. mesma maneira. Representam principalmente os interesses de poder
A vida dos pobres torna-se insuportável por causa da experiên- tanto nacional como internacional. Em poucos países, onde os go-
cia da opressão, da dependência e da marginalização. Mas tais ex- vernantes se preocupam com a sorte dos pobres, tem faltado deci-
periências não se confinam apenas aos materialmente pobres. Vastos são política para a implantação de medidas necessárias, por causa
segmentos da população de todas as sociedades de nosso mundo de pressões e ameaças procedentes dos que manejam as rédeas do
também sofrem experiências semelhantes, embora nem sempre so- poder e dos interesses econômicos.
fram de igual pobreza material. As minorias raciais e culturais, Devemos admitir que há governos, corpos intergovernamentais,
os trabalhadores migrantes, a juventude dissidente, os desempre- agências particulares e até mesmo igrejas, com o apoio de gente
gados, as mulheres e inúmeros outros grupos sofrem discriminação bem intencionada pertencente às camadas ricas e poderosas, que
e marginalização. Como parte do povo oprimido, solidarizam-se tudo têm feito em benefício dos pobres e oprimidos. Mas, em geral,
com os pobres. Nesse sentido, os pobres são mais do que os pobres. tendem a ver os pobres como objetos de sua caridade e de seus
Os pobres e os oprimidos formam um mesmo grupo. É por isso bons esforços, meros recipientes passivos de sua boa vontade. Es-
que os dois termos, pobres e oprimidos, aparecem juntos em boa forçam-se pelos pobres mas quase nunca com eles. Por isso mos-
parte deste livro. O crescente poder dos governos, a moderna orga- tram-se inadequados. Não envolvem os pobres como agentes de
nização das nações-estados, o aumento do militarismo, o desenvol- mudança. Mais importante do que-isso é que esses esforços não
vimento dos monopólios, a urbanização, e assim por diante, tudo se levam em consideração o fato de que os pobres querem apenas
destina- a aumentar a opressão e até mesmo a repressão em nossas ser tratados como sujeitos de sua própria história. Estão lutando
sociedades. precisamente para que sejam reconhecidos como gente cheia de
potencial para mudar a própria situação e a sociedade como um
A luta dos pobres todo. As pessoas que lutam contra a marginalização na sociedade
não desejam ser marginalizados nas iniciativas feitas em seu próprio
Como sair dessa situação? Como mudá-Ia? Grande parte do benefício.
pensamento internacional e dos esforços mais recentes tentam per-
suadir os ricos e os poderosos a aliviar os sofrimentos dos pobres Além disso, grupos e agências fora dos segmentos pobres e
e a realizar certas reformas nas atuais estruturas sócio-econômicas. oprimidos da sociedade, tendem a ver a situação e os problemas
Até agora tais esforços resultaram num impasse como tão bem a partir de perspectiva errada. Por exemplo, vêem a questão toda
atesta a situação deteriorante dos pobres. O assim chamado proces- como se fosse relacionada apenas com a pobreza e com a escassez
so do desenvolvimento chegou num beco sem saída. Por quê? de bens e serviços. A partir dessa perspectiva ou objetificação e
isolação do problema, criam programas destinados a aumentar o
Como já vimos, a causa matriz da presente condição dos po-
suprimento de bens e serviços. Mas não respondem, com isso, às
bres é sistêmica. Não bastam alguns ajustamentos e mudanças cos- exigências básicas e às aspirações do povo que são essencialmente
méticas no sistema. Urge a transformação total da sociedade, in-
a libertação da opressão e da dependência. Para eles a pobreza é
cluindo mudanças drásticas nas estruturas políticas, econômicas e
apenas um aspecto da situação em que vivem. Da mesma forma,
sociais em nível nacional e internacional. Coisa que significaria a
há outras agências que consideram principal a questão dos direitos
distribuição radical dos recursos e do poder. Trata-se de vão idealis-
humanos. De novo, isola-se um aspecto da situação e com ele se
mo pedir que os ricos e os poderosos das atuais sociedades dispo-
trabalha sem a visão global da situação e sem a percepção das
nham da maior parte de seus recursos e abdiquem de suas posições prioridades do povo no seu contexto histórico.
de poder. São raros os exemplos históricos de ricos e poderosos
que se tenham disposto a abandonar o poder e mudar o sistema que Muitos consideram os pobres como sendo o problema, e pen-
protege seus próprios interesses. Naturalmente, o que podem fazer, sam que os ricos e os poderosos podem dar a solução. Mas o con-
e até mesmo fazem, não passa de esforços para aquietar a própria trário é que é verdade. A presente situação foi criada e é sustentada

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pelos ricos e poderosos. Portanto, eles e o sistema que mantêm lha dores nos negócios das indústrias, quando os camponeses exi-
constituem o problema. A situação de injustiça, de exploração e gem terra para lavrar, quando as mulheres, clamam por salários
de opressão foi criada por eles. Como são parte do problema, não justos em relação aos salários dos homens, e quando grupos traba-
são capazes de dar soluções. Os pobres, vítimas da presente situa- lham pelos direitos humanos. Expressam-se, também, em movi-
ção, serão os únicos capacitados para encontrar saídas. mentos políticos em favor de mudanças estruturais para a cons-
Não se trata de mero sonho? Quando se leva a história a trução de sociedades justas e participatórias. Estão no renascimento
sério pode-se concluir que estamos diante de uma possibilidade da religião popular, da cultura do povo e da linguagem comum.
prática - talvez a única possibilidade. Sabe-se bem que na maioria Essas e muitas outras expressões deste novo despertar dos pobres
dos casos a transformação social histórica deu-se por meio de esfor- dão testemunho do crescimento dos movimentos populares e da
ços organizados das, vítimas do status quo. Portanto, não há razão organização dos pobres.
para duvidarmos de que o futuro seguirá os caminhos da história. Obviamente, os objetivos imediatos procurados e as estraté-
Mas não se acham os pobres de hoje de tal maneira sem poder gias adotadas diferem segundo os contextos e o poder de suas orga-
e sem ajuda que perdem a coragem e a força para iniciar e manter nizações. Mas a maior parte desses movimentos tem muita coisa
lutas assim tão difíceis e longas contra as forças organizadas da em comum. Tudo fazem para resistir perante novas violações de
sociedade atual? É verdade que boa parte dos pobres vive resigna- seus direitos, responsabilidades e recursos. Querem conquistar mais
damente. Foram, na maioria, ensinados a sentir e a crer que nada espaço para seus esforços organizados e expandir as bases de poder.
podem fazer. Também aprenderam que as atuais estruturas de Dedicam-se com entusiasmo à realização de certos objetivos ime-
poder são invencíveis e que todos os esforços possíveis para derro- diatos para provar o potencial que têm e manter a esperança do
tá-Ias serão desmantelados. povo. Estão comprometidos com a diminuição da pobreza e, se
Mas a mudança está no ar; os pobres começam a despertar. possível, com a sua extinção, bem como com a eliminação da
As sociedades pobres começam a fermentar. Muitos dentre eles opressão e da injustiça. Querem fazer nascer a sociedade justa e
começam a se dar conta do seu potencial e da sua força para a participatória.
organização da luta das massas. Entendem que não há poder maior
do que o do povo (além de Deus). Afirmam a subjetividade histó- As igrejas e os pobres
rica do povo na transformação social.
Ao longo da história, as igrejas~'sempre se mostraram profun-
I"
Quais são as evidências deste novo despertamento entre os damente preocupadas com os pobres e oprimidos. Nem poderia ser
pobres? Estão em muitos países, desde as vilas da Ásia, das favelas de outra forma, pois a fé em Jesus Cristo mostra-o pregando as
da África, entre os nativos da América Latina, nas minorias da boas novas aos pobres e libertando os oprimidos. Mais recente-
América do Norte até os trabalhadores migrantes da Europa. Estão mente, as igrejas no âmbito da comunidade do Conselho Mundial
presentes quando os posseiros nas favelas de Manila resistem a or- de Igrejas têm sido tomadas por novo senso de urgência para fazer
dens de despejo, quando habitantes de aldeias indianas se organi- o que podem para aliviar o sofrimento dos pobres e oprimidos.
zam para resistir a exploração dos usuários, quando o povo de Inúmeras igrejas expandiram seus programas no campo do desen-
Soweto protesta contra a discriminação racial, quando os índios volvimento e gàstaram mais dinheiro nesses programas. Outras
do Brasil resistem perante os invasores de suas terras sob o comando tornaram-se campeãs na causa da justiça racial e na defesa dos
de organizações transnacionais, e quando os aborígenes na Austrá- direitos humanos fundamentais. Não há dúvida de que tais esfor-
lia recusam a mineração em seu território. As evidências aparecem ços repercutem positivamente em certas situações locais e servem
quando comunidades se organizam em sistemas de cooperativa para despertar a consciência do público em nível global. Entretan-
para melhorar as condições de vida do povo, aumentar a produti- to, como já mencionamos, a situação dos pobres está se deterio-
vidade bem como o poder aquisitivo e da busca de melhores preços. rando; as forças da opressão e da injustiça fortalecem-se e se orga-
Aparecem, também, quando o povo inova e domina a tecnologia nizam. Alguns cristãos tendem a abandonar os esforços já feitos
adequada à situação em que vive, e não se deixa enganar pela tomados de desespero e frustração. Outros começam a ficar cansa-
tecnologia estrangeira dependente de especialistas de outros países. dos em face dos repetidos apelos em favor dos pobres. Outros,
Estão aí na luta dos sindicatos pela maior participação dos traba- ainda, começam a perder o senso de urgência que tinham há uma

18 19
década. São muitos os que não sabem o que fazer para manifestar Manifestam esse compromisso participando na luta organizada
interesse e preocupação pelos pobres. dos pobres e oprimidos. Os que não são pobres preferem não
Mas esse não é o quadro total. É cada vez maior o número de assumir posições de liderança. Consideram-se ajudadores na luta
cristãos, especialmente nos países do Terceiro Mundo, profunda- e comunicadores perante a sociedade em geral. Os intelectuais
mente comprometidos com a luta dos pobres e oprimidos. Parte ajudam na organização com a compreensão que têm da história,
de suas experiências e reflexões serviram de orientação e inspiração na formulação de estratégias e de treinamento de pessoal. Depen-
para este volume. Pequena parcela disso tudo é mencionada aqui, dendo do papel que representam na sociedade, tornam-se advoga-
não como sumário do que segue, mas como aperitivo para novas dos da causa dos pobres e oprimidos. Enquanto membros de igre-
leituras. jas, procuram arregimentar cristãos para a luta tanto no país como
O compromisso desses cristãos baseia-se na fé em Jesus Cristo, no estrangeiro. Manifestam a solidariedade para com os pobres e
na compreensão bíblica dos pobres e dos oprimidos e na compreen- oprimidos nas opções -políticas, na escolha do trabalho, na maneira
são dos pobres e da sua percepção da história. Acreditam que o como gastam o dinheiro, no uso dos recursos e no estilo de vida
Deus do Antigo Testamento é o Deus dos pobres e oprimidos, que que levam.
ouviu o clamor do povo escravizado de Israel, libertou-os do Egito, Sua participação na luta dos pobres e oprimidos não significa
sustentou-os no êxodo e no exílio e continuou a agir na história compromisso com ideologias absolutistas ou teorias fechadas da
para estabelecer a justiça e a retidão. É o Deus que estabeleceu história. Estão comprometidos primeiramente com o povo e sua
leis de justiça, instituiu reis para administrar essa justiça e chamou luta. Naturalmente, sua participação exige certo processo de ação
profetas para condenar a injustiça. O Deus do Novo Testamento e reflexão. É na ação em favor da transformação da sociedade
é o mesmo Deus, que enviou Jesus Cristo para nascer numa man-
que as idéias são testadas e aprovadas. É na reflexão que a ação
gedoura, para viver como carpinteiro, para pregar as boas novas
passa a ser revisada e reformulada. Mantém-se, assim, abertura à
aos pobres, para cuidar dos doentes e necessitados e confortar os
tristes. Jesus se deixou vitimar pelos poderes religiosos e políticos, novas idéias sem o enfraquecimento do compromisso com a luta
foi crucificado como um criminoso e morreu em agonia. Contudo, revolucionária.
esse homem que era pobre, que nada possuía, vazio de todos os Na qualidade de cristãos estão atentos às questões e desafios
desejos e ambições mundanas, foi glorificado por Deus na ressur- que os pobres e oprimidos colocam às igrejas. Mas, por sua vez,
reição dentre os mortos. Vindicou, por esse meio, a oferenda de refletem sobre a vida das igrejas a partir da perspectiva dos pobres
seu Reino aos pobres e oprimidos. E continua presente como o e comunicam o resultado de seu pensamento às igrejas. Preocupam-
Espírito vivo no meio dos famintos, doentes e prisioneiros. E virá se com as alianças das igrejas com os ricos e poderosos na sociedade
outra vez para reunir seu povo em seu Reino e para julgar as na- contemporânea. Questionam o cativeiro das teologias pelas ideo-
ções segundo a maneira como trataram os menores dos irmãos. logias das classes dominantes. Percebem nas igrejas Ç)S mesmas
No centro do compromisso destes cristãos manifesta-se esta- fé no desigualdades encontradas na sociedade. Acham que as estruturas
Cristo que está do lado dos pobres e dos oprimidos. das igrejas são pesadas e pouco participantes. Sentem que elas
Têm consciência clara dos profundos sofrimentos de milhões alienam os pobres e marginalizam os oprimidos tanto quanto o
de pobres e oprimidos. Ouvem seu clamor por Iibertação: escutam fazem outras instituições seculares. Vêem as igrejas se comportan-
o chamado de Deus: "Deixem meu povo ir". O clamor dos pobres do como os ricos e agindo como os poderosos. Preocupam-se com
e o chamado de Deus unem-se num só incentivo ao mesmo com- o fato de os pobres não se sentirem em casa nem bem recebidos
promisso. Reconhecem nesse compromisso total entrega à liberta- em muitas igrejas.
ção de todas as pessoas. Os que oprimem, exploram e se enrique- Esse compromisso com a luta dos pobres e oprimidos significa
cem às custas dos pobres são também povo de Deus. Mas esses não apenas apoio mas também a contribuição cristã específica.
ricos e opressores só serão libertados quando forem libertados os Daí a necessidade de certa participação crítica, especialmente
pobres e os oprimidos. quando a direção da luta envolve certo comprometimento de con-
Os cristãos engajados na luta dos pobres e oprimidos valem-se vicções cristãs básicas. Mas ao se envolver com a luta e demonstrar
de análise científica e de interpretação de realidades históricas e do solidariedade para com os pobres e oprimidos, têm o direito e a
processo da transformação social. oportunidade de testemunhar a fé cristã perante. estes que não a

20 21
praticam. Além disso, a própria luta exige constante vigilância para
não se desvirtuar. A fé cristã, que considera o amor e a koinonia
objetivos finais das relações humanas pode contribuir para a luta
com esses valores, impedindo que ela se contente com o mero esta-
belecimento de estruturas sociais justas. Semelhantemente, a com-
preensão cristã da pecaminosidade humana e da ambigüidade de
todos os poderes pode ser constante advertência do caráter relativo
de todas as conquistas e estruturas humanas. As pessoas envolvidas
na luta precisam se dar conta, acima de tudo, da necessidade de
ver todos os poderes e processos históricos sujeitos à orientação
do Senhor da história, e de relacionar todos os seres humanos ao
Deus em Cristo, na experiência da verdadeira humanidade.
A experiência mais compensadora e notável dos cristãos en-
volvidos com a luta dos pobres e oprimidos é a descoberta, nesse
contexto, de novas comunidades eclesiais. Algumas vezes essas
1.
comunidades surgiram de encontros em que se buscou os recursos As Igrejas e a
da fé para o sustento da luta. Outras vezes, de encontros de oração,
intercessão e leitura da Bíblia. Não importando a maneira como
condição dos pobres
começaram, têm muito em comum. São formadas, em geral, de
pobres. Tentam relacionar a fé cristã com a vida diária e a luta
pela justiça. Consideram o estudo da Bíblia em grupo grande fonte
de inspiração. Criam novas canções, novas liturgias e novas manei-
ras de celebração que correspondem à sua linguagem, ao seu meio
e às suas aspirações. As reuniões e a vida comunitária baseiam-se
na plena participação dos membros com suas contribuições parti-
culares.
I,: ' Essas novas comunidades eclesiais estão aparecendo em grande
número nos diversos países do mundo. Indicam nova atividade do
Espírito Santo em nosso tempo destinada a renovar a Igreja e a
transformá-Ia no lar dos pobres e oprimidos, dos "cansados e sobre-
carregados". Indicam a "Igreja dos pobres".

NOTAS -e
1. O relatório da Comissão Mahalanobis sobre a distribuição da renda e
níveis de vida (1964), citado por C. T. Kurien, em Poverty, planning
and social transjormation, Madras, Indian Council of Social Science
Research, 1978.
2. The study of poverty in lndia, por V. M. Dandekar e N. Rath, 1971,
citado em Poverty, planning and social transformation, op. cit.
3. Circulou um memorandum entre os delegados da UNCTAD V, de quatro
grupos de igrejas das Filipinas: Conselho Nacional de Igrejas, Associa-
ção de superiores de ordens religiosas masculinas e femininas, Secreta-
riado Nacional para ação social e Comissão de Justiça e Paz da Confe-
rência dos Bispos Católicos. Ecumenical Press Service, n. 12, 10 de maio
de 1979.

22 23
I. Duas vozes mas um só clamor damente fraca. Mas, certamente, o Senhor [avé escutou a súpllcr:
do pobre com o desejo de se libertar da escravidão. Coisa cxtruur-
dinária, as vozes dos pobres e a voz de Deus confundiram-se nUIl1
enorme' grito, questionando os ricos: "Por que vocês são assim
tão ricos? Onde estão vocês"? 3
Bem mais à frente de sua Igreja, criada para ser sua vanguar-
da," o Filho de Deus dedica-se à renovação de nossa terra. E,
voltando-se para trás, convoca a Igreja: "Por que você fica aí pa-
rada? Vem e segue-me nesta peregrinação; somente em obediên-
cia poderá me conhecer pois obediência é o único conhecimento
de Deus". 5
É preciso dar-se um passo novo e de maior alcance nessa pere-
"Num deserto de destruição idólatra a tremenda voz de Deus grinação. Com todas as suas ambigüidades, setores de igrejas sempre
ainda clama por vida". ajudaram os pobres de um jeito ou de outro. Até mesmo aprende-
É clamoroso o escândalo da pobreza num mundo de abun- ram a estar com eles. Hoje em dia, porém, a situação em que vivem
dância. Enquanto se sucedem inúmeras décadas de desenvolvimen- os pobres força-nos a redescobrir a antiga realidade da Igreja que
to, os pobres continuam a morrer. Morrem de fome, de muitas era originalmente a Igreja dos próprios pobres. 6
privações, de opressão. Entretanto, a riqueza de alguns depende Este livro pretende demonstrar quão urgente e necessário é
de sua vida e trabalho. este esforço. Não nos basta ser uma- igreja para os pobres. Tampou-
Num mundo de escassez, onde todos partilhassem as neces- co, uma igreja com os pobres, muito embora estar com eles possa
sidades, a pobreza representaria desafio para todos, igualmente. ser importante. A situação dos pobres em nosso mundo nos ajuda
Mas num mundo de abundância, onde os muitos pobres existem a redescobrir a origem da Igreja do Novo Testamento como igreja
precisamente para que poucos permaneçam ricos, a pobreza, - dos pobres; e nos convoca a ser novamente essa mesma igreja dos
ou melhor, a riqueza - é infame. Quando os ricos se recusam a pobres - ser a Igreja viva sob a graça de Jesus Cristo que por
abandonar os privilégios que gozam e não querem compartilhar nossa causa se fez pobre, "para vos enriquecer com sua pobreza"
com todos a abundância de seus bens, devem ser acusados. (2 Co 8.9).
I 'ii
Mas o clamor deste escândalo não parece ser escutado. Os
que detêm o poder para mudar não utilizam a autoridade para a Sinais de esperança
justiça, chegando muitas vezes até mesmo a usá-Ia para fortalecer
a injustiça. Nem mesmo Deus parece dar ouvidos à oração do Inúmeros grupos e movimentos espalhados pela terra já estão
pobre, como tão amargamente reclamava Jó em seu desespero escutando o clamor dos pobres. Muitos deles operam fora das
(Jó 24.12). igrejas. Entretanto, é cada vez maior o número de movimentos
A pobreza não é acidental. Trata-se de um fenômeno funda- desse tipo encontrados também dentro das igrejas. Tornaram-se
mental e incisivo de nossa sociedade voltado para a destruição da sensíveis à situâção do pobre com suas exigências e esperanças.
humanidade, que é criação de Deus. A pobreza só pode ser atacada Como se um vento começasse a soprar ao mesmo tempo em muitos
pelas raízes. A raiz de todos os males, segundo Paulo em 1 Tm lugares, iluminando os acontecimentos e ajudando as igrejas a per-
6.10, é o amor pelo dinheiro. Jesus o chama de Mamom, um ceber que não podem permanecer passivas depois de se dar conta
ídolo. 1 Promete riqueza, mas cria pobreza; sugere humanidade, e de tudo o que envolve a situação dos desprivilegiados de nossa
produz separação; fala de liberdade, mas escraviza as pessoas. É época.
multinacional, difusa, e exige fidelidade dos corações humanos. Algumas paróquias, grupos e comunidades eclesiais, tomando
Jesus disse, simplesmente, "Não podeis servir a Deus e ao di- consciência das condições em que vivem os pobres hoje em dia,
nheiro"." sabem que precisam decidir conscientemente em favor dos pobres,
A tarefa de mudar esse estado de coisas nos parece demasia- identificando-se com eles e vivendo em solidariedade com todos
damente pesada e a vontade para trabalhar nessa direção demasia- os que sofrem em conseqüência dos mecanismos responsáveis por

24 25
tal situação. Entendem, como crentes em Jesus Cristo, que é o amor
Que significa tudo isto para a vida da Igreja Universal? Basi-
encarnado de Deus para trazer justiça e igualdade (2 Co 8.14),
camente, essas experiências, escolhas e comprometimentos, devem
que são escandalosos os atuais modelos de pobreza. Entre os cris-
ser entendidos como "sinais de esperança". Vamos descrever nas
tãos, e mais importante ainda, entre as igrejas, esta situação inde-
páginas que seguem alguns desses sinais visíveis em diversas partes
fensável começa a estimular um movimento (ainda desorganizado,
do mundo. Chamamo-Ios de sinais, não de exemplos. Não são pro-
de certa forma espontâneo, mas crescente tanto nos países desen-
jetos a desenvolver de uma hora para outra, mas sinais do novo
volvidos como nos países em vias de desenvolvimento) que se colo- compromisso e da nova compreensão da Igreja.
ca claramente em favor dos pobres. Não obstante o escândalo da
situação, reconhece-se que os pobres estão mais abertos à graça NARRATIVAS DA IGREJA DOS POBRES
de Deus do que os ricos. Confirmando, aliás, o que afirma a Bíblia.
Sem qualquer idealização da pobreza, naturalmente. 7 O próprio Catedral de São Marcos, Bangalore, índia
fato de que esses movimentos procuram erradicar a pobreza ata-
cando-a pelas raízes, demonstra até que ponto é realista a sua deci- Construída no princípio do século dezenove, a catedral ainda
são. A partir daí, realisticamente pois, percebem que os pobres mantém as marcas de sua origem. Mas, hoje em dia, o clero
com suas esperanças e expectativas abrem-se mais para Deus do indiano tem procurado superar as limitações que essa origem
que os ricos. significa. Numa cidade onde 40% da população vive abaixo da
Outro aspecto da vida das igrejas em nossa época é o envol- linha da pobreza, a congregação acha difícil entrar em contato
vimento cada vez maior de certos setores na luta em favor da liber- direto com os pobres. Mas na medida em que a congregação
dade e contra a injustiça. Entende-se, então, que a condição preva- toma consciência da situação dos pobres as pessoas começam a
lescente dos pobres não pode ser resolvida apenas por meio de responder ao desafio que isso+representa. O encontro com os
obras de caridade. É bastante provável que ainda tenhamos que pobres tem resultado em melhor compreensão da missão en-
manter, em muitos casos de extrema penúria, certas atitudes cari- quanto compromisso e libertação. A solidariedade para com os
tativas, mas o caráter mesmo da pobreza estrutural exige que suas pobres tem significado o encontro com Jesus no serviço. A pere-
raízes sejam enfrentadas por métodos adequados ao nível estrutural. grinação, pois, já começou ... O povo percebe os sofrimentos
Em outras palavras, os fatores geradores de privação e os que im- e as lutas dos pobres por meio das mais variadas formas de
pedem a satisfação das necessidades humanas básicas, devem ser comunicação. Os jovens tomaram a iniciativa de relacionar o
enfrentados no nível de suas causas e não no nível dos efeitos. culto com dois tópicos específicos: os pobres e os pobres desem-
Como resultado da participação crescente de grupos eclesiais pregados. Estabeleceram uma espécie de agência de empregos
na luta pela justiça, as comunidades cristãs acham-se hoje mais que logo serviu para levar a congregação a se encontrar com os
visivelmente comprometidas com os movimentos de defesa dos desesperadamente pobres; abriram-se, em conseqüência, novas
direitos humanos do que há uma década. Para os que participam possibilidades de serviço e de solidariedade ajudando os mem-
nestes movimentos, os direitos dos pobres são com() "os direitos bros da Igreja a andarem para a frente. As novas tarefas profé-
de Deus". Há mesmo setores de igrejas cristãs que decidiram se ticas e o trabalho nas favelas acabaram se transformando em
transformar em "representantes dos pobres". É verdade que os po- luta pela justiça e na organização dos pobres. O movimento é
bres sempre estiveram presentes nas igrejas, embora nestes últimos lento e muitas vezes frustrante, mas o esforço para se transfor-
séculos não se tenham envolvido muito de perto com a vida das mar na Igreja dos pobres continua ... 10
comunidades cristãs. 8 Uma coisa, porém, é a presença dos pobres
nas celebrações e reuniões cristãs; outra, bem diferente, é a trans- A Igreja dos Aymaras na Bolívia
formação dessas comunidades em igrejas dos pobres. Fazer da Ao suleste das margens do Lago Titicaca há inúmeras cidade-
Igreja "a voz dos que não têm voz", tem sido, por exemplo, a tarefa zinhas habitadas por comunidades aymaras. Seus antepassados
de Dom Helder Câmara, arcebispo brasileiro de Olinda e Recife, dominaram o império Kollasuyo, muito tempo antes do domínio
nos últimos quinze anos. 9 Assim, cresce o número de comunidades dos conquistadores espanhóis nos Altos Andes, no século dezes-
cristãs que ultimamente estão se envolvendo com a luta dos pobres seis. Com a chegada desses invasores os aymaras (entre outros
e dos oprimidos em favor da justiça e da libertação. povos indígenas) tiveram que enfrentar extensos períodos de

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provação, sofrimento e opressão: escravidão, trabalho forçado, direitos, ou, ainda, unindo-se aos mineiros em sua luta por me-
separação de famílias e de comunidades. Os aymaras resistiram lhores dias. Trata-se, na verdade, de uma nova vida surgindo
como puderam, mas não conseguiram vencer o poder dos con- entre os aymaras da Bolívia. Sua igreja não é simplesmente uma
quistadores, dos colonizadores e de todos os que vieram depois igreja pobre, mas, acima de tudo, uma igreja dos pobres na qual
da independência política. As mudanças políticas não modifica- o Espírito libertador de Deus está agindo.
ram, basicamente, suas vidas. As igrejas, nos melhores casos,
demonstraram mera atitude paternalista para com eles. Por sua Nas montanhas meridionais de Appalachia, USA
vez, a Igreja Ihes parecia uma instituição de gringos, limitada
aos brancos. Os cristãos não trouxeram para os aymaras "boas As pessoas que vivem nas montanhas meridionais de Appalachia
notícias", mas, pelo contrário, notícias muito ruíns. estão entre as mais pobres dos Estados Unidos. Dedicam-se
duramente à indústria mineira de carvão, onde o trabalho orga-
Ao final do século dezenove a Igreja Metodista começou o tra- nizado enfrenta muitas dificuldades para a obtenção de seus
balho de evangelização e serviço entre as comunidades aymaras objetivos. As doenças, os acidentes e as mudanças de mercado
da região do Lago Titicaca. Tanto os missionários estrangeiros ameaçam as oportunidades de emprego. Nesta região, o cristia-
como os pastores bolivianos (na maioria brancos) tentaram aju- nismo evangélico está se tornando pentecostal em caráter. As
dar os ayrnaras, mas o que faziam caracterizava-se por atitudes igrejas providenciam inúmeros serviços. Parecem ser, em geral,
paternalistas. Não obstante, em número crescente, os aymaras bastante terrenos, como a "lavagem dos pés". Entretanto, gran-
começaram a se envolver cada vez mais na vida da igreja. Aca-
demente necessários. As pessoas descobrem que a Igreja está
baram sendo a maioria da comunidade metodista na Bolívia. com elas. Sentem-se em casa na Igreja. Nas reuniões de oração
A consciência da opressão sofrida por tantos séculos moveu os realizadas nas casas dos pobres, "ao se edificar a comunidade da
aymaras metodistas a representá-Ias de maneira construtiva. Eles fé, descobre-se algo relacionado com a promessa do ministério
mesmos planejaram e desenvolveram programas de seu interesse; dos discípulos de Cristo. Os pobres começam a sentir que Jesus
entre essas atividades surgiram programas de saúde e, - na lhes está libertando de inúmeras formas de escravidão. São forta-
verdade mais importante ainda, - elegeram um bispo aymara lecidos para perseverar em sua luta. constante. Neste contexto,
para dirigir a igreja. Destarte, a Igreja Metodista da Bolívia a Igreja mantém viva a esperança. 11 É a igreja dos pobres, não
começou a se transformar numa instituição dos indígenas do dos poderosos. Essa escolha expressa-se no tipo de culto que
país, governada pelo que chamam de "concílio de amantas" celebra. Trata-se da expressão da libertação humana por meio
"
("sábios", em sua língua). Os projetos considerados importan- de formas litúrgicas populares. L'2
tes não são os mais sofisticados. Dá-se prioridade ao treinamen-
to da liderança indígena, ao trabalho com os camponeses e com A participação das Igrejas no desenvolvimento da Indonésia
os movimentos indígenas. O esforço para a criação dessa igreja
Dois terços dos pobres mais pobres do mundo vivem em quatro
dos indígenas expressa muito bem a busca da igreja dos pobres.
países da Ásia, e a Indonésia é um deles. A situação dos pobres
A mensagem do evangelho libertador de Jesus Cristo adquiriu tem desafiado a Igreja na Indonésia a responder de maneira
significado mais profundo para essas pessoas; não se trata mais positiva e ativa. Ressaltando a necessidade de motivar os mais
da manifestação de paternalismo da parte da Igreja, mas da pobres e destituídos de poder para falar em seu próprio nome,
proclamação que Ihes ajuda a compreender melhor a maneira o Centro de Desenvolvimento do Conselho de Igrejas da Indo-
de reafirmar as convicções e valores próprios. O evangelho dei- nésia (DGI), por meio de seu programa de motivadores nas
xou de ser "coisa de gringos", mas algo que Ihes parece ser aldeias, procura despertar nova consciência entre os pobres,
dirigido ao seu próprio povo. de sua própria condição, e os ajuda a lutar por uma vida melhor
Quem Ihes visita pode se surpreender ao vê-los numa vigília de com seus próprios esforços, por intermédio de programas de
oração pela noite a dentro, numa de suas capelas, ou organi- desenvolvimento de formação comunitária, capazes de Ihes dar
zando cooperativas, ou, quem sabe, reinterpretando a própria senso de dignidade, de realização e de esperança.
história (que deveriam esquecer, segundo os desejos dos domi- Esses motivadores, que trabalham em equipes de três pes-
na dores brancos) à luz do evangelho, ou, mais, lutando por seus soas nas mais remotas aldeias da Indonésia, desejam, primeira-

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mente, estar com o povo participando de sua vida diária e tra-
siste contra essas decisões e inventa subterfúgios para não se
tando de lhes ganhar a confiança. Sua presença ajuda o povo a
envolver com a triste realidade, mas as vozes dos pobres não
refletir sobre as situações em que vivem para analisar, fazer
conseguem ser abafadas quando ouvidas com clareza, e podem
perguntas que ainda não tinham sido feitas, a fim de começarem
se levantar desafiadoras mesmo numa pequena igreja de classe
juntos um programa construtivo de desenvolvimento no qual os média. 13
habitantes da localidade são os principais protagonistas. Esses
motivadores tem que tratar muitas vezes com membros de tribos A Igreja de Nampula, Moçambique
donos de cultura completamente diferente da sua. Não é fácil
descobrir maneiras de preservar a cultura local e ao mesmo De 8 a 13 de setembro de 1977, a Igreja de Moçambique
tempo ajudá-los a enfrentar os desafios da modernização. Os (anglicana) organizou na cidade de Beira uma assembléia nacio-
motivadores são treinados para transmitir conhecimentos práti- nal para tratar de assuntos pastorais. A reunião resultou de in-
cos referentes à tecnologia simples e a desenvolvimentos agrí- tenso trabalho preparatório ao longo de dois anos. Queria ana-
colas, a fim de oferecer às populações rurais a orientação básica lisar a situação da Igreja no novo contexto político e social da
que lhes capacite a se desenvolver por conta própria. sociedade moçambicana. A assembléia teve a participação de bis-
Os motivadores pertencem a igrejas na Indonésia que res- pos, sacerdotes, membros de ordens religiosas e leigos. Cada dio-
ponderam ao desafio de estar com os pobres para serví-los. De cese preparou um relatório representativo de intenso trabalho
maneira bem prática, a Igreja vai para o meio dos pobres, para coletivo desenvolvido nas bases e apresentado por delegados
estar com eles em sua difícil situação e para serví-los em sua eleitos nos concílios regionais. Apresentamos, a seguir, trechos
luta por uma vida melhor. Em muitos aspectos, esses jovens mo- do relatório geral final, publicados em Libertar, boletim das co-
tivadores assemelham-se a uma ordem religiosa, com seu voto munidades cristãs de base em Põrtugal, em janeiro de 1978.1.4
de permanecer pobres nas aldeias para onde são enviados. Orga-
nizam-se em forma de comunidade com a finalidade de reali- Comunidades
zar um ideal proposto pela Igreja Cristã.
1. Quando falamos de comunidades em nossa Diocese, quere-
mos significar grupos de pessoas que se encontram regular-
No sul dos Estados Unidos mente para compartilhar a vida, para celebrar a Palavra de
A Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, denominação Deus e, sempre que possível, a eucaristia, e que, por sua vez,
relativamente pequena, "nascida em cisma" durante a Guerra têm líderes comunitários. O número de pessoas que formam
Civil, luta para enfrentar em estado de missão os desafios do esses grupos varia grandemente: a média situa-se entre vinte
e quarenta.
mundo presente. Numa consulta missionária realizada em 1978
os delegados prestaram atenção às vozes do Terceiro Mundo (na 2. Segundo esse critério, temos em nossa diocese cerca de 524
verdade, um terço dos participantes vinham de outros países) comunidades. A distribuição geográfica é muito irregular.
e as interpretaram como se fossem a própria voz de Jesus Cristo 3. Para se compreender melhor a prática na vida dessas comu-
a lhes chamar para maior fidelidade em face dos desafios de nidades, deve-se levar em consideração o seguinte:
nossos dias. O relatório classificou o capitalismo de sistema eco- A experiência de mudança radical trazida pela independên-
nômico pecaminoso bem como qualquer cumplicidade com ele. cia vivida como libertação é vivida em sua totalidade e al-
Exortou os membros da Igreja a mudar seus estilos de vida, a cança todos os níveis em que o povo sofreu opressão. Em
trabalhar pela mudança do sistema e dos seus efeitos sobre as relação à Igreja, esta libertação se concretizou da seguinte
vidas humanas, e a centralizar os esforços missionários em lutas maneira:
pela justiça econômica internacional tanto nos Estados Unidos a) separação entre Igreja e Estado com a cessão dos privilé-
como em outros países. O relatório colocou na agenda de estudo gios anteriormente concedidos à Igreja Católica Romana;
e ação da Igreja a questão da justiça para com os pobres, e cha- b) nacionalização dos sistemas de educação e de saúde, ace-
mou os seus membros, quase sempre bem situados na vida, a lerando-se assim o fim das "missões";
enfrentar a questão. Como se poderia esperar, muita gente re-
c) crítica aberta à Igreja enquanto aliada do colonialismo.
30
31
Este processo foi, de certa maneira, doloroso e exigiu grande começada naquele ano. Ham, o "Gandhi coerano" que já havia
abnegação para se descobrir, afinal, o que é essencial na vida sofrido tanto nas prisões da Coréia do Norte como nas da Coréia
da Igreja e na evangelização. do Sul, descobriu que essas reuniões de oração acabavam sendo
Tudo isso repercutiu dentro da Igreja. Muitos missionários valioso instrumento de resistência. Assim, no meio dessas prisões
deixaram Moçambique: inúmeros cristãos abandonaram a e julgamentos, ele instituiu os "encontros de oração", na véspera
prática da religião; os antigos professores deixaram de ser das sessões semanais de julgamento, ou seja, nas noites de quinta-
líderes comunitários: as lideranças passaram para os qua- feira.
dros políticos. A primeira reunião contou apenas com a presença dos fa-
4. Dentro deste processo de mudança, começa a emergir uma miliares dos detidos: mais ou menos 50 pessoas. Mais tarde
nova consciência entre os cristãos. Estas deficiências devem esse número chegou às centenas. No começo vinham somente
ser, agora, superadas: passividade e medo, clericalismo e sa- os cristãos; depois, uniram-se a estes taoístas e budistas. "Nos-
cramentalismo, falta de instrução ou de convicção, falta de sas orações são em favor de todos os acusados e prisioneiros".
senso de responsabilidade, e o temor de exercer diferentes Em 1975 oito homens foram sentenciados à morte e executados.
ministérios. Foram acusados de pertencer a um partido proibido. "Embora
5. Para se superar essas deficiências, torna-se urgentemente ne- seus pais e filhos sofressem execuções, embora fossem inocentes,
cessário, basear-se em nossos próprios recursos e encontrar e não obstante as lágrimas de pais, esposas, filhos, irmãos e
irmãs, durante as orações, essas reuniões celebravam a vida e a
novas maneiras de:
esperança. Unimo-nos uns aos outros em confiança mútua e
estudo mais aprofundado da Palavra de Deus (solicita-
amor".
mos aos bispos que providenciem Bíblias em Português
impressas em Moçambique); Todos os excluídos da vida pública, parentes e amigos
dos detidos bem como os que sofriam nas prisões, uniam-se
celebrar os sacramentos, particularmente o da reconcilia-
nessas reuniões de oração às quintas-feiras. Durante os encon-
ção e a eucaristia.
tros mencionavam-se nomes e eram narradas as dolorosas situa-
6. Estes são fatores capazes de nos trazer à plena maturidade
ções por que passava essa gente, lembrados, naturalmente por es-
alguns frutos que já começam a aparecer nas comunidades:
posas ou filhos. Os que oravam eram também perseguidos ou
transcrição progressiva de ser-cristão-pela-força a ser-cris- espionados. Eram professores demitidos ou estudantes impedi-
tão-por-convicção; dos de voltar às aulas, favelados e camponeses, pastores e tra-
II
transição da fé infantil para a fé adulta. balhadores sociais: seres humanos sem propriedade, donos ape-
nas de suas vidas nessa nova comunidade.
Na Coréia do Sul No final de 1975, algumas famílias que habitavam uma fave-
Uma das experiências mais comoventes da recente história la e que costumavam freqüentar as reuniões de oração, perderam
do cristianismo asiático é testemunhar o nascimento de novas seus barracos por causa da decisão governamental de "tornar a
comunidades messiânicas. Comparadas com outras comunidades cidade mais "bonita". Muitas famílias resistiram e construiram
da Ásia, o significado desses grupos coreanos está no fato de tendas para defender seus direitos. Uma pequena tenda abrigou
terem nascido num contexto historicamente contraditório de uma reunião de oração. Nasceu, assim, uma nova comunidade:
lutas no país inteiro. Trata-se de uma luta política entre as mas- a Sala de Amor de Sarang-Dang. Em certa ocasião a comunidade
sas constituídas pelos pobres e os poucos ricos, entre os opri- toda foi detida. Seis mulheres e dez homens receberam ordem
midos e os opressores. As novas comunidades messiânicas surgi- de prisão, bem como o líder do grupo. Não obstante tudo isso,
ram no meio dessa luta, singular em sua intensidade intelectual Sarang-Dang é uma comunidade viva no deserto, cheia de espe-
e física. rança, posto que seus membros não estão sós.
O ponto de partida para todas essas novas congregações foi Há inúmeras outras comunidades surgidas que nem essa,
"o encontro de oração das quintas-feiras", iniciado em abril de com estórias também semelhantes: "Galilâa", "Yumin", "Mer-
1974. A razão dessa prática foi a onda de detenção de cristãos cado da Paz", "Casa da Aurora". Há comunidades não-localiza-

32 33
das que se reúnem ao redor do "espírito do. dia primeiro de Os próximos "invasores", com o auxílio da vizinhança e de
março: Samil Chul", ou mulheres do "grupo dos 18", todas es- membros das igrejas, entraram nessas casas, restauraram-nas por
posas de sentenciados relacionados com os famosos julgamentos conta própria, trabalhando juntos sem qualquer proteção externa.
de "Myong Dong", e grupos de solidariedade aos jornalistas de Agora, cerca de 100 pessoas estão morando em 60 apartamen-
"Dong A. Iebo", entre outros. tos. Enquanto isso, a propriedade toda foi novamente vendida.
Essas novas comunidades vivem na confiança de que Deus Rendeu aproximadamente um milhão de guilders. Os novos ha-
está presente e atuante nessas lutas. Por ocasião das celebrações bitantes estão, de novo, ameaçados de expulsão. Ao lado do
do ano novo de 1978, com a publicação do nome das vítimas grupo do Conselho de Igrejas de Amsterdam eles decidiram per-
de "Declaração de primeiro de março", os cristãos envolvidos manecer onde estão e resistir à polícia.
com essas comunidades disseram: "Nós estamos com os pobres. Em 1978 um grupo de estudo do Conselho de Igrejas da
Estamos, portanto, prontos para ir para a prisão a qualquer mo- Holanda preparou um relatório sobre esta e outras estórias pa-
mento. Ser prisioneiro é mesmo uma nova manifestação de nossa recidas, que se poderia traduzir em português por "posseiros na
comunidade." 15 Holanda", em que rejeita uma nova lei sobre esses incidentes
que o governo holandês estava preparando. Essa lei protege
A igreja dos pobres numa sociedade afluente os proprietários e permite nova especulação. O relatório foi
aceito pelo Conselho de Igrejas da Holanda depois de longos
Na Ho1anda, que é uma sociedade afluente, há um sério debates. As Igrejas, agora, fazem objeção a essa lei perante o
problema que já se arrasta por alguns anos. Milhares de pessoas Governo. Pela primeira vez, a propriedade privada, considerada
estão a espera de habitação. São diversas as razões para esta inviolável, começa a ser atacada pelas igrejas. A humanidade
falta de casas, sendo uma delas (e, talvez, a principal) a desti- passa a ser considerada mais importante do que as leis do mer-
nação de inúmeros conjuntos habitacionais para fins comer- cado. Os "posseiros", até agora, não receberam nenhuma medida
ciais não-residenciais. As casas de moradia começam a ficar va- de segurança.
zias. Seus inquilinos são forçados a se mudar para que aí se ins-
talem escritórios, lojas ou, simplesmente, para especulação imo- Dados bíblicos para uma igreja dos pobres
biliária. Nos centros urbanos a terra já vale até mesmo mais do
que os edifícios. Há, porém, pessoas que não aceitam essa situa- Essas estórias a respeito de igrejas procurando ser de novo
ção. Especialmente os jovens, que estão na lista de espera já há igrejas dos pobres assemelham-se a estórias de outras igrejas escri-
alguns anos. Impacientes, invadem as residências vazias, e as tas há muito tempo no Novo Testamento. As tradições do Antigo
restauram, tornando-as de novo habitáveis sem o consentimento e do Novo Testamento demonstram um movimento profundo e
de seus proprietários. Quebram, assim, a lei que proteje a pro- radical contra o desenvolvimento que separa a humanidade em
priedade privada com mais eficiência do que as pessoas em ne- opressores e oprimidos, ricos e pobres, abastados e necessitados. 16
cessidade de habitação. A polícia tenta expulsá-Ios pela força. A Bíblia ataca os poderosos e lhes acusa de não utilizar esse poder
Na antiga cidade de Amsterdam a maior residência "inva- em favor dos fracos, e, pior ainda, de acrescentar mais poder aos
dida" é o edifício Leeuwenburg. São 15 casas com alguns escri- opressores. 17. A nova Igreja que surge mostra estilo radical de vida
tórios de grandes indústrias. O edifício tem mais de 200 anos comunitária onde a pobreza é erradicada (At 2.42-47; 4.32-35).
mas ainda está em bom estado. Foi usado para vendas de metal Paulo demonstra em suas cartas a existência de uma Igreja baseada
por atacado. Em 1969 esses escritórios foram fechados porque na eleição divina dos pobres. "O que é fraqueza no mundo, Deus
o edifício seria demolido para dar lugar a um hotel. Em 1972 o escolheu para confundir o que é forte; e o que no mundo é vil
o grande conjunto foi desabitado e os interiores das grandes e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o
mansões foram desmantelados para que ninguém pudesse per- que é" (isto é, a ordem existente) (1 Co 1.27b e 28). Da mesma
manecer. Os vizinhos protestaram, lembrando à municipalidade maneira a carta de Tiago. A Bíblia gera a força contrária às estru-
as promessas que fizera de estabelecer novas residências por ali. turas prevalescentes de poder neste mundo. 19 E o faz de muitas ma-
O conselho de igrejas da cidade também protestou mas nada neiras. Por meio dos profetas e dos legisladores da Torah procura
aconteceu. O edifício permaneceu vazio. estabelecer regras que garantam a prática da justiça por meio da

34 35
qual a terra de Deus e sua riqueza são honestamente distribuidas com movimentos de libertação, em todos os sentidos bíblicos dessa
palavra, incluindo a libertação material.
entre todos, e o povo, ameaçado de pobreza, pode reencontrar o
seu lugar na sociedade. Dentro desse processo popular, a Igreja, segundo o chamado
de nosso Senhor, deveria ser o agente principal.?" Não pode haver
A designação de povo de Deus tanto para Israel como para a
igreja sem os pobres, uma vez que Cristo se torna presente neles.
Igreja evoca a solidariedade concreta capaz de ser praticada na
Qualquer igreja sem os pobres é um lugar obviamente abandonado
nova irmandade. Baseiam-se fundamentalmente em profunda espi-
por Crísto.:" Portanto, a Igreja precisa escutar os clamores dos
ritualidade. Foi o próprio Espírito de Deus e de Jesus Cristo que
pobres. Precisa carregar seu fardo e perguntar aos que não estão
-nos ensinou a não confiar em família, terra ou casas (Mt 19.29)
na igreja de que maneira ela poderá lhes ajudar em sua causa.
mas no amor de Deus (Mt 6.25-34, Lc 12.22-32). Esse tipo de
espiritualidade cria espaço para que o humilde e o necessitado en- Como sinal de testemunho a Jesus Cristo, a Igreja deve per-
contrem, afinal, a liberdade. Ao mesmo tempo torna possível a manecer atenta aos pobres que se voltam para ela. Ao tentar res-
participação dos ricos.P" Na Bíblia os ricos nunca são completa- ponder às necessidades dos pobres, a Igreja deve utilizar todas as
mente fechados em sua riqueza. São chamados a se libertarem da possibilidades que estão ao seu dispor para resolver seus problemas.
escravidão à propriedade, e são solicitados a tornar essa proprie- Qualquer tipo de participação em ação social em benefício dos po-
dade disponível à causa da justiça e, se necessário, a se livrar dela. bres envolve responso ao sofrimento 'sócio-econômico. Basicamente,
Os ricos são convidados a se unirem na luta dos pobres, por meio a pobreza estrutural só pode ser enfrentada a partir de perspectiva
de um processo de conscientização e de conversão. São chamados política, e a luta contra ela exige envolvimento político. 12'7
a participa,r na nova comunidade, mas somente sob a condição da As estruturas de nossas igrejas serão renovadas quando nos
eleição divina dos pobres, que são os portadores do evangelho, não encontrarmos diretamente com os pobres, não mais como objetos de
porque estejam mais perto de Deus, mas porque Deus está mais nossa caridade, mas como sujeitos de mudança. Testaremos, assim,
perto deles. A boa mensagem torna-se clara neles; eles são a base tanto a credibilidade da Igreja como a do evangelho. Modificare-
da recriação de Deus. 1'.11 mos nossos conceitos teológicos, missiológicos e eclesiológicos, na
direção de novo entendimento do Senhor da Bíblia.?" As priorida-
Os pobres fora da Igreja des da agenda das igrejas mudarão. É o que se verifica em diversas
partes do mundo onde a Igreja voltou a ser fiel ao testemunho de
Em primeiro lugar, para que a igreja venha a ser novamente
Jesus Cristo, transformando-se em igreja dos pobres. 29
igreja dos pobres será necessário que se torne novamente humilde.
Pretender que a Igreja seja o partido do povo será pura falácia,
não apenas por causa das ambiguidades da Igreja, mas principal- Os pobres dentro da Igreja
mente porque a Igreja na maioria dos países não passa de um Parte da sociedade, a Igreja não está livre dos antagonismos
grupo minoritário. i212 A tarefa da libertação não é uma empresa deste mundo. As contradições existentes no relacionamento entre
eclesiástica. Tampouco a opção por ser igreja dos pobres não se as igrejas ricas dos países desenvolvidos e as pobres dos países em
trata em primeiro lugar da elaboração de nova moda teológica. vias de desenvolvimento criam severos problemas. Mas também
Seria utilizarmos os pobres para nossos propósitos. A "teologia dentro das comunidades locais há, muitas vezes, enorme distância
dos oprimidos" depende de ouvirmos atentamente suas vozes," que, entre o salário, o valor das propriedades e a riqueza dos membros
ao lado da palavra de Deus, juntam-se numa só voz. da Igreja, que, naturalmente se chamam igualmente de irmãos e
Nem precisamos nos apressar para "batizar" os pobres. Trans- irmãs em Cristo." Em geral, os pobres são domesticados. Não par-
formar-se em igreja dos pobres não significa um método para re- ticipam nos processos decisórios. São aceitos sob as condições dos
conquistar posições perdidas e muito menos uma estratégia para grupos mais fortes. Vê-se dentro da Igreja certa mentalidade vol-
o crescimento da igreja. Trata-se de um desafio para sermos fiéis tada para o crescimento, para o prestígio e para o lucro pessoal que
ao testemunho de Jesus Cristo; é um ato de conversão.f" afeta a comunidade e separa as pessoas. A Lei do Mercado exerce
O cativeiro das igrejas precisa ser quebrado. Nossas igrejas na comunidade da igreja o mesmo fascínio que tem sobre a socie-
fechadas precisam ser abertas às instituições criativas envolvidas dade como um todo,Sl

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36
A necessidade de transformar os corpos institucionais eclesiás- são marginalizados e oprimidos nos níveis social, econômico e
ticos em verdadeiras comunidades em Cristo é urgente, embora essa político da sociedade. O processo é o mesmo.
tarefa não possa se dissociar da transformação da sociedade. Às Entretanto, Deus é nosso libertador. Em vez de vagos senti-
margens das igrejas oficiais vão surgindo novas comunidades onde mentos de culpa Ele confronta os ricos com a realidade de seu
novos valores são experimentados. A Igreja deveria aceitar esse pecado, e os capacita a abandonar esse pecado e a encontrar a re-
desafio. Ao ser modelo do novo Reino de Deus deveria também ser denção. Ele conforta os pobres. Ao abençoá-los, assegura-lhes de
comunidade curadora também em questões sociais e econômicas. que são filhos preciosos de Deus, capacitando-os a se tornarem
O povo de Deus opta basicamente pela solidariedade. Era a razão auto-confiantes e seguros de si mesmos. Jesus se considera manso
de ser de Israel e sua própria identidade. Quando Israel perdeu e humilde de coração, qualidades dos pobres (Mt 11.29). Sua po-
essa solidariedade foi destruído e levado cativo.r" "Assim, haverá breza vicária - sendo o Servo do Senhor, que se fez nada, assu-
igualdade", nos diz 2 Co 8. 14. A primeira igreja em Jerusalém pra- mindo a natureza do escravo (Fp 2.7) - não idealiza a pobreza
ticava esta igualdade como sinal de sua liberdade e ressurreição." nem a torna sacrossanta, mas abre um novo caminho pelo qual o
O círculo vicioso da cobiça pode ser quebrado dentro desta povo pode se libertar a si mesmo do desespero e da auto-destruição.
nova comunidade. A propriedade privada não pertence à ordem da Faz com que a escada fique circular.
criação. Novos experimentos em participação de ganhos poderiam Esta nova espiritualidade une os pobres em nós com os pobres
ser arranjados de tal modo que algumas instituições e organizações fora de nós, e assim a separação entre dominante e dominado se
poderiam andar na frente da sociedade ao redor. 3-4 Não se trataria transforma. Os pobres de espírito (Mt 5.3) e os pobres material-
de nova lei mas de sinal de liberdade e de exemplo da nova ordem mente (Lc 6.20) são basicamente os mesmos. A opressão dos ma-
criada por Jesus Cristo. terialmente pobres é a opressão dos pobres em nós. A Igreja, no
seu trabalho pastoral, no seu culto-e na tarefa evangelizadora, pre-
Os pobres em nós cisa criar um lugar de liberdade onde se possa viver (koinonia),
servir (diakonia), e comunicar (evangelizar) a salvação do Cristo
O ser humano tornou-se produto do comércio político por libertador.
causa de interesses particulares. Os sistemas de comunicação de
massa, a publicidade, as leis do mercado, criam falsas necessidades
NOTAS
e falsos desejos. Evoca-se um sentimento permanente e vago de
culpa para forçar as pessoas ao consumo, distraindo-as assim das 1. Cf Mt 6.24; Lc 16.13. Cf. Iacques Ellul, L'argent. Neuchâtel and Paris,
Delachaux et Niestlé, 1960.
duras realidades da vida. 2. Thomas Cullinan, OSB, o demonstra muito bem em The Roots 01 Social
A maioria dos sistemas educacionais baseiam-se no progresso: Injustice: "Quando idolatramos a riqueza, criamos a pobreza; ao ido-
e no sucesso, oprimindo, dessa maneira, as nossas partes mais dadas latrarmos o sucesso, criamos o fracasso; se idolatramos o poder, criamos
a fraqueza. São processos inevitáveis." Londres, Catholic Housing Aid
ao fracasso." A Igreja tende, muitas vezes, a fortalecer tais sen- Society, 1973, p. 4.
timentos de culpa ao restringir a libertação de Deus a certo mora- 3. Mesmo entre os ricos há vozes que levantam questões desse tipo. E
lismo às custas do esquecimento da abundância do próprio Deus, o que assinala [ohan Galtung quando diz que "existe a idéia do limite
substituindo-se a plenitude da vida por determinado enfado maso- de desigualdade. Quando alguns países ou pessoas, e particularmente,
quando algumas pessoas em alguns países têm muito mais do que ou-
quista. Dá-se demasiada ênfase às nossas falhas, às coisas que nos tros, possuem recursos que podem se converter em poder. Por exemplo,
causam medo, enfim, às nossas dificuldades todas. Não ousamos quando a elite de um país tem acesso a melhores serviços de saúde do
perceber o pobre que está dentro de nós da mesma maneira como que o povo (ou acesso mais fácil aos mesmos serviços, que acaba no
fugimos dos pobres que estão fora de nós. Sentimos medo desses mesmo) suas probabilidades de vida aumentam. Em conseqüência,
podem se tornar mais eficientes e viver mais tempo; viver mais tempo,
pobres e não queremos lembrar que talvez pertençamos também a por sua vez, significa maior acúmulo de experiência que também pode
esse mesmo mundo do qual tanto queremos escapar. Sentimo-nos se converter em mais poder sobre os outros. Assim, acredita-se na exís-
forçados a subir a escada do sucesso. Nossa dependência do poder tência de um limite de desigualdade que tanto o mundo como os países
e da propriedade é tão grande porque nossa fé em Deus e em nós individualmente poderiam suportar sem se transformarem numa carica-
tura do que deveria ser a sociedade com um mínimo de justiça social".
mesmos é demasiadamente fraca. Em outras palavras, oprimimos
ln Marc Nerfin (ed.), Another development: approaches and strategies,
e marginalizamos os pobres em nós, da mesma maneira como eles p. 107. Cf. o capítulo de Paul Singer e Bolivar Lamounier, "Brazil:

38 39
grouth through inequality", Uppsala, Dag HammarskjOld Foundation não podemos fazer outra coisa
1977. Por essa razão os que se preocupam com justiça social nos países senão nos tornarmos advogados dos pobres.
ricos estão buscando "um novo estilo de vida". CL CCPD Dossiers ns. Não se trata de ser simplista
10 e 11: In seard« ot the new. I-H. Genebra. CCPC/WCC, 1976-77. e ver todas as coisas em preto e branco,
4. CL Tiago 1.18, "Por vontade própria ele nos gerou pela Palavra da ignorando a economia
verdade, a fim de sermos como que as primícias: dentre as suas cria- e a contribuição das outras ciências
turas". humanas,
5. CL [osé Miguez Bonino, Christians and marxists, the mutual challenge mas, num sentido profundo
for revolution, p. 40: "A obediência não é conseqüência de nosso conhe- as escolhas são simples
cimento de Deus nem tampouco sua pré-condição; a obediência inclui-se e fortes:
em nosso conhecimento de Deus. Ou, para dizê-lo mais fortemente: a - morte ou vida;
obediência é o nosso conhecimento de Deus. Não existe, em nossa rela- - injustiça ou justiça;
ção com Deus, um momento noético separado. Há uma fé imperfeita, - idolatria ou o Deus Vivo.
mas não pode haver, na natureza do caso, uma desobediência crente Devemos escolher a vida.
_ a não ser aquela "fé morta" de que fala Tiago e que não serve para Devemos escolher a justiça.
"nada". E o que significa a ênfase na exigência intrínseca de que a fé Devemos escolher o Deus Vivo.
cristã se torne histórica, que seja "a verdade nos fatos". Não conhece- Prestonburg, Kentucky, Catholic Committee of Appalachia, 1978.
mos Deus no abstrato para deduzir de sua essência algumas conse- 12. Cf. o trabalho preparatório para o seminário da CCPD sobre "The
qüencias. Conhecemos Deus no ato sintético da resposta às suas exi- Church and the poor", Ayia Napa, Chipre, setembro de 1978, por
gências:" Londres, Hodder & Stoughton, 1976. [ames Somerville, My involvement in the struggle.
6. At 2.42-47; 4. 32-37. Também Julio de Santa Ana, Good news to the 13. CL o relatório da consulta de 1978 da Igreja Presbiteriana nos Estados
Unidos, One mission under God, ed. Office of the Stated Clerk, Atlanta,
poor, capo 4, Genebra, WCC, 1977.
Georgia, 1978. CL também Presbyterian survey: a Third World look
7. CL Hugo Echagaray, Derechos dei pobre, derechos de Dios, in Paginas, at the mission consultation, setembro de 1978, p. 41-42.
vol. Il l , número especial, 11-12, p. 12-17, Lima, CEP, 1977, e in CEI
14. Idoc international: new series, Boletim 2-3, Roma, IDOC, fevereiro/
Bíblia hoje, agosto de 1978. março 1978, p. 15.
8. CL Julio de Santa Ana (ed.), Separation without hope? Genebra, WCC, 15. Este é um resumo do capítulo do livro Der lange Marscb zuriick, de
1978. Wolfgang Schmidt, publicado em 1980 por Christian-Kaiser-Verlag,
9. Cf. Dom Helder Câmara, Les conversions d'un evêque, Paris, Ed. du Munique.
Seuil, 1977. 16. Cf. Julio de Santa Ana, Good news to the poor. E Coen Boerma, Rich
10. CL Alex Devasundaram, "The experience of St Mark's Cathedral, Ban- man, poor man and the Bible. Londres, SCM Press, 1979.
galore", CCPD Dossier n. 12, Good news to the poor. Geneva, WCC, 17. CL Salmo 72.1-4, 12-4, e diversos lugares em Isaías, [erernias, Miquéias
1978. e Amós.
11. CL a carta pastoral dos bispos católicos de Appalachia, Powerlessness 18. CL To break the chains of oppression, Genebra, CCPD/WCC, 1975,
in Appalachia, p. 12-13: p. 36-44, especialmente p. 40. CL também Raul Vidales, "People's
"A ação em favor da justiça church and christian ministry". International Review of Mission, voI.
e a participação na transformação do mundo LXVI, n. 261 sobre "Ministry with the poor", janeiro de 1977, p. 39,
vem a nós plenamente "De nossa parte, estamos convencidos de que este é o 'momento' his-
como a dimensão constitutiva tórico inescapável (Mt 16.1- 16.1-4ss; Lc 19.41-44) em que nós, cristãos,
da pregação do Evangelho devemos fazer uma escolha clara e efetiva: viver o evangelho de Jesus
ou, em outras palavras, Cristo, como a luta em favor da libertação de todos os pobres, enquanto
da missão da igreja expressão concreta de nossa fé, e compromisso permanente com a men-
pela redenção da raça humana sagem. O preço desta escolha sempre foi e continua a ser a acusação
e sua libertação de todas as situações inferida na expressão 'realizar um ato de culto a Deus' 00 16.2, 'Virá
de opressão. a hora em que aquele que vos matar julgará realizar um ato de culto
a Deus)".
Assim,
não pode haver dúvida, 19. CL o relatório da Sessão VI da Quinta Assembléia Geral do Conselho
de que nós, que devemos falar a mensagem Mundial de Igrejas realizada em Nairobi, em 1975, sobre "Desenvolvi-
daquele que convocou Moisés mento humano: ambigüidade de poder, tecnologia e qualidade de vida",
e que abriu a sua boca in David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 130. Grand
em Jesus de Nazaré, Rapids, Mich., Wm. B. Eerdmans, & London, SPCK, 1976.
e que mantém o Espírito vivo 20. Ver Julio de Santa Ana, Good news to the poor, capo 3, p. 33ss.
por causa da justiça 21. Cf. William R. Coats, God ín public: polítical theology beyond Niebuhr,
por tantos séculos p. 133, " ... no Novo Testamento os pobres são relacionados, não com

40 41
o mundo e os sistemas humanos, mas com o Reino de Deus. A cruel- na comunidade dos pobres, dos tristes e de todos os condenados ao
dade e a cegueira do homem só pode ser exposta e julgada a partir silêncio, de tal modo que possa servir a todos os homens". Londres,
desta perspectiva. Os pobres possuem o segredo do Reino, pois são eles SCM Press, 1977.
o julgamento da presente época... existem como sinais de promessa. 26. Benoit Dumas, Los dos rostros alienados de Ia Iglesia una, p. 20, " ... a
No Novo Testamento, Deus age precisamente por meio dos que nada Igreja não coincide completamente com a Igreja - enquanto os po-
têm a esperar do mundo, e para os quais a estrutura e a vida do mundo bres que esperam pela sua libertação não conhecerem o nome de Jesus
se tornaram inimigos. Deus age por meio dos rejeitados, dos despre- Cristo e não reconhecê-lo no seu corpo visível comprometido com eles;
zados, dos que não têm possibilidades, dos sem futuro, por meio dos enquanto os que esperam em Cristo e conhecem seu nome não souberem
que nada possuindo na terra são portadores da promessa da nova era encontrá-lo, nomeá-Ia, e esperar por ele na libertação dos pobres".
em que todos possuirão todas as coisas igualmente". Grand Rapids, Buenos Aires, Latinoamerica Libras, 1971. Cf. Mt. 25.31-46.
Mich., Wm. B. Eerdmans, 1974. 27. CL o capítulo XIII deste livro.
22. Aplica-se não apenas em países da Ásia, África, Extremo Oriente e 28. CL o artigo de Jorge Pantelis, "Implications of the Theologies of Li-
Pacífico, onde os cristãos são minoritários. Aplica-se, também, na Euro- beration for the Theological Training of the Pastoral Ministry in Latin
pa, América do Norte e do Sul e no Caribe, onde as práticas religiosas America". International Review of Mission, voI. LXVI, n. 261, janeiro
demonstram que os participantes nas atividades das igrejas com certa de 1977, p. 14-21.
regularidade não são mais do que pequena parcela da sociedade, e, em 29. Cf. o capítulo XI deste livro.
geral, não muito interessados nos movimentos populares organizados. 30. CL o capítulo V deste livro.
23. CL Gustavo Gutierrez, Teologia desde el reverso de Ia história, p. 3l. 31. David E. [enkins, The contradiction 01 christianity, p. 49. Londres,
O movimento popular (apesar da repressão a que é submetido) continua SCMPress, 1976.
a se afirmar nas- bases. A consciência política das massas desprivile- 32. Ez. 22.29-30. Ver também o capítulo X deste livro.
giadas está se tornando mais profunda e amadureci da, ganhando em 33. No Novo Testamento a exigência de solidariedade é dada à Igreja por
organização independente e aprendendo novas maneiras de trabalho. As meio da imagem de que ela é o corpo de Cristo: cf. 1 Co. 12; Rm.
conquistas e os fracassos são experiências instrutivas. O sangue dos 12.3-13. Sobre a prática da solidariedade na Igreja Primitiva, cf. Julio
que se levantaram contra a antiga injustiça (quer figurem ou não nas de Santa Ana, Good news to the poor, capo 4, e Coen Boerma, op. cito
manchetes dos jornais) tem dado mais títulos de propriedade de terra 34. Algumas experiências deste tipo foram indicadas por Ian M. Frazer,
a muitos, mas ao mesmo tempo fortalece a reivindicação daqueles que The [ire runs, p. 3-41. Londres, SCM Press, 1975. Também, do mesmo
a Bíblia chama do "pobre povo da terra". O movimento popular expe- autor, "Room to answers back: salvation and the struggles of the poor",
rimenta assim retrocessos e incertezas, típicas de qualquer processo Study encounter, vol. IX, n. 1, 1973, p. 1-15.
histórico, mas também experimenta a firmeza, a esperança, o realismo 35. CL Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido.
político e uma capacidade de resistência que os defensores da ordem
estabelecida acham difícil de entender e até mesmo frustram as elites
revolucionárias que têm assumido 'certas ações - com sérios retrocessos
- recentemente na América Latina. Foi nesse contexto que surgiu. e
amadurece a Teologia da Libertação. Não poderia ter começado a existir
antes de certos desenvolvimentos do movimento popular nem antes da
maturação de sua práxis histórica de libertação. Essas lutas são o cená-
11
rio da nova maneira de ser homem e mulher na América Latina e, con-
seqüentemente, a nova maneira de se viver a fé e o encontro com o
Pai e com os irmãos. A experiência espiritual (no sentido paulino de
Il
"viver segundo o Espírito") no âmago do conflito social e em solida-
riedade com os ausentes da História, é a fonte desta tarefa teológica".
Lima, CEP, 1977.
24. CL José Miguez Bonina, Revolutionary theology comes of age, p. 159,
"O cristão comprometido com a libertação envolve-se, portanto, na luta
pela reforma da Igreja, ou para expressar-se mais drasticamente, pela
reconstituição de um cristianismo no qual todas as formas de organiza-
ção e de expressão venham a ser humanizadas e libertadas"'. Londres,
SPCK, 1975.
25. Cf. Iürgen MoItmann, The church in the power of theSpirit, p. 225-
226, "A comunidade messiânica pertence 'ao Messias e à palavra mes-
siânica: e esta comunidade, com os poderes que tem, já realiza as
possibilidades da era messiânica, que traz o evangelho do Reino aos
pobres, que proclama a elevação dos oprimidos aos humildes, e prin-
cipia a glorificação do Deus vindouro por meio de atos de esperança

42 43
11. A situação dos pobres "Olha, você faria o mesmo se tivesse que esperar numa longa
fila de 500 pessoas para entrar no único lavatório existente!"
Numa reunião onde se discutia planejamento familiar, numa
aldeia pobre, disse uma mulher, "Vocês me dizem que a gente deve
limitar a família. Mas eu preciso de mais filhos, vocês entendem?
São eles que me ajudam a ganhar a vida. Além disso, se eu quiser
que pelo menos três filhos consigam viver, preciso produzir no
mínimo dez." Era isso mesmo. Ela falava a partir de sua experiên-
cia, pois já perdera muitos. Seus filhos começam a trabalhar com
5 anos de idade. Alguns acondicionam essas pequenas varinhas de
incenso ou folhas de tabaco enquanto outros se dedicam a serviços
mais pesados como, por exemplo, derramar pixe fervendo para con-
"Nós só comemos uma vez por dia, um bolinho de milho com
sertar estradas sob o sol abrasador. Essas crianças não sabem o que
alguns pedacinhos de carne temperada", resmunga o homem pre-
é infância. A família vive diariamente sob a constante angústia de
maturamente envelhecido, de cócoras no calçamento molhado da não saber onde poderá viver ou o que comerá no dia seguinte ...
cidade, onde acaba de chegar de sua aldeia natal para tentar, cheio "Faz tempo que não tomo banho", reclama o trabalhador ao rece-
de esperança, uma vida melhor. "Depois de andar por aí com os ber o miserável salário. "Trabalho o dia inteiro no sol e preciso de
meus nove filhos, o menorzinho ficou com a mulher", acrescenta, água para me lavar. Antigamente ainda tínhamos água nesta favela,
dando uma olhada para a esposa macilenta, tentando dar de mamar mas agora o proprietário comercializou a pouca água existente.
a um pequenino corpo humano, enrugado e mal nutrido. As crian- Quem pode se dar ao luxo de um banho quando cada balde de
ças estão por ali semi-embrulhadas em jornais velhos como se fos- água custa uma fortuna?"
sem camas, mal disfarçando a triste nudez. Alimentados por dieta Aquela mulher, depois de trabalhar durante toda a vida nas
tão escassa - a família toda, incluindo os filhos - trabalha da plantações de chá, morreu e foi enterrada ali mesmo, num caixão
manhã à noite. Mais pros lados da esquina observa-lhes o troncudo feito de caixas usadas para o transporte de chá. Sobre o seu túmulo
agiota que lhes empresta dinheiro a juros altíssimos quando pre- crescem novos arbustos da planta cujas folhas serão vendidas para
cisam como, por exemplo, quando o pobre homem adoeceu recen- a delícia de tanta gente. .. Pessoas como ela jamais poderão es-
. temente, ou quando a filha se casou ou para fazer alguns concertos perar a identidade própria aos seres humanos, nem na vida nem
no barraco da favela construído de destroços de caixas que a família na morte.
insiste em chamar de lar. O agiota leva quase sempre a maior parte Trata-se de gente que nem nós. São milhões e milhões em
da renda familiar numa espécie de círculo vicioso no qual ele é o nosso meio, representando o amargo espetáculo da pobreza mas-
que sempre sai ganhando. Passam, assim, a vida, numa canseira sificada de nossos dias. .
desesperada. Lê-se no relatório de 1978 de um importante banco mundial:
Um outro homem sai de seu abrigo de uma só peça na favela "Os últimos vinte e cinco anos foram um período de mudança e
onde vive com sua numerosa família, e se lembra com saudades do progresso sem precedentes nos países em vias de desenvolvimento.
tempo em que ainda havia pequenas empresas na comunidade e Contudo, não obstante tal progresso impressionante, cerca de 800
podia trabalhar por conta própria como se fosse dono do pró- milhões de pessoas continuam ainda a viver nas condições conhe-
prio destino - até a chegada das grandes companhias. "Elas nos cidas como de pobreza absoluta: subnutrição, analfabetismo,
enguliram, - diz ele. "Agora trabalhamos sem parar e não ganha- doença, ambiente poluído, alta taxa de mortalidade infantil e baixos
mos o suficiente. A gente trabalha para que outros sejam ricos, en- índices de duração de vida, abaixo de qualquer definição aceitável
de decência humana". 1
quanto nós perecemos pela vida a fora na sujeira e na lama. Pode-
A humanidade, como nunca antes na História, confronta-se
remos ainda ter alguma esperança?"
hoje com a terrível realidade da mais completa pobreza no meio
"Por que vocês ficam defecando por aí? Vocês não sabem que da abundância, com um quarto da população usufruindo de rique-
isso não é bom para a saúde'?" zas não imaginadas antes, enquanto o resto permanece na pobreza.

44 45
Dessa parte, é impressionante o número dos que vivem em miséria desde rádios, aparelhos de televisão e aviões, até energia nuclear -
absoluta. A dolorosa consciência de que seu número aumenta dia-
2
chegando até mesmo a colocar em órbita um satélite. Somente a
riamente, e de que a sua situação piora a um nível perigoso à pró- minoria privilegiada se beneficia desses avanços. As condições não
pria sobrevivência, chama a atenção das pessoas interessadas." Por são muito diferentes em outros países pobres. Na África e na Amé-
outro lado, a riqueza e os padrões de vida da minoria rica aumen- rica Latina o número dos que vivem abaixo do nível da pobreza
tam também sem parar, crescendo assim a distância entre os ricos está sempre aumentando. Quase 70% dos 1 milhão e 600 mil ha-
e os pobres. Ironicamente, apesar do tremendo avanço da ciência
-f bitantes da Libéria são pobres, sobrevivendo com salários de 70
e da tecnologia aplicada, e do reconhecimento de que a humanida- dólares por ano. 80% de sua população não sabe ler. Na Amé-
de tem o direito de dominar a natureza e prover o necessário para rica Latina 40% da população vive abaixo da linha da pobreza.
todos, não obstante os esforços de planejamento em nível global, o Todos os esforços em favor do desenvolvimento, nesses lugares,
número dos pobres tem aumentado, enquanto as exigências cada beneficiam apenas a pequena minoria que está em. cima, jamais
vez maiores da minoria rica em relação aos recursos naturais, alcançando a maioria para os quais originalmente se destinam. A$
ameaça o ambiente e até mesmo o futuro da humanidade." O estruturas sociais estão de tal modo organizadas nesses países que
mundo, tornando-se aceleradamente uma aldeia global com aumento tanto o trabalho como os recursos existentes só beneficiam a pe-
considerável de riqueza, projeta para escala também global o an- quena elite, que, ao se apossar indevidamente de todo o poder eco-
tigo problema dos pobres e dos ricos, ressaltando o processo de nômico, faz com que as instituições sociais, políticas, religiosas e
empobrecimento em relação às nações ricas e os efeitos que pro- culturais dentro do sistema funcionem em seu próprio benefício. 9
duzem nas outras, menos favorecidas. Em que pese a penúria das condições de trabalho, o resultado do
Os números estatísticos, desencarnados, nem sempre dão à labor dos pobres serve para o enriquecimento dos poucos que es-
imaginação a dimensão do sofrimento humano desses milhões que tão em cima, enquanto a maioria não tem nem mesmo os meios
vivem "às margens da existência" - na Ásia, África, Oriente Mé- materiais de vida. 10 Os pobres, assim, são deixados para trás pelo
dio e América Latina - com alimentação inadequada, falta de crescimento econômico em muitos países; suas ligações com a eco-
abrigo, carência de educação e de cuidados de saúde. 6 Nesses luga- nomia organizada de mercado são parcas: quase não têm instru-
res as massas são cada vez mais desprovidas dos bens materiais mentos de produção; são menos educados e a saúde é frágil. A po-
destinados às necessidades básicas da existência humana. Dois ter- breza parece ser, então, a consequência de um processo só existente
ços da pobreza absoluta do mundo concentram-se em quatro gran- dentro de um sistema operacional onde algumas pessoas economi-
des países da Ásia, Bangladesh, índia, lndonésia e Paquistão. En- camente poderosas controlam as instituições para o seu lucro par-
contram-se, aí, famílias que passam dias sem comer ou que 'só ticular. Essa verdade, aplicada à nações separadamente aplica-se
comem uma vez por dia. Vivem em condições habitacionais desu- também em escala global ao sistema comum de exploração. Os re-
manas, nas ruas ou em barracos miseráveis, lutando contra as doen- cursos e o crescimento econômico do mundo parecem ser explo-
ças causadas pela subnutrição e pela falta de higiene. A vida cotí- rados por um sistema global no qual os poucos setores da sociedade
diana transforma-se, dessa maneira, numa luta crítica pela sobre- economicamente poderosos buscam o próprio lucro e causam, nesse
vivência no que se refere à alimentação, higiene, água potável e processo, o empobrecimento de milhões de pessoas que vivem nos
habitação. 7
países pobres. O processo político do colonialismo e do imperia-
Na índia, a porcentagem dos que vivem abaixo do nível da lismo resultou desse amor pelo ganho econômico e pelo lucro,
pobreza já se eleva a 62% numa população de mais de 600 milhões levando nações poderosas a se armar com terríveis arsenais de
de habitantes;' sabe-se que 25 milhões de pessoas ficam cegas guerra e com sofisticada tecnologia para subjugar outras nações
anualmente por causa da subnutrição e da falta de vitamina A. e povos, ricos em outros recursos e cultura. Essa fase da História
Apesar dos esforços para melhorar o nível educacional, 73 % da já passou, mas o mesmo processo continua a operar hoje em dia;
população é de analfabetos. Em certas regiões desse país existe ape- isto é, o amor desenfreado pelo ganho econômico expressa-se por
nas um médico para cada 20.000 pessoas. Dos 7 milhões de habi- meio de certos poderes políticos que oprimem as nações mais fra-
tantes de Bombaim mais de 40% vivem ao ar livre, nas ruas, ou cas e permitem a existência de regimes totalitários em alguns luga-
em barracos miseráveis em favelas. Aí a ironia torna-se muito acen- res com a única intenção de preservar e perpetuar esse sistema que
tuada, pois a Índia produz grande variedade de bens de consumo, funciona para o exclusivo benefício de poucos. 11

46 47
A mesma procura do lucro econômico nos tempos modernos ruam-se no poder. A maioria dos pobres já descobriu que o sistema
estruturou-se, em escala mundial, no capitalismo emergente, na educacional apenas lhes ajuda a cerrar fileiras com os desempre-
forma de neo-colonialismo, e funciona agora por meio de pode- Rados.17
rosas corporações transnacionais. Essas empresas acumulam enorme As estruturas familiares preparam os membros da família a
poder ao redor do planeta; crescem explorando os recursos do levar adiante o processo de dominação. Em muitos países verdadei-
mundo, com o apoio das elites nacionais de todos os países, empre- ros impérios familiares resultaram de feudos onde poucos indiví-
gando mão de obra barata, sem qualquer consideração para com o duos controlam seu destino e exercem enorme poder e riqueza. Os
empobrecimento do meio ambiente natural, nem pela distribuição economicamente ricos controlam o poder político em todos os paí-
equitativa dos benefícios adquiridos entre as nações exploradas. 1.2 scs. 18 As instituições políticas, por sua vez, respondem aos poucos
O relatório das Nações Unidas de 1973 demonstra o aumento sem dominadores com a manutenção da estrutura social em seu favor.
precedentes de sua riqueza econômica. Mostra que 650 dessas em- Os partidos políticos ganham ou perdem dependendo da postura
presas venderam em 1971 o equivalente a um terço da produção que assumem em face desse domínio nacional e internacional dos
mundial. 13 poucos. As instituições políticas legitimam e colocam em movi-
Não são medidos esforços tanto pelas elites nacionais como mento as aspirações econômicas da elite. O processo de empobre-
pelas forças opressoras internacionais para manter o sistema fun- cimento das massas continua; os ricos colhem os frutos.
cionando em seu benefício, e deixar, assim, os pobres onde estão. As formas das estruturas sociais com suas sanções sócio-cultu-
A instalação e a queda de regimes opressores ditatoriais e autori- rais e religiosas contribuem para perpetuar a pobreza. As pessoas
tários na Ásia, América Latina e África tendem a institucionalizar são exploradas na base de status de nascimento, de religião, da côr
a violação dos direitos humanos como medida necessária para a da pele ou do sexo. Os vinte e seis milhões de intocáveis no sis-
manutenção dos modelos prevalescentes de dominação tanto em tema de castas da 1ndia sofrem este empobrecimento em termos
casa como em outros lugares. 14 materiais e na própria auto-imagem coletiva de povo. Apesar da
Os armamentos produzidos pelas nações ricas são vendidos às legislação existente, a maior parte deles continua a levar uma exis-
nações pobres por meio de influência política subordinada a pres- tência desumanizada. Realizam trabalhos secundários segundo o
sões de poder econômico. Assim, as nações pobres sentiram-se enco- status que lhes foi fixado no nascimento (embora essa situação es-
rajadas a lutar entre si, desperdiçando enormes quantidades de vio- teja se transformando rapidamente); mas continuam a ser oprimi-
lência destrutiva. Trata-se de um escândalo contemporâneo esses dos pelas classes mais altas."
gastos das nações pobres, em que grande parte de seus já escassos A dominação econômica expressa em estruturas sociais resultou
orçamentos é destinada à compra de armas, enquanto a maioria de na perpetuação da pobreza baseada na raça." Muitos indígenas e
seus habitantes é forçada a viver sem poder suprir as necessidades negros da América, aborígenes da Austrália, maoris da Nova Ze-
básicas." lândia sabem que os termos "inferior", "discriminação", "desigual-
Trabalhando dentro da estrutura social de exploração, os pou- dade", "segregação", "privação" e "desumanização" não são meras
cos dominadores empregam elementos institucionais - políticos, palavras de dicionário, mas descrevem modos de vida bastante
econômicos, sociais, culturais e religiosos - com a finalidade de reais para eles._A discriminação racial é legitimada por arranjos
manter perpetuamente em suas malhas os pobres. A religião legi- expressos em sistemas educacionais onde se afirma que todos são
tima o domínio dos poucos e salvaguarda a operação do sistema. iguais, muito embora separados, com banheiros separados por ra-
As igrejas têm santificado ou legitimado o domínio das elites com ças, e igrejas para brancos e para negros, também separadas. A
a finalidade de manter as próprias posições. Ficaram do lado dos maioria dessas pessoas não enfrenta apenas a pobreza física, ex-
opressores. Assim, ensinaram os pobres a aceitar a condição em que pressa em casas miseráveis, desemprego, falta de assistência médica,
vivem como dada por Deus, e transferiram a esperança de uma e mortalidade infantil, mas também a pobreza de mente e de es-
vida melhor para o mundo depois da morte. 16 pírito, que é a mais debilitante de todas. Por causa da raça, foram
Os sistemas educacionais, com a tarefa de socializar as pes- criadas estruturas que negam a alguns a oportunidade de levar
soas, perpetuaram os valores que mantêm o sistema em andamento. uma vida decente e igual a qualquer outro.
Ensinam conformismo com o status quo. Por outro lado, somente O racismo aparece em qualquer parte do mundo, mas em
os ricos têm acesso pleno ao processo educacional, e assim perpe- alguns países torna-se mais óbvio por ser legal. O racismo é tam-

48 49
bém fator de inúmeras violações dos direitos humanos e das liber- Jovens de ambos os sexos desses países desenvolvidos viajam para
dades fundamentais nesses países. As igrejas cristãs que se deixam países exóticos em busca de significado espiritual e de propósito
infestar pelo racismo em muitos lugares do mundo deveriam se para suas vidas.
envergonhar. O racismo afeta, direta ou indiretamente, atitudes e A pobreza se consolida na natureza das classes que tomam as
relações no culto, nos encontros, na partilha de recursos e nas prio- nossas estruturas sociais, garantindo a transferência da riqueza
ridades programáticas. criada pelos pobres e pelas massas obreiras para os poucos privi-
A prática do racismo opressor em nossos dias repousa em legiados lá em cima. A mão de obra barata para as plantações,
,~1

estruturas institucionais destinadas a se perpetuar, geralmente para as minas, as fábricas e as manufaturas estão contidas nessa posi-
a grande vantagem de alguns e a enorme desvantagem da maioria. ção pela estrutura social por meio de restrições e legislação espe-
Para perpetuar a discriminação racial criam-se deliberadamente até cial. A repressão política impede que os pobres reclamem seus di-
mesmo padrões e preferências de transações comerciais. reitos, e os obstáculos colocados no caminho da mobilidade social
para cima fazem com que eles permaneçam indefinidamente onde
Os regimes racistas são ajudados por sofisticados armamentos
estão, isto é, na mesma pobreza e desgraça. 22
oriundos de potências militares e de outros países industrializados.
Sem levar em consideração os sistemas sociais, os países mais ricos Os valores da classe dominante expressam-se também na forma
apoiam, muitas vezes, a repressão racial, com o pretexto da de- de sexismo. Numa sociedade dominada exclusivamente pelos ho-
fesa de seus interesses nacionais legalmente justificados. Convém mens; as mulheres são consideradas seres inferiores, impedidas de
observar que as estruturas racistas ao redor da terra apoiam-se entre desenvolver suas potencialidades e de se libertarem da pobreza. Em
si internacionalmente: por meio de empresas transnacionais com muitos países pobres, e também em algumas nações ricas, a tra-
suas políticas de auto-preservação; pelo suprimento de armas ou dição condenou as mulheres à contíição de escravas ou de proprie-
de mercenários a elites locais; e pela manipulação de redes mun- dade do homem, destinadas a serví-lo, a ter seus filhos e a traba-
diais de comunicação com a finalidade de reforçar atitudes e ações lhar para melhorar a renda familiar. Inúmeros obstáculos são cuida-
racistas. dosamente tecidos na estrutura social para frustrar as legítimas
O flagelo do racismo mantém-se vivo hoje em dia por meio de aspirações da mulher a posições de poder, à participação em pro-
sua infiltração institucional, revitalizado pelos fortes poderes eco- cessos decisórios ou na administração daquelas coisas que afetam
nômicos e políticos e por um temor da perda de privilégio, espa- suas vidas e destino. ~3
lhado pelo mundo afluente. A dominação econômica acabou em deterioração cultural e
alienação nos países pobres. Destruiu-se grande parte do que era
Pobreza espiritual peculiar às suas sociedades, à sua maneira de viver e à sua visão de
A conhecida Madre Teresa, falando certa vez a um grupo na mundo. Em lugar disso, vieram inúmeros elementos culturais da na-
Inglaterra, observou: "Existe aqui uma pobreza bem maior do que ção dominante ou das sucessivas nações dominantes, deixando
a pobreza material. Esta pobreza do espírito é mais mortal do esses países pobres numa posição subordinada e subserviente. A
que a pobreza material". Nas sociedades desenvolvidas o progresso perda de valiosos elementos da religião e da cultura popular re-
material tende a anular os valores humanos; observa-se esse empo- sultou em sério«problema de identidade. As nações dominantes ten-
brecimento sistemático a que se referia a Madre Teresa. Nas socie- taram refazer os pobres à sua própria imagem, e instilaram aí a
dades onde se valoriza certo tipo de extremo individualismo egoísta superioridade espúria de sua própria cultura como a legítima aspi-
- onde o dinheiro compra qualquer coisa e tudo se mede em ter- ração dos pobres.?" Juntamente com a afluência econômica, esses
mos monetários, gerando a desenfreada competição - surge novo valores culturais estrangeiros exerceram forte atração entre os jo-
tipo de pobreza, que é a pobreza do espírito, com sua falta de vens e os educados nessas sociedades subjugadas, resultando em
propósito, seu vazio e as conseqüentes formas de destruição irres- empobrecimento de sua própria cultura e desesperança de recons-
ponsável. Aumentam os índices de suicídio e de crime e no meio trução dos valores próprios. Muitos intelectuais migraram para os
da abundância material desaparece o calor humano e minguam as países ricos empobrecendo ainda mais a terra de origem. Médicos,
relações verdadeiramente amorosas. Os hospitais se enchem de cientistas e artistas, que poderiam ter sido de grande valor em sua
doentes mentais e de pessoas que se comportam irracionalmente. própria terra, levam suas especialidades, adquiridas às custas de

50 51
NOTAS
seu próprio povo, e vão viver em países afluentes para servir os
ricos com salários bem mais baixos do que os nacionais. 1. World Development Report, p. 11. Washington, De, World Bank, agosto
de 1978.
Concomitante a esta pobreza espiritual, existe ainda um outro
2. lbid., p. 33 e 34: "Dados os obstáculos enfrentados, a eliminação da
tipo de pobreza produzida pelos valores presentes nos sistemas em pobreza absoluta nos países de baixa renda parece impossível até o
funcionamento nas sociedades desenvolvidas. As famílias nucleares final deste século. Alvo mais realista seria a redução da proporção de
formadas na base de tendências aquisitivas egoístas não têm tempo suas populações pobres a cerca de 15 a 20% por volta do ano 2000,
para cuidar dos velhos e dos doentes. Apesar de provisões institu- deixando ainda perto de 400 milhões em pobreza absoluta. Para se
chegar a esse alvo seriam necessários enormes esforços para a eleva-
cionais de previdência, muitos velhos são abandonados e vivem ção da produtividade e da renda dos pobres ... Na mesma medida em
existências tristes e solitárias. A pobreza de suas vidas, no final que seria possível reduzir os índices de pobreza nos países de renda
da existência, no meio de uma ..sociedade abundante, ameaça tre- média, ao final deste século, ela continuaria como praga nos países de
mendamente a qualidade da vida humana. renda baixa." Cf. também C. T. Kurien: Poverty and Development,
p. 14. Madras, Christian Literature Society, 1974. Outra perspectiva,
Os meios de comunicação de massa, desenvolvidos à perfei- convergente com a do Banco Mundial, acha-se no livro de Charles
ção, facilitam a invasão cultural explorando comercialmente qual- Elliott, e Françoise de Morsier, Patterns of poverty in the Third World.
quer coisa que os países pobres ainda possuem.:" Conta-se que na New York, Washington, London: Praeger Publishers, 1975.
1ndia se pode encontrar Coca-Cola mesmo nas mais remotas aldeias 3. Cf. a declaração do comitê central do Conselho Mundial de Igrejas,
onde nem mesmo se encontra água potável instalada. As modas Threats to survival, Berlim, 1974. Study encounter, vol. X, n. 4, 1974.
Também, Rudolff H. Strahm, Pays industrialisés - pays sous-développés,
espalham-se por meio de propaganda de alta pressão e criam dese- p. 17: "Um terço da população do mundo, vivendo nos países indus-
jos desnecessários de consumo, obscurecendo as prioridades da trializados, controla sete oitavos da renda mundial, enquanto dois ter-
reconstrução nacional nos países pobres, ajudando o mercado po- ços da população do mundo nas países subdesenvolvidos da Ásia,
tencial das corpo rações transnacionais que lhes suga o próprio América Latina e África, precisam se satisfazer com apenas um oitavo
da renda mundial (números de 1968). Essa proporção, naturalmente,
sangue. não indica a distribuição da renda dentro de cada país". Neuchâtel,
Os pobres caem, assim, na armadilha do sistema mundial Suíça, ed. Baconniêre, 1974.
opressor, que opera em todos os níveis, com o auxílio de enorme 4. Cf. Anticipation, n. 19: "Science and technology for human develop-
I" ment: the ambiguous future and the christian hope". Relatório da con-
poder policial e militar sob influência política, desmantelando qual-
ferência de Igreja e Sociedade de 1974, em Bucareste, România. Cf.
quer tentativa de organização e luta contra a injustiça e pela erra- também Richard D. N. Dickinson, To set at liberty the oppressed, p.
dicação da pobreza. O sistema, utilizando livremente os meios de 10-12. Genebra, CMI, 1975.
comunicação de massa e as instituições sociais, frustra os frágeis es- 5. Banco Mundial, op. cit., p. 1.
forços dos pobres em favor de sua libertação. O sistema de valores 6. A situação é pior para as mulheres do que para os homens. Cf. Lisa
funciona como isca. Assimila qualquer coisa que se oponha ao Leghorn e Mary Roodkowsky, Who really starves? Women irt world
seu funcionamento. Divide os pobres a fim de que lutem entre si hunger, p. 21. New York, Friendship Press, 1977.
e, finalmente, faz com que seus esforços pareçam fúteis e sem 7. Sobre a insuficiência das políticas para enfrentar a pobreza na índia,
cf. C. T. Kurien, op. cit., p. 91-102.
esperança.
8. To break tl1f! ehains of oppression, p. 26-35. Genebra, CCPD/WCC,
A situação dos pobres hoje em dia é conseqüência do processo 1975.
contínuo de exploração e opressão. Trata-se de uma estrutura que 9. Charles Elliot, Do lhe poor subsidize lhe rieh? p. 10: "Por meio de im-
opera de. maneira interligada em níveis local, nacional e interna- postos indiretos os pobres contribuem de algum modo para financiar
cional, por meio de mecanismos de dominação baseados em consi- o consumo social. Pela queàa (provável) de ganhos informais e pelo
declínio do comércio rural (talvez), recursos passam dos pobres para
derações econômicas e reforçados pelo poder político. os não-tão-pobres. Não sabemos precisamente quão substancial seria
Qualquer tentativa para enfrentar o problema da pobreza pre- essa transferência: nem conhecemos até que ponto os pobres pagam para
cisa levar a sério essa realidade estrutural. Para se mudar a situa- que os não-tão-pobres gozem de certos serviços. Mas é cada vez mais
ção será preciso levar em conta esses mecanismos de dominação. claro que os pobres não só deixam de se beneficiar de serviços que
seriam supostamente de caráter distributivo, como, por exemplo, os
Sem isso apenas se aumenta o seu poder e não se chega a nada. serviços de saúde e de educação, como também contribuem para custear
benefícios dos quais são excluídos." Study encounter. vol. IX, n. 4.
1973. Genebra, WCC, 1973.

53
52
10. To break the chains 01 oppression, op. cit., p. 13 e 14: "Naturalmente, 19. Heuràn Santa Cruz (narrador especial), Racial discrimination, p. 57.
os benefícios do sistema (seria mais apropriado chamá-Ios de privilégios New York, UN, 1971.
de alguns e exploração de outros) são, sem dúvida alguma, bem maiores 20. Charles Elliott e Françoise de Morsier, op. cit., p. 5-14.
para os que possuem ou administram os sistemas de produção. Em al-
21. A conferência de Igreja e Sociedade sobre "Ciência e Tecnologia para
guns casos são indivíduos, em outros, companhias, e, às vezes, países.
o desenvolvimento humano: futuro ambíguo e esperança cristã", realí-
Embora sejam escassos os recursos naturais próprios, suas antigas em-
zada em Bucareste, em 1974, declarou: "A dependência econômica,
presas coloniais permitiram-Ihes o acúmulo de enormes riquezas, conhe-
tecnológica e social envolve também dependência política e militar. Os
cimento e poder, de tal modo que hoje se encontram em melhor situa-
países da América Latina que na última década estavam prontos para
ção financeira do que outros que, não obstante a riqueza potencial,
mudanças sociais nada puderam fazer em face de intervenções mili-
vastos territórios e recursos humanos, foram sujeitos à dominação."
tares. A assistência militar estrangeira facilitou o desencadeamento de
11. F. Frõbel, J. Heinricks, O. Krege e O. Sunkel, The internationalization inúmeros golpes militares na região e consolidou a dependência polí-
oi capital and labor, p. 14-55. Publicação do grupo de pesquisa "Deve tica. Esses grupos militares tudo fazem para tornar viáveis os investimen-
lopment and underdevelopment", do Max Planck Institut zur Erfor- tos estrangeiros na América Latina. Se o povo pudesse se expressar con-
schung der Lebensbediungungen der wissenschaftlich-technischen Welt, tra esse tipo de negociata esses grupos estrangeiros não teriam vindo.
Sternberg, República Federal da Alemanha, 1973. Portanto, esses regimes autoritários aumentaram nos últimos dez anos
12. Nações Unidas, Multinational corporations in world development. De- com a conseqüente injustiça. O desemprego aumenta tanto nas zonas
clara-se, também, na página 13 que "o enorme tamanho e a importância rurais como urbanas; a distribuição do produto nacional bruto, favorece
do constante crescimento das corpo rações multinacionais revelam-se apenas os grupos privilegiados. .. Os que se envolvem com a luta pela
com mais clareza quando vistos no contexto das atividades econômicas mudança sofrem, em geral, perseguição, prisão, tortura, exílio e até
mundiais. Embora a comparação comum das vendas anuais brutas des- mesmo morte. Os direitos humanos são violados em todos os níveis."
sas empresas com o produto nacional bruto dos países exagere a im- Cf. Anticipation, n. 19, p. 27, Genebra, WCC, novembro de 1974.
portância relativa das atividades das multinacionais, permanece ainda 22. Cf. Lisa Leghorn e Mary Roodkowsky, op. cito Também, Sexism in the
válida a conclusão geral de que muitas dessas empresas são maiores 1970s: discrimination against women, relatório de uma consulta do
do que a economia de grande número de países. Assim, o valor ganho Conselho Mundial de Igrejas, em Berlim Ocidental, em 1974, p. 45-55
por cada uma das dez maiores multinacionais em 1971 excedia em 3 e 113-115. Genebra, WCC, 1975.
bilhões de dólares, ou mais, o produto nacional de mais de 80 países.
Somando-se o ganho de todas as multinacionais em 1971, num total de 23. Cf. Andrew Gunder Frank, Capitalisme et sous-développement en Amé-
aproximadamente 500 bilhões de dólares, concluiu-se que representava rique Latine, p. )20-139. Paris, Maspero, 1968.
um quinto do produto nacional bruto de todo o mundo, não incluindo 24. Tissa Balasuriya, The development of the poor through the civilizing of
as economias com planificação centralizada ''. New York, UN, 1973. lhe rich, p. 13. Colombo, Centre for Society and Religion, 1973.
13. Lê-se no relatório da quinta sessão da quinta assembléia geral do Con- 25. Cf. Cees Hamelink, The corporate vil/age, p. 134. Roma, IDOC, 1977.
selho Mundial de Igrejas sobre "Structures of Injustice and Struggles
for Liberation": "As causas básicas dessas violações estão na ordem
social injusta, no abuso do poder, na falta de desenvolvimento econô-
mico e no desenvolvimento desigual. Violam-se, assim, as leis injustas
e os pobres se rebelam, provocando a reação das forças militares e
políticas da "lei e da ordem" com seus métodos de repressão cruel".
David M. Paton (ed.), Breaking barriers, Nairobi 1975, p. 106. Grand
Rapids, Mich., Wm. B. Eerdmans, and London, SPCK, 1976.
14. Cf. Ruth Leger .. Livard, World military and social expenditures 1976.
Leesburg, Virginia, WMSE Publications, 1976. Também os relatórios de -e
consultas do Conselho Mundial de; Igrejas sobre militarismo (1977) e
.desarmamento (1976). Genebra, CCIA/WCC, 1978.
15. Relatório da quinta sessão da quinta assembléia geral do Conselho
Mundial de Igrejas. David Paton (ed.), op. cit., p. 106: "Em alguns
casos, as próprias igrejas apoiaram os opressores ou até mesmo se en- 1960 1965
volveram em atos de opressão, por causa de convicções mal orientadas
ou apenas para salvaguardar os próprios privilégios"'.
16. Charles Elliott e Françoise de Morsier, op. cit., p. 228-262.
17. Cf. comentários de Samuel L. Parmar, em "Jesus in the development
debate", in Richard N. Dickinson, op. cit., p. 182.
18. Max Weber, W irtschaft und Gesellschait, grundriss der verstehenden AJUDA ECOHOMlcA
Soziologie. Tübingen, Verlag J. C. B. Mohr, 1922. MUNDIAl,

54 55
IH. Acúmulo de riqueza - aumentou; que num mundo dotado de tão tremendas possibilida-
des tecnológicas, ainda persiste a ameaça da fome ... " 1
crescimento da pobreza
Se realmente desejamos erradicar a pobreza, precisamos atacá-
(Mecanismos de injustiça) Ia nas raízes. Necessitamos saber os fatores que a causam,bem como
sua dimensão estrutural em nosso mundo. O caráter estrutural da
pobreza relaciona-se com o funcionamento de mecanismos preva-
lescentes na aplicação do poder em nossas sociedades, produtores
i2

de dominação e/ou opressão. Precisamos deixar claro de que tipo


de dominação e opressão estamos falando.
A presente situação dos pobres no mundo relaciona-se com o
processo da modernização do mundo desde o século dezoito."
Nos capítulos anteriores apresentamos um quadro bastante Nessa evolução, certas estruturas foram impostas pelos poderes
desolador da situação dos pobres no mundo contemporâneo. A po- dominantes sobre sociedades inteiras. No âmbito dessas estruturas
breza é sentida pelos pobres como privação de vida, e não satis- sócio-econômicas surgiram novos relacionamentos entre as pessoas,
fação das necessidades humanas básicas. São-lhes negados, de certa bem como entre a humanidade e a natureza, buscando a apropria-
forma, o direito a uma vida melhor, ao trabalho, à proteção, à edu- ção do excedente econômico e a acumulação de riquezas pelos que
cação, à habitação decente, e à participação nas decisões que afe- mantinham e controlavam os mecanismos de poder, em detrimento
tam seu destino. Urge, pois, examinarmos o problema da crescente dos outros. É o que tem sido chamado de "capitalismo". 4

pobreza mundial com mais profundidade para entendermos as cau- Essa estrutura surgiu em nome da liberdade; entretanto, não
sas do fenômeno, não obstante o crescimento da riqueza. se tratava da liberdade humana, mas da liberdade de comércio.
Sempre tivemos os pobres conosco. Sabe-se deles em todos os Essa forma de liberdade, talvez mais do que nunca, continua hoje
períodos da História. Trata-se de um problema basicamente sistê- a determinar a ideologia da dominação. Liberdade de preços, liber-
1,,1
mico. Apesar dos esforços em prol do desenvolvimento através dos dade do dólar, liberdade de comércio, liberdade de empresa: preços
séculos, a pobreza sempre cresceu. Cabe a nós, pois, examinar o livres, dólares livres, comércio livre, empresa livre. A liberdade
processo ou mecanismo que fez com que as coisas acontecessem humana passou a ser considerada sob a ótica desta liberdade do
mercado. 5
dessa maneira.
Além disso, a pobreza é gerada pela apropriação dos frutos Quanto mais progredia o mercado, tanto mais as leis do mer-
cado vieram a ser consideradas as verdadeiras leis da liberdade.
do trabalho dos pobres pelos poucos donos do capital. Preocupa-
O reino da liberdade torna-se o reino do mercado livre e as leis
mo-nos, pois, com os que trabalham e cada vez ficam mais pobres.
desse mercado são quase divinizadas. Com o desenvolvimento do
Precisamos, então, examinar esse sistema em que o trabalho da mercado livre, o conceito da lei natural da propriedade privada,
maioria é explorado para que poucos privilegiados se tornem cada considerada lei divina dada pelo próprio Criador, apareceu pela
vez mais ricos. primeira vez nâ história do cristianismo. 6
Ao final da Segunda Década de Desenvolvimento deve-se con- Vem: também a metafísica das leis do mercado: as virtudes
fessar que muito pouco se alcançou na luta contra a pobreza: "Nos do mercado e os pecados contra o mercado, correções de compor-
últimos anos houve muitos esforços conscientes para se chegar a tamento por referência às leis do mercado e milagres econômicos
certa clareza conceitual até então 'inexistente, mas as relações entre como recompensas dadas pela própria natureza. As leis do mer-
os conceitos e a realidade acabaram mais difusas e evasivas do que cado, juntamente com as relações comerciais, tornaram-se o fun-
antes. As incertezas e ambigüidades resultantes dessa situação tor- damento da burguesia cristã imposta progressivamente como a
nam-se mais evidentes por causa das poucas certezas que não verdadeira interpretação da vida da fé. 7 Assim, o amor de Deus
podem ser ignoradas: que depois de duas décadas de esforços para e o respeito pelas leis do mercado livre identificaram-se - os
acabar com a pobreza e reduzir a desigualdade há hoje em dia edifícios das bolsas de valores foram construídos na forma de
muito mais gente pobre e a distância entre os ricos e os pobres igrejas, e os bancos como templos gregos. O amor pelo dinheiro

56 57
expressou-se concretamente no amor por Mamom, capaz de ditar deve esquecer que foi este "liberalismo" o responsável pela cons-
as leis do mercado livre e de gravá-Ias na própria natureza. O trução do maior império de escravos da história humana. 15
comportamento humano passou a ser guiado pela busca do lucro As diferentes etapas percorridas para a criação deste sistema
máximo. As estruturas resultantes cobriram toda a humanidade de dominação foram momentos na evolução de um sistema real-
e, em seguida, o mundo inteiro. A submissão às estruturas do mente internacional. Há dois momentos principais: da revolução
mercado foi pregada em nome da virtude cristã básica da humil- industrial à guerra de 1914-1918; e do término dessa guerra até
dade. 8 Entretanto, na medida em que o mercado livre abrangia os dias atuais.
o mundo inteiro, não afetava a todos da mesma maneira. Quando
todos se submetem a essas estruturas, alguns acabam vencendo e
Da revolução industrial à guerra de 1914-1918
outros perdendo: desaparece a igualdade." Mas mesmo os vence-
dores tinham que se submeter a essas estruturas. Os diretores de Enquanto se desenvolviam rapidamente as forças de produ-
empresas julgaram-se servos humildes da livre empresa. Promo- ção na Inglaterra, primeiramente, e, depois, na Europa ocidental,
viam e defendiam sua estrutura, embora outros sofressem em con- nos Estados Unidos e no Japão, essas mesmas forças eram destruí-
seqüência, e aí se originassem a opressão e o condicionamento das no resto do mundo. A India é o caso mais gritante. No início
estrutural da pobreza. A opressão se tornou anônima e· impessoal: da revolução industrial, a Indía era o maior produtor e exportador
não havia relações pessoais entre opressores e oprimidos.10 A de tecidos do mundo. A colonização e a liberação dos preços do
estrutura do mercado livre parecia ser, portanto, a regra da lei mercado reduziram-na, em pouco tempo, a mero produtor de ma-
natural que ditava os próprios preceitos. Alguns se justificavam, téria-prima destinada a alimentar a indústria têxtil britânica. 16 A
outros, não. A realidade seria o verdadeiro juiz: a história mun- destruição das forças tradicionais de produção pelo mundo a fora
dial, o juízo final. Thomas Hobbes foi um dos primeiros a enten- nada mais foi do que corolário do -desenvolvimento das forças de
der o surgimento desta nova estrutura de dominação. Chamou-a produção dos países dominadores. Estava de acordo com a política
de Leviathan - a Besta. 11 sistemática de impedir a industrialização de certos países.
A lei do mercado era promovida pelos que auferiam os maio- A rápida expansão de intercâmbio resultou do aumento da
res benefícios da operação livre das relações mercantis. Tinham as produtividade física de lugares onde o modo capitalista de produção
condições econômicas necessárias para saírem vitoriosos das lutas havia penetrado. Os novos produtos, oriundos de mudanças na for-
do mercado livre. As leis do mercado, portanto, capacitavam-nos ma de produção, eram usados como instrumentos para abrir novas
1,
a manter o domínio. "2 Politicamente, pretendiam utilizar-se do linhas de comércio. Do contato entre culturas orientadas para a
poder para aumentar ao máximo possível a liberdade do mercado. inovação e a expansão, e outras orientadas para o respeito pela
Quanto mais êxito alcançassem, com mais firmeza se estabelecia tradição, surgiu a poderosa relação de dominação de uns sobre os
a dependência de outros nesse seu poder hegemônico. Essa depen- outros, procurando os dominadores impor seus modos de consumo
dência tem sido desde então um fenômeno estrutural. 13 Desen- sobre os dominados. Pode-se explicar este processo de diversas
volveu-se dentro de uma estrutura internacional governada por maneiras, mas, não importando a adotada, não se deve esquecer
leis de mercado que permitiam o surgimento de classes sociais e que as culturas baseadas primeiramente no modo capitalista de
regiões do mundo acima de outras, umas dominando as outras. 14 produção dependiam de um processo de acúmulo, que significava
Em seu .aspecto regional, a dependência não deve ser confun- inter alia que poderiam impor-se pela força ou pela troca de pro-
dida com o colonialismo, O colonialismo foi apenas um dos meios dutos. Em outras palavras: a formação de um sistema de divisão
pelos quais a lei do mercado se impôs e certas regiões se tornaram internacional do trabalho não dependeu apenas do surgimento de
dependentes. A dependência de classe não deve ser confundida novas linhas de comércio, mas principalmente, da imposição de pa-
com a relação de dependência existente entre o trabalho assala- drões culturais, que conseqüentemente condicionaria, em primeiro
riado e o capital. O pior tipo de dependência de classe resultante lugar, o processo de acumulação e, depois, de industrialização nes-
0- 17
do mercado livre é a escravidão. É certo que a escravidão já exis- sas regloes. . .
tia nos tempos antigos, mas o comércio de escravos só alcançou Como se vê nessa citação de Celso Furtado, dois métodos
o máximo desenvolvimento com a evolução do mercado livre, foram empregados: de um lado, destruição direta das forças nativas
pelo menos nos séculos dezessete, dezoito e dezenove. Não se de produção por meio da colonização; de outro lado, o estabeleci-

58 59
18
mento do mercado livre nos países politicamente soberanos. Foi pela metade do século dezoito. ~12 Somente no fim do século deze-
o que aconteceu principalmente na China e na América Latina: nove começou a melhorar a situação dos trabalhadores nos centros
qualquer recusa desse mercado livre nessa época era razão sufi- hegemônicos, resultando em maior consumo com a conseqüente
ciente para que os países hegemônicos declarassem guerra. Nem melhoria do crescimento econômico nos países industrializados.
mesmo a diplomacia conseguiu os resultados desejados: veio a Mas os países dependentes continuaram na pobreza. Não há dúvida
guerra. Basta recordarmos as Guerras do Ópio na China (1839- de que a pobreza absoluta continua a existir no mundo inteiro.
1842), e da "Tríplice Aliança" (Brasil, Argentina e Uruguai, apoia- Trata-se de fenômeno que apenas afeta a minoria nos centros eco-
dos por potências européias, principalmente a Inglaterra) contra o nômicos, enquanto que na África, Ásia e América Latina continua
Paraguai (1865-1870). Nas relações coloniais ou de submissão aos a ser a condição de vida da maioria das populações. Apenas as
centros hegemônicos, assegurava-se a liberdade de comércio entre minorias governamentais e os grupos a elas relacionados nos países
os poderosos e os fracos, ou os menos poderosos. Se, não obstante dependentes beneficiam-se com as mudanças econômicas em que
essa liberdade de comércio, certas indústrias competitivas viessem participam.
19
a surgir nas colônias, eram imediatamente destruídas.
A destruição da indústria tradicional pelo mundo a fora e o Da guerra de 1914-1918 ao presente
impedimento direto ou indireto do desenvolvimento de indústrias
modernas nos países dependentes transformou-os em apenas supri- Nessa época ocorreu importante mudança no sistema de domi-
dores de matérias-primas para as indústrias dos países ricos. Esse nação. Por meio da assim chamada revolução industrial, o mono-
procedimento trouxe enorme empobrecimento nesses países e a pólio dos países industrializados, onde se concentrava o poder,
correspondente disposição de aceitar qualquer tipo de atividade desenvolveu-se visivelmente. Elementos do progresso alcançado de-
determinada pelo sistema de mercado livre. 20 pois de quase dois séculos acumularam-se em suas indústrias. As-
Com a conversão do mundo dependente em produtor de ma- sim, os que não passaram pelo mesmo processo não conseguiam
utilizar tais tecnologias independentemente, talo grau de perfeição
téria-prima, amplos setores da população, em lugares densamente
atingido. 125 Os países dependentes não podem se industrializar sem
habitados, tornaram-se supérfluos. Essa gente trabalhava anterior-
mente em indústrias tradicionais, agora destruídas. Pequena pro- o conhecimento técnico dos países industrializados nem sem sua
porção desses antigos trabalhadores veio a ser aproveitada na maquinária, tecnologia, e assistência de seus técnicos, uma vez que
produção da matéria-prima que substituía a atividade industrial. suas indústrias tradicionais foram destruídas e seu desenvolvimento
industrial obstruído e atrasado. 26 Além disso, não há mercado onde
São os novos pobres das sociedades dependentes.
tais tecnologias possam ser compradas. Trata-se de situação dife-
Ao mesmo tempo, nos países dependentes com baixa densi-
rente em relação à venda de mercadorias no estágio anterior. Uma
dade populacional, as oportunidades surgidas para o desenvolvi-
vez que os países industrializados possuem o monopólio da tecno-
mento de matérias-primas, não puderam ser exploradas convenien-
logia, só se pode chegar a ela mediante uma única condição: que
temente com força de trabalho tão baixa. Foi por causa disso que
o seu próprio capital seja o agente da transferência dessa tecno-
a escravidão desenvolveu-se enormemente nas Américas e no Cari-
logia. Temos, como resultado, a crescente integração das economias
be. Muito embora os impérios baseados na escravidão já existissem
nacionais num" único espaço econômico unificado, significando a
nas Américas logo depois da conquista, a escravidão atingiu o ponto
máximo entre o fim da revolução industrial e meados do século existência de "um processo de crescente integração dos sistemas
econômicos nacionais". 127
XIX.21 Os atuais modelos de pobreza nas Américas e no Caribe
foram fortemente determinados pela escravidão. Importante mudança também ocorreu nas relações internacio-
Ao mesmo tempo em que se empobreciam os povos dos países nais. A "diplomacia do mercado livre" do século dezenove, con-
dependentes e das regiões colonizadas do mundo, importantes seto- centrou-se na política do livre comércio, entrando mesmo em guer-
res da população dos países hegemônicos também começavam a ra contra os países que não a aceitavam. A diplomacia do "mercado
ficar pobres. Embora os padrões de produção nesses países tives- livre" em nosso século centraliza-se no movimento livre de capital
sem subido rapidamente logo após a revolução industrial, os pa- e também ameaça os países que não a aceitam.
drões de vida dos pobres caíam consideravelmente em relação ao O capital transnacional moderno tornou-se possível graças à
que haviam sido antes do começo do processo de industrialização ligação da venda de tecnologia com a liberdade de capital, impos-

60 61
sível sem o monopólio tecnológico dos países industrializados. :28
Assim, o crescimento econômico dos povos dependentes pode ser, PNB PER
agora, controlado ao se tornar obrigatória a aceitação do agencia- CAPITA
mento do capital trasnacional como condição dessa transferência.:"
O capital estrangeiro opera segundo leis relacionadas com a "lei
do mercado", que se resumem na obtenção do máximo lucro pos-
sível.
As empresas multinacionais procuram hoje em dia seus lucros
em escala internacional. Os países dependentes, por sua vez, com-
petem entre si para atrair capitais estrangeiros. Para isso, precisam
criar condições adequadas: baixos salários, desempregos e governos
fortes (em geral, militares) capazes de suprimir quaisquer tentati-
vas dos povos dominados de fazer valer suas reivindicações econô-
micas e sociais. 30
No momento, o capital transnacional não transfere, em geral,
capital ou excedentes de maneira contínua dos países industriali-
zados aos dependentes. O capital transnacional nos países depen-
dentes resulta dos próprios recursos locais apropriados mediante
empréstimos ou reinvestimento de lucros. Uma vez que o capital
transnacional possui o monopólio da tecnologia, também tem acesso
aos canais financeiros dos países dependentes, e assim constróem
seus impérios através do mundo dependente. 3:1
1:1 A industrialização dos países dependentes, confiada ao capital
transnacional, exige que a transferência da tecnologia seja deter- ACÓMuLO DE-RlQUf,ZA ~ CRf;SCffVIB/JTO 1)\ toBRé.2A
minada pelo máximo lucro. Temos, como resultado desta política,
uma industrialização orientada para as exigências dos economica- 617
mente mais poderosos, que marginaliza a produção de bens neces- PREÇOS PARA
sários às necessidades básicas da população. Na medida em que O CONSUMIDOR
avança a industrialização, aumenta a distância entre os grupos de
baixa e alta renda. Para sanar o problema seria preciso reformu-
lação da distribuição da renda em benefício dos pobres. o'lI2 Ao lado
do rápido aumento da disparidade da renda, aparece um fenômeno
ainda mais destrutivo. Dado o monopólio tecnológico dos países ~Ar,ões
-e EM Of.5EN'Io\..Vn.~Et.I TO
já industrializados, limita-se bastante o aparecimento de novas in- '6

dústrias, e sua administração passa a ser progressivamente trans-


nacionalizada também. 33 Por fim, a capacidade de importação dos
países dependentes determina sua capacidade para se industriali-
zar. E, quanto mais dependente do capital se torna a moderna
tecnologia, menor será o número de empregos. M

Mesmo nos países desenvolvidos onde o processo de industria-


lização é mais dinâmico, o desenvolvimento industrial começa a
estagnar nas últimas décadas. Em muitos países diminui conside- 1970
ravelmente a mão-de-obra empregada na indústria. É o caso do
Brasil:" e do México . se E não se criaram trabalhos não-industriais

62
63
para compensar a perda. Enquanto isso, as pequenas indústrias, significou qualquer vaga recomendação de não-interferência: foi, isso
com seus métodos tradicionais de produção, encontram enormes sim, a urgente exigência de se remover qualquer impedimento conside-
rado anti-social, e a liberação do imenso potencial da livre iniciativa
dificuldades de sobrevivência. A eficiência da indústria moderna individual e pioneira. E, naturalmente, foi nesse espírito que, na prática,
vai aniquilando-as aos poucos, sem, no entanto, absorver a mão-de- os seus proponentes lutaram decididamente contra as principais formas
obra não mais aproveitada. E assim, temos como resultado, o de- desses impedimentos: contra os privilégios das .cornpanhias e corpora-
semprego galopante, como já observamos. 37 ções regulamentadas, contra a lei do aprendizado, contra as restrições
em andamento, e contra as restrições sobre importações. O sentimento
Para concluir, os atuais modelos de industrialização nos países de cruzada que apareceu' no movimento do livre mercado, deve muito
dependentes, onde as economias funcionam segundo as "leis do de sua força e outras influências externas. Mas, até certo ponto, tudo
mercado", em nada ajudam para mudar a situação de empobreci- isso é típico da atmosfera do movimento geral em favor da liberação
de empresas e energias espontâneas das quais, sem dúvida, os econo-
mento herdada do século dezenove. Em muitos casos, a agravam. mistas clássicos foram a vanguarda intelectual." Londres, Macmillan,
Enquanto perdurar a situação, não se pode ter grandes esperanças segunda edição, 1978.
para o futuro; esse processo ignora simplesmente a existência das 6. Cf. Thomas Hobbes, Leviathan, p. 151 e seguintes, Londres, Everyman's
massas carentes do mundo dependente. Dentro dessas estruturas, Library, 1924. Adam Smith, baseado nas idéias de Hobbes, levou este
como as conhecemos, não há lugar para qualquer ação. Para fun- conceito adiante.
7. CL in Julio de Santa Ana (ed.), Separation without hope, o capítulo
cionar, elas precisam dos pobres, mantendo-os em sua desesperada de Mario Miegge. Genebra, WCC, 1978. Celso Furtado, na op. cit., p.
situação. Os pobres estão, pois, condenados a perecer na pobreza, 39, diz: "Os economistas contentaram-se em examinar apenas o lado
ou a se levantar, aceitando o desafio da situação, e lutar por uma exterior desse processo, como se fora apenas a multiplicação da econo-
vida melhor. mia de mercado, quando na verdade o importante era a evolução ao
nível das estruturas de poder que controlam a apropriação do exce-
dente". -
8. Franz Hinkelammert, Las armas ideolgicas de Ia muerte, p. 33: "Deriva-
NOTAS se daí não só uma teoria de valores, mas também da interiorização dos
1. David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 122. Grand valores. Além do dinheiro coloca-se a infinidade que ele promete alcan-
Rapids, Mich., Wm. B. Eerdmans, & London, SPCK, 1976. çar. Daí se podem derivar os valores que devem ser alcançados para
2. Como se lê em Prefácio à nova economia política, do conhecido eco- se chegar ao alvo. Mas, sendo o alvo de valor infinito, a ilusão religiosa
nomista brasileiro, Celso Furtado: "Conseqüentemente ª composição do
permite sacralizá-lo convertendo-o em objeto de piedade. A busca do
dinheiro transforma-se num objeto de piedade, ad maiorem Dei glo-
excedente (econômico) é em grande parte reflexo do sistema da domi-
nação social, significando que a não ser que conheçamos a estrutura riam". S. José, Educa, 1977 e Salamanca, Sígueme, 1978.
de poder não poderemos progredir no estudo do desenvolvimento das 9. J. J. Rousseau, Discours sur les sciences et les arts, 1750: "Qual é a
forças produtivas"'. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1976. fonte desses abusos se não a desigualdade fatal entre os homens esta-
3. Sismonde de Sismondi, observando a maneira como este processo co- belecida pela honra prestada aos talentos e a depreciação das virtu-
meçou a ser consolidado no começo do século dezenove, escreveu em des. .. Temos médicos, geômetras, químicos, astrônomos, poetas, músi-
seu livro, Nouveaux principes d'économie politique, p. 188: " ... um cos. pintores; só não temos mais cidadãos".
abismo separa o trabalhador diário de qualquer empreendimento de 10. Os economistas representam importante papel nesse processo. Como
manufatura, comercial ou de arrendamento de fazendas, e a classe mais diz Celso Furtado na op. cit., p. 30: "A grande conquista ideológica
baixa perdeu a esperança que a sustentava no período precedente ... da ciência econômica, ao ter facilitado o desenvolvimento de forças
quase não consegue preservar o sentimento da dignidade humana, ou produtivas no:' interior do capitalismo, vem do fato de que a ciência
o amor pela liberdade". econômica muito contribuiu para ocultar o elemento de poder sempre
4. Celso Furtado, seguindo a análise de Fernand Brandel, Werner Sombart presente nas decisões econômicas, considerando-o 'autornatísmo' ou 'me-
e Max Weber, diz na op. cit., p. 36 e 37: " ... se observarmos mais canismo' cujas leis deveriam ser descobertas e cuidadosamente respei-
atentamente qualquer forma de organização social, podemos provar sem tadas. .. A evolução das empresas anônimas, principais instituições da
dificuldades que no capitalismo há forças ocultas cooperantes destina- economia capitalista, nos deixaram ver com clareza o mascaramento
das a cumprir papel fundamental, porque o uso do excedente para a desse elemento de poder".
produção de novos excedentes ou para a sua transformação em capital, 11. S. Radakrishnan, grande pensador indiano de nosso século, descreveu
pressupõe a imposição de dadas relações sociais. Assim, o capitalismo essa situação muito bem, mas de um outro lado, em Religion and
deve ser entendido como uma organização sócio-política, isto é, como society, p. 16: "Com a maquinária centralizada do estado, com os
uma estrutura de poder que impõe certo tipo de relacionamento social modernos instrumentos do progresso técnico e da propaganda de mas-
em que o excedente mais facilmente se transforma em capital." sa, veio a mobilização total das pessoas, afetando seus corpos; mentes
5. Cf. Lionel Robbins, The theory of economic policy in English classical e almas. O estado absoluto e a comunidade totalitária tornaram-se
political economy, p. 19: "O sistema da liberdade econômica nunca idênticas. " Parece que estam os sob o poder de forças demoníacas que

64 65
quer coisa que seja ... " Citado por H. Ramírez Necochea, Historia dei
degradam a humanidade à semelhança dos animais inferiores. O deus- imperialismo en Chile, p. 254. Santiago de Chile, Ed. Austral, 1960.
homem transforma-se no animal da manada. O credo do grande Levia- 21. CL Eric Williams, op. cit., p. 255-25~. Cf. também pelo mesmo autor,
than compele-nos a levar vida de produção, porém vazias, sem coração, Capitalism and slavery. Londres, Putnam, 1966.
vulgares, triviais e grosseiras no espírito. Nossa humanidade é destruída 22. Celso Furtado, na op. cit., p. 48, diz algo que explica a situação: "Uma
pela arregimentação". Londres, George & Unwin Ltd., 1947. inovação técnica pode colocar um produtor em posição privilegiada, da
12. Cf. Celso Furtado, op. cit., p. 43: "Não foi a evolução das forças pro- mesma forma que a construção de uma estrada pode favorecer certa
dutivas que expulsou as populações dos campos e desmontou as corpo- região. Contudo, o sistema de preços reduz progressivamente as discre-
rações de ofício, e sim a ascensão da burguesia na estrutura de poder ... pâncias que vão surgindo, pois a acumulação tende a reduzir-se nas
O controle do sistema de produção passava das mãos da classe dos atividades que se tornam ocasionalmente menos rentáveis."
proprietários, que se instalavam na posição de simples rentistas, para 23. lbid., p. 60: "Nas economias em que _o modo capitalista de produção
as mãos da burguesia mercantil. As garantias que a tradição e os cos- penetrou no quadro da dependência externa, o fenômeno da insegu-
tumes asseguravam à massa trabalhadora desapreceram em face do novo rança social apresenta-se sobremaneira agravado. Este problema tem
sistema de poder que pretendia derivar das "leis do mercado" sua legi- sido amplamente estudado sob os títulos de sub-emprego, desemprego
timidade:" disfarçado e margina/idade social, e é geral o consenso de que se trata
13. Cf. Richard D. N. Dickinson, To set at liberty the oppressed, p. 64 e de uma característica estrutural das chamadas economias subdesen-
seguintes. Também, To break the chains of oppression, p. 16-18. Gene- volvidas. Se a essa insegurança se adicionam crescentes desigualdades
bra, WCC, 1975. sociais, compreende-se a necessidade de sistemas de repressão cada vez
14. Cf. Celso Furtado, op. cit., p. 43: "Em síntese: o modo capitalista de mais custosos e os riscos de eclosão revolucionária.'
produção - ou seja, a forma mercantil de apropriação do excedente 24. lbid., p. 135: "Quanto mais desenvolvida uma economia, mais impor-
aplicada ao controle direto das atividades produtivas - resultou ser tante faz-se para ela ter acesso à inovação técnica. Se o país não pro-
um sistema de poder muito mais eficaz do que as formas autoritárias duz essa inovação (e nenhum país produz atualmente mais do que uma
de apropriação do excedente que até então haviam prevalecido em parcela do fluxo de inovação técnica que domina a economia mundial)
todas as formações sociais." terá necessariamente que importá-Ia. Essa a razão pela qual a aceleração
15. Cf. Eric Williams, From Columbus to Castro: 1492-1969, p. 136-155. do desenvolvimento ocorrido no último quarto de século nos países
Londres, André Deutsch, 1970. mais industrializados assumiu a forma de intensificação na interdepen-
16. Cf. Vera Anstey, The economic development oi lndia, p. 5: "Até o dência entre eles. Também não é outra a explicação do fato de que as
século dezoito as condições econômicas da índia eram relativamente economias socialistas busquem crescente cooperação internacional, quan-
boas; seus métodos de produção, as ..organizações industriais e de co- do alcançam níveis mais altos de desenvolvimento. O problema funda-
mércio, podiam muito bem resistir qualquer comparação com as que mental que se coloca é saber quem controla essa técnica, quem exerce
existiam em outras partes do mundo na mesma época... Esse país, o poder que em nosso sistema de civilização ela gera, e quem paga
que tanto manufaturou e exportou artigos de luxo e ricos tecidos de para ter acesso a essa técnica com recursos que geram menos poder,
seda numa época em que os ingleses ainda viviam de modo bastante particularmente com essa moeda depreciada que constitui a mão-de-obra
primitivo, não conseguiu participar na revolução econômica, começa da barata dos povos do Terceiro Mundo."
precisamente pelos descendentes dos mesmos antigos bárbaros". Lon- 25. lbid., p. 92 e 93: "Como a industrialização de um país, qualquer que
dres, Longmans Green, quarta edição, 1952. Paul Baran assinala que seja a época em que se realize, molda-se pelo grau de acumulação al-
nada disso foi acidental: resultou da terrível exploração exercida pelos cançado nos países que lideram o progresso técnico, o esforço requerido
empresários britânicos desde o princípio da dominação da 1ndia pelos para dar os primeiros passos tende a crescer com o tempo. Compreen-
ingleses. Cf. Economie po/itique de Ia croissance, p. 188. Paris, Maspe- de-se, portanto, que, a partir de certo ponto, a possibilidade de optar
ro, 1967. CL também Romesh Dutt, The economic history of lndia, por um projeto de sistema" econômico nacional se haja tornado pratica-
p. vii e seguintes. Londres, Kegan Paul, 1950, sétima edição. mente nula. É a partir desse momento que cabe falar de uma diferença
qualitativa enjre capitalismo central e capitalismo periférico... Trata-
17. Celso Furtado, op. cit., p. 54 e 55.
se, portanto, menos de um problema de nível de desenvolvimento do
18. CL Cesar Espiritu, "Economic dependence and independence: as seen que de diferença qualitativa no processo de desenvolvimento."
from Southeast Asia", in Denis Munby (ed.), Economic growth in world 26. Em Scanning our [uture, relatório do Forum sobre a ordem econômica
perspective, p. 196 e 197. New York e Londres, WCC, Association mundial (NGO) organizado em apoio da sétima sessão especial da as-
Press e SCM Press, 1966. sembléia geral das Nações Unidas sobre desenvolvimento e cooperação
19. O caso da índia, já mencionado na nota 16, exemplifica novamente econômica "internacional, Marcelo Alonso declarou: "Os planos de de-
esta afirmação: até mesmo na última década do século dezenove, a senvolvimento dos países em vias de desenvolvimento dependem do
emergente indústria têxtil desse país foi arrazada com o apoio dos mi- fluxo de tecnologia dos países desenvolvidos. Não é menos importante
litares. a capacidade dos países importadores para-corretamente identificar as
20. No Chile, tomando consciência da influência e da ameaça dos interes- suas necessidades tecnológicas. Os países importadores que não tiverem
ses externos, o Ministro Luis Aldunate escreveu em 1894 que o capital essa capacidade vão apenas multiplicar seus problemas desenvolvimen-
estrangeiro "longe de nos ser útil e rentável, nos esgota, nos enfra- tistas". New York, Carnegíe Endowment for International Peace,
quece, nos leva à ruína sem nos trazer nem nos fazer aprender qual- 1976.

66 67
27. Celso Furtado, op. cit., p. 77.
28. Ibid., p. 58: "Tudo indica que a transnacionalização da produção tende proporciona maiores vantagens. Instaladas em posições estratégicas, elas
a transformar-se em fator decisivo na luta pela preservação dos sistemas tendem a apropriar-se de parcela crescente do excedente em expansão a
de dominação social fundados no modo capitalista de produção, parti- que fizemos referência. Explica-se, assim, que a mutação no processo de
cularmente nos países que mais avançaram no processo de acumu- industrialização tenha em geral sido acompanhada por outra mutação
Iação." no sistema de controle da atividade industrial, com rápida substituição da
29. Jacques Attali, La parole et l'outil, p. 40 e 41: "Percebe-se muito bem classe capitalista local por agentes de grandes empresas de ação trans-
que o sistema dominante desenvolve, ramirica, assume a estrutura, nacional."
torna-se mais complexo com a finalidade do aumento abstrato e anô- 34. R. Barnet e R. Mueller, op. cit., p. 166 e 167: "A tecnologia global carac-
nimo do capital. ... Em base puramente teórica pode-se dizer que não teriza-se por essa devastadora conseqüência nos países pobres que é a
existe limite concebível ao crescimento econômico do sistema vigente, destruição dos empregos ... A expansão das empresas globais, com sua
capaz de tudo controlar dentro de um século. As fases no crescimento tecnologia, contribui para a expansão do desemprego no mundo".
de um produto e da inevitável extensão do controle do sistema preva- 35. Marc Nerfin (ed.), Another development: approaches and stragegies, cf.
lescente sobre os processos explosivos são o investimento, o mercado, o capítulo de Paul Singer e Bolivar Lamounier: "Brazíl: Growth through
a exportação, e a disseminação mundial de sua produção. .. Nos últi- inequality", p. 125-151. Uppsala, Dag Hammarskjold Foundation, 1977.
.mos anos já aparecem em certos setores quase-rnonopóhos mundiais de 36. Ibid., cf. o capítulo de Cynthia Hewett de Alcântara, "México: a
produção e de tecnologia. Estão, pois, na posição de determinar a qua- commentary o nthe satisfaction of basic needs", p. 152-207.
lidade e de impor preços extorsivos da mesma maneira como certos 37. ECLA, Report of the Guatemala conference 1976. Mexico, 1976. As
produtores de matérias-primas ou de certos arrendadores. Determinam, estimativas desse relatório indicam que 38% da mão-de-obra ativa na
ainda, segundo sua vontade, a duração da vida dos produtos. O sistema América Latina estava desempregada em 1976.
prevalescente é, acima de tudo, um sistema financeiro, e se concentra
mais particularmente em certos ramos da indústria". Paris, PUF, 1975.
30. Existe vasta literatura sobre as empresas multinacionais e suas relações
com países dependentes. Chamamos a atenção para a seguinte lista:
WCC report o] a consultation on a proposed actionlreilection pro-
gramme on transnational corporations, Genebra, junho de 1977. Paul
Gregorios (ed.), Burning issues. Kottayam, Sophia Centre Publications,
1978. Multinational corporations in world development, New York, UN,
1973. The impact of multinational corporations on development and on
international relations. New York, UN, 1974. Dimitri Germidis (ed.),
Transjer of technology by multinational corporation, 2 vols., Paris. Ed.
OCDE, 1977. [on P. Gunemann (ed.), The nation-state and transnational
corporations in conflito New York, Praeger Publishers, 1975. Richard J.
Barnet e Ronald E. Mueller, The global rich, New York, Simon & Schus-
ter, 1974. CEDAL, MultinationaZes et travailleurs au Brésil. Paris, Ed.
Maspero, 1977. Xavier Gorostiaga, Los banqueros deZ imperio. San José,
Costa Rica, Ed. Educa, 1978.
31. ECLA, Report 01 the Cartagena conierence. Santiago de Chile, 1968.
32. Hans Singer, em Scanning our [uture, op. cit., p. 96: "Quando se começa
com desigual distribuição salarial, o 'mecanismo do livre mercado' inevi-
tavelmente tenderá a apoiar, perpetuar e até mesmo acentuar essa dis-
tribuição desigual. Quando os mais ricos (que são apenas 20%) possuem -e
75% do PNB, enquanto os mais pobres (20%) só tocam em 5% desse
mesmo PNB, o poder aquisitivo dos ricos aumenta numa proporção,
digamos, de 10%, pesando 15% mais do que o aumento proporcional
de 10%, no salário dos 20% pobres. Do ponto de vista do desenvolvi-
mento e do bem estar social deveria ser o contrário. Elevar esses 20%
mais pobres acima da linha da pobreza, ou pelo menos deixã-los aí por
perto, é objetivo mais importante do que aumentar ainda mais o bem
estar dos que já vivem acima dessa linha."
33. Celso Furtado, op. cit., p. 95: " ... as atividades industriais dos países
de capitalismo periférico tendem a ser controladas por grandes empresas
de ação transnacional. A escassez interna de recursos serviu em muitos
países de justificativa para oferecer vantagens adicionais a essas empresas,
as quais tenderam a ocupar os setores em que o controle da tecnologia

68 69

-l
desqualificada mediante atitudes simplistas ou tendenciosas e inter-
IV. A religião e a cultura popular pretações ideologicamente comprometidas, jogando-a a posições in-
em relação com a pobreza feriores de modo a justificar e a legitimizar os instrumentos ideoló-
gicos dos dominadores utilizados para manipular e alienar a cultura
popular em favor de seus próprios interesses. Esses mecanismos
acham-se presentes em diferentes esferas da vida, como os meios
de comunicação de massa e os incentivos às atitudes em favor do
consumo.
São inúmeros os modos de expressão da cultura popular. Refe-
rem-se a todos os aspectos da vida dos pobres. Podem ser encon-
trados nos lugares de trabalho, na arte, nas festas, na vida familiar,
nas casas, na alimentação, na educação das crianças, no vestuário,
Se quisermos fazer uma interpretação mais global das situações nos ornamentos e especialmente em suas expressões religiosas. Por
de extrema pobreza e opressão suportadas por milhões de seres causa do interesse principal deste livro, vamos nos limitar ao exame
humanos nos dias atuais, precisamos entender que as formas de de alguns elementos necessários para a interpretação da religiosi-
dominação estão presentes em todas as esferas da vida humana, dade popular. Embora as forças criadoras e sustentadoras da injus-
além da econômica. tiça sejam muito fortes, a História nos ensina que a mudança social
Embora se possa dizer que o crescimento e a manutenção da é possível e que a justiça social tem sido alcançada progressiva-
pobreza se deva principalmente à maneira como se organizam as mente em muitas partes do mundç nos últimos dois séculos. Os
relações econômicas, há outras forças em ação, como os mecanismos trabalhadores de indústria e os camponeses vivem muito melhor
culturais e ideológicos prontos a exercer influência e a dominar as hoje do que no século passado, no mundo ocidental. Da mesma
pessoas. É importante reconhecermos esses fatos quando vamos forma, pode-se dizer que em alguns países da Ásia, África, e do
discutir cultura popular e religiosidade. Embora os sistemas popu- Caribe, o povo lutou e continua a lutar para vencer a pobreza. Em
lares de valores, com suas expressões artísticas e organizações so- outras palavras, buscam maior justiça e liberdade em condições
ciais se deixem influenciar e moldar por eficientes mecanismos de luta que lhes seriam impossíveis há algumas décadas.
econômicos e ideológicos, é também verdade que a cultura popular A cultura dos pobres indica a situação de privação de vida
resiste, sobrevive e, em alguns casos, até mesmo se fortalece, apesar e a condição de subordinação social em que vivem. Tudo isso se
de todo esse instrumental dominador. A sobrevivência da cultura reflete em seus hábitos e costumes, nas tradições e valores, nos
popular demonstra que a sabedoria e a filosofia do povo cria notá- sentimentos sociais, e em suas expressões sociais, econômicas e
veis formas de resistência à manipulação e à destruição. Os grupos ideológicas. O mesmo acontece com a religião do povo: 1 não escapa
dominantes nem sempre conseguem perceber ou controlar tais me- das estruturas sociais e econômicas que caracterizam a existência
canismos de resistência e de sobrevivência. da pobreza. Deve-se levar em consideração a relação entre as con-
Se quisermos entender a luta dos pobres e, conscientemente, dições materiais de vida e sua expressão ideológica. Tanto a cultura
decidir por eles, devemos superar a análise meramente econômica como a religião ~videnciam a submissão e a resistência dos pobres,
e apreender o significado mais profundo de suas expressões, sua ao mesmo tempo, a situação em que vivem e os elementos que a
maneira de pensar e seus pontos de vista para interpretarmos cor- causam. Porisso, examinaremos a realidade da religião popular e da
retamente o que fazem. Por certo, não vamos examinar os pobres cultura do povo, não da perspectiva da dominação mas do esforço
a partir do ponto de vista dos dominadores, mas da perspectiva persistente dos pobres por eqüidade e libertação. Reage-se atual-
deles mesmos. Precisaremos da capacidade de ler sua linguagem e mente contra o difundido sentimento que se volta para esses fenô-
símbolos nos seus próprios termos, e do esforço para compreender menos apenas em seu aspecto folclórico ou para lhes admirar as ca-
a sua maneira de raciocinar e a dinâmica de suas organizações racterísticas estéticas. 2 Com o resultado de observações mais acura-
sociais. da dessas expressões da vida do povo, aspectos mais significativos
e mais profundos tornaram-se visíveis, demonstrando, assim, como.
Não se trata, pois, de tarefa fácil. É, na verdade, quase impos-
eram sem base e superficiais as conclusões da maioria dos estudos
sível para os grupos dominadores. Em geral, a cultura popular é

71
70
mais antigos sobre o assunto. A Igreja, também, tão seriamente Gramsci afirma que, talvez, sejam essas as características
confrontada por problemas desse tipo, especialmente nos países principais da religião do povo; é materialista e concreta, muito
do terceiro mundo, precisa superar essa atitude demasiadamente diferente, pois, das especulações idealistas e abstratas de alguns
simplificada, guiada por premissas elitistas de uma ideologia de pensadores religiosos. u
dominação que condena essas expressões do povo, classificando-as 3. Sendo assim, as expressões do culto religioso exigem intensa
de manifestações de grupos inferiores e atrasados. participação prática. Não há espectadores meramente passivos. A
Sem adotarmos atitude ingênua ou idealista, convém indicar comunidade inteira faz parte da expressão religiosa porque lhes
sumariamente alguns aspectos da cultura e da religiosidade popu- é claramente significativa. Não se trata de opções individuais, mas
lares que, em geral, ocorrem. de algo construído em comum. Este aspecto, o rico sentido de
Vale a pena observar que estamos conscientes da precariedade, comunidade, deixa, em geral, perplexos os defensores do indivi-
e do risco duplo que se corre, ao entrarmos em generalizações ou dualismo religioso que não podem entender quão profundamente
ao chegarmos a conclusões sobre fenômenos sociais, presentes nas social é a criação dessas práticas religiosas.
próprias raizes da vida dos povos com diferentes histórias e siste-
mas, tendo suas bases e significado em conjuntos culturais que não 4. Naturalmente, essas expressões exigem- meios bem con-
cretos de representação. O pensamento do povo manifesta-se por
entendemos completamente e nos quais não participamos.
meio de exemplos concretos ligados à sua própria vida. Alimento,
roupas. bebidas, animais, ornamentos, o sol, a lua, são todos ele-
Alguns elementos positivos das religiões populares mentos presentes em seu culto; são oferecidos a Deus ou repre-
1. Na busca de respostas significativas aos vários níveis de sentam a divindade. A religião não se separa da vida; é impor-
necessidades na prática social, as pessoas erigiram sistemas coeren- tante componente do processo social, não estranha à ele. Nos
tes de símbolos e de práticas concretas capazes de lhes dar signifi- cultos de Umbanda, que tanto cresceram nos últimos anos no Bra-
cado profundo à vida de sofrimento e de conquistas. Esses sistemas sil, as entidades religiosas descem à terra, encarnarn-se nos cren-
expressam com muita profundidade momentos de luta e de liber- tes, que se deixam concretamente possuir por elas, de tal maneira
tação. Prendem-se à visão de mundo existente, inerente ao curso que assumem suas atitudes e feitos, nos seus próprios corpos. s
histórico seguido por sua formação. Essas formas de força e orga- Trata-se de uma religião onde o senso da encarnação não se re-
nização populares não podem ser simplesmente desprezadas ou duziu a mera expressão ideal mas se acredita que o Deus verda-
mudadas, como por um ato de magia, por outras concepções de vida. deiro vem e fica com os adoradores.
Os valores do povo são importantes componentes de sua própria 5. Alguns dos estudos mais sérios de sensibilidade religiosa
vida. Destruí-Ias significa violência e morte. O senso comum do popular têm destacado recentemente importante elemento: o senso
povo faz parte de sua visão de mundo e está presente em suas dinâmico de processo. Essa religiosidade não é estática nem se
formas religiosas. 3 completa e exaure no presente. Seu íntimo contacto com os fatos
2. Uma importante característica da sensibilidade religiosa concretos da vida não suprime o senso de processo. Até poderia
popular, muito comum, por exemplo, na África e na América La- ser comparado scorn o conceito bíblico de "peregrinação"." Nem
tina, é a sua íntima conexão com os aspectos dinâmicos da vida. Não se pode reduzi-lo a mero culto do passado ou a manifestações
se trata apenas de uma preocupação pela vida individual mas por culturais nostálgicas. Sua maneira de ver as coisas Ieva em conta
todos os elementos dinâmicos do processo natural e social em que importantes elementos presentes na vida dos pobres que não po-
a vida se envolve. Na religiosidade africana e em boa parte da dem ser justificados simplesmente por fatos observados no mo-
religiosidade da América Latina, os elementos religiosos ligam-se mento. A religiosidade popular constrói a ponte necessária para
a práticas comunitárias bastante concretas, como a colheita, a pesca, ligar o povo com o passado por meio de seus heróis, seus mortos
a caça, a guerra, a escolha dos chefes, e assim por diante." Não e sua gente. Reconstrói sua história com elementos diferentes dos
se cultuam algumas relíquias separadas dos aspectos materiais da empregados pelo pensamento ocidental. No entanto, a conexão
vida, mas, bem ao contrário, têm força e sentido essas práticas não é apenas com o passado mas também com o futuro. E esse
porque estão no centro de interesses vitais da existência da co- futuro apare1ce em imagens muito materiais - lugares com ali-
munidade." mentação, água, casas e brinquedos; não haverá aí guerra nem

72 73
luta, e todos os povos habitarão felizes sem quaisquer sofri- 2. O controle dos meios de socialização pelos grupos domi-
mentes." nantes conseguiu introduzir na cultura popular os elementos ideoló-
6. O senso de solidariedade e da importância dos elementos gicos de sua classe. Muitas instituições sociais têm servido como
comunais no sentimento e nos cultos populares acabam num con- aparelhos para propagar a ideologia dominante como, por exemplo,
ceito de salvação e de liberdade muito difícil para a compreensão a escola, a família e as igrejas." O poder de interiorização que pos-
e interpretação de certos setores da teologia cristã. Os sacrifícios, suem esses instrumentos não deveriam ser ou subestimados ou exa-
a liturgia, as oferendas, em resumo, todas as manifestações da re- gerados. É sempre bom estarmos conscientes de que o povo tem e
ligião relacionam-se com preocupações coletivas e comunitárias. mantém a sua própria sabedoria e que pode muito bem escapar
Busca-se a libertação da nação, da tribo, e do povo. Dificilmente de pontos de vista que não fazem parte de sua experiência.
se pensa em libertação individual. O senso de salvação é coletivo. Não se pode, contudo, pensar hoje em dia em religião popu-
Deus salva e protege seu povo. Deus abençoa a colheita, a pesca, lar pura, isenta de qualquer presença de ideologia de classe, como
a caça, as batalhas, coisas do interesse de todos. Não cuida nem se a religião fosse imune a esse tipo de infiltração. Vale a pena
protege indivíduos isoladamente. recordarmos o que disse Henri Mottu em seu artigo, "Crítica teo-
7. Outra perspectiva positiva na religião popular é o conceito lógica da religião popular", baseado nas proposições de Gramsci:
de totalidade que envolve. 11 Não se separam artificialmente os Recentes pesquisas sobre pentecostalismo, metodismo, movi-
elementos essenciais - há íntima relação entre Deus, natureza e mentos carismáticos de reavivamento, entre outros, mostram que
não há, por assim dizer, ligação mecânica ou "afinidade eletiva"
humanidade. entre esses movimentos e as classes mais baixas da sociedade. Pelo
Bosques, água, mar, estrelas, animais, crianças, idosos, tra- contrário, a "religião popular" só é- popular na aparência ou, pelo
balho, festividades etc., são partes integrantes de um único uni- menos, em seu primeiro estágio histórico. Não existe em estado
verso. Não são elementos antagônicos entre si, mas complemen-
puro. Tão logo comece a existir, percebe-se logo que é o tipo reli-
tares; fazem parte da mesma realidade, sintetizada pela visão
gioso ideal, não das classes mais baixas, mas das classes interme-
religiosa. diárias, principalmente das que vieram da petite bourgeoisie (clas-
se média), ameaçadas de proletarização, jogadas de lado, tradicio-
Alguns usos negativos das religiões populares nais política e socialmente, nesse estado de ainda não possuir nem
1. As organizações sociais nas quais os elementos das reli- de ter já perdido as oportunidades de melhoramento sócio-pro-
giões populares adquiriram forma não foram imunes ao processo físsíonal."
de industrialização, à tecnologia, à modernização social e às novas
formas de estruturação social. 3. Com a infiltração e a dominação do sistema capitalista,
As estruturas de poder têm usado os elementos da religião po- principalmente pelo mundo ocidental em relação aos países sub-
pular para preservar seus privilégios bem como os mecanismos que desenvolvidos, todos os elementos da sociedade passaram a ser
os mantêm. Impedem que o povo entenda que, nas presentes cir- vistos como objetos de consumo e lucro. A "lei do mercado" tam-
cunstâncias, suas lutas requerem instrumentos diferentes e que os bém afetou as expressões do sentimento religioso popular que veio
termos explanatórios usados em relação aos atuais problemas di- a ser comercializado e explorado. Tudo aí se tornou objeto de ex-
ficilmente se encontram na religião. Desse modo, utilizam-se im- ploração: os valores do povo, os atos religiosos, a adoração, as fes-
portantes elementos da cultura e da religião com a finalidade de tividades, e até mesmo os seus sofrimentos. Na América Latina,
se manter situações de privilégio (as castas no Nepal e na India Jj2), líderes religiosos ficaram ricos por meio da "indústria" da cura
sugerindo-se explicações religiosas para problemas econômicos e divina. Criaram-se empresas rendosas para fabricar e vender obje-
sociais (pobreza, doença, mortes 13), apoiando os que estão no po- tos de piedade popular e se organizaram peregrinações, festivais
der (gente chamada por Deus), transformando-se a religião popu- e cerimônias religiosas destinadas aos turistas com propósitos eco-
lar em poderoso fator de alienação, com a perda de sua força nômícos." Muitas organizações religiosas tradicionais usaram esses
de resistência e de unidade." Os meios modernos de publicidade valores populares para a obtenção de vantagens econômicas e,
e de comunicação social são eficientes armas para a manipulação assim, alienar o pOVO.18
dos valores populares. 4. Recentemente, especialmente em países africanos, as na-

74 75

.••....
ções colonizadoras ou seus representantes têm usado com freqüên- ser seguido deveria ser da sociedade de onde se tinham originado
cia os valores da cultura popular para semear divisão no meio do os representantes do cristianismo. Em conseqüência, os valores po-
povo. Desse modo, falsificam-se os valores nacionais e o naciona- pulares foram, certamente, desprezados. A música do povo, as tra-
lismo é exacerbado para criar disputas entre diferentes tribos e dições e os cultos populares, foram considerados inferiores, en-
dividir as forças da libertação. Os sinais do poder da cultura po- quanto produtos de tradições que não conheciam "o verdadeiro
pular com seu potencial libertador são manipulados para possibi- sentido da vida". Em muitos casos, eram considerados expressões
litar a continuação da dominação e da injustiça. Essa estratégia do pecado e até mesmo manifestações do diabo." Em muitos países
bem conhecida baseia-se no aproveitamento dos sentimentos mais houve confrontações violentas em que aspectos da cultura popular
profundos do povo em favor da injustiça." acabaram sendo destruídos" A música do povo foi substituída por
A apropriação e a perversão dos valores e das expressões po- hinos ocidentais, o vestuário local era tido como inadequado, e até
pulares, religiosas ou não, pelas estruturas do poder ou pelos se- mesmo as línguas nacionais tiveram que ser substituídas por lín-
tores mais privilegiados da sociedade não se restringem ao Ter- guas ocidentais." O antigo culto, musical, colorido, alegre, parti-
ceiro Mundo, mas podem ser também encontradas na Europa e cipante, foi substituido por liturgias assépticas, demasiadamente
na América do Norte. São inúmeros os exemplos desse tipo de exigentes, racionais, extremamente organizadas e verticais. A pala-
manipulação dos valores culturais, não escapando dessa trama nem vra, na forma do sermão, tornou-se o centro da liturgia, e a partici-
mesmo as igrejas cristãs. pação da congregação perdeu o dinamismo da tradição popular.
Além desse uso e da distorção de elementos populares ex- Formaram-se elites nacionais que receberam certos privilégios ao se
pressivos de outras religiões, as festas cristãs, tão valorizadas por associarem mais de perto aos missionários, adquirindo prestígio e
setores afluentes da sociedade, são instrumentalizadas para a pro- distanciando-se pouco a pouco do resto do povo. Seus filhos eram
moção do consumo de produtos comerciais. Estão em jogo, aí, enviados para estudar no exterior. Muitos desses vieram a ser ins-
naturalmente, interesses de poderosos grupos econômicos, com suas trumentos efetivos de dominação posto que a linguagem dos colo-
mensagens alienadoras. nizadores quase sempre dominava sobre as outras. Em alguns casos
Outro exemplo é o uso que fazem os setores dominantes da é necessário qualificar tais declarações. Nem sempre a ideologia da
sociedade norte-americana das canções de libertação dos negros, dominação com todos os seus efeitos era muito clara para certos
como se fossem meras expressões artísticas de cunho sentimental e indivíduos ou grupos sociais de destaque. Muitos destes, tomados
individualista, sem qualquer referência ao sentido original. Oblite- pelo sincero desejo de praticar o bem (como o concebiam), não per-
ra-se, dessa maneira, o significado que tinham, de manifestações
cebiam a natureza do processo do qual eram parte. Muitos até
de luta popular coletiva. .
mesmo sacrificaram as vidas, devotando-se à melhoria individual
dos pobres, e deram provas de renúncia. Não conseguiram entender
o cristianismo e a religião popular
o pleno significado de sua missão e o fato de estarem a serviço
Além do cristianismo, outros movimentos religiosos prestaram- de uma política agressiva de colonização com propósitos puramente
se também à manipulação ideológica e à desvalorização da cultura econômicos e políticos."
e da religião popular. Entretanto, por causa do caráter específico Outro importante elemento foi a substituição dos conceitos re-
deste livro, não podemos nos demorar no exame desses outros cultos. ligiosos populares por conceitos até então desconhecidos. Como já
A chegada do cristianismo na África, nas Américas e na Ásia vimos, a religião popular tem feições bem marcadas de materiali-
esteve sempre relacionada com a expansão do sistema colonial. Por- dade, solidariedade comunitária, participação prática, uso de senso
tanto, não se tratava da mera introdução de novas expressões de comum, conceito efetivo de encarnação, e conceito integral da vida
fé ou de idéias religiosas. que inclui Deus, natureza e seres humanos. A maioria das organi-
Conscientemente ou não, introduzia-se nova visão de mundo zações missionários substituiram esse modelo por uma religião ética
e novo estilo de vida. Não foi por acaso que a chegada do cris- e abstrata; ressaltaram o indivíduo (salvação como opção pessoal),
tianismo se fez acompanhar pela fundação de inúmeras escolas e acentuaram a vida depois da morte, deram grande importância à
de outras formas de penetração ideológica." Esse processo transfor- alma (seu slogan: "ganhar almas para Cristo"), separaram a ma-
mou não só concepções religiosas, consideradas pagãs e atrasadas, téria do espírito, promoveram a racionalidade e a ordem segundo
mas também costumes e organização social. Como se o modelo a seus próprios modelos, consideraram as alegrias das festas popu-

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lares como manifestações do "mundo e da carne", separaram a Mencionaremos apenas um outro aspecto dessa questão. Tra-
igreja da sociedade, retiraram os crentes de suas verdadeiras co- ta-se do complexo fenômeno do assim chamado sincretismo reli-
munidades e, por fim, afastaram os membros da igreja das lutas gioso e do desafio que representa à fé cristã."
de seu pOVO?5 Houve, porém, outros grupos cristãos que não che-
garam a rejeitar completamente os valores populares e permitiram O perigo da idealização da religião popular
que se expressassem em seu próprio mundo, de tal modo que aca-
baram servindo ao seu projeto religioso." Observamos, neste capítulo, que não é possível ver no fenômeno
religioso apenas manifestações puras e ideais, de elementos unica-
Hoje em dia essas atitudes estão sendo criticadas e até mesmo
mente libertadores. Seria uma visão demasiadamente simplista, in-
reconsideradas. Alguns setores da igreja percebem a natureza equi-
gênua e irresponsável.
vocada da mera rejeição dos valores e da cultura populares. O
Os valores da religião popular aparecem em certos momentos
confronto e a destruição dessa religião e cultura não parecem neces-
históricos, de forma concreta, como frutos de certos tipos de rela-
sários, nem representam ponto de vista verdadeiramente cristão."
cionamento social. Ajudam a legitimar organizações sociais espe-
Os estragos perpetrados contra populações da América Latina, bem
cíficas e são aceitos e interiorizados como significativos para esses
como os esforços para substituir valores e práticas religiosas entre
momentos históricos. Sendo produtos sociais participados e cons-
as populações da África e da Ásia, são vistos hoje como desvios
truídos por todo o povo como instrumentos significativos e liberta-
do espírito missionário presente no Evangelho. Não é possível iden- dores, são também fortes e importantes.
tificar Deus ou classificar suas manifestações segundo nossos pró-
Ao mesmo tempo, precisamos entender que há vasta distância
prios critérios. O Espírito Santo possui a mais completa liberdade
histórica entre suas origens e o momento presente. Esses valores
principalmente em face das mistificações dos grupos dominantes."
e essas práticas sociais tiveram seüs altos e baixos e enfrentaram
Deus não pode ser aprisionado em nossos modelos nem nos pará- poderosos movimentos de dominação até hoje.
metros da cultura ocidental. A atitude que considera os valores do
Esses valores culturais foram também influenciados por outras
povo inferiores tem afastado os pobres de certas igrejas cristãs, com-
estruturas sociais, algumas completamente autoritárias e opressivas,
prometendo-as com. interesses e valores dos grupos dominantes.
que modificaram em parte sua força libertadora original." Assim,
Sente-se que hoje em dia, na formação teológica e sociológica não devemos adotar um ponto de vista idealista sobre a religião
de pastores e líderes de igrejas, não há compreensão do valor, da popular e afirmar que tudo o que o povo diz é bom, que a religião
força e das características da religião e da cultura do povo. Em popular simboliza sempre a libertação, ou que a cultura do povo
geral, não são estudados. Pior ainda, quando estudados, são exami- está livre das tendências à dominação. Em lugar disso, precisamos
nados a partir da perspectiva dos setores dominantes da sociedade. de uma atitude mais histórica, mais política e mais realista.
Esses pastores acham difícil perceber na cultura do povo sinais
manifestos de libertação e resistência. Não entendem que o Espírito O potencial político da religião popular
de Deus e sua mensagem de libertação estejam também presentes
nessas práticas religiosas." Não se trata de perceber "a má cons- A Igreja e os cientistas sociais admiram-se com a capacidade
ciência" nem de buscar recompensas em face dos séculos de ex- demonstrada pelq religião popular para sobreviver e até mesmo para
ploração e domínio de nossa parte. Quando percebemos que nossa crescer. Apesar de sofrer ataques, apesar do avanço da tecnologia
formação religiosa está impregnada de ideologia e que nossa leitura e dos meios de comunicação de massa, ela persiste e revive, mesmo
do Evangelho se deixa influenciar por nossa posição na vida e pela em condições desfavoráveis. Em que consiste a força desses movi-
classe social ou estrato ao qual pertencemos, somos levados a con- mentos dos fracos e dos pobres?
fessar nossos pecados e a nos revestir de humildade. Existe aí, sem dúvida, reservas significativas de resistência e
Nos assim chamados países desenvolvidos, nota-se certa hosti- de esperança que não podem ser destruidas pelo domínio colonia-
lista, pelo processo de secularização das elites iluminadas nem pela
lidade à religião popular. A História ocidental dá inúmeros exem-
cultura de consumo do capitalismo. Vê-se aí o inestimável valor
plos. Basta lembrarmos as Cruzadas, a Inquisição e a discrimina-
da presença evangélica dos pobres."
ção racial nos Estados Unidos. É um problema que nos desafia a
A religião popular constitui importante expressão ideológica
todos." da visão de mundo dos pobres; é um modo de resistência diante da

78 79
lógica da "lei do mercado". Expressa a "sabedoria" desenvolvida Participação relativa de recursos e gastos dos países
pelos próprios povos e possui incalculável força oriunda do povo, desenvolvidos e dos países em vias de desenvolvimento
baseada em valores de grande significado na luta pela sobrevivência. (percentagens)
Desprezar essas formas de organização popular, consideran- A distêncte entre os países desenvolvidos e os em via de desenvolvi-
do-as expressões de inferioridade, ou utilizá-Ias para a manutenção mento permanece substancial no que diz respeito aos recursos humanos
do poder, denota tanto a falha em compreender sua importância e de capítal. Os países em vias de desenvolvimento _ com cerca de
e a mentalidade elitista decadente e imperialista. 72% da população do mundo - possuem apenas 20% do PN8, 27% dos
ganhos de exportação mundiet, e 7% dos gastos mundiais com a saúde
pública. Em contraste, os países desenvolvidos - com um quarto da po-
pulação mundial - gastam 87% com saúde pública, do total mundial, e
recebem 80% da renda mundial.
Comparação entre os recursos de saúde e educação existentes
nos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, 1974

mmrrm Números nacionais mais altos


Países em vias de desenvolvimento Países desenvolvidos
c=1 Média nos países desenvolvidos 1 1 L I
_ Média nos países em vias de desenvolvimento

D"p,,~,111111111111111111111111111111: 111111111111111111111111111111111111 D 486


População
(1976)
72:%
I 28%
I
com educaçao

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PNB
pública
($ per capital
(1976) 20!J6 8a%
I
Prof ,,,°"'11111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111110 •• Ganhos com

(por 1.000
crianças em
idade escolar)' 16
I '>7
exportação
(1976)
21%
1 73%
I
Reservas
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internacionais III
Adultos
alfabetizados ~ •••••••••• :;~ ----J
(dezembro
de 1977)
43%
I 57%
I
(percentagens) • 49

Despesas
~astos, C?m
saude publica
11111 1II1IIIfillllllllfllllllllifilifllilllllllllllllllillllll
1'"1111111111111111111111;"11111111111111111111111111111111111111111111111
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i 1111111111111410
militares
(1976)
23%
I 77%
I
($ per capital '"
Gastos com
Médicos (por 111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111
populaçoes . I 10
28
educação
pública (1974) 13% I 87%
I
de 10.000) t-------------..I
Gastos com
saúde
Expectativa
de Vida
I'" "" 111"""" '111"""""" 111'111
"111'" 111""'" 111" "111:'" , 70
pública (1974) 7~1 93%
J
ao nascer
(em anos) 56 NOTAS: População mundial, 4 bilhões; PNB mundial. $6.7 trilhões; ganhos mundiais com
exportação. $1.014.1 bilhões; reservas internacionais mundiais. $316.2 bilhões; gastos mili-
tares mundiais. 5398.9 bilhões; gastos mundiais com educação, 5271.0 bilhões: com saúde.
• Entre cinco e dezeríove anos de idade. 5156.5 bilhões .

80 81
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Distribuição da renda em alguns países em vias de
desenvolvimento e outros desenvolvidos (percentagens)
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Participação na renda nacional
de grupos populacionais
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Egito (1964-65) 47.0 23.5 15.5 9.8 4.2


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c Coréia, Rep. da (1970) 45.0 22.0 15.0 11.0 7.0
Q)

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Tanzânia (1967) 57.0 17.0 12.0 9.0 5.0
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Alemanha Ocidental (1970) 45.6 22.5 15.6 10.4 5.9
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Japão (1968) 43.8 16.8
UI Suécia (1970) 42.5 24.6 17.6 9.9 5.4
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c.. Reino Unido (1968) 39.2 23.8 18.2 12.8 6.0
UI Estados Unidos (1970) 38.8 24.1 17.4 13.0 6.7
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C FONTE: Montek S. Ahluwalia, "Inequalttv, Poverty and Development", Journal of Develop-
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.. - ment Economics 3 (1976).

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CII Os quatro gráficos aqui reproduzidos foram tirados de The United States
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I do Overseas Developrnent Council, New York , Praeger Publishers, 1979.
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82 83
NOTAS
1. Entendemos religião no sentido de P. Bourdien: "Um meio simbólico, 11. H. H. Presler, Primitive religions in ndia, p. 301: "A religião primitivn
ao mesmo tempo estruturado e estruturante, na medida em que con- (popular) é a religião da natureza. Ieriva sua verdade dos fatos da nll.
diciona a possibilidade de concordância sobre o significado dos signos tureza biológica; sua certeza confirm-se pelo mistério da natureza; sua
e o significado do mundo". "Genêse et structure du champ religieux", absolvição se realiza no seu envolvÍlento com a natureza". Bangalorc,
Revue [rançaise de sociologie, XlI, 1971, p. 295 e 296. François Houtart, Christian Literature Society, 1971.
comentando essa definição em Religion and ldeology in Sri Lanka, 12. Christoph von Fürer-Haimendorf, Ceie and Kin in Nepal, lndia and
p. 7, acha que é necessário "acrescentar mais um elemento afirmando Ceylon, p. 22 e 23. Bombaim, Asia Pblishing House, 1966. Cf. também
que a religião é um meio simbólico que se refere a forças sobrenaturais, sobre Sri Lanca, François Houtart, ip. cit., p. 197-200; 320-328; 347-
351 etc.
personificadas ou não": St. Peter's Seminary, Bangalore, TPI, 1974.
13. Iohn Mbiti, op. cit., p. 110-125.
2. O ponto de partida do atual interesse pela religião popular relaciona-se
com o ponto de vista de Max Weber de que a religião contribui simul- 14. François Houtart, op. cit., p. 487: "is necessidades funcionais experi-
taneamente para a legitimação do poder dos grupos privilegiados e ao mentadas na vida social, particularmnte a de justificar o poder, exer-
mesmo tempo à subserviência dos pobres, prometendo-Ihes melhores cerá igualmente influência na rnanein como os ritos religiosos são or-
condições depois da morte como recompensa pela presente vida. CL The ganizados e realizados",
sociology of religion, p. 80-118. Boston, Beacon Préss, 1963. O fato de 15. Cf. o que Paulo Freíre diz sobre "ranipulação" e "invasão cultural"
que os desprivilegiados aceitam as idéias religiosas oficiais, por um em Pedagogia do Oprimido.
lado, enquanto, por outro, corrigem essas idéias segundo seus próprios 16. Henri Mottu, op. cito
interesses, tem desafiado sociólogos e teólogos a aperfeiçoar suas pes-
17. Alfred Métraux, em op, cit., p. 11 e 1~reconhece como o Vodu é usado
quisas n? campo da religião popular.
com propósitos comerciais. O mesmc acontece em outros cultos afro-
3. Henri Mottu sublinhou a importância do senso comum entre as carac- brasileiros.
terísticas essenciais da religião popular. CL "Theologische Kritik der
18. O caso melhor conhecido na AméricaLatina é "Pátria, Familia y Pro-
Religion und Religion des Volkes", em Ein Bonhoeiier-Simposium, ed.
priedad". Cf. Jaime Rojas e Fraríz Vandeschueren, Chiesa e Golpe
Hans Pfeifer, p. 75-78. Munich, Chr. Kaiser, 1976. Este conceito é desen- Cileno. Torino, Claudiana, 1975.
volvido a contento nos Quaderni del Carcere, 11, de Gramsci p. 1045,
1396 e 1397, 1401, 1410 etc., Torino, Einaudi, 1975. 19. François Houtart, op. cit., p. 475: "Erender a casta como fato natural
talvez a legitime mas não a explica. , aí que o sistema religioso sim-
4. John Mbiti, lntroduction to alrican religion, p. 19-30. New York, Praeger,
bólico entra em ação. Ao tornar cOlpreensível a origem natural da
1975. Cf. também E. Belaji Iderni, African traditional religion, p. 165-
posição social (função social da lei di Karma no sistema budista), ex-
173. Londres, SCM Press Ltd., 1973.
plica a ordem social. Além disso, a transformar simbolicamente a
S. A comunidade tem raízes no passado. O papel da memória dos ances- escala social em escala moral, permance como garantia do poder. Esse
trais é particularmente importante para a coesão da comunidade. Como recurso à religião, isto é, a um refernte sobrenatural que supre uma
diz E. Belaji Iderni, op. cit., p. 185: "Os ancestrais são fator de coesão sanção ipso facto, parece ser condiçã necessária para a transferência
na sociedade africana. Este fato é bem ilustrado pelos instrumentos do social para o natural. O objeto dest transferência pode ser a origem
sagrados que são os antigos símbolos dos Ashanti, especialmente o da localização social de um grupo ou Ia posição de poder de um indi-
Trono Dourado... Fazem parte do caráter da nação dando-lhe um víduo. Em qualquer dos casos, essa iecessidade será sentida sempre
senso de coesão". que a institucionalização tiver levadoos atores sociais a se esquecer
6. Cf. Henri Mottu, op. cit., p. 74 e 75. de que suas estruturas sociais foram feas pelos homens."
7. G. van der Leeuw observa em La religion dans son essence et ses mani- 20. Cf. em Julio de Santa Ana (ed.), Separtion without hope?, os capítulos
[estations, p. 187: "Em relação ao poder, a vida humana não é pri- escritos por C. I. Itty, "The Church nd the Poor in Asian History",
meiramente individual, mas comunitária. .. É a vida simplificada e re- p. 137-154; e por Samuel Kobia, "TheChristian Mission and the Afri-
duzida a suas feições essenciais, vida vivida por todos ... " Paris, Payot, can Peoples in the 19th Century", p. 55-170. Genebra, WCC, 1978.
1955. 21. Por exemplo, Victor E. W. Hayward,relatando sobre a consulta do
8. CL Alfred Métraux, Vodei. Buenos Aires, Ed. Sur, 1963. Cf. também Conselho Mundial de Igrejas realízad, em Mindolo, em setembro de
Cândido Procópio de Camargo, Aspectos sociológicos dei espiritismo 1962, sobre movimentos eclesiásticos irlependentes na Africa, escreveu
en São Paulo. Friburgo e Bogotá, Ed. Feres, 1961, Roger Bastide, Les reli- em relação ao problema da monogarm na Africa: "Os membros da
gions airicaines au Brésil, p. 412-414. Paris, Ed. PUF, 1960. Van der consulta tinham certeza de que a moogamia era o ideal cristão ...
Leeuw, em outro contexto, fala da possessão de modo semelhante em Concordavam em geral que a insistêr:ia dos primeiros missionários
op. cit., p. 282 e 283. de que os homens casados segundo os jincípios da poligamia deveriam,
9. Marcelo Pinto Carvalheira, bispo de Paraíba, Brasil "A caminhada do agora, abandonar todas as esposas e fice com apenas uma, não demons-
povo de Deus na América Latina •.•, Revista Eclesiástica Brasileira. vol. trara uma atitude verdadeiramente criã para com as mulheres aban-
38, fasc. 150, 1978, p. 300-309. donadas nem para com os filhos dela A preocupação fundamental-
mente deveria ter sido, e ainda dever. ser, pelos valores pessoais de
10. G. van der Leeuw,.op. cit., p. 313 e 314, e especialmente 320 e 312. uma vida familiar cristã estável, baseaa em amor e respeito mútuos.
As igrejas independentes têm repetidarente (e com razão) acusado as
84
8
igrejas mais antigas de hipocrisia neste assunto... O cristianismo tem
sido, assim, pregado na África, mas também em outros lugares, mais
V. Os pobres na igreja
em termos de Lei do que de Evangelho; como um fardo a ser carre-
gado e não como um poder libertador e doador de vida". Ajrican
lndependent Church Movements, p. 10 e 11. Londres, Edinburgh House,
1963.
22. Frei Bartolomé de Ias Casas, bispo espanhol no começo do processo de
colonização na América Central e no Peru opôs-se a essa tentativa. CL
André Castaldo, "Les questions péruviennes de Bartolomé de Ias Casas
(1564)"', Foi et Vie, 77.° ano, n. 1-2, janeiro-abril 1978, p. 65-124. Tam-
bém Enrique Dussel, História de ia lglesia en América Latina, p. 92-99.
Barcelona, Nova Terra, 1974.
23. Guinea-Bissau, reinventing education, p. 19. Genebra, Institut d'Action
culturelle, 1977.
24. C. 1. Itty na op, cit., p. 141, observa corretamente que alguns missio-
nários viam a luta pela independência dos índios como dever cristão: A história da Igreja nos ajuda a entender, além de qualquer
"Em geral, os missionários não entendiam dessa maneira. Continuavam dúvida, que sempre os cristãos se preocuparam com os pobres. Não
a ser fiéis defensores do governo britânico e críticos do movimento de se precisa provar que grupos particulares de cristãos, crentes indi-
independência" . viduais e instituições eclesiásticas sempre procuraram dar assistên-
25. CL P. D. Devanandan, The gospei and renascent hinduism, p. 23 e 24,
que reage fortemente contra esse dualismo. Londres, SCM Press Ltd.,
cia aos menos favorecidos.' O problema não tem sido a assistência,
1959. mas a maneira como essa ajuda se faz, com o paternalismo que,
26. Ver D. T. Niles, Upon lhe earth, p. 139 e seguintes. Londres, Lutter- em geral, a acompanha," Tanto os, trabalhadores industriais mais
worth Press, 1962. pobres durante o século dezenove, os camponeses pobres na maior
27. Felizmente, graças aos estudos da sub-unidade do Conselho Mundial parte das sociedades cristãs, como os verdadeiros pobres da África,
de Igrejas sobre diálogo com povos de outras crenças e ideologias, Ásia, Américas, Oriente Médio e Pacífico, não encontraram jamais
começa a se desenvolver nova atitude. Cf. Stanley J. Samartha (ed.), nos círculos cristãos o seu lar espiritual.
Towards world community. Genebra, WCC, 1975.
28. CL [ürgen Moltmann, The church iri the power 01 lhe Spirit, p. 239. Não queremos dizer com isso que não haja pobres nas igrejas.
Londres, SCM Press Ltd., 1977. Eles comparecem às celebrações cristãs, e alguns até mesmo par-
29. Gustavo Gutierrez, La [uerza historica de ios pobres. Lima, Ed. CEP, ticipam na liturgia das igrejas. Há até mesmo os que compartilham
1978. as preocupações religiosas com comunidades cristãs. Entretanto, o
30. Foi esta a causa da perseguição, nos últimos tempos da Idade Média
na Europa, dos valdenses, dos pobres da Lombardia, e dos hussitas.
problema para eles não se circunscreve li estar ou não na Igreja,
CL Amédée Mohiar e Iean Gomet, Les vaudois ao Moyen Age, 2 vols. mas em saber se as igrejas representam os pobres, ou, pelo menos,
.Torino, Claudiana, 1974. se as igrejas podem se tornar representantes de sua classe, colocan-
31. Cf. David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 75: "Que do-se ao lado da realização de suas aspirações e esperanças.
tipo de comunidade deverão buscar os cristãos? ... a comunidade com
gente de outras crenças e convicções, e, num sentido mais amplo, a
Naturalmente, não se deve generalizar a respeito dos pobres.
comunidade de toda a humanidade. Alguns sentem que esse tipo de Contudo, pode-se dizer, seguindo a mesma linha de pensamento
experiência deveria se chamar de "ecumenismo mais amplo"... Por até agora desenvolvida, que "os pobres, antes de serem uma classe
enquanto, o termo "ecumênico" deveria talvez ser restringido ao diálogo social para a Igreja, cujos interesses se opõem aos das outras clas-
entre os cristãos, enquanto o diálogo. mais amplo poderia ser chamado ses, são principalmente os que não podem se defender e os que
de "inter-religioso". "Grand Rapids, Mich., Wm. B. Eerdmans, e Lon-
dres, SPCK, 1976. Ver também M. M. Thomas, Towards a theoiogy 01 sofrem injustiça porque não conseguem alcançar a realização de
contemporary ecumenism, p. 225-237. Madras e Genebra, Christian Lite- seus válidos direitos. Isso porque as leis são controladas pelos que
rature Society e WCC, 1978. estão no poder e as exercem de acordo com seus próprios interesses.
32. Foi o que aconteceu com a instituição da monarquia na história de Assim, os pobres são "subjugados, rebaixados e humilhados"
Israel. Seu papel libertador (cf. Salmo 72) foi abandonado muitas vezes. (anawim) pelos poderosos de modo injusto:'! Pergunta-se, então se
[erernias criticou Joaquim precisamente por causa desta distorção (cf.
[er 22.13-17). Coisas desse tipo voltou a acontecer freqüentemente as igrejas representam esse tipo de pessoas ou não.
na história das religiões. Embora, de maneira alguma, se justifiquem. Semelhantemente, faz-se' necessário dizer que nenhuma insti-
33. Marcelo Pinto Carvalheira, op. cit., p. 309. tuição eclesiástica pode ser analisada como se fora um bloco mono-

86 87
lítico. As igrejas fazem parte da sociedade dividida em classes so- funcionamento dependem de uma estrutura de poder que se legi-
ciais diferentes, arranjadas em diferentes camadas, sacudidas por tima na posição econômica e social de seus membros." Explica-se,
conflitos e crises, e com diferentes ideologias. Assim, as contradi- assim, porque em certas situações as formas litúrgicas e a mensa-
ções e tensões da sociedade aparecem também dentro da comuni- gem refletem a postura social das pessoas da classe mais alta, entre
dade cristã. Consequentemente, pode-se falar de setores e segmentos os membros da comunidade, correspondendo as questões e aos in-
das igrejas possuidoras de pontos de vista particulares, capazes de teresses desse setor da sociedade.
agir de maneira dominadora nos processos decisórios e influenciar Não se trata de afirmação gratuita nem de descrição arbitrá-
na definição das estruturas da Igreja. Ao mesmo tempo, há outros ria. Basta visitar igrejas estabeleci das , especialmente na Ásia e na
setores sociais e segmentos nas organizações eclesiásticas que repre- América Latina, detectar as camadas sociais de onde vêm seus mem-
sentam papéis mais passivos e marginalizados na vida da Igreja." bros, e procurar entender de que maneira se estruturam e segundo
Questões desafiadoras têm sido colocadas hoje em dia às igre- que critérios escolhem as pessoas que ocupam seus órgãos dirigen-
jas históricas, colocando-as em posições nas quais não é mais pos- tes, para nos darmos conta de que a atual composição de seu go-
sível ignorar os problemas enfrentados. Por exemplo, por que a verno, em geral, não permite a participação ativa e numerosa dos
maior parte dos trabalhadores, da classe proletária, e os pobres, pobres que gostariam de emprestar aí a sua contribuição.
em geral, não aparecem mais nas igrejas? Será, talvez, porque não Os organismos eclesiásticos especializam-se em produzir essa
encontram lugar nas estruturas decisórias das congregações cristãs conhecida respeitabilidade de "classe média". B, assim, justificada
locais? Teria a mensagem cristã perdido o sentido para as vítimas a fama que têm de propagar as tradições, os valores, os pontos
da injustiça e da exploração? Será que os problemas urgentes do de vista e as idéias dos grupos sociais detentores do poder. De que
escândalo da pobreza e da indigência não conseguiram produzir su- maneira, pois, participariam efetivamente os pobres em comunida-
ficiente impacto entre os cristãos e as estruturas eclesiásticas de des cristãs (paróquias e outras) que nada tem a ver com seus pro-
modo que viessem a se comprometer seriamente com a luta contra blemas? Quando os pobres começam a freqüentar congregações
as causas dessa escandalosa situação?" 5 locais e até mesmo se tornam recipientes de sua caridade, são logo
Obviamente, essas questões pedem respostas que não podem incentivados a adotar os valores da "classe média" dos líderes, e
ser dadas em termos simples e que requerem atitudes e decisões acabam engolidos por sua estrutura dominadora. Na perspectiva
profundamente radicais. Contudo, o simples fato de que tais ques- individualista, podem até mesmo adquirir certa mobilidade social
tões estão surgindo e a insistência com que aparecem no movi- com o abandono dos interesses e expectativas de outros membros
mento ecumênico, nas igrejas nacionais e até mesmo nas congre- do mesmo grupo social a que pertencem."
gações locais, são sinais de que as atuais posições e situação da O escândalo da pobreza no mundo de hoje desafia a Igreja e
Igreja estão sendo questionadas, e que, portanto, ela deveria se exige respostas além das simples declarações de princípios e das
abrir à renovação e ao compromisso de maior fidelidade à ação reafirmações da fé. Se a causa dos pobres não fôr o centro de aten-
de Jesus Cristo e ao Espírito de Deus." ção da Igreja no domínio social, e se a luta pela justiça não lhe
preocupar nem afetar profundamente, de que maneira a congrega-
A insuficiência das presentes estruturas ção local poderá" esperar a presença e a participação dos pobres
em sua vida? Os grupos cristãos só poderão avançar no envolvi-
Podemos dizer que muitas formas estruturais de instituições mento social se se comprometerem concretamente com os pobres.
eclesiásticas representam, ou tendem a reproduzir, o tipo de estru- Para isso, precisam ficar claramente do lado da justiça social, com
tura das sociedades a que pertencem. Algumas foram transplanta- todas as suas conseqüências de ordem política, social e econômica.
das de centros metropolitanos a regiões colonizadas, e aí impostas.
Algumas delas ainda refletem modelos hierárquicos e autoritários. Busca de novas opções
Outras abrem-se apenas a grupos que têm prestígio; espelham a
visão de um mundo pequeno burguês, com valores e padrões éticos Felizmente, há sinais bastante positivos nas igrejas pelo mundo
das camadas médias da sociedade. Ao mesmo tempo, e em princí- a fora, de preocupação genuina em favor dos pobres. Esses sinais
pio, precisam se abrir à participação do povo, como em algumas se multiplicam e as animadoras novas experiências demonstram
igrejas da África," Entretanto, em muitos casos sua orientação e que as instituições eclesiásticas - como se viu às vezes no passa-

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do - começam a se tornar a voz dos que elevam seus clamores
relembrar que Cristo se fêz pobre deixando de lado a sua glória
sentidos até Deus." para que Deus lhe elevasse à posição de Senhor e libertador (Fp
Há uma questão que precisa ficar clara: não é por causa dos 2.5 - 11).
ricos que a igreja dos pobres não existe. A igreja dos pobres é Em momentos decisivos da história a aliança entre líderes
também obra do Espírito Santo por meio de um processo em que da Igreja e autoridades políticas afastou as instituições eclesiásti-
o próprio povo participa ativamente. Os pobres, que têm sido víti- cas de um dos principais alvos da missão evangelizadora: "Pregar
mas, nas organizações eclesiásticas, do mesmo processo de margi- as boas novas aos pobres" (Lc 7.22 e 23; Mt 11.4-6). Foi o que
nalização a que lhes tem submetido a sociedade, começam a perceber provocou o enérgico protesto de Bartolomé de Ias Casas no começo
que as igrejas não lhes são estranhas (ou, talvez, não deveriam ser). da evangelização das Américas." Quando os grupos eclesiásticos,
Eles é que podem transformar as instituições eclesiásticas com sua governados por pessoas comprometidas com a ideologia dos ricos
presença e participação, com seus problemas e lutas. O povo de e poderosos, dialogam com estes, seus valores se confundem para
Deus, nesse caso, sabe que a Igreja lhe pertence. Esse tipo de si- preservar tradições similares e expressar os mesmos interesses.
tuação, que é a peregrinação do povo de Deus na história, abre "Somente a igreja dos pobres, que Iêz a opção pelos pobres, pode
novos caminhos de liberdade para a humanidade toda." Bom lealmente falar com os pobres"."
exemplo disso é a luta na qual alguns setores do povo de Deus se O povo de Deus é um povo peregrino. Está andando. Vai numa
engajam em favor dos direitos da mulher (que, em muitos casos, direção. Mas, naturalmente, tem uma orientação: vai na direção do
são as pessoas mais oprimidas dentre os pobres)." amor e da justiça. Alimenta-se da esperança no reino de Deus.
A Igreja se renova quando o povo participa decisivamente em Nessa caminhada, o clamor dos pobres e dos infelizes deste mundo
seu processo de transformação: as instituições eclesiásticas não ten- vai se elevando parecendo ameaçador aos ouvidos dos ricos e po-
dem a fazer mudanças nas estruturas da Igreja a não ser quando derosos. Esse clamor também desafia as igrejas: elas não podem
forçadas pelo povo de Deus. Em muitos lugares, porém, por causa mais tapar os ouvidos.
de suas posições sociais, os líderes das instituições eclesiásticas não
Li conseguem entender a plena dimensão do sofrimento e dos proble- Sinais de renovação da Igreja em nossos dias
mas dos pobres. Ninguém duvida de sua boa vontade e de suas
boas intenções. Poderão até mesmo vir a apoiar movimentos de Mas não devemos ser pessimistas. Não há razão para isso.
transformação da sociedade (que sempre envolvem processos de Nessa peregrinação do povo de Deus, na última década, pode-se
renovação nas igrejas), mas os principais agentes dessas transfor- reconhecer a ação da presença e da força do Espírito de Deus. No
mações serão os próprios pobres." Os que não são pobres precisam meio das desafiadoras contradições históricas enfrentadas pela so-
de muita humildade para entender essa difícil verdade. Precisam ciedade, o Espírito saberá como guiar a comunidade cristã em fide-
superar o sentimento de superioridade e orgulho existente entre os lidade a Jesus Cristo e ao Evangelho. Esses sinais já são evidentes
membros do establishment cristão, transcendendo o atual estado de em igrejas que se abriram aos pobres e, acima de tudo, nas que
compreensão da realidade, para escapar do cativeiro do sistema tomaram a decisão radical no combate às causas da miséria e da
de poder, que não percebe o potencial dos pobres. O elemento real- injustiça.
-e
mente dinâmico da transformação, procurado pelos que lutam em
favor da justiça e da libertação é a presença de Cristo e do Espí- 1. Crescimento de movimentos pentecostais
rito Santo, especial e preferencialmente, nos pobres e oprimidos."
Somente por meio da renovação que eles podem trazer, poderá a Não vamos discutir a doutrina ou a interpretação de textos
comunidade cristã (em cada lugar) libertar-se dos inúmeros cati- bíblicos que formam a base do fenômeno pentecostal. Queremos
veiros que a afligem." apenas observar que em quase todas as partes do mundo a maioria
dos membros das igrejas pentecostais é pobre e que suas estruturas
O fato de que essa libertação (posto que as instituições ecle- tornam possível a participação do povo. 19 A música popular, com
siásticas podem também se tornar prisioneiras das estruturas de
seus instrumentos comuns, infunde alegria nos ofícios religiosos.
dominação deste mundo) só vem mediante a disposição da comu-
O discurso não é monopolizado pelos que se consideram os melho-
nidade cristã de servir os pobres e a justiça, tem profundo signifi-
res intérpretes da verdade. Todos podem contar suas experiências
cado evangélico para a Igreja." Neste sentido, de novo, convém
e expor à comunidade os problemas concretos que enfrentam. A

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ecumênica, uma vez que se abre aos problemas da comunidade e
Bíblia é interpretada livremente e embora alguns textos, é certo,
busca, com todos, soluções para problemas comuns. Entretanto,
não sejam bem entendidos, pode-se dizer que ela ocupa lugar cen-
por se tratar de experiência recente, não se pode ainda chegar a
tral na vida dos crentes. A Igreja .esforça-se para resolver todos
conclusões definitivas sobre o que está acontecendo. Pelo menos
os problemas vitais dos pobres, tais como doença, desemprego,
se pode dizer que os pobres mais uma vez encontram um lugar e
falta de recursos, habitação, viagem etc. Mas também é verdade
têm voz numa estrutura eclesiástica oficial e sentem que a Igreja
que esse tipo de igreja pode se tornar uma das causas da alienação os representa.
do povo. 20 Não se pode negar, por outro lado, que os pobres têm
o seu lugar nessas igrejas e que suas estruturas são suficientemente
3. Outras formas de solidariedade com os pobres e oprimidos
flexíveis para que venham e participem ativamente. Os líderes
vêm da própria congregação e pertencem à mesma classe social dos O conhecido movimento de solidariedade com os negros e com
outros membros. Em alguns países da África e da América Latina as minorias étnicas nos Estados Unidos tem grande importância e
as congregações pentecostais estão desafiando e questionando as significado. A luta contra a opressão racial não terminou com o
igrejas tradicionais e já formam a maioria dos evangélicos em mui- movimento pelos direitos civis da população negra. Expressa-se
tos países. :21 agora nas lutas dos índios americanos pelo direito à terra, pelo seu
É certo que perigos já mencionados, como a alienação, que reconhecimento como nação com todos os seus valores, tradições
podem resultar da prática da religiosidade popular, são também e instituições. Inúmeros contingentes sociais de origem latino-ame-
encontrados nos movimentos pentecostais. Desafiam as igrejas his- ricana estão comprometidos com esse movimento de solidariedade
tóricas, mas nem sempre representam os pobres. como, por exemplo, os mexicanos, os portorriquenhos, os domini-
canos e outros. Certos setores das igrejas têm tomado importante
2. Comunidades eclesiais de base parte nesses movimentos, provendo-Ihes local para a coordenação
de suas atividades, tornando as conexões mais fáceis entre os gru-
Começa a nascer e a crescer uma nova igreja do meio do povo pos bem como melhorando os esforços em favor da criação de laços
em diversos países da América Latina, nas Filipinas, na Itália, e de solidariedade com a maioria branca da população da América do
em outros lugares. :2'2 Pequenos grupos reúnem-se para tratar de Norte. Esta expressão de solidariedade não se limita aos Estados
problemas comuns - bem concretos, ligados à vida diária do povo; Unidos e Canadá, mas também se encontra em outros países desen-
lêem a Bíblia e refletem sobre essa leitura, celebram e cantam volvidos onde setores ativos da comunidade cristã tentam conscien-
novos hinos, e participam em todos os esforços da comunidade. tizar as pessoas em favor da luta pela justiça internacional. É nesse
São essencialmente grupos de gente pobre, localizados em zonas contexto que se deve entender a participação das igrejas em pro-
rurais e em bairros marginais das cidades. Discutem problemas da gramas de educação para o desenvolvimento. ~E
vizinhança e do trabalho, tomam decisões coletivamente, organi- É também impressionante o testemunho de solidariedade ex-
zam-se para lutar por seus direitos, enfrentando juntos as dificul- presso pelas igrejas para com os refugiados palestinos no Oriente
dades, adotam atitudes de solidariedade, e criam estruturas mais Médio. No Líbano, por exemplo, onde há cristãos comprometidos
democráticas e participatórias do que as existentes. Todos podem com a opressão e-com a injustiça, há também comunidades cristãs
falar, as decisões são tomadas em conjunto e os parâmetros para que se tornaram lugares de solidariedade e de compreensão, abertos
a ação definem-se em termos dos problemas dos pobres. No Brasil aos mais perseguidos e sofredores setores da população como esses
apenas há mais de 50.000 dessas comunidades constituindo, sem mesmos refugiados palestinos. Aí a Igreja decidiu ser a igreja dos
dúvida, a principal expressão da vitalidade da Igreja no país. as pobres, lugar de refúgio e libertação para os oprimidos.>"
Trata-se da igreja dos pobres a emergir como evidente sinal da
ação do Espírito Santo. Por meio dos pobres começa a se purificar 4. A redescoberta da força Iibertadora da Bíblia
a Igreja que por séculos esteve principalmente a serviço dos ricos
e poderosos. Perturba, na verdade, os esquemas da eclesiologia Este é um importante sinal de renovação da Igreja. O aumen-
clássica; está transformando completamente as formas tradicionais to do número de pessoas e de grupos que começam "a ler o Evan-
da liturgia; cria os próprios cânticos e acaba com a dicotomia tra- gelho na Bíblia" a partir da perspectiva dos pobres é feição carac-
dicional entre fé e vida.f" É também uma experiência realmente terística da igreja dos pobres.:" A Bíblia e a vida reúnem-se na

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compreensão do povo. Quando os pobres abrem a Bíblia querem 3. Marcelo Pinto Carvalheira, "A Caminhada do Povo de Deus na Amé-
rica Latina", Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 38, fascículo 150, 1978,
encontrar aí as coisas da vida e na vida buscam as coisas da Bíblia.
p.303.
Ao entender que a Bíblia reflete criticamente a realidade, ela des-
4. No relatório da secretaria geral da Quinta Assembléia do Conselho
perta no povo o senso do questionamento. Estuda-se a Bíblia com Mundial de Igrejas, do dr. Philip Potter disse: "Pode ser que apesar das
a finalidade de se conhecer. melhor a realidade presente de uma igrejas professarem a convicção de que são todo o povo de Deus, mui-
perspectiva que não seja a dos dominadores. Também para se es- tas delas não aprenderam ainda o que isso significa em sua vida e
cutar o chamado de Deus à participação na mudança dessa mesma testemunho. As mesmas estruturas hierárquicas e não-participatórias da
sociedade refletem-se nas estruturas e nos estilos de vida das igrejas -
realidade. O propósito final do uso da Bíblia não é tanto interpre- na pregação, no ensino, nos processos decisórios, na autoridade." Em
tá-Ia, como interpretar a vida do próprio povo. Não há dúvida de David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 252. Grand
que tal atitude acaba numa leitura bem menos acadêmica do que Rapids, Mich., Wm B. Eerdmans, e Londres, SPCK, 1976.
estamos acostumados. Mas o acadêmico não é tão importante assim. 5. Nicolas Berdyaev, já no final dos anos 20, levantava questões seme-
Importa, antes, a mensagem libertadora de Cristo com a sua clara lhantes. Cf. Christianity and class war, p. 117 e 118: "A pregação co-
opção pelos pobres. Importa que o povo a entenda, que a perceba mum das virtudes cristãs, amor, humildade e misericórdia, é estéril
e sem efeito; muita gente pensa que se trata de retórica convencional,
na Bíblia e faça dessa leitura valioso instrumento na luta em favor hipocrisia, e tentativa camuflada de enfraquecer e desarmar o inimi-
da justiça e da liberdade humana. go. " É grave a responsabilidade que recai sobre nós, cristãos. Nossa
época pede palavras novas, vigorosas e cheias de energia criadora -
5. Redefinição de conceitos básicos da fé cristã mas não as temos encontrado, ainda; a costumeira exortação à humil-
dade soa falsa nesta atmosfera de desatinos sociais. A alma do traba-
A experiência vivida das igrejas que optaram pelos pobres lhador está contaminada pelo veneno que lhe dão o capitalismo e a
luta de classe, tornando extremamente difícil a tarefa de fazê-lo enten-
leva-nos a repensar as implicações de certos conceitos básicos da der a verdade cristã. Para obtermos algum êxito seria preciso que o
fé cristã para os dias atuais. Estamos vivendo numa nova situação cristianismo se associasse na mente do trabalhador com a verdade social,
e enfrentando novos desafios. Conceitos tais como evangelização, e não com a falsidade. Em outras palavras, os cristãos precisam ficar
salvação, reconciliação, igreja, entre outros, precisam ser redefini- do lado do trabalho e dos trabalhadores." Londres, Sheed & Ward,
1933.
dos em termos da perspectiva dos pobres e dos oprimidos. :208 É uma
7. Cf. Diagenda-Kuntima, "The essence of kimbanguist theology", p. 22.
tarefa que não pode ser feita em confortáveis salas de estudo ou em WCC Exchange, n. 4, julho de 1948.
bibliotecas. Exige do teólogo uma prática libertadora, a partir da 8. Asian ecumenical consultation on development priorities and guidelines,
perspectiva dos pobres e em seus próprios termos. Dessa maneira p. 59 e 60, e especialmente a 69: "Alguma resolução precisa ser toma-
os cristãos começam a entender a nova teologia e a construir a da para que as igrejas mudem suas estruturas, uma vez que muitas
nova linguagem baseada em elementos significativos da vida do delas representam um microcosmo das estruturas de poder-da sociedade
secular". Singapura, Christian Conference of Asia, 1974. De modo mais
povo em cujas expectativas e lutas participam. Esses sinais come-
claro, N. J. Demerath Il l, em Social class in american protestantism,
çam a se tornar visíveis e a presença do Espírito Santo transparece p. 4, diz: "A religião americana, especialmente o protestantismo, tem
nessa igreja do povo que começa a ser posto em liberdade. sido considerada, em geral, como atividade das classes média e alta".
O argumento baseia-se em três indicadores de envolvimento: os mem-
bros da igreja..;:o tipo de gente que freqüenta os cultos, e a participação
nas atividades religiosas formais. As pessoas que participam nessas ati-
vidades pertencem, em geral, às classes mais alta". Chicago, Rand.
NOTAS McNally & Company, 1965. Roger Mehl, falando sobre a composição
1. Cf. Julio de Santa Ana, Good news to the poor, capítulos 4 a 7, Ge- "sócio-profissional" das igrejas, admite que é, no Ocidente, principal-
nebra, WCC, 1977. Também, de Julio de Santa Ana (ed.), Separation mente burguesa ou de caráter rural (o grifo é meu). The sociology oi
without hope? Genebra. WCC, 1978, especialmente os capítulos escri- protestantismo Londres, SCM Press, 1970.
tos por André Biéler, Ronald White [r., metropolita George Khodor, 9. Cf. o estudo de Christian Lalive d'Epinay sobre o pentecostalismo no
e Nicolai Zabolotski. No contexto da Igreja Ortodoxa, cf. Demetrius Chile, O refúgio das massas, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970.
J. Constantenelos, Byzantine philantropy tmd social welfare. New 10. CCPD Dossier Good news to the poor. Genebra, CCPD/WCC, 1978.
Brunswick NJ, Rutgers University Press, 1968. Também Bobbi Wells Hargleroad (ed.), Struggle to be human, stories
2. Cf. [ohn Kent, "The Church and the Trade Union Movement in Britain oi urban industrial mission. Genebra, CWME/WCC, 1973. Este volume
in the 19th Century", in Julio de Santa Ana (ed.) , Separation without inclui uma série de estrias de igrejas que fizeram a opção pelos pobres
hope?, p. 36 e 37. e trabalham com eles.

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11. Marcelo Pinto-Carvalheira, op. cit., especialmente p. 317.
12. Cf. Sexism in the 1970s: discrimination against women, relatório da A documentation of five years of resistance to martial law in the Phi-
consulta do Conselho Mundial de Igrejas realizada em Berlim Ocidental, lippines, p. 129 e seguintes. Londres, Blakrose Press, 1978.
em 1974. Genebra, WCC, 1975. 25. Laurens Hogebrink dá bom exemplo desse tipo de ação em "On Com-
13. Essa posição aparece claramente no relatório do programa sobre "jus- municating the Gospel Today". CCPD Dossier n. 6, lustice, rolling like
tiça e serviço" do Conselho Mundial de Igrejas apresentado à Quinta a ri ver. Genebra, CCPD/WCC, 1975.
Assembléia. Cf. a terceira parte desse relatório sobre "justiça e desen- 26. Cf. Makram Kazah, Le Prado das les événements du Liban, estudo pre-
volvimento". paratório para a consulta da CCPD em Ayia Napa, Chipre, sobre "A
14. CL Iürgen Moltmann, The church in the power oi the Spirit, p. 356: Igreja e os pobres", setembro de 1978.
"A igreja pobre deverá ser, portanto, entendida como a igreja dos po- 27. Cf. Gustavo Gutierrez, op cit., p. 41-50. Cf. o livro de Ronald J. Sider,
bres - como a comunidade em que os pobres alcançam liberdade e Cristãos ricos em tempos de fome, São Leopoldo, Editora Sino daI, 1984,
se tornam os sustentadores do Reino. A pobreza cristã significa, pois, que assume de alguma maneira a perspectiva dos pobres nos estudos
a comunhão dos pobres e a comunhão com os pobres - porém, dentro bíblicos a partir de um contexto afluente.
da missão cristã e na esperança do Reino. Neste sentido, a pobreza 28. Sobre essa "nova hermenêutica", cf. a bela exposição de Robert McAfee
cristã [e aqui Moltmann cita Gutierrez] é "uma expressão de amor e Brown, em Theology in a new key, p. 85-100. Philadelphia, Westminster
solidariedade com os pobres e um protesto contra a pobreza." Londres, Press, 1978.
SCP Press, 1977.
15. Faith and Order Paper n. 85: Church and state, p. 158-160~ sobre o
cativeiro da Igreja. "A' resistência torna-se parte da missão da Igreja
sempre que ela tiver de enfrentar poderes ou situações que oprimem o
povo, ou pelo menos alguns grupos e indivíduos. Os alvos, as perspec-
tivas e os meios desses poderes e situações opressoras são incompatíveis
com os imperativos do Evangelho". Genebra, WCC, 1978. As igrejas
dificilmente resistirão se o movimento de resistência não partir do povo.
16. J. L. Segundo, Libertação da teologia, p. 221: "Se a experiência das
comunidades de- base prova algo, é que, uma vez que se tornaram cons-
cientes da função libertadora da Igreja, longe de promoverem-se a si
mesmas em formas esquisitas de liturgia e renovação intra-eclesial, elas
se convertem nos mais sofridos e eficazes opositores dos compromissos
que uma Igreja, que se aproveita das massas, está obrigada a fazer, em
detrimento da libertação dessas mesmas massas." São Paulo, Edições
Loyola, 1978.
17. André Castaldo, "Les questions péruviennes de Bartolomé de Ias Casas
(1564)''', Foi et vie, 70. ano, n. 1-2, janeiro-abril 1978. Também Gustavo
0

Gutierrez, Teologia desde el reverso de ia historia, p. 35-39. Lima,


CEP, 1977.
18. Cf. A. Counin, no prefácio do livro de José Maria Gonzalez Ruiz, Po-
breza evangélica e promoção humana, p. 14. Rio de Janeiro, Vozes,
Petrópolis, 1970.
19. Christian Lalive d'Epinay, op. cit., p. 45 e seguintes. Cf. também Walter
Hollenweger, The pentecostals, especialmente p. 457 e seguinte. Londres,
SCM Press Ltd., 1972.
20. Christian Lalive D'Epinay, op. cit., p. 128 e seguintes.
21. Walter Hollenweger, op. cit., p. 75-175.
22. CL [ether Pereira Ramalho, "Basic christian communitities in Brazil",
The Ecumenical Review, vol. 29, n. 4, 1977, p. 394 e seguintes. Tam-
bém Marcelo Pinto Carvalheira, op. cito
23. Esses números apareceram no terceiro encontro nacional de Comunida-
des Eclesiais de Base, realizado em João Pessoa, julho de 1978.
24. Bom exemplo da transformação da Igreja pelo Espírito Santo por meio
da ação do povo vê-se nas Filipinas. Cf. Makibaka! [oin us in struggle!

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VI. A luta contra a pobreza provavelmente com o desenvolvimento das culturas civilizadas onde
o comércio e a barganha se tornaram lugares comuns. Descobria-se
a possibilidade do aumento da produtividade com o aperfeiçoa-
mento de instrumentos e de tecnologia (melhoramentos e invenções :
nas mãos dos poderosos) destinados à exploração de outros seres
humanos.
Segundo Celso Furtado: "Duas formas básicas de apropriação
do excedente parecem haver coexistido desde o início dos tempos
históricos. De um lado está o que poderíamos chamar a forma
autoritária, que consiste na extração de um excedente mediante a
coação. De outro lado apresenta-se a forma mercantil, ou seja, a
Estamos definindo a pobreza como a incapacidade de realiza- captação do excedente no quadro de operações de troca ou inter-
ção das necessidades humanas básicas exigidas para manter ade- câmbio.
quadamente a vida livre de doenças, miséria, fome, dor, sofrimento, Formações sociais tão diversas como a do Egito faraônico, a
desespero e medo, de um lado, e a incapacidade de defesa em face da China imperial e a do Império incáico tinham um importante
da injustiça estrutural, de outro. Em qualquer dos casos essas con- traço comum: a apropriação do excedente era rigorosamente disci-
dições podem ser resumidas como opressão. ~ A luta contra a po- plinada por um poder central que monopolizava o uso da coação.
breza consiste, pois, em atividades em que se envolvem os oprimi- Os processos de feudalizaçãq parecem ligar-se à desorganiza-
dos e os que lutam em seu favor na busca de uma "vida melhor". ção de formações sócio-políticas imperiais. A apropriação autori-
Não se procura apenas a satisfação das necessidades básicas, mas tária do excedente passa às mãos de grupos locais e a utilização
também a existência vivida com dignidade, baseada no exercício deste mesmo excedente tende a efetuar-se na própria região onde
da justiça, da participação e da liberdade." ele é captado. Esse processo de desconcentração da apropriação e
Na maioria das sociedades humanas, indivíduos, grupos, gover- utilização do excedente vai acompanhado de declínio da urbaniza-
nos, igrejas e outras instituições têm-se dedicado incessantemente ção e do intercâmbio. Isto não impede que este último continue
para aliviar ou mesmo eliminar a pobreza. Em geral, tais esforços a desempenhar um papel, ainda que reduzido, na transformação do
excedente e mesmo no fornecimento de produtos indispensáveis
fracassam porque se concentram em obras "a favor" e não "com"
à reprodução da população.
os pobres, ignorando as causas opressoras do empobrecimento. 3
À predominância de cada uma das duas formas básicas de
"Dando um peixe ao faminto apenas o alimentamos uma vez; captação do excedente corresponde, historicamente, um tipo de
se o ensinarmos a pescar, ele terá comida para sempre". A tese é formação sócio-política: a imperial e a urbano-mercantil.
a seguinte: para se alcançar a plena libertação é preciso que a luta
O estado-nação da Europa moderna será bem mais do que um
seja levada a efeito pelos pobres e oprimidos. O elemento catalisa-
compromisso entre dois sistemas de dominação. Em sua base existe
dor no movimento de libertação não precisa pertencer aos oprimi-
uma efetiva integração de dois sistemas de cultura." s
dos, mas precisa ser identificado com a luta dos pobres e com ela
comprometido. O desejo das igrejas de se envolver com a libertação Embora o uso da força possa ter tido alguma importância,
dos oprimidos só será sério quando se identificarem clara e ousada- tudo indica que a exploração baseou-se primeiramente em persua-
mente com essa luta em favor da eliminação da opressão onde são psicológica por meio da qual as pessoas envolvidas em "fazer
quer que exista. Não há outro caminho. boas obras" não se davam conta do fenômeno. Essa forma teria
evoluído para o emprego de opressão por meio de exigências, de
O ser humano não foi criado para ser um organismo opri- força e, finalmente, da lei.
mido; coloquemos, pois, a opressão em perspectiva histórica.
A História, no entanto, nos mostra a inconformidade dos seres
Segundo a Bíblia, a opressão surgiu do encontro de culturas humanos em face da opressão: frontalmente, passivamente, indire-
poderosas com culturas sem poder. Assim, os mais fortes domina- tamente ou por meio de resistência ativa. Foi assim que os "fracos"
ram os mais fracos (Gn 12.10-15). Portanto, a opressão surgiu e "desafortunados" tornaram-se os oprimidos, e os "fortes" e "afor-

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tunados", os opressores. Há, pois, um processo condicionador antes parados para lutar contra as injustiças e as opressões, sendo sua
da transformação da opressão em lei. Às vezes, imposto pela força, militância a principal força na luta pela libertação.
esse processo pode ser descrito sociologicamente como "práticas" A libertação e o processo libertador precisam de estratégias
que mais tarde se transformam em "hábitos". Esses evoluem em planejadas oriundas dos pobres; a organização é o processo me-
costumes sociais, tradições, costumes, e finalmente leis. O sistema diante o qual a comunidade pobre se une para implementar a ação,"
resultante acaba recebendo a confiança dos "fortes" e dos "fracos" Portanto, o conceito de organização como instrumento de luta con-
porque garante a ordem, muito embora sustente a dominação dos tra os fatores que geram a pobreza deve ser agora discutido.
fortes às custas da mera sobrevivência dos fracos. Como afirma Há três estratégias organizacionais importantes na luta contra
Charles Elliott: "A principal característica dessa situação é que a opressão e a injustiça. São estas: (1) organização para a liberta-
um grupo relativamente pequeno... controla a maior parte da ção e para a justiça; (2) organização para a libertação e para a
produção e toda a redistribuição fiscal de modo que seus interesses aceitação; e (3) organização para a libertação e para a participação.
e padrão de vida não sejam seriamente ameaçados. São suficiente- Talvez não possam ser aplicadas universalmente, nem talvez existam
mente sofisticados para entender que há conflitos entre curto-prazo numa ordem particular, mas foram empregadas com êxito pelos
e longo-prazo: os custos a curto-prazo serão pagos pela estabilidade negros americanos em sua luta pela mudança social. Embora outras
adquirida a longo-prazo. Cometem erros ao julgar esses custos bem estratégias alternativas possam ser necessárias em outras situações,
como a respeito dos benefícios futuros que lhes poderiam trazer. estas podem ser vistas como meios viáveis à busca da justiça e da
libertação. 10
Enquanto grupo, talvez desconheçam tais benefícios. Enquanto mi-
noria significativa (ou mesmo maioria) talvez acreditem, ou quei- 1. Organização para a libertação e para a justiça
ram acreditar, que não podem mudar o sistema e assim alterar a
distribuição dos benefícios. Além disso, não se pode descartar O principal objetivo da orgãnização para a libertação e para
completamente que tenham interesses altruístas e humanitários a justiça é a anulação de leis que regulamentam a opressão. Depen-
para com os pobres, particularmente quando são visíveis e não dendo do status do oprimido, esta estratégia pode ter três momen-
.., representam ameaças. Não obstante, as elites mantêm um sistema tos: (a) consciência, (b) preparo e planejamento, e (c) ação.
I
no qual a função, hierarquicamente ordenada por elas, é recom-
pensada em diferentes graus. Apesar da enorme evidência de que
a) Consciência
os incentivos de ascensão nessa hierarquia sejam grandemente exa- Quando a opressão passa a ser aceita como modo de vida, ela
gerados ou, para se falar em termos neo-clássicos, corram na dire- se auto-promove. Assim, depois de diversas gerações de pobreza, o
ção contrária. .. o sistema se mantém." 6 pobre deixa de considerar a pobreza com seus males concomitantes
Tanto o opressor como o oprimido aceitam todas as fases do como problema; acreditam que a pobreza vem da vontade de Deus
processo condicionador para que a opressão venha a ser possível. e que não se deve esperar coisas diferentes. 11
O opressor precisa acreditar que a opressão está "certa" enquanto Eis um exemplo: Por volta de 1965, certo batalhador pelos
o oprimido a vê como um "modo de vida". 7 A História nos mostra direitos civis na América falava a um grupo de negros residentes
ainda que foram criadas todas as táticas concebíveis para a acei- numa típica cidade camponesa no suleste do Alabama. Pelos pa-
tação da opressão; a Bíblia e a Igreja não são exceções. 8 drões conhecidos, a cidade era pobre e os negros sofriam violenta
Por outro lado, a História revela que nem todos os opressores opressão. Enquanto os brancos ganhavam cerca de 4.000 dólares
e oprimidos aceitaram a opressão assim tão facilmente; não obs- por ano, seus salários não chegavam a 1.400. Não havia ruas pavi-
tante, ela continuou a existir por causa de sua aceitação pela maio- mentadas nos bairros negros; tampouco havia água corrente nem
ria. Os negros americanos, por exemplo, resistiram por muito tempo banheiros nas casas e, muitas vezes, nem mesmo eletricidade (esta
à segregação e à escravidão. Alguns nunca aceitaram essas formas havia sido cortada por falta de pagamento). A comunidade branca
de opressão. Milhares escolheram a morte para si e para seus filhos não só gozava de todas as comodidades modernas como tinha suas
em lugar de se submeteretn à vergonha da escravidão. Infelizmente, avenidas refeitas, a rede de esgoto ampliada, e melhoradas as con-
a opressão não é eliminada facilmente. A esperança de libertação, dições de trabalho.
no entanto, está presente na ação social e política dos oprimidos. Ao final do discurso do ativista que condenava todas essas ini-
Felizmente, nem todos aceitam a ordem vigente; alguns estão pre- quidades, ouviu-se o amargo protesto de um líder negro da locali-

100 101
dade. Exclamava: "Nós não temos problemas aqui. Os negros con- substituídas por outras igualmente opressivas.?" Para se evitar um
vivem muito bem com os brancos. Você está querendo nos envolver tal estado de coisas faz-se necessária a organização para a aceitação.
em dificuldades falando desse jeito". Esta estratégia procura conscientemente incentivar o oprimido a se
Depois dessa declaração seguiu-se um debate de aproximada- valer das oportunidades que lhe oferecem as novas leis. Por exem-
mente duas horas entre os velhos e os jovens, revelando claramente plo: depois da aprovação da lei dos direitos civis nos Estados
que os mais velhos aceitavam a pobreza como modo de vida, en- Unidos, negros e brancos que apoiavam sua caúsa organizaram-se
quanto que os jovens exigiam mudanças. Três meses depois destes e partiram pata o suleste a fim de se integrarem fisicamente nos
eventos, inúmeros batalhadores pelos direitos civis foram presos lugares ~anteri"rmente segregados. Queriam dessa maneira demons-
e a igreja que servira para aquele primeiro encontro acabou sendo trar visivelmente a realidade da nova lei. Embora tivessem que
incendiada. enfrentar inicialmente a forte resistência dos mais ferrenhos racis-
tas, a repetição de tais atos acabou levando tanto os oprimidos
b) Preparo e planejamento como os opressores à aceitação da lei dos direitos civis.
Os pobres precisam entender e aceitar a necessidade de cuida- A libertação não é alcança da simplesmente por meio da justiça
doso planejamento estratégico. Este processo é crucial porque qual- legal que a força; portanto, a luta deve prosseguir à estratégia final
quer falha em seu desenvolvimento poderá resultar em perdas irre- da organização para a participação.
paráveis. 12 As questões fundamentais a serem resolvidas no pro-
cesso de preparo e planejamento são estas: 3. Organização para a libertação e para a participação
1. Qual é o plano de ação mais efetivo nas condições exis-
tentes? A organização para a libertação e para a participação envolve
os oprimidos em todos os aspectos da nova sociedade - cultural,
2. A resistência a ser usada deverá ser passiva ou ativa?
social, política e economicamente. Trata-se de uma luta extrema-
- Se passiva, que envolverá?
mente difícil, especialmente se o antigo opressor continua a ser
~ Se ativa, que envolverá?
onipotente. É o que se vê nas lutas dos negros americanos e das
3. Que se espera da atitude escolhida? classes operárias na Europa ocidental. Nessas sociedades, com suas
4. Que alternativas são possíveis? recentes experiências de opressão, os antigos oprimidos ainda per-
Após responder a estas questões o grupo oprimido está prepa- manecem fora das esferas de participação. Portanto, a luta deve
rado para agir. continuar. A situação é a mesma em muitos países da África, Ásia,
América Latina, Oriente Médio e Pacífico.
c) Ação
As ideologias e os movimentos políticos são particularmente
Esta fase envolve a implementação de planos cuidadosamente importantes na organização do povo. De um lado, as ideologias -
traçados. A história recente nos ensina que a libertação para a jus- em que pesem suas limitações, simplificações e esquematizações -
tiça pode ser alcança da tanto por resistência ativa como passiva. ajudam o povo a identificar com facilidade os alvos da luta pela
Da perspectiva cristã, a resistência passiva talvez seja o melhor libertação. Neste sentido, as ideologias cumprem função esclare-
método. Gandhi e Martin Luther King utilizaram-na com êxito. A cedora. Por outro lado, os partidos políticos fornecem ao povo a
libertação para a justiça só é alcançada quando se revogam as leis moldura para a ação em nível organizacional. É enorme a contri-
que apóiam a opressão; entretanto, a opressão não termina aí. Para buição que as ideologias progressistas e os partidos políticos popu-
que a Iibertação seja possível é preciso a ocorrência de mudanças lares têm dado no combate à opressão e na promoção da libertação.
radicais nos relacionamentos, no status social e na identidade pes- No entanto, deve se notar que esses instrumentos nem sempre têm
soal entre opressores e oprimidos. sido utilizados a serviço dos pobres. Quando os alvos ideológicos
são definidos sem consulta direta e ampla às bases, e quando os
2. Organização para a libertação e para a aceitação partidos políticos não tomam decisões a partir da participação do
Mudanças radicais de natureza social e política nem sempre povo, podem trair, ou não dar prioridade, à luta pela justiça e pela
acabam com a opressão. Às vezes apenas inverte-se o processo. Os libertação.
oprimidos assumem o papel dos opressores e as antigas leis são

102 103
NOTAS 9. Cf. o capítulo de Julio de Santa Ana no livro, Pueblo oprimido, seitor
de Ia historia, sobre "Teoria revolucionária, reflexão a nível estratégico,
1. Docet, Série 6, n. 8, p. 3-24. Lima, CELADEC, junho de 1973. Thomas tático e reflexão sobre a fé como práxis de libertação", p. 229-232, Mon-
Hanks desenvolve aí o tópico, "Opressão e pobreza na Bíblia", mostran- tevidéu, Tieera Nueva, 1972.
do por meio de análise lingüística e de exegese bíblica que para as
10. Outras estratégias organizacionais, não muito diferentes das que des-
Escrituras a condição da. pobreza é criada basicamente pela opressão.
crevemos, podem ser encontradas no livro de Bobbi Wells Hargleroad
Por exemplo, a maneira como o Antigo Testamento fala a respeito de
(ed.), Struggle to be human, stories of urban industrial mission, Gene-
opressão (ashaq = a injustiça da opressão; yanah = opressão escravi-
bra, CWMEjWCC, 1973.
zante; nagas = opressão desumanizadora; lahats = a dor dos oprimi-
dos; ratsats = a brutalidade da opressão; daka = as conseqüências l l . Paulo Freire analisou com maestria esses mecanismos de internalização
esmagadoras da opressão; anah = a humilhação dos oprimidos; tok = a da opressão. Cf. Pedagogia do oprimido, e Ação cultural para a liber-
tirania do opressor etc.) relaciona-se sempre com a situação do pobre. dade.
No Novo Testamento, além dos textos explícitos de Tiago e Lucas-Atos, 12. CL Hiber Conteris, Julio Barreiro, Julio de Santa Ana, Ricardo Cetenlo
a análise demonstra que "segundo a' teologia bíblica, a opressão é a et al., Conciencia y revolucián, Montevidéu, Tieera Nueva, 1969.
causa principal da pobreza", p. 22. 13. Mais sobre este tópico pode ser encontrado no relatório sobre "violên-
2. De maneira semelhante, o relatório da VI Seção da Quinta Assembléia cia, não-violência e a luta em favor da justiça social", apresentado à
do Conselho Mundial de Igrejas sobre "Desenvolvimento humano: am- comissão central do Conselho Mundial de Igrejas reunido em Genebra
bigüidades do poder, tecnologia e qualidade de vida", declara no pará- em agosto de 1973. Cf. também The Ecumenical Review, volume 30,
grafo 11: " ... a pobreza, percebemos, é causada em primeiro lugar n. 4, outubro de 1978.
pelas estruturas injustas que deixam os recursos e o poder de decidir 14. O conceito de "reconciliação" expresso por São Paulo em 2 Co 5.14-21
sobre a utilização desses recursos nas mãos de uns poucos dentro das não se aplica a seres que mantêm o mesmo tipo de relacionamento que
nações e entre as nações. .. As estruturas injustas resultam quase sem- tinham antes. Trata-se de um ato que leva em consideração a cruz,
pre de objetivos e valores errados ou mal orientados". Cf. David Paton significando o julgamento radical dos oponentes (v. 14) de Deus. Neste
(ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 123, Grand Rapids, Michigan, sentido, a reconciliação não se opõe à libertação, mas a complementa.
e Wm B Eerdrnans, and London, SPCK, 1976.
3. ~ o que aconteceu na América Latina com o programa "Aliança para
o progresso". Algo parecido se deu nos Estados Unidos nos anos 60
com programas destinados ao bem estar social. O programa do presi-
dente Marcos (das Filipinas) também falhou, e é bem provável que o
mesmo acontecerá com os atuais esforços do Banco Mundial, a não ser
que se dê mais atenção as mudanças estruturais do que ao crescimento

4.
quantitativo.
Cf. To break the chains of oppression, p. 52: "A luta pela justiça é
essencialmente a própria luta do povo. Pergunta-se, no entanto, se é o
J
povo que realmente inicia a luta ou se ela é precipitada por algum
agente catalisador de mudança. A questão talvez seja irrelevante em
última análise. Na perspectiva histórica, pode-se dizer que os movi-
mentos populares mais significativos não resultaram de ações espontâ-
neas mas de processos precipitados, em geral, por "agentes de mudan-
ça" . .. Não se trata de saber quem estimula o processo, mas quem o
desencadeia. Da mesma forma, não importa saber a que classe social
pertence o agente ou agentes de mudança, mas qual é seu comprometi-
mento". Genebra, CCPD/WCC, 1975.
5. Celso Furtado, Prefácio a nova economia política, p. 32-36, Rio de Ja-
neiro, Paz e Terra, 1976.
6. Charles Elliott e Françoise de Morsier, Patterns of poverty in the Third
World, p. 13 e 14. New York, Washington, London: Praeger Publishers,
1975.
7. Cf. A. Memmi, The colonizer and the colonized, Boston, Beacon Press,
1967.
8. Cf. especialmente a recomendação de Paulo aos escravos em Cl 3.22.
O que ele diz aos senhores não se compara com o que exige dos es-
cravos.

104 105
VII. Objetivos da luta para, em nome da "civilização", impor o colonialismo e o controle
governamental sobre outros povos ao mesmo tempo em que explo-
contra a pobreza
ram seus recursos humanos e naturais." Quase todos os sistemas
políticos, sociais e econômicos do mundo, e outras instituições
incluindo a igreja têm sido influenciados por procedimentos desse
tipo. O assim chamado sistema da livre empresa tem concedido a
poucas pessoas direitos quase ilimitados não só para controlar mas
também para dominar as vidas de muitos, ,5
Este capítulo pretende discutir meios alternativos de proprie-
dade e de produção capazes de superar boa parte dos problemas
humanos resultantes de sistemas dominados, influenciados ou con-
dicionados pelas "leis do mercado". Daremos, então, atenção a
A primeira intenção da luta contra a destituição e a miséria é
certas linhas de ação .e, de pensamento necessárias para melhorar
erra dica r a fome, o analfabetismo, as doenças desnecessárias, as
a condição do povo e superar a pobreza e a opressão, tendo em
más condições de habitação e satisfazer as necessidades humanas
vista a transformação do atual sistema de livre mercado e de livre
básicas. 1 Entretanto, o objetivo final da luta contra a pobreza é a comércio.
eliminação de todas as formas de opressão: racial, social, econô-
mica, política, sexista entre outras. Embora pareça utópico é esse Para se evitar a marginalização econômica dos pobres há três
o objetivo de todos os que lutam em favor de uma sociedade justa, tipos de decisões que o sistema sócio-econômico precisa controlar.
participatória e sustentável." Em primeiro lugar, emprego de toda a força de trabalho, seja na
indústria ou em meios tradicionais de produção mais simples. Uma
Do ponto de vista cristão, o processo de libertação dura a vida
das mais sérias fantasias do sistema da livre empresa consiste em
toda. O objetivo último da luta contra a pobreza é criar a socie-
pensar que se pode subir dos mais baixos níveis à mais plena rique-
dade humana sem opressores nem oprimidos, onde todos se esfor-
za. A verdade é que os sistemas capazes de criar os ricos mais
çam para ser verdadeiramente humanos.
tiranos cria também os pobres mais desprezíveis. O objetivo, por-
tanto, da propriedade coletiva da terra e dos meios de produção é
Superação da lei do mercado: socialização dos meios de produção
a criação de um sistema por meio do qual a comunidade popular
A raiz da pobreza manifesta-se no mundo moderno na inca- passa a ser dona da terra, dos meios de produção e distribui, assim,
pacidade do assim chamado "livre mercado" de oferecer trabalho os bens e os serviços. Com isso, controla-se a aplicação da tecno-
e participação nos processos decisórios à maioria da população logia moderna para se evitar a destruição dos grupos de produção
mundial. Quase um bilhão de seres humanos não acham emprego mais tradicionais e mais simples. Como provam exemplos históricos
regular e não podem, por isso, contar com um mínimo de salário contemporâneos, é possível o decréscimo substancial do desempre-
para suprir as necessidades básicas. Este fato desafia as igrejas e go, e mesmo o alcance de índices satisfatórios de emprego em curto
os cristãos a se comprometerem em movimentos que favorecem prazo, quando .os meios de produção passam a ser socializados,
a mudança. controla-se a tecnologia consistentemente, e o alvo do processo
A opressão tem aumentado no mundo neste último século com deixa de ser o crescimento econômico a qualquer preço, dando
a expansão do capitalismo e com o desenvolvimento do sistema de lugar à auto-confiança. ~
livre empresa. Este sistema da propriedade privada das terras, dos Em segundo lugar, o controle da distribuição da receita com
recursos provenientes dessas terras, dos meios de produção e da a finalidade de garantir a satisfação das mais profundas expecta-
tecnologia oferece a alguns o poder necessário para possuir e con- tivas e necessidades de todos. Leva-se em consideração, para esse
trolar até mesmo as vidas de muitos seres humanos; resulta em fim, a limitação correspondente das disparidades a nível de receita,"
todos os tipos concebíveis de opressão e desumanização (escravidão, Em terceiro lugar, a essencial e inevitável integração na divi-
racismo, exploração econômica etc.); a tem até mesmo dado a cer- são internacional do trabalho deve ser reconhecida de tal maneira
tas nações o direito de ultrapassar os próprios limites geográficos que o desenvolvimento econômico satisfaça as duas condições já

106 107
mencionadas, isto é, pleno emprego (com participação no processo A libertação dos pobres não é compatível com a libertação dos pre-
decisório) da força de trabalho, ao lado do controle da tecnologia ços. 1,3 Tanto a propriedade privada dos meios de produção como
e da organização da distribuição de modo que satisfaça as mais o controle do mecanismo dos preços segundo as premissas da lei
profundas expectativas e necessidades básicas dos seres humanos. do mercado, resultam na opressão dos pobres e na consolidação da
É provável que se tenha de rejeitar o capital estrangeiro e transna- pobreza estrutural.
cional como elemento mediador para se obter essa divisão interna- A decisão em favor da libertação dos pobres leva-nos ao con-
cional do trabalho. 8 fronto com as estruturas vigentes do sistema sócio-econômico. Na
Somente quando a liberdade dos países dependentes em tais base deste confronto está o problema econômico da satisfação das
decisões é assegurada podem as leis do mercado ser consideradas necessidades básicas de todos igualmente. Entretanto, esta exigên-
sob adequado controle. Sem essa liberdade não se pode imaginar cia econômica só pode ser enfrentada na prática mediante a mu-
a libertação dos pobres. As decisões desse tipo pressupõem a rees- dança das estruturas sócio-econômicas, por meio de ação política
truturação do sistema sócio-econômico responsável pela institucio- a ser alcança da juntamente com a mudança de valores. As mudan-
nalização da pobreza estrutural. Para isso é necessário que as deci- ças de valores, segundo a opinião de especialistas, originam mu-
sões comerciais se submetam a adequados sistemas de planeja- danças nos sistemas políticos que, por sua vez, ajudam a transfor-
mento, e que haja, por outro lado, a correspondente socialização mar sistemas econômicos. H
dos meios de produção. 9 O planejamento e a socialização dos meios A alternativa à atual situação não pode ser a simples abolição
de produção tornam-se essenciais para que os países possam tomar das leis do mercado por meio da mera supressão do próprio mer-
tais decisões básicas, embora o grau de centralização do planeja- cado. Não seria realista imaginar a economia atual funcionando
mento e o nível da socialização dos meios de produção dependam sem o emprego de relações comerciais, de mecanismos de mercado
da situação real de cada país. e de recursos financeiros. Contudo, seria uma alternativa adequada
Os três tipos mencionados de decisões são os que hoje em dia o estabelecimento de um sistema sócio-econômico capaz de superar
", podem garantir êxito na luta dos pobres contra a pobreza. A con- eficazmente a atual pobreza do mundo: um tal sistema controlaria
11,
clusão é inevitável. Deixa claro o compromisso com os pobres, as leis do mercado e não apenas remediaria seus efeitos. As decisões
11,,1

" dando-lhes o mais alto valor nos relacionamentos sociais. 10 econômicas fundamentais não podem, pois, ficar ao arbítrio das leis
Esta convicção decorre de reflexão em dois níveis: compromis- do mercado.
so com a causa dos pobres, baseado na Bíblia, que nos vem de
seus textos e intenções. O outro nível, entretanto, é analítico e en- Orientações
volve reflexão sobre as implicações políticas da opção pelos pobres. Os pobres e os que trabalham em seu benefício não devem
Baseia-se em estudos de experiências sociais e dos resultados de esmorecer na tarefa de criar alternativas de auto-desenvolvimento.
certas teorias. 11 Tais esforços precisam ser exercitados em pelo menos três níveis:
As condições prevalescentes que criam o desemprego, impe- no dos valores, das instituições e dós sistemas. Certas orientações
dem a participação e consolidam a pobreza, não são efeitos de começam a aparecer do meio das atuais lutas populares .
.•.
causas naturais nem da tecnologia. Resultam do sistema social e Em primeiro lugar, no nível dos valores, a necessidade de su-
econômico que as cria e que se mantém na medida em que delas perar os modelos vigentes de economia e sociedade, resultantes da
se alimenta.P As características fundamentais desse sistema são a aplicação da lei do mercado, implica na escolha de alvos coletivos
dominação e a opressão. Depende delas para existir. Nesse contex- em lugar dos individualistas. A busca de comunidade, para o cam-
to, a libertação humana, especialmente a libertação social do pobre, partilhar, para o reconhecimento dos fardos dos outros, especial-
opõe-se à livre empresa que manipula o livre movimento dos pre- mente dos mais fracos, precisa ser prioritária. Certamente, vai com
ços e do capital segundo a lei do mercado. Não se trata de inten- isso a afirmação da responsabilidade social e da subjacente coleti-
ções boas ou más, nem tampouco da assim chamada responsabili- vidade, em oposição aos antigos modelos baseados no egoísmo tão
dade social da propriedade privada. A marginalização dos pobres evidente nos setores mais ricos da sociedade. O caminho fica aberto
decorre da própria maneira como funcionam as leis da "economia a experiências de novos estilos de vida, baseados em responsabili-
do livre mercado", que libera os preços e oprime os seres humanos. dade social e na busca da verdadeira comunidade. Pressupõe-se,

108 109
destarte, radicais mudanças dos antigos modelos utilitários que têm mas conhecidos no Oriente e no Ocidente. A auto-confiança tam-
moldado os atuais sistemas de valores nas sociedades fundamenta- bém quer dizer que a escolha dos objetivos e dos instrumentos
das no "livre mercado". 15 deve ser livre, sem a influência dos interesses da economia estran-
Em segundo lugar, ao nível das instituições, nota-se o desejo geira nem dos poderes políticos e militares. Neste momento, porém,
crescente por estruturas participatórias nos processos decisórios as empresas multinacionais e as nações ricas e poderosas ainda in-
em todos os níveis. Quando essas estruturas passam a existir, tor- fluenciam e dominam boa parte das decisões e escolhas feitas pelos
nando possível a existência de condições de solidariedade entre os povos do Terceiro Mundo, de tal modo que devemos admitir que
que têm e os que não têm, pode-se esperar certos desenvolvimentos em 1974 a auto-confiança ainda significa 'libertação'." 17 O que os
de sentimentos de identificação entre os privilegiados e os mais pobres desejam é precisamente um mundo libertado da opressão
pobres. Como percebeu o antigo Ministro do Desenvolvimento da e da injustiça.
Holanda, [an Pronk: "A identificação só é possível quando nos Os pobres e os que com eles trabalham são responsáveis, por-
países ricos os abastados se identificam com as necessidades dos tanto, pelo uso constante de pressão em favor de mudanças. Os
pobres nesses próprios países. Na verdade, a desigualdade dentro pobres em quase todas as sociedades onde ocorre opressão consti-
dos países ricos decorre do mesmo processo econômico capitalista tuem a maioria. Queremos dizer que os pobres por meio de ação
responsável pelo mesmo tipo de situação entre estados e no interior conjunta e massiva têm meios suficientes para se engajar nessa luta.
dos países em via de desenvolvimento. Além disso, somente por Reconhecendo, então, esse potencial, os pobres e os que trabalham
meio dessa identificação poderão as massas dos países ricos se iden- com eles deveriam continuar a planejar e a aperfeiçoar estratégias
tificar com os pobres do Terceiro Mundo. Este raciocínio nos leva para:
a conseqüências de grande alcance. Significa que a política voltada a) apropriação coletiva dos meios tíe produção, de tecnologia e de
para a igualdade no interior dos países ricos e industrializados conhecimento;
torna-se pré-condição para qualquer política destinada a promover
b) criação de estruturas participatórias a nível de controle demo-
a igualdade internacional. Minha proposta, pois, consiste em dar
11,"': crático da política envolvida com o processo decisório relacio-
prioridade à busca da igualdade econômica e social dentro dos
nado também com a produção, com o consumo e com a apro-
assim chamados países ricos. .. Entendo que tal propósito só po-
priação dos excedentes; para esse fim torna-se necessária a com-
derá ser levado a efeito no âmbito de um sistema socialista". 16 As
binação do planejamento com a auto-gestão das empresas obrei-
instituições participatórias, ao se constituírem, conduzem-nos a cor-
ras; como resultado final teríamos aumento em auto-confiança;
reções fundamentais dos mecanismos de dominação impostos pela
aplicação da lei do mercado. c) desenvolvimento do poder do povo, necessário para equilibrar
a tendência de dominação oriunda de aparatos que exercem in-
Em terceiro lugar, os resultados dos novos valores e das novas
fluência, como as burocracias;
instituições são novos sistemas, nos quais a lei não precisa ser a
do jogo do mercado, mas o imperativo da auto-confiança: sistemas d) mudança e abandono de impostos e outras leis destinadas espe-
novos onde a opressão não precisará ser necessariamente o destino cificamente a tornar os ricos mais ricos e os pobres mais po-
dos pobres, mas nos quais os seres humanos conhecerão existencial bres; por exemplo, as empresas transnacionais em muitos países
e estruturalmente o que significa libertação. Essas idéias poderão gozam de vàntagens fiscais e de concessões que transferem o
ser consideradas utópicas. Mas sem tais objetivos, táis motivações, peso dos impostos necessários à manutenção de governos ambi-
será impossível imaginarmos a possibilidade de mudanças sociais, ciosos dos ricos para os pobres; dessa maneira, os pobres não
políticas e econômicas. Estes sistemas, embora baseados em idéias, têm outra alternativa a não ser exigir vantagens fiscais em fa-
não resultarão primeiramente de teorias, mas da ação popular. Va- vor da equidade; reformas fiscais são, pois, necessárias para a
mos citar [an Pronk de novo: "A auto-confiança significa que os erradicação da pobreza e de suas causas;
objetivos e instrumentos das políticas de desenvolvimento precisam e) limitação da quantidade de terra e de riqueza como posse de
ser adaptados à situação específica desses países bem como às futu- uma só pessoa (física ou jurídica); na maior parte dos países
ras estruturas sociais, políticas e econômicas por eles desejadas. ocidentais a simples observação das leis já existentes sobre
Essas estruturas poderão diferir inteiramente do capitalismo, do impostos seria suficiente para acabar com tais abusos; nos Es-
socialismo ou do comunismo, nada tendo a ver com os atuais siste- tados Unidos, por exemplo, as pessoas pagam imposto em pro-

110 111
fomenta capital excedente destinado a novo crescimento r di .111
porção à renda familiar; entretanto, são inúmeras as possibili-
dades de exceção para burlar essa lei; volvimento.

i) redistribuição da terra e da riqueza em base mais justa; para Nessa linha, SEASHA opera cinco principais projetos:
muitos seria uma idéia absurda; entretanto, para o cristão "a 1. A cooperativa agrícola destinada a
prover assistência ti produ
terra é do Senhor, e é dele a sua plenitude"; se a Igreja ainda ção, marketing, gado de corte, serviços financeiros e de C 1'('
acreditasse nessas coisas, advogaria, por exemplo, a celebração dito para seus membros nas doze regiões onde atua;
de um "ano do jubileu" segundo a descrição do capítulo 25 de 2. Lares, oferecendo habitação decente para seus membros.
Levítico;
3. Carteira de empréstimos destinada a suprir necessidades pes-
g) estabelecimento de novos valores, não mais baseados na pro- soais.
priedade da riqueza material privada, mas na riqueza e digni-
4. Desenvolvimento de negócios para ajudar na melhoria, no pla-
dade humana coletivas.
nejamento e no desenvolvimento de novos componentes para
as empresas da cooperativa.
Dois exemplos
5. Serviços comunitários com o objetivo de organizar os pobres
Temos este exemplo dos países ricos: no suleste dos Estados naquilo que lhes interessa. Ajuda-os na manutenção de serviços
Unidos começam a surgir cooperativas para o desenvolvimento. públicos já existentes e a estabelecer melhoramentos em casas
Baseiam-se no princípio do controle do povo sobre a propriedade e instituições que lhes pertencem. Estão nesta linha os serviços
da terra, os meios de produção, e a distribuição de bens e serviços. de saúde, de auxílio à infância, e outros projetos comunitá-
Pratica-se o princípio do voto popular. rios." -
Vamos examinar uma dessas cooperativas conhecida pela si- O outro exemplo nos vem da União Soviética. Trata-se do
gla SEASHA (South East Alabama Selj-Help Association) que, em processo de coletivização levado a efeito em regiões rurais desse
nossa língua, significaria, Associação de auto-ajuda do suleste de grande país. A forma de cooperação produtiva mais rentável para
Alabama. Ela se relaciona com uma rede de cooperativas de pes- o camponês tem sido a fazenda coletiva (kolkhoz), onde os traba-
soas pobres ao longo do suleste dessa região - abrangendo cerca lhadores de renda baixa e média são admitidos na mesma base e
de 14 estados - criando um processo por meio do qual os pobres se socializam os meios de produção: terra, parte do gado e dos
procuram se libertar da pobreza. implementos. Predomina o elemento coletivo, passando a papel
SEASHA, segundo os princípios cooperativos, alcança vasta subsidiário o indivíduo. A distribuição da renda obedece a crité-
área nessa parte do Alabama. Cada uma das 12 regiões envolvidas rios de quantidade e qualidade de trabalho aí realizado.
tem 2 representantes na diretoria da entidade. Essa diretoria esta-
Essas cooperativas estabeleceram-se com facilidade em regiões
belece a política da associação, seus objetivos, e planos para im-
de culturas destinadas ao mercado industrial, como, por exemplo,
plementá-los. Responsabiliza-se pela contratação de um presidente
as de algodão, que acabavam sendo negociadas pelo estado. O pro-
e o assiste na formação de seus auxiliares. O presidente e seu
cesso não foi ~o facilmente assimilado em áreas de tipo nômade
grupo de trabalho implementam no dia a dia as decisões da dire-
ou semi-nômade, onde ainda predominava certo tipo de economia
toria. O principal objetivo da associação consiste em "eliminar o
de subsistência. Por meio de irrigação e de novo equipamento téc-
paradoxo da pobreza no meio da riqueza de lugares como Barbour,
nico de agricutura, as cooperativas de camponeses conseguiram
Bullock, Coosa, Grenshaw, Elmore, Lee, Lowndes, Macon, Mont- transformar as regiões rurais e erradicar a pobreza."
gomery, Pike, Russell, e Tallapoosa, reunindo-se a outras áreas do
Alabama e da nação num esforço concentrado para eliminar a
pobreza ao oferecer a todos oportunidades de trabalho e de uma
vida decente e íntegra." NOTAS
A associação do Alabama cria, então, certo número de proje- 1. Cf. Employment, growth and basic needs, Genebra, International La-
tos econômicos que se auto-perpetuam, capazes de gerar renda bour Office, 1976. Documento preparado em conexão com a ILO Con-
necessária para a própria manutenção ao mesmo tempo em que ference on Employment, Genebra, 1976.

112 113
cr, o relatório da Comissão Consultiva da Comissão Central do Conse- cação de massa, saúde, e utilização de excedentes para aumentar a
lho Mundial de Igrejas sobre "A sociedade justa, participatória e sus- provisão de bens essenciais - são centrais à estratégia econômica. A
tentável", preparado para a reunião da mesma comissão que ,se reuniu questão da auto-confiança orienta os principais programas para as ci-
em Iamaica, Kingston, em janeiro de 1979, especialmente o capítulo dades, regiões, nação e relações internacionais. A desigualdade de renda
sobre justiça como principal objetivo. e o acesso aos serviços básicos têm sido reduzidos rapidamente tanto
3. Cf. os capítulos I e 11 deste livro. pela redistribuição como pelo aumento da produção. A participação e
a descentralização distanciaram-se do ponto de partida colonial, autori-
4. Cf. o que diz Tissa Balasuriya em The development of the poor through
tário, e burocrático, com o aumento de um partido socialista de massa
the civilizing of the rich, p. 25: "As causas do subdesenvolvimento dos
que controla os assuntos relacionados com a estratégia e com a política
povos colonizados da Ásia, África e América Latina devem ser enten-
básica." (O itálico é do editor). Uppsala, Dag Hammarskjold Founda-
didas historicamente. Esse subdesenvolvimento coincide com o surgi-
tion, 1975. Sobre semelhante processo em Cuba, examinar o relatório
mento dos atuais centros de poder no mundo. A presente ordem mun-
da CCPD, Unidade II, do Conselho Mundial de Igrejas, da visita feita
dial injusta veio da expansão dos povos europeus durante os últimos
a Cuba de 20 de fevereiro a 5 de março de 1978 apresentado à reunião
quatro e cinco séculos. Do ponto de vista do homem ocidental foram
da mesma entidade realizada em Sofia, em junho do mesmo ano.
épocas de grande expansão, triunfo e crescimento. Para os outros foram
séculos de derrota, colonização, roubo e exploração. O homem ocidental 7. CL a declaração de Samuel Parmar em "Ecumenical Consultation on
sistematicamente devastou as nossas terras, subjugou nossos povos, até . Ecumenical Assistance to Development Projects" (26 a 31 de janeiro
mesmo exterminando alguns, colonizou outros e marginalizou a todos. de 1970, Montreux): " ... as altas taxas de crescimento que levam à
Nossas economias desenvolveram-se para servir a suas necessidades, auto-confiança dependem de justiça distributiva. Hoje, em todas as
coisa que ainda persiste entre os que ainda se abrem a ele." Colombo, partes do mundo, não apenas nos países subdesenvolvidos, levanta-se a
Center for Society and Religion, 1973. revolta dos deserdados. A não ser que a sociedade lhes atenda, o pro-
5. É o que se lê no relatório da Seção VI sobre "Desenvolvimento humano: cesso produtivo haverá, de se deteriorar constantemente. A busca de
programas baseados na justiça social é o único caminho para a supera-
ambigüidades do poder, da tecnologia e da qualidade de vida", da V
Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas, parágrafos 41 e 42: "O ção do descontentamento das massas capaz de conseguir o seu apoio
desejo de controlar os recursos mundiais sempre foi e ainda é a razão para os programas de desenvolvimento." Pamela Gruber (ed.), Fetters
básica do exercício do poder econômico e do estabelecimento de estru- of iniustice, p. 51, Genebra, WCC, 1970.
turas exploradoras de dominação e dependência. O colonialismo foi a 8. CL o relatório do Colóquio sobre "Auto-confiança e justiça internacio-
forma clássica dessa atitude. Hoje em dia o colonialismo apresenta-se nal", realizado no Instituto Ecumênico de Bossey, em abril de 1976.
de forma mais sutil, conhecido como néo-colonialisrno, e age mediante Genebra, WCC, 1976.
a exploração levada a efeito pelas nações ricas em detrimento das po- 9. CL To break the chains oi oppression, p. 79, Genebra, CCPDjWCC, 1976.
bres. Entre as formas que assume acham-se as empresas transnacionais 10. CL Reginald Herbold Green: "Accumulation, Distribution, Efficicency,
e estatais. Concentram poder econômico e tecnológico nas mãos de
Equity and Basic Human Needs Strategies: Some Political Economic
poucos. .. Essas empresas (assim chamadas transnacionais) alegam tra- Implications and Conditions.' Estudo apresentado no encontro da As-
zer capital e tecnologia aos países onde operam criando assim novas
sociação Internacional de Economistas com a Associação Internacional
rendas e empregos. Mas, essencialmente, aproveitam a mão-de-obra de Economistas Políticos, em junho de 1978, p. 41 e 42, e especialmente
barata, lucrando com isso, e controlando os preços e os mercados mun-
46: "Porque as necessidades humanas básicas são parte de uma estra-
diais. .. As empresas transnacionais são exemplos típicos da maneira
tégia revolucionária baseada numa visão igualitária e comunitária da
como as forças capitalistas nas esferas nacionais e internacionais se
sociedade, dificilmente virão a ser adotadas sem, luta ... Seu sucesso
unem para oprimir os pobres e mantê-los subjugados. Discute-se hoje
depende, pois, da existência no atual contexto histórico, político, econô-
em dia o emprego de medidas para avaliar essas atividades, mas por
mico e intelectual, da possibilidade de mobilização em apoio dessas ne-
causa do imenso controle que exercem sobre os canais da economia de
cessidades humanas básicas entre número substancial de políticos".
"livre mercado" internacional, é bem difícil esperar resultados que •..
levem à erradicação de seus modelos inerentemente exploradores:" Ver 11. Dag Hammarskjold Foundation, op cit, p. 13 e 14.
David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 130 e 131, 12. CL Celso Furtado, Prefácio a nova economia política, p. 44-51, sobre as
Grand Rapids, Michigan; WmB Eerdmans, and London, SPCK, 1976. medidas do produto social e do sistema de preços. Examinar, também
6. CL o relatório de Dag Hammarskjold, de 1975: What now, p. 58 e 59: a afirmação de Constantine Vaitsos: "A tecnologia desenvolvida e em-
"Os habitantes da Tanzânia não afirmam já ter alcançado o desenvolvi- pregada pelas empresas transnacionais em operações mundiais decorre
mento participatório, auto-confiante, e socialista, mas ter começado a de atividades de pesquisa e desenvolvimento no mundo industrializado
longa transição para esse estágio. Não dizem que o centro uiamaa da concentradas principalmente nos países onde essas empresas estão sedia-
vila já alcançou o pleno desenvolvimento rural, mas que começa a das. (Por exemplo, em 1966, as transnacionais baseadas nos Estados Uni-
emergir. A natureza participatória da transição não nos permite falar dos desenvolveram 97 % de suas atividades de pesquisa e desenvolvi-
a respeito de modelos pormenorizados para o ano 2000 em oposição a mento no próprio solo americano). O desenvolvimento tecnológico diri-
seqüências e programas que evoluem dentro de quadros estratégicos. ge-se a processos de produção tendenciosos como resultado de níveis
Os resultados obtidos entre 1967 e 1975 abrem-se para novos desenvol- absolutamente elevados de lucro, acúmulo de capital, custos relativa-
vimentos. As necessidades básicas - alimentação, habitação, água, edu- mente altos da mão de obra, e produção de bens e serviços em larga

114 115
escala. A aplicação desses processos em geral sem qualquer adaptação
por firmas nacionais ou subsidiadas por capital estrangeiro nos países
subdesenvolvidos, resulta quase sempre não só numa utilização relati-
vamente inadequada mas também a diretos deslocamentos da mão de
obra. Tais deslocamentos se dão até mesmo sob condições de expansão
da produção. Assim, a orientação tecnológica resultante acentua os pro-
blemas existentes da distribuição desigual da renda - tanto no inte-
rior do país como internacionalmente - e impede que se desenvolvam
oportunidades de emprego no Terceiro Mundo", Guy F. Erb e Valeriana
Kallab (eds), Beyond dependency, p. 87. Washington, Overseas Deve-
lopment Council, 1975.
13. Celso Furtado, op. cit., p. 48:
"A medição do produto do trabalho em um subsetor determinado, seja
este complexo como uma usina de automóveis ou simples como uma
barbearia, somente pode ser feita a partir de um sistema de preços.
Como a remuneração do trabalhador se comporta como fator exógeno,
produto das forças que determinam o custo de reprodução da população,
cabe ao sistema de preços desempenhar a função de regulador da re-
2.
partição do excedente (excluída a parte apropriada por meios institu-
cionais) em função da acumulação previamente realizada nas unidades
o desafio dos pobres e sua
produtivas (perequação da taxa de lucro)". importância para a Igreja
14. Cf. Reginald Herbold Green, op. cit., p. 30: "As necessidades humanas
básicas não têm, por certo, o mesmo conteúdo específico do cresci-
mento ou da tecnologia nem mesmo dos sub-modos de produção esco-
lhidos pela maioria das pessoas em cargos decisórios, Essa questão
refere-se, no entanto, à plausibilidade de se ver o crescimento em termos
desagregadores e mais como meio do que fim, e não tanto às condições
de sua facticidade política."
15. Discute-se aqui o tema dos "novos estilos de vida". Sobre o assunto
veja-se os dossiês números 10 e 11 da CCPD, In search of the new, I-lI,
Genebra, WCC/CCPD, 1976 e 1977.
16. Cf. Jan Pronk, "Development in the 70"s: Seven Proposals", The Ecume-
nical Review, Volume XXVII, n. 1, janeiro de 1975, p. 22.
17. Ibid., p. 17.
18. Cf. o Prospecto da Associação.
19. Yuri Ivanov, The road of progress, p. 30-33, Moscou, Novostny Press
Agency, 1977.

-e

116 117
VIII. Os pobres desafiam a igreja Ele me escolheu para anunciar as Boas Notícias aos puhl'l~1I
e me mandou anunciar a liberdade aos presos,
dar vista aos cegos,
pôr em liberdade os que estão sendo maltratados,
e anunciar o ano em que o Senhor vai salvar o seu povo."
(Lc 4. 18 e 19).
Quem é esse pobre? "São os oprimidos, os marginalizados da
sociedade, os membros do proletariado na luta por seus direitos
básicos; é a classe social explorada e roubada, o país em busca
de libertação."! Esse pobre pode ser encontrado tanto dentro como
fora da igreja.
Um seminarista que se dedicava ao aconselhamentô pastoral O desafio é o seguinte: Irá a Igreja se identificar com esta
foi ajudar um pastor numa igreja rural. Certa manhã viu que uma comunidade dos pobres em sua luta pela libertação, ou escolherá
cega era conduzi da por seu marido na direção de seu escritório. o caminho da neutralidade? A escolha há de ser inevitável. O lado
Pensou: "Até que enfim vou colocar em prática a minha teoria que escolher dependerá da maneira como entende o Jesus histórico
do aconselhamento pastoral." Quando o casal chegou e se acomo- e o Cristo da fé em seu envolvimento com a história humana,
dou em frente à sua mesa, prontos para explicar ao jovem pastor não apenas em favor da redenção de Israel mas de todo o mundo.
o que buscavam, ele começou a falar. Falou o que sempre teve A Igreja pode optar pelos pobres ou pelas forças sociais que criam
vontade de falar, sem parar, durante um bom tempo até que a a opressão, a desumanização e à pobreza.
mulher não agüentou mais. Disse ela: "Espere um pouco, quem A Igreja não pode ficar neutra na sociedade. Está de um lado
é você?" O seminarista respondeu: "Eu sou o auxiliar ... ", e foi ou de outro. Quando ela silencia em face dos problemas vitais da
interrompido antes de explicar que era o assistente do pastor. A pobreza e da angústia humana é porque está do lado do sistema
senhora reclamou: "Olhe, rapaz, eu não tenho tempo para brin-
opressor que empobrece mais de três quartas partes da população
cadeiras. Não quero conversar com nenhum auxiliar ou assistente,
do mundo. O silêncio é aquiescência. Aceitação é colaboração.
eu quero conversar com o pastor que pode me ajudar em minhas
necessidades. Eu vim aqui porque estou perturbada, triste. Vim A Igreja tem tentado, muitas vezes, manter-se acima dos pro-
porque acho que a igreja pode me auxiliar a resolver os problemas blemas, ao adotar políticas de neutralidade, ou ao se aliar com os
que tenho. Não tenho tempo para perder com brincadeiras; mos- poderosos para tratar dos problemas dos pobres," Mas a Igreja
tre-me logo o pastor de verdade que pode me ouvir." começa a ser desafiada pelos pobres para se identificar com eles
a fim de se transformar num agente viável e vibrante nas mãos
Chamado à igreja apática de Deus para a libertação humana. A Igreja está sendo desafiada
f: nesses mesmos termos que os pobres dentro e fora da igreja a participar no sofrimento da comunidade dos pobres, dos deser-
institucional a ela se referem - com essas mesmas palavras de dados, dos vitimados, dos marginalizados e dos amargurados. Ela
desafio. Querem que a igreja volte a definir seus objetivos origi- está sendo desafiada a se unir em solidariedade na luta pela jus-
nais em relação ao compromisso que tem com Jesus Cristo. Os tiça com todos os que vivem na miséria, com fome, e sem saída;
pobres estão desafiando as igrejas a repensar a missão e a reorde- esses que são considerados cidadãos de segunda classe, escravos
nar as prioridades à luz do papel redentor na história humana pro- e desgraçados,"
clamado no evangelho. Eles desafiam a igreja a respeito de sua "Para que a proclamação do Evangelho tenha sentido em
identidade verdadeira no mundo. Como a igreja se vê a si mesma nossos dias, é preciso que se relacione com as lutas em favor
ao ser chamada para pregar a mensagem das boas novas aos po- da justiça, porque é esse o lugar onde o povo se encontra. Em
bres? Será que a igreja escolheu mesmo ser a serva daquele que outras palavras, o Evangelho deve ser proclamado a homens e
disse: mulheres, não isoladamente, mas no contexto da solidariedade
"O Espírito do Senhor está sobre mim. socíal.?'

118 119
A outra dimensão desse desafio, dizem os pobres, é a insen- presente nos pobres e oprimidos. O padre Dumas usa, naturalmente,
sibilidade da Igreja perante seus problemas e necessidades. Ela Mateus 25 como texto básico. Não vou me empenhar aqui numa
tem falhado em se identificar com eles ou em lhes mostrar solida- interpretação sacramental porque não me parece que seu ponto
riedade. Não só tem empregado retóricas vazias, de sabor teoló- de vista dependa da interpretação desse texto. Podemos encontrar
gico e eclesiástico sobre participação e envolvimento, mas só se em apoio inúmeros outros textos bíblicos. Seu ponto de vista é
te mouvido a si mesma, fazendo muito pouco em termos sociais. válido de qualquer modo. Ele nos diz que na presente situação
Está dedicando pouco tempo ao auto-exame crítico e ao verdadeiro das igrejas, a Igreja não se reconhece nos pobres. Pode reconhecer
encontro dialético com os pobres, feridos e maltratados pelas socie- os pobres enquanto parcela importante do mundo, mas a Igreja
dades opressivas. não se reconhece neles, e os pobres, por sua vez, não reconhecem
Os pobres estão dizendo: "Não temos tempo para brincar. o Cristo na Igreja. Trata-se de uma situação de perda de identidade
Não queremos comunicados das igrejas: queremos comunicação. ou de auto-alienação da Igreja, situação essa em que a Igreja, afi-
Se a Igreja não se mostrar aberta para o diálogo vamos procurar nal, não é mais a Igreja. A Igreja que não é mais a Igreja dos po-
outros canais de comunicação em outras organizações ou institui- bres põe em risco o seu caráter eclesial. A questão dos pobres
ções desejosas de nos prestar ajuda. Vamos entrar para institui- transforma-se, pois, numa questão eclesiológica."
ções que se dirigem concretamente ao problema existencial visível A mensagem do púlpito com sua pesada ênfase no outro
em nossa pobreza e degradação". mundo, sua reflexão teológica abstrata e desvinculada da vida real,
c sua atitude patemalista, apenas beneficia as estruturas domi-
Está a Igreja preparada para responder? nantes da sociedade. A Igreja tem apoiado as instituições vigentes,
Poderá a Igreja ser este lugar de diálogo com os pobres? Es- com suas injustiças, e batizado com aprovação religiosa os que
tará a Igreja desejosa e preparada para responder às exigências manipulam o sistema por causa de interesses de classe, sócio-polí-
desse desafio dos pobres ou deveriam os pobres buscar ajuda fora ticos e econômicos.
da Igreja institucional em sua luta pela libertação? A Igreja pre- Na América do Norte, por exemplo, houve igrejas que apoia-
cisa, mais do que nunca, de reflexão objetiva e crítica sobre o nível ram a escravidão por muito tempo. Grande número de cristãos
de seu envolvimento e participação na luta dos pobres em seu brancos acreditam que não havia nada errado nisso.' Até mesmo
favor. Esta reflexão será melhor realizada a partir da perspectiva citavam certas passagens da Bíblia para justificar a posição (Ef
dos pobres." 6.5-8, 1 Co 7.17-24), além de outras autoridades. Haviam brancos
Historicamente a Igreja se tem identificado, com frequência, que até iam mais longe tentando provar pelas Escrituras que as
com os sistemas opressores da sociedade, sejam eles sociais, polí- outras raças particularmente a negra, vieram dos filhos amaldiçoa-
ticos, econômicos ou raciais. :É evidente que em muitas ocasiões dos de Cão (filho de Noé) e que, portanto, a Igreja podia muito
(sem invalidar, é certo, outras contribuições que já fêz) ela legiti- bem se unir às forças coloniais e explorá-Ias.
mou estruturas opressoras e grupos no poder. Acomodou-se a essas Outro exemplo nos vem dos tempos pré e pós coloniais na
estruturas e até mesmo tentou tirar proveito próprio com vistas a Africa." Na época colonial os missionários europeus e americanos
seu crescimento e sobrevivência. trabalharam ao'lado dos colonizadores, administrando os programas
José Miguez Bonino ajuda-nos a entender a questão, quando coloniais juntamente com eles, contra os africanos, de tal modo
comenta o trabalho de Benoit Dumas, um dominicano francês. Re- que não se via diferença alguma entre Igreja e Estado. Mbiti es-
ferindo-se à sua obra, The two alienated faces o] the one Church, creve: " .. os missionários cristãos vindos da Europa e da América
Bonino sugere: "A tese básica de Dumas é de que os pobres per- penetraram no interior da África pouco antes da ocupação colo-
tencem à compreensão do mistério da Igreja, ou se quisermos nial ou juntamente com ela. A imagem recebida pelos africanos,
utilizar outra linguagem, que eles pertencem à própria natureza da ainda presente hoje, é de que o cristianismo tem muito a ver com
Igreja. Ele afirma que se a identidade da Igreja se acha em Jesus as práticas colonialistas. Ainda estamos demasiadamente perto da-
Cristo, ubi Christus ibi ecclesia, então devemos prestar atenção ao quela época 'para fazer a dissociação. Este provérbio Gikuzu ex-
dito de Jesus de que estaria presente quando suas palavras fossem pressa o fato muito bem: 'Não há diferença entre sacerdote cató-
lembradas e sua refeição recebida por todos, e que estaria também lico romano e europeu - são a mesma coisa' ."9

120 121
Sob o regime colonial a Igreja perde a universalidade. Frantz Depois de muitos séculos de atividades missionárias na índia,
Fanon, referindo-se ao problema diz: "A Igreja se tornou a Igreja na África, na Ásia e na América Latina, o cristianismo ainda não
dos brancos, dos estrangeiros. Não chama os nativos a viver nos conseguiu ganhar o coração dos povos autóctones. Muitos ainda
caminhos de Deus mas segundo o estilo do homem branco, do consideram o cristianismo uma religião estrangeira revestida de
chefe, do opressor" .10 disfarces ocidentais. Não se encarnou na cultura do povo. Não con-
Na África do Sul, onde milhões de africanos são explorados, seguiu se harmonizar com o espírito do povo.
a Igreja tem feito muito pouco em termos de solidariedade para
com os que lutam em favor dos pobres pela libertação das comu- Tornar-se realmente pobre: um desafio
nidades oprimidas." Cosmas Desmond, sacerdote que trabalhou na
África do Sul, mostrou como a política do apartheid não só vem Outro desafio dos pobres à Igreja é que, enquanto a mensagem
apoiada pelo poder político colonial mas também por algumas dos pobres se encarna e se enraíza na cultura e nas experiências
do povo, o crescimento numérico fora das estruturas das igrejas
igrejas que falham no exercício de seu papel profético e não pro-
históricas ameaça a Igreja do status quo. Os pobres sabem que
nunciam o julgamento de Deus sobre os opressores. A Igreja não essas instituições tradicionais cristãs acabaram demasiadamente oci-
é chamada para apoiar silenciosamente a opressão, mas para adotar dentalizadas, materializadas e burocratizadas. Ao lado da exigência
a opção revolucionária sob o mandato do Evangelho." dos pobres para uma atitude crítica diante da mensagem do evan-
gelho, há também um apelo à "descolonização do cristianismo". A
A Igreja ainda reflete Cristo? participação dos pobres nesses movimentos desafia a Igreja. A re-
descoberta da funcionalidade das religiões populares desafia as ins-
A mensagem e as atividades da Igreja hoje em dia nem sempre tituições cristãs. Mostra que elas precisam primeiramente libertar
refletem a presença de Cristo entre nós. Os pobres perguntam: "Je- a si mesmas antes de participar plenamente na libertação dos pobres.
sus ainda está na Igreja?" Alguns sugerem que é a Igreja que está
morta e não Deus ou Jesus Cristo. Deus em Jesus Cristo está vivo Outra questão igualmente importante é se "a Igreja encontra
e ativamente envolvido na história humana para reconciliar o o Cristo nos pobres"." A Igreja, no começo da obra missionária
mundo consigo; mas a sua presença não mais se manifesta de ma- durante o período colonial, não associou os pobres com o Cristo
neira clara na instituição eclesiástica. Isso porque boa parte da lin- porque seu conceito de Cristo havia sido parcialmente deformado
guagem, liturgias, cânticos, mensagem e interpretação do cristia- pela bagagem européia ocidental que lhe acompanhava desde o
nismo tornou-se obsoleta e irrelevante para a nossa sociedade mu- princípio. Mas quando começou a perceber mais claramente a exis-
tável. Os corpos eclesiásticos distanciam-se dos sinais dos tempos tência de um estilo de vida baseado no amor, na koinonia, na par-
e continuam a empregar metodologias missionárias atrasadas que ticipação comunitária caracterizada por amor e serviço, coisas que
nada têm a ver com as complexas sociedades contemporâneas. existiam entre os pobres, começou a sentir o impacto desse desafio.
A Igreja principiou a reavaliar suas próprias posições à luz do
Por exemplo, na África, nas Américas e na Ásia e outras compromisso cristão com o mundo e com os pobres."
partes do mundo toca das pela pobreza, vê-se a proliferação de
inúmeras novas igrejas entre o povo." Os pobres amadurecem e O desafio.•.não consiste em apenas se identificar com os pobres,
se tornam conscientes de que as estruturas eclesiásticas tradicionais mas em se tornar pobre e, acima de tudo, em se tornar o que a
nem sempre foram fiéis à vocação divina e não se preocuparam com Igreja deve ser. A Igreja precisa se ver como a igreja dos pobres
os pobres a quem foram inicialmente enviadas por Cristo. Os po- e criar novas estruturas capazes de apoiar os pobres em sua práxis
bres, por sua vez, sentem-se separados, até mesmo alienados, da libertadora. B importante que a Igreja se una aos pobres na cria-
maioria das instituições eclesiásticas. Organizam, então, suas pró- ção dessa nova comunidade de participação.
prias estruturas religiosas, buscando um lugar onde se sintam bem. Gutierrez diz que "somente ao rejeitar a pobreza, tornando-se
Procuram, também, novas estruturas sociais que lhes ofereçam es- pobre para lutar contra ela, pode a Igreja pregar a sua mensagem
perança e novidade de vida em oposição às atuais estruturas fe- característica: 'a pobreza espiritual', isto é, a abertura do homem e
chadas e controladas. Começa a surgir o ministério profético das da história para o futuro prometido por Deus. Somente assim po-
comunidades dos pobres. derá a Igreja cumprir autenticamente. .. sua função profética de

122 123
denunciar as injustiças humanas. E apenas assim poderá pregar a rico, tornou-se pobre (2 Co. 8.9) por amor de nós. Assim, embora
palavra libertadora, a palavra da genuína irmandade." 16 ti Igreja precise de recursos humanos para prosseguir na missão,
A reinterpretação da mensagem bíblica que vê Deus como o não foi estabelecida para buscar glórias terrenas, mas para procla-
libertador que se manifesta por meio dos pobres na sociedade para mar humildade e auto-sacrifício?" "Porque já conhecem o grande
libertar os oprimidos e os opressores põe diante da Igreja um novo amor de nosso Senhor Jesus Cristo: ele era rico, mas se fez pobre
desafio. 17 Os pobres estão envolvidos, embora fragilmente, numa por causa de vocês, para que se tornassem ricos por meio da sua
nova busca teológica e ética de sentido e dignidade para as suas pobreza" (2 Co. 8.9).
vidas, até agora marginalizados e domesticados." Finalmente, os pobres desafiam a Igreja porque a maioria dos
- Os pobres procuram um lugar onde possam se sentir livres pobres não faz parte da Igreja: em geral, os cristãos são ricos e
para compartilhar as lágrimas, dizer as tristezas, apresentar as ne- podem satisfazer as próprias necessidades. Os cristãos não só con-
cessidades espirituais e físicas, responder ao mundo no qual vivem trolam a riqueza das nações, mas também os sistemas dominantes
e, finalmente, esvaziarem-se diante, de Deus. políticos, econômicos e educacionais. Ao possuir os mecanismos de
As formas atuais da pobreza são escândalo à fé cristã. Na controle que lhes permitem manipular o sistema em seu favor,
Libéria, por exemplo (mas não só lá), a distribuição da riqueza é fazem com que o pêndulo esteja sempre do seu lado, deixando o
deplorável. O povo não aprendeu a compartilhar o que tem. A resto da humanidade entregue à fome e à miséria. Assim proce-
terra é rica com recursos minerais, solo fértil, grandes florestas dem enquanto cristãos, cativos dos parâmetros operacionais onde
cheias de madeira que estão sendo cortadas por companhias locais e predominam "as leis do mercado".
estrangeiras e exportadas.Entretanto quase a totalidade dos quase Os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres. A distân-
dois milhões de habitantes da Libéria é pobre. Nove entre dez cia entre eles não é apenas desafio à Igreja: trata-se de uma situa-
pessoas vivem na miséria. Apenas 4% da população controlava ção escandalosa para a fé cristã." Infelizmente, a Igreja nem sem-
60% da receita em 1971. Já em 1976 apenas 2.1 % dessa mesma pre tem agido responsavelmente no contexto de sua vocação cristã.
gente controlava os mesmos 60% da renda nacional. Nesse mesmo Os pobres consideram a Igreja distante de suas necessidades e cla-
ano a situação do país tinha se deteriorado tanto que o governo mores - o que, por sua vez, também se constitui em desafio.
teve que declarar "guerra à pobreza" .19 A luz de tais desafios que poderá responder a Igreja? Talvez
Boa parte do mundo sofre da praga do desemprego em massa, tenha que responder à mesma pergunta feita por Jesus aos discí-
do sub emprego, da falta de recursos para a saúde, da ausência de pulos: "Quem o povo diz que o Filho do Homem é?" Eles disse-
educação decente e de paupérrimos padrões de vida. A degradação ram: "Alguns dizem que o Senhor é João Batista ... outros afir-
e a morte rondam tanto crianças como adultos. mam que é Elias. E outros, ainda, que é Jeremias, ou algum outro
A pobreza representa uma situação escandalosa para a Igreja. profeta. - E vocês? Quem é que vocês dizem que eu sou? - per-
Quando se barateia a vida de qualquer pessoa, a totalidade da vida guntou ele" (Mt 16.13-16).
é barateada. Cristo veio para que tivéssemos vida em abundância. A compreensão que a Igreja tem de si mesma depende da com-
Mas a persistência da fome, da doença, e da morte desafia a Igreja. preensão que tem de Jesus Cristo. Esse é o primeiro passo neces-
A ,existência de miséria entre aqueles por quem Cristo morreu co- sário para saber como responder ao desafio dos pobres.
loca sério problema de fé e de práxis para as estruturas eclesiásticas
que vivem em riqueza e desenvolvimento." De que maneira são relevantes à Igreja?
Nas igrejas ricas, as congregações não aceitam com facilidade "Apesar desses obstáculos, os marginalizados, os pobres e os
programas que exigem doação e partilha: Para se entender o signi- órfãos, vêem a fé cristã como fonte de nova influência humaniza-
ficado do discipulado cristão (que sempre faz exigências difíceis dora e como fundamento de nova comunidade humana. Onde quer
de suportar) devemos dar o que temos. Essa disponibilidade faz que a conversão tenha sido verdadeira, de indivíduos ou grupos,
parte do desafio. E para isso são necessários sacrifício e boa orga- os convertidos percebem a salvação em Cristo não apenas em ter-
nização da economia. O desafio às igrejas ricas vem nestas pala- mos de salvação individual ou para a vida depois da morte, mas
vras: Cristo "teve a mesma natureza de Deus. .. abandonou tudo também como fonte espiritual de nova comunidade terrena onde
o que tinha, e tomou a natureza de servo" (Fp 2.6 e 7), e, sendo sua dignidade e status humanos são reconhecidos. A promessa de

124 125
humanização inerente ao Evangelho da salvação tem trazido os opri- pendimento. " ... os pobres têm significação central em nossa com-
midos para a Igreja" }23 preensão da sociedade e de nossos modos de vida. São pobres neste
Os cristãos, individualmente e em grupos, e as instituições ecle- contexto os que a sociedade trata efetivamente como se fossem in-
siásticas desafiados pelos pobres, começam a olhar com novas pers- feriores aos seres humanos porque, na verdade, são usados (isto
pectivas a sua situação de opressão. Cada vez mais se torna visível é, explorados) para a produção de seus prazeres (que eles, os po-
que as ações e programas de caridade apenas aliviam a miséria de bres, não têm), são deixados à margem dos benefícios da sociedade,
alguns, não sendo suficientes para erradicar a pobreza estrutural e não têm acesso ao que os ricos e poderosos têm assegurado. A
e atacar eficazmente suas causas primeiras. Os cristãos começam a maneira desumana como são tratados os pobres revela a tendência
se convencer de que para se combater os agentes da miséria, da essencialmente desumanizadora de nossa sociedade. Assim, os po-
marginalização e da dominação, nossos esforços devem incluir ação bres, nesse sentido mais amplo que inclui os marginalizados e
política e mobilização popular. outros excluídos e não só os fisicamente miseráveis, não represen-
As comunidades de crentes em Cristo percebem, cada vez mais tam apenas um entre outros problemas da sociedade. Representam
claramente, a gritante pobreza material de milhões e milhões de sinais do julgamento de Deus sobre a sociedade. Não são, pois, em
seres humanos em nosso mundo. Ao mesmo tempo percebem a exis- primeiro lugar, objetos de caridade e compaixão, mas sujeitos e
tência de pessoas que vivem em abundância e desperdício. A con- agentes do julgamento de Deus e indicadores dos caminhos do
tradição é tão visível que os membros das igrejas começam a se Reino." Este desafio demonstra ao mesmo tempo a importância
inquietar com o consumismo e a praticar medidas de solidariedade dos pobres para a Igreja.
para com os que não têm o suficiente para viver. Os pobres, en- Em face de tais desafios a Igreja poderia adotar postura arro-
quanto isso, emocional e racionalmente, tornam-se conscientes de gante, como lhe é comum, e dizer- "A pobreza não nos interessa".
sua miséria, conhecem as próprias frustrações e, naturalmente, de- Mas mesmo no sentido mais elementar a pobreza de fato nos in-
monstram irritação quando se comparam com os outros. teressa, pois enquanto certas igrejas podem corretamente dizer que
Inúmeras organizações eclesiásticas começam a responder à a pobreza não lhes afeta imediatamente, muitas outras, principal-
injustiça e à desigualdade. Nas últimas duas décadas, a renovação mente no Terceiro Mundo, não podem tomar essa atitude. Pois nes-
das igrejas tem sido expressa por meio da descoberta dos pobres, ses casos os membros das igrejas são os próprios pobres.
de seus desafios, e da sua potencialidade para a renovação da socie- Esta é a primeira área de relevância dos pobres para as igrejas.
dade, incluindo as igrejas. Em todas as partes do mundo, no (Nossas irmãs e irmãos são pobres). É o que o Novo Testamento
Oriente e no Ocidente, no Norte e no Sul, consideráveis porções da estabelece como o mínimo para a preocupação social.
comunidade cristã estão se posicionando em solidariedade para com A Igreja Apostólica de Jerusalém, descrita no capítulo 15 de
os pobres, tentando remediar a separação surgida nos últimos dois Atos, procurava resolver o problema da catolicidade da Igreja."
séculos da história do mundo entre os pobres e os oprimidos (cons- Para que alguém se batizasse em Cristo deveria, antes, ter fre-
cientes da situação) e as instituições eclesiásticas." qüentado o culto judaico? Teria, por outro lado, o Senhor se re-
Os cristãos e as organizações eclesiásticas que participam na velado tão radicalmente nesta nova era que a antiga prática litúr-
luta dos pobres e oprimidos por justiça e libertação experimentam gica não mais eta necessária para indicar obediência a ele? Pode-
novo dinamismo e nova vitalidade. Abrem-se novos caminhos para riam os cristãos oriundos de outras culturas fora do judaismo ser
a vida da comunidade cristã. Uma das mais importantes experiên- plenos membros da Igreja mediante a mera aceitação do Evangelho
cias decorrentes dessa atitude é a nova maneira como os pobres e da vida com os outros na disciplina do Espírito Santo?
entendem os símbolos cristãos e as Escrituras. A Bíblia cai nas mãos O Concílio de Jerusalém resolveu a questão no espírito da li-
do povo (como em outras épocas quando era traduzida para o berdade." Dada a experiência de Paulo e Barnabé em sua pregação
vernáculo) e os pobres se apropriam da interpretação dos textos aos gentios, o Concílio decidiu eliminar a prática do culto judaico
sagrado. É o sinal da nova era: as Boas Novas são dadas aos como essencial à participação na vida da Igreja. A única exceção
necessitados e miseráveis (Mt 11.2-6; Lc 7.18-23). a essa liberdade foram certas prescrições éticas destinadas a per-
Esta reação revela a profundidade do desafio dos pobres: são mitir que a prática da liberdade dos cristãos gentios não fosse um
como agentes do julgamento de Deus que chama a Igreja ao arre- insulto aos cristãos judaicos e, assim, não levassem a Igreja à divi-

126 127
são. Segundo Lucas tratava-se do seguinte: abster-se das oferendas tação"." Vamos dar, mais adiante, certo espaço a esta teologl« II
trazidas aos ídolos; abster-se de comer sangue e carne de animais sobre a prática dela decorrente. O que importa, neste momento, ('
estrangulados; e praticar a castidade sexual (At 15.20 e 21). anotarmos a existência de intensa fermentação de idéias relaciona
Na Epístola aos Gálatas Paulo menciona mais uma recomen- das com a missão da Igreja." São livres, espontâneas e até mesmo
dação dada a ele e a Barnabé da parte dos pais de Jerusalém, no inconsistentes. Aparecem aqui e ali. Desenvolvem-se. Essas novas
encerramento do encontro. Diz ele: " ... reconheceram que Deus idéias e formas de missão surgidas nessa parte da Igreja reunida
me havia dado esse privilégio, e deram a mão a mim e a Barnabé. ao redor dos pobres são tremendamente importantes para a Igreja
Como companheiros, todos concordamos que nós iríamos trabalhar com seu credo e sua missão histórica de testemunhar o senhor Jesus
entre os não-judeus, e eles entre os judeus. Eles somente pediram Cristo.
que nos lembrássemos dos pobres das igrejas deles, e isto eu tenho O conflito da nova teologia com a antiga leva a Igreja a algo
procurado fazer com muito cuidado" (GI 2.9 e 10). O conselho mais fundamental do que a própria teologia. Para a maioria da
para relembrar os pobres vem logicamente de uma Igreja cuja ex- Igreja essa coisa mais básica é a Bíblia, ou os eventos testemunha-
periência envolve não só orações e milagres, mas também a partilha dos pela Bíblia. O reconhecimento da condição dos pobres como
de alimento de casa em casa e a manutenção da propriedade em tema da Igreja tem sido responsável pela releitura do livro sa-
comum (At 2.43-47). grado."
O desafio dessa prática em favor dos pobres na Igreja resultou Este retorno à Bíblia pâra entender a vida quando as antigas
em pelo menos duas coletas maiores para os necessitados da Igreja, interpretações já não eram suficientes esteve presente na Reforma
sob a responsabilidade de Paulo (At 12.29 e 30, e 1 Co 16.3). A Protestante do século dezesseis e entre os radicais protestantes, as-
insistência de' Paulo em distribuir a segunda coleta em Jerusalém sim chamados de anabatistas, no mesmo século. A mesma coisa se
resultou no seu encarceramento. vê na atual volta à Bíblia entre os católicos romanos. Tal fenô-
Mas os cristãos pobres desafiam a Igreja não só pelo que não meno ainda não se nota entre os protestantes, muito embora co-
têm. Oferecem às Igrejas não apenas a pressão física de suas ne- mece a ser vislumbrado na Igreja dos pobres quando se descreve
cessidades mas também sua experiência. Dão à Igreja uma visão e se define a si mesma nas Escrituras.
de como o mundo realmente é.e não de como deveria ser. Trata-se Até aqui a discussão sobre a importância para a Igreja, da
de um mundo de miséria e opressão. A Igreja apostólica ensina a situação e da luta dos pobres tem levado em consideração elemen-
estes uma visão da vida que não lhes deixa em desespero. À essa tos mais ou menos concretos e tangíveis. Os cristãos pobres são
Igreja os pobres ensinam uma visão da vida que não lhe deixa visíveis. Tornam a pobreza visível e a interpretam. Muito se es-
perder contacto com a história. creve a favor e contra a teologia da libertação. A prática da soli-
Na verdade, os cristãos pobres não diferem dos pobres que dariedade para com a luta dos pobres obedece a determinada estra-
não são cristãos. A primeira revelação à Igreja não foi a fé profes- tégia e a certas táticas. A Bíblia é a Palavra de Deus, mas vem a
sada pelos pobres, mas a pobreza dos pobres. Agora, no entanto, nós por meio da nossa linguagem e pressupõe a nossa compreensão.
temos esta segunda revelação que vem da pobreza. A primeira re- Mas nessa luta dos pobres há também algo intangível. Tem a
velação é específica e pode ser medida pelos instrumentos da eco- ver com a maneira como lemos a Bíblia. Se a interpretação clás-
nomia e da sociologia. A segunda revelação é uma declaração sobre sica das Escrituras começa a ser confrontada por nova interpreta-
a fé em face da pobreza e da opressão. Assim como nossas concei- ção, qual delas será a correta? Que quer dizer "correto"? Podemos
tuações teológicas a respeito da vida eterna tornam-se mais rele- procurar compreender o problema a partir do contexto histórico;
vantes quando morre alguma pessoa querida, assim também, nosso esse contexto pode nos ajudar; mas os cristãos também acreditam
discurso teológico sobre a pobreza torna-se mais relevante quando numa doutrina da iluminação. Segundo essa doutrina os cristãos
pronunciado a partir da experiência do empobrecimento. acreditam que o próprio Deus nos dá a correta compreensão das
Tais declarações, agora, ao lado de correspondente práxis, de- Escrituras por meio de seu Santo Espírito que nos dirige a com-
safiam a Igreja. A lista das novas teologias já é bastante longa. preensão e a interpretação. Essa prática nos poderá parecer arcaica
Algumas são sérias e abrangentes, enquanto outras não passam de mas é elemento essencial histórico no uso das Escrituras bem como
modismos. A que mais nos chama a atenção é a "teologia da liber- função importante e vital para a piedade contemporânea.

128 129
o Espírito Santo age, entretanto, não apenas na maneira como com os poderes dominantes da sociedade." Assim, inverteram as
a Igreja interpreta a Palavra de Deus, mas também na prática da
posições existentes nas comunidades do Novo Testamento. As co-
missão. O capítulo 16 do livro de Atos descreve claramente como
munidades do Antigo Testamento dos séculos oitavo ao sexto antes
o Espírito Santo redirecionou os bem elaborados planos missioná-
de Cristo oferecem paralelo mais direto.
rios de Paulo e Silas. Esses missionários foram "proibidos" de pre-
Que nos dizem os profetas? Vamos nos limitar a examinar
gar na região da Ásia; revisaram os planos e decidiram pregar na
apenas os profetas Amós, Isaías e Ieremías." Todos estes vêem duas
Bitínia, mas, também dessa vez, "o Espírito de Jesus não o permi-
causas principais para o julgamento vindouro de Deus sobre Israel
tiu". Finalmente, o Espírito Santo lhes concedeu nova visão e
e Judá. De um lado, o povo abandonara o culto ritual de [avé e o
com ela nova orientação para a missão.
substituira por diversas outras práticas estrangeiras (Cf. Amós capí-
A porção da Igreja que se decidiu pelos pobres diria que foi
tulos 3 e 4; Isaías 28.7-22 e Jeremias 2.26-37, por exemplo); de
chamada e conduzida a essa atitude pela obra do Espírito Santo.
outro, abandonara também a lei moral da justiça ao próximo e em
Tanto os que acreditam nisto como os que pensam que se trata de
seu lugar começara a praticar a opressão, a ambição, a mentira, o
sacrilégio, precisam ser humildes. Ê muito fácil fazer-se afirmações
roubo e a violação dos direitos do órfão, da viúva, do pobre e do
que não podem ser medidas materialmente, mas, não obstante a
estrangeiro (ver especialmente [r 22).
advertência, qualquer Igreja morna, sem surpresas nem enigmas,
O profeta, em face da apostasia, tinha a função de chamar
dificilmente poderia afirmar ser o templo do Espírito Santo.
o povo ao arrependimento. As igrejas cristãs têm pregado a partir
A linha de pensamento que estamos desenvolvendo pressupõe
dessas escrituras com a esperança de que o arrependimento virá
que os pobres têm função salvadora para a Igreja, e que sua exis-
mediante certas advertências. Os profetas não eram assim tão oti-
tência, e especialmente sua sensibilidade diante da vida, conclamam
mistas! Encontramos um resumo- de sua atitude na chamada de
uma igreja orgulhosa a revisar sua prática e ao arrependimento. Até
Isaías pelo Senhor (Is 6), mas todos os três profetas mencionados
aqui temos entendido os pobres como elemento positivo, corretivo,
não alimentavam grandes ilusões a respeito do arrependimento do
e até mesmo criativo na medida em que afetam o pensamento e
povo. O Senhor ordenou a Isaías: "Vai e dize a este povo: podeis
a missão da Igreja. Mas num outro sentido a importância dos pobres
ouvir certamente, mas não haveis de entender; podeis ver certa-
na Igreja e no mundo passa a ser negativa. Estamos nos referindo
mente, mas não haveis de compreender. Embora o coração deste
à situação em que os pobres não trazem práticas justas nem arre-
povo, torna pesados os seus ouvidos, tapa-lhe os olhos, para que
pendimento, mas se limitam a ser sinais humanos da ira vindoura
não veja com os olhos, e não ouça com os ouvidos, e não suceda
de Deus." Encontramos essa compreensão do papel dos pobres nos
que o seu coração venha a compreender, que ele se converta e
profetas do oitavo ao sexto séculos antes de Cristo (Am 5.10-24).
consiga a cura". Disse, então, o profeta: "Até quando, Senhor?" E
Por que voltar aos profetas? Não nos bastam as escrituras do
o Senhor respondeu: "Até que as cidades fiquem desertas ... até
Novo Testamento para nos orientar na fé e na prática? Podemos
que o solo se reduza a um ermo, a uma assolação". É impressio-
nos confinar ao Novo Testamento, se quisermos; tanto Jesus como
nante como Jesus e Paulo retomaram essas tremendas palavras de
Tiago nos oferecem excelentes textos (Tg 5.1-6, Me 10.23-25), mas
Isaías e as aplicaram a seu próprio tempo (Mt 13.14 e 15; At
as situações das igrejas identificadas com a cultura das nações oci-
28.25-27). é:
dentais e das classes sociais ricas correspondem mais diretamente
As escrituras dizem que o Senhor escuta o clamor dos pobres
à situação de Israel na época dos profetas do Antigo Testamento."
(Ez 2.23-25; SI 12.5; Tg 5.4). Não dizem que os poderosos e os
A Igreja do Novo Testamento era uma igreja dos pobres. Nin-
que se relacionam com o poder ouvem e se compadecem desse
guém seriamente discorda desta afirmação. Por exemplo, Paulo des-
clamor. Segundo a experiência dos profetas, as injustiças pratica-
creve claramente a igreja de Corinto como uma igreja formada prin-
cipalmente de pobres (1 Co 1.26).32 das contra os pobres não eram divulgadas, nem ouvidas nem sen-
tidas pelos outros. Mas Deus as conhecia e capacitava os profetas
Se as igrejas tivessem permanecido ao lado dos pobres e dos
para que as conhecessem também. Deus usava os profetas para de-
fracos, teríamos preservado a mesma visão correta da vida até nos-
nunciar as situações de injustiça. O fato final e tremendo a res-
sos dias por meio da mera aplicação direta do ensino ético do
peito da relevância dos pobres para as igrejas, é que, enquanto
Novo Testamento. Mas as igrejas do Ocidente, em geral, e as da
evocam o clamor profético da Igreja, a maioria da Igreja jamais
Europa oriental, antes do advento do socialismo, identificaram-se
vai escutar esse clamor.
130
131
NOTAS 1'1 Susukuu BuIletin, Relatório sobre a pobreza em massa na Libéria, ronlo
original: Relatório anual do Ministério do Planejamento e da Econornlu
b segunda sessão da 48.' legislatura da Libéria para o período de 1.·
1. Gustavo Gutierrez, Teologia de Ia liberación, p. 371, CEP, Lima, Peru, de janeiro a 31 de dezembro de 1976, Monrovia, Libéria, 22 de dezem-
1971.
bro de 1976. Examinar também: Censo de 1974 sobre população e ha-
2. André Biéler, "Gradual awareness of social, economic problems (1750- bitação, no Population Bul!etin, números 1 e 2, publicado pelo Ministério
1900)", in Julio de Santa Ana (ed.), Separation without hope, p. 3-29, do Planejamento e da Economia, em Monrovia, Libéria, em 26 de de-
especialmente p. 26-28 sobre "The majority of christians indifferent, zembro de 1975 e em 27 de setembro de 1976, respectivamente. Con-
conservative and often reactionary", Genebra, WCC, 1975. Cf. também sultar, ainda, Indicative manpower plan of Liberia for the Period 1972-
no mesmo volume os capítulos de [ohn Kent, "The church and the 1982.
trade union movement in Britain in the 19th century", e de Günter IlJ, CL a declaração sobre "Estruturas de cativeiro e linhas de libertação:
Brackelmann, "German protestantism and the social question in the 19th algumas reflexões teológicas", adotada pela consulta conjunta de CCPD
century".
c CICARWS, em Montreux, dezembro de 1974. "Somos escravos num
3. Bispos do centro-oeste do Brasil, Marginalização de um povo: um cla- mundo onde nem mesmo a Palavra de Deus pode ser facilmente ouvida
mor das igreias, p. 41 e 42, "Nossa igreja denuncia a marginalização e em qualquer lugar. A própria Igreja parece estar cativa ao se aliar ou
apoia a organização dos trabalhadores", Goiânia, maio de 1973.. se comprometer com os poderes da idade antiga. Aí a Palavra de Deus
4. Paulose Mar Paulose, Church's mission: 1. Struggle for iustice, 2. lnvol- também se torna cativa. A libertação tem que começar na casa de
vement in political struggles, p. 9, Bombaim, Build, 1978. Deus." The Ecumenical Review, volume XXVII, n. 1, janeiro de 1975,
p. 4~.
5. Gustavo Gutierrez, Teologia desde el reverso de Ia historia, p. 24, 28-32,
35 e especialmente 43: "A outra percepção (central na teologia da liber- I. Gustavo Gutierrez, op. cit., p. 300.
tação) é a perspectiva dos pobres: classes exploradas, raças marginali- 2. David M. Paton (ed.), Breaking barriers, Nairobi 1975, p. 122 e 123.
zadas e culturas desprezadas. Isso nos levou a considerar o tema da po- Relatório da sexta sessão da Quinta Assembléia do Conselho Mundial
breza e dos pobres na Bíblia. Nesse contexto os pobres são a chave para de Igrejas, sobre "Human development: Ambiguities of power, techno-
a compreensão do sentido da libertação e da revelação do Deus liber- logy and quality of Iife", parágrafos 9, 11 e 13, Grand Rapids, Michigan,
tador. " A teologia assim compreendida emana das classes populares Wm B. Eeerdmans, e Londres, SPCK, 1976.
e de seu mundo: a linha teológica verdadeira é verijicada no envolvi- 'I. M. M. Thomas, "Salvation and humanization", Salvation today: a con-
mento real e frutífero no processo da libertação", Lima, CEP, 1977. temporary experience, p. 59, Genebra, WCC, 1972.
6. Benoít Dumas, The two alienated faces o] the one Church, mencionado 4. Cf. sobre o assunto as declarações dos bispos católicos romanos da
por José Miguez-Bonino em "The struggle of the poor and the Church", América Latina feitas na segunda conferência geral latino-americana do
The Ecumenical Review, vol. XXVII, n. 1, 1975, p. 40 e 41. episcopado católico romano, realizada em Medellin, Colômbia, em 1968.
7. Roger Bastide, Airican civilizations in the New World, New York, Também, Speech [rom the dock, por Donald Lamont, Londres, Catholic
Harper & Row, 1971. Institute for International Relations.
5. David E. [enkins, The contradiction 01 christianity, p. 49, Londres,
8. Iack Woddis, lntroduction to Neo-Colonialism, New York, International SCM Press, 1976.
Publishers Co., 1968.
ó. At. 15.4-29. São Paulo, menciona em sua epístola aos Gálatas (2.6-10)
9. Iohn Mbiti, Ajrican religions and philosoph», p. 231, Londres, Heine- o que acontecera. Cf. Martin Dibelius, Studies in the Acts oi the
mann, 1967.
Apostles, capítulo 5, sobre o concílio apostólico, Londres, SCM Press,
10. Franz Fanon, The wretched of the earth, p. 42, New York, Grove Press, 1956.
1968.
27. Günter Bornkamm, EI nuevo testamento y Ia historia dei cristianismo
11. Cosmas Desmond, Christians or capitalists? Christianity and politics in primitivo, p. 102: "O concílio resolveu conceder liberdade irrestrita à
South Ajrica, Londres, Bowerdean Press, 1978. proclamaçãrf do evangelho da salvação entre os gentios". Salamanca,
12. lbid. Sígueme, 1975. O título da edição original em alemão é Das Neue
Testament Bibel, Stuttgart, Kreuz-Verlag, 1971.
13. Julio de Santa Ana (ed.), op. cito Examinar as contribuições de André
Biéler e Nikolai Zabolotski. 28. Existe extensa bibliografia sobre a teologia da libertação. Entre os teó-
logos que desenvolvem estudos nessa linha estão Gustavo Gutierrez,
14. Cf., entre outros, Walter J. HoIlenweger, The peruecostals, Londres, Hugo Assmann, Leonardo Boff, José Miguez Bonino, [on Sobrino, Juan
SCM Press, 1972.
Luís Segundo, Porfírio Miranda, Georges Casalis, M. M. Thomas, Ma-
15. Cf. a nota 5, acima. nas Buthelesi, [ames Cone.
16. Declaração da Conferência dos Teólogos do Terceiro Mundo, em Dar- 29. Ver especialmente os capítulos IX, XI, XII e XIII deste livro.
es-Salaam, de 5 a 12 de agosto de 1976. 30. Gustavo Gutierrez, Teologia de Ia liberación, capítulo XIII.
17. Gustavo Gutierrez, op. cit., p. 301 e 302. 31. David [enkins, op. cit., p. 53 e 54.
18. Robert McAfee Brown, Theology in a new key, p. 96-100 sobre "A her- 32. N. Berdyaev, Christianity and class war, p. 121 e 122. Londres, Sheed
meneutic engagement", Filadélfia, Westminster Press, 1978. & Ward, 1933.

132 133
33. Cf. Sergio Rostagua, Essays on the New Testament, p. 42-55. Genebra.
WSCF, 1976. IX. Teologia a partir dos oprimidos
34. Ver Pierre Burgelin, "La fin de l'êre constantiníenne", em Foi et vie,
ano 58, n. 1, p. 8-55. Cf. também Julio de Santa Ana (ed.), Separation
without hope? op. cito
35. Sobre Amós ver Georgio Zoum, Amos, il profeta delta giustizia, Turim,
Claudiana, 1971. Sobre Isaías, especialmente J. H. Box, The book 01
Isaiah, Londres, Isaac Pitmans & Sons, 1908. Também Elmer A. Leslie,
Isaiah, Nashvllle, Tenn., Abingdon Press, 1963. Sobre [eremias, cf.
Harold C. Case, The prophet [eremiah, Cincinnati, Ohio, Women's
Division of Christian Service, Methodist Church;: 1953. Sobre profetas
e profetismo ver Martin Buber, The prophetic [aith, New York, Mac-
millan, 1949.

A luta dos pobres e a reflexão teológica


Seria errado imaginar-se que os pobres não têm teologia, que
não refletem sobre a experiência da vida cristã, e que essa reflexão
11110 inclui protesto algum sobre a condição da pobreza. A maior
parte de sua reflexão teológica se dá na comunidade; não é indi-
vidualista. Dirige-se, também, ao particular e ao concreto. Dificil-
mente será sistematizada ou abstrata, Em geral, relaciona-se com
LI situação em que vivem e os problemas que enfrentam. Raramente
será ahistórica.'
A maior parte da teologia dos pobres não leva em considera-
ção os rigorosos padrões acadêmicos de boa parte da atual teologia.
Não tem essa pretensão," A teologia oriunda das comunidades dos
pobres tem outro ponto de partida, diferente agenda e diferente
razão de ser. É desconcertante para alguns teólogos, mas fonte de
esperança e de renovação para muitos outros."
A igreja primitiva era pobre. O caráter imediato, concreto
c histórico de muitas de suas reflexões relaciona-se de modo par-
ticular com a atual igreja dos pobres. A Bíblia testemunha de modo
especial a experiência da igreja primitiva com Cristo. A igreja dos
pobres lê esses relatos a partir da perspectiva de sua pobreza,
opressão e da Luta pela libertação, e encontra aí as suas próprias
preocupações expressas de maneira espiritual.
A transformação do povo bíblico "do caminho", que confessava
o senhorio de Iesus, numa sociedade hierarquicamente controlada
c doutrinariamente definida já se prenunciava no Novo Testa-
mento. O processo continuou a se desenvolver na igreja pós-apostó-
lica, levando essa igreja ainda pobre a uma estrutura mais vertical.
Em alguns casos, as estruturas foram criadas para enfrentar a situa-
ção dos pobres. Mas em outros, em estruturas ofuscaram essa preo-
cupação pelos pobres e alienaram a Igreja de sua missão histórica.
Não há dúvida de que num mundo hostil fazia-se necessária certa

134 135
organização. Contudo, sempre que a Igreja por meio de seus repre- "Ouais ricos serão salvos?" E afirmava que as riquezas não deve
sentantes, grupos e. instituições, se esquece dos pobres, surgem riam ser consideradas obstáculos à salvação" -=- confortando assim
vozes proféticas para chamá-lade volta à fidelidade original. grande número de cristãos ricos pertencentes à sua congregação.
Já era assim nos tempos do Novo Testamento. Tiago, no do- Em outros escritos, no entanto, dizia que a criação inteira per-
cumento conhecido como sua "carta", afirma que todos os que tence a Deus; os interesses individuais deveriam se subordinar ao
rejeitam os pobres ou que fazem discriminações contra eles na bem comum, e todas as pessoas ter acesso a meios suficientes de
casa de Deus, blasfemam contra o nome de Jesus Cristo (2.7). O sobrevivência. A justiça haveria de prevalecer.
autor do livro do Apocalipse louva a igreja de Smirna, cuja riqueza Em diferentes momentos históricos os cristãos têm feito opção
espiritual contrasta com a pobreza material; os que se opunham clara pelos pobres. A existência de fundos comuns na Igreja pri-
a essa igreja e a atacavam não se davam conta de que grande parte mitiva indicava que ela era consciente de ser uma igreja dos pobres.
da indigência material tinha a ver com sua riqueza espiritual (Ap leão Crisóstomo foi exilado, e sua morte relacionava-se com o de-
2.9-11). Em nossa época, quando a comunidade negra dos Estados sufio que fizera ao poder imperial e à preocupação com os pobres
Unidos era discriminada, e se lhe negava certos direitos (da parte : marginalizados. São também importantes certos movimentos lei-
da população branca), Martin Luther King envolveu-se na luta em gos de protesto contra a pobreza ao longo da história da Igreja.
favor da justiça racial. Sua carta enviada da prisão de Birmingham
constitui-se numa das principais vozes proféticas a partir dos opri-
midos da história em nosso século."
o mau uso da teologia
Desde o começo havia escravos nas igrejas, e proprietários de A ambivalência de boa parte do material teológico sobre os
escravos. Havia pobres, mas também ricos. A partir da época de pobres indica uma espécie de conquista: a reflexão do poder do
Constantino, a Igreja alcançava todos os níveis sociais do império, Evangelho não obstante a oposição estrutural. Essa oposição era
e por meio de labor missionário extendia-se mesmo para além das visível na íntima relação entre Igreja e sociedade. As Igrejas ten-
fronteiras militares dos domínios do imperador. Os que pertenciam dem a adotar modelos organizacionais copiados da cultura, no
às classes mais baixas chamavam-se de cristãos por causa da con- processo de chegar a um programa fixo." A sociedade sempre es-
, I
versão de seus superiores. Os líderes cristãos poderiam ser depos- perou que a Igreja defendesse as estruturas sociais dominantes, não
to e exilados se se mostrassem demasiadamente intransigentes e lhe permitindo mais do que hesitantes e fracos protestos contra a
divisivos. Na Idade Média, a Igreja ocidental tornou-se um estado, injustiça social. Com isso ela quase sempre teve medo de parecer
chegando mesmo a rivalizar com outros poderes seculares. No estar do lado dos pobres num desafio às classes mais altas.
oriente surgiram também estruturas hierárquicas. A Igreja fez de Em alguns casos combinou-se aberta opressão teológica com
tudo para ser a igreja de todos; aparecia a cristandade. E os pobres, opressão sócio-política e econômica. A teologia, dessa maneira, aju-
onde ficaram? 5 dou a deixar os pobres em sua triste condição, posto que os escritos
São poucos os temas da história eclesiástica mais ambivalen- teológicos produzidos nos centros de poder interiorizaram em si as
tes do que a postura da Igreja para com os pobres. Os eremitas condições sociais do contexto. Ao procurar responder à comuni-
refugiaram-se nos desertos em protesto contra uma Igreja rica e dade melhor conhecida, o teólogo justificava por meio de argumen-
moralmente permissiva. Os votos monásticos de pobreza eram to- tos racionais a-edominação que essa mesma comunidade exercia
mados pelos que achavam os "conselhos evangélicos" inaplicáveis sobre outras. Tais teólogos tornaram-se agentes da opressão, na teo-
às massas de cristãos comuns. Por outro lado, espiritualizava-se logia, na Igreja e na sociedade. Não é difícil achar exemplos: cum-
a noção de pobreza de tal maneira que os mais ricos podiam ainda plicidade com a prática do apartheid na África do Sul; justificação
ser considerados "pobres no espírito". Na Idade Média predomi- da noção colonialista das imposições dos brancos na Ásia; aceita-
navam conceitos favorecendo a existência de ricos e pobres na ção da sujeição dos povos indígenas ou dos negros nas Américas.
economia salvífica de Deus, ocupando os pobres o papel de objetos Esses exemplos gritantes, entretanto, podem parecer maléficos ape-
da caridade dos ricos a fim de lhes facilitar o acesso à salvação I1US à curto prazo. As teologias que legitimam a opressão flagrante,
eterna." tornam-se, para a maioria dos cristãos conscientes, caricaturas do
Essa ambivalência relacionada com os pobres existia.frequente- Evangelho de Jesus Cristo na medida em que as implicações sociais
mente, numa mesma pessoa. Clemente de Alexandria argumentava: de suas premissas se tornam evidentes.

136 137
As teologias, por outro lado, que apenas ignoram a injustiça A contextualização da reflexão teológica significa a opção por
social talvez não demonstrem imediatamente a parcialidade de sua certo contexto particular, em baixo, na base da pirâmide social. A
fidelidade ao testemunho bíblico. Ao justificar situações de opres- teologia é feita, então, da perspectiva da luta pela libertação levada
são representam um papel mais sutil e difícil de ser desmascarado. 1\ efeito pelos oprimidos da história.l1 A opção pelos pobres signi-
As pessoas tornadas pobres pelo centro de poder a que pertence fica oposição à opressão e não conformismo com os poderosos que
o teólogo podem lhe ser desconhecidas pessoalmente. Tais pobres oprimem diversos setores da sociedade. A opção pelos pobres quer
talvez não façam parte de sua universidade ou congregação. A face tnrnbém a libertação do opressor de sua condição alienada na espe-
desses pobres está ausente, distante, e sua voz não se faz ouvir nos rança de que se volte de Mamom para Deus.
lugares onde o teólogo dialoga e profere o seu discurso. De facto, Por meio de envolvimento com pessoas marginalizadas, tem
o teólogo tornou-se vítima da perspectiva sócio-econômica da classe havido diversas conversões ao ponto de vista dos oprimidos de ma-
dominante. nciras as mais variadas: missionários em colônias desafiam as es-
Nesse processo, os mecanismos sócio-econômicos e políticos truturas em operação; homens de negócio concluem que a injus-
passam a ser aceitos sem qualquer séria análise da maneira como tiça da situação deve levá-los a abandonar os lucros. Na maioria
levam ao empobrecimento importantes setores da população nacio- dos casos, porém, a tendência é de agir para os pobres e não com
nal e mundial," A interpretação dos símbolos cristãos segue sendo eles.
feita com o pressuposto implícito ou expresso de que as relações
A teologia precisa considerara Bíblia e a tradição da Igreja
sociais existentes continuarão indefinidamente quando não são con-
sideradas resultado da lei natural ou da vontade de Deus. A voca- nas suas expressões de solidariedade para com os pobres além da
ção à justiça maior, quase sempre presente na expressão teológica, luta dos próprios pobres - suas frustrações e êxitos na busca de
fica comprometida com o ponto de partida dessa teologia. E, assim, libertação. Deve também tomar cônsciência da apatia da Igreja e
essa teologia torna-se escrava das poderosas forças que militam con- da sua traição aos pobres. A autoridade da teologia, no entanto,
tra os pobres. Submete-se ao projeto histórico dos setores domi- deriva de sua apreciação fiel das situações históricas nas quais,
nantes da sociedade e se deshistoriciza. Pode-se, pois, falar hoje diante de Deus, se dá a libertação e nas quais a fala teológica pode
em dia no cativeiro burguês da teologia." Essa teologia não surge ser, em si, libertadora." Não se trata da única tarefa da teologia,
da luta dos pobres por ter participado nessa luta com eles. Ela mas da sua principal tarefa. É desse ponto nevrálgico central que
vem da parte superior da pirâmide social, não das bases. depende sua autoridade.

A autoridade da teologia Temas decorrentes

Qualquer pensamento teológico relaciona-se com o contexto. A I. O PONTO DE VISTA TRINITÁRIO


suposta neutralidade contextual confirma a existência de relações
sócio-econômicas e políticas, e a identifica, inadvertidamente, com O conceito de revelação nas teologias que legitimam a opres-
os grupos dominantes. Legitima situações de opressão. As assim são é, em geral, estático. Se algum lugar fôr dado à experiência de
chamadas "teologias neutras" só diferem em grau das teologias de Cristo na comunidade da fé, será sempre secundário em relação à
ordem ou proponentes do status quo ao sancionar estruturas que "plena" revelação bíblica. Este conceito estático da revelação traz
sérias consequências para as afirmações teológicas básicas. Deve-se
produzem e perpetuam a pobreza.
dar mais atenção à ação do Espírito Santo. A terceira pessoa da
Qualquer teologia "neutra" não pode se dirigir aos pobres em Trindade deveria ser vista como fonte de nova compreensão da
sua condição. Não dá testemunho do Deus da história que age entre revelação. O que se perde é o conceito dinâmico do Deus que se
nós para libertar os oprimidos e anunciar boas novas aos pobres. revela a seu povo de maneira sempre nova por meio do poder do
Não é fiel a este aspecto crucial do testemunho bíblico. Qualquer Espírito Santo 00 15.26-16.4). Ao se conceitualizar a revelação em
teologia "neutra" declara que Deus é conivente com a opressão Cristo considerando-a fechada, as teologias que legitimam a opres-
e o sofrimento, não se colocando ao lado dos pobres. Esse tipo de são tendem a criar. sistemas teológicos fechados, incapazes de per-
teologia não tem autoridade. ceber novas manifestações do Espírito Santo. Estabelecem, assim,

138 139
a falsa segurança que impede o discípulo cristão de viver naquela
3. TEOLOGIA DOS RICOS - TEOLOGIA DOS POBRES
expectativa constante diante do Deus que faz novas todas as coisas.
A aliança das organizações eclesiásticas e das lideranças cris-
2. }ESUS, EOS FARISEUS: TEOLOGIAS CONFLITANTES tãs com os poderosos ao longo da história concorreu para desen-
volver certo tipo de compreensão teológica aceitável a estes áo
Em Mc 3.1-6 Jesus discute com os fariseus a respeito da cura mesmo tempo em que se distanciava enormemente dos fracos e hu-
no Sábado. Está na Sinagoga um homem com a mão aleijada e os mildes. A teologia estabelecida tem sido usada e manipulada para
fariseus ficam atentos para ver se Jesus vai curá-lo em dia de Sá- comunicar idéias e expectativas dos setores dominantes da socie-
bado, para assim acusá-Io de transgressão da lei. Percebendo-se dade. Os críticos deste uso da teologia estabelecida dizem, de um
observado, Jesus cura o homem. Não havia urgência para fazê-Io no lado, que essa teologia ajudou a legitimar as estruturas injustas e
Sábado, mas Jesus age de propósito. Ao assim proceder, mostra que os mecanismos de opressão, acalmando o povo e levando-o a aceitar
é diferente dos .fariseus. A diferença é tanto doutrinária como na com resignação o status quo social. Por outro lado, mostram que
maneira de ser. tal teologia não ajuda nem ajudará a resolver os problemas dos
A posição de Jesus neste conflito com os fariseus resume-se pobres e oprimidos: quando muito, ajudará a elaborar programas
bem em palavras anteriormente pronunciadas por ele: "O Sábado . para os pobres, mas nunca estará junto com eles em sua luta e nas
foi feito para servir o. homem; e não o homem para servir o Sá- suas expectativas. Essa teologia em lugar de motivar os pobres para
naóo'; (Me 2.27). "Sábado", aqui, significa "Torah", a lei dada enfrentar a injustiça, destina-se, antes, a desarmá-los." As teologias
por Deus, que é a demonstração visível da revelação de Deus ao que legitimam a opressão têm dado ênfase no literalismo (funda-
povo. A estrita obediência à lei era o que tornava o judeu membro mentalismo), espiritualização inadequada, fuga do mundo, e assim
do povo escolhido. Os fariseus eram, sem dúvida alguma, os mais por diante." -
fiéis neste aspecto. Trata-se, pois, de uma teologia que não serve. Os pobres não
Mas Jesus diz: a lei foi feita para o homem e não o homem são particularmente dados à espiritualização; como já vimos, a reli-
para a lei. Em outras palavras: a lei é meio e não fim em si mesma. giosidade popular expressa-se em termos concretos, nos domínios
O fim é obediência a Deus, diferente de obediência à lei. O Deus de do senso comum. 16 Embora manifeste a alienação, permanece na
Israel não se delicia na obediência legalista: quer que sua lei seja esfera da história. A teologia dos pobres ajuda-os efetivamente a
instrumento por meio do qual as pessoas se libertem para fruir a tentar superar a injustiça que sofrem, a opressão que cria tal injus-
aliança com ele. A obediência a Deus é, segundo Jesus, libertação; tiça. Emana dos próprios fatos de sua história e situação. Como se
a obediência à lei, escravidão." Vê-se aí a diferença entre a teologia lê neste documento sobre missão urbana e rural na Ásia. "O pen-
de Jesus e a dos fariseus. samento teológico é verdadeiramente histórico ao tratar da transfor-
mação histórica de estruturas de desumanização e injustiça. O
Os fariseus entendiam que a lei era a verdade revelada por
movimento histórico na direção de uma sociedade humana e justa
Deus de uma vez para sempre. Dela deduziam-se prescrições para a
desenvolve-se por meio da transformação estrutural da sociedade
conduta religiosa e moral. Tal código de conduta, com todas as
mais do que p•.. or qualquer outro meio. A transformação se dá em
suas possibilidades casuísticas, valia para todas as situações e tem-
todos os níveis - econômico, político, social e cultural. As estru-
pos. Qualquer desvio dessas prescrições era tido como violação turas e valores tradicionais culturais bem como as mais recentes
da lei. estruturas econômicas e políticas desumanizadoras devem ser
Jesus não pensa dessa maneira. Não parte de determinada transformadas a fim de que as pessoas venham a ser liberadas
norma mas da situação humana real. Estava ali um homem que para o Reino futuro". 3.7
precisava de ajuda e ele o ajuda não obstante o código geralmente Essa maneira de se fazer teologia só poderá se desenvolver
aceito de que não se devia fazer qualquer coisa no Sábado. Jesus pelos próprios pobres e oprimidos. :É o que, na verdade, está acon-
não prega as boas novas da cura ao homem aleijado. Ele o cura. tecendo nos últimos anos: surge nova teologia tanto na Ásia, África
Não entra numa discussão teológica com os fariseus: age. E o que e América Latina como em países industrializados, a partir dos
faz é o próprio evangelho libertador para o homem aleijado; é sua pobres e oprimidos. Para que isso aconteça é preciso que os pobres
resposta teológica aos fariseus. se apropriem da Igreja. Em situações de opressão e injustiça as

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igrejas oferecem aos pobres um lugar onde possam ser realmente APeNDICE
humanos. Assim, os pobres começam a renovar a Igreja que, em Apresentamos neste apêndice dois exemplos desta teologia "dos
muitas situações, começa a ser "a igreja dos pobres". 18 É desses miseráveis da história". O primeiro foi escrito por Gustavo Gutier-
lugares que surgem novos desenvolvimentos teológicos com nova rez 20 e o segundo é o relatório da Conferência Teológica Asiática
percepção, que lhes revela fonte poderosa de motivação para a realizada em Sri Lanca, de 7 a 20 de janeiro de 1979.
ação e para o sustento de suas esperanças.
OS POBRES NA IGREJA
Teologias que legitimam a opressão
por Gustavo Gutierrez
As teologias que legitimam situações de opressão são, basica- Talvez eu devesse deixar claro, de início, que a Igreja não se
mente, a-históricas. Em parte, porque dão prioridade à sistemati- envolve com a questão da pobreza por estar presente num país po-
zação e à conceitualização dos símbolos cristãos sem referências bre. Envolve-se em primeiro lugar e fundamentalmente pelo Deus
constantes à vida histórica da comunidade cristã. Além disso, como da Bíblia a quem ela quer e deve ser fiel. O fato de se encontrar
o ser humano deve ser visto enquanto pessoa integral que vive na num país pobre pode, certamente, dar à Igreja toda a oportunidade
sociedade, cujo corpo e relações sociais são dadas por Deus da de melhor entender sua responsabilidade de ser a comunidade que
mesma maneira como a mente e o espírito, assim também as pessoas testemunha o Deus que se fez pobre em Jesus Cristo. Esse fato nos
vivem na história. As teologias que legitimam a opressão partem leva a uma outra questão. A expressão "países pobres" é, às vezes,
de uma visão estática da história, confirmando as relações sócio- ambígua. Estritamente falando, são pobres os países onde a grande
econômica e políticas existentes, ao mesmo tempo em que aceitam maioria da população vive na pobreza causada pela ordem social
de maneira implícita (e até mesmo explícita) o contexto histórico injusta. Assim, a questão dos pobres na Igreja não envolve apenas
dado. Essas teologias não consideram o movimento e a mudança, o Deus no qual acreditamos mas também o conflito social no qual
essências da realidade histórica, nem a caminhada histórica da participamos.
comunidade na direção de uma sociedade mais justa. Tendo esses fatos em mente, eu gostaria de sugerir alguns dos
Quando não se leva a sério, na tarefa teológica, o contexto pensamentos sobre o problema surgido em nossa experiência e
social, a realidade social acaba sendo negada na reflexão teológica. nas discussões durante os trabalhos diários. Concluiremos que os
A pobreza passa a ser vista como condição lamentável ou até mes- pobres, hoje em dia, em vez de serem vistos meramente como "um
mo como virtude espiritual e não como resultado de determinada problema para a Igreja", levantam a questão a respeito do próprio
dinâmica histórica do mundo guiado por mecanismos dominantes significado da "Igreja".
sócio-econômicos e políticos. O protesto e as práticas cristãs que
desafiam esses mecanismos não parecem merecer qualquer impor- Os miseráveis da terra
tância. Termos como "mundo decaído", "ordem temporal" ou "rei-
no secularizado", entre outros, não apagam o sofrimento diário dos Boa parte da história da Igreja (ou da cristandade como é,
pobres resultante de exploração concreta e constante. também, chamada) tem sido usada para demonstrar como a Igreja
A falta de análise social tem cegado muitas teologias tradicio- se vê a si mesma. A partir de seu interior, por assim dizer. A sal-
nais levando-as a não ver os próprios pressupostos sociais ideoló- vação sobrenatural aparece como valor absoluto da qual ela é a
gicos. Acham que são "neutras" e "objetivas", sem reconhecer sua suprema guardiã. O cristianismo ocidental foi construído pastoral
entrega inconsciente às normas, atitudes e formas de comporta- e teologicamente em relação com o fiel - o cristão. Para se enten-
mento de suas sociedades. Suas "teologias de ordem" refletem, der a si mesma a Igreja volta-se para si mesma. É o que se chama
muitas vezes, as estruturas autoritárias de sociedades feudais e de de eclesiocentrismo.
outros tipos de organização social forte, e servem para legitimar As razões históricas desta atitude são óbvias e facilmente
consciente ou inconscientemente sistemas vigentes políticos e sócio- compreensíveis. Quando novas terras foram descobertas, a tarefa de
econômicos criados pelas classes dominantes. Ao se considerarem incorporá-Ias à Igreja era vista como a própria missão de salvação.
independentes de pontos de vista ideológicos específicos, sucum- A Igreja ligou-se historicamente com a cultura ocidental, com a
bem à ideologia dos que estão no poder. is raça branca e com as classes dominantes da sociedade européia.

142 143
redores do Vaticano como "Esquema 14", bateu nas portas da
Sua expansão pelo mundo afora deu-se, naturalmente, nesses tem-
Igreja mas apenas se lhe abriu uma fresta. Entretanto, muitos cris-
pos. Os missionários seguiram os caminhos dos colonizadores. O
tãos estão se tornando cada vez mais conscientes de que se a Igreja
eclesiocentrismo adquiriu sabor de ocidentalismo.
deseja ser fiel ao Deus de Jesus Cristo, ela deve se examinar a partir
Já se tornou conhecido cliché dizer que o Vaticano 11 acabou
das bases, da posição dos pobres deste mundo, das classes explo-
com a mentalidade da "cristandade". Chegou a hora de se dialogar
radas, das raças desprezadas e das culturas marginalizadas. Ela
com o mundo e de serví-lo. A Igreja está sendo chamada a se voltar
precisa descer aos infernos do mundo e conviver com a pobreza,
para fora de si, para o mundo moderno. Este mundo é hostil à
Igreja, existiu muito tempo antes dela e se orgulha de seus próprios
a injustiça, as lutas e as esperanças dos despojados porque deles é
o Reino dos Céus.
valores. O Papa João XXIII deu ao Concílio a tarefa de abrir a
Igreja para o mundo, buscando para ela linguagem teológica ade- Basicamente significa viver como Igreja a mesma vida que
quada, e dando testemunho de uma Igreja para os pobres. Após muitos de seus membros já vivem como seres humanos. Renascer
superar as dificuldades iniciais, a Igreja conseguiu cumprir a pri- como Igreja significa morrer para a antiga história de opressão e
meira dessas exigências. cumplicidade. Seu poder para viver de novo depende da coragem
A constituição A Igreja no mundo mostrou o novo horizonte que venha a ter para morrer. Trata-se de sua paixão. Essas coisas
descortinado pelo Vaticano 11 para a ação da Igreja. Ofereceu uma parecem sonho para muita gente mas na verdade não é mais do
visão otimista do mundo e de seu progresso, da ciência moderna que o verdadeiro desafio que enfrenta a comunidade cristã hoje.
e da tecnologia, considerando .o indivíduo o sujeito da história e da Vai chegar o momento em que qualquer outro tipo de fala da
liberdade, com algumas reservas sobre os riscos que tais valores Igreja soará vazio e sem ' sentido.
envolvem. Afirmou, em particular, que tais valotes não podem ser Há muitas pessoas trabalhando agora nessas linhas, em modos
alcançados fora do contexto da mensagem cristã. A constituição vários e talvez até mesmo modestos (dimensões políticas do Evan-
apelou para a colaboração entre crentes e não crentes "na justa gelho, envolvimento na luta dos pobres, defesa dos direitos huma-
construção deste mundo onde ambos vivem juntos". No mundo fora nos, africanização da fé cristã, recusa do passado colonialista, e
da Igreja, que não precisa ser necessariamente hostil à Igreja, o assim por diante). O alvo é ser fiel ao Evangelho e à constante
Serihor se faz presente e ativo. Ele chama a comunidade cristã a renovação do chamado de Deus. Aos poucos começa-se a entender
demonstrar maior lealdade ao Evangelho. Nesse mundo a Igreja que, em última análise, não se trata de tornar a Igreja pobre, mas
deve realizar sua missão como sinal, como sacramento universal de perceber que os pobres deste mundo são o povo de Deus, em
da salvação. testemunho perturbador do Deus que faz a libertação.
As grandes reivindicações do mundo moderno são reconheci-
das, muito embora com a devida moderação. Por outro lado, os Subversão da história
conflitos sociais são mencionados apenas em termos gerais (exis-
Encontramos o Pai de Jesus Cristo na história humana. Em
tência da pobreza e da injustiça no mundo) e se fala da necessidade
Jesus Cristo proclamamos o amor do Pai por todos os seres hu-
de desenvolvimento dos países pobres. Até certo ponto manteve-se
manos. Como já vimos, esta é uma história de conflito embora não
a raiz individualista da sociedade burguesa.
a possamos deixar assim. Devemos também insistir que a história
Não existe crítica séria dos efeitos da dominação do capitalismo
(na qual Deus se revela e onde o proclamamos) precisa ser relida
monopolista sobre as classes 'obreiras, particularmente nos países
a partir dos pobres. A história humana foi escrita, nas palavras
pobres. Nem são mencionadas com clareza as novas formas de
de um teólogo brasileiro, "com a mão branca" das classes domi-
opressão e de exploração perpetradas em nome desses valores do
nantes. O ponto de vista dos miseráveis da história é coisa bem
mundo moderno. O Concílio preocupou-se com outra coisa: chega-
diferente. A história precisa ser relida a partir de suas lutas, resis-
va o tempo para o diálogo entre a Igreja' e a sociedade moderna.
tências e esperanças.
Mas o Vaticano 11 não percebeu que a sociedade não era homogê-
nea e que se dividia em classes sociais conflitantes. O mundo para Grandes esforços têm sido feitos para apagar a memória dos
o qual ele se "abriu" foi a sociedade burguesa. oprimidos. Retira-se-lhes enorme fonte de energia, vontade histó-
A terceira tarefa dada por João XXIII ao Concílio quase não rica e rebelião. Hoje, nas nações humilhadas procuram entender
apareceu nos textos finais. O tema da pobreza, conhecido nos cor- seu passado a fim de construir o presente em bases sólidas. A his-

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tória do cristianismo também tem sido escrita por mãos brancas, irmãos e irmãs aceitamos esse dom não apenas em palavras mas
ocidentais e burguesas. Relembremos "Os Cristos vergastados das em atos. Vive-se o amor do Pai e dá-se testemunho a respeito. A
Indias" como Bartolomé de Ias Casas costumava chamar os índios proclamação do Deus que ama todos os seres humanos também se
do continente americano, e com eles todos os outros povos pobres torna real na história, torna-se história. A proclamação do amor
que têm sido vítimas dos senhores deste mundo. Sua memória ainda libertador numa sociedade dominada pela injustiça e pela explora-
vive nas expressões culturais, na religião popular e na resistência ção de uma classe social por outra, transforma este "tornar-se his-
às imposições da burocracia da Igreja. A memória de Cristo sub- tória" num apelo e num conflito.
siste em cada faminto, sedento, oprimido e humilhado, nas raças Numa sociedade onde as classes sociais estão em luta, somos
desprezadas e nas classes exploradas (Mt 25), essa memória de verdadeiros a Deus quando ficamos do lado dos pobres, das classes
Cristo que "nos libertou para que sejamos de fato livres" (Gl 5.1). trabalhadoras, das raças desprezadas e das culturas marginalizadas.
Essa frase, "re-leitura da história", não passaria de mero exer- É desta posição que se pode viver e proclamar o evangelho. A pro-
cício intelectual ou de sonoridade vazia se não significasse também clamação do Evangelho aos oprimidos deste mundo mostra-lhes
"refazer a história". Não é possível reler-se a história sem envol- que a situação em que vivem é contra a vontade de Deus que sem-
ver-se com suas glórias e fracassos na luta pela liberdade. Refazer pre se manifesta por meio de eventos libertadores. O Evangelho
a história significa subvertê-Ia, isto é, "torná-Ia de cabeça para ajuda-lhes, então, a perceber a injustiça da situação em que vivem.
baixo e vendo-a de baixo e não de cima. A ordem estabelecida nos A leitura do Evangelho do ponto de vista dos pobres e explo-
ensina a pensar que a subversão é má, porque a ameaça. Mas, ao rados e sua militãncia em favor da liberdade exigem uma Igreja
contrário disso, é bem pior ser e continuar a ser um "super-versivo", do povo: surgida do povo e que arranca das mãos dos grandes deste
apoiando os poderes dominantes e vendo a história a partir dos inte- mundo impedindo-a de ser usada para justificar situações contrá-
resses dos grandes deste mundo. rias à vontade do Deus libertador.
Quando os pobres conseguirem expropriar o Evangelho das
Esta história subversiva envolve nova experiência de fé, nova
mãos dos que hoje o consideram sua propriedade particular, tere-
espiritualidade e nova proclamação do Evangelho. A compreensão
mos o que começa a ser chamado de "apreciação social do Evan-
da fé nos termos da práxis histórica da libertação leva-nos à pro-
gelho", em círculos populares na América Latina. As Escrituras
clamação do Evangelho no próprio centro da práxis. Esta procla-
nos dizem que o sinal da chegada do Reino é a pregação do Evan-
mação é uma sentinela, um envolvimento ativo de solidariedade com
gelho aos pobres. Os pobres é que esperam e crêem em Cristo e,
os interesses e lutas das classes obreiras, a palavra que se efetiva
estritamente falando, são os cristãos. Poderíamos dizer, por outro
na ação, define atitudes e passa a ser celebrada com ação de graças.
lado, que os cristãos de hoje são os pobres.
O evangelho dos pobres Talvez devêssemos avançar e dizer que a pregação do Evan-
gelho só virá a ser verdadeiramente libertadora quando os pobres
O Evangelho proclama a libertação em Jesus Cristo, capaz forem os pregadores. A proclamação do Evangelho, nesse caso,
de destruir toda injustiça e exploração e de produzir amizade e seria uma pedra de tropeço, um evangelho "inaceitável à socieda-
amor. Não me refiro a certo tipo de libertação que possa ser inter- de", expresso no vernáculo. E assim o Senhor falaria a todos nós.
pretada "espiritualmente", tão querida de certos círculos cristãos. E ao ouvi-lo haveríarnos de reconhecê-Io como nosso salvador. Essa
A fome e a injustiça não são problemas meramente econômicos e voz fala in ecclesia num tom diferente.
sociais, mas humanos. Desafiam as próprias bases em que vivemos Assim, os pobres deste mundo engendram seu próprio "credo
nossa fé cristã. Berdyaev reinterpretou muito bem a maneira como histórico", mostrando a eles mesmos e aos outros porque crêem no
se fala a respeito disso nesses círculos: "Se eu estou com fome, o Senhor que liberta o povo, crendo nele em comunhão com o pas-
problema é material; mas se os outros estão com fome, o problema sado histórico, nas condições sociais em que vivem hoje. Inúmeras
é espiritual". tentativas estão sendo feitas em muitos lugares nesta direção. Não é
O amor e o pecado são realidades históricas presentes em si- verdade pensar que a América Latina esteja totalmente submergi da
tuações reais. É por isso que a Bíblia fala de libertação e de justiça sob repressão e fascismo. Além disso, o sofrimento não é novidade
em oposição à escravidão e humilhação dos pobres na história. O para o povo deste subcontinente; sempre o acompanhou ao lado,
dom filial realiza-se na história. Quando aceitamos outros como porém, da esperança e da vontade à rebeldia.

146 147
Esse povo tem estado exilado em sua própria terra há muito a 20 de janeiro de 1979, motivados por nossa solidariedade com
tempo, mas tem também feito o seu próprio êxodo para retomá-Ia. nossos povos na luta em favor da plena humanidade e em virtude
O poder de resistência e de criatividade dos trabalhadores é incom- de nossa fé comum em Jesus Cristo. Trazendo conosco a experiên-
preensível aos defensores da ordem estabelecida, e desconcertante cia da luta em nossos próprios países, viemos participar na vida e
aos que recentemente se consideram seus porta-vozes. c nas situações das massas sedentas por justiça em Sri Lanca.
Há alguns anos a comunicação entre diferentes comunidades Durante estes dias tornamo-nos mais conscientes do que temos
envolvidas na luta pela libertação na América Latina era ativa e em comum como das divergências em nossa formação, aprofundan-
rica. Hoje em dia as condições eclesiásticas e políticas se transfor- do nossa compreensão tanto das riquezas como das angústias de
maram e muitas dessas linhas foram quebradas. Mas surgem novos nossos povos na Ásia.
esforços por toda parte: por exemplo, nos grupos que agora se for- Reconhecemos, assim, a importante tarefa que nos espera. Nos-
mam no Brasil. O aumento da fome e da exploração (especialmente sas reflexões, já começadas em nossas realidades locais, ajudaram
nos países mais pobres), das prisões (em todo o subcontinente, a enriquecer o processo de interação e de participação entre nós
entre os bispos reunidos em Riobamba), da tortura e do assassinato que nos comprometemos com a luta dos pobres na Ásia. Ao mesmo
(de camponeses de Honduras, de sacerdotes argentinos), são preços tempo, entendemos que estas reflexões são apenas parte do começo
que estão sendo pagos pela rebelião contra a opressão secular e o de busca coletiva e constante de uma teologia relevante para a
começo da compreensão do que significa ser Igreja e cristão hoje Ásia.
em dia.
Mas essas vidas e esse sangue derramado desafiam a Igreja 11. O contexto asiático
inteira e não apenas os cristãos na América Latina, exigindo mais
do que simples análise. O responso a esse desafio decidirá até que A Ásia sofre sob o tacão da pobreza forçada. Sua vida tem sido
ponto a Igreja é fiel à sua própria tradição autêntica e ao Senhor truncada por séculos de colonialismo e mais recentemente de néo-
que "estabelece justiça e retidão". colonialismo. Suas culturas são marginalizadas e suas relações so-
Como cantaremos ao Senhor em terra estranha, perguntava o ciais deformadas. As cidades com suas favelas miseráveis, tomadas
salmista no exílio. Não pode haver vida cristã sem "canções" a pelos camponeses pobres vindos do interior, constituem o cenário
Deus que celebram seu amor libertador. Mas como cantaremos da riqueza irresponsável ao lado da pobreza abjeta, comum na
a Deus num mundo cheio de opressão e repressão? Trata-se de maioria dos países da Ásia. Essa desigualdade extrema resulta das
questão dolorosa para os cristãos, envolvendo a totalidade de sua contradições entre as classes, e da dominação contínua da Ásia por
fé, exigindo uma espécie de nova aliança "conosco, que estamos forças internas e externas. As conseqüências desse tipo de domi-
hoje aqui, todos vivos" (Dt 5.3), e quebrando a aliança histórica nação capitalista é que todas as coisas, o tempo e a própria vida,
anteriormente estabelecida com a cultura, a raça e a classe domi- tornaram-se mercadorias comerciáveis. Pequena minoria de proprie-
nante. tários dita a qualidade de vida para os produtores (obreiros, cam-
Exige-se uma aliança com os pobres deste mundo, um novo poneses e outros) determinando o preço de sua energia, técnica,
tipo 'de universalidade, coisa que cria certo sentimento de pânico inteligência, bem como os benefícios materiais de que necessitam
entre alguns e perda da antiga segurança entre outros. Mas, por para o sustento. O que se produz, como e quando, e para quem,
outro lado faz nascer tremendo sentimento de esperança para mui- depende das decisões das empresas multinacionais em conluio com
tos. José Maria Arguedas dizia que é uma espécie de jornada em as elites nacionais e com o apoio aberto ou não das forças políticas
que "pouco conhecemos mas muito esperamos". e militares.
A luta contra tais forças está sendo realizada corajosamente
CONFER~NCIA TEOLOGICA DA ÁSIA pelos advogados do socialismo. Esta ordem sócio-política corres-
Sri Lanca, 7 a 20 de janeiro de 1979 ponde às aspirações das massas asiáticas tanto nas zonas rurais
como urbanas ao lhes prometer o direito de dirigirem a própria
I. Preâmbulo
vida e de determinar as condições sociais e econômicas para o bem
Nós, cristãos da Ásia, juntamente com delegados fraternais de estar de todos. Boa parte da Ásia já conseguiu, depois de muita luta,
outros continentes, reunimo-nos em Wennappuwa, Sri Lanca, de 7 estabelecer esta ordem social. Entretanto, deve-se acrescentar que

148 149
a transformação socialista aí ocorrida não foi completa e que esses linhas da economia de exportação que não corresponde às neces-
países precisam continuar a se libertar de muitas outras deforma- sidades da população local. Além disso, depende grande mente de
ções por meio da prática de constante auto-crítica. capital e tecnologia estrangeiras. Como resultado dessas relações
comerciais desproporcionais e da fraqueza desses países a depen-
Não se pode esperar que os movimentos socialistas na Ásia
alcancem a plenitude em sua luta em favor da humanidade sem dência e a dívida externa cresceu além de limites que possam agora
controlar. Os bancos internacionais e as empresas transnacionais
a libertação interior dos instintos egoístas e exploradores. As antigas
tornaram-se os novos donos da política e da economia da Ásia.
tradições religiosas da Ásia (hinduísmo, budismo, islamismo e cris-
tianismo) oferecem inspiração a muita gente. A riqueza espiritual Ao mesmo tempo o setor rural permanece estagnado. As assim
desses grupos não se expressa apenas em formulações filosóficas chamadas reformas agrárias em nada mudaram as relações sociais
injustas de produção nas zonas rurais. O benefício da "revolução
mas também em diversas formas artísticas como a dança, o teatro,
verde" foi para o bolso dos grandes proprietários que podem pagar
a poesia e o cântico, e por meio de mitos e ritos, parábolas e lendas.
Só quando mergulhamos nas "culturas populares" é que nossa luta pela tecnologia. Grande número de camponeses tiveram de sair de
suas terras, nesse processo, e buscar abrigo nas favelas das princi-
adquire dimensão autóctone.
pais cidades da Ásia. Por outro lado, o excedente rural assim
Entretanto, bem sabemos que é ambígua a função social dos acumulado é investido em novas colheitas destinadas à' exportação
sistemas religiosos e culturais. No passado tais sistemas serviram ou canalizadas para as indústrias urbanas, impedindo o crescimen-
para legitimar relações feudais. No entanto, o princípio de auto- to da produção para a alimentação. Como resultado, a Ásia que é
crítica inerente a eles pode ser força de libertação hoje em dia potencialmente rica em agricultura, está importando alimentos de
em face dos valores e das ideologias da dominação capitalista. fora numa taxa que aumenta anualmente de modo alarmante. A
Sentimos, pois, que o contexto asiático que estabelece os ter- fome e a pobreza serão ainda por muitos anos o destino das massas
mos da teologia asiática consiste na luta pela plena humanidade em asiáticas.
seus aspectos sócio-político e psico-espiritual. A libertação de todos Entre os povos oprimidos começa a surgir um sinal de espe-
os seres humanos é ao mesmo tempo social e pessoal. rança ao se darem conta disso e ao se organizarem tanto nas cida-
des como no campo. Em quase todos os países da Ásia têm havido
insurreições. Boa parte desses movimentos, esmagados por repres-
111. Os temas
são sanguinolenta e intimidados por prisão e tortura, tornaram-se
Entendemos que se grande parte das pessoas se acham social- clandestinos acreditando que essa luta é o único meio disponível
mente prejudicadas e progressivamente alienadas do centro da vida para a mudança da sociedade. Enquanto não apoiamos necessaria-
e do sentido, não é mero acidente ou efeito de catástrofe nacional. mente o uso de violência que tem sido, muitas vezes, inevitável,
De fato, do Paquistão à Coréia, passando pelo sub-continente e pela questionamos e fazemos objeção à aplicação da "lei e da ordem"
Ásia Sul-Oriental, praticamente todos os governos parlamentares, que consolidam o controle do poder pelas elites enquanto frustram
com exceção do Japão, tiveram numa época ou noutra governos as objeções conscientes e organizadas das massas oprimidas. Quando
militares ou autoritários. Nesses países não só os direitos políticos a violência legalizada não deixa lugar para que as pessoas se liber-
foram suprimidos, mas também os direitos dos trabalhadores à tem da miséria, poderemos nos surpreender que recorram, final-
greve nas cidades e os direitos dos camponeses de se organizarem. mente, à violência? Será que as igrejas cristãs entendem suficien-
Líderes e outras pessoas que manifestam pontos de vista políticos temente a mensagem da violência revolucionária nas lutas pela
dissidentes são condenados a passar muitos anos na prisão, muitas independência política na Ásia, pela sua emancipação e libertação
vezes sem o devido processo de julgamento. da violência presente nas atuais estruturas econômicas e políticas?
Por detrás dessa fachada de "lei e ordem" escondem-se leis A juventude na Ásia, que forma amplo segmento da população,
que facilitam a exploração da mão-de-obra e que deixam essas ter- está sendo constantemente vitimada. Ela constitui número cada
ras abertas à exploração irrestrita da parte do capital estrangeiro vez maior de desempregados. Por causa da falta de programas edu-
cujos lucros acabam nas mãos de pequena elite. Encontramos pro- cacionais adequados e da falta de empregos nas zonas rurais de
funda lógica nas economias duplas desses países. O setor industrial, onde vêm muitos dos jovens, observa-se irreversível processo de
monopolizado pelas elites nacionais, desenvolveu-se ao longo de migração para os centros urbanos; nessas cidades os jovens tornam-

150 151
se alvos da cultura de consumo e veículos de desculturalização. Por gimento de uma micro-media mais criativa que retrata realistica-
outro lado não queremos deixar de mencionar a existência de estu- mente a luta dos povos dominados.
dantes e de trabalhadores jovens devotados ao exercício de uma Precisamos mencionar ainda o impacto crescente da urbaniza-
crítica engajada na luta em favor dos direitos fundamentais dos ção e da industrialização irracional. As mulheres, as crianças e os
oprimidos. Ao mesmo tempo, muitos deles se tornam lacaios de homens quase não têm oportunidade de educação, habitação decen-
políticos poderosos e de outros grupos de interesse, perdendo assim te e serviços de saúde, na medida em que essas necessidades sociais
a relevância genuína, e são até mesmo sacrificados por meio de são determinadas pelas forças do mercado. Com a transferência de
violência física. plataformas de produção e de mecanização dos países industriali-
O sistema educacional, ligado aos centros estabelecidos do zados, a poluição ambiental espalha-se na maioria dos países da
poder, existe para perpetuar a dominação da juventude. Serve de Ásia, causando desequilíbrio ecológico. Unimo-nos, aqui, aos pes-
mero canal para a transferência de habilidades técnicas e de conhe- cadores em sua luta contra práticas inescrupulosas de certos países
cimento alienado sem qualquer referência aos valores humanísticos. como o Japão, Formosa e Coréia do Sul.
A estrutura piramidal elitista da educação destina-se à fabricação Entendemos também o papel legitimizador da religião no de-
de perde dores que são constantemente explorados. curso da história em nosso contexto asiático. As religiões fazem
Reconhecemos profundamente que as mulheres são também parte integral da realidade social e não se separam das demais esfe-
vítimas da mesma estrutura de dominação e exploração. No con- ras de ação. Na Ásia tem havido muita interação entre religião e
texto das religiões e das culturas asiáticas, as relações entre homens política desde os tempos antigos, e hoje em dia existem importan-
e mulheres são ainda de dominação. A situação piora nas classes
tes movimentos de renovação social inspirados por algumas reli-
mais pobres da sociedade. Assim, as mulheres enfrentam opressão giões fora das instituições tradicionais. Basta observarmos o ele-
duplamente imperdoável.
mento crítico e transformador presente na cultura e na religião. A
No nível econômico, essa sociedade dominada pelos homens
análise séria sócio-política das realidades e do envolvimento em
reduz o "preço" da mão-de-obra feminina e limita o espaço da par-
lutas políticas e ideológicas nos mostra que a postura crítica é ele-
ticipação da mulher no processo de produção em todos os níveis - mento vital da religião. A força criativa da cultura reúne o povo
local, nacional, regional e conseqüentemente internacional. No nível
e lhe confere identidade em sua luta. A ação cultural crítica pode
político, as mulheres têm consciência da situação de seus países,
destruir velhos mitos e criar novos símbolos em continuidade com
mas também aí sua competência e atividade são sufocadas.
os tesouros culturais do passado.
As mulheres são vulneráveis intelectual e sexualmente numa
sociedade onde a interação de forças tradicionais e modernas (espe-
cialmente em relação com o turismo) leva-as a ceder diante dos IV. Em busca de uma teologia relevante
valores de consumo da sociedade capitalista. Força-as também à Estamos conscientes de que os temas vitais da realidade asiá-
prostituição. Em vez de condenar o sistema gerador da prostituição, tica indicam o papel ambivalente representado pelas principais
as mulheres é que são condenadas pelos homens que as exploram. religiões e nos questionam, desafiando o status quo desumanizador
Reconhecemos a existência de minorias étnicas em todos os da teologia. Para ser relevante, a teologia precisa ser transformada
países asiáticos. Encontram-se entre os setores mais pobres em todos radicalmente.
os escalões incluindo o econômico, o político e o cultural. Buscam
autodeterminação contra pesadas desigualdades. Mas essa luta au- A. Libertação: área de preocupação
têntica é muitas vezes utilizada pelos centros de poder que atiçam
a existência de antagonismo racial para camuflarem-se a si mesmos No contexto da pobreza dos prolíficos milhões de asiáticos e
e destruir a unidade entre os marginalizados. de sua situação de dominação e exploração, nossa teologia deve
Os meios de comunicação de massa, incluindo a palavra es- estar voltada para a libertação.
crita, cinema, televisão etc., estão controlados pela elite governa- O primeiro ato da teologia, a partir de seu interior, é o com-
mental para propagarem seu sistema dominante de valores, e seus promisso. Esse compromisso responde ao desafio dos pobres em
mitos, de onde resulta essa cultura desumanizadora, individualista sua luta pela plena humanidade. Afirmamos que os pobres e opri-
e consumista. Não obstante tal dominação, temos observado o sur- midos da Ásia estão sendo chamados por Deus para ser arquitetos

152 153
e construtores de seu próprio destino. Assim, a teologia começa representaram no passado. A religião e a cultura precisam, pois, se
com as aspirações dos oprimidos à plena humanidade e se alimenta submeter constantemente à auto-crítica. Neste contexto, questiona-
de sua constante conscientização e de seus esforços para vencer mos a preocupação acadêmica desejosa de teologia asasim chamadas
todos os obstáculos à verdade de sua história. "indígenas" ou "aculturadas", divorciadas da luta histórica pela
libertação. Em nossos países não pode haver hoje em dia qualquer
B. Sujeitos da teologia teologia indígena que não seja antes de tudo teologia da libertação.
Para ser verdadeiramente libertadora, esta teologia precisa A garantia de que nossa teologia seja indígena e da libertação é
surgir dos pobres da Ásia a partir de sua consciência libertada. seu envolvimento na história e na luta dos oprimidos.
Articula-se e se expressa por meio da comunidade oprimida usando
os recursos dos estudiosos da Bíblia, dos cientistas sociais, dos psicó- D. Análise social
,,,<f.

logos, e dos antropólogos. Pode expressar-se de vários modos, por A teologia comprometida com a libertação dos pobres utiliza-se
meio de formas artísticas, teatro, literatura, estórias folclóricas e dos instrumentos da análise social das realidades da Ásia. De que
sabedoria popular além de declarações de natureza doutrinária e maneira participaria na libertação dos pobres sem entender as estru-
pastoral. turas sócio-políticas, econômicas e culturais que escravizam os po-
A maior parte dos participantes entende que qualquer teologia bres? A visão da plena humanidade e da complexidade da luta
é sempre condicionada pela posição de classe e pela consciência de é constantemente desafiada e deformada pela mistura de motivos e
classe do teólogo. É por isso que uma teologia verdadeiramente interesses e pela confusão do aparente com o real. Tal análise pre-
libertadora precisa partir, em última análise, dos pobres da Ásia, cisa abranger a totalidade da largura e da altura, do comprimento
em meio à sua luta em favor da plena humanidade. Eles é que e da profundidade da realidade asiática, da família à vila, da cidade
precisam refletir e dizer o que significa sua experiência de fé e vida à nação, do continente ao mundo todo. A interdepedência econô-
na luta pela libertação. Sem, naturalmente, excluir os especialistas mica e sócio-política fez com que a terra se transformasse numa
em teologia. Com seu conhecimento, os especialistas podem com- aldeia global. Essa análise precisa acompanhar o processo histórico
plementar a teologização que vêm das bases. E assim, sua teologia mutável submetendo-se constantemente à auto-crítica e avaliando
poderá ser autêntica. Estará enraizada na história e nas lutas dos as religiões, as ideologias, as instituições, os grupos e as classes
pobres e oprimidos. sociais que, por sua própria natureza, correm o risco da burocracia
desumanizadora.
C. Libertação, cultura e religião
A teologia, para ser autenticamente asiática, deve estar imersa E. Perspectiva bíblica
em nossa situação cultural histórica e crescer daí. A teologia, saída Ao levar a sério a situação humana a teologia pode ser
dessa luta do povo pela libertação, vai se formular espontâneamente considerada como reflexão articulada, em fé, sobre o encontro
na linguagem religiosa e cultural do povo. de Deus pelo povo em sua própria situação histórica. Para nós,
Em muitos lugares da Ásia, devemos integrar em nossa teologia cristãos, a Bíblia é importante fonte para a tarefa teológica. O
os valores e as intuições das principais religiões. Essa integração Deus encontrado na história do povo não é outro senão o mesmo
deve se dar, no entanto, ao nível da ação e do compromisso da luta que se revelou nos eventos da vida, morte e ressurreição de Jesus.
do povo e não só no plano das categorias intelectuais ou elitistas. Cremos que Deus e Cristo continuam a estar presentes nas lutas
As tradições das grandes religiões da Ásia entendem a libertação do povo em busca da plena humanidade na medida em que espera-
de duas maneiras: libertação do egoísmo das pessoas e da sociedade; mos a consumação de todas as coisas quando Deus será tudo em
essas religiões também contêm forte motivação para a conversão todos.
pessoal. Elas, ao lado das culturas locais, podem oferecer o sentido Quando a teologia se liberta dos atuais preconceitos de raça,
asiático a essa tarefa de gerar a nova pessoa e a nova comunidade. classe e sexo, coloca-se a serviço do povo e se transforma em pode-
São fontes permanentes de crítica da ordem estabelecida e indica- rosa força motivadora para a mobilização dos fiéis em Jesus à par-
doras da construção da sociedade verdadeiramente humana. Mas ticipação na luta atualmente travada na Ásia em favor da identidade
sabemos, por outro lado, do papel domesticador que as religiões própria e da dignidade humana. Precisamos, portanto, desenvolver

154 155
novas áreas de teologia tais como a compreensão do desafio revo- nacional como internacional. As seguintes ações concretas tomadas
lucionário de Jesus, a percepção de que Maria representa a mulher 110 longo desta conferência demonstram o começo desse trabalho.
verdadeiramente libertada que participa na luta de Jesus e de seu a) carta de solidariedade a 76 pessoas que trabalham em bar-
povo, superando as separações entre as denominações, e reescre- cos em Hong Kong aprisionadas quando solicitavam melhores con-
vendo a história das igrejas asiáticas a partir da perspectiva dos dições de habitação;
pobres. b) declaração pública pela delegação de Sri Lanka solicitando
apoio para o povo de língua Tamil em sua luta por seus direitos;
V. Espiritualidade e formação c) mensagem ao bispo Tji da Coréia, apoiando a luta coreana
A formação para a vida e o ministério cristãos tem que ser c lamentando a ausência da delegação coreana a esta conferência;
feita por meio de participação nas lutas de nosso povo. Exige-se d) carta à empresa japonesa Kawasaki de Aço, protestando con-
para isso o desenvolvimento de espiritualidade correspondente, de tra a exportação de sua poluição para outros países da Ásia;
recusa do sistema explorador em que vivemos, de sermos margina- e) telegrama aos bispos latino-americanos e ao Papa João
lizados no processo, de perseverança no compromisso, de correr Paulo 11, expressando profundo interesse pela conferência de CE-
riscos, e de se alcançar paz interior mais profunda no meio desse LAM em Puebla, México;
envolvimento ativo com as lutas do povo (Shanti). f) solidariedade com os participantes filipinos em seu pro-
Nossos irmãos cristãos que têm passado pelas prisões asiáticas testo contra a poluição causada pela transferência de indústrias
dão-nos novos elementos de fidelidade ao povo inspirados em Jesus. altamente polui dor as e pela construção de usinas nucleares.
A eles também enviamos mensagens de humilde solidariedade e de 5. Estamos preocupados com os programas de formação em
esperança na oração. Que os sofrimentos dos prisioneiros asiáticos nossas instituições de treinamento e com o estilo de vida de nossos
façam nascer em nossos dias a renovação genuína de todos nós e líderes pastorais. As experiências vividas nesta conferência de-
de nossas comunidades de crentes. monstram a necessidade de novas ênfases em nossa política teoló-
gica e pastoral. Precisamos avaliar nossas estruturas paroquiais e
VI. 1rarefas futuras diocesanas para descobrir onde nos alienam das massas pobres da
Chegando ao fim desta conferência, sentimos a necessidade Ásia dando-nos a imagem de poder e força. São urgentes os ajus-
de prosseguirmos na busca iniciada aqui. A fim de mantermos vivos tamentos necessários para que nosso pessoal religioso se coloque
os esforços em favor de uma teologia que fale pelos povos asiáticos, mais em contato com os problemas do povo.
as seguintes tarefas precisam ser executadas. 6. Para facilitar a implementação destas tarefas, formamos a
1. Precisamos continuar a aprofundar nossa compreensão da Comunidade Teológica Ecumênica da Ásia.
realidade asiática. por meio de envolvimento ativo na luta do povo Durante duas semanas oito pessoas de nosso grupo, participan-
com vistas à plena humanidade. Isso significa lutarmos lado a lado tes desta Conferência Teológica Asiática, tentamos entender o cha-
com nossos camponeses, pescadores, trabalhadores, favelados, mar- mado contemporâneo dos pobres e oprimidos da Ásia.
ginalizados e minorias, jovens e mulheres oprimidas para juntos "' da oração no culto e a unidade na fé ajudaram a
O silêncio
descobrirmos a face de Cristo. manter nossa comunhão em tensão dialética e criativa.
2. Nossa teologia precisa nos levar a transformar a sociedade Na qualidade de cristãos percebemos as tarefas urgentes da
em que vivemos de modo que as pessoas venham a experimentar nossa renovação e das igrejas a fim de melhor servirmos o nosso
o que significa estar plenamente vivo.
povo.
3. Continuaremos a participar no desenvolvimento de uma A esta tarefa histórica e sagrada entregamo-nos ao mesmo
teologia relevante para a Ásia por meio de constante interação e tempo em que convidamos todos os cristãos e todas as pessoas de
respeito mútuo pelos diferentes papéis que assumimos na luta, como boa vontade onde quer que se encontrem para participar nesta
teólogos profissionais, trabalhadores das bases e gente da Igreja. busca incessante.
4. Buscamos construir forte rede de comunicação entre todos
os grupos que lutam em favor da plena humanidade tanto em nível

156 157
NOTAS unidade no qual o homem se aliena de sua força humana e é levado
1. Não negamos a presença de elementos escapistas ou extra-terrenos em enganosamente a aceitar o inferno do presente. Marx é' cáustico na de-
expressões vastamente divergentes entre os pobres. Tais elementos po- núncia desta função deletéria da religião. Não precisamos citar mais
dem ser, simultaneamente, protesto contra a presente situação de impo- do que um de seus penetrantes comentários: 'A hipoteca que o cam-
tência sentida pelos pobres e a apropriação de elementos estranhos à ponês possui em relação aos bens celestiais é sua garantia para a hipo-
comunidade. O protesto clama: "Esta condição não permanecerá para teca que tem a burguesia sobre os bens materiais dos camponeses'. Por
sempre". outro lado, a religião confere à miséria do presente certo caráter sagra-
do: é o 'ópio do povo' no sentido negativo de lhe fazer dormir. f. a
2. Cf. por exemplo o livro de Alfredo Fierro, The militant Gospel, p.
partir dessa compreensão da religião que a atitude mais militante contra
323-329, da SCP Press, de Londres, publicado em 1977, que critica os
ela tem encontrado fundamento na propaganda comunista anti-religiosa.
atuais desenvolvimentos teológicos na América Latina.
Lênin inclina-se para essa interpretação, como se vê na adaptação que
3. Cf. Reinhold Neibuhr, Moral man and immoral society, p. 255: "A com- fez do dictum famoso de Marx: Lênin fala da religião como o 'ópio
preensão da religião cristã tornou-se posse quase exclusiva das classes para o povo'." Londres, Sidney, Auckland, Toronto, Hodder & Stough-
mais altas e privilegiadas. Sentimentalizaram os pobres de tal maneira ton, 1976.
que em lugar de lhes oferecer os recursos que possuem, deixaram que
15. Cf. [ames Cone, A black theology oj liberation, p. 68: "O literalismo
esses pobres permanecessem moralmente confusos a ponto de não perce-
berem as implicações da mensagem cristã para a luta social na sociedade sempre significou a remoção das dúvidas da religião, permitindo que
ocidental. Sem contar com isso, a civilização ocidental, quer venha a o crente justifique todos os tipos de opressão política em nome de Deus
enfrentar uma catástrofe, quer venha a controlar gradualmente a vida e da pátria .. No tempo da escravidão os negros eram ensinados a ser
econômica, sofrerá crueldades e terá de enfrentar animosidades capazes escravos obedientes porque era da vontade de Deus. Afinal, Paulo
de destruir a beleza da vida humana. .. A tragédia perene da história dissera: 'escravos, obedece i os vossos senhores'; e por causa da 'maldi-
humana é visível quando os que cultivam os elementos espirituais se ção de Cão', os negros foram vistos como inferiores aos brancos. Até
divorciam dos problemas do homem coletivo ou não os entendem, pre- mesmo hoje o mesmo tipo de literalismo é usado por estudiosos bran-
cos para ensinar aos negros a não-violência, como se a não-violência
cisamente onde os fatores brutais são mais óbvios. São problemas não
resolvidos permitindo que as forças se degladiem entre si, nada ofere- fosse a única expressão possível do amor cristão. E surpreendente que
cendo para mitigar as brutalidades existentes ou para eliminar as futili- tais religiosos brancos não se dêem conta de que os opressores não
dades da luta socia!". Londres, SCP Press, 1963. estão na posição moral de ditar a natureza da atitude cristã. As 'exor-
tações' de Jesus de 'oferecer a outra face' e 'andar a segunda milha'
4. Cf. Martin Luther King. não dizem que os negros devem deixar que os brancos lhes infernizem
5. Cf. Julio de Santa Ana, Good news to the poor, p. 65-80. Genebra, a vida. Não podemos utilizar o comportamento de Jesus no primeiro
WCC, 1978. século como guia literal de nossas ações no século vinte ... As Escritu-
6. Ibid., p, 81-94. ras. .. não decidem por nós." Philadelphia, Lippincott, 1970.
7. Cf. Lee Brummel, Roberto E. Rios e Carlos A. Valle, Los pobres: en- 16. Cf. o capítulo II deste livro.
cuentro y compromiso, p. 69-86. Buenos Aires, La Aurora, 1978. 17. Cf. Towards a theology of the people, I, p. 174. Tóquio, CCA-URM,
8. Cf. o capítulo V deste livro. 1977.
9. Ver [uan Luís Segundo, Libertação da teologia, capítulos 1 e 2, São 18. Cf. Jether Pereira Ramalho, Basic christian communities in Brazil, The
Paulo, Edições Loyola, 1978. Também Robert McAfee Brown, Theology Ecumenical Review, volume 29, n. 4, 1977.
in a new key, p. 60-74. Philadelphia, Westminster Press, 1978. 19., Cf. Iuan Luis Segundo, op. cit., capítulo 5.
10. Cf. Church and State, Faith and Order paper n. 85, p. 158 e 159. Gene- 20. Concilium, 104, 1977, p. 11-16, New York, Seabury Press. Traduzido
bra, WCC, 1978. Por Dinah Liyingstone, Copyright 1977 por Stichting Conciliume Sea-
11. Gustavo Gutierrez, Teologia desde el reverso de Ia história, Lima, CEP, bury Press. Usado com permissão.
1977.
12. Cf. Rubem Alves, Theology o] human hope, capítulo 1. Washington,
Corpus Books, 1969.
13. Cf. Franz Hinkelammert, Las armas ideológicas de Ia muerte, p. 135.
San José, Educa, 1977, e Saiam anca, Sígueme, 1978.
14. Como diz José Miguez Bonino em relação a este tipo de crítica da reli-
gião (portanto, da teologia também) em Christians and marxists: the
mutual challenge to revolution, p. 49 e 50: "O elemento religioso é
sempre visto como um manto ideológico, a falsa consciência da verda-
deira necessidade humana. Enquanto ideologia, oculta do homem a
verdadeira natureza de sua alienação. Por um lado, oferece o falso
remédio à doença humana - o futuro do céu transcende de paz e

158
x. o papel da Igreja no Reduzido pela modernização a um código formal de valores
privados e de princípios gerais ("generosos"), o cristianismo acha-se
Processo da libertação cada vez menos capaz de intervir na esfera econômica, na lei da
rentabilidade máxima nos processos do mercado, na violação dos
direitos humanos e na crescente marginalização de certos segmen-
tos da sociedade.' A vida econômica marcha implacavelmente para
a morte do homem e da natureza, enquanto alguns grupos cristãos,
por causa de sua incapacidade, silêncio ou comprometimentos, nada
podem fazer para salvar a situação. Resta ao cristianismo, nesse
caso, oferecer a esta realidade mortífera, nada mais do que mera
consciência espúria ao lado de esperança também espúria,"
Enquanto continuar a presente situação escandalosa dos po-
Vamos discutir neste capítulo como, no contexto da análise bres, as igrejas deverão enfrentar questões desafiadoras a sua cre-
sócio-econômica e política já feita na primeira parte deste livro, dibilidade, como estas: lutam as igrejas em favor da justiça, como
grupos e igrejas cristãs começam a descobrir, a partir da perspec- parte de sua prática cristã? Proclamam os propósitos de Deus na
tiva dos pobres, º significado da compreensão bíblica sobre o papel certeza de sua vitória na história humana - por meio do teste-
munho do Deus libertador que vem para levantar e reunir de novo
que o povo de Deus é chamado a representar na luta pela liber-
dade e contra a pobreza. os oprimidos? Encontra-se em jogo, naturalmente, a credibilidade
da Igreja de Cristo enquanto sinal e testemunho estabelecido por
Está aumentando o número de cristãos em favor dos pobres.
Deus neste mundo para. revelar aqui mesmo sua glória e manifes-
É verdade que a crueldade da luta e a selvageria muitas vezes pre- tar a salvação,"
senciada nos conflitos impedem certos cristãos de participar ple-
Os corpos eclesiásticos não podem ser vistos como instituições
namente na luta dos pobres e dos oprimidos. O uso da violência
monolíticas. Se por muitos séculos as igrejas estabeleci das aliaram-se
ainda não é questão resolvida neste contexto. Entretanto, aumenta
aos poderes dominantes da sociedade (entre os quais a própria
o número de seguidores de Cristo que percebem nesses conflitos Igreja), houve também muita gente ativa nas mesmas igrejas, e o
aS esperanças de amanhã. A Igreja é, teologicamente falando, o si- próprio cristianismo institucional abriu-se de tempos a tempos às
nal da nova humanidade desejada por Deus por meio de Jesus expectativas do povo," Esse aspecto nada monolítico tem sido mais
Cristo (CL Ef 2.19-22). visível hoje em dia, com a pluralidade de opiniões prevalescente
É por isso que as comunidades cristãs envolvidas nessa luta nas igrejas.
dos pobres e oprimidos, enquanto parte da comunidade ou em soli-
dariedade com o povo, levantam-questões sobre o papel da Igreja A dupla conversão da Igreja
no processo da libertação - no combate à pobreza, na luta pela
Daí a necessidade da dupla conversão da Igreja, do batismo
justiça, e no sustento, participação e manutenção de tudo isso.
duplo e da "imersão" também dupla.
1. Em primeiro lugar, trata-se da indispensável conversão à
o escândalo da pobreza e o desafio dos pobres
Palavra de Deus enquanto práxis de Deus na história, pela salva-
A existência da pobreza e dos pobres em escala tão alta como ção da humanidade." A Igreja está sendo constantemente convidada
nestes dias não deixa de ser escandalosa, desafiando a Igreja e re- a continuar nas palavras de Cristo (J o 8.31), a agir "na verdade",
lembrando-a de que sua razão de ser, estabelecida pelo Senhor e e a caminhar na luz porque "ele é a luz". Essa é a condição indis-
Mestre,é que viva a incompatibilidade radical entre a dimensão au- pensável para que tenhamos "comunhão uns com os outros" e para
tenticamente evangélica e profética,de um lado, e a situação cada que o sangue de Jesus nos limpe de "todo o pecado" (1 [o 1.6 e
vez mais contraditória e desumana deste mundo, de outro, e que, seguintes). Antes de ser ética, a Palavra de Deus é a eficaz práxis
ao assim proceder, possa introduzir nesta situação a novidade radi- histórica que sustenta o universo, assim como "a palavra que sai
cal do novo céu e da nova terra "onde mora a justiça" (2 Pe 3.13). da minha boca ... não torna a mim sem fruto ... antes, ela cumpre

160 161
a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei" fraterno, mesmo quando essa sede de justiça se manifesta am-
(ls 55.11). "Antigamente Deus falou muitas vezes e de muitas ma- bígua, como sempre acontece em nossa condição humana, dentro
neiras aos nossos antepassados, por meio dos profetas, mas nestes de nossa historicidade e de nossa contingência, sempre exposta
últimos tempos ele nos falou por meio de seu Filho. Foi por meio aos perigos de retroceder, de ser domesticada, e de- se estabelecer
dele que Deus criou o universo, e ele foi escolhido por Deus para em novas formas de opressão ao chegar ao poder, como a História
herdar todas as coisas. O Filho brilha com o brilho da glória de tantas vezes já o ilustrou. Mas não deixa de ser a procura de um
Deus, e é a perfeita semelhança do próprio Deus. Ele sustenta o certo absoluto ancorado bem no fundo do coração humano, posto
universo com a sua palavra poderosa. E, depois de ter purificado que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus.
os homens dos seus pecados, sentou-se no céu, à direita de Deus
Todo-Poderoso" (Hb 1.1-3). _ A vida da Igreja no contexto da libertação
Deus quer que a Igreja seja o lugar por excelência da abun-
dância de sua palavra: "Que a mensagem de Cristo, com toda a Nesta luta por mais justiça, na direção de um mundo mais
sua riqueza, viva no coração de vocês" (CI 3.16); a habitação da fraterno apesar das contingências e limites, os oprimidos não têm
Palavra que "se fêz homem" onde haveremos de ver "a sua gló- reconhecido na Igreja esse testemunho em favor dos povos, sinal
ria, cheia de amor e de verdade", recebida "como Filho único do estabelecido por Deus entre as nações. As instituições cristãs, de
Pai" 001.14); porque essa Palavra de Deus "é viva e poderosa, sua parte, não têm conseguido ler aí os sinais dos tempos." Fre-
e mais afiada do que -qualquer espada de dois gumes... E ela qüentemente as instituições eclesiásticas reagem com medo diante
julga os desejos e pensamentos dos corações humanos" (Hb 4.12). desta marcha dos oprimidos. Será por causa de sua atitude mora-
Em resumo, conversão ao que São João escreveu no Apocalipse: em lizadora ou, talvez, de sua incapacidade para ler esses sinais, quan-
servos como João que "contou tudo o que viu. .. a respeito da do, de fato, deveriam apreender à profunda inspiração e alento de
mensagem de Deus e da verdade revelada por Jesus Cristo" (Ap vida no que está agora sendo construído no mundo? Quem sabe
1.2), e ao que declara o servo de Iavé: "O Senhor [avé me deu uma as igrejas temem a perda de certas aquisições e privilégios, certo
língua de discípulo para que eu soubesse trazer ao cansado uma estilo de vida, certa maneira de existir, não querendo se arriscar
palavra de conforto. De manhã em manhã ele me desperta, sim, com o que está sendo vivido em outros lugares? Estarão as igrejas
desperta o meu ouvido para que eu ouça como os discípulos. O sendo tentadas a excluir-se e a se retirar do mundo?
Senhor [avé abriu-me os ouvidos ... " (Is 50.4 e seguintes).
2. "Imersão" na história dos oprimidos: ao lado da conver- A prática de Deus e a práxis dos oprimidos
são à práxis da Palavra de Deus na história na qual ele revela sua Entretanto, na Bíblia inteira Deus não tem medo de coisa al-
glória, vem o batismo, ou, em outras palavras, a "imersão" na
guma feita pelos homens, sejam suas criações, invenções ou cons-
mesma história, como o lugar onde "o universo todo, com muito
truções, mesmo quando os homens o desafiam como em 1 Sm 8, ao
desejo e esperança, aguarda o momento em que os filhos de Deus lhe exigirem um rei.
serão revelados" (Rrn 8.19). "Pois sabemos que até agora o uni-
verso todo geme com dores iguais às dores de parto" (Rm 8:22). O Deus da Bíblia, o Deus revelado em Jesus Cristo, não teme
Os pobres e os oprimidos anseiam por sua libertação, por um mun- os seres humanos, e, por isso, não erige barreiras. Pelo contrário,
do mais justo, fraterno e partícípatório." A História, antiga ou derruba as que existem e as que os seres humanos insistem em
moderna, é um grande parque de construção onde o trabalho nunca levantar entre si. Jesus não traz nova moral. É amigo do povo.
finda. Estamos vivendo no meio de uma criação, a se desenrolar Envolve-se apaixonadamente com os seres humanos, principalmente
constantemente, avançando ou retrocedendo, com seus altos e bai- com os excluídos da sociedade e com os isolados por barreiras.
xos. Os pobres e os oprimidos desenvolvem a sua própria práxis Compromete-se com estes a tal ponto que acaba "pendurado" numa
libertadora, dentro ou fora da Igreja, com ela ou contra ela. Nos "barreira", num madeiro (Dt 21.22; Gl 3.13). Foi morto porque
últimos dois séculos esta prática libertadora avançou apesar da praticava a destruição das barreiras: "Porque o próprio Cristo nos
Igreja ou sem levá-Ia em consideração.' Contudo, tal prática tem trouxe a paz ... " fazendo de todos nós "um só povo". _. Desfa-
sido autenticamente humana nos seus níveis mais profundos. Caro zendo a inimizade "como se fosse um muro ... Pela sua morte na
regada de esperança no âmago da luta sofrida por um mundo mais Cruz, Cristo destruiu o ódio (Ef 2. 14-16).

162 163
A tensão escatológica da prática de Jesus e da história humana como parte da realidade humana. E assim foi-lhe também essencial
Do começo ao fim os evangelhos, especialmente o de João, passar deste mundo para o Pai: "É bom para vocês que eu vá". A
mostram-nos que o Verbo se fêz carne e habitou entre nós e que hora esperada por Jesus era a da sua passagem deste mundo para
vimos a sua glória 00 1.14). Os evangelhos nos comunicam a ex- o Pai, não porque não gostasse deste mundo, mas para levar este
periência da comunidade primitiva de que Jesus era um homem mundo consigo.
real, plenamente humano. Mas naquela vida humana de Jesus de E agora, depois de sua ressurreição, ele continua a "ir antes
Nazaré, João nos comunica outra realidade nela revelada: a glória de nós" e a nos esperar "na Galiléia", naquela "Galiléía dos gen-
do Pai nele presente. tios", "dos pobres", naquela terra de esperança, diríamos, onde
A vida de Jesus de Nazaré não começou nem terminou nos "o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz," e onde, para
limites da realidade meramente humana: portava a glória de Deus os que "viviam na região sombria da morte, surgiu uma luz"
- aquela glória manifesta num momento preciso e inesperado para (Mt 4.16).
o povo. Em São João, a totalidade da vida de Jesus de Nazaré tem
a marca dessa hora 00 16.16-24, especialmente o versículo 21). A novidade radical do Reino
Há sempre uma hora para vir: a mulher que vai dar à luz tem a
Cristo se fêz homem para inaugurar o Reino de Deus no âmago
sua hora 00 16.21). A hora de Jesus éa de revelar sua vida, de
onde viera e para onde deveria ir, demonstrando a plena dimensão da condição humana, de forma radicalmente nova. "Agora faço
novas todas as coisas!" (Ap 21 :5). "Quando alguém está unido a
de sua vida humana. Em outras palavras, em Jesus de Nazaré en-
contramos um ser plenamente humano que nos abre uma dimensão Cristo, é nova pessoa; acabou-se o que é velho, e o que é novo já
mais vasta da realidade e entra muito mais profundamente na rea-: veio. Tudo isto é feito por Deus .. " (2 Co ·5.17 e parte do 18). São
lidade humana para ir além dessa mesma realidade. Essas novas di- João nos diz que "Deus amou o· mundo de tal maneira que deu o
mensões da realidade ele as oferece à humanidade inteira. Retorna seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra,
ao Pai com essa humanidade toda, levando-a ao lugar de onde mas tenha a vida eterna. Porque Deus mandou o seu Filho para
viera 00 17.24; 14.2). salvar o mundo e não para julgá-lo" 00 3. 16 e 17), pois "embora
fosse Filho de Deus, ele aprendeu, por meio dos seus sofrimentos,
A encarnação do Verbo não é estática; trata-se de um itinerá-
a ser obediente. E depois de perfeito, tornou-se a fonte da salvação
rio, de um caminho. Jesus, assim, anda conosco constantemente nas
eterna para todos os que o obedecem" (Hb 5.8 e 9).
novas estradas para Emaús, adaptando-se à fraqueza de nossa inte-
ligência e de nossa visão, desejando que o único sinal de sua pre- O Reino de Deus abre na história o caminho para o cumpri-
sença entre nós seja a participação na Palavra e no Pão. Não é mento dos propósitos de Deus no mundo. Em outras palavras, o
assim que foi descrita a comunidade primitiva dos cristãos em Atos Reino de Deus abre o caminho para a realização do futuro hu-
dos Apóstolos, como "o caminho" (At 9.2; 18.25 e 26)? mano. Os que moldam o futuro, rejeitando a mudança e a novi-
dade radical do Reino, fecham-se a essa realidade. É por isso que
A história humana enquanto locus da páscoa escatológica Rubem Alves afirma: "Talvez por isso o Evangelho seja tão cético
a respeito dos ricos e poderosos a ponto de exclamar: Como é di-
O Deus da Bíblia é o Deus que anda, que leva os seres hu- fícil aos ricoS' entrar no Reino de Deus! Os ricos e poderosos que-
manos nessa caminhada. É o Deus dos nômades; andando com rem preservar o seu 'agora'. O Reino, ao contrário, é a presença
ele não se pode parar. Movimenta-se por meio da vida de Abraão, do futuro que força os homens a ir de cada 'agora' a novos ama-
vem à Moisés, parte para o Egito para conduzir o povo da opressão nhãs. O sofrimento do escravo, contudo, não tem nada de virtuoso.
para a libertação, manda Elias enfrentar [ezebel e os falsos profe- Se o fosse, o escravo encontraria a felicidade no próprio sofrimento.
tas, e assim por diante. Passa tão depressa que só o podemos ver Não poderia ter o direito de esperar pela sua superação. O sofri-
pelas costas. Quando nos damos conta de quem era ele, ele já mento, antes, é o ponto de partida para a dialética da libertação
passou. Por isso temos que ir sempre atrás dele, seguindo os seus que nega as coisas antigas e se alonga, em esperança, na direção
passos.
do novo"."
A encarnação do Verbo em Jesus de Nazaré faz parte do mes- Esta realidade do Reino manifesta por meio de todos os que
mo movimento dinâmico. É essencial que Jesus esteja neste mundo, buscam a justiça, a irmandade, a alegria, a paz, o amor e a par-
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ticipação. Os movimentos populares, as comunidades dos que pro- E é pelo fato de tratarmos os outros como irmãos e irmãs que re-
fessam outras religiões, homens e mulheres que afirmam ideologias cebemos esse dom gratuito, não em palavras mas em atos. B o que
estranhas ao cristianismo, quando buscam esses valores menciona- significa receber e viver o amor do Pai e dar testemunho de seu
dos, não buscam outra coisa senão o mesmo Reino de Deus. nome.
De novo, esse amor libertador é em essência um dom recebido
o poder libertador do Reino de graça: "Mas Deus nos mostrou o quanto nos ama: quando ainda
éramos pecadores, Cristo morreu por nós" (Rm 5.8). Somos todos
O dom de Deus em Jesus Cristo por meio do Espírito Santo
chamados a testemunhar esse amor e a ministrá-lo: "Para realizar
é o poder da ressurreição, "o poder de uma vida que não tem fim"
esta tarefa, eu trabalho e luto com a força poderosa que Cristo
(Hb 7.16), libertador. "Cristo nos libertou para que sejamos de dá, que é a força que age em mim" (CI 1.29). A Igreja tem a
fato livres" (Gl 5.1). O Evangelho é a proclamação desta liberta-
vocação de ser o sacramento dessa libertação: "Quem diz que vive
ção em Jesus Cristo pelo poder do Espírito.'? Trata-se de uma liber-
em união com Deus deve viver como Jesus Cristo viveu" (1 [o 2.6.).
tação total que alcança as raízes da condição humana, o próprio
interior do pecado, de toda forma de injustiça e exploração, levan-
do-nos à amizade e ao amor. "Quem não ama ainda está morto.
o amor libertador é fonte de conflito
Quem odeia o seu irmão é assassino" (1 [o 3. 14b e 15a). A proclamação do amor de Deus, salvador e libertador de
Conseqüentemente, o Reino não deve ser procurado em nosso todos os seres humanos, e especialmente dos desprivilegiados, en-
mundo humano, mas no centro das realidades históricas. Como cama-se na história. A proclamação desse amor libertador numa
sublinha São João no capítulo 3 de sua primeira epístola, não se sociedade caracterizada pela injustiça e pela exploração de uma
pode interpretar a libertação em termos puramente espirituais, como classe social por outra, de um pafs por outro, ajuda a provocar o
é costume em alguns círculos cristãos. A fome e a injustiça não surgimento de uma história diferente e inspira desafios e conflitos."
indicam a existência de problemas meramente sociais e econômicos; A práxis libertadora do amor de Jesus gerou conflito, dissen-
num sentido mais inclusivo são problemas humanos que desafiam a sões e "cisma" no sentido etimológico do termo, a ponto de levá-lo
nossa maneira atual de praticar a fé cristã. O pecado e o amor à morte. Em diferentes ocasiões o próprio Jesus se referiu ao
são realidades históricas experimentadas e praticadas em situações desejo dos Judeus de levá-lo à morte por causa de sua práxis: "E
concretas. Ê por isso que a Bíblia fala de libertação e justiça em porque ele disse isso, os líderes judeus agora procuravam matá-
oposição à escravidão e à humilhação dos pobres na história, e o 10 ... " 00 5.18; 7.1, 19: 11. 53).
livro de Provérbios nos diz que Deus "vigia as sendas do direito,
Referia-se a essa mesma práxis quando disse: "Vocês pensam
e guarda o caminho dos seus amigos fiéis" (Pv 2.8), e acrescenta
que eu vim trazer paz ao mundo? Pois eu afirmo que não vim
que "oprimir o fraco é ultrajar seu Criador" (Pv 14. 13a). Vemos
trazer paz, mas divisão" (Lc 12.51).1~
Deus se rebelando sempre que a injustiça se toma flagrante e in-
tolerável. "Pelos pobres oprimidos e os necessitados que gemem,
agora me levanto," diz o Senhor; "porei a salvo a quem o deseja" o amor libertador é dom e tarefa a ser realizada
(SI 12.6). A injustiça desafia a soberania de Deus na história (por Em resumo, este amor libertador do Senhor é dom que nos
exemplo, Amós, capítulo 4). questiona e desafia, que nos chama a nos entregarmos a ele. "Nosso
amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser
Libertação e Encarnação do Verbo um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações" (1 [o
A ação libertadora continua de modo ainda mais radical na 3.18), de modo que a glória de Deus 'venha a ser manifesta. As-
encamação do Verbo: "Quando chegou o tempo certo, Deus enviou sumir a causa dos pobres e oprimidos é reconhecer a verdade
o seu próprio Filho. Ele veio como filho de mãe humana, e viveu de Deus no meio de uma sociedade dividida pelos conflitos de
debaixo da Lei dos judeus para libertar os que estavam debaixo classes, pela existência dos que são relegados às margens da so-
da Lei, a fim de podermos nos tomar filhos de Deus" (GI 4.4 e 5). ciedade, e pela existência da exploração dos países pobres. A
Essa dádiva é experimentada na história e continua até hoje escolha desta práxis libertadora do Senhor significa não apenas
esperar pelo dia do Senhor mas, principalmente, apressar a sua
graças ao Espírito que nos ensina a clamar: "Abba, Pai!" (GI 4.6).

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vinda, como nos relembra São Pedro: "Esperem a vinda do Dia palavras e os seus atos são contra [avé, insultam o seu olhar
de Deus, e façam o possível para que venha logo mesmo ... majestoso ... [avé levantou-se para acusar, está em pé para julgar
Deus prometeu, e nós estamos esperando um novo céu e uma os povos. [avé entra em julgamento com os anciãos e os príncipes
nova terra, onde mora a justiça" (2 Pe 3.12 e 13). do seu povo: 'Fostes vós que pusestes fogo à vinha; o despojo
tirado ao pobre está nas vossas casas. Que direito tendes de es-
A práxis libertadora de Israel e de Deus: chamado às igrejas magar o meu povo e moer a face dos pobres?'" (ls 3. 8, 13-15).

Deus insistiu a se associar na práxis com um povo cuja vo-


cação era de ser um sinal no meio das nações, para as nações (Is
o "remanescente" e o pobre de Javé
55.4), uma luz: "Eu, [avé, te chamei para o serviço da justiça, As igrejas não devem se esquecer de que [avé em sua fide-
tomei-te pela mão e te moldei, pus-te como aliança do povo, como lidade e misericórdia levantará um "remanescente" entre os depor-
luz das nações, a fim de abrir os olhos dos cegos, a fim de soltar tados (Ez 6.8-10; 12.10) e Deus os reunirá no exílio para a
do cárcere os presos, e da prisão os que habitam nas trevas. Eu restauração messiânica (Jr 22.3; 31. 7). Esse "remanescente" será
sou [avé; este é o meu nome! Não cederei a outrem a minha gló- reconhecido como "o pobre de Iavé" de que fala o profeta Sofo-
ria, nem a minha honra aos ídolos" (Is 42.6-8). nias:: "Naquele dia não terás vergonha de todas as tuas más ações,
pelas quais te revoltaste contra mim, porque, então, afastarei de
A fidelidade de Israel: palavra de alerta às igrejas teu seio teus orgulhosos fanfarrões; e não continuarás mais a te
orgulhar em minha montanha santa. Deixarei em teu seio um
Mas a experiência de Deus com o seu povo foi muito amarga: povo pobre e humilde, e procurará refúgio no nome de [avé o
"Desde o dia em que vossos pais sairam da terra do Egito até Resto de Israel" (Sf 3.11 e 12).-
hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, cada dia, incan-
savelmente. E eles não me escutaram, nem prestaram ouvidos, mas
Cristo, a "semente" do novo Israel
endureceram a sua cerviz, e foram piores do que seus pais. .. e
deram as costas em vez da face" (Jr 7.25,26 e 24). Qual foi a Na verdade, o Messias é que será a verdadeira "semente"
consequência? "Onde podereis ser feridos ainda, vós que perse- (Ir 23.25) do novo Israel; nascido da Virgem Maria, filha do
verais na rebelião? De fato, toda a cabeça está contaminada pela povo de Israel, do humilde remanescente, cuja confiança inabalá-
doença, todo o coração está enfermo; desde a planta dos pés até vel no Deus libertador e Salvador "que olha para a humildade de
a cabeça, não há um lugar são" (Is l.5e6). sua serva", e que "depõe dos tronos os poderosos e exalta os
humildes", encontra expressão incomparável para todos os tempos
Exílio e cativeiro: aviso às igrejas no Magnificat (Lc 1.46 e seguintes).
A conseqüência do crime duplo de Israel, de idolatria e de
A prática de Jesus e a prática política
injustiça, será o caminho para o exílio e para o cativeiro: "Pelo
sangue que derramaste te tomaste culpada e pelos ídolos que fa- Depois de ter multiplicado os pães, disse a multidão: "De
bricaste te contaminaste e fizeste com que se apresse o teu dia, fato este é o p"rofeta que devia vir ao mundo! Quando Jesus soube
chegaste ao termo dos teus anos. Eis porque fiz de ti um motivo que queriam levá-lo à força para fazê-lo rei, voltou outra vez so-
de opróbrio entre as nações e um objeto de escárnio para todos zinho para o monte" (Jo 6. 14 e 15). Se Jesus tivesse aceito o rei-
os povos ... No meio de ti se desprezam pai e mãe, em teu seio nado naquele momento, não teria podido manifestar a plena di-
o estrangeiro sofre opressão, o órfão e a viúva são oprimidos. Des- mensão do que viera revelar ao mundo: multiplicara os pães e
prezaste as minhas coisas santas, profanaste os meus sábados ... alimentara a multidão, mas as coisas não terminavam aí. Nada
Espalhar-te-ei entre as nações, dispersar-te-ei por países diversos e terminava nas estórias relacionadas com as multidões: "Que é que
removerei de ti a tua imundície ... " (Ez 22.4, 7,8,e 15). Deus quer que a gente faça? Perguntaram eles. Que creiam na-
O exílio e o cativeiro foram os resultados lógicos da infideli- quele que ele enviou, respondeu Jesus" 00 6.28 e 29). Jesus anun-
dade de Israel, da sua "prostituição", de sua práxis injuriosa à cia o pão que é dom de Deus mas não dispensa o outro pão.
glória do Senhor: "Jerusalém tropeçou, [udá caiu, porque as suas Jesus anuncia, mostra, e revela esse pão da vida que entra nos co-

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rações, e abre os corações do povo para um tipo de fome e sede o fato de ser o Filho unigênito de Deus. Reconhece com alegria
que nunca se acabam, e que João traduz como "vida eterna": esse dom. É o que lhe faz ser o homem pobre por excelência.
"Não trabalhem pela comida que se estraga, mas pela comida que
Ser discípulo de Jesus Cristo significa referir-se sempre a algo
dura para a vida eterna. O Filho do Homem dará esta comida a
mais além, posto que Jesus é o Filho que sempre se refere ao
vocês, porque Deus, o Pai, deu provas de que ele tem autoridade"
Pai, sua fonte inexaurível, como a sarça ardente. Cessa, nesse
00 6.27; também Mt 6.25-33). O verdadeiro pão, do céu, o pão
caso, qualquer culto da personalidade: Jesus refere-se constante-
de Deus, é dádiva do Pai, "é aquele que desce do céu e dá vida
mente ao Pai tanto em relação com o passado como com o futuro.
ao mundo" 00 6.32 e 33).
A ação e o ser de Jesus de Nazaré contrariam, portanto, qual-
Este "pão da vida" procede do Pai e não tem limite. Tra- quer tipo de absolutismo, e tudo que signifique fechamento. Ao
ta-se do "pão" que abre inúmeras possibilidades às capacidades contrário, ele se empenha sempre em liberar novas energias, no-
humanas e ao futuro da humanidade. Não há contradição entre as vas perspectivas e novas criações: "Agora faço novas todas as
duas ações de alimentar a multidão e de lhes dar o pão da vida. coisas" (Ap 21.5).
A contradição existiria se ficássemos em apenas um nível. Para
Se a Igreja quiser ser profética, se se entender como a con-
Jesus, o pecado não reside apenas no nível moral ou espiritual;
tinuação dos profetas em Jesus Cristo por meio do Espírito Santo,
consiste em se transformar qualquer situação num absoluto: "Meus
precisa estar consciente e proclamar o absoluto de Deus e a cria-
filhinhos, evitem os falsos deuses" (1 Jo 5.21); o pecado consiste
ção dos seres humanos à sua imagem, denunciando o poder dos
em se fechar numa situação sem a possibilidade de novo começo,
pois o coração humano permanece faminto e sedento mesmo quan- ídolos, os poderes que impedem a realização das potencialidades
do satisfeito com pão: "Felizes os que têm fome e sede de fazer humanas, o poder de todos os sistemas fechados, e os poderes
a vontade de Deus, pois ele os deixará completamente satisfeitos" que não passam de criaturas humanas com pretensões ao absolu-
(Mt 5.6). tismo, começando, naturalmente, com a sua própria vida institu-
cional e com o seu estilo de vida.
Jesus Cristo e o exercício do poder No final do evangelho de Mateus, Jesus diz: "Recebi todo
o poder no céu e na terra" (Mt 28.18). O Cristo ressurrecto dis-
Poder é exercício de influência por meio de meios coercitivos põe de todo o poder e é esse mesmo poder que ele concede a sua
ou não, com a finalidade de se alcançar alvos definidos pelos que Igreja.
exercem tal influência. Há diferentes tipos de poder: econômico, No Evangelho de São João, encontramos Jesus dizendo a Pi-
social, intelectual, militar entre outros. Jesus enfrentou diversas latos, seu juíz: "O meu Reino não é deste mundo ... se ele fosse
manifestações de poder: religioso (dos escribas e dos fariseus, Mt deste mundo, os meus seguidores lutariam para eu não ser entre-
21.23-27; Me 11. 27-33; Lc 20.1-8); social e cultural (dos sadu- gue aos judeus. Não, o meu Reino não é deste mundo... Foi
ceus, Lc 21.27-33); e político (de Pôncio Pilatos, Lc 23.1-25 e para falar da verdade que eu nasci e vim ao mundo" 00 18.36 e
paralelos). Esses poderes, segundo o testemunho dos evangelhos, seguintes). Os evangelhos sinóticos apresentam os mesmos tipos
podem ser considerados desumanizadores. O poder de Jesus, no de problemas a respeito de Jesus e do poder. Nas tentações no
entanto, que era o poder de seu Reino, não era como os outros, deserto, o teiftador diz a Jesus: "Se você é filho de Deus, mande
que estas pedras virem pão". Pede-lhe que domine sobre as "na-
porque o seu Reino não era "deste mundo" 00 18.36).
ções da terra" (Cf. Mt 4. 1 e seguintes, e paralelos). Como já vi-
Os representantes das teologias oficiais entendem que se faz mos, encontramos a mesma tentação novamente no capítulo 6 do
aí clara divisão entre o cristianismo e os poderes vigentes. Apoia- quarto evangelho, na estória da multiplicação dos pães. Jesus re-
se implicitamente, por causa disso, tais poderes, embora nem sem- jeita esse tipo de poder. Não fora esse o caminho que traçara
pre esse tenha sido o caso. Infelizmente, essa posição não vê o para si mesmo.
problema das relações de Jesus com os poderes deste mundo numa
O que interessava a Jesus era isto: "Recebi todo o poder".
perspectiva mais ampla."
Para Jesus, o seu poder, o seu reinado, era um dom recebido do
Para Jesus de Nazaré a coisa importante é que vinha do Pai Pai. E ele não se apodera orgulhosamente do que recebera, como
e retomava para ele. O centro de seu ser e de sua existência era se tudo não passasse de usurpação (Cf. Fp 2.6 e seguintes).

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Conseqüentemente, "como cristãos e como igrejas não pode- "páscoa", desta "passagem", trazida à história da humanidade pela
mos falar a respeito de uma nova ordem mundial nem trabalhar morte de Cristo na cruz e pela sua ressurreição dentre os mortos.
em seu favor no meio de situações de dominação e de estruturas Não se pede dela êxito econômico nem político.
de opressão sem referência ao poder libertador de Jesus Cristo. Cristo, por meio de sua Páscoa introduziu em nossa condi-
Ele nos liberta do pecado tanto individual como social. Reconhe- ção humana mortal a eternidade, abrindo nossa história à pleni-
cemos a expressão dessa força libertadora no Evangelho. A pala- tude do Reino. A última palavra não será pronunciada antes que
vra profética da aproximação de Javé dos humildes e dos sem Cristo "preencha o universo" (Ef 4.10), recapitulando em si a
poder, encontra eco em passagens fundamentais dos evangelhos humanidade toda no caminho para o Pai: "Tudo isto é de vocês,
(Lc 4.17-21; Mt 25.31-46, entre outras). O Evangelho veio para e vocês pertencem a Cristo, e Cristo pertence a Deus" (1 Co 3.
os pobres, para os sem poder, para os oprimidos, os cativos e os 22 e 23).
enfermos. Na pessoa de Jesus, [avé se colocou decididamente ao
Cristo desejou que sua Igreja fosse o sacramento de sua ple-
lado dos pobres; buscou os que "nada são" (1 Co 1. 26-31). A
nitude (Ef 3.19), incluindo aí o universo renovado e governado
palavra "nada" não se refere a qualquer qualidade moral intrín-
seca mas ao fato de serem os pobres marginais, entregues nas pelo Senhor. É o sacramento que nos diz: "Tudo isto é de vo-
mãos dos poderosos" l4 cês, e vocês pertencem a Cristo, e Cristo pertence a Deus". Quís
Com esta linha de pensamento entendemos a relação de Je- que a Igreja fosse o "sal da terra" (Mt 5. 13-16), e fermento no
sus com os poderes e aprendemos a perceber o papel da Igreja meio da massa" (Mt 13.33).
no processo da libertação. Quando a Igreja "perde seu sabor" e deixa de ser o levedo
no meio dos esforços pela libertação e da luta dos oprimidos por
A Igreja: novo Israel
maior justiça e fraternidade, quando sua "luz" diminui no cami-
A "semente" do novo Israel é descrita por São Paulo como nho dos que são dobrados pelos fardos, a Igreja falha na missão
aquele que "já existia antes de tudo, e em união com ele todas em favor da libertação e da salvação oferecida por Cristo, e deixa
as coisas são conservadas em ordem e harmonia". Ele é, também, de conferir a essa libertação a verdadeira dimensão em Cristo que
"a cabeça do corpo, a Igreja" (Cl 1.17 e 18) que é "a totalidade é a participação na construção de seu Reino.:"
dele mesmo, que completa todas as coisas em todos os lugares"
A missão da Igreja não consiste em ser membro ou garantia
(Ef 1.23). Essa Igreja, combinação da força de Deus com a fra-
de poderes ou autoridades políticas e econômicas, estabelecidas
queza do homem, da graça do Espírito com o pecado humano, do
ou não. Não se limita à ordem política. Essa ordem não é priori-
poder da ressurreição com o peso da morte - essa Igreja é o
tária para a Igreja. Ela está sempre em movimento, deixando que
supremo sinal de tensão e paradoxo.
o povo caminhe, que viva esta "passagem" com a humanidade so-
Para a multidão dos pobres, apesar da assistência recebida
fredora, e testemunhe no meio das realidades humanas injustas,
das instituições eclesiásticas, com seus inegáveis sinais de renova-
de natureza social, política e econômica, aquela esperança que
ção e esperança, esses corpos religiosos parecem ter sido na prá-
"não nos decepçiona, porque Deus tem derramado o seu amor em
tica verdadeiros obstáculos, até mesmo barreiras entre Cristo e
nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos deu"
os seres humanos ou, puramente ignorados. Não tem sido fácil
(Rm 5.5). Sua missão consiste em estar sempre alerta na defesa
para o povo pobre reconhecer nas igrejas, destinadas a ser sinais
do direito dos oprimidos: "O povo da terra exerce a extorsão e
entre as nações, esse testemunho para os povos, essa lâmpada le-
pratica o roubo; ele oprime o pobre e o indigente, sujeita o es-
vantada no mundo "para brilhar diante dos homens" a fim de que
trangeiro à extorsão, contra o seu direito. Busquei entre eles um
"os outros vejam as boas coisas" feitas pelos seguidores de Jesus
homem capaz de construir um muro e capaz de pôr-se na brecha
"e louvem o Pai que está no céu" (Mt 5.14-16).
em prol da nação, para que eu não a destruisse, mas não o en-
contrei" (Ez 22.29 e 30). Sua missão consiste, imitando o fun-
A Igreja "sacramento"
dador, em estar preparada para se tornar pobre em vez de rica
Seguindo o Mestre, a Igreja é chamada na força e no poder a fim de enriquecer com essa pobreza o combate da humanidade
do Espírito a ser o sacramento desta tensão escatológica, desta (Cf.2 Co 8.9).

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Pois se a Igreja se desvestisse de todo poder político e se a Igreja tem que proclamar aos pobres como boas notícias para
libertasse da riqueza econômica, nada teria para temer ou perder, eles é que "todas as coisas são de vocês": a obra da criação e a
podendo então se devotar à luta dos oprimidos e dos fracos, fa- história humana, eis aí o domínio de vocês ."Vocês são de Cristo
lando como Pedro ao paralítico de nascimento: "Certo dia, às três e Cristo é de Deus". Cristo vem de longe e vai para longe. Sendo
horas da tarde, na hora da oração, Pedro e João foram ao templo. o Filho, ele é o pobre por excelência e ele possui esta liberdade
Todos os dias ficava ali um homem que tinha nascido coxo. Na- total.
quele lugar, chamado Porta Formosa, punham o homem para pedir Em última análise, o que dá ao Evangelho caráter radical,
esmolas às pessoas que entravam no templo. Quando ele viu Pe- sua raiz, é o sinal da cruz. Os judeus queriam sinais de poder
dro e João entrando, pediu uma esmola. Eles olharam bem para e autoridade, os gregos exigiam a racionalidade científica, argu-
ele e Pedro falou: - Olhe para nós! O homem olhou para eles, mentos (CL 1 Co 1.22). Mas a libertação, a plenitude da luz, a
esperando receber alguma coisa. Então Pedro disse: - Não te- liberdade autêntica, emana da mais completa fraqueza e da lou-
nho nenhum dinheiro, mas lhe dou o que tenho: Em nome de cura da cruz de Jesus Cristo. Nela não há lugar para triunfalismo.
Jesus Cristo, de Nazaré, levante-se e ande! Em seguida, Pedro Apenas para obediência a Jesus. Precisamos deste sinal da cruz
pegou a mão direita do homem e o ajudou a se levantar. No para contemplar e constantemente buscar a compreensão nas rea-
mesmo instante, os pés e os tornozelos dele ficaram firmes. Então lidades de nossa história e de nosso mundo humano, no qual so-
ele deu um pulo, ficou de pé, e começou a andar. Depois entrou mos batizados, para redescobrir a força, o poder, e o radicalismo
no templo com eles, andando, pulando e agradecendo a Deus" do Evangelho." Trata-se de uma experiência a ser repetida e vi-
(At 3.1-8). vida passo a passo.
A missão da Igreja consiste em ser testemunha na marcha "Quanto a mim, eu me orgulharei somente da cruz de nosso
da humanidade na direção indicada por São Gregório de Nissa
Senhor Jesus Cristo. Porque, por meio da cruz, o mundo está
em seu comentário ao Cântico dos Cânticos: "Quem se levanta
morto para mim, e eu estou morto para o mundo" (Gl 6.14). Ê
sobre os próprios pés terá de fazê-lo sempre; pois quem caminha
na direção do Senhor terá sempre espaço pela frente. O homem um sinal que primeiramente crucifica-nos a nós mesmos, em rela-
que quer subir não para aqui e ali como se estivesse sempre co- ção com o que pensamos ser possível fazer e pensar. Devemos
meçando". Ao se colocar do lado dos oprimidos, nessa tensão man- colocar este sinal da cruz sobre todas as realidades. Há muita
tida no próprio centro da história, da qual ela é sinal e testemu- coisa para ser feita e dita neste mundo. É aí o lugar de nosso
nha, a missão da Igreja consiste em "apressar" com o Espírito envolvimento apaixonado e de nossa luta.
Santo, no meio das ambiguidades da realidade humana, "a vinda Nada é perfeito, tudo é relativo. Este sinal da cruz significa
do dia do Senhor", a chegada daqueles "novos céus e novas ter- que tudo se torna possível para nós e para os outros. Significa
ras" nos quais, segundo as promessas de Deus, "mora a justiça" que coisas novas podem ser feitas e criadas. A Igreja precisa se en-
(2 Pe 3.12 e 13). volver neste processo de mudança, nesta luta, para que se torne:
A missão da Igreja, por causa desse compromisso, antecipa a 1. O lugar onde a Palavra de Deus é lida e relacionada com
experiência da koinonia na qual os pobres se sentem aceitos e os sinais dos tempos, e ao mesmo tempo, o lugar onde os sinais
todos os homens são irmãos, com um só coração e alma, onde dos tempos são lidos em relação com a Palavra de Deus - em
ninguém diz que as coisas que têm são suas, mas tudo pertence outras palavras, lugar de conversão permanente.
a todos (CL At 4.32). Para que se acredite nisso é preciso que
2. Lugar de irmandade, de koinonia, de participação já expe-
a koinonia seja vivida em diakonia, que é a única forma de poder
rimentada, de solidariedade na qual os oprimidos possam se re-
a ser exercido pela Igreja. conhecer - em outras palavras, segundo o livro de Atos, o tipo
cristão de irmandade é manifestação do testemunho da missão
Conclusão que a Igreja realiza por amor de Jesus e no poder do Espírito
Para concluir, voltamos à passagem de São Paulo, já citada: (At 4.32-35).
"Tudo isto é de vocês, e vocês pertencem a Cristo, e Cristo per- 3. Lugar de diakonia, de viver pelo poder daquele que habita
tence a Deus" (1 Co 3.22 e 23). Aí está o resumo de tudo. O que em nós, e que nos envolve e "emerge" no mundo, a fim de re-

174 175
fletir sobre a fé enquanto práxis libertadora é refletir sobre a verdade
velar sua justiça e o poder de seu amor - em outras palavras, que está sendo feita e não meramente declarada. Em última análise,
lugar de tensão escatológica, de êxodo e de páscoa. nossa exegese da palavra, à qual a teologia procura contribuir, dá-se
em fatos". Salamanca, Sígueme, 1973. CL também Leonardo Boff, Qué
Portanto, o papel da Igreja no processo da libertação é de es hacer teologia desde América Latina, p. 7 e 8, Lima, Miec-Ieci, 1977.
se tornar sinal desse reino de justiça e amor, conservando cons- 6. Cf. Ian Fraser, The [ive runs, p. 3-41, Londres, SCM Press, 1975.
tantemente diante de si a figura de Jesus na cruz. A mensagem a 7. Julio de Santa Ana (ed.), op, cit., especialmente os capítulos de Nikolai
ser proclamada é, sem dúvida, de amor, mas do amor crucificado, Zabolotski: "The Russian Orthodox Church and the poor in the 19th
que permanece vitorioso, graças à confiança que temos na retidão and 20th centuries", e do Metropolita George Khodor: "Social action
and thought among Arab orthodox christians (1800-1920)".
de Deus. Somos chamados a reconhecer a face de Cristo nas faces
8, Nikolai Berdyaev, Christianity and class war, Londres, Sheed & Ward,
dos irmãos e irmãs oprimidos e perseguidos pela injustiça de
1933.
outros seres humanos e de suas estruturas existentes, e a lutar
9. Theology of Human Hope, p. 115. Washington, Corpus Books, 1969.
juntos para que sejam menos desfigurados e venham a descobrir 10. CL Iürgen Moltmann, The Church in the power of the Spirit, p. 209:
no significado desses sofrimentos o poder da redenção que nos "A verdade da proclamação de Jesus, sua pregação do Evangelho aos
levanta e dirige na caminhada em direção à luz da ressurreição: pobres, seu perdão dos pecados e as curas dos doentes são fatos ratifi-
"O povo que vive na escuridão verá uma grande luz! E a luz bri- cados por meio de sua entrega à morte e da ressurreição dos mortos.
A pregação apostólica à vocação, justificação e libertação dos homens
lhará sobre os que vivem na região escura da morte!" (Mt 4.16). vem deste evento da' verdade. Mas se dirige à parousia e à ressurreição
dos mortos, isto é, à nova criação. A verificação de tudo isso se dá
entre a memória de Cristo e a esperança do Reino, por meio da pre-
sença do Espírito e do poder da ressurreição"'. Londres, SCM Press,
NOTAS 1977.
1, Em mais de um sentido, trata-se de resultado dos atuais processos de 11. CL Robert A. McAfee Brown, Theology in a new key, p. 180: "Con-
secularização, muito relacionados com a evolução do sistema de livre versão significa olhar para as coisas de uma perspectiva diferente por-
mercado. A religião tem sido relega da ao setor privado da vida: sua in- que experimentamos uma "reviravolta" (coisa, que sempre acontece
fluência nos assuntos públicos não é considerada relevante pelos que quando somos receptivos a mudanças). "Se olharmos para o mundo da
controlam e manipulam as leis do mercado, a não ser quando a religião perspectiva dos que dizem que tudo está bem, procuraremos preservá-Io
apóia a ideologia dominante. Curiosamente, coisa semelhante acontece como ele é. Se percebermos que o mundo precisa de reformas, procura-
nas economias orientadas por planificação central, onde a rejeição do remos fazer com que o atual sistema funcione melhor por meio da
papel da religião nos aspectos sócio-político-econômicos da vida se ex- educação e de outros métodos de persuasão. Mas se entendermos que o
pressa por meio de termos bastante duros (muito embora no presente sistema não funciona mais, trabalharemos por mudanças mais radicais".
essa rejeição não se manifeste tão fortemente como no passado). Philadelphia, Westminster Press, 1978. CL também Rubem Alves, op.
2. Tem sido esse o caso de grupos que apoiaram golpes de estado de tipo cit., p. 16 e 17.
reacionário na América Latina: os assim chamados grupos "Pátria, Fa- 12. Convém relembrar, a respeito, o que se diz em To break the chains of
mília e Propriedade", "Tradição, Família e Propriedade", entre outros. oppression, p. 64 e 65: "Cremos que dentro da comunidade cristã, onde
CL Jaime Rojas e Franz Vandeschueren, Chiesa e Golpe Cileno, Torino, se dá a reflexão teológica, se deve reconhecer claramente que nosso
1976, Claudiana. Deus é Pai de todos, ricos e pobres, e que lhe interessa transformar a
3, CL To break the chains oj oppression, p. 76: "Para os que tomam este Igreja no sacramento da reconciliação universal em Jesus Cristo. Mas
ao mesmo tempo, devemos também reconhecer que a reconciliação bus-
ponto de vista (ou melhor, pontos de vista, posto que há mais de um
cada por Deus e à qual somos chamados não pode ser alcança da ocul-
entre os que trabalham junto aos pobres), ortopráxis está mais perto da
tando-se as injustiças e as desigualdades que separam seus filhos, mas
verdade do que ortodoxia: o último liga-se ao primeiro e lhe dá con-
pela busca da verdadeira fraternidade, significando que devemos parti-
teúdo, caso contrário não valeria mais do que mera conversa ideoló-
cipar nos esforços de levar a verdadeira libertação e a igualdade aos
gica; em geral, apenas reflete a ideologia dos dominadores. Apenas o
oprimidos, antecipando entre eles os sinais provisórios da reconciliação
envolvimento ativo no destino e nas lutas dos pobres ganhará credibi-
em Cristo".
lidade para uma mensagem que busca ser o sinal de novo modo de
vida". Genebra, CCPD/WCC, 1975. 13, Esta perspectiva aparece em To break the chains of the oppressed, capí-
tudo IV, p. 36-45. Também no relatório-da Seção VI da Quinta Assem-
4. CL Julio de Santa Ana (ed.), Separation without hope?, especialmente o bléia do Conselho Mundial de Igrejas sobre "Desenvolvimento huma-
capítulo escrito por André Biéler, p. 23 e 24. Genebra, WCC, 1978. no: as ambigüidades do poder, da tecnologia e a qualidade da vida",
5, CL Gustavo Gutierrez, "Evangelio y práxis de liberación social", Fe parágrafos 35-40. David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi, 1975,
cristiana y cambio social en Americú Latina, p. 244: "Neste contexto, p. 129 e 130, Grand Rapids, Mich., Wm B. Eerdmans, e Londres,
a teologia será a reflexão crítica dentro da práxis histórica e sobre ela, SPCK, 1976.
em confronto com a palavra do Senhor vivida e aceita pela fé. .. Re-

177
176
14. Ibid., p. 130.
15. CL [arries Cone, Black theology and black power, p. 62-115, New York,
Seabury Press, 1969.
16. Ver Robert McAfee Brown, op. cit., p. 162 e seguintes, especialmente
179-182.
17. A palavra grega indicadora dessa atitude mental, dessa espiritualidade,
na luta, é parresia. Aparece poucas vezes nos Evangelhos, mas trans-
parece em cada gesto e palavra de Jesus. Sua vida expressa melhor
do que qualquer outra coisa o significado da ousadia evangélica -
parresia. É a palavra usada por Lucas em Atos 4.13 para descrever a
atitude de Pedro e João quando, aprisionados, foram levados a julga-
mento. Parresia é necessário para o testemunho da Palavra de Deus (At
4.29). É fruto de conversão, como prova a experiência de São Paulo. A
partir de sua conversão (cf. At, 9.20-30) ele prega o Evangelho com
parresia até o fim de sua vida (At 28.31). Ele e outros crentes foram
sustentados pelo Espírito Santo para esse fim - essa era a obra do
ParacIeto 00 16). O contexto normal da parresia é o conflito. É o que
nos ajuda a superar o medo, o acanhamento, a fraqueza... É normal 3.
para os que pregam o Evangelho. porque as "Boas Novas" trazem con-
flito ao mundo. "Por causa disso, parresia é elemento constitutivo da o caminho à frente:
vida ecIesial em qualquer época em que a ação 'de Deus na História propostas para ação
tenha sido experimentada". CL David Molineaux, La audacia cristiana
- Parresia en el Nuevo Testamento, em Páginas, n. 7, p. 16 e seguintes,
Lima, CEP, dezembro de 1976.

-e

178
179
XI. Evangelização, Bíblia e Liturgia os poderes dominantes da sociedade enfraqueceram a confiança do
na Igreja dos pobres povo no poder salvador e libertador do Evangelho.
Felizmente, a preocupação da Igreja de estar com os pobres,
de ser a Igreja dos pobres, está aumentando hoje em dia," Como
indicamos, há setores das igrejas que optaram conscientemente por
trabalhar com os pobres, afirmando dessa maneira certa "redesco-
berta do Evangelho" por meio de participação na vida, nas expec-
tativas e na luta dos pobres. Por meio dessa experiência não afir-
mam apenas que os pobres estão recebendo o Evangelho, mas que
são também os verdadeiros evangelistas de nossa época.
Que significa tudo isso? Não há perigo, em tal afirmação, de
se idealizar os pobres? Poderemos dizer que eles pregam as "boas
Vamos conversar um pouco a respeito de evangelismo, leitura
novas" quando suas vidas, por causa da opressão que sofrem, ex-
da Bíblia e celebrações litúrgicas nas igrejas dos pobres. A teologia
pressam muito mais o mal do que as qualidades da "vida abun-
dos marginalizados expressa-se por meio da pregação das Boas
dante"? Em primeiro lugar, os pobres carregam em si claro julga-
Novas de Deus aos seres humanos, de novas maneiras de utilizar
mento das estruturas sociais, políticas e econômicas vigentes res-
o testemunho escrito da Palavra de Deus, e de novas manifesta-
ponsáveis pela opressão e pela desigualdade. A falta de satisfação
ções do culto cristão. É nesses níveis que a Igreja dos pobres vai
das suas necessidades humanas básicas é o veredito que condena
se manifestar nas comunidades cristãs de modos semelhantes.
o estilo de vida afluente e de desperdício, cuja culpa é de pequena
minoria no mundo atual. Os que vivem na riqueza e se dispõem
Os pobres: evangelizados e evangelistas
a participar na vida dos pobres acabam experimentando inquieta-
Os ensinamentos de Jesus foram ouvidos pelos pobres como ção, sentimentos de culpa ou quase de culpa, que lhes move à
"boas notícias" (Lc 7.22). Essa proclamação era consubstanciada mudança, ao arrependimento e à conversão. Neste sentido, os po-
por fatos concretos que davam esperança e felicidade aos pobres: bres representam desafio aos ricos na direção de vida nova.
os doentes eram curados, os cegos viam de novo, os leprosos eram Em segundo lugar, não obstante os males que sofrem, os po-
purificados, os mortos ressuscitavam e os oprimidos procuravam bres são portadores de esperança. Sabem que não têm quase nada
quebrar as estruturas de cativeiro em que viviam. Pessoas simples a perder, mas muito esperam. Suas esperanças não são fáceis. Suas
- pescadores, gente sem educação - recebiam poder para fazer expectativas não poderão ser alcança das de um dia para outro. Es-
as mesmas coisas. Esse é o sentido do chamado dos doze, que peram o que desejam. E não se dão por vencidos!
receberam autoridade da parte de Jesus "para expulsar todos os Por séculos, as comunidades autóctones na América Latina
espíritos maus e curar doenças", e "anunciar o Reino de Deus" não têm lutado por seus direitos. Por séculos, o povo africano tem
(Lc 9. 1 e 2; Mt 10. 1, 5, 7-11, 14; Mc 6.7-12). Os pobres não só lutado pela liberdade. Por séculos, as comunidades asiáticas cla-
recebiam as Boas Novas mas também o poder de comunicá-Ias aos mam por justiça e respeito para com suas culturas. Por séculos, os
outros. trabalhadores em todas as partes do mundo aguardam o surgimento
A história da Igreja Cristã demonstra que o privilégio dos de uma sociedade mais justa e participatória. Por séculos, as mu-
pobres não se circunscreveu aos discípulos de Jesus. Ao longo dos lheres esperam reconhecimento de seus direitos de pessoas humanas
séculos, o Evangelho tem sido comunicado por meio de palavras de facto, e não apenas de jure. E, o que é mais importante, toda
e obras de pessoas pobres, sem poder nem prestígio social. Natu- essa gente tem pago o preço dessa luta sem esmorecer. Essa espe-
ralmente, tem havido exceções, mas se pode dizer que a mensagem rança que tanto lhes têm custado tem tido o apoio dos que com
do amor de Deus com as promessas de justiça e libertação para eles se têm envolvido historicamente.
todos os seres humanos tem sido pregada principalmente pelos po- Em terceiro lugar, quando olhamos para trás, vemos que mui-
bres. Infelizmente, a separação que se deu entre os organismos tas mudanças não foram feitas por pessoas detentoras de poder,
eclesiásticos e os pobres não favoreceu a continuação desse pro- mas por pessoas que buscaram reformas das estruturas econômicas,
cesso.' Além disso, as alianças entre as instituições eclesiásticas e sociais e políticas. Naturalmente, os resultados alcançados nem

180 181
sempre foram os esperados; contudo, houve progresso no nível es- cipar em sua vida, esperanças e lutas. Os grupos cristãos devota-
trutural. Nesse sentido, também, os pobres têm sido portadores de dos ao ministério com os pobres encontram novo poder evangelís-
boas notícias.
tico entre os necessitados e oprimidos. Descobrem, ainda, que entre
Em quarto lugar, os pobres têm se encarregado de mostrar ao os pobres suas vozes se harmonizam com a Palavra de Deus. O
mundo os sinais do Reino de Deus. A vida que levam é muito novo tipo de evangelização promovido pelos pobres, caracteriza-se
mais solidária do que a dos ricos, muito mais condicionados pelos pela efetiva apropriação da mensagem de Jesus pelos oprimidos
demônios da possessão e do individualismo (Lc 12.16-21). Os po- que tudo fazem para tornar verdadeiras as Boas Novas da liber-
bres experimentam alegria muito maior do que os preocupados em tação.'
acumular riquezas. Também, nesse sentido, carregam as marcas do Tendo dito essas coisas, lembremo-nos de certos elementos das
Reino que "não é questão de comida ou de bebida, mas de justiça, narrativas dos evangelhos que acentuam os pobres como portado-
paz e alegria que o Espírito Santo dá" (Rm 14.17). Talvez os mais res da mensagem do Reino de Deus. Por exemplo, o cego que
claros sinais do Reino que manifestam sejam a justiça e a eqüida- recebeu a visão de Jesus 00 9.1-12), e o paralítico, que, por mais
de, de um lado, e a reivindicação por participação, de outro, idéia de trinta anos, esperara ser curado e que foi afinal libertado das
inseparável do significado da irmandade cristã, da koinonia, que é dores por Jesus 00 5.1-18). A respeito do primeiro caso, Jesus
a verdadeira expressão do Reino de Deus na história. diz que o problema era menos importante do que a manifestação
Pode-se dizer que os pobres são mensageiros do Evangelho do poder de Deus: "Ele não é cego por causa dos pecados dele ou
porque julgam os caminhos errados dos poderosos e dos ricos, cha- dos pecados de seus pais. É cego para que o poder de Deus se
mando-os ao arrependimento, porque são, também, portadores de mostre nele" 00 9.3). No segundo caso, o próprio paralítico co-
esperança, trazendo mudanças à realidade histórica, e porque, além meça a testemunhar o evento libertador operado por Jesus: a lei
disso, mostram ao mundo os sinais do Reino de Deus. Com isso (a respeito do sábado) era menos importante do que a ação de
queremos dizer que a Igreja não é a Igreja verdadeira se não for Deus e o ato de comunicá-Ia por meio do paralítico. Ambas as pes-
a Igreja dos pobres, se não participa nas suas lutas em favor da soas, o cego e o paralítico, eram pobres. Os dois tornaram-se por-
justiça. Entretanto, a tarefa evangelística dos pobres não é clara, tadores da mensagem das boas novas, porque haviam vivido o sig-
pois sua condição é ambivalente. Por exemplo, também eles são nificado do Evangelho.
chamados ao arrependimento; em muitas ocasiões eles comprome- Em outras palavras, Jesus vê os pobres como não os vêem
tem suas esperanças com o que não é esperança a fim de sobrevi- os ricos. Para os ricos, os pobres representam a oportunidade de
ver; às vezes as mudanças que provocam acabam servindo mais à demonstrar até que ponto são caridosos. Mas para Jesus, os pobres
causa dos ricos do que à sua. Assim, nem sempre são claras as são em si mesmos a manifestação potencial do Reino. Jesus via os
suas manifestações do Reino da justiça: não são inequívocos. pobres de modo diferente dos ricos: Jesus via-os como mediadores
É verdade. Ninguém o pode negar, a não ser que venhamos do Reino de Deus. Coisa semelhante pode-se dizer a respeito da
a idealizar os pobres. No entanto, nenhuma destas afirmações podem estória da cura do leproso (Me 1.40-45, especialmente os versículos
ser usadas para negar o papel dos pobres na evangelização, primei- 44 e 45).
ramente, porque a pregação da mensagem do Evangelho pelas ins- Mais importante, ainda, é o fato já indicado neste livro mais
tituições eclesiásticas também tem sido ambivalente; a paz faz parte de uma vez: o próprio Jesus se faz presente de modo oculto entre
do Evangelho, mas os organismos cristãos têm apoiado muitas os pobres (Mt 25.31-46). Se evangelizar significa tornar possível o
guerras. A liberdade é sinal dos filhos de Deus, mas os cristãos encontro com Jesus Cristo, os pobres são aqueles em quem o Cristo
têm participado na opressão colonialista e no tráfico de escravos. se faz presente de modos desconhecidos. Eles são os evangelistas
Isto é, as instituições cristãs têm se aliado a causas não-cristãs na que carregam o Cristo, Cristóforos!
pregação do Evangelho aos povos não-cristãos. A ambivalência
precisa ser superada por meio de fidelidade a Jesus Cristo. É pre- Leitura da Bíblia na Igreja dos pobres
ciso pagarmos o preço desse discipulado e um dos principais re-
A Bíblia, muitas vezes, tem sido a inspiração de mudanças
quisitos é não se comprometer com Mamon."
sociais e culturais ao longo da história da fé cristã. Mas a domes-
Em segundo lugar, nenhuma comunidade cristã tem o direito ticação da teologia e da Igreja limitaram a visão da Bíblia e tira-
de desqualificar os pobres na tarefa evangelística sem antes parti- ram dela a força libertadora. Se nossas igrejas quiserem realmente

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ser igrejas dos pobres, devem redescobrir esse poder libertador e Posto que o estudo bíblico nos leva diretamente à luta polüica
usar a Bíblia como instrumento que é na luta pela libertação das e nos envolve em movimentos de oposição à pobreza, à cxploruçuo
opressões e da injustiça." A capacidade da Bíblia de servir dessa e à opressão, podemos ver aí a expressão do espírito libertador de
maneira se vê no uso prático de inúmeros grupos em diferentes Deus." De fato, uma das marcas específicas do Espírito Santo \.:011
circunstâncias que nela encontram ajuda para suas reflexões a res- siste em criar movimentos emancipatórios e chamar pessoas a neles
peito de experiências do dia-a-dia. Utilizam a Bíblia como auxílio participar. Na Igreja dos pobres, portanto, não se pode separar a
em suas vidas diárias, procurando entender sua mensagem secular leitura "espiritual" da Bíblia da leitura "política". A espirituali-
para obter orientação para as atividades políticas," Dessa maneira dade e a luta política não podem se separar, e o estudo da Bíblia
redescobre-se o seu caráter real. E entendemos que ela é uma co- é elemento essencial no desenvolvimento de nova espiritualidade:
leção de documentos que atestam a maneira como as pessoas vi- a espiritualidade da luta dos pobres."
veram a libertação. e aprenderam a lê-Ia nessa perspectiva. Mas descrever a Bíblia como coleção de documentos de uma
No início da história de Israel encontramos o Exodo da "casa teologia da libertação não seria ainda suficientemente preciso. A
da escravidão", a difícil jornada de um povo oprimido para a li- libertação não pode ser isolada, como se fosse um ato desconexo.
berdade. O pensamento posteriormente desenvolvido em Israel a Ela é sempre realizada no meio de processos ricos em contradi-
respeito da teologia da criação não queria estabelecer uma teologia ções e conflitos. Os livros da Bíblia evidenciam tais conflitos. Por
das ordens e reforçar o status quo, mas falar da criação de um
exemplo por detrás de 1 Sm 8-10 há duas posições políticas di-
habitat humano - o pré-requisito do verdadeiro desenvolvimento
humano (SI 8). O protesto profético contra a injustiça social reflete
Ierentes." Amós 7.10 e seguintes, narra o confronto direto de duas
a consciência da identificação completa de Deus com a causa dos posições teológicas e de seus comprometimentos políticos." E quan-
pobres e dos explorados (Cf. Os 6.4-10; Mq 3-9-12; Am 6.1-8). A do Paulo e Tiago expressam diferentes opiniões teológicas (compa-
história de Jesus Cristo contada no Novo Testamento mostra o ato rar Rm 3.28 com Tg 2.14 e respectivos contextos) a explicação
de solidariedade da parte de Deus para com os desprezados e so- deve ser buscada nos contextos sociais contrastantes. Sem dúvida
fredores. A mensagem de Jesus Cristo convoca os seres humanos à alguma, na base da tradição bíblica são evidentes inúmeras esco-
mudança e ao reconhecimento da soberania de Deus. O julgamento lhas concretas envolvendo conflitos e até mesmo provocando-os e
de Jesus foi um ato político e prova muito bem que seus inimigos produzindo-os."
entenderam corretamente sua mensagem. Os evangelhos, com suas
Muito aprendemos sobre esse tema examinando a maneira
estórias de milagres, documentam a libertação e a humanização
como o cânon do Novo Testamento foi estabelecido. Ele reflete a
acontecidas quando, pelo poder do Espírito de Jesus Cristo, a vida
discussão de princípios teológicos que resultaram na coleção de
humana era radicalmente transformada. Paulo concentra sua men-
textos que conhecemos com suas inevitáveis tensões. A última coisa
sagem na idéia da justiça à vista de Deus (Cf. Rm 3.21-26), e no
que se poderia concluir dessa combinação de documentos num
fim da Bíblia encontramos a visão de um mundo transfigurado e
único livro seria a tentativa de acabar com as tensões aí presentes.
renovado (Ap 21 e 22). Os conceitos centrais da Bíblia expressam, Mas, bem ao contrário, o propósito foi o de afirmá-Ias. A melhor
acima de tudo, linguagem política. As palavras-chave da Bíblia
prova do que estamos dizendo é o fato do Diatesseron, a Harmonia
(justiça, shalom no Antigo Testamento, evangelho no Novo) não
dos Evangelhos de Taciano, nunca ter conseguido se estabelecer na
são apenas tomadas de empréstimo do mundo político, mas clara-
Igreja."
mente dirigidas a ele.
Reconhecendo-se que o estabelecimento do cânon da Igreja
Essa explicação apaga a dialética entre "horizontal" e "verti-
primitiva não queria encobrir as diferenças teológicas existentes,
cal" na proclamação? A Bíblia nunca pretendeu ser um panfleto
coisa que sempre representa divergentes interpretações da realida-
político. Ê e permanece fruto das experiências humanas com o de social, fica aberto o caminho para a leitura da Bíblia orientada
Deus que não se ausenta da história humana mas quer entrar nela pelo conflito, capaz de nos ajudar a entender melhor e a melhor
apaixonadamente.' Conseqüentemente, chama a atenção dos seres descrever os conflitos sociais contemporâneos." Uma vez que a
humanos para os atos de Deus na história até nossos dias. Essa luta dos pobres contra a exploração e a opressão envolve conflito
mensagem ainda inspira os seres humanos agora e até mesmo cria, como fator essencial, a Igreja desejosa de ser a Igreja dos pobres
em conseqüência, movimentos políticos," não deve evitar mas promover a leitura da Bíblia orientada pelo

184 185
conflito. Essa leitura justifica-se tanto politicamente como a partir 2. Até mesmo as liturgias tradicionais têm valores pcsitivos
da própria Bíblia. como o de dar às congregações a oportunidade de descobrir c
Obviamente, essa maneira de ler a Bíblia exige novas formas desenvolver a própria identidade. As diferentes tradições litúrgicus
de procedimento. Exige discussão em grupos e entre grupos. Quan- das igrejas são formas óbvias desta busca de identidade na varie-
do. gente de diferente educação (raça, classe ou status) alcança dade dos contextos culturais e sociais."
compreensão mais profunda de seu mundo em virtude da leitura Uma vez que a libertação não é processo meramente econô-
da Bíblia em comum e encontra inspiração para a ação social, a mico mas também inclui o desenvolvimento da visão dos oprimi-
leitura da Bíblia transforma-se ela mesma em instrumento de avan- dos, a Igreja dos pobres precisa fazer da liturgia a expressão do
ço social. trabalho e da cultura dos pobres: o lugar onde descobrem e expe-
Devemos entender que qualquer tipo de leitura bíblica é cul- rimentam a própria identidade."
tural e socialmente condicionada e tem conseqüências políticas. As Para esse fim será vital à liturgia que as congregações desen-
igrejas que desejam ser igrejas dos pobres terão de promover for- volvam atividades próprias: atividades naturais e livres e não ape-
mas de leitura da Bíblia capazes de ajudar no processo emancipa- nas as prescritas por lecionários e livros de orações - certamente
tório da libertação. Qualquer leitura da Bíblia só alcança significa- muito apropriadas às circunstâncias que as originaram.
ção precisa por meio de envolvimento social. Por outro lado, qual-
quer leitura da Bíblia emancipatória e orientada pelo conflito só As principais questões enfrentadas pela Igreja dos pobres em
vai alcançar o significado preciso quando os pobres forem os su- relação à liturgia são estas: "De que maneira a liturgia pode se
jeitos e não apenas os objetos dessas atividades sociais. A leitura transformar em meio pelo qual a Igreja dos pobres descobre a pró-
da Bíblia orientada pelo conflito faz parte da dinâmica da catoli- pria identidade? De que maneira a Iiturgia poderá ajudar a trans-
cidade vista como um movimento no processo da libertação mesmo formar as grandes massas dos pobres em comunidade verdadeira-
quando esse processo venha a se expressar por diferentes escolhas mente humana?"
e atividades. 3. Na tradição ortodoxa encontramos referência a uma "litur-
gia depois da liturgia"." Trata-se do momento em que se passa da
Liturgia na Igreja dos pobres edificação e da adoração da congregação reunida para a vida diária
A tensão é diferente no culto cristão: Trata-se do espaço da no mundo.
liberdade, da oferta do descanso do sábado, da celebração anteci- Esta idéia de uma "liturgia depois da liturgia" convida-nos a
patória da nova ordem do mundo, mas ao mesmo tempo é adora- alguma reflexão. O estágio preparatório do culto tem adquirido ta-
ção em relação com os acontecimentos cotidianos, desafiada pelos manha importância para as pessoas interessadas na renovação do
conflitos do dia-a-dia. Só é culto cristão na medida em que leva a culto que poderia ser descrito como uma "Iiturgia antes da litur-
sério esses conflitos. Na prática, no entanto, é grande o perigo de gia", quando são consideradas as experiências dos participantes, os
se evitar essa dialética. Assim, a liturgia é bom lugar para se estu- materiais existentes para o culto e avaliados os diversos elementos
dar tal evasão. Embora a diversidade das práticas litúrgicas impos- disponíveis.
sibilitem, na prática, avaliações generalizadas, encontramos três as- Se nossas igrejas desejam ser igrejas dos pobres será preciso
pectos que nos parecem importantes para o exame da práxis litúr- que incorporem as experiências do povo no ato do culto transfor-
gica da Igreja dos pobres. mando-as em princípios formativos da liturgia. Os pensamentos e
1. As liturgias de nossas igrejas são frutos de longa tradição. os sentimentos dos pobres devem fazer parte das celebrações litúr-
Tendem, portanto, a conservar o passado. Aos grupos de avant- gicas da Igreja dos pobres."
garde dentro da Igreja e aos de fora elas parecem fossilizadas. Torna-se necessária a criação de "pontos de transferência"
Posto que a atitude tradicionalista para com a liturgia volta-se para a introdução das experiências do dia-a-dia no culto. Há di-
para o passado e carrega consigo o perigo de consolidar e santifi- versas maneiras para tal procedimento: por exemplo, por meio de
car o status quo na Igreja e na sociedade, torna-se essencial tornar grupos de ação e de projetos que deliberadamente preparam a li-
a celebração da liturgia sensível às experiências contemporâneas e, turgia, mas também e especialmente por meio do uso de elementos
especialmente, às dos grupos oprimidos. da vida diária.

186 187
B preciso coligir sistematicamente material adequado para esse religiosos também participam na batalha contra a miséria. Bato
fim. Nesse material não devem faltar: de solidariedade e demonstração da catolicidade da Igreja levar em
consideração essas formas de expressão."
* Música popular relacionada com a vida diária: hinos e can-
ções utilizados na luta dos pobres. A música e as canções dos po-
bres expressam seu sofrimento resultante de condições iníquas de NOTAS
vida e sua esperança de libertação, sua busca e descoberta da iden-
tidade. As formas musicais de expressão representam indispensável 1. CL Julio de Santa Ana (ed.), Separation without hope? especialmente
nível de comunicação e de participação na Igreja dos pobres. a conclusão. Genebra, WCC, 1978.
2. CL "Ministry with the poor", International Review 01 Mission, v. LXVI,
* Orações e meditações que possam justificadamente ser con- n. 261, janeiro de 1977. Também de Jether Pereira Ramalho, "Basic
sideradas formas relevantes de espiritualidade Iibertadora." Na ora- Ecclesial Communities in Brazil", The Ecumenical Review, v. 29, n. 4,
ção, os sofrimentos, as angústias e as esperanças do povo situam-se outubro de 1977, p. 395-397. CL o Dossier n. 13 da CCPD: Good news
no contexto mais amplo e abrangedor da presença de Deus. A to the Poor, Genebra, 1978.
oração é forma vital da participação da congregação nos problemas 3. Ver Julio de Santa Ana, Good news to the poor, capítulo 3, p. 27 e 28,
Genebra, WCC, 1977.
de nosso mundo e expressão de sua esperança no poder transfor-
mador de Deus. A Igreja socialmente comprometida tem que ser 4. Diego lrrarázabal, "Las clases populares evangelizan: como?", Páginas,
v. IH, n. 14, fevereiro de 1978, p. 6.
uma igreja em oração. A Igreja decidida a se identificar com a
5. Como afirma José Porfirio Miranda: "( ... ) para a Bíblia a lei não é o
causa dos pobres deve aprender a orar no espírito da pobreza." 'árbitro neutro' que a tradição greco-romana nos impôs, cuja tarefa
* Textos seculares e bíblicos, que simbolizem e descrevam mo- consistiria em preservar o status qJ.JO superando pela força tudo o que
se lhe opõe. Para a Bíblia ( ... ) a lei consiste em finalmente se alcançar
delos de ação adequados à expressão dos responsos humanos bá- justiça para os pobres e oprimidos deste mundo. Completamente oposta
sicos à vida (como medo ou esperança). à defesa do status quo, a realização da justiça não só o subverte ( ... )
Os responsos básicos dos pobres devem irrigar o culto das tendo o Ocidente até mesmo procurado camuflar essa busca de jus-
tiça, mesmo por meios teológicos". Marx and the Bible: a critique 01
igrejas. Deve haver busca de símbolos que sirvam de ponte entre the philosophy 01 oppression, p. 30, Londres, SCM Press, 1977.
as experiências cotidianas e a mensagem cristã. Novos símbolos 6. Cf. Jether Pereira Ramalho, op. cit., p. 397: "Ao ler a Bíblia eles (os
serão possíveis quando os temas fundamentais e as palavras deci- pobres) querem descobrir a realidade da vida, e em suas vidas querem
sivas da vida diária forem descobertos. achar a realidade da Bíblia. Usam a Bíblia espontaneamente como ima-
gem, símbolo ou espelho do que experimentam no dia a dia. Quase
* Sugestões para novas maneiras de entender os sacramentos chegam ao ponto de misturar os dois, dizendo: 'nossa Bíblia é nossa
e para lhes dar novas formas. O Batismo e a Ceia do Senhor repre- vida'. Mas nem sempre conseguem fazer a relação entre a Bíblia e a
vida. Algumas vezes estabelecem relações arbitrárias sem base na Bíblia
sentam o envolvimento de Deus na vida diária do mundo." A ou na realidade da vida de hoje. Mas nada disso deve deter ou impedir
Igreja dos pobres deve usá-los e entendê-l os como sinais materiais a profunda intuição presente nos usos que o povo faz da Bíblia: 'a
de transformação?" Ao usar especialmente os sacramentos, mani- Bíblia relaciona-se com a vida' ".
festa-se a presteza e capacidade da Igreja para enfrentar as tensões 7. Na mesma linha, embora sobre a pessoa de Jesus, [on Sobrino indica:
entre as presentes realidades da pobreza e da opressão e a espe- "Seria anacrônico buscar em Jesus elementos para a análise de classes
rança do novo mundo. Para isso é preciso que os sacramentos como encontramos agora no trabalho dos sociólogos. Contudo, sua ati-
tude geral evidencia que ao tentar entender a justiça, Jesus adota pos-
sejam vistos tanto como a celebração antecipatória do novo mundo, tura fundamentada nos pobres e destinada a lhes beneficiar. A justiça
e como pretexto contra as presentes estruturas de injustiça. A Ceia enquanto ideal universal não pode ser entendida ou tornada operacio-
do Senhor, em particular, representa a participação da congregação nal a não ser que se passe de alguma forma pela experiência concreta
nos problemas materiais dos seres humanos bem como a alegria da injustiça. Neste sentido, o primeiro princípio para a concretização
dos valores morais acaba sendo o primeiro princípio da cristologia,
antecipada do prospecto da nova ordem do mundo."
isto é, a encarnação. A adoção deliberada de posturas parciais é neces-
. * Símbolos populares e outros elementos representativos da sária para a compreensão da totalidade." Christology at the crossroads:
luta dos pobres. Todos os elementos populares têm importante a Latin American Approach, Londres, SCM Press, 1978.
lugar no culto. Em seus atos de adoração, as igrejas deveriam levar 8. CL José Porfirio Miranda, op. cit., capítulo 5, especialmente p. 250 e
seguintes.
em consideração o fato de que outras religiões e movimentos não-
189
188
9. Cf. José Miguez Bonino, Revolutionary theology comes of age, p. 89 É sensível à realidade da vida e está perto dela. "Ser criativo no vidu
e 90, Londres, SPCK, 1975. social significa ao mesmo tempo ser criativo no nível litúrgico da vida
10. CL o relatório de M. M. Thomas, como moderador da Comissão Central da Igreja. Cf. J. B. Libano, "Uma comunidade que se redefine", SEDOC.
do Conselho Mundial de Igrejas à Quinta Assembléia. David M. Paton v. 9, sobre Comunidades eclesiais de base, col. 325, outubro de 1976.
(ed.), Breaking barriers: Nairobi 1975, p. 237-240, especialmente o pará- 18. Cf. o relatório da consulta de teólogos ortodoxos, do Conselho Mundial
grafo 31: "Todos esses temas nos falam da necessidade da 'espirituali- de Igrejas, realizada em New Vaiamo, Finlândia, em setembro de 1977:
dade para o combate' - como disse David Jenkins ... Torna-se fun- The ecumenical nature of the orthodox witness, Genebra, WCC, 1978.
damental aqui a redescoberta da Bíblia e da liturgia. Neste contexto o 19. Neste sentido, o melhor exemplo bíblico são os Salmos. Ernesto Cardenal
conceito e a prática ortodoxa de theosis, e a centralidade da eucaristia nos oferece belos exemplos ao colocá-Ios na linguagem de hoje e em
enquanto celebração da humanidade em comunhão com a natureza, a contexto contemporâneo.
sociedade e o cosmo transfigurados, precisam ser reafirmados e rede- 20. Cf. Frei Beto, Cristo: oração na ação, Rio de Janeiro, suplemento de
finidos em relação com a espiritualidade das lutas contemporâneas CEI, n. 18, julho de 1977. .
pela defesa do humanum e da unidade de todos os seres humanos.
Não esqueçamos que nossa luta não é apenas contra os outros mas 21. Quando os pobres oram, suas orações são abertas; não são formais
nem ritualizadas.
contra as falsas espiritualidades da idolatria de raça, nação e classe,
e de ideais que se autojustificam enquanto reforçam as estruturas 22. 1 Co. 11.26: "Porque, cada vez que vocês comem deste pão e bebem
coletivas de desumanização e opressão. Qualquer espiritualidade de deste cálice, anunciam a morte do Senhor, até que ele venha".
retidão deve começar com arrependimento em face da idolatria levan- 23. Sobre o Batismo, consultar o documento de Fé e Ordem, One Baptism,
do-nos ao Deus verdadeiro e à justificação pela fê". Grand Rapids, One Eucharist and a Mutually Recognized Ministry, parágrafo 7, p. 11,
Michigan, Wm B. Eerdmans, e Londres, SPCK, 1976. Genebra, WCC, 1975.
11. Embora Samuel tivesse adotado postura mais 'democrática', a maioria 24. Cf. Tertuliano, Sobre a Paciência, MPL, T. I., Col. 1371.
do povo (como é comum na prática das democracias) queria a monar- 25. O Conselho Mundial de Igrejas e a CCPD têm publicado calendários
quia. Importa observar que entre o princípio teórico e a prática, Deus Iitúrgicos e Livros de Oração. Tais esforços devem ser apreciados e in-
opta pela prática (v. 22). A justiça não é questão teórica, mas resultado tensificados. Entretanto, materiais adequados devem também ser publi-
da ação do povo. cados em outras formas como, por exemplo, lecionários para uso direto
12. A controvérsia entre Amós, profeta de Deus, e Amazias, sacerdote de no culto público; relatórios que incluam estórias das lutas populares
Betel, sobre o governo de Joroboão não é primeiramente teológica, mas em favor da libertação; e cânticos, orações e outros elementos litúrgicos,
política. Mas a teologia nunca se separa da política. que venham a ser muito mais do que meros documentos sem vida.
13. CL São Paulo indo a Jerusalém: o conflito com os judeus tornou-se
inevitável na ocasião (CL At 21.15-40, especialmente os versículos 27-
32).
14. Cf. Hope W. Hogg, "The Diatesseron of Tatian", Allan Menzies (ed.),
The Anti-Nicene Fathers, Grand Rapids, Michigan, Wm B. Eerdmans,
1951, v. X, p. 35-41. Cf. Feine, Behm e Kuemmel, Einleitung in das
neue Testament, p. 359 e 387, Berlim, Evangelische Verlagsanstalt, 1965.
Também Hans Freiherr von Campenhausen, Die Entstehung der Christ-
lichen Bibel, p. 205 e 206, Berlim, Evangelisches Verlagsanstalt, 1975.
15. Sergio Rostagno ajuda a aclarar a questão: " ... a prática dos antigos
não os ajuda a situar sua teologia. É precisamente a nossa própria
prática, pela qual somos totalmente responsáveis, que nos ajuda a en- 4:
tender a virulência dos infelizes antigos". Essays on the New Testament,
p. 50, Genebra, WSFC, 1975.
16. A questão da 'indigenização' da Igreja deve ser apreciada nessa pers-
pectiva. A vida litúrgica da comunidade cristã está entre as principais
expressões desse esforço. Deve-se notar, no entanto, que 'indigenização'
não quer dizer apenas o uso de elementos culturais nas celebrações
litúrgicas, mas a integração, também, de aspectos e ênfases sociais no
culto. CL Knolly Clarke, "Liturgy and Culture in the Caribbean". Em
Idrish Hamid (ed.), Troubling the waters, p. 141-147 - especialmente
p. 154. San Fernando, Trinidad, Ramahan Printery, 1973.
17. "Nesta perspectiva há uma questão bastante vital: criação e liberdade
litúrgica. Na verdade, a liturgia permeia a vida diária da comunidade.

190 I 191
XII. Das Estruturas Eclesiásticas às estruturas e não o contrário. Mas as estruturas foram criadas
para servir ao povo, principalmente os menos privilegiados.
Qualquer reforma da Igreja deve ser orientada em primeiro
lugar e acima de tudo pela ação do Espírito Santo. Aos olhos das
igrejas que querem ser igrejas dos pobres, o Espírito de Deus está
convocando os cristãos ao arrependimento e à transformação em
face do desafio dos pobres à Igreja de hoje. Já se percebem pro-
fundamente renovadas pelos novos dons do Espírito Santo quando
os pobres começam a sentir que a Igreja começa a ser sua. Os
pobres trazem nova compreensão e dão novo ímpeto ao trabalho
da Igreja, chamando as igrejas institucionais a mudar sua organi-
zação e a reformar suas estruturas. Não se trata de mero ajusta-
A busca de uma Igreja Cristã realmente representativa dos
mento aos sinais dos tempos; trata-se da caminhada no processo
pobres envolvida em suas lutas e expectativas, tristezas e esperan- da libertação, em que a Igreja vai se transformando em instrumen-
ças, incluirá inevitavelmente questões de ordem e de estruturas ecle- to do serviço de Deus, fiel a Jesus Cristo."
siásticas. Trata-se, naturalmente, de matéria delicada, uma vez que
Por exemplo, muita gente ao redor do mundo - incluindo os
as diferentes denominações estão mais preparadas para considerar
pobres, em particular - estão querendo maior participação na
as inovações ao nível das idéias, dos valores e dos programas do
que da organização da Igreja. Além disso, torna-se cada vez mais discussão dos processos decisórios que afetam suas vidas. Estamos
sempre ouvindo, cada vez mais, que o desenvolvimento só se dá
claro que segundo as experiências das diferentes igrejas e comuni-
com a participação do povo. Não suportando o nível de alta infor-
dades cristãs que optaram pelos pobres, que essa opção envolve
mação das pessoas encarregadas de fazer decisões, nem de seu pro-
necessariamente a questão da ordem eclesiástica.' Ao mesmo tem- fundo conhecimento das situações, as pessoas em geral não estão
po, essas igrejas envolvidas com os pobres sabem que eles encon- preparadas para largar mão do direito que têm de dizer o que
tram-se em outras partes da sociedade e não na Igreja. Os pobres pensam e de tomar parte no processo. Na maioria, as igrejas cris-
sentem que as estruturas eclesiásticas não têm nada a ver com tãs, porém, ainda são demasiadamente hierárquicas, sem a neces-
eles, muito embora a situação fosse outra nas comunidades cristãs sária abertura à participação de seus membros em todos os níveis
primitivas (At 2.42-47; 4.32-37; 1 Co 1.26-29 e Tg 2.5-7). de sua vida." A análise sociológica da composição dos processos
Como já afirmamos antes, são inúmeras as comunidades cris- decisórios das igrejas demonstra que reproduzem as estruturas de
tãs que já optaram claramente pela justiça e pela libertação em dominação vigentes na sociedade; não permitem que aí participem
meio aos conflitos sociais de nosso tempo. Envolvem-se em movi- os setores mais baixos da sociedade tais como as mulheres e os
mentos de solidariedade para com os oprimidos apelando para que pobres. Embora boa parte do clero seja dependente, os modelos
as autoridades religiosas também combatam o racismo e se envol- herdados dão-lhe ainda poder e dominação de muitas maneiras. 7

vam nas lutas em favor da mudança das estruturas sociais, econô- Nesse sentido, a koinonia e a eucaristia nos recordam de for-
micas e até mesmo políticas. A maior parte dessas comunidades ma dramática a unidade essencial da Igreja. A raiz da palavra
cristãs que optaram pela transformação social sente a necessidade koinonia leva-nos ao sentido "daquilo que é tido em comum". A
de certa consistência na atitude da Igreja. Essa opção na sociedade irmandade ou comunhão da Igreja baseia-se na fé comum, no com-
exige também envolvimento na renovação da Igreja," O problema promisso igual, na tarefa assumida por todos no mundo. Os cris-
das estruturas eclesiásticas, reconhece-se, não pode ser tratado da tãos vivem e participam na mesma realidade e assim são um só
mesma maneira que o das organizações gerais da sociedade, em- corpo. O significado da eucaristia é iluminado pelo reconhecimento
bora se perceba que a ordem eclesiástica precise ser mais flexível desse compromisso comum perante o Senhor. Não é apenas a
para melhor responder às aspirações e necessidades do povo co- celebração da presença de Cristo em sua Igreja, mas também a
mum.' A Igreja é chamada a ser o corpo de Jesus Cristo entre os gratidão alegre pelo poder transformador de seu Espírito na comu-
seres humanos; em outras palavras, a ser o corpo do servo." Con- nidade cristã e no mundo. A eucaristia e a koinonia são aspectos
tudo, muitas vezes parece que as pessoas são chamadas para servir inseparáveis da realidade cristã.

192 193
As igrejas que estão procurando responder positivamente ao estão praticando e comunicando a respeito da unidade crista. Nu
desafio dos pobres sentem que suas estruturas devem corresponder mente dos pobres, a .ortopráxis é muito mais importante do qUl'
às da comunidade a que tentam servir. É a experiência, por exem- a ortodoxia para a causa da unidade cristã.
plo, da Igreja Evangélica Metodista da Bolívia, cujas congregações
As novas formas eclesiais oriundas da Igreja dos pobres clu
são formadas principalmente de aymaras. Essa Igreja transformou
ramente ressaltam a necessidade da Igreja ser entendida, na suu
suas estruturas para servir a Jesus Cristo com maior facilidade no
expressão concreta local ou diocesana, enquanto comunidade de
meio de seu povo." É o que também acontece em certos setores
ministérios obedientes a Jesus Cristo no serviço a todos os seres
das igrejas nas Filipinas, na Coréia do Sul e em diversos países
humanos e, em particular, aos mais pobres. O problema é o se-
africanos. o Com isso queremos dizer que as estruturas eclesiásti-
guinte: quem cuida do todo, quem mantém ordem e harmonia
cas devem se adaptar ao povo, e ser suficientemente flexíveis para entre· os diferentes carismas de modo que todas as coisas funcio-
aceitar seus desafios e expressar suas idéias. As comunidades ecle-
nem juntas para a edificação do mesmo corpo? Neste sentido, no
siais de base no Brasil nos dão outro exemplo desta renovação da Brasil, por exemplo, as pessoas envolvidas com as comunidades
Igreja. Em vez de seguir o modelo organizacional que mantém a
eclesiais de base falam sobre o "ministério da unidade" que é
relação vertical entre a autoridade hierárquica superior e o clero (e
exercido pelo ministro (presbítero, bispo ou leigo especialmente
mantém o laicato na posição passiva de mero receptor de serviços designado para essa responsabilidade). Não tem nada a ver com
sem qualquer participação ativa na dinâmica da Igreja), essas comu- o "ministério da autoridade" pelo qual a autoridade é exercida de
nidades afirmam, na sua experiência, a situação real da vida do povo cima, e até mesmo de fora da comunidade. Em contraste com
de Deus como aspecto principal da Igreja, deixando que a organi- este, o ministério da unidade situa-se no centro da comunidade
zação seja mera conseqüência da realidade expressa. "O poder de eclesial devotada a expressar a realidade da Igreja dos pobres em
Cristo (exousía) não se circunscreve a poucos, mas está presente nossa época. 13 Experiências desse tipo podem' ser encontradas na
na totalidade do povo de Deus responsável pelo tríplice serviço índia, África, Itália e outros lugares. Representam novas formula-
de Cristo: testemunho, unidade e adoração. Este poder de Cristo ções de propostas para as estruturas eclesiásticas oferecidas à sé-
diversifica-se segundo funções específicas, mas não exclui nin- ria consideração das autoridades. Não devemos esquecer que, co-
guém"."° Em outros contextos, por exemplo em alguns países so- mo o vento, "o Espírito de Deus sopra onde quer".
cialistas como a União Soviética, onde muitos membros da Igreja O ministério da unidade sublinha os aspectos de participação
não pertencem aos setores governamentais da sociedade, a existên- e de responsabilidade assumidos no interior da comunidade cristã.
cia da Igreja oferece ao povo oportunidade de participação na O uso freqüente de termos como "separar" para designar respon-
vida religiosa. 11
sabilidades eclesias é infeliz por conotar separação geográfica em
Esta nova consciência na vida da Igreja desafia claramente os lugar da identificação com as necessidades da comunidade. Origi-
diferentes ramos do movimento ecumênico e, em particular, do nalmente, essa linguagem refere-se apenas a tarefas necessárias,
Conselho Mundial de Igrejas. Por muito tempo, o ecumenismo tem
como evidenciam as cartas de Paulo. Em muitas ocasiões ele acen-
sido a preocupação de certos círculos de elite das igrejas. T á é
tua "estar com" a comunidade cristã, como fator crucial. Essa ên-
tempo de encontrarmos novos modos de expressá-lo levando em
fase permaneceu na Igreja antiga. Os líderes da Igreja provoca-
consideração o que se passa nas bases, em muitos lugares, onde a
unidade no serviço e no culto parece alcançada com mais facili- ram, muitas vezes, a consciência da situação dos pobres sempre
dade. Trata-se de ecumenismo do povo e dos pobres que não se que a dignidade de seu ofício permitia que suas vozes fossem
preocupam com os aspectos formais da unidade cristã nem dos ouvidas e seus atos visíveis. Entretanto, o registro disso tudo não é
diálogos entre as religiões e as ideologias. Esse ecumenismo do muito claro.
povo acredita que o ecumenismo institucional deve seguir o que As igrejas, tendo demonstrado nos últimos séculos de sua his-
está sendo praticado ao invés de ficar estabelecendo normas para tória que não estiveram e ainda não estão muito perto do povo
o que deveria ser Ieito.?" Este desafio dirige-se não apenas ao (CL Separation without hope?), deveriam agora prestar atenção
Conselho Mundial de Igrejas,mas também, e talvez em termos mais aos muitos e variados desenvolvimentos em processo na Igreja dos
fortes, aos grupos ecumênicos nacionais e regionais. É essencial pobres. Essas coisas indicam que as estruturas eclesiásticas inade-
estar alerta ao que os leigos - homens, mulheres e jovens - já quadas devem ser reformadas. Naturalmente, nem todas as expe-

194 195
6. Cf. o relatório do secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas, Dr.
riências das bases precisam ser institucionalizadas. Mas é essencial Philip A. Potter, à Quinta Assembléia. David M. Paton (ed.), Breaking
que sejam vistas como expressões da peregrinação do povo de Deus barriers: Nairobi 1975 p. 252: "Todas as pessoas têm o privilégio c a
na história, sempre caminhando para a frente, com os olhos no responsabilidade de desenvolver e compartilhar com os outros na co-
futuro, na direção do reino prometido em vez de permanecer ca- munhão do Espírito os dons que receberam. A tarefa do movimento
ecumênico e do Conselho Mundial consiste, portanto, em encorajar as
tivo do passado e das tradições (Hb 12.1-2). Sentimos que, diante igrejas a fomentar essa participação de todos os criados à imagem de
dessa situação, o Conselho Mundial de Igrejas deveria tomar a ini- Deus e fortalecidos pelo Espírito na vida da congregação e da comuni-
ciativa de procurar canais e meios pelos quais tais expressões e dade ". Grand Rapids, Michigan, Wm B. Eerdmans, e Londres, SPCK,
culturas se tornassem conhecidas. Precisa-se de mais pesquisa nes- 1976.
sa área. Essa pesquisa não deve se limitar aos programas de jus- 7. Como se lê no Relatório de uma consulta ecumênica asiática sobre
desenvolvimento: prioridades e orientações, p. 59 e 60, sobre "Igreja e
tiça e serviço, mas estender-se também aos de fé e testemunho. estruturas societais": "1. Recomendamos a descentralização de serviços
diante da ruptura e da relocação das estruturas de serviços. .. 2. Cre-
NOTAS
mos que as estruturas elitistas e hierárquicas da Igreja não mais ofere-
1. CL Leonardo Boff, Eclesiogênese: as comunidades eclesiais de base re- cem o dinamismo necessário para refletir o ethos destes novos tempos
inventam a Igreja, especialmente número 4 e 5 de SEDOC, v. 9, n. 95, e promover o verdadeiro desenvolvimento com a participação do povo.
sobre Comunidades eclesiais de base, outubro de 1976, col. 410-418. 3. Queremos estruturas inicialmente mais abertas e receptivas às genuínas
Também, do mesmo autor, "As eclesiologias presentes nas comunidades tentativas e programas inovadores destinados a promover este novo
eclesiais de base", Uma Igreja que nasce do povo, n. 201-209, Petrópolis, espírito de desenvolvimento, mesmo se não forem muito ortodoxos".
Vozes, 1975. Cingapura, Conferência Cristã da Asia, 1974.
2. José Miguez Bonino, seguindo Diez Alegria, comenta: "O cristão com- 8. CL CENPLA, Avaliação da obra da Igreja Metodista na Bolívia, Rio de
prometido com a libertação torna-se, por isso mesmo, envolvido na luta Janeiro, 1978, mimeografado.
pela reforma da Igreja, ou, para dizê-l o mais drasticamente, pela recons- 9. Ver o capítulo X deste livro.
tituição do cristianismo no qual todas as formas de organização e ex- 10. CL Leonardo Boff, op. cit., col. 413.
pressão venham a ser humanizadas e liberadas". Revolutionary theology 11. CL Erich Weingartner (ed.), Church within socialism: Church and State
comes o/ age, p. 159, Londres, SPCK, 1975. in East European Socialist Republics, p. 55: " ... a vida eclesiástica
3. CL entre outros o que diz o bispo da Paraíba, Marcelo Pinto Carva- não demonstra nenhum sinal de estar moribunda ou inativa. Pelo con-
lheira em "A caminhada do povo de Deus na América Latina", Revista trário, tudo indica que a religião experimenta grande reavivamento,
Eclesiástica Brasileira, v. 38, fascículo 150, 1978, p. 316-319. Christian especialmente entre os jovens, e apesar do tradicionalismo essencial da
Lalive D'Epinay, Haven o] the masses, p. 50 e seguintes, Londres, Lut- teologia ortodoxa, a Igreja não tem sido cega aos desafios de nosso tem-
terworth, 1969. po." Roma, IDOC, Dossiês 2 e 3, 1976.
4. CL Dietrich Bonhoeffer, Ethics, p. 17 e seguintes, Londres, SCM Press, 12. CL por exemplo Stanley J. Samartha (ed.), Towards world community:
1955. the Colombo papers, p. 126-129, sobre "A common commitment to
5. Marcelo Pinto Carvalheira, op. cit., p. 326: "Em face dos poderes deste reconstruct community" e "Ways of working together", Genebra, WCC,
mundo e da sua capacidade de manipulação para alcançar seus projetos 1975. Também C. S. Song, Christian mission in reconstruction: an asian
de grandeza tecnológica e política, a comunidade da fé, portadora do attempt, p. 190: "Não podemos, portanto, dizer simplesmente que as
projeto de Deus, talvez venha a se sentir impotente e ver sua esperança religiões, universais ou primitivas, não passem de produtos da imagi-
sabotada. É nesse contexto que a fé cristológica torna-se mais decisiva. nação do homem ou de sua natureza pecaminosa. .. Ao entendermos a
Em Jesus crucificado Deus mostrou o destino do poder deste mundo; importância de todas as religiões nos tornaremos, como cristãos, humil-
ele não nos leva ao Reino de Deus. Para esse propósito Deus escolheu des e alegres .•- humildes porque o cristianismo não será o único
o que é loucura no mundo "para confundir os sábios; e o que é fra- guardião da verdade de Deus, e alegres porque o amor de Deus em
queza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o Jesus Cristo envolve também os que estão fora da Igreja cristã de modo
que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para igualmente salvador." Madras, Christian Literature Society, 1975. Gus-
reduzir a nada o que é" (1 Co 1.27 e 28). A missão da fé consiste em lavo Gutierrez, de outro contexto, diz em sua Teologia da Libertação:
representar constantemente e em presentificar esse poder de Deus, dan- "A unidade vai se forjar não a partir dos que dizem 'Senhor, Senhor",
do-lhe forma concreta segundo o modelo deixado por Jesus Cristo. mas dos que 'fazem a vontade do Pai'. Reconhecer o fato da luta de
Esse poder passa pela fraqueza, pela pobreza e pela morte, amoroso, classes e nela participar ativamente, não será, então, para a comunidade
esperançoso e devotado a todos. A ressurreição demonstra a força dos eclesial negar a mensagem de unidade de que é portadora, mas precisa-
fracos: são eles os herdeiros da vida e os inauguradores do novo mun- mente descobrir a senda que a permitirá libertar-se daquilo que no
do. A comunidade cristã vive por esta esperança e se organiza no poder presente a impede de ser sinal claro e verdadeiro da fraternidade hu-
da ressurreição. Não teme os poderosos deste mundo, porque sabe que mana". Teologia de Ia liberación, CEP, Lima, Peru, 1971, p. 348.
o Senhor venceu este mundo (Jo 16.33). Em última análise, Deus é o 13. Cf. Leonardo Boff, op. cit., col. 414 e 415.
Senhor da história e não esses poderosos. Deus conduz a história ao seu
final feliz, apesar do ziguezaguear humano e do peso mortal do pecado".

196 197
XIII. Envolvimento social Deus em Jesus Cristo se colocou ao lado dos pobres, mas também
que Jesus está sacramentalmente presente entre os pobres de hoje. '1

As atividades dos pobres, com suas lutas pela justiça e pela liber-
tação, devem ser levadas em consideração tanto no envolvirncnto
da Igreja com trabalho social como na sua pregação. O Evangelho
da Libertação é oferecido por Deus em Cristo a todos os homens
e mulheres indiscriminadamente.
Estaremos dizendo que a Igreja deveria ser como um partido
político? De maneira alguma. A Igreja abre-se para todos: é a
reunião dos chamados, e Deus não exclui quem quer que seja
desse chamado. Se a Igreja viesse a ser como qualquer partido
fi

político, não seria mais a irmandade dos chamados, mas mero gru-
Importante característica das igrejas que optam claramente pe- po exclusivo. A Igreja dos pobres não exclui outros grupos ou
los pobres é a recusa de ver a ação social como mero apêndice da classes sociais desde que expressem em palavras e atos a preocupa-
missão para considerá-Ia a forma da práxis substancialmente pre- ção pela justiça e pela libertação dos oprimidos como se vê no
sente na proclamação da comunidade cristã aos pobres." O envol- ministério de Jesus (Lc 4.17-21). Ao procurar ser fiel a Jesus
vimento social, assim, faz parte indispensável da vida da Igreja. Cristo, a Igreja olha nessa direção: quer serví-Io entre os pobres.
Na experiência da Igreja dos pobres, é impossível separar ação na estando com eles. Decorre daí a sua ação política. Jesus Cristo,
sociedade e proclamação da mensagem libertadora de Jesus Cristo. presente nos "menores" (Mt 25.31-46) e nos pobres, exige que o
Essa é a missão cristã. significado da mensagem se expresse por meio de práxis social
Procura-se corrigir a idéia de que a proclamação da Palavra solidária para com os pobres, tornada clara e específica no envol-
é mais importante do que a .ação social. Desta forma, a pregação vimento social.
da mensagem tem função normativa em relação ao envolvimento Como já vimos, a busca de libertação é elemento constante
social. O significado da proclamação da Palavra traça os parâme- nessa práxis social. Os Hebreus, oprimidos no Egito, sob a domi-
tros dentro dos quais a ação social cristã vai operar. Em geral a nação faraônica, não desejaram outra coisa. As comunidades ne-
mensagem é proclamada de tal maneira que transmite o ponto gras, ainda escravizadas nas Américas, desejam a libertação." As
de vista do grupo dominante da sociedade. Há exceções a esta pessoas que lutaram contra o poder colonial em favor da indepen-
regra geral, naturalmente, mas tendem a atrair a atenção dos que dência, queriam a libertação. É o que também desejam os que
controlam o sistema produtor de idéias. Assim, os que ousam se sofrem violações dos direitos humanos. Igualmente, os que se sen-
opor ou criticar os que manipulam os meios de dominação são tem amassados pelos mecanismos opressivos que refletem a "lei do
advertidos ou silenciados. Entretanto, se a apresentação da men- mercado". Libertação, portanto, é a busca permanente dos pobres
sagem for feita em relação à práxis da comunidade eclesial, torna- e oprimidos." Acham-se, às vezes, de tal maneira oprimidos, que
se mais difícil o exercício desse controle dos poderosos. A men- nem mesmo conseguem efetivar essa procura. A experiência histó-
sagem estará substanciada não em teoria ou em conceitos abstra- rica nos mostfà, contudo, que não se entregam: a luta continua!
tos, mas na vida concreta. E as comunidades cristãs com eles envolvidas sabem muito bem o
As igrejas inclinadas favoravelmente aos pobres sabem que o que isso significa.
envolvimento social relaciona-se intimamente com a apresentação O envolvimento social das igrejas significa seu compromisso
da mensagem. 2 Envolver-se com a ação social significa também com os pobres nessa luta. Não se trata de ação social em benefício
pregar o Evangelho. A Igreja sempre será, em palavra e ação, dos pobres. Se fosse assim, teria de ser chamada de assistência
"comunidade confessante". Os atos apoiam a pregação e a prega- social e não de "ação social". A assistência social possui conota-
ção acompanha a ação social na comunidade cristã." Não poderia ções paternalistas." Além disso, a identificação da ação social
ser de outra maneira na vida da igreja cujo envolvimento social com assistência social não poderia ser descrita como essencial à
não se determina a priori mas de seu compromisso real com os missão da Igreja. Ao ficar do lado dos pobres, a Igreja participa
pobres. Como já dissemos, a Igreja dos pobres não só acredita que de suas lutas e preocupações e substancia a proclamação do Evan-

198 199
gelho na práxis da libertação abrindo caminhos para a vinda de a Igreja precisa desafiar radicalmente o sistema social." Na Amé-
uma sociedade nova, mais justa e mais participatória. rica Latina, ela tem que se opor aos regimes militares acostuma-
As comunidades cristãs decididas a trilhar esse caminho esfor- dos a empregar novas formas de segurança nacional organizada
çam-se para manter viva a esperança entre os pobres. Trata-se de para violar os direitos humanos e institucionalizar o autoritarismo
compromisso custoso, pois não é nada fácil ter esperança numa e a tortura.?" Na África a Igreja terá de desafiar as estruturas
sociedade caracterizada por escandalosa pobreza, como é a nossa. neo-colonialistas responsáveis pela manutenção do estado de depen-
Mas as igrejas possuidoras desta esperança crêem que Jesus Cristo dência dos povos do continente, e lutar contra os poderes do
age continuamente entre os pobres. Estão prontas para persistir racismo. Na América do Norte, ela deverá ser solidária com os
nessa esperança porque confiam neles e sabem porque lutam. 9 grupos minoritários oprimidos. Na Europa, a Igreja deverá estar
Participam, então, em sua resistência em face dos poderes opres- do lado da causa dos trabalhadores estrangeiros. Em nível mun-
sores, como fizeram as igrejas das Filipinas, ou no Chile, por meio dial, ela terá de se opor às operações oligárquicas políticas do
de esforços contra a repetida violação dos direitos humanos. Advo- capital transnacional, particularmente quando se mostram profun-
gando a causa dos pobres mostravam-se coerentes com o compro- damente envolvidas com a produção militar e com o comércio de
misso com eles assumido. 10 armas.14 Observemos que não vêm das igrejas, primeiramente, a
Na Europa Ocidental, há comunidades cristãs lutando pelos proposta desse tipo de envolvimento, mas, acima de tudo, dos po-
direitos dos operários migrantes, e combatendo o racismo não ape- bres em sua luta contra os males que lhes oprimem.
nas em seus países também em outros lugares do mundo. Em alguns Certos setores das igrejas organizadas não querem se envol-
países, como na África do Sul, na Coréia do Sul e no Brasil, têm- ver com esse tipo de comprometimento por achá-lo "retórico". Fi-
se envolvido em lutas para abrir espaços à ação popular. Por meio cam, então, dizendo que a única atividade válida no campo social
de compromissos desse tipo, algumas igrejas estão demonstrando é a assistência e a caridade. Ê provável que se essas igrejas ouvis-
solidariedade para com os pobres e oprimidos em seu desejo de sem com mais cuidado o clamor dos pobres, mudassem de posição.
criar uma sociedade melhor. Essas igrejas não querem liderar a Perceberiam que a luta dos pobres é muito mais séria e profunda
caminhada mas apenas acompanhar o povo em sua peregrinação do que mera retórica. Tem custado, na prática, as vidas de milha-
para a liberdade e para a justiça. res de jovens na África do Sul, na Nicarágua e no Líbano, entre
Os que tomaram essa opção entraram num processo de trans- outros países. Trata-se de um movimento que exige das igrejas
formação contínuo e doloroso. Tem sido preciso acabar com ve- muito mais do que simples caridade. Espera delas demonstrações
lhas alianças tradicionais com os donos dos mecanismos de domi- práticas de amor em ação, enfrentando as raízes da injustiça e não
nação existentes nos centros de poder. E, por outro lado, mostrar apenas seus efeitos.:" Quando isso acontece, os pobres percebem
solidariedade com os pobres sem querer dirigí-los ou simplesmente que não estão sós em sua luta. Nesse momento, podem reconhecer
dizer-lhes o que fazer. Ao contrário, é a prática social dos pobres a Igreja dos pobres. E o que é mais importante, podem ver a pre-
que dá substância ao envolvimento social da Igreja. Com isso as sença de Jesus Cristo na Igreja.
comunidades cristãs comecam a ser educadas na humildade. Sa- As Igrejas, por sua vez, descobrem que não existe separação
bem que não são líderes no processo da libertação. Podem apenas entre martyria e~diakonia, entre testemunho e serviço. O testemu-
servir os pobres por meio desse tipo de envolvimento. E precisam nho se torna real por-meio do serviço expresso nesse compromisso.
estar preparadas para pagar o preço dessa opção, assim como os Ao mesmo tempo, o serviço só pode ser explicado em termos de
pobres já o pagaram ao longo da história. proclamação, quando alguém procura saber as razões do mesmo.
Ê impossível, pois, tentar-se impor aos pobres as idéias das igrejas
o testemunho e o serviço são inseparáveis a respeito da maneira como a luta contra as causas da opressão
deva ser conduzi da ou de como eliminar a fome no mundo. Pelo
Ao se alinhar com os pobres, as igrejas tudo fazem para alcan- contrário, as igrejas precisam estar com os pobres de acordo com
çar seus alvos e objetivos: justiça social numa sociedade libertada o sentido do Evangelho. Por exemplo, as igrejas têm recebido ulti-
da exploração econômica, e da opressão sexista e institucionalizada, mamente de vários lugares, pedidos de ajuda financeira para a
a fim de que as necessidades humanas básicas venham a ser satis- realização de cursos de treinamento para agentes de mobilização
feitas, e a vida compartilhada entre todos. Na India, por exemplo, social. Na Indonésia, são conhecidos como "motivadores", em cer-

200 201
tas partes da África, "animadores", na Ásia "catalisadores" e na são da solidariedade existente entre os diferentes membros do mes-
América Latina, "agentes de pastoral". O título não é muito impor- mo corpo (1 Co 12). A Igreja primtíva praticava e afirmava a
tante. O que realmente importa é que os pedidos são feitos pelos solidariedade. Essa solidariedade, também se manifesta, por outros
próprios pobres. Estão sentindo a necessidade de treinar pessoas meios, entre os pobres. Em geral compartilham o que têm, entre
para trabalhar com eficiência nas várias situações em que vivem. si. Não nos surpreende, pois, que a idéia neotestamentária da
Mas não desejam ser dependentes. Acreditamos que pedidos dessa koinonia, comunidade dos que participam dos dons do Espírito
natureza exigem respostas adequadas das igrejas donas de recursos Santo e da mesa do Senhor, se expresse mais plenamente e com
bem como do Conselho Mundial de Igrejas. mais realidade nas igrejas dos pobres do que nas igrejas dos ricos.
Para resumir nosso ponto de vista sobre o envolvimento so- Não nos surpreende por que os pobres sempre viveram a soli-
cial - baseados em experiências de grupos e paróquias cristãs - dariedade com mais naturalidade do que os ricos.
podemos dizer que ele precisa ser visto e formulado em relação Entretanto, notemos que os problemas criados pela existência
orgânica com as aspirações dos próprios pobres. Passa-se, assim, a da pobreza no mundo em geral, estão desafiando a consciência dos
representar um "papel instrumental". Infelizmente, as igrejas, mui- ricos nestas últimas duas ou três décadas. Em resposta a esse de-
tas vezes, têm atuado como instrumentos dos ricos. re Dessa ma- safio a ajuda está sendo organizada e institucionalizada. Os ricos
neira, não podem achar nenhuma justificação no Evangelho (Lc estão oferecendo aos pobres enormes somas em dinheiro, toneladas
18.24 e seguintes; Mt 19.23 e seguintes; Me 10.23-25). Mas os de alimentos e milhares e milhares de peritos para lhes ajudar. Em
sinais a que nos referimos nestas páginas indicam que as igrejas poucos casos os resultados têm sido bons; e assim mesmo porque
desejam agora trabalhar em relação orgânica com os pobres, repre- as pessoas envolvidas com o problema puseram-se a transformar
sentando papéis instrumentais, e tornando-se, afinal, igrejas dos a situação. Nesses casos, a ajuda material serviu de apoio, como
pobres. Como já vimos, essa escolha não exclui ninguém que deseja expressão de solidariedade com os desprivilegiados. Mas na maio-
ser fiel à vocação de Jesus Cristo. ria dos casos os resultados obtidos não equivalem à quantidade de
Dessa maneira evita-se trabalhos paternalistas de tipo "assis- assistência dada aos pobres pelos ricos. l8 Esse tipo de auxílio
tencialista" e "caritável". Não se trata de opção "triunfalista". ocultava, em geral, outros interesses, como evidenciam pesquisas
Segundo entendemos, trata-se da opção dos que desejam ser discí- recentes. 19
pulos de Jesus Cristo e se acham prontos para seguí-lo quando e Internacionalmente, a organização do sistema de ajuda se faz
onde quer que seja. Por isso recebemos com gratidão a declaração principalmente por meio de projetos elaborados pelos necessitados.
da Assembléia de Nairobi do Conselho Mundial de Igrejas quando Recebem, então (às vezes nada recebem), ajuda financeira de
afirma que participação no desenvolvimento significa "unir-se com "agências donantes" (internacionais, não-governamentais, mistas,
todos os que se envolvem com a organização dos pobres em sua benevolentes etc.). Em certos casos, esse dinheiro ajudou muitas
luta contra a pobreza e a injustiça". 17 Essa afirmação faz parte do pessoas a se libertarem da pobreza e alcançar independência. En-
ministério profético ao qual Deus chama as igrejas, tanto na de- tretanto, na maioria dos casos, esse tipo de auxílio apenas serviu
núncia das estruturas injustas que oprimem os pobres como ao para consolidar situações de dominação e dependência. Nesses ca-
nos lembrar dos vários sinais do Reino de Deus na história. sos, não há solidariedade verdadeira nem participação, mas rela-
ções assimétricas com grande margem de interferência dos "doa-
dores".120 Estabelecem-se, dessa maneira, relações de desigualdade.
Chamado para a solidariedade
Aplica-se o princípio das "leis do mercado" ao sistema de projetos,
A Igreja no Novo Testamento expressou essa preocupação por transformando-o num "mercado de projetos". Certamente, não se
meio de participação. A comunidade em Jerusalém compartilhava ataca a pobreza em suas raízes com esse tipo de ajuda. A ajuda
com os outros a sabedoria que tinha e os dons do Espírito. A precisa ser dada em termos de solidariedade, de tal maneira que
comunidade de Antioquia partilhava com as outras comunidades seja visível na totalidade do processo.
cristãs da época sua preocupação com o trabalho missionário da Numa perspectiva desse tipo, a participação de recursos pode
Igreja. São Paulo pedia aos coríntios e a outros que dividissem ajudar na libertação dos pobres, significando:
com os pobres de Jerusalém a riqueza possuída (Cf. 2 Co 8.9 e se- a) libertação dos pobres explorados do Terceiro Mundo onde
guintes). Essa participação mútua deve ser entendida como expres- a maioria das pessoas estão perecendo de fome, de pobreza física,

202 203
de ignorância, de alienação cultural e de opressão política, gera-
causado pelo sistema capitalista imperialista, e que somente o
dora de todos os tipos de problemas;
socialismo poderá oferecer o tipo de auxílio radical na situação
b) libertação dos setores pobres do mundo, considerados presente além de atos ocasionais de alívio da miséria. Uma vez
"prósperos", capitalistas e socialistas, chamados de "civilizados"
que a solução do problema relacionado com esse contraste é vital
- em geral, "civilização cristã" - onde pequenas minorias igno- para a humanidade, deveríamos nos orientar pelo socialismo, mes-
ram as dimensões humanas de sua verdadeira pobreza humana, mo sabendo que nesse campo, ao se superar o passado, luta-se
buscando cega e avidamente caminhos e maneiras para assegurar contra novos problemas ... O· cristão precisa ter consciência des-
a própria dominação sócio-econômica baseada na expansão egoísta sas realidades em seu serviço no mundo. Se o cristão procura,
e no gozo de posses e, quase sempre, satisfazendo a interesses hoje, a solução radical do problema colocado pelo conflito entre
egoístas e desprezíveis. a riqueza e a pobreza, não pode escapar da questão que o leva a
Observemos, pois, que o exercício da solidariedade liberta os cooperar com as forças do socialismo". 22
ricos 21 no sentido em que quando o cristão materialmente abastado O mesmo tipo de convicção é expresso pela "Confissão de
se torna responsável e profeticamente consciente da necessidade Fé" da Igreja Presbiteriana Reformada de Cuba: "A Igreja vive
da solidariedade humana, ele também passa a ver com clareza que na prática real e concreta da liberdade humana -conquista por seus
todos os seres humano são, ao mesmo tempo, ricos e pobres. membros na participação comprometida com o desenvolvimento
Portanto, porque podemos, devemos compartilhar com os outros qualitativo e o crescimento quantitativo do "amor-justiça", nas
todo o potencial material, cultural e humano e todos os fatores estruturas sócio-políticas e econômicas da sociedade humana, in-
que orientam nossas aspirações comuns para o desenvolvimento, cluindo as próprias estruturas da Igreja enquanto instituição sócio-
para a realização do ser humano completo e de todos os seres jurídica. .. A Igreja não apoia Rem serve as classes opressoras
humanos (2 Co 8.8-15). com seus interesses destruidores da vocação humana para a liber-
Assim, na medida em que não somos deste mundo, mas "co- dade, por meio da exploração do trabalho de muitos para o
locados no mundo" (Jo 17.5-18) para regenerá-lo, temos o privi- aumento da riqueza de poucos às custas do crescimento geral da
légio de ser chamados para refletir o imensurável amor de Cristo, miséria humana, "sinal" da frustração do amor de Deus". 2:1
o Verbo feito carne. O Filho de Deus que se tornou filho do
homem permite que participemos da exuberante abundância do NOTAS
seu reino de justiça. Não nos pede mais do que isso: de que parti- 1. Cf. o relatório da primeira seção da Conferência Mundial sobre a Sal-
cipemos nos tesouros de seu reino soberano e rico. vação Hoje, sobre cultura e identidade, parágrafo 7: "Quando os 'agen-
tes de salvação' colocam-se mesmo equivocamente do lado dos opresso-
res, a mensagem cristã é distorcida e a missão perde o sentido". Bangkok
Envolvimento social em países socialistas Assembly 1973, Genebra, CWME/WCC, 1973, p. 74. Também se lê no
relatório da seção I sobre a confissão da fé hoje, da Quinta Assembléia
Poderia se pensar que as exigências de envolvimento social do Conselho Mundial de Igrejas, a respeito do evangelho integral: "O
das .igrejas com os pobres dirigem-se apenas às comunidades cris- Evangelho\ sempre inclui: o anúncio do Reino de Deus e do amor por
tãs do mundo capitalista, em nações tanto pobres como ricas, e meio de Jesus Cristo, o oferecimento da graça e do perdão dos pecados, o
convite ao arrependimento e à fé em Cristo, o chamado à irmandade
que as igrejas nos países socialistas estariam fora dessa preocupa- na Igreja de Deus: o mandamento para se testemunhar as palavras e
ção. Saibamos, no entanto, que essas igrejas conhecem muito bem os atos salvadores de Deus, a responsabilidade de participação na luta
esse desafio dos pobres em relação a seu envolvimento social. Por em favor da justiça e da dignidade humana, a obrigação de denunciar
exemplo, recente publicação da Igreja Evangélica Luterana da Hun- tudo o que impede a realização da plenitude humana, e o compromisso
do risco da própria vida". David M. Paton (ed.), Breaking barriers:
gria diz o seguinte a respeito da participação dos cristãos no de- Nairobi 1975 (os itálicos são nossos). Grand Rapids, Wm B. Eerdmans,
senvolvimento: "Estaríamos falando no vácuo a respeito da riqueza e Londres, SPCK, 1976.
e da pobreza se não considerássemos o desenvolvimento histórico 2. CL Igreja Evangélica Metodista na Bolívia, Manifesto to the nation,
que levou a humanidade a esse contraste inaceitável entre riqueza CCPD, Dossiê n. 1, Churches in development, Genebra, WCC, 1973_
e pobreza. Mesmo se admitíssemos ser errado ou impossível um 3. Tg 2.14-17: "Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem
padrão de vida igual para todos os habitantes do mundo, não há obras, que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-lo? Se um
irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário
dúvida de que o triste contraste entre riqueza e pobreza tem sido
para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser: 'ide

204
205
em paz, aquecei-vos e saciai-vos', e não lhes der o necessário para a 13. Cf. Gustavo Gutierrez, op. cito
sua manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se 14. Cf. o relatório da consulta sobre militarismo do Conselho Mundial de
não tiver obras, será morta em seu isolamento". Igrejas, realizada em Glion, Suíça, de 13 a 18 de novembro de 1977, p.
4. Cf. Julio de Santa Ana, Good news to the poor, capítulos H e IH, p. 8-11, Genebra, CCIA/WCC, 1978.
12-35, Genebra, WCC, 1977. Também os capítulos XIII e XIV deste 15. Cf. Thomas Cullinan, OSB, The roots of social iniustice, p. 8 e seguin-
livro. tes. A privatização da propriedade representa, para ele, uma das princi-
5. É Deus que reúne sua ekklesia por meio de sua Palavra, com o poder pais causas da injustiça social. Londres, Catholic Housing Aid Society,
do Espírito que vem do testemunho apostólico. Explica-se assim porque 1973.
grupos de cristãos caracterizam-se por nomes indicadores do fato de
16. Cf. [ohn Kent, "The Church and the Trade Union Movement in Britain
que se reúnem na igreja. pelo chamado de Deus. Eles são "chamados"
(Rm. 1.6) para ser santos (Rrn. 1.7; 8.27). A palavra grega ekklesia in the 19th century". Julio de Santa Ana (ed.), Separation without
hope?, p. 30-37, Genebra, WCC, 1978.
relaciona-se com o verbo kaleo, chamar. Não há Igreja sem o chamado
de Deus. 17. Cf. o relatório da seção IV sobre "desenvolvimento humano: ambigüi-
6. CL a expressão deste esforço em [ames Cone, Black Theology and Black dades do poder e da tecnologia e a qualidade da vida", da Quinta As-
sembléia do Conselho Mundial de Igrejas. Davi M. Paton (ed.), op. cit.,
power, New York, Seabury Press, 1969.
parágrafo 12.1, p. 123.
7. Cf. Teologia de Ia liberación, de Gustavo Gutierrez. Ver também a obra
de M. M. Thomas, Towards a theology of contemporary ecumenism, p. 18. Iohn White, The politics of [oreign aid, Londres, Bodley Head, 1974.
148 e 149, Madras, Christian Literature Society, 1978. 19. Theresa Hayter, Aid as imperialism, Hardmonsworth, UK, Penguin
Books, 1971.
8. Cf. Bispo Paulose Mar Paulose, Church's mission: 1. Struggle for justice.
2. lnvolvement in political struggles, p. 21 e 22: "A Igreja coreana vive 20. Cf. o dossiê n. 8 sobre qualidade do auxílio, Genebra, CCPD/WCC,
hoje sob ditadura política, e. .. acredita que o poder político opressor 1976. Ver especialmente "Combined analysis of the replies to the
contradiz a fé cristã e a missão da Igreja. Qualquer igreja responsável questionnaire on 'the quality of aid' ", p. 21.
não pode ficar indiferente a esse tipo de situação, pois ao deixarmos 21. Foi o que o jovem rico não entendeu: cf. Mt 19.16..22; Me 10.17-22 e
de lado a responsabilidade de cristãos no que concerne à preservação Lc 18.18-30. Ver também Julio de Santa Ana, op. cit., p. 24-28. Essa
e promoção da dignidade humana estaremos abandonando a fé em experiência de libertação foi vivida por Pierre Vaudês, fundador do
Jesus Cristo. Portanto, a igreja coreana, em meio à repressão e à per movimento valdense no século doze. Cf. [ean Gounet e Amadeo Molnar,
seguição, envolve-se na luta pelo restabelecimento dos princípios demo- Storia dei Valdesi, col. I, p. 10-13, Torino, Claudiana, 1974.
cráticos em nosso país, para a reorganização da sociedade sob o pleno
22. Contribuição da Igreja Evangélica Luterana na Hungria à Sexta Assem-
reconhecimento da dignidade básica do ser humano. Ela está levando
bléia da Federação Luterana Mundial realizada em Dar-Es-Salaam, em
a sério o Evangelho. Sabe que o Evangelho é a palavra da reconcilia-
1977: ln Jesus Christ a new community, Budapest, Magyarországi Evan-
ção. E, também, que o ministério da reconciliação envolve não apenas
gélíkus Egyház, Sajtoosztálya, 1977, p. 114 e 115.
a reunião dos opositores alienados, mas também a luta pela libertação
dos oprimidos e explorados". Bombaim, Build, 1978. Em situação dife- 23. Citado por Sergio Arce-Martinez em "Development, People's Partici-
rente, a declaração dos bispos do Centro-Oeste do Brasil, Marginaliza- pation and theology", The Ecumenical Review, V. 30, n. 3, 1978, p. 271.
ção de um povo, expressa compromisso semelhante. Goiânia, 1973, es-
pecialmente p. 41-44.
9. Gustavo Gutierrez, Signos de lucha y esperanza: testimonios de Ia igle-
sia en América Latina 1973-1978, introdução, p. xlii: "Os pobres sabem
que a história lhes pertence e que embora chorem hoje, hão de rir
amanhã (Lc 6.21). Essa risada vem da profunda confiança no Senhor ~
- do tipo encontrado nos cânticos de Ana e Maria - que os pobres
vivem no meio da história que querem mudar. Essa alegria é subversiva
num mundo de opressão, perturbando os poderosos, denunciando o
medo dos hesitantes e revelando o amor do Deus da esperança ", Lima,
CEP, 1978.
10. Cf. lohn Perkins, "What it means to be the Church", International Re-
view of Mission, v. LXVI, n. 263, sobre "direitos humanos", julho de
1977, p. 244-247.
11. Ver o capítulo X deste livro.
12. Cf. Robert F. Currie, S1. The Church: credible sign of people's liber-
ation? Socio-political and theological analysis of a church movement in
Bihar, lndia, Mermajal PO, Mangalore, Centre for Human Concern,
1978.

206 207
XIV. Esforço comum pela produziram enorme impacto no mundo e não podem ser ignora-
das." As ideologias responsáveis por tais feitos são levadas a sério
nova sociedade em muitos países na busca da nova sociedade. Os instrumentos
empregados por essas ideologias estão sendo utilizados para a
compreensão das situações locais sem a idealização daquelas expe-
riências. O gandhismo é outra ideologia presente nessa busca no
contexto indiano. '6 A sarvodaya (bem estar para todos) ainda é o
sonho indiano profundamente enraizado em seu meio cultural. O
nacionalismo é outra ideologia ainda não bem definida e, talvez,
reacionária, mas que se faz presente em inúmeras situações. 7

A segunda influência é a das religiões e crenças. Predomina


no cenário asiático gente não cristã. O islamismo aumenta consi-
Já assinalamos que a sociedade humana de nossos dias divide- deravelmente em muitos países do mundo. Boa parte das pessoas
se entre ricos e pobres - os que têm e os que nada têm, opresso- envolvidas com a busca da nova sociedade pertence a religiões e
res e oprimidos. Estamos todos preocupados com o fato da pobreza culturas que, em geral, não se chamariam de cristãs. A busca da
e entendemos que a principal causa dessa situação é a opressão e nova sociedade em tais contextos resulta no renascimento dessas
a exploração. 1 As forças da opressão, embora numericamente mi- religiões a partir do final do século 19 até nossos dias, especial-
noritárias, são poderosas e unidas e sua atividade é sistemática e mente na Ásia. Reconhece-se, também, que certos elementos pre-
abrangedora. Elas mantêm a opressão e conduzem a exploração, sentes nas religiões e nas culturas exercem função repressora e
deixando o povo na periferia, e representando o jogo de deixar devem ser abandonados na busca da nova sociedade. 8
cair algumas "migalhas" na forma de caridade ou de ajuda, ao
mesmo tempo em que reservam para si as principais riquezas e A Igreja na busca da nova sociedade
recursos do mundo."
Jesus Cristo anunciou a vinda do Reino de Deus e seus após-
Os pobres começam, aos poucos, a se dar conta da situação. tolos falaram de "novo céu e nova terra". Jesus pregou, ensinou e
Os sinais desse fato são visíveis em todas as sociedades e nacões. A curou os doentes no contexto do anúncio da nova sociedade. Não
luta contra o colonialismo é bom exemplo atualmente. C;esce a se mostrou preparado para institucionalizar os "serviços" de cura
inquietação e aumentam as áreas de conflito no mundo, e o povo dos enfermos e de dar alimento aos famintos. Procedeu dessa ma-
começa a desafiar "as principalidades e os poderes". As forças neira para mostrar ao povo na vida diária novas possibilidades e
opressoras contra atacam com mais opressão e assistimos ao co- para encorajá-Ia a participar em movimentos destinados à criação
lapso e ao estabelecimento de ditaduras, especialmente na Ásia, de comunidades humanas verdadeiras sem a exploração de uns
na África e na América Latina, onde vive e luta a maioria dos pelos outros." Não foi o fato de auxiliar os pobres que veio a
pobres do mundo. J ameaçar os opressores da época, mas a pregação e o ensino a res-
peito do Reinoçde Deus, juntamente com os sinais do desperta-
A busca da nova sociedade #
mento do povo. As Boas Novas que pregou ainda ecoam no mundo
As lutas e conflitos que vemos ao redor são sinais da cons- e seu espírito está presente em movimentos tanto dentro como fora
tante busca da nova sociedade. Os povos da Ásia e da África sob da Igreja. Importantes personalidades devotadas à luta pela digni-
o colonialismo ocidental pensavam que seriam livres se se livras- dade e pela liberdade, essenciais às Boas Novas pregadas por Je-
sem desse imperialismo. Entendamos que os atuais governantes, sus, não fazem parte da Igreja, como Mahatma Gandhi. Hoje em
embora nacionais, são ainda agentes do neo-colonialismo e conti- dia, a busca da nova sociedade expressa-se, principalmente na
nuam a oprimir o próprio povo." A procura da nova sociedade Ásia, muito mais fora da Igreja do que nela, coisa que nos deve
começa a ser feita a partir desta experiência e frustração. Há duas levar à humildade e, ao mesmo tempo, à gratidão a Deus.
influências principais. Em primeiro lugar, das ideologias. Sem en- A Igreja nos países desenvolvidos, com poucas exceções, re-
trarmos na discussão dos méritos ou das limitações das experiên- sultou de empreendimentos missionários de igrejas ocidentais com
cias da Rússia e da China neste século, pode-se dizer que elas o apoio do expansionismo colonial a partir do século dezesseis.

208 209
Os missionários manifestaram-se agressivos como quem trazia "a 1. A qualidade da busca: Será enriquecida ao nos unirmos
luz" aos "filhos das trevas" condenados a viver nessas terras pa- com pessoas de outros credos e ideologias. 13 Ê bastante limitada a
gãs. A conversão a que chamaram o povo envolvia o abandono de experiência das igrejas, especialmente em situações minoritárias, na
suas raízes sócio-culturais ao lado da mudança religiosa, para ado- compreensão da dinâmica da sociedade e das suas realidades. E
tar práticas e valores da nova cultura.
10 Com isso "separavam-se" bastante importante a busca comum quando o problema deve ser
dos companheiros e das comunidades originais transformando-se visto em todas as suas dimensões e manifestações com a finalidade
em grupo exclusivo. A mensagem pregada pelos missionários per- de se identificar suas causas. Algumas experiências em países asiá-
tencia, em geral, ao domínio metafísico chamando a atenção dos ticos, onde mulheres e homens de diferentes religiões e ideologias
nov-os convertidos para um outro mundo. Os países e comunidades agem e pensam juntos, podem nos ser úteis. 14 Esse processo não
alcançadas pelos novos pregadores reagiam desfavoravelmente e se confina a níveis locais e nacionais. Igrejas e organizações como
viam os novos convertidos com suspeita e preconceito. Os conver- o Conselho Mundial de Igrejas deveriam procurar incluir em sua
tidos, por sua vez, sentindo-se inseguros, retiravam-se dos princi- programação de estudo e reflexão pessoas pertencentes a outros
pais segmentos da vida do povo e se alienavam em suas assem- credos e ideologias para enriquecer esse processo qualitativamente.
bléias e organizações. Ê típica a situação da Índia, onde os cris- 2. A busca comum leva ao diálogo: As conversações entre
tãos enquanto comunidade não representaram nenhum papel sig- cristãos e pessoas de outras religiões desenvolvem-se, principal-
nificante na luta pela libertação do país, e até hoje o complexo mente, nos níveis acadêmicos e teóricos. Entretanto, quando essas
minoritário das igrejas não permite que os cristãos participem mesmas pessoas se encontram com o povo em situações locais,
plenamente nas lutas do povo .. começa a haver verdadeiro diálogo. Descobrem que estão junta-
mente preocupadas com o futuro da sociedade e têm igualmente
As igrejas na Ásia, África, América Latina, Oriente Médio e
esperanças. Esse diálogo é significativo e o povo comum pode par-
Pacífico, precisam comprovar sua credibilidade antes de entrar nes-
ticipar nele plenamente. Faz-se no contexto do compromisso co-
sa busca da nova sociedade. Precisam entender a missão no pró-
mum com a busca da nova sociedade. 15 As igrejas e o Conselho
prio contexto, levando em consideração outras religiões, não se
Mundial de Igrejas devem anotar essas experiências e incentivar
conformando em apenas seguir os modos da pregação do Evan-
a continuação do processo em todos os níveis.
gelho da igreja no ocidente. 11
Precisam ainda provar que estão
profundamente preocupadas com a mudança social e com a busca 3. A busca comum desenvolve unidade e solidariedade: Tanto
da nova sociedade ficando do lado dos oprimidos e não dos opres- a descoberta de pessoas e movimentos como a busca comum da
sores. A credibilidade das igrejas na Coréia do Sul e nas Filipi- nova sociedade, fomentam unidade e solidariedade. Somente a
nas entre os habitantes locais e mesmo aos de fora é muito alta união dos oprimidos é capaz de libertá-los das forças opressoras. 16

porque não titubearam em se arriscar na Iuta-contra os regimes As pessoas envolvidas nessa causa deveriam ser apoiadas pelas
opressores. As igrejas do sub-continente indiano não são muito igrejas. Caso contrário, o opressor se fortalece. Destarte, a Igreja
bem vistas pelo povo, a não ser pelo "serviço", por causa de sua precisa levar a sério todas as pessoas e movimentos na luta
alienação. Começam a surgir, agora, grupos de ação destinados a do povo para apoiá-Ios de todos os modos possíveis, inclusive
abrir novos canais de comunicação tornando-se parte da busca da financeiramente.
nova sociedade. Em situações em que a Igreja não passa de mino- Em suma, podemos dizer que nas situações e nas lutas dos
ria e onde não tem sido vista como participante no processo de pobres a Igreja não deve trabalhar isoladamente, especialmente
mudança social, será presunçoso pensar que ela poderá realizar por onde outras religiões e ideologias são influentes e grande parte da
si mesma essa busca da nova sociedade e de lhe oferecer liderança. população pertence a outras religiões. A Igreja precisa discernir
17

Após ganhar a confiança do povo, a Igreja poderá, certamente, a obra do Espírito Santo em todos os movimentos, religiosos ou
tornar-se "serva" nesse processo de busca. seculares, que trabalham em favor da sociedade humana justa e
criativa. Este processo é importante não só pela causa dos pobres,
Valores e decorrências da busca comum mas também pelo enriquecimento das percepções e das experiên-
cias da própria Igreja:
Ao considerarmos o valor e as implicações da busca comum,
vamos assinalar três áreas principais.

210 211
NOTAS eds. Washington, DC, Overseas Development Council, 1975) e Richard
D. N. Dickinson, To set at liberty the oppressed, Genebra, WCC, 1975.
1. Cf. os capítulos I e II deste livro. 7. Como se lê no relatório da seção 11 sobre "natureza e função do Estado
2. Como disse Diogo de Gaspar: "Em primeiro lugar quero me dirigir num tempo revolucionário, da Conferência Mundial de Igreja e Socie-
às práticas mais estabelecidas de caridade na vida diária, relacionadas dade, realizada em Genebra em 1966, parágrafos 47 em diante: "Certo
a sistemas de assistência a longo prazo. A maioria dessas práticas, se senso de nacionalismo é essencial à construção das nações novas. Esse
não todas, poderiam ser classificadas de soluções "simétricas". Dirigem- tipo de nacionalismo, no entanto, não deve ser confundido com alguns
se a sintomas ou - a vítimas de determinados sistemas sem se dar conta tipos agressivos de nacionalismo responsáveis por guerras, deificadores
de que sintomas e vítimas existem por causa de defeitos básicos no da pátria e suscitadores de sentimentos de superioridade nacional ...
sistema social e econômico de determinada região geográfica. Examine- Os que têm, agora, objeções até certo ponto compreensíveis ao nacio-
mos algumas feições do comportamento caridoso. Em primeiro lugar, o nalismo precisam considerar sem preconceito o que significa nacionalis-
comportamento caritativo não mede o lado que recebe em relação ao mo e estado-nação para a construção de novos países: o nacionalismo
que dá. O que é dado não se relaciona com a riqueza de quem dá. Os envolve o conceito de propósito nacional; é meio para a obtenção da
que doam (indivíduos, instituições e nações) decidem que parte de suas independência; procura a nova liberdade em face das antigas estru-
fortunas será repartida. As necessídàdes dos que recebem não são me- turas coloniais a partir das quais a nação começou a ser construída; é
didas. O receptor pode receber menos do que precisa ou mais do que meio' para o alcance de unidade entre os países sufocados pelos poderes
requer. Em geral será apenas por coincidência que as necessidades e as coloniais na época da independência, países esses caracterizados, em
obras de caridade vão se encontrar no mesmo nível. Portanto, da pers- geral, por variedade étnica e lingüística; é, por fim, meio de se estabe-
pectiva estritamente econômica, as dádivas de caridade são atos "irres- lecer a personalidade nacional". Christians in the technical and social
ponsáveis". Como corolário, espera-se que o receptor seja "eternamente revolutions oi our time, p. 106 e 107, Genebra, WCC, 1967.
grato ao doador", e que lhe seja plenamente leal e devotado. Não nos 8. Cf. Stanley J. Samartha (ed.) op. cito
maravilhamos, pois, ao saber que do ponto de vista psicológico e polí-
9. Ver o capítulo XIV deste livro.
tico surjam constantemente tantas surpresas". Em "Some comments on
changing life styles"', Study Encounter, v. XII, n. 3, 1976, p. 14. 10. Cf. os estudos de Julio Barreiro, '.!Rejection of christianity by the indi-
genous peoples of Latin América", de C. I. Itty, "The Church and the
3.' Ver o relatório do secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas à poor in Asian history", e de Sam M. Kobia, "The christian mission and
Quinta Assembléia. David M. Paton (ed.), Breaking barriers: Nairobi the African peoples in the 19 th century", no livro editado por Julio
1975, p. 252 e 253. Grand Rapids, Michigan, Wm B. Eerdmans, e Lon- de Santa Ana, Separation without hope? , Genebra, CCPD/WCC, 1978.
dres, SPCK, 1976.
11. Cf. CWME/WCC, Bangkok assembly 1973, p. 78-80, Genebra, WCC,
4. Consultar o livro clássico de Kwame Nkrumah, Neo-Colonialism as the 1973.
last stage of imperialism, Accra, Ghana Press, 1965. Cf. também de
12. Ibid., p. 60 e 61.
[ames O'Connor, "The meaning of Economic Imperialism"': "A política
neo-colonialista destina-se em primeiro lugar e principalmente a impedir 13. CL Stanley J. Samartha ,ed, op. cit., p. vi-xvii.
que os novos países independentes consolidem a independência política 14. Cf. Friends oi the Philippines: Makibaka, joint us in struggle! Documen-
mantendo-os economicamente dependentes para a manutenção do sis- tação de cinco anos de resistência à lei marcial nas Filipina.s. Londres,
tema capitalista mundial. No caso puro do neo-colonialismo, a aloca- Blackrose Press, 1978.
ção de recursos econômicos, esforços de investimentos, estruturas legais 15. Cf. o relatóro da seção 111 sobre "a busca de comunidade, a procura
e ideológicas, bem como outras feições da antiga sociedade, permanecem comum de vários credos, culturas e ideologias", da Quinta Assembléia
inalteradas - com a única exceção da substituição do 'colonialismo do Conselho Mundial de Igrejas: "Muita gente salienta a importância
formal' pelo 'colonialismo interno', isto é, a transferência do poder dos do diálogo perante a necessidade de cooperação de todos para o esta-
antigos senhores para as classes governantes do país. A independência belecimento .@asociedade justa e pacífica. O diálogo ajuda os povos na
foi alcança da em condições irrelevantes para as necessidades básicas da busca da comunidade", David M. Paton (ed.), op. cit., p. 77.
sociedade, representando negação parcial da soberania nacional e, por 16. Cf. To break the chaing of oppression, capítulo V, especialmente as pá-
outro lado, a continuação da desunião dentro da sociedade". Em K. T. ginas 48-55, Genebra, CCPD/WCC, 1975.
Faun e Donald C. Hodges, Readings in US Imperialism, p. 40, Boston,
Porter Sargent, 1971. 17. Cf. os capítulos XIV e XVI deste livro.
5. Cf. Choan-Seng Song, "New China and Salvation History: a Methodo-
logical Enquiry", e Julio de Santa Ana, "Liberation for Social Justice:
the common struggle of christians and marxists in Latin Arnerica", em
Stanley J. Samartha (ed.), Living faiths and ultimate goals: a continuing
dialogue, p. 68-89 e 90-107 respectivamente. Genebra, WCC, 1974.
6. A influência de Gandhi é visível no pensamento de Samuel Parmar,
conhecido economista indiano. CL sua contribuição em Beyond depen-
dency: the developing world speaks out (Guy Erb e Valeriana Kallab,

212 213
XV. Propostas às Igrejas de uma Igreja que vai se transformando em Igreja dos pobres. As
estórias desses movimentos no primeiro capítulo deste livro ates-
tam o que estamos afirmando. De modo menos dramático, inú-
meras igrejas ao redor do mundo começam a trabalhar a partir
dos pobres, por meio de esforços que redirecionam suas ativida-
des e por atitudes corajosas e ousadas em favor deles. Os sinais
estão aí nas igrejas.
3. À luz da irrelevância dos métodos herdados e desses novos mo-
vimentos, que propostas específicas podem ajudar as igrejas a se
tornar igrejas dos pobres, trabalhando com eles e por eles?
3.1 Alinhamento: se a Igreja nasceu dos pobres e vive para eles
o compromisso de ser a Igreja dos pobres, trabalhando com (At 2.42-47; 4.32-35 e 6.1-7) precisa, então, julgar cada momento
eles e por eles, enfrenta imediatamente o problema fundamental de sua vida a partir da perspectiva dos pobres. E só poderá ser
visível na herança e na predominância de modelos de trabalho em solidária com os pobres quando estiver onde eles estão. Essa soli-
todas as fases da vida das instituições eclesiásticas voltados para dariedade será contínua apenas quando se mantiver em contato
outras opções com tendências a perpetuá-Ias. Para mudar o seu direto com os pobres e sua opressão. E poderá ser instrumento
compromisso, a Igreja deve entender claramente não apenas as dos pobres na medida. em que o Senhor da Igreja agir por seu
novas orientações e razões para a mudança, mas também e espe- intermédio. As igrejas cujos membros já são das classes pobres
cialmente os novos métodos necessários para equipar as congrega- tornam-se a vanguarda dos esforços cristãos, oferecendo de seus \
ções e seus membros a esse novo trabalho de ministério. estudos bíblicos e da reflexão baseada na ação, orientação segura
para as lutas em favor da justiça. As igrejas cujos membros são
1. É preciso identificar os métodos vigentes e entendê-los no pro-
de outras classes podem ser solidárias com os pobres por meio
cesso da mudança ou de sua substituição. Estão presentes em
de participação em suas lutas diretamente ou advogando suas cau-
vários aspectos do trabalho e da organização da Igreja:
sas, ao ser "voz dos que não têm VOZ".1 Nessas situações, con-
1.1 Em estruturas fechadas à participação do povo. tudo, as igrejas, ao se alinharem com os pobres e seus pontos de
1.2 Nos objetivos do ministério da Igreja baseados nos ricos e nos vista, precisam fazer a seguinte pergunta: "o que estamos fazendo
poderosos e não nos pobres. expressa verdadeira solidariedade para com os pobres?" l2 Desta
1.3 No tipo de evangelismo que dá mais importância ao aumento maneira os corpos eclesiásticos podem se tornar fiéis testemunhas
numérico das comunidades em lugar da participação do Evange- do Evangelho.
lho com os pobres e oprimidos. Propomos que as igrejas se alinhem com os pobres partici-
1.4 No processo educacional em vigor nos corpos eclesiásticos des- pando com eles em níveis adequados, mas principalmente de modo
de a catequese dos jovens até à formação do clero que produz direto, em suas lutas pela justiça, submetendo suas decisões ao
instituições preocupadas mais consigo mesmas e com seus proble- critério da aiuda aos pobres na realização de suas esperanças e
mas internos do que em trabalhar pela justiça no mundo. expectativas.
1.5 Na ação social que reflete práticas e estratégias comprometi- 3.2 A Bíblia: as igrejas dos pobres dão testemunho da importância
das com os interesses de classe dos ricos. As obras de caridade da redes coberta da Bíblia e da sua importância para a vida diá-
querem dizer que os pobres não são companheiros no mesmo nível. ria," Os pobres, na luta pela justiça, lêem a Bíblia e a descobrem
1.6 Na ajuda de uma igreja à outra efetivada por minorias sem viva de modos diferentes quando a líbertação de que fala é a
qualquer participação do povo em geral alheia às verdadeiras ne- mesma que eles buscam hoje. Superando a dicotomia entre as
cessidades imediatas. interpretações espiritual e históricas que assolam as comunidades
2. Esses julgamentos negativos, não importando o grau de vera- cristãs de pessoas mais privilegiadas, os pobres percebem imedia-
cidade em qualquer parte da Igreja Católica, são contrabalança- tamente a relevância da Bíblia para as suas vidas. Discutindo os
dos pelo surgimento de novos movimentos contrários sinalizadores problemas concretos de suas comunidades, enquanto lutam contra

214 215
diferentes tipos de opressão, levam o estudo bíblico à ação. Entre situações existentes. Em termos gerais, significa busca de liberta-
as opções conflitantes pela libertação encontradas nas Escrituras, ção e o sentido da plena humanização. A Bíblia mostra Jesus
acham indicações que lhes ajudam a formular o próprio responso. como a expressão perfeita dessa humanização. Infelizmente, há
Encontram na Bíblia auxílio para entender e enfrentar o conflito. estruturas e sistemas que impedem o crescimento humano segun-
Nesse modo novo de misturar luta e Bíblia, desenvolvem a didá- do essa estatura de Jesus Cristo (Ef 6.10 e seguintes). Nessas
tica do conflito capaz de lhes dar nova compreensão da Bíblia. situações procura-se não apenas participação e aceitação, mas mu-
Como generalizou Alves, as igrejas ocidentais ressaltaram a com- danças radicais na sociedade. Em muitas ocasiões a distância entre
preensão racional das Escrituras; as orientais, a mística; e as do os ricos e os pobres é muito grande e os pobres quase não têm
Terceiro Mundo (dos pobres) a militante e atívista.' Para sermos consciência das próprias necessidades e direitos. Os pobres têm
humanos precisamos da mente, do coração e da vontade. A nova sido submetidos, historicamente, à manipulação pelas elites e pelos
vitalidade do estudo bíblico entre os pobres restaura o que se ricos, por meio da criação de estruturas de exploração.
poderia chamar de plenitude, e oferece às igrejas dos pobres, bem O propósito do esforço pela libertação, nesse contexto, não
como às com os pobres, imensas possibilidades de estudo bíblico consiste em dar aos pobres ideologia já pronta, mas em criar no
em ação. povo consciência e poder que o leve a mudar a sociedade segun-
Propomos que as igrejas desenvolvam e apoiem o estudo bí- do o modelo que deseja. O processo de fortalecer os fracos para
blico relacionado com a ação entre os que participam nas lutas que sejam sujeitos da mudança ocorre principalmente por meio
dos pobres em favor da justiça. de ajuda para que se organizem em face das estruturas locais de
3.3 Teologia: a Igreja comprometida com a opção pelos pobres poder.' Esses conflitos e confrontos locais dentro da perspectiva
percebe que certos conceitos teológicos herdados de experiências do todo ajudam o povo a se conscientizar e a se organizar para
históricas presas a outros tipos de comprometimentos represen- enfrentar os principais problemas em escala maior. A alocação
tam obstáculos às novas direções. Os valores populares e a religio- adequada de recursos, bem organizada, pode ajudar a melhorar
dade popular, mesmo quando indicativos da alienação dos pobres, os esforços dos pobres.
expressam, também, sua resistência em face dos opressores. Por- Propomos que as igrejas apoiem esse tipo de trabalho em to-
tanto, os conceitos teológicos fundamentais e os modos da com- dos os níveis (incluindo o financeiro), facilitando as comunica-
preensão da fé devem ser reformulados a partir da perspectiva ções em âmbito mundial, reorientando as energias missionárias tra-
da pràxis libertadora dos pobres." Novo prumo mede as distor- dicionais para esse tipo de práxis libertadora com os pobres, e uti-
ções das velhas estruturas de pensamento e oferece clara orienta- lizando esse engajamento para aprender com bs próprios pobres.
ção para a construção das novas. Mas a tarefa não é fácil, uma
3.5 Envolvimento como base de reflexão: o aprendizado dos po-
vez que as estruturas familiares da teologia assumem certa aura
bres não vem de fria reflexão distanciada da ação, mas do meio
de certeza que deve ser radicalmente rejeitada. O novo compro-
da própria luta. Contudo, cuidadosa análise deve fazer parte do
misso de ser Igreja dos pobres pode dar o motivo e a força para
processo se esse aprendizado quiser participar na superação da
arrancar a velha teologia e plantar a nova, pois nesse compro-
opressão e na libertação do povo. É parte essencial do aprendiza-
misso vem junto o julgamento de que sem ele os corpos eclesiás-
do ativo relacionar-se com o contexto onde ocorre a ação." A si-
ticos se desfiguram e deixam de ser Igreja de Jesus Cristo. A
tuação estrutural e a ligação com outras forças envolvidas com a
Igreja precisa esforçar-se seriamente para fundamentar seu traba-
luta devem ser identificadas e entendidas na medida em que o
lho teológico nessa nova vida a partir da perspectiva dos pobres,
processo da libertação prossegue. A análise da estratégia e das
encorajando os que já estão nesse caminho. Os teólogos devem
táticas deve ser feita com cuidado, prevendo resistências e a ne-
abandonar as posições que tem nos centros de poder e participar
cessidade de modos alternativos. A essência do processo de apren-
na vida e nas lutas dos pobres.
dizagem é o que alguns chamam de ação pastoral popular, isto é,
3.4 Solidariedade, fortalecendo os fracos: a fidelidade à Palavra envolvimento direto com os pobres na luta contra a opressão, e
de Deus no contexto do mundo contemporâneo significa ficar do ajuda que a ação pode dar à análise das realidades enfrentadas
lado dos pobres na sua luta pela justiça," Os objetivos e propó- pelos pobres na práxis libertadora. A miséria e a existência sob as
sitos dessa participação precisam ser definidos de acordo com as poderosas forças condicionantes da sociedade moderna ocultam as

216 217
realidades contextuais aos olhos do povo. Os métodos tradicionais sibilidade pastoral e o apoio comunitário que liberta as pessoas
de nossas escolas não relacionam o envolvimento ativo com a aná- para mudanças.".
lise de modo a superar a cegueira. Para se evitar mero ativismo Nós propomos que as igrejas participem ativamente em movi-
ou análise escapista, precisamos de novos meios de análise prática mentos pela libertação, reivindicatôrios dos direitos dos pobres,
relacionada com a luta, para utilizá-Ia na contínua práxis da jus- e daí trabalhem para alcançar novos modelos de crescimento na
tiça, da participação e da libertação. fé orientados para a libertação.
Propomos que as igrejas devotem recursos de organiza dores
3.7 Educação: a educação do povo de Deus, da mesma maneira,
de comunidade e educadores para a ação à tarefa do desenvolvi-
deve estar de acordo com os novos compromissos da Igreja dos
mento de modos de analisar estruturas e contextos no meio das
pobres. As práticas pedagógicas incentivadoras do sistema valori-
lutas de libertação, envolvendo-se diretamente com os pobres, e
zador dos privilégios, os modelos de comportamento das classes
que os métodos assim aprendidos sejam usados na formação de
dominantes e a privacidade e a caridade da piedade pessoal de-
agentes comprometidos com a busca de uma sociedade participa-
vem ser radicalmente criticadas e transformadas em comunidade
tória, sustentável e libertada.
e solidariedade. A educação popular cristã deve centralizar-se na
3.6 Luta em situações de conflito: "a luta é o melhor professor", construção da consciência para a. ação contra as forças contex-
dizia certo organizado r de comunidade numa favela de Buenos tuais presentes nos lugares que exigem libertação. Trata-se, pois,
Aires. 10 Bem no fundo dos movimentos de libertação instala-se da educação do povo e não dos professores e líderes. Ela começa
inevitável contradição em face das forças opressoras que domi- na experiência do povo no lugar onde ele está, e vai se desenvol-
nam as vidas do povo pobre. Abertas ou ocultas, tais forças o vendo em diferentes níveis de consciência concomitantemente à
demoníaco, o baalismo que ofende o Deus da retidão (Os 4.7-14). luta contra as forças opressoras.í">
Esse demônio não pode ser expulso sem que se rasgue de certa Esse modelo radical de educação na Igreja supera os tipos
maneira o corpo no qual habita. No processo da libertação deve-se tradicionais centralizados na escola, conhecidos por imporem e in-
aceitar e entender o conflito como elemento necessário. Serve como centivarem comportamentos passivos e auto-imagens negativas en-
veículo de libertação e pode ser, portanto, usado para esse fim." tre os educandos. Para nos livrarmos desses conceitos opressores
Quando os pobres e os oprimidos se levantam em favor da é preciso não só reorientar radicalmente as estruturas de educação
libertação contra os poderosos que os oprimem, esse mesmo ato que os possibilitam, mas até mesmo começar de novo: não pode-
já os humaniza e lhes dá poder. Os corpos eclesiásticos estabele- mos continuar a manter modelos de autoridade na sociedade que
cidos têm sido historicamente condicionados a evitar o conflito e "ensinam" submissão, mantém "valores educa tivos" baseados na
a achar que a Igreja não pode perturbar a calma da vida comum. publicidade dos meios de comunicação de massa, e em escolas
Esse condicionamento deve ser superado abertamente, envolven- que educam para a dependência. A libertação da Igreja para ser
do-se a Igreja em conflitos sempre que causas fundamentais esti- a Igreja dos pobres significa nada menos do que a revolução ra-
verem em jogo. Uma vez que o conflito é inevitável, o potencial dical na maneira como se formam os seus membros. Os verda-
de violência nas reações dos poderosos deve ser avaliado com deiros discípulos do Libertador só poderão ser formados e nutri-
cuidado e até mesmo usado. Não se pode escapar de certas rea- dos por meio de participação na luta pela libertação e pela refle-
ções violentas à mudança, seja das poderosas forças de opressão xão na medida em que essa luta vai se desenvolvendo.
nas estruturas da sociedade, ou de atitudes e comportamentos tra- Propomos que as igrejas desenvolvam novos experimentos ra-
dicionais. Não se trata da opção das Igrejas a favor ou contra a dicais com modelos de aprendizado relacionados com a ação li-
violência. Isso deve ficar claro. Em situações de opressão, os po- gada à reflexão, e que tudo façam para substituir os antigos mo-
bres são objeto de agressão diariamente, e as igrejas devem deci- delos educacionais por novos tipos de educação popular.
dir que posição podem tomar em relação a esse tipo de violência. 3.8 Formação de agentes de mudança: a preparação de agentes
A marca de identificação com os pobres é essencial para se saber para o trabalho da Igreja dos pobres envolve também mudanças
por onde se anda nesses conflitos. A Igreja precisa trabalhar com radicais dos modelos tradicionais de treinamento de liderança,
integridade para apoiar os pobres, e se abrir à sua práxis de luta tanto do clero como do laicato. Somente os absolutamente com-
contra as forças do mal sem abandonar, ao mesmo tempo, a sen- prometidos na luta dos pobres, conhecidos pela compreensão em

218 219
face dessa luta, deveriam ser indicados como agentes. A seleção se aliarem a outros movimentos. Surgem problemas quando os
dessas pessoas deveria se dar com a participação do pOVO.16 pobres tentam se organizar em nível mais amplo sem apoio buro-
Sua identificação com o povo não significa perda da própria crático e desligados das comunidades de base. Tudo isso deve ser
identidade. Precisam aprender, em primeiro lugar, na práxis liber- feito, é claro, mas a Igreja com sua vasta rede de pessoas, grupos
tadora do povo, participando de suas inseguranças e perigos, e recursos pode ser de grande auxílio nesse nível da luta pelo
aprendendo a dar atenção ao povo e a se retirar quando fôr con- libertação.
veniente. Sua formação deverá incluir preparo na compreensão Propomos que as igrejas ativem suas inúmeras redes de apoio
dos parâmetros ideológicos da sociedade, e deve ir além do mero em benefício da luta dos pobres, analisem seu potencial para a
treinamento teológico tradicional para analisar contextos e desen- luta, e desenvolvam meios de fortalecer as estruturas de conexão
volver a capacidade de correlacionar a teologia com outros cam- capazes de apoiar a luta contra a pobreza e a opressão.
pos do conhecimento que podem contribuir para a compreensão 3.1 O A Igreja dos pobres precisa livrar-se das dificuldades e far-
da sociedade. Os atuais métodos de educação teológica e de trei- dos das estruturas pesadas. Sabemos que os modelos verticais de
namento dos leigos precisam ser radicalmente criticados em face relacionamento, as ricas heranças e as instalações luxuosas inevi-
da necessidade de envolvimento nas lutas pela libertação e de uma tavelmente alienam os pobres. Quando as igrejas examinam as pró-
educação nova e mais profunda a respeito das dimensões contex- prias estruturas do ponto de vista dos pobres, percebem que boa
tuais, ideológicas e teológicas da práxis libertadora dos pobres. parte de sua herança é perigosa e inútil na luta contra a opressão
Assim como as antigas estruturas de educação refletem e incenti- que, por sua vez, é perpetuada por toda essa herança. As igrejas
vam as estruturas opressoras das sociedades dominantes, as novas podem, assim, oferecer apoio e certa força nessa luta. Oferecem
formas de educação devem refletir o novo compromisso com os espaço livre para a resistência do "povo onde podem organizar os
pobres. Os agentes envolvidos nessa luta podem, assim, desenvol- conflitos, além de santuário de consolação para suas feridas. Suas
ver-se apenas por meio de novos métodos capazes de refletir a funções pastorais e proféticas ajudam a reunir as pessoas na prá-
luta pela libertação e a práxis dos pobres. xis Iíbertadora, mesmo às expensas de seu aparato administrativo
Propomos que as igrejas reexaminem criticamente seus pro- que se mostra d~snecessário e complicado. A flexibilidade passa
gramas de educação dos clérigos e leigos na busca de novos mé- a ser um dos principais objetivos para a mobilização dos recursos
todos de envolvimento para a criação da sociedade libertada, par- das igrejas para a luta. Por outro lado, qualquer acúmulo inde-
ticipatória e justa e de modelos educacionais que possibilitem esse vido de estruturas limita essa flexibilidade. As instituições ecle-
objetivo. siásticas precisam reexaminar a própria organização em face das
novas necessidades surgi das desse compromisso com os pobres.
3.9 Assistência na busca da justiça: os movimentos de libertação
Propomos que as igrejas reconsiderem suas estruturas orga-
dos pobres precisam de estruturas de apoio e de ligações entre
nizadas afim de que permitam a máxima disponibilidade de seus
eles. Confrontadas por forças globais de opressão, as lutas pela
recursos para as lutas em favor da criação de uma sociedade justa,
libertação iniciadas em lugares específicos contra forças opresso-
participatória e sustentável.
ras particulares, precisam de apoio de outros lugares e da pro- <
teção de redes de ação criadas pelos pobres. As igrejas encontram
aqui importante papel para representar, pois têm acesso direto NOTAS
aos pobres por meio de suas congregações e de suas estruturas in- I. Cf. Dom Hélder Câmara, Les conversions d'un evêque: estretiens avec
José de Broucker, p. 183-192, Paris, Editions du Seuil, 1977.
ternacionais. Em certos países e em dados momentos históricos, as
2. Essa foi precisamente a linha seguida pelos bispos brasileiros do Brasil
igrejas são quase as únicas instituições capazes de oferecer esse centro-oeste, no documento, Margina/ização de um povo, Goiânia, maio
apoio. Algumas vezes eias têm mesmo que contribuir financeira- de 1973.
mente para proteger os agentes de libertação de pressões econô- 3. Cf. o capítulo XIV deste livro.
micas. Outras vezes podem facilitar as comunicações para a mobi- 4. Cf. Rubem Alves, "Libertad y ortodoxia: opuestos irreconciliables?", em
lização de forças contra certos inimigos. Podem, ainda, chamar Cristianismo y Sociedad, XVI, n. 56 e 57, 1978, p. 37·42.
a atenção de grupos locais que lutam pela justiça e pela libertação 5. Cf. Gustavo Gutierrez, Teologia desde el reverso de Ia historia, CEP,
para perceberem a existência de situações mais amplas e, assim, Lima. 1977. Também o apêndice ao capítulo IX desse livro. Ver tam-

221
220
bém Fred Rodrigues Kamath, "Community ressurrection in Mermajal Paracletos, para estar ao nosso lado, capaz de ouvir e expressar nossos
village". Em Bobbi Wells Hargleroad (ed.), Struggle to be human: sto- gemidos sem palavras, para nos dar poder e guiar constantemente nu
ries of urban industrial mission, p. 62-68, Genebra, CWMEjWCC, 1973. comunidade dos sofrimentos de Cristo. Esta espiritualidade marcada
6. Cf. o documento "Structures of captivity and lines of liberation", ado- pelo sofrimento torna-se luz e esperança na luta pelo novo mundo no
tado pela consulta conjunta da CCPD com CICARWS, em Montreux, qual vai habitar a justiça e a paz de Deus. Trata-se de uma espiritua-
em dezembro de 1974. The Ecumenical Review, v. XXVI!, n. 1, ja- !idade - de uma vida no espírito, que é doadora e sustentadora de
neiro de 1975, p. 44-47, especialmente a 45. vida ... " The Ecumenical Review, v. 29, n. 4, outubro de 1977, p.
7. Cf. "Carta de Dom Pedro Casaldáliga a seus amigos espanhóis", em 363-365.
Signos de lucha y esperanza, p. 254 e 255, de Gustavo Gutierrez, Lima, 15. Essa é a linha de desenvolvimento definida pela Comissão de Desenvol-
CEP, 1978. vimento do Conselho de Igrejas na Indonésia, e em diversas igrejas
8. CL as minutas do Simpósio sociológico sobre pesquisa ativa, realizado e grupos cristãos na América Latina, com o apoio da CCPD do Con-
em Cartagena, Colômbia, em 1977, Bogotá, Fundarco, 1977. O profes- selho Mundial de Igrejas (CCPD: Commission on the Churches' Parti-
sor OrIando Fals Borda, organizador desse simpósio é um dos princi- cipation in Development).
pais cientistas que trabalham nessa linha, juntamente com G. Hizer, Mi-
gueI e Roziska Darcy d'Oliveira, entre outros.
9. Ver o livro de Paulo Freire, Ivan Illich e Pierre Furter, Educacián
para el cambio social, especialmente o capítulo de Illich, "Critica a Ia
ensefíanza", p. 99-115, Buenos Aires, Tierra Nueva, sem data.
10. Para maiores informações sobre esta linha de experiência, ver Bobbi
Wells Hargleroad (ed.), Struggle to be human, op. cit., p. 31-34.
11. Ver o capitulo V deste livro.
12. Os ricos podem mudar. Sua salvação é ato da graça de Deus que os
chama ao arrependimento e à conversão. Cf. Lc 18.18-30, e Julio de
Santa Ana, Good neW3 to the poor, capítulo Il I, Genebra, CCPDjWCC,
1977.
13. Cf. Paulo Freire, Pedagogy of the oppressed, New York, Herder & Her-
der, 1973. Também, do mesmo autor, "Education, Liberation and the
Church", em Study Encounter, v. IX, n. 1, 1973.
14. Em seu discurso à comissão central do Conselho Mundial de Igrejas,
em agosto de 1977, Philip A. Potter, comentando Hebreus 13. 13-16,
disse: "Também se quer dizer que a luta pela libertação das estruturas
de injustiça, das violações dos direitos humanos, e do morticínio da
guerra, é uma luta de sofrimento... Estamos aqui refletindo concreta-
mente sobre o significado de se carregar a cruz por amor do Evan-
gelho e do Reino de Deus de justiça e paz. Assim como a cruz de
Cristã autenticou a integridade de seu testemunho de verdade, a revela-
ção e a fidelidade do Pai, assim as igrejas e o Conselho Mundial estão
sendo desafiados a tomar sobre si o sofrimento da cruz curadora e vi-
toriosa em confronto com os que se recusam a aceitar o chamado ao
arrependimento, à metanoia, à mudança radical de pensamento e de
vida, e se voltar em obediência ao Evangelho. Quando "os principados
e poderes", as estruturas de engano e mentira destrutiva, que se re-
cusam a receber Cristo como Senhor, atacam o povo· de Deus, o sofri-
mento pela verdade do Evangelho passa a ser o único caminho por
meio do qual a doutrina, a confissão e o envolvimento social se tor-
nam veículos da verdade que temos de viver e proclamar.
"Para nós, pois, não há escape deste chamado ao sofrimento. Cristo
não nos prometeu outra coisa. Ele nos advertiu que quando vivemos
a verdade segundo o Espírito, quando denunciamos o mal e o pecado
do mundo, quando manifestamos confiança nos semelhantes envolven-
do-nos com seu bem estar, atrai mos sobre nós o ódio do mundo. Mas é
no meio do mundo e de seu ódio que ele nos promete o Espírito, o

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libertação dos oprimidos, semelhante à alegria dos primeiros cris-
CARTA ÀS IGREJAS tãos quando receberam o Espírito Santo: essas coisas precisam
ser participadas pelos que, como nós, acreditam em Jesus Cristo.
dos colaboradores deste livro
Este convite para participar nas lutas e esperanças da Igreja
dos pobres nada tem de triunfalista. Assim como Jesus Cristo em
sua pobreza teve a cruz preparada para si, assim a Igreja dos
pobres não pode. esperar por outro destino, especialmente se per-
manecer fiel a ele: "Porque dei o exemplo, para que façam o que
eu fiz. Eu afirmo que o empregado não é superior ao patrão, nem
o mensageiro mais importante do que aquele que o enviou. Agora
vocês conhecem esta verdade e, se a praticarem, serão felizes"
(Jo 13.15-17). Vai neste convite o desejo de que a comunidade
Graça a vós e paz em nosso Senhor Jesus Cristo. cristã se enriqueça com a vida dos pobres de hoje, entre os quais,
disse Jesus, seria possível serví-lo ocultamente. Não se trata de
As páginas deste livro refletem a experiência de número cada convite ao exercício do poder deste mundo, mas ao serviço hu-
vez maior de congregações e grupos cristãos de diferentes partes milde aos mais humildes da terra.
do mundo. Expressam pesar, mas também esperança; denunciam A experiência de nossas irmãs e irmãos que já fizeram esta
a injustiça mas ao mesmo tempo ecoam os esforços dos que sus- escolha servem de base para a expressão nova em nosso tempo
piram pela vinda do Reino de Deus. Têm por objetivo, até mesmo de uma igreja de discípulos, isto é, de pessoas dispostas a seguir
além do que expressam, procurar prestar contas da obra cons- até o fim o caminho seguido por Jesus. Entre os necessitados e
tante e transformadora do Espírito de Deus na Igreja e na socie- silenciosos do mundo, começa a surgir uma koinonia dos pobres,
dade. Em outras palavras, não representam meros resultados de que não apenas faz circular entre eles o pouco que têm, mas em
teoria, mas principalmente da prática da fé enraizada entre os particular os reune nas esperanças e lutas às quais o Espírito de
pobres da terra. Essa fé está impelindo grupos de gente pobre Deus lhes move, na medida em que lhes abre caminhos no meio
para a Igreja de Jesus Cristo, que foi, ele mesmo, pobre entre da História - com terríveis sofrimentos e dores inimagináveis -
nós. Desejamos por meio destas páginas, em nome dos próprios na direção da plena manifestação da nova humanidade.
pobres, convidar as igrejas e o Conselho Mundial de Igrejas a par- Neste sentido, a Igreja dos pobres é a que afirma, talvez
ticipar profundamente nessa experiência transformadora de se tor- com maior vigor do que qualquer outro tipo de comunidade cristã,
nar Igreja dos pobres, solidária com eles, lutando com eles, e a dimensão da esperança da nossa fé. Há coisas que não pode-
sentindo com eles as mesmas tristezas, esperanças e alegrias. mos esperar "realisticamente" pela razão, mas que, não obstante,
Nós, que nos reunimos sob a inspiração desse compromisso são desejadas e profundamente necessárias; entre elas está a jus-
com os pobres, em Ayia Napa, Chipre, para refletir sobre as im- tiça para milhões de miseráveis. Ora, essa esperança está sendo
plicações deste processo prático de transformação da comunidade firmemente mantida na Igreja dos pobres. Os membros dessa Igreja
cristã, desejamos convidar-vos a viver essa experiência renova- pagam alto preç'à por ela. Há coisas dificilmente vislumbradas que,
dora pelo poder do Espírito de Deus. Trata-se, para nós, de coisa no entanto, começam aos poucos a tomar corpo, como resultado
maravilhosa testemunhar o processo (fomos tomados por ele e fa- da participação dos pobres na história: por exemplo, o surgimento
zemos parte dele) no qual o povo de Deus vai sendo moldado de sociedades realmente participatórias. Os pobres não vão renun-
e formado a partir da massa dos. deserdados de nossa época. Com ciar seus direitos, não importando a extensão da caminhada. As
isso, participamos nesse movimento que fortalece os fracos, dá igrejas na Coréia do Sul, no Chile, na África do Sul, no Brasil,
voz aos que não conseguem ser ouvidos, e ajuda o desenvolvi- nas Filipinas e em tantos outros lugares, tanto no Ocidente como
mento da fé entre os que, segundo a lógica dos poderosos deste no Oriente, no Norte como no Sul, vivem dessa esperança e dessa
mundo, jamais teriam o direito de esperar. Experimentamos a ri- ação demonstrativa dos pobres como sendo suas. Em todos esses
queza do que vivemos juntos, a esperança que cresce em nós, a lugares a fé é manifestada realmente, que, segundo o autor da
necessidade urgente da cessação da injustiça e da extensão da Epístola aos Hebreus, "é a certeza de que vamos receber as coi-

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sas que esperamos, e a certeza de que existem as coisas que não essa que está vivificando a Igreja e transformando a massa dis-
vemos" (Hb 11.1), forme dos deserdados de nosso mundo numa comunidade de sig-
Com isso a Igreja dos pobres torna-se comunidade aberta nificado histórico.
para o futuro: trata-se do povo de Deus atento à manifestação do É, também, comunidade diaconal, que humildemente e com
Reino e perseverante na busca da justiça. Não se volta apenas profundo amor serve aos semelhantes. Os pobres vêm sofrendo por
para o passado; naturalmente, é nutrida pela memória dos atos séculos. as injustiças impostas a eles pelos poderosos. Seu serviço
poderosos de Deus na história, mas seu olhar se fixa no cumpri- é vicário, dando-lhes força não apenas para sofrer mas também
mento do Reino de Deus quando haverá um novo céu e uma para querer mudar a situação. A Igreja dos pobres trabalha labo-
nova terra, a nova Jerusalém sem as lágrimas dos explorados nem riosamente em muitos lugares com a finalidade de fazer dos infe-
a cobiça dos exploradores, onde a justiça fluirá como as torrentes lizes seres realmente humanos, pelo menos enquanto permanecem
que descem das montanhas. Alguns dirão que se trata de utopia. reunidos em comunidade. Aí, os tímidos superam as inibições, os
O mesmo termo terá sido aplicado, sem dúvida, à idéia da res- oprimidos sentem-se mais livres, os explorados encontram uma
surreição de Jesus pelos que o condenaram a morte ou pelos que comunidade de iguais, e os que sentem o terrível ódio do mundo
o mataram. Não teria sido o crescimento da Igreja considerado dominado pela lei do mercado passam pela experiência viva do
utópico na véspera de Pentecoste? Não, essas afirmações não são amor e da comunhão na graça de Deus. Não se trata de um ser-
utópicas. São afirmações dos pobres que entram para a Igreja e viço capaz de ser contado que nem dinheiro; é o serviço dos
que em sua prática diária de fé mostram que elas têm substância "menos do que humanos", destinados a se tornar realmente hu-
histórica. Não são idéias vazias nem palavras sem sentido; ex- manos (homens e mulheres) crescendo "segundo a medida da es-
pressam a fé professada pela comunidade que nada tem a perder tatura da plenitude de Cristo". Este: serviço não consta nas listas
e, ao mesmo tempo, tem tudo para esperar. E vive dessa espe- de projetos das agências. Está além delas. Não resulta da mera
rança e da luta pelo que espera. Por meio de seus sofrimentos caridade, mas de profunda solidariedade. É o que se manifestou
ela se fortalece como Igreja dos pobres. em Jesus Cristo, que "sempre teve a mesma natureza de Deus,
Essa comunidade demonstra, na pobreza, enorme atividade mas não insistiu em ser igual a Deus. Ao contrário, pela sua pró-
l" I missionária. Nem poderia ser de outra maneira quando nos lem- pria vontade abandonou tudo o que tinha, e tomou a natureza
bramos de que está partilhando algo de muito valor, capaz de dar de servo. Ele se tornou semelhante ao homem, e apareceu na se-
sentido à vida pessoal e social. A existência seria vazia se não melhança humana. Ele se rebaixou, andando nos caminhos da
houvesse esse dom de Deus - a esperança que não deixa os obediência até à morte - e morte de cruz" (Fp 2.6-8).
seres humanos, especialmente os pobres, ser derrotados pela morte Temos consciência do preço a ser pago para que se concretize
e pela destruição às quais parecem destinados pelos agentes do esta Igreja dos pobres. Essa' consciência vem da experiência con-
Leviatã que obstrui as manifestações da justiça prometida por Je- creta de irmãos e irmãs totalmente comprometidos com a tarefa.
sus a todos os povos da terra; seria vazia, não obstante estar en- Criam comunidades confessantes, sempre em movimento; hoje,
tupida de bens materiais, pois bem sabemos que quando a von- consolando as vítimas da opressão e da tortura; amanhã, talvez,
tade da posse nos domina acabamos sendo possuidos pelas coisas. confrontando-se com poderes econômicos que não pagam os salá-
A Igreja dos pobres, como Pedro e João diante do paralítico nos rios dos trabalhadores adequadamente; no dia seguinte, quem
portões do templo, não tem prata nem ouro para dar. Em lugar sabe, provavelmente lutando pelos direitos dos camponeses, for-
disso, em nome de Jesus de Nazaré pode declarar aos destituídos çados, em geral, a emigrar porque os mecanismos baseados .na lei
da terra: "Levanta-te e anda! Vamos! Vamos para a frente! Não do mercado lhes obriga a permanecer para sempre na pobreza.
nos deixemos vencer pelas forças controladoras do mercado, nem Esta Igreja, a Igreja dos pobres, não serve aos interesses dos po-
pelas agências multinacionais, promotoras da injustiça, nem ainda derosos. Com Ana e Maria canta que o Senhor "depôs dos tronos
por esse comércio mortífero que ajuda a violar os direitos dos os poderosos e exaltou os humildes" alimentando os famintos com
povos!" A missão de compartilhar o poder de Jesus, e o amor boas coisas e despedindo os ricos vazios (CL 1 Sm 2.1-10; Lc
que Deus ofereceu plenamente à humanidade em Jesus Cristo, é, 1.47-55). Não se trata da Igreja devotada a odiar os poderosos e
de fato, a mensagem das boas novas; é o Evangelho. E são os po- ricos; a Igreja de Jesus Cristo não pode odiar ninguém. Contudo,
bres os que estão sendo evangelizados! Maravilhosa experiência trata-se da comunidade que denuncia os males gerados pelo

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acúmulo irresponsável de riqueza, o egoísmo, e 'a cobiça pela pro- mãs e irmãos é que os pobres encontram nessa Igreja a presença
priedade e pelo poder. daquele que foi conhecido como Emanuel: Deus conosco. Os
Neste sentido a Igreja dos pobres é comunidade profética: pobres, como tais, com sua identidade, classe social e integridade
expressa a voz do Senhor em nosso tempo, conclamando os ricos pessoal, encontram aí a comunidade que em atos, e na prática da
a mudarem de vida, fraternalmente e não se auto-idolatrando. fé, manifesta Jesus Cristo. Graças a Deus, são manifestações da
Quando os ricos e os poderosos se encontram com os pobres, tor- igreja transformada que assume o espírito dos pobres, cujos mem-
nam-se mais claramente conscientes das desigualdades sociais, das bros com os corações dos pobres, participam em suas aspirações,
injustiças responsáveis pelas estruturas que possibilitam sua ri- lutas e expectativas.
queza, da opressão destinada a defender a ordem estabelecida
Convidamo-vos a esta comunidade vicária posta ao lado dos
na qual a maior parte das pessoas não consegue ser humana e
sofredores deste mundo para transformar esse sofrimento em mo-
onde as minorias não são respeitadas. Esse tipo de consciência
tivo de esperança. Na verdade, para encontrar Jesus Cristo. Ouan-
envolve o desafio à mudança, porque a condenação da situação
do? Como? Quando dermos comida aos famintos e bebida aos
aí implícita não pode ser ignorada pelos que se preocupam real-
sedentos, quando vestirmos os despidos, recebermos com alegria os
mente pelos miseráveis deste mundo e se sentem responsáveis por
estrangeiros, cuidarmos dos doentes e libertarmos os prisioneiros.
eles. A Igreja dos pobres apela ao coração e à mente dos pode-
Quando fizermos essas coisas sem qualquer outro motivo a não
rosos para que se transformem: "Você ainda precisa de uma coisa.
ser pelo amor. Então, como já está acontecendo no Mato Grosso,
Venda tudo o que tem e dê o dinheiro aos pobres" (Lc 18.22).
no Alabama, em Seul ou Beirute, Santiago, Berlim ou Lusaka, do
Fazer uma coisa dessas é impossível à mera vontade dos seres
meio do desespero, mas com claridade cada vez maior, a face de
humanos, mas não é impossível para Deus. Eis aí novamente o Jesus Cristo começará a aparecer-no meio das instituições do
.. anúncio das boas novas, a voz do Evangelho, vindo até nós por
meio dos próprios pobres.
Povo de Deus .
Irmãos, irmãs, igrejas amadas, nós vos convidamos a esta pro-
Os pobres de nosso tempo exigem mudança e anunciam o
funda experiência de fé. Fazêrno-lo em nome de Cristo que foi
;
\1
.
!
novo mundo do Reino de Deus e sua justiça. É testemunho disso
pobre, a partir de seu amor, e no poder do Espírito que é o po-
sua oposição - nem sempre clara, é verdade, e infelizmente nem
der dos sem poder e a força dos fracos e humildes. Os pobres vos
sempre unânime, mas assim mesmo oposição, não encontrada, em
esperam e, entre eles, o próprio Jesus.
geral, entre os ricos e poderosos - à ordem social injusta, às
relações tendentes a negar que o homem tenha sido criado à ima-
gem e semelhança de Deus. Essa oposição expressa-se, algumas
vezes, na luta contra "os governos, as autoridades e os poderes
do universo, desta época de escuridão" (Ef 6.12), provendo, em
muitos casos, correções necessárias para possibilitar avanços em
justiça e libertação humana. A Igreja dos pobres é a comunidade
profética em ação, quase sempre silenciosa, mas pagando com o -e
sangue de. novos mártires pelo crescimento da vida da Igreja.
É a esta Igreja que nós estendemos a vós o convite. Convi-
damo-vos à experiência viva de dar prioridade aos pobres, não
apenas por meio de programas de serviço mas da própria evange-
lização, para aprender com eles, viajar com eles, imaginar progra-
mas e projetos religiosos a partir de seu lado da história, impli-
cando fazer essas coisas com eles, de tal maneira que sejam eles
os autores dos projetos e dos programas em lugar de projetos e
programas feitos por nós para eles. Trata-se da Igreja de Cristo,
mãe e irmãos é que os pobres encontram nessa Igreja a presença
à qual todos nós queremos ser fiéis. A experiência de nossas ir-

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Apêndice
PARTICIPARAM NOS ESTUDOS PREPARATORIOS
PARA A ELABORAÇÃO DESTE LIVRO AS
SEGUINTES PESSOAS
(reunidas em Ayia Napa, Chipre):

Rev. ALFRED BAYIGA (Conselho Mundial de Igrejas)


Rev. WALTHER BINDEMANN (Rep. Democrática Alemã)
Dr. COEN M. BOERMA (Holanda)
Sr. JOHN BROWN JR. (Estados Unidos)
Dr. LEE BRUMMEL (Argentina)
Sr. ALE X DEVASUNDARAM (India)
Sr. JEAN-MARC EKOH (Gabão)

,," Dr. FRANZ J. HINKELAMMERT (Costa Rica)


I"
Rev. MAKRAM KAZAH (Algeria)
Dr. WILLIAM KENNEDY (Estados Unidos)
Sr. GEORGE NINAM (India)
Sr. JETHER P. RAMALHO (Brasil)
Rev. JAMES SOMERVILLE (Estados Unidos)
Dr. NYA KWIAWON TARYOR (Libéria)
Dr. JOACHIM WIETZKE (Rep. Federal da Alemanha)
-e
Prof. NIKOLAI ZABOLOTSKI (Conselho Mundial de Igrejas)
Dr. JULIO DE SANTA ANA (Conselho Mundial de Igrejas)
Sra. ERNA HALLER (Conselho Mundial de Igrejas)

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