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"Jesus não pôde fundar uma Igreja porque ela já existia 11.

1 1111111
saber, o povo de Deus, Israel". Com esta expressão G. Loh 111 11 1111
seu livro. Ainda que possa haver outras opiniões contrárias. ,I I Itl1 1
que a Igreja é o Povo de Deus e este se apresenta e se rca 1iZ:1 1.1111 o 111
,e NT. Desta forma, a antiga afirmação de que Jesus anunci.u.i 11 I I 11 11
Deus e o que veio foi a Igreja não passa de um equivoco.

Até mesmo Primeira Carta aos Tessalonicenses, o docununt«.


mais antigo do NT, já afirmava que a recepção e o ("01111'"1 I 111

consequente daqueles cristãos gentios não era OUII,I l' 01 I 11

confirmação de "a vossa eleição", expressão e~LI '1'11


caracterizou o povo de Deus. Destarte, iniciando COIlI .1 1'10
Jesus e indo adiante, o autor descortina ao leitor c 1('111" I I
~ características 'da Eclesiologia do Novo Testamento.

Em tempos como os nossos, em que a exagcr:«!« 1,1111 di I


manifestações eclesiológicas se apresentam (' 1 I I I
exuberantes e até bizarras, o texto de G. Lohfink \1111 1111.
revisitação e critério para confrontar a Igreja que Jesus 11' 11 111
como fator de discernimento para aquilo que ele não (JlII 11.1

Dr. José Roberto C. Cardoso


Professor de Novo Testamento na Universidade 1\111 I, 11

Seminário Presbiteriano do Sul em Campinas.

'.

ACADEMIA I~
CRISTÃ PAULUS
C.DD 2~· I
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q ~ç1-

A IGREJA QUE JESUS QUERIA


Dimensão Comunitária da Fé Cristã
GERHARD LOHFINK

A IGREJA QUE JESUS QUERIA


Dimensão Comunitária da Fé Cristã

Tradução:
Membros do Conselho Editorial
Johann Piber
Diretor- Geral: Dr. Ágabo Borges de Sousa
Mediador: Brian Gordon Lutalo Kibuuka

Conselheiros por área:


Santo André
Antij;o Testamento:
Dr. Agabo Borges de Sousa
2011
Dra. Monika Otterrnann

Novo Testamento:
Brian Gordon Lutalo Kibuuka
Dr. José Roberto Correia Cardoso

Teologia:
Dr. Marcos Antônio Farias de Azevedo
ACADEMIA
CRISTÃ PAULUS
Título original
Wie hat Jesus Gemeinde gewollt?

Capa:
James Cabral Valdana

Diagramação
Dálet - Diagramações - (11) 6382-0697

Revisão
A. M. da Torre
Caio de Albuquerque

Assuntos relacionados com biblioteconomia


Rafael Neves

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Lohfink, Gerhard
A igreja que Jesus queria: dimensão comunitária da fé cristã / Gerhard
Lohfink; tradução [ohann Piber. - Santo André (SP): Academia Cristã;
São Paulo: Paulus, 2011.

Título original: Wie hat Jesus Gemeinde gewollt?


Bibliografia. Dedicado a Anne, Barbara, Dorothea, Fritz, Georg,
ISBN 978-85-98481-44-9
Christina, Gudrun, Heinz, MichaeI, Erika, Christine, [ohannes,
1. Jesus Cristo - Ensinamentos 2. Igreja - Ensinamento bíblico 3. Povo Josel, Susanne, Wilma, Birgitta, Felicitas, Helmui, Renate,
de Deus - Ensino bíblico L Título.
Stephanie, Brigitte, Nicola, Rupert, Sibylle, Gabriele, Bernadette,
Hans-Konrad, Albert, Andreas, Franziska, Georg, Judit,
CDD-232.9
Angela, Anja, Claudia, Wolfgang, David, Hanna, Hans, Katja,
Índices para catálogo sistemático: Marianne, Teresa, Etienne, Isabelle, Peter, Philipp.
1. Jesus Cristo - Ensinamentos 232.9
2. Igreja - Ensinamento bíblico 260
3. Povo de Deus - Ensino bíblico 220.931

Editora Academia Cristã Paulus Editora


Rua Vitória Régia, 1301- Campestre Rua Francisco Cruz, 229
09080-320- Santo André - SP 04117-091- São Paulo - SP
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E-mail:academiacrista@globo.com E-mail:editorial@paulus.com.br
Site:www.editoraacademiacrista.com.br Site:www.paulus.com.br .
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA .IX


PREFÁCIO 9
INTRODUÇÃO 11
A HERANÇA DO INDIVIDUALISMO 11

PRIMEIRA PARTE

JESUS E ISRAEL ··..····· 21


1. A PREGAÇÃO DO BATISTA 21
2. A CONSTITUIÇÃO DOS DOZE 24
3. OS DOENTES DO POVO DE DEUS 28
4. O PEDIDO DE RECONSTITUIÇÃO NO PAI-NOSSO 31
5. A PEREGRINAÇÃO DAS NAÇÕES 35
6. A CRISE DE ISRAEL 39
7. A MORTE EM FAVOR DE MUITOS 43
8. O REINO DE DEUS E SEU POVO .47

SEGUNDA PARTE

JESUS E SEUS DISCÍPULOS 55


l. O GRUPO DOS DISCÍPULOS 55
2. O SERMÃO DA MONTANHA 60
3. A NOVA FAMÍLIA 65
4. O FIM DOS PAIS 73
5. A NÃO-VIOLÊNCIA ····..·80
6. O FARDO LEVE · · 89
7. A CIDADE SOBRE O MONTE 9H
VIII

8. A VONTADE DE FORMAR COMUNIDADE


EM JESUS
108

TERCEIRA PARTE

AS COMUNIDADES NEOTESTAMENT ÁRIAS


NO SEGUIMENTO DE JESUS 115 APRESENTAÇÃO
1. A IGREJA COMO POVO DE DEUS 115 À EDIÇÃO BRASILEIRA
2. A PRESENÇA DO ESPÍRITO 124
3. A ABOLIÇÃO DAS BARREIRAS SOCIAIS 132
4. A PRÁXIS DA RECIPROCIDADE 148 Eu "conheci" o autor, GERHARD LOHFINK,através de um
5. O AMOR FRATERNO ········· 158 livro seu. Isto aconteceu na minha primeira tentativa de ler
6. A RENÚNCIA À DOMINAÇÃO 171 uma obra de Novo Testamento e escrever sobre ela para o
7. A IGREJA COMO SOCIEDADE DE CONTRASTE 180
grande prof. Carlos Alberto Chaves Fernandes. Lembro-me
8. SINAL PARA AS NAÇÕES 195 ainda que a edição do manual popular intitulado 1/Agora
entendo a Bíblia: para você entender a crítica das formas"
QUARTA PARTE
trazia imagens, espaços para anotações marginais e esque-
A IGREJA ANTIGA NO SEGUIMENTO DE JESUS 219 mas. Lembro-me também do meu espanto com a formgeschi-
1. O POVO ESCOLHIDO DENTRE AS NAÇÕES 220 chtliche Schule, para mim uma novidade extraordinária.
2. A RELIGIÃO DA CURA 223 Porém, o mesmo autor da minha primeira leitura diri-
3. A FRATERNIDADE CRIST÷············
..· gida também foi responsável pelo primeiro grande impacto
226
4. A SOCIEDADE DE CONTRASTE DE DEUS 231 em minha leitura incipiente do Novo Testamento. Este livro,
5. A INSUBORDINAÇÃO CRISTÃ 240 "A Igreja que Jesus queria: Dimensão Comunitária da Fé
6. A IGREJA E A GUERRA 248 cristã", composto de uma série de palestras dadas pelo au-
7. O CUMPRIMENTO DE ISAÍAS 2 251 tor aos clérigos das dioceses de Limburg e Rottenburg, mais
8. A PROVA DA VERDADE PELA PRÁ TICA 258 do que um texto dedicado à eclesiologia neotestamentária,
é uma agradável surpresa devido à habilidade do autor em
CONCLUSÃO 265 unir a boa exegese com a aplicação prática dos temas que
A HERANÇA DE AGOSTINHO 265 trata. Partindo da ideia de que Deus deseja a salvação das
nações através de um novo Israel, LOHFINKtrata nas quatro
BIBLIOGRAFIA 271 seções da obra das relações entre Jesus e Israel, entre Jesus e
os seus discípulos, das relações nas comunidades do Novo
ÍNDICE DE AUTORES 273 Testamento e nas comunidades da Igreja Antiga.
Segundo LOHFINK, a vinda de Jesus fez com que a missão
ÍNDICE DAS CITAÇÕES BÍBLICAS 275 passasse a abordar os indivíduos, tornando a fé cristã preo-
cupada com as realidades sociais. Se no Antigo Testamento
x APRESENTAÇÃO
.................................................................

Israel era uma luz para as nações, atraindo-as, no Novo Tes-


tamento Israel se movimenta em direção ao encontro com
os necessitados, como afirma Mateus 10.5-6: "Ide às ovelhas
perdidas da casa de Israel". A sociedade de contraste ou so-
ciedade alternativa que surge com Jesus e que pode ser vis- PREFÁCIO
lumbrada claramente no Sermão da Montanha impele para
que o desenvolvimento do cristianismo se dê conforme a in-
tenção de Jesus de formar uma sociedade reconciliada, que Há muito tempo que a teologia crítica pergunta, com in-
acolha os doentes e os quebrantados pelas dores do mundo. sistência, se o Jesus histórico fundou, de fato, uma Igreja. No
Logo, a adesão de várias pessoas ao movimento, inclusive entanto, torna-se cada vez mais claro que se trata de uma
de Paulo, não poderia deixar de promover a união entre os
questão mal colocada. Formulando exageradamente: Jesus
judeus e os gentios, entre os escravos e os homens livres, en-
não pôde fundar uma Igreja porque ela já existia há muito
tre os homens e as mulheres. Tal legado foi acolhido na Igre-
_ a saber, o povo de Deus, Israel".Jesus dirige-se a Israel. Ele
ja Antiga que, mesmo sem fortes estruturas institucionais,
cuidava dos que estavam em seus domínios com amor e quer reuni-lo e fazer dele o verdadeiro povo de Deus, em
com graça. Sendo assim, a igreja não existe para si, mas está vista do Reino de Deus que se aproxima. O que nós, hoje,
completamente e exclusivamente voltada para o mundo. chamamos Igreja, não é nada mais do que a comunidade
O livro de LOHFINK é um livro de eclesiologia e missio- daqueles que estão dispostos a viver no povo de Deus reu-
logia do Novo Testamento que flerta com a cristologia e a nido por Jesus e santificado por sua morte. A partir daqui
soteriologia. Mas, acima de tudo, é um livro que versa sobre não faz sentido procurar no Jesus histórico um ato formal
o amor: amor de Deus, amor de Jesus, amor dos cristãos, da instituição da Igreja. Contudo faz muito sentido pergun-
amor da Igreja. E só o amor explica o cristianismo simples tar de que maneira Jesus reuniu Israel e como ele imaginou
e engajado que LOHFINK nos apresenta com simplicidade e a comunidade do verdadeiro Israel. Pois assim chegamos à
profundidade através deste livro que nos ensina qual "A pergunta decisiva: como a Igreja deveria ser hoje? Para respon-
Igreja que Jesus Queria". der essa pergu~ta vamos, em seguida, preparar os caminhos
Brian Gordon Lutalo Kibuuka à luz do Novo Testamento.
Membro do Centro de Estudos Clássicos Para isto, recorro às palestras que realizei, no ano de
e Humanísticos da Universidade de Coimbra 1981, diante dos párocos das dioceses de Limburg e Rotten-
Membro do Grupo de Pesquisa Imagens,
Representações e Cerâmica Antiga / NEREIDA - UFF
burg - Stuttgart. Elas tinham por tema: "A ideia de comuni-
Membro do Grupo de Pesquisa Discurso na Antiguidade Grega: dade em Jesus e na Igreja primitiva". Ao mesmo tempo que-
texto, contexto e memória -UFRJ ro continuar, na área do Novo Testamento, a temática que
meu irmão Norbert expôs, a partir do Antigo Testamento,
em seus livros "Die messianische Alternative" e "Kirchen-
trâume" ("A alternativa messiânica" e "A Igreja dos meus
10 PREFÁCIO
sonhos"). Devo muito a estes dois livros e à conversa com
meu irmão. Através dele e de Rudolf Pesch, entrou neste
livro algo das experiências e da teologia da comunidade
1/

integrada". Para mim abriu-se, desta maneira, uma nova di-


mensão da Sagrada Escritura.
Agradeço mais ainda a todos aqueles, cujos nomes estão
INTRODUÇÃO
no começo do livro, na dedicatória. Em Rottenburg começa-
mos como círculo de famílias e, hoje, já estamos muito além
A HERANÇA DO INDIVIDUALISMO
disso. Sem esta experiência gratificante da nossa fé vivida
em comum, este livro não poderia ter sido escrito.
No semestre do inverno de 1899 a 1900, AooLF VONHAR-
Enfim agradeço a meus colaboradores Thomas Kant,
NACKpronunciou 16 palestras na universidade de Berlim
Marius Reiser e Agatha Strôbele por sua incansável ajuda
para estudantes de todas as faculdades sob o título A es- 1/
no preparo e correção do manuscrito.
sência do cristianismo". Estas p-alestras foram acompanha-
das por cerca de 600 estudantes. Mas o livro, baseado nestas
palestras, que HARNACKeditou meses mais tarde, tornou-se
Gerhard Lohfink
um acontecimento público. Mais ainda: ele iniciou uma série
de discussões teológicas que não terminariam tão cedo.
Ainda hoje vale a pena ler o livro A essência do cristia-
1/

nismo" (WdChr).l Não apenas para apreciar o estilo admirável


das palestras de HARNACK ou para ouvir a voz de um dos mais
importantes e influentes teólogos protestantes do começo deste
século. Especialmente para sentir a força de uma corrente teoló-
gica fundamental do fim do século XIX que o próprio HARNACK
qualifica de Indioidualismo religioso e Subjetivismo (WdChr 31).
Ele utiliza ambos conceitos sem que se perceba nele a
menor sombra de crítica. Ele está convicto que estes dois
conceitos também descrevem corretamente a pregação de
Jesus. No fim da terceira palestra encontra-se o famoso e
muitas vezes citado trecho:

J Recomendamos a edição econômica: A. von Harnack. Das Wesen dcs


Christentums (Gutersloher Taschenbucher Siebenstern 227), Gutersloh,
1977. As citações deste livro são tiradas daí.
I,
12 ..HH H ..HH}l':JT~()[)l?Çj,() INTR()[)l)Çj,() ..

"Quem quer saber o que significa o Reino de Deus e a desde a ruptura com a comunidade do povo de Israel, se
vinda deste Reino no anúncio de Jesus, deve ler suas pará- considerava como "Igreja", e isto significa: o verdadeiro Isra-
bolas e refletir sobre elas. Aí ele vai entender de que se trata. el (WdChr 111). Ele sabe que a jovem Igreja se compreendia
O Reino de Deus vem, aborda os indivíduos, instalando-se como um povo novo formado de judeus e gregos, de gregos
em suas almas, e eles o captam. O Reino de Deus é a soberania e bárbaros (WdChr 114s). E ele sabe também que a Igreja pri-
de Deus, disso não há dúvida - mas é a soberania do Deus mitiva via como sua tarefa mais nobre cumprir plenamente a
santo nos corações dos indivíduos, é o próprio Deus com sua vontade de Deus, e, assim" apresentar-se como uma comuni-
força. Todo o aspecto dramático no sentido externo, históri- dade santa" (WdChr 103). De maneira alguma HARNACK está
co-universal, desapareceu aqui, perdeu-se também toda es- do lado daqueles que acreditam que a Igreja em sua natureza
perança externa de futuro. Tomem a parábola que quiserem, deva ser apenas interior e, consequentemente, Invisível.'
do semeador, da pérola preciosa, do tesouro escondido - a Mas, o individualismo extremo de sua teologia sobre-
palavra de Deus, ele próprio é o Reino, e não se trata de an- pôs-se a todos estes conhecimentos corretos e os absorveu.
jos e demônios, de tronos e principados, mas de Deus e da A "justiça melhor" do sermão da montanha, então, torna-
alma, da alma e seu Deus" (WdChr 43). se apenas uma atitude correta do indioiduo' e a Igreja, em
Conforme HARNACK, portanto, o Reino de Deus, não vem última análise, apenas uma" aliança fraterna" de todos os
a uma comunidade; ele vem ao indivíduo. "O indivíduo deve homens de boa vontade no mundo inteiro (WdChr 73), ou
ouvir a Boa-nova da misericórdia e da filiação e decidir, pos- melhor, uma associação fraterna de muitos indivíduos, que
tar-se do lado de Deus e da eternidade ou do lado do mundo pela fé na Boa-nova - isto é, a Boa-nova de seu contato di-
e do tempo" (WdChr 90). "Agora tudo que é exterior e ape- reto com Deus, o Pai - como indivíduos já estão salvos. Por
nas vindouro apresenta-se desfeito: o indivíduo é remido, mais que HARNACK saiba que a Igreja é visível, enquanto
não o povo ou o Estado" (WdChr 45). Assim como o Reino tem de se concretizar sempre em associações concretas -
de Deus não acontece numa comunidade, mas no indivíduo, em última análise, para ele, ela continua sendo apenas uma
comunidade espiritual, uma societas in cordibus que não
ele também não atinge o exterior, mas o interior, o homem ..
pode ser identificada com nenhuma das igrejas concretas
interior, a alma. "O Evangelho está acima das questões das
evoluções terrestres; ele não se preocupa com as coisas, mas do seu tempo.
com as almas das pessoas" (WdChr 76). De fato, "o indiví- O decisivo é que HARNARK não está sozinho com esta ima-
duo" e "o interior" são palavras-chave que sempre voltam a gem individualista de Igreja e de redenção. Pelo contrário,
aparecer em HARNACK. A expressão "Deus e a alma, a alma e ele é representante de uma ampla corrente de teologia liberal
seu Deus" é repetida por ele muitas vezes, quase como um
refrão (WdChr 31.43.90.155).
2 Esta questão está sendo elaborada por K. H. NEUFELD, Adolf Harnacks
Mas HARNACK conhece muito bem o Novo Testamento
Konflikt mit der Kirche. Weg-Stationen zum "Wesen des Cnrieientume"
para não ver a ideia da comunidade que acompanha o Evan- (lnnsbrucker theologische Studien 4), Innsbruck, 1979.
gelho do Reino de Deus. Ele sabe que o movimento cristão, 3 Cf. WdChr 51-53.73.75.
14 ...........................I]\JT~()J:)YÇP..() 15
do fim do século XIX e do começo do século XX. A ideia de (inconscientemente) tivessem sido interpretados e vividos
que o Reino de Deus podia vir somente ao indivíduo, que de um modo muito mais individualista do que tenham sido
ele era algo profundamente interior, e, que, por isso, a Igreja oncebidos antes. Há muitos indícios de que a teologia e pie-
devia ser em primeiro lugar, uma sociedade espiritual, es- dade católicas participaram com muito mais intensidade no
tava bem difundida na teologia protestante daquele tempo. individualismo da teologia protestante do que elas próprias
Somente naquele tempo? A posição individualista da imaginaram. E seria bem possível, que as ideias individua-
teologia liberal, como se apresenta em HARNAcK,- apesar listas de redenção da teologia do fim do século XIX ainda
de todas as correntes opostas - ainda hoje é ativa em muitas nem de longe estivessem superadas, mas determinassem
ramificações e metamorfoses. Assim, apenas poucos anos nossos projetos pastorais, nossos conceitos de Igreja e a ima-
atrás, E. GRASSER, cuja posição eclesiológica, aliás, não pode gem concreta de nossas comunidades paroquiais com muito
ser identificada com a de HARNAcK escreveu o seguinte:" mais intensidade do que gostaríamos de admitir.
"Com a mensagem da salvação de Jesus acontece uma Há pouco tempo, apareceu uma notícia nos jornais di-
mudança completa de acentuação do coletivo para o indi- endo que agora existia em Berlim um posto volante da par-
víduo. A tendência individualizante é palpável em toda a te da Igreja. Mais exatamente: um carro aparelhado com rá-
parte. A prefiguração do relacionamento com Deus do An- dio, no qual um padre, um médico e um psicólogo poderiam
tigo Testamento e do judaísmo, constituída pela relação ser chamados imediatamente, dia e noite.
Iahweh/povo, aliança/ culto, Torá, perde sua força norrnati- Parece altamente moderno: por assim dizer, a Igreja lu-
va. Jesus passa, de modo crítico, através dela e vai, para trás, tando na frente, ou: técnica moderna a serviço do Reino de
até à situação e relação básica decisiva: 'Deus - indivíduo', Deus! Na realidade, este posto volante é um símbolo alta-
'Pai - Filho do homem (= Homem)". mente problemático daquilo que a Igreja se tornou, em larga
Não podemos minimizar posições desse tipo - dizendo, escala, dentro da nossa sociedade moderna: uma Igreja que
por exemplo, que se trata de um traço de individualismo cuida do indivíduo; uma instituição de fazer "ofertas livres"
típico de determinadas correntes: esta é uma expressão da a uma quantida..;de de indivíduos.
teologia protestante, que mesmo nela está praticamente su- Isto corresponde exatamente à situação da nossa socie-
perada e que nunca existiu dentro da Igreja católica. dade de consumo, que G. GRESHAKE comparou, há pouco,
Pois poderia bem ser que a Igreja católica tivesse man- com um grande supermercado: cada um anda com seu car-
tido conceitos, fórmulas e instituições que originariamente rinho e escolhe o que lhe agrada e aquilo de que precisa."
estavam marcados por intenso espírito comunitário, mas Neste enorme "Supermercado República Federal Alemã"
que esses conceitos, fórmulas e instituições, mais tarde, existe, entre outras, também uma repartição, onde são feitas

4 E. GRASSER, Jesus und das Hei! Gottes. Bemerkungen zur sog. "Indioidualisie- S G. GRESHAKE, Einige Uberlegungen zu den Ursachen des mangelnden Pries-
rung des Heile", em: G. STRECKER (Ed.), Jesus Christus in Historie und Theolo- ternachwuchses, em: Priesterliche Existenz heute - Sorge um giestliche Beru-
gie. Peetschriii [ur Hans Conzelmann, Tubingen, 1975, 167-184, lá 182s. te (Handreichungen zur Pastoral), Viena, 1980,5-19, lá 8s.
INTR()[)l]Ç,6,() 17
16 INTRODUÇÃO
........................................................

ofertas religiosas para o indivíduo. Ela está sob os cuidados Testamento Deus/povo de Deus? Ele dirigiu-se, de fato, só ao
das Igrejas. A sociedade faz questão que esta repartição es- indivíduo? Ele está realmente interessado somente em Deus
teja funcionando. Pois a oferta da mercadoria deve ser com- e a alma, na alma e seu Deus?
pleta. - Este posto volante religioso em Berlim parece-me Aqui coloca-se uma série de questões dificílimas, em
um símbolo perfeito desta Igreja-oferta, que cuida, abastece e cuja análise, na ciência do Novo Testamento, ainda nem de
deixa os homens em sua anonimidade. longe se chegou a um consenso. Sua resposta, porém, joga-
Estruturas pastorais deste gênero não são apenas uma ria luz sobre a nossa situação hodierna e poderia clarear o
imagem perfeita das estruturas da nossa sociedade atual; caminho que temos de andar. Ao mesmo tempo tornar-se-
elas são, além disso, uma herança resistente daquele indi- ia claro o que é que o anúncio do Reino de Deus por Jesus
vidualismo religioso, que foi explicado com o exemplo de tem a ver com a Igreja. Tentemos, portanto, uma resposta:
ADOLFVONHARNACK. Não deveríamos aceitar, pois, como como é que Jesus está com relação à igreja? Qual a igreja
evidência inabalável o modo como se faz pastoral hoje nas que Jesus queria?
paróquias comuns das Igrejas grandes da Europa. E os cris-
tãos católicos não deveriam estar tão certos de que a questão
de comunidade para eles, não é um problema, pois a Igreja
deles sempre manteve a ideia da comunidade - a ideia da
comunidade visível e palpável. Naturalmente é verdade: até
o fim da Idade Média, "Igreja" significa comunidade concreta,
identificável, medianeira da eoioação" A Igreja católica nunca o
negou e, de fato, nunca esqueceu esta realidade. Mas perma-
nece a pergunta, se, neste ponto, ela não sobrepôs, deslocou
e perdeu muito mais de vista suas próprias tradições do que
ela mesma sabe. ~
É necessário, portanto, tornar-se novamente conscien-
te das próprias tradições. E onde aparecem estas tradições
melhor e de modo mais original do que a Sagrada Escritu-
ra? E onde é que elas podem brilhar de modo mais claro e
normativo do que na práxis do próprio Jesus? Perguntemos,
portanto: como é que Jesus está com relação à comunidade?
Ele abandonou, de fato, o relacionamento básico do Antigo

6 Cf. a pesquisa ainda não superada de H. DE LUBAC, KathoIizismus aIs


Gemeinschaft, Einsiedeln-Kõln,
1943.
,.'

PRIMEIRA PARTE
JESUS E ISRAEL

J. A PREGAÇÃO DO BATISTA

Quando Jesus começou a pregar, o campo já estava pre-


parado para ele. Pois precedeu-o a pregação de conversão
de João Batista, a qual causou l.!ma estupefação extraordi-
nária em Israel e abalou muita gente. Há divergências im-
portantes entre Jesus e João. Por exemplo, Jesus não prega
() juízo iminente pelo fogo, mas anuncia que a salvação está
próxima. Por outro lado existem muitos pontos comuns
r-uíre os dois. E o mais importante é que Jesus considera o
Hatista pessoa autorizada por Deus (Cf. Me 11,30) e o cha-
111('1 de "o maior entre os nascidos de mulher" (Mt 11,11 par.

I ,c 7,28). Antes de começar a pregar sua mensagem de salva-


(,'<10, Jesus batizou, provavelmente, por algum tempo, como
I()Jo, às margens do [ordão (d. [o 3,22.26; 4,1). Somente se
.idrnitirmos que: [esus foi, por algum tempo, discípulo de
loão ou, pelo menos, esteve estreitamente ligado ao movi-
monto de João Batista, é que tudo isto - os pontos comuns
e-ntre Jesus e João, a alta estima de Jesus pelo Batista e a ati-
vidade de Jesus como batista - se torna compreensível?
Acontece que João Batista se dirige a Israel. Ele quer reu-
nir e preparar o povo para o fim que está próximo. J. BEcKER,

I',)ra uma fundamentação mais detalhada cf. J. BECKER,


[ohannee der Tiiu-
II'r und Jesus von Nazareth (BSt 63), Munique, 1972.
22 A.IC;~~J;\.g1JE.J~~1JS.g1JE.RIA 23

que recentemente estudou a fundo a figura de João Batista, r-nraizada na terra." No judaísmo do tempo intermediário
diz com razão: "João não se dirige simplesmente à humani- .-ntre o Antigo e o Novo Testamento, esta linha de tradição
dade ou a todos os pecadores do mundo, mas aos descen- loi ampliada: Israel, então, se apresentava como plantação
dentes de Abraão, isto é, a Israel em sua totalidade (Lc 3,8 de Deus, que não seria exterminada por toda a eternidade." O
par.). Ele insiste no juízo para o povo de Deus. Na certa, sua Batista repudia veementemente esta segurança de salvação
mensagem não tem um cunho político-nacional; mesmo as- roletiva. O juízo vem justamente para o povo de Deus. O
sim ele chama a atenção do povo da salvação para seu com- machado já está posto à raiz das árvores que Deus mesmo
promisso com Deus que não é levado a sério. Deus vai julgar plantou. Deus vai limpar sua plantação, Israel. Toda árvore
implacavelmente este comportamenro=,s que não der fruto, será cortada e lançada ao fogo.
O fato de o Batista ter escolhido o deserto para palco de Em Lc 3,8 par. Mt 3,9 torna-se ainda mais evidente que a
sua pregação (Me 1,4), e obrigado o povo a sair para chegar pregação do Batista está relacionada com Israel:
até ele (Me 1,5), só se torna compreensível se considerarmos
como pano de fundo as tradições do Êxodo de Israel. Pois Não comeceis a dizer em vós-mesmos:
{"
é lá que se fala em recomeço, em conversão, ou na reunião "Temos por pai a Abraão".
escatológica do povo de Deus no deserto. É assim que o pro- Pois eu vos digo
·',I!

feta Oseias diz num oráculo de Deus sobre a prostituta Israel que até mesmo destas pedras
(Os 2,16):9 Deus pode suscitar filhos de Abraão!

Por isso, eis que vou, eu mesmo, seduzi-ia, conduzi-ia ao deserto e Aqui é afirmado de modo incisivo, que a descendência
falar-lhe ao coração. de Abraão, isto é, a filiação de Israel, não salva do juízo que
se aproxima. E justamente aqui João mostra com exatidão
Isto quer dizer: na situação do deserto, os falsos aman- que o destinatário de sua pregação é Israel. E tanto é o povo
tes ficam longe de Israel. Lá o povo está novamente sozinho
com seu Deus. Lá Israel, como outrora, pode reconhecer seu
..
de Israel que ele até pode ameaçar: se for preciso, Deus vai
suscitar das pedras do deserto um novo Israel para Abraão.
Deus (cf. Os 2,22.25). Agora é evidente: João Batista não se dirige à humanida-
Também a ameaça do machado, que já está posto à raiz de em sua totalidade nem ao indivíduo, mas aos membros
da árvore (Mt 3,10 par. Lc 3,9) fala de Israel. Pois outra vez do povo de Deus. Ele está preocupado com a sobrevivên-
temos como pano de fundo o contexto de uma tradição do cia de Israel, da mesma forma como os fariseus, os essênios
Antigo Testamento: Israel como plantação de Deus, firmemente c os zelotes. Também estes grupos e movimentos estavam

8 Id. 30. lU Cf. Êx 15,17; 25m 7,10; Is 60,21;61,3; Jr 32,41; 42,10; Mt 15,13.
9 Cf. também as atualizações da tradição do êxodo em Is 40,3s; 41.17-20; II Cf. especialmente o livro dos jubileus 36,6 e os salmos de Salomão
43,19s; 48,20s; 49.9-13; Jr 2,1-6; Os 12,10. 14,3s.
24 A.I<:;R.~[i\.qlJE.J~~l.!? ..C2(jl:lR.Ii\ II~susE ISRAEL 25
preocupados com a sobrevivência de Israel. E, assim, no E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-Ias a pre-
fundo todos eles se esforçam por renovar Israel, por reunir o gar, e terem autoridade para expulsar os demônios. Ele constituiu,
verdadeiro Israel, por formar um Israel que cumpra a vonta- pois, os Doze ...
de de Deus. E em termos modernos podemos dizer: naquele
tempo, muitos grupos e movimentos em Israel buscavam a o verbo "ele constituiu" aponta para um fato único
verdadeira identidade do povo de Deus." num determinado lugar e num determinado tempo. Na-
E podemos ajuntar também Jesus com sua mensagem quele momento, corno Marcos quer dizer, Jesus constituiu
e sua maneira de agir precisamente a esta constelação his- Li oze dos discípulos como os Doze. Eles deveriam fazer o
tórica. Não prejudicamos com isso a unicidade e divinda- que ele mesmo fez: anunciar o Reino de Deus e, como si-
de de sua missão. Também Jesus quer reunir o povo de nal do poder do Reino que estava a despontar, expulsar os
Deus." Também Jesus quer preparar Israel para Deus. demônios.
Também Jesus quer dar uma resposta à profunda crise de Por conseguinte, Jesus não só constituiu discípulos em
I"·'
identidade de Israel. Só que é uma resposta infinitamente função do testemunho escatológico do Reino de Deus, mas
mais profunda do que todas as respostas que foram tenta- constituiu doze discípulos. E, evidentemente, ele fez isto
das naquela época. num gesto demonstrativo, que foi comentado e gravado
Já a vinculação entre Jesus e o Batista esclarece a ativida- na memória. Porque este gesto e porque exatamente doze
de de Jesus relacionada com a comunidade, ou melhor, relacio- ti iscípulos?
nada com Israel. Naquela época, o significado de urna ação como esta
deve ter sido tão evidente, que os transmissores do cristia-
2. A CONSTITUIÇÃO DOS DOZE nismo primitivo nem sequer fizeram questão de explicá-lo
melhor: o número de doze discípulos só pode estar em re-
Um segundo fenômeno, porém, fala muito mais cla- 1,1Ção com as doze tribos de Israel. Com a menção das doze
ramente: Jesus escolheu - com certeza de entre um grupo Iribos, porém, se faz lembrar um ponto essencial da espe-
maior de discípulos - Doze, e os enviou de dois em dois rança escatológiêa em Israel. Pois, embora naquela época o
(Mc 3,13-19; 6,7-13). Importante aqui é Mc 3,14: sistema das tribos já não existisse mais - conforme opinião
vontemporânea apenas existiam ainda duas tribos e meias:
ludá, Benjamim e a metade de Levi" - espera-se, para o tem-
12 Cf. R. GEIST,Jesus vor Israel- der Ruf zur Sammlung, em: K. Muller (Ed.),
po escatológico da salvação, a restauração completa do povo
Die Aktion Jesus und die Re-Aktion der Kirche Jesus von Nazareth und die
Anfiinge der Kirche, Wurzburg, 1972, 31-61. lá 31-44; G. THEISSEN,Soziolo- elas doze tribos. Assim, o capítulo final do livro do profeta
gie der Jesusbewegung. Ein Beitrag zur Entstehungsgeschichte des Urchris- I':zcquiel narra, num programa profético, como, no fim dos
tentums (TER 194), Munique, 1977,33-90, esp. 74-88.
13 A expressão "reconstituição" impõe-se sempre mais na exegese, para
descrever a atuação específica de Jesus frente a Israel. Cf. especialmen- II Teologia do Novo
Cf. J. JEREMIAS. Testamento, Editora Hagnos. São Paulo,
te R. PESCH,Der Anspruch [esu: Orientierung 35 (1971) 53 56.67-70.77-81. 008.
26 A.IC;~~Jf\..qtJE.J~~tJSglJ.E~~A II",LJS E ISRAEL 27

tempos, as doze tribos, novamente chamadas à vida, rece- Pode ficar em aberto se a primeira parte da sentença é
bem seu quinhão reservado do país." do próprio Jesus. De qualquer maneira, a sua última parte
Vista sobre o pano de fundo desta viva esperança, a (1/ Li irigi-vos às ovelhas perdidas da casa de Israel") encaixa-

constituição de doze discípulos, feita por Jesus, só pode ser ,'1(' muito bem nesta situação histórica do envio dos Doze."
entendida como ação simbólica proiética:" os Doze represen- l.stes são enviados por Jesus, para anunciar a mensagem do
tam o despertar e a reconstituição de Israel, agora iniciados Rt'ino de Deus a toda a casa de Israel. Eles representam o arro-
por Jesus, para constituir a comunidade escatológica de go de Jesus a Todo-Israel.
salvação. Eles representam esta reconstituição pelo fato de As ovelhas perdidas (Mt 10,6) não representam apenas
serem constituídos Doze e, ainda mais, por serem enviados urna parte do povo - por exemplo, os pecadores e excluídos
depois para todo Israel. Constituição e missão são dois lados mas o povo todo. Ele é comparado a um rebanho disperso,
da mesma ação simbólica profética. que foi conduzido ao erro. Já Ezequiel, no seu capítulo do
Substimaríamos muito a dimensão profunda de uma pastor (Ez 34), descreve extensamente a situação do povo
I ação simbólica como esta, se a considerássemos apenas uma til' Deus seduzido e depravado. É. evidente que Jesus lembra
,;1'" ri •
.'.! ilustração ou demonstração. Sem dúvida ela é tanto uma como I':zequiel quando fala das ovelhas perdidas da casa de Israel.
.;;;
outra coisa. Mas é mais; é iniciação do futuro que já se reali- Mas isto significa: Jesus está convencido de que agora, nesta
."
'.; "
za antecipadamente no símbolo profético colocado, e que na hora, já começou a reconstituição escatológica das ovelhas
sua realização, ora iniciada, já projeta o futuro. Com a cons- doentes e perdidas de Israel, anunciada pelo profeta. Deus
tituição dos Doze e o anúncio do Reino de Deus já começa a mesmo reúne seu povo, e isto por ele, seu pastor messiânico
existência do Israel escatológico. (d. Ez 34,23s).
Evidentemente, o simbolismo do número doze implica Em resumo, a constituição dos Doze é uma das indica-
que os discípulos enviados se dirigem apenas a Israel como I,'ÜCS mais explícitas de que Jesus se dirige decididamente

a nação concreta e empírica do seu tempo. Por isso faz parte .\ lsrael." Jesus quer a reconstituição do povo de Israel, ele
deste contexto uma palavra muito antiga, transmitida ape- quer o restabelecimento do Israel perdido e disperso. Pro-
nas por Mateus (Mt lO,5s): v.ivelmente a ação simbólica profética da constituição dos

Não tom eis o caminho dos gentios,


nem entreis em cidade de Samaritanos. I" Id., 220-225.
Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel. 1M (.: de se estranhar que L. ETIMAYER, "Der theologis-
em sua dissertação
che Ort Israels in der Botschaft [esu" (manuscrito), Innsbruck, 1979,
155 páginas, não menciona com nenhuma palavra a constituição dos
Doze. Por isso não precisamos admirar-nos mais sobre o resultado da
15 Cf. Ez 37; 39,23-29; 40-48. pesquisa (Israel foi abolido como "princípio da salvação"). A disser-
16 Para provar d. M. TRAUTMANN, Zeichenhafte Handlungen Jesu. Ein tação passa por alto de fenômenos essenciais da práxis do Reino de
Beitrag zur Frage nach dem geschichtlichen Jesu (FzB 37), Wurzburg, Deus em Jesus, trabalha com expressões não explicadas (princípio da
1980, 167-233. salvaçâo") e inverte as realidades.
28 AIc;R.~JJ\.qlJEJ~S.l!S.qlJ.EI~IJ\ 9

Doze tinha um significado muito mais profundo do que fosse conhecido da maneira mais rápida e eficaz no país
nós podemos imaginar hoje. Muita coisa indica que Jesus inteiro.
escolheu conscientemente os Doze das diversas regiões do De fato não entenderíamos as curas de doentes feitas por
país e dos diversos grupos do judaísmo do seu tempo, para lcsus às quais se devem juntar também as curas de pessoas
manifestar a reconstituição de todos os ísraelitas." Na certa, consideradas possessas de demônios, se as considerássemos
os Doze eram um grupo diversificado - começando com o apenas milagres realizados em indivíduos por motivos de
cobrador de impostos Mateus (Mt 10,3) até ao zelote Simão compaixão. Depois que foi redescoberto o horizonte escato-
(Lc 6,15). Nas pessoas de um cobrador de impostos e de um lógico da atividade de Jesus, tornou-se claro que os milagres
zelote encontraram-se num único grupo representantes das de cura realizados por Jesus só podem ser compreendidos
correntes mais opostas que existiam em Israel. Pois os cobra- em conjunto com o anúncio do Reino de Deus.
dores de impostos trabalhavam em união com os romanos, Suas obras de poder são sinais da aproximação do Rei-
ao passo que os zelotes rejeitavam decididamente a ocupa- no. É este, por exemplo, o sentido original" da parábola da
I,i ção romana como incompatível com a soberania de Deus. figueira (Me 13,28s). Quando seus ramos se tornam tenros,
. ~;i Jesus, porém, quer reunir a nação de Israel despedaçada sabe-se na Palestina, o verão está próximo. Da mesma forma
~~
~,

'1:
por lutas de partidos e grupos. Por isso, ele vai aos cobrado- deve-se saber, quando se vê tudo isto, ou seja, as obras de
res de impostos e zelotes, aos pobres e ricos, à população da poder de Jesus: o Reino de Deus está próximo (cf. Lc 21,31).
zona rural da Galileia e à capital, Jerusalém. As obras de poder de Jesus, realizadas nos doentes e
marginalizados, porém, não são apenas sinais da aproxima-
3. OS DOENTES DO POVO DE DEUS ção do Reino futuro. Elas mostram ainda, que o Reino de
Deus já está presente:
Devemos falar agora do fato de Jesus ter-se dirigido
aos doentes. Os tempos, em que a exegese Bíblica não dava Contudo, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, en-
muita atenção aos milagres de cura realizados por Jesus ou tão o Reino de Deus já chegou a vós (Lc 11,20 par. Mt 12,28).
mesmo negava a sua historicidade, estão chegando ao fim.
Desde que ficou claro que curas divinas e curas naturais Resumindo podemos dizer: os milagres de cura ocu-
- psicogênicas não se excluem (também aqui tem valor o pam um lugar de destaque na vida de Jesus. Eles estão in-
provérbio antigo: a graça pressupõe a natureza e a comple- separavelmente ligados ao anúncio do Reino de Deus. Lá,
ta), não existe mais motivo para não levar muito a sério os onde o Reino de Deus irrompe, a doença simplesmente há
milagres de cura do Novo Testamento. Com certeza, Jesus de acabar.
curou doentes frequentemente e em muitas circunstâncias.
E exatamente seus milagres de cura fizeram com que ele
211 A respeito da diferença entre o sentido da parábola em Marcos e seu
sentido original cf. R. PESCH, Das Markusevangelium II (HThK II 2), Fri-
19 Cf. R. PESCH, op. cit., 68. (Cf. nota 13) burgo, 1977,305-313.
30HHHHHHHHAlc;~~Ji\qlJEJ~?lJ?qlJE.I~IA 31

Existe hoje, até este ponto, um certo consenso na exe- Então o coxo saltará como o cervo,
gese do Novo Testamento. Mas a relação dos milagres de e a língua do mudo cantará canções alegres,"
cura, realizados por Jesus, com o povo de Deus, com o
Israel escatológico, ainda passa muitas vezes despercebi- É importante dizer que, no profeta Isaías, o olhar dos
da. Mas justamente a relação estreita das obras de poder, l'I'gOS, o ouvir dos surdos, o saltar dos coxos e o exultar dos
realizadas por Jesus, com o Reino de Deus que está para mudos é parte integrante da restauração escatológica de Is-
irromper, faz com que elas também sejam decisivas para I.\VI. No tempo escatológico da salvação, anunciado no livro

o povo de Deus. Num horizonte escatológico os milagres d(' [saías, Deus vai curar e guiar seu povo (57,18); ele vai
de Jesus também estão inseparavelmente ligados à comu- 1'11 rar as feridas (30,26);ninguém mais vai dizer em Israel na-

nidade: eles servem à restauração do povo de Deus, em queles dias: "Eu estou doente" (33,24);o povo inteiro, então,
que, no tempo escatológico da salvação, não pode haver v.ii ver o que as mãos de Deus realizam no meio dele (29,23).
mais doentes. Não precisamos excluir a compaixão de Jesus para com
Esta relação das obras de poder, realizadas por Jesus, .lS pessoas doentes, quando realiza os milagres de cura (cf.
...ili.
":
, ~!i com a comunidade torna-se especialmente clara na exclama- Me 1,41).Mas não os entendemos suficientemente, se deixa-
ção de júbilo de (Lc 7,22 par. Mt 11,5): mos de lado o pano de fundo do Antigo Testamento: tam-
~~t:
1)0m as curas de Jesus têm em vista a imediata reconstituição
Os cegos recuperam a vista, I' restauração de Israel. No povo de Deus escatológico nin-

os coxos andam, I',uém deve ser excluído da salvação: nem os marginaliza-


os leprosos são purificados, dos, nem os pecadores, nem os doentes.
os surdos ouvem, E assim encontramos constantemente em Jesus, muitas
os mortos ressuscitam vezes inesperadamente, a vontade de reunir Israel- mesmo
e aos pobres é anunciado o Evangelho. 110 Pai-nosso que, à primeira vista, não fala nada de Israel.

Não existe motivo válido para dizer que este texto não é 4. O PEDIDO DE RECONSTITUIÇÃO NO PAI-NOSSO
do próprio Jesus. Ele menciona, de uma maneira livre e so-
berana, as profecias de salvação contidas no livro de Isaías. Na redação do Pai-nosso que o evangelista Lucas nos ofere-
Estas profecias, juntamente com as de Ezequiel, são eviden- ('l' (Lc 11,2-4)encontramos, ao contrário da redação de Mateus

temente o background bíblico decisivo para Jesus poder, com (Mt 6,9-13),após a alocução, apenas dois pedidos na forma tu:
seu auxílio, interpretar sua própria mensagem e atividade.
Ele faz alusão especialmente a Is 35,5s: Santificado seja teu nome.
Venha teu reino.
Então se abrirão os olhos dos cegos,
e os ouvidos dos surdos se desobstruirão. 'I cr. também Is 26,19; 29,18; 42,7.16; 61,1.
32 . ...................HHHAIC;~E:Jf\glJE:)E:~1!sglJIll{If\ 11'~;us E ISRAEL
33

Estes dois pedidos correspondem um ao outro na sua Iksenvolvido num pedido diferente. Este acontecimento, no
estrutura formal com uma tal exatidão, que se distinguem qual Deus santifica seu nome, está na mesma tensão tempo-
com facilidade dos pedidos seguintes, apresentados na ral entre o Já e o Ainda não, entre o presente que se realiza e
forma nós: 1. Os dois pedidos são muito curtos. Cada um 11 [uturo que ainda está para vir, que é a vinda do Reino. Já

consta de quatro palavras, no texto grego, e, na retradução no futuro próximo Deus vai santificar seu nome com ação
aramaica, de apenas duas. 2. Em ambas as frases, o verbo poderosa - esta ação poderosa, porém, já desponta. Ela já
está isolado (assindeticamente) no começo. 3. No grego (e \'omeçou como também o Reino de Deus já começou.
também no aramaico) cada prece termina com o pronome Mas o que quer dizer esta fórmula, que Deus santifique
possessivo "teu". 4. Mas o que surpreende em ambos os ''l'I/ nome, que nos é tão estranha hoje em dia? O Antigo Tes-

casos é uma circunlocução da atividade de Deus na forma tamento nos dá novamente a resposta, e ela está no capítu-
passiva, característica da piedade judaica, na qual o nome lo 36 do profeta Ezequiel. Lá se diz que, pela dispersão do
respectivamente o reino se torna sujeito da frase. O sujeito povo de Israel entre os gentios o nome de Deus foi profana-
lógico, em ambas as frases, porém, é Deus. Podemos tradu- do. Pois os gentios de todos os lugares caçoam: este, então é
••.. 11 i
zir assim: (1 povo de Iahweh! Este Iahweh deve ser um deus miserável,
..• i: I~

,':,
incapaz de livrar o próprio povo, da perda do seu país! (d.
.:~t~:
Santifica teu nome. Ez 36,20). Nesta situação, Deus fala por Ezequiel:
Deixa vir teu reino!
Não em consideração a vós é que estou agindo assim, ó casa de
Esta correspondência formal muito clara nos dois pri- Israel, mas sim por causa do meu santo nome que vós profanastes
meiros pedidos do Pai-nosso mostra claramente que os dois entre as nações para as quais vos dirigistes. Santificarei o meu
pedidos estão intimamente ligados no seu conteúdo. Em am- grande nome, profanado entre as nações, porque vós o profanastes
bos os pedidos, não se trata da atividade do homem, mas da entre elas e saberão que eu sou Iahweh, oráculo do Senhor Iahweh.
obra específica de Deus, de sua ação escatológica. No entan- Santificarei o meu grande nome que foi profanado entre as nações,
'"
porque vós profanastes no meio delas e saberão as nações que eu
to, não se pede que Deus aja num futuro remoto. Isto não
corresponderia, de forma alguma, à pregação de Reino de sou Iahweh - oráculo do Senhor Iahweh, - quando eu for santifi-
Deus feita por Jesus. Para ele, o Reino de Deus não só está cado em vós aos seus olhos, quando eu vos tomar dentre as nações
muito próximo, mas já está despontando. Quem consegue e vos reunir de todos os países, reconduzindo-vos a vossa terra
interpretar os portentos, realizados por Jesus, sabe: o Reino (Ez 36,22-24).
já se impõe.
Ao segundo pedido que pede a vinda do Reino corres- O texto mostra claramente: Deus mesmo santifica seu
ponde o primeiro. Aí trata-se de um acontecimento que, em nome. E ele santifica seu nome, reunindo Israel de todos
última análise, coincide com a vinda do Reino, porém abor- os cantos, no fim dos tempos, renovando-o e fazendo dele
da a vinda do Reino em outra perspectiva. Por isso, pode ser novamente um povo santo. A expressão: Deus santifica seu
34HHHHHHHHHAlc;~~Jr\9TJE)~?TJsgTJIl~r\ II ',I J~; E ISRAEL 35

nome tem, pois, um sentido preciso, um conteúdo perfeita- " () segundo pedido do Pai-nosso. Deus deve santificar seu
mente delimitado; e imutável. Em todo o Antigo Testamen- nome agindo em Israel e fazendo dele o verdadeiro povo
to a expressão só é encontrada no livro de Ezequiel." E lá d(' Deus (lº pedido). Também deve fazer vir o seu Reino (2º
a relação entre santificação do nome / reconstituição do povo !lI'dido). Evidentemente ambos estão numa conexão profun-
de Deus é tão estreita, que em Ez 20,41.44 se pode dizer em d,l: exatamente pelo fato de Deus criar Israel de novo, pelo fato de
poucas palavras: I )/'IIS santificar
seu nome em Israel, irrompe também o Reino de
l uu«. Ele brilha no povo de Deus.
Quando eu vos fizer sair dentre os povos e vos reunir do meio dos
países em que estivestes espalhados e serei santificado por vós aos ';, A PEREGRINAÇÃO DAS NAÇÕES
olhos das nações... Então sabereis que eu sou Iahweh, quando eu
agir em consideração ao meu nome. Num primeiro momento, uma ligação tão profunda en-
In' o Reino de Deus e o povo de Deus pode causar estranhe-

•.,lifJ!
Embora, para Jesus, a recondução de Israel do cativei- ,,\. Estamos acostumados a pensar universalmente. Afinal,
,'.i?' ro não pudesse desempenhar .mais papel algum, mesmo !ror trás do nosso universalismo, está uma experiência cris-
.' ~,

,t: ~' assim ele estava em condições de assumir a linguagem de 1.1 antiga, vivida pela Igreja desde o início; é o Evangelho
"!, II
Ezequiel. Pois, no profeta Ezequiel, a reconstituição de Israel "tlperando todas as fronteiras. O universalismo da salvação
não era apenas reconduzir o povo do cativeiro, mas, ao mes- 1'1 -ccbe dela seu direito e sua verdade. Pois o universalismo

mo tempo, a volta do povo para seu Deus (36,25-32).Ele fala t.unbém existe em Jesus. Apenas deve ser visto de maneira
em "coração novo" e em "espírito novo", que Deus vai dar ,'(irreta, Jesus não faz questão de excluir os gentios da salvação.
a Israel (36,26s), para que se possa tornar verdadeiramente MIIS ele mesmo dirige-se apenas a Israel. Ambas as frases de-
povo santo de Deus (36,28). VVI11 ser consideradas e explicadas como unidade cheia de

"Santificado seja teu nome" - não significa outra coisa tvnsões.


que: "Reconstitui e renova teu povo! Faze dele, de novo, Para começar: Jesus não tem em mente uma missão aos
;(

verdadeiramente povo de Deus". Evidentemente Jesus está );vntios. A regra "Dirigi-vos, antes, às ovelhas perdidas da
convencido, de que esta reconstituição escatológica, realiza- c.isa de Israel" (Mt 10,6), que ele dá aos Doze, quando os
da por Deus, começou já agora, como também o advento do .-nvia para pregar, tem valor também para ele. Por isso, em
Reino acontece agora. E Jesus está convencido de que a re- Mateus 15,24,Jesus fala de maneira objetiva: "Eu não fui en-
constituição do povo e a vinda do Reino acontecem através viado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel". É verda-
dele. Onde ele age, lá age Deus. Este é o segredo de Jesus. til' que, às vezes, Jesus anda em regiões pagãs, mas não para

A precisão do conteúdo de "santificado seja teu nome" !lregar ali o Reino de Deus. Encontros com gentios aconte-
ilumina ainda mais a ligação já constatada, entre o primeiro I'VI11 apenas esporadicamente, e não é Jesus que os procura.
I,: justamente estes encontros, quando acontecem, mostram
22 Muito menos claro: Lv 22,32; Is 42,8; 48,11. liuc - apesar de toda uma abertura para os gentios - o assun to
36HHHHH HAIC;~JJ\:qlJE)~S.l!SqtJ?RIA
37

é exclusivamente Israel. A mulher pagã da Siro-fenícia, que gentios. "Muitos" - é uma formulação semítica e significa
pede a Jesus a cura de sua filha, no princípio é rejeitada. E um número imenso, incontáveL Um número incontável de
ainda com esta frase bem significativa: "Deixa que primeiro gentios toma parte no banquete da consumação preparado
os filhos se saciem!" (Me 7,27). Jesus até se mostra muito re- para Israel. Eles vão sentar-se à mesa com os santos patriar-
servado com seu poder de milagres diante dos gentios. Seu cas do povo de Deus. Aquele Israel, porém, que rejeita Jesus,
poder de tornar presente o Reino de Deus com sinais e mila- vai ser posto para fora, nas trevas."
gres deve beneficiar os filhos de Israel. Também aqui, nesta palavra, Jesus recorre ao Antigo
Como é que, então, os gentios chegam à salvação? A so- Testamento. Uma parte dos profetas, especialmente os pro-
lução está na ameaça (Mt 8,11 par. Lc 13,28s), que Jesus disse fetas do livro de Isaías, profetizam uma peregrinação dos
quando o endurecimento de todo-Israel ficou evidente. Pro- gentios para Jerusalém - e isto para o fim dos tempos, quan-
vavelmente essa ameaça deva ter soado assim." do Israel se tiver tornado o verdadeiro povo de Deus. Im-
portante, neste contexto, é Is 2,1-3:
Eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assenta-
.'~·l~
rão à mesa do Reino dos Céus, com Abraão, lsaac e Jacó, enquanto Dias virão em que o monte da casa de lahweh
:"
':~~::.: os filhos do Reino serão postos para fora, nas trevas. será estabelecido no mais alto das montanhas
"'1 '111
1

e se alçará acima de todos os outeiros.


Esta palavra pressupõe a realização da salvação: Abraão, A ele acorrerão todas as nações,
Isaac e Jacó, os patriarcas do povo de Israel, ressuscitaram muitos povos virão, dizendo:
dos mortos e estão unidos ao povo de Deus do fim dos tem- "Vinde, subamos ao monte de Iahuieh,
pos, mais precisamente, eles são o núcleo do Israel escatoló- à casa do Deus de Jacó". 25
gico. Evidentemente eles são mencionados apenas como os
representantes mais importantes do povo de Deus. Com eles Decisivo nesta ideia profética da peregrinação das nações
ressuscitaram todos os justos de Israel. O Reino de Deus che- pagãs a Sião" é o seguinte: os gentios, fascinados pela salva-
-e
ga em sua plenitude. Esta plenitude é descrita na imagem do cão visível em Israel; são impulsionados espontaneamente
banquete escatológico, tirada de Is 25,6-8. Aqui a refeição é
imagem da fartura, da festa, da vida que não acaba mais. 24 D. ZELLER,"Das Logion Mt 8,11f/LK 13,38f und das Motiv der
Nesta situação chegam os muitos do oriente e do ociden- Volkerwallfahrt B2 15(1971) 222-237; 16 (1972) 84-93. Apontou com ra-
te, do leste e do oeste. Na ameaça, os muitos formam o con- zão que Jesus usa a ideia da peregrinação dos povos exatamente para
provocar Israel. O que não exclui, mas muito mais prova, que Jesus
traste para os ouvintes judeus de Jesus. Fala-se, pois, dos aceita a ideia. Ele apenas está convencido que de Israel, como ele se
apresenta agora, não sai brilho nenhum que possa atrair as nações.
11
2' Tradução: N. LOHFlNK,Die messianische Alternative. Advenstsreden, 2 cd.,
23 Cf. a construção do discurso um pouco mudada em S. SCHULZ,Q. Die Friburgo, 1981, 12s. Cf. também a exegese de Is 2.1-5, aí apresentada.
Spruchquelle der Evangelisten, Zurique. 1972, 323s. Võlkerwallfahrt": 26 Para a ideia de peregrinação dos povos em Jesus d. J. )EREMIi\S, f('slI
BZ 15 (1971) 222-237; 16 (1972) 84-93, apontou. Verheissung fur die Volker, 2a ed., Stuttgart, 1959.
38 AIC;~~Jf\.qLJE..l~~LJs.q1JIi~If\ 39
para o povo de Deus. Eles não chegam à fé através de um sua atividade a Israel, e ainda porque se dirige com tanta na-
trabalho missionário, mas a fascinação que sai do povo de turalidade apenas a Israel. Jesus, de modo algum, exclui os
Deus os atrai. Neste tópico, os textos proféticos geralmente gentios da salvação. Ele fica admirado com a fé de pessoas
falam de uma luz irradiante que sai de Jerusalém. Esta luz é pagãs, que, muitas vezes, é maior do que a fé em Israel (d.
o próprio Deus, que se tornará "luz eterna" de Israel no fim Mt 8,5-10). Mas Jesus tem que atuar em Israel, pois somente
dos tempos (Is 60,19):
quando a luz da soberania de Deus irradia no povo de Deus,
os gentios podem iniciar sua peregrinação escatológica das
Com efeito, as trevas cobrem a terra,
nações.
a escuridão envolve as nações,
Este pressuposto básico da atividade de Jesus apareceria
mas em ti brilha Iahweh
mais nitidamente ainda, se sua ação repressora no Templo
e a sua glória se mostra no meio de ti.
de Jerusalém (Me 11,15-19) não se dirigisse apenas negati-
As nações caminharão na tua luz,
vamente contra o abuso do Templo, mas, além disso, positi-
e os reis, no clarão do teu sol nascente (Is 60,2s). vamente em favor da abertura eecmoiogica do Templo para as
••,,\1.,:
,;'j}

c"~ ;:
nações, que, no fim dos tempos, vão chegar a Jerusalém para
'I: ,~:;
o impulso dos gentios para junto do povo de Deus, adorar." Uma tal interpretação da ação no Templo tem algo
111 acontece unicamente graças a Deus. A peregrinação das na- a seu favor, pois Jesus limpa o "pátio dos gentios". Também
ções é sua obra escatológica. Se ele não irradiasse sua luz so- o texto usado por Marcos aponta nesta direção:"
bre Israel, se não santificasse seu nome em Israel, os gentios
não poderiam chegar. E, no entanto, a luz de Deus não pode Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos
irradiar de verdade, se o próprio povo de Deus não brilhar (Is 56,7; Mc 11,17).
como luz de Deus. Por isso o apelo em Is 60,1: "Põe-te em pé,
resplandece, porque a tua luz é chegada!" e por isso a exor- 6. A CRISE DE ISRAEL
tação em Is 2,5: "O casa de Jacó, vinde, andemos na luz de
.;:
Iahweh". A salvação, que Deus prepara, deve irradiar den- No capítulo precedente falamos de Mt 8,11 sob o aspec-
tro do próprio Israel, para poder atrair outros para a vida to da peregrinação universal das nações. Não podemos, po-
com o povo de Deus.
rém, perder de vista que esta sentença é uma ameaça contra
Deus, portanto, quer a salvação dos gentios. Mas esta Israel. Jesus quer dizer a seus ouvintes: se vocês não acei-
salvação só é alcançada em Israel. As nações pagãs rece- tarem a mensagem do Reino de Deus, não se sentarão, de
bem sua parte na salvação, recebendo sua parte em Israel. modo algum - como acreditam - à mesa com Abraão, Isaac e
Elas peregrinam a Jerusalém. Elas vão sentar-se à mesa com Jacó. Os gentios terão parte na luz do Reino de Deus. Vocês,
Abraão, Isaac e Jacó.
Somente a partir daqui se torna compreensível, porque
Jesus, apesar de toda uma abertura para os gentios, limita .'7 Cf. Is 2,1-4; 60,1-22; Jr 3,17; Sf 3,8-11; Ag 2,6.9; Zc 2,10-13; 8,20-23.
'I{ Cf. R. PESCH, op. cit., 56.
40 A.IC;~E:Ji\.q{)E.JE:f)lJS.qUERIA lrsus E ISRAEL II

porém, que, na verdade, deveriam ser luz dos gentios, vão muito se teriam arrependido, vestindo-se de cilício e coorintíns:
ser postos para fora, nas trevas. de cinza. Mas eu vos digo: no dia do julgamento haverá tneuo»
Existe uma série de ameaças semelhantes nas palavras rigor para Tiro e Sidônia do que para vós.
de Jesus, que, como em Mt 8,lls, confrontam os gentios
com o Israel descrente. Assim, por exemplo, Mt 12,41s (par. Todas estas ameaças, que foram escolhidas aqui de uma
Lc l1,31s): lradição muito mais ampla, têm duas coisas em comum:
1. Elas visam Todo-Israel. Corazim e Betsaida apenas
Os habitantes de Nínive se levantarão no julgamento, juntamen- estão representando as demais cidades do país. E o trecho
te com esta geração, e a condenarão, porque eles se converteram Mt 12,41s fala - como também muitos outros textos na tra-
pela pregação de lonas. Mas aqui está algo mais do que lonas! A dição de Jesus - "desta geração". Com esta expressão não
Rainha do Sul se levantará no julgamento juntamente com esta se entende toda a humanidade, mas daquela geração con-
geração e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir neta de Israel em que se vê confrontada com a mensagem
.",;1.1::"" a sabedoria de Salomão. Mas aqui está algo mais do que Salomão! de Jesus Cristo. O que está em jogo é, portanto, o destino
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,'tI.
.' ~, ~;.
de Todo-Israel. Este assunto é mais esclarecido ainda em Mt
. ',"; ~ "Aqui está algo mais do que Jonas! Aqui está algo mais H,l1s; l1,21s e 12,41s, onde os gentios são confrontados anti-
'~'I: ;;.:;;
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do que Salomão!" Com certeza, os evangelistas já compre- teticamente com o povo de Deus.
endem estas exclamações em sentido cristológico. Mas, nos 2. As ameaças aqui mencionadas têm em mente um
lábios de Jesus, elas devem ter sido relacionadas principal- Fracasso de Israel. Jesus, com certeza, não as pronunciou no
mente com o Reino de Deus - e, com certeza, no seguinte começo de sua atividade pública; elas pressupõem uma ati-
sentido: o Evangelho do Reino de Deus, anunciado por Jesus vidade prolongada. Elas são pronunciadas numa situação
no meio de Israel e confirmado por muitas obras de poder, em que a morte violenta de Jesus já se anuncia. Mas elas
tem infinitamente mais importância do que a pregação da também mostram que, para Jesus, o povo entrou na crise
conversão de [onas e a sabedoria de Salomão, no tempo de- decisiva de sua história. Com certeza, a crise de Israel não é
les. E, no entanto, naquele tempo, os gentios ouviram o apelo lraçada a partir de uma visão pós-pascal, de uma experiên-
e o seguiram. O povo eleito, porém, não aceita o Evangelho. cia negativa da missão do cristianismo primitivo em Israel,
Em Mt 11,21s (par. Lc 10,13s), Jesus contrapõe, numa como muitos exegetas acreditam. A prova disso está na pa-
linguagem ainda mais radical, duas cidades que, de acordo rábola do grande banquete em Lc 14,16-24, e esta parábola,
com a concepção veterotestamentária, eram profundamente sem dúvida, é do próprio Jesus. Esta parábola quer dizer:
ímpias e pagãs, com duas cidades de Israel, onde realizou quem for convidado, mas mesmo assim não comparecer, exclui-se
muitos sinais: 1/ si mesmo da refeição. O banquete, porém, vai acontecer mesmo

sem a presença dele. Lc 14,16-24 fala numa maneira igualmcn-


Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidõnia te radical da crise de Israel como as palavras de ameaça, aci-
tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram, há ma mencionadas. Contudo, a decisão do povo ainda não {>
42 ,,""""",""""",
""""""""""""""""""""",
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..""""""""""""""""A,I~~~Jj\,,qlJE,J~~lJSglJJ3RIj\ 11';sus E ISRAEL 43

definitiva. Ainda existe uma última esperança de que os slIlvação, mas também sinal que julga. No juízo final, eles vão
ouvintes de Jesus compreendam os sinais dos tempos e en- tostemunhar contra Israel, se este não se converter.
tendam a própria situação. Por isso, o tom da ameaça tão Seria tolice querer jogar as duas funções dos Doze, a po-
extremamente severo. O rigor da ameaça quer provocar sitiva e a negativa, uma contra a outra." Palavras e sinais
conversão na última hora. proféticos não são definições matemáticas, eles pertencem a
Aqui, neste contexto, devemos voltar ao sinal profético li ma linguagem simbólica, a qual admite sempre novas (se
que Jesus colocou com a constituição dos Doze. Temos visto: bem que não indefinidamente) interpretações atualizantes.
os Doze representam o arrogo de Jesus a Todo-Israel. Ainda O significado pleno do sinal resulta da situação a partir da
mais: eles são um sinal eficaz da ressurreição e reconstitui- qual ele é colocado e para a qual ele fala.
ção do povo escatológico das doze tribos. Para Jesus, num dado momento, pelo fim de sua ativi-
Mas é característico das palavras e ações simbólico-pro- dade pública, os Doze tornam-se testemunhas contra Israel.
féticas poderem adquirir novas dimensões de sentido. Por Assim, em Mt 19,28 fica claro que, na opinião de Jesus, a
isso, devemos contar desde já, que o conceito dos Doze pos- crise de Israel está para alcançar seu ponto culminante.
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sa ser mudado numa situação nova e diferente, ou melhor,
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possa ser ampliado - e até mesmo pelo próprio Jesus. 7. A MORTE EM FAVOR DE MUITOS
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Chegando perto do fim de sua atividade pública, quan-
do se torna evidente que os líderes do povo querem eliminar Quando, então, a crise alcança seu ponto culminante, Je-
Jesus, enquanto o povo mesmo permanece indiferente, os sus fala, na última ceia, perante a morte certa, da entrega de
Doze recebem, provavelmente do próprio Jesus, uma nova sua vida "em favor de muitos". Esta expressão encontra-se,
função: a partir daí, eles não são apenas testemunhas da sal- na tradição de Marcos, dentro da interpretação que acompa-
vação próxima, mas também do juízo iminente sobre um Is- nha o cálice da bênção (Me 14,24):
rael endurecido. Neste sentido devemos entender a palavra
(Mt 19,28 par. Lc 22,30): Isto é o meu sangue, o sangue da ALiança,
que é derra'tnadoem favor de muitos.
Em verdade vos digo que, quando as coisas forem renovadas, e o
Filho do Homem se assentar no seu trono de glória, também vós, Antes de perguntarmos quem são esses "muitos", va-
que me seguistes, sentareis em doze tronos para juLgar as doze mos observar duas coisas:
tribos de Israel. 1. Até hoje, discute-se a historicidade das palavras da úl-
tima ceia. Muitos exegetas do Novo Testamento acham que
Esta palavra é dirigida exclusivamente ao círculo dos a tradição da última ceia é uma tradição demasiadamente
Doze. Por isso, ela mostra definitivamente, que os Doze só
podem ser compreendidos como sinal para o povo de Deus.
2'1 Mesmo porque a função de julgar desempenha um certo papel já no
Mostra também, que eles não são apenas sinal que promete envio dos Doze; cf. Me 6,11.
45
44 ..........i\Ic;~~Ji\glJEJ~?lJSglJE:~Ii\ E ISRAEL
III;US .......................

litúrgica, e daí vem a impossibilidade de pesquisar o seu fun- I\'sus interpretou sua morte próxima à luz da teologia do
do histórico com perspectivas de êxito. Este ceticismo não '1vrvo de Deus em Is 52,13; 53,12. Lá se diz do Servo de Deus
é justificado. A tradição litúrgica não exclui a conservação (1)3,11s):
cuidadosa da tradição verbal, muito pelo contrário, favore-
ce-a. Mesmo o argumento de que, em parte alguma, se pode o justo, meu Servo, justificará a muitos
observar em Jesus a ideia da aliança ou expiação, pouco pro- e levará sobre si as suas transgressões.
va. Devemos conceder que Jesus, numa situação como esta, Eis porque lhe darei um quinhão entre as multidões;
única em sua vida, possa ter dito algo de novo. Perante a com os fortes repartirá os despojos,
necessidade de explicar sua morte próxima a partir de Deus, visto que entregou a sua alma à morte
ele usa categorias de interpretação novas para ele, mas co- e foi contado com os transgressores,
nhecidas dentro das Escrituras Sagradas: as ideias da alian- mas na veredade levou sobre si o pecado de muitos
ça e da expiação em substituição. e pelos transgressores fez, intercessão.
2. A segunda dificuldade é esta: Paulo transmite a inter-
.,,1;1,:(:
..
"I;' pretação que acompanha o cálice da bênção de forma dife- Mas, afinal, quem são esses muitos, a quem é concedida
:r, i;.
~-
:~:,:'::j:
rente da de Marcos. 1Cor 11,25 reza: ,I força salvadora da morte de Jesus? A resposta na maioria

das vezes é: todos os homens! Pois aqui a maneira de pen-


Este cálice sar universalista de Jesus e dos evangelistas se mostraria em
é a nova Aliança plena luz. No fim de sua vida, o olhar de Jesus abrir-se-ia
em meu sangue. para a salvação do mundo inteiro.
Vamos, porém, diferenciar cuidadosamente: de qual-
A diferença entre as duas redações da palavra do cálice, quer modo, a interpretação universal alcança o sentido, que
na verdade, é bem menor do que pode parecer a primeira Marcos mesmo quis dar a sua tradição. Mas, quanto, a Jesus,
vista; nos dois textos a morte sangrenta de Jesus é interpre- devemos olhar -emelhor."
tada como colocação divina de nova salvação (nova aliança). Pressupondo que o próprio Jesus interpretou sua morte
Por detrás delas, porém, estão textos bíblicos diferentes: próxima, com o auxílio da Sagrada Escritura, como morte sal-
Êx 24,8 na tradição de Marcos, e [r 31,31 na de Paulo. Mais: nadara em favor de outros, podemos excluir, que ele, deixando
em ambas as correntes da tradição, a morte de Jesus é morte Israel de lado, somente pensasse naqueles que, futuramente,
de expiação em substituição; o texto correspondente de Paulo
somente não está na palavra do cálice, mas na palavra do pão, \11 Não é insignificante que, em Hb 13,12, a morte de Jesus seja inter-
e ele não reza: "em favor de muitos" mas: "para vós" (lCor pretada como morte em favor de Israel. De resto deve-se perguntar,
11,24). Pelo menos neste último ponto, a aplicação da mor- se uma interpretação universal de sua morte pelo próprio Jesus não
levaria imediatamente ao início da missão dos gentios. Cf. R. PESCl-I,
te de Jesus em favor de muitos, a tradição de Marcos con-
"Voraussetzungen und Anfãnge der urchristlichen Mission", em: K.
servou a forma original com mais exatidão. Evidentemente Kertelge, Mission im Neuen Testament (QD 93), Friburgo, 1982,41.
46 HH ..............HAIC;~~Jf\(2lJEJ~~lJS(2lJEl~If\ II\susEISRAEL 47
no mundo inteiro, na fé em sua palavra e sua obra, encontra- parte na salvação estabelecida numa forma mais profunda e
riam a salvação. Será que toda a existência de Jesus não foi i rrevogável, pela morte de Jesus.
vida, em primeiro lugar e exclusivamente, em favor de Israel? Se nossas considerações são corretas, Jesus dá provas,
Como poderia abandonar seu povo, ao qual dedicou toda mesmo diante da morte, de que se dirige a Israel. E, neste
sua missão, exatamente nesta hora? A linguagem empre- momento, ele dá provas mais profundas e radicais do que
gada e, especialmente, as interpretações judaicas da época untes desta sua atitude. Fica evidente, pois, que as ameaças
de Is 53 nos permitem tranquilamente relacionar os muitos, contra "esta geração" são apelos extremos a fim de ganhar
primeiramente com o próprio Israel, do mesmo modo como seu povo. Quando estas tentativas também fracassam, aí
também a (nova) aliança, primeiramente deve ser relaciona- resta somente o caminho do Servo de Deus, que carrega a
da com Israel. Jesus, pois, daria conscientemente sua vida culpa dos muitos.
por aquele Israel, que repelia sua mensagem e se preparava
para eliminá-lo. 8. O REINO DE DEUS E SEU POVO
Ele entenderia sua morte como colocação da salvação de
:~iI~ Deus, que cura as feridas que o Israel sem fé lhe faz. A ação
;:..
Os dois capítulos precedentes, mais uma vez, mostram
terrível de Israel seria, então anulada, e o caminho para a con- com clareza, como Jesus estava empenhado na reconstitui-
",111"1"
versão ficaria livre de novo. Aqueles que merecem a morte cão e restauração do povo de Deus. Pois todas as ameaças,
por causa do endurecimento contra Jesus receberiam de Deus todos os ais, todas as parábolas da crise, todas as palavras
nova vida gratuitamente e sem mérito próprio (expressão bí- contra "esta geração" e mesmo as palavras de Jesus pronun-
blica: expiação). Deus converte o assassínio de seu enviado em ciadas na última ceia mostram com clareza: toda a sua ati-
colocação de sua fidelidade a Israel (expressão bíblica: aliança), vidade é dirigida a Israel. Por isso não podemos separar a
mais ainda, ele converte a morte do seu enviado, planejada pregação do Reino de Deus realizada por Jesus da sua volta
e executada por homens, numa colocação de fidelidade defi- para o povo de Deus. Necessariamente, ela leva à reconsti-
nitiva e irrevogável a Israel (expressão bíblica: nova aliança) e, tuição de Israel,
'"
deste modo, confirma sua pretensão ao povo eleito de Deus. As palavras de Jesus a nós transmitidas quase não fa-
Somente se levarmos a sério em toda a sua abrangência lam explicitamente da reconstituição de Israel (d., porém,
esta relação da morte expiatória e da renovação da aliança Mt 23,37 par. Lc 13,34; Mt 12,30 par. Lc 11,23). É explicado
para com Israel, podemos ir um passo adiante: a expressão pelo fato que a ideia do Reino de Deus em Jesus pressupõe
"em favor de muitos" é, no seu caráter linguístico, uma ex- a reconstituição de Israel como coisa natural. Simplesmente
pressão aberta. Mesmo que ela fale primeiramente de Israel não existe Reino de Deus sem um povo de Deus. Com razão
que se tornou culpado e foi expiado sem mérito próprio, ela diz R. SCHNACKENBURG: Quem
31 nega a intenção de Jesus de
não exclui os muitos do mundo das nações de quem Mt 8,11
fala. Quando Israel acolhe a expiação oferecida e se conver-
11 R. SCHNACKENBURG. Gottes Herrschaft und Reich. Eine biblísch-I'I/I'%S;"l('ill'
te, ele torna-se sinal para os povos, que assim poderão tomar
Sfudie, Friburgo, 1959, 150.
48 A.Ic;~E.Ji\.qlJEJE.?lJS.qlJ?RIA II!SUS
EISRAEL 49

congregar uma comunidade, "não entende a maneira messi- Ilações em Mt 8,11; indicada também pela missão posterior
ânica - escatológica de pensar em Israel, onde a salvação es- ,lOS gentios, que seria impossível sem a abertura de Jesus
catológica não pode ser separada do povo de Deus e onde a ptlfa os gentios. Mas tudo isso não modifica nada na teo-
comunidade de Deus pertence necessariamente ao Reino de ria que a pregação do Reino de Deus tem seu "sitz im le-
Deus". Por isso, a espera do Reino próximo em Jesus não ex- bem" na volta de Jesus para Israel. Ele quer que a soberania
clui, de maneira alguma, o empenho para formar um povo de Deus se imponha totalmente, que apareça visivelmente.
santo de Deus. "Ao contrário, exatamente porque Jesus viu I~onde esta soberania de Deus pode ser mais visível, mais
o fim aproximar-se, ele sentiu-se na obrigação de reunir o perceptível, onde ela pode realizar-se mais eficientemente
povo de Deus para o tempo da salvação. Porque junto do senão no povo de Deus?" Nas obras da salvação de Jesus em
enviado de Deus está o povo e Deus, junto do profeta estão Israel, nas expulsões de demônios, nas curas de doentes, no
os discípulos. Devemos expressar mais radicalmente ainda: .icolhimento dos pecadores, já brilha a soberania de Deus.
o único motivo de toda atividade de Jesus é a reconstituição /I1\ soberania escatológica de Deus não deveria estar geral-
.",lll~::1 do povo escatológico de Deus". Assim se expressa J. JERE- mente e simplesmente no mundo, mas deveria atingir um
.:~!)r: MIAS.32De fato, ele se expressa radicalmente, mas tem razão. povo concreto, escolhido há muito, e definido com exatidão
Acontece que a discussão exegética sempre acentua no seu perfil", diz K. MULLERcom razão."
'1>11'11:'1
que Jesus tenha entendido a ideia do Reino de Deus to- É muito instrutivo, neste contexto, que Mateus chame
talmente universal e a tenha livrado de todos os concei- os judeus "filhos do Reino" (Mt 8,12; 13,38). Para ele, pois,
tos judaico-nacionais. O que é verdade. Não existem traços os membros do povo de Deus estão numa ligação profunda
nacionais-restaurativos em Jesus. Jesus faz os discípulos com o Reino de Deus. Mateus até pode dizer que o Reino
orar, no Pai-nosso, pela reconstituição do povo de Deus, de Deus será tirado de Israel e dado a um outro povo (Mt
mas não pela glorificação de Jerusalém ou pela libertação 1,43). O que chama a atenção, neste contexto, é a ligação
do país do domínio dos romanos. Jesus rejeita as preten- inequívoca da soberania de Deus primeiramente a Israel
sões dos zelotes (cf. Me 12,13-17). Ele evita a linguagem l' depois a um outro povo (singular!). Ele não fala "a outros

metafórica da guerra santa, empregada pelos essênios. Ele povos". A soberania de Deus, pois, sempre pressupõe um
entra em conflito com a teologia restaurativa dos saduceus, povo, isto é, o povo de Deus, no qual ela se realiza e brilha.
que o leva à morte. Não podemos ler, por isso, os textos do Novo Testamento,
No conceito do Reino de Deus em Jesus, de fato, exis- com uma visão de um individualismo teológico, que ape-
te unioersalidade= indicada pela ideia da peregrinação das nas é capaz de imaginar o Reino de Deus como realidade

II Bem visto por J. R. W. STOIT, "Reich Gottes und Cemeinschaft", em:


32 J. JEREMIAS, op. cit., 365ss. Theologische Beitrãge 8 (1977), 1-24; G. E. LADO. Jesus and the Kingdom.
33 Cf. também G. LOHFINK, "Universalismus und Exklusivitât des Heils Ttie Eschatology of Biblical Realism, 1969.
im Neuen Testament", em: W. KASPER, Absolutheit des Christentums (QD I', K. MULLER, "[esu Naherwartung und die Anfãnge der Kirche", em: o
79), Friburgo, 1977,63-82. mesmo, op. cit., 20.
50 .............................................................
H ..............AIC;~~Ji\Hq1JEJ~~1JSq1J.E.~Ii\
51

universal e íntima, dentro das almas de gente piedosa, espa- .lcve incluir o mundo inteiro, da seguinte maneira: ele co-
lhada como indivíduos no mundo inteiro. meça bem pequeno: numa família (em termos bíblicos: em
É fundamental, na linha principal da tradição do An- Abraão), num clã, num grupo, num povo pequeno. Assim,
tigo Testamento, que Deus escolha das muitas nações que .-m virtude desta pedagogia divina, soberania de Deus não
existem no mundo um único povo, para fazer dele sinal de significa violentação do mundo, mas apelo para a liberdade;
salvação. O que não diminui a atenção dada às outras na- II m apelo, melhor ainda, uma atração para seguir o exemplo

ções. Pois, quando o povo de Deus brilha como sinal entre I laqueles que foram chamados primeiro.

as nações (cf. especialmente Is 2,1-4), elas vão aprender des- Jesus, com certeza, adotou profundamente esta in.er-
te povo de Deus, elas vão reunir-se em Israel, para receber pretação profética da história de Deus com o mundo e da
parte da salvação em Israel e através de Israel. Mas isto só ('scolha de Israel. Pois, mesmo naquela hora quando Israel
pode acontecer, quando Israel é reconhecido como sinal da recusa a sua vocação, Jesus não renuncia à ideia de comuni-
salvação, quando Deus tiver transformado o povo perceptí- dade, isto é, da ideia que a soberania de Deus deve ter Um
•~"d vel, palpável e visivelmente . /l(Ivo. E assim, ele se concentra no-círculo dos discípulos. Ele,
"il.t, ..i
.,
.<> Jesus não imaginou o povo de Deus a ser reconstituído então, vincula o Reino de Deus com a comunidade de seus
:~;~ .:
como comunidade meramente espiritual e religiosa - como discípulos, sem perder de vista a totalidade de Israel:
societas in cordíbus. Tais teorias que continuamente aparecem
disfarçada ou abertamente, não correspondem às intenções Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do VOsso
de Jesus. O seguimento, ao qual Jesus chamou, não foi um Pai dar-vos o Reino (Lc 12,32; d. 22,29).
seguimento invisível, as refeições com os pecadores não fo-
ram refeições invisíveis, suas curas dos doentes não foram
curas invisíveis - como também sua morte na cruz não foi
um acontecimento invisível.
O movimento da reunião conduzido por Jesus é algo -e
muito concreto e visível. O fato, de Jesus não dar a este mo-
vimento um perfil bem estruturado e um cunho institucio-
nal, não pode levar-nos a crer que ele pensava em uma "co-
munidade invisível". Porque aqui se trata de Israel, e este
como comunidade diante de Deus (se bem, como comuni-
dade doente e dividida), há tempo, já existe.
Constatemos, pois: dentre as muitas nações existentes
no mundo Deus escolhe um único povo, para fazer dele si-
nal visível da salvação. Portanto, conforme teologia bíblica,
Deus impõe sua soberania escatológica, que em princípio
li",1
.' 11.~;"t
...,.
,'~~J

SEGUNDA PARTE
JESUS E SEUS DISCÍPULOS

Como é que Jesus quis uma comunidade? Até agora,


lI! issa análise já conseguiu juntar pontos importantes para

usponder a esta pergunta. Pois tornou-se evidente: o pensa-


monto de Jesus está estreitamente relacionado com Israel, mas
'ilJil
n.ro limitado a Israel. Para ele, Israel é o caminho para uma
.. H(.;,
..."" nu-ta mais ampla: ele é sinal da salvação universaL Mas, sen-
•", :['''11
11. o<~1
IIIIsinal, não pode ser deixado de lado.
~:;. loI:.,JI

~1',f';!1 No entanto, o que foi dito até agora, não pode ser a
lI'sposta total à pergunta deste livro. Temos que pergun-
1.11' ainda: como Jesus imaginou, de maneira mais concreta, o

i-rue! a ser reconstituído, o verdadeiro povo de Deus? A res-


!,lIsta decisiva é dada pela instrução de Jesus aos discípu-
IIIS.Mas, antes, vamos esclarecer o que vem a ser o grupo
dos discípulos.

I. O GRUPO D@S DISCÍPULOS

Para começar, devemos distinguir dois grupos entre as


11,'ssoasem Israel que ouvem Jesus e nele acreditam.
Primeiramente temos aqueles que acolhem a mensa-
1',1'111 de Jesus, mas permanecem em suas aldeias ou cida-
d,'s para esperar o Reino de Deus lá mesmo. "Onde Jesus
oIjltlreCe,deixa discípulos que, com suas famílias, esperam o
1.'I'inoe que o acolhem e também seus mensageiros. Eles es-
1.10 espalhados no país inteiro, especialmente na Galileia, e

Lunbém na Judeia, por exemplo, em Betânia, e na Decápole


56 Alc:;~~Ji\9lJE.J.~~lJSglJ?l{Ii\ II • +I J~; li SEUSDISCÍPULOS 57

(Me 5,19s)".36 Assim se diz de José de Arimateia, ilustre 11.)(1 é permitido fazer no sábado?" (Me 2,24). D acordo com
membro do Conselho, que ele esperava o Reino de Deus l'i/IU, Jesus, aos olhos de seus vigias, é responsável por seus
(Me 15,43). Com certeza não o fazia independentemente da dli-ldpulos, assim como os doutores da lei são responsáveis
mensagem de Jesus. E, como mostra a história do sepulta- 111Ir seus alunos.
mento de Jesus em Me 15,42-47, ele estimava e venerava Je- Apesar disso, em muitos pontos, seus discípulos se dis-
sus. - Neste contexto deve-se recordar também Zaqueu de Itllguem dos alunos dos rabinos. Eles não vêm a Jesus por-
Jericó que, pelo encontro com Jesus, se transformou em ou- 'lttl' querem aprender a Torá, mas porque ouviram a men-
tra pessoa. Ele promete, para o futuro, dar a metade dos seus ",Igem de Jesus do Reino de Deus que estava próximo. Não
bens aos pobres e restituir o quádruplo, se tivesse prejudica- "to eles que escolhem seu mestre, como fazem os alunos dos
do alguém. Jesus, porém, fala da salvação, que aconteceu a I .ihinos: Jesus chama-os (d. Lc 9,59). Ele chama-os para um
esta casa, isto é, a Zaqueu e sua família (Lc 19,8s). - O melhor 'H'guimento, que os obriga a abandonar a profissão até então
exemplo, porém, de um seguidor de Jesus "fixo no lugar" é I-xorcida e a deixar a própria família (d. Me 1,16-20).
Lázaro, que mora em Betânia 00 11,1). Ele é chamado amigo
. A dureza dessa exigência fica clara num dito de Jesus,
li"""
" ~I~.,.'jji;
"
• de Jesus e de seus discípulos 00 11,11). q\le originalmente deveria ter soado assim:"
" ~)
'"'e:.:.,3'1 Desta espécie de seguidores, que acabamos de descrever,
Ill'~;1 devemos distinguir os "discípulos" no sentido próprio." A Aquele que não odeia pai e mãe,
palavra grega correspondente (mathetes), deveria ser traduzi- não pode ser meu discípulo.
da por "aluno". Então ficaria imediatamente claro que - pelo Aquele que não odeia
menos quanto à terminologia - encerra a relação mestre-alu- filho e filha, não pode ser
no costumeira entre os rabinos. O mesmo vale do termo "se- meu discípulo.
guir". Quando, nos evangelhos, se diz, constantemente, que
os discípulos seguiam Jesus, isto deve compreender-se literal- Jesus exige, portanto, dos seus discípulos a renúncia
mente: quando Jesus percorria o país, eles iam alguns passos
atrás dele, do mesmo modo que os estudantes da Torá cami-
..
decidida à própria família - é isto o que significa odiar. Em
vez de sua família e de todas as ligações de sangue e ami-
nhavam à distância respeitosa atrás do seu rabi. .ade entra a comunhão de vida com Jesus. Esta comunhão
O grupo dos discípulos que segue Jesus é um grupo bem de vida significa mais do que estar com o mestre, ouvi-lo e
delimitado. Quando, num sábado, os discípulos colhem observá-lo, para aprender a Torá através das suas exigências
espigas, Jesus é interpelado: "Vê! Como fazem eles o que (' do seu estilo de vida. A comunhão de vida do discípulo
com Jesus é comunhão de destino. Ela vai ao ponto de exigir
36J. JEREMIAS, op. cit., 350ss. do discípulo estar disposto a sofrer o mesmo que Jesus - até
37 Cf. a respeito do conceito de discípulo especialmente M. HENGEL, Na- perseguição e execução:
chfolge und Charisma. Eine exegetisch- religionsgeschichtliche Studie zu Mt
8.21 und Jesu Ruf in die Nachfolge, Berlim, 1968; além disso H. MERKLEIN,
Der Jungerkreis Jesu, em: K. MULLER, op. cit., 65-100. IH Cf. Mt 10,37 e Lc 14,26.
58 ....HHAIC;~~JJ\qLJE)~~LJSqLJE~IJ\
II '11 IS E SEUS DISCÍPULOS 59

Aquele que não toma a sua cruz Lc 10,2 mostra: a proclamação do Reino de Deus e a
e me segue 1"1 '( mstituiçâo do povo de Deus são acontecimentos escatoló-
não é digno de mim (Mt 10,38). .:/1'0:;. Sendo assim, podemos admitir que Jesus não apenas

I h.irnasse os Doze, mas também outros discípulos para co-


Apesar destas exigências radicais não devemos pensar l.ihorar. Como os Doze, os discípulos são, portanto, primei-
que o grupo dos discípulos fosse muito reduzido. Em todo I" mente, colaboradores no serviço do Reino de Deus e na
caso era maior do que o círculo dos Doze. A identificação do I I xonstituição de Israel.
grupo dos discípulos com o círculo dos Doze é uma apresen- Quando, porém, Israel como um todo recusa a mensa-
tação esquematizada de Mateus. Conhecemos pelo nome, )',I'm de Jesus, o grupo dos discípulos recebe mais uma ou-
pelo menos, três homens que pertenciam ao grupo dos dis- 11',\ função. É a tarefa de representar simbolicamente aquilo,
cípulos sem fazer parte do círculo pré-pascal dos Doze: Cléo- q\le deveria ter acontecido em Todo-Israel: entrega total ao
fas (Lc 24,18), José Barsabás e Matias (At 1,23). Também são l.vangelho do Reino de Deus, conversão radical a um novo
,~,
)
conhecidas pelo nome cinco mulheres que seguiam a Jesus e ":-llilode vida, reunião para formar comunidade de irmãos
n "~"
o serviam com seus bens: Maria de Magdala; Joana, mulher " irmãs." Evidentemente a intenção de Jesus, é que o grupo
" ~)
,. de Cuza; Susana; Maria, a mãe de Tiago, e Salomé (Lc 8,1-3; .los discípulos não se feche a Israel e, muito menos, se una
I.
1::llil
i ":!a! Me 15,40s). É recomendável, pois, não considerar pequeno .'ontra Israel, mas que permaneça aberto e sempre orientado
demais o grupo dos discípulos de Jesus. 11,1 ra Israel.
Mas muito mais importante é o seguinte: afinal, porque O grupo dos discípulos não forma, portanto, uma nova
Jesus chamou discípulos (além dos Doze)? A melhor respos- romunidade fora do antigo povo de Deus, chamado por Je-
ta é dada em Lc 10,2 (par. Mt 9,37s): 'HIS para substituir Israel. Uma ideia como esta seria comple-

1.\ mente anti-bíblica.


A messe é grande, Bíblica seria, no máximo, a ideia do "resto sagrado" (d.
mas os operários são poucos. IRs 19,18; Is 10,20-22). Será que Jesus compreendeu a sua
Pedi, pois, ao Senhor da messe vornunidade de"discípulos como "resto sagrado" de Israel?
que envie operários para sua messe. Hoje sabemos que, no tempo de Jesus, esta ideia era
Il'ologicamente atualíssima. Os essênios de Qumram inter-
o "Senhor da messe" evidentemente é Deus. A colhei- pretavam a existência da sua comunidade no meio de Israel
ta é uma antiquíssima imagem bíblica do juízo, mas tam- I'()ITI o auxílio da ideia do "resto". Eles consideravam-se a
bém do tempo escatológico da salvação. Fazer a colheita é Hi mesmos como o resto sagrado de Israel, eleito por Deus;
reconstituir Israel para ser o povo escatológico de Deus. É
impossível, diz Jesus, que haja pessoas suficientes para cola-
\" Cf. o artigo importante de H. SCHURMANN, Der Jungerkreis [esu ais Zei-
borar neste movimento da reconstituição. Pois o tempo es-
clten fur Israel, em: o mesmo, Ursprung und Gestalt. Erõrierungen und
casseia como nos dias da colheita. Hesinnungen zum Neuen Testament (KBANT) , Dusseldorf, 1970,45-60.
'l'iLJS E SEUS DISCÍPULOS
60HHHH . ...HAlc;~~JJ\.q~E)~?lJSg~E:I{IJ\.

todos os outros judeus que não pertenciam a sua comunida- I' oxplicada pelo fato de o grupo dos discípulos representar
de e não se santificavam junto com eles, eram considerados «imbolicamente o Israel escatológico.
massa damnata. Eles consideravam-se a si mesmos como "fi- Seja como for, o "sermão da montanha" - a expressão
lhos da luz", e todos os outros, "filhos das trevas". I'sl;) aqui como representante de todo o ensinamento mo-
É característico que Jesus não usou a ideia de Isaías 1,11 de Jesus - não foi dirigido a indivíduos isolados ou,
do "resto" para interpretar sua atividade junto ao povo de II que seria o mesmo, à humanidade como um todo. O
Deus." Ele continua com sua pretensão a Todo-Israel. A ideia '/I'slinatário do sermão da montanha é Israel, respectivamente o
de um "resto sagrado" ou de uma comunidade separada de ,,\/"IIpO dos discípulos que representa Israel. O reconhecimen-

Israel não entra em questão, porque em parte alguma Jesus lu deste fato é muito importante para a tese fundamental
exige a participação no grupo dos discípulos como condição Ilvste livro, como também para a discussão atual sobre
para entrar no Reino de Deus. Em parte alguma ele exige o 01 validade do sermão da montanha na política. Por isso
seguimento como condição geral da salvação. Por conseguinte, .h-vemos aprofundar mais detalhada mente o contexto do
'i,·Il: não se poderá compreender a comunidade dos discípulos 'I'rmão da montanha em Mateus e do "discurso do cam-
,~l:"
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.~(}.
de Jesus seguindo o modelo de Qumram. A comunidade po" em Lucas.
O sermão da montanha, bem como o discurso do campo
dos discípulos de Jesus só se faz compreender em sua rela-
'C:-:-(.lI~1
';.tl!l ção simbólica com Todo-Israel. Ela deve prefigurar o povo n-montam, em seus núcleos, à primeira composição progra-
escatológico de Deus. Ela deve iniciar, desde já, a existência m.itica de sentenças dentro da chamada fonte Q.41Lucas está
escatológica de Israel. m.iis próximo do original, Mateus ampliou-o significativa-
mente com material tirado da tradição. Trata-se, portanto,
2. O SERMÃO DA MONTANHA t.into na fonte Q, como em Lucas e sobretudo em Mateus,
111' composições secundárias de sentenças originariamente

A esta correlação de comunidade de discípulos e Todo- dispersas (que são, no entanto, muito antigas e, na maior
Israel corresponde uma observação no nível ético que se faz p.lrte, remontam ao próprio Jesus). Por isso também os en-
sempre quando se examina o ensinamento moral de Jesus quadrarnentos" do sermão da montanha e do discurso do
I Ii mpo constituem composição redacional, isto é, não rei a-
nos seus pormenores: é muito difícil distinguir entre instru-
ções de Jesus, dadas somente para os discípulos, e instruções 101m simplesmente uma situação histórica na vida de Jesus.
dadas a todo Israel. Estas dificuldades de diferenciar estão A. pesar disso, estes enquadramentos têm grande valor neste
fundadas no próprio assunto: o ensinamento moral de Jesus I 1111 texto, pois eles mostram, pelo menos, quem são - para

deve ser vivido no grupo dos discípulos, ao mesmo tempo IISautores dos dois evangelhos maiores - os destinatários
é ensinamento para o povo todo. Esta obscuridade aparente di' uma parte decisiva do ensinamento moral de Jesus. Mas

40 Com respeito ao não uso da "idéia do resto" em Jesus cf. J. JEREMIAS,


op. IIcr. a reconstrução do sermão do monte na fonte Q, em A. POLAG,Frag-
cit., 360ss. utcntn Q. Textheft zur Logienquelle, Neukirchen-Vluyn, 1979,32-38.
62 H.......................H ........AIC;~~Ji\q{]E)~~{]Sq{]EI{IA.: II'-;us E SEUS DISCÍPULOS 63

como são os enquadramentos? Mateus introduz o sermão Aconteceu que ao terminar Jesus estas palavras, as multidões fi-
da montanha da seguinte maneira: caram extasiadas com o seu ensinamento, porque as ensinava com
autoridade e não como os seus escribas (Mt 7,285).
[Jesus] percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas,
pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença Aqui, os discípulos não são mais mencionados. O ser-
e enfermidade do povo. A sua fama espalhou-se por toda a Síria, de 11150 da montanha era dirigido, sem dúvida, ao povo, a To-
modo que lhe traziam todos os que eram acometidos por doenças do-Israel. E, no entanto, a menção dos discípulos em Mt 5,1
diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoni- 1\,10 foi mero acaso. Os discípulos são o cerne do círculo dos
nhados, lunáticos e paralíticos. E ele os curava. Seguiam-no mul- ouvintes de Jesus. Em todo o caso, eles devem ouvir e prati-
tidões numerosas vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, 1',1 r aquilo que foi dito a todo povo de Deus.
da Judeia e da região além do [ordão. Vendo ele as multidões, su- A situação em Lucas é muito semelhante. Depois de
biu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discí- «ontar que, na montanha, Jesus chamou os Doze de um nú-
pulos. E pôs-se a falar e os ensinava (Mt 4,23-5,2). mero maior de discípulos, introduz o discurso do campo da
~
,"
'~:)'1
~~l'guintemaneira:
Mateus antepõe conscientemente ao sermão da mon-
tanha um extenso sumário. Ele quer mostrar qual é o Desceu com eles e parou num lugar plano, onde havia nume-
pressuposto hístórico-salvífico das exigências do sermão da roso grupo de discípulos e imensa multidão de pessoas de toda
montanha: o Reino de Deus já anunciado, e que Jesus tor- a Judeia, de Jerusalém e do Litoral de Tiro e Sidônia. Tinham
na presente não só por palavras, mas também por obras vindo para ouvi-Ia e ser curados de suas doenças. Os atormen-
de poder nos doentes do povo de Deus. Ao mesmo tempo tados por espíritos impuros também eram curados. E toda a
todo Israel está reunido diante de Jesus; todas as regiões multidão procurava tocá-Ia, porque dele saía uma força que a
do país são enumeradas cuidadosamente: Galileia, Ju- todos curava. Erguendo então os olhos para os seus discípulos,
deia, Jerusalém, a região do além Jordão. Jesus proclama, dizia (Le 6,17-20).
4:
portanto, diante de todo Israel a nova ordem social do povo
de Deus, assim como no monte Sinai fora proclamada a O cenário teológico é semelhante ao de Mateus. A Mag-
ordem social do Antigo Testamento. Decisiva, porém, é a 1/11 Charta das exigências éticas de Jesus pressupõe a salva-
menção específica dos discípulos como ouvintes de Jesus. cao, já anunciada e concretizada até corporalmente através
Será que o sermão da montanha talvez não se dirija a todo I fL> muitas curas de doentes, do Reino de Deus. Lucas orde-

o povo, mas só aos discípulos? Será que a presença do na os ouvintes do discurso do campo ainda melhor do que
povo é apenas um artifício para tornar mais imponente Mateus: lá está o recém-constituído círculo dos Doze, junto
o discurso de Jesus? Esta hipótese será definitivamente .lcle 0 grande número" dos outros discípulos e, num círcu-
1/

excluída três capítulos mais adiante, pela conclusão do lo ainda maior, a massa do povo. Ao contrário de Mateus,
sermão da montanha. I .ucas até chama o povo laos. A expressão laos tem, vindo do
64 A.IC;l{Il!f\.qlJE.JIl~l!~ ..q{JEl{If\ lrsus E SEUS DISCÍPULOS 65

Antigo Testamento grego, um tom solene: é o povo de Israel t'stá de acordo com as realidades históricas. Em Jesus exis-
eleito e guiado por Deus. tiarn seguramente as duas coisas: a proclamação pública do
Mas, será que, pelo menos em Lucas, o grande discurso Reino de Deus e pregação para o povo, de um lado, e o ensi-
de Jesus não é dirigido somente para os discípulos? numento específico para os discípulos, do outro. As senten-
Pois em 6,20 ele fala: "E erguendo então os olhos para ças usadas no sermão da montanha vêm de ambos. No caso
os seus discípulos, dizia". Com esta anotação fica eviden- de uma sentença específica, dificilmente se poderá consta-
te que os discípulos são os ouvintes principais do discurso 1M a situação original na vida de Jesus. Afinal, a questão, se
do campo. No entanto, no fim do discurso em Lucas, como lima sentença determinada tem sua origem no ensinamento
em Mateus, é mencionado, sem nenhuma dúvida, o povo de dOS discípulos ou na pregação ao povo, não é tão decisiva.
Deus como ouvinte do discurso. Pois o discurso do campo Pois mesmo que o destinatário de uma determinada instru-
termina com a frase: ,50 tenha sido originalmente apenas o grupo dos discípulos
ele representa Todo-Israel e, por isso, tudo o que foi dito a
Jlf
Quando {Jesus] acabou de transmitir aos ouvidos do povo todas ele. foi dito, em última análise-a todo povo de Deus.
,..
-'''''11
~t. ·IWtl
essas palavras ... (Lc 7,1). Daí resulta o direito objetivo de Mateus e Lucas de com-
~}.f;
',. por dessa maneira o enquadramento do sermão da montanha
1~~~:~;;m~ "Falar aos ouvidos de alguém" novamente é linguagem (do campo). Daí resulta também o direito dos evangelistas
da Setenta. A fórmula, no Antigo Testamento, indica tratar- de relacionar o conceito, originalmente bem determinado,
se de um discurso de caráter legal, obrigatório; proclamado dos "discípulos de Jesus" com todos os crentes, assim como
publicamente.v Também em Lucas fica evidente: o grande de ampliar gradualmente o conceito do seguimento" a todo
discurso programático de Jesus não é dirigido apenas aos ()povo de Deus.
discípulos, mas a todo o povo de Deus. Resumindo, o enquadramento do sermão da montanha
Este duplo endereço do sermão da montanha, esta os- confirma nossa teoria: o destinatário da instrução ética de
cilação do discurso entre o grupo dos discípulos e o povo, lcsus não é o indivíduo isolado nem a humanidade como
não é, na verdade, um acaso. Ambos os evangelistas querem um todo. O destinatário de sua instrução é Israel, respectiva-
enfatizar: o sermão da montanha é dirigido primeira e insis- mente o grupo dos discípulos que representa Israel.
tentemente aos discípulos, mas, além disso, a todo o povo
de Israel, que ouviu a Boa-nova do Reino de Deus e cujos 3. A NOVA FAMÍLIA
doentes foram curados pelo anunciador desta mensagem.
Tudo isso é, como foi dito, primeiramente teologia dos Os últimos dois capítulos nos colocam diante de uma
dois evangelistas. Mas esta teologia, em sua globalidade, dificuldade que não podemos silenciar. Como vimos, Jesus
colocou exigências especialmente radicais ao grupo dos dis-
42 Cf. N. LOHFINK, "Das Hauptgebot, Eine Untersuchung literarischer Ein- cípulos que o seguia - sobretudo renunciar à profissão exer-
leitungsfragen zu Dtn 5-11" (AnBib 20), Roma, 1963,59. cida e deixar a própria família. Devemos acrescentar ainda
67
66 ......... . ...AIC;~Ji\q1J?)~?lJsglJ~lZli\ I1 •• IIS li SEUS DISCÍPULOS

mais, por exemplo: a renúncia à propriedade (d. Lc 14,33) ,LI família. Aqui não nasce uma classe de perfeitos frente a
11111<1 classe de menos perfeitos, porque Jesus estabelece para
e a renúncia à providência para o dia seguinte (d. Lc 12,22-
dI (lides que ficam em casa com suas famílias, exigências tão
32). É impossível equiparar, sem maiores explicações, estas
I "ti icais como para aqueles que o seguem. Afinal, o sermão
exigências de Jesus feitas a um grupo reduzido de seguido-
res com os ensinamentos dados a todo o povo de Deus. Es- d.! montanha contém um texto, que proíbe severamente ao
clareçamos o problema num fato concreto: homem repudiar sua mulher - contra a práxis do divórcio co-
Jesus mesmo não casou por causa do Reino de Deus (d. murn em Israel naquele tempo (Mt 5,21s). E o mesmo sermão

Mt 19,12), e ele exigiu que os discípulos deixassem suas famí- d,\ montanha contém um texto, no qual o mero olhar de um

lias. No Oriente, esta atitude tem, em certas circunstâncias, homem para uma mulher com desejo libidinoso é considera-
consequências drásticas: "caso o pai de família resolvesse do adultério (Mt 5,27s). No fundo, são exigências tão duras
I' radicais como aquela de deixar suas famílias, colocada aos
acompanhar Jesus, não restava outra alternativa à mulher
I( iscípulos. De uns, Jesus exige fidelidade absoluta e inviolá-
a não ser a volta para a casa dos pais com seus filhos, o que
era considerado uma vergonha"." Independentemente do vol a suas esposas, e de outros, fidelidade absoluta e inviolá-
'I~ ,11:::
vvl a sua missão de anunciar. A forma concreta de vida, quer
'.
h~, 'Ir/f:
, modo de como estes problemas foram resolvidos, uma coi-
,...• :
.•...
~'1· sa está bem certa: o abandono da família era uma exigência ',vja no matrimônio, quer seja no serviço do anúncio, é levada
~;í:.Jlh\; radical e dura. Por isso, Jesus propôs esta exigência apenas r.idícalmente a sério por Jesus. Ambos os modos de viver nes-
4'~h!;.
àqueles que o seguiam, no sentido literal da palavra, mas 1,\ forma radical só são possíveis em vista do Reino de Deus.

não ao povo todo, nem a seus discípulos" que permaneciam Somente a fascinação de um Reino de Deus, que já se torna
em seus lugares". Assim devemos admitir que para Jesus, presente, é capaz de dar a liberdade interior para viver a fi-
existe uma diferença entre a ética do seguimento e a ética de clclidade conjugal ou o seguimento com essa radicalidade.
todo povo de Deus. O que mostramos paradigmaticamente no caso do ma-
Com esta afirmação, não estamos colocando em questão trimônio e do celibato, poderíamos mostrar, em forma se-
todo resultado até agora conseguido? Mais ainda: não está melhante, nos outros casos da ética do seguimento. Existe,
surgindo imediatamente o problema conhecido de uma ética portanto, em Jesus, uma ética do seguimento, delimitável
de dois níveis, isto é, uma ética para os "melhores" e uma éti- pelo menos em teoria; mas não é uma forma mais alta de
ca para os "comuns", com todas as consequências, que esta ética em relação à ética de todo povo de Deus. Muito mais,
ética provocou dentro da Igreja católica - até à separação do da é determinada - de maneira altamente funcional- pelo
povo de Deus em duas classes? modo de viver daqueles que andam com Jesus.
Olhando melhor, vemos em Jesus uma ética específica Com esta colocação, porém, apenas rejeitamos a existên-
do seguimento, mas não uma ética de dois níveis. Para es- cia de uma ética de dois níveis em Jesus. Ainda nos resta a
clarecer melhor, fiquemos com nosso exemplo do abandono tarefa de mostrar a vinculação intrínseca entre a ética do se-
guimento e a ética de todo povo de Deus. Para perceber esta
vinculação, vamos primeiramente olhar um texto que, com
43 J. JEREMIAS, op. cit., 351.
69
68 AI<:;~E:Ji\.qlJE.JE:~l!s9l!.El~Ii\.

certeza, foi dirigido originalmente aos seguidores de Jesus, (1\.,36s).Certamente ele comprara, como muitos outros ju-
no sentido literal da palavra. Marcos reza: deus da diáspora, um campo na terra santa, para confirmar
sua vinculação a Israel e tornar-se participante das bênçãos
Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, do tempo messiânico. Devemos, portanto, reconhecer na ex-
irmãs, mãe, pai, filhos e terras por minha causa ou por causa do pressão "terras" em Me 10,29s, aquele conceito de "Terra"
Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tem- tao importante para todos os judeus piedosos.
po, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; Jesus, no entanto, relativiza tudo isto: o clã, os pais, os fi-
e no mundo futuro, a vida eterna (Me 10,29s). lhos, a Terra. É possível e, em certas circunstâncias, até neces-
sário, deixar tudo isto. Não se trata aqui, porém, de um mero
Na forma atual, a sentença já apresenta traços de rela- deixar por deixar, como se o simples fato de deixar já fosse algo
boração por uma visão do cristianismo primitivo. Nela foi positivo. O motivo para deixar é que está acontecendo algo
introduzida a ideia do Evangelho; foram introduzi das as novo: o Reino de Deus irrompe. Com isto, tudo muda. Aque-
1111 ~ II palavras "com perseguições"; principalmente, porém, foi les, que agora seguem Jesus, que deixam tudo o que tinham
01' Pit
·t.·I~ por causa do Reino de Deus, tornam-se uma nova família, onde,
;', acrescentado o esquema das duas épocas. A sentença origi-
........•
)-"\
:
nal, na certa, deve ter sido uma promessa muito mais radical paradoxalmente, existem de novo irmãos, irmãs, mães e filhos.
."
t;~~JI~I:" e em vista do tempo presente. Desde agora, nesta hora, os discípulos vão receber cem
"'~:I!::"
vezes mais tudo que deixaram. Jesus fala aqui a partir da
Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, própria experiência que, mais e mais, tornou-se também a
irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa, que não receba experiência dos seus discípulos: eles deixaram suas famílias,
cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mas acharam no grupo dos discípulos novos irmãos e irmãs.
mãe e filhos e terras. Eles abandonaram a casa dos pais, mas acharam, no país
inteiro, onde eram recebidos amigavelmente, novas mães.
É necessário aperceber-se do inaudito nesta palavra de Eles deixaram seus filhos, mas constantemente acorreram
.•.
Jesus: irmãos e irmãs - são os parentes de sangue, são o clã a eles pessoas novas e desconhecidas, todas elas realizadas
ao qual pertence o oriental e ao qual deve satisfação; e ele, pelo novo que apareceu. Eles abandonaram seus campos,
em troca, o protege. Pai e mãe - no fundo está a estrutura mas, no lugar deles, acharam uma comunidade firme que os
antiga, sagrada, confirmada na Escritura, da família patriar- sustentava como "nova Terra".
cal. Filhos - eles são a maior alegria do homem oriental: seu Junto com todas estas experiências, deve-se pensar na
orgulho, também sua segurança social e, por assim dizer, comunidade da refeição, para a qual os discípulos sempre
seu seguro de vida para mais tarde. E terras - elas são o qui- se oncontram." Aqui Jesus é o dono da casa, que reúne ao
nhão do Israelita na herança sagrada prometida por Deus.
Sabemos, pelos Atos dos Apóstolos, de Barnabé, oriundo de 44 Cf. as belas exposiçõesde R. RIESNER, Formen gemeinsamen Lebens ;111
Chipre, que ele possuía um campo nos arredores de Jerusalém Neuen Testament und heute (Theologie und Dienst), Geissen, 1977, 21 s.
70 1\.Ic;~~Ii\
..qlJ~.J~~lJS.qlJERIA II '.1 JS E SEUS DISCÍPULOS 71
seu redor a nova família e pronuncia a oração da benção Aqui aparece novamente a temática da nova família. Je-
(Me 8,6s). Mais tarde, os discípulos vão o reconhecê-lo ao par- "1I1i desvincula-se da sua família "num discurso altamente
tir o pão (Lc 24,30s.34). A comunidade da refeição com o Jesus n-tórico e jurídico, em estilo antigo"," e se junta a uma outra
terreno deve ter-se gravado neles de modo inesquecível. t.unília. Melhor, neste momento ele constitui esta outra fa-
Na verdade, Jesus exigiu dos seus discípulos que deixas- mília: "Esses são meus irmãos!"
sem tudo, no entanto, ele não os chamou para viver na so- Quem é esta nova família? Apenas o grupo dos discípu-
lidão e no isolamento (não é este o sentido do seguimento), los? A observação de Marcos em 3,32: "havia uma multidão
mas para uma nova família de irmãos e irmãs, que é sinal do sentada em torno dele" fala em sentido contrário. Mas não
Reino que irrompe.
V<1ffiOS nos perder demais nesta observação narrativa. Mais
A questão decisiva agora é, se é possível relacionar aqui- i rnportante é a própria palavra de Jesus:
lo que, a partir de Me 1O,29s, foi descrito como a realida-
de da nova família, com todo povo de Deus. A promessa Quem fizer a vontade de Deus,
l'~:,;:i:;~ (Me 10,29s) só é dada aos discípulos de Jesus, portanto, pres- esse é meu irmão, irmã e mãe.
supõe a ética do seguimento. Mas existe um texto que nos
()·i
conduz adiante, a saber Me 3,20s.31-35.
ll\ I' ."
• j~
o que
quer dizer neste contexto: fazer a vontade de Deus?
j'~1j[;:'1 Jesus encontra-se numa casa, cercado de muita gente de Num contexto rabínico significaria: cumprir a Torá, a lei do
tal modo que ele e seus discípulos nem sequer podem ali- Sinai. Mas aqui o sentido não pode ser esse, pois a família de
mentar-se (3,20). Aí chegam seus parentes no intuito de o le- Jesus cumpre a lei. Nesta nossa situação, porém, ela não está
var para casa à força. A família de Jesus sente-se comprome- conforme a vontade de Deus. Por isso, a vontade de Deus
tida pela atividade pública de Jesus. Aqueles que mandam aqui, como também em muitos outros trechos do Novo Tes-
na família estão convictos: ele enlouqueceu (3,21). Quando tamento'" só pode ser o plano da salvação, que Deus realiza
dizem a Jesus: "Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs agora e ao qual se deve aderir - com uma disponibilidade
estão lá fora e te procuram", ele responde (3,33-35): sem reservas, para deixar transformar a própria vida pela
ação de Deus. Formulando ainda mais concretamente: aqui
"Quem é minha mãe
a vontade de Deus é a vinda do Reino e a reconstituição do
e meus irmãos?"
verdadeiro Israel (cf. Mt 6,9s). Quem faz a vontade de Deus,
E, repassando com o olhar
são aqueles que acreditam na mensagem de Jesus do Reino
os que estavam sentados ao seu redor,
de Deus que está próximo e se deixam unir para formar o
disse:
povo escatológico de Deus. Logo, em Me 3,35, Jesus não fala
"Eis a minha mãe
e os meus irmãos.
Quem fizer a vontade de Deus, 45 N. LOHFINK. Kirchenirãume. Reden gegen den Trend. Friburgo. 1982, 40
esse é meu irmão, irmã e mãe". (trad, bras. A Igreja dos meus sonhos, Edições Paulinas, São Paulo, 1986).
46 Cf. especialmente Ef 1.3-14.
72 A.IC;~~Jp,glJE.J~~LJs.qLJEl~IA 73

apenas dos seus discípulos, mas de todos que reconhecem (11) cristianismo primitivo e dos missionários itinerantes). Mas
agora a iniciativa de Deus em Israel e acorrem para o Reino t.unbém se deve ver que, de muitas formas, esta ética está li-
de Deus. ",lIda à ética do restante povo de Deus (concretamente: dos
Com isto fica claro, que a nova família dos irmãos e ir- 11 iscípulos que permanecem em seus lugares). Existem aqui
mãs de Jesus vai muito mais além do grupo dos discípulos I .onstantes irradiações, repercussões, intercomunicações.
em sentido estrito. Em toda parte de Israel, onde se acredita Para o exemplo concreto que escolhemos, isto signifi-
no Evangelho do Reino de Deus, e não apenas no grupo da- \'.1: só relativamente poucos dos que, em Israel, aceitam a
queles que seguem a Jesus, no sentido literal da palavra, sur- mensagem de Jesus deixam sua pátria e seguem Jesus pela
ge agora algo novo. O Reino de Deus abre caminho com po- I'alestina. A maioria permanece com suas famílias. E ape-
der (Mt 11,12). Jesus lança sua mensagem à terra como fogo, sar disso, as famílias daqueles que ficam, transformam-se.
e ele gostaria de incendiar tudo (Lc 12,49). A mensagem do I\Ias tornam-se mais disponíveis, abertas. Não giram mais
Reino de Deus provoca separação e divisão em Israel: ,'penas em torno de si mesmas. Oferecem acolhida a Jesus
~. liPI~
l' seus mensageiros. Entram em relação umas com as ou-
•~,."rlt.,
"
I Doravante, numa casa com cinco pessoas, lras. - Ou acontece algo bem diferente: as famílias dividem-
'''I' '_0
Iro.,.jI' i ~
estarão divididas três contra duas se. Jesus e seu movimento torna-se sinal de contradição
t"I,JI~l;
11,~;l;\;•.r
e duas contra três; (Lc 2,24). Muitos indivíduos desvinculam-se das formas an-
ficarão divididos: pai contra filho Ligas (Me 2,21s) e unem-se à nova família da qual Jesus fala
e filho contra pai, em Me 10,29s. Assim surge, no meio do antigo Israel, no iní-
mãe contra filha cio ainda pouco perceptível, mas irresistivelmente, a nova
e filha contra mãe, sociedade, planejada por Deus.
sogra contra nora
e nora contra sogra 4. O FIM DOS PAIS
(Lc 12,525).
Jesus promete àqueles que o seguem que desde agora
A divisão por causa do Evangelho atravessa as famílias de vão reencontrar tudo o que deixaram: casas, irmãos, irmãs,
Israel. Isto significa que em toda parte existem pessoas que mães, filhos e terras. Mas não vão receber pais! Os pais não
se decidem em favor do Reino de Deus e têm que assumir o são mais mencionados na segunda parte do paralelismo
conflito com a própria família, o próprio clã. Elas formam, tão cuidadosamente elaborado em Me 10,29s. Será acaso?
atravessando Israel e atravessando as famílias antigas e clãs, Dever-se-ia deixar esta questão em aberto, se não existis-
a nova família de Jesus. sem outros textos que mostram: aqui não há acaso ou es-
Cheguemos a uma conclusão: deve-se ver que existe em quecimento.
Jesus uma ética específica do seguimento que tem seu lugar Conscientemente, os pais não são mais mencionados na
no grupo dos discípulos (mais tarde no grupo dos profetas segunda parte da sentença, porque na nova família não deve
74 AIC;~~JJ\.qTJE.J~~TJS.qTJE~!A 11,'iUSE SEUS DISCÍPULOS 75
haver mais "pais". Eles são demasiadamente símbolo de do- utulos honoríficos como "pai" ou "rabi" - qualquer nobre em
mínio patriarcal. A comunidade dos discípulos de Jesus e, Israel podia ser chamado de rabi (literalmente: meu grande!) -
com ela, o verdadeiro Israel, deve ter um único pai: o do céu! mas também o uso de designações da função como "mestre".
Mt 23,9 mostra-o.
Por que Mateus chega a tantas sensibilidades numa ques-
Mateus inclui no seu grande discurso contra os doutores 1.10, em que, mais tarde, a Igreja infelizmente nunca mais mos-
da lei e os fariseus (23,1-36) um trecho, que é uma espécie de lrou sensibilidade? Ela não só criou um número elevado de
catequese para os líderes das comunidades cristãs. O trecho designações ministeriais e títulos honoríficos, mas introdu-
parte da constatação de que os doutores da lei, com muito ziu também, em desobediência direta a Mt 23,9, o tratamento
gosto, se deixam chamar de rabi (= meu senhor!) (23,7), e diz "Santo Padre" (Pai Santo) para o Papa. De onde, então, Ma-
em contraposição consciente:
teus tem esta sensibilidade, que é muito menos evidente, nesta
questão? Só pode tê-Ia de Jesus mesmo. A catequese Mt 23,8-12
Quanto a vós, não permitais que vos chamem 'Rabi', pois um só é já está em parte formada redacionalmente (de modo especial
o vosso Mestre
no primeiro e terceiro versículol.-porém, em cada linha dela
e todos vós sais irmãos.
fala o espírito de Jesus. Vejamo-Ia pormenorizadamente:
A ninguém na terra chameis 'Pai', Primeiramente temos aqui a questão dos títulos honorí-
•. Ifll~i;:
'j,t:I!lI'11 pois um só é o vosso Pai,
ficos (primeiro e terceiro versículo). De fato, Jesus em geral,
o celeste.
foi chamado rabi, também por seus discípulos." Mas isso era
Não permitais que vos chamem 'Guias', simplesmente a linguagem de cortesia, e esta Jesus tolerou.
pois um só é o vosso guia,
Mas quando esta linguagem respeitosa, então habitual, era
Cristo.
intensificada, mesmo levemente, Jesus podia cessar imedia-
Antes, o maior dentre vós será aquele que vos serve. tamente com a sua tolerância. Quando alguém o chama de
Aquele que se exaltar será humilhado, "bom rabi" (o que se poderia traduzir por exímio mestre) ele
e aquele que se humilhar será exaltado interpreta o outro literalmente e o corrige numa forma tão
(Mt 23,8-12).
severa que até quase se torna indelicado: "Por que me cha-
mas bom? Ninguém é bom senão só Deus" (Me 10,17s). Esta
É evidente: a formulação é, em parte, de Mateus ou da tra- expressão, por razões cristológicas mudada e assim redigida
dição anterior a Mateus; o título cristológico no terceiro versí- imprecisamente por Mateus (d. Mt 19,16s), prova suficien-
culo já prova isso. É evidente também, que aqui são abordados temente: Jesus manda parar imediatamente, quando seus
uma série de problemas que se manifestaram na Igreja primi- interlocutores ultrapassam a cortesia usual.
tiva. A tentação de gozar de dignidades eclesiásticas em forma Na catequese Mt 23,8-12, além da proibição de títulos ho-
de títulos honoríficos já deve ter seduzido no primeiro século. noríficos cristãos, também desempenha um papel importante
Mateus coloca-se contra isso com veemência extraordinária.
Para os ministros eclesiásticos, ele proíbe não apenas o uso de
47 Cf. Me 11,21; Mt 26,25.49; Jo 1,38.
77
76 ....... ..l'\I<:;~~Jp" ..qTJE)~STJS.qTJE!{[p" II ',lJS E SEUS DISCÍPULOS

a questão do exercício correto de uma função. O maior da Mas a parte mais importante, no nosso contexto, da cate-
comunidade deve ser o servo de todos (quarto versículo). '1lleseaos dirigentes das comunidades, é o segundo versículo:
No fundo vê-se também aqui o comportamento de Jesus.
Geralmente, ele tolerava o tratamento rabi, mas questionava A ninguém na terra chameis 'Pai',
exatamente a práxis dos rabinos de se deixar servir pelos pois um só é o vosso Pai, o celeste.
próprios discípulos. Por trás desta práxis estava, em si, uma
bela ideia: os discípulos dos rabinos deveriam aprender a Aqui não se mostra apenas o espírito de Jesus, aqui fala
Torá não apenas no ensinamento do mestre, mas também 11 próprio Jesus histórico. Mateus considera a palavra "pai"
no trato cotidiano com ele. Trato cotidiano, porém, queria utulo honorífico, como prova o contexto: na comunidade
dizer concretamente: que eles servissem a seu mestre como «ristã ninguém se deve fazer tratar por "pai". Assim, Ma-
pajens. A regra em vigor era: conhecimento da Torá não Irus, atualiza corretamente a palavra original de Jesus. Je-
se pode adquirir sem servir os doutores. O rabi Jochanan HlIS, porém, vai mais longe.

I1 i Irw:
expressá-la-á, mais tarde, nestes termos: "quem proíbe os Nesta sentença, ele usa com toda a probabilidade o ter-
• ~ .,,1 .
l' . ';I- .~,

mo abbá, que era, nessa época, o tratamento familiar habitual


seus discípulos de o servirem, é como alguém, que lhes nega
"
~1i
í
o amor"." Mas foi exatamente isto que Jesus fez na última para o pai no aramaico palestinense, e que era usado não
t.
O~'"' ceia: ele impediu os seus discípulos de o servirem. Não dei- só pelas crianças, mas também pelos adultos: a ninguém na
"~!!:~.,t'I'
xa que os discípulos lavem os seus pés, mas ele mesmo lhes terra chameis abbá, isto é "papai". Será que Jesus proíbe ge-
presta este serviço pertencente à ceia 00 13,1-20). Ele está no nericamente este tratamento terno e afetuoso para o pai nas
meio deles como alguém que serve (Lc 22,27). Ele não veio íarnílias de Israel? Isto parece tão absurdo, que muitos exe-
para ser servido mas para servir (Me 10,4.5). A palavra de getas não consideram mais Mt 23,9 uma palavra autêntica
Jesus referente ao serviço, dentro da tradição de Jesus, faz de Jesus. Outros supõem que por trás desta palavra esteja
parte da tradição mais testemunhada. Com tudo isto está lima advertência de Jesus, para não apelar aos patriarcas da
ligado um segundo ponto, em que a catequese Mt 23,8-12 história da salvação de Israel - mais ou menos no sentido
preservou o espírito de Jesus com maior sensibilidade. "O da palavra do 'Batista: "Não penseis que basta dizer: 'Temos
maior dentre vós será aquele que vos serve" (23,11). O fato, por pai a Abraão' ..."49 No primeiro momento uma constru-
que Jesus - e não apenas na última ceia - não se deixava ser- cão atraente e engenhosa! Mas ela é desnecessária.
vir, mas servia, deve ter ficado tão profundamente gravado Se quisermos entender Mt 23,9, devemos tomar seria-
na sua comunidade de discípulos, que ela mais tarde desig- mente em consideração que aqui se trata, originalmente, de
nava as suas próprias funções de diakoniai, isto é, serviços. uma palavra da ética radical do seguimento, que primei-
ramente se dirigia apenas ao grupo dos discípulos. Pois os

48 Keth 96 a. Mais sentenças referentes ao serviço do discípulo ao seu


rabi, em P. B1LLERBECK, Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und
·1'1 Assimpor exemplo, E. ScHWEIZER, Das Evangelium nach Matthiius (NTD 2),
Midrasch I, 3a ed., Munique, 1961,920. Côttingen, 1973, 281s.
78 ......ppppAlc;~~J~qlJE)~~lJSglJEl~I~ I ESUS E SEUS DISCÍPULOS 79

discípulos de Jesus deixaram tudo, sua profissão e sua famí- É exatamente aqui, nesta situação singular do grupo
lia. À família, que não pode ser equiparada à nossa família dos discípulos, que o Pai-nosso teria seu Sitz im Leben mais
pequena, encolhida e atrofiada, pertencia também o pai (d. antigo. Este é, originalmente, uma oração redigida para os
Me 1,20). Os discípulos estão distantes de seu pai, a quem até discípulos que deixaram tudo. Nesta oração, eles chamam a
agora, confiantes e cheios de amor, chamavam de abbá. Nes- Deus seu "abbá", seu paizinho amado, a quem pedem o pão
ta situação Jesus diz-lhes: vocês não vão chamar mais abbá de cada dia.
a ninguém aqui na terra, nem devem fazer isso. Pois quem Assim, Mt 23,9 adquire um sentido preciso. Os discípu-
não se separa radicalmente de sua família, não pode ser meu los não podem nem precisam chamar abbá a ninguém a não
discípulo (Lc 14,26). Mas vocês não precisam mais chamar ser a Deus. Em Deus, eles receberam um pai cuidadoso e
pai a ninguém na terra, porque vocês têm outro abbá, no céu. bondoso, no qual podem confiar incondicionalmente.
Se esta interpretação é correta, então Jesus está convicto, Mas o dito também tem um reverso. O poder e a sobe-
que seus discípulos, pelo seguimento, iniciaram um relacio- rania pertencem unicamente a este Deus, a quem os discí-
,,11111'1'1:

(.,~~.~l
namento novo para com Deus. Em lugar do pai terrestre Deus pulos podem chamar abbá. E se-para eles não existem mais
"
torna-se seu pai, e eles podem, como Jesus mesmo e contra- os pais cuidadosos e bondosos de outrora, mas apenas o
Di! riando os costumes do tratamento religioso, podem dirigir-se a único pai no céu, muito menos ainda os pais dominadores
"li'
1'~1("1
ele com a palavra familiar abbá. Exatamente aqui, nesta nova e autoritários. Seria paradoxal abandonar os pais ternos, e
situação dos discípulos de Jesus, teria seu Sitz im Leben a ex- então reencontrar pais autoritários no grupo dos discípulos.
pressão jesuânica "vosso pai" que originalmente nunca se Eis a razão porque Jesus não menciona mais os pais em Me
dirige a estranhos, mas sempre aos discípulos." Com esta LO,30.Na nova família de Deus, os discípulos vão reencon-
expressão, Jesus quer tornar claro, que os discípulos, pelo trar tudo: irmãos, irmãs, mães e filhos, mas não mais os pais.
abandono de suas famílias, receberam Deus como pai, num Domínio patriarcal não pode mais existir na nova família,
sentido novo e radical. Eles, na verdade, não têm mais seu pai apenas sentimento materno, fraterno e filial diante de Deus
terrestre, que cuidava deles com a visão de um homem de ex- que é Pai.
periência, mas eles têm, agora, em seu lugar, o próprio Deus: O trecho Me 10,35-45, que fala do pedido dos filhos de
Zebedeu, faz sentir o quanto Jesus levou a sério este ponto.
Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Em Marcos, este trecho termina com uma pequena composi-
Ou, que iremos beber? Ou, o que iremos vestir? De fato, são os ção retórica com caráter programático:
gentios que estão à procura de tudo isso: o vosso Pai celeste sabe
que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai, em primeiro Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os
lugar, o Reino de Deus, e todas essas coisas vos serão acrescenta- seus grandes [isto é, seus altos funcionários] as tiranizam. Entre
das (cf. Mt 6,31-33 par. Le 12,29-31). vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser
grande, seja o vosso servidor, e aquele que quer ser o primeiro den-
50 Cf. Mt 5,48; 6,32; Me 11,25; Le 6,36; 12,32. tre vós, seja o servo de todos. Pois o Filho do Homem não veio para
80 . .......................AIC;~~JJ\qlJE)~~lJSqlJ~~IJ\
81

ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos Eu vos digo:
(Mc 10,42-45). àquele que te fere na face direita
oferece-lhe também a esquerda,
Este texto, em que novamente, por trás de cada linha, e àquele que quer pleitear contigo,
estão o pensar e o agir de Jesus, visa exatamente aquilo para tomar-te a túnica,
que hoje chamaríamos estruturas de domínio. Elas são o ha- deixa-lhe também a veste,
bitual nas sociedades deste mundo. Na comunidade dos e se alguém te obriga a andar uma milha,
discípulos, porém, não pode haver mais relações de domi- caminha com ele duas.
nação. Nela, quem quiser ser o primeiro, deve ser o escra- Dá ao que pede
vo de todos. E o maior deve-se tornar como o menor (d. e não voltes as costas ao que te pede emprestado.
Lc 22,26). Jesus exige, portanto, dos seus discípulos um
relacionamento mútuo totalmente diverso daquele que é Aproximadamente assim deveria ter sido o texto na
l' IJli"'(~ normal na sociedade. Em outras palavras: ele exige uma fonte Q. É uma composição de sentenças bem estruturada e
l 'foi ~!t,:~~
;. sociedade de contraste. O que isto significa, deve ser explica- com quatro partes, colocadas em escalação decrescente. Isto
o- t do seguidamente, a partir de uma temática, que tem sido l~:o Mal, ao qual não devemos resistir, vai-se tornando cada
I
'1
11
.!-lí cada vez mais ventilada nos últimos anos: a exigência da vez pior, partindo do final do trecho para o seu início. A
'~'1-'1'11

não-violência. gradação vai do pedido descarado, passando pela coação e a


iuneaça de processo até chegar à brutalidade. Outros indícios
5. A NÃO-VIOLÊNCIA mostram também que aqui temos uma composição redacio-
nal cuidadosamente elaborada de sentenças isoladas. Não
O texto que formula com maior clareza a exigência da precisamos nos interessar pela questão da história literária
não-violência, por parte de Jesus, encontra-se em Mt 5,39-42 l' da tradição da composição como um todo. Decisivo é que

par. Lc 6,29s. Ele não consta em Marcos. Disto torna-se cla- esta composição de quatro frases reflete em cada uma delas
ro que ele remonta à fonte Q. Mateus conservou, manifesta- il linguagem pr~vocante e a ética radical de Jesus em assun-

mente, neste nosso caso especial, o texto original melhor do los da não-violência. Existe um consenso bastante amplo
que Lucas. A partir de uma comparação sinótica, pode-se na exegese neotestamentária de que estas palavras são do
reconstruir o trecho sobre a não-violência na fonte Q da se- próprio Jesus. Examinemos um pouco mais detalhadamente
guinte maneira+' estas quatro sentenças referentes à não-violência.
No fim da escalação decrescente fala-se de emprestar.
Provavelmente trata-se de dinheiro. Alguém vem e quer
51 Para a reconstrução d. H. MERKLElN, Die Gottesherrschaft ais Handlung- tomar dinheiro emprestado. Até aí, tudo em ordem. Mas é
sprinzip. Untersuchung zur Ethik Jesu (FzB 34), Wurzburg, 1978,269-275. desagradável. Pode ser até uma impertinência, pois o judeu
Incerta (e também discutida) é a pertença da terceira sentença (Mt 5,41)
à fonte Q.
piedoso não podia cobrar juros. Além disso, pode-se supor,
82 ......................
Alc.;R.E:Ji\qlJE:JE:slJs ..9lJ?I~Ii\
83

a partir do contexto, ainda uma pressão da parte daquele vi-lada, dissimulada. Agora estamos diante da erupção de
que quer dinheiro emprestado. Jesus, porém, diz: "Não vol- violência aberta e brutal e que deve ser considerada, simul-
tes as costas ao que te pede emprestado". í.meamente, um insulto grave. Pois é dito expressamente
Seguidamente fala-se em pedir. A situação não é mais que o primeiro golpe é desferido na face direita e não na face
detalhada. Talvez se pense em mendigos. Se considerarmos ,'squerda. Bate-se, portanto, não com a palma, mas com as
o fato que no Oriente a mendicância é muito difundida e in- vostas da mão. E o golpe com as costas da mão é considera-
sistente, podemos imaginar o que se exige aqui. O contexto do, no Oriente, uma ofensa extremamente grave. Jesus diz:
supõe novamente uma certa pressão por parte daquele que deixa que te ofendam com brutalidade. Oferece, ainda a ou-
pede. O pedinte torna-se importuno e insolente. Jesus, po- Ira face ao adversário.
rém, diz: "Se alguém te pede, dá-lhe". A intenção das quatro sentenças é evidente. É inculcado
No degrau seguinte da escalação decrescente começa a IIOS ouvintes: renuncie a qualquer sanção jurídica! Desista

coação. No texto grego está um verbo i aggareuà), que é ter- de qualquer retaliação! Não responda à violência com vio-
Il,~:i
t -I:~:lt,::~~ minus technicus para a extorsão de serviços de empregados lôncial Quando é cometida injustiça contra você, porém, não
e escravos por uma potência de ocupação. Tudo indica que I ique passivo e sem fazer nada! Vá ao encontro do seu adver-
"
~~
~t S,) rio. Responda à sua coação ou brutalidade com bondade
a terceira sentença visa a situação da Palestina dominada
It!_!;, pelos romanos. As coortes romanas arrogavam-se o direito Iransbordante. Talvez, deste modo, consiga recuperá-lo.
1, .K. 1'1'~

de obrigar um judeu a acompanhá-Ias como guia e carrega- Estas exigências ganham uma expressividade especial
dor gratuito (d. Me 15,21). Jesus diz; se alguém te obrigar pelo fato de não mencionar em casos extraordinários ou re-
desta maneira a andar uma milha, faze o dobro, caminha lntivamente raros, mas fatos tirados do dia-a-dia real dos
com ele duas. ouvintes de Jesus. São fatos que pressupõem uma escala de
O caso seguinte é mais grave. De alguém é tirada a úni- possibilidades de violência velada ou aberta desde a imper-
ca roupa que possui. A coação chega a tal ponto, que até se Iinência até ao ato de violência direta.
ameaça com o juiz. Talvez tenhamos aqui um caso de penho- Esta última observação já fala bem claramente contra
ra, talvez de indenização - a situação concreta fica em aber- interpretações apenas metafóricas de Mt 5,39-42. É eviden-
to. Trata-se, em todo caso, de um pobre que apenas possui te que Jesus não oferece uma casuística. E é evidente que
uma única veste e um único manto. Não se podia tomar- o texto contém elementos metafóricos. Eles aparecem mais
lhe o manto - isto já estava juridicamente determinado em claramente na segunda parte de cada sentença. "Caminhar
Ex 22,25 - porque os pobres tinham de se cobrir com o manto .ité duas milhas", "deixar também o manto", "oferecer tam-
no frio da noite. Eles não possuíam outra coisa. Jesus diz: não bém a outra face" - com isto o suportar meramente passi-
lutes diante do juiz para ficar com tua veste. Deixa que a to- vo da injustiça transforma-se num sumamento ativo "ir ao
mem imediatamente. Mais ainda, dá-Ihes também o manto. encontro do adversário", e, ainda mais, num "preocupar-se
No cume da escalação decrescente está o caso pior. Até com o rival", num "querer transformá-lo num irmão". Nes-
agora tratava-se de coação crescente, talvez de violência te sentido, fala-se aqui também em linguagem metafórica.
84 A.I.C;~E:J~.q{)E.JE:?lJS..qlJ?l{I~ 11'.11'; I,;SEUS DISCÍPULOS 85
Como em muitos lugares, Jesus fala uma linguagem pro- 1.1', mensageiros enviados ou coisa semelhante. Mas, com
fética e provocativa. Mesmo assim, ele aponta para atitudes ,,11o, perde-se o sentido real do texto. Primeiro porque se tem
reais, que, como tais, devem ser praticadas e iluminam, como n,,(li o gênero literário da instrução que dá diretivas bem con-
modelos, casos semelhantes. Jesus proíbe, de fato, o uso da i u-las e obrigatórias. Segundo porque sabemos da história
violência, e ele está convicto de que todos que acolhem sua pa- ,I••Antiguidade e do judaísmo primitivo que o equipamen-
lavra, podem viver sem responder com violência e retaliação. 11 1 de filósofos e pregadores itinerantes ou de membros de
Como é importante cuidar-se para não diluir em sím- I .' rlos grupos religiosos era, frequentemente, escolhido com
bolos o apelo de Jesus à não-violência ou não o enfraquecer I (lidado e, não raras vezes, até determinado com precisão.
com artifícios de interpretação, mostra-nos a assim chamada ',.'jam lembrados Pitágoras, os filósofos itinerantes cínicos,
regra do equipamento. Ela remonta com toda a probabilidade Ilh essênios e João Batista.

ao envio dos Doze a todas as partes de Israel." Já falamos Nesses casos, o traje, respectivamente o equipamento, ti-
sobre a ação profética simbólica, que está por trás do en- fi lia significado simbólico. Deviam dizer alguma coisa sobre
1;'I)f'~:;'
~,
, '!Wt
"'lC~\~1
vio (cf. 1,2). A regra do equipamento pertence, do ponto de .• natureza do homem ou do grupo-em questão." A regra do
vista da história da tradição, ao complexo do "discurso dos "quipamento, na sua forma mais antiga, é muito rigorosa.
..«.
mensageiros", que pode ser encontrado em quatro lugares 1':la é inconcebível sem o pressuposto da hospitalidade cor-
"'1'"
",r
·";'''''11 nos evangelhos sinóticos: em Me 6,7-11 par. Lc 9,2-5 e em .Iial, com que os enviados eram recebidos sempre de novo
Lc 10,2-16 par. Mt 10,5-42. quando, à noite, entravam numa casa.
Na regra do equipamento Jesus proíbe os doze discípu- No nosso contexto, porém, muito mais importante é a
los, que deviam percorrer Israel dois a dois para proclamar un possibilidade de defender-se, mostrada pelo equipamen-
a chegada do Reino de Deus, de levar consigo dinheiro, al- 10 - ou melhor: pela falta do equipamento. O bastão, na Pa-
forje, uma segunda túnica, sandálias ou bastão. Em Lucas k-stina, não era apenas apoio ao caminhar, mas também, ao
lemos assim: mesmo tempo, a arma do pobre contra ladrões e animais. E
-cm calçado era impossível uma fuga rápida. A renúncia ao
Não leveis para a viagem, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem bastão e às sandálias levava à impossibilidade de defender-
dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas (Lc 9,3; cf. Mt 10,9s). "C e obrigava à não-violência, ela tinha de se tornar sinal de
.ibsoluta disponibilidade para a paz. Por isso, no contexto
Naturalmente pode-se entender esta regra do equipa- c'stá também o seguinte: "Eis que eu vos envio como ovelhas
mento num sentido figurado, e alguns intérpretes fizeram- vntre lobos" (Mt 10,16 par. Lc 10,3).
no conscientemente. Pode-se falar de despreendimento interno

',\ A respeito da dimensão dos "sinais" no contexto do discurso dos


52 Não se pode negar, por princípio, o fato de um envio dos discípu- mensageiros cf. L BOSOLD, Pazífísmus und prophetísche Provokatíon. Das
los por Jesus. Contra esta atitude fala já o fenômeno estranho, que a Grussverbot Lk lO,4b und seín hístorischer Kontext (SBS 90), Stuttgart,
tradição do envio não contém nenhuma cristologia. 1978,81-92.
86 "HH ..........HHHH........ ........AIC;~~J,\q{)E)~S.{)Sq{)El~I,\ II ',I JS E SEUSDISCÍPULOS 87
Seria uma falha exegética muito grave não querer inter- pn-cisamente ao povo de Deus marcado pela proclamação
pretar literalmente a regra do equipamento em sua concretu- dn Reino de Deus. Este conhecimento é da maior importân-
de. É assim, que ela nos fornece uma indicação metodológica Illl para a discussão sobre a paz, que surge de modo cada
importante para a interpretação de Mt 5,39-42. No entanto, v,':;, mais forte em nossos dias. Pois, nesta discussão, um
só se pode interpretar literalmente a regra do equipamento l.ulo defende o ponto de vista que só o indivíduo, que não
se se toma a sério o contexto social do discurso aos mensa- I' responsável pelos outros, pode aderir à não-violência; o
geiros: a hospitalidade e solicitude da nova família de Jesus, 1111 Lrolado, pelo contrário, preferiria que, por princípio, toda

que surge por toda parte. Já existem por toda a parte, em " lição política e social no mundo fosse orientada pelas exi-
Israel, pessoas que acolheram a mensagem de Jesus e dei- I'll'ncias do sermão da montanha. Mas nenhuma das duas
xaram transformar sua vida pelo Reino de Deus. E, em toda Iiosições, de fato, faz justiça ao Evangelho."
parte de Israel, novas pessoas são atraídas para o Reino pró- A teoria, de que só o indivíduo, que não tem nenhuma
ximo, pelos Doze. Sobre todas elas desce a paz escatológica n-sponsabilidade pelos outros, se pode permitir a não-vio-
,ill~:'I"
"",1.:1'\
.~
de Deus que repousa sobre a nova família de Jesus. Por isso, 11-ncia é completamente errada não-corresponde nem à prá-
é dito aos mensageiros de Jesus (Lc 10,5-7; d. Mt 10,10-13): ,is da Igreja primitiva e nem à vontade de Jesus que pensa
~1 L:
.-m categorias eminentemente sociais: seu olhar visa sempre
~_!~
• "!'"
t,tj:~
Em qualquer casa em que entrardes, inmel, respectivamente a comunidade dos discípulos enquan-
dizei primeiro: 'Paz a esta casa!' 10 prefiguração de Israel, onde deve brilhar a soberania de
E se lá houver um filho de paz, I )eUS. O apelo de Jesus à não-violência absoluta está, por-
a vossa paz irá repousar sobre ele; 1,II1to,relacionado com a sociedade. Ele tem caráter público.
se não, voltará a vós. Ele não se dirige, no entanto, às nações, aos Estados, à so-
Permanecei nessa casa, I'icdade em geraL Jesus nunca se preocupou com estes desti-
comei e bebei do que tiverem, 11<1 tários; não se dirigiu a eles. Ele não tentou entrar em contato

pois o operário é digno do seu salário. nem com Herodes Antípas nem com Pôncio Pilatos para lhes
dizer como deveriàm governar. A estas pessoas teria dito, na
Não se pode, pois, compreender a severidade da regra melhor das hipóteses, apenas aquilo que o autor do Evangelho
do equipamento se não se considera o background da nova de João formula apropriadamente da seguinte maneira:
família de Jesus que está se formando. Tão pouco se pode
Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo,
compreender a radicalidade do apelo de Jesus à não-violên-
meus súditos teriam combatido, para que eu não fosse entregue
cia, se não se considera o contexto social deste apelo: o gru-
aos judeus (Jo 18,36).
po dos discípulos, a nova família de irmãos e irmãs de Jesus,
o Israel a ser reconstituído, os filhos da paz.
A ética radical da não-violência não se dirige, portan- '01 Mais extensivamente sobre este problema G. LOHFlNK,"Der ekklesiale
Sitz im Leben der Aufforderung Jesu zum Gewaltverzicht (Mt 5,39b-
to, nem ao indivíduo isolado, nem ao mundo inteiro, mas
42/Lk 6,29)", ThQ 162 (1982), 236-253.
11·'iUSE SEUS DISCÍPULOS 89
88 Alc;~EJi\.glJE.J~SlJs.9lJE~Ii\.

Fixemo-nos detalhadamente na formulação: aqui não se h. O FARDO LEVE


fala do céu. O Reino de Jesus, sem dúvida, é neste mundo.
Mas não é deste mundo, isto é, não corresponde às estrutu- Mas é possível viver a não-violência em um sentido tão
ras. deste mundo. radial e incondicional de Mt 5,39-42? Esta pergunta coloca-
Se correspondesse às estruturas deste mundo, então, 'l(' não apenas em relação a não-violência, mas, em princípio,

dever-se-ia lutar, também neste Reino, pelos próprios di- t'm todas as sentenças do ensinamento ético de Jesus. Pois
reitos - e, em caso de necessidade, até com violência. Mas t-ste é sempre uma ética radical- e, como vimos, não apenas
lá, onde o Reino de Deus irrompe, lá, onde já está brilhan- quando se trata de uma ética específica do seguimento (cf.
do, estão em vigor, segundo Jesus, outras leis. O verdadei- ~,3).Pode-se viver uma ética tão radical? Foi pensado muito
ro povo de Deus, a verdadeira família de Jesus, não pode .1 respeito desta pergunta. Geralmente ela é tratada sob o

impor mais nada pela força - nem para dentro nem para fora. Iítulo "A possibilidade de cumprir o sermão da montanha".
Lá não se pode mais lutar pelos próprios direitos com os Uma das respostas mais influentes, dada sobretudo a
,.111'11::"'"

'if-I'~.1\'. meios de força, que são habituais na sociedade e, muitas partir de KANT e do idealismo alemão, diz: as exigências de
vezes, até protegidos pela lei. Lá deve-se antes sofrer in- lcsus nada mais são do que instrução para a reta atitude do
~,t)
justiça do que impor o próprio direito pela força. Lá deve- coração. Por isso, todas essas exigências, muitas vezes for-
"li'
~_1~'1~~1 se dar a todo o que pede. Lá é dever deixar-se coagir. Lá muladas com extrema acuidade, no fundo só querem uma
deve-se dar, não apenas a única veste, mas também o único coisa: a atitude interior da caridade abnegada.
manto. Lá deve-se antes deixar bater na face do que devol- Certamente não é falso dizer que Jesus dá valor à reta
ver o golpe. atitude. Para ele, o pecado não se dá só no fato consumado,
Acentue-se mais uma vez: Jesus não quer com tudo isto mas já começa no coração do homem. É de dentro, do cora-
descrever apenas uma atitude interior, mas ele visa uma cão do homem, que provém todo o Mal: fornicação, roubo,
práxis concreta dentro de uma nova ordem social. Jesus assassinato, adultério, ambição, maldade (cf. Me 7,21-23).
compreende o povo de Deus a ser reconstituído (como já nos
mostrou Me 10,42-45) como sociedade de contraste. Isto não o homem bom, do bom tesouro do coração tira o que é bom, mas o
significa de modo algum: como um Estado ou uma nação. mau, de seu mal tira o que é mau (Lc 6,45).
Mas como comunidade que forma seu próprio espaço vital
e na qual se vive de modo diferente e se convive de modo Jesus descreve em muitas imagens que o coração, o inte-
diferente do que é comum no resto do mundo. Poder-se-ia rior do homem, deve estar em ordem.
designar o povo de Deus que Jesus quer reconstituir, como A ética dos sentimentos em todas suas formas vê algo que
sociedade alternativa. Nela não devem reinar as estruturas é certo. Mas este conhecimento correto não nos deve levar a
de violência das potências deste mundo, mas reconciliação considerar menos importante a realização concreta das exi-
e fraternidade. gências de Jesus. Pode-se mostrar que Jesus atribui impor-
tância decisiva ao "ato concreto" (no grego: poiein). Na fonte
90 HHHH .. ....HAIC;~E.JAqlJEJE.?lJSglJEl~Ii\ I1 'ilJS E SEUS DISCÍPULOS 91

Q, o primeiro discurso programático, aquele que Mateus, d,l seguinte maneira: "Alguém que pode apresentar muitas
mais tarde, coloca como base do seu sermão da montanha, hons obras e estudou muito a Torá, a quem se pode compa-
termina com uma parábola final, que visa a ação real dos r.ir? A um homem que ..."55
ouvintes de Jesus: A grande proximidade da parábola da casa sobre a ro-
rha ao material das parábolas rabínicas é muito importante
Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática 11.lrasua interpretação. Pois, deste modo torna-se claro: em
será comparado a um homem sensato M l 7,24-27, no lugar da Torá entra o ensinamento de Jesus.
que construiu a sua casa sobre a rocha. Mas a Torá é a norma da vida, a ordem social de Israel.
Caiu a chuva, Assim, Mt 7,24-27 trata a palavra de Jesus no sentido de ser
vieram as enxurradas, ,I norma da vida e a ordem social para o povo escatológico
sopraram os ventos de Deus. É evidente que não se pode satisfazer as exigên-
e deram contra aquela casa, rins de uma ordem social apenas com sentimentos puros. É
.1111'11".,11

fII'il::!'o;"
mas ela não caiu, necessário praticá-Io para que o povo de Deus possa existir
porque estava alicerçada na rocha. \'orno comunidade. Deste modo a parábola diz: seria um
.1 t,
Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas .-rro catastrófico apenas ouvir a palavra de Deus. Ela deve
'ti; não as pratica, ser praticada.
~I,'''d:~I:
será comparado a um homem insensato É surpreendente a insistência com que este tema do
que construiu a sua casa sobre a areia. flôr em prática do ensinamento de Jesus atravessa todas
Caiu a chuva, .is camadas das fontes da tradição sinótica. Recordemos,
vieram as enxurradas, mais uma vez, a palavra de Jesus em Mc 3,35: "Quem fizer
sopraram os ventos .1 vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe". Es-
e deram contra aquela casa, pccialmente significativa é uma pequena narrativa, que
e ela caiu. provém do material próprio de Lucas. Nas traduções ela
E foi grande sua ruína geralmente leva o título: "Uma bem-aventurança da mãe
(Mt 7,24-27 par. Lc 6,47-49). de Jesus":

A parábola construída segundo a estrutura e também Enquanto [Jesus] assim falava, certa mulher levantou a voz ao
com o material (de imagens) das parábolas rabínicas, pres- meio da multidão e disse-lhe: "Felizes as entranhas que te trou-
supõe as condições da região montanhosa da Palestina. Na xeram e os seios que te amamentaram!" Ele, porém, respondeu:
construção de uma casa não se faziam fundamentos, mas "Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam!"
construía-se sobre as rochas. As chuvas, enxurradas e o ven- (Lc 11,27s).
to não simbolizam as tempestades da vida, mas o juízo de
Deus. No ambiente rabínico, a comparação seria iniciada '," Cf. a parábola de Elischa ben Abuja, Aboth RN 24.
92 II '11JS E SEUS DISCÍPULOS 93
.HHHH .HHHHHAIC;~~Jf\qlJE)~~lJSglJEl~If\

Levando a sério os costumes orientais de expressão, só uumtanha. Ele quebra a autoconfiança do homem. Ele o jul-
muito indiretamente existe aqui uma bem-aventurança da J'"I sem a menor compaixão. Ele descobre a sua verdadeira
mãe de Jesus. O alvo da exclamação de admiração não é rtuação, E assim, ele o faz capaz de não esperar mais nada
Maria, mas o próprio Jesus. Jesus é chamado bem-aventu- ,11' si mas tudo de Deus.
rado numa formulação tipicamente semítica. Ele responde É evidente: com a ajuda daquilo que Paulo diz em Rm 3,20
ao cumprimento - pois é um cumprimento - como oriental I' 7,7-13 sobre o papel da lei de Moisés, adquire-se uma cha-
bem-educado, com outro cumprimento: "Felizes, antes os VI' teológica, para poder resolver o problema do sermão da
que ouvem (agora de mim) a palavra de Deus!" Pois a mu- montanha, e ainda conseguir um sentido para ele. A interpre-
lher do povo ouvira-o o tempo todo. t.rcão mencionada tem, portanto, aparentemente um apoio
Mas, como é típico de Jesus (cf. Me 10,18), ele também Il'ológico em Paulo. O seu erro, porém, é que aproxima com
corrige o cumprimento da mulher: não é importante procla- I h-masiada facilidade as declarações de Paulo sobre a lei e so-

má-lo bem-aventurado, mas somente ouvir na sua palavra, hre o homem subjugado à lei, do sermão da montanha. Pois o
""."".,. a palavra de Deus e observá-Ia. hl'rmão da montanha está no nível daquilo que em Paulo é a
~!~ ,,~'I'

A exortação, para pôr em prática sua palavra (respec- .idmocstação cristã (a paráclese) e não ao nível, que a temática
, ~1 L~~
tivamente: a palavra de Deus) é, portanto, característica de da lei do Sinai ocupa. Em Mateus e Lucas, o sermão da mon-
11"1'" Jesus. Ela também é expressa em outros textos (cf. sobretu- í.mha possui, como vimos, uma parte antecedente de caráter
'~' r 'I''I:~':,
do Mt 21,28-32). Jesus está interessado na práxis concreta, e programático que deve tornar claro: todas as exigências pro-
nisto ele está bem dentro do contexto bíblico e judaico. Isto nunciadas pressupõem, como com absoluto antecedente, a
é tão evidente, que hoje uma redução do ensinamento de salvação de Deus, que já se realiza. Especialmente no próprio
Jesus a uma mera ética de sentimentos interiores carece hoje [csus, a realidade libertadora e salvadora do Reino de Deus é,
de viabilidade exegética. por princípio, pressuposto de todas as exigências.
É viável cumprir o sermão da montanha? Existe todavia Deve-se, portanto, interpretar a instrução ética de Jesus
uma resposta bem diferente a esta pergunta, desenvolvida diante do horizonte da sua proclamação do Reino de Deus."
no protestantismo (se bem que ela não está sendo defendida Somente a partir daqui podemos responder corretamente
por todos os teólogos protestantes); ela parte da exigência no problema da viabilidade do cumprimento do sermão da
de Jesus para pôr em prática sua palavra, e argumenta da se- montanha. Dever-se-ia perguntar, então: a Boa-nova do Rei-
guinte maneira: quem é capaz de amar realmente seu inimi- no de Deus coloca nos ombros dos homens fardos pesados,
go, de não resistir à violência, de ser absolutamente veraz, de ou sai do Reino de Deus uma fascinação que tira o fardo e
não desejar uma mulher nem sequer com os olhos? Somente o peso de todas as exigências que traz consigo? A resposta
uma pessoa viveu tudo isto: o próprio Jesus. Ele cumpriu é inequívoca. A dupla parábola do tesouro escondido e da
estas exigências em lugar de todos os homens. Os demais, pérola (Mt 13,44-46) no-Ia mostra muito bem.
porém, só podem fracassar diante do sermão da montanha e
admitir sua culpa. É exatamente este o sentido do sermão da 'i(i Cf. para este tema o importante trabalho de H. MERKLEIN, op. cit.
94 .AIC;~~J~q{]EJ~~{]sq{]Il~I~ II <,LJS E SEUS DISCÍPULOS 95

o Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; t.-xto realmente bom que alguém fala ou escreve é, até certo
um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai, vende I ionto, sempre autobiográfico. Isto vale também para esta
tudo o que possui e compra aquele campo. .lupla parábola. Aqui Jesus contou algo da experiência fun-
O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que anda .Lnnental de sua vida e da vida dos seus discípulos - porém
em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vorn maior discreção e tato. É a história de um achado grati-
vai, vende tudo o que possui e a compra. I icante, por causa do qual Jesus e seus discípulos deixaram
tudo. Mas não foi uma decisão heróica. E viver doravante
Jesus não diz: o Reino de Deus é tão precioso quanto sob as exigências do Reino de Deus não fez deles homens
um tesouro escondido ou uma pérola de grande valor. Ele .uormentados. desesperados e deprimidos. Em vez disso,
diz: em relação ao Reino de Deus dá-se o mesmo que se dá «lcs fizeram a experiência de uma leveza nova e de uma li-
na história, em que um pobre diarista encontra um tesouro herdade profunda, conhecidas somente por quem se deixa
escondido; em relação ao Reino de Deus dá-se o que se dá r-nvolver de coisas bem grandes. Os fardos de suas vidas
I~i",·'\'i na história, em que um negociante rico acha uma pérola de Sl' tornaram leves. Jesus (ou talvez um dos seus sucessores)
'J"""
grande valor. O que é decisivo nestas duas histórias? Não a l.ila desta experiência fundamental num outro trecho - no,
, t:, procura desesperada dos dois homens para achar um tesouro .issim chamado, apelo do salvador (Mt 11,28-30):
I~, ou uma pérola! Também não uma separação heróica de seus
'l'W:il'"
bens! Eles dão tudo, eles agem com radicalidade, mas sem Vinde a mim todos
desespero e sem qualquer heroísmo. Eles agem como gente, os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei
que faz um achado precioso e tem uma sorte incrível. O bri- descanso.
lho do achado os domina e cobre de brilho tudo que fazem. Tomai sobre vós o meu jugo
"Na sua alegria, ele vai ...", esta é a palavra decisiva da pará- e aprendei de mim,
bola dupla. Uma alegria profunda, o deslumbramento pelo porque sou manso e humilde de coração,
achado faz com que a venda de seus bens se torne uma coisa e encontrareis descanso para vossas almas,
evidente. Eles nem sequer precisam refletir. .. pois o meu jugo é suave
Jesus, pois, descreve aqui a fascinação sedutiva que sai e o meu fardo é leve.
do Reino de Deus, que está irrompendo. O Reino de Deus
que agora vem ao encontro dos homens, que já está no meio Por trás desta exclamação está um texto da literatura sa-
deles, é tão atraente e fascinante, que já não existe nenhuma piencial: Jesus Sirac 51,23-27. Aí o autor convida os homens
dificuldade para mudar de vida e, a partir daí, viver na fas- para curvarem sua cerviz sob o jugo da sabedoria e tomar
cinação do achado. sobre si o fardo dela. Ele promete-lhes que encontrarão des-
As parábolas do tesouro e da pérola oferecem-nos uma canso junto à sabedoria.
chave de interpretação, com cujo auxílio podemos compreen- É importante notar, que no tempo de Jesus a "sabedo-
der melhor a existência de Jesus e da sua nova família. Todo ria" que vem de Deus e ilumina os homens, há muito que
I1 ',I IS E SEUS DISCÍPULOS 97
96 ..Alc;~~Ji\ ..q{]EJ~S.lJSg{]~~Ii\

tinha sido equiparada à Torá (cf. já Eclo 24,23.25). Em lu- I )\' um lado a discussão, até hoje não terminada, é compreen-
gar do "jugo da sabedoria" os rabinos falam do "jugo dos .rvel. As exigências de Jesus são radicais e intransigentes. E
mandamentos" e, com isso, entendem uma obediência fiel II sermão da montanha resiste a todas as tentativas de ser
à lei." "Curvai vossa cerviz sob o jugo da sabedoria" signi- w;,ldo para um cristianismo barato.
fica, portanto, no tempo de Jesus: vivei fiel e rigorosamente De outro lado, porém, surge também a impressão de que
seguindo a Torá! Somente considerando este pano de fundo loda discussão parte de uma base de experiência muito es-
se pode entender a interpretação nova e profunda que é feita lreita demais. Se as exigências de Jesus podem ser cumpri-
em Mt 11,28-30. O "jugo de Jesus" é colocado em lugar da d,1Sou não, é uma questão que não pode ser decidida pelo
Torá, isto é, sua palavra, seu ensinamento no lugar da lei do Indivíduo e, muito menos ainda, numa escrivaninha. Pois a
Sinai. 1'1 ica de Jesus não é dirigida ao indivíduo, mas ao grupo dos

E deste ensinamento de Jesus, colocado no lugar da or- discípulos, à nova família de Jesus, ao povo de Deus a ser
dem social do Sinai, é dito que é um jugo que não pesa e \'(mstituído, Ela tem uma dimensão eminentemente social. Se
"d,,,,:::,I.":;
'I 'I' ~\
'li-r. um fardo leve. Por quê? Porque Jesus é manso e humilde de \) cumprimento desta ética é viável ou não, só pode ser deci-
~
coração. Ele não procura, como os grandes das nações (cf. dido por grupos de pessoas que se colocam conscientemente
• :, t:,1 sob o Evangelho do Reino de Deus e que querem ser comu-
Me 10,42), dominar os seus e violentá-Ios. Ele é o servo de
''11-
"lll' todos. Ele não vive para si, para seu poder e seus interes- nidades reais de irmãos e irmãs - comunidades que formam
, <f:r.~I:,;

ses, mas total e exclusivamente para a causa de Deus, para o 11 m espaço vital da fé onde todos se apoiam mutuamente.

Reino de Deus. Assim também por trás deste texto, que não Mas, nossas paróquias são tais comunidades? Será que
pode ser entendido de modo individualizante, está o Reino elas têm uma consciência de comunidade, da qual só se
de Deus como realidade libertadora, salvadora e animadora. pode falar quando uma comunidade sabe que tem sua his-
O texto, com certeza, não é de interpretação muito fácil - tória própria diante de Deus? Elas não são, muito mais, uma
mas uma coisa é clara: o ensinamento de Jesus não é uma lei nglomeração de muitos indivíduos, dos quais um mal toma
que julga o homem com severidade, diante da qual só pode conhecimento do outro?
dizer cheio de temor: "Deus tenha piedade de mim porque Aqui tem-se a impressão de que praticamente nos esca-
sou um pobre pecador", mas um jugo suave e um fardo leve pou o contexto social no qual Jesus coloca suas exigências e
que deixa o homem respirar aliviado. onde elas podem ser vividas. Ora, Jesus dirigiu-se ao povo
Se tentarmos lançar um olhar sobre a longa e movimen- de Deus, e reuniu discípulos em torno de si para fazer de
tada discussão dos últimos séculos sobre o problema da via- Israel o verdadeiro povo de Deus. Não podemos falar da
bilidade do cumprimento do sermão da montanha - nem de viabilidade de cumprir o sermão da montanha sem conside-
longe foram mencionadas aqui todas as tentativas de solu- rar tudo isto.
ção - não nos podemos livrar de uma impressão discrepante. Se queremos realmente saber, se se pode viver o sermão
da montanha, devemos perguntar àqueles grupos e comuni-
57 Cf. P. BILLERBECK, op. cit., 608s.
dades, onde os cristãos não vivem apenas lado ao lado, mas
98 . ..........................................................................Alc;~~Ji\q1JE)~~1J~(21JEl~Ii\ 11'!1lJS E SEUS DISCÍPULOS 99

onde eles se puseram a caminho como povo de Deus. Estas Ein Haus voll Glorie schauet
comunidades, seguramente, não nos ocultariam, que tam- weit über alles Land,
bém nelas existe, sempre e de novo, fracasso e culpa pro- aus ewgem Stein erbauet
funda. Mas também nos contariam como nelas os antigos von Gottes Meisterhand.
textos da salvação do Reino de Deus de repente se tornaram Gott, wir loben dich,
vivos e como o experimentaram: tudo isto é verdade; acon- Gott, wir preisen dich.
tece também entre nós; o Reino de Deus é uma fascinação O lass im Hause dein
infinita; o fardo de Jesus é leve. uns all geborgen sein.
Aliás, também Paulo pode falar do fardo do cristão. Ele
escreve aos gálatas: (Uma casa cheia de glória
abrange com a vista todos os países,
Carregai o peso uns dos outros construída de pedra eterna
"."""!
,.,\'."
e assim cumprireis a lei de Cristo (6,2). pela mão do mestre-Deus.
Ó Deus, nós vos louvamos,
Com isto, ele quer dizer: lá, onde a comunidade cristã Ó Deus, nós vos bendizemos.
é comunidade de verdade, onde ela é unida, onde todos se Ó deixai-nos todos abrigados
~~I:,'I

apoiam e se ajudam, é viável cumprir a "lei de Cristo". dentro de vossa casa).

7. A CIDADE SOBRE O MONTE Partindo do texto antigo do canto, pode-se analisar


quanto mudou a consciência eclesial na Europa ocidental
Ainda não há muito tempo, os católicos alemães canta- em brevíssimo tempo. Ninguém mais quer ser representan-
ram, cheios de entusiasmo, nas suas celebrações, um canto, le de uma ecclesiologia gloriae. Como reação, porém, aparece
que exaltava a Igreja como castelo fortificado, que todos os uma imagem de Igreja - articulada ainda por poucos teólo-
inimigos atacam em vão. Somente nos dois últimos decênios gos, mas existente no background da consciência de um nú-
se foi tomando cada vez mais consciência do triunfalismo mero bem maior - exatamente contrária: é a imagem de uma
deste canto. No livro Gotteslob ("louvor a Deus"), publicado Igreja completamente inaparente e profundamente mergu-
desde 1975 livro de cantos obrigatório em todo território da lhada na sociedade humana, que renuncia à sua estrutura
Alemanha, ele reaparece com quatro novas estrofes, onde própria quase até à dissolução de si mesma, que se perde
também se fala da cidade santa no monte Sião, da tenda de no mundo para penetrar o mundo todo. No fundo está a
Deus aqui na terra e do povo de Deus peregrino." Apenas a imagem do fermento que penetra a massa e do qual, no fim,
primeira estrofe ficou inalterada: não resta mais nada. Esta imagem da Igreja está marcada
por uma profunda vergonha por causa da história de domí-
58 Gotteslob. Katholisches Gebet - und Gesangbuch, Stuttgart, 1975, n. 639.
nio da Igreja desde a mudança constantiniana e, ao mesmo
100 . ................AIC;~~JA:qlJEJ~~LJSglJEl~IA: 101

tempo, pela aversão a toda e qualquer mentalidade elitista Nem se acende uma lâmpada
e triunfalista, pelo desejo de solidariedade com todos os ho- e se coloca debaixo do alqueire,
mens e pelo propósito de evitar, para todo futuro, um erro mas no candelabro,
do passado: identificar Igreja e Reino de Deus. e assim ela brilha para todos os que estão na casa.
Certamente, uma parte das tendências nesta imagem Brilhe do mesmo modo a vossa luz
de Igreja é correta e indispensável: a renúncia a qualquer diante dos homens,
triunfalismo eclesiástico; o desejo de solidariedade com para que, vendo as vossas boas obras,
todos os homens de boa vontade; a recusa de uma iden- eles glorifiquem vosso Pai
tificação infantil de Igreja e Reino de Deus. A questão que que está nos céus.
se coloca é se aqui, como reação aos triunfalismos anterio-
res, não ameaça o perigo de uma nivelação total da Igreja; No primeiro momento poder-se-ia pensar que o texto
se aqui não é canonizada uma doença perigosa da Igreja confirme a ideia de que a Igreja deva mergulhar tão profun-
11'""""):
l~ ,,'11".'
atual com auxílio de uma eclesiologia adaptada: a saber, o damente na sociedade que mal possa ser reconhecida. O sal
• fato de muitas comunidades cristãs mal poderem ser reco- não se dissolve completamente na comida?
nhecidas como comunidades e o fato de muitos cristãos se Mas isso significa errar totalmente o alvo apontado pela
terem adaptado cada vez mais à sociedade restante. Aqui imagem. Na verdade, fala-se de um estoque de sal bom e
,I'~~':
'I
não está sendo feito, de uma deficiência atual do cristianis- puro que está à disposição em casa e que não se estraga,
mo europeu, uma virtude altamente questionável? A ideia, como acontecia então muitas vezes com o sal tirado do mar
que a Igreja deve mergulhar na sociedade restante até qua- Morto que estava cheio de misturas químicas. Os discípulos,
se ao abandono de si mesma, será realmente o caminho de quem se fala aqui e que, na concepção de Mateus, signi-
certo para mudar a sociedade? Sem dúvida, os Evangelhos ficam a Igreja toda, devem estar dispostos, em todos os tem-
pensam aqui de modo bem diferente. O texto decisivo em pos, a salgar o mundo, isto é, fazê-lo saboroso e preservá-Io
sentido contrário é Mt 5,13-16: de podridão. Provavelmente, a imagem vai adiante. A Igreja
não apenas tem obrigação de fazer o mundo saboroso, mas
Vós sois o sal da terra. lambém santo diante de Deus. Pois no culto de Israel existia
Ora, se o sal se tornar insosso, o seguinte princípio:
com que o salgaremos?
Para nada mais serve, Salgarás toda oblação que ofereceres e não deixarás de pôr na tua
senão para ser lançado fora oblação o sal da aliança de teu Deus;
e pisado pelos homens. a toda oferenda juntarás uma oferenda de sal a teu Deus (Lv 2,13).
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade Caso esta função cultual esteja por trás do texto, ele quer
situada sobre um monte. até dizer: a Igreja, enquanto povo santo de Deus no mundo
102 "'H ••••••• ••• ••• •••••• ••••••••••••• .AIC;~~Ji\q{JEJ~~lJSg{JERIA , I ':SUSE SEUS DISCÍPULOS 103

tem a tarefa de santificar o mundo restante, pelo simples homens (Mt 5,16). Ela é Igreja para o mundo. Ela é isso exata-
fato de existir (cf. 1Pd 2,9). /I/ente pelo fato de ela mesma não se tornar mundo ou se dissolver
Além disso, também a imagem da luz e da cidade se 110 mundo, mas guardar seus contornos prôprioe:" Isto mostram
encaixam muito bem neste contexto. Na composição de não só as imagens do sal, da luz e da cidade, mas também o
Mateus, ambas as imagens formam um conjunto. Não se contexto em que está Mt 5,13-16. Este texto é precedido ime-
trata de uma cidade qualquer, mas da cidade santa, de Je- diatamente pelas Bem-aventuranças que, na verdade, não
rusalém escatológica, da qual os profetas dizem, que um descrevem uma sociedade adaptada; e é seguido imediata-
dia sobressairá de todas as montanhas e sua luz ilumina- mente pela nova Torá do povo de Deus que começa com a
rá as nações pagãs (cf. Is 2,2-5). Às boas obras em Mt 5,16 descrição da justiça melhor.
corresponde em Is 2,3s a Torá, que sai de Sião e se torna Lendo Mt 5,13-16no seu contexto e a partir do pano de fun-
plausível a todas as nações, porque está sendo vivida real- do do Antigo Testamento, fica claro: a cidade luminosa sobre o
mente em Israel." Em Mateus, no lugar da Torá de Sião monte é uma expressão que indica a Igreja como uma socieda-
está a ordem de vida e a ordem social do grande discurso de de contraste, a qual, exatamente-enquanto sociedade de con-
programático que Jesus pronuncia no monte. No entanto, traste, transforma o mundo. Perdendo seu caráter de contraste,
segundo Mateus, já não são as nações que acorrem a Sião seu sal torna-se insosso e se ela apagar sua luz suavemente (no
para participar do verdadeiro Israel, mas os discípulos texto: colocar a luz debaixo do alqueire para ela se apagar), ela
"""
vão ao mundo inteiro, para fazer que todos os povos se perde o seu sentido. Ela é desprezada pelos demais homens
tornem discípulos (Mt 28,19s). A direção externa do movi- (no texto: pisada) e então, a sociedade não é mais capaz de re-
mento, portanto, inverteu-se, fica igual, porém, o poder de conhecer a Deus (no texto: glorificar a Deus, como Pai).
convicção da ordem social escatológica do povo de Deus, Nos parágrafos precedentes, Mt 5,13-16 foi interpretado
plausível para as nações e aceitas por elas. "O sentido é conscientemente como texto do evangelista. Por isso, tam-
exatamente o seguinte: por sua vida segundo a vontade de bém se podia e devia falar da Igreja. Mas o Jesus histórico
Deus, os discípulos transformarão a humanidade inteira. pensou e exatamente assim? Isso não se pode simplesmente
Cada vez mais pessoas juntar-se-ão à comunidade daque- pressupor. Em Mt 5,13-16 é usado material de sentenças an-
les que se orientam pela vontade de Deus.t''" terior, mas no conjunto estamos frente a uma composição de
A Igreja, aqui descrita, é tudo menos uma comunidade Mateus. Nosso texto corresponde à pregação e à intenção de
que gira, de modo elitista, em torno de si mesma, ou se pro- Jesus? Em todo o caso podem-se lançar largas pontes até o
tege do mundo. Ela é sal da terra, luz do mundo, cidade que Jesus histórico. Isto será feito, a seguir, em três passos:
brilha ao longe. Ela vive uma ordem social plausível para os
1. Por trás de Mt 5,13 está uma imagem do sal, que em
Jesus deve ter tido o seguinte teor (cf. Lc 14,34s; Me 9,50):
59 Cf. N. LOHFINK,op. cit., 12-26.
60 L. SCHOTIOFF,Die enge Piorte, em: V. Hochgrebe (ed.). Provakatian Berg-
predigt, Stuttgart, 1982, 117-129, especialmente 122. 61 E. SCHWEIZER,op. cit., 61.
104 ..............................A.I<:;:R.~Ji\ ..qlJE ..J~SlJS..qlJE::R.li\ 105

o sal, de fato, é bom. Porém se até o sal se tornar insosso, com Sião, comum no Antigo Testamento e no judaísmo antigo.
que se há de temperar? Não presta para a terra, nem é útil para Isto também pelo fato do motivo da peregrinação das nações
estrume; jogam-no fora. e-star documentado em Isaías (d. 1,5). Se este motivo estiver
110f trás, então deve-se interpretar a sentença da cidade situ-
É controverso a quem Jesus dirigiu estas palavras. Trata- .ida sobre o monte à luz do anúncio do Reino de Deus. Para
se de uma admoestação aos discípulos? Nesse caso o sentido [csus, o Reino de Deus não é algo absolutamente futuro, mas
seria: "Se vocês não são mais sal, isto é, se sua condição de dis- jô irrompe no tempo presente. Assim também a cidade es-
cípulo perde sua irradiação, então sua existência como discí- catológica de Deus não pode ser algo absolutamente futuro.
pulos não tem nenhum valor. Os homens vão desprezá-los". Ela já se delineia: no grupo dos discípulos que seguem Jesus.
Mais provável, porém, será pensar numa ameaça contra Israel. Eles são, já agora, juntamente com Jesus, a cidade situada so-
Nesse caso o sentido seria: "Se Israel já não é sal, isto é, se não bre o monte. Este é o pressuposto da sentença transmitida em
mais assume sua tarefa de ser povo santo e, no momento de- Mt 5,14b. Mas no modo em que ela está formulada, pressu-
,,.,.'~,.",) cisivo, não faz a vontade de Deus, então perdeu sua existência põe além disso uma situação em que se colocam questões e
como povo de Deus. Ele é jogado fora e pisado pelas nações". dúvidas - como, por exemplo: este pequeno, pouco aparen-
1''\ t ;~f Em virtude de se tratar de uma imagem desta natureza, trans- te, grupo dos discípulos é realmente o Israel escatológico; a
mitida isoladamente, dificilmente se poderá constatar qual das cidade situada sobre o monte, de que os profetas falaram?
1"'t»,.

duas possibilidades é correta. Mas a questão também não é tão A realidade não corresponde de modo algum à profecia! Je-
decisiva. Como quer que se interprete a imagem do sal: em sus poderia ter respondido a objeções como esta com a regra
todo caso, ela indica uma função de contraste para outros: o sal da experiência comum, no modo em que é transmitida em
tem que ter força para salgar outros. Não faz muita diferença, Mt 5,14b: "Por mais pequenos e menos aparentes que sejam
se Jesus falou de Israel ou dos discípulos. Mateus relacionou, os inícios, a cidade de Deus já começou a brilhar. E não se
de modo realmente correto, a palavra com o verdadeiro IsraeL pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Portanto, não
se preocupem, o brilho da cidade será notado!" O pressu-
2. Por trás de Mt 5,14b também deveria estar uma sen- posto para a formulação, por parte de Jesus, de uma regra
tença mais antiga, que o evangelista combinou com um afo- de experiência comum, como em Mt 5,14b, seria, portanto,
rismo da luz (d. Me 4,21; Lc 8,16; 11,33). A sentença antiga por um lado, a sua convicção, que a cidade santa já começa
era do seguinte teor: a brilhar dentro do movimento da reconstituição que ele ini-
ciou; e também para responder a perguntas e dúvidas dos
Não se pode esconder uma cidade ouvintes, talvez inclusive, dos seus próprios discípulos.
situada sobre um monte. 3. As chamadas "parábolas do crescimento" pressupõem
uma situação semelhante e, por isso, confirmam a interpre-
Embora a sentença formule uma regra de experiência co- tação de Mt 5,14b, aqui apresentada. Trata-se das parábolas
mum, ela dificilmente pode ser pensada sem a teologia de do semeador (Me 4,3-9) e da semente que cresce por si mesma

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106 AI.C;~~Ji\.q1!~.J~?1!?qyERIA 107
(Me 4,26-29), do grão de mostarda (Me 4,30-32) e do fermento que proclama o Reino de Deus, mas também seus discípulos
(Lc 13,20s). Em todas estas parábolas, contrapõe-se a um co- (d. Lc 10,9.11). E não é só Jesus que cura possessos, mas tam-
meço pequeno e pouco aparente ou mesmo ameaçado a um bém seus discípulos (cf. Me 3,15). Quem concentrar a pre-
término maravilhoso, rico e magnífico: os agricultores tra- sença oculta do Reino de Deus apenas em Jesus e excluir os
zem uma colheita grande; um pequeno pedaço de fermento discípulos da presença simbólica do Reino, não leva a sério
fermentou 35 quilogramas de massa de pão; de um minús- o envio dos discípulos nem entendeu que no pensamento bí-
culo grão de mostarda cresceu um grande arbusto, a cuja blico-judaico o Reino de Deus tem de ter um povo. R. SCHNA-
sombra os pássaros fazem ninhos. Jesus conta também as CKENBURG diz com toda razão+' "A comunidade que se forma
parábolas do crescimento, por se ter deparado com pergun- ao redor de Jesus, o Messias, é da mesma maneira símbolo
tas e dúvidas. Deve ter sido questionado aproximadamente do poder presente do Reino de Deus como o são sua palavra,
nestes termos: "Como é que aquilo que acontece por você e seu agir salvífico, o perdão dos pecados, as expulsões dos
seus discípulos em Israel, tem alguma coisa a ver com o Rei- demônios e as curas". De certo, a Igreja primitiva formulou,
1- ,tiO
til I"',,~ no de Deus?" Quando irromper a soberania de Deus, então mais tarde, em termos de Espírito, exatamente aquilo que em
Israel já estará convertido, os gentios já terão sido expulsos Jesus é o início, em sinais, da plenificação; a saber, a presença
do país, tudo, então, será glória!" Jesus responde a estas ob- já existente do Reino: a vida dos fiéis no Espírito Santo é an-
jeções: "Tão certo como na horta e no campo, de um peque- tecipação da realização escatológica. É preciso, portanto, ser
no começo surge uma farta colheita, aquilo que seus olhos consequente: como, no entender da Igreja primitiva, todos
agora vêem e seus ouvidos agora ouvem (cf. Lc 10,23s), os cristãos possuem o Espírito, assim também, já antes da
transforma-se na glória plena. O Reino de Deus já está no Páscoa, todos aqueles que, em Israel, se deixam reunir por
meio de vocês (cf. Lc 17,21), e ninguém mais pode parar a Jesus, são sinal vivo da presença do Reino de Deus.
obra de Deus. O brilho da cidade escatológica de Deus já A nossa investigação sobre o fundo histórico de Mt 5,13-16,
reluz, e ninguém mais pode destruí-Ia. Não se preocupem: cuja explicação demorou um pouco mais, deveria ter mostra-
seu brilho não vai ficar escondido". do: Mateus não tirou do ar esta interpretação fascinante que
Nossa interpretação, que aproxima Mt 5,14b das pará- nos dá neste texto sobre a Igreja. Ele podia-se apoiar na tra-
bolas do crescimento, pressupõe que, conforme a convicção dição antiga de Jesus, que já aponta na mesma direção. Jesus
de Jesus, o Reino de Deus brilhe não apenas isoladamen- não falou da Igreja. Mas ele reuniu, no meio de Israel e para
te na sua própria atividade, mas também na atividade dos Israel, pessoas em torno de si, que eram para ele a nova fa-
discípulos e, ainda mais, em sua comunidade de discípulos. mília de Deus, o verdadeiro Israel, a cidade escato lógica de
Nunca se deveria colocar isso em dúvida." Pois não é só Jesus
posição, que exerceu uma grande influência e ainda exerce, d. G.
HEINZ, Das Problem der Kirchenentstehung in der deutschen proiestanii-
62 A tese, "que Jesus nunca descreveu a soberania de Deus como atuante schen Theologie des 20. Jahrhunderts (Tubinger Theologische Studien 4),
no tempo presente no círculo de seus discípulos ou seguidores" foi Mainz, 1974,232-235.
defendida especialmente por W. G. KUMMEL. Sobre a evolução de sua 63 R. SCHNACKENBURG, op. cit., 154.
108 A:.IC;I<~Ji\qlJE:.J~~lJS.qlJE~i\. lrsus E SEUS DISCÍPULOS 109

Deus. Para Jesus, nessas pessoas já brilha o Reino de Deus, rica deveria ter mostrado: Jesus está altamente interessado
nelas o futuro Reino já se torna presença em sinais. 1\8 comunidade. Evidentemente, ele dirige-se a indivíduos;
Nas últimas décadas foi acentuado repetidamente e com vvidentemente cada um deve decidir-se em liberdade e re-
razão, que não se devia identificar a comunidade dos dis- llctir sempre de novo sobre esta decisão. Mas Jesus não está
cípulos, respectivamente a Igreja, com o Reino de Deus." interessado na soma de muitos indivíduos, mas em Israel.
Quem conhece a história da ideia do Reino de Deus no âm- O povo de Deus, porém, depois de uma história de mais
bito das Igrejas cristãs sabe como isto foi necessário. Mas se de mil anos, não pode ser fundado nem criado, mas apenas
esta contraposição corretora se tornou co-responsável pelo reunido e reconstituído. É exatamente o que Jesus quer. No en-
fato de na nossa consciência atual a separação entre a Igreja e tanto, a reconstituição do povo de Deus, termo que se impõe
o Reino de Deus se ter tornado cada vez mais profunda, são cada vez mais na exegese do Novo Testamento para desig-
necessárias novas correções. Decisivo na escatologia de Jesus nar a intenção de Jesus relacionada com Israel, deve ser le-
é - e nisso ele se distingue de todos os apocalípticos - que vada a sério na sua acentuação escatológica. Não se trata de
o Reino de Deus se faz presente já agora no meio de Israel: qualquer movimento de reconstituição, mas da reconstitui-
visível, palpável, mesmo se ainda não plenamente realizado. cão escatológica do povo de Deus. O conteúdo central da pre-
Mas sendo assim, então, uma ec1esiologia somente é cor- gação de Jesus é que agora, com sua aparição, os tempos se
reta, quando mantém com firmeza que também na Igreja e completam. As antigas promessas que dizem respeito ao fim
"'"
nas comunidades cristãs o Reino de Deus já deveria estar dos tempos se tornam realidade. O Reino de Deus irrompe.
presente: visível, palpável, experimentável, ainda que não Nesta situação escatológica, Israel deve agarrar a salvação a
plenamente realizado. A situação das pessoas do tempo de ele oferecida, deve converter-se e deixar-se reconstituir para
Jesus deveria ser a situação dos tempos de hoje: o Reino de Deus.
Quando a maioria de Israel recusa este apelo, Jesus con-
Felizes os olhos que vêem o que vós vedes! Pois eu vos digo que centra sua atenção cada vez mais nos discípulos. O grupo
muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes, mas não viram, dos discípulos, porém, para ele, não é, de maneira alguma,
ouvir o que ouvis, mas não ouviram (Lc 10,235 par. Mt 13,165). o "resto sagrado" de Israel ou uma comunidade separada
ao lado de Israel ou até um substituto de Israel. Ele é, muito
8. A VONTADE DE FORMAR COMUNIDADE EM JESUS mais, representante de Todo-Israel que, no momento, ain-
da não pode ser reconstituído na sua totalidade. Ao mesmo
Antes de terminar esta segunda parte, vale a pena um tempo, o grupo dos discípulos é prefiguração daquilo, que
breve olhar retrospectivo. Nossa análise da tradição sinó- o Israel escatológico, reconstituído em todos seus membros,
deve ser um dia. Isto, porém, significa: mesmo na crise de
Israel, Jesus não abandona sua pretensão a Todo-Israel, que
64 Assim, por exemplo, R. SCHNACKENBURG, id., 247s; J. R. W. STOTI, op. cit.
STOTI, porém, aponta com ênfase o relacionamento profundo entre o
ele, desde já, reivindica com a constituição dos Doze em si-
Reino de Deus e o povo de Deus (13s). nal profético.
110 .. ................H HHAIC;I<~Ji\HqlJE)~~lJSglJERIi\ 'I':SUS E SEUS DISCÍPULOS 111

Esta concentração total em Israel que atinge seu ponto A ética de Jesus aponta para um povo escatológico de
culminante na última ceia (cf. 1,7), não exclui, de modo al- I)eus, renovado neste sentido. Não se dirige ao indivíduo
gum, o universalismo da salvação. Pelo contrário! A ideia isolado, pois este não é capaz de representar nem de viver
da peregrinação dos gentios prova que Jesus vê o papel de ,18 dimensões comunitárias do Reino de Deus. A ética de Je-

Israel no horizonte universal da tradição de Isaías: Israel não sus também não se dirige ao mundo em sua totalidade. Pois
é eleito por causa própria, mas como sinal da salvação uni- ,10 mundo em sua totalidade só pela força podem ser im-
versal para todas as nações. O Reino de Deus na sua forma postas uma nova ordem social e uma nova ordem de vida.
definitiva é, por isso, para Jesus, uma grandeza universal, Mas exatamente isto seria contra a natureza mais íntima da
que ultrapassa o Israel atual. Mas isto não quer dizer que soberania de Deus. Deste modo resta apenas um caminho:
a soberania de Deus se impõe de uma vez ao mundo intei- que Deus começa, em qualquer lugar no meio do mundo, a
ro. Não cai das nuvens, mas é mediada historicamente. Ela criar o novo no seu povo. E quando este povo se nega a co-
impõe-se brilhando num povo concreto, a saber, em Israel, operar, então, num grupo ainda menor: na nova família dos
e manifestando assim sua natureza, no meio do mundo. O discípulos que Jesus reúne em 'torno de si.
Reino de Deus não é, portanto, de modo algum, algo que: Mas é correta esta imagem global desenvolvida nas pri-
t.!!! paira livremente e sem lugar, mas está ligado a um povo meiras duas partes deste livro? Isto decide-se, em última
concreto, o povo de Deus. Como poderia chegar a soberania análise, pelo fato de se conseguir, ou não, colocar sempre de
~", ..
de Deus na terra, se não fosse aceita por homens - mais, por novo todos os textos da tradição sinótica, sem os forçar, den-
homens que possam manifestar as dimensões sociais do Rei- tro desta imagem. Existe, porém, um segundo critério: como
no de Deus dentro de sua própria textura social? agiu a Igreja primitiva, em cujo início estão as testemunhas
Na medida, em que o povo de Deus se deixasse envol- oculares e sucessores imediatos de Jesus, em assuntos de co-
ver pela soberania de Deus, ele mudaria em todas as dimen- munidade? Sua práxis e auto compreensão é a melhor e mais
sões da sua existência. Ele tornar-se-ia uma sociedade de antiga interpretação da vontade de Deus, de que dispomos.
contraste. Isto não significaria, de modo algum, um Estado Coloquemos, pois, numa terceira parte, a questão da Igreja
teocrático. Tornar-se-ia, isso sim, uma família de irmãos e primitiva. Uma apresentação abrangente da autocompreensão
irmãs, como Jesus a constituiu no seu grupo de discípulos. das comunidades neotestamentárias é, naturalmente, im-
O que se delineia no grupo dos discípulos de Jesus e, possível no âmbito deste trabalho. Podemos apenas apre-
para além dele, como início do Israel escatológico, é mais do sentar algumas amostras, em pontos especialmente impor-
que uma comunidade meramente ideal, mais do que uma tantes, que resultaram das primeiras duas partes.
societas in cordibus. Aqui existem, conforme a vontade de Je-
sus, relações sociais diferentes das existentes na sociedade
restante: não existe retaliação, não existem mais estruturas
de domínio. Já nestes pontos torna-se evidente, que se trata
aqui de uma realidade social bem concreta.
TERCEIRA PARTE
'"
AS COMUNIDADES
NEOTEST AMENT ÁRIAS
NO SEGUIMENTO DE JESUS

1. A IGREJA COMO POVO DE DEUS

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:..• , A autocompreensão dos discípulos, depois da Páscoa,
mostra-se primeiramente no seu comportamento; ela mani-
j.
festa-se na sua maneira concreta de agir. E imediatamente
cai na vista: os discípulos deixam a Galileia, apesar de as
primeiras aparições pascais terem acontecido lá; eles se reú-
nem em Jerusalém e ficam na capitaL O movimento cristão
não parte da Galileia, mas de Jerusalém. É lá que ele tem
seu centro durante anos. A comunidade primitiva surge em
Jerusalém, não na Galileia.
A razão deste comportamento fora do comum dos dis-
cípulos é sua escatologia. Eles estão convencidos de estar no
meio dos acontecimentos finais e, por isso, esperam a ma-
nifestação definitiva do Reino de Deus exatamente lá onde,
conforme a fé judaica, os acontecimentos finais têm início:
em Jerusalém. 65
Exatamente pelo fato de os discípulos interpretarem es-
catologicamente sua existência, eles sentem-se diante da tarefa
de chamar, mais uma vez, Todo-Israel à conversão. A parusia

65 Cf. aqui mais detalhadamente: G. LOHFINK, "Der Ablauf der Ostere-


reignisse und die Anfãnge der Urgemeinde", ThQ 160 (1980), 162-176.

l.
116 .....AIC;~~Ji\qlJE)~~lJSqlJ?l~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMO DE

do Filho do Homem está iminente, por isso a conversão do escatológica de Israel, começada por Jesus, estmdo continuada
povo de Deus é mandamento imperioso. Os Atos dos Apósto- pela comunidade pós-pascal dos discípulos enielidade a Jesus.
los narram, paradigmaticamente, a pregação cristã da con- No entanto, este movimento da reconstitui. acontece sob o
versão ao Israel descrente em quatro discursos dos apóstolos signo da possibilidade de conversão; comida novamente
(2,14-40; 3,12-26; 4,8-12; 5,29-32). Em sua formulação, estes ao povo pela morte expiatória de Jesus. Enlação ao movi-
discursos são obra do autor dos Atos dos Apóstolos. Mas mento da reconstituição é imprescindível, rtarrto, conside-
não se pode duvidar do fato de uma pregação pós-pascal de rar a mudança da situação histórico-salva, surgida pela
conversão dirigida a Israel. morte de Jesus. A situação de Israel é quficada, a partir
O fato de a comunidade dos discípulos se dirigir a Israel de agora, pela entrega da vida de Jesus E favor do povo
é mostrado também no fenômeno do batismo cristão antigo de Deus. Por isso, nesta situação históricolvífica mudada
(cf. At 2,38-42). Este batismo é pensado como sacramento não é mais suficiente anunciar, como [esue Reino de Deus.
escatológico para Israel: diante do fim iminente, o povo de Para além disso, tem de ser anunciada a me de Jesus, como
Deus deve ser selado para poder subsistir no juízo do Filho fundamento de possibilidade de nova corrsão para Israel.
do Homem. A situação do batismo de João se repete sob Esta nova situação histórico-salvífica mos-se muito visi-
I,li,
um novo signo: também o batismo do cristianismo primi- velmente no batismo cristão antigo: a cornidade primiti-
tivo serve para a reconstituição e preparação escatológica va recorre ao batismo de João, mas agora a realiza-o "em
1~~'Ii:",1

de Israel." nome de Jesus" (cf. At 2,38), o que signifi, que o Israelita


Ainda um terceiro fenômeno ilumina a autocompreen- batizado é posto dentro da salvação dada efetuada por Je-
são da comunidade primitiva: depois da separação de Judas sus. Assim continua, portanto, o movimen da reconstitui-
Iscariotes, o círculo dos Doze é completado por eleição (cf. ção, iniciado por Jesus, mas continua sob sno cristológico.
At 1,15-26). Esta complementação só é compreensível, tendo Esta práxis extremamente consciente teologicamente
em vista a função original do círculo dos Doze: os Doze são muito significativa da comunidade prirnita mostra que ela
testemunhas escatológicas em favor, respectivamente contra Is- não se compreende, de modo algum, comconventículo que
rael (cf. acima 1,2).No momento em que, em virtude da morte se distingue do resto de Israel somente pona fé concreta no
expiatória de Jesus, a conversão é oferecida mais uma vez ao Messias, mas que se confunde com o judamo em todos os
povo, o círculo dos Doze deve ser "capaz de ser símbolo", isto demais aspectos. A vontade renovada de 'constituir Israel
é, em vista do povo das doze tribos, estar completo." já supõe que a comunidade dos discípulose compreende a
A complementação do círculo dos Doze, a oferta do batis- si mesma como o verdadeiro Israel. Isto tornse claro também
mo e a volta dos discípulos a Jerusalém provam: a reconstituição por duas autodesignações, que podem serncontradas já na
comunidade primitiva de Jerusalém.
A comunidade cristã de Jerusalém chaa-se a si mesma
66 Mais extensamente: G. LOHFINK, "Der Ursprung der christlichen a "ekklesia de Deus" (cf. 1Cor 15,9; Gl 1,11.Em si, no gre-
Taufe", ThQ 156 (1976), 35-54.
go, ekklesia significa reunião pública, a renião do povo da
67 Cf. G. LOHFINK, op. cit., 170s.
118.. .... . .HHHHH HAlc;R.~JA(2{]EJ~~{]SgUEl~IJ\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

comunidade política. A Setenta, porém, traduz, em muitas antes com a pretensão de reconstituir Israel em vista da imi-
e importantes passagens, o termo qahal, isto é, a reunião do nência do Reino de Deus iminente.
povo da aliança do Antigo Testamento diante de Iahweh, Pelo menos tão notável como a reivindicação imediata
por ekklesia. Importante é especialmente Dt 23,2-9 e sua in- da ideia do povo de Deus pela comunidade primitiva, é o fe-
terpretação judaica antiga. Aqui ekklesia é compreendida nômeno seguinte: mesmo naquela fase histórica, em que as
como verdadeiro povo de Deus que se separa de tudo que antigas comunidades se abrem para as nações pela aceitação
é profano e impuro. Diante do pano de fundo desta lingua- de gentios incircuncisos e assim nasce uma Igreja de judeus e
gem bíblica, a comunidade primitiva, quando se chama a si gentios, a ideia de ser o povo de Deus é mantida. Não apenas
mesma "ekklesia de Deus", deve ter-se compreendido como as comunidades judaico-cristãs na Palestina se consideram
o povo eleito de Deus, como o verdadeiro Israel." a si mesmas povo de Deus, mas também, desde o começo, as
Estreitamente ligado a ekklesia está o conceito "os san- comunidades novas das mi~sões, onde os cristãos vindos do
tos", que também remonta ao tempo da comunidade pri- paganismo logo são em número maior.
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/''''i~ mitiva de Jerusalém (d. especialmente At 9,13; Rm 15,25). Foi Paulo quem, em primeiro-lugar, realizou a reflexão
Ela já o encontrou como terminus technicus e o relacionou teológica deste fenômeno extraordinário. Ele reflete sobre
bij,!
consigo mesma. Desde Dn 7 ele significa o povo de Deus do a questão da filiação dos cristãos vindos do paganismo ao
fim dos tempos." povo de Deus sob o título da "descendência de Abraão" (d.
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Não sabemos com exatidão, quando os discípulos de Rm 4; GI3). Paulo pressupõe como evidente que, quem qui-
Jerusalém se designaram a si mesmos como "os santos" e ser participar da salvação, deve pertencer ao povo de Deus,
como a "ekkiesia de Deus". Ambos os termos, porém, devem deve ser descendência de Abraão". Mas como é possível
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remontar aos tempos mais antigos da comunidade primitiva tornar-se descendente de Abraão? Não é pela mera circun-
de Jerusalém, pois eles estão relacionados com o movimen- cisão; nem pela observância da lei do Sinai! Alguém só se
to pós-pascal da reconstituição, acima esboçado. Ambos os torna descendência de Abraão se crê como Abraão. Por isso,
termos deixam transparecer uma autoconsciência extraordi- todos que creem no Cristo, são os verdadeiros descendentes
nária. Já pouco tempo depois da Páscoa, a comunidade pri- de Abraão, isto é, o verdadeiro povo de Deus.
mitiva compreende-se a si mesma como o verdadeiro Israel, É surpreendente até que ponto a teologia paulina utili-
como o povo escatológico de Deus. Uma autoconsciência za conceitos rigorosamente orientados para a ideia do povo
como esta seria impensável, se Jesus não tivesse aparecido de Deus e que só podem ser compreendidos a partir dela."
Sem distinção entre cristãos, judeus e gentios, os privilégios
68 Uma boa visão da discussão recente sobre ekklesia oferecem H. MERK- de Israel valem para todosos que creem no Cristo: Abraão
LEIN,"Die Ekklesia Gottes. Der Kirchenbegriff bei Paulus und in [eru-
salem", BZ 23 (979),48-70, e W. KLAIBER, Rechtfertigung und Gemeinde.
Eine Untersuchung zum paulinischen Kirchenverstiindnis (FRLANT 127), 70 Cf. para o seguinte: N. A. DAHL,Das Volk Gottes. Eine Untersuchung zum
Gõttingen, 1982, 11-21. Kirchenbewusstsein des Urchristentums, Darmstadt, 1963; W. KLAIBER. op.
69 Cf. W. KLAIBER,op. cit., 22. cit.,11-50.167-170.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE
120 A.Ic;R.~Ji\.qlJE.J~~LJ~.9{]IiR.I.i\.

é seu pai (Rm 4,12); eles são os herdeiros (GI 3,29); eles são somente é aquilo que acontece pelo Espírito no coração
os filhos da promessa (GI4,28); eles são os eleitos (Rm 8,33); (Rm 2,29).
eles são os chamados (Rm 1,6s); eles são os amados (Rm 1,7); Em nenhum lugar, Paulo designa diretamente a Igre-
eles são os filhos, os filhos de Deus (Rm 8,16; GI3,26). ja como o "verdadeiro Israel" - ele teria de falar, então, do
Devem-se considerar que estes conceitos não são com- "Israel segundo o Espírito". Apesar disso, a realidade como
preendidos por Paulo num sentido vago, individualista; to- tal é sempre expressa indiretamente. O mesmo vale para
~
dos eles, sem exceção, pertencem ao contexto da ideia de os outros autores dos escritos do Novo Testamento. Quem
"povo de Deus". Assim, por exemplo, a declaração dafilia- se dirige aos cristãos como às "doze tribos da dispersão"
ção divina não pode ser equiparada à ideia estóica da filia- (Tg 1,1), entende a Igreja como o verdadeiro Israel.
ção divina de todos os homens. Aqui trata-se daquela filiação Não é necessário continuar com considerações semelhan-
que, conforme a fé judaica, pertence apenas ao povo de tes. Seja dito apenas o seguinte: já a argumentação escriiuris-
Deus e a seus membros: tica, usada em toda a parte no Novo Testamento, pressupõe
a convicção de ser o verdadeiro Israel. Pois a argumentação
Amados (por Deus) são os israelítas, escriturística manifesta a pretensão das comunidades cris-
I)!i,; tãs às escrituras. Mais ainda, ela manifesta sua pretensão de
pois eles foram chamados filhos de Deus;
um amor especial foi manifestado a eles, possuir a verdadeira compreensão das escrituras, concedida
""1111,111

que fossem considerados filhos de Deus, pelo Espírito (cf. 2Cor 3,14-16).
pois está escrito: A pretensão das comunidades cristãs de serem elas mes-
"Sais filhos de lahweh vosso Deus" (Dt 14,1) mas o verdadeiro Israel, criou, contudo, um problema que
(Rabi Akiba, Abot III 15). não pode ser, de modo algum, ignorado aqui. Exatamente
esta pretensão devia levar facilmente a recusar pura e sim-
A extensão consequente dos títulos honoríficos do an- plesmente ao Israel, que não acreditava em Cristo, a fun-
tigo povo de Deus à Igreja de judeus e gentios, em Paulo, ção de povo de Deus e a negar sua função histórico-salvífica
é ainda muito mais ampla: aqueles que creem em Cristo, posterior.
estão sob a nova aliança do fim dos tempos (2Cor 3,6); seu De fato, este passo teológico com consequências graves
rosto reflete a glória do Senhor, este esplendor brilhante já foi dado no século primeiro por uma série de autores do
de sua poderosa presença com que ele acompanhou os Novo Testamento - de modo mais decidido por Mateus" e
antepassados de Israel através do deserto, e que depois Lucas.? O texto Mt 21,43 fornece a prova mais clara:
recebeu no Templo seu lugar definitivo (2Cor 3,8). As co-
munidades daqueles que creem em Cristo são templo de
71 Cf. W. TRILLING, Das wahre Israel. Studien zur Theologie des Matthiius-
Deus repleto do Espírito Santo (lCor 3,16); são a planta-
Evangeliums (StANT 10), 3n ed., Munique, 1964.
ção de Deus (lCor 3,5-9); são o edifício de Deus (lCor 3,9). 72 Cf. G. LOHFlNK, Die Sammlung Israels. Eine Untersuchung zur lukanischen
Até são a verdadeira circuncisão (FI 3,3), pois circuncisão Ekklesiologie (StANT 39), Munique, 1975.
122 As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE
..AI<:;~E.J1\C2lJEJE.?lJ?glJE:lZl1\
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Por isso vos afirmo 2. O fracasso de Israel é colocado como advertência cons-
que o Reino de Deus vos será tirado tante diante dos olhos da Igreja: ninguém que foi chamado
e confiado a um povo pode se tornar presunçoso; Deus não poupa uma Igreja des-
que produza seus frutos. crente como não poupou o Israel descrente (11,20-22).
3. O fracasso de Israel dá uma esperança contínua, in-
Esta desqualificação histórico-salvífica da sinagoga, no destrutível: a Igreja pode aprender com Israel que Deus é
entanto, era teologicamente muito problemática (abstraindo fiel e nunca retira a sua graça. Apesar do seu fracasso, Israel
agora completamente das terríveis perseguições dos Judeus continua chamado (11,29). Não é rejeitado (11,1),mas é ama-
que ela favoreceu). Pois Jesus queria exatamente a reconsti- do para sempre por Deus (11,28). Um dia tornar-se-á, nova-
tuição de todo povo de Deus e, mesmo na sua morte, manteve mente, o verdadeiro Israel (11,26s) e dará vida ao mundo
sua missão para com Todo-Israel. Sua comunidade dos dis- todo pela sua salvação (11,12).
cípulos não foi concebida como substituta ou até sucessora 4. Neste meio tempo, a Igreja tem, principalmente, a
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de Israel, mas ela devia estar aberta para Israel e, constan- tarefa de tornar Israel ciumento (11,11.14). Com isto, Paulo
temente, orientada para Israel. Ela devia prefigurar o Israel quer dizer: a Igreja deve viver sua existência messiânica de
"'ir. escatológico; ela devia representar, como sinal, aquilo que maneira tão convincente que Israel abandone sua reserva e
em si deveria ter acontecido em Todo-Israel. chegue à fé. A descrença de Israel, portanto, é uma interro-
"·I:AII
Tendo em vista esta pretensão persistente de Jesus a todo gação constante à Igreja, se está realizando com credibilida-
o Israel, toda a eclesiologia que não elabora o relacionamento de sua existência como povo de Deus."
histórico-salvífico permanente entre Igreja e sinagoga, deve Conforme Paulo, portanto, a Igreja sem Israel nem se-
ser questionada como algo que não é de Jesus. quer pode existir. Não é apenas o fato de viver, enquanto
Felizmente, no conjunto das teologias do Novo Testa- ramo enxertado, da força da antiga oliveira Israel (Rm 11,17).
mento, existe pelo menos uma voz que afirma clara e decidi- Também chega a conhecer, através do Israel que se tornou
damente a função histórico-salvífica do Israel que não crê no culpado, o perigo constante do orgulho dos eleitos e o amor
Cristo: é Paulo nos três capítulos sobre Israel na Epístola aos irrevogável de Deus que elege. Mais ainda: somente Israel
Romanos (Rm 9-11). Ele declara com toda clareza: é capaz de colocar radicalmente a Igreja sempre e de novo
Nem todos que são descendentes de Israel são, só por isso, frente à pergunta, se está, de fato, vivendo sua existência
Israel (9,6).Israel são apenas aqueles que creem em Cristo (9,30- messiânica. Por isso a Igreja perderia sua identidade se se
10,21).No entanto, a história de todos que creem em Cristo per- esquecesse de sua relação contínua com Israel.
manece indissoluvelmente vinculada com a história do outro
Israel. Paulo ilumina esta vinculação de vários pontos de vista:
1. Exatamente pelo fracasso de Israel a salvação veio às 73 Bem elaborado por B. KLAPPERT, Traktat fur Israel (Ram 9-11). Die pau-
linische Verhiiltnisbestimmung von Israel und Kirche, em: M. STÓHR (ed.),
nações (11,11). Foi exatamente pelo fracasso de Israel que os
Judische Existenz und die Emeuerung der christlichen Theologie, Munique,
gentios foram inseridos na história de eleição de Israel. 1981,58-137, cf. esp. 111-113.
124 A.IC;~~Ji\.qlJE.J~~lJS ..qlJ.E.~I~ 1\5 COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIME]\)T()I)E)~~lJS 125

Somente agora, que as declarações de Rm 9-11 foram ex- acontecimentos de Pentecostes, cita, em lugar de destaque
postas em toda a sua abrangência, podemos dizer, resumin- (de forma levemente modificada) Joel3.
do, como conclusão do capítulo: os discípulos retomaram,
depois da Páscoa, a reconstituição de Israel, iniciada por Je- Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor,
sus. Eles compreendiam-se a si mesmos como o verdadeiro que derramarei do meu Espírito sobre toda carne.
Israel, levando, com isso, a sério a ideia de Jesus referente ao Vossos filhos e filhas profetizarão,
grupo dos discípulos, enquanto prefiguração do Israel esca- vossos jovens terão visões
tológico. Quando a Igreja estava em perigo de desqualificar e vossos velhos sonharão.
o Israel descrente na sua função histórico-salvífica, Paulo Sim, sobre meus servos e minhas servas
elaborou a vinculação permanente entre Igreja e sinagoga, derramarei do meu Espírito.
mantendo, deste modo, a orientação da comunidade dos E farei aparecerem prodígios em cima, no céu,
discípulos para Todo-Israel, no sentido de Jesus. e sinais embaixo, sobre a terra ... (At 2,17-19).
, 4;~

2. A PRESENÇA DO ESPÍRITO Provavelmente, a comunidade primitiva já interpretou


ik muito cedo com este texto os fenômenos carismáticos que
o fatode a comunidade primitiva se compreender a si nela aconteciam (profecias, visões, milagres de cura) como
lUu:t
mesma como o verdadeiro Israel, não era uma pretensão ide- dons do Espírito Santo concedidos ao Israel verdadeiro, es-
ológica, que não tivesse o respaldo com a realidade. Por trás catológico. Por isso é impossível falar da autocompreensão
desta autocompreensão estava, muito mais, uma história de da Igreja primitiva sem se ocupar com a experiência da pre-
experiências muito concretas: primeiro o movimento da re- sença viva do Espírito em seu meio. Experiência do Espírito,
constituição do próprio Jesus, que levou a divisão em Israel; porém, existia em várias formas dentro da Igreja primitiva;
para além disso especialmente as manifestações imponentes vamo-nos ocupar seguidamente, apenas com uma espécie
do Espírito, que aconteceram repentinamente na comunida- de acontecimentos carismáticos, os milagres da cura. Por-
de primitiva depois da Páscoa. Segundo as Escrituras, a vin- que, no nosso contexto, não interessa uma descrição deta-
da do Espírito de Deus é um fenômeno do fim dos tempos: o lhada da Igreja primitiva, mas a sua fidelidade a Jesus e a
Espírito é descrito como a dádiva de Deus à comunidade escaio- sua continuidade com sua obra.
lógica, mais ainda: como a força de Deus que cria realmente Vimos acima (d. 1,3): as curas de doentes não podem
o Israel escatológico (d. Is 32,15; 44,3; Ez 11,19; 36,26s; 37,14; ser separadas da vida de Jesus. Elas estão unidas insepara-
JI3,1s). As experiências profundamente impressionantes do velmente com seu anúncio do Reino de Deus. O Reino de
Espírito na comunidade primitiva tinham de aprofundar a Deus não vem apenas na palavra, mas também nas obras.
consciência já despertada por Jesus: agora acontece a reali- Ele envolve o homem todo. O homem todo, porém, nunca é
zação escatológica, agora o povo de Deus é reconstituído! indivíduo isolado. A ele pertence a sociedade que o envolve.
Não é por acaso que Lucas, no contexto de sua narrativa dos Por isso os milagres de cura operados por Jesus não podem
126 ........HAIC;~~Ji\qTJEJ~~lJSglJ~RIi\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

ser vistos como obras feitas em indivíduos. Elas sempre têm milagre concreto: a cura do coxo no Templo por Pedro e
a ver com o povo de Deus em sua totalidade. Muitas doenças João (At 3,1-10).
somente são curáveis, quando é curado, conjuntamente, todo o Mas, de acordo com Lucas, não são somente os apóstolos
ambiente em volta do doente. A doença do indivíduo é sempre que 'operam milagres, mas todos os grandes anunciadores: Es-
uma ferida aberta de uma sociedade doente. Esta vinculação têvão (6,8), Filipe (8,6-8.13), Barnabé (15,12) e Paulo (13,6-12;
entre doença e ambiente aparece especialmente nos fenômenos 14,3.8-18; 16,16-18; 19,11s; 20,7-12; 28,1-6.8-10). Os Atos dos
de possessão, que são primeiramente objetivações psicossomá- Apóstolos estão cheios de relatos de milagres ou de notícias
ticas de coações e desumanidades de uma sociedade doente." sumárias sobre a atividade de milagres dos anunciadores. As
Quando o Reino de Deus se faz presente, deve, portanto, não curas dos doentes e expulsões de demônios, que Lucas pode
se limita a curar a corporalidade do homem até seus níveis narrar com base numa numerosa tradição, apoiam o anúncio
mais profundos; mas também tem que curar até a dimensão como "sinais legitimadores"." Elas mostram a força irresis-
mais profunda do social; deve tornar livre para a nova comu- tível do Evangelho que ninguém consegue parar. Mostram
nidade; deve libertar dos demônios isoladores e destruidores também que o Evangelho é uma força libertadora e salvado-
,~~
de uma sociedade doente; deve libertar da possessão. ra. Enquanto o Israel descrente é incapaz de operar milagres
li(: Somente a partir daqui se pode compreender o enlace (At 19,13-16), o milagre floresce no verdadeiro povo de Deus
entre anúncio e terapia em Jesus. Ele envia os Doze não só (cf. ainda At 5,12-16; 9,17-19.32-35.36-43).
N,I:lill
para pregar, mas também para curar: O que Lucas conta deste modo, não é um enfeite pos-
terior, transfigurando romanticamente o tempo inicial da
Convocando os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os Igreja. O autor da Epístola aos Hebreus, completamente
demônios, bem como para curar doenças e enviou-os a proclamar independente de Lucas, vê as coisas exatamente da mesma
o Reino de Deus e a curar (Lc 9,ls). maneira. Logo no começo da epístola ele exorta os leitores
a não desprezarem o Evangelho pelo qual chegaram à fé. E,
É fascinante que o enlace entre anúncio e cura perma- em seguida, ele diz deste Evangelho:
nece na Igreja primitiva. Depois da narração da primeira
Como escaparemos nós (do Juízo de Deus), se negligenciarmos tão
apresentação dos apóstolos no dia de Pentecostes - o gran-
grande salvação? Esta começou a ser anunciada pelo Senhor. De-
de discurso de Pedro terminara nesse instante - Lucas re-
pois foi-nos fielmente transmitida pelos que a ouviram, testemu-
lata imediatamente num sumário: "Apossava-se de todos
nhando Deus juntamente com eles, por meio de sinais, de prodí-
o temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que
gios e de vários milagres e por dons do Espírito Santo, distribuídos
se realizavam por meio dos apóstolos" (At 2,43). Após o
segundo a sua vontade (Hb 2,3s).
sumário, Lucas descreve imediatamente, para ilustrar, um

75 J. JERVELL,Díe Zeíchen des Apostels. Die Wunder beím lukanischen und


74 Cf. os importantíssimos estudos de C. ERNST, Teufelaustreibungen. Die paulinischen Paulus: Studíen zum Neuen Testament und seíner UmweIt 4
Praxís der katholíschen Kírche ím 16. und 17. Jahrhundert, Berna, 1972. (1979),54-75, especialmente 68.
128 AI(:;~IlJf\(2tJIlJIl5.lJsglJ.E~If\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTOI?EJIl5.lJS .. J?9
Também conforme a Epístola aos Hebreus, os milagres aparece exclusivamente como o homem da palavra. A reali-
fazem parte do anúncio apostólico como sinais acompa- dade histórica era completamente diferente. No fim da Epís-
nhantes (d. também Me 16,20). Eles testemunham a verdade tola aos Romanos, Paulo lança um olhar retrospectivo sobre
do Evangelho. O autor da Epístola aos Hebreus, no entanto, a sua atividade apostólica no Oriente e fala aqui - quase aci-
não pensa aqui numa confirmação exterior, por assim di- dentalmente e com a maior naturalidade - dos milagres que
zer, jurídica da mensagem. Os milagres que acompanham o acompanhavam, em toda a parte, seu anúncio da palavra:
Evangelho também tornam claro que a salvação" de Deus /I

(cf. versículo 3) se torna uma realidade palpável. A comuni- Tenho, portanto, de me gloriar em Cristo Jesus, naquilo que se
dade experimenta desde já as forças da era futura (Hb 6,5). refere a Deus, pois eu não ousaria falar de coisas que Cristo não
Paulo mostra como esta concepção dos Atos dos Após- tivesse realizado por meio de mim para obter a obediência dos gen-
tolos e da Epístola aos Hebreus está difundida dentro da tios, em palavra e ações, pela força de sinais e prodígios, na força
Igreja primitiva. Em nenhum lugar ele se pronuncia contra do Espírito de Deus: como desde Jerusalém e arredores até a Ilíria,
'.tlr~'. os milagres. Ele pressupõe, muito mais, como evidente que eu levei a termo o anúncio do Evangelho de Cristo (Rm 15,17-19).
em toda a parte onde uma comunidade cristã vive do Evan-
Ik~ gelho, irrompem forças milagrosas. De acordo com Paulo A Epístola aos Gálatas também é muito instrutiva. Em
os carismas de cura são tão evidentes para uma comunidade 3,5, Paulo pergunta se os cristãos da Galácia receberam a
I"'lta~

como os caris mas da profecia ou de governo: salvação pela observância da lei ou pela aceitação do Evangelho.
Ele pode pressupor sem discussão que as comunidades da
E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar,
galácia receberam realmente a salvação. Só precisa aludir a
apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, douto- isso. E de onde sabem os gálatas, que a salvação se tornou
res... Vêm, a seguir, os dons dos milagres, das curas, da assistên-
presente neles? Resposta: pelo Espírito que receberam. E de
cia, do governo e o defalar diversas línguas (lCor 12,28; cf.12,9s).
onde eles sabem que receberam o Espírito? Resposta: pelos
Onde uma comunidade aceita o Evangelho, é libertada prodígios que aconteceram e ainda acontecem no meio deles:
uma nova realidade, que alcança profundamente a dimen-
são da corporalidade. Por isso, Paulo está convicto de que os Ó gálatas insensatos! ... Só isto quero saber de vós: foi pelas obras
milagres fazem parte constitutiva do anúncio do Evangelho da Lei que recebestes o Espírito ou pela adesão à fé? Sois tão insen-
(d. 1Cor 2,4s; 2Cor 12)2; 1Ts 1,5). J. JERVELL apontou com satos que, tendo começado com o espírito, agora acabeis na carne?
toda a razão que, na maior parte das vezes, este aspecto do Foi tão em vão que experimentastes tão grandes coisas! Se é que
trabalho missionário de Paulo é passado por alto ou mes- fui em vão! Aquele que vos concede o Espírito e opera milagres
mo reprimido." Na imagem hodierna de Paulo, o apóstolo entre vós o faz pelas obras da Lei ou pela adesão à fé? (G13,1-5).

Em GI 3,1-5 aparece uma conexão, que é da maior im-


76 J. JERVELL, id., ° mesmo,
Der unbekannte Paulus, em: S. PEDERSEN (ed.), Die pau-
linische Literatur und Theologie (Skanclinavische Beitrãge), Cõttingen, 1980, 29-49. portância para nós: os milagres nas comunidades não podem
130 . ...Alc;~~Ji\:qlJEJ~:;lJSqlJEl{IA As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

ser descritos apenas como sinais legitimadores que acompanham do Reino de Deus (cf. porém Rm 14,17; 1Cor 4,20). A sua
o anúncio do Evangelho, mas também como sinais da presença do experiência decisiva, na qual ela compreendeu realmente
Espírito. Evidentemente, os dois aspectos estão intimamente o já da salvação concedida, é a experiência do Espírito. A
relacionados entre si, pois a fé no Evangelho dá o Espírito. efusão do Espírito de Deus esperada para o fim dos tem-
No entanto é necessário realçar expressamente a conexão pos já aconteceu, ele já age nas comunidades nos múltiplos
entre a presença do Espírito e os milagres nas comunidades. carismas. Jesus fala da presença do Reino de Deus; a Igreja
Exatamente aqui mostra-se novamente com que fidelidade primitiva fala da presença do Espírito. A linguagem, por-
as linhas básicas da atividade de Jesus continuam na Igreja tanto, mudou, partindo das experiências depois da Páscoa.
primitiva. Como? Mas a linha básica da mensagem de Jesus continua: o futu-
A peculiaridade característica do anúncio de Jesus está ro da salvação escatológica já começou!
no fato de os acontecimentos finais não serem agio exclusi- Por causa disso não é por acaso que os milagres de Je-
vamente futuro. O Reino de Deus já desponta. Diante dos sus têm continuação na Igreja primitiva pelos milagres dos
olhos daqueles que entendem os sinais dos tempos, já se tor- mensageiros e carismáticos. E,~muito menos ainda, é por
na presente. Que o Reino de Deus já está presente, mostra- acaso que eles são descritos como milagres na força do Espí-
1,1k; se, sobretudo, nos milagres de cura de Jesus. rito (cf. At 2,13,9; 1Cor 12,9s;GI3,5). Milagres e sinais fazem
parte da essência das comunidades do Novo Testamento,
"· • .111~.
Contudo, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, en- do mesmo modo que eram essenciais para a proclamação de
tão o Reino de Deus já chegou até vós (Lc11,20;cf, 17,21). Jesus. Onde a salvação de Deus se torna presente, doença e
possessão têm de desaparecer.
Pode-se estabelecer mesmo a seguinte regra: em toda a As nossas comunidades de hoje fariam bem em refle-
parte onde Jesus fala da presença do Reino de Deus, ele pensa tir, porque no meio delas não acontecem mais milagres
nos seus milagres e nas suas obras de poder. A presença do - ou porque ninguém mais conta os milagres que acon-
Reino de Deus, para Jesus, manifesta-se claramente na liber- tecem. Evidentemente hoje deveremos falar de maneira
tação dos homens de doenças e possessão. muito mais diferenciada dos milagres do que os cristãos
A Igreja primitiva manteve firme esta peculiaridade da Igreja antiga. E devemos ter clareza de que existe, de-
decisiva do anúncio de Jesus, que os acontecimentos finais vido à história, uma mudança na maneira do desenrolar
já começaram e que a salvação esperada já se faz presen- dos milagres. Pois a cura concreta é sempre também a
te? A resposta é um sim incondicional. As comunidades realização inconsciente psicossomática de uma esperança
do Novo Testamento mantêm firme a tensão entre o já da determinada e condicionada pela época e ambiente. Ape-
presença da salvação que agora se realiza e o ainda não da sar disso, lá onde as comunidades cristãs se transformam
consumação que está para vir. A salvação já é presença - novamente em verdadeiras comunidades, vai começar o
mesmo que a consumação ainda não tenha chegado. No milagre.
entanto, a Igreja primitiva já quase não fala da presença
132 ...HHH. ........H AIC;~~JJ\qlJE)~~lJSqlJEI~IJ\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

3. A ABOLIÇÃO DAS BARREIRAS SOCIAIS Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor,
que derramarei do meu Espírito sobre toda carne.
No capítulo precedente encontramos o texto de [oel Vossos filhos e vossas filhas profetizarão,
3,1-5. Manifestamente este texto desempenhou um papel vossos jovens terão visões
importante para a autocompreensão da Igreja antiga. É e vossos velhos sonharão.
pouco provável que tenha sido Lucas o primeiro a fazer Sim, sobre meus servos e minhas servas
uso dele para interpretar os acontecimentos de Pentecos- derramarei do meu Espírito (At 2)75).
tes. [oel 3,1-5 já poderia ter dado à comunidade primiti-
va a evidência de que os fenômenos extáticos e proféti- Vê-se claramente que o profeta não fala apenas da vinda
cos que nela irrompem abruptamente" a partir do dia de escatológica do Espírito de Deus, mas também da concessão
Pentecostes, signifiquem a efusão escatológica do Espírito. do Espírito a todo povo de Deus com a supressão de todas
O texto de [oel, porém, não colaborou apenas para uma as diferenças sociais. "Toda a carne" significa - como o con-
.I~:J:~'
•. J
interpretação escatológica de glossolalia e profecia, ele texto mostra claramente - não a humanidade inteira, mas
podia também tornar compreensível um fenômeno social o povo de Deus com todos os seus grupos e em toda a sua
1,1j(:' do qual cada vez mais se tomava consciência: os discípu- extensão. As barreiras sociais em Israel são derrubadas pelo
los de Jesus, que se reuniam em Jerusalém, tornaram-se Espírito; a experiência avassaladora do Espírito levou a uma
'.lIm~
cada vez mais comunidade, a saber, uma comunidade, na nova comunidade. Em At 2 esta dimensão social da profe-
qual todos estavam tomados por Deus e assim também cia de Joel não é suprimida, mas, ao contrário, ainda mais
entraram entre si num novo relacionamento, que excluiu ampliada. É constatado expressamente, através de uma am-
privilégios e marginalizações. pliação do texto do Antigo Testamento (de acordo com a Se-
[oel anuncia esta nova estrutura social do povo de tenta), que os servos e as servas não apenas têm participação
Deus, quando diz: quando Israel for chamado novamente no Espírito, mas que também eles "profetizam".
à vida, Deus derramará seu Espírito sobre todo o povo. Is- Se a nossa tese, anteriormente desenvolvida, que a pre-
rael inteiro vai-se tornar, então, um "povo de profetas"." O sença do Reino de Deus em Jesus corresponde à presença do
dom do Espírito, a partir de então, não é mais o privilégio Espírito na Igreja primitiva, está certa; então a abolição das
de um profeta ou de um grupo de profetas. Muito mais, to- barreiras sociais no povo escatológico de Deus, da qual a
dos em Israel tornam-se pessoas dotadas do Espírito: tanto comunidade primitiva tomou consciência a partir de [oel
as mulheres como os homens, tanto os jovens como os ve- 3, deve ter tido o seu início já na Práxis-do-Reino-de-Deus,
lhos, tanto os escravos como os livres: por parte de Jesus. O Novo, que tomou forma na comuni-
dade primitiva através das experiências pascais do Espírito,
77 Cf. sobre este tema G. LOHFINK, op. cit., 164-174.
deve ter sido, então, ao mesmo tempo, continuação daqui-
78 H. W. WOLFF, Dodekapropheton 2 Joel und Amos (Bk.AT 14, 2), Neukirch- lo que o próprio Jesus já iniciara. Este é também, realmen-
en-Vluyn, 1969,79. te, o caso: é característico de Jesus edifica, constantemente,
134 ......................................................................
AIc:;~~Ji\qlJEJ~~lJSglJEl~li\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

comunidade" - exatamente para aqueles que eram excluídos Isto quanto à práxis de Jesus! Antes de passarmos à
da comunidade ou que eram desconsiderados do ponto de Igreja primitiva para verificar se ela continuou esta práxis,
vista religioso. Por sua palavra e, mais ainda, por seu compor- déve ser abordada uma grave objeção: apesar de sua prá-
tamento concreto, Jesus deixa claro que não reconhece delimi- xis ousada, que rompia a consciência do seu tempo, Jesus
tações e desclassificações de caráter religioso-social. O Reino não se comportou de modo restritivo num ponto determina-
de Deus não tolera classes e, em princípio, ele está aberto para do, a saber, em relação à mulher? Ele não aceitou nenhuma
todos os homens em Israel que aceitam a mensagem de Jesus. mulher no círculo dos Doze, e ele celebrou a decisiva ceia
Jesus quer Israel como sociedade reconciliada. Por isso diri- pascal antes da sua morte somente com homens. Com isso,
ge-se aos ricos (Lc 19,1-10) e aos pobres (Lc 6,20), às pessoas o papel da mulher no Reino de Deus não era maciçamente
cultas (Lc 14,1-6) e às incultas (Mt 11,25s), à população rural desvalorizado? Mais ainda: já não foram traçadas, com isto,
da Galileia (Me 1,14) e à população urbana de Jerusalém (Mt as linhas decisivas para a formação posterior das estruturas
23,37), aos que têm saúde e aos doentes (Mt 4,23), aos justos ministeriais da Igreja ?80
't~ . (apesar de Me 2,17) e aos pecadores (Lc 19,10).Deve-se até di- Poder-se-á chegar a uma avaliàção errada nesta questão,
zer: Jesus tomou partido em favor dos pobres (Lc 7,22), dos se não se tiver em conta que a constituição dos Doze por par-
k, te de Jesus é uma ação simbólica profética. Os Doze discípulos
famintos (Lc 6,21), dos que choram (Lc 6,21), dos que estão
sobrecarregados (Mt 11,28),dos doentes (Mc 3,1-6), dos peca- significam a pretensão de Jesus ao povo das doze tribos (cf.
1I~ldlil

dores (Me 2,17), dos cobradores de impostos (Mt 11,19), das 1,2). A comunidade primitiva leva tão a sério esta dimensão
prostitutas (Mt 21,31s), dos samaritanos (Lc 10,25-37),das mu- simbólica que, depois da saída de Judas Iscariotes, recons-
lheres (Mt 5,31s), das crianças (Me 10,13-16)- e fez isso, por- titui imediatamente o número doze (At 1,15-26) - de outro
que a sociedade judaica do seu tempo negava a estes grupos a modo, o sinal teria perdido sua força simbólica. Do mesmo
igualdade e até a convivência. A palavra, muitas vezes usada modo faltaria força simbólica ao sinal, se Jesus tivesse admi-
abusivamente para interpretação sentimentais, em Mt 10,14: tido mulheres no círculo dos Doze. Pois os nomes das doze
tribos são os nomes dos filhos de Jacó: Rúben, Judá, Levi,
Deixai as crianças virem a mim. José, Benjamim, Dã, Simeão, Issacar, Zabulon, Gad, Aser e
Não as impeçais, Neftali (Ez 48,30-35). Numa ação profética simbólica que
pois delas é o Reino de Deus, vive do fato de ser imediatamente compreensível, estas tribos

quer tornar claro que no Reino de Deus todos são pessoas


80Assim a declaração da Congregação da fé "Sobre a questão da admis-
que recebem e, por isso, onde irrompe o Reino de Deus, não se são da mulher à função de sacerdotes" do dia 15 de outubro de 1976.
pode desqualificar religiosamente ninguém. Lá argumenta-se: Jesus não chamou nenhuma mulher para fazer parte
do círculo dos Doze, embora o seu comportamento diante das mu-
lheres fosse diferente, de maneira singular, daquele do seu meio am-
79 Cf. G. LOHFlNK, Jesus hat Gemeinschaft hergestellt, em: o mesmo, Glaube biente. Conclusão: Jesus exclui, em princípio, a mulher da função de
braucht Erfahrung, 3a ed., Wurzburg, 1977, 129-132. sacerdote.
136 .. . AI<:;~~Ji\qlJE)~~tJS(2lJE~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

simplesmente não podem ser representadas por mulheres sinal, isto é, na pessoa dos Doze. É aos Doze e a mais ninguém
- pelo menos num ambiente de mentalidade patriarcal. Se que Jesus dá, num gesto solene, pão e vinho para deixar cla-
Jesus tivesse tido essa ousadia, teria privado a própria ação ro que a entrega de sua vida, simbolizada no oferecimento
simbólica de luminosidade e de plausibilidade. do pão e do vinho, é feita em favor do povo das doze tribos,
Agora já se pode compreender, porque Jesus celebrou ísrael. Também aqui teria sido destruída a claridade do sím-
sua última ceia pascal apenas com homens. Em si, a ceia bolo, se Jesus tivesse celebrado sua última Páscoa com um
pascal é uma ceia da família. Os peregrinos para a festa em número qualquer de convivas ou com uma chabura mista de
Jerusalém formavam comunidades de ceia (charurot) com homens e mulheres.
10 a 20 membros, que imolavam um cordeiro e o comiam. Levando a sério as ações simbólicas, sempre precisas em
Uma comunidade de ceia, formada ad hoc podia ser compos- Jesus, segue-se de nossas observações: a ausência de mulhe-
ta apenas por homens, mas normalmente participavam dela res no círculo dos Doze ou no cenáculo não diz nada a res-
também mulheres." No entanto, Jesus, neste caso especial, peito da função que Jesus atribui à mulher dentro do povo
IhJ'~! não deixa participar nenhuma das mulheres que subiram de Deus. Esta ausência é devida pura e simplesmente ao fato
com ele a Jerusalém (Me 15,40s) da sua chabura, mas ele cele- de que os Doze representam as tribos de Israel - e tribos
1,lk}
bra a ceia pascal exclusivamente com os Doze: não podem ser representadas por mulheres, pelo menos no
Oriente daquela época.
•••• ..~I~lôIiI

Ao cair da tarde, ele foi para lá com os Doze. E quando estavam à Não é no símbolo dos Doze, mas na composição do gru-
mesa, comendo, Jesus disse ... (Me 14,17s). po dos discípulos, que se pode ver qual foi, para Jesus, a
função da mulher dentro do Reino de Deus que já desponta.
Por que esta estranha exclusão das mulheres? A resposta E lá se mostra que Jesus integra mulheres no círculo de seus
só pode ser a seguinte: na ceia, a dimensão dos sinais, que já an- discípulos com uma liberdade espantosa e sem consideração
tes tinha um papel extraordinário em Jesus, alcança a suprema para com as ideias do judaísmo da época. No final do trecho
concentração. Jesus simboliza no pão e no vinho sua vida que da crucifixão, Marcos narra que Jesus era acompanhado não
é entregue à morte. Sua morte, porém, é em favor de "muitos": apenas por discípulos, mas também discípulas:

Isto é meu sangue, o sangue da Aliança, E também estavam lá algumas mulheres, olhando de longe. Entre
que é derramado em favor de muitos (Me 14,24). elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor e de Joset, e
Salomé. Elas o seguiam e serviam enquanto esteve na Galileia. E ain-
Vimos que os "muitos" representam, primeiramente, Is- da muitas outras que subiram com ele para Jerusalém (Me 15,40s).
rael (I, 7). Israel, porém, na última ceia, não está presente ape-
nas a nível de palavra interpretativa, mas também a nível de Com base em outras informações, Lucas está em condi-
ções de ampliar e modificar esta lista de nomes. Ele escreve
81 Cf. BILLERBECK, op. cit., Tomo IV 44-46. em 8,1-3:
138 ................... AIC;~~Ji\(2lJE)~SUSglJE~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

Depois disso, ele andava por cidades e povoados, pregando e anun- Vós todos sais filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, pois todos
ciando a Boa-nova do Reino de Deus. Os Doze o acompanhav.am, vós que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo. Não há
assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de espí- judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem
ritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual ha- mulher; pois todos vós sais um só em Cristo Jesus. E se vós sais
viam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Cristo, então sais descendência de Abraão, herdeiros segundo
de Herodes, Susana e várias outras, que o serviam com seus bens. a promessa.

Para nós, é decisiva a notícia mais antiga em Me 15,40s. É importante ver a afirmação decisiva do versículo 28
Quando aí se diz que mulheres, das quais apenas três são dentro do seu contexto. Por isso citamos também o contex-
mencionadas nominalmente como representantes, serviam to. Este mostra imediatamente: não se trata da humanidade
Jesus durante sua atividade na Galileia, isso já indica que se em geral, mas da descendência (do sêmen) de Abraão, trata-
tratava de discípulas. Pois, já vimos antes (2) que, de acor- se daqueles que são herdeiros da promessa feita a Abraão,
~ ~I
do com a compreensão judaica, o discípulo acompanhava trata-se da verdadeira filiação (cf.-3,1) - com uma palavra:
seu mestre auxiliando e servindo. Mais importante, porém, é trata-se do povo de Deus. E, mais precisamente ainda, daque-
kY o seguinte: Marcos usa o verbo akolouthein (seguir), define, le povo de Deus que aqui é determinado como unidade em
portanto, o acontecimento contido na palavra "servir" com Jesus Cristo. Isto, porém, quer dizer: trata-se da Igreja. Ela é
lWi"n

o mesmo termo que caracteriza, na linguagem da Igreja pri- o verdadeiro povo, o povo escatológico de Deus, que nasce
mitiva, a existência dos discípulos de Jesus. Podemos tirar pela fé e pelo batismo. Aqueles que creem em Cristo e se
a conclusão: Jesus também chamou mulheres e as colocou a deixam incorporar no Corpo de Cristo pelo batismo (o texto
serviço do Reino de Deus. diz: deixar-se vestir de Cristo), em Jesus Cristo tornam-se
Ao grupo dos discípulos pertencem, portanto, homens e uma nova comunidade, na qual as divisões, que existem na
mulheres. Mais, conforme a vontade de Jesus, o grupo dos sociedade restante, são abolidas. Em 1Cor 12,12s, a ideia do
discípulos já é o começo do povo escatológico de Deus. Nele corpo aparece ainda mais clara e também foi entrelaçado
deve ser visto, representativamente, como é pensada a co- com o tema do Espírito:
munidade do verdadeiro Israel. Com a integração natural
de mulheres dentro do grupo daqueles que o seguiam, Jesus Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros,
mostra: na nova ordem do Reino de Deus que se torna realidade mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam
no povo escatológico de Deus, não deve existir a discriminação da um só corpo. Assim também acontece com Cristo. Pois fomos to-
mulher - tão pouco quanto a discriminação dos pobres, dos fracas- dos batizados num só Espírito para ser um só corpo, judeus e gre-
sados e das crianças. gos, escravos e livres, e todos bebemos de um só Espírito.
A Igreja primitiva manteve este programa? Pelo menos
Paulo assumiu-o de uma maneira congenial na sua teologia Como em Joel 3, o Espírito cria uma nova ordem. Somente
e aprofundou-o ainda mais. Ele escreve em GI3,26-29: pelo dom escatológicodo Espírito,derramado abundantemente,
140 .. .HAI<:;~~Ji\glJEJ~~lJSglJ?~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

pode realizar-se a nova comunidade, que escapa às possibi- Pedro põe em risco, entre outras coisas, também a unidade
lidades humanas. Somente no Espírito é possível abolir as da Igreja no sentido de G13,28. O que Pedro faz é, para ele, o
barreiras étnicas e sociais, os interesses de grupos, diferen- estabelecimento da distinção entre judeus e gregos no povo
ças de classes e domínio do sexo. O religioso e o social aqui de Deus.
não se podem separar um do outro. Aquilo que acontece Paulo, porém, não defendeu apenas com persistência
"diante de Deus" na área da fé, tem consequências sociais a liberdade dos cristãos vindos do paganismo em relação
imediatas dentro da Igreja. Pois o povo de Deus, respecti- à Lei, também se esforçou constantemente para tornar vi-
vamente, o corpo de Cristo, a Igreja, é uma realidade social. sível a comunhão eclesial com os judeu-cristãos na Judeia
Paulo não fala, pois, em GI 3,28 e lCor 12,13, nem da que continuavam fiéis à lei. Sinal concreto desta comunhão
igualdade de todos os homens no sentido de uma cida- foi, para ele, a coleta para Jerusalém (GI 2,9s) à qual ele
dania mundial geral, nem da igualdade dos fiéis apenas dedicou muito tempo (d. 2Cor 8s) e que o levou, enfim,
"diante de Deus". Ele fala, muito mais, do "início do novo à morte. Paulo afirmou em toda sua existência: "Não há
",~,~~, mundo de Deus que acontece com Cristo e já começou na judeu nem grego".
comunidade=" - com consequências sociais bem concretas Também a frase: não há escravo nem livre não ficou apenas
"jjnl
para o povo de Deus. em mera teoria. Paulo, certamente, nunca tentou lutar con-
Deve-se dizer que em Gl3,28 e 1Cor 12,13 a profecia de tra a antiga instituição da escravidão num nível universal-
"'~,...
[oel e a práxis do Reino de Deus foram aproveitadas com social. Para esta luta faltar-lhe-ia não só qualquer possibili-
uma audácia surpreendente. Deve-se dizer também, que dade, mas uma luta como esta nem sequer podia estar nos
aqui não é formulado apenas um programa. Por trás dos planos dele. Em vez disso, o seu interesse estava decidida-
textos citados (aos quais se deveria acrescentar ainda CI mente na comunidade. Onde a comunidade se reunia como
3,lOs) está a práxis concreta das comunidades missionárias comunidade, onde ela representava o povo escatológico de
de Paulo: Deus, a diferença escravo-livre não podia ter papel algum. O
Aí não há mais nem judeu nem grego. Não é necessário mos- resultado concreto não nos é narrado nas epístolas de Paulo
trar aqui em seus pormenores a luta de Paulo para integrar porque era conhecido pelas comunidades. Um ponto de re-
plenamente os gentios incircuncisos no povo de Deus. Paulo ferência, pelo menos, nos dá a Epístola a Filêmon:
levou radicalmente até o fim aquilo que já fora começado, Um escravo pagão, de nome Onésimo, escapara do cris-
antes dele, pelos helenistas (d. At 11,19-26). Ele enfrenta tão Filêmon. Ele recorrera a Paulo e fora convertido por este
abertamente a Pedro quando este, em Antioquia, aboliu no- para a fé cristã. Embora Paulo tivesse gostado de ficar com
vamente a já praticada comunhão da mesa com os cristãos Onésimo, mandou-o de volta a seu patrão - "não mais como
vindos do paganismo. Para Paulo, este comportamento de escravo, mas, bem melhor do que escravo: como um irmão
amado" (Fm ls.). Que, nesse meio tempo, Onésimo fora bati-
zado, não aboliu necessariamente sua condição de escravo,
82 E. S. GERSTENBERGER-W. SCHRAGE, Frau und Mann (Biblische Konfronta-
tionen), Stuttgart, 1980, 123. mas o fato de se ter tornado para Paulo e Filêmon "irmão",
142 .........................
A.lq~~JI\.qTJ?I~?lJs.91J?1~11\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

isto é em cristão, foi uma mudança decisiva. Onésimo, no da justificação, por não ter combatido em público a antiga
futuro, é "igual a seu Senhor no serviço do Evangelhov." sociedade escravagista e suas chamadas ordens sociais."
Ele participa das reuniões da comunidade de casa de Filê- Esta acusação, porém, desconhece o princípio fundamen-
mon (Fm 1s) e nas celebrações eucarísticas desta comunida- tal da teologia bíblica, que já encontramos várias vezes:
de domiciliar, ele troca o ósculo de irmão com seu Senhor." o assunto é realmente a transformação escatológica do
Com certeza, este fato tem consequências para além das ce- mundo inteiro, mas esta transformação supõe que o povo
lebrações da Eucaristia. Filêmon tratará Onésimo como seu de Deus viva primeiramente, ele mesmo, a nova realida-
"irmão amado" - "segundo a carne e segundo o Senhor" de. De resto, quando Paulo diz que na comunidade cristã
(Fm 16), isto é, não apenas no ambiente interno da fé e da a distinção entre escravos e livres não desempenha mais
comunidade, mas também no relacionamento do dia-a-dia. papel algum, as estruturas sociais do mundo antigo não
Sabemos, do Novo Testamento, muito pouco a respei- ficam sem ser atingidas. Pois não se pode atacar de ma-
to do convívio concreto entre escravos cristãos com seus neira mais forte os sistemas associais e corruptos de uma
fll!. ~( senhores cristãos85 - a completa igualdade dos escravos no sociedade dominante do que formando em seu meio uma
âmbito da comunidade, porém, nunca foi contestada. Neste contra-sociedade. Esta é, por sua mera existência, um ataque
llk)\
assunto não existiam pontos de divergência. Acrescentando muito mais eficiente às estruturas antigas do que todos os
que nas comunidades cristãs dos primeiros três séculos ha- programas de uma transformação geral do mundo que
•.•...
via um número surpreendentemente elevado de escravos, e pessoalmente nada exigem.
que eles não foram excluídos nem sequer das funções ecle- Sobre o terceiro antagonismo: não há homem nem mulher.
siais mais elevadas." torna-se aqui visível algo da nova or- Não é evidente que as comunidades do Novo Testamento
dem escatológica do Reino de Deus. ficaram longe da realização desta frase? Elas não negaram,
Recentemente, porém, foi acentuada a antiga acusação em larga escala, à mulher o acesso às funções eclesiais?
de que Paulo se tornou infiel ao cerne da própria mensagem Deve-se conceder que lá, onde se forma a função ecle-
siástica clássica, isto é, a função do bispo, a mulher é excluí-
. da desde o começo. À função dos epíscopos corresponde
83 H. GULZOW.Christentum und Skfaverei in den ersten drei Jahrhunderten. no cristianismo judaico a função dos presbíteros, e também
Bonn, 1969,40.
84 Cf. P. STUHLMACHER. Der Brief an Philemon (EKK 18), 2il ed., Zurique/ aqui é muito duvidoso, se uma mulher conseguiu chegar a
Neukirchen-Vluyn, 1981,42. ser "presbítera". Quando foi desenvolvida a tríade clássi-
85 Nos textos 1Cor 7,17-24; Cl 3,22-4,1; Ef 6,5-9; lTm 6,ls; Tt 2,9s; 1Pd ca das funções bispo, diácono e presbítero, a mulher partici-
2,18-25 trata-se, na maior parte, de parênese para escravos; estes tex-
tos, porém, não esclarecem muito a nossa questão - com exceção de
pava apenas do diaconato - e, também só no Oriente, não
lTm6,2.
86 Cf. A. VONHARNACK, Die Mission und Ausbreitung des Christentums in den
ersten drei Jahrhunderten, Tomo I, 3d ed., Leipzig, 1915, 174-178; J. GNILKA. 87 Esta crítica é levantada especialmente por S. SCHULZ,Gott ist kein Skla-
Der Philemonbrief (HThK X4), Friburgo, 1982, 78-80 no extenso e valioso venhalter. Die Geschichte einer verspiiteten Revolution, Zurique/Hambur-
excurso: "Die Sklaven in der Antike und im fruhen Christentum". go,1972.
144 < .. <......................AIC;~~J~qlJ~)~!3lJSglJE~P.: As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

no Ocidente." É discutido até hoje o momento em que lhe do que predição. Profecia também é interpretação do tem-
foi proibido de falar em público e ensinar nas reuniões das po presente, condenação, exortação, consolação, anúncio da
comunidades. A decisão depende de se considerar 1Cor vontade de Deus, condução da comunidade para uma meta
14.34s como interpelação posterior ou não. Muitas coisas fa- concreta, desejada por Deus. A vasta gama da ação profética
lam contra a autenticidade deste trecho, especialmente 1Cor estende-se até aquilo que hoje chamaríamos direção da co-
11,5. De qualquer modo, as epístolas pastorais, no fim do munidade.
primeiro século, acentuam que não é permitido à mulher en- Tão importante como a atividade profética de mulheres
sinar em público (1Tm 2,l1s). A delimitação frente à gnose, na Igreja primitiva é o serviço de casais missionários. Temos que
de necessidade vital para a Igreja, contribuiu, provavelmen- mencionar Pedro e sua mulher (1Cor 9,5), Áquila e Prisca (Rm
te, para este desenvolvimento. Em todo o caso é certo que o 16,3-5), Andrônico e [únia (Rm 16,7). Aqueles de que temos
programa de G13,28 com respeito à mulher já não está sendo maior quantidade de notícias são Áquila e Prisca." São men-
mais realizado no segundo século. cionados sempre juntos; ambos participavam ativamente das
i«( Este resultado negativo, porém, não nos deve levar a obras das missões. Com sua fidelidãde e abnegação, devem ter
passar por alto o tempo inicial da Igreja. Nas primeiras déca- sido uma ajuda extraordinária para a missão de Paulo, de modo
k)~ das, a mulher desempenhou dentro da Igreja um papel bem que Paulo pôde dizer que todas (O as comunidades cristãs do

- diferente daquele que estamos acostumados a ver mais tar-


de. Naquela época ainda era possível que mulheres se apre-
sentassem como profetisas sem que se formasse logo uma re-
gentios lhes devem gratidão (Rm 16,4). Ele chama a ambos ex-
pressamente seus "colaboradores" (Rm 16,3). E ainda é signifi-
cativo que Prisca geralmente é mencionada antes do marido."
sistência dentro da Igreja. O evangelista Filipe tinha quatro H. J. KLAUCK91 explica certo: "Isto não se pode compreender
filhas que profetizavam (At 21,8s) - certamente, não dentro como cortesia ... ao contrário, aqui estão sendo quebradas as an-
do seu quarto, mas diante da comunidade reunida. Também tigas convenções. Tudo isso mostra a importância especial desta
Paulo pressupõe, sem nenhuma discussão, em 1Cor 11,5-16, mulher para a missão cristã primitiva. Ela desenvolvia sua am-
que mulheres profetizam na celebração. Ele exige apenas pla atividade a partir da base de sua comunidade doméstica ..."
que façam isto "com a cabeça coberta" (com traje de cabeça Um outro casal missionário que é mencionado na lista
correspondente aos bons costumes?). De resto, é evidente dos cumprimentos em Rm 16, é Andrônico e [únia." Como
para Paulo, que o Espírito concede a todos dentro da Igreja o
caris ma, que quer dar (1Cor 12,11). Por que não o carisma da
profecia a mulheres? Para uma avaliação correta do fenôme- H9 A respeito de Aquila e Prisca d. W. H. OLLROG,Paulus und seine Mi-
no da profecia feminina dentro da Igreja primitiva, deve-se tarbeiter. Untersuchungen zu Theorie und Praxis der pauliniechen Mission
(WMANT 50), Neukirchen-Vluyn, 1979,24-27.
considerar o seguinte: naquele tempo, profecia é muito mais 90 Cf. At 18,18.26; Rm 16,3; 2Tm 4,19.
\11 H. J. KLAUCK,Hausgemeinde und Hauskirche im fruhen Christentum (SBS
103), Stuttgart, 1981,26.
88 Para o diaconato da mulher na visão do Novo Testamento d. G. LOHFINK, 92 Cf. para o seguinte B. BROOTEN,"[unia ... hervorragend unter den
Weibliche Diakone im Neuen Testament: Oiakonia 11 (1980),385-400. Aposteln" (Rm 16,7), em: E. MOLTMANN - Wendel (ed.), Frauenbefreiung,

•••••
146 ... . ...AIC;~E.JAqlJE)E.SlJSgIJE:I{Ii\ As COMUNIDADES
NEOTESTAMENTÁRIAS
NOSEGUIMENTO
DE

Áquila e Prisca, eles são judeu-cristãos. Paulo diz deles que por um momento, de modo surpreendente uma área da qual
já tinham chegado à fé antes dele e que são "considerados quase não temos notícias. Com base naquilo que Paulo diz
entre os apóstolos" (Rm 16,7). Isto dificilmente se pode ex- aí, mais acidentalmente, podemos admitir com certeza, que
plicar de outro modo que pelo fato de neles (como em Pau- soube ganhar um grande número de colaboradores para sua
lo) a conversão e a vocação terem coincidido. Ambos per- obra missionária, aproveitando os carismas da mulher para
tenciam, evidentemente, àquele grupo maior de apóstolos o anúncio do Evangelho e, assim, cumprindo, também neste
que, segundo 1Cor 15,7, teve uma aparição do Ressuscitado. aspecto, seu programa formulado em Gl 3,28: "não há ho-
Por algum tempo eles trabalharam juntos com Paulo na obra mem.nem mulher".
missionária (a partir de Antioquia?) e, certo dia, foram pre- O fato de a realização de Gl 3,28 dar certo, pelo me-
sos, juntos com ele (Rm 16,7). nos aproximadamente, dependia não apenas do exemplo
Júnia foi considerada, sem exceção, pelos Padres da do apóstolo e da estrutura carismática de suas comunida-
Igreja como apóstolo feminino. Somente a partir da Idade Mé- des, mas também do fato de os cristãos se reunirem para
u': dia, seu nome foi interpretado cada vez mais frequentemen- o culto em comunidades domésticas, ainda relativamente
te como nome de homem, porque não se queria admitir que, pequenas e simples, das quais dava para ter uma visão. P.
r)'j
nas origens da Igreja, uma mulher era apóstolo e ainda por STUHLMACHER diz acertadamente:" "O significado das co-
cima era designada por Paulo como "considerada entre os munidades domésticas do cristianismo antigo não devia
'IIII/IÕ!tfII1

apóstolos" . ser subestimado. O próprio Paulo viveu e ensinou em co-


Prisca e Júnia podem mostrar-nos que a atividade mis- munidades domesticas e fundou tais comunidades. Para
sionária das mulheres no primeiro século não se limitava, de ele não era apenas as grandes comunidades, mas também
modo algum, a obras de caridade e ao âmbito da família. A a comunidade doméstica o lugar onde eram rompidas e se
menção de Evódia e Síntique em F14,2s confirmam este fato. tornavam irrelevantes, em favor da nova vinculação de to-
Paulo designa as duas mulheres como "suas companheiras dos a Cristo enquanto Senhor e a partir dela, as barreiras
na luta pelo Evangelho". De outras mulheres, a saber, de sociológicas e etnorreligiosas entre judeus e gentios, livres
Maria, Trifena, Trifosa e Pérside, ele diz em Rm 16,6.12, que e escravos, homens e mulheres, ricos e pobres, culto e in-
"se afadigaram no Senhor". "Fadiga" e "afadigar-se" são ter- culto, tão profundas na Antiguidade (Gl 3,27; 1Cor 1,26ss;
mini technici de Paulo para um duro trabalho missionário." 12,12s). Eram exatamente também as comunidades domés-
Não se deve subestimar a função da mulher na obra ticas os lugares, onde os cristãos, através das celebrações
missionária de Paulo e também na missão cristã aos gentios emcomum da ceia do Senhor, cresciam para serem o único
em geral. O capítulo 16 da Epístola aos Romanos ilumina, e pluriforme Corpo de Cristo, a comunhão dos reconcilia-
dos. Onde isto acontecia, podia-se falar, sem cair no perigo
de um entusiasmo ingênuo, da comunidade como 'nova
Biblische und theologische Argumente, 2 ed., Munique/Mainz,
il
1978, 148-
151; ainda G. LOHFlNK, op. cit., 391-395.
93 Cf. W. H. OLLROG, op. cit., 75. 94 P. STUHLMACHER, op. cit., 74.
148 .... .. .......HHHHHHHHHHHHHHHHHAI<:;~~Jf\q~J~~l!Sqy?l~If\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

criação', isto é, da prefiguração do mundo novo de Deus. E cristã antiga. Vejamos a lista seguinte que não faz questão
podia-se falar também da obrigação e realidade de uma vida de ser completa."
nova (GI6,15s; Rm 6,44)".
ter carinho uns para com os outros (Rm 12,10)
4. A PRÁXIS DA RECIPROCIDADE* ter a mesma estima uns pelos outros (Rm 15,14)
acolher-se uns aos outros (Rm 15,14)
Estamos examinando, através de uma amostragem ba- admoestar-se mutuamente (Rm 15,14)
seada na literatura epistolar do Novo Testamento, se a prá- saudar-se uns aos outros com o ósculo santo (Rm 16,16)
xis do Reino de Deus em Jesus foi continuada na Igreja pós- esperar uns aos outros (1Car 11,33)
pascal. No capítulo precedente mostrou-se que a intenção ter igual solicitude uns com os outros (1Cor 12,25)
de Jesus de transformar o povo de Deus dividido e doente colocar-se a serviço uns dos outros (G15,13)
numa sociedade reconciliada foi continuada na união de ju- carregar o peso uns dos outros (G16,2)
deus e gregos, escravos e livres, homens e mulheres das co- consolar-se mutuamente (1Ts 5,lI}
1).(:

edificar-se mutuamente (1Ts 5,11)


munidades missionárias de Paulo.
l-ot viver em paz uns com os outros (1Ts 5,13)
Devemos seguir esta união para além do programa de
procurar o bem uns dos outros (1Ts 5,15)
G13,28. Poder-se-ia fazer isso, por exemplo, a partir do ter-
"lIrl suportar-se uns aos outros com amor (Ef 4,2)
mo comunhão (koinonia), altamente importante para a Igreja
ser bondosos e compassivos uns com os outros (Ef 4,32)
primitiva." Vamos, porém, em seguida, partir de um con-
submeter-se uns aos outros (Ef 5,21)
ceito bem diferente ou melhor: de um fenômeno linguístico,
perdoar-se mutuamente (C13,13)
onde podemos estudar com maior clareza e exatidão a causa
confessar uns aos outros, os pecados (Tg 5,16)
da reciprocidade do que a partir do termo da communio ecle-
orar uns pelos outros (Tg 5,16)
sial. Trata-se do insignificante pronome recíproco "uns aos
praticar o amor fraternal (1Pd 1,22)
outros" (allelõn).96 O Dicionário Teológico do Novo Testa-
ser hospitaleiros uns para com os outros (1Pd 4,9)
mento de KrTIEL-FRIEDRICH, de dez volumes, que até mencio-
revestir-se de humildade nas relações mútuas (1Pd 5,5)
na preposições isoladas, não dedica nenhum artigo a allêlõn,
estar em comunhão uns com os outros (1Ja 1,7).
embora se pudesse desenvolver com base nesta pequena
palavra uma parte importante da teologia da comunidade
Já à primeiravista, a lista mostra que a estrutura linguís-
tica da reciprocidade tem seu lugar, dentro da literatura das
* Derivado do adjetivo recíproco. O original usa o termo Miteinander, que, epístolas do Novo Testamento, na admoestação (paráclese),
traduzido literalmente, significa: uns com os outros (N. do T.).
95 Cf. At 2,42; Rm 15,26; 2Cor 8,4; 9,13; Gl2,9; Fl2,l; Hb 13,16; 1Jo 1,3.7.
96 No lugar do pronome recíproco allellõn aparecem no Novo Testa- 97 Os demais textos são Rm 1,12; 12,5.10; 13,8; 14,19; 15,5; 1Cor 16,20;
mento também às vezes heautos (Ef 4,32; Cl3,13.16; lTs 5,13; Hb 3,13; 2Cor 13,12; Ef 4,25.32; Fl2,3; Cl3,13; lTs 3,12; 4,9.18; 2Ts 1,3; Hb 10,24;
1Pd 4,8.10) ou heis ton hena (lTs 5,11). 5,14; 1Jo 3,11.23; 4,7.11.12; 2Jo 5.

..-c
150 . .. .....AIC;~~JA:q{JE)~~lJSq{JEI{IA: As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

O uso do pronome recíproco é muito frequente e de várias Eis que dias virão - oráculo de Iahweh -
maneiras nas epístolas paulinas autênticas e naquelas que em que semearei a casa de Israel e a casa de [udá
estão dentro da tradição paulina (Ef, CI, 1Pd). Existe apenas com uma semente de homens e uma semente de animais.
uma exceção. Nas epístolas pastorais (1Tm; 2Tm; Tt) allêlõn E assim como velei sobre eles
não aparece, nem mais uma vez, no sentido positivo - um si- para arrancar, para arrasar,
nal claro, de que aí a responsabilidade mútua dos membros para exterminar e para afligir,
da comunidade, tão importante para Paulo, não era mais as- assim também velarei sobre eles
sunto de carta. para construir e para plantar, oráculo de Iahweh
Para tornar mais visível a temática da reciprocidade na (Jr 31,275).
eclesiologia do Novo Testamento, vamos pegar da nossa lis-
ta uma das fórmulas. Escolhemos "edificar-se uns aos ou- O texto mostra: "edificar" significa levantar, chamar à
tros" (1Ts 5,11). vida e está relacionado imediatamente com o povo de Deus.
·....
,.,
Por trás da palavra "edificação" (oikodome / oikodomein) Esta relação torna-se mais evidente ainda no discurso de ,•
.
".(:
está escondido um dos conceitos mais importantes do Novo Deus em Jr 24,5-7:
'ht Testamento." que, mais tarde, no pietismo, teve uma reper-

- cussão extraordinária. Aí, porém, teve início uma evolução,


em que o conceito "edificação" foi reduzido à vida religiosa
interior da personalidade cristã. Paulo, pelo contrário, pen-
Eu vou olhar com bondade aos exilados de Judá
que eu mandei deste lugar para o país dos caldeus.
Vou colocar os meus olhos sobre eles para o bem
sava principalmente na edificação da comunidade local, na e [azê-loe retornar a esta terra.
qual, para ele, a Igreja tomava forma concreta. A partir do Eu vou reconstrui-Ice e não demoli-los,
conceito de edificação poder-se-ia desenvolver uma boa parte planiâ-ioe e não arrancá-los.
da eclesiologia de Paulo. Dar-lhee-ei um coração para que me conheçam,
As raízes do discurso cristão de edificação estão no Anti- que eu sou Iahweh.
go Testamento, especialmente em Jeremias. Nele os termos Eles serão o meu povo
"edificar e destruir" formam um lema (d. [r 1,10). Deus pode e eu serei o seu Deus,
edificar povos, também pode destruí-Ias (Jr 12,14-17). Mas so- porque eles retornarão a mim de coração.
bretudo: depois de terminado o exílio, Deus vai edificar Israel
para ser uma comunidade nova: Paulo compreende sua própria vocação à luz da vocação
de Jeremias, como mostram o início da Epístola aos Romanos
(1,1-7) e Gl1,15. Ele toma de Jr 1,4-10 a fórmula do edificar e
98 Para o tema seguinte aproveitei com gratidão do trabalho de PH. VlE- destruir. Ele recebeu de Deus o poder de "edificar" a comu-
LHAUER: OIKDOME. Das Bild vom Bau in der chrístlichen Literatur Vom
nidade de Corinto, "não de destruí-Ia" (2Cor 10,8; 13,10). A
Neuen Testament bis Clemens Alexandrinus, em: o mesmo, Oikodome. Au-
[sãize zum Neuen Tesiameni, Tomo 2 (TB 65), Munique, 1979, 1-168. edificação das comunidades é ministério apostólico. Nisso,
152 ........................
A.IC;~E:Jf\.qlJEJE:?lJ:Sql!E:.I<I.}\ As COMUNIDADES
NEOTESTAMENTÁRlAS
NOSEGUIMENTO
DE

Paulo distingue ainda entre a colocação do fundamento das quando é forçado por seus adversários (como em Corinto;
comunidades e a construção posterior. A construção ou- cf. 2Cor 10,7,9; 13-10). Quando fala da "edificação da comu-
tros vão fazer; sua função específica é, como primeiro, co- nidade", então fala no contexto da responsabilidade que todos
locar em toda parte o fundamento que é Cristo (LCor 3,6.10; na comunidade têm uns para com os outros.
Rm 15,20). Esta responsabilidade mútua mostra-se, por exemplo,
Lembremo-nos da intenção de Jesus de reconstituir Is- no culto. O culto daquele tempo tinha uma variedade de
rael (cf, 1,1-8)!Parece que o conceito paulino da edificação das formas, nas quais a comunidade podia participar e onde os
comunidades corresponde exatamente à expressão da reconsti- carismas podiam desenvolver-se.
tuição de Israel em Jesus. Jesus teria então recorrido mais a Eze-
quiel, Paulo mais a Jeremias. Jesus sabe que é o próprio Deus Quando estais reunidos, cada um de vós pode cantar um cântico,
que reconstitui seu povo (Mt 6,9). E, apesar disso - este é seu proferir um ensinamento ou uma revelação, falar em línguas ou
segredo - ele mesmo reconstitui Israel (Mt 12,30; 23,37). Do interpretá-Ias (lCor 14,26).
•• t,.~
. ~:~. mesmo modo, Paulo sabe que a reunião dos gentios é a gran-
de obra escatológica de Deus (Rm 14,20; 15,18; 1Cor 3,9). E, Um problema, porém, é o falar em línguas, a glossolalia.
)'t, Ela é um louvor das obras maravilhosas de Deus numa língua
apesar disso, a edificação das comunidades cristãs gentílicas
é sua tarefa apostólica fundamental. Ambos, Jesus como Paulo, extática, incompreensível. Quem, no culto, fala em línguas,
;V!III

estão interessados na reconstituição, respectivamente edificação do tem muito proveito para si mesmo - Paulo diz: ele edifica-se
único povo de Deus, que agora, no fim dos tempos, vai ser constituí- a si mesmo -, os outros, porém, não têm proveito nenhum.
do definitivamente, conforme a vontade inalterável de Deus. Pois ninguém o entende. Quem, pelo contrário, profetiza, fala
Em virtude de tudo isto deveria estar claro: edificação de modo compreensível, "ele edifica, ele anima, ele consola"
não se refere ao indivíduo que deve amadurecer para uma (LCor 14,2-4). Por isso. Paulo exige um culto estruturado de
personalidade espiritual, mas à Igreja que, para Paulo, existe tal maneira, que edifique a comunidade 04,26). As orações
nas comunidades locais concretas. PH. VIELHAUER exprime-o extáticas somente são permitidas quando são interpretadas
de uma forma muito bela:" depois para todos 04.13.27s). Mas também o falar profético
"A meta dos caminhos de Deus não é o indivíduo pie- deve ser um depois do outro, não desordenadamente - para
doso, mas a Igreja Una, Santa, Universal no sentido radical- que seja compreensível para todos 04,29-33).
mente escatológico do Novo Testamento; sua criação e con- Em tudo isto torna-se claro: a edificação da comunida-
servação, promoção e realização são designados por Paulo de reunida para o culto não é apenas tarefa do dirigente
com oikodomein". da reunião (de um dirigente, neste sentido, Paulo não diz
É fascinante que Paulo só raramente fala do seu po- nada em 1Cor 14), mas tarefa de todos que estão reunidos.
der apostólico de construir comunidades. Ele fá-lo apenas, Uma meta como esta, naturalmente, não pode ser alcançada
sem uma forma altamente comunicativa de culto. Mas Pau-
99 PI-I. VIELHAUER, id., 108.
lo quer, exatamente, que aconteça no culto um máximo em
154HHHHH ..H H... ...Alc;~E:Ji\qlJE)E:~lJSglJE~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

comunicação cheia de sentido e edificante. Ele quer que os mas uns ao lado dos outros. E o fato, de as nossas celebrações
participantes do culto esperem uns pelos outros, saúdem-se impedirem tanto a expressão comunitária, é, novamente,
uns aos outros, encoragem-se uns aos outros, consolem-se apenas um sinal de que, em nossas comunidades, a comu-
uns aos outros, admoestem-se uns aos outros, ensinem uns nicação fora da celebração não funciona. Apenas acontece
aos outros e cuidem uns dos outros. Em outras palavras, a em forma bem reduzida. Aquilo que está na lista, no início
lista no começo deste capítulo está relacionada não apenas deste capítulo, existe, na verdade, muitas vezes no "âmbito
com o cotidiano dos cristãos daquele tempo, mas também privado" cristão, mas muito mais raramente a nível da co-
em grande parte com um comportamento no culto, esperado e munidade cristã.
desejado por Paulo. Também as comunidades cristãs primitivas terão fracas-
Então, o olhar para 1Cor 14 parece um olhar para um sado muitas vezes naquilo que Paulo exigia delas nas suas
mundo diferente. Se Paulo já estava tão infeliz por causa de exortações. Não se trata, de maneira alguma, neste livro, de
uma glossolalia que destruía a comunicação, o que ele teria pintar um quadro romântico-ideal da Igreja primitiva. Já a
"',
~,(':
dito sobre a grande maioria das celebrações dominicais de simples leitura da primeira Epístola-aos Coríntios impede de
hoje na Europa central, nas quais quase não acontece mais o fazer. O que é realmente perigoso não é a nossa culpa ou o
ot_ comunicação social e, quando acontece, é extremamente ri- nosso fracasso. O que é realmente perigoso é o fato de nem

,- tualizada? Onde, em nossas celebrações, o visitante normal


(já a expressão é significativa) tem a possibilidade de edifí-
sequer estarmos mais conscientes de distanciarmos bastante
daquilo que comunidade e povo de Deus, conforme o Novo
car o restante da comunidade com um consolo, um ensina- Testamento, deviam ser. Consideramos a realidade das nos-
mento, com um conhecimento dado pelo Espírito, com um sas grandes comunidades, anônimas, bem administradas,
(novo) salmo (que ele mesmo compôs)? mas praticamente sem comunicação normal talvez até dese-
Deve-se continuar ainda mais. Até formas ritualizadas jada por Deus. Não percebemos mais, quão pouco se podem
de comunicação, com a saudação da paz, encontram, entre realizar, neste tipo de paróquias, exigências elementares de
nós, não raras vezes, indiferença ou rejeição. O que diriam os vida comunitária do Novo Testamento, por exemplo:
"visitantes do culto" de hoje, se fossem convidados a trans-
mitir a paz da maneira como era costume nas comunidades ter a mesma estima uns pelos outros (Rm 12,16)
do cristianismo antigo: "Saudai-vos uns aos outros com o ter igual solicitude uns com os outros (lCor 12,25)
ósculo santo" (Rm 16,16; 1Cor 16,20;2Cor 13,12; 1Pd 5,14)? edificar- se mutuamente (lTs 5,11)
Para ser justo, porém, deve-se dizer que a saudação da confessar, uns aos outros, os pecados (Tg 5,16)
paz, introduzido novamente, em parte, foi recebido com admoestar-se mutuamente (Rm 5,14).
entusiasmo. Por trás deste entusiasmo está o desejo de um
culto mais humano, mais comunicativo. Tanto a rejeição Permaneçamos, mais um momento, com a última fra-
como o desejo é sinal de que muita coisa não está certa em se: admoestar-se mutuamente. Paulo escreve à comunidade
nossas celebrações. Elas não levam a estar uns com os outros, de Tessalônica: "Nós vos exortamos, irmãos: admoestai os
156 A.lc;~J.'\qlJ~IE:?TJs.qlJE~.'\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

indisciplinados" (lTs 5,14). O contexto mostra que Paulo primitiva. A comunidade toda recebeu o Espírito e por isso
quer proteger esta exortação contra mal-entendidos e exage- tem direito e capacidade de conduzir o culpado à conversão.
ros. Pois ele continua: A prática da admoestação mútua não existe apenas nas co-
munidades de Paulo. Textos como Tg 5,19s e Didaquê 15,3 mos-
Reconfortai os pusilâmines, tram isso. Em Mt 18,15-17, o caminho da admoestação fraterna
sustentai os fracos; até é regulado num procedimento de três níveis: primeiro, a
sede pacientes para com todos. admoestação deve acontecer entre duas pessoas; se não adian-
tar, então na presença de uma ou duas testemunhas; se tam-
Mas esta proteção, certamente necessária, não muda bémnão der certo, então, por fim, diante da comunidade toda.
nada a afirmação de que Paulo considera a admoestação Os textos mencionados tornam claro: uma falha grave
mútua de importância vital dentro da comunidade cristã. de um membro da comunidade não é considerada, na Igreja
Isto mostra também Rm 15,14: primitiva, assunto particular que o indivíduo tem de resol-
....,.". ver sozinho com Deus. Existe, muito mais, a convicção: uma
1;, r:
Pessoalmente estou convicto, irmãos, de que estais cheios de falha afeta a comunidade toda, ela prejudica a comunhão,
bondade e repletos de todo conhecimento e em grau de vos poder ela é sua própria deficiência.l'" Uma visão de pecado como
admoestar mutuamente. esta, com certeza, pressupõe uma consciência altamente in-
tensiva de comunidade.
G16,1 prova, afinal, como a exortação para a admoestação Devemos considerar mais um ponto: a admoestação
mútua está firmemente enraizada na paráclese de Paulo.'?" correta exige muito daquele que admoesta: por exemplo, a
coragem de se deixar admoestar também a si mesmo; mas
Irmãos, caso alguém seja apanhado em falta, vós, os espirituais, também o conhecimento de que, numa comunidade verda-
corrigi esse tal com espírito de mansidão, cuidando de ti mesmo, deiramente fraterna, conflitos não podem ser reprimidos ou
para que também tu não sejas tentado, ocultos artificialmente, mas devem ser esclarecidos a todo
custo. A coragem de admoestar outros, bem como a humil-
Paulo diferencia aqui muito cuidadosamente: examinar dade de se deixar admoestar a si mesmo, são dos indícios
a própria consciência é algo que cada um deve fazer para si mais seguros para saber, se existe comunidade verdadeira,
(singular!). Trazer de volta ao bom caminho o irmão ou a se existe consciência de comunidade.
irmã é algo que todos devem fazer (plural'). Eles podem fa- , Novamente, como já no fenômeno da edificação mútua, de-
zê-lo porque todos eles são espirituais. Mostra-se novamente, ve-se permitir a pergunta: ainda existe hoje, nas comunidades
como o cumprimento de [oel 3 é tomado a sério na Igreja paroquiais comuns das grandes Igrejas cristãs algo semelhante

100 Cf. também ainda os reflexos da prática paulina em 2Ts 3,15 e 101 Cf. N. BROX, Fruhkirchliche und heutige Note mit der chistlichen Gemeinde:
lTm5,20. Diakonia 11 (1980),364-384, aqui 369s.
158 ..................
A.IC;J{~JP>...qlJE.J~SLJS. 9lJE:J{Ip>' As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

à admoestação fraterna? Se não - qual é o motivo? O motivo Também neste ponto a Igreja primitiva permaneceu fiel
não é que não existe mais a consciência de ser comunidade a Jesus. Ela continuou o programa da nova família econti-
diante de Deus, onde existe solidariedade, responsabilidade e nuou a refleti-lo. Nesta tarefa, uma função importante é de-
que tem uma história comum de salvação e também de culpa? sempenhada pelos apóstolos e missionários itinerantes do
Mostra-se assim, numa observação mais exata, que no cristianismo primitivo, que são os que transmitem do modo
termo allêlõn, à primeira vista tão insignificante, existe um mais intensivo a ética radical de [esus'" e procuram realizá-
critério muito duro para a realidade de comunidade. A lista Ia em suas próprias vidas. Eles praticam a tropous Kyriou,
no começo do capítulo é tudo menos insignificante. Ela con- a "maneira de viver como o Senhor" (Didaquê 11,8). Mais
tém uma decisão eclesiológica fundamental. Por trás dela tarde, a tradição destes missionários itinerantes será assu-
está, em última análise, a intenção de Jesus de reconstituir o mida e levada adiante pelo ascetismo sírio, pelos monges ir-
povo de Deus para ser comunidade verdadeira. landeses e escoceses, pelos franciscanos e dominicanos. Em
geral, o programa da nova família permanecerá vivo dentro
5. O AMOR FRATERNO da Igreja, sobretudo pelo monaquismo.
No início, porém, ao lado dos missionários itinerantes e
Jesus promete àqueles que o seguem em seus caminhos seus simpatizantes, são as comunidades domésticas do cris-
pela Palestina e que, por esta razão, deixaram suas famílias, já tianismo primitivo o lugar próprio, onde a fraternidade cristã

-' agora, no tempo presente, o cêntuplo de tudo que deixaram:


de agora em diante, Deus é seu pai (Mt 23,9), e eles recebe-
pode ser realizada concretamente. Em cada cidade onde vi-
vem cristãos, existem uma ou mais famílias que oferecem
rão em abundância mães, irmãos e irmãs (Me 10,29s). Como suas casas para as reuniões da comunidade.l" Os donos des-
vimos (cf. 2,3), é este o programa de uma nova família. Esta tas casas desenvolvem, muitas vezes, uma viva atividade
nova família, porém, não deve abranger apenas os sucessores missionária (cf. Prisca e Áquila): com hospitalidade abnega-
imediatos de Jesus, mas todos que aceitam sua mensagem do da transformam suas casas em centros de vida comunitária
Reino de Deus e, assim, cumprem" a vontade de Deus": e também em pontos de apoio para cristãos que estão de
passagem. E não abrigam apenas os mensageiros que via-
Quem fizer a vontade de Deus, jam por incumbência de uma comunidade, mas também
esse é meu irmão, irmã e mãe. acolhem com hospitalidade os cristãos que estão em viagem
(Me 3,35).

103 Cf. G. THEISSEN.Wanderradikalismus Literatursoziologische Aspekte der


Pois, no meio do antigo povo de Deus, começou agora o Uberlieferung von Worten Jesu im Urchristentum, em: o mesmo, Studien
Israel escatológico, onde as estruturas familiares antigas ou zur Soziologie des Urchristentums (WUNT 19), Tubingen, 1979, 79-105.
são suprimidas ou, pelo menos, relativizadas.P' THEISSEN, porém, desenha um abismo profundo demais entre carismá-
ticos itinerantes e comunidades locais. As passagens eram mais bran-
das e a simpatia mútua maior.
102 Cf. W. SCHRAGE,
op. cit., 124. 104 C{ At 12,12; Rm 16,5.23; 1Cor 16,15.19; Cl4,15; Fm 2.
160 .. ..HHH ....AHI<:;~~J1\qlJEJ~~lJ?g~ru.J\ As COMUNIDADES NEOTEST AMENT ÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

por conta própria, por exemplo, por motivos profissionais. do Espírito. Pois a experiência do Espírito significa, ao mes-
O acolhimento de "irmãos" desconhecidos desempenha um mo tempo, a experiência da filiação divina prometida para o
papel importante na Igreja primitíva.'?' De um modo geral fim dos tempos (Rm 8,14-16; GI4,5-7). A consciência, porém,
deve-se dizer que a estrutura da família nova e aberta, que de ser filhos e filhas amados de Deus, faz com que todos se
abre suas próprias fronteiras em direção à comunidade, se tornem irmãos uns dos outros.
mostra de modo exemplar nas famílias daqueles que ofe- Com certeza, "irmão" e "irmã" não são apenas palavras
recem suas casas à comunidade. No ambiente das comuni- bonitas; mas o espírito da fraternidade é concretamente pal-
dades domésticas a fraternidade é vivida concretamente. pável. Ouçamos, novamente, como Paulo escreve a Filêmon
Quando Mateus fala para sua comunidade: por causa do escravo fugitivo Onésimo:

Quanto a vós, não permitais que vos chamem 'Rabi', É na qualidade de Paulo, velho e agora também prisioneiro de
pois um só é vosso mestre Cristo Jesus, que venho suplicar-te em favor do meu filho Onési-
e todos vós sais irmãos (Mt 2,8), mo, que eu gerei na prisão. Outrora ele te foi inútil, mas doravante
será muito útil a ti, como se tornou para mim. Mando-o de volta
"irmão" não é uma determinação eclesiológica (Igreja como a ti; ele é como se fosse meu próprio coração. Eu queria segurá-Ia
irmandade). Por trás desta frase está muito mais a práxis comigo para que, em teu nome, ele me servisse nesta prisão que
bem concreta nas comunidades: eles tratam-se uns aos ou- me valeu a pregação do Evangelho. Entretanto, nada quis fazer
tros de "irmão e irmã". Este tratamento, que hoje é limitado sem teu consentimento, para que tua boa ação não fosse como que
a seitas, comunidades religiosas ou "confrades no ministé- forçada, mas espontânea. Talvez ele tenha sido retirado de ti por
rio sacerdotal" era, na Igreja primitiva, o tratamento natural um pouco de tempo, a fim de que o recuperasses para sempre, não
dentro das comunidades. O "irmão" e a "irmã" são os com- mais como escravo, mas, bem melhor do que como escravo, como
panheiros da fé cristã. um irmão amado; muitíssimo para mim e tanto mais para ti, se-
Do ponto de vista da linguagem, isso não constitui no- gundo a carne e segundo o Senhor. Portanto, se me consideras
vidade. Já a reforma deuteronômica introduzira em Israel o teu amigo, recebe-o como se fosse a mim mesmo. E se ele te deu
tratamento de irmão. Também nas antigas associações de cul- algum prejuízo ou te deve alguma coisa, põe isso na minha conta.
to, em Qumran e no judaísmo em geral, o companheiro de Eu, Paulo, escrevo de meu punho, eu pagarei... para não dizer que
fé é tratado de "irmão". Não é a linguagem, portanto, que é também és devedor de ti mesmo a mim! Sim, irmão, eu quisera
nova. Nova é a motivação: a fraternidade das comunidades mesmo abusar da tua bondade no Senhor! Dá este conforto a meu
da Igreja primitiva está fundamentada na efusão escatológica coração em Cristo (Fm 9-20).

Para o nosso contexto, não é apenas importante que o


105 Cf. Rm 12,13; 16,1-2;Hb 13,2; 1Pd 4,9. A respeito do tema: F. J. ORTKEMPER,
texto da epístola realce bem concretamente o tratamento
Leben aus dem Glauben. Christliche Grundhaltungen nach Rirm 12-13
(NTA 14), Munster, 1980,208-210.247. cristão primitivo de irmão. Tão importante como isso é o
162 ......................
A.IG.~~JJ\qlJEJ~S.lJ.S ..qlJE:l~IJ\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

modo por que Paulo argumenta. Sua argumentação vive conceito de próximo e, além disso, ainda exortou para amar
da sua identificação com Onésimo: "Recebe-o, como se fos- até os inimigos.
se a mim mesmo, se ele te deu algum prejuízo, põe isso na
minha conta; mando-o de volta para ti, ele é como se fosse Amai os vossos inimigos,
meu próprio coração, prepara-me também um alojamento ... [azei o bem aos que vos odeiam,
O cumprimento deste pedido não seria nada mais do que o bendizei os que vos amaldiçoam,
cumprimento do amor cristão e fraterno. Por isso, Filêmon orai por aqueles que vos difamam
é tornado ciente de que ele está nos mesmos relacionamen- (Lc 6,27s).
tos familiares. Também ele é irmão, também ele se deve ao
apóstolo, também ele é seu devedor ... Como cristão, ele é A experiência quase apocalíptica da morte diária de mi-
obrigado ao amor fraterno". Assim, com razão, J. GNILKA.106 lhares de pessoas no mundo por causa da fome, possibilitada
Ainda mais importante do que tudo isto, porém, é o tom pelos meios da comunicação social, é muito importante para
em que Paulo escreve. A pequena epístola mostra algo di- a formação do conceito hodierno' do amor ao próximo. A
fícil de ser encontrado no cristianismo primitivo, por falta ampla ressonância que as campanhas quaresmais das Igre-
)t~ de fontes: a viçosidade, a cordialidade, a amabilidade que jas (na Alemanha: "Pão para o mundo" e "Misereor") encon-
florescem, onde foi experimentado o Novo, a saber, a co- traram desde o início, mostra que, entre os cristãos, há uma
munidade de irmãos e irmãs, que provém do novo início profunda necessidade de ajudar as vítimas da miséria em
tornado possível pelo Espírito. A palavra mais bela da Igreja todo o mundo, independentemente da sua religião. É aqui
primitiva para descrever este Novo, que se alastra na comu- que, pelo menos na Europa central, o conceito" amor" tem
nidade de Deus, é agape (amor). seu "Sitz im Leben". Ele desvinculou-se, em grande parte, da
Vale a pena, neste contexto, observar melhor esta pala- orientação para o companheiro de fé dentro da Igreja. Isto,
vra. Quando hoje, no cristianismo, se fala do amor, e não naturalmente, não quer dizer que dentro das comunidades
se pensa no amor a Deus ou a Cristo ou ao cônjuge mas no cristãs, não exista mais amor ao próximo. Mas este amor é
amor ao próximo, a palavra tem, quase sempre, um acen- considerado apenas uma parte do grande amor universal
to universal. O amor ao próximo, diz-se sempre com razão, que deve abranger todos os homens no mundo.
deve romper todos os limites de grupo, nação, raça, religião. Diante desta situação da consciência cristã causa um cho-
Todo aquele que precisa de mim, é meu próximo. Não se que quando se constata, como exegeta, que no Novo Testa-
vai analisar aqui os motivos que levaram à universalização mento, - abstraindo da palavra de Jesus sobre o amor aos
radical do conceito do amor ao próximo. De qualquer modo, inimigos - amor entre os homens significa, quase sem exce-
o próprio Jesus contribuiu decisivamente para isso. Na pa- ção, o amor ao irmão na fé, isto é, o amor dos cristãos entre si.107
rábola do Bom Samaritano, ele dá uma definição nova do
107 A.. Textos onde agape significa com certeza "amor fraterno": [o 13.35;
106 J. GNILKA, op. cit., 90. Rm 14,15; 1Cor 4.21; 8,1; 13,1.2.3.4.8.13; 14,1; 16,24; 2Cor 2,4.8; 8,7.8.24;
164 A.IC;~~Ji\qlJE.l~?LJ?.9.LJ.E~i\: As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

Dificilmente se encontra no Novo Testamento um fenômeno Honrai a todos,


que seja tão intensivamente recalcado como esta realidade. 108 amai os irmãos,
A presença maciça de certas expressões como "amar teme i a Deus,
uns aos outros" ,109"amar os irmãos", 110"amar o irmão"!" tributai honra ao rei.
"amar a irmandade"112 "amar os filhos de Deus",1l3 "o amor
mútuo",'> "o amor aos santos"!" deveria, porém, chamar a Evidentemente é uma sequência altamente retórica, cujas
atenção. expressões não devem ser forçadas; logicamente, de acordo
Muito mais importante, porém, é a observação de que, com o autor, deve-se amar também a Deus. Mas a exortação
na literatura epistolar neotestamentária não é usada a pala- de quatro frases cuidadosamente elaboradas mostra que a
vra agapejagapan (amor/amar) para descrever a dedicação terminologia usada para descrever o comportamento dentro
ao próximo fora da comunidade, mas uma terminologia do âmbito interno da comunidade (2º e 3º versículos) deve
completamente diferente. Em virtude desta observação ser ser diferente do comportamento para fora da comunidade
.•('";"
importante, deve ser realçada, a seguir, com alguns textos. (lº e 4º versículos). -
O que chama mais a atenção é 1Pd 2,17, onde o autor da pri- Também a primeira Epístola aos Tessalonicenses é im-
)~JI! meira Epístola de Pedro diferencia cuidadosamente: portante para a nossa questão. Em 3,12, encontramos o úni-
co testemunho do Novo Testamento (além do mandamento
l/lllfllWil

de Jesus de amar os inimigos em Lucas e Mateus), onde aga-


G15,13; Ef 1,15; 4,2.15.16; FI 2,1-2; Cl1,4; 3,4; lTs 3,12; 5,13; 2Ts 1,3 Fm
pe também abrange os não-cristãos fora da comunidade: "A
5,7.9; 1Pd 4,8; 5,14; 2Pd 1,7; 1Jo 4,7; 3Jo 6.
B. Textos onde não podemos perceber o significado exato de agape, vós, porém, o Senhor faça crescer e ser ricos em amor mútuo
mas o significado "amor fraterno" é mais provável: Mt 24,12; Rm 12,9; e para com todos os homens". Mas já nos dois capítulos seguin-
13.10; 1Cor 16.14; 2Cor 6,6; G15.6; Ef 1.4; 3.17; 5,2; FI 1,16; Cl1,8; 2,2; tes, Paulo distingue melhor. Para descrever o comportamen-
lTs 1,3; 3,6; 5,8; lTm 1,5; 2,15; 4,12; 6,11; 2Tm 1,7.13; 2,22; 3,10; Tt 2,2;
Hb 10,24; 2Jo 6; Ap 2,4.19. to dentro do âmbito interno das comunidades, ele escreve:
C. O verbo agapan, com certeza com o significado de "amor frater-
no": Mc 12.31.33; Mt 5,43; 19.19; 22,39; Lc 6,32; Jo 13.34; 15.12.17; 2Cor Não precisamos vos escrever sobre o amor fraterno; pois aprendes-
11,11; 12,15; G15,14; Ef 5,25.33; C13,19; lTs 4,9; Tg 2,8; 1Pd 1,22; 2,17;
tes pessoalmente de Deus a amar-vos mutuamente; e é o que fazeis
1Jo 2,10; 3,10.11.14.18.23; 4,7.8.11.12.19.20.21; 5,2; 2Jo 1,5; 3Jo 1; Jd 1.
108A linguagem real do Novo Testamento é bem esclarecida por C. SPICQ, muito bem para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Nós, po-
Agape dans le Nouveau Testament I-III, Paris, 1957-1959, e H. MONTEFIORE, rém, vos exortamos, irmãos, a progredir cada vez mais (1Ts 4,9s).
"Thou shalt love the Neighbour as thyself", NT 5 (1962) 157-170.
109Jo 13,34; 15,12.17; Rm 13,8; lTs 4,9; 1Pd 1,22; 1Jo 3,11.23; 4,7.11.12; 2Jo 5.
1101Jo 3,14. Mas para descrever o comportamento que ultrapassa o
1111Jo 2,10; 3,10; 4,20.21. âmbito das comunidades, Paulo formula um pouco adiante:
1121Pd 2,17.
1131Jo 5,2.
114lTs 3,12; 2Ts 1,3; 1Pd 4,8; cf, Rm 12,10. Vede que ninguém retribua o mal com o mal; procurai sempre o
115Ef 1,15; Cl1,4. bem uns dos outros e de todos (TTs 5,15).
166 .........................................................
AIC;~E.J}\qlJE)E.SlJSglJE.~I}\ As COMUNIDADES
NEOTESTAMENTÁRIAS
NOSEGUIMENTO
DE

Esta distinção entre "amar" e "fazer o bem" tem um pa- eclesial do amor", H. PREISKER118 de um "corte na plenitude
ralelismo em G15s. Lá, Paulo diz em 5,13-15: de vida do amor". Vê-se claramente: o apóstolo está sendo
censurado a partir do conceito do amor ao próximo de hoje.
Pela caridade, colocai-vos a serviço uns dos outros. Pois toda a Lei Mas o conceito de hoje é também o conceito da Bíblia? Antes
está contida numa só palavra: Amarás a teu próximo como a ti de tentarmos uma resposta, consideremos os capítulos 12 e
mesmo. Mas se vos mordeis e vos devorais reciprocamente, cuida- 13 da Epístola aos Romanos.
do, não aconteça que vos elimineis uns aos outros. Em 12.9, começa um novo parágrafo dentro da parácle-
se. Paulo trata, sob o lema "vosso amor seja sem hipocrisia"
Sem dúvida, o mandamento do amor de Lv 19,18 está (12,9), primeiramente o comportamento correto dentro da
aqui num contexto que determina somente o comportamento comunidade. A partir de 12,14 é incluído também o com-
da comunidade entre si. O "próximo", portanto, é, como em portamento para com os não-cristãos, e, a partir de 12,17,
outros lugares nos escritos de Paulo, o companheiro de fé.l16 o comportamento para com os não-cristãos é tratado com
.•.•.
•t- Paulo continua, no texto seguinte (GI5,16-6,8), suas exor- exclusividade. O olhar para fora vai até 13,7. Dentro de todo
tações sobre o comportamento correto no âmbito interno da o trecho que fala do comportamento fora da comunidade
Jt(' comunidade. Somente a partir de 6,9, no fim de toda a pa- 02,17-13,7) não se encontra nenhuma vez o termo "amor".
rênese, ele dirige o olhar para os não-cristãos fora da comu- Encontra-se, porém, de novo a exortação já conhecida de
-- nidade, agora, significativamente, não usando mais o termo
"amar", mas, como em 1Ts 5,15, o termo "fazer o bem":
1Ts 5,15 e GI 6,10: "Seja vossa preocupação fazer o que é
bom para todos os homens" 02,17). Aqui, ela é ainda am-
pliada pelas seguintes frases:
Não desanimemos na prática do bem, pois, se não desfalecermos,
a seu tempo colheremos. Por conseguinte, enquanto temos tempo, ...Procurando, se possível, viver em paz com todos, porquanto de
pratiquemos o bem para com todos, mas, sobretudo para os irmãos vós depende. Não façais justiça por vossa conta, caríssimos, mas
na fé (Gl 6,95). dai lugar à ira, pois está escrito: A mim pertence a vingança, eu é
que retribuirei, diz o Senhor. Antes, se o teu inimigo tiver fome,
Os "irmãos na fé" evidentemente são os cristãos. Aqui dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber. Agindo desta forma
Paulo considera a comunidade como uma família de crentes estarás acumulando brasas sobre a cabeça dele. Não te deixes ven-
que têm, entre si, um tratamento diferente daquele dispensado cer pelo mal, mas vence o mal com o bem (12,8-21).
aos que estão fora. Foi exatamente isto que alguns teólogos en-
tenderam mal Paulo. H. WElNEL 117 fala de um "estreitamento Aqui, Paulo apresenta a exposição mais extensa para o
mandamento do "amor ao inimigo" de todos os seus escri-
tos. Só que ele não usa a expressão amor. Muito mais, ele
116 Decisivo é Rm 15,2; cf. pós-paulino Ef 4,25.
117 H. WEINEL, Paulus, Der Mensch und sein Werk: Die Anfiinge des Christen-
tums, der Kirche und des Dogmas, 2ª ed., Tubingen, 1915, 188. 118 H. PREISKER, Das Ethos des Urchristentums, 2ª ed., Gutersloh, 1949, 184.
168 . ..... .................................AIC;~~Jp.qLJEJ~?l!SglJE:~Ip. As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

recorre a uma exortação altamente ética do Antigo Testa- seguinte modo: Paulo fala, primeiramente, daquilo que se
mento, encontrada em Pr 25,21s, que fala do tratamento do deve a todos os homens. Disto não se pode ficar devendo
inimigo, evitando também o termo "amor", embora coin- nada. Existe, porém, algo que nunca se pode saldar e com o
cida no seu conteúdo perfeitamente com o mandamento de que nunca se chega ao fim - o amor. Ele, porém, pressupõe
amor ao inimigo, apresentado por [esus."? Somente em 13,8-10 um outro ambiente: o ambiente da mutualidade, da comuni-
aparece novamente a expressão amor. Como em GI 5,14, dade. Por isso, Paulo muda o ponto de referência: a partir
também aqui é citado Lv 19,18: "Ama teu próximo como a ti do versículo 8b fala novamente do tratamento para com os
mesmo". Como em Gl5,14, aqui também entende-se o amor companheiros da fé.
fraterno, pois fala-se do amor mútuo (13,8). O "amor mútuo" .Dessa forma, também Rm 12s confirma: quando o Novo
pressupõe sempre um grupo bem delineado e está em opo- Testamento fala do amor entre os homens, tem em mente, quase
sição ao amor "a todos" (cf. 1Ts 3,12)! Além disso, deve-se sem exceção, o amor fraterno dentro das comunidades. Por-
considerar, que também em Rm 15,2 o "próximo", sem dú- tanto, a literatura joanina, na qual este fenômeno sempre foi
~:.. vida significa o companheiro de fé.120 observado, não está, de modo algum, sozinha. As Epístolas
Nesta interpretação de Rm 13,8-10, a passagem nos ver- e o Evangelho de João apenas refletem com especial clareza
Jtr. sículos de 7 a 8 apresenta dificuldades. Pois, no versículo 7 o que vale para todo o Novo Testamento.
Paulo falou do que os cristãos devem aos órgãos do Estado Sendo assim, surge inevitavelmente a pergunta, se as
(impostos, tributos, respeito, honra) e continua: comunidades neotestamentárias não traíram a posição de
Jesus. Pois Jesus exige expressamente amar os inimigos. A
Não devais nada a ninguém exortação apostólica não teria de assumir a mesma termino-
a não ser o amor mútuo (13,8). logia? Aqui devem-se considerar dois pontos:
1. A realidade que Jesus tinha em mente ao falar do amor
A partir do contexto (versículo 7) e da construção da fra- ao inimigo existe de fato na literatura epistolar do Novo Tes-
se supõe-se que se fale do amor para todos os homens. Mas tamento. As comunidades são exortadas: "Abençoai os que
por causa da expressão "amor mútuo" podemos excluir esta 'vos perseguem" (Rm 12,14; lPd 3, 9), "a ninguém pagueis
hipótese.!" Por isso só se pode interpretar o versículo 8 do o mal com o mal" (Rm 12,17; lPd 3,9), "vencei o mal com
o bem" (Rm 12,21) e "se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe
de comer" (Rm 12,20). Tudo isto corresponde, na realidade,
119 A respeito do tratamento do inimigo no Antigo Testamento compa-
àquilo que Jesus queria, ao falar do amor aos inimigos. A
rado com o mandamento de Jesus do amor aos inimigos: N. LOHFINK,
Grandes manchetes de ontem e de hoje, Edições Paulinas, São Paulo, frase "abençoai os que vos perseguem" remonta mesmo a
1984, 280ss. uma palavra de Jesus (Lc 6,28 par. Mt 5,44). Homens como
120 Cf também Ef 425; Tg 2,8; 4,12; o "próximo" significa sempre o com-
panheiro de fé.
121 Visto corretamente por H. MONTEFlORE, op. cit., 161. Exegetas como problema e tentaram resolvê-lo a seu modo nos seus comentários à
H. LIETZMANN, O MICHEL,E. KAsEMANNe H. SCHLIERtambém viram o Epístola aos Romanos.
170 ..................................................................................
A.IC;~~Ji\qlJE.J~?1!?q1!E~Ip, As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DEJ~?1!? 171

Paulo ou o autor da primeira Epístola de Pedro apenas têm 6. A RENÚNCIA À DOMINAÇÃO


receio de designar estas atitudes com a palavra" amor".
2. A posição de Jesus seria mal-entendida, se fosse de- Jesus rejeita decididamente para a comunidade dos dis-
finida indiferenciadamente como amor universal a todos os cípulos a dominação e as estruturas de domínio, como são
homensP? Jesus se move completamente sobre a base do comuns na sociedade. Numa comunidade de irmãos, não
Antigo Testamento, onde o próximo era, primeiramente, o pode haver mais domínio de pais. A soberania de Deus quer
vizinho e o companheiro de fé. Jesus relativiza o conceito de dizer não-soberania do homem. A Igreja primitiva levou a
próximo, deixando claro que toda pessoa que está em difi- sério este programa de uma nova sociedade sem estruturas
culdade, se torna irmão. Interpretando rigorosamente, isto de domínio? Pode-se realizar uma tal sociedade?
significa que o amor fraterno, que tem seu lugar próprio e Uma coisa, em todo o caso, pode-se dizer: a Igreja primi-
permanente no povo de Deus, se deve estender a quem es- tiva reconheceu com clareza a vontade de Jesus de recons-
tiver passando necessidade. O conceito de "próximo" perde truir o Israel verdadeiro não mais sobre domínio do homem,
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assim radicalmente os seus limites, mas não cai, de modo al- formulou-a num texto decisivo e, depois, transmitiu o texto.
gum, numa "abstração universalv.l" A perda constante dos Hoje, ele está em lugar de destaque no Evangelho de Mar-
Jte limites do amor fraterno guarda sua base no povo de Deus, cos. Imediatamente antes, é narrado um pedido dos filhos
que, primeiramente, vive o amor ao próximo dentro do seu de Zebedeu, Tiago e João (Me 10,35-41):
âmbito interno. Exatamente enquanto a base é conservada,
os limites podem ser ultrapassados constantemente. "Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir". Ele per-
Considerando as coisas sem preconceitos, deve dizer-se guntou: "Que quereis que vos faça?" Disseram: "Concede-nos, na
que, também neste ponto, a Igreja primitiva segue os passos tua glória, sentarmo-nos um à tua direita, outro à tua esquerda".
de Jesus - provavelmente com mais exatidão do que nós. Jesus lhes respondeu: "Não sabeis o que estais pedindo. Podeis
As comunidades neotestamentárias nunca pensaram em beber o cálice que eu vou beber e ser batizados com o batismo com
entregar-se a sonhos ingênuos com lemas como: "Todos os que serei batizado?" (...)
homens tornam-se irmãos" ou ainda "Sejam abraçados mi-
lhões". Tentaram, muito sobriamente, realizar o amor frater- A cena evoca uma imagem como das "Mil e uma Noites".
no primeiramente dentro das próprias fileiras e, ao mesmo Um novo rei subiu ao trono e iniciou seu reinado. Ele convida
tempo, esforçaram-se por ultrapassar os limites para fora. seus dois subalternos mais importantes a sentarem-se à sua
Deste modo, cada vez mais pessoas são envolvidas pela fra- direita e à sua esquerda, também em tronos. Eles reinarão e
ternidade das comunidades e tornam-se possíveis novos re- julgarão juntamente com ele. Com certeza, Tiago e João estão
lacionamentos com o próximo. interessados em assegurar para si poder real no Reino de Deus
que se aproxima, antes que cheguem os outros. Os outros no
círculo dos Doze entendem perfeitamente a jogada dos dois.
122 Cf. N. LOHFINK, op. cit., 28055.
123 Assim com razão F.-J. ORTKEMPER, op. cit., 183. Eles ficam indignados com os dois filhos de Zebedeu 00,41).
172HHH . ...... . ..........................................HHHAIC;~~Ji\qTJEJ~S.lJSgTJ?~i\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

A esta cena segue o texto de que se trata aqui. É uma se fala aqui, nem sequer pode impor pela força aquilo que
pequena composição literária que reflete com bastante exa- é legítimo e correto. Apenas pode testemunhá-lo e, se for
tidão a opinião do Jesus histórico sobre o poder humano. preciso, morrer por isso. É tudo menos coincidência, que no
Em sua forma atual, porém, o texto é uma composição pós- fim do texto se fala da entrega da vida de Jesus em favor de
pascal, na qual já se refletem problemas de poder na Igreja: muitos 00,45). Jesus não usou meios de poder para impor
sua mensagem. Nem sequer organizou o movimento que
"Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e originou em Israel. Ele foi apenas testemunha, e fez dos seus
os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrá- discípulos testemunhas. Quando, por causa de sua mensa-
rio, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, gem, estavam para eliminá-lo pela força, ele prefere deixar-
e aquele que quer ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos. se matar a responder a seus adversários pela força. Esta é a
Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir autoridade de Jesus. Ela é, até ao extremo, uma autoridade
e dar a sua vida em resgate por muitos 00,42-45). paradoxal, que em sua desproteção e vulnerabilidade inverte
..~
t-'_] todas as espécies atuais de soberania .
Como já foi dito, o texto alude a problemas do poder A partir desta atitude de Jesus, Me 10,42-45 define,
ti) dentro da Igreja. Aqui trata-se da estrutura básica dos mi- com consequência espantosa, toda espécie possível de au-
nistérios eclesiásticos, definidos a partir da existência servi- toridade dentro da Igreja. A não-violência, a renúncia ao
çal de Jesus. Autoridade e poder devem, pois, existir dentro domínio e, por isso, a desproteção assustadora são inal-
da Igreja. Isto pressupõe-se. Mas esta autoridade não pode teravelmente instituídas na Igreja e em seus ministérios
ser de dominação, como é exercido na sociedade restante. pela práxis de Jesus.
Aí, o domínio procura, muitas vezes, os interesses de quem O programa, portanto, é claramente conhecido. Não
domina. A autoridade no povo de Deus, porém, deve nascer apenas por Marcos, mas também por Mateus (20,25-28) e
do serviço. Na Igreja, só se pode tornar autoridade aquele Lucas (22,24-27). Lucas ainda acentuou mais do que Mar-
que renuncia a si mesmo e a seus interesses e vive sua exis- cos a referência à Igreja da composição de sentenças (d.
tência em favor dos outros. Lc 22,26). Mas a Igreja primitiva também viveu este pro-
Mas o texto vai muito mais além. Deve-se partir do fato grama que se afasta tão radicalmente de todas as formas de
(embora ele não seja expressamente mencionado) que existe vontade de domínio humano? Pelo menos não o esqueceu.
entrega altruística em favor dos outros também na socieda- Por mais vezes que tenha fracassado no cumprimento de
de restante. Há tiranos, mas há também soberanos que, em Me 10,42-45 - pelo menos, ela sabia que, neste texto, estava
sua função, colocam em primeiro lugar os interesses do bem o critério que decidia se ela era o verdadeiro povo de Deus,
comum. Mas mesmo eles devem impor ou defender o bem a contra-sociedade de Deus no mundo.
da sociedade pela força - a força que a lei coloca em suas Sobretudo, Paulo é, neste ponto, a consciência vigilante
mãos. Na contra-sociedade divina, que o nosso texto tem em da Igreja primitiva. Em si, ele possui uma consciência acen-
vista, nem mesmo isto pode acontecer. A autoridade, de que tuada de sua autoridade apostólica - muito mais acentuada
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A.I<:;:R.~Ji\.qLJE.J~~LJSglJE:~i\ As COMUNIDADES
NEOTESTAMENTÁRIAS
NOSEGUIMENTO
DE

do que certos exegetas querem admitir.!" Paulo não era, de na suspeita de ser domínio sobre a comunidade. Ela tem o
modo algum, apenas um "exortador" paternal ou, em situa- caráter de entrega serviçal.!" Paulo prefere ir a Corinto "no
ções de limite, também um "juiz carismático", como K. WE- Espírito do amor e da mansidão" do que com dureza (lCor
GENAST afirma.!" W. SCHRAGE mostrou em seu trabalho sobre 4,21). Em Tessalônica, ele poderia fazer valer o peso de sua
"os mandamentos concretos na parânese paulina", até que autoridade "como apóstolo de Cristo", em vez disso, ele foi
ponto Paulo ditou normas para suas comunidades - em vir- aos Tessalonicenses "cheio de bondade como uma mãe que
tude de seu poder apostólico. "Não se pode acentuar demais o acaricia seus filhos" (l Ts 2,7). Ele poderia "ordenar" a Filê-
momento autoritário e impositivo (d. 2Cor 1,24; 8,8), mas mon, "tendo toda liberdade em Cristo", mas, em vez disso
também não podemos esquecê-lo e reduzir as instruções "prefere pedir por amor" (Fm 8). Apesar das graves disputas
apostólicas a simples recomendações e conselhos'"!" que ele tem com os Coríntios, escreve à comunidade: "Não
Paulo é primeiramente anuncia dor do Evangelho, mas tencionamos dominar a vossa fé, mas colaboramos para que
neste anúncio, o homem não experimenta apenas a miseri- tenhais alegria" (2Cor 1,24).
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córdia de Deus, mas também suas exigências. Por isso, com Textos como estes poderiam ser meras declarações. Por
a mesma autoridade com que anuncia o Evangelho, o após- isso é importante o fato de que não estamos dependendo
tolo dá normas obrigatórias para a vida moral do indivíduo apenas de frases isoladas como estas. A forma das epístolas
e para a vida em comum na comunidade. Estas normas es- em si já mostra que Paulo não quer dominar a fé das comu-
tendem-se até a esfera jurídica: no Espírito do Senhor res- nidades. Do ponto de vista literário, as epístolas pertencem
suscitado, o apóstolo pode tomar decisões que obrigam e às cartas mais extensas e pessoais que possuímos dos tem-
adquirem valor de lei."? pos antigos. Isto está ligado ao fato de Paulo primeiramente
Paulo está bem consciente de sua autoridade apostólica não decretar, mas argumentar com um profundo engajamen-
(exousia) que lhe foi conferida pelo próprio Cristo. Mas isto é to teológico. Ele quer convencer suas comunidades, ele luta
apenas um lado da questão. Pois o exercício desta autorida- por sua compreensão, para que, pelo conhecimento alcança-
de sempre é integrado na estrutura do serviço (diakonia). As- do, possam decidir juntos. Paulo leva a sério a liberdade e a
sim o exercício de sua autoridade apostólica nem sequer cai 'responsabilidade própria de suas comunidades.
As epístolas mostram claramente, que Paulo não se limi-
ta a ordenar e mandar, tanto em sua primeira parte que ar-
124 Cf. para o que segue, G. LOHFINK,Paulinische Theologie in der Rezeption gumenta como também na segunda que exorta: a paráclese. A
der Pastoralbriefe, em: K. Kertelge (ed.), Paulus in den neutestamentlichen paráclese de Paulo também é certamente ordem e instrução,
Spiitschriften. Zur Paulusrezeption im Neuen Testament (QD 89), Fribur-
mas, ao mesmo tempo, apelo, estímulo, conselho, consolo,
go, 1981, 70-121, lá 109-114.
125 Cf. K. WEGENAST, Das Verstiindnis der Tradition bei Paulus und in den
Deuteropaulinen (WMANT 8), Neukirchen-Vluyn, 1962, 14l.
126 W. SCHRAGE, Die konkreten Einzelgebote in der paulinischen Pariinese. Ein 128 Esta tensão paradoxal de exousia e diakonia em Paulo é bem elaborada
Beitrag zur neutestamentlichen Ethik, Cutersloh, 1961, 107. por W. THUSING,"Dienstfunktion und Vollmacht kirchlicher Âmter
127 Cf. G. LOHFINK,op. cit., 111-113. nach dem Neuen Testament", BiLe 14 (1973), 77-88.
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NEOTESTAMENTÁRIAS
NOSEGUIMENTO
DE

convite, até pedido.?" Tudo isto esta contido na palavra gre- fazer valer a sua concepção teológica de comunidade. A cau-
ga parakalein, palavra característica para a segunda parte das sa disso não estava apenas no fato que, desde o conflito de
epístolas de Paulo (d. especialmente Rm 12,1). Quando Pau- Antioquia, delegações judaico-cristãs invadiam constante-
lo ordena, o pedido pessoal e cordial está sempre - unido a mente sua área missionária e perturbavam as comunidades;
todas as ordens e rompe-as constantemente. mas também no fato de que Paulo não queria manter suas
Mais elo quente do que a forma em que Paulo escreve, é comunidades dependentes, mas concedia-lhes um espaço
a maneira como trata os seus colaboradores e que se torna carismático muito grande. Paulo queria uma obediência li-
conhecida, constantemente, pelas epístolas. Já a palavra "co- vre e vinculava os carismas à razão e ao amor-" - e assu-
laboradores" (synergos) é significativa. Não só é usada rela- miu, com isto, um grande risco. Mas é esse precisamente o
tivamente muitas vezes por Paulo.!" mas também recebeu risco de uma autoridade não dominante, no seguimento de
dele um significado especial. Com esta palavra, Paulo desig- Jesus. A Igreja terá sempre que se decidir entre a segurança
na os homens e as mulheres que trabalham juntamente com da não-liberdade e o risco da liberdade.
(
....... ,.
. ele na obra comum da missão. W. H. OLLROGmostrou numa De resto, Paulo refletiu muito mais do que qualquer
•1

pesquisa brilhante sobre "Paulo e seus colaboradores", que outro sobre esta alternativa. Ele sabia muito bem que uma
tEl' a forma missionária paulina deve ser chamada como "mis- autoridade, que tem de renunciar ao poder, chega muito ra-
são de colaboradores" - o que não era coisa evidente para pidamente perto da cruz de Cristo. Seu serviço apostólico é
a Igreja primitiva.!" OLLROGmostrou ainda que, em vista realizado na fraqueza, e esta fraqueza tem muito a ver com
do grande número de seus colaboradores, Paulo não fez de a importância do Cristo crucificado.
sua pessoa "o centro que garantia a união", mas "da obra
comum" (ergon). Ele mesmo é "colaborador" nesta obra Incessantemente e por toda parte trazemos em nosso corpo a ago-
(lCor 3,9) e trata os demais colaboradores não como ajudan- nia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada
tes, mas como parceiros adultos e autônomos.l" em nosso corpo. Com efeito, nós embora vivamos, somos sempre
Também os fracassos e derrotas fazem parte da "prá- entregues à morte por causa de Jesus, a fim de que também a vida
xis" de Paulo. Os sofrimentos do apóstolo não vêm apenas de Jesus seja manifestada em nossa carne mortal (2Cor 4,105).
das perseguições, mas também da constante "preocupa-
ção por todas as comunidades" (lCor 11,28). Numa série No entanto, esta fraqueza e impotência da existência
de igrejas locais, especialmente em Corinto, parece que apostólica (d. também 1Cor 4,9-13) é exatamente seu poder
Paulo teve pouco êxito ou um êxito pouco duradouro em e sua força: "Pois quando sou fraco, então é que sou forte"
(2Cor 12,10). Como? Também o serviço pode, de maneira su-
129 Cf. A. GRABNER-HAIDER, Paraklese und Eschatologie bei Paulus. Mensch blime, transformar-se em domínio. Desta tentação mais pro-
und Welt im Anspruch der Zukunft Gottes (NTA 4), Munster, 1968,7-11. funda o portador de autoridade somente se livra, quando
130 Cf. Rm 16,3.92; lCor 3,9; 2Cor 1,24; 8,23; F12,2S; 4,3; lTs 3,2; Fm 1.24.
131 W.-H. OLLROG, op. cit., 111-161.
132 W.-H. OLLROG, ib., 63-72. 133 E: KASEMANN, Der Ruf der Freiheit, Tubingen, 1968, 128.
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entende seus fracassos e suas derrotas como morrer junto função. Em Corinto, membros da comunidade têm litígios
com Cristo. Somente nesta impotência o seu serviço se torna entre si. Eles procuram tribunais gentios. Paulo está profun-
inteiramente altruísta e assim ganha uma força que supera damente indignado com estes acontecimentos:
tudo. Somente nesta impotência o mensageiro pode dizer
verdadeiramente: Não se encontra entre vós alguém suficientemente sábio para po-
'der, julgar entre os seus irmãos? No entanto, acontece que um
Não pregamos a nós mesmos, irmão entra em litígio contra seu irmão, e isto diante de infiéis!
mas a Cristo Jesus, Senhor, (LCor 6,55).
Quanto a nós mesmos, apresentamo-nos como
vossos servos, por causa de Jesus (2Cor 4,5). Segundo a opinião de Paulo, os cristãos não podem pro-
curar tribunais gentios quando tiverem litígios entre si. Eles
Uma das mais trágicas ilusões da Igreja é o fato de ela devem resolver seus conflitos dentro da própria comunidade.
( .•...,... querer assegurar sua autoridade (que em si é necessária e le- Esta é a primeira coisa que Paulo tem a dizer aos Coríntios.
gítima) mediante a dominação. Na realidade, deste modo, ela Mas então recomeça de modo mais radical ainda e escreve:
'te<i destrói sua autoridade e prejudica gravissimamente o Evan-
c gelho. A verdadeira autoridade só pode brilhar na impo- De qualquer modo, já é para vós uma falta a existência de litígios
tência da renúncia ao poder. É a autoridade do crucificado. entre vós, Por que não preferis, antes, padecer uma injustiça? Por
Paulo sabia disso como nenhum outro, e por isso relacionou que não vos deixais, antes, defraudar? (l Cor 6,7).
sempre de novo o paradoxo de sua autoridade apostólica
com o paradoxo do crucificado e ressuscitado. É surpreen- Neste lugar da argumentação de Paulo irrompe exa-
dente, com que intensidade o conteúdo de Me 10,42-45 é re- tamente o Espírito de Jesus (cf. 2,5). Dentro do verdadei-
encontrado em Paulo. ro povo de Deus não pode existir mais luta pelos direitos.
É necessário ainda dizer expressamente que o serviço às Quem pratica estas lutas, leva as estruturas da sociedade
comunidades a partir da impotência da cruz de Cristo não descrente para dentro do povo de Deus e ofusca o caráter da
é, de modo algum, apenas uma atitude íntima ou sentimen- Igreja como sociedade de contraste.
tos corretos daqueles que exercem um ministério? Seria fatal A proscrição da luta pelos direitos não significa, porém,
interpretar Me 10,42-45 e seus paralelos apenas com ética que não possa mais haver direito dentro da Igreja. Isto seria
interna e individualista. Nos textos neotestamentários desta tão absurdo como a exigência de que não possa mais haver
espécie trata-se sempre também da forma concreta da função autoridade ou instituições dentro da Igreja. Em última análi-
eclesiástica que não pode refletir as estruturas do poder e se, tais exigências levam a uma Igreja invisível que não teria o
domínio deste mundo. mínimo a ver com o conceito de Igreja do Novo Testamento.
A tentação de impor a dominação e fazer valer seu direi- Evidentemente deve existir direito na Igreja. Caso contrário,
to pela força não existe apenas naqueles que exercem uma ela não seria "povo de Deus", ou "Corpo de Cristo"; não
180 H "'H " 'H'.........AIc;~E:J~HqTJEJE:?TJSqTJEl~l~ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRlAS NO SEGUIMENTO DE

seria o "espaço concreto da soberania de Cristo neste mun- Na Bíblia, o povo de Deus foi sempre compreendido
do". Mas o direito dentro da Igreja só pode ser um direito como sociedade de contraste. Povo de Deus - é algo dife-
análogo em comparação com o direito do mundo. Em tudo rente da configuração nacional do tempo de Salomão ou dos
deve estar aberto ao Espírito de Jesus e ser, por ele, relativi- Asmoneus. Povo de Deus não significa, portanto, Estado de
zado. Não se pode, na verdade, excluir autoridade e obri- Israel. Povo de Deus também não é apenas a comunidade es-
gatoriedade, nem tão pouco ser sustentado por instituições piritual dos devotos que, sendo os mansos da terra, esperam
que só conseguem alcançar este direito com os meios da for- a salvação. Povo de Deus é aquele Israel que tem consciência de
ça. Só pode ser sustentado por comunidades que se colocam ser eleito e chamado por Deus, com toda a sua existência - o
unanimemente'> e em obediência livre sob um tal direito e o que quer dizer também: em toda sua dimensão social. Povo
vivem. A partir do homem, esta unanimidade é impossí- de Deus é aquele Israel que, segundo a vontade de Deus, se
vel. Mas é possível como milagre constante pelo Espírito de deve distinguir de todas as nações da terra:
Deus.135 Onde Deus age, de repente, consegue-se aquilo que,
·.....,~ de outro modo, apesar de todos os esforços morais, sempre Pois tu és um povo consagrado a iahweh teu Deus; foi a ti que
fracassa: pensar a partir do outro, confiar nele e encontrar a lahweh teu Deus escolheu para que pertencesses a ele como seu
.1",,;1
unidade . povo próprio, dentre todos os povos que existem sobre a face da
,(: terra. Se lahweh se afeiçoou e vos escolheu, não é por serdes o mais
.' 7. A IGREJA COMO SOCIEDADE DE CONTRASTE numeroso de todos os povos - pelo contrário: sois o menor dentre
os povos! - e sim porque lahweh vos ama, e para manter a pro-
O conceito de sociedade de contraste (ou mesmo contra- messa que ele tinha jurado a vossos pais; por isso lahweh vos fez
sociedade), já usado várias vezes neste livro, provavelmente sair com mão forte e vos resgatou da casa da escravidão, da mão de
encontra incompreensão, talvez até resistência em alguns faraó, rei do Egito (Dt 7,6-8).
leitores. De fato, não é um conceito bíblico. Mas a realidade
que este conceito exprime, preenche a Bíblia do começo até À ação libertadora de Deus, que elegeu Israel de todos
o fim. Só que esta realidade nos escapa, não a percebemos os povos e o salvou do Egito, deve corresponder a conduta
mais na Bíblia. Por isso impõe-se buscar ajuda num outro do povo de Deus. Deve ser um povo santo com uma ordem
conceito, para que a realidade entendida pela Bíblia, oculta social que o distingue das outras nações,
sob o verniz de uma linguagem que, para nós, muitas vezes,
soa como edificante-inofensiva, possa aparecer de novo. Observa, pois, os mandamentos, os estatutos e as normas que eu
hoje te ordeno cumprir (Dt 7,11).

l34 Para o tema unanimidade de sentimentos da comunidade cf. At 1,14; 2,46; .Há duas razões para Israel ser um povo santo: primeiro
4,24; 5,12; 15,25; Rm 12,16; 15,55.
o amor de Deus que o chamou e fez dele, de entre todas as
135 Considerações sobre a Igreja enquanto milagre originário, que Deus ope-
ra, em N. LOHFINK, op. cit. (25),49-71; o mesmo op. cit. (45), 152-155. nações, o povo de sua propriedade. Mas a santidade de Israel
182 ... ... ..Alc;~~Jp"qlJEJ~?lJSglJE~~ 1\5 COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

também depende do fato de ele viver realmente a ordem não é de modo algum, uma atitude meramente interior;
social que Deus lhe concedeu e que está em nítido contraste trata-se de práxis concreta. Também não é apenas assunto
com as ordens sociais de todos os outros povos. Esta cone- do indivíduo; pressupõe homens que em conjunto levam a
xão está formulada de modo especialmente incisivo na cha- sério esta não-violência. Isto é ainda mais claro no fato da
mada "lei da santidade" (Lv 17-26), por exemplo, quando aí renúncia à dominação! (d. 3,6). Não-violência e renúncia ao
se diz: domínio só se podem realizar no contexto da realidade so-
cial, e elas querem transformar exatamente esta realidade. O
Sereis consagrados a mim, apelo de Jesus à não-violência e à renúncia à dominação já
pois eu, lahweh, sou santo implica, portanto, a perspectiva de uma nova sociedade, que
e vos separei de todos os povos para serdes meus (Lv 20,26). está em contraste nítido com as sociedades do mundo, mar-
cadas pela violência e desejo de domínio.
o fato de Deus ter elegido e santificado seu povo, para De resto, na "oração da reconstituição", no Pai-Nosso,
fazer dele uma sociedade de contraste entre os outros po- Jesus fala uma linguagem clara. Nela é retomada toda temá-
vos é também para Jesus o background evidente de toda tica da santidade do Antigo Testamento. Já vimos antes (d.
sua atividade. A diferença entre Jesus e os textos citados 1,4): "Santificado seja teu nome" - não significa nada senão:
de Levítico e Deuteronômio está apenas no fato que, para "Reconstitui e renova teu povo; faze que seja o verdadei-
Jesus, por causa da mensagem dos profetas, tudo isso tem ro povo de Deus". Diante do pano de fundo de Dt 7,6-11 e
uma dimensão escatológica: as ações de Deus no passado Lv 20,26 podemos dizer com mais exatidão ainda: "Santifi-
ficam muito atrás em relação à ação escatológica de Deus cado seja teu nome" - significa também: "Reúne para ti um
que ainda está para vir, na qual ele restaura seu povo, ou, povo renovado, santo de verdade, para que assim possa bri-
mais ainda, o constitui de novo, para realizar, enfim, assim lhar o Reino de Deus e teu nome esteja diante dos olhos das
definitiva e irrevogavelmente seu plano de ter um povo nações em todo seu esplendor".
santo no meio das nações. A Igreja primitiva compreendeu esta intenção de Jesus?
Sem este pano de fundo o movimento da reconstitui- Deu-lhe continuidade? Ela compreendeu-se a si mesma, ou
ção em Israel por parte e Jesus é incompreensível. Ele visa melhor, as comunidades neotestamentárias compreende-
o verdadeiro Israel escatológico, no qual é vivida a ordem ram-se, em princípio, como contraste ao paganismo, como
social do Reino de Deus. Jesus nunca convocou para uma povo santo que deveria ser diferente da sociedade pagã?
mudança político-revolucionária da sociedade judaica. Mas Esta pergunta é tão importante pelo fato de, há séculos, as
a conversão que ele exige como consequência de sua men- igrejas cristãs quase não conhecerem mais o sentimento do
sagem do Reino de Deus quer desencadear, dentro do povo "contraste" para com a sociedade. Apenas as seitas ou as
de Deus, um movimento, frente ao qual, as revoluções cos- Igrejas das missões puderam realmente compreender o que
tumeiras são bagatelas. Pensemos, por exemplo, no apelo de significava crer contra a sociedade restante. Nas igrejas cristãs
Jesus para a não-violência absoluta (d. 2,5). Esta não-violência populares esta noção relampejou apenas de vez em quando
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AIq~~J;\q1!~J~S1!S.q1!IlI~I;\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

- para os católicos alemães, por exemplo, no Kulturkampf do fixo.'> Ele foi chamado o esquema de "outrora e agora".137
tempo de BISMARCK, ou para uma parte dos protestantes e Nem sempre é formulado com tanta brevidade quanto em
católicos alemães na resistência contra o Terceiro Reich. Ao Ef 5,8. Muitas vezes, sua elaboração é mais extensa. Assim,
todo, porém, as igrejas da Europa ocidental identificaram-se por exemplo, em Tt 3,3-6:
em sua mentalidade de uma maneira consternadora com a
sociedade restante e suas estruturas. Elas apenas oferecem Porque também nós antigamente éramos insensatos, desobedientes,
esporadicamente resistência ou recusa. Os cristãos da Europa extraviados, escravos de toda sorte de paixões e de prazeres, viven-
ocidental não estão mais conscientes - ou somente nos últi- do em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Mas
mos anos começaram novamente a tomar consciência - de quando a bondade e o amor de Deus, nosso salvador, se manifesta-
que a Igreja, como um todo, deveria ser uma espécie alter- ram, ele salvou-nos, não por causa dos atos justos que houvéssemos
nativa de sociedade. praticado, mas porque, por sua misericórdia, fomos lavados pelo po-
No Novo Testamento ainda é diferente. Em múltiplos der regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente
conceitos, mas também em estruturas mais amplas de dis- derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso salvador.
curso aparece o conhecimento da Igreja como sociedade-de-
contraste de Deus no meio da sociedade restante. Uma des- Novamente são contrapostos o outrora e o agora. O outro-
tas estruturas de discurso aparece em Ef 5,8: ra da existência pagã, porém, desta vez, não é descrito com
um único conceito, mas com todo um catálogo de vícios. As-
Outrora éreis trevas, sim, estamos diante de uma segunda estrutura de discurso,
mas agora sais luz no Senhor: usada pelos pregadores do cristianismo primitivo para con-
andai como filhos da luz. frontar a sociedade pagã e a Igreja. Eles opuseram, simples-
mente, em longas listas, a situação sem saída do paganismo
Num contraste nítido estão frente a frente as duas si- e a vida na força do Espírito Santo. Um dos exemplos mais
tuações: o outrora e o agora. Os fiéis, a quem o discurso se belos é CI 3,8-14:
dirige, outrora eram "trevas". Agora são "luz". "Trevas" aqui
é metáfora para a antiga existência no paganismo, "luz" é Mas agora abandonai tudo isto: ira, exaliação, maldade, blasfêmia,
metáfora para a existência atual na Igreja, pois a expressão conversa indecente. Não mintais uns aos outros. Vós vos desvestistes
"no Senhor" significa a vida no âmbito da soberania de Cristo,
e este é, na tradição linguística paulina, a Igreja. Às consta-
136Cf. Rm 5,8-11; 6,15-23; 1UO-32; 1Cor 6,9-11; Gl 1,13-17.23; 4, 3-7.8-10;
tações no indicativo segue ainda um imperativo: os cristãos, Ef 2.1-22; 5,8; Cl 1,21s; 2,13; 3,7-11; lTm 1,13; Tt 3,3-7; Fm 11;
em princípio, são "luz", mas devem realizar em suas vidas 1Pd 2,10; 2,25; 2Clem 1,6-8.
aquilo que são. 137Extensamente: P. TACHAU, "Einst" und "[eizi" im Neuen Testament.
Beobachiungen zu einem urchristlichen Predigtschema in der neutestamen-
Estruturas de discursos semelhantes são tão frequentes
tlichen Briefliteratur und zu seiner Vorgeschichte (FRLANT 105), Gõttin-
na literatura das epístolas, que se pode falar de um esquema gen, 1972.
186 ,.... """"""'"
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""'"Alc;~~Ji\qlJEJ~?lJSglJE~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que escatológica; em Cristo, ele criou seu povo novamente. Por
se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu criador. isso vale:
Aí não há mais grego nem judeu, circunciso e incircunciso, bár-
baro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos. Portanto, Se alguém está em Cristo,
como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos é nova criatura.
de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, longanimidade, Passaram-se as coisas antigas;
suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se eis que se fez uma realidade nova (2Cor5,17).
alguém tem motivos de queixa contra outro; como o Senhor vos
perdoou, assim também fazei vós. Mas sobre tudo isso, revesti-vos Mais uma vez seja mencionado que: estar em Cristo sig-
do amor, que é o vínculo da perfeição. nifica viver no âmbito da soberania de Cristo - e o âmbito
desta soberania é a Igreja. 2Cor 5,17 tem em vista, do mes-
É claro: aqui se contrapõe uma lista negativa (ira, exal- mo modo que Tt 3,3-6, o batismo, pelo qual o indivíduo
..;~,. tação, maldade, blasfêmia, conversa indecente, mentira) foi incorporado ao corpo de Cristo que é a Igreja. Esta in-
a outra lista positiva (compaixão, bondade, humildade, corporação não atinge apenas a interioridade do batizado;
nc mansidão, longanimidade, amor). A lista negativa deve para Paulo, ela tem consequências radicais que atingem
<.1 caracterizar o homem pagão, a positiva o cristão. A parte profundamente a dimensão social.
,
do meio mostra que não se trata apenas de virtudes de in- Pois Cristo morreu, a fim de "livrar do presente mun-
divíduos. Trata-se também e sobretudo da sociedade pagã do mau" todos os que creem (GI 1,4). Nada indica que,
em sua totalidade, pois é-lhe contraposta a nova sociedade com a expressão "livrar do presente mundo mau", Paulo
de Deus, na qual foram abolidas radicalmente as antigas entenda o acolhimento futuro dos fiéis no céu. O que ele
barreiras sociais entre gregos e bárbaros, judeus e gentios, tem em mente, é uma separação fundamental do cristão
escravos e livres (cf. 3,3). em relação ao mundo, que acontece pela fé e pelo batismo.
Especialmente instrutiva é, em C13,8-14, também a ca- O batizado é salvo do mundo para dentro do âmbito da
tegoria do novo que é introduzida para definir a existência soberania de Cristo. O mundo, que aqui é chamado mau,
do batizado. Ao homem velho é contraposto o homem novo porém, é mais do que o conjunto de muitos indivíduos que
em Cristo (cf, também Ef 2,15; 4,24). A irrupção do radical- praticam o mal. Ele é, simultaneamente, também o poten-
mente novo dentro do mundo velho pelo novo se trata de cial do mal que, pelos pecados de muitos, se sedimentou
um acontecimento escatológico. O mesmo motivo da nova nas estruturas da sociedade e assim perverteu o mundo,
criação mostra com toda a clareza que na substituição do tornando-o o âmbito do poder do mal. A Igreja é tirada
homem velho pelo novo se trata de um acontecimento es- deste mundo, porque vive da obra salvífica de Cristo; isto
catológico. O mesmo motivo também torna claro porque é, ela não precisa mais viver na escravidão do mal e con-
a Igreja primitiva podia distinguir tão radicalmente entre forme as falsas estruturas da sociedade pagã. Por isso,
o outrora e o agora. Deus trouxe em Cristo a transformação Paulo exige em Rm 12,2:
188 ..............................
A.I<:;~~Ji\..qlJE.J~~lJS ..9lJEl{li\. As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

Não vos conformeis com este mundo, mas meio do mundo. Acontece, assim, que ele até distingue os
transforma i-vos, renovando a vossa mente. de "dentro" (lCor 5,12) e os de "fora" (lCor 5,12s; 1Ts 4,12).
Mas Paulo nunca distingue entre cristãos que pertencem
É necessário repetir isso muitas vezes porque, em virtu- apenas externamente à comunidade e fiéis "praticantes"; ser
de de um hábito muito prolongado, na maior parte das ve- cristão e participar da comunidade visivelmente reunida, para
zes, todos estes textos foram interpretados, de, modo muito ele, manifestamente, coincidem.!" Mais ainda! Ser cristão exi-
unilateral, como visando a renovação interior ou mesmo o ge também que a santidade recebida no batismo e a vida mo-
equipamento moral do cristão individual. Em Rm 12,2 e em ral do batizado coincidam. Caso se abra uma brecha profunda
muitos outros textos não se trata apenas de mudança das entre ambas, Paulo exige que medidas sejam tomadas:
atitudes interiores ou de uma motivação nova, e muito me-
nos ainda, apenas do indivíduo. A renovação da mente está Eu vos escrevi em minha carta que não tivésseis relações com im-
ligada à transformação escatológica, que iniciou uma nova pudicos. Não me referia, de modo geral, aos impudicos deste mun-
criação no meio do mundo onde a Igreja se estende como do ou aos avarentos ou aos ladrões eu aos idólatras, pois então te-
âmbito da soberania de Jesus. Esta nova criação não atinge ríeis que sair deste mundo. Não; escrevi-vos que não vos associeis
apenas o espírito da Igreja, mas também seu corpo, sua con- com alguém que traga o nome de irmão e, não obstante, seja im-
figuração - hoje devemos dizer quase forçosamente: suas pudico ou avarento ou idólatra ou injurioso ou beberrão ou ladrão.
estruturas. Rm 12,2 diz, portanto: a estrutura e o espírito das Com tal homem não deveis nem tomar refeição (l Cor 5,9-11).
comunidades não se devem acomodar à estrutura e ao espí-
rito da sociedade restante. Este mandamento muito duro que - visto isoladamente
Já vimos, num caso concreto, consequências deste prin- - causa até a impressão de que para Paulo nem sequer existe
cípio para Paulo: os cristãos, em seus litígios privados, nem misericórdia cristã para quem se tornou culpado, expressa
sequer podem recorrer a tribunais gentios. Pois também es- claramente um princípio bíblico básico que se poderia cha-
tes conflitos atingem a comunidade toda e, por isso, devem mar santidade da comunidade. A Igreja não só é santificada
ser resolvidos dentro da própria comunidade (d. 3,6). Com pela obra salvífica de Jesus, ela também tem que realizar
isto, está traçada uma nítida linha de separação entre Igreja esta santidade numa vida correspondente. Se não, ela torna-
e sociedade, que não admite transições. Esta linha de sepa- se igual ao mundo. Paulo não tem dificuldades em explicar
ração adquire expressão linguística no fato de Paulo distin- à comunidade de Corinto uma fórmula da lei, que devia as-
guir, sem embaraço, entre os "fiéis" e os "infiéis" .138 Quem segurar a santidade do povo de Deus do Antigo Testamen-
de nós hoje se lembraria de fazer tais diferenciações linguís- to: "Afastai o mau do meio de vós" (d. Dt 17,7; 1Cor 5,13).
ticas no seu ambiente? Paulo, porém, separa por princípio Também aqui se mostra a oposição radical entre comunida-
- com base no novo que teve início com Cristo e a Igreja no de e mundo.

138 1Cor 14,22; d. 1Cor 6,15.6. 139 W. KLAIBER, op. cit., 60.
190 . .......HHAIC;~~Ji\q{]EJ~~lJS(2lJ~~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

Este contraste profundo só nos é familiar nos escritos não era capaz de produzir. Cristo é o absolutamente Outro e
de João. Olhando melhor, no entanto, vê-se que Paulo tra- Novo, no qual a santidade e a verdade de Deus se tornaram,
ça a linha de separação tão nitidamente como os escritos definitivamente, presentes no mundo. E em toda parte onde
joaninos. O texto seguinte é tirado do Evangelho de João. se acredita em sua palavra e se vive a partir de sua verdade,
Ele é uma parte da chamada oração sacerdotal de Jesus. Os surge - no meio do mundo - igualmente o Novo e o Outro:
ouvintes desse discurso são os discípulos que, no Quarto o ~spaço sagrado da verdade. Aqueles que são santificados
Evangelho, representam toda a Igreja: por Cristo e vivem na sua verdade, distinguem-se assim da
forma mais radical da sociedade restante: de sua mentira,
Eu lhes dei a tua palavra, de sua não-verdade institucionalizada. Eles são odiados pe-
mas o mundo os odiou, los outros homens, porque desmascaram a sua construção
porque não são do mundo, social da realidade como mentira. Pois o mundo se ajeitou
como eu não sou do mundo. de tal maneira que, na sua interpretação da realidade, o ver-
Não peço que os tires do mundo, dadeiro Deus não aparece mais. No momento, porém, em
mas que os guardes do Maligno. que Cristo e, em seu seguimento, a comunidade dos discí-
Eles não são do mundo. pulos vive a verdadeira construção da realidade vinda de
como eu não sou do mundo. Deus, a mentira do mundo cai por terra. Então, à medida
Santifica-os na verdade; que os homens amam a verdade, eles chegam também à fé e
a tua palavra é verdade. juntam-se à comunidade dos discípulos. À medida, porém,
Como tu me enviaste ao mundo, que querem permanecer seguindo o "mundo" devem rea-
também eu os enviei ao mundo. gir com ódio e perseguição, para poderem continuar na sua
E, por eles, a mim mesmo me santifico, mentira. E não é apenas a mentira de vida particular, mas
para que sejam santificados na verdade também a mentira da sociedade, que construiu uma pseudo-
(Jo 17,14-19). realidade em torno de si:

Seria importante, novamente, traduzir corretamente as Se o mundo vos odeia,


fórmulas que se tornaram familiares demais pelo tanto ou- sabei que, primeiro odiou a mim.
vir, e a linguagem quase mítica do Evangelho: Se fosseis do mundo,
o mundo amaria o que era seu;
11I1
Eles não são do mundo mas porque não sois do mundo
como eu não sou do mundo e minha escolha vos separou do mundo,
o mundo, por isso, vos odeia
significa o seguinte: com Cristo entrou na história algo (Jo 15,188).
completamente novo, que a sociedade humana por si mesma
192.. . AI<:;~~Ji\..(2lJE.J~SlJ?(2lJ?~Ii\. As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

Também o Evangelho de João mostra, portanto, a gran- communio com toda a Igreja.143 Teríamos, então, aqui tam-
de distância entre o mundo e a comunidade dos discípulos. bém, como na palavra "espirituais", um daqueles estrei-
Importante é que, em João, exatamente no contexto em que tamentos de noção, tão características na evolução eclesial
ele formula esta distância, aparece o conceito da santificação posterior. No Novo Testamento, pelo menos, todos os mem-
dos discípulos 00 17,17-19).Nisto vê-se, não só que as linhas bros da Igreja são "santos", "espirituais", "irmãos", "irmãs".
básicas do Antigo Testamento continuam no Novo Testa- Nós ficamos constrangidos com a autodesignação "os
mento, mas também se torna definitivamente claro que o santos", usada na Igreja primitiva. Ela tem um pouco de sa-
conceito santidade da comunidade é o conceito central, com bor dos "santos dos últimos dias". Mas a palavra, antiga-
que a Bíblia expressa, em sua linguagem característica, sua mente, exprimia muito daquilo que nós chamamos "socie-
noção de povo de Deus, enquanto sociedade divina de contraste dade de contraste". A Igreja compreendia-se como o povo
com o mundo: a Igreja é um povo santo (1Pd 2,9); ela é um santo da propriedade de Deus com uma ordem de vida dife-
templo santo de Deus (1Cor 3,17); ela é santificada e purifi- rente da do mundo pagão. Esta consciência está por trás do
,i~"
cada pelo banho da água do batismo (Ef 5,26); os fiéis são os texto seguinte:
'. ramos santos na oliveira nobre de Israel (Rm 11,16s) e eles
~c são chamados por Deus para sua santificação (1Ts 4,3). Mas vós sois uma raça eleita,
o
Mas, antes de tudo, os cristãos chamam-se a si mesmos um sacerdócio real,
.'Ii
"os santos". Este termo, originalmente, era uma autodesig- uma nação santa,
nação da comunidade primitiva de [erusalém.l" Esta auto- o povo de sua particular propriedade,
-designação é assumida, depois, por todas as comunidades, a fim de que proclameis as excelências daquele
também na Igreja cristã convertida do paganismo. Em Pau- que vos chamou das trevas para a sua luz
lo, "os santos" são sinônimo de "comunidade"."! O termo maravilhosa OPd 2,9).
continuaria a auto designação característica dos cristãos até à
crise montanista; a partir daí seu uso vai diminuindo pouco Este texto mostra, mais uma vez, como o Antigo Testa-
a pouco. No tempo seguinte, os cristãos tinham consciên- mento (cf. especialmente Ex 19,6) continua vivo no Novo.
cia "de não serem santos, mas de ter santos mártires, santos Ele mostra também que não se trata, em primeiro lugar, da
ascetas, santos sacerdotesv.!" Há indícios de que o acrésci- santidade particular do indivíduo cristão. Um povo inteiro
mo ao credo apostólico, surgido no quarto século: "(Creio) deve dar testemunho do plano de Deus para o mundo. Este
na comunhão dos santos" originalmente não significava povo pode ser pequeno; importante é que cumpra com co-
apenas a comunhão com os santos do céu, mas também a ração alegre sua missão. "A decisão de preferir ficar uma

Cf. Rm 15,25.26.31; 1Cor 16,1; 2Cor 8,4; 9,1.12.


140
141 cr. Rm 1,7; 16,15; 1Cor 1,2; 2Cor 1,1; 13,12; FI 1,1; 4,22.
143 cr. r N. D. KELLY, Altchristliche Glaubensbekenntnisse, Geschichte und
Theologie, 3 ed., Gõttingen, 1972,381-390. Importante é o testemunho
il

142 A. VON HARNACK, op. cit., 388s. de Nicetas de Remesiana.


194 ................A.IC;~~Ji\.q1JE.J~?lJS.qlJF:~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

minoria com identidade inequívoca (a secularizar a Igreja) é de questionar ou abandonar sua construção de sociedade,
a condição prévia da ação transformadora do mundo", diz baseada principalmente em poder e desconfiança. Exata-
R. RIESNER com razão.!" O decisivo não é o tamanho da ci- mente esta necessidade terrível deveria, finalmente, forçar
dade, mas que ela esteja situada sobre um monte. Lá ela tor- os cristãos a mostrar ao mundo que é possível, por parte
na-se luz para o mundo todo. Paulo aproxima-se muito de de Deus, uma forma de sociedade totalmente diferente. No
Mt 5,14-16 quando escreve à comunidade de Filipos: entanto, isto não se pode fazer plausível pelo ensino, mas só
pela práxis.
Fazei tudo sem murmurações nem reclamações, para vos tornar-
des irreprováveis e puros, filhos de Deus, sem defeitos, no meio 8. SINAL PARA AS NAÇÕES
de uma geração má e pervertida, no seio da qual brilhais como no
mundo (Fl2,14s). Uma imagem da Igreja, como a que foi delineada no ca-
pítulo precedente, levanta muitas perguntas. Como é que
Encerremos, com esta citação da Epístola aos Filipenses, comunidades, em cuja autoconsciência o contraste para com
I"~
a longa série de textos! Ela poderia ser continuada. Todo o a sociedade restante desempenha um papel tão extraordiná-
1(; Novo Testamento vê a Igreja como sociedade de contraste, rio, se harmonizam com o mandato missionário de Mt 28,19:
que está em nítida oposição ao mundo. Deve-se perguntar "Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discí-
c
com muita tristeza, como foi possível reprimir, no cristianis- pulos ..."? Este mandato da missão universal não exige que
mo, este fato, durante tantos séculos. Em última análise, este uma comunidade se identifique profundamente com a situ-
mecanismo da repressão só funcionava, não tanto porque o ação dos povos em todas as partes do mundo? Mais ainda:
apelo do Novo Testamento à santidade tivesse sido esque- como se coadunam consciência de contraste e distância para
cido, mas porque foi sistematicamente estreitado e relacio- o mundo com a palavra [o 3,16: "Pois Deus amou tanto o
nado com o indivíduo cristão e a sua santidade particular, mundo que entregou o seu Filho único ..."? Esta frase, levada
ou com determinados grupos como sacerdotes e religiosos. a sério, não exige um completo sair-de-si, assim como Deus
Talvez a destruição definitiva e radical da ilusão de vi- entregou o que lhe é mais próprio por amor ao mundo?
ver numa sociedade totalmente cristã seja uma bênção. Isto Comunidades, cuja auto consciência está profundamente
poderia abrir os olhos para compreender que a Igreja deve marca da pela oposição à sociedade pagã e que querem manter
seguir seu próprio caminho. sua autenticidade, não cairão, pelo contrário, num isolamen-
Talvez seja mais eficiente ainda o fato de o nosso mun- to espiritual e não se tornarão seitas? Seu horizonte não se
do atualmente se aproximar cada vez mais do ponto de sua terá estreitado de modo insuportável dentro de pouquíssimo
autodestruição definitiva e, manifestamente, não ter a força tempo? Não girarão constantemente em torno de si mesmas?
Elas não cultivarão, dentro em breve, uma mentalidade eli-
tista de eleitos, que é repugnante e ridícula e, em todo o caso,
144 R RIESNER, Apostolischer Gemeindebau. Die Herausforderung der paulini-
schen Gemeinden, Giessen/Basel, 1980, 86. não-cristã? Não desenvolverão quase forçosamente aquela
196 , , " , , "'" " '" """"'""""AI<:;~~Ji\qlJEJ~?lJSqlJIl~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

consciência que encontramos em 2Cor 6,14-7,1? Esta passa- se possa duvidar que 2Cor 6,14-7,1seja um texto diretamen-
gem, na segunda Epístola aos Coríntios dá a impressão de te originário de Qumran, o parentesco interior deste texto
um bloco errático. Ela interrompe a conexão entre 6,13 e 7,2, com os escritos de Qumran não mostra muito claramente a
provavelmente não é do próprio Paulo, e é declarada, por que perigosas conseqüências tem de levar uma compreen-
muitos exegetas, como um dos textos mais duvidosos do são de Igreja enquanto sociedade de contraste?
Novo Testamento: Embora a resposta a estas perguntas já se encontre, ba-
sicamente, em capítulos anteriores (cf. 2,5; 2,7), vamos reto-
Não formeis parelha incoerente com os incrédulos. Que afinidade mar mais uma vez toda a problemática. Isto, porque surge,
pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode ha- sempre de novo, de modo estereótipos, a acusação de eliiis-
ver entre a luz e as trevas? Que acordo entre Cristo e Belial? Que mo, de sectarismo e de traição no universalismo cristão, quando
relação entre o fiel e o incrédulo? Que há de comum entre o templo a Igreja do Novo Testamento é descrita como sociedade de
de Deus e os ídolos? Ora, nós é que somos o templo do Deus vivo, contraste.
;~
.,~ como disse o próprio Deus: Em meio a eles habitarei e caminharei, Comecemos com 2Cor 6,14-7,1. Podemos partir tran-
",
serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Portanto, saí do meio quilamente do pressuposto de que este texto tem muitos
de tal gente, e afastai-vos, diz o Senhor. Não toqueis o que seja pontos comuns com a autocompreensão da comunidade de
impuro, e eu vos acolherei. Serei para vós um pai, e sereis para Qumran; estes pontos comuns podem-se observar também
mim filhos e filhas, diz o Senhor poderoso. Caríssimos, de posse em outros textos da paráclese neotestamentária.l'" Eles pro-
de tais promessas, purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do vêm, não em último lugar, do fato de tanto os homens de
espírito. E levemos a termo a nossa santificação no temor a Deus. Qumran como a Igreja primitiva estarem interessados em
reconstituir o verdadeiro Israel, em formar a comunidade
Trabalhos mais recentes tentaram mostrar que este tex- santa de Deus e em deixar-se edificar para serem templo es-
to tem um caráter semelhante à literatura de Qumran.l" De catológico no Espírito - numa palavra, pelo fato de estarem
fato, a comunidade de Qumran vivia isolada; ela tinha-se interessados em fazer frutificar para o seu próprio presente
retraído até do restante judaísmo. Ela considerava-se a si e tomar radicalmente a sério conteúdos centrais do Antigo
mesma como o santuário verdadeiro e a Jerusalém celeste já rea- Testamento. Nenhum cristão poderá censurar a comunida-
lizada. Ela constituía, sem dúvida, a "tentativa mais radical de de Qumran só por causa disso. Pois, pelo menos neste
e mais grandiosa" do judaísmo antigo, "de realizar a comu- aspecto, fez exatamente o mesmo. Talvez nós devêssemos
nidade santa de Deus".146Mas ela também cultivava uma mesmo nos desacostumar de colocar a etiqueta "seita" rápi-
consciência elitista sumamente desagradável; ela isolou-se e do demais em toda a parte onde não existe "Igreja popular"
retraiu-se da sociedade. Mesmo que, por diversos motivos, ou "Igreja grande". Pois poderia ser que as "seitas" somente

145 Cf. BRAUN. Qumran und das Neue Testament I, Tubingen, 1966,201-204. 147 Como na Epístola aos Efésios. Cf. J. GNILKA, Der Epheserbrief (HThK X
146
G. JEREMIAS. Der Lehrer der Gerechtigkeit (StUNT 2), Cõttingen, 1963,350. 2), Friburgo, 197t 27-29.
198 ..H ....H. ..................AIC;~~Ji\.q1JEJ~?1JSg1JEI~Ii\. As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

existam porque suas irmãs maiores reprimiram conteúdos e as formas do meio ambiente em que o homem vive e onde
centrais da Bíblia. ele se projeta constantemente. Provavelmente a santidade
De resto, vale a pena juntar aqueles conteúdos de coisificada e externa do Antigo Testamento e do judaísmo já
2Cor 6,14-7,1 que também se encontram em Paulo. tinham isto em mente. Portanto, deve-se ser muito cauteloso
Também Paulo distingue radicalmente entre fiéis e infiéis em reduzir a exigência da santidade à dimensão puramente
(1 Cor 6,1). Também Paulo usa o binômio de opostos luz-tre- moral. Não se pode perder, de modo algum, a dimensão do
vas quando quer destacar a comunidade da sociedade pagã social,
(1Ts 5,4-8). Também Paulo contrapõe a justiça da existência O Novo Testamento, evidentemente, sabe porque cha-
cristã à desordem da vida pagã (Rm 6,19). E também Paulo ma "os santos" a todos os fiéis de uma comunidade, por-
designa a comunidade como templo santo de Deus (l Cor 3,17). que fala do "povo santo" e porque chama "templo santo" à
A diferença realmente incisiva entre a interpolação comunidade. "Santo" significa, em todas estas expressões,
2Cor 6,14-7,1 e o Paulo autêntico é a exigência da santidade sempre também "separado". Separado, porém, não em um
ritual: "Saí do meio ... não toqueis o que seja impuro ... puri- gueto, numa autossatisfação re1igiosa ou num isolamento
ficai-vos de toda mancha da carne e do espírito!" Estas exi- cultural e espiritual, mas separado para um outro estilo de
gências indicam um grupo judeu-cristão extremo, no qual vida e novas formas de viver que, em oposição às estruturas
ainda se cumprem todos os preceitos veterotestamentários de uma sociedade distante de Deus e doente, realizam aqui-
de pureza (ritual). Esta dimensão ritual da exigência de san- lo que, a partir de Deus, a sociedade deve ser.
tidade do Antigo Testamento, de fato, está abolida desde Je- Visto a partir desta colocação, o fragmento 2Cor 6,14-7,1
sus (d. Me 7,1-23). O que não quer dizer, de modo algum, talvez não seja uma planta exótica demais dentro do jardim
que a exigência da santidade tenha sido simplesmente abo- das escrituras neotestamentárias. Talvez até tenha entrado
lida. Jesus apenas a reconduziu de uma esfera coisificada no Corpus Paulinum errare hominum et providentia Dei, para
- pré-pessoal, ao seu sentido verdadeiro: ao seu significado forçar à convicção, de que a Igreja cristã tem de ser realmen-
verdadeiro: à santidade do próprio povo de Deus. te uma sociedade de contraste - com formas de sociedade
Neste contexto, os teólogos geralmente falam de uma próprias e um estilo de vida alternativo.
santidade pessoal e interna em oposição à santidade ritual e E como fica Mt 28,19? Lá não se diz num sentido sim-
externa. No entanto, é necessário exatamente aqui olhar mais plesmente universal:
atentamente. Pois também a santidade desligada da coisifi-
cação externa significa, na Bíblia, muito mais do que uma Ide, portanto,
qualidade interna da alma ou do indivíduo moral. Segundo e fazei que todas as nações se tornem discípulos ...
a Bíblia, a santidade abrange sempre também a dimensão
social, ligada inseparavelmente com a personalidade do in- e .um mandato como este não exige uma identificação pro-
divíduo. Santo deve ser não só o coração do homem, santas funda com a situação dos povos no mundo inteiro? Este é,
devem ser também as condições de vida, as estruturas sociais sem dúvida, um mandato universal. A universalidade do
200 A.I.C;I<~Ji\.9lJE.J~?l!S.91J.EI<Ii\.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

mandato corresponde à soberania universal de Cristo que, Então não é: "ensinar todas as nações", mas "fazer que
segundo o Evangelho de Mateus, deu aos discípulos este todas as nações se tornem (comunidades de) discípulos". Só
mandato missionário (d. 28,18). Só que, por causa da grande o versículo 20 fala de ensinar e, mesmo aqui, não num senti-
influência entre nós da tradição da Bíblia de Lutero, o texto do geral, mas com uma determinação concreta: "Ensinando-
grego geralmente foi mal traduzido. O texto grego não diz: os a observar tudo quanto vos ordenei". Não se trata, por-
"ensinai todos os povos", mas "fazei que todas as nações se tanto, de sentenças dogmáticas, mas do modo de viver que
tornem discípulos" - o que é diferente. Mateus não quer, Jesus ofereceu ao verdadeiro Israel como práxis do Reino de
de modo algum, dizer que a Igreja deve ensinar todas as Deus. Com certeza, Mateus pensa no sermão da montanha
nações. Este ensinamento, contudo, hoje acontece constan- (Mt 5-7), onde ele compôs a estrutura social do povo escato-
temente. Os meios modernos de comunicação social tornam lógico de Deus, a partir das várias tradições de Jesus.
possível a irradiação da doutrina social da Igreja e de outros Assim, pode-se resumir o grandioso final do Evange-
ensinamentos, ao mundo inteiro. Também não se deve ne- lho de Mateus da seguinte maneira: os apóstolos devem
)\
gar que este processo impressionante tenha sua razão de ser. empenhar-se na formação de comunidades de discípulos no
í
Mas Mateus tinha em mente algo inteiramente diferente. Ele mundo inteiro. Nelas vive-se a práxis-do-Reino-de-Deus de
falou que todos os povos devem ser transformados em "dis- Jesus; podemos dizer também: a estrutura social do verda-
cípulos". deiro Israel, em fidelidade radical a Jesus. Mateus desenvol-
"Os discípulos" - este termo, como a expressão "os san- ve, portanto, uma concepção realmente mundial, universal.
tos", é uma autodesignação das comunidades cristãs mais Mas não perde, de modo algum, de vista as comunidades
antigas.':" Assim a expressão: fazer das nações discípulos, concretas, nas quais, somente, pode ser vivida a "nova justi-
só pode querer dizer: fazer crescer sempre mais no mundo o ça" do sermão da montanha (Mt 5,20).
número das comunidades cristãs - até que um dia todas as Universalismo, mentalidade que abrange o mundo todo
nações se tenham tornado Igreja, Mateus não diz como isto e amplitude de horizonte não podem, para a Igreja, ser co-
deve acontecer, Pelo menos, no texto dele não aparece ne- locados em questão. Neste ponto Mateus, Paulo, João e to-
nhuma mensão de uma propaganda das missões. Provavel- dos os outros autores de escritos do Novo Testamento falam
mente, ele imaginou o crescimento das comunidades sobre uma linguagem altamente inequívoca. Com isto, porém,
o mundo então conhecido da maneira como, de fato, acon- ainda não está, nem de longe, decidido, como, de que maneira,
teceu no primeiro século: os apóstolos, e não apenas eles, com que estratégia se deve processar até alcançar todos de que
fundaram comunidades diversas, e a partir destas comuni- Mt 28,19s fala.
dades, a Igreja cresceu para um número maior de comu- Tínhamos visto que o próprio Jesus, seguindo, neste pon-
nidades - especialmente pela atração que estas comunida- to, um conjunto importante de motivos proféticos, absteve-se
des exerciam sobre a sociedade pagã. completamente de uma missão entre as nações. Ele limita-se à
reconstituição de Israel. Mas também tínhamos visto que esta
148 At 6,1.2.7; 9,1.19.15.26.38; 11,26; 13,52 e outros lugares.
limitação não exclui, de modo algum, o universalismo. Jesus
202 A.lc;R:qJ\.q{)E.J~~{)S.q{)I3I<IJ\ As COMUNIDADES
NEOTESTAMENTÁRIAS
NOSEGUIMENTO
DE

pensa na categoria veterotestamentária da peregrinação das "transformação do mundo". Suponhamos que esta expres-
nações. Quer dizer que ele pressupõe como evidente que, no são "transformação do mundo" seja usada não em senti-
momento em que o Reino de Deus irrompe em Israel, as na- do marxista, mas em sentido cristão. De qualquer modo,
ções venham por si mesmas para tomar parte na fascinação é válido para a transformação cristã do mundo o mesmo
da soberania de Deus. Sua tarefa só podia ser a reconstitui- que foi dito acima a respeito do termo "missão": ela não
ção de Israel, em vista da aproximação do Reino de Deus e, corresponde ao Novo Testamento se não tiver seu apoio
através desta reconstituição fazer brilhar o Reino de Deus no povo de Deus. O mundo só pode ser transformado se
num lugar determinado do mundo. A concentração total de o povo de Deus se transformar a si mesmo. Não se pode
Jesus em Israel não é, portanto, uma falta de universalismo, não é querer libertar outros, se no próprio grupo não brilhar a
um horizonte limitado, não é uma retirada do mundo, mas, ao con- liberdade. Não se pode pregar conversão social aos outros,
trário, pressuposto imprescindível para que a soberania de Deus se não se vive numa comunidade que tenta realizar a nova
possa atingir todas as nações. J. MUNCKdiz com razão.':" "Jesus sociedade do Reino de Deus."?
vem exatamente para Israel porque sua missão é destinada Mas a Igreja primitiva pensou realmente assim? Tam-
ao mundo todo". bém aqui devemos perguntar novamente - e agora pela
Aliás, também eleição deve ser compreendida neste sen- última vez - se as comunidades do Novo Testamento con-
tido. A eleição de um único povo de entre muitos não quer tinuaram o que Jesus tinha feito no início. Já vimos o tex-
dizer preferência de um povo único frente aos outros ou es- to Mt 28,19s que, neste contexto, deve ser considerado um
quecimento dos outros em favor de um, mas significa elei- texto eclesial. Em seguida vamos fazer além de Mt 28, uma
ção de um povo por causa dos outros. O povo eleito deve tor- amostragem com quatro passagens do Novo Testamento:
nar-se para os povos restantes sinal do plano de Deus para o At 15; Lc 2; Rm 9-11 e a Epístola aos Efésios.
mundo na sua totalidade. Esta amostragem mostrará a fidelidade com que a Igre-
Quem acusa tal concepção de estreiteza de horizonte ja primitiva continuou o caminho de Jesus. Ela não perdia
ou de mentalidade elitista de eleição, não somente desqua- de vista o modelo da peregrinação das nações mas, baseada
lifica a práxis de Jesus, mas mostra também a incapacidade neste modelo, colocava a própria experiência missionária
de se desprender de noções de missão de uma determina- num quadro histórico-salvífico maior. À primeira vista, isto
da época, que não eram as noções nem da Igreja primitiva parece uma contradição, pois o motivo da peregrinação das
nem da Igreja da Antiguidade, mas, na melhor das hipóte- nações ainda não conhece nada semelhante à missão. Aqui,
ses, do tempo presente. Aliás, a palavra "missão" hoje não de fato, na Igreja primitiva mudou alguma coisa em relação
é mais usada com tanta frequência como no século XIX.
Em seu lugar é usada, por muitos cristãos, a expressão ISO Cf. as excelentes reflexões em R. J. SIDER, Jesus und die Gewalt, Maxdorf,
1982,53.66-74. Não apenas na América Latina, mas também num nú-
mero grande de Igrejas da América do Norte existem tentativas de
149 J. MUNCK, Paulus und die Heilsgeschichte (Acta Jutlandica 26,1), Cope- síntese entre teologia da libertação e renovação da comunidade, das
nhague, 1954,266. quais, entre nós, ainda mal se toma conhecimento.
204 ... HHH HHHHHHHHHHAlc;R.~Ji\qlJE)~~LJsglJ~~i\ As COMUNIDADESNEOTESTAMENTÁRIASNO SEGUIMENT()I)E)~~lJS?9?
a Jesus. Depois de uma fase temporariamente limitada na tradição mais antiga; ela interpretava a partir de Am 9,11s as
qual, mais uma vez, a preocupação era a reconstituição de experiências missionárias do seu próprio tempo.
Isracl.P' a Igreja primitiva, muito em breve, exerce missão Estranhamente a história destas experiências começa
no sentido próprio - primeiramente em Samaria, depois com o reerguimento de Israel (a tenda arruinada de Davi).
entre os não-judeus. Decisivo, porém, é que também esta Evidentemente isso não significa uma renovação nacional
missão fora de Israel fica inseri da no quadro geral: "Israel e do Estado de Israel. Trata-se da reconstituição do povo de
as nações", da maneira que a dinâmica própria da ideia da Deus, começado por Jesus e continuado pelos seus discípu-
missão sai da ideia da presença simbólica do povo de Deus los depois da Páscoa. É o próprio Deus que reergue na Igreja
entre as nações. Mas vamos agora a nossa amostragem: o Israel disperso e arruinado.
1. Dentro da apresentação de Lucas do Concílio dos Decisivo é agora: o reerguimento de Israel acontece para que
Apóstolos existe um discurso do irmão do Senhor, Tiago, também as nações pagãs busquem o Senhor (cf. versículo 17).
que começa assim: Seu nome foi invocado sobre elas, isto é, também elas estão,
I~'~
há muito tempo, sob a soberania de Deus - mas somente
~, Irmãos, escutai-me: Simeão acaba de expor-nos como Deus se conseguem achar a Deus e entrar na soberania de Deus, se
dignou, primeiro, escolher dentre os gentios um povo dedicado Israel for reerguido. Não se fala, aí, de uma atividade do
ao seu Nome. Com isto concordam as palavras dos profetas, se- Israel reerguido. É dito muito mais: logo que Israel for reno-
gundo o que está escrito: Depois disto voltarei e reedificarei a vado, as nações podem começar a buscar o Senhor. Elas en-
tenda arruinada de Davi, reconstruirei as suas ruínas e a re- contram-no, então, em Israel. Pode-se interpretar: logo que
erguerei. Então o resto dos homens procurará o Senhor, assim Israel aparece, entre todas as outras sociedades do mundo
como todas as nações dedicadas ao meu Nome, diz o Senhor que como a sociedade corretamente construída (é esta a termi-
faz estas coisas (At 15,13-17). nologia do texto), a sociedade pagã poderá buscar a Deus
e achá-lo - em Israel, na sociedade modelo de Deus que é,
Não precisamos de nos interessar pela continuação do então, totalmente orientada para Deus.
discurso; importante para nós é a citação do profeta Amós. Aqueles que transmitiram este texto de Amós, sabiam,
Também não nos devemos interessar se o Tiago histórico de evidentemente, que, para tudo isto, era necessário esfor-
fato pronunciou este discurso e nele citou Am 9,l1s. Mui- ço missionário ativo. Mas também sabiam que este esforço
ta coisa fala em contrário. Lucas, porém, também não com- missionário em nada transformaria as nações se o próprio
pôs este discurso de Tiago sem nenhum fundamento. Ele povo de Deus não estivesse, como sociedade transformada,
tira das tradições antigas. Também a citação de Amós, nesta por trás da missão. A missão recebia sua força de convic-
forma estranha em que é apresentado, deve provir de uma ção pela construção social concreta do povo de Deus que
a exercia.
I
151 Cf.para este assunto o artigo importante de R. PESCH, op. cit. (3D), 2. Para o próximo ponto da amostragem escolhemos a
11-70, especialmente 45-54. oração de ação de graças de Simeão, em Lc 2,29-32:
206 ......H ...AIC;~~J1\qlJEJ~~l!SglJ~I~I,<\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

Agora, Soberano Senhor, podes despedir nações" que os gentios trazem consigo em sua caminhada
em paz o teu servo, segundo a tua palavra; para Sião (cf. Is 60,11-13); pois o hino fala primeiro da "ilu-
porque meus olhos viram tua salvação, minação dos gentios" e somente depois da "glória de Isra-
que preparastes em face de todos os povos, el". Mas esta questão pode ficar em aberto. Em todo o caso
luz para iluminar as nações, é certo que o nosso texto coloca a salvação messiânica, que
e glória de teu povo, Israel. brilha no povo de Deus, numa firme conexão histórico-sal-
vífica com a revelação aos gentios. Nisto ele é semelhante a
Este pequeno hino é muito mais antigo do que o Evan- At 15,13-17.
gelho de Lucas. Ele reflete, como o Magnificat e o Benedictus, 3. Perguntando a Paulo que significado tem, para ele, a
uma antiga autocompreensão da Igreja. As comunidades existência da Igreja para a sociedade pagã, ele dá diferen-
que assim falavam compreendiam-se como povo escatológi- tes respostas. Ele pode dizer, por exemplo, que em Cristo,
co de Deus; com a maior naturalidade eles chamavam-se a si Deus reconciliou o mundo consigo e que agora a Igreja é o
.~,
mesmas "Israel".152Deve ter-se tratado, portanto; de comu- lugar onde esta reconciliação, que aconteceu em princípio,
;,
nidades judaico-cristãs na Palestina. Elas dizem de si mes- deve-se realizar concretamente. Por isso Deus incumbiu a
mas (pela boca de Simeão): nós vimos a salvação - portanto, Igreja com o serviço da reconciliação. A Igreja é o lugar onde
aquilo que muitos profetas e reis quiseram ver e não viram Deus, numa nova criação, inaugurou a sociedade reconcilia-
(Lc 1O,23s).Agora apareceu em nosso meio. da (2Cor 5,17-21).
Evidentemente esta salvação é o próprio Jesus. Mas não Mas Paulo também pode dizer que uma vida da Igreja
somente ele. A salvação que brilha é, igualmente, o novo segundo o Evangelho pode tornar-se para o mundo sinal
que veio com Jesus: a presença do Reino de Deus em Israel, de sua ruína (FI 1,27s). A Igreja pode, portanto, tornar-se
a renovação messiânica do povo. Esta salvação messiânica, sinal da salvação, mas também sinal da condenação para
concedida por Deus, brilha agora no povo de Deus da Igreja a sociedade pagã, de acordo com a sua resposta à vida de
para todas as nações; ela é luz para iluminar as nações e, ao sinal dos fiéis. Ainda mais importante para a nossa ques-
mesmo tempo, glória para Israel. . tão é a ampla reflexão histórico-salvífica do apóstolo sobre
O hino exprime-se na linguagem do Deuteroisaias.P" o a fidelidade de Deus à aliança, respectivamente, sobre o
motivo da peregrinação das nações pelo menos transpare- destino de Israel, em Rm 9-11. O que Paulo diz nesse tex-
ce. Pois a salvação messiânica que irrompe em Israel brilha to é incompreensível sem o motivo veterotestamentário da
diante de todos os povos, sem que, nem de longe, se fale de algo peregrinação das nações.
como a missão. Pode-se perguntar até, por um momento, se Em si, o decorrer histórico-salvífico deveria ter sido que
a expressão" glória de Israel" não significa a "riqueza das um Israel crente no Cristo trouxesse a salvação às nações,
(Paulo pressupõe este decorrer "regular" da história da sal-
vação em Rm 9-11 sem o formular especificamente ). Mas
152Cf. nos seus pormenores G. LOHFINK, op. cito (72), 1732.
153 Cf. Is 40,5; 42,6; 46,13; 49,6; 52,10. as coisas aconteceram de modo diferente: com exceção de
208 A.IC;~~Ji\.qlJ~..J~?lJS.qlJEl~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

um "resto sagrado" 01,1-7), a maioria de Israel escandalizou- esquema da peregrinação das nações e, desta vez, em sua di-
se com seu Messias (9,32s) e não acreditou no Evangelho reção original: naquela hora escatológica em que todo Israel,
01,20). Com isso, porém, a mediação da salvação por parte por causa da atração messiânica da Igreja dos gentios, che-
de Israel não estava terminada: não realizando a mediação gar à fé, o efeito para a sociedade pagã até lá ainda descrente
da salvação às nações por sua fé, realiza-lo-á por sua descren- vai ser incalculável:
ça: a reconstituição de Israel foi substituída pela missão aos
gentios, os mensageiros para Israel tornaram-se mensagei- E se a sua queda reverte em riqueza para o mundo e o seu esvazia-
ros para as nações; pelo fracasso de Israel a salvação chegou mento em riqueza para os gentios, quanto maior fruto não dará a
aos gentios (11,11), Deus não permite que os homens destru- sua plenitude! (11,12). - Pois se a sua rejeição resulta na reconci-
am seus planos. liação do mundo, o que será seu acolhimento senão a vida que vem
Assim a salvação está com os gentios. Mas Deus não dos mortos? (11,15).
pensa apenas nos povos gentios. Ele pensa constantemen-
te no seu povo. Ele concedeu a salvação aos gentios não só Todos estes pensamentos de Paulo são tão difíceis de en-
?:'.
por causa deles, mas também para tornar Israel ciumento tender para nós, porque pressupõem, até nos detalhes, o mo-
00,19). Com isto, inverteu-se a direção da peregrinação das tivo da peregrinação das nações. Mesmo sem analisarmos
,
~ nações: em si, a salvação, brilhando em Israel, deveria atrair pormenorizadamente estes detalhes, deveria ter-se tornado
as nações para o povo de Deus. Mas agora, por causa da des- claro: para Paulo, o destino das nações está indissoluvelmente li-
crença em Israel, Deus fez brilhar a salvação messiânica na gado com o caminho de Israel e, vice-versa, o destino de Israel com
Igreja dos gentios e transformou o Não-povo em Povo (9,25) o caminho das nações. Não se trata aqui do indivíduo judeu
- exatamente para tornar Israel ciumento. A credibilidade da ou do indivíduo pagão. Trata-se, muito mais, da existência
sociedade messiânica, que agora se concretiza na Igreja dos da Igreja dos gentios, respectivamente, de Israel; trata-se da
gentios, deve, por sua parte, atrair Israel e torná-lo ansioso. credibilidade da sociedade messiânica realizada. Só assim
Paulo está profundamente convencido: esta estratégia pode ser ganho o outro lado.
de Deus em relação ao seu povo terá êxito. Logo que a sal- Decisivo, porém, em Rm 9-11 é que Israel continua sendo
vação messiânica tenha alcançado entre os povos o "valor o verdadeiro espaço da salvação: os gentios são enxertados na
crítico" que somente Deus conhece.P' todo Israel será salvo oliveira nobre de Israel (11,17),não inversamente 01,18). Em
01,26) - evidentemente pelo fato de, em virtude da atração lugar de destaque, em 11,25s, Paulo diz: a totalidade das na-
messiânica da Igreja dos gentios, poder, finalmente, acre- ções entrará, isto é, as nações pagãs, tornando-se crentes pela
ditar em Jesus como Messias. E novamente é retomado o missão cristã, entrarão na comunidade salvífica escatológica
de Israel.l'" Aqui, portanto, a aceitação do Evangelho pelas

154 Paulo diz literalmente: "Até que chegue a plenitude dos gentios"
(11,25). A "plenitude" significa a medida escatológica que o próprio 155 U. WILCKENS, Der Brief an die Rõmer (EKK 6,2), Zurique/Neukirchen-
Deus estabelece, não a totalidade numérica. Vluyn, 1980, 254s.

1111
210 .....
A .IG~~J.),..qlJE. J~SlJ.S.qlJ?~I),. As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

nações e sua entrada na Igreja é identificada com a peregri- a Igreja é a dimensão pela qual Cristo plenifica o cosmos
nação das nações para Sião. Provavelmente Paulo não está 0,23). De qualquer modo é por ela que a sabedoria de Deus
sozinho com esta ideia (cf. também Lc 2,30-32 e At 15,16s), é anunciada aos poderes cósmicos (3,10).
Talvez os primeiros passos da missão aos gentios somente É preciso apenas traduzir esta linguagem estranha
tenham sido possíveis porque a Igreja primitiva via na res- para nós, mas muito atual entre os sábios de então, em
surreição de Jesus o início dos acontecimentos escatológicos sistemas de conceitos hodiernos, para se tornar imediata-
e, com isto, esperava a entrada dos gentios, prometida pelos mente claro com que intensidade se reflete aqui sobre o
profetas. relacionamento Igreja-mundo. A sociedade pagã apresenta-
4. O último ponto da nossa amostragem será da Epístola se como um amplo espaço que é dominado por potências
aos Efésios. O grande tema desta epístola é a Igreja, A Igre- e principados:
ja é o verdadeiro Israel, no qual os cristãos do paganismo,
que outrora eram estranhos à comunidade de Israel (2,12), Vós estáveis mortos em vossos delitos e pecados. Neles vivíeis
\,
se tornaram concidadãos dos santos e membros da família outrora, conforme a índole deste "mundo, conforme o Príncipe
~;: de Deus (2,19). do poder do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobedi-
Até aqui a eclesiologia do autor corresponde de um ência. Com eles, nós também andávamos outrora nos desejos da
modo geral à compreensão de Igreja do seu tempo. A par- nossa carne, satisfazendo as vontades da carne e os seus impul-
ticularidade da Epístola aos Efésios consiste no fato de ela sos (2,1-3).
refletir sobre a imagem tradicional da Igreja a partir de um
novo sistema de referência, que era muito atual na filosofia Por trás destas imagens míticas está um conhecimento
helenística daquele tempo: a partir de uma filosofia do cos- profundo, que infelizmente perdemos, que toda a sociedade
mos. A Igreja já não é só o verdadeiro povo de Deus, mas humana não vive somente das decisões de hoje, mas também
corpo cósmico que chega até ao céu (2,5s) e que é vivificado do potencial mau do passado não elaborado e não remido,
por sua cabeça, o Cristo ressuscitado e glorificado O,22s). que age no presente como potência terrível. A Epístola aos
Do Cristo, a cabeça, corre uma plenitude de bênçãos para Efésios quer dizer: dentro desta sociedade do paganismo,
dentro do corpo da Igreja 0,3.23). Esta plenitude de bênçãos dominada por potências escravizadoras foi aberto, por Cris-
possibilita aos fiéis crescerem, cada vez mais, em direção a to, um novo espaço de liberdade. Cristo domina todas as po-
sua cabeça celeste (4,15) e edificarem o corpo da Igreja no tências e forças da sociedade. Mas ele não pode reinar sem
amor (4,16). O próprio Cristo, como cabeça, porém, não é seu corpo, a Igreja. Pois ela é o espaço no qual a liberdade e
apenas princípio de vida da Igreja mas também o soberano reconciliação, iniciadas em princípio por Cristo, devem ser
de todas as potências cósmicas 0,20-22). Ele não só enche a vividas de um modo socialmente concreto.
Igreja com a plenitude de bençãos, mas ele domina também O que cai na vista é que, para o autor da Epístola aos
o cosmos com seu poder (4,10) e o traz sempre mais para Efésios, o anúncio do Evangelho às nações como tarefa atual
dentro do âmbito da sua soberania 0,10). Evidentemente já não desempenha mais nenhum papel. A Igreja atual é o
212 .....A.IC;~EJi\.qLJ?I~~LJs.qLJIl~Ii\ As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE

resultado, mas não mais o portador da missão. Ao contrário, o de Deus cresce, sem trabalho missionário, pela fascinação
crescimento interno da Igreja tem uma importância decisiva: que ele irá ter, para dentro da sociedade. A Igreja é, então,
simplesmente sinal eficaz da presença da salvação de Deus
...até que alcancemos todos nós a unidade da fé e do pleno conheci- no mundo.
mento do Filho de Deus, o estado do Homem Perfeito, a medida da Nossa amostragem realizada em At 15, Lc 2, Rm 9-11
estatura da plenitude de Cristo. Assim não seremos mais crianças, e na Epístola aos Efésios mostrou claramente: Igreja como
joguetes das ondas, agitados por todo vento de doutrina, presos sociedade de contraste não significa oposição à sociedade
pela artimanha dos homens e de sua astúcia que nos induz ao erro. restante por causa da oposição. Igreja como sociedade de con-
Mas, seguindo a verdade em amor, cresceremos em tudo em dire- traste significa muito menos ainda desprezo da sociedade
ção àquele que é a Cabeça, Cristo. cujo Corpo, em sua inteireza, restante a partir de um pensamento elitista. Significa sim-
bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a ples e unicamente o contraste em favor dos outros e por causa
operação harmoniosa de cada uma das suas partes, realiza o seu dos outros, isto é, aquela função de contraste, formulada de
crescimento para a sua própria edificação no amor (4,13-16). modo insuperável nas imagens do i'sal da terra", da "luz do
~,
,~ mundo" e da "cidade situada sobre um monte" (Mt 5,13s).
A tarefa decisiva da Igreja, portanto é, que ela se edifique Exatamente porque a Igreja não existe para si mesma, mas única e
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~~ como sociedade de contraste para o mundo, como espaço da exclusivamente para o mundo, ela não pode tornar-se mundo, mas
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soberania de Cristo onde o amor fraterno é a lei da vida. Se a deve preservar sua própria fisionomia.
Igreja cumprir esta tarefa, a sociedade pagã compreenderá o Se perder seus contornos, se sua luz se apagar, se dei-
plano de Deus com o mundo. A Epístola aos Efésios exprime xar seu sal tornar-se insosso, ela não pode mais transformar
este pensamento, porém, novamente, em linguagem mítica: a outra sociedade. Então nenhuma atividade missionária
adianta mais nada; então também não adianta mais nada
...para dar agora a conhecer aos príncipes e às Autoridades nas um engajamento social para fora por mais ativo que seja. Da
regiões celestes, por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de Índia de hoje vem o seguinte relatório que pode iluminar,
Deus ... (3,10). mais uma vez, de um golpe, todo o problema.P"
"O vigário do povoado de Sílvepura, perto de Bangalore, é
Digamos tranquilamente: quando a Igreja corresponde um padre de mentalidade missionária. Com dinheiro alemão
ao plano de Cristo, ela cresce automaticamente para den- ele comprou uma kombi e, à noite, depois de terminar seu tra-
tro da sociedade pagã e Cristo pode plenificar tudo através balho paroquial, ele vai aos povoados vizinhos. Ele para nas
dela. praças, reúne em torno de si as crianças e os lavradores que
Sendo correta esta interpretação, então temos na Epísto- descansam e mostra-lhes filmes (o carro tem equipamento
la aos Efésios numa terminologia completamente diferente e
diante de um horizonte de pensar inteiramente diverso, algo 156 De M. KAMPCHEN, "Indisches Christentum zwischen Ideal und Wirkli-
semelhante ao modelo da peregrinação das nações: o povo chkeit", Orientierung 46 (1982), 91-94, especialmente 91.
As COMUNIDADES NEOTESTAMENTÁRIAS NO SEGUIMENTO DE
214 . .. ..AI<:;~~Ji\qlJE)~f)lJsglJEl{li\

para isto) ou apresenta-Ihes pequenas mágicas. Depois fala O que se tem em mente não é uma Igreja em que não
de Cristo. Uma noite, um velho hindu levantou e disse: 'Pre- haja mais conflitos, mas uma Igreja que resolve os conflitos
zado vigário, nós ouvimos com interesse, até com respeito, de maneira diferente da sociedade restante.
suas palavras sobre Jesus Cristo. Amamos Jesus e o vene- O que se tem em mente, por fim, não é uma Igreja em
ramos como homem extraordinário e como Deus. Também que não haja mais cruz nem histórias de sofrimentos, mas
gostamos de ler a Bíblia quando temos tempo e não estamos uma Igreja que constantemente pode festejar a Páscoa, por-
cansados demais. No entanto, permita-me que lhe diga, nem que ela morre, na verdade, com Cristo, mas também ressus-
por isso queremos tornar-nos cristãos. Não sabemos como cita com ele.
eles vivem? Quanta briga e desentendimento, bebedeira e
mentira não existe entre eles? Também eles não são melho-
res do que nós'. Assim contou o vigário de Silvepura".
Com isso está dito quase tudo. O texto, contudo, pode
levar novamente a um mal-entendido, ou melhor, ao mal-
?"
I~
entendido mais profundo e mais grave: será que a Igreja
.~:i deve ser um instituto de moralidade, deve ver seu ideal
~ na moralização dos costumes, deve desenvolver-se para
ser uma sociedade de produção ético-moral que funciona
bem? Assim também se tiraria à Igreja o que lhe é mais
próprio e interior.
O que torna a Igreja sociedade divina de contraste, não
é a santidade adquirida por própria força, não são esforços
desesperados e obras morais, mas é a ação salvífica de Deus,
que justifica os ímpios, acolhe os fracassados e reconcilia
os que se tornaram culpados. Somente nesta reconciliação
concedida e no milagre da vida reconquistada contra toda a
esperança floresce aquilo que aqui é designado como socie-
dade de contraste.
O que se tem em mente não é uma Igreja em que não
haja culpa, mas uma Igreja na qual da culpa perdoada cresce
esperança infinita.
O que se tem em mente não é uma Igreja em que não
haja divisões, mas uma Igreja que encontra reconciliação
por cima de todos os abismos.
QUARTA PARTE
A IGREJA ANTIGA
NO SEGUIMENTO DE JESUS

A terceira parte deste livro quis tornar claro: a Igreja


primitiva assumiu as linhas básicas da práxis do Reino de
Deus realizada por Jesus e a levou adiante correta e adequa-
damente, mesmo onde as circunstâncias externas se tinham
mudado. Não se queria afirmar com esta frase que não tives-
se havido, da parte das comunidades do Novo Testamento,
atrasos e fracassos em relação a Jesus. Muito menos ainda
se queria afirmar que a Igreja primitiva tivesse esgotado to-
talmente e realizado plenamente o potencial crítico, frente a
todas as outras sociedades do mundo, que fora colocado ir-
revogavelmente por Jesus através da reconstituição do ver-
dadeiro Israel. Afirmou-se sim: as comunidades do Novo
Testamento reconheceram - de um modo geral- a vontade
de Jesus; elas transmitiram a 'palavra de Jesus e a realiza-
ram, pelo menos, incipientemente, de modo que ficou para
sempre fundada dentro da Igreja e pôde ser reconhecida por
todos os tempos. De outro modo não se poderia explicar o
fato de este potencial crítico ter suscitado, até hoje, sempre
de novo, dentro e fora da Igreja, novas conversões e novos
movimentos de transformação social.
Na quarta parte, que agora segue, deve-se mostrar, pelo
menos de modo incipiente, que esta recepção fundamental
da práxis do Reino de Deus por parte de Jesus continuou
para além das comunidades do Novo Testamento pelo tempo
220 .HH ... H HHAIc;RE:JA:qlJEJE.S.lJSglJE~IA:
A ..IC;~E.JA:.JI.!'Il'IC;A:l\IC:>.SEC;LJI}.1E.r--rr:C:>.[)EJE.S.lJ.S....
. 221

da Igreja antiga adentro. Isto só pode ser feito, realmente, de Reuni-a, a santificada,
modo incipiente, pois a tentativa ultrapassa a competência dos quatro cantos no vosso Reino,
de um exegeta do Novo Testamento. Por outro lado este es- que preparastes para ela.
forço é necessário e urgente, pois depara-se hoje, e não raras Pois vosso é o poder e a glória para sempre.
vezes, em detentores de cargos eclesiásticos (mas também (Did. 10,5).
em outros cristãos) com uma desvalorização do Novo Testa-
mento. As comunidades do Novo Testamento, então, geral- As semelhanças com o Pai-nosso são evidentes; não
mente figuram como campo de experiência um tanto exótico apenas com a sétima prece ("livrai-nos do mal"), mas espe-
de ideias e estruturas ainda não bem amadurecidas. Elas só cialmente com a segunda ("santificado seja o vosso nome").
teriam sido levadas ao ponto querido por Deus através da Aqui a segunda prece do Pai-nosso é entendida de maneira
evolução eclesiástica e dogmática posterior. No primeiro sé- congenial como prece pela reconstituição do povo de Deus
culo - diz-se então - muita coisa ainda estava em fase de (d. acima 1,4).
experiência, e certas utopias do começo mostraram-se muito O autor da primeira carta de Clemente mostra como a ideia
rapidamente irrealizáveis frente à realidade concreta. do povo de Deus permaneceu viva nos Padres da Igreja. Ele
Frente a esta opinião, deve-se mostrar, a seguir, que a escreve:
audácia e a "loucura" daquilo que designamos como so-
ciedade de contraste, continuou muito para além da Igreja Aproximemo-nos, pois, dele (de Deus) com a alma santa, levante-
primitiva até o século terceiro, e marcou tão inconfundivel- mos a ele mãos puras e sem mácula, amemos nosso pai bondoso e
mente a imagem da Igreja antiga que ninguém pode falar misericordioso que nos fez sua parte eleita. Pois assim está escrito:
aqui de meras utopias e, muito menos, de utopias meramen- quando o Altíssimo dividiu as nações, quando dispersou os filhos
te neotestamentárias. de Adão, ele dispôs de regiões para as nações segundo o número
dos anjos de Deus. Parte do Senhor tornou-se seu povo Jacó, qui-
1. O POVO ESCOLHIDO DENTRE AS NAÇÕES nhão da sua herança, Israel. E em outro trecho está escrito: eis que
o Senhor toma para si um povo do meio das nações, assim como
Os Padres da Igreja afirmam constantemente que Deus um homem toma os primeiros frutos de sua eira; e daquele povo
reúne sua Igreja de todas as nações e de todos os cantos do vai sair o santíssimo. Visto nós sermos uma parte santa, vamos
mundo. Assim, os Padres retomam conscientemente o pen- fazer tudo que pertence a santidade (lClem 29,1-30,1; da tradu-
samento bíblico da reconstituição escatológica do povo de Deus. ção para o alemão de J. A. FISCHER).157
A conhecida oração eucarística da Didaquê reza assim:
Aqui não só é pressuposto como evidente que a Igreja é
Lembrai-vos, Senhor, de vossa Igreja, o verdadeiro Israel, mas também é reconhecida claramente
para que a salveis de todo o mal,
e a torneís perfeita no vosso amor. 157 J. A. FISCHER, Die Apostolischen Viiter, Munique, 1956.
222 .........A.IC;~E:JP...qlJE.JE:~LJS.qlJE:~IP..

a conexão bíblica entre a ideia do povo de Deus e a ideia da 1Clem 59,3s pode-se deixar esta questão em aberto. Porque,
santificação. A Igreja é o povo eleito, propriedade de Deus. também independentemente da resposta a esta questão, se vê
Esta condição traz consigo a consequência impreterível de claramente que aqui se pensa e formula a partir da ideia do
que ela deve ser santa no meio das nações - isto é, funda- povo de Deus. Pois os sofredores de quem fala a "oração co-
mentalmente diferente das outras sociedades deste mundo. mum" não são todos os sofredores do mundo, mas os perse-
A ideia da escolha da Igreja dentre as nações aparece guidos, famintos e presos do povo de Deus. É por eles que está
mais uma vez na primeira carta de Clemente, perto do fim, sendo rezado primeiramente e mais longamente. Somente no
na "oração comum" que teve seu lugar na liturgia romana e fim da "oração comum" se reza também pela paz no mundo
corresponde às nossas "preces dos fiéis": e o bem dos que governam (cf. 1Clem 60,4-61,2). Assim se tor-
na claro que a consciência de comunhão, extraordinariamente
...Vós que fazeis numerosas as nações na terra e de todas escolhes- intensa, da Igreja, que já apareceu muitas vezes no Novo Tes-
tes aqueles que vos amam, por Jesus Cristo, vosso servo amado, tamento, foi continuada no tempo da Igreja antiga.
por quem nos educastes, santificastes e elevastes. Nós vos roga-
mos, Senhor, que sejais nosso auxílio e proteção. Salvai nossos 2. A RELIGIÃO DA CURA
perseguidos, levantai os caídos, mostra i-vos aos que oram, curai
os doentes, reconduzi os errantes do vosso povo para o caminho Na "oração comum" de Clemente de Roma pede-se pela
certo. Saciai os que têm fome, libertai nossos presos, levantai os cura dos doentes do povo de Deus (lClem 59,4). Com isto
fracos, consolai os desalentados. Todas as nações devem reconhe- é abordado um segundo tema básico que, tendo seu início
cer que vós sais o único Deus, Jesus Cristo é vosso servo, e nós na práxis do Reino de Deus em Jesus e, passando pelas co-
somos vosso povo, o rebanho das vossas pastagens (IClem 59,3s; munidades do Novo Testamento, continua até ao tempo da
da tradução para o alemão de J. A. FrscHER). Igreja antiga. A consciência da presença do Espírito que era
tão viva na Igreja primitiva, aos poucos começa a retroceder.
A estrutura sintática da última frase coloca-nos diante Mas permanecem a preocupação pelos doentes, as curas dos
de uma pergunta que, por causa de 1Clem 59,4, é difícil de doentes e as expulsões dos demônios. Todas estas atividades
ser respondida, mas mesmo assim muito importante: Cle- estão envolvidas numa rica terminologia que descreve Cristo
mente quer dizer que, pela existência fidedigna do povo de como médico, os sacramentos como meios da cura, a fé cristã
Deus no meio das nações, Jesus se torna conhecido como como religião da cura. A. VON HARNACK descreveu longamen-
Messias e, pelo Messias, o próprio Deus? Formulando em te o campo dos conceitos medicinal-teológicos, aqui mencio-
outros termos: Cristo só se torna cognoscível pela Igreja e nado, na sua obra "Missão e propagação do cristíanísmo=.!"
Deus só se torna cognoscível por Cristo? Este seria um pen- Muito mais raramente é mencionado o papel extraor-
samento teológico cheio de consequências que, aliás, já apa- dinário que as curas milagrosas desempenhavam na Igreja
rece no Evangelho de João (cf. 17,21) e que também não é
estranho aos Padres da Igreja (cf. a seguir 4,8). Em relação a 158 A. VON HARNACK, op. cit. (86), 115-135.
224 ........................ A.IC;~J:<:Jf\qLJE.JJ:<:~LJS ..q1JE:~If\ A..IC;~E:Jf\.f\I\l'[IC;f\ ..I\l().SEC;LJI.Iv1E:f\J1'().[)E.JE:~LJS ... 225

antiga. Orígenes pressupõe milagres da cura como algo evi- onde acontecem, são conhecidos na cidade inteira (Decivitate dei
dente nas comunidades"? e diz expressamente que viu, com XXII, 8;da tradução para o alemão de A. SCHRÓDER).161
os próprios olhos, muitos dos que foram curados (Contra
Celsum lI, 8, III, 24). Para ele, as ações milagrosas de Jesus Os Padres da Igreja, no entanto, sabem muito bem que
até "criaram" o povo de Deus, a Igreja (Contra Celsum lI, 51). todos os milagres exteriores só adquirem sua última clareza
Para Gregório Magno, o Reino de Deus torna-se visível na conversão do povo de Deus, causada pelo milagre.!" So-
nos milagres que acontecem nas igrejas, junto aos túmulos mente a história do resultado dos milagres prova sua origem
dos santos."? Gregório já pertence a um tempo bem poste- em Deus. E os Padres da Igreja sabem também que o milagre
rior, no entanto é instrutivo o fato de ele, no sentido dos mais profundo da Igreja não consiste no fato de os homens
Evangelhos, colocar o Reino de Deus em conexão com as serem curados das suas doenças, mas no fato de romperem
obras do poder divino no povo de Deus. com sua vida pagã - contrariando qualquer esperança hu-
Na sua obra: "A cidade de Deus", Agostinho dedica um mana - e de poderem começar uma vida nova em Cristo.
extenso parágrafo aos milagres (De civitate Dei XXII, 7-10). Assim narra Cipriano que ele considerava impossível o "des-
Ele está interessado, sobretudo, na descrição protocolar dos pir-se do homem velho":
milagres de cura nas comunidades de seu tempo. E ele quer
mostrar: milagres não foram realizados apenas por Jesus e Mas depois que haurira o Espírito celeste dentro de mim e o se-
pelos apóstolos, mas ainda acontecem em Milão, Cartago, gundo nascimento me transformara em homem novo, de maneira
em Hipona e em todas as partes. Eles devem ser anotados, milagrosa, o duvidoso adquiriu de repente existência firme, o que
lidos às comunidades e assim, não caiam no esquecimento estava fechado abriu-se, a escuridão ficou clara, o que antes parecia
dos homens: difícil tornou-se realizável e o que na considerado impossível tor-
nou-se possível (Ad Donatum 4; da tradução para o alemão
Também agora acontecem milagres em nome de Cristo, seja por de A. VON HARNACK).163
seus sacramentos, seja pelas orações e relíquias dos seus santos, só
que eles não aparecem tanto, de modo a espalhar-se com a mesma Consequentemente, o maior milagre era considerado o
fama que os milagres do início. Pelo cânon das sagradas escritu- fato de pessoas receberem de Deus a força de morrer, como
ras, que um dia tinha de ser concluído, é providenciado que os mártires, pela sua fé. Por esta razão, descrevia-se a morte
milagres do início sejam lidos em toda parte e se gravem na me- dos mártires como segundo batismo, como o vestir definiti-
mória de todas as nações. Os milagres atuais, porém, nem mesmo vo do homem novo, como a suscitação de novas forças mi-
lagrosas dentro da Igreja. A existência de mártires, lê-se no
159 ORíCENES,Contra Celsum I, 67; n. 33; III, 28; VIII, 58.
160 H. J. VOCT,Das sichtbare Reich Gottes in abendliindisch-patristischer Deu- 161 A. SCHROOER, Des heiligen Kirchenvaters Aure/ius Augustinus zweiundzwan-
tung, em: B. Ludger-Th. Michels (ed.), Reich Gottes - Kirche - Civitas zig Bucher uber den Gottesstaat (BKV), Kempten/Munique, 1911-1916.
Dei. 16. Forschungsgespriich des Internationalen Forschungszentrums Salz- 162 Cf. p. e. Orígenes, Contra Celsum III, 28-30.
burg, Salzburgo, 1981, 77-102, especialmente 80.89s. 163 A. VON HARNACK,op. cit. (86),213.
226 . HHH .................................................H ..HHAlc;~~Ji\qlJ~)~?lJSqlJEl~Ii\

final da Passio Perpeiuae, é um sinal infalível da continuação Podemos ver a responsabilidade mútua das comunida-
da presença do Espírito na Igreja (Passio Perpetuae 21). des novamente no contexto da atividade caritativa cristã.
Em todo o caso, esta responsabilidade tem seu fundamen-
3. A FRATERNIDADE CRISTÃ to na fraternidade de toda a Igreja. Até os fiéis consideram
extraordinário o fato de que todos os cristãos são irmãos e
Também a ideia da fraternidade, profundamente enrai- irmãs uns dos outros. Os apologistas realçam exatamente o
zada nas comunidades cristãs do Novo Testamento, conti- tratamento de irmão como sinal cristão de distinção frente
nua viva na Igreja antiga. Assim, Clemente escreve à comu- aos costumes dos gentios. Assim, observa Cecílio, no diálo-
nidade de Corinto: go "Octavius" de Minúcio Félix:

Dia e noite, existia entre vós uma competição em favor de toda Sem distinção eles chamam uns aos outros irmãos e irmãs (Octa-
comunidade dos irmãos (literalmente: irmandade), para que, por vius 9,2).
misericórdia e por ação conscienciosa, o número dos eleitos fosse
I; salvo. Vós éreis leais e sem malícia e não guardáveis rancor uns Cecílio que, no diálogo, representa o paganismo, men-
dos outros. Cada revolta e cada divisão era um horror para vós. ciona esta frase no meio de uma longa lista de boatos e pre-
J
N
Vós sentíeis tristeza com os pecados do próximo, vós consideráveis conceitos que, naquela época, circulavam a respeito dos
suas faltas como vossas (lClem 2,4-6; da tradução para o ale- cristãos. Aristides de Atenas (Apologia 15,7) e Tertuliano (Apo-
mão de J. A. FISCHER). logeticum 39,8s) dizem o mesmo. Tertuliano, porém, acres-
centa ainda uma grande motivação teológica para o trata-
Esta não é mais a situação atual da comunidade de Co- mento cristão de irmãos:
rinto. Agora a comunidade vive em revolta e divisão. Mas
esta situação não pode ser aceita pelas outras comunida- Somos irmãos também de vocês (os gentios) segundo o direito da
des. Na primeira carta de Clemente, não é apenas notável natureza, nossa mãe comum ... Mas com quanto mais razão cha-
o pensamento da responsabilidade mútua da "irmandade" mamos, e eles são-nos de fato, irmãos àqueles que (pela fé e pelo
toda, isto é, da comunidade de Corinto, que constantemente batismo) reconheceram Deus como seu único pai, que sorveram o
está sendo inculcada, mas também o fato da comunidade de único Espírito da santidade, que despertaram do único corpo da
Roma se sentir responsável pela comunidade de Corinto e, mesma ignorância para a única luz da verdade (Apologeticum
apesar de todos os tormentos que ela mesma sofre (cf. 1,1), 39,8s;da tradução para o alemão de C. BECKER).l64
a exortar, por esta carta, a retornar à situação antiga. Assim,
a primeira carta de Clemente começa da seguinte maneira: Que o tratamento de irmão e irmã nas comunidades cris-
tãs não era apenas uma expressão bonita, mostra o serviço de
A Igreja de Deus, que mora no exílio em Roma à Igreja de Deus,
que mora no exílio em Corinto ... 164 C. BECKER, Tertullian, Apologeticum, 2d ed.; Munique, 1961.
228 .....HHH ....HHHAIc;~~Ji\ql!E)~?l!SqlJEl~li\ AIC;~~Ji\i\l\fflC;i\f'JC:>SEC;l!ItvI~f'Jl'C:>[)E)~SLJS... 229

assistência, que se estendia, em princípio, a todos os mem- (Jus tino, Apologia I. 67; da tradução para o alemão de G.
bros da comunidade, que necessitavam de auxílio; algo RAUSCHEN).167
que era revolucionário frente à sociedade pagã. Tratava-se,
principalmente, das viúvas, dos órfãos, dos idosos e doen- Este sistema de assistência altamente eficiente, contudo,
tes, dos inválidos, dos desempregados, dos presos e dos não se limitava à própria comunidade local. Temos uma sé-
desterrados, dos cristãos que estavam em viagem e de to- rie de provas de que a ajuda se estendia também a comu-
dos os membros da comunidade que passavam necessida- nidades cristãs vizinhas nas quais surgira uma necessidade
des. Além disso vinha ainda a preocupação por um enterro especial. Especialmente a comunidade de Roma era conheci-
digno dos pobres.!" da por sua ajuda a comunidades de outras cidades. O bispo
Dos elementos mencionados nesta lista, temos que des- Dionísio de Corinto escreve à comunidade de Roma, por volta
tacar de maneira especial o cuidado da comunidade por do ano 170:
seus inválidos e desempregados. As comunidades exigiam
de todos os que podiam trabalhar, que trabalhassem e até Desde o começo, vocês tinham o costume de ajudar a todos os irmãos
arranjava, na medida do possível, empregos para eles. Mas de várias maneiras e de mandar auxílios a muitas comunidades em
quem não podia mais trabalhar podia estar seguro de rece- todas as cidades. Pelos donativos que desde outrora mandaram,
ber auxílio da comunidade. Assim foram criados um siste- mantendo assim, como Romanos, uma tradição romana antiga, vo-
ma de mediação de empregos e uma rede de segurança so- cês aliviam a pobreza dos necessitados e auxiliam os irmãos que vi-
cial, que eram únicos no tempo antigo.l'" Eles baseavam-se vem nas minas. Seu santo bispo Sóter não só manteve este costume,
na ajuda mútua e em ofertas espontâneas, que geralmente mas ainda o ampliou (Eusébio, História da Igreja IV, 23.10; da
eram recolhidas durante a celebração eucarÍstica aos do- tradução para o alemão de PH. HAusER-H. A. GARTNER).168
mingos. Assim, dentro de sua conhecida descrição da cele-
bração cristã, [usiino diz: Tanto dentro das diversas comunidades como na Igre-
ja em sua totalidade, irmandade não era uma palavra va-
Mas quem tem os meios e a boa vontade, dá, conforme seu próprio zia. "Enquanto a doutrina cristã, aos olhos de seus adver-
parecer, o que quer, e aquilo que é recolhido, é depositado com sários parecia utópica e irreal, ela mostrava-se no seu uso
o dirigente; com isto, ele ajuda órfãos e viúvas, aqueles que por prático como orientação concreta para resolver as necessi-
causa de doença ou por qualquer outra razão passam necessida- dades econômicas e sociais, pelo menos, dos membros das
des, os presos e os estrangeiros que estão presentes na comunidade comunidades" .169

165 Cf. 1Clem 1,2; Policarpo, Fil 6,1; Justino. Apologia I, 14.67; Aristides,
Apologia 15,7-9; Tertuliano, Apologeticum 39; Cipriano, Ep. 62,4; Eusé- 167 G. RAUCHEN,em: Fruhrhristliche Apologeten und Martyrerakten I (BKV),
bio. Hist. ecl. IV, 23,10. Kempten/Munique, 1913.
166 Cf. H. J. DREXHAGE. "Wirtschaft und Handel in den fruhchristlichen 168 H. KRAFf, Eusebius von Caesarea. Kirchengeschichte, Darmstadt, 1967.
Gemeinden (1.-3. Jh. n. Chr.); RQ 76 (1981), 1-72, especialmente 35-40. 169 H. J. DREXHAGE, op. cit., 40.
230 AI.C;~f:rf\.ql!E.J~?lJS.q:u.~R.lf\ A ..lc;R.~Jf\.A.l\I!IC;f\.l\I().?Ec;l!Il\1~f\JT().[)E.J~?lJS. 231

Com tudo isto é claro o que a Igreja antiga entendia com que o amor fraterno era considerado pelos cristãos e, em
o termo amor (agape). Não um sentimento nobre, mas uma parte, pelos gentios, como algo especificamente cristão:
ajuda bem concreta - dada especialmente aos irmãos na fé.
Esporadicamente agape pode envolver também pessoas fora Vejam como eles se amam!
da Igreja, segundo a tradição de Mt 5,43-48.170 Mas geralmen- (Tertuliano, Apologeticum 39,7). Eles amam-se uns aos outros
te o termo é entendido da mesma maneira como é usado na quase antes de se conhecerem (Minúcio Félix, Octavius 9,2).
linguagem do Novo Testamento, isto é, amor mútuo dentro
da comunidade. Assim Aristides, em correspondência exata à Por isso - mesmo que isto cause mal-estar a vocês (gentios) - nós
terminologia da literatura das epístolas do Novo Testamen- amamo-nos com amor mútuo - pois o ódio é-nos estranho. Por isso
to, diz, no capítulo 15 de sua apologia, dos cristãos: chamamo-nos irmãos uns aos outros - pelo que vocês nos invejam.
Pois somos filhos do único Pai que é Deus, co-eleitos na fé, co-
Aos ímpios, eles oferecem benefícios com solicitude (15,5), uns aos herdeiros na esperança. Mas vocês não querem se conhecer uns aos
outros eles amam-se (15,7). outros, vocês enfurecem-se no óaio mútuo e somente se reconhe-
cem como irmãos quando o assunto é o homicídio de um parente
lnâcio fala na sua carta à comunidade de Esmirna dos (Minúcio Félix, Octavius 31,8; da tradução para o alemão de
hereges que não se preocupam com o agape e concretiza seu B. KYTZLER).172
pensamento da seguinte maneira: eles não se preocupam
com as viúvas e os órfãos, os presos e libertados, os que pas- 4. A SOCIEDADE DE CONTRASTE DE DEUS
sam fome e sede. Eles morrem em suas contendas. Mas seria
tão importante para eles, amar (In. Esm 6s). Quando o mes- Com a última citação chegamos ao tema central desta
mo Inácio, no prescrito de sua carta aos Romanos, diz da quarta parte: também a Igreja antiga se compreende como
comunidade em Roma preside no agape, pensa, com certeza, sociedade de contraste. As expressões "outrora e agora", "tre-
no mesmo comportamento que Dionísio de Corinto mencio- vas e luz" são, como no Novo Testamento, confrontadas ca-
nou, umas década mais tarde na carta citada acima: o auxí- tegoricamente.!"
lio a comunidades de outras cidades Inácio, portanto, quer
dizer: a comunidade de Roma é a autoridade competente Se outrora nos comprazíamos em coisas obscenas, agora cultivamos
naquilo que constitui o essencial da Igreja, isto é, no amor a castidade. Se outrora nos entregávamos à magia, agora consa-
fraterno. Ela tem a presidência no amor.!" gramo-nos ao bom e ingênito Deus. Se outrora apreciávamos di-
Mesmo que a Igreja antiga tenha fracassado muitas ve- nheiro e posses acima de tudo, agora colocamos tudo que temos ao
zes no agape, os textos seguintes mostram, em todo o caso, serviço da causa comum e o repartimos com todos os necessitados.

170 Cf. p. ex. a carta à Diogneto 5s; Teófilo, Ad Autolycum III, 14. 172 B. KYTZLER, M. Minucius Felix. Octavius, Munique, 1965.
l7l Cf. J. A. FISCHER,op. cit., 129s. 173 Cf. p. ex. Orígenes, Contra Celsum I, 9.26; 1Clem 59,2.
232 ..................HHHHHHHH
.........HAlc;~~JJ\9LJE)~?LJs9LJER.IJ\ A..IC;~~JJ\.J\I'J1'IC;J\
..I'J().S~C;LJIM~NTC).l)E.I~?LJS
... 233

Se outrora nos odiávamos e assassinávamos uns aos outros e, nem Os infiéis o cunho deste mundo,
sequer nos colocávamos ao redor da lareira com aqueles que não os fiéis, porém, no amor, o cunho de Deus (In Magn. 5,2).
eram da nossa tribo, por causa dos diferentes costumes de vida,
agora, depois que Jesus apareceu, vivemos juntos como comensais Neste contexto devem-se mencionar, antes de tudo, os
(Justino, Apologia I, 14; da tradução para o alemão de G. apologistas cristãos. Um aspecto decisivo de seus escritos é
RAUSCHER). sempre a elaboração do contraste entre Igreja e paganismo;
este contraste, não raras vezes, é formulado com acuidade
Especialmente a última observação de Justino é impor- extraordinária:
tante, porque ele torna claro que, para a consciência da Igre-
ja antiga, todas as fronteiras nacionais tinham sido abolidas. Vocês proíbem o adultério e, no entanto, cometem-no - nós esta-
Não há mais grego, bárbaro ou cita (CI3,1l); a comunidade mos no mundo como maridos exclusivamente para nossas esposas.
cristã une todos os povos em torno da mesa comum da euca- Vocês punem os crimes somente depois de cometidos - entre nós
ristia. Não contam mais as divergências entre as nações, mas até o pensamento neles já é pecado. Vocês têm medo de cúmpli-
apenas a divergência fundamental entre a sociedade pagã e ces - nós tememos a nossa consciência que nunca nos deixa. E,
a nova sociedade de Deus: afinat as cadeias estão cheias de gente sua - um cristão somente
é encontrado lá quando é acusado por causa desta sua religião ou
Orem sem cessar pelos outros homens. Porque neles existe quando se tornou infiel a ela (Minúcio Félix, Octavius 35,6; da
esperança da conversão, para que se tornem participantes de tradução para o alemão de B. KYTZLER).
Deus. Concedem-lhes, pois, pelo menos, serem ensinados por
suas obras. Frente aos seus acessos de cólera, vocês devem Este e muitos outros textos mostram a imensa autocons-
ser mansos, frente à sua fanfarronice, humildes, às suas blas- ciência da Igreja daquele tempo frente à sociedade pagã.
fêmias contraponham suas orações, frente ao seu erro devem Quem de nós se poderia atrever a declarar, que nas cadeias
permanecer firmes na fé, frente à sua selvageria, vocês devem de hoje não se encontram cristãos a não ser os persegui-
ser controlados, não pretendam entrar em competição com eles dos por causa da sua fé? Manifestamente, Minúcio Félix
imitando-os (In. Ef 10,ls; da tradução para o alemão de J. .podia falar assim sem se expor ao ridículo. Mas deixemos
A. FISCHER). de lado a questão dos fatos: o abismo para com a Igreja de
hoje não está apenas nos fatos. A nós nem sequer agrada o
Ora, Inácio não fala aqui apenas de maus exemplos indi- ponto de partida do pensamento que é expresso na citação
viduais entre os gentios, mas da sociedade pagã como um todo; acima. Nós, simplesmente, não consideramos mais a Igre-
mostra-o um texto significativo de sua carta à comunidade ja como uma sociedade que está em oposição à sociedade
de Magnésia. Aí, ele compara o paganismo e o cristianis- restante. Por isso, hoje, este texto de Minúcio Félix parecerá,
mo com duas moedas diferentes. Cada uma delas tem um até à maioria dos leitores cristãos, uma arrogância insuportá-
cunho especial: vel. Infelizmente deve-se dizer: foi exatamente assim que a
234 HH ••• H ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• H •• ...................AIC;~~Ji\qlJE)~~lJSqlJE~Ii\

maioria dos gentios de então reagiu ao cristianismo. O que O cristão moderno costuma dizer diante de tais textos:
lhes era levado mais a mal era o fato de um grupo numerica- não se pode generalizar deste modo. É o preto-branco da
mente muito reduzido de pessoas se colocar, em sua fé e em lenda. Há sempre cristãos que fracassam e há sempre con-
seu modo de viver, contra toda a restante sociedade. Por isso duta exemplar também entre aqueles que não são cristãos.
os cristãos foram acusados de "ódio à humanidade" (odium Não é raro, os não-cristãos serem até melhores do que os
generis humanirF" A autoconsciência que fala do "Octavius" cristãos. - É mais ou menos deste modo que, hoje, se apre-
não era, de maneira alguma, uma exceção. Quando, por vol- senta um esquema cristão de argumentação estereótipo,
ta do ano 260, a peste assolava Alexandria, o bispo local, que até já se tornou esquema de pregação. Ele manifesta
Dionísio, escreveu uma carta: com muita clareza o bem difundido complexo de inferiorida-
de cristão. Os cristãos dos primeiros três séculos abanariam
Visto que a maioria dos nossos irmãos estar unida entre si e, em a cabeça, admirados. Eles estavam em condições de argu-
amor superabundante, de modo amigo, não se ter poupado a si mentar de modo completamente diferente. Até um homem
mesma, mas ter-se ocupado, sem medo, dos doentes, tê-Ias tratado tão prudente e sábio como Origenes podia ousar escrever o
cuidadosamente e tê-Ias servido em Cristo, morreu, como os doen- seguinte:
tes, alegremente, contagiada pelo mal dos outros, deixando-se con-
tagiar pela doença das pessoas assumindo livremente suas dores... Deus ... fez surgir em toda a parte comunidades, que atuam contra
Deste modo deixaram esta vida os melhores de nossos irmãos: as comunidades de homens supersticiosos, desregrados e injustos;
presbíteros, diâconos. leigos... Por tomarem os corpos dos santos pois em quase toda a grande massa dos cidadãos nas comunida-
em seus braços e em seu colo, por lhes fecharem os olhos e a boca, des citadinas consiste em gente desta espécie. As comunidades de
os carregarem nos ombros e, depois de os terem lavado e vestido, Deus, porém, cujo mestre e pedagogo é Cristo, são, em comparação
os sepultarem com abraços cordiais, recebiam pouco depois os mes- com as sociedades dos povos, entre os quais vivem como estrangei-
mos serviços, enquanto os sobreviventes tomavam o lugar daque- ros, "luzes do céu no mundo". Porque quem poderia negar que até
les que os tinham precedido. Bem diferente era entre os gentios. aqueles membros da nossa Igreja, que deixam bastante a desejar
Eles repeliam de si os que começavam a ficar doentes, fugiam dos em sua conduta e são de menos valor, quando comparados com
seus entes mais caros, jogava-os semimortos nas ruas e deixavam os melhores, estão muito mais acima dos membros das sociedades
os seus mortos, sem enterra-Ias, jogados como lixo (Eusébio, His- civis? (Orígenes, Contra Celsum III, 29; da tradução para o
tória da Igreja VII, 22; da tradução para o alemão de PH. alemão de P. KOETSCHAU).175
HAusER-H. A. GARTNER).
Orígenes, contudo, não se limita a estas afirmações ge-
174 Cf. Tacitus, Annales XV, 44. - Que a crítica do ódium também quer rais. Em seguida, ele compara as comunidades cristãs em
caracterizar a vida comunitária dos cristãos, mostra muito bem o pa-
ralelo nas Historiae V, 5,1 (onde, contudo, se trata de fenômenos se-
melhantes entre os judeus): "Entre eles reinam a solidariedade fiel e a 175 P. KOETSCHAU, Des Origenes Acht Bücher gegen Celsus (BKV), Munique,
compaixão solícita, para os outros, porém, existe ódio hóstil". 1926s.
236 A.IC;f{~JJ\.qlJE.l~?lJs.qlJEf{IJ\ A..IC;f{~JJ\.J\f'J'fIC;J\.f'J().SEC;lJI~~f'J!().])E.l~?lJs
... 237

Atenas, Corinto e Alexandria com as sociedades civis des- encontram um estrangeiro, levam-no para dentro de suas casas e
tas três cidades, para mostrar, assim, que o texto de FI 2,15 alegram-se com ele como se ele fosse um verdadeiro irmão. Pois
("como luzes do céu no mundo") citado por ele, também eles não se chamam a si mesmos irmãos segundo a carne, mas
tem validade no seu próprio tempo (III, 30). (irmãos) no Espírito de Deus. Mas se um de seus pobres parte
Mesmo onde os apologistas cristãos não argumentam deste mundo e qualquer um deles o vê, cuida, conforme as suas
diretamente no esquema de contraste, mas desenvolvem posses, do seu enterro. E quando ouve que algum deles esta preso
positivamente a beleza do modo cristão de viver, no fundo ou é perseguido por causa do nome de Cristo, todos cuidam do que
está sempre com muita clareza o contraste para com a so- lhe faz falta e, sendo possível, libertam-no. E se existe entre eles
ciedade pagã. Assim, por exemplo, no grandioso capítulo algum pobre ou necessitado, e eles não têm nada sobrando, então
15 da apologia de Aristides que pode resumir tudo quanto eles jejuam dois ou três dias, para dar ao necessitado o necessário
dissemos até agora: em alimento. Observam conscientemente os mandamentos de seu
Cristo, vivendo reta e honestamente, como o Senhor, seu Deus,
Os cristãos, ó Imperador, procurando acharam a verdade e, como lhes ordenou ... E se um dos seus justos parte deste mundo, eles
vimos dos seus escritos, estão mais próximos da verdade e do co- alegram-se e agradecem a Deus e acompanham seu corpo, como se
nhecimento exato do que os outros povos. Porque eles conhecem a ele partisse (apenas) de um lugar para o outro ... Esta, ó Imperador,
Deus e creem nele enquanto criador e mestre-de-obras do univer- é a lei dos cristãos e a sua conduta. (Apologia 15; da tradução
so. Dele receberam os mandamentos que gravaram dentro de suas para o alemão de K. JULIUS).176
mentes e que observam.
Por isso eles não cometem adultério e luxúria, não dão falso teste- Para poder julgar corretamente um texto como este não
munho, não defraudam bens a eles confiados, não cobiçam o que se pode deixar de levar em consideração seu gênero literário
não é deles, honram pai e mãe, fazem o bem a seu próximo e, quan- e sua maneira de falar. É um texto apelativo, até um texto
do juízes, julgam segundo a justiça, Não adoram ídolos em forma propagandístico que desenha um quadro ideal. Era assim que
humana, e o que não querem que outros lhes façam, também eles os cristãos queriam ser vistos e era assim que eles mesmos
não fazem aos outros. Aqueles, que os ofendem, procuram persua- queriam ser. O mesmo vale para muitos outros textos dos
dir e torná-los seus amigos; aos inimigos fazem o bem. Aos escra- Padres, citados aqui, mas também para muitos textos do
vos e às escravas, porém ... eles persuadem a tornarem-se cristãos, Novo Testamento, citados anteriormente. Mesmo quando
porque os amam; e se eles se tornam cristãos, chamam-nos sem falam no indicativo, eles, muitas vezes, têm caráter exorta-
distinção irmãos ... Eles andam em toda humildade e amabilidade. tivo. Assim somos nós" significa sempre também: Assim
11 /I

Não se encontra mentira no meio deles. Eles amam-se uns aos deveríamos ser e assim gostaríamos de ser". Por isso não é
outros. possível descobrir, imediatamente e sem reflexão prévia, de

Não desprezam as viúvas; eles libertam o órfão daquele que o mal-


176 K. JULIUS, em: Fruhchristliche Apologeten und Miirtyrerakten I (BKV),
trata. Aquele que tem, dá, sem inveja àquele que não tem. Quando Kempten/Munique, 1913.
238 ·. . ...................AIC;~~Ji\q1JE)~~1JSq1JEl~Ii\ A.IC;~~Ji\..i\I'J'flC;i\.
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.... 239

textos como este, a realidade concreta das comunidades cris- o consolar. Pois esta gente, sempre que tais coisas atingem sua
tãs. Mas, em todo o caso, estes textos mostram a autocom- comunidade, é de uma atividade e atuação incompreensíveis, e não
preensão das comunidades daquele tempo, sua autoconsci- poupa esforços nem despesas. Por isso foi enviada também a Pere-
ência extraordinária, seu arrogo de ser sociedade divina de grino uma vultosa soma de dinheiro e, deste modo, ele conseguiu
contraste frente a uma sociedade pagã corrupta e, em virtu- bons rendimentos (Peregrinus 12s; da tradução para o alemão
de de sua missão, ter de o ser. Já por esta razão trata-se aqui de CH. M. WIELANo-K. HONN).177

de textos excitantes; só isto deveria ser suficiente para nos


sacudir. Este escrito satírico de Luciano sobre a ingenuidade dos
Mas na realidade, estes textos mostram muito mais do cristãos, mostra, apesar de sua ironia sarcástica, muito con-
que a autocompreensão e a autoconsciência cristãs. Sem dú- cretamente, a fraternidade profunda das comunidades cris-
vida, eles refletem também a realidade das próprias comuni- tãs que apoiam sem reserva seus confessores nas prisões e
dades. Seria uma hermenêutica miserável nivelar textos cristãos minas (cf. os textos correspondentes em Aristides, apologia
antigos somente porque nós, homens de hoje, em nossa resignação 15!). Mais importante ainda é uma carta do imperador ro-
cética, já não consideramos possíveis comunidades que levam a mano Juliano, totalmente insuspeito, na qual é dado o mais
sério o Evangelho. Já as poucas, mas importantes vozes dos belo testemunho da solidariedade cristã por parte de um
inimigos do cristianismo daquela época nos deveriam livrar adversário do cristianismo:
de uma tal hermenêutica da má consciência, que gostaria de
criar um álibi histérico para a própria situação. Assim conta Será que não entendemos que o ateísmo (= cristianismo) foi pro-
Luciano de Samosata, em seu escrito satírico sobre o fim da movido de modo mais eficiente pelo humanitarismo (dos cristãos)
vida do embusteiro Peregrino, como este se tornou cristão para com os estranhos e pelos cuidados (dos cristãos) com os en-
apenas aparentemente, deixou-se festejar pelas comunida- terros dos mortos? ..
des e como um dia foi preso na Síria por ser cristão. Os ímpios galileus alimentam, além dos seus pobres, também os
nossos; os nossos, porém, evidentemente, carecem de nossa assis-
Quando estava preso, os cristãos, considerando este fato uma infe- tência (luliano, a Arsácíoi.!"
licidade acontecida a todos eles, tentaram o possível e o impossível
para o tirar da prisão. Como não lhes foi possível, pelo menos não o que os apologistasfalavam sobre a solidariedade inter-
lhe deixaram faltar nada em tratamento e cuidado. Já ao romper na das comunidades cristãs, era, portanto, verdade. O siste-
do dia viam-se ao redor da prisão mulheres velhas viúvas e órfãos ma social da Igreja funcionava tão bem, que até pessoas que
jovens. Os nobres entre eles até subornavam os guardas e passa- não eram cristãs, podiam receber ajuda. Esta solidariedade
vam noites inteiras com ele. Também foram trazidas boas refeições
e feitas conversações sagradas ...
177 E. ERMATINGER-K. HÓNN, Lukian. Parodien und Burlesken (Bibliothek der
Até veio gente de várias cidades da Ásia mandada pelos cristãos
Alten Welt), Zurique. 1948.
de lá, para aiudâ-lo, para serem seus defensores no tribunal e para 178 [uliano, Epistula ad Arsacium, em Sozomenos V, 15s.
240 H....HH •••••••• HH •••••••••••• .............................AIc;~EJ~9lJEJ~S.l!sg{JE.RIi\

deve ter causado uma impressão muito profunda a pessoas diversões, mesmo das mais honestas. Não assistem aos espetácu-
de fora; ela foi uma das razões da rápida expansão do cris- los, não participam nas procissões festivas, desprezam as alimen-
tianismo. Juliano, aliás, tentou imitar o programa da assis- tações públicas; vocês detestam os jogos em homenagem aos deu-
tência das comunidades numa" criação artificial para privar ses, a carne do sacrifício e o vinho do sacrifício dos altares. Vocês
os cristãos desta arma"."? Sua tentativa fracassou. A força e têm tanto medo dos deuses cuja existência vocês negam!
o caráter inimitável do sistema assistencial da Igreja consis- Vocês não enfeitam suas cabeças com flores, não cuidam do seu
tia no fato de não ser centralizado nem decretado de cima, corpo com essências aromáticas; vocês só usam especiarias para os
mas de ter seu lugar nas diversas igrejas locais, e de lá sur- mortos, e nem sequer colocam coroas de flores nos seus túmulos.
gir sempre de novo, da convicção interna e do livre consen- Vocês, figuras pálidas e assustadas, somente merecem compaixão
so das comunidades. Sua origem mais profunda estava no - mas a compaixão dos nossos deuses! Vocês, coitados, nem podem
amor fraterno e seu lugar próprio era a celebração da Euca- ressuscitar, nem, neste meio tempo, gozar da vida (Minúcio Fé-
ristia da comunidade reunida no dia do Senhor. lix, Octavíus 12ss; da tradução para o alemão de B. KYTZLER).

5. A INSUBORDINAÇÃO CRISTÃ Esta longa lista de críticas da parte dos gentios mostra
claramente uma parte das recusas cristãs frente à socieda-
Não se pode escrever sobre a Igreja antiga enquanto so- de. Para os cristãos existia a proibição de assistir aos jogos
ciedade de contraste sem tratar também o tema de sua insu- dos gladiadores e lutas de animais.I'" de participar das pro-
bordinação social. Até certo ponto, os cristãos são leais para cissões e cortejos"! e de participar em refeições e banquetes
com o Estado. Eles pagam seus impostos, eles aceitam em públicos, por exemplo, nos dias de festa do imperador.l" O
princípio a autoridade civil, eles oram pelo imperador. Estes texto citado de "Octavius" também mostra muito claramen-
pontos são incontestados pelos cristãos e acentuados cons- te que os cristãos se distanciavam da sociedade pagã até em
tantemente por eles, por causa da desconfiança dos gentios. pequenos detalhes: os cristãos não se enfeitavam com flores
Apesar disso existe - especialmente nos primeiros dois sé- e não usavam coroas.
culos - uma distância nítida entre as comunidades cristãs e Seria errado reconhecer a recusa cristã apenas onde esta-
a sociedade restante. Esta distância concretiza-se em recusas va em jogo a veneração aos deuses ou o culto ao imperador.
constantes. Assim Cecílio, no "Octavius" de Minúcio Félix ex- Estes dois elementos tinham, na Roma antiga, uma impor-
pressa bem acertadamente a crítica dos gentios: tância extraordinária, mas, nem de longe podem explicar
tudo. A recusa cristã dava-se também em outras áreas, por
Os romanos não governam o seu império sem o vosso Deus, usam
o mundo todo e dominam também vocês? Vocês, pelo contrário,
vivem sempre em preocupações e medo, abstêm-se de todas as 180 Cf. Atenágoras, Presbeia 35: Teófilo, Ad Autolreum III, 15; Tertuliano,
Apologeticum 38,4s; 42,7; Minúcio Félix, Octavius 12,5; 37,l1s.

179 A. VON HARNACK, op. cit. (86), 169.


181
182
Cf. Minúcio Félix, Octavius 12,5; 37,11; Orígenes, Contra Celsum VIII, 21.
Cf. Tertuliano, Apologeticum 35,1; 42,4; Minúcio Félix, Octavius 12,5.
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242 ..A.IC;R~Ji\.qlJE.J~?lJ.S
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exemplo, na cremação, no abandono de crianças recém-nas- teríamos o modelo exemplar daquele Estado celeste, que também
cidas e, sobretudo, na moral matrimonial pagã.183 O motivo Platão tentou descrever; mas eu duvido, que este tenha estado em
último e mais profundo da distância cristã para com a socie- tão boas condições de o fazer como Moisés e os homens que vieram
dade pagã deve ter sido o conhecimento persistente de que depois de Moisés, eles que foram uma geração escolhida e uma
Jesus quisera reunir o povo de Deus como contra-sociedade estirpe santa e consagrada a Deus (Contra Celsum V, 43; da
divina. Se não fosse assim, como se poderia compreender a tradução para o alemão de P. KOETSCHAU).
incrível frase de Tertuliano:
O que vale do povo do Antigo Testamento vale, segun-
Nenhum assunto nos é mais estranho do Orígenes, muito mais, daqueles" que se uniram de modo
do que o assunto de todos: o Estado?l84 admirável" (Contra Celsum VIII, 47), a saber, "do povo dos
cristãos". "Em cada cidade" do império Romano, eles for-
Com certeza, nem todos os cristãos da época concorda- mam uma "comunidade pátria" própria, "fundada pela pa-
riam com esta frase tão polêmica. Mas ela era possível! Ela lavra de Deus", e assim surge" à cidade do Pai que corres-
tinha sua base, em última análise, na consciência de que as ponde à vontade de Deus", isto é, a Igreja (Contra Celsum
comunidades cristãs formavam um "povo" próprio. Com a VIII,75).
morte de Jesus, entrou algo de novo no mundo, acentua Ori- Com termos sempre novos, os teólogos daquele tempo
genes contra Celso, e ele tem em mente procuram conceitualizar a dimensão social da Igreja. A Igreja
é um povo, ela é uma geração,185 ela é uma cidade.í" Quem
o surgimento do povo dos cristãos vai mais longe é Hipólito, que caracteriza o Estado Romano
que nascem praticamente de uma vez (Contra Celsum VIII, 43). como uma caricatura diabólica do verdadeiro Estado, isto é,
do "povo dos cristãos":
Quando Orígenes, como também muitos outros teólogos
dos primeiros séculos, designa os cristãos como um "povo", Pois quando no décimo segundo ano do domínio do imperador Au-
então ele não pensa apenas na dimensão religiosa ou espiritual, gusto, a partir do qual o Império Romano se desenvolveu, o Senhor
mas sempre também na dimensão social. A maneira, como ele nasceu e chamou, através dos apóstolos, todas as nações e línguas
caracteriza os judeus, já mostra claramente esta tendência: e criou o povo fiel dos cristãos, isto é, o povo do Senhor e o povo
daqueles que trazem um novo nome dentro do coração - então o
Oh, se não tivessem pecado contra a lei e não tivessem matado império daquela época, que domina pela obra de satanás, imitou
primeiramente os profetas e, mais tarde, Jesus! Neste caso, nós

185 Neste lugar deveríamos tratar da ideia dos cristãos como a "terceira
183 Cf. Orígenes, Contra Celsum VIII, 55; A Diogneto 5; Tertuliano, Apolo- geração". Cf. A. VON HARNARK, op. cit. (86),238-267.
geticum 9,8; Minúcio Félix, Octavius 7,4; 31,5. 186 Cf. especialmente Agostinho, De civitate Dei, em muitos lugares. Tam-
184 Tertuliano, Apologeticum 38,3: nec ulla magis res aliena quam publica. bém Tertuliano, Adv. Marcionem 3,23.
244 . . A.IC;~E:J~ .ql!EJE:?LJS.qlJE.I<I.~. A.IC;~E:J~.~t:-J:r!C;~ ..t:-Jr::>.?E:C;LJI~E:J\J:r9.I)E.JE:?LJS.. 245

com exatidão essa obra e reuniu, por seu lado, os mais nobres de bárbaros anárquicos e selvagens, de tal modo que não constará
todos os povos, armou-os para a luta, chamando-os Romanos (Hi- notícia entre os homens nem de vossa veneração a Deus nem da
pólito, Comentário de Daniel para IV, 9; da tradução para o sabedoria verdadeira (Orígenes, Contra Celsum VII, 68; da tra-
alemão de A. VON HARNACK).187 dução para o alemão de P. KOETSCHAU).

Por trás desta estranha argumentação está um esquema No que diz respeito ao juramento pelo gênio do impe-
apologético muito usado na Igreja antiga: tudo o que há de rador, Orígenes tem uma opinião completamente diferente.
grande e bom no paganismo é imitação (em certas circuns- Ele diz: ou a tyche do imperador é apenas uma palavra vã:
tâncias até caricaturização diabólica) da herança judaico- então não é permitido fazer com que esta coisa, que nem se-
cristã. Não precisamos de nos ocupar aqui com a ingenui- quer existe, seja um deus, por quem se possa jurar; ou a tyche
dade deste esquema e a questionabilidade da visão histórica do imperador é um demônio mau: então é melhor morrer
de Hipólito. Decisivo para o nosso contexto é o pressupos- do que jurar por um demônio que seduz o imperador para
to de Hipólito que a igreja é um povo criado por Cristo de o mal (Contra Celsum VIII, 65). Neste ponto só se pode con-
todos os povos, que está frente ao império Romano como cordar com Orígenes. O que era a tyche do imperador senão
con tra -sociedade. a personificação de uma vontade de poder humano sem li-
Hipólito não está sozinho com esta autoconsciência ex- mites? E onde o poder humano é deificado, os demônios são
traordinária. Mesmo que nem de longe todos os teólogos da colocados à solta.!"
Igreja antiga tenham tido uma posição tão adversa ao Es- Aliás, Orígenes também não pode estar de acordo com
tado Romano como ele - a ideia da constituição social da a objeção de Celso, que deve ser levada a sério, de que os
Igreja e de sua função de contraste para com a sociedade cristãos deixem o imperador só e fogem de sua responsabi-
restante eram uma evidência. Olhamos, mais uma vez, para lidade social:
Orígenes. O filósofo platônico Celso, contra quem Orígenes
defende o cristianismo, acusara a Igreja, entre outras coisas, Se, como diz Celso, todos agissem como nós, também os bárbaros
de se colocar, por escolha própria, ao lado da sociedade, que, então, se teriam voltado para a palavra de Deus, seriam, na-
o que se concretiza, para ele, na recusa cristã de jurar pela turalmente, conformes à lei e de bons costumes. Então seria aboli-
tyche (o gênio) do imperador (Contra Celsum VIII, 67). Nesta da toda a outra veneração a Deus, mas a cristã dominaria sozinha.
recusa, Celso só pode ver uma profunda irresponsabilidade E, um dia, ela (de fato) reinará sozinha, porque a doutrina cristã
em relação ao Estado: atrai sempre mais pessoas (Contra Celsum VIII, 68; da tradu-
ção para o alemão de P. KOETSCHAU).
Se todos agirem como vocês, nada mais impedirá que o imperador
fique só e solitário; o domínio da terra, porém, cairá nas mãos dos
188 Assim, com razão M. HENGEL, Christus und die Macht. Zur Problema-
tik einer "pofitischen Theologie" in der Geschichte der Kirche, Stuttgart,
187 A. VON HARNACK, op. cit., 257. 1974, 12.
246 A.IC;~~J~.(2lJE.J~S.lJS.(2lJ~~Ip.
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Orígenes está, portanto, convencido: não existe outro sociedade pagã marcada pelos demônios do poder, de uma
caminho para converter profundamente a sociedade para o nova sociedade livre de ambições, que torna claro como
bem, a não ser a expansão cada vez maior da Igreja, a contra- Deus quer, realmente, a sociedade. Assim, Orígenes pode
sociedade de Deus, no mundo. Viver na Igreja, de acordo continuar:
com a palavra de Deus, não significa, portanto, de modo
algum, fugir da responsabilidade social, que todo homem Portanto, quando os cristãos se recusam a aceitar cargos públicos,
tem, mas causa exatamente o contrário, isto é: que os cris- eles não o fazem para se furtarem ao serviço à comunidade, mas
tãos assumam, do modo mais radical que é possível, a sua para se reservarem para o serviço mais divino e mais necessário à
responsabilidade social. Por isso, Orígenes pode responder Igreja de Deus para a salvação dos homens (Contra Celsum VIII,
ao apelo de Celso, para que os cristãos assumam cargos pú- 75; da tradução para o alemão de P. KOETSCHAU).
blicos em suas cidades natais, da seguinte maneira:
Que texto grandioso! Ele merecia muito mais atenção
Sabemos que, pela palavra de Deus foi fundada, em cada cidade, porque realça exatamente, no sentido do Novo Testamen-
mais uma comunidade pátria, e, por isso, exortamos aqueles que to, a função específica da Igreja: o melhor modo dela servir ao
por sua eloquência e sua conduta moral têm capacidade de gover- mundo é tomar radicalmente a sério sua tarefa de ser um
nar, que dirijam as comunidades. Não admitimos homens seden- "povo santo" no sentido de lPd 2,9s. Exatamente quando
tos de poder, porém forçamos (para assumirem cargos de direção ela mesma vive como sinal a estrutura social de Deus, ela se
dentro da Igreja) aqueles, que por causa de grande modéstia, não torna sal da sociedade. É muito duvidoso o fato de não poucos
querem assumir apressadamente o cuidado comum pela Igreja de cristãos engajados agirem como se a responsabilidade pelo
Deus ... E quando os dirigentes eclesiásticos governam correta- mundo e a transformação do mundo só fossem possíveis
mente a cidade pátria correspondente à vontade de Deus - falo da além e fora da Igreja. Evidentemente, hoje o cristão é obriga-
Igreja - ...r então eles governam também segundo os mandamentos do a assumir, conforme as circunstâncias, responsabilidade
de Deus, sem, por isso, violarem alguma das leis (estaduais) dadas imediata dentro do Estado.!" Neste ponto especial, a posi-
(Contra Celsum VIII, 75; da tradução para o alemão de P. ção de Orígenes não pode ser mais normativa para nós. Mas
KOETSCHAU). normativo ainda deveria ser aquilo que Orígenes viu com
uma clareza digna de nota, com muito mais clareza do que
Segundo a opinião de Orígenes, os cristãos realizam sua muitos teólogos do tempo presente: o serviço mais importante
responsabilidade para com o Estado pelo engajamento na e insubstituível que os cristãos devem prestar à sociedade, é sim-
Igreja, que é a sociedade correspondente à vontade de Deus. plesmente ser verdadeiramente Igreja.
Decisiva, neste contexto, é a exclusão de toda ambição. Den-
tro da nova sociedade de Deus não pode existir de novo a
dominação de homens sobre homens. A maneira de melhor 189 A.respeito dos conflitos que esta atitude pode causar cf, G. LOHFINK,
servir ao Estado é, pois, o aparecimento, no meio de uma op. cit. (54),250-253.
248 A.I<:;~~J~.qlJE..J~~tJS..qlJEl~I~ A.IC;~~J~.i\l\J'flc;i\.l\J().?EC;lJlrv.r~l\J1'().[)E.J~~tJS
... 249

6. A IGREJA E A GUERRA Cornélio em At 10. A resposta de Tertuliano não pode ser


mais clara:
No capítulo precedente, já aflorou o problema da não-
violência e da renúncia ao poder. Não só a Igreja primitiva, Como pode alguém fazer guerra, como pode alguém prestar ser-
mas também a Igreja da época seguinte se confrontou, sem- viço militar, mesmo em tempo de paz, se o Senhor lhe tirou a es-
pre de novo com este problema. A questão: é permitido ao pada? De fato vieram soldados a João para receber regras para
cristão e, em que circunstâncias seria permitido ao cristão sua conduta; de fato um centurião chegou à fé; mas com o desar-
prestar serviço militar, ocupou as comunidades cristãs até mamento de Pedro, o Senhor tirou a espada de todo soldado (De
o século quarto. "No ocidente e nas províncias fronteiriças idolatria 19).
ameaçadas havia mais inclinação para compromissos neste
ponto do que nas províncias apaziguadas de língua grega. A realidade, porém, era mais complicada do que esta
De acordo com a ordem eclesial de Hipólito de Roma, um frase rigorista; na sua obra Apologeticum, o próprio Tertu-
soldado batizado devia comprometer-se a não realizar exe- liano falara de modo bem diferente (cf. 42,3). No entanto,
cuções e a não prestar juramentos militares; um catecúmeno o pronunciamento destas frases era de maior importância
ou cristão que se apresentasse voluntariamente para o ser- para a teologia cristã. Elas mantiveram acordada a consciên-
viço militar, era expulso'U?" Existiam também vozes mais cia do problema. Tertuliano reconheceu com instinto acerta-
radicais, que consideravam absolutamente incompatíveis o ser do, que desde Jesus e sua práxis da não-violência absoluta
cristão e o serviço militar. Assim, por exemplo, o rigoroso aconteceu algo que a Igreja não podia deixar de lado.
Tertuliano no seu tempo montanista declara: Também Orígenes se pode manifestar, por princípio,
contra qualquer serviço militar por parte dos cristãos. Para
Não podemos estar simultaneamente sob o juramento da bandeira ele, a santidade das comunidades é incompatível com a vio-
de Deus e dos homens, sob o estandarte de Cristo e do diabo, no lência. A exortação insistente de Celso, para que os cristãos
acampamento da luz e das trevas; o mesmo homem não pode estar fossem "à guerra junto com seu imperador", ele responde:
comprometido com dois: Cristo e o diabo (De idolatria 19, da
tradução para o alemão de H. KELLNER).l9l Os seus próprios sacerdotes, que devem cuidar de certas imagens
de deuses, e os servidores dos templos daqueles que vocês conside-
Sem dúvida havia cristãos que recorriam à Bíblia para le- ram deuses, não podem manchar a sua mão direita por causa dos
gitimar seu serviço militar, por exemplo, ao "sermão aos sol- sacrifícios, para poderem oferecer sacrifícios habituais a seus deu-
dados" de, João Batista em Lc 3,14 ou ao batismo do centurião ses com mãos puras que não estão manchadas por sangue humano;
e quando irrompe uma guerra, de maneira alguma vocês trans-
formam seus sacerdotes em soldados. Se isto acontece com razão,
190 M. HENGEL,
op. cit., 48s.
quanto mais razoável será, que os cristãos, enquanto os outros vão
A. H. KELLNER, Tertullians private und katechetische Schriften
191 K. (BKV),
Kempten/Munique, 1912. à guerra, participem da campanha como sacerdotes e servidores de
250 . .. . AIC;~~J.i\.q{]E.J~~lJ.S.q{]EI{Ii\ A ..IC;I{~Ji\..i\I'J!Ic;i\.I'J().SEC;{]I~E.j'\J!().[)E.JE.~lJS
.. 251

Deus, mantendo puras as suas mãos e lutando com suas orações sociedade restante. Só pode realizar seu serviço específico
dirigidas a Deus por aqueles que vão à guerra por uma causa justa ao mundo (seu sacerdócio) em não-violência absoluta.
e pelos que governam com justiça (Contra Celsum VIII, 73; da
tradução para o alemão de P. KOETSCHAU). 7. O CUMPRIMENTO DE ISAÍAS 2

Dois pontos são dignos de nota nesta argumentação. Pri- Evidentemente Tertuliano e Orígenes reconheceram cla-
meiro: Orígenes não diz: "Nós oramos pela vitória do impe- ramente que a questão da compatibilidade entre cristianis-
rador", mas: "Nós oramos pela causa justa". Ambas não são mo e serviço militar não era apenas uma questão periférica.
a mesma coisa. Infelizmente, o cristianismo esqueceu muito Do que se trata é a questão da não-violência da Igreja, e com
rapidamente esta cuidadosa diferenciação, e colocou suas isto do mais íntimo da existência eclesial, pois Cristo, o Se-
orações e sua influência demasiadas vezes e maciçamente nhor da Igreja, renunciou a toda violência e morreu impo-
a serviço de interesses de poder e de domínio. Exatamente tente na cruz.
o que Orígenes queria impedir. Para ele, a tarefa da Igreja O tema da Igreja sem uiolêncui ocupou todos os Padres
consiste em criar uma atmosfera da qual os demônios da da Igreja, não só Tertuliano e Orígenes. No entanto não se
guerra, que seduzem os homens, têm de se afastar. Só assim deve pesquisar este tema apenas no contexto da questão
a paz se torna possível: ao serviço militar dos cristãos; de também é tratado em
contextos bem diferentes. Um destes contextos é a exegese
Nós aniquilamos, com nossas orações, todos os demônios que in- patrística de Is 2.
centivam as guerras, violam os juramentos e perturbam a paz, e Já vimos que Is 2,2-5 (d. Mq 4,1-5) pertence aos textos
com isto ajudamos mais aos governantes do que às pessoas que vão veterotestamentários mais importantes para a ideia da pe-
para a guerra de um modo visível para todos (Contra Celsum regrinação das nações (d. 1,5). No fim dos dias, diz Isaías, o
VIII. 73; da tradução para o alemão de P. KOETSCHAU). monte Sião com a casa de Deus elevar-se-ão acima de todas
as outras montanhas. O que quer dizer: no tempo escatoló-
A argumentação de Orígenes também é digna de nota gico da salvação Israel começará brilhar como a sociedade-
pelo fato de ele não justificar a recusa cristã do serviço mi- modelo de Deus. Então todas as nações do mundo inteiro
litar com o argumento de que um soldado cristão poderia peregrinarão a Jerusalém para aprender lá a única ordem
ser envolvido no culto ao imperador. Seu argumento é muito social que é digna de ser vivida e que possibilita a vida:
mais, que a Igreja é um povo santo e sacerdotal e que por esta
razão os seus membros não se podem manchar de sangue. Com efeito, de Sião há de sair a Lei,
Traduzindo a linguagem cúltica, que Orígenes usa aqui, em e de Jerusalém, a palavra de lahweh (Is 2,3).
nossa linguagem de hoje, não teremos outra coisa que: a Igre-
ja é a sociedade divina de contraste (ela é santa) e, por esta Decisivo nesta ordem social é o fato de ela não permane-
razão, não pode usar a violência (derramar sangue) como a cer simples teoria, mas de ser vivida em IsraeL Caso contrário,
252 A.IC;~I;;Ji\.qlJE.JI;;~lJS.qlJERIA. A ..IC;~I;;Ji\..i\l'J!Ic;i\ ..l'J<:>.S.~C;lJI!'1E.l'JT().[)E.JI;;~lJS
.. 253

dificilmente fascinaria os povos do mundo e muito menos os casa de Deus que é a comunidade do Deus vivo, coluna e alicerce
atrairia. Decisivo nesta nova ordem de vida é também o fato da verdade. E nós vemos de que modo é construída esta casa nos
de ela ter reconhecido o problema básico de toda sociedade cumes das montanhas; a saber, sobre todas as palavras proféticas
humana e o superar: o desejo de domínio, a inclinação para que são seu fundamento. Esta casa, porém, é elevada acima das
a violência, as eternas rivalidades. O que faz a nova ordem colinas, isto é, acima daqueles que, entre os homens, anunciam,
social tão fascinante é exatamente a não-violência que é, ma- aparentemente, algo de especial em sabedoria e verdade.
nifestamente; sua característica mais importante: E nós, todas as nações, vamos a ele, e nós, as muitas nações, pomo-
nos a caminho e nos exortamos uns aos outros para a veneração a
Estes quebrarão as suas espadas, Deus, resplandecente por Jesus Cristo nos últimos dias: venham,
Transformando-as em relhas, nós subimos para o monte do Senhor, para a casa do Deus de Jacó.
e as suas lanças, a fim de fazerem podadeiras. Então ele nos mostrará o seu caminho e nós caminharemos nele.
Uma nação não levantará a espada contra a outra, e nem se apren- Pois daqueles que estavam em Sião saiu a lei e passou para nós
derá mais a fazer guerra (Is 2,4). como lei espiritual (Contra Celsum V, 33).

Este texto de Isaías referente à peregrinação escatológica Também Justino, Irineu e Tertuliano interpretam o tex-
..~.
dos gentios para Sião e ao início da nova sociedade de Deus to de modo semelhante. Todos estão convencidos: Is 2 já se
desempenha um papel extraordinariamente importante na cumpriu. O que os levou a esta convicção? Em primeiro lu-
exegese dos Padres da Igreja. Os Padres antigos estão con- gar, evidentemente, a frase, de que a palavra de Deus sai
vencidos: a promessa de Isaías cumpriu-se. O tempo da sal- de Jerusalém. Provavelmente, a Igreja primitiva interpretou
vação, de que Isaías falou, começou. A palavra do Senhor foi desde o começo sua experiência missionária com os gentios
anunciada. A nova ordem social de Deus está proclamada. à luz da mensagem profética da peregrinação das nações (cf.
A casa de Deus já é visível ao longe por cima de todas as acima 3,8). Em todo o caso, os Padres fizeram-no com cer-
colinas, e as nações já acorrem à casa de Deus. teza. Para eles era inabalavelmente seguro: pelo fato de a
Orígenes é quem formula este pensamento da maneira palavra do Senhor, através da pregação dos apóstolos que
mais grandiosa. Ele identifica - como todos os Padres - a tinham saído de Jerusalém, ter atingido todos os povos (cf.
"casa de Deus" com a Igreja, e as nações que peregrinam At 1,8) e pelo fato de, através da aceitação do Evangelho, ter
para o "monte do Senhor" com os cristãos vindos do pa- surgido de todos os povos "um povo vindo dos gentios" (At
ganismo. A lei que sai de Sião é a "lei espiritual", isto é, a 15,14), tinha-se realizado a peregrinação para Sião, tinha-se
doutrina de Jesus. cumprido Is 2. Nós, os cristãos vindos do paganismo, diz
Orígenes, somos aqueles que chegaram ao monte lumino-
Nos últimos dias, depois que nosso Senhor Jesus apareceu visi- so do Senhor "como todas as nações". Os Padres não têm
velmente entre nós, chegamos, portanto, ao monte luminoso do nenhuma dificuldade em identificar o surgimento da Igreja a
Senhor, à palavra que é mais sublime que todas as palavras e à partir dos gentios com a peregrinação das nações a Sião, porque,
254 . ..H HHHAI(;~E:J1\qlJE)E:~lJS9lJEl~I1\ A HI(;~E:J 1\ .1\]\J'fI (;1\ .]\J() .SE(;lJ1~E:l\JT(). J
1)10. E:~lJS ... 255

para eles, a "casa do Senhor" em Sião não é nada mais do pagã. Igualmente inequívoco é um texto do "Diálogo com o
que a Igreja. judeu Trífon" de Justino:
Mas existe ainda uma segunda razão, pela qual muitos
Padres consideram Is 2 como cumprido. Não só pelo fato de Nós aprendemos, da Lei e da palavra que saiu de Jerusalém pe-
a palavra de Deus ter saído de Jerusalém e atingido todos os los apóstolos, a veneração a Deus e procuramos proteção no Deus
povos, mas também por já se ter tornado realidade na Igreja o de Jacó e no Deus de Israel. Embora entendêssemos tão bem de
estado escatológico da não-violência e da paz, profetizado por Isaías. guerra, de assassinato e de todo o mal, nós todos, no mundo in-
Esta concepção é tão impressionante e, ao mesmo tempo, tão teiro, transformamos nossos instrumentos de guerra, as espadas
característica para a eclesiologia dos primeiros três séculos, em relhas de arado, as lanças em ferramentas agrícolas, e agora
que vale a pena deixar uma série de textos falar por si mes- cultivamos o temor a Deus, a justiça, a caridade, a fé e a esperança;
ma. Justino escreve na sua apologia: a esperança que nos é dada pelo próprio Pai através do crucificado
(Diálogo 11O,2s; da tradução para o alemão de PH. HAuSER).
Quando, porém, se faz ouvir o espírito profético como anunciador
do futuro, diz o seguinte: de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor Este texto do "Diálogo" de Justino mostra mais clara-
de Jerusalém. Ele julgará no meio das nações e corrigirá muita mente que a Apologia a função original da "exegese da rea-
t~'
gente. Eles transformarão suas espadas em relhas de arado e suas lização" de Is 2 (resp. Mq 4) do cristianismo antigo: no con-
lanças em foices. Nunca mais um povo levantará a espada contra fronto com o judaísmo deve ser esclarecido que com Jesus
outro povo e não aprenderão mais a fazer guerra. de Nazaré o messias já veio, Pois um pouco antes, Justino
Vocês podem convencer-se de que assim aconteceu. Pois de Jeru- dissera a seus parceiros de diálogo judeus:
salém saíram homens para o mundo, em número de Doze, intei-
ramente incultos e sem dons de oratória. Mas pela força de Deus Como sei, os seus mestres admitem que todas as palavras desta
mostraram a toda a humanidade, que foram enviados por Cristo perícope se referem ao messias. Também sei que eles dizem que o
para ensinar a todos a palavra de Deus. E nós que outrora nos messias ainda não veio. Mas mesmo quando dizem que ele já veio,
assassinávamos uns aos outros, agora não só nos abstemos de toda eles fazem a restrição de que não se sabe quem é. Somente quando
hostilidade contra nossos adversários, mas, para não mentir e não aparecer abertamente em glória, saber-se-á quem ele é. Somente
enganar os juízes de instrução criminal, vamos alegremente para então, dizem, vai acontecer aquilo que foi profetizado nesta períco-
a morte pela profissão da fé em Cristo (Apologia I, 39; da tradu- pe - como se não houvesse ainda nenhum fruto das palavras desta
ção para o alemão de G. RAUSCHEN). profecia (Diálogo 11O,ls).

A referência aos mártires mostra com toda clareza: Jus- A perícope Is 2 (resp, Mq 4), portanto, já deu "fruto",
tino não fala de uma formação moral de toda humanidade, isto é, já trouxe a realização: o messias já veio, a transfor-
mas da não-violência dos cristãos. O esquema "outrora - mação messiânica já aconteceu, Também Irineu interpreta o
agora" sinaliza aqui o contraste entre a Igreja e a sociedade texto exatamente no mesmo sentido:
256 A.Ic;~~JI\:.q1J?l~~l!sq1J1:l.~I.1\: A ..lC;~~JI\:.I\:I',rrIC;I\:.l'J9.S?C;1JIi'v1~l'JTC).I?E.l~~1JS
..... 257

Se a lei da liberdade, isto é, a palavra de Deus foi anunciada em Irineu e Tertuliano. Os judeus, porém, argumentam com
todo o mundo pelos apóstolos, que saíram de Jerusalém, e produziu toda razão:
uma mudança tão grande que eles fizeram das espadas e lanças de Como pode, pois, ter vindo o messias, se nada mudou
guerra arados... e foices ... isto é, utensílios da paz, e já não sabem no mundo? Se o messias tivesse vindo, deveria ter-se torna-
mais guerrear, mas quando alguém lhes bate, eles ainda oferecem do verdade pelo menos a profecia da paz de Is 2,4. Mas não
a outra face - então os profetas falaram de nenhum outro, mas se vê nada disso. O mundo continua cheio de guerras e os
daquele que realizou estas coisas. E este é o nosso Senhor! (Irineu, homens continuam brigando. Portanto, Jesus de Nazaré não
Adv. haer., IV, 34,4). pode ter sido o messias.
A objeção judaica deve ser levada incondicionalmente a
Também aqui não se fala da transformação de toda a so- sério. Ela é a objeção mais forte que existe contra o cristianis-
ciedade, mas do povo do messias, que vive conforme Mt 5,39, mo. Ela toca o nervo central da fé em Cristo. Os Padres que
e que, desta maneira, iniciou a transformação do mundo e ouvimos evidentemente levavam-na muito a sério. Sobretu-
prova assim a messianidade de Jesus. Semelhante é um tex- do eles não negavam sua premissa. Quer dizer, eles concor-
to de Tertuliano: davam plenamente com o judaísmo: quando o messias vier,
w;f
o mundo deve realmente transformar-se.
) Eles transformarão, está escrito, suas espadas em arados e suas A resposta dos Padres dos primeiros tempos à objeção
lanças em foices, e nenhum povo lançará mais mão na espada con- central do judaísmo não era portanto: o mundo não precisa
tra um outro e não mais aprenderão a fazer guerra. A quem se transformar-se, de maneira alguma, para nós porque a sal-
pode referir isto senão a nós que, instruídos pela nova lei, observa- vação acontece invisível ou ela se realiza somente no fim do
mos tudo isto (Tertuliano, Adversus Judaeos 3,9s; da tradu- mundo. Sua resposta era muito mais:
ção para o alemão de H. KELLNER). O messias veio e o mundo mudou de fato. Ele mudou
no povo do messias que vive segundo a lei de Cristo. No povo
Também Orígenes pensa exatamente deste modo: messiânico da Igreja não existe mais violência. Lá todos se
tornaram "filhos da paz" (Lc 10,6). Lá as pessoas preferem
Nós não pegamos mais na espada contra um povo e não aprende- que lhes batam ainda na outra face a devolver um golpe
mos mais a fazer a guerra, porque por Jesus nos tornamos filhos da (Mt 5,39). Lá desaprende-se a fazer a guerra. Is 2 já se reali-
paz (Contra Celsum V, 33). zou, portanto, na Igreja.
Fica logo evidente: esta resposta é altamente perigosa.
Se quisermos entender corretamente o significado Ela põe em perigo toda a cristologia se, um dia, a realida-
destes textos patrísticos citados, não se pode deixar de de eclesial a desmentir. O fato de os Padres antigos terem
lado seu Sitz im Leben. Vimos: o contexto da "exegese da dado esta resposta é ainda mais impressionante devido a
realização" de Is 2 é, originariamente, a disputa com o ju- eles já terem elaborado um princípio hermenêutico que teria
daísmo; isto pode-se reconhecer facilmente em Justino, oferecido uma resposta mais fácil e muito menos perigosa.
258 A.lc;~Jr\.qlJE)~?lJS.qlJEl~Ir\ A IC;J{~Jr\.J\l\J'fIC;r\.t-J().S~C;lJItv1~l'J'f()I)E.J~?lJ?
.. 259

Justino descreve este princípio de interpretação da seguinte conseguiu num espaço relativamente curto, só se pode com-
maneira: preender pelo fato de o sinal ter brilhado.
Em Cristo devemos distinguir duas parusias: sua primei- N. BROX apontou, há pouco tempo, para o fato de a Igreja
ra vinda em fraqueza e sua segunda vinda do céu em poder. antiga não ter tido órgãos ou estratégias para um trabalho
Na verdade, uma parte das profecias veterotestamentárias missionário sistemático. Então, segundo BROX, só se pode
refere-se ao seu primeiro aparecimento na fraqueza; uma falar em teoria missionária da Igreja antiga, no máximo, no
outra parte, porém, refere-se exclusivamente ao seu apareci- sentido seguinte: os Doze apóstolos proclamaram o Evange-
mento em glória e em poder (Justino, Diálogo 110,2). lho no mundo inteiro e fundaram Igrejas locais em número
Como teria sido fácil, com base neste princípio herme- suficiente. Com isto estava encerrada a missão em sentido
nêutico, referir Is 2,4 somente àquela "paz eterna" que só estrito. As comunidades fundadas pelos apóstolos existiam,
vai ser realizada depois do retorno de Cristo na plenitude a partir de então, como sinais da verdade. Agora a sociedade
do Reino de Deus. Mas exatamente este caminho fácil e pagã pode decidir-se.?"
sem perigo não foi tomado pelos Padres antigos (d. Justino, Esta era, basicamente, toda- teoria missionária da Igreja
Diálogo 110,5). Eles mantinham que a nova veneração a antiga. Distinguia-se rigorosamente entre o mandato mis-
Deus, a nova maneira de viver, a nova criação já agora se sionário específico e único dos apóstolos e a tarefa da pre-
tornava visível e palpável na Igreja. Eles mantinham que sença simbólica de todas as comunidades. Evidentemente
Is 2,4 já se tinha realizado e tinha de se realizar já agora, no não estava excluída a ação missionária no tempo pré-cons-
tempo da Igreja. tantiniano não conseguiu seu aumento admirável por esfor-
ços missionários organizados, mas simplesmente por sua
8. A PROVA DA VERDADE PELA PRÁTICA presença que deu nas vistas" .193
Uma enorme e inabalável confiança, de que a prática
No capítulo precedente dedicamo-nos à objeção central cristã tem o poder de convencer por si mesma, atravessa os
do judaísmo contra a pretensão cristã: como pode ter chegado o escritos de todos os apologistas. Eles dizem constantemente
messias se não mudou nada no mundo? Olhando melhor vemos a seus leitores gentios: nós não temos apenas a doutrina ver-
que esta não é apenas a pergunta fundamental do judeu. dadeira, mas também a práxis verdadeira, e ambas estão em
Qualquer um que não seja cristão pergunta de maneira se- relacionamento profundo:
melhante. Como podem vocês falar de redenção se, desde a vinda
de seu redentor, nada mudou no mundo? Por isso a verdade da Vocês podem encontrar, em nosso meio, gente inculta, operários e
fé cristã só pode brilhar, quando ela se tornar plausível pela velhinhas, que, mesmo sendo incapazes de explicar por palavras a
prática dos cristãos. A Igreja antiga, que também aqui está
repleta de sobriedade bíblica, reconheceu bem esta conexão.
192 Cf. N. BROX, Zur christlichen Mission in der Spatantike, in: K. Kertelge
Ela sabia que tinha de ser sinal da verdade do Evangelho,
(op, cit.), 190-237, especialmente 192-207.
com toda a sua existência. O aumento admirável, que ela 193 N. BROX, id., 226.
260 A.IC;~~Ji\.qlJ~.J~~f!S..qY.E~i\: A IC;~~Ji\:J\l'J'flc;i\:
..l'J<?SEc;Y.I~~l'J!<?[)E.J~~l!S
... 261
utilidade de sua doutrina, podem mostrar a utilidade de seus prin- antiga que não se pode datar exatamente. Primeiramente, o
cípios através de obras. Pois eles não falam palavras decoradas, autor esclarece que a verdadeira veneração a Deus não con-
mas mostram boas obras; sendo batidos, eles não rebatem, sendo siste em palavras bonitas, mas na práxis correta:
roubados, eles não processam, eles dão ao que pede, eles amam o
próximo como a si mesmos (Atenágoras. Presbeia 11;da tradu- Não nos queremos contentar em chamar Senhor a Jesus Cristo,
ção para o alemão de A). porque isto não nos salvará. Pois ele diz: nem todo aquele que me
diz: Senhor, Senhor, será salvo, mas sim aquele que pratica a jus-
Quem compreendeu que tem de convencer por sua prá- tiça. Por isso, irmãos, vamos confessá-Ia pelas obras: amando-nos
tica correta, sabe também que ofusca por seu fracasso o ca- uns aos outros, não cometendo adultério, não falando mal uns dos
ráter de sinal da comunidade. Por isso, Inácío escreve à co- outros, não sendo ciumentos, mas, pelo contrário, sóbrios, miseri-
munidade de Trales: cordiosos e bondosos (2Clem 4,1-3; da tradução para o alemão
de F. ZELLER).194
Ninguém de vocês deve ter algo contra seu próximo. Não deem
escândalos aos gentios para que a comunidade de Deus não seja Num trecho posterior, o autor fala da negação de Deus
difamada por causa de uns poucos ignorantes! Pois: ai daquele, por causa de obras más. Uma prática errada deve levar os gen-
por cuja tolice meu nome for difamado diante de alguém (In, TraI. tios a crer que a doutrina cristã é apenas engano e invenção:
8,2; da tradução para o alemão de J. A FISCHER).
o Senhor diz: em toda parte meu nome é blasfemado em todas as
Também Polícarpo de Esmírna pode expressar-se de nações, e novamente: ai daquele, por causa de quem meu nome
modo muito semelhante. A citação seguinte, tirada de uma está sendo difamado. Por causa de que ele é blasfemado? Pelo fato
das suas duas epístolas aos Filipenses, mostra que já se co- de vocês não fazerem a minha vontade. Pois quando os gentios
meça a formar, com base em modelos veterotestamentários, ouvem de nossa boca as sentenças de Deus, eles ficam admirados
um esquema parenético fixo; no tempo seguinte será usado delas como de palavras boas e sublimes; mas quando depois notam
constantemente: que as nossas obras não correspondem às palavras que dizemos, a
consequência é que eles blasfemam de Deus e dizem que. é apenas
Levem entre os gentios uma vida irrepreensível, para colher lou- um mito e erro (2 Clem 13,2s; da tradução para o alemão de
vor das suas boas obras e o Senhor não seja blasfemado por causa F. ZELLER).
de vocês (Policarpo 2Fl 10,2s; da tradução para o alemão de
J. A FISCHER). Em todos estes textos é palpável a relação bíblica entre
a comunidade e a glória de Deus: quando a comunidade
Uma das melhores e mais impressionantes elaborações é injuriada pelos gentios por causa de seu mau exemplo,
deste esquema parenético encontra-se na chamada segun-
da epístola de Clemente; é uma abrangente pregação cristã
194 F. ZELLER, Die Apostolischen Viiter (BKV), Kempten/Munique. 1918.
262 A ..lc;~E.Ji\.qLJE.JE.~lJS.qlJf:~Ii\ 263

é desonrado o próprio nome de Deus. Esta afirmação pres- sob uma obrigação terrível de sucesso e sob uma impiedosa
supõe que a comunidade é o sinal, a presença, a glória de pressão de conseguir bons êxitos? Ela não transforma a Igre-
Deus no mundo. Quando ela mesma obscurece este sinal, ja na espécie mais repugnante de sociedade de realização
impede a obra da salvação e desfigura a verdadeira nature- que existe, isto é, numa sociedade de realização religiosa?
za de Deus. Quando ela, pelo contrário, vive a verdade do E como é que uma eclesiologia como esta consegue explicar
Evangelho, o nome de Deus é glorificado entre os gentios os tíbios e fracos, os culpados e fracassados, os que ficam à
e levado avante o plano de Deus com o mundo. Por conse- margem da comunidade?
guinte, muitos elementos falam a favor de que em lClem Estas objeções, que devem ser levadas absolutamente a
59,4 é elaborada uma relação de conhecimento entre comu- sério, mostram: a Igreja como sociedade de contraste não pode
nidade, Cristo e Deus. Pois lá está escrito: ser alcançada pelo mero fato de se investir simplesmente
uma medida maior de energia moral, do que outros movi-
Todos os povos devem reconhecer mentos de edificação moral da história da humanidade in-
que vós sais o único Deus vestiram. Afinal não é à toa que a terceira e a quarta parte
e Jesus Cristo é vosso servo deste livro estão sob o título: "A Igreja no seguimento de
e nós somos vosso povo, Jesus". O seguimento de Jesus não começa, de modo algum,
o rebanho das vossas pastagens. com um pedido de fazer o favor de viver ainda mais heroi-
camente do que outros fazem ou fizeram. Mas ele começa,
Provavelmente pede-se aqui, que a comunidade pos- muito mais, pelo fato de se ser presenteado em superabun-
sa ser reconhecida como povo de Deus. Acontecendo isto, dância. Jesus aponta, com toda sua existência, para o mila-
também Cristo pode ser reconhecido e, em Cristo, Deus. Em gre que agora acontece na história: o Reino de Deus se inicia.
todo o caso, Orígenes não tem dificuldade em afirmar: Este milagre não se podia conseguir com força humana, ele
era inalcançável e totalmente imerecido. Seguimento signi-
A divindade de Jesus é comprovada pelas comunidades que lhe fica pressentir o milagre do Reino de Deus e andar radical-
devem sua salvação (Contra Celsum III, 33). mente no caminho de Jesus, fascinado pela doação de uma
nova possibilidade de comunidade humana.
Manifestamente existe, para a Igreja antiga, uma vincu- Este caminho, na verdade, não é uma estrada larga e
lação muito mais firme entre o caráter de sinal da Igreja e a confortável, pela qual caminha a massa. Ele é estreito e cus-
cristologia, do que entre nós hoje. A verdadeira natureza de toso. No caso de Jesus, ele levou à morte violenta e também
Cristo somente pode brilhar quando a Igreja tornar visível a se tornou letal para muitos que o seguiram. Mas ele é o ca-
alternativa messiânica e a nova criação escatológica que se minho para a vida. No seu início está o milagre do Reino de
espalham a partir de Cristo. Deus e este milagre sustenta tudo que aconteceu depois.
Diante de uma eclesiologia como esta, coloca-se mais A Igreja antiga sabia que sua existência messiânica, sua
uma vez a questão (d. acima 3,8): ela não coloca os cristãos existência como sociedade de contraste só é possível por
264 .... .....................Alc;~~Ji\qlJE)~~lJSq1JE~IA::
causa do milagre que Deus opera na história (d. 4,2). Ela
sabia que, onde a Igreja se torna inteiramente Igreja, tudo é
graça. Ela sabia, finalmente, que a Igreja vive da ferida do
lado do crucificado, isto é, que, portanto, sua vida vem da
morte, e que, só pode ganhar sua vida quando está disposta
CONCLUSÃO
a perdê-Ia.
Não podia ser a tarefa deste livro, escrever sobre a co-
munidade como espaço da graça, e sobre a Igreja como fru-
A HERANÇA DE AGOSTINHO
to da cruz de Cristo. Isto teria tornado necessário um outro
livro. Mas é exatamente pelo fato de todo este campo ter A terceira e quarta parte deste livro eram a tentativa de
sido conscientemente deixado fora que é necessário acentu- pesquisar, ao menos em esboço, a recepção da práxis do Rei-
ar aqui mais uma vez: a Igreja como sociedade de contraste no de Deus em Jesus no tempo das comunidades do Novo
seria fundamentalmente mal-entendida, se não fosse vista Testamento e dos Padres da Igreja antiga. Teria sido de an-
como criação da graça de Deus e como fruto da cruz de Cris- temão errado, realizar esta tentativa com base na ideia do
to. Por isso seu contraste com a sociedade pagã não vem da Reino de Deus; basta lembrar-se, que a presença do Reino de
"factibilidade e do moralismo" ,195 mas do milagre do Reino Deus, que desempenhou um papel tão decisivo em Jesus, já
de Deus que irrompe. Por isso também os que se acumula- em Paulo foi transformada numa conceitualidade bem dife-
ram de culpa e os fracassados têm lugar na Igreja, porque a rente. Paulo quase não fala mais da presença do Reino, mas,
graça chega à perfeição na impotência humana. E por isso o em lugar disso, fala, com muita frequência, da presença do
milagre da nova criação brilha do modo mais belo na Igreja, Espírito.
onde cresce como amor e reconciliação de situações que hu- Nossa demora na história da recepção daquilo que Jesus
manamente falando - pareciam sem saída e desesperadas. iniciou, certamente valeu a pena. Pois tornou-se claro, numa
medida totalmente inesperada, com que fidelidade e sensi-
bilidade as comunidades apostólicas e pós-apostólicas con-
tinuaram a práxis de Jesus. Teria pouco sentido repetir mais
uma vez aqui os resultados. Mas parece ter sentido colocar
uma questão que aqui se impõe: quando terminou, afinal,
esta história de recepção, altamente contínua, que resultou-
pelo menos em fragmentos - de nossa investigação?
A pergunta tem suas insídias, porque toda a história de
recepção continua sem parar com certas transformações e
metamorfoses. Coloquemos, portanto, a questão com mais
195 Cf. N. LOHFINK, op. cito (25),49-71. precisão: desde quando a Igreja não ousou mais dizer que
266 A.IC;~E:JA..qTJEJE:~TJ?.qTJEI<IA. CONCLUSÃO 267

ela era o lugar messiânico da não-violência absoluta? Des- a sociedade não-cristã, então a concepção de Agostinho po-
de quando ela não se compreendia mais como sociedade deria ser designada como o ponto culminante absoluto da-
de contraste de Deus? Desde quando retrocedeu para ela a quilo que elaboramos para os Padres antigos. Então a Igreja
ideia, que ela era o sinal de Deus entre os povos? e a sociedade pagã estariam, de fato, em contraste radical.
Perguntando desta forma radical, torna-se claro que Mas não se pode falar disso. Em Agostinho, as coisas são
a chamada "mudança de Constantino" causou uma inci- muito mais complicadas. Com seu esquema de contraste, ele
são profunda. E tentando fixar literariamente esta incisão, está na dependência dos teólogos mais antigos, mas ele des-
deve-se mencionar, em todo o caso, a "Cidade de Deus" de locou decisivamente os pontos de destaque. Pois, a civitas
Aurélio Agostinho. Nesta última grande apologia da Igreja Dei e a civitas terrena formam, na terra, um conjunto inex-
antiga, que é, ao mesmo tempo, o ponto culminante de to- tricável (corpus rnixium), que não permite mais um contras-
das as apologias cristãs, aparecem claramente deslocações, te real entre Igreja peregrina e sociedade não-cristã. Onde
que não mais permitem considerar a "Cidade de Deus" de Agostinho faz um contraste radical, no fundo dele coloca
modo correspondente ao seu significado na quarta parte sempre a civitas Dei celeste e escatológica frente à civitas ter-
deste livro. rena. Então, o contraste funciona também para ele, mas este
É verdade, que também nesta obra monumental, o es- esquema de contraste, naturalmente, não é mais aquele dos
quema do contraste, que era tão importante para os apo- Padres antigos que foram apresentados acima.
logistas do segundo e terceiro séculos, desempenha, como Agostinho concebe e define a civitas Dei totalmente a
dantes, um papel decisivo. Constantemente são confronta- partir de sua origem protológica e do seu futuro escatoló-
das a cidade de Deus (civitas Dei) e a cidade do mundo (ci- gico - pode-se dizer também tranquilamente: a partir de
vitas ierrena). sua natureza transcendente. Poder-se-iam aduzir vários
A civitas terrena cria para si deuses à vontade - a civitas textos comprovantes desta perspectiva; aqui vamos apre-
Dei é criada pelo Deus verdadeiro 08,54). Na cioiias terrena sentar só um:
reina o amor próprio - na civitas Dei reina o amor verdadeiro
que sai de si mesmo 04,13.28). A civitas terrena é marcada A cidade dos santos é além (literalmente: acima), mesmo que ela
por brigas e guerras; a paz só é possível temporariamente gere cidadãos aqui, nos quais ela peregrina no exílio até que venha
e quando existe, é conquistada por uma guerra e, por isso, o tempo do seu reino, quando ela reunir todos os ressuscitados em
uma paz altamente frágil 05,4.17) - na civitas Dei, pelo con- seus próprios corpos, quando lhes for dado o reino prometido, no
trário, existe a paz verdadeira e eterna. A civitas terrena é qual eles reinarão com seu príncipe, o Rei da eternidade, sem-fim
ávida de domínio O; 4,6; 14,28) - na civitas Dei só existem dos tempos (De civitate Dei 15,1; da tradução para o alemão
humildade, assistência e obediência 04,28). de A. SCHRÓDER).

Poder-se-ia continuar esta lista. Ela é impressionante.


Se, em Agostinho, a civitas Dei fosse simplesmente idêntica O texto mostra: a civitas Dei tem seu lugar próprio na
com a Igreja peregrina, e a civitas terrena simplesmente com transcendência, "no alto"; seus cidadãos, que peregrinam no
CONCLUSÃO 269
268 A.IC;I<E.JA:g{JE.IE.?lJ?g{J~I<IA:.

mundo, vivem no exílio. Isto, evidentemente, não é novo; estão condenados misturam-se com os bons, e estes como aqueles
basta compará-lo com FI 3,20s. Nova, porém, é a conse- se juntam, por assim dizer, na rede de que fala o Evangelho e,
quência com que neste esquema é elaborada toda uma" cos- cercados por ela, nadam sem distinção neste mundo como num
mologia" da história. Também o Reino de Deus, neste lugar, mar, até alcançar a margem onde os bons devem ser separados
como quase sempre na "Cidade de Deus"196,é concebido dos maus, e Deus, nos bons, como no seu templo, vai ser tudo em
como algo meramente futuro e puramente transcendental. todos (De civitate Dei 18,49; da tradução para o alemão de
Por fim, a reunião, de que se fala, não é a reunião do povo A. SCHRÓDER).

de Deus na terra, de modo que este povo pudesse aparecer


como sinal de Deus para a sociedade restante. Diante dos O tom de um texto como este é novo: um tom semelhan-
olhos está, muito mais, o acontecimento da ressurreição dos te deveria ser muito difícil de encontrar nos primeiros três
mortos. Também o texto seguinte dificilmente fala da reu- séculos. Não é um pessimismo, mas é tristesse. É a tristeza es-
nião terrestre do povo de Deus, mas muito mais, da reunião perançosa do coral gregoriano. É difícil ver como esta Igreja
transcendente dos salvos do mundo que deixam sucessiva- poderia tornar-se sociedade divina de contraste dentro do
mente a história: mundo; mal dá para reconhecer nela a salvação já experi-
mentada. "Sem distinção" para os homens estão misturados
Cristo tira... do mundo doente e agonizante de males sucessiva- nela os maus e os bons, a "reunião" ainda não produz aqui
mente os seus, para criar com eles uma cidade eterna, que é su- na terra nenhuma separação, mas, ao contrário, uma confu-
mamente gloriosa (De civitate Dei 2,18; da tradução para o são indissolúvel. Será mero acaso que o templo de Deus que
alemão de A. SCHRÓDER). em Paulo significa exatamente a comunidade terrestre, somen-
te pode representar aqueles que afinal chegarem ao céu?
É muito pouco provável que Agostinho pense aqui na Paremos por aqui: a "Cidade de Deus" é uma obra
reunião terrestre da Igreja peregrina, porque, para ele, esta grandiosa, na qual quase sempre se pode encontrar também
Igreja peregrina não é gloriosa. O tempo da Igreja peregrina uma prova em contrário daquilo que acabamos de afirmar.
é um tempo escuro, no qual há pouca alegria; quando há, Apesar disso tornou-se claro o quanto se mudou aqui, desde
somente a partir da esperança: os primeiros três séculos! Uma coisa parece-me totalmente
certa: do irrompimento do povo na história e da presença,
Portanto, neste mundo mau, nestes dias ruins, em que a Igreja em sinais, do Reino de Deus, presença essa realmente cons-
ganha a exaltação futura, caminhando através da humilhação pre- tatável e apresentando-se com poder, que é tão característi-
sente e é educada pelo aguilhão de variado temor, pelo tormento de co para Jesus, não se sente quase mais nada na "Cidade de
variado sofrimento e pela fadiga de constante trabalho, alegre ape- Deus" .197Os Padres antigos também quase não falavam da
nas na esperança como na única alegria sensata - muitos dos que presença do Reino de Deus; mas eles articularam o novo e a

196Exceção: De civitate Dei 20,9. 197Assim também H. J. VOCT, op. cit., 86.
270 A.IC;~~JJ\.qlJ~.J~~lJSqlJ~.~IJ\

aproximação do Reino de Deus em seus jogos linguísticos.


Para Agostinho, porém, a cidade de Deus já existe desde a
criação; o aparecimento de Cristo quase não traz mais mu-
danças.!"
Provavelmente junto com esta radical "transposição BIBLIOGRAFIA
para o além" do Reino de Deus, a individualização da his-
tória acontece quase necessariamente. Em todo o caso foi
DAHL, N. A., Das Volk Gottes. Eine Untersuchung zum Kirchen-
Agostinho que expressou, pela primeira vez, aquela famosa
bewuBtsein des Urchristentums, Darmstadt, 1963.
fórmula, que depois A. VON HARNACK repetiu como refrão GRÃBER, E., Jesus und das Heil Gottes. Bemerkungen zur sog. "In-
no seu livro "A essência do cristianismo" .199 É, na verdade, dividualisierung des Heils", em G. Strecker (ed.), Jesus Christus
o jovem Agostinho dos Solilóquios, que ainda estava plena- in Historie und Theologie. Festschrift fur Hans Conzelmann,
mente preso ao neoplatonismo. Mas, Agostinho realmente Tubingen, 1975, 167-184, lá 182s.
HARNACK von, A., Die Mission und Ausbreitung des Christentums
conseguiu livrar-se deste platonismo? Num diálogo com a
in den ersten drei Jahrhunderten, Bd. I, 3ª ed., Leipzig, 1915. -, Das
própria razão, depois de uma das mais belas orações da An- Wesen des Christentums (Gutersloher Taschenbucher /Sieben-
tiguidade cristã, na qual ele tinha pedido o reto conhecimen- stern 227), Gutersloh, 1977.
to, ele diz o seguinte.ê'" HEINZ, G., Das Problem der Kirchenentstehung in der deutschen pro-
testantischen Theologiedes 20. Jahrhunderts (Tubinger Theologische
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198 Cf. Augustinus, De civitate Dei 12,28; 15,1; 17,l.
199 Cf. a introdução deste livro: liA herança do individualismo".
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Hãuser, Ph. 255 Lubac, H. De 16
ÍNDICE DAS CITAÇÕES BÍBLICAS

Antigo Testamento

Êxodo 1 Reis

15/17 23 19/18 59
22/25 82
24/8 44 Provérbios

Levítico 25/21s 168

2/13 101 Isaías


17-26 182
19/18 166 2 253/255
20/26 182/ 183 2/1-3 37
22/32 34 2/1-4 39/50
2/2-5 102/251
Deuteronômio 2/3 251
2/3s 102
7/11 181 2,4 252/ 257/ 258
7/6-8 181 2/5 38
7/6-11 183 10/20-22 59
14/1 120 26/19 31
17/7 189 29/18 31
23/2-9 118 29/23 31
30/26 31
2 Samuel 32/15 124
33/24 31
7/10 23 35/5s 30
40/3s 22
276 ... ............................................................................................
Jl\i[)IÇE:.[)J\?<::Il'J\ç<?E:S.Bí.B.L.I ....': . ÍNDI<::.E...IJJ\s ..<::rrJ\ç<?E:?s.Í.s..~~<::J\?....... 277

40,5 206 Ezequiel Zacarias


41.17-20 22
42,6 206 11,19 124 2,10-13 39
42,7.16 31 20,41.44 34 8,20-23 39
42,8 34 34 27
43,19s 22 34,23s 27
44,3 124 36,20 33 Novo Testamento
46,13 206 36,22-24 33
48,11 34 36,25-32 34 Mateus 7,24-27 par. 90
48,20s 22 36,26s 34, 124 7,28s 63
49,6 206 36,28 34 2,8 160 8,5-10 39
49.9-13 22 37 26 3,10 par. 22 8,11 par. 36
52,10 206 37,14 124 4,23 134 8,11 39,46
52,13 45 39,23-29 26 4,23-5,2 62 8,11s 40,41
53,11s 45 40-48 26 5,1 63 8;12 49
53,12 45 48,30-35 135 5-7 201 9,37s 58
57,18 31 5,13 103 10,3 28
60,1 38 Oseias 5,13-16 100, 103, 107 10,5s 26
60,1-22 39 5,13s 213 10,5-42 84
60,2s 38 2,16 22 5,14b 104, 105, 106 10,6 27,35
60,11-13 207 2,22.25 22 5,16 102,103 1O,9s 84
60,19 38 5,20 201 10,10-13 86
60,21 23 Joel 5,21s 67 10,14 134
61,1 31 5,27s 67 10,16 par. 85
61,3 23 3,1-5 132 5,31s 134 10,37 57
5,39 257 11,5 30
Jeremias Amós 5,39-42 par. 80 11,11 par. 21
5,39-42 83,86,89 11,12 72
1,4-10 151 9,11s 205 5,43 164 11,19 134
1,10 150 5,43-48 230 11,21s 41
2,1-6 22 Miqueias 5,44 169 11,21s par. 40
3,17 39 5,48 78 11,25s 134
12,14-17 150 4,1-5 251 6,9 152 11,28 134
24,5-7 6,9s 71 11,28-30 95,96
31,27s 151 Sofonias 6,9-13 31 12,28 29
31,31 44 6,31-33 par. 78 12,30 152
32,41 23 3,8-11 39 6,32 78 12,30 par. 47
42,10 23 7,24-27 91 12,415 41
278 HHHHHHHJj\[[)Ic:~I?~~H<::I'T~Çê)~SB!~~Jc:~~ ,j\[I)~C:.E..I)i\~HC:I'Ti\Çê)~~H~~~~IC:i\~ ..... 279
12,415 par. 40 1,16-20 57 10,42 96 6,17-20 63
13,165 108 1,20 78 10,42-45 80,88, 172, 173, 6,20 64, 134
13,38 49 1,41 31 173, 178 6,21 134
13,44-46 93 2,17 134 10,45 173 6,275 163
15,5 230 2,215 73 11,15-19 39 6,28 par. 169
15,7 230 2,24 57 11,17 39 6,295 80
15,13 3,1-6 134 11,21 75 6,32 164
15,24 35 3,13-19 24 11,25 78 6,36 78
18,15-17 157 3,14 24 11,30 21 6,45 89
19,12 66 3,15 107 12,13-17 48 6,47-49 90
19,165 75 3,20 70 12.31.33 164 7,1 64
19,28 43 3,205.31-35 70 13,285 29 7,22 134
19,28 par. 42 3,21 70 14,175 136 7,22 par. 30
19.19 164 3,32 71 14,24 43, 136 7,28 21
20,25-28 173 3,33-35 70 15,21 82 8,i-3 58, 137
21,28-32 92 3,35 71,91, 158 15,405 58, 137, 138 8,16 104
21,315 134 4,3-9 105 15,42-47 56 9,15 126
21,43 49, 121 4,21 104 15,43 56 9,2-5 84
22,39 164 4,26-29 106 16,20 128 9,3 84
23,1-36 74 4,30-32 106 9,59 57
23,7 74 5,195 56 Lucas 10,2 59
23,11 76 6,7-11 par. 84 10,2 par. 58
23,37 par. 47 6,7-13 24 2 203,213 10,2-16 par. 84
23,37 134, 152 6,11 43 2,24 73 10,3 85
23,8-12 74,75,76 7,1-23 198 2,29-32 205 10,5-7 86
23,9 74,75,77,79, 158 7,21-23 89 2,30-32 210 10,6 257
24,12 164 7,27 36 21,31 29 10,9.11 107
26,25.49 75 8,68 70 22,24-27 173 10,135 40
28 203 9,50 103 22,26 80, 173 10,235 106,206
28,18 200 10,4.5 76 22,27 76 10,235 par. 108
28,19 199 10,13-16 134 22,29 51 10,25-37 134
28,195 102,201,203 10,175 75 22,30 42 11,2-4 31
10,18 92 24,18 58 11,20 130
Marcos 10,295 68,69,70,73,158 24,305.34 70 11,20 par. 29
10,30 79 3,8 par. 22 11,23 47
1,4 22 10,35-41 171 3,9 22 11,275 91
1,5 22 10,35-45 79 3,14 248 11,315 40
1,14 134 10,41 171 6,15 28 11,33 104
280 ........................................................................................................
Ír-JJ)I<::~J)i\~.SI!i\ç<?~?.~I~LICAS Í~'?I<=.E
..J)i\s<=rri\çC'>~~.~Í~~I<=i\S...... 281

12,22-32 66 1,8 253 15,16s 210 l1,16s 192


12,29-31 78 1,14 180 15,25 180 11,1-7 208
12,32 51,78 1,15-26 116, 135 16,16-18 127 11,17 123,209
12,49 72 1,23 58 19,11s 127 11,18 209
12,52s 72 2,13,9 131 19,13-16 127 11,20 208
13,20s 106 2,14-40 116 20,7-12 127 11,20-22 123
13,28s 36 2,17-19 125 21,8s 144 11,25s 209
13,34 47 2,17s 133 28,1-6.8-10 127 11,26 208
14,1-6 134 2,38 117 11,26s 123
14,16-24 41 2,38-42 116 Romanos 11,28 123
14,26 57,78 2,42 148 11,29 123
14,33 66 2,43 126 1,1-7 151 11,30-32 185
14,34s 103 2,46 180 1,6s 120 12s 169
17,21 106,130 3,1-10 127 1,7 120, 192 12,1 176
19,1-10 134 3,12-26 116 1,12 149 12,2 187, 188
19,8s 56 4,8-12 116 2,29 121 12,5.10 149
19,10 134 4,24 180 3,20 93 12,8-21 167
4,36s 69 4 119 12,9 164, 167
João 5,12 180 4,12 120 12,10 149
5,12-16 127 5,14 155 12,13 160
1,38 75 5,29-32 116 5,8-11 185 12,14 167, 169
3,22.26 21 6,1.2.7 200 6,15-23 185 12,16 155, 180
4,1 21 6,8 127 6,19 198 12,17 167, 169
11,1 56 8,6-8.13 127 6,44 148 12,17-13,7 167
11,11 56 9,1.19.15.26.38 200 7,7-13 93 12,20 169
13,1-20 76 9,13 118 8,14-16 161 12,21 169
13.34 164 9,17-19.32-35.36-43 127 8,16 120 13,7 167
13.35 163 10 249 8,33 120 13,8 149
15,18s 191 11,19-26 140 9,6 122 13,8-10 168
15.12.17 164 11,26 200 9-11 122,203,207,209,213 13.10 164
17,14-19 190 12,12 159 9,25 208 14,15 163
17,17-19 192 13,52 200 9,30-10,21 122 14,17 131
17,21 222 13,6-12 127 10,19 208 14,19 149
18,36 87 14,3.8-18 127 11,1 123 14,20 152
15 203,213 11,11 122,208 15,2 168
Atos 15,12 127 11,11.14 123 15,5 149
15,13-17 204,207 11,12 123,209 15,14 149, 156
1,2 116 15,14 253 11,15 209 15,17-19 129
282 .......................JÍ'JIJlc:~l?A.:~c:!:rA.:Ç<?~SBÍ.s.LICAS í.t-JJ:)IC:EIJi\s.c:rri\ç<?~~.S.ÍS.~IC:A.:~
... 283
15,18 152 6,9-11 185 2,4.8 163 3,1-5 129
15,20 152 6,15.6 188 3,6 120 3,26 120
15,25 118 7,17-24 142 3,8 120 3,26-29 138
15,25.26.31 192 8,1 163 3,14-16 121 3,27 147
15,26 148 9,5 145 4,5 178 3,28 140, 141, 144, 147, 148
15,55 180 11,5 144 4,105 177 3,29 120
16 145 11,5-16 144 5,17 187 3,5 129, 131
16,1-2 160 11,24 44 5,17-21 207 4,28 120
16,3 145 11,25 44 6,6 164 4,3-7.8-10 185
16,3-5 145 11,28 176 6,13 196 4,5-7 161
16,3.92 176 11,33 149 6,14-7,1 196, 197, 198, 199 55 166
16,4 145 12,95 128,131 7,2 196 5.6 164
16,5.23 159 12,11 144 85 141 5,13 149, 164
16,6.12 146 12,125 139,147 8,23 176 5,13-15 166
16,7 145, 146 12,13 140 8,4 148, 192 5;14 164, 168
16,15 192 12,25 149, 155 8,7.8.24 163 5,16-6,8 166
16,16 149, 154 12,28 128 8,8 174 6,10 167
13,1.2.3.4.8.13 163 9,1.12 192 6,155 148
1 Coríntios 14 153, 154 9,13 148 6,2 149
14,1 163 10,7,9 153 6,9 166
1,2 192 14,2-4 153 10,8 151 6,95 166
1,2655 147 14,22 188 11,11 164 13,8 168
2,45 128 14,26 153 12,10 177
3,5-9 120 14,29-33 153 12,12 128 Efésios
3,6.10 152 14.13.275 153 12,15 164
3,9 120, 152, 176 14.345 144 13,10 151 1,1 210
3,16 120 15,7 146 13-10 153 1,3.23 210
3,17 192, 198 15,9 117 13,12 149, 154, 192 1.4 164
4,9-13 177 16,1 192 1,15 164
4,20 131 16.14 164 Gálatas 1,20-22 210
4,21 175, 163 16,15.19 159 1,225 210
5,9-11 189 16,20 149, 154 1,4 187 1,23 211
5,12 189 16,24 163 1,13 117 2,1-3 211
5,125 189 1,13-17.23 185 2.1-22 185
5,13 189 2 Coríntios 1,15 151 2,55 210
6,1 198 2,9 148 2,12 210
6,55 179 1,1 192 2,95 141 2,15 186
6,7 179 1,24 174, 175, 176 3 119 2,19 210
ÍNDIC.E.l)i\S.C:I1'i\Ç<?E.5. ..~Í~IJC:i\S. ..........
285
284 HHHHHHHH HHHHHH H ••••••••••• Ír-J])IC:E.Pi\5.c:I1'i\ç<?E.S BÍBLICAS

3,10 211,212 1,4 164 3,15 156 Hebreus


3.17 164 1,8 164
1 Timóteo 2,35 127
4,2 149 2,2 164
3,13 148
4,2.15.16 164 2,13 185
3,4 1,5 164 5,14 149
4,10 210 164
1,13 185 6,5 128
4,13-16 212 3,7-11 185
2,115 144 10,24 149, 164
4,15 210 3,8-14 185, 186
2,15 164 13,2 160
4,16 210 3,105 140
4,12 164 13,12 45
4,24 186 3,11 232
5,20 156 13,16 148
4,25.32 149 3,13 149
4,32 148,149 3,13.16 148 6,15 142
5,2 164 3,19 164 6,2 142 Tiago
5,8 184, 185 3,22-4,1 142 6,11 164
1,1 121
5,21 149 4,15 159
2 Timóteo 2:;8 164
5,25.33 164
5,16 149, 155
5,26 192 1 Tessalonicenses
1,7.13 164 5,195 157
6,5-9 142
1,3 164 2,22 164
Filipenses 1,5 128 3,10 164 1 Pedro
2,7 175
Tito 1,22 149, 164
1,1 192 3,2 176
2,9 102, 192, 193
1,16 164 3,6 164
2,2 164 2,95 247
1,275 207 3,12 149, 164, 165, 168
2,95 142 2,10 185
2,1 148 4,3 192
3,3-6 185, 187 2,17 164
2,1-2 164 4,9 164
3,3-7 185 2,18-25 142
2,3 149 4,95 165
2,25 185
2,145 194 4,9.18 149
Filêmom 3,9 169
2,15 236 4,12 189
5,4-8 4,8 164
2,25 176 198
15 142 4,8.10 148
3,3 120 5,8 164
1.24 176 4,9 149,160
3,205 268 5,11 148, 149, 150, 155
2 159 5,5 149
4,25 146 5,13 148, 149, 164
5,7.9 164 5,14 154, 164
4,3 176 5,14 156
4,22 192 5,15 149, 165, 166, 167 8 175
9-20 161 2 Pedro
Colossenses 2 Tessalonicenses 11 185
16 141 1,7 164
1,215 185 1,3 149, 164
\

286 ÍI'J:O'Ic:~.J:)L\S.c:!:~L\Ç()~S ..BtI3Llc:L\S

1 João 3 João
\
1,3.7 148 1 164 I
1,7 149 6 164
2,10 164
3,10.11.14.18.23 164 Judas \
3,11.23 149
4,7 164 1 164
4,7.8.11.12.19.20.21 164
4711.12
5,2

2 João
149
164
Apocalipse
"c
2A.19"·,
,~ .,~
<•• ~
164
LER
-PARA
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1,5 164
5 149
6 164

CRER

ACADEMIA
CRISTÃ
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