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Na ribatejana Minde fala-se uma língua estranha, que poucos conseguem descodificar.

Gíria, calão ou dialeto, era a alma do negócio no século XVII. Dominada por
comerciantes, caiu nas ruas da vila e ficou a Piação dos Charales do Ninhou. Quase
desapareceu.

Património valioso dos mindenses e, agora, também do mundo – lá chegaremos no fim


deste artigo -, o minderico, que nasceu para ser código secreto de fabricantes e
comerciantes de mantas, acabou por conquistar uma vila inteira. Assim foi durante
anos, décadas e séculos, até o português se tornar na língua comum e o dialecto de
Minde passar a um exercício de memória praticado outra vez só por alguns, os mais
velhos. Não tivessem sido eles, o trabalho de uma linguista e o apoio de uma
fundação, a tradição perdia a piação, que é o mesmo que dizer, deixava de ser
falada.

É aqui que na história do minderico entra Vera Ferreira, uma portuguesa que não
nasceu em Minde mas que abraçou esta causa. A partir da Alemanha, a docente de
documentação linguística e línguas ameaçadas da Universidade de Munique fundou o
Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento Linguístico e Social (CIDLeS) com outros
investigadores, para documentar, estudar e promover estas línguas esquecidas da
Europa. O projeto para preservar o minderico obteve apoio financeiro da Fundação
Volkswagen em 2009 e, dois anos depois, a língua foi internacionalmente reconhecida
como uma estrutura individual, autónoma e viva.

De língua em risco de extinção, o minderico, para orgulho dos mindenses, renasceu


para ser ainda mais da terra: das conversas de café às salas de aula, o entusiasmo
agregou novos e velhos, agora mais conscientes e sensibilizados para a necessidade
de preservar um bem único, que só a eles pertencia. Publicaram-se livros, um
dicionário multimédia, recolheram-se fundos para garantir a continuidade do projeto
de revitalização, que passa também por ter uma aula semanal nas turmas do primeiro
ciclo da escola de Minde.

Podia ficar por aqui a história do socioleto, variante de língua surgido num grupo
socioprofissional no século XVII. Mas não, há mais para contar e para celebrar: em
outubro de 2015 o minderico foi inserido no Registo da Memória do Mundo da UNESCO,,
um programa para sensibilizar o público sobre a necessidade de preservar o
património documental. O pedido de integração partiu do The Language Archive, na
Holanda.

Material linguístico da humanidade, o minderico, tal como o mirandês, é património


imaterial português e uma das 3 000 línguas em risco de desaparecerem no mundo. Um
risco que a Piação dos Charales do Ninhou não quer correr, como mostra a reportagem
da RTP realizada em 2010, que recolheu declarações da linguista Vera Ferreira, da
diretora do Centro de Artes do Museu Roque, Maria Alzira Roque Gameiro e registou o
orgulho dos mindenses na sua língua secreta.