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JUSTIÇA DESPORTIVA & PRÁTICA DESPORTIVA

José Ricardo Rezende


Advogado, Profissional de Educação Física, especialista em Administração de Marketing, pós-graduando
em Direito Desportivo, autor dos livros: Organização e Administração no Esporte (Sprint, RJ, 2000) e
Sistemas de Disputa para Competições Esportivas – Campeonatos & Torneios (Phorte, SP, 2007), Vice-
Presidente do Fundo de Apoio ao Desporto Amador de Sorocaba (FADAS) e da Comissão Central de
Esporte (CCE), participou da elaboração do Código Municipal de Justiça e Disciplina Desportiva de
Sorocaba (CMJDD), atua na gestão de eventos esportivos há mais de quinze anos, listeiro CEVLeis,
membro do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo - IBDD.

Artigo publicado na Revista Brasileira de Direito Desportivo - RBDD Nº. 10


(Thompson/IOB, Fevereiro/2007, páginas 94 a 112)

INTRODUÇÃO

Não são poucas as dúvidas e incerteza existentes na comunidade esportiva quando o assunto
é Justiça Desportiva e a efetiva Prática Desportiva (formal e não-formal), em especial no âmbito das
entidades de administração do desporto (EADs) e mesmo da Administração Pública, muitas vezes
dando origem a equívocos de interpretação acerca de sua conformação legal constitucional e
infraconstitucional (adequação à lei), com reflexos diretos sobre o alcance (destinatários) do Código
Brasileiro de Justiça Desportiva – CBJD.
Tal insegurança se dá, inicialmente, em razão da Lei 9.615/98 (também conhecida como Lei
Pelé ou Lei Geral Sobre Desporto – LGSD), não estabelecer de forma expressa qual a relação entre
prática desportiva formal e não-formal, prevista na Constituição Federal (art. 217) e os conceitos de
desporto educacional, de participação e de rendimento (art. 3º da LGSD), decorrendo deste fato
uma série de conseqüências.
Neste sentido, nas linhas que seguem, enfrentamos tormentosa questão, que tem levado
muitos a graves enganos, salvo melhor juízo.
Todo desenvolvimento deste estudo terá referência em situações verificadas na comunidade
esportiva e sua correspondência com a legislação em vigor, que por sua vez será analisada de forma
didática e integrada, buscando extrair seu melhor sentido, para ao final alcançar uma interpretação
correta de seus verdadeiros desígnios.

PRÁTICA DESPORTIVA FORMAL E NÃO-FORMAL E SEU


DESDOBRAMENTO COMO DESPORTO EDUCACIONAL, DE
PARTICIPAÇÃO E DE RENDIMENTO
A referência legislativa norteadora do desporto nacional é o art. 217 da Constituição Federal,
que determina como dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como
direito de cada um.
Em seguida, vem a Lei 9.615/98, conceituando referidas práticas nos seguintes termos:

Prática desportiva formal: (art. 1º, § 1o): “A prática desportiva formal é regulada por
normas nacionais e internacionais e pelas regras de prática desportiva de cada modalidade,
aceitas pelas respectivas entidades nacionais de administração do desporto”.

Prática desportiva não-formal: (art. 1º, § 2o): “A prática desportiva não-formal é


caracterizada pela liberdade lúdica de seus praticantes”.
Mais adiante, em seu art. 3º, incisos I, II, e III, referida Lei define a natureza e as finalidades
do desporto, apontando três manifestações pelas quais ele pode ser reconhecido, sem, no entanto,
fazer menção expressa quanto à sua relação com a prática desportiva formal e não-formal.
Temos assim:

Desporto educacional (art. 3º, I): “Praticado nos sistemas de ensino e em formas
assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus
praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua
formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer”;

Desporto de participação (art. 3º, II): “De modo voluntário, compreendendo as


modalidades desportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos
praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na
preservação do meio ambiente”;

Desporto de rendimento (art. 3º, III): “Praticado segundo normas gerais desta Lei e regras
de prática desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter resultados e
integrar pessoas e comunidades do País e estas com as de outras nações”.
Parágrafo único - O desporto de rendimento pode ser organizado e praticado: I - de modo
profissional, caracterizado pela remuneração pactuada em contrato formal de trabalho entre
o atleta e a entidade de prática desportiva; II - de modo não-profissional, identificado pela
liberdade de prática e pela inexistência de contrato de trabalho, sendo permitido o
recebimento de incentivos materiais e de patrocínio.

INTEGRAÇÃO DA LEI
Com base nestes elementos e numa perspectiva de integração da LGSD, evidenciam-se
relações lógicas, diretas e objetivas, estabelecendo conexões entre a prática desportiva e sua
natureza e finalidade, que permitem concluir, com segurança:

• Que o desporto de rendimento é uma prática desportiva formal.

DESPORTO DE
PRÁTICA DESPORTIVA RENDIMENTO
FORMAL
Praticado segundo regras de prática desportiva,
Regulada por normas nacionais e
nacionais e internacionais, com a finalidade de
internacionais e pelas regras de
obter resultados.
prática desportiva.

• Que o desporto de participação e o desporto educacional constituem prática desportiva


não-formal.

DESPORTO DE
PARTICIPAÇÃO
PRÁTICA DESPORTIVA Voluntário, com finalidade de integração social,
NÃO-FORMAL saúde e educação.
DESPORTO
Caracterizada pela liberdade lúdica EDUCACIONAL
de seus praticantes. Evita-se a seletividade e hipercompetitividade,
tem finalidade de desenvolvimento, cidadania e
lazer.
Neste mesmo contexto, ficam patentes as incompatibilidades em sentido contrário, não
havendo como admitir o desporto de participação/educacional como sendo uma prática desportiva
formal, assim como o desporto de rendimento como sendo uma prática desportiva não-formal, pelo
que, podemos estabelecer o seguinte quadro.

DESPORTO
NACIONAL

PRÁTICA PRÁTICA
FORMAL NÃO-FORMAL

Desporto de Desporto de Desporto


Rendimento Participação Educacional

Modo Modo
Profissional Não-Profissional

COMANDOS DA LEI PARA A PRÁTICA DESPORTIVA FORMAL E NÃO


FORMAL
Feita esta divisão, cabe observar, em seguida, quais são os comandos da lei especificamente
em razão de cada situação.

• Liberdade para a prática desportiva não-formal


A prática desportiva não-formal, pelos próprios termos da lei (art. 1º, § 2o), caracteriza-se
pela “liberdade lúdica” de seus praticantes, cuja conseqüência será analisada em detalhes mais
adiante.

• Vinculação da prática desportiva formal / desporto de rendimento


Por sua vez, quanto a prática desportiva formal, dispôs, também de forma expressa (art. 3º,
III), que o desporto de rendimento será praticado segundo normas gerais desta Lei.
Além disso, em seu art. 13, estabeleceu a LGSD um Sistema específico para congregar a
prática desportiva de rendimento, identificando, taxativamente, as entidades abrangidas.
LGSD, art. 13 - O Sistema Nacional do Desporto tem por finalidade promover e aprimorar
as práticas desportivas de rendimento.
Parágrafo único - O Sistema Nacional do Desporto congrega as pessoas físicas e jurídicas
de direito privado, com ou sem fins lucrativos, encarregadas da coordenação,
administração, normatização, apoio e prática do desporto, bem como as incumbidas da
Justiça Desportiva e, especialmente:
I. o Comitê Olímpico Brasileiro – COB;
II. o Comitê Paraolímpico Brasileiro – CPOB;
III. as entidades nacionais de administração do desporto;
IV. as entidades regionais de administração do desporto;
V. as ligas regionais e nacionais;
VI. as entidades de prática desportiva filiadas ou não àquelas referidas nos incisos
anteriores.
Registre-se que o Sistema Nacional do Desporto integra um maior, denominado Sistema
Brasileiro do Desporto, que tem por objetivo garantir a prática desportiva regular e melhorar-lhe o
padrão de qualidade (LGSD, art. 4º, § 1º), tendo a seguinte composição:
LGSD, art. 4º - O Sistema Brasileiro do Desporto compreende:
I - o Ministério do Esporte;
II - revogado
III - o Conselho Nacional do Esporte - CNE;
IV - o sistema nacional do desporto e os sistemas de desporto dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios, organizados de forma autônoma e em regime de colaboração,
integrados por vínculos de natureza técnica específicos de cada modalidade desportiva.
§ 1º - O Sistema Brasileiro do Desporto tem por objetivo garantir a prática desportiva regular
e melhorar-lhe o padrão de qualidade. § 2º - A organização desportiva do País, fundada na
liberdade de associação, integra o patrimônio cultural brasileiro e é considerada de elevado
interesse social, inclusive para os fins do disposto nos incisos I e III do art. 5º da Lei
Complementar nº 75, de 20 de maio de 1993. § 3º - Poderão ser incluídas no Sistema
Brasileiro de Desporto as pessoas jurídicas que desenvolvam práticas não-formais,
promovam a cultura e as ciências do desporto e formem e aprimorem especialistas.

SISTEMA BRASILEIRO DO DESPORTO

Ministério do Esporte

Conselho Nacional do Esporte - CNE

Sistema Nacional do Desporto

Sistemas de Desporto dos Estados, do


Distrito Federal e dos Municípios

LGSD, art. 25 - Os Estados e o Distrito Federal constituirão seus próprios sistemas,


respeitadas as normas estabelecidas nesta Lei e a observância do processo eleitoral.
Parágrafo único - Aos Municípios é facultado constituir sistemas próprios, observadas as
disposições desta Lei e as contidas na legislação do respectivo Estado.

JUSTIÇA DESPORTIVA E A PRÁTICA DESPORTIVA FORMAL


Sobre Justiça Desportiva, dispõe a Constituição Federal, nos §§ do mesmo art. 217, que:

§ 1o – O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às competições


desportivas após esgotarem-se as instâncias da Justiça Desportiva, regulada em lei.
§ 2o – A Justiça Desportiva terá o prazo máximo de 60 (sessenta) dias, contados da
instauração do processo, para proferir decisão final.

A previsão constitucional da Justiça Desportiva tem um significado concreto extremamente


importante, qual seja, de conferir-lhe existência, afastando a alegação de Juízo ou Tribunal de
Exceção (CF/88, art. 5º, XXXVII), isso quando devidamente estruturada.
Ademais, fixa sua competência material (relativa à disciplina e às competições desportivas)
dentro de uma dimensão temporal (60 dias). Sendo assim, dentro desses limites, adquire feição de
juízo natural / autoridade competente. Fora dele, inexiste legitimidade para atuação válida da Justiça
Desportiva.
Além da referência constitucional à Justiça Desportiva, temos na Lei 8.028/90, a seguinte
disposição:

Lei 8.028/90 (Dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, e


dá outras providências), art. 33 - Lei de normas gerais sobre desportos disporá sobre o
processo de julgamento das questões relativas à disciplina e às competições desportivas.

Diante desses comandos, a legislação que regula a Justiça Desportiva é a própria Lei
9.615/98 (Capítulo VII, arts. 49 a 55), configurando-se, pois, como a Lei Geral Sobre Desporto e
Justiça Desportiva.

Da atribuição para aprovação de Códigos de Justiça Desportiva


De acordo com a LGSD, cabe ao Conselho Nacional do Esporte – CNE, aprovar os Códigos
de Justiça Desportiva e suas alterações.

LGSD, art. 11 – O CNE é órgão colegiado de normatização, deliberação e assessoramento,


diretamente vinculado ao Ministro de Estado do Esporte, cabendo-lhe: VI – aprovar os
Códigos de Justiça Desportiva e suas alterações.

Mais adiante, referida Lei dispôs:

LGSD, art. 91 – Até a edição dos Códigos de Justiça dos Desportos Profissionais e Não-
Profissionais continuam em vigor os atuais Códigos, com as alterações constantes desta lei.

Pois bem, considerando que em 23 de dezembro de 2003 o Conselho Nacional do Esporte,


através da Resolução CNE nº 01*, aprovou o Código Brasileiro de Justiça Desportiva - CBJD, que
cuida do desporto profissional e não-profissional, nesta mesma ocasião foram revogados os Códigos
anteriores, havendo inclusive disposição expressa neste sentido no próprio CBJD.
(* Alterado pela Resolução CNE nº 11, de 29 de março de 2006).

CBJD, art. 287 - Ficam revogadas as Portarias MEC nº 702, de 17 de dezembro de 1981;
nº 25 de 24 de janeiro de 198; nº 328, de 12 de maio de 1987; relativas ao Código
Brasileiro Disciplinar de Futebol (CBDF); Portarias MEC nº 629, de 2 de setembro de
1986; nº 877, de 23 de dezembro de 1986, relativas ao Código Brasileiro de Justiça e
Disciplina Desportivas (CBJDD), e as Resoluções de Diretoria das entidades de
administração do desporto que se tenham incorporado às Portarias ora revogadas, e
demais disposições em contrário. (grifo nosso)

Reforçamos que o CBJD foi instituído em razão da prática desportiva formal (desporto de
rendimento / praticado de modo profissional e não-profissional), que por sua vez foi estruturado
dentro do Sistema Nacional do Desporto (SND), configurando-se, assim, como uma questão de
ordem nacional, atraindo a competência de sua aprovação pelo Conselho Nacional do Esporte –
CNE.

Destinatários do CBJD

CBJD, art. 1º - A organização, o funcionamento, as atribuições da Justiça Desportiva e o


Processo Desportivo, no que se referem ao desporto de prática formal, regulam-se pela
lei e por este Código, a que ficam submetidas, em todo o território nacional, as
entidades compreendidas pelo Sistema Nacional do Desporto e todas as pessoas
físicas e jurídicas que lhes forem direta ou indiretamente filiadas ou vinculadas. (grifo nosso)
Partindo do art. 1º do CBJD, para a correta identificação de seus destinatários é preciso
delimitar: I) quem são as entidades relacionadas nos incs. I à VI do art. 13 da LGSD; e, II) se existe
regra especial referente à matéria na legislação sobre desporto.

- Comitê Olímpico e Paraolímpico Brasileiro – COB/CPOB (I e II):


Quanto ao COB (I) e o CPOB (II), por certo não há dúvidas quanto à sua natureza e
finalidade (art. 15 e seus parágrafos da LGSD), porém, temos a ressaltar que as disposições da Lei
9.615/98 sobre Justiça Desportiva não se aplicam aos COB e CPOB, conforme expressamente
previsto em seu art. 51.

LGSD, art. 51 – O disposto nesta lei sobre Justiça Desportiva não se aplica ao Comitê
Olímpico e Paraolímpico Brasileiros.

Enfim, não temos a submissão ao CBJD por via dos incs. I e II e menos ainda por sua
conjugação com o inc. VI.

- Ligas regionais e nacionais (V):


São identificadas pelo art. 20 da mesma lei.

LGSD, art. 20 – As entidades de prática desportiva participantes de competições do


Sistema Nacional do Desporto poderão organizar ligas regionais ou nacionais.

Neste ponto cumpre observar que as Ligas Municipais e Intermunicipais, apesar de não
estarem expressamente previstas na LGSD, devem ser consideradas como submetidas ao CBJD
quando forem direta ou indiretamente filiadas ou vinculadas à respectiva entidade nacional/regional
de administração do desporto, por força da parte final do art. 1º do CBJD.

- Entidades de prática desportiva filiadas ou não* àquelas referidas nos incisos anteriores (VI):
Identificadas pelo art. 16 da LGSD, são os clubes, associações, agremiações e afins,
reguladas por normas de direito civil (associação) ou comercial (clube-empresa).
* Quanto a expressão “filiadas ou não”, entendemos que deva ser compreendida no sentido
de que, independente de filiação, a simples participação em competição promovida pelas entidades
nacionais/regionais de administração do desporto, vincula ao CBJD, ou seja, abarca as competições
abertas a não-filiados.

- Entidades nacionais/regionais de administração do desporto (III e IV)


Deixamos para abordar por último os incisos III e IV visto que, pelo fato da LGSD não dar-
lhe definição estrita (art. 16), deixou espaço para interpretações equivocadas (extensivas),
constituindo um ponto crítico da lei, visto que será a partir do entendimento que se tem do
significado da expressão “entidade de administração do desporto”, que será traçada toda uma
vinculação com o CBJD.

LGSD, art. 16 - As entidades de prática desportiva e as entidades nacionais de


administração do desporto, bem como as ligas de que trata o art. 20, são pessoas
jurídicas de direito privado, com organização e funcionamento autônomo, e terão as
competências definidas em seus estatutos. § 1º - As entidades nacionais de administração
do desporto poderão filiar, nos termos de seus estatutos, entidades regionais de
administração e entidades de prática desportiva. § 2º - As ligas poderão, a seu critério,
filiar-se ou vincular-se a entidades nacionais de administração do desporto, vedado a estas,
sob qualquer pretexto, exigir tal filiação ou vinculação. § 3º - É facultada a filiação direta de
atletas nos termos previstos nos estatutos das respectivas entidades de administração do
desporto. (grifo nosso)
Em que pesem as evidências deste art. 16 e seus parágrafos é de importância crucial fixar o
sentido e o alcance da expressão "entidade de administração do desporto" (EAD), pois, repita-se,
será a partir daí que iremos definir os destinatários do CBJD.
Nosso entendimento é de que somente integram o Sistema Nacional do Desporto, por esta
via, as respectivas entidades responsáveis pelas normas nacionais e internacionais e pelas regras de
prática esportiva de cada modalidade, ou seja, entidades filiadas/vinculadas a organismos
transnacionais responsáveis pelas normas orgânicas e regras de prática de determinada modalidade
esportiva (guardião do desporto).
O exemplo clássico é o do futebol, que tem a FIFA (Fédération Internationale de Football
Association) como organismo transnacional responsável pelas normas orgânicas gerais e regras de
prática específicas desta modalidade no contexto mundial, cuja entidade representativa em território
brasileiro é a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), configurando-se, pois, como a entidade
nacional de administração do desporto na modalidade futebol, que por sua vez admite em seus
quadros entidades regionais de administração do desporto (federações estaduais).
Repisando o assunto, sob outro ângulo, se faz necessário observar uma diferença
fundamental na finalidade das “entidades de administração do desporto”, pelo que, temos duas
possibilidades:
A) Interpretação no sentido amplo (EAD lato sensu):
Toda e qualquer entidade que se intitule e/ou declare em seus atos constitutivos que sua
finalidade seja de organizar, administrar, gerenciar, dirigir, coordenar, planejar, programar,
desenvolver ou supervisionar “atividade/s esportiva/s”, pode ser classificada, de um modo geral,
como uma entidade de administração do desporto. Anote-se, no entanto, que a qualificação mais
apropriada para tais, em nossa compreensão, é entidade de administração de atividade esportiva.
B) Interpretação em sentido estrito (EAD stricto sensu):
Somente será considerada como entidade (nacional/regional) de administração do desporto,
aquela que, em território nacional, mantenha filiação/vinculação com um organismo transnacional
cuja finalidade precípua seja gerir uma própria modalidade esportiva, representando-a neste sentido,
ou seja, que exerçam legítima representação oficial da modalidade esportiva em território nacional.
Assim, podemos citar, novamente: Federação Paranaense de Futebol (como entidade regional de
administração do desporto), filiada/vinculada à CBF (como entidade nacional de administração do
desporto), que por sua vez é filiada/vinculada à FIFA (como entidade transnacional de
administração do desporto).
Deste modo, o Sistema Nacional do Desporto, por sua própria finalidade, no que tange às
entidades de administração do desporto (EADs), há de congregar apenas e tão somente aquelas
encarregadas da coordenação, administração ou normatização (representação oficial) da própria
modalidade esportiva (interpretação em sentido estrito), consagrando seu objetivo de promover e
aprimorar as práticas desportivas de rendimento, contextualizada pela inserção do País no âmbito de
uma ordem, de um arranjo internacional do desporto, ou, por outras palavras, em um sistema
federativo internacional.

Sistema federativo internacional: Congregação mundial de pessoas físicas (atletas,


técnicos, dirigentes, árbitros etc.) e jurídicas de direito privado (clubes, associações, ligas,
federações, confederações etc.), em razão de uma própria modalidade esportiva,
organizadas hierarquicamente e sob comando institucional de um órgão gestor
transnacional (Ex: Voleibol: Fédération Internationale de Volleyball – FIVB, Atletismo:
International Association of Athletics Federations – IAAF), responsável pela elaboração,
controle e alteração das regras que particularizam a modalidade (regras oficiais) e demais
normas orgânicas gerais; sem subordinação de ordem funcional, porém, admitindo-se a
desfiliação (descumprimento de norma) e vedada a intervenção (reconhecimento da
soberania e autonomia de gestão).

Anote-se, por oportuno, que a definição estrita de entidade de administração do desporto


deve ser considerada frente a todo o texto da Lei 9.615/98 e não apenas em razão do Sistema
Nacional do Desporto, assim como em face da Lei 10.671/98 (Estatuto de Defesa do Torcedor).
Comprovação da existência da modalidade esportiva
A identificação ou comprovação desta condição de EAD ”stricto sensu” não depende de
cota mínima de adeptos, certificação, homologação ou qualquer outro meio de reconhecimento
formal por nenhum órgão governamental, pois gozam de autonomia quanto à sua organização e
funcionamento (CF/88, art. 217, I e LGSD, art. 2º, II) bastando para tanto demonstrar a existência
da modalidade esportiva num contexto internacional (mesmo que seja de apenas 02 países),
adquirindo assim status de prática desportiva formal (regulado por normas nacionais e
internacionais) / desporto de rendimento (finalidade de integrar pessoas e comunidades do País e
estas com as de outras nações), que leva à sua conseqüente inserção no Sistema Nacional do
Desporto e respectiva vinculação ao CBJD.
Observe-se, por outro lado, que a descentralização que caracteriza o Sistema Nacional do
Desporto pode ser vista como uma conquista, face ao “intervencionismo” de legislações anteriores
sobre a matéria, entretanto, esta total e absoluta ausência de “controle” traz inconsistência para o
próprio Sistema, no qual se auto-inserem entidades que lhe são estranhas (EAD - lato sensu), além
da indiferença ou desconhecimento de outras que lhe integram (EAD - stricto sensu), situações estas
que levam a equívoco tanto umas quanto outras entidades, em especial no que tange à Justiça
Desportiva.
Enfim, ressalte-se, integram o Sistema Nacional do Desporto, na condição de “entidades
nacionais de administração do desporto”, aquelas que exercem representação oficial, em território
nacional, de modalidades esportivas olímpicas, não-olímpicas, paraolímpicas, de criação nacional
(capoeira) e, por que não dizer, também dos esportes de aventura, radicais e esportes ligados à
natureza, dentre outras categorias, divisões e classificações, ressalvado o traço comum das
atividades serem predominantemente físicas.

Insubmissão ao CBJD
Cabe registrar que, no caso de entidades que estejam submetidas ao CBJD e que, seja qual
for o motivo, se utilizem de outro Código para julgar os casos afins, certamente estarão agindo fora
dos limites da lei (produzindo decisões nulas, apesar de, em geral, serem cumpridas
voluntariamente), ou seja, sujeitas a serem desconstituídas por via da Justiça Comum.

COMANDOS DA LEI PARA A PRÁTICA DESPORTIVA NÃO-FORMAL

Liberdade para a prática desportiva não-formal


Seguindo nossa linha interpretativa, destacamos que a Lei 9.615/98, e esse também é um
ponto fundamental, é praticamente toda dirigida à prática formal / desporto de rendimento, pois
quando trata da prática não-formal (art. 1º, § 2º), como já dissemos an passant, aponta a “liberdade
lúdica” de seus praticantes como sendo uma característica intrínseca.
Referida liberdade lúdica não pode ser compreendida de outra maneira senão como a
independência para a prática desportiva espontânea, ou seja, executada por desejo e iniciativa
própria.
Por outras palavras, a prática desportiva não-formal deve ser entendida como aquela que se
utiliza das regras do jogo (em maior ou menor grau), mas com elas não guarda vínculo de relação
direta, obrigacional e sistemática (traço característico da prática formal - desporto de rendimento).
É, pois, a prática desportiva livre, voltada mais para o conteúdo do que para a forma (daí o sentido
da expressão “não-formal”), ou seja, que não está submetida aos ditames (formalismos) de um
sistema maior (ao contrário do desporto de rendimento), assentando-se tão somente em normas pré-
definidas (regulamentos gerais de competições), aceitas por adesão ao evento esportivo ou pelo
acordo de vontade de seus praticantes (normas orgânicas próprias).
Devemos admitir, por oportuno, e com base na realidade dos fatos, que com freqüência
verificamos uma vigorosa e bem organizada prática desportiva não-formal (e vice-versa) inclusive
“adotando” com firmeza as normas e regras da modalidade (características próprias da prática
formal) e em busca de resultado (afinal, é intrínseco do esporte a busca pela vitória), ou seja, na
prática, tais atividades desportivas parecem similares, mas na realidade, por tudo que já expusemos,
encontram-se perante a lei em campos diametralmente opostos.
Temos que ter claro que a “semelhança aparente” não transmuta sua condição de prática
desportiva não-formal, pois não há espaço na lei para enquadrarmos qualquer atividade promovida
fora do Sistema Nacional do Desporto como sendo uma prática desportiva formal / desporto de
rendimento.
Como a finalidade deste ensaio é revelar o sentido e alcance da legislação desportiva em
vigor, é importante, neste momento, para não perder o contexto, reafirmar toda a construção feita
sobre a divisão e respectivas inter-relações da prática desportiva formal e não-formal, que, nesta
ocasião, pode ser resumida pelos seguintes esquemas.

JUSTIÇA DESPORTIVA E A PRÁTICA DESPORTIVA NÃO-FORMAL


Como já dissemos, de acordo com o grau de organização da prática desportiva não-formal,
pode-se fazer necessária a instituição de uma corte julgadora de conflitos relativos à disciplina e às
próprias competições, assumindo contornos de uma estrutura de Justiça Desportiva e que realmente
será uma Justiça Desportiva.
Por sua vez, considerando que o CBJD é destinado à prática desportiva formal (desporto de
rendimento / profissional e não-profissional) e que o Conselho Nacional do Esporte (CNE) não se
manifestou sobre a Justiça Desportiva para a prática não-formal, e este é um aspecto muito
relevante, a questão que se põe é: a amplitude da liberdade para a prática alcança os meios para
resolução de conflitos oriundos da atividade?
Para responder com segurança esta questão é preciso relembrar, conforme já foi colocado,
que a Lei 9.615/98, além de instituir normas gerais sobre o desporto, dá outras providências,
sendo uma das principais delas, sem dúvida, regular a Justiça Desportiva, conforme determinado na
parte final do § 1º do art. 217 da CF/88.
Em seguida, é preciso avaliar os comandos da LGSD (eJD) para saber se há especificidade
em relação à Justiça Desportiva e a prática desportiva, ou seja, se é um comando geral (aberto) ou
especial (fechado) da prática formal ou mesmo não-formal. Com este intuito, uma leitura atenta da
lei revela que os dois primeiros artigos do Capítulo VII, que trata da Justiça Desportiva (art. 49, art.
50 e seus três primeiros parágrafos), são de comando geral, devendo ser observados tanto para a da
prática formal como para a não-formal, senão vejamos:
Art. 49 - A Justiça Desportiva a que se referem os §§ 1º e 2º do art. 217 da Constituição
Federal e o art. 33 da Lei no 8.028, de 12 de abril de 1990, regula-se pelas disposições
deste Capítulo.
Art. 50 - A organização, o funcionamento e as atribuições da Justiça Desportiva, limitadas
ao processo e julgamento das infrações disciplinares e às competições desportivas, serão
definidas em códigos desportivos, facultando-se às ligas constituir seus próprios órgãos
judicantes desportivos, com atuação restrita às suas competições.
§ 1º - As transgressões relativas à disciplina e às competições desportivas sujeitam o
infrator a:
I - advertência;
II - eliminação;
III - exclusão de campeonato ou torneio;
IV - indenização;
V - interdição de praça de desportos;
VI - multa;
VII - perda do mando do campo;
VIII - perda de pontos;
IX - perda de renda;
X - suspensão por partida;
XI - suspensão por prazo.
§ 2º - As penas disciplinares não serão aplicadas aos menores de quatorze anos.
§ 3º - As penas pecuniárias não serão aplicadas a atletas não-profissionais.

Por sua vez, os demais comandos da Lei para Justiça Desportiva são de ordem específica,
dirigidos ao COB e CPOB (art. 51) e às entidades de administração do desporto (stricto sensu), (§
4º do art. 50 e arts. 52 a 55), pelo que, não submetem a prática desportiva não-formal, podendo, no
máximo, servir de paradigma.
Nestas circunstâncias o que se conclui (e se observa no dia-a-dia) é que a prática desportiva
não-formal, considerada sua liberdade lúdica, não foi submetida - pelo CNE - a uma codificação
específica, até porque seria temeroso fazê-lo diante da diversidade das manifestações neste sentido,
que assumem diferentes contornos nas diversas regiões do País, face aos numerosos hábitos e a
pluralidade cultural de nosso povo, ou seja, sua codificação seria inoportuna, podendo inclusive
inviabilizar a prática e o pleno exercício da liberdade lúdica que a caracteriza.
Sendo assim, resta compreender que, quando se fizer necessária e de acordo com sua
magnitude, objetivos e realidade organizacional, deverão os responsáveis pela prática não-formal,
seja ela uma iniciativa pública ou privada, adotar uma configuração de Justiça Desportiva adequada
aos comandos do art. 217 e seus parágrafos da Constituição Federal e aos arts. 49 e 50 da Lei
9.615/98, fazendo-o através de Códigos Desportivos próprios, sempre primando pela absoluta
transparência nas suas decisões (como não poderia deixar de ser).
Não obstante, atente-se para o fato, deverão atuar com absoluto respeito aos direitos e
garantias fundamentais (ampla defesa, contraditório, devido processo legal, etc.), conforme o art. 5º
da Constituição Federal.
Tudo isso sob pena de nulidade de suas decisões, por via de declaração do Poder Judiciário
(quando provocado neste sentido), ou seja, a Justiça Desportiva não deve ser utilizada com excesso
de autoridade, abuso de poder, violação a direitos e garantias fundamentais ou com finalidade de
qualquer tipo de perseguição. A Justiça Desportiva existe para garantir tão somente a viabilidade, a
paz e a moralidade no desporto, seja ele de prática formal ou não-formal.

Liberdade para elaborar e aprovar Códigos de Justiça Desportiva para a prática não-
formal
ƒ Setor Público:
Na esfera da Administração Pública o que se tem visto é que algumas Leis Estaduais e
Municipais que constituem Sistemas próprios a fim de integrar o Sistema Brasileiro do Desporto,
atendendo ao disposto na LGSD (art. 25 e parágrafo único), conferem atribuição para seus
respectivos Conselhos aprovarem referidos Códigos no âmbito de suas competições, configurando-
se, diga-se de passagem, na melhor técnica legislativa.
Outras vezes sequer Leis Estaduais e Municipais são instituídas neste sentido, sendo os
Códigos baixados por decreto, resolução, portaria ou até mesmo, pura e simplesmente, por sua
publicação em órgão oficial (Diário Oficial), subsumindo competência e legalidade no poder geral
da Autoridade Pública para praticar ato administrativo de gestão com finalidade normativa.
O certo é que temos intensa atividade desportiva competitiva promovida por entidades e
órgãos públicos, cujos respectivos Códigos de Justiça Desportiva – além de observar as condições
gerais da CF/88 e LGSD - também deverão conter respeito aos princípios constitucionais que
vinculam a atividade da administração pública (CF/88, art. 37), assim como seus demais princípios
implícitos (de construção doutrinária).
Nesta direção podemos apontar como exemplo de entidades e órgãos: o Governo Federal
(através do Ministério do Esporte), os Governos Estaduais, Municipais e do Distrito Federal
(através das Secretarias, Diretorias, Departamentos, Divisões ou Seções de Esporte) e as Fundações
Públicas com finalidade desportiva.
Já como exemplo de codificação da Justiça Desportiva elaborados sob esta ótica, podemos
citar:
Código Nacional de Organização da Justiça e Disciplina Desportiva (CNOJDD): Trata-
se de um código elaborado para regular a organização da Justiça Desportiva, o Processo e
as medidas disciplinares relativas aos eventos sob a organização, coordenação e/ou
supervisão do Ministério do Esporte e Turismo (MET) / Secretaria Nacional de Esporte
(SNE), do Governo Federal, submetendo quem deles participe de forma direta ou indireta.
Obs. Dadas suas peculiaridades com o Setor Público, é recomendada – e inclusive sugerida
pelos seus autores – sua adoção por Governos Estaduais e Municipais. Para conhecer o
CNOJDD visite o site http://www.portaldodireitodesportivo.com.br.

ƒ Setor Privado:
De forma semelhante o Setor Privado, em especial as EADs lato sensu, instituem Códigos
de Justiça Desportiva por conta e iniciativa própria, seguindo seus Estatutos ou por meio de
Assembléias, Congressos Técnicos ou Conselhos Arbitrais, tendo como fundamento de legalidade a
autonomia de gestão e a liberdade da prática não-formal.
Integram este universo, além das EADs “lato sensu”, também as Federações e Ligas não
filiadas/vinculadas à respectiva EADs “stricto sensu” (também conhecidas como Federações e
Ligas independentes ou “amadoras”), além de Grêmios, Associações Estudantis, Atléticas,
Sindicatos de Clubes, Clubes Sociais, Esportivos e Recreativos etc.

O problema é que muitas vezes, tanto o setor público como o privado, ou não observam os
termos da CF/88 e LGSD para Justiça Desportiva – elaborando códigos ao arrepio destas – ou,
inversamente, entendem que estão completamente submetidos aos seus ditames, encontrando
dificuldades em elaborar um Código adequado à sua realidade organizacional.
Anote-se ainda que não se trata de matéria afeta à aprovação pelo Conselho Nacional do
Esporte (como no caso do CBJD), visto tratar-se de assunto de interesse local (setor público) e
matéria “interna corporis” (setor privado).

ADOÇÃO DO CBJD PARA A PRÁTICA DESPORTIVA NÃO-FORMAL


Além de tudo que foi já foi colocado, outra situação que ocorre na prática (e com relativa
freqüência) é que muitas entidades, afora seus destinatários originais, fazem uso do CBJD, sendo:

Submissão por convicção:


Composta por aqueles que acreditam ser este o único Código de Justiça Desportiva válido
para todas as competições desportivas promovidas em território nacional, e pelos que entendem que
as entidades de administração lato sensu, também integram o Sistema Nacional do Desporto,
originando, assim, duas realidades distintas:

I) Validação pelo costume: Configura-se a prática da utilização do CBJD em um


verdadeiro costume que atende seus fins sociais, conferindo juridicidade às suas
decisões.
Obs. - Sobre costume e fins sociais: Decreto-Lei 4.657/42 (Lei de Introdução ao Código
Civil), art. 4º - Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os
costumes e os princípios gerais de direito. Art. 5º - Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos
fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.

II) Insegurança jurídica: Em que pese a crença/convicção daqueles que entendem


estarem submetidos ao CBJD, podem seus “jurisdicionados” compreenderem o
contrário, opondo-se desta forma ao cumprimento das penas eventualmente
aplicadas, buscando sua anulação pelo Poder Judiciário, fundamentando o pleito na
mesma direção que demos sobre o alcance do CBJD, abrindo caminho para
sustentação de teses de violação de direitos e garantias fundamentais (CF/88, art. 5º),
dentre os quais:
Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei (inc.
II); não haverá juízo ou tribunal de exceção (inc. XXXVII); não há crime sem lei anterior que
o defina, nem pena sem prévia cominação legal (inc. XXXIX), ninguém será processado
nem sentenciado senão por autoridade competente (inc. LIII), etc.

O que se quer dizer é que, nestas circunstâncias, levada a questão ao Poder Judiciário,
poderá o Juízo convencer-se pela validade dos atos praticados por configuração do costume
(mantendo seus efeitos) ou da sua ilegalidade em razão da insegurança na adoção do CBJD e/ou da
insubmissão aos seus preceitos (declarando nula eventuais penas aplicadas).

Submissão voluntária e consensual:


Formada por aqueles que mesmo conhecendo sua destinação, pela dificuldade em construir
um sistema próprio devidamente codificado, acabam por adotá-lo por convenção mútua, ou seja,
elegem ou aceitam o CBJD como instrumento normativo válido para fins de Justiça Desportiva,
através de decisão tomada em Assembléia ou Congresso Técnico/Conselho Arbitral de determinada
competição (devendo tal circunstância ser formalmente registrada em ata), ou até mesmo por adesão
a evento esportivo com regulamento pré-definido neste sentido (muito comum em eventos abertos),
conferindo juridicidade plena aos atos que venham a ser praticados neste sentido. Pode não ser a
melhor técnica, mas não deixa de ser uma alternativa admissível do ponto de vista legal (não há
impedimento neste sentido).

Anote-se que no primeiro caso, como existe uma crença ou convicção de que o CBJD é o
instrumento legal, válido e aplicável, suas normas haverão de ser rigorosamente obedecidas
(submissão total). Já no segundo caso, pelo conhecimento da destinação original do CBJD, podem
aqueles que por deliberação o elegerem - ou por adesão o aceitarem - como instrumento eficaz de
Justiça Desportiva, também decidir (na eleição) ou acatar (na adesão) pela mitigação de
determinados comandos (submissão parcial), em especial os incompatíveis com sua realidade (ex:
composição dos órgãos judicantes), registrando os ajustes em documento próprio (ata ou
regulamento).

PARADOXO DA PRÁTICA DESPORTIVA


Pela Lei 9.615/98, encontram-se agrupadas no Sistema Nacional do Desporto (SND) as
práticas desportivas de rendimento (formais). Logo, tudo que está fora do SND, não pode ser
entendido como prática formal / desporto de rendimento, por maior que seja o nível técnico da
atividade esportiva em análise. Ou seja, o que define o posicionamento da prática desportiva como
formal ou não-formal não é a qualidade técnica do evento ou dos praticantes, mas sim a entidade
que tutela a competição e os vínculos dela decorrentes.
Vejamos um caso concreto: a grande maioria dos indivíduos que disputam os Jogos Abertos
do Interior do Estado de São Paulo são atletas de alto nível, participantes de competições regionais
e nacionais promovidas dentro do SND (situação em que desenvolvem uma prática desportiva
formal / desporto de rendimento). Porém, quando participam dos Jogos Abertos, não estão a
representar seus clubes, mas sim os Municípios. Estes, assim como o Governo do Estado de São
Paulo (promotor do evento), não integram o Sistema Nacional do Desporto, pelo que, referida
competição não pode ser admitida como prática desportiva formal / desporto de rendimento,
restando ser caracterizada como prática desportiva não-formal / desporto de participação.
Ou seja, apesar de ser praticado pelos mesmos indivíduos, o esporte assume, num e noutro
caso, uma configuração completamente diferente, e a conseqüência não é apenas de ordem
doutrinária, pois quando praticam o esporte pelos seus clubes (competições do SND), estão
submetidos ao CBJD, enquanto que, quando participam dos Jogos Abertos, estão submetidos ao
Código de Justiça Desportiva do Estado de São Paulo, além do que as penas aplicadas por um órgão
– em princípio - não têm validade sobre o outro (a rigor, não se comunicam).
Outro exemplo interessante: campeonatos de categorias menores (pré-mirim, mirim, infantil
etc.) promovidos por Federações (EADs regionais stricto sensu), por mais educativos que sejam não
podem ser reconhecidos como uma manifestação do desporto educacional, e ainda que tenham a
finalidade de também contribuir para a promoção da saúde e da educação, também não o caracteriza
– perante a lei - como uma manifestação do desporto de participação, ou seja, só pode ser
reconhecido, como reconhecido é, como uma prática desportiva formal / desporto de rendimento /
praticado de modo não-profissional, tanto que submete-se ao CBJD, e esta é uma realidade.

CONCLUSÃO

É oportuno que nas discussões do Projeto de Lei que tramita pelo Congresso Nacional sobre
o Estatuto do Desporto (legislação que pretende substituir a em análise e consolidar a matéria)
sejam abordadas as questões levantadas, para que o texto da nova lei confira a clareza necessária
para que os responsáveis pela prática desportiva, seja ela formal ou não-formal, possam agir com
maior segurança e adotar procedimentos adequados para a Justiça Desportiva.
Urge estabelecer uma relação expressa entre a prática desportiva (formal e não-formal) e sua
natureza e finalidade, evitando interpretações equivocadas.
A conceituação de entidade de administração do desporto precisa ser melhor delineada,
detalhada, ainda que redundante, evitando incursões no Sistema Nacional do Desporto (SND) de
entidades que não lhe são afetas, o que certamente não ocorre por má-fé, mas pela interpretação que
se permite fazer da lei nos termos em que se encontra atualmente, ou que se estabeleça algum
mecanismo visando a correta identificação das entidades que realmente integram o SND
(certificação), afastando as indevidas e aproximando as originais, em especial as menos articuladas,
para que assim possam efetivamente adequar sua Justiça Desportiva, fortalecendo-a, dando-lhe a
necessária unicidade e padronização de procedimentos, consolidando os comandos da Lei e da
Constituição Federal, conferindo plena coesão e evitando a insubmissão ao CBJD.
É preciso que o Conselho Nacional do Esporte manifeste seu entendimento acerca da Justiça
Desportiva para a prática não formal, mesmo que seja para dizer o óbvio (arrimo na liberdade e
autonomia, com respeito a CF/88 e a LGSD no que couber), pois se trata de uma questão desportiva
de interesse nacional que tem suscitado dúvidas e incertezas, zelando assim pela correta aplicação
dos princípios e preceitos da Lei 9.615/98, visto que estas são atribuições que lhes cabem (LGSD,
art. 11, inc. I e III), pacificando a matéria e permitindo uma ação mais consistente, efetiva e
orientada àqueles que têm a missão de instituí-la no âmbito da Administração Pública e das EADs
“lato sensu”.
É um erro compreender o desporto de participação como sendo uma “pelada” de fim de
semana entre amigos ou qualquer outra manifestação simples e isolada de um grupo de pessoas.
Sendo o desporto de rendimento praticado em um sistema determinado (Sistema Nacional do
Desporto), todas as demais atividades hão de conformar-se como tal (à exceção das caracterizadas
como desporto educacional), e dentre elas existem competições de diferentes tipos, tamanhos e
formas, sendo a expressão máxima do esporte como um direito social de cada um, e que de certa
maneira constitui a base de lançamento de atletas para o desporto de rendimento e, por que não, de
reabsorção, quando do encerramento de suas atividades de rendimento, através da participação em
competições denominadas “amadoras”, especiais, abertas, para veteranos, quarentões, terceira
idade, dentre outras, e isto é uma realidade.
É plenamente adequada a conceituação do “desporto de participação”, pois é isto mesmo que
ele é: comum, compartilhado, genérico, abrangente, permissivo, livre e dirigido à coletividade.
Modificar sua conceituação para Desporto de Lazer, como se observam algumas proposições neste
sentido, constitui-se em um grande equívoco, pois remete a um entendimento de uma prática
desportiva desprovida de qualquer regulamentação, executada pura e simplesmente por deleite ou
recreação, situação que não corresponde com a realidade dos fatos. Até poderia se admitir o
desporto de lazer como uma quarta classificação de sua manifestação, natureza e finalidade,
constituindo um avanço, inclusive para melhor interpretação do desporto de participação.
Na esperança de ter contribuído, de alguma forma, no debate dos temas ligados à Justiça
Desportiva e à Prática Desportiva, finalizo minhas colocações.