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ANO 6-N2 1 . REVISTA DO SEMINÁRIO ADVENTISTA LA11NOARIERICANO DE TEOLOGIA . SEDE ISRASIUSUL

O Novo Israel
ANO 6-NE 1. REVISTA DO SEMINÁRIO ADVERTIRIA LATINO-AMERICANO DE TEOLOGIA. SEDE BRASIL-SUL

1° Semestre de 2007

O Novo Israel

Editorial 5

Artigos

Israel na profecia bíblica 7


Gerhard E Hasel, Ph.D.

As festividades israelitas e a igreja cristã 29


Angel Manuel Rodríguez, Th.D.

Estêvão, Israel e a Igreja 39


Wilson Paroschi, Ph.D.

Israel e o novo Israel 53


Amin A. Rodor, Th.D.

O novo 'Israel': a construção da ideologia do messianismo americano 67


Vanderlei Dorneles, Th. M.

23 de setembro ou 22 de outubro? Urna nova abordagem à luz da astronomia 83


Henderson H. Leite Velten e Juarez Rodrigues de Oliveira
EDITORIAL

A escola dispensacionalista de interpretação bíblica transformou o Antigo Testamento


em num tipo de playground para toda sorte de distorções hermenêuticas. O quadro é
deploravelmente difundido, com toda sorte de especulações infundadas, resultado das
ginásticas do rígido literalismo interpretativo que governa essa escola. O número de
sites populares na internet parece se multiplicar a cada semana. A maioria é disponi-
bilizada por evangélicos fundamentalistas americanos, em sua defesa dogmática do
lugar do moderno Israel no quadro profético dos últimos dias. Para George Konig, por
exemplo, "Isaías predisse o renascimento [moderno] de Israel."' Citando o profeta (Is
66:6-8), ele conclui que tal profecia cumpriu-se espetacularmente em 14 de maio de
1948, quando a moderna nação de Israel ganhou reconhecimento dos Estados Unidos
e das Nações Unidos, em 24 horas. Para este autor, à semelhança de muitos outros,
"o status de Israel como uma nação soberana, foi estabelecido e reafirmado durante o
curso de um único dia" 2, precisamente como indicado pela profecia bíblica.
Evidentemente, a questão fundamental não é se Israel deveria existir como uma na-
ção, mas se a existência de Israel como uma entida,de nacional, no território Palestino,
representa um cumprimento profético, como advogado pelo dispensacionalismo, com
as suas enormes implicações, sobretudo, escatológicas. Como solidamente argumentado
nos vários artigos deste número de Parousia, a leitura dispensacionalista das Escrituras,
baseada em uma radical dicotomia entre Israel e a Igreja', é conseqüência de uma for-
midável má compreensão hermenêutica, desacreditada por qualquer leitura cuidadosa
das Escrituras. O sionismo dispensacionalista, errôneo em seu fundamento teológico,
tende a identificar o moderno Estado de Israel com o Israel do Antigo Testamento,
abrindo, assim, a porta para toda sorte de impropriedades interpretativas.
Mais moderada, mas não menos truncada, é a tradicional e também consideravel-
mente difundida pressuposição de que os judeus permanecem, através da era cristã,
como povo escolhido de Deus, retendo privilégios especiais e um papel relevante nos
planos divinos. Tal compreensão, contudo, desconsidera o claro testemunho do Novo
Testamento quanto à mudança inaugurada na história de Israel, bem como na história da
salvação, pelo primeiro advento de Jesus Cristo. Fundamentalmente, seria no mínimo
anacrônico que os cristãos continuassem a ler as Escrituras como se Jesus, o Messias
cristão, não tivesse vindo, como se o Novo Testamento não tivesse sido escrito, ou
ainda, como se fosse possível fazer voltar o relógio da história bíblica.
Esperamos que nossos leitores sejam beneficiados por esta nova edição temática
de Parousia, focalizando um dos tópicos mais atuais da teologia cristã, importante
sobretudo por seus desdobramentos e potencial de confusão.

Fraternalmente,

Ando A. Rodor
6 PARGUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

REFERÊNCIAS

' George Koning, "Isaiah foretold the rebirth of Israel," http://www.therefinersfire.orglisrael_born


_in_one_day.htm acessado em 18 de Junho de 2007. Como Louis A. DeCaro lucidamente observa,
contudo, "Tomar estas declaracões proféticas do seu contexto histórico e aplicá-las a Israel hoje é
forçar a profecia a dizer o que ela não foi intencionada dizer e dar ao moderno Israel um status te-
ológico o qual não está relacionado com a profecia." Louis A. DeCaro, Israel Today: Fulfillment of.
Prophecy? (Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1976), 4.
2 Ibid.

Para os dispensacionalistas Deus possui dois planos em descontinuidade radical: um para


Israel, com um "proposito terreno," ainda para ser realizado no futuro, e outro para Igreja, com um
"propósito celestial," agora em processo, e que terminará com o arrebatamento. Para C. Ryrie, tal
distinção é considerada a "primeira essencia" do dispensacionalismo (Charles C. Ryrie; Dispensa-
tionalism Today [Chicago, 111: Moody Press, 1973], 50), e de fato, pode-se considerer tal distincão o
fundamento de todo o sistema, sem o qual sua estrutura entraria em complete falência.
ISRAEL NA PROFECIA
BÍBLICA
GERHARD E HASEL, PH.D.
Ex-professor de Antigo Testamento e Teologia Bíblica na Andrews University

RESUMO: O presente artigo contrapõe os the promises made by God to literal Israel
pressupostos utilizados pelas escolas de of the old covenant, not fulfilled because of
interpretação profética futurista e histo- the repeated apostasies of Israel, will have
ricista com relação às profecias relativas an eschatological fulfillment in the Israel of
a Israel nas Escrituras. Por um lado, o the new covenant, that is, in the Christian
autor aponta as diversas falhas da corrente church. In this sense, it does not require
dispensacionalista-literalista, na qual se Abraham ethnical descent.
baseia o futurismo, criticando a difun-
dida visão de que as promessas bíblicas
de restabelecimento da nação israelita já INTRODUÇÃO'
começaram a se cumprir com a formação O assunto de Israel na profecia bíblica é
do moderno estado de Israel e se concre- de grande interesse atualmente, tanto para os
tizarão no futuro período milenial. Por judeus quanto para os cristãos. O estado de
outro lado, apresenta a perspectiva da con- Israel foi fundado em 1948, três anos depois
dicionalidade da profecia, sustentada pelo de chegar ao fim o horrendo holocausto cau-
método historicista. De acordo com essa sado por mãos nazistas. Havendo terminado
posição, mais condizente com a coerência a tragédia do holocausto, o mundo ficou
bíblica, as promessas feitas por Deus ao horrorizado ao saber que vários milhões de
Israel literal da antiga aliança, que não se judeus tinham perdido a vida. Essa trágica
cumpriram devido às repetidas apostasias destruição, a tentativa de genocídio de um
povo inteiro permanece inigualável na his-
desse povo, terão cumprimento escatoló-
tória do século 20.
gico no Israel da nova aliança, ou seja, na
igreja cristã. Não exigem, neste sentido, Durante a Guerra do Golfo em 1991,
descendência étnica de Abraão. quando o estado de Israel foi atacado por
trinta e oito mísseis scud, todos os olhares
ABSTRACT: This article makes a parallel estavam outra vez sobre a nação. Líderes
betvveen the assurnption of the Futurist and políticos indagavam se Israel reagiria aos
Historicist Schools of Prophetic Interpreta- ataques ameaçadores. Dia após dia aumen-
tion conceming the prophecies about Israel tava a admiração por Israel entre amigos e
in Scriptures. The author points out many of inimigos à medida que esse povo corajoso
the hermeneutic dispensationalist mistakes desafiava seus inimigos Sem retaliação.
on which the futurism is based. It also pro-
Naquela ocasião, um membro do Knes-
vides a critique of the widely spread view set, parlamento de Israel, foi entrevistado em
that the biblical promises of restoration of uma das redes de TV dos Estados Unidos. O
the national Israel has already started to be entrevistador perguntou se Israel se retiraria -
fulfilled with the modern state of Israel and dos territórios ocupados como condição
it will be finally accomplished in the future para a retirada das forças de ocupação do
millennium. It also presents the conditional Kuwait. Esse membro do Knesset explicou
perspective of Bible prophecy, supported com convicção na televisão americana que
by the historicist method. According to this Israel não havia "ocupado territórios", ape-
position, more consistent with Scripture, nas "liberado territórios".
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O oficial entendeu que a expressão escrita' como um estado secular. Consti-


"territórios ocupados" significava que os tucionalmente, o moderno estado de Israel
territórios pertenciam a algum outro em não é nenhum estado religioso. Portanto,
vez de Israel. Mas em sua opinião isto era partindo desta perspectiva, G moderno
falso. Ele insistiu que esses eram "territó- estado de Israel dificilmente é diferente de
rios liberados" porque a Bíblia indicava qualquer outro estado secular formado nos
que Deus havia dado a Israel a terra que tempos modernos.
Ele prometera a Abraão. Israel havia sim-
plesmente liberado essas áreas de terra da ESCOLAS DE INTERPRETAÇÃO PROFÉTICA
ocupação ilegal praticada por outros.
E essencial reconhecer que a compre-
ensão cristã de Israel na profecia bíblica é
INTERPRETANDO A PROFECIA BÍBLICA
afetada pelas quatro diferentes "escolas" de
O ponto de vista desse líder israelense é interpretação profética. Essas quatro prin-
partilhado por vários cristãos. Há cristãos cipais "escolas" de interpretação profética
que negam a natureza condicional de certos têm sua própria história e estão construídas
tipos de profecia. Afirmam que qualquer sobre pressuposições contrastantes. Elas
promessa já feita a Israel, inclusive a posse merecem ser conhecidas.
da terra de Canaã por essa nação, permanece
em vigor eternamente. Essas promessas, eles ESCOLA CRÍTICO-HISTÓRICA
insistem, devem se cumprir em um Israel
étnico, literal. Desse modo, se acredita que Eruditos modernos, liberais e progres-
todas as promessas e profecias encontradas sistas, seguem o método crítico-histórico de
na Bíblia feitas ao antigo Israel devem conti- interptretação. É de origem bastante recente,
nuar em vigor e requerem um cumprimento tendo estado em pleno florescimento por
literal por um Israel literal. apenas cerca de um século. Esses eruditos
dominam a maioria das universidades ao
Outros estudantes da Bíblia mantêm redor do mundo. A pesquisa crítico-históri-
um ponto de vista contrário a esta posição. ca baseia-se em princípios e pressuposições
Estes asseveram que as profecias concer- do método crítico-histórico.' Este método
nentes a Israel são de natureza condicional. está sob sério ataque de alguns eruditos
As profecias seriam aplicáveis a Israel, ao bíblicos que têm operado dentro do mé-
Israel étnico, somente se eles permaneces- todo por anos e que se tornaram muito
sem fiéis à aliança de Deus. Uma vez que a desiludidos com ele, e de sábios que foram
aliança fora violada por Israel, as profecias educados no método mas que se voltaram
não mais poderiam ser cumpridas em um contra ele.4
Israel literal porque eles perderam as bên-
çãos da aliança. Isto não significa que o método não é mais
usado. Ele continua sendo o principal método
de estudo bíblico em um sentido secular.
O DIREITO DE UM ESTADO À EXISTÊNCIA
Atualmente há muitas abordagens adi-
Antes de nos empenharmos em um es- cionais ou alternativas que são usadas ou
tudo da evidência bíblica, este autor deseja propostas em várias tentativas de mudar-se
expressar sua opinião pessoal de que esta para além do criticismo histórico. Entre elas
investigação do testemunho das Escrituras estão métodos• tais como estruturalismo,
de modo algum objetiva sugerir que o esta- métodos descritivos, hermenêutica dialética,
do de Israel, formado em 1948, não tem o interpretação total, absoluta ou plenária,
direito de existir. Na opinião deste escritor, método de leitura minuciosa, método de-
o estado de Israel tem tanto direito a existir construtivo, criticismo orientado para o
com base no direito internacional como leitor, e assim por diante. Cada um deles
qualquer outro estado. Precisamos ter em tem suas próprias pressuposições e normas
mente que o moderno estado de Israel pode que merecem análise e reação muito cuida-
ser visto em sua constituição parcialmente dosas. A despeito de todas estas abordagens
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA /9

alternativas ou suplementares, o método no sentido de uma clara predição acerca


crítico-histórico permanece em geral ainda do futuro próximo ou distante.'
dominante na moderna erudição liberal. Muitos cuidadosos estudantes da Bíblia
Um dos maiores princípios do método têm corretamente chegado à conclusão de
crítico-histórico é o da analogia, isto é, que a interpretação crítico-histórica da pro-
que a história é movida por relações de fecia é uma reiterpretação do que o texto
causa e efeito em que não é permitida bíblico realmente diz e reivindica para si
nenhuma causa sobrenatural. Analogia mesmo. O método crítico-histórico não
também significa que o passado tem de ser toma o texto bíblico ao pé da letra. Trata-o à
compreendido à base do presente.' Tem-se base das modernas pressuposições de como
admitido livremente que "o princípio da o escritor/editor do livro bíblico deve ser
analogia é incompatível com a fé cristã" 6 avaliado em vista das modernas perspecti-
como ele tem estado funcionando no pre- vas e deduções filosóficas." Este método
sente. "Freqüentemente o procedimento não conduz à fé, em vez disso serve para
do histórico [-crítico] do criticismo bíblico secularizar os sistemas de crença.
tem exigido primeiro a remoção de todas
as reivindicações de revelação, e então ESCOLA PRETERISTA
imposto sobre todo testemunho a afirmação
a priori de que a divina revelação é impos- Uma segunda e importante opinião de
sível", escreve Thomas C. (Med, da Drew interpretação profética é conhecida como
University. Esses processos metodológicos preterismo. O preterismo é um método de
revelam que o modelo crítico-histórico é interpretação profética que reconhece a
uma metodologia secular em que o novo genuína profecia preditiva na Bíblia. Toda-
espírito da autonomia humana' permeia via, 'ele mantém como premissa básica que
todos os aspectos da cultura moderna — as todas as profecias já feitas acerca do futuro
ciências, a filosofia, a teologia, e assim têm se cumprido no passado por volta do
por diante. final do primeiro século d.C.
Para o crítico-histórico de hoje não há Com respeito aos livros de Daniel e
nenhum elemento preditivo significativo Apocalipse, a escola preterista defende
na profecia bíblica.' Se é deixado qualquer que esses livros tiveram seu cumprimen-
aspecto preditivo, ele é apenas uma predição to no período do Novo Testamento e na
de curto alcance em que o antigo profeta fala própria história da igreja cristã primitiva
acerca do que lhe é contemporâneo ou não até cerca do ano 100 d.C.' 4
posterior às circunstâncias históricas que A posição preterista é profundamente
ele reflete.'° O elemento preditivo de curto devedora ao erudito jesuíta espanhol Luis
alcance não é derivado de uma revelação de Alcazar (1554-1613), que projetou o an-
sobrenatural. A função do profeta não é ticristo no distante passado identificando-o
predizer, mas proclamar. G. Ernest Wright com o imperador romano Neto."
declara isso sucintamente: "O profeta tinha
deste modo mensagens para seu próprio Importantes aspectos da opinião pre-
povo em seus próprios dias." terista foram no decorrer do tempo incor-
porados ao método crítico-histórico de
Esta opinião do moderno liberalismo interpretação profética, e outros aspectos
(aqui usado como termo descritivo, não foram absorvidos pelo método futurista de
pejorativo), ou criticismo histórico, permi- interpretação. O preterismo não tem hoje
te na melhor das hipóteses uma espécie de muitos seguidores, mas era amplamente
prognóstico que se baseia nas percepções apoiado nos séculos 18 e 19.
superiores de um escritor humano, mas
não em revelação ou inspiração divina,
sobrenatural, em que a real informação é ESCOLA HISTORICISTA
transmitida de Deus para o profeta. Não há A terceira escola• de interpretação pro-
nenhuma profecia divinamente concedida fética é conhecida como historicismo. É
10 / PAROUSIA - P SEMESTRE DE 2007

a mais antiga escola de interpretação das Tem-se afirmado que o futurismo está
quatro conhecidas no presente. Pode ser ?batendo à nossa porta" 17, à porta do histo-
descrita como o método histórico contínuo ricismo, insistindo para ser recebido. Seu
de interpretação profética porque compre- objetivo é modificar, desafiar e, se possível,
ende a profecia bíblica como contínua e substituir o método historicista de inter-
consecutiva no que concerne às seqüências pretação profética que tem moldado tão
preditas de impérios e eventos nos livros profundamente o cristianismo em geral e o
de Daniel e Apocalipse. As profecias são protestantismo nos últimos séculos.
vistas a desenrolar-se em cumprimento
histórico desde o tempo do escritor bíblico ESCOLA FUTURISTA
até o eschaton, o fim do mundo e a nova
criação, sem uma interrupção ou uma la- A quarta grande escola de interpretação
cuna na visão profética. profética conhecida como futurismo' se
tornou uma parte importante do dispen-
O historicismo toma a descrição bíblica sacionalismo moderno. O futurismo tem
de predição profética, não importa que ela profundas raízes na Contra-Reforma por
seja de curto ou de longo alcance, ao pé meio do erudito jesuíta espanhol Francisco
da letra. Segue a descrição bíblica da re- Ribera (1537-1591). 19
velação divina aos seres humanos (a saber,
profetas) em que Deus realmente predisse Ribera punha o cumprimento profético
o que iria acontecer no próximo ou distante no futuro.
(até mesmo muito distante) futuro. A es- Em 1590, Riberapublicou um comentário sobre
cola historicista de interpretação não pode o Apocalipse como uma contra-interpretação à opi-
existir sem a aceitação da afirmação bíblica nião [tistoricista] prevalecente entre os protestantes
de que Deus tem absoluto conhecimento que identificavam o papado com o anticristo. Ribera
prévio ou presciência da história e que Ele aplicou todo o Apocalip se menos os primeiros capítu-
tem feito conhecido por antecipação o que los ao fim do tempo em vez de à história da igreja. O
ocorreria no futuro. anticristo seria um simples indivíduo maligno que se-
ria recebido pelos judeus e reconstruiria Jerusalém..,
O historicismo aceita a ênfase bíblica de e dominaria o mundo por três anos e meio?'
profecia condicional com relação ao antigo
povo da aliança, ou Israel. As profecias acer- Ribera foi subseqüentemente apoiado
ca de Israel devem ser cumpridas enquanto pelo Cardeal Roberto Belarmino (1542-
e apenas se Israel permanece obediente à 1621),21 que se opôs ao princípio dia-ano
aliança que lhe foi concedida por Deus. e relacionou o "chifre pequeno" do livro
Se Israel deixasse de guardar a aliança, de Daniel, geralmente identificado com o
então Deus não seria capaz de cumprir au- papado, com o rei selêucida Antíoco IV,
tomaticamente as promessas que lhe fez no do segundo século a.C., que perseguiu os
passado. Deus permaneceria leal às Suas judeus (veja 1 Macabeus).
promessas, mas elas seriam cumpridas com Entre os primeiros protestantes futu-
aqueles que lhe fossem fiéis. Esse fiel povo ristas estavam importantes figuras como
remanescente de Deus não está restrito aos S. R. Maitland, James H. Todd e William
descendentes étnicos de Abraão. Burgh. Eles declararam explicitamente
O historicismo tem sido o método de nas décadas de 1820 e 1830 que seguiam
interpretação respeitado por sua antigüi- a Ribera. 22 A partir de então, o futurismo
dade pela maioria dos crentes na Bíblia foi rapidamente adotado no sistema do
desde o início do cristianismo até o início dispensacionalismo que se desenvolveu da
do século 20." O historicismo, porém, tem década de 1830 em diante.
encontrado significativos competidores
nos outros três métodos de interpretação As CRENÇAS FUTURISTAS DOS DIAS ATUAIS
(principalmente o futurismo) no cristianis-
mo evangélico contemporâneo a partir da O futurismo dos dias de hoje vê o esta-
segunda metade do século 20. belecimento do Estado de Israel como um
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 11

cumprimento direto da profecia bíblica." se no conceito de que todas as promessas


Declara Leon J. Wood, preeminente escritor. feitas ao antigo Israel são incondicionais e,
dispensacional-futurista: "O mais claro sinal portanto, devem ser literalmente cumpridas
da volta de Cristo é o moderno estado de no "Israel natural". Este literalismo exige.
Israel."24 Escreve o extensamente lido Hal que as porções proféticas e apocalípticas
Lindsey: "O mais importante sinal profético das Escrituras se relacionem principal-
a proclamar a era do retomo de Cristo" e mente com o futuro, isto é, depois do final
"um dos mais importantes eventos de nossa da presente era ou dispensação da igreja,
época e a fundação do Estado de Israel que representa uma lacuna ou parêntese na
em 1948.25 Dispensacionalistas e futuristas profecia." Essa chamada "era da igreja" é
também vêem a reunificação de Jerusalém considerada fora da visão bíblica da pro-
em 6 de junho de 1967 como um sinal direto fecia.» Além disso, a Bíblia é interpretada
do cumprimento da profecia." de tal maneira que a afirmação é reforçada
Há uma esperada reconstrução de um pelos dispensacionalistas-futuristas de que
templo em Jerusalém que, na opinião de nem o Antigo nem o Novo Testamento têm
muitos, deverá ocorrer na metade do perí- algo a ver com a igreja. A Bíblia, afirma-se,
odo de tribulação de sete anos." Qualquer não toma conhecimento de uma igreja ou •
visitante hoje em Jerusalém pode ir a um o tempo que ela ocupará. Com o suposto
local específico e examinar os utensílios silêncio bíblico da dispensação da igreja,
que estão preparados para esse templo a toda profecia não-cumprida acerca do
•ser construído. antigo Israel e relacionada com ele é pro-
jetada para o futuro, porque a igreja não é
O futurismo acredita que na dispensação percebida como sendo a legítima herdeira
milenial final outro templo será construído, de qualquer das promessas feitas por Deus
o templo milenial, em que os judeus lite- no passado.
ralmente sacrificarão outra vez animais,
mas não num sentido expiatório. Eles serão No futurismo o cumprimento profético
"memoriais do único e completo sacrifício deve vir no futuro e deve centralizar-se em
de Cristo."28 torno de Israel como nação," o Oriente
Médio, inclusive a vinda de um futuro
No futurismo há o amplamente anteci- anticristo e do falso profeta. Um papel
pado "arrebatamento secreto"" de todos os significativo é designado à Rússia," e uma
verdadeiros crentes, o qual deverá ocorrer literal batalha do Armagedom que ocorrerá
antes da grande tribulação." Nenhum crente na Palestina," e assim por diante.
tem de passar pela apavorante tribulação.
No historicismo os crentes passarão ORIGEM DO DISPENSACIONALISMO
pela tribulação do "tempo de angústia"
incólumes e especialmente protegidos pelo O futurismo está ligado ao dispensa-
braço poderoso de Deus; no futurismo os cionalismo. O "dispensacionalismo mo-
crentes serão arrebatados para o Céu no denio"" tem sua origem nos ensinos de
início da tribulação. Somente os incrédulos John N. Darby (1800-1882)," um educado
experimentarão a grande tribulação do fim advogado que se tornou um escritor prolífi-
do tempo na opinião do dispensacionalis- co com mais de 53 volumes, cada um com
mo-futurismo. uma média de 400 páginas. 40 Darby foi um
dos primeiros líderes do Movimento dos
Irmãos, de Plymouth na Inglaterra» Em
PRINCIPAL CONCEITO NA 1845 ele se desligou por causa de assuntos
INTERPRETAÇÃO FUTURISTA de eclesiologia e profecia para formar os
"Irmãos Exclusivos", também conhecidos
Em contraste com o "historicismo'',
como "darbyistas".
o "futurismo" baseia-se no método litera-
lista de interpretação dispensacionalista." O segundo impulso fundamental para
Deve ser claramente compreendido que no o dispensacionalismo veio de Cyrus In-
futurismo o cumprimento profético baseia- gerson Scofield (1843-1921), advogado
12 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

e legislador do Kansas, que produziu as laçam e definem a essência da interpretação


anotações para a original Bíblia de Refe- dispensacional-futurista. Sendo que as duas
rência de Scofield. Ela foi publicada pela primeiras são "aspectos básicos da escato-
primeira vez em 1909 e passou por uma logia futurista"49, elas precisam de análise
mais recente revisão em 1967. Essa Bíblia mais cuidadosa neste tempo.
com suas extensas anotações tem sido
uma importante força para popularizar o DISTINÇÃO ENTRE ISRAEL E A-IGREJA
dispensacionalismo.
A distinção entre Israel e a igreja, nas
• Há outros nomes importantes que mol-
palavras do bem-conhecido expoente
daram o dispensacionalismo em tempos
dispensacionalista, Charles Ryrie, é "pro-
mais recentes. Entre eles estão Lewis Sperry
vavelmente a mais básica prova teológica
Chafer," e, mais recentemente, Ano C.
sobre se alguém é ou não um dispensa-
Gaebelein, H. A. Ironside, Charles Caldwell
cionalista, e é sem dúvida a mais prática
Ryrie, J. Dwight Pentecost, Leon J. Wood e,
e conclusiva.""
é claro, John F. Walvoord, presidente eméri-
to do Seminário Teológico de Dallas. Esta distinção entre Israel e a igreja,
Em anos recentes o livro The Late isto é, sua total separação, é também
Great Planet Earthfi [O futuro do grande uma coluna da interpretação futurista da
planeta Terra], de autoria de Hal Lindsey, profecia e da escatologia dispensacio-
reivindicou ter sido traduzido para mais de Dali sta. 51 Isto significa que toda a noção
30 línguas, vendido mais de 30 milhões de de uma "lacuna" ou intervalo entre a 6?
exemplares em seus primeiros dez anos de e a 70' semana de Daniel 9:24-27 tem
publicação." Escrito para os leigos, esse li- sua qrigem nessa distinção. A alegada
vro tem trazido popularidade sem preceden- resultante dispensação da Era da Igreja
tes para o futurismo-dispensacionalista." (supostamente fora da profecia bíblica
no sentido em que nem o Antigo nem o
A maioria dos pregadores populares de Novo Testamento conhece algo acerca do
rádio e TV ao redor do mundo pertencem período da igreja) baseia-se na distinção
ao campo de interpretação profética dis- de Israel e a igreja.
pensacionalista-futurista. A abordagem dis-
pensacionalista-futurista é dominante entre Podemos ver que esta distinção entre
os cristãos conservadores de muitas igrejas Israel e a igreja é o fundamento da es-
protestantes em todos os continentes. catologia futurista e da interpretação dos
eventos do fim do tempo. Portanto, é de
O dispensacionalismo moderno de- vital importância investigar a evidência
fende tenazmente que a história desde a bíblica para esta suposta distinção.
criação até o futuro reino milenial está
dividida em sete diferentes dispensações."
Elas formam uma parte fundamental da ARGUMENTOS PARA A DISTINÇÃO
hermenêutica dispensacional-futurista de ISRAEL/IGREJA
interpretação bíblica em geral e a inter- Segundo o futurismo e o dispensacio-
pretação profética literalista pela qual ela nalismo, o termo "Israel" se refere aos
se mantém.' judeus terrestres (ou judaísmo), isto é, o
"Israel natural", e a igreja se refere ao povo
COLUNAS DA INTERPRETAÇÃO celestial. Declara um preeminente escritor
PROFÉTICA FUTURISTA dispensacionalista: "Toda esta distinção
entre Israel e a igreja baseia-se no caráter
Há três colunas essenciais do dispensa- singular da igreja. A igreja é exclusiva
cionalismo. Elas estão unidas ao futurismo: quanto à sua natureza, seu tempo e sua
(1)A distinção radical entre Israel e a igreja; relação com Israel."52
(2) a insistência em uma interpretação literal
(isto é, literalista) da Bíblia; e (3) o princípio Qualquer compreensão adequada dos
unificador da glória de Deus. 48 Elas se entre- fortalecedores fundamentos do futurismo e
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 13

sua opinião sobre Israel deve prestar plena que a Bíblia usa o termo "Israel" ela quer
atenção à relação da igreja com Israel. Afir- dizer os judeus literais, étnicos, e quando
ma-se que .a Igreja é o misterioso corpo de quer que a igreja é mencionada ela é sempre
Cristo" e o tempo da suposta dispensação uma entidade espiritual. A igreja nunca é
da Era da Igreja se estende do Pentecostes identificada com Israel, e Israel nunca é
ao rapto ou arrebatamento. 54 identificado com a igreja.
Toda a teoria do rapto pré-tribulação,"
que significa "que a igreja será arrebatada ANÁLISE BÍBLICA DA DISTINÇÃO
da Terra antes do início da tribulação"," ISRAEL/IGREJA
"origina-se na distinção entre Israel e a
igreja"". Forma uma das características Como esta importante coluna da her-
básicas da escatologia dispensacionalista- menêutica dispensacionalista-futurista se
futurista." Uma enumeração completa das comporta à luz da mensagem bíblica total?
diferenças entre Israel e a igreja foi provida Se for constatado que o Antigo e o Novo
em uma lista de vinte e quatro contrastes Testamento jamais sustentam tal distinção,
fornecida pelo pioneiro escritor dispensa- o próprio fundamento do dispensaciona-
ciónalista Lewis Sperry Chafer," fundador lismo e suas opiniões futuristas de Israel
do Seminário Teológico de Dallas. Elas são serão destruídos.
resumidas por J. Dwight Pentecost. 6° Significaria, em segundo lugar, que a•
O ponto essencial desta diferenciação projeção de eventos a serem cumpridos
é que Israel é a entidade para a qual todas por meio do "Israel natural", no futuro
as promessas do Antigo Testamento fo- próximo na Palestina, ou no futuro dis-
ram feitas. Portanto, as promessas devem tante durante o milênio na Terra, não tem
ser literalmente cumpridas com o Israel fundamento bíblico.
literal, natural, étnico — não com a igreja, Uma terceira inferência é que se a
que outros cristãos definem, baseados na separação radical de Israel e a igreja
evidência do Novo Testamento, como não se sustenta, então todo o conceito
"Israel espiritual". de uma Era da Igreja com sua lacuna ou
Este cumprimento começou a ocorrer parêntese careceria do apoio que para ele
em 1948, quando o estado de Israel foi é reivindicado.
fundado na Palestina. Estender-se-á até o Em quarto lugar, toda a idéia do "rapto
reino milenial, isto é, o milênio. "A igreja", secreto" seria rebaixada," uma vez que a
afirma-se, "não está agora cumprindo-as mesma está ligada à distinção entre Israel
em nenhum sentido literal."" Assim, Israel e a igreja.
verá todas elas cumpridas de um modo li-
teral principalmente durante o milênio que Evidentemente, os riscos são altos.
será experimentado na Terra. 62 Examinemos cuidadosamente as principais
evidências bíblicas.
Afirma-se que a igreja é uma entidade
de um tipo essencialmente "espiritual" e
as promessas feitas ao antigo Israel não se ISRAEL NO ANTIGO TESTAMENTO
aplicam à igreja. Charles Ryrie sintetiza Nossa atenção deve voltar-se para o An-
a seguir: tigo Testamento. É nele que encontramos o
Ouso das palavras Israel e igreja mostra claramente nome "Israel" pela primeira vez.
que no Novo Testamento o Israel nacional continua
com suas próprias promessas e a igreja nunca é A designação "Israel" tem várias cono-
equiparada com um assim chamado "novo Israel", tações.' Este fato em si, como veremos,
mas é cuidadosa e continuamente distinguida como é um elemento importante que vai contra
uma separada obra de Deus nesta era." a afirmação do futurismo e do dispensa-
cionalismo de que o uso da designação
Os intérpretes dispensacionalistas-fu- é especialmente uniforme ao longo do
turistas continuam insistindo que sempre Antigo Testamento.
14 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

UMA PESSOA não permanecia o fator exclusivo sobre


o qual se constituía a entidade Israel no
Para começar, "Israel" é o nome dado período pós-Êxodo. A totalidade do povo
ao patriarca Jacó: "Já não te chamarás Jacó de Israel, constituída de descendentes ét-
e sim Israel, pois como príncipe lutaste nicos juntamente com o "misto de gente"
com Deus e os homens e prevaleceste" de descendentes não-étnicos, foi chamada
(Gn 32:28). Sua luta "com Deus", e "com a adorar a Deus (Êx 4:22, 23). Eles foram
o anjo" (Os 12:3-4), "simboliza a nova
designados "Israel, seu povo" em Êxodo
relação espiritual de Jacó com Jeová e re-
18:1, e, posteriormente, como "a congrega-
presenta o reconciliado Jacó por meio da ção do Senhor" (Nm 20:4). Assim, o termo
graça perdoadora de Deus."" "Israel" parece ser mais inclusivo do que
Resumindo, o uso inicial do termo mera afiliação étnica.
"Israel" na Bíblia faz dele um termo para
uma pessoa, um indivíduo, e não um povo "NAÇÃO SANTA"
ou uma nação." Jacó é caracterizado e
identificado por meio de uma relação de fé Deus chama Israel para ser uma "nação
com Deus. Não há nada na primeira parte santa" (Êx 19:6). O termo "nação" (gôy)
da Bíblia que torne Israel exclusivamente não é típico de Israel no Antigo Testamento
ou regularmente um termo para uma nação (cf. Dt 4:6-8). O termo típico usado para
ou povo. Não há também nenhuma ênfase o povo de Deus no Antigo Testamento é
sobre linhagem fisica ou étnica. "Israel" é "povo" ( `arn).
um termo para uma pessoa que expressou Israel, porém, é chamado para ser uma
urna verdadeira resposta de fé e relação de "nação (gôy). Isto é assim por causa da
fé com o Deus da aliança. soberana eleição de Deus e não por causa
Essa primeira conexão entre "Israel" e de qualquer afiliação étnica ou mera linha-
fé dificilmente é acidental. Parece preparar gem.69 Israel é um povo especial em sua
o terreno para o que deve seguir-se no eleição e não um "povo 'secular".
Antigo Testamento. Israel é uma comunidade de fé e a fé tor-
na Israel essa comunidade especial." Nesse
DESCENDENTES DE JACÓ Israel "o que importa não é a afiliação
No livro de Gênesis há 43 utilizações étnica; o que importa não é o natural, mas
do nome "Israel". Destas, 29 se referem a muito singularmente seu relacionamento
Jacó, um indivíduo. Os usos restantes men- com Jeová'"'. Aqui nós encontramos mais
cionam os "filhos de Israel" no sentido dos uma vez o aspecto da fé como a noção fim-
"filhos de Israel/Jacó". "As tribos de Israel" damental do verdadeiro Israel de Deus.
são usadas duas vezes (Gn 49:16, 28). Todo este elemento de fé está radicado
No livro de Êxodo o patriarca Jacó é em Abraão, o pai dos fiéis, que é chamado
mencionado duas vezes pelo nome "Is- da Mesopotâmia para Canaã (Gn 12:1-3).
rael" (Êx 6:14; 32:13). Em 41 exemplos, Aqui também a promessa lhe é dada de
começando com Êx 4:22, o nome "Israel" que ele seria uma "nação" (gôy). O termo
é empregado para o Israel a ser redimido "nação" (gôy) é usado para "descrever um
da escravidão egípcia." Consistia na maior povo em termos de sua afiliação política
parte dos descendentes étnicos de Jacó, e, e territorial""
respectivamente, de Abraão. O termo amplamente usado "povo"
(`am) para o antigo Israel é uma expres-
COMPOSIÇÃO DE DESCENDENTES ÉTNICOS são típica para "consangüinidade e uma
E UMA "MULTIDÃO MISTA" paternidade racial comum" ". O uso de
ambos os termos para o antigo Israel (na-
No Êxodo os israelitas foram acom- ção/povo) significa que Israel consistiria
panhados por "um misto de gente" (Êx de uma população composta de relação de
12:38). Isto revela que sua origem étnica sangue e povo; ainda que faltando a relação
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 15

de sangue, partilharia a mesma fé. Desse por bem o castigo da sua iniqüidade, então,
modo, Israel é urna entidade espiritual em me lembrarei da minha aliança com Jacó,
harmonia com o desígnio de Deus para e também da minha aliança com Isaque, e
Abraão (cia 12:1-3; 17:4,5) e, assim, Israel também da minha aliança com Abraão, e da
saiu do Egito tanto como descendentes étni- terra me lembrarei" (Lv 26:40-42).
cos quanto como uma "multidão mista" ou
um "misto de gente". O verdadeiro Israel Esta inequívoca declaração indica que
do passado deveria ser uma comunidade de a promessa da terra não era incondicional.
fé onde a linhagem étnica jamais fosse o Estava condicionada à obediência de Israel
critério exclusivo para pertencer a Israel. ao Senhor. Somente um Israel obediente e
fiel reteria a posse da terra.
COMUNIDADE DA ALIANÇA A terra mencionada nas alianças feitas
com Abraão, Isaque e Jacó não é prometida
No monte Sinai, Deus fez uma aliança incondicionalmente aos descendentes dos
com Israel para que esse redimido Israel patriarcas, porque é parte da aliança abraâ-
da fé pudesse permanecer em uma relação mica (Gn 12:7; 26:5, 6) que em si mesma é
contratual de fé com Deus (Ex 19-24). Isra- condicional no que depende da obediência
el é uma comunidade religiosa ou de fé. humana (Gn 12:1; 12:7; 15:9, 10; 17:1, 9;
Israel é, ao mesmo tempo, uma comu- 18:19; 22:17-19; 26:5). Ninguém negará
nidade política que tinha de funcionar ao que a aliança abraâmica está ligada a uma
lado de outras nações do mundo antigo. verdadeira relação de fé com Deus (cm 15:6)
Nesta dupla função como uma entidade que foi demonstrada por Abraão."
religiosa e política/nacional Israel deveria
experimentar todas as promessas da aliança UMA PARTE DA NAÇÃO
enquanto permanecesse fiel ao Senhor (Dt
26-28). Em inúmeras passagens do Antigo
Testamento a palavra "Israel" não é usada
• Toda promessa da aliança já feita por como uma designação para toda a nação
Deus é condicional, dependendo de Israel das doze tribos. Alguns exemplos bastam
guardar a aliança com seu Senhor (Lv 26-27; para demonstrar esse uso restrito.
Dt 26-28)? As promessas da aliança são de-
pendentes da fidelidade do povo da aliança. Em 1 Samuel 17:52 e 18:16, "Israel [é]
As promessas da aliança não deveriam vir claramente usado para denotar uma entida-
automaticamente• a Israel segundo a carne, de diferente de Judá" 77. Há 48 ocorrências
•ou segundo uma linhagem étnica. Essas da palavra "Israel" em 2 Samuel como uma
promessas da aliança permaneciam depen- designação do território do Reino do Norte,
dentes da fidelidade de Israel ao seu Deus. sem incluir o Reino de Judá."
O que importa é uma relação de fé baseada
na aliança e não na origem étnica. Uma espécie semelhante de distribui-
ção foi anotada por E Anderson e D. N.
Freedman no livro de Amós. Eles obser-
OBEDIÊNCIA À ALIANÇA: PRÉ-REQUISITO vam que quando o nome "Israel" aparece
PARA A PROMESSA DA TERRA no livro de Amos, se refere ao Reino
Um aspecto de fé e obediência é espe- do Norte," exceto em Amos 9:7 onde
cificamente ressaltado nas bênçãos e mal- parece se referir a Israel em seu sentido
dições de Levítico 26 e já ligado à aliança coletivo. Mesmo se alguém discorda de•
feita com Abraão, Isaque e Jacó. Se Israel algumas passagens, é certo que "Israel"
persistisse na desobediência ao Senhor, en- realmente se refere muitas vezes ao Reino
tão o Senhor levaria Israel para o exílio e "a do Norte.
terra descansará" (v. 34). "Mas se [o Israel Em 33 utilizações das 43 do livro de
no exílio] confessarem a sua iniqüidade e a Oséias, "Israel" é compreendido como uma
iniqüidade de seus pais,... se o seu coração designação para o Reino do Norte. 8° Suge-
incircunciso se humilhar, e• tomarem eles re-se que em cerca de 564 usos no Antigo
16 / PAROUSIA - lõ SEMESTRE DE 2007

Testamento "Israel" se refere ao Reino do de Deus desde o tempo em que o Israel


Norte e, em outras utilizações, se refere nacional apostatou.
ao Reino do Sul.si Outras vezes, pode se
referir a ambos os reinos. SUMÁRIO
A palavra Israel é usada em vários
REMANESCENTE FIEL
sentidos no Antigo Testamento. Primeiro,
Houve tempo em que Israel como é usada para um indivíduo, Jacó, que é
entidade religiosa e nacional apostatou e chamado por outro nome, "Israel", para
participou do culto religioso pagão. Como assinalar sua experiência de conversão e
resultado, um remanescente de fé tomou- sua nova relação espiritual com Deus.
se o verdadeiro Israel de Deus no Antigo
Testamento. Por exemplo, no nono século, Em segundo lugar, a designação "Is-
o remanescente israelita fiel consistia de rael" é usada para o Israel do 'Èxodo, que
Elias e dos sete mil que permaneceram leais foi escravizado no Egito e redimido por
a Deus e à sua aliança dentro de uma nação Jeová para adorá-lo como uma comunidade
israelita apóstata (1Rs 19:18). religiosa da aliança. Esse Israel incluía a
"multidão mista" e não é meramente um
A experiência de Elias revela que o ver- "Israel natural".
dadeiro Israel é "um remanescente leal à fé
da aliança jeovística"". Esse remanescente Em terceiro lugar, o antigo Israel é de-
fiel não dobraria os joelhos a Baal. Desse signado como "nação" (gôy em hebraico),
tempo em diante, o verdadeiro Israel de indicando que é constituído de pessoas que
Deus é uma entidade religiosa de pessoas não estão limitadas à consangüinidade, ou
fiéis e leais, mesmo que haja também o relação de sangue, mas que se propunha a
Israel infiel como uma entidade nacional. ser uma "nação santa". O que se leva em
O último é um Israel apóstata. O Israel conta é uma relação de fé e o caráter espi-
apóstata não herdará as promessas da alian- ritual do povo.
ça de Deus, porque ele não é mais fiel ao Quarto, "Israel" como uma designação
seu Deus da aliança. Isto é explicitamente pode ser usado para a nação como um
expresso na fórmula "Não-Meu-Povo" de todo, ou somente para o Reino do Norte,
Oséias 1:9. ou apenas para o Reino do Sul, ou para am-
No livro de Amós a descrição é a mes- bos como um reino unido. Israel é também
ma. O "restante de José" do qual Amós um termo que é empregado para a nação
profetizou (Am 5:15) é um remanescente apóstata que é rejeitada por Deus e a res-
fiel de Israel. O Israel nacional ou natural peito da qual Deus diz: "Não-Meu-Povo"
é rejeitado e não é o remanescente." (Os 1:9). Eles violaram a aliança de Deus
e se desqualificaram para ser o seu povo.
Isaías afirma explicitamente que o rema- Esse Israel é rejeitado por Deus e não será
nescente de fé do futuro será uma "santa abençoado com as promessas da aliança.
semente" (Is 6:13) que "estão inscritos em
Jerusalém, para a vida" (4:3). Eles "herda- Quinto, Israel é uma designação usada
rão as promessas da eleição e formarão o para um remanescente fiel que sai do Israel
núcleo de uma nova comunidade de fé" (Is nacional ou vive dentro/ao lado do Israel
10:20s; 28:5s; 30:15-17)." nacional. Esse remanescente de fé herda
todas as promessas da aliança de Deus. Este
Ezequiel afirma que esse remanescente ponto de vista é apoiado pela aliança abraâ-
fiel terá um "coração novo" e um "espírito mica (veja principalmente On 17:10, 14;
novo" (Ez 11:16-21). O tema remanescente 18:19; 22:15-18; 26:4-5) onde a promessa
é usado nos profetas do Antigo Testamento da aliança está ligada repetidamente à obe-
somente em um sentido religioso-teológico diência que mantém viva a promessa.
e nunca em um sentido étnico-nacional.
Resumindo, no Antigo• Testamento o Existem predições que revelam que
remanescente de fé é o verdadeiro Israel os crentes gentios serão incorporados a ,
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA /17

esse remanescente israelita fiel (Is 46:3-4; IGREJA: HERDEIRA DAS PROMESSAS DO
45:20; 56:6-8; 66:19). "A descrição total do ANTIGO TESTAMENTO
remanescente escatológico do Antigo Tes-
tamento revela que as bênçãos da aliança O problema da herança das promessas
de Israel como um todo serão cumpridas, do Antigo Testamento pela igreja é de
não em um Israel nacional incrédulo, mas grande importância. Vern S. Poythress
somente naquele Israel que é fiel a Jeová e suscita várias interrogações decisivas: "De
confia em seu Messias."" quais promessas do Antigo Testamento
Cristo é herdeiro? Ele é um israelita?
Em resumo, o Antigo Testamento indica Ele é a descendência de Abraão? Ele é o
que a afirmação dispensacional-futurista
herdeiro de Davi?"" Ele responde citando
que sustenta que somente o "Israel natu- 2 Coríntios 1:20: "Porque quantas são
ral"" experimentará as promessas feitas
as promessas de Deus, tantas têm nele
por Deus não pode harmonizar-se com a [Cristo] o sim." A frase, "quantas são as
evidência bíblica". A evidência vétero-
promessas de Deus", significa todas as
testamental revela claramente desde o
promessas de Deus. Elas encontram seu
princípio que somente um povo fiel herdará "sim" em Cristo.
as promessas concernentes à terra feitas na
aliança abraâmica.
2 CORINTIOS 1
ISRAEL NO Novo TESTAMENTO Nenhuma das "promessas de Deus"
Como a palavra "Israel" é usada no feitas no Antigo Testamento estão fora
de Cristo. Ele é o "sim", o foco e cum-
Novo Testamento? Os dispensacionalistas-
futuristas afirmam que a distinção radical primento de todas as promessas feitas no
passado. 91 Este texto provê uma resposta
entre Israel como um povo literal e a igreja
como um povo espiritual é mantida ao lon- cristocêntrica à questão da herança das
go do Novo Testamento. Charles Ryrie se promessas do Antigo Testamento. Tal res-
refere ai Coríntios 10:32 em sua afirmação posta cristocêntrica do Novo Testamento
de que "o Israel natural e a igreja são tam- vai contra o argumento clispensacionalista-
futurista que vincula as promessas a um
bém contrastados no Novo Testamento'.
Israel étnico e literal. 92
Este texto-prova precisa de alguma atenção
e lidaremos com ele posteriormente. É feita uma segunda pergunta: "Ora,
Hans LaRondelle rebate o argumento de quais destas promessas são os cristãos
de Ryrie a seguir: herdeiros em união com Cristo?" Segui-
mos aqui os pontos incisivos feitos por
A questão não é: "O Novo Testamento contrasta Poythress, o qual recorre às passagens dos
a igreja com o Israel natural?" mas antes: "A igreja escritos do apóstolo Paulo ao responder a
é chamada 'o Israel de Deus' no Novo Testamento este assunto.
e ela é ali apresentada como o novo Israel, o único
herdeiro de todas as prometidas bênçãos da aliança
de Deus para o presente e para o futuro?" 89 COLOSSENSES 2

Se a igreja for identificada no Novo Em Colossenses 2:9-10 Paulo afirma


Testamento como o Israel de Deus, então que os seguidores de Cristo são "com-
a principal coluna do dispensacionalismo- pletos" nele. Diz o verso 10: "Nele vocês
futurismo estará sem fundamento também têm sido feitos completos" (NASB).
no Novo Testamento. Nossa ligação com Cristo nos provê de
completude ou inteireza em Cristo, urna
Dois problemas exigem consideração. inteireza que inclui também todas as
Um é a identificação da igreja como o Israel promessas das quais Cristo é herdeiro.
de Deus. O outro é se. .a igreja herda todas Por meio de Cristo todos os crentes, não
as promessas do Antigo Testamento. Abor- importa sua origem nacional ou étnica,
18 / PAROIJSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

ROMANOS 8 Abraão e herdeiros segundo a promes-


sa." A idéia aqui é que aqueles que são
Em Romanos 8:32 Paulo enfatiza mais de Cristo são também "herdeiros" das
especificamente: "Aquele que não poupou promessas dadas por Deus ao seu povo
o seu próprio Filho, antes, por todos nós o
no Antigo Testamento.
entregou, porventura, não nos dará gracio-
samente com ele todas as coisas?" Deus nos A carta aos Gaiatas afirma que "não
dá com Cristo "todas as coisas", inclusive pode haver judeu nem grego; nem escra-
as promessas feitas ao seu povo no Antigo vo nem liberto; nem homem nem mulher;
Testamento. porque todos vós sois um em Cristo Je-
As três palavras, "todas as coisas" são sus" (G13:28). A distinção entre israelita
e não-israelita, ou judeu e gentio, com
intencionalmente compreensivas. "Todas
respeito à salvação é removida. Todos
as coisas" inclui tudo e não omite nada. Se
nada é omitido, então em Cristo e com Cris- os seres humanos partilham da mesma
salvação e promessas feitas àqueles que
to são dadas a todos os crentes "todas as
coisas", inclusive as promessas previamen- são o povo de Deus.
te feitas a Abraão e seus descendentes. Se é este o caso, quem é a descen-
Retornamos a um texto adicional de dência/semente de Abraão? É a des-
Romanos 8 onde este tema é desenvolvido cendência/semente de Abraão apenas o
ainda mais explicitamente. Insiste Paulo nos judeu étnico? De maneira nenhuma. A
versos 16-17: "O próprio Espírito testifica descendência/semente de Abraão consiste
com o nosso espírito que somos filhos de de crentes judeus e gentios; aqueles que
Deus. Ora, se somos filhos, somos também aceitaram a Cristo como seu Senhor e
herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros Salvador. A descendência/semente de
com Cristo." Está aqui uma afirmação quan- Abraão são os que pertencem a Cristo
to a quem são os "filhos de Deus". e não aqueles que são o "Israel natural"
como querem sustentar os dispensacio-
Os cristãos são "filhos de Deus". Mas nalistas-futuristas.
os crentes não são filhos órfãos ou filhos
deserdados. Somos filhos com todos os É salientado corretamente que "o Israel
direitos e privilégios de filhos adotivos. E de Deus" mencionado em Gálatas 6:16 "é
isto significa que aqueles que pertencem uma qualificação profundamente religio-
a Cristo são "herdeiros de Deus". Como sa" que não pode ser restrita aos israelitas
filhos de Deus somos "co-herdeiros com étnicos." Um comentarista recentemente
Cristo." Isto quer dizer que herdamos o que resumiu o significado da expressão "o
ele [Cristo] herda." Todos os crentes em Israel de Deus" como segue:
Cristo tornam-se herdeiros das promessas A expressão [Israel de Deus] não signi-
do Antigo Testamento por meio dele que é fica os incrédulos membros do povo judeu,
o herdeiro dessas promessas. igualmente não significa o povo judeu em sua
totalidade e nem mesmo os cristãos judeus que
Assim, não há possibilidade de separar o não se converteram, mas todos os crentes em
"Israel natural", do qual é dito ser terrestre, Cristo sem levar em consideração a sua origem
da igreja, que é constituída pelos "filhos de étnica ou religiora.96
Deus" na Terra (embora os dispensacionalis-
tas afirmem serem "celestiais"). O verdadeiro Os membros crentes da Igreja são o
Israel de Deus é co-herdeiro de Cristo. "Israel de Deus" e os herdeiros de todas as
promessas por meio de Jesus Cristo, com
GAIATAS 3 E 6 quem eles são co-herdeiros.
Paulo provê idéias adicionais ao seu
argumento. Ele declara de modo ine- EFÉS1OS 2 E 3
quívoco em Gaiatas 3:29: "E, se sois Em Efésios o apóstolo continua susten-
de Cristo, também sois descendentes de tando que há uma integração dos gentios
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA 7 19

na comunidade dos fiéis. Os gentios, que foram quebrados "pela sua incredulidade"
outrora estavam "sem Cristo,... e estranhos (v. 20). O que importa é o assunto de fé,
às alianças da promessa", não são mais "es- não afiliação étnica. Não-israelitas, isto é,
trangeiros e peregrinos, mas concidadãos gentios, foram enxertados e são parte da
dos santos, e sois da família de Deus" (Ef oliveira "somente pela fé" (v. 20, RSV).
2:12, 19). A descrença mantém tanto judeus quanto
Em Efésios 3:5-6 Paulo reafirma que os gentios separados da oliveira cultivada.
crentes gentios e israelitas são juntos her- Mas os ramos de israelitas incrédulos, que
deiros das promessas de Deus, "os gentios foram quebrados, podem ser outra vez
são co-herdeiros, membros do mesmo corpo enxertados em sua oliveira cultivada, "se
e co-participantes da promessa em Cristo não permanecerem na incredulidade" (v.
Jesus por meio do evangelho" (v. 6). 23). A idéia é que os israelitas físicos po-
dem ser readotados como crentes na nova
Esta descrição coerente de Paulo em comunidade da fé.
Romanos, Coríntios, Gálatas, Colossenses A comunidade da fé, simbolizada pela
e Efésios não apóia a distinção entre um oliveira cultivada, da qual os ramos de
"Israel natural" e a igreja, a qual é cons- judeus incrédulos foram removidos e os
tituída de judeus e gentios convertidos, e ramos de crentes gentios foram enxertados
ambos, por meio de Cristo, são juntamente consiste somente de crentes, crentes judeus
co-herdeiros das promessas divinas do e crentes gentios. Dentro deste contexto, a
Antigo Testamento. 97
frase "todo o Israel será salvo" 99 se refere a
todos os crentes judeus e gentios que serão
PARÁBOLA DA OLIVEIRA salvos (v. 26). 1"
A famosa seção de Romanos 9-11, que Precisamente como os gentios são en-
chega ao ponto culminante com a descrição xertados durante todo o período de tempo
da oliveira (Rm 11:13-24), contém a famo- desde o Novo Testamento até a segunda
sa sentença "todo o Israel será salvo" (Rm vinda, assim os crentes judeus são en-
11:26). Isto também enfatiza a integração xertados durante a mesma era. A mesma
de israelitas e gentios. qualificação para ser enxertado é, a saber,
Os dispensacionalistas modernos têm fé em Jesus Cristo, que é exigida de judeus
interpretado a frase "todo o Israel será e gentios. Não há nenhuma distinção para
salvo" como se referindo a uma conversão judeus e gentios no caminho da salvação. 101
em massa de todos os judeus pouco antes Também não há nenhum "caminho espe-
da volta de Cristo. 98 Este é o significado da cial" de salvação para os judeus serem
passagem? Tal sentido supõe que "Israel" salvos sem Cristo.
aqui é o Israel étnico, literal. Paulo já declarou em Romanos 9:6 que
É imperativo considerarmos mais cuida- "nem todos os de Israel são, de fato, israe-
dosamente a parábola da oliveira encontrada litas" e no verso 7 ele insiste que "nem por
em Romanos 11:17-24. O quadro é de duas serem descendentes de Abraão são todos
oliveiras, uma cultivada, a outra agreste. Os seus filhos". No verso 27 ele enfatiza que
ramos dos judeus descrentes são cortados do "somente um remanescente deles [filhos
tronco da oliveira cultivada de Israel. Então de Israel] será salvo" (NRSV). Portanto, a
os ramos dos crentes gentios da oliveira indagação é se há uma contradição da parte
brava são enxertados, resultando uma árvore do apóstolo Paulo entre estas declarações
de crentes judeus e gentios. e 4 declaração de Romanos 11:26 "todo
o Israel será salvo". Existe contradição
Deus não rejeitou o seu povo Israel, somente se alguém propõe que "todo o
diz Paulo (Rm 11:1). "No tempo de hoje, Israel" de Romanos 11:26 se refere ao
sobrevive um remanescente segundo a Israel literal no sentido de judeus étnicos.
eleição da graça" (v. 5). Ele insiste que Se alguém segue o contexto de Romanos
os ramos naturais de israelitas étnicos 9-11, então a descrição de "todo o Israel"
20 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

referindo-se a todos os verdadeiros crentes defensor deste ponto de vista, argumenta


remanescentes de origem judaica e gentíli- a eguir: "As deduções teológicas da pro-
ca está assegurada. messa de terra a Israel têm-se mostrado
fundamentais no propósito escatológico de
SUMÁRIO Deus para o seu antigo povo."'"
Podemos resumir a descrição do Novo Desejamos manter novamente que nos-
Testamento. A convergência coerente da sas discussões destes assuntos exegéticos
evidência neotestamental aponta em uma só da Bíblia não devem de modo algum ser
direção. O "Israel de Deus" é a igreja, a qual compreendidas ou interpretadas como
é a comunidade de crentes, que é constituída negando ao estado de Israel o direito de
de judeus e gentios convertidos e crentes.'" existir. O problema aqui é de interpreta-
Juntos eles são os herdeiros por meio de ção bíblica e não de direito político ou
Cristo de todas as promessas da aliança já nacional.
feitas no Antigo Testamento. Juntos eles são
o corpo de Cristo em unidade total. O PROBLEMA DO LITERALISMO
Não há nenhuma dispensação da Era da Uma breve consideração da compreen-
Igreja para os gentios e uma dispensação são dispensacional/literalista do cumpri-
para os judeus em seguida a ela. Em Cristo mento das profecias do Antigo Testamento
todas as coisas são unidas. O total e pleno faz-se necessária. No dispensacionalismo,
corpo de Cristo, do qual Cristo é a cabeça bem como no futurismo, a interpretação
não pode ser fragmentado em corpos se- "literal" ou "literalista" e "literalismo" é
qüenciais de igreja e israelitas.'" Cristo fundamental. Escreve J. Dwight Pentecost:
tem apenas um corpo de crentes judeus e "a consideração primária em relação à in-
gentios. Resumindo, o Antigo e o Novo terpretação da profecia é que, como todas
Testamento concordam que o verdadeiro as outras áreas da interpretação bíblica,
Israel de Deus são crentes, não se levando ela deve ser interpretada literalmente." 007
em consideração a origem étnica ou a iden- Charles Ryrie mantém que "o dispensa-
tidade nacional.'" cionalismo é o único sistema que pratica
consistentemente o princípio literal de
PROMESSAS DE TERRA interpretação." 08 Continua ele:
NO ANTIGO TESTAMENTO A interpretação literal das Escrituras leva
naturalmente a uma segunda característica — o
Precisamos investigar outro importante cumprimento literal' das profecias do Antigo Testa-
problema. Como devem ser consideradas as mento. Este é o princípio básico da escatologia pré-
promessas de terra ou territoriais feitas por milenial dos [dispensacionalistas-filturistas]."
Deus a Israel? Podem elas em algum sentido
ainda ser válidas para o "Israel natural", isto Iria muito além dos limites do nos-
é, para os judeus? É a promessa da terra de so propósito empenhar-nos em uma
Canaã, feita a Abraâ'o e aos outros patriarcas, discussão detalhada sobre a exatidão e'
uma promessa eterna e irrevogável aos seus adequação do princípio hermenêutico de
descendentes étnicos para sempre? interpretação "literal consistente" ou "li-
Os dispensacionalistas defendem cla- teralismo consistente"."° Isto já foi feito
ramente que todas as promessas feitas a por outros e não é preciso acrescentar
Israel no passado devem ser cumpridas com detalhes aqui novamente."
os descendentes literais de Israel na Terra. O "literalismo consistente" sustenta
Desse modo, a fundação do Estado de Israel que Deus prometeu a Abraão que seus
no ano de 1948, as guerras subseqüentes descendentes herdariam "toda a terra de
em 1956 e 1967, e as expansões territoriais Canaã, em possessão perpétua" (Gn 17:8;
do Estado de Israel devem ser todas consi- cf. 12:7; 24:7). 112 Conclui-se que a aliança
deradas como cumprimentos das profecias abraâmica era um "pacto incondicional" 3,
bíblicas.'" John F. Walvoord, importante que "tem a garantia de Deus de que Ele efe-
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 21

tuará a necessária conversão que é essencial cendência no decurso das suas gerações."
ao seu cumprimento." 4 Abraão e seus descendentes podem violar
Para nosso propósito é muito mais a aliança. Se eles podem "guardá-la",
importante investigar os princípios funda- então ela é condicional à sua obediência.
mentais de interpretação profética que a No mesmo capítulo, no final do discurso
própria Bíblia usa. Em 2 Pedro 1:20-21 nos de Deus é feita referência ao fato de que a
é dito: "Sabendo, primeiramente, isto: que aliança pode ser "quebrada" (v. 14). Aqui
nenhuma profecia da Escritura provém de outra vez, como em "guardar" assim em
particular [`privada", KJV; NICJV] elucida- "quebrar", Abraão e seus descendentes
ção; porque nunca jamais qualquer profecia podem anular as promessas da aliança.
foi dada por vontade humana; entretanto, A linguagem de "guardar" e "quebrar" é
homens [santos] falaram da parte de Deus, típica das alianças do Antigo Testamento,
movidos pelo Espírito Santo." que são condicionais.
Pedro não está anunciando uma "inter- Isto toma-se mais explícito em Gênesis
pretação literal consistente" ou "literalismo 18. Deus, em conversa com Abraão, diz que
consistente", mas uma interpretação sob o Ele escolheu a Abraão "para que ordene a
controle do Espírito Santo, que é o doador seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de
de todas as Escrituras. Assim, os interesses que guardem o caminho do Senhor e prati-
"particulares" ou "privados" de alguém na quem a justiça e o juízo; para que o Senhor
interpretação permanecem sob o controle da faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu
Bíblia, que é o seu próprio intérprete. 115 respeito" (v. 19). Aqui está uma afirmação
clara do Senhor de que a aliança permanecerá
"É o princípio do 'fiteralismo consis- efetiva somente sob condição de obediência
tente' o método legítimo de interpretar as de Abraão e seus descendentes.
profecias bíblicas?" 6 Como intérpretes
cristãos não podemos interpretar o Antigo Em Gênesis 22:16-18 as bênçãos pro-
Testamento como se o Novo Testamento metidas a Abraão serão suas porque "obe-
não existisse. Como intérpretes responsá- deceste à minha voz" (v. 18). As operações
veis da Bíblia em sua inteireza devemos da aliança são dependentes da obediência
descobrir como a Bíblia revela o cumpri- a Deus. Em Gênesis 26:3-5 Deus se refere
mento da profecia.' 17 explicitamente à promessa "a tua descen-
dência darei todas estas terras" e a outras
promessas da aliança. Elas serão viabili-
CONDICIONALIDADE zadas "porque Abraão obedeceu à minha
DA ALIANÇA ABRAÂMICA palavra e guardou os meus mandados,
Vejamos se a aliança abraâmica é os meus preceitos, os meus estatutos e as
descrita no livro de Gênesis como incon- minhas leis" (v. 5).
dicional com respeito à parceria humana Esta série de textos é coerente. Eles
na obrigação do contrato. Apóia o livro de revelam que a aliança abraâmica não era
Gênesis a noção difundida de que a aliança incondicional." 8 A condicionalidade da
abraâmica é incondicional? Garante ele que aliança abraâmica repousa sobre a fide-
as promessas da aliança devem ser dadas lidade do parceiro humano. Incidental-
literalmente à semente física de Abraão? O mente, Ellen G. White fala das "condições
livro de Gênesis provê uma clara resposta do concerto feito com Abraão." 9 Isto
a estas interrogações essenciais. significa que não há nenhuma evidência de
Há várias passagens em Gênesis que in- que um cumprimento literal ou literalista
dicam que a aliança com Abraão não estava das promessas da aliança é ordenado inde-
incondicionalmente ligada aos descenden- pendentemente da relação de fé daqueles
tes físicos de Abraão. A aliança depende da a quem a aliança foi feita.
fidelidade de Abraão e seus descendentes. A insistência do dispensacionalismo
Em Gênesis 17:9 Deus dá o seu encargo: no "literalismo consistente" força um
"Guardarás a minha aliança, tu e a tua des- significado sobre o texto contra o qual o
22 / PAROIJSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

contexto bíblico se opõe. Não há nenhuma tamento. Certamente Deus prometeu na


declaração em parte alguma do Antigo Tes- aliança com Davi: "Farei levantar depois
tamento em que Deus garantiria ao Israel de ti o teu descendente" (2Sm 7:12), e "a
natural, literal "a conversão necessária tua casa e o teu reino serão firmados para
que é essencial ao seu cumprimento'." 20 . O sempre" (v. 16). Isto é repetido em várias
princípio em ação é que aqueles que são da partes do Antigo Testamento (2Sm 23:5; Si
fé são a semente de Abraão (G1 3:7). Não 89:3-4, 26-28, 34; cf. Is 55:3-4).
há nenhum apoio para o ponto de vista de Antes de considerarmos a evidência
que os de descendência étnica são o verda- bíblica para a condicionalidade da aliança
deiro Israel, e que eles seriam convertidos davídica, é importante que analisemos
em massa no reino milenial ou em alguma a principal passagem encontrada em
outra ocasião. "Os da fé é que são filhos 2 Samuel 7:8-16. Estudantes das Es-
de Abraão" (013:7) "e herdeiros segundo crituras têm reconhecido que há duas
a promessa" (v. 29). partes na aliança. 124 A primeira parte tem
Escreve Ellen White: "Todos os que promessas a serem cumpridas durante a
por meio de Cristo devessem tornar-se existência de Davi (2Sm 7:8-11a). Estas
filhos da fé, seriam contados como se- consistem de matérias que ocorreriam
mente de Abraão; eram herdeiros das pro- antes da morte de Davi: um grande nome
messas do concerto; corno Abraão eram (v. 9); um lugar para o seu povo (v. 10),
chamados a guardar e tornar conhecidos e descanso (v. 11).
ao mundo a lei de Deus e o evangelho A segunda parte da aliança está separada
de seu Filho." 2 ' Não há aqui nenhuma da primeira pela declaração: "o Senhor te
restrição quanto à afiliação étnica ou uma faz saber" (v. 1 lb), e por uma mudança
derivação natural. de discurso na primeira pessoa (v. 8-11a)
O "literalismo consistente" revela que para discurso na terceira pessoa (v. 12-16).
ele sobrepõe às Escrituras um princípio Além disso, há uma clara afirmação de
que parece estranho ao significado pleno que as promessas dadas nos versos 12-16
e literal do texto dentro do seu próprio devem entrar em vigor no futuro: "Quando
contexto bíblico.'" teus dias se cumprirem e descansares com
teus pais" (v. 12a). As promessas a serem
cumpridas depois da morte de Davi consis-
CONDICIONALIDADE tem de: um descendente (v. 12b, 16); um
DA ALIANÇA DAVÍDICA trono eterno (v. 13, 16); e um reino eterno
A afirmação a favor do "literalismo (v. 12c, 16).
consistente" é feita também para a aliança Toda a evidência bíblica deve, ser
davídica. Está aqui uma declaração funda- considerada quando se deseja encontrar
mental de um futurista: uma resposta para a questão da condicio-
Segundo os estabelecidos princípios de interpreta- nalidade da aliança davídica. Há ampla
ção, a aliança davídica demanda um cumprimento evidência de que Deus assumiu um com-
literal. Isto significa que Cristo deve reinar sobre promisso divino de cumprir a aliança.
o trono de Davi na Terra e sobre o povo de Davi Significa isto, porém, que a aliança deve
para sempre. ser literalisticatnente cumprida sem levar
em consideração o relacionamento de fé
E claro que a aliança davídica é tam- do parceiro humano na aliança? Há várias
bém compreendida por muitos hoje como passagens no Antigo Testamento que res-
incondicional. pondem a esta indagação.
A conclusão de que a aliança davídica O Salmo 132:11-12 se refere à aliança
é totalmente incondicional e tem de ser davídica. Aqui ela é vista como depen-
literalisticamente cumprida baseia-se em dente da seguinte condição: "Se os teus
uma interpretação unilateral do Antigo filhos guardarem a minha aliança e o
Testamento, para não falar do Novo Tes- testemunho que eu lhes ensinar, também
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 23
os seus filhos se assentarão .para sempre o Israel étnico e literal, com os judeus? Ou
no teu trono" (v. 12). a Bíblia apóia a conclusão de que o "novo
O tema da condicionalidade da aliança Israel" de crentes judeus e gentios herdam
davídica é mantido em Salmo 89:30-32: as promessas de terra?
"Se os seus filhos desprezarem a minha lei
e não andarem nos meus juízos, se violarem O TESTEMUNHO DE CRISTO
os meus preceitos e não guardarem os meus
mandamentos, então, punirei com vara as No Sermão da montanha Cristo apre-
senta a beatitude: "Bem-aventurados os
suas transgressõe"s:.." A condicionalidade
mansos, porque herdarão a terra" (Mt
da aliança davídica é mantida no Antigo
5:5). Hans LaRondelle declara que duas
Testamento com o condicional "se".'" O
aspecto condicional da aliança davídica é conclusões precisam ser tiradas: (1) nesta
aqui estabelecido como indiscutível. bem-aventurança Jesus Cristo designa toda
a Terra aos seus seguidores espirituais. Em
Deus seria capaz de cumprir a aliança outra bem-aventurança o reino dos céus é
feita com Davi somente para aqueles que estendido aos pobres de espírito: "Bem-
mantém um relacionamento espiritual com aventurados os humildes de espírito, por-
Ele.'" Considerando a condição de fideli- que deles é o reino dos céus" (v. 3). Jesus
dade ao testemunho de Deus, a conclusão prescreve a herança do Céu e da Terra aos
dos dispensacionalistas de que "Cristo deve mansos e aos humildes de espírito. (2) A
reinar sobre o trono de Davi na Tetra e sobre promessa original feita ao fiel Abraão é
o povo de Davi para sempre" dificilmente é expandida para a igreja a fim de incluir a
fiel ao próprio testemunho bíblico. Terra renovada.'"
A evidência bíblica leva o estudante Este ponto de vista neotestamental ba-
cuidadoso da Bíblia a concluir que o seia-se, é claro, no Antigo Testamento. O
"literalismo consistente" do dispensacio- salmista já havia declarado no Salmo 37:11,
nalismo não pode ser reconciliado com o 29 que os "mansos" e os "justos" herdariam
testemunho interno da Bíblia. O "literalis- a "terra". O termo para "terra" aqui (como
mo consistente" é um sistema externo que nas promessas originais feitas a Abraão) é
é sobreposto à Bíblia e não permite que expresso pelo termo hebraico 'erets. ,Este
a Bíblia fale em suas próprias palavras. termo hebraico tanto pode ter o significado
Portanto, o dispensacionalismo parece ser de "terra" [território] quanto de "terra" 28
um sistema que impõe significados à Bíblia no sentido mais comum.
que estão em desarmonia com o simples e
claro testemunho das Escrituras. Quando Cristo fala da herança da "ter-
ra" Ele salienta o significado mais amplo
inerente ao termo veterotestamental. Cristo
PROMESSAS DE TERRA quer que seus seguidores tenham mais do
NO Novo TESTAMENTO que uma "terra" limitada. Eles herdarão
Como devem ser cumpridas as promes- toda a Terra! Cristo ressalta as promessas
sas quanto à terra que eram feitas reitera- da "terra" para incluir toda a Terra. Paulo
igualmente viu esta plenitude de intenção
damente no Antigo Testamento? Já vimos
que as alianças abraâmica e davídica são na própria aliança abraâmica. "Não foi
condicionais até onde elas se referem ao por intermédio da lei que a Abraão ou a
parceiro humano. Também sabemos que é sua descendência coube a promessa de ser
herdeiro do mundo (grego smos), e sim
um fato no Antigo Testamento — mantido
no Novo Testamento — que o Israel do mediante a justiça da fé" (Rm 4:13).
passado não permaneceu fiel. Ademais, Esta opinião não é estranha ao Antigo
Israel como entidade nacional rejeitou Testamento em si. A visão final de que
a Cristo. Em vista destes fatos podemos o povo de Deus será o herdeiro de um
concluir que as promessas de terra feitas novo céu e de uma nova Terra recriados
na Bíblia ainda precisam se cumprir com (Is 65:17-19) está presente na escatologia
24 PAROUSIA - 1 SEMESTRE DE 2007

profética. A condição para se receber os como estando literalmente ou literalistica-


"novos céus e nova terra" é a fé no Senhor mente restritas à Palestina no passado ou
Jesus Cristo. no futuro.
Também é proveitoso considerar Fie-
PROMESSAS DE CRISTO breus 12:22: "Mas tendes chegado ao
A carta aos Hebreus e os escritos pau- monte Sião e à cidade do Deus vivo, a
linos concordam que desde os dias em Jerusalém celestial." Aqui os crentes, tanto
que Cristo veio em carne e o Israel literal judeus quanto gentios, em certo sentido já
recusou aceitá-lo, as promessas geográficas têm alcançado a Jerusalém celestial e, por
e territoriais deveriam ser compreendidas assim dizer, o monte Sião celestial. Isto é
em seu sentido completo. A Jerusalém ter- em cumprimento da promessa abraâmica
restre não era mais a cidade santa e o lugar e veterotestamentária de Isaías 60:14 e
de habitação de Deus. Também o templo Miquéias 4:1-2. Em outro sentido, todo
terrestre havia perdido seu significado com seguidor de Abraão ainda busca "a [cidade]
a morte de Cristo. que há de vir" (Hb 13:14). Temos chegado
à Jerusalém celestial por meio de Jesus
O Israel da fé da nova aliança tem uma Cristo, nosso precursor, que já se encontra
nova cidade. É a Jerusalém celestial. O Is- lá enquanto ainda estamos a caminho.
rael da nova aliança tem um novo templo,
o que está no Céu. O Israel da nova aliança O livro de Apocalipse revela que as
tem um novo sumo sacerdote, o exaltado promessas da aliança dadas a Abraão não
Cristo celestial. O Israel da nova aliança serão literalmente cumpridas com os judeus
tem um novo país, o celestial. durante o milênio. Sendo que cada crente
prolepticamente tem chegado ao monte
A melhor pergunta a ser feita é: como Sião e à Jerusalém celestial como afirma
Abraão compreendeu as promessas da Hebreus 12:22 — e, portanto, não há ne-
aliança que lhe foram feitas?'" Abraão cessidade de esperar por um cumprimento
peregrinou "pela fé.,. na terra da promessa milenial como sustentam os dispensacio-
como em terra alheia, ...porque aguardava a nalistas e futuristas — a realidade final do
cidade que tem fundamentos, da qual Deus cumprimento em sua plenitude aguarda
é o arquiteto e edificador" (Hb 11:9-10). A o crente segundo Apocalipse 21-22. Ela
cidade que ele estava aguardando não era será cumprida em sua finalidade e em sua
a Jerusalém dos jebuseus, mas a do Céu, a mais abrangente e divina intenção quando
"Jerusalém celestial" (Hb 12:22). houver um novo céu e uma nova Terra.
E o que dizer da "terra" que foi pro- "Sendo que os cristãos participam agora
metida a Abraão e seus descendentes? da herança de Abraão da cidade celestial,
Hebreus 11:13-16 nos diz: "E confessando também partilharão então dela." 3°
[Abraão e seus descendentes] que eram
Todas as promessas feitas por Deus
estrangeiros e peregrinos sobre a terra...
se ctnnprirão com o crente, independen-
eles [Abraão e seus descendentes] aspi-
temente de qualquer afiliação étnica. A
ram a [estavam ansiosos por] uma pátria
qualificação de cumprimento da parte dos
superior, isto é, celestial."
seres humanos é a fé, genuína fé no Senhor
Como compreendia Abraão as promes- das Escrituras, manifestando-se em obedi-
sas da aliança? Ele as compreendia como ência pela fé. Essa fé jamais está ligada a
envolvendo a entrada na Jerusalém celestial qualquer antecedente étnico ou entidade
e no país celestial. Abraão, segundo as nacional. É um dom e qualidade de vida
Escrituras, não compreendia as promessas disponível a todo ser humano.
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 25

REFERÊNCIAS

' Artigo traduzido do original em inglês por ocorrerem. A questão é se esta possibilidade carrega
Francisco Alves de Pontes. qualquer probabilidade: é esta a maneira mais,satis-
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Londres: W. H. Allen, 1975), 993, 1151. que não é isso" (Daniel, 1-2 Maccabees [Wilming-
3 Para uma defesa do método crítico-histórico, ton, DE: Glazier, 1981], 11-12 - grifos seus).
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4 Para reações críticas e/on rejeição do método ls Luis de Aleazar, Vestigatio Arcani Sensus in
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1975), trad. Inglesa da la ed. The End ofthe Histori- Fathers: The Histori cal Development of Prophetic
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House, 1974); Gerhard F. Hasel, Biblical Interpreta- Herald Publ. Assoc., 1946-1954).
tion Today (Washington, DC: Instituto de Pesquisas 19 Veja o artigo produzido pelo Instituto de Pes-

Bíblicas, 1985); Eta Linnemann, Historical Criticism quisas Bíblicas e Ellen G. White Estate intitulado
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Rapids, MI: Baker Book House, 1990). (agosto, 1984).
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6 Ibid., p. 15. 20 Ladd, The Blessed Hope, 37-38.

Thomas C. Oden, After Modernity.. What? 2 ' Froom, 2:495-502.


22 Froom, 2:511.
Agenda for Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan
Publ. House, 1990), 126. 23 Assim, entre outros, John F. Walvoord, The

8 Harvey, The Historiem and the Believer, 38-67. Nations, Israel and lhe Church in Prophecy (Grand
'Por exemplo, Robert P. Carroll, When Prophecy Rapids, MI: Zondervan, 1988), 19-26 da seção "Is-
Failed. Cognitive Dissonante in lhe Prophetic Tra- rael in Prophecy".
ditions of lhe Old Testament (New York: Seabury 24 Leon J. Wood, The Bible and Future Events:

Press, 1979), 112-120; Joseph Blenkinsopp, A His- An Introductory Survey of Last-Day Events (Grand
tory of Prophecy in Israel (Filadélfia: Westminster Rapids, MI: Zondervan, 1973), 18.
Press, 1983), 19-52; Robert R. Wilson, Prophecy 2 ' Hal Lindsey, The Late Great Planei Earth

and Society in Ancient Israel (Filadélfia: Fortress (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1970), 54.
Press, 1980). 28 Por exemplo, C. F. Baker, A Dispensational

G. Emest Wright, Isaiah "The Layman's Bible Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1973),
Cornmentaries" (Londres: SCM Press, 1964), 8. Wri- 606.
ght fala da "regra do polegar" ou princípio básico da 28 Assim Thomas S. McCall, "Problems in Re-

profecia preditiva do seguinte modo: "A profecia é building the Tribulation Temple", Bibliotheca Sacra
anterior ao que ela prediz, mas contemporânea com, (jan. 1972), 79.
ou posterior a, o que ela pressupõe." 28 John F. Walvoord, Israel in Prophecy (Grand
Rapids, MI: Zondervan, 1962), 125; et Charles L.
' 2 Isto é bem declarado por Klaus Koch, lhe Feinberg, "The Rebuilding of the Templ e", Prophecy
Prophets. The Babilonians and Persian Periods in lhe Making, ed. Carl E H. Henry (Carol Stream,
(Filadélfia: Fortress, 1986), 2:73-80, e Wright, 8: IL.. InterVarsity, 1971).
"O profeta tinha assim mensagens para seu próprio 29 John F. Walvoord, The Rapture Question

povo em seus próprios dias. Não estaria dentro da (Ed. Rev.; Grand Rapids, MI: Zondervan, 1979).
função primária do seu ofício dirigir um outro povo Samuele Bacchiocchi provê uma avaliação e crí-
em outro tempo que o seu próprio." tica do dispensacionalistuo-futurista (The A dvent
' 3 John J. Collins escreve sobre "a autenticidade Hope for Human Hopelessness [Berrien Springs,
das profecias de Daniel" a seguir: "O problema não MI: Biblical Perspectives, 1986], 213-262). Seus
é se um profeta divinamente inspirado poderia ter argumentos contra a teoria do "rapto" incluem: (1) -
, predito os eventos que ocorreram ... anos antes de A terminologia para a segunda vinda de Cristo em
26 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

tais passagens como 1 Tessalonicenses 3:13; 2 Tes- anteriores que retratam uma "história do assunto
salonicenses 2:8; 1 Coríntios 1:7; 1 Tinióteo 6:14 e das eras e dispensações" (A Bibliographic History
Mateus 24:27, 37 e 39 provêem evidência para uma of Dispensationalism [Grand Rapids, MI: Baker
só segunda vinda em um estágio e não em dois. Book House, 19651, 5). Ehlert procura mostrar que
(2) Paulo em I Tessalonicenses 4:15-17 descreve o dispensacionalismo é realmente antigo. Todavia, à
o Senhor como descendo "dos céus" ao ser "dada "dispensacionalismo moderno" parece ser singular.
a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e Simplesmente encontrar escritores pré-Darby que
ressoada a trombeta de Deus", que são paralelas em têm dispensações não os toma dispensacionalistas.
Mateus 24:31 e 1 Coríntios 15:52, e demonstrou que Veja a crítica incisiva de Vem S. Poythress, Un-
não há nenhum "rapto secreto". (3) Em Mateus 24:31 derstanding Dispensationalism (Grand Rapids, MI:
o arrebatamento é colocado depois da tribulação e Zondervan, 1987), 9-11.
não antes e a proteção é concedida na tribulação " John N. Darby, The Collected Writings ofJohn
(Apocalipse 3:10). (4) O livro de Apocalipse não Nelson Darby, ed. W. Kelly. 34 vols. (reimpresso;
apresenta nenhuma evidência para um rapto pré-tri- Sunbury, PA; Believers Bookshelf, 1971).
bulação, mas um retorno do Senhor pós-tribulação W. G. Turrier, John Nelson Darby (Londres:
(246-251). Hammond, 1944), 13-15; G. B. Bass, Backgrounds
" Veja J. Dwight Pentecost, Things to Come: A to Dispensationalisra (Grand Rapids, MI: Eerdmans,
Study in Biblical Eschatology (Grand Rapids, MI: 1960), 48-99.
Zondervan, 1969), 156-217. 41 Pickering, Chief Men Among lhe Brethren
"Veja especialmente as definições providas nas (2a ed.; Londres: Pickering e Inglis, 1931); W. Blair
dissertações de Samuel Nunez, "The Vision of Da- Neatby, The History of the Plymouth Brethren (2" ed.;
niel 8: Interpretations from 1700-1900" (diss. Ph.D, Londres: Hodder and Stoughton, 1902).
Andrews University, 1987), 10-11; Gerhard Pfandl, 42 Lew is Sperry Chafer, Dispensationalism
"The Latter Days and the Time of the End in lhe (Dallas: Dallas Seminary Press, 1936); idem, Sys-
Book of Daniel" (diss. Ph.D, Andrews University, tematic Theology. 8 vols. (Dallas Seminary Press,
1990), 5-6, publicadas como The Time 'ale End on 1947); idem, Major Bible Themes, rev. por John F.
lhe Book of Daniel "Adventist Theological Society Walvbord (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1974).
Dissertation Series" (Berrien Springs, MI: Adventist " Publicado primeiro em Grand Rapids, MI:
Theological Society Publications, 1992). Zondemn, 1970.
" Para a finalidade deste estudo não será neces- "Assim reivindicado por 1-fal Lindsey em seu
sário distinguir entre "futuristas" e "dispensacio- livro subseqüente, The 1980's: Countdown to Arma-
nalistas" (veja Pfandl, 7-8), porque os últimos são geddon (Toronto/New York, 1981), 4, 11,
futuristas em perspectiva. 42 Para sóbrias reações e críticas do futurismo de
" Crutchfield, 244 [veja nota 45 abaixo], declara: Lindsey, veja George C. Miladin, Is This Really lhe
"A maior parte dos eventos do fim do tempo ainda End? A Reformed Analysis of 'The Late Great Planei
está adiante de nós corno era futuro para aqueles do Earth' (Cherry Hill, NJ: Mack Publ. Co., 1972); T.
período bíblico." O próprio Darby tinha declarado: Boersma, Is lhe Bible a Jigsaw Puzzle... An Evalu-
"A maior parte das profecias, e em certo sentido, ation Lindsey 's Writings (St. Catherines, Ca-
podemos dizer, todas as profecias, terão o seu nadá, 1978); Comelius Vanderwaal, Hal Lindsey and
cumprimento na expiração da dispensação em que Biblical Prophecy (St. Catherines, Canadá, 1978);
estamos" ( Writings, 2: Prophetic n`' 1, 279). Samuele Bacchioculii, Hal Lindsey's Prophetic Ji-
34 C. C. Ryrie, Dispensationalism Today (Chica- gsaw Puzzle. Five Predictions that Failed (Berrien
go: Moody Press, 1965), 156-76. Springs, MI: Biblical Perspectives, 1985).
Veja Charles L. Feinberg, Israel At lhe Center 46 As sete dispensações em sua forma clássica
of History and Revelation (Portland, OR: Multno- são aquelas de "inocência" (Gn 1:26-3:24), "cons-
mah Press, 1980); Walvoord, Israel and Prophecy ciência" (Gn 4:1-7:24), "governo humano" (Gn 8:1-
reimpresso em The Nations, Israel and lhe Church 11:26), "promessa" (Gn 11:27; Ex 18), "lei" (Êx 19;
in Prophecy, 15-133, e muitos outros. At 1:26), "graça" (At 2:1; Ap 19:21), e "reino" (Ap
36 Walvoord, The Nationsisrael and lhe Church 20:1-6) segunda Larry C. Crutchfield, "The Doctrine
in Prophecy, 103-20, com ênfase na seção "The of Ages and Dispensatidns as Found in the Published
Nations in Prophecy". Works of John Nelson Darby (1800-1882)" (Diss.
Pentecost, 340-58, com literatura anterior; Ph.D Drew University, 1985), 58-68.
Paul Lee Tan, The, Interpretation of Prophecy " C. I. Scofield, Rightly Divinding lhe Word
(Vinona Lake, IN: BMH Books, 1974), 349; Hal of Truth (Fincastle, VA: Scripture Truth Book Co.,
Lindsey, The Rapture: Truth or Consequences n.d.), 12-16.
(New York, 1983). 4g Veja Crutchfield, 48-56, de quem eu dependo
" Esta designação é usada por Amold D. Ehlert, fortemente nesta seção.
que provê um estudo bibliográfico de escritores " Crutchfield, 68-71.
ISRAEL NA PROFECIA BÍBLICA / 27

50 Ryrie, Dispensationalism Today, 44-45; se- Phenomenon of Conditionality within Unconditional


melhantemente John F. Walvoord, "Dispensational Covenants", Israel 's Apostasy and Restoration. Es-
Premillennialism", Christianity Today 15 (setem- says in Honor of Roland K. Harrison, ed. Avraham
bro,1958), 13; Lewis Sperry Chafer, "Dispensatio- Gileadi (Grand Rapids, MI: Baker Book House,
nalism," Bibliotheca Sacra 93 (1936): 448. 1988), 123-139; Ronald Youngblood, "The Abraha-:
51 Ryrie, Dispensationalisrn Today, 159. mie Covenant: Conditional or Unconditional?" The
" Crutchfield, 49. Living and Active Word of God: Studies in Honor of
"Veja Ryrie, Dispensationalism Today, 133-140. Samuel J. Schultz, eds. Monis Inch e Ronald Young-
" Ibid., 136. blood (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 1983), 31-46;
55 Para uma sólida análise e crítica das origens Oswald T. Allis, God Spake by Moses (Nutley, NJ:
e mudanças na teoria do arrebatamento, veja Dave Presbyterian and Reformed, 1958), 72.
MacPherson, The Great Rapture Hoca (Fletcher, 76 Aqueles que desejam afirmar que Abraão não

N.C.: New Puritan Library, 1983). Para uma retifi- teve sua fé considerada como justiça por Deus, mas
cada opinião do rapto pós-metade-da-semana, veja que Abraão considerou a promessa da semente como
agora Marvin Rosenthal, Tlw Pré- Wrath Rapture of justiça (veja M. Oeming, "Ist Genesis 15,6 em n Beleg
the Church (Nashville, TN: Nelson, 1990). fia; die Anrechnung des GlaubensT Zeitschrififir die
s6 Ryrie, Dispensationalism Today, 159. alttestamentliche Wissenschaft 95 [1983]: 182-197,
" Crutchfield, 71. que foi enfrentado por Bo Johnson. "Who Reckoned
Ryrie, Dispensationalism Today, 156-161. Righteousness to Whom?" Svensk Exegetisk irsbok
" Chafer, Systematic Theology, 4:47-53. 51 [1986]; 108-115) têm dificuldade com a sintaxe
" J. Dwight Pentecost, Things To Come. A Study hebraica e o Novo Testamento (veja Rm 4:3, onde
in Biblical Eschatology (Grand Rapids, MI: Zonder- Abraão é o sujeito da segunda cláusula).
van, 1969), 201-202. 77 Zobel, "yisra'el", 401.
Ryrie, Dispensationalism Today, 158. 78 Ibid.
62 Ibid., 546. " F. I. Anderson e D. N. Freedman, Amos. A
" Ibid., 140. New Translation with Introduction arzd Commentary
64 Para urna crítica do "rapto secreto", veja "Anchor Bible", vol. 24a (New York: Doubleday,
Ladd, The Blessed Hope, 89-104; Oswald T. Allis, 1989), 130-32.
Prophecy and the Church (Filadélfia: Presbiterian " Ibid., 403.
and Reformed Publ. Co., 1977), 181-91. s' Ibid., 403.
65 Veja Gerhard von Rad, "Israel", Theological 82 Gerhard F. Hasel, "Rernnant", The Internatio-
Dictionary of lhe New Testarnent, 3:356-59; R. nal Standard Bible Encyclopedia, ed. G. W. Bromiley
Mayer, "Israel, Jew, Hebrew, Jacob, Judah", New (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1988), 4:132.
International Dictionaiy of New Testament Theo- " Ibid., 4:133; idem, The Remnant. The History
logy, 2:304-16. and Theology of lhe Remnant Idea from Genesis to
66 Hans K. LaRondelle, The Israel of God in Isaiah (3a ed.; Berrien Springs, MI: Andrews Uni-
Prophecy (Berrien Springs, MI: Andrews University versity Press, 1980), 170-215.
Press, 1983), 82. 84 Hasel, "Remnant", The International Standard
" H. J. Zobel, "yisra' el", Theological Dictionary Bible Encyclopedia, 4:133.
of lhe Old Testament, eds. J. Botterweck e H. Ring- LaRondelle, 90-91.
gren (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1990), 6:401. 56 Ryrie, Dispensationalism Today, 138.
" Ibid. 87 Para um estudo completo de Israel e suas impli-
" A. R. Hulst, "'am/goj volk", Theologisches cações, veja a excelente obra de Hans K. LaRondelle
HandwOrterbuch zum ;Hien Testament, eds. E. Jenni citada anteriormente, The Israel ofGod in Prophecy.
e C. Westermann (Zurique: Theologischer Verlag,/ Principies of Prophetic Interpretation (Berrien
Munich: Kaiser, 1976), 2:312-14. Springs, MI: Andrews University Press, 1983).
70 N. A. Dahl, Das Volk Gottes (Oslo, 1941), 19. " Ryrie, Dispensationalism Today, 138.
Hulst, 315. •
" LaRondelle, 98-99.
" R. E. Clements, "gôy", Theological Dictionary Poythress, Understanding Dispensationalists,
of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans,
1975), 2:427. 81 Veja G. Friedrich, "Epangelia", Theological
" E. A. Speiser, "People' and. Nation' of Israel", Dictionary of lhe . New Testament (Grand Rapids,
Journal ofBiblicalLiterature 79(1960): 160-170. MI: Eerdinans, 1965), 2:584.
74 LaRondelle, 83-85. Ibid,
75 Veja sobre á condicionalidade da aliança " Ibid.
abraâmica com relação ao parceiro humano, Gerhard " Ibid., p. 127.
R Rasei, Covenant in Blood (Mountain View, CA: 55 LaRondelle, 110-111.
Pacific Press, 1982), 52-62; Bruce K. Waltke, "The 95 Joachim Rhode, Der Brief des Paulus an clie
28! PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

Galater (Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1989), 13:5, 11; 32:13; 33:1; Números 11:12; 14:16, 23;
278 (ênfase minha). 32:11; e Deuteronômio 1:8, 35; 4:31; 6:10, 18, 23.
" Samuele Bacchiocchi, The Advent Hope for Há treze promessas adicionais de terra no Antigo
Human FIopelessness (Berrien Springs; MI: Biblical Testamento fora do Pentateuco,
Perspectives, 1986), 228-29. "3 lhe New Scofield Bible, 20, 1318. •
98 Chafer, Systematic Theology, 3:105-107; 114 Pentecost, Things to Come, 98.
Pentecost, 298: John F. Walvoord, The Millennial Veja Gerhard F. Hasel, Understanding lhe
Kingdom (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1959), Living Word of God (Mountain View, CA: Pacific
171-73, e outras. Press, 198), 66-82.
49 Que este termo inclui tanto judeus quanto " 6 Bacchiocchi, The Advent Hope, 221.
gentios é defendido, entre muitos outros, também por Gerhard F. Hasel, "Fulfillments of Prophecy",
João Calvino e K. Barth, 77w Epistle to lhe Romans The Seventy Weeks, Leviticus, and lhe Nature of Pro-
(Oxford: Oxford University Press, 1963), 416, que phecy, ed. Frank B. Holbrook "Daniel and Revelation
considera "todo o Israel" como a Igreja. Committee Series, Vol. 3" (Washington: Biblical
Hasel, "Remnant", The International Stan- Research Institute, 1986), 288-322.
dard Bible Encyclopedia, 4:134. " 8 Hasel, Covenant in Blood, 38-41.
Tem sido até mesmo afirmado que Paulo " 9 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, 138.
defende um "caminho especial" de salvação para 120 Veja nota 113 acima.
judeus que são salvos sem fé em Jesus Cristo. Todo o 121 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, 476.
argumento de Paulo e sua insistência sobre fé em Je- 122 Para outros exemplos, veja LaRon delle,
sus Cristo contraria tal opinião. Deus tem apenas um 23-34.
caminho de salvação para toda a espécie humana. 123 Pentecost, Things to Come, 112. Veja também
102 Veja também William Sanford La Sor, Isra- Ryrie, Dispensationalism Today, 80.
el. A Biblical View (Grand Rapids, MI: Eerdmans, -saqui as sugestões de R. A. Carlson,
m os
124 Seguiimo
1976), 83-108. David and the Chosen King (Uppsala: Almquist e
Poythress, 129. Wiksell, 1964), 111-14.
I" Uma análise mais extensa é provida por 125 Frank Cross crê que essa condicionalidade é
LaRondelle em seu livro, The Israel of God in Pro- uma forma primitiva do oráculo de Natã (Canaanite
phecy, em que nos temos beneficiado extensamente Myth and Hebrew Epic [Cambridge, MA: Harvard
nesta seção bem como na seguinte. University Press, 1973], 232). John Bright declara
1 " John F. Walvoord, "Israel 's Restoration", que "a continuidade da dinastia [de Davi] tomou-se
Bibliotheca Sacra 102 (1945), 405-16; idem, "Israel sujeita a condições!" (Covenant and Protnise. The
in Prophecy", em 77w Nations, Israel and lhe Church Prophetic Understanding of the Future in Pre-Exilic
in Prophecy, 15-138. Israel [Filadélfia: Westminster Press, 1976], 64.
'" Walvoord, "Israel in Prophecy'', The Nations, 128 Veja Waltke, 131, 132; David Noel Freedman,
Israel and lhe Church in Prophecy, 78. "Divine Commitment and Human Obligation: The
1 " Pentecost, Things to Come, 60. Covenant Theme", Interpretation 18(1964): 426;
Ryrie, Dispensationalism Today, 158. Avraham Gileadi, "The Davidic Covenant: A Theolo-
109 Ibid. gical Basis for Corporate Protection", Israel is Apos-
Herman Hoyt, "Dispensational Premillennia- tasy and Restoration. Essays in Honor of Roland K
lism", The Meaning of the Millennium, ed. Robert Harrison, ed. Avra.ham Gileadi (Grand Rapids, MI:
G. Clouse (Downers Grave, IL: InterVarsity, 1977), Baker Book House, 1988), 161, 162.
66. 1 " LaRondelle, 138.
Poythress, Understanding Dispensationalists, ' 28 H H. Schmid, "'wrxs Erde, Land", Theologis-
87-110. Veja também Bacchiocchi, 77w Advent Hope, ches Warterbuch zum Alten Testament, 1:228-36; M.
220-25, e, particularmente, Daniel P. Fuller, Gospel Ottosson, "erets", Theological Dictionary of the Old
and Law: Contrast or Continuum? The HermeneuticS Testament, eds. J. Botterweck e H. Ringgren (Grand
ofDispensationalism and Covenant Theology (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 197 4. ), 1:393-405.
Rapids, Ml: Eerdmans, 1980). 129 Na seqüência eu sigo largamente as idéias
" 2 Veja também Gênesis 13:14-15; 13:17; 15:7- apresentadas por Poythress, 120-21.
21; 17:8; 26:3-4; 28:4, 13; 35:12; 48:4; 50:24; É». '" Poythress, 123.
As FESTIVIDADES ISRAELITAS
E A IGREJA CRISTÃ
ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ, TFI.D.
Diretor do Biblical Research Institute da Associação Geral da IASD, Silver Spring, Maryland, EUA

RESUMO: Este artigo faz uma análise das celebração e regozijo do seu povo em sua
principais festividades israelitas, insti- presença. Aqui nos limitaremos às princi-
tuídas por determinação divina após o pais festividades israelitas. Exploraremos
Êxodo. Na primeira parte do trabalho, o seu significado típico e comemorativo
o autor explora o sentido tipológico e e concluiremos com a discussão do seu
comemorativo de cada uma dessas sole- significado para os cristãos.
nidades no antigo Israel, bem como o seu
significado para a igreja cristã. Em segui- As FESTAS E O SEU SIGNIFICADO TÍPICO
da, o texto discute se as mesmas festas E COMEMORATIVO
devem ou não continuar a ser observadas
pelos cristãos na atualidade
A FESTA DA PÁSCOA
ABSTRACT: This article deals with the main
A páscoa foi instituída logo após a saída
Israel festivais established by God after do Egito (Êx 12). É apresentada na narra-
the Exodus. In the first part of the article, tiva do Exodo em conexão com a décima
the author explores the typological and praga. Essa praga constituiu o julgamento
commemorative sense of each one of tho- final de Deus sobre o Egito e poderia ter
se festivities in the life of ancient Israel, afetado os israelitas que ali habitavam. Ao
as well as their meaning to the Christian ser a páscoa instituída, tinha a finalidade de
church. Afterwards, the text discuss whe- proteger os hebreus dos dolorosos efeitos
ther the same feasts must be observed by da décima praga. Naquela noite todos os
moclern Christians. primogênitos do Egito morreriam.
INTRODUÇÃO Durante o dia 14 do mês de abibe cada
família deveria imolar um cordeiro sem
• O sistema israelita não estava interes- defeito (12:5, 21). Seus ossos não deve-
sado apenas na santidade do espaço (o riam ser quebrados. A carne da vitima era
tabernáculo e seus rituais), mas também comida durante a noite pelos membros da
na santidade do tempo. Os seres humanos família como um tipo de oferta pacífica. Era
são criaturas do tempo e do espaço e era assada e comida com pães asmos e ervas
intenção de Deus se encontrar com eles amargas (v. 8) e o seu sangue era colocado
em ambas as esferas de sua existência, no na verga da porta e nas ombreiras de cada
tempo e no espaço. É esta preocupação casa (v. 22). Esse ritual sangüíneo indicava
com o tempo que é comunicada por meio que naquela casa uma vida fora dada em
das diferentes festividades mencionadas no lugar da vida do primogênito da família. O
Antigo Testamento e, particularmente, por Senhor "veria o sangue" (v. 13) e passaria
meio do sábado. Deus se encontrava com pela casa, preservando a vida do primogê-
o seu povo na esfera do tempo que não nito daquela família.
estava limitada exclusivamente ao sábado Enquanto no Egito morriam todos os
do sétimo dia. Outros períodos de tempo primogênitos, entre os hebreus morria
foram escolhidos por ele para adoração, uma vítima sacrifical. Por intermédio do
30 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

seu sangue os primogênitos de Israel eram israelitas deixavam seus lares e viajavam
redimidos. A idéia de propiciação ou ex- para o santuário (Dt 16:10). O significado
piação não é claramente afirmada, mas os tipológico dessa festa se encontra no Novo
hebreus poderiam ter interpretado o ritual Testamento: o fermento é considerado um
como tendo alguma virtude expiatória no símbolo do pecado, que não deve ser acha-
sentido de preservar intacto seu relacio- do no cristão, o qual, por meio de Cristo se
namento com o Senhor ao escapar do seu tomou "nova massa" (1Co 5:7-8).
juízo. Conquanto originalmente Deus
ordenasse aos israelitas que oferecessem
o sacrifício em suas próprias cidades, ao CERIMÔNIA DO MOLHO MOVIDO
entrarem em Canaã eles deveriam passar a Ao entrarem os israelitas em Canaã
oferecê-lo no santuário central (Dt 16:5-6). deveriam levar para o Senhor as primícias
Ali o sangue era aspergido sobre o altar do da colheita de cevada (Lv 23:10-11). Isto
mesmo modo que o sangue da maioria dos deveria ser feito em 16 de abibe, durante
sacrifícios (2Cr 35:11). o segundo dia da festa dos pães asmos.
A festa comemorava a saída do Egito Não era propriamente falando uma fes-
e, ao celebrá-la, cada geração passava, em ta, mas uma cerimônia dentro de uma
certo sentido, pela experiência do Êxodo festa. Um molho da messe era movido
(Êx 12:26; cf. Dt 6:21-25). Esse evento perante o Senhor em reconhecimento ao
era percebido pelos israelitas como ex- fato de que toda a colheita pertencia a
pressando o modelo de poder redentivo ele como uma expressão de gratidão. 2 A
de Deus. Conseqüentemente, qualquer apresentação das primícias é um símbolo
ato redentivo de Deus no futuro seria in- da ressurreição de Cristo no domingo da
terpretado tipologicamente em função do páscoa (16 de abibe). Ele é descrito como
evento do Exodo comemorado na páscoa "as primícias" da ressurreição escatoló-
(ex.: Is 48:20-21). gica daqueles que lhe pertencem (1Co
15:23). De fato, "o cordeiro imolado, o
O Novo Testamento revela o significado pão asmo, o molho dos primeiros frutos,
tipológico dessa festa identificando Jesus representavam o Salvador")
como o cordeiro pascal (João 1:36) que
morreu durante a celebração da festa da
páscoa (19:14) e cujos ossos não foram A FESTA DAS SEMANAS (PENTECOSTES)
quebrados (19:36). E por meio do Seu san- Essa festa é também chamada pente-
gue que a redenção foi realizada, libertando costes porque era celebrada 50 dias após
o ser humano das forças malignas deste a cerimônia das primícias em 16 de abibe
mundo (1-lb 9:12; 2:14-15). De fato, Paulo (Lv 23:15-21). Era parte do calendário
considera Jesus como a personificação da agrícola e consistia em levar ao Senhor as
própria festa da páscoa (1Co 5:7). primícias da colheita do trigo em 6 de sivã.
A festa era uma peregrinação celebrada
A FESTA DOS PÃES ASMOS no santuário central (Dt 16:10). O dia 6
de sivã era um sábado cerimonial durante
Essa festa estava intimamente relacio-
o qual o povo se regozijava diante do Se-
nada com a páscoa. Era celebrada de 15 a
nhor por suas bênçãos. "Como expressão
21 de abibe. Durante sete dias os israelitas
de gratidão pelo cereal preparado como
deviam comer pães asnos e nenhum fer-
alimento, dois pães assados com fermen-
mento devia ser encontrado em seus lares.
to eram apresentados diante de Deus. O
(Êx 12:17-20, 34; Lv 23:6-8). A festa
pentecoste ocupava apenas um dia, que
apontava para o tempo em que eles deixa-
era dedicado ao culto religioso.'
ram apressados o Egito, não tendo tempo
para preparar o pão levedado. O primeiro A festa estava também associada à expe-
e o último dia da semana eram sábados riência de Israel no Sinai quando foi esta-
cerimoniais. Essa era uma das três festas belecida a aliança. Segundo Êxodo 19:1, os
de peregrinação durante cuja celebração os israelitas chegaram ao Sinai no terceiro mês
ÁS FESTIVIDADES ISRAELITAS E A IGREJA CRISTÃ / 31
após a saída do Egito. O pentecostes era Alguns desses salmos associam esta experi-
celebrado durante o terceiro mês do ano. A ência com um chamado para louvar a Deus
celebração da festa era provavelmente um como rei, juiz do mundo (47:5-7; 98:6-9),
memorial ou uma reafirmação da aliança e como Criador e preservador do seu povo
entre Deus e Israel (cf. 2Cr 15:10-13). Foi (100:1-5).6
por causa da aliança que a nação israelita
veio à existência (Ex 19:5-6). A festa das trombetas não é mencionada
explicitamente no Novo Testamento, o que
O Novo Testamento estabelece uma ní- torna difícil identificar o seu significado
tida conexão entre o pentecostes e a igreja tipológico. Contudo, o livro de Apocalipse
cristã. Foi durante a festa do pentecostes faz referência às sete trombetas que são
que os discípulos receberam o batismo tocadas antes da consumação da salvação
do Espírito Santo e a igreja como tal veio e que chegam ao fim com uma visão do
à existência como o novo povo de Deus lugar santíssimo do templo celestial. "Pre-
(At 2:1-4). Então foi estabelecida a nova cisamente como a festa das trombetas...
aliança (3:25). Mas também apontava para convocava o antigo Israel a fim de prepa-
algo que ocorreu no santuário celestial. rar-se para a vinda do dia de juízo, Yotn
"O derramamento pentecostal foi uma Kippur, assim as trombetas do Apocalipse
comunicação do Céu de que a confir- enfatizam especialmente a aproximação
mação do Redentor havia sido feita. De do Yom Kippur antitípico... As trombetas
conformidade com sua promessa, Jesus parecem retroceder na história da salva-
enviara do Céu o Espírito Santo sobre seus ção como sinais ao longo da era cristã de
seguidores, em sinal de que Ele, como que Deus se "lembrará" (isto é, agirá em
Sacerdote e Rei, recebera todo o poder favor de) seu povo e como avisos para o
no Céu e na Terra, tornando-se o Ungido preparo para o antitípico dia da expiação.'
sobre seu povo."' Elas descrevem a Deus como juiz da raça
humana e como enviando juízos sobre
A FESTA DAS • TROMBETAS pecadores impenitentes antes de ocorrer o
julgamento final.
Esta é a primeira das festas de outono
(Lv 23:23-25). Era celebrada durante o sé-
timo mês (tishri) como um dia de descanso O DIA DA EXPIAÇÃO
solene, um sábado cerimonial. Embora O dia da expiação era celebrado no dia
alguns creiam que essa é uma festa de ano 10 de tishri, mas ao contrário de outras fes-
novo, o texto não realça este fato. É chama- tas, este era um dia de jejum para o povo de
da festa das trombetas porque a celebração Israel (Lv 23:29); não era uma festividade.
era iniciada por um toque de trombetas. De Era um sábado cerimonial durante o qual
fato, "trombetas" talvez não seja a melhor nenhum trabalho deveria ser feito (v. 28).
tradução do termo hebraico fret 'ah. Este Durante esse dia o sumo sacerdote realiza-
termo parece designar o forte som do chifre va o serviço anual em favor dos israelitas.
de carneiro (shophar) em vez do som de Nesse dia o santuário era purificado de to-
uma trombeta (hetsotsrah, "trombeta"; cf. dos os pecados, transgressões e impurezas
Nm 10:10; 29:1). do povo de Deus (Lv 16:16, 21, 30). Era
A festa é descrita como um memorial um dia de juízo em Israel.
(Lv 23:24), mas não somos informados no O dia da expiação não estava relaciona-
tocante ao que ela comemora. É possível do com nenhum evento especifico da histó-
que o propósito da festa tenha sido lembrar ria de Israel. Antes, apontava para o faturo
ao povo que Deus era o Criador e Juiz do ato divino de julgamento e purificação.
mundo no preparo para as cerimônias do Miquéias usa a terminologia e ideologia
dia da expiação. Isto é sugerido por algu- do dia da expiação para descrever a futura
mas passagens dos Salmos onde se faz obra de Deus em favor do seu remanescente
menção ao som de buzinas e de fazer "ruído escatológico. Descreve a Deus como aquele
jubiloso" diante do Senhor (cf. S195-100). que perdoa as "transgressões" (7:18; pdae
32 / PAR0U51A - l ° SEMESTRE DE 2007

= "rebelião"; Lv 16:16, 21), "iniqüida- intimidade entre Deus e seu povo (ex.:
des"(7:19; cawôn = "ofensa"; Lv 16:21);e 11:1-4; 2:14-15).
"pecados"(hatta 't = "pecado"; (Lv 16:21,
30), removendo-os da sua presença e mos- A festa dos tabernáculos era 'também
interpretada escatologicamente como
trando sua fidelidade e misericórdia para
com o remanescente (Mq 7:20). apontando para um tempo futuro quando
a colheita de salvação de Deus se encer-
As visões apocalípticas de Daniel apon- rará e as nações do mundo irão adorá-Lo.
tam para um tempo em que o santuário seria Zacarias descreve para nós um tempo em
purificado pouco antes do estabelecimento que toda a cidade de Jerusalém estará pu-
do reino de Deus na Terra (8:13, 14). Isto su- rificada e as nações da Terra virão perante
gere que o dia da expiação é essencialmente Deus para celebrar a festa dos tabernáculos
típico em vez de comemorativo. Aponta (14:16-21). O livro de Apocalipse desvenda
para o passado somente até o ponto em que o cumprimento tipológico dessa festa na
lida com todos os pecados do povo de Israel grande multidão que João viu "em pé diante
cometidos durante os anos anteriores. Mas o do trono e diante do Cordeiro, vestidos de
fato de ocorrer ano após ano torna-o um tipo vestiduras brancas, com palmas nas mãos"
da futura e final purificação do povo de Deus (7:9). Eles estavam louvando e dando gra-
em preparação para o reino messiânico. É ças a Deus por sua salvação. A colheita da
para esta dimensão tipológica que Miquéias salvação havia terminado (14:15-16).''
e Daniel estão apontando.
Por intermédio das diferentes festi-
vidades Deus estava revelando ao seu
A FESTA DOS TABERNÁCULOS povo importantes aspectos do seu plano
Essa festa era celebrada durante 15 a 21 de salvação. As festividades da primavera
de Tiãri. Era a última festa do ano agrícola falam sobre redenção efetuada; as festivi-
depois de terminar a colheita (Eix 23:16; dades de outono acerca da consumação da
34:22). Era uma festa de peregrinação redenção. Seu significado tipológico não
quando Israel ia adorar a Deus no santuá- somente aponta para a cruz, mas também
rio central (Dt 16:15). Era uma festa muito para o que está ocorrendo agora no reino
alegre durante a qual o povo expressava celestial e na Terra e nos permite anteci-
sua gratidão a Deus (Lv 23:40; Jz 21:19- par o que está prestes a ocorrer, isto é, a
21; Dt 16:14). A festa se iniciava com um ceifa escatológica.
sábado cerimonial e concluía com outro
em 22 de tishri (Lv 23:36). "Esta festa As FESTIVIDADES DO ANTIGO
reconhecia a generosidade de Deus nos
TESTAMENTO E A IGREJA CRISTÃ
produtos do pomar, do olival e da vinha.
Era a reunião festiva encerradora do ano. Devem os cristãos observar as fes-
A terra havia concedido o seu produto, as tividades israelitas? Esta tem sido uma
colheitas estavam guardadas nos celei- questão muito debatida entre os cristãos,
ros; os frutos, o azeite e o vinho estavam mas a atual opinião prevalecente é que elas
armazenados, as primícias reservadas, e tinham apenas um significado tipológico
agora o povo vinha com seus tributos de que foi cumprido em Cristo e sua obra de
ações de graças a Deus, que os havia assim mediação e juízo. Entre os adventistas há
abençoado ricamente."' alguns que chegaram à conclusão de que
Durante a festa os israelitas moravam é necessário observar as festas e eles têm
em cabanas feitas de ramos de palmeiras promovido esta prática entre os membros
e ramos de árvores frondosas (23:40). A da igreja. Ao tratar desta questão, é necessá-
festa era um memorial do tempo em que rio examinar as passagens bíblicas em que
Deus fez Israel habitar em tendas durante é discutido o assunto das festas israelitas a
sua peregrinação no deserto depois da saída fim de determinar sua natureza e propósito.
do Egito (23:42). 9 Esse período é descrito Vários eruditos adventistas têm examinado
por Oséias como um período de grande este assunto e a conclusão comum a que
As FESTIVIDADES ISRAELITAS E A IGREJA CRISTÃ / 33

eles chegaram, com exceção de Samuele referência explícita ao sábado em Exodo


Bacchiocchi, é que a Bíblia não espera que 16 não menciona nenhum sacrifício ofere-
os cristãos observem as festividades judai- cido durante esse dia. Os sacrifícios foram
cas. Vamos resumir brevemente e avaliar associados ao sábado somente depois de ter
alguns dos principais argumentos usados sido feita a aliança e depois de ser instituído
para apoiar esta conclusão. o sistema sacrificial em Israel. Na Bíblia,
os sacrifícios não são um componente
indispensável da observância do sábado, a
(1) As FESTIVIDADES
qual poderia claramente ser mantida inde-
E O SISTEMA SACRIFICIAL pendente deles.
Cada uma das festividades era carac-
terizada pela alegria de trazer oferendas e (2) As FESTIVIDADES
sacrifícios ao Senhor. Levítico 23 enumera E O CULTO CENTRALIZADO
as diferentes festividades e então sintetiza
seu principal objetivo, dizendo: "São estas Várias festividades deveriam ser cele-
as festas fixas do Senhor, que proclamareis bradas no templo e não em qualquer outro
para santas convocações, para oferecer lugar na terra de Israel. Exigia-se especifi-
ao Senhor oferta queimada" (v. 37). A camente que três festas fossem celebradas
preposição hebraica le ("para") é usada no templo, tornando necessário que o povo
aqui para expressar a idéia de propósito. aparecesse perante o Senhor, a saber: a
Não há nenhuma indicação na Bíblia de festa dos pães asmos, a festa das semanas
que durante as festividades um sacrifício e a festa dos tabernáculos (Dt 16:16).
espiritual poderia tomar o lugar de um ma- Mesmo a Páscoa, que foi originalmente
terial. As festas não podiam ser celebradas uma celebração em família, foi também
sem a oferta de sacrifícios. Em qualquer centralizada e ligada ao Templo: "Não po-
caso, não há nenhuma instrução dada na derás sacrificar a Páscoa em nenhuma das
Bíblia concernente a como observar a festa tuas cidades que te dá o Senhor, teu Deus.
sem uma vítima sacrificial. Aqueles que senão no lugar que o Senhor, teu Deus,
promovem a observância das festividades escolher para fazer habitar o seu nome"
têm de criar sua própria maneira pessoal (16:5, 6). A Bíblia não admite a celebra-
de celebrar as festas e no processo criam ção dessas festividades em algum outro
tradições humanas que não se baseiam lugar. Oséias perguntou aos israelitas que
em uma explícita expressão bíblica da deveriam ser exilados para a Assíria: "Que
vontade de Deus. fareis vós no dia da solenidade e no dia da
festa do Senhor?" (9:5). A resposta implí-
Alguns têm afirmado que se a associação cita é: "Nada!" Eles não seriam capazes
das festas com sacrifícios é tomada como de observar essas festas estando distantes
um motivo para limitar sua celebração ao do templo de Jerusalém."
tempo antes da vinda do Messias, então o
mesmo deve ser aplicado ao sábado, que Comenta Ellen G. White:
também estava associado aos sacrifícios Três vezes por ano era exigido dos judeus
no Antigo Testamento (Nm 28:9-10). Este reunirem-se em Jerusalém para fins religiosos.
é certamente um argumento inválido. O Envolto na coluna de nuvem, o invisível Guia de
propósito específico dado no texto para a Israel dera instruções quanto a esses cultos. Du-
celebração das festas era trazer ofertas ao rante o cativeiro dos judeus, eles não puderam ser
Senhor na forma de sacrifícios. Isto não é observados; mas ao ser o povo restabelecido em
seu próprio país, recomeçara a observância:dessas
declarado em parte alguma na Bíblia com
comemorações. Era o desígnio de Deus que esses
respeito ao sábado, cuja finalidade principal aniversários O trouxessem à mente do povo. Com
era prover um tempo de repouso a fim de poucas exceções, porém, os sacerdotes e guias
se ter companheirismo e comunhão com da nação haviam perdido de vista esse objetivo.
o Criador. De fato, quando o sábado foi Aquele que ordenara essas assembléias nacionais
instituído iw Jardim do Éden, o sacrifício e lhes compreendia o significado, testemunhava a
de animais era inconcebível. A primeira deturpação das mesmas.'2
34 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

Qualquer tentativa para justificar sua (4) As FESTIVIDADES


celebração independente do templo isra- E A IDENTIDADE ÉTNICA
elita é simplesmente uma determinação
humana sem qualquer base bíblica e pode A identidade étnica e religiosa dos
ser descrita, uma vez mais, corno uma israelitas estava intimamente associada à
tradição humana. celebração de algumas das festividades.
Muito importante neste caso é a páscoa,
que estava restrita aos israelitas e àqueles
(3) As FESTIVIDADES que por meio da circuncisão se tomassem
E O CALENDÁRIO AGRICOLA israelitas (Êx 12:43-50). Bem pode ser que
Muitas das festividades estavam inti- os judaizantes que Paulo enfrentou nas
mamente ligadas ao calendário agrícola igrejas cristãs estivessem exigindo que os
israelita. Este é claramente o caso com cristãos gentios se tornassem judeus (ou
seja, fossem circuncidados — Atos 15:1)
respeito à festa dos pães asmos, que estava
ligada de perto à páscoa (Lv 23:5-11), a a fim de que pudessem celebrar a páscoa
festa das semanas (pentecostes; Dt 16:13; e, possivelmente, outras festividades e
Lv 23:15); e a festa dos tabernáculos (Êx rituais judaicos.
23:16; Dt 16:9; Lv 23:32). O mesmo se
aplicava aos anos sabáticos (Êx 23:10). (5) As FESTIVIDADES E O SINAI
A implicação é que era impossível para A Bíblia estabelece o fato de que as
os israelitas celebrar algumas dessas festividades foram instituídas em Israel no
festividades antes da entrada em Canaã. Monte Sinai, como parte da aliança entre
Este era particularmente o caso com as Deus e Israel. Alguns têm sugerido que
festas de pentecostes e dos tabernáculos Gênesis 1:14 indica que Deus instituiu as
(Êx 23:16). Nenhuma exceção a essas re- festividades antes do Sinai porque a passa-
gras é mencionada na Bíblia, desse modo gem declara: "Haja luzeiros no firmamento
indicando que a celebração dessas festas dos céus, para fazerem separação entre o
estava restrita àqueles que moravam na dia e a noite; e sejam eles para sinais, para
terra de Israel. estações [rneicéd], para dias e anos." O
Depois da destruição do templo em 70 termo hebraico môcéd, aqui traduzido por
d.C., os judeus desenvolveram um sistema "estações", é o termo técnico usado para
que os habilitava a observar as festivida- designar as festividades. Por exemplo, em
des sem o templo e fora de Israel. Isto Levítico 23:2: "As festas fixas do Senhor,
não foi instituído como resultado de uma que proclamareis, serão santas convoca-
revelação especial de Deus por meio da ções; são estas as minhas festas", o plural
qual Ele os instruiu em tal procedimento. rnôcactim é traduzido por "festas fixas". Mas
Essas festividades eram tão importantes é insano transferir este significado para
para a identidade judaica que eles decidi- Gênesis 1:14. Primeiro, o termo hebraico
ram conservar viva sua memória. Mas a môcéd é freqüentemente usado no sentido
verdade é que fora da terra de Israel e na de "tempo determinado" e expressa a idéia
ausência dos rituais do templo era simples- de "estação", um tempo específico do
mente impossível observar as festividades ano em que ocorre um evento como, por
exatamente como o Senhor instruiu o povo exemplo, quando os pássaros migram (Jr
no Antigo Testamento. Os cristãos que 8:7; cf. 0n 17:2l), ou está pronta a colheita
estão interessados em observar as festivi- das uvas (Os 2:9). Não se refere exclusiva-
dades enfrentam o problema de prover a mente às festividades. Muitos críticos eru-
evidência bíblica que apoiaria a maneira ditos crêem que em Gênesis 1:14 o termo
como as festividades devem ser observa- •também se refere ao festival cultual. Esta
das independente dos serviços do templo conclusão se baseia em sua convicção de
em terras fora de Israel. Se eles não podem que Gênesis foi escrito durante o período
prover a evidência, estão formulando suas pós-exílico e que Moisés não o escreveu.
próprias tradições não-bíblicas. Discordámos deles.
As FESTIVIDADES ISRAELITAS E A IGREJA CRISTÃ / 35

• Segundo, se quisermos definir mais es- bíblico está fazendo um esforço especial
pecificamente o significado do termo leni& para indicar que o sábado não é parte das
c"d'im em Gênesis 1:14, devemos olhar para festas retornando àquela frase antes de
o contexto em que a criação do sol e da lua enumerar as festas.
está sendo discutida e não a sua utilização Terceiro, a referência ao sábado é
em contextos de discussões cultuais. En- importante porque esse dia é especialmente
contramos tal contexto em Salmo 104:19, santo. Em 23:3 é declarado que durante o
no qual é descrito o poder e o propósito sábado os israelitas não deveriam fazer
criativo de Deus: "Designou a lua para as "nenhuma obra". Concernentemente às
estações" [Almeida antiga]. O termo he- festas lemos que durante o tempo da santa
braico lemetactim especifica o propósito ou convocação — os sábados cerimoniais — o
função da lua e provavelmente se refere às povo não fará "nenhuma obra servil" (23:8,
fases da lua ou mais corretamente à função 21, 25, 35, 36). Isto indica que havia um
da lua como o corpo celeste que determina tipo de obra que lhes era permitido fazer
o tempo fixo chamado "mês". Terceiro, a durante as festividades e que era proibido
passagem de Gênesis não pode ser utilizada durante o sábado. A propósito, durante o
para argumentar que as festividades foram dia da expiação o povo não devia fazer
instituídas na Criação porque a passagem "nenhuma obra" (23:28).
não está lidando com o regulamento das
festividades, mas com as funções especí- Finalmente, Levítico 23:37-38 declara
ficas do sol e da lua. A conexão temática e explicitamente que as festividades não eram
terminológica entre Gênesis 1:14 e Salmo como o sábado: "São estas as festas fixas
104:19 indica que o termo lemôcadim é do Senhor, que proclamareis para santas
usado em Gênesis para designar o período convocações, para oferecer ao Senhor oferta
fixo de tempo a que chamamos de "mês", queimada... além dos sábados do Senhor, e
uma palavra que não é empregada na pas- das vossas dádivas." O Senhor não queria
sagem. Em Gênesis "uma tríplice função é que o povo considerasse o sábado como uma
designada a esses celestiais portadores de daquelas festas e deixou claro que elas deve-
luz: fazer separação entre o dia e a noite, riam ser celebradas além do sábado. Mesmo
servir como sinais da passagem do tempo, as ofertas trazidas durante as festividades
e iluminar a Terra."' eram também além daquelas trazidas duran-
te os serviços regulares. Não há nenhuma
base bíblica para sugerir que o sábado e as
(6) As FESTIVIDADES E O SÁBADO
festas estejam na mesma categoria.
Alguns têm até mesmo sugerido que o
sábado era também considerado uma fes- (7) As FESTIVIDADES E OS CRISTÃOS
tividade e que, portanto, se as festividades
foram abolidas, o sábado também deve ter O Novo Testamento deixa claro que os
sido abolido. Isto é obviamente incorreto. rituais do santuário do Antigo Testamento
Primeiro, o sábado foi instituído muito chegaram ao fim por meio do sacrifício de
antes do Sinai, mesmo antes da entrada do Cristo na cruz e do seu ministério sumo
pecado no mundo; mais especificamente, sacerdotal no santuário celestial. A lei que
durante a semana da criação. Não é uma regulava o sistema israelita de adoração
sombra apontando para Cristo e sua obra. era "sombra dos bens vindouros, não a
Segundo, Levítico 23:2 é uma declaração imagem real das coisas" (Hb 10:1), e
entre parênteses e não a primeira festa enu- encontrou seu cumprimento em Cristo.'
merada no capítulo. É verdade que é dito Concernentemente à festa da páscoa diz
em 23:2: "São estas as minhas festas..." e Ellen G. White:
então o mandamento do sábado é imedia- No décimo quarto dia do mês, à tarde, celebra-
tamente mencionado. Mas note que em va-se a Páscoa, comemorando as suas cerimônias
23:4, depois da referência ao sábado, outra solenes e impressionantes o livramento do cati-
vez encontramos a frase introdutória: "São veiro do Egito, e apontando ao futuro sacrifício
estas as festas fixas do Senhor." O escritor que libertaria do cativeiro do pecado. Quando o
36 / PARCRISIA - l ° SEMESTRE DE 2007

Salvador rendeu Sua vida no Calvário, cessou a As referências às festividades no Novo


significação da Páscoa, e a ordenança da Ceia do Testamento têm a finalidade primária de
Senhor foi instituída como memorial do mesmo
datar eventos. Por exemplo, a prisão de Pe-
acontecimento de que a páscoa fora tipo.'s
dro por Herodes é datada dos dias dos pães
Quando o tipo encontrou o antítipo, asmos (Atos 12:3). A menção da festividade
o tipo chegou ao fim. Escreveu ela em não tem o intento de mostrar que Herodcs ou
outro lugar: Pedro estava celebrando a festa. Um outro
caso é a referência ao "jejum" em Atos 27:9.
Cristo se achava no ponto de transição entre dois O "jejum" neste verso muito provavelmente
sistemas e suas duas grandes festas. Ele, o imacu- se refere ao dia da expiação. Mas a pas-
lado Cordeiro de Deus, estava para se apresentar sagem não está dizendo que Paulo estava
como oferta pelo pecado, e queria assim levar a
celebrando tal cerimônia. É mencionada a
termo o sistema de símbolos e cerimônias que por
quatro mil anos apontara sua morte. Ao comer a
fim de datar o incidente e prover um motivo
páscoa com seus discípulos, instituiu em seu lugar para o conselho que Paulo estava dando aos
o serviço que havia de comemorar seu grande sa- marinheiros. A navegação era perigosa du-
crifício. Passaria para sempre a festa nacional dos rante a última parte do ano, especificamente
judeus. O serviço que Cristo estabeleceu devia ser depois de setembro. Referindo-se ao dia
observado por seus seguidores em todas as terras da expiação, Lucas data o evento usando o
e por todos os séculos. lõ calendário judaico. O que ele parece estar
dizendo é que "não apenas havia começado
Dificilmente ela poderia ter sido mais o tempo perigoso para a navegação, o jejum
clara quanto à função tipológica da páscoa (ou mesmo o jejum) era agora passado — de
e dos outros tipos e cerimônias. sorte que era mais perigoso do nunca."
Não mais observamos os regulamentos Há alguma evidência para apoiar a
rituais levíticos. Temos um novo sumo conclusão de que quando os gentios se
sacerdote que não pertence à ordem de tomavam cristãos eles aceitavam o calen-
Arão e "quando se muda o sacerdócio, dário judaico?) O motivo era que "outros
necessariamente há também mudança de sistemas de calendários nomeavam os dias
lei" (Hb 7:12). A lei aqui mencionada não e os meses segundo as divindades pagãs e
deve estar limitada a uma que regula a demarcavam as estações por ritos pagãos.
linhagem sacerdotal; é antes a lei que não Em contraste, os judeus distinguiam as
pode aperfeiçoar (7:19), a lei que regula os estações pelas festividades que obviamen-
rituais do santuário. te não tinham nenhuma conotação pagã.
Provavelmente se poderia afirmar que Eles reconhecem os meses por luas novas
durante a era apostólica alguns cristãos e nomeiam esses meses usando termos
talvez tenham observado as festividades, agrícolas. Designam a semana por sábados;
mas não há nenhuma evidência bíblica começando no sábado, eles numeram, em
para apoiar a conclusão de que isto era vez de nomear, os dias da semana de um
uma exigência para os membros da igreja. a seis. Judaico, pagão, ou absolutamente
Há várias passagens no Novo Testamento nenhum sistema de cronometragem são
que dão a impressão de que Paulo celebrou as únicas opções disponíveis para Paulo e
algumas festas, mas não é claramente afir- suas comunidades, e a evidência indica que
eles optaram pelo primeiro." 21 Portanto,
mado nessas passagens (At 20:6, 15; 1Co
não devemos concluir que as referências às
16:8). 17 Devemos ter em mente que Paulo
festas no Novo Testamento significam ne-
uma vez foi ao templo de Jerusalém e ofe- cessariamente que os apóstolos e as igrejas
receu sacrifícios (At 21:17-26) e até mesmo estavam celebrando aquelas festas.
pen-nitiu que Timóteo fosse circuncidado
(At 16:1). Todavia, ele estava plenamente CONCLUSÃO
consciente do fato de que tais práticas não
eram exigidas dos crentes cristãos»' As festividades israelitas eram ocasi-
ões de júbilo para os israelitas dentro da
As FESTIVIDADES ISRAELITAS E A IGREJA CRISTÃ / 37

teocracia instituída por Deus no Sinai. para os símbolos e sombras. A única festa
Elas comemoravam importantes eventos que ainda não se cumpriu ou está sendo
salvfficos da história de Israel e, ao mesmo cumprida é a festa dos tabernáculos, mas
tempo, apontavam tipologicamente para já somos parte da ceifa universal que Cris-
a futura obra de salvação que Deus iria to virá recolher na segunda vinda. A Bíblia
realizar em favor do seu povo por meio do indica que a celebração das festividades
Messias. Com a chegada do Messias, a re- tinha limitações geográficas e temporais
alidade para a qual elas apontavam já está e que suas funções religiosas encontraram
aqui e não mais há necessidade de olhar seu cumprimento em Cristo.

REFERÊNCIAS

Artigo traduzido do original em inglês por no deserto, o povo devia agora deixar suas casas, e
Francisco Alves de Pontes. habitar em cabanas, ou em caramanchéis, formados
"Um molho deste cereal era movido pelo sa- dos ramos verdes 'das formosas árvores, ramos de
cerdote diante do altar de Deus, em reconhecimento palmas, ramos de árvores espessas, e salgueiros de
de que todas as coisas eram dele. Antes que esta ribeiros'. Levítico 23:40,42 e 43" (White, Patriarcas
cerimônia se realizasse não se devia fazer a colheita" e Profetas, 540).
(Ellen G. White, Patriarcas e Profetas [Tatuí, SP: 10 "A festa dos tabernáculos não era apenas come-
Casa Publicadora Brasileira, 1997], 539). morativa, mas também típica. Não somente apontava
White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, para a peregrinação no deserto, mas, como festa da
SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), 77. ceifa, celebrava a colheita dos frutos da terra, e in-
Idem, Patriarcas e Profetas, 540. dicava, no futuro, o grande dia da colheita final, em
5 Idem, Atos dos Apóstolos (Tatui, SP: Casa que o Senhor da seara enviará os seus ceifeiros para
Publicadora Brasileira, 1986), 39. ajuntar o joio em feixes para o fogo, e colher o trigo
Segundo Ellen G. White, a festa foi celebrada para o seu celeiro. Naquele tempo os ímpios todos
durante o tempo de Esdras e Neemias: "Esse era um serão destruídos. Eles se tomarão 'como se nunca
dia festivo, um dia de regozijo, uma santa convo- tivessem sido'. Obadias 16. E toda voz, no Universo
cação, um dia no qual o Senhor tinha ordenado ao inteiro, unir-se-á em jubiloso louvor a Deus" (White,
povo que se mostrasse alegre e jubiloso; e em vista Patriarcas e Profetas,541).
disto foram chamados a restringir suas mágoas, e "Declara o profeta em Oséias 2:11: "Farei cessar
a se rejubilarem por causa da grande misericórdia todo o seu gozo, as suas festas de lua nova, os seus
do Senhor para com eles. 'Este dia é consagrado ao sábados e todas as suas solenidades." Aqui o sábado
Senhor vosso Deus', disse Neemias, 'pelo que não está incluído juntamente com as festas. Isto tem
vos lamenteis, nem choreis... Ide, comei as gorduras, sido interpretado por alguns para indicar que se os
e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm israelitas não pudessem observar as festas durante o
nada preparado para si; porque este dia é consagra- exílio, não seriam eles capazes de guardar o sábado.
do ao nosso Senhor. Portanto não vos entristeçais, Isto é equívoco porque, primeiro, sabemos que os
porque a alegria do Senhor é a vossa força' (Ne israelitas guardaram o sábado durante o exílio, mas
8:9 e 10). A primeira parte do dia fora devotada a não as festas, porque as festas exigiam os serviços do
exercícios religiosos, e o povo despendeu o resto do templo. Segundo, esta passagem está simplesmente
tempo em grata reconsideração das bênçãos de Deus, indicando que Deus iria dar um fim a todo o corrom-
e em desfrutar a abundância que Ele provera. Porções pido sistema israelita de adoração. Não está tratando
foram também enviadas aos pobres que nada tinham do assunto sobre se eles seriam ou não capazes de
para preparar. Houve grande regozijo, por causa das guardar as festividades e o sábado durante o exílio. É
palavras da lei que haviam sido lidas e entendidas" em Oséias 9:5 que é suscitada a questão de observar
(Profetas e Reis [Tatuí, SP: Casa Publicadora Bra- as festividades em um país estrangeiro é a resposta
sileira, 1992], 662). dada é negativa. É importante notar que em 9:5 o
Richard M. Davidson, "Sanctuary Topology", sábado não está incluído.
Symposium on Reyelation — Book 1, editado por White, O Desejado, 447. Há várias passagens
Frank B. Holbrook (Silver Spring, MD: Biblical onde os israelitas são ordenados a observar festivi-
Research Institute, 1992), 123. dades como "estatuto perpétuo por vossas gerações,
8 White, Patriarcas e Profetas,540. em todas as vossas moradas" (Lv 23:14,21), dando
9 "Corno a páscoa, a festa dos tabernáculos era a alguns a impressão de que isto está se referindo a
comemorativa. EM memória 'de sua vida peregrina qualquer lugar no mundo. Mas certamente não é este
38 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

o caso. Os israelitas estavam indo para Cariaã e era que "evidência textual favorece a omissão" destas
este o lugar onde eles residiriam e onde se esperava palavras (Francis D. Nichols, Seventh-day Aclventist
que eles celebrassem as festividades. Esta era a Bzble Commentaty, vol. 6 [Washington, DC: Review
terra que o Senhor lhes deu como "terra das vossas and Herald, 1956], 367).
habitações" (Nm 15:2; cf. Ez 6:6). ' 8 Alguns têm encontrado na seguinte decla-
' 3 Victor P. Hamilton, The Book of Gênesis ração de Ellen G. White apoio para a observância
Chapters 1-17 (Grand Rapids, MI: Eerdmans, hoje da festa dos tabernáculos: "Bom seria que o
1990), 127. povo de Deus na atualidade tivesse uma festa dos
"4 Argumentam alguns que sendo que a celebra- tabernáculos - uma jubilosa comemoração das bên-
ção das festividades era "estatuto perpétuo por vossas çãos de Deus a eles. Assim como os filhos de Israel
gerações" (Lv 23:14), elas deveriam permanecer celebravam o livramento que Deus operara a seus
para sempre. O termo "para sempre" não significa pais, e sua miraculosa preservação por parte dele
necessariamente que tudo a que ele se refere nunca durante suas jornadas depois de saírem do Egito,
terá fim (cf. Ex 27:21; Lv 7:36; 10:9; 17:7; Nm devemos nós com gratidão recordar-nos dos vários
10:8; 15:15; 18:23). Por exemplo, o fogo que arderá meios que Ele ideou para nos tirar do mundo, e das
para sempre se refere ao fogo que queimará até que trevas do erro, para a luz preciosa de sua graça e
consuma seu objeto e então se extinguirá. As festas verdade" (White, Patriarcas e Profetas,540, 541).
deveriam durar até ao tempo em que encontrassem Mas ela não está promovendo a celebração das
seu cumprimento na obra de Jesus. festividades do Antigo Testamento. Está simples-
1 ' White, Patriarcas e Profetas, 539. mente sugerindo, aconselhando, recomendando que
16 Idem, O Desejado, 652. tenhamos uma festa dos tabernáculos no sentido de
17 Todavia, Ellen G. White comenta sobre Atos: nos reunirmos para comemorar as muitas bênçãos
"Em Filipos Paulo demorou-se para celebrar a que ternos recebido do Senhor. Isto será como um
páscoa. Só Lucas ficou com ele, partindo os demais culto de testemunhos, quando se concede tempo
membros da comitiva para Trôade, a fim de ali o aos membros da igreja para agradecer publicamente
esperarem. Os filipenses eram, dentre os conversos a Deus por sua bondade para com eles. Concluir
do apóstolo, os mais amorosos e sinceros, e durante do que ela diz aqui que devemos observar a festa
os oito dias da festa ele desfrutou pacífica e feliz dos tabernáculos é mal-interpretá-la. A festa dos
comunhão com eles" (Atos dos Apóstolos, 390, tabernáculos era uma festividade de colheita, mas
391). Vários comentários estão em ordem. (1) É na igreja cristã a verdadeira colheita é a colheita de
interessante observar que os companheiros de Paulo almas que ocorrerá no momento da segunda vinda.
não ficaram com ele, mas continuaram em seu luto. Então, corno já foi salientado, a festa será celebrada
Isto poderia sugerir que eles não observaram a festa. diante do trono de Deus (Ap 7). A celebração terá
(2) Ellen G. White não diz que os filipenses obser- lugar depois e não antes da colheita.
varam a festa com Paulo, mas que eles desfrutaram F. F. Bruce, The Acts of the Apostles: The
aqueles dias de comunhão com ele. (3) É importante Greek Text with Introduction and Commentaiy
observar que o texto não provê nenhuma informa- (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1951), 455. O jejum
ção concernente à maneira como Paulo observou a mencionado em Atos 13:2-3 não tem nada a ver com
festa fora de Jerusalém. Pouco sabemos no tocante o Dia da Expiação.
à celebração da principal festividade judaica pelos 20 Para evidência, ver Troy Martin, "Pagan and
judeus durante a dispersão. (4) O fato de que nem Judeo-Christian Time-Keeping Schemes in G14.10
Paulo nem qualquer dos apóstolos regulamentou and Cl 2:16", New Testament Studies 42 (1996):
a observância cristã dessas festas indica que elas 105-119.
não eram urna exigência cristã. Doutro modo, a 21 Ibid., 108. Ele menciona I Coríntios 16:2,

instrução teria sido dada. Sendo que a Bíblia silencia onde Paulo se refere ao "primeiro dia da semana"
no que concerne a este assunto, qualquer tentativa e não ao dia do sol. Seria incorreto concluir que
para regulamentar sua observância pelos modernos pelo fato de os cristãos terem aceito o calendário
cristãos seria uma imposição humana destituída judaico eles também aceitavam ou celebravam as
de qualquer apoio bíblico. Talvez seja útil dizer festividades judaicas. Acrescenta Martin: "Em se-
uma palavra concernente a Atos 18:21. Diz a King guida à destruição do templo em 70 d.C., o sistema
James Version: "Devo por todos os meios guardar temporal judaico permanece intacto mesmo quando
esta festa para que entre em Jerusalém." Traduções os judeus não podem mais oferecer os sacrifícios
mais recentes omitem esta sentença. O motivo é prescritos" (110-111).
ESTÊVÃO, ISRAEL
E A IGREJA
WILSON PAROSCHL PH.D.
Professor de Novo Testamento no Salt, Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP

RESUMO: O presente artigo investiga as da igreja e reformadores 3 — muitos autores


razões que indicam o apedrejamento de simplesmente afirmavam que a 70a semana,
Estêvão, no ano 34 da era cristã, como o que havia se iniciado com o batismo de
evento que encerra a profecia das "setenta Jesus, chegou ao fim quando o evangelho
semanas" de Daniel 9:24-27. O autor parte começou a ser pregado aos gentios. A única
de um importante material produzido sobre indicação na profecia para esta conclusão
o assunto por William H. Shea, na década era a frase introdutória: "Setenta semanas
de 1980, desenvolvendo e ampliando a estão determinadas sobre o teu povo e sobre
argumentação ali presente. O artigo primei- a tua santa cidade" (v. 24), que se admitia
ramente reconstrói os ambientes histórico significar o final de todos os privilégios do
e teológico de Estêvão e o papel que ele povo judeu.4
desempenhou na vida da igreja apostólica.
Esta interpretação recebeu mais sólido
Em seguida, analisa o significado profético
apoio escriturístico quando Estevão foi
de seu discurso e sua visão no contexto da
inserido no cenário profético. A primeira
teocracia israelita, bem como seus resulta-
pessoa a fazer isto parece ter sido o erudito
dos no relacionamento final entre Deus e irlandês William Hales. Em 1799, Hales
a nação judaica.
publicou um volume anônimo em que
ABSTRACT: This article deals with the rea- afirmava que a última das setenta semanas
sons behind the stoning of Stephen, in the havia terminado em "cerca de 34 d.C. (por
year A.D. 34 understood as the event that volta do martírio de Estevão)". 5 Quase dez
marks the end of the "seventy weeks" pro- anos mais tarde, na primeira edição do
phecy of Daniel 9:24-27. The author starts seu A New Analysis of Chronology, ele foi
out with the crucial work written on the menos hesitante em afirmar que a profecia
subject by William H. Shea, in the 1980s, "terminou com o martírio de Estevão". 6
developing and broadening the discussion Finalmente, na segunda e mais definitiva
presented there. The article presents first edição dessa obra, ele não somente confir-
the historical and theological contexts in mou sua posição, mas também a aperfei-
which Stephen appears in Scripture, and çoou um pouco mais. Essa edição muito
the role he played in the life of the apos- contribuiu para popularizar sua cronologia
tolic church. It also analyzes the prophetic entre alguns escritores proféticos dos pró-
meaning of Stephen's speach and vision in ximos dois séculos. Baseado em evidência
the Israel theocratic context, as well as its bíblica, histórica e astronômica, ele datou
final outcome in the relationship between a crucifixão em 31 d.C., no meio da 70'
God and the Jewish nation. semana..? O batismo, portanto, que ocorreu
em 27 d.C., foi o evento que assinalou
INTRODUÇÃO' o início da "primeira metade da semana
da paixão de anos", cuja metade restante
A interpretação histórico-messiânica "terminou com o martírio de Estevão, no
das setenta sernanas 2 de Daniel 9:24-27 sétimo, ou último ano da semana". 8 Ele
teve de esperar um tempo muito longo por então acrescentou:
uma defesa exegética do evento que encerra
a profecia. Até o final do século dezoito Porque é notável que o ano seguinte, 35 d.C., deu
— seguindo a tradição da maioria dos pais início a uma nova era na igreja cristã, a saber, a
40 / PAROUSTA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

conversão de Saulo, ou o apóstolo Paulo, pelo uma abertura posterior), ou levar a um fim.
aparecimento pessoal de Cristo a ele na estrada de A prática usual tem sido aplicar este verbo
Damasco, quando ele recebeu sua missão quanto em um dos primeiros dois significados.
aos gentios, depois que o Sinédrio judaico havia Shea, porém, afirma que esta interpretação
rejeitado formalmente a Cristo pela perseguição
de seus discípulos.'
só faria sentido se o segundo objeto do
infinitivo ("selar") fosse "profecia", o que
Entretanto, durante os cento e cinqüenta não é o caso. Os dois objetos são "visão"
anos posteriores, a simples declaração (hazôn), e "profeta" (nabi), que sugerem a
de que o apedrejamento de Estêvão e, terceira interpretação ("levar a um fim").
conseqüentemente, a conversão de Paulo
assinalaram o final das setenta semanas Em sua opinião, esta terceira interpre-
em 34 d.C., foi aceita como fato. Rales, na tação — levar a um fim -- é preferida aqui
verdade, não estabeleceu nem uma simples por três razões. Primeira: ocorrendo sem o
conexão exegética entre Estêvão e Daniel artigo, "profeta" poderia ter nesta passagem
9:24-27, e aqueles que vieram depois dele um significado coletivo ou corporativo, e a
se limitaram apenas a reproduzir o mesmo idéia de levar a um fim faria perfeito sentido
argumento, aparentemente despreocupados se ela se referisse a profetas como pessoas
em demonstrar por que a morte de Estêvão em vez de a suas palavras. Segunda: o
é suficiente como evidência para o final verbo hatam também ocorre três frases
desse período profético. A única razão antes neste mesmo verso com a clara idéia
dada era a mesma de sempre, ou seja, que de levar a um fim ("dar fim aos pecados").
após a sua morte, o evangelho foi levado Terceira, esta interpretação se ajusta melhor
aos gentios.'° ao contexto imediato porque o texto diz
que setenta semanas foram determinadas
Quando, porém, se fala sobre o cum- sobre o povo de Daniel e sua santa cidade.
primento da profecia, a mera escolha de Portanto, conclui Shea, "'visão' e 'profeta'
um evento específico necessariamente devem chegar a um fim no tempo em que
não torna a data correta," a despeito se encerra este período profético", e
de quão importante seja o evento. Sem
qualquer indicação em Daniel 9:24-27 desde que os eventos finais desta profecia parecem
e Atos 6-7 de que Estêvão encerra a se estender meia semana profética ou três anos e
70a semana, a conclusão de Harold W. meio além da morte do Messias, devemos procurar
uma resposta no Novo Testamento.
Hoehner de que esta interpretação "é pura
especulação" seria correta» Por causa
disto, na década de 1980 William H. Shea Para ele, Estêvão cumpre os requisitos
tentou desenvolver este tema a fim de ex- para essa resposta.'s
plicar de uma maneira mais convincente O propósito deste artigo, porém, não é
as seguintes indagações: somente mostrar como Shea liga Estêvão
O que foi tão significativo no que concerne ao à profecia, mas também dar um passo
apedrejamento de Estêvão? Por que foi o seu adiante, desenvolvendo alguns dos pontos
martírio mais importante do que o sofrido por desta conexão e explorando o papel de-
outros naquele tempo?'' sempenhado por Estêvão no contexto da
igreja primitiva, o que certamente torna
Então, pela primeira vez, as conexões o seu significado profético ainda mais
exegéticas entre Estêvão e a profecia das forte. Todavia, por causa das limitações
setenta semanas começaram a aparecer. 14 de espaço, este documento focaliza ape-
O ponto de partida de Shea é a expressão nas o próprio Estêvão, seu ministério e
"para selar a visão e o profeta", uma das o seu significado para o final das setenta
seis frases infinitivas que sintetizam o que semanas. Isto significa que nem os outros
ocorreria ao final das setenta semanas (Dn eventos e respectivas datas da profecia ! '
9:24). Segundo ele, o verbo "selar" (hatam) nem a validade escatológica de 34 d.C. em
pode ser compreendido aqui tanto como va- si como o ano da morte de Estêvão serão
lidar ou autenticar, quanto como fechar (até aqui discutidos»
ESTÊVÃO; ISRAEL E A IGREJA / 41

No que concerne à organização do se mudado para Jerusalém, e então ti-


material, é dada prioridade ao relato de nham se tornado cristãos." Estêvão era
Estêvão conforme aparece no livro de um deles (6:5). 2 ' Os "hebreus", o outro
Atos. A primeira seção ou divisão, por- segmento da igreja, contra os quais os
tanto, reconstrói os ambientes histórico e helenistas se queixaram, eram judeus
teológico de Estêvão, isto é, quem ele era, da Palestina de língua aramaica que for-
como se tornou um pregador, qual era sua maram o núcleo original da comunidade
teologia, e as mudanças que ocorreram na cristã de Jerusalém. Os doze pertenciam
igreja apostólica imediatamente após e a esse grupo (6:2).
como resultado de sua morte. Então a se- O fato de que a igreja estivesse dividida
ção seguinte introduz as razões exegéticas em dois grupos distintos em tão primitivo
por que Estêvão parece se ajustar ao final período não implica necessariamente,
da 70" semana pela análise do momento como tem sido sugerido, duas comunida-
do seu julgamento, a saber, a verdadeira des virtualmente separadas com diferentes
natureza do seu discurso e visão e o seu características religiosas e doutrinárias. 22
significado teológico em relação à aliança Martin Hengel afirma que o único motivo
de Deus com Israel. No final, segue-se para a separação era a língua, que "neces-
um sumário das seções anteriores e uma sária e rapidamente" levou os cristãos de
conclusão experimental. fala aramaica e os de fala grega a adotar
serviços de adoração separados, precisa-
ESTÊVÃO COMO PREGADOR mente como nas sinagogas judaicas (cf. At
Estêvão tem sido descrito como uma 6:9)." Mas é também "inerentemente pro-
das figuras mais "ambíguas" do relato vável", como diz I. Howard Marshall, que
o grupo de fala aramaica era "mais radical
bíblico da igreja apostólica: 8 Tem havido
em suas atitudes para com o judaísmo" do
muita discussão entre os eruditos acerca de
sua identidade, seu ambiente, sua teologia, que o outro grupo, que havia ido muito mais
longe do que o último em sua interpretação
sua influência sobre Paulo e a missão aos
do evangelho."
gentios, seu papel na teologia e estrutura
de Atos, e assim por diante: 9 0 relato de Embora Marshal reitere que essa di-
Estêvão dado por Lucas em Atos 6-7 dá ferença não deve ser exagerada," não é
origem a numerosas e diversas indagações impossível que além do problema envol-
que são ainda mais relevantes quando se vendo as viúvas dos helenistas houvesse
faz uma tentativa de ligar sua morte à também algumas preocupações teológi-
profecia das setenta semanas. Por causa cas." Havia dentro do Judaísmo uma ten-
disto, esta seção procura identificar três dência de considerar aqueles que estavam
elementos básicos acerca de Estêvão, a sob a influência da cultura grega religio-
saber: sua comunidade, sua teologia e a samente liberais (cf. 1 Macabeus 1:10-
influência de sua teologia sobre a história 15; 2 Macabeus 4:7-20). 27 0s helenistas
da igreja apostólica. não tinham nenhuma raiz nas tradições
hebraicas da Palestina. Muitos deles não
sabiam ler as Escrituras Hebraicas, e não
SUA COMUNIDADE
freqüentavam as sinagogas judaicas. Os
Estêvão aparece pela primeira vez no prosélitos, inferiores aos de nascimento e
contexto da primeira dissensão experi- educação hebraica, naturalmente se asso-
mentada pela igreja primitiva. O proble- ciariam mais aos helenistas (cf. At 6:5).
ma estava relacionado ao suprimento de Mais ainda, sua aceitação dos costumes
alimento dado às viúvas helenistas de gregos e o seu intenso contato anterior
Jerusalém (At 6:1). O termo "helenistas" com gentios em seus países nativos certa-
significava simplesmente pessoas que fa- mente alimentariam a suspeita de que eles
lavam o grego como sua língua materna. não eram suficientemente firmes em sua
Neste caso, se refere a judeus que haviam observância da lei. Sejam quais forem os
nascido em países greco-romanos, tinham fatos precisos, os eventos subseqüentes
42 / PAROUSIA - l ° SEMESTRE DE 2007

— isto é, a eleição dos sete, o julgamento "Este homem não cessa de falar contra
e morte de Estêvão e a perseguição que o lugar santo e contra a lei; porque o
veio depois disso — indicam que as dife- temos ouvido dizer que esse Jesus, o
renças teológicas desempenhavam um Nazareno, destruirá este lugar e mudará
papel importante naquela dissensão e que os costumes que Moisés nos deu" (6:13-
a queixa dos helenistas, como diz James 14). Contudo, baseado na referência a
D. G. Dunn, era apenas o sintoma de um "testemunhas falsas" (6:13), P. Double
problema mais profundo." afirma que Lucas pretende indicar que
as acusações contra Estêvão não eram
SUA TEOLOGIA verdadeiras." Mas as acusações, de fato,
não podiam ser totalmente falsas. É pos-
A solução dos apóstolos para a queixa sível que Estêvão tivesse dito algo que
dos helenistas foi escolher sete homens da havia sido torcido por seus opositores,
própria comunidade helenista para assumir "precisamente como as acusações feitas
a responsabilidade de servir os pobres que contra Jesus (Mc 14:58) parecem de fato
havia entre eles." Como sugere Hengel, a ter algum fundamento" ".
escolha pode ter caído sobre aqueles que Segundo aquelas testemunhas, as pa-
já eram os líderes dos cristãos helenistas. 3° lavras proferidas por Estêvão sugeriam
Neste caso, sua eleição simplesmente signi- que o próprio Jesus destruiria o templo
ficava o reconhecimento de sua liderança, e alteraria a tradição mosaica. De fato,
especialmente de Estêvão, o primeiro nome Jesus tinha dito: "Eu destruirei este san-
da lista (cf. 6:5). tuário edificado por mãos humanas e, em
Esta idéia é confirmada pela atividade três dias, construirei outro, não por mãos
que eles desempenharam imediatamente humanas." O quarto evangelho dá a apli-
após sua eleição, o que não se ajusta à cação imediata destas palavras como se
compreensão tradicional de que eles eram referindo à ressurreição corporal de Jesus
apenas diáconos. De fato, eles nunca são (Jo 2:19-21). Estêvão, porém, parece tê-las
identificados como "diáconos" (diako- aplicado, ou parte delas, ao próprio templo
noi) no livro de Atos,' e o mesmo verbo a fim de ressaltar que ele havia perdido
usado em 6:2 para descrever o que eles o seu significado cultual. Suas palavras
supostamente deviam fazer (diakonéo) é "não habita o Altíssimo em casas feitas
também usado para a pregação da palavra por mãos humanas" (At 7:48) poderiam
pelos doze em 6:4. Também é digno de ser interpretadas não somente como um
nota que quando Lucas deseja distinguir protesto contra a relação idólatra que Isra-
Filipe de seu homônimo, o apóstolo, ele el mantinha com o templo," mas também
não o chama de "Filipe, o diácono", mas como uma declaração do final definitivo
"Filipe, o evangelista" (21:8). Isto ajuda a de todo o sistema cerimonial, porque nun-
explicar por que os sete aparecem como ca foi pretendido que o templo se tomasse
pregadores e operadores de maravilhas e uma instituição permanente, 35 exceto em
sinais imediatamente após sua eleição (6:8- sua função doxológica (veja Is 2:1-4). É
10; 8:4-8, 26-40). E sua pregação deve ter notável que a única referência bíblica de
sido poderosa, porque é relatado que não que havia muitas conversões mesmo
somente "se multiplicava o número dos entre os sacerdotes — apareça no contexto
discípulos" (6:7), mas também que sua da pregação de Estêvão (cf. 6:7).
atividade suscitava uma forte oposição dos As palavras de Estêvão, porém, podem
judeus (6:9). ainda ter o que Marshall chama de "im-
Mas o que exatamente pregava Es- plicação tácita", ou seja, que Deus habita
têvão? Provavelmente as acusações feitas em um templo não-feito por mãos: 36 À
contra ele provêem algum indício. Foi luz do livro de Hebreus, tal implicação
acusado de "proferir blasfêmias contra não é uma surpresa. Em Hebreus existe
Moisés e contra Deus" (6:11). Alguns a mesma ênfase de que o templo de Jeru-
foram secretamente induzidos a dizer: salém já havia perdido seu significado e
ESTÊVÃO, ISRAEL E A IGREJA! 43

função como um lugar de expiação (Hb palavra." (8:4; cf. 8:5-8; 11:19-21). Os
8:7, 13; 10:1-2) e, por este motivo, tinha helenistas, portanto,
sido substituído por outro templo, um tornaram-se os verdadeiros fundadores da missão
templo superior, não "feito por mãos" aos gentios, em que a circuncisão e a observância
(9:24; cf. 8:1-2)." da lei ritual não eram mais exigidas.'
Os apóstolos e outros cristãos judeus
Além disso, não é mera coincidência que
de fala aramaica de Jerusalém, como ju-
Paulo, o apóstolo aos gentios, seja introduzi-
deus devotos, provavelmente ainda não
do por Lucas no momento exato da morte de
estavam prontos para seguir a compreen-
são dos helenistas quanto a este assunto Estêvão (cf. 7:58). Concorda-se geralmente
que Paulo freqüentava a sinagoga helenista
específico. Ainda estavam de certa forma
ligados a alguns dos serviços do templo mencionada em Atos 6:9 e, assim, era um
e mesmo a alguns aspectos cerimoniais dos opositores de Estêvão» Paulo descreve-
se a si mesmo antes da sua conversão como
da lei (cf. At 3:1; 21:17-26; 012:11-14).
"fariseu" (Fp 3:5) e "extremamente zeloso"
Martin Hengel declara que "eles perma-
da lei mosaica e da tradição dos antepassa-
neciam mais profundamente arraigados
dos (011:14). Como tal, ele dificilmente
em sua tradição religiosa da Palestina,
poderia suportar um ataque contra a lei e o
que desde o tempo dos Macabeus inevita-
culto do templo, duas das três colunas sobre
velmente consideravam qualquer ataque
as quais, segundo Pirqe Aboth 1:2, o mundo
à Torah e ao templo como sacrilégio.""
repousa (sendo a última as boas obras). Para
No entanto, Estêvão, bem como os outros
ele, Estêvão e os outros cristãos helenistas
cristãos helenistas, podem ter compreen-
dido rapidamente que a missão de Cristo tinham se demonstrado apóstatas. Por causa
disto, ele os perseguiu (Fp 3:6). Um pouco
envolvia a ah-rogação de toda a ordem
do templo e sua substituição por um mais tarde, porém, ele estava sendo acusado
de pregar a mesma teologia que havia ten-
novo edifício não-feito por mãos. O fato
tado destruir (cf. Atos 21:21). Este fato tem
de que eles tivessem nascido no exterior,
levado Hengel a declarar que os helenistas
vivido mais perto dos gentios e falassem
de Jerusalém foram "a ponte real entre Jesus
outra língua poderia tê-los feito mais fle-
xíveis em sua tradição religiosa do que os e Paulo"»
hebreus e ao mesmo tempo mais acessíveis Mas além das similaridades teológicas,'
ao evangelho e à sua dimensão mundial." O um evento aparentemente sem significado
evangelho significava o fim de todas as leis ajuda a esclarecer a íntima ligação entre
cerimoniais, inclusive os ritos sacrificiais. Paulo e os helenistas. Ao retornar de sua
Esses símbolos externos e visíveis do par- terceira viagem missionária, Paulo chegou
ticularismo judaico não eram compatíveis em Jerusalém e se hospedou com uma pes-
com a universalidade da mensagem cristã soa chamada "Mnasom, natural de Chipre,
de uma salvação já realizada. velho discípulo" (At 21:16)." Sendo "velho
discípulo", sua conversão provavelmente
SUA INFLUÊNCIA
remontava aos primeiros anos da igreja de
Jerusalém." Por ser de Chipre, ele era cer-
Finalmente, deve ser notado que tamente um helenista e, portanto, pode ter
somente os cristãos helenistas foram tomado parte nos episódios de Atos 6-8. 47
dispersos de Jerusalém na perseguição Considerando que vários dos oito compa-
contra a igreja após a morte de Estêvão. Os nheiros de Paulo nesta parte da viagem eram
apóstolos foram capazes de permanecer incircuncisos (cf. 20:4), Jon Paulien salienta
ali (cf. At 8:1, 14) como foram os outros que dificilmente um cristão hebreu estaria
cristãos hebreus (cf. 11:1, 18, 22). 40 Essa preparado para hospedá-los "com alegria"
perseguição, porém, teve uma influência (21:17). Mas como helenista, isto não seria
positiva sobre a atividade missionária um problema para Mnasom." Seja qual for o
da igreja. "Entrementes, os que foram caso, o fato de que em Cesaréia eles tinham
dispersos iam por toda parte pregando a ficado em casa de Filipe, "que era um dos
44 / PAROUSIA - 1 0 SEMESTRE DE 2007

sete" (21:8), é suficiente para mostrar a pro- (7:55-56) torna-o "por definição" um pro-
ximidade entre Paulo e os helenistas. feta, sendo que "é aos profetas que Deus
Assim, o martírio de Estêvão ocupa dá visões de si mesmo como esta". 5 ' Sendo
uma posição de extrema importância na assim, conclui Shea, "ele pode ter tido mais
história da igreja apostólica. Foi o último breve ministério que o de qualquer profeta
evento que ocorreu enquanto as ações conhecido na Bíblia, porque foi apedrejado
ainda estavam confinadas a Jerusalém e os logo depois"» Todavia, não é a extensão
cristãos ainda viviam praticamente como de um ministério profético que o torna
judeus. Ao mesmo tempo, foi o evento que importante, mas o momento histórico de tal
primeiro envolveu a Paulo e que começou a ministério e a mensagem comunicada. Por
levar a mensagem cristã ao mundo gentio. causa disto, esta seção focaliza a estrutura e
Pode-se concordar com a posição de J. significado do discurso de Estêvão e o real
C. O'Neil de que "muito significado está
objeto de sua visão.
ligado a um só evento", mas sua conclu-
são de que "Lucas está esquematizando
a história e atribuindo a uma causa o que SEU DISCURSO
provavelmente deveria ser atribuída a O significado do discurso de Estêvão
muitas"," é especulativa e destituída de diante do Sinédrio (At 7:2-53) pode ser
evidência. A melhor alternativa, portanto, notado primeiramente, a partir de seu
é tomar a narrativa de Lucas como ela está tamanho. É o mais longo discurso do
e reconhecer o significado de Estêvão no livro de Atos, e este fato por si mesmo
desenvolvimento da igreja apostólica. tem sido suficiente para reter a atenção
Contudo, por mais significado que de muitos eruditos. 53 Além disso, esse
ele tivesse, isto não basta para torná-lo o discurso também tem sido descrito como
cumprimento das setenta semanas. Mas se "talvez [o mais] complicado discurso de
a frase "para selar a visão e o profeta" (Dn Atos"," por causa de sua perplexidade e
9:24) se aplica ao final desse período profé- problemas de interpretação que ele susci-
ta." Um dos problemas está relacionado
tico e significa levar a um fim o ministério
com a natureza desse discurso, e, neste
profético em favor do povo de Daniel, e se
ponto específico, a interpretação provida
Estêvão satisfaz esses critérios cronologi-
por Shea é muito criteriosa. Segundo ele,
camente bem como historicamente, então
o discurso de Estêvão "deveria ser com-
o seu papel na história da igreja apostólica
preendido em conexão com a aliança do
pode ser adicionado ao quadro para fortale-
Antigo Testamento"," isto é, a maneira
cer ainda mais o seu significado profético. pela qual a aliança entre Deus e Israel foi
Este é o assunto da seção a seguir. formulada e a maneira como os profetas
usaram essa formulação.
ESTÊVÃO COMO PROFETA
A interpretação de Shea baseia-se princi-
A questão com que agora nos depa- palmente em um importante estudo publicado
ramos é: Estêvão foi um profeta? Se é em 1954 por George E. Mendenhall," que
assim, então devemos também indagar: identificou a estrutura da aliança do Sinai
ele satisfaz os critérios exigidos por Daniel com o tratado de suzerania utilizado pelos
9:24-27 para o final do período das setenta reis hititas em 1450-1200 a.C.," um perío-
do que corresponde exatamente aos inícios
semanas? Baseado em Atos 7:52, F. F.
- do povo de Israel. O rei Iniba era o grande
Bruce declara que "Estêvão colocou-se na rei ou suzerano que tinha sob seu controle
sucessão profética por atacar" os judeus no vários vassalos, de quem ele esperava fide-
mesmo ponto em que os haviam atacado os lidade e estrita obediência. A aliança, que
profetas do Antigo Testamento, isto é, "as era designada pela expressão "juramentos
noções pervertidas de Israel do verdadeiro e compromissos", tinha basicamente seis
culto de Deus"." Shea afirma que a visão elementos: (1) o preâmbulo, que identificava
que Estêvão teve no final do seu julgamento o suzerano; (2) o prólogo, que descrevia as
ESTÊVÃO, ISRAEL E A IGREJA 7 45

relações prévias entre o suzerano e o vassalo; esse discurso poderia parecer um estranho, talvez
(3)as estipulações ou obrigações impostas ao até mesmo tedioso, sermão em que ele discorre de
vassalo; (4) provisão para depósito no templo um modo monótono sobre a história de Israel.
e leitura pública periódica; (5) as testemunhas
da aliança; e (6) as bênçãos e maldições que Mas àluz do uso da fórmula da aliança
viriam ao vassalo como resultado de sua e especialmente o modelo rib no Antigo
obediência ou desobediência." Testamento, o discurso assume um pro-
fundo significado. O que Estêvão fez em
Embora Mendenhall declare que "so- Atos 7:2-50 foi desenvolver a seção do
mente duas" alianças, bíblicas pertencem prólogo da aliança original do mesmo
a este modelo, Êxodo 20-23 e Josué 24, 60 modo que os profetas do Antigo Testa-
Shea tem demonstrado com sucesso que mento faziam quando apresentavam o rib
Deuteronômio, 1 Samuel 12 e Miquéias divino contra Israel. 65
6 também podem ser organizados de
acordo com essa mesma estrutura." E SEU VEREDITO
para ele, o valor dessa identificação está
no fato de que ela mostra que "quando A missão profética cumprida por Estê-
os profetas vinham como reformadores vão em seu julgamento também esclarece
para chamar Israel de volta à relação da sua atitude no que concerne às acusações
aliança do Sinai, eles o faziam aplicando lançadas contra ele. Alguns eruditos têm se
a fórmula da aliança a situações vigentes referido ao seu discurso em termos de uma
em seu tempo." 62 Fazendo isto, afirma defesa ou apologia," mas ele realmente não
Shea, os profetas às vezes usavam a pa- fez nenhum esforço para se defender, em
lavra hebraica rib, cuja melhor tradução contraste com o caso de Pedro algum tem-
é provavelmente "demanda judicial da Po antes (cf. At 4:8-12). Neste sentido, G.
aliança", para expressar a idéia de Deus A. Kennedy está certo quando afirma que
apresentando diante de um tribunal uma o discurso de Estêvão está retoricamente
ação contra o seu povo por causa de sua incompleto," porque em vez de refutar a
violação da aliança." Em Miquéias 6:1-2, falsidade das acusações, ele de fato consiste
por exemplo, que se assemelha ao preâm- de urna mensagem de acusação e condena-
bulo e aos parágrafos das testemunhas ção. Simon Legasse descreve a atitude de
da aliança original, a palavra rïb ocorre Estêvão em termos de "uma inversão de
três vezes: papéis", isto é, de acusado ele tomou-se
acusador," porque depois de sua longa ex-
Ouvi, agora, o que diz o SENHOR: Levanta-te, posição da história de Israel, ele anunciou
defende a tua causa [rfb] perante os montes, e o seu veredito:
ouçam os outeiros a tua voz. Ouvi, montes, a
controvérsia [rib] do SENHOR, e vós, duráveis Homens de dura cerviz e incircuncisos de cora-
fundamentos da terra, porque o SENHOR tem ção e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito
controvérsia Kb] com o seu povo e com Israel Santo; assim como fizeram vossos pais, também
entrará em juízo. vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não
perseguiram'? Eles mataram os que anteriormente
Em seguida (v. 3-5), no prólogo cor- anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora vos
respondente, o profeta lembra ao povo tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes
os poderosos atos de Deus em seu favor a lei por ministério de anjos e não a guardastes
no passado. As estipulações e violações (At 7:51-53).
são enumeradas nos versos seguintes (v.
Essas palavras consistem na culmina-
6-12), que culminam com as maldições
ção do discurso" e devem ser compreen-
(v. 13-16)."
didas como uma declaração explícita de
Segundo Shea, este antecedente do condenação. Matando o Messias, aquelas
Antigo Testamento é necessário para uma pessoas não somente estavam se identi-
melhor avaliação do discurso de Estêvão ficando como filhos de seus "pais", mas
em Atos 7. Sem esta base em mente, es- também completando a grande soma
creve ele, de rebelião e iniqüidade iniciada por
46 / PAROUSIA - l ° SEMESTRE DE 2007

eles," ou, usando a linguagem bíblica, Isto é confirmado pelo bem-conhecido


"eles tinham enchido a medida de seus incidente relatado em Marcos 12:35-37
pais"". Se os seus pais eram culpados (cf. Mt 22:41-46; Lc 20:41-44). Não podia
de matarem os profetas, eles eram ainda ser Davi, porque ele não havia subido aos
mais por assassinarem a Jesus. Como diz céus; ele aindajaz sepultado em seu túmulo
Marshall, eles tinham chegado ao limite (cf. At 2:29, 34). Assim, esta passagem só
da oposição de Israel a Deus." podia apontar para o Messias e, segundo os
apóstolos, ela encontrou seu cumprimento
Gerd Lündemann salienta corretamente
em Jesus de Nazaré (cf. v. 34-36).
que "o chamado ao arrependimento" que
se destaca em outros discursos de Atos está Mas a visão de Estêvão também con-
ausente aqui." Parece, portanto, que o que siste de uma referência à corte celestial
Estêvão estava apresentando aos líderes mencionada em Dn 7:9-14. Em sua visão,
judeus não era apenas outra das demandas Estêvão se referiu a Jesus como "o Filho
judiciais da aliança de Deus, mas a fina1, 74 do homem", e este título remonta ao seu
como se o seu tempo para o arrependi- uso original em Daniel," onde o contexto
mento tivesse definitivamente chegado ao é claramente de juízo." É importante
fim e eles fossem achados culpados. Eles notar, porém, que o próprio Jesus já ha-
tinham falhado em guardar a aliança (cf. v. via usado o mesmo título em conexão
53), e por causa disto eles não eram mais o com a idéia de sua exaltação. Diante do
povo da aliança. A mudança pronominal de mesmo sinédrio Ele havia dito: "Desde
"nossos" (v. 11, 19, 38, 44, 45) para "vossos agora, estará sentado o Filho do homem
pais" (v. 51) talvez signifique mais do que à direita do Todo-poderoso Deus" (Lc
uma simples ruptura na solidariedade de 22:69), e esta declaração particularmente
Estêvão com sua audiência, como sugere pode ser a chave para se compreender a
Gehard A. Krodel." Pode também indicar o visão de Estêvão. Combinando a idéia de
final definitivo da relação da aliança entre sua exaltação com a alusão ao tribunal
Deus e Israel como nação. A referência a celestial, Jesus pode de fato ter inferido
Jesus em 7:52 torna implícito que agora o que Ele estava naquele momento em pé
verdadeiro povo da aliança eram aqueles em julgamento diante dos líderes judeus,
que acreditavam nele e o seguiam." Em mas "estava chegando o tempo em que
outras palavras, o povo que pertencia à Ele seria juiz enquanto eles estariam em
aliança de Deus não era mais definido em pé diante dele"." Neste sentido a visão de
termos étnicos ou políticos como tinha sido Estêvão poderia indicar que esse tempo
Israel, mas em termos de discipulado para havia chegado, porque ele viu Jesus "em
Jesus Cristo (cf. 11:26)." pé" (estôta) à direita de Deus em vez de
"sentado" (Icathémenos), como Jesus mes-
SUA VISÃO mo tinha dito que estaria.
Esta mudança verbal tem dividido os
A conclusão acima pode parecer um
eruditos, e no mínimo cinco diferentes
tanto radical, mas é confirmada como ver-
interpretações têm sido propostas. C. H.
dadeira pela visão de Jesus que Estêvão
Dodd, por exemplo, nega que o particípio
teve em seguida. Quando ele acabou de
estóta tenha qualquer significado especial.
falar, estando "cheio do Espírito Santo"
Segundo ele, significa muito geralmente.
(7:55), disse: "Eis que vejo os céus abertos
"estar situado" sem necessariamente
e o Filho do homem, em pé à destra de qualquer sugestão de uma atitude ereta."-
Deus" (v. 56).
William Kelly, por sua vez, diz que Jesus
Primeiramente, deve ser notado que sua estava em pé porque Ele ainda "não ha-
visão é uma clara referência à exaltação via tomado definitivamente seu assento",
do Messias mencionada no Salmo 110:1. 78 isto é, que era um período de transição
Nesta passagem, não há dúvida de que o em que Jesus "ainda estava dando aos
"Senhor" a quem Deus disse: "Assenta- judeus uma oportunidade final"." H. P.
te, à minha direita" cria-se ser o Messias. Owen, por outro lado, propõe que o que
ESTÊVÃO, ISRAEL E A IGREJA / 47

Estêvão recebeu foi uma espécie de visão onde Deus se levanta a fim de julgar (cf. Jó
proléptica "da glória da parousia" . Para 19:25; Is 3:13; Dn 12:1)." Portanto, o que
ele, Jesus estava em pé em preparação Estêvão viu em visão, poderia ser Jesus le-
para o seu segundo advento. 84 Marshall vantando-se para pronunciar o seu juízo.
pensa que Jesus estava em pé para receber
o moribundo Estêvão em sua presença. Em O segundo ponto que deve ser notado
sua opinião, a implicação da visão é a de é que a aliança que Deus tinha com Israel
que "como Jesus ressurgiu dos mortos, não era em si mesma sinônimo de salvação,
assim serão os seus seguidores"." Uma mas uma provisão pela qual a salvação de
idéia ligeiramente diferente é dada por Deus poderia ser levada ao mundo inteiro
Bruce, que acredita que Jesus estava em (cf. Gn 12:1-3)." Em outras palavras, a
pé à direita de Deus como testemunha de aliança deveria ser compreendida princi-
Estêvão, o qual havia confessado Jesus palmente em termos de missão. De sorte
diante dos homens, e agora ele via Jesus que declarar que os judeus não são mais o
confessando-o diante de Deus." povo da aliança não significa que Deus os
tenha rejeitado, como às vezes tem sido su-
Mas conquanto a interpretação de Kelly gerido" (cf. Rm 11:1-10), mas apenas que
dificilmente possa ser aceita por causa de Deus escolheu outro povo para executar o
sua clara fórmula dispensacionalistaf a seu plano missionário. Deve ser lembrado
idéia de que Jesus estava em pé para julgar que a aliança de Deus com Israel foi esta-
Israel não pode ser totalmente rejeitada. belecida em uma base corporativa, isto é,
Deve-se notar, primeiro, que todo o con- envolvia toda a nação como uma entidade
texto do discurso de Estêvão estabelece teocrática." Portanto, falar sobre o final da
realmente o fato de que não era Estêvão aliança com Israel não significa o final do
quem estava sendo julgado pelos líderes interesse de Deus nos judeus como indiví-
de Israel, mas Israel estava sendo julgado duos. Por causa disto, o evangelho ainda foi
por Deus por meio do ministério profético pregado a eles até mesmo depois da morte
de Estêvão. Estêvão se dirigiu ao sinédrio de Estêvão (cf. At 28:17-28)." Mas o pri-
não como um réu, mas como um profeta vilégio de ser "raça eleita, sacerdócio real,
que trazia o :lb final de Deus contra aquelas nação santa, povo de propriedade exclusiva
pessoas. Por causa disto, ele teiminou o de Deus, a fim de proclamardes as virtudes
seu discurso com uma enérgica declaração daquele que vos chamou das trevas para a
de condenação. Eles tinham falhado em sua maravilhosa luz" (1Pe 2:9) não era mais
cumprir a aliança; portanto não eram mais exclusivamente deles» O povo da aliança
o povo da aliança. agora não era mais definido pela linhagem
de sangue, mas pela fé em Jesus Cristo (GI
É importante notar que algum tempo 3:26-29; cf. Rm 11:25-32)." Deste modo,
antes, Pedro tinha dito à mesma audiência o ministério de Estêvão, seu discurso e sua
que Jesus fora exaltado por Deus "a Prín- visão, parece ser uma explanação apro-
cipe e Salvador, a fim de conceder a Israel priada e cumprimento da profecia de que
o arrependimento e a remissão de pecados" "setenta semanas estão determinadas sobre
(At 5:31). Comentando esta passagem: o teu povo e sobre a tua santa cidade" (Dn
Krodel declara que por intermédio da pre- 9:24). Conclui Shea:
gação apostólica Deus estava oferecendo
"urna segunda oportunidade a Jerusalém Estêvão foi o último profeta verdadeiro a quem
e seus líderes". Se a oportunidade fosse Deus chamou para aquele ofício de falar articu-
aceita, então o arrependimento e o perdão ladamente ao povo de sua eleição. Quando seus
seriam recebidos como dom de Deus, me- líderes o apedrejaram, eles silenciaram a voz do
último em uma longa série de seus profetas. Sua
diado pelo mesmo Jesus que eles haviam
morte trouxe um fim à função do oficio profético
matado."Agora, porém, Jesus não parecia em seu favor como um povo. A visão que ele viu
estar mais esperando por seu arrependimen- pouco antes de morrer foi a última visão que um
to. Era um tempo de juízo. Além disso, é profeta que ministrava especialmente para eles
digno de nota que há alguns textos na Bíblia deveria. ver."
48 / PAROUSIA - I° SEMESTRE DE 2007

CONCLUSÃO uma distinta mudança. Não mais os cristãos


judeus poderiam ser considerados como judeus
À luz dos parágrafos anteriores, a in- ortodoxos; eles eram uma seita distinta e heré-
terpretação tradicional de que as setenta tica. Não mais era a lei judaica o âmago de sua
semanas de Daniel 9:24-27 atingiram religião. A pregação de homens como Estêvão
seu cumprimento com o apedrejamento os excluía."
de Estêvão parece ser muito mais do que
O significado profético de Estêvão,
uma mera possibilidade. Embora a escolha
porém, não está relacionado apenas com a
deste evento por Bales estivesse baseada
separação definitiva da igreja do judaísmo
mais em uma coincidência cronológica
tradicional e sua orientação em relação aos
do que em uma convicção exegética, isto
gentios. Para os cristãos Estêvão foi um
não significa que ele estava errado; nem
pregador e mesmo um reformador,m e para
aqueles que por cento e cinqüenta anos
os judeus ele foi um profeta, o último profeta
usaram o mesmo argumento sem tentar chamado por Deus para falar diretamente a
justificá-lo exegeticamente. O fato é que
Israel corno o povo da aliança. Como tal, sua
se for compreendido como levando a um
mensagem foi uma mensagem de condena-
fim o ministério profético em favor de
ção. Eles tinham quebrado a aliança e, por
Israel ("o teu povo e a tua santa cidade")
causa disto, Deus o chamou para apresentar
conforme defendido por Shea, a frase "se-
seu rib final contra eles. No exato momento
lar a visão e o profeta" encontra um cum-
em que Estêvão os estava condenando na
primento plausível em Estêvão. Primeiro,
Terra, Jesus os estava julgando em sua corte
porque o papel que ele desempenhou na
celestial. A visão de Estêvão, portanto, não
história da igreja primitiva -- que, embora
foi a visão de um mártir perto da morte,
muito breve, foi decisivo e significativo
mas a visão de um profeta cumprindo sua
— dificilmente pode ser exagerado. Estê-
missão. Assim, os privilégios dos judeus
vão representou literalmente o início do
como o povo da aliança chegaram ao fim. As
cristianismo como uma religião universal, setenta semanas finais que Deus havia dado
embora isto lhe custasse a própria vida.
ao seu povo tinham terminado; o ministério
Sua morte foi injusta e violenta. As pedras
profético em seu favor também estava ter-
silenciaram-lhe a voz, mas não foram
minando, e eles não eram mais o povo da
capazes de mudar o curso da história. Ao
aliança. Todavia, pela fé em Jesus Cristo
contrário, "um jovem chamado Saulo" (At
eles ainda poderiam retomar sua posição e
7:58), também helenista, que observava e
missão, porém não mais como nação.
evidentemente aprovava a execução, no
final tornou-se o grande continuador da A última esperança de Israel como
obra iniciada por Estevão." nação deixou de existir com Estêvão. As
Sem dúvida, Estêvão foi mais do que pedras que os dirigentes judeus lhe atira-
um diácono como o termo é hoje compre- ram selaram para sempre o seu destino.
endido. Ele foi um pregador, e por causa Mas Estêvão não morreu sem primeiro
revelar uma nobreza de caráter típica de
da sua formação helenista, "parece ter sido
um verdadeiro mártir. Em seu derradeiro
o primeiro cristão a perceber que o cristia-
nismo significava o final dos privilégios momento, ele ainda orou: "Senhor, não
judaicos, e o primeiro a abrir o caminho lhes imputes este pecado" (At 7:60). Estas
para urna missão aos gentios"." Declara palavras, entretanto, foram muito mais do
que uma oração. Eram a genuína expressão
Norman J. Bull:
da vontade de Deus em relação àquelas pes-
O apedrejamento de Estêvão iniciou um novo soas. Para Israel, o tempo havia terminado;
estágio na história da infante igreja. Até então o contudo ainda há esperança para Israel em
cristianismo tinha sido uma seita do judaísmo. uma base individual.
Os cristãos tinham vivido como judeus, pela
lei judaica. Eles podiam ainda ser considerados Eles também, se não permanecerem na incre-
como formando uma sinagoga separada, como dulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso
faziam muitos grupos de judeus. Agora houve para os enxertar de novo (Rm 11 :23)2© •
ESTÊVÃO, ISRAEL E A IGREJA / 49
REFERÊNCIAS

'Este artigo foi originariamente apresentado no I Pacific Press, 1955), 257; J. Barton Payne, The Immi-
Congresso Internacional da Bíblia, realizado na cida- nent Appearing of ChriÈt (Grand Rapids: Eerdmans,
de de Jerusalém (Israel), de 8 a 14 de junho de 1998, 1962), 149; Charles Boutflower, In and Around lhe
e publicado no Journal ofthe Adventist Theological Book of Daniel (Grand Rapids: Zondervan, 1963),
Society, 9(1998): 343-361, sob o título "The Profetic 210; Robert M. Gurney, God in Control (Worthing:
Significance of Stephen". Traduzido do original em 11. E. Walter, 1980), 115-119.
inglês por Francisco Alves de Pontes. " Talvez por causa disto Young, 220, declare
2 J. Burton Payne, Encyclopedia of Biblical acerca das setenta semanas: "Nenhum evento impor-
Prophecy (Grand Rapids: Baker, 1997), 383-389, tante é destacado como assinalando a terminação." E
ressalta que há basicamente quatro diferentes tipos de Pusey, 193, diz que o final da profecia "provavelmen-
interpretação de Dn 9:24-27: a liberal, a tradicional, te" assinala o tempo em que "o evangelho abarcou o
a dispensacionalista e a simbólica. A tradicional, mundo". Ele então acrescenta: "Não temos os dados
também conhecida como interpretação histórico- cronológicos para estabelecê-lo."
messiânica, é caracterizada por aplicar a esta profecia 12 Harold W. Hoehner, Chronological Aspects

o princípio dia-ano e por sustentar que "toda esta of lhe Life of Christ (Grand Rapids: Zondervan,
passagem é de natureza messiânica, e o Messias é o 1977), 126.
principal personagem... o grande terminus ad quem" 13 William H. Shea, "Daniel and the Judgment,"
da parte central da profecia, isto é, as 69 semanas um manuscrito sobre a doutrina do santuário e do
(Edward J. Young, The Prophecy of Daniel [Grand juízo, Andrews University, julho de 1980, 366.
Rapids: Eerdmans, 1949], 209). '4 A tese de Shea foi finalmente publicada em
3 Para um estudo exaustivo de interpretação "The Prophecy of Daniel 9:24-27", em Seventy
profética desde os primeiros pais da igreja até os Weeks, Leviticus, Nature of Prophecy, Daniel &
tempos modernos, veja LeRoy Edwin Froom, The Revelation Committee Series, vol. 3, ed. Frank B.
Prophetic Faith of Our Fathers,4 vols. (Washington: Holbrook (Washington: Instituto de Pesquisas Bí-
Review & Herald, 1948). blicas, 1986), 75-118.
Veja E. B. Pusey, Daniel lhe Prophet (New Shea, "The Prophecy of Daniel 9:24-27", 80;
York: Funk & Wagnalls, 1855), 193. cf. "Daniel and Judgment", 73-75.
5 [William Bales], The Inspector, ar Select Litera- 16 Para a mais recente e exaustiva análise da
ry Intelligence (London: J. White, 1799), 207 (ênfase cronologia das setenta semanas, veja Brempong
suprida). Bales identifica-se como o autor desse volu- Owusu-Antwi, The Chronology ofDaniel 9:24-27,
me em seu Dissertations on lhe Principal Prophecies Adventist Theological Society Dissertation Series,
(Londres: C. J. G. & F. Rivington, 1808), ix. vol. 2 (Berrien Springs: ATS Publications, 1995).
'William Bales, A New Analysis of Chronology '7 A datação da morte de Estêvão é inteiramente
(London: pelo autor, 1809-1812), 564. dependente da datação da conversão de Paulo, e a
7 Sob a influência de James Ussher, cuja obra datação da conversão de Paulo tem sido o objeto de
Annales Veteris Testamenti (Londres: Ex Officina muita discussão entre os eruditos, que têm postulado
J. Flesher, 1650-1654) tinha sido o padrão para a qualquer data de 32 a 36 d.C., incluindo, é claro, 34
cronologia bíblica por quase dois séculos, havia mui- d.C., que representa exatamente uma intermediária
tos eruditos que colocavam a crucifixão no final da e um meio termo entre as outras sugeridas. Para uma
última semana em 33 d.C., talvez porque a morte de recente e completa discussão sobre a cronologia de
Jesus parecia muito mais relevante do que qualquer Paulo, veja Rainer Riesner, Paurs Early Period
outra coisa no final da profecia. (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 3-227.
William Bales, A New Analysis of Chronology 18 Martin H. Scharlemann, Stephen: A Singular
and Geography, History and Prophecy, 4 vols., 2° ed. Saint, Analecta Biblica, no. 34 (Roma: Instituto
(Londres: C. J. G. & E Rivington, 1830), 1:94-95. Bíblico Pontifício, 1968), 1. Veja também Marcel
9 Ibid., 1:100. Simon, St. Stephen and lhe Hellenists (Londres:
1 ° Veja, por exemplo, Carl A. Auberlen, The Pro- Longmans, Green and Co., 1958), 1-4.
phecies of Daniel and The Revelations of St. John 19 Veja Giinter Wagner, ed., An Exegetical Biblio-

(Edimburgo: T&T Clark, 1856), 140; J. N. Andrews, graphy o)' lhe New Testament: Luke and Acts (Macon:
The Sanctuary and TwentY-Three Hundred Years, Mercer University, 1985), 397-416.
2a ed. (Battle Creek: Steam Press, 1872), 27; Uriah 20 O termo "helenistas" aparece também em
Smith, Daniel and lhe Revelation (Battle Creek: Atos 9:29 e 11:20 (para o problema textual desta
Review and Herald, 1903), 204-205; Philip Mauro, passagem, veja Bruce M. Metzger, A Textual Com-
The Seventy Weeks and lhe Great Tribulation (Bos- mentary on lhe Greek New Testament, 2' ed. [Stutt-
ton: Scripture Truth Depot, 1923), 112; George M. gart: Sociedade Bíbilca Unida, 1994], 340-342), e,
• Price, The Greatest ofthe Prophets (Mountain View: segundo o contexto, em cada uma dessas passagens
50 / PAROUS1A - l e SEMESTRE DE 2007

ela deve se referir a um grupo diferente. Se em 6:1 "Henget, Between Jesus and Paul, 13. •
os helenistas são cristãos judeus de fala grega, em . 31 No Novo Testamento, os sete não são mencio-
9:29 eles são apenas judeus de fala grega, e em 11:20, nados fora do livro de Atos. Nenhum deles, inclusive
gentios de fala grega de qualquer raça que moravam Estêvão e Filipe, são nomeados pelos pais apostóli-
em Antioquia. Para uma análise completa do termo cos. Mesmo quando os últimos comentam sobre o
"helenista", veja Martin Henget, Between Jesus and ofício de diáconos, eles citam as epístolas pastorais
Paul (Filadélfia: Fortress, 1983), 1-11. em vez de remontar esta instituição ao tempo dos
z' Para a tese apresentada por Abram Spiro, sete. A primeira referência específica a eles como
"Stephen's Samaritan Background", em Johannes diáconos na literatura posterior da igreja parece ser
Munck, lhe Acts o/ lhe Apostles, The Anchor Bible do comentário de lrineu de que Estêvão foi tanto o
(New York: Doubleday, 1967), 285-300, de que primeiro diácono quanto o primeiro mártir (Ágainst
Estêvão era samaritano, veja F. F. Bruce, The Book Hei-es/es 1H, 12, 10; IV, 15, 1).
of Acts, The New International Commentary ou file 32 P. Double, "The Son of Man Saying in
New Testament, ed. rev. (Grand Rapids: Eerdmans, Stephen's Witnessing: Acts 6:8-8:2", NTS 31(1985):
1988), 120. 71-72.
22 Simon, que interpreta a palavra "helenista" " Harrop, 183. Veja também Marshall, 128;
como "helenismo", declara que os helenistas de Atos Scharlemann, 13.
são pessoas que "sob a influência e contaminação 34 Assim Gerhard A, Krodel, Acts, Augsburg
do pensamento grego, se desviaram dos caminhos Commentary on the New Testament (Mineápolis:
da estrita ortodoxia farisaica e, portanto, poderiam Augsburg, 1986), 150-151.
ser rotulados de `paganizantes>". Ele declara tam- Manson, 34.
bém que essa idéia não está totalmente clara no " Marshall, 146.
contexto simplesmente porque Lucas "não podia, " De fato, as semelhanças entre o discurso
ou não queria, ver que algo mais estava implícito de Estêvão e Hebreus não estão limitadas a este
na palavra" (12-14). ponto, Manson enumera muitas outras incluindo:
" Henget, 14-16. Joachim Jeremias, Jerusalém a atitude para com os rituais e a lei judaica; o senso
in the Time of Jesus (Filadélfia: Fortress Press, do chamado divino para o povo de Deus, o qual é
1975), 62, até mesmo sugere que os helenistas chamado para "sair"; as sempre mutáveis cenas da
devem ter vivido juntos em seu próprio distrito ou vida de Israel, e o sempre renovado desabrigo dos
quarteirão em Jerusalém, onde tinham suas sinago- fiéis; a palavra de Deus como "viva"; a alusão a
gas e hospedarias. Josué em conexão com a promessa do "repouso" de
24 L Howard Marshall, The Acts qf the Apostles, Deus; a idéia dos "anjos" como sendo ordenadores
The Tyndale New Testament Commentaries (Grand da lei de Deus; e a direção dos olhos para o Céu e
Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1982), 125, 128. para Jesus (36). C. Spicq adiciona alguns outros:
"Ibid., 125. predileção pelos mesmos personagens do Antigo
26
0f. Jürgen Becker, Paul: Ápostle to the Gentiles Testamento como heróis e santos; condenação da
(Lousville: Westminster/John Knox, 1993), 63, 454; geração de israelitas no deserto; uso tipológico do
Clayton K. Harrop, "Stephen and Paul", em With Antigo Testamento; construção do tabernáculo em
Steadfast Pia-pose, ed. Naymond H. Keatley (Waco: toda a linha de um modelo celestial; e a citação da
Baylor U, 1990), 182; Hengel, 1-29, 48-64; Martin Escritura como "Deus disse" ou "Moisés disse"
Henget, Earliest Christianity (Londres: SCM, 1986), (L'Épitre ata Hébreux, 2 vols. [Paris: J. Gabalda,
71-80; Seyoon Kim, The Origin of Paul S Gospel, 2' 1952], 1:202-203). William L. Lane declara: "O
ed. (Tübingen: J.C.B. Mohr, 1984), 45-50; William escritor de Hebreus foi um profundo teólogo que
Manson, The Epistle to the Hebrews (Londres: Ho- parece ter recebido sua formação teológica e espi-
dder and Stoughton, 1951), 27, 28. ritual dentro da ala helenística da Igreja" (Hebrews
" Cf. Josephus, The Antiquities of lhe Jews 1-8, Word Biblical Comrnentary [Dallas: Word,
12.5.1-5. Sobre as controvérsias durante o tempo de 1991], cxlvii).
Herodes, veja The Antiquities of lhe Jews 15.8A-5. 38 Hengel, Earliest Christiandy, 73.
2 ' James D. G. Dunn, Unity and Diversity in "Cf. Dunn, 272.
the New Testament, 2' ed. (Valley Forge: Trinity, "Marshall, 151.
1990), 269. 41 Hengel, Between Jesus and Paul, 13. Veja
24 A conclusão de que os "sete" eram também também FIengel, Earliest Christianity, 76-80.
helenistas baseia-se na seguinte evidência: o pro- 42 Veja Dennis Gaertner, Acts, 2, ed. (Joplin:
blema estava relacionado às viúvas helenistas (6:1); College Press, 1995), 123.
todos os sete tinham nomes gregos (6:5); a oposição "Henget, Between Jesus and Paul, 29.
a Estêvão veio de uma sinagoga helenista (6:9); a «J. Christian Beker declara categoricamente
perseguição que se seguiu à morte de Estêvão não que Paulo herdou sua teologia acerca de Jesus dos
afetou os apóstolos (8:14). cristãos helenistas a quem ele havia perseguido (Paul
ESTÊVÃO, ISRAEL E A IGREJA / 51
lhe Apostle [Filadélfia: Fortress, 1984], 341). Veja arca da aliança está certamente ligada aos costumes de
também Manson, 42-44. aliança dos tempos pré-mosaicos" (p. 64).
45 Para o problema textual envolvido nesta 62 Shea, "The Prophecy of Daniel 9:24-27", 81.
passagem, veja Emst Haenchen, The Acts of lhe " A palavra Mb aparece também na ação judi-
Apostles: A Commentary (Filadélfia: Westminster, cial da aliança de Oséias (4:1). Malaquias (3:5) e
1971), 607. Ezequiel (5:8) usam uma palavra diferente, mispat,
46 Bruce, 402. que significa "julgamento". Para discussão adicional
47 Munck, 209, sugere que Mnasom pode ter sobre a ação judicial da aliança, veja Herbert B.
estado entre os cipriotas que deixaram Jerusalém Huffmon, "The Covenant Lawsuit in the Prophets",
após o apedrejamento de Estêvão e pregaram o JBL 78 (1959): 285-295; Mien Harvey, "Le GRib-
evangelho diretamente aos gregos de Antioquia Patern,' Réquisitoire Prophétique Sur la Rupture
(Atos 11:19-20). de l'Alliance", Biblica 43 (1962): 172-196; James
48 Jon Paulien, "Mnason", ABD (1992), 4:882.
Limburg, "The Root byr and the Prophetic Lawsuit
49 1 C. O'Neill, 771e Theology of Acts in Its His- Speeches", JBL 88 (1969): 291-304; Kirsten Nielsen,
torical Setting (Londres: SPCK, 1961), 72. Yahweh as Prosecutor and Judge, JSOT Supplement
Bruce, 152. Luke T. Johnson também afirma Series 9 (Sheffield: JSOT, 1978).
que porque Estêvão é descrito como "cheio do " Shea, "Daniel and the Judgment", 370-371.
Espírito e de sabedoria" (6:3) e porque ele operava e' Ibid., 371. A solução que muitos eruditos têm
"prodígios e grandes sinais entre o povo" (6:8), ele encontrado para a aparentemente desnecessária ex-
era um profeta, "e como os profetas antes dele, ele tensão do discurso é especular que Lucas expandiu
gerou uma reação dividida" (The Acts ofthe Apostles, o discurso original pela combinação de diferentes
Pagina Sacra Series, vol. 5 [Collegeville: Liturgical, tradições (veja ICrodel, 137-140).
1992], 112). 66 Assim J. Cantinat, L'Église de la Pentecôte
Shea, "The Prophecy de Daniel 9:24-27", 81. (Paris: MAME, 1969), 105; Cecil J. Cadoux, The
" Shea, "Daniel and the Judgment", 367. Early Church and lhe World (Edimburgo: T. & T.
"Marshall, 131, declara: "Se a extensão é algu- Clerk, 1955), 109; Delbert Wiens, Stephen's Sermon
ma coisa que tem mérito, o discurso de Estêvão é (Ashfield: BIBAL Press, 1995), 11. Embora Wiens
uma das mais importantes seções de Atos." use a palavra "apologia", porque para ele "esse
"Marion L. Soards, The Speeches in Acts (Lou- discurso é uma defesa racional de sua causa por um
isville: Westminster/John Knox, 1994), 58. advogado", ele declara que a expressão "proclama-
55 Veja Simon, 39-77; Scharlemann, 22-89; ção profética" seria ainda melhor.
Simon Légasse, Stephanos (Paris; Editions du Cerf, 67 G. A. Kennedy, New Testament Interpretation
1992), 17-94. (Chapei Hill: U Noith Carolina P, 1984), 121-122.
56 Shea, "The Prophecy of Daniel 9:24-27", 81. " Legasse, 23.
57 George E. Mendenhall, "Covenants Forms in 69 ã há dúvida de que o aoristo egénesthe
Israelite Tradition", BA 17(1954): 50-76. (v. 52) deve ser classificado como culminativo. O
58 Até aquele tempo, não havia nenhum acordo advérbio Mim reforça esta idéia.
entre os eruditos concernente à origem do conceito " Floyd V. Filson, Pioneers of lhe Primitive
de aliança no Antigo Testamento. Alguns atribuíam Church (New York: Abingdon, 1940), 75.
isto à obra de Moisés (assim W. O. E. Oesterley e Bruce, 152.
Theodore H. Robinson, Hebrew Religion, Its Origin 72 Marshal, 147.
and Development [Londres: SPC1C, 1937], 156-159), " Gerd Lündemann, Early Christianity Accor-
enquanto outros achavam que ele tinha sido desen- ding to lhe Traditions in Acts (Mineápolis: Fortress,
volvido pelos profetas durante o oitavo e sétimo 1989), 88.
séculos (assim Julius Wellhausen, Prolegomena to 74 Shea, "Daniel and Judgment", 372.
lhe History of Israel [Edimburgo: A. & C. Black, 75 ICrodel, 151-152.
1885], 417). 76 Veja Wiens, 223.
" Mendenhall enfatiza que a forma de aliança " Para o significado do termo "cristãos" em Atos
hitita não era tão rígida. Pode ter havido variação 11:26, veja Robert Maddox, The Purpose of Luke-
na ordem dos elementos bem como no fraseado. Acts (Edimburgo: T&T Clark, 1982), 31.
Ocasionalmente, um ou outro dos elementos poderia 78 Haenchen, 292.
estar faltando (58). "Veja Scharlemann, 15.
60 Ibid., 62. "Arthur J. Ferch afirma que o papel do Filho do
61 Veja Shea, "Daniel and the Judgment", 369-371. homem em Dn 7:9-14 não é de juiz que toma o seu
Em sua formulação, Shea não inclui o quarto item da assento ao lado de Deus. Segundo ele, o que esta
estrutura da aliança hitita, embora Mendenhall pro- passagem retrata é uma cena de investidura, em que
vavelmente se referindo a textos como Deuteronômio o Filho do homem recebe "o domínio, a glória e o
31:24-29, declare que "a tradição do depósito da lei na reino" (77w San of Man in Daniel Seven, Andrews
52 / PAROUSIA - l ° SEMESTRE DE 2007

University Seminary Doctoral Dissertation Series, (Resurrection, Immortality, and Eternal Life in In-
vol. 6 [Berrien Springs: Andrews University Press, tertestamental Judaism, Harvard Theological Studies
1979], 148, 172-174, 183). Não há dúvida, porém, 26 [Cambridge: Harvard UP, 1972], 27, cf. 12).
de que no judaísmo posterior, bem como no Novo Gordon E. Christo provê uma interessante análise da
Testamento, o Filho do homem vem para realizar conotação judicial da palavra qum ("levantar-se"),
urna função judicial (veja 1 Enoque 62:2-3; 69:26- que ocorre em Jó 19:25, e então conclui: "Quer para
29: Mt 25:31-46). acusar ou defender-se contra acusação, quer como
" Herschel H. Hobbs, An apositivo of lhe testemunha (pró ou contra), ou quer como juiz pára
Gospel ofLuke (Grand Rapids: Baker, 1966), 322. pronunciar o veredito, o indivíduo tinha de levantar-
Veja também I. Howard Marshall, The Cospe( of se a fim de falar" ("The Eschatological Judgment
Luke, The New International Greek Testam ent in Job 19:21-29, An Exegetical Study", Andrews
Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), University Seminal), Ph.D Dissertation [Berrien
850; C. E Evans, Saint Luke, TPI New Testament Springs: Andrews U, 1992], 129-134).
Commentaries (Londres: CSM, 1990), 837; Noivai VanGemeren define a aliança de Deus
Geldenhuis, Commentary on lhe Gospel of Luke, com Israel como uma "soberana administração de
The New International Commentary on the New graça e promessa", pela qual Deus elegeu Israel para
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 587; si mesmo e conferiu-lhe uma série de privilégios, tais
Darrell L. Bock, Lake, Baker Exegetical Commen- como a multiplicação de sua semente, a doação da
tary on the New Testament (Grand Rapids: Baker, terra, e sua própria presença em bênção e proteção,
1996), 2:1800). a fim de habilitá-lo para ser o canal de suas bênçãos
" C. H. Dodd, According to lhe Scriptures para as nações (The Progress of Redemption [Car-
(Londres: Nisbet, 1952), 35. Veja também Gustaf lisle: Paternoster, 1995], 107, 129).
Dalman, The Words of Jesus (Edimburgo: T&T 'Veja, por exemplo, Jack T. Sanders, The Jews
Clark, 1909), 311'. in Luke-Acts (Filadélfia: Eortress, 1987), 80-83,
93 Wi 1 1 iam Kelly, An Exposition of the Acts althe 297-299, 317.
Apostles, 3" ed. (Londres: G. Morrish, 1952), 102- 92 VanGemeren, 158-159.
103. John N. Darby declara: "Ele não se assenta, por "Para uma análise crítica sobre o ponto de vista
assim dizer, até Israel ter formalmente rejeitado o de Sanders, veja James D. G. Dunn, The Partings of
testemunho, quando o brado de Estêvão chegou aos lhe Ways. (Londres: SCM Press/Philadelphia: Trinity
seus ouvidos. Ele tomou o seu lugar, assentando-se P. International, 1991), 149-151.
até que seus inimigos sejam postos debaixo de seus Veja Gumey, 116-119.
pés, depois da recusa deles de ouvir o testemunho "Veja Dunn, 248-251.
do Espírito Santo. Estêvão sendo recebido por Cristo " Shea, "Daniel and the Judgment," 372-373.
no Céu, Israel como Israel deve esperar lá fora" (The "Em uma interessante passagem, Martinho
Collected Writings, 28a ed. William Kelly [Oak Park: Lutero descreve a conversão de Paulo como a
Bible Taith, n.d.j, 283). "vingança" de Estêvão, porque Paulo deixou de ser
"H. P. Owen, "Stephen's Vision in Acts vii. 55- o que era e se tomou o que o próprio Estêvão era
6", NTS 1(1954): 224-226. (Lecture on Psalm One Hundred Eighteen, Luther's
" Marshall, The Acts of lhe Apostles, 149. Works, Ed. Amer [Saint Louis: Concordia, 195 5-
" Bruce, 156. 1976], 11:412).
"Para urna recente discussão do dispensaciona- 98 G. B. Cajal, The Apostolic Age (Londres:
lismo, veja Keith A. Mathison, Dispensationalism: Gerald Duckworth, 1955), 86.
Rightly Dividing lhe People of God? (Phillipsburg: 99 N orman J. Buli, The Pise of lhe Church (Lon-

P&R, 1995). Veja também Hans K. LaRondelle, dres: Heinemann, 1967), 49-50.
The Israel of God in Prophecy (Berrien Springs: Filson descreve o movimento liderado por
Andrews UP, 1983). Estêvão como "quase uma revolução" na igreja cristã
"Krodel, 128. primitiva (52).
" George W. E. Nickelsburg identifica Daniel 1 °' Sou grato ao Dr. Richard M. Davidson por
12:1-3 como uma "descrição de uma cena de ju- sua bondade em ler este documento, c por algumas
ízo." E para ele, um dos elementos constitutivos sugestões proveitosas, embora a responsabilidade
desta cena é exatamente a posição em pé de Miguel pelas conclusões a que chegamos seja do autor.
ISRAEL
E O NOVO ISRAEL
Aiviliv A. RODOR, TH.D.
Professor de Teologia Sistemática e diretor do Salt, Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP

RESUMO: Este artigo trata da escatologia INTRODUÇÃO


desenvolvida pela escola de interpretação
profética chamada "dispensacionalista", O sistema teológico conhecido como
demonstrando a inconsistência de seus pres- "dispensacionalismo" vem controlando em
supostos. Na primeira parte do trabalho, o grande medida a interpretação evangélica
autor revê o conteúdo presente na obra de dois da Bíblia nos últimos 100 anos.' As décadas
modernos defensores representantes do dis- recentes tem testemunhado a publicação de
pensacionalismo, Hal Lindsay e Tim LaHaye. uma extraordinária quantidade de livros,
Em seguida, o artigo apresenta um cuidadoso artigos, folhetins e confissões evangélicas,
estudo sobre dois princípios bíblicos funda- bem como o surgimento de um grande
mentais de interpretação, que minam em sua número de sites de internet, divulgando,
base as teorias propostas pelo dispensacio- com alguma variação de detalhes, a noção
nalismo: o da condicionalidade profética e de que o moderno Estado de Israel é um
o da soberania e liberdade• da eleição divina. cumprimento profético. A esta idéia, em
Na última parte o autor discute a noção da geral, encontra-se associado um detalhado
"teologia da substituição" enfatizando que a esquema de eventos escatológicos que cul-
Igreja Cristã substituiu permanentemente o mina com o arrebatamento da Igreja. Esta
Israel nacional do antigo Testamento. compreensão coloca o Israel nacional no
centro do palco, conferindo-lhe um papel
ABSTRACT: This article provides an definido nesta seqüência de eventos, depois
analysis of the eschatology developed do retorno invisível de Jesus Cristo.
by the school of prophetic interpretation
Os efeitos da hermenêutica dispensacio-
called dispensationalism, and points out nalista em considerável número dos ensinos
lhe inconsistencies of its basic presuppo- cristãos (algo não discernível à primeira
sitions. In the first part of the paper, the vista), exerce um extraordinário impacto
author reviews the fallacious content in the sobre a doutrina de Deus, a antropologia,
work of two representatives of dispensa- a cristologia, a soteriologia, a eclesiologia
tionalism: Hal Lindsay and Tim LaHaye. e, sobretudo, a escatologia. 2 A aceitação do
Following, it presents a careful study dispensacionalismo afeta diretamente, ain-
about two fundamental biblical principies da, a compreensão quanto ao moderno Isra-
of interpretation, that undermine the very el e os eventos no Oriente Médio. Timothy.
essence clispensationalist hermeneutics, P. Weber, por exemplo, documenta como
i.e. lhe principie of prophetic conditiona- evangélicos dispensacionalistas têm exerci-
lity and the principie of the sovereignty do significativo impacto no relacionamento
and freedom of divine election. In lhe last entre os Estados Unidos da América e o
part the author discusses te nature of the Israel nacional. Estes dispensacionalistas,
"replacement theology," with the empha- crendo que Israel como nação aceitará a
sis that te Christian Church has replaced Cristo como Messias, e possuirá a terra
• the national Israel of the Old Testament da Palestina, têm oferecido considerável
permanently. apoio moral, financeiro e espiritual a esse
54 I PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

país. Em resposta, segundo ele, importantes diferentes denominações evangélicas,


líderes israelenses têm abraçado o apoio de ganhou ímpeto com o estabelecimento
evangélicos dispensacionalistas. 3 do moderno Estado de Israel, em 14 de
Este artigo primeiramente faz uma maio de 1948. Tal evento, associado
breve descrição de teorias infundadas do com a vitória de Israel na guerra árabe-
israelense de junho de 1967, passou a ser
dispensacionalismo -quanto aos últimos
entendido por dispensacionalistas não
eventos, representadas por Hal Lindsay e
apenas como um clássico cumprimento
Tim LaRaye, e dos efeitos do sensaciona-
profético, mas também como o "mais
lismo criado em relação a esses autores. claro sinal do retorno de Cristo" 6.
Em seguida, analisa em particular dois
princípios de interpretação interligados,
que, quando claramente compreendidos, HAL LINDSAY E SUAS "PROFECIAS"
desacreditam qualquer teoria que pretenda O crédito por popularizar o dispensa-
reter o status privilegiado dos judeus na cionalismo, em tempos recentes, pertence
era cristã: 1) o da eondicionalidade profé- a Hal Lindsay, cujos livros e idéias foram
tica, e 2) a noção bíblica da soberania e li- vendidos aos milhões. S. Bacchiocchi'
berdade da eleição divina. Por outro lado, observa que Lindsay contribuiu, mais que
tais princípios, quando não entendidos ou nenhum outro, não apenas para tomar o
levados em consideração, conduzem, ao dispensacionalismo popular, mas também
contrário, a uma interpretação anacrônica para dar-lhe sabor sensacionalista, estabe-
das Escrituras, na qual se faz uma leitura lecendo datas especificas para o cenário
do Antigo Testamento como se o Novo do tempo do fim. Para Lindsay, o ponto de
Testamento não tivesse sido escrito, ou partida de todo o esquema escatológico, o
como se Jesus Cristo, o Messias cristão, início de sua "contagem regressiva", é o
não tivesse vindo. ano de 1948, data do estabelecimento do
Estado de Israel. Este evento é considera-
A TEORIA DISPENSACIONALISTA E O do por Lindsay "o mais importante sinal
profético a anunciar a era do retomo de
ISRAEL ÉTNICO
Cristo". Para ele, de todos os sinais do fim
Muito antes de 1948, considerável dados por Cristo em seu sermão profético
número de cristãos cria na eventual res- (Mt 24), "o mais importante sinal.., tem que
tauração de Israel na "Terra Santa". Tal ver com a restauração na Palestina, com o
visão foi grandemente influenciada por renascimento de Israel'.
dois fatores na história do pensamento Lindsay, como outros que se inspira-
cristão. O primeiro é a tradicional supo- riam em suas fantasias, relaciona idéias a
sição de que os judeus constituem o povo partir de interpretações arbitrárias e chega
escolhido de Deus, retendo as bênçãos a conclusões dignas dos almanaques de
desta posição, contrariando, assim, o ficção. Por exemplo, de sua leitura de Ma-
claro testemunho do Novo Testamento teus 24:32-33, ele conclui que a referência
quanto à mudança inaugurada na histó- à figueira cujos "ramos se tomam tenros"
ria de Israel com o primeiro advento de e cujas "folhas brotam", é uma imagem
Jesus Cristo. 4 para a restauração nacional de Israel, em 14
O segundo fator relaciona-se direta- de maio de 1948... quando o povo judeu,
mente com o surgimento da escola de depois de quase dois mil anos de exílio,
interpretação profética conhecida como sob incessante perseguição, tomou-se no-
dispensacionalismos, na primeira metade vamente uma nação? Este é o sinal que,
do século 19, que passou a fazer insis- segundo Lindsay, indicaria que "Jesus está
tente promoção da idéia do retorno de às portas, pronto para retornar".
Israel à Palestina, como um precursor do Então, para determinar com precisão a
segundo advento de Cristo. Esta noção, data do advento visível' 2 de Jesus, Lindsay
assimilada pela consciência religiosa de recorre ao verso 34 de Mateus 24: "Não
ISRAEL E O NOVO ISRAEL / 55

passará esta geração, sem que todas estas de, desconsiderando-se tanto o significado
coisas aconteçam." "Esta geração", na como a idade dos textos bíblicos utilizados.
interpretação de Lindsay referia-se à Mura Tal método de interpretação termina dando
"geração que veria os sinais — o principal valor supersticioso a números e símbolos
deles o renascimento de Israel". E arra- bíblicos, além de relacionar arbitrariamente
zoa: "Uma vez que uma geração na Bíblia textos sem qualquer correlação.
é um período em torno de quarenta anos"",
a questão se resolve com uma simples ope- DEIXADOS PARA TRÁS
ração aritmética. Em 1970 Lindsay predisse
que "dentro de 40 anos, a partir de 1948, É comum dizer-se que a cada quinze
todas estas coisas poderiam acontecer"". anos, as pessoas, em geral, se esquecem
do que aconteceu nos últimos quinze
Dito de outra maneira, no esquema anos. Tal compreensão popular parece
profético de Lindsay, "dentro de 40 anos" ser verdade com a reedição mais recente
da última geração, a qual teve início em do dispensacionalismo. Tendo esquecido
1948, isto é, em 1988 (1948 -H 40), todas completamente o fiasco de Lindsay, novos
as profecias apontando para o retorno de proponentes da teoria dispensacionalista,
Cristo deveriam se cumprir. Em seu livro lançaram-se às novas especulações escato-
The 1980s: Countdown to Armageddon, lógicas, na série dos livros Left Behind, de
traduzido para o português com o título Os autoria de Tim LaHaye e Jerry. B. Jenkins.
Anos 80: Contagem Regressiva para o Ju- Como resultado do sucesso do primeiro
ízo Final, Lindsay afirma: "Muitos ficarão livro, Left Behind, considerado um dos dez
chocados com o que acontecerá no futuro best-sellers do século 20, os autores deci-
muito próximo. A década de 1980 poderá diram expandir o projeto numa seqüência
ser a última década da história como nós a de 12 livros e mais um filme. Surpreen-
conhecemos'. Com base em seus cálculos dentemente, estes livros foram também
e em textos bíblicos lidos de forma truncada elevados à categoria de best-sellers nas
e conveniente aos seus propósitos, Lindsay listas do New York Times, The Wall Street
"profetizou" não apenas o retorno visível Journal e USA Today, e considerados "...
de Jesus para o ano de 1988, mas uma série a mais bem sucedida série de ficção cristã
de outros eventosrque deveriam acontecer de todos os tempos' 19.
a partir de 1981, ano do retorno invisível
de Cristo: o arrebatamento da igreja, a Os livros da série Left Behind, bem
tribulação e o início da restauração de Is- como o filme, pressupõem um cenário
rael. Assim, Lindsay atribuía considerável escatológico particular, no qual um grupo
importância aos sete anos entre 1981 e de eventos tomará lugar. Tal cenário, com
1988, nos quais, como resultado de uma alguma variação, é amplamente aceito e
equivocada interpretação de Ezequiel 38 e crido por evangélicos funidamentalistas:
39, ocorreria a invasão de Israel pela Rússia 1.Em algum ponto, no futuro próximo,
e seus aliados." acontecerá o arrebatamento secreto, no
A década de 80 passou e o calendário qual Jesus virá de maneira invisível para
profético de Lindsay não se cumpriu. De- reunir todos os verdadeiros crentes. Os fiéis
ploravelmente, parece ser verdade que a mortos ressuscitarão e, juntamente com os
única lição da história é que as pessoas não outros, serão arrebatados para o Céu.
aprendem as lições da história. O período 2. Durante sete anos, haverá na terra
subseqüente verificou uma tentativa de se um período de tribulação, iniciado por um
reconstruir as fracassadas teorias de Lind- ataque da Rússia contra Israel.
say. Mudaram-se os nomes, os cálculos e
as datas, mas o engano básico permanece 3. Durante a tribulação, uma série de
inalterado: leitura especulativa das Escri- julgamentos espetaculares tomam lugar.
turas, que ignora o contexto histórico das Estes são descritos, segundo seus propo-
profecias, sua dimensão de condicionalida- nentes, no livro do Apocalipse.
56! PAROUSIA - 1" SEMESTRE DE 2007

4. Haverá o surgimento de "um governo 9. Por fim, acontecerá a batalha do Ar-


mundial" que tomará o controle de todo mageddon em Israel, seguida do Segundo
o planeta. LaHaye identifica tal governo Advento. Jesus descerá do céu, com suas
como um subproduto das Nações Unidas, hostes celestiais e exterminará o anticristo.
e afirma que ele estará localizado na re- Ele, então, reinará na terra por mil anos,
construída antiga cidade de Babilônia, no período conhecido como o milênio, no qual
Iraque. Tal governo será liderado por urna fogo cai do céu e consome os rebeldes. De-
sinistra figura conhecida como o anticristo, pois disto, os mortos remanescentes serão
ou a "besta". ressuscitados. O dia do julgamento ocorre,
5. Paralela a isto, surgirá "uma religião e Deus inaugura a ordem eternal, com um
mundial", à qual se espera que todos se novo céu e uma nova terra.
unam. LaHaye entende isto como uma Em suma, neste engenhoso delírio
mistura sineretista das religiões do mundo, interpretativo, o que realmente é deixado
liderada pela Igreja Católica e o papa. Ele para trás, é a Bíblia e a seriedade de sua
identifica tal religião como uma ressurrei- mensagem. De fato, tanto Lindsay como
ção do paganismo babilônico. Lallaye transformam a Bíblia num tipo de
6. Em certo ponto, com a ajuda do anti- horóscopo, que interpreta mal e distorce a
cristo, o templo judeu, em Jerusalém, será pureza e integridade dos ensinos de Cristo,
reconstruído. No meio da tribulação, o anti- dando para milhões de pessoas a impressão
cristo profana o templo, assentando-se nele de que isto é realmente o que as Escrituras
e declarando-se Deus. Aqueles que se recu- ensinam sobre os últimos eventos. Steve
sarem a honrá-lo como Deus serão mortos, Wohlberg, relaciona comentários de pesso-
e seus seguidores deve receber a "marca da as como Bill Bright, presidente do Campus
besta" (666), na fronte ou na mão direita. Crusade for Christ, afirmando que o filme,
Left Behind, "é uma excelente descrição
Além da ameaça de morte, será utili- do que a Bíblia declara que atualmente
zada pressão econômica para compelir as acontecerá depois do Arrebatamento", ou,
pessoas a receberem a marca da besta. A ainda, John E Walvoord, ex-presidente do
esta altura, de acordo com LaHaye, o mun- Dallas Theological Seminary, uma das for-
do terá adotado uma sociedade sem moeda, talezas atuais do dispensacionalismo: "As
provavelmente utilizando microchips sob a principais representações desta história não
pele para toda transação monetária. Aque- são ficção"20. Não menos deploravelmente,
les que não recebem a marca da besta, não contudo, tais fantasias produzem em outras
poderão comprar ou vender. pessoas o efeito precisamente oposto, forta-
lecendo o cinismo e a incredulidade contra
8. Apesar da coação utilizada para as Escrituras.
que as pessoas recebam a marca da besta,
muitos não se submeterão. Haverá, neste Além disso, o que se torna evidente
tempo, um grande número de crentes em nos esquemas de Lindsay e LaHaye, é
Cristo, embora, de acordo com Lallaye, que as pessoas estão realmente tentando
tecnicamente eles não sejam cristãos, uma escapar da tribulação, como entendida
vez que a igreja já terá sido arrebatada para por eles, e não do pecado. As ginásticas
o Céu. Estes são os "santos da tribulação", interpretativas são também evidentes. Este
os que se tomarão crentes durante a tribu- tipo de teologia é construído sobre textos
lação. Muitos se converterão devido a in- reunidos, cujo relacionamento primário é o
fluência das 144 mil testemunhas judaicas, sistema na mente do intérprete, em lugar de •

cujos esforços evangelísticos contribuem idéias expressas pelos escritores bíblicos.


para a grande "colheita de almas", nas Tome-se, por exemplo, o caso da noção de
palavras de LaHaye. Entre aqueles que se arrebatamento secreto, defendido tanto
converterão durante a tribulação, estarão os por Lindsay como por LaHaye. Podemos
judeus, que finalmente aceitarão a Cristo ler toda a Bíblia, do início ao fim, e não
como o Messias. encontraremos um único texto claramente.
ISRAEL E O NOVO ISRAEL / 57

ensinando que haverão dois distintos ad- são apenas representantes? A questão fun-
ventos de Jesus — um secreto, como descrito damental, como sugerido anteriormente,
por estes interpretes em suas produções, e tem que ver com o método hermenêutico
outro visível, que será testemunhado por freqüentemente utilizado. 24 As Escrituras
todos. Finalmente, na seqüência de even- sofrem uma descaracterização radical, e a
tos observada em Left _Behind, o estudante seriedade de sua mensagem é subvertida
das Escrituras pode perceber um eco da e mesmo exposta ao ridículo, quando o
linguagem bíblica, mas as aplicações da texto sagrado é lido sem clara compreensão
hermenêutica literalista do dispensaciona- de corretos e consistentes princípios de
lismo são completamente estranhas à Bíblia interpretação. Evidentemente, isto não se
e distorcem o claro significado contextuai aplica apenas aos dispensacionalistas, mas
delas.2' Dito de forma simples, embora o a qualquer interpretação que, de maneira
pacote, o exterior, ou a linguagem, possa anacrônica, atribui um status ao povo ju-
parecer bíblica, o conteúdo nada tem a deu dentro da era cristã que eles não mais
ver com a mensagem das Escrituras. Nas possuem como entidade étnica. Tais inter-
palavras de C. N. Norman Kraus: pretações, como enfatizado anteriormente,
A interpretação dispensacionalista ê construí- incoerentemente agem como se Cristo não
da sob um conceito inadequado quanto à natureza tivesse vindo25 e como se o Novo Testamen-
da linguagem e do seu uso. Buscando manter a to não houvesse sido escrito. 26
qualidade sobrenatural da narrativa bíblica, ele
[o dispensacionalismo] assume que a linguagem
bíblica é como a linguagem dos livros de textos
CONDICIONALIDADE PROFÉTICA
da ciência; isto é, seus termos têm um significado Quando estudantes da Bíblia descon-
fixo, do começo ao fim." sideram o princípio de condiciona/idade
profética, eles abrem uma enorme porta
Voltando a atenção para o papel que os para toda sorte de distorções. A profecia
judeus ocupam nestes esquemas, distingue- condicional é um princípio de interpreta-
se claramente que Israel é o elemento-cha- ção bíblica, que se aplica às declarações
ve, que domina a teologia de Left Behind. de natureza predictivas que envolvem a
A cadeia de eventos que leva ao final re- escolha humana. Tal princípio é ilustrado
tomo de Cristo, depende da existência da de forma representativa em Deuteronômio
terra santa, que estará sob um catastrófico 28: "E será que se ouvires a voz do Senhor
assalto do anticristo. Não é de admirar que teu Deus..." (v. 1), e a narrativa passa des-
o born-again loby americano é obcecado crever os resultados da obediência. Por
com a defesa de Israel, erguendo-se contra outro lado, "... se não deres ouvido à voz
qualquer plano de paz no oriente, contanto do Senhor..." (v. 15), as conseqüências
que este sionismo cristão floresça, estabe- seriam modificadas, tomando rumo dia-
lecendo Israel como "o povo escolhido de metralmente oposto. O mesmo princípio é
Deus", num jogo de poder para forçar o encontrado claramente no livro de Jonas,
cumprimento das profecias quanto a Israel, resumido em 3:10: "E Deus viu as obras
como eles as entendem. Nesta compreensão deles, como se converteram do seu mau
literalista e futurista da Bíblia, o destino do
caminho, e Deus se arrependeu do mal que
povo judeu é retornar à terra dos seus pais,
tinha dito lhes faria, e não o fez." Os exem-
e reclamar a herança prometida a Abraão e
plos se multiplicam e são bem conhecidos.
aos seus descendentes para sempre. 23
Dito de outra maneira, como resumido por
Ellen G. White, tal princípio reconhece
PRINCÍPIOS EQUIVOCADOS que "as promessas e ameaças de Deus são
DE INTERPRETAÇÃO igualmente condicionais" 27. •
Onde localizar o erro de tornar o esta- Aqueles que atribuem significado bí-
belecimento do moderno estado de Israel o blico à restauração do moderno estado de
ponto de partida para engenhosos esquemas Israel, e esperam um Muro glorioso para os
proféticos, dos quais Lindsay e LaHaye judeus dentro do plano divino, ignoram pre-
58 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

cisamente este aspecto crucial. A história do tual e missionária, Israel falhou durante esta
povo de Israel é, provavelmente, a melhor segunda oportunidade. Nos dias de Jesus,
ilustração do princípio de condicionalidade a apostasia dos judeus havia chegado ao
profética. Colocado na encruzilhada do seu clímax. O Israel étnico, em arrogância
mundo antigo, e "adornado com cada pro- e complexo de superioridade, passara a
vidência para que se tomasse a maior nação reclamar as promessas do concerto com
da terra"," Israel tinha uma extraordinária base em seu relacionamento de sangue
vocação como depositário dos oráculos di- com Abraão.
vinos (Am 3:7; Rm 3:1,2), e representante Note-se que, segundo Jesus, o fracasso
dos desígnios eternos (Dt 7:6). Mas o fato básico dos judeus, antes mesmo de rejeitá-
de Deus estar do lado de Israel, não colocou lo como o Messias enviado, foi a rejeição
Israel automaticamente do lado de Deus, e da revelação dada por meio de Moisés, em
a história do povo escolhido constitui um quem eles diziam confiar. "Não penseis
capítulo escuro de incredulidade, idolatria que sou eu quem vos acusa diante do
e deslealdade conceituai.. Ezequiel 20: 1-17 Pai. Quem vos acusa é Moisés; em quem
oferece um vívido sumário de sua consis- vós confiais, porque se vós crêsseis em
tente obstinação. Moisés, creríeis em mim" (Jo 5:45, 46).
O Antigo Testamento registra a de- Os judeus não passaram no teste básico:
plorável história de como a vinha que aderência e compromisso com a verdade
fora trazida cuidadosamente do Egito (Si conhecida. Jesus deixa claro que o pro-
80:8) e cercada de todos os cuidados para blema dos judeus era incredulidade de
produzir frutos abundantes (Is 5:1-5), pro- caráter crônico e sistemático. A rejeição
duziu apenas uvas bravas e imprestáveis dele (Jo 1:11), foi uma conseqüência
(Jr 2:31), frustrando assim os planos de natural de um estado de obstinação e
Yahweh. Posteriormente, mesmo quando cegueira irrecuperáveis. Com palavras
a nação judaica passou pelas amargas de profundo lamento, Jesus pronuncia
conseqüências de sua obstinação, durante sobre o povo escolhido julgamento ir-
o cativeiro babilônico, o Senhor miseri- revogável: "Jerusalém, Jerusalém que
cordiosamente prometeu restaurar o seu matas os profetas, e apedrejas os que
povo. Os capítulos 40-66 de Isaías cons- te são enviados! Quantas vezes quis eu
tituem a comovente narrativa da intenção ajuntar os teus filhos.., e tu não quiseste..
divina. De fato, as promessas feitas a Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta"
Abraão e expandidas no período posterior, (IVIt 23:37-38).
deveriam "ter encontrado cumprimento, O Novo Testamento não conhece ne-
em grande medida, durante os séculos nhum plano subsidiário em favor da nação
seguintes ao retorno dos israelitas das judaica. Gálatas 3:28 insiste que "não há
terras do seu cativeiro... Ao final dos anos mais judeu nem grego... porque todos vós
de humilhante exílio, Deus graciosamente sois um em Cristo Jesus". Os que são de
deu a seu povo, Israel, por intermédio de Cristo, tornam-se os verdadeiros filhos de
Zacarias esta certeza: "Voltarei para Sião, Abraão e herdeiros conforme a promessa
e habitarei no meio de Jerusalém; e Jeru- (Gl. 3:29). As palavras de Efésios 2:11-22
salém chamar-se-á a cidade da verdade e esclarecem que aos olhos de Deus não há
o monte do Senhor dos exércitos, monte mais judeus e gentios, mas por meio de
da santidade?" 29 Cristo ambos se tornaram um na igreja
Contudo, "essas promessas estavam cristã, a qual é fundada sobre ambos, os
condicionadas à obediência. Os pecados apóstolos do Novo Testamento e os pro-
que haviam caracterizado os israelitas fetas do Antigo Testamento. Finalmente,
anteriormente ao cativeiro não deviam ser Romanos 9 a 11, capítulos freqüentemente
repetidos"". Mas isto é precisamente o que utilizados para defender a noção de uma
aconteceu. Em lugar de humilde submissão teocracia judaica restaurada na Palestina,
para o cumprimento de sua vocação espiri- insistem, ao contrário, que os legítimos
ISRAEL E O NOVO ISRAEL / 59

herdeiros do concerto não são os incré- de Deus, também os judeus individuais


dulos descendentes naturais de Abraão devem ser admitidos em tal comunhão. De
("Israel segundo a carne"), mas exclusi- fato, no Novo Testamento, o termo judeu
vamente os filhos espirituais de Abraão, como referência teológica não tem qualquer
aqueles que pertencem a Cristo. Estes ca- conotação com os literais descendentes de
pítulos da carta aos Romanos, representam Abraão, mas refere-se a qualquer pessoa
a extraordinária transição da nação judaica (judeu ou gentio) convertida a Cristo e
para a igreja cristã. Aqui o apóstolo apela unida a Ele (Em 9:2, 3, 6, 7; Rm 2:28,29;
aos judeus individualmente para que res- 013:27-29; Jo 8:38- 40). O apóstolo Pedro
pondam ao chamado de Deus, por meio chama os gentios no novo Israel de Deus de
de Cristo, e se juntem aos gentios, que o "raça eleita, sacerdócio real, nação santa,
encontraram como a final solução para o povo de propriedade exclusiva de Deus"
problema do pecado. (1Pe 2:9), porque eles assumiram o papel
do Israel físico do Antigo Testamento.
Paulo não deixa nenhuma dúvida de que
o teste para permanecer em adequada rela-
ção concertual agora é o exercício da fé em A LIBERDADE DA ELEIÇÃO DIVINA
Cristo (Rm 9:30-33). O apóstolo remove Não há qualquer dúvida de que aos
qualquer distinção teológica entre judeus judeus, de acordo com Romanos 9:4 e
e gentios (Rm 10:12), e nenhum direito ao 5, como povo escolhido de Deus, foram
favor divino pode ser reclamado com base oferecidas extraordinárias vantagens
em descendência natural. Ao longo do argu- espirituais. A eles, segundo o .apóstolo
mento de Paulo, fica evidente que a igreja, Paulo, pertencem a adoção, a glória, as
composta daqueles que crêem, ocupa o alianças, a legislação, o culto e as pro-
lugar do Israel étnico, e forma o verdadeiro messas. Deles são os patriarcas, e deles
Israel que emerge do tronco do povo esco- descende o Cristo.
lhido, e inclui, em parte, o remanescente
Contudo, deveríamos seriamente nos
de Israel (os ramos naturais que não foram
perguntar se todas estas vantagens e prerro-
quebrados) e, em parte, os gentios que vie-
gativas foram oferecidas aos antigos judeus
ram a crer em Cristo (os ramos enxertados).
como recompensa ou um tipo de retribuição
Os gentios, por outro lado, são convidados
ao mérito deles. Se este é o caso, então (e só
a ponderar sobre "a bondade e a severidade então) Deus não poderia senão reconhecer
de Deus" (Rm 11:22). Severidade para com tais virtudes, independente de como os ju-
aqueles (judeus) que por sua incredulidade deus se comportassem, e reconhecer o mé-
foram rejeitados, e bondade para com estes rito deles. As Escrituras, entretanto, nem de
(gentios), que foram aceitos pela livre graça longe sugerem uma resposta positiva a isto.
divina. Os gentios devem permanecer em Israel é caracterizado e distinguido como
tal graça, para que não sejam cortados (Rm uma entidade étnica, mas as características
11:22), e os judeus, que foram cortados, "se enumeradas por Paulo não têm por base
não permanecerem em incredulidade, serão o judaísmo segundo a sarx. Elas não são
enxertados" (Rm 11:23). Assim, aceito pela herdadas em termos da raça, mas com base
igreja, o novo povo do concerto, a comuni- na eleição divina. Todas estas "marcas" são
dade messiânica, ou seja, "todo Israel [isto o que são, pela ação divina, sua iniciativa
é, os gentios que permanecem na bondade e sua liberdade de eleição.
divina e os judeus que não permanecem na
incredulidade] será salvo" (Rm 11:26). Precisamente por causa da iniciativa di-
vina no passado, Israel tinha um extraordi-
De acordo com Paulo, portanto, o ju- nário potencial para o Muro. De fato, Israel
deu literal tem futuro e parte nos eternos fora preparado para um futuro com Deus e
planos de Deus, mas apenas como um a serviço de Deus. Entretanto, porque Israel
membro da igreja cristã. Assim como os não permitiu ser introduzido em tal futuro,
gentios individualmente são enxertados seu passado tornou-se então, uma questão
na salvadora comunhão com o novo povo de "passado sem futuro". Não é inconce-
60 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

bível, como alguns parecem crer, que, uma A segunda ilustração é ainda mais clara
vez que Israel recusou cumprir o papel que neste aspecto. No caso de Isaque, pode-se
Deus lhe havia oferecido, não havia nada imaginar que sua eleição foi baseada na
que Deus pudesse fazer senão suspender vantagem que ele tinha como filho de uma
sua eleição. Esta, devemos lembrar, não mulher livre, enquanto Ismael era filho de
é apenas uma questão sobre Israel, ela é uma serva. Mas quando Paulo se volta para
também uma questão a respeito de Deus. a escolha de Jacó, não há lugar para este
A questão da falta de integridade de Israel, tipo de raciocínio. Ele e seu irmão filhos de
simultaneamente suscita a questão acerca Isaque, nascidos em circunstâncias iguais
da integridade divina. Se Israel permitiu e, para intensificar ainda mais a liberdade
que o seu passado, pleno de potencial para divina, ambos são gêmeos, filhos do mes-
o futuro, fosse prostituído e degenerado em mo pai e da mesma mãe, iguais em todos
meras crônicas, como poderia Yahweh tra- aspectos do ponto de vista do status. Deus,
tar com o seu povo de dura cerviz e reinci- contudo, novamente surpreende a lógica
dente em rebelião? Na história da teologia, humana (segundo a carne prioridade de-
esta questão é conhecida como o problema veria ser dada ao primogênito), e escolhe
Jacó, o segundo dos dois. Nada poderia
do relacionamento entre a vontade de Deus
ilustrar melhor a liberdade de Deus ao
e a liberdade humana.
escolher; liberdade que já se manifestara
Uma simples observação no critério di- antes, e agora é expressa de forma supre-
vino de eleição não deixa qualquer dúvida ma. A escolha de Jacó em lugar de Esaú
de que Deus é soberano em suas escolhas. enfatiza que a decisão do "conselho" ou
Precisamente em Romanos 9:6-13, parte "propósito" divino surge da liberdade de
da seção freqüentemente utilizada como Yahaweh. É o seu good pleasure que deter-
sustentação da idéia da permanência do mina sua decisão (Rui 9:11). Desta forma,
Israel físico sob as bênçãos do concerto, na história dos gêmeos, como Anders
encontramos duas ilustrações que, em Nygree sublinha, "Paulo remove qualquer
última análise, desacreditam e subvertem fator que pudesse ser considerado como a
tal teoria. Primeiro, verificamos a eleição base da distinção entre eles" 31 .
de lsaque, um dos dois filhos de Abraão. Israel é eleito unicamente a partir da
Deus elege Isaque, não Ismael. Aqui, se- livre graça de Deus. Paulo, ao longo de
minalmente, constatamos a verdade básica sua exposição, estabelece o fato de que
expressa por Paulo séculos depois, a saber: não há nada nos judeus segundo a carne,
"Nem todos são filhos de Abraão, porque que indique qualquer possibilidade de rei-
eles são seus descendentes" (Rm 9:7). Do vindicação em termos de mérito ou direito.
ponto de vista natural, poder-se-ia pensar Absolutamente nada que possa ser utili-
que a promessa fosse tão válida para Ismael zado como um argumento que justifique
como para Isaque, pois ambos eram filhos uma reivindicação sobre o favor divino.
de Abraão. Mas Deus em sua soberana li- A conseqüência disto é fundamental para
berdade de eleição deu a promessa a Isaque entendermos o enorme engano dos que
(Gn 21:12). Mesmo ao ofertar a promessa, insistem em supostas virtudes ou supe-
Deus demonstra que há uma distinção rioridade de Israel. De acordo com Paulo,
básica entre aqueles que são nascidos de em conseqüência da compreensão de que
acordo com a carne, e os que são nascidos a escolha divina é baseada na graça, não
pela força da promessa (G1 4:23). Assim, podemos, sob qualquer hipótese, afirmar
não foi por virtude de descendência natural a idéia de impossibilidade da rejeição de
que Isaque tornou-se herdeiro das bênçãos Israel. O raciocínio é consideravelmente
de Abraão. É claro que deste exemplo simples: Se Deus é livre para escolher o
concreto se poderia concluir, corno alguns objeto de suas promessas, Ele é também
tem feito, que as promessas do concerto livre para rejeitar o que Ele escolheu. Ele
pertencem automaticamente a Isaque e sua tem o direito de manter a liberdade de sua
posteridade, mas isto é precisamente o que eleição no presente e no futuro, da mesma
não somos autorizados a pensar. forma que no passado. Assim, eleição e
ISRAEL E O NOVO ISRAEL / 61

rejeição tomam-se os pólos opostos da descobriu-se consideravel ênfase colocada


mesma elipse, baseado no princípio da nesta transição, em que a igreja substitui
liberdade divina. e toma o lugar do antigo Israel. Walter
A interpretação paulina de que a eleição C. Kaiser observa: "A teologia da subs-
de Israel é totalmente fundamentada na tituição... declara que a igreja, a semente
inexplicável liberdade de Deus, retira de Is- espiritual de Abraão, substituiu o Israel na-
rael e dos defensores da incondicionalidade cional.., cumprindo os termos do concerto
do concerto abraâmico, qualquer segurança dado a Israel, e que fora perdido pela sua
baseada em raça. Realmente, o argumento desobediência?"35 Da mesma forma, Ronald
de Paulo é equivalente à negação da reali- E. Diprose fala em nome de muitos ao defi-
dade do concerto de Yahweh com Israel em nir a teologia da substituição como a noção
termos de incondicionalidade. O apóstolo de que a igreja substituiu completamente o
considera isto uma inferência errada. Ele Israel étnico, cumprindo o plano de Deus
argumenta que o Deus de Israel, o Senhor como recipiente das promessas feitas a Is-
do concerto, o Deus que elege, não é ne- rael no Antigo Testamento. 36 A cumulativa
nhum outro senão o Deus criador. A justiça evidência dada por estes autores" coloca
de Deus deve ser vista em conexão com em destaque as inconsistências dispensa-
os seus direitos de Criador. Ou, em termos cionalistas da suposta dicotomia Israel/
claros: de acordo com Paulo, Deus pode igreja. Nada no novo testamento, nem de
agir como Ele escolhe, e suas ações não longe, sugere que Cristo tenha vindo para
podem ser avaliadas por qualquer norma estabelecer um reino terreno, o qual tenha
humana de justiça. Ao contrário, são tais sido temporariamente postergado, dando,
ações que definem e estabelecem o signi- assim, origem a um suposto "plano de
ficado da justiça. emergência", no qual a igreja cristã é ape-
nas uma "interrupção" do plano original,
Em suma, podemos afirmar que Deus que exige o arrebatamento dos crentes em
é soberano em seu chamado e promessas. Cristo do mundo, para que Israel reassuma
Ele os oferece àqueles a quem Ele quer (M1 seu destino profético.
1:2), não permitindo a ninguém prescrever
regras sobre isto, ou ter qualquer reivindi- Além da percepção destes autores, uma
cação sobre Ele. leitura atenciosa do novo testamento reve-
la que Israel foi real e permanentemente
substituído pelo novo povo de Deus. Nessa
O NOVO ISRAEL
substituição, dois elementos simultâneos
Os cristãos, ao longo de quase dois mil são evidentes: o primeiro, do ponto de
anos de história, têm afirmado a compreen- vista negativo, é o de que a igreja emerge
são de que, no Novo Testamento, a igreja do antigo Israel; o segundo, sob uma ótica
cristã substituiu o Israel nacional do Antigo positiva, é o de que ela toma o lugar de
Testamento, tomando-se o novo Israel, o Israel, substituindo, assim, o histórico
novo povo de Deus. Alister E. McGrath, povo de Deus." Ternos que concordar com
por exemplo, observa que um "amplo Hans K. LaRondelle, autor reconhecido e
consenso" existiu na igreja apostólica, prolífico no tema, quando ele indica que no
segundo o qual "a Igreja é uma sociedade Novo Testamento Israel não é mais o povo
espiritual que substitui Israel como o povo de Deus, sendo radicalmente substituído
de Deus no mundo"32. Da mesma forma, H.
pelo povo que aceitará o Messias e a sua
Wayne House, ampliando o arco histórico, mensagem. Para LaRondelle, a igreja subs-
observa que esta posição, conhecida como
supersessionism 33 ou repleeement theology tituiu "o povo que rejeitou Cristo"". Assim,
foi o "consenso da igreja desde a metade do uma leitura lúcida do Novo Testamento,
segundo século d.C., até o presente" 34. passa forçosamente por Cristo, pois para
os escritores do Novo Testamento. Ele é a
Por meio de uma rápida revisão na chave para interpretação e compreensão do
produção acadêmica de teólogos recentes, Antigo Testamento.
62 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

"Cristo, o último intérprete das pro- aspecto territorial das promessas feitas ao
fecias de Israel", é a verdadeira norma antigo Israel. A terra palestina não apare-
para a elucidação das Escrituras Hebrai- ce dentro do horizonte paulino e, assim,
cas; em Cristo nos confrontamos com o personalizando a promessa "em Cristo",
fim da teocracia dos Judeus. Já o livro o apóstolo a universaliza» Em suma, o
de Deuteronômio profetizara o resultado cumprimento cristocêntrico das promessas
final da desobediência da nação escolhida: do Antigo Testamento, estabelece a igreja
"Se te esqueceres do Senhor teu Deus e cristã como a verdadeira herdeira de tais
andares após outros deuses, servindo-os e promessas." Curiosamente, em nenhum
adorando-os, protesto hoje contra vós que lugar o Novo Testamento promete a terra
certamente perecereis. Como as nações que da Palestina ao novo Israel, a igreja. Os
o Senhor destruiu de diante de vós, assim santos, reunidos na "universal assembléia
perecereis, pois não quisestes obedecer a e igreja dos primogênitos," se achegam à
voz do Senhor vosso Deus"(Dt 8:19-20). "cidade do Deus vivo, à Jerusalém celes-
O último ato de rebelião de Israel, mani- tial" (Hb 12:22,23).
festo na rejeição do Messias, realiza as Seria, portanto, não apenas anacrônico,
palavras desta profecia, na pessoa do mas também um contra-senso e uma des-
próprio Cristo: "Jerusalém, Jerusalém! consideração absurda de Cristo, se os cris-
Que matas os profetas e apedrejas os tãos dessem a última palavra da revelação
que te são enviados! Quantas vezes ao Antigo Testamento, negando, assim, o
quis eu ajuntar os teus filhos.. .e tu não conceito de revelação progressiva e descar-
quiseste! Agora a vossa casa vos ficará tando a única chave explanatória pela qual
deserta!" (Mt 23:37). A transferência de o Antigo Testamento pode ser elucidado.
Israel para a igreja, é irremediavelmente Tal anacronismo deixaria de fora os novos
efetuada, como atestada na solene decla- elementos que foram introduzidos na his-
ração: "Portanto, vos digo que o reino tória da salvação pela encarnação de Jesus
de Deus vos será tirado e será entregue Cristo. LaRondelle corretamente indica
a um povo que produza os respectivos que para os cristãos, no Novo Testamento,
frutos" (Mt 21:43). A partir de então, Cristo é o intérprete definitivo do Antigo
Israel tornou-se uma nação sem qualquer Testamento, e Ele atribuiu às Escrituras He-
significado profético. braicas uma interpretação não centralizada
Devemos notar que Cristo, e não o an- nos judeus, mas nele mesmo.'
tigo sonho geográfico dos judeus, é o foco
do Novo Testamento, pois, de acordo com CONCLUSÃO
Paulo, "quantas são as promessas de Deus,
tantas têm nele [Cristo] o sim, porquanto O dispensacionalismo, com sua herme-
também por ele o amém" (2Co 1:20). nêutica literalista, transformou o Antigo
Gerhard Hasel observa que este texto pro- Testamento no playground de enormes
vê uma resposta cristocêntrica à indagação especulações quanto ao papel de Israel
"a quem pertence as promessas do Antigo no plano divino", desconsiderando e não
Testamento?" Hasel conclui que tal res- fazendo justiça ao conceito bíblico da
posta cristocêntrica do Novo Testamento escatologia inaugurada, ou à forma como
"está em oposição ao argumento futurista Cristo cumpriu as promessas do Antigo
do dispensacionalismo, o qual liga tais Testamento. Tal método de interpretação
promessas a um Israel étnico, literal'''. tem produzido enormes distorções, como
Em Colosseses 1:26,27 o apóstolo enfatiza aquelas vistas nas idéias de Lindsay e
que "o mistério que estivera oculto dos LaHaye. O potencial de engano para
séculos e das gerações; agora todavia, se milhões de pessoas é incalculável, ali-
manifestou aos seus santos", o qual é "... mentando esperanças infundadas numa
Cristo em vós, a esperança da glória." escatologia antibíblica.
E, como W. D. Davies adequadamente Este artigo focalizou a desconsideração
resume, Paulo ignora completamente o dispensacionalista de dois princípios bíbli-
ISRAEL E O NOVO ISRAEL /63
cos que, se considerados seriamente, cons- responde com veemência, "de modo nu-
tituem obstáculos intransponíveis para toda nhum". O plano divino se cumprirá, contudo,
compreensão interpretativa que queira ou não no tempo previsto pelo dispensacionalis-
busque atribuir ao Israel moderno qualquer mo, após o arrebatamento da igreja, ou tendo
vantagem baseada em mera raça ou herança o Israel fisico, instalado na Palestina, como o
natural. Primeiro: as promessas do Antigo beneficiário das promessas de Deus. Então,
Testamento são condicionais. Uma vez que a questão da "salvação de todo Israel" (Rm
o relacionamento concertual com Deus era 11:26), se toma uma questão de "tempo-
um pré-requisito para que a nação escolhida quando?" e da "maneira-como?" A questão
se tomasse o verdadeiro Israel e recebesse a concernente ao tempo em que "todo Israel
realização das promessas, a nação israelita será salvo", tem que ver com uma dimensão
do Antigo Testamento desqualificou-se a si escatológica, naparousia, o retomo do Senhor
mesma como beneficiária das promessas Jesus Cristo. Com relação à "maneira-como",
divinas. Segundo: uma vez que a escolha o cumprimento do plano divino se dará com
de Israel, como demonstrado, foi baseada outro beneficiário, a saber, a igreja, o novo
exclusivamente na liberdade divina, fica e verdadeiro Israel, que compreende todos
assegurado que Deus é também livre para aqueles que aceitam Jesus Cristo, quer judeu
rejeitar aqueles que, embora tivessem ou gentio. Assim, o fracasso do Israel literal
potencial para o Muro, frustraram tal pos- não frustra os eternos desígnios de Yahweh.
sibilidade, a partir do que Israel tomou-se Por meio de Cristo, todas as provisões fo-
uma nação sem qualquer futuro profético. ram feitas para o seu mais amplo, pleno e
Concluir o contrário, baseado em elitismo glorioso cumprimento, quando o povo do
ou em saudosismo do exlusivo status ocu- Messias será introduzido, no seu retorno, na
pado por Israel na história redentiva, não é verdadeira Canaã, que é de cima e na nova
apenas tentar voltar o relógio da profecia, Jerusalém, a cidade que tem fundamentos.
mas incorrer na idéia absurda de que o Deste ponto de vista, a "salvação de Israel",
homem, afinal, tem a última palavra. nos últimos dias, no tempo da parousia, é
um acontecimento estritamente miraculoso,
Significaria isto, como formulado na por meio da iniciativa estritamente divina,
pergunta de Paulo, que "rejeitou Deus o seu totalmente independente de Israel e/ou do
povo?" (Rm 11:1). Como o próprio apóstolo resto da humanidade.

REFERÊNCIAS

' O dispensacionalismo, como sistema de inter- Fortress, 1996), x; Craig A. Blaising, "The Mure
pretação bíblica, infiltrou-se em praticamente todos os Israel as a Theological Question", Journal of
os ramos do protestantismo moderno, chegando a the Evangelical Theological Society, 44:3 (2001),
exercer "considerável influência dentro dos círculos 443-450.
conservadores" (Millard J. Erickson, Contempormy Timothy P. Weber, "How Evangelicals Beca-
Opstions in Eschatology [Grand Rapids, MI: Baker, me Israel's Best Friend", Christianity Today (5 de
1985], 162). No entanto, contrariando a noção manti- Outubro, 1998), 39-49. Para Weber, "os íntimos
da por dispensacionalistas em geral, nenhum dos pais laços entre evangélicos e Israel são importantes: isto
a igreja, reformadores, puritanos, ou representantes tem moldado a opinião popular na América, e, em
das principais denominações cristãs, antes do final certa extensão, a política americana internacional"
do século 19, pode ser encontrado dando apoio a tais (ibid., p. 39). Weber oferece também o exemplo do
ensinos. Em geral, os dispensacionalistas citam como primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu,
representativas destas tradições cristãs, passagens falando na The Voices United for Israel Conference
isoladas que não representam o pensamento central em Washington, DC, em abril de 1998. Mais de três
delas. Veja Wolfhart Pannenberg, Systematic Theolo- mil na audiência eram evangélicos dispensaciona-
gy (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1993), 3:471. listas. De acordo com Weber, Netanyahu declarou:
2 Veja, por exemplo, R. Kendall Soulen, The "Nós não temos maiores amigos e aliados do que
God of Israel and Chistian Theology (Minneapolis: as pessoas assentadas nesta sala" (ibidem). Veja o
64/ PAROUSIA - l ° SEMESTRE DE 2007

artigo de Vanderlei Domeles, "O novo 'Israel': a 12 Esta teoria de dois adventos de Cristo recua

construção da ideologia do messianismo americano às idéias de Darby. Rompendo com todo o ensino
e a legitimação do poder imperial", neste número histórico da igreja cristã, Darby afirmou que o se-
de Parousia. gundo advento de Cristo não ocorreria em um, mas
4 Toda a carta aos Hebreus é uma exposição em dois estágios. Primeiro, um retorno invisível, para
desta dramática mudança que ocorreu na vida re- o "arrebatamento secreto" dos verdadeiros crentes,
ligiosa e nacional de Israel. Os cristãos primitivos quando terminaria o grande "parentesis" ou a "era da
claramente entenderam que Jesus, o Messias, veio igreja," que se iniciou quando os judeus rejeitaram
para estabelecer uma ordem de coisas radicalmente a Cristo. Para legitimizar a noção do arrebatamento
nova, na qual o relacionamento com Deus nada e de dois adventos, Darby dividiu as Escrituras em
mais tinha a ver com o nacionalismo judaico. Para dois grupos de passagens, um grupo relacionado •
os dispensacionalistas, contudo, Deus tem dois pro- Israel, e outro grupo de passagens se aplicando à
gramas separados, um para o Israel natural e outro igreja. Em tempos recentes, na tentativa de fugir do
para a igreja. "Dois Povos de Deus" distintos um do problema de um terceiro advento, dispensacional istas
outro. Para C. Ryrie, a distinção entre Israel e a igreja argumentam que o arrebatamento e o advento final
é considerada a "primeira essência" do dispensado- de Jesus são simplesmente duas fases de um único
nalismo. Charles C. Ryrie, Dispensationalism Today advento. Mas isto não passa de mera racionalização.
(Chicago, 111: Moody Press, 1973), 50. Louis DeCaro Se Jesus veio para morrer por nossos pecados e
corretamente observa que "Sem esta dicotomia voltou ao Céu, devendo vir novamente em segredo
básica em sua hermenêutica, o dispensacionalismo para o arrebatamento dos seus seguidores, voltar ao
não poderia permanecer como um sistema distinto Céu, para, anos mais tarde, retornar outra vez à Terra,
de interpretação bíblica. Todo o sistema revolve ao agora de maneira visível, para exterminar o anticristo
redor da alegada divisão que existe entre Israel e a — então temos três vindas, e não duas.
igreja" (Louis DeCaro, Israel Today: Fulfihnent ' 3 Ibidem. Em seu comentário sobre o filme de
Prophecy? (Philadelphia: Presbyterian and Reformed Lindsay, "The Late Great Planet Earth", Gary Wil-
Publishing Co., 19741, 26). bum observa que a pressuposição fundamental do
O dispensacionalismo, como um sistema reli- filme é "que o mundo deve terminar dentro de uma
gioso, teve sua origem nos anos 1830, na Inglaterra, geração a partir do nascimento do Estado de Israel.
quando John Nelson Darby (1800-1882) desenvol- Qualquer opinião acerca dos negócios do mundo que
veu a idéia de várias dispensações, nas quais Deus não se ajuste dentro desta profecia, está descartada"
testou o homem ao longo da história humana. A (Gary Wilburn, "The Dopomsday Chie", Christianity
este sistema uniu-se a noção do "arrebatamento", Today, 22 [28 de Janeiro, 1978]:22).
originado com Margaret MacDonald, na Escócia. O m Lindsay, ibid., 54.
dispensacionalismo e a noção do "arrebatamento" Is Ibid.
tornaram-se intimamente conectados num sistema ' 6 Ibid.
inovador e errôneo, desconhecido na historiado cris- Lindsay, The 1980's Coutildown to Armage-
tianismo. As doutrinas do dispensacionalismo foram ddon (New York, NY: Thomas Nelson 1980), 1.
sistematizadas por Cyrus 1. Scofield (1843-1921), 18 Veja a referência 12.

na sua Scofield Reference Sacred Scripture (Oxford 19 Veja Steve Wohlberg, The Left Behind De-

University Press, 1909). Tal obra produziu uma ception (Chicago, III: The Remnant Publications,
compreensão das Escrituras totalmente oposta ao 2001), v.
método histórico de interpretação bíblica. De acordo 90 Wohlberg, vii. Publicações evangélicas nunca

com Charles C. Ryrie, como observado acima, a haviam visto tal fenômeno desde 7'he Late Greta!
"essência do dispensacionalismo... é a distinção entre Planet Earth, de Lindsay, na década de 1970.
Israel e a igreja" (Dispensationalistn Today, 44). É 21 O literalismo artificial do dispensacionalismo

• precisamente esta descontinuidade criada entre Israel é reconhecido mesmo por John MacArhtur, um dis-
e a igreja que torna possível ao dispensacionalismo pensacionalista moderado: "Existe uma tendência
manter sua estrutura de idéias. entre os dispensacionalitas de exagerarem a com-
Leon J. Wood, The Bible and Future Events partimentalização ao ponto de fazerem distinções
(Grand Rapids, MI: Baker, 1973), 18. não-bíblicas. fim desejo quase obsessivo de cate-
Samuele Baechiocehi, Hal Lindsay's Prophetic gorizar tudo em detalhes que tem levado intérpretes
Jigsaw Puzzle (Berrien Springs, WI: Biblical Pers- dispensacionalistas a traçar unia linha não apenas
pectives, 1985), 23. entre a igreja e Israel, mas entre a salvação e o disci-
8 Hal Lindsay, A Study Manual to the Late Great
pulado, entre a igreja e o reino, a pregação de Cristo
Planet Eart (Grand Rapids: MI, Baker, 1971), 18 e a mensagem apostólica, a fé e o arrependimento,
9 Ibid., 53 a era da lei e a era da graça." John MacArthur Jr.,
Ibidem. The Cospe! According to Jesus (Grand Rapids, MI:
" Ibid., 54 Zondervar, 1988), 25.
ISRAEL E O NOVO ISRAEL / 65

22 C. Nonnan Kraus, Dispensationalism in Anders Nygreen, Commentary on Romans


America: lis Rise and Development (Richmond, y (Philadelphia, PS: Fortress, 1980), 362.
A: John Knox, 1958), 132. 32 Alister E. McGrath, Christian Theology: An

23 Veja, Amin A. Rodar, "A Natureza do Concerto Introduction (Melden: Blackwell, 1998), 46 I -462
Abraâmico: uma análise da interpretação dispensa- Supersessionismo é designação comum usada
cionalista", Rarousia (Ano 3, n° 1, segundo semestre na literatura erudita recente para identificar esta po-
de 2004), 5-26. Veja tambémAlberto R. Timm, "Uma sição. Comentando sobre o termo, Clark M. Willia-
análise crítica da escatologia dispensacionalista de mson escreve: "Supersessionism, é derivado de duas
Hal Lindsay" (dissertação de mestrado, Seminário palavras do latim, super e sedere, como quando uma
Adventista Latino-Americano de Teologia, Instituto pessoa se assenta na cadeira de outra, substituindo-
Adventista de Ensino, 1988). o". Clark M. Willamson, A Guest in lhe House of
24 O sistema hennenêtitie,o do dispensacionalismo Israel: Pos-Holocaust Church Theology (Loncon:
tem sido objeto de sérias críticas, por sua artificialida- Westminster/John Knox, 1993), 268.
de, inconsistências, literalismo e desconsideração dos 34 H. Wayne House, no capítulo "The Church's

princípios Sola Scriptura e Tola Scriptura, além de Appropriation of Israel's Blessings", em Israel, lhe
outros. Veja, por exemplo, Norman Gulley, Christ is Land and the People: Án Evangelical Affirmation of
Coming(Hagerstown, MA: Review and Herald, 1998), God's Promises, ed. H. Wayne House (Grand Rapi-
71-91. Na página 80, Gulley oferece uma lista de obras ds, MI: Kregel, 1998), 77. Peter Ochs sugere que a
significativas que têm, direta ou indiretamente, criticado ênfase recente na "replacement theology" se deve a
a hermenêutica dispensacionalista. Veja, especialmente, eventos tais como o holocausto e o estabelecimento
Hans K. LaRondelle, The Israel of God in Prophecy: do moderno estado de Israel (Peter Ochs, "Judaisin
Principies ofProphetic Intetpretation (Berrien Springs, and Christian Theology", em The Modern Theolo-
MI: Andrews University Press, 1983). gians, ed. David F. Ford [Malden, MA: Blackwell,
" Assim, onde as sementes de Abraão (os judeus) 1997], 607). É de se perguntar, contudo, se tal ênfase
falharam, a Semente de Abraão par excellance, não se trata de uma tentativa de se contrabalançar
Cristo, foi vitorioso (Gl. 12:3). Em Cristo a história a divulgação do dispensacionalismo com sua in-
de Abraão foi recapitulada. De fato, Ele é o novo sistência no oposto. Veja, ainda, Scott Christopher
Israel. Assim, embora a natureza cósmica das pro- Bader-Sayer, "Aristotle or Abraharn? Church, Israel
messas e missão dadas a Abraão tenham alcançado and the Politics of Election" (Ph.D. Dissertation.,
cumprimento apenas parcial no Antigo Testamento, Duke University, 1997).
fiel à realidade tipo/antítipo, o elemento inteiramente " Walter C. Kaiser Jr., "An Assessment of 'Re-
original no Novo Testamento é o cumprimento or placement Theology': The Relationship between
meio de Cristo do que foi dito acerca do antigo Israel. Israel of the Abrahamic-Davidic Covenant and the
Ele é a cabeça do novo corpo, a igreja (Cl 1:1 8; Ef Christian Church", Mishkan 21 (1994):9.
3:6), onde judeus e gentios integram o novo "Israel de "Ronald E. Diprose, Israel in lhe Development
Deus" (Cl 6:16). Como Gulley observa, "a dimensão of lhe Christian Thoztgth (Roma: Instituto -Bíblico
celestial é a surpreendente herança não revelada no Evangélico Italiano, 1999), 2.
Antigo Testamento. Igualmente surpreendente é o "Para uma considerável listada tais autores, veja
fato de que tal herança não é apenas futura, mas Norman Gulley, Christ is Coming, 80.
já presente em Cristo" (Christ is Coming, 78). Em " Veja esta ênfase em Paul Herman Riderbos,
Cristo já nos assentamos nos lugares celestiais (Ef Outline of his Theology (Grand Rapids, MI: Eerd-
2:6), e, assim, muito alémr da limitada interpretação maus, 1975), 333-34.
literalista do dispensacionalismo, o foco na Palestina 29 Hans K. LaRondelle, The Israel of God in

e na velha capital dos judeus se transpõe para um ní- Prophecy: Principies of Prophetic Interpretation
vel infinitamente mais amplo e superior. Deus afirma (Berrien Springs, MI: Andrews University Press,
que o seu novo Israel "tem chegado ao monte Sião, • 1983), 101. Bruce K. Waltke, professor de Antigo
e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial.., e Testamento na Regent University, afirma a respeito
a Jesus Cristo, o mediador da nova aliança..." (Hb dos esforços de LaRondelle em criticar a herme-
12:22-24). • nêutica dispensacionalista: "Em minha opinião, os
'Veja a discussão deste tópico mais à frente, na trabalhos de LaRondelle e Hoekema, permanecem os
seção "O Novo Israel". melhores sobre o tópico" (Dispensationalism Israel
" Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (Santo and lhe Church: the Search for Definition, Eds. Craig
André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1966), 1: 67. A. Blaising e Darrel L. Bock [Grand Rapids, MI.:
" Ellen G. White, Christ Object Lessons (Wa- Zondervan, 1992], 353). Referindo-se diretamente a
shington DC: Review and Herald, 1962), 288. esta obra de LaRondelle, ele a avalia como "a super
29 Ellen G. White, Profetas e Reis (Santo André, book" (ibidem).
SP: Casa Publicadora Brasileira, 1968), 703, 704. 40 Hans K. LaRondelle, "Israel na profecia",
30 Ibid., 704. em O futuro, eds. Alberto Timm, Arnin A. Rodar
66 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

e Vanderlei Dorneles (Engenheiro Coelho, SP.: 45 O autor não está desapercebido das mudanças

UNASPRESS, 2004), 232. interpretativas que têm ocorrido dentro do dispensa-


4 ' Gerhard F. Hasel, "Israel in bible prophecy", cionalismo, com urna geração progressista de novos
Journal of the Adventist Theological Society 3/1 autores. O próprio dispensacionalista pode ser ana-
(1992): 136. lisado em quatro "dispensações": pré-scofieldiana,
42 W. D. Davies, The Gospel of lhe Land: Lar- seofieldiana, essencialista e progressista. As novas
l)/ Christianity and Jewish Territorial Doctrine tendências no dispensacionalisino são evidentes no
(Bekerley, CA: University of California, 1974), 178, volume editado por Craig A. Blaising e Darrell L.
179, Veja ainda Anthony Thiselton, New Idorizons Bock,Dispensationalitn, Israel and lhe Church: The
in Hermeneutics (Grand Rapids, MI: Zondervan, Search Jhr Definition, mencionado acima. Embora
1992), 27. tais mudanças devam ser congratuladas, elas não
43 Veja o artigo de Gerhard E Tilas& nesta edição representam a maioria dos dispensacionalistas e,
de Parousia. portanto, a ala progressista não significa que as três
" LaRondelle, "Israel na profecia", 232 eras anteriores, não estejam mais vivas e ativas.
O NOVO 'ISRAEL': A CONSTRUÇÃO DA
IDEOLOGIA DO MESSIANISMO AMERICANO
VANDERLEI DORNELES, TH.M.
Professor de Metodologia no Salt, Unasp, Campus Engenheiro Coelho, SP, e diretor da Unaspress

RESUMO: O presente artigo estuda as INTRODUÇÃO 1


origens das expressões, valores e mitos
que constroem o messianismo americano, No início da década de 1990,0 governo
uma visão cívico-religiosa que permeia republicano de George Bush retomou o
a cultura dos Estados Unidos atribuindo uso da expressão "nova ordem mundial",
ideologicamente a esse país o papel de um estágio da política global comandada
legítimo (e sagrado) libertador/redentor pelos americanos. Na alternância do poder
do mundo. A partir dos conceitos de me- na Casa Branca não houve mudança de
mória, texto e cultura, elaborados pelo rumo em relação a esse projeto políti-
pensador russo luri Lotman, o autor iden- co. Em 1993, o democrata Bill Clinton
tifica as memórias históricas messiânicas assumiu o governo da maior potência
que podem ser verificadas nos discursos político-militar e assegurou que, embora
de recentes autoridades governamentais se mudasse a administração, os interesses
norte-americanas. O artigo também aborda fundamentais da América não se alteram,
a forma como a dimensão civil assumida e que as mudanças eram para preservar
pela religião cristã nos Estados Unidos "os ideais americanos da vida, liberdade
confirma a expectativa profética adven- e busca da felicidade", e ainda, que "a
tista quanto à participação desse país na missão da América é de natureza etema" 2.
crise final predita no capítulo 13 do livro Sob seu governo, os Estados Unidos fize-
de Apocalipse. ram guerra à Somália, ao Haiti, Bósnia,
ABSTRACT: This artiele explores the roots Iraque, Sudão e Iugoslávia. Em 1997,
of the expressions, values and myths at para justificar o lançamento de mísseis
work on the basis of lhe American mes- contra o Iraque, Madeleine Albright, então
sianic vision, a civic-religious view that secretária de Estado, declarou:
permeates the culture of the United States Se nós temos de usar a força, é porque somos
ofAmerica, attributing ideologically to this a América. Somos a nação indispensável. Nós
country the legitimate (and sacred) role temos estatura. Nós enxergamos mais longe em
as releaser/changer of the world. Taking direção do futuro 3 .
the concepts of memory, text and culture,
Essa noção de que os americanos são
elaborated by the Russian Iuri Lotman, the superiores, guardiões e líderes da liberda-
author identifies the historical messianic de, comissionados a policiar e transformar
memories which bati be observed in recent o mundo, manifestou-se ainda mais for-
speeches of North-American government temente nos eventos recentes da guerra
authorities. The article also approaches americana contra o terrorismo, no pós-11
the way in which lhe civilian dimension de Setembro. O presidente republicano
assumed by lhe Christian religion in the George W. Bush, antes do ataque ao Ira-
United States of America confirms the que, em discurso no congresso americano,
prophetic Adventist expectation, related to em 25 de janeiro de 2003, declarou:
the participation of this country in the final
A América é uma nação forte e digna no uso de
crisis previewed in chapter 13 of the book sua força. Nós exercitamos o poder sem vanglória
of Revelation. e nos sacrificamos pela liberdade de estranhos.
68 / PAROUSIA - l ° SEMESTRE DE 2007
Os americanos são um povo livre, que sabe que a seus governos, estão crendo num mito de
liberdade é um direito de cada pessoa e o futuro que a América é isolacionista e pacífica.
de toda nação. A liberdade que temos não é um Ele declara ainda:
presente da América para o mundo, é um presente
de Deus para a humanidade.' Com nossa forma de governo democrática, atin-
gimos um pináculo na história da civilização.
Talvez só Roma, na Antigüidade, cultivasse uma
No discurso de posse para o segun- concepção semelhante de seu papel civilizador.
do mandato, em 20 de janeiro de 2005, O resultado dessa crença é o nosso impulso para
Bush reiterou: transformar países que não se alinham conosco.
Nós proclamamos que todo homem e toda mulher Aqueles que nos ameaçam o fazem porque não
nesta terra têm direitos, e dignidade, e valor incom- são democráticos. A cura está na mudança de suas
parável, porque eles trazem a imagem do Criador formas de governo. [...] O mundo precisa ser trans-
do céu a da Terra. [...] Com nossos esforços, nós formado para se tornar mais seguro: essa tradição
acendemos urna chama também, uma chama na de pensamento é muito forte entre nós'.
mente dos homens. E ela aquece aqueles que
sentem seu poder, queima aqueles que combatem O messianismo americano se eviden-
seu progresso, e um dia esse fogo indomável da cia em cerimônias públicas, em discursos
liberdade vai atingir os recantos mais obscuros oficiais, especialmente em contextos de
do nosso mundo.' guerra. É usado para legitimar ações vio-
lentas, para motivar soldados e para lem-
As palavras de Clinton e Albright, bem brar o papel da América como guardiã da
como as de Bush, dão eco a valores e mitos de liberdade humana. O messianismo parece
natureza religiosa, os quais constituem o pró- assumir contornos de uma ideologia, no
prio âmago da cultura americana. Evidenciam sentido de que cimenta o tecido social e dá
um claro messianismo, o qual os americanos sentido e coesão; de uma identidade, que
se sentem chamados e legitimados a exercer dá um modo de ser ao americano; de um
em relação ao restante do mundo, corno um sistema da cultura, que articula e gera uma
novo Israel. Esse messianismo coloca as infinidade de textos s; e de unia utopia, que
guerras americanas como parte de um vasto mantém um ideal e um sonho de restaura-
conflito entre o bem e o mal, entre liberdade ção da condição humana'.
e absolutismo, entre democracia e barbárie.
O messianismo americano é um sistema de De onde são tirados os termos especí-
valores e mitos que remontam às origens ficos que constroem o messianismo ame-
dessa cultura e aos pais fundadores. Ao longo ricano? Em que contextos históricos esses
da história americana, esse messianismo sedi- valores e mitos foram propostos? Que me-
mentou-se como uma ideologia, cujo objetivo mórias históricas são remontadas nas falas
é legitimar e sacralizar o poder imperial. e discursos dos recentes governantes? Em
que textos da cultura americana e em que
O americano Robert Kagan, um dos ide- momentos essa mentalidade foi gestada?
ólogos da extrema direita americana, defen- E que implicações o messianismo impõe à
de que, desde os pais peregrinos, a América religião cristã dos pais fundadores?
sempre foi um poder expansionista e que
esse impulso está no DNA americano. Neste artigo, as respostas para estas
questões são buscadas a partir da ótica
A ambição de desempenhar um poder grandioso no dos conceitos de memória, texto e cultura,
palco mundial tem raízes profundas na personali- propostos pelo pensador russo Iuri Lotrnan,
dade americana. Desde a independência, e mesmo maior representante da chamada semiótica'
antes, os americanos sempre tiveram a convicção
da cultura. Inicialmente, farei uma breve re-
de que sua nação tinha um destino grandioso, e
... os Estados Unidos já despontavam para seus
visão bibliográfica dos conceitos teóricos
líderes como um "Hércules no berço", "embrião que embasam a compreensão da memória e
de um grande império"6 . da cultura como esferas simbólicas. A essa
revisão, essencial para a compreensão do
Para Kagan, quando os americanos se tema, se seguirá urna inicial reconstrução
surpreendem com as ações belicistas de da memória do messianismo americano,
O NOVO 'ISRAEL' / 69
como uma ideologia e um sistema da cultu- na memória sob uma hierarquia, que obe-
ra. Darei atenção também à dimensão civil dece a paradigmas definidos pela própria
assumida pela religião nesse contexto. O cultura. Este é o princípio que determina
artigo sugere uma reflexão sobre como esse os textos a serem "lembrados" e aqueles a
fenômeno reforça a expectativa profética serem "esquecidos". Mas, uma vez que a
adventista acerca do papel da América na cultura é viva e dinâmica, nada se esquece
crise final prevista em Apocalipse 13. para sempre e nada se lembra para sempre.
Segundo Lotman, "cada cultura define seu
MEMÓRIA E TEXTOS DA CULTURA paradigma do que se deve recordar (isto é,
conservar) e do que se deve esquecer"".
Lotman propõe uma visão sistêmica
da cultura, na qual os textos não são pe- Assim, no interior da memória, o que
ças isoladas, mas partes de um todo. Sua "esquecer" e o que "lembrar" pode ser
escola cultural tem um conceito bastante definido em função de uma ideologia ou
amplo de "texto" (do latim textu, tecido). de um sistema dominante da sociedade.
Literatura, peças musicais, obras de arte, Se cada cultura define o que se deve "pre-
produções cinematográficas, documentos servar" e "esquece?', no nível da memória
e discursos históricos são considerados coletiva, então a "história intelectual da
"textos da cultura". Tudo que é tecido, humanidade pode ser considerada urna luta
sintetizado, produzido pela mente e que pela memória'. Essa luta é travada prin-
trata da condição humana constitui-se num cipalmente por mecanismos como igreja,
texto da cultura. estado, educação, sociedade civil e (hoje)
a mídia, entre outros.
O que distingue a semiótica russa é sua
ênfase sobre o caráter orgânico-estrutural Os paradigmas articulados por forças
da cultura. Por causa da interligação entre dominantes da memória coletiva sedimen-
os diversos elementos culturais, "as partes tam sistemas culturais, que vão gerar novos
não entram no todo como detalhes mecâni- textos constantemente's. São sistemas da
cos, mas como órgãos de um organismo'. cultura as grandes narrativas que produ-
Nesse sentido, os filmes, livros, textos zem uma multiplicidade de textos e que
jornalísticos e discursos oficiais mantêm conservam na memória seus valores mais
ligações entre si. Os discursos dos presi- predominantes. O iluminismo europeu do
dentes americanos, os filmes de Hollywood século 18 foi um dos sistemas mais pode-
e a literatura americana mantêm elementos rosos da cultura da Idade Moderna' á.
comuns porque estão interligados como
partes de um sistema cultural. O messianismo americano deve ser
visto como um sistema da cultura, uma
A noção da cultura como um sistema vez que se constitui a partir da sucessão de
facilita a compreensão dos processos cul- uma diversidade de textos como discursos,
turais ao propor que os textos da cultura livros, filmes, etc. Esse sistema se compõe
estão em constante interferência e entre- de textos que projetam os Estados Unidos
cruzamento, de forma que textos atuais como nação eleita, possuidora de um "des-
são sempre influenciados e modelizados tino manifesto".
pelos antigos. A memória é o ambiente
onde os textos antigos são conservados e O MESSIANISMO AMERICANO
de onde se articula sua influência. Ela tem
uma natureza textual, isto é, compõe-se de Os valores que impulsionam e ali-
sentenças, narrativas, expressões, imagens. mentam o projeto de poder americano
Memória é um reservatório que conserva, remontam à fundação da América, seu
transmite e gera textos. Para Lotman, "a descobrimento e mesmo ao impulso mes-
cultura é uma inteligência coletiva e uma siânico e missionário que marcou a Europa
memória coletiva"I 2. É a acumulação de nos séculos 15 e 16. Como um sistema da
textos que constrói a memória de uma cultura, o messianismo foi construído ao
dada civilização. Os textos estão dispostos longo dos séculos, juntando fatos históri-
70 I PAROUS1A - 1° SEMESTRE DE 2007

cos, recortes de falas e discursos de líde- Historiadores têm descrito Colombo


res e governantes, retalhos de narrativas, Como um híbrido de ingenuidade, creduli-
verdadeiras ou não. Sob a influência de dade e ousadia. Ambicioso, tinha também
forças políticas e religiosas, esses elemen- arroubos de um iluminado. Era um fran-
tos diversos carregados de valores e mitos ciscano e fora influenciado pelas teorias
foram sendo decantados para a construção milenaristas de Joaquim de Fiore, de quem
de unia memória coletiva. São textos que se dizia discípulo, e cujas profecias ele
preservam valores e que construíram uma confessou terem-no impulsionado em sua
estrutura de significados que tendem a se aventura pelo Atlântico. A evangelização
reproduzir constantemente. deste "novo mundo" contou com uma pri-
meira leva de missionários franciscanos, da
A partir desta seção, vou explorar no mesma corrente milenarista de Colombo,
panorama histórico americano trechos, re- a qual era proibida pela ortodoxia romana
talhos e recortes de falas, de discursos e da e que persistiu na clandestinidade, como
literatura que, ao longo dos séculos, foram consta da obra novelesca de Umberto Eco,
se entrecruzando na sedimentação de uma O Nome da Rosa.
memória para a América que lhe confere o
status de um novo Israel. Para esses franciscanos milenaristas, o
novo mundo "devia ser o paraíso perdido de
Chamo de messianismo americano uma que falam as escrituras". Colombo escreveu
vocação de natureza religiosa assumida que "ninguém poderia encontrar esse paraíso
pela América em relação ao restante do terrenal, a menos que guiado pela vontade
mundo. Essa vocação é auto-proclamada, divina". Colombo e os milenaristas do sé-
a partir da posse de certos valores bíblicos. culo 15 acreditavam terem encontrado um
Ao longo dos séculos, essa vocação mes- "espaço novo", um "novo mundo", onde se
siânica reconfigurou o papel da religião na daria a propagação do evangelho, que con-
política americana, de modo que a religião duziria à conversão dos pagãos e à derrota
foi levada para o espaço público sem inter- do anticristo, possibilitando "o início do
ferência no principio de separação entre Apocalipse e a renovação do mundo").
igreja e estado.
O uso do adjetivo "novo" para referir-se
Na exploração do fenômeno, vou dar à América recém-descoberta liga as cren-
atenção ao surgimento do conceito da ças milenaristas européias ao Apocalipse
América como "novo mundo", no período de João, em que o futuro reino de Deus é
do "descobrimento". Em seguida, vou descrito como a realização de "novo céu" e
abordar em que consiste e de onde se tirou "nova terra", onde se ergueria a "nova Jeru-
da idéia da América como "nação eleita", salém" (Ap 21:1-2). O Apocalipse funciona
ou novo Israel. Em seguida, vou falar do aqui como um texto da cultura, preservado
conceito de religião civil, a religião que na memória, que conserva crenças e valo-
sacraliza o estado, e suas implicações para res, e influencia a leitura dos fatos.
a religião cristã.
Quando Colombo chegou às Antilhas,
acreditou ter alcançado o Éden. Cria que
O NOVO MUNDO a corrente do Golfo era formada pelos
Buscando as primeiras manifestações "quatro rios do paraíso". Ele escreveu:
desse fenômeno, encontramos a figura "Deus me fez mensageiro de um novo céu
histórica de Cristóvão Colombo. O impul- e de uma nova terra, da qual havia falado
so messiânico contagiou originalmente o o Apocalipse de São João; depois de me
marinheiro, que baseado em mapas antigos haver falado pela boca de Isaías, ele me
atribuídos a Paolo del Pano Toscanelli e indicou o lugar onde encontrar" 20. Em
de confidências de antigos marinheiros, 1494, Colombo chegou à Jamaica e creu ter
"acreditou na existência de um continente encontrado o "reino de Sabá", que visitara
que ainda não conhecia a mensagem de Salomão, e origem dos reis magos. Achar
Jesus Cristo"n. esses lugares foi para Colombo "signos
O NOVO 'ISRAEL' / 71

inequívocos do final dos tempos e da re- Além do êxodo rural britânico, outro
novação do Cosmos''', e a redescoberta fator que impulsionou a colonização do
do paraíso perdido, do Éden de onde Adão novo mundo, no século 17, foi a publi-
e Eva foram expulsos. cação de uma pequena obra chamada
Se a descoberta do "novo mundo" por "Nova Atlântida", em 1626, do então
falecido Francis Bacon, que dá eco aos
Colombo teve uma motivação mística e
valores e à visão de Colombo acerca do
espiritual, sua não-exploração até o século
novo mundo. Trata-se de uma ficção, com
17 também se deveu a fatores místicos.
diversas referências áos evangelhos e
Tal descoberta era possível desde os pri-
mórdios da navegação fenícia. No entanto, com forte linguagem escatológica. Bacon
o Ocidente estava para além das colunas descreve uma sociedade secreta chamada
"Casa de Salomão", ideal e científica. Os
Hércules, onde o precipício se abriria diante
personagens de sua história chegam à
dos navegadores. Derivado de "occido"
Atlântida e se dedicam a um rito inicia-
(morrer, sucumbir), "Ocidente" era a "terra
tico de "purificação de três dias", alusão
da morte" para os antigos. Ali 'o homem não
poderia chegar. à morte e ressurreição de Cristo. Em
terra, os visitantes da Atlântida declaram:
• A despeito de toda a mística envolvendo "Deus, seguramente, está presente nesta
a descoberta de Colombo, o "novo mundo" terra", e ainda:
não foi colonizado até o início do século 17. Examinemos nossa situação e nós mesmos.
Mas, com a intensificação do êxodo rural na Somos homens atirados a terra, assim como Jonas
Inglaterra no século 16, enchendo as cida- o foi ao ventre da baleia, quando já nos considerá-
des de gente sem recursos e sem instrução, vamos sepultados nas profundezas do mar; agora
essa colonização estava a caminho. estamos em terra, mas nos encontramos entre a
vida e a morte, porque estamos além do Velho e do
A idéia de uma terra fértil e abundante, um Novo Mundo; e só Deus sabe se voltaremos a ver a
mundo imenso e a possibilidade de enriquecer a Europa. Uma espécie de milagre nos trouxe aqui e
todos era um poderoso ímã sobre essas massasn. só algo semelhante nos pode levar de volta".

A colonização representava para a In- Os navegadores de Bacon retratam a


glaterra um meio de descarregar no novo situação de desterro e exílio dos protes-
mundo tudo o que não fosse mais desejável tantes europeus.
no Velho. Essa foi uma massa de colonos
A crença de um novo mundo, abenço-
constituída de analfabetos, gente pobre,
ado por Deus, alimentou os sonhos e as
órfãos, mulheres sozinhas, viciados, desor- fantasias messiânicas dos colonizadores
deiros, entre outros. Mas houve outro grupo da América e mesmo dos iluministas. Os
interessado em deixar a Europa em busca primeiros colonizadores a chegarem a
de uma terra de sonhos, os quais a memória essa terra
histórica consagrou como "os peregrinos"
(pilgrims). A perseguição religiosa era se consideravam predestinados e tinham a Europa
como excessivamente decadente para o triunfo da
uma realidade constante na Inglaterra nos
Reforma. Era preciso alcançar um novo mundo e
séculos 16 e 17, o que impulsionou muitas fazer tabula rasa.
levas de religiosos para o novo mundo. Um
desses grupos chegou a Massachussetts em Esses "pais peregrinos" considerados
1620, liderados por Joh_n Robinson, William os fundadores dos Estados Unidos levaram
Brewstef e William Bradfort, religiosos de com eles a imprensa e o puritanismo 25. O
formação escolar desenvolvida. Em 21 de renomado historiador americano Robert R.
novembro desse mesmo ano, eles firmaram Palmer afirma que, ao nascer, os Estados
o chamado "Mayflower compact", em ho- Unidos daAmérica eram a grande esperan,
menagem ao navio que os trouxe do velho ça dos europeus iluministas, que haviam
mundo, o Mayflower, comprometendo-se perdido a esperança no próprio continente
a seguir "leis justas e iguais". e consideravam a América o único local
72 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

"onde a razão e a humanidade poderiam Em 1776, os Estados Unidos se torna-


desenvolver-se com mais rapidez do que ram uma nação independente, com uma
em qualquer outro lugar"". constituição moderna, mas eram um pe-
queno país verticalmente entre o Maine e a
Em 1630, chegaram à América o advo-
Flórida e horizontalmente entre o Atlântico
gado britânico John Winthrop e mais 700
e o Mississipi, cerca de um quarto do atual
pessoas, todas adeptos do puritanismo.
território. Nos 100 anos seguintes, esse
Julgavam estar se retirando de uma terra de- território cresceu incorporando a Flórida,
cadente dominada pelo vício, para possuir Louisiana, Texas, Oregon e territórios an-
a "terra prometida", um lugar predestinado tes pertencentes ao México, alguns destes
"a dar certo e a se tornar um exemplo de comprados outros tomados, tornado-se o
virtude para o resto do mundo" 27 . quarto maior país do mundo.
Na fundação de Massachussetts (1628), A independência das colônias foi in-
eles criam que ali o "Senhor estava criando fluenciada por autores iluministas, mas
um novo céu e uma nova terra", restauran- principalmente pelo inglês Jonh Locke,
do o paraíso do Gênesis, como acreditou nascido numa família protestante. A noção
Colombo. Também ecoando as crenças de de estado, desenvolvida por Locke, manti-
Colombo, no século 18, George Washing- nha que o objetivo do contrato imaginário
ton assegurou: entre o Estado e a população era o de garan-
tir os "direitos naturais do homem, a liber-
Os Estados Unidos são a Nova Jerusalém desti-
nados pela Providência a ser um lugar em que o dade, a felicidade e a prosperidade'.
homem alcance seu pleno desenvolvimento, onde Os fundadores criam ter obtido por
a ciência, a liberdade, a felicidade e a glória devem dádiva divina a "terra prometida". Esta
propagar-se de forma pacifica. terra, no entanto, só se poderia alcançar
por meio de sofrimento e trabalho, de onde
O evangelista dos índios, John Eliot
derivou a idéia de progresso indefinido e
anunciava "a aurora e o surgir do Sol do de trabalho transformador. Os conceitos
evangelho na Nova Inglaterra"". de "novo" em contraste com o "velho",
Desta forma, um espírito de renovação de restauração pela América em contras-
e de restauração, um impulso messiânico, te com a decadente Europa, lançaram as
permeou a fundação dos Estados Unidos. bases para o maniqueísmo americano e
O impulso do "novo", textualmente de- ainda para o culto à juventude'', e se for-
rivado do Apocalipse, manifesta-se em taleceram ainda mais pela associação com
diversos nomes, como Nova Inglaterra a crença da América como nação eleita,
(1579), Nova Iorque (1625), Nova Hamp- povo peculiar.
shire (1638), Nova Escócia (1713), Nova
Orleans (1718), Nova Jersey (1776); e O NOVO ISRAEL
depois "Nova Ordem Mundial", inscrita
De onde, no entanto, os puritanos tira-
no grande selo que ilustra as cédulas de 1
ram a idéia de que Deus lhes havia chamado
(um) dólar.
para um missão de natureza universal? A
A essas idéias de renovação também origem dessa crença remonta ao início da
estiveram vinculados os ideais de liberdade Reforma na Inglaterra, na criação da Igreja
e soberania popular, acalentados pelos pere- Anglicana, no século 16.
grinos protestantes que deixavam a Europa Para divorciar-se de Catarina de Ara:
rumo à "terra prometida". Os mesmos ideais gon, o rei Henrique VIII teve de criar a
embasam o texto da Constituição America- Igreja Anglicana, separando a Inglaterra
na, redigido por Thomas Jefferson: do Vaticano. Era uma igreja da Inglaterra,
Todos os homens são criados iguais, dotados pelo dirigida pelo estado, e estabelecida poucos
Criador de certos direitos inalienáveis, entre estes a anos depois de Lutero ter iniciado a Refor-
vida, a liberdade e a procura da felicidade" 29. ma na Alemanha, em 1521.
O NOVO 'ISRAEL' / 73

Antes disso, o bispo inglês William de sobre a nação inglesa. As mudanças


Tyndale tinha ido à Alemanha estudar sociais e as perseguições aos protestantes
com Lutero, e iniciou a tradução do Novo no sentido de restabelecer a fé católica leva-
Testamento para o inglês, que publicou em ram ao surgimento de focos de resistência,
1526. Mais tarde, Tyndale publicou sua chamados de "puritanismo". Os puritanos
versão inglesa do Pentateuco. Segundo o estavam determinados a recolocar a Igreja
historiador americano Richard T. Hughes, Anglicana nos moldes antigos revelados na
durante a tradução de Deuteronômio, Tyn- Palavra de Deus.
dale ficou especialmente impressionado Segundo Charlie Pardue, "embora os
com o tema do pacto. "Ali ele encontrou puritanos quisessem remover da fé qual-
o relato de que Deus fez um pacto com seu quer coisa católica e retornar para uma
povo escolhido.' O encanto de Tyndale igreja bíblica, eles não abandonaram o
com a questão do pacto e principalmente modelo de uma igreja estatal"." Foram
com as conseqüências de a nação eleita perseguidos durante todo o reinado de Eli-
quebrar o pacto o levou a entender que zabeth I, que se estendeu de 1559 a 1603. Já
"o tema central das Escrituras é o pacto o seu sucessor, orei James I quis implantar
que Deus firmou com seu povo"". As o absolutismo na Inglaterra, o que levou os
traduções bíblicas de Tyndale "plantaram puritanos de orientação calvinista a uma
no subconsciente da Inglaterra a idéia do situação ainda mais dramática, pois prega-
pacto nacional" 34. A linguagem de Tyndale vam a liberdade de mercado e eram contra
deixava subentendido que Deus tinha es- o absolutismo". O rei declarou então que
colhido a Inglaterra como ao antigo Israel, "faria com que os puritanos se conformas-
mas que "os ingleses estavam quebrando sem ou oprimi-los-ia para saírem do país,
esse pacto". ou faria coisa pior"'".
Para Hughes, a visão de Tyndale Em meio à perseguição, os puritanos
acerca do pacto criou um terreno fértil se fortaleceram na idéia da predestina-
em que "a noção de eleição germinaria ção de Calvino e mantiveram a noção
lentamente até desabrochar plenamente de pacto nacional de Tyndale. Para
nos Estados Unidos" 35. Hughes, diante das dificuldades, os pu-
Em 1547, o rei Henrique foi sucedido ritanos tinham uma última carta a jogar:
por seu filho Eduardo VI, quando este ti- "Eles poderiam escapar para a América
nha apenas nove anos, o que o levou a ser [recém-descoberta], e erguer uma igreja
comparado ao rei israelita Josias, inclusive conforme as normas bíblicas". 4'
por suas tentativas de conduzir a Inglaterra Tendo saído da Inglaterra para o novo
de volta para Deus. mundo, os puritanos passaram a ver a si
Quando a Reforma se difundiu em conseqüência mesmos como o próprio povo escolhido, e
do reinado do jovem monarca, a idéia da Inglaterra a Inglaterra como o antigo Egito, de onde
como nação eleita de Deus ficou bem cimentada Deus os livrara da perseguição, como o
na consciência nacional". fizera aos israelitas. Eles desenvolveram
uma noção de estado permeada pelos valo-
Em 1553, porém, Maria Tudor assumiu res da religião. Na América, "os primeiros
•o trono inglês, decidida a reconduzir a puritanos viam a religião como uma lei", o
Inglaterra para a igreja de Roma. Retoman- que na sua teologia unia religião e estado,
do a inquisição, matou 300 protestantes, e eles não viam como uma nação poderia
chamando-os de heréticos, o que lhe valeu permanecer eleita, se não constituísse uma
o nome de "Maria Sanguinária"". Muitos teocracia. As primeiras colônias fundadas
protestantes fugiram da Inglaterra. Eles no novo mundo
viam a morte dos crentes piedosos como aceitavam a religião com uma lei, um hábito e um
uma maldição e se lembravam da alegação objeto de suas atenções diárias, porque isso lhes
de Tyndale de que, caso se afastasse de sua tinha sido negado em seu pais de origem e causado
vontade, Deus retiraria a bênção da eleição sua perseguição".
74 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

Tinham em altíssima conta que constituíam çado o estado de graça. E as seitas evangélicas,
o "novo Israel'', na nova terra. Apoiavam- que emigraram para a América ou lá se forma-
se nas afirmativas bíblicas, traduzidas por ram, desenvolveram um protestantismo peculiar,
fundamentalista, que se diferenciava e ao mesmo
Tyndale, e repetiam com freqüência esses
tempo se identificava com a forma do judaísmo,
ditos: assim como os hebreus no Egito, eles ao buscar inspiração na Bíblia, para atribuir ao
foram perseguidos na Inglaterra; como os povo americano o destino manifesto de expandir
hebreus atravessaram o deserto do Sinai, suas fronteiras e a missão de guiar a humanidade,
eles atravessaram o longo e tenebroso como se fosse o povo eleito por Deus'.
Atlântico; como os hebreus, os puritanos
receberam a indicação e a herança divina Essa leitura do Êxodo por parte dos
da nova terra. E tal como Deus dera força fundadores puritanos lançou raízes pro-
a Josué para expulsar os antigos habitantes fundas na memória americana. As mesmas
da terra de Canaã, os puritanos criam ter crenças ecoaram mais de cem anos depois
recebido direito e força divinos para exter- em discursos oficiais, nos séculos 18 e 19.
minar os índios de sua Canaá' 44. Presidentes americanos como George Wa-
shington e Thomas Jefferson acreditavam
Aqui o relato do Êxodo assume a função que os Estados Unidos tinham um papel
de um texto da cultura, que é resignificado mundial, como os "antigos israelitas, uma
pelos puritanos, ao narrarem suas expe- 'raça escolhida', representando uma ordem
riências. A narrativa bíblica se reproduz social mais elevada, levando o progresso
em novos textos, na fala dos peregrinos. E aonde quer que fossem"". A crença de uma
vai continuar a produzir outros textos na eleição divina esteve na base das guerras
composição do sistema da cultura norte- americanas ao longo dos séculos, como
americana que sustenta o messianismo, na a guerra contra a França em 1790 para
sedimentação de uma memória coletiva. obter territórios espanhóis, em 1812 pelo
Os ideais de renovação e o messianismo Canadá e pela Flórida, em 1846-47, contra
alimentavam o espírito de expansão, mas, o México.
sobretudo o chamado "destino manifes- No contexto do nascimento da república
to'', a idéia de que Deus tinha dado aquela americana, no século 18, a crença de que os
terra aos peregrinos, que deviam possuí-Ia Estados Unidos são a nação eleita de Deus,
como o povo de Israel possuiu pela força o novo Israel, era tão forte que foi tema das
a antiga terra de Canaã. principais propostas para o selo americano.
John Adams, Benjamin Franklin e Thomas
Assim, desde os primórdios, uma vo-
Jefferson formaram o comitê de delegados
cação messiânica "marcou a formação e
pelo Congresso Continental, em 4 de julho
impregnou a cultura" americana. "O povo
de 1776, para lançar o desenho do selo dos
americano, do mesmo modo que os israe-
Estados Unidos. Franklin propôs um dese-
litas, passou a considerar-se o mediador, o
nho de Moisés erguendo seu cajado e divi-
vínculo entre Deus e os homens". Esse pac- dindo o Mar Vermelho enquanto Faraó era
to bíblico entre Deus e os israelitas inspirou coberto pelas águas, com o mote: "Rebelião
o pacto firmado entre si pelos peregrinos à aos tiranos e obediência a Deus". Jefferson
bordo do Mayfiower. Crentes de que eram propôs uma criança de Israel no deserto,
fiéis a Deus, em contraste com os europeus, com o mote "guiado por uma nuvem duran-
entregues ao vício e à decadência, eles se te o dia e por uma coluna de fogo à noite" 49.
sentiam comissionados a exercer um papel Em 1799, Abiel Abbot, pastor da Primeira
restaurador frente aos outros povos. "O Igreja em Haverhill, Massachussetts, decla-
sentimento de grandeza e superioridade rava que "o povo dos Estados Unidos tem
conformou desde os primórdios parte da mais proximidade e paralelo com o antigo
identidade dos Estados Unidos" 46. Israel do que qualquer outra nação sobre
A predestinação constitui a substância real do o globo'"°. O escritor americano Herman
protestantismo [ca]vinista], daqueles que criam Melville, autor do clássico Moby Dick, em
estar em comunhão direta com Deus e ter alcan- 1850, escreveu: "Nós, americanos, somos
O NOVO 'ISRAEL' / 75

o povo peculiar e escolhido — o Israel dos ligião veio sedimentando uma memória para
novos tempos; nós carregamos a arca das aAmérica. Essa vocação messiânica assumi-
liberdades do mundo"51 . da pelos americanos apoiou-se inicialmente
Na comparação com o Israel bíblico, na promessa do Apocalipse de uni "novo
os pais fundadores e, por conseqüência, a mundo", depois estendeu-se até o pacto
nação, assumem um ideal e uma missão com Abraão e ao Êxodo. A formação de
perante o mundo. A eleição de Israel como uma memória coletiva e de uma identidade
povo peculiar deve ser vista à luz do pacto que projetam os Estados Unidos, como uma
firmado por Deus com Abraão. nação escolhida com um papel messiânico,
ocorre a partir de uma seleção das fontes bí-
Disse o Senhor a Abro: sai da tua terra, da tua blicas. Um sistema dominante opera por trás
parentela e da casa de teu pai e vai para a terra do cenário histórico e determina o que do
que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, texto bíblico deve ser lembrado e resgatado
e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu e o que deve ser esquecido. O messianismo
uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e americano é construído praticamente sem
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem, em ti serão
uso dos evangelhos, sem menção à nova
benditas todas as nações da terra (Gn 12:1 3, -

ênfase nossa). aliança e sem referências a Jesus Cristo,


embora os puritanos fundadores fossem
Após 400 anos no Egito, Moisés tirou protestantes crentes na justificação pela fé.
Israel de lá, sob a direção divina para Nesse processo de construção da memória,
atravessar o deserto do Sinai em direção a a religião foi adaptada ao espaço público,
Canaã, uma terra que "mana leite e mel" tanto quanto possível sem prejuízo do princí-
(Nm 13:27), um paraíso, um Éden restaura- pio de separação entre igreja e estado. Nesse
do, dado por herança aos israelitas, recém- espaço, a religião não é mais o cristianismo,
libertados. Em Deuteronômio 11:22-25, se nem Deus é o Deus da Bíblia, pelo menos
assegura que se o povo de Israel for fiel a não de toda a Bíblia. O que aparece é uma
Deus e ao pacto, guardando sua lei, nova religião, ou um novo uso dela, a "re-
ligião civil".
o Senhor desapossará todas estas nações, e pos-
suireis nações maiores e mais poderosas do que De que se constitui essa religião? Sob
vós. Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, que implicações o cristianismo é moldado
desde o deserto, desde o Líbano, desde o rio, o rio ao espaço público de uma nova ordem? Que
Eufrates, até o mar ocidental, será vosso. Ninguém tipo de religião o messianismo americano
vos poderá resistir; o Senhor vosso Deus, porá tem como seu fundamento? A seção seguin-
sobre toda a terra que pisardes o vosso terror e o te propõe respostas a essas questões.
vosso temor (ênfase nossa).

Este pacto entre Deus e Abraão e de- A RELIGIÃO CIVIL AMERICANA


pois entre Deus e Israel, estabelece que a O conceito de religião civil foi origi-
eleição implicava: (1) que o povo de Israel nalmente proposto por Jean-Jacques Rous-
era superior espiritual e moralmente em seau, em Do Contrato Social, publicado
relação ao mundo, (2) que todas as nações em 1762. O filósofo francês tinha uma
teriam sua chance de bênçãos somente visão funcionalista da religião no sentido
pelas mãos de Israel, (3) que todos os que de sacralizar o dever e a lei, essenciais
estivessem contra Israel estariam contra para a sociedade. Segundo ele, os dogmas
Deus e seriam amaldiçoados, e (4) que de uma religião civil devem ser poucos e
Israel tinha a posse da terra prometida e a simples, diretos:
missão/direito de trabalhar pela transfor-
mação das outras nações. Ao se considerar A existência de Divindade poderosa, inteligente,
o novo Israel, o povo americano arroga benfazeja, previdente e provisora; a vida futura;
todas estas prerrogativas. a felicidade dos justos; o castigo dos maus; a san-
tidade do contrato social e das leis", os dogmas
Ao longo de cinco séculos, o uso da positivos. "Quanto aos dogmas negativos, limito-
noção da eleição divina e dos valores da re- os a um só: a intolerância.'
76/ PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

Esse mesmo conceito ecoa nas palavras política, mas sem a representação de credo.
de Benjamin Franklin, unidos redatores da Bellah define:
Declaração de Independência dos Estados Embora o assunto de crença, adoração e comu-
Unidos, embora ele não tenha chamado isso nhão seja considerado estritamente privado, há,
de religião civil: ao mesmo tempo, certos elementos de orientação
Eu nunca duvidei da existência de Deus; de que religiosa que a grande maioria dos americanos
ele fez o mundo e o governa por sua Providência; compartilha. E estes elementos têm cumprido um
de que o mais aceitável serviço para Deus é fazer papel crucial no desenvolvimento das instituições
o bem aos homens; de que nossas almas são imor- americanas e ainda provê uma dimensão religiosa
tais; e de que o crime deve ser punido e a virtude, para a estrutura da vida americana como um todo,
recompensada aqui ou no porvir» incluindo a esfera política. Esta dimensão religiosa
pública é expressa na forma de crenças, símbolos
Comparando as palavras de Rosseau e e rituais que eu chamo de religião civil america-
na. A cerimônia de posse de um presidente é um
Franklin, conclui-se que "a religião civil
importante evento dessa religião 58.
que os fundadores [americanos] estabele-
ceram era em essência um reflexo de seus
próprios ideais iluministas" 54. Analisando as palavras de Kennedy,
Bellah afirma que o juramento é feito diante
Para entender a religião civil naAmérica, do povo e de Deus. Além da Constituição,
os conceitos propostos por Robert Bellah, as obrigações dos presidentes se estendem
em seu célebre artigo "Civil Religion in não só ao povo, mas a Deus.
America"" são essenciais. Ele concebe
Na teoria política americana, a soberania permane-
a religião civil "não como uma forma de
ce, naturalmente, com o povo, mas implicitamente
auto-adoração nacional", como apontaram e, freqüentemente, explicitamente a soberania final
alguns de seus críticos, mas como "uma é atribuída a Deus”.
subordinação da nação a princípios éticos
transcendentes, acima da possibilidade Este é o significado do mote "In God we
de julgamento". O artigo cita o discurso trust" (em Deus nós confiamos), bem como
inaugural do ex-presidente americano da inclusão da frase "Under God" (sob Deus,
John Kennedy, em 20 de janeiro de 1961. ou sob as ordens de Deus) na bandeira.
Kennedy se refere a Deus três vezes". Na
primeira ele diz: "Eu jurei diante de vocês Essa motivação ecoa na Declaração de
e do Deus Todo-Poderoso o mesmo jura- Independência, na qual há quatro referên-
mento que nossos antepassados fizeram há cias a Deus. A segunda é adeque "todos os
quase dois séculos." Depois, "os direitos do homens são formados por seu Criador com
homem não vêm da generosidade do esta- certos direitos inalienáveis". Com isso,
do, mas da mão de Deus". Por fim, "aqui Thomas Jcfferson coloca a legitimação da nova
na terra a obra de Deus deve ser a nossa nação na concepção da mais alta lei, que é ba-
própria obra". Kennedy não se refere a uma seada tanto no direito natural clássico quanto na
religião particular. Não se refere a Jesus religião bíblica°.
Cristo, ou a Moisés, ou à igreja cristã, ele
também não se refere à sua Igreja Católica. George Washington também repete a
Ele fez referência ao conceito de Deus, que mesma noção em seu discurso inaugural,
quase todas as pessoas aceitam e encaram em 30 de abril de 1789, como o primeiro
de forma diversa. Bellah questiona: presidente americano:
Se considerarmos o princípio de separação entre Seria muito impróprio omitir neste primeiro ato
igreja e estado, como um presidente justifica ouso oficial minha fervente súplica ao Todo-Poderoso
da palavra Deus em seu discurso? Certamente, Ser que mantém o universo, que preside o conselho
essa separação não vai contra o uso da dimensão das nações»
religiosa na política."
Para Bellah, as falas e os atos dos pais
• É nesse espaço que surge o conceito de fundadores, especialmente os presidentes,
religião civil, quando a religião participa da dão a forma e o tom da religião civil.
O NOVO 'ISRAEL' / 77

Essa religião civil, embora derive do cristianismo, posições contrárias à Palavra de Deus nos
não é o próprio cristianismo. Por algum motivo, últimos tempos".
nem WaShington nem Adams nem Jefferson, nem
Kennedy mencionam Cristo. Nem qualquer outro
depois deles, embora todos mencionem Deus. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Deus da religião civil não é só "unitariano", Como demonstrado neste artigo, a vo-
ele tem também uma face severa, muito mais
cação para o exercício do poder frente às
relacionada com a ordem, lei e direilos do que
com salvação e amor. [...1 Ele está ativamente
demais nações não é um desenvolvimento
envolvido com a história, em concerto especial recente na história da América, embora
com a América. Aqui a analogia tem muito menos a interpretação adventista, no século 19,
a ver com o direito natural do que com o antigo tenha sido uma novidade no campo do
Israel°. estudo do Apocalipse. O levantamento
da memória americana, confirmando que
Para Pardue, os americanos fizeram o impulso e a ideologia do messianismo
dessa religião uma espécie de "totem", remonta à fundação dos Estados Unidos,
no sentido de que "os valores e virtudes sugere que desde o início a nação já pos-
da nação que chamamos de América são suía um destino profético. Sugere também
colocados diante de nós como religio- que o pendor da América para o controle
sos". Ele critica ainda que essa religião das demais nações e para a restrição da
transformou a liberdade numa tirania, liberdade não é resultado de uma convicção
santificou a escravidão, o individualismo, momentânea, mas uma vocação presente no
consumismo, militarismo, guerra nuclear, DNA americano.
por meio do nacionalismo". Tudo feito em A memória histórica americana foi mo-
nome de Deus'''. delada, ao longo dos séculos, de forma a
Por que a religião civil se conecta a tornar o messianismo uma vocação atrativa
Israel e não à igreja cristã professada pelos e convincente, plantando a idéia de uma
pais peregrinos? Por que ela trata só com nação eleita com uma missão divina. É um
direitos e deveres e não com salvação? Por enredo simples, mas grandioso: os pais fim-
que fala de Deus e não de Cristo? d adores da América eram homens honestos
e religiosos, que escaparam da perseguição
A resposta a estas questões provavel- na Europa. Chamados por Deus para uma
mente atravesse os caminhos que aproxi- terra longínqua e fértil, eles fundaram uma
mam americanos e judeus e que conduzirão nação livre e assumiram a missão de levar
a América a um regime de autoritarismo no ao mundo os valores divinos de liberdade
futuro. Talvez também explique por que, e felicidade. Essa narrativa decantada
embora idealizado por protestantes crentes construiu uma memória sólida67, e chegou a
na justificação pela fé e no futuro reino de assumir o status de uma metanarrativa, com
Cristo, o projeto de poder da América não é pretensões a verdades absolutas, cristali-
para o mundo por vir, mas para esta vida. zou-se como uma ideologia. Sintetizados
Nos anos 1850, os adventistas sabatistas a partir de importantes textos da cultura
já viam o destino histórico dos Estados Uni- judaico-cristã, seus valores e mitos se re-
dos da América numa perspectiva ampla, produzem indefinidamente, constituindo-se
no sentido de esta nação vir a desempenhar num sistema da cultura.
um papel crucial, como a "besta" de dois Esses valores e mitos messiânicos
chifres (Ap 13:11-18) e a "imagem" da transformaram-se ao longo das décadas
besta (Ap 14:9-11) 65 . Mais tarde, Ellen G. em forças históricas, que determinam e
White ampliou essa compreensão com a legitimam as ações imperialistas. A força
publicação de O Grande Conflito. Segundo desses mitos sobre a cultura americana é
ela, a nação americana vai desempenhar um objeto da reflexão do escritor Philip Roth,
papel escatológico em cooperação com o em sua trilogia composta por A marca
Vaticano numa campanha de intolerância humana, Pastoral americanae Casei com
e perseguição a fiéis que resistirem às im- um comunista. Roth compõe um quadro da
78 / PAROUSIA - 1 0 SEMESTRE DE 2007

vida americana em que pessoas de "grande "4 liberdade não é um presente da América
vigor moral e intelectual são assoladas para o mundo, mas um presente de Deus
por forças históricas fora de controle"", para a humanidade", proclama Bush.
independentes da razão.
Quem será o próximo inimigo comum
Durante o século 20, os americanos da humanidade, na escalada americana pela
desenvolveram sua estratégia de poder construção da nova ordem mundial, e na
global a partir da nomeação de um inimigo tentativa de restaurar o paraíso na terra?
comum da humanidade, que eles passaram
a combater. Na Segunda Guerra Mundial, Refletindo sobre os campos de concen-
os americanos combateram e derrotaram o tração do nazismo, a filósofa judia Hannah
nazismo e o fascismo, demonizados como Arendt declara que as massas modernas se
inimigos comuns da humanidade. Na Guer- caracterizam pela perda da fé no juízo final,
ra Fria, os americanos assumiram o desafio do que decorre a perda do temor dos maus,
de combater outro inimigo comum, o co- e da esperança dos bons. Para ela,
munismo, também retratado em seus textos incapazes de viver sem temor e sem esperança,
culturais, especialmente cinematográficos, os homens são atraídos por qualquer esforço que
como um inimigo da raça humana, repres- pareça prometer unia imitação humana do paraíso
sor da liberdade. Após a queda do Muro de que desejaram ou do inferno que temeram".
Berlim (1989), a América entrou num vazio
de poder, não havia mais inimigos. Então, A utopia americana de uma nova ordem
nos atentados de 11 de Setembro (2001), mundial, construída por uma "nação elei-
eis que um novo inimigo se apresenta: o ta", promete ser a repetição da tentativa de
fundamentalismo islâmico. Em todas essas se reconstruir o "paraíso perdido". Poderá
batalhas, os americanos lançam mão de ser um novo holocausto, contra os dissiden-
seus mitos e proclamam seu messianismo. tes? O Apocalipse diz que sim.

REFERÊNCIAS

Este texto é a descrição inicial de um fenômeno


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em estudo pelo autor na composição de uma tese
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Universidade de São Paulo (LISP).
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vista com Robert Kagan. Veja, 6 de dezembro de
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janeiro de 1993, disponível em http://www.let.rug. cano reproduz os valores e ideais messiânicos, ver
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3 I. Fuser e D. Bianchi, "O grande império ame-
Edusc, 2001).
ricano". Aventuras na História (São Paulo: Abril, ' Para Kagan, "os Estados Unidos, como todo
janeiro de 2006), 29. bom filho do Iluminismo, ainda acreditam na possi-
4 "President' Delivers 'State of the Un ion'",
bilidade de perfeição humana, e mantém a esperança
discurso do presidente Americano George W. Bush, da possibilidade de perfeição do mundo" (Kagan, Do
no dia 25 de janeiro de 2003, antes da invasão do Paraíso e do Poder, 96).
Iraque, disponível em http://www.whitehouse.govi , °A semiótica (do grego .s.emeiotiké ou "a arte dos
news/Mleases/2003/01/20030125.html. sinais") é a ciência geral dos signos, que estuda todos
"President Swom-In to Second Tertn", dis- os fenômenos culturais como se fossem sistemas
curso de posse do segundo mandato da presidência signicos, isto é, sistemas de significação. Ocupa-se
de George W. Bush, no dia 20 de janeiro de 2005, do estudo do processo de representação, na natureza
disponível em http://www.whitehouse.govinews/re- e na cultura, do conceito ou da idéia. Em oposição
leases/2005/01/20050120-4 .html. à lingüística, que se restringe ao estudo dos signos
O NOVO 'ISRAEL' / 79

lingülsticos verbais, a semiótica tem por objeto "Nação Inocente" impediu que muitos americanos
qualquer sistema signico: artes visuais, fotografia, compreendessem e mesmo que discutissem as com-
cinema, música, culinária, vestuário, gestos, religião, plexas motivações dos atentados terroristas de 11 de
ciência, etc. Os conceitos da semiótica podem retro- Setembro de 2001. O autor identifica cinco mitos-
Ceder a pensadores corno Platão e Santo Agostinho. chave que iludem o coração dos americanos: o mito
Entretanto, somente no século 20 começa a adquirir da Nação Eleita, Nação da Natureza, Nação Cristã,
o status de ciência, com os trabalhos do suíço Fer- Nação do Milênio e Nação Inocente. Hughes mostra
dinand de Saussure e do francês Aljirbas Greimas que, com a canonização desses mitos aparentemente
(semiótica francesa), do americano Charles S. Peirce inocentes da identidade nacional como verdades
(semiótica pragmática) e de Iuri Lotman, da escola absolutas, aAmérica arrisca debilitar a promessa de
de Tartu, na Estônia (semiótica da cultura). Fonte: igualdade da Declaração de Independência.
Wikipedia, enciclopédia anime. • Hughes, Myths American Lives-By, 21.
Iuri M. Lotman, La Semiosfera: semiótica de 34 Pardue, "A brief history of American Civil

la cultura e dei texto (Frónesis Cátedra: Universitat Religion''.


de Valencia, 1996), 1:31. Hughes, Myths American Lives By, 23.
12 Ibid., 157. " Pardue, "A brief history of American Civil
"Ibid., 160. Religion".
14 Irene Machado, Escola de Semiótica (São 37 E. E. Cairns, O Cristianismo através dos

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ro: Nova Fronteira, 1983). Americana (Rio de Janeiro: Forense Universitária,


19 Milà, to que está detrás de Bush, 4. 1967), 22.
" Ibidem. 43 Karnal,.Estados Unidos, 38.

2 ' Ibid., 5. 44 Ibid., 55.

" Leandro Kamal, Estados Unidos: a formação "A crença do "destino manifesto" foi formulada
da nação (São Paulo: Contexto, 2005), 35. pelo então futuro presidente John Quincy Adams,
23 Ver a íntegra do pacto feito entre os pais fun- em 1811: "Todo o continente da América do Norte
dadores, em 1620, disponível em http://www.letrug. parece estar destinado pela Divina Providência a ser
n1/--usa/D/1601-1650/plymouth/compae.htm. povoado por esta nação, falando um idioma, profes-
24 Francis Bacon, Nova Atlântida. Os pensadores sando um sistema geral único de princípios religiosos
(São Paulo: Nova Cultural, 1999), 227. e políticos e acostumada a um mesmo padrão de usos
25 Mi là, Lo que está detrás de Bush, 8. e costumes sociais" (Sidney Lens, A Fabricação do
26 Robert R. Palmer, The Age of the Democrati c Império Americano: da revolução ao Vietnã: uma
Revolution: A Politica. History of Europe ana'Ame- história do imperialismo dos Estados Unidos [Rio
rican, 1760-1800 (Princeton: Princeton University de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006], 24). A ex-
Press, 1959), 1:242. pressão "destino manifesto", no entanto, foi primeiro
27 nus
r er e Bianchi, "O grande império ameri- usada pelo jornalista John O' Sullivan, em 1846, às
cano", 26. vésperas da guerra com o México, a qual ele via
2 " Mila, Lo que está detrás de Bush, 8. como a oportunidade da"realização do nosso destino
24 "The Unanimous Declaration of the Thirteen manifesto de nos espalharmos pelo continente que
United States of America", de 4 de julho de 1776, recebemos da Providência" (Fuser e Bianchi, "O
disponível em http://Www.letrug.n1/--usa/D/1776- grande império americano"; 29).
1800/independence/doi.htm. 46 Luiz Antonio Moniz Bandeira, Formação do

30 Kamal, Estados Unidos, 79. Império Americano: da guerra contra a Espanha


Milà, Lo que está detrás de Bush, 9. à guerra nó Iraque (Rio de Janeiro: Civilização
Richard Hughes, Myths American Lives By Brasileira, 2006), 27-28.
(Illinois: University Illinois Press, 2003), 21. Neste 47 Ibidern.

livro, Richard T. Hughes argumenta que o mito da ' Lens, A Fabricação do Império Americano, 23.
80 / PAROUSIA - 1 0 SEMESTRE DE 2007

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diz: 'Estes homens [pais fundadores] sabiam o que exceto no segundo discurso inaugural de George
estavam fazendo. Sabiam que estavam edificados Washington (presidente dos EUA de 1789-1797),
sobre o Supremo Ser que é o Criador, a realidade final. que foi breve (dois parágrafos) e muito superficial.
Sabiam que sem esse fundamento tudo na Declaração Do primeiro discurso inaugural de Washington até
de Independência e tudo que se seguiria poderia ser o segundo de James Monroe, em 1821, a palavra
transformado num absurdo inalterável. Eles foram "Deus" não aparece, mas outros termos são usados
homens brilhantes que sabiam exatamente o que os para mencionar a divindade. Em seu primeiro dis-
envolvia" (Francis A. Schaffer, A Christian Manifèsto curso inaugural, Washington se refere a Deus como
[Wheaton, IL: Crossway Books, 1981], 33). Num livro "o ser Todo-Poderoso que governa o universo",
intitulado (inc Nation Under God, o escritor evangé- "Grande autor de todo bem privado e público",
lico Rus Walton chega a afirmar confiantemente que "Mão invisível" e "Parente benigno da raça hu-
a "Constituição dos Estados Unidos foi divinamente mana". John Adams (1797-1801) refere-se a Deus
inspirada" (Rus Walton, 011€ Nation Under God como "Providência", "Ser supremo sobre todos",
[Washington, DC: Third Century Publishers, 1975]). "Patrono da ordem", "Fundador da justiça" e "Pro-
Nos anos 1960 e 70, durante a guerra do Vietnã, os de- tetor". Thomas Jefferson (1801-1809) fala do "Infi-
fensores do conflito buscavam legitimar suas palavras nito poder que governa os destinos do universo" e
apelando para o mito da nação eleita. Edward Elson "Ser em cujas mãos nós estamos". James Madison
afirma que a América não poderia ser concebida senão (1809-1817) fala do "Todo-Poderoso Ser cujo poder
como um "movimento espiritual" originado em Deus regula o destino das nações". James Monroe (1817-
e guiado em seu desenvolvimento pelo Espírito Santo. 1825) usa "Providência" e "Todo-Poderoso", e por
George Otis, um homem de negócios, ecoa o mesmo fim, erriseu segundo discurso, usa "Todo-Poderoso
terna: "A mão de Deus estava nas fundações dessa Deus" (Ver os discursos presidenciais de posse
nação e a força de Cristo esteve com os construtores de mandato de todos os presidentes americanos
da América" (George Otis, The Solutions to Crisis- no site "From Revolution to Reconstrution", em
America [New York: Flerning H. Revell, 1972], 53). http://www.let.rug.nit-usa/index.htm, busque o
Date Evans Rogers afirmou que "a América estava na link "presidents").
mente de Deus antes de tomar-se uma realidade" e que " Bellah, "Civil Religion in America".
a nação era "parte de seus [divinos] propósitos para 6 " Ibid.
gênero humano" (Date Evans Rogers, Let Freedom Ibid.
Rmg [New York:Fleming H. Revell, 1975], 19-20). O " Ibid.
escritor e evangelista Tim LaHaye, um dos cabeças da Si Discurso de posse do ex-presidente George
American Coalition for Traditional Values, escreveu: Washington, em 30 de abril de 1789, disponível -
"Sem a América, nosso mundo contemporâneo teria em http://www.letrug.nlkusa/index.htm, no link
perdido completamente a batalha pela mente e, sem "presidents".
dúvida, pela vida numa era totalitarista e humanista" 62 Bellah, "Civil Religion in America".

(Tim LaHaye, The Balde for lhe World . [New York: " Pardue, "A brief history of American Civil
Fleming H. Revell, 1980], 35). Religion".
51 Herman Melville, White-Jacket, or lhe World °4 Para o escritor Robert Wuthnow, no entanto, há
in a Mán-ofWar (Boston: L.C. Page & Company, duas religiões civis na América. Aquela que mantém
1950), 114. uma visão conservadora, "baseada na arrogância e
92 Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social, no falso senso de superioridade". E outra, "baseada
vol. 1 (São Paulo: Nova Cultural, 1999), 241. nos princípios éticos e bíblicos", mantida por pessoas
" Robert Bellah, "Civil Religion in America", que têm uma visão liberal desse mesmo fenômeno.
Dedalus, Journal of lhe American Academy of Arts Eles não declaram explicitamente adesão à visão
and Sciences (Inverno de 1967, vol. 96, n. 1, pági- dos pais fundadores, segundo a qual a América é a
nas 1-21), disponível em http://www.robertbellah. nação eleita de Deus. Para eles, "a América tem um
conriarticles_5htm. papel vital a desempenhar nos negócios do mundo
" Charlie Pardue, "A brief history of American não por que seja a casa de um povo escolhido, mas
pliainn and its ecclesial implications", dispo- por que tem vastos recursos e, como parte das na-
O NOVO 'ISRAEL' /81

ções mundiais, ela tem responsabilidade em ajudar últimos acontecimentos (Engenheiro Coelho, SP:
a aliviar os problemas do mundo". Para Wuthriow, Unaspress, 2004), 273, nota 39.
as duas visões acerca da América tem sido objeto de " Ver White, O Grande Conflito, 439, 444.
discórdia e polarização, mais do que de consenso e 67 Ray Raphael, Mitos sobre a Fundação dos
compreensão mútua (Robert Wuthnow, "Divided Estados Unidos: a verdadeira história da inde-
we fali: America's two civil religion", disponível pendência americana (Rio de Janeiro: Civilização
em http://www.religion-online.org/showarticle . Brasileira, 2006), 16.
asp?title+235). Phillip Roth, A marca humana (São Paulo:
" VerAlberto R. Timm, "EscatologiaAdventista Companhia das Letras, 2002), 12.
do Sétimo Dia, 1844-2004: breve panorama históri- Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo:
co", emAlberto R. Timm, AminA. Rodor e Vanderlei anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo (São
Dorneles (orgs.), O Futuro: a visão adventista dos Paulo: Companhia das Letras, 1998), 497.
23 DE SETEMBRO OU 22cDE OUTUBRO? UMA
NOVA ABORDAGEM À LUZ DA ASTRONOMIA
HENDERSON HERMES LEITE VELTEN (AUTOR DO ARTIGO)
Advogado, editor do site www.concertoeterno.com
JUAREZ RODRIGUES DE OLIVEIRA (AUTOR DA PESQUISA QUE SUBSIDIOU O ARTIGO)
Pesquisador e tradutor juramentado de inglês/português

RESUMO: O adventismo tem sido acusado in the days of Ezra and Jesus. These evi-
de defend0 adventismo tem sido acusado dences consist in historically documented
de defender uma data incorreta para o Dia situations in which the Jewish months were
da Expiação em 1844, pois, de acordo com fit later than the Rabbinical Cycle. The se-
o calendário rabínico, o décimo dia do sé- cond part of this article shows that, on the
timo mês teria ocorrido em 23 de setembro contrary of what many have led others to
naquele ano. A primeira parte deste estudo believe until now, the date of October 22nd
apresenta evidências de que o calendário does not depend on the Karaites, but can be
rabínico atual não representa uma continui- supported by Babylonian tablets attesting
dade do calendário judaico praticado nos the lunar Seventh Month, beginning with
dias de Esdras e Jesus. Essas evidências the new, moon of October in years corres-
consistem em situações documentadas ponding to 457 B.C. and also by historical
historicamente em que os meses judaicos and astronornical certainty of April 27th,
foram posicionados mais tardiamente que A.D. 31 as the date for Christ's death .
no ciclo rabínico. A segunda parte deste This article defends that the mathematical
estudo mostra que, ao contrário do que al- structure of the prophecy requires that the
guns fizeram crer até hoje, a data de 22 de end of the "2.300 evenings and mornings"
outubro não depende dos caraítas, mas pode was on October 22nd/23rd, 1844. The
ser fundamentada em tabletes babilônicos astronomical analysis proves this day was
que atestam o sétimo mês lunar começando the tenth day of the lunar month.
com a lua nova de outubro em anos equi-
valentes a 457 a.C. e também na certeza PARTE 1: EVIDÊNCIAS DA DESCONTINUIDA-
histórica e astronômica de 27 de abril do
ano 31 para a data da morte de Cristo. Este DE DO CALENDÁRIO RABÍNICO EM RELAÇÃO
artigo revela que a estrutura matemática da AO CALENDÁRIO JUDAICO DAS ÉPOCAS DE
profecia requer que o término das 2.300 ESDRAS E DE JESUS - REAVALIANDO A
tardes e manhãs tenha sido em 22/23 de IMPORTÂNCIA DO MÉTODO DE CÔMPUTO
outubro de 1844. A análise astronômica CARAÍTA NA DETERMINAÇÃO DO DIA DA
comprova que esse foi o décimo dia do
mês lunar. EXPIAÇÃO EM 22 DE OUTUBRO

ABSTRACT: Adventism has been accused of


INTRODUÇÃO
supporting an incorrect date for the Day of
the Atonement in 1844, because, according Um dos alvos recorrentes dos críticos à
to the Rabbinical Calendar, the tenth day doutrina adventista do juízo investigativo
of the Jewish Seventh Month occurred é a data escolhida pelos mileritas para o
in September 23rd in that year. The first dia da expiação em 1844. Ao passo que o
part of this study presents evidences that calendário rabínico, adotado pela grande
the current Rabbinical Calendar is not in maioria dos judeus do mundo inteiro,
continuity with the Jewish Calendar used apontava naquele ano para um 10 de tishri
84 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

(sétimo mês judaico; cf. Lv 25:9) em 22/23 mês entre as datas de ambos os sistemas
de setembro, os mileritas preferiram fixá-lo e de que a situação astronômica em 1844
em 22/23 de outubro'. parecia exigir datas mais tardias que as do
ciclo rabínico.
Ao chegar à conclusão de que os 2.300
anos deviam terminar em 10 de tishri, por
ser neste dia e mês que se realizava a "pu- A ORIGEM DA DIVERGÊNCIA
rificação do santuário", o milerita Samuel ENTRE O CALENDÁRIO RABiNICO
S. Snow procurou determinar qual a data E O SISTEMA CARAÍTA
gregoriana correspondente ao dia da expia-
ção em 1844. Em seu estudo da cronologia Para que se entenda bem a origem do
bíblica, Snow descobriu que os caraítas, problema, deve-se ter em mente que o
grupo dissidente do judaísmo, faziam sérias calendário judaico está atrelado concomi-
restrições à corrente judaica predominante tantemente à lua e ao sol. À lua, porque ela
(a "rabínica"), não somente no apego desta condiciona o início do mês', cujo primeiro
às tradições e interpretações de seus antigos dia é determinado pela observação do
mestres, muitas vezes em desfavor das Es- primeiro crescente, ou "primeira visibili-
crituras, como também em seu sistema de dade da lua", que ocorre pouco depois da
datação das festividades da religião. lua nova astronômica. Ao sol, porque a
posição dos meses dentro do ano trópico
O principal foco de divergência estava (ou solar) está condicionada ao amadure-
no método para se determinar a posição cimento da cevada, já que na semana da
do primeiro mês judaico (abib-nisan) festa dos pães asmos se devia apresentar
dentro do ano solar. Diferentemente do um feixe com os primeiros frutos da terra,
calendário gregoriano, cujos anos são a fim de que a colheita pudesse ter lugar
sempre de 12 meses, o calendário judaico (Lv 23:4-14). A cevada é o primeiro grão
possui anos de 12 e de 13 meses. A partir a amadurecer na Palestina, razão pela qual
de 358 d.C., com a reforma do calendário foi escolhida desde cedo para determinar o
promovida pelo rabino Hillel II, as inter- tempo da celebração da festa dos asmas'.
calações do décimo terceiro mês passaram Visto que geralmente o amadurecimento
a ser previamente definidas, por meio de dos frutos ocorre em estações bem defi-
cálculo (o ciclo dos 19 anos), com o que nidas, as quais são determinadas pela po-
se estipulava a época do primeiro mês e sição da Terra em relação ao sol, pode-se
do início do ano religioso. dizer que a festividade das primícias faz
Os caraítas não concordam com essa atrelar o calendário judeu ao ano solar',
prática, pois entendem que a ocasião opor- servindo por isso como uma espécie de
tuna para a intercalação do décimo terceiro calibrador do calendário.
mês não deve ser determinada por mero De regra, o amadurecimento da cevada
cálculo, mas por uma observação empírica ocorre no começo da primavera, próximo
do amadurecimento da cevada. A razão ao equinócio', época do primeiro mês ju-
para isso será explicada mais adiante. daico. Mas, o início desse mês é variável,
Confiando no método caraita, Samuel S. assim como o de todos os demais meses,
Snow preferiu descartar 22/23 de setembro já que é a lua nova que marca o primei-
como 10 de tishri em 1844, tal como pro- ro dia do mês. Quando, por exemplo, o
posto pelo ciclo rabínico, e adotar 22/23 primeiro crescente é detectado na tarde
de outubro. Isso porque, em alguns casos, de 27 de março, como foi o caso em 27
as datas caraítas são um mês mais tardias d.C., não há qualquer problema na deter-
que as do esquema rabínico. Samuel S. minação do primeiro mês, pois esta data
Snow não contava com uma informação não está muito aquém nem muito além do
caraíta específica da situação da cevada equinócio (que naquele ano ocorreu em
em Jerusalém para o ano de 1844. 2 Ele se 22 de março). Mas, quando a lua nova
valeu tão somente da noção geral de que, cai muito antes do equinócio, surge então
em alguns casos, ocorria a diferença de um o problema, como foi o caso do ano 28,
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 85

em que a primeira visibilidade ocorreu ao EVIDÊNCIA DO ANO 568 A.C. — O ANO 37


pôr-do-sol de 16 de março (o equinócio ; DE NABUCODONOSOR
nesse ano, também foi em 22 de março).
Essa é uma época muito precoce, e, O ano 37 de Nabucodonosor é riquíssi-
portanto muito fria, para que a cevada já mo em informações históricas e astronômi-
pudesse estar madura, razão pela qual não cas provenientes dos tabletes babilônicos.
se começou então o primeiro mês, mas Muitos desses dados são relevantes para
houve o acréscimo de um mês adicional, patentear a incompatibilidade entre o ciclo
o ve-adar, ficando o dia 1° de nisan para rabínico atual e o calendário babilônico da
a lua nova seguinte. época de Daniel.
O cerne do problema com o calendário A citação a seguir é de um desses ta-
rabínico está justamente na determinação bletes:
dos meses judaicos — se estes devem se Ano 37 de Nabucodonosor, rei de Babilônia, mês
posicionar mais cedo ou mais tarde dentro I, [o primeiro do qual foi identificado com] o trigé-
do ano solar. simo [do mês precedente], a lua tornou-se visível
atrás do Touro do céu [tradução nossa]. l 2
EVIDÊNCIAS DESFAVORÁVEIS
AO CALENDÁRIO RABNICO
O ano 37 de Nabucodonosor equivale
a 568/567 a.C. (da primavera à primavera,
Nos tabletes de argila da Mesopotâ- no hemisfério norte). O referido mês 1
mia, nos escritos do historiador judeu do caía em março ou em abril. Como pode
primeiro século Flávio Josefo, bem como ser demonstrado pela imagem 1 (p. 102),
na própria Bíblia, particularmente nos li- gerada pelo programa Redshift 2, a situação
vros de Esdras e de Ester, preservaram-se descrita no tablete ocorreu ao pôr-do-sol do
informações valiosas da antigüidade em dia 22 de abril de 568 a.C., pois nela se vê
que os meses dos calendários babilônico- o primeiro crescente lunar sob o pano de
persa e judaico foram posicionados mais fundo da constelação de Touro.
tardiamente que no calendário rabinico. 7
Esses dados serão apresentados a seguir, Isso faz de 22/23 de abril (de pôr-do-sol
a fim de demonstrar que o ciclo rabínico a pôr-do-sol) o dia 1° de nisan naquele ano.
atual não se harmoniza com os calen- Diferentemente, o calendário rabínico coloca
dários babilônico-persa e judaico das 1° de nisan em 24/25 de março, como o atesta
épocas de Daniel, Esdras e Jesus. a imagem 2 (p. 102), gerada pelo programa
Calendrical Calculations. Em 24 de março,
Existem atualmente excelentes progra- o primeiro crescente não aparece em Touro,
mas de computador, disponíveis gratuita- mas em Áries (ver imagem 3, p. 103).
mente na Internet, que produzem as situ-
ações do calendário judaico rabínico para Esse é um dado relevante, pois vem do
qualquer ano numa longa faixa de tempo. tempo de Daniel e da região em que ele es-
Será utilizado neste artigo o Calendrical tava quando recebeu suas revelações. Nesse
Calculations8. Outro ótimo programa capaz período, é lógico supor que os judeus, por
de gerar as situações do sistema rabínico estarem em Babilônia, acompanhassem o
é o LunaCa19. As situações astronômicas calendário babilônico.
envolvidas serão analisadas com base
no software mundialmente conhecido EVIDÊNCIA DO ANO 515 A.C. — ANO
Redshift, aqui em sua versão 2.0 10, cujo EM QUE SE CONCLUIU A EDIFICAÇÃO DO
principal objetivo é reproduzir virtualmente SEGUNDO TEMPLO
um observatório astronômico. No caso do
programa Redshifi 2, fez-se uma ampliação Esdras 6:14-18 narra o término da recons-
no canto direito das imagens capturadas trução do Templo nos seguintes termos:
para facilitar a visualização. Para gerar as Os anciãos dos judeus iam edificando e pros- .
situações do calendário juliano, será utili- perando [...] Edificaram a easa e a terminaram
zado o programa Sky View Cafe° . [...] Acabou-se esta casa no dia terceiro do mês
86 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

de adar, no sexto ano do reinado do rei Dar/o. 12 de Xerxes. Quando chegou o dia 13 do
Os filhos de Israel, os sacerdotes, os levitas e o primeiro mês do ano seguinte — isto é, do
restante dos exilados celebraram com regozijo a
ano 13 de Xerxes Hamã determinou que
dedicação desta Casa de Deus. Estabeleceram
se matassem a todos os judeus que viviam
[...]

os sacerdotes nos seus turnos e os levitas nas suas


divisões, para o serviço de Deus em Jerusalém, no império, "em um só dia, no dia treze do
segundo está escrito no livro de Moisés. duodécimo mês, que é o mês de adar" (Et
3:13). Muito antes de esse dia chegar, Ester
Babylonian Chronologyn, p. 30, adota conseguiu do rei a expedição de um decreto
o dia 9/10 de março para 1° de adar em 515 autorizando os judeus a resistirem àqueles
a.C., sendo este ano o sexto de Dano I. Se que os quisessem matar (Et 8:10-12).
é assim, 3 de adar foi 11/12 de março. Esse relato revela que, no ano 13 de
O dia 11/12 de março de 515 a.C. foi um Xerxes, o dia 13 de adar foi o mesmo
sábado. Portanto, a declaração de que "aca- tanto no calendário judeu quanto no ca-
bou-se esta casa no dia terceiro do mês de lendário babilônico-persa. Mas, isso só é
adar" não deve estar se referindo ao término possível se o ciclo rabínico for mais urna
do árduo trabalho de alvenaria, mas à própria vez desconsiderado.
inauguração do templo, que foi o último ato Com efeito, o ano 12 de Xerxes co-
de restauração (ver imagem 4, p. 103). meçou em 1° de nisan de 474 a.C., que,
Se essa interpretação está correta, então segundo Babylonian Chronology, p. 31, foi
a informação de que os sacerdotes foram o dia 4/5 de abril. É sabido que, no fim do
estabelecidos "nos seus turnos e os levitas ano 12 de Xerxes, houve um mês intercalar
nas suas divisões" concorda com Flávio Jo- (addaru 2), como está demonstrado pelo
sefo, segundo o qual os turnos sacerdotais documento Cameron, PTT27 (Babylonian
se estendiam de sábado a sábado: Chronology, p. 8). Esse mês adicional
projeta o início do ano 13 de Xerxes para
Ele [Davi] também os dividiu em turnos: e após ter
21/22 de abril de 473 a.C., que foi o dia 1°
separado os sacerdotes, encontrou vinte e quatro
turnos desses sacerdotes, dezesseis da casa de
de nisan naquele ano. Há, pois, segurança
Eleazar, e oito da [casa] de Itamar; e ele ordenou de que essa foi a data de 1° de nisan no ano
que um turno deveria ministrar a Deus por oito 13 de Xerxes.
dias, de sábado a sábado (traduçao nossa)» No ciclo rabínico, 10 de nisan em 473
a.C. não cairia em 21/22 de abril, mas em
Isso também se harmoniza com 2 Reis 22/23 de março, como se vê na imagem 7
11:5-7. (p. 105), o que colocaria o dia 13 de adar em
Se, todavia, o ciclo rabínico for adotado, datas diferentes nos calendários judaico e
em 515 a.C. o dia 3 de adar não coincidirá babilônico-persa, não permitindo o sincro-
com o sábado, como se pode perceber pela nismo testemunhado no livro de Ester.
comparação das imagens geradas pelos
programas Calendrieal Calculations e Sky EVIDÊNCIA DO ANO 63 A.C. — ANO DA
View Cafe, perdendo-se a vinculação pre-
TOMADA DE JERUSALÉM POR POMPEU
ciosa da inauguração do templo com o dia
de sábado (ver imagens 5 e 6, p. 104). No ano da conquista de Jerusalém
por Pompeu, o dia da expiação coincidiu
EVIDÊNCIA DO ANO 473 A.C. —ANO com o sábado semanal. Josefo dá indícios
dessa coincidência ao informar que [1] os
EM QUE OS JUDEUS FORAM LIVRADOS DA
romanos preferiam trazer suas máquinas
ARMADILHA DE HAMÀ para perto das muralhas de Jerusalém aos
Outra forte evidência contrária ao ciclo sábados, pois sabiam que então os judeus
rabínico pode ser extraída do livro de Ester. não os atacariam, dada sua reverência por
esse dia, e que [2]a cidade foi tomada num
Ester 3:7 diz que se jogaram sortes dia de jejum soleneI 5 . Quanto a este último
perante Flama durante os 12 meses do ano item, é sabido que o único dia de jejum
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 87

obrigatório prescrito pela lei era o Yom de Vitélio, foi assassinado em 16 de abril
Kippur (o dia da expiação)' 6. de 69 d.C. e a morte de Vitélio ocorreu
Embora Josefo não diga explicitamente em 20 de dezembro do mesmo ano." Se é
• que Jerusalém tenha sido tomada num assim, pela declaração de Josefo, o mês de
sábado, esse fato é também atestado pelo kislev (ou casleu) caiu em dezembro no ano
historiador romano Dio Cassius, que escre- 69 d.C., o que não concorda com o ciclo
veu sua História Romana entre 200 e 220 rabínico, que o coloca em novembro (ver
d.C., o qual afirma que Pompeu tomou a imagem 13, p. 107).
cidade "no dia até então chamado dia de Esse é mais um ponto crítico para o ci-
Saturno"n, isto é, o sábado (saturday = dia clo rabínico, pois Josefo estava vivo• em 69
de Saturno). d.C., já tendo sido vencido e capturado pelos
É verdade que, nessa mesma citação, romanos na guerra judaica — trata-se, pois,
Dio Cassius também situa a conquista de de uma testemunha contemporânea. A cor-
Jerusalém por Herodes e Sósio num sábado, respondência que ele estabelece entre o mês
mas a análise astronômica do início do séti- macedônico de appeleus e o mês judaico de
mo mês naquele ano (37 a.C.) não favorece casleu (kislev), ao falar da derrota e da morte
essa afirmação. Para esse caso, é preferível de Vitélio, representa mais um forte argumen-
um dia da expiação no domingo. to em desfavor do calendário rabínico.

Em 63 a.C., 10 de tishri caiu em 23/24


CONCLUSÃO
de outubro, já que o sétimo mês começou ao
pôr-do-sol do dia 14 de outubro (ver imagem A análise que se procedeu acima revela
8, p. 105 e imagens 9 e 10, p. 106). que, ao menos para os vários anos indica-
dos, o ciclo rabínico não se harmoniza com
Mas, pelo ciclo rabínico, o dia da ex-
o calendário judaico dos tempos de Esdras
piação teria ocorrido um mês mais cedo
e de Jesus ou com o calendário babilônico-
naquele ano, numa quinta-feira e não num persa dos dias de Daniel e de Ester.
sábado (ver imagem 11, p. 106, e imagem
12, p. 107).
A DISTORÇÃO DO CALENDÁRIO JUDAICO
É interessante que essa situação seja
bem semelhante à da controvérsia entre 23 PELA REFORMA DE HILLEL H
de setembro e 22 de outubro — embora 63 Os testemunhos da antigüidade que
a.C. não seja ciclicamente correspondente a acabaram de ser examinados atestam que
1844—, pois, em 63 a.C., odiada expiação o ciclo rabínico atual não representa uma
caiu bem tarde, em 23/24 de outubrois De continuidade dos calendários judaico e
que maneira os opositores da doutrina de babilônico-persa conforme praticados no
1844 tentarão fugir a essa estrondosa evi- período que se estende do sexto século a.C.
dência histórica e astronômica é o que se ao primeiro século da era cristã e fazem
terá de esperar para ver. suscitar a dúvida quanto ao que provocou
essa distorção. Os parágrafos a seguir ten-
EVIDÊNCIA DO ANO 69 D.C. — ANO DA tarão responder a essa questão.
MORTE DE VITÉLIO Com a destruição do templo no ano 70 e
De acordo com Josefo, o imperador a dispersão definitiva dos judeus no ano 135
Vitélio "teve sua cabeça cortada no meio da era cristã, deixou de existir um núcleo
de Roma, [após] ter mantido o governo decisório que definisse tanto a duração do
[por] oito meses e cinco dias" e a bata- mês a cada lua nova quanto os anos em que
lha que o levou à morte foi travada "no era preciso intercalar um décimo terceiro
terceiro dia do mês de apelleus [casleu]" mês. Acrescente-se a isso o fato de que os
(tradução nossa)' 9. diferentes grupos de emigrantes judeus
se encontravam a muitos quilômetros de
De acordo com o especialista em crono- distância uns dos outros e não será dificil
logia E. J. Bickerman, óthon, predecessor entender por que as datas do calendário
88 / PAROUSIA - l ° SEMESTRE DE 2007

judaico diferiam de comunidade para co- um décimo terceiro mês. Obviamente, se


munidade nessa época. o inverno se estender tão somente até o
dia 15 de nisan, esse procedimento não se
Ao reorganizar o calendário judaico,
fará necessário, o que permite concluir que
a intenção de Hillel II era definir critérios
os rabinos admitiam que o dia 10 de nisan
claros que possibilitassem a adoção de começasse até 15 dias antes do equinócio
um sistema único pelos judeus do mundo
da primavera, fazendo o 16 de nisan, data
inteiro. Por isso, abandonou-se a variabi-
rabínica para o festival das primícias, cair
lidade entre 29 e 30 dias de que cada mês
bem em cima do equinócio. Portanto, tudo
gozava até então, fixando-se rigidamente
indica que Hillel estabeleceu a equação 16
a duração de cada um dos 12 meses, o que
de nisan = equinócio da primavera como
tomou menos relevante a observação do
baliza do calendário, opção que resultou na
primeiro crescente. Também se definiu
distorção do sistema judaico, por quebrar o
em que anos do ciclo lunissolar de 19 anos vínculo com o calendário seguido nos tem-
o décimo terceiro mês deveria ser inter-
pos de Esdras e de Jesus, já que os registros
calado, relegando ao passado a regra da
da antigüidade" nunca revelam o primeiro
observação da cevada madura. Atualmente,
mês começando em data tão baixa quanto
os rabínicos intercalam o mês adicional
15 dias antes do equinócio.
invariavelmente no terceiro, sexto, oitavo,
décimo primeiro, décimo quarto, décimo A imagem 14 (p. 108), gerada pelo
sétimo e décimo nono anos do ciclo. Os programa Calendrical Calculations!, revela
novos parâmetros criaram uma rigidez que em 360 d.C. o sistema rabínico situa
antinatural do calendário, o que distorceu 16 de nisan precisamente em cima do
seus fundamentos, rompendo o elo com o equinócio, que naquela faixa da era cristã
calendário seguido nos tempos de Daniel, estava em 19 de março.
Esdras, Ester e Jesus. Os caraítas não concordam em alinhar
Dentre os critérios introduzidos pela Re- o 16 de nisan com o equinócio da prima-
forma de Hillel que distorceram o sistema vera, pois, entendendo que a observação da
do calendário judaico, possivelmente o de cevada madura é o método subentendido
maior conseqüência tenha sido o da fixação das Escrituras 24, consideram impossível
arbitrária de 16 de nisan no equinócio da começar o mês de nisan tão cedo quanto
primavera como parâmetro geral. Uma 15 dias antes do equinócio, já que isso
instrução rabínica do quarto século afirma: resultaria numa festa das primícias sem os
"Quando tu vires que o tequphah [ou ciclo] primeiros frutos da cevada.
de tebeth se estenderá ao décimo sexto dia Quando as tabelas de RichardA. Parker
de nisan, declara aquele ano um ano em-
e Waldo H. Dubberstein, em sua recons-
bolísmico [ou intercalar] sem hesitação" trução do calendário babilônico-persa, e
(tradução nossa) 2 1 de Siegfried H. Hora, com seu calendário
Tequphah é um termo hebraico que judaico de Elefantina, são comparadas
significa "a volta do ano" e se refere aos com o ciclo rabínico, nota-se que as datas
equinócios, quando aproximadamente os rabínicas estão 20 dias mais baixas que as
anos recomeçavam no Oriente Médio. atestadas pelos tabletes mesopotâmicos e
Kenneth E Doig22 explica que a expressão pelos papiros judaicos do Egito. Na sua
"tequphah de tebeth" se refere ao período maior parte, isso se deve a uma diferença
compreendido entre o solstício do inverno conceituai: os babilônicos e os judeus
e o equinócio da primavera. de Elefantina procuravam alinhar com
Em outras palavras, o que o Talmude o equinócio o 1° de nisan, ao passo que
os rabínicos procuram sincronizar com o
está querendo dizer é que sendo perce-
equinócio o 16 de nisan.
bido, por cálculo (o ciclo dos 19 anos),
que o inverno se estenderá até o dia 16 de A diferença de 20 dias pode ser explica-
nisan, fazendo assim o equinócio cair no da assim: 15 dias de diferença decorrentes
dia 17, naquele ano deve ser intercalado do padrão rabinice de buscar esse sincro-
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 89

nismo de 16 de nisan com o equinócio + O ciclo rabínico dá as seguintes datas


5 dias de diferença devido à projeção do , para 1° de nisan nos mesmos anos:
ciclo rabínico para trás. A cada 19 anos, o
1999 — 17/18 de março
ciclo rabínico se desloca 0,08685 dia em
relação ao ano solar. Retrocedendo o ciclo 2000 — 5/6 de abril
rabínico desde o quarto século d.C. até o 2001 — 24/25 de março
quinto século a.C., cria-se a diferença de
quase 5 dias.. 2002— 13/14 de março
Recentemente, o especialista judeu Sa- Esses dados revelam que, apesar da
cha Stem25 publicou uma obra valiosa sobre divergência entre os métodos rabínico
a história do calendário judaico, intitulada e caraíta, as datas de ambos os sistemas
Calendar and Community — A History of têm sido as mesmas ou têm apresentado
the Jewish Calendar, 2nd Century .BCE to pouquíssima diferença nos últimos anos.
10th Century CE [Calendário e comunidade Essa coincidência reincidente entre datas
— uma história do calendário judaico, do 2° rabínicas e caraítas tem uma explicação.
século a.C. ao 10 0 século d.C.], a qual vem É que o calendário rabínico obedece ri-
corroborar o que acabamos de demonstrar. gidamente o ciclo lunissolar, em que se
No resumo de seu livro, informa-se que: verifica um adiantamento da lua em rela-
Até o primeiro século d.C., calendários lunares ção ao sol de cerca de 2 horas (0,08685
judaicos tendiam a ser mais tardios em relação dia) a cada 19 anos. De 358 d.C. até
ao ano solar, e a Páscoa sempre ocorria depois do hoje, esse distanciamento do ciclo lunar
equinócio vernal Lá pelo quarto século, intercala- em relação ao ciclo solar já se acumulou
ções foram ajustadas de modo que a Páscoa passou em cerca de 7 dias, o que significa que
a ser mais cedo [tradução e grifo nossos] 26 as datas rabínicas já estão atualmente 7
dias mais tardias que no tempo de Hillel
Aqui temos um importante testemunho II. As datas caraítas, por sua vez, estão
proveniente de um erudito judeu moderno ficando possivelmente mais precoces por
sobre a descontinuidade do calendário causa do aquecimento global, que tem
rabínico em relação ao calendário judaico sido responsável pelo amadurecimento
praticado na antigüidade. cada vez mais cedo da cevada.
J. Neumann, do Departamento de Ciên-
RABÍNICOS VERSUS CARAÍTAS cias Atmosféricas da Universidade Hebrai-
Nos últimos anos, a data mais precoce ca (Hebrew University), e R. M. Sigrist, da
para 10 de nisan no ciclo rabínico aconteceu Escola Bíblica (Ecole Biblique), ambos de
em 1994, com nisan começando em 12/13 Jerusalém, após examinarem referências a
de março. Em 2002, os caraítas começaram datas de colheita da cevada nos tabletes de
o mês de nisan em 15/16 de março, apenas argila da Mesopotâmia, afirmam que, no
3 dias mais tarde que a data indicada pelo período do Primeiro Império Babilônico
sistema rabínico em 1994. (1800 a.C. — 1650 a.C.), tais colheitas ge-
ralmente começavam no final de março ou
De acordo com o site do Movimento começo de abril, ao passo que, no período
Caraíta, as datas de 10 de nisan, definidas neobabilônico (600 a.C. —400 a.C.), época
com base nos critérios de observação do de Daniel e Esdras, elas começavam no
primeiro crescente e do amadurecimento final de abril ou em maio.
da cevada, entre 1999 e 2002, foram as
seguintes: Segundo os mesmos pesquisadores, "em
nossa própria era, naquilo que foi uma vez a
1999— 17/18 de abril Babilônia central e norte, a colheita começa
2000 — 5/6 de abril na segunda metade de abril ou mais tarde.
Conseqüentemente, no L.O.B.P. [período
2001 — 26/27 de março do Primeiro Império Babilônico], a colheita
2002— 15/16 de março começava 10-20 dias mais cedo e no N.B.P.
90 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

[período do Império Neobabilônico] 10-20 se trata de uma seita judaica tardia, tendo
dias mais tarde que no presente" (tradução surgido no século 8 da era cristã. Não
nossa)27 . Isso parece indicar que o clima do representam, pois, uma tradição contínua
período do Primeiro Império Babilônico era desde os dias de Daniel, Esdras e Jesus.
mais quente que o do Império Neobabilô-
Ademais, é oportuno corrigir aqui um
nico, e que o clima deste último era mais
conceito equivocado que se cristalizou no
frio que o da época atual.
imaginário popular adventista: o de que
Quando os caraítas atuais defendem exista um calendário caraíta fixo, assim
datas coincidentes com as do calendário como o é o calendário rabínico, o qual
rabínico, é evidente que sua análise está permita saber antecipadamente em que
afetada pelo aquecimento global. data juliana ou gregoriana cairá determi-
nado dia e mês. Isso é absolutamente falso,
UM ESQUEMA ANCORADO NO CÉU pois não existe algo como uma "folhinha"
caraíta. Diferentemente do que ocorre no
Recentemente, a data de 22 de outubro calendário rabínico, a duração de qualquer
tem sofrido ataques da parte daqueles que, mês no sistema caraíta só é definida no seu
acreditava-se, eram seus originadores: os 29° dia: se o crescente lunar for detectado
caraítas. Em resposta a uma consulta feita ao pôr-do-sol, o novo dia dará início a um
por opositores da fé adventista, o caraíta novo mês, de modo que o mês corrente
Nehemia Gordon declarou que "o Yom Ki- ficará com 29 dias; não sendo detectado
ppur deve ter sido celebrado pelos caraítas o primeiro crescente, o mês corrente
no final de setembro em 1844, de acordo avançará mais um dia, totalizando 30 dias.
com o ciclo rabínico dos 19 anos, e não no Da mesma forma, a necessidade ou não
final de outubro" (tradução nossa) 28. da inserção do décimo terceiro mês no
Primeiramente é importante ressaltar os sistema caraíta só é determinada no final
termos duvidosos com que Nehemia Gor- do mês de adar, ao se examinar o estado
don expressa sua opinião ("deve ter sido da cevada nos arredores de Jerusalém:
celebrado"). Evidentemente, ele não tinha estando propícia para sua colheita duas
acesso a nenhum documento de 1844 que semanas depois, na festa das primícias,
comprovasse a celebração do dia da expia- não se acrescenta o ve-adar; do contrário,
ção em 23 de setembro pelos maltas. insere-se o décimo terceiro mês.
Em segundo lugar, mesmo que os ca- Alguns autores adventistas do sétimo
raítas tivessem começado o mês de tishri dia, distanciados da experiência millerita,
com a lua nova de setembro, isso pouco não têm prestado atenção a esse fato e
importaria, pois Ellen G. White não se acabam transmitindo a impressão de que
compromete com eles. Na verdade, o gran- exista um calendário caraíta fixo e de que
de equívoco de muitos autores adventistas os milleritas se basearam nele ao escolher
até hoje tem sido o de superestimar a im- a data de 22 de outubro. Todavia, nem os
portância dos caraítas para a sustentação mileritas, nem Ellen G. White fazem tal rei-
da data de 22 de outubro. A relevância do vindicação. Por isso, quando os opositores
movimento caraíta para o adventismo está da fé adventista pedem que se lhes apresen-
circunscrita aos seus princípios corretos te urna "folhinha" caraíta de 1844, estão
de organização do calendário, a saber, solicitando algo que nunca os milleritas ou
a observação real do primeiro crescente Ellen G. White disseram existir.
lunar e a constatação do amadurecimento Até mesmo o fator cevada madura deve
da cevada. Foram esses princípios que ter seu papel redimensionado ao se discutir
ajudaram os mileritas a localizar a data aposição dos meses judaicos dentro do ano
correta da expiação em 1844. Qualquer solar em 1844. Isso por dois motivos:
supervalorização dos caraítas para além
desses pontos fundamentais é desnecessá- 1) Como foi dito há pouco, o aqueci-
ria e imprópria, já que documentalmente mento global tem provocado um amadure-
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 91

cimento mais precoce da cevada em relação PARTE 2: A CENTRALIDADE DA CRUZ NO


ao que se verificava nas épocas de Daniel ESQUEMA CRONOLÓGICO DE 1844 — DETER-
e Esdras, o que têm propiciado uma apro-
MINANDO OS PONTOS DE INÍCIO, DE MEIO E
ximação das datas dos sistemas rabínico e
caraíta nos anos mais recentes; DE TÉRMINO DOS PERÍODOS PROFÉTICOS DE
DANIEL 8:14 E 9:24-27.
2) Desde a morte de Cristo em 31 d.C.,
caducou para sempre o sistema cerimonial
do templo judeu, não existindo razão al- "UM PREGO EM LUGAR FIRME"
guma para voltarmos nossa atenção para a Na primeira parte deste artigo, demons-
cevada madura em Jerusalém ou em qual- trou-se que o ciclo rabínico — em que se
quer outra parte do mundo. Paulo já decla- estribam os opositores da fé adventista para
rara: "Guardais dias, e meses, e tempos, e denunciar a data de 22 de outubro como
anos. Receio de vós tenha eu trabalhado mero equívoco milerita — não concorda
em vão para convosco" (014:10 e 11). De com o calendário judaico dos tempos de
fato, a partir de 31 d.C., "o tempo oportuno Esdras e de Jesus ou com o calendário babi-
de reforma", os crentes deveriam transferir lônico-persa dos dias de Daniel e de Ester,
sua atenção do santuário terrestre para o uma vez que, por vezes, para os mesmos
celestial, onde Cristo ingressou para mi- anos, algumas fontes antigas situam os
nistrar como sumo sacerdote (14139:9-12 e meses judaicos mais tardiamente, dentro
24). No meio da septuagésima semana da do ano solar, que o ciclo rabinico.
profecia de Daniel, cessou "o sacrifício e
a oferta de manjares" (Dn 9:27; Mt 27:50 Isso não significa que, apenas por conta
e 51; Ef 5:2; e1-lb 10:5-10). Portanto, não dessas inconsistências, a data do ciclo rabi-
há razão alguma para uma preocupação nico para o dia da expiação em 1844 (23 de
exagerada com a situação da cevada em setembro) deva ser sumariamente descarta-
Jerusalém. Essa era uma tarefa para sacer- da, mas sem dúvida coloca o sistema do qual
dotes, não para milleritas, ou adventistas, ela é dependente sob forte suspeição.
ou quaisquer outros cristãos. Discutir se o sétimo mês judaico deveria
É interessante notar que a mesma cruz ter começado com a lua nova de setembro
que pôs fim ao sistema cerimonial judaico, ou com a lua nova de outubro com base no
tornando desnecessária uma maior preocu- amadurecimento da cevada naquela ocasião
pação com a situação da cevada em 1844, é inócuo, pois não existem informações
também serve de âncora para o esquema disponíveis sobre a situação da cevada
cronológico que conduz a 22 de outubro. nos arredores de Jerusalém na primavera
É a data da crucifixão (abril de 31 d.C.) de 1844. Os próprios mil eritas foram
que sustenta as datas de início (outubro de suficientemente honestos em reconhecer
457 a.C.) e de término (outubro de 1844 esse fato.
d.C.) das 2.300 tardes e manhãs, pois, den- Na verdade, a data de 22 de outubro
tre os eventos preditos em Daniel 9:24-27, está ancorada na solidez de 31 d.C. como
é o que possui os melhores dados da Bíblia ano da crucifixão de Cristo, para o qual
e da história para sua localização. Fixando se verifica uma convergência singular de
a data exata da morte de Cristo, é possível dados bíblicos e históricos. Se o meio da
determinar também as datas dos outros septuagésima semana é fixado em 31 d.C.,
eventos vinculados cronologicamente o início das 70 semanas necessariamente
na profecia. Visto que a localização da será em 457 a.C. e o término das 2.300
data da cruz depende essencialmente da tardes e manhãs terá de ser em 1844."
astronomia, pode-se dizer que o esquema Seguindo o mesmo raciocínio, se a páscoa
cronológico sobre o qual se apóia a mensa- da crucifixão (no primeiro mês judaico)
gem adventista está ancorado no céu. Esse caiu em abril, tanto o início quanto o fim
tema será mais amplamente desenvolvido das 2.300 tardes e manhãs terão de ser em
a seguir. outubro, pois a morte de Cristo ocorreu
92 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

69,5 semanas proféticas — ou 486,5 anos sua altitude e da diferença azimutal em


— depois que as 70 semanas começaram relação ao sol. O gráfico reproduzido na
(Dn 9:25 e 27): 0,5 ano corresponde a 6 página 108 (imagem 15) é o da edição de
meses; 6 meses antes de abril dá em ou- setembro de 1989.
tubro. Como bem disse M. L. Andreasen, Cada círculo fechado representa um
autor do clássico adventista O Ritual do crescente lunar que pôde ser visto e cada
Santuário, "o meio da semana que aponta círculo aberto indica urna lua nova que
o tempo do sacrifício sobre a cruz" "é `... foi procurada, mas que não foi vista. A
como um prego no lugar firme' (Is 22:23), linha no meio do gráfico procura dividir,
ao qual" está amarrada "toda estrutura aproximadamente, os casos que foram bem
cronológica da profecia e que também sucedidos dos que não o foram.
justifica a data de 1844. Remova-se ou
mude-se essa data" e não haverá "uma Com esses dados em mãos, é possível
âncora para o sistema cronológico culmi- determinar a data exata da crucifixão em
nando em 1844 3 l. termos do calendário juliano. Assim como na
primeira parte deste artigo, as situações as-
A DATA DA CRUCIFIXÃO tronômicas envolvidas serão analisadas aqui
com base no software Redshift, versão 2.0.
A certeza do ano 31 d.C. consiste no Para gerar as situações do calendário juliano,
fato de ser a única opção sustentável", será utilizado o programa Slcy View Cafe.
dentro do período do governo de Pôncio
Pilatos (26 d.C. —36 d.C.)", em que o 15 Para o ano 31 d.C., a obra Babylonian
de nisan", data judaica da crucifixão, caiu Chronology (p. 46) propõe o pôr-do-sol de
numa sexta-feira". Tal foi o caso em 26/27 11 de abril para o início do primeiro mês.
de abril do ano 31. No entanto, quando os dados astronômicos
são cuidadosamente observados, percebe-se
Afim de se estabelecer a correspondên- que, ao pôr-do-sol do dia 11, a lua estava
cia entre as datas judaicas e o calendário muito baixa para ser detectada a olho nu. 37
juliano (ou o gregoriano), é necessário
averiguar em que dia o primeiro crescente Não é de admirar que a data proposta
lunar (lua nova eclesiástica) foi visível. por Parker e Dubberstein para o início do
Os principais fatores que determinam a primeiro mês não seja a mais favorável,
visibilidade do primeiro crescente são a pois na página 25 de Babylonian Chrono-
diferença azimutal entre o sol e a lua e a logy eles admitem "que um certo número
altitude da lua. Esses dois fatores combi- de datas" em suas tabelas "podem estar
nados funcionam como os eixos x e y de erradas por um dia".
um plano cartesiano. Adotando o pôr-do-sol do dia seguinte
O azimute é a distância em graus, me- (12/04/31), o crescente é perfeitamente
dida sobre o plano do horizonte, entre um visível. O azimute do sol era de 279° 45'
corpo celeste e o ponto cardeal norte. A 56" (ver imagem 16, p. 109) e o da lua,
diferença azimutal entre o sol e a lua revela de 275° 35' 5" (ver imagem 17, p. 109),
a distância em graus entre esses dois corpos sendo a diferença azimutal, portanto, de
medida sobre o plano do horizonte. Quanto 4° 10' 51". A altitude da lua era de 22° 38'
maior a diferença azimutal, mais afastados 52". Quando esses valores são aplicados
estarão o sol e a lua entre si. A altitude da ao gráfico da revista Sky & Telescope, fica
lua é a distância em graus entre o corpo evidente que a lua estava acima do limite de
celeste e a linha do horizonte. visibilidade (ver imagem 18, p. 110).
Nas edições de agosto de 1971, setem- Definindo 12/13 de abril do ano 31 d.C.
bro de 1989 e julho de 1994, a respeitada como o primeiro dia do primeiro mês, o dia
revista de astronomia Sky & Telescope 36 15 de nisan cai em 26/27 de abril—de pôr-
publicou alguns gráficos que permitem do-sol a pôr-do-sol (ver imagem 19, p. 110,
avaliar a visibilidade da lua a partir de e imagem 20, p. 111).
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 93

Como pode ser demonstrado pela ima- Retrocedendo 28.447 meses judaicos
gem do programa Sky View Gafe, o dia 27 desde o décimo dia do sétimo mês, chega-
de abril caiu numa sexta-feira, o que pre- se obviamente a um dia 10, embora tal
enche perfeitamente o quadro cronológico método não permita determinar a que mês
dado pelo Novo Testamento: sexta-feira = esse dia pertence. O raciocínio é idêntico
15 de nisan (ver imagem 21, p. 111). ao que seria feito com base num calen-
dário juliano-gregoriano. Por exemplo:
retrocedendo um mês desde o dia 22 de
COMPREENDENDO A ESTRUTURA MATE-
outubro, chega-se ao dia 22 de setembro;
MÁTICA DA PROFECIA retrocedendo 12 meses, chega-se ao dia 22
Sendo conhecida a data exata da cruci- de outubro do ano anterior; retrocedendo
fixão (26/27 de abril do ano 31), basta re- 28.447 meses, chega-se ao dia 22 de um
troceder 69,5 semanas proféticas ou 486,5 mês qualquer. Assim, fica matematicamen-
anos para se chegar ao ponto de partida te demonstrado que aponto de partida dos
dos períodos proféticos de Daniel 8 e 9 e 2.300 anos é necessariamente o décimo dia
depois avançar 2.300 anos para se chegar de algum mês judaico. A fração de 0,0124
ao ponto correto indicado pela profecia mês corresponde a apenas 8,7888 horas,
para o dia da expiação em 1844. Mas isso valor bem inferior ao de um dia completo
deve tomar como base o calendário judaico, (24 horas), sendo, portanto, insuficiente
lunissolar, no qual a data do dia da expiação para deslocar as extremidades do período
era fixada. Os parágrafos a seguir tentarão profético de dentro do dia da expiação. O
aclarar as relações matemáticas dos perío- diagrama reproduzido na página 112 (ima-
dos proféticos entre si. gem 22) ajudará na compreensão de todo
esse raciocínio.
Para a realização dos cálculos, serão
adotados os valores do ano solar (365,2422
dias) e do mês lunar (29,53059 dias)." O INÍCIO E O FIM DAS 2.300 TARDES E
MANHÃS - CÁLCULO DO MÊS

O INÍCIO E O FIM DAS 2.300 TARDES E Descobrir o mês em que os 2.300 anos
MANHÃS - CÁLCULO DO DIA DO MÊS deviam começar exige que se raciocine
com base na seguinte constatação mate-
Daniel 8:14 informa que, ao término mática e astronômica: após um ciclo de 19
das 2.300 tardes e manhãs, deveria ocorrer anos, os meses judaicos voltam a ocupar a
um evento de purificação do santuário. No mesma posição que tinham dentro do ano
cerimonial típico do Antigo Testamento, solar no começo do ciclo."
isso acontecia no décimo dia do sétimo
mês, quando o sumo sacerdote israelita Com isso em mente, desenvolve-se
entrava no lugar santíssimo do santuário o seguinte raciocínio: dividindo o total
para purificá-lo dos pecados do povo (Lv de meses lunares existentes em 2.300
16:29; 23:27 e 32; 259; e Nm 29:7). Fi- anos (28.447 meses) pela quantidade de
xando o término do período profético no meses lunares presentes em um ciclo
dia da expiação, basta retroceder 2.300 (235 meses40 ), chega-se ao total de ciclos
anos para se localizar o ponto de partida existentes em 2.300 anos: 121 ciclos + 12
•do mesmo período. lunações (sobra).
Segue-se, então, o seguinte raciocínio: Retrocedendo 121 ciclos desde o
2.300 anos solares constituem 840.057,06 sétimo mês, chega-se naturalmente ao
dias (2.300 x 365,2422 = 840.057,06). sétimo mês. Retrocedendo ainda os 12
Dividindo esse valor pela quantidade de meses restantes, chega-se novamente ao
dias de um mês lunar, obtêm-se o total de sétimo mês.41 Portanto, as 2.300 tardes e
meses lunares presentes em 2.300 anos, a manhãs têm de começar no sétimo mês
saber, 28.447,0124 (840.057,06 / 29,53059 do calendário judaico, o mês de tishri (ver
=28.447,0124). novamente a imagem 22, p. 112).
94 / PAROUSIA - I SEMESTRE DE 2007

O MEIO DA SEPTUAGÉSIMA SEMANA traçado até aqui. O ponto alto do dia da


- CÁLCULO DO MÊS expiação era a hora do sacrifício da tarde,
aproximadamente às 15h, quando o sumo
Do início das 70 semanas até a morte sacerdote saía do santuário, depois de tê-lo
do Ungido transcorreriam 69,5 semanas ou purificado, e abençoava o povo. Fixando
486,5 anos. Ficou demonstrado no subi- aí o início dos períodos proféticos, as 69,5
tem anterior que as 2.300 tardes e manhãs semanas atingem não a parte clara do dia
começam no sétimo mês do calendário 14, mas a noite do dia 15 (ver imagem 22,
judaico. Isso significa que as 70 semanas p. 112), na qual Jesus, após ter celebrado a
também se iniciam nesse mês, pois ambos última páscoa com os discípulos, instituiu
os períodos começam simultaneamente. a cerimônia que deveria comemorar sua
Avançando, então, 486 anos desde o morte pelos séculos por vir (1Co 11:23-
sétimo mês, chega-se também ao sétimo 26). Naquela mesma noite, Jesus passou
mês; e com os 6 meses restantes, correspon- pela terrível experiência do Getsêmani e
dentes à metade de um ano, pode-se chegar foi preso para ser crucificado.'
ao décimo terceiro mês ou ao primeiro mês,
já que o ano judaico podia contar com 12 CONCLUSÃO
ou 13 meses, dependendo do caso. O Novo
As 2.300 tardes e manhãs começam e
Testamento registra que a morte de Jesus
terminam na data judaica do Yom Kippur: o
ocorreu na época da Páscoa judaica, que
décimo dia do sétimo mês. As 69,5 semanas
era sempre celebrada no primeiro mês (Mc
se estendem do meio da tarde desse mesmo
14:12 e Lv 23:5 e 6). Fica claro, pois, que
dia até a noite do décimo quinto dia do pri-
o meio da septuagésima semana deveria
meiro mês (ver imagem 22, p. 112).
coincidir com o primeiro mês do ano ju-
daico, o mês de nisan (ver novamente a
imagem 22, p. 112). LOCALIZANDO O INICIO E O FIM DAS
2.300 TARDES E MANHÃS
O MEIO DA SEPTUAGÉSIMA SEMANA Tomando a noite do dia 26 de abril do
- CÁLCULO DO DIA DO MÊS ano 31 d.C. como o meio da septuagésima
Não somente o ano e o mês, mas mesmo semana da profecia de Daniel, basta retro-
o dia exato da morte do Salvador já esta- ceder 177.690,3303 dias (corresponden-
vam indicados em Daniel 9: 69,5 semanas tes às 69,5 semanas ou 486,5 anos) para
proféticas equivalem a 486,5 anos; estes, localizar o início do período. Subtraindo
por sua vez, consistem em 177.690,3303 1.732.496,3720 (data juliana 43 correspon-
dias (486,5 x 365,2422 = 177.690,3303), dente às 22h56 de 26 de abril de 31 d.C.,
nos quais há 6.017,1615 meses lunares a noite em que Jesus celebrou a páscoa e
(177.690,3303/ 29,53959 — 6.017,1615). seguiu para o Getsêmani) por 177.690,3303,
obtêm-se 1.554.806,0417. Quando esse va-
Desconsiderando-se, num primeiro lor é fornecido ao programa Redshift 2, a tela
momento, a fração (0,1615) e avançan- apresenta o céu do dia 29 de outubro de 457
do apenas com o valor inteiro de 6.017 a.C., às 15h (ver imagem 23, p. 113).
meses lunares, chega-se ao décimo dia
do primeiro mês. Caminhando 4,7692 Diante disso, basta apenas confirmar se
dias, correspondentes a 0,1615 mês lunar 28/29 de outubro foi realmente um dia da
(0,1615 x 29,53059 = 4,7692), a partir expiação. Para tanto, seria necessário que
do décimo dia do primeiro mês, chega-se o pôr-do-sol do dia 19 de outubro tivesse
ao décimo quarto dia desse mesmo mês, marcado o início do sétimo mês (ver ima-
que seria, então, o dia da crucifixão de gem 24, p. 113).
Cristo. Mas, o Novo Testamento aponta Nessa ocasião, o azimute do sol era
para o décimo quinto dia do primeiro mês de 260' 35' 42" (ver imagem 25, p. 113)
como o dia da morte do Salvador, o que e o da lua, de 248° 6' 49" (ver imagem
exige uma pequena correção no esquema 26, p. 114), sendo a diferença azimutal,
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 95
portanto, de 12° 28' 53". A altitude da lua estivesse a uma grande altitude, sua dis-
era de 11 0 51'43". Embora esses valores, tância em relação ao sol era considerável,
quando projetados sobre o gráfico da permitindo sua visibilidade (ver imagem
revista Sky & Telescope, coloquem a lua 32,p. 116).
praticamente em cima do limite de visibi- A análise astronômica assegura que o
lidade, pode-se afirmar que as condições primeiro crescente foi visível ao pôr-do-
permitiam que o primeiro crescente fosse sol de 13 de outubro, o que faz de 13/14
visto (ver imagem 27, p. 114). Parker e de outubro o dia 1° de tishri, confirmando
Dubberstein também adotaram o pôr-do- 22/23 de outubro como o dia da expiação
sol desse dia para o início do mês, embora em 1844. Portanto, há sólido fundamento
tenham aplicado ao mês uma posição dife- no esquema profético e astronômico para a
rente na ordem dos meses do ano.' data de 22/23 de outubro. Uma explanação
Tomando as 15h do dia 29 de outubro mais ampla e minuciosa do assunto pode
de 457 a.C. como o ponto de partida dos ser encontrada no site www.concertoeter-
períodos proféticos de Daniel 8 e 9 e cami- no.com ou no livro Chronological Studies
nhando 840.057,06 dias (correspondentes Related to Daniel 8:14 and 9:24-27, publi-
aos 2.300 anos), chega-se às 16h26 do dia cado pela UNASPRESS.
23 de outubro de 1844 d.C., em Jerusalém, Como foi dito brevemente, o começo
o que corresponde ao começo da manhã da manhã de 23 de outubro de 1844 d.C.
em Boston e Nova Iorque. 45 Procede-se em Boston corresponde ao meio da tarde
esse cálculo somando-se o total de dias do mesmo dia em Jerusalém. Foi possi-
existentes em 2.300 anos (840.057,06 vehnente nesse momento que o millerita
dias) à data juliana referente às 15h de 29 Hiram Edson teve sua famosa "visão do
de outubro de 457 a.C. (1.554.806,0417), milharal", na qual diz ter visto os céus se
com o que se obtém o resultado de abrirem e Jesus entrar no santo dos santos
2.394.863,1017. Fornecendo-se esse valor do santuário celestial para receber o reino,
ao programa Redshift 2, a tela exibe o céu o domínio e a glória (Dn 7:13).46 Foi ali
de 23 de outubro de 1844, às 16h26 (ver que o cômputo profético das 2.300 tardes
imagem 28,p. 115). e manhãs se encerrou; e Deus, que nunca
Visto que as 2.300 tardes e manhãs pre- Se permite ficar sem testemunhas, revelou
cisam terminar num dia da expiação, faz-se esse importante acontecimento para o
necessário avaliar se o dia 22/23 de outubro humilde fazendeiro. Pode-se dizer que foi
poderia ter sido o décimo dia do sétimo mês ali, em certo sentido, que nasceu a teologia
naquele ano. Para tanto, o mês de tishri de- adventista do sétimo dia, urna teologia não
veria ter começado ao pôr-do-sol do dia 13 baseada na fantasia e na especulação, mas
de outubro (ver imagem 29, p. 115). na confiabilidade da Palavra de Deus, na
inalterabilidade das leis naturais (Jr 31:35
Nessa ocasião, o azimute do sol era e 36) e na revelação divina (experiências de
de 261° 4' 57" (ver imagem 30, p. 115) Hiram Edson e Ellen G. White), podendo
e o da lua, de 241° 11' 40" (ver imagem ser, por isso, considerada qual "âncora da
31, p. 116), sendo a diferença azimutal, alma", "segura e firme", um• "firme fim-
portanto, de 19° 53' 17". A altitude da damento", estabelecida na fidelidade das
lua era de 9 0 47' 00". Embora a lua não promessas de Deus (111) 6:19; e 11:1).

REFERÊNCIAS
'Um artigo publicado no lhe Midnight Cry, de 3 que "o aniversário do dia da expiação será em 23 de
de outubro de 1844, afirmava que o dia da expiação outubro". Na edição de 19 de outubro, o The Midni-
não podia "estar muito fora de 22 ou 23 de outubro". ght Cly trouxe a proclamação: "Eis que Ele vem! No
No mesmo periódico, em 12 de outubro, declarou-se décimo dia do sétimo mês, que corresponde a 22 ou
96 / PAROUSIA - 1 0 SEMESTRE DE 2007

23 de outubro." A data dupla, nesse caso, indica que o s "A razão" para isso "é que as plantas usam
ciclo de 24 horas está sendo computado de pôr-do-sol seus relógios para sentir as estações, por meio do
a pôr-do-sol, segundo o método bíblico. comprimento do dia, garantindo que as flores nasçam
' Tudo indica que os mileritas basearam sua no tempo certo do ano. Algumas plantas, tais como
opção nos "relatos de muitos viajantes", segundo os o trigo, florescem quando os dias ficam mais longos.
quais a cevada não era encontrada madura na páscoa Outras, tais como a cevada, florescem quando os
calculada pelo método rabínico, pois a "cevada não dias encurtam." ("Molecules to Make Plants Tick."
estava na espiga em Jerusalém até um mês mais tar- New Scientist, n.° 1.967 [Londres: Reed Business
de" (Tire Midnight Cry, de 11 de outubro de 1844). Information Ltd., 4 de março de 1995], 30, tradução
Um desses relatos é o testemunho de E. S. Colman, nossa). A Bíblia se refere aos frutos como "aquilo
um judeu convertido ao cristianismo e enviado como que o sol amadurece" (Dt 33:14), o que está em
missionário à Palestina. Em seu artigo, escrito na. Ter- perfeita harmonia com a prática agrícola e com o
ra Santa em 1836 e publicado no American Biblical testemunho da ciência.
Repositoty, de abril de 1840, p. 398 e seguintes, ele 6 Momento do ano em que a luz solar atinge
afirma: "Nada como espigas de grãos verdes tenho os hemisférios norte e sul com o mesmo ângulo de
eu visto ao redor de Jerusalém na celebração dessa incidência.
festa. [...] Os judeus caninas a observam mais tarde 7 Outras fontes antigas que também situam os

que os rabínicos." (Citado por J. V. Rimes, S. Bliss, meses judaicos mais tardiamente dentro do ano solar
e A. Hate, no artigo "The Seventh Month Movement que o ciclo rabínico incluem os papiros encontrados
- lis History -Its Results -Defects in the Argument na colônia judia de Elefantina e os escritos de Eusé-
Our Position", The Adventist Shield and Review, bio de Cesaréia. Infelizmente, o espaço deste artigo
janeiro de 1845, tradução nossa). Pode-se deduzir não permite que tais fontes sejam apresentadas e dis-
do artigo de Colman que, por volta de 1836, os cutidas aqui. Uma análise mais completa do assunto
judeus caraítas estavam observando a páscoa mais será disponibilizada em breve no site http://www.
tarde que os judeus rabínicos. Para maiores detalhes concertoeterno.com .
sobre a matéria, ver o artigo "Karaite Reckoning vs. Edward M. Reingold; Nachurn Dershowitz,
Rabbanite Reckoning: Was October 22 the Right Calendrical Calculations, disponível em http://emr.
Date, or Was li September 23?", no site http://vvivw. es . i itedu/home/reingold/calendar-book/first-edition.
pickle-publishing.com . Já está disponível também numa nova versão: http://
Números 28:11 e 14; 1 Samuel 20:5, 18, 19, emr.cs.iitedu/home/reingold/calendar-book/second-
24, 27 e 34; e Isaías 66:23 vinculam o início do edition. Acessado em 01/03/2007.
mês à lua nova. A comparação de Números 10:10 9 Roy E. Hoffman, Luna Cal 3.0 Beta 3, compa-
com Salmos 81:3 reforça essa conclusão. Convém tível com Windows 95, 98, Me, NT4-SP3 ou maior,
notar, entretanto, que não se trata da lua nova 2000 e XP, disponível em http://www.geocitiesnom/
astronômica (conjunção), pois esta, não sendo royh il/software.htm, acessado em 01/03/2007.
visível, não se prestava como marco facilmente 1-9- Maris Multimedia, Ltd, Redshift 2.0, com-
identificável do início do mês; trata-se, antes, da patível com Windows 3.1, 95 ou mais avançado,
lua nova eclesiástica (primeiro crescente), que se Macintosh e Power Macintosh. RecIshilt 2.0 utiliza
fazia visível ao pôr-do-sol do dia da conjunção ou a teoria orbital D.E. 106. A precisão do software
dos dias subseqüentes. Filo de Alexandria (20 a.C. pode ser aferida pela comparação de suas efemérides
- 50 d.C.) afirma que "no tempo da lua nova, o sol com as fornecidas pelo site do Jet Propulsion La-
começa a iluminar a lua com uma luz que é visível boratory (Laboratório de Jato Propulsão da NASA:
aos sentidos, e então ela expõe sua própria beleza http://wwwjpl.nasa.gov ), que utiliza a D.E. 406:
aos observadores" (Philo, Tire Works of Philo, http://ssdjpl.nasa.gov/horizons.egi . Acessado em
Complete and Unabridged, New updated edition, 01/03/2007.
I' ed. [Peabody, MA: Hendrickson Publishers, Inc., Kerry Shetline, Sky View Cafe 4.0 Beta, dis-
1993], 572, tradução nossa). ponível em http://www.skyviewcafe.com/skyview .
4 Êxodo 9:31 e 32; Rute 1:22; 2:23; e 2 Samuel php, acossado em 01/03/2007.
21:9 e 10 confirmam que a cevada era o primeiro 12 Abraham J. Sachs, Astronomical Diaries

grão a amadurecer no Egito e na Palestina. Essa é and Related Texts from Babylonia - completado e
a razão pela qual foi escolhida para compor o feixe editado por Herman Hunger, vol. 1 (Viena: Verlag
das primícias. Tanto Filo de Alexandria quanto Flávio der õsterreichischen Akademie der Wissenschaften,
Josefo se referem ao molho dos primeiros frutos da 1988), 47.
cevada (Philo, Tire Worlcs o/ Philo, 584; e Flavius ' 3 Richard A. Parker; e Waldo H. Dubberstein,
Josephus, Antiquitie.s of the Jews, livro 3, capitulo 10, Babylonian Chronology, 626 B.C. -- A.D. 75, "Brown
artigo 5, em Tire Works of Josephus, Complete and University Studies", vol. 19 (Providence, R.1.: Brown
Unabridged, New updated edition [Peabody, MA: University Press, 1956). Esta obra é uma referência
Hendrickson Publishers, Inc., 1987], 96). padrão para historiadores, astrônomos e cronólogos.
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 97
Lista os documentos cuneiformes que servem de base depois do equinócio do outono, que naquele ano caiu
para a determinação do início e do fim dos reinados em 22 de setembro.
dos soberanos babilônicos, persas e sírios, desde Flavius Josephus, The Wars of the Jews , livro
Nabopolassar até a anexação da Síria pelo Império 4, capítulo 11, artigo 4, em The Works of Josephus,
Romano. Lista também os documentos que atestam Complete and Unabridged. New updated edition.
a ocorrência de mês intercalar até a época de Ana- (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, Inc.,
xerxes II. Além disso, apresenta urna reconstrução 1987), 695.
provável do calendário babilônico-persa, com a 20 E. J. Bickerman, Chronology of lhe Ancient
indicação do primeiro dia de cada mês, no intervalo World, ed. Rev (Londres: Thames and Hudson,
que se estende de 626 a.C. a 75 d.C. 1980), 207.
14 Flavius Josephus, The Antiquities of the Jews, 21 Babylonian Talmud, Rosh Hashanah 21a, dis-
livro 7, capítulo 14, parágrafo 7, em The Works of ponível em http://www.sacred-texts.com/jud/index .
Josephus, 208. htm, acessado em 01/03/2007,
e não tivesse sido nossa prática, dos dias 22 Kenneth F. Doig, New Testament Chronology
de nossos antepassados, de descansar no sétimo dia, (Lewiston, NY: Edwin Meilen Press, 1990).
esse empreendimento não poderia ter sido realizado, 23 A não-ocorrência de 1° de nisan em data tão
em razão da oposição que os judeus teriam feito; baixa quanto 15 dias antes do equinócio pode ser
porque nossas leis permitem nos defendermos contra atestada por um exame cuidadoso das tabelas das
aqueles que começam a lutar conosco e nos assaltar, páginas 27-47 de Babylonian Chronology, para
entretanto não permitem nos intrometermos com o calendário babilônico-persa, e 157-159 de The
nossos inimigos enquanto eles fazem outra coisa. Chronology of Ezra 7 (Siegfried H. Hom; e Lynn
Quando os romanos entenderam isso, naqueles dias H. Wood, The Chronology of Ezra 7, 2° ed., rev.
que eram chamados 'sábados', eles não lançavam [Washington, DC: Review and Herald Publishing
nada contra os judeus, nem vinham para nenhuma Association, 1970]), para o calendário judaico em
batalha que lhes era travada, mas erguiam suas pla- Elefantina [Egito]. No período abrangido por essas
taformas, e traziam suas máquinas para servirem-se tabelas, as datas realmente relevantes são aquelas
delas nos dias seguintes. [...] a cidade foi tomada em que a intercalação do décimo terceiro mês
no terceiro mês [do cerco], no dia do jejum, na está devidamente documentada por algum achado
centésima septuagésima nona olimpíada, quando arqueológico. No caso de Babylonian Chronology,
CaiusAntonius e Marcus Tullius Cicero eram cônsules o catálogo dos documentos cuneiformes que iden-
[...]" (Flavius Josephus, The Antiquities of the Jews, tificam os anos em que os meses intercalares foram
livro 14, capítulo 4, parágrafo 3, em The Works of inseridos ocorre nas páginas 4-9.
Josephus, 369, tradução nossa). 24
"A prática de determinar o Ano Novo de
' 6 Atos 27:9 se refere ao "tempo do jejum". De acordo com o Abib [cevada madura] é tão velha
acordo com Levítico 16:29 e 31; e 23:27, 29 e 32, como a Torah. Nos tempos antigos, como hoje,
no dia da expiação os judeus deviam "afligir as suas havia uma necessidade de anunciar que o abib fora
almas", o que se aplica particularmente ao jejum (ex.: encontrado, especialmente para aqueles no exílio, e
Si 35:13; e Is 58:3, Se 10). Sobre a prática do jejum vários relatórios de abib antigos têm sobrevivido.
no dia da expiação, Josefo declara: "Entretanto, o O mais antigo relatório de abib remanescente data
sumo sacerdote não usava essas vestimentas em da última geração do período do segundo templo e
qualquer momento, mas [apenas] um vestuário mais é citado no Talmude. [...] Já que este relatório antigo
simples; ele somente as usava quando ele entrava na é um relatório rabínico de abib, ele reflete a mistura
parte mais sagrada do templo, uma só vez no ano; dos fatores de abib e de [outros fatores] não-bíblicos
no dia em que o costume é que todos observem um dessa seita. O relatório diz: 'Pois tem sido ensinado:
jejum para Deus." (Flavius Josephus, The Wars of the aconteceu uma vez que o mestre Gamaliel estava
Jews, livro 5, capítulo 5, parágrafo 7, em The Works sentando num degrau do Monte do Templo, e o bem
of Josephus, 708, tradução nossa). Ver também 27w conhecido escriba Yohanan estava em pé diante dele
Antiquities of the Jews, livro 17, capítulo 6, parágrafo com três folhas cortadas [de pergaminho] postas na
4; e livro 3, capítulo 10, parágrafos 2 e 3. sua frente. [O mestre Gamaliel disse]... tome a tercei-
17 Dio Cassius, Roman History, vol. 5, livro ra [folha] e escreva para nossos irmãos, os exilados
49, capítulo 22, artigo 7, Loeb Classical Library, da Babilônia e para aqueles na Média, e para todos
disponível em http://www.penelope.uchicago. os outros [filhos] exilados de Israel, dizendo: 'Que
edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/49*.html, sua paz possa ser grande para sempre! Pedimos para
acessado em 01/03/2007. informar que as pombas ainda estão tenras e os cor-
18 EM 63 a.C., o dia da expiação (23/24 de outu- deiros ainda estão muito jovens e o abib ainda não
bro) ocorreu 28 dias depois do equinócio do outono, está maduro. Parece aconselhável para mim e para
que naquele ano caiu em 26 de setembro. Em 1844, meus colegas adicionar trinta dias para este ano"
o dia da expiação (22/23 de outubro) ocorreu 31 dias (tradução nossa). Ancient Abib Reports, disponível
98/ PAROUS1A - l ° SEMESTRE DE 2007

no site oficial do movimento caraíta: http://www. do batismo e da crucifixão de Cristo, bem como do
karaite-korner.org , acessado em 01/03/2007. apedrejamento de Estevão, Ellen G. White afirma:
25 Sacha Stern é doutor em Filosofia na área de "Até aqui, cumpriram-se de maneira surpreendente
Estudos Judaicos pela Universidade de Oxford e todas as especificações das profecias e fixa-se o início
chefe de Departamento da London School ofJewish das setenta semanas, inquestionavelmente, no ano
Studies. Para maiores informações biográficas sobre 457 antes de Cristo, e seu termo no ano 34 de nossa
o Dr. Sacha Stern, ver o seguinte endereço: http:// era. Por estes dados não há dificuldade em se achar
www.ucl.ac.uk!hebrew-jewish/aboutus/stern.php,
boutus/stern.php, o final dos 2.300 dias. Tendo sido as setenta sema-
acessado em 01/03/2007. nas — 490 dias — separadas dos 2.300 dias, ficaram
76 Disponível em http://www.oxfordscholarship. restando 1.810 dias. Depois do fim dos 490 dias os
com/o so/publ c/content/religion/9780198270348/ 1.810 dias deveriam ainda cumprir-se. Contando do
toc.html, acessado em 01/03/2007. O acesso ao ano 34 de nossa era, 1.810 anos se estendem a 1844.
conteúdo completo do livro é pago. Conseqüentemente, os 2.300 dias de Daniel 8:14
27 J. Neumann; e S. Sigrist, Harvest dates in an- terminam em 1844. Ao expirar este grande período
elem mesopotamia as possible indicators ofclimatic profético, "o santuário será purificado", segundo
variations, disponível em http://www.springerlink. o testemunho do anjo de Deus. Deste modo foi
com , acessado em 01/03/2007. O acesso ao conteúdo definitivamente indicado o tempo da purificação do
do artigo é pago. santuário, que quase universalmente se acreditava
2 " Robert K. Sanders, Day of Atonement of lhe ocorresse por ocasião do segundo advento" (Ellen G.
Karaite Jews in 1894, disponível em http://www.tru- White, O Grande Conflito, 36" ed. [Tatuí, SP: Casa
thorfables.com/Dayof Atonement_of theyaraite. Publicadora Brasileira, 1988] 328).
htm, acessado em 01/03/2007. 31 M. L. Andreasen, Letters to the Churches
29 Que os mileritas não dispunham de informação (Payson, AZ: Leaves-of:Autumn Books, Inc.), 39.
específica acerca da situação da cevada em Jerusalém Disponível em http://br.geocities.comicartas_andre-
no ano de 1844, fica evidente pelo exame da literatura asem acessado em 01/03/2007.
adventista da época: "Neste ano, a primeira lua cheia " Visto que a duração do ministério de Cristo
veio em 3 de abril; e se então a cevada estava madura, foi de 3,5 anos (Dn 9:27; e Lc 13:6-9) e que o ano
e a páscoa verdadeira [foi] então celebrada; ou se não 26 d.C. é a data mais recuada no tempo em que o
foi observada até a lua seguinte, nós não temos meios mesmo poderia ter iniciado (na verdade, o ministério
certos de saber. Como a primeira lua cheia veio tarde de Cristo começou no outono de 27 d.C.), podem
este ano, é provável que os Caraitas observaram a ser excluídas como opções para o ano da crucifixão
páscoa então, a menos que a cevada estivesse mais as datas de 26, 27, 28 e 29. Dos anos restantes da
tardia que o comum. Se foi assim, segue-se que nós administração de Pilatos (26 d.C. —36 d.C.), apenas o
em breve estaremos no sétimo mês" (Advent Herald, ano 31 d.C, admite um 15 de nisan numa sexta-feira.
11 de setembro de 1844, tradução e grifo nossos). "É Os anos 30 d.C. e 33 d.C., que têm sido sugeridos
[algo] extraordinário que a páscoa, neste ano, deva por autores católicos e protestantes, admitem um 14
ter sido celebrada em 4 de maio, de acordo com o de nisan, mas de maneira alguma um 15 de nisan,
cômputo que nós temos adotado, baseado na crença numa sexta-feira.
de que o calendário rabínico está um mês mais cedo" " Todos os anos do ministério de Jesus estão
(Midnight Cry, 7 de novembro de 1844, tradução e inseridos no governo de Pônei° Pilatos (Lc 3:1,2,
grifo nossos). "IL..] como o tempo, quando a colheita 21 e 22; 23:1-7; e 13-25). De acordo com Flávio
amadurecia, deve variar segundo a temperatura da Josefo, Pilatos governou a Judéia por dez anos, sen-
estação, e outras circunstâncias, é óbvio que, para do depois enviado a Roma para se justificar perante
definir quando o primeiro mês caraita começou, nós Tibério dos maus tratos infligidos aos samaritanos:
devemos saber em que período a seara da cevada es- "Mas quando esse tumulto foi acalmado, o senado
tava madura em Jerusalém em 1844. Se nós tivermos samaritano enviou uma embaixada a Vitélio, o qual
esse fato, então nós podemos saber quando o sétimo tinha sido cônsul, e que era agora o governador da
mês começou, e, certamente, com que dia em nosso Síria, e acusou Pilatos de assassinato; pois eles
calendário o décimo dia coincidiria. Mas, não será não foram a Tirathaba a fim de se revoltar contra
dada a impressão de que, antes de outubro úhimo, os romanos, mas para escapar da violência de
nós tínhamos recebido qualquer informação quanto Pilatos. Então Vitélio enviou Marcelo, um amigo
ao período da colheita da cevada em Jerusalém" seu, para cuidar dos negócios da Judéia, e ordenou
(The Morning Watch, 6 de março de 1845, tradução que Pilatos fosse a Roma, para responder perante
e grifo nossos). o imperador pela acusação dos judeus. Assim, Pi-
" Ellen G. White também estava ciente de que latos; quando tinha completado dez anos na Judéia,
são as datas de meio (batismo e morte de Jesus) que apressou-se para Roma, e isso em obediência às
sustentam as datas de início e de ,fim do esquema ordens de Vitélio, que ele não ousou contradizer;
cronológico de Daniel 8:14 e 9:24-27. Depois de falar mas antes que pudesse chegar a Roma, Tihério
23 DE SETEMBRO ou 22 DE OUTUBRO? / 99
havia morrido" (Flavius Josephus, Antiquities of do evangelho de João, ou nas circunstâncias das
Me Jews, livro 18, capítulo 4, artigo 2, em The próprias ocorrências que, após urna bem equilibrada
Works of Josephus, 482, tradução e grifo nossos). interpretação, requeira ou permita que creiamos que
Suetôni o, historiador romano do primeiro século, o discípulo amado tenha tencionado ou corrigir ou
informa que Tibério "morreu._ com setenta e oito contradizer o testemunho explícito e inquestioná-
anos de idade e vinte e três de reinado, aos dezessete vel de Mateus, Marcos e Lucas (o testemunho de
dias antes das calendas de abril, sob o consulado de que Jesus e seus discípulos comeram a refeição da
Cnéio Acertônio PI- óculo e de Caio Pôncio Nigrino" páscoa no dia regular, conforme citado no Lange's
(Suetônio, A Vida dos Doze Césares, 22 ed. reform. Commentary, in loc.)" (Russell Norrnan Champlin,
[São Paulo, SP: Ediouro, 2002], 130). Pela listagem O Novo Testamento Interpretado Versículo por
de E. J. Bickerman, em Chronology of the Ancient Versículo [Guaratinguetá, SP: Sociedade Religiosa
World, Cnéio Acerrôni o Próculo e Caio Pôncio A Voz Bíblica Brasileira], 600). A suposição de que
Nigrino exerceram seu consulado em 37 d.C. O a morte de -Cristo tinha de ocorrer no mesmo dia
décimo sétimo dia antes das calendas de abril é 16 em que o cordeiro pascal era imolado é apressada e
de março. Portanto, a morte de Tibério ocorreu em superficial, pois Cristo também era representado por
16 de março de 37 d.C. Levando em consideração todos os outros animais sacrificados no cerimonial
a distância existente entre Jerusalém e Roma e que judaico, mas nem por isso, por exemplo, Ele teve de
Tibério já havia morrido quando Pilatos chegou à ser crucificado no dia da expiação, quando o bode
cidade imperial, o término de seu governo pode ser expiatório era imolado. Ellen G. White confirma que
situado no final de 36 d.C. ou no começo de 37 d.C. "no dia em que a páscoa era comida, Ele [Cristo]
Como ele esteve à frente dos negócios da Judéia devia ser sacrificado" (Ellen G. White, O Desejado
por dez anos, o início de sua administração pode de Todas as Nações, 19° ed. [fatal, SP: Casa Publi-
ser fixado no final do ano 26. cadora Brasileira,1995], 642, grifo nosso). A páscoa
Alguns têm interpretado erroneamente certas era comida já no dia 15 de nisan, que foi, portanto,
declarações do evangelho de João e sugerido que a a data judaica da crucifixão, Uma discussão mais
crucifixão tenha ocorrido em 14 de nisan, porém os exaustiva do assunto, inclusive quanto ao cumpri-
sinóticos não deixam dúvida de que a data correta é mento antitípico do festival das primícias, símbolo
15 de nisan. Seguindo o ritual prescrito pela Lei, os da ressurreição de Cristo, o qual era celebrado "no
discípulos prepararam a páscoa na tarde de quinta- dia imediato ao sábado" (Lv 23:12), o primeiro dia
feira (14 de nisan) e a comeram depois do pôr-do-sol, da semana, pode ser encontrada no site http://www ,
já nas primeiras horas da sexta-feira bíblica (15 de concertoetemo.com ou no livro Chrono/ogica/ Si u-
nisan). Ver Mateus 26:17 e 20; Marcos 14:12 e 17; e dies Related to Daniel 8:14 and 9:24-27.
Lucas 22:7 e 14.A expressão "preparação da páscoa" 35 Mateus 27:62; Marcos 15:42 (ver também
em João 19:14 se refere simplesmente à sexta-feira 16:1 e 2); Lucas 23:54-24:1; e João 19:14 e 31
da semana da páscoa, pois o dia que precedia o sá- atestam que a crucifixão ocorreu numa sexta-feira,
bado era conhecido como "dia da preparação" (Mt cujo nome bíblico era o "dia da preparação". Ver
27:62; 28:1; e Lc 23:54-56; cf. Ex 16:5, 22, 23 e Êxodo 16:22-30.
29). O sábado após a morte de Cristo pode ter sido 36 Sky & Telescope Magazine (Cambridge, MA:
considerado um "sábado grande" (Jo 19:31) apenas New Tract Media Company). Disponível também em
por ter ocorrido dentro da semana dos pães asmos e versão °Mine, no endereço: http://skyandtelescope.
não devido a uma suposta sobreposição de um sábado com. Acessado em 01/03/2007.
semanal com uma festa cerimonial. Por fim, João '7 0 azimute do sol era de 279" 16'31" e o da lua,
18:28 não precisa ser interpretado em desarmonia de 276° 6' 54", sendo a diferença azimutal, portanto,
com os sinóticos, no sentido de que a páscoa teria de 309' 37". A altitude da lua era de IP 28' 47". A
sido celebrada na noite de sexta para sábado, pois lua estava abaixo do limite de visibilidade.
talvez os sacerdotes não tivessem participado da ceia Visto que o calendário judaico depende tanto
por terem estado envolvidos na prisão e julgamento do sol (por causa do amadurecimento da cevada, es-
de Jesus e ainda pensassem em comê-la antes que o sencial para a festa das primícias) quanto da lua (por
dia avançasse. Jesus deixou claro que aquela refeição causa do início do mês na lua nova), os conceitos e
de quinta-feira à noite era uma ceia pascal (Lc 22:15). valores de ano solar e de mês lunar (lunação) devem
Para que a crucifixão ocorresse em 14 de nisan, Jesus ser aplicados aos períodos proféticos, pois estes estão
deveria ter antecipado a celebração da ceia, o que atrelados às datas de festas judaicas (o 15 de nisan e o
Ele não estava na liberdade de fazer, pois veio para 10 de tishri), fixadas na base do sistema lunissolar. Os
cumprir a lei (Mt 5:17 e 18; e 014:4). "Após exa- valores do ano trópico (solar) e do mês sinódico (lu-
minar criteriosamente todo esse problema, Robinson nar) são fornecidos pelo The Astronomical A lmanac
declarou qual a sua conclusão a respeito: 'Após repe- for the Year 1995 (Washington, DC: Nautical Alma-
tida e calma consideração, na minha mente repousa nac Office of the United States Naval Observatory.
.a firme convicção de que nada existe, na linguagem Londres: Her Majesty's Nautical Almanac Office of
100 / PAROUSIA - 1° SEMESTRE DE 2007

the Royal Greenwich Observatory). calendário juliano, consiste numa escala, idealizada
Em outras palavras, isso quer dizer que uma pelo astrônomo Joseph Scaliger, cujo objetivo é indi-
data do calendário judaico só volta a coincidir com vidualizar cada momento por um número diferente.
o mesmo ponto do ano solar após um período de 19 Assim, meio-dia (12h) dei" de janeiro de 4713 a.C.
anos. Exemplo: se, num determinado ano, 1' de nisan (ponto inicial do período) é identificado pelo número
cair em 21 de março (equinócio atual), o mesmo só se 0,0000; 12h01 desse mesmo dia já é representado
repetirá 19 anos depois. Isso ocorre porque 19 anos pelo número 0,0007; 12h do dia 2 de janeiro têm
solares possuem praticamente o mesmo numero de como designação o número 1,0000. Para se obter a
dias de 235 meses lunares, que é o total de lunações data juliana de um dado momento, pode-se utilizar
presentes em 19 anos. A diferença é mínima: um o excelente programa de conversão disponível neste
excesso de 0,08685 dia (ou de 2,0844 horas) do cicio endereço: http://aa.usno.navy.mil/dataidocs/Julian-
lunar sobre o ciclo solar. Date.html, acessado em 01/03/2007.
4 ° Em cada ciclo de 19 anos, 12 anos são de 12 " O The Seventh-day Adventist Bible Commen-
meses e 7, de 13. Logo, 19 anos lunissolares perfa- tary, vol. 3, p. 108 e 109, reproduzindo as tabelas
zem 235 meses lunares (12 x 12 + 7 x 13 = 235). de Horn (p. 158) e de Parker e Dubberstein (p. 32),
' I Em 2.300 anos, há 121 ciclos completos de situa o mês de tishri em setembro e não em outubro
19 anos e mais 12 meses lunares, Após 2.299 anos no ano de 457 a.C. Evidentemente, essa opção não
(que correspondem aos 121 ciclos), a diferença de + se coaduna com o Yom Kippur em 22/23 de outubro
2,0844 horas se acumula em + 10,50885 dias (2,0844 no ano de 1844, pois o término dos 2.300 anos nessa
x 121 = 252,2124 + 24 = 10,50885). Isso significa data requeriria que o início do período também
que o esquema lunissolar está terminando dez dias tivesse ocorrido num mês de outubro. Todavia,
depois do esquema puramente solar. No entanto, nem Horn, nem Parker e Dubberstein apresentam
avançando mais um ano (os 12 meses de sobra), essa qualquer documentação contemporânea para funda-
diferença é corrigida, pois o ano puramente solar é mentar sua opção por um tishri em setembro no ano
cerca de 10 dias maior que o ano lunar (354,36708 dc,457 a.C. Existe a possibilidade de que um décimo
— 365,2422 = — 10,87512). terceiro mês tivesse sido intercalado no final do ano
42 Foi na noite anterior à crucifixão que Jesus babilônico correspondente a 458/457 a.C., deslo-
exclamou: "Pai, é chegada a hora" (Jo 17:1). Foi cando tishri para um mês mais tarde em 457 a.C. A
também nessa noite que Jesus confirmou sua decisão sugestão de Parker e Dubberstein quanto a um mês
de se oferecer pela raça pecadora (O Desejado de intercalar no final do ano babilônico correspondente
Todas as Nações, 690 e 693). Ellen G. White também a 457/456 a.C. não está amparada em documentação
enfatiza a noite como ponto decisivo: "A morte do da época. Por outro lado, para os anos 14 [591/590
cordeiro pascal era sombra da morte de Cristo. Diz a.C.] e 33 [572/571 a.C.] de Nabucodonosor (p.
Paulo: 'Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós' 28) e 3 [553/552 a.C.] de Nabonido (p. 29), que
(1Co 5:7). [...] Aqueles símbolos se cumpriram, correspondem ciclicamente a 458/457 a.C. (a cada
não somente quanto ao acontecimento mas também 19 anos, as datas do esquema lunar voltam a ocupar
quanto ao tempo. No dia catorze do primeiro mês praticamente a mesma posição dentro do ano solar),
judaico, no mesmo dia e mês em que, durante quinze Babylonian Chronology apresenta documentação
longos séculos, o cordeiro pascal havia sido morto, arqueológica para a inserção de mês intercalar que
Cristo, tendo comido a páscoa com os discípulos, justifique um tishri em outubro e não em setembro
instituiu a solenidade que deveria comemorar sua de 457 a.C. Há, pois, razoável apoio documental
própria morte como o 'Cordeiro de Deus que tira na cronologia babilônica das épocas de Daniel e de
o pecado do mundo'. Naquela mesma noite Ele Jesus para se posicionar o mês de tishri em outubro,
foi tomado por mãos ímpias, para ser crucificado no caso, de 1844.
e morto" (O Desejado de Todas as Nações, 399, 45 A hora do sacrifício da tarde ocupa posição de

grifo nosso). Daniel 9:27 afirma que no "meio da destaque na história bíblica, pois nela ocorreram even-
semana" o Ungido faria "cessar o sacrifício e a oferta tos particularmente importantes, dentre os quais podem
de manjares". Na ceia pascal, "Cristo se achava no ser citados, a título de exemplificação, o sacrificio do
ponto de transição entre dois sistemas e suas duas cordeiro pascal (Êx 12:6), o fogo que desceu do céu
grandes festas" (O Desejado de Todas as Nações, sobre o altar de Elias (1Rs 18:26, 27, 29, 36 e 38), a
652, grifo nosso). Ellen G. White também assevera revelação das 70 semanas (Da 9:21) e o fim da agonia
que "quando comeu a páscoa com seus discípulos, de Jesus sobre a cruz (AM 27:46,47 e 50). A "visão do
Elepôs umfim aos sacrifícios que por quatro mil anos milharal" possivelmente ocorreu no mesmo momento
tinham sido oferecidos" (Ellen G. White, em The do sacrifício da tarde em Jerusalém, pois a diferença
Seventh-day Adventist Bible Commentary, 5:1139, de sete fusos horários faz com que as 8h da manhã em
ed. rev. [Washington, DC: Review and Herald, 1976], Boston (ou 7h em Port Gibson, onde Edson vivia) cor-
tradução e grifo nossos). respondam as 15h em Jerusalém. Em Jerusalém, o 10 de
" O período juliano, que nada tem a ver com o Tishri se estendeu do pôr-do-sol do dia 22 ao pôr-do-sol
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 101
do dia 23 de outubro. Em Boston, o dia da expiação, saído do santíssimo do santuário celestial para vir à
calculado pelo horário de Jerusalém, estendeu-se de Terra no décimo dia do sétimo mês, no término do
cerca de 10h15 damanhã do dia 22 a cerca de 10h15 da 2.300 dias, neste dia, Ele havia entrado pela primei-
manhã do dia 23 de outubro [vale lembrar que o sistema ra vez no segundo compartimento desse santuário, e
de fusos horários, como é conhecido hoje, dividindo o que Ele teria uma obra a fazer no lugar santíssimo
mundo em 24 zonas, de 15 0 cada, só foi proposto em antes de vir à Terra. Nesta data, Ele havia entrado
1878 e aceito internacionalmente depois de 1884]. nas bodas; em outras palavras, diante do Ancião de
Portanto, nos EUA, o dia da expiação calculado por Dias, a fim de receber um reino, domínio e glória;
Jerusalém ocorreu mais para dentro do dia 22 do que do e que nós devemos esperar por seu retorno das
dia 23. O ponto alto do dia da expiação era o sacrifício bodas; e minha mente foi dirigida para o capítulo
da tarde, quando o sumo sacerdote, tendo completado 10 de Apocalipse; onde eu pude ver que a visão
o ritual prescrito para a purificação do santuário, saía havia falado e não mentiu; o sétimo anjo havia
e abençoava o povo. É bem apropriado, pois, que as começado a fazer soar sua trombeta; nós tínhamos
2 300 tardes e manhãs se estendam do meio da tarde comido o livrinho; tinha sido doce em nossa boca,
do dia 10 de tishri em 457 a.C. ao meio da tarde de 10 e agora tinha se tornado amargo em nosso estôma-
de tishri em 1844. go, amargando todo o nosso ser. Que nós devemos
Segue-se o trecho do manuscrito de Hiram profetizar outra vez, etc., e que quando o sétimo
Edson que descreve a experiência: "Nossas ex- anjo começou a tocar, o templo de Deus foi aberto
pectativas eram muito grandes, e assim estivemos no Céu, e lá foi vista em seu templo a arca de seu
esperando a vinda de nosso Senhor até que o relógio testamento, etc. Enquanto eu me encontrava parado
badalou as 12 batidas da meia-noite. O dia havia no meio do campo, meu companheiro havia seguido
acabado e nosso desapontamento tornou-se uma caminhando quase mais que o alcance da voz, antes
certeza. [...] Choramos e choramos até o amanhe- de perceber que eu não o acompanhava. Quando
cer [...] Comecei a sentir que deveria haver luz e me perguntou por que me havia detido por tanto
ajuda em nossa angústia presente. Disse a alguns tempo, eu respondi: `O Senhor estava respondendo
irmãos: `Vamos ao galpão'. Entramos no celeiro, à nossa oração matutina, dando-nos luz sobre o
fechamos as portas e nos inclinamos diante do desapontamento." Fragmento de um manuscrito
Senhor Oramos ferventemente porque sentíamos não datado de Hiram Edson, mantido no Heritage
nossa necessidade. [...] Depois do desjejum disse a Room da Andrews University Library, tradução e
um de meus irmãos: 'Vamos visitar e animar alguns grifo nossos, disponível na Internet no endereço:
de nossos irmãos.' Assim o fizemos, e, fui detido na http ://www. sdadefend.com/sdadefend-old/0 ct22
metade de um campo extenso, que cruzávamos. O htm, acessado em 01/03/2007.
céu pareceu abrir-se diante de mim, e vi distinta e
claramente que, em vez de nosso sumo sacerdote ter
102 / PAROUSIA - ° SEMESTRE DE 2007

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106! PAROUSTA - l ° SEMESTRE DE 2007

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23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 107

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108 / PAROUSIA SEMESTRE DE 2007

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110/ PAROUSTA - l ° SEMESTRE DE 2007

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23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 111

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112 / PAROUSIA -I° SEMESTRE DE 2007

Calculo do Dia do Mês


2.300 tardes e manhãs = 2.300 dias = 2.300 anos
2.300 anos x 365,2422 dias = 840.057,06 dias
840.057,06 dias + 29.53059 dias = 28.447,0124 meses lunares
0,0124 mês lunar x 29.53059 dias = 0,3662 dia
0,3662 dia x 24 horas = 8,7888 horas
*Obs.1: ano solar = 365,2422 dias
*Obs.2: mês lunar = 29,53059 dias
10`1? 10017°
Cálculo do Mês
28.447 meses lunares = 121 ciclos [de 19 anos] + 12 meses lunares [de sobra]
121 ciclos a 235 meses lunares = 28.435 meses lunares
*Obs.: cada ciclo de 19 anos contém 235 meses lunares
icra.1
Cálculo do Dia do Mês
7 semanas + 62 semanas + 0,5 semana = 69,5 semanas
69,5 semanas = 7 dias .= 486,5 dias = 486,5 anos
486,5 anos = 365,2422 dias = 177.690,3303 dias
177.690,3303 dias + 29,53059 dias = 6.017,1615 meses lunares •
0,1615 mês lunar = 29,53059 dias = 4,7692 dias
4,7 dias
6.017 lunações

10,1.11.11. In? irfl.nall.

Cálculo do Mês
69,5 semanas r. 486,5 dias = 486,5 anos
486,5 anos = 486 anos + 6 meses

486 anos 6 Meses


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457 27 21 54 1444
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semana
7 semanas + 62 semanas ou 69 semanas ou 483 anos nino.

ENTEND ENPO GRÁFIC_O_: .


1. Cálculo do Dia do Mês. Em 2.300 anos ha 25.447 meses completos. Retrocedendo 28.447 meses desde o dia 10
do sétimo mês (T1shri), chega-se evidentemente ao dia 10 de algum mês.
2. Cálculo do Mês. Em 2.300 anos ha 121 ciclos completos de 19 anos e mais um ano de 12 meses. Depois de um
ciclo completo, os meses judaicos voltam a ocupar a mesma -posição dentro do ano solar em que estavam no
começo do ciclo. Retrocedendo 121 ciclos desde o sétimo mês, chega-se naturalmente ao sétimo mês.
' Retrocedendo ainda os 12 meses restantes, chega-se novamente ao sétimo mês.
3. Cálculo do Dia do Mês. Em 486,5 anos ha 6.017,1615 meses lunares. Avançando 6.017 meses lunares desde o
dia 10 do sétimo mês, chega-se ao dia 10 de algum mês. Avançando 4,7 dias, equivalente a 0,1615 mês, chega-
se ao dia 15.
4. Cálculo do Mês. Avançando 486 anos desde o sétimo mês, chega-se ao sétimo mês. Avançando 6 meses,
equivalente a 0,5 ano, chega-se ao primeiro mês (Nisso).
Conclusão. As 2.300 tardes e manhãs começam e terminam na data anual da Festa da Expiação e as 69,5 semanas
proféticas, começando á hora do sacrifício da tarde dessa mesma data, avançam até a noite de 14 para 15 de Nisan,
quando o sacrifício pascalera comido.

Imagem 22 (gráfico)
23 DE SETEMBRO OU 22 DE OUTUBRO? / 113

Imagem 23 (Redshift 2)

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114 / PAROUSIA -l u SEMESTRE DE 2007

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116 / PAROUSIA - 1 ° SEMESTRE DE 2007

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