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Césio 137: um drama antigo que serve de exemplo

Valter Gomes Tardio Neto


Graduado em tecnologia de prevenção de riscos ambientais (Cefet-RJ), licenciando em
Química (Cederj/UFRJ)

Any Bernstein
Mestre em Bioquímica, doutora em Biotecnologia (UFRJ), professora da Fundação
Cecierj

Este é o quinto dos artigos selecionados entre os estudos de casos apresentados na disciplina
Sustentabilidade no Contexto das Ciências, oferecida pela Diretoria de Extensão da Fundação
Cecierj; ele trata do acidente de Goiânia causado por uma fonte radioativa de um aparelho de
radioterapia abandonada em um terreno baldio e encontrada por sucateiros. O acidente
foi resultante da desinformação da população sobre riscos causados pelo contato direto com a
radioatividade. Certamente o professor pode abordar esse assunto nas aulas de disciplinas como
Biologia, Ciências, Química e Educação Ambiental, entre outras.

O inicio de um drama que serve de exemplo

Nem sempre a curiosidade é exemplo de avanço! A falta de informação da população


quanto ao risco de exposição a substâncias radioativas fez com que o 137césio
provocasse o maior acidente radioativo do Brasil – talvez o maior do mundo ocorrido
fora das usinas nucleares. O acidente com o isótopo radioativo do Césio teve início no
dia 13 de setembro de 1987, em Goiânia-GO, quando a curiosidade de dois catadores
de lixo deu espaço para o ocorrido. Ao vasculhar as antigas instalações do Instituto
Goiano de Radioterapia, no centro de Goiânia, os homens se depararam com um
aparelho de radioterapia abandonado: um bloco metálico pesando uns 100kg. O
interesse dos catadores era a venda das partes de aço e chumbo do aparelho (invólucro
e fonte) para ferros-velhos da cidade. Leigos no assunto, sem noção do que era aquela
máquina e o que havia realmente em seu interior, tiveram a infeliz ideia de levar o
equipamento, com a ajuda de um carrinho de mão, até a casa de um deles para
retirada dos metais.

Figura 1: Cápsula de césio 137 – o início de tudo

Dias depois venderam o que restou ao proprietário de um ferro-velho, Devair, que, ao


desmontar a máquina, encontrou uma cápsula contendo cloreto de 137césio (CsCl), um
pó branco parecido com o sal de cozinha que, no escuro, brilhava com uma coloração
azul.
Na verdade o material da fonte, na sua fabricação, em 1971, compunha-se de cloreto
de 137césio (± 28g) e uma atividade de 2.000 Ci. Dezesseis anos depois, ainda tinha
atividade de 1.375 Ci, massa de CsCl de 19,26g.

Ele se encantou com o brilho azul emitido pela substância no escuro e resolveu exibir o
achado a seus familiares, amigos e parte da vizinhança. Adultos e crianças manipularam
o material acreditando estarem diante de algo sobrenatural, e alguns até levaram
amostras para casa. Parte do equipamento de radioterapia foi também para outro ferro-
velho; com isso, a área de risco foi aumentando, espalhando ainda mais o material
radioativo.

Desvendando a charada

Algumas horas após o contato com a substância, vítimas apareceram com os primeiros
sintomas da contaminação (vômitos, náuseas, diarreia e tonturas). Grande número de
pessoas procurou hospitais e farmácias reclamando dos mesmos sintomas. Os médicos,
após várias tentativas de diagnóstico e sem informação do que estava ocorrendo,
medicavam os enfermos como portadores de uma doença contagiosa. Somente quando,
duas semanas depois, a esposa do dono do ferro-velho levou parte do equipamento de
radioterapia até a sede da Vigilância Sanitária é que foi possível relacionar os sintomas
com a contaminação radioativa e foi solicitada a presença de um físico nuclear para
avaliar essa possibilidade.

O físico constatou evidências, avaliou o perigo que elas representavam e acionou


imediatamente a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e o chefe do
Departamento de Instalações Nucleares. No dia seguinte, a equipe foi reforçada pela
presença de médicos da Nuclebrás (atualmente, Indústrias Nucleares do Brasil) e da
CNEN. Foi quando a Secretaria de Saúde do Estado começou a realizar a triagem dos
suspeitos de contaminação em um estádio de futebol da capital.

Figura 2: Técnico da CNEN avaliando nível de contaminação na população para triagem

A primeira medida tomada foi separar todas as roupas das pessoas expostas ao
material radioativo e lavá-las com água e sabão para a descontaminação externa. Após
esse procedimento, as pessoas tomaram um quelante denominado azul da Prússia. Tal
substância elimina os efeitos da radiação, fazendo com que as partículas de césio saiam
do organismo pela urina e pelas fezes.
Figura 3: Sacrifício de animais domésticos contaminados

Figura 4: Policiais militares fazem cordão de isolamento para conter moradores de Goiânia que
tentavam impedir o enterro de uma das vítimas do césio 137

No ano de 1996, a Justiça julgou e condenou por homicídio culposo (quando não há
intenção de matar) três sócios e funcionários do antigo Instituto Goiano de Radioterapia
a três anos e dois meses de prisão, pena que foi substituída por prestação de serviços.

Efeitos da radiação ionizante

Em grandes doses, existe uma relação direta entre a quantidade de radiação recebida e
a patologia induzida. Dependendo da dosagem e do tempo de exposição, o impacto da
radiação nuclear é devastador: pode provocar hemorragia, problemas digestivos,
infecções ou doenças autoimunes e câncer. As contaminações brutais, como aquelas
provocadas pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, podem perdurar décadas.

Os efeitos biológicos variam também segundo a natureza da radiação (α, β, g), os


órgãos atingidos e a via de absorção (oral ou cutânea). Ovários ou testículos são
considerados 20 vezes mais sensíveis ao câncer do que a pele. Para a população
exposta a uma contaminação por tais dejetos radioativos, o principal perigo é
desenvolver câncer (leucemia, pulmonar, de colo) com "um risco proporcional à dose
recebida". O organismo leva cerca de dois anos para eliminar o césio 137 inalado, mas
ele persiste por décadas no meio ambiente.

Há também a suscetibilidade individual (capacidade de reparar o DNA), que, além dos


fatores genéticos, diminui com a idade.
Figuras 5, 6 e 7: Queimaduras radioativas (radiodermites)

Tomando esse evento como exemplo, é importante esclarecer a diferença entre


contaminação radioativa e irradiação neste acidente, pois nem tudo e todos foram
contaminados pela radiação: a irradiação ocorre quando o indivíduo recebe dose de
radiação enquanto permanece em um campo de radiação. A fonte de radiação é externa
e quando sai desse campo a radiação cessa. Quando um indivíduo é irradiado, por
exemplo, por uma bomba de cobalto para tratamento de um tumor, não fica radioativo.
Alimentos irradiados e produtos esterilizados por radiação também não ficam
radioativos. Ela é também classificada como externa quando o material se deposita
sobre a pele e passa a irradiar o indivíduo.

Por outro lado, a irradiação é classificada como interna quando o material entra no
corpo via pulmão, intestino ou poros, ou mesmo por via intravenosa, como é o caso do
iodo radiativo para tratamento de tumores na tireoide. Nesse caso, enquanto houver
material radioativo no indivíduo, ele está sendo irradiado.

Na contaminação como aconteceu em Goiânia, o material radioativo ficou em contato


com os indivíduos e se espalhou pelo entorno. O grau de contato com o elemento
definiu a gravidade da contaminação: alguns tiveram contaminação interna porque
manipularam alimentos com as mãos contaminadas ou panelas e acabaram ingerindo
CsCl. Nisso tudo, 112.800 pessoas foram expostas aos efeitos do césio, muitas com
contaminação corporal externa revertida a tempo. Destas, 129 pessoas apresentaram
contaminação corporal interna e externa concreta, vindo a desenvolver sintomas, e
foram apenas medicadas. Porém, 49 foram internadas; 21 precisaram sofrer tratamento
intensivo; destas, quatro não resistiram e morreram.

Informações interessantes sobre o césio 137

O césio (do latim caesium, que significa "céu azul") é o elemento


químico de símbolo Cs, encontrado em minerais como a polucita (silicato hidratado de
alumínio e césio).

Figura 8: Polucita, mineral contendo césio

O césio é um metal alcalino localizado no grupo 1 (IA) da classificação periódica dos


elementos. O césio é o menos abundante dos cinco metais alcalinos radioativos, apesar
de, tecnicamente, o frâncio ser o metal alcalino menos comum (menos de 30g na Terra
inteira), mas, sendo altamente radioativo, sua abundância pode ser considerada como
zero em termos práticos. É o mais eletropositivo, o mais alcalino e o de menor potencial
de ionização entre todos os elementos, à exceção do frâncio. Este metal é macio, dúctil,
de coloração ouro prateado, muito reativo.

Junto com o gálio e o mercúrio, o césio é um dos poucos metais que é encontrado no
estado líquido em temperatura ambiente (líquido acima de 28,5°C)3. O
césio reageexplosivamente com a água fria (pirofórico) e com o gelo em temperaturas
acima de -116°C. O hidróxido de césio obtido (CsOH) é a base mais forte de que se tem
conhecimento: ataca até o vidro.

Figura 9: Ampola contendo césio em estado líquido

O césio, descoberto em 1860 por Robert Bunsen e Gustav Kirchhoff, foi o primeiro
elemento identificado por análise espectral. O espectro eletromagnético tem duas linhas
brilhantes na região azul do espectro junto com diversas outras linhas
no vermelho, amarelo, e no verde.

Na natureza há césio com massa atômica 133, com 78 nêutrons e 55 prótons em seu
núcleo. Além deste, são conhecidos outros 34 isótopos, todos instáveis ou radioativos,
que sofreram desintegrações nucleares por emissão de partículas betas (positivas ou
negativas) com meia-vida que varia de menos de um segundo até vários anos. Entre os
isótopos radioativos, o de meia-vida mais longa é o 137césio, com 30 anos; ele é uma
espécie nuclearmente definida, que possui 55 prótons e 82 nêutrons e massa atômica
de 137 u.m.a.

Um radioisótopo ou isótopo radioativo caracteriza-se por apresentar um núcleo


atômico instável que emite energia quando se transforma num isótopo mais estável. A
energia liberada na transformação pode ser chamada de partícula alfa, beta ou radiação
gama. São detectáveis por um contador Geiger, por uma película fotográfica ou em uma
câmara de ionização. A desintegração nucelar do 137césio (também chamada de
decaimento radioativo) ocorre por dois caminhos; ambos resultam no estado
fundamental do elemento bário (número atômico 56) com massa de 136,9058 u.m.a.
Nesse processo, a maioria da desintegração (94,6%) dá-se com a emissão de partículas
beta (β1-), formando o estado excitado do 137bário. O restante (5,4%) ocorre por
emissão de partículas (β2-) e produz diretamente o estado fundamental do 137bário.

Os impactos sociais e ambientais

O trabalho de descontaminação dos locais atingidos não foi fácil. A retirada de todo o
material contaminado com o 137césio rendeu cerca de 6.000 toneladas de lixo (roupas,
utensílios, materiais de construção etc.). Tal lixo radioativo encontra-se confinado em
1.200 caixas, 2.900 tambores e 14 contêineres (revestidos com concreto e aço), em um
depósito construído na cidade de Abadia de Goiás, onde deve ficar por
aproximadamente 180 anos (estimativa de desintegração nuclear pelo decaimento
radioativo até atingirem níveis seguros).

Figura 10: Processo de descontaminação do local atingido pelo Cs137

O desastre fez centenas de vítimas, todas contaminadas por radiações emitidas por uma
única cápsula que continha 137césio. Atualmente, as vítimas reclamam da omissão do
governo para a assistência da qual necessitam, tanto médica como de medicamentos.
Fundaram a Associação de Vítimas Contaminadas do 137Césio e lutam contra o
preconceito ainda existente.

O gerenciamento dos resíduos gerados no acidente


O processo de limpeza produziu 13.500 toneladas de lixo atômico, que necessitou ser
acondicionado em 14 contêineres que foram totalmente lacrados. Dentro deles estão
1.200 caixas e 2.900 tambores, que permanecerão perigosos para o meio ambiente por
180 anos.

Figura 11: Depósitos temporários de resíduos do acidente em Goiânia

Para armazenar esse lixo atômico e atendendo às recomendações do Ibama, da CNEN e


da Cemam, os resíduos recolhidos na área foram enviados para uma área isolada,
o Parque Estadual Telma Ortegal, com pouco potencial de contaminação no
ecossistema, numa área a cerca de 20km do acidente, hoje pertencente ao município
de Abadia de Goiás. O material recolhido foi armazenado em tambores, contêineres
marítimos e caixas e separados por classe de contaminação; esse material permaneceu
ali armazenado provisoriamente por cerca de 12 anos.

Figura 12: Depósitos temporários de resíduos do acidente em Goiânia

Figura 13: Contentores definitivos preparados para cobertura


Figura 14: Depósitos I e II já aterrados em situação definitiva de armazenamento

Uma montanha artificial abriga uma parede de aproximadamente 1m de espessura de


concreto, revestida de chumbo.

Seguindo o ditado “antes tarde do que nunca”, em junho de 1997 a Comissão Nacional
de Energia Nuclear (CNEN) inaugurou uma nova unidade especializada, denominada
Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) em Abadia de Goiás.
Lá estão situados dois depósitos definitivos, que abrigam os rejeitos oriundos do
acidente radiológico com o Césio 137 de 1987. Um deles abriga 40% do volume total do
material recolhido, rejeitos cuja concentração radioativa é tão baixa que poderiam ser
definidos como lixo comum. No segundo depósito estão os rejeitos efetivamente
radioativos, dentre eles os restos da fonte principal que originou o acidente.

O CRCN-CO tem como objetivo primordial abrigar e monitorar os depósitos definitivos


de rejeitos oriundos do acidente radiológico de Goiânia, mantendo ainda um acerto
histórico das ações e soluções tecnológicas adotadas. O CRCN-CO é parte integrante do
Sistema de Atendimento a Emergências Radiológicas e Acidentes Nucleares (ERAN) da
CNEN.

Figura 15: Sede do CRCN-CO

A tarefa de segregação deverá ser realizada sempre nas instalações radiativas (IR) ou
nucleares (IN) onde foram produzidas. Quando não forem possíveis o tratamento, a
reciclagem e a eliminação, os rejeitos deverão ser armazenados em seus depósitos
iniciais (Di) podendo ou não ser armazenados em depósitos intermediários (DI) e
posteriormente em depósitos definitivos (DD). Em caso de acidentes, os rejeitos são
armazenados em depósitos.
Figura 16: Localização do depósito de armazenamento de resíduos radioativos envolvendo césio
137

Figura 17: Preparação para armazenamento definitivo – encapsulamento de tambores em


contentores definitivos

Após o acidente de Goiânia, a CNEN, em conjunto com centros de pesquisa de algumas


empresas estatais, como Nuclep e Eletrobrás, puderam normatizar, projetar e construir
no município de Abadia de Goiás um depósito provisório (DP) e, logo após, o primeiro
depósito final (DF) de rejeito radioativo da América Latina.

Esta estrutura e “momento” trouxeram ao País capacitação técnica, além de garantia de


segurança à população e ao meio ambiente: recebem monitoramento e
acompanhamento dos técnicos da CNEN local; é responsável pelo recolhimento interno
(rejeitos devido às atividades realizadas no centro), pelo recolhimento externo
(recolhimento de materiais devido ao atendimento à emergência) e recebimento
externo (recebimento devido à solicitação de pessoas físicas e jurídicas).
Figura 18: Construção em concreto do depósito para resíduos mais contaminados e com
armazenamento contínuo

Figura 19: Exemplo de depósito intermediário do CRCN-CO

Figura 20: Depósitos definitivos no CRCN-CO. Este é um exemplo de depósito superficial de baixo
e médio nível

Os resultados finais do acidente em Goiânia


O descaso do poder publico quanto ao descarte de materiais perigosos, aliado ao
desconhecimento científico e à necessidade não só para quem procura o sustento, mas
para pessoas ao entorno, leva a situações de alto risco para a população. Se hoje ainda
temos muito que avançar, no acidente envolvendo o 137césio, a postura do governo no
controle de substâncias perigosas e sua preocupação com a população e o meio
ambiente eram inexistentes na prática.

Após o acidente, os imóveis em volta do acidente radiológico tiveram os seus valores


reduzidos a preços insignificantes, pois quem morava na região queria sair daquele
lugar, mas o medo da população da existência de radiação no ar impedia a compra e a
construção de novas habitações.

Além da desvalorização dos imóveis, por muito tempo a população local passou por
certa discriminação devido ao medo de passar a radiação para outras pessoas,
dificultando o acesso aos serviços, à educação e a viagens. Muitas lojas e o comércio
que existiam antes do acidente acabaram fechando ou mudando de endereço, sobrando
alguns poucos comerciantes que ainda resistiam em continuar na região.

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