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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM SERVIÇO SOCIAL

RENATO FRANCISCO DOS SANTOS PAULA

Serviço Social, Estado e Desenvolvimento Capitalista

(im)possibilidades neodesenvolvimentistas e projeto profissional

DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL

SÃO PAULO

2013

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM SERVIÇO SOCIAL

Serviço Social, Estado e Desenvolvimento Capitalista

(im)possibilidades neodesenvolvimentistas e projeto profissional

RENATO FRANCISCO DOS SANTOS PAULA

SÃO PAULO

2013

2
Serviço Social, Estado e Desenvolvimento Capitalista

(im)possibilidades neodesenvolvimentistas e projeto profissional

DOUTORADO EM SERVIÇO SOCIAL

Tese apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de
Doutor em Serviço Social sob a orientação da
Professora Drª Maria Carmelita Yazbek.

São Paulo

2013

3
BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________________
Profª Drª Maria Carmelita Yazbek (Orientadora)

_______________________________________________________
Profª Drª Raquel Raichelis Degenszajn (PUC-SP)

_______________________________________________________
Profª Drª Maria Lúcia Martinelli (PUC-SP)

_______________________________________________________
Profª Drª Potyara Amazoneida Pereira Pereira (UnB-DF)

_______________________________________________________
Profª Drª Berenice Rojas Couto (PUC-RS)

_______________________________________________________
Profª Drª Rosângela Dias de Oliveira da Paz (Suplente) (PUC-SP)

_______________________________________________________
Profª Drª Maria Luiza do Amaral Rizzotti (Suplente) (UEL-PR)

4
AGRADECIMENTOS

O ciclo que se inicia e se encerra com a conclusão da tese e a sua defesa é, sem dúvida, um dos
marcos mais significativos na vida de qualquer pesquisador.
Atividade solitária, como se diz de modo corrente no meio acadêmico, é, ao mesmo tempo,
resultado de um “coletivismo” que se constrói ao longo de uma trajetória que extrapola os
“anos” formalmente estabelecidos para o exercício da atividade. É por isso que estas páginas de
agradecimentos são tão fundamentais quanto a própria tese. Todas as interações e interlocuções
realizadas ao longo de uma vida profissional e acadêmica se fazem aqui presentes, objetiva ou
subjetivamente, logo, as páginas destinadas a lembrá-las são sempre insuficientes, nos
obrigando a fazer escolhas justas, contudo, sempre incompletas.
O caminho que escolhi para isso foi tratar a nominata a partir das relações que se estabeleceram
de modo mais direto ao objeto e processamento da tese. Assim, destaco em primeiro lugar a
(re)acolhida que me foi dispensada no Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) que, desde o Mestrado que conclui
nessa mesma casa, me foi um espaço da mais competente interlocução para a produção de saber
aliada à consolidação de relações de cumplicidade e muito fraternas que tornaram a árdua busca
de conhecimento racional/científico mais leve e prazerosa. Portanto, a todos os professores,
trabalhadores e colegas do PEPGSS-PUC-SP meu sincero muito obrigado.
O Serviço Social da PUC-SP (graduação e pós-graduação) tem a importância, de todos nós
conhecida e reconhecida, para o Serviço Social brasileiro não apenas por ter sido o nosso
primeiro lócus de formação profissional, mas por abarcar e ter abarcado parte significativa dos
nossos quadros pensantes mais ativos com suas produções “arrasadoras”. Nesse contexto, o
privilégio de ter convivido, ainda que pelas horas restritas às atividades acadêmicas, com os
mestres José Paulo Netto e Evaldo Vieira, fez as minhas buscas muito mais amplas e rigorosas,
tendo este último se tornado, além de uma fonte de inspiração, um amigo dileto que não se
furtou aos meus apelos e se dedicou à leitura dos meus alfarrábios; a tese em forma primitiva.
Ao mestre e amigo Evaldo Vieira compartilho que esta tese também é uma tentativa de
responder à altura da qualidade de sua interlocução.
Em um lugar não menos destacado, a responsabilidade de responder às expectativas da
interlocução de qualidade também se estende à rica orientação de Maria Carmelita Yazbek.
Como disse a poetisa, “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”1, pois não
se trata aqui de uma relação formal de orientador/orientando, mas sim de uma forma simbiótica
peculiar de tratar o conhecimento onde o respeito unido à admiração recíproca foram seus fios
condutores.
1
Cora Coralina.

5
Outra relação intelectiva/afetiva deu-se com as mestres e amigas Raquel Raichelis e Rosangela
Paz, cujas presenças foram imprescindíveis para que eu nunca pensasse em desistir da
caminhada. A primeira, junto com minha orientadora e a querida Maria Lúcia Martinelli, deu ao
trabalho os rumos que ele deveria tomar com suas argutas e generosas considerações no rito da
qualificação. Meus agradecimentos dão-se na forma das ininterruptas produções que daqui
prosseguem na esteira de seus exemplos.
Ao professor Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, cujo “marxismo impenitente” foi essencial
para que eu pudesse incorporar com segurança categorias e rumos analíticos por vezes
marginalizados no mundo acadêmico de orientação marxiana e marxista.
Aos professores Marco Aurélio Nogueira e Luís Filgueiras, pelo diálogo que se transformou em
contribuição aos meus estudos.
Aos companheiros de caminhada, amigos e colegas, professores Wanderson Fábio de Melo e
Eduardo Benzatti do Carmo, que também dispensaram parte de seu precioso tempo para ler e
opinar sobre os originais, melhorando em muito o que eu poderia fazer.
Aos companheiros do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e do
Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) que compartilharam dessa jornada,
compreendendo sua importância e com isso aliviando as tensões do nosso exercício profissional
nesses espaços.
Aos(Às) companheiros(as) assistentes sociais que, no primeiro desenho da pesquisa, se
dispuseram a participar dos grupos focais. Embora a pesquisa tenha amadurecido para outros
rumos, as ricas contribuições e seus depoimentos foram fundamentais para que o estudo se
concretizasse.
Aos colegas professores, trabalhadores e alunos da Faculdade Projeção de Ceilândia, do Curso
de Serviço Social, incentivadores, portanto, cúmplices do começo e, aos colegas professores,
trabalhadores e alunos da Universidade Federal de Goiás, cúmplices do final disso tudo.
Aos mestres que, generosamente, aceitaram compor a banca de arguição desta tese em meio a
tantas atribuições que se lhes exige o cotidiano.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo apoio na
realização do doutorado e da tese.

A todos vocês citados e aos não citados, meu muito obrigado.

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RESUMO

PAULA, Renato Francisco dos Santos. Serviço social, estado e desenvolvimento capitalista:
(im)possibilidades neodesenvolvimentistas e projeto profissional. 420p. Tese (Doutorado em Serviço
Social)- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2013.

A presente tese tem como objeto de estudo as particularidades dos projetos desenvolvimentistas
contidos na história da evolução do capitalismo brasileiro e suas implicações para o Serviço
Social e seus projetos profissionais. Sob a orientação da “economia política” como método,
parte do pressuposto de que as relações estabelecidas entre o Estado e as classes sociais são o
núcleo duro por onde circulam a legitimidade e a orientação social do Serviço Social como
profissão partícipe da divisão social e técnica do trabalho no capitalismo de tipo monopolista.
Desta forma, resgata a evolução do debate sócio-histórico sobre o Estado tanto como categoria
de análise crítica quanto como “instrumento” de concreção dos interesses de classe por meio do
cotejamento aos clássicos da ciência política, dos pensamentos sociológico e econômico
universais. Presta-se à análise desses mesmos campos de conhecimento, em sua versão
brasileira, para, com isso, induzir a uma perspectiva totalizante que arrola os elementos gerais,
particulares e singulares do fenômeno considerado. Trata dos projetos desenvolvimentistas
como “momentos de síntese” do processo de evolução do capitalismo nacional com destaque
especial para o ciclo atual de acumulação em que se trava um debate sobre a existência ou não
de um projeto neodesenvolvimentista, cujos desdobramentos rebatem tanto na reconfiguração
do mercado particular de trabalho do Serviço Social, quanto nas suas formas de produzir
conhecimento, análises da realidade e orientações ético-políticas relacionadas à sua luta
antissistêmica cotidiana.

Palavras-Chave: Estado. Desenvolvimento Capitalista. Serviço Social.


Neodesenvolvimentismo.

7
ABSTRACT

PAULA, Renato Francisco dos Santos. Serviço social, estado e desenvolvimento capitalista:
(im)possibilidades neodesenvolvimentistas e projeto profissional. 420p. Tese (Doutorado em Serviço
Social)- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2013.

The current thesis has as object of study the particularities of those developmentalist projects,
present in the history of the evolution of Brazilian capitalism as well as its implications in
Social Work and its professional projects. Under the lights of the ‘political economy’ as a
method, it departs from the assumption that the relationships established between State and the
social classes are the hard core through which circulate the legitimacy and the social orientation
of Social Work as a participating profession of the social and technical division of monopolist
capitalism. That way, it recovers the evolution of the socio-historical debate on State not only as
a category of critical analysis but also as an ‘instrument’ that makes concrete the class interests
through the collation to the Political Science canon as well as to the sociological and economic
thoughts taken as universal. It also lends itself to the analysis of such fields of knowledge in its
Brazilian version in order to induce to a totalizing perspective that does not abstain from listing
the general and particular elements of the phenomenon in question. It regards the
developmentalist projects as ‘moments of synthesis’ of the evolutionary process of the national
capitalism with special emphasis on the current cycle of accumulation in which there is a debate
on the existence or not of a neo-developmentalist project whose deployments hold in check the
reconfiguration of the private job market of Social Work as well as its ways of producing
knowledge, analysis of the reality and ethical-political orientations, in its daily anti-systemic
struggle.

Key Words: State. Capitalist Development. Social Work. Neo-developmentalism.

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RÉSUMÉ

PAULA, Renato Francisco dos Santos. Serviço social, estado e desenvolvimento capitalista:
(im)possibilidades neodesenvolvimentistas e projeto profissional. 420p. Tese (Doutorado em Serviço
Social)- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2013.

Cette thèse a comme objet d’étude les particularités des projets développementalistes présents
dans l’histoire de l’évolution du capitalisme brésilien et ses implications pour le Service Social
et ses projets professionels. Sous l’orientation de “l’économie politique” comme méthode, cela
part de l’hypothèse que les rélations établies entre l’État et les classes sociales sont le noyau dur
par où circulent la légitimité et l’orientation sociale du Service Social en tant que profession
participante de la division sociale et technique du travail dans le capitalisme monopoliste. Ainsi,
cela délivre l’évolution du débat sociohistorique en tant que catégorie d’analyse critique et aussi
en tant qu’instrument de concrétisation des intérêts de classe à travers le rapprochement aux
classiques des Sciences Politiques, des pensées sociologique et économique universelles. Cela
se prête à l’analyse de ces champs de connaissance dans sa vérsion brésilienne afin d’induire à
une perspective totalisante qui ne se abstient pas d’enrouler les éléments généraux, particuliers
et singuliers du phenomène en question. Cella s’occupe des projets développementalistes en tant
que “moments de synthèse” du processus d’évolution du capitalisme national, notamment en ce
qui concerne le cycle actuel d’accumulation où il y a un débat à propos de l’existence ou pas
d’un projet néo-développementaliste dont les dédoublements rebattent dans la reconfiguration
du marché particulier de travail du Service Social et aussi dans ses manières de produire
connaissance, analyses de la réalité et orientations étiques politiques à sa lutte anti-systémique
quotidienne.

Mots-clés: État. Développement Capitaliste. Service Social. Néo-développementalisme.

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LISTA DE QUADROS E FIGURAS

Quadro 1 – Trajetória intelectual de Nicos Poulantzas (o conceito de Estado capitalista) 109


Quadro 2 – Os 20 maiores grupos econômicos no Brasil, em receitas totais e áreas de
atuação de suas controladas (2009) 283
Quadro 3 – Tendências predominantes no debate profissional sobre “Estado” e temas afins 342

Figura 1 – Dupla estratégia da campanha OIT para estender a cobertura da Seguridade Social –
Cobertura de Benefícios 297

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Taxas anuais de crescimento econômico – Brasil – 1920 a 1945 188


Tabela 2 - PEA versus PNB/ano – Brasil – 1976 a 1978 203
Tabela 3 - Apropriação da riqueza – Brasil - 1981, 1990, 1999 208
Tabela 4 - Despesas do governo central (% do total) - Brasil - 1994 a 2010 262
Tabela 5 - Participação da indústria no emprego (% do total) 273
Tabela 6 – Donos últimos que exibiram maiores ganhos de centralidade na
Reconfiguração das teias societárias entre 1996 e 2009 281
Tabela 7 – Programas apoiados pelo FMI na Europa 382
Tabela 8 – Cooperação oferecida pelo Brasil 2005-2009 383
Tabela 9 – Contribuição para organismos multilaterais 383

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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Balanço de ACs julgados versus distribuídos no Cade com tempo médio –
2000 a 2011 240
Gráfico 2 - Tempo médio de tramitação dos ACs no SBDC (em dias) – 2005 a 2011 240
Gráfico 3 - Composição e crescimento do estoque financeiro global (em trilhões
de dólares%) 246
Gráfico 4 - Estoques da dívida externa (em % do RNB) – América Latina e Caribe,
e Brasil - de 1980 a 2010 250
Gráfico 5 - Serviço da dívida (capital + pagamento de juros) – Brics – 1995 a 2010
(em bilhões de dólares) 251
Gráfico 6 - Serviço da dívida total (% das exportações de bens, serviços e renda) –
Brics – 1995 a 2010 251
Gráfico 7 - O investimento estrangeiro direto nas regiões emergentes – 1990-2005
(em %) 252
Gráfico 8 - Ingressos líquidos de investimento estrangeiro direto
(em bilhões de dólares) 253
Gráfico 9 - PIB per capita (US$ atualizados) – Brasil - 1995 a 2011 256
Gráfico 10 - PIB na cotação atual do dólar – Brics – 1995 a 2011
(em bilhões e trilhões de dólares) 257
Gráfico 11 - Inflação (%) – Preço para o consumidor – Brasil - 1995 a 2011 258
Gráfico 12 - Inflação (%) – Preço para o consumidor – Brics, América Latina e
Caribe - 1995 a 2011 259
Gráfico 13 - Taxa de juros Selic acumulada anual e média mensal – Brasil –
1995 a 2012 260
Gráfico 14 - Dívida Interna (R$) – Brasil - 1994 a 2010 (em trilhões de real) 261
Gráfico 15 - Credores da dívida interna (%) – Brasil - abril de 2010 261
Gráfico 16 - Participação da indústria de transformação no PIB - Brasil,
economias desenvolvidas e economias em desenvolvimento no ano 2000 271
Gráfico 17 - PIB e subsetores (com ajuste sazonal) - Taxa (%) do primeiro
trimestre de 2012 em relação ao trimestre imediatamente anterior 272
Gráfico 18 - Valor adicionado real – PIB, agropecuária, mineração e
indústria de transformação: 2002-10 (índice 2002 – 100) – Brasil 274
Gráfico 19 - Dessubstituição de importações, indicadores: 1995 – 2002

12
(média móvel 4 anos) – Brasil 274
Gráfico 20 - Participação no valor das exportações, segundo o fator
agregado: 2002-10 (%, média móvel 4 anos) – Brasil 275
Gráfico 21 - Dependência tecnológica: 1996-2010 (%) – calculado com
US$, valores constantes em 2010 – Brasil 276
Gráfico 22 – Trajetória do Gasto Social Federal – 1995 a 2010 291
Gráfico 23 – Taxas de Crescimento Real do Gasto Social Federal e do PIB,
1995 a 2010 293
Gráfico 24 – Taxas de Crescimento Real do Gasto Social Federal e do PIB,
1995 a 2009 293

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LISTA DE SIGLAS

ABEPSS – Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social


Ambev – Companhia de Bebidas das Américas
ANAS – Associação Nacional de Assistentes Sociais
BC – Banco Central
BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento
Bird – Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento
BM – Banco Mundial
BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social
BNH – Banco Nacional de Habitação
BPC – Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social
Bric – Brasil, Rússia, Índia e China (países em desenvolvimento)
Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica
CEB – Comunidade Eclesial de Base
Cepal – Comissão Econômica para América Latina e Caribe
CEF – Caixa Econômica Federal
CFESS – Conselho Federal de Serviço Social
CLT – Consolidação das Leis do Trabalho
CRAS – Centro de Referência de Assistência Social
CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social
DC – Desenvolvimento de Comunidade
DOC – Desenvolvimento e Organização de Comunidade
DEM – Democratas (partido político)
DRU – Desvinculação de Receitas da União
Eletrobras – Centrais Elétricas Brasileiras S.A.
EI – Empreendedor Individual
FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador
FGTS – Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
FHC – Fernando Henrique Cardoso
Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
FMI – Fundo Monetário Internacional
Geia – Grupo Executivo da Indústria Automobilística
GSF – Gasto Social Federal
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IED – Investimento Estrangeiro Direto

14
Ipea – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas
Iseb – Instituto Superior de Estudos Brasileiros
JK – Juscelino Kubistchek
LBA – Legião Brasileira de Assistência
MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
MP – Medida Provisória
OMC – Organização Mundial do Comércio
OIT – Organização Internacional do Trabalho
ONU – Organização das Nações Unidas
PAC – Programa de Aceleração do Crescimento
Paeg – Programa de Ação Econômica do Governo Castelo Branco
PASEP – Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público
PBF – Programa Bolsa Família
PCB – Partido Comunista Brasileiro
PCUS – Partido Comunista da União Soviética
PDS – Partido Democrático Social
PEA – População Economicamente Ativa
PEP – Projeto Ético-Político-Profissional
Petrobras – Companhia de Petróleo Brasileiro S.A.
PIB – Produto Interno Bruto
PIS – Programa de Integração Social
PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PNB – Produto Nacional Bruto
PND – Plano Nacional de Desenvolvimento
PNDH – Plano Nacional de Direitos Humanos
Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PP – Partido Progressista
Protec – Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica
PRR – Partido Republicano Rio-Grandense
PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira
Psol – Partido do Socialismo e Liberdade
PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados
PT – Partido dos Trabalhadores
PTB – Partido Trabalhista Brasileiro
PUC – Pontifícia Universidade Católica
RNB – Renda Nacional Bruta

15
SDBC – Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência
SESC – Serviço Social do Comércio
SESI – Serviço Social da Indústria
SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
SPVEA - Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia
Sudam – Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia
Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
SUS – Sistema Único de Saúde
SUAS – Sistema Único de Assistência Social
UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro
UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura
Unicamp – Universidade de Campinas
Unctad – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento
URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
URV – Unidade Real de Valor

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SUMÁRIO

NOTAS INTRODUTÓRIAS 20

Capítulo I
ESTADO E RAZÃO MODERNA 52

1.1 A problemática do Estado 61


1.2 Problematizações mais visitadas: exemplos de evolução do pensamento sobre
o Estado 64
1.2.1 De Maquiavel a Hegel 67
1.2.2 Marx e os marxistas 78
1.2.3 A tradição liberal 129

Capítulo II
DESENVOLVIMENTO E CAPITALISMO: ESBOÇO DE INTERPRETAÇÃO
HISTÓRICA 156

2.1 Estado e desenvolvimento 162


2.1.1 Desenvolvimentismo no Brasil 165
2.1.2 Momentos de síntese da acumulação capitalista: o desenvolvimentismo
brasileiro 170
2.1.2.1 Expressões inaugurais: protoformas 171
2.1.2.2 A crise do café 185
2.1.2.3 A Era Vargas 187
2.1.2.4 O Plano de Metas de Juscelino Kubistchek 194
2.1.2.5 O desenvolvimentismo autocrático burguês 199
2.1.3 Um interlúdio para a redemocratização: protoformas do ajuste neoliberal 202
2.1.3.1 O Plano Cruzado (1986) 203
2.1.3.2 O Plano Bresser (1987) 206
2.1.3.3 O Plano Verão (1989) 206
2.1.3.4 Os Planos Collor I e II (1990 – 1991) 206
2.1.3.5 O Plano Real (1994) 209

17
Capítulo III
CONTINUIDADE E RUPTURA: NOVO-DESENVOLVIMENTISMO OU
NEOLIBERALISMO À BRASILEIRA? 212

3.1 Modo de produção, expropriação e fluxos do capital 224


3.2 Acumulação, fetichismo e a crítica marxista ao desenvolvimento 234
3.3 Dependência (Sistema de Reciprocidades) e a nova roupagem do neoliberalismo 244
3.3.1 Continuidade e ruptura: novo-desenvolvimentismo ou neoliberalismo
à brasileira? 255
3.3.1.1 Primeira fase do novo ciclo: fase contrarreformista 256
3.3.1.2 Segunda fase do novo ciclo: fase de consolidação do
neoliberalismo à brasileira 263
3.4 A Política Social do neoliberalismo à brasileira: fugindo às injunções lineares 285

Capítulo IV
SERVIÇO SOCIAL NAS TRAMAS DO NEOLIBERALISMO À BRASILEIRA:
PASSADO, PRESENTE E FUTUTO 304

4.1 Das origens às tentativas de ressignificação 306


4.2 Construções pós-intenção de ruptura 325
4.2.1 Análises críticas sobre a reestruturação produtiva e a recomposição
do pensamento liberal 343
4.2.2 Análises críticas sobre a contrarreforma 358
4.2.3 Análises críticas sobre o terceiro setor 360
4.2.4 Análises críticas sobre a assistência e a proteção social 363
4.3 Neodesenvolvimentismo (?) e o projeto profissional: ameaça ou possibilidade? 368

À GUISA DE CONCLUSÃO 400

REFERÊNCIAS 407

18
O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.

João Guimarães Rosa

19
NOTAS INTRODUTÓRIAS

Para algumas pessoas, as tarefas aparentemente mais simples tornam-se as mais


complexas quando têm de ser colocadas em prática. Os produtos acadêmicos, quase sempre,
costumam sofrer desse mal. O batismo de uma tese — no caso a finalização com seu título — é
um exercício tão descontraído quanto complexo. O produto que ora apresentamos para ser posto
em análise pelo Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PEPGSS-PUC-SP), como síntese de um curso de
doutorado, não se furtou a tal dualidade. Seu título não é autoexplicativo, porém, amplamente
sugestivo.
Antes de refletir o conteúdo da tese, o título anuncia — ao menos no campo das
expectativas de seu autor — a articulação entre categorias científicas, de um lado, relativamente
desgastadas no campo das ciências sociais e humanas por serem recalcitrantes, pois fundantes
da área chamada humanidades e, por outro, componentes categoriais insuficientemente tratados
no âmbito do Serviço Social brasileiro e menos ainda como manifestações, para além de
fenomênicas, em relação ininterrupta. O comum é encontrarmos abordagens que isolam esses
elementos ou quando os articulam entre si não os agregam a outras categorias de maior
amplitude, e, na maioria das vezes, são tratados de modo apenas descritivo ou apenas ensaístico.
A escolha dessa aventura consequente deu-se com plena consciência de sua
complexidade, suas dificuldades, seus limites, mas também com consciência de suas
possibilidades e do flanco teórico, metodológico e político que se abre como contribuição aos
debates interno e externo à categoria profissional dos assistentes sociais brasileiros. Ambos os
motivos foram mais estimuladores que temerários.
Serviço Social, Estado, desenvolvimentismo, capitalismo e projeto profissional
costumam frequentar a produção sociológica do tempo presente em cotejamento histórico com o
que há de clássico e tradicional no tempo passado. Não se explicam por si. Devem mesmo
associar-se internamente e a outras categorias, como modo de produção, sociedade, classes
sociais, questão social, políticas públicas, etc. e fazer valer-se de recursos epistemológicos da
História, da Economia Política e da Economia, da Ciência Política e da Filosofia Política, do
Direito, da Filosofia, da Sociologia, da Antropologia, da Psicologia, e até das “Ciências Duras”,
em alguma medida. Juntos, devem ser contextualizados conjunturalmente, em explícita
evidência das mediações que se lhes articulam e atribuem nexos, permitindo transcender da sua
materialização à abstração e de modo contrário.
Estas considerações iniciais evidenciam apenas a amplitude da temática. Não permitem
de per si identificar a que objeto a pesquisa se dedica de fato. E isso não se dá apenas porque a
pesquisa é um recurso inesgotável para o conhecimento, fazendo dos pesquisadores sempre

20
aprendizes, mas se dá também porque a circunscrição metodológica de um objeto que se
constitui de modo relacional é, na maioria das vezes, relativa. Isso porque se referencia em
“fatos móveis”, mutáveis e dependentes de inúmeras variáveis.
Essa sentença ajuda a entender as dificuldades e idiossincrasias da definição de um
objeto que se constrói em um processo histórico em curso, contudo não é suficiente para
justificar sua apresentação “difusa”, como pode parecer ser. Por isso, manteve-se aqui a usual
escolha de algumas indagações provocativas e indicativas de possíveis lacunas no vasto campo
de conhecimento que utiliza de modo recorrente as cinco categorias em suas elaborações2.
Não é necessário precisar se foram os incômodos originados pela observação crítica e
pela prática cotidiana que motivaram as perguntas norteadoras ou se foi a ausência preliminar de
respostas. É um dilema similar ao do “ovo e a galinha”, que, embora exista concretamente, ao
ser real, sua solução imediata mostra-se indiferente para o que se pretende, ainda que um
raciocínio lógico possa se impor como recurso, pois o que nos incomodava primeiro era uma
problemática que insistia em nos provocar: a problemática teórico-prática do Estado. O que isso
quer dizer? Significa que há correntes de ideias em torno do Estado que remetem a formulações
teóricas sobre seus significados e significantes constantemente contrastadas.
Do mesmo modo, esses contrastes criam vida e tomam corpo quando se referenciam na
realidade mesma, com seus “homens concretos e suas vidas concretas”. Ou, se preferirmos os
termos de um intelectual de maior envergadura, considerar-se-á que a problemática é “o
conjunto de perguntas, ideias e suposições que delimitam o terreno no qual se produz
determinada teoria, terreno que nem sempre é visível na superfície do discurso teórico, e que, no
entanto, determina as condições e as possibilidades de enunciados desse discurso”, ou numa
outra opção: “a problemática é a unidade profunda de um pensamento teórico ou ideológico”3. E
isso nos mostra que há uma problemática ancestral em torno do Estado que foi precursora de
conhecimentos racionais modernos como os da Ciência Política ou da Filosofia Política. Isto
sim antecede, a nosso ver, o dilema da galinha com seus ovos.
A temática não esgotada do Estado, por se atrelar a relações sociais concretas, atravessa
como lâmina a vida cotidiana desde o trabalhador humildemente iletrado até os PhDs das mais
complexas ciências, desafiando-os como a esfinge que espera para devorar os que não decifram
seus enigmas, pois, como referiu Marx, “o modo de produção da vida material condiciona o
processo de vida social, política e intelectual” 4 conformando a consciência dos homens e o
modo como esses tomam consciência da vida.

2
São elas: Serviço Social, Estado, Desenvolvimentismo, Capitalismo e Projeto Profissional.
3
ALTHUSSER (1965). In: BOITO JR, Armando. Estado, política e classes sociais: ensaios teóricos e
históricos. São Paulo: Unesp, 2007.
4
MARX. Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução de Florestan Fernandes. São
Paulo: Expressão Popular, 2008.

21
Ao chegar ao nosso terreno — o campo do Serviço Social — essa problemática
inacabada (por ter como base um objeto inacabado) vai ganhando aderência de diferentes
matizes. Atrela-se ao Serviço Social por ser inevitável como um elemento, que justifica sua
existência como profissão na divisão social e técnica do trabalho, ao mesmo tempo em que lhe
condiciona a legitimidade. Disso decorre o primeiro enigma da esfinge: Como nos apropriamos
de tal problemática? Como o Serviço Social se apropriou da problemática teórico-prática do
Estado? E, numa imanente reciprocidade, cabe a dúvida invertida: Como o Estado, em suas
metamorfoses ininterruptas, apropria-se e relaciona-se com o Serviço Social?
As respostas não estão prontas. Elas vão sendo descobertas nos caminhos que conduzem
a investigação. Ou, como nos lembra Marx: “Não há entrada já aberta para a ciência”. E delas
— das respostas — vamos selecionando o que de fato nos interessa inquirir com mais vigor no
momento, que nada mais é do que o próprio objeto de estudo: as particularidades dos projetos
desenvolvimentistas contidos na história da evolução do capitalismo brasileiro e suas
implicações para o Serviço Social e seus projetos profissionais. Esta sim, de fato, é uma
forma mais precisa de interpelar o modo como o processo relacional entre o Estado e a profissão
se manifestam no concreto da vida e no subjetivo das relações.
A inquietação sobre o tratamento dispensado pelo Serviço Social à problemática
teórico-prática do Estado impôs-se com tal força que não pôde ser eliminada como pano de
fundo. Ambos — Serviço Social e Estado — são suficientemente relacionais e, por isso mesmo,
apresentam quantidade relativa de estudos, pesquisas, ensaios, em torno de si, que pudemos
utilizar como ponto de partida. “A galvanização necessária para constituição do objeto se fez
possível quando o referenciamos a formação social particular que o inscreve em sua dinâmica: a
formação social capitalista e, sua base constitutiva: o desenvolvimento capitalista de feições
monopólicas”5. Nele, encontramos de modo cíclico, em momentos de síntese, um fenômeno
particular historicamente determinado: o chamado desenvolvimentismo.
Esse último é tomado como a ação peculiar do desenvolvimento imanente das
sociedades de tipo capitalista monopolista, que prescreve um conjunto de medidas voltadas para
a manutenção e aperfeiçoamento de si mesmo, provocando mudanças nas relações sociais, na

5
A constituição do Brasil como sociedade capitalista, embora tenha seus traços particulares e singulares,
não abdicou das características universais desse modo de produção, ou, como afirma Trotsky: “Não é
verdade que a economia mundial represente apenas a simples soma de frações nacionais uniformes. Não é
verdade que os traços específicos não passem de um ‘complemento dos traços gerais’, uma espécie de
verruga no rosto. Na realidade, as particularidades nacionais formam a originalidade dos traços
fundamentais da evolução mundial (...) não se pode reorganizar nem mesmo compreender o capitalismo
nacional sem encará-lo como parte da economia mundial. As particularidades econômicas dos diferentes
países não têm uma importância secundária. Basta comparar a Inglaterra e a Índia, os Estados Unidos e o
Brasil. Os traços específicos da economia nacional, por mais importantes que sejam, constituem, em
escala crescente, os elementos de uma unidade mais alta que se chama a economia mundial”. In:
TROTSKY, Leon. Revolução e contrarrevolução na Alemanha. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

22
luta entre e intraclasses. É no escopo desse produto histórico que as articulações mais evidentes
entre o Serviço Social e o Estado se mostram, mesmo na realidade brasileira.
Não é por acaso que a origem do Serviço Social como profissão está atrelada ao
conjunto de medidas desenvolvimentistas empregadas pelo Estado burguês quando leva a cabo
seus intentos de modernização nos idos dos anos 1930. E também não é por acaso que tanto a
requisição formal pelo Estado de “trabalhadores sociais” quanto o debate em torno desse
processo se repõem na contemporaneidade.
Encontramos, nesses tempos, um mundo igual, mas diferente. Igual porque as
características estruturais do processo de acumulação capitalista, que não podem prescindir do
desenvolvimento, insistem em permanecer: a expropriação do trabalho, a expansão dos níveis de
acumulação, etc. Diferente porque as forças produtivas se encontram num estágio mais elevado,
causando inflexões diretas na conjuntura e no desenho ideopolítico das classes e dos Estados,
afetando sua própria maneira de existir6.
No Brasil, se vê mais do mesmo quando identificamos que a necessidade de
concertação entre Estado e mercado, Estado e classes permanece desde o Império, passando
pela Primeira República, pelo Estado Novo, pela ditadura civil-militar até a redemocratização
contemporânea, porém se renova com o impulso dos avanços técnicos e tecnológicos, de uma
nova morfologia no mundo do trabalho, nas interpenetrações do capital desterritorializado nos
Estados nacionais, nas roupagens que assumem as políticas públicas, e, como não poderia
deixar de ser, pelas características e pelos efeitos das crises sistêmico-estruturais do capitalismo
monopolista de cariz financista7.

6
Ou, como referiu Iamamoto: “O ‘moderno’ se constrói por meio do ‘arcaico’, recriando nossa herança
histórica patrimonialista ao atualizar marcas persistentes e, ao mesmo tempo, transformando-as no
contexto de mundialização do capital sob a hegemonia financeira. As marcas históricas persistentes ao
serem atualizadas se repõem modificadas ante as inéditas condições históricas presentes, ao mesmo
tempo que imprimem uma dinâmica própria aos processos contemporâneos. O novo surge pela mediação
do passado, transformado e recriado em novas formas nos processos sociais do presente. A atual inserção
do país na divisão internacional do trabalho, como um país de economia dita ‘emergente’ em um mercado
mundializado, carrega a história de sua formação social, imprimindo um caráter peculiar à organização da
produção, às relações entre o Estado e a sociedade, atingindo a formação do universo político-cultural das
classes, grupos e indivíduos sociais. Tais desigualdades revelam o descompasso entre temporalidades
históricas distintas, mas coetaneamente articuladas, atribuindo uma marca histórica particular à formação
social do país. Afetam a economia, a política e a cultura, redimensionando simultaneamente nossa
herança histórica e o presente. Imprimem um ritmo particular ao processo de mudanças em que tanto o
novo quanto o velho se alteram em direções contrapostas: a modernidade das forças produtivas do
trabalho social convive com padrões retrógrados nas relações de trabalho, radicalizando a ‘questão social’
”. IAMAMOTO, Marilda Villela. Trabalho e indivíduo social: um estudo sobre a condição operária na
agroindústria canavieira paulista. São Paulo: Cortez, 2001. p. 101-102.
7
Por crise estrutural ou sistêmica entendemos, em conformidade com Mészáros, que se refere “a uma
condição que ‘afeta a totalidade de um complexo social em todas as relações com suas partes
constituintes ou subcomplexos, como também a outros complexos aos quais é articulada’ (...) Põe em
questão a própria existência do complexo global envolvido, postulando sua transcendência e sua
substituição por algum complexo alternativo (...). Uma crise estrutural não está relacionada aos limites
imediatos, mas aos limites últimos de uma estrutura global”. In: MÉSZÁROS, István. Para além do
capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.

23
É esse quadro que, ao responder a novas manifestações do capital, repõe a necessidade
de reconfiguradas medidas de desenvolvimento que incluem também o debate sobre a relação
das profissões com a sociedade em que se inserem, pois, assumindo uma nova forma de
objetivação, o capital impõe dali em diante a universalização do trabalho.
O chamado novo-desenvolvimentismo, no Brasil, surge em um cenário controverso que
aponta, ao mesmo tempo, de um lado, o desgaste do ideário neoliberal e do insucesso das
medidas de contrarreforma dos anos 19908, e, de outro, a vitória desse mesmo ideário atestada
pelas características de um novo ciclo de desenvolvimento capitalista, no qual capital e trabalho
reordenam suas relações nos limites da revolução passiva, segundo os termos gramscianos9. É
uma alternativa que se coloca muito mais no plano ideopolítico e no imaginário coletivo do que
no campo das medidas econômicas de reversão reais dos postulados neoliberais.
Se, nos idos dos anos 1930, o projeto desenvolvimentista burguês encontrava coerência
e atos de reciprocidade com o projeto profissional dos assistentes sociais, na contemporaneidade
o novo-desenvolvimentismo promove um discurso de renovação das políticas de tratamento das
refrações da “questão social”, o que o impele a requisitar assistentes sociais para operá-las,
como sempre tem sido, mas se depara com um projeto profissional criticamente antagônico às
suas bases estruturais de legitimação.
Há então uma ruptura do Serviço Social com projetos burgueses de desenvolvimento?
Tal resposta não pode ser dada ao sabor do maniqueísmo corrente: “sim” ou “não”. Há, de um
lado, uma intenção de ruptura desde o Movimento de Reconceituação, como demonstra José
Paulo Netto em sua tese sobre a Ditadura e o Serviço Social que se concretiza pela aquisição e
“utilização” de um cabedal teórico-metodológico de bases marxianas e marxistas refletidas no
Código de Ética Profissional, na lei que regulamenta a profissão, nas Diretrizes Curriculares da
formação profissional, na produção acadêmico-científica e nos posicionamentos políticos
individuais ou coletivos do corpo profissional, mas há, ao mesmo tempo, e, contraditoriamente,
uma aderência relativa ao que há de civilizatório no exercício prático dos postulados da

8
Não há entre os analistas da economia política brasileira um consenso que ateste se a implantação do
neoliberalismo no Brasil foi exitosa ou fracassada. O que podemos encontrar com recorrência são
afirmações que se referem ao seu êxito no que tange às intenções de desmonte do Estado, retração de
direitos e ampliação da dependência externa. Não obstante, no que se refere a suas promessas de
socialização de bem-estar, é evidente o seu fracasso, pois as medidas que arrolamos foram motivações
suficientemente competentes para ampliar o fosso social das desigualdades. Se essa dialética “sucesso x
fracasso” pode, à primeira vista, parecer incongruente, uma análise mais atenta nos mostra que se trata de
um binômio que converge para o mesmo fim, qual seja a implantação de reformas regressivas na estrutura
dos Estados nacionais de capitalismo pouco avançado, denominado argutamente por Behring (2003) de
“contrarreforma”.
9
Segundo Coutinho, “uma revolução passiva implica sempre a presença de dois momentos: o da
‘restauração’ (trata-se sempre de uma reação conservadora à possibilidade de uma transformação efetiva e
radical proveniente ‘de baixo’) e da ‘renovação’ (no qual algumas das demandas populares são satisfeitas
‘pelo alto’, através de ‘concessões’ das camadas dominantes) (...) A revolução passiva, portanto, não é
sinônimo de contrarreforma; na verdade, numa revolução passiva, estamos diante de um reformismo ‘pelo
alto’”. (In: COUTINHO, Carlos Nelson. Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo. São
Paulo: Cortez, 2008).

24
democracia burguesa, a exemplo da defesa dos direitos humanos, dos preceitos em defesa da
diversidade e do pluralismo das ideias, isto sem falar nas diretrizes relativas ao modus operandi
da profissão como a qualidade dos serviços prestados, o incentivo ao protagonismo e à
participação popular na agenda pública, o sigilo profissional, o direito dos usuários de serviços
sociais à informação, etc.
O projeto burguês, portanto, para se realizar, não precisa abrir mão desse segundo
conjunto de “características” da profissão. Ao contrário, pode conviver com elas e tomá-las
ainda como parte de suas estratégias de coerção ideopolíticas, fomentando a ilusão que nos leva
a tentar humanizar o inumano10. Do mesmo modo, podemos tomá-las como parte constituinte
das táticas necessárias à construção de um projeto societário alternativo presente no conteúdo
interno dos movimentos sociais antissistêmicos, cuja adesão dos estratos profissionais críticos é
inequívoca.
Fica confirmada, deste modo, para nós, a necessidade de prosseguirmos
problematizando o Estado e suas relações a partir da escolha de elementos relacionais que
expressam uma totalidade concreta. As respostas sempre provisórias para as indagações
originárias que já citamos começam a fazer sentido quando se defrontam de modo arterial com
as singularidades das categorias basilares da investigação.
Por isso quando perguntamos: Qual o tratamento dispensado pelo Serviço Social
brasileiro à problemática teórico-prática do Estado, somos alçados inevitavelmente a uma
formulação mais específica, mais próxima da realidade objetiva que concretiza a profissão: De
que modo o Serviço Social brasileiro tem se relacionado com as transformações recentes, na
estrutura jurídico-política de nosso Estado, consubstanciadas num ciclo peculiar de
desenvolvimento capitalista?
Conferindo ainda mais precisão ao objeto, colocando-o em outro ângulo, a indagação
nos induz a prosseguir admitindo algumas premissas fundamentais. A primeira delas é que
tratamos o Serviço Social como uma especialização do trabalho coletivo, inserido na divisão
social e técnica do trabalho. A segunda, mas não menos importante, é que suas demandas
legitimadoras estão relacionadas às diferentes formas de enfrentamento das múltiplas variáveis
da “questão social”. Também se destaca o fato de que é na estrutura jurídico-política do Estado
que repousa a rede de inter-relações entre a base material de uma determinada sociedade e suas
várias instituições e onde suas formas de consciência são localizadas, como não nos deixa
esquecer Mészáros11.

10
Já que tais características, quando referenciadas pelo modo capitalista de reprodução das relações
sociais absorvem, de modo ineliminavelmente aderente, as feições estruturantes desse modo, o que
implica a primazia do capital sobre o trabalho redundando num tipo de produção catastrófica, destrutiva e
desumana conforme demonstra Mészáros (2002).
11
MÉSZÁROS, István. Filosofia, ideologia e ciência social: ensaios de negação e afirmação. São Paulo:
Ensaio, 1993.

25
Com esses pressupostos, fica mais fácil realizar a opção metodológica de circunscrever
a investigação aos resultados do produto histórico produzidos no campo relacional entre Serviço
Social e Estado, notadamente pelo modo como ambos participam dos projetos peculiares do
desenvolvimento capitalista. Por isso, perseguir parte dessas respostas implica, ainda, dialogar
com os elementos constitutivos gerais e particulares das transformações no processo de
reprodução social dos sujeitos individuais (os profissionais) e coletivos (as entidades da
categoria e de fora dela), ou, em outros termos, agregar outros pressupostos necessários à
análise da relação Serviço Social — Estado — Desenvolvimento, quais sejam: a) buscar o
sentido e a inteligibilidade da profissão na história da sociedade da qual ela é parte e expressão;
b) guiar-se pelo primado da produção e reprodução social, pois é nela e a partir dela que os
indivíduos se tornam sujeitos históricos, e; c) conferir centralidade a história, pois é nela que se
encontra a chave heurística da problemática anunciada.
Esses três pressupostos já foram arrolados por Iamamoto (2003, p. 151) 12 como
fundamentais às análises da relação Serviço Social — Estado — Desenvolvimento capitalista, o
que nos leva a indagar o que há de inédito, então, na reflexão proposta, uma vez que a referência
em que mais nos apoiamos — a produção de Iamamoto — já nos adiantou tais chaves
heurísticas?
Ora, os três pressupostos ancoram-se na realidade concreta e objetiva. Sendo assim, o
caráter metamórfico das relações e processos sociais: conjunturas e estrutura, atendem às
requisições do seu tempo histórico. Deste modo, nunca haverá um conhecimento acabado sobre
tais relações, necessitando, antes, ser constantemente revisitado e referenciado a um tempo
histórico. Ademais, buscamos demonstrar, no desenrolar de toda nossa argumentação, que o
período recente do Estado brasileiro é particularmente rico em seu processo de rearranjo interno
e externo, devido ao modo como se reconfiguraram as correlações de forças nele,
movimentando de modo singular as relações entre as classes e as frações de classe.
Da contrarreforma do Estado praticada pelo Presidente da República Fernando Henrique
Cardoso até o novo-desenvolvimentismo do Presidente Lula da Silva e da presidenta Dilma
Roussef, transformações significativas aconteceram, na estrutura jurídico-política do Estado,
que não foram suficientemente tematizadas no espectro do Serviço Social brasileiro, nem o
serão ainda, simplesmente por estarem em curso. O que nos dá a medida exata dos limites da
tese sem prejuízo da sua relevância como parte dos estudos contemporâneos sobre o tema.
Do ponto de vista exterior ao Brasil, também se registram mudanças significativas, no
cenário mundial, avalizadoras da escolha temporal da proposta. Essas mudanças vão desde a
implementação dos imperativos da mundialização do capital, sentida, sobretudo, nos anos 1990,
até os marcos daquela que tem sido apontada como a mais grave crise estrutural desde 1929: a

12
IAMAMOTO, Marilda Villela. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação
profissional. 6. ed., São Paulo: Cortez, 2003.

26
crise sistêmica dos anos 1970, com uma erupção incontestável, em 2008, e que ainda penaliza
milhares de pessoas em todo o mundo, incluindo países de capitalismo avançado. Quais
elementos desse processo global têm interferência direta ou indireta nos trâmites do Estado
brasileiro, no período em questão? Ou seja, impõe-se também para nós o imperativo de
articular, analiticamente, a dialética das mudanças dentro e fora do País, considerando a
perspectiva de uma totalidade social cujos limites extrapolam as condições imediatas de
reprodução do gênero humano.
Do ponto de vista interno à profissão, consideramos que as diretrizes do projeto
profissional crítico do Serviço Social brasileiro, expressas no Código de Ética da Profissão, na
sua Lei de Regulamentação e nas Diretrizes Curriculares da formação profissional, necessitam
ainda de elementos que lhes agreguem valor teórico-prático para sua efetiva disseminação
hegemônica na formação e no exercício profissional, visto que a reposição do debate sobre o
desenvolvimento capitalista e seus ciclos particulares recentes apresentam tais virtudes em
potencial.
Não tratamos aqui de uma consideração retórica ou de desejo político. São as
transformações recorrentes na conjuntura e na estrutura que requisitam a construção dialética,
portanto, histórica, de táticas e estratégias que reconfigurem nossas dinâmicas internas,
conforme as requisições de um mesmo real-histórico. Os elementos de análise do projeto
profissional crítico sugeridos por uma ontologia do ser social possibilitam o entendimento dos
aspectos gerais e particulares das sociedades e Estados que operam na ordem do capital, desde
que se mantenham no campo da “ortodoxia marxista”13.
Todavia, isso não implica dizer que as estratégias e táticas de enfrentamento ao padrão
de sociabilidade imposta, desse modo, são imutáveis ou passíveis de um único tratamento
ideopolítico e teórico-prático.
Ao contrário, nem sempre as mudanças provocadas pelo próprio capital visando à sua
(re)acomodação diante das transformações na sociedade são favoráveis ao projeto profissional
crítico ou mesmo de modo inverso. O que nos exige vigilância e reconstrução permanente de
tais estratégias e táticas, avançando/agregando conteúdos e inovando em formas de ação.
Esse é o escopo motivador do estudo que só adquire sentido no nível lógico se
associado ao que existe como produto histórico no campo das análises de matriz marxiana e
marxistas. Portanto, é um esforço que, caso se consagre acabado, será apenas parcialmente bem-
sucedido.

13
Segundo Lukács, a ortodoxia marxista diz respeito à fidelidade ao método de Marx. Nesse sentido,
consultar LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São
Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 63-64.

27
Sobre o método

As aproximações aqui contidas relativas ao método proposto pelo estudo da crítica da


economia política, nos leva a pensar as particularidades dos projetos desenvolvimentistas que
caracterizam a história da evolução do capitalismo brasileiro e suas implicações para o Serviço
Social e seus projetos profissionais a partir da nucleação das categorias de totalidade,
contradição e mediação (NETTO, 2011, p. 58)14.
A totalidade em questão apresenta-se como uma complexidade composta em processo
histórico plurissecular plasmada em complexidades partícipes de seu processo de constituição.
Isto é, uma totalidade concreta, que nada mais é do que a própria sociedade burguesa.
Essa sociedade específica, quando tomada nas suas formas dinâmicas de realização,
convoca como fulcro sustentador as relações materiais de produção, determinadas, nesse caso,
pelo capital e, a depender das condições históricas que encontram, imprimem sentido à
entificação do capitalismo e seu núcleo precípuo de dominação: o Estado burguês.
Isso significa dizer que o recurso à totalidade se impõe como modo de alcançar a
realidade como síntese de múltiplas determinações, por ser concreta, unidade do diverso
(MARX, 2011) 15 , característica fundante e necessária ao estudo de formações sociais. É o
mesmo que considerar o resgate da realidade ontológica como realidade determinada pelas
condições materiais de existência condicionadas à processualidade da história. Ou, como
afirmou Lukács (2007, p. 59 ):

[A totalidade] é uma unidade concreta de forças opostas em uma luta recíproca (...)
significa que, quer em face de um nível mais alto, quer em face de um nível mais
baixo, ela resulta de totalidades subordinadas e, por seu turno, é função de uma
totalidade e de uma ordem superiores (...) Enfim, cada totalidade é relativa e mutável,
mesmo historicamente: ela pode esgotar-se e destruir-se — seu caráter de totalidade
16
subsiste apenas no marco de circunstâncias históricas determinadas e concretas.

Assim, a formação social brasileira não se processa alheia à universalidade do


capitalismo, e nem mesmo se absteve da criação de traços particulares e singulares que a
distinguiram de outras formações congêneres. Em outros termos: Se as regras gerais do sistema

14
Como apontado por NETTO, José Paulo. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo:
Expressão Popular, 2001. p. 58.
15
Nesse sentido, é suficientemente conhecido o célebre excerto de Marx: “O concreto é concreto porque é
síntese de múltiplas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso o concreto aparece no pensamento
como processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida
efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação”. (In: MARX, Karl.
Grundisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2011. p. 54).
16
LUKÀCS, Georg. As tarefas da filosofia marxista na nova democracia. In O Jovem Marx E Outros
Escritos. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2007. (Tradução Carlos Nelson Coutinho, José Paulo Netto).

28
de produção generalizada de mercadorias permaneceram presentes na constituição da sociedade
capitalista brasileira, do mesmo modo penetraram as condições históricas objetivas dadas
preliminarmente, plasmando, em momentos de síntese, não apenas a sua universalidade como
também a formação e conformação do Estado burguês brasileiro que, desde a sua gênese até a
atualidade, funciona como agente das “revoluções passivas” que marcam sua história17.
Essas revoluções pelo alto, embora acomodem interesses de classes, não suprimem a
luta a elas inerentes; deste modo, não podem ser entendidas como sinônimo de contrarrevolução
e nem mesmo de contrarreforma, mas sim de um “reformismo pelo alto” (COUTINHO, 2008, p.
93)18. A persistência desse traço no desenvolvimento do capitalismo brasileiro nos leva, então, a
pensar o método sem a interferência do determinismo economicista típico da II Internacional ou
do stalinismo19. Isso significa que:

17
As regras gerais do sistema generalizado de produção de mercadorias estão mais bem detalhadas no
Livro I, volume II de O Capital no item: Formas de Existência da Superpopulação Relativa. A Lei Geral
da Acumulação Capitalista, onde Marx assim a resume: “Quanto maiores a riqueza social, o capital em
função, a dimensão e energia de seu crescimento e consequentemente a magnitude absoluta do
proletariado e da força produtiva de seu trabalho, tanto maior o exército industrial de reserva. A força de
trabalho disponível é ampliada pelas mesmas causas que aumentam a força expansiva do capital. A
magnitude relativa do exército industrial de reserva cresce portanto com as potências da riqueza, mas,
quanto maior esse exército de reserva em relação ao exército ativo, tanto maior a massa da
superpopulação consolidada, cuja miséria está na razão inversa do suplício de seu trabalho. E, ainda,
quanto maiores essa camada de lázaros da classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto
maior, usando-se a terminologia oficial, o pauperismo. Esta é a lei geral, absoluta, da acumulação
capitalista. Como todas as outras leis, é modificada em seu funcionamento por muitas circunstâncias que
não nos cabe analisar aqui”. (In: MARX, Karl. O capital. Livro I, v. II, Capítulo XXIII: A Lei Geral da
Acumulação Capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. p. 747). Do mesmo modo, a história
do desenvolvimento capitalista brasileiro, ao articular particular e geral, não é tratada como “evolução de
um movimento anterior que se desenvolve segundo as leis da natureza”, mas sim no processo de
desenvolvimento real que a engendra. Ver MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In:
Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
(Coleção Os Pensadores).
18
COUTINHO, Carlos Nelson. Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo. São Paulo:
Cortez, 2008.
19
Mészáros afirma: “O ‘dogmatismo stalinista’ rejeitado [por Lukács] foi definido mais uma vez,
primeiro em termos metodológicos: como a ‘ausência de mediação’, a reificadora ‘confusão da tendência
com o fato realizado’, ‘a subordinação mecânica da parte ao todo’, a afirmação de um ‘relacionamento
imediato entre os princípios fundamentais da teoria e os problemas da época’, a ‘restrição dogmática do
materialismo dialético’ e, mais importante, como crença errônea de que o ‘marxismo era uma reunião de
dogmas’. Lukács também declarou categoricamente que o único modo de exercer influência ideológica
era a ‘crítica imanente’, que coloca as questões metodológicas em primeiro plano”. (In: MÉSZÁROS,
István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005 e MÉSZÁROS, István. O poder da
ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004). Quanto ao determinismo economicista, fatorialista e
evolucionista, da II Internacional, sobram as críticas também feitas pelo próprio Lukács, quando afirma
que os motivos econômicos não são o que distingue o marxismo da ciência burguesa, mas sim a
perspectiva da totalidade (Ver História e Consciência de Classe) e também Lênin quando se refere à
complexidade que envolve o “desenvolvimento desigual” típico do capitalismo que se exacerba em sua
fase monopolista. (Ver Imperialismo Fase Superior do Capitalismo).

29
(...) a totalidade concreta e articulada que é a sociedade burguesa é uma totalidade
dinâmica — seu movimento resulta do caráter contraditório de todas as totalidades
que compõem a totalidade inclusiva e macroscópica. Sem as contradições, as
totalidades seriam totalidades inertes, mortas — e o que a análise registra é
precisamente a sua contínua transformação. A natureza dessas contradições, seus
ritmos, as condições de seus limites, controles e soluções dependem da estrutura de
cada totalidade — e, novamente, não há fórmulas/formas apriorísticas para determina-
20
las: também cabe à pesquisa descobri-las. (NETTO, 2011, p. 58) .

Nesse movimento é que o método nos invoca a apreender as contradições que,


originadas na base material da infraestrutura econômica, portanto, como fator ontológico
primário da socialidade (MARX, 2008)21 partem para novos graus de complexidade, sobretudo
pela generalização da política diante de um contexto social saturado de novas determinações,
fazendo com que as lutas de classes — expressando relações de poder e de interesses se
espraiem — por meio da ideologia, da cultura, da política, da religião, etc., — por toda a
superestrutura (GRAMSCI apud COUTINHO, 2006)22, onde o jogo de interrelações entre a
base material de determinada sociedade e suas várias instituições e formas de consciência
podem, assim, ser localizadas (MÉSZÁROS)23. Isso confere centralidade ao terceiro elemento
do núcleo duro do método, que são as mediações. Elas impedem o imediatismo na consideração
da totalidade. Deste modo,

(...) uma questão crucial reside em descobrir as relações entre os processos ocorrentes
nas totalidades constitutivas tomadas na sua diversidade e entre elas e a totalidade
inclusiva que é a sociedade burguesa. Tais relações nunca são diretas; elas são
mediadas não apenas pelos distintos níveis de complexidade, mas, sobretudo, pela
estrutura peculiar de cada totalidade. Sem os sistemas de mediações (internas e
externas) que articulam tais totalidades, a totalidade concreta que é a sociedade
burguesa seria uma totalidade indiferenciada — e a indiferenciação cancelaria o
caráter do concreto, já determinado como “unidade do diverso”. (NETTO, 2011, p.
58)24.

Portanto, um conjunto de mediações se coloca ao corolário de busca entre as


determinações que fundam as disputas de interesses na sociedade com suas bases materiais e os

20
Como apontado por NETTO, José Paulo. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo:
Expressão Popular, 2001. p. 58.
21
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Prefácio. Tradução de Florestan
Fernandes. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
22
COUTINHO, Carlos Nelson. O conceito de sociedade civil em Gramsci e a luta ideológica no Brasil de
hoje. In: ______. Intervenções: o marxismo na batalha de ideias. São Paulo: Cortez, 2006.
23
MÉSZÁROS, István. Filosofia, ideologia e ciência social: ensaios de negação e afirmação. São Paulo:
Ensaio, 1993.
24
Como apontado por NETTO, José Paulo. Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo:
Expressão Popular, 2001. p. 58.

30
sujeitos coletivos que dão vida e forma às categorias que queremos colocar em relação. Assim,
Estado, desenvolvimento capitalista e desenvolvimentismo compõem uma unidade complexa e
contraditória de um mesmo movimento, voltado, sobretudo, às dinâmicas de acumulação que
analisamos detalhadamente e, em seguida, suas articulações endógenas e exógenas em interação
com um produto histórico particular da divisão social do trabalho que é o Serviço Social e seus
projetos profissionais. O elo que garante tais articulações não é senão o Estado, que se
materializa na realização de programas de administração da vida social sumarizados nos
governos que resultam das disputas societárias mais amplas.
Sendo, o governo, a forma fundamental que a classe dominante encontra para legitimar-
se enquanto classe e enquanto dominante pela tomada hegemônica do Estado, os programas e
projetos governamentais assumem, assim, a forma mais evidente, porém não a única, de
expressar os interesses desse bloco no poder. Esses programas e projetos assumem a prevalência
da política econômica burguesa na medida em que esta se estrutura no processo de fetichização
de toda a produção, e, por consequência de toda a vida social, impedindo a crítica de sua
economia política.
Esta última, por sua vez “se inicia pela mercadoria, no momento em que se trocam
alguns produtos por outros” (ENGELS, 2011, p. 283)25 o que, de per si, implica uma relação e a
conformação subsequente de relações recíprocas que fazem toda a produção ser socialmente
determinada (MARX, 1978, p. 103)26. A política econômica burguesa, por seu turno, funda-se
no mito que confere autonomia tanto à mercadoria quanto à individualização das relações
sociais de produção originárias de um processo evolutivo natural e inequívoco, com uma
história fatalista e unilateral. (id., ibid.)27.
Com isso, torna-se imperativo colocar em exame as medidas econômicas propostas
pelos governos burgueses como a melhor forma de desvendar, em suas contradições, os seus
nexos internos e o modo como se articulam aos “complexos do complexo” social macroscópico
na esteira da luta entre e intraclasses, do qual o Serviço Social é parte e expressão.

25
ENGELS, Friedrich. Comentários sobre a contribuição à crítica da economia política de Karl Marx. In:
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
26
MARX, Karl. Introdução à crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção
Os Pensadores).
27
Na mesma Introdução à Crítica da Economia Política, (1978, p. 103-104), Marx ironiza esse processo
de fetichização e a-historicidade, em David Ricardo e Adam Smith e seus seguidores, quando afirma: “O
caçador e o pescador, individuais e isolados, de que partem Smith e Ricardo, pertencem às pobres ficções
das robinsonadas do século XVIII (...) Os profetas do século XVIII, sobre cujos ombros se apoiam
inteiramente Smith e Ricardo, imaginam este indivíduo do século XVIII — produto, por um lado, da
decomposição das formas feudais de sociedade e, por outro, das novas forças de produção que se
desenvolvem a partir do século XVI — como um ideal, que teria existido no passado. Veem-no não como
um resultado histórico, mas como ponto de partida da História, porque o consideravam como um
indivíduo conforme à natureza — dentro da representação que tinham de natureza humana —, que não se
originou historicamente, mas foi posto como tal pela natureza. Esta ilusão tem sido partilhada por todas as
novas épocas, até o presente”.

31
Com este método, partimos sempre da relação primeira e mais simples que existe
historicamente, de fato; portanto, aqui, da primeira relação econômica com a qual nos
encontramos. Depois procedemos à sua análise. Pelo próprio fato de se tratar de uma
relação, está implícito que há dois lados que se relacionam entre si. Cada um desses
dois lados é estudado separadamente, a partir do que se depreende de sua relação
recíproca e sua interação. Encontramo-nos com contradições que exigem solução.
Porém, como aqui não seguimos um processo de reflexão abstrato, que se desenvolve
exclusivamente em nossas cabeças, mas uma sucessão real de fatos, ocorridos real e
efetivamente em algum tempo ou que continuam ocorrendo, essas contradições
também estarão determinadas na prática, onde, provavelmente, também será
encontrada sua solução. E, se estudarmos o caráter dessa solução, veremos que se
consegue criar uma nova relação, cujos dois lados opostos teremos agora que
desenvolver, e assim sucessivamente. (ENGELS, 2008, p. 282-283)28.

Desse modo, recorremos ao modo lógico de análise, para buscar, no processo de


desenvolvimento do capitalismo brasileiro, “as soluções” apresentadas pelo bloco no poder,
conforme apontara Engels, para dirimir suas contradições imanentes29.
Por serem muitas e variadas, pelo contexto histórico, escolhemos um tipo específico de
alternativa (solução) tratada aqui como momento de síntese que se origina da negação (parcial)
das lógicas operantes do sistema capitalista (pelas suas crises imanentes e seus limites) em
confronto com sua afirmação mesma (autorreprodução e expropriação do trabalho), e que se
volta para a ampliação ininterrupta dos níveis de acumulação.
Assim, os programas e projetos econômicos dos governos burgueses são pensados
como produtos históricos tipificados conjunturalmente, porém, plasmados na dinâmica própria
do desenvolvimento capitalista, sobretudo, na fase dos monopólios. Com isso, procuramos não
conferir autonomia ao modo analítico lógico perante a história, afinal:

[O método lógico] não é, na realidade, senão o método histórico despojado


unicamente de sua forma histórica e das casualidades perturbadoras. Lá, onde começa
essa história, deve começar também o processo de reflexão; e o desenvolvimento
posterior desse processo não será mais que a imagem refletida, de forma abstrata e
teoricamente consequente, da trajetória; uma imagem refletida corrigida, porém
corrigida de acordo com as leis da própria trajetória histórica; e, assim, cada fator
pode ser estudado no ponto de desenvolvimento de sua plena maturidade, em sua
30
forma clássica. (ENGELS, 2008, p. 282-283) .

28
ENGELS, Friedrich. Comentários sobre a contribuição à crítica da economia política de Karl Marx. (In:
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2011).
29
Nesse sentido, podem ser situados tanto os processos históricos de “modernização conservadora”
registrados ao longo da história dos países capitalistas, incluindo o Brasil, quanto os “reformismos às
avessas”: os contrarreformismos. O reformismo real, criação das esquerdas, também é alternativa que
depende das injunções históricas, como, por exemplo, no advento da social-democracia.
30
ENGELS, Friedrich. Comentários sobre a contribuição à crítica da economia política de Karl Marx. (In
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2011).

32
Assim, destacamos como categoria central, que colocaremos em relação com um
elemento crucial, no processo de desenvolvimento do nosso capitalismo, que são as iniciativas
de administração da res publica, consubstanciadas em projetos socioeconômicos e políticos que,
tendo como fulcro o nacionalismo, a modernização pensada pela via da industrialização e o
intervencionismo estatal orientado para o mercado, foram denominados de “políticas
desenvolvimentistas” 31 . Associados a esses momentos específicos do desenvolvimento
capitalista, os “planos voltados para estabilidade econômica” se fazem notar pelo mesmo fim:
manter o funcionamento da supremacia das “liberdades” do mercado e exponenciar os níveis de
acumulação com a forte interveniência estatal.
Desse modo, examinamos esses momentos desde suas impostações primitivas coloniais
(neste caso, relacionadas à entificação do capitalismo no Brasil pela “via colonial”, como
demonstrara José Chasin) até suas expressões mais modernas, como na Era Vargas, no Plano de
Metas de Juscelino Kubistchek, nos programas econômicos dos governos militares e no ajuste
neoliberal expresso nos Planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e II e Real.
Como manifestações de uma vontade política que se constrói no confronto classista, o
esboço de uma interpretação histórica sobre o pensamento econômico brasileiro pela via das
particularidades desenvolvimentistas evidencia suas raízes conservadoras, constantemente
atualizadas pela modernização evidente das forças produtivas, ratificando o “fetichismo da
mudança”:
Genericamente, a valorização da mudança e a preservação das tradições constituem os
dois principais traços distintivos entre o progressismo e o conservadorismo. Mas
existe mais complexidade nisto. (...). Para o conservador, o divino rege a sociedade e
o indivíduo, delineando eternos direitos e deveres. Portanto, o problema político
também é religioso e ético. Nada de igualdade e de uniformidade, o que vale é a
variedade e o enigma da vida tradicional. Assim, o conservador concorda com a
existência de ordens e classes, mas acredita que a única e verdadeira igualdade é a
igualdade moral, prestigiando ao mesmo tempo a autoridade, indispensável à vida
32
social. (VIEIRA, 1998, p. 35) .

31
Para Marx, as categorias exprimem (...) formas de modo de ser, determinações da existência. Para ele,
o “concreto pensado é composto das categorias, das mediações, das particularidades que são propriedade
do real”, portanto, “o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira de
proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado” (Ver
Contribuição à Crítica da Economia Política, p. 127-128). Ianni (1986) também esclarece que “na
medida em que a explicação se sintetiza na categoria que poderíamos traduzir em ‘conceito’, ‘numa lei’,
então a construção da categoria é, por assim dizer, o núcleo, o desfecho da reflexão dialética. Explicar
dialeticamente é construir a categoria ou as categorias que resultam da reflexão sobre o acontecimento
que está pesquisado (...). Marx retoma a concepção de que explicar a realidade é não só descobrir os
nexos que constituem a realidade, mas ajudar essa realidade a se constituir. Portanto, o pensamento
impregna o real, entra na constituição do real”. (In: IANNI, Octávio. Construção de categorias.
Transcrição de aula dada no Curso de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-SP, no primeiro
semestre de 1986).
32
VIEIRA, Evaldo. Poder político e resistência cultural. São Paulo: Autores Associados, 1998.

33
No pensamento conservador, a propriedade privada e a liberdade ligam-se
intimamente, ficando a sobrevivência de uma dependente da sobrevivência da outra.
Prefere os sentimentos à razão, não confiando no sofismo e no cálculo, rejeitando a
ideia de reforma. O conservadorismo distingue reforma e mudança, e considera
legitima para a sociedade apenas a mudança33, que se deve processar lentamente como
acontece no corpo humano, sempre sob direção do divino. Na mudança conservadora,
se substituem elementos individuais por elementos individuais, particularidades por
particularidades, enquanto a mudança progressista atinge a totalidade, o indesejável e
o mundo que o torna possível. O que importa ao conservador é o imediato e o real,
desprezando e excluindo a especulação e a hipótese. Fustiga, portanto, a generalização
e o pensamento sistemático. Colocando-se o pensamento na perspectiva do tempo, o
conservador fixa-se no passado, à medida que ele participa do presente. (Id., ibid,, p.
36)34.

Assim, cumpriu-nos ir além dos conteúdos contidos nas iniciativas governamentais de


gestão econômica e trazer à baila a presença ativa dos sujeitos históricos que compõem a arena
dessa totalidade social. Os discursos ideopolíticos que proferem são construídos no interior dos
conflitos societários e passam ao nível gnosiológico, quando referenciados ao grupo social que
se vinculam, permitindo, assim, explicitar suas “visões de mundo”. Isto é,

Quase nenhuma ação humana tem por sujeito um indivíduo isolado. O sujeito da ação
é um grupo, um “Nós”, se bem que a estrutura atual da sociedade tenda por meio do
fenômeno da reificação a ocultar este “Nós” e a transformá-lo em soma de várias
individualidades distintas e fechadas umas para as outras (...) Uma concepção de
mundo é precisamente este conjunto de aspirações, de sentimentos e de ideias que
reúne os membros de um grupo (ou o que é mais frequente, de uma classe social) e os
35
opõe a outros grupos. (GOLDMAN apud VIEIRA, 1998) .

Assim, tanto o conteúdo dos programas quanto os discursos proferidos por seus agentes
protagônicos demonstram a capacidade de os sujeitos históricos formularem respostas às
intempéries de uma realidade social concreta que encontra razão nas dinâmicas dos grupos
sociais que atuam no conflito classista, permitindo, de modo reiterado, alçar a análise ao campo
da totalidade.

33
Lembremo-nos de que os grandes apelos de campanha de políticos que se colocaram como
“alternativa” a situações político-estruturais mais longas foi o termo “mudança”. Barack Obama colocou-
se, em 2008, como o candidato da “mudança”. No Brasil, o novo marketing político admitido pelo Partido
dos Trabalhadores também imprimiu o “selo da mudança” à campanha de Lula, em 2002, só para citar
dois exemplos conhecidos e próximos de nós. Nesses discursos, a “reforma” aparece mas não com sentido
de reversão estrutural de determinadas institucionalidades, mas sim como apêndice, acessório, da
mudança, perdendo seu sentido progressista.
34
VIEIRA, Evaldo. Ob. Cit., 1998.
35
Id., ibid.

34
O homem torna-se um ser que dá respostas precisamente na medida em que,
paralelamente ao desenvolvimento social e em proporção crescente, ele generaliza,
transformando em perguntas os seus próprios carecimentos e suas possibilidades de
satisfazê-los, bem como na medida em que, na sua resposta ao carecimento que a
provoca, funda e enriquece a própria atividade com estas mediações, frequentemente
bem articuladas. Desse modo, não apenas a resposta, mas também as perguntas são
um produto imediato da consciência que guia a atividade. Mas isso não anula o fato
de que o ato de responder é o elemento ontologicamente primário nesse complexo
36
dinâmico. (LUKÁCS, 2007, p. 229) .

Os discursos proferidos por grandes personalidades que transitam no mundo da


sociedade política refletem a vida e o pensamento dos sujeitos coletivos que os circundam e
com eles se relacionam organicamente, mas não como individualidades iluminadas, que retiram
da cartola mágica respostas aos problemas que se apresentam, mas sim como individualidades
construídas, em um fazer histórico, cujos comportamento, acontecimentos e instituições, com os
quais estão envolvidos, se referenciam ao grupo social, para além dos reflexos imediatos
provindos das determinações econômicas, afinal, o homem faz a sua história, mas não como a
quer (MARX, 1978)37.
Desse modo, no itinerário de busca da configuração do desenvolvimento do capitalismo
brasileiro, destacando nele os momentos de síntese desenvolvimentista, arrolamos como objetos
para análise discursos proferidos pelas autoridades políticas máximas na esfera executiva,
considerando que o período que marca as inflexões de envergadura na implantação do ajuste
neoliberal nos interessou particularmente. Assim, os excertos de discursos analisados de
Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Roussef, ao apresentarem a síntese do que
ensejam implantar no processo de desenvolvimento do Estado/economia brasileira, eivam-se de
fatores subjetivos próprios das disputas que se processam por meio das relações entre o todo e
as partes. De modo contrário, na dinâmica da integração dos elementos ao conjunto, essas
sínteses tornam-se concretas, ainda que tal relação não se construa e nem se evidencie de modo
imediato.
A opção temporal por esse período (1995 ao momento atual) está atrelada à própria definição do
objeto de estudo que, ao estabelecer os nexos relacionais entre o desenvolvimento capitalista (e
o papel protagônico do Estado) e o Serviço Social, identifica um contexto social saturado de
novas determinações que não apenas reconfiguram a relação capital versus trabalho, em níveis
ainda não vivenciados no País, como também faz com que uma nova morfologia do trabalho
obrigue a profissão a ampliar seu dinamismo crítico na construção de respostas ao processo de
36
LUKÁCS, Georg. As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem. (In: O jovem Marx
e outros escritos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007.
p.225-245).
37
MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. (In: Manuscritos econômico-filosóficos e outros
textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Coleção Os Pensadores).

35
lutas antissistêmicas de que participa. O que tem provocado, inclusive, uma profusão difusa das
análises desses mesmos discursos e dos programas por eles anunciados, levando, às vezes, até
no meio acadêmico, a interpretações que conferem autonomia a indivíduos, personalidades
políticas ante o confronto de grupos e classes estruturalmente presentes na realidade social.
Imputações parecidas com: “esqueceu-se do que disse no passado” ou “rendeu-se à ordem”
aparecem na maior parte das análises nos limites da dialética indivíduo/grupo mais próximas da
vontade (idealizada) do que da razão (real/concreta)38.

Os indivíduos podem, sem dúvida (...) separar seu pensamento e suas aspirações da
atividade cotidiana deles; o fato fica excluído, entretanto, quando se trata de grupos
sociais (...). Para o grupo, a concordância entre o pensamento e o comportamento é
39
rigorosa. (GOLDMANN, 1967, p. 19) .

Por conseguinte, a

visão do mundo elaborada pelo grupo (...) só existe nas consciências individuais dos
seus membros e que, em cada uma delas, se apresenta sob a forma de uma maior ou
menor variação de uma mesma estrutura que surge à apreensão global do grupo como
40
um processo de estruturação do conjunto. (GOLDMANN, 1984, p. 26 ) .

O próprio Marx nega a linearidade determinista do caminho que confere autonomia ao


sujeito ante os fatos históricos quando, no prefácio da segunda edição do 18 Brumário de Luís
Bonaparte, critica Víctor Hugo por tratar “o acontecimento” como “um raio caído do céu”, e
Proudhon, por transformar sua narrativa histórica do golpe de Estado “em uma apologia
histórica do seu autor”. Conclui dizendo que ambos caem “no erro dos nossos historiadores
pretensamente objetivos”.
Refere que seu caminho analítico-metodológico se diferencia por “demonstrar como a
luta de classes na França criou circunstâncias e condições que possibilitaram a uma personagem
medíocre e grotesca desempenhar um papel de herói” referindo-se a Napoleão III (MARX,

38
Ao fazer a crítica da autonomia do sujeito perante a realidade social, não estamos desconsiderando o
fato de que os sujeitos históricos participam dos processos em tela por atos contínuos de reciprocidade
com essa mesma realidade, o que configura a elevação do ser social. Desse modo, o lugar e o papel que
ocupam na trama contribui para convocar certas “mediações” que não estão dadas da mesma forma para
todos os seres. Esse processo ficará evidente quando tratarmos, no item 3.3.1 em diante, do fenômeno
batizado por Singer (2012) de “lulismo”. Ali se verifica a centralidade de uma “individualidade”, mas não
se justifica autônoma perante o grupo. O fenômeno está mais próximo daquilo que Weber tipificou como
“liderança carismática”, cujos fins são convergentes: a manutenção do poder de um “bloco no poder”.
39
GOLDMANN, Lucién. Sociologia do romance. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. Ou ver também:
FREDERICO, Celso. A sociologia da literatura de Lucién Goldmann. Revista Estudos Avançados, v.
19, n. 54, São Paulo, maio/ago. 2005.
40
GOLDMANN, Lucién. Espistemologia e filosofia política. Tradução de Conceição Jardim e Eduardo
Nogueira. Lisboa: Presença, 1984. Ou ver também: FREDERICO, Celso. Ob. Cit., 2005.

36
1978, p. 325)41. O que nos leva a analisar com rigor os conteúdos internos dos discursos e suas
imbricações com o grupo, na contemporaneidade, elevados aos níveis globais.
Desse modo, somos induzidos a pesquisar os “atributos teóricos e práticos das
proposições dos sujeitos a fim de corresponder a sua complexidade e revelar o núcleo social de
determinada posição” (GOLDMANN, 1984, p. 26)42, que, como dissemos, são elevados à aldeia
global, na contemporaneidade, a partir do processo de mundialização do capital sentido desde os
anos 80.
Quanto aos componentes relacionais afetos ao Serviço Social, destacam-se duas ordens
de fatores distintos pelas características que apresentam, porém, com unidade causada pelos
processos sociais que os engendram: um deles é a relação ontogenética da profissão com o
capitalismo de tipo monopolista, e, por isso mesmo, com momentos de mais expressão nos
ciclos desenvolvimentistas e o outro são as transformações no mundo do trabalho, decorrentes,
para nós, sobretudo, pelo modo como as respostas dadas ao enfrentamento de refrações da
“questão social” metamorfoseiam-se em conformidade com as metamorfoses da política social
implementada pelo Estado burguês. Isso implica dizer que

(...) a emergência [e o desenvolvimento ulterior]43 da profissão deve sua existência à


síntese das lutas sociais que confluem num projeto político-econômico da classe
hegemônica de manutenção do sistema perante a necessidade de legitimá-lo em
função das demandas populares e do aumento da acumulação capitalista. (...) A
“questão social” não determina, por si só, a gênese do Serviço Social. Ela apenas dá a
base para a emergência da profissão quando se transforma em objeto de intervenção
do Estado, quando surge uma mediação política entre a “questão social” e o Estado;
mediação esta instrumentalizada pelas políticas sociais cujo executor terminal é o
assistente social. (NETTO apud MONTAÑO, 2011, p. 33-34)44.

Com esses elementos, compreendemos sumariamente os componentes que dão


legitimidade ao advento do Serviço Social, mas também à sua reprodução como práxis
socialmente útil45 na esfera da reprodução social.
Como produto histórico, portanto, determinado socialmente, a profissão que se atrela à
relação estabelecida entre o Estado e as classes sociais, pela mediação das políticas, encontra

41
MARX, Karl. Ob. Cit., 1978.
42
GOLDMANN, Lucién. Ob. Cit, 1984. Ou ver também: FREDERICO, Celso. Ob. Cit., 2005.
43
Grifo nosso.
44
MONTAÑO, Carlos Eduardo. A natureza do serviço social: um ensaio sobre sua gênese, a
“especificidade” e sua reprodução. 2. ed., São Paulo: Cortez, 2011.
45
Práxis compreendida como “atividade humana sensível”, como explorado por Marx nas teses sobre
Feuerbach: “A questão se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é teórica, mas prática. É
na práxis que o homem deve demonstrar a verdade, a saber, a efetividade e o poder, a criteriosidade de
seu pensamento. A disputa sobre a efetividade ou não efetividade do pensamento isolado da práxis — é
uma questão puramente escolástica”. MARX, Karl. Teses contra Feuerbach. São Paulo: Abril Cultural,
1978. (Coleção Os Pensadores).

37
razão na esteira mesmo do desenvolvimento capitalista configurado no aprofundamento do
corporativismo de Estado e de políticas desenvolvimentistas, que se repetem desde os anos 30,
no Brasil.
Esse simulacro exógeno rompe com a visão a-histórica e evolucionista da profissão e
permite, ao mesmo tempo, que sejam verificadas as maneiras como os agentes profissionais e os
demandantes dos serviços sociais (chamados de usuários) imprimem razão teleológica a ela,
ainda que sob o movimento de instâncias superiores típicas das lutas que se travam na dinâmica
societária mais ampla.
Dessa forma, os discursos dos agentes profissionais também refletem aspirações dos
sujeitos coletivos com os quais se relacionam, devendo, assim, ser referenciados tanto à
dinâmica societária quanto aos grupos a que pertencem, tal como fizemos com os discursos
presidenciais. Ambos — os discursos presidenciais e os discursos dos agentes profissionais —
se articularão quando têm de tratar do mesmo fenômeno emergente da realidade social: o
desenvolvimento social/capitalista. No caso particular da profissão, pela mediação das políticas
sociais46.

O caminho da profissionalização do Serviço Social é, na verdade, o processo pelo


qual seus agentes — ainda que desenvolvendo uma autorrepresentação e um discurso
centrados na autonomia dos seus valores e da sua vontade — se inserem em
atividades interventivas cuja dinâmica, organização, recursos e objetivos são
determinados para além do seu controle. Esta inserção — em poucas palavras, a
localização dos agentes num topus particular da estrutura sócio-ocupacional —, quase
sempre escamoteada pela autorrepresentação dos assistentes sociais, marca a
profissionalização: precisamente quando passam a desempenhar papéis que lhes são
alocados por organismos e instâncias alheios às matrizes originais das protoformas do
47
Serviço Social é que os agentes se profissionalizam. (NETTO, 2001, p.72) .

Na conjuntura recente do País, esse processo é peculiarmente emblemático, pois está


engrendrado na complexificação das lutas classistas, a partir de dois momentos significativos de
alteração na rota do processo histórico do desenvolvimento capitalista em escala global: o
primeiro diz respeito à alternativa neoliberal, como resposta à crise dos Estados Sociais desde os
anos 70, cujos desdobramentos se dão de modo tardio no Brasil dos anos 90; e, o segundo, está
afeto à substituição desse primeiro projeto — neoliberal — pelo que se convencionou chamar de
social-liberalismo, que passou a funcionar a partir de 2003, acelerando-se a partir de 2007,

46
Portanto, é evidente que tratamos as políticas sociais a partir da sua relação orgânica com a política
econômica e com a política desenvolvimentista.
47
NETTO, José Paulo. Capitalismo monopolista e serviço social. 3. ed., ampl. São Paulo: Cortez, 2001.

38
quando suas medidas de gestão político-econômicas são tratadas pelo discurso oficial como
políticas neodesenvolvimentistas48.
É desse modo que podemos também analisar, pelos discursos e documentos oficiais, os
interesses reais que inflexionam a disputa à realidade mesma e, nela, a profissão na quadra
histórica atual. E, sendo atual, encontramos os registros das manifestações que se travam não
apenas na oficialidade, mas também nos aparelhos da sociedade civil, da mídia à academia, o
que nos obriga a “estudar a descida de suas proposituras das cúpulas da intelligentsia até o
âmbito social, além do modo como suas ideias, influências e assimilações se relacionaram com
os diversos grupos em disputa” (MELO, 2009, p.7)49.
Com a complexificação tecnológica, os instrumentos de comunicação midiáticos
assumem um lugar na arena de disputas ideopolíticas em níveis crescentes. Hoje, se dá, por
exemplo, importância fundamental a campanhas políticas feitas pela Internet. A utilização de

48
Como doutrina econômico-filosófica, o social-liberalismo emerge na Inglaterra na transição do século
XIX para o século XX, no bojo do processo de questionamento dos postulados centrais do liberalismo
clássico; sobretudo, a liberdade. O pensamento de intelectuais como T. H. Green e L. T. Hobhouse
destacam-se. Se, no liberalismo clássico, as liberdades individuais se garantiriam pela lógica do laissez-
faire, com o mínimo ou nenhuma intervenção estatal, no social-liberalismo, essas mesmas liberdades
seriam asseguradas com a intervenção do Estado, promotor das condições sociais e econômicas
garantidoras desse exercício. Como vertente de orientação política, nesse primeiro momento, serve apenas
para ampliar o debate sobre os rumos de orientação do Estado, sendo sufocada tanto pela social-
democracia quanto pela predominância das modernizações conservadoras que se aplicam no âmbito do
próprio liberalismo como forma dominante, em que anos mais tarde se converterá em neoliberalismo.
Desse modo, as teses do social-liberalismo retornarão com força e com novas roupagens, quando a crise
conjuntural da hegemonia neoliberal, já na metade para o fim do século XX, passa a requisitar medidas de
“reparação” das bases de acumulação capitalistas afetadas pela crise, em um contexto em que as
orientações do Consenso de Washington expressavam seus limites. Associa-se a isso, no âmbito mesmo
da crise, a agudização das expressões da “questão social” que passam a ocupar lugar de destaque nas
preocupações da classe dominante neoliberal. Processo que contribui para o advento de teses que vão
desde a “modernização conservadora” do neoliberalismo, sob o signo da “humanização” do sistema, até
as de um campo “pseudo-progressista”, que propagam a reversão da economia que acumula “pelo alto”
pela economia que “acumula a partir da inclusão mercantil” dos “de baixo”. Destacam-se, deste modo,
sujeitos políticos como Amartya Sen (capacidades, capital e desenvolvimento humanos); Anthony
Giddens (com sua Terceira Via); Pierre Rosanvallon (propalando a existência de uma “nova questão
social”, este, inclusive, causando imensa agitação no debate brasileiro sobre a “questão social” no âmbito
do Serviço Social); Joseph Stiglitz (as falhas do mercado e assimetrias comunicativas); Alan Touraine (a
via 2 ½ ); John Williamson (com seu pós-Consenso de Washington); André Gorz (com seu eco-
socialismo e seu “adeus ao proletariado); Alain Lipietz (com seu paradigma ecológico central), dentre
outros. Segundo Castelo, o social-liberalismo no Brasil começa quando a ideologia dominante admite
maior intervenção do Estado na área social, nos idos dos anos 1990. “Os ideólogos neoliberais foram
subitamente tomados de assalto por um certo tipo de humanismo, dotando os seus planos de ajuste
macroeconômico de condicionamentos sociais. Têm-se, assim, uma inflexão do pensamento hegemônico
em relação ao debate sobre mercado e bem-estar social, na qual uma epistemologia de direita –
maximização e otimização dos recursos, escassez relativa, capital humano – é envernizada por uma
suposta ética de esquerda, com palavras de ordem como justiça social, solidariedade, filantropia e
voluntariado. Busca-se uma terceira via, um sincretismo entre o mercado e o Estado capaz de promover o
bem-estar social.” CASTELO, Rodrigo. O social-liberalismo e a globalização da “questão social”.( In: IV
CONFERÊNCIA INTERNACIONAL "LA OBRA DE CARLOS MARX Y LOS DESAFÍOS DEL
SIGLO XXI”, 2008).
49
MELO, Wanderson Fábio. Institucionalização e modernização: o debate no Senado Federal entre
Fernando Henrique Cardoso e Roberto Campos (1983-1989). Tese (Doutorado em História Social)-
Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), 2009.

39
redes sociais extrapola a esfera do entretenimento e atinge todo o âmbito das formas de
reprodução espiritual da sociedade.

Hoje a comunicação falada é um meio de difusão ideológica que tem uma rapidez,
uma área de ação e uma simultaneidade emotiva enormemente mais amplas do que a
comunicação escrita (...) o cinema e o rádio superam todas as formas de comunicação
50
escrita, desde o livro até a revista, o jornal. (GRAMSCI, 2002) .

O autor dos Cadernos do Cárcere, mesmo não tendo vivido a revolução da Internet, já
atribuía à imprensa e aos meios de comunicação em geral importância fundamental no campo da
disputa de “ideias” capazes de promover o que Gramsci chama de “reforma intelectual e moral”
da sociedade subvertendo toda “a cultura”. Como agentes privados de hegemonia, esses
“aparelhos” não se constrangem, ao reproduzir projetos políticos que tenham convergência a
seus interesses, por isso, se fazem de uma importância crescente para os sujeitos políticos que
querem potencializar suas “armas” para a disputa. O objetivo é, como se sabe, formar consensos
coletivos por meio da opinião pública.

O que se chama de “opinião pública” está estreitamente ligado à hegemonia política,


ou seja, é o ponto de contato entre a “sociedade civil” e a “sociedade política”, entre o
consenso e a força (...) A opinião pública é o conteúdo político da vontade política
pública, que poderia ser discordante: por isso, existe luta pelo monopólio dos órgãos
da opinião pública — jornais, partidos, Parlamento —, de modo que uma só força
modele a opinião e, portanto, a vontade política nacional, desagregando os que
51
discordam numa nuvem de poeira individual e inorgânica. (GRAMSCI, 2002b) .

No Brasil contemporâneo, o longo período de democracia liberal de massas que


vivemos consolidou a ideia de esses aparelhos funcionarem como agentes poderosos de
formação da opinião pública, e suas liberdades tornam-se tão sagradas quanto as liberdades do
mercado. Desse modo, percebemos que as disputas em torno de um projeto
neodesenvolvimentista que se possibilita a partir das configurações de um neoliberalismo com
traços tipicamente verde e amarelo, o que denominamos de neoliberalismo à brasileira 52 (ou
pelo advento do social-liberalismo com traços peculiares) se espraiam para todos os agentes
privados de hegemonia — universidades, escolas, rádio, televisão, partidos políticos,
movimentos sociais, Parlamentos, etc. —, animando as disputas, mas também os debates em

50
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 4, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
51
Id., Ibid., v. 3.
52
Vide item 3.3.1.

40
torno da temática do desenvolvimento com efeitos progressivos e regressivos ao mesmo
tempo53.
É nesse ínterim que o projeto profissional do Serviço Social é convocado a atuar. Nessa
disputa por hegemonia, se colocam possibilidades de interveniência nos campos constitutivos
dos “complexos sociais particulares”, na prospecção de um tipo alternativo de um complexo
social macroscópico alternativo ao que está subsumido pela ordem do capital. Saturando a
realidade, descobrem-se os caminhos.

Sobre a exposição

A rota que ampara a exposição é resultado de uma escolha racional mais afeta à
pretensão de certo didatismo, do que necessariamente uma indicação metodológica unívoca,
pois o percurso da investigação não se deu na mesma ordem em que a exposição ocorre. E nem
é necessário que assim seja, como demonstra nosso mestre alemão no processo de elaboração de
sua obra magistral: Das Kapital.

É mister, sem dúvida, distinguir, formalmente, o método de exposição do método de


pesquisa. A investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de
analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de perquirir a conexão íntima
que há entre elas. Só depois de concluído esse trabalho, é que se pode descrever,
adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhada, no plano
ideal, a vida da realidade pesquisada, o que pode dar a impressão de uma construção a
priori. (MARX,1971, p. 16)54.

O esforço de tornar a exposição inteligível — e acessível — nos levou a utilizar


inúmeras referências, algumas recorrentemente já abordadas em nossa área acadêmica, outras
nem tanto, mas todas referidas ao raciocínio apresentado como forma de ilustrar, esclarecer,
complementar, ou agregar sentido ao que se argumenta. Indiretamente, também se pode ter
como resultado o indicativo de estudos a posteriori, que podem tornar aquilo que aqui se tem
algo mais acabado.
Cumpre-nos, dessa forma, apelar à paciência dos leitores, diante de extensas citações
que buscam preservar o fio condutor das análises em que estão inseridas para, desse modo, seus
autores participarem ativamente da exposição, pois, com eles, através de suas produções,
dialogamos intensamente.

53
Progressivos quando permitem a politização da vida social, convocando os “cidadãos comuns” a
debaterem os rumos ético-políticos das medidas, e regressivas, quando os mecanismos da disputa pela
hegemonia consagram a prevalência do conservadorismo e conseguem, como também apontou Gramsci,
espraiar para toda a sociedade o projeto societário burguês como sendo o projeto de toda a sociedade.
Tratamos disso no Capítulo 4.
54
MARX, Karl. O capital. Livro I, v. I, Pósfácio da 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

41
Esses diálogos e sua narrativa se fundam na análise histórica entendida como a melhor
forma de desvendar o que há de determinismos dialéticos nas relações próprias do objeto de
estudo. Todavia, isso não significa o desprezo ao modo lógico de análise, ao contrário, como
dissemos alhures. Buscamos estabelecê-los como dois níveis de uma mesma unidade, ou seja,
como um duo dialético que nos eleva do particular para o geral, mas também possibilita o
caminho de volta capturando todas as mediações necessárias que lhe são constitutivas55.
Assim, no Capítulo I, optamos por trazer as bases epistemológicas do pano de fundo em
que as argumentações posteriores se assentam. Não se trata do objeto em si, mas do modo como
ontogeneticamente foi se configurando ao longo dos tempos, como conhecimento e prática.
Primeiro, tratamos de resgatar um pressuposto indispensável. Referimo-nos ao fato de
que o Estado só existe, seja como construção mental, seja como algo materialmente entificado,
no âmbito da racionalidade humana. Fora do projeto racional, é algo etéreo e amorfo. Prova
disso é o fato de ser matéria fundante de campos do conhecimento que se dedicam ao estudo da
vida humana nas suas mais amplas dimensões, na esfera mesma das ciências humanas. Por isso
esses estudos não têm forma acabada, assim como o Estado também não a tem56.
Não obstante, sua forma inaugural, como objeto de interesse científico, data em
consonância com o projeto racional ilustrado, que coloca o homem no centro dos
acontecimentos cognoscíveis. Nesses ínterim e contexto, batizam a dinâmica na qual as relações
humanas acontecem de modo pensado de Política. Ao dar nome ao conjunto das relações,
conseguem também tratá-las no campo do conhecimento, estabelecendo, a partir daí, um
caminho sem reverso, ou seja, surgem ciências destinadas a pensar os aspectos relacionais da
condição humana com destaque para as relações de poder, as estruturas sociais em que essas

55
E o recurso à história é, ao mesmo tempo, o recurso à razão, afinal “o conteúdo da razão é aqui o
mesmo conteúdo de história, embora por conteúdo compreendamos não a miscelânea de fatos históricos,
mas o que faz da história um todo racional: as leis e tendências para as quais os fatos apontam, e das quais
eles recebem sua significação”. Por isso mesmo, além das notas e referências extensas, o próprio texto
apresenta-se, em quantidade, acima da média convencionada para estudos dessa ordem na
contemporaneidade, pois a inquisição da razão histórica nos interpelou a associar o modo descritivo e
analítico culminando na densidade qualitativa do ensaio. (In: MARCUSE, Herbert. Razão e revolução:
Hegel e o advento da teoria social. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 195).
56
Não se trata de afirmar que o Estado é, assim, infinito. Ao contrário, enquanto perdurar a luta de classes
ele permanece como “instrumento e agente” da configuração dos interesses burgueses, contudo, se
transforma, ao sabor das “mudanças” que ocorrem no movimento entre e intraclasses decorrentes da
dinâmica processante da produção social. Do mesmo modo como objeto de interesse científico:
“permanece enquanto a luta de classes permaneça latente ou se revele apenas em manifestações
esporádicas” (MARX, 1971, p. 10). Ele deixa de existir quando superada a lógica da dominação burguesa
e instalada a “ditadura do proletariado”. (MARX, 1978). Ou, “a condição da libertação da classe laboriosa
é a abolição de toda classe, assim como a condição da libertação do terceiro estado, da ordem burguesa,
foi a abolição de todos os estados e de todas as ordens (MARX, 2009). Essa afirmação sumária será mais
bem abordada no desenvolvimento da tese que estamos apresentando. Ver: MARX, Karl. O capital.
Livro I, v. I, Pósfácio da 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. MARX, Karl. O 18 brumário
de Luís Bonaparte. (In: Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril
Cultural, 1978. Coleção Os Pensadores). MARX, Karl. Miséria da filosofia: resposta à filosofia da
miséria do Sr. Proudhon. Tradução de José Paulo Netto. São Paulo: Expressão Popular, 2009. p.124.

42
relações se assentam, as maneiras como se vive e sobrevive em sociedade; antes, o que é
sociedade, e assim por diante.
Deste modo, o Capítulo I inicia-se com a tentativa de resgatar, historicamente, como a
dimensão política da vida social foi se configurando em matéria de análise científica e, ao
mesmo tempo, como parâmetro de organização dessa mesma vida social, requisitando, para
isso, formas particulares de exercício de poder.
Como os homens não são iguais, suas ideias também não são iguais, logo, toda a
necessidade de ordem racional das coisas da vida social é controversa. Assim emerge a
problemática do Estado, fundada nas controvérsias sobre as razões e o modus operandi do
exercício do poder.
Intelectuais e estadistas se envolvem com o assunto desde remotos tempos. Arrolamos,
assim, as abordagens mais significativas, ao menos no uso acadêmico corrente, no intuito de
refazer com elas o percurso evolutivo, porém não linear, da razão moderna voltada para os
aprofundamentos teóricos e práticos da problemática com que se ocupam.
Ao longo do tempo, percebemos que a maior parte dessas elaborações acaba por se
constituir em matrizes de pensamento, que são diversificadas, por legatários diferentes,
conforme seus interesses particulares e também do grupo social a que se vinculam.

Isto é, o conjunto de significações do pensamento de determinado autor compõe


parcela da realidade e por este motivo não pode deixar de ser integrada no âmbito do
comportamento de um grupo social. Isto nos libera de uma elaboração de tipo
meramente biográfico quando nos remete às mediações que provocam
discrepâncias entre as pretensões do autor e o significado de sua obra
57
atribuído por ele mesmo e por outrem. (VIEIRA, 1981, p. 16) .

Por isso, fomos de Maquiavel a Hegel, de Marx a Mandel, de Benjamin Constant a


Hayek, com direito a interlúdios em Durkheim e Weber, abordando suas elaborações originais,
as escolas que fundam, e seus desdobramentos nas tintas de outros autores, na releitura de seus
textos e analisando seus conteúdos.
Evidentemente que não se trata de apuração das possíveis teorias do Estado contidas nas
formulações dos intelectuais citados, ainda que este seja um relevante e prazeroso exercício,
antes, o que queremos é explicitar a construção e evolução de um pensar crítico sobre o Estado,
que interrelaciona normatividade e operatividade como meio embrionário para uma
contribuição ao estudo sobre o Estado na contemporaneidade, em tempos de acirramento das
perversidades do capitalismo e porque, nessa evolução de pensamento, estão as chaves

57
VIEIRA, Evaldo. Autoritarismo e corporativismo no Brasil: Oliveira Vianna & companhia. São
Paulo: Cortez, 1981.

43
heurísticas que esclarecem os modos históricos com que se concretiza o desenvolvimento da
ordem do capital.
Assim, a parcela do projeto racional dedicada às relações de poder que supõem o Estado
como o ente central dessas relações foi sumarizada a ponto de nos esclarecer o intrínseco
componente de desenvolvimento que está nela contido quanto nas instâncias com que
fatalmente se relaciona. O recurso aos clássicos não se fez por diletantismo, mas sim por sua
relevância histórica, por seus conteúdos atemporais, bem como por suas constantes reposições
na vida prática enfeixadas em várias formas de “neos” — neomarxismo, neopositivismo,
neoliberalismo, neokeynesianismo, neodesenvolvimentismo, neoconservadorismo, e assim por
diante.
No Capítulo II traçamos nova tentativa. Empreendemos esforços para propor uma linha
de interpretação histórica que desse conta de evidenciar a inter-relação entre duas de nossas
grandes categorias de trabalho: Estado e Desenvolvimento Capitalista, particularizados no
contexto brasileiro. Procuramos buscar na dinâmica mais fundamental de funcionamento da
formação social capitalista como se constitui a necessidade imanente dessa formação
empreender processos “evolutivos”, quais as características genéricas e particulares desses
processos, quais as correlações de força que disputaram a hegemonia dos “aparelhos privados de
hegemonia” na sociedade civil e como a luta entre classes e frações de classes condensaram no
Estado seus interesses.
Levantamos, nesse capítulo, de modo muito breve, as interpretações mais recorrentes,
em nossos compêndios de história socioeconômica, sobre o que vivemos de
desenvolvimentismo. Ainda que o uso desse termo nos surja na memória como algo recente, de
influência cepalina 58 , as protoformas de medidas planejadas de desenvolvimento capitalista,
emanadas de um poder central, podem ser buscadas já no Brasil colonial.
É difícil precisar o início do desenvolvimentismo no Brasil. Uma certidão de
nascimento desse processo seria tão provisória quanto contestada. Há várias alternativas que, se
sujeitando tão somente a nossas preferências racionais, podem iluminar alguns caminhos. Uma
delas é identificar a indissociabilidade — orgânico-estrutural — entre capitalismo e
desenvolvimento e, na tarefa difícil de precisar o início do capitalismo, incluir na narrativa seu
inerente desenvolvimento, uma vez que suas características inaugurais pressupõem mudanças
evolutivas substantivas nas forças produtivas, fulcro do desenvolvimento de tipo capitalista.
A escolha desse percurso, embora racional, não se mostra razoável para um trabalho
acadêmico que deve se ater a um foco e buscar prescrição mais que descrição de fatos históricos
— caso se busque cumprir os objetivos formais de uma tese de doutorado —, por isso,
vislumbramos outra alternativa.

58
Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), organismo da ONU.

44
Sem abrir mão de passar em exame as características fundantes do capitalismo, em
correlação com as mediações que unem seus nexos internos ao desenvolvimento, podemos
estabelecer parâmetros característicos do fenômeno desenvolvimentista — tomando-o como
produto histórico —; verificar sua recorrência; analisá-lo a luz da conjuntura; identificar as
particularidades estruturais em que se assenta e as inflexões que provoca nas relações sociais.
Enquanto metodologia, esse caminho pouco difere do anterior, pois a descrição e a prescrição
do primeiro podem utilizar-se dessas etapas para tornar suas análises mais científicas que
ideopolíticas.
A diferença está em que o uso desse caminho, para nós, pressupõe recortes temporais e
espaciais mais precisos, obrigando o pesquisador a se manter no trânsito ininterrupto entre as
determinações gerais e particulares do fenômeno, buscando o equilíbrio entre elas, saindo disso
apenas para efeitos narrativos, mas não para fins analíticos, pois se trata de uma realidade não
fragmentada.
Considerando que desse processo inevitavelmente emergem correntes categoriais de
raciocínio e de explicações, o percurso metodológico sugerido não pode existir em abstrato — o
primeiro poderia optar pela dedução. Se não for capaz de afirmar-se no real, antepondo-se a
outro real, como síntese, o fenômeno/processo histórico do desenvolvimentismo deixa de existir
enquanto expressão das contradições engendradas no processo dinâmico da luta de classes59.
Se “o concreto é concreto porque é síntese de múltiplas determinações”, então, nos
cabe identificar as determinações fundantes do fenômeno eivadas de mediações que expõem a
totalidade da vida social.
Como não se trata de promover a releitura da história, mas sim de buscar nela os
episódios que nos interessam, ainda que estejam sempre vinculados a muitos outros, cinco
períodos históricos se destacaram: a estruturação do Estado republicano, a crise do café, a Era
Vargas, o Plano de Metas de Juscelino Kubistchek, e o desenvolvimentismo no modo
autocrático burguês.
Os cinco períodos são bastante distintos, do ponto de vista das determinações
conjunturais, e, em certa medida mesmo das determinações de tipo estrutural, contudo, há uma
característica comum a todos eles, que lhes confere certa unidade, articulando-os no tempo

59
Refere Marx: “Mais uma vez que a razão conseguiu pôr-se como tese, esta tese, este pensamento,
oposto a si mesmo, desdobra-se em dois pensamentos contraditórios, o positivo e o negativo, o sim e o
não. A luta entre esses dois elementos antagônicos, compreendidos na antítese, constitui o movimento
dialético. O sim tornando-se não, o não tornando-se sim, o sim tornando-se simultaneamente sim e não, o
não tornando-se simultaneamente não e sim, os contrários se equilibram, neutralizam, paralisam. A fusão
desses dois elementos contraditórios constitui um pensamento novo, que é a sua síntese. Este novo
pensamento se desdobra ainda em dois pensamentos contraditórios que, por seu turno, se fundem em uma
nova síntese. Deste trabalho de processo de criação nasce um grupo de pensamentos. Este grupo de
pensamentos segue o mesmo movimento dialético de uma categoria simples, e tem por antítese um grupo
contraditório. Destes dois grupos de pensamento nasce um novo, que é sua síntese”. (In: MARX, Karl.
Miséria da filosofia: resposta à filosofia da miséria do Sr. Proudhon. Tradução de José Paulo Netto.
São Paulo: Expressão Popular, 2009. p.124).

45
histórico e ao que há de peculiar no Brasil: em todos eles se percebe a exclusão de momentos
radicais do tipo revolucionário jacobino. Dito de outro modo, são todos momentos de revolução
passiva60, em termos gramscianos.
Além disso, se percebe ainda que, desde sempre, as correntes que propugnam por um
desenvolvimentismo articulado entre capital nacional e estrangeiro apresentam uma força diante
da diversidade do bloco no poder. Essas correntes conseguem ora a hegemonia ora impingir a
parte estruturante de seus interesses na formação da hegemonia de outra fração da classe
burguesa no bloco dominante.
Desse modo, a interpendência das relações capitalistas contemporâneas, acirrada com a
mundialização do capital, é apenas o reflexo dessa “fase superior do imperialismo” em versão
high tech, como anunciara Lênin em sua antecipação da fase financista do capital, que agora
assistimos com maior vigor.
Uma última peculiaridade que levantamos, mas não derradeira, de todo o processo
estudado, é o modo desigual como o nacionalismo se configura como amálgama ideológica das
disputas pelo desenvolvimento. É uma ideologia mutante, capaz de aderir em separado, ou ao
mesmo tempo, a diferentes correntes de pensamento, sejam elas complementares ou
antagônicas, assumindo a forma de seus protagonistas (e vice-versa) e se apresentando sempre
como culturalmente superior.
Os momentos de síntese do desenvolvimentismo brasileiro são interrompidos por uma
conjuntura que assiste a um duplo movimento: a redemocratização do País associada à
implantação da agenda de ajuste neoliberal. Embora a implantação mais drástica e efetiva de tal
agenda só se faça sentir nas quadras dos anos 90, o cenário pautado por amplas experimentações
de caráter socioeconômico é que lhe abrem caminhos.
O caso mais emblemático das protoformas do ajuste são os planos de estabilidade
econômica, que só fizeram por arruinar o pouco que havia se conseguido em termos de
desenvolvimento com os ciclos desenvolvimentistas anteriores. O Plano Cruzado, o Plano
Bresser, o Plano Verão e os Planos Collor I e II lançam as bases para o neoliberalismo, mas
sequer se aproximam dos seus postulados mais fundamentais.
É somente com o Plano Real, responsável pelo controle inflacionário, que a agenda
toma corpo; afinal, a diretriz da estabilidade monetária figura como um dos princípios basilares
nas cartilhas dos organismos multilaterais desde o Consenso de Washington. A opção, para esse
capítulo, foi a ênfase em uma narração descritiva, pois se buscou trazer ao debate os elementos
que informam fases substantivas do processo de desenvolvimento do capitalismo e Estado
brasileiro para que, no avançar das argumentações, pudéssemos identificar a dialética de
continuidade e ruptura em uma realidade saturada de novas determinações.

60
Ver nota de rodapé 9.

46
Assim, estão dadas as bases para problematizarmos as conjunturas mais próximas de
nós, que trazem como epicentro do processo de acumulação a contrarreforma do Estado e
adaptações verde e amarela no processo de inflexão social-liberal. O eixo fundante, pois, do
Capítulo III, consiste no caminho sugerido pelo método da economia política, que entende o
desenvolvimento econômico como o “mito fundador” do capitalismo, sustentado na exploração
da força de trabalho em níveis sempre crescentes.
A necessidade de desenvolvimento desse modo de acumulação está, assim, ancorada em
duas variáveis estruturais: o trabalho livre ascendente e, em mesmo nível, a expropriação desse
mesmo trabalho livre, que, em última análise, nos remete aos diferentes tratamentos dados ao
valor trabalho.
Ocorre que o objetivo dessa exploração do homem pelo homem está na extração
exponencial da mais-valia. Desse modo, o aumento da produtividade coloca-se como condição
que, para existir, se faz necessário o desenvolvimento dos meios de produção em ato análogo ao
desenvolvimento das forças produtivas, processo ininterrupto.
Emerge daí a contradição fundamental do modo capitalista de produção: a reiteração do
sentido coletivo do trabalho, o que lhe confere, nesse processo, um caráter altamente
civilizatório e a apropriação privada não apenas dos meios e modos de trabalho, mas também
dos resultados dessa produção, a riqueza socialmente produzida.
Portanto, desenvolvimento e capitalismo formam a unidade que confere sentido à
expropriação do trabalho e sua alienação. Mas nem o desenvolvimento nem o capitalismo
existem em abstrato e muito menos o modo como se expressam concretamente pode abrir mão
de instituições concretas que atuem no nível ideopolítico intentando alcançar seus objetivos de
manutenção e reprodução.
Por isso mesmo, todas as elaborações teóricas e práticas feitas pelos intelectuais e
estadistas, que elencamos no Capítulo I, contribuem para esse caminho, pois colocam o Estado
como um sujeito indispensável para as provocações do desenvolvimento nas sociedades de tipo
capitalista, mas também no socialismo61.
E sendo, o Estado, uma espécie de “síntese” da diversidade social, a forma que
assumem suas instituições tende a ser coerente com o que protagoniza o modo de produção e as
classes no poder. Assim, o desenvolvimento em ação, com protagonismo ou não do Estado,
pode ser facilmente identificado como desenvolvimentismo.
O movimento de ordem global, que leva a desterritorialização do capital, reedita as
velhas formas de dependência econômica dos países da periferia capitalista, em relação ao
centro, agudizando a dependência. No Brasil, esse movimento é sincronizado à implantação do
neoliberalismo, nos anos 90, que se dividirá em duas fases, conforme nossa construção teórica.

61
Embora o socialismo não seja nosso foco, não podemos passar ao largo da importância do Estado para
as sociedades desse tipo, tanto as “pensadas” quanto as efetivamente “realizadas”.

47
A primeira é marcada pelo contrarreformismo do Estado e terá como características
estruturais ampla agenda de privatização, ofensiva liberalização econômica e todos os
sacrifícios sociais pensáveis em nome da estabilização monetária. A segunda etapa logra do
espólio ambiguamente bendito e maldito da primeira. Bendito, pois recebe o programa de
estabilização monetária (o plano real) consolidado e com seu manual para manutenção
acabados, o que abre espaço para a implantação de medidas não econômicas de cunho eleitoral e
populistas. Maldito, pois os custos sociais do ajuste atingem desde a máquina estatal sucateada,
passando pelos baixos índices de crescimento até a deterioração das condições de reprodução da
classe trabalhadora.
Oportunisticamente, os governos que recebem esse espólio, a partir de 2003, embora
mantenham os eixos fundantes do ajuste — sobretudo a política superavitária e a ausência de
reformas de base e estruturais — modificam as estratégias, promovendo nova concertação entre
Estado–mercado–sociedade, ou em outros termos, uma modernização conservadora das relações
capital-trabalho, ou, nos dizeres de Singer (2012), uma reforma gradual e um pacto conservador.
Negada, pelo discurso oficial, que se trata de um novo ciclo, mais maduro, de
implantação da ofensiva neoliberal, a programática é transmutada em forma de novo
desenvolvimentismo, baseado no crescimento econômico sustentável e na distribuição de renda
para equidade e justiça social. Uma nova geração de políticas sociais se institui de modo
ascendente, em especial as que têm, para este projeto, caráter redistributivo, ao mesmo tempo
em que reformas por dentro causam um movimento regressivo em outras áreas sociais, como a
previdência e a educação, por exemplo.
Assim, no Capítulo III, argumentamos, sob as características factuais desse processo,
que não se trata de um novo-desenvolvimentismo, mas sim de um tipo peculiar de
neoliberalismo, uma nova fase amoldada à realidade e às especificidades do País: um
neoliberalismo à brasileira.
No Capítulo IV vai se delineando, por meio também de resgate histórico, as relações
que se estabelecem entre Serviço Social – Estado – Desenvolvimento. Ali, vamos recuperando o
que já se sabe sobre a profissão, como sua imersão dualista no modo capitalista de produção e
vida, como meio de evidenciar que são as contradições da sociedade em que se insere que são
tomadas como suas próprias contradições, bem como algumas de suas características essenciais,
como o desenvolvimento, como seu componente imanente.
A base para essa discussão ancora-se naquilo que, de fato, se tornou a intenção em
última instância de nossa análise. Ou seja, ao concordarmos com a literatura corrente do Serviço
Social, que nos mostra que a profissão só pode ser entendida no contexto das relações sociais —
no âmbito da produção e reprodução social — próprias da sociedade da qual é parte e expressão,
e, ainda, nos mostra também que a gênese, a manutenção e o dinamismo histórico particulares
da profissão estão diretamente vinculados aos momentos em que a sociedade que lhe requisita é

48
submetida, por intermédio do Estado, a medidas deliberadamente planejadas de
desenvolvimento, concluiremos o que a literatura também já explorou, que é o entendimento de
que Serviço Social e o desenvolvimento capitalista compõem uma unidade de contrários, em
atração e retração contínuas próprias das contradições que sustentam a reprodução social de
caráter burguês, condicionadas a múltiplas determinações gerais e singulares dos processos
históricos de cada sociedade.
Desse modo, a particularidade dessa relação, no caso brasileiro, estudada por
pesquisadores como Marilda Villela Iamamoto, Raul de Carvalho, José Paulo Netto, Maria
Lúcia Martinelli, Maria Carmelita Yazbek, Leila Lima Santos, Vicente de Paula Faleiros, em
direções distintas, porém convergentes, ao tratar das imbricações ontogenéticas do Serviço
Social com o capitalismo monopolista nos caminhos da crítica marxista, só para citar alguns
nomes, encontra nas transformações conjunturais recentes, sobretudo aquelas afetas ao âmbito
das estruturas jurídico-políticas do Estado, requisição para ser revisitada, pois trabalhamos a
hipótese de que essa conjuntura também é uma espécie de revisitação de um passado não muito
distante.
Em outros termos e em traços largos: O Serviço Social brasileiro surge e se justifica no
contexto das medidas de desenvolvimento traçadas na Era Vargas, que, como todas as medidas
de desenvolvimento clássicas pressupõe um reordenamento da chamada área social, como forma
de garantir um duplo resultado: a reposição e o controle da força de trabalho, associados à
manutenção e/ou ampliação dos níveis de consumo e, por consequência, de acumulação.
Para isso, os assistentes sociais ocupam a linha de frente desse processo, atuando junto à
classe subalterna, na pretensão de incorporá-la à lógica concreta e subjetiva da sociedade de
mercado. É assim nos contextos históricos que se sucedem: no desenvolvimentismo
empreendido por Juscelino Kubistchek com seu Plano de Metas; e no desenvolvimentismo
praticado pelos governos militares com vistas à modernização conservadora.
Assistimos a uma interrupção do uso dessas clássicas estratégias de desenvolvimento62
quando a crise do capital, em prenúncio de seu modo financista avançado, impõe o
reordenamento dos Estados nacionais sob o signo do neoliberalismo. Isso redundou no
enxugamento das máquinas estatais na lógica de um desmonte, na retração de conquistas
históricas da classe trabalhadora configuradas, sobretudo, no campo dos direitos sociais, na
agudização da relação de interdependência econômica dos países subdesenvolvidos e dos países
em desenvolvimento aos de capitalismo central e no deslocamento do enfrentamento das

62
Claro que essas estratégias se associam a outras e que estão condicionadas às características próprias do
seu momento histórico. Contudo, o que arrolamos aqui é um pressuposto fundamental que, embora possa
aparecer de modos diferenciados em cada conjuntura, mantém sempre o seu fim último que é participar
positivamente das medidas de desenvolvimento empregadas pelo Estado acriticamente, como foi no
passado, ou criticamente, como se faz na contemporaneidade.

49
variáveis da “questão social” do âmbito do Estado para a sociedade civil com o desmonte das
políticas sociais e o apelo ao voluntarismo e ao associativismo civil, dentre outras medidas.
A substituição da trajetória histórica da implantação de medidas de desenvolvimento de
tipo tradicional pelo neoliberalismo rebateu na profissão de várias formas, mas vale destacar um
duplo movimento: de um lado, acelerou o processo de incorporação das matrizes do pensamento
social crítico, aprimorando com seu uso as diferentes formas do exercício e da formação
profissional, o que possibilitou a construção de molduras mais maduras para o projeto
profissional; e, por outro lado, assistiu-se à precarização da natureza das relações e condições de
trabalho com a gestão flexível dos processos de trabalho — contratos precários, parciais,
temporários, por projeto, terceirizados, etc. —, associada à redução de postos não apenas pelo
desmonte das políticas públicas, mas também pela implantação do voluntariado em larga escala.
A história nos mostra que o conjunto das condições econômicas e políticas do período
seguinte leva o País a apresentar uma série de novos arranjos econômicos voltados para o
desenvolvimento amalgamados pela ofensiva ideológica do novo desenvolvimentismo. Isso foi
possível graças a um contraditório e perverso arranjo. De um lado, a propagação (à direita e à
esquerda) do fracasso não assumido do neoliberalismo, sobretudo em suas promessas de
inflexões positivas na agenda social de bem-estar e, por outro lado, as críticas (à esquerda) do
sucesso da ofensiva neoliberal por alcançar tanto a estabilidade (com a política superavitária e
de juros altos) quanto por possibilitar a emergência de uma nova oligarquia: a financeira63.
Ocorre que essa retomada é feita sob condições históricas muito peculiares64, o que nos
obriga a investigar seus nexos internos para trabalhar no limiar da hipótese de sua própria
(in)existência. Mas isso se atrela a outra evidência, que se problematizada corretamente pode
nos levar a respostas, ainda que parciais, sobre o entendimento do momento presente, qual seja:

63
A não realização do neoliberalismo nos moldes do que foi orientado no Consenso de Washington e
publicado nas cartilhas das agências multilaterais, com vistas ao ajuste e ao contrarreformismo dos
Estados, é um argumento utilizado por vários ensaístas nas mais diferentes teses. No Brasil, o
contrarreformismo de FHC e Bresser Pereira é tratado como algo interrompido, por analistas que
identificam que a privatização absoluta, como o principal pilar de sustentação do contrarreformismo, não
chegou a se realizar, em virtude da derrota do PSDB nas eleições de 2002. A Privataria Tucana, livro-
dossiê do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, de 2011, mostra tal interrupção. Mas há ainda aqueles que,
como Behring (2003, p. 102) identificaram, com cautela, “sinais de esgotamento” da programática
neoliberal decorrentes dos resultados da eleição de 2002. Há os que evidenciam “mudanças na
continuidade”, como é o caso de Boito Jr. (2005) ao tratar da Reforma do Neoliberalismo no governo
Lula, e, o mais surpreendente, é o reconhecimento recente de Bresser Pereira de que há, de fato, um
esgotamento do modelo praticado no Brasil dos anos 1990 (Vide entrevista concedida por Bresser Pereira
à revista Desafios do Desenvolvimento, de abril de 2008, ano 5, n. 42). Mas há, por outro lado, produções
como as de Filgueiras (2006) que demonstram de modo claro e objetivo a vitória da programática
neoliberal.
64
Algumas produções podem ajudar a compreender melhor o que estamos chamando de condição
histórica peculiar, como, por exemplo: IASI, Mauro Luis. As metamorfoses da consciência de classe o
PT entre a negação e o consentimento. São Paulo: Expressão Popular, 2006; VIANNA, Luiz Werneck.
Esquerda brasileira e tradição republicana estudos de conjuntura sobre a era FHC-Lula. Rio de
Janeiro: Revan, 2006 ou ANTUNES, Ricardo. A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e
Lula). Campinas/SP: Autores Associados, 2004. Cada qual a seu modo.

50
a reconfiguração das políticas sociais contida no novo-desenvolvimentismo recompõe o lugar
que ocupam os assistentes sociais na divisão do trabalho, assim, havendo de fato novo-
desenvolvimentismo, há um novo Serviço Social que o acompanha? De que forma isso ocorre?
Nessa inquietação residem os motivos da investigação que levam, ainda nesse capítulo,
a reflexões sobre a particularidade desse momento neodesenvolvimentista (?) deparar-se com
um projeto profissional que já é capaz de decifrar suas contradições, bem como seus reais
intentos e, ao mesmo tempo, propor a inserção crítica dos profissionais no mundo contraditório
e conflituoso do trabalho.
Não menos significativo é o amadurecimento teórico-analítico que o Serviço Social vem
registrando, ao longo das últimas décadas. Desse modo, recortes da realidade contraditória e
perversa são feitos em forma de estudos analíticos, que permitem, além de desvendar o real nele
mesmo, propor estratégias para seu enfrentamento.
Categorias centrais como trabalho, Estado, Serviço Social e Desenvolvimento
Capitalista encontraram, assim, na passagem para o novo século, formulações indispensáveis
para seu entendimento na perspectiva da totalidade. As teses sobre a reestruturação produtiva, a
contra-reforma, o terceiro setor e a assistencialização da proteção social agregam sentido
ineliminável ao entendimento do Serviço Social nas tramas do neoliberalismo à brasileira.
Levam-nos, ainda, a sugerir de modo inferente possibilidades ao projeto profissional na
conjuntura em tela.
Assim, se o novo desenvolvimentismo (?) é um momento peculiar de síntese do
desenvolvimento capitalista que “captura” o Serviço Social nas malhas das contradições que
expressa, é possível, do mesmo modo, capturar as lacunas e limites que apresenta como formas
objetivas e concretas de iluminar e instrumentalizar um projeto profissional de bases ética e
política antissistêmicas.
Temos clareza de que o ensaio teórico que apresentamos como forma de tese de
doutorado é tão relativo quanto insuficiente, devendo, deste modo, ser submetido à crítica
própria dos processos que fazem avançar o conhecimento.

51
Capítulo I

ESTADO E RAZÃO MODERNA

É evidente que a consciência dos homens continuará a ser determinada pelos


processos materiais que reproduzem a sociedade, mesmo quando os homens
tiverem chegado a regular suas relações sociais de modo que estas melhor
contribuam para o desenvolvimento de todos. Mas quando estes processos
materiais se tiverem tornado racionais, resultando do trabalho concreto dos
homens, a dependência cega da consciência às relações sociais terá deixado
de existir. A razão, quando determinada por condições sociais racionais, é
determinada por si mesma. A liberdade socialista abarca ambos os lados da
relação entre consciência e a existência social

Herbert Marcuse

A preocupação dos seres humanos em explicar os fatos e fenômenos que circundam a


sua vida é tão antiga quanto sua própria existência. Nessa preocupação reside a origem de
descobertas científicas fundamentais ao processo civilizatório de nossa espécie.
Após séculos de explicações atribuídas a vontades sobrenaturais, a humanidade indaga
sobre a necessidade de encontrar respostas nas coisas, nelas mesmas, e vê no homem o agente
nuclear de seu próprio destino.
Nos enciclopedistas franceses, na Astronomia e Física, com Pascal e Newton; na
Química, com Lavoisier; na Matemática, com Descartes; na Medicina e Biologia, de Hipócrates
a Darwin; nas Artes, na Cultura, Literatura, nas Engenharias e em todos os objetos
cognoscíveis, com seus seres cognoscentes, o homem e a sua razão ocupam o leit motiv desses
campos do conhecimento, ao mesmo passo em que promovem a ruptura com as explicações
teocêntricas no período ilustrado65.
Mas a construção da racionalidade humana não se limita a esses campos de
conhecimento destacados. Desenvolve-se, pari passu, uma razão que busca desvendar as
dinâmicas, das mais simples às mais complexas, da sociedade humana; suas formas de
organização, seus sentidos, sua razão histórica. Assim, desenvolvem-se campos do
conhecimento que vão desde os sentidos e a razão da política, por exemplo, entendida em
Aristóteles como o caminho para se alcançar a felicidade humana, até as diversas formas de se
viver nas polis como os diferentes regimes e instituições políticas, passando evidentemente pela
construção do direito positivo, dos contratos sociais, dos ciclos de desenvolvimento das
sociedades emergentes de mercado, e das sociedades que podem ser construídas depois de
atestadas determinadas condições da evolução humana, como o socialismo ou o comunismo.

65
O período a que nos referimos compreende boa parte do século XVIII. Nele, intelectuais europeus,
sobretudo franceses, argumentam sobre a supremacia da razão humana opondo-se frontalmente à lógica
teocrática e teocêntrica e ao absolutismo monárquico.

52
A expansão desse leque de possibilidades de conhecimento funda, como uma
necessidade de sua própria justificativa, disciplinas que se dedicam a esmiuçar as
particularidades de um objeto sociopolítico de investigação, que sempre em processo de franca
expansão se desdobrará em ininterruptos conjuntos de novos objetos: a política. É assim que
nasce a filosofia política, a ciência política, a sociologia política e a sociologia da política, cujas
distinções entre elas não subtraem o fulcro comum existente nas relações sociopolíticas
humanas66.
A raiz comum dessas ciências sociais está na necessidade imperativa de construir, pela
razão lógico-abstrata, ou empírica, explicações, precedidas de métodos, para as questões afetas
ao poder e ao Estado. Esses são tomados como variáveis interdependentes e a categoria política,
que os une, adquire ênfase diferenciada, a depender dos motivos que suscitam sua análise, do
método ao resultado.
A Filosofia Política, por exemplo, sendo filosofia, utiliza como recurso metodológico o
raciocínio lógico dedutivo, e tem, assim, um caráter normativo. Está, portanto, na raiz dos
conhecimentos científicos, em especial do campo denominado de humanidades. Aristóteles
afirma que a Filosofia estuda os princípios originários de todas as coisas e o “Ser enquanto Ser”,
ou seja, as essências. Adjetivada com a política, a filosofia tende a indagar a essência lógica e
racional do poder.
Filósofos políticos como os ingleses Thomas Hobbes (1588-1679), ou John Locke
(1632-1704), e o suíço Jean Jacques Rousseau (1712-1778) se ocuparam em pensar como as
relações de poder podem ser estabelecidas de modo a atender às necessidades de sobrevivência
dos homens, quando estes transcendem de seu estado primitivo (natural) para a condição de
seres que sobrevivem em sociedade, e, nesse salto, legitimam um poder superior que garanta
essa coexistência. A partir de uma construção lógico-abstrata inferem sobre a origem do Estado
e da sociedade e atribuem à entificação do primeiro a sobrevivência do segundo. Pensavam num
Estado ideal.

A contribuição da Filosofia Política apresenta-se, ainda, na sua preocupação em


caracterizar com precisão o “fenômeno político”, ou seja, estabelecer com rigor lógico
a especificidade dos fatos políticos em relação a outros tipos de acontecimentos. Ao
distinguir, por exemplo, o campo político do mundo da moralidade privada, a
Filosofia Política contribui com a autonomização do saber político. A Filosofia
Política, então, dá os parâmetros para a construção do saber científico tanto da Ciência
Política quanto da Sociologia Política, mas não se confunde com elas . (SOUZA,
2008, p. 9)67.

66
E, ainda assim, não são apenas “essas ciências” que se preocupam com as “coisas da vida societal”,
mas são estas que nos interessam por ora.
67
SOUZA, Nelson Rosário de. Sociologia política. Curitiba: Iesde Brasil S. A., 2008.

53
O raciocínio dedutivo que a caracteriza funda tanto a lógica como sua ciência quanto às
teorias do conhecimento. Encontramos, por exemplo, no Ensaio sobre o Entendimento Humano,
de John Locke, as premissas para “a análise de cada uma das formas de conhecimento que
possuímos, a origem de nossas ideias e nossos discursos, a finalidade das teorias e as
capacidades do sujeito cognoscente relacionadas com os objetos que ele pode conhecer”
(CHAUÍ, 2010, p. 167)68.
A Ciência Política, por seu turno, sustenta-se na empiria. O método é o indutivo,
diferente da dedução que se pratica na Filosofia, embora isso não seja suficiente para explicar as
diferenças fundamentais entre os saberes de um ou outro campo, considerando-se, ainda, que tal
distinção só é possível no sentido stricto, pois, num sentido amplo e não técnico, o termo
ciência política pode se referir ao estudo de qualquer fenômeno, ou estrutura, afetos ao campo
da política.
Bobbio (2007, p. 164) não só confirma tal assertiva quanto anuncia que a preocupação
principal da Filosofia Política é com aquilo que deveria ou poderia vir a ser, enquanto a Ciência
Política contém pressupostos de operatividade, ainda que isso não signifique que “os ideais
tenham sido na história das mudanças políticas menos ‘operativos’ do que os conselhos dos
‘engenheiros sociais’” 69.
O centro das preocupações permanece nas relações de poder, embora a ênfase da
Ciência recaia um pouco mais sobre as instituições e nos regimes que as orientam. A instalação
dos regimes políticos ajuda a conformar o desenho dos Estados, e, com isso, se conformam
também as instituições estatais70. Nelas se materializa a sua estrutura jurídico-política, alvo das
problematizações pioneiras da Ciência Política71.
Assim, notamos que a Ciência Política se debruça sobre as particularidades da relação
poder-Estado-sociedade tratando, além dos regimes políticos, como já mencionado, dos
problemas afetos às eleições, do poder, da autoridade, administração pública, das relações
exteriores, dos partidos, dentre outros. Conceitos estes entrecortados por categorias sociológicas
que os sustentam e/ou os contextualizam como: classes sociais, ideologia, status, etc., próprios
da Sociologia, e requisitados como recurso interdisciplinar.
68
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 14. ed., São Paulo: Ática, 2010.
69
BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. 13. ed., Brasília: UnB, 2007.
70
Claro que não é uma afirmação linear. A opção pelos regimes políticos é uma construção histórica
decorrente da confluência de inúmeras variáveis, que dão sentido ao Estado, mas a luta por um regime
específico também pode ser o fator decisivo na inauguração de um tipo de Estado qualquer.
71
Por isso que o modo como as considerações sobre o poder, feitas por Maquiavel (Niccolò Machiavelli,
1469-1527) em O Príncipe, são consideradas como notas postulares, que dão origem ao Estado moderno,
mesmo nas conjunturas absolutistas. Do mesmo modo, Montesquieu (1689 – 1755) quando propõe a
constituição tripartite dos poderes do Estado: Judiciário, Legislativo e Executivo, mesmo em outra época,
rende-se a pensar também “relações de poder”. São dois exemplos, por serem “incomuns” que nos
mostram como as questões da estrutura estatal ocuparam tanto filósofos quanto cientistas políticos,
fazendo com que a interdependência entre os saberes se estabeleça como um imperativo para a definição
de um campo de conhecimento científico que tem por objeto um ente relacional, sendo um conhecimento
mais dinâmico e não rígido como se define nas ciências naturais.

54
Mas como disciplina, a Sociologia Política se calça, sobretudo, nas relações sociais
decorrentes do modo como os indivíduos se organizam no processo de produção e reprodução
social da vida, criando sempre, na correlação de forças, mecanismos civilizatórios de
participação no “mundo dos homens”. Antonio Gramsci (1891–1937) ao estabelecer o esquema
dialético de distinção entre sociedade política e sociedade civil72 possibilita a compreensão do
modo pelo qual a sociologia política pode se ocupar em estudar as maneiras como a sociedade
influencia a arena pública, exerce o poder, disputa e conquista hegemonia na esfera estatal.
Antes dele, Hegel (1770-1831), e outros, da escola idealista alemã, enalteceram a
atividade livre e racional e se ocuparam em pensar “o eu” e “o todo” como forma de projetar um
Estado ético e de liberdade em suas práticas políticas 73 . Isto porque a disciplina sugere a
articulação dialética entre Sociologia e Política, a primeira tratando dos problemas da sociedade
humana ancorada por teorias sociais amplas e a segunda tratando dos meios e processos
civilizatórios que circundam a organização da sociedade e as formas para se resolver os
problemas elencados pela primeira.
Esse conhecimento pode, ainda, ser adjetivado, quando reduzimos seu escopo de
atuação em Sociologia da Política. Aqui não se trata de nenhum campo autônomo das ciências
sociais, apenas da definição com precisão, por meio de um anúncio prévio do recorte
epistemológico desejado. Equivale a outras adjetivações da Sociologia, como sociologia da
educação, sociologia do trabalho, sociologia da administração, sociologia da religião, sociologia
da cultura, etc.
Em síntese, as motivações que induzem os seres humanos a pensar e a fazer política, de
sua essência à técnica, não prescindem da interdependência de categorias como o Estado e o
poder, portanto, cumpre-nos considerar que o Estado, nas ciências sociais, é um dos objetos que,
ao lado de outros, como o poder e a sociedade, como já dissemos, legitima a racionalidade das
teorias do conhecimento e funda as principais ciências que se ocupam da política, no âmbito do
advento da modernidade.
É quase consenso, no campo das ciências sociais, que esses elementos interdependentes,
em especial o Estado, sejam considerados seus objetos estruturantes. Contudo, ao longo do
processo que os torna elementos constitutivos imprescindíveis para a formulação de um
pensamento crítico, em especial no bojo da tradição marxista, é possível notar que nem sempre

72
Gramsci estabelece uma distinção dialética entre estes dois segmentos: a Sociedade política, que
compreende os aparelhos de coerção sob o controle das burocracias executivas e do aparato jurídico-
militar, e Sociedade civil, que abarca o conjunto de organizações responsáveis pela difusão das ideologias
que sustentam o consenso (hegemonia) no Estado burguês, ainda que dentre esses “aparelhos” possam
existir aqueles que se colocam contrários à lógica dominante. Esses organismos vão desde o partido
político e organizações sindicais até os veículos de comunicação, Igreja, Escola, etc. Sobre isso
voltaremos a tratar no item 1.2.2.
73
Neste sentido consultar: MARCUSE, Herbert. Razão e revolução: Hegel e o advento da teoria social.
São Paulo: Paz e Terra, 2004.

55
seus componentes axiais econômicos e políticos estão presentes de modo decisivo na orientação
das análises.
Perry Anderson e Atílio Borón, por caminhos distintos, submeteram esse processo à
crítica, e, no final, convergem, ao demonstrar que a construção ontológica dessas categorias
deve permitir plasmar-se no movimento dialético próprio da realidade em que se assenta,
recusando a linearidade e a construção da crítica (que articula teoria e prática políticas)
entendida apenas como uma sucessão evolutiva natural de fatos, acontecimentos e vontades
pessoais de seus protagonistas.
Ambos chamam a atenção para a centralidade da luta de classes como mola propulsora e
estruturante das ciências sociais, que buscam lastro no Estado e em suas dinâmicas econômicas,
políticas, ideológicas, etc., inerentes, no âmbito da tradição marxista. Inferem que sua ausência
pode conduzir a um academicismo distante da prática revolucionária concreta (Anderson)
quanto à legitimação da ordem burguesa e do pensamento conservador (Borón). O historiador
inglês faz referência ao movimento descontínuo do tratamento dessas categorias no marxismo
ocidental (eurocentrado) e o sociólogo argentino relembra do resgate da problemática 74 do
Estado no contexto latino-americano, nas últimas quadras do século XX, após um longo período
de marginalização nos círculos político e acadêmico.
Anderson (2004) refere que o marxismo ocidental foi acometido de um silêncio sobre as
estruturas econômicas e políticas como objetos centrais da teoria, causado por um deslocamento
para a filosofia:
O deslocamento básico de todo o eixo gravitacional do marxismo europeu no sentido
da filosofia foi resultado do abandono progressivo de estruturas econômicas ou
políticas como objetos centrais da teoria. (...) Os determinantes externos que levaram
à substituição da economia e da política pela filosofia como foco principal da teoria
marxista e das assembleias partidárias pelos departamentos acadêmicos como seus
centros formais estavam inscritos na sombria história do período (...) [Mas] o evento
decisivo para tal transformação foi a tardia descoberta do mais importante trabalho do
jovem Marx — os Manuscritos de Paris de 1844, que foram publicados pela primeira
75
vez em Moscou, em 1932. (ANDERSON, 2004, p. 69-70) .

Refere, o historiador inglês, que ainda que os impactos dessa descoberta tenham sido
abafados pela vitória do nazismo, na Alemanha, e “pelo início dos expurgos na Rússia, em
1934”, os Manuscritos “causaram profunda e duradoura impressão” em Lukács, Marcuse e
Lefebvre. O primeiro, “trabalhando sob a supervisão de Riazanov, em seu exílio em Moscou,
em 1931, os decifrando”; o segundo, afirmando com um ensaio de 1932 que “os Manuscritos
74
Sobre o conceito de “problemática do Estado”, ver o item 1.1.
75
O autor faz uma distinção entre o tratamento teórico conferido ao Estado no campo filosófico daquele
do campo da ciência política, sendo que o último é que orienta institucionalmente a configuração do
Estado. (In: ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental nas trilhas do
materialismo histórico. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004).

56
colocavam toda a teoria do socialismo científico sobre novas bases” e enfatizava “em particular
sua visão de que eles demonstravam a importância vital dos fundamentos filosóficos do
materialismo histórico em todos os estágios da obra de Marx” e, o último, sendo o responsável
pelas primeiras traduções dos Manuscritos.
O desdobramento dos estudos desses autores, mas também de outros marxistas
europeus, como Althusser, Gramsci, Della Volpe, dentre outros, eclodiu em recorrentes
formulações sobre o método, causando um afastamento cada vez maior dos “filósofos
profissionais” da prática política das massas proletárias. (Id., ibid.).

A trajetória do desenvolvimento do próprio Marx foi paradoxalmente invertida pelo


marxismo ocidental como um todo. Enquanto o fundador do materialismo histórico
moveu-se progressivamente da filosofia para a política e então para a economia como
terreno central de seu pensamento, os herdeiros da tradição que apareceram depois de
1920 gradualmente afastaram-se da economia e da política para se aproximar da
filosofia, abandonando o envolvimento direto com aquelas que foram as grandes
preocupações do Marx da maturidade, quase tão completamente como este tinha
abandonado o exame direto das questões filosóficas que o tinham interessado na
juventude. (...). Na verdade, está claro, o que ocorreu não foi, nem poderia ter sido,
mera inversão. A empreitada filosófica do próprio Marx estava dirigida, antes de tudo,
para um acerto de contas com Hegel e seus mais importantes herdeiros e críticos na
76
Alemanha, especialmente Feuerbach. (Id., 2004, p. 72) .

Outro elemento destacado por Anderson, para a reversão do eixo categorial central de Marx, no
marxismo ocidental, foi, de um lado, a experiência real de implantação do socialismo, que leva
o debate teórico à endogenia, e, por outro, a influência do stalinismo77. Refere:

76
O autor faz distinção entre o tratamento teórico conferido ao Estado no campo filosófico daquele do
campo da ciência política, sendo que o último é o que orienta institucionalmente a configuração do
Estado. (In: ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental nas trilhas do
materialismo histórico. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004).
77
Nascimento (2007) em seu artigo O Estado Capitalista na Análise de Nicos Poulantzas, ao discorrer
sobre o contexto histórico em que a obra deste autor foi elaborada, refere polemicamente, nas trilhas do
raciocínio de Anderson, que: “Durante mais de vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a
produção teórica do marxismo ocidental no campo da teoria política e da teoria econômica foi
praticamente inexistente em termos de contribuições originais. Os textos sobre política e economia, que
surgiram após a Segunda Guerra Mundial, em sua maioria, eram da lavra dos burocratas dos partidos
comunistas e tinham como apanágio a ‘esterilidade’ teórica, pois não apresentavam nenhuma contribuição
decisiva ou original. Tal esterilidade seria tributária de dois elementos. Por um lado, pelo fato de que as
discussões sobre a luta de classes e sobre o imperialismo terem sido praticamente monopolizadas pela
cúpula dos partidos comunistas (os quais submetiam todas as suas teses à linha oficial do PCUS). Por
outro, pela novidade que representava o fenômeno de consolidação de uma dominação burguesa fundada
não mais em práticas autocráticas, mas, sobretudo, em práticas democráticas — baseadas na democracia
representativa e sufragista. O fenômeno da consolidação em países de capitalismo avançado da
democracia burguesa teria escapado às análises de Marx e Lênin e, posteriormente, à tradição que herdara
o legado teórico desses autores”. (In: NASCIMENTO, Adriano. O Estado capitalista na análise de Nicos
Poulantzas. Revista Palavra Mundo, v. 1, n. 1, Campinas/SP, 2007).

57
Com a vitória do “Socialismo em um País” na União Soviética, seguida pela
progressiva burocratização do Comintern e pelas perspectivas nacionalistas adotadas
pelo comunismo europeu durante e após a Segunda Guerra Mundial, os marcos do
debate marxista passaram por uma mudança fundamental. Ocorria agora não apenas
uma distancia cada vez maior da militância política, mas de qualquer horizonte
78
internacional. (ANDERSON, 2004, p. 72) .

Mas o que o autor de Considerações sobre o Marxismo Ocidental não aborda é que a
produção que categoriza como filosófica, em sentido negativo, mesmo sendo produzida em
círculos acadêmicos oficiais, isto é, para além das “escolas operárias, do partido, dos
movimentos sociais” não foi encastelada pelos muros da academia sem sofrer nenhuma
influência da agitação social que ocorria do lado de fora. Justamente o aprofundamento de
questões como as do “método” possibilitaram um novo tipo de relação entre teoria e prática
revolucionária, permitindo à teoria lapsos temporais mais longos para sua elaboração e
maturação ainda que em contraste com a urgência cotidiana da luta de classes79.
Além disso, os acontecimentos que levam à adoção da Nova Política Econômica (NEP),
após o X Congresso do PCUS, ao assegurar uma série de concessões mercantis na União
Soviética, não se furtam da interlocução com intelectuais marxistas de maior envergadura,
preocupados com os rumos da Revolução, após a desestabilização do Comunismo de Guerra.
Mesmo nesse contexto, e nisto Anderson é preciso, segundo nossa interpretação, o
desenvolvimento de um tipo mais complexo de Estado que acontecia em países como os
Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha (ou mesmo a Itália unificada que chamará a atenção de
Gramsci) não fora objeto, pelo menos de imediato, de análise do marxismo ocidental. Isto é, o
tipo de Estado capitalista necessário à reprodução dos interesses das classes dominantes, que
pressupõe a radicalização do trabalho livre – uma de suas características fundantes –, e sustenta-
se nos estatutos da democracia burguesa (representação, sufrágio, aparelhos jurídicos-estatais,
etc.), desestimula a esquerda a produzir teses sobre ele, uma vez que não encontravam
referências contundentes sobre o tema em Marx ou em Lênin.

78
O autor faz uma distinção entre o tratamento teórico conferido ao Estado no campo filosófico daquele
do campo da ciência política, sendo que o último é o que orienta institucionalmente a configuração do
Estado. (In: ANDERSON, Perry. Ob. Cit., 2004).
79
Seria um bom exercício, no sentido de aprimorar nossa afirmação, proceder à análise biográfica dos
principais intelectuais marxistas europeus, estes citados por Anderson, e, nelas constatar a influência do
contexto social em que vivem e produzem em suas formulações teóricas e o retorno destas à realidade
(prática social) mesma. Não procederemos a tal análise, para não enviesar nosso raciocínio
argumentativo, contudo, nos permitimos indicar, por exemplo, o estudo de Michael Löwy sobre A
Evolução Política de Lukács (1909-1929) publicado homonimamente no Brasil (São Paulo: Cortez, 1998)
com a tradução de Heloísa Helena A. Mello, Agostinho Ferreira Martins, anexos traduzidos por Gildo
Marçal Brandão. Do mesmo modo, o leitor pode recorrer a biografias de Althusser, Lefebvre, Marcuse (e
outros membros da Escola de Frankfurt), Gramsci, entre outros.

58
O Estado burguês democrático em si nunca foi objeto de qualquer trabalho importante
de Marx, que morreu antes de sua realização, ou de Lênin, cujo inimigo, na Rússia
czarista, era um tipo totalmente diferente de Estado. Eram de escala pouco menor os
problemas suscitados pelo rápido avanço da economia capitalista mundial nas duas
primeiras décadas após a segunda Guerra do que as dificuldades existentes no
desenvolvimento de uma teoria política capaz de apreender e analisar a natureza e os
mecanismos da democracia representativa como uma forma madura de poder burguês.
80
(Id., ibid.,) .

Evidentemente que a publicação, em 1917, de O Estado e a Revolução, de Lênin, uma


obra capital dentro do marxismo, segundo os dizeres de Florestan Fernandes, marca uma
inflexão substantiva nos estudos sobre a problemática teórica e das práticas políticas ao Estado
afetas. Mas são justamente os ventos revolucionários da mudança que fazem com que o próprio
Lênin se dedique aos assuntos da Revolução abdicando de aprofundamentos posteriores,
corroborando a afirmação anterior de Anderson.
Borón (1994, p. 243), por sua vez, refere-se ao desterro e retorno do Estado informando
que “o Estado se transformou em um dos eixos principais do debate que atualmente agita as
ciências sociais e a vida política das sociedades contemporâneas”. O autor atribui esse agito ao
advento neoconservador

que prevalece em todo o mundo e que converteu o Estado em uma espécie de


81
bête noire que é preciso destruir. Isto não poderia deixar de surpreender o
estudioso da ciência política, dado que, anteriormente a este esmagador
retorno, o conceito de Estado havia sido excomungado da academia e
desterrado para os nebulosos territórios da ideologia e do pensamento pré-
científico. As razões: uma supostamente incurável vaguidão conceitual e um
traço cronicamente formalista o privavam de todo valor heurístico . (Id.,
ibid., p. 243).

E prossegue:

80
E, de fato, o Estado da democracia liberal de massas não foi objeto das análises marxianas. Nem o
pudera, afinal, não foi esee o tipo de Estado que Marx conheceu. Contudo, procede a crítica do Estado em
obras como Introdução à Crítica e a Filosofia do Direito de Hegel; Sobre a Questão Judaica; Glosas
Críticas Marginais ao Artigo “O Rei da Prússia e a Reforma Social, de um Prussiano”; 18 Brumário de
Luís Bonaparte e Guerra Civil na França. Neste último, defendendo a “destruição do Estado”. No
Manifesto do Partido Comunista, escrito em parceria com Engels, os autores chegam a proferir uma
“defesa” da democracia, mas em conformidade ao entendimento corrente no movimento operário da
época: democracia, tendo o proletariado como “classe dominante”.
81
Besta negra (tradução nossa).

59
Em 1953 – uma época em que, da mesma forma que hoje, também se falava
do “fim das ideologias” e do triunfo do capitalismo – David Easton
expressava eloquentemente o consenso prevalecente dentre os cientistas
sociais de seu tempo ao afirmar que “nem o Estado nem o poder são
conceitos que servem ao desenvolvimento da pesquisa política”. (Id.,
ibid.p.243).

Como um objeto pulsante para as ciências, até mesmo de um modo geral, isto é, para
além das sociais e políticas, como fênix, o Estado ressurge e recupera sua inevitabilidade. Borón
(1994, p. 245) lembra a produção latino-americanista que invade a academia norte-americana,
tratando de temas como a dependência, o subdesenvolvimento e o Estado, entre os anos 60 e 70.
O regresso virtuoso do Estado como objeto de interesse científico subverte o posicionamento
anterior de Easton, que é levado a afirmar que “o Estado agora sitiou o sistema político” e
assim, numa tentativa de explicar esse retorno, elenca três principais motivos para o fenômeno:
1) o ressurgimento cíclico do marxismo nos Estados Unidos; 2) a persistente necessidade dos
conservadores de encontrar alguém a quem possam culpar pela desordem atual das sociedades
ocidentais; 3) as recentes tendências em matéria de pesquisa, orientadas para análise de políticas
(policy analysis).
Borón (1994) considera os argumentos de Easton insuficientes e, por isso, acrescenta a
eles: 1) a indubitável estatificação dos processos de acumulação capitalista e da vida cotidiana
nas sociedades burguesas [...] a partir da recomposição keynesiana posterior à Grande
Depressão de 1929; 2) o caráter penetrante e de longa duração da crise política que afeta os
estados contemporâneos, qualquer que seja seu tipo e forma, em todos os seus níveis e,
finalmente; 3) a insuportável leveza teórica e a aridez conceitual da ciência política
convencional.
Os argumentos de Easton não alcançam os componentes estruturais das relações sociais
que engendram a formulação científica. Uma análise mais comprometida com as reais
condições em que se autoproduz a crítica, deve levar em conta não apenas os elementos
conjunturais, mas também as estruturas em que são gestados. Os diferentes padrões de
acumulação capitalista, como bem refere Borón (1994), estão na base de qualquer investigação
sobre o Estado e as relações de poder. Além disso, ignorar a participação estatal nos processos
de reprodução ampliada do capital, com inflexões em toda a vida social, é no mínimo manter-se
na superficialidade da análise.
Por isso, esses blecautes nas formulações sobre o Estado, ao longo da história, estão, em
nossa opinião, mais condicionados à prevalência do complexo ideológico burguês de
determinados tempos, que busca encobrir as contradições engendradas por seu sistema
socioeconômico do que necessariamente uma possível irrelevância da temática como objeto de
pesquisa. O Estado nunca abandonou a cena intelectual e política das academias, dos

60
Parlamentos, dos partidos ou das praças públicas. Mesmo quando considerado irrelevante, sua
presença na difusão das teses sobre sua própria irrelevância o manteve vivo e afeto ao campo da
racionalidade humana.
Assim, esse Capítulo I busca passar em exame as construções racionais modernas82 mais
visitadas pelos estudiosos do tema Estado e das relações de poder, nos domínios da Filosofia
Política, da Ciência Política e da Sociologia. De modo que seus desdobramentos, nos campos da
Economia e do Direito, fiquem evidentes. São formulações dos mais variados matizes: do
jusnaturalismo ao idealismo alemão, atravessando a tradição marxista, incorporando os
postulados liberais, e, por fim, deslocando o debate conceitual para os tipos predominantes de
Estado.
Outrossim, afirmamos que não se trata de uma apuração das possíveis teorias do Estado
contidas nas formulações que elencamos, ainda que este seja um relevante e prazeroso
exercício, antes, o que queremos é explicitar a construção e evolução de um pensar crítico sobre
o Estado que inter-relaciona normatividade e operatividade como meio embrionário para uma
contribuição ao estudo sobre o Estado na contemporaneidade, em tempos de acirramento das
perversidades do capitalismo, e, porque, nessa evolução de pensamento, estão as chaves
heurísticas que esclarecem os modos históricos como se concretiza o desenvolvimento da ordem
do capital.
É uma espécie de introdução sobre as formas heterogêneas de se pensar e construir o
Estado, considerando que nosso estudo se referencia num tipo específico: o Estado capitalista, o
que lhe confere características próprias, dentre as quais destacaremos suas formas particulares
de desenvolvimento e, nelas, a movimentação ético-política do Serviço Social, no que tange
tanto à incorporação da ciência e filosofia política pela profissão quanto a suas conexões com
um projeto profissional de bases antissistêmicas.

1.1 A problemática do Estado

As preocupações de grande quantidade de intelectuais em explicar o que é e entender


como funciona a sociedade humana (desde o primitivismo até o capitalismo contemporâneo) e
nela o Estado justifica-se, dentre outros motivos, porque intencionam, via de regra, conferir
direcionamento político e ideológico ao Estado, seja para destruí-lo, após transformá-lo em

82
Recorremos, às vezes, às formulações pré-modernas apenas para efeitos de contextualização histórica
de determinados raciocínios.

61
instrumento para a revolução proletária (Marx, Engels e Lênin), seja para disputá-lo na esteira
da “condensação de relações de força” que engendra (Poulantzas)83.
Essa articulação intencional pode se dar de várias formas. Por meio dos partidos
políticos, a forma institucional mais utilizada para essas disputas, mas pode ocorrer também por
meio e influência das corporações, de agentes públicos ou privados isolados, de organizações
sindicais, de movimentos sociais, dentre outros, sempre na direção de corroborar ou refutar
grandes ou pequenas construções teóricas que o tiveram como objeto de análise.
É no teor dessas construções teórico-metodológicas que os diferentes governos têm
encontrado sustentação para colocar em prática suas epistemologias as quais, alçadas ao campo
concreto e real da luta de classes, refletem os interesses dos grupos a que se vinculam,
transformando-se em ação concreta, ou, nos termos atuais, em programas de governo.
Desde o jusnaturalismo de Hobbes, Locke, ou Rousseau, até a incursão contemporânea
que leva Anthony Blair a seguir os mandamentos da Terceira Via de Giddens, ou mesmo nas
articulações de pensamento e ação entre Bresser Pereira e Fernando Henrique Cardoso, em suas
ofensivas contrarreformistas no Brasil, intelectuais e estadistas se confundem e se identificam
fenomenicamente em processos parasitários de retroalimentação84.
As defesas pelo fortalecimento ou enfraquecimento, existência ou inexistência do
Estado, podem ser dos mais diversos matizes, como dito alhures. Há os que sugerem o fim do
Estado como forma de dar vazão à supremacia do mercado e sua mão invisível; há os que
defendem o seu fim como a única maneira de proporcionar a efetiva igualdade entre os homens.
Outros podem defender sua existência mediante a exacerbação de seu poder regulatório
e coercitivo, interferindo nas liberdades individuais, como é o caso dos regimes autocráticos, ao
passo que outros podem pensá-lo neutro, diante das disputas próprias da democracia liberal
burguesa. Da direita à esquerda, todos têm opinião e posicionamento sobre o Estado. Processo
histórico este que o alça dos braços da ciência e filosofia políticas para o campo das teorias do
direito, da administração, da administração da produção, etc.

83
A grande questão colocada por Marx, Engels e muitos outros intelectuais da tradição marxista é a
“extinção” desse “comitê gestor dos negócios comuns da burguesia”. As distinções entre eles, incluindo
agora Gramsci, se davam no campo de como encaminhar tal extinção — a luta proletária mesmo — de
modo a lograr o êxito revolucionário necessário. Lênin, por exemplo, foi contundente a esse processo
quando propõe a “guerra de movimento” e dá outros encaminhamentos em O Estado e a Revolução se
aproximando do que Marx argumentou em A Guerra Civil na França. Gramsci, por seu turno, propôs a
“guerra de posição” na sociedade civil com a generalização da política pelos aparelhos privados de
hegemonia. Um “marxismo” que destoa destes é mesmo o de Poulantzas, que, ao conceber o Estado como
“condensação de relação de forças”, abre terreno para que se pense em disputas no e pelo Estado. No
Capítulo IV, veremos como essas construções influenciaram o tratamento dispensado pelo Serviço Social
à problemática teórico-prática do Estado redundando em um ecletismo de posições.
84
Um exemplo interessante são as observações traçadas por Napoleão Bonaparte e a rainha Cristina da
Suécia sobre O Príncipe, de Maquiavel. Há várias edições dessa obra que agregam as notas dos dois
estadistas. A que utilizamos é a da Editora Jardim dos Livros (São Paulo, 2007), tradução direta do
italiano por Ana Paula Pessoa. Nela, os comentários de Napoleão e rainha Cristina estão incorporados
como notas.

62
O fato é que a definição de Estado nunca será algo acabado, signatário de uma verdade,
o que levou Pereira (2008) a afirmar que o Estado, “além de ser um conceito complexo, é um
fenômeno histórico e relacional”85.
Desde que jacobinos e girondinos se sentaram em lados opostos, na Assembleia
Francesa de 1791, a vida de estadistas e estudiosos do Estado tornou-se imbuída da
inevitabilidade de sua problematização, ainda que, por vezes, presa ao maniqueísmo do
antagonismo político marcado pelas noções de direita e esquerda. Desse modo, tanto um polo
quanto outro não conseguem precisar, mesmo na polarização que anunciam, uma definição
unívoca do Estado; contudo, adicionam elementos que buscam defini-lo ora por suas funções,
ora pelas instituições ou corporações que o compõe, ora por sua relação inexorável com a
sociedade, ora por todos esses elementos juntos, e assim por diante. Trata-se, então, de entender
que o Estado não “existe em abstrato (sem vinculações com a realidade e a história) e nem de
forma absoluta (assumindo sempre e para toda vida uma única forma)” (Id., ibid.). Por isso, a
natureza do Estado é de imanente problemática.
Por problemática, entendemos “o conjunto de perguntas, ideias e suposições que
delimitam o terreno no qual se produz determinada teoria, terreno que nem sempre é visível na
superfície do discurso teórico, e que, no entanto, determina as condições e as possibilidades de
enunciados desse discurso” (BOITO Jr., 2007, p. 42)86 ou, como referiu Althusser (apud BOITO
Jr., 2007, p. 42): “A problemática é a unidade profunda de um pensamento teórico ou
ideológico”.
Desse modo, Boito Jr. (2007) nos lembra que distintas teorias podem ser construídas
com base em uma única problemática. Em nosso conjunto argumentativo, a problemática
teórico-prática do Estado encontra abrigo numa miríade de teses e teorias que mantém sempre
uma base comum, qual seja, a processualidade de sua entificação, o que incide em sua estrutura
e nas formas que se materializam ao sabor de distintas conjunturas.
Ratificando em outros termos, nos interessa, assim, um tipo particular de Estado, ou
seja, o referido a uma formação social específica, historicamente determinada, cujas
características lhe dão forma estrutural e que, de modo ainda mais específico, se referencia
também a contingências conjunturais. Trata-se, pois, daquele tipo de Estado dotado de
obrigações positivas que inevitavelmente o impelem a exercer regulações sociais por meio de
políticas. Ou seja, o Estado em ação (PEREIRA, 2008, p.99).

85
Segundo a autora, histórico, porque não existe de forma absoluta e inalterável. É algo em movimento e
constante mutação ... relacional porque não é um fenômeno isolado, fechado ou circunscrito em si
mesmo e autossuficiente, mas um fenômeno em relação. (In: PEREIRA, Potyara Amazoneida Pereira.
Política social: temas & questões. São Paulo: Cortez, 2008).
86
BOITO JR, Armando. Estado, política e classes sociais. Ensaios teóricos e históricos. São Paulo:
Unesp, 2007.

63
É esse tipo de Estado que interessa à tese que ora apresentamos, pois esse é o tipo que
protagoniza impulsos cíclicos voltados ao seu próprio desenvolvimento, em ato de
reciprocidade ao desenvolvimento do modo de produção capitalista e que, ao longo dos tempos,
tem sido objeto de interesse científico com inflexões diretas nos rumos que as sociedades
humanas têm tomado, desde o advento da Modernidade. Sobre essas particularidades,
retornaremos mais adiante, todavia, é importante resgatar a trajetória evolutiva na construção do
pensamento teórico e prático, ou seja, da problemática mesma do Estado nas formulações de
maior influência, de base racional, conforme já anunciamos.

1.2 Problematizações mais visitadas: exemplos de evolução do pensamento sobre o


Estado

É notória a preocupação de intelectuais e estadistas em definir e pensar o Estado nas


suas mais variadas formas e expressões. Dedutiva ou indutivamente, é possível perceber um fio
evolutivo, porém não linear, nas formulações teórico-práticas mais visitadas sobre o tema. Tais
formulações expressam, nas ações de seus emissores, as “consciências sociais práticas” dos
grupos sociais a que se vinculam87.
Marcados pela heterogeneidade, há grupos de formuladores que primam pela
explicitação de valores universais, ou por elementos categoriais fundantes, que conduzem a
análises totalizantes, e, recorrem, sobretudo, às ciências sociais 88 . Outros, também com
diferenciações internas, nos apresentam de modo mais evidente os valores sensíveis que
conformam a problemática do Estado. Estes, por sua vez, dialogam mais fortemente com a
filosofia política89.
Há ainda um terceiro grupo, que se ocupa menos da problemática teórico-prática do
Estado (por vezes, até a nega) por entender que as funções a ele afetas se reduzem à participação
na busca pelo êxito dos processos que visam administrar as relações sociais como derivação
direta dos mecanismos de gestão das relações de produção. São os que se ancoram

87
Esses intelectuais, mas, sobretudo, os “estadistas”, podem ser entendidos como ideólogos de seus
grupos sociais. Ideologia aqui tratada não como falsa consciência, conforme nos esclarece Mészáros,
quando afirma: “a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal orientados, mas
uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. Como tal, é insuperável
nas sociedades de classes”. (In: MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia. São Paulo: Boitempo
Editorial, 2004).
88
São expoentes dessa perspectiva: Marx (1818-1883); Engels (1820-1895); Lênin (1870-1924); Lukács
(1885-1971); Gramsci (1891-1937); Althusser (1918-1990); Mandel (1923-1995) e Poulantzas (1936-
1979); Durkheim (1858-1917); Weber (1864-1920).
89
Destacam-se: Hobbes (1588-1679); Locke (1632-1704); Kant (1724-1804); Rosseau (1712-1778);
Hegel (1770-1831).

64
fundamentalmente no direito positivo e nas teorias gerais da administração das empresas e dos
negócios capitalistas90.
De modo geral, todas as perspectivas, por serem também ideológicas, apresentam
natureza ontológica que se traduz numa espécie de função social, isto é, refletem também não
apenas o papel que a ideologia desempenha ante o grupo social de seus portadores como
também a conscientização como prévia ideação da prática social de seus agentes. Deste modo,
o conjunto de intenções que serão implementadas pelos agentes portadores da ideologia, em
termos ontológico-práticos, são encontradas sob duas formas essenciais de embate ético-
político: o liberalismo e o socialismo.
Os primeiros, na sua maioria, se guiam pelos primados da política econômica burguesa,
evidenciando, em seus constructos, o liberalismo como valor ético para o tipo de Estado que
defendem, ainda que conjunturas históricas específicas possam levá-los a radicalizar ou atenuar
as diretrizes liberais, como é o caso do liberalismo radical autocrático ou o social-liberalismo. Já
entre os socialistas, podem se destacar tendências, do mesmo modo autocráticas, e outras que,
revisando ou reformando as bases de sustentação de suas teses, desembocam em uma
heterogeneidade de acepções que vão desde a social-democracia até o capitalismo
humanizado91.
As fronteiras entre o conhecimento produzido por esses três grupos de formuladores são
tênues, por vezes, possibilitando articulações positivas, quando há algum tipo de identificação
ético-política ou metodológica; ou negativas, quando se trata de tomar o outro por antagonista.
Contudo, se faz lídimo afirmar que não estamos pondo em confronto filosofias e sociologias,
afinal:

90
Os mais visitados nesse campo costumam ser: Adam Smith (1723-1790); Thomas Malthus (1766-
1834); David Ricardo (1772-1823); Fayol (1841-1925); Hayek (1849-1992); Taylor (1856-1915); Henry
Ford (1863-1947); F. Mises (1881-1883); Keynes (1883-1946); e Friedman (1912-2006).
91
O “revisionismo”, como ficou conhecido o movimento protagonizado por Bernstein e Kaustky,
sobretudo a partir da II Internacional, propunha a revisão dos escritos de Marx subtraindo deles a
perspectiva de uma irrupção violenta e revolucionária como meio de superação do capitalismo. Sem
dúvida, são os teóricos mais importantes da gênese da social-democracia. As teses sobre o capitalismo
humanizado, embora tenham bases clássicas, estão em voga na pós-modernidade, inclusive em grande
parte dos chamados novos movimentos sociais. Ver, nesse sentido, de Boaventura de Sousa Santos:
Para uma Revolução Democrática da Justiça. São Paulo: Cortez, 2007; Poderá o Direito Ser
Emancipatório? Vitória: Faculdade de Direito e Fundação Boiteux, 2007; Renovar a Teoria Crítica e
Reinventar a Emancipação Social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007; A Gramática do Tempo. Para
uma Nova Cultura Política. Porto: Afrontamento, 2006. Também publicado no Brasil, 2. ed., São Paulo:
Cortez, 2006, e Fórum Social Mundial: Manual de Uso. São Paulo: Cortez.

65
em um ensaio, Le philosophe et La sociologie, Merleau-Ponty assinalava os riscos de
uma rivalidade cultivada entre filósofos e sociólogos, os primeiros considerando-se
possuidores da verdade porque detentores da Ideia, os segundos reivindicando para si
a posse do verdadeiro porque conhecedores do Fato. É uma rivalidade obscurantista
que priva o filósofo de contato com o mundo e o sociólogo, da interpretação do
sentido de sua investigação; tal atitude esconde algo típico da ideologia: a crença na
existência do Sujeito do Conhecimento como olhar separado que sobrevoa
imaginariamente o real e o domina através de um sistema de representações, sem que
seja preciso indagar qual o sentido dos fatos nem qual a necessidade das ideias ao
serem realizadas pela experiência. (CHAUÍ, 2007, p. 104)92.

Queremos evidenciar, portanto, a relevância do pensamento construído pelos


intelectuais que consideramos significativos para nossa análise — também por serem
referências recorrentes no Serviço Social —, pois, na sua maioria, inauguram escolas de
pensamento que nos influenciam até os dias atuais, à direita, à esquerda; na porosidade do
centro, ou em suas frações.
Das relações de poder (e sua manutenção) em Maquiavel até condensar correlações de
forças típicas da vida social, em Poulantzas, a problemática do Estado foi se metamorfoseando,
de cérebro em cérebro, até chegar aos elementos que nos permitem hoje elencar categorias
teóricas para a análise de suas diferentes nuanças conceituais, teóricas, políticas, metodológicas
e éticas.
Conferimos um destaque especial para as “narrativas” no campo da tradição marxista,
tanto por sua diversidade quanto pela abrangência, mas, sobretudo, porque é nesse campo que
residem os nexos ontológicos da crítica que empreendemos.
Ademais, a variedade de perspectivas no bojo dessa tradição tende a mostrar a
fecundidade da problemática do Estado nesse campo de construção do conhecimento, mantida a
unidade interna com relação ao modo como os diferentes autores evoluíram a sínteses
diferenciadas partindo do mesmo tema, isto é, seus caminhos metodológicos coincidem nas
preocupações que circunscrevem as análises da configuração e do desenvolvimento do Estado
93
burguês, ou Estado capitalista . Deste modo, a presença das classes sociais e da
processualidade das relações de produção e reprodução social é constante, nos autores
marxistas, conquanto se tratar de categorias centrais, na obra de Marx. Não por acaso, neste
grupo, encontramos estadistas revolucionários, como Lênin ou Trotski.
Não estamos assim, como já destacamos, apurando teorias do Estado contidas nas
formulações dos intelectuais que convocamos, antes, estamos explicitando a construção e

92
CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. 12. ed., São Paulo:
Cortez, 2007.
93
Utilizaremos sem distinção os termos “Estado capitalista” e “Estado burguês” entendendo a burguesia
como a classe que emerge como dominante no tipo capitalista de Estado, apresentando vinculação
orgânica entre si.

66
evolução de um pensar crítico sobre o Estado, que inter-relaciona a normatividade e
operatividade como meio embrionário para uma contribuição ao estudo sobre o Estado na
contemporaneidade, e os modos como nos relacionamos com tais estudos (e práticas) ao longo
do evolvimento da profissão dos assistentes sociais.

1.2.1 De Maquiavel a Hegel

Nicolau Maquiavel (1469-1527) é reconhecidamente o primeiro sujeito político a se


deter sobre a problemática do Estado moderno. As considerações que registra em O Príncipe
são citadas por um sem-número de intelectuais como sendo as notas que dão origem a esse tipo
de Estado, o Estado moderno.
Contrapondo-se aos argumentos aristotélicos, Maquiavel não entende o Estado como
instrumento que assegura a felicidade e a virtude humanas e nem como veículo intermediário
entre o Reino dos Céus e da Terra como se pensava na Idade Média. Para ele, o Estado tem um
funcionamento próprio, regras e características próprias, apreendidas tanto a partir da
observação da dinâmica das Repúblicas ou Principados quanto da interação entre súditos e
Príncipe, o que, seguramente, o credencia a estabelecer as tendências predominantes para o
funcionamento desse Estado. Por isso que, na apresentação de seus escritos a Lourenço de
Médici, refere:

Espero, todavia, não se repute presunção o atrever-se um homem de condição baixa e


humilde discorrer sobre os governos dos príncipes e inculcar-lhes regras. Assim como
os que desenham paisagens se colocam nos vales para apreciar a natureza das
montanhas; em lugares elevados e nas cumeadas dos montes para apreciar a dos vales;
da mesma forma, para bem conhecermos a índole dos povos é mister sermos
príncipes, e para conhecermos bem a dos príncipes precisamos ser do povo.
94
(MAQUIAVEL, 2007, p. 28).

Sua humildade irônica é acompanhada por um princípio de empiria, no modo como diz
estudar o Estado, associado a uma espécie de convencimento para aceitação de suas ideias. O
autor de O Príncipe preocupava-se em afastar-se das abstrações da mente para ocupar-se das
coisas como elas “realmente são”, pois não via a realidade como espontaneamente harmônica.
Referia-se à verdade objetiva das coisas:

94
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Jardim dos Livros, 2007.

67
Em todo o caso, sendo minha intenção escrever coisa útil para quem saiba entendê-lo,
julguei mais conveniente ir atrás da verdade efetiva do que das aparências, como
fizeram muitos imaginado repúblicas e principados que nunca se viram nem
existiram. Entre como se vive e como se devia viver há tamanha diferença, que aquele
que despreza o que se faz pelo que se deveria fazer aprende antes a trabalhar em prol
da sua ruína do que de sua conservação. Na verdade, quem num mundo cheio de
perversos pretende seguir em tudo os princípios da bondade, caminha para a própria
perdição. Daí se conclui que o príncipe desejoso de manter-se no poder tem de
aprender os meios de não ser bom e a fazer uso ou não deles, conforme as
95
necessidades. (MAQUIAVEL, 2007, p. 139-140).

E, com isso, Maquiavel (2007, p.27-28) também trata a política como “a arte do
possível (...) a arte da realidade que pode ser efetivada, a qual leva em conta como as coisas
estão e não como elas deveriam estar”. Levando-se isso em conta, é desse modo que o Príncipe
deve agir para ter controle de seu principado.
Estado e política são mais do que categorias, para a análise teórico-filosófica de
Maquiavel. A prática política “realista” que sugere é a que propicia as condições objetivas de se
configurar um Estado moderno e coeso em torno do poder de seus governantes. Por isso é que
Maquiavel afirma que é bom que o príncipe seja temido e amado, contudo, na impossibilidade
da conquista dos dois sentimentos, o temor lhe é preferencial. O temor gera mais segurança e
fidelidade ao governante que o contrário: “os homens têm menos escrúpulos de ofender quem se
faz amar do que quem se faz temer, pois o amor depende de uma vinculação moral que os
homens, sendo malvados, rompem; mas o temor é mantido por um medo de castigo que não nos
abandona nunca”. E arremata: “Por conseguinte, deve-se estabelecer o terror; o poder do Estado,
o Estado moderno, funda-se no terror”. (MAQUIAVEL apud GRUPPI, 1980, p.11)96.
Com essas e outras considerações, Maquiavel passa a ser referência para todos os que se
dedicam às coisas da política e do poder97. Seus escritos não trazem, a rigor, uma teoria do
Estado, mas os principais determinantes das práticas políticas que conformam o Estado, cuja

95
Id., ibid.
96
GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel — as concepções de Estado em Marx, Engels,
Lênin e Gramsci. Porto Alegre: L&PM Editores, 1980.
97
Os comentários tecidos por Napoleão Bonaparte e a rainha Cristina da Suécia, sobre O Príncipe,
contidos em várias edições da obra, como já citamos, indicam a influência do pensador italiano para além
de seu tempo, sobretudo no que se refere ao exercício de poder do Estado. Nesse sentido, recomendamos
a leitura de qualquer uma das edições que tragam esses comentários, e, também, de HELLER, Agnes. O
homem do renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1982. Coleção Métodos, em especial o Capítulo 10
- Filosofia Social, Política, Utopia, em que a autora nos brinda com uma discussão filosófica sobre como
os axiomas maquiavélicos chamam a atenção tanto para o emprego de métodos políticos quanto os de
violência, para o controle do príncipe, de modo que os fins (já que os meios já foram convocados)
permaneçam com seu “caráter ético” inalterado. Ainda, o terceiro volume dos Cadernos do Cárcere, de
Antonio Gramsci, em que o autor trata da temática da “decadência ideológica” e, por fim, o ensaio Marx e
o Problema da Decadência Ideológica Burguesa. (In: LUKÁCS, Georg. Marxismo e teoria da
literatura. São Paulo: Expressão Popular, 2009).

68
característica fundante é conquistar (mais pela força do que pela tradição) e manter o poder
sobre seu povo, ou seja, o Estado como aparelho de dominação.
A partir desse pressuposto, outras formulações foram surgindo e agregando novas
categorias às explicações sobre o Estado e o poder. O francês Jean Bodin (1530-1596), por
exemplo, discorre, por quase toda sua obra, sobre a questão da “soberania”. Polemizando com
Maquiavel, afirma que o Estado constitui-se essencialmente por um poder em que a soberania é
seu pilar de sustentação primordial.
Ao sistematizar o tratamento da categoria soberania98, afirma que se está tratando de
um poder perene e quase sem limites. Suas limitações são apenas a lei divina e as leis naturais,
mas considera que o príncipe soberano deve, ainda, respeitar os contratos que estabelece com
seus súditos, sem prejuízo da centralização do poder que se reserva.
Na esteira de seu pensamento, a problemática da coesão social, entendida como função
política e moral do Estado, ocupa o centro das atenções dos intelectuais da escola jusnaturalista,
que a partir dali se fundará.
Deste modo, o inglês Thomas Hobbes (1588-1679) é o primeiro a tratar do Estado
como momento de síntese da elevação dos indivíduos de um estado primitivo, natural, estado de
natureza, para um estado social.
Tendo por referência a sociedade inglesa de seu tempo, já num estágio de
desenvolvimento avançado, se comparada a outras sociedades europeias ou asiáticas da época,
Hobbes percebe a capilarização de valores estruturados numa sociabilidade fundada na
propriedade privada e que encontra, na sociedade que se organiza a partir das dinâmicas da
acumulação primitiva, suas formas mais acabadas, e, dessa percepção, infere que o homem é
naturalmente competitivo às últimas consequências: homo homini lúpus.

A competição por riquezas, prazeres, honrarias e outras formas de poder conduz à


luta, à inimizade e à guerra. (...) Assim, considero como principal inclinação de toda a
humanidade um perpétuo e incessante afã de poder, que cessa apenas com a morte.
Sua causa nem sempre é o fato de que o homem espera um prazer mais intenso que
aquele já alcançado, ou que não chegue a satisfazer-se com um poder moderado, mas,
sim, o fato de não poder ter assegurados seu poderio e os meios de seu bem-estar atual
sem adquirir novos bens. Dessa forma, os reis, cujo poder é maior, tratam de
assegurá-los, em seu país, por meio de leis e, no exterior, mediante guerras; o desejo
da fama de novas conquistas; em outras, o de prazeres fáceis e sensuais; em outras,
ainda, a admiração, o desejo de atingir a excelência em alguma arte ou habilidade
99
mental. (HOBBES, 2009, p. 78) .

98
Em sua obra, de 1576, Les Six Livres de la Republique (Os Seis Livros da República).
99
HOBBES, Thomas. Leviatã, ou, matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Tradução
de Rosina d’Angina. São Paulo: Martin Claret, 2009. (Coleção A Obra-Prima de cada Autor. Série ouro,
1).

69
Isto é, o desejo incessante de poder, de propriedade, de bens e riquezas, leva os homens
a destruírem-se uns aos outros.

Essa é a causa pela qual os homens quando desejam a mesma coisa e não podem
desfrutá-la por igual, tornam-se inimigos e, no caminho que conduz ao fim (que é,
principalmente, sua sobrevivência e, algumas vezes, apenas seu prazer), tratam de
eliminar ou subjugar uns aos outros. (...) se alguém semeia, constrói ou possui uma
área conveniente, pode estar certo de que chegarão outros que, unindo suas forças,
procurarão despojá-lo e privá-lo do fruto de seu trabalho e até de sua vida ou
liberdade. O invasor, por seu turno, assumirá o mesmo perigo enfrentado por aquele
cuja propriedade invadiu e a quem subjugou. (Id., ibid., p. 94).

Por isso, quando não existe um poder comum capaz de manter os homens numa
atitude de respeito, temos a condição do que denominamos guerra; uma guerra de
100
todos contra todos. (Id., ibid., p. 95) .

Para que isso não aconteça, um ente de poder absoluto deve ser legitimado por esses
homens, de modo que exerça seu poder na preservação da espécie humana barrando a sua
autodestruição. A existência desse ente é legitimada por uma espécie de contrato entre os
homens. Esse contrato estabelece as normas da convivência social, que, não por acaso, já
estavam relativamente dadas na esfera da circulação mercantil simples, sobretudo a liberdade.

Os desejos de vida fácil e de prazeres sensuais dispõem os homens a obedecerem a


um poder comum, pois fazem-nos renunciar à proteção que poderiam esperar de seu
próprio esforço e labor. (...) A razão sugere normas de paz adequadas, que podem ser
alcançadas pelos homens mediante o mútuo acordo. Essas normas são conhecidas
101
como leis da Natureza. (HOBBES, 2009, p. 78) .

Em outros termos, para Hobbes (2009), a superação do estado de natureza se dá quando


os homens voluntariamente alienam-se de seus direitos naturais em favor de um ente de
soberania absoluta responsável pela preservação da vida dos indivíduos. Este ente, o Estado,
surge por meio de um contrato em que o soberano (Estado) só pode ser questionado
individualmente e com a comprovação de que não teria cumprido sua tarefa de proteger a vida
do indivíduo reclamante. As características do processo de mercantilização da vida levam
Hobbes (2009) a formular a tese do Estado absoluto, o ente em questão102.

100
HOBBES, Thomas. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Tradução
de Rosina d’Angina. São Paulo: Martin Claret, 2009. (Coleção a Obra-Prima de cada Autor. Série ouro,
1).
101
Id., ibid.
102
Neste sentido, consultar MACPHERSON, C. B. A teoria política do individualismo possessivo. De
Hobbes a Locke. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

70
No Leviatã, uma de suas principais obras, Hobbes inicia por aquilo que Macpherson
(1979, p. 29)103 denomina de “proposições psicológicas” e que, ao discorrer sobre as sensações,
a imaginação, a memória, o apetite e a aversão, demonstraria por dedução a necessidade de um
soberano para os indivíduos atomizados, ainda que incompletas:

(...) as proposições com as quais Hobbes abre a argumentação de Leviatã, das quais se
poderia dizer que são sobre o indivíduo como tal, completamente abstraído da
sociedade (...) não contém tudo o que é necessário para a dedução da necessidade do
estado soberano. Se, por outro lado, empregarmos a expressão propostas psicológicas
para incluir a afirmativa de Hobbes sobre o comportamento inevitável dos indivíduos
uns em relação aos outros, em qualquer sociedade (em especial, a proposta de que
todo indivíduo procura sempre ter maior poder sobre os outros), ou sua afirmativa
semelhante quanto ao comportamento humano na ausência hipotética de qualquer
sociedade (i.e., em estado de natureza), nesse caso as propostas psicológicas
realmente contém tudo o que é necessário para a dedução da necessidade de um
soberano, mas elas não são sobre o bicho humano como tal; foi preciso acrescentar
algumas suposições sobre o comportamento humano na sociedade civilizada. É
possível partir da luta universal pelo poder na sociedade, ou do estado de natureza
para a necessidade do soberano, sem nenhuma outra suposição, mas não é possível
partir do indivíduo como sistema mecânico, para a luta universal pelo poder ou para o
104
estado de natureza sem nenhuma outra suposição .

Portanto, as proposições de Hobbes (ibid., p. 31) estão pautadas no individualismo em


que se encontram os homens em estado de natureza. Suas deduções são hipoteticamente lógicas
e não históricas e remetem à defesa do poder monárquico absolutista.
A necessidade de preservar a paz e a integridade dos homens também aparece em John
Locke (1632-1704). Para este, o Estado tem a atribuição de preservar a liberdade dos homens,
tal qual em Hobbes, porém, liberdade em seus direitos de propriedade, pois os homens já seriam
livres em seu estado natural. Para ele, o contrato que delega poderes regulatórios ao Estado deve
prever a limitação da própria liberdade natural dos homens, justamente, a fim de preservar a
propriedade. Locke é reconhecidamente uma referência do liberalismo político105.
Para Locke (2006), diferentemente de Hobbes, a liberdade e a igualdade já existiriam
no momento anterior ao surgimento do Estado (estado de natureza) e seriam responsáveis pela
harmonia entre os homens. Essa harmonia só seria quebrada com a intempérie da violação do
direito natural à propriedade. Para protegê-la, garantindo a continuidade da harmonia, é
estabelecido um contrato social onde os homens legitimam um corpo político específico (o
Estado) que se encarrega de proteger a propriedade privada dos indivíduos. No Capítulo VIII,

103
Id., ibid.
104
Id., ibid.
105
No campo econômico, são notórias suas posições mercantilistas.

71
Locke refere-se ao início do que denomina “sociedades políticas”, afirmando que os homens se
juntam nessas comunidades e se submetem a um governo com a finalidade de preservar suas
propriedades.

Se todos os homens são, como se tem dito, livres, iguais e independentes por natureza,
ninguém pode ser retirado deste estado e se sujeitar ao poder político de outro sem o
seu próprio consentimento. A única maneira pela qual alguém se despoja de sua
liberdade natural e se coloca dentro das limitações da sociedade civil é através de
acordo com outros homens para se associarem e se unirem em uma comunidade para
uma vida confortável, segura e pacífica uns com os outros, desfrutando com
segurança de suas propriedades e melhor protegidos contra aqueles que não são
daquela comunidade. Esses homens podem agir desta forma porque isso não prejudica
a liberdade dos outros, que permanecem como antes, na liberdade do estado de
natureza. Quando qualquer número de homens decide constituir uma comunidade ou
um governo, isto os associa a eles formam um corpo político em que a maioria tem o
direito de agir e decidir pelo restante. (LOCKE, 2006, p. 139)106.

A vida em estado natural — estado de natureza, sem a existência do Estado — não


assegura a propriedade. Sua construção, assim, se justifica para garantir uma normalidade
advinda do exercício do direito sagrado da propriedade.
Percebemos, nas formulações de Locke (2006), a nítida influência das relações
mercantis de seu tempo. A tendência crescente do trabalho livre e a expansão dos mercados são
características que, fundadas também num contrato entre classes, transfundem-se para sua noção
de Estado e passam a ser referência para a democracia liberal burguesa107. Isto é, do mesmo
modo como os contratos entre indivíduos, nas relações mercantis, podem ser desfeitos sob
determinadas condições, também o poder delegado ao Estado para garantir a preservação da
propriedade pode ser desfeito a qualquer tempo. A condição para que isso ocorra é o não
cumprimento dessa função estatal estruturante.
A relação entre propriedade e liberdade é a raiz da sociabilidade pensada por Locke
(2006), na qual todas as esferas da vida social passam a ser regidas por contratos garantidores de
liberdade econômica: o trabalho, as heranças, o casamento, etc. Portanto, mesmo o Estado tendo
poderes coercitivos, a soberania está no contrato social, e, de modo indireto, nos indivíduos,
pois esses são portadores de direitos individuais, o que os eleva a condição de cidadãos e não
mais súditos. Evidencia-se, ainda em Locke (2006), a distinção entre público (Estado ou

106
LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos: ensaio sobre a origem, os
limites e os fins verdadeiros do governo civil. Tradução de Magda Lopes e Marisa Lobo da Costa. 4. ed.,
Bragança Paulista: Universitária São Francisco; Petrópolis: Vozes, 2006..
107
Não apenas das relações mercantis, mas destaca-se a experiência da Revolução Gloriosa de 1688 que
promoveu o ocaso do absolutismo na Inglaterra instaurando a Monarquia Parlamentar e a Bill of Rights
(Declaração de Direitos), em 1689, que consolidava a preponderância do Parlamento na administração do
Estado limitando os poderes reais.

72
sociedade política) e privado (mercado ou sociedade civil), porém inter-relacionados e com
nítida direção social dada pelo segundo sobre o primeiro108.
Essa soberania do povo é implícita em Locke (2006), mas nítida, em Immanuel Kant
(1724-1804), o que apenas reafirma um dos princípios basilares da democracia liberal. A
Democracia, para Kant, deve ser fortemente regulada, a ponto de determinar quem são os
cidadãos que gozam o direito de exercê-la. Baseia-se, deste modo, na força da lei que, para
Kant, é tão inviolável, consistindo crime até mesmo seu próprio questionamento, afinal, a lei
corresponde à própria soberania do povo.

Com efeito, contanto que não haja contradição em que um povo inteiro dê por voto o
seu assentimento a uma tal lei, por muito penoso que lhe seja aceitá-la, esta lei é
conforme ao direito. Mas se uma lei pública é conforme a este último, por
conseguinte, irrepreensível no tocante ao direito, então, está-lhe também ligada a
autoridade para constranger e, por outro lado, a proibição de se opor à vontade do
legislador, mesmo sem ser pela violência, isto é, o poder no Estado que dá à lei o seu
efeito é também irresistível, e não existe nenhuma comunidade que tenha uma
existência de direito sem um tal poder, que suprime toda a resistência interna, pois
esta teria lugar segundo uma máxima que, uma vez universalizada, aniquilaria toda a
constituição civil e o estado em que unicamente os homens podem estar na posse dos
direitos em geral. Daí se segue que toda a oposição ao poder legislativo supremo, toda
a sedição para transformar em violência o descontentamento dos súditos, toda a
revolta que desemboca na rebelião, é num corpo comum o crime mais grave e mais
punível, porque arruína o seu próprio fundamento. E esta proibição é incondicional,
de tal modo que mesmo quando o poder ou o seu agente, o chefe do Estado, violaram
o contrato originário e se destituíram assim, segundo a compreensão do súdito, do
direito a ser legislador, porque autorizou o governo a proceder de modo violento
(tirânico), apesar de tudo, não é permitido ao súdito resistir pela violência à violência.
109
(KANT, 1993).

Logo, notamos que há uma antinomia em Locke (2006) e em Kant (1993) ao


estabelecerem o povo como soberano, contudo, limitarem o exercício dessa soberania a uma
parte específica desse povo. No raciocínio kantiano, a assertiva “a soberania pertence ao povo”
carrega, pois, consigo, as marcas de um certo eufemismo, ao afirmar e negar ao mesmo tempo o
exercício dessa soberania. Os não proprietários não dispõem, para Kant (1993), do direito, por
exemplo, de votar e serem votados.
Um sincretismo conclusivo entre democracia liberal e Estado de Direito se apercebe
nas formulações do filósofo prussiano. Notamos até mesmo uma espécie de naturalização das
relações sociais classistas emergentes ou de dominação do homem pelo homem de Maquiavel

108
LOCKE, John. Ob. Cit., 2006.
109
KANT, Imannuel. A paz perpétua e outros opúsculos. Tradução de A. Mourão. Lisboa: Eds, 1993.
p. 70, 179.

73
(2007) a Kant (1993). Não há neles uma consideração acerca das debilidades que as relações
sociais fundadas a partir das relações mercantis causam na sociabilidade humana, por
estruturarem-se na mais profunda apartação social. Isto aparecerá apenas em Jean Jacques
Rousseau (1712-1778), que denuncia os males que o processo civilizatório sob os auspícios
burgueses causa à humanidade110.
Rousseau inspira-se basicamente na experiência democrática da República de Genebra,
sua cidade natal, que apresenta uma prática diferente da democracia burguesa que se instaura na
Inglaterra, na França, após a Revolução de 1830, e na Itália, em 1848 111 . Em Genebra, a
soberania estava conferida a uma Assembleia permanente de cidadãos, que representavam a
vontade geral do povo. Rousseau sabia que esse sistema seria impraticável em um Estado cujas
proporções são maiores do que as de uma cidade, por isso admitia que suas formulações
tratavam de um Estado ideal, a que todos deveriam aspirar, mas que nunca existiu e talvez
nunca viesse a existir.
A importância conferida por Rousseau à Assembleia foi tamanha que ele desconsidera a
repartição tripartite de poderes proposta por Montesquieu (Executivo, Legislativo e Judiciário),
em defesa da Assembleia como lócus de representação do corpus público. A importância da
Assembleia, a partir da maneira como Rousseau a trata, se desdobra em outras vertentes e
extrapola sua época, como, por exemplo, quando Lênin assume que nos Sovietes “os poderes
legislativo e executivo identificam-se e o poder representativo é dominante”112.
Rousseau aproxima-se dos demais contratualistas quando admite a necessidade de um
contrato social como forma de garantir unidade e estabilidade à comunidade societal, mas
destoa deles, quando defende que esse contrato deve garantir a igualdade como forma de acesso
à liberdade plena dos cidadãos, em uma crítica contumaz à propriedade privada. Para Rousseau,
a propriedade privada está na gênese da desigualdade entre os homens113.
A tradição do direito natural (jusnaturalista) perdurou praticamente durante o século
XVII e parte do XVIII até o momento em que a filosofia alemã passa a problematizá-la, tendo,
justamente, em Georg Wilhem Friedrich Hegel (1770-1831) seu maior expoente.
Diferentemente dos jusnaturalistas, que pensavam um Estado ideal, o filósofo alemão
constrói seu pensamento sobre o Estado sob a influência das relações socioeconômicas que
vivencia, isto é, a partir da consolidação do capitalismo como modo de produção dominante e é

110
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2009.
111
Nesse sentido, é importante que se estude o pensamento de Benjamin Constant de Rebecque (1767-
1830), que evidencia a generalização do liberalismo como ideal, em toda a Europa, na contramão do que
idealizou Rosseau.
112
GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel — as concepções de Estado em Marx, Engels,
Lênin e Gramsci. Porto Alegre: L&PM Editores, 1980.
113
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Origem e fundamentos da desigualdade entre os homens. Mem-
Martins/Portugal. Publicações Europa-América, 1976.

74
sobre este Estado que tece suas considerações modulares em Princípios da Filosofia do
Direito114.
Admite que a estrutura econômica baseada na propriedade privada (portanto capitalista)
é depositária de um caráter civilizatório, conquanto “a propriedade é a personificação da
personalidade” (HEGEL, ob. cit.). Por outro lado, Hegel não justifica o sistema generalizado de
produção de mercadorias, como Hobbes e Locke, pois considera que a estrutura de tal sistema
se constitui entrave ao alcance do interesse comum autêntico, todavia, não considera que a
ordem social fundada na propriedade privada deva ser superada.
Isto se deve a uma razão simples: Para Hegel, a ordem posta representa o momento da
sociedade humana compatível com a possibilidade da realização da liberdade e o Estado é o
responsável por essa realização, na medida em que condensa nele a universalidade dos
interesses sem, contudo, subtrair as individualidades pessoais, particulares. Afirma:

É o Estado a realidade da liberdade concreta. A liberdade concreta consiste em a


individualidade pessoal, com os seus particulares, de tal modo possuir o seu pleno
desenvolvimento e o reconhecimento dos seus próprios direitos (nos sistemas da
família e da sociedade civil) que, em parte, consciente e voluntariamente como seu
particular espírito substancial, agindo para ele como seu fim último. Disto provém que
nem o universal tem valor e é realizado sem o interesse, a consciência e a vontade
particulares, nem os indivíduos vivem como pessoas privadas unicamente orientadas
pelo seu interesse e sem relação com a vontade universal; deste fim são conscientes
em sua atividade com a vontade universal; deste fim são conscientes em sua atividade
115
individual. (HEGEL, 1997, p. 211-212) .

Conclui:
O princípio dos Estados modernos tem esta imensa força e profundidade: permite que
o sujeito da subjetividade alcance a extrema autonomia da particularidade pessoal ao
mesmo tempo que o reconduz à unidade substancial, mantendo assim esta unidade no
seu próprio princípio. (Id., ibid., p. 212)116.

Hegel estabelece distinção entre este ente capaz de universalizar os interesses e esta
outra esfera, a dos interesses particulares, notadamente inaugurando um conceito de sociedade
civil afeto ao segundo e de Estado político referenciado ao primeiro. Notar-se-á, pelos excertos,

114
Vivendo o “capitalismo de Napoleão Bonaparte”, Hegel situa Princípios da Filosofia do Direito à sua
época. Refere: “Um segundo motivo para que este esboço fosse impresso e posto, igualmente, ao alcance
do grande público: o desejo de que as notas primitivamente destinadas a serem apenas breve alusões a
concepções afins ou divergentes, as consequências ulteriores etc., explicadas posteriormente nas próprias
lições, sejam desenvolvidas nesta redação a fim de aclarar, algumas vezes, o conteúdo mais abstrato do
texto e lograr uma referência mais explícita a ideias conexas e contemporaneamente correntes”. (In:
HEGEL, George Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito. Prefácio do Autor. Tradução de
Norberto de Paula Lima e Márcio Pugliese. São Paulo: Ícone, 1997. p. 25).
115
Id., ibid.
116
Id., ibid.

75
que não se trata de distinção antagônica, mas sim de um duo-dialético em que se verifica um
complexo sistema de mediações. Isto afasta Hegel das teses de elevação do estado de natureza
para o estado Social 117 . Essas mediações, protagonizadas pelos atores da sociedade civil
hegeliana, como a família, mas, sobretudo, as corporações, respondem pela eticidade nela
contida, ao mesmo tempo em que pela universalização da vontade geral.

No filósofo alemão não há uma relação antinômica entre vontade singular e vontade
universal, na qual a segunda reprima ou recalque a primeira, mas existe um
movimento dialético pelo qual a vontade singular dos indivíduos, através da vontade
particular das corporações, é aufheben – isto é, conservada, eliminada e elevada a
nível superior – na vontade geral da coletividade estatal. O indivíduo, tornando-se
membro da corporação, capacita-se a ser cidadão do Estado, sem por isso deixar de se
orientar também pelo seu interesse individual, mas reconhecendo que a satisfação
desse interesse passa pela articulação dele com os interesses particulares (da
118
corporação) e universais (do Estado). (COUTINHO, 1996, p. 134) .

Hegel não trabalha, assim, com os postulados da democracia liberal que convergem para
a vontade da maioria entendida como vontade geral. Nesse sentido, como descrevemos antes, se
afasta criticamente dos jusnaturalistas, em especial de Rousseau, e, na tentativa de dar
objetividade ao seu conceito de vontade geral, de defini-lo e situá-lo concretamente, concebe
uma concepção de democracia, de Estado democrático. Coutinho (1996) nos lembra que, ao
negar o contratualismo – ou a necessidade de um contrato tácito entre os homens na formação
do Estado -, Hegel nega também as formas institucionais de representação e representatividade
coletivas, propostas por Rousseau para mediar o alcance da vontade geral. Evidente isto, para
Hegel, na medida em que, para ele, o Estado antecede a sociedade civil:

Essa negação do contrato, por outro lado, levou Hegel a se contrapor expressamente à
ideia da soberania popular e do sufrágio universal igual; para ele, todos os membros
de uma sociedade deveriam opinar, mas não sobre o geral e, sim, somente sobre o que
lhes diz diretamente respeito, ou seja, deveriam participar apenas no nível de uma
assembleia corporativa, não de uma câmara legislativa para a qual cada um votasse ou
fosse votado enquanto indivíduo. (Id., ibid. p. 135).

117
Gruppi (1980, p. 24) lembra que “Hegel restabelece plenamente a distinção entre Estado e sociedade
civil formulada pelos pensadores do século XVIII, mas põe o Estado como fundamento da sociedade civil
e da família, e não vice-versa. Quer dizer que, para Hegel, não há sociedade civil se não existir um Estado
que a construa, que a componha e que integre suas partes; não existe povo se não existir o Estado, pois é o
Estado que funda o povo e não o contrário. É o oposto da concepção democrática, segundo a qual a
soberania é do povo, que a exprime no Estado, mas o fundamento da soberania fica sempre no povo”.
118
COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e política: a dualidade de poderes e outros ensaios. 2. ed.,
São Paulo: Cortez, 1996.

76
Muitos críticos de Hegel, incluindo Marx ou, em outra escala, Sartre (1905-1980)119,
identificam o caráter determinista das considerações hegelianas sobre Estado e sociedade, na
medida em que m evidenciadas a irrelevância da intersubjetividade dos indivíduos e a dimensão
teleológica de suas ações.
Ainda assim, podemos atribuir a Hegel a construção de uma consciência sobre a coisa
pública. Um ethos público que se sobrepõe ao privado nele emerge como forma embrionária
para se pensar tanto modelos de democracia quanto de sociedades emancipadas, em que pese
seu “conformismo” ante as relações socioeconômicas do capitalismo emergente de seu tempo.
Em resumo, podemos asseverar que é nesse intelectual que se delineia com vigor tanto o
uso da “razão” moderna, sobretudo pós-Revolução Francesa, como leit motiv da história
humana, quanto a configuração do Estado como objeto de interesse científico e filosófico, por
representar a materialização de práticas políticas e sociais contemporâneas.
A evolução do pensamento acerca da problemática do Estado, de Maquiavel a Hegel,
encontra, pois, sentido, nos processos sociais em que é construída. Isto, levando-se em contra o
método histórico-dialético:

O princípio dialético não é um princípio geral que se aplique igualmente a qualquer


coisa. É verdade que qualquer fato, seja ele qual for, pode ser submetido à análise
dialética, como o copo d’água da discussão famosa de Lênin 120 . Mas todas estas
análises levariam às estruturas do processo sociocultural e viriam a mostrar que este
processo é que constitui os fatos analisados. A dialética toma os fatos como elementos
de uma totalidade histórica definida da qual eles não se podem isolar. Ao se referir ao
exemplo do copo d’água, Lênin afirma que a totalidade da prática humana deve entrar
na “definição do objeto”; a objetividade independente do copo d’água fica, pois,
dissolvida. Todo fato só pode ser submetido à análise dialética na medida em que cada
fato é influenciado pelos antagonismos do processo social. (MARCUSE, 2004, p.
270)121.

Poderíamos ter tornando ainda mais extenso o esboço da interpretação histórica que
procedemos, adjetivando a narrativa com a inclusão dos condicionantes sociais — decorrentes
da base material da vida e da luta de classes vinculada a tal base — que permitiram aos autores
expressar os posicionamentos que tiveram. Contudo, além de nos obrigar a recorrer a inúmeras
digressões, tornando exaustiva a narração, não vimos prejuízo na seleção dos elementos
marcantes, vinculados diretamente ao que interessa, a esta parte do estudo, que é explicitar o

119
Ver, deste autor: Crítica da Razão Dialética e Questões do Método (qualquer edição).
120
Selected Works, Nova York, 1934, International Publishers, v.ix, p. 62 sgs. (nota original). No Brasil, a
menção ao copo d’água, pode ser encontrada em: LÊNIN, V. I. Sobre a emancipação da mulher. São
Paulo: Alfa-Ômega, 1980.
121
MARCUSE, Herbert. Razão e revolução: Hegel e o advento da teoria social. Tradução de Marília
Barroso. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

77
modo como a humanidade empreende, ao longo de sua história, explicações racionais
justificadoras de sua existência e dinâmicas sociais, para, com isso, sustentar nossas
argumentações sobre o modo como dispensamos, no âmbito do Serviço Social, tratamento a esta
problemática geral e particular.

1.2.2 Marx e os marxistas

A filosofia hegeliana capilariza-se de tal modo que se torna praticamente leitura


obrigatória nos meios acadêmicos e políticos, a partir do início do século XIX; da Alemanha se
alastrando para todo o ocidente, em ondas menores. Karl Heinrich Marx (1818-1883) sofre
influência direta dessa filosofia, ora aproximando-se dela, ora afastando-se. Inicialmente estuda
Direito, mas depois se dedica à História e à Filosofia, de modo que tal dedicação o leva a
aprofundar os estudos sobre os constructos hegelianos, tornando-se um crítico destes.
Marx não tinha, no centro de suas preocupações teóricas, a problemática do Estado,
como teve Hegel em Princípios da Filosofia do Direito. Sua preocupação partia da necessidade
de construir uma crítica das críticas que já se faziam a Hegel pelos neo-hegelianos, como Bruno
Bauer (1809 – 1872), Arnold Ruge (1802-1880), Max Stirner (1806-1856), mas,
principalmente, Feuerbach (1804-1872), com quem, mais tarde, viria a polemizar de modo mais
contundente; considerando a crítica como instrumento capaz de elevar o discurso à prática,
transformando concretamente a sociedade a qual fornece os elementos para a construção desse
mesmo discurso. Portanto, suas preocupações partiam da realidade concreta e objetiva do
Estado alemão de sua época, calçado nas relações de exploração do trabalho pelo capital.
O incômodo de Marx com Hegel passa pelo fato de que as formulações hegelianas partiam de
uma perspectiva burguesa, de uma era pós-napoleônica, que, de certo modo, alimentava parte
significativa das aspirações da classe dominante, sobretudo da Alemanha de sua época. Afinal,
em Hegel, o Estado contém nele mesmo os ideais da Moral e racionaliza com isso todos os
domínios da vida social 122 . Assim, são as forças opressoras originadas nas relações sociais
capitalistas que interessam a Marx compreender e combater, sem admitir nenhum tipo de
concertação entre opressor e oprimido. Nesse sentido, Coutinho (1997) revela:

122
Consultar: LOSURDO, Domenico. Hegel, Marx e a tradição liberal. Liberdade, igualdade, estado.
Tradução de Carlos Alberto Fernando Nicola Dastoli e Marco Aurélio Nogueira. São Paulo: Unesp, 1998.
Biblioteca Básica. Nesta obra, Losurdo demonstra como Hegel se posiciona pela “superação” dos
resquícios da ordem feudal, a divisão dos principados neofeudais. Desnuda o “falso dilema” de Norberto
Bobbio que insiste em classificar Hegel como defensor do Estado opressor prussiano.

78
Tal como já sugerimos ao analisar as aporias de Rousseau, também aqui as razões dos
limites de Hegel – mas também de sua grandeza – podem ser apontadas no ponto de
vista de classe que adota em sua obra. Se Rousseau, ao formular sua utopia
democrática anticapitalista, expressava a perspectiva de classe dos artesãos e dos
pequenos proprietários – e essa perspectiva é responsável tanto por seus méritos
quanto por suas limitações – Hegel, ao contrário, adota em sua filosofia política o
ponto de vista da classe burguesa tal como essa se havia constituído na época pós-
napoleônica. Decerto, como sempre, é preciso concretizar: em função das peculiares
condições da Alemanha da época, Hegel busca frequentemente conciliar esse ponto de
vista burguês com os interesses das classes dominantes da velha ordem feudal.
Vejamos um exemplo dessa conciliação: embora continue atribuindo grande
importância aos estamentos (Stände) herdados da época feudal na estruturação do seu
Estado “racional”, Hegel afirma claramente que a pertinência a um estamento já não é
simplesmente algo “natural”, dado a priori, como no feudalismo, mas, resulta,
sobretudo, da "liberdade dos particulares", da mobilidade social trazida pelo
capitalismo. Por isso, quando fala em "estamentos" na Filosofia do Direito, ele está
frequentemente designando (salvo no caso da aristocracia fundiária) um fenômeno
social que se aproxima bem mais da moderna situação de classe, própria da sociedade
capitalista emergente, do que da velha ordem hierárquica do Ancien Régime (A
burocracia, ou o Mittelstande, por exemplo, é uma condição social aberta a todos os
que revelem qualificação para tanto, independentemente do nascimento). Além disso,
o fato de ser ele mesmo um "servidor público", um membro da Mittelstande, talvez
explique a grande importância que atribui à burocracia no quadro da nova ordem
burguesa, uma importância que, de resto, só iria se acentuar no período sucessivo da
evolução do capitalismo. Por tudo isso, não me parece equivocado dizer que,
enquanto Rousseau expressa uma utopia anacrônica (ainda que plena de implicações
políticas positivas para o presente e para o futuro), Hegel descreve na Filosofia do
Direito, ao contrário, um Estado análogo – em suas linhas fundamentais – ao Estado
burguês moderno realmente existente123.

Se estas eram suas preocupações, evidentemente que não é possível estabelecer a crítica
que pretende passando ao largo da problemática do Estado. Assim, publica nos Anais Franco-
Alemães, em 1844, Sobre a Questão Judaica124 e Crítica da Filosofia do Direito de Hegel125
pensamentos que sintetizam inauguralmente a crítica pretendida. No primeiro, Marx distingue, a
seu modo, o que Hegel também fizera: sociedade civil de sociedade política; privado e público.
De modo análogo a Hegel, entende sociedade civil como o conjunto das relações
econômicas, porém, e aí se afasta de Hegel, social e historicamente determinadas, portanto
relações econômicas burguesas, objetivas e concretas, base do tecido societário e a partir do

123
COUTINHO, Carlos Nelson. Hegel e a democracia. Conferência proferida para o Instituto de Estudos
Avançados da Universidade de São Paulo (USP) em 13 de julho de 1997. Disponível em:
<www.iea.usp.br/artigos>. Acesso em: 15 fev. 2013.
124
MARX, Karl. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010.
125
Id. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.

79
conjunto de mediações que a determinam é que se funda o Estado no campo superestrutural,
frontalmente opondo-se à lógica hegeliana de que é o Estado que funda a sociedade civil126.
Marx demonstra interação entre as duas esferas, compreendendo que o Estado é
expressão da sociedade, portanto, não podem ser entendidos fora dessa natureza relacional. No
prefácio de Contribuição à Crítica da Economia Política, é que Marx (2008, p. 47) apresenta
formalmente esta conclusão:

Minhas investigações me conduziram ao seguinte resultado: as relações jurídicas, bem


como as formas do Estado, não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela
chamada evolução geral do espírito humano; essas relações têm, ao contrário, suas
raízes nas condições materiais de existência, em suas totalidades, condições estas que
Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do século 18, compreendia sob o nome
de “sociedade civil”. Cheguei também à conclusão de que a anatomia da sociedade
127
burguesa deve ser procurada na Economia Política .

Portanto, Marx (2008, p. 47) não apenas afirma que o Estado só pode ser explicado e
entendido a partir da sociedade civil (a anatomia da sociedade burguesa a que se refere é a da
sociedade civil), como entende que é no Estado em que as formas de consciência são
encontradas:

(...) na produção social da própria existência, os homens entram em relações


determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção
correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas
materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da
sociedade [sociedade civil], a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura
jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência
[Estado]128.

E prossegue anunciando o dinamismo das relações socioeconômicas burguesas, capaz


de conferir também um movimento dinâmico ao Estado, o que faz deste um ente relacional e
transitório:

126
Marx define a estrutura social em dois níveis: a infraestrutura, estrutura ou base que é o lócus onde
acontecem as relações econômicas que sustentam toda a dinâmica de uma sociedade. O domínio da
infraestrutura é inevitavelmente o exercício de poder próprio da sociedade burguesa. O outro nível é a
superestrutura na qual residem as estruturas jurídicas, o Estado e os aparelhos do Direito e as instâncias
ideológicas, políticas, morais, etc. da sociedade.
127
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
128
Grifos nossos.

80
O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e
intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o
seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu
desenvolvimento, as forças produtivas materiais de uma sociedade entram em
contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua
expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam
desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas
relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social. A
transformação que se produziu na base econômica transforma mais ou menos lenta ou
rapidamente toda a colossal superestrutura. (Id.,ibid., p. 48).

Esses excertos nos mostram a maneira como Marx realiza o tratamento que dispensa à
problemática do Estado. Isto é, partindo o seu raciocínio das condições materiais e objetivas em
que se realiza a vida social, o que prossegue é a perspectiva revolucionária da transformação.
Portanto, o Estado não é um fim em si mesmo e por isso não necessita ser tratado como
instância onde se finaliza a realização da humanidade129.
Essa constatação teria levado Marx a não formular uma teoria geral do Estado, mas sim
tratá-lo transversalmente na quase totalidade de sua produção. Essa transversalidade, conferida
ao Estado por Marx, em suas obras, salta aos olhos, quando o autor problematiza as
características fundantes da sociedade capitalista, como, por exemplo, a divisão de classes
sociais, a exploração do trabalho pelo capital, os princípios da ideologia e da política (classista)
burguesa e a Revolução.
No Manifesto do Partido Comunista, texto que constrói em parceria com Friedrich
Engels (1820-1895), por exemplo, os autores afirmam: “A história de todas as sociedades que já
existiram é a história das lutas de classes”. Desse modo, informam que o Estado burguês é
classista, e arrematam: “O poder executivo do Estado moderno não passa de um comitê para
gerenciar os assuntos comuns de toda a burguesia” 130.
Em que pesem as inúmeras reproduções e traduções existentes do Manifesto (até mesmo
por seu caráter instrumental-partidário), que podem levar a interpretações diversas, não há como
ignorar que essa passagem do opúsculo refere-se ao modo como a burguesia consegue ter no
Estado a direção social de seus interesses.

129
Nesta afirmação, identificamos o ineditismo da construção marxiana sobre o Estado por ficar evidente
seu distanciamento da maior parte das produções anteriores sobre o tema. Ou seja, para Marx, o Estado
não é o instrumento para se alcançar a felicidade, como queria Aristóteles, e nem o Reino dos Céus, como
se pensava na Idade Média; não é resultado de um contrato tácito entre os homens com delegação para
harmonizar suas relações sociais nem muito menos a expressão máxima da vontade geral, instância
universalizadora dos interesses particulares como pensou Hegel. O Estado é tão somente um momento de
síntese da superestrutura que tende a ser transformado na medida em que se transformam as relações
sociais de produção.
130
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução de Maria Lúcia
Como. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

81
Como Marx já havia alertado para a permeabilidade do Estado burguês aos interesses
de uma classe dominante, a afirmação da dupla Marx-Engels não pode ter seu caráter crítico
reduzido a uma interpretação possibilista de Estado asséptico, ou acima das classes. Neste
sentido, Trotsky (1879-1940) tece o seguinte comentário sobre a afirmação contundente contida
no Manifesto:

Nesta fórmula concentrada, que para os dirigentes sociais-democratas aparecia como


um paradoxo jornalístico encontra-se, na verdade, a única teoria científica sobre o
Estado. A democracia criada pela burguesia não é, como pensavam Bernstein e
Kautski, uma concha vazia que se pode, tranquilamente encher com o conteúdo de
classe desejável. A democracia burguesa só pode servir à burguesia. O governo de
“Frente Popular” dirigido por Blum ou Chautemps, Caballero ou Negrin é tão
somente “uma delegação que administra os negócios comuns de toda a classe
burguesa”. Quando esta delegação se sai mal em seus negócios, a burguesia expulsa-a
131
do poder a pontapés. (TROTSKY, 1937 ) .

Essa é a tônica, que, embora Trotsky classifique como “teoria científica sobre o
Estado”, tem muito mais um aspecto denunciador do que propriamente teórico. Os elementos
teóricos que tornam a afirmação racional, lógica e mesmo empírica surgirão, como já dissemos,
no estudo detalhado da sociedade burguesa e sua dinâmica de reprodução, e, consequentemente,
as formas imanentes de sua superação, este, sim, o objeto real de estudo da vida de Marx,
lapidados maduramente em O Capital.
Ocorre que a influência da construção marxiana nos domínios da economia, da filosofia,
da história, da ciência política e do direito, funda uma escola, uma corrente de pensamento ou,
em outros termos, uma tradição que atenderá pelo nome de marxismo, ou, de tão vasta,
marxismos, como se referiu Netto (1985, p.8-9) acerca das “vertentes diferenciadas e
alternativas de uma já larga tradição teórico-política”, bem ao modo das problematizações
próprias da teoria científica. Afinal, conclui Netto: “A hipótese de um marxismo único, puro e
imaculado remete mais à mitologia política e ideológica do que à crítica racional” 132.
Assim, desde Engels, que construiu com Marx os pilares dessa tradição, até os
signatários contemporâneos dessa escola, como Mészáros ou Hobsbawn, o marxismo tem se
apresentado vigorosamente como teoria da sociedade burguesa e sua ultrapassagem pela
revolução proletária (NETTO, 1985), instigando os que nele se fundamentam a inquerir sobre as

131
Citação retirada do texto A Atualidade do Manifesto do Partido Comunista, escrito por Leon Trotsky
como prefácio à primeira edição do manifesto publicada na África do Sul, em outubro de 1937. Pode ser
encontrado, no Brasil, na edição de 1998, publicada pela Boitempo Editorial, com a organização de
Osvaldo Coggiola e tradução de Álvaro Pina. Todavia, nosso primeiro contato com o texto se deu a partir
da edição comemorativa dos 150 anos do manifesto publicada para a Campanha Financeira da corrente O
trabalho, do Partido dos Trabalhadores, seção brasileira da 4a Internacional.
132
NETTO, José Paulo. O que é marxismo. São Paulo: Brasiliense, 1985. (Coleção Primeiros Passos).

82
questões da vida social, o que inclui, evidentemente, a problemática do Estado e, porque não, do
desenvolvimento da sociedade capitalista.
A proximidade afetiva e política de Engels com Marx forneceu à obra de Engels uma
unidade teórica inalienável ao pensamento do filósofo alemão. Reconhecendo a necessidade de
associar o materialismo dialético – o método – à Teoria da História, Engels investiga as origens
da família, da propriedade privada e do Estado, publicando em 1884 um livro que leva esse
mesmo nome. Coincide com o advento da antropologia e da etnologia.
Engels se vale de anotações de Marx sobre a obra A Sociedade Antiga, do etnólogo
norte-americano Lewis Henry Morgan e, através do estudo de tribos daquele país, investiga sua
organização a partir do direito materno, a posterior apropriação de excedentes de produção
como forma primitiva de origem do patriarcado e a consequente formação de um Estado que
preserve a ordem mantendo a desigualdade (de gênero) e classes, a partir de um pressuposto
simples:

De acordo com a concepção materialista, o fator decisivo na história é, em última


instância, a produção e a reprodução da vida imediata. Mas essa produção e essa
reprodução são de dois tipos: de um lado, a produção dos meios de existência, de
produtos alimentícios, habitação, e instrumentos necessários para tudo isso; de outro
lado, a produção do homem mesmo, a continuação da espécie. (ENGELS, 2002,
133
p.10) .

Justamente as formas histórica e socialmente determinadas de continuação da espécie


humana que levam Engels a aprofundar-se nessa investigação. Por isso que, em seu estudo, a
sociedade não é um conjunto formado pelas partes, mas, uma dessas partes, é a família134, ao
contrário, a família antecede ao capitalismo, mas encontra nele condições de se transformar em
algo funcional e, praticamente, estrutural ao sistema, devido ao seu imbricamento às relações de
produção simples e ampliadas:

133
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo:
Centauro, 2002.
134
Já pensada como lócus que organiza os homens em sua constituição como ser humano genérico para a
produção e reprodução das condições materiais de sobrevivência, mas também para a reprodução
espiritual, isto é, as formas de consciência social: jurídicas, religiosas, artísticas ou filosóficas, por meio
das quais os indivíduos tomam consciência dos processos atinentes à reprodução material. Essa
consideração, embora diga respeito também à família, a ultrapassa, pois a realização do ser humano
genérico como tal não se limita a ela, ao contrário, a extrapola. A família é vista, pois, por Engels, como
apenas uma das formas encontradas pelo capital para sustentar seus intentos reprodutivos. Nesse sentido,
ver nossa dissertação de Mestrado Trabalho, Família e Ser Social: Elos que Unem a Centralidade do
Trabalho às Relações Familiares, defendida no Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social
da PUC-SP, em 2005.

83
[A família] constitui-se, propriamente, uma das condições históricas encontradas pelo
capitalismo no processo de sua formação. Envolvida nesse processo, a família se
transforma porque, em última instância, é determinada pelas necessidades de
reprodução do modo de produção. Mais ainda, as alterações que sofre implicam
diferenciações que correspondem às condições específicas de formação das novas
classes. Mas sua forma inicial, derivada de condições históricas específicas, fundada
em um tipo característico de divisão sexual do trabalho, certamente influi na forma
alterada que assume posteriormente. (DURHAM, 1985, p. 08 apud PAULA, 2008, p.
135
28-29) .

Assim, para Engels, a sociedade funda-se, mesmo as sociedades primitivas, quando a


divisão social simples e de gênero do trabalho tomam forma como meio de organizar a
produção e reprodução das condições de vida material, tendo a família como canal intermediário
para esse fim.
Nas sociedades primitivas, essa divisão do trabalho não implicava nem a subordinação
da mulher ao homem, nem vice-versa, sendo matriarcais; muito menos a apropriação privada
dos excedentes de produção. É o desenvolvimento das forças produtivas, com a domesticação e
a criação de gado, por exemplo, que leva essa função masculina a ser entendida também como
forma de credenciamento ao poder paterno, definindo não apenas a sucessão (herança) como a
própria propriedade privada. A autoridade do pai sobre os demais membros da família funda um
tipo de dinâmica, nesse espaço privado, que é rapidamente difundida não apenas para todos os
outros grupos familiares como também para as relações societais mais amplas, com auxílio de
um arcabouço de valores burgueses emergentes.
Ocorre que nem todas as famílias são iguais, muito menos as propriedades. Portanto, as
dinâmicas familiares e sua formação complexificam-se e, justamente por isso, alteram as
relações econômicas – de produção e reprodução social -, na consolidação das classes com
inflexões no jogo ético-politico de interesses que essas classes empreendem entre si e entre suas
frações. É nesse sentido que o Estado surge como forma de “colocar em ordem” a
“desestruturação” da sociedade, percebida em seus grupos de convívio, ação que, segundo
Engels, não era necessária nas sociedades tribais. Gruppi (180, p. 30), nesse sentido, lembra:

135
PAULA, Renato Francisco dos Santos. Revisitando o método em Marx sob a motivação da
centralidade da família na política de assistência social e no trabalho dos assistentes sociais. In: ______.
As coisas e seu lugar: diálogos sobre serviço social, assistência social, direitos e outras conversas. v. 1,
São Paulo: Giz Editorial, 2008.

84
Tudo começa quando se diferencia a posição dos homens nas relações de produção.
Por um lado temos os escravos, pelo outro, o proprietário de escravos; de uma parte o
proprietário da terra, de outra, os que nela trabalham, subjugados pelo proprietário.
Quando se produzem essas diferenciações nas relações de produção, determinando a
formação de classes sociais e, por conseguinte a luta de classes, surge a necessidade
do Estado: a classe que detém a propriedade dos principais meios de produção deve
institucionalizar sua dominação econômica através de organismos de dominação
política, com estruturas jurídicas, com tribunais, com forças repressivas, etc.

Isso implica dizer que o Estado surge como instrumento de dominação, tendo, de modo
imanente, o caráter classista em todos os seus equipamentos institucionais. A unidade interna,
nos argumentos de Engels referenciada aos estudos de Marx, aparece mais uma vez quando
percebemos que tanto em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, quanto na Guerra Civil na
França, ou mesmo na Crítica ao Programa de Gotha, o Estado é entendido como um ente que

nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classes, resulta que ele é sempre


o agente da classe mais poderosa e economicamente dominante a qual, como
consequência de sua riqueza, se transforma na classe politicamente dominante e
adquire, assim, novos meios para oprimir e dominar as classes dominadas. (ENGELS,
prefácio à Crítica do Programa de Gotha).

Em síntese, poucos são os marxistas que se aventuraram ou se aventuram a identificar


uma teoria orgânica do Estado em Marx. O mais comum é encontrarmos a afirmação da
existência de uma teoria orgânica do Estado burguês em Marx, resguardadas as aproximações
sócio-históricas empreendidas por Engels ou em suas obras conjuntas.
Ocorre que a célebre afirmação de Marx de que “os homens fazem sua própria história,
mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas
com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”136 serviu e tem servido,
ainda contemporaneamente, tanto para sabermos o que sustenta a prática política (revolucionária
ou não) quanto para a construção ou inquisição teórica da História e da realidade, que nada mais
são do que as circunstâncias com as quais os homens se defrontam.
Em outros termos, estamos dizendo que, sob circunstâncias conjunturais distintas, o
espólio marxiano foi devida ou indevidamente apropriado nas inúmeras tentativas de lhe agregar
argumentos naquilo que os legatários identificaram como ausência, omissão ou insuficiência em
seu arcabouço. É, assim, a problemática do Estado é o caso mais emblemático dessas
complementações.
Em Lênin, temos uma forma inaugural dessa tentativa, mas ela prossegue – como
dissemos, em circunstâncias e objetivos distintos – em Gramsci, em Althusser ou em
136
MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. In: Manuscritos econômico-filosóficos e outros
textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).

85
Poulantzas, para citar apenas os mais visitados (ou mais polêmicos). Com isso, não estamos
nivelando ou equalizando essas construções, ao contrário, o que elas trazem de similitude é o
Estado como objeto central e o referenciamento explícito a Marx e Engels.
Não se furtam à centralidade da luta de classes, como motor da História, e nem aos
mecanismos de expropriação do trabalho pelo capital. Contudo, se distinguem quanto a vários
aspectos, dentre os quais se destacam: os aspectos ontológicos práticos do desenvolvimento da
sociedade burguesa, e as formas distintas de levar a cabo o projeto de transformação radical da
sociedade, ou seja, os modos de encaminhar a Revolução, e, consequentemente, proceder à
extinção do Estado.
Vladimir Ilitch Ulianov Lênin (1870-1924), por exemplo, produz vigoroso ensaio
marxista sobre o Estado, em meio à experiência da Revolução Russa de 1917 e em eufórica
polêmica com os militantes da Segunda Internacional, sobretudo Karl Kautsky (1854–1938)137.
Portanto, O Estado e a Revolução, de Lênin, é um caso exemplar daquelas construções teóricas
que dissociam teoria e prática, em especial a prática revolucionária. Tecendo a crítica a Kautsky
(e aos que chamou de sociaischauvenistas) Lênin (2007, p. 24) anuncia seus objetivos ao situar
seus escritos no contexto em que se inserem:

Em tais circunstâncias, e uma vez que se logrou difundir tão amplamente o marxismo
deformado, a nossa missão é, antes de mais nada, restabelecer a verdadeira doutrina
de Marx sobre o Estado. (...) Assim, apoiados em provas, demonstraremos, à
138
evidência, que o atual “kautskismo” as deturpou .

Logo, no seu intuito de combater ao que chamou de deformação do marxismo, Lênin


(2007, p. 25) retoma o eixo central do que pensaram Marx e Engels sobre o Estado e em
referência direta ao segundo, em seu A Origem da Família, da Propriedade Privada e do
Estado, recupera o caráter do Estado como “produto e manifestação do antagonismo
inconciliável das classes”, entendendo este como o “ponto de importância capital e fundamental
em que começa a deformação do marxismo”:

De um lado, os ideólogos burgueses e, sobretudo, os da pequena burguesia, obrigados,


sob a pressão de fatos históricos incontestáveis, a reconhecer que o Estado não existe
senão onde existem as contradições e a luta de classes, “corrigem” Marx de maneira a
fazê-lo dizer que o Estado é o órgão da conciliação das classes.

Lênin não vê em Marx a possibilidade dessa construção teórica (a da conciliação de


classes como função do Estado). Para ele, em Marx, “o Estado não poderia surgir nem subsistir

137
Karl Kautsky nasceu em Praga, em 1854, e foi um dos fundadores da social-democracia.
138
LÊNIN, V. I. O estado e a revolução: o que ensina o marxismo sobre o Estado e o papel do
proletariado na revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

86
se a conciliação das classes fosse possível”. O Estado é um instrumento de dominação que, ao
institucionalizar os interesses burgueses na sua estrutura, amortece a colisão das classes, mas
não as concilia. Esse ponto nevrálgico da análise marxiana será mais tarde retomado por
Gramsci, ao tratar da hegemonia como processo, e por Poulantzas, quando trata da influência
das instâncias política e ideológica nas estruturas do Estado burguês sob a dominação do
econômico.
Para Lênin (2007, p. 44), o tratamento dispensado ao Estado, por Marx e Engels, deve
servir à elucidação não apenas do modus operandi da Revolução como para a instalação da
ditadura do proletariado:

A doutrina da luta de classes, aplicada por Marx ao Estado e à revolução socialista,


conduz fatalmente a reconhecer a supremacia política, a ditadura do proletariado, isto
é, um poder proletário exercido sem partilha e apoiado diretamente na força das
massas em armas. O derrubamento da burguesia só é realizável pela transformação do
proletariado em classe dominante, capaz de dominar a resistência inevitável e
desesperada da burguesia e de organizar todas as massas trabalhadoras exploradas
para um novo regime econômico.

Ou seja, trata-se da manutenção do Estado como aparelho de dominação, pelo menos no


que tange aos momentos afetos à transição do capitalismo para o comunismo, pois o processo
revolucionário pressupõe a abolição das classes como tal, logo, Lênin não está falando apenas
de uma substituição simples e mecânica do poder burguês pelo poder proletário. Pensando na
transição e no Estado como instrumento insuperável desse processo, Lênin (2007, p. 44-45)
admite que o “proletariado precisa do poder político [do Estado]139, da organização centralizada
da força, da organização da violência, para reprimir a resistência dos exploradores e dirigir a
massa enorme da população (...) na edificação da economia socialista”.
A ditadura do proletariado é, pois, o início da transição para o comunismo, fazendo as
massas converterem-se de classe dominada para classe dominante. Não há, em Lênin, qualquer
concessão a reformas ou revisões no âmbito do Estado, ao contrário, o revolucionário russo
preconiza a extinção do Estado, pois no limite invoca a supressão das classes sociais140.
O poder das argumentações leninistas sobre o Estado foi tamanho que extrapolou os
limites da Rússia percorrendo o mundo. Quando atingem a Itália, provocam um jovem
comunista italiano, militante do PCI141, e o levam a aprofundar-se sobre os desdobramentos da
Revolução.

139
Grifo nosso.
140
A possibilidade revisionista foi dura e criticamente problematizada por Rosa Luxemburg (1871-
1919) em seu ensaio Reforma Social ou Revolução?, de 1899.
141
Partido Comunista Italiano.

87
Antonio Gramsci (1891-1937) recupera alguns eixos da ditadura do proletariado em
Lênin e assevera que esta não se trata de uma transformação institucional, mas sim de mudanças
profundas na estrutura econômica (base) e política o que, por consequência, altera também os
paradigmas do pensamento humano na esfera da cultura e das ideologias142.
Nesse sentido, Gramsci reconhece em Lênin o uso adequado do materialismo histórico,
também como método 143 quando Lênin dissocia a construção do pensamento (a filosofia
política) da prática política revolucionária, reconhecendo o marxismo como a filosofia da
práxis. Nesse sentido, para Gramsci, filosofia é também ação. Portanto, está sustentando a
existência de uma ciência marxista de ação política (CARNOY, 1988, p. 89)144

O princípio teórico-prático da hegemonia tem também ele uma porta gneseológica e,


portanto, nesse campo é de se pesquisar o aporte máximo de Illich [Lênin] para a
filosofia da práxis. Illich [Lênin] teria feito progredir (efetivamente) a filosofia (como
filosofia) tanto quanto fez progredir a doutrina e a prática políticas. A realização de
um aparato hegemônico, enquanto cria um novo terreno ideológico, determina uma
reforma das consciências e dos métodos de conhecimento, é um fato de
145
conhecimento, um fato filosófico. (GRAMSCI, 1975) .

Se, de um lado, o filósofo italiano considera úteis as considerações leninistas sobre a


práxis para sua formulação da noção de hegemonia, por outro, afasta-se delas, quando distingue,
no campo ontológico-prático, hegemonia de ditadura do proletariado. Para Gramsci, Lênin foi
um dos primeiros a se referir à noção de hegemonia. Lênin a teria empregado em virtude do
estudo da direção do proletariado quando da Nova Política Econômica (NEP) na Rússia146.
Entendeu hegemonia como a capacidade de direção política do proletariado sobre as
demais classes, em especial o campesinato. Gramsci traz o conceito para as democracias mais
complexas do ocidente e relaciona à direção política do proletariado sobre a pequena burguesia.
Acresce, nessas considerações, as reafirmações de Marx e Engels, no que tange ao papel das
relações de produção baseadas na exploração do trabalho pelo capital, na conformação da
sociedade burguesa (a base ou estrutura), contudo, dedica maior ênfase ao papel da
superestrutura nesse processo de dominação.

142
Trata-se de uma das muitas distinções entre Lênin e Gramsci. Lênin procederá a uma crítica
contundente ao que chamou de “desvio ideológico à esquerda” protagonizado por uma parte dos
comunistas alemães, ingleses e italianos, sobretudo. A crítica de Lênin emerge após a Terceira
Internacional. Consultar: LÊNIN, V. I. Esquerdismo: doença infantil do comunismo. Porto Alegre: Anita
Garibaldi, s/d.
143
E não apenas como filosofia.
144
CARNOY, Martin. Estado e teoria política. Campinas/SP: Papirus, 1988.
145
GRAMSCI, Antônio. Cadernos do cárcere. Q. 10, 1975.
146
A Nova Política Econômica (NEP) surge na Rússia, após a vitória das teses de Lênin, no X Congresso
do PCUS, que sucede ao “comunismo de guerra”. Durante a NEP, previu-se a permissão de certas
práticas mercantis na Rússia socialista. Na perspectiva de Lênin, o proletariado urbano teria de dirigir os
pequenos camponeses, os agentes dessas relações mercantis.

88
Confere, pois, um papel importante aos aspectos culturais, ideológicos, políticos,
religiosos, componentes, segundo ele, da superestrutura, afastando-se, deste modo, das
tendências de um marxismo economicista. Para Gramsci, os elementos conjunturais (que são
também historicamente determinados) da ideologia, da política, da cultura, das visões de mundo
concorrentes – burguesa ou proletária, etc., participam do processo de formação da consciência
por meio da qual os sujeitos entendem a si e ao mundo em que vivem.
Nesse sentido, o entendimento da centralidade da propriedade privada dos meios de
produção na ordem burguesa é necessário, mas não suficiente para entender a sociedade como
um todo e os processos sociais pelos quais os indivíduos tomam consciência de si e do mundo,
pois o processo de superação de um modo de produção para outro 147 não é uma injunção linear,
mecânica, ao contrário, é submetida a toda sorte de contingências sociais148.

Ele [Gramsci] atribuiu ao Estado parte dessa função de promover um conceito


(burguês) único da realidade e, consequentemente, emprestou ao Estado um papel
mais extenso (ampliado) na perpetuação das classes. Gramsci conferiu à massa dos
trabalhadores muito mais crédito do que Lênin, ao considerar que eles próprios eram
capazes de desenvolver a consciência de classe, porém ele considerou que na
sociedade ocidental os obstáculos a tal consciência eram muito mais formidáveis do
que Lênin imaginava: não era simplesmente a falta de um entendimento de sua
posição no processo econômico que impedia os trabalhadores de compreender o seu
papel de classe, nem eram somente as instituições “privadas” da sociedade, como a
religião, as responsáveis por manter a classe trabalhadora longe da autoconsciência,
mas era o próprio Estado que estava encarregado da reprodução das relações de
produção. Em outras palavras, o Estado era muito mais do que o aparelho repressivo
da burguesia; o Estado incluía a hegemonia da burguesia na superestrutura.
(CARNOY, 1988, p. 90-91).

Em outros termos, esses pressupostos permitiram que Gramsci propusesse uma


complementação às formulações de Marx, Engels e Lênin, sobre o Estado. Neles, conclui-se a
definição do Estado como braço repressor da burguesia sobre o proletariado, sendo, esse,
residente numa sociedade civil em que se realiza o “conjunto do intercâmbio material dos
indivíduos, no interior de um estágio determinado de desenvolvimento das forças produtivas”
(CARNOY, 1988, p. 92). Já em Gramsci, há inflexões desse intercâmbio na superestrutura,
fazendo do Estado um Estado ampliado:

147
E a formação social a ele inerente: do primitivismo ao feudalismo, do feudalismo ao capitalismo, do
capitalismo ao comunismo, etc.
148
Embora atribua relevância aos aspectos da superestrutura, como a ideologia, a política e a cultura, que
em Marx estavam na base, Gramsci não abdica da necessidade de uma articulação orgânica entre essas
esferas nos domínios do que ele chamara de bloco histórico.

89
O Estado em sentido amplo, com novas determinações, comporta duas esferas
principais: a sociedade política (que Gramsci também chama de “Estado em sentido
estrito” ou de “Estado de coerção”), que é formada pelo conjunto de mecanismos
através dos quais a classe dominante detém o monopólio legal da repressão e da
violência, e que se identifica com os aparelhos de coerção sob controle das
burocracias executiva e policial-militar; e a sociedade civil formada precisamente pelo
conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão das ideologias,
compreendendo o sistema escolar, as Igrejas, os partidos políticos, os sindicatos, as
organizações profissionais, a organização material da cultura (revistas, jornais,
149
editoras, meios de comunicação de massa), etc. (COUTINHO, 1989, p. 76-77) .

Ou seja, o salto gramsciano estabelece a distinção dialética entre sociedade política e


sociedade civil, sem dar margem a interpretação de que se constituem em blocos imutavelmente
antagônicos, ao mesmo tempo em que evidencia as relações de poder como sua mediação
inevitável. Assim, o exercício do poder praticado pelo Estado é mediado por um conjunto de
instituições que formam essas duas esferas (sociedade política e civil) e que, para atender aos
interesses das classes dominantes, são “sequestradas” por ela na conquista da hegemonia.
Seguindo esse raciocínio, o conceito de hegemonia será fundante para toda a argumentação
gramsciana.
A hegemonia, no caso burguês, é o processo pelo qual o aparato ideológico dominante
se difunde no conjunto da vida social e conquista legitimidade, expressando ilusoriamente que,
na ideologia burguesa, estão contidos os valores universais de uma civilidade comum a todos.
A luta pela hegemonia deve atravessar como um trem desgovernado todas as esferas da
vida social para ser legítima. Carnoy (1988, p. 95) explica que Gramsci atribui dois significados
principais para a hegemonia:

O primeiro é um processo na sociedade civil pelo qual uma parte da classe dominante
exerce o controle, através de sua liderança moral e intelectual, sobre outras frações
aliadas da classe dominante (...). Ela não impõe sua própria ideologia ao grupo aliado;
mas antes representa um processo politicamente transformativo e pedagógico, pelo
qual a classe (fração) dominante articula um princípio hegemônico, que combina
elementos comuns, extraídos das visões de mundo e dos interesses dos grupos aliados.

E o segundo significado está na relação entre as classes dominantes e as dominadas:

149
COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci – um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro:
Campus, 1989.

90
A hegemonia compreende as tentativas bem sucedidas da classe dominante em usar
sua liderança política, moral e intelectual para impor sua visão de mundo como
inteiramente abrangente e universal, e para moldar os interesses e as necessidades dos
grupos subordinados (...) A hegemonia não é uma força coesiva. Ela é plena de
contradições e sujeita ao conflito. (Id., ibid., p. 95).

Com esse conceito, Gramsci consegue mostrar o quão complexo se tornou o exercício
do poder nas sociedades capitalistas, sobretudo as de capitalismo avançado. Complexo porque
não se sustenta apenas na coerção física (força) ou apenas no consentimento (consenso). Ao
contrário, funciona com a articulação orgânica desses dois modos de exercício de poder. Com a
liderança social-moral, a burguesia consegue tornar seu arcabouço de valores – valores
burgueses – aceitos pelas massas como sendo seus.
Conformam, com o uso das instituições sociais-jurídico-políticas, uma identidade
subalterna que transforma o homem em déspota de si mesmo, de modo mais eficiente do que
aquele pensado por Marx, quando utilizou essa figura de linguagem se referindo à alienação do
trabalho. Com o domínio do Estado, conseguem exercer o monopólio legal da violência,
utilizando, quando necessário, a força repressiva do aparato policial-militar. É a junção desses
dois componentes de dominação que fazem da hegemonia burguesa o ingrediente indispensável
de sua dominação.
A conquista da hegemonia por parte da classe dominante é um instrumento tão poderoso
e eficaz que consegue legitimar tanto os Estados autocráticos (conseguindo adesão civil popular
ao nazismo, ao fascismo, às ditaduras, etc.) quanto às democracias liberais de massas
(universalizando os valores do liberalismo, do neoliberalismo, do populismo, do nacionalismo,
do desenvolvimentismo, do neodesenvolvimentismo, etc.).
Manter essa articulação orgânica entre os instrumentos de repressão não é tarefa fácil,
para a classe dominante, nem nas autocracias, menos ainda nas democracias.
As oscilações do movimento histórico, motivadas, sobretudo, pela luta de classes que
não deixa de existir com a existência de uma hegemonia burguesa, podem induzir a burguesia a
utilizar apenas um mecanismo de poder em detrimento do outro. É possível, ainda, que a luta de
classes leve a uma intensificação do ativismo político das classes subalternas. Outra
possibilidade são as rupturas entre frações da classe burguesa, que podem se sentir preteridas ou
mesmo insatisfeitas com a condução do grupo dominante.
Temos ainda a possibilidade da separação das classes sociais de seus partidos políticos,
de modo que suas lideranças deixem de ser reconhecidas como tal. Enfim, todas essas
possibilidades sócio-históricas, dentre outras, levam a uma crise de autoridade, que Gramsci
denominou de crise de hegemonia. Essas crises fazem parte da estrutura dos Estados burgueses
e são responsáveis pelo dinamismo político em seu interior.

91
[A crise de hegemonia] se caracteriza (...) por um período relativamente longo de
maturação, no qual se dá uma complexa luta por espaços e posições, um movimento
de avanços e recuos. Como toda a crise, a de hegemonia pode dar lugar a diferentes
alternativas, isto é, pode ter diferentes soluções. De imediato, a classe dominante pode
ter condições de continuar dominando através da pura coerção; a médio prazo, ela
pode certamente recompor sua hegemonia, por meio de concessões, de manobras
reformistas, etc., para o que contará com a incapacidade das forças adversárias de
apresentar soluções positivas e construtivas. Mas a tendência dominante, ainda que
não inevitável, é de que as classes dominadas – favorecidas pelo caráter estrutural da
crise – ampliem seu arco de alianças e sua esfera de consenso, invertam em seu favor
as relações de hegemonia e, desse modo, ao se tornarem classes dirigentes (ao
apresentarem e conquistarem consenso para propostas de solução dos problemas do
conjunto da nação), criem condições para chegarem à situação de classes dominantes.
150
(COUTINHO, 1989, p.93) .

Para Gramsci, a classe dominante reconhece não apenas a possibilidade da crise, mas a
sua inevitabilidade no movimento real de desenvolvimento do capitalismo, ainda que não a
admita de pronto. Assim, estão dadas as condições da disputa pela hegemonia, tanto entre as
classes fundamentais da sociedade burguesa, quanto entre suas as frações. Gramsci recorre,
então, ao conceito de guerra de posição para se referir a tal forma de disputa, e, ainda, faz
referência ao papel dos intelectuais orgânicos no processo da condução revolucionária.
Lênin, seguindo os ensinamentos de Marx e Engels, propôs, como vimos, que a
ascensão proletária deve ser alcançada por meio da tomada violenta do Estado, para, na
sequência, extingui-lo. O controle de seu aparelho repressor e coercitivo é, então, condição
suficiente para que a luta proletária logre êxito. Esse processo recebe de Lênin o nome de
“guerra de movimento”. Gramsci reformula a questão entendendo que o controle do aparato
repressivo do Estado não é a condição suficiente para que o movimento operário consolide seu
poder sociopolítico.
O movimento contra hegemônico deve assegurar também o controle daquilo que ele
identificou como componentes elementares da superestrutura: a ideologia, a cultura, a política, a
religião, a comunicação, etc. Sem o domínio desses mecanismos, capazes de difundir um
pensamento proletário, dificilmente o movimento contra hegemônico logra êxito. A ideia de
Gramsci é que a contra hegemonia pode se espraiar e se capilarizar em todo o proletariado,
atingindo inclusive militantes menos atuantes e não militantes; portanto, seria um processo
gradual que recebe de Gramsci o nome de guerra de posição, como dissemos alhures.
Esse raciocínio não significa que Gramsci tenha abdicado por completo da possibilidade
estratégica da guerra de movimento. Ao contrário, para demonstrar que também há nela

150
Id., ibid.

92
viabilidade histórica, estabelece que no Oriente a guerra de movimento é mais adequada que no
Ocidente.
Lá (no Oriente, pensando mesmo na Rússia), a prevalência do poder estatal sobre a
sociedade civil é quase absoluta, o que implica a possibilidade de êxito da tomada de “poder”
pelo proletariado apenas com a conquista dos aparelhos repressores de Estado. Já no Ocidente,
as relações entre Estado e sociedade civil são mais equilibradas, o que significa que a subversão
simples, por meio de um ataque violento ao Estado, não daria conta de garantir a manutenção
perene do domínio pleno da sociedade.

Gramsci pôde formular, de modo positivo, sua proposta de estratégia para os países
“ocidentais”. Nas formações “orientais”, a predominância do Estado-coerção impõe à
luta de classes uma estratégia de ataque frontal, uma “guerra de movimento”, voltada
diretamente para a conquista e conservação do Estado em sentido restrito; no
“Ocidente”, ao contrário, as batalhas devem ser travadas inicialmente no âmbito da
sociedade civil, visando à conquista de posições e de espaços (“guerra de posição”),
da direção político-ideológica e do consenso dos setores majoritários da população,
como condição para o acesso ao poder de Estado e para sua posterior conservação.
(COUTINHO, 1989, p. 89).

Podemos, assim, apreender que a guerra de posição para Gramsci leva em conta as
estruturas, a conjuntura e as relações sociais de cada país em particular, o que pressupõe
detalhada análise sócio-histórica do estágio de desenvolvimento das forças produtivas locais,
associada aos mecanismos que conformam a identidade genérica da sociedade civil que ali se
realiza, como meio fundante para subsidiar as estratégias revolucionárias. Ainda, é possível
considerar que os enunciados gramscianos induzem a um modo diferente de organização das
massas proletárias, na medida em que estas devem se preparar também para o exercício do
poder no Estado, substituindo, nas instituições, a cultura burguesa por uma cultura operária
irremediavelmente amparada pela aquisição de uma consciência de classe conquistada nesse
processo.
Além disso, Gramsci confere especial atenção ao papel do partido, de um partido de
massas capaz de arregimentar intelectuais orgânicos que emergem no contexto da consciência
de sua própria classe social.
Esses intelectuais teriam funções análogas às do partido, pois ajudam a construir a
contra hegemonia naquilo que compete à difusão direta de um pensamento proletário.
Contribuem, sobretudo, para manter alerta a classe trabalhadora quanto às ofensivas
desestruturadoras de sua organização, preconizadas por vários processos sociais complexos,
destacando-se entre eles a revolução passiva. Nesse processo, seriam concedidos, às classes

93
trabalhadoras, meios para o aprimoramento das suas condições de sobrevivência, nos momentos
em que a burguesia se vê ameaçada, desmobilizando os movimentos das massas151.
As contribuições de Gramsci à tradição marxista são, ainda hoje, sem dúvida, de capital
importância. Formam, junto com as de Lênin, os esforços mais significativos na tentativa de se
construir uma “teoria do Estado” no âmbito do marxismo. Porém, como teorias e como esforços
não se esgotam em si mesmas, muito menos repousam incontestáveis.
Na metade da década de 1960, surge na França uma corrente de pensamento que
“buscou harmonizar o pensamento marxista com a natureza aparentemente ‘automática’ e
organizada da sociedade capitalista adiantada, uma sociedade onde tanto a classe operária como
a burguesia desempenham papéis ‘prescritos’” (CARNOY, 1988, p. 119). É a corrente
estruturalista que renova as leituras críticas nos domínios da linguagem (Saussure e Jacobson),
da antropologia (Lévi-Strauss), da psicologia (Lacan), do conhecimento e das relações sociais
(Focault), dentre outros.
A ideia principal era combater o subjetivismo que colocara o homem como sujeito no
centro dos sistemas metafísicos (CARNOY, 1988). Assim, a crítica marxista disponível sobre o
Estado, na época, não ficou imune a uma “revisão estruturalista”. Essa corrente é de uma
importância que não pode ser ignorada, no âmbito dos estudos marxistas, pois promoveu uma
verdadeira inquietação nas ciências sociais e políticas de sua época fomentando debates até os
dias atuais. Da ‘pena’ do filósofo argelino radicado na França, Louis Althusser (1918-1990),
saíram as principais reflexões e polêmicas dessa cena152.
Althusser (1985, p. 62-63) identifica que a presença do Estado como categoria analítica,
na obra marxiana, é uma presença descritiva e trata a descrição como etapa primeira para o
desenvolvimento teórico, mas não deve ser considerada a teoria em si:

151
O conceito de revolução passiva, como demonstramos na primeira parte da tese, é bem mais complexo
do que este aqui sumarizado. Gramsci teve por referência, para tratar desta noção, a Unificação Italiana, a
Unificação Alemã. Logo, verificamos a dimensão da complexidade histórica que reveste o conceito.
Quanto aos intelectuais, no segundo volume dos Cadernos do Cárcere, Gramsci os entende como aqueles
que são capazes de dar voz às aspirações da classe. Um dos exemplos que utiliza são os técnicos
industriais por defenderem a industrialização em contraponto a membros da hierarquia eclesial, como os
padres, por exemplo, por defenderem a propriedade latifundiária.
152
Tornou-se notório o debate entre Louis Althusser e E. P. Thompson. As críticas de Thompson a
Althusser podem ser verificadas no ensaio Contra o Estruturalismo de Althusser em O Aristóteles do
Novo Idealismo Marxista que compõe sua coletânea Miséria da Teoria (The Poverty of Theory).

94
Quando, ao falarmos da metáfora do edifício [base e superestrutura]153 ou da teoria
marxista do Estado dizemos que são concepções ou representações descritivas de seu
objeto, não escondemos nenhuma segunda intenção crítica. Pelo contrário, tudo leva a
crer que os grandes descobrimentos científicos não podem deixar de passar pela etapa
que chamamos uma “teoria” descritiva. Esta seria a primeira etapa de toda teoria, ao
menos no campo da ciência das formações sociais. Como tal, poder-se-ia, - e no nosso
entender deve-se – encarar esta etapa como transitória e necessária ao
desenvolvimento da teoria154.

O autor preocupa-se em esclarecer que não está, com essa distinção, subjugando a teoria
marxista do Estado. Ao contrário, refere que tenta deixar evidente que a descrição nela contida
reflete tanto a empiria (e o real mesmo) quanto as conclusões a que se pode chegar a partir dela.
Logo, na teoria descritiva do Estado em Marx e nos marxistas estariam os elementos essenciais
e intransponíveis para se avançar na construção de uma teoria geral:

Diremos, com efeito, que a teoria descritiva do Estado é justa uma vez que a definição
dada por ela de seu objeto pode perfeitamente corresponder à imensa maioria dos
fatos observáveis no domínio que lhe concerne. Assim, a definição de Estado como
Estado de classe, existente no aparelho repressivo de Estado, elucida de maneira
fulgurante todos os fatos observáveis nos diferentes níveis da repressão, qualquer que
seja o seu domínio (...). (Id., p. 64).

Partindo desse pressuposto — traço comum em Marx, Engels e todos os demais


marxistas (a dominação de classes) —, Althusser passa a discorrer sobre o que considera
essencial na “teoria marxiana do Estado” e se aproxima de conclusões sobre o que chama de
aparelhos ideológicos de Estado, mas, para isso, incorpora em seus argumentos, anteriormente,
uma densa reflexão sobre o papel da ideologia na perpetuação das classes e da estrutura do
Estado burguês. Vamos ao papel da ideologia e depois retornamos à teoria do Estado.
Althusser diz utilizar-se do mesmo procedimento metodológico que infere ter sido
utilizado por Marx ao antecipar a formulação da teoria por construções descritivas. Desse modo,
descreve o que podemos chamar de “ideologia em geral” (a descrição da ideologia) para depois
discorrer sobre a existência em organicidade de uma ideologia em particular, uma teoria sobre a
ideologia.
Assim, argumenta que a ideologia no sentido lato não tem história. Ela existe em
qualquer formação social, independentemente das relações socioprodutivas que se estabeleçam.
Aqui, vale um adendo: Althusser parte de um conceito de história tal qual expresso no
Manifesto do Partido Comunista, a história como a luta de classes (CARNOY, 1988, p. 121).

153
Grifo nosso.
154
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. Notas sobre os aparelhos ideológicos de
Estado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.

95
Portanto, segundo Althusser, a ideologia é inevitável para os homens. Basta que existam
homens e relações sociais.
Mas o autor de Aparelhos também considera que a existência de ideologias particulares
– estas, sim, referidas ao modo de produção específico – assumem formas específicas,
materializadas em aparelhos específicos e, em última instância, determinadas pela luta de
classes imersa em uma formação social. Portanto, há uma existência material da ideologia
condicionada à existência de aparelhos que a porta.

(...) uma ideologia existe sempre num aparelho e em suas práticas. Essa existência é
material; essa relação imaginária com relações reais (ideologia) é, ela mesma, dotada
de uma existência material e esta é a prática da ideologia no seio de aparelhos
específicos da sociedade. Assim, Althusser expressa a noção estruturalista de que o
conhecimento do funcionamento interno de uma estrutura deve preceder o estudo de
sua gênese e evolução. (Id., ibid., p. 121-122).

Ao descrever mesmo a lógica de funcionamento da ideologia é que Althusser busca


desvendar seus nexos internos. Um dos sentidos atribuído ao estudo das estruturas é, pois, o
estudo das relações formais entre os diversos componentes positivos ou negativos (equivalentes
ou antagônicos) que formam um determinado fato, ou fenômeno social, que nada mais é do que
a própria lógica de funcionamento interno (e externo), à estrutura desse fato ou fenômeno.
Portanto, para se certificar da existência e da validade material de aparelhos ideológicos, se faz
necessário conhecer a estrutura das ideologias que os sustentam.
Carnoy (1988) lembra que, para Althusser, a ideologia funciona como “um mecanismo
pelo qual os indivíduos voluntariamente se sujeitam a ela (o consenso hegemônico de Gramsci)
e é essa sujeição que os define na própria sociedade”. Isto implica dizer que, para nosso autor, o
Sujeito não possui autonomia no processo de construção de suas representações sobre o mundo.
Ao contrário, o Sujeito é apenas portador das “relações estruturais nas quais está situado”. Essas
relações estruturais têm uma existência material, objetiva:

No caso da ideologia, o Sujeito de Althusser “age na mesma medida em que sofre a


atuação do seguinte sistema: a ideologia existente num mecanismo ideológico
material, prescrevendo práticas materiais governadas por um ritual material, as quais
existem nos atos materiais de um sujeito que atua conscientemente segundo suas
ideias” (...) Ele sustenta que a ideologia reconhece os indivíduos como sujeitos,
subordina-os ao “sujeito” da própria ideologia (por exemplo, Deus, o capital, Estado),
garante que tudo seja realmente assim e que, contanto que os sujeitos reconheçam o
que são e ajam em consonância com isso, tudo estará bem. (CARNOY, 1988, p.
122).

96
Assim, a existência material e objetiva das relações estruturais que formam a ideologia
não pode persistir a não ser no interior de um aparelho ideológico que se configura como ente
superior que submete sua vontade aos Sujeitos, o que Althusser denomina de mecanismo de
sujeição:

O indivíduo é, pois, “livre”, autor e responsável por seus atos, mas, é, ao mesmo
tempo, sujeito a uma ideologia que age como uma autoridade superior. O indivíduo é
destituído de toda liberdade, exceto a de aceitar a sua submissão. (Id., ibid., p. 122).

Desse modo, Althusser reconhece que não é tarefa simples para a burguesia manter o
seu poder fazendo uso do mecanismo de sujeição155. Esse mecanismo possui uma arquitetura
complexa, e, que, para ter êxito, não pode prescindir de ter espraiado “os valores” que dão
conteúdo à visão de mundo burguesa. Esse processo não se dá somente pela tomada do poder do
Estado, antes, necessita da instalação dos Aparelhos Ideológicos, “nos quais essa ideologia se
realiza, que ela se transforma na ideologia dominante” (Id.).
Se afirmamos, antes, que é um processo complexo, cabe-nos considerar que a
complexidade a que nos referimos pressupõe conflitos, tensões. É, pois, assim, que a instalação
dos aparelhos ideológicos tem como parâmetros a luta de classes, que não é subtraída do mundo
dos homens quando a hegemonia burguesa prevalece. Sendo assim, não se subtrai também a
necessidade de um Estado como ente regulador das relações sociais na sociedade classista
burguesa, o que confere, segundo Althusser (1985), um caráter estrutural ao Estado, já definido
anteriormente por Marx e outros marxistas. Por isso, afirma:

O Estado é, antes de mais nada, o que os clássicos do marxismo chamaram de o


aparelho de Estado. Este termo compreende: não somente o aparelho especializado
(no sentido estrito), cuja existência e necessidade reconhecemos pelas exigências da
pratica jurídica, a saber: a política – os tribunais – e as prisões; mas também o
exército, que intervém diretamente como força repressiva de apoio em última
instância (o proletariado pagou com seu sangue esta experiência) quando a policia e
seus órgãos auxiliares são “ultrapassados pelos acontecimentos”, e, acima deste
conjunto, o Chefe de Estado, o Governo e a Administração. (Id., ibid., p. 62-63).

Em resumo, temos que a ênfase conferida por Althusser à ideologia, no contexto da


superestrutura, “admite que a reprodução das relações de produção tem lugar através da
155
Diferente de Gramsci, pois quando se refere à disputa por hegemonia, Gramsci confere ao sujeito um
papel protagônico calçado nas bases materiais de sua existência. Althusser, de outro modo, confere
centralidade à ideologia contida nos aparelhos, o que acaba por determinar toda a estrutura societal. Esse
tipo de distinção conduzirá a formulação althusseriana de Estado a um caminho bastante peculiar, no
campo da tradição marxista. Essa peculiaridade será assumida pelo Serviço Social nas primeiras
aproximações que faz ao “marxismo” e, consequentemente, influirá no modo como os agentes
profissionais e intelectuais se apropriarão do Estado como categoria teórico-analítica e como objeto das
lutas antissistêmicas que travará na esteira da intenção de ruptura. Trataremos disso no Capítulo IV.

97
ideologia que, no modo capitalista de produção, é, em última instância, realizada no contexto da
luta de classes” (CARNOY, 1985, p. 123). Isto posto, podemos retornar às formulações
althusserianas sobre o Estado.
Althusser, mesmo procedendo a um corte epistemológico na obra de Marx — jovem
Marx, vinculado à filosofia, e Marx revolucionário156 — diz resgatar as elaborações marxianas
sobre os processos fundantes da produção e reprodução social lembrando que todas as
formações sociais reproduzem suas condições e formas de existência a partir do modo como
organizam sua produção.
Nesse processo, os homens contraem relações sociais, evidenciam-se a divisão social e
técnica do trabalho e as classes. Althusser então afirma que são as classes (e o movimento entre
elas) que determinam o nível de desenvolvimento das forças produtivas. Estas, por seu turno,
tendem a tornar-se cada vez mais diversificadas, fazendo sempre mais difusa e heterogênea a
divisão do trabalho.
Para Althusser, a divisão do trabalho é um componente essencial dos processos
reprodutivos da sociedade, sujeita a várias mediações, no limite, conformadoras da ideologia
dominante. A principal delas é a educação a que os trabalhadores estão submetidos, e que, no
capitalismo, diferentemente da escravidão ou da servidão, não está imbricada diretamente à
produção, mas fora dela, contando assim com mais uma mediação, protagonizada agora pelas
instituições educativas.
Esse parece ser um argumento adicional àquilo que Gramsci havia atribuído como
responsabilidade ou participação da esfera da cultura (e mesmo da educação) na perpetuação
das classes e da ideologia dominante inerente. A educação tem, adicionalmente, um papel
decisivo na própria divisão do trabalho, conquanto se estrutura na formação de habilidades
variadas, para que os indivíduos ocupem lugares diferentes e tenham, por assim dizer,
comportamentos diferenciados na divisão do trabalho.
Assim, para Althusser, a educação é também um componente da superestrutura, em
reciprocidade orgânica com a base onde os aparelhos ideológicos realizam seu exercício de
poder. Logo, a reprodução das relações de produção é “garantida, na maior parte, pela
superestrutura ideológica e jurídico-política”. E vai mais além, ao referir que a reprodução das
relações de produção “é garantida, na maior parte, pelo exercício do poder do Estado nos
aparelhos do Estado, por um lado, o aparelho (repressivo) do Estado, por outro, os Aparelhos
Ideológicos do Estado”. (ALTHUSSER apud CARNOY, 1985, p. 125)157.

156
O que deixa de fora do eixo gravitacional de suas formulações, obras capitais como, por exemplo,
Manuscritos Econômicos Filosóficos de 1844, fundamental para a compreensão dos processos
“alienantes”, “alienadores” e “alienados” típicos da formação social capitalista.
157
Carnoy complementa o raciocínio de Althusser: “Ele diz: ‘na maior parte’, porque as relações de
produção existentes são, primeiramente, reproduzidas pelo sistema de punição e recompensa da própria
produção pela materialidade dos processos de produção. Mas a repressão e a ideologia estão,

98
Em outros termos, podemos asseverar que Althusser sustenta a superestrutura na base
admitindo que a relação orgânico-dialética entre elas confere tanto uma autonomia (relativa) à
superestrutura quanto um jogo de ações recíprocas.
Assim é que chegamos ao seu entendimento sobre o Estado. Isto é, para Althusser, o
Estado sustenta-se na base e é o responsável por “criar”, manter e reproduzir os aparelhos que
carregam em si os amplos e complexos mecanismos da ideologia dominante. Além da própria
ideologia dominante com o encargo finalístico de manter a dominação burguesa, “capacitando a
burguesia para o exercício de seu poder”.

O Estado é uma “máquina” de repressão que permite ás classes dominantes (no século
XIX à classe burguesa e à “classe” dos grandes latifundiários) assegurar a sua
dominação sobre a classe operária, para submetê-la ao processo de extorsão da mais-
valia (quer dizer, à exploração capitalista). (ALTHUSSER, 1985, p. 62).

Tampouco se opõe ao raciocínio marxista-leninista que preconiza a tomada do Estado


como medida transitória para a superação do capitalismo, contudo, fazuma releitura particular
desse raciocínio, incorporando a noção de aparelho ideológico e de aparelho de Estado que
desenvolve. Althusser entende que a transição proposta por Marx e Engels ratifica sua distinção
entre Estado e aparelho do Estado, pois a tomada do Estado pelo proletariado não implica
linearmente a extinção do primeiro, mas sim a substituição do domínio burguês pelo domínio
proletário nos aparelhos. Somente a conclusão do motim comunista é que levaria ao fim do
Estado e de todos seus aparelhos.

O papel do aparelho repressivo do Estado consiste essencialmente, como aparelho


repressivo, em garantir pela força (física ou não) as condições políticas da reprodução
das relações de produção, que são em última instância relações de exploração. Não
apenas o aparelho de Estado contribui para sua própria reprodução (existem no Estado
capitalista as dinastias políticas, as dinastias militares, etc.) mas também, e sobretudo,
o Aparelho de Estado assegura pela repressão (da força física mais brutal às simples
ordens e proibições administrativas, à censura explicita ou implícita, etc.) as
condições políticas do exercício dos Aparelhos Ideológicos do Estado.
(ALTHUSSER, 1985, p. 74).

Aspecto importante se evidencia nesse excerto. A distinção entre aparelho repressivo de


Estado e aparelhos ideológicos do Estado tem como pano de fundo não apenas as funções
imediatas e reprodutivas de um e outro, mas, também, o lugar que ocupam na trama societária.
Isto é, Estado permanece referenciado à esfera pública, logo, todo seu aparato responsável pela

naturalmente, presentes na produção”. O que nos leva a insistir: novamente o sujeito se coloca como
componente secundário em todo o processo.

99
repressão é do domínio público (e legitimado socialmente para esse fim), já os aparelhos
ideológicos de Estado existem, fundamentalmente, no mundo privado158.
Assim, há uma unidade a ser percebida no primeiro e uma pluralidade no segundo.
Embora seja uma distinção importante, não ocupará por muito a caneta de Althusser. Suas
preocupações voltam-se mais para as funções do aparelho repressor do Estado e dos aparelhos
ideológicos do que necessariamente para o lugar que ocupam.
Assim, as relações que se estabelecem entre esses dois tipos de aparelhos são mais
importantes de serem evidenciadas, pois são nelas que se verifica o modo como as classes
disputam o poder. Ademais, há uma unidade conferida à pluralidade dos aparelhos ideológicos
de Estado, dada pela ideologia dominante e pelas condições criadas pelo Estado em sua função
repressiva.
A centralidade conferida à ideologia, no pensamento de Althusser, não é apenas o
núcleo central da escola que ajuda a fundar – o marxismo estruturalista – como também é fonte
de inspiração para seus alunos. Dentre eles, destaca-se um jovem grego, membro do Partido
Comunista da Grécia, que, exilado em Paris, tomou contato com as ideias do mestre, mas não
demorou muito em traçar seu próprio caminho.
Nicos Poulantzas (1936 – 1979), lamentavelmente, não pôde explorar todo seu
potencial intelectual, por ter morrido jovem, aos 43 anos de idade, cometendo suicídio em Paris.
Isso significa que tratar de seu legado é tratar de uma trajetória inconclusa, tal qual seu mestre,
que embora tenha tido mais anos de vida que o aluno, foi acometido de tragédias pessoais que o
impediram de avançar em suas obras.
A análise da produção tanto de Althusser quanto de Poulantzas atesta um percurso
evolutivo, de amadurecimento teórico, que nos permite relativizar parte das negatividades
atribuídas ao estruturalismo-marxista pelos que advogam por outras correntes dessa tradição,
tanto no campo da produção acadêmica, quanto na prática política.
Um motivo para tal perspectiva é notada quando passamos em exame e em modo
comparativo obras como Aparelhos Ideológicos de Estado, de 1970 e Ce qui ne peut plus durer

158
Althusser (1985, p. 67-68) dá alguns exemplos de aparelhos ideológicos de Estado explicando:
“Designamos pelo nome de aparelhos ideológicos do Estado um certo número de realidades que
apresentam-se ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas. Propomos
uma lista empírica, que deverá necessariamente ser examinada em detalhe, posta a prova, retificada e
remanejada. Com todas as reservas que esta exigência acarreta podemos, pelo momento, considerar como
aparelhos ideológicos do Estado as seguintes instituições (a ordem de enumeração não tem nenhum
significado especial): AIE religiosos (o sistema das diferentes Igrejas); AIE escolar (o sistema das
diferentes “escolas” públicas e privadas); AIE familiar; AIE jurídico; AIE político (o sistema político, os
diferentes partidos); AIE sindical; AIE de informação (a imprensa, o rádio, a televisão, etc.); AIE cultural
(Letras, Belas Artes, esportes, etc.)”. Esta lista, ressalvadas as condições apresentadas pelo autor,
expressa parte do conjunto de “sujeitos coletivos” reconhecidos por Gramsci como “aparelhos privados
de hegemonia”, contudo, quando alçados à relação e à processualidade histórica da formação e
conformação do Estado, se distinguem. Para Althusser, os AIEs possuem relação “umbilical” com o
Estado. Já em Gramsci ao “aparelho privado de hegemonia” implica autonomia em relação ao Estado em
sentido stricto.

100
dans le Parti Communiste159, de 1978 (uma preocupação inédita de Althusser com as coisas do
Partido) (NETTO, 2010)160 e O Estado, o Poder, o Socialismo, de 1978 (que registra inflexão
gramsciana de Poulantzas) com tudo o que ambos produziram nas fases primeiras de suas
trajetórias intelectuais.
Como citamos, a interrupção prematura da vida e obra desses autores não nos permite
certificar o rumo que seus programas teóricos tomariam, contudo, é possível partir tanto do
percurso que traçaram como do que nos deixaram como registro mais maduro para que não os
deixemos de fora do processo analítico que empreendemos. No caso de Poulantzas, isso nem
seria possível, considerando que suas formulações maduras são nucleares para nossas análises
sobre o tratamento dispensado pelo Serviço Social à problemática teórico-prática do Estado.
Nesse sentido, nosso passeio pelas considerações clássicas marxistas sobre o Estado
prossegue resgatando o Poulantzas de Poder Político e Classes Sociais, de 1968, e o de O
Estado, o Poder, o Socialismo, de 1978, registrando-se um lapso temporal de dez anos.
A inquietação que motiva o programa teórico de Poulantzas é centralmente a
problemática teórico-prática do Estado. Mais especificamente do Estado capitalista, partindo,
assim, de uma crítica mais contundente que a de Gramsci e de Althusser à visão instrumentalista
do Estado.
Como vimos, a ideia do Estado-instrumento é aquela ancorada de modo largo no
excerto retirado do Manifesto do Partido Comunista: “O poder executivo do Estado moderno
não passa de um comitê para gerenciar os assuntos comuns de toda a burguesia” 161.
Lido com a abstração do contraditório e de mediações centrais, portanto, sem o foro da
totalidade, esse excerto do Manifesto opõe frontalmente e de modo simples burguesia e
proletariado e não se admite nenhuma autonomia do Estado, nem mesmo relativa, com relação à
classe dominante. Poulantzas discorda desta leitura e, no texto de 1968, especifica seu
entendimento sobre a polêmica, afirmando de imediato reconhecer a autonomia relativa do
Estado capitalista, ainda numa impostação estruturalista:

159
“Isso não pode perdurar no Partido Comunista” (tradução livre).
160
NETTO, José Paulo. Pósfacio. In: COUTINHO, Carlos Nelson. O estruturalismo e a miséria da
razão. 2. ed., São Paulo: Expressão Popular, 2010.
161
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução de Maria Lúcia
Como. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

101
Por autonomia relativa deste tipo de Estado, entendo, aqui não diretamente a relação
das suas estruturas com as relações de produção, mas a relação do Estado com o
campo da luta de classes, em particular a sua autonomia relativa em relação às classes
ou frações de bloco no poder e, por extensão, aos seus aliados ou suportes. Esta
expressão encontra-se nos clássicos do marxismo, designando o funcionamento do
Estado em geral no caso em que as forças políticas presentes estão “prontas a
162
equilibrar-se”. (POULANTZAS, 1977, p. 252) .

Assim, apenas anuncia a polêmica que envolve sua problematização nada


autoexplicativa, o que o impele a esclarecer:

Emprego-o, aqui, em um sentido simultaneamente mais amplo e mais estreito, para


designar um funcionamento específico do Estado capitalista. Espero, por isso mesmo,
marcar nitidamente a distância que separa esta concepção do Estado de uma
concepção simplista e vulgarizada, que vê no Estado o utensílio ou o instrumento da
classe dominante. Trata-se, pois de apreender o funcionamento específico do tipo
capitalista de Estado relativa aos tipos de Estado precedentes, e demonstrar que a
concepção do Estado em geral como simples utensílio ou instrumento da classe
dominante, errônea na sua própria generalidade, se revela particularmente inapta para
apreender o funcionamento do Estado capitalista. (Id., ibid., p. 252).

Identificar uma função instrumental do Estado, para Poulantzas, não é defini-lo. O


Estado deve ser contextualizado163.
O Estado e os elementos de sua constituição, reprodução e metamorfoses são de capital
importância para o tratamento analítico de qualquer processo social geral ou particular.
Considerações conceituais, sobre uma formação social qualquer, requerem, antes, as
explicitações de seus elementos constitutivos e suas formas de organização – sejam políticas,
ideológicas, culturais, em última instância, determinadas pelo econômico164.

162
POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
163
Do mesmo que a produção do autor, também deve ser contextualizada. Não se pode perder de vista
que Poulantzas escreve no momento m que os partidos comunistas europeus ocidentais abandonam
gradativamente o programa da revolução, isto é, o eurocomunismo, ao propalar o “pluralismo político”,
também se reveste de ambiguidade, tanto por ser entendido como alternativa ao stalinismo quanto por
receber a alcunha de revisionista. Essa disputa e movimentação ideopolíticas marca sobremaneira a
produção de Poulantzas nesta fase.
164
O conceito de “última instância” será amadurecido por Poulantzas no percurso que separa Poder
Político e Classes Sociais de O Estado, o O poder, o Socialismo, definindo “última instância” como uma
espécie de “matriz” que determina essencialmente o restante das coisas, e que, ao mesmo tempo, mantém
uma organicidade dialética radical (como raiz) com elas. Algo próximo do asseverado por Chasin (2000,
p. 38): “... estamos aqui, completamente afastados de uma concepção em que a determinação em última
instância do estado pelo econômico seja uma forma de pensar a relação como uma sorte de
distanciamento e afrouxamento da determinação econômica. Ao contrário, última instância significa
determinação essencial, raiz para além da qual nada há a buscar, terminação precisamente porque ela é a
radicalidade das coisas e sua gênese. Que medeie aí uma gama de mediações e a determinação
fundamental não seja entendida mecanicamente também é uma clara evidência”. (In: CHASIN, José. A

102
No caso específico da formação social capitalista, se faz mister estabelecer os nexos
causais entre a formação social específica e o tipo de Estado que lhe confere legitimidade, mas
sempre exercendo uma função particular de constituir o fator de coesão dos níveis desta mesma
formação social (POULANTZAS, 1977, p. 42). Desses níveis, evidente que a instância
econômica assume o papel dominante, contudo, é no conjunto das lutas por poder, hegemonia,
luta entre e intraclasses que as transformações políticas ocorrem e materializam não apenas o
Estado, mas as classes em si motivando a história, no confronto. Em outros termos, afirma
Poulantzas (1977, p. 43):

Com efeito, já podemos descobrir um índice desta função do Estado no fato de que,
para além de fator de coesão da unidade de uma formação, é também a estrutura na
qual se condensam as contradições entre os diversos níveis de uma formação. O
Estado é assim o lugar no qual se reflete o índice de dominância e de
sobredeterminação que caracteriza uma formação, um dos seus estágios ou fases. Por
isso, o Estado aparece como um lugar que permite a decifração da unidade e da
articulação das estruturas de uma formação (...). É a partir da relação entre o Estado,
fator de coesão da unidade de uma formação, e o Estado, lugar de condensação das
diversas contradições entre as instâncias, que podemos assim decifrar o problema
política – história. Esta relação designa a estrutura do político, simultaneamente como
nível específico de uma formação e como lugar das suas transformações, e a luta
política como “motor da história” tendo como objetivo o Estado, lugar de
condensação das contradições entre instâncias defasadas por temporalidades próprias.

Portanto, o Estado seria um importante vetor de comunicação ou uma espécie de


transmissor que veicula as contradições de um nível específico para outro nível específico da
formação social. Suas artérias, determinantes para que o Estado funcione como fator de coesão,
são fundadas por instâncias da vida social, como a política, a ideologia, a cultura, determinadas
pela última, que é a econômica.
Nesse sentido, Poulantzas vai além da formulação gramsciana sobre hegemonia,
entendendo que o Estado consegue se fazer valer como representante da vontade geral,
difundindo os valores burgueses como civilizatórios e desprovidos de conteúdo classista, mas
seu principal feito, para Poulantzas, é conseguir unidade política entre as frações de classe
burguesa configurando um bloco no poder165. A unificação da burguesia (ainda que sempre

miséria brasileira: 1964 – 1994 – do golpe militar à crise social. Santo André/SP: Estudos e Edições Ad
Hominem, 2000).
165
Estabelecem-se aí atração e retração entre Gramsci e Poulantzas, relação que mais tarde será
transformada em extensão do pensamento do segundo sobre o primeiro. Gramsci trata da luta por
hegemonia no seio da sociedade civil, sem, contudo, subtrair mediações ininterruptas que articulam
nexos, portanto, a luta mesma dos aparelhos privados de hegemonia na esfera superestrutural, portanto,
no Estado. O Poulantzas de Poder Político e Classes Sociais, por seu turno, avança considerando os
processos de luta no interior do Estado, porém, busca detalhes desse processo na dinâmica que coesiona e
fragmenta as classes protagonistas do confronto, transmutando as contradições dele emanadas de um

103
provisória) no âmbito do Estado também funciona como exemplo para toda a sociedade,
condicionando uma espécie de concertação entre burguesia e proletariado no âmbito das
instituições públicas e mantendo o poder de classe da primeira sobre a segunda.
Essa concertação ancora-se nos estatutos da igualdade formal, base estruturante dos
Estados capitalistas, de regime democrático liberal, sobretudo. É por essa razão que Poulantzas
dedica especial atenção às transformações que ocorrem nas estruturas jurídico-políticas do
Estado, na intenção de denunciar que as instituições do Estado capitalista tratam os cidadãos de
modo vazio, isto é, sem considerá-los inseridos na estratificação social das classes.
A acomodação provisória das relações capital-trabalho convence de tal maneira as
massas (por meio do mecanismo de sujeição sugerido por Althusser) que faz com que o direito-
positivo, pai do postulado positivista da neutralidade, se legitime como normatizador supremo
da sociedade em seu conjunto, portanto, acima das classes, mascarando que sua formatação
obedece aos interesses da classe dominante. E, sendo norma jurídica, deve ser obedecida por
todos (novamente o poder coercitivo do Estado). Nessa unidade ideopolítica, existente no
âmbito das relações entre o Estado e a luta de classes, reside a grande função do Estado burguês.
Nos seus termos, refere:

Isto conduz, ao nível das relações entre Estado e a luta política de classes, a um
resultado aparentemente paradoxal, mas que constitui, de fato, o “segredo” desse
Estado-nacional-popular-de-classe: o poder institucionalizado do Estado capitalista de
classe apresenta uma unidade própria de classe, precisamente na medida em que se
pode apresentar como um Estado nacional-popular, como um Estado que não
representa o poder de uma classe ou de classes determinadas, mas sim a unidade
política de agentes privados, entregues a antagonismos econômicos, os quais o Estado
se apresenta com a função de ultrapassar, unificando esses agentes em um corpo
“popular-nacional”. (POULANTZAS, 1977, p. 272)166.

E o autor prossegue afirmando que a estratégia do Estado se apresentar como Ser acima
das classes relaciona-se diretamente a uma “função ideológica” precisa, responsável por lhe
conferir legitimidade, mas adverte:

nível para outro das instâncias que compõem esta “superestrutura”. O intuito é expressar o modo como se
constitui o “bloco no poder”. O que, a primeira vista, pode parecer um antagonismo, mais tarde será um
ponto fulcral de aproximação entre os dois intelectuais.
166
Essa função do Estado levantada por Poulantzas fica sobremaneira evidenciada nos momentos em que
o capitalismo necessita de medidas estatais planejadas para alavancar seu desenvolvimento. Veremos,
mais adiante, a infalibilidade dessa função, no Capítulo 2, quando tratarmos do papel do Estado tanto na
“criação” quanto na manutenção e difusão da ideologia nacionalista como pano de fundo estratégico para
o desenvolvimentismo em todas suas fases na história brasileira.

104
Função ideológica que não deve, aliás, ser confundida com a intervenção do
ideológico na própria organização desse Estado, isto é, na instauração dos agentes na
qualidade de sujeitos jurídico-políticos e na constituição do corpo nacional-popular.
(Id,, ibid., p. 273).

Poulantzas preocupa-se em esclarecer que, com tais afirmações, não está


superdimensionando a instância ideológica em detrimento das múltiplas determinações da vida
social que funcionam sob a dominância do econômico, mas o modo como a ideologia se
apresenta na organização do Estado não pode se confundir com o Estado ideológico (o caráter
da ideologia na sua generalidade). Se isso ocorrer, fica fracassada a sua argumentação da
autonomia relativa do Estado ante as classes.
No desvendamento da ideologia reside, assim, uma das chaves heurísticas que permite
elucidar a função de coesão social do Estado:

Em uma palavra, o Estado “representante” da unidade política do povo-nação reflete-


se, não obstante, em todo um quadro institucional real que tende a funcionar
efetivamente, de acordo com a situação concreta das forças presentes, no sentido de
uma unidade própria do poder de Estado e de uma autonomia relativa a respeito das
classes dominantes. Se é verdade que não podemos superestimar esse quadro
institucional, e que é sempre necessário ter em vista o que ele esconde, não podemos,
por outro lado, negligenciar a eficácia específica que, conjugado com a função
ideológica de legitimidade do Estado, apresenta em relação à sua unidade própria e a
sua autonomia relativa. (Id., ibid., p. 273).

Na expectativa de aprofundar o problema da unidade do Estado, o autor inclui em seu


texto considerações sobre os elementos que compõem a democracia política dos Estados
capitalistas e que participam do processo ideopolítico de deflagração desta mesma unidade,
como a representatividade, o interesse geral, a opinião pública, o sufrágio universal, as
liberdades públicas, enfeixando-os no estudo do conceito de soberania popular e no conceito de
formação de povo. Não nos compete, para este texto, acompanhar o autor nesses argumentos;
antes, cabe-nos prosseguir um pouco mais no tratamento que dispensa à problemática da
unidade do Estado.
Com o intuito de mostrar a complexidade dessa problemática, Poulantzas também se
atém a não deixar margens para que a unidade a que se refere, galvanizada pela ideologia, seja
compreendida como sinônimo de homogeneidade no interior das classes fundamentais. O autor
menciona uma disputa de hegemonia intraclasses, que no limite não corrói o bloco no poder,
ainda que possa, em conjunturas históricas específicas, lhe causar fissuras.

105
Determinamos, além disso, o tipo de relações entre as classes ou frações de classe que
fazem parte do bloco no poder. Contrariamente a certas noções que Marx emprega –
de fusão ou de síntese, por exemplo -, o bloco no poder constitui uma unidade
contraditória das classes ou frações dominantes, unidade dominada pela classe ou
fração hegemônica. Essa unidade do bloco no poder é constituída sob a égide da
classe ou fração hegemônica que polariza politicamente os interesses das outras
classes ou frações que fazem parte dela (...) as relações entre as diversas classes ou
frações desse bloco não podem consistir em uma partilha do poder político
institucionalizado, de que a classe ou a fração hegemônica possuiria apenas uma
parcela mais importante que as outras. (Id., ibid., p. 293-294).

E prossegue:
Em outras palavras, se a concepção de um poder de Estado dividido em parcelas não é
valida para as relações: classes dominantes - classes dominadas, ou ainda: classes
dominantes e classes-apoio ou aliadas, também não é para as relações entre classes e
frações que constituem o bloco no poder. Tanto assim que a representação da
correspondência entre o Estado e os interesses específicos da classe ou fração
hegemônica, na medida em que polarizam os das outras classes ou frações do bloco
no poder, sustenta essas análises de Marx. É sempre a classe ou fração hegemônica
que, em última análise se revela detentora do poder de Estado na sua unidade, e de
modo tão explicito que surge, muitas vezes em Marx, como a classe ou fração
“exclusivamente dominante”. (Id., ibid., p. 294).

E conclui:
Unidade política do bloco no poder sob a égide da classe ou fração hegemônica
significa, assim, unidade do poder de Estado, na sua correspondência com os
interesses específicos desta classe ou fração. (Id., ibid.).

Fica evidente, pelos excertos apresentados, que não se trata, para Poulantzas, do falso
princípio democrático burguês que diz: “No consenso, todos serão contemplados”. Ao contrário,
não há repartição fraterna do bolo do poder do Estado. As frações de classes burguesas que não
têm hegemonia no Estado também não tem o atendimento direto e inequívoco dos seus
interesses, o que causa fissuras na unidade classista.
A unidade recompõe-se quando se garante o espraiamento dos interesses da classe ou
fração dominante para toda a sociedade, atingindo a classe operária na criação e disseminação
de um perverso sentimento de “integração” destes ao corpo societário, por meio dos estatutos do
direito positivo, da igualdade formal, do sentimento de nação unificada onde todos estão sob o
jugo do mesmo conjunto de direitos e deveres, independentemente da classe a que pertencem.
Essa integração favorece a unidade, ao mesmo tempo em que consolida a já clássica
separação do trabalhador de seus meios de produção, naturalizando o antagonismo de classes.
Em outros termos, o Estado desempenha a dupla função de cindir e agregar, ou seja, legitima a

106
separação do trabalhador de seus meios de produção, criando indivíduos atomizados,
juridicamente legitimados e os reunifica sob a pecha de Estado-nação. Por isso, para Poulantzas,
a legislação burguesa desempenha papel fundamental para o exercício do poder do Estado
incidindo diretamente nas relações sociais de produção, na instância econômica da vida social,
na infraestrutura167.
É importante ressaltar, mesmo sob o risco de estarmos sendo repetitivos, que o modo
como Poulantzas descreve os mecanismos que conferem unidade à classe dominante e a
recomposição de suas frações no bloco no poder, serve, para esse autor, como meio de
comprovar sua tese da autonomia relativa do Estado, inclusive fazendo uso da ideologia como
antes já discorremos.
Se hegemonia não é homogeneidade e não há repartição do poder entre as frações de
classe burguesa, logo, o Estado burguês é um espaço imanente de conflitos e tensões.
Poulantzas (1977, p. 295) deixa clara a incapacidade de a burguesia eliminar essa contradição
interna, afirmando:

Entregues a si mesmas, as classes e frações ao nível da dominação política, não só se


esgotam em fricções internas, como se afundam, a maior parte das vezes, em
contradições que as tornam incapazes de governar politicamente. Mesmo se essas
contradições, no conjunto das relações de classe de uma formação capitalista, são
contradições secundárias, e raramente aspectos secundários da contradição principal,
nem por isso o seu impacto deixa de se revelar capital. Conjugadas com a contradição
principal, ou com o aspecto principal desta última, essas contradições originam, dado
o seu funcionamento de classe, uma situação sempre instável da dominação ao nível
político.

Com isso, busca mostrar que, às vezes, o Estado burguês precisa sacrificar a si mesmo
para manter seu poder e o da classe que representa. Isto é, o Estado acaba por exercer sua
autonomia relativa quando contraria os interesses da classe ou fração de classe no poder,
“concedendo” à classe dominada alguns benefícios, seja atendendo a suas reivindicações, seja se
antecipando a elas. Evidentemente que esta aparente subversão do Estado burguês logo se
transforma em benefício para a classe dominante, tal qual explícito no 18 Brumário de Luís
Bonaparte, e numa aproximação relativa ao conceito de Revolução Passiva em Gramsci. Nesse
sentido, Poulantzas (1977, p. 281) escreve:

167
A articulação entre a base e a superestrutura.

107
Essa autonomia relativa permite-lhe [ao Estado] precisamente intervir, não somente
com vista a realizar compromissos em relação às classes dominadas, que, a longo
prazo, se mostram úteis para os próprios interesses econômicos das classes e frações
dominantes, mas também intervir, de acordo com a conjuntura concreta, contra os
interesses a longo prazo desta ou aquela fração da classe dominante: compromissos e
sacrifícios por vezes necessários para a realização do seu interesse político de classe.
Basta mencionar o exemplo das chamadas “funções sociais” do Estado, que
168
atualmente assumem uma importância crescente .

Em síntese, notamos que o texto de 1968 é influenciado pelos estatutos da escola


estruturalista, pois confere centralidade - relativa em Poulantzas e total em Althusser - à
estrutura em detrimento da presença protagônica do sujeito-político e suas ações teleológicas.
Isso leva à ratificação do Estado entendido mesmo como uma “estrutura” que tem por função
garantir a coesão social articulando os dispositivos ideológicos, políticos, jurídicos, etc. de uma
formação social de um nível a outro.
A inflexão que o levará a aprimorar tal posição está registrada no texto de 1978, O Estado, o
Poder, o Socialismo, mas não se faz sem mediações. Entre um texto e outro, Poulantzas
produziu ensaios, artigos e protagonizou até calorosos debates 169 que o teriam levado a
abandonar o conceito de Estado como estrutura, tendo passado a considerar o Estado como
aparelho, para finalmente conceber, na obra citada, o Estado como relação, cuja função
essencial é econômica, o que, de certo modo, não o faz abandonar a percepção da existência de
aparelhos de Estado com finalidade repressivas, todavia, constituintes de uma forma política
determinada em processo de luta entre classes e frações. (Quadro 1).

168
É outra característica que compõe o escopo do desenvolvimento capitalista que emerge nas fases de
desenvolvimentismo, como mostraremos no Capítulo 2.
169
Na revista Crítica Marxista 27, encontramos também a transcrição do histórico debate entre Nicos
Poulantzas e Ralph Miliband, certamente o mais conhecido de seus embates, mas há outros, como o que
trava com o sociólogo brasileiro Fernando Henrique Cardoso sobre o conceito de classe social. Ver:
CARDOSO, Fernando Henrique. Althusserianismo ou marxismo? A propósito do conceito de classes em
Poulantzas. In: ZENTENO, Raúl Benítez (Org.). As classes sociais na América Latina: problemas de
conceituação. Tradução de Galeno de Freitas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. Mas não apenas. A
evolução do pensamento de Poulantzas parte, ainda, de uma autocrítica ao “estruturalismo” que tratou o
Estado como uma “estrutura invariante que produz, através do direito e do burocratismo burguês efeitos
ideológicos funcionais para a reprodução do sistema social” (CODATO, 2008) e de uma crítica a autores
como Bobbio, os eurocomunistas, dentre outros. Ou seja, sua produção está completamente imersa na
movimentação teórica dinâmica de seu tempo.

108
Quadro 1 - Trajetória intelectual de Nicos Poulantzas (o conceito de Estado capitalista)
Periodização Obras Principais Conceito de Estado Função do Estado Extinção do Estado
1a fase Poder político e Estrutura Política: coesão (dos Destruição do
classes sociais (1968) níveis de uma aparelho do Estado
formação) social
Texto de transição O problema do Estado
capitalista (1969)
[artigo]
2a fase Fascismo e ditadura Aparelho Político-ideológica:
(1970) coesão de uma
formação social
dividida em classes
Textos de transição As classes sociais no Aparelho/relação Contradição intra e
capitalismo de hoje interaparelhos
(1974). A crise das
ditaduras (1975)
3a fase As transformações Relação Econômica: Modificação na
atuais do Estado constituição (e não correlação de forças
(1976) [artigo] O apenas reprodução) das em favor das massas
Estado, o poder, o relações de produção dentro e fora do Estado
socialismo
Fonte: CODATO, Adriano. Poulantzas, o estado e a revolução. Revista Crítica Marxista, n. 27, 2008. p. 72170.

Sendo relação, o Estado possibilita uma correlação de forças, e a transição socialista


passa necessariamente pelo fortalecimento das massas proletárias nessa correlação. Em seus
termos:

O Estado, no caso capitalista, não deve ser considerado como uma entidade intrínseca
mas, como aliás é o caso do “capital”, como uma relação, mais exatamente como a
condensação material de uma relação de forças entre classes e frações de classe, tal
como ele expressa, de maneira sempre específica no seio do Estado (...) Mas o Estado
não é pura e simplesmente uma relação, ou a condensação de uma relação; é a
condensação material e específica de uma relação de forças entre classes e frações de
classe. (POULANTZAS, 2000, p. 130-131)171.

A consideração madura de Poulantzas aproxima mais sua produção da realidade do


Estado capitalista contemporâneo. Tanto que, em seus argumentos, incluem-se considerações
inéditas para um marxista sobre o pessoal de Estado e se dedica ainda a questões da
Administração pública e o Partido, momento em que, lamentavelmente, sua vida e obra se
interrompem.

170
O autor da categorização expressa no Quadro 1 alerta para os limites e riscos de uma exposição como
esta: “ (...) quando se trata de uma obra de pensamento, ‘não se pode’, sem ser reducionista, ‘tratar como
simples elementos de informação etnográfica’, isto é, como elementos descritivos, menores ou acidentais,
‘os traços culturais que ela mobiliza’. Essas características, que estão presentes na obra de um autor e que
definem sua singularidade, só fazem sentido, (...) no contexto da própria obra em que elas estão inseridas.
Além disto, é preciso considerar, numa leitura mais contextual, o conjunto de obras a que a obra em
questão faz referência, e as relações que definem a posição do seu autor tanto no espaço político quanto
no espaço intelectual. Uma análise bem mais completa que a realizada aqui deveria ter presente todos
esses determinantes”. (In: CODATO, Adriano. Poulantzas, o estado e a revolução. Revista Crítica
Marxista, n. 27, 2008, p. 72).
171
POULANTZAS, Nicos. O estado, o poder, o socialismo. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

109
Poulantzas insere-se num quadro de marxistas contemporâneos que se dedicaram a
“tecer considerações teóricas sobre o Estado e não somente contra ele”, e isso se deve à
emergência do Estado Social como um fenômeno inevitável de seu tempo e que, como tal, não
pode ser ignorado. Neste sentido, Pereira (2008, p. 107-108)172 afirma:

A presença insofismável do Estado Social exigiu também reavaliações na concepção


marxista desse Estado, detectadas nas análises pioneiras de autores contemporâneos
como John Saville, James O’Connor e o primeiro Claus Offe (...). Tais autores, em
vez de se prenderem à noção de Estado restrito, presente no pensamento marxiano do
século XIX, passaram a considerar um arco mais amplo de intervenção estatal, dando
importância ao seu caráter contraditório e sua dimensão política ativa. Um pensador
marxista que pode ser considerado referência dessa nova abordagem (...) é Antonio
Gramsci, sobre quem recai o mérito de ter teorizado a respeito do Estado Ampliado e
da autonomia relativa deste, no que foi seguido e aperfeiçoado (em certos aspectos)
por Nicos Poulantzas173.

Com isso, não se quer dizer que esses estudiosos contemporâneos tenham rechaçado a
perspectiva de “bem-estar social” de Marx, mas sim que, confrontados com
fenômenos e processos inusitados no século XX, passaram a atualizar e ampliar o
legado teórico marxista, mesmo não apresentando uma contribuição homogênea.
[Assim, a literatura marxista foi se preocupando com questões mais densas]. Passou a
pôr em relevo a autonomia relativa do Estado e as contradições — principal e
secundária — na relação entre Estado e Sociedade (à guisa de Poulantzas); as
contradições e crises fiscais do Estado (O’Connor) e os mecanismos internos que
garantem ao Estado o caráter de classe (Claus Offe) 174.

O Estado Social não é objeto de nossas considerações primeiras, contudo, convocamos


o excerto de Pereira (2008) para evidenciar que a problemática teórico-prática do Estado no
pensamento de Poulantzas se constrói em consonância com as dinâmicas sócio-históricas que se
registram em seu tempo. Essas considerações são adotadas por nós como o caminho mais
adequado para garantir coerência entre uma concepção de Estado e de luta antissistêmica e uma
concepção de projeto profissional que alia as possibilidades dadas pela natureza da profissão a
um projeto societário alternativo a ordem do capital. Ao final deste item e no capítulo 4,
retomamos esta posição.
A escalada de maturação teórica envolvendo mestre e discípulo no campo da tradição
marxista não se resume a Althusser e Poulantzas. O filósofo húngaro Georg Lukács (1885-
1971) e seu legatário mais proeminente, o filósofo também húngaro István Mészáros (1930 –
atual), representam o que há de mais profícuo e significativo desse tipo de relação.

172
PEREIRA, Potyara Amazoneida Pereira. Ob. Cit., 2008.
173
Id., ibid.
174
Id., ibid.

110
Ao tratarmos desses dois marxistas contemporâneos, estamos também tratando da
perspectiva ontológica do ser social como tratamento dos campos categoriais fundantes
marxianos. Isto é, lidamos tanto com uma forma específica de análise, que goza de prestígio
limitado ante as incursões de prevalência pós-modernas da contemporaneidade, quanto de
autores cujo eixo gravitacional de suas formulações não passa, de modo direto e derradeiro, pela
problemática do Estado, como os demais interlocutores da presente argumentação175.
Netto (2004, p. 145) refere que o cariz ontológico do pensamento lukacsiano [e por
extensão, de Mészáros] incompatibiliza sua obra

(...) posterior aos meados dos anos 30 — e, notavelmente, as derradeiras construções


sistemáticas de Lukács, a Estética e a Ontologia... — com a ambiência cultural
contemporânea. Os traços constitutivos dessa ambiência colidem frontalmente com os
componentes estruturais do pensamento maduro de Lukács, direta ou mediatamente
vinculados à impostação ontológica: a ambiência dominante hoje na cultura de
oposição é visceralmente avessa às preocupações ontológicas176.

Isso não quer dizer que a escola lukacsiana não seja profícua na explicitação dos
dilemas contemporâneos. A afirmação do autor vai exatamente ao sentido contrário. A
impostação ontológica permite desvendar a complexidade das relações que se estabelecem no
metabolismo societário dinâmico negando as superficialidades e efemeridades privilegiadas no
tempo presente, pois permite que a totalidade dessas relações seja desvendada a partir do estudo
do Ser enquanto Ser: concebido como tendo natureza comum, que é inerente a todos os seres e,
ao mesmo tempo, particular e singular. Difere, desse modo, da metafísica, indo para além
dela177.
Esse caminho eleito por Lukács (iniciemos por ele) não se deu como escolha autônoma
de sua consciência178. Faz parte do processo mesmo de sua trajetória política179. Nesse sentido, é
comum se estabelecer um corte epistemológico em sua produção, conhecido como fases do
jovem Lukács e do Lukács maduro. Alguns de seus antagonistas chegaram a distinguir, no
175
Porém, não significa que tenham ignorado a problemática. Mészáros, mais que Lukács, dispensou
dedicação contundente à problemática do Estado, o que não retira a natureza ontológica (do ser social) de
suas análises, nem de modo contrário.
176
NETTO, José Paulo. G. Lukács: um exílio na pós-modernidade. In: ______. Marxismo impenitente:
contribuição à história das ideias marxistas. São Paulo: Cortez, 2004.
177
Além da metafísica, difere também do neopositivismo e das perspectivas, mesmo que críticas,
epistemológicas, em que o desenvolvimento da ciência ocorre independentemente e de forma autônoma
em relação ao seu objeto. Também se diferencia das perspectivas fenomenológicas em que a existência do
Ser é sintetizada na sua imediaticidade, desconsiderando a gênese e a historicidade.
178
Como nenhuma “escolha” dessa natureza se dá por esse caminho. Antes, a base dinâmica, material e
objetiva das relações societais é que a funda, como afirmara Marx, quando se referiu ao fato de que “não
é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua
consciência”.
179
Consultar: LÖWY, Michael. Pour une sociólogie des intellectuels revolutionnaires; I´evolution
politique de Lukacs, 1909 – 1929. No Brasil, publicado sob o título A Evolução Política de Lukács (1909-
1929), pela Editora Cortez, em 1998.

111
campo da tradição marxista, como Althusser, por exemplo, o Lukács filósofo, do
revolucionário.
O fato é que a obra lukacsiana, como contribuição ao tratamento da problemática do
Estado, no âmbito da tradição marxista, é eivada de polêmicas, circunscritas, sobretudo, ao
período de História e Consciência de Classe. E isso não é por acaso. Esse é o momento em que
o autor se aproxima de um tratamento particular do tema e é, do mesmo modo, o momento no
qual seu pensamento mais se distancia dele próprio.
Isto é, em História e Consciência de Classe, de 1923, Lukács procede a uma
aproximação acrítica da obra de seu professor e amigo Max Weber, que o leva a concordar, por
meio da teoria dos tipos ideais de Weber, com este último, que o Estado burguês é um ente
análogo à empresa capitalista.

Assim, o desenvolvimento capitalista criou um sistema de leis que atendesse suas


necessidades e se adaptasse à sua estrutura, um Estado correspondente, entre outras
coisas. A semelhança estrutural é, de fato, tão grande que nenhum historiador
realmente perspicaz do capitalismo moderno poderia deixar de constatá-la. Max
Weber descreve o princípio fundamental desse desenvolvimento da seguinte maneira:
“Ambos são, antes, bastante similares em sua essência fundamental. O Estado
moderno, de um ponto de vista sociológico é uma ‘empresa’ tal como uma fábrica; é
justamente o que tem de específico no âmbito histórico. E as relações de dominação
na empresa também estão, nos dois casos, submetidas a condições da mesma espécie”.
(LUKÁCS, 2003, p. 214-215)180.

Acabam por justificar a ordem do capital na medida em que conferem à racionalização


dos processos produtivos uma autonomia com relação ao complexo social em que ela se
constrói. Nem mesmo a luta de classes comparece como um fator determinante ao
desenvolvimento capitalista nesse recorte que fazem da realidade181. Lukács torna-se, com isso,
precursor do que se convencionou chamar de “marxismo weberiano”182.

180
LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo:
Martins Fontes, 2003.
181
Paço-Cunha (2011) resgata o significado dessa aproximação retomando a crítica empreendida em
Para Além do Capital, de Mészáros, que nos mostra, por exemplo, um dos muitos traços que atestam a
continuidade da obra de Lukács empreendida por ele. Sobre a crítica de Mészáros, refere: “O peso da
influência weberiana é particularmente revelador a este respeito” [em História e Consciência de Classe].
Mészáros salienta a “aprovação incondicional” de Lukács em relação à “afinidade estrutural entre o
Estado capitalista e as empresas na sociedade de mercadorias” (p. 330 e 407) a partir das passagens de
História e Consciência de Classe, especificamente do famoso capítulo sobre a reificação. Lá aparecem os
efeitos dos tipos ideais, a partir dos quais, “sociologicamente falando, o Estado moderno é uma ‘empresa’
(Betrieb) idêntica a uma fábrica: esta, exatamente, é sua peculiaridade histórica” (WEBER, 1997, p. 40).
Com essas passagens, as quais atestam a recepção aberta da analogia entre Estado e Empresa, Mészáros
argumenta que “longe de identificar as especificidades históricas reais do ‘moderno capitalismo’, como
Weber alega, sua principal preocupação é a radical obliteração delas sob um acúmulo de características
funcionais superficiais” (1995, p. 331; 2002, p. 408). As críticas de Mészáros pesam sobre a “mera
analogia”, a “identidade mecânica” entre estado e empresa e as consequentes mistificações dessas formas

112
Contudo, a trajetória de Lukács é construída em um processo de densidade histórica e
política que o permite avançar em forma e em substância, liberando-o da aproximação
weberiana rumo à perspectiva ontológica183.
Ao primar pelos rumos de uma ontologia crítica do ser social, resgata a essencialidade
do pensamento marxiano, por meio de fidelidade ao método184, o que o leva a fazer uso nuclear
da categoria totalidade. Desse modo, suas preocupações transcendem os recortes particulares
que se dirigem a propriedades parciais de um complexo social, dando um giro ontológico denso
na sua interpretação da produção marxiana.

Desde então [meados dos anos 1930], na obra lukacsiana, a questão da efetividade, da
gênese e da historicidade concretas do ser social passou a constituir o núcleo
irradiador e articulador da reflexão teórica, implicando consequentemente, para
retomar a formulação derradeira de Lukács, numa explícita “oposição entre
gnosiologia e ontologia”; em poucas palavras, desde então a direção ontológica
determinou o deslocamento do trato epistemológico, agora destituído do privilégio de
operação intelectiva fundante e disposto na arquitetura teórica num nível distinto
daquele que lhe cabia na filosofia ocidental especialmente desde Kant (e que, antes
deste giro, também desfrutara de privilégio na obra do próprio Lukács). (NETTO,
2004, p. 146)185.

Assim, a obra de Lukács, que parte da Estética e se consagra na Ontologia do Ser


Social, abandona, nos dizeres do próprio autor, as objetivações de caráter institucional como
objetos de interesse científico, para se dedicar às formas superiores do conhecimento e do
tratamento do Ser enquanto Ser:

“racional-burocráticas” em que, também argumenta ele, “o objetivo de Weber é a representação


tendenciosa das relações capitalistas como horizonte intransponível da própria vida social” (1995, p. 332;
2002, p. 409), retirando de cena “precisamente a verdadeiramente relevante categoria das classes em luta”
(p. 333, p. 410, grifo do autor). (In: PAÇO-CUNHA, Elcemir. (Auto)Crítica do marxismo weberiano: de
Lukács a Meszáros. Revista Verinotio de Filosofia e Ciências Humanas, n. 13, ano VII, abr. 2011).
Publicação semestral, ISSN 1981-061X.
182
No entanto, é importante situar que História e Consciência de Classe constituiu-se como um texto
importante ao debate marxista dos anos 1920. Ele sugere uma retomada das obras de Marx. A trajetória
intelectual de Lukács tem como referência uma crítica constante à ordem social e está diretamente
vinculada as lutas de classe na Hungria, no final da segunda década do século XX. Isto não se pode perder
de vista.
183
Estamos sendo exaustivamente reducionistas nessas afirmações. A evolução política, e,
consequentemente, os constructos teóricos de Lukács informam uma das mais brilhantes trajetórias na
construção do resgate dos postulados marxianos. Portanto, sugerimos que um aprofundamento expositivo
dessa iniciativa deva ser realizado, tanto por nós, em outro momento, quanto pelo leitor que assim desejar
fazê-lo.
184
O que, para Lukács, é a própria ortodoxia marxista.
185
NETTO, José Paulo. G. Lukács: um exílio na pós-modernidade. In: ______. Marxismo impenitente:
contribuição à história das idéias marxistas. São Paulo: Cortez, 2004.

113
(...) de acordo com o objetivo de nossas investigações, só nos ocupamos com a ciência
e com a arte, e temos deixado conscientemente de lado as objetivações de caráter
institucional, como o Estado, o sistema jurídico, o partido, as organizações sociais,
etc. Seu estudo teria complicado excessivamente nossa análise, mas não teria alterado
em nada o resultado final. (LUKÁCS, 1970) 186.

Leitura apressada desse processo poderia inferir que se trata de um tratamento


fragmentado da realidade, por parte de Lukács, contudo, a maneira como aborda a relação entre
a ciência (o conhecimento científico) e a estética, inevitavelmente, o impele a considerar, de
algum modo, a existência dos complexos sociais objetivados institucionalmente como
mediações contidas no processo de formação da consciência, sobretudo, quando se refere à
cotidianidade, ainda que na teoria das esferas de objetivação genérica, seguida depois pela
escola de Frankfurt, se conceba a ciência e a arte como instâncias relativamente autônomas em
relação à luta de classes187, porém, recompõe-se sempre a totalidade.
O que estamos dizendo é que, quando Lukács estabelece que o conhecimento científico
tem como ponto de partida as necessidades da vida cotidiana, ele se remete a um conhecimento
que, de per si, não é capaz de criar a realidade. Por isso que resgata o trabalho como categoria
fundante do ser social e o evidencia como ato teleológico. Do mesmo modo, não se furta de
tratar os processos de estranhamento e alienação que sofre o trabalho desde o início do
estabelecimento das relações mercantis.

na economia mercantil desenvolvida pelo capitalismo, o trabalho deixa de ser


determinado primordialmente pelas forças somáticas e intelectuais do trabalhador (...)
o problema é o grau de abstração, a alienação no que se refere à prática imediata da
vida cotidiana. (Id., ibid.) 188.

Ao mesmo tempo em que denuncia a alienação do cotidiano, a interação do trabalho


com a ciência amplia as mediações que tanto podem levar à reiteração dessa alienação quanto a
sua elevação a um patamar superior de consciência. Tanto os trabalhadores ficam presos à

186
LUKÁCS, Georg. Introdução à estética marxista. Tradução de Carlos Nelson Coutinho e Leandro
Konder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
187
LUKÁCS, Georg (1966). Estética: La peculiaridad de lo estético. V. 1: Questiones Preliminares y de
Principio. Traduzido do original em alemão por Manuel Sacristán. Barcelona (España), Grijalbo; (1967),
Estetica: La peculiaridad de lo estetico. V. 3: Categorias Psicológicas y Filosóficas Básicas de lo Estético.
Traduzido do original em alemão por Manuel Sacristán. Barcelona (España), Grijalbo; (1967), Estetica:
La peculiaridad de lo estetico. V. 4: Questiones Liminares de lo Estético. Traduzido do original em
alemão por Manuel Sacristán. Barcelona (España), Grijalbo; (1972). Estetica: La peculiaridad de lo
estetico. V. 2: Problemas de La Mímesis. Traduzido do original em alemão por Manuel Sacristán.
Barcelona (España), Grijalbo, 2. ed.; e HELLER, Agnes (1984). Everyday Life. Traduzido do original
em húngaro por G. L. Campbell. London (England), Routledge & Kegan Paul; (1994). Sociología de la
Vida Cotidiana. Barcelona (España), Península, 4. ed.
188
Id. Introdução a estética marxista. Tradução de Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.

114
cotidianidade devido à agudização das formas de divisão social e técnica (mecanização) do
trabalho, quanto é possível, pelo processo de suspensão dessa mesma cotidianidade, transformar
em reflexo científico o que nela está oculto.
Esse processo tem mesmo suas bases materiais, de modo que Lukács utiliza quase como
analogia o mito da mercadoria, de Marx, para explicá-lo189. Por isso, concluímos que, mesmo
não se dedicando à problemática do Estado, Lukács fornece bases fundamentais para o
entendimento das formas de relações sociais mais amplas, mediadas pelo conhecimento e pela
estética, que possibilitam alcançar o processo de humanização e civilização emancipatórios, e
pressupõem, para tanto, o fim das formas de opressão e dominação do homem pelo homem, do
qual o Estado é um agente fundamental.
Nesta linha, Mészáros admite assumir o espólio de Lukács que, ao contrário do que se
espera de uma herança, não consistiu em algo pronto que este pudesse desfrutar, mas sim de
uma tarefa, deixada inacabada pelo mestre, a qual o receptor deveria dar prosseguimento. Em se
tratando de filósofos de tamanha envergadura, nota-se que não se trata de empreendimento
trivial. Mészáros coloca-se, assim, o desafio de dar prosseguimento ao desejo interrompido de
Lukács de escrever O Capital de nosso tempo. Para isso, não parte de um marco zero. Resgata
as pistas deixadas pelo mestre e com elas passa a inquirir o tempo presente, saturado de novas
determinações190.

189
No livro I, volume I, de O Capital, Marx assim se refere à alegoria fantasmagórica da mercadoria: “A
mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos
homens, apresentando-as como características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do
trabalho; por ocultar, portanto, a relação social entre os trabalhos individuais dos produtores e o trabalho
total, ao refleti-la como relação social existente, à margem deles, entre os produtos do seu próprio
trabalho. (...). Há uma relação física entre coisas físicas. Mas, a forma mercadoria e a relação de valor
entre os produtos do trabalho, a qual caracteriza essa forma, nada têm a ver com a natureza física desses
produtos nem com as relações materiais dela decorrentes. Uma relação social definida, estabelecida entre
os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas (...) Chamo a isto de fetichismo,
que está sempre grudado aos produtos do trabalho, quando são gerados como mercadorias. É inseparável
da produção de mercadorias”. In: MARX, Karl. O capital. Livro I, v. I. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1971. p. 81.
190
Iamamoto (2007) assim sumariza esses tempos: “A efetiva mundialização da ‘sociedade global’ é
acionada pelos grandes grupos industriais transnacionais articulados ao mundo das finanças. Este tem
como suporte as instituições financeiras que passam a operar com o capital que rende juros (bancos,
companhias de seguros, fundos de pensão, fundos mútuos e sociedades financeiras de investimento),
apoiadas na dívida pública e no mercado acionário das empresas. Esse processo impulsionado pelos
organismos multilaterais captura os Estados nacionais e o espaço mundial, atribuindo um caráter
cosmopolita à produção e consumo de todos os países; e, simultaneamente, radicaliza o desenvolvimento
desigual e combinado, que estrutura as relações de dependência entre nações no cenário internacional. O
capital financeiro assume o comando do processo de acumulação e, mediante inéditos processos sociais,
envolve a economia e a sociedade, a política e a cultura, vincando profundamente as formas de
sociabilidade e o jogo das forças sociais. O que é obscurecido nessa nova dinâmica do capital é o seu
avesso: o universo do trabalho — as classes trabalhadoras e suas lutas —, que cria riqueza para outros,
experimentando a radicalização dos processos de exploração e expropriação. As necessidades sociais das
maiorias, a luta dos trabalhadores organizados pelo reconhecimento de seus direitos e suas refrações nas
políticas públicas, arenas privilegiadas do exercício da profissão [dos assistentes sociais], sofrem uma
ampla regressão na prevalência do neoliberalismo, em favor da economia política do capital. Em outros
termos, tem-se o reino do capital fetiche na plenitude de seu desenvolvimento e ação”. (In:

115
Como o conhecimento na ótica marxiana instiga e provoca o ser cognoscente a portar-se
como sujeito, ante a processualidade real da história, a obra de Mészáros, em constante
movimentação, acompanhando a dinâmica do seu tempo, é uma rica fonte de informação e
crítica ao “incomensurável dinamismo totalizador do capital”, em seus termos.
Para Além do Capital torna-se seu cartapácio atual de monta maior, onde ficam
explicitadas das determinações mais gerais aos detalhes mais recônditos do funcionamento
sociometabólico do capital, tanto naquilo que ele carrega de inequívoco, estrutural, quanto ao
que surge no sistema de inovações provocado pelo avanço do controle metabólico das
interações entre o homem e a natureza.
Desse modo, a distinção que opera entre capital e capitalismo serve, de um jeito
definitivo — para sua coleção de argumentos —, para mostrar tanto os limites que a
identificação entre ambos ocasiona à luta antissistêmica quanto para descortinar as contradições
imanentes do capital que se materializam na forma específica que encontra para reproduzir-se,
que é o capitalismo. Afirma:

Antes de mais nada, é necessário insistir que o capital não é simplesmente uma
“entidade material” — também não é, como veremos na Parte III, um “mecanismo”
racionalmente controlável, como querem fazer crer os apologistas do supostamente
neutro “mecanismo de mercado” (a ser alegremente abraçado pelo “socialismo de
mercado”) — mas é, em última análise, uma forma incontrolável de controle
sociometabólico. (MÉSZÁROS, 2002, p. 96).

Portanto, o capital, para Mészáros, é

um sistema poderoso e abrangente, tendo seu núcleo constitutivo formado pelo tripé
capital, trabalho e Estado, sendo que essas três dimensões fundamentais são
materialmente constituídas e inter-relacionadas, sendo impossível superá-lo sem a
eliminação do conjunto dos elementos que compreende esse sistema. (ANTUNES,
2002, p. 3)191.

A partir dessa lógica, dedica-se a evidenciar o modo como o capital contemporâneo


exponencia os níveis de expropriação do trabalho e prossegue investigando o modo como o
Estado não apenas é utilizado pelo capital para essa empreitada quanto participa ativamente do
processo.
Para Mészáros, o sistema do capital não teria outra maneira para preencher suas funções
sociometabólicas sem a “extração máxima do trabalho excedente dos produtores de qualquer

IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e
questão social. São Paulo: Cortez, 2007. p. 106-107).
191
ANTUNES, Ricardo. Resenha de para além do capital. Disponível em:
<www.boitempoeditorial.com.br>. Acesso em: 16 fevereiro de 2013.

116
forma compatível com seus limites estruturais” (Id., ibid., p. 99). Para isso, impõe a divisão
social hierárquica do trabalho como relacionamento determinado de poder e a apresenta como
justificava ideológica absolutamente inquestionável e pilar do reforço da ordem estabelecida
(Id.).

Para esta finalidade, as duas categorias claramente diferentes da “divisão do trabalho”


devem ser fundidas, de modo que possam caracterizar a condição, historicamente
contingente e imposta pela força, de hierarquia e subordinação como inalterável
ditame da “própria natureza”, pelo qual a desigualdade estruturalmente reforçada seja
conciliada com a mitologia de “igualdade e liberdade” — “livre opção econômica” e
“livre escolha política” segundo a terminologia de The Economist — e ainda
santificada como nada menos que ditame da própria razão (...). Com relação à sua
determinação mais profunda, o sistema do capital é orientado para a expansão e
movido pela acumulação. (Id., ibid., p. 99-100).

Se, para Mészáros, o capital é um sistema de mediações de segunda ordem (de caráter
antagônico e potencial destrutivo), o trabalho é, desse modo, a nucleação das mediações de
primeira ordem — as atividades produtivas — sob o qual o capital se assenta.
As dimensões constitutivas desses dois sistemas são inconciliáveis, ativando, assim, o
espectro da incontrolabilidade do capital numa forma que faz prever a autodestruição (tanto de
si mesmo quanto da humanidade em geral). O autor afirma que não é possível, para o capital,
um controle duradouro de si próprio, no máximo, ajustes limitados circunscritos à dinâmica de
expansão e acumulação192. Arrola, deste modo, o que chama de “desafios estruturais de controle
no sistema de capital”, sumarizando esses desafios em três grandes ordens de limites
antagônicos:

Primeiro, a produção e seu controle estão radicalmente isolados entre si e


diametralmente opostos. Segundo, no mesmo espírito e surgindo das mesmas
determinações, a produção e o consumo adquirem uma independência e uma
existência separada extremamente problemáticas, de modo que, no final, o “excesso
de consumo” mais absurdamente manipulado e desperdiçado; concentrado em poucos
locais, encontre seu corolário macabro na mais desumana negação das necessidades
elementares de incontáveis milhões de pessoas. E, terceiro, os novos microcosmos do
sistema do capital combinam-se em alguma espécie de conjunto administrável, de
maneira que o capital social total seja capaz de penetrar (...) no domínio da circulação
global (...) na tentativa de superar a contradição entre produção e circulação.
(MÉSZÁROS, 2002, p. 105).

192
Ajustes dos quais o (neo)desenvolvimentismo faz parte.

117
É nesse sentido que o Estado moderno participa da aventura destrutiva do capital como
seu complemento imprescindível: corrigindo as falhas estruturais do sistema. Nessa ótica, não é
possível conceber o capital sem o Estado, afinal, este é uma “estrutura política compreensiva de
mando do capital, um pré-requisito para a conversão do capital num sistema dotado de
viabilidade para sua reprodução, expressando um momento constitutivo da própria
materialidade do capital” (ANTUNES, 2002; MÉSZÁROS, 2002, p. 121).

O Estado moderno constitui a única estrutura corretiva compatível com os parâmetros


estruturais do capital como modo de controle sociometabólico. Sua função é retificar
— deve-se enfatizar mais uma vez: apenas até onde a necessária ação corretiva puder
se ajustar aos últimos limites sociometabólicos do capital — a falta de unidade em
193
todos os três aspectos referidos na seção anterior [citados no excerto anterior] .
(MÉSZÁROS, 2002, p. 107).

Além do mais, dada

a modalidade única de seu metabolismo socioeconômico, associada a seu caráter


totalizador (...) estabelece-se uma correlação anteriormente inimaginável entre
economia e política (...) O Estado moderno imensamente poderoso — e igualmente
totalizador — se ergue sobre a base deste metabolismo socioeconômico que a tudo
engole, e o complementa de forma indispensável (e não apenas servindo-o) em alguns
aspectos essenciais. (Id., ibid., p. 98).

Portanto, o Estado não é um ente superestrutural, relativamente autônomo, erguido sob


as condições históricas que determinam o grau de desenvolvimento das forças produtivas, e que
fica à espera das ordens do capital para realizar suas funções. Antes, o Estado como estrutura de
comando político do sistema sociometabólico do capital, é, ao mesmo tempo, constituinte
[como momento de síntese] da sua própria base. Se tal base está referida ao complexo de
mediações de primeira ordem, a função do Estado de retificar as disfunções do sistema
sociometabólico, decorrentes do choque entre seus microcosmos constitutivos, é função que
nasce no seio do próprio processo de constituição desse sistema e não fora dele. Em termos
coloquiais: O Estado não presta assistência técnica externa ao capital quando de suas crises, ele
é, pois, o próprio mecanismo reparador das falhas contidas na estrutura mesma do capital,
constituído na dinâmica expansiva de acumulação e autrodestruição do sistema194.

193
Grifo nosso.
194
Mas há que se entender o termo “mecanismo” não como um instrumento, mas como algo inerente ao
processo de reprodução do capital. A gênese do Estado fundamenta-se no antagonismo das classes
sociais. Ou seja, a relação entre o Estado e a economia não é de mera instrumentalização, mas de
essencialidade para a sobrevivência das classes em luta, e, portanto, da própria humanidade. Contudo,
essa gênese também indica o limite do Estado, que é sua existência fundamentada nos conflitos de classe
e, portanto, em uma sociedade emancipada; superando a existência das classes sociais, supera-se a própria
necessidade material do Estado.

118
Argumento que faz cair por terra tanto a interpretação liberal da supremacia
(autonomia) mercadológica quanto a crítica de esquerda, que alega favorecer, o Estado,
pontualmente, o capital com medidas político-econômicas regressivas, apenas por aliar-se à
classe dominante. O capital plasmado mesmo no Estado, torna ambos processos mais
complexos do que as inferências imediatas a seu respeito pressupõem.
A análise do Estado, sob o signo do capitalismo monopólico não fica restrita a Gramsci,
Poulantzas ou Mészáros. A seu modo, Ernest Ezra Mandel (1923 – 1995) também trata do
Estado em seus particularismos contemporâneos 195 , situando-o num momento de elevada
industrialização mundial com inflexões decisivas em toda a economia, em especial o modo
como o domínio burguês se manifesta na regulação estatal, que é análoga à regulação (ou a falta
dela) da própria economia burguesa196.
Mesmo com esse recorte temporal, Mandel mantém o eixo central da tradição marxista
que entende as vinculações (i)mediatas do Estado burguês com a classe dominante e as
adequações que procede para o melhor atendimento de seus interesses:

O que é válido em relação às tentativas privadas dos monopólios de regular a


economia aplica-se igualmente à regulamentação do Estado. (...) Já tentamos mostrar,
no capítulo 15, que o Estado no capitalismo tardio continua sendo o que era no século
XIX – um Estado burguês que em última instância só pode representar os interesses
da classe burguesa (“o capital como um todo), sobretudo de seu estrato
socioeconômico dominante. (MANDEL, 1982, p. 385)197.

Para Mandel, no capitalismo tardio, as funções do Estado atinentes ao atendimento dos


interesses da classe dominante estão diretamente ligadas a essa função reguladora,
correspondendo, portanto, às necessidades de “expansão, circulação e acumulação de capital”,
não se furtando assim de ter, esse processo, como base constitutiva, as relações de produção
fundamentais originadas no trabalho humano. Sendo assim, classifica as principais funções do
Estado burguês em:

195
Sofrendo as consequências do II Pós-Guerra.
196
Segundo Mandel: “As funções superestruturais que pertencem ao domínio do Estado podem ser
genericamente resumidas como a proteção e a reprodução da estrutura social (as relações de produção
fundamentais), à medida que não se consegue isso com os processos automáticos da economia. Por isso
nem todas as funções do Estado são hoje ‘puramente’ superestruturais, como não o eram nas formações
sociais pré-capitalistas” (In: O Capitalismo Tardio, p. 333).
197
MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Coleção Os Pensadores).

119
1. Criar as condições gerais de produção que não podem ser asseguradas pelas
atividades privadas dos membros da classe dominante;
2. Reprimir qualquer ameaça das classes dominadas ou de frações particulares
das classes dominantes ao modo de produção corrente através do Exército, da polícia,
do sistema judiciário e penitenciário;
3. Integrar as classes dominadas, garantir que a ideologia da sociedade continue
sendo a da classe dominante e, em consequência, que as classes exploradas aceitem
sua própria exploração sem o exercício direto da repressão contra elas (porque
acreditam que isso é inevitável, ou que é ‘dos males o menor’, ou a ‘vontade
suprema’, ou porque nem percebem a exploração). (Id., ibid., p. 333-334).

A síntese dessas funções, em Mandel (1982, p. 337), o leva a contrapor-se tanto às


perspectivas gramscianas, quanto às categorias do jovem Poulantzas. Do primeiro, destoa de sua
noção de hegemonia como forma de direção política classista radicando o entendimento de
hegemonia como dominação198. Do segundo, diverge sobre a autonomia relativa do Estado e
suas funções políticas. Refere:

A autonomização do poder do Estado na sociedade burguesa é decorrência da


predominância da propriedade privada e da concorrência capitalista; mas essa mesma
predominância impede que essa autonomização deixe de ser relativa. A razão disso é
que as decisões do “capitalista total ideal”, enquanto transcendem os interesses
competitivos conflitantes de capitalistas específicos, têm efeitos importantes sobre
esses interesses199.

Se, para o jovem Poulantzas, de Poder Político e Classes Sociais, o Estado capitalista
contemporâneo goza de autonomia relativa, no sentido de tornar coesiva as frações de classe
burguesa no bloco no poder, sendo mais do que um simples aparelho da fração monopolista do
capital, para Mandel, o Estado é uma forma maximizada do capitalista particular: capitalista
total ideal, que assume sempre como consequência de suas decisões o cumprimento dos
interesses das diferentes frações do capital.
Isso explica madelianamente, as disputas que se travam no interior das instituições. Para
Mandel, Poulantzas pecou por ter supervalorizado as funções políticas do Estado e ignorado que
a propriedade privada e a concorrência, como bases estruturais do sistema, impedem a
autonomia do Estado mesmo que relativa.

198
Ver: MANDEL, Ernest. Crítica do euro-comunismo. 1978. Fotocopiado. Também o historiador
inglês Perry Anderson travou polêmica contra o conceito de hegemonia de Gramsci em seu artigo As
Antinomias de Gramsci. Nele, argumenta que o termo já era utilizado pelos bolcheviques e mencheviques
para se referir à “ofensiva” social-democrata, que propunha a união dos operários com os camponeses na
luta contra o czarismo. Refere que Gramsci não teria conseguido dar maior coesão/unidade ao termo, pois
não o circunscrevera de modo preciso nem na sociedade civil e nem na sociedade política.
199
MANDEL, Ernest. Ob. Cit., 1982.

120
Nesse sentido é que Mandel avança, com relação a seus antecessores, no que tange à
explicitação do modo manipulador do capitalismo tardio 200 . Nesse sentido, sua construção
teórica é ressonante com a própria construção marxiana, encontrada em O Capital e que trata
particularmente da construção dos processos de alienação do trabalho na deturpação deste como
modo fundante do ser social.
Para Mandel, as formas de dominação do Estado burguês de capitalismo tardio estão
cada vez mais renunciando ao uso direto da força em favor de formas de coerção ideológicas,
justamente pela necessidade instransponível que tem, o capital, do trabalho livre. Mas essa
renúncia também favorece a consolidação do liberalismo como substância de sustentação do
Estado burguês, pois permite a reiterada minimização de suas funções:

O governo do capital se distingue de todas as formas pré-capitalistas de governo pelo


fato de não se basear em relações extraeconômicas de coerção e dependência, mas em
relações ‘livres’ de troca que dissimulam a dependência e sujeição econômicas do
proletariado (separação entre meios de produção e subsistência) e lhe dão a aparência
de liberdade e igualdade. (Id., ibid.., p.336).

E prossegue:

Como essas relações de troca em geral foram internalizadas pelos produtores diretos,
especialmente no período do capitalismo ascendente, quanto mais desimpedidas a
dominação econômica e a expansão do capital, tanto mais a burguesia poderia abster-
se do uso direto da coerção das armas contra a classe operaria e tanto mais era
possível reduzir o poder do Estado às funções mínimas de segurança 201. (Id., ibid., p.
336).

Se os excertos mandelianos que citamos até agora estão em consonância com a sua
matriz teórico-metodológica, é na continuação de seus argumentos que encontraremos os nexos
explícitos de formulação de sua teoria do Estado.

200
Por modo manipulatório do capitalismo contemporâneo, estamos entendendo o aperfeiçoamento das
instâncias que formam a sociedade capitalista (econômicas, políticas, ideológicas, jurídicas, culturais,
etc.) sob a ótica das classes dominantes contemporâneas. Esse aperfeiçoamento dá-se em decorrência do
espetacular avanço e desenvolvimento das forças produtivas nos fins do século XX e início do século
XXI, que sustentaram a mundialização ou a circulação do capital, inaugurando uma aldeia global de inter-
relações e interdependências sob a determinação da esfera econômica, contudo, com inflexões nos
campos da política, da ideologia e da cultura, sendo esta última uma das principais formas de difusão do
pensamento burguês mundial entre as massas e de conformação de uma subjetividade capitalista.
Elementos para essa consideração podem se encontrados em Habermas em sua teoria do agir
comunicacional, mas o tratamento desse processo como “capitalismo manipulatório” pode ser visto em
ALVES, Giovanni. Trabalho e subjetividade – O espírito do toyotismo na era do capitalismo
manipulatório. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010 e COUTINHO, Carlos Nelson. Marxismo e política
a dualidade de poderes e outros ensaios. 2. ed., São Paulo: Cortez, 1996.
201
Essa redução do Estado, mais tarde será confirmada como um dos pilares ideopolíticos de implantação
do neoliberalismo.

121
Mandel (1982, p. 335-336) prossegue por considerar o isolamento das esferas pública e
privada como peculiaridade da sociedade burguesa decorrente da “generalização sem igual da
produção de mercadorias, da propriedade privada e da concorrência de todos contra todos”.
Portanto, considera difícil ou mesmo impossível que um capitalista isolado possa representar os
interesses gerais do capital, diferentemente do que ocorreu no Estado feudal, quando o rei
exercia tal poder de representação. Daí, Mandel distingue Estado de Governo, citando Kautsky:

‘A classe capitalista reina, mas não governa. Contenta-se em dar ordens ao Governo.’
A concorrência capitalista determina assim, inevitavelmente, uma tendência à
autonomização do aparato estatal, de maneira que possa funcionar como um
‘capitalista total ideal’, servindo aos interesses de proteção, consolidação e expansão
do modo de produção capitalista como um todo, acima e ao contrário dos interesses
conflitantes do ‘capitalista total real’ constituído pelos ‘muitos capitais’ do mundo
real. (Id., ibid., p. 336).

De fato, percebemos duas consequências desse processo nada triviais. De um lado,


notamos uma função, atribuída ao Estado, de lidar com os conflitos de interesses das classes,
mas não das classes fundamentais, antagônicas, burguesia e proletariado, mas sim das frações da
classe burguesa 202 . Isto é, considerando a tendência exponencial da concorrência entre os
próprios capitalistas e a variedade de interesses que encerram – uns representam o capital
industrial, outros o comercial, outros o capital bancário, e assim por diante -, o Estado tende a
ser o grande harmonizador desses interesses, tendo como fim último a reprodução ampliada e
genérica do capital, beneficiando os capitalistas no seu conjunto, ainda que haja prevalência de
uma fração sobre outra.

202
O modo como os capitalistas ampliariam a concorrência, inclusive entre si, já havia sido anunciado por
Marx, em suas considerações sobre o processo de acumulação primitiva, no Livro I de O Capital. Refere:
“Desintegrada a velha sociedade, de alto a baixo, por esse processo de transformação, convertidos os
trabalhadores em proletários e suas condições de trabalho em capital, posto o modo capitalista de
produção a andar com seus próprios pés, passa a desdobrar-se outra etapa em que prosseguem, sob nova
forma, a socialização do trabalho, a conversão do solo e de outros meios de produção em meios de
produção coletivamente empregados, em comum, e, consequentemente, a expropriação dos proletários
particulares. O que tem de ser expropriado agora não é mais aquele trabalhador independente e sim o
capitalista que explora muitos trabalhadores. Essa expropriação se opera pela ação das leis imanentes à
própria produção capitalista, pela centralização dos capitais. Cada capitalista elimina muitos outros
capitalistas”. (In: MARX, Karl. O capital. Livro I, v. II, Capítulo XXIV: A chamada acumulação
primitiva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971).

122
O capital é incapaz de produzir por si mesmo a natureza social de sua existência em
suas ações; precisa de uma instituição independente, baseada nele próprio, mas que
não esteja sujeita a suas limitações, cujas ações não sejam determinadas, portanto,
pela necessidade de produzir (sua própria) mais-valia. Essa instituição independente,
‘ao lado, mas fora da sociedade burguesa’, pode, baseada simplesmente no capital,
satisfazer as necessidades imanentes negligenciadas pelo capital. O Estado não deve
ser visto, portanto, nem como um simples instrumento, nem como instituição que
substitua o capital. Só pode ser considerado uma forma especial de preservação da
existência social do capital ‘ao lado, mas fora da concorrência’. (ALTVATER apud
MANDEL, 1982, p. 336).

E, por outro lado, é responsável pela manutenção da ordem burguesa, pelo controle
ideopolítico da massa subjugada203. Tal controle pode, desta forma, ser sustentado na ideia de
um Estado acima das classes. Ou seja, a heterogeneidade dos interesses burgueses passa a ser
identificada com a heterogeneidade dos interesses de toda a sociedade.

A rigorosa utilização do Estado burguês como arma dos interesses de classe dos
capitalistas é escondida tanto dos atores quanto dos observadores e vítimas dessa
tragicomédia pela imagem mistificadora do Estado como árbitro entre as classes,
representante do ‘interesse nacional’, juiz neutro e benevolente dos méritos de todas
as ‘forças pluralistas’. (Id., ibid., p. 347).

Com tal legitimidade, o Estado credencia-se para regular a vida social, e, nessa
regulação estende seu braço de modo oscilante, ao sabor das conjunturas, ora interferindo na
economia – para preservar os interesses dos proprietários -, ora interferindo na organização civil
da sociedade. Esta última função (intervir na sociedade) é até mesmo entendida como uma
necessidade premente, considerando que a organização da classe trabalhadora afeta o
desenvolvimento livre e desimpedido do capital.

203
Mandel alerta: “O capitalismo tardio caracteriza-se pela combinação simultânea da função diretamente
econômica do Estado burguês, do esforço para despolitizar a classe operária e do mito de uma economia
onipotente, tecnologicamente determinada, que pode supostamente superar os antagonismos de classe,
assegurar um crescimento ininterrupto, um aumento constante do consumo e, assim, produzir uma
sociedade ‘pluralista’. A função objetiva da ideologia ‘economicista’ é, sem dúvida, tentar desmantelar a
luta de classe do proletariado. Mas a necessidade objetiva dessa ideologia corresponde exatamente à
compulsão cada vez maior do Estado em intervir na economia capitalista tardia, e ao perigo de que essa
intervenção eduque a classe operária em relação a todas as formas econômicas e sociais da sociedade cuja
riqueza produz – potencialmente – uma ameaça terrível ao capitalismo tardio”. (In: O capitalismo tardio.
São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 341).

123
O principal objetivo da política econômica burguesa não é mais anular os
antagonismos sociais, mas sim descarregar sobre os assalariados os custos do
reforçamento de cada indústria capitalista nacional na luta concorrencial. O mito do
pleno emprego permanente está desvanecendo. Aquilo que a sedução e a integração
política não conseguiram realizar efetiva-se agora pela reconstrução do exercito
industrial de reserva e pelo cancelamento das liberdades democráticas do movimento
dos trabalhadores (entre outras, a repressão estatal à greve e ao direito de greve). A
luta pela taxa de mais-valia desloca-se para o centro dinâmico da economia e da
sociedade, como ocorreu entre a virada do século e a década de 30 [do século XX].
Por conseguinte, uma explicação do capitalismo tardio deve incluir também uma
análise critica do papel desempenhado pelo Estado burguês tardio e pela ideologia
burguesa tardia na luta de classes contemporânea. (MANDEL, 1982, p. 332).

Nesse excerto, fica evidente, ainda, a fúria expansionista do capital. Isto é, não se trata
apenas de barrar os movimentos operários como forma de manter a coesão social, mas, ao
mesmo tempo, deve dispensar atenção aos proprietários nacionais, considerando a ampliação da
concorrência externa (resultado da desterritorialização crescente do capital).
Logo, o Estado também deve intervir na manutenção dos capitalistas individuais204. Isso
implica dizer que embora o Estado difunda a ideia de que a manutenção da lógica burguesa leva
a estágios crescentes e prósperos de desenvolvimento ininterrupto, este mesmo Estado (e sua
burguesia correspondente) sabe que isso é um mito e que as crises fazem parte dessa lógica.
Assim, a regulação voltada para a defesa dos interesses também dos capitais nacionais
tem o intuito de preservá-los das crises cíclicas quando, não muito, o Estado os presenteia com
espécies de bônus em forma de acessos aos fundos públicos e financiamentos a juros baixos
pelos bancos públicos em nome do incentivo ao desenvolvimento.

Assim, há no Estado uma tendência de intervir sempre mais em esferas originalmente


produtivas da economia, a fim de criar condições de produção que já não podem ser
garantidas pelo capital privado. Essas condições vão desde a infraestrutura real e a
esfera da educação e administração, até certos ramos da produção de matérias-primas,
do sistema de transporte e mesmo até ramos da produção que ‘avançam’ demais
tecnologicamente (usinas de energia nuclear, por exemplo). (Id., ibid., p. 389).

Essa tendência identificada por Mandel deve, contudo, ser referenciada


conjunturalmente, pois, por mais que contenha elementos gerais que sobrevivem em qualquer
tempo histórico do capitalismo, ela possibilita identificar na história os momentos onde esta
função é racional e deliberadamente planejada e executada, condição essencial para o
desenvolvimento em ação: o desenvolvimentismo.

204
Raciocínio que retomamos no Capítulo III, ao tratar do advento do (neo)desenvolvimentismo no
Brasil.

124
Sem dúvida, de modo estrutural, o Estado desempenha a função clássica de manter e dar
suporte às esferas produtivas fundamentais, tanto que, em momentos de crise nas bases de
acumulação, esses investimentos são receitados como remédios para superação dessas crises,
vide as fórmulas keynesianas e neokeynesianas, de que trataremos mais adiante, e isso implica a
valorização direta do capital que possui base produtiva e de acumulação em seus próprios
territórios nacionais.
Outrossim, com o avanço do processo de desterritorialização, que converge na
mundialização do capital, essa função do Estado tende a ser relativizada ou, de certo modo,
deslocada para os fóruns de decisão econômica globais em detrimento dos fóruns locais205. Se o
processo clássico de intervenção na produção fundamental foi invocado nos anos 30,
perdurando como paradigma até meados dos anos 80, essa invocação requisita novos elementos,
a partir da revolução tecnológica e do neoliberalismo dos anos 90 até os dias atuais, culminando
no processo de transnacionalização das economias.

O papel que tem a política ‘nacional’ monetária e de crédito de moderar o ciclo


industrial sofre a ameaça de ser decisivamente reduzido. Essa ameaça também está se
tornando realidade na medida em que a ‘onda longa’ de expansão acelerada, sob
condições de uma nova revolução tecnológica, levou a uma nova fase de concentração
e de centralização aceleradas de capital, que transformou a firma multinacional na
forma organizacional decisiva da empresa do capitalismo tardio. (Id., ibid., p. 392).

E prossegue:
O Estado burguês tardio tem muito menos influencia sobre essa forma organizacional
do que sobre os trustes e monopólios ‘nacionais’ do período anterior. Assim como o
crescimento das forças produtivas sobrepuja o Estado nacional, também sobrepuja
gradualmente o papel do Estado no controle do ciclo industrial e na promoção e no
crescimento de melhorias econômicas. Quanto mais os monopólios pensam que se
subtraíram à lei do calor em nível nacional, tanto mais tornam-se sujeitos a ela em
nível internacional. (Id., ibid., p. 392).

A internacionalização da concorrência cria uma aldeia de capitalistas globais, ao mesmo


tempo em que agudiza as diferenças e desigualdades de desenvolvimento entre os países. A
subordinação dos países com menor grau de desenvolvimento aos países de capitalismo
avançado é inevitável, nessa ordem, pois o capital justifica, mesmo moralmente, que a
socialização de seu modus operandi e de sua ideologia inerente são as condições civilizatórias

205
E mesmo as tentativas de se estabelecer relações capitais em grandes blocos regionais não têm logrado
êxito, a exemplo não apenas do Mercosul, mas da própria comunidade europeia nesta segunda década do
século XXI.

125
para desenvolver-se no tempo corrente, o que se constitui mais num ideal do que em realização,
como demonstra Celso Furtado em seu O Mito do Desenvolvimento206.
A oferta de mão de obra e de commodities passa a ser, assim, a mola propulsora da
concorrência entre os países com menor grau de desenvolvimento, e, nessa lógica, dependentes.
Importante ressaltar que as relações entre países ricos e pobres, ou desenvolvidos e dependentes,
não se limita à esfera de circulação mercantil, de mercadorias. Além do aparato ideológico,
como frisamos, invade os domínios da política e da formulação de políticas, do aparato jurídico-
normativo até os modelos mesmo de administração dos próprios Estados nacionais. Isso reforça
o citado princípio da desterritorialização:

Sua conduta [a das empresas multinacionais] corresponde simplesmente à lógica de


um modo de produção baseado na propriedade privada e na concorrência, e não numa
‘soberania nacional’ que em última instância deve subordinar-se aos interesses globais
do capital. Essa mesma lógica não leva apenas a evitar perdas, mas também a
maximizar os lucros – em outras palavras, leva à especulação monetária que tem por
finalidade conseguir ganhos financeiros rápidos e, consequentemente, a constantes
transferências internacionais de somas enormes de capital-dinheiro. (Id., ibid., p. 330-
331).

O quadro da análise mandeliana é, sem dúvida, fundamental para o entendimento do


Estado burguês, no contexto do capitalismo tardio. Sua análise não se centra na problemática do
Estado, propriamente, mas no referenciamento preciso das manifestações gerais e particulares
de um Estado histórica e socialmente determinado, qual seja, o Estado burguês do final do
século XX, com foco nas suas funções relativas à acumulação. Evidenciam-se, assim, o
desenvolvimento capitalista como sinônimo de acumulação e o desenvolvimentismo como meio
pelo qual o Estado viabiliza o cumprimento dos interesses da classe dominante de tempos em
tempos.
Percebemos, nesse rápido passeio pelas construções teórico-metodológicas e
ideopolíticas do Estado, dos jusnaturalistas aos filósofos marxistas, que os autores foram
tendencialmente se afastando da definição abstrato-geral do Estado e se aproximando mais
propriamente da identificação de suas funções e funcionamento mesmo.
Desde a descrição, identificada por Althusser como momento primeiro da construção
da teoria, até a generalização do capitalista singular no Estado de Mandel, as problematizações
sobre o tema têm avançando inevitavelmente para prescrever diferentes formas de ser do
Estado, como, por exemplo, o Estado de transição ou o Estado socialista, como também a sua
superação.

206
FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

126
Recorremos, deste modo, a aproximações sucessivas, identificadas no lastro da tradição
marxista para recolher aquilo que nos interessa enquanto elementos essenciais de uma
concepção de Estado, considerando o caráter inacabado de uma teoria geral do Estado neste
campo.
Contudo, mesmo sob o risco de parecer reducionistas, arrolamos de modo sumário
características que passaremos a considerar em nossa elaboração, sem prejuízo de outras que
possam vir a se agregar posteriormente:
1. O Estado é um ente social e historicamente determinado, de natureza fundamentalmente
relacional;
2. Sua existência está condicionada ao uso da razão. Isto é, só existe no âmbito do projeto
da racionalidade humana, em sua dimensão política. Fora disso, não se realiza, é etéreo
e amorfo;
3. Só pode ser entendido se referenciado a uma formação social específica. Isto é, adquire
a identidade da sociedade em que se insere. Identidade está vinculada ao modo como se
estabelecem as relações sociais — consequência direta dos processos de produção e
reprodução da vida social — e a maneira como as disputas de poder são travadas nessas
relações;
4. Portanto, sua existência não pode ser desvinculada do surgimento das classes, nem da
dinâmica que estabelecem entre si e suas frações;
5. Por ser relacional, não há consenso sobre apresentar autonomia, ainda que relativa, ante
a dinâmica das classes sociais;
6. Além de ser revestido ideologicamente pelo formato que assume, oscila entre papéis
protagônicos, ou marginais, no processo de criação e difusão da ideologia dominante,
sem abrir mão desse papel em nenhuma condição histórica;
7. Sua participação nos processos de reprodução das relações sociais é, em algumas
análises, orientada pela classe dominante; em outras, é a própria classe dominante
plasmada em sua forma. Alterna, assim, intervenções ora drásticas, ora moderadas, na
vida socioeconômica, sempre com o fim último de manter os níveis exponenciais de
expansão e acumulação capitalistas;
8. O monopólio legal da violência é uma característica própria intransponível, razão da
sua autojustificação;
9. O caráter contraditório de sua existência reflete-se, dentre outras formas, no fato de
possuir intrinsecamente as condições para sua manutenção perpetuadora como também
de sua superação, para alguns, e extinção, para outros. Contradição essencial do sistema
do capital incorporada pelo Estado burguês, ou inexorável a ele. Portanto, desse modo,
é indispensável para a transição socialista. Não há, por outro lado, consenso sobre as

127
formas de encaminhamento dessa transição, gerando as mais profícuas polêmicas no
campo da tradição marxista.
10. Acompanhando a evolução humano-social, os Estados migraram de simples
organizações locais para conglomerados complexos mundializados. Portanto, suas
formas contemporâneas não conseguem abdicar das relações imbricadas que se
estabelecem na aldeia global.

Essas características mostram a heterogeneidade interna (e externa, por ter condicionantes


materiais — históricos e sociais — claros) da problemática teórico-prática do Estado. Da
filosofia política clássica à ciência econômica contemporânea.
Diante de tamanha diversidade conceitual, cumpre-nos, por fim, explicitar que não
entendemos o Estado como uma hipostasia da superestrutura, ou como um ente aprisionado no
âmbito superestrutural, que sobrevive à espera das ordens burguesas voltadas à satisfação de
seus interesses de acumulação crescente.
Nem mesmo consideramos o estudo da problemática teórico-prática do Estado como
circunscrito ao método. O tratamento que dispensamos ao Estado procura associar três modos
distintos e relacionáveis de conhecimento: o conhecimento filosófico sobre ele construído,
contido nos clássicos do marxismo; a justaposição entre teoria marxista e teoria socialista,
portanto, o conhecimento político próprio das esquerdas marxistas; e o conhecimento científico
“exigido para conquistar o objeto de pesquisa (O Estado capitalista) das sociologias não
marxistas” (CODATO, 2008, p. 84-85).
Nesse entendimento, a concepção de Estado capitalista não se dissocia da dinâmica da
transição socialista, pois não há como ignorar a existência do Estado no processo de
constituição de uma sociedade que, ao mesmo tempo em que avança em conquistas
civilizatórias — todas elas referidas ao avanço das forças produtivas —, generaliza a
expropriação do trabalho e repõe, no mesmo processo, fissuras que permitem a sua superação.
Portanto, o Estado plasma-se no processo de lutas que friccionam a relação orgânica e
dialética entre estrutura e superestrutura, como mediação de interesses econômicos, políticos,
ideológicos, culturais, consequentes e que, em última instância, podem ser direcionados para a
conquista da emancipação humana. O erro comum consiste em considerar que o tratamento do
Estado como relação abrange concessões reformistas e mistificadoras à ordem do capital.
Ao contrário, tal tratamento nos permite, pois, percorrer trajeto analítico similar ao de Marx,
quando desvendou o mito da mercadoria e, nesses aprofundamentos, nos ensinou que o Capital
é antes de mais nada uma relação social. Desse modo, o poder do Estado, por analogia, é “visto
como uma forma-política determinada (isto é, ‘condensada’) pelas relações de força —
instáveis, cambiáveis, provisórias — entre as classes implicadas nas lutas políticas” (Id., ibid.,
p. 83).

128
1.2.3 A tradição liberal

Se, na tradição marxista, as motivações para pensar o Estado partem do estudo do poder
e das categorias a ele vinculadas, na tradição liberal, o eixo estruturante clássico parece ser
mesmo as questões afetas à “liberdade”. Nada mais lógico, considerando que as revoluções que
se deram desde o século XVI 207 , ao consolidar a Democracia liberal como regime político
dominante, trouxeram consigo a liberdade como elemento imprescindível de uma luta pela
substituição do absolutismo monárquico por sociedades pautadas na “livre concorrência”, onde
o “trabalho livre” é apenas o seu maior expoente.
A liberdade a que se referiram os pioneiros da tradição liberal é a que se faculta aos
indivíduos no plano formal. É a garantia de que os cidadãos podem agir de modo desimpedido
na conformação de seus interesses particulares. Essa noção de liberdade, aqui muito sumarizada,
baliza a construção do Liberalismo como seu desdobramento no campo jurídico-político de
ordenamento das sociedades modernas e democráticas que surgem, em processo, desde o final d
século XVI 208 , como já apontado. Contudo, a clareza acerca do seu potencial e significado
torna-se um ideal hegemônico, na Europa de século XVIII, antes, durante e depois da irrupção
da Revolução Francesa. Mas depois dela é que se alastra não mais como ideal, mas como
experiência real.

É o momento em que é derrotada a fase democrática da Revolução Francesa – a de


Robespierre, em 1793 – e tende-se a formar sociedades liberais do tipo que surgirá na
França após a revolução de 1830, ou no Piemonte (e depois na Itália toda, com a
unificação do país) em 1848. Na Inglaterra a partir da revolução de 1689, sempre
existira uma sociedade liberal. (GRUPPI, 1980, p.21).

207
A exemplo da Revolução Inglesa, de 1640 a 1688; a Americana, de 1776; e a Francesa, de 1789 a
1799.
208
Bobbio afirma que é muito difícil precisar a origem e definir o liberalismo como fenômeno histórico,
assim, destaca três ordens de fatores que explicitam tal dificuldade, mas que numa “história paralela de
diversos liberalismos” podem nos ajudar a compreendê-lo: “1. A história do liberalismo acha-se
intimamente ligada à história da democracia (...), pois o Liberalismo é justamente o critério que distingue
a democracia liberal das democracias não liberais (plebiscitária, populista, totalitária). 2. O Liberalismo se
manifesta nos diferentes países em tempos históricos bastante diversos, conforme seu grau de
desenvolvimento; daí ser difícil individuar, no plano sincrônico, o momento liberal capaz de unificar
histórias diferentes, e 3. Não é possível falar numa ‘história-difusão’ do Liberalismo, embora o modelo de
evolução política inglesa tenha exercido uma influência determinante, superior à exercida pelas
Constituições francesas da época revolucionária. Isto porque, conforme os diferentes países, que tinham
diversas tradições culturais e diversas estruturas de poder, o Liberalismo defrontou-se com problemas
políticos específicos, cuja solução determinou sua fisionomia e definiu seus conteúdos, que muitas vezes
são apenas uma variável secundária com relação à essência do Liberalismo”. (In: BOBBIO, Norberto, et
al. Dicionário de política. 13. ed., Brasília: UnB, 2007).

129
E toda essa força não se dá apenas pela extraordinária capacidade revolucionária da
burguesia209, mas sim porque conta também com programas teóricos bem elaborados por seus
intelectuais e estadistas defensores210.
Um deles, que pode ser considerado como precursor dessa tradição, é Henri-Benjamin
Constant de Rebeque (1767 – 1830). Um pensador franco-suíço que organiza teórica e
politicamente uma das primeiras distinções entre Estado e sociedade civil na perspectiva liberal.
Parte de uma comparação entre as antigas sociedades gregas e romanas e as sociedades que
denomina modernas, com um olhar voltado preponderantemente para a Inglaterra.
Nessa comparação, salienta que nas sociedades antigas o poder do Estado era inevitável
e quase absoluto, pois as liberdades dos cidadãos só podiam ser exercidas na esfera pública. Era
na esfera pública que os cidadãos decidiam, nas assembleias, as questões decisivas para todo o
corpo societário, logo, os cidadãos que se dedicavam a isso deviam, desse modo, estar liberados
para essa função, o que exigia uma espécie de subsociedade formada por aqueles que
desempenhariam as funções produtivas – os escravos.
A coesão social nesse tipo de sociedade, segundo Constant, em seu livro Sobre a
Liberdade dos Antigos Comparada com a dos Modernos, de 1819, era garantida por uma
obrigação moral severa, a que identificou como “exercício cidadão”. Isto é, exercer a cidadania
significa “investir pesado” na participação nessa esfera pública com o objetivo último de
preservar a ordem. Além disso, ressaltava que, em sociedades pequenas e homogêneas, a
liberdade exercida na esfera pública tinha os limites relacionados à pouca quantidade daqueles
que podiam efetivamente exercer essa cidadania.
Em linhas gerais, Constant considerava esse tipo de modus operandi de sociedade um
estilo tirânico, pois toda a liberdade que deveria ser concedida no âmbito privado da vida social
estava submetida a essa espécie de vontade geral. Por isso mesmo, polemiza com Rousseau,
considerando que os princípios de igualdade preconizados por ele (Rousseau) destroem a
liberdade.
Com esse raciocínio, Constant elabora aquele que seria o eixo estruturante da tradição
liberal clássica, qual seja, “a identificação entre propriedade e liberdade, isto é, a liberdade
como diferença, e não como igualdade” (GRUPPI, 1980, p. 20).
Na sociedade dos Modernos, para Constant, deve prevalecer a ordem preconizada a
partir das garantias individuais, sobretudo as econômicas, regidas por uma legislação que, além
de preservá-las, deve proteger os indivíduos contra a interferência estatal na esfera da vida

209
É bastante conhecido de todos que, após consolidada a Revolução Burguesa, a burguesia transforma-
se em classe dominante, sendo assim conservadora, e não mais revolucionária, como fora antes.
210
Hobsbawn, ao se referir a o caráter da dupla revolução, afirma: “(...) foi o triunfo não da ‘indústria’
como tal, mas da indústria capitalista; não da liberdade e da igualdade em geral, mas da classe média ou
da sociedade ‘burguesa’ liberal; não da economia moderna’ ou do ‘Estado moderno’, mas das economias
e Estados em uma determinada região geográfica do mundo (...)” (In: A era das revoluções 1789-1848.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

130
privada. Defende a organização política representativa, sobretudo, nas sociedades maiores,
limitando a participação direta dos cidadãos na vida pública, pois não havendo escravos, a maior
parte dos cidadãos deve estar liberada para o trabalho livre.
Constant tambem é defensor da supremacia do mercado como ente regulador do
conjunto das relações sociais, ao evidenciar que a liberdade mercantil se sobrepõe à guerra, ou
seja, as nações devem estar em paz umas com as outras para proceder livremente as transações
comerciais. Com a guerra, não tem como haver liberalismo.
Mesmo com essas ideias, Benjamim Constant não é o único pioneiro do liberalismo
clássico mais visitado. Esse título cabe também ao históriador-aristocrata Alexis Henri Charles
Clérel, visconde de Tocqueville, ou apenas Alexis de Tocqueville (1805 – 1859).
Filho de família aristocrática, Tocqueville carregava consigo uma aparente contradição.
Defende ao mesmo tempo a aristocracia e as instituições democráticas. Contradição apenas
aparente, pois sua defesa da liberdade formal não alcança as formas mais elaboradas de
exercício direto da liberdade individual na vida pública, o que leva inevitavelmente à igualdade,
coisa que tanto teme. Aliás, a igualdade propalada pelos defensores de uma democracia não
liberal 211 , legatários de Rousseau (ou não), é motivo das preocupações de Tocqueville, do
mesmo modo que Constant enxerga na igualdade a raiz de um poder tirânico.
Suas ideias contribuíram para levar a sociedade a promover um arranjo de coisas
aparentemente inconciliáveis, como afirma Gruppi (1980, p. 22-23):

A corrente democrática, que se afirmou na Revolução Francesa com Robespierre, na


verdade foi derrotada na história da Europa. Neste continente, após as décadas de
1860 e 1870, teremos regimes liberais; teremos uma fusão de liberalismo e
democracia, isto é, uma ampliação do sufrágio universal, da igualdade jurídica. Uma
mistura de liberalismo e democracia que, no entanto, reafirma sempre o direito da
propriedade, tutela sempre a iniciativa economica e o desenvolvimento capitalista.

A solubilidade entre democracia e liberalismo não foi simbiótica, isto é, embora o


arranjo que une as duas concepções possa ter provocado aparente harmonia social, a essência
disforme de cada uma delas permaneceu inalterada. Isso fez e faz com que o liberalismo, como
regime ideopolítico, seja um eterno por vir, obrigando os liberais a estarem sempre em estado
de alerta e, nas fissuras que surgem desse processo, promovendo sua reparação.
Essa característica da instabilidade do arranjo que promoveram já lhes fora anunciada
em seu próprio seio. O italiano Benedetto Croce (1866 – 1952) mesmo sendo um liberal e
vivendo em uma época em que “não há mais distinção entre Estado de Direito Liberal e Estado
Democrático” (Id., ibid.), preocupa-se em deixar evidentes as diferenças fundamentais entre um
modo e outro de sociedade.
211
Pautada nos estatutos da igualdade formal. Não percamos isso de vista.

131
Para ele, os elementos históricos que causaram a fusão do liberalismo com a
democracia concentram-se na luta de ambos contra a monarquia absoluta e o clericalismo e com
a defesa que empregam da liberdade individual, da igualdade civil e política e da soberania
popular. Mas é justamente nessas aparentes amálgamas que residem diferenças substantivas.
Croce afirma que não há consenso entre liberais e democratas sobre os conceitos de: indivíduo,
igualdade, soberania e povo.

Para os democratas, os indivíduos eram seres iguais, a quem – como eles diziam –
devia-se propiciar uma igualdade de fato. Já para os liberais os indivíduos eram
pessoas iguais como homens, portanto sempre dignos de respeito, mas não eram
iguais como cidadãos (...) Além disso, para os liberais o povo não era uma soma de
forças iguais (conforme pensavam os democratas), mas sim um mecanismo
diferenciado, válido em cada uma de suas peças e em sua associação, com uma
unidade complexa, com governantes e governados, com classes dirigentes abertas e
móveis mas sempre necessárias para as tarefas do poder. (GRUPPI, 1980, p. 23).

Quanto ao conceito de soberania, refere:

A soberania para os liberais, era do conjunto (síntese), e não das partes analisadas
separadamente; isto é, a soberania encarnava-se na síntese política (dos governantes,
não dos governados). Para os liberais deve existir uma classe dirigente (...) que é a
elite da cultura [mas na verdade é a elite da base econômica]212. (Id., ibid., p. 23-24).

Essas distinções colocadas à luz, por Croce, serviram mais para fortalecer o arranjo do
que suplantá-lo. As fragilidades desse arranjo foram alvo de especulações, umas mais sérias,
outras nem tanto, mas que extrapolaram o feudo da democracia-liberal e possibilitaram análises
de importância capital para as ciências sociais e políticas, alternando entre a sua
autojustificativa, a crítica reformista e a crítica revolucionária.
Um nome clássico e indispensável para esse tipo de envergadura teórica e política é,
sem dúvida, o do sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), reconhecido como o mais
importante intelectual a pensar a problemática da coesão social, na perspectiva da
autojustificativa, como antes mencionado.
Tendo essa problemática como um dos eixos fundantes de sua trajetória teórica, os
estudos durkheimianos influenciaram e ainda influenciam não apenas os campos do pensamento
sobre o Estado, mas as questões próprias da ciência social. Por hora, nos interessa seu
pensamento acerca do Estado e da sociedade.
Se, para Marx, o trabalho é a categoria que nos funda enquanto seres sociais, portanto,
imanente ao gênero humano, para Durkheim, uma importância parecida lhe será conferida. Para

212
Grifo do autor.

132
ele, o trabalho é responsável por galvanizar a coesão social. Isto é, em seu livro Da Divisão do
Trabalho Social de 1893 argumenta que a modernização dos meios produtivos, com a
industrialização, redundou num exponencial crescimento da especialização do trabalho. Essa
diversificação, convertida em especialidades cada vez mais singulares, é uma forma superior de
promoção inequívoca da solidariedade entre os homens, tornando harmônicas suas relações e
coesa a sociedade.
O autor distingue a solidariedade pelo trabalho das sociedades menos desenvolvidas, ou
menos complexas, daquela solidariedade que emerge em sociedades complexas. Nas primeiras,
embora possa haver uma divisão social simples do trabalho, os indivíduos estão aptos a realizar
a maior parte das tarefas necessárias à sua sobrevivência. A organização desses coletivos
humanos está assegurada muito mais pelos costumes, pela crença, pelas tradições, do que por
uma relação de dependência recíproca.
Durkheim nomeia isso como solidariedade mecânica. Já no segundo tipo de sociedade
– as mais complexas –, a solidariedade, portanto, a coesão, é assegurada pela interdependência
que se estabelece entre os homens a partir da complexidade dos processos produtivos, que
decorre da divisão crescente do trabalho. A divisão social crescente do trabalho é uma
constatação que se verifica também em Marx, contudo, para Marx o crescimento exponencial do
caráter coletivo do trabalho encerra em si a contradição fundamental do modo capitalista de
produção, qual seja, quanto mais o caráter coletivo do trabalho aumenta, cresce em proporções
maiores a expropriação desse mesmo trabalho (e do trabalhador como agente intercambiante
orgânico dessa relação) pelo capital.
Essa contradição, para Durkheim, não é o problema a ser enfrentado. Ao contrário,
desse tipo de solidariedade, que o autor Da Divisão do Trabalho Social denomina de
“solidariedade orgânica”, emerge uma necessidade de regulação moral capaz de harmonizar o
processo desigual de entrada e manutenção dos homens no “mundo do trabalho”. Isto é, a
regulação da relação capital-trabalho não passa de uma questão moral, resolvida, deste modo,
com instituições criadas (ou reformadas) para esse fim, com base em normas integradoras.
Essas instituições e as normas morais têm por objetivo promover a integração adequada
dos indivíduos ou grupos ao convívio social, havendo inclusive meios para requalificar os
comportamentos desviantes ameaçadores da paz social. Nesse sentido, Durkheim, em O
Suicídio, discorre sobre o que chama de anomia, conceito que associa e identifica o
funcionamento inadequado da sociedade à patologia.
Com essa noção de coesão social, Durkheim habilita-se a tratar do Estado. Entende,
assim, o Estado como o ente “que concerta e expressa a vida social” justamente por ser o
responsável por resguardar o exercício dessa moral integradora a que se referiu anteriormente.
Isto é, o Estado está acima das classes.

133
Como educador Durkheim enxergava na educação pública o veículo responsável por
formar a consciência dessa moral integradora sem “ideologismos” ou “confessionalismos”,
portanto, sendo o Estado responsável por essa educação não se opõe ao indivíduo, ao contrário,
lhe fornece as possibilidades de integração. Nessas possibilidades, está incluída sua libertação
do poder autoritário dos grupos de socialização, como a família, a Igreja e as corporações
profissionais. Mas isso não significa uma satanização desses grupos por parte de Durkheim.
Trata-se apenas de colocar as coisas no seu devido lugar, isto é, a esses grupos caberia a
nobre função de acompanhar a dinâmica do governo, informando e promovendo algumas
formas de participação dos cidadãos na vida pública, mais ou menos limitadas. Além desses
grupos, essa função é afeta ao âmbito da educação civil, dos jornais, mas, sobretudo, das
corporações de ofício organizadas, isto é, dos grupos de associação profissional. A estes estaria
reservada a tarefa de impedir que a autoridade conferida ao Estado extrapolasse seus limites,
cerceando a liberdade.

Durkheim dá extrema importância à organização corporativa nas sociedades


modernas. Nele descobriremos uma enunciação descritiva de Estado Corporativo, e
em análise eminentemente superestrutural, a preocupação se volta para o
esclarecimento de sua função [...] Durkheim traça não somente as linhas básicas do
movimento histórico das corporações, como ainda tenta demonstrar sua viabilidade no
início deste século. Critica economistas liberais por verem inevitavelmente as
corporações como sobrevivências do passado, as quais deveriam sofrer inteira
eliminação. (VIEIRA, 1981, p. 18)213.

A urgência da organização corporativa na sociedade moderna impõe-se, para Durkheim,


por motivos morais e não econômicos. Acredita que uma função social somente se mantém com
a disciplina moral, e, diante do egoísmo do industrial e do operário, do comerciante e do
empregado, fica completamente demonstrada a imperiosidade da regulamentação da vida
econômica [...] que encontra sua mediação exata (o freio a um possível autoritarismo) nas
corporações (VIEIRA, 1981). “Reveste-se desta maneira a corporação de uma função de
controle da estabilidade social” (Id., ibid., p. 18 ).
Por esse motivo, e não por outro, é que Durkheim desenvolve a noção de anomia para
designar comportamentos antissociais ou desviantes em relação às normas estabelecidas pelo
organismo social, cuja força moral das corporações evitaria os abusos estatais e privados214. Por
isso, Vieira (1981) assevera que Durkheim concebe uma sociedade pluralista de grupos

213
VIEIRA, Evaldo. Autoritarismo e corporativismo no Brasil: Oliveira Vianna & Companhia. São
Paulo: Cortez, 1981.
214
Pois foi baseado na noção durkheimiana de anomia que um conjunto de políticas sociais foi construído
no Brasil pós-1930, durante a Era Vargas. Algumas dessas características permanecem até os dias atuais.
No caso da assistência social, tal marca começa a ser superada (ao menos no desenho da política e nos comandos de
sua gestão) com a instituição do Suas, o que não o isenta de tensionamentos e contradições.

134
secundários protetores dos interesses individuais, enquanto o Estado se afigura como
individualista, sem estar confinado à administração de uma justiça totalmente negativa,
reconhecendo-se o direito e o dever de desempenhar um papel mais amplo em todas as esferas
da vida coletiva, sem ser mística. Considerando o Estado como órgão especial, destinado a gerar
representações de valor coletivo, o pensamento durkheimiano dirige-se ao intervencionismo
estatal na sociedade, sem recorrer à integral homogeneidade215.
Caberia ainda às corporações organizar a base de representação política da sociedade,
tanto nas eleições quanto na manutenção do poder democrático, mais coeso. Em síntese,
encontramos em Durkheim uma noção de Estado funcional e corporativo.
Ainda no rol dos constructos teóricos e políticos que extrapolam a tradição liberal,
mesmo que possam provocar influência ou inflexões, encontramos as formulações do sociólogo
alemão Maximilian Karl Emil Weber, ou simplesmente Max Weber (1864 – 1920). Este bem
mais pessimista com relação ao Estado do que Durkheim.
Para o autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, a integral recorrência
às corporações na estrutura do Estado (inclusive nas eleições), como sugeriu Durkheim, ao fazer
do Estado uma entidade corporativa apenas o inviabilizaria, pois não daria conta de adequar-se à
época de profundas transformações econômicas e tecnológicas (Id., p. 21). Weber não era
contrário às corporações, mas criticava sua identificação integral no aparelho do Estado, como
estrutura:

Esta identificação, imprescindível para uma lei eleitoral destinada a ordenar a


representação corporativa, não chegaria a definir coisa alguma a respeito da função
econômica e social, alteradas com o progresso material. Não é difícil concluir disto
que, mudadas as funções, muda em consequência o significado de tarefas apenas
formalmente idênticas. (Id., ibid., p. 21-22).

Weber referenciou grande parte de seus estudos à Alemanha de sua época, unificada por
Otto von Bismarck. O Estado alemão, para Weber, era composto de uma estrutura quadripartite
de poder: os junkers, que eram os grandes proprietários de terra; os grandes industriais; a elite
do serviço público (os grandes burocratas); e o Exército. Os dois últimos detentores do maior
poder. Weber conferiu importância singular ao estudo da burocracia, por considerá-la como uma
forma peculiar de exercício de poder que, para ser positiva, tem de ser racional; caso contrário,
tende a extrapolar seus domínios e tornar-se tirânica:

215
O autor ainda completa: “O corporativismo renovado de Durkheim procura sua gênese nas antigas corporações,
isto é, nas associações de mercadores e artesãos, localizadas em determinada cidade e destinadas a regular o exercício
da profissão, o tempo de trabalho, a qualidade da produção e o combate à fraude”.

135
Para Weber a ação da burocracia, que é racional quando limitada a sua esfera, torna-se
irracional quando atinge outras esferas. O burocrata pode ser ótimo funcionário,
cumpridor de seus deveres; será, porém, um péssimo estadista. (TRAGTENBERG,
2006, p. 175)216.

Mas, então, do que trata a burocracia, para Weber? Tragtenberg (ibid., p. 171) esclarece:

Burocracia é igual à organização. É um sistema racional em que a divisão de trabalho


se dá racionalmente com vistas a fins. A ação racional burocrática é a coerência da
relação entre meios e fins visados (...) implica predomínio do formalismo, de
existência de normas escritas, estrutura hierárquica, divisão horizontal e vertical de
trabalho e impessoalidade no recrutamento dos quadros.

Trata-se, pois, do tipo de dominação que Weber denominou de dominação legal, pois
conta com um aparato normativo que difere substancialmente da dominação carismática ou da
dominação tradicional217. Portanto, o Estado é, para Weber, uma organização longeva, garantida
pela burocracia, e que transcende os projetos políticos que disputam o governo. O que diferencia
o Estado dos demais tipos de organização sociais e políticas, conclui, é um poder peculiar, o
monopólio legal da violência. Tal poder, consentido pela sociedade, é sustentado por um aparato
jurídico-administrativo moldado em conformidade com o estágio de desenvolvimento da
sociedade em questão e exercido por fluxos burocráticos precisos. Não por acaso, Weber é
referência para a construção de diversos fluxos da burocracia estatal contemporânea.
Se, de um lado, Weber, ou mesmo Durkheim, se dedicaram a pensar o Estado sob
macronarrativas, de outro, intelectuais com formação econômica, em sua maioria, dispuseram-
se a tratar e entender o Estado a partir da maneira como a sociedade burguesa se organiza para
acumular. Pensadores de uma política econômica que desse conta de alienar as resultantes da
contradição entre capital-trabalho, suas preocupações centraram-se em conferir eficiência ao
papel do Estado em ser importante indutor da acumulação, reprodutor de capital, ainda que para
isso fossem contrários à existência do próprio Estado, em certa medida.
Adam Smith (1723 – 1790), por exemplo, defendeu que as funções do Estado seriam
restritas a:

216
TRAGTENBERG, Maurício. Burocracia e ideologia. São Paulo: Unesp, 2006.
217
Weber ocupou-se de explicar cada um dos tipos ideais de dominação. A dominação tradicional é
signatária do conformismo.

136
manter a segurança, administrar a justiça e cuidar de algumas instituições públicas. A
intervenção estatal em outros setores seria inútil e prejudicial. Para o autor de [A
Riqueza das Nações]218, a liberdade deveria ser almejada, ainda que implicasse em
desigualdade. Por isso, é considerado o pai da Economia Liberal. (SECURATO,
2007, p.34)219.

É da fonte de Adam Smith que brota a ideia do trabalho como valor, apropriada de
modo distinto em Durkheim e em Marx, mas, em Smith, a divisão do trabalho aparece como a
única fonte de crescimento.

Smith também dividiu o progresso em três etapas: caça e pastorícias pré-feudais,


sociedade agrícola e sociedade comercial. A passagem de uma para outra se daria
através de transformações na propriedade (Id., ibid., p. 34).

Propriedade que Smith defendia veementemente, pois, com a propriedade se estabelece


a desigualdade e esta, vista por ele de modo positivo, é condição para o incentivo ao trabalho,
um mecanismo contra a indolência. Essa consideração, acrescida de outras de caráter político,
fazem da obra de Adam Smith muito mais que tratados pragmáticos de economia. Com certa
licenciosidade, poderíamos lançá-las ao status de sistemas filosóficospois suas análises
incorporam um tipo de sistema de subjetividades da natureza humana e próprias à sociabilidade
capitalista ou da sociedade comercial, caso queiramos fazer uso de seus próprios termos.
Analisando o campo da motivação pelas paixões e vontades humanas a concorrência é muito
mais que uma manifestação concreta do modo como circulam as mercadorias, ela é antes um
componente da essência empreendedora do homem e de sua liberdade. Neste excerto, extenso,
porém importante, do primeiro volume de A Riqueza das Nações, isto nos parece ficar explícito:

No caso de quase todas as outras raças de animais, cada indivíduo, ao atingir a


maturidade, é totalmente independente e, em seu estado natural, não tem necessidade
da ajuda de nenhuma outra criatura vivente. O homem, entretanto, tem necessidade
quase constante da ajuda dos semelhantes, e é inútil esperar esta ajuda simplesmente
da benevolência alheia. Ele terá maior probabilidade de obter o que quer, se conseguir
interessar a seu favor a autoestima dos outros, mostrando-lhes que é vantajoso para
eles fazer-lhe ou dar-lhe aquilo de que ele precisa. É isto o que faz toda pessoa que
propõe um negócio a outra. Dê-me aquilo que eu quero, e você terá isto aqui, que
você quer - esse é o significado de qualquer oferta desse tipo; e é dessa forma que
obtemos uns dos outros a grande maioria dos serviços de que necessitamos. (SMITH,
1988, p. 24-25)220.

218
Grifo nosso.
219
SECURATO, José Cláudio. Economia: história, conceitos e atualidades. São Paulo: Saint Paul, 2007.
220
SMITH, Adam. A riqueza das nações. Livro I, v. I, São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Coleção Os
Economistas).

137
E prossegue:
Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos
nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-
nos não à sua humanidade, mas à sua autoestima, e nunca lhes falamos das nossas
próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles. Ninguém, a não ser o
mendigo, sujeita-se a depender sobretudo da benevolência dos semelhantes. Mesmo o
mendigo não depende inteiramente dessa benevolência. Com efeito, a caridade de
pessoas com boa disposição lhe fornece tudo o de que carece para a subsistência. Mas
embora esse princípio lhe assegure, em última análise, tudo o que é necessário para a
sua subsistência, ele não pode garantir-lhe isso sempre, em determinados momentos
em que precisar. A maior parte dos desejos ocasionais do mendigo são atendidos da
mesma forma que os de outras pessoas, através de negociação, de permuta ou de
compra. Com o dinheiro que alguém lhe dá, ele compra alimento. A roupa velha que
um outro lhe dá, ele a troca por outras roupas velhas que lhe servem melhor, por
moradia, alimento ou dinheiro, com o qual pode comprar alimento, roupas ou
moradia, conforme tiver necessidade (Id., ibid,, p. 24-25).

Deste modo, se há no homem um impulso natural à troca de vantagens por interesses


particulares, há também no mercado uma vocação para esse tipo de autorregulação. O bem-estar
geral não seria, assim, garantido pela solidariedade, mas sim pelo egoísmo, pois, na medida em
que cada um busca maximizar a realização de seus interesses particulares, impulsiona, por seu
turno, o progresso econômico de toda a sociedade. Uma espécie de mão invisível se encarrega
de ajustar essa marcha do individualismo ao todo social. Vejamos, em suas próprias palavras:

Ora, a renda anual de cada sociedade é sempre exatamente igual ao valor de troca da
produção total anual de sua atividade, ou, mais precisamente, equivale ao citado valor
de troca. Portanto, já que cada indivíduo procura, na medida do possível, empregar
seu capital em fomentar a atividade nacional e dirigir de tal maneira essa atividade
que seu produto tenha o máximo valor possível, cada indivíduo necessariamente se
esforça por aumentar ao máximo possível a renda anual da sociedade. Geralmente, na
realidade, ele não tenciona promover o interesse público nem sabe até que ponto o
está promovendo. Ao preferir fomentar a atividade do país e não de outros países ele
tem em vista apenas sua própria segurança; e orientando sua atividade de tal maneira
que sua produção possa ser de maior valor, visa apenas a seu próprio ganho e, neste,
como em muitos outros casos, é levado como que por mão invisível a promover um
objetivo que não fazia parte de suas intenções. Aliás, nem sempre é pior para a
sociedade que esse objetivo não faça parte das intenções do indivíduo. Ao perseguir
seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade
muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo. Nunca ouvi
dizer que tenham realizado grandes coisas para o país aqueles que simulam exercer o
comércio visando ao bem público (SMITH, 1988, p. 437 )221.

221
SMITH, Adam. Ob. Cit., 1988.

138
Nas formulações de Adam Smith, podemos perceber tanto uma concepção liberal de
Estado opositora a qualquer emergência de um ethos público por ele impulsionado, quanto os
fundamentos de uma teoria para o desenvolvimento econômico do modo capitalista baseada
numa fórmula que não relaciona o valor de uso ao valor de troca222.

Smith retém a mesma explicação dos economistas da escola fisiocrata (F. Quesnay e
outros) de que o crescimento econômico depende do excedente de riquezas
acumulado a cada período e do seu emprego produtivo no período seguinte. O
excedente é gerado pelo aumento da produtividade do trabalho impulsionado, por sua
vez, pela divisão do trabalho. A expansão dos mercados favorece a divisão do
trabalho. Em suma, o crescimento econômico depende de poupança, investimento e
aumento de produtividade. Basicamente, a mesma conclusão da moderna teoria do
crescimento econômico. (FEIJÓ, 2007, p. 227)223.

Smith preocupou-se tanto em enaltecer a supremacia do mercado em detrimento do


intervencionismo estatal quanto em estabelecer uma “teoria do valor” originada no modo como
entendia o trabalho.

De acordo com essa teoria, o trabalho é considerado o “dinheiro” da compra inicial


que era pago por todas as coisas, ou seja, o pré-requisito para qualquer mercadoria ter
valor era que esta fosse produto do trabalho humano. Nessa direção, o preço desse
produto seria a soma de três componentes: o salário, os lucros e os aluguéis.
(SECURATO, 2007, p. 34)224.

222
Segundo Securato, a teoria de Smith é substancialmente frágil, pois estabelece que “os três
componentes dos preços – salários, lucros e aluguéis – são eles próprios preços ou derivam destes. Ou
seja, não dá para explicar os preços em geral por uma teoria que os define através de outros preços. Smith
afirmava que o valor de uso e o valor de troca não estavam sistematicamente relacionados. O segundo
ponto fraco desta teoria era o fato desta levar a conclusões sobre o poder aquisitivo da moeda e não
mencionar os valores relativos de mercadorias distintas. Para Smith, a melhor medida do valor em uma
troca era a quantidade de trabalho contida em uma mercadoria. Como o trabalho exercia um papel
fundamental no processo de enriquecimento, Adam Smith defendia que o valor de troca deveria ser igual
ao salário, embora se tenha verificado que o valor de troca é diferente do preço. Portanto, o preço não
pode ser definido apenas pelo valor do trabalho contido na mercadoria, mas deve também incluir o
salário, o lucro do capital e a renda”. (In: Economia: história, conceitos e atualidades. São Paulo: Saint
Paul, 2007). Em Salário, Preço e Lucro, Marx utiliza o conceito de preço de produção, no lugar do
conceito de Smith de preço natural (preço ao qual a receita da venda é suficiente apenas para dar lucro). E
em O Capital define “o valor como objetivação do trabalho abstrato em mercadorias, medido pelo tempo
de trabalho socialmente necessário [e] diz que o valor se expressa em dinheiro como preço. (...) No
Capítulo III do Livro I, Marx afirma a possibilidade de uma “incongruência quantitativa” entre o preço e
a grandeza de valor, e não restringe esta possibilidade à ocorrência de oscilações do preço em torno do
valor” explicitando uma dinâmica não alcançada em Smith. (In: NETO, João Machado Borges. As várias
dimensões da lei do valor. Revista Nova Economia disponível em:
<http://www.face.ufmg.br/novaeconomia/sumarios/v14n3/140305.pdf>. Acesso em: 21 ago. 2012).
223
FEIJÓ, Ricardo. Desenvolvimento econômico, modelos, evidências, opções políticas e o caso
brasileiro. São Paulo: Atlas, 2007.
224
SECURATO, José Cláudio. Ob. Cit., 2007.

139
E, ainda, considerava o rendimento como a soma dos salários com os lucros e as rendas,
dividindo o salário em: salário dos ocupados na produção e salário dos trabalhadores não
produtivos. A renda seria igualada ao preço, subtraído da soma dos salários com os lucros, ou
seja, Renda = Preço — (Salários + Lucros) (Id., ibid.). Uma fórmula que justifica, por tornar
natural, a expropriação do trabalho, afinal, nesta lógica, a evolução dos salários acompanha o
movimento desejado à economia pela mão invisível, retrai-se se a economia retrair-se e
expande-se se a economia expandir-se. E tudo isso, obviamente, sem a interferência do Estado.
Ainda que não tenha estabelecido relações diretas com todos eles, Smith influenciou
pensadores que vieram depois dele, e, noutros casos, sofreu influência de alguns de seus
contemporâneos. Destacam-se John Law (1671–1729); Thomas Malthus (1766–1834); Jean
Baptiste Say (1767-1832); David Ricardo (1772-1823) e Stuart Mill (1806–1873); e que
tiveram em comum o mérito de definir a economia partindo do fluxo que considera estruturantes
as leis que regem a formação econômica, a acumulação, a distribuição e o consumo.
Essas leis ancoram-se no contexto de uma concorrência perfeita, em que as condições
naturais do livre mercado – laissez-faire – são mantidas pela mão invisível smithiana,
maximizando o bem-estar econômico, e, como não poderia deixar de ser, sem a interferência
maléfica do Estado.
Com efeito, David Ricardo é sempre lembrado nos textos das ciências econômicas
como um dos economistas que, ao assumir o legado de Smith, incorporou a ele novos
elementos. Juntos, são os maiores representantes da chamada escola econômica clássica. Para
Ricardo, o trabalho é o único fator de produção225, o que significa que os países não precisam
possuir iguais condições de produção para realizarem transações no comércio internacional.
Segundo ele, dois países podem beneficiar-se com o comércio, se cada um tiver uma vantagem
relativa na produção.
Os países exportarão os bens produzidos com o trabalho interno, de modo relativamente
eficiente, e importarão bens produzidos pelo trabalho interno, de modo relativamente
ineficiente, ou seja, o padrão de produção de um país é determinado pelas vantagens
comparativas.
Nessas transações, o Estado tem um papel importante, porém não determinante, afinal, a
costura política necessária à realização do comércio exterior não tem como se furtar da
participação estatal, mas os trâmites econômicos não lhe dizem respeito.

225
Os estudos econômicos recentes consideram que a organização econômica sustenta-se sob a égide das
unidades produtivas, das famílias e do governo: “As unidades produtivas desempenham papel essencial
porque realizam a reunião dos recursos de capital (de propriedade de outras unidades produtivas, de
propriedade das famílias, ou de propriedade do governo) com a força de trabalho proporcionada pelas
famílias, para, balizadas pelas regras estabelecidas pelo governo para harmonização das relações dentro
da sociedade, produzirem bens e serviços que se destinam ao consumo ou uso das famílias, do governo,
de outras empresas. Constitui-se, dessa maneira, aquilo que se denomina de sistema econômico. (In:
MUNHOZ, Dércio. Introdução à economia. Brasília, 2007. Apostilado).

140
Em franco diálogo adesista com Malthus, Ricardo foi um crítico contundente da
intervenção estatal no campo da reprodução social da classe trabalhadora. Ambos defenderam
os interesses de latifundiários e industriais, difundindo a lógica (no caso de Ricardo, muito mais
no campo da dedução do que da empiria) de uma evolução social insustentável.
Isto é, a população mundial tende a crescer em proporções geométricas enquanto a
produção de alimentos, na melhor das situações, em proporções aritméticas. Esse descompasso
entre oferta e demanda só pode ser administrado se cada indivíduo consumir o absolutamente
necessário a sua sobrevivência, podendo, ainda, a humanidade, contar com a fome e com
guerras como meios para barrar o crescimento populacional iminente. Os esforços das
organizações de trabalhadores, como os sindicatos, ou do governo, com suas políticas
assistenciais, tendem a ser meros paliativos, cujos resultados agravam ainda mais o caos
anunciado por manter as condições de sobrevivência da população.
Isso porque Ricardo não considera a terra como um componente na determinação do
valor. Prevê que a vida das pessoas é vivida em terras cada vez menos férteis, com perda
crescente de suas capacidades produtivas aumentando os custos de vida e diminuindo a
capacidade de consumo. Em sua teoria do valor, considera que o valor é definido pela
quantidade de trabalho necessário à produção de determinados bens, não dependendo da
disponibilidade, da abundância, mas sim do modo e das dificuldades ou facilidades encontradas
em seu processo de produção, o que circunscreve sua teoria à aplicação de valor apenas para
bens reproduzíveis, isto é, um bem escasso tem valor por sua escassez e não pelo tempo de
trabalho nele utilizado.
Nota-se, então, que, assim como Smith, o pensamento econômico de Ricardo vai ao
encontro das aspirações de uma classe que busca legitimidade ideocultural na economia política
capitalista e a conseguem, pois influenciam gerações de economistas e estadistas liberais e, mais
recentemente, neoliberais226 e desenvolvimentistas, de certo modo227.

226
Merecem destaque, até por terem sido citados, os economistas John Law, que é responsável pela
criação do “sistema bancário” e das primeiras formas de “mercado de ações”. Stuart Mill, por incorporar
o princípio filosófico do utilitarismo à economia, e Jean Baptiste Say, responsável por um dos arranjos
teóricos mais utilizados na economia liberal, que diz que, para que haja demanda efetiva, é necessária
uma oferta prévia, ou, como se lê na crítica keynesiana à Lei de Say, a oferta cria sua própria demanda e
demanda por outros produtos.
227
Em Marx e a Decadência Ideológica da Burguesia, texto que compõe a coletânea Marxismo e Teoria
da Literatura (São Paulo: Expressão Popular, 2009), Lukács afirma que Smith e Ricardo buscaram
desvendar a realidade de sua época. Contudo, no que se assistiu após 1848, foi a conversão dos
economistas burgueses à defesa da ordem, buscando justificá-la, sobretudo. Com isso, abandona-se a
descoberta da realidade. Na resenha da edição brasileira, Sartori aponta: “Com isso, o autor húngaro
mostra como, com a passagem da burguesia à posição defensiva diante do proletariado, há uma mudança
qualitativa na ideologia burguesa: para o autor, antes de 1848, houve a economia clássica, a democracia e
a busca de uma compreensão da história; depois, disso, mas principalmente depois da repressão brutal da
Comuna de Paris, aparecem, não autores honestos como Smith e Ricardo, mas a economia vulgar, não a
democracia, mas o liberalismo e, por fim, não a busca de uma compreensão das origens históricas da
sociedade capitalista, mas a procura pela justificativa das relações sociais existentes. Isso é chamado por
Lukács de “decadência ideológica da burguesia” – enquanto a burguesia tivesse tido um papel

141
Ainda entre os pioneiros da Economia Política Clássica, encontramos as formulações do
inglês Alfred Marshall (1842 – 1924), líder da escola neoclássica de Cambridge.
Marshall aprimora Smith e Ricardo, tornando mais práticos seus conceitos, inclusive o
da mão invisível. Em Princípios de Economia, sua obra de 1890, enaltece a autorregulação do
mercado, como resume a estudiosa de seu pensamento, Joan Robinson (1982 apud
SECURATO, 2007):
As forças do mercado distribuíam os recursos da melhor maneira possível entre os
diversos usos alternativos. Daí o conceito de distribuição de renda baseado na justiça
natural. Isto é, a contribuição dos trabalhadores para a produção se refletiria nos
salários, enquanto que a contribuição do capital para a produção estaria nos lucros.
Isso seria justo, direito e natural 228.

Diferentemente de Ricardo, Marshall é mais voltado à empiria. Utiliza recorrentemente


a matemática nos modos em que explica os fenômenos que problematiza, abandonando a
dedução do primeiro. Por isso mesmo, atribui-se a Marshall a utilização dos métodos
matemáticos/analíticos na Economia moderna.
Importante contribuição para a Ciência Econômica foi sua síntese conciliadora das duas
teorias que se antagonizavam em seu tempo: a da economia política clássica e a da escola
marginalista.
Para a primeira, o valor se define pelo custo do trabalho, isto é, [o valor] se agrega ao
trabalho durante o processo produtivo, já, para a segunda, o valor se define em conformidade
com a utilidade que a mercadoria produzida encerra para o consumidor, ou seja, define-se por
sua utilidade marginal. Para superar esse impasse, Marshall admite a variável tempo na
definição do valor. O tempo — períodos longos ou períodos curtos — permite determinar tanto
os custos de produção quanto a utilidade (marginal) na formação do valor das mercadorias.
Mas a importância de Marshall não se restringe à sua matemática econômica. O
diferencial de sua produção está no caráter social que tenta imprimir a ela. Aparentemente um
contrassenso, o matemático Marshall utilizava a teoria econômica para problematizar as
questões sociais de seu tempo e tentar respondê-las à luz da economia. A pobreza, o papel da
mulher no trabalho, dentre outros temas sociais, podem ser encontrados em sua obra.

progressista, teria consigo um ímpeto honesto no sentido de se perceber dos nexos reais presentes na
sociedade existente, mesmo que, como disse Marx acerca de Ricardo, isso possa ter beirado o “cinismo”.
No entanto, segundo Lukács, quando a burguesia já se confronta com o proletariado no seio da sociedade
civil burguesa já consolidada, para a burguesia, perceber-se dos nexos presentes na sociedade capitalista é
ver-se como uma força já destituída de um ímpeto efetivamente revolucionário e progressista. Nisso, o
autor húngaro aponta uma relação entre os fenômenos ideológicos, dentre eles a arte e a literatura, e o
desenvolvimento das contradições da sociedade civil-burguesa. E a questão se liga, inclusive, ao realismo,
na medida em que, na época, se deixa de lado a busca do reflexo adequado da realidade e, segundo
Lukács, “paralelamente a este desprezo pelos fatos históricos, pelas forças reais motrizes da história,
surge uma tendência à mistificação”.
228
SECURATO, José Cláudio. Ob. Cit., 2007, e citação extraída de Marshall – Princípios de economia.
São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Coleção Pensadores Econômicos).

142
Contudo, essa inovação não o fez admitir um caminho estatizante ou socializador dos
meios de produção como alternativa ao enfrentamento da “questão social”. Antes, sua
humanização da economia é uma forma de ratificar ainda mais a autorregulação promovida pelo
predomínio do mercado, ainda que admita a interferência estatal para além das áreas de atuação
fundamentais arroladas por Adam Smith.
Para Marshall a degradante condição de pobreza, contraditoriamente ancorada na
produção e concentração da riqueza, pode ser atenuada com o aprimoramento do sistema de
livre mercado, com apoio de medidas estatais e de associativismo civil como sindicatos e
movimentos sociais destinados a este fim. As ideias de Marshall pareceram tomar maior vulto
ante as de Smith e Ricardo e ressoam mais tarde em alguns de seus destacados alunos, como
Keynes, Pigou ou Joan Robinson. Desse modo, a Ciência Econômica de cariz liberal passa não
só a ter novos interlocutores como também a flertar com outras referências teóricas e
metodológicas.
Nessa abertura, o austríaco Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) admite a influência
de Karl Marx e de Leon Walras229 em seus estudos econômicos. Atacando veementemente o
primeiro, porém convergindo com ele na “predição” do fim do capitalismo e seguindo os passos
do segundo, sobretudo em seus raciocínios matemáticos, Schumpeter vai da economia ao direito
e do direito à sociologia. Uma de suas obras principais, no campo da Economia, Teoria do
Desenvolvimento Econômico, de 1911, aborda questões como:

229
Leon Walras foi um economista francês, nascido em 1834 e falecido em 1910. Conhecido no âmbito
da teoria econômica pelos importantes contributos que deixou na análise do conceito de utilidade
marginal e do equilíbrio geral de uma economia. A forte utilização da matemática em seus estudos foi um
traço marcante de Walras, fato que o tornou conhecido, juntamente com Vilfredo Pareto, como fundador
da escola matemática da Economia. Walras é também considerado um marginalista, na medida em que
utilizou e desenvolveu em seus estudos o conceito de utilidade marginal, como fonte do valor dos bens e
serviços de uma economia. No entanto, aquele que é considerado como principal contributo de Walras
para a ciência econômica é o seu trabalho nivela respeito da teoria do equilíbrio geral, ou seja, da forma
como determinada economia, na qual existe uma multiplicidade de bens, pode atingir o equilíbrio geral.
Embora não totalmente coroado de sucesso, os estudos de Walras, nesse nível, partiram da criação de um
sistema de equações simultâneas, em que o número de equações era igual ao de variáveis desconhecidas.
Resolvido o sistema, obter-se-ia os valores das quantidades e preços de equilíbrio. A determinação
individual da quantidade e do preço foi um dos contributos do raciocínio de Walras. Sua principal obra
foi Élements d'Économie Politique Pure, publicada em 1903, e que contém versão simplificada dos seus
estudos realizados anteriormente (na última década do século XIX). (In: Infopédia [Em linha]. Portugal,
Porto: Porto Editora, 2003-2012.
Disponível em: < www.infopedia.pt/$leon-walras>. Acesso em:> 22 ago. 2012).

143
O estudo de um modelo econômico estacionário, fundamentado em um fluxo circular
da vida econômica; o “empreendedorismo” na figura do empresário inovador e
analisando a relação entre a inovação e a criação de novos mercados; a distinção entre
crescimento e desenvolvimento; a importância do crédito no crescimento econômico
idealizando o moderno banco de desenvolvimento; a relativização do crédito ao
consumidor como elemento essencial ao processo econômico; a impossibilidade da
transmissão “genética” do espírito empreendedor; a discussão da teoria do juro,
relacionando esse fenômeno com o processo de desenvolvimento e tratou, por fim,
dos ciclos econômicos, isto é, dos períodos de prosperidade e recessão econômica,
comuns no processo de desenvolvimento capitalista. (SECURATO, 2007, p. 38-
39)230.

A influência de Walras talvez tenha incidido sobre Schumpeter mais do que se tem
registro. A recorrência aos recursos matemáticos fez com que ele se referisse ao
desenvolvimento do capitalismo sempre com o uso de métodos e instrumentos lógicos, racionais
e pragmáticos. Com o sucesso disso, torna-se um dos fundadores da Sociedade de Econometria,
e torna-se seu presidente de 1937 a 1941 (Id., ibid.).
A formação liberal de Schumpeter o acompanha em suas elaborações teóricas, de modo
que mantém viva a doutrina da não interferência do Estado na economia. Isso o leva, inclusive,
a polemizar com seu contemporâneo Keynes, quando propõe que, diante da Grande Depressão,
nada deveria ser feito, isto é, a depressão seguiria seu próprio curso, até exaurir-se
(GALBRAITH, 1989)231.
Schumpeter foge da ortodoxia econômica liberal de sua época criticando a escola
clássica do século XVIII e adotando em seus estudos sobre o desenvolvimento capitalista uma
espécie de evolucionismo. Para isso, dedica-se a pensar também o socialismo e a democracia, o
que inevitavelmente o leva a fazer considerações sobre o Estado. Tece, desse modo, detalhes
sobre suas funções, além de dizer que o Estado não deve interferir no mercado, máxima já
apregoada por seus antecessores e parte de seus contemporâneos liberais.
Na primeira parte do seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1942, constrói
crítica irônica e ambígua sobre a doutrina marxista. Dedica-se a destruir o marxismo como
programa teórico-científico, lançando-o ao campo das profissões de fé e do panfletarismo:

230
SECURATO, José Cláudio. Ob. Cit., 2007.
231
É importante lembrar que Keynes, como veremos mais adiante, foi o propositor da intervenção estatal
na economia como forma de postergar a crise. (In: GALBRAITH, J. K. O pensamento econômico em
perspectiva: uma história crítica. São Paulo: Pioneira; Editora da USP, 1989).

144
Uma conquista puramente científica, mesmo que fosse muito mais perfeita que a de
Marx, nunca teria alcançado tal imortalidade no sentido histórico. Tampouco bastaria
seu arsenal de palavras de ordem partidárias. Parte de seu êxito, se bem que muito
pequena, pode, na verdade, ser atribuída à grande quantidade de frases candentes,
acusações apaixonadas e gesticulações coléricas que, prontas para serem usadas em
qualquer palanque, ele [Marx] colocou à disposição de seu rebanho. (SCHUMPETER,
1984, p. 21)232.

Mas admite, ao mesmo tempo, que em Marx estariam presentes fundamentos


importantes do desenvolvimento capitalista, cuja centralidade da explicitação de seus
motivadores econômicos não reduz tais fundamentos à economia, mas, antes, os contextualiza
nela de modo a entender a maneira como os grupos e classes sociais explicavam para si mesmos
sua própria existência, localização e comportamento, atingindo, assim, as esferas das religiões, a
metafisica, as escolas de arte, as ideias éticas, os desejos políticos, etc. (Id.). Refere.

(...) a explicação do papel e do mecanismo dos motivos não econômicos e a análise da


forma pela qual a realidade social se reflete nas psiques individuais são um elemento
essencial da teoria [marxista]233 e uma de suas contribuições mais significativas. (Id.,
ibid., p. 27).

Alguns autores chegam, inclusive, a afirmar certa afinidade metodológica entre eles,
como é o caso de José de Jesús Rodrígues Vargas que, em sua tese de doutoramento, identifica
ao menos cinco similaridades entre os dois autores, afirmando:

Existe una afinidad tan cercana de Schumpeter con Marx que alguno piensan que es
proclive al marxismo o al socialismo. Schumpeter toma de Marx la metodología y
asume principios teóricos que lo llevan a sacar conclusiones similares; puede ser muy
fácil para los investigadores académicos que parten de Schumpeter deslizarse a la
fuente principal, a Marx para poder entender mejor el desarrollo capitalista, en caso de
que no teman ser señalados de marxistas; los “evolucionistas” de hoy son
schumpeterianos pero también recurren a Marx; mientras que los marxistas, en
general, son más reacios a retomar a Schumpeter, además de las trabas ideológicas y
dogmáticas, puede creerse que algunas teorías schumpeterianas están mejor
explicadas en la teoría original, la marxista. (VARGAS, 2005)234.

232
SCHUMPETER, Joseph Alois. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1984.
233
Grifo nosso.
234
VARGAS, José de Jesús Rodríguez. La nueva fase de desarrollo económico y social del
capitalismo mundial. Tese (Doutorado)- División de Estudios de Posgrado, Facultad de Economía,
Universidad Nacional Autónoma de México. (ISBN: 94-689-5228-1). Disponível em:
<http://www.eumed.net/tesis/jjrv/>.

145
E prossegue:

Un segundo punto de coincidencia es sobre el desarrollo capitalista basado en la


acumulación, con perturbaciones e interrupciones, que tiende al equilibrio y
desequilibrio, es decir, la recurrencia de los ciclos. Económicos (...) La tercera, es que
la competencia capitalista es parte esencial para ambos autores. Para Marx es el
“fuego” que anima al capitalismo (decía que es “el motor esencial de la economía
burguesa”), es una lucha incesante y de aniquilación, mientras que Schumpeter, ve la
competencia como la “destrucción creadora” de las empresas, es el “dato de hecho
esencial”, “en ella consiste en definitiva el capitalismo y toda empresa capitalista tiene
que amoldarse a ella para vivir” (...) Una cuarta, es respecto al cambio tecnológico -la
nueva maquinaria o el mejoramiento y reemplazo del capital fijo- es básico para Marx
en la comprensión de los ciclos industriales y en el progreso capitalista, en tanto para
el austriaco, es la innovación -por cierto, normalmente se usa como “innovación
tecnológica” o cambio tecnológico, aunque no se refiere únicamente a la técnica- el
“impulso fundamental que pone y mantiene en movimiento a la máquina capitalista”
(...) En ambos existe una teoría de los ciclos, basada en la observación y
racionalización de la realidad, lo que muestra una apreciación teórica e histórica muy
creíble del proceso histórico del capitalismo y del mecanismo interno esencial. (Id.,
ibid.).

E conclui:
Una última coincidencia es que la teoría siendo una abstracción, una generalidad, es
fundamental para la comprensión de los fenómenos. Los economistas del siglo XIX
todos compartían el mismo método y en general, también posiciones parecidas con
respecto al ciclo. (Id., ibid.)235.

Semelhanças ou diferenças à parte, o fato é que Schumpeter atribui um papel


protagônico para a burguesia na transformação da sociedade, por suas ações inovadoras
(inovação é uma categoria constante em Schumpeter), na fase de ascensão do capitalismo, na
sua evolução para o capitalismo monopolista e no seu próprio ocaso. Uma das interpretações
mais utilizadas do evolucionismo schumpeteriano, notadamente propalada pelos
neoschumpeterianos, é aquela que refere que o espírito empreendedor ou inovador se transfere
do burguês para os trabalhadores das empresas e o empreendimento passa de individualizado a
socializado.
Com essa alteração, o eixo estruturante do capitalismo, a propriedade privada, se
esvazia em razão e sentido. Um novo tipo de controle estatal no sistema econômico emerge
atenuando a liberdade de contrato entre particulares, aqui sim bem diferente de Marx.

235
VARGAS, José de Jesús Rodríguez. Ob. Cit.

146
Colocado em outros termos, a escola schumpeteriana verifica que, no capitalismo, há
um processo evolutivo de inovação e de destruição criadora, marcado por uma instabilidade
imanente. A inovação tecnológica, impulsionada pela criatividade do empresário, partindo do
modelo estacionário, é fulcro da estabilidade econômica quando ainda é recente, contudo,
depois de absorvidas pela sociedade, essas mesmas inovações estimulam o processo recessivo.
Uma concertação entre Estado e mercado é aceita mais pelos neoschumpeterianos do
que por ele próprio, mas, no final, convergem na existência de um paradigma que, baseado na
interferência do Estado, a limita e controla racionalmente, e desse paradigma uma crise se lhe
advém, após esse suposto caos: a revolução e a emergência de um novo paradigma236.
Nesse sentido, Schumpeter apresenta sua conclusão sobre uma nova lógica social, que
deixa em aberto ser ou não o socialismo tal qual formulado pelos autores socialistas clássicos:

(...) o capitalismo, embora economicamente estável, e mesmo adquirindo estabilidade,


cria, ao racionalizar a mente humana, uma mentalidade e um estilo de vida
incompatíveis com suas próprias condições, motivos e instituições sociais
fundamentais, e se transformará, ainda que não por necessidade econômica e mesmo
provavelmente com algum sacrifício do bem-estar econômico, numa ordem de coisas
que será ou não chamada de Socialismo, dependendo de uma simples questão de
gosto e terminologia. (SCHUMPETER apud CARNEIRO, 2003, p. 87)237.

Essa afirmação torna evidente que suas preocupações são mais econômicas do que
políticas, na medida em que marginaliza a necessidade de uma elaboração mais contundente
sobre as demais instâncias que compõem uma ordem societária como a ideologia, a política, a
cultura, etc. 238 que, inevitavelmente, nos levam saber se essa nova ordem pode ou não ser
chamada de socialista. Mas essa marginalização é só aparente, pois a Democracia, como a
manifestação política de um modelo econômico, é objeto de estudo que se materializa em seu
livro de 1942 e de lá podemos realizar inferências sobre o que pensa Schumpeter do Estado.
Enquanto o tradicionalismo científico em torno das questões do Estado sugere um
caminho intelectual que leva à problematização do Estado na sua conformação abstrata e
posteriormente material, em primeira instância, e o tratamento de suas formas políticas como os
regimes políticos que lhe preenchem de modo secundário, Schumpeter realiza um processo
inverso. Ele trata da Democracia e suas características e expressões materiais fundantes para daí
sugerir as funções e o papel do Estado.

236
Aqui se faz analogia direta ao conceito de paradigma de Thomas Khun e a revolução é referida apenas
no sentido de transformação radical das estruturas de um sistema econômico posto.
237
CARNEIRO, Ricardo. Os clássicos da economia. v. 2, São Paulo: Ática, 2003. A citação completa
pode se encontrada também no Economic Journal, v. 38, 1928, p. 386, sob o título A Instabilidade do
Capitalismo.
238
Exemplo da presença de categorias não econômicas, no legado de Schumpeter, é seu conhecido artigo
Ciência e Ideologia.

147
Mas isso não é uma opção de método, em primeira análise, é antes um posicionamento
teórico-político que entende ser o regime (neste caso, a Democracia) definidor do Estado e não
o contrário. Sob suas aspirações liberais, evidencia os limites da Democracia em ato análogo aos
limites do próprio Estado. Tanto que o esclarecedor excerto que aqui segue é retirado do
subcapítulo de Capitalismo, Socialismo e Democracia, que trata justamente das “condições para
o êxito do método democrático” e nos evidencia que sua concepção de Estado limita este ao
pragmatismo técnico da execução das diretrizes e vontades emanadas do povo medidas pelas
instituições democráticas:

Mais uma vez, a condição em questão pode certamente ser satisfeita por uma
limitação correspondente das atividades do Estado. Mas seria um equivoco sério do
leitor pensar que tal limitação esteja necessariamente implícita. A democracia não
exige que qualquer função do Estado esteja sujeita a seu método político. Por
exemplo, na maioria dos países democráticos garante-se aos juízes grande medida de
independência em relação aos órgãos políticos. Outro exemplo é a posição do Banco
da Inglaterra até 1914. Algumas de suas funções eram, de fato, de natureza pública.
Não obstante, essas funções eram atribuídas ao que legalmente era apenas uma
empresa de negócios, suficientemente independente do setor político para ter uma
política própria. Certos órgãos federais nos Estados Unidos também servem de
exemplo. A Comissão de Comércio Interestadual incorpora uma tentativa de estender
a esfera da autoridade pública sem estender a da decisão política. Ou, para apresentar
ainda outro exemplo, alguns Estados norte-americanos financiam universidades
estaduais “sem quaisquer controles”, o que quer dizer, sem interferir, o que em certos
casos significa uma autonomia praticamente completa. Assim, pode-se fazer entrar
quase qualquer tipo de negócio humano na esfera do Estado sem que se torne parte do
material da competição pela liderança política, ou seja, aquele ponto além do qual
implica passar a medida que garante o poder e estabelece o órgão que deve tê-lo, bem
como o contato implícito no papel governamental de supervisor geral. É claro que
essa supervisão pode degenerar em influência viciosa. O poder do político de designar
os funcionários dos órgãos públicos não políticos, se usado sem consciência,
frequentemente será suficiente para corrompê-los. Mas isso não afeta o principio em
questão. (SCHUMPETER, 1984, p. 364)239.

O regime democrático, seja ele presidencialista ou parlamentarista republicano ou


monárquico, na acepção das linhas gerais dos pensadores do século XVIII, tem como
pressuposto fundamental a realização do bem comum alcançado pela execução das aspirações
do “povo”. Para isso, se faz necessária a existência de cidadãos, dentre os populares, ou não,
que recebem a delegação de representar e executar essa vontade-geral.
Segundo a análise de Schumpeter, essa dinâmica confere, às assembleias, câmaras, ou
aos parlamentos, um sentido técnico de existência, pois mesmo que seus componentes possam

239
SCHUMPETER, Joseph Alois. Ob. Cit., 1984.

148
ter pontos de vista individualmente diferentes, no final deve prevalecer o que interessa à
vontade-geral, ao bem comum e o governo, do mesmo modo, submete-se a pôr em prática o
desejo coletivo.

A filosofia da democracia do século XVIII pode ser enunciada na seguinte definição:


o método democrático é o arranjo institucional para se chegar a decisões políticas que
realiza o bem comum fazendo o próprio povo decidir as questões através da eleição de
indivíduos que devem reunir-se para realizar a vontade desse povo. (Id., ibid., p.
313)240.

Schumpeter inicia por discordar desses princípios afirmando a existência inequívoca


deles, mas questionando sua factibilidade:

Afirma-se, então, que existe o Bem Comum, o farol óbvio da política, que é sempre
simples de definir e que qualquer pessoa normal pode ver através da argumentação
racional. Não há, portanto, qualquer desculpa para não vê-lo, e na verdade qualquer
explicação para a presença de pessoas que não o veem, exceto a ignorância — que
pode ser removida —, a estupidez e o interesse anti social (...) Quando aceitamos
todas as suposições feitas por essa teoria da política, ou nela implícitas, a democracia,
na verdade, adquire significado perfeitamente inequívoco, e não há qualquer problema
com ela, exceto o de como leva-la a efeito. (Id., ibid.).

Enumera um conjunto de razões pelas quais a doutrina democrática clássica não se


realiza plenamente. Primeiro, assevera que a existência do bem comum se ancora num sistema
de valores que deve ser aceito por todos, na sociedade, para que, a partir dele, se determinem os
parâmetros do que será considerado bom ou ruim e isso consiste já numa primeira dificuldade.
Mesmo que se convencionem os parâmetros de bem ou mal, bom ou ruim, ainda assim há
divergências no modo como esses valores devem ser alcançados. Não obstante todos terem que
se unir em torno da manutenção e possível ampliação do bom e da extinção do ruim.

240
Id., ibid.

149
Além disso, esse bem comum implica respostas definidas a todas as perguntas, de
modo que todo fato social e toda medida tomada ou a ser tomada podem,
inequivocamente, ser classificadas como “boas” ou “ruins”. Todas as pessoas têm,
portanto, de concordar, ao menos em principio, em que há também um Bem Comum
do povo (= vontade de todos os indivíduos razoáveis), exatamente coincidente com o
bem, ou interesse, ou bem-estar, ou felicidade comuns. A única coisa, excetuando-se a
estupidez ou os interesses sinistros, que possivelmente pode trazer discordância e
responder pela presença de uma oposição é uma diferença de opinião quanto à
velocidade em que o objetivo, ele mesmo comum a quase todos, deve ser alcançado.
Assim, todos os membros da comunidade, conscientes de tal objetivo, conhecendo seu
próprio pensamento, discernindo o que é bom do que é ruim, tomam parte, ativa e
responsavelmente, na ampliação do primeiro e na luta contra o segundo, e todos os
membros assumem juntos o controle dos negócios públicos. (Id., ibid., p. 313).

Mas Schumpeter não para aí nesse primeiro argumento. Refere que, para o sucesso das
convenções sociais que os cidadãos estabeleceram, ainda que representados, estes deveriam ter
plena consciência de seus atos e opiniões e possuir um onisciente repertório de informações
sobre todos os assuntos da vida social. Ademais, admite que o processo que faz formar as
opiniões individuais ou coletivas é entrecortado e está sujeito a muitas variáveis, dentre as quais
aquelas de cunho não racional, o que pode pôr em risco, de fato, o caráter de vontade geral das
decisões tomadas241. Esse caráter só será confirmado com o passar do tempo.

Em primeiro lugar, não existe algo que seja um bem comum unicamente determinado,
sobre o qual todas as pessoas concorrem ou sejam levadas a concordar através de
argumentos racionais. Isso se deve, basicamente, não ao fato de algumas pessoas
poderem desejar coisas diferentes do bem comum, mas ao fato muito mais
fundamental de que, para diferentes indivíduos e grupos, o bem comum está fadado a
significar diferentes coisas. Esse fato, oculto ao utilitarista pela estreiteza da visão que
ele tinha do mundo das valorações humanas, introduzirá brechas em questões de
princípios, que não podem ser reconciliadas através de argumentos racionais, pois os
valores supremos — nossas concepções do que devem ser a vida e a sociedade —
estão além do alcance da simples lógica. Em alguns casos, tais brechas podem ser
transpostas por compromissos; em outros, não (...). Mesmo que um bem comum
suficientemente definido — tal como, por exemplo, o máximo utilitarista de satisfação
econômica — se mostrasse aceitável para todos, isso não implicaria respostas
igualmente definidas para as questões isoladas. (Id., ibid., p. 314).

Também considerou a complexidade das sociedades contemporâneas como um fator de


óbice à realização da democracia de postulados clássicos. Em sociedades rudimentares,

241
Schumpeter não era entusiasta do assembleísmo ou das multidões. O irracionalismo humano, para ele,
aumenta na proporção em que a própria população aumenta.

150
primitivas e homogêneas, ela teria mais chance de sucesso, sobretudo, por possibilitar o acesso à
informação construída na vida cotidiana, próxima aos indivíduos.

Há padrões sociais em que a doutrina clássica realmente se adapta aos fatos com um
grau de aproximação suficiente. Como já se disse, é o caso de muitas sociedades
pequenas e primitivas que, na realidade, serviram como protótipos aos autores de tal
doutrina. Pode ser o caso de sociedades que não sejam primitivas, desde que não
sejam muito diferenciadas e que não abriguem problemas sérios. A Suíça é o melhor
exemplo. Há bem pouco sobre o que brigar num mundo de camponeses onde,
excetuando-se bancos e hotéis, não existe qualquer indústria capitalista e onde os
problemas da política pública são tão simples e tão estáveis que se pode esperar que
uma esmagadora maioria os compreenda e chegue a um acordo sobre eles. Mas, se
podemos concluir que em tais casos a doutrina clássica se aproxima da realidade,
temos de acrescentar imediatamente que isso ocorre não porque ela descreva um
mecanismo efetivo de decisão política, mas apenas porque não há grandes decisões a
se tomar (Id., ibid., p. 334).

Schumpeter simplifica a democracia tratando-a como método e não como conjunto de


princípios. Alguns denominam esse pensamento de democracia procedimental. Atribui a si
mesmo a formulação de respostas aos impasses que a doutrina clássica levanta, quando confere
centralidade aos procedimentos operativos da democracia:

(...) o método democrático é aquele acordo institucional para se chegar a decisões


políticas em que os indivíduos adquirem o poder de decisão através de uma luta
competitiva pelos votos da população (...) [Assim] 242 dispomos de um critério
razoavelmente eficiente pelo qual podemos distinguir os governos democráticos de
outros (...) Estamos agora em posição um pouco melhor, em parte porque resolvemos
chamar a atenção para um modus procedendi cuja presença ou ausência é, na maioria
dos casos, fácil de verificar. (Id., ibid., p. 336-337).

Descartando qualquer possibilidade de cumprimento dessa vontade geral, que, para


Schumpeter, é um ideal e não realidade, o autor assevera que a teoria clássica dá créditos às
iniciativas dos cidadãos, sintetizados num sujeito coletivo bem maior do que eles de fato podem
arcar, não obstante ignorar a diferença inconciliável de perfis: uns são líderes outros não; há
disputas para se tornar representante do povo no âmbito da política, que nada mais são do que
disputas pelo poder; e, enfim, toda sorte de contingências que tornam as relações sociais
imperfeitas e improváveis243.

242
Grifo nosso.
243
Schumpeter afirma: “É verdade que a administração de alguns desses negócios exige aptidões e
técnicas especiais, e portanto deve ser confiada a especialistas que as têm. Mas isso não afeta o princípio,
pois esses especialistas simplesmente agem de maneira a realizar a vontade do povo, exatamente como o
médico age de maneira a realizar a vontade do paciente de ficar são. É também verdade que, numa

151
(...) a teoria incorporada nessa definição nos dá todo o espaço necessário para um
adequado reconhecimento do fato vital da liderança. A teoria clássica não fazia isso;
como vimos, atribuía ao eleitorado um grau completamente irrealista de iniciativa,
que praticamente significava ignorar a liderança. Mas os coletivos agem quase que
exclusivamente através da aceitação da liderança — esse é o mecanismo dominante
em praticamente qualquer ação coletiva que seja mais que um reflexo. As proposições
sobre o funcionamento e os resultados do método democrático que levam isso em
conta são infinitamente mais realistas do que as que não o fazem. Não se deterão na
execução de uma volonté générale, mas caminharão no sentido de mostrar como ela
emerge ou como é substituída ou falseada. O que chamamos de Vontade
Manufaturada não é mais externa à teoria, uma aberração a cuja ausência erguemos
nossas preces piedosas; ela entra na própria teoria. (Id., ibid., p. 337-338).

Ou seja, em última análise, o limite da democracia é estabelecido pela capacidade do


povo aceitar ou não quem governa. Esse pragmatismo schumpeteriano também atingiu as
instituições políticas. O partido, por exemplo, se transforma num meio para o exercício de
poder, em que sua programática ideopolítica não é o que o define, mas sim as regras do jogo que
disputa para alcançar esse poder. O partido é, assim, um representante do que Schumpeter
denominou de liderança competitiva. O Estado e sua administração são meros desdobramentos
dessa disputa.

Pois todos os partidos, é claro, em algum momento farão um estoque de princípios ou


plataformas; e esses princípios ou plataformas podem ser tão característicos do partido
que os adote e tão importantes para seu sucesso quanto o são as marcas dos produtos
vendidos por determinada loja. Mas a loja não pode ser definida em termos de suas
marcas e um partido não pode ser definido em termos de seus princípios. Um partido
é um grupo cujos membros se propõem agir combinadamente na luta competitiva pelo
poder politico. Se não fosse assim, seria impossível que diferentes partidos adotassem
exatamente ou quase exatamente o mesmo programa. (Id., ibid., p. 353).

Schumpeter aproxima-se de Marx na predição do fim do capitalismo, ainda que não se


arrisque a alcunhar a sociedade, que se coloca como alternativa, de socialista. Contudo, rende-se
adotando mesmo o socialismo como a designação que emprega, pois necessita de um referencial
ideopolítico e metodológico para elaborar suas teses.
Mas é mesmo sobre a Democracia e não o tipo de Estado – ainda que possamos retirar
elementos para essa definição no programa teórico de Schumpter — que ele se detém como

comunidade de qualquer tamanho, especialmente se apresenta o fenômeno da divisão do trabalho, seria


altamente inconveniente para cada cidadão isolado ter de entrar em contato com todos os outros cidadãos
sobre todos os assuntos a fim de fazer sua parte no governo ou administração. Será mais conveniente
reservar apenas as decisões mais importantes para o pronunciamento dos cidadãos isolados — digamos,
por referendo — e tratar do resto através de uma comissão apontada por eles — uma assembleia ou
parlamento cujos membros serão selecionados por voto popular” (Ob. Cit.).

152
forma de blindar seu pragmatismo. Para ele, a Democracia apresenta elementos invariáveis que
a tornam aderente a vários tipos de Estado. Estabelece esse raciocínio para demonstrar sua
viabilidade, como possibilidade e não como exigência, também no socialismo244. A Democracia,
como método, conteria, em qualquer contexto:
a) Material humano: “as pessoas que dirigem as máquinas partidárias (...) eleitas para
o parlamento (...) de qualidade suficientemente alta” (...) disponíveis para a vocação
política, que se proponham para eleição; (Id., ibid., p. 361).
b) Limitação do alcance efetivo das decisões:

o alcance depende não apenas, por exemplo, do tipo e da quantidade de questões que
podem ser manejadas corretamente por um governo sujeito à tensão da luta incessante
por sua vida política; depende também, em qualquer espaço e tempo dados, da
qualidade dos homens que formam tal governo e do tipo de máquina política e do
padrão de opinião pública com que eles têm de trabalhar (Id.,ibid., p.363);

c) Burocracia eficiente e racional:

o governo democrático deve dispor dos serviços de uma burocracia bem treinada e de
boa posição e tradição, dotada de forte senso de dever e de não menos forte espirit de
corps (...). Ela também deve ser suficientemente forte para guiar e, se necessário,
instruir os políticos que encabeçam os ministérios. Ela deve ser um poder em si
mesma (Id., ibid., p. 365);

d) Autocontrole democrático:

tudo que interessa aqui é que a prática democrática bem-sucedida em sociedades


grandes e complicadas tem invariavelmente se rebelado contra a ‘direção política pelo
banco de trás’ — a ponto de recorrer à diplomacia secreta e a mentir sobre intenções e
compromissos —, o que requer do cidadão um bocado de autocontrole para evitar
(Id., ibid., p. 366);

e) Respeito às diferenças e tolerância: “a concorrência efetiva pela liderança exige


grande dose de tolerância quanto às diferenças de opinião (...) o que significa a
disposição de subordinar suas próprias opiniões”. (Id., ibid., p. 367).

244
Schumpeter refere-se, deste modo, à aderência física da democracia: “Se um físico observa que o
mesmo mecanismo funciona diferentemente em diferentes tempos e lugares, conclui que seu
funcionamento depende de condições que lhe são estranhas. Só podemos chegar à mesma conclusão. E é
tão fácil ver quais são essas condições quanto foi ver quais eram as condições sob as quais se podia
esperar que a doutrina clássica da democracia se adaptasse, de maneira aceitável, à realidade. Essa
conclusão nos compromete definitivamente com aquela visão estritamente relativista que vem sendo
indicada todo o tempo. Exatamente como não há qualquer argumentação favorável ou contrária ao
socialismo para todos os tempos e lugares, não há qualquer argumento absolutamente geral que seja
favorável ou contrário ao método democrático”. (Ob. Cit., p. 361).

153
Em síntese, Schumpeter refuta a teoria clássica do século XVIII, mas demonstra que,
com suas alterações pragmáticas, o método democrático tende a ser bem-sucedido, mesmo nos
seus muitos limites.
Nota-se, na construção do pensamento liberal, nítido deslocamento das questões
conceituais do Estado e da sociedade para as questões econômicas, mais notadamente da
política econômica capitalista, evidenciando de modo crescente a supremacia do mercado em
detrimento da autonomia (relativa ou interdependente) do Estado.
Em resumo, verificamos que a tradição liberal, mas também seus antagonistas
apresentam imensa heterogeneidade, desde o modo como se estruturam os pensamentos até as
maneiras de implementá-los. Nota-se, ainda, que há uma interdependência entre as instâncias
ideológicas, políticas, sociais e culturais encontradas nos processos de reprodução da vida
social, fatalmente referenciadas no modo de produção — portanto, na produção mesma — que
levam a instância econômica a determinar não apenas o conjunto dessas relações imbricadas,
como as formas que assumem os Estados e as classes.
Mas essa é uma conclusão possível, apenas, após a análise dos conteúdos internos, tanto
da tradição marxista quanto do pensamento liberal.
Em linhas gerais, a tradição liberal tende a negar a interdependência entre as instâncias
da vida social que citamos, sobretudo, a relação sinérgica entre economia e política. Como
vimos em vários de seus pensadores, a política, e, nela, o Estado, tem suas funções reduzidas à
missão de organizar os indivíduos atomizados. Isto é, ainda que o Estado, no plano político,
possa exercer um conjunto de atividades que podem aumentar ou diminuir, conforme a
conjuntura dos interesses de quem lhe domina, o sentido dessas atividades é sempre buscado no
fim último de organização asséptica dos indivíduos visando à acumulação.
O modo capitalista, portanto, busca disseminar que não há uma correlação intrínseca
nem entre as instâncias e nem com os indivíduos entre si e com essas mesmas instâncias. A
única admissão dos indivíduos agregados como possível corpo social coletivo se dá pelas
relações que estes estabelecem com o mercado, ou seja, as relações de troca, mercantis,
reforçando o fetiche da mercadoria.
A tradição marxista, por seu turno, com uma ampla distinção interna, responde à
problemática, sempre por meio de articulação de categorias convocadas pelo pensamento, mas
que repousam sob uma base material, e isso remete, na maioria das vezes, às relações classistas.
“O fato de a divisão em classes ter seu fundamento na produção faz com que as lutas políticas
tenham destino paralelo à importância que esse plano possui dentro da estrutura social
capitalista” (SADER, 1993, p.111-112)245.

245
SADER, Emir. Estado e política em Marx. São Paulo: Cortez, 1993.

154
E como não se faz economia ou política desprovida de ideologia, é no plano ideológico
que a burguesia, como se mostrou de Benjamin Constant a Shcumpeter, funda e propaga a
separação das instâncias e dos indivíduos, perpetuando o fragmento; o marxismo, por sua vez,
as agrega, na perspectiva da totalidade social.
Portanto, fica evidenciado que, embora o debate sobre a problemática do Estado tenha
ocupado lugar central nas formulações que levantamos, ela é apenas parte e expressão das lutas
políticas que se travam na sociedade. “O Estado, como soma de todos os fenômenos políticos,
ganha suas formas históricas das condições gerais das relações de produção na sociedade. Vale
dizer, ele é função do grau de desenvolvimento das lutas de classe em cada formação social”
(Id,, ibid.).
As perspectivas de desenvolvimento dos Estados e das sociedades emergem também
num campo de disputas mediadas pela concertação inevitável entre econômico e político, com
ênfases históricas diferenciadas e afetas ora ao pragmatismo das estratégias de desenvolvimento
ora aos rumos conceituais e filosóficos dos destinos das sociedades que evoluem. Deste modo,
Estado – Desenvolvimento – Capitalismo fazem parte de um mesmo complexo tenso e
contraditório. É o que passamos a tratar agora.

155
Capítulo II

DESENVOLVIMENTO E CAPITALISMO: ESBOÇO DE


INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA

O trabalhador se torna tão mais pobre quanto mais riqueza produz,


quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão.
Karl Marx

Como já esclarecido, o que discorremos no primeiro capítulo nos serviu como base para
afirmar que, diante do corpo de argumentos que adotamos como recurso às nossas análises, não
podemos conceber o Estado, qualquer que seja o fulcro de sustentação ideopolítica no campo da
teoria social crítica, de modo dissociado das relações de produção que tipificam a formação
social em que se assenta.
Mais especificamente: o Estado capitalista é impensável fora das relações de tipo
capitalista que se estabelecem em seu interior. Portanto, quando falamos em desenvolvimento
capitalista tratamos também das transformações do Estado capitalista, em nível superestrutural,
mesmo que as nuanças do desenvolvimento do Estado possam ser secundarizadas ante a
prevalência das mudanças que ocorrem na estrutura socioeconômica da vida social.
O que nos interessa é colocar em exame essa simetria e, em conformidade ao que nos
revela a tradição marxista, argumentar que o desenvolvimento é condição de existência do
capitalismo, o qual conta sempre com a participação do Estado, por vezes como coadjuvante,
normalmente nas fases de estabilidade ou como protagonista, em especial, nos momentos de
crise.
Não obstante, a interferência estatal nos níveis de desenvolvimento capitalista, quando
racionalmente planejada, com seus níveis de interveniência acima do que corriqueiramente se
assiste, com abrangência em todas ou em quase todas as áreas de acumulação (de produção
direta e/ou de capitais), com finalidades específicas previamente planejadas e, por fim, com
apelos que constroem a adesão popular, de massas, são características que permitem a mutação
do substantivo desenvolvimento para o adjetivo desenvolvimentismo. Este último, também uma
necessidade imanente do capital, para garantir sua perpetuação como relação social246, mas que
ocorre de forma episódica, sem se descolar de sua base estruturante.
Não reside nessa ideia-força a originalidade de nossos argumentos. Ao contrário,
mesmo um leitor iniciante, porém atento, de O Capital, verificará os meandros desse processo.

246
Esta é uma das muitas considerações capitais de Marx. Para ele, o “capital” não se confunde com o
“dinheiro” ou um objeto simples, antes, o capital é uma relação social. Movimento que acontece no
processo de mercantilização da vida, próprio do modo de produção capitalista.

156
A lógica é simples e pode ser assim resumida: ao desmistificar o sentido da mercadoria como
forma elementar da produção capitalista, Marx demonstra que seu valor não é apenas
determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção, ainda que tenha
nele (no tempo de trabalho) sua forma de valor originária, mas considera a variável trabalho
humano na sua composição.
Evidente que o dispêndio de força humana na produção não é alheio a essa mesma
produção, contudo, há que se referenciar o contexto em que ela ocorre. Assim, o
empreendimento do trabalho humano produz uma mercadoria socialmente útil, portanto, uma
mercadoria que possui um valor de uso. No contexto em que essa mercadoria se insere, o das
relações de produção capitalistas, ela apresenta utilidade não apenas para seu produtor – na
maior parte dos casos não é mesmo para seu produtor –, mas sim para um terceiro que a
adquirirá para seu consumo, logo, essa mercadoria traz consigo, além do valor de uso um valor
de troca. É este que passa a prevalecer como forma dominante no capitalismo para a
determinação da equivalência entre as mercadorias.
A questão do intercâmbio simples de mercadorias estaria, com esse raciocínio,
inauguralmente desvendada, caso não existissem mediações essenciais nesse processo que não
podem ser ignoradas. Ou seja, a produção de mercadorias no capitalismo, ao carregar consigo a
prevalência de seu valor de troca, em detrimento do valor de uso, pressupõe a mediação do
dinheiro como modo de equivalência, ao mesmo tempo em que este tem, em si mesmo, a
propriedade de engendrar-se dinheiro.
Portanto, o dinheiro surge de modo já mitificado, como facilitador das relações de troca,
mas serve ainda para saldar dívidas ou simplesmente ser guardado.
A elucidação dessa contradição fundamental da mercadoria possibilitou que Marx
avançasse na resolução de outro dilema. Como um investidor, ou simplesmente o dono dos
meios de produção, pode receber mais do que investiu se há equivalência entre os valores
estabelecidos nas trocas?247
É aí que Marx resgata a centralidade do trabalho humano para a produção de
mercadorias248 e mostra como o dinheiro se converte em capital. Ou seja, o dono dos meios de
produção (ou mesmo o burguês que investe), para ser o que é, não parte de um marco zero. Ser
dono ou proprietário de máquinas, ou de dinheiro para investir, pressupõe a existência de uma
reserva de dinheiro (ou de mercadorias excedentes que foram trocadas por dinheiro) prévia.

247
A objetividade e concretude da acumulação exponencialmente crescente saltavam aos olhos de Marx e
de todos que viveram em sua época, considerando as enormes transformações na indústria e no comércio,
ainda consequências da Revolução Industrial.
248
Para Marx, o trabalho humano não se resume à atividade mecânica de produção de mercadorias. É
mais que isso. O trabalho é tratado ontologicamente por Marx como o processo que garante o
metabolismo orgânico dos homens com a natureza. Esse processo é melhor trabalhado no item 2.1 desta
tese.

157
Essa reserva anterior não apenas mantém as máquinas em funcionamento como paga o trabalho
destinado à produção de novas mercadorias.
Essas novas mercadorias têm de ser úteis para alguém, caso contrário não há
justificativa para sua produção. Isso impõe a necessidade imediata da circulação dessas
mercadorias, sob pena de o proprietário perder seu investimento. Portanto, o mais importante
para o capitalista não é a produção (o trabalho concreto), mas sim a circulação, o que o leva a
incutir maior valor no chamado trabalho abstrato, aquele que inclui todas as dimensões
reificadas do processo produtivo.
Com a venda de suas mercadorias, o proprietário recebe de volta não apenas o
equivalente ao seu investimento, mas um adicional. Esse adicional pode ser entendido como
resultado de seu trabalho no âmbito do gerenciamento da produção, da circulação e do
consumo: a mais-valia. Isso é possível graças à existência de uma mercadoria particular,
indispensável desse processo: a força de trabalho.
A força de trabalho tem seu valor de troca definido de acordo com o tempo socialmente
necessário para a produção das mercadorias, contudo, como essa mercadoria especial só se
concretiza tanto por sua venda quanto pela expropriação dos modos e meios necessários para a
consecução de suas tarefas, seu proprietário se faz livre para explorá-la ao máximo.
Esse processo mostra que o capital aparece como algo que se autorreproduz, afinal,
todos os proprietários terão como finalidade última extrair a mais-valia e os trabalhadores, por
seu turno, a intenção de tornarem-se um dia proprietários249.
Sob essa roda viva se sustenta a espoliação do trabalho, base para o desenvolvimento
capitalista. Em outros termos: a extração da mais-valia como ideal no capitalismo leva ao
aumento da produtividade e o aumento da produtividade só é possível com o desenvolvimento
de tecnologias que renovem os meios de produção. Esse processo, por sua vez, só é possível
com o aprimoramento do trabalho como meio de libertação do homem das suas formas
primitivas de relação com a natureza. Implica, pois, todo esse processo, que o desenvolvimento
está no cerne das contradições do modo de produção capitalista, pois é, ao mesmo tempo,
condição para a manutenção das relações sociais a ele inerentes quanto para a criação das
condições de sua superação.
O primado do trabalho como mola propulsora do desenvolvimento capitalista é presente
em toda a obra de Marx, resvalando em Engels e, de modo crítico, em Lênin, Gramsci,
seguindo-se em vários outros marxistas, inclusive latino-americanos. Ou seja, a explicação
marxista para o desenvolvimento capitalista não se reduz à exposição racional e crítica da
mercadoria, porém encontra nela pressupostos fundamentais.

249
Também não discorreremos sobre a alienação do trabalho; fenômeno que caracteriza a subordinação
do trabalho ao capital. Por hora, é importante notar que ela faz parte do processo a que nos referimos. Ver
item 4.2.1.

158
Marx, em O Capital, ocupa-se em desmistificar os argumentos dos economistas
burgueses que retiram do trabalho sua centralidade relativa ao desenvolvimento e o entendem
como um processo afeto ao crescimento dos fatores de produção e da riqueza mensurável de um
país. No Capítulo XXIII, A Lei Geral da Acumulação Capitalista, introduz, dizendo: “Não se
alternando a composição do Capital, a procura da força de trabalho aumenta com a acumulação”
(p. 712)250.
Desse pressuposto, já constante desde o Livro I251, elabora um raciocínio que redunda
em mostrar a contradição fundamental do modo capitalista, que consiste na expropriação
crescente do trabalho, em paralelo ao crescimento dos níveis de acumulação e apropriação
privada dos frutos desse mesmo trabalho, concluindo que a organicidade do desenvolvimento do
capitalismo se funda no mito do próprio desenvolvimento, na medida em que este não apresenta
condições objetivas de socializar os ganhos do trabalho com a classe que vive do trabalho.
Ao demonstrar que, na dialética produção-reprodução social, as relações sociais que dali
se contraem são sempre desfavoráveis aos trabalhadores e ao demonstrar também que essa
dialética se sustenta em complexos amplos de alienação, a exposição marxista do
desenvolvimento capitalista extrapola a predominância dos motivos econômicos e atinge a
história como um dos níveis consequentes de sua racionalidade.
De certo modo, encontraremos um evolucionismo relativo, na análise de Marx sobre o
desenvolvimento capitalista, quando este se dedica a apresentar o crescimento das forças
produtivas associado à luta de classes como mola propulsora da história responsável por
substantivas transformações políticas que levam a sucessões de modos de produção e de
formações sociais. Na introdução da Contribuição à Crítica da Economia Política, afirma:

Em grandes traços, podem ser os modos de produção asiático, antigo, feudal e


burguês moderno designados como outras tantas épocas progressivas da formação da
sociedade econômica (...) Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam
desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção
novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de
existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade.
(2008, p.48)252.

250
MARX, Karl. O Capital. Livro I, v. II, Capítulo XXIII: A Lei Geral da Acumulação Capitalista. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
251
No Livro I, encontramos o esclarecimento sobre o sentido e a razão histórica do trabalho para Marx
nesta conhecida passagem: “Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a
natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu
intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças (...) Atuando
assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza”. Esta
formulação passa a ser o eixo fundante de toda lógica marxiana.
252
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução e introdução de Florestan
Fernandes. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

159
A abordagem de tipo evolucionista sugerida neste e em outros excertos, em especial no
Manifesto de 1848, foi objeto de diversas considerações com destaque para aquelas formuladas
no contexto da II e III Internacionais Comunistas, em atitude de cotejamento direto não apenas
com O Capital, mas com obras de predominância historicista, como O 18 Brumário de Luís
Bonaparte e As Lutas de Classes na França de 1848 a 1850, por exemplo. Na leitura que fazem
dessas obras, os marxistas da II e alguns poucos da III Internacionais, reivindicam a linearidade
da história como razão para o desenvolvimento da sociedade humana, a partir das inflexões
evolutivas no âmbito das forças produtivas253.
O mecanicismo decorrente dessas análises não encontra ressonância nem mesmo em
Marx, pois, em seus estudos maduros, deixa evidente que, embora as transformações evolutivas
no âmbito das relações de produção possam estar no cerne do desenvolvimento da sociedade
humana, a passagem de uma formação social a outra não implica no desaparecimento unívoco
de todas as características e relações socioprodutivas do modo anterior. Ainda que, de modo
residual, o velho permanecerá presente no novo, contribuindo não apenas para sua
caracterização como sociedade mais complexa, mas também como forma empírica de
sustentação de novos tipos de conservadorismo.
Lênin nos parece ser o marxista mais contundente na crítica ao determinismo-
evolucionista. Em Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, obra que já citamos, o
revolucionário russo identifica as principais características de uma nova etapa do
desenvolvimento capitalista que se anuncia marcada pelos altos níveis de concentração de
capital possibilitada pelos monopólios. Sua crítica contundente ao mito do desenvolvimento
capitalista vem quando assevera que a substituição do modo tradicional da economia calçada no
tripé produção – distribuição – consumo cuja finalidade é a manutenção da livre concorrência
pautada pela exportação de mercadorias pelo modo monopolista - imperialista sustentado na
circulação de capital, agudiza a desigualdade nos modos de desenvolvimento entre as nações (e
também no interior de uma mesma nação). Afirma:

253
Nesse sentido, consultar: HOBSBAWN, Eric J. História do marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1984.

160
O que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre
concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo
moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital. O capitalismo é a
produção de mercadorias no grau superior do seu desenvolvimento, quando até a força
de trabalho se transforma em mercadoria. O desenvolvimento da troca, tanto no
interior como, em especial, no campo internacional, é um traço distintivo e
característico do capitalismo. O desenvolvimento desigual, por saltos, das
diferentes empresas e ramos da indústria e dos diferentes países é inevitável sob
o capitalismo. (LÊNIN, 1979, p. 88)254.

Assim, Lênin começa por explicitar não apenas a ideia força com a qual temos
trabalhado desde o início de nossas argumentações de que o desenvolvimento é imanente ao
capitalismo, como também evidencia a imanência da desigualdade nele. Vai mais além. Refere
que a fase monopolista do imperialismo capitalista se traduz politicamente na partilha do mundo
pelas grandes potências consolidando a dependência socioeconômica, política e cultural dos
países da periferia capitalista255.
Outros marxistas, como Gramsci e Trotski, também contribuíram com a crítica marxista
do desenvolvimento capitalista. O primeiro, como também já vimos de modo panorâmico, ao
(re)construir a categoria de revolução passiva evidencia como a transição de uma formação
social para outra — analisando emblematicamente o caso italiano — se dá num efeito
simbiótico entre as características do modo antigo com as do modo novo, isto é, uma relação
entre revolução e restauração.
Já o segundo, tratando das particularidades da Rússia czarista, que unia em si mesma
setores industriais modernos e setores de baixo desenvolvimento de forças produtivas. Trotski
identificou tal processo como uma espécie de desenvolvimento desigual e combinado 256
generalizável para países cujas condições históricas apresentassem as semelhanças
fundamentais.
As considerações de Lênin (1979) e as de Marx, expressas no livro III de O Capital,
antecipam as fases posteriores do capitalismo que, em escala global, levará sua tendência

254
Grifos nossos. LÊNIN, Vladimir. O imperialismo: fase superior do capitalismo. Rio de Janeiro:
Globo, 1979.
255
Nesse sentido, Lênin refere: “Ao falar da política colonial da época do imperialismo capitalista, é
necessário notar que o capital financeiro e a correspondente política internacional, que se traduz na luta
das grandes potências pela partilha econômica e política do mundo, originam abundantes formas
transitórias de dependência estatal. Para esta época são típicos não só os dois grupos fundamentais de
países - os que possuem colônias e as colônias -, mas também as formas variadas de países dependentes
que, dum ponto de vista formal, político, gozam de independência, mas que na realidade se encontram
envolvidos nas malhas da dependência financeira e diplomática (...). Este gênero de relações entre
grandes e pequenos Estados sempre existiu, mas na época do imperialismo capitalista tornam-se sistema
geral, entram, como um elemento entre tantos outros, na formação do conjunto de relações que regem a
“partilha do mundo”, passam a ser elos da cadeia de operações do capital financeiro mundial” (Ob. Cit.,
1979).
256
TROTSKI, Leon. História da revolução russa. v. I. Rio de Janeiro: Saga, 1967.

161
257
expansiva às últimas consequências . O modo financista em que aparece na
contemporaneidade mantém o núcleo duro do desenvolvimento capitalista, qual seja, a
expropriação, e não elimina suas contradições essenciais, gerando crises cíclicas e sistêmicas
que requisitam o desenvolvimentismo como estratégia de restauração conservadora.
Na dinâmica interna das relações sociais capitalistas, na sua face monopolista-
financista, em cotejamento com seu movimento global estrutural, residem especificidades
históricas que nos permitem retomar a crítica ao desenvolvimento(ismo) tradicional e
contemporâneo, como forma de desmistificar a desigualdade estrutural anunciada por Lênin,
ancorada na livre circulação de capital. Assim, os complexos sociais fundamentais — Estado e
Sociedade Civil — são convocados como categorias essenciais à elucidação das dinâmicas do
desenvolvimento capitalista.

2.1 Estado e desenvolvimento

De todos os campos da teoria social, o campo que se filia à tradição marxista, sem
dúvida, é um dos mais fecundos em debates, quase sempre acalorados, sobre aspectos
específicos ou gerais dos fenômenos sociais a que os intelectuais se propõem a analisar. Na
década de 1950, ocorreu o conhecido debate internacional sobre a transição do feudalismo
para o capitalismo258, em que tomaram parte Paul Sweezy, Maurice Dobb, H. K. Takahashi,
259
Christopher Hill, Georges Lefebvre, A. Soboul e Giuliano Procacci . Divergiam
fundamentalmente sobre os condicionantes essenciais da transição que levara ao fim gradativo e
processual do modo feudal de organização da produção.
O ponto de convergência entre eles está no fato de admitirem que o capitalismo
revoluciona não apenas as características fundamentais dos modos de produção que o
antecedem, como também se faz acompanhar de um padrão de sociabilidade que se difunde de
modo ágil e rápido. Portanto, ainda que não haja consenso sobre a “certidão de nascimento” do
capitalismo, é inegável que, desde que esse modo de produção se torna dominante, não
abandona mais suas inerentes estratégias de legitimação. Essas estratégias ganham espaço de
formulação e são disseminadas na instituição dos Estados burgueses.
No capitalismo tardio, em sua feição monopólica, as características genéricas ganham
ainda mais força e tornam naturais para as massas, pela dominação que exercem a burguesia e o

257
Na América Latina, a crítica marxista ao desenvolvimento capitalista pode ser encontrada em vários
autores, inclusive brasileiros, que vão desde os já citados Florestan Fernandes ou Celso Furtado; mas uma
contundência maior deste tema é verificada em José Carlos Mariátegui e Ruy Mauro Marini.
258
Grifo nosso.
259
HOBSBAWM, Eric. Do feudalismo para o capitalismo. In: A transição do feudalismo para o
capitalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

162
Estado burguês, suas crises cíclicas alternadas pelos períodos de ondas longas expansivas, como
demonstrara Mandel260.
No período entre guerras, nos países de capitalismo avançado, a difusão desse modo de
produção consolidou Estados sob o signo da democracia liberal de massas. Essa combinação
entre a base material de sustentação do capital com o tipo de Estado que legitima vem sendo
propalada como o último estágio possível de desenvolvimento da história humana261.
No Brasil, desde os anos 1970 esse processo ideopolítico toma fôlego e se naturaliza
não apenas no reformismo e contrarreformismo como também nas características particulares do
desenvolvimento capitalista brasileiro como o patrimonialismo, o clientelismo, o fisiologismo
político, o mandonismo local, dentre outras expressões do poder de classe burguês.
Alvo de estudos, por parte de intelectuais dos mais variados campos do conhecimento, a
democracia liberal de massas, expressão de um tipo particular de Estado burguês, tem
ressaltado, em algumas produções, aquilo que parte dos autores identifica como sendo suas
benesses. Por vezes, ignoram seus limites civilizatórios, quando não muito caem na armadilha
do fim da história ou se rendem ao institucionalismo. Parte dessa guinada à direita deve-se –
pelo menos no entendimento de nossa argumentação – ao abandono gradual de
problematizações totalizadoras acerca do Estado capitalista tanto na ciência política quanto na
prática política. Mas não entendamos esse abandono como um esvaziamento completo.
Se é correto perceber que se abre tal lacuna, também pode ser correto observar que as
tendências do conhecimento pós-moderno preenchem o vazio com incursões sobre aspectos
particulares, imediatos e efêmeros sobre a democracia liberal e seus componentes constituintes.
De um lado, nota-se uma adesão ao pragmatismo do funcionamento da máquina estatal,
de modo a despolitizar o Estado e as relações sociais a ele inerentes, a exemplo das produções
de Bresser Pereira sobre reforma do Estado quando ministro do Presidente FHC262, por outro
lado, voltam-se as atenções à supremacia do mercado, isentando-o, falaciosamente, de relações

260
Essas “ondas” referem-se aos períodos em que o capitalismo se apoia na extraordinária evolução das
forças produtivas, para ampliar sua concentração de modo desterritorializado. Nesse sentido, Mandel
afirma: “Essa expansão (boom do pós-guerra) tinha dado um impulso poderoso a um novo avanço das
forças produtivas, a uma nova revolução tecnológica. Propiciou um novo salto para a concentração de
capitais e a internacionalização da produção, as forças produtivas ultrapassando cada vez mais os limites
do Estado burguês nacional (tendência que começou a se manifestar desde o início do século, mas que se
amplificou consideravelmente desde 1948)”. (In: MANDEL, E. A crise do capital: os fatos e sua
interpretação marxista. São Paulo: Ensaios, 1990. p.11-12).
261
As teses que anunciam o fim da História são um bom exemplo. A versão de Francis Fukuyama é o
exemplo mais conhecido entre nós.
262
BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Crise econômica e reforma do estado no Brasil: para uma nova
interpretação da América Latina. São Paulo: 34, 1996.
Id. A reforma do Estado dos anos 90: lógica e mecanismos de controle. Cadernos do Mare n. 1, Brasília,
1997.
Id. Um novo estado para América Latina. Novos Estudos, n. 50, São Paulo: Cebrap, março de 1998.
Id. Reforma do estado e administração pública gerencial. 3. ed. Rio de Janeiro. Fundação Getulio
Vargas, 1999.

163
com o Estado, tanto por parte dos liberais defensores do laissez-faire quanto dos críticos da mão
invisível, sustentando as construções teóricas pós-modernas, como dissemos.
Contudo, para nós, é no interior do Estado e da sociedade civil – aqueles que para
Lukács são os dois complexos sociais fundamentais, em relação – que se evidenciam as sínteses
da dinâmica social com precisão. Para Mészáros (1993), é no Estado “onde a super estrutura
política e jurídica na rede de inter-relações dialéticas entre a base material de uma determinada
sociedade e suas várias instituições e formas de consciência são localizadas”263. E tais formas
não são alheias ao jogo que se estabelece entre as classes. Ao contrário. Poulantzas264 afirma
que as classes consubstanciam no Estado uma condensação de relação de forças que
condicionam a relação com a sociedade por meio do complexo produtivo (relações de
produção), as instituições, a política e a ideologia.
Desse modo, as análises, na perspectiva da totalidade social, são fundamentais para se
entender o Estado e, com isso, compreender a sociedade e suas formas de organização, como,
por exemplo, a democracia liberal de massas. É nesse sentido que Ianni (1989, p. 7) afirma:

A análise do Estado é uma forma de conhecer a sociedade. Se é verdade que a


sociedade funda o Estado, também é inegável que o Estado é constitutivo
daquela. As forças sociais que predominam na sociedade, em dada época,
podem não só influenciar a organização do Estado como incutir-lhe
tendências que influenciam o jogo das forças sociais e o conjunto da
sociedade265.

263
MÉSZÁROS, István. Filosofia, ideologia e ciência social: ensaios de negação e afirmação. São Paulo:
Ensaio, 1993.
264
POULANTZAS, Nicos. O estado, o poder, o socialismo. São Paulo: Paz e Terra, 2000. No geral,
uma aproximação entre a concepção poulantziana de Estado como condensação de correlações de forças
às formulações que dão destaque ao caráter opressor do Estado em defesa da propriedade privada como as
de um Mészáros, ou mesmo de um Mandel, tende a ser vista, em um primeiro impacto, como a
aproximação “impossível” ou, no melhor dos casos, “eclética”. Contudo, do ponto de vista daquilo que
se observa na formatação dos Estados capitalistas pós-mundialização, vemos uma complexificação das
relações que se estabelecem entre as frações da classe burguesa, e, deste modo, complexificam-se também
as disputas entre os aparelhos privados de hegemonia na sociedade civil em um movimento simétrico,
recíproco, simultâneo às disputas que ocorrem em nível superestrutural, não como simples reflexos, mas
como parte constituinte dessas mesmas disputas, afinal, é no domínio da superestrutura que residem os
elementos que garantem a permanência e continuidade da hegemonia burguesa, como o espraiamento de
sua ideologia, por exemplo, ou no caso do “nacionalismo” como um componente imprescindível para o
“desenvolvimentismo” voltado à acumulação, portanto, ao reforço do caráter opressor do Estado, todavia,
um fenômeno de imanência relacional, pois o nacionalismo não pode ser entendido de modo descolado do
processo de lutas que engendram a formação de Estados nacionais e suas classes. Por isso, a aproximação
que efetuamos, com as devidas cautelas, não é um somatório linear, ao contrário, apenas reflete a busca
das considerações essenciais no pensamento de cada autor que demonstram nada mais que a dialética e a
contradição existente na realidade social tal qual ela é. Considerar de modo estanque tanto o Estado
quanto a sociedade civil implica retirar os antagonismos e a dinâmica dialética da realidade. No caso do
Serviço Social, uma análise com esses elementos se torna ainda mais complexa, na medida em que as
políticas sociais são convocadas como um elemento mediativo essencial, na relação que se estabelece
entre o Estado e as classes. No Capítulo 4 trataremos melhor desse assunto.
265
IANNI, Octavio. Estado e capitalismo. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Brasiliense, 1989..

164
É nesse caminho que os Estados contemporâneos se instituíram em suas características
fundamentais, após a insurreição de 1789, resguardadas suas particularidades históricas
(econômicas, políticas, culturais, ideológicas, etc.), e que vem provocando mudanças nas
estruturas dos Estados burgueses até os dias atuais, e que nos serve para ratificar a construção
engels-marxista que o aponta como transitório.
Transitório na perspectiva da conquista de uma ordem societária alternativa à ordem do
capital, mas permanente, caso nos referenciemos aos padrões burgueses que preconizam o
desenvolvimento de suas sociedades de mercado. Assim, desenvolver-se é parte e condição de
existência do Estado burguês.

2.1.1 Desenvolvimentismo no Brasil

A palavra desenvolvimento, via de regra, está associada a processos evolutivos. O


dicionário Caldas Aulete nos informa que desenvolvimento é a “ação ou resultado de
desenvolver(se)”. Isso confere ao substantivo qualidade genérica que nos permite utilizá-lo
referido a qualquer contexto em que uma evolução se apresente. Isto é, permite utilizar o
vocábulo em inúmeras situações, mas todas elas referidas a processos e não a algo estanque. Por
isso, o termo desenvolvimento carrega consigo a propriedade de adequar-se a qualquer processo
da vida social, pois esta pressupõe um imanente evolver, ininterrupto.
Com a sacralização do capitalismo, o termo desenvolvimento foi sendo identificado e
associado cada vez mais com o contexto econômico da sociedade, de modo a levar o dicionário
a incorporar um segundo significado à palavra: “crescimento global de um país ou região,
acompanhado de melhoria das condições de vida da população”. É um sentido um pouco mais
preciso, diante do componente genérico, embora intransponível, que é o desenvolvimento para o
sistema de acumulação capitalista e dele não se dissocia; em suma, o desenvolvimento torna-se
um conceito econômico e não apenas um componente do nosso léxico.
Como conceito econômico, notamos que o dicionário não está se referindo ao
crescimento global de um país ou região, acompanhado de melhoria das condições de vida da
população de países ou regiões quaisquer. Refere-se, pois, a países que apresentam, no conjunto
de suas forças produtivas, condições adequadas para superar um modo social de vida vigente
considerado ultrapassado, e, pressionado pela evolução dessas forças e a luta de classes a ela
inerente, tende a substituí-lo por novos padrões produtivos e novas relações sociais,
configurando não apenas a evolução civilizatória que representa, mas também suas crises
estrutural e cíclica.
Deste modo, o termo desenvolvimento, associado à evolução social capitalista,
apresenta a tendência dominante da hipertrofia de seus aspectos civilizatórios, escondendo a
expropriação em que se baseia. Em níveis globais, justifica a barbárie no modo capitalista, mas,

165
em síntese, se refere sempre a fissuras consideráveis nos modos vigentes de organização da vida
social. Para Ianni (1989, p. 97), trata-se de um processo de ruptura com o presente:

Em alguns casos a ruptura é total, como ocorre nas nações que optam pelo
desenvolvimento segundo o modo socialista de organização da produção. O
socialismo consubstancia a teoria, o movimento de ideias, a concepção da história
desta alternativa. Em essência, implica a negação plena do presente, isto é, do modo
capitalista de produção, em sua forma colonial, semicolonial ou realizada. Em outros
casos dá-se apenas uma interrupção ocasional, uma quebra transitória daquelas
relações da nação consigo mesma e com o exterior266.

Assim, podemos facilmente identificar a origem do desenvolvimento em ação como


conceito generalizado e condição inerente à evolução humano-social, o que inevitavelmente nos
leva ao desenvolvimentismo, nos marcos da revolução técnica e científica que marcou a
transição do século XVIII para o XIX, conhecida como Revolução Industrial. A partir daí, a
industrialização coloca-se como condição essencial para o desenvolvimento, sustentando as
teses de autojustificativa e autorreprodução do capitalismo, amparadas por medidas estatais
denominadas de desenvolvimentistas.
A instituição do capitalismo como modo de produção dominante, ratificada pela
industrialização e pelos ideais emergentes na insurreição burguesa, vem acompanhada de um
corolário político e ideológico que coloca o desenvolvimentismo como elemento constituinte
dos processos reprodutivos do capital e análogo ao desenvolvimento humano, portanto
civilizatório, e que, como tal, deve ser almejado por todos.
No limite, estamos falando do processo de acumulação de capital e as formas de
sociabilidade que lhe dão legitimidade, fulcro do desenvolvimento (IANNI, 1989) nas suas
formas históricas singulares — comercial, industrial, monopolista ou financista —, como
demonstraremos nos itens 3.1 e 3.2. Por isso, não é de se estranhar que os dicionários não se
furtem a circunscrever o sentido do desenvolvimento em geral – conjunto de melhorias que
levam ao progresso e ao bem-estar social geral – ao desenvolvimento econômico.
Desse modo, os problemas afetos ao desenvolvimento motivaram, desde sempre,
economistas e cientistas sociais em especial, não apenas a constituírem-no como tema de
interesse científico, como também a disputarem, na esfera política, as diferentes e divergentes
teses e empreendimentos sobre o tema, como herança e consequência das análises que se
fizeram desde os clássicos aos contemporâneos levantados aqui em todo o Capítulo I. No Brasil,
adquiriram notoriedade ao tratar das questões afetas ao desenvolvimento (o subdesenvolvimento
e o desenvolvimentismo) intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni,

266
IANNI, Octávio. Ob. Cit., 1989.

166
Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini, etc., mas, sobretudo, Celso Furtado, em perspectivas
bastante diferenciadas, o que torna o debate sobre a temática ricamente heterogêneo. Este
último, chega a desenvolver, como núcleo duro de seu programa teórico, a tese de que o
subdesenvolvimento é um fenômeno histórico singular, sustentado num mito que propaga a
difusão generalizada do desenvolvimento como possibilidade e meta de uma racionalidade
coletiva moderna.
Para Furtado o desenvolvimento é um mito, pois, de um lado, os padrões capitalistas de
produção e consumo em que se sustenta esgota as disponibilidades de recursos necessários à
sobrevivência e, por outro, a maioria dos países da periferia capitalista é excluída dos benefícios
do crescimento quando ele ocorre no centro (...) não se elevando de forma significativa com a
industrialização (FURTADO, 1974)267.
Contudo, isso não significa que Furtado tenha se omitido de pensar possibilidades para
um desenvolvimento de tipo brasileiro, ou mesmo latino-americano. Passando em exame os
momentos em que o Brasil apresenta ciclos desenvolvimentistas, veremos como esse intelectual
se destaca por suas contribuições, que não se limitam ao campo das elaborações teóricas,
alcançando mesmo a gestão pública e suas formas de materialização, na medida em que, mesmo
crítico, propõe estratégias para o desenvolvimento daquelas que a Cepal considerou como
nações de capitalismo periférico.
Do subdesenvolvimento ao desenvolvimentismo – o desenvolvimento em ação – o que
está em jogo é o conjunto de políticas que impulsionam o crescimento econômico com medidas
de predominância estatal em conjunturas políticas adversas. Por isso mesmo, o epicentro do
desenvolvimento capitalista reside na junção do desenvolvimento técnico-científico com a
alteração que provoca, na esfera das relações socioculturais em dado momento histórico.
Ciclicamente se repetindo em outros momentos, quando se apresentam essas mesmas condições,
equivalendo a novos tipos de transformações socioculturais e econômicas.
Além da industrialização, o desenvolvimentismo capitalista clássico admite, via de
regra, um intervencionismo estatal orientado para o crescimento – quase sempre com
investimentos em infraestrutura e medidas de ampliação do consumo -, e o nacionalismo.
Portanto, a identidade do desenvolvimentismo está ontogeneticamente vinculada ao capitalismo,
mas é na sua feição monopólica que mais se evidencia, pois se verifica em suas medidas uma
espécie de concertação entre o Estado e o mercado, em seus processos particulares de
reestruturação decorrente de suas crises cíclicas, que encontra, nesse mesmo capitalismo dos
monopólios, condições adequadas tanto de propagação de seu corolário ideopolítico quanto das

267
FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. Uma
tese diferente sobre a insustentabilidade do padrão capitalista de desenvolvimento também pode ser
encontrada em: MÉSZÁROS, István. Produção destrutiva e estado capitalista. São Paulo: Ensaio,
1989. O autor discorre sobre o que chama de “desperdício catastrófico”.

167
formas de produção e reprodução social, capazes de parametrizar os mercados e os Estados268.
Portanto, o desenvolvimento e as crises fazem parte de um mesmo insidioso esquema269.
Em outros termos, se entendermos as crises estruturais como aquelas que causam
rupturas no modo sistêmico de evolução do capitalismo, por vezes até alterando posições no
jogo dos mercados mundiais, ou, como sintetizou Mészáros (2002):

Crise estrutural (ou sistêmica) refere-se a uma condição que “afeta a totalidade de um
complexo social em todas as relações com suas partes constituintes ou subcomplexos,
como também a outros complexos aos quais é articulada” (...) Põe em questão a
própria existência do complexo global envolvido, postulando sua transcendência e sua
substituição por algum complexo alternativo (...). Uma crise estrutural não está
relacionada aos limites imediatos, mas aos limites últimos de uma estrutura global.

E entendermos ainda que essas fissuras na ordem podem partir de funcionalidades (ou
áreas) específicas do sistema e que, em efeito cascata, podem provocar a erosão de todo o
complexo social em que se assenta, passaremos a compreender o desenvolvimentismo
(materializado no arcabouço das medidas desenvolvimentistas), como um elemento intrínseco
tanto das crises quanto das alternativas que se colocam à sua superação, pois, como enfatiza
Ianni (1989, p. 97)270, o desenvolvimento nos moldes capitalistas é “apenas uma interrupção
ocasional, uma quebra transitória daquelas relações da nação consigo mesma e com o exterior”,
de natureza fundamentalmente econômicas.
Contudo, não basta haver medidas de incremento à economia para provocar o
desenvolvimentismo. Como aparato dos Estados de democracia liberal, é necessário que haja
sua legitimação social. Portanto, por ser, o desenvolvimentismo, um processo que sustenta a
ruptura com o passado nos dizeres de Ianni (1989), ele também é a “ideologia dessa ruptura
parcial, frustrada, das nações que optam pelo desenvolvimento capitalista” e se associa a
componentes ideopolíticos, de acordo com o que se lhe permite a conjuntura e a estrutura
históricas. Nesse sentido, Ianni (1989, p. 98) refere:

268
O keynesianismo é o melhor exemplo, mas podemos citar também o advento do fordismo e a
acumulação flexível como formas singulares de expressão do modo de produção capitalista, em suas fases
monopolista e financista, que causaram mudanças, quando emergiram, nos padrões socioeconômicos
vigentes, alterando o comportamento dos estados e dos mercados.
269
As crises cíclicas caracterizam-se também por apresentarem condições históricas de “reparo”. Isto é,
diferem das crises estruturais, pois estas estão afetas ao impulso sociometabólico autodestrutivo do
capital. Mandel tratou das crises cíclicas e Mészaros das crises estruturais. Desse modo, a leitura dos dois
marxistas é recomendável.
270
IANNI, Octávio. Ob. Cit., 1989.

168
Implica uma concepção abstrata da história em que as contradições essenciais do
sistema submergem nas soluções verbais da ideologia burguesa. A industrialização de
tipo capitalista, como ocorre no Brasil, produziu-se com o desenvolvimentismo, que é
seu ingrediente ideológico fundamental. Nacionalista ou associado ao capital externo,
esse desenvolvimentismo faz parte da corrente de ideias característica dessa etapa de
transição do sistema econômico-social nacional. No processo de conversão do capital
agrícola, comercial e bancário em capital industrial, essa doutrina constitui-se como
uma visão prospectiva da civilização industrial.

Tradicionalmente, a doutrina Cepalina271 tem orientado o processo de desenvolvimento


dos países que lhe são membros, ditando, sobretudo, as medidas necessárias para o
empreendimento. Por isso, o desenvolvimentismo é praticamente um monopólio de seu léxico.
No “dicionário” da Cepal, o desenvolvimentismo é associado e, por muitas vezes,
confundido com algumas de suas medidas estruturais, que podem ou não estar associadas, ou
implementadas em conjunto ou em separado, com a própria industrialização, o intervencionismo
e protecionismo, o fomento estatal pela via da criação ou fortalecimento de empresas e bancos
públicos, políticas expansionistas orientadas para o crescimento e incentivo ao consumo,
aumento dos investimentos em infraestrutura, dentre outras medidas, galvanizadas
ideopoliticamente pelo nacionalismo em suas muitas variações.
Não é por acaso que essas medidas se confundem com o próprio desenvolvimentismo.
Numa visão, ainda que panorâmica, pelas experiências desenvolvimentistas mundo afora,
perceberemos que são medidas recorrentes, portanto, podem ser consideradas como célula
mater do desenvolvimentismo.
Como vimos, Octavio Ianni (1989) nos lembra que esse processo reveste-se de
componentes ideológicos que sustentam sua autolegitimação – condição essencial para sua
existência -, mas o autor também nos recorda que o papel do Estado é fundamental para que um
governo possa ser considerado desenvolvimentista, pois não há desenvolvimentismo sem uma
racionalidade configurada em forma de “política” que contemple as metas desejadas e espraie
para toda a sociedade que o cumprimento dessas metas é algo análogo à conquista do bem-estar
geral.

271
Refere-se à Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas e
responsável por “monitorar as políticas direcionadas à promoção do desenvolvimento econômico da
região latino-americana, assessorar as ações encaminhadas para sua promoção e contribuir para reforçar
as relações econômicas dos países da área, tanto entre si como com as demais nações do mundo (...)
Promover o desenvolvimento social e sustentável”. Funciona também como “centro de excelência,
encarregado de colaborar com seus Estados-membros na análise integral dos processos de
desenvolvimento. Esta missão inclui a formulação, seguimento e avaliação de políticas públicas e a
prestação de serviços operativos nos campos da informação especializada, assessoramento, capacitação e
apoio à cooperação e coordenação regional e internacional”. Disponível em:
<http://www.eclac.org/brasil/>. Acesso em: 15 ago. 2012.

169
Desse modo, estes empreendimentos não preenchem apenas a agenda governamental,
mas se tornam a razão de ser do próprio governo e de modo abstrato do próprio Estado. O autor
lembra, por exemplo, que o Programa de Metas (1956-1960), da era Kubitschek, não apenas
explicitava as medidas deliberadas do governo como florescia como “fenômeno ideológico”:

Na ocasião em que foi posto em prática esse programa, desencadeou-se uma ampla
campanha de formação e orientação da opinião pública, de modo a criarem-se as
“expectativas e disposições” coletivas para a realização do esforço nacional destinado
a implantar a indústria de base. Associa-se o progresso material com o bem estar
coletivo, poupança, investimentos produtivos e elevação geral do nível de vida (Id.,
ibid., p. 99).

Mas, no Brasil o refinamento político que une as estratégias do núcleo duro do


desenvolvimentismo, com as ideologias burguesas que o sustentam, antecedem a conjuntura de
Juscelino.

2.1.2 Momentos de síntese da acumulação capitalista: o desenvolvimentismo brasileiro

Em nossa história, o desenvolvimento peculiar de nosso capitalismo, no contexto latino-


americano, sempre foi alvo de estudiosos de nossa sociologia quanto de nosso pensamento
econômico, como reiteradas vezes afirmamos. Seja qual for a natureza da análise, a questão do
desenvolvimento não se subtrai e por uma motivação simples: o desenvolvimento capitalista
peculiar brasileiro carrega consigo a propriedade de constituir-se como eixo aglutinador do
debate sobre nossa economia política apenas pela inevitabilidade das categorias que congrega.
Não há um consenso sobre uma possível historiografia do pensamento econômico
brasileiro com viés desenvolvimentista, ainda que possamos apontar alguns esforços, nesse
sentido272; assim, optamos por evidenciar os momentos em que projetos de desenvolvimento são
levados a cabo redirecionando a economia e inflexionando a política, o que denominamos
momentos de síntese.
Esses momentos, já muito estudados, colocam a produção socioeconômica -acadêmica
- científica brasileira no rol das produções significativas sobre o desenvolvimento capitalista
periférico superando o binômio desenvolvimento - subdesenvolvimento, ao evidenciar a miríade
de possibilidades de concertação capitalista em sua evolução a partir de nossas particularidades.

272
Celso Furtado é responsável pelas primeiras aproximações rumo à construção de um pensamento
econômico brasileiro. Contudo, na contemporaneidade, é possível considerar como análises
historiográficas do desenvolvimento capitalista brasileiro, com destaque ao desenvolvimentismo, os
trabalhos de SZMRECZANYI, Tamás; COELHO, Francisco da Silva (Orgs). Ensaios de história do
pensamento econômico no Brasil contemporâneo. São Paulo: Atlas, 2007 e LOUREIRO, Maria Rita.
50 anos de ciência econômica no Brasil: pensamento, instituições e depoimentos. Petrópolis: Vozes,
1997. Ainda que tais autores não se entendam como “desenvolvimentistas”.

170
Da Colônia aos dias atuais, projetos econômicos tem balizado nosso desenvolvimento
de maneiras diferenciadas. Optamos por elencar esses momentos e não empreender uma
historicização – sem abrir mão do nível histórico da análise – para que possamos mais adiante
verificar o processo de rupturas e continuidades que marca o momento presente.
Nos momentos de síntese, estão arrolados os principais fatos e as ideias que lhes
conferem lógica interna e história própria, o que nos permitirá, a partir do exame dos grupos e
ambientes sociais em que são gestados, conferir importância ao produto sócio-histórico que dali
emerge mediado pelos agentes e pelas instituições em relação.

2.1.2.1 Expressões inaugurais: protoformas

No Brasil, a substituição de um padrão de desenvolvimento por outro, ancorada no que


se evolui nas forças produtivas, é um componente que podemos perceber, ao passar em exame
aquilo que os historiadores chamam de Movimentos de Rebeldia, já no período Colonial273. Ou,
se tomarmos a defesa da industrialização, como mote principal desse desenvolvimento,
encontraremos em Alberto de Seixas Martins Torres, o Alberto Torres (1865 – 1917), ou em
Rui Barbosa de Oliveira, o Rui Barbosa (1849 – 1923), ideias precursoras de um
desenvolvimentismo de tipo brasileiro (FONSECA, 2004)274 .
Nas revoltas nativistas, ou nas revoltas emancipacionistas, dois elementos que se
tornarão típicos do desenvolvimentismo brasileiro se destacam, embora, nas segundas, de uma
forma mais acabada que nas primeiras: o nacionalismo e o liberalismo.
O confronto entre as perspectivas de desenvolvimento que emergem nas revoltas
emancipacionistas contra os comandos portugueses trouxe consigo a ideia da soberania nacional
e, com isso, confrontaram o principal empecilho ao desenvolvimento imposto pelos
portugueses: o avanço do trabalho livre. A incorporação do trabalho livre, bem como a

273
As lutas contra o controle monopólico da Coroa Portuguesa tinham a influência das insurreições
libertacionistas internacionais, mas, no Brasil, foram acrescidas de componentes locais. A Revolta de
Amador Bueno, em 1641, em São Paulo, é um marco no chamado movimento nativista, seguida depois da
Guerra dos Emboabas, em Minas Gerais (1707 a 1709); da Revolta dos Mascates, em Pernambuco (1710
a 1711); e dos Motins do Maneta, na Bahia (em 1711, houve dois motins, um em outubro e outro em
dezembro). Esses movimentos foram marcados por “reivindicações” muito pontuais contra a Coroa
Portuguesa, mas já demonstram divergência de interesses no que tange às formas de exploração da
riqueza brasileira ou, em outros termos, sobre o modo de produção colonial. Representam uma espécie de
ruptura, mesmo parcial, da fração da classe dominante naquele momento histórico. Às revoltas nativistas,
seguem os chamados Movimentos Emancipacionistas, que, ainda que fossem motivados por questões
pontuais, trouxeram consigo ideais de libertação mais claros. Muitos deles já difundindo a existência de
uma “identidade brasileira” incapaz de ser subjugada por Portugal. Destacam-se, a Conjuração Mineira,
de 1789; a Conjuração Carioca, de 1794; a Conjuração Baiana, de 1798; a Conspiração dos Suaçunas, em
1801; e a Revolução Pernambucana; de 1817. (In: FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo:
Edusp, 2003).
274
FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Gênese e precursores do desenvolvimentismo no Brasil. Revista
Pesquisa & Debate, v. 15, n. 2 (26), p. 225-256, Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia
Política. Departamento de Economia da PUC-SP, São Paulo, 2004.

171
superação dos modos absolutistas da Coroa Portuguesa implicava uma revisão nas regras do
comércio e da exploração de riquezas, ainda que o abolicionismo não tenha sido tema
consensual entre os liberais do Brasil Colônia e uma parte da mão de obra já não era
exclusivamente escrava.
O fato é que a emergência de um sentimento nacional legítimo surge pari passu com as
reivindicações de um capitalismo mais moderno, pautado nos postulados liberais avançados que
se assistiam em outros países. Esses postulados já pressupunham, além da industrialização (no
caso brasileiro, se tratava de uma defesa da indústria), o intervencionismo estatal como seu meio
indutor e o estabelecimento de relações mercantis internacionais de cunho expansionista.
O mercado interno – industrial e agrícola – seria, nessa lógica, a força motriz de uma
economia que deveria articular-se e não opor-se aos mercados complementares estrangeiros.
Evidentemente que essas ideias, no Brasil, não se tornaram de pronto hegemônicas, contudo, os
defensores da indústria de base 275 tinham no nacionalismo um potente álibi ideológico, que
poderia ser fortalecido com o auxílio de um Estado mais liberal e menos absolutista.
Dos industriais nacionalistas mais radicais aos mais moderados, a defesa da
estruturação da indústria brasileira com o apoio do Estado relegara a segundo plano a política de
mão de obra e as chamadas condições institucionais, que incluem “os processos sociais,
políticos e culturais (...) essenciais à interpretação dos processos econômicos e, (...) os modos de
apropriação, as estruturas de dominação, as relações de classe, o imperialismo e suas
modalidades recentes” (IANNI, 1989, p. 11) 276 , entre outras, não são sequer mencionadas.
Cipriano José Barata de Almeida (1762 – 1838), o Cipriano Barata, destaca-se como porta-voz
desse nacionalismo liberal influenciando a imprensa e a política de sua época277 e inaugurando
uma espécie de xenofobismo tupiniquim.
Corroborando suas ideias, Manuel Alves Branco (1797 – 1855), então ministro da
Fazenda implanta, em 1844, a considerada primeira medida protecionista brasileira. A Tarifa
Alves Branco, como ficou conhecida a medida, aumentou as taxas de importação de uma série
de produtos sem similares nacionais para 30% e os com similares nacionais para 60%,
despertando a ira de fornecedores europeus, sobretudo os britânicos, e da decadente aristocracia
brasileira, que passaria a pagar mais caro para ostentar seus bens importados.

275
Indústria de base é a que produz o material que sustenta outras indústrias ou empresas, que podem ser
as próprias máquinas ou mesmo a matéria-prima.
276
Ianni está se referindo ao processo de expansão controlada das forças produtivas, em que o mercado
impede a criação de uma espécie de capitalismo de Estado, de modo a favorecer que o intervencionismo
estatal incida no aumento exponencial da acumulação de capital. Na era Kubistchek, isso é mais visível,
contudo, no período a que estamos nos referindo, as características fundantes dessa dinâmica já estão
dadas.
277
Neste sentido consultar: LEITE, Renato Lopes. Republicanos e libertários. Pensadores radicais no
Rio de Janeiro (1822). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000; SODRÉ, Nelson Werneck. A história
da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966; e VIANNA, Hélio. Contribuição à
história da imprensa brasileira (1812-1869). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.

172
Na intenção de equilibrar a balança comercial, acaba por induzir a substituição de
importações ao mesmo passo em que desperta um ciclo monopolista de industrialização
aproveitado estrategicamente pelo barão de Mauá, como já nos é de conhecimento278. Em 1860,
o governo cede à pressão externa e reduz as tarifas.
Embora praticadas em outros países, essas medidas foram consideradas avançadas
demais para a época, por alguns brasileiros, e, por isso, encontraram todo tipo de resistências. A
principal delas vinha da burguesia agrária que, embora também fosse signatária do
nacionalismo, não via nessas medidas a vocação para o desenvolvimento brasileiro
independente. Ao contrário, se havia um setor que deveria funcionar como mola propulsora do
desenvolvimento, este não era o industrial, mas sim o agrícola, verdadeira vocação de um país
com tantas riquezas naturais como o Brasil. O setor primário encontrava sua defesa em Alberto
Torres (1865-1917), Américo Werneck (1855-1927) e Eduardo Frieiro (1889 – 1982), só para
citar os mais conhecidos.

A marca do nacionalismo agrário consistia em enaltecer o setor primário como a


vocação da economia brasileira, em associação a certo ufanismo que glorificava a
natureza privilegiada do país. Assim, com base na ideia de vantagens comparativas 279,
aconselhava-se a especialização primária devido ao fato de os recursos naturais serem
fator abundante, enquanto a mão de obra e capital eram escassos. Américo Werneck,
mineiro autor de diversas obras sobre temas econômicos publicadas principalmente na
última década do século XIX, na mesma linha de Alves Branco, não via oposição
entre agricultura e indústria, mas entendia que o governo deveria concentrar mais
atenção na primeira, condenando o crescimento da época do Encilhamento280 como
artificial e responsabilizando o protecionismo como causa da inflação (FONSECA,
2004, p.5)281.

Fonseca refere ainda que, além de Werneck, Eduardo Frieiro negava a urbanização, o
protecionismo e a inflação, aspectos que associava à sociedade industrial e que emergiam em

278
CALDEIRA, Jorge. Mauá: empresário do império. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
279
Grifo nosso. A teoria das vantagens comparativas foi formulada por David Ricardo (1772-1823) em
seu livro The Principles of Polítical Economy and Taxation. Para ele, os países não precisam possuir
iguais condições de produção para realizar transações no comércio internacional. Dois países podem
beneficiar-se com o comércio, se cada um tiver uma vantagem relativa na produção. Ou seja, a razão da
produtividade é determinante para o comércio e não os custos absolutos da produção. Os países
exportarão os bens produzidos com o trabalho interno de modo relativamente eficiente e importarão bens
produzidos pelo trabalho interno de modo relativamente ineficiente, ou seja, o padrão de produção é
determinado pelas vantagens comparativas.
280
Grifo nosso. Encilhamento é como ficou conhecida a política econômica de marechal Deodoro da
Fonseca, primeiro presidente de nossa República, que visou “superar” a falta de dinheiro circulante no
País com o incentivo à indústria e ampliação das formas de emissão de papel-moeda. O resultado não foi
só apenas a colocação no mercado de muito mais papel-moeda do que o necessário, sob o lastro da dívida
pública como também a desvalorização da moeda (mil réis) pelo surto inflacionário que criara.
281
FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Gênese e precursores do desenvolvimentismo no Brasil. Revista
Pesquisa & Debate, v. 15, n. 2 (26), p. 225-256, Programa de Estudos Pós-graduados em Economia
Política, Departamento de Economia da PUC-SP, São Paulo, 2004.

173
detrimento da humana vida do campo. Alberto Torres, por seu turno, se dedicava ao mesmo
ufanismo, acusando o capital estrangeiro de “dilapidar o país e drenar suas riquezas” (Id., ibid.).

Alberto Torres foi um dos ideólogos mais importantes a influenciar a geração


nacionalista das décadas de 1920 e 1930, inclusive do Estado Novo, apesar de seu
anti-industrialismo. Em momento em que os nacionalistas dividiam-se entre esquerda
e direita em consonância à polaridade internacional entre comunismo e fascismo, ao
mesmo tempo em que vários movimentos artísticos eclodiam, todos marcados por
nacionalismos de diversos matizes – o Modernismo, a Antropofagia, o Pau-Brasil, o
Anta -, Torres sempre perfilou-se ao lado mais conservador, embora repudiasse
também o fascismo: qualquer receita para o Brasil não poderia vir de fora. Ufanista,
enaltecia as matas virgens, as riquezas naturais e a superioridade da vida do campo,
sugerindo que deveria “regressar o homem ao trabalho da produção – as indústrias da
terra”, pois o “Brasil tem por destino evidente ser um país agrícola: toda a ação que
tenta desviá-lo deste destino é um crime contra sua natureza e contra os interesses
humanos”. (TORRES, 1938, p. 214 apud FONSECA, 2004, p. 6)282.

Não demora muito para que os defensores do desenvolvimento pela via da


industrialização encontrem uma alternativa para acomodar seus interesses com os da burguesia
nacionalista agrária. Diante dos postulados da recém-proclamada República e dos
desdobramentos da crise do Encilhamento é inevitável a acomodação das frações de classe que
compunham o bloco no poder.

Alguns [defensores da indústria] como Serzedelo Correa, general paraense e Ministro


da Fazenda de Floriano Peixoto, mencionavam que o Brasil precisava romper sua
situação colonial, própria dos países exclusivamente agrários. Como a maioria dos
outros defensores da indústria, Correa não chegava a criticar a agricultura: defendia a
complementaridade entre esta e as atividades industriais, não propunha a substituição
de uma por outra (...) O grande vilão, objeto de críticas mais ásperas, era o comércio
(FONSECA, 2004, p. 7)283.

Mas Correa não é uma voz ressoante. Os defensores da indústria são muito mais
pragmáticos, embora recorram também a um tipo de nacionalismo como suporte ideopolítico
que não rejeita o capital estrangeiro, ao contrário, muitos deles propõe a associação dos capitais
nacional e estrangeiro como forma de alavancar a indústria (Id.).

282
TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro. Introdução a um programa de organização
nacional. São Paulo, 1938.
283
FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Ob. Cit., 2004

174
A maior parte dos defensores da indústria lamentava a omissão dos governos e
propugnava maior intervencionismo, inclusive tarifas, mas julgava desaconselhável
medidas radicais que pudessem prejudicar as relações com os grandes centros que,
além de mercados consumidores, eram supridores tanto de bens de capital como de
financiamento, todos realisticamente lembrados como indispensáveis à
industrialização. (Id., ibid., p.8).

Podemos perceber aqui certa diferença entre esses republicanos “defensores da


indústria” e seus antecessores. As práticas do livre comércio e a lei das vantagens comparativas
são criticadas, sem a menor chance de conciliação entre as teses. O intervencionismo estatal em
defesa da indústria é admitido e defendido em instituições importantes como a Associação
Industrial do Rio de Janeiro ou no Senado da República284. Criticam o xenofobismo indicando
que o País deve aprender com as experiências de outros países.
O pragmatismo desse grupo redunda também na defesa da revisão da política aduaneira
e, de certa forma, limita suas aspirações ao aprimoramento da dinâmica e dos processos
produtivos. Segundo Fonseca (2004, p.9), outro grupo é que demonstra preocupação com “o
crédito, com o déficit público e com os empréstimos como elementos indispensáveis para
alavancar a economia (...) e defendidos como política anticíclica, a la Keynes”. Estes são os
chamados papelistas:

Sua importância muitas vezes é negligenciada, pois os nacionalistas e defensores da


indústria são muito mais citados. Todavia não se deve subestimar sua importância,
pois os papelistas afrontavam um principio basilar da política econômica clássica: o
das finanças sadias, materializado pelo equilíbrio orçamentário. Enquanto os
intervencionistas discutiam quando e em que condições poderia ou não o Estado
intervir na economia, recorrendo a argumentos doutrinários ou axiológicos (...) os
papelistas rompiam em algo mais simples: na operacionalização da política
econômica, trazendo a baila menos os fins últimos da ação estatal e mais a forma com
que esta é executada. (Id., ibid., p. 9).

Por isso, nas protoformas do desenvolvimentismo brasileiro, vamos encontrar um


debate nada marginal sobre as diretrizes de conversibilidade da moeda, pois é na dinâmica da
conversibilidade que reside o único ponto de consenso entre as várias correntes que pelejam
pela condução do Brasil ao desenvolvimento: o equilíbrio das contas públicas285, mas é nela

284
Fonseca lembra do Manifesto da Associação Industrial do Rio de Janeiro, que cita os Estados Unidos
como paradigma da convivência de um sistema protetor com o liberalismo de suas instituições, e lembra
também do discurso de Amaro Cavalcanti no Senado, em 23 de julho de 1892, que recorre a autores
clássicos como Adam Smith e Stuart Mill, mostrando que estes admitiam a intervenção governamental
pró-crescimento.
285
Fonseca (2004, p. 9) lembra também que os papelistas tiveram atuação importante no debate que se
fazia à época nas faculdades de Direito que polarizava “os jus-naturalistas, defensores do direito natural e

175
também que está a origem da contenda. Os papelistas enxergam dificuldades em se manter o
padrão-ouro no Brasil, justamente por ser um País pouco monetarizado286.
Souza Franco (ministro da década de 1850), o barão de Mauá, os viscondes de Cruzeiro
e de Ouro Preto, João Alfredo e o conselheiro Lafaiete estão entre os papelistas mais
destacados. Não radicalizam contra os padrões de conversibilidade da moeda, contudo,
defendem flexibilidade no uso do ouro como âncora, aumentando um pouco seu lastro, o que
difere, por exemplo, de Rui Barbosa, que negava qualquer regra de conversibilidade
(FONSECA, 2004). Em síntese, o autor afirma:

Para os metalistas, a prioridade da política econômica era a estabilização e a política


cambial — e, portanto, a definição da taxa de câmbio —, seu epicentro. Defensores
do padrão ouro, estabeleciam a relação entre política monetária e balanço de
pagamentos: metais preciosos ingressariam naturalmente no país se a economia fosse
saudável e qualquer oferta de moeda sem lastro causaria inflação. A política
monetária deveria ser subordinada à política cambial. Via de regra os metalistas
apoiavam-se nos grandes mestres da Economia Clássica, como Smith, Ricardo e Say.
A taxa de juros era entendida como fenômeno real, a lá Ricardo, dependente da taxa
de lucro. Maior oferta de moeda não alterava o nível de atividade (...). Já a
preocupação maior dos papelistas, dos mais moderados aos mais radicais, era com o
nível de atividade econômica. Sua pergunta mais frequente, qual o nível de oferta
monetária mais condizente com o ânimo dos negócios, consistia verdadeira heresia
para os metalistas. Mauá, um de seus primeiros defensores, defendia o que se
convencionou denominar “requisito da elasticidade”: a oferta de moeda deveria ser
flexível ou elástica a ponto de não interferir negativamente nas atividades produtivas.
Menos teóricos e mais pragmáticos, apresentavam-se como coerentes com o bom
senso: simplesmente o governo deveria ajudar, e não prejudicar a economia
(FONSECA, 2004, p.12).

Esse debate trata, na verdade, de uma disputa pelo deslocamento do epicentro que
permite controlar o equilíbrio econômico. Para uns, a taxa de câmbio, para outros — os
papelistas —, a taxa de juros. A baixa monetarização do Brasil, um País predominantemente
agrícola com uma forte cultura de entesouramento dificulta a circulação da moeda, assim:

de matriz liberal-iluminista e os positivistas” e que o orçamento equilibrado era, de fato, o único ponto de
consenso entre eles.
286
O padrão-ouro é como ficou conhecido o sistema monetário que destacava a relação entre a moeda e
os níveis de preço, obrigando os bancos a converter as notas bancárias por ele emitidas em ouro ou prata
conforme o desejo de seus clientes. Isto é, a moeda passa a ser conversível, sendo referenciada nas
reservas de ouro.

176
O crescimento tornava-se a variável central da economia, uma vez que a política
cambial deveria subordinar-se à política monetária, e esta às necessidades impostas
pela produção. Assim, a conversibilidade era vista como uma medida artificial,
prejudicial ao ânimo dos negócios; o câmbio alto não deveria ser buscado por uma
conversibilidade artificial, mas pela prosperidade da nação. Daí decorria que as
dificuldades do balanço de pagamentos não deveriam ser enfrentadas com medidas
restritivas, mas com mais crescimento. (Id., ibid., p.11).

O autor reafirma que os papelistas, com as ideias aqui sumarizadas, representam um


capítulo importante da história do desenvolvimentismo no Brasil. Em certa medida, antecipam o
keynesianismo, mas são importantes também por

(...) romper com princípios básicos da teoria econômica convencional, afrontando


dogmas quase consensuais, como a conversibilidade e o papel passivo da política
monetária (...) por inaugurar uma concepção de política econômica que a torna
responsável pelo crescimento: o Estado poderia e deveria atuar como agente
anticíclico. Quebrada esta primeira barreira, no desenvolvimentismo ia-se além: a
tarefa era o crescimento de longo prazo, capaz de gerar mudanças estruturais de
maior vulto e reverter os péssimos indicadores sociais: o desenvolvimento. Embora
não se propusesse ainda medidas de envergadura próprias ao desenvolvimentismo do
século 20, como empresas estatais e bancos de desenvolvimento, enfocava-se por
primeira vez a produção como a variável essencial da economia, a razão de ser da
política econômica, subordinando a ela as políticas monetárias, cambial e creditícia.
Redefinir este papel do Estado, ampliando-o, era imprescindível para a emergência do
desenvolvimentismo. (Id., ibid., p. 11).

Todas as correntes — os nacionalistas, os defensores da indústria e os papelistas —


voltam-se fundamentalmente para a economia, mas é na política que buscam pôr em prática
suas ideias e ideais. Não há como ser diferente, pois mesmo os liberais mais radicais nunca
abdicam totalmente do Estado como um agente que faz parte do jogo. Sendo assim, na esfera
política, se dão as disputas entre os diferentes grupos, mas também entre protagonistas de um
mesmo grupo, apresentando, deste modo, as variações internas que aqui, de modo muito breve,
já apresentamos.
Ocorre que a esfera política brasileira nem sempre foi do modo como a conhecemos
hoje. E essas iniciativas inaugurais do desenvolvimentismo brasileiro encontram um ambiente
político estruturado de uma forma que influenciará as estratégias de desenvolvimento que se
sucedem, pois é responsável, ao mesmo tempo, por um dos maiores problemas que o
desenvolvimento brasileiro terá de enfrentar: as desigualdades regionais.
E isso não se dá apenas porque as regiões brasileiras desenvolveram-se de modo
desigual, mas também porque nossa história construiu uma geopolítica desigual amparada,
sobretudo na forte lógica estadualista presente na gênese da Republica e da Federação e, de

177
algum modo, como espólio de um Estado patrimonialista, a exemplo das Capitanias
Hereditárias.
É nesse sentido que Fonseca (2004) destaca a importância de uma quarta corrente de
pensamento contida nas protoformas do desenvolvimentismo brasileiro: o positivismo. Segundo
o autor, essa corrente manifesta sua hegemonia no Direito positivo. Isto é, predominando, na
Primeira República, partidos estaduais, predominam também Constituições estaduais. Desse
modo, os positivistas, mesmo com diferenças internas, conseguem manter relativa unidade
ideológica na formatação dessas Constituições e de todo o direito delas decorrentes287.
O positivismo político domina a cena nos grandes centros econômicos, como São Paulo,
Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, enquanto que, neste último, “através da liderança de Júlio
de Castilhos, tornou-se ideologia oficial do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) e da
Constituição Republicana estadual” (Id., ibid.).

Esta estabelecia a “ditadura científica” de Comte, com supremacia do Executivo, ao


retirar do Legislativo — a Assembleia dos Representantes —, o direito de fazer leis,
que caberia ao Presidente do Estado. Sua função, ao se reunir apenas dois meses por
ano, era fiscalizar as contas públicas e garantir a moralidade da administração, com
poderes sobre o orçamento, mas teoricamente, mais um órgão técnico que político.
(Id., ibid., p. 13).

Os positivistas, embora defendam como os liberais o direito de propriedade, o associam


à análise das circunstâncias. Isto é, em determinadas situações, o Estado é autorizado a intervir
em nome do bem comum. O exemplo típico é a estatização das estradas de ferro do Rio Grande
do Sul, no governo de Borges de Medeiros. A justificativa é de que as empresas estrangeiras,
além de cobrarem caro pelos serviços, não davam conta da manutenção e ampliação necessárias
à malha ferroviária (Id., ibid.). São responsáveis, de certa forma, pela difusão da lógica de
laicização do Estado, partindo do suposto de que cabe a este contribuir para o progresso de toda
a sociedade administrando a educação e a evolução moral do povo e dando o melhor exemplo
de lisura no trato da coisa pública, sobretudo, pelo princípio da impessoalidade.

287
O autor destaca como correntes internas do positivismo três vertentes: “O positivismo religioso (a
‘Religião da Humanidade’, apregoada por Comte ao final da vida, e que inspirou a criação de templos
positivistas); o científico (apregoando as vantagens do método indutivo, a crítica à metafisica e a
supremacia do saber científico sobre o religioso ou filosófico, com a criação de uma ciência social
positiva — a Física Social); e o político, aconselhando regras para a boa administração das finanças e da
política, o de maior influência no Brasil e na América Latina e, principalmente, na gênese do
desenvolvimentismo” (FONSECA, 2004, p.13). Quando tratarmos da relação entre o Serviço Social e o
desenvolvimentismo brasileiro, veremos que a influência dessa corrente para o estabelecimento e
manutenção dessa relação não se deu de modo segregário às três vertentes. Ao contrário, o Serviço Social
brasileiro fundamentou sua autojustificativa, em suas origens, no positivismo como um todo, unindo,
através da propagação de princípios morais, o positivismo religioso, com o cientifico e o político.

178
Apesar de defensores do intervencionismo por razões pragmáticas, este estava
limitado, na prática pelo preceito das “finanças sadias”. Conquanto se afastasse do
laisses-faire, o positivismo frequentemente recorria a critérios éticos como regras para
a “boa administração”. Os governantes não deveriam gastar mais do que
arrecadassem, dando exemplo à sociedade. Da mesma forma, não deveriam se
comprometer com empréstimos, a não ser em casos excepcionais, bem como
deveriam ser extremamente cautelosos na concessão de crédito, pois poderiam
privilegiar grupos específicos ou pessoas particulares, quebrando a regra da
impessoalidade e neutralidade do Estado (id., p. 15).

Como antes, permanece sendo a defesa do equilíbrio das contas o ponto de


convergência entre os positivistas e os liberais que, de certa forma, utilizavam esse argumento
na ofensiva contra os papelistas.
O Rio Grande do Sul é citado por Fonseca (2004) como o caso emblemático da
implementação do positivismo político ortodoxo associado ao que de outras correntes
interessava à produção e ao “progresso”. Primeiro, a distinção, na esfera pública, entre público e
privado, era o mote que justificava medidas que romperiam com qualquer indício do passado
Imperial em que não se sabia exatamente onde terminava um e começava o outro, ao mesmo
tempo, o pragmatismo dessa corrente admitia o intervencionismo, como já dissemos, mas
limitado à austeridade que impunha racionalidades fiscal e tributária.
Essa corrente dedicou-se também, do ponto de vista político, a pensar a gestão pública
como reguladora de uma parte importante das relações capital - trabalho. Fica muito evidente a
influência de Comte (neste caso, associada ao funcionalismo durkheimiano), nessa regulação
expressa, sobretudo nas protoformas de uma legislação trabalhista, ainda que esta não fosse a
intenção dos governos positivistas, como o governo gaúcho, por exemplo.
Os positivistas reconheciam a “ordem capitalista” como geradora do abismo social
brasileiro tal qual os positivistas europeus identificaram na Revolução Industrial a origem e a
agudização das desigualdades. E tal qual seus similares europeus, viam no crescimento do
liberalismo ortodoxo — que passa ao largo das desigualdades como problema coletivo e
público, e para alguns sequer é um problema — as brechas para uma insurreição comunista. O
governo gaúcho de Borges de Medeiros utiliza uma tática populista que será adotada por Vargas
anos depois, quando recebe os grevistas da paralisação de 1917 e atende suas reivindicações no
intuito de dar exemplo para a iniciativa privada.

179
Se o tratamento dispensado aos grevistas contrasta com a repressão violenta verificada
em outros pontos do país, isto não significa que este tenha sido o comportamento do
governo gaúcho em outras greves nem que houvesse uma predisposição do PRR para
legislar sobre direitos trabalhistas, em busca de sua universalização. O servir de
exemplo ao setor privado aponta justamente neste sentido: o Estado não deveria
intervir diretamente na “questão social”, como ocorreu no Brasil a partir de 1930, mas
lançar mão de instrumentos indiretos como a persuasão, para conscientizar e induzir
os empresários a uma atuação que, em vez de fomentar os conflitos, procurasse uma
harmonia entre capital e trabalho, em consonância as ideias de Comte e Saint-Simon
(id., p. 16-17).

O curioso é que a bancada do PRR na Câmara Federal posicionava-se contrária à


regulamentação do trabalho, exceto para acidentes de trabalho, proteção às mulheres e
“menores”. Essa bancada tinha como um de seus membros mais proeminentes Getúlio Vargas.
Fonseca (2004) resume a importância do positivismo para a formação do
desenvolvimentismo brasileiro, pois este:

pragmaticamente ampliava a agenda do Estado, aceitando sua participação quando


houvesse “necessidade social” — expressão ampla o suficiente para abranger o
próprio desenvolvimento econômico e acolher suas principais propostas (...) por
acenar a um futuro a ser buscado, com a história correndo a seu favor — daí
progressista —, ao entendê-la como um processo evolutivo e conclamando os
governantes para sua construção. Assim, mais que com ideias específicas, como o
nacionalismo e a defesa da indústria, o positivismo contribuiu para algo mais
sofisticado e definidor, que é uma mudança de postura dos governantes, pois supunha
uma visão globalizante do processo histórico, a qual lhe dava um sentido (id., p. 17).

Demonstra ainda, o autor, que o mesmo Vargas que na bancada federal de seu partido se
posicionou contrário às concessões trabalhistas legislativas, muda a postura quando assume a
presidência do Estado gaúcho, em 25 de janeiro de 1928, e promove habilidosamente uma
concertação entre as “quatro correntes formadoras do desenvolvimentismo” 288
o que
inevitavelmente implica também uma nova concertação das relações entre Estado, economia e
sociedade (ibid.). Propalada a ideia de que a razão da existência de um país (ou de um estado,
nesse país) é desenvolver-se, estabelecem-se, assim, as bases justificadoras do fortalecimento do
Estado289. Torna-se legítima a primazia do Estado ante a economia e a sociedade. Primazia que,
como se nota em alguns interregnos de nossa história, se confunde com autoritarismo e
possibilita a manutenção de políticas econômicas de desenvolvimento, mas altera as bases

288
Os nacionalistas, os defensores da indústria, os papelistas e os positivistas.
289
Vargas tentará outra articulação na esfera política, quando se colocará a Washington Luís como
alternativa à contenda entre São Paulo e Minas Gerais, na disputa pela indicação à Presidência da
República, mas não terá êxito.

180
políticas democráticas e organizativas do País, que é exatamente o que Vargas fará em seus dois
governos como Presidente da República.
Vargas, para acomodar interesses, dilui características das correntes ideopolíticas
mantendo o que lhes era mais caro naquele momento ou levando-as a concessões. Consegue
difundir o desenvolvimento como um objetivo maior e de responsabilidade de todos. Assim,
inaugura um fenômeno novo com essa concertação

(...) pois ao abandonar os princípios do orçamento equilibrado, da parcimônia com


relação a crédito e a empréstimos e, inclusive, ao defender o aumento cada vez maior
da presença do Estado na organização dos produtores e dos trabalhadores, fatalmente
não se pode mais falar em positivismo. As regras moralistas do “conservar
melhorando” e a evolução gradual do progresso vão sendo substituídas ou adaptadas
para se conciliarem com o objetivo maior do desenvolvimento. Este vai se tornando
um fim em si mesmo: esquecem-se os velhos dogmas em prol das exigências impostas
pela “complexidade da vida social”: ou seja, precisavam-se nova ideias, pois se estava
em nova época. O desenvolvimentismo, com isto, constrói sua imagem de
modernidade e contemporaneidade, propondo-se inserido e à frente de seu tempo (...)
(ibid., p. 17)290.

Seu discurso é impregnado de mensagens subliminares, que inflam pelo otimismo no


futuro e, ao mesmo tempo, agradam as correntes. Por exemplo, a substituição do progresso
positivista pela ideia de “marcha pelo desenvolvimento” não desagrada aos positivistas, ao
contrário, agrega ação ao seu sentido, o sentimento de que algo está acontecendo. Do mesmo
modo, o recurso ao termo “civilizador” era um forte apelo que o credenciava a classificar como
atrasado qualquer pensamento ou ação que impedisse a marcha.
Com isso, metamorfoseiam-se o positivismo e o papelismo. A ortodoxia do segundo
ancorada na ideia de “propugnar meio circulante para fomentar os negócios da lavoura” ou
“estimular as contrações da produção resultantes dos ciclos econômicos” não são mais unívocas
(id.). Antes, passam a compor o corolário do objetivo maior de todos que é o
desenvolvimentismo, admitindo para isso o intervencionismo quase irrestrito do Estado.

290
Em mensagem à Assembleia de Representantes do Estado do Rio Grande do Sul, em 1928, Vargas
declara: “É preciso amparar a produção, estimular a indústria, desenvolver a circulação de riqueza,
disseminar a instrução, cuidar do saneamento público rural e urbano, facilitar a exploração de terras,
desenvolver a agricultura, melhorar a pecuária, desbravar o caminho para a marcha do Rio Grande do Sul,
no sentido de sua finalidade civilizadora”. (VARGAS, 1928, apud FONSECA, 2004, p. 18).

181
A noção de uma política econômica heterodoxa, desvinculada das regras clássicas,
justificava-se frente o objetivo maior do desenvolvimento, associando um
instrumental de curto prazo para viabilizar o projeto de longo prazo (...) a superação
do papelismo se dá com o próprio abandono do padrão ouro a partir da I Guerra e da
crise de 1929. Como ser “papelista” sem existirem metalistas? A ortodoxia, em
matéria de política econômica, recorrerá a outros argumentos para afirmar pontos
como a neutralidade da moeda, a passividade da política monetária e as regras de
equilíbrio orçamentário e de balanço de pagamentos. Os adversários serão outros.
Polemizará, a partir daí com os desenvolvimentistas, como demostram os debates de
Roberto Simonsen com Gudinn, a partir da década de 1940, ou mesmo a controvérsia
sobre monetaristas e estruturalistas sobre inflação, nas décadas seguintes (id., p. 18).

O discurso conciliatório de Vargas não deixava de dar a devida importância àquilo que
ele considerava, na época, como essencial a uma política econômica desenvolvimentista: o
crédito291. Não havia, não só no Rio Grande do Sul, mas em todo o Brasil grandes defensores do
padrão ouro como antigamente, sobretudo, em decorrência da crise que eclodiria em 1929, mas
que já começava a mostrar sinais de aproximação. Com isso, Vargas fez o que popularmente
pode ser ilustrado como “matar dois coelhos com um único golpe”: justificava o
intervencionismo sustentado na heterodoxia econômica e favorecia o crédito como meio de
superar os limites do crescimento:

291
Fonseca (2004) cita que, em 1927, Vargas escreve no Correio do Povo (3/12/1927, p. 2) o seguinte
texto: “É um conceito vulgar que se impõe como um aforismo. Todo o desenvolvimento econômico deve
ter por objetivo tomar a riqueza abundante pelo trabalho e ensinar o homem a usar essa riqueza pela
cultura. Mas, se o dinheiro metálico é a medida dos valores, ele, no conceito corrente dos economistas,
pela escassez de seu volume e pelas dificuldades de sua condição física, já não satisfaz à exigência do
progresso econômico. Com a imposição da própria necessidade, surgiu um elemento imaterial destinado a
atingir os limites da flexibilidade, que é o crédito. Ele se expressa por um estado de confiança e segurança
econômica. A relação mercantil, diz um financista moderno, criou a operação sem dinheiro pela simples
promessa de pagamento, que, por sua vez, se converte em riqueza, estimulando o trabalho e se
transmutando em novos valores”.

182
Indo além do discurso, a importância do crédito e do papel do Estado no fomento à
produção materializou-se com a criação do Banco do Estado do Rio Grande do Sul
em 22 de junho de 1928 (...). Este deveria assumir o papel de estímulo às atividades
produtivas, ter uma “organização mais ampla de um banco de Estado” 292 . Sua
finalidade era “fazer a defesa de nossa produção, constituindo um propulsor da
riqueza e do progresso” (id., p. 18).

Operando uma lógica simples, a criação do banco estadual tem também efeito simbólico
importante. Os bancos estaduais já estavam servindo em São Paulo, Minas Gerais e no Espírito
Santo — para citar os mais importantes da época — como agentes financeiros fundamentais no
apoio à oscilante produção, sobretudo a cafeeira. No Rio Grande do Sul, já nasce com o intuito
de fomentar financeira e economicamente atividades produtivas diversas e ainda agir no
mercado de capitais modestamente.

Pela proposta do governo, o banco deveria contar com uma carteira hipotecária e uma
carteira econômica. À carteira hipotecária caberia, dentre outras incumbências,
conceder empréstimos aos produtores em prazo de até 30 anos, tendo como garantia
suas propriedades, além de financiamentos de curto prazo de capital de giro, de
armazenamento e venda da produção. Já a carteira econômica caberia realizar
293
empréstimos sobre warrants e sobre notas promissórias para agricultores,
pecuaristas e municípios, além do próprio Estado (id., p. 19).

As medidas arroladas vão se configurar mais tarde como de um núcleo duro do


desenvolvimentismo, na sua fase de implantação nacional, com Vargas na Presidência da
República. Muitos historiadores identificam uma associação de populismo e nacionalismo no

292
É a protoforma do que se poderia chamar de “banco de desenvolvimento”. Os bancos de
desenvolvimento, tal qual os conhecemos hoje, serão aprimorados, no Brasil, após a implementação de
medidas para estancar os efeitos da crise de 1929. A definição corrente de banco de desenvolvimento é:
“Instituições financeiras controladas pelos governos estaduais, e têm como objetivo precípuo
proporcionar o suprimento oportuno e adequado dos recursos necessários ao financiamento, a médio e a
longo prazos, de programas e projetos que visem a promover o desenvolvimento econômico e social do
respectivo Estado. As operações passivas são depósitos a prazo, empréstimos externos, emissão ou
endosso de cédulas hipotecárias, emissão de cédulas pignoratícias de debêntures e de Títulos de
Desenvolvimento Econômico. As operações ativas são empréstimos e financiamentos, dirigidos
prioritariamente ao setor privado”. (Resolução CMN 394, de 1976). Disponível em:
<www.bcb.gov.br/pre/composicao/bd.asp>. Acesso em: 31 ago. 2012.
293
Warrant, no mercado de capitais, é um título que garante ao seu titular o direito (não a obrigação) a
comprar um determinado ativo, ao qual está subjacente, a um preço preestabelecido (preço de exercício,
ou strike price) e numa data preestabelecida (data da maturidade). Ou seja, o warrant é um caso particular
de opção. Trata-se, portanto, de uma garantia que permite exercer um direito conferido pelo warrant, uma
opção não padronizada. O ativo subjacente pode ser ações, índices de ações, obrigações, taxa de câmbio
ou futuros. O preço de exercício é o predeterminado. A data de maturidade (vencimento) é a data de
exercício do direito de compra ou venda (de acordo com o tipo de warrant). No entanto, há tipos de
warrants que permitem um exercício anterior à data da maturidade (warrants americanos).Warrant é uma
palavra anglo-saxônica que significa razão, justificação, autoridade, prova, autorização legal, mandado de
captura, garantia, penhor, ordem de pagamento, certificado ou diploma. Disponível em:
<www.thinkfn.com/wikibolsa/Warrants>. Acesso em: 31 ago. 2012 .

183
discurso e na postura varguistas, já sentidos em sua atuação à frente do governo gaúcho,
todavia, como já evidenciamos, o arranjo que promove entre distintas correntes ideopolíticas lhe
confere um uso particular do sentido de populismo e de nacionalismo. A criação do banco
gaúcho, por exemplo, mostra que embora

(...) [a criação do Banco] 294 possa servir como símbolo de uma nova postura do
Estado com relação a economia, não se pode associa-la a uma ideologia nacional
radical. Ao contrário, a integralização de seu capital inicial contou com renegociação
de empréstimos externos com a Compagnie Française du Port de Rio Grande do Sul
de 67.933.000 francos (US$ 2,7 milhões de dólares) e de Labenburg, Thalmann & Cia
Ltda, contraídos em 1921 e 1926, respectivamente de US$ 7,88 milhões e de US$
20,5 milhões. Reafirmava-se o nacionalismo pragmático dos precursores da defesa da
industrialização, o qual via de regra considerava como bem-vindo o capital
estrangeiro que viesse colaborar para a realização do projeto (id., p. 19).

A experiência gaúcha, embora não encontre muitas citações nos compêndios que tratam
do desenvolvimentismo nacional pode, como fizemos, ser tomada como exemplo mais factível
de como se foram criando condições para a evolução não só de um ideário, mas de políticas
desenvolvimentistas, o que, num amplo exercício de generalização, pode demonstrar aspectos
importantes do desenvolvimento do próprio capitalismo brasileiro. Nessa história também se
encontram traços embrionários das experiências que se seguiram nos 50 anos seguintes, com o
primeiro e o segundo governo de Vargas.
Se sairmos da experiência gaúcha, é mais comum encontrarmos referências que tratam
da transição do modelo agrário-exportador para o de industrialização, certificadas a partir da
produção cafeeira concentrada no sudeste brasileiro, sua crise, o modelo de substituição das
importações até chegarmos ao Estado Novo, e, somente a partir daí, o reconhecimento formal de
grande parte dos historiadores do início de nossa história desenvolvimentista.
Mas essa é muito mais uma escolha afeta à necessidade de recorte temporal do que
necessariamente a negação de protoformas desenvolvimentistas, numa regressão maior de
tempo, sem prejuízo do caráter relevante que a crise cafeeira e seus desdobramentos adquirem
em nossa história. Para que possamos traçar um quadro mais geral, optamos por abordar ambos
os tempos e processos.

294
Grifo nosso.

184
2.1.2.2 A crise do café

A cafeicultura foi um dos pilares mais importantes de sustentação da economia


brasileira, desde 1840295. A euforia em torno da produção desse produto levou a um caminho já
conhecido dos capitalistas que ascendem quando se aquecem determinados mercados: produzir
mais do que se pode vender. Dinâmica que acaba por demonstrar a fragilidade e os limites da
Lei de Say. O Brasil, com a vastidão de suas terras — e a concentração nas mãos de poucos —
tinha uma capacidade muito maior de produzir do que a dos compradores consumirem. A não
expansão do mercado consumidor internacional (já que a produção estava quase inteiramente
voltada para a exportação) leva não apenas à queda dos preços como também ao desequilíbrio
no balanço de pagamentos.
Como parte da solução do problema, uma articulação entre capitais — bancário,
estrangeiro e agrícola — foi pensada. Isto é, os bancos estaduais ficavam autorizados a contrair
empréstimos no exterior e comprar parte da produção excedente. Alguns autores, como Neto
(2004) 296 , identificam esse momento como de incentivo à expansão e criação de bancos
estaduais, como f ocorreu com os bancos de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.
Mas essa medida deu apenas um fôlego momentâneo à crise, que passou a se agravar
com os impactos da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). A criação do Instituto do Café foi
uma tentativa de apoiar com fomento e regulação a atividade cafeeira que não estancava seu
declínio. Países como os Estados Unidos, França, Itália, Holanda e Alemanha, que
representavam 84% do mercado consumidor de café brasileiro, diminuíram ou cancelaram suas
compras, não apenas pela crise, mas pela qualidade do café brasileiro, que caía. Para se ter uma
ideia, em 1929, os produtores brasileiros ainda estavam exportando a safra de 1927, enquanto
que a safra de 1928 ficara estocada. Essa experiência demonstrava a todos que pudessem
admitir, a irracionalidade da falta de planejamento com vistas a equilibrar oferta e demanda297.
Se a situação brasileira fosse um caso isolado, provavelmente empréstimos estrangeiros
dariam conta de sanar o caos, ainda que isso aumentasse nossa dependência. Mas esse não era o
cenário mundial. Em outubro de 1929, ocorre uma das mais drásticas quedas nas Bolsas de
Valores em Wall Street levando à bancarrota milhões de cidadãos americanos298.
Com isso, o governo brasileiro tem recusado pelo governo norte-americano um
empréstimo de US$ 50 milhões, valor para ser utilizado como apoio aos cafeicultores. A

295
No final do século XIX, o Brasil já era considerado o principal produtor d café, responsável por ¾ das
exportações mundiais (SECURATO, 2007, p. 233).
296
NETO, Yttrio Corrêa da Costa. Bancos oficiais no Brasil: origem e aspectos de seu desenvolvimento.
Brasília: Banco Central do Brasil, 2004. Disponível em:
<www.bcb.gov.br/htms/public/BancosEstaduais/livros_bancos_oficiais.pdf>. Acesso em 31 ago. 2012.
297
Nesse sentido, pode-se consultar: FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Cia
Editora Nacional, 2003. Em especial, a quinta parte: Economia de Transição para um Sistema Industrial.
298
O dia 24 de outubro de 1929 ficou conhecido como a quinta-feira negra.

185
alternativa veio de uma companhia privada, a Schroeder and Company, que concedeu
empréstimo de US$ 10 milhões, ao Banco do Estado de São Paulo, para serem utilizados no
Instituto do Café, como tentativa de estancar a crise dos fazendeiros paulistas. Paliativa, a
medida não evita o colapso social que se segue. Há registros de todas as ordens de assassinatos,
suicídios, extorsões, cometidos por burgueses em declínio repercutidos também nas classes
trabalhadoras urbana e rural que só viam aumentar o desemprego e a pauperização299.
Esse cenário econômico repercute no cenário político influenciando a política do café-
com-leite. De acordo com essa política, os estados de São Paulo e Minas Gerais se revezariam
na indicação do Presidente da República, desde o Pacto de Ouro Fino, de 1912. Como o paulista
Washington Luís era o presidente em exercício, o próximo seria o mineiro Antônio Carlos
Ribeiro de Andrada, contudo Luís insiste na indicação de seu afilhado político Júlio Prestes,
num momento em que São Paulo não estava tão seguro em sua pujança econômica, com a crise,
o que abre brecha para Getúlio Vargas, que até então parecia ser aliado de Luís, pois fora seu
ministro da Fazenda até o final de 1927, quando deixa o governo para assumir a presidência do
Estado do Rio Grande do Sul e se destacar na cena política nacional.
Vargas decide concorrer à Presidência da República por uma aliança entre mineiros e
gaúchos, que recebe o nome de Aliança Liberal. Em seu programa, a Aliança mantinha
compromissos políticos e ideológicos com as oligarquias regionais e acenava também à classe
média. Propunha um incentivo à produção nacional, que não se reduzisse ao cultivo do café e
,num rompante populista, confrontavam o descaso de Washington Luís com a “questão social”,
afirmando que esta era um problema que deveria ser enfrentando pelo poder público e não pela
polícia, como Luís afirmara em discurso recente.
Ainda assim, a força da oligarquia cafeeira, associada ao governo federal, mesmo que
descontente com ele, elege, em 1o de março de 1930, Júlio Prestes, gerando indignação em
vários estratos da oposição, com destaque para um grupo de tenentes-civis que passariam a se
organizar para resolver o que consideravam impasse, através da luta armada. A morte de João
Pessoa, governador da Paraíba, por João Dantas, seu adversário político, é apontada por
diversos historiadores como o estopim da Revolução de 1930, motivada pelos insatisfeitos com
o governo e que coloca Vargas no poder em 3 de novembro desse mesmo ano, marcando o fim
da Primeira República.

299
No Rio de Janeiro, a indústria Oswaldo Tardim & Cia decreta falência, acompanhada de inúmeras
outras empresas tradicionais da época. Em São Paulo, o empresário Abelardo Laudel de Moura, de 28
anos, tenta matar a esposa com uma navalha, mas não consegue. Ainda assim, degola o filho de 2 anos e a
filha e, em seguida, se suicida, motivado pela perda de seus bens com a crise. A tragédia ficou conhecida
como o crime da Rua Piauí, bairro de Higienópolis. Há muitos outros relatos que mostram o caos que se
instalou nesse contexto de crise.

186
Um novo tipo de Estado nasceu após 1930, distinguindo-se do Estado oligárquico não
apenas pela centralização e pelo maior grau de autonomia como também por outros
elementos. Devemos acentuar pelo menos três dentre eles: 1. a atuação econômica,
voltada gradativamente para os objetivos de promover a industrialização; 2. a atuação
social, tendente a dar algum tipo de proteção aos trabalhadores urbanos,
incorporando-os, a seguir, a uma aliança de classes promovida pelo poder estatal; 3. o
papel central atribuído às Forças Armadas — em especial o Exército — como suporte
da criação de uma indústria de base e, sobretudo como fator de garantia da ordem
interna. (FAUSTO, 2003, p. 327)300.

Tentando juntar estes elementos em uma síntese, poderíamos dizer que o Estado
getulista promoveu o capitalismo nacional, tendo dois suportes: no aparelho do
Estado, as Forças Armadas; na sociedade, uma aliança entre a burguesia industrial e
setores da classe trabalhadora urbana. Foi desse modo, e não porque tivesse atuado na
Revolução de 1930, que a burguesia industrial foi promovida, passando a ter vez e
força no interior do governo. O projeto de industrialização (...) foi, aliás, muito mais
dos quadros técnicos governamentais do que dos empresários (id. p., 327)301.

2.1.2.3 A Era Vargas

A Era Vargas, como ficou conhecido o período em que Vargas esteve no poder por 15
anos, portanto de 1930 até 1945, marca um ciclo importante da história do desenvolvimentismo
brasileiro. A estratégia de incentivar a diversificação das atividades produtivas foi aos poucos
mostrando resultados, ao mesmo tempo em que Vargas consegue conciliar-se com a oligarquia
cafeeira federalizando, por exemplo, os problemas do café quando transfere as
responsabilidades do Instituto do Café do Estado de São Paulo para o Conselho Nacional do
Café.
A estratégia de substituição de importações, embora não seja criação do legado
varguista, assume nesse momento uma expressão particular para o projeto de desenvolvimento.
A crise de 1929 dificulta as importações, ao mesmo tempo em que encontra uma indústria de
base com sinais de expansão, sobretudo, no eixo Rio-São Paulo e uma capacidade ociosa de
vários setores, principalmente o têxtil. Contudo, tais dificuldades não atestam a
desintensificação industrial. Ao contrário, as taxas de crescimento anual da indústria seguem
superando o crescimento da agricultura (FURTADO, 2003)302. (Tabela 1).

300
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2003.
301
Id., ibid.
302
FURTADO, Celso. Ob. Cit., 2003.

187
Tabela 1 - Taxas anuais de crescimento econômico – Brasil – 1920 a 1945
Anos Agricultura Indústria
1920 – 1929 4,4% 2,8%
1933 – 1939 1,7% 11,2%
1939 - 1945 1,7% 5,4%
Fonte: DINIZ, Eli. Empresário, estado e capitalismo no Brasil 1930-1945, p.67. Apud FAUSTO, Boris. Ob. Cit., 2003.

As taxas de crescimento anual da indústria nos permitem entender melhor o processo


de industrialização posterior a 1930. Elas indicam um considerável avanço entre 1933
e 1939 e um ímpeto menor entre 1939 e 1945. Isso significa que a indústria se
recuperou rapidamente dos anos de depressão iniciados em 1929, apesar de não se
poder falar de uma consistente política industrializante, por parte do governo.
(FAUSTO, 2003, p. 391).

A não renovação do equipamento industrial e as perturbações no comércio


internacional, resultantes do início da Segunda Guerra Mundial, concorreram para que
as taxas de crescimento caíssem entre 1939 e 1943. Lembremos porém que esse foi
um período importante, do ponto de vista qualitativo, para a sustentação do processo
de industrialização e sua expansão no após-guerra (Id., Ibid.).

Mas a intenção da Aliança, já anunciada na campanha, de diversificar a produção para


além da prioridade que se dava ao café, transforma-se em realidade, sobretudo, numa produção
agrícola voltada também para o mercado interno. O algodão, por exemplo, aumenta sua
importância devido ao incentivo que se oferta à indústria têxtil e a produção de arroz, feijão,
carne, açúcar, mandioca, milho e trigo sobe de 36%, em 1925-1929, para 48,3%, entre 1939 e
1943, no valor total das lavouras brasileiras.
Também como parte do núcleo duro dessa primeira fase do desenvolvimentismo
varguista, os investimentos em infraestrutura não passaram ao largo das estratégias do governo.
Com a Vale do Rio Doce, a Cia. Siderúrgica Nacional, entre outras empresas e medidas, a
diversificação das atividades industriais foi impulsionada, fazendo com que novas atividades de
base, como metalurgia, mecânica, material elétrico e material de transporte aumentassem sua
participação no valor adicionado da indústria303.
O traço distintivo deste e do outro período varguista, o de 1951 a 1954, foi sem dúvida a
ampliação do entendimento acerca das estratégias e alcance da política econômica. Isto é,
Vargas não tarda a descobrir, como já fizera no governo do Rio Grande do Sul, que a aliança

303
Valor adicionado representa a diferença entre o valor da matéria-prima e o valor final do produto,
resultante do processamento industrial. Fausto (2003, p.393) reforça: “As indústrias tradicionais —
principalmente têxtil, vestuários e calçados, alimentos, bebidas, fumo e mobiliário —, apesar de
constituírem ainda 60% do valor adicionado da indústria, tiveram sua participação relativa diminuída,
pois, em 1919, representavam 72% desse valor. O crescimento das indústrias química e farmacêutica —
inclusive perfumaria, sabões e velas — foi extraordinário, triplicando sua participação entre 1919 e
1939”.

188
com a classe trabalhadora é capaz de surtir efeitos maiores e melhores para o seu governo e para
seu projeto de desenvolvimento do que aquelas medidas afetas ao âmbito da coesão social, de
caráter positivista-funcionalista que utilizara no Rio Grande do Sul.
Desse modo, potencializa o aspecto estruturante das políticas sociais, pois nelas estão
contidas as formas essenciais de reprodução social com impactos diretos, como já dissemos, na
coesão social, mas também na sustentação de uma economia cujo mercado precisa se
versatilizar. Porém, atenção: o aspecto estruturante das políticas sociais, tanto no varguismo
quanto em outros momentos na história do capitalismo mundial, só se evidenciam ao se
descortinar o mito de que a política social e a política econômica formam unidades distintas ou
antagônicas. Ao contrário,

Compondo uma unidade, tanto a política econômica quanto a política social podem
expressar mudanças nas relações entre as classes sociais ou nas relações entre
distintos grupos sociais, existentes no interior de uma só classe. De outra parte,
através de ambas aquelas políticas, é possível evidenciar-se a atuação do Estado no
sentido de incentivar e ampliar o capitalismo monopolista no Brasil. Porém, embora
constituindo um todo, elas formalmente se distinguem e às vezes dão a enganosa
impressão de que tratam de coisas bem diferentes. (VIEIRA, 1983, p.10)304.

[A Política Social] Trata-se de estratégia voltada para o chamado desenvolvimento


econômico e, consequentemente, para atuar na correlação de forças sociais, segundo
as determinações daquele desenvolvimento. Considera-se, portanto, que qualquer
política social aplicada pelo governo representa de certa maneira as relações entre o
Estado e a Economia, durante a época em questão. Assim como a política econômica,
também a política social revela, em seu nível lógico e em seu nível histórico, as
transformações havidas nas relações de apropriação econômica e no exercício da
dominação política, presentes na sociedade brasileira. (Id., Ibid., p.10)305.

Desse modo, a Educação, como política social, passa a ocupar lugar estratégico na
agenda governamental, com o intuito de potencializar a formação de cidadãos capazes de
responder ao ciclo de desenvolvimento proposto com a criação, em novembro de 1930, do
Ministério da Educação e Saúde. Preocupação parecida invade a área da Saúde, que começa a
contar com medidas de implantação de uma política sanitária voltada, sobretudo, aos mais
pobres. Mas é mesmo no campo da política trabalhista que Vargas imprime sua marca na
agenda social.
Entendendo o caráter político que reveste o mundo do trabalho, o primeiro governo
Vargas associa a institucionalização de direitos trabalhistas à repressão a partidos e

304
VIEIRA, Evaldo. Estado e miséria no Brasil de Getúlio a Geisel 1951 a 1978. São Paulo: Cortez,
1983.
305
Id.

189
organizações de esquerda, com um foco todo especial no Partido Comunista Brasileiro (PCB).
A criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio envolve a criação das Leis do
Trabalho e a regulação estatal da ação sindical, enquadrando a liberdade associativa dos
trabalhadores e criando o sindicalismo patronal e de Estado.
Esses 15 anos de poder varguista não foram mantidos facilmente. Vários
acontecimentos de caráter político o marcaram, mas todos relacionados aos experimentalismos
econômicos que ali se aplicaram: a Constituição de 1934, que institui o federalismo, anuncia
eleições diretas e secretas a partir de 1938, o voto feminino, a representação classista no
congresso e os direitos trabalhistas. De 1934 a 1937, o governo constitucional amplia seu braço
repressor com duras ofensivas contra organizações da esquerda comunista, dando finalmente um
golpe, em 1937, cancelando as eleições previstas para 1938 e instituindo a ditadura do Estado
Novo306.
De inspiração fascista, a Constituição de 1937 centraliza o poder nas mãos do
Presidente, que suprime partidos, suspende as atividades do parlamento e cerceia a liberdade de
expressão e imprensa com a criação de um departamento estatal voltado à censura.
Ainda assim, Vargas mantém o ritmo das reformas econômicas e sociais numa clara
demonstração de que o desenvolvimento capitalista só não pode abrir mão do trabalho livre,
mas pode fazê-lo com a democracia. Assim, cria o salário-mínimo, em 1940, a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, e mantém o controle sobre a atividade sindical. Portanto,
concluímos que:

No Brasil (...) não se pode falar de política social sem se remeter à questão do
desenvolvimento econômico. No âmbito do capitalismo, tal desenvolvimento
representa transformação quantitativa e qualitativa das relações econômicas,
decorrente de processo de acumulação particular de capital. A situação favorável a
este desenvolvimento é gerada não somente pela denominada iniciativa privada, mas
também pela atuação do governo. Portanto, sendo fundamental a participação do
Estado brasileiro no processo de desenvolvimento econômico, facilmente se percebe a
relevância das várias políticas adotadas por ele, em especial a nível econômico e a
nível social (VIEIRA, Ibid., p.10)307.

O processo de industrialização teve prosseguimento com a substituição de importações


nos setores de bens de consumo não duráveis e de bens intermediários. O Estado, como indutor
desse processo, cria a Companhia Vale do Rio Doce, a Siderúrgica Nacional e uma empresa
para refino do petróleo.

306
O que nos permite falar em Estado Corporativo. Segundo. O demiurgo do Estado Corporativo no
Brasil foi Oliveira Vianna. Vargas enquadra-se, então, como um gestor da “máquina pensada por
Vianna”. (In: VIEIRA, Evaldo. Autoritarismo e corporativismo no Brasil: Oliveira Vianna e
Companhia. São Paulo: Cortez, 1981.).
307
VIEIRA, Evaldo. Ob. Cit., 1983.

190
Mas foi mesmo a dubiedade de Vargas no plano interno (a associação do paternalismo
estatal com a repressão) e externo (a demonstração de simpatia pelo fascismo italiano sem
ruptura com a política e o governo norte-americanos) que levariam os militares a derrubar, em
1945, ano que coincide com o fim da II Guerra Mundial, a ditadura varguista308.
Nesse interregno, Dutra vence as eleições de dezembro de 1945 e fica até a volta de
Getúlio, pelo voto, em 1951.
Ao voltar à Presidência pelo voto, Vargas encontra um País diferente daquele que
deixara em 1945. O intervencionismo estatal no campo econômico-financeiro deveria ser
redimensionado e isso já era por ele anunciado desde a campanha. O controle da inflação, o
desequilíbrio no balanço de pagamentos, que impedia o aumento da capacidade de importação,
a redução dos investimentos em infraestrutura, dentre outras situações da ocasião, legitimaram o
nacionalismo econômico que já implementara antes e que agora deveria ser revisitado.

Por tudo isso, o governo getulista precisou intervir vigorosamente no domínio


econômico, apresentando em 1951 o Plano Nacional de Reaparelhamento Econômico
– Plano Lafer, cujos recursos procederiam do Fundo de Reaparelhamento Econômico,
que seria dirigido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE),
criado em 1952 (...) O plano propunha investimentos em indústrias básicas, nos
setores de transporte, de energia, de frigoríficos e na agricultura, durante cinco anos
(Vieira, Ibid., p. 32)309.

Isso não significou, porém, um abandono, por Vargas, da iniciativa privada. Utilizando
de sua capacidade de conciliação já exaustivamente comprovada, o estatismo varguista
incomodava em níveis toleráveis a classe proprietária brasileira, afinal, tanto em seus discursos
quanto nos conteúdos do próprio plano ficavam evidentes os ganhos tanto para industriais

308
No campo marxista, prevalecem as teses que identificam Vargas como “bonapartista”, em detrimento
das perspectivas que o enquadram como uma variação do fascismo. Ruy Mauro Marini, em A dialética do
Desenvolvimento Capitalista no Brasil (In: SADER, Emir (Org.). Dialética da dependência. Uma
antologia da obra de Ruy Mauro Marini. Petrópolis: Vozes/ Laboratório de Políticas Públicas (LPP),
2000), esclarece essa definição. Associa-se, à leitura de Marini, os escritos de Trotsky sobre
“bonapartismo” nos trabalhos de Ianni e Weffort sobre o “populismo”. (In: DEMIER, Felipe. Trotsky e
os estudos sobre o populismo brasileiro in outubro. São Paulo, 2005. p. 59-78 e ____. Do movimento
operário para a universidade: Trotsky e os estudos sobre o populismo brasileiro. Dissertação
(Mestrado)- PPGH/UFF. Mimeografado). Nesses textos, além de elucidações sobre o Vargas
“bonapartista” também fica claro o significado do “populismo” que é atribuído ao seu governo.
309
Neste momento em que uma das estratégias do desenvolvimentismo tradicional consiste em criar e/ou
fomentar órgãos estatais que funcionem tanto como agentes indutores das atividades produtivas e
financeiras, preconizadas pelo projeto de desenvolvimento, quanto como empresas estatais com
capacidade de produção e concorrência maior do que as das empresas atomizadas no âmbito privado.
Deste modo, Vieira (1983) nos lembra da criação do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), da
Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), do Banco Nacional do
Desenvolvimento Econômico (BNDE), da Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras), do Plano Nacional de
Eletrificação e Centrais Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobras), dentre outras empresas menores.

191
quanto para agricultores. A defesa era, sobretudo, para uma maior produção de bens, de modo a
diversificá-la cada vez mais reduzindo a importação de produtos aqui fabricados.
O protecionismo também foi praticado, nessa fase, sob a justificativa de que a indústria
brasileira ainda não possuía condições de competir em pé de igualdade com as estrangeiras.
Quando isso acontecesse, o Estado retiraria gradativamente seu intervencionismo. Esse
protecionismo veio associado ao incentivo à produção de matérias-primas necessárias à
alimentação da indústria de bens de consumo.
A marca social de Vargas permanece também nessa segunda fase, contudo, desta vez,
parece centrar esforços naquilo que de fato surtirá efeitos mais imediatos no plano de
desenvolvimento econômico. O ensino técnico-profissionalizante cresce; o incentivo à
contratação de mão de obra mais qualificada também cresce; os setores de serviços e de
assistência técnica são também incentivados; tudo isso é pensado para também interferir nos
níveis inflacionários e na redução do custo de vida, sendo, este último, um problema
recalcitrante nos discursos de Vargas. Só o salário-mínimo, a invenção de que mais se
orgulhara, aumenta quatro vezes, sob sua gestão, o que não reduz a pressão inflacionária,
embora compense as perdas parciais no poder aquisitivo da população pobre. Essa contradição
leva o governo a formular um programa de combate à inflação, o Plano Aranha:

Já havia, sem dúvida, desde 1952, severa condenação à elevação dos preços das
mercadorias no primeiro ano do governo de Getúlio. Dizia-se que, para enfrentar o
aumento nos preços, “apenas aumentou o salario mínimo, que só atinge a parte muito
pequena da população”. Subira no Rio de Janeiro, por exemplo, o preço de inúmeros
produtos (...) Também ficaram mais caros os alugueis de casa, bem como as
passagens de bondes, de ônibus e de trens. Um exame do primeiro ano do governo de
Vargas indicava como único possível êxito o “recuo das emissões”. Colocando em
dúvida até mesmo esse resultado, ressaltava que as reservas cambiais quase chegaram
ao fim, enquanto se registrava um déficit de três bilhões de cruzeiros na balança
comercial, sem formar-se estoques importantes em gêneros de primeira necessidade
(...) (Vieira, Ibid., p. 35-36)310.

A formulação de planos emergenciais parece ser não só uma forma predominante de


resposta governamental aos problemas do desenvolvimento socioeconômico no Brasil como,
por aqui, se institui como um pilar dos nossos ciclos desenvolvimentistas, pois é o que se nota
de Vargas a Dilma311. No caso da alteração de rota provocada pelo abandono do Plano Lafer e a
adoção do Plano Aranha — analogamente à substituição de um ministro da Fazenda por outro,
Horácio Lafer por Oswaldo Aranha — fica evidente a ausência de um projeto maior e
consistente de desenvolvimento que pressuporia um modelo de Estado e dele o modo como este

310
VIEIRA, Evaldo. Ob. Cit., 1983.
311
Ou, pelo menos, o que estamos tentando evidenciar nesta tese.

192
Estado estabeleceria suas relações com a sociedade no seu conjunto. Por isso, o Plano Aranha é
duramente criticado pelas oposições, sobretudo por não responder a medidas consideradas
necessárias pela ortodoxia econômica como a restrição de crédito e nova sistemática de controle
cambial.
Vargas insiste no seu nacionalismo econômico, alegando que todas suas medidas
visavam a conquista da autonomia econômica e financeira do Brasil, desagradando sempre os
investidores estrangeiros aqui instalados; mas como suas provocações nacionalistas não
extrapolavam o âmbito do discurso, a política econômica de relações internacionais seguia seu
curso. Na prática, o que se fazia era sempre o acolhimento do privado e estrangeiro como
necessário ao desenvolvimento do público e nacional:

A emancipação econômica seria obra do trabalho e de capitais brasileiros, ao menos


no principio com a ajuda do capital estrangeiro. Pelo fato de os investimentos
externos figurarem como apoio, seria impossível admitir, segundo Vargas,
compromissos nacionais indevidamente contraídos, bem como transferência para fora
do país de lucros oriundos de capitais nacionais. Getúlio entendia a emancipação
econômica como um perene processo de desenvolvimento, e sua noção de
industrialização abrangia o desenvolvimento econômico. Portanto, realizar o
desenvolvimento econômico suscitava o desígnio de emancipação econômica do
Brasil, além de significar predominantemente industrializa-lo. A trajetória ideológica
de Getúlio mostrava então que a industrialização conduziria diretamente ao
surgimento de um capitalismo nacional 312 , com a consequente emancipação
econômica da nação (VIEIRA, Ibid., p. 38).

A conjuntura desse segundo governo Vargas não é a mesma do Estado Novo, e nem
poderia sê-la. Portanto, a manutenção de sua ideologia nacionalista se restringe àquilo que é
fundamental ao fortalecimento da indústria, entendido por Vargas como o meio mais eficaz de
se alcançar a tal autonomia, afinal, a liberal-democracia em vigor parecia não abrir espaço para
um Estado autocrático burguês como fora o Estado Novo.
No plano internacional, um conjunto de dificuldades coloca-se no caminho de Vargas,
em especial no âmbito das relações com os Estados Unidos. Embora os investimentos norte-
americanos no Brasil não tenham diminuído, entre 1950 e 1954, o aumento de remessas para o
estrangeiro decorrentes dos lucros de seus investimentos por aqui aumentavam a níveis
insuportáveis. A exportação do café não estanca seus níveis de queda e o combate à inflação se
torna mais difícil. Tudo isso com rebatimento direto nas condições de vida da população
brasileira, dificultando a manutenção da euforia nacionalista.

312
Grifo nosso.

193
Mas é preciso ressaltar que a inviabilidade deste nacionalismo, e do próprio governo
getulista em continuar, não se explica apenas pelas dificuldades oriundas da crise
econômica interna e pelos embaraços nascidos do investimento estrangeiro. Explica-
se, sobretudo através da enorme capacidade de pressão sobre o poder instituído,
atingida pelos grupos mais conservadores da sociedade brasileira, frontalmente
contrários ao nacionalismo econômico e à participação das massas populares no jogo
político, mesmo segundo o estilo getulista. Se bem que por pouco tempo naquela
época, a mobilização política em benefício do nacionalismo de Vargas sofreu o
impacto da agitação do radicalismo conservador (VIEIRA, Ibid., p. 41).

O conservadorismo reinante na época de que estamos tratando apresenta resquícios


fortes tanto de um legado colonialista (e coronelista, por assim dizer) quanto traços dominantes
de perspectivas fascistas. Portanto, não é difícil perceber porque as mudanças provocadas por
Getúlio, sobretudo, no campo social-trabalhista, mas também de modo claro na estrutura
jurídico-política do Estado, incomodavam tanto a esses setores. A ideia de progresso social,
sempre presente nos discursos de Vargas, remetia diretamente à noção funcionalista de paz ou
harmonia social e que pressupõe, para sua realização, um pacto relativamente estável entre
classes e frações de classes sociais. O modelo desenvolvimentista do segundo Getúlio, deste
modo, aprofunda essa concertação da relação entre o Estado e as classes, promovendo uma
relativa ascensão das classes populares no jogo político, tanto pela sua importância como base
de sustentação da estrutura produtiva necessária ao desenvolvimento pelo trabalho, quanto pelo
discurso e incorporação das suas necessidades de reprodução social no âmbito do Estado com
inflexões no mundo do trabalho privado313.
O suicídio de Vargas, em 1954, põe fim ao nacionalismo peculiar que inaugura314, mas
não ao nacionalismo em geral, pois as bases de um desenvolvimentismo brasileiro já estão
dadas e não serão desperdiçadas por Juscelino Kubistchek em seu Plano de Metas para o
desenvolvimento e a tentativa de consolidação de um capitalismo brasileiro de tipo moderno.

2.1.2.4 O Plano de Metas de Juscelino Kubistchek

O vultoso desenvolvimentismo de Juscelino é, sem dúvida, o que mais se destaca


quando o assunto é o desenvolvimento do capitalismo brasileiro. E não se dá por um possível
ineditismo nas suas ações, mas sim pelo fato de que as condições históricas em que assume o

313
Essas lições varguistas serão utilizadas no projeto de desenvolvimento que se impõe ao Brasil a partir
de 2003, particularmente em sua primeira fase, ainda que o Presidente Lula, seu principal articulador,
negasse qualquer influência varguista em sua política básica, como veremos mais adiante.
314
Outras expressões nacionalistas são percebidas em João Goulart ou em Jânio Quadros, por exemplo,
contudo, a menção que fazemos a Vargas se deve à natureza tipicamente desenvolvimentista das medidas
que tomou em seus governos.

194
governo brasileiro estão pautadas em um legado que lhe permite avançar nas estratégias de
desenvolvimento.
Ou seja, a implantação da indústria de base em Vargas, por exemplo, é uma das
condições que o favorecem. Contudo, a incisividade das medidas de seu governo puderam levar
a cabo duas ordens de implicações decorrentes da atuação do Estado como agente indutor do
desenvolvimento capitalista: a renovação das formas de acumulação de capital e o
reordenamento funcional do mundo do trabalho motivado pelos incrementos à produção. A
combinação desses aspectos estruturais da ordem posta na conjuntura dos anos 1950-1960 teve
como amálgama o desenvolvimento industrial que, segundo Ianni (1989), se transformou “na
problemática maior, para todas as classes sociais”315.
Juscelino, desde os discursos que fazia antes de se tornar Presidente da República
enaltece a importância do planejamento estatal. Algumas atividades do Estado, segundo Ianni,
são suficientes para revelar a importância que ele adquiriu “na formulação das possibilidades
reais de transformação e expansão das forças produtivas” orientadas para o desenvolvimento
planificado:

O Plano Salte, o Programa de Metas, o Plano Trienal, a Petrobras, o Banco do


Nordeste, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e, ainda, a
Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, todos são criados a partir de
1948. E todas as transformações mais notáveis da economia brasileira desde então
estão relacionadas com o funcionamento destes órgãos governamentais, criados
especialmente para estimular o crescimento e a diversificação do sistema produtivo
nacional (IANNI, 1989, p. 19-20)316.

Pelas épocas, observa-se que esses órgãos não são criação do governo juscelinista.
Antes, já fazem parte do projeto de desenvolvimento varguista, assumem vigor no governo Café
Filho, que antecede o de JK, mas é apenas com a planificação do desenvolvimento, aplicada
neste último, que suas funções como agentes concertadores do capital desenvolvimentista
(público e privado) se tornam efusivamente evidentes.
Em JK, pouco se observa das tendências desenvolvimentistas que animavam o debate
sobre o desenvolvimento brasileiro da República a Vargas. A preponderância da
industrialização como mola propulsora do desenvolvimento subsume todas as demais correntes
ao industrialismo, sem prejuízo da permanência de algumas características fundantes do

315
Segundo Ianni (1989, p. 19), a centralidade da indústria no padrão de desenvolvimento proposto por
JK transforma-se em problemática para todas as classes sociais “pelo que envolve na repartição da renda,
nas relações das forças políticas, na supremacia das forças econômicas internas ou externas, na liderança
política da nação, os caminhos e o futuro da industrialização tornaram-se a área privilegiada dos debates e
choques entre as classes sociais, ou os seus grupos com interesses divergentes”.
316
IANNI, Octávio. Estado e capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

195
positivismo e do papelismo, mas isso não se dá apenas pelo tipo de inclinação política de JK317.
Essa condução encontra legitimidade e justificativa tanto num cenário internacional propenso à
aliança tática e estratégica entre Brasil e Estados Unidos quanto à difusão ideológica da
industrialização, como passaporte único ao desenvolvimento e à contemporaneidade.
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), ainda que mantivesse certa
autonomia ante o governo, funciona como importante centro propagador da ideologia
desenvolvimentista-industrialista de JK.

Um e outro [governo e Iseb] diluíam as diferenças de classe em nome das


necessidades do País. Ambos restringiam à mera industrialização e ao intenso
aumento de produtividade a concepção de desenvolvimento. Ambos queriam dizer
que o desenvolvimento apenas deveria ocorrer dentro do domínio da lei, com patrões
e empregados resolvendo pacificamente seus litígios, através de instituições criadas
para esta finalidade. Tratavam, enfim, de uma ideologia da ordem, destinada a inspirar
a industrialização do Brasil. De sua parte, Juscelino, procurava empreender seu
projeto industrialista, orientado para diversas regiões do território brasileiro, até
mesmo para aquelas que dispunham de condições mais difíceis para isto. De acordo
com ele, a industrialização envolvia crescente elevação de produtividade (VIEIRA,
Ibid., p. 88)318.

317
Alguns autores chegam, inclusive, a afirmar que, em JK, o nacionalismo característico de Vargas se
transforma em nacional-desenvolvimentismo, cuja diferença fundamental do segundo para o primeiro é
que este não só aceita, mas considera fundamental um arranjo quase simbiótico entre o Estado, a empresa
privada nacional e o capital estrangeiro, mesmo em áreas consideradas estratégicas para a “soberania” de
um país, como a infraestrutura básica e a indústria de base. Isso fica evidente em JK, quando se verifica a
injeção de capitais estrangeiros para o desenvolvimento de seu projeto de revitalização da indústria
automobilística, na área dos transportes aéreos, estradas de ferro, eletricidade e aço. Já o nacionalismo,
cuja maior expressão se dá no processo de substituição de importações, embora admita a presença e
participação do capital estrangeiro, impõe a ele muitos condicionantes. Além disso, sustenta a intervenção
e o controle estatal nas áreas estratégicas, como infraestrutura, transporte, telecomunicações, energia, etc.,
sempre em nome da autonomia do país como elemento indispensável ao corolário da busca pelo
desenvolvimento. A obra de Celso Furtado, produzida entre 1953-1955, é emblemática ao demonstrar as
características fundantes do nacional-desenvolvimentismo. Nesse sentido, consultar: OLIVEIRA,
Francisco de. Viagem ao olho do furacão: Celso Furtado e o desafio do pensamento autoritário brasileiro.
In: A navegação venturosa: ensaios sobre Celso Furtado. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, ou
BIELCHEWSKY, Ricardo. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimento.
Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.
318
Vieira ainda assevera que “(...) o pensamento desenvolvimentista revestia-se dos critérios de
veracidade e de objetividade, assumindo ao mesmo tempo o caráter de práxis. A nível lógico, partia-se do
pressuposto de que, na efetivação do desenvolvimento brasileiro, a aliança de classes aconteceria política
e ideologicamente. Garantida, portanto, a nível lógico, a paz social, representada pela ausência de luta de
classes e de perigosa luta ideológica, bastava somente vislumbrar o significado da prática respectiva.
Assim, a nível histórico, concedia-se ao desenvolvimento a força capaz de incentivar e de provocar a
industrialização. Entendendo-se a ideologia do desenvolvimento como dominante no País, entendia-se
simultaneamente que os interesses básicos das massas populares já estavam representadas nela, pondo-se
de lado a possibilidade de estas massas terem um projeto próprio para satisfazer suas carências. Por
conseguinte, a aliança de classes, o desaparecimento de graves antagonismos ideológicos e a firme crença
no desenvolvimento conduziriam tranquilamente à industrialização no Brasil”. (In: VIEIRA, Evaldo.
Estado e miséria no Brasil: de Getúlio a Geisel. São Paulo: Cortez, 1983).

196
Mas, para isso, se fez necessária a retomada de algumas medidas de contenção
inflacionária, pois sem elas não seria possível nem aumentar a produtividade e nem abrir as
“portas do País ao capital estrangeiro”.

O programa anti-inflacionário somava-se à decisão de abrir a economia brasileira ao


capital estrangeiro, permitindo-lhe, sobretudo incentivos especiais. (...) O chamado
incentivo especial aos investidores externos aí queria dizer, antes de tudo, a concessão
às empresas estrangeiras da faculdade de importar sem cobertura cambial. Mas em
momentos distintos, outorgou-se ao capital externo outros tantos privilégios, como,
por exemplo, o deslocamento das exportações para o mercado livre, a diminuição de
câmbio para as remessas de lucros e as facilidades dadas às empresas estrangeiras
pelas instituições de crédito (VIEIRA, ibid., p. 83)319.

Prova disso é que a eleição de JK à Presidência da República foi saudada com vigor
pelo governo norte-americano, que via em sua recorrente apologia à planificação da Economia
brasileira num sentido liberal oportunidades tanto para a ampliação de mercado consumidor
como para a instituição de vantagens fiscais e tributárias na importação de commodities. O
desenvolvimento planificado de JK tem no Programa de Metas sua maior expressão. Ao final de
sua execução, o programa deveria ter dotado o País de uma infra e superestrutura industrial
capaz de modificar sua conjuntura econômica:

O Programa de Metas do Presidente Juscelino Kubitschek combinava recursos


públicos e privados na realização de seus projetos, os quais deveriam concretizar-se
em épocas distintas, uns ainda dentro de seu governo e outros a 5 a 10 anos mais
tarde. Tal Programa continha 30 setores tidos como prioritários, para onde se
concentrariam maciços investimentos. Os 30 setores estavam distribuídos da seguinte
forma: 5 metas para a energia, 7 metas para transportes, 6 metas para alimentação e 12
metas para indústria de base. Procurando atingir estas metas, por meio da execução de
obras e através da ampliação ou do estabelecimento de indústrias e de serviços
essenciais, Kubitschek visava acima de tudo a promover o “equilibrado
desenvolvimento econômico do País”. (VIEIRA, ibid., p. 85)320.

A racionalidade imposta à gestão pública no governo de JK suplantou o debate político,


colocando em seu lugar o burocratismo e o tecnicismo. Reduzindo todo um complexo processo
de desenvolvimento à industrialização, a única preocupação social no planejamento estatal era
com uma residual qualificação de trabalhadores para atuar na indústria, o que foi chamado de
infraestrutura educacional. A política social, em JK, não apresenta nem mesmo autonomia
relativa à política econômica. Sociabilidade e acesso à satisfação de necessidades de

319
VIEIRA, Evaldo. Ob. Cit., 1983.
320
Id., ibid.

197
sobrevivência, por mais fundamentais que fossem, eram decorrência pura e simples do
desenvolvimento industrial e econômico pautados pelo aumento da produtividade. Os
investimentos que se fizeram no campo da habitação popular, da previdência social, da saúde e
da educação voltavam-se para os objetivos claros da manutenção e reposição da força de
trabalho, portanto, com foco nos trabalhadores produtivos e suas famílias.
Essa menção se faz importante, pois a marginalidade da política social em JK é um
traço que o distingue tanto de seus antecessores, como Vargas, e também de seus sucessores,
como os presidentes militares, ainda que estes últimos concebessem a política social como
elemento estratégico para o doutrinamento que incutiram na população, ela se fez presente por
melhorias sentidas, sobretudo, na estrutura da educação básica e fundamental (controlada) e da
saúde.
Mesmo com esse cenário, é difícil não compreender a lógica do desenvolvimento
juscelinista considerando os resultados do Programa de Metas

Entre 1955 e 1961, o valor da produção industrial, descontada a inflação, cresceu em


80%, com altas porcentagens nas indústrias do aço (100%), mecânicas (125%), de
eletricidade e comunicações (380%) e de material de transporte (600%). De 1957 a
1961, o PIB cresceu a uma taxa anual de 7%, correspondendo a uma taxa per capita,
ou seja, por habitante, de quase 4%. Se considerarmos toda a década de 50, o
crescimento do PIB brasileiro per capita foi aproximadamente três vezes maior que o
do resto da América Latina. (FAUSTO, 2003, p. 427)321.

As possibilidades da mobilidade social foram alimentadas pelo acesso ao consumo de


bens antes acessíveis apenas aos estratos mais ricos da sociedade. Assim como a casa própria
representou o sonho dos norte-americanos no american way life, o automóvel simbolizava o
sonho brasileiro. JK cria, neste sentido, o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia)
para incentivar a produção de automóveis no Brasil. O boom da indústria de automóvel amplia,
sobretudo, no ABC paulista o operariado industrial, acelerando a urbanização, como também
difunde o mito do transporte particular em detrimento dos investimentos em transporte coletivo
para as massas. Ainda assim, o trabalho nessas indústrias representava, para a população,
oportunidade de sobreviver em melhores condições de bem-estar.
Merece destaque ainda o ousado projeto de transferência da capital do País do Rio de
Janeiro para o Planalto Central. A construção de Brasília – inaugurada em 21 de abril de 1960 –
foi alvo de inúmeras controvérsias, mas todas elas secundarizadas pela euforia com que o
projeto foi tratado pelo governo. Desse modo, o sonho de uma nova vida transportou milhares
de trabalhadores de várias regiões do País, sobretudo do Nordeste, para participar da
empreitada.

321
FAUSTO, Boris. Ob. Cit., 2003.

198
É importante salientar que a programática de desenvolvimento construída em JK com
base na concertação entre o capital nacional e o estrangeiro coincide com a jovialidade do
Fundo Monetário Internacional (FMI). Isto é, o FMI foi criado em 1946, como uma agência da
Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de promover a cooperação monetária
internacional, entre outros objetivos. As relações amistosas entre o Brasil e os Estados Unidos,
na primeira fase do governo JK, favoreceram os créditos concedidos ao País pela intermediação
desse Fundo.
Contudo, os gastos governamentais com a construção de Brasília e com a sustentação do
Programa de Metas redundaram em déficits no orçamento público exponencialmente crescentes.
Associa-se a isso a não contenção da inflação e a redução da capacidade arrecadatória do Estado
devido aos incentivos dados às empresas estrangeiras, tem-se como resultado o desequilíbrio do
balanço de pagamentos e o aumento da dívida pública e da dependência do Estado.
Juscelino procede alterações em sua equipe econômica e tenta colocar em prática um
novo plano de estabilização. O plano propunha seguir com restrições a ortodoxia econômica do
FMI, que é assim resumida por Fausto (2003, p. 434):

(...) visa obter o equilíbrio das contas externas (...) estimulando as exportações através
da liberalização do câmbio. Para isso propõe, de início uma desvalorização cambial e
o abandono do controle cambial pelo governo através de taxas de câmbio
diferenciadas – os chamados câmbios múltiplos. Ao mesmo tempo, trata-se de pôr fim
ao déficit público através do corte de gastos e/ou aumento da receita do Estado 322.

Essas medidas redundam diretamente em recessão e desemprego, além de não se ter a


garantia de que lograrão êxito mesmo no longo prazo, pois um conjunto de fatores relacionados
à economia mundial se atrelam a elas como intervenientes consideráveis. Assim, um impasse
entre o Brasil e o FMI arrasta-se durante quase todo o ano de 1958 e início de 1959, quando,
em junho deste ano, JK resolve romper com o FMI abandonando a fase final do plano de
estabilização e pondo fim ao ciclo de crescimento que iniciara.
Essa ruptura, dentre outros aspectos que não nos compete arrolar, sugeriam uma
aproximação tanto de JK quanto de sua base aliada ao PTB e aos comunistas, gerando uma
instabilidade política que só teria fim com o golpe civil-militar de maio de 1964.

2.1.2.5 O desenvolvimentismo autocrático burguês

Os governos militares, de Castelo Branco (1964-1967) a João Figueiredo (1979-1985),


beneficiam-se do espólio desenvolvimentista de JK, ainda que na história econômica do país o

322
Id., ibid.

199
período autocrático burguês goze de significativa independência analítica ante os demais
períodos.
As medidas econômicas, com a mão pesada do governo Castelo Branco, já não estavam
de modo linear ligadas a um projeto deliberado de desenvolvimento, embora seja inconveniente
desatrelá-las disso. Antes, buscavam retomar a estabilidade combatendo a inflação, mas,
sobretudo, intencionam controlar o caos econômico deixado por Goulart como forma de
suprimir a ameaça comunista. Nesse sentido, o governo revoga a lei de remessa de lucros
(proposta por João Goulart), beneficiando o capital estrangeiro investido no Brasil; estabelece o
controle sobre os salários; institui a correção monetária, operação destinada a atualizar o poder
aquisitivo da moeda, segundo índices determinados pelo governo; cria o Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço (FGTS), em substituição ao antigo sistema de estabilidade e de indenização
dos trabalhadores demitidos; funda o Banco Nacional de Habitação (BNH) que, obtendo
recursos do FGTS, deve financiar a construção de casas populares; e cria o Instituto Brasileiro
de Reforma Agrária e o Estatuto da Terra.
Essas medidas convergem, no âmbito do Programa de Ação Econômica do Governo
Castelo Branco (Paeg), para a busca e ampliação do apoio social à administração castelista e
propõe até mesmo o diálogo com todas as camadas populares (VIEIRA, 1983, p. 203) 323 .
Curiosamente, o Plano alcança propostas de reforma agrária. O Paeg cumpre seus objetivos. A
combinação do corte de despesas e aumento da arrecadação reduz o déficit público anual de
4,2% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1963, para 3,2%, em 1964, e 1,6%, em 1965. A forte
inflação de 1964 tende a ceder gradativamente, e o PIB volta a crescer, a partir de 1966
(FAUSTO, 2003).
Essas medidas logram êxito tanto pelo modo autoritário como são praticadas, ou seja, os
sacrifícios sociais da classe trabalhadora não puderam ser contestados ao mesmo tempo em que
a Aliança para o Progresso, do Presidente norte-americano Kennedy, liberou o FMI para ajudar
o Brasil em seus intentos (idem).
Estavam dadas as condições para acontecer o Milagre Brasileiro. O extraordinário
desenvolvimento da economia, no período Médici (1969-1973), pode receber tal acunha, pois
conseguiu combinar o crescimento econômico com taxas baixas de inflação. Delfim Neto, então
ministro da Fazendo, toma a frente do I Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) (1972 –
1974) aproveitando a conjuntura internacional favorável. Nova abertura liberalizante se
processa e inúmeras empresas multinacionais se instalam no País.
Como os governos anteriores, o Plano também abrange investimentos em infraestrutura,
como usinas hidrelétricas e a expansão da Petrobras, Vale do Rio Doce e Telebrás. O
crescimento do PIB e a ascensão de uma nova classe média justificavam a euforia do momento.

323
Id., ibid.

200
O “milagre” concentra-se, sobretudo, no aumento das exportações agrícolas; a expansão da
indústria e incentivos ao desenvolvimento regional da Amazônia e do Centro-Oeste, contudo,
não previram estratégias distributivistas. Delfim Neto alegava que não se podia colocar a
distribuição na frente da produção sob pena de distribuir o que ainda não existe, tornando
célebre a sua afirmação: “é necessário fazer o bolo crescer para depois distribui-lo”.
O milagre não se sustenta por muito tempo, pois a agudização dos níveis de
dependência da economia brasileira a torna vulnerável às variações do câmbio. Com a crise do
petróleo, de 1973, a moeda brasileira não só se desvaloriza em relação ao dólar como também
faz aumentar nosso endividamento externo. Celso Furtado, em O Brasil Pós-Milagre (São
Paulo: Paz e Terra, 1981), anuncia: “Em síntese, nesse período, não obstante um considerável
aumento do produto interno, não se assinala, na economia brasileira, nenhum ganho de
autonomia na capacidade de autotransformação, nem tampouco qualquer reforço da aptidão da
sociedade para autofinanciar o desenvolvimento”.
O declínio do surto desenvolvimentista também se reflete na vida política do País
acirrando o conflito de classes, levando o Presidente Médici a anunciar uma abertura “gradual e
segura” do regime. O último presidente militar, João Figueiredo (1979-1985), encarrega-se da
transição.
O fato é que o desenvolvimento ocorrido no período autocrático burguês é apontado por
vários autores, dentre muitos aqui já citados, como o período que chama a atenção do
capitalismo mundial para o Brasil e o coloca como possível potência econômica no continente
num futuro de longo prazo. Todavia, essa expectativa se confinava muito mais ao campo das
justificativas ideopolíticas para as experimentações macroeconômicas que por aqui se fizeram
do que necessariamente uma aposta real. O ufanismo da ditadura expresso no “ame-o ou deixe-
o” incute em muitos corações e mentes que o Brasil seria o país do futuro. Esse caminho
pareceu pavimentar o que Marini, em adaptação da tese trotskista para América Latina,
denomina de desenvolvimento desigual e combinado324. Em síntese:

324
Consultar: MARINI, Rui Mauro. América latina: dependência e integração. São Paulo: Página
Aberta, 1992 e ______. Dialéctica de la dependencia. México: Ediciones Era, 1973.

201
A ampliação do capitalismo no Brasil representa aqui o cerne do desenvolvimento. E
o Movimento de 1964 abriu totalmente este processo aos monopólios internacionais.
Isto quer dizer que as carências do mercado interno se colocaram em segundo plano,
preponderando os interesses do mercado externo. Rompia-se assim a tentativa de
combinar a ideologia nacionalista com o capitalismo internacional. E, se a
internacionalização da economia brasileira trouxe benefícios, até para certos grupos
sociais durante algum tempo, há indícios seguros de que relegou e explorou a grande
massa popular. O tal de desenvolvimento interdependente serviu sobretudo à
burguesia do monopólio, aliás nem sempre fiel a seus protetores (VIEIRA, 1983, p.
211)325.

2.1.3 Um interlúdio para a redemocratização: protoformas do ajuste neoliberal

O fim da ditadura civil-militar no Brasil se deve, sobretudo, a uma espécie de consenso


entre as frações da classe dominante pelo retorno à democracia, em que pese toda a mobilização
e lutas travadas por amplos setores da sociedade. Seu legado ainda se faz presente tanto nas
estruturas institucionais do Estado quando na difusão dos valores e modos que determinam a
sociabilidade burguesa brasileira. Ainda assim, consideramos os anos 1980 como época fecunda
em experimentalismos macroeconômicos e também de uma reversão cultural explícita que vem
influenciando as relações sociais até os dias atuais, mesmo que a Cepal classifique a década
como “perdida”.
Recebe o legado de sua década sucedânea e registra a intensificação da migração rural-
urbana; a diversificação das atividades econômicas produtivas; um modesto, porém
contundente, incremento nas atividades de gestão do mercado financeiro; novas oportunidades
de trabalho nos setores secundário e terciário; e acentuação no trabalho feminino326.
O início dos anos 80, se não assiste a um crescimento expressivo da economia, registra um
crescimento vertiginoso da população. Segundo censo de 1980, do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira cresceu de 93,13 milhões, em 1970, para
119 milhões. As atividades industriais intensificaram-se e, em 1980 o PIB brasileiro foi de 163
bilhões de dólares. O Brasil figurava como a 12a economia do mundo.
Os dados da época (fim dos anos 70 e início dos 80) apontam para uma eufórica arrancada
do crescimento econômico, com o aumento das exportações, gerando superávits na balança
comercial, além da cobertura dos serviços da dívida pelos influxos do capital estrangeiro.
Contudo, a lógica do “produtivismo” dos anos 70 implicava a criação de condições necessárias

325
VIEIRA, Evaldo. Ob. Cit., 1983.
326
Segundo Montali, em 1960, as mulheres representavam 17% da População Economicamente Ativa
(PEA), proporção que passou a 20,9%, em 1970; a 27,4%, em 1980; e a 35%, em 1985. A proporção de
mulheres na PEA urbana cresceu de 33,6%, em 1981, para 37,8%, em 1990, e sua taxa de atividade saltou
de 33,7%, em 1981, para 40,1%, em 1990 (In: MONTALI, Lilia. Família e trabalho na conjuntura
recessiva: crise econômica e mudança na divisão sexual do trabalho. Tese (Doutorado)- Universidade de
São Paulo (USP), São Paulo, 1995. p.23.

202
para o investimento (subordinadamente externo) acumulando capital que, em tese, deveria
significar investimentos em solo nacional.
Com isso, tem-se a conivência em estrangular a vida econômica presente (e de várias
gerações) para lograr um futuro de desenvolvimento sustentado. Essa ideia defendida por
personalidades como Mário Henrique Simonsen e Delfim Neto, durante todo o período militar,
entraria em derrocada327 na crise de 1981-1983, pois o aumento exponencial da concentração de
renda, incidindo diretamente no aumento da desigualdade e da pobreza, não permitia a
sustentação de tal tese.

Tabela 2 - PEA versus PNB/ano – Brasil – 1976 a 1978


População economicamente ativa Quota do PNB por ano
50% mais pobres 17,71% | 14,91% | 11,6%
30% imediatamente acima 27,92% | 22,85% | 21,2%
15% da camada média 26,60% | 27,38% | 28,0%
5% mais ricos 27,69% | 34,86% | 39,0%
Fonte: Revista Isto É, 9 de agosto de 1979. (1976, 1977, 1978).

Com a explicitação evidente da contradição mais elementar do capitalismo: o aumento


exponencial da riqueza em consonância com a expropriação do trabalho, não foi possível, aos
governos em exercício, manter o controle das massas. Assim, sãoexpressivas as votações nos
candidatos da oposição, nas eleições de 1974, 1978 e 1982, e as mobilizações em prol dos
sindicatos, associações de professores e estudantes, o posicionamento da Igreja através de seus
setores progressistas, e as constantes greves de operários.
Mesmo na conjuntura economicamente favorável do período posterior (1984-1986), a
contradição fundamental de sustentabilidade do capital via mercado permanece. Ou seja, a
população economicamente ativa aumenta 328 , assim como a participação das mulheres no
mercado de trabalho salta de 33,1%, em 1984, para 35,1%, em 1988, também a taxa de
desocupação quase se equipara à dos homens, 4,1% contra 4,3%, mas os salários baixos e a
dupla jornada permanecem.
Esse período é caracterizado, por muitos estudiosos, como o início concreto da
redemocratização.

2.1.3.1 O Plano Cruzado (1986)

Em 1984, a campanha pelas Diretas Já é organizada por um comitê supra-partidário e


pressiona o Congresso a colocar em votação a emenda proposta pelo deputado federal, pelo

327
Derrocada que ocorre com a crise econômica seguinte, mas a concepção enquanto pilar da economia
burguesa permaneceria viva como elemento fundante da ideologia liberal renovada nos anos 90.
328
A taxa de atividade da PEA de 1981 salta de 53,4 para 56,1, em 1985 (IBGE, 1987).

203
PMDB-MT, Dante de Oliveira. A emenda obtém 298 votos a favor e 65 contra. Há ainda três
abstenções e 113 ausências. É importante lembrar que as ausências e os votos contrários eram
todos do PDS, partido liderado até hoje pelo então deputado paulista Paulo Salim Maluf, porém,
atualmente sob a sigla PP (Partido Progressista). Derrotada, a emenda não consegue os 2/3 de
votos necessários para sua aprovação, fazendo permanecer ainda as eleições indiretas.
Na iminência da sucessão presidencial, Paulo Maluf polariza com Tancredo Neves as
candidaturas. Maluf, notadamente candidato do sistema, e Tancredo acaba por se configurar
como candidato da oposição, ainda que com um leque ambíguo de alianças. O período fica
conhecido como Nova República. A eleição indireta para presidente acontece em 15 de janeiro
de 1985 e indica a vitória de Tancredo Neves. O acontecimento é marcado como um fato
importante da história do País, sendo televisionado e acompanhado pelo povo com forte
interesse. Eram recorrentes as promessas dos políticos da oposição, agora vitoriosa, de que esta
seria a última eleição indireta.
Os desafios do novo presidente, além de (re)instaurar a democracia no País, eram
muitos e de naturezas diferenciadas. De um lado, as aspirações populares pelo retorno à
democracia incluíam o desejo da melhoria das condições de vida, o aumento do nível de
emprego e melhores salários, o controle da inflação e da crise recessiva; por outro lado, o novo
governo deveria se preocupar com os desmandos dos organismos internacionais, principalmente
o FMI, com as renegociações da dívida externa e a revisão das relações exteriores do País com o
resto do mundo.
O apelo clássico para adesão às propostas reformistas é enfatizado pelo discurso dos
novos donos do poder: Um novo pacto social precisa ser feito para livrar o País das estruturas e
das práticas autoritárias de outrora. Evidencia-se novamente a utilização do “social” como
estratégia para ocasionar mudanças sem subverter a ordem. As mudanças devem ocorrer sem
perturbar a paz social. Ocorre que o presidente eleito nem chega a tomar posse. Tancredo Neves
morre em 21 de abril de 1985. A comoção que se instala no País personifica a figura do
Presidente no já conhecido messianismo político, ao mesmo tempo em que exige,
principalmente das esquerdas, mobilizações no sentido de inserir cada vez mais mecanismos de
participação democrática e popular na vida do País.
O vice-presidente José Sarney assume a Presidência sem ao menos desfrutar da frágil
estabilidade econômica do período iniciado, pois a necessidade de um reordenamento
institucional no País abala os ânimos tanto do mercado financeiro, quanto do setor produtivo,
acarretando recordes nos níveis inflacionários e desaceleração das atividades produtivas. O
número de falências e concordatas sobe para a casa dos 8%. A gravidade da situação econômica
do País desencadeia um amplo movimento de reivindicações e protestos, abalando a esperança
na Nova República.

204
Com isso, em 28 de fevereiro de 1986, por meio do Decreto-Lei 2.283, o governo do
Presidente José Sarney cria um plano de estabilização econômica, chamado Plano Cruzado.
Criado em 1986, implementava as seguintes medidas: a desvalorização da moeda nacional em
três algarismos e a substituição do Cruzeiro; a moeda nacional passa a se chamar Cruzado,
sendo que cada um Cruzado corresponde a um mil cruzeiros; o congelamento dos preços
fixados em 28 de fevereiro de 1986, com vigência de um ano; o congelamento dos salários, pela
média dos últimos seis meses, além de um abono de 8% a todas as categorias como forma de
reposição salarial; a transferência para o setor privado de inúmeras empresas estatais; o corte de
20% nos investimentos do governo e, ao mesmo tempo, a definição das áreas sociais como de
investimento prioritário.
A ideia é reestabelecer o crescimento econômico do País, combater a inflação e distribuir
melhor a renda. De imediato, o apoio popular é percebido. A medida de congelar os preços
estipulados em tabela a partir do governo agrada às famílias pobres, em especial, pois a
instabilidade do período anterior não lhes dava condições sequer de planejar minimamente o
orçamento doméstico. Assim, a palavra fiscal era utilizada como sinônimo de direito. As
pessoas fiscalizavam de fato os comerciantes que desrespeitavam as regras estabelecidas.
Evidente que numa democracia burguesa, isto é, numa sociedade de classes, os interesses
logo começam a entrar em disputa. A desaceleração no âmbito produtivo, principalmente no
setor alimentício, leva, ao mesmo tempo em que trouxe de volta à mesa do trabalhador,
produtos como carne, leite e queijo, ao aparecimento de novos produtos, ou melhor, produtos
maquiados. Os produtores, para não reduzir sua margem de lucros, lançam novos produtos no
mercado que substituem os antigos e carecem, portanto, de novos preços. A Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) pressiona o governo a descongelar gradativamente os
preços. Instaura-se uma velada crise política e o governo, após as eleições de novembro do
mesmo ano, lança o Plano Cruzado II, que radicaliza o primeiro. Promove uma série de aumento
de preços, faz a inflação [controlada artificialmente] voltar, o que esfacela a economia popular.
O controle artificial da inflação e as medidas decretadas pelo Plano Cruzado garantem um
“novo, porém breve, suspiro” de Estado Social para a sociedade brasileira sem, contudo,
provocar qualquer mudança estrutural que significasse reversão da ordem burguesa. O governo
se sente à vontade para promover alterações no plano econômico por decretos-lei. Assim, o
Plano Cruzado II, torna-se um dos mais duros pacotes econômicos já lançados no País.
Estabelece aumentos de preços deteriorando a economia popular. Em 20 de janeiro de 1987, o
governo suspende o pagamento dos juros da dívida externa, declarando moratória.

205
2.1.3.2 O Plano Bresser (1987)

A popularidade do Presidente entra em declínio e com isso reformas ministeriais são feitas.
Em abril de 1987, Dílson Funaro é substituído por Luís Carlos Bresser Pereira e em junho do
mesmo ano anuncia-se o Plano Bresser, com as seguintes medidas: congelamento dos preços
por dois meses, elevação de tarifas e impostos, extinção do gatilho salarial329, eliminação dos
subsídios do trigo e adiamento das obras de grande porte, como a Ferrovia Norte-Sul e o polo
petroquímico do Rio de Janeiro.
No plano da política externa, retomam-se as negociações com o FMI, suspendendo a
moratória. Medidas insuficientes que não impediram que a inflação atingisse, em 1987, a
extraordinária meta de 366%.

2.1.3.3 O Plano Verão (1989)

Em 1989, tem-se novo ministro da Fazenda. Maílson da Nóbrega, seguindo a tradição de


seus antecessores, anuncia o Plano Verão e muda novamente a moeda. Lança o Cruzado Novo
(agora com três zeros a menos) e mais arrocho salarial.
Em nome do desenvolvimento (agora social e não apenas econômico) 330 prosseguem as
medidas de abertura da economia para o mercado externo acompanhadas de privatização de
empresas estatais e cortes nos gastos públicos.
Uma das medidas mais drásticas e polêmicas do Plano Verão foi a continuidade das
modificações ocorridas já no plano Bresser relativas à substituição do índice de correção das
cadernetas de poupança. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) passa a ser esse indicador, o
que no final resulta em perdas materiais do rendimento das cadernetas.

2.1.3.4 Os Planos Collor I e II (1990 – 1991)

Essa, sem dúvida, foi a conjuntura dos planos desastrosos. A Nova República pode ser
entendida como um período de investidas “amadoras” na regulação macroeconômica da
sociedade brasileira. Não que seus mantenedores fossem amadores, mas não se verificava a
existência de um projeto de desenvolvimento nacional que desse conta de compatibilizar
interesses das diversas frações da classe dominante sustentado em uma cooptação da classe
trabalhadora como se fizera no Brasil de outros tempos.

329
Relativo ao aumento automático dos salários sempre que a inflação atingisse a casa dos 20%.
330
O slogan do governo Sarney, “tudo pelo social”, foi amplamente divulgado pelo governo e pelos
meios de comunicação.

206
Nem aqui, nem nos demais países da América Latina registravam-se as condições históricas
adequadas para sua inserção no mundo “democrático” em vésperas de globalizar-se, afinal, o
seu tradicional modelo de desenvolvimento desigual e combinado, não conferia a autonomia
mínima necessária para tal empreitada. Prova disso é que de Sarney a Lula, o número de
Medidas Provisórias (MPs) e decretos-lei do Executivo tem batido recordes históricos. Ou seja,
nossa classe política, com suas constantes investidas na pactuação consensuada do poder,
governa à revelia das instituições da democracia representativa, essencialmente da mesma forma
que os Atos Institucionais da época militar.
Incapaz de propor alterações substanciosas, o governo Sarney transfere para seu sucessor a
responsabilidade de amainar a crise. Crise que seria enfrentada à luz de um novo aparato legal: a
Constituição Federal de 1988.
Importante inovação estabelecida pela Constituição de 1988, segundo Fausto (2002), é a
eleição em dois turnos para os cargos majoritários. A ideia é que o candidato eleito tenha
sempre a maioria absoluta dos votos. A eleição de 1989 traz um cenário político plural inédito
na história do País. Foram 22 candidatos, ficando o total de votos assim contabilizado, no
primeiro turno, em percentuais: Collor: 25,11; Lula: 14,16; Brizola: 13,60; Covas: 9,49; Maluf:
7,30; Afif: 3,98; Ulysses: 3,90; Freire: 0,93; Aureliano: 0,73; Caiado: 0,59; Camargo: 0,46;
Enéas: 0,44; Marronzinho: 0,29; PG: 0,24; Zamir: 0,23; Lívia: 0,22; Eudes: 0,19; Gabeira: 0,15;
Brant: 0,13; Pedreira: 0,10; Horta: 0,10; Brancos: 1,43; Nulos: 4,24; Abstenções: 11,93 (TSE).
O Presidente eleito toma posse em 15 de março de 1990, no Congresso Nacional, diante das
câmeras de TV que transmitiram o evento para todo o País e com a presença de vários chefes de
Estado. No dia seguinte, em cerimônias também transmitidas pelas TVs, Fernando Collor baixa
um pacote de medidas econômicas, financeiras e administrativas composto por 23 MPs, ao qual
o governo chamou de Plano Brasil Novo, o qual, de imediato, fica mais conhecido como Plano
Collor ou Plano Cruzeiro. Seus objetivos declarados foram o combate à inflação, o
“enxugamento” da máquina do Estado e a eliminação do déficit público como condições para a
retomada do crescimento da economia.
Os eixos básicos do Plano Collor foram os seguintes: a reforma monetária, com a
substituição do Cruzado Novo pelo Cruzeiro, sem alteração do valor; a retenção por 18 meses
(na prática, confisco) das contas, em Cruzados Novos, das pessoas físicas e jurídicas nos valores
acima de NCz$ 50 mil. Até esse valor, as contas foram convertidas em cruzeiros. Para as
contas-correntes e as cadernetas de poupança e até NCz$ 25 mil , ou 20%, para as contas de
over e fundos de curto prazo; o congelamento parcial e controlado dos preços, que deveriam ser
praticados nos níveis em que estavam no dia 12 de março (antes houve um aumento
considerável nos preços); o fechamento de estatais, como início de um processo de
privatizações; nova abertura para o capital estrangeiro; eliminação de entraves para a
importação de bens de consumo; a contenção, visando a eliminação do déficit público,

207
suprimindo-se despesas governamentais e colocando-se à venda imóveis e veículos até então
usados por funcionários e repartições federais.
Vale ressaltar que o Plano Collor não contemplou a questão da dívida externa, deixando
para negociá-la depois de obter os resultados internos, esperados com a aplicação das medidas
econômicas. O Plano Collor recebeu maciço apoio da população.
No início, apesar da confusão que se instaura na vida econômica do País, três ordens de
questões afloraram: a necessidade de ações anti-inflacionárias, a forma autoritária de sua
proposição e execução (MPs usadas como se fossem decretos-lei) e a inconstitucionalidade de
determinadas medidas propostas.
Alguns analistas na época afirmavam que o Plano Collor, de um lado, lesivo aos interesses
do País, sobretudo dos trabalhadores, aumentando o desemprego, por causar recessão e, além
disso, a privatização e a abertura econômica, aumentaria a dependência estrangeira. Do mesmo
modo, amplia as margens do patrimonialismo, ao não promover uma reforma institucional. Na
esfera política, as relações entre o Executivo e o Legislativo não eram das melhores. O
excessivo número de MPs não disfarçava o autoritarismo desse governo.
As condições em que o governo Collor recebe o País atestavam um momento grave de crise,
porém, com possibilidades concretas de reversão desse quadro, por meio de alterações
estruturais internas, mas que certamente, iriam em direção contrária aos interesses
conservadores no Congresso e no próprio Executivo.
Os vários planos econômicos citados até agora demonstraram um efeito muito superficial
sobre o poder aquisitivo real oriundo dos rendimentos do trabalho. Salvo os momentos
imediatos de sua implantação, nos demais, não apresentaram mudanças permanentes na relação
entre a distribuição da renda e a capacidade do consumo. Ademais, deixaram como sequela
perverso agravamento na concentração da renda.

Tabela 3 - Apropriação da riqueza – Brasil, 1981, 1990, 1999


Data Parcela Parcela Parcela Parcela
apropriada por apropriada por apropriada por apropriada por
1% dos mais 10% dos mais 20% dos mais 50% dos mais
ricos ricos pobres pobres
1981 12,71 46,72 2,62 13,03
1990 13,80 49,05 2,11 11,35
1999 13,31 47,45 2,34 12,55
Fonte: IPEA. Ipeadata: base de dados macroeconômicos. Disponível em: <www.ipeadata.gov.br>.

O Plano Collor é, sem dúvida, responsável por uma das medidas mais traumáticas para a
população brasileira, em termos de arranjo macroeconômico. A intenção de bloquear cerca de
US$ 85 bilhões (2/3 da moeda em circulação) deu-se com a intervenção do governo nas
transações bancárias. Securato (2000) lembra que tanto poupadores quanto os correntistas foram
autorizados a retirar dos bancos, no máximo, Cr$ 50 mil. Com relação aos depósitos em contas

208
remuneradas de curto prazo, permitia-se o saque de 20% sobre o total depositado, desde que não
ultrapassasse Cr$ 25 mil.

O dinheiro que havia sido bloqueado foi totalmente recolhido pelo Banco Central,
com a promessa de ser devolvido depois de 18 meses, em 12 parcelas mensais. Nesse
entretempo, o Cruzado sequestrado pelo governo ficaria rendendo juros e correção
monetária. Embora, teoricamente, afirmassem que ninguém sairia perdendo, na
prática, todos foram prejudicados por essas medidas, já que o governo ignorou a
inflação de fevereiro daquele ano. Apesar do choque, a inflação que tinha baixado,
voltou a aumentar em dezembro de 1990, chegando ao patamar de 18,3%. Por conta
disso, em fevereiro de 1991, foi posto em prática o Plano Collor II, com congelamento
de preços e salários e prefixação dos juros. Do mesmo modo que o primeiro, o Plano
Collor II também se mostrou ineficaz. (SECURATO, 2007, p. 256)331.

2.1.3.5 O Plano Real (1994)

O autoritarismo de Collor, sobretudo em sua relação com o Legislativo, o fracasso de


suas medidas econômicas e sua incapacidade de coordenar e/ou acomodar os diversos interesses
do bloco no poder o levaram ao impeachment, em setembro de 1992. Seu vice, Itamar Franco,
assume a Presidência332.
Seguindo a tradição de seus antecessores, Itamar Franco assume o governo e, após
sucessivas trocas de ministros, anuncia um novo plano de estabilização econômica, sob o
comando do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Nasceria aí o Plano Real.
A euforia em torno do nome de Fernando Henrique Cardoso lembra em muito a euforia
no início do governo Sarney. Desta vez, porém, dotada de um refinamento teórico-
metodológico, típico da intelligentsia que se constituiu no interior das lutas pela democracia e
conquistou notoriedade internacional, tentando explicar o fenômeno do subdesenvolvimento nos
países da periferia capitalista em fins dos anos 60.
O Plano Real lançado em julho de 1994, quando FHC ainda era ministro do governo
Itamar Franco, busca os mesmos macro-objetivos dos anteriores, com estratégias semelhantes,
como a contenção dos gastos públicos, privatização das estatais, controle da demanda por meio
da elevação dos juros, e pressão sobre os preços pela facilitação das importações.
A diferença é que não congelou os preços e nem salários, além disso, a transição para a
desvalorização da moeda foi gradativa, com a adoção provisória das Unidades Reais de Valor

331
SECURATO, José Cláudio. Economia: História, conceitos e atualidades. São Paulo: Sain Paul
Editora, 2007.
332
Discordamos das análises que atribuem a deposição do presidente Collor apenas às manifestações
populares que expressaram a insatisfação do povo com seu governo. Entendemos que tais manifestações,
embora fundamentais no processo, não podem ser analisadas de modo isolado do movimento e das
tensões que se estabeleceram entre as frações da classe dominante. (Consultar: CARVALHO, Rodrigo. A
era Collor: da eleição ao impeachment. São Paulo: Perseu Abramo, 2012).

209
(URVs), que propunham o acompanhamento equiparado da moeda nacional ao dólar norte-
americano. A medida agradou os altos estratos da sociedade brasileira, mas também à classe
trabalhadora, que via seu poder aquisitivo crescer em conformidade com o aumento dos preços,
uma vez que o padrão de sociabilidade burguesa se parametriza crescentemente pelo consumo.
Essa seria a primeira medida para a criação da ilusão da estabilidade, base do governo e
instrumento de coerção ideopolítica que garantiria a eleição de Cardoso para a Presidência, em
sucessão a Itamar Franco, em janeiro de 1995, e sua reeleição no primeiro turno, em 1998.
O principal argumento utilizado na campanha à Presidência da República para a
sucessão de Itamar Franco era que somente o pai do Real teria condições de dar continuidade
ao processo em curso, colocando o País de fato no caminho do desenvolvimento sustentável.
Processo, esse, ameaçado pelos ataques especulativos culminantes em crises financeiras
internacionais de grande expressão (México, Rússia, Tóquio e mais tarde Argentina).
Outro argumento utilizado e que mais tarde passaria do campo ideológico e teórico ao
campo político-operacional, viria a ser a necessidade latente de funcionalizar o aparelho do
Estado brasileiro, falido e ineficiente, por meio de ampla reforma, nos moldes daquelas
realizadas por Thatcher, na Inglaterra, e Reagan, nos Estados Unidos. As teses de sustentação do
Welfare State, que já não serviam mais como paradigmas aos países de capitalismo central,
também não serviriam, de acordo com essa lógica, ao Brasil, que sequer chegou a ter um Estado
de Bem-Estar.
O cenário posto permite a retomada do debate sobre o planejamento estatal para o
desenvolvimento, esquecido nos governos anteriores por causa da urgência das experimentações
de planos econômicos inconsequentes.
Não se tratava da agenda de um desenvolvimento nos moldes do desenvolvimentismo
clássico e nem das proposituras ditas neodesenvolvimentistas que se fazem por agora (governos
Lula e Dilma). O projeto político-econômico tinha como cerne a contrarreforma do Estado em
sintonia com as propostas de difusão do neoliberalismo pactuadas no Consenso de Washington.
O primeiro governo de FHC persegue insistentemente as metas de estabilização pela via
do controle inflacionário, sem se preocupar com os custos sociais desse processo. Isso não
significa o esquecimento da área social, ao contrário, esta também foi contemplada com um
arranjo político-ideológico-doutrinário à altura da intelectualidade da então primeira-dama,
senhora Ruth Cardoso.
A área social, na contrarreforma, desloca-se do campo da responsabilidade estatal para o
campo do solidarismo privado. Com isso, a sociedade passa a se ocupar do enfrentamento das
mazelas da “questão social”, liberando o governo para cuidar da vida econômica do País.
O controle inflacionário privilegia a acomodação da poupança externa – compatível
com o perfil pessoal internacionalista de FHC – com juros altos e câmbio controlado. Tornaram-
se assim [juros altos e controle artificial do câmbio] sinônimos de desemprego, recessão,

210
arrocho salarial e arrocho do crédito interno. Tanto que, em 1994, o Presidente Cardoso assume
o País com uma dívida pública que beira a casa dos R$ 60 bilhões e, oito anos mais tarde,
entrega o País ao Presidente Lula com uma dívida de R$ 623 bilhões.
Nos anos 90, destacam-se ainda o legado do extraordinário desenvolvimento das forças
produtivas sentido a partir dos 1980, que redunda, de um lado, em amplos processos de
reestruturação produtiva e, por outro, em novos padrões de sociabilidade capitalista com base na
desterritorialização crescente do capital e no desperdício catastrófico, como classifica Mészáros
(2002). Ou seja, o câmbio nas relações de trabalho – agora internacionalizadas – não significa
transferência de tecnologia entre países ricos e pobres, mas sim a consolidação do imperialismo
dos primeiros sobre os segundos, fazendo com que os procedimentos de ajuste neoliberal
figurem como remédios para as nações em crise ou em desenvolvimento com vistas a alcançar
as promessas da mundialização.

211
Capítulo III

CONTINUIDADE E RUPTURA: NOVO-DESENVOLVIMENTISMO


OU NEOLIBERALISMO À BRASILEIRA?

A história do intervencionismo estatal não é nem uma história homogênea


nas diversas formações sociais, nem uma história linear de um Estado
acumulando e adjudicando, progressivamente, tais ou quais atividades ou
domínios econômicos intrínsecos: é uma história de desenvolvimento
desigual segundo as diversas formações, com avanços e recuos.
Nicos Poulantzas

Até aqui, temos visto como a tematização da problemática teórico-prática do Estado


tem se revestido de controvérsias, caminhos e descaminhos, desde suas formas mais primitivas,
de proto-Estado, até seus moldes atuais. O fato é que sua forma hegemônica contemporânea
provinda do advento da razão moderna adquire a particularidade histórica de se dissociar de um
regime político que possa acolher em seu interior aspirações éticas, políticas, ideológicas,
culturais, econômicas, dentre outras, que nada mais são do que as representações materiais e
simbólicas dos interesses das classes que se condensam no Estado como decorrência da luta que
empreendem no campo da produção e reprodução social333.
Assim, o Estado burguês, ao acomodar os interesses da classe dominante e suas frações
em seu interior, sob o amalgama do pensamento liberal, legitima a democracia, que assume sua
forma, portanto democracia liberal, como seu revestimento político mais adequado. E isso se
deve a um fato muito simples: a sustentabilidade desse tipo de Estado que, por consequência, é
a sustentabilidade do próprio capitalismo e não pode prescindir da radicalização do trabalho

333
Para Poulantzas (2000, p. 147), as lutas populares estão inscritas na materialidade institucional do
Estado, mas não se esgotam aí. Refere: “As lutas políticas desencadeadas sobre o Estado não estão, tanto
quanto qualquer luta frente aos aparelhos de poder, em posição de exterioridade frente ao Estado, mas
derivam de sua configuração estratégica: o Estado, como é o caso de todo dispositivo de poder, é a
condensação material de uma relação”. O autor é bastante racional, ao considerar a assimetria dessa
relação quando informa que “a existência das classes populares não se materializa no seio do Estado da
mesma maneira que as classes e frações dominantes, mas de maneira específica” (p.145). Explica: “As
classes e frações dominantes se constituem no Estado mediante aparelhos ou setores que, certamente sob
a unidade do poder do Estado da fração hegemônica, não deixam de cristalizar um poder próprio dessas
classes e frações. Não é mediante aparelhos que concentram um poder próprio das classes dominadas que
elas se constituem no Estado mas, no essencial, sob a forma de focos de oposição ao poder das classes
dominantes. Seria falso — deslize com consequências políticas graves — concluir que a presença das
classes populares no Estado significariam que elas aí detenham poder, ou que possam a longo prazo deter,
sem transformação radical deste Estado” (p. 145). Retomaremos esta assertiva no Capítulo 4, quando
tratarmos do modo como o Serviço Social incorporou, ao longo de sua história, os postulados da
democracia liberal em suas expressões “participativas” e “representativas”, como forma de participar da
luta das classes subalternas por melhores condições de vida.

212
livre, pois nele reside a chave primeira de todo o processo do desenvolvimento capitalista e da
acumulação que lhe é inerente.
Desta forma, a democracia burguesa tem disseminado, ao longo de sua história, seus
postulados, quase que como em profissão de fé, mundo afora, afirmando que essa formação
social, que combina capitalismo e democracia, é o estágio civilizatório mais elevado que a
espécie humana pode alcançar (PAULA, 2012)334.
Como não poderia deixar de ser, considerando as contradições imanentes desse modo
de produção e sua formação social correspondente, os postulados liberais servem à acumulação,
mas também possibilitam relativa mobilidade social que, nos seus limites, não impede que a
classe-que-vive-do-trabalho335, possa organizar-se em torno de uma luta por melhores condições
de vida e, nesse processo, constatar-se a aquisição de uma consciência de classe mesmo
relativa.336
No Brasil, uma sacralização da democracia liberal está sendo sentida desde o fim do
último período autocrático burguês (1964-1985) até os dias de hoje. Por aqui, se propala seu
triunfo atestado pela estabilidade das instituições jurídico-políticas de nosso Estado com
eleições diretas nos três níveis de governo; o exemplo mais acabado; e, mais recentemente
corroborada pela “estabilidade econômica” do Plano Real, seguido de políticas chamadas de
novas e desenvolvimentistas.
Caminhando para muito além dos componentes políticos e ideológicos desse processo,
o projeto de nossa democracia liberal é amparado pelos estatutos normativos dispostos na
Constituição Federal de 1988, alcunhada de Constituição Cidadã, justamente por apresentar as
diretrizes que nortiam a construção do sujeito-cidadão brasileiro. Lá, consagra-se o direito à
vida, mas também à propriedade, o direito do Estado exercer seu poder coercitivo, por ser
regulatório, mas também o direito à participação dos cidadãos na agenda pública. Só para
nominar dois exemplos simples de como o pensamento burguês controla, sob a aparência da
liberdade, as nossas relações sociais.
Nessa mesma contradição, acompanhando o processo de redemocratização de vários
Estados nacionais, sobretudo na América Latina, o Brasil vê reconfigurar-se na cena pública
sujeitos históricos outrora suplantados pela truculência da ditadura, no sentido de não apenas

334
PAULA, Renato Francisco dos Santos. O instituído e o instituinte do controle social da assistência
social no Brasil pós-Suas. XIII ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM SERVIÇO
SOCIAL – ENPESS. Anais. Juiz de Fora/MG, novembro de 2012. (ISBN 978-85-89252-11-9).
335
Termo alcunhado por Ricardo Antunes. (In: ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre
as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 8. ed., São Paulo: Cortez, Campinas: Unicamp,
2002).
336
Evidente que o processo de consciência de classe não ocorre assim de modo simples e linear, como
pode sugerir uma leitura primeira de nosso texto. Como não é possível aprofundar esse processo aqui,
interessa-nos apenas demonstrar que ele faz parte das contradições dadas pela realidade mesma da ordem
do capital e seus padrões de sociabilidade. Nos itens 4.2.1 e 4.2.2 esse processo é mais bem esclarecido.
Também a obra História e Consciência de Classe, de Georg Lukács, é elucidativa, nesse sentido.

213
imprimir mais diretrizes democráticas ao arcabouço legislativo como também implantá-las
idealmente337.
Reconstroem-se, na euforia da redemocratização, os conceitos de participação e de
sociedade civil. Conceitos estes muito caros tanto para a esquerda reformista quanto para a
esquerda anticapitalista, pois neles, por exemplo, se busca sentido às estratégias e táticas
pertinentes ao advento tanto da social-democracia quanto da Revolução Comunista, por etapas
ou por ruptura radical. Basta observar os embates teóricos da II Internacional, ou proceder a
uma análise sobre a instituição dos sovietes, na URSS; das comunas populares, na China; ou das
comunas socialistas, na atual Venezuela. Isto é, não se pode ignorar a importância dessas
categorias para a teoria e a prática da reforma (real e substantiva) ou da transição comunista.
Numa sociedade de transição, possibilidades civilizatórias emanam do interior de suas
contradições quando as oposições ao sistema dominante imprimem parte de seus interesses
imediatos como condição de luta.

(...) neste tipo de sociedade [a sociedade de transição] os direitos humanos estipulam


o padrão que no interesse da igualdade verdadeira, o direito ao invés de ser igual, teria
de ser desigual, de modo a discriminar positivamente em favor dos indivíduos
necessitados, no sentido de compensar as contradições e desigualdades herdadas.
(MÉSZÁROS, 1993, 217)338.

Porém, a discriminação positiva como parte do complexo mediativo e intermediário à


transição socialista não é algo dado à realidade factual. Nem no Oriente e nem no Ocidente. O
conceito de sociedade civil e com ele o de participação — que em Gramsci (ou mesmo
Poulantzas) adquirem inteligibilidade a partir da luta de classes — foram sobremaneira
vulgarizados visto que são empregados tanto pela “esquerda histórica quanto pelas novas
esquerdas, tanto pelo centro liberal quanto pela direita fascista” (NOGUEIRA, 2001, p. 216)339,
o que torna a luta por direitos humanos cada vez mais cindida e desprovida do caráter de classe:

337
In: SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
338
MÉSZÁROS, István. Filosofia, ideologia e ciência social. Ensaios de negação e afirmação. São
Paulo: Ensaio, 1993.
339
NOGUEIRA, Marco Aurélio. As três ideias de sociedade civil, o estado e a politização. In:
COUTINHO, Carlos Nelson; TEIXEIRA, Andréa de Paula Teixeira. Ler Gramsci, entender a
realidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

214
Fala-se em sociedade civil para pensar a oposição ao sistema capitalista e para delinear estratégias
de convivência com o mercado, para propor programas democráticos radicais e para legitimar
propostas de reforma gerencial no campo das políticas públicas. Busca-se apoio na ideia de
sociedade civil tanto para projetar um Estado efetivamente democrático quanto para se atacar todo
e qualquer Estado. É em nome da sociedade civil que muitas pessoas questionam o excessivo
poder governamental ou as interferências e regulamentações feitas pelo aparelho de Estado. É em
seu nome que se combate a globalização neoliberal e se busca delinear uma estratégia em favor de
uma outra globalização, mas é também com base nela que se faz o elogio da atual fase histórica e
se minimizam os efeitos das políticas neoliberais. Muitos governos falam de sociedade civil para
legitimar propostas de reforma e ajuste, tanto quanto para praticar as mesmas políticas de sempre
com uma retórica levemente modernizada, do mesmo modo que outros tantos governos
progressistas buscam sintonizar suas decisões com as expectativas da sociedade civil. Em suma, o
apelo a esta figura conceitual serve tanto para imaginar a autonomia dos cidadãos, quanto para
viabilizar programas de ajuste fiscal e desestatização, nos quais se convoca a sociedade civil para
compartilhar encargos até então eminentemente estatais (id., ibid., p. 216).

Portanto, esse campo essencial dos nossos exames, contudo impreciso, busca
acomodação na América Latina justamente numa conjuntura em que se busca afirmar a
democracia sem que tenhamos vivido experiências democráticas sólidas que nos conduzissem
para um tipo de democracia que pudesse pautar uma real sociedade de transição. Se
acrescentarmos a isso a jovialidade dos próprios países latino-americanos, como Estados-
nacionais veremos o modo particular como o desenvolvimento capitalista se deu por aqui num
mix longevo de trânsito entre continuidades a esse próprio desenvolvimento e rupturas
peculiares que ilustram as excepcionalidades desse subcontinente ante os padrões de
desenvolvimento do capitalismo global (ALMEIDA, 2012)340.
O autor alega que “no Brasil, as continuidades predominaram amplamente sobre as
rupturas, o que marcou o ritmo e as formas de organização e luta em processos que, por muito
tempo, representaram acúmulo de forças, mas que, na sequência, perderam empuxe e passaram
por mudanças qualitativas, terminando por se integrar à ordem” (id., p. 702).
E é justamente sobre esse processo integrador ou transformista 341 que repousa uma
profusão de teses e reflexões que têm animado a produção acadêmica da última década
promovendo o retorno da academia ao debate sobre o desenvolvimento capitalista e suas
manifestações conjunturais concretas, como o processo que tem sido chamado de

340
ALMEIDA, Lúcio Flávio Rodrigues de. Entre o nacional e o neonacional-desenvolvimentismo: poder
político e classes sociais no Brasil contemporâneo. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 112, edição
especial. São Paulo: Cortez, out./dez. 2012.
341
O “transformismo” é categoria gramsciana que, segundo Coutinho (1999) “significa um método para
implementar um programa limitado de reformas, mediante a cooptação pelo bloco no poder de membros
da oposição”. A categoria “transformismo” está diretamente vinculada às de “revolução-passiva” ou
“revolução-restauração”. (Ver: COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento
político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999 ou consultar o próprio Gramsci, em Cadernos do
Cárcere, v. 3).

215
neodesenvolvimentismo, tratado, nesta tese, como um momento de síntese da acumulação
capitalista em sua fase financista.
Por ser o momento atual o mais longo período de democracia ininterrupta no País — 27
anos, desde 1985 — a acomodação de interesses dominantes na ossatura do Estado e nas
instituições desse regime democrático condicionaram não apenas a retração das pautas
contestatórias da classe trabalhadora como também possibilitaram metamorfoses regressivas e
veladas, mas nem sempre, nos estatutos civilizadores das relações sociais, como o pluralismo,
os direitos humanos, etc., como já dissemos.
Pela exploração bibliográfica das produções que tiveram como foco o desenvolvimento
capitalista brasileiro recente, algumas no campo da tradição marxista, notamos que o período
que coincide com a gestão federal do Presidente Cardoso (1995-2002) é repleto de análises que
caminharam mais coesas na crítica ao corolário neoliberal e contrarreformista que se estabelece
na época, já, de certo modo, com ataques pontuais as imperfeições do modelo institucional
democrático estabelecido342.
Na conjuntura referida, as promessas de uma reforma gerencial no Estado brasileiro
incluíam a reparação das fragilidades institucionais e também, como que por encanto, uma
ressignificação qualitativa da sociedade civil que, muito mais ativa e politizada se auto-
organizaria em torno da gestão do bem-estar coletivo343.
O projeto, tal qual fora concebido, não teve tempo suficiente para se realizar. Os dois
mandatos do Presidente Cardoso contaram com uma oposição crescente, e, que, aos poucos
aprendeu a se utilizar do deslocamento das atividades estatais para a “sociedade civil
organizada” para fortalecer a criação de sujeitos coletivos contra-hegemônicos, o que
contribuiu, em parte, para desacelerar o ritmo da ofensiva neoliberal.
Mas, talvez, esse tenha sido o motivo mais periférico para a não conclusão das
contrarreformas. O percurso traçado pelo governo não foi — e não seria por mágica — capaz de
prever os humores da economia mundial, sendo então acometido de quatro grandes crises
externas: a crise do México, em 1995; a crise asiática, em 1997-1998; a crise russa, em 1998-
1999; a crise interna Argentina; as inflexões econômicas decorrentes dos atentados em solo
norte-americano, no dia 11 de setembro de 2001; além das turbulências causadas na economia
mundial por dinâmicas especulativo-fraudulentas de grande monta, como o caso Parmalat ou a
falsificação de balanços da Enron/Arthur Andersen344.

342
Um bom exemplo disso são os artigos referidos à análise de conjuntura submetidos à Revista Serviço
Social e Sociedade, n. 50 ao n. 72.
343
Esse deslocamento se deu, sobretudo, na área social, cuja maior expressão foi o movimento
denominado por Yazbek de refilantropização. (Ver YAZBEK, Maria Carmelita. A política social
brasileira dos anos 90: a refilantropização da “questão social”. Cadernos Abong, n. 3, São Paulo: Abong,
1995).
344
Ambos os casos referem-se à gestão fraudulenta especulativa de empresas multinacionais, cujos
desdobramentos resultaram em concordatas e falências impactando em todo mercado financeiro mundial.

216
Outro aspecto é que, internamente, a decisão de abandonar o câmbio fixo pelo câmbio
flutuante leva a uma desvalorização do Real, em 1999, fazendo o governo reforçar a austeridade
de sua política econômica. Ademais, a prioridade concebida pelo governo ao grande capital
financeiro internacional, no processo de liberalização, paralisa pelas membranas (e não em seus
núcleos) as dinâmicas expansivas da burguesia interna (BOITO Jr., 2005)345, empurrando-a para
a promoção de reordenamentos nucleares que, embora silenciosos, também acumularam capital.
Descobriram a dança das recomposições acionárias e o milagre dos fundos de pensão
(OLIVEIRA, 2009; LAZZARINI, 2011) 346 , permitindo, assim, a manutenção da coesão da
classe proprietária nacional mesmo subordinada à internacionalização da economia347.
Mesmo tendo que “driblar” tais intempéries, o ajuste neoliberal consegue calçar raízes
em solo brasileiro, fixando tanto em nossa institucionalidade quanto em nossa cultura política o
seu corpo essencial348. Isso também contribui para uma relativa convergência no âmbito das
análises críticas sobre a ofensiva neoliberal no período.
A profusão de conteúdos menos coesos e mais difusos sobre o desenvolvimento
capitalista brasileiro em curso se dá a partir do final de 2002, quando se formaliza a tendência
transformista do principal partido das esquerdas, o Partido dos Trabalhadores (PT), sobretudo
por meio de uma carta de sua principal liderança aos brasileiros, e se acentua a partir do
segundo semestre de 2005, quando o governo do Presidente Lula passa por dificuldades
políticas e institucionais que quase o levam ao impeachment, ao mesmo tempo em que as
tendências programáticas neoconservadoras do governo se mostram com mais clareza349.
Os ataques críticos da esquerda antirreformista ao transformismo do PT e do Presidente
Lula ocorrem tardiamente, pois embora uma leva de analistas já tenha demonstrado sua
insatisfação na sequência da divulgação da Carta ao Povo Brasileiro, alguns do próprio PT e que
o abandonam posteriormente, muitos outros adotam a posição de cautela, evitando críticas
precipitadas, ainda que traços de continuidade do governo anterior já se fizessem claros, como
se percebe nestas notas de Behring (2003, p. 102):

345
BOITO JR, Armando. O governo Lula e a reforma do neoliberalismo. Revista Adusp, maio 2005.
346
LAZZARINI, Sérgio. Capitalismo de laços: os donos do Brasil e suas conexões. São Paulo:
Campus/Elsevier, 2011. OLIVEIRA, Francisco de. Crítica da razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2009.
347
A lista poderia prosseguir, citando, por exemplo, os percalços das privatizações, o peso encilhador da
máquina do Estado servindo de entrave para diminuir o ritmo das reformas em seu próprio aparelho,
dentre outros fatores; como, no decorrer do capítulo, isso será tratado com detalhes, por ora, nos basta
fornecer uma imagem apenas panorâmica das implicações conjunturais em tela.
348
É o que também afirma Gonçalves (2012) em Novo Desenvolvimentismo e liberalismo enraizado.
Revista Serviço Social e Sociedade, n. 112.
349
Essas tendências se observam pelo reforço à austeridade fiscal, sobretudo, pela manutenção da política
de juros altos e superavitária. A crise deu-se, dentre outros motivos, por uma sucessão de denúncias da
oposição relacionadas a diversas formas de corrupção dentro do governo. A mais propalada foi a
denúncia de que os parlamentares da base aliada ao governo receberiam recursos “mensais” para votar a
favor de projetos de interesse do governo. O processo ficou conhecido como “mensalão”.

217
Vejamos algumas linhas gerais que delineiam a condição da política social nos
tempos neoliberais, cujos traços gerais permanecem — considerando seu grau de
enraizamento e consolidação estrutural — apesar dos sinais de esgotamento neste
início de milênio (...) Do qual o resultado das recentes eleições presidenciais no Brasil
é muito significativo, ainda que num quadro interno de fortes concessões para as
‘pressões do mercado’ e num contexto de crescimento do belicismo e de
aprofundamento das tendências regressivas da economia mundial. Ainda assim, abre-
se uma nova correlação de forças e o clima geral é de esperança de mudanças
significativas de rota350.

É provável que os traços acadêmico-intelectuais que marcaram o contrarreformismo de


FHC, externalizados pela ampla produção técnica liderada por Bresser Pereira, mas seguido
bem de perto por outros membros do primeiro escalão, como Pedro Malan e José Serra, na área
econômica e o segundo, posteriormente, na Saúde; José Gregori, na Justiça; Adib Jatene, na
Saúde; Paulo Renato de Souza, na Educação; dentre outros, tenha deixado o projeto mais
evidente e, por isso mesmo, mais exposto e acessível a investigações acadêmicas e populares.
O primeiro governo Lula não apresenta o mesmo acabamento. O desenho de Estado
que se queria implementar estava claro nas mentes do Presidente e de seus auxiliares mais
próximos como o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro da Fazenda, Antônio
Palocci, mas não se traduzia, pelo menos de modo claro e explícito como fora a obra de Bresser,
em documentos técnicos-políticos e metodológicos, o que explica em parte a cautela adotada
dos analistas críticos ao governo.
Outra parte da explicação recai sobre o enorme apelo popular que a imagem do
Presidente possui junto à classe subalterna, associada às mudanças que promove na relação
capital-trabalho, dando ao “subproletariado” pela primeira vez na história deste País, condições
(marginais e mais ideais que reais) de se sentir parte do poder político da nação, originando o
que Singer (2012) denominou de lulismo, novamente certificando-se da dinâmica de
continuidade e ruptura

O lulismo existe sob o signo da contradição. Conservação e mudança, reprodução e


superação, decepção e esperança num mesmo movimento. É o caráter ambíguo do
fenômeno que torna difícil sua interpretação351.

O ideal de nação e as estratégias para alcançar tal ideal começam a explicitar-se,


deixando mais claro o que Singer (2012) aponta como ambíguo e difícil, com a queda dos dois
braços direitos do Presidente, justamente José Dirceu e Antônio Palocci. A partir daí, o governo

350
BEHRING, Elaine Rossetti. Contrarreforma do estado, seguridade social e o lugar da filantropia.
Revista Serviço Social e Sociedade, n. 73, ano XXIV, São Paulo: Cortez, mar. 2003.
351
SINGER, André. Os sentidos do lulismo – reforma gradual e pacto conservador. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012.

218
passa a se cercar de outros perfis políticos, voltados agora para as atividades técnicas de sua
administração. Dilma Rousseff assume, no lugar de José Dirceu, a Casa Civil da Presidência da
República e Guido Mantega o Ministério da Fazenda. Em 2007, reestruturações internas em
todo Executivo federal levam o economista Márcio Pochmann à Presidência do Instituto de
Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e Luciano Coutinho à Presidência do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Modifica-se adjetivamente o perfil do
núcleo pensante do governo.
Não estamos afirmando que essas mudanças seriam as motivadoras da emergência do
que o governo passa a denominar por “novo desenvolvimentismo”, pois é possível perceber os
sinais de sua gênese muito antes desses fatos, contudo, seguramente, é possível inferir que a
partir deles é que o projeto novo desenvolvimentista toma forma metodológica acabada,
redundando a partir daí na profusão de análises críticas e/ou conservadoras sobre o fenômeno.
Tal fato se confirma quando defensores desse modelo, como Mercadante Oliva,
afirmam que o projeto petista para o Brasil se construiu na experiência, isto é, no exercício
prático da gestão pública, o que, de certa forma, contradiz toda a história do PT, que sempre
discursara em torno de um projeto alternativo para o País pautado numa reflexão crítica sobre
suas estruturas e seu poder político particular, de modo histórico e não pelo pragmatismo da
prática. A construção do projeto pela prática o eivara de incertezas:

Ainda é difícil prever com exatidão como serão o novo modelo e o mundo que
começa a ser desenhado neste início de milênio. Mas é provável que a exitosa
experiência brasileira recente lance algumas luzes sobre o assunto, antes que passe o
dia das inevitáveis transformações. Usamos o termo “experiência” porque é
exatamente disso que se trata. De fato, esse Novo Desenvolvimentismo que começou
a ser construído no Brasil não surgiu de um grande esforço teórico de reflexão sobre o
desenvolvimento brasileiro e nem de um planejamento estratégico prévio, mas sim da
práxis de um governo popular que procurou, desde o início, reverter os danos
causados ao país pela agenda neoliberal. O Novo Desenvolvimentismo no Brasil é,
assim, uma construção histórica coletiva que está sendo paulatinamente moldada por
novas forças políticas, inéditos cenários internos e externos e demandas sociais
seculares; um complexo processo em andamento que tem, ainda, a distinta marca
pessoal da liderança do presidente Lula. (MERCADANTE OLIVA, 2010, p. 10-
11)352.

352
A base material constitutiva de qualquer projeto político que se leve a cabo deve ser mesmo a
realidade em que se assentam as relações econômico-sociais. Nesse sentido, a afirmação de Mercadante
Oliva plasma-se na contramão de um idealismo que trata a realidade a partir das manifestações abstratas
do pensamento, o que é compatível com a dialética marxiana. Contudo, as implicações negativas da falta
de um projeto político racional e previamente planejado tendem a ser maiores do que as possíveis
intenções positivas contidas na agenda político-pessoal de seus protagonistas. É por isso, inferimos, que
se utiliza o recurso ao personalismo carismático do presidente Lula. Isto é, a incerteza gerada pela
ausência de projeto passa a ser suplantada pelas promessas de uma estabilidade futura afiançada pelo
crédito pessoal do líder político, o que tende a reforçar tanto o patrimonialismo quanto o clientelismo. (In:

219
A partir disso, uma polarização se estabelece em duas correntes que disputam
hegemonia nas fileiras acadêmicas. A “corrente da ordem” passa a ter os órgãos oficiais de
inteligência como o Ipea e o IBGE e alguns núcleos universitários, como o de alguns
economistas da Unicamp e da UFRJ, como centros elaboradores tanto da metodologia quanto
das explicações legitimadoras da “nova ordem”353. Almeida (2012) refere que essas correntes
são:
a que insiste em que [Lula] promoveu uma clara ruptura com a política implementada
por [FHC] e a que, ao contrário, afirma que o principal das políticas de Estado no
período 2003-2010, especialmente as políticas sociais, não somente deu continuidade
e aprofundou o que foi realizado pelo tucanato como também se apoiou em sólidos
fundamentos macroeconômicos estabelecidos nos anos FHC (governo Itamar
inconcluso)354.

Essa polarização é eivada de variações internas, em ambos os polos, que indicam que
esse debate está apenas no início. As variações internas, no âmbito de cada polo, se distinguem
naquilo que dão ênfase, pois no final mais se complementam do que se repelem.
Castelo (2012, p. 629) identifica que as correntes que contribuem para a autojustificação
do status quo governista se subdividem em três tipos:

A primeira pode ser chamada de macroeconomia estruturalista do


desenvolvimentismo. A ideia básica apresentada é a primazia do mercado e seus
mecanismos de produção da riqueza, com uma atuação reguladora do Estado nas
falhas do mercado, especialmente nas políticas cambiais e de juros, com destaque para
a promoção das exportações.355.

Essa corrente, segundo o autor, é inaugural da perspectiva novo desenvolvimentista no


Brasil, pois é marcada pela inflexão que sofre a elaboração de seu principal articulista na
direção do abandono sistemático da defesa das teses neoliberais para a propositura de um
modelo alternativo. Bresser Pereira, líder do contrarreformismo neoliberal no Brasil, durante a
Era FHC, passa, então, a defender um modelo de desenvolvimento nacional capaz de se
contrapor ao neoliberalismo (CASTELO, 2012), o que nos sugere, o caso emblemático de
Bresser Pereira, um transformismo às avessas.

MERCADANTE OLIVA, Aloizio. As bases do novo desenvolvimentismo no Brasil. Análise do


governo Lula (2003-2010). Tese (Doutorado)- Instituto de Economia da Unicamp, dezembro de 2010.)
353
Evidente que há dissonâncias e pluralismo de ideais e posturas nesses espaços, contudo, há uma
manifestação hegemônica que nos permite elaborar tal citação.
354
ALMEIDA, Lúcio Flávio Rodrigues de. Entre o nacional e o neonacional-desenvolvimentismo: poder
político e classes sociais no Brasil contemporâneo. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 112, edição
especial. São Paulo: Cortez, out./dez. 2012.
355
CASTELO, Rodrigo. O novo-desenvolvimentismo e a decadência ideológica do pensamento
econômico brasileiro. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 112, out./dez. 2012.

220
A segunda corrente admite o pressuposto da primeira, que se refere a uma reinvenção
do nacional-desenvolvimentismo — que resultaria em algo bastante distinto do que foi
verdadeiramente o nacional-desenvolvimentismo — mas dá ênfase ao papel regulador do
Estado e à nova concertação entre capital-trabalho, por meio da centralidade conferida às
políticas de promoção de igualdades e oportunidades, bem ao gosto de intelectuais da linhagem
de um Amartya Sen356.

A segunda corrente, chamada de pós-keynesiana, assemelha-se muito à primeira,


sustentando o papel do Estado como redutor das incertezas do ambiente econômico
para favorecer as tomadas de decisão de investimento do setor privado, variável
responsável em larga medida pelo crescimento econômico. Cabe ressaltar que tanto a
primeira quanto a segunda corrente advogam a tese da aliança do Estado com o
mercado (leia-se o empresariado industrial) contra os rentistas, como se essa
contraposição radical entre as frações da burguesia existisse em tempos de acelerada
fusão dos diferentes ramos do capital (agrícola, bancário, comercial, industrial e
rentista). Fala-se novamente em uma coalização nacional entre burguesia industrial
nacional, burocracia estatal, setores médios e trabalhadores, com hegemonia dos
primeiros dois grupos sobre os demais. (CASTELO, 2012, p. 629)357.

Essa corrente tem espaço relativo no Ipea e suas formulações metodológicas podem
ser encontradas no livro organizado por João Sicsú, Luiz Fernando Paula e Michel Renault
intitulado Novo Desenvolvimentismo: Um Projeto Nacional de Crescimento com Equidade
Social (Barueri, Rio de Janeiro: Manole, Fundação Konrad Adenauer, 2005).
A terceira corrente propala a reversão de tendências estruturais do neoliberalismo
puxadas por um reordenamento distributivo. A ênfase que confere às políticas sociais as
colocam como o eixo estruturante da política econômica que se quer desenvolver, assumindo
aquilo que Vieira já informara, nos anos 1980, e que citamos no Capítulo II, que assevera ser a
política social no capitalismo “um braço superespecializado da política econômica” 358 . Na
lógica simples de ampliar o consumo de massa por meio da focalização e da seletividade das
políticas de transferência monetária, associadas a outras do tipo ampliação do microcrédito,

356
Nesse sentido, consultar MARANHÃO, Cézar Henrique. Desenvolvimento social como liberdade de
mercado: Amartya Sen e a renovação das promessas liberais. (In: MOTA, Ana Elizabete.
Desenvolvimentismo e construção de hegemonia crescimento econômico e redução da desigualdade.
São Paulo: Cortez, 2012.).
357
CASTELO, Rodrigo. Ob. Cit., out./dez. 2012.
358
Relembrando os dizeres do autor: “A política social trata-se de estratégia voltada para o chamado
desenvolvimento econômico e, consequentemente, para atuar na correlação de forças sociais, segundo as
determinações daquele desenvolvimento. Considera-se, portanto, que qualquer política social aplicada
pelo governo representa de certa maneira as relações entre o Estado e a Economia, durante a época em
questão. Assim como a política econômica, também a política social revela, em seu nível lógico e em seu
nível histórico, as transformações havidas nas relações de apropriação econômica e no exercício da
dominação política, presentes na sociedade brasileira” (VIEIRA, 1983, p.10).

221
valorização real do salário-mínimo, etc., essa perspectiva se leva a cabo. Uma tese de
doutorado, que teve dentre seus arguidores Bresser Pereira e Delfim Neto, sistematiza o
pensamento dessa terceira corrente. As Bases do Novo Desenvolvimentismo no Brasil: Análise
do Governo Lula (2003-2010) foi o nome que a tese recebeu, sendo apresentada por seu autor,
Aloizio Mercadante Oliva, ao Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp),
em dezembro de 2010.

A terceira corrente é a social-desenvolvimentista, cujas propostas estão assentadas na


afirmação do mercado interno via ampliação do consumo de massas. O Estado tem
um peso maior nas propostas dessa corrente no que nas duas precedentes, e as
políticas macroeconômicas devem ser subordinadas às do desenvolvimento.
(CASTELO 2012, p. 629)359.

Castelo (2012) identifica a produção de Pochmann, que esteve à frente do Ipea como
seu presidente, de 2007 a 2012, com a de Mercadante Oliva, portanto, no campo do social-
desenvolvimentismo. De fato, os argumentos desses autores aproximam-se quando se referem à
substituição da hegemonia neoliberal por um novo modelo de desenvolvimento, mas isso não é,
entretanto, exclusividade desses autores. Como vimos, as três tendências arroladas também
admitem esse pressuposto.
A aproximação está, então, na defesa de que esse novo ciclo se assenta na conjugação

do crescimento econômico, na reafirmação da soberania nacional (Brasil como credor


mundial, acúmulo de reservas externas e diversificação de parceiros comerciais),
reformulação do papel do Estado (reforço nas empresas e bancos públicos, aumento
do funcionalismo público e o PAC360), e o choque distributivo (aumento do salário-
mínimo e dos gastos sociais — previdência, assistência, seguro-desemprego e abono
salarial — e expansão do crédito para pessoas físicas). (Id., p. 627 ).

A produção de Pochmann serve aos intentos de autojustificação do modelo


implementado após 2006361, mas reserva um veio crítico ausente nas demais correntes. Não
afirmamos, contudo, que Pochmann inaugura uma quarta corrente. Todavia, agrega elementos
críticos a essa terceira que merecem nossa atenção. Suas críticas referem-se, sobretudo, aos
limites e às omissões estruturais desse novo modelo. Deste modo, Pochmann não adere
acriticamente à apologia sobre a emergência de uma nova classe média, como também não

359
CASTELO, Rodrigo. Ob. Cit., out./dez. 2012.
360
Programa de Aceleração do Crescimento.
361
E não em 2003, pois, como demonstramos, o projeto novo desenvolvimentista não se inaugura com o
governo Lula, em 2003. Demora um pouco para acontecer, isto é, emerge após a primeira grande crise
politico-institucional da Era Lula.

222
poupa de críticas a não realização de reformas estruturais, como a reforma agrária, por exemplo,
e, ainda, a não preparação do País para o seu novo perfil demográfico:

A metamorfose pela qual passa a atual estrutura social brasileira prescinde de


interpretações mais profundas e abrangentes, que possam ir além da abordagem
rudimentar e tendenciosa a respeito da existência de uma nova classe média (...)
Causa constrangimento maior, contudo, o viés político difundido pelos monopólios
sociais construídos pelos meios de comunicação e seus “oráculos” midiáticos que
terminantemente manipulam o consciente da população em prol de seus próprios
desejos mercantis, defendendo o consumismo e negando a estrutura de classe na qual
o capitalismo molda a sociedade. (POCHMANN, 2012, p. 7)362.

Também se agrega nesse mesmo contexto a opção política rasteira que certos
intelectuais engajados à lógica mercantil se associam com uma retórica de classe de
rendimento desprovida de qualquer sentido estrutural, o que nada mais é do que a
tradução do caráter meramente propagandista dos imperativos do mercado. Ou, ainda,
a partir de rudimentar tratamento estatístico de dados da realidade, definidos por mera
percepção subjetiva, o estabelecimento de orientações de políticas públicas, quando
não de opção partidária (Id., Ibid., p. 7)363.

Entende-se que não se trata da emergência de uma nova classe — muito menos de
uma classe média. O que há, de fato, é uma orientação alienante sem fim, orquestrada
para o sequestro do debate sobre a natureza e a dinâmica das mudanças econômicas e
sociais, incapaz de permitir a politização classista do fenômeno de transformação da
estrutura social e sua comparação com outros períodos dinâmicos do Brasil (Id., Ibid.,
p. 8)364.

(...) o enfrentamento dos problemas que estão vinculados à emergência do capitalismo


urbano industrial não foram enfrentados. O Brasil não fez as reformas clássicas do
capitalismo contemporâneo, não fez a reforma agrária, não fez a reforma tributária e
não fez a reforma social. O Brasil tem uma estrutura fundiária hoje pior do que era
nos anos 50 quando ganhou primazia a defesa da reforma agrária. Nós estamos
falando de 60 anos de reforma agrária e a estrutura fundiária brasileira piorou, nós não
enfrentamos a questão fundiária, da tributação, os pobres continuam pagando mais
impostos, os ricos continuam pagando menos impostos. Qualquer país desenvolvido
tem uma estrutura fundiária menos concentrada, uma estrutura tributária progressiva e
não regressiva. O que avançou mais foi a estrutura social (...) Mas, para nós, estamos
gestando um novo ovo de serpente, cujo sinais de exclusão são muito maiores do que
esses que nós conhecemos agora. (Id., Ibid., p. 13-14)365.

362
POCHMANN, Márcio. Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São
Paulo: Boitempo, 2012.
363
Id., ibid.
364
Id., ibid.
365
Entrevista concedida à revista Caros Amigos, ano XIV, n. 161, ago. 2010.

223
Toda essa agitação política, técnica, ideológica e metodológica em torno desse novo
desenvolvimentismo, como dissemos, está em curso e longe de se esgotar. Contudo, o caráter
unívoco dos elementos factuais que o materializam provocam certa recalcitrância no escopo
argumentativo que pode se configurar como base de uma perversa armadilha. De um lado, pode
levar ao enquadramento desse debate como um modismo passageiro, que tende a ser substituído
por outra temática, tão logo se inovem as orientações conjunturais da economia política
burguesa — e esse traço de modismo já é perceptível devido ao modo despolitizado e
desestrutural com que algumas adesões ao debate têm sido feitas à direita e à esquerda.
Por outro lado, corre-se o risco de marginalizar aquilo que tem importância capital ao
debate, que não é o novo desenvolvimentismo de per si, mas sim o desenvolvimento capitalista
e a sua dinâmica ineliminável de expropriação do trabalho com fins de acumulação crescentes.
Esse, sim, é o debate que permanece perene, atravessando conjunturas, e, que sem ele, qualquer
análise sobre desenvolvimentismo ou novo desenvolvimentismo se anula de sentido, se anula de
razão histórica.
Ao longo das seções deste capítulo, teremos a oportunidade de transitar pelos elementos
que compõem a dinâmica de continuidades e rupturas do processo analisado e que nos levam à
constatação, do mesmo modo que afirma Almeida (2012), que as continuidades se sobrepujaram
às rupturas, o que impede sobremaneira a admissão de um novo paradigma de desenvolvimento,
contudo, as ambiguidades apresentadas pelo momento conjuntural nos permite evidenciar suas
particularidades e arrolar um modo bem brasileiro de promover os arranjos a que se assiste.
Mas, de novo, insistimos, contextualizadas na dinâmica estrutural do modo capitalista de
desenvolver-se, cujas bases já foram desmistificadas por Marx, fato que passamos a resgatar.

3.1 Modo de produção, expropriação e fluxos do capital

No final dos anos 80 e durante toda a década seguinte, criaram força as teses que
advogaram o fim do trabalho como precondição ao fim da História (FUKUYAMA,
HABERMAS, GORZ, etc.). Essas teses, no geral, deslocavam a centralidade do trabalho para
esferas diversas da vida social, como a ciência, a comunicação, ou a formas humanizadas de
acumulação capitalistas, mais idealizadas do que reais. Antunes, em Adeus ao Trabalho? e em
Os Sentidos do Trabalho366 responde às vulgatas pós-modernas destruidoras do trabalho e de
sua centralidade na vida social. Nesses ensaios, o autor demonstra com rigor que o
deslocamento proposto pelos autores pós-modernos não é possível, pois a força de trabalho e o

366
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo
do trabalho. 8. ed., São Paulo: Cortez, Campinas: Unicamp, 2002. ______. Os sentidos do trabalho:
ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 2. ed., São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.

224
trabalho permanecem cruciais para os sujeitos envolvidos no processo de produção e reprodução
social da vida, condicionados pela posição que ocupam na teia societária de classes.
Contudo, a incorporação dessas teses surte efeitos deletérios na maneira como o modo
de produção se materializa, a partir de então, pois pressupõe um reordenamento da lógica que
historicamente formata as sociedades capitalistas contemporâneas.
No Brasil, assistimos a esse processo com o contrarreformismo dos anos 90, que mesmo
destituindo o Estado da legitimidade que lhe é conferida pela sociedade, para regular a vida
social sob o primado público e invocando em seu lugar a supremacia do mercado, pareceu
apostar numa nova configuração desse mesmo mercado. Não mais um mercado sustentado na
relação capital que tem na força de trabalho sua força motriz, mas sim num mercado que se
preparava para se modernizar e receber sem barreiras o capital portador de juros, cujas relações
sociais a ele inerentes prescindiriam da sociabilidade do e pelo trabalho, podendo deslocar-se
para a ciência, a comunicação ou outras esferas da vida, à sua escolha.
O fetichismo capitalista encontrava ali suas bases para repousar tranquilamente no
gigante adormecido e reproduzir-se sem maiores impedimentos. As privatizações realizadas na
Era FHC, o direcionamento dado ao BNDES e a outros bancos públicos nos mostram como isso
aconteceu no Brasil (BOITO Jr., 2005; OLIVEIRA, 2009; LAZZARINI, 2011; ARCARY,
2011, RIBEIRO Jr., 2011)367, mas antes de tratarmos disto é necessário compreender quais as
bases que racionalizaram esse processo, o que nos permitirá evidenciar as continuidades e
rupturas do processo de implantação do programa neoliberal e seus desdobramentos em forma
de um suposto novo desenvolvimento.
A liberalização econômica como medida de ajuste para os países periféricos em crise,
nos anos 90, foi assentada no solo mítico de que a preponderância das atividades de caráter
puramente monetário funcionaria como mola propulsora para um novo modo de acumulação e
desenvolvimento que se anunciava. Novo para os desavisados, pois Marx anunciara em O
Capital, em especial no Livro III, a dinâmica expansiva, mundializada, do fungierenden
Kapitalisten 368 que se assentaria no mito ou fetiche da supressão do trabalho vivo e na
centralidade de atividades de gerenciamento complexo dos fluxos de capitais em detrimento das
atividades produtivas, mundo afora, deslocando da “fábrica” (como elemento simbólico da
produção) para os bancos comerciais e não comerciais (símbolo do capital monetarizado) a

367
BOITO JR, Armando. O governo Lula e a reforma do neoliberalismo. Revista Adusp, maio 2005;
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica da razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo Editorial,
2009; LAZZARINI, Sérgio. Capitalismo de laços: os donos do Brasil e suas conexões. São Paulo:
Campus/Elsevier, 2011; ARCARY, Valério. Um reformismo quase sem reformas: uma crítica marxista
do governo Lula em defesa da revolução brasileira. São Paulo: Instituto José Luís e Rosa Sundermann,
2011; RIBEIRO Jr., Amaury. A privataria tucana. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
368
Funcionamento capitalista.

225
força motriz da continuidade das relações sociais capitalistas avançadas369. É, pois, a partir dos
enunciados marxianos sobre a acumulação primitiva que encontramos sentido nas formas
contemporâneas de acumulação uma vez que a essencialidade expropriativa do trabalho
permanece.
Segundo Marx, as formas primitivas de acumulação sofrem inevitavelmente — pelo
desenvolvimento sociometabólico do capital — um avanço em seus esquemas tradicionais. A
forma primitiva de acumulação, ou circulação mercantil simples, M – D – M (mercadoria –
dinheiro – mercadoria) seria metamorfoseada em D – M – D (dinheiro – mercadoria – dinheiro),
ou seja, já não se trataria mais de dinheiro utilizado apenas para intermediar a aquisição de
mercadorias para a produção e a venda. O objetivo capitalista passaria, desse modo, a ser a
transformação do dinheiro em mais dinheiro, partindo-se então não mais do dinheiro-
mercadoria, mas sim do dinheiro já convertido em capital, o que demonstraremos em seguida.
Ato contínuo, essa transformação é insuficiente, considerando que a conversão da
moeda em capital pressupõe uma etapa adiante daquela onde se obtém apenas o lucro; é
necessário se obter também o mais-valor a partir do lucro, assim sendo, se torna D – M – D’,
onde já há um acréscimo cristalizado no valor de M realizado em D’.
Como o objetivo permanente é o aumento do lucro pela expropriação, os juros que se
convertem em mercadoria dizem respeito a uma parcela da mais valia que será destinada à
reprodução de capital. O juro é, assim, uma parte do lucro destinada à remuneração do capital.

Imaginemos que a taxa média anual de lucro seja 20%. Então, máquina no valor de
100 libras esterlinas, nas condições médias e com aplicação média de inteligência e de
atividade útil, aplicada como capital, proporcionaria lucro de 20 libras esterlinas.
Assim, uma pessoa que dispõe de 100 libras esterlinas pode transformá-las em 120, ou
produzir um lucro de 20 libras esterlinas. Tem nas mãos um capital potencial de 100
libras esterlinas. Se transfere por um ano as 100 libras esterlinas a outra pessoa que as
aplica realmente como capital, dá a ela o poder de produzir 20 libras esterlinas de
lucro, mais-valia que nada custa ao cessionário que por ela não pagará equivalente. Se
no fim do ano pagar ao dono das 100 libras esterlinas 5, por exemplo, isto é, parte do
lucro produzido, terá pago o valor-de-uso das 100 libras esterlinas, o valor-de-uso de
sua função de capital, a função de produzir 20 libras esterlinas de lucro. A parte do
lucro paga ao cedente chama-se juro, que nada mais é que nome, designação especial
da parte do lucro, a qual o capitalista em ação, em vez de embolsar, entrega ao dono
do capital. (MARX, 1971, p. 392)370

369
Importante lembrar que a dinâmica da expansão capitalista foi tratada por Marx em outras obras para
além de O Capital, como, por exemplo, Os Grundisse
370
MARX, Karl. O capital. Livro 3, v. 5. Capítulo XXI - O capital portador de juros. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1971. Grifo nosso.

226
Essas complexas transações impulsionam e modificam o papel das instituições que
concentram grandes montantes de capital monetarizado. Os bancos, embora mantenham seu
papel usurário, generalizam-se e passam a financiar o processo produtivo dependendo cada vez
mais da extração da mais-valia. Ou seja, há uma modificação substantiva no modo de circulação
de capital que agudiza o fetichismo.
O capital monetário (capital usurário dos bancos) é emprestado para o capitalista da
produção, que o recebe em forma de dinheiro. Este, por sua vez, realiza a produção de
mercadorias expropriando a força de trabalho, mas mantendo a produção com o dinheiro que se
imobiliza durante o processo de produção, justamente para manter a expropriação; somente após
o retorno da mercadoria para a esfera da circulação, esse dinheiro é acrescido de mais valor, “a
mercadoria é vendida”; finalmente, retorna para o capital monetário em forma de pagamento do
empréstimo inicial, acrescido de juros, ou seja: D – d – M – d’ – D’371.
É interessante observar que, para o capital monetário, as etapas internas do processo são
de pouca relevância. A este interessa o retorno final do capital inicialmente investido acrescido
de juros (D – D’). Por esse motivo, sua interferência na esfera produtiva – aquela da extração do
trabalho não pago – se dá não por seu interesse no desenvolvimento do mundo do trabalho, mas
sim pela minimização dos riscos sobre seu investimento. Deste modo, esse acaba por influenciar
o mundo da produção, que fica sobremaneira a ele subjugado, dando-lhe parâmetros.
A importância do capital portador de juros templorificado nos bancos será tão crescente
que conferirá legitimidade ao mito que o torna pilar contemporâneo da acumulação capitalista,
em detrimento de sua base real: a esfera da produção. Não há como o capital produtivo ou
mercantil estabelecer-se sem relações imbricadas com o sistema monetário-financeiro. A
depender da grandeza do capital mercantil, este pode instituir sua própria instituição bancária,
deste modo, mantendo maior controle sobre seus investimentos nesse mercado flutuante, sem,
contudo, alterar o lugar que os bancos passam a assumir como financiadores do sistema
produtivo pelo crédito que concedem. A atualização da formação social capitalista passará a
contar, pois, com uma inexorável relação-articulação-estrutural entre capital produtivo e capital
monetário.
Os proprietários particulares buscam sempre expandir seus negócios. Para isso precisam
melhorar seu processo produtivo, seja através do investimento e incorporação das inovações
tecnológicas e de novos processos gerenciais, seja pela diversificação de suas atividades –
investem em diferentes áreas produtivas –, o fato é que, para isso, precisam esperar que se
completem as etapas do ciclo de transformação da moeda em capital ou mesmo do processo
mais simples de agregação de valor à mercadoria para gerar lucro. De um modo ou de outro,
vislumbram o necessário entesouramento que lhes resguardará de possíveis oscilações negativas

371
D = capital monetária, usurário; d = dinheiro; M = processo de produção das mercadorias; d’ =
dinheiro reconvertido pelo lucro; D’ = pagamento da usura bancária.

227
que as investidas possam apresentar. É desse modo que a relação entre estes e os bancos se torna
inexorável, inclusive como relação constituinte do processo socializador do capital, como
dissemos antes.

O ponto de partida é o dinheiro que A adianta a B, o que pode ocorrer com penhor ou
sem ele; a primeira forma, entretanto, é a mais antiga, excetuados os adiantamentos
garantidos por mercadorias ou títulos como letras de câmbio, ações, etc. (...) Nas mãos
de B, o dinheiro converte-se realmente em capital, leva a cabo o movimento D – M –
D’ e volta a A sob a forma de D’, isto é, como D + Δ D, representando Δ D o juro.
Para simplificar, abstrairemos do caso em que o capital fica por longo tempo nas mãos
de B, e os juros são pagos periodicamente. O movimento é, portanto: D – D – M – D’
– D’. O que aparece, aqui duplicado é, primeiro, desembolso do dinheiro como capital
e, segundo, seu retorno como capital realizado, como D’ ou D + Δ D. (MARX, 1971,
p. 394)372

Os bancos são ao mesmo tempo proprietários de capital monetário e participantes do


processo de extração da mais valia, sem prejuízo de outras formas de monetarização, como
títulos, letras de câmbio ou ações, como aponta Marx, e tendem a concentrar o conjunto do
capital monetário que circula, hoje, de modo desterritorializado, no sistema formal legal e no
sistema paralelo dos paraísos fiscais. Nesse sentido, é importante chamar a atenção para o papel
dos Estados, como financiadores parceiros do sistema, quando exercem sua atribuição de
regular o mercado, sobretudo nos momentos de crise, constituem-se como verdadeiros
redentores da aventura predatória e suicida do capital, ao injetar recursos públicos para salvar
bancos da bancarrota. Esse é, de fato, um vetor importante do nosso tema, mas não entraremos
nele agora, para não desviar a lógica de exposição que estabelecemos.
O que nos chama a atenção, nesse caso, é que a base social que possibilita essa nova forma
do capital, forma mais desenvolvida, avançada, é ao mesmo tempo fundamental e velada. A
base social a que nos referimos está afeta ao trabalho (vivo) e sua expropriação, e isso significa
que as definições do valor trabalho, dos custos de todo o processo produtivo, das margens de
lucro e de juro não são definidas de modo abstrato e nem por vontade imperiosa de capitalistas
ou do Estado, ainda que estes controlem o processo. A base social que o legitima, como
dissemos, é alimentada pelo trabalho onde o excedente vincula-se diretamente à concentração
de capital monetário e seu grau de autonomização.

372
MARX, Karl. Ob. Cit., 1971

228
Não vê que o tempo de produção e o tempo de circulação concorrem para determinar
o preço das mercadorias; que por essa razão, a taxa de lucro é determinada para dado
tempo de rotação do capital e que essa determinação do lucro segundo um tempo dado
acarreta a determinação do juro. Aí sua sagacidade, como sempre, consiste em
observar as nuvens do pó da superfície e presunçosamente proclamá-las algo
misterioso e importante. (Marx, 1971, p. 412)373

No capítulo XXV, do livro III – Crédito e Capital Fictício, de O Capital, Marx (1971, p.
460-461), ao demonstrar a articulação entre o sistema de crédito comercial e o sistema de
crédito bancário, evidencia o modo especulativo que passa a caracterizar a produção capitalista
em geral. Inicia dizendo:

Mostramos anteriormente (livro primeiro, capítulo III, 3, b) como surge, da circulação


simples das mercadorias, o dinheiro na função de meio de pagamento, estabelecendo-
se entre produtores e comerciantes de mercadorias relação de credor e devedor. Com
o desenvolvimento do comércio e do modo capitalista de produção que só produz
tendo em mira a circulação, amplia-se, generaliza-se e aperfeiçoa-se esse fundamento
natural do sistema de crédito. Em regra, o dinheiro aí serve apenas de meio de
pagamento, isto é, vende-se a mercadoria trocando-a não por dinheiro, mas por
promessa escrita de pagamento em determinado prazo (...). Até o dia de vencimento e
pagamento circulam por sua vez como meio de pagamento, e constituem o dinheiro
genuíno do comércio. Quando por fim se eliminam pela compensação entre débitos e
créditos, desempenham absolutamente o papel de dinheiro, pois não há conversão
final em dinheiro. Esses adiantamentos recíprocos entre produtores e comerciantes
constituem a verdadeira base do crédito, do mesmo modo que o instrumento de
circulação, a letra, constitui o fundamento do dinheiro de crédito propriamente dito, os
bilhetes de banco, etc. Estes baseiam-se não na circulação monetária, de metal ou de
papel emitido pelo Estado, mas na circulação das letras374

As metamorfoses sofridas ao longo dos tempos, no processo de inovação das formas de


crédito pela intermediação da letra375 caracteriza a especulação possibilitando o surgimento, a
diversificação e a ampliação das atividades monetárias-financeiras376 e agudiza o fetichismo.
Afinal, o anunciado gerenciamento da atividade complexa pressupõe um sem número de ações
que precisam ser controladas pelo capitalista, de modo que este se cerque de garantias positivas
para as transações. Uma das manifestações contemporâneas desse processo é, por exemplo, o
surgimento de empresas que se disponibilizam a administrar os “riscos” dos investimentos

373
Id., Ob. Cit., p. 412.
374
MARX, Karl. Ob Cit.. Capítulo XXV - Crédito e capital fictício, 1971.
375
Marx chama de “letra” todas as promessas de pagamento do crédito tomado, contratualizadas.
376
Nos capítulos seguintes, Marx trata do crédito público como decorrente do mesmo processo, mas é
importante notar que essa diversidade inclui as atividades de corretagem, de seguros, câmbio,
investimentos, fundos de pensão, mercados de futuros, etc., como formas não bancárias de capitalização.

229
capitais, as chamadas venture capital ou simplesmente empresas de capital de risco377. Moreira e
Souza (2011, p. 3) lembram que, para Schumpeter,

o desenvolvimento econômico processa-se por três fatores fundamentais: empresário


inovador, crédito bancário e inovações tecnológicas. O crédito bancário surge, muitas
vezes, em consequência de projetos rentáveis de investimento e de garantias
suficientes para minimizar o risco dos negócios. Em muitas situações, os
empreendedores, que recém iniciaram seus negócios, não possuem condições para
tomarem empréstimos. É nessa oportunidade que entra em cena o capital de risco378

Assim, os bancos configuram-se como um produto histórico decorrente da evolução das


formas de concentração de capital monetário, todavia, a diversificação das formas de circulação
e acumulação concorre com esse monopólio bancário, intensifica a divisão do trabalho, mas não
lhes retira a condição de intermediário da concentração.

Ligado a esse comércio de dinheiro desenvolve-se o outro aspecto do sistema de


crédito, a administração do capital portador de juros ou do capital-dinheiro como
função particular dos banqueiros. Tomar dinheiro emprestado e emprestá-lo torna-se
negócio especial deles. São os intermediários entre o verdadeiro emprestador e o
prestatário de capital-dinheiro. De modo geral, o negócio bancário, sob esse aspecto,
consiste em concentrar grandes massas de capital-dinheiro emprestável, e assim, em
vez do prestamista379 isolado, os banqueiros, representando todos os prestamistas, se
confrontam, com os capitalistas industriais e comerciais. Tornam-se os
administradores gerais do capital-dinheiro. Além disso, concentram todos os
prestatários perante todos os prestamistas, ao tomarem emprestado para todo o mundo
comercial. (MARX, 1971, p. 463)380.

377
Segundo Moreira e Souza, “capital de risco é o capital investido na forma de participações no capital
de empresas com potencial de rápido crescimento. O principal objetivo do investidor é obter retornos
acima da média do mercado, aceitando, assim, maiores riscos. Por apostar em empresas emergentes,
muitas vezes com um diferencial tecnológico, o investidor torna o capital de risco uma alternativa viável
de fonte de capital para pequenas e médias empresas; isso permite a criação de novos postos de trabalho e
a geração de novas tecnologias”. (In: MOREIRA, Cássio Silva; SOUZA, Nali de Jesus de. Capital de
risco e desenvolvimento econômico no Brasil: uma visão schumpeteriana. Disponível em:
<www.cassiomoreira.com.br>. Acesso em: 7 jan. 2012.
378
Id., Ob. Cit., p. 3.
379
Prestamista é um dos agentes envolvidos no funcionamento da mercadoria-dinheiro como capital. “O
funcionamento da mercadoria dinheiro como capital (ou “mercadoria capital”) envolve de maneira geral,
dois agentes principais: o capitalista monetário ou prestamista – detentor da soma em dinheiro – e o
capitalista produtivo ou atuante – aquele que obtém essa quantia do capitalista monetário por meio de
empréstimo e a aplica de maneira produtiva. No início do processo, o capitalista monetário cede o
dinheiro para o tomador de recursos. Este mobiliza os fatores de produção e ao final obtém o lucro, a
partir da mais valia. No momento de devolução ao portador original do dinheiro adiantado, o capitalista
produtivo cede também uma fração do lucro. Esta representa o que se chama juro” (CHOCIAY ,
Henrique; NEVES, Lafaiete Santos. O conceito de juros em Marx e Keynes e sua influência sobre os
modelos de crises financeiras. Revista Contribuciones a la Economia. Disponível em: <
www.eumed.net/ce/2009a/csn.htm>. Acesso em: 8 jan. 2012.
380
MARX, Karl. Ob. Cit., 1971.

230
O capital portador de juros, embora se distinga do capital produtivo, assemelha-se a esse
quando, para sua reprodução, tem que se converter ele mesmo em mercadoria. Desse modo,
carrega consigo um valor de uso, base da tendência crescente da acumulação

Dinheiro – considerado aqui expressão autônoma de certa soma de valor, exista ela
em dinheiro ou em mercadorias – pode na produção capitalista transformar-se em
capital, quando esse valor determinado se transforma em valor que acresce, que se
expande. É dinheiro produzindo lucro, isto é, capacitando o capitalista a extrair dos
trabalhadores determinada quantidade de trabalho não pago – produto excedente e
mais-valia – e dela apropriar-se. Por isso, além do valor-de-uso que possui como
dinheiro, passa a ter outro valor-de-uso, isto é, o de funcionar como capital. Seu valor-
de-uso consiste agora justamente no lucro que produz, uma vez transformado em
capital. Nessa qualidade de capital potencial, de meio de produzir lucro, torna-se
mercadoria, mas mercadoria de gênero peculiar. Vale dizer – o capital como capital se
torna mercadoria. (Id. ibid., p. 392)381.

Marx (1971) afirma que esse valor de uso “o dinheiro adquire pelo fato de poder ser
transformado em capital e assim produzir em seu movimento a mais valia”. Diferentemente da
mercadoria comum, a mercadoria capital não tem o seu valor subsumido depois de consumida;
ao contrário, tem seu valor multiplicado. A capacidade de produzir o lucro médio, pela
valorização de seu valor de uso, possibilita que o capitalista monetário subjugue ou aliene – nos
dizeres de Marx, por exemplo, o capitalista industrial, pelo período em que este lhe deve o
capital emprestado. É a forma com que os capitalistas monetários encarnam “a figura do próprio
capital”.

No capital produtor de juros, a relação capitalista atinge a forma mais reificada, mais
fetichista. Temos nessa forma D – D’, dinheiro que gera mais dinheiro, valor que se
valoriza a si mesmo sem o processo intermediário que liga os dois extremos. No
capital mercantil, D – M – D’, temos pelo menos a forma geral do movimento
capitalista, embora se mantenha apenas na esfera da circulação e o lucro pareça por
isso ser mera decorrência da venda; todavia, configura-se em produto de uma relação
social e não em produto de uma simples coisa. A forma do capital mercantil
representa de qualquer modo um processo – unidade de duas fases opostas,
movimento que se decompõe em duas ocorrências contrárias, a compra e a venda de
mercadorias. Isto desaparece em D – D’, a forma do capital produtor de juros.
(MARX, 1971, p. 450).

Ou seja, voltamos novamente a constatar que o distanciamento do capital monetário do


capital produtivo no processo de circulação e acumulação, não implica a inexistência de uma
relação entre eles. O que ocorre, como dissemos, é um processo de invisibilidade no trânsito

381
Id. Ob. Cit., Capítulo XXI, do Livro III - O capital portador de juros, 1971.

231
entre o capital usurário e o processo que gera a mais valia, o D – D’, isto é, já está contida, na
natureza do capital, a determinação social que gera a riqueza, antagonicamente fundada no
trabalho e em sua expropriação.

A predestinação social antinômica da riqueza material- sua oposição ao trabalho na


condição de trabalho assalariado – já se expressa, dissociada do processo de produção,
no direito mesmo de propriedade do capital. Esse aspecto particular, isolado do
próprio processo capitalista de produção, deste sendo resultado constante e, como tal,
condição permanente, revela-se na circunstância de o dinheiro e a mercadoria serem
em si mesmos capital latente, potencial, de poderem ser vendidos como capital e nessa
forma comandarem trabalho alheio, darem direito ao ato de apropriar-se de trabalho
alheio, sendo portanto valor que se expande. (Id., ibid., p. 410-411)382

Na base dessa expansão do capital, está embutido o juro, que funciona como uma espécie de
remuneração do capitalista monetário e o lucro destinado ao capitalista da base produtiva. Como
as etapas intermediárias da expansão do capital e sua reprodução em mais capital ficaram
escondidas, a expropriação do trabalho – a base que permitiu que isso acontecesse – é mais
ainda estranhada, pois o lucro do capitalista produtivo aparece como uma espécie de pagamento
por seus serviços gerenciais, afinal, foi o seu empreendedorismo (a principal virtude no
capitalismo, tão valorizada por Schumpeter) que o levou a transformar seu dinheiro em capital
rentável, ainda que houvesse riscos nessa transação. Portanto, aquela separação de que falamos
antes, entre as duas formas de ser do capital, se revela apenas aparente. Os objetivos de quem
expropria a força de trabalho para extrair riqueza e de quem se presta a monetarizar capital
passam a ser os mesmos.

Há certa analogia entre o capital assim emprestado e a força de trabalho em sua


relação com o capitalista industrial. Mas, enquanto o valor da força de trabalho é
pago, o do capital emprestado é restituído por esse capitalista. Para ele o valor-de-uso
da força de trabalho consiste em produzir com seu emprego mais valor (lucro) do que
possui e custa. Esse valor excedente é para o capitalista industrial o valor-de-uso. Do
mesmo modo, o valor-de-uso do capital-dinheiro emprestado se revela na capacidade
que possui de produzir e acrescer o valor. (Id., ibid., p. 406)383.

O desenvolvimento expoente do fetichismo está em suplantar a base de acumulação da


riqueza e reprodução do capital, pois a mais valia aparece como “coisa” e não como elemento
decorrente de uma relação social já que o capital em si mesmo é uma relação social, não
podendo confundir-se com dinheiro ou outras formas de sua manifestação. Também aparece, o

382
Id., ibid.
383
Id., ibid.

232
capital fetichizado, como algo que, por si mesmo, se cria e se reproduz, naturalizando suas
formas de ser, reificando-as.

Sendo o capital mercadoria de natureza peculiar, possui modo particular de alienação.


Por isso, o retorno não expressa a consequência e o resultado de determinada série de
ocorrências econômicas, mas provém de um pacto jurídico especial entre o comprador
e o vendedor. O prazo de retorno depende de transcorrer o processo de reprodução; no
caso do capital produtor de juros parece que seu retorno como capital depende da
simples convenção feita entre prestamista e prestatário. Desse modo, o retorno do
capital nessa transação não parece mais resultar do processo de produção, e tudo se
passa como se o capital emprestado nunca tivesse perdido a forma dinheiro. (Id., ibid.,
p. 403)384 .

Pode-se considerar esse processo como a forma mais avançada de existir do capital, dentro
da formação social capitalista, afinal, as principais frentes estruturais que ataca para manter-se
como dominante, estão por ele apropriadas: as forças produtivas, o modo de produção, as
estruturas políticas da sociedade, a hegemonia burguesa pela difusão de sua ideologia, tudo isto
incidindo no padrão de sociabilidade reinante. Contudo, não é bem assim. A tendência
expansiva ilimitada o leva a não ter no capital portador de juros sua máxima expressão. A
generalização do capital portador de juros leva a que todo capital possa, em potencial, produzi-
lo, ao mesmo tempo em que todo o lucro pode ser considerado como juro de um capital.
Essas duas formas de se expressar o fetiche abrem caminho para a mercantilização de toda a
dinâmica produtora de riqueza, levando a formas de apropriação de capitais que virão-a-ser no
mercado, mas ainda não existem como tal (futuro). É o chamado capital fictício. Esse, por seu
turno, se afasta, miticamente, ainda mais, da base social que o legitima, e movimenta massas
financeiras ainda maiores, por meio de especulações e uma pressão crescente para desvencilhar-
se das regulações que se colocam sobre seus fluxos, sobretudo, pelo Estado.
É desse modo que as crises sistêmicas se tornam parte constitutiva do desenvolvimento
capitalista ao longo dos anos. Seu núcleo gerador consiste, pois, nos limites da extração dos
superlucros.
A financeirização, como sua forma manifesta na contemporaneidade, não pode ser tratada
como categoria acessória às análises que intencionam saber das coisas como elas são. É o que
nos indica, pois, a economia política marxista: entender as inter-relações entre os inúmeros
aspectos da realidade que os ditames pós-modernos nos têm levado a compreender
separadamente.

384
Id., ibid.

233
O atual ciclo do desenvolvimento capitalista, ao não abrir mão da expropriação, no Brasil e
no mundo, embora apresente a dialética dinâmica de continuidade e ruptura, mantém firme seus
efeitos deletérios aos homens e ao planeta.

O capital expande sua face financeira integrando grupos industriais associados às


instituições financeiras (bancos, companhias de seguros, fundos de pensão, sociedades
financeiras de investimento coletivo e fundos mútuos) que passam a comandar o
conjunto da acumulação. Na busca incessante e ilimitada do aumento exponencial da
riqueza quantitativa — o crescimento do valor pelo valor —, os investimentos
financeiros tornam a relação social do capital com o trabalho aparentemente invisível.
Intensifica-se a investida contra a organização coletiva de todos aqueles que,
destituídos de propriedade, dependem de um lugar nesse mercado (cada dia mais
restrito e seletivo) para produzir o equivalente de seus meios de vida. Crescem as
desigualdades e o contingente de destituídos de direitos civis, políticos e sociais,
potenciados pelas orientações (neo)liberais, que capturam os Estados nacionais,
erigidas pelos poderes imperialistas como caminho único para animar o crescimento
econômico, cujo ônus recai sobre as grandes maiorias. (IAMAMOTO, 2007, p. 21)385.

3.2 Acumulação, fetichismo e a crítica marxista ao desenvolvimento

Para empreender uma crítica ao desenvolvimento capitalista com base em suportes


teóricos marxianos e marxistas, é fundamental a compreensão da superexploração da força de
trabalho inserida nos processos de produção e reprodução social. Assim, temos que, desde o
Livro I de O Capital, Marx segue fiel ao entendimento de que o modo de produção encerra em
si um conjunto de atividades que definem a reprodução social da vida. Marcado, objetiva e
subjetivamente, o modo de produção está historicamente vinculado a uma formação social e esta
é intrínseca a uma relação social dominante. A combinação entre propriedade, posse e uso dos
meios de produção é elemento inalienável na configuração do modo de produção.

(...) todo processo social de produção encarado em suas conexões constantes e no


fluxo contínuo de sua renovação, é ao mesmo tempo processo de reprodução. As
condições da produção são simultaneamente as de reprodução. Nenhuma sociedade
pode produzir continuamente, isto é, reproduzir, sem reconverter, de maneira
constante, parte de seus produtos em meios de produção ou elementos da produção
nova (...). No modo capitalista de produção, o processo de trabalho é apenas um meio
de reproduzir o valor antecipado como capital, isto é, como valor que se expande.
(MARX, 1971, p.659)386.

385
IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço social em tempo de capital fetiche capital financeiro,
trabalho e “questão social”. São Paulo: Cortez, 2007.
386
MARX, Karl. Ob. Cit., 1971.

234
A substituição do escambo por formas de circulação de mercadorias intermediadas pela
moeda não significa a transladação desta para o capital, imediatamente, como demonstrado no
item anterior. Para que a moeda seja transformada em capital, é necessário que um dentre todos
os produtos mercantilizáveis – considerando que no capitalismo tudo vira mercadoria – esteja
sempre presente: a força de trabalho. A força de trabalho transformada em mercadoria é
contratada pelo proprietário dos meios de produção; que, por sua vez, dita as regras dos
processos de trabalho; tem posse das mercadorias produzidas e as vende no mercado. Processo
simples de obtenção de lucro e etapa primeira e instransponível da transformação da moeda em
capital.
O tratamento analítico e ideopolítico, em separado dessa etapa primitiva da produção
capitalista, fez com que as leis gerais da produção fossem convertidas em leis naturais da
economia política, escamoteando o processo de expropriação dela inerente, ao gosto dos
capitalistas de plantão: o grande mistério da mercadoria.
De fato, a exploração do trabalho vivo, expropriado, é, ao mesmo tempo, condição sine
qua non para a produção das mercadorias e a consequente reprodução das condições de vida e,
ainda, é condição também para a circulação e reprodução da moeda e sua transformação – aliada
a outros componentes de toda vida social – em capital.
Somente com esse conjunto de elementos em relação é possível entender a
transformação da moeda em capital e a centralidade que a atividade produtiva ocupa no
processo.

Com o próprio funcionamento, o processo capitalista de produção reproduz, portanto,


a separação entre a força de trabalho e as condições de trabalho, perpetuando, assim,
as condições de exploração do trabalhador. Compele sempre o trabalhador a vender
sua força de trabalho para viver, e capacita sempre o capitalista a comprá-la, para
enriquecer-se. Não é mais o acaso que leva o trabalhador e o capitalista a se
encontrarem no mercado, como vendedor e comprador. É o próprio processo que
continuamente lança o primeiro como vendedor de sua força de trabalho no mercado e
transforma seu produto em meio que o segundo utiliza para comprá-lo. Na realidade o
trabalhador pertence ao capital antes de vender-se ao capitalista (Id., ibid., p. 672)387

Marx desnaturaliza o caráter puramente econômico da atividade produtiva e


desnaturaliza também a exploração da força de trabalho, quando atribui objetividade às relações
sociais decorrentes dos meios de produção e reprodução sociais.
Embora o ato criativo do trabalho humano – associando trabalho vivo e morto – seja a
condição prerrogativa para a existência do próprio capital, também o é para a expropriação. A
forma específica de mercadoria que o trabalho assume no capitalismo é uma das características

387
Id.

235
que permitem identificar esse tipo próprio de relação. Por isso, Marx demonstra que o capital é
uma relação social, por referir também as condições (ou não condições) históricas de
sobrevivência do trabalhador livre e expropriado:

(...) Os meios de produção e os de subsistência, dinheiro e mercadoria em si mesmos


não são capital. Tem de haver antes uma transformação que só pode ocorrer em
determinadas circunstâncias. Duas espécies bem diferentes de possuidores de
mercadorias têm de confrontar-se e entrar em contacto: de um lado, o proprietário de
dinheiro, de meios de produção e de meios de subsistência, empenhado em aumentar a
soma de valores que possui, comprando a força de trabalho alheia, e, do outro, os
trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho e, portanto, de trabalho.
Trabalhadores livres em dois sentidos, porque não são parte direta dos meios de
produção, como escravos e servos, e porque não são donos dos meios de produção,
como o camponês autônomo, estando assim livres e desembaraçados deles.
Estabelecidos esses dois polos do mercado, ficam dadas as condições básicas de
produção capitalista. (Id., ibid., p.829-830)388.

O distanciamento entre o trabalhador e a sua produção tende a aumentar cada vez mais,
pois é nesse distanciamento que residem as principais possibilidades de acumulação crescente
do capital, logo, do próprio desenvolvimento capitalista.

O sistema capitalista pressupõe a dissociação entre trabalhadores e a propriedade dos


meios pelos quais realizam o trabalho. Quando a produção capitalista se torna
independente, não se limita a manter essa dissociação, mas a reproduz em escala cada
vez maior. O processo que cria o sistema capitalista consiste apenas no processo que
retira ao trabalhador a propriedade de seus meios de trabalho, um processo que
transforma em capital os meios sociais de subsistência e os de produção e converte em
assalariados os produtores diretos (...) a chamada acumulação primitiva (...). (Id.,
ibid., p. 830)389.

Mészáros (2002, p. 676) assevera que o capital, sobretudo na atualidade, possui uma
tendência destrutiva incontrolável, que é justamente o que o mantém enquanto modo de
produção sustentado na expropriação. Essa tendência, que se inicia pela expropriação e
aniquilamento do que há de humano no trabalho, pela sua alienação e estranhamento, extrapola
o mundo dos expropriados. Para o autor de Para Além do Capital, o capitalismo, em sua fase
avançada, apresenta uma autorreprodução destrutiva consubstanciada pela expansão do
consumo possibilitada “pela produção generalizada de mercadorias (...) fornecendo ao capital

388
Id., ibid. Capítulo XXIV, do livro III - A chamada acumulação primitiva.
389
Id., ibid.

236
em crise novas margens de expansão e novas maneiras de sobrepujar as barreiras que
encontra”390.

Dessa maneira, a dinâmica interna do avanço produtivo, baseada nas potencialidades


objetivas da ciência e da tecnologia, é gravemente distorcida, na verdade
fatidicamente desencaminhada, com a tendência à perpetuação das práticas
capitalistas viáveis – por mais perdulárias e destrutivas – e como o bloqueio das
abordagens alternativas que possa interferir nas exigências fetichistas do valor de
troca em auto-expansão. (MÉSZÁROS, 2002, p.679)391.

Associado a isto, temos que a expropriação atinge também os proprietários, pois, para
expandir-se, ainda que se reinvente na exploração do trabalhador, o capital precisará de novas
formas de acumulação que não ficam aprisionadas em seus modos primitivos.
Os monopólios caracterizarão essa tendência, amplificando as formas de expropriação.
A proletarização dos pequenos proprietários e a subsunção dos capitalistas tradicionais pelo
capital concentrado, nesse mesmo movimento monopolista, são apenas dois aspectos que
remetem á expropriação capilarizada e às novas formas de exploração genérica do trabalho.
Mesmo antes da constituição do capitalismo como tal, Marx anuncia essa característica ao
descrever o processo de acumulação primitiva (protoforma do capitalismo), possibilitando
acompanhar a tendência autodestrutiva desse modo de produção em sua linha “evolutiva”.

Desintegrada a velha sociedade, de alto a baixo, por esse processo de transformação,


convertidos os trabalhadores em proletários e suas condições de trabalho em capital,
posto o modo capitalista de produção a andar com seus próprios pés, passa a
desdobrar-se outra etapa em que prosseguem, sob nova forma, a socialização do
trabalho, a conversão do solo e de outros meios de produção em meios de produção
coletivamente empregados, em comum, e, consequentemente, a expropriação dos
proletários particulares. O que tem de ser expropriado agora não é mais aquele
trabalhador independente e sim o capitalista que explora muitos trabalhadores. Essa
expropriação se opera pela ação das leis imanentes à própria produção capitalista, pela
centralização dos capitais. Cada capitalista elimina muitos outros capitalistas. (Id.,
ibid., p. 881)392.

Essa é outra face do mesmo processo que nos permite caracterizar a conversão da
moeda em capital, caracterizar o capital como relação social e o modo de produção genérico
como propriedade de capitalistas que controlam os meios e modos de produção social,
expandindo-se e atingindo todas as dimensões da vida social.

390
MÉSZÀROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo Editorial, Campinas: Unicamp,
2002.
391
Id., Ob. Cit.
392
MARX, Karl. Ob. Cit. Livro I, v. II, Capítulo XXIV - A chamada acumulação primitiva, 1971.

237
Na atualidade, antes mesmo do período que tem sido chamado de pós-neoliberalismo393,
essa aventura acumulativa do capital já se fazia presente. A concentração crescente é instituinte
também desse modo particular de acumulação394. As fusões, as aquisições e as joint-ventures
são bons exemplos desse processo, e que se associam a fenômenos que dão suporte e/ou se
complementam, como as terceirizações e os oligopólios.
A fúria de acumulação desimpedida do capital sempre foi uma preocupação para os
próprios capitalistas, que, divididos em frações de classe e cientes, de certo modo, da
necessidade da diversificação das atividades econômicas, buscaram, ao longo do tempo,
influenciar a intervenção estatal nos assuntos relacionados à livre concorrência, racionalizando o
impulso primitivo de aniquilação de uns pelos outros, como já anunciara Marx.
Desse modo é que se criam instituições públicas, privadas ou mistas, voltadas à
regulação para defesa dos interesses econômicos. Essas instituições são criadas tanto em nível
nacional, respondendo, portanto, pelos interesses econômicos de cada país, como também de
modo multilateral, tratando das questões afetas à economia globalizada, como é o caso tanto da
Organização Mundial do Comércio (OMC), por exemplo, ou do FMI.
No Brasil, as primeiras medidas antitruste datam de 1951, com a Lei 1.521, editada no
governo de Getúlio Vargas, e que define crimes contra a economia popular, o que pode ser
considerado um bom exemplo desse tipo de instituição 395 . Em 1962, nova lei, inspirada no
Sherman Act norte-americano, cria o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Em 1994, com a Lei 8.884, a instituição transforma-se em autarquia federal, vinculada ao
Ministério da Justiça, com personalidade jurídica própria e autonomia administrativa e
financeira. Cabe ao Cade (2012) “regular a livre concorrência no Brasil, garantindo uma relação
equilibrada entre a livre iniciativa, livre concorrência, proteção ao consumidor e a preservação
do interesse”396.
A concentração de capital como fenômeno isolado, ou mesmo quando associada ao
processo de acumulação, não escolhe pátria. Isto é, acontece ao longo da história de formas
diferenciadas, em conformidade com o projeto político-econômico então vigente. No Brasil, por
exemplo, no período compreendido entre os anos 2000 e 2011, esse movimento da dinâmica do
capital monopolista também ocorreu, preservando as características dominantes desse modo de
produção em sua fase avançada397.

393
Cf. SADER, Emir (Org.). Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o estado democrático. Rio de
Janeiro: Paz e Terra.
394
A concentração exponencial é presente em todas as fases do capitalismo.
395
Medidas antitruste são voltadas a regular a concorrência.
396
Disponível em: <www.cade.org.br>.
397
Por isso é importante distinguir “concentração” de capital de “acumulação”. Embora se tratem de
categorias referidas ao mesmo processo, a distinção que fazemos é fundamental para o entendimento
sobre as funções e participação do Estado no processo de desenvolvimento capitalista. A “concentração”
de que tratamos aqui está afeta à união de vários capitalistas em torno de uma mesma atividade que lhes
gera rendimentos. Já a “acumulação” se relaciona aos amplos processos de auto-reprodução do capital

238
Segundo o Cade o processo de análise pelo Sistema Brasileiro de Defesa da
Concorrência (SBDC) das operações de fusão, aquisição, joint-ventures, etc. é conhecido por
Ato de Concentração. As operações que apresentam determinadas características – faturamento
no Brasil superior a R$ 400 milhões ou participação de mercado maior ou igual a 20% – devem
obrigatoriamente ser notificadas ao SBDC.
A preocupação do órgão com a qualidade das fusões e com a homogeneização do que se
coloca no mercado para consumo, ocupa um lugar marginal nos seus trabalhos, pelo menos é o
que se extrai de seus Relatórios de Gestão dos últimos dez anos 398 , e que, em tese, teria
motivado as transformações recentes em sua estrutura, as quais mostraremos mais adiante. A
preocupação central residiria, pois, em que o órgão exerça uma influência positiva no mercado,
sem atrapalhar seus fluxos naturais, por meio de análises processuais cada vez mais tecnificadas
e ágeis. O Gráfico 1, por exemplo, mostra claramente a diminuição do tempo médio em que os
processos tramitam no Cade (excetuando-se o tempo para instrução processual) em comparação
com a quantidade de processos distribuidos e julgados. Uma sequência de queda sensível fica
evidente, interrompida em 2004, justificada pelo aumento do número de processos naquele ano
e a carência de quadro de pessoal especializado para o desempenho das funções
administrativas399.

que não se restringe a atividades econômicas especificas nem mesmo se limita, na contemporaneidade, a
limites territoriais precisos. Como dissemos, as duas categorias formam um duo-dialético voltado à
manutenção da relação social capital, mas a primeira está sob maior controle do Estado quando este
regula as operações econômicas dos capitalistas, já a segunda transcende o exercício da autonomia
relativa do Estado na regulação e busca se pautar nos interesses mesmos da classe dominante expressos,
também, no modo como estes conquistam hegemonia no e pelo Estado.
398
O Cade disponibiliza, em sua biblioteca virtual, todos os seus Relatórios Anuais de Gestão, o que
consultamos ano a ano.
399
O Relatório de Gestão do ano de 2004 se encerra com uma nota assinada por sua presidenta expondo a
ausência de condições para o pleno desenvolvimento dos trabalhos do órgão. Declara: “Ressentindo-se
ainda de uma estrutura e quadro de funcionários próprios, e com a crescente demanda de apreciação de
matérias relativas à defesa da concorrência, o Cade contou, a partir do segundo semestre com o apoio de
25 técnicos o que certamente melhorou a capacidade do órgão responder a mencionada demanda. No
entanto, o caráter temporário do contrato desses técnicos renova a necessidade de busca de uma carreira
própria. As demandas para a realização das atividades do Cade continuam a exigir um considerável
reforço de pessoal especializado, tanto na área administrativa e técnica, quanto na área processual, o que
somente será resolvido com a aprovação da criação de um quadro permanente próprio do Cade, contendo
carreiras específicas para atuação na área da concorrência”. (Relatório de Gestão de 2004).

239
Gráfico 1 – Balanço de ACs julgados versus distribuídos no Cade com tempo médio – 2000 a 2011

Fonte: Cade em números – Atos de concentração, jan./2012. Disponível em: <www.cade.gov.br >.

Do tempo em que um processo de AC circula, verifica-se que sua permanência no Cade


varia de 20% a 30% do tempo total (Gráfico 2). Com relação à quantidade de processos,
também se podem inferir progressos, no que tange à sua resolutividade. Em 2000, foram
julgados cerca de 78,3% do total de processos distribuídos com tempo médio, no Cade, de 87
dias; em 2011, o indíce de julgamentos sobe para 94,5%, com tempo médio de 45 dias. A partir
de 2003, verificamos que os julgamentos se sobrepõem ao estoque de processos, o que pode ser
explicado, em parte, por inovações técnicas e materiais, mas também se explica pela decisão
política em dar celeridade aos processos, considerando os aumentos nos níveis de investimento
no mercado interno, financiados sobretudo pelo BNDES, motivando fusões.

Gráfico 2 - Tempo médio de tramitação dos ACs no SBDC (em dias) – 2005 a 2011

Fonte: Cade em números – Atos de concentração, jan./2012. Disponível em: <www.cade.gov.br>.

240
A leitura marxiana dos processos crescentes de acumulação leva em conta as iniciativas
de concentração de capital, sobretudo quando Marx se referencia em sociedades complexas,
tanto pela industrialização e urbanização, quanto pelo incremento dos sistemas bancários e das
transações financeiras que já em seu tempo vinham movimentando capitais mundo afora de
modo crescente. Portanto, como aporte, nos indica a gênese dessa preocupação da sociedade
burguesa (e de seus Estados, por extensão) em permitir que suas transações econômicas ocorram
de modo desimpedido.
No caso brasileiro, constata-se que as operações de fusão, aquisição e reestruturações
societárias alcançaram R$ 184,8 bilhões, em 2010, o que representou um crescimento de 55%
quanto ao volume alcançado em 2009. Em 2010, foram contabilizadas 143 operações de fusão,
aquisição e reestruturações societárias, ante 95 realizadas no País em 2009 400 . Ainda que
pareçam extraordinários, esses números são mínimos, se comparados à concentração que ocorre
intraempresas. Isto é, a concentração verificada a partir do compartilhamento de posições
acionárias conjuntas nas mesmas empresas 401 . É a continuidade de um processo que visa
deliberadamente ampliar a concentração de capital em alguns setores estratégicos como forma
de melhorar a suas condições na disputa global.
Nesse sentido, alguns casos como o da Ambev (fusão da Antárctica com a Brahma), da
Chocolates Garoto (adquirida pela Nestlé), do polêmico caso da BRF Brasil Foods (a fusão da
Sadia com a Perdigão), a RaiaDrogasil (liderando o comércio nacional de produtos
farmacêuticos) e o caso mais recente da Totvs e a Datasul que, juntas, passaram a deter 40% do
mercado brasileiro de softwares, nível bem maior do que os 20% aceitáveis para esse tipo de
transação, em outros ramos de atividade produtiva402, são apenas alguns exemplos de como a
concentração vai se tornando parte não só recorrente mas reivindicada até mesmo como
necessária para manter patamares de desenvolvimento estipulados pelo mercado (e de interesse
do Estado)403.

400
Ipea desafios – Cade – Fusão de competências. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br>. Acesso em:
5 set. 2012.
401
Utilizamos como referência o artigo de LAZZARINI, Sergio G. Mudar tudo para não mudar nada:
análise da dinâmica de redes de proprietários no Brasil como “mundos pequenos”. RAE-eletrônica, v.6,
n. 1, art. 6, jan./jul. 2007. A RAE-eletrônica é a revista online da Fundação Getúlio Vargas.
402
Há uma excepcionalidade para a indústria de tecnologia.
403
Isto será mais bem esclarecido quando tratarmos do neodesenvolvimentismo, nos próximos itens,
contudo, vale registrar que o projeto “desenvolvimentista” recente no Brasil não abriu mão de utilizar a
concentração como estratégia quando promove a reestruturação do Cade. Entre as mudanças realizadas no
Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, há a unificação no Cade das competências divididas
atualmente entre o próprio órgão, a Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), ligada ao
Ministério da Fazenda, e a Secretaria de Direito Econômico (SDE), vinculada ao Ministério da Justiça.
Outra mudança proposta eleva o valor mínimo das operações de concentração econômica que exigirão
controle prévio do Cade, dos R$ 400 milhões já utilizados como referência para R$ 1 bilhão. Outra
alteração é que qualquer caso de compra ou fusão de grandes empresas que possa levar à concentração do
mercado terá que ser analisado previamente pelo Cade, e não depois de o negócio ter sido efetivado,
como ocorre atualmente. O projeto fixou um prazo para a conclusão de julgamentos: o tempo máximo de
análises de concentração cai para 120 dias com possibilidade de prorrogação pelas partes por 60 dias ou,

241
A preocupação dos órgãos de defesa econômica, em contribuir para que esse processo
flua com êxito, como mostrado nos Gráficos 1 e 2 — explicitando a função gerencial burguesa
do Estado — também se atrela a uma concepção de desenvolvimento pautada e justificada
ideologicamente no que se pressupõe ser civilizatório na ordem do capital. O atendimento das
necessidades sociais pela via do emprego formal ou da qualidade dos serviços prestados,
possibilitados com o sucesso das empresas no mercado, é apenas uma de suas explicações, o
que contribui para naturalizar o processo de concentração. Mas não apenas. Por trás do
incômodo causado aos capitalistas burgueses, pela regulação estatal das suas transações, reside a
verdadeira justificativa para o exercício dessa ação regulatória por parte do Estado:

O enorme poder dos grandes conglomerados econômicos, que extrapola a mera luta
de preços e marcas, somente pode ser contra-arrestado pela política e pelas
instituições republicanas e democráticas; do contrário, estas serão meras
reverberações retóricas sem eficácia. A assimetria e o poder destrutivo entre tais
organizações econômicas e o simples cidadão, conduzido e instigado pela publicidade
a comportar-se como mônada — que é o cerne da própria publicidade — afetam a
vida cotidiana de forma irreparável. Longe da premissa neoliberal de que o excesso de
controle público sobre o comportamento das empresas cercearia sua liberdade de
investimento — que é no fundo o que explica a atitude do governo brasileiro de hoje
— as fraudes da Enron e da WorldCom nos EUA e os comportamentos relapsos-
agressivos das novas concessionárias de energia e telecomunicações no Brasil
indicam que o bom controle público, e políticas públicas de investimento rigorosas, é
que são condições sine qua non para a eficiência das empresas. (OLIVEIRA, 2005)404.

Portanto, o que se observa é uma clara articulação entre o econômico e o político, na


medida em que a concentração comparece como um componente importante aos fins últimos: a
acumulação.

Mas se o processo de acumulação do capital pauta doravante diretamente a ação do


Estado, ele só se traduz em seu seio quando articulado e inserido na sua política de
conjunto. Toda medida econômica do Estado tem portanto um conteúdo político, não
apenas no sentido geral de uma contribuição para acumulação do capital e para a
exploração, mas também no sentido de uma necessária adaptação à estratégia política
da fração hegemônica. (POULANTZAS, 2000, p. 171)405.

pelo Cade, por 90 dias. Antes, o Cade não precisava apresentar conclusões dos casos. Ipea desafios –
Cade – fusão de competências. Disponível em: <www.ipea.gov.br>. Acesso em: 5 set. 2012.
404
OLIVEIRA, Francisco de. Prefácio. In: BELLO, Carlos Alberto. Autonomia frustrada: o Cade e o
poder econômico. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.
405
POULANTZAS, Nicos. Ob. Cit., 2000.

242
Nesse processo, o papel econômico do Estado se exacerba e reconfigura seu lugar de
dominância ante as demais instâncias e funções que o compõe 406 e mesmo nas democracias
liberais se nota o fortalecimento da função econômica do Estado em detrimento das instituições
(partidos, movimentos sociais, parlamentos, etc.) e, de modo relativo, de algumas frações da
classe dominante. Poulantzas (2000, 170) afirma que a reorganização política dos “aparelhos”
do Estado no sentido da acumulação fazem dele um “verdadeiro aparelho econômico
especializado”:

Não se trata simplesmente de atividades econômicas novas que dominariam, como


tais, outras atividades que continuariam, em si, imutáveis. O conjunto das operações
do Estado se reorganiza atualmente em relação a seu papel econômico. Isso vale,
além das medidas ideológico-repressivas do Estado, para sua ação na normalização
disciplinar, a estruturação do espaço e do tempo, o estabelecimento de novos
processos de individualização e corporalidade capitalistas, para a elaboração de
discursos estratégicos, para a produção da ciência. Tudo isso ocasiona consideráveis
transformações institucionais que afetam o conjunto dos aparelhos do Estado e que
têm precisamente por fio condutor seu papel econômico.

Desse modo, por analogia, considera-se que essa reorganização política das funções
econômicas do Estado é substancialmente presente nos momentos de síntese
desenvolvimentista. Essa dinâmica permite, nas brechas que abre, a implantação de medidas
regressivas tratadas como necessárias ao desenvolvimento que será, deste modo, desigual em
essência e combinado entre as diferentes fases de evolução das forças produtivas.

406
Como, por exemplo, as ideológicas, de repressão, etc. Poulantzas (2000, p. 170) afirma que a
reorganização política dos “aparelhos” do Estado no sentido da acumulação fazem dele um “verdadeiro
aparelho econômico especializado”: “Não se trata simplesmente de atividades econômicas novas que
dominariam, como tais, outras atividades que continuariam, em si, imutáveis. O conjunto das operações
do Estado se reorganiza atualmente em relação a seu papel econômico. Isso vale, além das medidas
ideológico-repressivas do Estado, para sua ação na normalização disciplinar, a estruturação do espaço e
do tempo, o estabelecimento de novos processos de individualização e corporalidade capitalistas, para a
elaboração de discursos estratégicos, para a produção da ciência. Tudo isso ocasiona consideráveis
transformações institucionais que afetam o conjunto dos aparelhos do Estado e que têm precisamente por
fio condutor seu papel econômico”. Deste modo, por analogia, podemos considerar que esta
reorganização política das funções econômicas do Estado é substancialmente presente nos momentos de
síntese desenvolvimentista.

243
A noção de desenvolvimento desigual é utilizada em sua acepção clássica 407 : a
desigualdade entre o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social, entre a
expansão das forças produtivas e as relações sociais na formação capitalista. Revela-
se como reprodução ampliada da riqueza e das desigualdades sociais, fazendo crescer
a pobreza relativa à concentração e centralização do capital, alijando segmentos
majoritários da sociedade do usufruto das conquistas do trabalho social.
Desenvolvimento desigual em outra dimensão não menos fundamental: os tempos
desiguais entre as mudanças ocorridas na produção material e as formas culturais,
artísticas, jurídicas, etc., que expressam as alterações da vida material. A tensão entre
o movimento da realidade e as representações sociais que o expressam estabelece
descompassos entre o ser e o aparecer. Atualiza fetichismos e mistificações que
acobertam as desigualdades e sua reprodução social. (IAMAMOTO, 2001, p. 102-
103)408

3.3 Dependência (Sistema de Reciprocidades) e a nova roupagem do neoliberalismo

Não há um marxista que não se refira à maneira como Lênin (1979, p. 87) demonstra a fase
de desenvolvimento do capital, que denominou de fase superior do capitalismo e a definiu como
imperialista caracterizada pelos monopólios. Nessa fase “o que existe de essencial neste
processo é a substituição da livre concorrência capitalista pelos monopólios capitalistas”. Deste
modo, afirma:

A livre concorrência constitui o traço essencial do capitalismo e da produção


mercantil em geral; o monopólio é exatamente o contrário da livre concorrência; mas
nós vimos esta última converter-se, sob os nossos olhos, em monopólio, criando nela
a grande produção, eliminando dela a pequena, substituindo a grande por uma ainda
maior, levando a concentração da produção e do capital a um ponto que fez e faz
surgir os monopólios: os cartéis, os sindicatos patronais, os trustes, e fundindo-se com
eles, os capitais de uma dezena de bancos que reúnem bilhões. Ao mesmo tempo, os
monopólios não eliminam a livre concorrência de que nasceram: eles existem acima e
ao lado dela, implicando assim contradições, fricções, conflitos particularmente
agudos e violentos. O monopólio constitui a passagem do capitalismo a um regime
superior409.

O regime superior a que Lênin se refere é o imperialismo caracterizado pelo monopólio e


que tem no capital financeiro (que não se confunde com capital bancário, mas representa sua

407
Conforme apresentada por Marx, no Tomo 3 de O Capital.
408
IAMAMOTO, Marilda Villela. Trabalho e indivíduo social: um estudo sobre a condição operária na
agroindústria canavieira paulista. São Paulo: Cortez, 2001.
409
LÊNIN, Vladimir. O imperialismo: fase superior do capitalismo. Rio de Janeiro: Globo, 1979.

244
fusão com o capital industrial) sua base de sustentação410. Além disso, essa nova fase pressupõe,
ainda, uma nova partilha do mundo, cujos limites de dominação não respeitam os domínios
tradicionais da geopolítica – que leva em consideração agregações culturais – extrapolando-os e
reconfigurando o globo conforme os interesses monopolistas de livre circulação do capital.
Segundo Lênin (1979, p. 88), esse imperialismo apresenta cinco características principais:

1) Concentração da produção e do capital atingindo um grau de desenvolvimento tão


elevado que origina os monopólios cujo papel é decisivo na vida econômica; 2) fusão
do capital bancário e do capital industrial, e criação, com base nesse “capital
financeiro”, de uma oligarquia financeira; 3) diferentemente da exportação de
mercadorias, a exportação de capitais assume uma importância muito particular; 4)
formação de uniões internacionais monopolistas de capitalistas que partilham o
mundo entre si; 5) termo da partilha territorial do globo entre as maiores potências
capitalistas.

Desde 1916, quando Lênin redigiu esse ensaio até os dias atuais, o movimento do capital
tem sido o mesmo: o dinamismo do capital que circula através do mercado financeiro tem se
colocado acima da taxa de crescimento do setor produtivo.
O monopólio que caracteriza essa nova fase é altamente concentrador de riqueza, ao
permitir ou mesmo incentivar a fagocitose dos pequenos empreendimentos capitalistas pelos
grandes. A concentração de capital exponenciada, assim, extrapola as possibilidades
concentradoras da base produtiva e atinge o universo dos capitais fictícios e faz deste o agente
indispensável ao processo de acumulação, criando um Sistema de Reciprocidades entre os
agentes envolvidos nele e com ele: Estado burguês, mercados, conglomerados bancários e
financeiros e grandes empresas nacionais e transnacionais.
A relação de dominância do capital financeiro não elimina os demais, ao contrário,
possibilita sempre em perspectiva futura o aumento dos ganhos de todos os envolvidos, ao
mesmo passo em que repõe atualizada a dependência das economias periféricas com relação ao
centro (MARINI, 1977)411.
Em 2005, o Mckinsey Global Institute lança o relatório $118 Trillion and Counting: Taking
Stock of the World´s Capital Markets412. Nele, são levantados a composição e o crescimento do
estoque financeiro global, de 1980 a 2003, e com projeções ousadas para 2004 e 2010, com os
seguintes componentes: depósitos bancários, títulos públicos, títulos privados e ações. Ainda
comparam esse crescimento com o PIB/nominal e o total de ativos financeiros com o PIB.

410
Base de sustentação do regime fetichizado, reificado e não sua base real. A base real permanece sendo
a expropriação da força de trabalho, do trabalho vivo.
411
MARINI, Ruy Mauro. Dialéctica de la dependência. 3. ed., Cidade do México: ERA, 1977. (Série
popular).
412
Contagem de 118 trilhões de dólares: balanço do mercado mundial de capitais (tradução livre).

245
O estudo permite verificar que o estoque total desses componentes (ativos financeiros)
cresceu de US$ 12 trilhões, em 1980, o equivalente a 109% do PIB mundial, para US$ 118
trilhões, em 2003, mais de três vezes o PIB mundial. Provavelmente, as projeções de 2004 e
2010 não levaram em consideração as crises de 2008 (e nem suas bases, no caso, a crise de
2004) e nem as implicações que redundariam na crise de 2011, contudo, o estoque de ativos
mundial não deixou de ser ascendente, segundo dados do FMI.
Cintra (2005) informa que a estimativa do Mckinsey Global Institute não considera os
derivativos financeiros. Os valores nacionais dos derivativos de balcão atingiram U$$ 197
trilhões, em dezembro de 2003 (cujo valor bruto de mercado alcançava US$ 7 trilhões), e os
derivativos negociados em bolsas somaram US$ 36 trilhões, de acordo com o Bank for
International Settlements (BIS)413.

Gráfico 3 - Composição e crescimento do estoque financeiro global (trilhões de dólares / %)

PIB/Nominal 10,1 24,4 29,9 30,5 36,1

Ativos 109 216 230 315 326


Financeiros/PIB

Fonte: MCKINSEY GLOBAL INSTITUTE. Taking stock of the world´s capital markets: 118 trillion and counting. Disponível
em: <http://www.mckinsey.com>.

Essa extraordinária e crescente massa de ativos de capital, além de comprovar a assertiva


leninista, sobre nova fase do capitalismo referenciada, sobretudo no livro III de O Capital,
também é resultado da internacionalização financeira do pós II Guerra, alcunhada anos mais

413
CINTRA, Marcos Antonio Macedo. Tendências da globalização financeira: a extraordinária liquidez
global. Revista Princípios, n. 79, São Paulo, jun./jul. 2005.

246
tarde de globalização, liderada pelo sistema financeiro e pela moeda norte-americana. Por
parecer contraditório, as práticas dos Estados, na época, que tentavam se reerguer e ao mesmo
tempo dar conta dos novos arranjos que promoveram como alternativa para a crise da
superprodução de 1929 – keynesianismo - consubstanciaram medidas intervencionistas, sem
alternar para a planificação do tipo socialista da economia. A prevalência do crédito bancário
sobre a emissão de títulos negociáveis (securities) e a chamada repressão financeira foram as
principais características dos sistemas financeiros de então, responsáveis pela aparente
estabilidade dessa circulação nas três primeiras décadas que se seguiram à II Guerra Mundial.
“Esta incluía a separação entre os bancos comerciais e os demais intermediários financeiros,
controles quantitativos do crédito, tetos para as taxas de juros e restrições ao livre movimento de
capitais”. (BELLUZZO, 2005. p.15)414.
Mas essas medidas foram insuficientes para encilhar o capital, ou mesmo impedir que um
novo período de crise internacional se iniciasse e, desta vez, no epicentro do mundo produtor do
ouro negro – o petróleo – e se alastrasse não apenas para os países da periferia capitalista como
também se estendesse como uma crise de longa duração. As manifestações mais importantes
dessa crise puderam ser sentidas no mercado financeiro e no comércio internacional, na inflação
crônica associada ao baixo crescimento econômico, dando origem a um novo fenômeno
chamado de estagflação. O caráter produtivo da crise é atribuído às mudanças no paradigma
tecnológico, que passam a ser chamadas de Terceira Revolução Industrial. (TAVARES, 2000,
p. 11)415.
Os países de capitalismo central cederam às pressões inflacionistas decorrentes de um
superaquecimento de suas economias – expansão da procura agregada – ao mesmo tempo em
que os países produtores de petróleo passam a impor restrições que levam à redução da oferta
agregada com impactos nos setores que sobrevivem dos derivados do petróleo. As
consequências inevitáveis, como o desemprego, a fuga de capitais, a depreciação das moedas
fortes, etc., foram, como dissemos, estendidas a todos os países, configurando o caráter global
da crise. Requisita-se, assim, imediatamente, nova arquitetura para o capitalismo mundial, e,
para tal, medidas de ajuste são tomadas.

414
Esse movimento, sempre crescente, impulsionara as transações de crédito financeiro que anos mais
tarde estariam permanentemente no epicentro de novas crises cíclicas, a exemplo daquela motivada pela
falência do sistema de crédito bancário imobiliário em 2008. É importante que não se perca de vista nosso
entendimento de que tais crises cíclicas são apenas manifestações conjunturais das chamadas crises
sistêmicas, como dissemos antes. (In: BELLUZZO, Luiz Gonzaga de M. O regime do capital e o
desenvolvimento capitalista. Revista Princípios, n. 79, São Paulo, jun./jul. 2005. p. 12-17.
415
TAVARES, Laura Soares. Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina. São Paulo:
Cortez, 2000. (Coleção Questões de Nossa Época).

247
Trata-se de uma crise global de um modelo social de acumulação, cujas tentativas de
resolução tem produzido transformações estruturais que dão lugar a um modelo
diferente – denominado de neoliberal – que inclui (por definição) a informalidade no
trabalho, o desemprego, o subemprego, a desproteção trabalhista e consequentemente,
uma “nova pobreza”. (TAVARES, 2000, p.12)416.

Para a autora, essa alternativa não se limita a transformações no caráter técnico do


gerenciamento do fluxo de capitais e nem apenas às transformações nas estruturas jurídico-
políticas dos Estados que o implantam, mas contém um refinado aparato ideopolítico que
reafirma que a

reprodução em condições críticas de grandes parcelas da população (...) passa a se


sustentar por uma lógica coerente com o individualismo que dá sustentação ideológica
a esse modelo de acumulação: no domínio do mercado existem, “naturalmente”
ganhadores e perdedores, fortes e fracos, os que pertencem e os que ficam de fora” o
que não impede de modo algum a reprodução do capital. (Id. ibid., p.12-13)417.

Afirma ainda que os impactos e consequências da crise, bem como possíveis “soluções”,
além das determinações mais gerais dadas pela própria etapa de desenvolvimento do
capitalismo, diferenciam-se entre os países pela inserção internacional de suas economias e
pelos particulares desenvolvimentos históricos, que determinam respostas sociais e políticas
específicas (ib., p. 11). Este processo não só está na base que configura a gênese do
neoliberalismo no Brasil como se mantém presente no País do século XXI.
Com isso, não se pode negar que um novo arranjo nos padrões de desenvolvimento
capitalista emerge, sobretudo, a partir da intervenção do Estado norte-americano no mercado
financeiro, em 2008, que se pauta pela objetivação de relações recíprocas entre o Estado e os
grandes conglomerados financeiros, ainda que os sinais dessa reciprocidade já possam ser
percebidos em fases precedentes, como demonstrado no item 2.1.3 Protoformas do ajuste
neoliberal.
Sem que haja um novo Consenso de Washington, tanto os países do centro quanto os da
periferia capitalista são levados a imbricar-se nessa teia das inter-relações onde participam
também empresas transnacionais e empresas nacionais fagocitadas pelo capital
desterritorializado.
É importante ressaltar que os ciclos de expansão capitalista não existem sem a admissão de
períodos de crise, portanto, a manifestação contemporânea depressiva pode ser incluída no
contexto da quarta grande crise sistêmica do capital418. Suas características fundamentais não

416
Id., ibid.
417
Id., ibid.
418
Tomamos por referência o seguinte arranjo “evolucionista” das crises sistêmicas do capital. A primeira
grande crise teria ocorrido entre os anos de 1873 a 1895 e esteve relacionada com a concorrência

248
são novas, pois se sustentam, como sempre, nas dificuldades no processo de acumulação de
capital decorrentes do declínio nas taxas de lucro. O que pode ser considerado novo é o
deslocamento, ainda que sutil, dos padrões produtivos que ancoraram as mudanças nos rumos
do capital anteriormente, como, por exemplo, as inovações fordistas/tayloristas, a acumulação
flexível, etc., para a esfera das tecnologias de informação, que sem subsumir a centralidade do
trabalho se tornam os verdadeiros auxiliares no aumento da produtividade do capital financista.
Este, por seu turno, vai cada vez mais se aglutinando, em torno de uma comunidade financeira
global, cujas fronteiras não obedecem em nada à lógica de soberania e consti