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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

GLEIDSON CARLOS XAVIER PEIXOTO

PROSTITUIÇÃO VIRIL EM MOSSORÓ:

Segredo, Fachada e Sexualidade

MOSSORÓ/RN

2017

GLEIDSON CARLOS XAVIER PEIXOTO

PROSTITUIÇÃO VIRIL EM MOSSORÓ:

Segredo, Fachada e Sexualidade

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais e Humanas (PPGCISH), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), como requisito obrigatório para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais e Humanas.

Orientadora: Profª. Drª. Maria Cristina Rocha Barreto

MOSSORÓ/RN

2017

GLEIDSON CARLOS XAVIER PEIXOTO

PROSTITUIÇÃO VIRIL EM MOSSORÓ:

Segredo, Fachada e Sexualidade

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais e Humanas (PPGCISH), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), como requisito obrigatório para a obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais e Humanas.

Orientadora: Profª. Drª. Maria Cristina Rocha Barreto.

Data de aprovação:

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/

BANCA EXAMINADORA

Profª. Drª. Maria Cristina Rocha Barreto (UERN) ORIENTADORA

Prof. Dr. Elias Ferreira Veras (UERN) MEMBRO

Profª. Drª.

MEMBRO

À Helena, minha avó, que se foi enquanto eu trabalhava nestas páginas.

AGRADECIMENTOS

O artesanato intelectual, como assim chamou Wright Mills o processo produtivo de

um trabalho acadêmico, é repleto de solidão e isolamento, pois as palavras se casam no mais

remoto silêncio da introspecção. Eu agradeço à todas as pessoas que me ajudaram a enfrentar todos os inconvenientes do isolamento necessário para a feitura de uma dissertação de mestrado. À elas, dedico a minha mais profunda gratidão:

À Taysa Dayana, que me recebeu repetidas vezes em seu saudoso apartamento com

cafés, cervejas e conversas leves nas tardes em que não conseguia escrever uma palavra sequer. Aquilo me fazia voltar sempre determinado a me esforçar um pouco mais;

À Ayran Arruda, sempre dedicado a me mostrar que a vida pode ser levada menos à

sério. Talvez seja aí mesmo onde resida a leveza necessária para a felicidade se instalar;

À Marina, Ana Paula Dantas, Everton Jales, Rafaela Albuquerque, Felipe Laydson e

Felipe Veríssimo, que estiveram presentes em cada instante que eu desviava os olhos das

páginas de minha pesquisa;

À Anita, que me encantou e me presenteou diariamente com sua doçura digna de uma

legítima vendedora de sonhos;

À Dra. Gy, minha irmã, melhor exemplo de persistência e superação que os céus

poderiam me dar; Aos meus pais, que de dentro da casa e para além da rua são os meus pontos de

referência no mundo. À eles, minha gratidão, meu mais puro amor e minha dedicação em tudo que tenho feito e farei ao longo de minha vida.

À Universidade do Estado do Rio Grande do Norte pela formação proporcionada;

Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas, bem como aos

professores do PPGCISH pelos conhecimentos transmitidos e por me guiaram nos primeiros passos de minha pesquisa;

À CAPES, que custeou um ano de bolsa para tornar esta pesquisa possível. Sem esse

apoio financeiro o processo teria sido bem mais árduo;

À Pedro Vinícius, Arthur Feitosa, Ramon Victor, Jéssica Oliveira, Aryanne Queiroz,

Teresa Raquel, Betânia Barros, Fernanda Oliveira, Ivanúbia e Micarla, amigos que fiz no

mestrado e que pretendo reencontrá-los sempre que possível;

À Vanessa, Valéria, Francisco e Neide, minha família de espírito e coração; pessoas por quem nutro uma gratidão eterna. E, para finalizar, agradeço a pessoa que mais colaborou na minha formação e na elaboração deste trabalho com seus conselhos, dicas e orientações valiosíssimas que guardarei sempre comigo, minha orientadora Dra. Cristina Barreto. Mas é difícil falar de Cristina sem romancear. Se minha vida fosse um livro, ela seria aquela personagem que liga todos os outros e dá sentido, de certa forma, ao enredo. Como o professor Julian de A História Secreta, unindo um grupo seleto de alunos em um propósito de torná-los imunes ao horror da modernidade. Talvez tudo seja coisa de minha cabeça. Mas acredito que não. E por me julgar incapaz de escrever algo que defina a nossa relação de Mestre e Aprendiz dada nos últimos anos, utilizo um trecho de Donna Tartt para falar sobre a minha orientadora. Trata-se do momento em que Richard fala de Julian, seu professor, a quem havia anos não mais via, e por quem nutria uma profunda admiração, respeito e gratidão, mas jamais o falou diretamente. Ele disse: “era um dos motivos pelos quais eu o amava: a luz lisonjeira sob a qual me via é que me torna a pessoa que eu queria ser em sua presença, pois ele me permitia este prazer”. À Dra. Maria Cristina Rocha Barreto eu devo em partes a pessoa e o Cientista Social que sou e me esforço para ser, portanto, é a ela a minha maior gratidão.

Tomai, comei, isto é o meu corpo.” Jesus Cristo

RESUMO

A construção de fachadas é uma estratégia utilizada pelos michês, sujeitos da prostituição

viril, para manter as práticas prostitutivas em segredo e proteger a própria honra, o que pode ocasionar uma diferenciação na percepção da própria sexualidade e nas formas de se relacionar com as pessoas em torno. O objetivo desta dissertação é observar como os garotos

de programa percebem as suas sexualidades a partir de fatores como o segredo e a fachada

envolvidos na atuação cotidiana nas esferas de experiências de vida pública, privada e transitória. A análise visualiza uma parcela da sociedade pouco vista e colabora com os estudos da prostituição, sexualidade, corporeidade e masculinidade, levantando questionamentos pertinentes para o momento atual de debates políticos voltados para as questões de gênero. A base teórica na qual se apoia esta pesquisa é formada por autores como Perlongher, Goffman, Simmel, Schutz, Foucault e Butler. Foram realizadas incursões ao campo, entre mundo virtual e concreto, seguidas de entrevistas semiestruturadas. A delimitação de uma terceira esfera de experiências de vida, a esfera transitória, é o que permite que a sexualidade entre os pesquisados assuma uma incoerência que ganha sentido no todo das experiências, tendo a característica particular de ser fadada ao esquecimento.

PALAVRAS-CHAVE: Prostituição viril, Masculinidade, Segredo, Fachada, Sexualidade.

ABSTRACT

The construction of facades is a strategy used by the michês, subjects of manly prostitution, to keep prostitution practices secret and to protect their own honor, which can lead to a differentiation in the perception of one's own sexuality and in the ways of relating to the people in around. The objective of this dissertation is to observe how the boys of the program perceive their sexualities from factors such as the secret and the facade involved in daily activities in the spheres of public, private and transitory life experiences. The analysis visualizes a small part of the society and collaborates with the studies of prostitution, sexuality, corporality and masculinity, raising questions pertinent to the current moment of political debates focused on gender issues. The theoretical basis on which this research is based is formed by authors such as Perlongher, Goffman, Simmel, Schutz, Foucault and Butler. Incursions were made to the field, between virtual and concrete worlds, followed by semi-structured interviews. The delimitation of a third sphere of life experiences, the transitory sphere, is what allows the sexuality among the respondents to assume an incoherence that gains meaning in the whole of the experiences, having the particular feature of being doomed to oblivion.

KEYWORDS: Manly Prostitution, Masculinity, Secret, Facade, Sexuality.

Lista de quadros

Quadro

e michês evidentes

1

Relação

Lista de Figuras:

comparativa

por

horário

entre

número

de

participantes

42

Figura 1: Apresentação de um garoto na sala de bate-papo

23

Figura 2: Fotos enviadas por Danilo através do Whatsapp

38

Figura 3: Página inicial do Bate-papo UOL

40

Figura 4: Banners da página do Bate-papo UOL

40

Figura 5: Caminho até a Sala 6

41

Figura 6: Sala de bate-papo onde converso com Bofe gostoso $$$

45

Figura 7: Apresentação de Eduardo na sala de Bate-papo

52

SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS

5

Lista

de

quadros

10

Lista

de

Figuras:

10

INTRODUÇÃO

7

CAPÍTULO 1 ROTAS METODOLÓGICAS: ASPECTOS DO CAMPO E DO SUJEITO ENQUANTO DEFINIDORES DO MÉTODO

17

1.1 Do trottoir à internet: sobre a inserção em campo

18

1.2 As entrevistas: seguindo os rituais de interação dos interlocutores

21

1.3 Prostituição viril em Mossoró: um campo em continuum

24

1.3.1 Locais de prostituição

25

1.3.2 Meios de divulgação

26

1.3.3 Os pontos de encontro

29

1.3.4 Locais de realização dos programas

30

1.4

O Michê: sujeito da Prostituição Viril

32

1.4.1. Ser um homem de verdade, ser michê: sobre a construção das masculinidades

 

e as posições do garoto de programa no universo da prostituição viril

33

1.4.2

Reconhecendo o comportamento dos sujeitos: os primeiros contatos

39

CAPÍTULO 2 O SEGREDO E O TRAÇO DAS ESFERAS DE EXPERIÊNCIAS DE VIDA

48

2.1

Ocultar e esquivar-se

48

2.2

Distanciamento e aproximação

55

2.3

Conflito e contradição

59

2.3

Construindo barreiras

62

CAPÍTULO 3 FACHADAS: TRANSITANDO ENTRE AS DIFERENTES ESFERAS DA VIDA

73

3.1.1 A Fachada na esfera pública como dispositivo de acionamento da normalidade

 

em um contexto de anormalidades

74

3.1.2

Construindo e mantendo fachadas: o caso Caio

75

3.1.2. Perdendo a fachada: o caso Artur Castro

83

3.1.3

A confusa multiplicidade de Jales

87

3.2

Fachadas virtuais

90

3.3 Fachada e performatividade de gênero

92

CAPÍTULO 4 FRÁGEIS SEXUALIDADES: UM JOGO DE INCOERÊNCIAS E PERFORMANCES

94

4.1

Os fortes e os veados: classificando e naturalizando as performances

96

4.2 Para além da divisão das esferas da vida: A sexualidade “oficial” e os marcadores

de limites simbólicos de outras sexualidades

100

4.4

Segredos e Fachadas: uma grande performance

106

CONSIDERAÇÕES FINAIS

110

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

113

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa se propõe a investigar três questões fundamentais verificadas no campo da prostituição viril na cidade de Mossoró: o segredo como elemento de grande relevância às práticas; a construção de fachadas por parte dos michês como artifício crucial na manutenção do sigilo e de separação das diversas dimensões da vida; e as sexualidades a partir da relação existente entre as esferas pública, privada e transitória da vida dos sujeitos pesquisados. Busco enxergar as relações mantidas pelos garotos de programa sob a ótica proposta pelos teóricos do interacionismo simbólico, como Blummer (1980), que diz que o homem deve interpretar o mundo a fim de realizar as suas ações, assim como deve enfrentar as situações em que é chamado a agir, especificando o significado das ações de outrem e planejar sua própria linha de ação à luz de tal interpretação(BLUMMER, 1980, p.132). O meu interesse pelo estudo da prostituição masculina teve início em 2011, quando, ainda na graduação em Ciências Sociais, um colega revelou que fazia programas de forma esporádica para se manter financeiramente. Em tom de confidência, o rapaz que se revelava michê, a quem chamarei aqui de Moisés e que na época tinha 21 anos, narrou-me casos que julgava interessante por envolver pessoas públicas da cidade, além de sujeitos anônimos que ninguém, segundo ele, jamais desconfiaria buscar esse tipo de prática. Questionei-o, então, sobre que lugar ocuparia em sua vida a relação afetiva/sexual mantida com sua namorada, supondo existir conflitos na tentativa de conciliar as duas formas de relacionar-se com indivíduos que buscavam trocas diversas. Até então sua vida era vista por mim como una, indivisível, até que ele me esclareceu a respeito da separação feita entre as diferentes dimensões de suas experiências: de um lado estavam as que abarcavam a família, amigos e namorada e, por outro lado, em um âmbito com ares de profissionalismo, vivido em segredo, onde apenas os clientes e pouquíssimos amigos, alguns destes também garotos de programa, tinham conhecimento de sua prática. Na ocasião, o nosso diálogo se configurava como uma ruptura na linha que separava as dimensões opostas, onde eu, pessoa que fazia parte do círculo público da vida de Moisés, no instante em que ouvia aqueles relatos que deveriam permanecer em sigilo, tinha acesso à

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esfera privada das experiências de vida e ao mesmo tempo àquela outra, na qual se inscrevia tudo aquilo ligado ao segredo. Com o desenrolar da conversa, cobertos por um pedido e uma promessa de silêncio implícitos, o rapaz me falou de algumas dificuldades encontradas na atividade dita profissional ao se ver na cama com alguém por quem não sentia desejo: um homem, por exemplo, ou com mulheres mais velhas que lembravam sua mãe ou tias. Nessas ocasiões, ele se valia de técnicas de excitação que iam além de um esforço mental, como um barbante ou uma camisinha amarrada em torno do pênis ou estímulos visuais a partir de vídeos pornográficos vistos no quarto do motel durante o programa. A heterossexualidade, de acordo com as falas de Moisés, era assegurada tanto pela relação mantida publicamente com a namorada conhecida de seus amigos e completamente alheia às suas experiências como garoto de programa, quanto pelo sentimento afetivo que alimentava pela parceira. Do mesmo modo, as posições assumidas no coito quando em atividade com os clientes, sempre como dominador, já que havia a recusa a realizar qualquer ato que diminuísse a sua masculinidade ou ferisse a sua vida pública, reafirmavam a sua heterossexualidade. Quando eu alcancei a fase de conclusão de curso e tive que eleger um objeto de pesquisa para elaboração de uma monografia, optei por adentrar no campo da prostituição masculina abordando perspectivas da corporeidade como ponto inicial de investigação. Tinha em mente a hipótese de que as técnicas corporais, que são para Marcel Mauss as “maneiras como os homens, sociedade por sociedade e de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos” (MAUSS, 2003, p.401), mantidas pelos garotos de programa durante a atividade profissional poderiam ser até certo ponto condicionadas pelos valores da masculinidade, como a honra, o pudor e a virilidade, ensinados ao homem nos processos de socialização (BOURDIEU, 2012). O trabalho foi intitulado “Ser um Garoto Homem: Masculinidade e Técnica Corporal entre Michês da cidade de Mossoró-RN” (PEIXOTO, 2014) e analisou algumas práticas corporais relacionadas ao ato sexual que deixavam claros os ideais de virilidade e honra valorizados socialmente. A conclusão de que haveria a interdição do olhar profundo, da fala e do beijo durante o sexo com os clientes faz pensar a presença do social, por meio de valores da masculinidade moduladores das ações do indivíduo, em um momento em que se julga no senso comum estar completamente alheio à dimensão social da vida (PEIXOTO, 2014). Para Breton (2011, p.43),

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“as posições dos amantes mudam de fato de uma sociedade para outra”, variando “a duração das trocas, a possibilidade de escolha de parceiros etc”, o que mostra que também no sexo somos influenciados pela sociedade. No caso dos michês, para quem a masculinidade inscrita em seus corpos funciona também como um valor simbólico a ponto de gerar uma relação de poder entre estes (Cf. SANTOS, 2008), as técnicas do ato sexual sofrem interferências consideráveis pelas noções de virilidade, de honra e pudor na medida em que estimulam a atitude de dominação e desencorajam a subordinação, bem como níveis mais profundos de intimidade que coloquem em risco a honra cultivada na esfera pública. Essa relação de influência foi percebida, então, desde o preparo do corpo até momentos subsequentes ao programa. Se o trabalho talvez não tenha conseguido responder a todas as questões propostas de forma satisfatória, a meu ver, por não terem sido feitas análises mais aprofundadas de aspectos importantes como os atos performativos de gênero ou, devido à necessidade de recorte, ter deixado de lado elementos essenciais do universo da michetagem, como o segredo e o conflito entre as diferentes dimensões da vida do garoto de programa, ao menos serviu como base para a formulação de novos problemas e também como um pré-conhecimento do campo a ser explorado presentemente na pesquisa de mestrado. Questões que abordem a maneira como os michês agem para manter em segredo a atividade da prostituição realizada em uma esfera transitória de sua vida e não permitir que isso atinja de alguma forma a sua vida privada junto a familiares e amigos próximos bem como a dimensão pública perante a sociedade de um modo geral foram levantadas tão logo percebi, em um mesmo indivíduo, a existência de identidades variadas, complementares e contraditórias conforme chamou a atenção Hall (2006), como pano de fundo de suas experiências. Para Simmel (1983), o conflito “é um modo de conseguir algum tipo de unidade, ainda que através da aniquilação de uma das partes conflitantes” (SIMMEL, 1983, p.122). No caso ora em análise, a questão seria se, entre os garotos de programa, essa aniquilação seria utilizada como estratégia de conciliação entre as experiências de vida. O garoto busca algum tipo de unidade no nível de suas vivências? A masculinidade funcionaria como elemento regulador desse tipo contraditório de comportamento assim como regula as técnicas corporais? E, afinal, o que definiria a visão tanto da sexualidade quanto o exercício de uma performatividade de gênero dos michês, tendo em vista as diversas experiências sexuais

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mantidas nas diferentes esferas da vida? Alguma noção de sexualidade se sobressairia sobre as outras? Em que momento e por quais motivos? Não obstante o grande número de questionamentos que surgem a partir da pesquisa já elaborada, alguns têm me instigado um pouco mais. É dessa forma que estabeleci como foco principal para a presente dissertação compreender como o michê elabora estratégias de convivência entre suas identidades nas esferas de experiências de vida pública, privada e transitória e como a fachada, definida por Goffman (2011, p.14) como “uma imagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovados”, construída em variadas espécies para permitir o trânsito entre as diferentes esferas da vida se relacionam na definição de sua sexualidade. Para tanto será necessário trilhar por três caminhos diversos que convergem para o objetivo geral citado acima. Em primeiro lugar, será necessário entender o aspecto do segredo como elemento primordial na separação das diferentes dimensões das experiências da vida do michê. Em seguida, buscarei esmiuçar os meios de construção das fachadas, visando o papel da masculinidade e seus valores no processo de sua elaboração, relacionando ao mesmo tempo a criação da fachada com a necessidade do sigilo. Em terceiro lugar, observarei finalmente como as fachadas construídas e vivenciadas pelos garotos de programa no círculo de atividades ditas profissionais podem se relacionar com as performances e suas respectivas sexualidades assumidas nas diferentes dimensões da vida. Em tempos de intensos questionamentos acerca da sexualidade humana, a contribuição dada pelo trabalho a essas deliberações pode ser de grande valia. Os debates acerca do sexo e da posição do indivíduo nas relações de gênero estão presentes nos dias atuais nas artes, nas mídias de comunicação, nas ruas e cenários políticos do país. Nesse sentido, o trabalho proposto poderá fornecer subsídios às discussões ao investigar as realidades vivenciadas pelos michês, explorando o conhecimento dessa questão existente na nossa sociedade e contribuindo assim com a diminuição da força do mecanismo que o encerra sob um véu de mutismo. Além disso, com a globalização, o advento da internet, as novas tecnologias de comunicação e informação que avançam de forma muito rápida e influenciam as maneiras de relacionar-se, de estabelecer redes de contato e formas de ver tanto o outro quanto a si, houve uma crescente modificação também em questões relacionadas ao mundo da prostituição, principalmente no que diz respeito às novas masculinidades, ao reconhecimento de si enquanto profissional do sexo ou indivíduo pertencente a uma determinada categoria de

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gênero, aos meios de se firmar relações, criando outras redes, outros espaços de deriva (PERLONGHER, 2008) para além das ruas e esquinas. Devido a isso, requerem-se novas abordagens, novos estudos sobre essas realidades constantemente reformuladas, sendo, então, “necessária e urgente a implantação de um olhar personalizado para esse novo ser” (VIANA, 2004, p.296). Para que essa mutabilidade das características típica dos garotos de programa seja percebida de forma mais nítida, utilizei como base principal um trabalho de destaque nas ciências sociais que contribuiu para a compreensão do universo da prostituição masculina, realizado na década de 80 por Nestor Perlongher, intitulado O Negócio do Michê, que revela entre outras coisas a imprecisão que ronda o enquadramento de determinadas práticas sociais em termos como prostituição viril, negócio do michê ou prostituição homossexual (PERLONGHER, 2008). Ao mesmo tempo em que alguns traços causam a impressão de imutabilidade, outros, devido principalmente a interferência das tecnologias de comunicação nas interações humanas, sofreram modificações consideráveis e isso consiste em uma das questões que serão aqui levantadas, principalmente no que se refere a utilização de fachadas. Nesse trabalho, o termo michê foi definido por Perlongher (2008) em dois sentidos diferentes. O primeiro diz respeito ao ato de prostituir-se, enquanto que o segundo se refere aos “varões geralmente jovens que se prostituem sem abdicar dos protótipos gestuais e discursivos da masculinidade em sua apresentação perante o cliente” (PERLONGHER, 2008, p.43). Ainda segundo ele, “a variedade de denominações possíveis, os recortes alternativos que cada uma delas traça, é um reflexo dessa imprecisão” (PERLONGHER, 2008, p.64). Trata-se, portanto, de uma dificuldade em se definir o que de fato seja um ato típico da prostituição viril, o que, por sua vez, refletirá no reconhecimento do garoto de programa enquanto tal, já que este poderá não considerar a sua experiência como uma atividade prostitutiva. Como reflexo disso, os michês oscilam entre várias denominações que deixam clara a intenção de suavizar o estigma da prática ou até mesmo a fuga do enquadramento na categoria garoto de programa que carrega um peso a ser evitado pelos próprios. Assim, é possível se deparar com inúmeras designações para o rapaz que vende favores sexuais, passando de garoto de programa, michê, GP, acompanhante, gigolô, atolador, bofe, até formas mais discretas, como Becker, Loverboy ou Scort, todas elas se encaixando dentro da atividade da prostituição ainda que de forma indireta.

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Essas denominações sugerem práticas diferentes, mas que na realidade são muito próximas umas das outras. Enquanto o garoto de programa pode dar a entender que o rapaz pode estar disposto a realizar os mais variados desejos, desde que receba uma recompensa monetária à altura de um valor atribuído a si mesmo, o michê, o atolador, o gigolô e o bofe estão associados ao sujeito que assume tão somente o papel ativo da relação. O Becker, o Loverboy e o Scort, por sua vez, impõem-se uma postura de superioridade em relação aos outros, tal qual o Acompanhante que não está disponível somente para o sexo, mas também se mostra dotado de um certo capital cultural, estando assim preparado para um diálogo que gire em torno dos mais diversos temas com o cliente, como também disposto a viagens e passeios em lugares públicos. Outras variações ainda podem ser vistas, como boy ou garoto, tendo sido o termo programa suprimido da expressão garoto de programa, ambas se referindo ao rapaz jovem, muitas vezes menor de idade. Neste trabalho utilizo as denominações garoto de programa, garoto, rapaz e michê para me referir ao indivíduo entre 18 e 35 anos que vende favores sexuais. A escolha se dá pelo fato de serem estas as nomenclaturas mais utilizadas pelos próprios entrevistados para referirem-se a si mesmos enquanto sujeitos da prostituição viril. Por outro lado, também são as denominações utilizadas pelos autores aqui empregados para dar bases às discussões acerca de aspectos ligados à michetagem, como Perlongher (2008), Braz (2009) e Santos (2008). Nos caminhos teóricos por mim traçados durante a formulação desta pesquisa, percebi que abordagens acerca de temas como o erotismo, o desejo, a masculinidade e o corpo em contextos de práticas sexuais findam por tocar muitas vezes o universo da prostituição masculina. Porém, trata-se de abordagens feitas de forma indireta, por esses se tratarem de aspectos presentes marcadamente na michetagem, mas que figuram igualmente em ambientes voltados para a prática sexual entre homens envolvendo ou não a intermediação do dinheiro, como saunas e clubes de sexo. Braz (2009), por exemplo, discorre a respeito das experiências em clubes de sexo para homens focando, entre outras coisas a corporeidade, tanto a dos indivíduos presentes nas situações vistas quanto a do próprio pesquisador. Para ele, as “experiências ‘à meia-luz’ estão norteadas por marcadores de diferença diversos, que contextualmente podem resultar em desigualdades, hierarquizações e mesmo em exclusões” (BRAZ, 2009, p.88). Isso quer dizer que fatores como a masculinidade inscrita nos corpos dos indivíduos geram relações de distinção capazes de categorizar o sujeito em “desejável” ou “indesejável” e, a partir daí, garantir ou não a possibilidade de se participar de uma cena de sexo mantida

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diante de outras pessoas em ambientes preparados para tal prática ou até mesmo a exclusão do sujeito dos ambientes em questão (BRAZ, 2009). Os atos sexuais realizados às vistas dos outros em locais fechados, onde muitas vezes se entra vestindo apenas a própria masculinidade em forma de músculos trabalhados em academias, pelos, pênis em constante ereção e postura masculina exagerada (BRAZ, 2009; SANTOS, 2008), mostram que a masculinidade se trata de um forte valor simbólico dentro de um ambiente restrito a homens que buscam trocas sexuais. Sendo assim, para que exista o desejo seria necessária a presença de outros corpos tão masculinos quanto possível, inclusive por parte do pesquisador que aí adentra e reconhece que a sua própria corporeidade não está invisível, mas é notada e influencia no acesso aos entrevistados que decidem se irão ou não colaborar com o trabalho, muitas vezes levados pelo nível de desejabilidade do corpo daquele que está em campo para investigar tal realidade (BRAZ, 2009). A pesquisa de Braz (2009) é importante na medida em que aponta que contornos ganham o explorador em um trabalho que visualize a corporeidade em ambientes fechados, permeados de desejos e erotismos; abre os olhos para a atitude a ser mantida pelo observador e a possibilidade de, a partir do momento em que se adentra um ambiente assim, o corpo do indivíduo será modificado pela subjetividade alheia, trate-se de um frequentador experiente ou de um pesquisador, como aconteceu comigo em campo. Retomarei esta discussão mais no desenrolar da dissertação. Nessa linha de raciocínio que visualiza a corporeidade dos sujeitos imersos nesses contextos de práticas sexuais, Santos (2008) examina as relações de poder estabelecidas a partir da masculinidade dos corpos dos michês em saunas de São Paulo. O autor diz que

michês mais “bem” dotados, com corpos mais bem trabalhados, “malhados”, com membros sexuais considerados maiores que a média pelos clientes, têm mais poder de negociação, tanto no ganho monetário como em posições sexuais que seriam, supostamente, inadmissíveis para um homem (SANTOS, 2008, p.3).

Esses corpos seriam, então, discursivos por encerrarem em si uma mensagem que ganha significado a partir do contexto em que estão inseridos e do desejo dos outros indivíduos presentes nos locais abordados pelo autor. Segundo ele, é possível notar que “tais corpos buscam uma valorização da ‘masculinidade’ ou do que é considerado socialmente ‘masculino’, ‘viril’” (SANTOS, 2008, p.3).

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Nesse sentido, Foucault (2011b) também contribui de forma destacada ao salientar que o cuidado de si “não constitui um exercício de solidão, mas sim uma verdadeira prática social” (FOUCAULT, 2011b, p.57). Isso quer dizer que, ao buscar adequar o próprio corpo aos critérios elaborados por um grupo de pessoas que no caso da prostituição viril tem como referência a masculinidade -, o sujeito está se envolvendo em uma prática que não diz respeito unicamente a si, porém, ele age em relação a todo o grupo social envolvido no contexto, mesmo sendo a nível de seu corpo. Os trabalhos acima citados convergem ao constatarem a masculinidade como um valor simbólico em circunstâncias de sexo voltado para homens, mesmo sem a troca do ato por dinheiro ou qualquer tipo de retribuição material. Estar presente nesses ambientes, portanto, já implica ser imerso em uma hierarquia de tipos masculinos, independente de quem seja. No meu caso, enquanto pesquisador se inserindo em um espaço onde se deve obedecer a determinados rituais de interação específicos do meio, o processo de descoberta com os sujeitos da pesquisa se dava de forma recíproca, uma vez que a avaliação de minhas identificações, de minhas falas, de minha postura e de meu rosto exibido por meio de webcam na sala de bate-papo era uma maneira que os entrevistados encontravam para julgarem a mim como confiável, e assim merecedor de suas revelações um tanto íntimas, ou não. Esse mesmo tipo de situação foi vivenciado por outros autores de etnografias virtuais como o já referido Braz (2009), Miskolci (2013) em seu estudo sobre as relações homoafetivas possibilitadas por meio da inernet e Pelúcio (2015) ao pesquisar relações extraconjugais intermediadas por um site especializado em promover encontro entre homens casados e possíveis amantes. Os autores perceberam a idêntica necessidade de se mostrarem e se comportarem minimamente da forma como o fazem os sujeitos investigados para que a pesquisa se tornasse possível. Ao mesmo tempo, para investigar as fachadas construídas pelos garotos de programa e me mostrar como alguém interessado pelas histórias dos sujeitos, porém não em buscar parceiros para sexo pago, eu enfrentei os mesmos dilemas que Braz (2009), Miskolci (2013) e Pelúcio (2015), passando pela dúvida sobre que identificação utilizar, como me comportar inicialmente, entre outras coisas. Afinal, eu também precisei construir uma fachada de cientista social amparada, principalmente, pela linguagem por mim utilizada, formal na maior parte do tempo, pelos limites impostos nas próprias interações, bem como pelo meu esforço muitas vezes exaustivo em manter o foco dos diálogos nas questões a serem investigadas.

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Por outro lado, observando agora do ponto de vista dos interlocutores, o ato de conversar com alguém pertencente ao meio acadêmico parecia se mostrar como uma forma segura de o indivíduo superar a proibição, o mutismo, a condenação da qual fala Foucault (2011a). E ao mesmo tempo, se o sexo é interdito, “o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada” (FOUCAULT, 2011a, p.12), o que parecia funcionar como estímulo ao garoto de programa habituado a reprimir as suas experiências e a deixá-las confinadas em uma esfera de segredo. Para uma melhor compreensão de como esses fatores, notados por outros autores e presentes também no campo aqui tratado, operam na vida dos sujeitos investigados, esta dissertação se divide em quatro capítulos. No capítulo 1, dedicado a uma definição do campo e dos sujeitos, é abordada a atividade da prostituição masculina na cidade de Mossoró-RN em suas especificidades, englobando as formas de divulgação, negociação e aproximação. Para tanto, é feito um mapeamento do campo, delineando os espaços onde os indivíduos estudados podem ser encontrados e traçando o perfil dos sujeitos pesquisados, privilegiando a internet como o principal local de interações e artifício utilizado nas negociações, sendo, por isso mesmo, destacado como parte primordial de um campo em constante reformulação. O Capítulo 2 é voltado para a análise do segredo como elemento presente na vida dos michês de maneira a influenciar as práticas da prostituição, buscando verificar o modo como a masculinidade influencia na atitude do resguardo da imagem pessoal, desde a divulgação até os percursos feitos e o local da realização do programa. Simmel (2009) fornecerá arcabouços teóricos para facilitar a visibilidade deste aspecto em campo. Schutz (1979), por sua vez, fornecerá a noção de província finita de significado como um “conjunto de experiências onde se firma a realidade” (SCHUTZ, 1979, p.248) para auxiliar no entendimento das vivências dos garotos de programa em dimensões opostas da vida. Nesse sentido, tomo as dimensões da vida pública, privada e transitória como províncias de significado distintas, cada uma com seus aspectos, relações e sentidos próprios. O Capítulo 3 discorre a respeito da construção e utilização das fachadas e o seu papel na preservação da honra do garoto e na separação das vivências nas diferentes dimensões de suas experiências. A masculinidade é levada em consideração na medida em que noto traços do macho estereotipado nas fachadas construídas e algumas vezes materializadas nas experiências ditas profissionais. Erving Goffman é a coluna teórica a dar sustentação às discussões sobre fachada, levando em conta que no contexto da prostituição masculina, a noção de masculinidade se constitui um elemento de valor, portanto, servindo como critério

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na elaboração de uma fachada, o que toca diretamente nas questões de performance de gênero.

A discussão sobre a passagem pelas diversas esferas de experiências da vida servirá

como ponte para, finalmente, no Capítulo 4, dissertar sobre as sexualidades e as

performatividades dos michês, perpassando o papel das práticas corporais dadas em dimensões opostas da vida e da masculinidade nos processos de definição.

A noção de gênero elaborada por Butler (2015) é a base na qual se apoia a abordagem

dos atos performativos, entendidos como “fabricações manufaturadas e sustentadas por signos

corpóreos e outros meios discursivos” (BUTLER, 2015), na definição da identidade de gênero dos sujeitos pesquisados, sem deixar de considerar o caráter conflituoso de suas sexualidades entremeando as experiências.

A manipulação da apresentação de si realizada pelos garotos de programa é uma ação

que envolve não somente o aspecto corporal, mas pode englobar igualmente a subjetividade do indivíduo no que diz respeito a sua sexualidade. Trata-se de uma questão que leva a se pensar diversos aspectos de uma realidade complexa e rica em possibilidades de abordagens. O segredo, a fachada e a sexualidade são apenas três dessas possibilidades, diferentes, porém, como podem ser observadas, intrinsecamente ligadas umas às outras.

CAPÍTULO 1 ROTAS METODOLÓGICAS: ASPECTOS DO CAMPO E DO SUJEITO ENQUANTO DEFINIDORES DO MÉTODO

“Ninguém vai me dizer como devo me virar. Eu quero, quero muito, quero agora. O meu desejo, ninguém vai roubar”. Sonhos roubados, Maria Gadú.

Considero necessário apresentar preliminarmente alguns aspectos do campo e do comportamento do sujeito em virtude de alguns traços particulares que, além de mostrarem modificações em suas disposições em relação à pesquisa por mim realizada no ano de 2014 (PEIXOTO, 2014), necessitam de uma atenção mais precisa por envolverem aspectos interligados que são, por suas particularidades, dignos de nota e de um maior debate, ao mesmo tempo em que servem como base para as questões principais desta pesquisa. Refiro-me, primeiramente, a escolha do campo abordado como estando fora de um local delimitado, diferente do que ocorre em estudos que abordam, por exemplo, os clubes de sexo para homens ou as saunas onde, além de os michês apresentarem seus corpos de forma direta aos clientes, os comportamentos e as interações obedecem, muitas vezes, a regras impostas pelos próprios estabelecimentos (BRAZ, 2010; SANTOS, 2008). Essa escolha metodológica se dá por um motivo claro: na cidade de Mossoró não há nenhum local comercial que tenha a finalidade direta de sustentar ou facilitar a prática da prostituição masculina. Desse modo, uma inconveniência metodológica é influenciada pelo próprio campo na medida em que este se apresenta de forma fluida, sem uma delimitação rígida em espaços físicos fechados. Por esse motivo, as recomendações sobre delimitar um local exato, fazendo um recorte o mais específico possível para facilitar a pesquisa e torná-la mais objetiva podem ganhar novas reformulações ao abranger maiores dimensões físicas e ao mesmo tempo se voltar com mais atenção a dimensões subjetivas da atuação de um grupo de pessoas. Assim, mais importante que um local propriamente dito, eu considero o comportamento de um número de sujeitos que tem entre si algo em comum, visando alguns

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aspectos inerentes aos seus atos em sociedade que caracterizam uma prática dentro de uma localidade, mas que podem facilmente extrapolar qualquer barreira geográfica. O fato de não haver espaços próprios dos quais os sujeitos se utilizem especificamente para a prática da prostituição aponta para outro traço observado que é, ao mesmo tempo, a sua causa e consequência: a ausência de organização na forma de grupos de características marcadamente próprias em contraste com o restante da sociedade e que se reconheçam entre si como michês. Isso deixa claro que não é a minha intenção pensar os michês partindo unicamente da categoria da diferença, tão valorizada por alguns pesquisadores, tendo em vista que o que chama a atenção nos indivíduos visualizados aqui é justamente uma categoria oposta, essencial para pensar as suas experiências: a semelhança com qualquer outro ator social. O confundir-se com os indivíduos ordinários liga-se a outros aspectos observados como, por exemplo, o de buscar fugir do estigma que sofrem os profissionais do sexo e de buscar uma valorização de si muitas vezes a partir de um forjado ineditismo na prática da michetagem. O comportamento dos garotos de programa seria, assim, influenciado em grande parte pelo que se considera socialmente como um ideal de masculinidade buscado pelos sujeitos como forma de não deixarem de lado uma certa normalidade. Esses são traços fundamentais da atividade de michê, o que gera, ao mesmo tempo, outro contratempo metodológico quando dificulta o reconhecimento dos indivíduos por parte do pesquisador a partir do momento em que torna mais fluido o campo e quase invisíveis as suas redes de contato. Falo de uma disposição dos sujeitos e, por assim dizer, um mimetismo por parte deles que torna necessária uma certa medida de descentralização do olhar inquiridor de um espaço fechado para um campo mais amplo. Foi exatamente isso, portanto, que me levou a enxergar a cidade de Mossoró-RN mais como um local de atuação dos indivíduos michês, do que mesmo o lugar de pertencimento destes.

1.1 Do trottoir à internet: sobre a inserção em campo

O campo de pesquisa não se revelou muito bem delineado em termos espaciais, estando diluído por toda a cidade de diversas formas, o que exigiu um olhar atento, num intenso exercício da imaginação sociológica, nos termos de Mills (1975, p.17), que diz que

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“para compreender as modificações de muitos ambientes pessoais, temos a necessidade de olharmos além deles”, utilizando-nos das informações e da razão para perceber o que ocorre no mundo. Buscando novos significados em uma cidade que eu julgava familiar, utilizei-me do que falou DaMatta (1987) sobre desnaturalizar o natural, o familiar e torná-lo exótico, buscando enxergar em locais já vistos níveis de realidades antes despercebidos.

É nesse sentido que abro os olhos para práticas que se dão diante de nós e tento

enxergar sociologicamente uma realidade 'familiar', conhecendo-a melhor ao questionar se

realmente a conheço, se tenho ciência dos detalhes das relações dadas em seu interior, de seus significados reais, praticando o que DaMatta (1987) chamou de dúvida antropológica. Insisti, portanto, na busca de possíveis meios de acesso a redes de contato mantidas pelos michês e modos de inserção, bem como na observação de ruas escuras e bares noturnos que, para mim, não passavam de simples bares, mas que aos poucos se revelaram como pontos de circulação e encontro entre garotos e clientes.

O segredo, que para Simmel (2009) regula as relações sociais na medida em que o

indivíduo controla o que é exposto de si ao outro, é utilizado largamente pelos michês como proteção da própria imagem perante a esfera pública. Isso constitui uma dificuldade de acesso ao grupo estudado, já que o pesquisador deverá se esforçar para, em primeiro lugar, localizar e reconhecer as teias de contato onde estão os michês para, em seguida, buscar ser aceito por eles e se inserir nessas redes muitas vezes fechadas. É dessa forma que o contato realizado através da internet se mostrou satisfatório, como também percebeu Braz (2009) em sua pesquisa sobre clubes para homens, ao frequentar páginas de internet que buscam reunir homens a procura de parceiros sexuais e/ou afetivos ou indicadores de locais de comércio sexual, bem como Barreto (2011), que em seu trabalho sobre prostituição viril, verificou que cada espaço exige uma forma de aproximação particular, “tanto da parte do pesquisador quanto dos interessados na transação desse mercado” (BARRETO, 2011, p.4), exigindo um jogo de cintura do pesquisador que é até certo ponto facilitado pela internet. Perlongher (2008), ao entrar em campo, questionou-se sobre a melhor forma de conhecer os indivíduos pesquisados e as realidades vividas por eles. Concluiu que “não há melhor maneira de estudar o trottoir do que fazendo trottoir” (PERLONGHER, 2008, p.56). O chamado trottoir se refere, a partir do contexto narrado pelo autor, à prática da prostituição

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dentro de um modelo clássico, nas ruas, onde os sujeitos estão dispostos nas esquinas, becos e avenidas visando chamar a atenção dos possíveis clientes. Para ele, a melhor estratégia encontrada foi “procurar uma interação sistemática e eficiente com a população” (PERLONGHER, 2008, p.56). Ou seja, o próprio pesquisador se dispôs a perambular pelas ruas tal qual os michês estudados. O seu objetivo era estar além da observação de como os indivíduos se comportavam; era sentir na pele o que seria estar na rua à mercê do olhar dos clientes e dos próprios garotos, percebendo entre outras coisas o desejo que permeava a realidade e as atitudes dos michês. Outro autor que manteve uma atitude semelhante à de Perlongher, foi Braz (2009) que ao eleger os clubes de sexo para homens como objeto de sua etnografia, foi aconselhado por um dos entrevistados a focar o seu olhar não mais sobre os clubes em si, mas sobre o tesão das pessoas que frequentavam os locais. Somente dessa forma ele compreenderia, de fato, o que se passava nos ambientes abordados por sua pesquisa. Trata-se, portanto, de uma visão mais intimista do objeto de pesquisa que ultrapassa uma descrição superficial do grupo estudado. Desse modo, para a presente pesquisa, vislumbrei igualmente a utilidade de me aproximar do mundo da prostituição masculina de modo a observar o mais perto possível como os fatores aqui investigados influenciam nas ações do indivíduo que se envolve em tal prática. Aliei, assim, a inserção no campo por meio da internet ao trottoir, como realizado por Perlongher (2008), praticando uma espécie de trottoir virtual, porquanto me coloquei através das salas de bate-papo e sites especializados em divulgação de serviços sexuais, no cenário de atuação dos sujeitos pesquisados. Entre 10 de Abril e 24 de Junho de 2016, fiz incursões ao campo com a frequência média de uma a duas vezes por semana, dirigindo-me de automóvel aos pontos físicos de prostituição, de forma intercalada, no intuito de observar a presença e a movimentação dos rapazes nesses locais, o que na grande maioria das vezes foram constatados resultados negativos. Concomitantemente, visitei sites especializados em divulgação de garotos de programa, redes sociais voltadas para o público adulto que busca contatos para experiências sexuais e salas de bate-papo, o que se mostrou ser um método satisfatório para estabelecer contato com os possíveis interlocutores. Essa atitude, contudo, refere-se a um primeiro momento oficial da pesquisa, onde visei as articulações de contato de forma preliminar, fazendo um reconhecimento tanto dos espaços quanto dos indivíduos envoltos na atividade da

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prostituição. Mas houve também para mim um momento que Braz (2010b) denomina de pré- campo, que se trata de um contato prévio com o campo e os sujeitos com o intuito de se fazer “observações livres” (PERLONGHER, 2008), anotações em diários de campo e recorte para futuras observações mais detalhadas. Trata-se do espaço de tempo entre 25 de Março de 2014 à 09 de Abril de 2014, correspondendo ao período em que pela primeira vez tive contato com garotos de programa no intuito de produzir uma monografia (PEIXOTO, 2014).

1.2 As entrevistas: seguindo os rituais de interação dos interlocutores

No total, foram cinco entrevistas aprofundadas, sendo duas realizadas online, por meio de salas de bate-papo UOL onde os garotos se apresentaram um como Eduardo e o outro como Renato. Para os dois, vi a necessidade de exibir o meu rosto através da webcam por um momento para que eles ganhassem confiança em mim a ponto de conversarem abertamente. As outras três entrevistas se deram pessoalmente, em locais e espaços de tempo variados; No período de pré-campo encontrei em salas de bate-papo e conversei em seguida pessoalmente com Artur Castro na UERN e com Caio em uma parada de ônibus e pelas ruas do bairro onde o rapaz residia, o Abolição II; com Jales, entre Fevereiro e Junho de 2017, tive várias conversas mantidas em diferentes encontros e locais. Destas três, somente um garoto, Jales, chegou até mim de forma espontânea e se revelou do meio após me ouvir falar desta pesquisa de mestrado e se dispôs, então, a conversar sobre a sua experiência. Além desses contatos, conversei superficialmente com outros garotos através das salas de bate-papo em dias variados. Para me referir a esses, utilizarei as próprias identificações adotadas pelos mesmos na ocasião dos diálogos dentro das salas virtuais ou outras designações que alguns deles sugeriram.

A faixa etária dos interlocutores varia entre 18 e 32 anos. Os nomes dos garotos foram

substituídos por nomes fictícios, alguns escolhidos pelos próprios, outros por mim, como

medida de proteção de suas identidades.

O perfil de cada garoto e os detalhes de cada encontro serão traçados conforme os

mesmos apareçam no texto ou seja necessário enfatizar um ou outro aspecto. As falas dos garotos foram preservadas na forma, o que significa dizer que, nas transcrições, preservei algumas gírias, palavrões e erros de português. Alguns rapazes optaram por não revelar algumas informações, como o bairro em que residem, relato de como se iniciaram na prática,

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nome de terceiros e instituições de educação a que estão ligados, para dificultar o reconhecimento, o que foi respeitado por mim por questões éticas de pesquisador. Perlongher (2008, p.58) esclarece que em sua pesquisa foi necessário “seguir os rituais da interação próprios do meio” que, no contexto por ele analisado, eram constituídos basicamente por troca de olhares, gestos e deslocamentos em espaços físicos. O autor salienta que, mesmo reconhecendo um rapaz como garoto de programa, não era aconselhável aproximar-se dele sem os rituais rotineiramente utilizados pelos clientes. O fato de ser confundido com os clientes potenciais, em vez de se constituir uma dificuldade, em verdade era um fato que agia a seu favor por permitir “descobrir os mecanismos reais (e não meramente discursivos) do contato prévio à relação” (PERLONGHER, 2008, p.58). Desse modo, coloquei-me em campo disposto a entrar nos jogos interacionais típicos dos garotos de programa que se utilizam das salas de bate-papo do portal UOL. Logo percebi, então, que uma espécie de roteiro, ou script, era seguido tanto pelos michês, quanto pelos clientes no início dos diálogos nas salas online, constando variavelmente de características físicas, ocupação, bairro onde se reside, a posição a ser ocupada no coito e valor cobrado. Essa troca de dados básicos é obrigatória no início das conversas entre os rapazes e seus clientes por valerem como critérios na decisão de dar prosseguimento à transação ou não. Ao mesmo tempo, as informações dadas muitas vezes já na primeira fala, encerram a capacidade de se incitar desejo no outro, bem como a possibilidade da realização do programa. A fala de $SARADÃO GP AGORA $ expressa bem essa forma de se apresentar. Quando perguntado sobre a prática da prostituição, o michê falou de uma só vez: “meu nome é bruno 23 anos, 1,69 de alt, 72kg, saradão, tatuado, sigilo total, uso whats e skype, comigo seu prazer é garantido, faço massagens”. De modo semelhante ACOMPANHANTE H se descreveu para mim: “30 a moreno 179m 73 kg 19 cm grosso pernas grossas bunda de macho gostosa. barba bem feita macho discreto.50,00 ,Beijo sarro pegação sexo em si sou ativo/passivo”. De forma aproximada, descreve-se o garoto que se utiliza da identificação ATV 22cm GP$$, conforme mostrado na Figura 1, onde eu me identifico como Carlos:

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Figura 1: Apresentação de um garoto na sala de bate-papo 1

1: Apresentação de um garoto na sala de bate-papo 1 Os garotos expuseram muitas vezes as

Os garotos expuseram muitas vezes as suas descrições em uma única fala, utilizando- se de uma linguagem típica do meio virtual onde não se leva em consideração as regras gramaticais do português. Isso demonstra o desejo de economizar tempo e adiantar a negociação, falando diretamente do que seriam boas qualidades dentro do contexto da michetagem, como as características viris que possuem, a discrição e a capacidade de proporcionar o prazer buscado pelos clientes. Por outro lado, alguns garotos preferem que as conversas se deem de forma lenta, com

trocas de informações recíprocas e com falas que despertem o desejo naquele com quem se fala. Foi participando dessas conversas, guiadas pelos próprios pesquisados, que pude traçar o perfil de alguns garotos e enxergar o comportamento dos mesmos quando em atividade. Para uma melhor esquematização do processo de interação, algumas entrevistas ocorreram em dois níveis de contato diferentes:

1. Primeiro nível: as conversas são tidas dentro das salas de bate-papo, onde busco

informalmente traçar um perfil do michê (identificação, idade, grau de profissionalismo, bairro de residência e público atendido). É feito o recorte de idade, já que os garotos menores de 18 anos não serão levados em consideração por motivos éticos. Podendo o sujeito se enquadrar realmente dentro da prostituição viril, passamos para um outro estágio;

2. Segundo nível: a entrevista é feita de modo aprofundado, pessoalmente ou pela

internet, através das salas de bate-papo. É guiada por um roteiro semiestruturado, envolvendo

as principais questões que motivam a pesquisa, sejam elas em torno do segredo, da fachada ou sexualidades dos garotos. Alguns entrevistados se sentiram à vontade para narrar fatos

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ocorridos em suas vidas que tocam a questão da prostituição de uma forma ou de outra. Somente Artur Castro aceitou que a conversa fosse gravada, pois o receio de serem identificados impedia que os rapazes permitissem o uso de gravador de voz por considerarem a gravação uma exposição excessiva. Para o registro fonográfico fiz uso do meu próprio aparelho celular onde instalei um software para smartphones chamado Smart Recorder que permite gravar áudios de longa duração 2 . A divisão das entrevistas em níveis diferentes se deu conforme foi percebida a interação entre cliente e michê dada de forma semelhante. Foi, portanto, a própria observação do campo e do comportamento dos sujeitos que indicou o método mais eficiente para a coleta de dados.

1.3 Prostituição viril em Mossoró: um campo em continuum

O campo apresenta pontos de uma rede circulatória na qual os sujeitos se apresentam de diferentes formas, em momentos diferentes, fazendo variar inclusive as suas classificações em distintos graus de profissionalismo conforme a situação verificada. É nesse sentido que Perlongher (2008) fala de um campo em continuum, onde os pontos de prostituição e a disposição dos garotos de programa estão ligados como em uma espécie de circuito. Proponho inicialmente uma distinção entre os locais de concentração de michês ou onde é realizado o contato, os pontos de encontro entre profissional e cliente e o espaço de realização dos programas como fazendo parte de três momentos diferentes de uma transação. Inicialmente, existem as modalidades de divulgação e disposição dos garotos, variando entre a utilização de espaços geográficos e virtuais, o que por sua vez pode claramente refletir no grau de profissionalismo assumido pelos sujeitos. Desse modo, um michê que se diga profissional pode se utilizar tanto das ruas quanto da internet como forma de se colocar à disposição do cliente, enquanto que, em outros momentos, possa encarar a si mesmo como um michê ocasional e buscar contatos em um meio menos rigoroso, como a internet, que a partir da ocultação do seu rosto, torna mais fácil a manipulação de sua identidade.

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Foi percebido que, na maioria das vezes, os mesmos garotos encontrados em um local também estavam presentes em outros, demonstrando a ligação entre os pontos na forma de uma espécie de circuito, uma rede circulatória, um campo em continuum.

1.3.1 Locais de prostituição

Beco do Cu. No Bairro Boa Vista, entre os fundos do Hospital Rafael Fernandes e a lateral do SESC, a Travessa do SESC é uma rua estreita, calçada com pedras e com montes de entulho em alguns pontos espalhados na via pouco iluminada. Durante a noite, podem ser vistos alguns garotos perambulando por ali ou fazendo ponto no local, em sua maioria vestindo roupas que denunciam o pertencimento a classes sociais mais baixas, o que por sua vez indica a possibilidade de os garotos residirem em outros bairros. Dentro do período de minhas idas a campo, algumas vezes, menos do que seria anos atrás, como na ocasião da pesquisa por mim realizada em 2014, deparei-me com situações que pude interpretar como atividades de prostituição. As cenas pareciam se repetir por sua semelhança tanto na forma de os sujeitos se portarem, seu comportamento, posturas, olhares, quanto na sequência dos fatos verificados. Como exemplo, narro uma cena observada na noite do dia 24 de Abril de 2016, um domingo, entre as 21:00 e 22:00 horas. Eu estava parado do outro lado da rua no interior de um carro, ligeiramente afastado para ser percebido mais como um visitante do hospital ao lado do que como um cliente em potencial de algum garoto. Logo notei que um jovem negro, magro, vestindo bermuda e camisa perambulava entre a esquina do hospital e a Travessa do SESC olhando sempre para os lados com ares de apreensão. Em um determinado momento, ele parou. Escorado em um ponto escuro do muro, um pé apoiado na parede, braços cruzados, não se demorou muito, pois um carro que, segundo observei, já perambulava pelas ruas do quarteirão havia um certo tempo, após sinalizar com os faróis, aproximou-se devagar e parou junto ao meio fio. O garoto, sem se aproximar muito e aparentando pouco interesse, conversou com o motorista olhando para os lados e balançando a cabeça ora negativamente, ora positivamente. Em seguida, ele entrou no veículo que partiu devagar com os faróis em luz alta. Após a partida do rapaz, demorei-me no local por mais cerca de vinte minutos e na mesma noite não se verificou mais a presença de garotos em trottoir.

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Postos de gasolina da RN-013. Outros locais onde foram observadas concentrações de indivíduos em atividade de prostituição foram em alguns postos de gasolina localizados na RN-013 que liga Mossoró à cidade litorânea de Tibau. Na noite do dia 26 de Abril de 2016, entre as 22:00 e as 23:00 horas, percebi pequenos agrupamentos de sujeitos posicionados nas extremidades de um posto de gasolina e nas margens da estrada. Porém, os indivíduos percebidos não se enquadrariam na prática da prostituição viril, tendo em vista que eram visivelmente efeminados, não correspondendo ao estereótipo do homem másculo, podendo, portanto, serem enquadrados na prostituição

homossexual. Por outro lado, havia um número considerável de travestis que jogavam os cabelos para os lados ou acenavam para os caminhões que passavam na rodovia. Após rápidas observações, fui até o posto de gasolina onde abasteci o carro e questionei o frentista sobre a frequência daqueles indivíduos no local. “Os veados? Tão direto aí fazendo ponto”, ele respondeu me olhando com desconfiança.

A expressão utilizada pelo funcionário do posto indica a forma como são referidos

usualmente os indivíduos que ali se encontram. Outros postos de gasolina e rodovias foram notados como pontos de prostituição de travestis, bem como pontos aleatórios nas margens da estrada na qual eles se localizam. Nestes locais, a prostituição viril não foi percebida em nenhum momento.

1.3.2 Meios de divulgação

A Internet. Os garotos de programa, nos dias presentes, buscam anunciar os seus

serviços em espaços virtuais como forma de se divulgarem com maior comodidade, discrição e eficiência, utilizando-se, por exemplo, de fotografias de seus corpos que expõem todo o objeto de desejo a ser negociado.

A internet proporciona ao sujeito que se prostitui um contato amplo e reservado com

os seus possíveis clientes, que buscam conhecer da melhor forma possível o garoto de programa antes mesmo de qualquer contato visual direto ou físico. É aí que as interações acontecem com intensidade, na troca de informações detalhadas sobre os corpos, muitas vezes partindo de um michê para vários clientes simultaneamente, incluindo exposições de imagens em áreas privativas bate-papo reservado ou públicas sites abertos de divulgação ou perfis em redes sociais para uma eventual análise dos interessados. Esse jogo de interações

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humanas e trocas simbólicas, em outras palavras, sociabilidades, é o que vai caracterizar a internet como um novo espaço antropológico (SILVA, 2011). Para Silva (2011),

Este novo espaço com áreas de privacidade [

cognitivos, sociais e afetivos, os quais efetuam a transmutação da rede de tecnologia eletrônica e telecomunicações em espaço social povoado por seres que (re)constroem as suas identidades e os seus laços sociais nesse

novo contexto comunicacional (SILVA, 2011, p.153)

é um suporte aos processos

]

A internet funciona, portanto, como continuação da sociedade em uma outra dimensão do real, a virtual, compondo espaços específicos sob a forma de territórios onde os indivíduos se reconstroem conforme as necessidades ou desejos sentidos em determinados momentos da vida.

Nesses territórios organizados, formados no mundo virtual a partir de especificações de atividades realizadas e interesses em comum das pessoas que os frequentam, as interações podem mudar de forma e ganhar características e dinâmicas próprias, num movimento que acompanha o comportamento variante dos indivíduos aí presentes (SILVA, 2011). Nesse sentido, como sugere Camargo (2014), é possível falar de uma erotização dos espaços. No caso, o sucedido se dá a partir da presença de garotos de programa e seus possíveis clientes em salas de bate papo que se transmutam em lugares de divulgação de serviços sexuais com o grande fluxo, em certos horários, de sujeitos interessados em interações sexuais. Nessas circunstâncias podem ser utilizadas identificações pessoais que remetem o sujeito ao próprio corpo ou a posições assumidas no coito (tamanho do pênis, cor da pele, musculatura; ativo, passivo ou versátil), bem como os diálogos desenvolvidos abertamente sobre sexo e da troca de imagens entre os usuários. Ao discorrer a respeito da internet e o modo como os indivíduos se comportam nesses espaços de sociabilidades, Silva (2001, p.153) diz que “a identidade sofre uma expansão do eu baseada na diluição da corporeidade”. Da mesma forma, Breton (2003, p.175), fala que “a rede desobriga imperativos de identidade, livrando o indivíduo de seu corpo”. Ou seja, a partir do momento em que a forma da interação não exige do indivíduo uma plena exibição de si instantânea e verdadeira, os sujeitos que utilizam os espaços virtuais sentem-se livres para forjarem algumas de suas características físicas visando a aprovação do outro, uma vez que “dissimulado o rosto, tudo é possível” (BRETON, 2003, p.175).

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Porém, no contexto da interação voltada a negociações em torno do sexo pago, a diluição da corporeidade citada por Silva (2001) e Breton (2003), pode assumir uma outra postura, de forma parcial, já que toda a transação é voltada e centralizada na temática do corpo como objeto de desejo e como mercadoria. Isso faz com que o corpo esteja obrigatoriamente presente no diálogo dos sujeitos, na interação via webcam, na troca de fotografias, de informações detalhadas acerca das características físicas, e exposto em espaços específicos de apreciação, porquanto se faz necessário para o cliente conhecer pelo que irá pagar.

No decurso de dois meses, estive imerso em páginas voltadas para o público adulto que busca acesso aos serviços da prostituição. Entre essas, as principais utilizadas pelos sujeitos pesquisados são as salas de bate-papo do portal UOL, que apesar de não se enquadrarem no modelo de uma página voltada para adultos, a forma que dela se utilizam as pessoas provoca a erotização desses espaços virtuais que, como consequência disto, adquirem como característica a articulação de contatos com o objetivo de se promover encontros sexuais, envolvendo a intermediação do dinheiro ou não. Nesse sentido, a sala de bate-papo pode funcionar a princípio como um ponto de encontro ou localização de contatos para, na medida em que se desenvolvem, as conversas possam findar na realização de um encontro face a face. Nesse meio caminho, os sujeitos podem se utilizar de outros recursos como o Skype 3 , onde podem manter uma interação de caráter mais pessoal por permitir chamadas de vídeos e conversas privadas, bem como o Whatsapp 4 . Através desses instrumentos, trocam-se fotos, informações pessoais e detalhes para a realização do encontro, como o lugar onde os sujeitos se encontrarão e de que maneira se reconhecerão. Essa sequência de diferentes meios de interação utilizados pelos garotos de programa ao longo da articulação do contato, indica uma espécie de normatividade na forma de se comportar que caracteriza o início da interação entre os envolvidos na prática da prostituição viril na cidade de Mossoró. As áreas do campo virtual por mim visitadas serão descritas de forma mais densa concomitantemente às narrativas de como se deram as entradas em campo e a articulação dos contatos.

3 Skype é um software desenvolvido para permitir a comunicação à distância por meio de voz e vídeo através da internet.

4 O Whatsapp é um aplicativo para celular com versão Web para ser utilizado também em computadores que permite a troca instantânea de mensagens de texto, fotos, vídeos e áudios.

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1.3.3 Os pontos de encontro

Os pontos de encontro assinalados pelos garotos de programa com quem conversei rapidamente pela internet ou pessoalmente foram descritos como sendo incertos, circunstantes ou meramente como locais de passagem, levando-se em consideração o fato de que podem se caracterizar como um ponto de ligação nos caminhos para os motéis ou outros locais onde os programas devem se realizar. Dessa forma, paradas de ônibus, esquinas, bares, até escolas e supermercados foram apontados como localidades onde se pode encontrar o cliente para ambos, juntos, dirigirem-se em seguida para o motel. Em suma, qualquer lugar que sirva como referência de fácil localização pode servir como um ponto de encontro. Entretanto, notei que o horário no qual se realiza o programa pode influenciar a escolha de onde se irá encontrar o cliente. Assim, caso o encontro ocorra de dia, tem-se a preferência por lugares movimentados, comuns, de intensa circulação de pessoas, onde facilmente se possa se confundir com os outros e a interação passe então despercebida. Cássio, um rapaz de 18 anos, morador do Bairro Walfredo Gurgel, disse, por exemplo, utilizar frequentemente um supermercado do Alto de São Manoel como ponto de encontro. O garoto vai até lá com sua mochila nas costas, troca de roupa no banheiro do supermercado para não levantar suspeitas em sua casa e desce até o estacionamento, onde espera, em frente ao elevador, a chegada de quem o levará para o motel. Já Danilo, 21 anos, disse preferir a parada de ônibus do bairro onde reside para esperar o cliente, pois lá “ninguém vai ficar reparando em ninguém”. Ele disse ser reconhecido entre os outros presentes através das roupas descritas ao cliente durante a negociação. Nos casos em que o programa ocorre no horário da noite, os pontos de encontro utilizados também seguem critérios semelhantes. É preciso que o local seja movimentado, em primeiro lugar, para que se possa passar despercebido perante as outras pessoas. Desse modo, os rituais de interação entre os dois devem se dar de forma que se assemelhe ao modo como ocorreria a um encontro com um conhecido a oferecer carona, como falou Danilo. Dependendo das intenções dos envolvidos no negócio, o encontro noturno pode se dar em um bar, por exemplo, onde é possível beber alguma bebida alcoólica para somente em seguida se dirigirem ao motel. Segundo Danilo, “nada melhor que uma dose antes pra envernizar, esquentar o negócio”. Mas é mais comum que o tesão, assim como narrou o rapaz, não permita se demorar muito nesses momentos, onde a ansiedade cresce fazendo com que a pressa para a ocorrência do ato sexual resuma qualquer interação anterior a este.

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1.3.4 Locais de realização dos programas

Os motéis foram apontados como os principais locais de realização dos programas. A segurança, a privacidade e o conforto são pontos positivos que mais influenciam nessa escolha. Na cidade de Mossoró, esses lugares se localizam em sua maioria em regiões ligeiramente afastadas das áreas urbanas, já que o segredo e o isolamento é algo buscado pela maioria daqueles que buscam o sexo fora de casa. Porém, os motéis também escondem seus riscos, como alertou Artur Castro, um garoto de 22 anos, desempregado, que faz programa como forma de auxiliar em suas despesas, enquanto conclui um curso técnico em mecânica e encontra um emprego formal na área. Segundo o rapaz, em uma ocasião em que ele e o seu primo, também garoto de programa e com quem se iniciou ao mesmo tempo na prática, iriam atender a um casal em um motel, os dois se viram em uma situação que provocou medo, pois o cliente portava uma arma. O garoto narrou o fato da seguinte forma:

o cara tirou a carteira do bolso, o celular e tal aí pegou e tirou uma arma

do cós da calça e colocou em cima da mesinha, ó. Eu já tava tirando minha roupa assim, meu primo já tava agarrado com a dona [risos] aí eu gelei logo,

cara, travei as pernas e subi a calça de novo, daí eu falei pra ele que não ia dar certo e que num sei o quê, despistando e tal. E o cara ficou todo nervoso

daquele jeito?

A dona começou a rir e meu primo gelou também. Ele soltou a dona e foi

logo pra porta dizendo que ia embora e eu fui também atrás dele. Ta doido?

Vive tendo assassinato em motel. Eu só pensava no outro dia meu pai indo

porque geralmente, né? Ia pensar

que a gente era veado. Aí eu nem com documento tava. A dona viu a gente nervoso e disse que não ia acontecer nada e que se a gente ficasse nervoso o pau não ia subir porque o sangue foge. Aí depois ela disse que a gente já não

ia servir porque tava com medo, mandou a gente relaxar, mas quanto mais

foi deus, viu? A gente ia pedir

ajuda a quem ali? Ninguém ia querer abrir a porta, deus me livre. Depois ela disse assim pro marido ir deixar a gente lá fora. E o medo de sair com ele no

aquele

doido [risos]. Eu rio hoje porque lembrando é engraçado. Mas sei que a gente vestiu a roupa bem rápido, a dona ligou lá na recepção e avisou que a gente ia sair e tal e eles iam continuar lá dentro. A gente saiu andando no meio do motel quase correndo, o desespero da porra, porque num tinha ninguém pra pedir ajuda, sei lá, ninguém ia querer ajudar ali não, ta entendendo? Cada um transando na sua, tudo escuro, trancado. Meu amigo, foi aventura louca. E depois quando a gente saiu do motel ainda teve que andar no mato assim pra chegar numa rua. Mas a gente andou que só até chegar ali no CEFET e pegar um ônibus (Artur Castro, 22 anos).

carro? Meu primo queria sair só de cueca, a pé, correndo, sei lá

mandava se acalmar mais eu tinha medo

ver meu corpo e do meu primo no motel

dizendo que era policial e que num sei quê, porra de policial

] [

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Dessa forma, o rapaz aponta outro lado a ser visto pelo isolamento proporcionado pelos motéis. O que em um momento funciona em favor dos envolvidos na transação, ao protegê-los do olhar das pessoas, em outro pode se transmutar em risco na medida em que, em caso de perigo como o exemplificado pelo michê, não se tem a quem recorrer sem a possibilidade de ser descoberto em atividade e invadir ao mesmo tempo a privacidade de outras pessoas confinadas em outros quartos. Contudo, os motéis ainda são os locais preferidos pelos rapazes para a realização dos programas. O fato de a prática do sexo, principalmente aquela tida como fruto de um desvio da biologia de nosso corpo ou consequência de um problema psiquiátrico, ter sido interdita ao longo da história da nossa sociedade Ocidental, como nos fala Foucault (2011a), influencia na escolha do motel como local preferencialmente adequado para a prática do sexo pago, porquanto nos faz pensá-lo como um ambiente onde se pode agir em conformidade com a lógica da interdição, sendo, portanto, em certa medida aceito pelo restante da sociedade, tendo em vista que está se obedecendo à regra de se manter oculto aquilo que não deve existir. Além disso, a impessoalidade do local parece garantir a descartabilidade da experiência tida ali e facilitar o retorno à sua vida pública ao partir do local. Por ser formado de coisas e objetos que não pertencem nem a um, nem a outro participante da transação, e principalmente por não ser um lugar de vivência pessoal e diária, o quarto de motel não evocará em momentos posteriores a lembrança do que se foi feito quando em atividade prostitutiva em instantes em que se está vivenciando experiências dentro da esfera privada, por exemplo. Nesse sentido, o quarto de motel pode evitar o inconveniente do choque entre as experiências de vida do garoto de programa. Trata-se, portanto, mais de um local de passagem e ao mesmo tempo um ponto de retorno que um local de pertencimento. Por outro lado, alguns poucos michês utilizam a própria residência como local onde se podem fazer os programas. Nesses casos, os riscos de o cliente ter acesso à identidade privada ou pública do garoto e tornar conhecida a prática da prostituição a partir dele se torna alto, além da pessoalidade inevitável quando se convida um estranho para adentrar a sua própria residência. A ideia de continnum se aplica dessa forma ao campo estudado pelo fato de as localidades e meios utilizados pelos garotos a partir dos momentos diferentes da transação, estão ligados, como uma rota a ser percorrida desde o momento da articulação dos contatos até o local da realização do ato sexual. Por outro lado, as diferentes formas de divulgação, os diversos pontos de encontro e locais de realização dos programas podem servir de

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complementos de uns para os outros, o que será definido pela ocasião e os sujeitos envolvidos na transação.

1.4 O Michê: sujeito da Prostituição Viril

O termo michê, em sua definição clássica traçada por Perlongher (2008), é tido em dois sentidos diferentes. Em primeiro lugar, refere-se ao próprio ato da prostituição, enquanto que, em uma segunda acepção da palavra, alude aos sujeitos do sexo masculino que vendem favores sexuais (PERLONGHER, 2008). Assim, para o autor, tanto é possível deparar-se com expressões do tipo fazer michê quanto com o termo sendo utilizado em categorizações, onde se insere o indivíduo em uma classe na qual se é michê. Dessa forma, o ser michê implica em uma série de questões que caracterizam a prática da michetagem enquanto tal, traçando ao mesmo tempo limites simbólicos que a distinguem de outras atividades semelhantes, assim como também o faz em torno do sujeito em questão. Porém, a distinção a ser feita entre as diferentes formas de práticas prostitutivas entre homens é, na realidade, um processo instável, uma vez que facilmente pode se confundir o sujeito envolvido e as suas performances com outros indivíduos e outras atividades do sexo pago. Sendo assim, Perlongher (2008) cunhou a expressão prostituição viril para designar a prática da venda de favores sexuais realizada por jovens do sexo masculino que não deixam de portar em si as características físicas e performáticas do que é esperado socialmente do homem macho, muitas vezes de forma exagerada (PERLONGHER, 2008). Nessa modalidade, a masculinidade incorporada e performatizada pelos indivíduos seria o principal elemento de distinção, colocando os sujeitos que não se portam como homens viris em outros modelos de prostituição. Tem-se, portanto, que fazer aqui uma diferenciação da prostituição viril de outros tipos de prostituição dentro do universo masculino, como aquela em que os homossexuais efeminados atendem a clientes do sexo masculino e cumprem, comumente, o papel de passivo no ato sexual, caracterizando a prostituição homossexual em contraponto com a prostituição da travesti, que abdica em parte de suas características masculinas e investe na encenação de uma feminilidade sintética, cobrando por ela (PERLONGHER, 2008). Para Barreto, Silveira e Grossi (2013, p.512), em seu trabalho sobre os michês em Florianópolis, “existem grandes diferenças em relação ao trabalho e à sexualidade entre estes,

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as mulheres e as travestis”. Cada modalidade, portanto, encerra em si aspectos únicos que, se

não levadas em consideração, podem se confundir, como ocorre comumente com a

prostituição viril e a homossexual; a homossexual e a da travesti. Porém, são formas que se

diferenciam em muitos sentidos, inclusive, pelo local no qual os indivíduos atuam.

Após fazer um reconhecimento das características de quem é especificamente o michê

objeto desta pesquisa, a masculinidade desponta como a que desfruta de um papel de grande

destaque, uma vez que está presente tanto nos discursos, nos corpos e comportamentos.

1.4.1. Ser um homem de verdade, ser michê: sobre a construção das masculinidades e as posições do garoto de programa no universo da prostituição viril

O indivíduo do sexo masculino, independente de seus futuros estados de gênero,

aprenderá, no momento da socialização, como ser másculo da forma que a sociedade espera

que ele seja futuramente. As impressões do que sejam a virilidade, a honra e a vergonha, bem

como os modos como tais valores devem estar inscritos no jeito de se portar publicamente, na

postura física, no jeito de andar, de falar, de se dirigir às pessoas, entre outros tantos aspectos,

são passados ao indivíduo nesse momento (BOURDIEU, 2012).

Segundo Connell (1995),

Nós vivenciamos as masculinidades (em parte) como certas tensões musculares, posturas, habilidades físicas, formas de nos movimentar, e assim por diante (CONNELL, 1995, p.189).

Então, são essas formas de utilização do corpo, ou práticas corporais, que delineiam a

identidade masculina do sujeito, caracterizando-o socialmente como um ser macho, homem,

homem de verdade. Embora o indivíduo algumas vezes seja enquadrado nessas categorias a

partir da imagem que cria com o próprio corpo e que as outras pessoas apreendem e as

utilizam como base para se estabelecer relações sociais, não é apenas essa imagem física

externa que conta nesse processo de categorização. Uma série de atitudes públicas também

serão cobradas como prova de virilidade desde a infância, como espécies de ritos que servem

como formas de se inscrever a virilidade no corpo e na mente (WEZER-LANG, 2001;

BOURDIEU, 2012). Tais atitudes devem ser mantidas tanto publicamente, o que estabeleceria

uma hierarquização em relação às mulheres, quanto dentro de espaços que Wezer-Lang

(2001) chama de casas-dos-homens. Estas são formadas por grupos masculinos, envolvidos

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nos processos de socialização dos mais jovens e provocando inevitavelmente uma distinção entre os próprios homens. Dentro dessas situações, em momentos que Bourdieu (2012) chama de ritos de instituição, o habitus é inscrito no corpo do indivíduo, envolvendo as brincadeiras típicas de meninos como jogar bola, brincar de polícia e ladrão, de luta, peão, pipa, entre outras brincadeiras quase sempre explorando a rua, oposta à casa que é destinada à menina (BOURDIEU, 2012). São instantes da vida social que fazem o menino se familiarizar com possíveis atividades a serem desempenhadas por homens adultos, incluindo até outras atitudes

de cunho sexual.

Para Wezer-Lang (2001, p.462), esses instantes estão repletos de brincadeiras envolvendo “competições de pintos, maratonas de punhetas (masturbação), brincar de quem mija (urina) o mais longe, excitações sexuais coletivas a partir de pornografia olhada em

grupo”. O autor complementa o seu raciocínio ao afirmar que “através dessa iniciação se aprende a sexualidade” (WEZER-LANG, 2001, p.462). Em concordância como esse pensamento, Bourdieu (2012) diz igualmente que:

À contribuição que os ritos de instituição dão à instituição da virilidade nos corpos masculinos, teríamos que acrescentar todos os jogos infantis,

sobretudo aqueles que tem conotação sexual mais ou menos evidente [

que, em sua aparente insignificância, estão sobrecarregados de conotações

éticas, muitas vezes inscritas na linguagem (BOURDIEU, 2012, p. 35).

e

]

Para Wezer-Lang (2001, p.462), essa seria, inclusive, uma fase de “homossoabilidade

na qual emergem fortes tendências e/ou grandes pressões para viver momentos de homossexualidade”, sem, contudo, firmá-la como permanentemente aceitável sob o risco de

se ser diminuído perante os outros homens. Durante a adolescência, as cobranças de virilidade passam a ser feitas de formas mais diretas, como quando, por exemplo, os tios cobram a presença da namorada do rapaz e a

defloração da mesma, quando os amigos comparam seus corpos para ver quem é o mais forte,

o mais viril, e mantém conversas sobre quem possui o maior pênis, portanto, o mais

capacitado para exercer o papel do macho. É, desse modo que “escondidos do olhar das mulheres e dos homens de outras gerações, os pequenos homens se iniciam mutuamente nos jogos do erotismo” (WEZER-LANG, 2001, p.462). Por outro lado, a presença de homens mais experientes é de fundamental importância para a institucionalização da masculinidade de forma mais ou menos padronizada. Segundo

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Wezer-Lang (2001, p.462), “os mais velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram, corrigem e modelizam os que buscam acesso à virilidade”. Existem também casos extremos, como os estupros coletivos, onde o homem prova sua força e superioridade em relação ao sexo feminino diante dos outros, entre os demais atos que “são esperados de um homem que seja realmente um homem” (BOURDIEU, 2012, p. 20). Em concordância com este pensamento, Wezer-Lang (2001, p.462) fala que “para ser um verdadeiro homem, eles devem combater os aspectos que poderiam fazê-los serem associados às mulheres”, sendo “necessário sempre se distinguir dos fracos, das femeazinhas, dos ‘veados’, ou seja, daqueles que podem ser considerados como não-homens” (WEZER- LANG, 2001, p.465). Desse modo, torna-se claro o primeiro objetivo da socialização do menino no universo masculino: distingui-lo das mulheres e inseri-lo na lógica da denominada “dominação masculina” (WEZER-LANG, 2001; BOURDIEU, 2012). Alguns valores estão diretamente ligados à noção da masculinidade, formando um amplo conceito que determinará a atitude do indivíduo perante a esfera pública, fazendo com que o mesmo esteja sempre buscando algo que lhe traga honra, ao mesmo tempo fugindo de seu oposto, a vergonha, momento em que o pudor estará presente. Segundo Bourdieu (2012),

O homem verdadeiramente homem é aquele que se sente obrigado a estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de fazer crescer sua honra buscando a glória e a distinção na esfera pública (BOURDIEU, 2012, p. 64).

É possível notar, então, a importância de se estar diante do outro, ou da sociedade para que suas características delineadoras de gênero sejam reconhecidas e validadas. Assim é que a virilidade deve ser provada sob o olhar alheio, e em diversas ocasiões essa será comprovada por meio da violência, como uma prova de superioridade física e moral.

a virilidade tem que ser validada pelos outros homens,

em sua verdade de violência real ou potencial, e atestada pelo reconhecimento de fazer parte de um grupo de “verdadeiros homens”.

(BOURDIEU, 2012, p. 65)

Como a honra [

],

Disso resulta que atitudes violentas ou de dominação física, individual ou em massa, sejam alimentadas pelos sujeitos que busquem se enquadrar na categoria homem de verdade, seja em uma esfera pública, brigas no trânsito, em bares e estádios de futebol ou durante o

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sexo, quando é esperado que o homem dirija o ato sexual se colocando como dominador da situação e da mulher. Mas esse processo de construção de uma masculinidade não é tão simples e unitário como pode parecer. Segundo Almeida (1995),

A masculinidade não é a mera formulação de um dado natural; e que a sua definição, aquisição e manutenção constitui um processo social frágil, vigiado, auto-vigiado e disputado (ALMEIDA, 1995, p. 163).

Percebe-se então o papel do indivíduo nesse movimento de composição, com seu autopoliciamento que envolve as suas percepções e experiências pessoais, além da vigilância social que recai sobre o indivíduo para podar-lhe as atitudes, bem como ainda o contexto social em uma dada época. Nesse sentido, Connell (1995, p.188) nos fala de várias masculinidades que “são construídas também na esfera da produção”, permitindo que o próprio processo de produção que vai diferir logicamente de caso para caso, resulte em vários modelos de masculinidade. Almeida (1995), para explicar as diferentes formas de masculinidade, fala da existência de uma masculinidade hegemônica que será um modelo a ser buscado pelos sujeitos, muito embora sendo inatingível. E é importante notar que é essa busca, como um processo inquieto, que irá resultar em outras masculinidades. Será então o somatório de características da masculinidade hegemônica que se conseguiu alcançar mais as características particulares e de um contexto social específico que irão produzir um tipo a mais de homem. Desse modo, diversos tipos de masculinidades, hegemônicas e outras variantes, irão se relacionar direta e indiretamente, chocando-se e se complementando de forma contínua (CONNELL, 1995). Em uma esfera da prostituição masculina, onde as masculinidades são fluidas, maleáveis, a noção do que é ser homem de verdade é igualmente inconstante. Os níveis diversos de masculinidade explorados durante o programa podem se dar de acordo com o pedido expresso da clientela ou a partir da sensibilidade do michê que deverá perceber que tipo de homem, com seus repertórios específicos de atitudes e técnicas corporais, estará sendo buscado pela (o) cliente e se o desejo da (o) cliente pode ser conciliado com o desejo do próprio garoto. A partir daí, o michê exercerá uma masculinidade específica, mas sem deixar de lado os seus valores, experiências e opiniões pessoais.

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No entanto, é importante deixar claro que um modelo de masculinidade hegemônica, quase caricatural, é o mais buscado e explorado nesses contextos de prostituição viril (SANTOS, 2008; BRAZ, 2010). Nota-se tal postura logo a partir dos discursos dos garotos de programa durante o anúncio do corpo na forma de banners em páginas da internet ou em negociações feitas à distância como em salas de bate-papo ou aplicativos para celular. A afirmação da virilidade incorporada e performatizada é notada como forma de se estabelecer uma diferenciação entre os garotos, colocando-os como superiores aos sujeitos da prostituição homossexual. Busca-se, portanto, mostrar-se ser um homem hipermasculizinado, longe de ser confundido com sujeitos efeminados. A masculinidade pode, dessa forma, estabelecer hierarquias a partir de características físicas dos garotos; relações de poder entre os corpos apresentados (SANTOS, 2008), independente do local onde são encontrados, na medida em que agrega valor a esses corpos que, ao mesmo tempo, não estão completamente desvestidos, mas portam em si um discurso a ser observado e analisado (BRAZ, 2009). Assim, o michê no universo simbólico da masculinidade busca ocupar comumente um lugar de estereótipo do varão masculino, na medida em que visa, na maioria das vezes, portar em si as características do macho dominador (PERLONGHER, 2008). Está, dessa forma, quando em atividade profissional, em constante relação analítica da própria masculinidade, seja ao vigiar seus gestos, posturas e linguagem, seja ao regular suas ações tendo em vista a preservação de seus valores morais. O tamanho do pênis, indicando a potência sexual do macho, os músculos trabalhados em academias, exibindo a firmeza do corpo, superioridade física e a capacidade para se cometer atos violentos, ideia ligada à virilidade, são características largamente exploradas nos anúncios e negociações do sexo pago. Aspectos da masculinidade foram percebidos claramente no caso de Danilo, garoto de programa localizado na internet, em primeiro lugar no fato de o mesmo se anunciar de forma a não expor a sua identidade ao ocultar o seu rosto mesmo nas fotos enviadas no privado. Para Breton (2011),

o rosto é, de todas as partes do corpo humano, aquela onde se condensam os valores mais elevados. Nele cristalizam-se os sentimentos de identidade, estabelece-se o reconhecimento do outro, fixam-se qualidades de sedução, identifica-se o sexo, etc. (BRETON, 2011, p. 70-71).

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Ao esconder o rosto em meio a práticas tidas como amorais, protege-se a identidade, portanto, resguarda-se a honra. Mesmo exibindo o seu corpo despido e deixando em evidência o seu órgão sexual, Danilo manteve segura a sua identidade o tempo todo, ao mesmo tempo em que exaltava características masculinas valorizadas no meio da prostituição e no próprio universo masculino. A posição do garoto na foto em P&B 5 da Figura 2, por exemplo, que apesar de estar de costas, exibindo suas partes privadas, que sugerem a penetração e a honra manda dissimular (BOURDIEU, 2012), ele mantém uma postura máscula, peito inflado, ligeiramente de lado, punhos na cintura, como quem exibe os músculos das costas largas. A valorização do pênis, exibido nas fotos de Danilo, deixando em evidência a sua virilidade ao sugerir uma capacidade de defloração, faz engrandecer o seu valor enquanto macho preparado para o sexo. Trata-se do que Bourdieu (2012b) chama de capital simbólico, que no contexto da prostituição masculina se refere às características viris do corpo que são capazes de estimular desejo no cliente.

Figura 2: Fotos enviadas por Danilo através do Whatsapp

Figura 2: Fotos enviadas por Danilo através do Whatsapp O que Danilo deixou implícito através de

O que Danilo deixou implícito através de imagens, Artur Castro colocou em palavras o que é necessário, segundo ele, para ser um michê mais desejável que outros. Diz ele que o garoto deve possuir “um pênis grande, perna grossa, peito malhado e também não pode ter barriga muito grande não”. As características do corpo masculino, dentro do que é tido como virilidade corporificada, estão intrinsecamente ligadas à desejabilidade do profissional do

5 Preto e branco

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sexo. Nessa medida, o michê macho gozaria de um maior prestígio perante a clientela que passeia pelos espaços à procura daquele que o satisfaria sexualmente. Os michês, que Perlongher (2008, p.43) define como “varões geralmente jovens que se prostituem sem abdicar dos protótipos gestuais e discursivos da masculinidade”, mantém suas práticas sexuais envoltas em uma esfera de segredo, que para Simmel (2011) é um elemento que regula as relações sociais na medida em que o indivíduo controla o que é exposto de si ao outro. É, portanto, utilizado largamente pelos michês como proteção da própria imagem perante a esfera pública, ou seja, como preservação de sua honra. A ocultação do rosto, portanto, de sua identidade real, comprova a preocupação do garoto em deixar intacta a sua honra e ao mesmo tempo a honra do cliente, pois o mesmo não gostaria de ser visto em companhia de alguém sabidamente com a honra manchada.

1.4.2 Reconhecendo o comportamento dos sujeitos: os primeiros contatos

Era por volta das 14h30min da tarde do dia 10 de Abril de 2016 quando entrei na sala do bate-papo UOL 6 para observar a movimentação e o comportamento dos garotos de programa naquele espaço virtual. Para entrar em uma sala do bate-papo, o internauta deve selecionar em qual tipo de sala deseja entrar de acordo com os temas de seu interesse. As salas são divididas em oito categorias diferentes: Amizades, Idades, Namoro, Papo sério, Sexo, Cidades e regiões, Criadas por assinantes e Todas as salas. Conforme mostrado nas Figuras 3 e 4, o site exibe banners no layout da página que divulgam salas voltadas para temáticas que se referem quase sempre, de uma forma ou de outra, à busca de possíveis parceiros sexuais ou amorosos, o que pode ser interpretado como sendo essa uma das principais atividades proporcionadas pelo site. Frases provocativas são exibidas em cada banner. O primeiro, retratado na Figura 3, direcionava o usuário para salas com a temática Sexo, dizendo: “Nestas salas tem um monte de gente com vontade de sair do zero a zero”; o segundo, É namoro?, dizia: “Para quem quer andar de mão dada, mudar o status do Face 7 e se comprometer”; o último, Sarados, convidava: “Se você está a fim de um homão bem trincado, vem que tem”.

7 Referência feita ao Facebook, uma rede social mundialmente conhecida onde é possível expor inúmeras informações da vida pessoal do usuário, inclusive o status de relacionamento.

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Figura 3: Página inicial do Bate-papo UOL 8

40 Figura 3: Página inicial do Bate-papo UOL 8 Em uma outra visita realizada no dia

Em uma outra visita realizada no dia 23 de Fevereiro de 2017, pude observar que os banners permaneciam divulgando salas que giravam em torno das mesmas temáticas, conforme mostrado abaixo:

Figura 4: Banners da página do Bate-papo UOL 9

abaixo: Figura 4: Banners da página do Bate-papo UOL 9 Apesar de o site oferecer logo

Apesar de o site oferecer logo em sua página inicial as salas exibidas em banners, eu sabia que não seria através delas que eu encontraria os garotos de programa da cidade de

8 https://batepapo.uol.com.br/ (Acesso em 10/02/2017)

9 https://batepapo.uol.com.br/ (Acesso em 23/02/2017)

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Mossoró por já ter conhecimento de que as salas utilizadas por eles estavam separadas por Cidades e regiões. Sendo assim, naveguei avançando pelo seguinte caminho: Cidades e regiões >Rio Grande do Norte > Mossoró. A Figura 5 mostra, com destaque em vermelho, as etapas seguidas por mim até a escolha da Sala 6 que na ocasião comportava o número de 16 usuários 10 .

Figura 5: Caminho até a Sala 6 11

usuários 1 0 . Figura 5: Caminho até a Sala 6 1 1 Identifiquei-me com um

Identifiquei-me com um nome qualquer (Daniel) e a princípio não tinha a intenção de estabelecer nenhum contato, tendo em vista a dúvida sobre se haveria ou não uma presença significante de michês, se os mesmos teriam disponibilidade em conversar com um estranho sem qualquer troca monetária e também pelo fato de, na ocasião, eu ainda não possuir nenhum roteiro de entrevista finalizado a ser seguido. Queria, portanto, apenas realizar o que Perlongher (2008), em seus estudos sobre a prostituição viril nas ruas de São Paulo, chamou de observação livre quando se deteve na observação dos lugares, a disposição e o comportamento dos sujeitos em alguns espaços, num contato sem grandes pretensões com o objeto que Braz (2010b) considerou como um pré-campo. Embora se tratasse aqui de outro

10 As salas de Bate-papo UOL comportam, individualmente, 50 pessoas. 30 lugares são disponíveis a qualquer usuário e os outros 20 lugares reservados exclusivamente para assinantes, que devem autenticar e-mail e senha para entrar caso a capacidade já tenha excedido o número 30 ocupantes. FONTE:

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contexto, esse modelo de coleta de dados serviu como uma visão geral do que mais tarde deveria ser explorado com maior atenção, destacando em detalhes alguns pontos essenciais. Sentia-me inseguro pelas dúvidas que me ocorriam. Era um terreno estranho, já que, apesar de já ter realizado uma pesquisa abordando o mesmo objeto sob uma ótica diferente e de ter utilizado a mesma forma de inserção no campo, eu não conseguira localizar nenhum dos informantes interpelados anteriormente para realizar outras entrevistas. Por este motivo, eu teria que recomeçar desde a articulação de um primeiro contato que pudesse me auxiliar no acesso a outros sujeitos e a possíveis redes de contato dadas de outras formas além do espaço virtual. Ao entrar na sala de bate-papo, notei que havia seis participantes, um número que se elevou rapidamente nos instantes seguintes, passando para 35 em um momento de pico. A quantidade de participantes, na realidade, é difícil de mensurar, já que o fluxo de visitantes é intenso e antes mesmo de se encerrar uma contagem, pode haver alterações. Porém, um número isolado talvez não queira dizer nada se não for comparado com a quantidade de garotos de programa encontrados no decorrer do tempo. Fiz contagens a cada quinze minutos num espaço de tempo de uma hora. Os dados ficam como organizados no Quadro 1, onde utilizei a denominação Michê Evidente para designar aqueles que se apresentaram já desde a sua identificação dentro da sala de bate-papo como um atuante do sexo pago.

Quadro 1 - Relação comparativa por horário entre número de participantes e michês evidentes

HORA

NÚMERO DE PARTICIPANTES

MICHÊS EVIDENTES

14:55

31

Acompanhante H; Passivo $$$

15:10

35

Acompanhante H; Bofe Go$to$o

15:25

19

Bofe Go$to$o

15:40

12

----------------------

A associação dos sujeitos com a atividade prostitutiva se deu, nos casos registrados, através de termos como Acompanhante e Bofe, bem como a utilização dos cifrões ($) compondo seus nomes e indicando assim que a interação sexual se daria por meio da intermediação do dinheiro.

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Porém, essa classificação é “mais ‘situacional’ do que ‘identificatória’” (PERLONGHER, 2008, p. 144), da mesma forma que ocorre com a classificação do semimichê proposta por Perlongher (2008) quando trata do grau de profissionalismo dos garotos de programa. Segundo ele, há a figura do michê profissional, referindo-se ao indivíduo que passa grande parte do dia envolvido de uma forma ou de outra na prática da prostituição; o michê ocasional que se prostitui esporadicamente; e por último o semimichê figuraria como aquele que se prostituiria dependendo do nível de desejabilidade do cliente, marcando um caráter de “indiscernibilidade geral do negócio” (PERLONGHER, 2008,

p.144).

A atitude do semimichê estaria desse modo ligada diretamente à dificuldade de se

definir de fato o que seria tido como um ato de prostituição viril (PERLONGHER, 2008), podendo ser confundido simplesmente com uma atividade homoerótica (BRAZ, 2009). O enquadramento na prática seria algo volúvel na medida em que as circunstâncias determinariam o posicionamento do indivíduo no universo da michetagem, podendo o sujeito oscilar na forma de encarar a si mesmo. Em uma situação de sala de bate-papo, por exemplo, um mesmo indivíduo pode atuar enquanto garoto de programa diante de um possível cliente e

simultaneamente, ante outro, portar-se como alguém alheio ao universo da prostituição caso não haja interesse sexual de sua parte.

A primeira pessoa a tomar iniciativa de conversar comigo foi negoodotado, que se

enquadraria na categoria michê ocasional, já que revelou fazer programa com casais, apenas, somente ao surgir uma oportunidade de modo esporádico. Ele deixou claro não fazer o papel de passivo e se denominou heterossexual pelo fato de fazer programas com mulheres apesar de gostar de "foder o casal", não restringindo, portanto, a prática sexual dentro do contexto do programa somente à mulher. Cobraria R$ 20,00 para ser chupado e R$ 50,00 pelo sexo na posição de ativo. O sigilo seria garantido, já que o próprio rapaz possuía uma noiva que

colocaria fim no relacionamento caso a mesma descobrisse o que ele praticava em segredo.

É válido ressaltar que muitas vezes, entre os michês, pode haver uma negação da

homossexualidade, tendo em vista o fato de que “gabar-se de uma heterossexualidade soma pontos perante os clientes, que, em grande parte, procuram rapazes que não sejam homossexuais” (PERLONGHER, 2008, p.48). Assim, é possível observar que as relações mantidas com mulheres podem estar mais presentes no discurso que na prática e essas podem ter a curta duração de uma negociação onde se mostre interesses específicos, já que ao

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término do diálogo com o cliente, o michê pode, já perante outro cliente, indicar uma posição diferente em relação a seus relacionamentos não-prostitutivos. negoodotado se descreveu como sendo alto, negro, olhos pretos e cabelos raspados. Ele tem 26 anos e disse possuir um pênis de 19 cm. No decorrer da conversa, ao ser informado que o meu interesse ali estava restrito à coleta de dados para uma dissertação de mestrado, negoodotado saiu e eu aguardei na sala que algum michê evidente entrasse para que eu pudesse abordá-lo. Foi quando Bofe gostoso $$$ entrou e logo me chamou a atenção tanto o termo Bofe quanto os cifrões utilizados em sua identificação. Então eu o abordei. O rapaz logo se mostrou interessado na conversa, curioso por saber descrições físicas minhas e dizendo-se excitado, "com vontade de gozar", no que reconheci ser na realidade uma estratégia do profissional para estimular o desejo em quem cumpriria o papel de cliente. Percebi, nesse momento, que eu era ao seu olhar um provável contratante, ou seja, eu não estava invisível naquele espaço, mas possuía uma corporeidade a influenciar na interação com os colaboradores, na medida em que meus aspectos físicos o interessavam. Como foi narrado por Braz (2009) durante a sua inserção em campo,

muitas das conversas estabelecidas pela internet com os colaboradores de pesquisa estavam o tempo inteiro permeadas pelo flerte, pelas cantadas, pelas avaliações de minha foto, meu avatar (BRAZ, 2009, p.91).

Desse modo, foi inevitável para mim que eu correspondesse em certa medida às curiosidades do garoto em relação ao meu tipo físico, cor da pele, olhos, cabelos e dados como local onde resido, ocupação, entre outros. O desenrolar das interações dependia dessa reciprocidade, porquanto parecia ser obrigatório seguir esse roteiro de apresentação feita de ambas as partes, seguido em todas as outras conversas que tive nas salas de bate-papo, para somente em seguida poder abordar temas de meu interesse. Após a primeira parte do diálogo, composta das apresentações e da exposição dos interesses de cada um, Bofe gostoso $$$ pareceu decepcionado com a minha posição de pesquisador naquela interação que significava para ele tempo perdido. O garoto decidiu concordar em contribuir, porém se mostrava sempre apressado e até desinteressado, demorando nas respostas e tecendo comentários os mais breves possíveis. Isso se dava pelo fato de que para o michê, tempo online significa oportunidade de clientes novos. A nossa

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conversa, portanto, lhe daria prejuízo. Então resolvi ser direto e incisivo em algumas questões preliminares. Bofe gostoso $$$ mora no bairro Liberdade II, atende em motéis, faz programa com homens e com mulheres sempre na posição de ativo, pois, segundo disse, "não curto ser passivo". Quando perguntado pelo termo Bofe e pelos cifrões, ele respondeu que “bofe é só o apelido por causa do que eu faço mesmo e o cifrão é porque recebo grana”. É "moreno", forte, malhado, 1,75 m de altura e 22 cm de pênis, segundo sua fala. Após se descrever, o garoto enviou um link e pediu que eu clicasse. Ao clicar, uma foto do rapaz sem roupas, exibindo pênis rijo em evidência, peito, barriga, braços e pernas trabalhadas em academias, abriu-se em baixa resolução na tela do meu computador. Em seguida, ele anunciou os preços. Seria R$ 50,00 para receber sexo oral do cliente e R$ 80,00 para ser ativo. Porém, logo fui alertado que o valor de R$ 80,00 se tratava de um preço exclusivo para aquele dia, já que o mesmo tinha pressa por se dizer excitado. O valor cobrado normalmente seria R$ 100,00.

Figura 6: Sala de bate-papo onde converso com Bofe gostoso $$$ 12

Sala de bate-papo onde converso com Bofe gostoso $$$ 1 2 O garoto pediu que eu

O garoto pediu que eu o adicionasse no aplicativo para celular chamado Whatsapp para que pudéssemos conversar e talvez marcar uma entrevista pessoalmente que seria concedida pelo preço do programa, como fui alertado de antemão. Eu segui as suas orientações, percebendo que havia entrado numa espécie de procedimento padrão na articulação dos contatos entre michês e clientes e de que para conquistar a confiança e chegar

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ao ponto visado por mim, deveria passar inicialmente por aquele itinerário como aconteceria com qualquer outro.

Já no Whatsapp, pedi que o garoto fornecesse uma identificação diferente da utilizada

na sala de bate-papo, um nome comum pelo qual eu poderia tratá-lo dentro da pesquisa. “Danilo”, ele respondeu prontamente. O mesmo me enviou outras fotos 13 como garantia de um “produto de qualidade”, exibindo o seu pênis em ereção de dois ângulos diferentes. Por último, enviou-me uma foto sua mostrando a parte posterior de seu corpo, em P&B, dentro de seu quarto com objetos pessoais ao fundo.

Apesar de rápidas, essas primeiras incursões feitas às salas de bate-papo serviram como base para se analisar alguns aspectos básicos do sujeito investigado e assim demarcar a quem especificamente se refere esta pesquisa.

A pressa presente nas falas dos garotos que se anunciam nas salas de bate-papo indica,

por exemplo, uma urgência que destoa da postura do michê que opta pela prostituição de rua, dentro da prática do trottoir (PERLONGHER, 2008), onde o sujeito perambula pelas calçadas e ruas nas quais aguardam o surgimento do cliente. Tal pressa requer do pesquisador uma maior objetividade exigida pela própria velocidade na qual se dá a interação e, ao mesmo tempo, uma maior preparação anterior à entrada nesses espaços para melhor aproveitamento do pouco tempo disponível dos interlocutores que buscam a mesma objetividade dos clientes que já surgem com uma afirmação positiva em relação ao desejo da realização do programa. Por outro lado, a pressa está relacionada com a incerteza da continuidade da prática, como alertou Danilo sobre a importância de “se decidir logo se quer ou não” a sua contratação para o dia em questão, pois ele não sabia dizer se os motivos pelos quais ele ofertava seus serviços sexuais naquele momento, como a sua excitação e a necessidade do dinheiro, estariam presentes no dia seguinte. Nesse sentido, é lugar comum entre os michês considerar a prática da prostituição

como sendo provisória (PERLONGHER, 2008; BARRETO, SILVEIRA & GROSSI, 2013), já que tanto o corpo é modificado pelo tempo, quanto o desempenho sexual, assim como se espera que no correr dos anos, sempre o mínimo possível, se esteja desempenhando uma outra carreira profissional. Além disso, a fuga do estigma é algo notável como fator influenciador na forma de encarar a prostituição como algo praticado somente para se “descolar uma grana”, como falou Danilo, e não algo permanente.

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O foco da pesquisa gira em torno da prostituição viril que tem como sujeito o michê

que não abre mão de suas características masculinas, mas, ao contrário, reconhece-as como

valor simbólico dentro do universo no qual se está inserido (SANTOS, 2008) e que pode atender, em sua atividade profissional, tanto apenas homens ou apenas mulheres quanto homens, mulheres e casais.

A masculinidade como um fator de marcada presença no fenômeno da prostituição

masculina tanto como fator de diferenciação entre os sujeitos envolvidos quanto delineador da própria prática é um elemento de demasiada importância na compreensão do fenômeno e se

constitui como a base para a compreensão de outros aspectos presentes na atividade da michetagem.

A honra, valor da masculinidade, por exemplo, exige de alguns rapazes que suas

práticas prostitutivas sejam realizadas em segredo. Sendo assim, no próximo capítulo, o segredo será o ponto a ser observado nos sujeitos pesquisados por ser um aspecto que irá condicionar, e de certo modo guiar, a postura dos garotos perante os relacionamentos mantidos ao mesmo tempo em que está ligado a outros fatores, como as diferentes esferas de experiências de vida e as fachadas construídas por eles, que culminarão na discussão sobre o caráter contraditório das sexualidades dos garotos de programa.

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CAPÍTULO 2 O SEGREDO E O TRAÇO DAS ESFERAS DE EXPERIÊNCIAS DE VIDA

“Não te abras com teu amigo, que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu ”

Da discrição, Mário Quintana.

amigo possui amigos também

O primeiro ponto que me propus a visualizar entre os sujeitos da pesquisa foi o segredo, por ser este um elemento que ganha logo destaque assim que fazemos os primeiros contatos, as nossas primeiras observações sobre os modos de vida dos michês. Todas as vezes em que tive proximidade com os interlocutores, fosse pessoalmente ou por meio da internet, senti que havia uma grande distância entre nós, como uma espécie de densa barreira imaterial, que se tornava perceptível a partir de algumas atitudes bem marcadas, como por exemplo, a recusa em conversar ou interrupções da conversa que indicavam que havíamos chegado a um limite. Em consequência disso, as entrevistas e as próprias aproximações eram dificultadas e, na maioria das vezes, impossibilitadas. Ao mesmo tempo, no âmbito da vida particular de cada garoto, as suas relações pessoais mantidas com família, amigos e o meio social por onde se transita, mostraram-se suscetíveis de serem atingidas pelo fato de se portar um segredo. Mas não apenas as relações estabelecidas com as pessoas em torno de si são afetadas pelo segredo, mas todo o cenário de atuação dos michês está carregado de códigos que indicam um lugar de reserva onde se insere as formas anômalas da experiencia sexual. Para Foucault (2011a, p.96), o mecanismo de poder sobre o sexo está ligado ao segredo, de forma que “o segredo, para ele, não é da ordem do abuso; é indispensável ao seu funcionamento”. Portanto, estamos diante de um mecanismo primordial na compreensão da sexualidade como um dispositivo difundido no corpo social para e pelas classes privilegiadas (FOUCAULT,

2011a).

2.1 Ocultar e esquivar-se

Partindo do pressuposto de que em todos os tipos de relacionamento existe a necessidade de ambas as partes envolvidas se mostrarem uma à outra em certa medida,

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veremos que os indivíduos se utilizam largamente de elementos ligados ao segredo, como o sombreamento, a mistificação, a mendacidade e a ocultação, variando conforme a espécie de relacionamento mantido (SIMMEL, 2009). Em outras palavras, para que haja qualquer tipo de relação humana, é necessário que as partes envolvidas se mostrem reciprocamente, ainda que a relação em questão tenha um caráter propositalmente passageiro, como é o caso dos garotos de programa com os seus clientes, ou em relações íntimas e duradouras, como as que envolvem os michês com suas famílias, amigos e parceiros (as) afetivos. A depender do círculo no qual se inserem os integrantes de uma dada relação, os motivos de utilização do segredo, bem como a dose de informações expostas ao outro, podem variar conforme os significados atribuídos aos objetos de seu mundo. Blummer (1980) enfatiza essa ideia ao dizer que “os seres humanos agem em relação ao mundo fundamentando-se nos significados que este lhe oferece” (BLUMMER, 1980, p.119), o que significa dizer que os relacionamentos de várias ordens mantidos com as pessoas em diversos espaços e diferentes níveis de intimidade serão influenciados e até condicionados pelo contexto no qual ele se dá. No âmbito da prostituição masculina, valores ligados à masculinidade cumprirão a tarefa de ajuste das relações interpessoais dos indivíduos envolvidos. Para figurar o que digo, exponho alguns dos achados em minhas incursões ao campo da prostituição viril em Mossoró, juntamente com minhas impressões, onde observei de forma destacada a presença do segredo intermediado pelos ideais de honra e pudor, regulando as interações dos indivíduos pesquisados. Anoitecia quando eu entrei na internet em busca de colaboradores para a minha pesquisa. Naveguei por sites de anúncios de garotos (as) de programa e sites pessoais de michês onde eles se anunciavam e ao mesmo tempo podiam narrar algumas de suas experiências. Porém, foi na sala de bate papo do portal UOL onde mais me demorei observando o comportamento dos indivíduos ali imersos, em interações dadas de forma pública, de maneira que todos os presentes vissem os diálogos, ou em chats privados onde somente os envolvidos na conversa teriam acesso às informações trocadas. Não demorou muito para que eu fosse questionado sobre o que buscava ali, sem nada em minha identificação que apontasse os meus interesses ou minhas características físicas. Então, ao ser honesto e falar sobre a minha pesquisa, provoquei reações das mais diversas, entre não obter respostas, ser mandado embora da sala e procurar outras, ou ser alertado de que eles não eram psicólogos para gastarem seu tempo apenas conversando.

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Outros rapazes, embora poucos, demonstraram interesse na pesquisa e perguntaram detalhes como à qual universidade estava ligado, há quanto tempo pesquisava e quanto ainda faltava para finalizar a pesquisa, sem, contudo, mostrarem-se dispostos a colaborarem. Ao notar, então, o alto índice de resistência da parte dos possíveis entrevistados em ceder um mínimo espaço de tempo para uma conversa sem que esta resultasse em um programa, eu percebi que estava diante dos primeiros fatores intrinsecamente ligados ao segredo dignos de reflexão. Em primeiro lugar, o que impedia os garotos de aceitarem uma entrevista era o fato de que falar sobre si, sobre as próprias impressões acerca das experiências dentro de um mundo da prostituição, ainda que existisse de minha parte a garantia de preservação do sigilo, faria com que eles tocassem em um lado subjetivo de si mesmos que não deveria emergir em um espaço onde o foco, para eles, é principalmente estabelecer interações superficiais que culminem em uma interação sexual, pois isso acarretaria em revelar um pouco de si. Sendo assim, a garantia de anonimato proporcionado pela internet estaria ameaçada, a partir do momento em que traços da própria personalidade fossem evocados dentro daquele ambiente virtual, preferido por eles pela capacidade de preservação do sigilo. MaxGP foi um dos garotos que se recusou a conversar. Ao perguntar sobre os motivos de sua esquiva concretizada na forma de um silêncio quase absoluto, eu obtive a seguinte resposta: “não to aqui pra falar de mim. Entendeu ou quer que eu desenhe?” Outro rapaz que se demonstrou resistente em conversar sobre si foi $Paudimel$, que ao ser abordado logo informou: “se eu quisesse desabafar não tava aqui.” Já 20cm$ foi mais direto ao demonstrar a visão que tinha da utilidade do meio virtual ao dizer: “se aqui é pra se esconder, você acha que alguém vai falar?” A partir das falas dos garotos é possível observar que, ao se evocar a verdadeira identidade na sala de bate-papo, um desconforto é gerado e a resposta dos indivíduos significam uma descontinuidade nas interações que intentem ultrapassar os limites impostos por eles. São ao mesmo tempo sinais indicativos do ponto onde expira a porção subjetiva que, no sujeito, assume o papel do garoto de programa, e tem início o centro da personalidade do indivíduo que deve ser protegido como algo sagrado. É esse movimento de defesa, iniciado de formas semelhantes no mundo concreto, que requer dos sujeitos pesquisados uma busca por espaços onde se pode expor o censurado, sem necessariamente ser alvo direto e constante de provocações, ataques e hostilidades.

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Simmel diz que o segredo significa uma enorme ampliação da vida, porque muitas das suas manifestações não se poderiam produzir na completa publicidade” (SIMMEL, 2009, p. 235). Assim, a internet faz parte dessa ampliação do mundo dos garotos de programa, já que ela segue criando espaços para além da vida dada no mundo concreto. Tais áreas possuem seus próprios códigos interacionais, normas e valores a serem levados em consideração, dentre os quais estão o respeito pelo outro, a discrição e outros aspectos ligados ao sigilo. Desse modo, se essa expansão da vida é regida por uma espécie de código de conduta estabelecido tendo como base elementos do segredo, qualquer ofensiva em direção a essas áreas de ampliação faz com que o indivíduo se esquive como um mecanismo de autoproteção e defesa do próprio espaço para que o mesmo não perca as finalidades atribuídas por eles e não sofra modificações em seus sentidos. Por outro lado, o que talvez seja a maior motivação das evasões dos michês é que eu provocaria, a partir de perguntas direcionadas aos garotos, reflexões que fariam com que houvesse um conflito interno de valores, identificações que talvez ainda não se dessem de forma clara ou afirmações que eles queriam evitar por diversas razões particulares. Ou seja, a prática da prostituição parece em muitos casos permanecer sombreada ou mistificada até para si mesmos, o que demonstram que alguns garotos de programa ainda não pareciam dispostos a desvendar os próprios segredos, já que isso implicaria em descortinar as próprias fragilidades. Eduardo aceitou uma conversa no dia 09 de Janeiro de 2017 sob a condição de ter algumas de suas informações preservadas, como bairro em que reside, instituição na qual estuda e cidade de origem. Ele atende homens e mulheres, é especialista em casais e sabe fazer massagens. Descreveu-se como “moreno, 1,77 de altura, 70 quilos, 19 cm de pau, cabeça raspada, macho, sem trejeitos”, conforme demonstra a imagem abaixo:

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Figura 7: Apresentação de Eduardo na sala de Bate-papo 14

7: Apresentação de Eduardo na sala de Bate-papo 1 4 Eduardo fez o seu primeiro programa

Eduardo fez o seu primeiro programa aos 17 anos, após uma noite de festa em uma cidade do interior do Estado do Rio Grande do Norte, a qual não quis identificar. Ele conta que, por volta das 02:00 horas da manhã, foi abordado por um homem com cerca de 45 anos enquanto saía do banheiro químico situado na lateral do palco onde uma banda de música conduzia a festa. A princípio, o rapaz achou estranho aquele homem que nunca havia visto lhe propor algo do tipo. Jamais havia pensado na possibilidade de fazer sexo em troca de dinheiro e muito menos com um homem com idade suficiente para ser seu pai. Apesar de estar certo de que recusaria o convite, Eduardo se limitou a não responder e, quando retornou para junto de seus companheiros com quem se divertia na festa, não falou nada sobre o ocorrido. Mas a proposta não saiu de sua cabeça pelo resto da noite e, mesmo se considerando heterossexual, começou a considerar a possibilidade de ganhar um dinheiro fácil.

Quando já conversávamos em uma sala privada do bate-papo, Eduardo falou sobre o desenrolar de sua primeira experiência como garoto de programa:

Eu já tava indo embora, daí o coroa pegou e veio atrás de mim de novo perto da saída aí pegou e perguntou se eu não queria dinheiro pra ir pra festa de novo no outro dia que ia ter outra festa. Aí eu queria né, já tava bêbado mesmo, ninguém ia saber. Só disse que ele esperasse que eu ia despachar os cara que tavam comigo. Aí depois eu peguei e fui com ele pra um motel no

carro dele, vidro fumê e tudo. Rico o coroa. Ganhei R$ 100,00. [

Não

]

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lembro muita coisa não. Sei que depois eu ainda fiquei com ele umas três vezes (Eduardo).

Depois disso, Eduardo continuou fazendo programas esporadicamente sempre que sentia a necessidade de ganhar dinheiro. Passou a se interessar em saber através da internet como outros garotos de programa profissionais se portavam e tentou seguir um padrão de comportamento que incluía cuidados com o corpo, formas de articulação de contatos e preços tabelados segundo duração do programa e o local onde se daria o ato sexual. Com o tempo, não era mais apenas o sexo e o dinheiro que importava e que o preocupava, mas o modo como as coisas acontecem também passaram a ter a sua importância para que a sua identidade pública fosse sempre preservada. Ao tocarmos no assunto em questão, ele disse:

Tem que ter cuidado, boy, pra não estragar tudo, minha vida. Eu sempre conheço o pessoal aqui na net como todo mundo, tá todo mundo querendo sexo aqui, e por aqui é o jeito mais seguro mesmo, sem dúvida. Se você for pra rua, tipo, você tá tipo se suicidando. Nunca fui. Ninguém vai mais pra rua hoje em dia quase. Conheço uns cara que faz até faculdade também e ninguém nem desconfia porque fica tudo por aqui mesmo (Eduardo).

“Fica tudo por aqui mesmo” não quer dizer que ao sair da internet a realidade se desfaça por completo, mas que o segredo da prática é compartilhado somente entre os indivíduos que interagem por meio da internet. Em um encontro presencial para a realização do programa é óbvio que os envolvidos na situação terão conhecimento, porém este conhecimento deverá sair do foco das atenções logo que a cena se dissolva. Falar que tudo ficará por “aqui”, portanto, passa a ideia da reclusão, do confinamento de informações e atos dentro de uma esfera composta por indivíduos compromissados com o segredo e ambientes que tenham a capacidade de preservar o seu conteúdo em sigilo. Eduardo, ao ser questionado sobre quais os motivos que o levam a esconder a sua prática da prostituição de determinadas pessoas, disse que “é que ninguém vai entender, vai achar que sou bicha, vagabundo, que não quero nada com a vida”. Em seguida, quando questionei qual a importância do segredo na prática, obtive a resposta de que “é total, se não fosse segredo eu nem era gente em casa nem em canto nenhum.” Em concordância com Eduardo, Renato disse que

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Mas é claro que é segredo. O cara não pode sair falando assim de boa uma

coisa assim. Não é todo mundo que sabe [

errado, você entende. Mas não é todo mundo de confiança. O bom daqui é isso, a gente só vai pra cama se ganhar confiança mesmo (Renato).

saber, não sei se to falando

]

O “saber saber” está querendo dizer que aquele que não tem a consciência da importância de se manter o segredo sob o véu da ocultação não é digno de confiança e, portanto, não está apto a vivenciar uma experiência sexual dentro daquele círculo. Miskolci (2013), ao tratar da importância do segredo em relações homoafetivas intermediadas pela internet, observa que

Ao temor da exposição a conhecidos se soma a dependência do outro para a manutenção de seu segredo, o que tensiona o envolvimento, pois aquele a quem se deseja também é aquele que se teme - por conhecer seu segredo (MISKOLCI, 2013, p. 312).

É preciso saber, portanto, manipular as informações que se tem em mãos para não colocar em risco a vida social do garoto. Através da fala de Renato, percebemos também que o segredo condiciona a prática da prostituição e o envolvimento do sujeito na medida em os interlocutores selecionam os lugares frequentados, as pessoas, pautam seus diálogos, suas interações, seus códigos e valores com base na medida do que deve ser preservado ou exposto. Ocultar informações e se esquivar de situações e pessoas, são as primeiras atitudes e os primeiros sinais de que a ordem do espaço regido pelo segredo foi desafiada. Evita-se a desordem, pois ela implicaria em consequências na vida pública que dificilmente seriam contornadas, principalmente em uma cidade de médio porte como Mossoró, onde a probabilidade de algum cliente ou alguém que tenha conhecimento do envolvimento do rapaz com a prostituição conhecer um familiar ou amigo do rapaz é bem maior que em grandes capitais, por exemplo. Desse modo, um jogo de cintura é necessário para lidar com as pessoas e circunstâncias. É o nível de confiança que estabelecerá a medida do quanto se pode permitir a aproximação de uma pessoa, regulando assim as relações mantidas com todos que fazem parte da vida do garoto de programa.

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2.2 Distanciamento e aproximação

Estar constantemente preocupado com a preservação da própria imagem resulta em sujeições das maneiras de se relacionar com as pessoas em torno de si. Isso significa que o fato de se portar um segredo da envergadura da prática da prostituição gera condicionamentos que se expandem até abarcar todas as relações mantidas pelos garotos, determinando os relacionamentos desde a quantidade até o tipo de indivíduos a quem se pode ou não se dirigir, cordial, sexual ou afetivamente. Em consequência, ocorre um distanciamento de certas pessoas e ao mesmo tempo uma aproximação de outras. Segundo Simmel, “mesmo no caso de uma parte não notar a existência do segredo, este modifica a atitude daquele que o guarda, e, por conseguinte, modifica toda a relação” (SIMMEL, 2004, p. 236). Decorre disso uma espécie de processo seletivo que determinará, entre outras coisas, as pessoas com quem se pode relacionar e a quantidade do eu a ser exposta. Artur Castro, como exemplificação dessa espécie de seleção feita com as pessoas com quem pode se relacionar, falou:

nunca atenderia, por exemplo, uma pessoa que todo mundo soubesse que é gay porque geralmente vão falar pros amigos e até indicar e ir passando pros outros. E de repente tá todo mundo sabendo de você, do que você faz. Porque eles não tem mais o que perder, por isso eles fazem isso (Artur Castro).

O preconceito de que o gay irá transgredir a regra do silêncio existente no mundo da prostituição reflete, na verdade, o estigma da homossexualidade que faz com que os garotos repilam aqueles que são conhecidos na vida pública como gays com o receio de serem igualmente enquadrados na mesma categoria. Quanto a ideia de que “eles não tem mais o que perder”, deixa clara a noção de que o indivíduo que teve a sua imagem manchada pelo estigma é um caso de honra perdida, portanto, irrecuperável. Desse modo, a atitude de distanciamento em relação aos clientes “muito afeminados” é comum entre os interlocutores desta pesquisa, já que aquele que regula as suas ações tendo como base os elementos ligados ao segredo, vislumbram como consequências da não observância dessa regra a própria inclusão em um grupo de estigmatizados e o prejuízo de outras dimensões de sua vida.

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Com isso em mente, Renato diz garantir um completo sigilo ao cliente e isso se dá tanto pelo fato de que, segundo o próprio, absolutamente ninguém sabe de sua prática, quanto pelo fato de que seus meios de manter relações dentro de sua atividade prostitutiva se dão unicamente pela internet, o que, para ele, garante a preservação de sua identidade assim como a identidade do cliente que só precisará se revelar caso, em um encontro presencial, dado sempre em lugares públicos de grande movimentação, aprovar o que vê no garoto. Caso contrário, o programa não acontece e os envolvidos na transação voltam a viver como se nunca tivessem tocado o universo da michetagem. O rapaz seleciona os seus clientes pelos mesmos critérios que Artur Castro, mas abre uma possibilidade de ele ser também alvo de uma seleção, deixando claro que o cliente é quem deve realizar o primeiro ato seletivo: ao ver suas fotos, conversar e, no encontro, avaliar a postura do michê e grau de desejabilidade de seu corpo (BRAZ, 2009). Renato também falou sobre as suas relações mantidas com as pessoas de diferentes círculos e destacou o fato de ter poucos amigos de confiança e viver apenas com pai e mãe, com quem não mantém uma boa relação. Diz ele:

Eu não teria nem pra quem contar se eu fosse falar pra alguém, deus me

livre. [

sou de

poucas amizades, porque mesmo você querendo esconder uma hora ou outra você cai na confiança e acaba contando pra um amigo, daí eu tento evitar. Tem uns gp que ainda conta, que eu sei, parece até que contam vantagem nisso, mas muitos devem se arrepender porque esse é o tipo de notícia que é fogo no palheiro. Ninguém consegue controlar. Tem bicha que acha muito excitante saber quem faz programa, como se elas tivessem tipo acesso ilimitado, ta entendendo? Mas eu escolho quem sai comigo, não é só dinheiro não, tem muita coisa em jogo sim por isso acho que eu distancio

sim certas pessoas de mim. E muito (Renato).

muita coisa em jogo, só quem é do meio entende. [

Eu escolho mesmo com quem vou sair, todo mundo escolhe, tem

]

]

É

que eu

Ao ser questionado a respeito de sua relação com a família, o garoto revelou:

Eu sinto que minha relação em casa poderia ser melhor, então deve afetar sim o que eu faço. Se eu não fizesse [programa] talvez eu me abrisse mais com minha mãe, com meu pai não. Mas eu me afastei dela depois que

comecei, ela parece que tem uma bola de cristal, adivinha as coisas, sei lá.

Quando eu comecei a fazer eu pedi

pra ela deixar de lavar minhas cuecas. Ela não falou nada, mas parou. Mas acho que isso muda também. Pronto, eu comecei a comprar umas cuecas diferente, mais bonitinha e tal e não quero que ela veja. É estranho. Daí eu guardo tudo num baú que eu tenho, eu boto embaixo das redes. Ela deve até ter visto já, mas eu só não quero deixar assim junto com as outras não (Renato).

Em casa eu escondo tudo, as camisinha

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De

forma

um

pouco

diferente

age

e

pensa

Eduardo.

Segundo

o

rapaz,

seus

relacionamentos são limitados e não nega a dificuldade em ocultar a sua prática:

Esconder de todo mundo mesmo é impossível, porque claro que todo mundo com quem já saí fica sabendo. E eu até me preocupo com isso porque a gente

não tem como controlar. Sempre pode acontecer de uma pessoa indicar a outra e assim vai, daí não tem como controlar a quantidade de pessoas. Tem uns caras que fica dizendo que ninguém sabe, que isso, que aquilo, mas como é que eles pode dizer isso? E os cara tudo com quem eles sai, não

conta? [

Eu até digo também, mas assim, eu digo tipo assim pra garantir

que a pessoa vai se sentir segura. Mas também num é coisa rasgada que todo

é, isso afeta

mundo sabe não, eu falo só do pessoal com quem já saí. [

muito a relação com a família principalmente, por motivo que tá todo mundo

] o

por perto e isso a gente tem que saber como fazer pra não ser invadido. [

que eu posso fazer é afastar, sim. Porque se não der uma recuada no pessoal

Assim, não sei dizer o que, só sei que

que tá perto, pode prejudicar tudo. [ prejudica sim. (Eduardo)

]

]

]

A sequência de falas dos rapazes entrevistados é relevante na análise tanto da importância de se selecionar as pessoas com quem se relacionará quanto das atitudes a serem mantidas para se poder alcançar o objetivo que é se preservar. Assim, o distanciamento de pessoas que estão “perto demais” é tão importante a ponto de afetar diretamente as relações dentro das famílias e as amizades mais próximas. Quando os sujeitos partem de dimensões opostas, o segredo funciona como um elemento de segregação, o que afasta os indivíduos. Visualizar a realidade da prostituição a partir de esferas diferentes faz com que pontos de vista divergentes entrem em choque caso sejam confrontados. Dessa maneira, o choque de realidades é evitado a todo custo, num processo que finda por provocar o afastamento, inclusive, de pessoas amadas, como é o caso da relação mantida entre Renato e sua mãe. Mas não é necessário que se trate de uma relação íntima para se provocar o distanciamento. Basta que um rapaz esteja diante de qualquer pessoa que seja que ele poderá, por exemplo, tentar ocultar sinais que possam denunciar o seu envolvimento com a michetagem. Eduardo, a respeito de sua atitude perante os outros logo que se iniciou na prática, falou: “eu ficava encucado porque eu achava que o povo ia saber só de bater o olho em mim. Aí o cara fica mais preso, mais calado e tal.” A atitude do distanciamento, dessa forma, está ligada a uma outra já debatida no tópico anterior, que é ocultar. Assim, distancia-se das pessoas para poder manter oculto um traço de si. Portanto, portar a honra no espaço público demonstra ser mais importante para os entrevistados que preservar intactas as próprias relações familiares e de amizade.

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Um movimento oposto ao distanciamento e da mesma forma presente na vida dos garotos, é a aproximação. Um segredo, quando compartilhado, cria um vínculo entre os indivíduos que antes podia não existir. A cumplicidade, desse modo, se faz presente para estreitar os laços dos sujeitos. Quando indagado a respeito de pessoas que conheciam o seu envolvimento com a prostituição, Artur Castro falou que apenas uma única tinha conhecimento de sua vida profissional. Tratava-se de um primo que, assim como ele, se aventurava em programas para se manter financeiramente. Antes de se iniciarem na prática, os dois primos não tinham tanta proximidade apesar de residirem na mesma cidade, Mossoró. Foi somente após começarem a praticar o sexo em troca de dinheiro que a amizade e a confiança entre os dois aumentaram e fizeram com que eles passassem a ter um tipo de relação mais próxima de cumplicidade, inclusive realizando programas juntos. A aproximação entre Artur Castro e o seu primo é um exemplo de como o fato de se compartilhar uma mesma vivência, portanto, um mesmo segredo, pode servir como um elemento de aproximação. Isso se dá pelo fato de que os sujeitos que fazem parte de uma relação estão imersos em uma mesma dimensão da vida, compreendendo em maior profundidade os dramas morais do outro. Algo semelhante acontece com o relacionamento estabelecido entre garoto e cliente, que, estando igualmente em um mesmo círculo, partilham de um mesmo segredo, embora o segredo ganhe dimensões diferentes para cada um. Porém, o pacto que fica implícito entre os participantes da interação, em não revelar a outro alguém sobre o ocorrido, parece de alguma maneira aproximar os dois, embora seja esta uma aproximação momentânea. Os rapazes entrevistados, longe de estarem conformados a uma lógica de uniformização do indivíduo, a partir de suas falas que demonstram atitudes variadas em direções opostas, vivem de um modo a refletirem um traço conflituoso em sua existência. Desse modo, projetam uma imagem delineada segundo valores morais aceitos socialmente ao mesmo tempo em que se prostituem guardados por um véu de segredo que oculta as práticas eróticas a serem rechaçadas caso venham à tona. Isso faz com que surja um conflito em suas vidas não apenas como um fato, mas, bem mais que isso, como um dos elementos constitutivos de suas vidas.

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2.3 Conflito e contradição

Existe uma contradição e um caráter de inconciliabilidade nos modos de vida dos garotos de programa que não podem passar despercebidos aos olhos de quem busca uma compreensão da realidade vivida no contexto da prostituição masculina. Se, por um lado, o comportamento do garoto pode se enquadrar nos moldes de uma conduta de um indivíduo qualquer no seio da sociedade, por outro, há uma inversão de valores ao se praticar o ato sexual em troca de bens materiais, algo vilipendiado pela sociedade. A oposição das formas de se comportar na sociedade está relacionada ao próprio modo como o sujeito é visto pelos outros a sua volta, o que reflete diretamente na vida do próprio garoto de programa ao, por exemplo, sentir a necessidade de esconder certos atos e selecionar tanto os espaços quanto as pessoas que podem ter acesso a determinadas informações de suas intimidades e rotinas. Eduardo deixou clara a prática dessa seleção de informações sobre si e suas experiências nos relacionamentos mantidos na seguinte fala:

Assim, claro que não é todo mundo que pode saber que eu faço isso, muito menos o que eu faço porque, ta, tudo bem, todo mundo faz sexo de todo jeito

que der na telha, mas eu não vou sair falando que eu já chupei a porra de um

cacete, tá entendendo? Mas grana é grana. [

vou sair. Ela nem sonha onde eu perambulo, entendeu? Ela é evangélica, daquelas que usa saia e dá dinheiro pro pastor andar de carro. É complicado, claro. Quando vou sair num encontro eu fico sem jeito, nem gosto de mentir

pra ela, mas é o jeito, ela não sabe de nada, né? (Eduardo).

Pra minha mãe eu só falo que

]

Renato tem uma visão semelhante. Disse ele:

É difícil assim, porque se a minha família não sabe, claro que eu vou fazer de tudo pra ninguém descobrirem. Nem gosto de imaginar a treta se souberem um dia. Mas é uma bagunça mesmo. Uma coisa prejudica a outra e não tem remédio (Renato).

Fica expresso nas falas dos entrevistados, portanto, um fator de elevada importância na análise de seus modos de vida, que é o conflito. Segundo Simmel, o conflito é uma maneira de conseguir algum tipo de unidade, mesmo que seja através da aniquilação de uma das partes em litígio” (SIMMEL, 2011, p.568).

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O autor vai ainda mais longe e defende a importância do conflito na constituição da unidade do indivíduo. Diz ele que

O indivíduo não atinge a unidade de sua personalidade exclusivamente por uma harmonização exaustiva, de acordo com as normas da lógica, objetivas, religiosas ou éticas, do conteúdo de sua personalidade. Ao contrário, contradição e o conflito não apenas precedem esta unidade, mas são nele operativos a cada momento de sua existência (SIMMEL, 2011, p.570).

Essa assertiva corrobora com o que se pode observar nos modos de vida dos garotos de programa na medida em que é possível perceber que o conflito e a contradição em suas vidas não servem unicamente para confundir ou desarmonizar a unidade do indivíduo, mas são ao mesmo tempo partes constituintes do eu e que o integram e o caracterizam de forma marcada em uma realidade onde cada indivíduo que interage com o garoto de programa, receberá deste uma parte que lhe cabe em determinado contexto vivido. Renato, por exemplo, fala que

todo esse malabarismo faz parte, é normal. Não tinha como ser diferente porque também, a gente faz uma coisa aqui e lá faz outra. E é assim com todo mundo que faz programa. A gente só tem que ter cuidado pra não se embananar e misturar tudo. Mas é a minha vida (Renato).

A discussão sobre o conflito na vida dos garotos de programa se dá pela sua importância nas discussões sociológicas a respeito tanto do indivíduo quanto dos sujeitos da prostituição que, em coerência com a lógica do mundo pós-moderno, apresentam-se fragmentados conforme asseverou Hall (2010). E além disso, que a identidade do sujeito está submetida a um longo processo de formação e reformulação ao longo do tempo, de modo que bem melhor que falar de identidade propriamente dita, seria melhor falar de identificação. Para ele,

A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é “preenchida” a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos pelos outros (HALL, 2010, p.39, grifos do autor)

Em concordância com este autor, Roberto DaMatta (1997) fala a respeito de um traço sociocultural do brasileiro em relação ao seu comportamento diante dos diferentes espaços da vida social, podendo assim se sustentar uma postura coerente com os princípios de uma moral

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valorizada socialmente enquanto que em outro espaço poderá divergir da primeira postura. Trata-se da casa e da rua, que para o autor funcionam como verdadeiras categorias sociológicas para o brasileiro, no sentido de que

entre nós, estas palavras não designam simplesmente espaços geográficos ou coisas físicas comensuráveis, mas acima de tudo entidades morais, esferas de ação social, províncias éticas dotadas de positividade, domínios culturais institucionalizados e, por causa disso, capazes de despertar emoções, reações, leis, orações, músicas e imagens esteticamente emolduradas e inspiradas (DAMATTA, 1997, p.14).

Isso se refere, já que se trata de uma “categoria sociológica”, ainda segundo o autor, ao modo como uma sociedade pensa e institui os seus valores e ideais, ao seu sistema de classificação, ao mesmo tempo em que traça um plano de ação do indivíduo. Tanto Hall quanto DaMatta compreendem que as experiências de vida delimitam espaços em que podemos nos transmutar em diferenciadas identificações com suas características particulares. Mas talvez mais importante que falar em espaços que nos sugerem ou requerem de nós determinados traços em nossa identidade, é falar em situações nas quais nos inserimos e nos vemos de alguma maneira coagidos a assumir um comportamento condizente com os valores e modelos de ação e conduta ali identificados. Quando analisamos essa perspectiva no âmbito da sexualidade em nossa sociedade moderna, observamos que o discurso sobre o sexo, incitado muito mais que interdito, deve estar circunscrito em espaços especificamente preparados para a produção tanto dos próprios discursos quanto do conhecimento sobre o sexo e o próprio comportamento dos indivíduos no que diz respeito à sua sexualidade (FOUCAULT, 2011a). É desse modo que para vivenciar, trocar experiências, falar sobre a prática da prostituição e também sentir-se confortável com o que se faz, delimita-se espaços específicos. Os garotos de programa, assim, constroem barreiras em torno desses espaços para evitar qualquer ofensiva que os ponham em risco e ao mesmo tempo superar o conflito gerado pela divergência no modo de agir e conciliar as suas atitudes um tanto contraditórias.

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2.3 Construindo barreiras

Simmel (2004) diz que “o segredo levanta uma barreira entre os homens” (SIMMEL, 2004, p.238). Isto é uma ideia que se torna muito clara quando analisamos as estratégias utilizadas pelos michês para conciliar as suas experiências de vida e, na medida do possível, não permitir que as suas contradições se confrontem diretamente. Sendo assim, é possível localizarmos essas barreiras construídas como verdadeiras muralhas em diversos momentos da vida do garoto de programa e em momentos diferentes da prática da prostituição, como por exemplo na divulgação, na articulação dos contatos e na realização dos programas. Ao tentar coletar informações sobre aspectos da vida dos michês que não deveriam ser expostos naquele momento, naquele espaço e para qualquer pessoa, por diversas vezes eu me deparei com essas barreiras de isolamento, que, por terem como matéria prima o segredo, garantiram por vezes o meu distanciamento e a preservação de suas informações pessoais, assim como afastavam também a possibilidade de outras pessoas indevidas terem acesso a tais informações. O que eu falo pode ser exemplificado pelas atitudes de recusa da grande maioria dos rapazes com quem tentei conversar. E mesmo entre aqueles com quem dialoguei através da internet, houve momentos em que me foi vetada a possibilidade de prosseguir um diálogo focado em certos temas como a família ou atividade sexual com a namorada com a justificativa de que se falaria apenas sobre a prostituição; família e relações afetivas não faziam parte deste círculo. Mas a prática da prostituição, como vem sendo debatida, implica em um tipo de moldagem das relações sociais mantidas pelos garotos com todas as pessoas a sua volta, o que significa dizer que, independente do tipo de relacionamento mantido, todos eles serão atingidos de uma forma ou de outra. Assim, o sujeito que se prostitui tem o seu modo de agir modificado pelo segredo que guarda, inclusive diante de pessoas que não tem conhecimento de tal aspecto de sua vida. Em termos práticos, o rapaz, quando diante de seu círculo familiar, por exemplo, evita conversar sobre assuntos ligados à sua sexualidade ou a temas que exijam uma abertura maior sobre a quantidade de parceiros (as) tidos nos últimos dias. Por outro lado, evita-se a todo custo os diálogos a respeito de sua vida particular com os clientes. Diz Renato:

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De repente você tá lá e o cara ou a mulher com quem você tá, sei lá, aí

começa a perguntar das suas coisas

essas coisas. Eu corto logo porque eu sei que a pessoa tem curiosidade e acaba passando pelo sentido, mas num pode né? Cliente é cliente e de vez em quando a gente tem que lembrar eles disso (Renato).

do que você faz e tal, onde estuda,

A fala de Renato mostra a sua perspectiva sobre os limites do relacionamento com o/a

cliente. Ele se esforça na criação de uma barreira entre os dois que limita o tipo de relacionamento mantido e o deixa recluso dentro de uma situação profissional que deve se desfazer logo que o programa tenha um fim.

Da mesma forma, os outros tipos de relacionamento são limitados ou orientados conforme o garoto julgue necessário. Assim, os amigos têm informações podadas e

mistificadas para se criar uma imagem falsa de um macho heterossexual com grande número de parceiras, apenas, excluindo os parceiros homens que muitas vezes são em maior número (PERLONGHER, 2008; BARRETO, SILVEIRA & GROSSI, 2013).

O esforço em ocultar informações é tão grande quanto o de criar situações fictícias que

garantam diante de algumas pessoas tanto uma heterossexualidade quanto uma suposta indiferença em relação ao mundo da prostituição. Essas são algumas das formas que os garotos utilizam para criar barreiras entre eles e as pessoas com quem se relacionam.

Em vista da realidade total sobre a qual se fundamenta a nossa conduta, o nosso conhecimento é caracterizado por limitações e aberrações peculiares (SIMMEL, 2009, p.221).

Nesse sentido, a realidade total da vida do michê dentro do contexto pesquisado seria dessa forma constituída por três campos de possibilidade complementares e conflituosas, a saber, a esfera de experiências de vida pública, onde se afirma a honra do homem de verdade, a dimensão privada, estruturada por relacionamentos onde as trocas de intimidade devem ser estabelecidas a nível de igualdade ou o mais próximo disto e a esfera de experiências de vida transitória, envolvida por uma nuvem de segredo onde as trocas de informações nem sempre se dão de forma igualitária e as próprias relações aí dadas estão destinadas ao esquecimento. É nesta esfera onde se percebe com maior intensidade o sombreamento, a falsificação e a fachada como medidas de proteção da honra do rapaz.

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2.5 Entre o público, o privado e o transitório

Schutz fornece a noção de província finita de significado como um “conjunto de experiências onde se firma a realidade” (SCHUTZ, 1979, p.248) que nos auxilia no entendimento das vivências dos garotos de programa em dimensões opostas da vida. Nesse sentido, tomo as dimensões ou esferas de experiências de vida pública, privada e transitória como províncias de significado distintas, cada uma com seus aspectos, relações, experiências e sentidos próprios. Para DaMatta,

Embora existam muitos brasileiros que falam uma mesma coisa em todos os espaços sociais, o normal o esperado e o legitimado é que casa, rua e outro mundo demarquem fortemente mudanças de atitudes, gestos, roupas, assuntos, papéis sociais e quadro de avaliação da existência em todos os membros de nossa sociedade. O comportamento esperado não é uma conduta única nos três espaços, mas diferenciada de acordo com o ponto de vista de cada uma dessas esferas de significação (DAMATTA, 1997, p.44).

É correspondendo a essa lógica que o michê apresenta um tipo de comportamento para cada esfera da vida por onde transita e ao mesmo tempo sustém uma rede de relações específica em cada espaço preenchido com experiências que lhe são inerentes. Em primeiro lugar, notemos a esfera de experiências de vida pública como aquela dimensão da vida onde são exibidos fatos e informações que não trarão prejuízos morais ao sujeito se por ventura esses passarem a ser de conhecimento dos outros indivíduos imersos nessa mesma dimensão. Trata-se de onde se inscrevem os códigos de uma conduta esperada socialmente, portanto, mais ou menos dentro do que Butler (2015) fala ser uma matriz heterossexual que não permite contradições, mas, pelo contrário, alimenta uma uniformidade coerente com a ideia de que o comportamento sexual do sujeito deve corresponder ao seu sexo biológico. Na esfera pública ocorre com uma frequência quase geral o fato de os garotos de programa buscarem demonstrar uma atitude o mais próximo da esperada socialmente. Em outras palavras, em um ambiente público, um aspecto marcante é o esforço em torno de se camuflar entre os outros indivíduos, o que faz com que o michê, por exemplo, finja não reconhecer alguém com quem já saiu ou não aceite em público uma possível articulação de

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contatos inesperada para que as pessoas ao redor não percebam absolutamente nada ou o mínimo possível. Uma situação vivida por Eduardo no interior de uma conhecida loja de roupas no centro da cidade de Mossoró, a Riachuelo, é narrada pelo garoto e ilustra o que eu digo, além de demonstrar ao mesmo tempo o modo como as barreiras podem ser erguidas em torno de si:

Teve uma vez que eu tava na Riachuelo aí veio um cara que eu já tinha feito

programa com ele e ele veio tentar falar comigo. Só que ele dava muita pinta

O povo ia pensar que eu ando

com viado e tal. É porque é diferente, eu só faço programa. E eu nem

] ele veio

falar comigo, acenou e tudo, eu fingi que não vi e fiquei olhando camisa lá, aí uma vendedora vinha chegando e o cara pegou e falou comigo ó, me chamou de Eduardo, só que meu nome de verdade nem é esse. Eu peguei, virei, saí andando rápido achando que ele já tinha se tocado. Pensei em entrar no vestiário pra me esconder, mas aí ele ia achar que eu tava querendo uma rapidinha com ele, aí eu peguei e arrudiei e desci na escada rolante e fui

embora. (Eduardo)

gostava dele, tive meio nojo, ele era velho, tinha barriga, peludo [

e eu não queria que ninguém me visse [

]

Acredita-se que reações como a relatada tornem possível evitar que se instale a desconfiança na mente de qualquer pessoa que transite pelos espaços compartilhados com a coletividade e testemunhe o contato do garoto com qualquer outra pessoa oriunda de uma outra esfera. Além disso, a situação demonstra como o cliente se deparou com uma barreira existente entre ele e o rapaz, apesar de, num paradoxo, os dois estarem conectados mentalmente ao tentar prever constantemente qual seria a próxima atitude do outro e, com base nisso, traçar e executar o próprio plano de ações ou reações. Ao mesmo tempo, assim se evita que os diferentes espaços se choquem ou se misturem. E como lembrou DaMatta (1997), isso não pode ocorrer “sem criar alguma forma de grave confusão ou até mesmo conflito” (DAMATTA, 1997, p.46). As consequências de um conflito dessa natureza envolvem prejuízos morais que dificilmente seriam reparáveis, o que faz com que os michês, cientes dessas possibilidades, reforcem o discurso equiparado ao que é propagado pela sociedade de um modo geral e utilizem a esfera pública de forma completamente alheia à esfera transitória. Para Renato, a sua esfera pública é sobretudo um espaço de fingimentos. Diz ele:

Em público a gente finge, né? Eu sou normal

tranquilo, mas tive um tempo que eu não falava com ninguém mesmo. Saiu

Hoje acho que to mais

pra fingir é mentir, ter cuidado com

quem eu saio, quem encontro na rua. Daí tem o perigo de o outro não

da porta do motel, tchau, nunca vi. [

]

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segurar, querer dar um tchauzinho, um oi, aí imagine você ta do lado de uma menina e vem um gayzão querer acertar uma saída. Isso já aconteceu. Daí eu saio de perto, na boa, não é todo mundo que entende (Renato. Destaque meu).

É possível notar através da fala de Renato que o ato de fingir está atrelado a

sustentação de um discurso de normalidade que é expresso em palavras e em ações e envolve riscos verificados em certos momentos da vida pública, como o risco de o outro conhecedor do segredo não querer colaborar e acabar propagando as informações secretas ou agindo de modo a levantar suspeitas nos outros. Para Miskolci (2013, p.303), em seu estudo sobre as relações homossexuais dadas por meio da web, ser normal está associado a “ter a capacidade de desaparecer como parte da maioria”. Porém, isso não se dá de forma tão simples. O discurso da normalidade configura uma série de atitudes bem como uma postura de observação perspicaz do meio que faz com que o garoto de programa esteja o tempo todo atento e consciente do espaço onde se encontra para que se possa identificar qualquer coisa que venha de fora e ameace a sua estabilidade. Isso também pode ser exemplificado pela seguinte fala de Eduardo:

Ah, em público a gente é normal, não tem nada de diferente, ninguém nota, ninguém percebe nada porque é tudo muito escondido e a gente ainda tem

a

gente precisa saber agir numa situação dessa, pra disfarçar, pra sair tranquilo

(Eduardo. Destaque meu).

outras coisas pra cuidar né [

]

tipo namorada, família, os estudos

[

]

“A gente ainda tem outras coisas pra cuidar” aponta, para além da prostituição, a existência de outras tramas, responsabilidades, relações e sentidos em uma esfera pública que devem ser resguardados de qualquer coisa que possa afetá-la. A separação entre as dimensões da existência se torna muito clara a partir dessa fala que igualmente mostra o quanto que o garoto é ciente dessa separação, dos limites estabelecidos e dos elementos que a compõem.

namorada, família, os estudos” são, então, como apontados pelo próprio rapaz,

elementos constituintes dessa esfera pública que devem ser preservados e respeitados como

elementos sagrados em oposição completa às práticas prostitutivas, socialmente consideradas devassas, profanas, portanto, completamente destituídas de moral.

O discurso da normalidade é, desse modo, importante para os rapazes verem a si

mesmos como, apesar de se prostituírem, ainda detentores de uma honra que é laboriosamente cultivada nessa esfera pública. O esforço para se igualar aos outros homens ditos normais ou

“[

]

67

homens de verdade como fala Bourdieu (2012), é que impulsiona o garoto de programa a se utilizar do segredo como estratégia de preservação de si e, como consequência, impede que a prostituição aconteça a olhos vistos, sendo, portanto, impelida a se dar em locais reclusos. Essa preocupação com o segredo faz com que os interlocutores tenham sempre buscado deixar claro ao longo das entrevistas que, por sustentarem o discurso e a postura de uma normalidade numa busca pela preservação de si, os relacionamentos nas diferentes esferas não estão de forma alguma imunes a essa forma de se comportar. Sendo assim, todos eles, de uma maneira ou de outra, sofrem limitações. Renato, por exemplo, afirma ter poucos amigos verdadeiros. E sua afirmação é complementada pela informação de que um amigo verdadeiro seria aquele a quem poderia confiar o seu segredo sem ser discriminado posteriormente. Para ele, esta seria a condição para poder se declarar uma amizade legítima e que alcançasse o seu ser em uma maior porção. O rapaz ainda reforça a ideia dizendo que “Todo mundo fala que amigo de verdade é só pai e mãe, mas pra quem não pode contar tudo, nem pai, nem mãe”. Fica explícito, dessa forma, a limitação existente em um relacionamento familiar no qual o sujeito não possa confessar o seu envolvimento com a prostituição e compartilhar suas experiências. Mas as relações familiares não fazem parte somente de uma única dimensão da vida. Ela se situa em uma região de interseção entre a esfera pública e a esfera de experiências de vida privada, na qual se firmam as relações afetivas e se desempenham papeis sociais ligados, principalmente, à família. Em outras palavras, a esfera de experiências de vida privada está relacionada com os elementos íntimos do sujeito, o que envolve os sentimentos, os laços consanguíneos e os espaços onde as experiências íntimas se dão, como o lar onde se vive. Trata-se do ambiente da casa, como lembra DaMatta (1997). Nessa região situada entre uma esfera e outra, existe um outro tipo de relacionamento na esfera pública que ganha destaque por ser mais interessante a forma como é encarado pelos próprios garotos e também pelas outras pessoas, que, por desconhecerem completamente a forma como os rapazes se mantém financeiramente, acabam por atribuir significados que testemunham a favor do garoto de programa. Refiro-me à figura da namorada para aqueles que a possuem, configurando um tipo de relação afetiva-sexual que adquire um caráter sagrado porque românticas, além de cumprir uma função primordial de proteção e zelo da imagem do michê.

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Os interlocutores que disseram possuir namorada, e entre eles se encontram Eduardo, Renato e Artur Castro, assumem que se trata de uma peça fundamental no jogo das relações e sexualidades, ao mesmo tempo para si e para os outros.

A namorada, perante a esfera pública, está presente principalmente para cumprir a

função de garantia da aparência de uma heterossexualidade normativa, satisfazendo assim a curiosidade e exigências dos amigos e familiares em relação à sexualidade e aos planos futuros, já que o ato de namorar muitas vezes deixa implícito um possível projeto de, no futuro, constituir uma família como qualquer outra pessoa. Do mesmo modo, o fato de possuir

uma namorada faz com que o garoto seja objeto de uma afetividade que o faz sentir-se menos solitário. Isto está expresso na seguinte fala de Eduardo ao ser perguntado se possuía namorada:

Eu tenho porque é bom o cara ter com quem fazer amor de verdade, fazer carinho, a gente se sente menos sozinho, pô. No programa é muito [ ] mecânico, cansa. A gente precisa de uma coisa mais da gente (Eduardo).

Dessa forma, podemos pensar a figura da namorada na esfera privada, onde se requer

certos níveis de intimidade e afeto entre os indivíduos, como tendo acesso a um grau de intimidade que envolve principalmente as trocas românticas-afetivas-sexuais ao mesmo tempo em que lhe seriam ocultadas informações de sua vida profissional.

A namorada teria acesso da mesma forma à esfera pública pelo fato de sua presença

servir como uma forma de assegurar uma possível heterossexualidade do garoto perante a sociedade bem como a aparente impossibilidade do enquadramento na categoria michê. No entanto, as trocas de intimidade eminentemente recíprocas entre michê e namorada, envolvendo o sexo e o sentimento afetivo de forma indissociável, devem ter um caráter de exclusividade para que o relacionamento amoroso se firme enquanto tal e cumpra a função esperada.

Já os relacionamentos que se dão sem uma troca de carinho com impulsão afetiva e

sem reciprocidade de entrega delineiam um outro espaço, uma terceira esfera repleta de códigos próprios, discursos específicos e relacionamentos que ganham características próprias. Entre estes caracteres definidores, está a rapidez e a superficialidade com que se dão e por serem impulsionadas por um desejo provocado e estimulado tanto pelo dinheiro quanto pela própria sexualidade.

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Falo agora da esfera de experiências de vida transitória, onde se dão os programas rodeados por uma espécie de fantasia em torno da sexualidade e densas barreiras que possuem

a intenção de abafar as experiências sexuais que derrubariam qualquer postura ou discurso de

uma sexualidade heteronormativa alimentada em outras esferas. Nesta esfera transitória, os relacionamentos são os mais limitados em diversos sentidos; são poucos, não devem se cruzar, não devem obter informações sobre as outras esferas e são superficiais. Ao ser questionado sobre quem pode receber informações de fatos dentro de sua atividade profissional, Eduardo fala:

Porra, só quem ta ali comigo, entendeu? Num é uma coisa que eu chegue contando pra uma pessoa, ei, comi num sei quem, fiz isso e aquilo outro, to fazendo por dinheiro e tal. Acho que isso nem precisa de resposta. (Eduardo).

A fala do rapaz deixa claro o fato de que a esfera transitória de sua vida é bem definida

e apenas as pessoas que fazem parte de sua clientela podem aí adentrar e receber informações

sobre sua vida profissional. Mas isso se dá apenas pelo fato de que eles estão compartilhando

os mesmos atos e dividindo os mesmos ambientes e, em alguns casos, os mesmos segredos. O fato de estarem os garotos de programa dividindo um espaço comigo - a internet - fez com que se abrisse nessa esfera uma fresta por onde eu poderia visualizar um pouco de suas experiências, mas não sem antes passarem todas elas por um processo de seleção, já que, como eu era visto como um elemento externo, representava uma ameaça à segurança de todos, o que me fez deparar com barreiras e limites bem traçados. Quando, por exemplo, em alguns momentos das entrevistas, eu toquei em questões que podiam dizer respeito diretamente a seus familiares, os garotos algumas vezes expressaram uma incisiva resistência, demonstrando assim um caráter sagrado atribuído a essas relações dadas em outra esfera. O cliente, por estar inserido na dimensão das práticas prostitutivas do garoto de programa, depara-se com um alto nível de mistificação, mendacidade e ocultação na medida em que o michê busca simultaneamente a atenção de quem solicita seus serviços, bem como a proteção de sua honra. É dessa forma que um acordo tácito entre os sujeitos assegura que nenhuma informação acerca da situação ali vivida deve extrapolar os limites da esfera transitória. Assim, é quando as diferentes dimensões são confrontadas ou se tornam inconciliáveis que o segredo surge como estratégia de conciliação ao delimitá-las e separá-las. Trata-se de

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um jogo de reservas onde cada indivíduo deve estar recluso à dimensão que lhe cabe. E para observar isso de uma forma mais completa, é necessário observar também outros elementos que transitam em torno de um relacionamento e que funcionam como marcadores simbólicos que, assim como o segredo, tem a sagrada atribuição de traçar o limite entre as esferas. Eles precisam, para tanto, estarem presentes ou ausentes para indicar se uma situação ocorre dentro da vida privada, pública ou transitória. Segundo Blumer (1980), “a vida e os atos do homem são necessariamente alterados conforme as mudanças ocorridas em seu universo de objetos” (BLUMER, 1980, p.129). É dessa forma que a presença ou a ausência do dinheiro, do prazer e da afetividade tem o poder de definir em qual esfera de experiências de vida se dá uma relação ou ato na medida em que esses elementos alteram o significado de cada ocorrência na vida do garoto de programa. Para ilustrar o que digo, reproduzo aqui um fato ocorrido com Ricardo, narrado pelo mesmo, onde o garoto deixa clara a importância de deixar o prazer ausente e ao mesmo tempo efetuar a troca monetária para assegurar a localização de uma experiência dentro da esfera transitória. Ricardo estava em um motel com um cliente a quem já atendera diversas vezes, sempre em troca de uma quantia de dinheiro estabelecida como seu valor fixo e igualitário para todos os clientes. Porém, o rapaz observava que o cliente em questão nutria um sentimento afetivo por ele e isso ficava explícito nas carícias mais demoradas que lhe fazia, nas perguntas sobre sua vida privada que ele sempre evitava responder com verdade e também na grande constância com que o mesmo lhe procurava, uma a duas vezes por semana. No motel, naquele último programa, o cliente aparentava o tempo todo estar tristonho.

Quando a gente terminou tudo né, nesse dia eu tinha até gozado porque ele me masturbou forte, ele meio que forçou, eu tinha pedido pra ele parar e tudo, mas ele fez ainda meio que à força. Ele sabia que se eu não gozasse eu

ia sair com outro cliente depois dele. Mas aí ele fez isso né. Eu quase briguei com ele, mas deixei quieto. Daí eu tomei banho e vesti minha roupa e quando fui ver nas minhas coisas ele tinha tirado o dinheiro de volta. Boy, eu surtei. Eu perguntei: cadê a grana? Ele fingiu que não ouviu. Daí eu perguntei de novo com raiva pra ele ver que eu tava falando sério. Aí ele pegou e disse: você gozou hoje, achei que não fosse querer a grana. Aí eu surtei, quase bati nele. Eu disse que ele deixasse de ser doido que aquilo era um programa e que eu não ia nunca ter nada com ele e exigi que ele me devolvesse o meu dinheiro. Ele pegou e jogou o dinheiro na cama e começou a chorar. Ele esperava que eu fosse consolar? Uma ova, eu fiz foi discutir com ele, ele queria que eu fosse viado e tivesse romancezinho com ele. Eu

tenho namorada e tudo

procurou de novo, sim, mas eu subi o preço, cobrei 500 reais e ele ainda

Depois ele ainda me

nem faz muito tempo isso. [

]

71

disse que topava, mas aí eu subi mais e ele continuou. A praga era rica

chegou em mil ele desistiu. [ (Ricardo).

]

Nunca mais apareceu, graças a Deus

A partir da fala de Ricardo é possível perceber o esforço do garoto em manter fixa

dentro da esfera transitória a situação vivida no motel com o cliente que já alimentava um interesse afetivo no rapaz. O esforço se dá através de uma negociação em torno ao mesmo tempo dos três elementos: o prazer, a afetividade e o dinheiro. Em primeiro lugar, a presença do prazer materializado no esperma referido no início do relato marca uma possibilidade de existir uma afetividade que deve estar ausente para que as esferas da vida não se confundam e não culminem em prejuízos morais. A relutância inicial de Renato em ter um orgasmo demonstra um esforço em não alimentar a afetividade que já era percebida pelo rapaz. Assim, o mesmo se mostrou ciente das consequências em corresponder minimamente àquele sentimento que deveria ser evitado e este é o motivo de se ter tentado evitar o gozo naquele caso específico. Renato, mais tarde, informou-me que em outros programas não evita a ejaculação,

que, para os clientes novos, isso pode funcionar, inclusive, como um atrativo e sinal indicador que o programa chegou ao fim de uma forma satisfatória para as duas partes envolvidas. No relato, ainda é possível perceber igualmente a importância do dinheiro para que a situação tenha fim sem perder as características de um programa e não invada a região destinada às afetividades. A discussão entre os dois pela ausência ou presença do dinheiro demarca uma situação em que o limiar entre o programa e a afetividade está em risco de romper-se. A irritação do garoto de programa expressa a preocupação em preservar as características do programa e, assim, evitar o risco de ter ameaçada a heterossexualidade presente em seu discurso a partir da afirmação de que possui namorada.

O fato de o garoto ter elevado o seu valor cobrado a quantias fora de sua realidade

especificamente para aquele cliente representa uma massificação da barreira entre a esfera transitória e a esfera privada que exigiria um esforço bem maior do cliente para superá-la. Esforço este que não foi bem sucedido e a relação entre cliente e michê teve, portanto, o seu fim.

A partir dos relatos, podemos perceber que o traço que contorna, separando, as esferas

da vida pública, privada e transitória tem um aspecto de solidez na medida em que os sujeitos

pertencentes a cada uma delas encontram dificuldades em transpor as barreiras impostas pelos

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rapazes que as constroem. É a partir da presença ou ausência de certos elementos que as experiências e relações tidas em cada dimensão da vida ganham sentidos e significados diversos. A importância dessa separação feita pelos garotos de suas vivências em províncias finitas de significado que chamei aqui de esferas de experiências de vida está na capacidade de manter separadas e afastadas de si, na medida do possível, tudo aquilo que poderia ferir a própria imagem, a honra, e, para alguns, as possibilidades de se investir em um futuro profissional diferente, aceito socialmente, no qual não se sinta coagido a ocultar tudo o que lhe diga respeito. Assim, é por possibilitar que experiências contraditórias possam ser tidas pelo mesmo indivíduo que o segredo é utilizado em demasia, servindo como a matéria prima na construção dos limites de cada dimensão por onde se transita com posturas e comportamentos específicos. Mas o segredo não está sozinho no cumprimento dessa tarefa de conciliação de modos de vida divergentes. Seria incompleto dizer que apenas manipular algumas informações bastaria ou seria a única estratégia utilizada pelos garotos de programa. Existe um outro elemento que, diferente, porém inerente a atitude do segredo, permite o trânsito entre as esferas da vida, de forma a ultrapassar a noção de unidade do indivíduo. Falo da construção e utilização de fachadas, foco de debate no capítulo que segue.

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CAPÍTULO 3 FACHADAS: TRANSITANDO ENTRE AS DIFERENTES ESFERAS DA VIDA

“Em mim nada está como é. Tudo é um tremendo esforço de ser”. Angústia, Secos & Molhados.

São muitas as possibilidades de apresentação do eu, ou, como disse Goffman (1999), de representações do eu na vida cotidiana. Os elementos que nos rodeiam poderão influenciar na forma como deveremos nos portar diante do outro, bem como os valores que buscamos cultivar e que funcionam muitas vezes como norteadores de uma conduta. Quando Bourdieu (2012) fala de uma honra masculina e o quanto que se faz necessário preservá-la acima de tudo sob a punição de sermos desacreditados socialmente e relegados a uma posição inferior em relação aos outros em uma escala em que somos medidos pela moral com a qual nos afinamos ou não, fica-se subentendida a busca pela utilização de artifícios que favoreçam a vivência em espaços específicos. Essa situação ganha contornos diferenciados quando se trata do indivíduo que experiencia circunstâncias que não podem ser de conhecimento público. Goffman (2011, p.14) define a fachada como “uma imagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovados”. Tais atributos dependerão do contexto onde se encontra o indivíduo, ou seja, aquilo que é valorizado em um determinado círculo pode não ser em outro, o que exigirá do sujeito uma habilidade em apresentar, em sua representação cotidiana, os chamados atributos socialmente aprovados, muitas vezes implicando em ocultar outros atributos possivelmente depreciativos. Dentro de um universo de masculinidades é o conjunto de características típicas ou próprias de uma masculinidade hegemônica que se configurarão como um valor almejado. Apesar de hoje se buscar em alguns círculos desconstruir esse modelo impositivo da heteronormatividade compulsiva, na dimensão da michetagem ainda se busca resgatar traços do macho estereotipado para se evocar o desejo sexual ou se exibir uma suposta maior capacidade sexual a partir de características discursivas e corporais. Sendo assim, temos como pressuposto o fato de que são as características do que se enquadra na performatividade do gênero masculino como o que irá influenciar na construção das fachadas dos garotos de programa.

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Tudo isso reflete ao mesmo tempo a forma como a homofobia e a heteronormatividade

influenciam na ação cotidiana dos sujeitos que lidam com esses sistemas de classificação que

podem exaltá-los ou excluí-los do meio em questão. É, portanto, a essa gama de processos

que está sujeita a construção de uma fachada.

Neste capítulo, discutirei como se dá a utilização de fachadas por partes dos garotos de

programa, tomando como referência situações verificadas em campo que me permitiram

refletir sociologicamente a respeito do comportamento dos sujeitos quando estes se veem

perante uma dúbia exigência de representação do eu.

3.1.1 A Fachada na esfera pública como dispositivo de acionamento da normalidade em um contexto de anormalidades

Como vimos no capítulo anterior, o discurso da normalidade está presente na fala dos

rapazes de forma marcante, e isso ao mesmo tempo constitui uma das características que

transmitirão aos clientes um tanto de confiança em não serem percebidos acompanhados por

sujeitos marcados pelo estigma da homossexualidade, o que seria automaticamente estendido

ao cliente.

Sendo assim, é válido ressaltar que a utilização de fachadas sociais por parte dos

garotos de programa pode ser visto como um dispositivo de acionamento da normalidade,

porquanto a partir do momento em que se assume um comportamento diverso do comum, do

estigmatizado, do socialmente inaceitável, o rapaz está adentrando ao mesmo tempo em uma

postura conformada com o normal.

Segundo Bourdieu,

O mundo social, que tende a identificar a normalidade com a identidade entendida como constância em si mesmo de um ser responsável, isto é, previsível, ou, no mínimo, inteligível, à maneira de uma história bem construída (por oposição à história contada por um idiota) dispõe de todo tipo de instituições de totalização e de unificação do eu” (BOURDIEU, 1998, p.186).

Por esse ponto de visto proposto pelo autor, torna-se óbvio que os garotos analisados

não se enquadram na categoria da normalidade por não serem previsíveis e não estarem

construindo uma história linear e inteligível, já que a porção de experiências mantidas na

esfera das experiências transitórias da vida não estão de acordo com uma postura mantida em

outras esferas da vida.

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Sobre a ideia de normalidade, Miskolci esclarece:

Normal vem de normalis, norma, regra. Normal também significa esquadro e, assim, etimologicamente, normal é aquilo que não se inclina nem para a esquerda nem para a direita, portanto é aquilo que é como deve ser; e, no sentido mais usual, o que se encontra na maior parte dos casos de uma espécie ou o que constitui a média numa característica mensurável. Em suma, a individualidade, por caracterizar-se por um afastamento da média é facilmente qualificada de patológica (MISJOLCI, 2003, p.110).

Assim, os garotos de programa, por divergiram da norma de conduta vigente em nossa sociedade pautada por fortes valores morais, não podem ser vistos como normais aos olhos de quem os visualize em vivência referente à esfera de experiências transitórias da vida. A punição seria ser marcado com o estigma da prostituição e da homossexualidade, o que prejudicaria profundamente o restante de suas experiências de vida mantidas em outras esferas. É para se evitar que isso ocorra que se busca, quando em atividades ligadas à prostituição, e principalmente quando essas atravessam outras esferas, dissimular as próprias experiências em andamento através de fachadas laboriosamente construídas. Assim que as fachadas funcionarão como dispositivos de acionamento da normalidade em um contexto de anormalidades. Para figurar o que digo, descrevo a seguir algumas situações observadas em campo.

3.1.2 Construindo e mantendo fachadas: o caso Caio

Relatarei agora um fato observado por mim em uma das primeiras entrevistas que realizei dentro do campo da michetagem, quando ainda na fase de pré-campo, no dia 09 de Abril de 2014. Pelos acontecimentos peculiares que marcaram essa incursão em especial, julgo-a emblemática para se pensar aspectos importantes no conhecimento a respeito da prostituição masculina, o que me fez retomar as anotações do diário de campo e transcrever algumas das impressões e observações provocadas pelos acontecimentos. Chamarei o rapaz de Caio. Muito embora aparentasse menos, ele dizia possuir 18 anos quando eu o encontrei em uma das salas de bate papo do site UOL. Na ocasião, eu utilizava a identificação de Pesquisador. Ainda era início de tarde, por volta das 12:30, e a sala estava bastante movimentada. Fui eu que o abordei, não obstante o fato de o garoto não apresentar em sua identificação nada que o remetesse ao sexo pago. Era apenas o seu nome fictício seguido de sua suposta idade (Caio 18). Mas acontece que eu já havia percebido a estratégia

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que alguns utilizavam de não se mostrarem como um garoto de programa desde as suas identificações. Sendo assim, havia passado a abordar mesmo aqueles que não eram evidentes. Logo nas primeiras falas, percebi que, como eu suspeitava, tratava-se realmente de um garoto de programa que buscava em um primeiro momento ocultar como estratégia de auto enaltecimento a sua familiaridade com a atividade prostitutiva. Perlongher (2008) também se deparou com michês que negavam a prática inicialmente para em seguida se revelar de dentro do meio, em uma atitude semelhante à negativa da homossexualidade. Para o autor, ambas as atitudes estão relacionadas à fuga do estigma e à valorização de si, do serviço prestado, já que aquele que se apresenta como um neófito tem a seu favor a possibilidade de demonstrar uma falsa exclusividade para determinado cliente, portanto, podendo cobrar um valor elevado. Ao mesmo tempo, esse mesmo garoto pode ser visto como pouco usadoou pouco rodadoe por isso possuir um valor simbólico maior que aquele experiente com quem um grande número de pessoas já teve relações sexuais (PERLONGHER, 2008; SANTOS e PEREIRA,

2016).

No desenrolar da conversa com Caio, ainda no espaço virtual, realizei uma série de perguntas dentro do que eu buscava conhecer. Em um dado momento, eu propus que fizéssemos uma entrevista pessoalmente, já que o garoto se mostrava aberto a dialogar a respeito de suas experiências enquanto michê. Caio concordou, mas com a condição de que o nosso encontro se desse ainda naquela mesma tarde, pois era o dia em que seria possível para ele. Aceitei a condição sem questionar, ciente de que o pesquisador, na maior parte do tempo, é guiado pelo próprio campo e está posicionado meramente como um observador que posteriormente se concentrará em tecer as suas interpretações (GEERTZ, 2008). Acertamos, então, os detalhes do encontro, a maioria impostos pelo garoto. Nos encontraríamos em um ponto de ônibus localizado no bairro Abolição, próximo a um supermercado, às 15:00 horas, sozinho. Eu iria vestido com calça jeans, camisa com gola estilo polo, mochila nas costas e estaria sentado em um dos bancos como alguém que espera um transporte coletivo. Sentia-me como deve se sentir um cliente quando na eminência de um encontro:

ansioso para saber que rosto eu encontraria, se eu seria reconhecido pelo garoto como o Pesquisador que o havia abordado na internet ou mesmo se eu seria capaz de identificá-lo. Ao mesmo tempo, pensava nas possibilidades de o encontro não poder ocorrer por fatores que nos fugissem ao controle, como, por exemplo, a aproximação de alguém conhecido.

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Cheguei ao local no horário combinado. O sol forte refletia nos para-brisas dos carros que transitavam na avenida ao lado. Sentei-me no último banco do ponto de ônibus de onde eu poderia observar todo o local e aguardei apreensivo ser abordado a qualquer momento. Tinha em mente o modo como deveria me portar diante do garoto, deixando clara mais uma vez a minha intenção ao solicitar um encontro, e, com uma atitude razoavelmente objetiva, tentar manter o foco da conversa nos temas a serem abordados. Isso, a meu ver, evitaria ser confundido com um possível cliente, confusão esta que poderia dificultar a coleta de dados. Esperei no local por quase uma hora e ninguém com as características descritas pelo garoto apareceu. Apenas pessoas comuns chegavam, aguardavam alguns instantes pelos transportes coletivos, embarcavam e partiam. Eram pessoas de diversos tipos: senhoras carregando sacolas de supermercado, jovens estudantes vestindo fardas escolares, senhores trabalhadores com roupas surradas. Bicicletas passavam logo ao lado, seus condutores paravam, conversavam com um senhor de meia idade responsável por uma banca de jogo do bicho que em um dado momento se instalou no ponto de ônibus, trocavam bilhetes, riam e se despediam. Após algum tempo, notei que um rapaz com aparência um pouco mais jovem do que eu esperava rondava o lugar com o celular na mão. Apesar de não estar vestido como disse que estaria, algo em sua atitude o denunciava. Ele olhava em minha direção vez ou outra e desviava o olhar sempre que eu o espiava de volta, perdido entre análises de seu aparelho celular e de minha fisionomia. Naquele momento eu suspeitava que a entrevista não fosse acontecer por algum motivo fora de meu alcance, talvez algum conhecido seu estivesse por perto ou talvez suspeitasse que eu não fosse o pesquisador que o abordara mais cedo na internet e talvez um desses fatores o impedisse de se aproximar. Mas finalmente o garoto se acercou de mim. Caio era um rapaz magro e de baixa estatura. Tinha a pele queimada pelo sol, olhos sorridentes e pequeno alargador preto no lóbulo da orelha direita. Ele vestia roupas diferentes das que disse que usaria e, mais tarde, quando perguntado sobre os motivos da alteração do que seriam os seus sinais identificadores, ele respondeu que “Todo mundo faz igual. É que se for alguém conhecido ou eu não gostar, eu vou embora.” O rapaz sorria demasiadamente feliz. Falava com espontaneidade como se fôssemos velhos conhecidos, numa atitude que se tratava claramente de uma tentativa de convencer os participantes circunstantes da interação, como nomeia Goffman (2013) aqueles que estão

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presentes na interação de forma indireta como observadores, de que realmente já nos conhecíamos. Automaticamente, eu tive que deixar de lado a minha postura de pesquisador para me comportar da forma como ele esperava, mesmo sem saber ainda exatamente o modo como ele desejava ou permitia que eu me portasse. Então, entendendo a estratégia do rapaz, eu correspondi ao seu modo de agir, retribuindo aperto de mão e sorrisos os mais sinceros possíveis. Eu sabia que era de essencial importância pensarmos ambos nas interpretações que os outros presentes no mesmo ambiente poderiam colocar sobre as nossas ações que deveriam ser consistentes e coerentes com as nossas fachadas (GOFFMAN, 2011). Falo “nossas” porque eu, até então, sustentava uma fachada de pesquisador. E em um determinado momento, senti-me coagido a assumir instintivamente um outro comportamento mais condizente com uma fachada de amigologo que assim ele se referiu a mim. Foi desse modo que eu modifiquei instintivamente o meu comportamento de um pesquisador para um amigo.

Trata-se de um fenômeno de alteração de comportamento que Goffman (2013) chama de mudança de footing e que se refere ao momento em que o indivíduo, durante a interação, passa a assumir um outro alinhamento diferente do que vinha assumindo (GOFFMAN, 2013). Eu tinha, portanto, que corresponder às expectativas do rapaz na interação e ao mesmo tempo estar atento a cada palavra que eu dizia com base no que os outros presentes poderiam pensar. Eram, portanto, essas possibilidades de interpretações alheias que regulavam a nossa interação o tempo todo. Caio se esforçava continuamente para sustentar a sua fachada que, pelo motivo de a situação se dar de forma pública, ganhava um aspecto conflituoso na medida em que, em minha direção, ele tentava reafirmar, sem, contudo, colocar em palavras faladas, a imagem de garoto de programa confessada no espaço virtual e, ao mesmo tempo, para as outras pessoas presentes no local, ele tentava demonstrar ser uma pessoa comum. Vivíamos, desse modo, um momento produzido em um espaço de interseção entre duas esferas de sua vida - a esfera pública e a esfera transitória. Assim, a habilidade de Caio para possibilitar a nossa interação naquele espaço de interseção consistia em conformar três atitudes diferentes e contraditórias: 1. O garoto deveria demonstrar para os outros presentes uma absoluta e despretensiosa segurança de si ao atribuir àquele encontro características de um encontro banal entre conhecidos; 2. Deveria direcionar

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a mim sinais de que ele era o garoto de programa por quem eu aguardava; 3. E comportar-se

concomitantemente segundo os rituais de interação dados entre desconhecidos que, de fato, éramos. Esses sinais eram expressos sobretudo por seu olhar. Caio me fitava com curiosidade, receio e ao mesmo tempo como quem tenta transmitir uma mensagem, porém com cuidado para não se demorar em mim. Em seguida, percorria todo o ambiente em volta com olhares furtivos e analíticos que demonstravam uma preocupação em averiguar as reações das pessoas

e em não ser surpreendido por alguém de qualquer outra esfera de sua vida. Esse tipo de atitude regida e direcionada por duas situações e espaços com sentidos diferentes confrontados em uma circunstância de interseção de esferas da vida, reflete todo o cuidado que o garoto de programa é coagido a ter para que não se perca a sua fachada. Dessa maneira, foi possível perceber que Caio acabou assumindo alinhamentos divergentes de modo simultâneo para poder sustentar sua fachada já em andamento e que deve permanecer ativa enquanto as outras pessoas permanecerem observando. Nesse sentido, Blumer fala que nós “formamos os objetos de nós mesmos por intermédio da forma como os outros nos vêem ou nos definem” (BLUMER, 1980, p.129- 130). Isso expressa a necessidade da preocupação com a visão dos outros presentes na interação sobre nós mesmos. Essa questão leva a um outro ponto de análise: a sensibilidade do indivíduo em reconhecer que tipo de sujeito e suas respectivas formas de se comportar devem emergir em uma dada situação. Geraria um conflito maior, portanto, caso alguém da esfera privada da vida de Caio nos descobrisse, provocando uma nova alteração em nossa interação. Passado o primeiro momento do encontro em que nos detivemos no cumprimento de pequenos rituais de interação como as saudações, a forjada preocupação pelo bem-estar do outro e demonstração de uma forjada felicidade pelo encontro, Caio, consciente de que era

preciso apresentar elementos que nos dessem credibilidade em relação aos outros presentes, iniciou uma atitude de mistificação que eu deveria continuar correspondendo, mas, agora, de uma outra forma. Caio mistificou situações de um contato passado entre nós que não existia, ao perguntar, por exemplo, por onde andaria uma fictícia amiga em comum e onde faríamos as telas para pintar as camisas de um evento igualmente fantasioso. Eu me vi, portanto, em uma nova situação, talvez mais delicada que o primeiro momento.

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A partir do instante em que Caio me tratou como um amigo que possuía um passado em comum sem um consentimento prévio, as nossas fachadas de amigos ganharam profundidade e eu tinha que ter o cuidado de não contradizer com as informações que passavam pela sua cabeça. Eu não era mais apenas um pesquisador desconhecido fingindo ser amigo do entrevistado. Eu era agora um amigo com um passado em comum e um projeto futuro a ser desenvolvido com a minha participação ativa, muito embora não conhecesse absolutamente nada do projeto. Senti na própria pele o quanto que a manutenção de uma fachada é um processo demasiado delicado e complexo e o quanto pesa a responsabilidade pela segurança de uma fachada que, se perdida, poderia colocar em risco tanto o andamento de minha pesquisa quanto a honra e a convivência de um indivíduo com sua família e amigos. Conversamos então sobre o suposto evento por cerca de sete a dez minutos. Eu respondi as suas perguntas com o máximo de firmeza que consegui e ainda adicionei comentários do tipo “acredito que irão participar mais pessoas do que imaginamos”. Ou “estou com a arte aqui na minha agenda, podemos adiantar o trabalho”. Porém, “adiantar o trabalho”, na realidade, significava para mim um convite a irmos logo ao encontro onde

realizaríamos a entrevista, mais por falta de confiança na minha capacidade de sustentar as nossas fachadas naquela conjuntura do que mesmo boa vontade em colaborar ou domínio sobre a situação. Essa circunstância se enquadra no que Goffman chama de “interação desfocada”. Para o autor, ao falar do indivíduo dentro de uma situação do tipo, é paradoxal o fato de que “a

maneira pela qual ele pode transmitir a menor quantidade de informação sobre si mesmo [ encaixando-se e agindo como se espera que pessoas do seu tipo ajam” (GOFFMAN, 2010,

p.45).

] é

Principalmente a primeira parte de nossa interação se enquadra nesses moldes. De forma simultânea, foram essas características de uma interação desfocada que nos impulsionaram a assumir alinhamentos até então não esperados, ao menos por mim que vivia pela primeira vez um contexto com tais características. A alternância entre os alinhamentos assumidos por nós reflete a ação de forças externas atuando de forma marcada, como o estigma da prostituição e da homossexualidade que o garoto buscava evitar, refletindo em mim que, para ganhar o colaborador, teria que igualmente contribuir fazendo parte de sua encenação.

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É interessante notar na interação que tanto eu quanto Caio assumíamos o papel de interlocutor ao mesmo tempo em que deveríamos nos comportar como ouvintes para perceber o ambiente e os “outros”, pois eram esses fatores que em certa medida regulavam nossas ações.

Nessa perspectiva é que Goffman questiona os status de “narrador” e “ouvinte de história” atuantes em uma interação, já que aquele que fala pode ao mesmo tempo “ler” ou “ouvir” aquele que o escuta; e o ouvinte, enquanto ouve, fala por meio de expressões, gestos, olhares e posturas físicas àquele que narra um acontecimento (GOFFMAN, 2011). Para preservar a fachada de pesquisador, tive que alterar a linha de atuação como uma demonstração de habilidade social que, se não fosse expressa naquele momento, ameaçaria a minha credibilidade de pesquisador e, portanto, a minha fachada. Assim, a entrevista talvez estivesse irremediavelmente prejudicada. Dessa forma, ficou claro que a minha fachada de pesquisador também dependia da minha atuação como amigo. Foi então que passamos a caminhar um pouco pela rua, agora mais tranquilos já que as pessoas nos observavam de uma certa distância. Dirigimo-nos sem pressa até um supermercado próximo, conversando sobre a minha pesquisa, os motivos que me levaram a escolha do tema, com quantas pessoas já havia conversado, entre outros dados de minha vida acadêmica que era importante expor para que eu recebesse em troca as informações do entrevistado. Sentamos de frente para a rua em um banco de madeira que havia no local. Retirei de minha mochila um caderno e caneta e demos início à conversa na qual ele falou um pouco sobre sua história de vida e circunstâncias que o levaram à prática da venda de favores sexuais e eu pude então traçar um perfil do garoto. Os pais de Caio haviam falecido cerca de um ano e meio antes do nosso encontro e desde então o rapaz vivia com um tio que o mantinha sob um controle rígido. A prostituição surgiu como forma de gozar de uma relativa liberdade e independência em relação ao seu tutor, ganhando presentes como roupas e perfumes dos clientes e um pouco de dinheiro, “o quanto quiserem me dar”, disse ele quando perguntado sobre o valor do programa. Não foi difícil para Caio, pouco tempo depois da perda dos pais, articular seus primeiros contatos por meio da internet para realizar os seus primeiros programas. Declarou que a primeira vez em que se viu numa situação de prostituição foi com um homem bem mais velho que o solicitou repetidas vezes e de quem recebia R$ 50,00 por encontro. Este valor, na verdade, não era imposto pelo rapaz, mas dado de bom grado pelo cliente que era experiente

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no ramo como cliente. E os encontros prosseguiram até que o garoto começou a perceber que sua família desconfiava de que ele estava praticando furto, o que o obrigou a parar. Mas as primeiras experiências com o cliente que ele mesmo chamou de Coroa, serviu mais como indicadoras do que poderia e o que não poderia ser feito. E foi através delas que o garoto percebeu a necessidade de preservar a sua prática em segredo, o que passou a fazer desde então sempre com grande cautela. O fato de sua família o manter sob constante vigilância era outro fator que obrigava Caio a ser rígido em relação ao sigilo. “Se meu tio descobrir alguma coisa, ele me coloca pra fora de casa. Aí eu vou pra onde?” “O que você diz quando vai sair de casa?”, eu perguntei. “Que vou fazer trabalho na casa de alguém, vou pra escola, essas coisas.” “Mas como você é em casa, seu comportamento? Ninguém desconfia de nada?” “Claro que não. Em casa eu sou

normal, estudo

Dessa forma, Caio utilizava em casa uma fachada com características aceitas socialmente para não sofrer reprimenda de nenhuma natureza, ocultando práticas repreensíveis na visão da sociedade, mas principalmente na do patriarca da família, seu tio. Simmel (2011) diz que “a mentira consiste no fato de que o mentiroso oculta da pessoa a quem é passada a ideia, a verdade que detém” (SIMMEL, 2011, p.113), algo que, podemos notar a partir do relato de Caio, faz parte do processo de construção e manutenção de suas fachadas. Ao mesmo tempo, a preocupação de Caio em manter a prostituição em segredo, já que o conhecimento da parte de seus familiares atingiria de forma intensa a sua vida privada já tão delicada com seus parentes, fazia com que a sua atitude verificada em nosso encontro, se repetisse nos encontros mantidos com seus clientes. Segundo Caio, ele nunca usava as roupas que dizia aos clientes que utilizaria nos primeiros encontros - sempre realizados de preferência em lugares movimentados para passar

despercebido em casos de o cliente ser um conhecido ou não se sentir atraído sexualmente pelo mesmo - , e que serviriam como sinais identificadores para facilitar uma possível evasão. Além disso, o seu comportamento em seus encontros se dava de forma semelhante ao modo como foi comigo, arquitetando fachadas e comportamentos de velhos conhecidos a variar em duração de tempo conforme o ambiente e a quantidade de pessoas presentes como circunstantes. Para ele, um comportamento como um garoto de programa ganhava contornos melhor delineados somente a partir do momento em que se via a sós com quem realizaria o programa, fosse dentro do automóvel do cliente ou do quarto de motel.

fico na internet”, disse ele.

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O encontro que tive com Caio serve para pensar tanto a utilização das fachadas por

parte dos michês no mundo concreto em meio à esfera pública da vida, diante das pessoas

comuns e alheias à prostituição quanto em várias questões resultantes do uso da fachada, como, por exemplo, a habilidade em lidar com as delicadas exigências de alternância de alinhamentos.

O jogo de cintura necessário para se manter um alinhamento coerente com demandas

opostas em seus sentidos, é um esforço considerável que se irradia ao outro com quem a interação se dá, seja um programa a ser realizado ou uma entrevista como foi no caso narrado.

As consequências da não observância de detalhes das interações seriam algo como prejuízos morais para o garoto que busca se preservar, porquanto a sua imagem na esfera pública seria seriamente atingida pelo estigma. Resta dizer que o meu envolvimento com a situação narrada me possibilitou enxergar os interlocutores e suas atitudes com uma maior nitidez, na medida em que pude entender melhor os mecanismos que atuam nas interações dadas entre michês e clientes. A semelhança do meu posicionamento com o de um cliente em um primeiro encontro com um garoto igualmente me ajudou a perceber a realidade que busquei visualizar de um ponto de vista como estando inserido naquela esfera de prostituição.

E, além disso, o fato de o garoto ter agido da forma narrada queria demonstrar que, se

eu desejava ter acesso à sua esfera transitória, deveria adentrá-la da mesma maneira como qualquer outra pessoa o faria, seguindo todos os passos da interação, demonstrando que estes eram necessários para o próprio garoto ir se revestindo paulatinamente com a sua fachada de michê.

3.1.2. Perdendo a fachada: o caso Artur Castro

Uma outra situação vivida por mim em campo pode ilustrar uma circunstância de perda de fachada. Refiro-me a entrevista realizada com Artur Castro, em 25 de Março de 2014, que, além dos dados que eu buscava acerca da prática da prostituição, participou, como poderemos ver, de uma cena que nos serve para pensar que tipos de situações e riscos que os garotos de programas devem enfrentar em seu cotidiano. Assim como os outros interlocutores, eu localizei Artur Castro em uma sala de bate- papo. Era tarde, entre as 15:00 e as 16:00 horas. Sua identificação era precedida pela sigla GP, o que o fazia ser visto por mim como um michê evidente. Eu o abordei, então, como

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Pesquisador e logo expus as minhas intenções. O mesmo se mostrou solícito desde o princípio e disposto a colaborar. Quando lhe falei alguns detalhes de minha pesquisa e a universidade na qual me graduava, o rapaz se mostrou curioso e com vontade de conhecer a estrutura do local onde eu estudava. Desse modo, marcamos o encontro na UERN para acontecer no mesmo dia, às 18:30. Segundo ele, a entrevista não poderia durar mais que trinta minutos, condição que eu aceitei sem questionar, supondo que a exigência era imposta pela forma de pensar o tempo como sinônimo de dinheiro. Eu deveria ir vestido como costumava assistir as aulas, já que uma das ressalvas de Artur Castro era que eu não desse sinal algum de que aquele dia era um dia diferente para mim, que se tratava de uma entrevista ou de qualquer coisa relacionada a minha pesquisa, pois os meus conhecidos saberiam do que se trataria. Eu iria, portanto, vestindo calça jeans, camisa branca, chinelos e mochila. Eu deveria o aguardar na guarita, onde ele apareceria em uma moto verde, capacete da mesma cor, com calça jeans azul e camisa branca com estampa colorida. Para garantir que nós nos reconheceríamos, mandou o link de sua página pessoal na rede social Facebook e em seguida pediu que eu fizesse o mesmo. Ao abrir a página, deparei-me com a foto de perfil de um rapaz branco, de olhos pretos, piercing na orelha e camisa de mangas compridas quadriculada. O ambiente parecia se tratar de uma praça de alimentação de um shopping center. Ele sorria com um canto da boca e ao mesmo tempo expunha a ponta da língua sugerindo malícia. À sua frente, na mesa de tampo de madeira escura, havia um copo suado de coca-cola com gelo e rodelas de limão. Após analisar a página do garoto, eu enviei o link do meu Currículo Lattes 15 no lugar de minha página no Facebook, o que percebi servir como uma prova de minhas intenções em relação à pesquisa, fazendo com que as suas investidas tivessem fim ao mesmo tempo em que a minha foto do currículo servisse para me identificar no encontro que ocorreria. Artur Castro havia me pedido a garantia de que eu agiria normalmente o tempo todo durante a nossa conversa e, caso acontecesse de encontrar alguém conhecido, fosse um colega de classe ou um professor, eu falaria normalmente com esse alguém e, havendo a necessidade, apresentá-lo-ia como um amigo chamado Artur. Nada além disso.

15 http://lattes.cnpq.br/9405123556506759 (Acessado em 24 de Fevereiro de 2017)

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Eu cheguei à guarita da UERN por volta das 18:10. Não demorou muito para que um rapaz negro, alto, com olhos entre o verde e o castanho se aproximasse em uma moto, olhando-me fixamente antes de me acenar com a mão. No mesmo instante confirmei a minha suspeita de que o perfil do Facebook que Artur Castro me enviara era falso, já que todas as características que ele havia descrito assim como exposto na fotobranco, magro, piercing na orelha mostrava algo completamente diferente do que ele era. Além disso, todos os sinais identificadores eram diferentes do que ele dissera como seria. O rapaz que se apresentou vestia bermuda rosa e camisa preta e calçava um chinelo de borracha. Para completar a sua estratégia, a moto que pilotava era preta e o capacete, branco. Usava ainda uma mochila preta surrada. Após Artur Castro se apresentar como o garoto com quem eu conversara mais cedo, ele perguntou em que local exato ocorreria a nossa entrevista. Eu ainda não havia decidido, pois esperava que caminhássemos um pouco pelo campus e ele indicasse o local onde se sentisse mais seguro. Porém, eu disse num impulso que poderia ser em frente a biblioteca, onde havia pouco movimento por ser um local afastado, nos limites do Campus, e poderíamos sentarmos à uma mesa e conversarmos sem sermos ouvidos, já que a maior preocupação do rapaz era ser percebido pelos passantes.

Já em frente a biblioteca, sentamos à uma mesa circular de concreto que fica entre dois

prédios, bem ao lado da larga passarela em aclive que liga o bloco do setor administrativo ao

prédio onde se encontra o acervo de livros e sala de estudo individual.

A movimentação era pouca. O local era parcamente iluminado. O segurança nos

observava ali próximo e tanto as paredes de pedra quanto as plantas do jardim que nos rodeavam detiveram a atenção do rapaz durante todo o tempo em que eu retirava de minha mochila o meu bloco de anotações com o roteiro de entrevista, a caneta e o meu aparelho celular, que, dessa vez, seria utilizado para gravar as nossas falas. Ao iniciar a entrevista, logo percebi que um problema técnico em meu celular fazia com que a gravação travasse de tempos em tempos. Interrompi a entrevista para tentar solucionar a falha, mas, vendo que o problema persistia, informei que o diálogo não poderia ser prejudicado e ocorreria normalmente, sendo que a partir dali eu tomaria nota em meu bloco de anotações. Durante a entrevista, Artur Castro buscava utilizar uma linguagem típica de alguém com um certo grau de instrução e para isso o rapaz se valia repetidas vezes do termo geralmente no meio de suas falas e compreendido e pronto quase sempre logo após ouvir as

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minhas perguntas ou comentários. Esse comportamento denotava que ele não queria ser visto como uma pessoa sem educação formal, desvalida de valores ou inferior em relação à mim. Fazia questão de frisar o fato de que já havia terminado o ensino médio em escola pública e agora cursava um curso técnico em mecânica. Além do mais, o garoto transparecia uma enorme vontade de um dia entrar na universidade pública e conseguir um emprego formal. Em um determinado momento da nossa conversa, o rapaz ofereceu o próprio celular para que eu o utilizasse como gravador. No instante em que ele propôs isso, nós não percebemos o risco que ele corria. Nessa interação em específico, não houve muito esforço de nossa parte em manter uma fachada para além de nós mesmos, já que eram poucas as pessoas transitavam por ali. O celular, mesmo sendo utilizado como gravador, nada nos denunciava aos circunstantes por estar simplesmente posto sobre a mesa como em qualquer outra situação. Foi somente no momento final da entrevista em que o arquivo gerado com a gravação no celular de Artur Castro seria passado para mim que a fachada do michê foi completamente perdida. O dispositivo utilizado para compartilhar o arquivo foi o bluetooth, uma tecnologia que possibilita que aparelhos eletrônicos troquem dados entre si utilizando-se de ondas de rádio 16 .

No momento em que Artur Castro me enviou o arquivo de áudio com a nossa conversa, apareceu no visor de meu celular o nome real do garoto. Inicialmente, eu pensei em fingir não ter visto e aceitar sem nada dizer. Porém, o garoto, desconcertado, falou sem muita segurança: “esse celular é de um primo meu, ele esqueceu na minha casa”. O rapaz passou a olhar a sua volta impaciente pela lentidão do envio do arquivo e colocou sua mochila nas costas. Disse que precisava ir embora, pois estava atrasado para a sua aula e mal esperou que eu agradecesse antes de sair apressado em busca de sua moto. Como já foi esclarecido no capítulo anterior, sabemos que o que pertence a uma esfera de prostituição torna-se segredo e, desse modo, não deve ser descortinado por pessoas que pertencem a outra esfera. No instante em que o nome verdadeiro de Artur Castro se mostrou para mim, que naquele momento visitava a esfera transitória de sua vida de uma perspectiva analítica, foi como se uma barreira rompesse bruscamente entra as duas esferas e eu pudesse, mesmo sem intenção, vislumbrar uma das faces de seu segredo, quiçá a mais preciosa.

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Esse rompimento brusco marcado pela perda da fachada desequilibrou por completo a interação que se estabelecia entre nós e, assim, a entrevista não pôde prosseguir, pois a confusão fazia com que o garoto não soubesse mais quem estaria dando a entrevista: Artur Castro, personagem vivido dentro da esfera transitória ou o verdadeiro eu do rapaz, que habitava igualmente a esfera pública e privada. Em outras palavras, a estrutura na qual se baseava a nossa interação foi quebrada, impossibilitando que a nossa conversa desse prosseguimento por não ter mais base sólida onde se apoiar. Pois que não era mais Artur Castro, o personagem sobre o qual se dava a entrevista, quem estava diante de mim. O constrangimento sentido pelo garoto reflete o medo de que a sua honra fosse afetada tanto na esfera pública quanto a sua segurança na esfera privada. Cabia somente a mim buscar garantir que aquilo não afetaria a sua vida da forma como ele temia. Desse modo, mesmo que em vão, eu tentei rapidamente assegurar que a sua identidade assumida em outras esferas não me importava e que eu buscava tão somente coletar relatos de suas experiências e impressões acerca de sua própria vida.

3.1.3 A confusa multiplicidade de Jales

Jales. O nome, para o garoto, evoca maturidade, força e exclusividade, o que demonstra um traço da personalidade do rapaz que pude observar nos vários dias em que conversamos sobre o seu envolvimento com a prostituição e nos encontros casuais como amigos que posso dizer que somos por nos conhecermos há algum tempo. De longe, entre todos os garotos entrevistados, Jales é o mais preocupado em manter a sua identidade preservada, o que me faz ocultar alguns detalhes que, por associação, possam apontá-lo. Foi com ele que mais tive contato durante todo esse tempo de escrita da dissertação. Conhecemo-nos anos atrás, muito antes deste trabalho existir em sua mais embrionária intenção. Tomávamos o mesmo transporte coletivo para voltarmos para nossas casas que se localizavam em bairros próximos e, observando-o, dava para supor algumas de suas dificuldades familiares e econômicas, pois via-o sempre com roupas surradas, às vezes sujas de graxa, e sempre sozinho. Hoje, ele tem 32 anos, embora aparente bem menos. É negro, magro, cerca de 1,60 m de altura, muito falante, olhar sempre atento, rosto com marcas de espinhas, demonstra em suas atitudes e falas que pensa sempre saber encontrar uma solução para o que quer que seja.

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Jales teve uma infância difícil, tendo que trabalhar fazendo bicos, situação que perdurou até o fim da adolescência, meio tempo em que nos encontrávamos ocasional e acidentalmente pelo centro da cidade e trocávamos meia dúzia de palavras; eu, um passante comum, ele, ora conversador, ora introspectivo, com sua caixa de madeira ao lado escondendo em seu interior as suas ferramentas de trabalho. Na noite de 11 de Fevereiro de 2017 estávamos eu e um grupo de amigos que incluía Jales conversando sobre coisas banais quando alguém me perguntou sobre o que eu andava fazendo da vida. Foi então que eu falei para todos a respeito da minha pesquisa de mestrado e, então, o tema de minha dissertação acabou norteando todo o desenrolar da conversa até o fim da noite. Ao nos despedirmos todos, Jales me perguntou em reservado se eu poderia lhe fornecer uma carona em meu carro. Caso contrário, ele deveria voltar caminhando para sua casa que ficava distante e, pelo horário que já passava das 21:00 horas, seria demasiado perigoso. Eu concordei. No caminho para casa, Jales falou que estava fazendo faculdade, porém continuava trabalhando de autônomo no centro da cidade, de onde tirava o dinheiro suficiente para bancar a sua alimentação e gastos com transporte público. Ele falou de seu último relacionamento fracassado com uma mulher da mesma idade e de como ela o tinha ajudado a se equilibrar na vida. Falou também de religião. Ele era protestante, mas estava afastado por não se sentir mais tanto bem entre os evangélicos, sempre tão bem vestidos e excessivamente moralistas. Em um determinado momento, ele perguntou: “sabe porquê eu perguntei aquelas coisas?”. Ele se referia às perguntas que houvera feito à mim diante de nossos amigos mais cedo, perguntas como “você pesquisa só homem ou mulher também?”, “Você encontra eles no bate- papo UOL?” e, por último, “Você estuda os que tem HIV?” Eu reduzi a velocidade do carro para ganhar mais tempo conversando com Jales. “Eu o sei porque você me perguntou aquilo”, eu disse, embora já desconfiasse. Sem jeito, ele falou: “É que eu sou portador daquele vírus, HIV. Eu descobri quando tinha 28 anos, foi muito difícil pra mim, eu achei que minha vida tinha acabado, quis até me matar. Mas hoje eu estou bem”. “Isso tem alguma coisa a ver com prostituição?”, perguntei. “Sim”, ele respondeu olhando pela janela. Havíamos chegado ao local onde ele reside, um apartamento em um primeiro andar estreito localizado em uma rua pouco iluminada do Bairro Santo Antônio. Antes de descer do carro, Jales me deu um abraço inseguro, agradeceu a carona e saiu. Somente na semana seguinte, no dia 18 do mesmo mês, eu o perguntei se ele poderia conversar comigo sobre a sua experiência com a prostituição. Ele disse que colaboraria de

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bom grado e eu expliquei como faria para preservar a sua identidade, porquanto ele se mostrara preocupado em relação a sua preservação. No dia 25 de Fevereiro de 2017 nos encontramos novamente e eu perguntei se poderíamos conversar. Jales se fez de desentendido, mas depois disse que não estava bem para falar sobre aquilo. Em 28 de Fevereiro nos encontramos no centro da cidade. Antes que eu o cumprimentasse, ele abriu a sua mochila e tirou de dentro um vidro de remédio. “É por isso que não estou bem. Esse vírus se transforma sempre e a gente tem que ficar trocando de remédio. Mas não se preocupe, aquela conversa vai dar certo”, ele disse já encerrando o assunto e em seguida começou a falar que estava apaixonado por uma nova menina. Por diversas vezes, Jales se mostrou tão preocupado em se manter preservado que assumiu fachadas completamente diferentes umas das outras, muitas vezes em um mesmo dia, mesmo estando nós dois conversando longe de qualquer outra pessoa. Para exemplificar o que digo, narro uma situação ocorrida no dia 30 de Março de 2017, na biblioteca da Universidade Federal Rural do Semi-árido UFERSA, onde eu costumava ir para escrever e Jales ia para estudar para suas provas, embora estudasse também em outra instituição. Ambos aproveitávamos o fato de a biblioteca da UFERSA funcionar 24 horas e ser aberta à comunidade. Na ocasião, conversamos na área externa da biblioteca sobre assuntos corriqueiros de nossas vidas, o que, para Jales, incluía o andamento de suas aventuras amorosas fracassadas com mulheres diferentes. Para mim, a colaboração de Jales já não seria levada em conta, uma vez que eu percebia a relutância do garoto em conversar sobre aquele aspecto de sua vida. Insistir, em minha opinião, seria um tanto antiético. Mais tarde, no mesmo dia, eu estava trabalhando no texto de minha dissertação, sentado à uma mesa do grande salão de estudos coletivos localizado no piso superior da biblioteca quando percebo Jales se aproximar sorrateiro e sentar na mesa ao lado. Chamou-me para que me contasse algo. Ao me debruçar ao seu lado para ouvir o que ele tinha a dizer, ouvi-o falar subitamente quase como num sussurro: “Meu primeiro programa foi com um professor da UERN, que me levou para um motel com uma garota de programa. A gente fez de tudo lá. Na segunda vez ele já levou só eu. Foi com esse cara que eu comecei.” Ele não quis falar mais nada, então eu apenas voltei para o meu lugar onde tomei nota em meu caderno do que acabara de ouvir. Desse dia em diante, Jales mudou mais uma vez o seu comportamento. Ele passou a se portar como se não me conhecesse ou se o seu passado não existisse. Certa vez, por exemplo,

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eu falei que lembrava de quando ele andava na mesma linha de ônibus que eu. Ele negou, dizendo: “Eu nunca peguei o Juvenal 17 ”. No entanto, no mesmo dia, ele confirmou espontaneamente que andava no Juvenal, sem que eu houvesse mais tocado no assunto. Em 08 de Abril de 2017, Jales perguntou-me, na mesma biblioteca, se não seria possível outra forma de ele me passar as informações que eu desejava receber. Então eu sugeri que ele me enviasse um texto por e-mail narrando qualquer experiência tida na esfera transitória de sua vida, a importância para ele de se manter tudo em segredo e a visão que ele tinha a respeito de sua sexualidade. Porém, nunca recebi resposta. Nos dias seguintes eu ouvi alguns amigos comentarem que viram Jales bêbado, sem noção de si, durante uma festa em uma boate da cidade, fumando, apanhando as garrafas de cerveja de cima das mesas já desocupadas como também dos cestos de lixo e bebendo os restos. No dia 15 de Abril eu o perguntei, durante outro encontro na biblioteca, se ele ainda continuava fazendo programas e ele disse que sim, do contrário, como se manteria? Aquilo me preocupou e eu me limitei a aconselhá-lo a usar camisinha sempre. Em 20 de Maio de 2017, Jales me perguntou quando ocorreria a entrevista. Eu disse que não precisaria mais, caso ele me autorizasse a falar um pouco do que eu conhecia dele e narrasse algumas coisas ocorridas durante nossas conversas. Ele concordou e eu notei que foi como se ele houvesse se livrado de um fardo, pois percebi que a minha presença para ele evocava a prática que ele queria deixar de lado, apesar de precisar retomá-la por necessidade de tempos em tempos, como também, talvez pior, a sua doença. Era exatamente isso que provocava no garoto a atitude de oscilar entre múltiplas fachadas, tão contraditórias a ponto de me confundir.

3.2 Fachadas virtuais

Além dessas experiências vividas no mundo concreto, onde o limite entre uma esfera de vida e outra ganha um aspecto mais delicado pela facilidade que alguém pode encontrar em transpor os limites, existe um outro local onde tais limites ganham contornos mais bem delineados, o mundo virtual.

17 Linha de ônibus já extinta da cidade de Mossoró-RN que circulava entre os bairros Bom Jardim, Santo Antônio, Barrocas, Paredões e Centro. No horário de 12:00, ia até o bairro Nova Bethânia para deixar os estudantes nas Escolas Estaduais Eliseu Viana e Abel Coelho.

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A internet se trata do ambiente em que as fachadas tem início. Todos os garotos com

quem conversei, tiveram um momento de interação comigo no mundo virtual ou disseram fazer uso da internet para articularem seus contatos. É o caso de Caio, Artur Castro, Jales, Eduardo e Renato. Os cinco interlocutores desta pesquisa que destacaram para si a importância que tem a dimensão virtual para impulsionar a prática da prostituição sem que se sintam prejudicados. É, por isso mesmo, que é possível dizer que as fachadas com as quais me deparei em campo tiveram seus primeiros caracteres delineados no mundo virtual, sendo o mundo concreto uma extensão do primeiro dentro da esfera transitória.

No contexto virtual, incluindo sites de anúncio e divulgação de serviços sexuais, blogs e salas de bate-papo, a fachada ganha outros contornos na medida em que outras ferramentas são utilizadas para lapidar uma imagem de si. É desse modo que o discurso e fotografias digitais ganham importância na construção de fachadas em uma interação dada através da internet. Os anúncios feitos na internet se esforçam por funcionarem como as preliminares de um sexo onde o corpo ganha contornos de um discurso descritivo da carne e de atos a serem consumados em um encontro presencial. É nesse sentido que os anúncios buscam comumente exibir partes desejáveis do corpo do garoto de programa, bem como frases de estímulo. Para Breton (2003), “nas telas, o sexo transforma-se em texto, aguardando combinações sensoriais que permitem estimular, a distância, o corpo do outro, sem tocá-lo” (BRETON, 2003, p.164). Em concordância com ele, Miskolci diz que

na internet, e em especial nos sites voltados para um público masculino, o corpo parece ganhar até mais centralidade do que na vida cotidiana (MISKOLCI, 2013,

p.312).

É assim que o anúncio tem a dupla função de criar um canal de acesso entre cliente e

garoto e ainda estimular, tal como recomenda uma espécie de script sexual, o corpo de quem o busca como em uma preliminar, uma amostra do que poderá ser experimentado de forma mais intensa em um programa. Ao mesmo tempo indica a capacidade do michê em, mesmo à distância, provocar sensações físicas no outro, deixando, dessa forma, na imaginação de quem vê, as possibilidades do que pode ser vivido de forma intensa em um programa. Coadunando com todas essas assertivas, torna-se clara a ideia da masculinidade como um valor simbólico, principalmente na exposição constante de partes do corpo associadas à

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virilidade, à capacidade sexual do homem, como peitoral, braços, pernas e abdômen esculpidos em academias e, principalmente, o pênis sempre em ereção. Bourdieu (2012), em seu estudo sobre a dominação masculina na sociedade Cabila, faz uma distinção entre as partes do corpo segundo as relações mantidas pelos indivíduos com a sua corporeidade, a sociedade e os sexos. Diz o autor que

O corpo tem sua frente, lugar de diferença sexual, e suas costas, sexualmente indiferenciadas e potencialmente femininas, ou seja, algo

passivo, submisso, como nos fazem lembrar, pelo gesto ou pela palavra, os

insultos mediterrâneos contra a homossexualidade [

públicas, face, fronte, olhos, bigode, boca, órgãos nobres de apresentação, nos quais se condensa a identidade social, o ponto de honra, o nif, que obriga a enfrentar ou a olhar os outros de frente, e suas partes privadas, escondidas ou vergonhosas, que a honra manda dissimular (BOURDIEU, 2012, p.26).

tem suas partes

];

Apesar de se tratar de uma outra sociedade, os princípios ainda são aplicáveis à nossa que encara a divisão dos sexos da mesma forma binária e excludente, o que faz com que o comportamento de todos os indivíduos, tanto a nível corporal quanto moral, seja influenciado por essa lógica. A partir da fala do autor, então, é possível deduzir que tipo de comportamento dos sujeitos é esperado em um espaço de virtualidades. O mesmo fato faz com que se torne absolutamente comum a exposição dessas mesmas partes por parte de vários garotos diferentes, o que faz com que os anúncios sejam muito semelhantes entre si, seguindo uma formatação com os mesmos elementos presentes e a busca por provocar sensações específicas de uma atividade sexual.

3.3 Fachada e performatividade de gênero

A discussão sobre o uso de fachadas por parte dos michês observados aqui se torna indissociável da ideia de performatividade de gênero proposta por Butler (2015). Isso decorre do fato de que é possível notar claramente como a tentativa de se enquadrar em um modelo hegemônico de masculinidade influencia fortemente no laborioso processo de elaboração da fachada a ser exposta em contextos vividos na esfera transitória. Essa questão, por sua vez, se liga à definição de sexualidade pensada pelos sujeitos, uma vez que a apresentação de si deixa a subentender o papel a ser desempenhado no programa. Dessa forma, o comportamento do rapaz, tanto no meio virtual quanto no mundo

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concreto, reflete ou expõe um leque de possibilidades de atos e realizações a serem concretizadas.

Por outro lado, a aproximação do uso de fachadas à performatividade indica uma descontinuidade das posições dentro das possibilidades de sexualidades a serem exercidas. Não obstante, pode ser verificado entre os sujeitos esforço em demonstrar uma suposta veracidade do oposto, o que demonstra por sua vez ser uma consequência da fuga do estigma da homossexualidade.

A performatividade colocada em prática pelos rapazes por meio de fachadas nem

sempre condizentes com a real essência do ser individual pode estar, desse modo, provisoriamente ensaiando um status de macho viril buscado pelos clientes como objeto de consumo. É para além do mundo concreto, no mundo virtual, onde as fachadas e performatividades gozarão de uma maior liberdade de atuação por estarem até certo ponto materializadas estaticamente em fotografias, textos descritivos e discursos que nem sempre

correspondem à realidade, porquanto a mistificação seja uma atitude usual e recorrente por ser intrínseca à elaboração de uma fachada. Desse modo é que se torna possível sustentar um discurso de uma sexualidade heteronormativa em conjunto com a fachada para fazer acreditar

o possível cliente e ao mesmo tempo a própria realidade de que ainda se é um sujeito perfeitamente enquadrado em uma normalidade construída e cultivada socialmente.

É interessante observar como as atitudes dos garotos são influenciadas, ou até certo ponto condicionadas pela fachada e performatividade apresentadas em um primeiro momento

e que devem ter uma continuidade para não serem derrubadas no decorrer da interação. O

esforço que disso decorre irá nortear a postura e as atitudes tomadas tão logo o rapaz se veja

vivenciando uma experiência em sua esfera transitória.

A discussão sobre a relação entre fachada e performance caminha no sentido de

apontar as sexualidades ao mesmo tempo como suas causas e consequências. No próximo capítulo, este debate será retomado de forma mais específica para compreendermos como a contradição e a incoerência estão presentes nesses processos que ligam fachadas, performances e sexualidades.

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CAPÍTULO 4 FRÁGEIS SEXUALIDADES: UM JOGO DE INCOERÊNCIAS E PERFORMANCES

“Onde queres revólver, sou coqueiro. Onde queres dinheiro, sou paixão. Onde queres descanso, sou desejo. Onde sou só desejo, queres não”. O Quereres, Caetano Veloso.

Apesar da dificuldade em captar de uma pessoa a sua subjetividade em matéria de sexo e sexualidade, objetivei, neste capítulo, assim como no todo desta dissertação, enxergar a dimensão de como os garotos de programa percebem a si mesmos no que diz respeito às suas próprias sexualidades e quais os fatores que atuam nesses processos de autopercepção. Trata- se de um tema bastante abrangente e com amplas possibilidades de discussões, pois a sexualidade em homens jovens que se prostituem ganha contornos diferenciados, com seus limites tênues, carregados de uma subjetividade que beira a contradição. Assim sendo, qualquer fala a respeito de uma “identidade sexual” do michê deve estar regrada de cuidados para não se cair no erro de uma categorização que privilegie o debate epistemológico em detrimento do empírico. Perlongher diz que

Quando se trata de identidade homossexual, a questão do michê másculo (rapaz que, prototicamente, recusa autoqualificar-se como homossexual residindo nessa recusa, demandada pelos clientes, boa parte do seu encanto) torna-se particularmente delicada (PERLONGHER, 2008, p.198).

A delicadeza com que deve ser trata a questão reside no fato de que tendemos a enxergar o outro a partir do ponto de vista da matriz heteronormativa que não admite incoerências e, por isso, apegados a uma forma de pensar excludente e acrítica, inevitavelmente inserimos no outro uma identificação fixa e supostamente coerente para que se torne inteligível às nossas mentes adequadas a uma forma de pensar preestabelecida. Assim sendo, o que está atrelada a essa tentativa de imprimir no sujeito uma identidade obrigatoriamente homossexual talvez seja a própria ação de uma dominação que se coloca em lugar de superioridade para marcar o outro e encerrá-lo em um ponto estratégico de reclusão e estigma. Nesse sentido, Perlongher questiona:

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Por que pensar a questão da perspectiva da ‘identidade homossexual’, quando essa identidade não somente costuma ser alheia na sua mesma formulação aos oficiantes do negócio, mas é muitas vezes explicitamente renegada? (PERLONGHER, 2008, p.199).

Essa supressão dos traços particulares dos indivíduos embota a dimensão da autopercepção e privilegia a continuidade da visão heteronormativa como a mais correta e inteligível, portanto, a mais aceita pela sociedade. Caminhando por uma outra perspectiva, alguns autores, como Barreto, Silveira & Grossi (2013) e Barreto (2008) têm discutido sobre a sexualidade entre garotos de programa de forma a já apontar as fragilidades dos elementos que se configuram, dentro do campo da prostituição masculina, como marcadores simbólicos das masculinidades e das sexualidades. Esses marcadores simbólicos dos quais os autores falam não são utilizados apenas para separar “a identidade de dentro e fora do trabalho, mas também a atividade sexual com

com clientes, além de assegurar um caráter profissional a suas práticas”

(BARRETO, SILVEIRA & GROSSI, 2012, p.525). Nota-se, assim, a importância de determinados elementos na compreensão dos próprios garotos tanto de suas experiências quanto das relações com as pessoas à sua volta. Isso significa dizer que fatores como o dinheiro, a afetividade e o prazer estão além da delimitação apenas das esferas de experiências de vida como foi abordado no capítulo segundo desta dissertação, mas tocam igual e diretamente na questão das sexualidades. É interessante notar que o próprio fato de os garotos de programa se afastarem da sociedade, de buscarem locais específicos, reclusos, para suas práticas, e se utilizarem do segredo e de fachadas em larga escala, é um reflexo de como a sexualidade nos termos de Foucault (2011a), como um dispositivo criado para segregar e dominar tipos e classes, regula tão fortemente a vida dos indivíduos em vários sentidos. O autor ainda diz que o processo de

parceiros [

],

produção da verdade e da subjetividade iniciado em meados do século XIX foi uma forma de autoafirmação da burguesia com o seu corpo saudável que se utilizou principalmente da sexualidade como um critério de diferenciação entre os corpos saudáveis, normais, e as sexualidades patológicas, dentre as quais figuram os homossexuais (FOUCAULT, 2011a). Essa lógica de classificação de sujeitos entre “normais” e “anormais”, tendo como base o comportamento sexual que diz respeito com destaque para a formação das famílias, perdura até os dias atuais em nossa sociedade. Para Miskolci,

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Todos os “desvios” do modelo economicamente produtivo e biologicamente reprodutivo da família burguesa passaram a ser classificados como aberrações. Assim, a família tornou-se o local privilegiado para a distinção entre o normal e o anormal e isso se deu a partir do dispositivo de sexualidade (MISKOLCI, 2003, p.110-111).

Tudo isso, na perspectiva Foucaultiana, faz parte do processo de constituição do sujeito, uma vez que o indivíduo é categorizado e lhe é impressa uma identidade. Tal realidade pode ser percebida no campo aqui observado, porém, há entre os sujeitos pesquisados um diferencial, uma forma encontrada para tentar burlar esse sistema de classificação que acarreta sobretudo em um estigma ao mesmo tempo da prostituição e da homossexualidade. E essa alternativa de ações às quais os rapazes recorrem diz respeito às justificativas das práticas a partir da presença ou ausência de alguns elementos a serem observados no corpo deste capítulo muito mais sob a perspectiva de “atos performativos” nos termos de Butler (2015) do que ‘identidade sexual”. O que tenho feito neste trabalho, portanto, tem sido tentar enxergar os mecanismos que atuam na lida dos indivíduos com a própria sexualidade diante do decreto de interdição e mutismo que sofre o sexo e que atinge não apenas os garotos de programa, mas a sociedade como um todo. Desse modo, no presente capítulo, busco discorrer de forma mais direta a respeito das sexualidades, suas características e implicações nas experiências de vida de homens jovens que se prostituem.

4.1 Os fortes e os veados: classificando e naturalizando as performances

As discussões a respeito de sexualidade e gênero feitas por autores como Butler (2015) e Bento (2006) colocam em evidência aspectos da sexualidade humana que ultrapassam qualquer visão biológica-determinista ou a-histórica, ideia esta concordante com Foucault (2011a). Ambos os autores falam de um processo de incorporação da sexualidade dado no tempo, onde o sujeito irá assimilar características de um gênero e o performatizar dali em diante.

Tal performance de gênero, no entanto, não se dará de forma igualitária entre todos os sujeitos, mas dependerá do meio no qual eles vivem. Entre os michês que vivem atravessados pela ideia da masculinidade como um capital simbólico, buscar-se-á performatizar o gênero

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masculino-hegemônico para se adequar ao tipo esperado pelas pessoas envolvidas na atividade da prostituição viril. Contudo, os processos de assimilação dos valores masculinos para os michês não parecem diferir muito no modo como se dão para qualquer outro homem, por um motivo um tanto óbvio: esses processos se dão, principalmente, na fase da infância e adolescência. Artur Castro, por exemplo, recorda a sua adolescência como uma época assim marcada, ao falar das sessões de filmes pornográficos assistidos com os primos, que invariavelmente resultavam em masturbações coletivas; da observação das posturas físicas de homens mais velhos, como pai, tios, e amigos dos familiares; e das competições de força entre amigos num processo de autovigilância e de inculcação de valores que foi lhe moldando como sujeito da masculinidade e que até os dias atuais podem ser retomados como referência em suas atitudes e modos de agir perante os outros (BOURDIEU, 2012). Jales passou por um processo semelhante de construção de sua masculinidade e sexualidade nos moldes do que Bourdieu (2012) chama de ritos de instituição, que nada mais são do que espécies de ritos de passagem pelos quais os meninos passam para atravessarem a infância e atingirem a vida adulta. São nesses ritos em que os sujeitos absorvem os ideais e valores da masculinidade que internalizarão e tomarão como dados naturalizados em sua conduta. O garoto relembra de quando possuía não mais que onze ou doze anos de idade e ia, junto com três ou quatro amigos da mesma faixa etária, a um campo de futebol situado próximo à casa onde morava. Narra ele:

Tinha um campo perto de casa que quando não tinha ninguém, a gente ia pra brincar e depois ficar sentado nos bancos vendo a lua e conversando besteira, porque lá parecia uma praia de noite. Era escuro, frio, a gente gostava. Daí tinha um colega mais velho que ia pra lá também e ele ficava mandando a gente colocar o pinto pra fora pra ver quem tava com o pau mais duro. Ele nunca mostrou o dele, ele só queria ver, dava confeito e a gente batia punheta pra ele ficar olhando (Jales).

Nessas ocasiões, todos os que participavam do ato sabiam que o ocorrido deveria ficar sempre em segredo e eram raras as oportunidades de os garotos comentarem uns com os outros sobre o que haviam feito sem a vigilância constante dos adultos. Pelas suas recordações, Jales considera essas noites no campo de futebol como as primeiras vezes em que percebeu o seu próprio corpo como dotado de um sexo. E, mais que isso, embora não

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considere isso como prostituição, notou, pelas primeiras vezes, a possibilidade de troca existente entre bens e a sua sexualidade ainda em formação. Essas experiências narradas por Jales são emblemáticas para se pensar os primórdios da associação, em sua vida, entre segredo, fachada e sexualidade, uma vez que ele deveria modificar algo em seu comportamento ao retornar para casa, para que ninguém desconfiasse de suas idas ao campo, como também ao frequentar o campo outras vezes em busca daquelas situações que eram, para ele, excitantes. Lá, falava-se em mulheres, do que os meninos fariam com elas quando crescessem, enquanto o rapaz mais velho, em torno dos dezessete anos, no papel de experiente, passava-os instruções de como deveriam agir nos jogos de conquista e no sexo que um dia fariam. Tudo aquilo coagiu Jales a agir “como homem”, ao mesmo tempo em que a turma de garotos começou a categorizar seus próprios integrantes, a partir daquelas experiências e as brincadeiras constantes de comparação de força física, em os fortes e os veados. “Eu sempre fui muito magro, daí você pode imaginar do quê me chamavam”, disse ele. Daquela turma de garotos, as expectativas de virilidade e masculinidade se estenderam às garotas do bairro, com quem alguns dos amigos tiveram as suas primeiras transas mais tarde.

As experiências no campo de futebol entre os meninos, assim como as que dali sucederam flertes e romances forjados com as meninas da rua , inculcaram em Jales algumas características em seu comportamento que o posicionaram, dentro da matriz heterossexual, em um ponto de sexualidades conflitantes. Não obstante, é notável que essas mesmas experiências se dão como um modo de reproduzir a heterossexualidade, uma vez que se trata de um processo em que se assimila um modo de ser, de parecer, ou seja, um tipo de comportamento. Sobre esse processo de incorporação de uma sexualidade, Butler fala que

‘tornar-se’ um gênero é um laborioso processo de tornar-se naturalizado, processo que requer uma diferenciação de prazeres e de partes corporais, com base em significados com características de gênero (BUTLER, 2015,

p.127).

Em concordância com este pensamento, Bento diz que

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uma das formas para se reproduzir a heterossexualidade consiste em cultivar os corpos em sexos diferentes, com aparências ‘naturais’ e disposições heterossexuais naturais. (BENTO, 2006, p.87).

Então, sendo a ideia de “naturalidade” e “coerência” um construto social, não podemos esperar que a realidade vivida entre os garotos de programa corresponda a uma

continuidade entre o sexo, o gênero, o desejo e a prática sexual, nem esperar que o sujeito da michetagem se sinta perfeitamente enquadrado nessa ordem e nem tampouco à vontade ao transgredi-la, já que há a forte negativa da homossexualidade e o receio de ser alvo do estigma.

O instante de questionar a si mesmo, e, mais que isso, de desconstruir-se, coloca em

xeque a ideia de uma identidade sexual fixa. É nesse sentido que Butler questiona até que ponto a identidade seria um ideal normativo em vez de um traço descritivo da experiência. É assim que, para a autora,

a ‘coerência’ e a ‘continuidade’ da ‘pessoa’ não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa, mas, ao contrário, normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas (BUTLER, 2015, p.43).

A busca dos garotos de programa pelo modelo de uma masculinidade hegemônica

estaria, nesse sentido, buscando reproduzir a heterossexualidade em um contexto onde a própria heterossexualidade tem limites extremamente frágeis e a experiência fala mais sobre o indivíduo. O contexto das salas de bate-papo é mais claro em relação a isso, pois é nelas onde, por exemplo, as identificações ganham uma volatilidade imensurável, já que o sujeito pode utilizar a identificação que desejar e mudá-la quando lhe aprouver. E é válido lembrar que, juntamente com uma identificação, pode-se modificar todo um comportamento. Ainda nas salas de bate papo, um grande número dos sujeitos presentes expõe

características que lhes confiram virilidade, como as nomenclaturas utilizadas e as fotos trocadas sempre favorecendo músculos e pênis, muito embora, nos programas, subvertam a ordem heteronormativa ao desafiarem a própria masculinidade. Porém, para que esse desafio aconteça de modo a poderem ser ressarcidas todas as perdas posteriormente, é necessário que estejam presentes ou ausentes alguns fatores que indicam, além da esfera de experiências de vida na qual se exerce uma determinada sexualidade, a própria percepção da sexualidade experienciada.

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4.2 Para além da divisão das esferas da vida: A sexualidade “oficial” e os marcadores de limites simbólicos de outras sexualidades

Existe um fator primordial, particular ao universo dos garotos de programa, que são os contrapontos entre o desejo declarado publicamente, a prática mantida em público e a prática mantida na esfera de experiências transitórias. Para pensar a sexualidade do sujeito michê, os fatores a serem levados em consideração serão selecionados pelos próprios indivíduos em questão, que decidirão quais dimensões e elementos de sua vida privada e transitória serão tomadas como critérios de análise. Por exemplo, o fato de algumas posições sexuais serem preferidas, como a de ladinho, de quatro, de pé, estando o passivo de costas para o ativo, está ligado a aspectos da masculinidade como a virilidade e a honra, na medida em que essas são posições que facilitam a dominação física e evitam um contato mais intimista que permitiria um acesso recíproco à identidade dos envolvidos na relação. Dessa forma, preserva-se alguma parte de si que não deve emergir nessas situações e ao mesmo tempo possibilita ao michê sustentar a postura que se espera de um dominador. Em relação às sexualidades, existe, como foi dito por Butler (2015), uma inconstância muito grande no que se refere a delimitação de gênero e identidade sexual do indivíduo que no contexto analisado ganha uma flutuação maior. O que diferenciará isso no garoto de programa pode ser tanto a prática, o desejo e o prazer presentes na atividade do sexo pago, levando muito em consideração as técnicas e posições sexuais exercidas no programa, quanto a prática e o discurso mantidos diante da esfera pública. Isso dá abertura para que outros fatores, relacionados com a prática, o desejo e o discurso, surjam como influenciadores na percepção de si e no discurso a ser sustentado perante os outros. São eles a afetividade, o dinheiro e o prazer. A separação e enquadramento das experiências da vida em esferas diferentes permite aos garotos de programa categorizarem as suas práticas sexuais em níveis diversos de coerência com uma suposta “essência”, o que significa dizer que nesta escala de sexualidades, haveria uma dita “oficial” e outras periféricas ou transitórias. A fala de Jales pode exemplificar o que digo:

Assim, oficial mesmo, eu sou hétero porque eu me apaixono por mulher, né? Com homem eu só faço por dinheiro, e eu nem gosto, é só o dinheiro, nem conta (Eduardo, grifo meu).

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A ideia de uma sexualidade “oficial” é reflexo da resistência em encarar a prática

homossexual como algo definitivo e, ao mesmo tempo, mostra a visão do que deve realmente fazer parte de si e o que deve ser descartado. Em outras palavras, estamos diante de um modelo claro de separação das esferas de vida e das sexualidades sendo inseridas em cada uma delas, pois a fala do garoto indica o que deve ser desconsiderado na percepção de si e o que deve ser levado em conta. Toda essa classificação das próprias sexualidades reflete na realidade o quão afetados os garotos são pela homofobia e o estigma que lhe é intrínseco, uma vez que a sexualidade “oficial” seria invariavelmente aquela associada às práticas heteronormativas, apesar de, em sua maioria, as práticas se enquadrarem fora do que seria heterossexualidade. Assim, alguns garotos destacam o fato de que no primeiro programa havia a presença de uma mulher na situação, o que influencia a ideia de que o desejo que eles sentiam era, na realidade, pela mulher. É o caso de Jales, que conta que o seu primeiro programa, ocorrido com um homem que o levara para o motel, levara também, além dele, uma garota de programa. Uma situação semelhante ocorreu com Renato. Quando narra o seu primeiro programa, o rapaz destaca a importância da presença da mulher na situação vivida, o que serve ao mesmo tempo para assegurar a sua heterossexualidade na medida em que o seu desejo é direcionado a ela e não ao cliente homem que o solicitou. Conta ele:

Foi bacana. Eu e o cara comeu a dona. No início fiquei travado, travado, travado. Mas aí a gente bebeu, conversou e ela era muito da gostosa. Daí a

gente vimos um filme e eu tava já noiado e fiquei excitado. Aí foi. [

eu só fiz coisa com ela. Foi tranquilo. Depois que comecei a fazer só com homem. Porque de início só fazia com homem se tivesse mulher também. Era mais fácil. Depois que aprendi a coisa do dinheiro, a sentir tesão pela grana. Você saber que tá ali pela grana é legal. Aí não precisa de mulher

mais (Renato, destaque meu).

] mas

A justificativa de passar a “sentir tesão pela grana” e não mais pelo corpo da outra

pessoa com quem se está, nos faz pensar em um possível processo de transição do que seria uma sexualidade “oficial” para aquela sexualidade periférica, passível de sofrer mudanças de acordo com as situações. Esta última, sendo colocada em prática preferencialmente na esfera das experiências transitórias, em contraponto à “oficial” exibida na esfera pública e privada.

A afirmação de uma heterossexualidade pública, tida como a “sexualidade oficial”,

apesar de na esfera transitória fazer sexo com outros homens, foi corriqueira em campo.

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Nestes casos, o relacionamento tido com uma namorada serve como prova da heterossexualidade publicamente declarada. O desejo estaria presente, então, tanto pelo cliente quanto pela parceira afetiva, porém sendo estimulado por emoções diferentes: o desejo pela namorada sendo estimulado pela paixão ou amor, enquanto que o desejo pelo cliente pode ser estimulado tanto pela situação sexualmente excitante na qual o indivíduo se encontra quanto pelo dinheiro em si. Como vem sendo mostrado, o discurso elaborado pelos rapazes entrevistados busca estar em conformidade com a heteronormatividade cultuada socialmente. Desse modo, contradições em relação à sexualidade são apontadas a partir das falas de alguns garotos quando eles afirmam, por exemplo, possuir namorada, o que asseguraria a sua heterossexualidade reafirmada por sua performance de homem viril mantida na esfera pública, e ao mesmo tempo, na esfera transitória, realizar programas com homens, inclusive, em maior frequência do que com a parceira afetiva-sexual. Nesse sentido, Jales foi o garoto que mais se esforçou por tentar assegurar a sua suposta heterossexualidade ao guiar as nossas conversas ocasionais sempre para a sua vida amorosa que envolvia, em seu discurso, sempre mulheres que não o correspondia afetivamente em mesma medida. O garoto considera a si mesmo como heterossexual, justificando o sexo praticado com homens pela sua extrema dificuldade financeira. Ele deixou claro o esforço mantido, nas ocasiões em que se via com outros homens, para controlar a sua repulsa pelo toque masculino. Disse ele:

Eu fico sempre pensando no dinheiro, na comida que vou comprar, na roupa que vou ganhar e tal. Porque se não ficar pensando nisso eu vou sair correndo. Porque eu sinto nojo mesmo. Eu gosto é de mulher, entendeu? (Jales, 32 anos).

Foram inúmeras as vezes em que Jales falou sobre uma ex-namorada com quem casaria, porém a vida os afastou e igualmente sobre outras possíveis parceiras afetivas por quem se apaixonara sem jamais ser correspondido. Isso demonstra a preocupação do garoto em exibir um comportamento condizente com a situação de um homem heterossexual, o que, para além do discurso, refletia na postura de seu corpo sempre com os pés afastados, peito inflado, queixo erguido, mãos cruzadas atrás de si, como um soldado -, sua forma de falar com uma voz que oscilava entre empostada e relaxada, demonstrando que a voz às vezes grave não era totalmente espontânea. Além disso, os gestos ensaiados de suas mãos exibiam o

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cuidado em jamais transparecer qualquer coisa que não fosse masculinidade. Ele buscava o tempo todo exibir em seu discurso o que Butler (2015, p. 43) chama de “gêneros inteligíveis”, sendo estes “aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo”. Porém, era no quesito da prática sexual mantida na esfera transitória que Jales não conseguia assegurar a continuidade, caindo assim na descontinuidade e na incoerência. Artur Castro é um outro garoto que afirma a existência de um sentimento pela namorada e a constante prática do sexo com a mesma. Para ele, estes são elementos que garantem o seu papel de homem diante de si, da família e da esfera pública e torna incontestável a sua heterossexualidade. Isso se mostra claro a partir da seguinte fala do garoto proferida quando questionado sobre relacionamentos amorosos mantidos fora da esfera transitória:

Eu tenho namorada sim. [

até demais, diferente dos outros né? Assim

só pra mostrar, mas nem fazem sexo com elas, ou fazem muito pouco

porque são gay mesmo, entende? (Artur Castro, 22 anos).

]

amo ela e tal, cara, e a nossa vida sexual é ativa

que geralmente tem namorada

As relações sexuais mantidas com outros homens, ainda que se deem tão somente no âmbito profissional, configuram-se como práticas homoeróticas, dadas na grande maioria dos casos em absoluto segredo. Porém, nesses casos, Artur Castro afirma que o desejo dito ausente em razão de sua heterossexualidade pode ser substituído por técnicas de excitação, como, por exemplo, ver a um filme pornô na televisão do quarto do motel, além do esforço mental em se concentrar no que realmente sentiria desejo. Em contrapartida, a relação com o cliente deve ser entremeada de cuidados específicos para que os limites do envolvimento sejam bem traçados. Uma afetividade nascida no garoto por qualquer cliente parece diminuir o sujeito, diminuir a masculinidade e principalmente colocar em risco a preservação de si. Sobre a afetividade em relações homossexuais, Miskolci diz que

o apaixonado é o que se expõe, o que revela como a homossexualidade para

ainda é um termo de acusação e desprestígio do qual buscam se

livrar, atribuindo-a ao outro. Nessas relações, o amor de um homem por

outro é compreendido como perda de autocontrole e racionalidade (MISKOLCI, 2013, p. 321).

eles [

]

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O autor se refere a relações entre homens que buscam parceiros sexuais através da internet, que funciona muitas vezes como o catalizador de uma primeira experiência homossexual. A ideia é perfeitamente aplicável ao contexto da prostituição masculina, já que, além da fuga do estigma da homossexualidade, eles fogem igualmente de um laço afetivo com um cliente, já que isso faria com que a sua condição de garoto de programa estivesse de certo modo fixada quando se trata na verdade de um laço superficial que deve ser rompido logo que o programa finalize além de colocar em risco a condição de segredo buscada pelos mesmos. Desse modo, é mais comum ver os rapazess se gabarem de clientes haverem se apaixonado por eles. O relato de Renato sobre a afetividade na esfera transitória deixa claro o modo como o ato de se apaixonar ou ser objeto de uma paixão pode colocar em risco todo o sigilo construído e prezado pelos rapazes e representar da mesma forma um risco para a própria vida. Disse ele:

Rapaz, isso dá um rolo que tu nem queira saber. Eu nem faço com uma

pessoa mais de duas vezes já pra evitar essa palhaçada. As vezes evito até de

comer viado quando eu vejo que é muito carente[

prefiro mulher. Mulher tem mais cabeça. Um conhecido meu começou nessa de fazer programa pra fazer uma grana, mas eu sempre soube que ele fazia só porque era gay e era muito carente, ele, tanto que ele só fazia com homem. Daí ele saiu com um coroa, pai de família e tudo, e como ele era carente demais, acabou se envolvendo, se apaixonando, né? Isso é foda. Ele ficava ligando pro cara, queria seguir o cara, até ameaçar de contar pra esposa dele, aquele doido ameaçou, tá entendendo? Depois ele que recebeu

ameaça e teve que parar. (Renato)

Por isso também que eu

].

Corroborando com a opinião de Renato, Eduardo disse:

Eu tenho medo disso porque só o que acontece é morte por causa disso[ Os viado se apaixona, tem uns que inventa de fazer programa mas só quer ser sustentado pelas bicha, daí de repente amanhece morto ou então mata a

bicha. É só o que acontece. Eu num sou desse tipo não, graças a deus, sou

uma pessoa boa. Mas a gente tem que evitar pra não dar treta[

recuso sempre que vejo que a coisa vai pra esse lado aí. Eu tenho família, saca? Tenho irmão pequeno, tem minha mãe, meu pai, eles não merecem um fracasso desse não. (Eduardo).

É, eu

].

A afetividade na esfera das experiências transitórias, desse modo, é vista como um risco, um perigo a ser evitado pelos garotos por ameaçar a própria vida e também a família. Ao mesmo tempo, a recusa em viver situações onde existe uma possibilidade maior de envolvimento emocional é também uma estratégia de manutenção do sigilo na medida em que

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se tem em mente que o surgimento do afeto aumenta as chances de ser identificado por se tratar de um envolvimento pessoal, contrário do buscado em uma experiência com ares de profissionalismo. Ainda dentro desse contexto, outro fator, em combinação com a prática sexual tida com a namorada na esfera pública, protege mais uma vez a heterossexualidade: o papel do dinheiro como intermediador e foco de interesse na relação. Desse modo, a troca do sexo por dinheiro, no caso da prostituição viril, pode ser vista como mais um artifício para se assegurar a heterossexualidade do michê em um âmbito onde a mesma seria contestada e colocada em risco. Nesse sentido, é comum a afirmação do tipo “faço programa pelo dinheiro” justificar a prática sexual com outros homens. Há relatos nos quais os michês se classificam como heterossexual, apesar de não possuírem namorada e fazerem programas apenas com homens. Mas nessas situações, a posição de ativo no programa afirma a postura de macho, assegurando a honra em certa medida. Situação oposta acontece com os michês que desempenham o papel de passivo no programa e que sentem prazer em tal prática, sendo vistos pelos outros como alguém que deseja viver a sua legítima sexualidade, porém sem a coragem para fazê-lo sem que a presença do elemento dinheiro assegure para si mesmos a sua heterossexualidade. A oposição feita entre ativo e passivo indica as partes do corpo estimuladas e exploradas durante o ato sexual. O ativo tem no pênis o foco de seu desejo, enquanto o passivo teria o ânus explorado sexualmente. Sobre as partes do corpo sexuadas e indicativas de prazer estimulado ou dissimulado, Butler (2015), diz que

a questão de saber que prazeres viverão e que outros morrerão está frequentemente ligada a qual deles serve às práticas legitimadoras de formação da identidade que ocorrem na matriz das normas do gênero (BUTLER, 2015, p. 127).

Ou seja, na elaboração da performatividade de gênero de um sujeito, o mesmo irá preservar os prazeres que sejam coerentes com determinado gênero e abolir outros que não o sejam de suas práticas. Isso reflete diretamente na prática sexual. Dessa forma, a parte traseira do corpo masculino, segundo Bourdieu (2012) e Breton (2011), deve ser dissimulada, preservada para se manter intacta a masculinidade do indivíduo. Tendo em vista esse fato, afirmar que se faz programa na posição de passivo em um espaço onde a masculinidade é valor simbólico, não pode ser feita abertamente para qualquer cliente. Para driblar tal impasse,

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uma das estratégias relatada por Jales é afirmar ao cliente que não existe uma regularidade em assumir tal papel, porém pode haver a possibilidade de se abrir uma exceção em troca de um dinheiro a mais.

4.4 Segredos e Fachadas: uma grande performance

A noção de performatividade de gênero elaborada por Butler (2015, p.235) é a base na qual se apoiou aqui a abordagem dos atos performativos, entendidos como “fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corpóreos e outros meios discursivos”, na definição da performatividade de gênero dos sujeitos pesquisados, considerando o caráter conflituoso de suas sexualidades entremeando as experiências. Para a autora,

Se a verdade interna do gênero é uma fabricação, e se o gênero verdadeiro é uma fantasia instituída e inscrita sobre a superfície dos corpos, então parece que os gêneros não podem ser nem verdadeiros nem falsos, mas somente produzidos como efeitos da verdade de um discurso sobre a identidade primária e estável (BUTLER, 2015, p.236).

Assim, a verdade fabricada em discurso da qual a autora fala pode estar repleta de desencontros em si mesma, uma vez que o indivíduo pode não estar a todo o tempo coerente com as verdades produzidas ou com uma performance de gênero específica. Ainda para a autora,

Os atos, os gestos, os desejos articulados e postos em ato criam a ilusão de um núcleo interno e organizador do gênero, ilusão mantida discursivamente com o propósito de regular a sexualidade nos termos da estrutura obrigatória da heterossexualidade reprodutora (BUTLER, 2015, p.235).

Desse modo, percebi em campo a atitude dos garotos de buscarem parecerem-se coerentes com a heterossexualidade, ao menos no âmbito do discurso. Jales, principalmente, preocupava-se em agir de um modo que correspondesse com um modelo estereotipado de homem viril. Além as posturas físicas, referia-se repetidas vezes ao número de mulheres com quem já se relacionou e o motivo pelo qual nenhuma das relações terem progredido: jamais fora realmente correspondido em afeto. Ele o fazia, prioritariamente, ao se aproximar alguém nos momentos em que conversávamos, dando-me a impressão de que, para o garoto, sermos

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vistos conversando juntos, sempre afastados de todos, teria uma conotação homossexual, impressão que só seria quebrada ao se invocar uma imagem contrária para si. Assim, os nossos diálogos tinham sempre dois direcionamentos: criar a ilusão de coerência com a heterossexualidade para mim e para as pessoas à nossa volta, num exercício constante de manipulação de segredos e fachadas. O que quero dizer é que tanto os segredos quanto as fachadas utilizadas por Jales e os outros garotos de programa com quem tive contato, na realidade, fazem parte da ilusão da heterossexualidade que se trata de uma grande performance em que se busca manter uma imagem aceitável perante si mesmo e a sociedade como um todo, mesmo essa ilusão estando apoiada numa frágil estrutura de elementos de significados simbólicos. Assim é que se busca regular a própria sexualidade para que esta se adapte aparentemente à matriz heteronormativa, como num esforço de se tentar demonstrar que há uma natureza sexual correta, porque dentro da norma, que nasceu com ele. Falo de uma grande performance, pois se trata não apenas de um momento específico da vida em que se a exercita, ou muito menos que ela seja posta em prática seguindo apenas uma forma, como uma performance unitária e constante no indivíduo. Pelo contrário, os garotos se veem em situações em que trocam de fachadas constantemente, assumindo papeis e direcionamentos diferentes em uma mesma interação para protegerem seus segredos e escaparem do estigma da homossexualidade e da prostituição. É nesse sentido que o segredo e a fachada fazem parte dessa grande performance que é ser um garoto de programa. O caminho percorrido ao longo de todo este trabalho foi para afirmar, ao final, que para se falar de sexualidade entre garotos de programa, pessoas para quem a sexualidade é tão incoerente quanto as próprias experiências mantidas no cotidiano, é preciso levar em consideração vários aspectos que ultrapassam a simplória abordagem de enxergar tão somente as práticas sexuais em uma dimensão da vida pública ou privada. Existem, para além disso, outros aspectos como o segredo e a utilização de fachadas na lida com a própria sexualidade e a sua vivência como algo incoerente. Além disso, a situação social na qual se encontram os sujeitos também irão conflitar as noções da própria sexualidade a partir do momento em que um garoto que se diga heterossexual, mas que, por necessidade financeira, veja-se coagido a transar com outro homem em troca de dinheiro, alimento ou roupas. Tendo tudo isso em vista, pode-se dizer que, concordando com o que Butler (2015) nos diz a respeito de gênero e sexualidades, não existe no indivíduo uma sexualidade linear,

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perfeitamente coerente e imutável, mas uma performatividade que pode variar e ganhar contornos diversos no âmbito da experiência. Falamos então de sexualidades, assim no plural, como as possibilidades existentes de se experienciar, performatizando, uma ou outra sexualidade daquelas padronizadas que a sociedade nos coloca como alternativas inteligíveis a partir da matriz heteronormativa, sejam aceitáveis ou não. Tudo isso, a título de hipótese, parece sugerir uma falta de necessidade de categorização em uma ou outra identidade de gênero ou sexualidade, haja vista a possibilidade de que aquilo que é perdido em uma dimensão da vida pode ser recuperado em outra esfera e vice-versa. Como disse Perlongher (2008, p.199), “ainda que a dificuldade de estabelecer uma identidade do prostituto viril seja bem reconhecida, fica a dúvida sobre o sentido da tentativa”. Resta-me, diante desta afirmativa, dizer que os sujeitos com quem mantive contato durante minhas idas à campo, não costumavam refletir diretamente sobre suas sexualidades e categorizações, mas muito mais sobre as consequências de se deixar ser visto como homossexual ou garoto de programa. Era este o ponto crucial a ser pensado por eles mesmos em cada momento de desconstrução e desafio à matriz heteronormativa. Assim, o sentido de se buscar estabelecer uma identidade do prostituto viril parece não haver, haja vista que o sentido de se prostituir não reside apenas em um ato prostitutivo, mas na necessidade de se conseguir ser algo maior do que se é e além do que, para que se consiga prosseguir vivendo, deverá ser destruído. Aliás, a futura aniquilação das experiências passadas é um traço característico da esfera de experiências da vida transitória. Todos os rapazes com quem conversei sustentaram em suas falas a promessa de que tudo o que envolvia a prostituição em suas vidas era passageiro e que um dia tudo seria esquecido, deixado de lado de forma definitiva para cumprir finalmente o destino da esfera transitória. Porém, esse futuro talvez possa demorar a chegar em alguns casos. Uma situação que verifiquei quando a escrita desta dissertação já parecia finalizada me fez refletir sobre tudo o que já havia escrito, mas principalmente sobre a promessa de deixar de lado o que não é encarado pelos garotos como profissão, mas uma prática não muito gentil, uma forma de ganhar dinheiro que pode implicar em perdas às vezes irreparáveis; fez-me pensar a condição humana, no estarmos sujeitos à negarmos a nós mesmos em virtude de algo que não faz parte de nós, mas que está tão dentro de nosso ser que molda o que somos e o que

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exibimos aos outros; essa parcela do social que nos preenche, nos forma, mas que pode nos prejudicar ao mesmo tempo. No dia 08 de Julho de 2017 recebi um aviso por intermédio de um amigo em comum de que Jales estava bêbado, sem camisa, deitado na calçada de uma loja de carros localizada ao lado de uma ponte na Avenida Presidente Dutra. Já era noite, passava das 20:30 e eu decidi ir até ele saber o que houvera acontecido. Chegando lá, eu desci do carro e me aproximei um tanto receoso, pois as pessoas que passavam na rua me observavam curiosas. Jales estava de pé, tinha os olhos vermelhos, andava de um lado a outro. Ao chegar mais perto, senti que ele cheirava a álcool e urina. Seu olhar vago pareceu não me reconhecer quando me aproximei e tentei conversar. Ele se limitou a um breve aceno de mão como se pedisse para que eu parasse onde estava e foi embora caminhando pela ponte ao lado, indicando assim que não tinha mais nada a me dizer.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo das sexualidades se mostra complexo por envolver muitas questões que combinadas ou descontinuadas poderão delinear aquilo que é extremamente subjetivo, volúvel, e, de certo modo, indefinível. Aventurar-me nessas discussões a partir de autores que admirava ou aprendi a admirar me fez pensar, a partir dos relatos dos entrevistados, a minha condição de pesquisador, costumeiramente sempre tão intocável, distante de seu objeto de pesquisa como se os dois fossem de naturezas completamente diversas. Mas a fragilidade humana é comum a todos nós em uma mesma medida. Não foi a minha intenção, como foi para Loïc Wacquant (2002, p.07), “partir do próprio corpo como instrumento de investigação”, embora o corpo tenha sido constantemente retomado como foco de análise, direta ou indiretamente. Ao mesmo tempo, o meu corpo esteve presente em campo como um fator que chegou a possibilitar a realização de entrevistas, pois os garotos, sem disfarçar, diziam gostar de conversar comigo por me acharem bonito”, sendo eu, para eles, desejável. Exemplo disso foi quando, ao mostrar o meu rosto por meio de webcam na sala de bate-papo, tanto Eduardo quanto Renato, dispuseram-se a conversar demoradamente, envoltos em uma tensão da certeza de que o contato iria se desfazer a qualquer momento, como acontece com eles quando se relacionam com os clientes na esfera de experiências de vida transitória. A percepção desta terceira esfera, independente da dualidade público/privado, é fruto da percepção de que ela está além da esfera privada, porquanto os elementos e os sentidos que

as

compõem sejam divergentes. Uma outra característica marcante dessa terceira dimensão, é

o

fato de que ela está fadada à aniquilação, ao esquecimento, à inexistência, como uma

aparente condição para que os projetos pessoais dos garotos para o futuro possam dar certo.

Outro ponto chave percebido a partir das observações em campo, é que a fachada e a performatividade se confundem ao passo em que uma coisa faz parte da outra e ganham sentido em um mesmo processo de atuação ou representação do eu na vida social. Desse modo se tornou evidente que, melhor que enquadrar os sujeitos em modelos de identidades sexuais, foi encarar as sexualidades como situacionais, como um traço de uma performatividade a ser desenvolvida em certos momentos da vida no interior da esfera transitória.

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Assim, as percepções que os michês têm de suas sexualidades podem variar numa frequência e rapidez estonteante. É sensato, portanto, considerar que as práticas corporais são condicionadas pelas noções de masculinidades e que o desempenho do garoto no programa não define ou enquadra a percepção de si e as suas sexualidades em uma ou outra categoria de forma definitiva, mas transitória como é toda a esfera. Em vários momentos, tanto no mundo concreto quando adentrei as esferas de experiências transitórias da vida dos garotos, quanto no mundo virtual, eu, como pesquisador, também me utilizei de fachadas semelhantes às utilizadas pelos michês, como a criação de identificações meramente fictícias nas salas de bate papo do portal UOL. Nesses momentos, eu sentia o que talvez se assemelhasse ao que os rapazes entrevistados disseram sentir: o receio de ser descoberto e, por não saberem exatamente a situação que nos impulsionou a adentrar nesses espaços eu teria que explicar a cada um a minha pesquisa, algo inviável -, julgarem-nos mal. Mas era nesse contato que eu tive a impressão de estar oferecendo aos garotos tidos como anormais, uma vez que os mesmos não se mostraram coerentes em si mesmos nem com as próprias identificações, parecerem normais, ao ouvir os seus relatos, tornando-os inteligíveis, já que nos discursos direcionados à mim, as esferas da vida se uniam em uma única história de vida, linear, continuada, mesmo com todos os percalços do caminho. Ao mesmo tempo, em um movimento oposto, estive fornecendo espaço para eles reafirmarem o seu caráter de anormalidade ao pedi-los, por exemplo, um nome fictício, deixando-os assim confinados em sua incoerência, para agora, no final de tudo, largá-los para darem prosseguimento às suas múltiplas fachadas, experiências, sexualidades e projetos para o futuro que, como um traço geral, é unicamente largar aquilo que os caracteriza por ora. O que se vive na esfera das experiências transitórias da vida será descartado aos poucos até que o que ali se é seja mais que dissimulado, seja apagado, esquecido e, em alguns casos, superado, em nome de uma adaptação ao estilo de vida esperado socialmente. Agora eu penso em uma fala de Jales que ficou em minha mente e que eu gostaria de utilizá-la para finalizar esta dissertação por diversos motivos: Jales foi o garoto com quem mais tive contato durante a pesquisa, o que me fez ficar acordado várias noites tomado por um sentimento de piedade, pensando em sua saúde e em seu bem estar, o que me fez sentir que havia uma ligação real entre eu e o campo de pesquisa; eu e os sujeitos pesquisados. Jales foi o que precisou depositar mais confiança em mim para poder contar os seus segredos, tendo em vista a gravidade de sua situação a sua condição de garoto de programa e de

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soropositivo. Ele é o garoto que, apesar de haver sido o que me confidenciou mais segredos de sua vida e eu ser seu amigo e continuarei o encontrando após o término deste trabalho, eu não sei se posso dizer que realmente o conheço. Quando questionado sobre a possibilidade de um dia ele deixar a prática da prostituição completamente de lado e esquecer tudo para recomeçar uma nova vida, ele disse com o olhar vago e uma nota de tristeza em sua voz: “Eu não sei. Eu estou tentando, fazendo faculdade e tal, mas isso é uma coisa que fica na gente, no nosso sangue, entendeu?”.

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