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RELATO DE ESTAGIO - 20.04.

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EEEP DONA CREUSA DO CARMO ROCHA

Tive que acordar mais cedo. Os ônibus estavam lotados. Eu já falei que aquela Avenida
Sargento Hermínio nem merecia ser avenida por que na altura do novo shopping Riomar, o
negócio vira um gargalo, que mal passa um carro. Do terminal para a escola, acaba levando de
20min-30min.
Chegando na escola, observei que não havia pessoas na secretaria e fui direto a porta da
biblioteca, mas também não havia ninguém.
Dali, a alguns minutos, voltei e encontrei Samyr conversando com a Coordenadora
pedagógica sobre algo. Demorei-me fora da sala pois naquele dia já amanheci febril e estava a
evitar contato como ar condicionado.
Samyr tratou logo de imprimir a lista de chamada. E tão logo Amanda chegou e nós
estávamos esperando a moça da biblioteca também chegar.
Com a chegada da responsável do espaço, esperamos que ela tomasse seu lanche e
Amanda e eu seguimos em seu encalço para irmos arrumando logo a sala.
Antes de chegarmos lá, já pelo meio do corredor, já haviam alunos perguntando se
poderiam fazer parte do coral. A notícia estava indo longe...
Todos ajudaram a arrumar a sala. E num momento estávamos fazendo nossa roda para
receber a pessoas.
Alongamos e aquecemos a voz: “sabe a voz de príncipe e princesa?”.
Dali voltamos a roda, para trazer a dinâmica de musicalização de escravos de Jó e em pé,
notei uma certa dificuldade com a movimentação rítmico-corporal. No início falaram: “A gente vai
é brincar?”, depois perceberam que a brincadeira não era tão fácil assim.
Depois, paramos para instigá-los sobre o que seria musicalização e o canto coral e
montamos um painel com suas respostas certas...
Logo em seguida, conversamos sobre as propostas de repertório, escutamos opiniões
sobre gêneros musicais, surgiram nome de cantores e por fim tentamos arrematar com temas que
as músicas podem abordar....
Foi quando ouve uma voz que dizia: “Vamos cantar Ópera”? E alguns disseram: “Não!
Deixa só ela cantar sozinha...”. E essa discussão surgiu logo para quem?
Perguntamos o que eles sabiam sobre ópera e a única referência era as ARIAS e nada mais.
Apaixonadamente falamos do contexto histórico, para quem era realmente a ópera e dos fetiches
que envolviam este “mundo” tão distante para eles. Fiz muitas analogias, menos poéticas é claro
do que o autor Rubem Alves, e comparei certas óperas as novelas mexicanas atuais, com seus
dramas, alegrias, tristezas e fantasias em excesso, e outrora também podendo ser modernamente
duros, minimalista e muito realistas e fatídicos... Enfim...

“As analogias nos introduzem no parentesco das coisas que compõem o


mundo. Quem só sabe a coisa, como deseja a ciência, sabe muito pouco. As
coisas exibem a sua nudez quando refletidas em outras. O uso da analogia não
indica pobreza de conhecimento, como quer a ciência. Indica exuberância,
excesso, transbordamento. As coisas, sozinhas, não se dizem. É preciso que
outras coisas as digam. Pois eu estou dizendo que o ato de educar se revela no
ato de fazer amor. Quem aprende dos amantes fica um melhor educador. Os
alunos conhecerão, conceberão e parirão...” (Alves, 2011; p.11)

Acho que fiz um pouco ruim em dar tanto spoiler assim do que era tal objeto enigmático a
cultura deles, mas foi no impulso, de coisas que tive que pesquisar sozinha e derrepente passei
muita informação pra frente...
Pra acabar de nos “matar” a bibliotecária retirou a estante um livro com dois CD’s que
continha a história de uma ópera (dados do autor, contexto em que foi escrita, as falas e letras das
canções...). Ficamos emocionados pois informamos aos alunos que nem na universidade
contínhamos tal material e eles eram muito privilegiados.
Para encerrar, cantamos a música da “feira” e eles quase bugaram! A letra era rápida e não
deu pra fazer muito o cânon...
Terminamos em círculo e agradecidos a todos por estarem ali.
De volta a secretaria, peguei a assinatura na carta e na frequência para ir deixando tudo
em dias.
Voltamos para a hora do chá na sala dos professores e cheios de ideias...
Na saída eu e Amanda deliberamos irmos na Escola Alcides Pinto. E no ônibus, fomos
fazendo aquelas fofocas...
Chegando na Alcides Pinto, percebemos algo estranho no ar. Havia muito barulho para
aquela hora da manha, pois já havia passado o recreio. Nos portões da escola avistei de longe
alguns alunos na quadra efalei que poderia ser a aula de educação física, uma vez que estávamos
habituadas a ir as terças e não nas sextas-feiras.
Porém, ao adentrarmos, notamos que havia muito mais que uma turma na quadra de
esportes, calculamos por cima que deveriam ter umas quatro salas ali, e caminhando mais um
pouco, notamos que muitas sala de aula permaneciam vazias e por volta de apenas quatro
professores ministrando aulas...
Horrorizadas com a situação, buscamos procurar alguns alunos do coral pela quadra. E, um
menino informou que desde segunda-feira a escola estava de greve, e os alunos que tinham aula
apenas no primeiro período foram obrigados a permanecer na quadra até a hora de ir embora, por
volta das onze da manhã.
A quadra estava trancada mas ao alunos poderiam sair por uma brecha no portao de ferro.
Reunimos alguns e subimos afim de encontrar a professora Eveline e os demais alunos que
estavam em sala.
Um deles me perguntou: “Tia, vai dar tempo passar alguma música...” E outra: “Tia, ainda
bem, já tava com saudade...”. Foi muito difícil, segurar as lágrimas até reunirmos todos para
darmos nossa notícia.
Depois que retiramos alguns alunos da sala e descobrimos que Eveline não estava na
escola e que o diretor finalmente havia mudado, resolvemos falar com os alunos...
Uma vez que a sala de música não existia mais, nos reunimos em círculo no corredor e
num grande abraço, falamos que não poderíamos ficar mais na escola, por conta da falta da
mobilização da mesma para que tal projeto continuasse. Sabíamos que outros estudantes da
música iam continuar, mas como queriamos que fosse algo que durasse para além da nossa
estadia, verificamos que não haveriam emprenho nenhum da escola naquele momento neste
sentido: manter a música na escola.
Que queriamos que esse movimento fosse para além da banda de fanfarra ou dos violões,
que o corpo docente e administrativo realmente quisseze que tudo estivesse ali, tendo seu
merecido espaço reconhecido, mas que ainda ia custar e estavamos de maos atadas quanto a
resolução deste impasse.
Falamos que eles eram criança ótimas, que com poucos recursos mostramos ótimos
resultados e que eles enquanto alunos deveríam lutar pra que essas e outras oportunidades não
fossem desperdiçadas. Que a escola somente existe por que existem alunos e não o inverso...
Com os olhos marejados e gargantas embargadas, eles compreenderam a situação e
alguns falaram que iam continuar cantando nem que fosse pelos corredores e que não iam deixar
de cantar pra que um dia o coral pudesse voltar.
Outra mocinha falou que iria chorar, pois estava muito triste... Eu falei que ela era livre pra
chorar, pra cantar e pra dançar tudo junto de uma vez, por que isso era certo, se expressar através
da arte...
“Cantem na igreja, na escola, ou no banheiro! Só não parem de cantar! Vocês são seus
próprios instrumentos e isso ninguém vai tomar de vocês!” (Owl, 2018).
Amanda e eu ainda gravamos um pequeno vídeo e batemos uma foto da situação que as
crianças passaram...
Por que os professores não promoveram oficinas... Ou chamaram os país pra explicar-lhes
a situação...
Toda uma camada de profissionais desarticulada com a sociedade civíl e que, como
“profissionais” esperam mudar o mundo como dentro das paredes da escola... Jogando o mesmo
jogo sujo que os grandes...
Penso que aqueles que deveriam formar grandes mentes pensantes ainda estão a formar
pequenos peões que cresceram achando que o único trabalho digno será o escravo. Assim, a
escola observada foge das diretrizes básicas, apontadas por Libâneo:
- Preparação para o mundo do trabalho;
- Formação para a cidadania crítica;
- Preparação para a participação social e,
- Formação ética;

REFERENCIAS

ALVES, Rubens. Ao Profesor, com o meu carinho. Campinas, Sp: Verus Editora, 2011. Recurso
eletrônico.
LIBANEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora?: novas exigencias educacionais e
profissão do docente. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2000.