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Araújo, C. M. & Oliveira, M. C. S. L.

Contribuições de Bourdieu 216


ao tema do desenvolvimento adolescente em contexto institucional socioeducativo
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Ensaio Teórico

Contribuições de Bourdieu ao tema do desenvolvimento


adolescente em contexto institucional socioeducativo
Bourdieu’s contributions to the theme of adolescent
development within the socio-educational institutional context

Cláudio Márcio de Araújo1


Maria Claudia Santos Lopes de Oliveira2

Resumo

O artigo objetiva conduzir uma reflexão sobre o papel das instituições socioeducativas,
nas quais são desenvolvidas atividades específicas voltadas à inclusão sociocultural de
adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Busca-se entender o potencial dessa
experiência institucional na modificação de trajetórias de desenvolvimento dos
adolescentes, tendo em vista as canalizações sociais e a emergência de novos sentidos
subjetivos. Seguimos a perspectiva de Pierre Bourdieu, considerando, em particular, a
noção de habitus. O artigo fornece uma base para a reflexão sobre o papel das
instituições socioeducativas no rompimento ou manutenção de habitus persistentes e
conclui apontando as circunstâncias nas quais instituições sociais desse tipo podem
mediar a promoção do desenvolvimento de competência social e autonomia.

Palavras-chave: Habitus, adolescência, risco, vulnerabilidade social.

Abstract

The article aims at conducting an analysis of the role of social-educational institutions, in


which specific activities are developed in order to promote the sociocultural inclusion of
adolescents living in conditions of social vulnerability. We intend to understand the
potential of this institutional experience in the modification of the developmental
trajectories of the adolescents, having in view the social channeling and the emergence
of new personal meanings. We follow the perspective of Pierre Bourdieu, giving special
consideration to the notion of habitus. The article provides a basis for the reflection on
the role of the socio-educational institutions in the rupture or maintenance of persistent
habitus and concludes by pinpointing the circumstances in which such social institutions
may mediate the promotion of the development of social competence and autonomy.

Keywords: Habitus, adolescence, risk, social vulnerability.

1
Doutorando em Processos de Desenvolvimento Humano e Saúde, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília (UNB). Rua Napoli – Quadra 01 – s/nº
– Apto. 1004 – Torre 2 – Condomínio Marfim – Bairro Residencial Eldorado – CEP 74367-640 – Goiânia/GO. E-mail: claudioaraujo.filo@gmail.com Tel.:
(62) 8111-1951/3519-2711
2
Professora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Humano e Saúde, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília (UNB). E-mail:
mcsloliveira@gmail.com

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Introdução podem ter caráter preventivo ou


sancionatório, comple-mentar ou
O tema do desenvolvimento humano substitutivo à família, conforme o caso.
em condição de risco e vulnerabilidade O presente texto busca refletir sobre o
tem sido objeto de crescente interesse impacto do trabalho desenvolvido nessas
de diferentes pesquisadores (Calil, 2003; entidades de atendimento, geralmente
Rosa, 2003; Espíndula & Santos, 2004; com atividades específicas (a exemplo
Paludo & Koller, 2005; Santana, das classes de técnicas de circo) e que
Doninelli, Frosi, & Koller, 2005; Araújo & acolhem adolescentes em situação de
Oliveira, 2010), merecendo destaque os risco e vulnerabilidade social,
estudos que tratam de compreender as objetivando a promoção de
relações entre condições sociais de desenvolvimento humano. A reflexão se
desenvolvimento e a constituição fundamenta em uma mirada sobre a
subjetiva da pessoa (Cruz, 2001; dinâmica da constituição social da
Orionte, & Souza, 2007; Aita & Facci, conduta, identificada na teoria
2011). Nesse âmbito, uma das questões sociológica de Pierre Bourdieu. Por essa
que se coloca de modo particularmente trilha, procuraremos favorecer uma
enfático refere-se à eficácia social de se compreensão dialética sobre a relação
promover a inserção dos sujeitos em entre sujeito e contexto no processo de
desenvolvimento em contextos desenvolvimento em contexto específico.
institucionais com características Tal caminho mostra-se fértil para
culturais e valores distintos de seus fomentar a compreensão da relação
contextos familiar e comunitário de entre condições objetivas dadas pela
origem com o intuito de promover novas estrutura social e o sistema de
trajetórias e diferentes resultados de disposições e predisposições pessoais
desenvolvimento. para a ação, desenvolvidas e
Esse tema se torna particularmente transformadas por cada pessoa, na linha
relevante quando é convertido em do tempo.
dispositivo legal – a exemplo do Estatuto O desenvolvimento humano é um
da Criança e do Adolescente – ou em processo dinâmico que não expressa
políticas de governo, caso em que uma simples relação causal dirigida por
poderíamos citar as políticas de condições internas ou externas, mas um
internação compulsória de usuários de conjunto de mudanças progressivas,
crack, atualmente em discussão no construídas por meio de interações entre
Brasil. O Estatuto da Criança e do ambiente e organismo, caracterizando
Adolescente, ao descrever as ações para uma relação complexa, multifacetada e
a garantia de direitos de crianças e situada (Magnusson & Cairns, 1996). O
adolescentes, dedica todo um capítulo desenvolvimento é um fenômeno, ao
(Capítulo II) às entidades de mesmo tempo universal e individual, que
atendimento, governamentais e não- influencia e é influenciado por contextos
governamentais, que teriam por externos – ambientes físico e social – e
responsabilidade “planejamento e internos – o próprio organismo histórico
execução de programas de proteção e e biológico – em dimensões de tempo e
socioeducativos destinados a crianças e espaço específicas (Gauy & Costa Junior,
adolescentes” (Art. 90). Tais programas 2005). Nesse sentido, buscamos, neste
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texto, compreender o potencial de uma instituição de socialização, a qual


experiências institucionais na contribuiria, de forma direta, para a
modificação de trajetórias de democratização da sociedade, ao
desenvolvimento dos adolescentes, por promover igualdade de oportunidades,
elas atendidos, considerando as variadas acreditando-se em sua neutralidade no
canalizações sociais da conduta. Ao tratamento de todos os alunos,
mesmo tempo, objetivamos entender independente do grupo social de origem.
como essas canalizações direcionam a Supondo garantir as mesmas
emergência de novos padrões de oportunidades a todos, considerava que
comportamentos e configuram novos os que se destacavam ou despontavam
sentidos subjetivos. logravam êxito por seu exclusivo mérito
Um dos grandes desafios do trabalho e dom (Nogueira & Nogueira, 2004).
social, em instituições do sistema de A década de 1960 marcou,
garantia de direitos, é conseguir mediar principalmente na França, uma
valores, significados e práticas que insatisfação geral com a escola. O
promovam o desenvolvimento de um caráter autoritário e elitista do sistema
sujeito autônomo, capaz de ultrapassar educacional e o baixo retorno social e
os limites dados pela estrutura do grupo econômico, advindo dos certificados
social ao qual pertence e atuar de modo escolares, frustravam a expectativa das
consciente, crítico e criativo na classes subalternas francesas que
transformação da própria realidade buscavam obter mobilidade social e
social. econômica a partir da formação escolar
(Nogueira & Nogueira, 2004). A
A contribuição de Bourdieu: o sociologia da educação crítica elaborada
conceito de habitus por Bourdieu atribui à escola papel
destacado como dispositivo a serviço da
Bourdieu formula o conceito de manutenção e legitimação de privilégios
habitus e o apresenta como uma sociais (Bourdieu, 2002; Nogueira &
importante ferramenta interpretativa da Nogueira, 2002, 2004). Isso ocorre em
realidade no contexto de uma sociologia virtude de uma forte adesão dóxica dos
interessada em dissolver as fronteiras agentes sociais (incluindo os educadores)
entre indivíduo e sociedade (Wacquant, à ordem estabelecida (Catani, Catani, &
2006). De modo particular, estaria Pereira, 2001), que leva à cumplicidade
interessado em compreender como as deles com a conservação de privilégios
condições objetivas que caracterizam a de classes, à reprodução de
posição do indivíduo na estrutura social desigualdades e à naturalização de
dão origem a um sistema específico de diferenças, cuja emergência e
disposições e predisposições para a ação. manutenção são produtos, resultados
Isso nos levou a ver em tal conceito uma das relações sociais:
potente matriz explicativa para a
dialética deter-minação/indeterminação Uma das teses centrais da Sociologia
social no processo de desenvolvimento da Educação de Bourdieu é a de que
humano. os alunos não são indivíduos abstratos
O conceito de habitus emerge que competem em condições
originalmente, na obra de Bourdieu, no relativamente igualitárias na escola,
contexto de sua reflexão crítica sobre o mas atores socialmente constituídos
papel da escola na reprodução social. Até que trazem, em larga medida,
os anos 1960, a escola era vista como incorporada uma bagagem social e
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cultural diferenciada e mais ou menos violência simbólica, por exemplo,


rentável no mercado escolar (Nogueira indivíduos ligados aos grupos de menor
& Nogueira, 2004, p. 18). empoderamento podem vir a incorporar
e legitimar o discurso de marginalizados,
Bourdieu mostra-se crítico aos impotentes, “burros”, incapazes,
discursos que defendem um tratamento acomodando-se à realidade social
igualitário para aqueles que são existente como se essa realidade fosse
diferentes e que supõem possibilitar a algo “natural”.
todos as mesmas oportunidades de A violência simbólica pode ser
desenvolvimento. Não se pode ignorar praticada por diferentes instituições
que alguns grupos funcionam em sociais, tais como o Estado, a mídia e a
continuidade com o contexto escolar, escola, dentre outras. Para Bourdieu
veiculando conteúdos e códigos que (2002), a violência simbólica presente no
facilitam o bom desempenho acadêmico sistema de ensino leva à reprodução de
de seus membros, enquanto o restante relações desiguais entre as classes ao
da sociedade pode ser levado a valorizar e socializar uma cultura que, na
dificuldades e ao fracasso escolar. Na verdade, não reflete a cultura das classes
perspectiva de Bourdieu, ignorar as mais numerosas.
desigualdades existentes na escola pode Já em relação ao conceito de capital,
ser uma forma de favorecer ainda mais Bourdieu inspira-se na perspectiva
os já favorecidos. marxiana, mas dela diverge quanto ao
De suas elaborações sobre a relação peso relativo entre fatores econômicos e
entre a sociedade e o sistema escolar e culturais. Ele distingue três tipos de
sobre o papel desse último na propriedades que determinam grande
reprodução da estrutura social, Bourdieu parte das diferenças entre os indivíduos
(1977, 1983, 2007) avança na no campo educacional: o capital
construção de três conceitos econômico, o capital social e o capital
interdependentes: o de violência cultural (Bourdieu, 1983, 1996, 2000,
simbólica, o de capital (cultural, social e 2007).
econômico) e o de habitus sobre o qual O capital econômico refere-se aos
nos deteremos mais nesse texto. bens materiais e às posses de um dado
O conceito de violência simbólica grupo ou indivíduo, os quais podem
refere-se às imposições culturais facilitar ou dificultar o acesso a uma
exercidas de forma “legítima”, mas educação de qualidade e aos bens
quase sempre invisível e dissimulada, ao culturais de modo geral. O capital
apoiarem-se em crenças e preconceitos econômico não se confunde com o capital
coletivamente construídos e cultural, mas o primeiro pode garantir
disseminados. Esse conceito é utilizado aos indivíduos mais meios de acesso ao
por Bourdieu (2001) para explicar a segundo. Já o capital social define-se em
contínua reprodução de crenças torno das relações interpessoais e
dominantes no processo de socialização, institucionais que o indivíduo, direta ou
pela qual as classes que lideram indiretamente, dispõe e que podem
economicamente acabam por impor sua facilitar, ampliar ou interditar o acesso ao
cultura aos segmentos menos capital cultural e econômico. O capital
privilegiados, levando-os a atribuírem social é considerado pelo autor a
valor a si mesmos e ao mundo, mediante propriedade mais relevante por abrir as
os critérios e padrões próprios do portas que dão acesso aos demais. A
discurso dominante. Como efeito da convivência com pessoas que expressam
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os comportamentos próprios da cultura socialmente constituída e portador de


dominante favorece a identificação com experiências acumuladas no curso de
seus códigos culturais e, como efeito, a trajetórias individuais na linha do tempo.
aproximação ao capital econômico. O habitus pode ser visto como uma
Do interesse em compreender a síntese dos estilos de vida e dos gostos
relação entre as condições materiais de pelos quais apreciamos o mundo e nos
existência (capital econômico), a comportamos nele (Bourdieu, 2007).
estrutura socioinstitucional e a O trabalho de Wacquant (2006)
individualidade, Bourdieu (2001) é constitui um dossiê sobre a contribuição
levado ao conceito de habitus. O habitus de Pierre Bourdieu. O conceito de habitus
configura-se como um sistema ímpar de é, para Wacquant (2006), uma
disposições para a ação, desenvolvido “categoria mediadora, transcendendo a
por cada um em virtude da posição que fronteira entre o objetivo e o subjetivo,
ocupa na estrutura social. Nas palavras que permitiu a Bourdieu captar e
de Bourdieu (2007), o habitus é um descrever o agitado mundo duplo da
“sistema de disposições socialmente Argélia colonial em desagregação” (p.
constituídas que, enquanto estruturas 17), assim como nos auxilia a
estruturadas e estruturantes, constituem compreender a complexa relação entre
o princípio gerador e unificador do determinação social e autonomia
conjunto das práticas e das ideologias subjetiva em diferentes contextos do
características de um grupo de agentes” mundo contemporâneo. Isso porque o
(p. 191). habitus não ocorre de fora para dentro,
O habitus inclui tanto as nem está determinado somente pelas
representações sobre si e sobre a condições objetivas externas ao sujeito
realidade, como também o sistema de de forma mecânica ou autônoma. As
práticas em que a pessoa se inclui, os ações individuais e sociais estão
valores e crenças que veicula, suas claramente relacionadas a disposições
aspirações, identificações etc. O habitus incorporadas, estruturadas socialmente e
opera na incorporação de disposições que atuam nas ações e interações sociais
que levam o indivíduo a agir de forma concretas. O habitus seria, então, o elo
harmoniosa com o histórico de sua classe entre três elementos: a estrutura das
ou grupo social, e essas disposições posições objetivas, a subjetividade dos
incorporadas se refletem nas práticas indivíduos e as situações concretas de
objetivadas do sujeito (Ortiz, 1994; ação (Nogueira & Nogueira, 2002, 2004;
Nogueira & Nogueira, 2002, 2004; Setton, 2002).
Setton, 2002; Vasconcelos, 2002; Dada sua função de estabelecer tal
Andrade, 2007). coerência tácita entre a ação individual e
Trata-se de um sistema as expectativas de classe, o habitus
autorregulador de princípios implícitos e contribui para levar o indivíduo a dar
explícitos da ação (Bourdieu & Passeron, mais crédito às oportunidades e práticas
1977; Wacquant, 2006). O habitus sociais habituais comuns ao seu grupo do
constitui um conhecimento praxeológico3, que àquelas incomuns, diferentes ou
produto da atividade histórica inusitadas. Por essa razão, certas
trajetórias de desenvolvimento pessoal
3
O conhecimento praxeológico opõe-se aos dois tipos de podem ser desprezadas simplesmente
conhecimento teórico: objetivista e fenomenológico. “A praxeologia é
uma antropologia universal que recupera (entre outras coisas) a porque o indivíduo acredita que aquilo
historicidade, portanto a relatividade, das estruturas cognitivas, sempre não é para ele ainda, porque, em suas
sublinhando o fato de que os agentes põem universalmente em prática
estruturas históricas” (Bourdieu, 1996, pp. 158-159).
próprias experiências anteriores e nas de
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seu grupo, ele não consegue encontrar uma família ou de um indivíduo não pode
elementos empíricos que justifiquem o ser deduzido, de forma direta, do habitus
investimento em alguns tipos de da classe a que pertence. O indivíduo
oportunidade. Em muitos casos, as constitui-se a partir de um conjunto
pessoas projetam sua vida à luz da multifacetado de influências sociais,
estrutura e das experiências que inclusive as que não compõem seu
constituem o histórico do seu grupo próprio habitus, mas que podem vir a
social. Dessa forma, não atentam para o mudar sua configuração.
fato de que as condições de existência
não são meros fatos naturais. Antes, são A situação de risco e vulnerabilidade
construções históricas, sociais e social e as instituições de
subjetivas; portanto, construídas na atendimento
coletividade. Nesse sentido, resume
Andrade (2007): “A ideia básica da Segundo diferentes teóricos, a
noção de habitus estabelece que a compreensão das noções de risco e
incorporação progressiva das práticas faz vulnerabilidade deve ser buscada de
com que as ações percam a condição de modo integrado. Em conformidade com
práticas estruturadas e comecem a as perspectivas de Calil (2003) e de
parecer práticas naturais, constituindo-se Paludo e Koller (2005), consideramos
‘estruturas estruturadas estruturantes’ risco social o engendramento de variados
que viabilizam a própria vida social” (pp. fatores sociais que podem afetar
105-106). negativamente o processo ou as
Os autores que se seguiram à trilha de trajetórias de desenvolvimento humano.
Bourdieu conferiram ao conceito de Esses fatores apontam para múltiplos
habitus uma lei ainda mais dinâmica planos: estruturas sociais, redes de
(Setton, 2002; Singly, citado por relações, práticas culturais concretas e
Nogueira & Nogueira, 2002). Para Setton circunscritores socioeconômicos, para
(2002), sendo os habitus concebidos citar alguns. Em relação à condição de
como resultado de um processo vulnerabilidade social, é consenso que
configurado em variados contextos em ela pode proporcionar, diante de um
que se encontra um número abrangente fator de risco – condições objetivas
de estímulos e referências não- dadas pela estrutura social –, uma
homogêneas e, muitas vezes, predisposição maior do sujeito a
contraditórias. Nesse sentido, “a trajetórias de desenvolvimento
perspectiva histórica, a interpenetração insatisfatórias.
entre passado, presente (trajetória) e Na adolescência, várias são as
futuro (o devir) são dimensões situações que podem concorrer para
constitutivas dos habitus individuais” (p. situar um adolescente em posição de
66), caracterizando-se como um sistema vulnerabilidade: “a violência, a ausência
flexível de disposições, em contínua de adultos cuidadores, as drogas, o
construção e, por isso, mutável e trabalho escravo, os perigos e a falta de
adaptável. Singly (citado por Nogueira & cuidados básicos” (Paludo & Koller, 2005,
Nogueira, 2002) observa que a p. 188). Podemos acrescentar, ainda, a
transmissão da herança cultural depende miséria e o trabalho infantil. Situações de
de um trabalho ativo realizado tanto risco somadas a uma condição de
pelos pais quanto pelos próprios filhos e vulnerabilidade social podem influenciar
que pode ou não ser bem-sucedido. Em o desenvolvimento do sujeito,
suma, para esses autores, o habitus de comprometendo a “aquisição de
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habilidades e o desempenho de papéis institucionais diferentes da família


sociais, dificultando, por exemplo, a (abrigos, instituições de acolhimento,
transição da infância para a adolescência internatos etc.) como caracterizando
e desta para a idade adulta” (Calil, 2003, uma situação de vulnerabilidade para o
p. 146). desenvolvimento global pleno. A noção
Segundo Eisenstein e Souza (citados de “instituições ou entidades de
por Calil, 2003), podemos considerar a atendimento” apresenta-se no Estatuto
situação de risco como um “conjunto de da Criança e do Adolescente (Lei nº
eventos indesejáveis, inter-relacionados 8.069, de 13 de julho de 1990), para
em uma complexa rede de fatores tratar dos estabelecimentos que
históricos, culturais, políticos, trabalham diretamente com adolescentes
socioeconômicos e ambientais, que em situação de risco e vulnerabilidade
oferece risco a toda uma comunidade ou social. De acordo com o Artigo 90 dessa
subgrupo social” (p. 146). Cada Lei,
indivíduo, de uma forma ou de outra, As entidades de atendimento são
está exposto a esse tipo de evento, o responsáveis pela manutenção das
qual influenciará o desenvolvimento próprias unidades, assim como pelo
desse sujeito, e de forma bem específica planejamento e execução de programas
quando este estiver mais fragilizado ou de proteção e socioeducativos destinados
vulnerável. a crianças e adolescentes, em regime de:
Ser ou estar vulnerável é uma I – orientação e apoio sociofamiliar; II –
condição fundamentalmente relacional apoio socioeducativo em meio aberto; III
que depende, em grande parte, da – colocação familiar; IV – abrigo; V –
qualidade da relação do sujeito com o liberdade assistida; VI – semiliberdade;
meio social onde está inserido, VII – internação.
considerando suas características e Tais instituições, que podem ser
repertórios de habilidades pessoais, governamentais ou não-governamentais,
assim como as condições e a estrutura prestam serviço de atendimento
de oportunidades sociais disponíveis. psicossocial a sujeitos que vivenciam
Portanto, a perspectiva de contextos de risco social. Porém, muitas
vulnerabilidade que propomos aqui não é vezes, essas instituições falham no papel
determinada nem de forma mais amplo de promoção social. Segundo
exclusivamente objetiva, nem de forma resultados de uma pesquisa de mestrado
exclusivamente subjetiva; não é (Araújo, 2008), realizada pelo primeiro
resultado exclusivo das condições autor deste texto, orientada pela segunda
objetivas da estrutura social externa ao autora, essas instituições são percebidas
indivíduo, nem é resultado exclusivo de pelos adolescentes, ali atendidos, apenas
características próprias do indivíduo. no que se refere à atenção às suas
Antes, resulta da relação desse indivíduo necessidades básicas, como alimentação,
com as condições objetivas do meio educação, lazer e prestação de cuidados
social, das canalizações sociais com a higiene e a saúde.
orientadoras nas quais está inserido. O Estatuto da Criança e do
Insistimos na dimensão flexível e Adolescente, no entanto, espera mais
dinâmica do estado de vulnerabilidade dessas instituições de atendimento. Além
que dependerá das condições concretas do suprimento de necessidades básicas,
de vida de sujeitos situados. devem ocorrer intervenções orientadas
Tende-se a considerar o para a promoção da autonomia e da
desenvolvimento em contextos cidadania, o que demanda um olhar
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particular sobre o usuário como sujeito Adolescente, os profissionais


de direitos. Deveria haver o cuidado para apresentaram uma visão do adolescente
não converter crianças e adolescentes como parceiro social, sujeito capaz de
em objetos de assistencialismo, participar ativamente do contexto no qual
generosidade demagógica, favores e se insere.
paternalismo, mas pensá-los como o As instituições de atendimento, como
destinatário privilegiado de intervenções contextos específicos de socialização (De
com enfoque emancipador, contribuindo Antoni & Koller, 2001), quando
para que se posicionem como sujeitos de orientadas para a construção e
sua própria história. Nesse sentido, transformação de sentidos subjetivos e
importa uma avaliação crítica frente aos promoção da autonomia, podem agir
valores e ideologias assumidas no alterando as tendências determinadas
contexto de certas instituições, tendo pelo habitus de classe das crianças e
como pano de fundo as concepções de adolescentes atendidos, interferindo e
desenvolvimento humano, de modificando práticas e disposições para a
adolescência, de sujeitos de direito, de ação. Para tanto, é necessária a adoção
vulnerabilidade e de cultura, que de práticas que contradigam o discurso
canalizam suas atividades. dominante, auxiliando crianças e
A pesquisa que realizamos, adolescentes a extrapolarem os limites
mencionada anteriormente, teve como determinados sócio-historicamente como
objetivo analisar concepções sobre parte do processo de violência simbólica
adolescência e desenvolvimento e, muitas vezes, violência real. Tal
presentes em um projeto social perspectiva envolve apostar fundo na
educativo, considerando sua relação com possibilidade de transformação e
significações negociadas por seus promoção de desenvolvimento dos
participantes. Na ocasião, o projeto atendidos, o que significa reafirmar a
investigado era vinculado a uma importância de se criarem espaços de
instituição do sistema de ações reflexão e discussão acerca do sistema
socioeducativas da cidade de Goiânia, de valores inculturado pelos atores
estado de Goiás. Com o estudo, foi participantes dessas instituições de
possível constatar posicionamentos atendimento, colocando em pauta sua
contraditórios no trabalho dos agentes posição de receptores passivos de
institucionais, denunciando a informações e práticas e criando
necessidade de um aprofundamento da possibilidades para que se transformem
reflexão sobre o processo de em parceiros sociais, agentes
transformação social. participativos, autônomos e críticos
Identificamos, ainda, entre os frente à sua realidade social (Araújo &
profissionais, visões deterministas em Oliveira, 2010). Aqui, é preciso
relação ao espaço social fora dos muros “identificar certas propriedades gerais
do projeto, levando-os a conceber os que, embora associadas à noção de
adolescentes atendidos como “vítimas de habitus, não devem ser tomadas como
um contexto social ‘perigoso’, incapazes evidentes” (Cicourel, 2007, p.170).
de assumirem posicionamentos
autônomos frente aos riscos/eventos O papel das instituições de
sociais, presentes na sua comunidade” atendimento no rompimento com o
(Araújo & Oliveira, 2010, p. 188). habitus social
Contraditoriamente, ao correlacionarem
seu trabalho ao Estatuto da Criança e do
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Segundo Bourdieu, “cada grupo relação entre profissionais da instituição


social, em função das condições e os assistidos são aspectos que,
objetivas que caracterizam sua posição associados à estrutura das posições
na estrutura social, constituiria um objetivas e à subjetividade dos
sistema específico de disposições e de indivíduos, estarão diretamente
predisposições para a ação, que seria influenciando a construção e o
incorporado pelos indivíduos na forma do fortalecimento de um sistema de
habitus” (Nogueira & Nogueira, 2004, p. disposições – habitus –, reproduzindo,
63). Assim, por intermédio de um assim, padrões de conduta – conceituais,
conhecimento prático, construído pelas perceptivos, verbais e motores – próprios
experiências anteriores do grupo social, o de uma classe ou grupo social. O
sujeito colabora para uma reprodução entendimento desses mecanismos exige
social ao adotar e vivenciar práticas do investigador e do próprio agente
sociais que ele acredita estarem institucional a capacidade de treinar a
condizentes com os membros e a habilidade de “colocar em suspenso sua
realidade de seu grupo, como efeito de atitude natural perante o mundo
uma ação sutil de diferentes agentes e comumente apreendido e considerado
instituições (Vasconcelos, 2002). evidente” (Cicourel, 2007, pp. 173-174).
Os indivíduos tanto podem agir Os contextos objetivo e subjetivo do
voluntariamente em conformidade com o sujeito não devem ser considerados
habitus de certa classe social, como evidentes, lineares, do tipo ação e
podem ser obrigados a agirem como tal, reação.
como efeito de algum tipo de violência É preciso questionar a que fim se
simbólica. Por exemplo, adolescentes em orientam as interações estabelecidas
situação de risco e vulnerabilidade social, entre os atores institucionais: se estão a
ou autores de ato infracional, são favor do desenvolvimento de sujeitos
constantemente lembrados pela segundo trajetórias não-canônicas,
sociedade de sua origem comunitária, de coconstruindo sujeitos capazes de se
seus erros, da classe social a que sentirem cidadãos corresponsáveis pela
pertencem e daquilo a que podem ou não sociedade em que vivem, sujeitos
almejar em relação a suas perspectivas capazes de romperem com o habitus
futuras. As próprias instituições de social e produzirem novas realidades
atendimento, contrariando seus reais socioculturais, ou sujeitos destinados a
objetivos, mesmo agindo de maneira permanecerem na condição de meros
sutil, muitas vezes acabam por contribuir repetidores da lógica e das contradições
com essa perpetuação de posições de sociais. As atividades desenvolvidas nas
classe (Guirado, 2004; Espíndula & instituições, bem como os profissionais
Santos, 2004; Souza, 2007). dessas instituições, passam a fazer parte
Nesse sentido, é preciso entender das relações concretas vivenciadas pelos
criticamente os mecanismos que sujeitos, constituindo, assim, diferentes
contribuem para a reprodução social e a determinações na construção da
violência simbólica presentes em subjetividade dos mesmos, sugerindo
instituições de atendimento a crianças e novos e diferentes limites e possibilidades
adolescentes que vivenciam condições de ação (Rosa, 2003), (re)configurando,
sociais consideradas de risco e portanto, o habitus dos sujeitos
vulnerabilidade social. Tanto o conteúdo atendidos.
de mensagens transmitidas quanto os Tudo isso nos exige uma compreensão
dispositivos de poder que medeiam a de desenvolvimento humano como um
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processo qualitativamente diferente para situação de risco e de vulnerabilidade,


cada indivíduo – mesmo resguardando bem como as condições objetivas do
aspectos em comum, tais como as habitus, não cristalizam nem determinam
tendências comportamentais dadas pela o desenvolvimento da criança e do
cultura e pelos outros. Mas, assim como a adolescente expostos a ela. Antes,
herança cultural resulta de um trabalho tornam-se uma via de conhecimento de
ativo realizado não só pelos pais, como como características de uma pessoa
também pelos próprios filhos, não só podem influenciar, ao mesmo tempo em
pelos outros, como também pelo eu, o que são influenciadas, em suas
trabalho desempenhado pelas instituições interações, escolhas, posicionamentos e
de atendimento a adolescentes em perspectivas futuras.
situação de risco e vulnerabilidade deve Então, quais seriam as dificuldades
pretender ser ativo, na configuração que, muitas vezes, afastam as
mútua de um sujeito que resista aos instituições de atendimento de
“determinismos sociais”, ao mesmo promoverem o pleno desenvolvimento
tempo em que incentiva esse sujeito a dos assistidos? A concepção de mundo,
também ser ativo frente a tais realidades. de homem e de desenvolvimento dos
Esse trabalho precisa buscar um atores institucionais tem relação direta
rompimento de hegemonia cultural e de tanto com sua postura frente ao processo
classe social: valorizando não só a de desenvolvimento individual como com
realidade do branco, urbano e bem- a qualidade das intervenções realizadas.
sucedido, mas também as peculiaridades Segundo Espíndula e Santos (2004), na
regionais e de grupos não-hegemônicos; maioria das vezes, a formação em níveis
quebrando comportamentos alienados e teóricos, práticos e pessoais dos vários
mostrando perspectivas diversas, além profissionais que trabalham nesse tipo de
daquelas apresentadas pelo grupo social instituição se mostra bastante fragilizada
de origem do adolescente; dando para edificar práticas que realmente
oportunidade ao sujeito de tornar-se um estimulem a autonomia, a criatividade e
agente crítico frente às informações a ampliação das competências do sujeito
tendenciosas, bombardeadas com uma história de situação de risco e
incessantemente por uma mídia que, de vulnerabilidade social.
muitas vezes, se coloca a serviço dos Não é a existência da instituição e
interesses de classes dominantes. Com sequer a presença do adolescente nela
tais posicionamentos, as instituições de que garantem uma trajetória de
atendimento possibilitariam não só um desenvolvimento não-vulnerável, mas
questionamento de dados e conceitos são as experiências construídas na
considerados como evidentes, como interação entre esses atores (instituição
teriam mais condições de potencializarem e sujeitos). O contexto institucional
os adolescentes atendidos para que se representa para os adolescentes um
posicionassem da mesma forma. campo potencial para o ensaio de novas
Esse posicionamento oferece às experiências, exigindo-lhes mudanças,
instituições de atendimento uma visão adaptações e aprendizagens (Vectore,
que desnaturaliza a situação de risco e 2005). Porém, não existe garantia de
faz com que as diferenças no que as experiências vividas nesse
desenvolvimento passem a ser avaliadas contexto (como qualquer experiência em
como positivas ao expressarem variações qualquer outro contexto) irão contribuir,
qualitativas e potenciais de de forma positiva, com o
desenvolvimento. Dessa forma, a desenvolvimento do sujeito e com as
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mudanças de predisposições para a ação, não-dinâmica e determinante do


de senso de si e de perspectivas futuras. desenvolvimento humano. Vê-se que a
Segundo Gottlieb (1996), as justificativa não está na relação do
experiências podem exercer três funções adolescente com o contexto social ou
distintas no processo de com sua história de vida; está
desenvolvimento. Elas podem exercer exclusivamente no ambiente ou no
uma função mantenedora do indivíduo. Trata-se de uma visão
comportamento, contribuindo para a dicotômica que enfatiza o papel deletério
sustentação de funções e competências do ambiente em detrimento dos
já alcançadas; podem ser facilitadoras, potenciais aspectos biológicos e
ao regularem quando uma característica psicológicos. Nesse sentido, podemos
irá aparecer durante o processo de dizer que tais justificativas e
desenvolvimento; e podem exercer uma posicionamentos tornam os educadores
função indutiva, apresentando-se como sociais menos propensos a mediar
necessárias para ocasionarem uma experiências que auxiliem o adolescente
conquista que não apareceria na na transposição dos limites que definem
ausência de tais experiências. As a estrutura do seu grupo social. Antes,
experiências possíveis no contexto podem causar estagnação, levando-o a
institucional podem diminuir, aumentar, reproduzir e perpetuar realidades de
conservar ou apenas mudar o tipo de classe, baseando-se apenas no histórico
risco social ao qual o indivíduo está do seu grupo social de origem para
exposto (Guirado, 2004). construir sua trajetória e perspectivas
Um exemplo de experiências futuras.
mantenedoras pode ser dado a partir do Para que uma instituição tenha
resultado de uma pesquisa que objetivou condições de contribuir com o
estudar as representações de educadores desenvolvimento de sujeitos autônomos,
sociais sobre adolescentes em medidas críticos, frente ao discurso dominante,
socioeducativas, realizada com capazes de se verem e de serem vistos
assistentes de desenvolvimento social como cidadãos, portadores de deveres e
que trabalhavam diretamente com os de direitos sociais, políticos e jurídicos,
adolescentes na Região Metropolitana do ela precisa, no mínimo, acreditar na
Recife (Espíndula & Santos, 2004). possibilidade de esses indivíduos
Constatou-se entre os assistentes uma transporem os limites colocados pelas
descrença na possibilidade de se estruturas externas que diretamente
promoverem mudanças nos adolescentes interferem na configuração de suas
por meio do trabalho educativo. As subjetividades e nas suas disposições
principais justificativas para essa para a ação, construídas social, histórica
descrença – que pode ser lida como uma e coletivamente.
forma de violência simbólica por
fortalecer crenças que induzem o Considerações finais
indivíduo a, socialmente, se posicionar
seguindo critérios e padrões do discurso O habitus produz e reproduz práticas
dominante – são as assim chamadas orquestradas com esquemas
desestrutura familiar e uma suposta engendrados pela história do indivíduo e
“fraqueza” dos adolescentes para de sua coletividade. É um sistema de
alcançarem mudanças duradouras de disposições sociais duradouras,
comportamentos, o que nos remete a incorporadas pelos indivíduos sob
uma ideia de habitus como estrutura influência familiar/social, que
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reproduzem características de um grupo possibilidade de experiências, no


nas suas formas objetivas e subjetivas. contexto institucional, como situações
Defendemos aqui a dimensão flexível do concretas que sejam capazes de
conceito: “Habitus como trajetória, mobilizar a configuração de uma
mediação do passado e do presente; subjetividade entendida como uma
habitus como história sendo feita; “síntese entre o novo que se
habitus como expressão de uma experimenta e os conteúdos subjetivos já
identidade social em construção” configurados até então” (Teixeira, 2003,
(Setton, 2002, p. 67). Assim, a visão que p. 107).
detemos é dinâmica, resultando uma Visto que as posições objetivas e as
concepção de um habitus que nunca está situações concretas de ação constituem
pronto, mas em constante uma força motriz na configuração do
transformação, construção, assumindo sujeito, é possível afirmar que a
uma orientação bidirecional na relação participação bidirecional das instituições
entre o indivíduo e a sociedade de atendimento na construção e
(exterioridade e interioridade), ambos transformação do habitus dos
também em construção. adolescentes possibilitará resultados
Considerando essa visão dinâmica, mais satisfatórios, em conformidade com
defendemos a importância de (re)pensar uma visão dinâmica do sujeito, à medida
a importância do trabalho de instituições que se assumam como contextos de
de atendimento que atuam no trabalho desenvolvimento em desenvolvimento. É
com adolescentes em situação de risco e preciso pensar de forma contextualizada
vulnerabilidade social. Em uma sociedade e compromissada a eficácia do trabalho e
como a brasileira, marcada pelo do atendimento das instituições,
mascaramento das diferenças sociais a encarando, assim, a realidade de como
fim de disfarçar preconceitos, tais intervenções “se confundem e se
discriminação e reprodução de vantagens colocam também como determinantes da
sociais, as instituições de atendimento condição de exclusão que esses jovens
têm um relevante papel à medida que se acabam vivendo” (Rosa, 2003).
configuram como um lócus de educação Com isso, somos desafiados a avançar
e socialização de sujeitos provindos de na produção e desenvolvimento de
contextos considerados de risco. pesquisas, de saberes, que contribuam
Consideramos que essas instituições com a reflexão proposta neste texto.
tanto podem contribuir para a Produções que auxiliem, de forma
perpetuação das diferenças de classes e criativa e contextualizada, as propostas
privilégios sociais como podem auxiliar de trabalho das instituições de
os sujeitos a ultrapassarem os limites atendimento a adolescentes com um
dados pelo contexto social de origem, histórico de risco e vulnerabilidade social
passando a ver sua condição na na busca de uma transformação das
sociedade como construída, e não como condições de exclusão vivenciadas por
natural. esses sujeitos. Tal esforço deve ser no
Se o conceito de habitus pode ser intuito de que as instituições de
entendido como o elo entre a estrutura atendimento sejam mediadoras no
das posições objetivas, a subjetividade rompimento com os limites, muitas vezes
dos indivíduos e as situações concretas perversos, postos pelo habitus social.
de ação, enfim, como um sistema flexível
de disposições, portanto mutável e Referências
adaptável, podemos pensar na
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Recebido: 24/05/2012
Revisado: 26/08/2013
Aprovado:10/09/2013

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