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FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS Nº 447 Dezembro / 2017

análise de conjuntura
Nível de Atividade p. 3 Vera Martins da Silva faz uma análise da conjuntura econômica brasileira,
com destaque para a evolução do PIB, seus componentes e os diferentes
Vera Martins da Silva
ramos da indústria.

temas de economia aplicada


Prêmio de Risco Brasileiro: Estimação por
Michael Tulio Ramos de França dá continuidade à revisão da literatura
Máxima Verossimilhança p. 8
sobre estimação do prêmio de risco de mercado, com enfoque no método
Michael Tulio Ramos de França da Máxima Verossimilhança.
O grupo de pesquisa EconomistAs analisa a representatividade de mu-
EconomistAs – Brazilian Women in Economics p. 14
lheres em diferentes áreas do conhecimento nos anos de 2010 e 2015,
grupo EconomistAs
utilizando dados do Censo da Educação Superior.

Indicadores da Performance do
Gabriel Dolhnikoff Jardanovski apresenta alguns indicadores que rela-
Gerenciamento da Dívida Pública p. 26
cionam dívida pública a canais de financiamento do orçamento federal e
Gabriel Dolhnikoff Jardanovski
discute como aplicá-los para o contexto brasileiro.

Relatório de Indicadores Financeiros p. 34 O NEFIN apresenta os principais fatores de risco utilizados na literatura
Nefin-USP (dividend yield, short interest e IVol-BR), utilizando dados brasileiros.

pensando o Brasil
Produtividade Depende de Demanda p. 38
Carlos Luque, Simão Silber, Roberto Zagha
Continuando a série de artigos, Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha
Descobrindo Portugal p. 41 discutem os problemas e desafios enfrentados pela economia brasileira
neste momento de crise, propondo medidas que ajudem na retomada do
Carlos Luque, Simão Silber, Roberto Zagha
crescimento sustentado de longo prazo.

Acertos e Desacertos: Metas de Inflação p. 43


Carlos Luque, Simão Silber, Roberto Zagha

pesquisa na fea – Economia Esta seção divulga a pesquisa acadêmica desenvolvida por mestrandos e
p. 45
doutorandos do Departamento de Economia da FEA/USP, publicando os
resumos das dissertações e teses defendidas recentemente.

economia & história


Relatos de Pesquisa: o ano de 2017 na coluna
Economia & História p. 48 Luciana Suarez Lopes faz um resumo de toda a pesquisa em História
Econômica desenvolvida na coluna Economia & História ao longo deste
Luciana Suarez Lopes
ano.

As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade


exclusiva dos autores, não refletindo a opinião da Fipe
Observatório do Emprego e do Trabalho
O Observatório do Emprego e do Trabalho oferece aos formuladores de políticas públicas um conjunto
de ferramentas inovadoras para aprimorar as possibilidades de análise e de compreensão da evolução do
mercado de trabalho.

O Observatório inova a análise do mercado de trabalho em dois aspectos importantes. Primeiro, utiliza
um conjunto de indicadores novos, especialmente criados pelos pesquisadores da FIPE, os quais junta-
mente com indicadores mais conhecidos e tradicionais permitirão um acompanhamento mais detalhado
do que ocorre no mercado de trabalho. Segundo, porque estes indicadores podem ser utilizados tanto
para analisar o mercado como um todo, quanto para analisar aspectos desagregados do mercado como,
por exemplo, uma ocupação ou um município. São indicadores poderosos, que oferecem uma visão de
curto prazo e também podem formar uma série histórica. O conjunto de indicadores pode ser usado para
acompanhar tanto as flutuações decorrentes das alterações conjunturais de curto prazo quanto as evolu-
ções estruturais de longo prazo. Mensalmente é divulgado um Boletim que apresenta um resumo do que
ocorreu no mercado de trabalho do Estado. As bases de dados que originam as informações divulgadas
pelo Observatório são: a) CAGED (MTE); b) RAIS (MTE); c) PNAD (IBGE).

O Observatório do Emprego e do Trabalho foi desenvolvido e é mantido em conjunto pela Secretaria do


Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de São Paulo (SERT) e pela Fundação Instituto de
Pesquisas Econômicas da USP (FIPE).

Para saber mais, acesse:

http://www.fipe.org.br/projetos/observatorio/

INFORMAÇÕES FIPE É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL DE CONJUNTURA ECONÔMICA DA FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS – issn 1678-6335

Conselho Curador Diretoria Pós-Graduação Luiz Martins Lopes Preparação de


Juarez A. Baldini Rizzieri Diretor Presidente Márcio Issao Nakane José Paulo Z. Originais e Revisão
Chahad
(Presidente) Carlos Antonio Luque Alina Gasparello de http://www.fipe.
Secretaria Executiva Maria Cristina
Andrea Sandro Calabi Cacciamali Araujo org.br
Denisard C. de Oliveira Alves Diretora de Pesquisa Domingos Pimentel
Maria Helena G.
Eduardo Amaral Haddad Maria Helena Garcia Bortoletto Pallares Zockun
Francisco Vidal Luna Pallares Zockun Simão Davi Silber
Conselho Editorial
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José Paulo Zeetano Chahad Diretora de Cursos Heron Carlos E. do Editora-Chefe
Produção Editorial
Simão Davi Silber Carmo
Vera Lucia Fava Fabiana F. Rocha
Lenina Pomeranz Sandra Vilas Boas

dezembro de 2017
análise de conjuntura 3

Nível de Atividade: Retomada Revisitada


Vera Martins da Silva (*)

Notícias se espalham sobre a recu- (PIB) de 2016, praticamente ficou taxas de desempenho da economia
peração da economia. Sem dúvida, estável; anteriormente, apresenta- brasileira. Já no segundo trimestre
boas novas neste final de ano tão va uma queda de 3,6% em relação de 2017 houve um avanço de 0,3%
recheado de péssimas notícias a 2015 e agora a queda foi de “ape- para 0,4%; nada extraordinário,
tanto no âmbito da economia como nas” 3,5% (sic). O setor Agropecu- mas ajuda a animar os analistas,
na política e no cotidiano social. ário foi aquele cujo resultado mais especialmente com a queda menos
Como usual, o IBGE, Fundação Bra- melhorou. A queda da produção acentuada do setor Industrial, ori-
sileira de Geografia e Estatística, havia sido estimada originalmente ginalmente estimado em 2,1% e
responsável pela contabilidade na- em 6,6% e passou a uma redução reestimado em queda de 1,9%. Ou
cional, apresentou recentemente as de 4,3% − ainda assim significativa seja, as estimativas mais recentes
novas estimativas para as contas e decorrente das péssimas condi- apresentaram resultados melho-
trimestrais, incluindo novos pesos, ções climáticas do ano passado. res, sem dúvida, mas ainda muito
novas fontes de dados e reestima- fracos. Não é à toa que o nível de
tivas dos modelos, atualizando os Nos dois trimestres de 2017, os desocupados continua altíssimo
valores até o terceiro trimestre resultados podem até ser ligeira- e a informalização se esparrama
de 2017. Isso não significa dizer mente melhores, mas entenda-se, no mercado de trabalho. Chama a
que tudo o que foi feito e dito deva ligeiramente mesmo. Em relação ao atenção o item Despesas de Con-
ser jogado fora, mas nos chama a mesmo período do ano anterior, no sumo do Governo, recalculado, e
atenção sobre a sensibilidade das primeiro trimestre de 2017, o PIB que se originalmente havia sido
informações divulgadas em relação apresentava uma queda de 0,4% e estimado em queda de 1,3% foi
ao complexo sistema de informa- após a revisão ficou apenas estag- reestimado em 0,5% no primeiro
ções requerido para a estimativa nado (0%), fruto de uma revisão trimestre de 2017. No segundo
das contas econômicas. O principal para mais de 3,2% na Agropecu- trimestre de 2017, a queda do Con-
indicador, o Produto Interno Bruto ária, o setor que tem salvado as sumo do Governo de 2,4% foi rees-

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4 análise de conjuntura

timada em 0,8%. Tudo indica que 6,6% e dos Serviços de Informação trimestre de 2017. O Gráfico 1 mos-
as sucessivas crises políticas e seu e Comunicação, de 2,5%. tra de forma evidente a preponde-
“custo parlamentar”, associado a rância do setor de Serviços na pro-
distribuição de cargos e efetivação Apesar do dinamismo fundamental dução doméstica, que representam
de emendas parlamentares ajudou da Agropecuária, note-se que sua praticamente o dobro da Indústria
estimular a economia, mesmo que participação no valor adicionado Geral e da Agropecuária. Observa-
às custas de um gigantesco dese- gerado a preços básicos é de ape- -se também que os Serviços têm au-
quilíbrio fiscal. nas 5,7% em 2016 e tem sido relati- mentado sua participação no valor
vamente estável nesse nível desde adicionado, enquanto a Indústria
No acumulado de quatro trimes- 1995. Mesmo com muita eficiência, tem sido cada vez menos impor-
tres em relação ao mesmo perí- não será desse setor o dinamismo tante relativamente à composição
odo do ano anterior, a situação que se necessita para tirar a econo- do produto. Mas isso não é verda-
lamentável da economia ainda se mia nacional do marasmo em que de apenas para o caso brasileiro;
manifesta, mas, sem dúvida, já se encontra. A Indústria tem perdi- essa desindustrialização relativa
melhorando em comparação aos do sistematicamente participação
com forte expansão dos serviços
desastrosos resultados anteriores. no valor adicionado gerado, de 27%
também ocorre na maioria dos pa-
em 1995 para 21,1% em 2016. Os
Passou de uma queda de 4,2% no íses avançados. O problema é que
Serviços continuam em sua traje-
terceiro trimestre de 2016 para esse novo perfil de produção pode
tória de maior representatividade
quedas cada vez menores ao longo até combinar bem com países nos
nas atividades econômicas, saindo
dos quatro trimestres acumulados quais a renda per capita e as con-
de 67,2% em 2000 para 73% em
sucessivos − 3,5%, 2,2%, 1,2% dições de vida são estáveis e já se
2016, destacando-se o crescimento
e 0,2% no terceiro trimestre de encontram num patamar adequa-
do comércio, associado ao aumento
2017. Então, dada a situação in- do. Porém, no Brasil, onde há sérios
do consumo das famílias verificado
ternacional de relativa calma e problemas de pobreza e de condi-
ao longo dos anos. Infelizmente,
retomada e acreditando-se que não ções de vida, isso é um problema
esse aumento não estimulou o In-
ocorrerão novas grandes tormen- vestimento, sinalizado pelo indi- adicional e tanto. No Gráfico 2 é
tas no cenário doméstico, pode-se cador Formação Bruta de Capital possível observar a característica
esperar uma recuperação, ainda Fixo sobre o PIB, que cai sem parar da produção dentro dos ramos da
que muitíssimo lenta. E mais uma desde o quarto trimestre de 2014, Indústria, destacando-se a queda
vez, o que garantiu o resultado da o ano da eleição enganosa. da participação relativa da Indús-
economia brasileira foi a Agrope- tria de Transformação a partir de
cuária, com aumento de 11,6% no Os Gráficos 1 e 2 mostram a parti- 2008, ano do início da crise eco-
acumulado de quatro trimestres, cipação dos setores econômicos no nômica internacional para diante.
enquanto a Indústria apresentou valor adicionado a preços básicos, Destaca-se também o aumento da
queda de 1,4% e o setor de Servi- isto é, sem impostos sobre produ- participação das Indústrias Extra-
ços, de 0,8%. Entre os subsetores, tos, o que dá a principal caracte- tivas, em função do crescimento de
destaque negativo para a Indús- rística da produção nacional entre preços das commodities dos anos
tria da Construção Civil, queda de o ano de 1995 (média) e o terceiro 2000.

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análise de conjuntura 5

Gráfico 1 - Participação dos Setores Econômicos no Valor Adicionado Gerado (%) - 1995-3° tri 2017

Gráfico 2 - Participação dos Ramos da Indústria no Valor Adicionado (%) - 1995 - 3° tri 2017

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6 análise de conjuntura

No Gráfico 3 são apresentados os valores da produ- tres e seus principais componentes, destacando-se a
ção dos principais ramos industriais. Destaca-se a enorme oscilação da Formação Bruta de Capital Fixo,
Indústria de Transformação que, mesmo que venha ou seja, do Investimento produtivo e a sua queda
sofrendo uma redução em sua participação no conjun- cada vez menor, o que indica uma “retomada” a partir
to da produção brasileira, é ainda a principal força na de meados de 2016. Mesmo assim, a taxa de inves-
economia. Nem mesmo o crescimento das indústrias timento continua baixíssima, 16,3% no terceiro tri-
extrativas no período recente consegue tirar o brilho mestre de 2017. E é isso o que impede o deslanche da
da produção industrial de transformação. É certo que economia brasileira. E puxa para baixo especialmen-
o declínio da produção desse ramo a partir de 2014
te o baixo investimento do setor público brasileiro.
foi um dos problemas para a profunda recessão que
Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do
se abateu sobre a economia brasileira, adicionado ao
Senado, a relação investimento público sobre o PIB
recuo da Indústria da Construção Civil. É bom lembrar
chegou ao ponto mais baixo desde o começo da série
que em 2014 foi encerrado um conjunto de enormes
histórica, em 1995, cerca de 2%, em virtude do ajuste
obras ligadas à Copa da Fifa, o que deixou de empregar
muitos recursos na Indústria, assim como elefantes fiscal e da sua compressão em virtude da exigência
brancos espalhados pelo país e uma trilha de desper- de pagamentos dos gastos obrigatórios, que vão com-
dício e corrupção, da qual as finanças públicas ainda primindo os investimentos públicos, especialmente
não se recuperaram. em ano não eleitoral. Provavelmente, a economia
vai melhorar no ano que vem, mas o estrago desses
O Gráfico 4 mostra a evolução do PIB trimestral últimos anos já foi feito e sua superação será muito
calculado em variação acumulada de quatro trimes- penosa.

Gráfico 3 - Valores da Produção dos Principais Ramos da Indústria Brasileira - 1° Tri 1996 a 3° Tri 2017 -
em R$ Milhões de 1995 com Ajuste Sazonal

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análise de conjuntura 7

Gráfico 4 - Taxa de Variação Acumulada em Quatro Trimestres (%) - 1 Tri° 1996 a 3° Tri 2017

(*) Economista e doutora pela USP.


(E-mail: veramartins2702@gmail.com).

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8 temas de economia aplicada

Prêmio de Risco Brasileiro: Estimação por Máxima Verossimi-


lhança1
Michael Tulio Ramos de França (*)

1 Introdução m i l h a nç a . Con for me des t ac a- 2 Fonte dos Dados


mos anteriormente, existe um
A s pr incipais fontes de dados
Nos t e x t os d a s e d iç õ e s a nt e - conjunto de abordagens de es-
foram Economática e IPEADATA.
riores, apresent amos diversas timação do prêmio de risco de
A Tabela 1 apresenta um resumo
a b or d a g en s de e s t i m a ç ã o do mercado que consiste em regre-
dos dados utilizados em cada me-
dir o excesso de retornos reali- todologia. O modelo estimado usa
prêmio de r isco. Neste ar t igo,
zados em variáveis econômicas informação do período compreen-
daremos continuidade à revisão
ou financeiras defasadas. Desta dido entre dezembro de 1999 e de-
da literat ura e realizaremos a forma, esta metodologia procura zembro de 2014. A relação de todos
e s t i m aç ão do pr êm io u s a ndo estimar o componente previsível os tickers selecionados encontra-se
o método de Má x ima Verossi- e esperado do excesso de retorno. no Apêndice A1.

Tabela 1 - Fonte dos Dados

Modelo Dados Fonte Frequência

1. Selic 1. IPEA 1. Mensal


2. Ibovespa 2. IPEA 2. Mensal
Máxima Verossimilhança
3. Dividendo-preço 3. Economática 3. Mensal
4. Valor de Mercado 4. Economática 4. Mensal

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temas de economia aplicada 9

3 Estimação por Máxima Verossimilhança acima. Implementamos esta metodologia e apresenta-


mos as estimativas dos parâmetros na Tabela 2.
Uma forma interessante de estimar o prêmio de
mercado é usar informações contidas tanto na razão Tabela 2 - Parâmetros Estimados
dividendo-preço quanto informações fornecidas pelos
choques dessa série. Com este intuito, Avdis e Wachter 2012 2013 2014 2015
(2014) sugerirão mensurar o prêmio de mercado 0.03 0.13 0.07 -0.09
usando estimação por Máxima Verossimilhança. Para -3.24 -3.29 -3.30 -3.22
isso, propõem o seguinte modelo estatístico: -0.15 -1.80 -1.72 -1.56
0.99 0.99 0.99 0.99
3.34 3.36 3.28 3.25

0.08 0.08 0.08 0.08
-0.04 -0.04 -0.03 -0.03

Nota: Estimativas de:

Onde e re-
presenta o log da razão dividendo-preço. Temos
que é o prêmio de risco e que é a média de Obs: Os dados estão numa frequência mensal, com início em dezem-
bro de 1999 e o fim em dezembro de cada ano anterior ao desta-
. O vetor de choques condicional em
cado na primeira linha. Por exemplo, os valores dos parâmetros
é normalmente distribuído2 com de 2012 correspondem à amostra compreendida entre dezem-
média zero e matriz de covariância: bro de 1999 e dezembro de 2011. Por fim, representa o log
do excesso de retorno do Ibovespa sobre a Selic e o log da
razão dividendo-preço ponderada pelo valor de mercado.

Definindo como a estimativa de máxima verossimi-
Assim, podemos estimar os parâmetros , , , , , lhança do prêmio de mercado. Podemos definir a série
e usando a seguinte função de verossimilhança: de tempo dos choques e da seguinte forma:



Logo:


Apresentamos no Apêndice A2 o procedimento geral
para estimar os parâmetros , , , , , e . Como podemos ver pela equação acima, existem duas
Basicamente, se resume em reescrever o conjunto de razões pelas quais a estimativa por máxima verossi-
condições de primeira ordem derivadas da equação milhança é diferente da média amostral :

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10 temas de economia aplicada

• Se os choques não tiverem desempenha uma im- Pela equação acima, vemos que
média zero portante função para explicar a os choques dos retornos nessa
• Se o retornos são previsíveis no diferença entre as duas estimati- abordagem têm ligação direta com
sentido que vas. Se aplicarmos uma estimação os choques na razão dividendo-
por OLS, os choques terão média -preço. Sintetizamos os resultados
Note também que re-
zero por construção. Entretanto, da estimação desta metodologia na
presenta o prêmio realizado histó-
como podemos ver pela equação Tabela 3. Como podemos constatar
rico. Desta forma, o que o presente
modelo diz é que se usarmos a acima, isto não se verifica quando por meio dela, se empregarmos
média dos retornos realizados para aplicamos a estimação por máxi- a média amostral para calcular
inferir o futuro comportamento do ma verossimilhança. Usando esta
o prêmio brasileiro teremos um
excesso de retorno, estaremos dei- abordagem, os choques dos retor-
valor negativo de -0,16% por mês
xando de lado duas significativas nos apresentam a seguinte confi-
para o ano de 2015. Entretanto,
fontes de informação: os choques guração:
considerando as informações dos
dos retornos e o poder explicativo
da série dividendo-preço em rela- choques dos retornos e previsibi-
ção à previsibilidade de retornos. lidade, encontramos um valor de
O termo da média dos choques -0,09% por mês.

Tabela 3 - Prêmio de Risco

2012 0.034 -0.089 0.031 -0.155


2013 0.133 -0.085 0.034 -0.253
2014 0.074 -0.143 0.034 -0.252
2015 -0.092 -0.165 0.026 -0.099

Vale lembrar que os autores definem o prêmio de mercado assumindo que o log dos retornos é nor-
malmente distribuído. Podemos transformar o resultado para nível da seguinte forma:

Usando a definição do log do excesso de retorno, , chegamos a:

Calculando a equação acima, chegamos aos valores representados na Tabela 4.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 11

Tabela 4 - Resultados do Modelo

2012 0.003 0.034 0.012 0.006 0.012 4.27%


2013 0.004 0.133 0.011 0.006 0.012 5.38%
2014 0.004 0.074 0.011 0.006 0.011 4.46%
2015 0.002 -0.092 0.011 0.006 0.011 2.31%

Nota: Apresentamos o prêmio acima em termos anuais.

Referências FRANÇA, M. Prêmios realizados e esperados no Brasil. Master’s Dis-

AVDIS, Efstathios; WACHTER, Jessica. Maximum likelihood estima- sertation. São Paulo: Faculdade de Economia, Administração e
tion of the equity premium. NBER Working Paper, 2014. Contabilidade, University of São Paulo. www.teses.usp.br, 2015.

Apêndice A

A1 – Tickers Elegíveis

ABCB4 AGIN3 AGEI3 AGEN33 ALSC3 ACES4 AMBV4 AMIL3


IRON3 AEDU3 ANIM3 ARCZ6 ARZZ3 ARTR3 AUTM3 BTOW3
BRSR6 BBSE3 BMEF3 BVMF3 BOVH3 BBRK3 BRIN3 BRML3
BPHA3 BRPR3 BBDC3 BBDC4 BRAP4 BBAS3 BBAS4 BRTP3
BRTP4 BRKM5 BRFS3 BISA3 CMET4 CCRO3 CCXC3 CMIG4
CESP6 CTIP3 CIEL3 CGAS5 CPNY3 CNFB4 CSMG3 CPLE6
CSAN3 CPFE3 CRTP5 CRGT5 CVCB3 CYRE3 DASA3 DUFB11
DTEX3 ECOR3 ELET3 ELET6 ELPL4 EMBR3 EMBR4 ENBR3
ENEV3 EQTL3 ESTC3 EVEN3 EZTC3 FIBR3 VCPA4 FLRY3
GFSA3 GGBR4 GOAU4 GOLL4 GVTT3 HRTP3 HYPE3 IGTA3
ITSA4 ITUB4 JBSS3 JSLG3 KLBN4 KSSA3 KROT3 LIGT3
LINX3 RENT3 LAME4 AMAR3 LREN3 LPSB3 LUPA3 MDIA3
MGLU3 MAGG3 MRFG3 MEDI3 LEVE3 MILS3 BEEF3 MMXM3
MRVE3 MULT3 MPLU3 NATU3 NETC4 BNCA3 ODPV3 OGXP3
OIBR4 OSXB3 PCAR4 BPNM4 PDGR3 PETR3 PETR4 BRDT4
PSSA3 POSI3 QGEP3 QUAL3 RAIA3 RADL3 RDCD3 SBSP3
SDIA4 SMTO3 SEER3 CSNA3 CSTB4 SSBR3 SLCE3 SMLE3
CRUZ3 SUBA3 TAMM4 TECN3 TCSA3 TGMA3 TCOC4 TNEP4
VIVT4 TNLP3 TNLP4 TMAR5 TMCP4 TEND3 TIMP3 TCSL4
TOTS3 TRPL4 UGPA3 USIM5 VAGR3 VALE3 VALE5 VLID3
VIVO4 WEGE3 WHMT3

dezembro de 2017
12 temas de economia aplicada

A2 – Estimação por Máxima Verossimilhança

Avdis e Wachter (2014) derivam a forma fechada para estimar os parâmetros , , , , , e . Para isto,
eles minimizam a função (que é o mesmo que maximizar o log da função de verossimilhança):

Não apresentaremos detalhadamente a álgebra que os autores fizeram para resolver as condições de primeira
ordem derivadas da função acima. Entretanto, sinteticamente, o passo a passo para implementar a metodologia
encontra-se a seguir.

Passo 1: Expressar em termos de e dos dados

Passo 2: Expressar a matriz de covariância em termos de e os dados

Passo 3: Resolver em termos dos dados. Isto também dá e em termos dos dados

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 13

Passo 4: Resolver e em termos dos dados. Isto também dá a solução para e

Onde:

1 Texto adaptado de parte da dissertação de mestrado de França


(2015): Prêmios Realizados e Esperados no Brasil.
2 Embora os autores foquem no caso que os choques são normalmente (*) Mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). Dou-
distribuídos, eles também exploram a robustez de distribuições al- torando em Teoria Econômica na Universidade de São Paulo (USP).
ternativas. (E-mail: michaeltulioramos@usp.br).

dezembro de 2017
14 temas de economia aplicada

EconomistAs – Brazilian Women in Economics


Grupo EconomistAs (*)

EconomistAs é um grupo de pes- in Economics ( Wine) – Europa tivo de aumentar o engajamento e a


quisa com o intuito de estudar as (2005)4; Association for Advance of exposição das economistas; parti-
várias dimensões da diferença de African Women Economists – África cipação em seminários acadêmicos
gênero no Brasil. Especificamente, (2012) 5 ; Undergraduate Women e conferências; e atualizações do
o grupo está interessado ​​em mape- in Economics – Est ados Unidos site http://www.usp.br/bwe.
ar e divulgar a posição relativa das (2014)6; Women in Economics Ne-
mulheres em Economia em vários twork (WEN) – Austrália (2017)7. Além disso, o grupo é responsável
estágios da carreira acadêmica e por levantar recursos, via projeto
no mercado de trabalho. Pretende- A equipe do grupo EconomistAs é temático FAPESP ou outros finan-
-se também através do grupo de formada por docentes do Depar- ciamentos públicos e privados,
pesquisa identificar as causas para tamento de Economia da Universi- tendo como objetivo realizar coleta
a baixa representatividade das dade de São Paulo, as professoras de dados, obter bolsas para alunas,
mulheres em Economia. Outro ob- doutoras Maria Dolores Montoya convidar professoras estrangeiras
Diaz, Renata Narita, Paula Pereda, renomadas atuando nesse tipo de
jetivo do grupo é encorajar mulhe-
Fabiana Fontes Rocha e alunas da iniciativa ou em pesquisa da área.
res a estudar Economia, bem como
promover a inclusão de mulheres pós-graduação, Bruna Borges, e da
Mulheres em Economia no Brasil
economistas no mercado de traba- graduação, Natalie Martins e Fer-
lho, aumentando as conexões tanto nanda Moro.
Com base nos dados do Censo da
daquelas que atuam no setor priva- Educação Superior, divulgado pelo
do e público quanto das mulheres As principais atividades planejadas
Instituto Nacional de Estudos e
que trabalham na área acadêmica. pelo grupo são: realizações de rela-
Pesquisas Educacionais Anísio Tei-
tórios anuais da posição relativa de
xeira, órgão do Ministério da Edu-
A iniciativa fomentada pelo grupo mulheres em Economia no Brasil; cação (INEP/MEC), foi analisada
EconomistAs é inspirada em diver- pesquisas acadêmicas relacionadas a representatividade de mulheres
sos grupos internacionais de mu- ao tema de gênero (Gender Econo- em diferentes áreas do conheci-
lheres em Economia, com iniciati- mics); realização de seminários mento nos anos de 2010 e 2015.
vas e objetivos similares, podendo acadêmicos e workshops na temá-
ser citados, entre os mais relevan- tica de gênero; fomento de men- A Figura 1 reporta a representação
tes, os seguintes grupos: Commit- torias para alunas e profissionais feminina entre os matriculados
tee on the Status of Women in the no início da carreira, buscando em cursos de todas as instituições
Economics Profession (CSW EP) informar e orientar sobre carreira; de Ensino Superior do Brasil. Foi
– Estados Unidos (1971)1; Cana- promoção de encontros periódicos utilizada a classificação da OCDE
dian Women Economists Network de mulheres economistas, que visa de cursos, que no Censo de 2015
– Canadá (1990)2; The Royal Eco- criar espaço para que as alunas de englobava mais de 300 cursos (há
nomic Society’s Women’s Commit- graduação e pós-graduação apre- diversos cursos de Engenharia que
tee – Reino Unido (1996)3; Women sentem suas pesquisas, com o obje- foram agrupados na análise). Entre

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 15

os 50 cursos com maior número de matriculados, Eco- cursos com maior número de matriculados, Economia
nomia está na 37ª posição em relação à representati- está na 39ª posição em relação à representatividade
vidade feminina. Para a Figura 1 foram selecionados feminina. A parcela de mulheres no Ensino Superior se
cursos de acordo com a quantidade de alunos matri- manteve estável entre 2010 e 2015, com uma parcela
culados, bem como alguns cursos que são conhecidos de estudantes do sexo feminino de 57%. Em Economia,
por terem pouca representatividade feminina (como houve aumento de apenas 1 ponto percentual na pro-
Matemática e Estatística, por exemplo). O curso de
porção de mulheres matriculadas entre 2010 e 2015,
Economia é um dos cursos de graduação com menor
indo de 38% para 39%. Entre os cursos selecionados,
representatividade feminina, com 39% de mulheres
observa-se que os que possuíram maior variação na
entre os matriculados. De todos os matriculados do
Ensino Superior, 57% dos estudantes são do sexo fe- representatividade feminina de 2010 para 2015 são:
minino. Odontologia, Medicina Veterinária e Engenharia, com
variação de mais de 4 pontos percentuais positiva;
A Figura 2 reporta a parcela de mulheres no Ensino Ciência Atuarial e Nutrição com variação de mais de 4
Superior brasileiro para o ano de 2010. Entre os 50 pontos percentuais negativos.

Figura 1 - Proporção de Mulheres Matriculadas em Todas as IES, Censo 2015

Fonte: Censo da Educação Superior 2015 (INEP/MEC).

dezembro de 2017
16 temas de economia aplicada

Figura 2 - Proporção de Mulheres Matriculadas em Todas as IES, Censo 2010

Fonte: Censo da Educação Superior 2010 (INEP/MEC).


Nota: “++” ou “- -” indicam variações entre 2010 e 2015 acima de 4 p.p. “+” ou “-” indicam variações acima de 1p.p. e abaixo de 4p.p.

As Figuras 3 e 4 reportam os gráficos de participação abaixo da parcela de mulheres matriculadas em ou-


feminina nos cursos de graduação da Universidade tras instituições de Ensino Superior, mas houve um
de São Paulo, no mesmo período de análise e para os grande aumento na porcentagem de mulheres entre
mesmos cursos selecionados. No Censo da Educação 2010 e 2015. Em 2010, 46% dos estudantes matricu-
Superior de 2015, a USP englobava cerca de 100 cur- lados na graduação da USP eram mulheres, sendo esse
sos (novamente, há diversos cursos de Engenharia,
número 6 pontos percentuais maior em 2015 (52%).
que agrupamos na análise). Entre os cursos da USP,
Em Economia na USP, o percentual de mulheres matri-
Economia está na 83ª posição em relação à represen-
tatividade feminina em 2015. culadas é de apenas 26%, e manteve-se estável entre
2010 e 2015, estando em 2015 abaixo de cursos com
Vemos que a parcela de alunas matriculadas em cur- predominância masculina histórica como Matemática
sos de graduação na Universidade de São Paulo está e Engenharia.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 17

Figura 3 - Proporção de Mulheres Matriculadas na USP, Censo 2015

Fonte: Censo da Educação Superior 2010 (INEP/MEC).

Figura 4 - Proporção de Mulheres Matriculadas na USP, Censo 2010

Fonte: Censo da Educação Superior 2010 (INEP/MEC).


Nota: “++” ou “- -” indicam variações entre 2010 e 2015 acima de 4 p.p. “+” ou “-” indicam variações acima de 1p.p. e abaixo de 4p.p.

dezembro de 2017
18 temas de economia aplicada

A Tabela 1 avalia a proporção de mulheres no curso de públicas e privadas, a fração de mulheres formadas é
Economia em diferentes faculdades e universidades maior que a fração de ingressantes. Apenas na UNESP,
brasileiras. Percebe-se que a USP é uma das institui-
FGV-SP e FGV-Rio a fração que se forma é menor
ções com menor percentual de mulheres, entre as
analisadas. Uma estatística interessante a se notar é quando comparamos os ingressantes de 2010 com os
que no curso de Economia de diversas instituições, formados de 2015.

Tabela 1 - Proporção de Mulheres em Economia por Instituição

Fonte: Censo da Educação Superior 2010 (INEP/MEC).

A Figura 5 mostra a proporção de mulheres na gradu- Por fim, utilizamos dados administrativos da Universi-
ação em instituições de ensino superior de acordo com dade de São Paulo para analisar se há diferencial de gê-
a nota CAPES dos programas de pós-graduação em nero tanto no vestibular quanto ao longo da graduação.
Economia, uma proxy para a qualidade do curso ofere- As Figuras 6 e 7 mostram a classificação dos ingressan-
tes da FUVEST na FEA/USP e na graduação em Econo-
cido na instituição de ensino. Utilizamos os dados da
mia, respectivamente. Em média, os homens têm uma
Avaliação Trienal de 2013 da CAPES, que estava vigen-
classificação na FUVEST melhor do que as mulheres
te em 2015. Percebe-se que a participação feminina
(menor posição no ranking, o que indica melhores notas
decresce com a nota CAPES. Em instituições com a no vestibular), tanto considerando todos os cursos da
nota máxima (nota 7) a proporção média de mulheres FEA quanto somente Economia. É importante ressaltar
é 30%, enquanto em IES com nota 4 essa proporção é que em 2009 houve a unificação das carreiras da FU-
de 37%. VEST, por isso há uma descontinuidade no gráfico.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 19

Figura 5 - Parcela de Estudantes do Sexo Feminino na Graduação vs. Nota CAPES das Instituições de Ensino

Fonte: Censo da Educação Superior 2015 (MEC) e Avaliação Trienal da CAPES 2013.

Figura 6 - Classificação na FUVEST dos Ingressantes da FEA/USP

Fonte: Dados administrativos FEA/USP (JupiterWeb).

dezembro de 2017
20 temas de economia aplicada

Figura 7 - Classificação na FUVEST dos ingressantes de Economia

Fonte: Dados administrativos FEA/USP (JupiterWeb).

Apesar de entrarem com uma pior classificação no nota das mulheres ficou abaixo da nota dos homens.
vestibular, as mulheres que se formam em Economia Ademais, a diferença entre as notas é estatisticamen-
na FEA têm, em média, uma nota média levemente
maior do que os homens. Apesar de as notas serem te significativa a um nível de 10% em quase todos os
próximas, é relevante notar que somente em 2001 a anos.

Figura 8 - Evolução da Nota Média ao Longo da Graduação dos Concluintes em Economia na USP por Gênero

Fonte: Dados administrativos FEA/USP (JupiterWeb).

Quando analisamos algumas disciplinas obrigatórias alguns anos há diferenças expressivas em favor das
do curso de Economia é possível observar que as mulheres. Esse padrão ocorre em todas as disciplinas
mulheres obtêm, em média, maiores notas. Ambos os analisadas: Cálculo I e Cálculo II, Microeconomia I, Ma-
gêneros costumam ter notas muito próximas, mas em croeconomia I, Econometria I e Economia Brasileira.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 21

Figura 9 - Evolução da Nota Média ao Longo da Graduação dos Alunos de


Economia na USP por Gênero e Disciplina

a – Cálculo I

b – Cálculo II

dezembro de 2017
22 temas de economia aplicada

c – Microeconomia I

d – Macroeconomia I

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 23

e – Econometria I

f – Economia Brasileira

Fonte: Dados administrativos FEA/USP (JupiterWeb).

Em relação ao corpo docente do melhora significativa do cenário na área de Economia, especialmen-


Departamento de Economia, a par- apresentado há 40 anos. Em 1970, te quando comparamos com as
cela de professoras vem crescen- as mulheres compunham apenas outras ciências sociais aplicadas.
do desde a década de 1970, como 10% do departamento, valor que Apesar de algumas instituições de
podemos observar pela Figura 10. caiu para 6% em 1972, atingindo ensino terem maior proporção de
Contudo, esse percentual ainda é seu ponto mais baixo. mulheres em seu corpo discente
muito baixo, pois em 2016 as mu- de Economia que a Universidade
lheres representavam apenas 22% A partir da análise dos dados bra- de São Paulo, mulheres são mino-
dos professores. Por outro lado, sileiros, é possível perceber que as ria entre os matriculados na área,
esse percentual representa uma mulheres são sub-representadas sendo uma parcela de 39% dos

dezembro de 2017
24 temas de economia aplicada

estudantes do sexo feminino. Outra faceta dessa sub- O grupo EconomistAs pretende fazer estudos sobre
-representação é a parcela de professoras, que, pela
esse tema, a fim de compreender melhor as causas da
falta de dados disponíveis, infelizmente, observamos
somente no Departamento de Economia da Universi- baixa participação feminina em Economia, preenchen-
dade de São Paulo, a partir de dados administrativos.
do uma lacuna da literatura sobre estudos de gênero
Na USP, as mulheres representam cerca de um quinto
do corpo docente. na carreira de economista no Brasil.

Figura 10 - Parcela de Professores do Sexo Feminino no Departamento de Economia da FEA/USP

Fonte: Dados administrativos FEA/USP.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 25

1 https://www.aeaweb.org/about-aea/committees
2 http://www.cwen-rfe.org/
3 http://www.res.org.uk/view/womensComm.html
4 https://www.eeassoc.org/index.php?site=&page=192&trsz=20 Fabiana Fontes Rocha concluiu doutorado em Economia pela Uni-
versidade de Illinois em 1995 e atualmente é professora titular no
5 http://www.aaawe.org/about/who-we-are/
Departamento de Economia da Universidade de São Paulo. Graduou-
6 https://scholar.harvard.edu/goldin/uwe se em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1984),
possui mestrado em Economia pela Universidade de São Paulo (1989).
7 http://esawen.org.au/about-us-item/22740/wen-committees
Trabalha principalmente na área de economia do setor público, tanto
em questões macroeconômicas como microeconômicas.

Paula Pereda concluiu doutorado em Economia na Uni-


versidade de São Paulo (USP) e atualmente é professora associada
do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo. Foi
(*) Grupo EconomistAs – Site: <http://www.usp.br/bwe>. Consultora convidada do Banco Interamericano de Desenvolvimento
E-mail: bwe@usp.br. Pesquisadoras: Maria Dolores Montoya Diaz (BID) entre 2009 e 2013 e também Professora Titular e Coordenadora
(madmdiaz@usp.br), Fabiana Fontes Rocha (frocha@usp.br), Paula Acadêmica da Faculdade de Administração da Fundação Armando
Pereda (pereda@usp.br) e Renata Narita (rnarita@usp.br). Colabo- Alvares Penteado. Pesquisa temas de microeconomia aplicada com
radoras: Bruna Borges (doutoranda da FEA-USP; bruna.pugialli. foco na avaliação de políticas públicas. É membro da Sociedade de
borges@usp.br), Natalie Martins (graduanda da FEA-USP; natalie. Econometria Internacional (Econometric Society) e Nacional (SBE).
martins@usp.br) e Fernanda Moro (graduanda da FEA-USP; fernanda.
barbosa.moro@usp.br). Renata Narita concluiu doutorado em Economia na Univer-
Perfil dos membros: sity College London e atualmente é Professora Associada no Departa-
Maria Dolores Montoya Diaz concluiu o doutorado em Eco- mento de Economia da Universidade de São Paulo (USP). Sua pesquisa
nomia pela Universidade de São Paulo em 1997 e atualmente é profes- concentra-se nos mercados de trabalho dos países em desenvolvi-
sora titular no Departamento de Economia da Universidade de São mento. Em particular, ela estima modelos de busca de equilibrium
Paulo (FEA-USP). Foi professora associada em Economia pela FEA- search para avaliar o impacto das políticas governamentais (imposto,
USP em 2003 e professora do Departamento de Economia da FEA-RP benefícios de trabalho, execução do trabalho legal) em bem-estar,
/ USP de 1997 a 2010, onde foi presidente da Comissão do Programa emprego, informalidade e salários. Já trabalhou como consultora do
de Graduação entre 2004 e 2006. Foi editora do jornal brasileiro Banco Mundial.
Economia Aplicada de agosto de 2004 a agosto de 2006; também é
editora do jornal Estudos Econômicos. Os interesses de pesquisa de Bruna Borges é aluna de doutorado de Economia da Univer-
Diaz incluem Economia da Educação, Economia da Saúde e Economia sidade de São Paulo. Natalie Martins e Fernanda Moro são alunas de
do Trabalho. graduação em Economia da Universidade de São Paulo.

dezembro de 2017
26 temas de economia aplicada

Indicadores da Performance do Gerenciamento da Dívida


Pública
Gabriel Dolhnikoff Jardanovski (*)

1 Introdução em oferecer proteção (hedge, no seria capaz de respeitar sua


ou insurance) ao orçamento restrição orçamentária inter-
O gerenciamento da dívida pú- público contra choques fiscais temporal sem ajustar a carga
blica tem impor t ante papel adversos, de forma a suportar a tributária. Em contrapartida,
sobre a distribuição dos tri- suavização da carga tributária governos cujo perfil da dívida não
butos at ravés do tempo. Ao (tax smoothing) ou estabilizar é capaz de completar o merca-
escolher a indexação, prazo de a relação dívida/PIB. Chama- do se veem obrigados a ajustar
maturação e moeda de deno- remos essa propr iedade de a carga tributária na presença
minação dos títulos emitidos, segurança fiscal e a tomaremos de inovações fiscais na medida
o setor público está, implicita- como métrica para analisar a em que os papeis em carteira
mente, determinando a forma qualidade da estratégia de fi- não oferecem segurança plena
com que o retorno dos títulos se nanciamento implementada. ao orçamento público.
comportará em estados futu-
ros da economia. Na presença Os indicadores propostos ex- Partindo das conclusões teóri-
de choques fiscais adversos, o ploram como os preços dos tí- cas da literatura que discute
comportamento dos retornos tulos negociados em mercado a política fiscal ótima, Fara-
da dívida implica mudanças respondem a choques fiscais glia, Marcet e Scott (2008) (FMS,
na carga tributária para que o expansionistas. No caso de má- daqui em diante) propõem in-
governo cumpra sua restrição xima segurança fiscal, cenário dicadores capazes de apontar
orçamentária intertemporal. aqui denominado de mercados em que grau os retornos da dívi-
A atividade de gerenciamento completos, os Preços Unitários da pública atuam como canais
da dívida pública, aqui com- (PUs) ser iam per feit amente de financiamento para o orça-
preendida como o desenho correlacionados com as reali- mento federal. Neste Boletim,
de estratégias para a escolha zações fiscais. Mais especifica- apresento esses indicadores e
das características dos títulos mente, seriam negativamente discuto como aplicá-los para o
a serem emitidos, é, portanto, covariados com aumentos não contexto brasileiro. Este texto
intimamente ligada à política antecipados de gastos públicos será seguido por outro, a ser
fiscal que será implementada e/ou quedas na arrecadação, de publicado na próxima edição
em períodos futuros. forma que os retornos obtidos do Boletim, em que avaliarei
com a carteira de títulos públi- empiricamente a performan-
Entre os vários possíveis ob- cos fossem negativos e, assim, ce do gerenciamento da dívi-
jetivos do setor público ao es- absor vessem o aumento das da pública federal brasileira
truturar o perfil da dívida,1 a necessidades de financiamen- através da estimação desses
literatura recente enfatiza o to do governo. Em mercados indicadores para o período
papel dos retornos dos títulos completos, portanto, o gover- 2002-2016.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 27

Este estudo parte da literatura a ocorrência de transferên- ao menos fazê-lo indiretamen-


de política fiscal ótima que, ao cias não distorcivas entre o te através de títulos prefixados,
se debruçar sobre o proble- governo e o setor privado e indexados à variação cambial,
ma de distribuição temporal controlasse, assim, o nível de ao nível de preços ou a taxas
de impostos, privilegia a su- receita a ser obtido através de de juros flutuantes. A questão
avização da carga tributária impostos distorcivos (LUCAS; que se coloca, portanto, é como
3
como estratégia maximizadora STOKEY, 1983). Instrumentos a carteira de títulos emitidos
de bem-estar. Se não são lump financeiros cujos retornos são pelo setor público pode servir
sum, os impostos distorcem a perfeitamente contingentes como proteção para os diferen-
alocação dos recursos na eco- aos est ados fut uros da eco- tes choques que afetam a eco-
nomia ao gerar pesos-morto. nomia, entretanto, não estão nomia. Ainda que sirvam como
O objetivo de um planejador à disposição de policy makers. importantes princípios nor-
central benevolente, portanto, Como analisado em Calvo e Gui- teadores, esses trabalhos ofe-
deveria ser o de minimizar os dot t i (1990) e Bohn (1990), a recem um guia limitado para
custos associados à geração emissão de títulos cujos ren- a atuação de policy makers. En-
dessas distorções. A estraté- dimentos var iam confor me quanto os benefícios da suavi-
gia ót ima visaria a tor nar a o nível de gastos do governo, zação da carga tributária são
relação impostos sobre renda por exemplo, poderia gerar um amplamente aceitos, definir
nacional constante através do problema de risco moral, já que os instrumentos através dos
tempo − ou, na terminologia seria possível ao governo afetar quais se vai ao encontro dessa
original, suavizar a carga tri- ex-post a taxa de retorno do es- meta é motivo de controvérsia.
2
butária (BARRO, 1979). Nesse toque da dívida. Por outro lado,
sentido, diante da incerteza é fácil compreender por que a Uma abordagem alternativa
com relação à trajetória das fi- emissão de papéis com retor- à questão, portanto, envolve
nanças públicas, a contingência nos indexados à realização da avaliar ex-post a habilidade de
das taxas de retorno da dívida a renda nacional é praticamente uma determinada estratégia
estados futuros da economia inviável quando se considera de gerenciamento da dívida em
desempenha papel fundamen- os atrasos e reestimações pelas prover maior segurança fiscal
tal na habilidade do governo quais passa a mensuração do para o orçamento público. Esse
em respeitar a sua restrição PIB, bem como a falta de liqui- trabalho busca contribuir com
orçamentária intertemporal dez no mercado internacional esse ramo da literatura apre-
de forma a realizar os menores para instrumentos financeiros sent ando ev idências para a
ajustamentos possíveis sobre a desse gênero (MISSALE, 2012). economia brasileira.
relação tributo/PIB.
Por essa razão, há uma litera-
A estrutura ótima da dívida t ura ex tensa que discute o 2 Indicadores
pública apresentaria baixo re- papel da emissão de t ít ulos
torno frente a estados da eco- convencionais na estruturação Os i n d ic a dore s pr op o s t o s
nomia em que a arrecadação de uma trajetória eficiente de podem ser divididos em duas
tributária é menor e/ou em taxação. Se não há como contin- classes. Em um primeiro mo-
que o nível de gasto do governo genciar perfeitamente os re- mento apresento estatísticas
é maior do que o esperado, tornos dos títulos aos estados motivadas pelas conclusões da
de forma que tornasse viável futuros da economia, é possível literatura que assume como

dezembro de 2017
28 temas de economia aplicada

objetivo do governo a suaviza- FMS realizam simulações de ra se aproximasse ao máximo


ção da carga tributária. Depois, Monte Carlo sobre um modelo daquele observado em merca-
analiso indicadores baseados Real Business Cycles (RBC) ca- dos completos. Para construir
no comportamento da restri- nônico em que um pla neja- os indicadores de performance
ção orçamentária do governo, dor de Ramsey escolhe a carga da dívida pública, nos basea-
a saber: tributária com o objetivo de remos nas conclusões do tra-
minimizar os custos distorci- balho de Marcet e Scott (2009),
(1) vos associados, e o faz sob dois que analisam um planejador
cenários distintos: mercados Ramsey que maximiza o bem-
ou completos e incompletos. Se a -estar de um consumidor re-
distribuição de um determi- presentativo sob esses dois ce-
(2) nado indicador é suficiente- nários distintos, de mercados
mente diferente entre os dois completos e incompletos. No
em que é o valor de mercado cenários, então ele é um bom primeiro caso, o governo tem
da dívida, representa o déficit instrumento para avaliar o grau acesso a um vetor de infinitos
primário e é o retorno total de seg uranç a fiscal quando títulos contingentes a estados
de um período dos títulos (inclui aplicado a dados reais. Dos sete futuros da economia, enquan-
pagamento de cupons e ganhos de indicadores propostos pelos to no seg undo cenár io só é
capital), todos observados no perí- autores, quatro se mostram sa- possível ao governo emitir um
odo . e denotam a razão da tisfatórios − três pertencentes título livre de risco com matu-
dívida e do primário com relação à primeira classe e apenas um ração de um período. As dife-
ao PIB, respectivamente, e éa pertencente à segunda classe. renças cruciais induzidas pelas
taxa de retorno ajustada pelo cres- Optei por estimar apenas esses duas estruturas de mercado de
cimento do produto ( ). quatro indicadores, que apre- títulos são:
Essa segunda classe de indicadores sento a seguir.
nos permitirá discutir o papel do • sob mercados incompletos,
gerenciamento da dívida pública em a série do valor de mercado
a Suavização da Carga Tribu-
estabilizar a relação dívida/PIB.
tária dívida apresenta maior per-
Ao final deste texto discuto em sistência que outras variáveis
Como discutido anteriormente, endógenas, como carga tribu-
que medida essas duas classes
para suavizar a carga tributária
de indicadores se complemen- tária, gastos do governo, pro-
através do tempo o gerencia-
tam − isto é, como que se dá o duto e resultados primários.
mento da dívida deve garantir
compor t amento da relação Sob mercados completos,
covariâncias negativas entre
dívida/PIB através do tempo
o retorno da dívida e choques apresenta menor persistên-
quando o governo busca mini-
fiscais adversos. Ausentes títu- cia;4
mizar os pesos-morto advin-
los perfeitamente indexados
dos da taxação.
aos resultados fiscais futuros, • sob mercados completos
o gover no passar ia ent ão a e com um governo otimiza-
A fim de avaliar a habilidade
gerenciar a emissão de títulos
dos indicadores propostos em dor de bem-estar o valor de
convencionais de forma que o
mensurar a qualidade do ge- mercado da dívida pública
comportamento de sua cartei-
renciamento da dívida pública, diminui em resposta a au-

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 29

mentos no déficit primário. ficit primário pode ser obtida governo cai de forma que o valor
Por outro lado, sob mercados pelas seguintes estatísticas: de mercado da dívida se iguala
incompletos a dívida varia na ao valor presente esperado dos
(4) agora reduzidos superávits pri-
mesma direção dos déficits
mários futuros. Em contraste, sob
primários. mercados incompletos o governo
e
deve aumentar a carga tributária
A partir dos resultados expos- para compensar a elevação no dé-
tos ant er ior ment e, os indica- (5)
ficit primário, aumentando assim
dores apresentados a seguir o valor dos superávits primários
buscarão avaliar as estratégias em que a equação (5) difere da
futuros e o nível de endividamento.
de gerenciamento da dívida pú- (4) apenas por ser nor mali-
Se denotarmos como um cho-
blica observando: i) a persis- zada pelo grau de persistên-
que fiscal ortogonal ocorrido no
c ia do resu lt ado pr imá r io.
tência relativa entre as séries período , então temos a seguinte
Quanto maior a estimativa de
de valor de mercado da dívida medida de impacto dos choques
pior a performance
pública e séries de déficit pri- fiscais no valor de mercado da dí-
da administração da dívida e
mário e ii) a resposta do valor vida:
valores negativos de indi-
de mercado da dívida pública a
cam hedge total.
um choque fiscal com relação à (6)
resposta do déficit primário a
esse mesmo choque. i.i Medida de Impacto
que mensura a razão entre o
A segunda propriedade que dis- impacto dos choques fiscais
i Testes de Persistência crimina resultados obtidos em sobre o valor de mercado da
mercados completos daqueles de dívida e o impacto do mesmo
Para medirmos a persistência mercados incompletos é a forma choque sobre o resultado pri-
relativa entre duas séries con- com que o valor de mercado da már io. Se esse indicador for
sidere a seguinte estatística, dívida responde a choques fiscais negativo (ou nulo), podemos
que denota a persistência da adversos. Sob mercados comple- concluir que a estratégia de ge-
variável y com relação a k defa- tos um aumento persistente e não renciamento da dívida pública
sagens: antecipado do déficit fiscal leva a se aproxima daquela obtida em
uma redução no valor de mercado mercados completos. Se o in-
(3) da dívida, enquanto sob mercados dicador for positivo, o perfil da
incompletos o valor de mercado da dívida será tão mais distante do
dívida aumenta. A intuição parte resultado de mercados com-
Se for estacionária então da ideia de que o valor de mercado pletos quanto maior for (6). É
e, da dívida se iguala ao valor presen- importante notar que men-
por t anto, confor me te esperado dos resultados primá- sura como o valor de mercado
; c a so seja i.i.d ., rios futuros. Sob mercados com- da dívida depois de financiado o
então = e caso a série pletos um choque fiscal adverso déficit corrente responde a ino-
tenha raiz unitária. Portanto, a não é acompanhado de aumentos vações no déficit primário cor-
persistência relativa do valor de na carga tributária. Em vez disso, rente. Em outras palavras, ele
mercado da dívida frente ao dé- o preço dos títulos em carteira do examina como a dívida ao final

dezembro de 2017
30 temas de economia aplicada

do período responde ao déficit as taxas de retorno sobre a dívida e déficits primários, como mos-
obtido no decorrer do período. tram FMS.

O último indicador proposto se atém a essa propriedade comum.


b Estabilização da Dívida
O conceito de segurança fiscal discutido no presente trabalho
abrange a ideia de que o gerenciamento da dívida é capaz de com-
A seção anter ior discut iu o
pensar, ao menos em parte, os impactos de maiores déficits pri-
papel do gerenciamento da dí-
mários no valor de mercado da dívida. Sendo assim, se tomarmos
vida pública em suportar uma
como referência a equação (2), isso envolve estruturar o perfil da
política fiscal ótima, entendi-
dívida de forma que varie em sentido contrário a . Ao se resolver
da como aquela que suaviza
recursivamente (2), temos que:
a carga tributária através do
tempo. Nesta seção, apresento
(7)
um indicador capaz de avaliar
a performance da estratégia
de gerenciamento tomando
como objetivo do governo a e .
estabilização da dívida. Essa equação define o nível da dívida pública/PIB no período como:

Recent ement e, um nú mero a. o nível da dívida no momento t multiplicada pela taxa de retorno
considerável de países adotou composta dos períodos subsequentes
regras fiscais que envolvem, di-
reta ou indiretamente, tetos
b. mais o somatório de todos os déficits primários futuros multi-
ou metas para o nível de en-
plicados pela taxa de retorno composta.
dividamento. No Brasil, a dis-
cussão também ganhou força
O impacto de um choque fiscal exógeno sobre o valor de mercado da
nos últimos anos. A definição de
dívida, portanto, pode ser expresso como:
estabilidade da dívida pública,
5
entretanto, não é consensual.
É possível interpretar “dívi- (8)
da estável” como um proces-
so estocást ico da dívida em
Isto é, o impacto de um choque fiscal exógeno sobre o valor de mer-
que há reversão à média. Da
cado da dívida é dado por:
mesma forma, o conceito de
estabilidade da dívida também a. um termo refletido como o total dos retornos sobre o valor de mercado
abrange casos em que o gover- da dívida nos períodos considerados se altera devido ao choque fiscal
no busca minimizar flutuações - . .
em torno de uma determinada
b. um termo que denota a mudança no custo de financiamento dos déficits
meta para o nível de endivida-
primários futuros devido ao choque fiscal - .
mento. Qualquer que seja o ob-
jetivo do governo, entretanto, a c. um termo que reflete impacto do choque sobre os valores dos primários
estratégia envolverá explorar futuros - .
uma covariância negativa entre

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 31

Caso o perfil de retornos da dívida rece nenhuma segurança fiscal. se complementam. Esperaríamos
pública não respondesse aos cho- Em contraste, se , o valor chegar às mesmas conclusões a
ques fiscais observados, situação de mercado da dívida não apresenta respeito da performance do ge-
esta em que não haveria hedge qualquer variação em resposta a um renciamento da dívida a partir
algum ao orçamento público, a de- choque fiscal porque os preços dos dessas duas classes de indicadores
rivada parcial do valor de mercado títulos caem de forma a compen- apenas se f lutuações na relação
da dívida de períodos futuros sar a elevação dos déficits e assim VM/PIB fossem correlacionadas
com relação ao choque fiscal exó- manter a dívida estável. Note que com flutuações nos pesos-morto
geno seria para o caso de mercados completos advindos da taxação. A partir das
o valor de mercado da dívida cai mesmas simulações que os autores
contemporaneamente ao choque utilizaram para avaliar a eficácia
(9)
fiscal, de forma que , mas dos indicadores propostos em di-
aumenta em seguida. Interpreta- ferenciar cenários de mercados
em que éo -ésimo coe- rei resultados de entre e completos e incompletos, FMS ata-
ficiente do polinômio . Isto como indicação de algum nível de cam esse problema ao avaliarem
é, o valor de mercado da dívida segurança fiscal, em que o valor de o comportamento de sob um
aumentaria apenas de acordo com mercado da dívida aumenta, mas planejador de Ramsey que escolhe
o efeito do choque sobre os primá- em magnitude menor que aquela a carga tributária a fim de mini-
rios futuros, sem qualquer respos- que observaríamos caso as mu- mizar custos distorcivos e o faz
ta por parte dos retornos da dívida. danças nas taxas de retorno não t anto sob mercados completos
Ao compararmos (8) e (9) obtemos compensassem em nada o efeito quanto sob mercados incompletos.
o último indicador de segurança acumulado sobre os déficits fiscais. Os autores concluem que é possível
fiscal: É possível ainda que obtenhamos traçar conclusões a respeito da
, no qual a dívida responde estabilidade da dívida a partir do
em maior magnitude que o impacto comportamento da volatilidade da
(10) acumulado sobre os déficits fiscais. carga tributária e vice-versa. Mas
Observaríamos esse resultado caso a relação entre esses dois fenôme-
o retorno composto sobre o esto- nos deve ser tomada com cautela.
Essa estatística 6 é a razão entre que inicial da dívida respondesse Segundo eles,
a variação estimada no valor de adversamente ao choque fiscal, o
mercado da dívida em resposta a que poderia ocorrer em economias • Suavizar a carga tributária não
um choque fiscal (a partir de uma nas quais os investidores passam produz completa estabilidade da
função impulso-resposta (FIR)) e a demandar um maior prêmio de dívida e, portanto, evidência de
o aumento na dívida que se obteria risco conforme a dívida aumenta, grande volatilidade na relação dí-
caso se acumulasse integralmente de forma que os custos de financia- vida/PIB não implica inexistência
o efeito sobre os resultados fiscais mento se elevam quando o déficit
de mercados completos.
futuros. Caso , então o valor aumenta.
de mercado da dívida aumenta no
• Para uma mesma estrutura eco-
mesmo montante que os resulta- A princípio, não está claro se a
dos fiscais futuros acumulados estatística e aquelas motivadas nômica, mercados completos
através do tempo e, portanto, o pela literatura de taxação ótima, tornam a série da dívida menos
gerenciamento da dívida não ofe- apresentadas na seção anterior, volátil. Portanto, perfis da dívida

dezembro de 2017
32 temas de economia aplicada

que promovam maior estabilidade da dívida também FARAGLIA, E.; MARCET, A.; SCOTT, A. Fiscal insurance and debt
7 management in OECD economies. Economic Journal, v.
são indicativos de maior segurança fiscal. 118, n. 527, p. 363-386, 2008. ISSN 00130133. Disponível
em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1468-
• Gerenciar a dívida visando a suavização da carga tri- 0297.2007.02125.x/pdf>.

butária pode ter um importante papel em auxiliar no GIVAZZI, F.; MISSALE, A. Public debt management in Brazil. In: GIA-
VAZZI, F.; GOLDFAJN, I.; HERRERA, S. (Ed.). Inflation targeting, debt,
cumprimento de regras fiscais que envolvam metas and Brazilian experience, 1999 to 2003. Cambridge, MA: The MIT
para o nível de endividamento. Press, 2005. cap. 4, p. 117-156. Disponível em: <http://www.nber.
org/papers/w10394>.
Em conclusão, os resultados das simulações condu- GOLDFAJN, I. Public debt indexation and denomination: the case of
zidas indicam que, independentemente do objetivo Brazil. IMF Working Paper, v. 98, n. 18, 28 p., 1998. ISSN 1556-5068.
Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1016/j.jet.2008.06.009>.
do órgão gerenciador da dívida, os indicadores de
performance propostos preservarão a ordem em que LUCAS, R. E.; STOKEY, N. L. Optimal fiscal and monetary policy
in an economy without capital. Journal of Monetary Eco-
ranquearemos as carteiras analisadas. O valor em ter- nomics, v. 12, n. 1, p. 55-93, jan. 1983. ISSN 03043932. Dis-
mos absolutos da medida $\Phi_{j}$ parece ser pouco ponível em: <http://linkinghub.elsevier.com/retrieve/
informativo a respeito da qualidade da estratégia de pii/0304393283900491>.
financiamento. Ainda assim, para uma mesma estru- MARCET, A.; SCOTT, A. Debt and deficit fluctuations and the struc-
tura econômica, interpretaremos resultados favorá- ture of bond markets. Journal of Economic Theory, Elsevier
Inc., v. 144, n. 2, p. 473-501, 2009. ISSN 00220531. Disponível
veis a um comportamento sustentável da dívida como
em: <http://dx.doi.org/10.1016/j.jet.2008.06.009>.
indicativos de melhor gerenciamento da dívida, seja
MISSALE,A. Public debt management. New York, NY: Oxford Univer-
sob a perspectiva de suavização da carga tributária,
sity Press, 1999. 309 p. ISBN 9780198290858.
seja sob a perspectiva de estabilização da dívida.
MISSALE, A. Sovereign debt management and fiscal vulner-
abilities. In: BIS (Ed.). Threat of fiscal dominance? Basel:
Referências Bank for International Settlements, 2012. p. 157-176. ISBN
3925032150. Disponível em: <http://papers.ssrn.com/
sol3/papers.cfm?abstract{\_}id=2081>.
BARRO, R. J. On the determination of the public debt. Journal of NECK, R.; STURM, J.-E. Sustainability of public debt. Cambridge,
Political Economy, v. 87, n. 5, p. 940-971, 1979. ISSN 0022-3808. MA: The MIT Press, 2008. ISBN 9780262140980. Dis-
Disponível em: <http://nrs.harvard.edu/urn-3:HUL. ponível em: <http://mitpress.universityscholarship.com/
InstRepos: 3451400>. view/10.7551/mitpress/9780262140980.001.0001/
upso-9780262140980>.
BENASSY, J. P. Macroeconomic Theory. Oxford, UK: Oxford University
Press, 2011. 608 p. ISBN 9780195387711. Disponível em: <http://
EconPapers.repec.org/RePEc:oxp:obooks. 978019538771>.
BOHN, H. A positive theory of foreign currency debt. Journal of 1 Ver Missale (1999) para uma revisão a esse respeito.
International Economics, v. 29, n. 3-4, p. 273-292, nov. 1990.
2 Barro (1979) assume uma função que descreve a “produção” de
ISSN 00221996. Disponível em: <http://linkinghub.else- pesos-morto a partir da taxação. A função é decrescente em (produto
vier.com/ retrieve/pii/002219969090034J>. nacional) e apresenta retornos crescentes a taxas crescentes com
CALVO, G. A.; GUIDOTTI, P. E. Credibility and nominal debt: explor- relação a (tributos arrecadados). Consequentemente, períodos de
elevação da carga tributária oneram de forma mais que proporcional
ing the role of maturity in managing inflation. Staff Papers
a renda nacional. A estratégia ótima, assim, deveria manter a relação
(International Monetary Fund), v. 37, n. 3, p. 612-635, 1990. constante. Ver Benassy (2011, p. 419) para uma microfundamen-
Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/3867267>. tação do modelo de Barro (1979).
D’ERASMO, P.; MENDOZA, E. G.; ZHANG, J. What Is Sustainable Public 3 Lucas e Stokey (1983) discutem, ainda, o papel do gerenciamento
Debt? NBER Working Paper Series, v. 2, sep. 2015, p. 1-78, 2015. da dívida em assegurar consistência temporal por parte do governo.
ISSN 1098-6596. Este trabalho não aborda essa questão.

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 33

4 Como aponta FMS, o resultado de Marcet e Scott (2009) baseia-se na


hipótese de que o governo segue a política fiscal ótima. É possível que,
a despeito de uma gerência ruim da dívida, o governo ajuste o resul-
tado primário de forma a reduzir a persistência da dívida. Nesse caso,
a persistência da dívida não seria um bom indicador para a qualidade
de seu gerenciamento. Por isso, testes de raiz unitária sobre a série
da dívida soberana não serão interpretados como conclusivos para
avaliar o grau de segurança fiscal obtido. Contornaremos esse pro-
blema examinando a persistência relativa da dívida em comparação
com o resultado primário.
5 Para um tratamento detalhado ver D’Erasmo, Mendoza e Zhang
(2015) e, sobretudo, Neck e Sturm (2008).
6 Para esse indicador adotei, também, o ajuste realizado por FMS.
Porque os coeficientes no polinômio do operador de defasagem
dependem da taxa de retorno ajustada pelo crescimento do
PIB e esta medida é variável no tempo, a medida de segurança fiscal
é ela própria variável no tempo. Para contornarmos esse problema
usamos a média amostral de ao estimar (10) e denotamos
a estatística adaptada por .
7 Esse resultado será importante para discutirmos as evidências obti- (*) Bacharel em Ciências Econômicas pela FEA-USP.
das neste trabalho vis-à-vis os artigos que discutem a composição (E-mail: gjardad@gmail.com). Este trabalho é fruto da
ótima da dívida pública brasileira tomando como objetivo a sustenta- monografia de conclusão de curso na FEA, escrita
bilidade da dívida (GOLDFAJN, 1998; GIAVAZZI; MISSALE, 2005). sob orientação da Professora Fabiana Fontes Rocha.

dezembro de 2017
34 temas de economia aplicada

Relatório de Indicadores Financeiros1


Núcleo de Economia Financeira da USP – nefin-FEA-USP (*)

Em 02/jan/2012 foram (teoricamente) investidos R$ em ações de empresas com alta razão “valor contábil-
100 em quatro carteiras long-short tradicionais da -valor de mercado” e vendida em ações de empresas
literatura de Economia Financeira. O Gráfico 1 apre- com baixa razão; (4) Carteira Momento: comprada em
senta a evolução dos valores das carteiras. (1) Carteira
ações de empresas vencedoras e vendida em ações de
de Mercado: comprada em ações e vendida na taxa de
juros livre de risco; (2) Carteira Tamanho: comprada empresas perdedoras. Para detalhes, visite o site do
em ações de empresas pequenas e vendida em ações NEFIN, seção “Fatores de Risco”: <http://nefin.com.br/
em empresas grandes; (3) Carteira Valor: comprada risk_factors.html>.

Gráfico 1 – Estratégias de Investimentos (Long - Short) (02/01/2012 - 08/12/2017)

Tabela 1

 
Tamanho Valor Momento Mercado
 
Semana 0,73% 0,68% 1,29% 0,88%
Mês Atual 0,77% 0,81% 1,44% 1,19%
Ano Atual 34,26% 11,82% 20,15% 12,68%
2010-2017 -39,04% -30,68% 346,64% -31,39%

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 35

O Gráfico 2 apresenta a evolução histórica do dividend são ao risco), quando os investidores exigem retorno
yield do mercado acionário brasileiro: razão entre o esperado alto para investir no mercado, e baixa em
total pago de dividendos nos últimos 12 meses pelas momentos bons. A Tabela 2 apresenta o inverso do di-
empresas e o valor total das empresas hoje. Essa é vidend yield, conhecido como Razão Preço-Dividendo,
tradicionalmente uma variável estacionária (rever- de algumas empresas. Ordenam-se os papéis da última
te à média) e é positivamente correlacionada com o semana de acordo com essa medida e reportam-se
retorno futuro esperado dos investidores. Ou seja, é os papéis com as dez maiores e dez menores Razões
alta em momentos ruins (de alto risco ou alta aver- Preço-Dividendo.

Gráfico 2 – Dividend Yield da Bolsa (01/01/2009 - 08/12/2017)

Tabela 2

  Dez Maiores Dez Menores


 
  Papel Preço-Dividendo Papel Preço-Dividendo
 
1. DTEX3 1020,94 BBSE3 16,88
2. LAME4 735,29 BRSR6 18,97
3. MGLU3 534,56 ITSA4 19,26
4. ANIM3 419,52 GRND3 20,73
5. LINX3 338,63 MPLU3 22,46
6. MYPK3 277,11 CMIG4 22,48
7. GOAU4 264,07 HGTX3 23,21
8. GGBR4 226,01 ITUB4 24,07
9. NATU3 214,95 ENBR3 25,20
10. RADL3 192,50 CCRO3 25,53

dezembro de 2017
36 temas de economia aplicada

O Gráfico 3 apresenta a evolução histórica do short in- empresa. O short interest do mercado, apresentado no
terest do mercado acionário brasileiro e a taxa média gráfico, é a média (ponderada por valor) dos short in-
de aluguel de ações. O short interest de uma empresa terest individuais. A Tabela 3 reporta os cinco maiores
é dado pela razão entre a quantidade de ações em alu-
short interest individuais e taxas de aluguel da semana
guel e a quantidade de ações outstanding da empresa.
Mede assim o estoque de vendas a descoberto reali- passada, tanto em nível como primeira diferença (no
zadas com as ações da empresa, tendendo a ser maior caso deste último, são excluídos os papéis que tiveram
em momentos de expectativa de queda no valor da variação negativa).

Gráfico 3 – Mercado de Aluguel de Ações (01/01/2013 - 08/12/2017)

Tabela 3

  Cinco Maiores da Semana


 

  Short interest Taxa de Aluguel


 
1. ELPL3 10,74% TOTS3 25,27%
2. GFSA3 8,33% CPFE3 24,68%
3. GOAU4 7,67% MRFG3 22,17%
4. VLID3 6,81% BEEF3 17,63%
5. CPLE6 6,65% GFSA3 16,92%

  Variação no short interest Variação na taxa de aluguel


 
1. ELPL3 3,05% TPIS3 7,58%
2. GGBR4 1,08% MRFG3 7,27%
3. CRFB3 0,50% CPRE3 3,50%
4. GOLL4 0,48% EUCA4 2,55%
5. LAME4 0,43% OMGE3 2,42%

dezembro de 2017
temas de economia aplicada 37

O IVol-BR é um índice de volatilidade futura esperada O Gráfico 4A apresenta ambas as séries. O Gráfico
para o mercado acionário brasileiro. É derivado do 4B apresenta a diferença entre o índices, apurando
comportamento dos preços de opções sobre o IBOVES- assim a evolução da incerteza especificamente local.
PA. Já o VIX® é o índice de volatilidade futura espera- Para detalhes, visite o site do NEFIN, seção “IVol-Br”:
da para o mercado americano calculado pela CBOE®. <http://nefin.com.br/volatility_index.html>.

Gráfico 4 – Volatilidade Forward-Looking (01/08/2011 - 30/11/2017)

1 O NEFIN não se responsabiliza por qualquer dano ou perda oca- 2 VIX® e CBOE® são marcas registradas da Chicago Board Options
sionada pela utilização das informações aqui contidas. Se desejar Exchange.

reproduzir total ou parcialmente o conteúdo deste relatório, está


autorizado desde que cite este documento como fonte.

O Nefin agradece à FIPE pelo apoio financeiro e material na elaboração


deste relatório. (*) <http://nefin.com.br/>.

dezembro de 2017
38 pensando o Brasil

Produtividade Depende de Demanda1


Carlos Luque (*)
Simão Silber (**)
Roberto Zagha (***)

Paul Krugman observou que: “a inovações tecnológicas (motor a nomistas se debruçaram sobre a
produt iv idade não é t udo, ... é vapor, eletricidade, sistemas de questão. Há unanimidade de que a
quase tudo. Aumentos nos padrões tratamento de águas e esgotos); queda no crescimento da produti-
de vida de um país dependem … progressos institucionais (direitos vidade é grave, mas menos acordo
dos aumentos de quanto um tra- de propriedade, leis, bancos cen- sobre as causas. Estudos após es-
balhador produz por hora”.  Este trais); capital humano; abertura da tudos apontam miríades de razões:
quanto explica a diferença entre economia; bens públicos.  dívida pública alta, administração
os níveis de renda per capita entre pública ineficiente, baixos níveis de
o Brasil e países mais avançados. Em economias menos avançadas a escolaridade, falta de infraestrutu-
Entre 1760 e 1860, durante a Re- produtividade pode crescer a taxas ra, tributação pesada, empecilhos
volução Industrial na Inglaterra, a mais rápidas do que em países in- burocráticos, um ambiente de ne-
produtividade do trabalho cresceu dustrializados porque se beneficia gócios hostil ao setor privado etc.
mais de 1% ao ano. Nos Estados de inovações tecnológicas e institu-
Unidos, entre 1860 e começo dos cionais disponíveis.  É mais rápido Há dois problemas lógicos com este
anos 2000, cresceu 2% ao ano, i.e., aprender do que inventar.  Assim, diagnóstico: 1. Estes obstáculos
aumentou 16 vezes. Assim, os Esta- no período 1950-1980 a produti- não são novos. Eles vêm de longe.
dos Unidos chegaram a uma renda vidade do trabalho no Brasil cres- Existiam durante 1950-1980, pe-
per capita de $56.000 em 2015 ceu a uma taxa de quase 5% ao ríodo no qual a produt iv idade
($8.700 no Brasil). Aumentos de ano. Mas desde 1980 esta taxa foi cresceu rapidamente. Se não im-
produtividade são o resultado de negativa ou negligenciável. O que pediram o crescimento da produ-
evoluções complexas, entre outras: explica esta evolução? Muitos eco- tividade naquele período, por que

dezembro de 2017
pensando o Brasil 39

o impediram depois? 2. Todos os com experiência nos problemas de que explicam a baixa taxa de cres-
setores da economia fazem face aos crescimento e políticas econômi- cimento dos últimos 36 anos.
mesmos obstáculos. Entretanto, cas − Edmar Bacha fez parte desta
em alguns setores a produtividade Comissão −, incluindo dois prêmios Alavancar a demanda externa exige
cresceu a taxas altas. Num artigo Nobel em economia. O Relatório políticas econômicas orientadas a
recente no jornal O Estado de São da Comissão, o “Relatório sobre o este objetivo. Três são particular-
Paulo, José Roberto Mendonça de Crescimento”, fruto de dois anos mente importantes: 1. Uma taxa de
Barros nos lembra que, fruto de um de estudos e discussões, revê a câmbio competitiva e estável. Nos
esforço paciente ao longo de várias experiência das economias com últimos 36 anos, a taxa de câmbio
décadas, a produtividade do setor crescimento acelerado. O Relatório com comportamento errático e
agrícola ultrapassou as expectati- identifica a demanda externa como apreciada reduziu a produção de
vas mais otimistas. E recomenda um dos fatores-chave ao cresci- manufaturados. A agricultura e a
que a experiência do agronegócio mento de longo prazo. Enfatiza que mineração sofreram menos porque
norteie uma revisão das políticas a demanda interna é limitada pelo a partir de 1994 os preços interna-
do governo “para que a manufatura nível de renda do país e, portanto, cionais estiveram em alta. Além do
possa retomar protagonismo”. De mais, setores intensivos em recur-
não poderá oferecer aos produto-
fato, durante 2000-2013, período sos naturais têm uma vantagem
res domésticos mercado suficiente
no qual a produtividade agregada comparativa grande. Uma taxa de
para a expansão rápida e susten-
da economia cresceu a taxas negli- câmbio mais competitiva permitirá
tada da produção doméstica. Esta
genciáveis, e a do setor industrial que a indústria nacional compita
é uma conclusão fundamental. Por
caiu, a produtividade do setor agrí- com as importações e incentivará
maior que a economia brasileira
cola cresceu mais de 5% ao ano, a produção de manufaturados para
nos pareça, é apenas 3% da econo-
uma taxa altíssima. Similarmente, a exportação; 2. Um regime de im-
mia mundial. O mercado externo
a produtividade do setor de mine- portações aberto, o que requer re-
é muito maior do que o mercado
ração cresceu 1% ao ano, mais do dução das tarifas atualmente entre
interno. A exaustão do modelo de
que a produtividade agregada da as mais altas dos países emergen-
substituição de importações nos
economia. O que explica a diferen- tes e a eliminação de restrições não
anos 60 se deveu justamente ao tarifárias às importações como exi-
ça?
fato de que a demanda doméstica gências de conteúdo nacional.  Isto
A resposta é simples. A agricul- não oferecia oportunidades su- não somente criará melhor acesso
tura e a mineração têm deman- ficientes para manter o ritmo de aos insumos importados e tecno-
da assegurada. Produzem para o crescimento que começou nos anos logia como também aumentará
setor externo que oferece mercado 50. A abertura da economia no incentivos às exportações; 3. Uma
para tudo o que podem produzir. meado dos anos 60 e a estratégia infraestrutura que facilite as ex-
A demanda cria incentivos para o de crescimento baseada na expor- portações. 
investimento, e o investimento (em tação de manufaturados deram
máquinas, treinamento, tecnolo- um segundo alento, infelizmente Em síntese, aumentar a produti-
gia) faz com que a produtividade vítima da “segunda fase de subs- vidade requer que o país repen-
do trabalho aumente. Em 2006, tituição de importações” nos anos se o foco de suas políticas eco-
a Comissão sobre o Crescimen- 70, que aumentou as tarifas, apre- nômicas.  A prioridade dada aos
to e o Desenvolvimento, chefiada ciou a taxa de câmbio e descarrilou problemas fiscais e ao mercado
pelo vencedor do Prêmio Nobel a economia. O estrangulamento da do trabalho não é adequada aos
Michael Spence, reuniu 22 pessoas demanda externa é uma das razões desafios que a economia enfrenta.

dezembro de 2017
40 pensando o Brasil

As políticas em vigor, depois de estrangular a de-


manda externa, passaram a estrangular a demanda
interna. A menos que se abandonem as más ideias
que inspiraram as políticas econômicas atuais, o país
deverá aceitar taxas de crescimento baixíssimas,
“pibinhos” na expressão de Edmar Bacha.  Não há ra- (*) Professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e
cionalidade econômica que justifique esta trajetória. presidente da Fipe. (E-mail: cluque@usp.br).
(**) Professor da FEA-USP.
(E-mail: sdsilber@usp.br).
(***) Ex- Secretário da Comissão sobre o Crescimento
1 Artigo publicado anteriormente em Valor Econômico, 23/05/2017:
e o Desenvolvimento e diretor para a Índia, do Banco Mundial.
<http://www.valor.com.br/opiniao/4980070/produtividade-
depende-da-demanda>. (E-mail: nzagha@gmail.com).

dezembro de 2017
pensando o Brasil 41

Descobrindo Portugal1
Carlos Luque (*)
Simão Silber (**)
Roberto Zagha (***)

A e c onom i a p or t u g ue s a i lu s- da pública: 16% em 1992, 11,5% petividade internacional, não era


t r a   o   b em e   o m a l no mu ndo em 1995, 5,8% em 2000 e 4% em mais possível depois da adesão ao
das políticas macroeconômicas. 2001. Com crédito externo a taxas euro. 
Nos lembr a os per igos de su- de juros baixas, intermediado por
cumbir às ideias econômicas na bancos portugueses se endividan- Os desequilíbrios macroeconômi-
moda. Mostra os custos de decisões do no exterior sem muito cuidado, cos atingiram níveis dantes nunca
econômicas equivocadas e revela o o endividamento privado explodiu. vistos. O déficit externo, zero em
futuro da economia brasileira: O das famílias passou de 55% do 1995, subiu 8% do PIB nos anos
crescimento decepcionante e fi- PIB em 1995 para 150% em 2011, 1996-2011, um longo período para
nanças públicas frágeis. e o das empresas de 60% a 120%, um desequilíbrio tão grande. A
financiando a expansão do consu- queda da arrecadação seguiu a
Os fatos: durante o período 1960- mo e do investimento privado em queda do crescimento. Déficits fis-
2000 a renda per capita do por- bens duráveis, moradias e outros cais, modestos até 2000, subiram.
tuguês quintuplicou e a taxa de bens não comercializáveis. A dívida pública, 56% do PIB em
desemprego c aiu 4% . Desde 1990 e 48% em 2000, subiu 106%
2000, o crescimento foi baixo ou A partir de 2001, a taxa de cresci- em 2011 e 130% em 2016.
negativo. O PIB em 2016 estava mento do PIB e a da produtividade
ao nível de 2000, e a taxa de desem- caíram abruptamente. O econo- A  c r ise  f ina nceira  de 2008-
prego em 14%. mista Ricardo Reis, professor na 2009 mudou as percepções de
London Economic School, atribui risco. Em 2011, as agências clas-
Este drama econômico teve vá- a causa à intermediação financei- sificadoras de risco despertaram
r ias et apas: em meados dos ra ineficiente. Os bancos portu- e reduziram a nota da dívida por-
anos 1990, Portugal, membro do gueses financiaram despesas que tuguesa. Os juros subiram a níveis
Mercado Comum Europeu, decidiu aumentaram o bem-estar dos por- gregos. Portugal recorreu à “troi-
aderir ao euro. Os economistas tugueses, sem aumentar a pro- ka”: FMI, União Europeia e Banco
criticaram. Países com estrutu- dut iv idade da economia. O ex- Central Europeu.  Um programa de
ras econômicas muito diferen- -economista-chefe do FMI, Olivier ajuda financeira de 78 bilhões de
tes não satisfazem as condições que Blanchard, salienta que, estimula- euros em 3 anos foi baseado em
a teoria econômica diz serem ne- dos pelo aumento da despesa pri- medidas fiscais contracionistas,
cessárias a uma moeda única. Os vada e pela queda do desemprego, reformas estruturais do mercado
políticos ignoraram. A adesão ao os salários nominais aumenta- de trabalho e do sistema financeiro
euro foi adiante.  ram a taxas acima do crescimen- e modernização da administra-
to da produtividade a partir de ção pública. Uma “desvalorização
O primeiro resultado foi queda 2001. A desvalorização do escudo, fiscal”, i.e., uma redução de impos-
dos juros sobre títulos da dívi- que teria corrigido a perda de com- tos sobre os salários compensa-

dezembro de 2017
42 pensando o Brasil

da por um aumento de impostos qual permanecerá até 2021, man- se realizou em Portugal, nem vai


sobre consumo foi considerada tendo assim Portugal vulnerável a se realizar no Brasil. A esperança
politicamente inviável porque o uma crise financeira. de uma contração fiscal expansio-
imposto já era elevado.  nista continua sendo uma ilusão.
A experiência de Portugal ilustra Finalmente, as reformas estrutu-
A renegociação da dívida foi des- o perigo da abertura financeira rais devem ser ajustadas à situa-
cartada pela troika. O risco de desenfreada. Como puderam os ção macroeconômica. No Brasil,
contágio era alto num período de bancos estrangeiros continuar a distorção mais importante no
turbulências financeiras. A ênfa- a emprestar a Portugal durante mercado de trabalho é a regra de
se foi fiscal: aumentos de impostos 1995-2011 com um déficit exter- ajuste do salário mínimo, sem rela-
e cortes de 5% dos salários do fun- no altíssimo? Estavam confian- ção com o crescimento da produti-
cionalismo seguidos pelo congela- tes que no final seriam ressarci- vidade. Corrigir esta anomalia não
mento dos salários e aposentado- dos pelos governos, como de fato faz parte das reformas atuais.
rias, e pela suspensão dos projetos foram. 
de infraestrutura. Os dirigentes econômicos no Brasil
A experiência portuguesa também atribuem a falta de resultados do
Com estas medidas, Portugal redu- nos lembra o quanto o Brasil se programa econômico à crise polí-
ziu os desequilíbrios externos ao beneficiou por resistir à dolari- tica. A experiência portuguesa nos
custo de uma recessão severa, reca- zação da economia. No final dos lembra que um programa focado
pitalizou os bancos com os fundos anos 90, o FMI e economistas in- numa contração fiscal num con-
da “troika” e restabeleceu o acesso ternacionais pressionaram o Bra- texto recessivo não pode levar ao
ao crédito externo a partir de 2014. sil para adotar o modelo de paí- crescimento nem à estabilização
A redução dos direitos dos traba- ses que abandonaram sua moeda da dívida pública. A dívida pública
lhadores e dos sindicatos tornou o (Portugal) ou adotaram uma taxa brasileira, de 78% do PIB em 2016,
mercado de trabalho mais flexível, de câmbio fixa (Argentina). A de- deverá chegar a 93% em 2021 e as
mas não reduziu o desemprego. cisão de manter a moeda nacional taxas de crescimento continuarão
A taxa de crescimento não se recu- e a flexibilidade da taxa de câmbio decepcionantes. Esta situação não
perou: as projeções do FMI são de evitou ao país custos econômicos resulta da crise política, mas de
que permanecerá ao redor de 1% dramáticos.  políticas econômicas equivocadas.
ao ano com um desemprego acima
de 10% até 2021, ou seja, 21 anos Ironicamente, o Brasil não se bene-
de crescimento decepcionante e ficiou desta flexibilidade. Deixou a
1 Artigo publicado anteriormente em Valor
desemprego alto. Numa entrevista taxa de câmbio se valorizar, redu- Econômico, 18/07/2017: <http://www.
recente, Olivier Blanchard sugeriu zindo a exportação de manufatu- valor.com.br/opiniao/5042288/descobrin-
do-portugal>.
que seria tempo de expandir os ras e penalizando a indústria na-
gastos públicos em infraestrutura.  cional. 
(*) Professor da Faculdade de Economia e
A situação fiscal é preocupante. Outra lição é a futilidade de tentar Administração da USP e presidente da Fipe.
(E-mail: cluque@usp.br).
Apesar da contração fiscal, as con- reduzir desequilíbrios fiscais sem (**) Professor da FEA-USP.
tas fiscais continuam frágeis. A dívi- uma estratégia de crescimento. A (E-mail: sdsilber@usp.br).
da pública projetada pelo FMI, 106% esperança de que o investimento (***) Ex- Secretário da Comissão sobre o
Crescimento e o Desenvolvimento e
do PIB no começo do ajuste fiscal em privado responderia a uma redu- diretor para a Índia, do Banco Mundial.
2011, subiu 130% em 2016, nível no ção dos desequilíbrios fiscais não (E-mail: nzagha@gmail.com).

dezembro de 2017
pensando o Brasil 43

Acertos e Desacertos: Metas de Inflação1


Carlos Luque (*)
Simão Silber (**)
Roberto Zagha (***)

Pouc o m a i s de u m a no e u m econômico. Estes são alguns exem- rou devido a reajustes de preços


novo  g ove r no  de ve r á  e nc on- plos entre muitos.  administrados e à desvalorização
trar formas de estimular a econo- cambial. É bem sabido que inflação
mia, reduzir o desemprego e estabi- O regime de metas de inf lação gerada por um choque de custos
lizar a dívida pública. Nisto, poderá gerou excelentes resultados quan- não deve ser combatida com juros
se beneficiar de experiências pas- do foi implementado no final dos altos para contrair a demanda. Isto
sadas. O Brasil foi um laborató- anos 90. Uma economia se benefi- causa uma redução do PIB e do em-
rio de políticas econômicas ricas cia de regras claras, e o regime de prego, como foi o caso.
em acertos e desacertos. As altas metas de inflação foi adotado por
taxas de crescimento dos anos do muitos países devido a sua trans- Os bons resultados do regime de
“milagre” demonstraram a impor- parência, clareza e simplicidade: metas de inflação nos anos 1990
tância de uma taxa de câmbio com- o banco central aumenta a taxa de e começo dos 2000 fizeram com
petitiva, investimento em infraes- juros quando a inflação está acima que se negligenciassem proble-
trutura, tolerância de uma inflação da meta e a dimini no caso contrá- mas sérios no mercado hipote-
moderada e industrialização orien- rio.  cário nos EUA e empréstimos de
tada às exportações. A “segunda bancos privados a governos na
fase de substituição de importa- Com todas as suas vant a- Europa . Este desc uido produ-
ções” nos anos 1970 fechou a eco- gens, uma política monetária em ziu a maior crise econômica dos
nomia ao comércio exterior ace- pi lot o aut om át ic o é per igos a últimos 80 anos. Uma resposta
lerando o crescimento no curto se não tiver a flexibilidade neces- fiscal  expansionista forte  teria
prazo, mas causando crescimento sária frente a turbulências na eco- sido necessária. Como foi o caso
baixo e vulnerabilidade externa no nomia. Por mais claras que sejam, no Brasil, foi impossível nos Es-
longo prazo. O Plano Real e a Tría- regras não devem ser seguidas ce- tados Unidos e na Europa obter o
de demonstraram os benefícios de gamente e não substituem a análi- consenso político para uma res-
políticas econômicas consisten- se e os ajustamentos essenciais na posta apropriada. O cientista po-
tes. A partir de 2003, ficou claro condução da economia. O Plano lítico Eduardo Graeff concluiu que
que na falta de uma estratégia de Real, por exemplo, diante das tur- quanto mais fracas as coalizões po-
crescimento a economia permane- bulências externas e da valoriza- líticas do governo, mais difícil será
ceria à deriva. O programa Bolsa ção do real abandonou a taxa de tentar algo diferente das expecta-
Família trouxe melhorias a milhões câmbio fixa e introduziu a tríade, tivas do mercado financeiro e mais
de brasileiros a custos negligenciá- criando estabilidade e crescimento.  conservadoras serão estas expec-
veis. E os últimos meses deixaram tativas. A ilusão de uma contração
claro que problemas fiscais não Mas no Brasil de 2015 e 2016, a fiscal expansionista também orien-
podem ser resolvidos na ausência reação ao aumento da taxa de in- tou as políticas econômicas dos
de uma estratégia de crescimento flação foi rígida. A inflação dispa- países desenvolvidos. 

dezembro de 2017
44 pensando o Brasil

Em face da austeridade f iscal, para facilitar o ajuste de preços produtiva e, portanto,  inf lação
para evitar uma crise ainda mais rígidos − salários, por exemplo; 3. mais alta. Codificar esta realidade
severa, os bancos centrais redu- Os custos de uma inflação de 6% num regime de metas de inflação
ziram a taxa de juros a zero. Os são desprezíveis comparados aos mais flexível deverá fazer parte de
efeitos sobre a expansão de crédi- custos de uma inflação de 2%. Na uma estratégia de crescimento de
to, investimento e consumo foram realidade, entre 2% e 6% ninguém longo prazo. Adotar uma meta de
imperceptíveis. O Fed e os outros saberia calcular os benefícios de inflação mais ambiciosa é negli-
bancos centrais passaram então a maneira científica; 4. A confian- genciar o grande desafio do país: a
comprar títulos públicos e privados ça gerada pela adesão do banco retomada do crescimento.
que levaram a uma explosão de M2. central a uma regra clara, dentro
Economistas ligados ao mercado de intervalos razoáveis, é indepen- Num contexto internacional mais
financeiro previram o aumento da dente do valor exato da meta de consciente dos custos de inflação
inflação e até a hiperinflação. Na inflação. Em junho de 2016, Janet baixa e uma economia nacional que
realidade, nestes últimos anos, com Yellen, presidente do banco central precisa crescer, a decisão recente
taxas de juros zero e a expansão americano, sugeriu a necessidade do CMN de reduzir a meta de infla-
monetária mais rápida dos últimos de estudos e discussão a fim de ção é estranha.   
80 anos, os bancos centrais ame- rever os custos de metas de infla-
ricano e europeu não consegui- ção rígidas e baixas, assim como as
ram com que a inflação atingisse vantagens de um regime de metas
a meta de 2%. O banco central do mais flexíveis e taxas de inflação
Japão teve uma experiência similar moderadas. 1 Artigo publicado anteriormente em Valor
com taxas de juros zero e inf la- Econômico, 25/08/2017: <http://www.
valor.com.br/opiniao/5094254/metas-de-
ção abaixo da meta de 2%. Tendo O Brasil também se beneficiaria inflacao-acertos-e-desacertos>.
evitado a deflação, os bancos cen- de um regime de metas de inflação
trais dos EUA, Europa e Japão se mais flexível, capaz de responder
encontraram então com o dilema à circunstância excepcional de
de como estimular a economia queda vertiginosa do PIB nos dois
quando a taxa de juros já está em últimos anos e desemprego de 13,5
zero e a meta de 2% não é atin- milhões de brasileiros. A vantagem
gida. As conclusões de influentes de metas de inflação mais flexí-
economistas, incluindo ex-econo- veis não é evitar o risco de juros
mistas-chefes do FMI (Blanchard, zero e deflação, riscos imprová-
Rogoff) são: 1. As metas de infla- veis no Brasil. O desafio é diferen-
ção devem ser flexíveis, adaptadas te: a indústria e a infraestrutura
às circunstâncias econômicas; 2. depreciadas por várias décadas de
Uma meta de 2% é perigosamente baixos investimentos serão bene-
próxima de zero. Quando a taxa de ficiadas por juros menores, cresci- (*) Professor da Faculdade de Economia e
juros cai a zero os bancos centrais mento maior, câmbio mais compe- Administração da USP e presidente da Fipe.
se encontram sem instrumentos titivo e aumento das exportações, (E-mail: cluque@usp.br).
(**) Professor da FEA-USP.
para estimular a economia. Metas em um ambiente de inflação mo- (E-mail: sdsilber@usp.br).
de inf lação mais altas (4%-6%) derada. Um governo interessado (***) Ex- Secretário da Comissão sobre o
em crescimento deverá aceitar a Crescimento e o Desenvolvimento e
são desejáveis, para evitar o risco
diretor para a Índia, do Banco Mundial.
de taxas de juros zero e também realidade de falta de flexibilidade (E-mail: nzagha@gmail.com).

dezembro de 2017
pesquisa na fea – Economia 45

Efeitos Adversos da Legislação do Seguro-Desemprego: Evidên-


cia Sobre o Brasil
Cristiano Costa Carvalho

Resumo

O objetivo deste trabalho é investigar se a probabilidade de os trabalhadores do mercado formal serem demi-
tidos aumenta quando esses são elegíveis ao recebimento do seguro-desemprego. Com a utilização da RAIS
- Relações Anuais de Informações Sociais, a alteração na elegibilidade ao auxílio promovida pela MP665/2014
permitiu uma estimação de diferenças-em-diferenças a fim de identificar esse efeito. O resultado encontrado
aponta uma queda de 0,73 p.p. na probabilidade de demissão sem justa causa dos grupos que eram elegíveis no
período anterior à mudança e deixaram de ser após sua entrada em vigor, em comparação com os não-elegíveis
nos dois períodos. A partir desse número, conclui-se que pelo menos 13% das demissões sem justa causa são
induzidas. Os efeitos são maiores para os indivíduos empregados em firmas pequenas, que tenham baixa esco-
laridade e que não estejam no setor de serviços ou indústria. Utilizando a Pesquisa Mensal do Emprego (PME)
em uma análise complementar, conclui-se que 34% dos indivíduos que saem do formal para acessar o seguro-
-desemprego se empregam no setor informal no mês subsequente.

dezembro de 2017
46 pesquisa na fea – Economia

Distribuição de Renda e Demanda Agregada no Brasil (1995-


2013): Uma Análise a Partir de Extensões aos Modelos Neo-Ka-
leckianos
Júlia Burle Gonçalves

Resumo

O arcabouço teórico neo-Kaleckiano parte da importância da demanda efetiva no processo de geração de renda
para relacionar sua distribuição funcional − parcela da renda destinada a salários e lucros − à demanda agrega-
da, e assim caracterizar o tipo de regime de demanda das economias, se wage-led (parcela de salários afetando-a
positivamente) ou profit-led (parcela de lucros afetando-a positivamente). Contribuições posteriores propõem
extensões ao modelo convencional que incluem o efeito de economia aberta, do crédito e da distribuição pessoal
da renda sobre o tipo de regime característico. Partindo de tal arcabouço e da trajetória da economia brasileira
nos anos 2000, esta dissertação busca avaliar empírica e teoricamente a relação entre distribuição funcional,
distribuição intrassalarial e endividamento das famílias. No âmbito teórico, um modelo neo-Kaleckiano que ava-
lia a relação dinâmica de longo prazo entre dívida e distribuição é desenvolvido. No âmbito empírico, a relação
entre distribuição funcional e demanda efetiva para a economia brasileira no período 1995 a 2013 é analisada,
mas considerando o impacto de variáveis ausentes do modelo seminal, que foram abordadas no modelo teórico
apresentado, e que parecem relevantes para explicar o desempenho da economia brasileira no período − crédito,
distribuição intrassalarial e preço das commodities. Resultados sugerem que o controle para estas variáveis de
fato alteram o efeito da distribuição funcional sobre a demanda agregada e vice-versa.

dezembro de 2017
pesquisa na fea – Economia 47

Choques de Renda, Procura Familiar por Emprego e Oferta de


Trabalho
Solange Ledi Gonçalves

Resumo

As análises sobre taxas agregadas de emprego, desemprego e inatividade frequentemente ignoram a dinâmica
dos membros das famílias no mercado de trabalho, a qual pode explicar puzzles na relação entre atividade eco-
nômica e participação no mercado de trabalho. A relevância das abordagens familiares para a oferta de trabalho
está nas análises macroeconômicas sobre tendências agregadas, e também em análises microeconômicas do
comportamento, decisões intrafamiliares e resultados de políticas. Apesar do consenso sobre as decisões con-
juntas de oferta de trabalho dos membros da família, grande parte dos estudos são abordagens individuais e
desconsideram filhos jovens como tomadores de decisão. Nesta tese, organizada em dois estudos, investigamos
essas questões para o Brasil. No primeiro estudo, analisamos a decisão de ofertar trabalho de jovens entre 14
e 24 anos vivendo com os pais, em um exercício de forma reduzida. A tese colabora com a literatura empírica
sobre os efeitos intrafamiliares de políticas ao testar se o salário mínimo que afeta a renda dos pais impacta a
decisão final dos filhos de ofertar trabalho. Também testamos a hipótese de agregação da renda, ao verificar
se a política tem efeitos distintos caso a pessoa elegível na família seja a mãe ou o pai. A estratégia de identifi-
cação é baseada em uma abordagem de intention-to-treat, e no uso do estimador de diferenças-em-diferenças.
Outra inovação é o uso da PNADC (IBGE) para 2012-2016. Verificamos que a direção e a magnitude dos efeitos
do salário mínimo dos pais, na oferta de trabalho dos filhos, dependem de quem é e de quantos são os membros
elegíveis na família: o efeito é negativo, se a pessoa elegível é a mãe ou o pai, e é positivo, se ambos são elegí-
veis. Esses resultados reforçam o argumento em favor das abordagens intrafamiliares, uma vez que a hipótese
de income-pooling não parece ser válida neste contexto. No segundo estudo, investigamos como as decisões de
oferta de trabalho poderiam determinar os resultados agregados de desemprego e inatividade dos membros
secundários. Desenvolvemos e estimamos um modelo estrutural de busca por emprego familiar com on-the-job
search. Estendemos o modelo de Dey e Flinn (2008) para permitir desemprego e inatividade de mães e filhos,
sujeitos a choques em seus empregos e choques na renda dos pais. Esses choques podem determinar diferentes
comportamentos de busca e aceitação de emprego, dependendo da situação do outro membro no mercado de
trabalho. O modelo é estimado com a PME (IBGE) para 2004-2014. Realizamos simulações contrafatuais e veri-
ficamos que a taxa de desemprego dos filhos, decrescente entre 2004 e 2014, não teria se alterado no período,
caso as condições e oportunidades de mercado de trabalho dos filhos tivessem continuado as mesmas de 2004.
Já a taxa de desemprego das mães não sofre grandes alterações no período. A tendência crescente na inatividade
dos filhos é determinada por uma taxa de encorajamento decrescente e uma taxa de desistência crescente, que
refletem fatores exógenos que levam jovens trabalhadores à inatividade. Esses fatores exógenos podem estar
relacionados ao menor custo da educação no período. Concluímos que o uso de modelos individuais de busca por
emprego para entender o desemprego e a inatividade agregados deve ser desencorajado, pois o comportamento
de busca familiar importa para as decisões de oferta de trabalho dos membros secundários da família.

dezembro de 2017
48 economia & história: relatos de pesquisa

eh

Relatos de Pesquisa: o ano de 2017 na coluna Economia &


História

Luciana Suarez Lopes (*)

A pesquisa em História Econômica se perceba, temos um novo projeto, Ribeirão Preto – foram discutidos
nem sempre é fácil, em especial uma nova pesquisa. os impostos incidentes diretamen-
para aqueles pesquisadores que es- te sobre a atividade cafeeira. Num
colheram – seja por formação seja Uma pequena parcela desse coti- primeiro momento, tais impostos
por orientação pessoal – trabalhar diano apareceu ao longo do ano eram cobrados sobre a produção;
nesta coluna. Por meio dos Relatos num segundo, sobre o número de
com fontes primárias. E quanto
de Pesquisa, é possível perceber pés de café existentes na localida-
mais retrocedemos em nossa pe-
como o desenvolvimento das pes- de.
riodização, maiores as dificulda-
quisas em andamento vai suscitan-
des: são mais escassas as fontes
do novas questões, permitindo a Em março, tivemos uma breve dis-
e torna-se mais difícil encontrar cussão sobre a estrutura da posse
descoberta de novas fontes, novos
documentação adequadamente acervos e novas formas de se tra- de escravos, mostrando o predomí-
preservada. balhar uma documentação que nio e a importância dos pequenos
muitas vezes já é conhecida. plantéis de cativos nos contextos
Todavia, é extremamente prazero- colonial e imperial brasileiros. Me-
so quando conseguimos encontrar Nos relatos de janeiro e fevereiro, rece destaque o elevado número de
uma nova fonte, um novo arquivo, reinou o café. Dessa forma, par- plantéis unitários, o que nos coloca
um tema ainda não tratado pela tindo de um contexto local – as uma questão: se eram numerosas
historiografia... e antes mesmo que finanças públicas da então vila de e frequentes as pequenas posses

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economia & história: relatos de pesquisa 49

e se entre essas era elevado o nú- escravos, sendo um dos seis escra- Farol Paulistano” e “Novo Farol Pau-
mero de plantéis unitários, o perfil vos com mais de cinquenta anos; listano”, disponíveis na Hemeroteca
do escravo médio como descrito sem nenhum tipo de parentesco no da Biblioteca Nacional Digital.
pela historiografia tradicional – plantel, e vale dizer, trabalhando,
inserido nos grandes plantéis das Eloy contava com o apoio de seus Em outubro, um tema atual mo-
grandes propriedades monocul- irmãos de cativeiro para suprir as tivou uma discussão histórica. A
toras – não deveria também ser eventuais necessidades especiais publicação da Portaria nº 1.127 do
repensado? derivadas de sua já avançada idade Ministério do Trabalho alterando
e ainda que tivesse sido classifica- os conceitos de trabalho força-
No Boletim de abril, o tema foi o es- do como apto para o trabalho, sua do, jornada exaustiva e condições
tudo das finanças públicas no Bra- baixa avaliação denota as limita- análogas à escravidão deu início
sil, considerando as palestras de ções de sua condição. a uma breve análise do período
Augusto Olympio Viveiros de Cas- escravista no Brasil. Desde a déca-
tro na “Academia de Altos Estudos” Em agosto, a difícil situação do da de 1530 e até o final do tráfico
do Instituto Histórico e Geográfico Arquivo Público e Histórico de em 1850, entraram no Brasil mais
Brasileiro. Ao todo, Castro proferiu Ribeirão Preto foi considerada. A de três milhões de africanos. Em
quatro palestras que serviram de mudança de sede, ainda que dese- 1872, 22 anos após a Lei Euzé-
base a inúmeras publicações do jada, não aconteceu sem dificulda- bio de Queiroz, o Brasil possuía
IHGB. Quando reunido, o material des. Muitos funcionários antigos, um total de 1.546.880 escravos. E
pode ser considerado o primeiro profundos conhecedores do acervo sem menosprezar a importância
grande esforço de se analisar numa e de sua organização, haviam par- da Lei Áurea, a abolição, tendo
perspectiva histórica o sistema tri- tido, transferidos ou aposentados. acontecido somente em 1888 foi
butário nacional desde os tempos Faltavam materiais básicos, como interpretada por muitos autores
coloniais. estantes e caixas de documentos, e como sendo uma medida tardia e
apesar do esforço dos funcionários até certo ponto pouco efetiva: a
De maio a julho, foram publicados remanescentes, ainda falta muito organização do trabalho não foi
relatos sobre uma pesquisa, ainda para ser organizado. afetada, tampouco a distribuição
em andamento, que tem como tema de renda no país.
central os escravos velhos, aqueles No boletim de setembro, foi feita a
indivíduos que no contexto escra- divulgação de fontes para o estudo E por fim, no boletim de novembro,
vista brasileiro oitocentista vive- dos primeiros anos da Província as novas possibilidades de pesqui-
ram em cativeiro até idade avan- de São Paulo no contexto do Brasil sa abertas pela tecnologia. Fontes
çada para os padrões da época, independente, período difícil de ser históricas e documentais de difícil
em especial quando considerada tratado por conta da escassez de acesso disponibilizadas on line,
a expectativa de vida do elemento registros documentais específicos com ótima resolução, permitindo
cativo. Vale a pena retomar a his- para o contexto paulista. Nesse o aproveitamento das informações
tória do escravo Eloy: “Eloy, preto, sentido, destacamos a publica- quase como se pudéssemos consul-
solteiro, oitenta e três anos de idade, ção de Eugênio Egas, “Galeria dos tar as publicações originais. Nesse
avaliado em cem mil réis”, consi- Presidentes de São Paulo. Período sentido, o caso da “Carta Topogra-
derado capaz para o trabalho, sua Monárquico, 1822-1889”, publicada phica da Província de São Paulo” de
ocupação era a de pajem; encontra- pela Secção de obras d’ “O estado de 1847 é exemplar. Informes cons-
va-se inserido num plantel de 67 S. Paulo” em 1926, e os jornais “O tantes na legenda do mapa trazem

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50 economia & história: relatos de pesquisa

estatísticas e estimativas até então pouco conhecidas,


cuja leitura só foi possível graças à alta qualidade de
sua digitalização.

Dessa maneira, encerramos aqui mais um ano da co-


luna Economia & História, e mais um ano dos nossos
relatos, que tem como objetivo principal compartilhar
com os leitores do Boletim um pouco do cotidiano de
pesquisa na área de história econômica, o encadea-
mento dos temas, as possibilidades de intersecção com
o contexto atual, as reflexões e análises desenvolvidas,
a descoberta de novas fontes e novas ferramentas de (*) Professora Doutora do Departamento de Economia da FEA/USP.
pesquisa. Ano que vem tem mais! (E-mail: lslopes@usp.br).

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