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C A R M E N RIA L

JOANA M ARIA PEDRO


SI LV IA M A RIA FÁV E RO A RE N D
(Organizadores)

Ilha de Santa Catarina


Editora Mulheres
2010
© 2010, Carmen Rial, Joana Maria Pedro, Silvia Maria Fávero Arend

Coordenação editorial
Zahidé Lupinacci Muzart

Conselho editorial
Dominique Fougeyrollas (IRISSO/CNRS) Maria Dolores Perez Murillo (U. de Cádiz)
Elisete Schwade (UFRN) Maria Luiza Femenias (U. La Plata)
Eulalia Perez Sedeño (CSIC) Miguel Vale de Almeida (ICSTE)
Jules Falquet (U.ParisVII) Paola Bacchetta (UCB)
Kazuko Takemura (Ochanomizu U.) Suely Gomes Costa (UFF)
Luiz Mello (UFG) Yonissa Wadi (UNIOESTE)

Revisão
Gerusa Bondan

Revisão de artigo em francês


Rosa Alice Mosimann

Capa
Gracco Bonetti
Sobre foto de Mônica Holden (monicaholdenphotos@yahoo.com.br)
Sem título. 2009. Técnica: Fotografia digital Álbum: Trancas - Cód. de portfólio: TCA CV11

MÔNICA HOLDEN
Artista plástica, fotógrafa e designer.
Nasceu e vive na cidade do Rio de Janeiro.
Começou a fotografar aos 12 anos. E, desde então, a fotografia sempre esteve presente em sua vida.
Há 25 anos trabalha com design gráfico, moda e comunicação visual. Hoje se dedica preferencialmente
a fotografar temas abstratos, composições geométricas, formas orgânicas... Cores e texturas...
Sites: http://www.flickr.com/photos/monicaholden/
http://www.monicaholdenphotos.weebly.com

Projeto gráfico e editoração


Rita Motta

ISBN 978-85-8047-001-7

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP


Leny Helena Brunel CRB 14/540
D618 Diversidades: dimensões de gênero e sexualidade / organizadoras
Carmen Rial, Joana Maria Pedro e Silvia Maria Fávero
Arend. – Ilha de Santa Catarina: Mulheres, 2010.
p.
ISBN 978-85-8047-001-7

1. Gênero e Sexualidade. 2. Feminismo. 3. Políticas


Públicas. I. Rial, Carmen. II. Pedro, Joana Maria. III.
Arend, Silvia Maria Fávero.

CDU 396

Editora Mulheres
Rua Joe Collaço, 430
88035-200 Florianópolis, SC
Fone/Fax: (048) 3233-2164
e-mail: editoramulheres@floripa.com.br
www.editoramulheres.com.br
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ............................................................................................. 11

DIMENSÕES POLÍTICAS

Gênero e performance na oposição à ditadura militar nos Estados Unidos,


1970-1977 ............................................................................................................ 19
James N. Green

Deslocamentos: histórias e subjetividade. Um sonho americano, elementos


nocivos e donzelas ingênuas. São Paulo 1920 -1940 ...................................... 39
Maria Izilda Santos de Matos

Violência de gênero ou feminicídio? Leis sobre violência e propostas de


políticas públicas no Brasil e no México ......................................................... 61
Teresa Kleba Lisboa

Metodologias feministas, gênero, políticas públicas e o monitoramento


da Lei Maria da Penha ....................................................................................... 81
Jussara Reis Prá

Gênero, geração e políticas públicas na pesca artesanal................................ 103


Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

Políticas de saúde da mulher no Brasil – história e evolução ....................... 125


Jane Maria de Souza Philippi
Mulheres, Educação, Ciência e Políticas Públicas .......................................... 141
Hildete Pereira de Melo

Caminhos transversais dos feminismos e dos movimentos sociais............. 157


Maria Amélia de Almeida Teles

DIMENSÕES DE CORPO E BIO-POLÍTICA

Nem Minotauro, nem maternal: repensando o conceito de paternalismo


no contexto da formulação das políticas da maternidade ............................ 171
Ana Paula Vosne Martins

A maternidade contemporânea à prova da assistência médica à procriação.


O canal mundial do trabalho reprodutivo ...................................................... 189
Laurence Tain

Tecnologias reprodutivas conceptivas: imperativo da maternidade? Ou


outro lugar de fala? ............................................................................................. 209
Marlene Tamanini

“Meio quilo de gente!” A bio-política das imagens ultrassonográficas fetais.... 233


Lilian Krakowski Chazan

“Não me sinto culpada”: práticas contraceptivas e aborto em grupos populares


urbanos ................................................................................................................ 251
Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel,
Gláucia de Oliveira Assis

Psicanálise, sexo e gênero: algumas reflexões ................................................. 269


Paulo Roberto Ceccarelli

A psicanálise nas ondas dos feminismos......................................................... 287


Mara Coelho de Souza Lago
DIMENSÕES TEXTUAIS

Feminismos y estudios feministas en la Argentina ........................................ 307


Dora Barrancos

Mulheres solteiras e casadas nas séries televisivas ............................................... 323


Ivia Alves

Mulher e Literatura: periódicos acadêmicos nacionais ................................. 345


Cristina M. T. Stevens

Memória: que memória? ................................................................................... 361


Eva Alterman Blay

Caderno Espaço Feminino: a luta pela sobrevivência continua................... 369


Vera Lúcia Puga

Discutindo gênero na escola: por uma abordagem científica e interdisciplinar ...... 383
João Renato Nunes

Gênero e diversidade na escola: notas para a reflexão da prática docente ..... 401
Paula Regina Costa Ribeiro, Raquel Pereira Quadrado

AUTORAS/AUTORES ...................................................................................... 421


APRESENTAÇÃO

D iásporas, diversidades, deslocamentos traçaram a linha em torno da qual


circularam e se entrecruzaram as pesquisas apresentadas na nona edição
do Seminário Internacional Fazendo Gênero, que reuniu mais de quatro mil
participantes na Universidade Federal de Santa Catarina em agosto de 2010.
O livro Diversidades: dimensões de gênero e sexualidade é o primeiro
resultado de um trabalho coletivo de organização, que contou com o apoio de
diversas instituições e o esforço de muitas pessoas envolvidas para que pudés-
semos chegar até estas páginas. Fazendo Gênero é hoje um espaço que sinaliza
a expansão das trocas acadêmicas e políticas centradas nos estudos feministas
e estudos de gênero e que aponta para a necessidade da continuidade na cons-
tituição de práticas e reflexões, como as que apresentaremos a seguir. Sendo
fruto dessas trocas e entrecruzamentos, o livro segue três eixos principais: Di-
mensões políticas, Dimensões de corpo e bio-política, Dimensões textuais.
As reflexões em torno do primeiro deles, Dimensões políticas, são inau-
guradas por James Green com a pesquisa “Gênero e performance na oposição
à ditadura militar nos Estados Unidos, 1970-1977”. Tratando de um recorte
do regime repressivo brasileiro e sua repercussão nos Estados Unidos, o autor
narra três episódios: a prisão por porte de maconha dos integrantes do Living
Theater, no Brasil, e sua representação nos palcos norte-americanos de uma
peça que denunciava os abusos da ditadura brasileira; a luta de Zuzu Angel na
procura por seu filho e o uso de recursos ao seu alcance junto às autoridades
norte-americanas; e a peça de teatro Miss Margarida’s Way, de autoria de Ro-
berto Athayde, que através da performance de uma professora denunciava a
prática autoritária e disciplinadora da ditadura no Brasil.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Em seguida apresentamos o trabalho de Maria Izilda Santos de Matos,


“Deslocamentos: histórias e subjetividade. Um sonho americano, elementos no-
civos e donzelas ingênuas. São Paulo 1920-1940”, onde ela narra, por meio da
história de uma cafetina, a política autoritária do governo do Estado Novo em
relação aos estrangeiros. As múltiplas legislações que anteriormente haviam es-
timulado a vinda de imigrantes mudaram naquele período estudado, levando a
regulamentos assumidos pelo executivo e visando à expulsão dos indesejáveis,
classificados entre os que se envolviam em questões políticas, penais e morais.
Teresa Kleba Lisboa, no artigo “Violência de gênero ou feminicídio? Leis
sobre violência e propostas de políticas públicas no Brasil e no México”, realiza
um estudo comparativo entre as legislações brasileira e mexicana produzidas na
última década, que possuem como tema os diversos tipos de violência contra as
mulheres, descrevendo semelhanças e diferenças vigentes entre as mesmas. A te-
mática segue com o texto “Metodologias feministas, gênero, políticas públicas e
o monitoramento da Lei Maria da Penha”, de Jussara Reis Prá, que traz um breve
histórico das políticas sociais instituídas no Brasil sobre a violência contra as mu-
lheres para depois discutir a importância de se analisar os resultados da Lei Maria
da Penha, uma política pública de gênero, à luz de uma metodologia feminista.
“Gênero, geração e políticas públicas na pesca artesanal”, de Maria do
Rosário de Fátima Andrade Leitão, mostra parte dos resultados de dois pro-
jetos de pesquisa em que a autora traz uma perspectiva de “feminização” da
pobreza nas relações de trabalho da pesca artesanal no Brasil. Inspirada nas
teorias de Moscovici, Maria do Rosário analisa as condições de vida de pesca-
dores e pescadoras, tendo como campo empírico o município de Itapissuma,
no litoral pernambucano.
Jane Maria de Souza Philippi em “Políticas de saúde da mulher no Brasil
– história e evolução” oferece um panorama dos problemas e das políticas pú-
blicas voltadas para mulheres. Nesta discussão, ela inclui a violência contra as
mulheres e apresenta dados recentes sobre índices de doenças, apontando os
esforços para solucioná-los e as dificuldades enfrentadas. No artigo “Mulheres,
Educação, Ciência e Políticas Públicas”, Hildete Pereira de Melo reflete sobre
a presença das mulheres nos espaços da ciência e da educação, mostrando o
quanto os índices de escolaridade cresceram entre elas, chegando a suplantar o
dos homens. A autora mostra também a presença, embora ainda insuficiente,
das mulheres nas ciências ditas “duras” e nos altos escalões do campo científico
no país, e por fim analisa as ações da Secretaria Especial de Políticas para as
Mulheres visando à redução das desigualdades.

12
Apresentação

Esta parte é encerrada pelo texto “Caminhos transversais dos feminis-


mos e dos movimentos sociais”, de Maria Amélia de Almeida Teles, que realiza
uma análise dos problemas enfrentados pelos movimentos feministas no Bra-
sil, nas últimas décadas do século XX, com destaque para os processos relati-
vos aos movimentos sociais.
O segundo eixo temático do livro, Dimensões de corpo e bio-política, é
iniciado com o artigo “Nem Minotauro, nem maternal: repensando o conceito
de paternalismo no contexto da formulação das políticas da maternidade”, de
Ana Paula Vosne Martins. Trabalhando a partir do que se processou durante
o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945), a autora procura demons-
trar que a política de bem-estar social relativa à maternidade implementada,
no referido período, foi norteada pelo conceito de Paternalismo. Em seguida,
Laurence Tain nos apresenta o texto “A maternidade contemporânea à prova
da assistência médica à procriação. O canal mundial do trabalho reprodutivo”,
onde utiliza as dimensões biomédica, sócio-relacional e cosmo-sagrada para
discutir a maneira como o uso das técnicas reprodutivas reafirma desigual-
dades no trabalho reprodutivo, na sociedade global. Marlene Tamanini, em
“Tecnologias reprodutivas conceptivas: Imperativo da maternidade? Ou outro
lugar de fala?”, também faz uma reflexão crítica sobre as chamadas tecnologias
reprodutivas, tendo em vista as diferentes formas de participações das mulhe-
res nestes experimentos de caráter científico, realizados desde os anos de 1980,
em vários países do mundo.
“‘Meio quilo de gente!’ A bio-política das imagens ultrassonográficas fe-
tais” é o trabalho de Lilian Krakowski Chazan, que analisa imagens ultrassono-
gráficas, mostrando como a tecnologia de imagem médica transformou-se em
objeto de consumo e lazer. Ela analisa que este consumo, constitutivo de no-
vas subjetividades, fetais e maternas, ao mesmo tempo contribui para reforçar
uma visão medicalizada da gravidez, reconfigurando as vivências da gravidez.
Como contraponto temos o artigo de Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana
Tornquist, Denise Soares Miguel e Glaucia de Oliveira Assis “Não me sinto
culpada”: práticas contraceptivas e aborto em grupos populares urbanos”. Nele
as autoras mostram, por meio da análise do depoimento de uma entrevistada,
como as mulheres das camadas populares situam-se em relação à questão do
aborto, entre a condenação e o uso da prática, encontrando soluções inéditas
para angústias e, em alguns casos, contando com a participação masculina.
Para encerrar essa primeira parte, trazemos dois textos que tematizam a
psicanálise, um importante elemento desse debate. Paulo Roberto Ceccarelli,

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

com “Psicanálise, sexo e gênero: algumas reflexões”, faz pensar sobre as rela-
ções entre os estudos de gênero e a chamada teoria psicanalítica, enfatizando
pontos de contato e dissensos situados no entrecruzamento das duas episte-
mes. Um artigo de leitura imprescindível para quem quer ser introduzido nas
complexas relações entre psicanálise e feminismo é assinado por Mara Coelho
de Souza Lago. “A psicanálise nas ondas dos feminismos”, com um texto aces-
sível, percorre o que a autora chama “relações ambíguas dos estudos feministas
e de gênero com a psicanálise”, de Freud a Lacan, começando pela primeira
onda dos movimentos feministas, passando pelos chamados feminismos de
segunda onda e chegando aos nossos dias. Ao colocar em diálogo as teorias
psicanalíticas e as teóricas feministas mais difundidas na academia brasileira,
nos leva a entrar em contato com diferentes campos teóricos, do estruturalis-
mo ao pós-estruturalismo e às teorias queer.
O terceiro eixo temático, denominado Dimensões textuais, é aberto por
Dora Barrancos, que escreve sobre “Feminismos y estudios feministas en la
Argentina”. A autora remonta às origens do feminismo argentino, no início do
século XX, passando depois ao momento de efervescência dos anos setenta e
fazendo uma análise do feminismo hoje, que se desenvolve tanto dentro como
fora de instituições em seu país, dando ênfase aos estudos de gênero acadêmi-
cos. Dora demarca as conquistas e aponta o que ainda precisa ser alcançado
nesse campo que engloba prática e conhecimento.
Ivia Alves, no artigo “Mulheres solteiras e casadas nas séries televisivas”,
aborda as representações e imagens de mulheres em séries norte-americanas,
especialmente as policiais investigativas. O texto aponta para as mudanças
ocorridas nos anos 1980, quando a figura do detetive (ou dupla de detetives)
aventureiro foi substituída por roteiros onde o contexto cultural ganhava es-
paço e os detetives passavam a ser pessoas comuns, não mais gênios ou heróis.
Além disto, outra inovação no gênero foi o surgimento de mulheres detetives
ou policiais, representadas como independentes, para quem a vida íntima e
amorosa é secundária, tomadas pela carreira profissional.
No texto “Mulher e literatura – periódicos acadêmicos nacionais”, Cristi-
na Stevens faz um balanço da produção de estudos veiculada nestes tipos de pe-
riódicos, sua contribuição para a literatura e, mais adiante, da contribuição espe-
cífica da literatura para o campo de estudos feministas e de gênero. Este percurso
nos leva ao marco fundador do periodismo feminino brasileiro, o Jornal das
Senhoras de 1852, revisitando em seguida os periódicos do período da ditadu-
ra militar, Brasil Mulher e Nós Mulheres, chegando aos contemporâneos, como

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Apresentação

os Cadernos Pagu. Dando seguimento ao tema, Eva Blay em “Memória: que


memoria?” faz um levantamento dos avanços e dificuldades do feminismo na
atualidade, usando como fonte principal a produção acadêmica sobre gênero
apresentada no XXVII Congresso Internacional de Sociologia, realizado pela
International Sociological Association (ISA) em agosto de 2010, em Gotem-
burgo, na Suécia. A autora destaca a questão da violência contra as mulheres e
aquilo que se considera “concordância”, que ela analisa como “impotência”.
Ações e dificuldades são temas ainda do artigo “Caderno Espaço Femi-
nino: a luta pela sobrevivência continua”, de Vera Lúcia Puga, que narra a for-
mação do NEGUEM – Núcleo de Estudos de Gênero, Violência e Mulheres
– em 1992, sua atuação em várias esferas e a criação da revista Caderno Espaço
Feminino. A autora faz também uma reflexão sobre as dificuldades com finan-
ciamentos e com os órgãos de avaliação de periódicos.
Esta última seção do livro termina com a temática gênero e escola, trazi-
da por dois artigos. João Renato Nunes parte de um estudo de caso (na Escola
de Referência em Ensino Médio Oliveira Lima – São José do Egito, Pernam-
buco) para construir a argumentação do texto “Discutindo gênero na escola:
por uma abordagem científica e interdisciplinar”, onde analisa os resultados de
um projeto pedagógico instituído na escola com objetivo de analisar e debater
as relações de gênero de forma científica e interdisciplinar. O outro é “Gênero
e diversidade na escola: notas para a reflexão da prática docente”, de Paula Re-
gina Costa Ribeiro e Raquel Pereira Quadrado, que apresentam uma análise, a
partir dos referenciais teóricos dos estudos culturais e das relações de gênero,
dos resultados positivos do curso Gênero e Diversidade na Escola, promovido
pela Secretária Especial de Políticas para as Mulheres.
Este primeiro livro, que garante a continuidade das discussões levantadas
no Fazendo Gênero 9, busca abordar a diversidade global contemporânea de
pessoas, signos e bens, enfocando os desafios e lutas que perpassam muitas das
experiências de indivíduos e grupos inseridos nesses fluxos, tocando dimensões
de diversidade, gênero e sexualidade. Isso é levado adiante numa perspectiva
feminista, na qual estão presentes os ideais de igualdade, autodeterminação e
dignidade. Convidamos leitoras e leitores a compartilharem conosco as páginas
que se seguem e que se propõem instigantes e politicamente engajadas.

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DIMENSÕES
POLÍTICAS
GÊNERO E PERFORMANCE NA
OPOSIÇÃO À DITADURA MILITAR
NOS ESTADOS UNIDOS, 1970-1977

James N. Green

E m 1970 Julian Beck, Judith Malina e seu grupo teatral de vanguarda, o


Living Theater, aceitaram um convite para visitar o Brasil e trabalhar com
o Teatro Oficina, baseado em São Paulo1. Os planos de colaboração de ambos
encontraram dificuldades e por isso o Living Theater, anarquista e libertário,
transferiu-se para a pitoresca cidade barroca de Ouro Preto. A presença de um
bando de europeus e norte-americanos cabeludos e de hábitos livres, junto
com alguns brasileiros e latino-americanos que haviam se juntado ao grupo,
revelou-se perturbadora para os costumes de pelo menos alguns dos habitan-
tes da cidade, assim como para a polícia brasileira (TYTEL, 1995, p. 274-304;
RYAN, 1971, p. 21-29; MALINA, 2002; GEORGE, 1992, p. 66-69).
Em 1 de julho policiais do Departamento de Ordem Política e Social
prenderam a maior parte do elenco, acusando-os de posse de maconha2. Em-
bora os membros do grupo fumassem livremente em sua casa, é plausível acre-
ditar que a polícia tenha colocado uma grande quantidade no recinto a fim de
justificar a detenção (MALINA, 2002). Dois membros do grupo que escapa-
ram da prisão voltaram a Nova York e iniciaram uma campanha internacional
para a libertação de Beck, Malina e o restante do Living Theater.
A imprensa norte-americana e europeia rapidamente se ocuparam do
assunto. Em uma campanha internacional liderada por Alan Ginsberg, com

1 Este artigo é baseado na pesquisa para o livro Apesar de vocês: oposição à ditadura brasileira nos Estados
Unidos, 1964-85. GREEN, 2009.
2 Ver ‘Continuaram na prisão os 13 do Living’, 1971, p. 14.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

apoio de Leonel Bernstein, Marlon Brando, Bob Dylan, Jane Fonda, Mick Jag-
ger, John Lennon, Shirley McLaine, Yoko Ono, Andy Warhol, Tennessee Willia-
ms, um numeroso grupo de outros artistas, intelectuais e celebridades assinaram
uma petição exigindo “a libertação de um grupo de artistas de reputação inter-
nacional, cujo encarceramento priva o mundo de uma fonte de arte elevada”3.
Os adeptos do Living Theater organizaram piquetes diante do consulado brasi-
leiro na cidade de Nova York e conseguiram que diversos senadores e o prefeito
de Nova York enviassem telegramas em favor da troupe encarcerada4. Artistas,
intelectuais e políticos da oposição no Brasil também se juntaram à campanha5.
A imprensa brasileira deu ampla cobertura à prisão e à investigação que ini-
cialmente parecia ser uma simples notícia sobre um grupo de artistas norte-
americanos de vanguarda preso por posse de drogas. O glamour em torno das
celebridades internacionais que cercava o caso proporcionava boa publicidade e
a natureza aparentemente apolítica da detenção permitia aos jornalistas driblar
os censores numa época em que o regime militar procurava impedir que a im-
prensa publicasse artigos que indicassem oposição doméstica ou internacional à
ditadura. Após um encarceramento superior a dois meses, o governo brasileiro
cedeu à pressão internacional e emitiu um decreto determinando a expulsão dos
membros europeus e norte-americanos do grupo6.
Como tento documentar no livro Apesar de vocês: oposição à ditadura
brasileira nos Estados Unidos 1964-85, um grupo de acadêmicos e exilados ha-
via iniciado uma campanha contra a tortura no Brasil no começo do ano 70
que incluía entre outras atividades reunir dezenas de assinaturas de figuras re-
ligiosas e estudiosos eminentes para denunciar a repressão no Brasil. A prisão
do Living Theater no ano seguinte representou apoio de liberais de classe alta,
estrelas de Hollywood, intelectuais de esquerda e políticos liberais. Embora a
polícia não tivesse maltratado Beck e Malina durante a detenção, a campanha
internacional assemelhou a situação deles à de outros presos nos cárceres bra-
sileiros. Ao regressarem aos Estados Unidos, eles cumpriram a promessa feita
aos presos políticos de espalhar a notícia sobre a situação no país. Durante
vários anos após o fato, deram entrevistas em que denunciavam a natureza
repressiva do governo brasileiro7.

3 AMERICAN COMMITTEE FOR THE DEFENSE OF THE LIVING THEATER, 1971 - Cópia dos
arquivos do autor.
4 Ver “Living Theater”, 1970-71; “Até prefeito de Nova Iorque pede liberdade para o Living!, 1971, p. 5.
5 Ver “Living, o manifesto dos intelectuais a Médici”, 1971, p.
6 Ver “DOPS solta 8 do Living Theater”, 1971, p. 11.
7 Ver, por exemplo, “The Living Lives: How and What it Lives By”, 1971, p. 1.

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James N. Green

Após a bem sucedida campanha internacional do outono de 1971 que


pressionara o governo brasileiro a deportar o elenco do Living Theater em vez
de processá-los por posse de maconha, o grupo se recompôs novamente na ci-
dade de Nova York. Durante o ano e meio seguinte, Julian Beck e Judith Malina
passaram grande parte do tempo fazendo palestras em universidades em todo
o país a fim de arrecadar recursos para sustentar a troupe enquanto se reajus-
tavam à situação política em mutação nos Estados Unidos (TYTEL, 1995, p.
304-317). Em 1973 e 1974 o Living Theater realizou uma turnê pelo país com
uma nova apresentação que em parte denunciava a tortura e tratamento dos
presos políticos no Brasil8. Quase trinta anos após a primeira representação,
Judith Malina recordou a origem da peça:

Quando saímos da prisão, perguntamos aos prisioneiros que tinham ficado:


“Que podemos fazer por vocês?” (...) Todos responderam: “Digam a todo
mundo como são as coisas aqui. Mostrem o que estão fazendo conosco”. Por
isso desenvolvemos uma peça chamada “Sete meditações sobre sadomaso-
quismo político”, na qual uma cena é uma reconstituição de tortura policial
muito comum naquela prisão em que ficamos, junto com muitas outras pes-
soas no Brasil na época (MALINA, 2002).

Embora nenhum dos integrantes norte-americanos e europeus do grupo


teatral tivesse sofrido violência física durante o encarceramento, Ivanildo Silvino
de Araújo, brasileiro que fazia parte do elenco, alegadamente recebera choques
elétricos no pau de arara (Ibid). Ele acabou por se reunir com o Living Theater
nos Estados Unidos e representou o papel de prisioneiro político perseguido em
uma das cenas da criação coletiva intitulada “Meditação sobre Violência com
um texto sobre repressão policial”. A representação das “Sete Meditações” em
universidades e outros locais em todo o país combinava a reprodução da tortura
com uma acusação contra o apoio do governo norte-americano ao regime brasi-
leiro. Enquanto os atores que representavam o aparelho policial repressivo brasi-
leiro ministravam choques cada vez mais intensos de corrente elétrica simulada,
Julian Beck lia declarações vindas das audiências na Comissão de Relações Exte-
riores do Senado feitas em 1971 pelo senador Frank Church sobre os programas
policiais no Brasil patrocinados pelos Estados Unidos.

8 O roteiro de Seven Meditations é uma descrição detalhada do espetáculo na Universidade de North


Carolina em Chapel Hill que apareceu em Fag Rag, 1973, p. 13-20.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Qual seria o elemento tão claramente perturbador e politicamente es-


timulante naquela representação estilizada de tortura? Naturalmente, não te-
mos meios para medir os pensamentos e reações emocionais das plateias que
assistiam ao Living Theater, e tampouco sabemos que impacto elas tiveram
em suas vidas. O poder da cena surgia de algo mais do que a visão da perse-
guição brutal e sádica a uma vítima inocente, representada em movimentos
precisos e dolorosamente lentos. Uma constelação de símbolos e significados
permeava a representação. Para uma geração de ativistas que atingia a maio-
ridade no final da década de 1960, a imagem popularizada de Che Guevara
com os cabelos revoltos, a barba indomada e o boné negro com a estrela
vermelha personificava uma masculinidade revolucionária. Conforme ficou
bem documentado, em 1965 Che deixou o cargo de ministro da Indústria
em Cuba a fim de apoiar o movimento revolucionário no Congo. Ao fracas-
sar essa iniciativa, ele se transferiu para a Bolívia, onde foi morto em 8 de
outubro de 1967 enquanto procurava construir uma base revolucionária no
interior, numa região estrategicamente colocada próxima à Argentina e ao
Brasil, mas totalmente inóspita para a guerra de guerrilhas. Sua morte trági-
ca no final daquele ano o entronizou como figura emblemática e constante
para a juventude internacional e as mobilizações estudantis de 1968, de Paris
a Berkeley, do Rio de Janeiro à Cidade do México. O sacrifício do Che pela
causa o ligou a uma geração que rejeitava o materialismo capitalista e consi-
derava que as lutas dos povos em todo o Terceiro Mundo estavam ligadas a
suas próprias preocupações nos Estados Unidos.
Nas mentes de algumas pessoas entre os espectadores dessas representa-
ções a óbvia ascendência africana de Ivanildo Silvino de Oliveira pode havê-lo
dissociado um pouco da imagem de um revolucionário latino-americano como
Che Guevara, com características fisionômicas europeias e cabelos negros on-
dulantes. No entanto, para muitos da geração jovem que assistira à peça teatral,
os revolucionários vinham de todas as raças. Malcolm X, os Black Panthers, Ho
Chi Minh e Nelson Mandela simbolizavam resistência ao “sistema” tanto na-
cional quanto internacionalmente. Para os espectadores que conheciam pelo
menos alguma coisa sobre a história e cultura do Brasil, ver uma pessoa no pau
de arara, o que poderia parecer representar um “verdadeiro” revolucionário
brasileiro, conferia ainda mais legitimidade à representação.
O conjunto do Living Theater preferiu não representar o estupro de uma
revolucionária sob tortura, embora sem dúvida tivessem ouvido falar em tais inci-
dentes durante o encarceramento em 1971 e no curso da campanha que levaram

22
James N. Green

a cabo nos Estados Unidos após serem expulsos pelo governo brasileiro. Du-
rante o tempo que passou na prisão, Judith Malina fez amizade com uma pri-
sioneira política que tinha sido detida por alegações de envolvimento em um
atentado à bomba. Malina publicou também seus “Diários do Cárcere” em um
jornal local, O Estado de Minas, na esperança de ajudar outros prisioneiros, a
maior parte do quais tinham estado metidos na luta armada (MALINA, n. 5,
2002, p. 410; TYTEL, n. 12, p. 411, 1995). Ao preferir seguir um metarroteiro
que glorificava o rebelde masculino, a cena de tortura apresenta uma galharda
figura masculina que resiste até o amargo fim apesar de sua vulnerabilidade
(tal como resistiu o Che no relato mítico de sua história). Enquanto o corpo
do homem é exposto, violado e sofre dor extrema, nenhum dos camaradas é
traído. A pessoa torturada não revela informações que comprometam a revo-
lução. Mesmo diante de toda a sua vulnerabilidade, ele permanece sendo um
“verdadeiro” revolucionário.
O poder da cena também repousa na imagem chocante do revolucioná-
rio desnudado, com a masculinidade ameaçada pelas correntes elétricas que
pulsam em direção ao ânus. O protagonista juvenil, apanhado em uma onda
de repressão e em desvantagem numérica, não apenas é espancado e torturado,
mas também sexualmente violado, ainda que em forma simbólica. Recordan-
do a cena, Malina comentou seu efeito sobre a plateia: “O impacto era grande
por dois motivos - e culturalmente isso é importante: a relação entre o tabu
sexual e o horror do tabu sexual. Por isso o chamamos sado-masoquismo po-
lítico, que é o horrível ponto de encontro entre o sadismo, isto é, a crueldade
sexual e a crueldade política” (MALINA, 2002).
Esse rompimento da noção da impenetrabilidade do corpo masculino
cria uma cena em completo conflito com as normas aceitáveis de tratamento
adequado para com a forma masculina, e como notou Malina, deixava a pla-
teia inteiramente perturbada.
A representação do Living Theater oferecia uma reconfiguração simbó-
lica do corpo brasileiro ou, neste caso, do corpo masculino. Nessas representa-
ções já não se trata de Brasil como um país de carnaval e prazer sensual onde
garotas bonitas andam em areias brilhantes sob um sol radioso. Ao contrário,
o corpo (masculino) se torna receptáculo de comportamento sádico, quase
inexplicavelmente violento. Corpos femininos bronzeados que se encami-
nham para o mar se transformam em corpos prostrados e emasculados que
gritam de dor. O revolucionário torturado, motivado pelo idealismo e pelo
comprometimento político, é tratado com desumanidade abjeta. Uma nova

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

imagem então se fixara na constelação de representações do Brasil que circula-


vam internacionalmente nos anos 70.

Desfiles de moda e corpos desaparecidos

Enquanto o Living Theater ensaiou o seu novo espetáculo em Nova Ior-


que, as cadeias e centros de tortura no Brasil ainda estavam superlotados. Entre
os presos políticos estava Stuart Edgar Angel Jones, de vinte e seis anos, ex-es-
tudante que se tornara guerrilheiro (COMISSÃO DE FAMILIARES DE MOR-
TOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS, 1996, p. 398-400). O jovem opositor
da ditadura era um dos líderes do Movimento Revolucionário 8 de outubro
(MR 8), que participara do sequestro do embaixador norte-americano em se-
tembro de 1969. Stuart Angel era filho de Norman Angel Jones, cidadão norte-
americano, e Zuleika Angel Jones, modista conhecida internacionalmente com
o nome profissional de Zuzu Angel. Levado ao “Paraíso”, como os prisioneiros
políticos sarcasticamente chamavam o centro de interrogatório do Serviço de
Informações da Aeronáutica, localizado na base aérea do Galeão, no Rio de
Janeiro, ele desapareceu.
Como havia ocorrido com muitas outras mães de famílias de classe mé-
dia cujos filhos e filhas tinham sido apanhados na implacável rede dos milita-
res contra a esquerda, a busca do filho transformou Zuzu Angel. “Só penso em
trabalhar e ganhar dinheiro para dar o melhor aos meus filhos” (VALLI, 1987),
suspirou ela em suas memórias inacabadas, My Way to Death, título em inglês
dado por ela à coleção de elucubrações que documentam a busca e a infinita
frustração de não saber o destino do filho. “Agora tenho que entrar nessa po-
lítica e virar militante. A procura do meu filho, e depois dos filhos das outras,
me envolveu completamente. (Justamente) quando a minha moda já estava fa-
zendo sucesso e parecia, finamente, que ia dar certo financeiramente” (VALLI,
1987, p. 31-32). Em algum momento nos dias seguintes um telefonema anôni-
mo avisou a mãe de Stuart Angel de que deveria constituir um advogado a fim
de defender o filho, que tinha sido preso (JONES, 2002). Assim começou o que
em conversas conosco algumas famílias de prisioneiros políticos e de “desa-
parecidos” denominaram seu ‘calvário pessoal’, uma angustiante Via Dolorosa
que os levava de delegacias de polícia a quartéis, hospitais militares, oficiais
de patente elevada, apelando, suplicando, lisonjeando e subornando qualquer
pessoa para poder ter notícia de um ser amado. Quase imediatamente depois
de receber a notícia da prisão do seu filho, Zuzu Angel contratou o advogado

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James N. Green

especializado em direitos humanos Heleno Cláudio Fragoso para ajudá-la a


encontrar o filho (FRAGOSO, 1984, p. 157-163).
Embora Zuzu Angel estivesse separada do marido, ela mobilizou tam-
bém os parentes nos Estados Unidos a fim de ajudar a localizar o único filho
homem. Em 25 de maio, o tio de Stuart Angel, cidadão norte-americano, man-
dou um telegrama à embaixada norte-americana no Rio de Janeiro solicitando
assistência no fornecimento de informações sobre o sobrinho. Duas semanas
depois, o cônsul norte-americano James W. Reardon respondeu que a polícia
carioca não conseguira localizar nenhum registro de prisão de Stuart Edgar
Angel Jones. No entanto, informou a família de que:

Está preso um certo Stuart Edgar Angel Gomes, procurado por quatro acu-
sações distintas de assalto. No entanto, o sr. Gomes fugiu e não se sabe seu
paradeiro atual. Dado o fato de que três nomes são idênticos e que Gomes é
provavelmente uma corruptela de Jones, acredito que muito provavelmente
essa informação da polícia diga respeito a seu sobrinho9.

A notícia de que um prisioneiro político fora detido e em seguida esca-


pado era sinal ameaçador. Em geral significava que a pessoa havia morrido du-
rante o interrogatório. Após vários meses de persistente busca de informações
sobre o filho, o calvário de Zuzu Angel chegou à imprensa dos Estados Unidos.
Uma reportagem da Associated Press (AP) intitulada “Brasileiro torturado até
a morte” (1971) relatava que um parlamentar brasileiro havia exigido uma in-
vestigação sobre “o desaparecimento do filho de vinte e seis anos de um norte-
americano e uma figurinista mundialmente famosa. Afirma-se haver indícios
de que o desaparecido, Stuart Jones, foi torturado na prisão até morrer”10.
O artigo atraiu a atenção de funcionários do governo norte-americano.
No mesmo dia em que a notícia da AP passou pelos fios do serviço noticioso, o
Departamento de Estado solicitou detalhes do caso à embaixada do Brasil em
Washington. O telegrama assinalava: “A imprensa e a TV aqui noticiam alega-
ções de tortura e morte de um certo Stuart Jones pela Aeronáutica Brasileira
no Rio, em maio passado”. O Departamento de Estado pediu maiores infor-
mações, inclusive a nacionalidade de Jones que, “segundo se afirma, é filho de
uma cidadã norte-americana naturalizada”11.

9 Reprodução da carta em VALLI, 1987, p. 214.


10 Ver “Brazilian Tortured to Death?” 1971, p. 3.
11 “Stuart Edgar Angel Jones”, Washington a Brasília e Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1971, Caixa 2133,
Arquivo Nacional, Washington.

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Funcionários da embaixada no Brasil deram informações a Washington


sobre as investigações que haviam feito sobre Jones no fim de maio e início de
junho, assim como detalhes de uma reunião posterior com Heleno Fragoso, o
advogado que representava Zuzu.
Em conversa com o advogado da família de Jones, Heleno Fragoso, foi exi-
bido a um funcionário da embaixada o original da carta do Cônsul, que está nos
arquivos do advogado. Na provável eventualidade de que as forças de segurança
do governo do Brasil continue a negar ter conhecimento da prisão de Jones, é
muito possível que Fragoso e a família de Jones procurem dar conhecimento ao
público do conteúdo da carta, o que colocaria a embaixada em situação embara-
çosa ao contradizer a afirmação do governo do Brasil no que concerne a assuntos
internos brasileiros (DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA, 1971).
Segundo o telegrama, o governo norte-americano havia recebido o es-
clarecimento “em conseqüência de um pedido de rotina à polícia do estado da
Guanabara... (a qual) forneceu essa informação a escritório de contato policial
regional de segurança” (DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA, 1971).
Temendo uma desavença entre o Brasil e os Estados Unidos caso Zuzu ou
seu advogado divulgassem a informação obtida por meio de fontes do governo
norte-americano, o embaixador dos Estados Unidos, Rountree, informou Wa-
shington de que “devido à circunstância acima mencionada, a embaixada não
pretende, repito, não pretende, neste momento, divulgar a fonte de sua informa-
ção à família Jones” (DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA, 1971).
Com o caminho barrado pelos governos do Brasil e dos Estados Unidos,
Zuzu continuou seguindo inúmeras pistas, todas as quais se revelaram falsas,
até ficar sabendo por várias fontes o provável destino do filho. Após ser preso,
Stuart fora torturado com grande selvageria e aparentemente revelou muito
pouca informação. Alex Polari, que fora “interrogado” na mesma sala com ele
- mais tarde naquele dia, escreveu:

No mesmo dia, 14 de maio, os interrogatórios prosseguiram com as idas e


vindas da sala de tortura. Antes, durante a tarde, ouvi durante muito tempo
um grande alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo liga-
dos, acelerações, gritos, perguntas e uma tosse constante de engasgo e que
pude notar que se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito es-
forço, devido a minha situação física, olhar pela janela que ficava a uns dois
metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer. Junto a um sem nú-
mero de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semiesfolada,

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James N. Green

era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de


quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aber-
ta, a aspirar os gases tóxicos que eram expelidos (VALLI, 1987, p. 154-155)12.

Polari relatou também que seus carcereiros haviam feito comentários


cínicos e que Stuart iria “alimentar os peixes na restinga”. Esse comentário se
referia aos rumores generalizados de que os cadáveres dos prisioneiros que
morriam na tortura “seriam transportados de helicóptero até Restinga de Ma-
rambaia (área militar) e de lá lançados em alto mar” (VALLI, 1987, p. 160).
Em agosto de 1971 o advogado de Zuzu Angel apresentou uma versão
da denúncia de Polari sobre a morte de Stuart Angel à Comissão Brasileira de
Direitos Humanos, controlada pelo governo. O deputado Pedroso Horta, líder
da minoria e membro do partido de oposição, o Movimento Democrático Bra-
sileiro (MDB), também requereu ao ministro da Justiça Alfredo Buzaid que in-
vestigasse as acusações de Fragoso. Mesmo com os crescentes indícios de que
as autoridades haviam efetivamente assassinado seu filho durante o interroga-
tório, Zuzu Angel manteve a esperança de que ele miraculosamente aparecesse
vivo. No entanto, apesar de todas as tentativas desesperadas de localizar o filho
(ou seu cadáver), ela continuou a encontrar becos sem saída.
Começando com recursos modestos, mas com infinita energia e otimismo,
Zuzu Angel havia passado de modista com um pequeno atelier em sua própria
casa em Belo Horizonte a designer de moda em uma butique elegante do Leblon,
no Rio de Janeiro. Na década de 1960 ela vestia os corpos bronzeados das belda-
des cariocas com longos vestidos esvoaçantes, estampados floridos e enfeites de
renda do nordeste do Brasil. A primeira dama brasileira, Yolanda Costa e Silva,
vestiu uma de suas criações na visita da Rainha Elizabeth II ao Brasil em 1968.
No ano seguinte, o Conselho Nacional Feminino a homenageou como Mulher
do Ano. Joan Crawford a apresentou ao mundo da moda de Nova York em 1968
(SHEPPARD, 1968, p. 10) e em 1970 a empresa Bergdorf Goodman, uma das
principais lojas de departamentos de Nova York na época, comprou toda a cole-
ção desenhada por ela (Ibid). Kim Novak, Margot Fonteyn, Lisa Minnelli e Faye
Dunaway estavam entre as que usaram suas roupas de marca.

12 VALLI, 1987, p. 154-155. Pouco depois da morte de Stuart Angel, Alex Polari conseguiu mandar a Zuzu
Angel notícias do que havia visto. Em maio de 1972 ele escreveu também uma carta de seis páginas a
ela, detalhando o que sabia sobre a prisão, tortura e morte de Stuart, tirando-a ocultamente da cadeia.
Embora Zuzu Angel soubesse da existência da carta, ela explicou mais tarde que temia recebê-la porque
isso significaria o fim da esperança de que o filho tivesse conseguido sobreviver e estivesse em algum
lugar. VALLI, 1987, p. 160.

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Num mercado internacional que se apoiava em antigos estereótipos so-


bre o Brasil, o primeiro desfile de moda de Zuzu Angel nos Estados Unidos
recordou Carmen Miranda com barriguinhas de fora e turbantes de baianas
para serem usados em trajes informais de festa. Zuzu prontamente reconheceu
a referência. “Carmen - que morava no Rio de Janeiro, como eu - se vestia ao
estilo da Bahia porque esse é nosso estilo nacional. Naturalmente, ela exagera-
va” (MORRIS, 1970). A própria Zuzu exagerava ao tomar emprestadas outras
imagens folclóricas do Brasil. No mesmo desfile, ela criou uma elegante Maria
Bonita vestida de seda estampada amarela, roxa e turquesa ao estilo gaúcho,
com um grande chapéu de cangaceiro estilizado. A modista usava as pedras
semipreciosas de Minas Gerais para dar brilho a seus modelos. Aproveitando o
artesanato popular brasileiro, Zuzu enfeitava os vestidos de noiva com as deli-
cadas rendas do nordeste. Suas novas criações cobriam o corpo feminino com
referências à natureza do Brasil e à sua cultura exótica. Segundo os críticos
norte-americanos de moda, o tema recorrente na coleção era “o pássaro tropi-
cal, pássaros bordados, pássaros de contos de fadas e multidões de coloridos
pássaros da selva” (KUNZ, 1971, p. 2-B).
O desfile de moda na residência do cônsul geral do Brasil e senhora
Soutello Alves em Nova York, em 13 de setembro de 1971, no entanto, acabou
mostrando uma imagem muito diferente do Brasil. No dia do desfile Zuzu
falou com Thomas Dine, assessor administrativo do senador Frank Church. A
modista havia pedido a membros do Congresso Norte-americano apoio a seus
esforços para pressionar o governo brasileiro a localizar o filho, que ela ainda
esperava que não estivesse morto e sim que houvesse miraculosamente sobre-
vivido e estivesse detido em algum lugar. Ela escreveu uma carta apressada a
Dine explicando que a busca do filho havia afetado seu trabalho.

Há quatro meses, quando comecei a pensar nela (a coleção), eu me inspirei


nas flores coloridas e nos belos pássaros de meu país. Mas, então, de repen-
te, esse pesadelo entrou em minha vida e as flores perderam o colorido, os
pássaros enlouqueceram e produzi uma coleção com um enredo político. É
a primeira vez, em toda a história da moda, que isto acontece. Assim, espe-
ro que esta noite conseguirei fazê-los pensar no assunto, com esta coleção.
Peço que me perdoe por esta longa carta, por esta grande tragédia latino-
americana levada ao seu conhecimento... [sic] (apud VALLI, 1987, p. 50).

A filha de Zuzu Angel, Ana Cristina, que na época estudava na Universida-


de Columbia, recorda que logo depois de haver recebido o convite para o desfile

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James N. Green

na casa do cônsul sua mãe resolveu utilizar a oportunidade para fazer um pronun-
ciamento público a respeito do filho, recentemente desaparecido (JONES, 2002).
A Associated Press deu cobertura ao desfile de modas politizado por meio de seu
serviço noticioso, que foi objeto de artigos em jornais nos Estados Unidos e no Ca-
nadá13. Bill Cunningham, que redigiu a notícia do evento no Chicago Tribune, no
entanto, não deu relevo a seu conteúdo político. “Os protestos por meio da moda
são raros e poucas vezes têm êxito. A atividade de moda fala com mais clareza
quando é alegre” (CUNNINGHAM, 1971, sec. 2, p. 1). Mesmo assim, fez uma des-
crição que não estava na reportagem da AP: “A própria designer usou um vestido
longo preto, com um lenço dramático e um cinto feito com cem pequenos cruci-
fixos de prata. Do pescoço pendia um anjo branco de porcelana” (Idem). Vários
modelos usaram também faixas no braço, em sinal de luto por cima dos vestidos
de algodão xadrez. Cunningham relatou que em vez dos estampados coloridos e
imagens tropicais costumeiras, “ela mandou bordar gaiolas por cima dos pássaros,
pintou balas de canhão que alvejavam “anjos” e fez colocar quepes militares sobre
rostos macilentos de crianças, com pombas negras” (Idem).
No final do desfile, Ana Cristina cantou suavemente a canção “Tristeza”,
melodia vibrante do Carnaval de 1966 cuja letra, ao contrário, é docemente
melancólica. Em silêncio, a plateia parecia estupefata com o impacto do pro-
nunciamento de Zuzu Angel através da moda. Mais de três décadas depois,
Ana Cristina recordou o acontecimento:

A reação? Eles ficaram sem saber como reagir. Estavam chocados. Houve
um aplauso muito tímido. No início (do desfile) as pessoas não notaram.
Era uma coisa que ia aumentando aos poucos. De qualquer maneira todos
se comportaram normalmente em relação a ela. Muitos sorrisos e beijos. As
pessoas do mundo norte-americano da moda que conheciam minha mãe a
apoiaram muito. Já sabiam do sofrimento dela. Todos sabiam do sofrimento
de minha mãe, somente o Brasil não sabia (JONES, 2002).

Após o espetáculo, Zuzu Angel declarou à imprensa: “Continuarei a ba-


ter em todas as portas para que o mundo tome conhecimento - se necessário,
por meio de minhas criações de moda” (Fashion Takes Political Turn, 1971,
p. 2-B). A foto de Zuzu foi publicada junto com o artigo da Associated Press,
mostrando uma mulher que fitava a câmara com olhar esgazeado e exausto.

13 A reportagem apareceu com títulos diferentes. REDMONT, 1971, p. 7; “Designer’s Fashions Make Plea
for Her Lost Son”. 1971, p. 90; “Fashion Takes Political Turn”, 1971, p. 2B.

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O impacto de seu desfile de moda nos Estados Unidos sobre a plateia


norte-americana mais ampla deve ter sido no máximo brevíssimo, havendo
o artigo enviado pelo serviço noticioso aparecido em uma série esparsa de
seções femininas em jornais diários em todo o país. Em 1971, no entanto, a co-
bertura de imprensa sobre a tortura sistemática no Brasil já surgia mais cons-
tantemente na mídia, e a persistente campanha de Zuzu Angel no Brasil foi um
espinho para os militares. Em 15 de agosto de 1971 a Associated Press enviou
uma foto de Stuart pelo serviço noticioso com a legenda: “Desaparecido -
Stuart A. Jones, desaparecido no Brasil por período indeterminado. É filho de
Norman A. Jones e Zuleika A. Jones, designer brasileira de moda, conhecida
internacionalmente como Zuzu Angel. A foto foi feita há dois anos, quando
Stuart tinha 24 anos”.
Em seguida, em letras maiúsculas, vinha a advertência “VEDADA
PARA O BRASIL”. Zuzu tinha conseguido convencer a agência de notícias a
transmitir a foto. A fotografia simples, em branco e preto, captava o encan-
to de um jovem de boa presença e também se referia ao desaparecimento de
opositores, naquele caso filho de uma mulher famosa no Brasil Os generais
brasileiros sem dúvida não desejavam que o destino do filho querido de Zuzu
Angel se transformasse em uma cause célebre.

A mulher brasileira na Broadway

Entre 1971 e 1977 a situação no Brasil mudou dramaticamente. Em


1974 o Presidente Geisel iniciou a distensão e a oposição venceu nas eleições
e novembro. Em 1976 Jimmy Carter, um governador desconhecido do esta-
do de Geórgia, ganhou as eleições presidenciais nos Estados Unidos com um
programa que incluía a defesa dos direitos humanos na América Latina. De-
pois da eleição, mandou a sua mulher para América Latina. Rosalyn Carter se
reuniu com Presidente Geisel e também com missionários norte-americanos
que tinham sido torturados na prisão. Era um sinal claro da Casa Branca que
a política estadunidense não tolerava as violações graves dos direitos humanos
no Brasil e no resto da América Latina.
No mesmo mês em que Rosalyn Carter voltou dos Estados Unidos após
sua viagem pela América Latina, uma conhecida atriz norte-americana foi a
estrela de uma produção de teatro que aludia ao Brasil em Nova York. A peça
trazia às plateias norte-americanas uma metáfora dramática sobre a vida em
um regime autoritário. Haviam passado seis anos desde o protesto de Zuzu

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James N. Green

Angel, tomado em forma de criações de moda diante do crème de la crème da


colônia brasileira em Nova York. O desfile da modista tinha representado um
desafio pessoal contra o tratamento dado a seu filho pelos militares. A peça
Miss Margarida’s Way, escrita e dirigida pelo dramaturgo brasileiro Roberto
Athayde e produzida por Joseph Papp, do festival Shakespeare de Nova York,
fez outro tipo de desafio contra o governo brasileiro e rendeu a Estelle Parsons
uma indicação para o Prêmio Tony e um Prêmio “Drama Desk” na categoria
“Experiência Teatral Original”.
A peça, que era uma adaptação do texto original de Athayde, Apareceu a
Margarida, de 1973, trata de uma professora autoritária e sexualmente repres-
siva que instila constantemente disciplina a seus alunos - a plateia - numa alu-
são pouco disfarçada ao regime militar brasileiro (ATHAYDE, 1973)14. O po-
deroso desempenho de Parsons recebeu elogios gerais e críticas entusiásticas.
Embora sem pedantismo político, o drama cria uma atmosfera de vida sob um
regime repressivo. Durante os dois laboriosos atos (ou aulas para alunos do fi-
nal do curso primário) a peça repreende, importuna, acossa e atormenta a pla-
teia a fim de assegurar obediência e submissão. A professora enfrenta qualquer
mostra ostensiva de resistência com mais gritos, exigindo silêncio em uma
interação com os espectadores na qual ela sempre sai vencedora. O roteiro faz
com que a personagem principal abuse da plateia com suas falas peremptórias.
O monólogo prossegue interminavelmente, sem forma definida, modificando-
se conforme a ocasião. Suas diatribes disciplinares não possuem lógica aparen-
te e parecem tão arbitrárias e fluídas quanto à plasticidade do próprio sistema
legal do Brasil sob o governo militar. As regras do jogo nunca são fixas e parece
impossível atingir o comportamento adequado dos alunos15.
Segundo Parsons, o que mantinha a novidade da peça após muitas re-
presentações era a imprevisibilidade da parte que prevê a participação da pla-
teia. “Nunca se sabe bem o que farão os espectadores... Às vezes me atiravam
objetos. No intervalo escreviam frases grosseiras no quadro negro, como ‘Miss
Margarida tem chatos’” (Cue, 1977, p. 28). De fato, Miss Margarida não é uma
sedutora cintilante que atrai os alunos com seu encanto sexual. Ela investe
contra o sexo e a masturbação e se revela seca e castradora, escolhendo como
objeto de seus abusos qualquer espectador que ouse desafiá-la seja como for.

14 Versão em inglês: Miss Margarida’s Way: Tragicomic Monologue for an Impetuous Woman, 1977.
15 Para um debate sobre o relacionamento entre linguagem, poder e violência na peça, ver ALBUQUER-
QUE, 1986; UNRUH, 1986.

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Em uma entrevista a um repórter do New York Times para a reprise em


1990, Athayde explicou: “A peça reflete meus próprios problemas na escola. Acres-
centei a minhas experiências pessoais a ditadura no Brasil” (STEVENS, 1990, p. 5).
A escolha da figura feminina de Big Brother em forma de Big Sister é um artifício
pouco comum no impacto metafórico da peça. “Eu queria que meu símbolo de ti-
rania fosse muito sedutor”, diz ele. “Por isso ela surgiu assim: no interior, uma mãe;
no exterior, uma ditadura, e entre as duas, uma professora” (Ibid).
Pelo menos um analista literário argumentou que escolher uma perso-
nagem feminina para representar os protagonistas autoritários da repressão na
América Latina atenua a natureza masculina desses regimes (BOYLE, 1989).
Outros assinalaram o fato de que Miss Margarida transgride as expectativas
da sociedade da mulher no papel maternal e conciliador. Em vez disso, ela
age como tirana. Isso serve para elevar as reações contra essa ‘representação’
de opressão de um público... (que) se sentiria mais chocado com uma mulher
que atuasse dessa maneira do que com um homem que o fizesse de maneira
idêntica (SKAR, 1997, p. 55)16.
Ao contrário do desfile de modas surpresa de Zuzu Angel, de conteú-
do político, os comunicados de imprensa que anunciaram a estreia de Miss
Margarida’s Way informavam diretamente o público de sua mensagem de opo-
sição. “A peça... foi fechada pelo governo brasileiro ao ser produzida original-
mente nesse país em 1973. As autoridades a consideraram uma alegoria polí-
tica contra a ditadura”, concluía a nota que anunciava a primeira temporada
no “Public Theater”17. Ao resumir a biografia no autor, o programa na revista
Playbill informava:

Miss Margarida’s Way foi encenada pela primeira vez na Universidade de


Córdoba, na Argentina (em 1972), e depois veio a primeira produção no
Rio, fechada pela polícia cinco semanas mais tarde. Posteriormente foi rea-
berta, depois de feitos os necessários cortes, e teve uma temporada de gran-
de sucesso (1977).

Embora os críticos teatrais mencionassem o conteúdo político da peça,


inevitavelmente relacionaram o tratamento do tema do autoritarismo com
questões de autoridade, educação e disciplina. Após o título de sua crítica,

16 Ver também ALBUQUERQUE, 1991.


17 Ver “Estelle Parsons in Brazilian Play”, 1977, p. 35.

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James N. Green

“Um drama de ‘confrontação’ trata de ditadura”, Mel Gussow, do New York


Times, escreveu: “Miss Margarida é uma tirana, uma ditadura, e segundo a
descrição do autor, ‘um terrível monstro’. Conforme o ponto de vista, ela pode
ser vista como uma mãe dominadora, um político poderoso, Richard Nixon
ou até mesmo Adolf Hitler” (GUSSOW, 1977, p. D-4).
Ariel Dorfman, ex-exilado chileno e professor de literatura, refletiu so-
bre a produção original norte-americana em uma crítica da reprise da peça por
Parsons na Broadway:

Em 1977 - ano particularmente decepcionante - os espectadores podiam


identificar Miss Margarida com uma ampla variedade de suas ditaduras favo-
ritas, a começar pelo Brasil de Mr. Athayde, ou com os tristes países vizinhos
da Argentina, Uruguai, Bolívia, Paraguai e o meu próprio Chile. Havia muitos
outros ditadores clientes dos Estados Unidos: Somoza, o Xá, Duvalier, Marcos
e os onipresentes generais na Guatemala e na Coreia do Sul. No campo rival,
podia-se olhar o genocida Pol Pot ou o amado líder Kim II Sung, ou na Eu-
ropa oriental os sósias do grisalho Brezhnev, Miss Margaridas patriarcais que
impunham seu socialismo burocrático (DORFMAN,1990, p. 5-28).

A leitura das colunas de jornais e revistas sobre a peça, no entanto, não


capta completamente o colorido do espetáculo e seu impacto sobre a plateia.
Poder-se-ia concluir que o texto de Athayde e o desempenho de Parsons ser-
viam como uma aula vespertina sobre os horrores do regime militar brasileiro,
mas esse não era o caso.
Em uma entrevista com Estelle Parsons, cerca de vinte e cinco anos mais
tarde a respeito da mensagem política que Miss Margarida’s Way trazia ao pú-
blico, ela recorda que

as pessoas raramente mencionavam o Brasil no período de perguntas e res-


postas que se seguia a muitos dos espetáculos. A maioria dos espectadores
se referia às suas próprias experiências como professores ou alunos e mes-
tres severos. Pareciam compreender a peça em termos do sistema educativo
aqui nos Estados Unidos. Na verdade, não recordo que ninguém tenha se
referido ao Brasil ou à situação política nesse país (PARSONS, 2003).

Brendan Gill, do New Yorker, relatou, todavia, pelo menos um diálogo


após o espetáculo que indicava uma preocupação de um espectador com o
amplo conteúdo político da peça:

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Depois que a peça terminou, Miss Parsons e Mr. Athayde vieram à ribalta e
se dispuseram a responder a perguntas da plateia. Mr. Athayde, esbelto e de
cabelos escuros, tremia, mas se mostrou muito seguro de si e, ao responder
a uma das perguntas, disse que em sua opinião a peça era um estudo do ego
na busca do poder. Queria isso dizer que podia ser vista como um paradig-
ma da situação política em sua terra natal, o Brasil? “Creio que é algo maior
do que o Brasil”, disse ele. Uma coisa mais importante do que a geografia”
(GILL, 1977, p. 91).

Deve-se entender esse comentário no contexto da época em que a pro-


dução surgiu na Broadway. Embora Athayde tivesse escrito a versão original
de Miss Margarida’s Way no auge do governo autoritário, nos últimos meses
de 1977, na época em que a peça estreou em Nova York o Brasil já se encami-
nhava para a liberalização política. A tortura ia se tornando coisa do passado,
utilizada naquele ano somente de maneira esparsa contra opositores políticos.
O impacto político de utilizar a tortura como instrumento de organização para
temas ligados ao Brasil já perdera a eficácia e os ativistas decididos a informar
o público sobre questões relativas ao Brasil começavam a focalizar as implica-
ções da abertura democrática que se desenrolava no país.
O comentário de Athayde de que sua peça transcende a geografia tal-
vez seja uma das razões do sucesso em Nova York. Dorfman está correto ao
mostrar que as plateias tinham uma variedade de exemplos a consultar a fim
de entendê-la, pois em 1977 o discurso sobre ditaduras e direitos humanos
se tornara parte do debate nacional no governo Carter. O desfile político de
Zuzu Angel tinha exposto o sofrimento de uma mãe famosa, buscando o
paradeiro do seu filho desaparecido. A mensagem do Living Theater tinha re-
velado ao público norte-americano o fato de que o caso de Stuart Angel não
era único e deixava claro que algo estava dolorosamente errado na terra das
delícias tropicais. As representações de violência e tortura tinham reformu-
lado os estereótipos sobre o Brasil no imaginário norte-americano. Apesar
disso, em 1977 a vida sob governos militares na América Latina era ainda
uma noção vaga e remota para a maioria dos frequentadores de teatros, o
que não era o caso do mesquinho autoritarismo das salas de aula. Na ver-
dade, as performances de Zuzu Angel, do Living Theater e de Estelle Parsons
tiveram um impacto relativo nas transformações de imagens sobre o Brasil e
o corpo brasileiro no exterior.

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James N. Green

Referências

ALBUQUERQUE, Severino João. Verbal violence and the pursuit of power.


Apareceu a Margarida. Latin American Theater Review. v. 19, n. 2. primavera.
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DESLOCAMENTOS: HISTÓRIAS
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AMERICANO, ELEMENTOS NOCIVOS
E DONZELAS INGÊNUAS -
SÃO PAULO 1920 - 1940

Maria Izilda Santos de Matos

E sta investigação pretende fornecer uma contribuição para o estudo dos


deslocamentos numa perspectiva histórica, focalizando as experiências
das mulheres imigrantes portuguesas na cidade de São Paulo no período entre
1920 e 1940. A proposta visa recuperar as ações cotidianas e os enfrentamen-
tos nos quais estiveram envolvidas estas imigrantes. Para tanto, foi privilegia-
da uma documentação variada, com destaque para os prontuários do DEOPS
(Departamento Estadual de Ordem Política e Social), os registros de imigran-
tes do Memorial da Imigração/SP e os processos de expulsão depositados no
Arquivo Nacional/RJ.

Um território: São Paulo 1920-40

No começo do século XX São Paulo assumiu seu destino de metrópole


sob o influxo do crescimento industrial, comercial e financeiro. De acordo com o
censo de 1920, o número de habitantes da cidade mais do que dobrou, atingindo
a cifra de 579.033 pessoas; já entre 1920 e 1940 a população novamente duplicou,
saltando para 1.326.261 moradores1. Em 1934 totalizavam 287.690 estrangeiros
(destes 79.465 portugueses)2, constituindo-se num mosaico diversificado de

1 Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil, 1920, Sinopse do Recensea-


mento. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926.
2 Censo Estadual de 1934.

39
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

grupos étnicos e seus descendentes que, juntamente com os migrantes do inte-


rior do estado e de outras regiões do país, conviviam numa multiplicidade de
culturas, tradições e sotaques.
Nos “desvairados anos 20” a cidade enfrentou: a crise de energia, a Revo-
lução - em 1924, as consequências da crise mundial de 1929 para o café, a Re-
volução de 1930, a perda da hegemonia política da elite paulista e o Movimento
Constitucionalista de 1932, envolvendo diretamente paulistas e paulistanos.
Apesar da crise econômica dos anos 1930, ações governamentais contor-
naram a situação da produção cafeeira, cujas exportações voltaram a crescer. Por
outro lado, mesmo frente às dificuldades (1928-32), a indústria continuou se de-
senvolvendo, atingindo altos índices no período subsequente (1932-39). Assim,
as décadas de 1930, 40 e 50 conheceram a consolidação e expansão da industria-
lização, bem como o crescimento dos setores comerciais e de serviços.
As inversões no setor imobiliário ganharam impulso, possibilitando no-
vas edificações, tornando São Paulo “a cidade de um edifício por hora” (MOR-
SE, 1970, p. 365), com a redefinição de territórios como novas áreas comerciais
e financeiras, além da zona da boemia e do meretrício.
Inicialmente, as intervenções urbanas concentraram-se na área do Tri-
ângulo Histórico (Ruas Direita, 15 de novembro e São Bento), nivelando, re-
alinhando ruas, estimulando a reforma e a reconstrução de edifícios, visando
tornar a área mais elegante. Posteriormente, intensificou-se a expansão urbana
em direção ao Centro Novo (entre o Anhangabaú e a Praça da República).
Nos anos 1930 e 40 os prefeitos Fábio Prado e Prestes Maia implementa-
ram o Plano Avenidas. Seguiu-se um “bota abaixo”, até então inusitado: abrin-
do avenidas, alargando ruas, refazendo ligações viárias, construindo parques,
jardins e praças.
A área do Triângulo Central era dinamizada com as atividades dos negó-
cios e serviços (bancos, escritórios, dentistas, médicos, advogados, costureiras e
alfaiates finos) e um comércio amplo e variado (produtos importados e nacio-
nais, lojas refinadas e de variedades) que se somavam às novas possibilidades de
lazer e diversões (confeitarias, restaurantes, cafés), atividades culturais (teatros,
cafés concerto, cinemas) e intelectuais (bibliotecas, livrarias, cursos, Faculdade
de Direito, Escola de Comércio Álvares Penteado).
Por este território circulavam profissionais liberais, intelectuais, artistas e
estudantes. Também se podia notar a maior presença feminina, como trabalha-
dora e consumidora, já que no Triângulo concentravam-se as lojas e confeitarias,
o que permitia o passeio, a sociabilidade, o deslumbramento frente às vitrines

40
Maria Izilda Santos de Matos

elegantes com uma ampla variedade de produtos expostos e já propagandea-


dos nas revistas.
Os territórios de lazer noturno contribuíam para ampliar o caráter me-
tropolitano, tornando a cidade polo de atratividade a partir das diversões e
espetáculos. Integrava-se num sistema amplo de relações culturais marcado
pela busca de prazeres e distrações, novos e variados ambientes de diversão,
alguns mais, outros menos sofisticados: confeitarias, bares e restaurantes, te-
atros, cafés-concerto, cafés-cantantes, cinemas, também bordéis e cabarés. A
prostituição foi se estratificando: as mais refinadas atendiam com discrição.
Elegantemente vestidas, circulavam nos restaurantes e confeitarias, podendo-
se contar com vários bordéis e rendez-vous para atender à clientela3.

A cidade e as mulheres: as portuguesas no DEOPS

Esta pesquisa foi inicialmente desenvolvida no acervo do DEOPS/Arqui-


vo do Estado de São Paulo, que conta com mais de 160 mil prontuários e 9 mil
dossiês. Neste vasto corpo documental foram identificados até o momento 5.371
prontuários referentes aos imigrantes portugueses; destes, apenas 237 são pron-
tuários de mulheres (4.5% do total).
Entre as portuguesas prontuariadas foram encontrados vários motivos
para as averiguações, com destaque para os pedidos de autorização para funcio-
namento de casa de cômodos, pensão e hotéis (32% dos casos), querelas entre
proprietárias e inquilinos (15%) e infrações à lei de economia popular (17%).
As primeiras destas questões vinculavam-se à significativa presença das
portuguesas como proprietárias de pensão e casas de cômodo (fornecedoras de
refeições). Para autorização de funcionamento destes estabelecimentos e com-
provação de seu perfil familiar era exigência legal um documento de anteceden-
tes da proprietária fornecido pelo DEOPS. Cabe destacar que este tipo de serviço
se expandiu no processo de crescimento urbano da cidade devido à alta deman-
da por habitação e alocação. As pensões e casas de cômodo se localizavam por
toda cidade mas, particularmente, nas proximidades das estações ferroviárias.

3 No processo de repressão a prostituição encontrava-se vinculada à reorganização do espaço urbano,


com o deslocamento sucessivo das zonas de prostituição para locais reservados e ou mais afastados.
Se no início do século as zonas de prostituição estavam nas ruas Libero Badaró (perto do Hotel dos
Estrangeiros), entre a R. José Bonifácio e o largo de São Bento, já nos anos 1920 tinha atravessado o vale
do Anhangabaú em direção ao centro novo: Av. Ipiranga, R. Timbiras, R. Amador Bueno, Aurora, Vitó-
ria e largo do Arouche, também para o Bom Retiro: R. Itaboca, Aimorés e Carmo Cintra; mantinha-se
também a baixa prostituição na área da Estação da Luz, R. Senador Feijó e Riachuelo (RAGO, 1991).

41
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Neste mesmo quadro de crescimento urbano e dificuldades com a mo-


radia podia-se observar - entre as várias estratégias de sobrevivência e possi-
bilidade de obtenção de uma fonte de renda utilizada pelas portuguesas - o
aluguel de um cômodo, um quarto anexo ou pequeno imóvel. Algumas imi-
grantes, entretanto, eram donas de várias propriedades, viúvas ou herdeiras, e
possuíam pecúlio e altos rendimentos no setor de aluguéis. Para umas e outras
as relações estabelecidas entre locatários e locadores nem sempre foram tran-
quilas, como se pode perceber pelos conflitos descritos nos prontuários.
Já as infrações de economia popular4 denotavam a atuação das portu-
guesas nas atividades comerciais (açougues, padarias, armazéns, adegas, bo-
tequins, restaurantes, confeitarias e pastelarias, quitandas, leiterias). Alguns
destes estabelecimentos eram familiares e para a sua instalação se aproveitava
um quarto da frente da própria casa; outros, mais amplos, mostravam uma
ascensão no ramo comercial.
O comércio implicava em trabalho árduo, uma longa jornada no bal-
cão, exigindo habilidades como cativar a clientela, ser simpática e gentil com
os compradores, ceder nos preços, ouvir pacientemente reclamações contra a
carestia e a qualidade dos produtos, além de aceitar gracejos.
O balcão era o palco privilegiado das manifestações de antilusitanismo,
convivendo-se com as tensões em torno das cobranças, os atrasos e recusa no
pagamento das contas consideradas abusivas, as hostilidades, muitas vezes as
brigas, denúncias à polícia, provocações, insultos. Estas tensões contribuíram
para a constituição das representações do português como explorador, sovina,
açambarcador e falsificador (denúncias de fraudes).
No período da Segunda Grande Guerra - particularmente - observa-se nos
prontuários as solicitações de salvo conduto, autorização de transferências e mu-
danças. Estas práticas eram exigidas para todos os estrangeiros, sendo o controle
maior para os imigrantes dos países do Eixo: italianos, alemães e japoneses.
Os pedidos de regulamentação de documentos e da situação no país apa-
receram por todo o período estudado. Foram menos frequentes os casos de de-
sacato à autoridade, golpes e usura.

4 Os crimes contra a economia popular, sua guarda e seu emprego entraram para a órbita do Tribunal
de Segurança Nacional, criado em 1936. Estes tipos de crimes já estavam previstos na Lei de Segurança
Nacional (abril/1935), podendo ser identificados como um ardil da lógica de controle, marcante neste
momento histórico. Esta lógica de dominação e controle por um lado permitia ao cidadão o reconhe-
cimento de uma ameaça, alimentando a ilusão de estar protegido; por outro, a ação da lei passou a ser
sentida, acompanhada e temida por todos - o cidadão comum, o consumidor, o comerciante, o agiota,
o proprietário de imóvel, entre outros (DUTRA, 2003, p. 15).

42
Maria Izilda Santos de Matos

As poucas situações de prisões abarcavam desde simples investigação


a episódios mais graves, como ‘elemento suspeito e/ou indesejável’. Particular
é o caso apresentado no Prontuário de número 111.170/1943, envolvendo a
portuguesa Rosa da Silva Espírito Santo, tecelã da Fábrica Jafet. Rosa foi acu-
sada pela colega de trabalho Petronilha Ferreira (brasileira, negra) de ofender
o então presidente da república Getúlio Vargas na ocasião do recebimento do
salário devido ao desconto de 3% de bônus de guerra. As denúncias de injú-
ria e calúnia, nem sempre com provas concretas, baseadas na palavra de um
contra o outro, acarretaram o aumento de vigilância geral, abrindo brechas
para vinganças e acertos de contas com desafetos, adversários ou inimigos.
Nas acusações, sempre acolhidas, apareciam argumentos frágeis, parciais, to-
los, algumas vezes chegando ao ridículo, atestando, majoritariamente, motivos
pessoais - também presentes nos despachos.
Dos 237 prontuários de mulheres portuguesas pesquisados foram loca-
lizados três casos de encaminhamento para expulsão, porém apenas uma delas
foi expulsa - Maria Beatriz Duarte, sendo o processo localizado no Arquivo
Nacional/RJ.

Um caso: expulsão

Era uma terça-feira, 6 de fevereiro de 1934, faltavam somente 6 dias


para o carnaval. Naquele ano a folia prometia, já se distanciavam as tristes lem-
branças dos conflitos da Revolução de 1932, das desordens nas ruas da cidade,
o front de luta e as perdas.
Na quente tarde de verão, como fazia frequentemente, a portuguesa Ma-
ria Beatriz Duarte se arrumou muito bem, saiu de sua casa na Liberdade, Rua
Barão de Iguape nº. 15 (travessa da Av. da Liberdade, bem em frente onde mais
tarde se construiria a Casa de Portugal) e dirigiu-se até a R. Direita.
O movimento no Centro era intenso em função da aproximação dos fes-
tejos de Momo. Em torno das 16h30min Maria Beatriz entrou nas Lojas Brasi-
leiras, no nº. 37 da R. Direita, dirigiu-se à seção de bijuterias para conversar com
as jovens balconistas Vera e Judith, como já tinha feito outras vezes. Mas, repen-
tinamente, foi surpreendida pela polícia, com ordem de prisão, dita em flagrante.
Frente ao tumulto estabelecido foi levada à Delegacia de Costumes e Jogos.
Na Delegacia foram colhidos os depoimentos das duas jovens irmãs que
acusavam a portuguesa Maria Beatriz de aliciá-las para prostituição. Em seguida, a
suspeita foi liberada. Na acareação realizada dez dias depois (16/2), a acusada ne-
gou terminantemente o que lhe imputavam, desmentindo as provas apresentadas.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Esta história teve seu início alguns anos antes, em 1910, quando o vapor
que trazia a família Duarte aportou no Brasil. Manuel Joaquim Duarte e Tereza
de Jesus Panda vieram de Moncorvo, Distrito de Bragança, Trás-os-montes. Eles
traziam três filhos: a menina Maria Beatriz Duarte, nascida em 20/12/1899, e
outros 2 varões, um deles Antonio Alberto.
Não obstante, o sonho americano apresentaria surpresas e descaminhos.
Em 1917, na flor da idade, com apenas 17 anos, Maria Beatriz foi deflorada por
Albertino de Campos. A denúncia foi formalizada na delegacia em 24/9/19175.
Buscava-se remediar a situação com a oficialização do casamento, já que a jo-
vem encontrava-se grávida. Contudo, a acusação não surtiu o efeito desejado
- o casamento -, e em 18 de janeiro de 1918 nasceu a filha ilegítima Mariana
dos Anjos, registrada no Cartório de Registro Civil da Bela Vista.
Reconstituir a vida como mãe solteira, dentro dos rigorosos preceitos
da moral, não foi uma opção de Maria Beatriz, que adotou como meio de vida
a prostituição, sendo registrada na atividade em prontuário policial desde 17 de
fevereiro de 19216. Os ganhos com a profissão por mais de 12 anos, as economias
e controles permitiram que de inquilina das casas que frequentava, passasse a
proprietária de rendez-vous, encontrando-se prontuariada nesta função em 18
de maio de 1932. Seu estabelecimento se encontrava localizado na Rua Barão de
Iguape7. Conseguiu angariar outros bens, entre eles um terreno no Tucuruvi.
A manutenção e sucesso do rendez-vous exigiam habilidades, agradar os
clientes, manter o ambiente aprazível e sempre disponibilizar novas moças8. Nes-
se sentido, que no dizer do Delegado de Costumes, Maria Beatriz buscava atrair
“moças incautas”, “... ampliaram as suas atividades arrebanhando para o prostí-
bulo menores ingênuas com o fito exclusivo de aumentar os seus lucros, e talvez,
para satisfação de sua tara de degenerescência”9.

5 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p.85.


6 Buscando sistematizar a ordenação social, a cafetinagem e exploração da prostituição tornaram-se
questões de polícia e foco de estudos da medicina. As autoridades policiais reivindicavam a ampliação
de poderes para reprimir o lenocínio e controlar a prostituição. A institucionalização da repressão pode
ser rastreada desde 1896 - com os primeiros registros das prostitutas, e posterior constituição do fichá-
rio completo de mulheres públicas - com dados pessoais (1915). Estes foram acompanhados do registro
e rigorosa fiscalização das casas de tolerância e rendez vous (1913); estas ações se ampliaram com a
criação da Delegacia de Costumes e Jogos em 1924. Através de fontes diversas, pode-se obter números
aproximados: foram 812 prostitutas registradas em 1914, 3.529 em 1922, 13.941 mulheres em 1925 e
10.008 em 1936 (RAGO, 1991).
7 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 18.
8 Tornar-se cafetina podia significar ascensão econômica para meretrizes que alcançavam alguma idade;
implicava em possuir rendimento com imóveis para tal fim, entre suas funções a iniciação das meretri-
zes, sendo que se estabeleciam relações de solidariedade e exploração.
9 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 18.

44
Maria Izilda Santos de Matos

As jovens aliciadas e as testemunhas foram ouvidas no dia 16 de feverei-


ro. Octavio Souza Soares, gerente da loja, declarou que já observava a senhora
alta, sempre bem vestida, que visitava a loja diariamente, conversando com as
empregadas da seção, sem nunca adquirir qualquer objeto. Atento, começou
a desconfiar, quando soube que ela fazia convites às moças para visitar sua
pensão, divulgando que lá elas teriam vida confortável e alegre, chegando a
convidá-las para o corso carnavalesco, combinando que ela mesma forneceria
as fantasias e todo o necessário. Afirmação confirmada por Naie Pereira, outra
balconista da loja, que também fora convidada pela acusada para jantares, para
participar do corso e de bailes carnavalesco10.
O comerciário Álvaro Arantes França e o vigia da loja, Antonio Ferrei-
ra, também testemunharam as “propostas desonestas” dirigidas às balconistas.
Felício Console reforçou que a senhora oferecia vestidos, dinheiro e possibili-
dades de diversão para as jovens.
No Relatório do Gabinete de Investigação de São Paulo, o delegado
Djalma Whitaker de Lima declarava que

com o desenvolvimento atual do comércio foram abertas diversas casas de


objetos de baixos preços, sendo aproveitadas para o trabalho no balcão di-
versas jovens. Para as cafetinas foi uma inovação útil - era um mercado de
jovens formosas -, onde poderiam desenvolver suas qualidades de mulheres
cínicas e sem escrúpulos na escolha do tipo desejado, para satisfação bestial
de seus clientes endinheirados... na esperança de prostituí-las em proveito
próprio. Cheia de promessas tentadoras... prometia às jovens grandes re-
compensas se aceitassem os seus convites11.

Tratava-se das Lojas Brasileiras, que na ocasião tinha como funcionárias


no balcão mais de 45 jovens, entre elas Vera e Judith Soares. A constância das
promessas indecorosas de Maria Beatriz fez com que elas dessem parte ao ge-
rente, que comunicou a polícia.
Na sequência dos trâmites, o encaminhamento do Relatório do Gabine-
te de Investigações assinado pelo Delegado de Costumes, Djalma Whitaker de
Lima afirmava:

Sendo a acusada presa em flagrante quando tentava aliciar as vítimas, pas-


sando o cartão com o endereço do seu prostíbulo... Como estrangeira não

10 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p.12 e segs.


11 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, Relatório do Gabinete de Investigações Processo, p.18 e segs.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

soube agradecer a boa hospitalidade que aqui encontrou, levando já de iní-


cio uma vida que bem mostra as suas qualidades morais. Tratando-se de
um elemento indesejável e pernicioso à sociedade, é mister que seja excluída
do meio em que a sua presença se torna um empecilho para a boa moralidade
dos costumes. Nestas condições, sendo a acusada de origem portuguesa, de
acordo com o art. 72 da Constituição Federal, vem pedir a sua expulsão do
território nacional. 2 de março de 193412.

O pedido de expulsão foi dirigido para o Ministério de Justiça e dos Ne-


gócios Interiores. O decreto de expulsão do território nacional (n. 3259) foi as-
sinado pelo Ministro Antunes Maciel em 2 de abril de 1934. Identificava Maria
Beatriz Duarte como um “elemento nocivo aos interesses da República”13.
Impactada pela notícia, Maria Beatriz tomou providências, contratando
os advogados Thirso Martins e Pedro de Oliveira Ribeiro, que encaminharam o
Pedido de Reconsideração. Nele declarava-se a impropriedade da expulsão, a in-
veracidade das acusações e a calúnia imputada, apresentando como argumentos
que o delegado era substituto, jovem, inexperiente e moralista. Também que a
acusada não fora presa em flagrante, mas detida arbitrariamente, levada à dele-
gacia e posta em liberdade depois de tudo negar.
Destacava-se que a acusada morava no Brasil há mais de 25 anos sem pra-
ticar qualquer ato delituoso ou ação irregular, que sustentava a mãe (Tereza de
Jesus Panda) com mais de 80 anos e 2 sobrinhos órfãos e menores (Antonio Du-
arte e José Duarte) de 10 e 12 anos, residentes na R. Conselheiro Furtado nº.152,
casa 6. Confirmava-se que ela mantinha pensão de mulheres (“como há por toda
parte nesta capital”), mas nunca foi passível de qualquer reprimenda ou punição,
já que a sua pensão só era frequentada por mulheres livres e maiores. Principal-
mente, que jamais buscou seduzir menores para a prática da prostituição, sendo
falsas todas as declarações neste sentido.
Nas justificações foram colocados vários comentários sobre as jovens bal-
conistas Vera e Judith. Alegava-se que elas não podiam ser apresentadas como
“donzelas ingênuas”, já que eram “‘semivirgens’ conhecidas, prostitutas de há
muito habituadas a atos de depravação como ‘cópula anal’, conforme testemunho
de várias pessoas”14 e que se “divertem” à noite em lugares suspeitos nos arredores
da cidade. Do mesmo modo que as jovens tinham comprometedora intimidade

12 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, Relatório do Gabinete de Investigações, p. 19.


13 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, Decreto de expulsão do território Nacional de n. 3259, p. 22.
14 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 31.

46
Maria Izilda Santos de Matos

com o gerente e o proprietário da loja em que trabalhavam, com os quais fa-


ziam refeições à noite em restaurantes da cidade, mostrando em público atitudes
consideradas despudoradas. Elas frequentavam restaurantes, piscinas e dancings
suspeitos, recolhendo-se a casa altas horas da madrugada. Também que o patrão
das moças, o imigrante sírio Chedas, tentara deflorar uma delas (Judith), que
possivelmente foi ele “com seus planos lascivos que arquitetou toda a trama para
envolver a Maria Beatriz”15.
Alertava-se que as moças, apesar dos parcos ganhos e da família paupérri-
ma, trajavam-se muito bem, passeavam de automóveis e faziam refeições diárias
em restaurantes (zonas suspeitas), ostentando um estilo de vida superior, acei-
tando proteção pecuniária de terceiros.
As testemunhas da expulsanda se manifestaram em longas e detalhadas de-
clarações, ratificando os argumentos da apelação. Eram elas: Miguel Moreno, José
Frederico e Ricardo Amene; já outra testemunha, a chapeleira Marietta Azzati,
acrescentou que tinha conhecimento dos encontros amorosos de Judith e Vera16.
Apesar da justificação e dos testemunhos, em 16 de julho de 1934 o
Ministro da Justiça e Negócios Interiores, Antunes Maciel, negou a reconside-
ração e manteve a sentença de expulsão.
Maria Beatriz, inconformada, entrou com novo pedido, acrescentando
a escritura de propriedade do terreno na R. São Roberto/Tucuruvi, alegando
ser proprietária. Mesmo assim, em 30 de março de 1935, foi recolhida à cadeia
pública e identificada (1/5/35).
Para que a expulsão fosse concretizada precisava-se do passaporte, pe-
dido ao consulado português em São Paulo, que se recusou a expedir o docu-
mento, sendo o caso dirigido ao embaixador de Portugal no Rio de Janeiro.
O pedido de habeas corpus foi encaminhado, só foi respondido mais de
cem dias após a prisão. Em 18 de julho de 1935, Maria Beatriz foi posta em
liberdade. Entretanto, deixava-se claro que a libertação era temporária e que
não afetava a portaria de expulsão.
Cabia nova tentativa na qual retomava o argumento de ser ela domiciliada
no país há mais de 20 anos, proprietária e vítima de calúnia: “... aqui cresceu,
sofreu agruras da má fortuna, aqui trabalhou, conseguiu adquirir uma proprie-
dade, aqui perdeu o irmão naturalizado, deixando ao seu amparo 2 sobrinhos
órfãos brasileiros” e “pelo coração e amor na terra em que cresceu17.

15 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 32.


16 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 41 e segs.
17 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 67.

47
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Seguiu-se outro pedido de revogação da expulsão (17/10/35), que apre-


sentava uma novidade, uma informação ocultada até então - a Certidão de Ma-
riana dos Anjos, filha de Maria Beatriz, menor e brasileira, nascida em 191818.
Os vários argumentos não convenceram as autoridades e em dezembro
de 1935 o pedido de revogação foi indeferido. Seguiu-se nova prisão (6/1/1936)
e dias depois ela foi embarcada no Vapor Formosa. Saía do porto de Santos
com destino a Lisboa/Portugal (30/1/1936)19.
A história não finalizou neste momento. Maria Beatriz passou a residir
em Lisboa (Rua do Passadiço, 49, 1º. andar), entretanto, mantinha-se incon-
formada. Em 1938, Ricardo Amene (que já fora sua testemunha em 1934) en-
trou com recurso junto ao Presidente da República pedindo a revogação do
ato de expulsão.
Ricardo Amene e Maria Beatriz contraíram matrimônio por procuração
em 11/4/38 e, como marido, ele podia fazer tal demanda. Ele era descendente
de imigrantes italianos (filho de Dante Amene e Serafina Petizzani), exercia a
atividade de despachante, mas também de Secretário do Sindicato de Proprie-
tários de Veículos de Aluguel do Estado de São Paulo. Residia na Rua Vitória,
nº. 203. No Recurso alegava-se que ela foi

expulsa devido a motivos suspeitos, de invejas e despeitos sempre mal conti-


dos, que levaram gratuitos inimigos a procurar por todos os meios a entravar
os negócios e a reputação da infeliz e quão trabalhadora portuguesa, tendo
para golpe eficaz encontrado elementos eficientes. Os agentes da polícia abri-
ram campanha tenaz contra a casa da vítima Maria Beatriz Duarte, moles-
tando-a sob os mínimos pretextos e as denúncias mais inverossímeis, até que,
colimado o plano, alcançaram atingir o objetivo que era de qualquer maneira
anular a capacidade da referida vítima. Policiais e seus difamadores apanha-
ram-na na cidade quando efetuava compras numa casa da R. Direita20.

Apesar de questionada a veracidade das declarações (10/8/1939), o ma-


rido fez outro pedido de revogação do ato de expulsão, anexando a certidão
de casamento e nova certidão de nascimento de Marina dos Anjos (17/11/38),
pela qual Amene reconhecia a paternidade da jovem. Contudo, os documen-

18 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 84.


19 Nas fichas carcerárias do Arquivo da Torre do Tombo/Lisboa/Portugal foi localizada a ficha datada
de 18/2/1936, quando “deu entrada na Diretoria a expulsa do Brasil de Maria Beatriz Duarte, que foi
entregue à polícia marítima, presa e solta em seguida”.
20 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 105.

48
Maria Izilda Santos de Matos

tos foram considerados falsos, abrindo-se um novo inquérito para averiguação


da autenticidade.

Maria Beatriz, prostituta e cafetina rica, proprietária de terreno e de dois


imóveis em São Paulo, não era casada. O casamento com o despachante e
procurador dos seus negócios em São Paulo, Ricardo Amene, que primeiro
lhe perfilhou a menor Mariana dos Anjos, efetuou-se muito após a expulsão,
quando a mesma não se acha mais em território nacional, e sim em Portu-
gal, terra natal da expulsa... os documentos ora juntados estão em flagrante
contradição com os anteriormente juntados, sobretudo a nova certidão de
nascimento da menor Mariana dos Anjos, que é evidentemente falsa21.

Apesar de se comprovarem a autenticidade documental, o pedido de


reconsideração foi indeferido em 30 de agosto de 1939. Ela, todavia, não desa-
nimava e seguiu-se nova solicitação. Novamente se questionava a aceitação de
um casamento efetivado após a expulsão. Declarava-se que a lei não teria efeito
retroativo, que por isto não se poderia desfazer a sentença, nem diminuir “a
nocividade da expulsa, que como medida de higiene social, o mandado de ex-
pulsão deve ser mantido” - sentença final proferida em 13 de junho de 194022.
O encerramento do processo não permite saber o término da história de
Maria Beatriz, Ricardo e Mariana, mas os sonhos de retorno ao Brasil devem
ter se mantido até os seus últimos dias.

O processo - algumas questões

A análise do processo permite observar as instâncias da trajetória, as


questões e os envolvimentos, bem como os argumentos e brechas utilizadas,
além das estratégias presentes.
O processo foi iniciado por inquérito instaurado pela polícia quando da pri-
são e encaminhamento de Maria Beatriz Duarte à Delegacia de Costumes, aonde
foram coletados os depoimentos das envolvidas e, posteriormente, das testemu-
nhas de acusação (17/2/34). Em menos de um mês (2/3/34) o Delegado Adido
à Delegacia de Costumes - Dr. Djalma Whitaker Lima, finalizou o Relatório do
Gabinete de Investigação de São Paulo, concluindo pela expulsão de portuguesa23.

21 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 121.


22 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 155, verso.
23 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 18-19.

49
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Neste Relatório apresentava como embasamento legal a interpretação


do artigo 72 da Constituição 1891, ainda em vigor24, e concluía25:

Sendo a acusada presa em flagrante quando tentava aliciar as vítimas, pas-


sando o cartão com o endereço do seu prostíbulo... Como estrangeira não
soube agradecer a boa hospitalidade que aqui encontrou, levando já de iní-
cio uma vida que bem mostra as suas qualidades morais. Tratando-se de um
elemento indesejável e pernicioso à sociedade, é mister que seja excluída do
meio em que a sua presença se torna um empecilho para a boa moralidade
dos costumes. Nestas condições, sendo a acusada de origem portuguesa, de
acordo com o art. 72 da Constituição Federal, vem pedir a sua expulsão do
território nacional. 2 de março de 193426.

Em diferentes momentos da Primeira República (1889-1930) o artigo


72 da Constituição de 1891 constituiu-se num elemento polêmico. Ele asse-
gurava os direitos e garantias individuais aos estrangeiros residentes no Bra-
sil, equiparando-as aos nacionais, proibindo a expulsão de ambos para fora
do território nacional27. Contudo, este artigo não impediu ações de expulsão
impetradas pelo Poder Executivo, gerando tensões. Várias tentativas foram
impetradas, mas só em 1926, com a Reforma Constitucional que através da
introdução do parágrafo nº. 33, legalizou-se o direito do “Poder Executivo ex-
pulsar do território nacional os súditos estrangeiros perigosos à ordem pública
ou nocivos aos interesses da República”28. Dessa forma, a atuação do Execu-
tivo foi legitimada e ampliada, acabando-se com as garantias constitucionais
dos estrangeiros residentes, que ficaram a mercê das arbitrariedades do Poder
Executivo e da própria polícia29, como no caso aqui posto. Era a este item do
Artigo 72 que o Delegado se referia no seu despacho.
O processo foi remetido diretamente ao Mistério Justiça e Negócios In-
teriores/RJ por intermédio da Chefia de Gabinete de Investigação de São Pau-
lo. Num curto período, de apenas um mês, foi assinado o decreto de expulsão:
“considerando que a portuguesa Maria Beatriz Duarte, conforme foi apurado

24 A nova Constituição de 1934 só foi finalizada em 16/7.


25 Trecho transcrito anteriormente na página 7.
26 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516. Relatório do Gabinete de Investigações, p. 19.
27 Art 72 - A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos
direitos concernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade.
28 Parágrafo n.º 33, artigo 72, Reforma de 1926.
29 BRASIL. Reforma da Constituição Federal de 1891.

50
Maria Izilda Santos de Matos

pela polícia de São Paulo, se tem constituído em elemento nocivo aos inte-
resses da República, resolve-se expulsá-la do território nacional. RJ, 2/4/34.
Francisco Antunes Maciel30.
A justificação ao pedido de revogação, dirigido ao Ministério (maio/34),
destacava que o inquérito esteve marcado pelo

total abandono de preceitos rudimentares das normas processuais e um


tal desprezo pelos direitos individuais... o delegado, moço inexperiente,
delegado de categoria inferior, que por um absurdo e inexplicável critério
administrativo veio, como muitos outros têm vindo, praticar, ganhar de-
sembaraço no exercício da função policial, em plena Capital do Estado e,
necessariamente, com o sacrifício dos próprios interesses da sociedade... A
expulsão é uma medida administrativa que só deve ser aplicada quando se
apurar rigorosamente fatos graves, que ameacem a ordem, ou produzam
escândalo, mas que ainda não apresentam uma delituosa, passível pela lei
penal; ou quando a periculosidade e nocividade já foram devidamente ve-
rificadas por via judicial. Transforma, porém, esta medida compulsória e
violenta em instituto punitivo - inverter a finalidade dos poderes, com me-
nosprezo dos princípios do direito público e do sistema constitucional31.

Entre outros argumentos de ordem jurídica, observava-se que o trâ-


mite ocorreu sem comunicar a interessada, correndo a revelia e sem direito
de defesa, podendo ser considerada medida compulsória, violenta e ilegal.
Acrescentava-se o depoimento das testemunhas de defesa, dando especial
destaque ao argumento chave, que Maria Beatriz era residente, estando no
Brasil há mais de 25 anos.
A questão da residência foi polemizada em toda a Primeira República
(1889-1930), estando colocada desde a Constituição de 1891 devido à falta
de exatidão e clareza do conceito. Baseando-se no artigo 72 o Poder Judiciá-
rio tendia a taxar como inconstitucionais quase todos os atos de expulsão de
estrangeiros, independentemente do tempo de moradia no Brasil. Contudo, a
interpretação do Executivo não era a mesma.
Buscando legalizar a questão e conceituar o tempo de residência, em
1907 foi decretada a Lei Adolfo Gordo32. A medida era baseada na necessidade

30 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, Oficio de expulsão 1192, p. 23.


31 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, Justificação, p. 28-29.
32 Decreto Legislativo 1.641 de 7 de Janeiro 1907.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

de controle, regulamentando as expulsões de estrangeiros com critérios mais


rígidos e aplicáveis à totalidade dos imigrantes. Através desta lei poderia ser
expulso de parte ou de todo o território brasileiro o estrangeiro que, por qual-
quer motivo, comprometesse a segurança nacional ou a tranquilidade pública,
tivesse condenações dentro e fora do país por vagabundagem, mendicidade e
lenocínio. Cabe observar, porém, que o Decreto colocava algumas restrições à
expulsão - residência no país por dois anos contínuos, ser casado com brasilei-
ra e, se viúvo, ter filho brasileiro.
O crescimento das tensões com a participação de imigrantes no movi-
mento operário e outras manifestações, particularmente depois de 1917-19, le-
vou a medidas mais restritivas33 que visavam maior controle sobre as entradas
de estrangeiros e sobre os “indesejáveis”.
O Decreto nº. 4.247 de 6 de janeiro de 1921 regulava as entradas, tor-
nando lícito ao Poder Executivo impedir o ingresso do estrangeiro mutilado,
aleijado, cego, louco, mendigo, portador de moléstia incurável ou de moléstia
contagiosa grave e com mais de 60 anos; bem como de toda mulher que pro-
curasse o país para se entregar à prostituição34. Quanto às questões da expul-
são, determinava que poderia ser banido o estrangeiro que fora desterrado de
outro país; considerado elemento pernicioso à ordem pública; que tenha pro-
vocado atos de violência por meio de fatos criminosos, imposição violenta de
seita religiosa ou política; tivesse conduta considerada nociva à ordem pública
ou à segurança nacional; condenado por crime de homicídio, furto, roubo,
bancarrota, falsidade, contrabando, este1ionato, moeda falsa ou lenocínio35 no
Brasil ou outro país (RIBEIRO, 2003), e também estabelecia um novo prazo
para a residência - 5 anos.

33 Cabe lembrar outra tentativa: o Decreto n.º 2741, de 8 de Janeiro de 1913, do então presidente da Repú-
blica Hermes da Fonseca. Este decreto ampliava a ação do Executivo nos atos de expulsão, permitindo
o banimento de estrangeiros com dois anos contínuos de residência, além de excluir a possibilidade de
recurso à sentença de expulsão. Em curto tempo, este decreto foi revogado, sendo considerado inapli-
cável e inconstitucional.
34 Decreto nº. 4.247, de 6 de janeiro de 1921.
35 O código de 1890 definiu o lenocínio como crime, determinou a expulsão do condenado pelo de-
creto de 7/1/1907 (Lei Adolfo Gordo), tornou-se inafiançável pela lei 4269 de janeiro/1921: “Excitar,
favorecer ou facilitar a prostituição de alguém para satisfazer desejos desonestos ou paixões lascivas
de outrem. Induzir mulheres, quer abusando de sua fraqueza ou miséria, quer constrangendo-as por
intimidações ou ameaças a empregarem-se no tráfico da prostituição; prestar-lhes por conta própria ou
de outrem sob sua ou alheia responsabilidade, assistência, habilitação e auxílios para auferir, direta ou
indiretamente, lucros desta especulação”. Brasil. Código penal de 1890, título VIII, cap. III, cart. 277-78
(MENEZES, 1996, p. 153).

52
Maria Izilda Santos de Matos

Outras ações restritivas à imigração foram estabelecidas na década de


1920 como o já mencionado parágrafo n.º 33 do artigo 72, quando da Refor-
36

ma Constitucional de 1926 - que legalizava as ações de expulsão impetradas37.


Mesmo comprovando ser residente (há mais de 20 anos no país) e tam-
bém de ser proprietária, o caso da portuguesa Maria Beatriz, não foi levado
em consideração pelo Ministério da Justiça e Negócios Internos (MJNI), que
manteve a expulsão (16/7/34).
A Repartição de Polícia Central de São Paulo se manifesta indicando a
importância de ser mantido o decreto de expulsão, já que o recurso anterior
limitou-se a fazer acusações ao Delegado Whitaker, que pediu a expulsão.
A expulsanda entrou com novo recurso (9/8/34), já com outros advoga-
dos e utilizando-se de outra tática: buscou se desculpar dos termos usados na
qualificação do delegado e pedia a revogação do ato, reforçando os argumentos
de que estava no Brasil há mais de 25 anos e era proprietária de terreno no Tucu-
ruvi. Novamente, sem efeito. O Ministro (MJNI) Vicente Rao indeferiu o pedido
(3/11/34), encaminhando a solicitação de prisão e cumprimento do ato.
Em 3 de dezembro de 1934 o interventor do Estado de São Paulo, Ar-
mando Salles de Oliveira, providenciou a captura e prisão, sendo a expulsanda
presa e remetida à Cadeia Pública de São Paulo (6/5/35).
A prisão perdurou ilegalmente por mais de 100 dias - o Delegado de
Vigilância e Captura justificou a permanência em cárcere ao Secretário de Se-
gurança Pública de São Paulo devido à falta de passaporte. Foi feito pedido do
documento ao cônsul de Portugal em São Paulo, que criou obstáculos e se re-
cusou a concedê-lo, criando a necessidade de solicitação, do ministro Vicente
Rao, à embaixada de Portugal, no Rio de Janeiro.
Não tardou o pedido de habeas corpus38 à Suprema Corte (31/5/35), no
qual justificava-se que Maria Beatriz era “vítima de calúnia por subalternos da

36 Como o Decreto 16.761/1924, que proibia a entrada no território nacional de imigrantes (passageiros
de 2. e 3. classes) nos casos e condições já previstos.
37 “Como a Constituição garantia a igualdade entre nacionais e estrangeiros residentes, a questão do tempo de
residência tomou-se a questão crucial para aqueles que legislavam sobre expulsão. Inicialmente dois anos
bastavam como prova de residência, posteriormente, passaram a ser advogados cinco anos. A necessidade
de conceituar o conceito da residência foi preocupação que varou os tempos” (MENEZES, 1992, p. 104).
38 A partir da alteração da Constituição, portanto, o recurso ao habeas corpus deixou de ter, segundo
o Ministro do Supremo, qualquer sentido prático. Anulado o poder do Judiciário no julgamento
da matéria, desaparecia o único instrumento que, até aquele momento, determinava limites às
arbitrariedades. A expulsão de estrangeiros passou, assim, a ter legalidade plena, traduzindo-se
numa nova limpeza das grandes cidades, o que consolidava o amplo poder policial manifesto
desde a utilização da expulsão como instrumento político sistemático, até então alvo de tantas
contestações (MENEZES, 1996, p. 217).

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

polícia paulista, foi presa ilegal e abusivamente... tem bens imóveis, vive, há
mais de 25 anos em São Paulo e está radicada pelo coração e pelo amor à Terra
em que cresceu”39.
Cabe observar que em todos os pedidos sempre era colocado o tempo de
residência. Seguiu-se uma ampla discussão através de correspondência, carim-
bada como “secreta”, entre o MJNI e o Poder Judiciário. Por fim o ministro da
Suprema Corte, Manuel Costa Manso, concedeu o habeas corpus (18/6/35).
Pode-se observar que perante a ordenação jurídica o estrangeiro resi-
dente no Brasil não poderia ser expulso do país, pois isso feria a constitucio-
nalidade. A atuação do Judiciário não se vinculava a uma preocupação hu-
manitária, mas o cumprimento da Constituição e leis ordinárias brasileiras,
almejando a defesa do ordenamento jurídico nacional (BONFÁ, 2008).
Contudo, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em documen-
to, observava que: “... o habeas corpus foi concedido, sendo a expulsanda em
apreço posta em liberdade. É preciso notar que o habeas corpus concedido em
nada prejudica o efeito da portaria de expulsão”40.
Seguiu-se um novo pedido de revogação ao MJNI (24/10/35). Além dos
argumentos anteriormente levantados - calúnia, injustiça, proprietária (docu-
mentada com a escritura do terreno) e residente há mais de 25 anos, acrescen-
tou-se a certidão de nascimento filha. A expulsanda assumia a maternidade até
então não declarada, sendo que também foi anexado o documento sobre o pro-
cesso crime de defloramento de Maria Beatriz, datado de outubro/1917. Dessa
forma, adquiria outro componente favorável - o fato de ter filha brasileira.
Estas novas informações causaram polêmicas, sendo o processo en-
caminhado ao Consultor Jurídico, que se manifestou contrário à expulsão
(19/12/35), particularmente por ela ser residente no país há mais de 20 anos,
proprietária e mãe de filha brasileira. Mesmo com todas as informações do
consultor, o ministro Vicente Rao indeferiu o pedido, destacando “apesar do
parecer bem fundamentado do senhor consultor” (26/12/35)41.
A Constituição de 1934 legislava sobre os Direitos e Garantias Individu-
ais no seu artigo 113, que assegurava “a brasileiros e a estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à subsistência,

39 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, Habeas Corpus, p. 66.


40 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516 - OfÍcio da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, p. 76.
41 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p.102. Decreto-lei 479, 1935 - Regulamentou a expulsão de es-
trangeiros que fossem considerados autores ou cúmplices de crimes de natureza política, sexual ou
ligados a tóxicos.

54
Maria Izilda Santos de Matos

à segurança individual e à propriedade”. Por outro lado, dava ao Executivo


poder de expulsar do território nacional os estrangeiros perigosos à ordem
pública ou nocivos aos interesses do País42. Persistiam questões presentes do
período anterior, já que o imigrante era avaliado por sua conduta moral ou
social e por suas ideias políticas.
Em 6/1/1936 aconteceu a nova prisão, por ordem do Delegado de Vi-
gilância e Captura. Maria Beatriz aguardou na Cadeia Pública seu embarque
para Portugal, ocorrido em Santos no dia 30/1/36.
Cabe lembrar que, em 1936, o Relatório do Gabinete de Investigação
para Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo declarou o regis-
tro de 276 casas de tolerância num contexto de intensificação da repressão à
prostituição e do lenocínio:

... segundo os princípios do regulamentarismo, as autoridades pú-


blicas de São Paulo mobilizaram amplos esforços visando retirar a
zona do baixo meretrício do centro comercial da cidade (...) em 1936
foram fechadas, em São Paulo, 59 casas de tolerância, das quais 52
bordéis e 7 rendez-vous (entre eles o de Maria Beatriz)... Posterior-
mente foram reabertas 13, sendo 11 bordéis e 2 rendez-vous (RAGO,
1991, p. 303).

Nos anos 30, particularmente com o Estado Novo (1937-45), foi criado
um conjunto de leis e decretos para restringir ainda mais a imigração e legitimar
o banimento se indivíduos eram considerados “indesejáveis”, podendo-se dizer
que a expulsão tornou-se um instrumento político do Estado autoritário que
buscava sanear a sociedade do estrangeiro “promotor da desordem social”.
O Estado Novo instaurou e/ou aperfeiçoou mecanismos de controle
político e social (como o DEOPS) que viabilizaram que os estrangeiros “inde-
sejáveis” fossem investigados, presos e prontuariados - na sua grande maioria
devido ao envolvimento em questões políticas.
Entre as várias outras medidas, o Decreto-lei nº. 392, de 27 de abril de
1938, destacava que o estrangeiro poderia ser expulso independentemente do
período de residência no Brasil, podendo o banimento ocorrer por qualquer
motivo que comprometesse a segurança nacional, a estrutura das instituições
ou a tranquilidade pública e também quando condenado por crime político.

42 Constituição de 1934, art 113, parágrafo 15.

55
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Pouco mais de um mês depois, o Decreto-lei nº. 479, de 8 de junho de


1938, restringia o direito de expulsão, tendo como foco o aspecto da residência
- mais de 25 anos ou ter filhos brasileiros vivos.
Talvez o conhecimento destas novas medidas fosse o estímulo para o
reinício da causa em meados de 1938, quando Ricardo Amene se dirigiu ao
Presidente da República pedindo a revogação da expulsão da esposa. Alegava
que ela fora vítima das “maldosas insinuações dos agentes da Delegacia de
Costumes, do Gabinete de Investigação de São Paulo, de outros perseguidores
e difamadores”.
Após análise o processo foi reiniciado, pedindo documentos compro-
batórios como certidão de casamento e nascimento. Juntando os documentos,
o novo advogado pediu a revogação da expulsão (10/8/39). Contudo, o MJNI
alegou que os documentos estavam em “flagrante contradição” com os anterio-
res e eram possivelmente falsos (30/8/39). Instaura-se um inquérito para apu-
rar a autenticidade dos documentos na Delegacia de Falsificações do Gabinete
de Investigações de São Paulo (15/10/39).
Pelo inquérito foi comprovada a autenticidade dos documentos
(23/11/39) e Ricardo Amene encaminhou ao então ministro Francisco Luiz
da Silva Campos o pedido de perdão e revogação da expulsão (26/1/40). Em
resposta foi registrado: “... apesar dos pedidos constantes de reconsideração do
ato de expulsão que, aliás, foram indeferidos várias vezes, parece-me que, como
medida de higiene social, deveriam ser mantidos estes despachos (16/4/40)”43.
O despacho centrava seus argumentos em “medida de higiene social”,
levantando dúvidas sobre se o casamento realizado após a expulsão poderia
ser válido, se teria caráter retroativo. Ocorreu então outro encaminhamento
ao consultor jurídico, que foi favorável ao pedido de revogação da expulsão
25/5/4044. Porém, apesar do parecer jurídico favorável, o decreto de expulsão
foi mantido em despacho de 13/6/40.
Maria Beatriz não esmorecia e Ricardo Amene entrou com novo e co-
movente pedido de perdão - dirigido diretamente ao presidente Getúlio Var-
gas (29/10/40).

Em face disso o suplicante... tem a honra de apelar para a autoridade e V.


Excia no sentido de que seja por graça de sua reconhecida generosidade

43 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 156.


44 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 157.

56
Maria Izilda Santos de Matos

concedido o perdão aquela desditosa esposa e mãe afastada de seus entes


queridos, pois assim V. Excia. comemora o 10º. aniversário de seu tão pro-
fícuo, patriótico e altruístico governo com um ato que merecerá de uma
família a eterna gratidão e um perpetuo reconhecimento45.

Mas na sentença final mostrava-se a força do autoritarismo: “não há


razões para revogar, baseando-se na sentença anterior” (8/11/40).

A lógica do Estado autoritário

O processo da portuguesa Maria Beatriz Duarte permite perceber um


conjunto de questões que envolvia os imigrantes portugueses para o Brasil no
início do século XX. Se por um lado a necessidade de mão de obra, num con-
texto pós-abolição, buscava no projeto imigrantista uma solução, a questão
frequente era: quais os “trabalhadores imigrantes desejados” e em contraponto
definia-se os “indesejáveis”.
Os autos mostram as ambiguidades da legislação e das ações ilegais,
com destaque para as arbitrariedades da polícia e do Executivo. Em todo o trâ-
mite do processo os procedimentos foram orientados no sentido da expulsão,
mas também permite observar a persistência da portuguesa, que acreditando
nas possibilidades das brechas legais, atuou buscando evitar e/ou reverter o
decreto de banimento.
Nos autos tramitados entre 1934 a 1940 a questão do tempo de residên-
cia (mais de 25 anos declarados e comprovados) foi colocada, acrescida de ou-
tros argumentos (propriedades, filha brasileira), mas sempre foi desconhecida
pelo poder público e relegada.
O processo, que perdurou por 5 anos e meio, implicou grande empenho
de valores. As possibilidades de recorrer contra as ações de expulsão não exis-
tia para todos, era dependente das condições econômicas, capacidade de arcar
com os honorários advocatícios e com os custos processuais. Não foi possível
quantificar os custos no presente processo, mas a cada nova demanda, cada
novo documento anexado implicava em novas despesas, além dos valores gas-
tos com os inúmeros advogados que atuaram ao longo do processo tanto em
São Paulo como no Rio de Janeiro.

45 Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516, p. 164.

57
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

A análise do processo permite observar que o estrangeiro era visto


como elemento de desordem social, estigmatizado como portador de maus há-
bitos. No caso, de atitudes e costumes devassos. Nos episódios que envolviam
questões de prostituição/lenocínio, as ações buscaram atuar através de nor-
mas sanitárias (preventivas) e repressivas (punitivas), visavam regulamentar
o dito “comércio do sexo”, pretendendo proteger a “família, a moral e os bons
costumes”. Neste sentido, - no processo - em várias ocasiões foram explícitas
referências à acusada como elemento de “tara de degenerescência”, “mulher cí-
nica e sem escrúpulos”, “estrangeira que não soube agradecer a boa hospitalidade
que aqui encontrou, levando já de início uma vida que bem mostra as suas qua-
lidades morais”, “elemento indesejável e pernicioso à sociedade”, “um empecilho
para a boa moralidade dos costumes”, “a nocividade da expulsa; como medida
de higiene social, o mandado de expulsão deve ser mantido”, “elemento nocivo
aos interesses da República”, num discurso marcado por preceitos fortemente
eugenistas e nacionalistas.
Cabe contextualizar que a década de 30, em particular os anos de 1935/6,
foram momentos especialmente repressivos à prostituição na cidade de São
Paulo. Também, no mesmo período, ocorreu ampliação do poder e funções
dos chefes de polícia, com a articulação mais constante e direta entre os órgãos
policiais, o Ministério da Justiça e Negócios Internos e a Presidência da Repú-
blica, reduzindo a órbita de ação do judiciário.
As medidas de restrição à entrada de imigrantes e outras para a retirada
dos “indesejáveis”, dos que “comprometessem a segurança nacional” ou “fos-
sem nocivos aos interesses dos poderes estabelecidos” foram várias. As dispo-
sições legais buscaram legitimar e ampliar as ações do Estado, particularmente
do poder executivo (Artigo 72/1891, os Decretos de 1907-1913-1921, a Refor-
ma Constitucional de 1926, a Constituição de 1934 e a de 1937, os inúmeros
decretos e decretos-leis dos anos 1930). Estas medidas constituíram um jogo
de força constante de adaptação e reorganização de estratégias para ordenar e
disciplinar a sociedade, acabando ou restringindo as garantias constitucionais
dos estrangeiros residentes, que ficaram a mercê da atuação, quase sempre ar-
bitrárias, do Poder Executivo e da própria polícia.
A expulsão como instrumento de controle social na lógica do estado
autoritário burlou os entraves, utilizou-se de métodos arbitrários (tanto legais
como ilegais), atuando através de decretos-leis. Encontrava-se inserida num
conjunto de medidas para controlar a entrada, selecionar os imigrantes dese-
jáveis, submeter os residentes, regulamentar documentos (passaporte, carteira

58
Maria Izilda Santos de Matos

de estrangeiro, registro), informar as mudanças de endereço, conseguir salvo


conduto durante a guerra (particular para os naturais dos países do Eixo).
Paralelamente, houve um recrudescimento da política de nacionaliza-
ção atingindo estrangeiros e seus descendentes. Vários decretos-leis foram
baixados, sob diversos assuntos: nacionalização das escolas, proibição do uso
de línguas originárias dos países do Eixo, controle sobre abertura de firmas es-
trangeiras no país, proibição de atividades de natureza política a estrangeiros.
Com lei ou sem lei (BONFÁ, 2008), o governo perseguia e expulsava os
que eram considerados “indesejáveis”, mas era mais conveniente expulsar le-
galmente. Esta mesma lei que deu legalidade às ações arbitrárias do Executivo
também chegou a ser um elemento de proteção aos estrangeiros residentes,
não no caso da portuguesa Maria Beatriz Duarte.

Fontes

Arquivo Nacional, SPJ, Processo 2516.

Arquivo do Estado de São Paulo, ADEOPS, prontuário de nº. 5352.

BRASIL. Reforma da Constituição Federal de 1891.

Censo Estadual de 1934.

Constituição de 1935, art 113 parágrafo 15.

Decreto n. 4.247, de 6 de janeiro de 1921

Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil. 1920,


Sinopse do Recenseamento. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926.

Referências

BONFÁ, Rogério Luis Giampietro. Expulsão e residência: a luta pelo direi-


to dos imigrantes na Primeira República. XIX ENCONTRO REGIONAL DE
HISTÓRIA: PODER, VIOLÊNCIA E EXCLUSÃO. Anais. São Paulo: ANPUH/
SP - USP, 08 a 12 de setembro de 2008. CD-ROM.

59
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

DUTRA, Eliana. Crime Político e Segurança Nacional. Seminários: imigração,


repressão e segurança nacional. n. 3. São Paulo: Arquivo do Estado/imprensa
Oficial, dezembro/2003.

MENEZES, Lená Medeiros de. Os estrangeiros e o comércio do prazer nas ruas


do Rio (1890-1930). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992.

__________. Os indesejáveis: desclassificados da modernidade. Rio de Janeiro:


EDUERJ, 1996.

MORSE, Richard. M. Formação Histórica de São Paulo. São Paulo: Difel,


1970.

RAGO, Margareth. Os prazeres da noite: prostituição e códigos da sexualidade


feminina em São Paulo (1890-1930). São Paulo: Paz e Terra, 1991.

RIBEIRO, Mariana Cardoso dos Santos. Venha o Decreto de Expulsão. A legi-


timação da ordem autoritária no governo Vargas (1930-1945). São Paulo: USP,
2003. Dissertação (Mestrado em História Social), Faculdade de Filosofia, Le-
tras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2003.

60
VIOLÊNCIA DE GÊNERO OU
FEMINICÍDIO? LEIS SOBRE VIOLÊNCIA
E PROPOSTAS DE POLÍTICAS PÚBLICAS
NO BRASIL E NO MÉXICO

Teresa Kleba Lisboa

P roponho, neste artigo, apresentar os resultados de um estudo comparativo


entre as leis que tratam da violência contra a mulher, recentemente san-
cionadas no Brasil e no México. A investigação foi realizada durante a minha
“estância” junto ao Programa Universitário de Estudos de Gênero – PUEG - da
UNAM, em 2009.
Tanto a Lei Maria da Penha (Lei 11.340), aprovada no Brasil em agos-
to de 2006, como a “Ley General de Acceso de las Mujeres a una Vida Libre
de Violencia”, promulgada no México em fevereiro de 2007, possuem como
principal objetivo contar com um instrumento jurídico eficaz que contenha
as disposições legais e mecanismos para coibir e prevenir a violência contra
as mulheres. A criação de ambas cumpre a determinação da Convenção sobre
todas as formas de discriminação contra as mulheres e da Convenção Intera-
mericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher. Pode-se
afirmar que nos dois países (Brasil e México) as leis surgiram como resposta
aos 30 anos de pressão organizada dos movimentos de mulheres e feministas,
que tem chamado a atenção da sociedade civil e do Estado em toda a América
Latina sobre o fenômeno da violência contra as mulheres.
A principal diferença entre as leis é que a Lei Maria da Penha - Lei 11.340
- foi criada e aprovada para ser executada de igual forma em todo o território
brasileiro, ou seja, nas 26 unidades da federação. No México, cada uma das 30
entidades federativas deve, a partir do modelo da “Ley General” (Distrito Fe-
deral), elaborar, aprovar e publicar sua própria “Ley de Acceso de las Mujeres
a una Vida Libre de Violencia”.

61
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Nossa investigação partiu de três questionamentos sobre a aplicabilida-


de das Leis nos dois países: 1) O que faz uma mulher em situação de violência,
para onde vai, com quem fala sobre seu problema, a quem recorre, como é
atendida, quais são os principais obstáculos que ela enfrenta, como é feita a
denúncia? 2) O que acontece com o agressor, que tipo de sanção recebe? 3)
Que tipo de políticas públicas há para prevenir, atender e sancionar a violência
contra as mulheres?
Os procedimentos metodológicos centraram-se na pesquisa bibliográ-
fica sobre as Leis, visitas e entrevistas a Instituições que trabalham com polí-
ticas públicas e com as Leis do Distrito Federal (México) e em Florianópolis,
Santa Catarina; participação em um Curso de Especialização sobre Violência
Intrafamiliar e Direitos Humanos junto ao “Instituto de Investigaciones Ju-
rídicas de la UNAM”, participação em eventos, congressos, apresentação de
livros que abordaram a temática da violência contra as mulheres ou femi-
nicídio e, por fim, na aplicação de um questionário junto a 15 profissionais
que trabalham no atendimento das mulheres em situação de violência no
Distrito Federal (México).
Apresento inicialmente concepções teóricas sobre violência de gênero
e sobre “feminicídio”; em seguida, ressalto as principais inovações das Leis no
Brasil e no México e a partir de seus pressupostos tento mostrar como são
atendidas as mulheres em situação de violência em ambos os países; discuto os
principais obstáculos que enfrentam as mulheres para aceder à justiça, enfati-
zo a importância de garantir os direitos das mulheres como forma de reconhe-
cimento de sua igualdade jurídica e, por último, proponho políticas públicas
para agilizar a aplicabilidade de ambas as Leis.

1. Violência de gênero e feminicídio - uma questão globalizada

O debate sobre a violência de gênero, que engloba a violência intrafa-


miliar, a violência doméstica, a violência contra as mulheres, estendendo-se à
violência psicológica, violência física, agressões verbais, violência sexual, assé-
dio sexual, discriminação e rechaço em relação à homossexualidade, incluindo
ainda a prostituição forçada, tráfico de pessoas, mutilação, dote, tortura, femi-
nicídio e outros, tem ocupado um lugar relevante nos estudos acadêmicos e na
pauta de luta dos movimentos feministas dos últimos anos.
A violência de gênero é um fenômeno complexo que ocorre em todos
os países em nível global e cuja análise exige uma perspectiva interdisciplinar

62
Teresa Kleba Lisboa

e integrada. É um tema pouco discutido, uma vez que envolve preconceito,


vergonha e, sobretudo, invisibilidade.
De acordo com Marcela Legarde (2006), a violência de gênero é uma
questão de ordem política, é um atentado aos direitos humanos e tem-se cons-
tituído em um grande problema social. Para a autora, as estatísticas compro-
vam que as mulheres têm sido excluídas do acesso a bens, recursos e oportuni-
dades, o que configura uma desigualdade social.
A “Declaração sobre a eliminação da violência contra as mulheres”
(ONU, 1994) foi o primeiro instrumento internacional de Direitos Humanos
que aborda explicitamente a violência de gênero, e foi aprovada pela Assem-
bleia Geral das Nações Unidas. A partir deste instrumento ficou claro que
“uma vida sem violência é um direito das mulheres!”.
O conceito de gênero indica que os papéis impostos às mulheres e aos
homens, consolidados ao longo da história e reforçados pelo patriarcado, pela
dominação masculina e pela ideologia, induzem relações violentas entre os se-
xos e indica que a prática desse tipo de violência não é fruto da natureza, senão
do processo de socialização das pessoas.
Em pesquisa realizada com 15 profissionais que trabalham na área da
violência no Distrito Federal (México), quando indagadas sobre as causas da
violência contra as mulheres, os principais motivos apontados foram: “a má edu-
cação, pois desde pequenas ensinam às meninas um estereótipo de mulher dócil,
submissa e, aos meninos, que têm que ser fortes, agressivos, não podem chorar;
“a dependência econômica das mulheres aos homens, a impunidade aos agres-
sores”; “uma cultura social que favorece ao homem e minimiza a mulher”; “o
abuso do poder; o trato desigual e desvalorizado para as mulheres”; “o pouco in-
teresse por parte do Estado para aplicar as leis elaboradas para erradicar e preve-
nir a violência”; “as dependências químicas (álcool, drogas), combinadas com a
personalidade agressiva”; “a cultura do patriarcado onde se segue considerando
a mulher como alguém inferior que, ao casar, se torna propriedade do homem”.
Em toda a América Latina e no Caribe, os diversos tipos de violência
de Gênero têm saído da invisibilidade, deixando à mostra dados alarmantes.
Na Cidade de Juarez1, México, por exemplo, os assassinatos de mulheres ocor-

1 A Cidade Juárez, México tornou-se emblemática devido ao número de assassinatos de mulheres ocorridos
desde 1993. Este fenômeno, entretanto, não se limita a esta cidade. De acordo com um estudo coordenado
pela Comissão Especial sobre o Feminicídio, uma mulher ou menina é assassinada a cada 6 horas no Mé-
xico (CARCEDO, 2006). Porém, na Cidade Juárez os feminicídios têm ocorrido com mais frequência.

63
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

ridos nos últimos 10 anos alcançaram uma repercussão que afetou os países
vizinhos e atraiu fortemente a atenção pública em nível internacional. A forma
pela qual a violência contra as mulheres tem sido praticada pelos agressores,
em série, é um dos mais sérios problemas que afronta essa região2. O ritual
do feminicídio segue uma sequência macabra que inicia com um sequestro
da vítima, geralmente jovem, pobre, morena, com traços indígenas, seguido
de torturas, mutilações, crueldades, violência sexual, finalizando com o corpo
sem vida jogado (como dejeto) em lixões localizados nas redondezas da cida-
de. Este tipo de violência está sendo definido como feminicídio em função da
regularidade das ocorrências e, principalmente, porque a maioria dos crimes
cometidos com os mesmos resquícios de crueldade permanece impune.
Jane Caputi e Diana Russell (1992) foram as autoras que lançaram pela
primeira vez o conceito de feminicídio: “Representa o extremo de um contínuo
de terror antifeminino e inclui uma ampla variedade de abusos verbais e físicos
(...). Sempre que essas formas de terrorismo resultam em morte, se transfor-
mam em feminicídio (1992, p.15).
A intenção destas autoras é desmascarar o patriarcado como uma insti-
tuição que sustenta o controle sobre o corpo e a punição sobre as mulheres, e
mostrar a dimensão política dos assassinatos de mulheres que resultam de um
sistema no qual o poder e a masculinidade são sinônimos.
Para Marcela Lagarde feminicídio é uma categoria política que integra a ba-
gagem teórica feminista, uma vez que denota a inexistência do Estado de Direito,
no qual se reproduzem a violência sem limite e os assassinatos sem castigo. Para
a autora, feminicídio é: “o conjunto de delitos de lesa humanidade que contem
os crimes, os sequestros e as desaparições de meninas, jovens e mulheres em um
quadro de colapso institucional. Trata-se de uma ‘fratura’ do Estado de Direito que
favorece a impunidade. O feminicídio é um crime de Estado” (2006, p. 20).
Feminicídio, portanto, ocorre quando o Estado não garante a segurida-
de das mulheres ou cria um ambiente no qual as mulheres não estão seguras
em suas comunidades ou lares. Este também ocorre quando as autoridades
não cumprem devidamente com suas tarefas legais.

2 Desde que iniciou a guerra entre “bandas” de narcotraficantes em 2008, foram assassinadas 207 mu-
lheres em Ciudad Juárez, 96 das quais em 2009. De 1993 a 2007 a cifra de mortes era 468, e com os
casos acumulados nos últimos dois anos, a cifra de homicídios de gênero foi incrementada para 675.
Aproximadamente 150 casos de anos anteriores seguem impunes; o mesmo acontece com 207 crimes
cometidos em 2008 e 2009, os quais são atribuídos em sua maioria a brigas entre a delinquência orga-
nizada. Disponível em: www.infonorte.net, México.

64
Teresa Kleba Lisboa

Rita Laura Segato assinala outra dimensão da categoria feminicídio,


que é a caracterização destes crimes como “crimes de ódio”, ou seja, “dentro
da teoria do feminicídio, o impulso de ódio em relação à mulher se explica
como consequência da infração feminina a duas leis do patriarcado: a norma
do controle ou possessão sobre o corpo feminino e a norma da superioridade
masculina” (2008, p. 37).
Segundo esta autora, a relação de ódio se instala quando a mulher passa a
exercer autonomia sobre o uso de seu corpo, desafiando as regras de fidelidade,
os célebres “crimes em defesa da honra”, ou quando a mulher acede a níveis de
posição de autoridade ou poder, desafiando o “delicado equilíbrio assimétrico”.
Segato traça um paralelo entre feminicídio e genocídio, afirmando que
em ambos os casos os crimes se dirigem a uma categoria e não a um sujeito
em específico; por este motivo, ambos os tipos de crime podem entender-se
como “crimes de segundo Estado” ou “crimes coorporativos”, que ao parecer
da autora “é a rede de poder que, sem entrar em contradição com os diversos
governos em turno no controle do aparato do Estado, continua dominando as
estruturas administrativas com sede local” (2008, p. 46).
Para a autora, este tipo de crime é muito semelhante aos crimes de Es-
tado, ou de lesa humanidade, porque a existência de um Estado Paralelo con-
tribui para que estes não sejam investigados nem castigados. As concepções
destas autoras sobre feminicídio referem-se majoritariamente aos crimes que
têm ocorrido no México, Estado de Chihuahua, fronteira com os Estados Uni-
dos. É nesta região que se localizam muitas empresas montadoras (maquilla-
doras) que empregam, na maioria, mão de obra feminina; e são estas mulhe-
res, jovens, morenas, descendentes de povos indígenas, que são as “vítimas”
preferenciais dos agressores que cometem feminicídio; estes geralmente estão
envolvidos com tráfico de drogas.
Uma outra concepção de feminicídio é apresentada por Ana María
Martinez de Escalera (2009), para a qual “‘violência feminicída’” é toda ação
ou omissão por parte do Estado e da Sociedade que permite a morte violen-
ta das mulheres”3. Por exemplo, quando não há políticas públicas adequadas
para evitar a morte das mulheres: desde a impunidade na Cidade Juárez até a
penalização do aborto, a morte intencional de fetos femininos (na China) e
outros. Para a autora, há uma racionalidade intrínseca por detrás da violência

3 Apontamentos a partir das aulas frequentadas no “Seminario Alteridad y Exclusión”, disciplina ministrada
por Ana María Martinez de Escalera e cursada de agosto a dezembro de 2009 junto ao PUEG/UNAM.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

feminicída, uma espécie de “tecnologia da morte” porque “a violência femini-


cída é constitutiva, não é algo excepcional”. Escalera (2009) afirma, ainda, que
é necessário entender que a violência contra as mulheres é responsabilidade
do “todo social”. A sociedade deve lutar de forma coletiva para não permitir
a violência e, por sua vez, o Estado é responsável por regulamentar as Leis e
políticas públicas que possibilitem a erradicação da violência.
A ONU reconhece que a violência contra as mulheres é uma questão de
direitos humanos. Reconhecer os direitos humanos das mulheres significa en-
tendê-las como sujeitos políticos que vivem condições particulares de opressão.
Para enfrentar os altos níveis de violência é necessário adotar uma perspectiva
de gênero no cotidiano das políticas, cobrar a responsabilidade dos Estados na
aplicação das Leis, capacitar os profissionais que trabalham com a questão da
violência, desconstruir os estereótipos de gênero, propor novos parâmetros de
construção da masculinidade, propiciar as mulheres condições e oportunida-
des para exercerem seu protagonismo e autonomia, conscientizando-as sobre
seus direitos e trabalhando em direção ao seu empoderamento.

2. Um diálogo entre a Lei Maria da Penha (Brasil) e a Ley Ge-


neral de Acceso de las Mujeres a una Vida Libre de Violen-
cia (México)

A principal diferença entre as leis, que merece ser ressaltada, é que a Lei
Maria da Penha - Lei 11.340 - foi criada e aprovada para ser executada de igual
forma em todo o território brasileiro, e no México, cada uma das 30 entidades
federativas deve, a partir do modelo da “Ley General” (Distrito Federal), ela-
borar, aprovar e publicar sua própria “Ley de Acceso de las Mujeres a una Vida
Libre de Violencia”.
Um ponto que chamou atenção na leitura de ambas as leis, para fins
de estudo, é que a lei mexicana utiliza a categoria “vítima” para a mulher que
sofreu violência, e a lei brasileira utiliza “mulher em situação de violência” ou
“ofendida”. A categoria gênero vem para enfatizar as relações entre homens e
mulheres. Ao tratar a mulher como vítima, os aparatos jurídicos e a sociedade
em geral, de certa forma, estão contribuindo para estigmatizá-la, atribuindo
um distintivo a ela, uma identidade que reforça sua baixa autoestima e impede
que crie mecanismos de autoconfiança, coragem para enfrentar a situação. É
importante frisar que, em uma relação de violência, a mulher deve conceber-se
como sujeito da relação; isto implica que, em uma correlação de força, ela tem
condições de fortalecer-se e lutar para reverter o quadro de violência.

66
Teresa Kleba Lisboa

Em relação aos tipos de violência, ambas as leis coincidem ao contem-


plar a violência psicológica, física, patrimonial e sexual. A lei mexicana agrega
a violência econômica como “toda ação ou omissão do agressor que afeta a
sobrevivência econômica da vítima (…)”, e a Lei Maria da Penha contempla
a violência moral entendida como “qualquer conduta que configure calúnia,
difamação ou injúria”.
As modalidades de violência são enfocadas de forma diferenciada por am-
bas as leis. Enquanto a lei brasileira utiliza a concepção de violência doméstica e
familiar entendendo como “família” qualquer relação íntima de afeto, indepen-
dente da orientação sexual4, a lei mexicana apresenta cinco diferentes âmbitos de
violência: familiar, laboral, docente, na comunidade, institucional, feminicída e
“de alerta à violência de gênero contra as mulheres”. Estas duas últimas são espe-
cíficas para os casos de feminicídio, anteriormente mencionados.

2.1. O que faz uma mulher em situação de violência no México?

Os casos de violência contra as mulheres, segundo as leis mexicanas,


devem ser atendidos pelo Ministério Público e pelas Procuradorias Estatais.
Nestes locais, porém, são atendidos somente casos de violência extrema. Não
existem Delegacias Especiais para Mulheres, como no Brasil. Conforme en-
trevistas realizadas com profissionais especializados, quando uma mulher está
em situação de violência, no Distrito Federal, na maioria dos casos dirige-se a
uma “Unidade de Atenção e Prevenção à Violência Familiar” - UAPVF.
Existem 16 Unidades de Atenção no Distrito Federal, uma em cada Dele-
gação (Regional). As UAPVFs integram a Secretaria de Desenvolvimento Social
e oferecem atendimento interdisciplinar através de uma equipe técnica composta
de advogado, psicólogo e assistente social. Conforme depoimento de uma pro-
fissional entrevistada que atua em uma das Unidades, as UAPVFs proporcionam
assessoria jurídica, atenção psicológica tanto para homens como para mulheres
e crianças. Quando o acordo entre o casal não é possível, a mulher pode “levan-
tar uma Constância Administrativa Jurídica” (que é o correspondente ao nosso
Boletim de Ocorrência) e quando for um caso de abuso sexual contra criança ou
adolescente, canaliza-se para uma instância penal.

4 O artigo 5° reconhece, pela primeira vez na legislação, o conceito moderno de família (…); se entende
por família a união de pessoas relacionadas de forma espontânea e efetivamente, estejam ou não casa-
das, vivam ou não debaixo do mesmo teto, hetero ou homossexuales.

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O modelo aplicado nas UAPVFs é de caráter interdisciplinar, baseado


no método psico-educativo e sistêmico, desenvolvido por profissionais de Ser-
viço Social, Psicologia e Direito. A prevenção é trabalhada através de oficinas
com mulheres, atendimento psicológico às crianças e adolescentes e grupos
terapêuticos com homens.
Conforme especifica a Lei de Assistência e Prevenção à Violencia Fa-
miliar, as vítimas de qualquer tipo de violência terão os seguintes direitos: se-
rem tratadas com respeito à sua integridade; contar com proteção imediata e
efetiva por parte das autoridades; receber informação veraz e suficiente que
lhes permita decidir sobre as opções de atenção; contar com assessoria jurídi-
ca gratuita; receber informação médica e psicológica; contar com um refúgio
(casa abrigo) caso necessite; ser valorizadas e educadas livres de estereótipos
de comportamento e práticas sociais e culturais baseadas em conceitos de in-
ferioridade ou subordinação, e em casos de violência familiar, as mulheres que
possuem filhas ou filhos poderão ir para os refúgios com os mesmos.
Enquanto a mulher está no Refúgio, a Secretaria de Desenvolvimento
Social disponibiliza um seguro contra a violência, que consiste em um apoio
econômico, um salário mínimo, por um tempo determinado, com o objetivo de
permitir que ela possa “manter-se” enquanto não tiver outra fonte de renda.
Segundo fontes informativas, a “Ley General de Acceso de las Mujeres
a una Vida Libre de Violencia” teve como antecedente a “Ley de Asistencia y
Prevención da la Violencia Intrafamiliar del Distrito Federal”, vigente a partir
de 9 de julho de 1996, considerada pioneira no marco pelo qual se começou a
trabalhar com a violência. “Na época, os magistrados insistiam que a questão
da violência não poderia ser legislada, que era uma questão intrafamiliar, da
ordem do privado e que, portanto, para os casos de violência contra a mulher,
devia ser aplicada a Ley de Asistencia”, afirma a Dra. Pérez Duarte, em confe-
rência proferida no Instituto de Investigações Jurídicas. Ao falar sobre o cará-
ter da “Ley General” no México, a mesma professora, que atualmente exerce
o cargo de Promotora, afirmou que a atual Lei contra a violência no México
possui um corte mais administrativo do que punitivo porque “não define deli-
tos. Não é uma Lei que julga, é mais uma Lei que programa”5.
A “Ley General de Acceso de las Mujeres a una Vida Libre de Violência”
possui as seguintes características6: estabelece princípios: igualdade, dignida-
de, liberdade; proporciona definições concretas sobre as modalidades e tipos

5 Conferencia ministrada en 25 de septiembre de 2009, en el Instituto de Investigaciones Jurídicas de la UNAM.


6 Tais características também foram apresentadas pela Dra. Duarte na mesma conferência.

68
Teresa Kleba Lisboa

de violência; é uma norma programada, uma vez que estabelece as bases para
desenhar e trabalhar as políticas públicas, os Modelos; estabelece formas e mé-
todos de coordenação interinstitucional - criação de um ‘sistema’, ‘conselhos’,
integração entre os três níveis de governo: Federação, Estados e Municípios.
Neste ‘sistema’ participam representantes da administração pública fe-
deral e estatal. O Instituto Nacional das Mulheres (INMUJERES) atuará como
Secretaria Executiva do Sistema e será responsável pela implementação da lei.
Em relação às três ordens do governo, a “Ley General” exige a co-
ordenação de ações entre os diferentes níveis do Sistema (Federal, Estatal
e Municipal); a Planificação Integral, ou seja, requer políticas públicas que
abarquem todos os componentes dos Modelos (prevenir, atender, sancionar
e erradicar); para tanto, são necessários os “mecanismos de exigibilidade”;
uma legislação que retome, no âmbito local, as definições propostas na Lei,
ou seja, assistência profissional capacitada, gratuita e garantida e proteção às
mulheres que são afetadas por atos de violência; evitar a dupla vitimização,
ou seja, evitar que a mulher tenha que repetir inúmeras vezes sua história
até que entre em uma contradição forçada e, por fim, etiquetar recursos su-
ficientes para o cumprimento do anterior.
O último capítulo da lei, “De la atención a las víctimas”, orienta sobre a aten-
ção que será dispensada às vítimas de violência, dando especial ênfase aos refúgios.
Especial atenção merece o fato de que, no México, existe uma “Rede Nacional de
Refúgios” que integra 72 centros de atendimento a mulheres em situação de vio-
lência severa, localizados em 31 entidades federativas, capacitados para atender
1.600 pessoas ao mesmo tempo. Os refúgios, para Guillé Tamayo, são

lugares secretos e confidenciais de proteção para mulheres e seus filhos; são


espaços temporais para a sua segurança. Lugares onde permanecerão para
aclarar suas ideias e potenciar suas capacidades. Casas, edifícios e instalações
operadas por outras mulheres para atender as crises emocionais e de saúde
das vítimas. Lugares seguros onde se analisam os direitos de cada pessoa, se
explicam quando estes são violados e se orienta como proceder em cada situ-
ação, acompanhando a vítima em qualquer de suas decisões (2007, p. 377).

Somente no ano de 2006, quando havia 46 refúgios localizados em 28


Estados do México, foram atendidas mais de 20 mil pessoas que permanecem
até três meses protegidas em lugares secretos; além disso, mais de 25 mil crianças
(meninas e meninos) também foram atendidos nos centros de atenção externa

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

(TAMAYO, 2007). A coordenadora da Rede de Refúgios advertiu que cerca de


300 mil mulheres se encontram em cárcere privado em suas próprias casas,
devido ao fato de o cônjuge ter poder econômico e estar vinculado ao crime
organizado, ao narcotráfico ou ao âmbito judicial. Aproximadamente 20% das
mulheres que pedem auxílio e são atendidas nos refúgios são esposas de nar-
cotraficantes e pessoas ligadas ao tráfico de mulheres.
O que chama particularmente a atenção é que 75% de todos os Refúgios
existentes no México são criados, coordenados e organizados por grupos de
mulheres que pertencem à sociedade civil, em parceria com os órgãos públi-
cos, frente a 25% de refúgios que pertencem aos governos locais7.

2.2. O que faz uma mulher em situação de violência no Brasil?

No Brasil, as instâncias jurídicas responsáveis em acolher as queixas e


registrar as denúncias são as “Delegacias Especiais de Atenção à Mulher” - (DE-
AMs) que, em sua grande maioria, integram em seu quadro de funcionários
delegadas e policiais do sexo feminino. Uma mulher em situação de violência
no Brasil deve dirigir-se a uma Delegacia Especial para Mulheres e ser atendi-
da por uma equipe de profissionais: delegada, polícia, psicóloga; em seguida
registrar um “Boletim de Ocorrência” (BO) e instaurar um “Inquérito Policial”,
ou seja, fazer uma denúncia que, depois de tramitar pelo Juizado Especial de
Violência Doméstica e Familiar, será remetida ao Ministério Público.
Há um capítulo específico na lei brasileira sobre a atenção da autoridade
policial às mulheres em situação de violência. A polícia é obrigada a garantir a
proteção da mulher, encaminhá-la ao Hospital ou Instituto Médico Legal, ofe-
recer transporte para a “ofendida” e seus dependentes para um refúgio seguro
(Casa Abrigo) quando há risco de vida; acompanhar a ofendida para assegurar
a retirada de seus pertences do domicílio e informar a ofendida dos direitos a
ela conferidos nesta lei, bem como os serviços disponíveis.
No Brasil, conforme explícito na lei atual, as medidas protetivas de ur-
gência são definidas na mesma “Delegacia”; instaura-se um “Inquérito”, ou
seja, uma Investigação Policial que é enviada aos Juizados Especiais da Violên-
cia Doméstica e Familiar, órgãos da Justiça Ordinária, com competência civil
e criminal, que foram criados a partir da Lei Maria da Penha. Em caso de não

7 Entrevista concedida pela coordenadora da Rede de Refugios, Margarita Guillé Tamayo, para o Jornal
Milenio, acessada pelo site http://www.milenio.com. Acesso em: 20 set. 2010.

70
Teresa Kleba Lisboa

existir Juizado Especial, os registros de violência são enviados aos Juizados


de Primeira Instância Criminais (“Varas Criminais”) e os casos de violência
doméstica ou familiar terão prioridade em relação aos outros processos. So-
mente depois de passar por este juizado, se for necessário, o processo passará
ao Ministério Público.
Também existem no Brasil as Defensorias Públicas, que são locais aos
quais as mulheres em situação de violência podem recorrer, e onde serão aten-
didas por advogados - gratuitamente. O artigo 37° da lei brasileira prevê a
obrigatoriedade da mulher ir acompanhada de um advogado durante todos os
autos do processo, ou seja, o Estado brasileiro deve garantir assessoria jurídica
integral e gratuita à mulher em situação de violência.

2.3. O que acontece com o agressor no Brasil e no México?

O texto referente à lei mexicana menciona inúmeras vezes “a vítima”,


porém, quando nos atemos a procurar o que a lei prevê especificamente para
o “agressor”, ou seja, para quem cometeu o delito, a lei mexicana não define a
quem dirigir o processo e nem prevê uma pena.
Constata-se na lei brasileira uma clara intenção de enfatizar ou “mora-
lizar” o castigo do agressor, especificando as medidas de castigo: prisão pre-
ventiva do agressor; agravamento da pena, aumento da pena e/ou obrigatorie-
dade em participar de programas de recuperação. Se o agressor for pego em
flagrante, poderá ser aplicada uma pena de detenção que varia de 3 meses a 3
anos. A Lei Maria da Penha proíbe a simples doação de uma cesta básica ou
prestação de serviços à comunidade, como era estipulado na lei anterior. Este
detalhe concede seriedade, valor e vontade política por parte dos executores da
lei, caracteriza uma “punição” fazendo com que a maioria dos agressores pense
melhor antes de cometer atos violentos.
O que pode parecer um avanço também revela uma contradição quan-
do se comparam essas informações com a quantidade de processos inconclu-
sos: 70% foram arquivados, na maioria dos casos, por intervenção da própria
agredida, que altera seu depoimento diante das promessas do companheiro de
mudar de atitude. A Justiça também contribui para a impunidade: em 21% dos
casos estudados, os acusados foram absolvidos - em uma proporção de dez
absolvidos para um condenado.
Um dos principais motivos do aumento da violência é a impunidade.
No México, a violência contra as mulheres não é considerada um delito grave.

71
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Para a maioria dos juristas, “existem outros tipos de casos mais graves do que
a violência contra as mulheres”. Muitos juristas e integrantes da polícia ainda
possuem uma visão estereotipada e machista sobre a postura das mulheres,
atuam sobre a lógica da suspeita tendendo a uma dupla vitimização da mu-
lher, questionando suas atitudes, seu passado - entrando pela consideração da
moralidade. Existe muita resistência dos profissionais da área jurídica, pois a
maior parte dos juízes ignora as leis e alega que “os homens não implementam
ações que prejudicam homens”.
A grande maioria dos agressores não admite que é violento, coloca a culpa
na mulher, dizendo que ela lhe provocou. Dos homens agressores que aceitam
participar de um grupo terapêutico, somente 27% chega ao final do tratamento e
59% reincidem nos atos de violência depois de participar da terapia.

2.4. Como é feita a denúncia ou o registro da queixa em ambos


os países?

Entre os dois países também ocorre uma diferença em relação a como


fazer a denúncia. A Lei Maria da Penha determina que a denúncia deva ser fei-
ta através do registro de um Boletim de Ocorrência e até há pouco tempo atrás,
não era necessário “representar”, ou seja, já se instaurava um inquérito policial,
e o processo corria normalmente até chegar ao Juizado Especial da Violência.
A mulher só podia retirar a queixa na presença do juiz.
No México a grande questão é que as denúncias deveriam ser feitas por
“Ofício” diretamente junto ao Ministério Público, porém, a grande maioria
das mulheres opta pela “Querella”, que é realizada nas próprias Unidades de
Atenção e Prevenção à Violência.
De acordo com o art. 16 da Constituição Política dos Estados Unidos
Mexicanos, uma averiguação prévia deve iniciar mediante uma denúncia ou
“querella” (são requisitos de procedibilidade). A denúncia, em Direito Pro-
cessual e Administrativo, é “a puesta en conocimiento de la perpetración de
un hecho constitutivo de delito o infracción administrativa ante la autoridad
competente, ya sea ésta el juez, el funcionario del ministerio público, policía u
otro funcionario público competente” (Diccionario Jurídico Mexicano, 1994).
Qualquer cidadão pode recorrer a uma denúncia. Em matéria de direito
administrativo se abrirá um procedimento administrativo e em matéria pe-
nal um procedimento penal. Isto não quer dizer que o denunciante seja parte
atuante no procedimento; quem abre o procedimento é a administração que,

72
Teresa Kleba Lisboa

por sua vez, não é obrigada a comunicar o resultado das investigações ou da


tramitação. Devemos ter em conta também que o denunciante sempre per-
manecerá no anonimato e os funcionários responsáveis pela tramitação não
podem revelar o nome do denunciante.
A denúncia por ofício, como expressa Castro (1995), é um princípio
fundamental da ação penal. O mesmo autor afirma que o princípio da oficiali-
dade consiste em que o exercício da ação penal deve ocorrer sempre junto ao
Ministério Público.
A “querella”, no entanto, possui outras características. É um tipo de de-
núncia sujeita a certos formalismos especiais, e a que seja representada e tra-
mitada por advogado e procurador designados especialmente para cada caso.
A vantagem da “querella” é que a pessoa que a apresenta se constitui em parte
acusadora do processo e toma parte ativa. Porém, no caso da violência contra
as mulheres, quando a denúncia é por “querella”, significa que a tramitação dos
casos permanece em mãos da própria mulher, que não há responsabilidade por
parte do Estado. Na maioria das vezes, estas não possuem força suficiente para
“tornar-se parte ativa” do processo, ou seja, para manter as denúncias e exigir
uma pena para os agressores. Por diversos motivos elas retiram a queixa.
A maioria das mulheres no México se inibe para fazer denúncias e, quan-
do fazem, não é por Ofício, e sim por “Querella”. Conforme depoimentos de pro-
fissionais entrevistadas e estudos feitos por Huacuz Elias y Mejía Garcia (2003),
existem dois tipos de fatores inibidores da denúncia: os internos e os externos.
Os internos estão relacionados com questões morais, religiosas e cultu-
rais, como as mulheres que consideram que seu casamento é para toda a vida,
portanto não querem destruí-lo nem desintegrar a família; não denunciam por
temor ao agressor e/ou por dependência econômica; possuem vergonha que
seus vizinhos, amigas ou familiares venham a saber que estão envolvidas em
procedimentos penais (preconceitos sociais); elas só querem resolver de ma-
neira imediata o problema, que o agressor leve um susto - e com uma chamada
de atenção por parte do juiz acham que ele vai mudar de atitude; não estão
dispostas a “fichar” seus companheiros; algumas não denunciam para proteger
seus filhos/filhas do agressor; e, por último, falta de informação - as mulheres
não sabem a que recorrer em caso de violência sexual.
Os fatores externos estão ligados à ignorância que as mulheres possuem
sobre seus direitos como cidadãs e sobre as possibilidades de fazer valer os
recursos jurídicos que existem para protegê-las. Entre os principais fatores ex-
ternos estão: a vítima desconhece os trâmites legais; uma vez que a violência

73
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

ocorre em casa, as mulheres dificilmente contam com testemunhas presenciais


e no México, por exemplo, a prova testemunhal requer duas testemunhas. No
México o certificado médico ou psicológico deve ser emitido por um perito
especializado da Procuradoria e no Brasil os “laudos” ou prontuários médicos
fornecidos pelos Hospitais ou Postos de atendimento à saúde das mulheres se-
rão admitidos como provas das agressões físicas; os processos são demorados e
devido à burocracia perde-se o contato com a pessoa agredida; não há sanções
para os culpados e se são processados é com uma pena mínima; no México, a
polícia não pode entrar na casa do agressor sem uma ordem explícita.

Desafios à implementação das leis “Maria da Penha” e “Ley Ge-


neral de Acceso de las Mujeres a una Vida Libre de Violencia” -
Políticas Públicas para prevenir, atender e sancionar a violência

Um dos maiores desafios à implementação de ambas as leis é, em pri-


meiro lugar, sua publicização, ou seja, sua divulgação para o maior número
possível de pessoas, não só às mulheres, mas também à sociedade em geral. As
leis necessitam ser conhecidas, difundidas, interpretadas, amplamente divul-
gadas pelos meios de comunicação em espaços acadêmicos, escolas, associa-
ções, sindicatos, locais de trabalho, comunidades periféricas, grupos de mu-
lheres, entre outros, através de campanhas, projetos educativos e culturais de
prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher.
Das 15 profissionais entrevistadas que trabalham com a questão da vio-
lência no México, todas conhecem a “Ley General de Acceso a las Mujeres a
una vida libre de violência”, porém, quando perguntamos se a Lei está sendo
aplicada adequadamente no México, todas responderam que não. Os motivos,
segundo as profissionais, são: “porque os operadores de direito que atuam jun-
to aos Ministérios não a conhecem; a maioria das mulheres que sofrem vio-
lência também não a conhece”; “falta envolver as instâncias judiciais”; “muitas
instituições enfocadas no âmbito jurídico não aplicam a Lei porque não pos-
suem conhecimento sobre a mesma”.
Com relação aos maiores obstáculos na aplicação da Lei, as respostas
foram: “a corrupção e a falta de pessoal técnico preparado e sensível”; “o ex-
tenuante é a burocracia da tramitação do processo”; “a falta de educação, o
desconhecimento, os custos, a falta de preparação, o medo da denúncia”; “sua
aplicabilidade”; “o desconhecimento da Lei, a pouca sensibilidade por parte do

74
Teresa Kleba Lisboa

Estado para sua aplicação e a falta de informação da Lei em âmbito nacional”;


“a falta de homologação de critérios para as leis, ou seja, a legislação penal re-
conhece unicamente a violência física e psicológica, ignorando os outros tipos
- como patrimonial e econômica”.
No Brasil também constata-se desafios na aplicação da lei. Em pesquisa
realizada junto a trinta mulheres e trinta homens na Delegacia de Mulheres
da cidade de Florianópolis (Brasil), as sociólogas Leila Deeke e Elza Coelho
(2008)8 constataram que 70% das mulheres entrevistadas já haviam registrado
de dois a quatro boletins de ocorrência por agressão contra seus parceiros, 26%
haviam feito de cinco a nove notificações e 3,3% até 10 boletins. Os motivos
da reincidência dos boletins foram: a anulação do boletim anterior por temer
a vingança do parceiro; a falta do casal no comparecimento à intimação da
delegacia, devido à melhora do comportamento do parceiro após a agressão; e
a frustração diante da falta de incentivo em denunciar o parceiro. A pesquisa
constatou também que os principais motivos da violência cometida pelos ho-
mens contra as mulheres foram: ciúme, não admitir ser contrariado, ingestão
de álcool e traição. Evidenciou-se, ainda na pesquisa, o forte uso de medica-
mentos pelas mulheres em função da situação de violência - para suportar a
ansiedade, a depressão, a sensação de impotência e outras emoções negativas
desencadeadas pelo contexto de violência doméstica.
Outro grande desafio a ser superado para que a Lei Maria da Penha possa
ser implantada de forma satisfatória no Brasil é a mudança nas estruturas de se-
gurança pública, no sentido de incorporar concepções de consciência e atitudes
que neutralizem a vitimização de gênero desde a intervenção sobre o ato em si,
o que o provocou, como em todo o seu encaminhamento por parte da polícia e
seus agentes. Muitos juristas e integrantes da polícia ainda possuem uma visão
estereotipada e masculinizada sobre a postura das mulheres, atuam sob a lógica
da suspeita tendendo a uma dupla vitimização da mulher, questionando suas
atitudes, seu passado - entrando pela consideração da moralidade.
A participação da Sociedade Civil no enfrentamento da violência do-
méstica e familiar contra a mulher é fundamental e, através de movimentos
e grupos organizados deve exigir, reivindicar do Estado tanto ações que ar-
ticulem a prevenção à violência e apoio às mulheres, como mudanças na le-

8 DEEKE, Leila Platt e COELHO, Elza Berger Salema. A dinâmica da violência a partir dos discursos da
mulher agredida e de seu parceiro. Trabalho apresentado no Encontro Internacional Fazendo Gênero 8,
que ocorreu em Florianópolis,UFSC, de 25 a 28 de agosto de 2008.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

gislação brasileira. Para isso é necessário: a) destinação de recursos para a


implementação da LMP através de dotação orçamentária nos Planos Pluria-
nuais; b) criação de Delegacias Especializadas de atendimento a Mulheres e/
ou sessões especializadas. Não só criar, mas destinar recursos, infraestrutu-
ra, equipamento adequado e, sobretudo, capacitar os e as policiais e demais
técnicos que atendem as mulheres em situação de violência; c) criação de
Casas-abrigo, Centros de Referência e de Atendimento Integral e Multidisci-
plinar para Mulheres e seus dependentes, bem como o Serviço de Assistên-
cia Jurídica em sede policial e judicial; d) criação de núcleos de defensoria
pública especializados no atendimento a mulheres em situação de violência;
e) criação de curadorias (promotorias especializadas) para atuar junto aos
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; f) criação de
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; g) criação de
Centros de Educação e Reabilitação para agressores; g) garantia de cursos de
capacitação para os agentes públicos em direitos humanos, gênero, raça e et-
nia, capacitação de técnicos, policiais e agentes que atuam junto às delegacias
de polícia e aos centros de referência.
As políticas públicas devem propor uma revisão dos modelos de socia-
lização envolvendo os homens, desde cedo (crianças, adolescentes, jovens),
nos esforços pelo fim da violência contra a mulher em espaços públicos e
privados, tais como: 1) a criação de programas para adolescentes e jovens
favorecendo que as novas gerações adotem modelos relacionais fundamen-
tados no respeito aos direitos das pessoas, nas responsabilidades individuais
e no respeito às diferenças; 2) a construção de uma rede de recursos públicos,
uma rede de cidadania, ou seja, conhecer os serviços existentes nesta área,
trabalhar em parceria, elaborar projetos em conjunto, canalizar forças para
um programa e trocar experiências de práticas bem-sucedidas; 3) investiga-
ção, apuração e tipificação do crime por parte das delegacias especializadas
de atendimento à mulher. É a primeira instância na busca da proteção. É im-
portante dar formação continuada aos profissionais que atuam nos diversos
setores de auxílio às vítimas e aos agressores; 4) Instituto Médico Legal - sua
função é decisiva na coleta de provas que serão necessárias no processo ju-
dicial e condenação do agressor; 5) Centro de Referência - como o próprio
nome diz, é o local de referência e orientação, responsável pelos encaminha-
mentos da rede. Tem o papel de dar atendimento e acompanhamento psico-
lógico e social à mulher em situação de violência, resgatando e fortalecendo
sua autoestima e possibilitando que esta se torne sujeito de seus próprios

76
Teresa Kleba Lisboa

direitos; 6) os serviços das Casas-abrigo - espaços seguros que oferecem mo-


radia protegida e atendimento integral à mulher em situação de risco de vida
iminente em razão da violência doméstica. É um serviço de caráter sigiloso
e temporário, onde as usuárias permanecem por um período determinado
até reunirem as condições necessárias para retomar o curso de suas vidas; 7)
Conselhos municipais, estaduais e federais de mulheres - têm o papel de mo-
nitorar e fiscalizar a qualidade e a eficiência dos serviços prestados por todas
as pessoas envolvidas no atendimento e assistência às mulheres em situação
de violência. São organismos com representações governamentais e não go-
vernamentais e devem ter sua autonomia respeitada; 8) a Justiça, a Segurança
Pública e os Direitos Humanos - ações voltadas à formação e capacitação dos
profissionais que atuam na elaboração e implementação de medidas jurídi-
cas relacionadas à violência doméstica, familiar, incluindo centrais de penas
e medidas alternativas, poder judiciário, ministério público, defensoria pú-
blica, escola de formação de juízes, promotores, defensores e conciliadores,
varas de família, juizados da infância e da adolescência, além das academias
de polícia, presídios, conselhos tutelares, centros de atendimento à infância
e à adolescência e outros.
Além desses enfoques nas políticas públicas, ressaltamos a dimensão
pedagógica junto às mulheres em situação de violência, reconhecendo em
cada uma um “sujeito de direitos”, um ser social e uma cidadã que tem um
lugar na sociedade. Enfim, desenvolvendo nestas mulheres seu poder pessoal
e coletivo, resgatando a autoestima e a auto-confiança, estaremos trabalhando
seu processo de empoderamento e emancipação.
A perspectiva de gênero exige uma nova postura frente à concepção de
mundo, aos valores e ao modo de vida, ou seja, coloca em crise a legitimidade
do mundo patriarcal. Esta perspectiva permite compreender que as relações de
desigualdade e iniquidade entre gêneros é produto da ordem social dominante
e das múltiplas opressões de classe, raça, etnia e gerações que se exercem sobre
a mulher e configuram uma superposição de domínio.
Podemos concluir que ambos os países, Brasil e México, estão se es-
forçando para combater o problema da violência contra as mulheres com leis
inovadoras que trazem seriedade em suas propostas e conteúdos. Enfim, es-
peramos que em breve possamos viver em países onde haja menos violência,
mais equidade de gênero, mais justiça e mais igualdade social.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

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79
METODOLOGIAS FEMINISTAS,
GÊNERO, POLÍTICAS PÚBLICAS E O
MONITORAMENTO DA LEI MARIA
DA PENHA

Jussara Reis Prá

Introdução

O campo de estudos de gênero consolidou-se no Brasil no final dos anos


1970, concomitantemente ao fortalecimento do movimento feminista no
país. A incorporação da perspectiva de gênero por políticas públicas é, no
entanto, um tema ainda hoje pouco explorado (FARAH, 2004, p. 47).

O texto em epígrafe revela lacunas da agenda pública brasileira e justifica


nosso propósito de associar gênero, feminismo e políticas públicas, des-
tacando a contribuição da metodologia feminista na criação de indicadores e
protocolos para monitorar e avaliar políticas públicas. Reflexão referenciada
na experiência do Observatório para Monitoramento da Lei Maria da Penha
(Observe), que acompanha a implementação e a aplicação da normativa deli-
neada para “coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher”
(Lei 11.340 de 7/08/06, Art. 1º).
O emprego do conceito de gênero na análise remete à “construção social
e histórica do feminino e do masculino e para as relações sociais entre os sexos,
marcadas em nossa sociedade por uma forte assimetria” (FARAH, 2004, p. 48).
Falar em gênero, então, é referenciar a construção feminista que permite avaliar
como identidades femininas e masculinas se constituem social, política, histó-
rica e culturalmente. O conceito também reporta às bases patriarcais de poder
presentes em domínios da vida pública e privada. Âmbitos nos quais se expres-
sam sistemas de crenças e ideologias sexistas que delimitam direitos, deveres e

81
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

condutas para cada sexo, legitimam a ordem estabelecida em cada sociedade e


justificam a supremacia dos homens e do masculino (PULEO, 2004).
Tal leitura permite identificar as assimetrias das relações de poder e
a recorrência de condições adversas à equidade de gênero, evidenciado a
construção social das diferenças entre masculino de feminino (AMÂNCIO,
1998). Nesse sentido, a perspectiva de gênero alimenta o questionamento
à vigência de matrizes histórico-culturais de ordem patrimonial, patriarcal
e autoritária que sustentam a subordinação feminina, com o aporte de es-
truturas sociais, instituições, comportamentos, crenças, normas e valores.
Equação a configurar subordinações que vão do público ao privado e são
evidenciadas em estatísticas que registram discriminações e circunscrevem
fenômenos como o da distância das mulheres dos cargos de poder e decisão,
incluem a sub-representação feminina na política, passam pela discrimi-
nação salarial no mercado de trabalho e chegam à violência doméstica dos
homens contra as mulheres. Realidade a exigir políticas públicas voltadas a
equacionar desigualdades de gênero e, para além destas, as pautadas por fa-
tores relativos à geração, origem étnica, orientação sexual, condição de classe
ou localização geográfica - que geram e reforçam outras subordinações tam-
bém carentes de solução (BLAY, 2003).
No intuito de reverter o quadro de discriminações que demarca a con-
dição feminina, organizações feministas e de mulheres de diversas partes do
planeta construíram uma história de mobilizações em seus países e junto à
Organização das Nações Unidas - ONU - que beira quatro decênios. Tal pro-
tagonismo, materializado em negociações de alcance local, nacional, regional
e internacional, mantém constante a defesa da cidadania feminina e impinge a
compreensão das mulheres enquanto sujeitos de direitos e prioridade da ação
pública e política. Entendimento gerado e retroalimentado em sucessivas con-
ferências e convenções nas Nações Unidas, gerais ou sobre mulheres, e regis-
trado na redação de planos, acordos, tratados e pactos globais.
Os mesmos instrumentos, ao redefinirem a cidadania feminina a partir
de parâmetros normativos internacionais, retornam aos países deles signatá-
rios corroborando reivindicações dos movimentos de mulheres e feministas e
influenciando a formulação de leis nacionais. No Brasil, tal legitimidade esti-
mula a elaboração de políticas públicas de gênero, abrangendo temas relativos
aos direitos sexuais e reprodutivos, aos direitos políticos e civis e à violência
contra a mulher, como esclarecem Jacqueline Pitanguy e Dayse Miranda. Não
obstante, elas mesmas advertem que

82
Jussara Reis Prá

a realidade empírica descreve um cenário mais pessimista com relação aos te-
mas mencionados. As mudanças na legislação e as ações governamentais rumo
à equidade de gênero não foram suficientes para consolidar a cidadania efetiva
de todas as mulheres no país (PITANGUY e MIRANDA, 2006, p. 31).

À vista disso, as autoras ponderam que a efetividade da cidadania femi-


nina ainda carece do fortalecimento e da implementação de direitos conquis-
tados - tarefas que entendem como desafio permanente do feminismo, cujo
empenho deve focar padrões normativos mais igualitários e a transversalidade
de gênero nas políticas públicas. Resultados a serem buscados para assegurar
“que a questão dos direitos de cidadania das mulheres e as condições para seu
exercício constituam questões centrais de democracia, e não apenas questões
das mulheres” (PITANGUY e MIRANDA, 2006, p. 31).
A presente intervenção parte desse entendimento com o propósito de
associar gênero, feminismo e políticas públicas, destacando a contribuição da
metodologia feminista na construção de indicadores e instrumentos de medida
para monitoramento e avaliação de políticas públicas. Para tanto, referencia-se
o problema da violência contra as mulheres com o objetivo de dimensionar os
sentidos e os significados de monitorar o processo de aplicação e implantação
da Lei Maria da Penha. Assim, a abordagem busca refletir acerca do que se
monitora e sobre por que e como monitorar uma política pública de gênero.

O que se monitora pela leitura feminista

O problema da violência contra a mulher integra a pauta das lutas


feministas há pelo menos quatro décadas. Nesse percurso, a busca de leis e
práticas para seu enfrentamento somou esforços de governos e organizações
não governamentais tanto em plano nacional como internacional. A incor-
poração do tema a agendas de estudos e pesquisas em diversos países pro-
piciou o surgimento de literatura ampla e instigante sobre o assunto. Nesse
arcabouço, as desigualdades nas relações de poder entre homens e mulheres
são associadas a distintas formas de discriminação, entre elas às designadas
como violência de gênero.
A violência ocorrida no domínio privado é identificada como uma das
formas emblemáticas das desigualdades de gênero, sendo nelas inclusas agres-
sões físicas, psicológicas, sexuais ou patrimoniais ocorridas no meio familiar
- ambiente no qual as mulheres, sejam elas adultas, jovens ou meninas, são

83
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

as maiores vítimas de maus tratos, abuso sexual, estupro e crimes passionais,


além de outras práticas perversas que vão da mutilação genital ao incesto, pas-
sam por ameaças ou pelo cárcere privado e por exploração sexual econômica.
Assim, a manifestação de relações desiguais de poder ou das chamadas assi-
metrias de gênero se mantêm à semelhança do passado, potencializando-se
no espaço privado, no qual tradições e mentalidades garantem a dominação
masculina (PASINATO, 2010).
O reconhecimento da violência contra as mulheres como violação de
direitos humanos teve a rubrica da Conferência Mundial sobre Direitos Hu-
manos de Viena (1993) e dos documentos dela resultantes, instituindo um dos
marcos à almejada conformação da cidadania feminina. Os preceitos de Viena
e de outras convenções, como a de Belém do Pará (1994), das quais o Brasil
é um dos países signatários, encontram respaldo no parágrafo 8º do artigo
226 da Constituição Federal Brasileira que reconhece a violência intrafamiliar,
definindo o dever do Estado de assegurar “assistência à família, na pessoa de
cada um dos que a integram e criando mecanismos para coibir a violência no
âmbito de suas relações” (BRASIL, 2007).
No Brasil, a ampliação do espaço institucional dedicado aos direitos hu-
manos e a preocupação com as desigualdades de gênero possibilitam revelar
distintos obstáculos ao desenvolvimento da cidadania feminina. Nesse contex-
to, uma nova agenda para os direitos humanos das mulheres pautou o discurso
político no país e “desencadeou políticas públicas, em particular nos campos
da saúde sexual e reprodutiva; dos direitos trabalhistas e previdenciários; dos
direitos políticos e civis; e da violência de gênero” (PITANGUY e MIRANDA,
2006, p. 24). Insere-se aí a Lei Maria da Penha, enquanto mecanismo de com-
bate à violência contra mulheres.
A Lei Federal nº. 11.340/06, sancionada em 7 de agosto de 2006 e no-
meada “Maria da Penha”, referencia mudanças expressivas na perspectiva de
enfrentamento à violência doméstica e familiar. A nova legislação estabelece
procedimentos para coibir essa prática, pressupõe a criação dos Juizados de
Violência Doméstica e Familiar e altera o Código Penal Brasileiro, possibilitan-
do a prisão de agressores em flagrante ou sua detenção preventiva. Sua redação
elimina as penas alternativas previstas pela Lei nº. 9.0999/95, que enquadrava a
violência contra mulheres entre os delitos de menor potencial ofensivo. A nova
Lei, além de tributária das mobilizações de mulheres e feministas, responde a
diversos compromissos internacionais do estado brasileiro. Ademais, atende à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos no que concerne à efetivação

84
Jussara Reis Prá

do processo penal do agressor de Maria da Penha Fernandes Maia e à adoção


de medidas para evitar a tolerância estatal e o tratamento discriminatório nas
questões de violência doméstica contra mulheres.
Nesse tom, enquanto o quinto artigo do texto configura violência do-
méstica e familiar contra a mulher como qualquer ação ou omissão baseada
no gênero que cause morte, lesão, sofrimentos físicos, sexuais ou psicológicos,
e dano material ou patrimonial, o Artigo 1º da Lei

(...) cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e fami-


liar contra a mulher, nos termos: § 8o do art. 226 da Constituição Federal,
da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra as Mulheres, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais
ratificados pela República Federativa do Brasil (Lei nº. 11.340/06, Art.1°).

A leitura e a reflexão feministas impressas no conteúdo da Lei redimen-


sionam o debate sobre a antinomia público e privado, contrapondo-se ao dita-
do popular de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Ou,
ainda, do verbalizado a partir do senso comum de que questões dessa índole
devem ser resolvidas entre “quatro paredes”. Nessa dimensão, como enume-
ram Flávia Piovesan e Sílvia Pimentel, a nova Lei comporta sete inovações ex-
traordinárias, a saber:

(...) mudança de paradigma no enfrentamento da violência contra a mu-


lher; incorporação da perspectiva de gênero para tratar da desigualdade e
da violência contra a mulher; incorporação da ótica preventiva, integrada
e multidisciplinar; fortalecimento da ótica repressiva; harmonização com a
Convenção CEDAW/ONU e com a Convenção Interamericana para Preve-
nir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; consolidação de um con-
ceito ampliado de família e visibilidade ao direito à livre orientação sexual;
e, ainda, estímulo à criação de bancos de dados e estatísticas (PIOVESAN e
PIMENTEL, 2007, p. 1).

A violência cometida no ambiente doméstico e familiar, até então consi-


derada infração de menor potencial ofensivo e sujeita à impunidade, agora tem
conotação criminal. Com efeito, além de erigir essa violência “à categoria de ato
violador dos Direitos Humanos da Mulher”, a nova Lei institui “medidas prote-
tivas que efetivamente assegurem o exercício de tais direitos, já estabelecidos na

85
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Constituição Federal de 1988” (DIAS, 2009, p. 22). Igualmente, põe sob suspeita
o poder e a autoridade do homem sobre a mulher e o respaldado a ele oferecido
pelo direito patriarcal - ordenamento que levou Carole Pateman (1993) a iden-
tificar no pacto constituído para regular o funcionamento do Estado Moderno
(séc. XVIII) e o convívio em sociedade (contrato social) o advento do que deno-
mina de contrato sexual (casamento e prostituição). Conforme a autora, embora
o contrato social seja a gênese do direito político e expressão da liberdade civil,
na verdade ele passa a ser um atributo masculino. Sendo assim, “o pacto original
é tanto um contrato sexual quanto social: é sexual no sentido de patriarcal - isto
é, o contrato cria o direito político dos homens sobre as mulheres -, e também
sexual no sentido do estabelecimento de um acesso sistemático dos homens aos
corpos das mulheres” (PATEMAN, 1993, p. 17).
Explorando um pouco mais essa avaliação é oportuno lembrar, como o
faz Pateman (1993), que a distância temporal a nos separar do momento histó-
rico em que as teorias tradicionais do contrato foram forjadas não exclui a sua
atualidade. A autora também destaca que, embora tais teorias se apresentem
em contraposição ao ordenamento patriarcal, o que se verifica é terem elas
intermediado a constituição do patriarcado moderno. Consoante à concepção
contratual, o pressuposto do indivíduo (homem) como proprietário da socie-
dade matrimonial não evidencia apenas a sujeição sexual das mulheres, traz
também elementos para legitimar a violência de gênero.
No Brasil, a violência contra mulheres - incluindo crianças - foi insti-
tuto legal praticamente desde a colonização até a proclamação da República.
Inicialmente, com respaldo das Ordenações Filipinas, em época posterior
pautada pelo Código Napoleônico (Séc. XVIII), que expressava como dever
da mulher a obediência ao marido. Com a República, o pai perde o direi-
to de castigar fisicamente mulher e filhos (Decreto nº. 181 de 24/01/1890).
Com a elaboração do Código Civil de 1916 o domínio patriarcal é mantido e
acentuado por mecanismos de regulamentação do matrimônio. Este código,
reformado substantivamente somente em 2002, reitera a posição da mulher
enquanto propriedade do homem pela assinatura de contrato de casamento
que prioriza o poder paterno.
A partir do ordenamento de 1916, a mulher perde sua capacidade ci-
vil (cidadania) com o matrimônio, dependendo do consentimento do marido
para exercer atividades que solteiras ou maiores de idade desempenham livre-
mente. O mesmo texto admite deserdar “a filha de comportamento ‘desonesto’
e não reconhece os filhos nascidos fora do casamento. Enfim, o Código de 16

86
Jussara Reis Prá

regula e legitima a hierarquia de gênero e o lugar subalterno da mulher dentro


do casamento civil” (PITANGUY e MIRANDA, 2006, p. 23). Ao homem tam-
bém é facultado anular o casamento se constatada a não virgindade da esposa.
O dispositivo “erro na indicação da pessoa” garante a ele anular o contrato
nupcial nos seguintes termos: “são anuláveis os atos jurídicos (contrato) quan-
do as declarações de vontade emanarem de erro substancial”1.
Enfocando a questão por esse ângulo é oportuno referenciar outros re-
gramentos que priorizavam o poder masculino, desta feita os do Código Penal
(Lei nº. 2.848 de 7/12/1940). Entre eles, o respaldo a atos ilícitos praticados
“em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido” (Lei
nº. 2.848, Art. 160) - leitura que permite absolver assassinos de mulheres sob
alegação de “legítima defesa da honra” em caso de adultério. Ao que se soma
o registro da expressão “mulher honesta”, incluindo seu uso também em casos
de estupro. Situação em que a mulher somente pode processar o agressor se
provar ser honesta, ou seja, virgem2.
A conjugação destes parâmetros discriminatórios contribui para sedi-
mentar os princípios do patriarcado e do patrimonialismo na sociedade bra-
sileira. A reação ao adultério feminino e a exigência da virgindade evitavam
o risco da divisão do patrimônio familiar com descendentes ilegítimos e jus-
tificavam a violência de gênero, em particular, a violência física (assassinato
ou espancamento) e a violência moral (anulação do casamento). Igualmente,
sobrepunha-se o poder patriarcal (dominação masculina), cobrando castidade
e obediência - ambas, “matéria-prima para a formação de um imaginário cul-
tural e social que permitia (e permite) o desrespeito às mulheres antes e até os
dias de hoje, pois vários deles permanecem no imaginário social de homens e
mulheres” (BORGONHONE, 2008, p. 24).
A longa vigência dos dois códigos (civil e penal) e sua pauta discrimina-
tória levam a ordem jurídica brasileira a conviver com normas retrógradas e,
ao mesmo tempo, incongruentes com os princípios igualitários da Constitui-
ção de 1988 e da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discri-
minação contra a Mulher - CEDAW. As recentes reformulações desses orde-
namentos, como advogam Pitanguy e Miranda, rompem parte da herança de
discriminação das mulheres e se aproximam de deliberações constitucionais e

1 Lei nº. 3.071, de 01/01/1916, Art. 86. O Código de 1916 foi revogado pela Lei nº. 10.406 de 10/01/2002.
2 Alterado pela Lei 11.106 de 28/03/2005, que modifica diversos artigos de conotação discriminatória
em relação à mulher, seguindo recomendações do Comitê da CEDAW ao Estado brasileiro quando da
apresentação de seu Relatório Oficial e do documento alternativo da sociedade civil, em 2004.

87
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

internacionais orientadas à equidade de gênero. No entanto, como advertem


as autoras, a expressividade de avanços dessa natureza não elimina do “ima-
ginário social brasileiro elementos sexistas e discriminatórios com relação às
mulheres que as impedem de exercer, com plena autonomia e dignidade, seus
direitos mais fundamentais” (PITANGUY e MIRANDA, 2006, p. 24).
O empenho de retirar o problema da violência contra a mulher do iso-
lamento privado, de torná-lo questão pública e entendê-lo como objeto de re-
lações de poder ou violação dos direitos humanos, ainda demarca processos
inconclusos, antigos e globais. Apesar dos avanços na promoção da igualdade
de gênero, obtidos em período relativamente recente, o respeito e a defesa aos
direitos humanos das mulheres continuam deficitários. Os dilemas impostos à
obtenção de plena paridade entre homens e mulheres denotam estarmos dis-
tantes da almejada equidade de gênero.
O quadro esboçado demonstra que a violência doméstica e familiar
contra a mulher comporta traços históricos incutidos no imaginário social e
instituídos na e pela cultura política brasileira, da qual emanam comporta-
mentos, leis e políticas públicas. Avaliar tal realidade, contudo, requer algumas
ponderações. Uma delas, como lembrado por Eva Blay (2003), é a de que o
problema da violência contra as mulheres é fenômeno histórico e recorrente
em diversas sociedades. Argumento também sustentado por Heleieth Saffioti
(1994) quando adverte que a violência contra as mulheres sempre existiu, ali-
ás, como fenômeno mundial, sem vínculos com riqueza, grau de desenvolvi-
mento, nível de escolaridade, religião dominante ou com determinada cultura
(ocidental ou oriental). Uma segunda ponderação é a de que as políticas pú-
blicas nem sempre são pensadas como fonte de direitos, de emancipação ou de
expansão da cidadania das mulheres. Ao que se somam restrições da parte de
quem responde pela aplicação e cumprimento das leis, em particular, quando
está em pauta a garantia dos direitos humanos das mulheres - cenários que
justificam investimentos direcionados a monitorar e avaliar a implantação de
políticas públicas de gênero.

Por que monitorar a Lei Maria da Penha

O cenário da violência contra as mulheres no Brasil não tende a ser


muito diverso do encontrado em outros países, partilhando com boa parte
deles problemas relacionados ao atendimento das mulheres em situação de
violência (falhas no acolhimento e acompanhamento), aos quais se somam

88
Jussara Reis Prá

falhas de informação ou de notificação. O país também aflui para condições


semelhantes às de outras nações no que respeita à imprecisão do sistema de
estatísticas atinentes à violência contra mulheres. Diante disso, o Comitê para
a Eliminação da Discriminação contra a Mulher da CEDAW aborda regular-
mente, em seus comentários conclusivos, a questão da coleta de dados, ins-
tando os Estados-partes a empreenderem esforços para reunir estatísticas e
sistematizar informações sobre as diversas formas de violência contra as mu-
lheres, incluindo a violência doméstica - pleito direcionado ao Brasil nas duas
ocasiões (2003 e 2007) em que o governo brasileiro apresentou seu relatório ao
referido Comitê3.
Constatar tal imprecisão e o fato dela dificultar diagnósticos e análises
precisas sobre a violência doméstica e familiar não impede conhecer a mag-
nitude do fenômeno no Brasil, nem de perceber que este se avoluma em todo
o território nacional. À vista disso, interessa acessar alguns dados a respeito,
para depois retornar à questão das estatísticas. Destarte, é de notar que um dos
problemas encontrados para a realização de estudos, ação governamental ou
monitoramento da violência não reside, necessariamente, na falta de informa-
ções. Antes, isso responde pela imprecisão e dispersão de dados, o que dificulta
a realização de análises longitudinais e comparativas. Isso sem desconhecer a
importância de esforços empreendidos individualmente ou por algumas insti-
tuições para abordar a realidade da violência contra a mulher.
Em diligências dessa natureza, foi possível constar de uma perspectiva
comparada, de que se há semelhança entre países no que tange à violência
doméstica e familiar, a sociedade brasileira é uma das que converge para situa-
ções exacerbadas quando se trata de assassinatos de mulheres ou de atos cruéis
e perversos praticados por maridos, companheiros, familiares ou parceiros re-
jeitados por elas. Dados do mapa da violência 2010 revelam que a incidência
de homicídios de mulheres no Brasil situa o país em 12º lugar num ranking
mundial - posição nada invejável e que se traduz, conforme estimativa para o
período 1997-2007, em 4,2 mulheres assassinadas por cada 100 mil habitantes;
40% delas jovens (18 a 30 anos) (WAISELFISZ, 2010).
Outro aspecto da magnitude do fenômeno pode ser precisado com in-
formações da Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), da Secretaria Es-
pecial de Políticas para as Mulheres (SPM). A central, que recebe denúncias de

3 Informações sobre esse processo são encontradas em: www.agende.org.br.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

violência contra mulher, além de reclamações quanto aos serviços do Estado


nesse atendimento, registra, desde sua criação (2005), um aumento expressivo
de chamadas de todas as partes do país. Mencione-se que de janeiro a dezem-
bro de 2009 foram 401.729 atendimentos - 49% superiores a 2008 (269.977
ligações) -, 40.857 daqueles com relatos de violência (10%). Nos seis primeiros
meses de 2010 o serviço recebeu em torno de 343 mil chamadas, 62 mil delas
(18%) com relatos de violência. Já a busca por informações sobre a Lei Maria
da Penha correspondeu a 117.546 das chamadas de 2008, chegando a 171.714
em 2009. Os registros feitos pelo órgão não representam a violência contra as
mulheres. Apesar disso, deve-se notar a importância da iniciativa e trazer mais
alguns dados aí levantados. Dos 62 mil relatos de violência (2010), tem-se 72%
de mulheres que informam viver com o agressor - 38% destas por mais de dez
anos. Os tipos de agressão mais citados são, pela ordem, a violência física e a
psicológica; ao lado disso, metade das mulheres alega correr risco de morte e
57% sofrer agressões diárias4.
À semelhança de registros nacionais, acréscimos na mesma ordem são
encontrados em contextos regionais e locais. Na cidade de Porto Alegre, por
exemplo, dados da Polícia Civil, divulgados pela Delegacia para a Mulher da
capital gaúcha (DM), denunciam que entre 2007 e 2010 houve um crescimento
acentuado dos casos de violência contra a mulher. Nos dois primeiros anos
da série as ocorrências partem de 9.399 (2007) e chegam a 13.099 (2008), re-
presentando um aumento próximo dos 40%. Já de janeiro de 2010 até o final
do mês de maio foram contabilizadas mais de 5 mil ocorrências policiais. No
comparativo com a média de 2009 chega-se a mais de 40 registros/dia, in-
cluindo entre os delitos mais comuns: ameaças, lesão corporal, crimes contra
a honra como injúria, calúnia e difamação e contravenções penais, além de
perturbação de tranquilidade e vias de fatos (Zero Hora, 13/06/2010, p. 9).
Pronunciando-se sobre esses números, a titular da Delegacia da Mulher
de Porto Alegre, Nadine Anflor, avalia que a maior incidência de atendimentos
registrada na capital gaúcha não se deve a um aumento na violência domésti-
ca, mas a uma mudança de cultura na população feminina. Ainda segundo a
delegada, antes da Lei Maria da Penha as vítimas esperavam a terceira ou quar-
ta agressão para denunciar; hoje elas recorrem à delegacia mais rapidamente
(Zero Hora, 13/06/2010, p. 9). Avaliações dessa natureza permitem inferir que

4 Fonte: www.presidencia.gov.br/spmulheres.

90
Jussara Reis Prá

a referida Lei já encontra em ressonância entre as mulheres, apresentando-se


como alternativa para solucionar situações de violência a que são submetidas.
Em relação à Lei Maria da Penha, ainda, resultados de pesquisa nacional
que avaliou o seu impacto após dois anos de criação5 indicam que 68% das
pessoas entrevistadas afirmaram já ter ouvido falar da lei; para 83% destas a
nova legislação ajuda a diminuir a violência contra a mulher. Já no que confere
às percepções sobre a lei, 33% acreditam que ela pune a violência doméstica e
20% que serve para aprisionar homens que agridem mulheres. Somados esses
percentuais tem-se que para a maioria das pessoas entrevistadas (53%) a Lei
Maria da Penha é essencialmente punitiva.
Mesmo concordando ser a nova legislação reconhecida pela sociedade
brasileira e com o fato do aumento dos registros de violência sinalizar para
uma mudança cultural em curso, é certo que muitos aspectos relativos à vio-
lência de gênero e ao seu enfrentamento carecem de reflexão e solução. Sen-
do assim, a recorrência do fenômeno, não raro seguida de requintes de per-
versidade, requer suplantar um sistema legal deficitário. Nesse sentido, assim
expressou-se a Ministra da SPM, Nilcéa Freire, sobre o descumprimento da Lei
Maria da Penha no caso Eliza Samudio: “Não adiantam as leis para proteger as
mulheres, se as suas vozes não forem ouvidas e se houver omissão do Estado”
(Correio do Povo, 18/07/2010, p. 10). A propósito, registre-se que a esfera es-
tatal aparece entre as três principais áreas onde a violência contra as mulheres
mais se manifesta, precedendo-a o âmbito intrafamiliar e o espaço social, con-
forme a Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação de todas as Formas
de Violência contra a Mulher (1993).
Retornando aos índices correspondentes à violência de gênero no Bra-
sil, estatísticas disponíveis e registros de delegacias da mulher reiteram cifras
e situações que parecem estagnadas: a maioria das agressões ocorre dentro de
casa; o agressor é o atual ou o ex-parceiro afetivo; quase metade dos casos de
violência de gênero resulta em lesões corporais graves originadas por socos,
tapas, chutes, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos; as relações
domésticas e familiares respondem pela maioria dos assassinatos de brasi-
leiras. Dados que, mesmo esparsos, em conjunto se revalidam ano após ano,
revelando a complexidade e a gravidade de um fenômeno que, todavia, ainda

5 A pesquisa de opinião Dois anos da Lei Maria da Penha: o que pensa a sociedade? Entrevistou, em 2008,
no país, 2002 pessoas (homens e mulheres) numa parceria entre Themis (Assessoria Jurídica e Estudos
de Gênero), Ibope e Instituto Patrícia Galvão, com apoio da Secretaria Especial de Políticas para Mu-
lheres - SPM. Fonte: www.presidencia.gov.br/spmulheres.

91
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

requer ser mais bem conhecido e enfrentado na sua magnitude, demandan-


do a implantação e aperfeiçoamento de sistemas de coleta e produção de
dados e estatísticas oficiais, bem como a sua atualização periódica em todo
país (BRASIL, 2007).
A despeito disso, cumpre ponderar que ainda se carece de um quadro
estatístico sobre violência contra as mulheres para melhor avaliar a dimensão
do fenômeno no Brasil. Faltam elementos para que se possa ter uma visão glo-
bal dessa violência, da incidência ou prevalência das suas diferentes formas, de
suas causas e consequências, bem como dos seus custos. Portanto, as lacunas
na geração, coleta e sistematização de dados sobre violência doméstica e fami-
liar dificultam perceber a extensão do problema e, por conseguinte, formular
propostas e adotar medidas eficazes para enfrentá-la, o que desafia as práticas
de monitoramento seja do fenômeno da violência, seja da implantação e apli-
cação de políticas públicas como a da Lei Maria da Penha.
O quadro esboçado evidencia o desafio de implantar uma política pú-
blica que reconhece a violência doméstica e familiar contra as mulheres como
problema social e violação dos direitos humanos em contextos sociais e insti-
tucionais nem sempre predispostos ou apropriados a mudanças de comporta-
mentos, normas e valores. Isso demanda considerar duas retóricas que operam
no entorno dessa equação: a da lógica cultural e a da lógica formal. Por meio
da lógica cultural são reiteradas a inferioridade feminina e a superioridade
masculina, atribuindo-se aos homens poder e autoridade e o respaldo de uma
cultura sexista - contexto no qual o segmento masculino “detém o poder de
determinar a conduta das categorias sociais nomeadas recebendo autorização
ou, pelo menos, tolerância da sociedade para punir o que se lhes apresenta
como desvio” (SAFFIOTI, 2001, p. 115).
Pela mesma lógica, o poder da mulher é circunscrito ao desempenho
das funções de mãe, esposa e dona de casa. Ironicamente a reprodução, a or-
ganização da vida doméstica e o jogo de sedução revelam o “empoderamento”
das mulheres ou o seu desempoderamento pela leitura feminista. No plano da
lógica formal inserem-se políticas públicas como as das Delegacias da Mulher,
das Casas Abrigo e das legislações protetivas, nela inclusa a Lei Maria da Penha
(11.340/06), responsável por modificar o tratamento da violência de gênero,
o que permite qualificá-la, pelo menos teoricamente, como uma das possi-
bilidades de cidadania para as mulheres. Entrementes, pode-se argumentar
que mudanças na esfera normativa com a criação de leis ou políticas públicas
não garantem o funcionamento e a efetividade desses mecanismos. Significa

92
Jussara Reis Prá

dizer que a igualdade formal não pode ser dissociada da igualdade material.
Nesse sentido, desde que foi sancionada a nova legislação, enfrenta resistên-
cias e questionamentos quanto à sua legalidade e empregabilidade, e justo de
responsáveis por sua aplicação (promotores de justiça, defensores públicos e
magistrados, entre outros) (PASINATO, 2010, p. 23).
Obstáculos dessa natureza evidenciam que nem mesmo os avanços tra-
zidos por um conjunto de pactuações nacionais e internacionais à equidade de
gênero mostram-se suficientes para legitimar a adoção de medidas voltadas a
garantir os direitos humanos das mulheres. Igualmente, denotam a dificuldade
de afiançar avanços legais sem modificar a cultura que naturaliza a violência
de gênero. Com efeito, apesar da luta histórica das mulheres contra a subor-
dinação, ainda se vivencia, no século XXI, a permanência de padrões e com-
portamentos orientados por valores e práticas discriminatórios. Uma matriz
conivente com atos que não raro se traduzem em danos psicológicos, morais,
patrimoniais, sexuais e físicos para as mulheres.
Qualquer desses atos, segundo Marlise Silva (1992), reflete a consoli-
dação exacerbada de relações de poder assimétricas que se fundamentam na
dominação masculina e sustentam a ideia de posse (inclusive do corpo da mu-
lher). Assimetrias que desvendam desigualdades sociais, econômicas, políticas
e culturais perpetuadas por aparatos sociais e institucionais, reforçados por e
que reforçam ideologias classistas, racistas e sexistas. Afinal, se está lidando
com retóricas que ferem o princípio básico da noção de cidadania, haja vista
sustentarem a posse do poder e não o seu exercício. No questionamento a essa
realidade, estudos e investigações feministas “revelam a existência de uma de-
sigualdade estrutural de poder entre homens e mulheres e grande vulnerabili-
dade social das últimas, muito especialmente na esfera privada de suas vidas”
(PIOVESAN e PIMENTEL, 2007, p. 1).
A partir do exposto evidenciaram-se situações e realidades evidente-
mente paradoxais, consoante ao requerimento de garantir e proteger os direi-
tos humanos das mulheres e impulsionar políticas públicas sustentadas pelo
recorte de gênero. Não obstante, a abordagem desenvolvida até aqui permite
entender os sentidos e os significados de definir protocolos e metodologias
para acompanhar o processo de aplicação e implantação da Lei Maria da Pe-
nha. Dito isso, encaminha-se a reflexão para o último ponto a tratar, qual seja,
o de como monitorar uma política pública de gênero, associando-se a isso a
contribuição da metodologia feminista na construção de indicadores e instru-
mentos de medida para tal fim, com base na experiência do Observatório da
Lei Maria da Penha no Brasil (Observe).

93
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Como monitorar políticas públicas de gênero

O monitoramento de políticas públicas é hoje tendência mundial e se


intensifica nos dois últimos decênios associado à ideia de controle social. O
termo é relacionado ao desenvolvimento de mecanismos e ações permanen-
tes da sociedade civil para acompanhar e avaliar a implantação de agendas
nacionais e internacionais. Em meio aos seus tópicos, o bem-estar social e os
direitos humanos agregam questões de gênero - tendência acentuada a partir
de 1995 e sustentada pela pauta prevista na Plataforma de Ação da Quarta
Conferência Internacional da Mulher de Beijing, realizada no mesmo ano.
O monitoramento de gênero avalia a execução de políticas sobre os direitos
das mulheres, visando identificar boas práticas, lacunas na política e subsidiar
ações governamentais. Tal instrumento busca verificar como a concepção de
gênero é considerada durante a elaboração, implementação e aplicação de leis,
políticas e projetos. Nesse processo, a atenção se volta a áreas como economia,
educação, saúde ou meio ambiente e a questões relativas ao empoderamento
político e à violência contra as mulheres. Nota-se, no entanto, ser pouco co-
mum a análise do impacto de gênero ou a incorporação dessa perspectiva em
políticas públicas, especificamente em sociedades como a brasileira.
A Lei Maria da Penha, além de incorporar a concepção de gênero no seu
conteúdo, abre possibilidade de ter sua implementação e aplicação monitorada
e avaliada. Assim, na redação sobre o desenvolvimento de medidas integradas
para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar, a política pública estabe-
lece, entre suas diretrizes, a promoção de estudos, pesquisas e estatísticas, com
recortes de gênero, raça ou etnia, voltados às causas, consequências e à incidên-
cia do fenômeno “para a sistematização de dados (...) e a avaliação periódica dos
resultados das medidas adotadas” (art.8 - II). Já em suas disposições finais, prevê
a inclusão de estatísitcas sobre violência doméstica e familiar “nas bases de dados
dos órgãos oficiais do Sistema de Justiça e Segurança a fim de subsidiar o sistema
nacional de dados e informações relativos às mulheres” (art. 38).
O conteúdo da nova legislação se coaduna, pois, aos dispositivos de pro-
teção internacional dos direitos humanos e à Constituição Federal do Brasil.
Responde, assim, a metas, ações e compromissos expostos em vários docu-
mentos e encontra ressonância no I Plano Nacional Brasileiro de Políticas para
as Mulheres (2005), que prevê entre seus objetivos “a participação e o controle
social na formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas
públicas” (IPNPM, 2005, p.11).

94
Jussara Reis Prá

A atenção a requerimentos dessa natureza e ao que determina a nova le-


gislação brasileira propiciou a implantação do Observatório de Monitoramen-
to da Lei Maria da Penha (Observe), em 2007. O Observe, formado por um
Consórcio de núcleos de pesquisa acadêmica e organizações não governamen-
tais das cinco regiões do país, é constituído com a incumbência de acompa-
nhar e avaliar o processo de efetivação da Lei 11.340/2006, em especial, junto
às Delegacias da Mulher, ao Judiciário e à Rede de Atendimento à Mulher -
para tanto, com mandato para fazer essa verificação dos recursos e limites para
garantir a efetividade da política pública, a partir do levantamento de dados
primários e secundários, da análise e divulgação de informações.
Contudo, como antes referido, a carência de dados sobre violência de
gênero é dificuldade comum para quem pesquisa na área e se expressa em
dados incompletos, não sistematizados ou dispersos em instituições distintas.
Ademais dados discrepantes ou de coleta irregular não permitem análises lon-
gitudinais e comparativas para mensurar o fenômeno. Também faltam algorit-
mos desagregados por sexo e por raça ou etnia. Em suma, se sabia de antemão
ter pouca informação disponível para executar a tarefa de monitoramento.
Problemas, sem dúvida, presentes entre as feministas que elaboraram a Lei
Maria da Penha (LMP), como evidenciam os artigos da LMP antes destacados.
Ademais, a abrangência da referida brasileira e suas especificidades deman-
davam, além do desenho de uma metodologia específica, a construção de um
sistema de indicadores e variáveis que permitisse contemplar os sete títulos da
Lei e os seus três eixos de ação.
À vista disso procurou-se desenvolver práticas para lidar com a carência
de dados, a amplitude da Lei e maximizar procedimentos, o que gerou distin-
tas atividades: algumas concluídas, outras em curso ou mesmo projetadas. O
ciclo de desenho do projeto de monitoramento demandou construir um arca-
bouço conceitual desde a perspectiva feminista, delimitar objetivos e objeto(s)
de avaliação, fazer a escolha metodológica e definir a abordagem empírica. O
ciclo de execução está na sua segunda fase, direcionando-se à análise, interpre-
tação de dados e elaboração de relatório6.
Sobre o arcabouço aludido, volta-se a enfatizar a importância da pers-
pectiva feminista e de seus movimentos na introdução das questões de gênero
em agendas públicas, o que contribuiu com novas práticas para o exercício do

6 A respeito, ver: Cecília M. B. SARDENBERG, Marcia GOMES e Márcia TAVARES, 2010.

95
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

controle social. Tal postura requer combinar abordagens qualitativas e quanti-


tativas; interpretar os dados visando mudanças na situação das mulheres; prio-
rizar a análise política no exame dos resultados e buscar a incidência.
Concernente aos objetivos de trabalho, foram seguidos aqueles perti-
nentes às atividades de monitoramento e, em especial, os propostos pela LMP.
Resumidamente, buscou-se: elaborar diagnósticos sobre o funcionamento dos
mecanismos de execução da Lei; conhecer as relações entre as redes de aten-
dimento; identificar obstáculos ao funcionamento da política; realizar estu-
dos comparativos; identificar “boas práticas” e fornecer elementos e avaliações
pertinentes à efetividade da política e, por consequência, à defesa dos direitos
humanos das mulheres. Ao lado disso, procurou-se validar a metodologia de
monitoramento, tendo em vista o alcance dos indicadores e dos instrumentos
de pesquisa utilizados.
A definição do objeto de avaliação foi considerada no decorrer do mes-
mo processo de escolha da metodologia pelo Observatório, o que significa
estarem o como e o quê diretamente relacionados. A metodologia proposta
voltou-se à construção de indicadores para sintetizar informações sobre o em-
prego da LMP em todo território nacional. O uso de indicadores foi a maneira
encontrada para acompanhar e comparar o desempenho da Lei (implementa-
ção, aplicação e impactos), no decurso de sua criação e em diferentes espaços
territoriais. As lacunas identificadas nas estatísticas mostraram pertinente a
construção de indicadores para verificar os alcances e limites dos objetivos
propostos. Ademais, entende-se que, a depender de sua formulação, estes po-
dem auxiliar na construção de diagnósticos capazes de ressaltar aspectos prio-
ritários para intervir e/ou a necessidade de redefinir estratégias. A par disso,
indicadores sociais, em particular os sensíveis a gênero, constituem instru-
mentos fundamentais para organizações de mulheres e feministas no controle
social da política pública.
O Consórcio do Observatório da Lei Maria da Penha priorizou, no pri-
meiro ano de atividade (2007), a elaboração da metodologia de monitoramen-
to. Para a fase inicial de trabalho foram selecionados como objetos de análise
as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAM) e os Juizados de
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFs). As primeiras, por
sua tradição enquanto política pública pioneira no atendimento de mulheres
em situação de violência no Brasil. Os segundos, por seu papel estratégico na
resolução da violência doméstica e familiar, de criação demandada pela LMP
e, portanto, recente.

96
Jussara Reis Prá

Definidas as duas instituições, retornou-se à atividade de identificação e


seleção dos indicadores, sempre com base no conteúdo e nos objetivos da Lei.
Tal procedimento gerou dois instrumentos de medida distintos, um deles para
monitorar as Delegacias da Mulher; outro para os Juizados de Violência Domés-
tica e Familiar - ambos elaborados coletivamente, testados e discutidos com re-
presentantes de cada um dos órgãos mencionados. Os dois formulários reúnem
indicadores sobre a dinâmica de funcionamento da instituição, condições físi-
cas, materiais e recursos humanos pelos quais se busca identificar procedimen-
tos adotados e a disponibilidade de atender demandas. Também evocam dados
referentes a ações desenvolvidas, sistemas de registro e sistematização de dados,
articulação com outros serviços da Rede de atendimento à mulher, problemas
enfrentados no cumprimento de atribuições, dentre outros aspectos. A par dis-
so, contemplam questões abertas, visando contextualizar respostas e questões
fechadas, objetivando a sistematização de dados quantitativos7.
A primeira versão dos instrumentos de medida passou por pré-teste e
validação. Os dois formulários foram aplicados inicialmente nas capitais sedes
das cinco coordenações regionais do Observatório: Belém, Salvador, Brasília,
Rio de Janeiro e Porto Alegre entre maio a agosto de 2008. Para além da fina-
lidade de coleta de informações, essa fase teve por objetivo explorar limites e
possibilidades na obtenção de dados quantitativos e qualitativos considerados
estratégicos para o monitoramento da LMP. As informações foram prestadas
por dirigentes das DEAMs; profissionais das equipes técnicas destas institui-
ções; Juízas/es das Varas ou Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher e profissionais da equipe multidisciplinar dos Juizados.
Complementarmente, foram realizados levantamentos estatísticos nas
mesmas instituições, ao que se somaram consultas a sites governamentais, de
universidades, institutos de pesquisas e de organizações não governamentais.
Os dados colhidos geraram cinco relatórios que, a partir de avaliações con-
juntas, permitiram identificar lacunas e planejar estratégias para o próximo
ciclo da pesquisa. Esta etapa fez parte de um processo de capacitação das com-
ponentes do Consórcio e propiciou a construção de conhecimento a respeito do
monitoramento de políticas públicas de combate à violência contra as mulheres
e sobre ações de controle social. Experiências indispensáveis e que foram uti-
lizadas para posterior transferência de tecnologias quando do monitoramento

7 Os formulários utilizados encontram-se disponíveis no site do OBSERVE: www.observe.ufba.br.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

dos mecanismos de atendimento à mulher nos 26 estados da federação e no


Distrito Federal entre dezembro de 2009 e março de 20108.
Nesse sentido foi de fundamental relevância a realização, em março
de 2008, de um Estudo de Caso sobre a implementação e funcionamento dos
Juizados de Violência Doméstica e Familiar e o funcionamento da rede de
atendimento às mulheres em situação de violência na cidade de Cuiabá, Mato
Grosso. O estudo oferece diagnóstico sobre as condições de funcionamento e
a aplicação da Lei Maria da Penha nas Varas Especializadas de Violência Do-
méstica e Familiar de Cuiabá. Além disso, traz informações sobre as relações
da instituição com outros serviços de atendimento à mulher, contribuindo
para identificar obstáculos enfrentados pelas Varas Especializadas, trazendo
as soluções apresentadas pelos operadores do direito e agentes que atuam nos
serviços pesquisados9.
Os dados quantitativos colhidos nas DEAMs e nos Juizados das cinco ca-
pitais, assim como o estudo de caso desenvolvido em Cuiabá, permitiram um
exercício coletivo de reflexão para identificação das “boas práticas” adotadas nos
diferentes estados, assim como de pontos negativos ou ações que precisam ser
revistas, merecendo maior atenção e acompanhamento. Ao mesmo tempo, as
informações obtidas são díspares, mostrando a diversidade regional e, também,
questões/problemas que afetam a quase totalidade das instituições pesquisadas.
Vale evidenciar algumas situações afeitas à maior reflexão, destacando
as dificuldades encontradas para a obtenção de dados quantitativos, dentre as
quais: a) falta de sistematização de dados; b) dados sem uniformização, ou seja,
cada unidade coleta os dados e sistematiza o que considera importante e em in-
tervalo de tempo variável (mensalmente, semestralmente); c) informação reque-
rida inexistente em algumas regiões ou insuficiente; e) ausência da percepção
de profissionais dos serviços contatados do que estabelece a Lei quanto à neces-
sidade de criação e aperfeiçoamento de sistemas de coleta de dados estatísticos
desagregados por sexo, idade, raça e etnia a fim de que se possa melhor avaliar a
situação da violência contra as mulheres no contexto brasileiro.
Em suma, no que confere ao monitoramento da LMP, a proposta do Ob-
servatório da LMP se destaca de outras iniciativas ao propor a construção de
uma metodologia para acompanhar a implantação e aplicação da LMP e que
sirva de referência a iniciativas afins. Nesse sentido, busca-se gerar e divulgar

8 Ver síntese do processo e resultados da pesquisa em SARDENBERG, GOMES e TAVARES, 2010.


9 O estudo de caso mencionado encontra-se na íntegra em PASINATO, 2010.

98
Jussara Reis Prá

conhecimentos a fim de disponibilizar informações que subsidiem políticas pú-


blicas e ações de prevenção e combate à violência contra as mulheres. Entende-
se, portanto, que a produção e sistematização de dados quantitativos e qualitati-
vos são imprescindíveis na avaliação e acompanhamento de políticas públicas.

Considerações finais

As reflexões conclusivas aqui apresentadas são de ordem prática e epis-


temológica. Nesse sentido, é oportuno enfatizar que em processos de moni-
toramento direcionados à questão de gênero, o foco da análise não deve se li-
mitar aos aspectos objetivos de cumprimento do determinado em Lei. Antes,
deve-se atentar para aspectos subjetivos. Justamente por isso, a metodologia
adotada deve considerar fatores de natureza social e individual, valorizando
o papel da cultura no desencadeamento das práticas de violência e naquelas
orientadas ao seu enfrentamento. Dito de outro modo, não se pode negli-
genciar o sistema de valores e crenças que subjazem à violência, os sentidos
e significados atribuídos à ocorrência pelo agressor, o imaginário coletivo
acerca do masculino e do feminino, além de outros significados produzidos
por meio do senso comum e em práticas sociais, institucionais (policiais e
jurídicas), culturais e políticas.
Enquanto a aprovação da Lei Maria da Penha rompe a sequência de
um processo histórico que oculta a violência praticada na esfera doméstica e
familiar, a evidência empírica demonstra “que é muito mais fácil criar e mudar
leis do que alterar práticas institucionais e valores morais com relação à vio-
lência contra as mulheres” (PASINATO, 2010, p.21). Imperativo, então, estar
ciente de que reformas legais desse matiz podem se tornar inoperantes se não
forem envidados esforços para modificar as práticas de quem responde pela
aplicação da lei e pelo atendimento de mulheres em situação de violência. Sem
tal intervenção, a atenção às mulheres que vivenciam a realidade da violência
doméstica/familiar tenderá a permanecer “distante da realidade fática desta
parcela da população, tendo consequências devastadoras para a construção
sólida da cidadania das mulheres na sociedade brasileira e do Estado Demo-
crático de Direito como um todo” (BORGONHONE, 2008, p.127). No mesmo
sentido, considera-se que vieses de igual natureza impedem de cumprir o in-
tento da leitura feminista contida na Lei, cujo pressuposto é coibir e prevenir
a violência contra as mulheres, antes de ter que proteger mulheres em situação
de violência e, no extremo, punir seus agressores.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Dados estatísticos no Brasil ainda são pouco sistematizados e muitas vezes


deficitários. Quando encontrados, estão dispersos e oferecem poucos subsídios
para aprofundar o conhecimento sobre diversos aspectos atinentes à condição
feminina. Lacunas nas fontes de informação sobre tópicos prioritários à análi-
se de gênero dificultam a medição direta de fenômenos específicos. Assinale-se
que, apesar do incremento do interesse acadêmico e político no tema mulher, a
capacidade estatística é insuficiente para gerar informação em áreas chave, entre
elas na concernente à violência de gênero. Nesse sentido, é imperativo outorgar
apoio técnico e capacitar agentes governamentais a fim de fortalecer a aplicação
de programas, projetos e mecanismos orientados à igualdade de gênero.
Afinal, verifica-se que há um longo caminho a percorrer até a efetiva
implementação e aplicação da Lei Maria da Penha. O desconhecimento das
mulheres quanto aos seus direitos e à abrangência da Lei, aliado às práticas e
mentalidades do imaginário social, fragiliza o segmento feminino e representa
mais um fator a dificultar a aplicabilidade desse importante instrumento das
políticas públicas de gênero.

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Jussara Reis Prá

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101
GÊNERO, GERAÇÃO E POLÍTICAS
PÚBLICAS NA PESCA ARTESANAL

Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

O texto está fundamentado na teoria das representações sociais re-


lacionada às categorias gênero, trabalho, juventude e educação na
cadeia produtiva da pesca artesanal em Pernambuco, estado localizado
no nordeste brasileiro. MOSCOVICI (2009, p.46) afirma que todas as
pessoas enxergam o que as convenções, a cultura, a memória social e his-
tórica permite ver, e que não estaremos nunca livres de todos os precon-
ceitos, a representação iguala toda imagem a uma ideia e toda ideia a uma
imagem. Neste contexto, os problemas ambientais, a pesca predatória, o
aumento de pessoas na atividade extrativista e a inexistência de políticas
públicas por mais de uma década contribuíram para o aumento da crise
nesta atividade produtiva.
Assim, semelhantemente ao que ocorre na agricultura familiar, exis-
te certo desinteresse dos/as jovens na continuidade da atividade histori-
camente desenvolvida pela família, migrando para outras atividades con-
sideradas mais promissoras. Vale ressaltar que os programas de educação
destinados às comunidades pesqueiras, por exemplo, o Pescando Letras,
ainda não conseguiu legitimação na maioria dos municípios litorâneos.
Dessa forma, pescar e frequentar a escola são atividades contraditórias,
porque os horários das marés são variáveis e os da escola não, o que au-
menta os índices de evasão escolar e despreparo dos/as jovens no exercício
de outras atividades cujo conhecimento não é repassado de uma geração a
outra, como tem sido a pesca artesanal.

103
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Introdução

O Núcleo de Pesquisa CNPq - Desenvolvimento e Sociedade - e também


o Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local
têm desenvolvido nos últimos sete anos vários estudos focados na problemati-
zação sobre a invisibilidade da mulher no mundo do trabalho, especialmente
no universo da pesca artesanal no Brasil. Desde 2006 a equipe de pesquisado-
ras/es dos projetos Conflito de Gênero no Cotidiano da Comunidade Costeira,
A Ver-o-Mar e Pescando Pescadores: Políticas Públicas e Extensão Pesqueira1
priorizou entre seus objetivos contribuir no debate sobre gênero numa pers-
pectiva da “feminização” da pobreza, especialmente nas relações de trabalho
que envolvem a pesca artesanal no Brasil.
Nestas pesquisas considerou-se a participação legitimada da mulher na
atividade da pesca artesanal, nas questões relacionadas à inclusão/exclusão das
pescadoras no acesso e no exercício dos poderes institucionais relacionados à
atividade pesqueira. Buscou-se observar o impacto das políticas públicas para o
desenvolvimento da pesca artesanal e para as relações sociais de gênero, levan-
do-se em conta: as condições de vida das pescadoras e dos pescadores; o acesso
diferenciado às políticas e o espaço de participação igualitária de mulheres e
homens em todos os níveis dos processos de tomada de decisão no que se refere
à pesca; as relações entre gênero e meio ambiente; gênero e extensão pesqueira.
Nos últimos dois anos de pesquisa - 2008/2010 - o estudo que gerou este
artigo focou as mulheres da colônia Z-10 em Itapissuma - PE2, considerando
que foram as mulheres desta Colônia de Pescadores, apoiadas e incentivadas
pelo Conselho Pastoral dos Pescadores - CPP3, na década de setenta do século
XX, que lutaram e conquistaram o direito ao Registro Geral da Pesca.

1 Projetos elaborados por professoras/es do POSMEX (Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural


e Desenvolvimento Local) em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Uni-
versidade Federal de Pernambuco, contemplados em Editais CNPq. Pesquisas que contribuíram no
fortalecimento do Grupo de Pesquisa - Desenvolvimento e Sociedade.
2 Itapissuma é um município localizado no litoral norte de Pernambuco que apresenta uma história de
luta em favor das conquistas de direitos sociais e ambientais da pesca artesanal no Brasil.
3 A proposta da CPP era sensibilizar e mostrar que os/as pescadores/as tinham inteligência, pois pesca-
vam, teciam as redes, vendiam os peixes, consertavam as baiteiras. Ela afirma que eles/elas, empode-
rados/as de seus direitos e deveres de cidadãos e pescadores - poderiam utilizar sua inteligência para a
formação de uma sociedade mais justa. Os dados sobre a CPP em Itapissuma foram sistematizados a
partir de relatórios cedidos pela religiosa irmã Maria Nilza de Miranda Montenegro, que elaborou um
diário que hoje se constitui num diagnóstico: sócio-econômico, político, cultural, educacional e religio-
so daquela sociedade.

104
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

A oposição entre educação e perspectiva de continuidade da cadeia pro-


dutiva da pesca artesanal em Itapissuma consistiu numa uma temática recor-
rente nas diversas entrevistas que realizamos com as pescadoras e pescadores.
Aqui a imagem do/a profissional pescador/a constrói uma oposição entre estu-
dar e pescar. A imagem se cristaliza, como o afirma Moscovici:

De modo geral, minhas observações provam que dar nome a uma pessoa
ou coisa é precipitá-la (como uma solução química é precipitada) e que as
características daí resultantes são tríplices: a) uma vez nomeada, a pessoa
ou coisa pode ser descrita e adquire certas características, tendências, etc.;
b) a pessoa, ou coisa, torna-se distinta de outras pessoas ou objetos através
dessas características e tendências; c) a pessoa ou coisa torna-se o objeto
de uma convenção entre os que adotam e partilham a mesma convenção
(MOSCOVICI, 2009, p.67).

Assim, a imagem criada historicamente do/a pescador/a influencia nas


decisões dos/as jovens e suas famílias no que se refere à educação, trabalho e
futuro das novas gerações. Aspectos importantes no diagnóstico e relatório
das atividades estão relatados no documento da CPP, elaborado pela religiosa
conhecida por Irmã Nilza nos quase 20 anos de sua atuação neste município. O
documento cedido para consulta retrata a situação de Itapissuma na chegada
das religiosas a esta comunidade pesqueira em 1975.

Caracterização da área em estudo4

O estado de Pernambuco possui um litoral de 187 km de extensão, onde


estão localizados 15 municípios costeiros e 34 comunidades pesqueiras. Itapis-
suma está entre os três primeiros municípios fornecedores de peixes, mariscos
e crustáceos do litoral pernambucano.
O município possui atualmente uma população de 20.116 habitantes, sendo
16.330 habitantes na zona urbana e 3.786 habitantes na zona rural, num território
de 74km. É considerado Patrimônio da Humanidade pela ONU por possuir res-
quícios da Mata Atlântica. O município é conhecido pelo Canal de Santa Cruz e
pela sua culinária especializada em frutos do mar - por exemplo, a caldeirada.

4 Os dados desta caracterização foram cedidos por Gilmar Soares Furtado, que os coletou na elaboração
de sua Dissertação.

105
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Itapissuma é uma das 12 cidades que fazem parte da região metropoli-


tana do Recife (RMR). Sua economia depende expressivamente da pésca ar-
tesanal. O turismo também é uma vertente importante da economia devido
aos rios, mar e manguezais que fazem o município. Dos eventos culturais se
destaca a tradicional Buscada de São Gonçalo do Amarante, que existe desde
o século XIX, onde centenas de embarcações tomam conta do canal de Santa
Cruz para o cortejo religioso. As outras atividades do município são: agricul-
tura, avicultura, pecuária, fábrica Alcoa, Frigorífico Malta, Frigorífico Netuno,
Estaleiro Nave Sul, comércio e prestação de serviços.
É no Canal de Santa Cruz que a maioria da população de Itapissuma,
formada por pescadores artesanais, retira seus sustentos na coleta de mariscos
(ostras, unha de velho, sururu) e da pesca de siri e de várias espécies de peixes.
As autoridades locais afirmam que aproximadamente 70% da população de-
senvolvem a pesca artesanal, o que resulta na grande oferta de frutos do mar.
É nessa localidade que está situada a colônia de pescadores São Pedro,
fundada em 10 de novembro de 1927 e reestruturada em 02/09/1984. É uma
entidade de classe, sem fins lucrativos, situada na Rua Dr, José Gonçalves, nº.
87, Centro, Itapissuma - PE, com 2000 sócios cadastrados, tendo na presidên-
cia atual a pescadora Joana Mousinho.

Pesca e educação

Contextualizando a partir dos anos cinquenta do século XX, quando


o interesse pela educação das camadas populares se expande principalmente
com os pressupostos teóricos desenvolvidos por Paulo Freire, entre os anos de
1959 até 1964, eclodem no Brasil campanhas e programas no campo da educa-
ção de adultos, entre eles: o Movimento de Educação de Base, da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil, estabelecido em 1961 com o patrocínio do Go-
verno Federal; o Movimento de Cultura Popular do Recife, a partir de 1961;
os Centros Populares de Cultura, órgãos culturais da UNE; a Campanha De
Pé no Chão também se Aprende a Ler, da Secretaria Municipal de Educação
de Natal; o Movimento de Cultura Popular do Recife; e, finalmente, em 1964,
o Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura,
que contou com a presença do professor Paulo Freire. Grande parte desses
programas estava funcionando no âmbito do Estado ou sob seu patrocínio.
O golpe militar de 1964 modificou este debate e suas ações afirmativas. O
Programa Nacional de Alfabetização foi interrompido, os materiais apreendidos

106
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

e seus dirigentes afastados das atividades. É nesse panorama político do Estado


militar que é criada a Comissão Pastoral dos Pescadores - posteriormente deno-
minada Conselho Pastoral dos Pescadores - no ano de 1968, que influenciou a
história das lutas e das conquistas dos pescadores no Brasil. A contribuição da
CPP no município de Itapissuma está relacionada ao trabalho do Frei Francis-
cano Alfredo Schnuettgen, de origem alemã, que já havia realizado atividades
semelhantes nas comunidades de Pitimbu e Acaú, ambas no estado vizinho da
Paraíba. Segundo a religiosa Irmã Nilza Montenegro foi elaborado um relatório
SEDOC, em setembro 1974, sobre esse período da Pastoral dos Pescadores.
Na história da CPP na Colônia Z-10 uma das conquistas das mulheres
foi a indicação, na eleição de 1989, de uma chapa para presidente da Colonia
Z-10, em cuja presidência estava a pescadora Joana Rodrigues Mousinho. Ela
saiu vitoriosa e pela primeira vez uma mulher tornou-se presidente de uma
colônia de pescadores no Brasil. Joana foi reeleita até o ano de 2005, ano em
que foi substituída de forma eletiva pela pescadora Mirian Mousinho da Paz,
e mais recentemente, em dezembro de 2009, foi eleita mais uma vez e ocupa
atualmente a posição de presidente da Colônia de Pescadores de Itapissuma.
A situação do município no início dos trabalhos da Comissão Pasto-
ral dos Pescadores em Itapissuma, quando irmã Nilza Montenegro chegou a
Itapissuma, é retratada num diário que hoje se constitui num diagnóstico5.
Documento que na concepção de Frei Alfredo e da irmã Nilza envolve suas
impressões sobre os aspectos socioeconômico, sociopolítico, sociocultural,
educacional e religioso daquela sociedade. Eles iniciam caracterizando o mu-
nicípio e sua população de pescadores e pescadoras: Itapissuma, distrito de
Igarassú - PE, na época com 10.000 habitantes, dos quais aproximadamente
2.500 a 3.000 (homens, mulheres) viviam direta ou indiretamente da pesca.
Frei Alfredo Schnettgen escreveu de forma sucinta um relatório sobre a vida e
as atividades dos pescadores de Itapissuma. Segundo ele:

Os homens em canoas muito primitivas pescam peixe no canal de Santa


Cruz que separa o continente da ilha de Itamaracá. Suas mulheres, filhas e
irmãs passam os dias ‘atoladas’ no mangue, picadas por mosquitos, tirando
da lama pegajosa: sururus, ostras, mariscos, unha de velho, aratus, caran-
guejos e siris que são vendidos pelo preço estipulado pelos atravessadores.

5 Vale ressaltar a observação que os autores destacam no documento: ”Em virtude da escassez de dados
pesquisados e não encontrados nas fontes oficiais, só podemos apresentar o que colhemos de nossa
convivência com o povo”.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

O transporte para o local de trabalho é feito em canoas ou a pé através da


ponte que liga o continente à ilha de Itamaracá. Eu diria que, paralela à
sociedade terrestre, essas mulheres, moças e até crianças formam uma so-
ciedade ‘sui generis’, a “Sociedade dos mangues”, com sua vida própria de
trabalho, de lutas, de esperanças, de louvor a Deus e até de piadas! É uma
sociedade imprensada, estrangulada entre as terras do continente e as águas
abissais do oceano!

Esta narrativa destaca a legitimidade do aporte teórico sobre Represen-


tações Sociais ao tratar as imagens que construímos cotidianamente, como
elas são geradas e reproduzidas historicamente na sociedade. Um exemplo é a
letra da música Suíte de Pescador (Dorival Caymmi)8, na qual se destacam os
riscos e as incertezas da atividade.

Minha jangada vai sair pro mar


Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer
Adeus, adeus
Pescador não se esqueça de mim
Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem
Pra não ter tempo ruim
Vou fazer sua caminha macia
Perfumada com alecrim

Apesar da descrição sobre o pescador e sua comunidade narrada pelo


Frei Alfredo, é relevante a percepção dos aspectos educacionais do município.
Ele afirma que a vila possuía 03 grupos escolares, um municipal e dois esta-
duais, sendo dois no centro e um na periferia. Todos em péssimas condições
de instalações e uma equipe de professoras despreparadas e mal remunera-
da. Continua seu relato explicando que algumas pessoas, com o ensino básico
incompleto, dão aulas particulares a pedido das mães. No entanto, informa
que em geral os filhos dos pescadores e pescadoras são analfabetos porque
‘não têm tempo para estudar’, uma vez que devem pescar para ajudar em casa.

6 http://letras.terra.com.br/dorival-caymmi.

108
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

Sua narrativa continua explicitando que em 1979 havia conseguido que várias
crianças se matriculassem nas escolas públicas, no entanto, destaca o nível de
aprendizagem dessas crianças como quase nulo.

Condições de trabalho

Na opinião da Irmã Nilza as mulheres viviam cansadas do trabalho ár-


duo nas canoas, de carregar os balaios cheios de sururus e ostras e do benefi-
ciamento que envolve as atividades de ferver e descascar para, posteriormente,
serem vendidos pelo preço estipulado pelos atravessadores. Apesar deste qua-
dro desolador, ela afirma de forma otimista que o trabalho iniciado em 1979,
após cinco anos de luta, assumiu proporções jamais previstas.
Outro aspecto importante é a situação do/a pescador/a artesanal na-
quele período próximo á década de 1980. O Frei Alfredo afirma que poucos
são possuidores de embarcações e instrumentos de pesca. A maioria dos bar-
cos não é motorizada, as embarcações predominantes são a velas e remo. Ele
calculava que havia aproximadamente 800 canoas. Quase todos trabalhavam
com a ajuda da família na pesca artesanal, a qual predomina até hoje. Naquela
época, em que a idade média dos pescadores era de mais de 40 anos, muitos
jovens se dedicavam à pesca, inclusive garotos de 10, 11 anos. Alguns jovens
pescavam e estudavam, porém o número de estudantes era mínimo.

Ensino Noturno para pescadores e pescadoras em Itapissuma

Em sua narrativa os religiosos informam que no início da década de


1980 foi instalada uma sala de aula no período noturno, nas dependências da
Colônia de pescadores Z-10, que foi fundada em 1922 e em 1981 possuía 680
associados, sendo 439 pescadores e 241 pescadoras. A realização das ativida-
des contou com a ajuda da prefeitura municipal e de algumas marisqueiras
que possuíam o curso pedagógico e se prontificaram a ensinar seus colegas de
profissão. Essa experiência durou aproximadamente seis meses, pois segundo
sugestão das próprias pescadoras:

Irmã, deixe a gente como está. A gente não aprende mais nada. O cansaço é
tão grande depois de passar um dia todo atolada na lama, mordida de mos-
quitos, no sol quente e... com fome, que a cabeça não dá. Pra gente, o lápis
pesa mais do que o remo, pois desde que a gente nasceu que a nossa escola é
o mangue e o lápis é o espeto de tirar sururu (DOCUMENTOS CPP, p.37).

109
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Naquele período, na informação oral e escrita dos documentos, tam-


bém se constata a dicotomia entre estudar e trabalhar, conforme citação da
religiosa atuante em Itapissuma.

A leitura que mãe me ensinou era ir à maré todo o dia. Ou ia pro mato pra
tirar a fibra da macaibeira, que dá um fio pra fazer rede de pescar. A gente
vendia. A educação era pra não pegar no que era alheio. Entrar na casa de
uma pessoa, mesmo que visse ouro em pó, não bulir (Pescadora Maria José
In: DOCUMENTOS CPP, p.56) [sic].

Nas duas narrativas são evidenciadas a oposição entre estudar e trabalhar


na vida das pessoas que exercem a pesca artesanal. Sobre o tema das representa-
ções que corporifica a contradição entre estudar e pescar, Moscovici destaca que:

...essas representações adquirem uma autoridade ainda maior na medida em


que recebemos mais e mais material através de sua mediação - analogias, des-
crições implícitas e explicações dos fenômenos, personalidades, economia, etc.,
juntamente com as categorias necessárias para compreender o comportamento
de uma criança, por exemplo, ou de um amigo (MOSCOVICI, 2009, p. 95).

O contexto social que define o/a pescador/a excluída do modelo educa-


cional não impede que algumas ações sejam realizadas na direção de alfabeti-
zação deste grupo social. Assim, em 1983, a comunidade de pescadores arte-
sanais de Itapissuma conseguiu, juntamente com a prefeitura, uma professora
para alfabetização dos pescadores e pescadoras e de seus filhos que tivessem
mais de 15 anos, cujas aulas foram ministradas, mais uma vez, na sede da Co-
lônia, com a frequência de 35 alunos, o que aconteceu durante um ano, quando
a atividade foi transferida para o salão de um grupo escolar cuja localização
era mais próxima às residências dos pescadores.
O trabalho da CPP continuou até 1995, sem grandes avanços na área
educacional. A atuação da CPP, na localidade de Itapissuma, perdeu força
quando a irmã Nilza foi transferida para João Pessoa, onde assumiu a direção
de umas das escolas da Congregação.

Juventudes, trabalho da pesca e educação em Itapissuma

Dados obtidos em entrevistas com homens e mulheres de Itapissuma ca-


racterizam alguns aspectos naturalizados nas relações de gênero na atividade

110
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

produtiva da pesca, obtidos em oficinas de diagnóstico participativo em ações


do projeto “Ações para Consolidar a Transversalidade de Gênero nas Políticas
Públicas para a Pesca e Aquicultura do MPA”7.
As mulheres pescadoras relataram como é sua rotina diária e afirmaram
que levantam bem cedo, em média das 3h da madrugada às 6h da manhã.
Nas suas narrativas se destacam as seguintes atividades: despertar e agradecer
a Deus; acordar as crianças; fazer o café; caminhar; cuidar da sogra; levar as
crianças para a escola/creche; fazer o almoço ou comer na casa da mãe; descas-
car e vender mariscos; lavar roupa; limpar a casa e buscar as crianças na escola;
lavar louças; ensinar tarefas aos/às filhos/as; preparar jantar; assistir a novelas
e frequentar algum curso à noite quando possível8. Além das atividades rela-
cionadas à pesca e as atividades domésticas, elas relataram que comercializam
diferentes produtos. Uma rotina de trabalho estafante e com um dado diferen-
ciador em relação a outras atividades produtivas é que todas as atividades por
elas desenvolvidas estão em consonância com o horário da maré; todas afirma-
ram que, apesar de despertar tão cedo, não descansam durante a tarde.

Diagnóstico da pesca

As questões levantadas foram: o nome da pescadora, se pratica pesca


ou coleta, espécies de mariscos, espécies de peixes, a quem vende ou troca,
quem controla o dinheiro da comercialização do resultado da pesca, em que
essa renda é aplicada, como é o acesso à área de pesca/coleta e as dificuldades
que enfrentam para a prática diária da atividade pesqueira. As pescadoras da
Colônia Z-10 em Itapissuma pescam e coletam. Espécies de peixes: manjuba,
saúna, tainha, camarão, sardinha, carapicu, carapeba, raia, bangre, camurim,
mororó, sôia, moreia, aniquim. Espécies de Mariscos: sururu, ostra, marisco
pedra, taioba, unha de veio, siri duro e mole, redondo.
Quem vende ou troca: direto ao consumidor, ao atravessador, troca por
lenha, por bolo. Consumo: dependendo da quantidade, divide com as crianças
que as ajudam na pesca. A renda semanal é de 40 a 150 reais. No entanto, existe
uma grande diferença no inverno e no verão, por exemplo. Laudeni afirmou
que sua renda da pesca no verão chega a ser quatro vezes maior que a do inver-
no. Elas afirmaram que controlam seus próprios recursos econômicos. Além

7 FADURPE - Convênio MPA/078/2009.


8 Também foi relatada dificuldade em estudar porque não tem com quem deixar os/as filhos/as.

111
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

da renda advinda da pesca e de outras atividades, algumas remunerações que


estão relacionadas a programas assistencialistas são: bolsa família 68,00; 80,00;
96,00; 112,00; 127,00 na frente de serviço durante 2 meses.
O acesso à área da pesca em Itapissuma é fácil, mas é perigoso. Dentre as
dificuldades elencadas estão: a falta de recursos para a manutenção das redes,
embarcações e barcos, algumas não possuem canoa e pesca todo o tempo dentro
d’água em contato com água viva, bactérias, sujeição a furadas de peixes como,
por exemplo, aniquim, falta de isca para pescar, necessidade de dividir espaço de
trabalho com usuários de droga - existe a presença de dependentes químicos -, a
diminuição da renda por causa da escassez do produto no inverno e também dos
consumidores e, por fim, a violência em seus diversos aspectos.
A comercialização do produto da pesca é realizada de forma diversifi-
cada (diretamente ao consumidor final, ao atravessador e beneficiado (cozi-
do, temperado) nas praias nos finais de semana aos banhistas). Apresentaram
grande dificuldade em mensurar o valor do produto pesqueiro, mas mostra-
ram-se conscientes de que vendem por preço inferior ao valor justo, porém
não conseguem perceber o quanto.
Sobre a temática relacionada à saúde ocupacional tem-se os seguintes
dados: sempre que vão ao INSS lhes é negado o pedido de aposentadoria ou até
mesmo auxílio-maternidade. Muitas já sofreram acidentes de trabalho como
cortes por ostras, por vidros e tantos outros dejetos encontrados dentro do
mangue, sendo que as mulheres não possuem equipamentos de proteção. Ou-
tro relato de acidente de trabalho que nos chamou a atenção foi um caso em
que uma das pescadoras da Colônia Z-10 (Itapissuma) perdeu aos 14 anos de
idade a visão de um dos olhos em decorrência de um galho do manguezal.
Outro caso foi citado por uma delas, o da ocorrência de uma morte de um
pescador que não sabia nadar e no momento da pesca, em seu barco, foi ar-
remessado ao mar pelo vento forte. Seu corpo só foi encontrado 3 (três) dia
depois. Tal pescador não tinha registro na Colônia, dificultando os trâmites
burocráticos ao pedido de benefícios junto aos órgãos competentes.
Neste sentido a narrativa que se destaca é a da presidente da Colônia Z-10,
quando levantou uma questão, do ponto de vista dos direitos trabalhistas, rela-
tando que, até então, não havia registro de acidente de trabalho, só ocorrência de
solicitação de “auxílio doença”. A pescadora acrescentou ainda uma informação
importante referente ao direito trabalhista nessas 2 (duas) modalidades de bene-
fícios acima mencionadas: a) no caso de acidente de trabalho o(a) profissional
não depende de “carência” para obter esse direito; b) já na solicitação do pedido

112
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

“auxílio doença” junto ao Setor da Previdência Social, Comunicação de Acidente


de Trabalho - CAT9, deverá depender de “carência”.
A Divisão Sexual do Trabalho que prioriza no imaginário social como
sendo a pesca uma atividade masculina torna necessário ouvir o que os ho-
mens falam sobre a cadeia produtiva da pesca e relação dela com as relações
de gênero.

A voz dos homens sobre as mulheres na pesca

Através da comunicação as pessoas e os grupos concedem uma reali-


dade física a ideias e imagens, a sistemas de classificação e fornecimento de
nomes. (...) Toda realidade é a realidade de alguém ou é uma realidade para
algo, mesmo que seja a de laboratórios onde nós fazemos nossos experimentos
(MOSCOVICI, 2009, p. 90).
1 - Manuel Francisco de Arruda (73 anos) - Natural do estado da Paraíba,
onde aos treze anos de idade começou a atividade da pesca como meio de sobre-
vivência para ajudar no sustento da família, também passou alguns anos pescan-
do em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Quando em visita a Itapissuma,
em 1986, percebeu uma maior quantidade e variedade do pescado e decidiu ficar
por lá trazendo esposa, filhos e outros seis pescadores para formar um grupo
de pesca: “aqui tinha tanto peixe – como tainha, carapeba, canhim, caranha e
outros - que coloquei pontos de vendas em vários lugares” [sic].
O pescador acrescenta:

Hoje o que eu e minha família vende é tudo comprado, congelado em fri-


goríficos no Recife. O peixe fresco que compro é em Olinda e camarão de
viveiro do Chié em Itamaracá. Tenho um filho de 47 anos que foi pescador
desde os 15 anos e hoje também só vende congelado. Não vale a pena entrar
no mar para pescar. É melhor comprar.

Manuel tem uma filha de 28 anos que estava presente no momento da


entrevista e afirmou “nunca pesquei, sempre vivi da venda do pescado e cuidar

9 O CAT foi previsto inicialmente na Lei nº. 5.316/67, com todas as alterações ocorridas posteriormente
até a Lei nº. 9.032/95, regulamentada pelo Decreto nº. 2.172/97. A Lei nº. 8.213/91 determina no seu
artigo 22 que todo acidente do trabalho ou doença profissional deverá ser comunicado pela empresa ao
INSS, sob pena de multa em caso de omissão.
(Disponível em: http://www.previdenciasocial.gov.br/conteudoDinamico.php?id=297). Acesso em: 18 ago.10.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

da casa. Não sei nadar, sempre tive medo do mar” [sic]. Ela relatou também
que não executa outra atividade econômica para complemento de renda.
Para o Sr. Manuel, desde a época de seu pai que “a pescaria é grande so-
frimento” [sic]. Ele é analfabeto, criou a família com a pesca e não deseja isso
para ninguém e nem para seus netos,sendo que destaca que “eles precisam es-
tudar”. Informou ainda que “além do pouco peixe no mar estou doente da co-
luna, pela idade não posso me deslocar e não posso mais pescar”. Seu Manuel
disse ainda que teve seis filhos homens e três mulheres; hoje só o que mora na
Paraíba ainda pesca, todos os outros sobrevivem apenas da comercialização do
pescado em Itapissuma, Itamaracá, Paulista e Olinda.
2 - Edvaldo de Cesário Ferreira (67 anos) - Iniciou na pesca aos 12 anos.
Seu pai não pescava, só a mãe, que sempre foi pescadora (marisqueira): “Ela
pescou até os 60 anos, hoje é aposentada por deficiência e não tinha o RGP. Eu
não pago a Colônia por falta de dinheiro. Vivo doente”. Ele nasceu em Igarassu
e há 22 anos foi para Itapissuma que, segundo ele, é um ambiente melhor.
O senhor Edvaldo só comercializa peixes e justificou que sofre da colu-
na, precisando fazer uma cirurgia da próstata e não consegue, sofre da visão
e não está usando óculos porque este quebrou. Informou que não pesca por
falta de saúde, que hoje compra para revender - compra fiado, depois paga e
fica com o lucro. Afirma que as quatro filhas nunca se interessaram pela pesca
e conclui afirmando que a pesca só traz doença.
3 - Abiezer da Silva Xavier (48 anos) - Ele inicia sua narrativa afirmando
que pesca desde os oito anos - os pais eram pescadores. O pai pescava e sua
mãe tratava, salgava e vendia: “minha mãe hoje está com oitenta anos”. Passou
quatro anos como operário em uma indústria, não se adaptou e voltou para a
pesca há vinte e um anos. Tem duas filhas: uma de vinte e seis (26) anos e outra
de vinte e quatro (24). Nunca pescaram e não sabem nadar. Já tem uma neta
de sete (7) anos.
Não pretende ensinar a profissão à neta. “Além de ser criança, é meni-
na, não tem condição. Pra ir pescar, precisa de seis a sete homens, e misturar
com mulher, dá problemas” [sic]. Sustenta a família com a atividade da pesca
e auxílio da esposa que trabalha como costureira em uma confecção. Abiezer
acrescenta:

Se tivesse filho ou neto, por minha vontade não seria pescador. Queria que
estudasse e se formasse. Os pais querem o melhor para os filhos. Pescar é
para homem mesmo, é pra quem tem disposição, se acordar de madrugada.

114
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

Quem é que quer isso pro seu filho, por opção? Se fosse fácil de todo dia
chegar e trazer uma boa pescaria, não seria assim não. Já teria uma grande
indústria, já teria patrão aqui. Aqui é incerto, não tem garantia de trazer
peixe. Antigamente, havia fartura, hoje não, a população cresceu e tem pou-
co tipo de peixe. Hoje tem muitos pescadores, pelo motivo de não ter outro
meio de vida, não tem emprego. Aqui tem muito jovem pescando, eles pes-
cam por necessidade e falta de emprego. Só tenho escolaridade de Ensino
Fundamental. Desde que voltei da indústria não parei mais de pescar, gosto
da atividade, tenho liberdade, tenho responsabilidade, mas não tenho obri-
gação. Sei pescar, sei a hora de pescar, sei das minhas responsabilidade , por
mais difícil que seja. (...) Aqui a poluição é pouca.

4 - José Inácio de Souza (57anos) - Inicia sua narrativa de forma muito


expressiva: “Nasci os dentes pescando. Sou analfabeto. Meus pais foram pes-
cadores, minha mãe ficou viúva com cinco filhos e sustentou com o marisco e
todos são pescadores. Tenho uma filha de 14 anos e a esposa estar grávida de
um menino” [sic].
Afirmou que a filha não sabe nadar e não se interessa pela pesca e ele
também não deseja que ela seja que ela seja pescadora:

Não quero que ela seja pescadora, porque com essa idade ainda não te-
nho nada. A riqueza que tenho é a vida. Tenho uns trinta sobrinhos e
nenhum pescador. Alguns ajudam a tratar e a entregar. Não tenho o ma-
terial para a pesca, pesco em grupo com quem tem material e dividimos o
dinheiro da venda.

Relatou que no dia anterior à entrevista saiu para pescar às três da tarde
e “voltamos depois de horas vendemos e só conseguimos oito reais para cada”
- grupo de 4 homens. Continua expressando sua visão da atividade ao afirmar
que “perdi minha mocidade aqui dentro, aqui não tem mais jeito. Isso não é
profissão pra ninguém” [sic].
5 - Anderson dos Santos Damascena (23 anos) - Começou a pescar aos
sete anos em companhia do avô. Os pais não são pescadores. Seu grau de ins-
trução é o Ensino Médio completo. Pesca três vezes por semana acompanhan-
do o avô. Trabalha como ajudante de marceneiro na área da construção civil.
Tem um filho de três anos que já está na escola: “Não quero ensinar ele a pes-
car, porque não é bom não”. Sintetiza que a pesca ocorre só por divertimento,
necessidade não; em suas palavras, “é muito esforço. Quero outra profissão. Já

115
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

fiz o curso de marketing, informática, garçom e hotelaria no SENAI de Paulis-


ta. Quando surgir oportunidade, abandono a pesca. Tenho quatro irmãos, dois
homens e duas mulheres, só eu pesco, os outros, por preguiça, não pescam”.
6 - Jerônimo Belmiro da Silva (52 anos) - Informa que em toda vida foi
pescador. Os pais e avós foram pescadores. Segundo ele, “o pescador morre
inchado de barriga grande (cirrose) e de pé inchado”, e justifica a bebida ao
afirmar que “bebemos muito pra esquenta o frio. Quando estamos no mar
assamos o peixe e para ele descer a gente usa a cachaça” [sic].
Sobre o futuro para as pessoas que vivem da pesca sua opinião é som-
bria: “tenho uma filha de vinte e dois anos e não pesca, é doméstica”. Considera
que a melhor coisa que ela fez foi “nunca ter se interessado em pescar”. Informa
que “tem uma sobrinha de vinte e um anos que pesca” e conclui afirmando
que “se tivesse um filho, não gostaria que fosse pescador. Podia fazer qualquer
outra coisa, menos roubar”.
Também lamenta as condições climáticas no inverno e a carência de
equipamentos para o trabalho quando relata que “o mês do vento fica difícil,
ficamos pescando só no canal pra lá e pra cá, não temos embarcação pra en-
frentar o vento” [sic].
7 - Amarildes Pessoa do Amorim (54 anos) - Pesca, mas também con-
fecciona ‘redes’, ‘velas de canoa’ e comercializa pescado de terceiros: “trabalho
na atividade desde os 13 anos, ou seja, pesco há 41 anos. Os filhos e filhas estão
com idade de 28 anos - uma filha; 33 anos - um filho; e outro filho faleceu aos 19
anos”. Atualmente os(a) filhos(a) trabalham em emprego formal, mencionado
pelo entrevistado como “trabalho em terra”, mas quando estão desempregados
pescam para a sobrevivência, no entanto, não gostam dessa atividade.
Seus pais eram pescadores, o pai era pescador desde cedo, sendo sua
primeira atividade herdada dos seus pais, e sua mãe desenvolvia a atividade
na agricultura, vivia num sítio. Passou para a atividade da pesca após casar-se,
aos 13 anos.
8 - Flávio dos Santos Jerônimo (23 anos) - Pescador desde os 13 anos, ou
seja, há 10 anos “vive da pesca”, como ele próprio afirmou. Tem uma filha com
idade de 3 anos e não quer que ela siga a atividade da pesca. Seu pai é pescador,
começou nessa atividade aos 15 anos, atualmente tem idade de 56 anos e há 5
anos encontra-se afastado por motivo de saúde (problemas na visão). Atual-
mente é vendedor de peixes. Seus avós eram pescadores(as). Sua mãe era pes-
cadora, atualmente exerce a função de cozinheira na Prefeitura de Itapissuma.
Ele pesca com os instrumentos de terceiros, das pessoas as quais ele
chama de “empreseiro”, ou seja, o proprietário das baiteras e das “armadilhas”

116
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

(redes). Após voltar da pesca o “empreseiro” paga ao pescador pelo quilo do


peixe: “tainha a R$ 5,00 o kg e acarapeba por R$ 6,00 o kg”. O pescador afirma
que “tem o direito de ir para a maré com tais instrumentos e na volta vende o
pescado para o empreseiro”.
Flávio mencionou o desejo de trabalhar num emprego formal, visando,
no futuro, “quando desligasse desse possível emprego”, comprar um barco para
poder pescar sem que precisasse usar os instrumentos de terceiros.
9 - José Geraldo da Silva (50 anos) - Pescador10 há mais de 20 anos, tem
duas filhas: uma com idade de 38 anos (casada com pescador, mas nunca pes-
cou) e a outra com idade de 22 anos (estuda e seu marido trabalha na atividade
de “serviços gerais”. Tem 3 (três) filhos homens: o mais velho, com 28 anos, já
pescou 4 anos com o sogro; o de 27 anos trabalha na atividade de serviços ge-
rais; e o de 25 anos é vigilante. Concluiu a sua narrativa afirmando não gostar
de forma alguma que seus(as) filhos(as) desenvolvessem a atividade de pesca.
Seus pais não desenvolviam atividade pesqueira.
O tema da incerteza na pescaria está sempre presente em suas falas.
Neste caso ele espontaneamente comentou que “quando a maré tá ‘vasando’
(secando) é o momento que se pesca mais!; pescador não tem salário, tem
dia que consegue R$ 30,00, R$20,00 e às vezes R$ 6,00 ou nada. Quando isso
acontece nós falamos que levou uma ‘faia’, não conseguiu o pescado. Pescaria
é um jogo de acertar! Deus traça seu destino”. Sua esposa é pescadora, paga a
Colônia, mas atualmente não pesca, está apenas desenvolvendo as atividades
domésticas. Sua sogra aposentou-se como pescadora.
10 - Severino Ramos Marques (61 anos) - Pescador desde os 15 anos
de idade, tem 1 (uma) filha com idade de 40 anos que pescou dos 20 aos 25
anos. Atualmente é proprietária de um bar. Tem 3 (três) filhos: o mais velho,
com 30 anos de idade, começou a pescar com 15 anos, parou aos 25 anos para
trabalhar em “terra”. Atualmente, encontra-se desempregado; o de 28 anos não
pesca, mas negocia com camarão de cativeiro para revenda nas praias de Boa
Viagem, Pina; e o outro, de 27 anos, já pescou.
Os seus comentários sobre o futuro dos filhos na profissão se destacam:
“não gostaria que meus filhos continuassem na pesca (...) já foi bom, hoje, não é
mais. Antes havia muito comprador de peixe, hoje, não tem mais comprador”.
Comentou que atualmente os compradores vêm do município de Carpi-
na, Limoeiro e quando aparecem são poucos, em média de 3 a 4 num veículo

10 Sem que eu lhe perguntasse mencionou que pescava, mas não pagava a Colônia.

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menor, como ‘kombi’, por exemplo. Antes o transporte era de caminhão em


razão da quantidade maior do pedido dos peixes. O pescador ainda acrescenta
que “40 anos atrás era bom para se negociar. No momento atual, o melhor pes-
cado pra se vender é o camarão”. Seu pai (filho de pescador/a) trabalhou todo
tempo na pesca. Sua mãe é filha de pescador/a.
11 - José Albertino Rodrigues (48 anos) - Desde os 30 anos é gari, mas
trabalhou na pesca na idade dos 10 aos 30 anos. Por não poder dar sustento
melhor à sua família com a renda da pesca, procurou desenvolver outra ativi-
dade que considerou mais rentável. Tem 3 (três) filhas: uma de 25 anos; outra
de 22 anos e outra de 18 anos. As três são casadas e duas delas com pescador.
Algumas vezes elas vão pescar siri, sururu, marisco para o próprio consumo e
não para vender. Um filho morreu aos 15 anos. Seu pai pescava, sua mãe tra-
balha nas atividades domésticas.

A voz dos jovens sobre educação, trabalho e pesca

Nas ruas, bares, escritórios, hospitais, laboratórios, etc. as pessoas analisam, co-
mentam, formulam “filosofias” espontâneas, não oficiais, que têm um impacto
decisivo em suas relações sociais, em suas escolhas, na maneira como eles edu-
cam seus filhos, como planejam seu futuro etc. (MOSCOVICI, 2009, p.45).

Na primeira entrevista sobre a idade das pessoas que ingressam oficial-


mente na atividade de pesca artesanal realizada na Colônia Z-10, nos foi infor-
mado que a maioria dos/as pescadores/as cadastrados com o Registro Geral da
Pesca está numa faixa etária acima de 30 anos; a explicação é que a maioria dos/
as pescadores/as ainda pensa que não vai necessitar da Previdência Social.
Na ocasião entrevistamos 2 (dois) rapazes com 16 anos que pescam
como a avó e a tia - Cleivson e Edvelton. Cleivson gosta de pescar, mas não
quer ser pescador. Segundo ele pode até ser engenheiro de pesca ou músico.
Sua explicação para a rejeição de um projeto de vida de pescado está funda-
mentada nos seguintes argumentos: relata que a atividade de pescador é boa
como diversão, explica como se sente bem flutuando sobre a água e a sensação
de liberdade neste contato com a natureza. No entanto diz que é uma atividade
de ganhos incertos, a pescaria pode ser boa e pode ser ruim: “até o momento
trabalho no Censo Pesqueiro durante 3 meses” e me mostrou um celular11 que

11 Se orgulha de poder fotografar as garças com este celular.

118
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

comprou com a renda da pescaria. Também falou que vai pescar com a tia e
que divide com ela os gastos que envolvem sal e carvão para o beneficiamento
do marisco. Falou que não gosta de descascar o siri porque é um trabalho que
exige muita paciência. Ele valoriza a atividade, mas comenta que a sociedade
não e isso influencia a imagem negativa que os pescadores têm de si mesmos.
Cleivson ó pode ir pescar quando a maré baixa acontece bem cedo para
não afetar no horário de aula. Cursa o 3º ano do Ensino Médio no horário da
manhã; no horário da tarde estuda inglês e ainda tem planos de estudar violão
no Conservatório de Olinda. Sua irmã de 13 anos foi contemplada com uma
vaga para estudar flauta transversa no conservatório de Recife. Ela não pesca.
O adolescente faz aos sábados Curso Técnico de Manutenção de Computado-
res e Noções de Administração de Empresas. Comenta que os seus colegas de
turma não querem seguir a profissão e falam em tom de zombaria que alguém
vai ser pescador porque não é bom estudante, não tem futuro na vida. Colabo-
ra numa ONG ambientalista com a intenção de conscientizar os/as pescado-
res/as a cuidar do meio ambiente.
A dualidade entre estudar e pescar para os/as jovens de Itapissuma se insere
no debate realizado por Abramovay (1998), que contribui com esse tema ao tratar
sobre juventude e agricultura familiar - desafios dos novos padrões sucessórios,
em que dialoga sobre o importante papel dos jovens rurais12 no seu ambiente.
No contexto das dificuldades vivenciada na cadeia produtiva da pesca,
Cleivson informa que os/as pescadores/as não sabem nadar; os ostreiros não
têm embarcações; falta o produto; os compradores só querem tirar vantagem,
alguns só querem comprar no verão; considera um preço justo R$ 18,00 de-
zoito o quilo do siri, mas dependendo da época do ano é vendido até por R$
12,00 - dois terços do preço considerado justo para ele.
Edvelton, 16 anos, gosta de pescar e acompanha a avó desde criança na re-
alização da atividade. Gosta de pescar, mas não quer esta profissão para ele, pois
a serralharia rende melhor financeiramente. Trabalha eventualmente com o tio
como serralheiro e colaborou no Censo Pesqueiro durante 3 meses. Considera
importante estudar porque ajuda nas atividades de trabalho que realiza. Infor-
mou que alguns colegas querem ser pescador e que estes não vão à escola.
Todos, ao serem indagados sobre a presença das adolescentes mulheres
na pesca, falaram que é mais raro; elas colaboram quando inseridas na ativida-
de no beneficiamento do pescado.

12 A pesca artesanal está definida na PNATER - Política Nacional de Extensão Rural, na mesma categoria
de agricultura familiar.

119
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Edvelton, semelhante a Cleivson, estuda nos sábados em cursos prepa-


ratórios ao primeiro emprego.

Considerações finais

Nos relatos que envolveram pessoas engajadas na gestão da Colônia


Z-10, pescadores que estavam às margens do Canal de Santa Cruz e também
os jovens de 16 anos que desenvolvem a atividade em alguns momentos de sua
rotina, exercendo a pesca como uma atividade quase de lazer, estão presentes
as seguintes questões: a) a dúvida entre estudar ou pescar; b) e pesca relacio-
nada a uma atividade de alto risco, pouca valorização e a incerteza dos ganhos
na atividade da pesca artesanal; c) pouca valorização social da atividade, o
estereótipo do pescador e o preço baixo pago pelos atravessadores; d) maior
resistência que esta atividade seja exercida pelas mulheres.
As representações definem um quadro de referência comum, possibili-
tam a percepção da identidade que colabora na construção de pertencimento
ou não a determinados grupos, no caso de estudantes ou de pescadores. Cada
grupo é identificado por comportamentos e práticas sociais, definindo assim o
que é possível, tolerável ou inaceitável em um dado contexto social.
Nesta construção de pertencimento as mulheres criticam a postura do
Ministério do Trabalho, da categoria profissional pescadora, pois esse ‘não reco-
nhecimento’ gera preconceito e discriminação diante das instituições comerciais
quando as pescadoras buscam realizar uma compra a crédito. Sentem necessidade
de política pública educacional que as contemplem de forma específica e também
o acesso a Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) necessários à atividade da
mariscagem - os dois rapazes pescam mariscos acompanhando a avó e a tia.
Concluímos com uma indagação: quais as alternativas para os jovens
continuarem na pesca, mas sob outras condições? Talvez uma das respostas
esteja na ampliação dos direitos dos/as trabalhadores/as à pesca - em terra - no
que diz respeito aos benefícios definidos na Convenção do Trabalho na Pesca
- 2007. Até o momento a orientação contida no texto da citada convenção é de
que esses direitos não são aplicáveis aos/as trabalhadores/as que não atuam em
alto mar, tal como mergulhadores/as, marisqueiros/as, pescadores/as de rede
de arrasto, colhedores de alga marítima, como também ao trabalho relaciona-
do com pesca, particularmente de mulheres, com o fim de garantir que todos/
as se beneficiem da Convenção. Entre as garantias sociais estipuladas estão:

(i) trabalho arriscado (como mergulho, arrasto na praia nas áreas costeiras
ásperas ou colheita de mariscos em zonas de maré turbulenta); (ii) condições

120
Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão

de serviço (tal como contrato de trabalho, horas de descanso e modo de


pagamento); (iii) seguridade no trabalho e cuidado de saúde; e (iv) cuidado
médico e segurança social - podem melhorar as condições de trabalho e
vida também dos pescadores baseados na terra firme.

Finalizamos com a letra de uma composição de Dorival Caymmi, ‘A


jangada voltou só’, que ilustra as incertezas na vida dos pescadores/as, incerte-
zas que os jovens não sonham reproduzir em sua vida profissional:

A jangada saiu
Com Chico Ferreira e Bento
A jangada voltou só
Com certeza foi lá fora, algum pé de vento
A jangada voltou só...
Chico era o boi do rancho
Nas festa de Natar
Chico era o boi do rancho
Nas festa de Natá
Não se ensaiava o rancho
Sem com Chico se contá
E agora que não tem Chico
Que graça é que pode ter
Se Chico foi na jangada...
E a jangada voltou só... a jangada saiu
Com Chico Ferreira e Bento
A jangada voltou só
Com certeza foi lá fora, algum pé de vento
A jangada voltou só...
Bento cantando modas
Muita figura fez
Bento tinha bom peito
E pra cantar não tinha vez

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Maria Rosário F. Andrade; SANTOS, Maria Salett Tauk. O Estado da Arte do

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123
POLÍTICAS DE SAÚDE DA MULHER
NO BRASIL - HISTÓRIA E EVOLUÇÃO

Jane Maria de Souza Philippi

A saúde da mulher no Brasil nas décadas de 20 e 30 restringia-se à gravidez e


ao parto. O programa intitulado “Materno-infantil” já pelo seu nome limi-
tava a saúde da mulher apenas ao seu papel biológico de procriadora, à materni-
dade e à de cuidadora da prole, e por isso era uma assistência fragmentada, com
baixo impacto sobre os indicadores de saúde da mulher (COELHO, 2006).
Na década de 60 a saúde no Brasil caracterizava-se pela prática médica
individual, assistencialista e especializada, em detrimento das ações de saú-
de pública, de caráter preventivo e interesse coletivo (SCLIAR; PAMPLONA;
RIOS; SOUZA, 2010).
Em 1975 foi criado o Programa Nacional de Saúde Materno-Infantil -
PSMI, melhor delineado, mas ainda visando prioritariamente a gestante e a
maternidade. É estabelecida a “arte obstétrica”, demonstrando a perda de con-
trole deste conhecimento pelas mulheres e a sua incorporação à prática mé-
dica. A situação do parto com a intervenção tecnológica através da operação
cesária é sobreutilizada e vem representar um risco à saúde (GIFFIN, 1991).
O Movimento da Reforma Sanitária, na década de 80, surge com for-
ça através dos movimentos sociais e dos movimentos feministas reivindican-
do a saúde da mulher sem fragmentação e não reducionista, denunciando as
desigualdades nas condições de vida e nas relações de gênero, apontando as
dificuldades associadas à sexualidade e à saúde reprodutiva, anticoncepção,
prevenção de doenças sexualmente transmissíveis - DST/Aids e ainda a sobre-
carga do trabalho feminino. Essas desigualdades e condições de vida se refle-
tem na saúde da mulher.

125
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

A partir de 1984, com o Programa de Assistência Integral à Saúde da


Mulher - PSMI, é que se modificaram as prioridades e a política de saúde para
as mulheres. A visão da saúde da mulher somente para o ciclo gravidez/puer-
pério dá lugar a uma visão mais abrangente e ampla envolvendo todas as fa-
ses do ciclo biológico da mulher. São incluídas ações de promoção da saúde,
prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento e recuperação, da proposta da
Reforma Sanitária (GIFFIN, 1991).
O PSMI, no entanto, não atende sua política de integralidade por falta
de dotação orçamentária e contínua com uma abordagem predominantemente
materno-infantil (COELHO, 2003); não chegou a ser efetivamente implantado
em todo o país e consolidou uma separação entre o uso de métodos artificiais
de controle da fecundidade e os cuidados à saúde para a maioria das mulheres,
que são as mais pobres e dependem dos serviços públicos. As doenças das mu-
lheres são a pobreza e a desigualdade (GIFFIN, 2001).
Em 1985 é criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher - CE-
DIM, vinculado ao Ministério da Justiça, com o objetivo de promover políti-
cas públicas para eliminar a discriminação contra a mulher e assegurar a sua
participação nas atividades políticas, econômicas e culturais. O Conselho foi
fundamental na inclusão das reivindicações dos movimentos das mulheres na
Constituição de 1988 e na criação e regulamentação do SUS. Em janeiro de
2003 o CEDIM passou a integrar a estrutura da Secretaria Especial de Políticas
para as Mulheres, ligada diretamente à Presidência da República. Nas Confe-
rências Nacionais de Saúde e Direitos da Mulher, em 1986 e 1989, os temas
de saúde mental, sexualidade, aborto, adolescência, velhice, trabalho e saúde,
saúde e cidadania foram destacados como áreas essenciais que exigem avanços
urgentes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
O marco mais importante da luta das mulheres, todavia, é a Conferência
do Cairo, em 1994, Conferência Internacional sobre População e Desenvol-
vimento - CIPD, que defendeu a erradicação da miséria e das desigualdades
sociais, raciais e de gênero. Grande parte da Conferência foi ocupada na busca
de um consenso sobre os conceitos de direitos reprodutivos e direitos sexuais
(COELHO, 2006).
Em 1996 foi aprovada a Lei do Planejamento Familiar, a qual proibiu a
utilização de ações para qualquer tipo de controle demográfico. Tratou-se de um
documento histórico que incorporou o ideário feminista para a atenção à saúde in-
tegral, responsabilizando inclusive o estado brasileiro nos aspectos da saúde repro-
dutiva. Desta forma as ações prioritárias foram definidas a partir das necessidades

126
Jane Maria de Souza Philippi

da população feminina, o que significou uma ruptura com o modelo antigo da


atenção materno-infantil (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
O planejamento familiar é um direito assegurado na Constituição Fe-
deral. Consiste na orientação sobre como planejar a família de forma segura
e de como evitar a gravidez indesejada, informando e oferecendo os vários
métodos contraceptivos existentes. Planejar a família e evitar gravidez indese-
jada também passaram a ser opções para as mulheres. Mas o atendimento está
chegando às mulheres que mais precisam dele?
O Ministério da Saúde, em parceria com estados e municípios, conse-
guiu ampliar o leque de oferta de métodos contraceptivos existentes e gra-
tuitos sempre com a preocupação de deixar a mulher esclarecida sobre sua
escolha. Cerca de um bilhão de preservativos masculinos e 428 mil femininos
foi a maior distribuição feita por um governo em 2008. A Política Nacional de
Planejamento Familiar inclui ainda procedimentos específicos para o homem,
como a vasectomia, o que confirma que o planejamento de futuras gestações
deve ser compartilhado com o parceiro. Em 2003 foram realizadas 8,6 milhões
de consultas durante o pré-natal e em 2009 foram 19,4 milhões, um crescimen-
to que pode ser atribuído à ampliação do acesso ao pré-natal pelas mulheres.
Em 1986, o percentual de grávidas que nunca consultaram um médico era de
26%. Em 2006, este percentual baixou para 1,3%. Além disso, 61% das gestan-
tes tinham passado por sete ou mais consultas de avaliação, inclusive com a
realização de exames (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
O pré-natal auxilia na prevenção de doenças no bebê e na mãe durante
a gestação, tais como a diabetes gestacional e a hipertensão, que podem levar a
complicações durante o parto, além da hepatite B, toxoplasmose, sífilis e HIV. A
gestante e parturiente também passou a ter direito a um acompanhante de sua
escolha no trabalho de parto, parto e pós-parto e a garantia de conhecimento e
vinculação à maternidade, em que receberá assistência no âmbito do SUS.
Em 2004 o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Atenção
Integral à Saúde da Mulher - Princípios e Diretrizes, construídos a partir da
proposição do SUS, respeitando os impactos positivos nas principais deman-
das do universo feminino para o setor. Ainda em 2004 foi lançado o Pacto
Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal, a primeira pactu-
ação entre gestores e sociedade civil organizada apoiada pelas 27 unidades fe-
deradas. A proposta foi premiada pela ONU como modelo de mobilização em
saúde. O Pacto Nacional teve por objetivo articular os atores sociais, historica-
mente mobilizados em torno da melhoria da qualidade de vida de mulheres e

127
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

crianças, na luta contra os elevados índices de mortalidade materna e neona-


tal no Brasil. Os princípios do Pacto, entre outros, são o respeito aos direitos
humanos de mulheres e crianças; a consideração das questões de gênero, dos
aspectos étnicos e raciais e das desigualdades sociais e regionais; a decisão po-
lítica de investimentos na melhoria da atenção obstétrica e neonatal; e a ampla
mobilização e participação dos gestores e organizações sociais (MINISTÉRIO
DA SAÚDE, 2010).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que o aleitamento
materno seja exclusivo até os seis meses de vida da criança e continue até os
dois anos ou mais. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) - em
2006 - mostrou que no Brasil os dados são positivos: 43% das crianças são
amamentadas na primeira hora de vida no Brasil, 99% são amamentadas no
primeiro dia de vida e 40% dos bebês recebem exclusivamente o leite materno
nos primeiros seis meses de vida (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Os direitos sexuais e reprodutivos são direitos ancorados na liberdade
de todo casal decidir livre e responsavelmente sobre o número, espaçamento e
a oportunidade de ter filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer.
Além da garantia da liberdade de orientação sexual e a dupla proteção às DST/
Aids e à gestação não planejada.
Em 2005 foi lançada a Política Nacional de Direitos Sexuais e de Direi-
tos Reprodutivos, resultado da articulação entre os Ministérios da Saúde, da
Educação, da Justiça e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, assim
como as Secretarias Especiais de Políticas para as Mulheres, Políticas de Pro-
teção e Promoção da Igualdade Racial e Secretaria Nacional de Direitos Hu-
manos. Essa política foi uma das responsáveis pelo estímulo à adoção de boas
práticas na atenção obstétrica e neonatal, baseadas em evidências científicas
em quase 500 maternidades de referência nas 27 unidades federadas e qualifi-
cação do atendimento às urgências/emergências obstétricas nas maternidades
e no SAMU (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Outro avanço pela melhora da assistência à mulher veio com a insti-
tuição da Política de Atenção Integral à Reprodução Humana Assistida, em
2006, que assegura o direito à reprodução em casos em que se faz necessária a
atenção médica para a fertilização. Houve também a implementação do Plano
Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de AIDS em 2007.
Em 2008 foi lançada a Política Nacional pelo Parto Natural e Contra as
Cesáreas Desnecessárias em parceria com a Agência Nacional de Saúde Suple-
mentar. Foram acertados os parâmetros para os serviços públicos e privados que

128
Jane Maria de Souza Philippi

atendem a parturiente e ao recém-nascido com repasse de recursos iniciados


para as adaptações físicas e a qualificação de profissionais. Houve a definição
de fluxos e prazos para os gestores municipais investigarem os óbitos maternos
com maior eficiência e rapidez, exigindo a notificação em 48 horas e a conclu-
são de todo o processo no máximo em 120 dias. Essa revolução trouxe conse-
quências positivas também para o atendimento obstétrico na rede pública. A
expansão da oferta dos serviços de saúde elevou o número de partos pelo SUS.
Em 2006 76% das gestantes tiveram seus bebês na rede pública. No meio rural,
caiu de 19,8% para 3,5% os nascimentos de crianças em domicílio - no mesmo
período. A assistência do médico durante o parto aumentou de 77,6% para
88,7% em todo o país. No meio rural a presença desse profissional passou de
57,7%, em 1996 para 82,6¨%, em 2006 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
O País, entretanto, registra mais cesarianas do que os 15% recomenda-
dos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A taxa nacional é de 39% e
em todos os estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste esse índice é su-
perior a 40% segundo dados de 2002 do Sistema de Informações de Nascidos
Vivos - SINASC.
Os benefícios do parto normal são inúmeros tanto para a mãe, como
para seu bebê. Vão desde uma melhor recuperação da mulher e redução dos
riscos de infecção hospitalar até uma incidência menor de desconforto respi-
ratório do bebê.
A incidência de morte materna associada à cesariana é 3,5 vezes maior
do que no método natural. Os riscos começam pela anestesia. As vantagens
do parto normal se estendem ainda à questão financeira. Pelo SUS o método
natural custa R$ 291,00 e a cirurgia cesariana R$ 402,00 (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2010).
Existem indicações absolutas e relativas para a realização da cesárea.
Trata-se de um procedimento importante para salvar a vida da mãe e do bebê
quando uma delas - ou as duas - está em risco. As indicações absolutas são a
desproporção céfalo-pélvica (quando a cabeça do bebê é maior do que a passa-
gem da mãe); hemorragias no final da gestação; ocorrência de doenças hiper-
tensivas específicas da gravidez na mãe; bebê transverso (atravessado) e sofri-
mento fetal. A ocorrência de diabete gestacional, ruptura prematura da bolsa
d’água e bebê com trabalho de parto prolongado são consideradas indicações
relativas para a cesariana.
A revalorização do parto natural e vaginal é posta como necessária, em
alguns casos, acima do sofrimento da mulher e da criança.

129
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Por que tantas mulheres querem parto por cesárea? Medo de sofrer e
medo de que seu bebe nasça com problemas? Com certeza. E a causa é a falta
de segurança e confiança nos profissionais e seus procedimentos relacionados
ao parto normal.
Necessitamos ainda da atenção humanizada ao abortamento. A atenção
de qualidade às mulheres que chegam aos serviços de saúde em processo de
abortamento. Elas também devem ser tratadas como pessoas necessitando de
atendimento de urgência como toda e qualquer pessoa. Até bêbados, brigões
e bandidos recebem atendimento. Ainda existe discriminação com essas mu-
lheres nas emergências dos hospitais. Sem falar na dificuldade de atendimento
para as mulheres que optam pelo aborto até mesmo nos casos amparados por
lei. A demora no atendimento muitas vezes põe em risco a vida da mulher ou
até inviabiliza a realização do procedimento, causando grande sofrimento.
O uso descontrolado da pílula também pode resultar em gravidez indese-
jada e aborto e, no Brasil, as estimativas são de que 30% das gestações terminam
em aborto ilegal (GIFFIN, 2002). Já o aborto legal é garantido pelo Código Penal
brasileiro de 1940 - somente em gravidez indesejada em casos de estupro ou em
caso de risco de morte para a mãe, mas ainda são muito pouco realizados pelos
serviços públicos de saúde devido à resistência de profissionais da saúde.
A violência contra as mulheres é sofrida em todas as fases da vida. Muitas
vezes ela se inicia ainda na infância e acontece em todas as classes sociais. A vio-
lência cometida contra mulheres no âmbito doméstico e a violência sexual são
fenômenos sociais e culturais ainda cercados pelo silêncio e pela dor. Políticas
públicas específicas que incluem a prevenção e a atenção integral são fatores que
podem proporcionar o empoderamento, ou seja, o fortalecimento das práticas
autopositivas e do coletivo feminino no enfrentamento da violência no Brasil.
De acordo com a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradi-
car a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará, 1994) e definição
adotada pela Organização dos Estados Americanos - OEA - em 1994, a violência
contra a mulher é “qualquer ato ou conduta baseada no gênero que cause morte,
dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher tanto na esfera pública
como na esfera privada”. Ou seja, a violência contra as mulheres é uma manifesta-
ção de relações de poder historicamente desiguais que conduziram à dominação e
à discriminação contra as mulheres pelos homens e impedem seu pleno avanço. A
Organização das Nações Unidas - ONU, 1993 - também referendou o tema, reco-
nhecendo a violência contra as mulheres como uma violação aos direitos humanos
(FÓRUM NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS, 2008).

130
Jane Maria de Souza Philippi

É esperado que os governos e as organizações da sociedade civil traba-


lhem para a eliminação desse tipo de violência reconhecido pela Organização
Mundial da Saúde - OMS como um grave problema de saúde pública posto
que suas consequências são profundas, indo além da saúde e da felicidade in-
dividual e afetando o bem estar de comunidades inteiras.
Por meio da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, a
Área Técnica de Saúde da Mulher tem como objetivo aumentar o número de
serviços de atenção à violência em Estados e Municípios, apoiando-se na orga-
nização de redes integradas que devem se constituir em ações voltadas à popu-
lação. Essa demanda pleiteada por estados e municípios reforça a necessidade
de construção de estratégias de organização da gestão de redes e serviços no
sentido de ofertar ações eficientes de acordo com as necessidades apresentadas
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
A violência contra a mulher é referida de diversas formas desde a dé-
cada de 50. Designada como violência intrafamiliar na metade do século XX,
vinte anos depois passa a ser referida como violência contra a mulher. Nos
anos 80 foi denominada como violência doméstica e, na década de 90, os es-
tudos passam a tratar essas relações de poder - em que a mulher em qualquer
faixa etária é submetida e subjugada como violência de gênero.
O Pacto Nacional para Enfrentamento da Violência contra as Mulheres
consiste na assistência psicológica, prevenção de DST/Aids, anticoncepção de
emergência e interrupção de gravidez resultante de estupro. Cerca de 40% das
mulheres já foram vítimas de algum tipo de violência doméstica. Os recursos
do Pacto são conveniados com estados e municípios para a consolidação da
Lei Maria da Penha, a estruturação da rede de atendimento às mulheres ví-
timas de violência, o combate à exploração sexual e tráfico de mulheres, os
direitos humanos das mulheres em situação de prisão, a promoção dos direitos
sexuais e reprodutivos, assim como o enfrentamento a feminização da Aids e
outras DTS (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Através das notificações realizadas no sistema nacional de notificações/in-
vestigação, o Sinan NET, foi possível estabelecer o perfil epidemiológico das violên-
cias em Santa Catarina, separando-o em dois tipos: o perfil da vítima de violência
e o perfil do agressor/agressora. Das 1.044 notificações ocorridas de 2008 a março
de 2010, 63% das vítimas eram do sexo feminino e 14% foram violências auto-
provocadas (suicídio ou tentativa de suicídio); destas, 69% praticadas pelo sexo
feminino. Quanto ao perfil da vítima de violência doméstica, sexual e/ou outras
violências pode-se afirmar que ocorreram com maior frequência na faixa etária

131
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

de 19 a 20 anos (26%), seguidas das vítimas de 1 a 9 anos (20%). A raça bran-


ca com 75% e a parda com 15% tiveram as maiores vítimas; a maioria, 29%,
eram solteiros; e 5% das vítimas eram portadores de deficiências. Os tipos
de violência que mais ocorreram foram: violência física (em 48% dos casos),
psicológica (em 21% dos casos) e sexual (em 15% dos casos). A cabeça/face
em 22% dos casos foi a parte do corpo mais atingida das vítimas. Esses dados
repetem o mesmo perfil da violência no Brasil (DRESSEN, 2010).
Quanto ao provável agressor/agressora de violência doméstica, sexu-
al e/ou outras violências, pode-se afirmar que o homem apareceu como o
maior agressor (em 60% dos casos); a zona de maior ocorrência foi a urbana
(em 76% dos casos); o período de maior ocorrência foi o noturno (em 24%
dos casos); e o local de maior ocorrência foi a residência (em 64% dos ca-
sos). A violência ocorreu pela primeira vez em 49% dos casos. Os meios de
agressão mais utilizados foram a força corporal (37%), seguido pela ameaça
(16%). O vínculo do agressor com a vítima em 17% dos casos era amigo/co-
nhecido, em 14% era a própria pessoa, em 12% o cônjuge e 11% desconheci-
do. A suspeita do uso de álcool foi confirmada por 49% das vítimas e desses,
62% eram mulheres; 28% afirmaram que o agressor não tinha ingerido álcool
(DRESSEN, 2010).
A violência contra a mulher é a expressão do desequilíbrio de poder
entre homens e mulheres. Culturalmente tolerada, trata-se de um atentado aos
direitos fundamentais. A agressão dentro de casa pode se traduzir num ciclo
vicioso, que tende a se repetir ao longo do tempo. De início existe uma tensão,
hostilidade que se acumula e se manifesta em atritos, insultos e ameaças. Ato
contínuo, a própria agressão, descarga descontrolada da tensão acumulada.
Depois vem a fase de reconciliação, em que o agressor pede perdão e promete
mudar de comportamento ou finge que não houve nada, fica mais carinhoso,
bonzinho, traz presentes, fazendo a mulher acreditar que aquilo não vai mais
voltar a acontecer.
Infelizmente, a saúde pública ainda não chegou dentro das casas das
pessoas. E a Casa da Mulher Catarina, entidade hoje nos seus 21 anos de luta
pelos direitos e pela saúde da mulher catarinense, realizou em 2009 uma capa-
citação sobre violência contra a mulher para mais de 500 agentes comunitários
de saúde de Florianópolis, e neste ano de 2010 para mais de 200 agentes em
São José, município vizinho, com a intenção de conscientizar esses profissio-
nais que adentram as casas das pessoas e podem visualizar e denunciar a vio-
lência, além de formar multiplicadores.

132
Jane Maria de Souza Philippi

No ano de 2007 a Casa da Mulher Catarina realizou palestra sobre pre-


venção das DST/Aids no Presídio Feminino de Florianópolis, em Santa Cata-
rina, e constatou a inexistência de atendimento à saúde das presidiárias, em
que apenas uma médica voluntária oferece seus serviços às detentas, uma ou
duas vezes por semana. São 134 mulheres de todo o Estado: a maioria delas é
mulheres brancas, com ensino fundamental incompleto, idade média de 24
anos e, ao contrário dos homens, cumpre pena por furto e/ou roubo - a maio-
ria das mulheres cumpre pena primária e por tráfico de entorpecentes. São
mulheres esquecidas das autoridades, principalmente da área da saúde, cujo
atendimento é precário.
Que alternativa de pena se pode dar a essas mulheres? Não poderia ser
um local onde a obrigatoriedade da continuidade do estudo fosse o mais im-
portante? Quando saem do presídio, do que se ocupam? Das que engravidam
e ficam presas, seus filhos já nascem presidiários. Que crime hediondo prati-
caram esses bebês?
A violência contra a mulher e a desarticulação da família tradicional é
um poderoso propulsor dos índices de crimes violentos, do tráfico de armas,
drogas e pessoas. Um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é
causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas; a cada
cinco anos, a mulher perde um ano de vida saudável; o estupro e a violência
doméstica são causas importantes de incapacidade e morte de mulheres; na
América Latina e Caribe a violência doméstica atinge entre 25% a 50% das
mulheres. No Canadá, um estudo estimou que os custos da violência contra
as mulheres superam 1 bilhão de dólares canadenses por ano em serviços,
incluindo polícia, sistema de justiça criminal, aconselhamento e capacitação;
nos Estados Unidos, um levantamento estimou o custo com a violência con-
tra as mulheres entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões ao ano; nos países em
desenvolvimento estima-se que entre 5% a 16% de anos de vida saudável são
perdidos pelas mulheres em idade reprodutiva como resultado da violência
doméstica. Esses dados segundo Banco Mundial e Banco Interamericano de
Desenvolvimento (TELES & MELO, 2003).
Então, muito ainda se tem a fazer. O câncer de mama é a principal causa
de morte entre as mulheres, respondendo por 22% dos casos novos a cada
ano. Se diagnosticado e tratado oportunamente, o prognóstico é relativamente
bom. No Brasil, as taxas de mortalidade continuam elevadas, muito prova-
velmente porque a doença ainda é diagnosticada em estádios avançados. No
Brasil, morreram em 2008 11.860 pessoas de câncer de mama, sendo 11.735

133
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

mulheres e 125 homens, sendo que a estimativa para 2010 é de 49.240 no-
vos casos. Vários serviços e procedimentos foram incluídos no SUS para o
diagnóstico e tratamento; a ampliação da oferta de mamografias passou de 2
milhões, em 2003, para 2,9 milhões, em 2008. A mamografia é recomendada
uma vez a cada dois anos para as mulheres entre 50 e 69 anos e o Ministério da
Saúde sugere o exame preventivo do câncer de colo de útero a cada três anos
para mulheres entre 25 e 59 anos e exames anuais para aquelas com citologia
alterada (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
O câncer do colo do útero é a segunda causa de morte no Brasil, onde o
papilomavírus humano, o HPV, considerado a causa primária em mais de 98%
dos tumores, pode ser descoberto facilmente em exame preventivo de câncer
cérvico uterino - o Papanicolaou. Em 2008 morreram 4.812 mulheres por esse
tipo de câncer e a estimativa para 2010 é de 18.430 novos casos. A cobertura na
realização desse exame entre as mulheres heterossexuais nos últimos três anos
é de 89%. Já entre as lésbicas e bissexuais, a cobertura cai para 66%, com uma
cobertura total de 70%; mas a Organização Mundial da Saúde - OMS conside-
ra ideal uma cobertura de 80% (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
A atenção à saúde da mulher, no Brasil e no mundo, ainda tem sido
reduzida aos parâmetros da atenção materno-infantil. As incidências de cân-
cer de mama e de colo de útero continuam subindo e atingem principalmente
mulheres em idade fértil. E somos 51% da população brasileira. Um estudo
realizado de 1980 a 2007 mostrou que a mortalidade por câncer de corpo está
ascendente nestes 28 anos estudados, com um aumento de 1,89% ao ano, e o
câncer de colo de útero, apesar da facilidade de prevenção, apresentou tendên-
cia de mortalidade estável. O câncer de corpo de útero apresenta as maiores ta-
xas de mortalidade nas regiões Sul e Sudeste do país. Entre 1980 e 2007 foram
registrados no Brasil 160.206 óbitos por câncer de útero, sendo 56% de tumo-
res de colo do útero e 8,7% de tumores no corpo do útero. Em 2007 ocorreram
4,3 mortes por câncer de colo de útero por 100.000 mulheres, e 0,86 mortes
por câncer de corpo de útero por 100.000 mulheres (SILVÉRIO, 2010).
A criação de campanhas; a cobertura do exame colpo citológico, que
é insuficiente tanto quantitativamente - que não alcança a porcentagem po-
pulacional mínima preconizada pela Organização Mundial de Saúde - OMS
- como qualitativamente, que não chega até as populações que dele mais neces-
sitam; as vacinas contra HPV, colocadas à disposição na rede pública de saúde,
que permitem atuar no primeiro nível de prevenção, são todas medidas que
poderão reduzir a mortalidade. E para os casos que irão transpor a barreira da

134
Jane Maria de Souza Philippi

prevenção, deve-se dispor de tratamentos adequados e de qualidade para todas


as mulheres (SILVÉRIO, 2010).
O Brasil é um país considerado em desenvolvimento, e a distribuição
epidemiológica dos cânceres reflete esta realidade com aumento dos tipos as-
sociados a elevado nível socioeconômico como câncer de mama, próstata e
cólon e reto, mas simultaneamente, mantendo a presença de taxas de incidên-
cias elevadas de tumores geralmente associados com a pobreza, como câncer
de colo de útero, pênis, estômago e cavidade oral. No início da década de 1990
começaram a aumentar os casos de Aids entre as mulheres e a transmissão do
HIV de mãe para filho. Hoje as estimativas apontam as mulheres como metade
dos soropositivos no mundo. Na América Latina, elas representam 550 mil
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Em 2003 o Governo Federal criou a Secretaria Especial de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), ligada à Presidência da República,
para viabilizar ações de enfrentamento da problemática racial e inagurar uma
nova era no tratamento dispensado pelo Estado brasileiro às iniquidades re-
sultantes do racismo, do preconceito e da discriminação raciais. Também com
o propósito de promover a equidade, o Ministério da Saúde criou o Comitê
Técnico Saúde da População Negra (Secretaria de Gestão Estratégica e Parti-
cipativa) para propor uma Política Nacional para essa parcela da população
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Há no Brasil um consenso entre os estudiosos acerca das doenças e
agravos prevalentes na população negra que são os geneticamente determi-
nados (como a doença falciforme, deficiência de glicose 6-fosfato desidro-
genase, foliculite); os adquiridos em condições desfavoráveis (como des-
nutrição, anemia ferropriva, doenças do trabalho, DST/HIV/Aids, mortes
violentas, mortalidade infantil elevada, abortos sépticos, sofrimento psíqui-
co, estresse, depressão, tuberculose, transtornos mentais derivados do uso
abusivo de álcool e outras drogas); e os de evolução agravada ou tratamento
dificultado (como hipertensão arterial, diabetes, coronariopatias, insuficiên-
cia renal crônica, câncer, miomatoses).
Compete à área técnica de Saúde da Mulher promover melhoria das
condições de saúde das mulheres negras ao incluir ações de cuidado, atenção,
promoção à saúde e prevenção de doenças. Sabe-se que as mulheres negras
sofrem dois tipos de discriminação: a racial e a de gênero.
Dados de Saúde do Brasil, em 2007, relatam que entre as mulheres de raça/
cor preta e parda, as doenças cerebrovasculares foram as principais responsáveis

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

pelos óbitos, sendo o risco de morte por essa causa duas vezes maior que entre
as mulheres brancas. Os homicídios são a segunda causa de morte, com um
risco três vezes maior se comparado com as mulheres brancas. O risco de mor-
te por Aids é 2,6 vezes maior que entre as mulheres brancas (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 2010).
Pautada pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Popula-
ção Negra de 2006, a área de saúde da mulher tem procurado melhorar essas
condições com dois eixos principais de ação, que são o enfrentamento do
racismo e sua presença no SUS, e a atenção à prevenção e ao tratamento dos
problemas de saúde que mais atingem a população negra. Os objetivos da
política são a inclusão dos temas Racismo e Saúde da População Negra nos
processos de formação e educação permanente dos trabalhadores da saúde
e no exercício do controle social na saúde; a ampliação e fortalecimento da
participação do Movimento Social Negro nas instâncias de controle social
das políticas de saúde em consonância com os princípios da gestão partici-
pativa do SUS, adotados no Pacto pela Saúde; o incentivo à produção do co-
nhecimento científico e tecnológico em saúde da população negra; a promo-
ção do reconhecimento dos saberes e práticas populares de saúde, incluindo
aqueles preservados pelas religiões de matrizes africanas; a implementação
do processo de monitoramento e avaliação das ações pertinentes ao combate
ao racismo e à redução das desigualdades étnico-raciais no campo da saúde
nas distintas esferas de governo; e o desenvolvimento de processos de infor-
mação, comunicação e educação que desconstruam estigmas e preconceitos,
fortaleçam uma identidade negra positiva e contribuam para a redução das
vulnerabilidades (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Sabe-se, no entanto, que as mulheres negras são as que mais sofrem nas
salas de partos, são as que mais sofrem violência e são as que menos chances
têm de estudo.
De uma maneira geral, é preciso fazer muito ainda, principalmente com
relação à violência contra a mulher. É preciso modificar esse quadro no Brasil,
pois antes de chegar a um hospital, muitas chegam antes nas delegacias e não
são ouvidas. O combate à violência é multicêntrico e multiprofissional. Nas
escolas, nas unidades de saúde, nas visitas dos agentes de saúde nas residências
ele pode ser prevenido e desaprendido.
Neste contexto não se pode deixar de citar a Rede Nacional Feminista
de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, da qual a Casa da Mulher
Catarina é associada. Fundada em 1991, congrega cerca de 250 filiadas entre

136
Jane Maria de Souza Philippi

entidades, associações, sindicatos e profissionais. Espalhada por todo o Brasil,


fez recentemente uma pesquisa sobre Mulheres e Tabagismo, da qual, no Esta-
do de Santa Catarina, participou a Casa da Mulher Catarina.
E muito mais se tem para fazer: a saúde da mulher trabalhadora, a saú-
de da mulher indígena, a saúde mental da mulher, os desafios da saúde men-
tal com o abuso do álcool e outras drogas. E lembrando que nem o processo
materno-infantil, na vida da mulher está totalmente consolidado.
Se o pré-natal é considerado de baixa eficácia, a atenção ao parto estan-
que, o puerpério é a etapa esquecida no processo do nascimento (MENDES,
COELHO & CALVO, 2006).
Também o atendimento à mulher em oncologia, principalmente pós-
quimioterápico e pós-cirúrgico, com psicólogo e fisioterapeuta, além da medi-
cação especial para o seu conforto quando decide passar seus últimos dias na
sua residência, ao lado dos familiares.
É preciso a inclusão das mulheres em ocupações centrais como no fi-
nanciamento, nos recursos humanos e no controle social, que são as três ra-
zões orientadoras do SUS no Brasil (CASTILHOS, 2003).
É necessário que as mulheres participem dos conselhos locais de saúde,
conselhos municipais, estadual e nacional. E não somente conselho de saúde.
Nos conselhos de segurança, conselho tutelar, de educação, de defesa civil e
tantos outros importantes nas cidades e que lutam para se fazerem ouvir pelos
políticos e administradores públicos, não somente com reivindicações e idéias
masculinas, mas também com as boas ideias do mundo feminino.
Não existe equilíbrio entre homens e mulheres em todos os níveis de
poder no Brasil. É preciso que as mulheres compartilhem da elaboração e da
execução de leis, e também que as ponham em prática para atender às suas
necessidades e de seus filhos.
O Brasil conta com 9% de mulheres no Congresso Nacional, 12% nas
assembleias legislativas e 12% nas câmaras municipais. Em uma lista de 188
países, o Brasil fica no número 141, com relação à representatividade feminina
na política. Na América Latina, só fica à frente da Colômbia e dentre os países
que adotaram a política de cotas para mulheres, o Brasil apresenta o pior re-
sultado. De todos os candidatos que entraram nas eleições de 2008, 91% dos
prefeitos são homens e 88% dos vereadores também (TRIBUNAL SUPERIOR
ELEITORAL, 2010).
Por que o Brasil precisa de lei obrigando cotas para as mulheres na políti-
ca e mesmo assim não consegue atingir esse valor? É que existe um preconceito

137
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

velado. Uma guerra não declarada. Um espaço de poder de que os homens não
abrem mão.
Mas isso tem alguma importância para a sociedade brasileira? Para a
saúde das mulheres?
Será que, para a população, tanto faz se são somente homens que fazem
e executam as leis do país? Faz diferença sim.
Existe um grande desequilíbrio na representação da população brasilei-
ra. É preciso que mulheres façam leis para mulheres e seus filhos; que mulheres
executem as leis para mulheres.
Como se pode pensar a saúde e as cidades sem as mulheres?

Referências

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ais e/ou outras violências em Santa Catarina. Dados do Sinan NET. Capacita-
ção para a implantação do sistema de notificação em Santa Catarina. Diretoria
de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Santa Catarina - DIVE/
SES/SC, 2010.

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GIFFIN, Karen Mary. Mulher e saúde. Cadernos de Saúde Pública. v.7, n.2. Rio
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138
Jane Maria de Souza Philippi

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SCLIAR, Moacyr.; PAMPLONA, Marco.; RIOS, Miguel Ângelo Thompson.;


SOUZA, Maria Helena Soares de. Saúde Pública: histórias, políticas e revolta.
São Paulo: Scipione, 2010. 142 p.

SILVÉRIO, Murilo Gomes. Tendências de mortalidade por câncer de útero no


Brasil entre 1980 e 2007. Florianópolis: UFSC, 2010, 32 p. Trabalho de Conclu-
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TELES, Maria de Almeida.; MELO, Mônica. O que é Violência Contra a Mu-


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TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. TSE. Eleições 2008. Disponível em


http://www.tse.gov.br. Acessado em 30/03/2010.

139
MULHERES, EDUCAÇÃO, CIÊNCIA
E POLÍTICAS PÚBLICAS

Hildete Pereira de Melo

N o início deste milênio a sociedade esqueceu a batalha travada pelas


mulheres pelo acesso à educação. Atualmente todas têm a oportuni-
dade de se educarem, as escolas estão abertas em todos os graus. A univer-
salização da educação e o avanço da ciência e da tecnologia nos últimos
sessenta anos foram extraordinários, as mulheres aumentaram sua parti-
cipação nas atividades científicas, mas suas conquistas têm sido sempre
creditadas ao gênio masculino.
O aspecto misógino das atividades científicas reflete-se nas inúmeras
teorias que respaldam a segregação institucional das mulheres ao longo da
história. A inferioridade intelectual feminina está presente na Antiguidade
Grega e acompanha o desenvolvimento mundial no percurso do tempo. Esta
desqualificava as mulheres para os estudos e estas ideias (pseudos) científicas
contribuíram para fundamentar neste processo a perspectiva da inferioridade
feminina (MARTA GARCIA & EULÁLIA PÉREZ SEDEÑO, 2006).
O desenvolvimento brasileiro ao longo do século XX foi incapaz de ab-
sorver toda a população; as mulheres, negras e negros e indígenas sofreram
de forma mais contundente essas desigualdades; este artigo busca evidenciar
mudanças e continuidades relativas às desigualdades socialmente estabeleci-
das entre as mulheres e os homens focalizando a educação e a ciência como
elementos constitutivos deste processo. A educação faz parte dos processos de
reprodução social e é o meio pelo qual se renova a sociedade nos seus proces-
sos de socialização ao lado da família.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

A ciência e a prática científica, por sua vez, têm sido marcadas pelo se-
xismo e androcentrismo. A discussão feminista da ciência e da tecnologia tem
desenvolvido uma crescente consciência da diferença que expressa inferiori-
dade e que se revela na escassez de figuras femininas na história da ciência.
Resgatar estes nomes esquecidos é uma tarefa como também empreender es-
forços pedagógicos para motivar e integrar meninas e mulheres no processo de
aprendizagem da ciência e tecnologia.
Inegavelmente a educação é importante para o desenvolvimento econô-
mico e social do mundo moderno e tem sido apontada como uma das questões
que podem possibilitar a redução das disparidades sociais e econômicas de um
país ou região. O reconhecimento deste papel está contemplado no Relatório
das Metas do Milênio das Nações Unidas, que tem como meta a eliminação das
disparidades entre os sexos em todos os níveis de ensino até 2015. No Brasil, os
avanços nos indicadores educacionais nas últimas décadas foram reflexos da
demanda de grupos sociais por políticas inclusivas e também as conferências
internacionais também tiveram papel importante, fazendo com que determi-
nados temas sociais fossem inseridos na agenda social brasileira.
Com estas preocupações este artigo discute a educação e a prática cien-
tífica através de uma política pública específica cujo objetivo é integrar meni-
nas e mulheres nas atividades da ciência e tecnologia pelo estímulo ao desen-
volvimento do campo de trabalho de gênero e enfoques feministas na análise
dos preconceitos sexistas e androcêntricos da sociedade.

Educação como instrumento de empoderamento das mulheres

Em todas as partes do mundo níveis mais elevados de educação permi-


tiram, nas últimas décadas, às pessoas melhorarem a qualidade de suas vidas.
Para as mulheres isto foi particularmente verdadeiro pela associação imediata
entre mais educação e o empoderamento feminino. Um melhor nível educa-
cional possibilita o aumento do potencial de geração de renda, da autonomia,
do controle de sua fertilidade e maior participação na vida pública e estes são
aspectos essenciais para mudar a vida das mulheres.
Não se pode esquecer que esta transformação é condicionada pelo nível
de desenvolvimento econômico do país; o desenvolvimento pode ampliar ou di-
minuir o impacto desta elevação na escolaridade da população, a diversificação
das atividades produtivas criadas pelo avanço do processo de industrialização:
oportunidades de trabalho e mobilidade social que permitem a mudança nos

142
Hildete Pereira de Melo

papéis femininos e masculinos e a consolidação de sua autonomia econômica


e política. É preciso ficar atento para o peso da cultura patriarcal que poderá
colocar mais ou menos empecilhos ao acesso das mulheres a esta autonomia.

Os avanços na escolaridade feminina no Brasil

Ao longo do século XX, no Brasil, o acesso à escola ampliou-se para os


diferentes grupos populacionais antes excluídos do processo educacional for-
mal e, com isto, as mulheres passaram a ter a oportunidade de estudar, o que
hoje em dia se reflete na maior positividade dos indicadores educacionais, nos
quais as mulheres vêm superando os homens.
As mulheres começaram o século XX analfabetas e terminaram este sécu-
lo mais escolarizadas que os homens. Para melhor entender este processo, anali-
sa-se a média de anos de estudo como um bom exemplo. Em 2008, as mulheres
com 15 anos de idade ou mais tinham uma escolaridade média de 7,6 anos de
estudo, comparados a 7,3 anos entre os homens. A mesma realidade é observada
em todas as regiões do país. Entre a população ocupada e residente nas áreas ur-
banas, a diferença entre homens e mulheres se amplifica: enquanto os primeiros
possuíam, em 2008, uma média de 8,3 anos de estudo, as mulheres ocupadas
chegaram a 9,2, ultrapassando o nível fundamental de ensino (cuja duração foi
definida, a partir de 2006, como sendo de 9 anos) (IBGE, 2009).
Isso significa que as mulheres tendem a se qualificar ainda mais para en-
trarem no mercado de trabalho, o que não se reverte em salários mais elevados
ou em ocupações mais qualificadas que as masculinas, assim como não signi-
fica a desobrigação das responsabilidades domésticas e dos cuidados (OBSER-
VATÓRIO BRASIL DE GÊNERO, 2010).
Tomando-se a população em geral com idade acima de 10 anos, tem-se
que 51% possuía até sete anos de estudo, ou seja, o nível fundamental incom-
pleto. Esta proporção sobe para cerca de 53% quando se analisa a população
masculina e se reduz para 49% no caso das mulheres (abaixo da média na-
cional, portanto). Ao se observar apenas as pessoas com 12 anos ou mais de
escolaridade - com superior completo ou cursando - a desigualdade entre ho-
mens e mulheres é ainda maior. Em 2008, de cada 100 pessoas com tal nível de
escolaridade, 57 eram mulheres e 43 eram homens (PNAD/IBGE).
Ao se considerar, porém, as mulheres com mais de 60 anos de idade, a
realidade é outra, uma vez que o analfabetismo ainda é predominante nesta ida-
de. Os homens idosos, por sua vez, apresentam uma média de anos de estudo

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superior às mulheres (4,3 frente a 3,9) e menores taxas de analfabetismo. Esta


constatação expressa um passado no qual o espaço público não era permeável
à presença feminina na condição de trabalhadora ou cidadã, restando apenas
as responsabilidades pelo trabalho doméstico no âmbito privado. As mulheres,
portanto, não tinham acesso à educação ou o tinham em proporções significa-
tivamente inferiores às masculinas.
Os avanços galgados no século XX ainda não conseguiram construir a
igualdade de gênero no sistema educacional nacional, os currículos da educa-
ção básica e superior são pouco sensíveis a esta questão, assim como a capa-
citação dos profissionais, a elaboração do material didático e a orientação pe-
dagógica para a prática na sala de aula de uma educação inclusiva (LOURDES
BANDEIRA, HILDETE MELO, LUANA PINHEIRO, 2010).
O debate sobre a qualidade da educação tem sido impulsionado nas úl-
timas décadas na sociedade brasileira e isto vem promovendo uma discussão
sobre a necessidade de mudanças no campo da formação de professores(as) e
gestores(as), a exemplo da Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9.394/96), e em 2003
por meio da Lei 10.639 (ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africa-
na). Afinal, o Censo Escolar da Educação Básica de 2007 (MEC) mostrou que
o número de professores(as) no Brasil totalizava 1.882.961, sendo 82% do sexo
feminino e 18% do sexo masculino (tabela 1). Como capacitar este contingente
de pessoas para atender estas novas demandas da sociedade?

Tabela 1 - BRASIL - Educação Básica - 2007


Mulheres Homens Total
1.542.925 340.036 1.882.961
Fonte: Censo Escolar - Educação Básica/MEC, 2007.

Assim, o governo Lula realizou inúmeros encontros com os mais diver-


sos segmentos sociais e o movimento de mulheres foi chamado duas vezes para
propor uma política pública feminista. As demandas emanadas destes encontros
(2004 e 2007) consubstanciaram-se no I e no II Plano Nacional de Políticas para
as Mulheres, na Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial, no Progra-
ma Brasil sem Homofobia, que estão sendo promovidos pelas duas Secretarias
de Estado da Presidência da República - Secretaria de Políticas para as Mulheres
(SPM) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
Uma das ações mais significativas da SPM no campo da educação foi a
construção de uma Política de Educação em Gênero e Diversidade. Esta política

144
Hildete Pereira de Melo

foi colocada para o governo como um objetivo premente no âmbito do II Pla-


no Nacional de Políticas para as Mulheres (II PNPM) e se insere no âmbito do
Programa de Educação Inclusiva, Não Sexista, Não Racista, Não Homofóbica e
Não Lesbofóbica. Com esta perspectiva foi criado o Programa Gênero e Diver-
sidade na Escola (GDE), numa parceria entre a SPM, MEC/SECAD e SEPPIR.
Os objetivos sociais e educacionais deste programa centram-se no de-
senvolvimento da capacidade de professores(as) da Educação Básica de reco-
nhecer e respeitar a diversidade sociocultural, de reconhecimento dos vários
públicos (negros/as, indígenas, mulheres, homossexuais e outros) existentes
na escola em suas identidades, diferenças e especificidades.
O curso tem o formato semipresencial, estruturado em quatro módulos,
com a carga horária total de 200h. Para tanto foram desenvolvidos os seguintes
materiais didáticos: o Livro de Conteúdos (disponível no Ambiente Virtual
de Aprendizagem - AVA, impresso e em CD Rom) e o Caderno de Atividades
(disponível também no Ambiente Virtual e impresso).
O Programa teve início em 2006 com a realização de uma experiência
piloto para testar a metodologia e o sucesso desta experiência encorajou a pro-
pagação do curso. A partir de 2008 o curso passou a ser ofertado por meio do
Sistema Universidade Aberta do Brasil, da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES/Ministério da Educação), em parceria
com universidades públicas federais e estaduais e da Rede de Educação Tecno-
lógica existentes em vários Estados e regiões do país.
Na Edição de 2008 20 universidades públicas federais e estaduais oferta-
ram 13.340 vagas. Na Edição 2009, com a adesão de mais nove universidades,
a estimativa foi de 15 mil vagas nas cinco regiões do País. Na Edição de 2010,
houve a adesão de mais 10 universidades com a oferta estimada de mais 15 mil
vagas (tabela 2).
Os recursos aplicados pelo Estado para promover uma educação inclu-
siva, não sexista, não racista e não homofóbica atingiu patamares expressivos
entre 2006 e 2010, sendo que foi aplicado um volume de recursos de cerca de
26 milhões de reais.
Assim, o GDE é o programa de formação continuada com a maior
oferta para os(as) professores(as) da Educação Básica no âmbito da Rede de
Formação para a Diversidade da Secretaria de Formação Continuada, Alfabe-
tização e Diversidade (SECAD/MEC), em parceria com UAB/CAPES. É uma
experiência pioneira no mundo e que muito orgulha o governo brasileiro e
particularmente a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), que muito
batalhou para concretizar esta ação.

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Tabela 2 - Programa Gênero e Diversidade nas Escolas


Edições do GDE - anos 2006 2008 2009 2010
Quantidade de cursistas 865 13340 15000 15000
Fonte: Secretaria de Políticas para as Mulheres - Janeiro de 2010.

A ciência no feminino

Na atualidade a presença de mulheres no meio científico como ativas


produtoras do conhecimento é tomada como uma questão social em toda parte
do mundo ocidental. Também no Brasil debate-se a importância das mulheres
ocuparem mais essa esfera de poder, tão tradicionalmente dominada pela visão
masculina. Em países como os Estados Unidos, onde a comunidade científica é
ampla, há forte questionamento nos meios feministas acerca dos entraves cultu-
rais e institucionais que impedem mulheres de seguir sua vocação científica.
De toda forma, dominar o saber científico significa prestígio e as mulhe-
res não podem ser excluídas dessa possibilidade. Isso acontece de várias formas
ao longo da vida feminina: quando sofrem discriminação nos primeiros anos
escolares, quando lhes é dito que são inábeis para a matemática ou durante sua
formação acadêmica, quando optam por carreiras ditas femininas, ou quando
abandonam carreiras científicas promissoras para conciliarem compromissos
afetivos e familiares.
Foi notável no Brasil o avanço das mulheres em matéria de escolari-
dade, mas muitos pensam que não temos mulheres cientistas. A inclusão das
mulheres nas profissões científicas tem se dado em ritmo mais lento do que
em outras áreas e há uma tendência das ciências exatas - Matemática, Física,
Engenharias - atraírem relativamente poucas mulheres. Mas, por outro lado,
inegavelmente as mulheres estão presentes na produção do conhecimento no
Brasil e, em certas áreas, como nas ciências humanas e sociais, a presença femi-
nina é inequívoca e sua atuação expressiva. Nas áreas ligadas à saúde, cresceu
muito o número de mulheres - com importantes nomes femininos - realizando
pesquisas de relevância mundial.
Este avanço pode ser constatado pela tabela 3. Nesta tabela foram ar-
rolados por sexo os títulos de “doutores” obtidos no país e nota-se que já em
1996 as mulheres significavam 44% destes titulados e que no ano de 2008 estas
foram 51% dos titulados no país. A taxa de participação por sexo chega pró-
xima da taxa demográfica da população feminina. Pode-se concluir que é um

146
Hildete Pereira de Melo

resultado exitoso porque o topo das carreiras é sempre um teto de vidro para
as mulheres. Para analisar este resultado deve-se averiguar o sistema de Pós-
Graduação Nacional. Hildete Melo (2010, p. 183-184), analisando por sexo as
bolsas de doutorado concedidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) para os anos de 2001/2008, mostrou que até
2005 havia um número maior de bolsas para o sexo masculino e que a partir
de 2006 o número de bolsas de doutorado para as mulheres foi crescendo len-
tamente e suplantou as bolsas concedidas aos homens. De forma interessante a
situação inverteu-se em 2001: as bolsas de doutorado masculinas representavam
51% do total concedido pelo CNPq e em 2008 as mulheres obtiveram a taxa de
participação de 51% do total de bolsas concedidas neste ano. O quadro traçado
pela tabela 3 demonstra a ponta final desta situação, só que pelo ângulo do suces-
so: são as teses defendidas e o crescimento feminino na obtenção deste título.

Tabela 3 - BRASIL - Doutores titulados, segundo sexo


Ano Mulheres Homens Total
1996 1.251 (44%) 1.579 (56%) 2.830
2008 5.513 (51%) 5.192 (49%) 10.705
Fonte: CGEE/MCT, 2010.

Temos um resultado próximo, mas ligeiramente diferente quando se


analisam as bolsas de doutorado concedidas pela Coordenação de Aperfei-
çoamento de Pessoal de Nível Superior do Ministério de Educação (CAPES/
MEC) para os anos de 2000, 2005, 2008 e 2009, quando cerca de 40% de
bolsas de doutorado são para o sexo feminino e 60% para o masculino. É
preciso esclarecer que esta agência financia um número bem mais reduzido
de bolsas, isto é, cerca de 10% do total de bolsas de doutorado concedidas
pelo CNPq. Não deixa de ser interessante, porém, o predomínio masculino
na amostra da CAPES - talvez um peso maior de bolsas para as áreas de en-
genharias, ciências exatas/ terra e ciências agrárias explique esta diferença
em prol dos homens1.
Para complementar este quadro da desigualdade no sistema científico
construiu-se um indicador de poder baseado na presença feminina nos comitês

1 Dados obtidos pela Coordenação de Programas em Educação e Ciência da Secretaria de Políticas para
as Mulheres junto a CAPES/MEC em agosto de 2010.

147
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

avaliadores da pós-graduação nacional do CNPq, em 2010. Construir este in-


dicador tem como justificativa o fato de que aquele é um espaço de poder
no sistema científico, pois cabe aos comitês decidir sobre os pedidos de
auxílios e bolsas de pesquisas concedidas à comunidade científica; e essas
decisões são muito importantes para os diversos grupos de pesquisa das
universidades e institutos de pesquisa nacionais. O critério de escolha des-
tes membros passa por uma consulta à comunidade e os integrantes dos
comitês têm mandato definido pela legislação. Já tínhamos uma experiên-
cia anterior com um indicador similar construído numa pesquisa elabora-
da por uma rede de pesquisadoras feministas coordenada pela UNESCO
e Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI) intitulada GenTec. Este
indicador foi elaborado com os dados do triênio 2002/04, dos Comitês
de Assessoramento da CAPES/MEC e CNPq (MELO, H.; LASTRES, H.,
2003). O indicador de empoderamento construído com estes dados mos-
trou que o poder no espaço científico é um privilégio masculino. Havia
comitês, tanto no CNPq como na CAPES, com presença massiva masculina
em todos os níveis de representação. Nossa surpresa não foi maior quando
refizemos estes cálculos apenas para o CNPq para 2010.
No momento, no CNPq os comitês são compostos de membros ti-
tulares e suplentes e em agosto de 2010 foi feita uma avaliação por sexo
dos membros destes comitês. O resultado está apresentado na tabela 4. Os
Comitês de Assessoramento são agrupados em três grandes áreas de co-
nhecimento: Humanas e Sociais Aplicadas, da Vida e Exatas, Terra e En-
genharias. A cultura patriarcal ditada pelas histórias das mulheres ainda
explica a menor presença feminina em carreiras profissionais “ditas” como
masculinas; os grupos sociais tendem a fazer escolhas baseadas na tradição
e na experiência acumulada (MELO et alli, 2004; SCHIEBINGER, 2001).
Esperava-se, assim, que pelo menos no Comitê de Assessoramento de Ci-
ências Humanas e Sociais Aplicadas houvesse um predomínio de mulhe-
res, já que as carreiras que compõem este campo disciplinar são as escolhas
preferidas do sexo feminino. Mas, apesar do avanço feminino na sociedade
brasileira, este indicador aponta para uma maior presença de mulheres no
Comitê. Há, contudo, um predomínio dos homens. O poder masculino
resiste e isto acontece nos titulares e suplentes. Nos outros Comitês, as
mulheres têm presença muito baixa; nas Ciências da Vida, onde existem
mais pesquisadoras e professoras, “elas” não têm nem um terço de repre-

148
Hildete Pereira de Melo

sentação; nas Ciências Exatas, da Terra e nas Engenharias já era esperado


uma baixa participação, talvez pouco maior que 10%, mas infelizmente a
participação ficou aquém (tabela 4). Este indicador de poder explicita a
tese da ausência das mulheres nos postos de poder, seja na política como
no sistema científico e tecnológico. O “mando” foi e é masculino. Embora
os homens da ciência sejam pessoas de mentes abertas, este espaço de po-
der continua impermeável ao clamor de igualdade das mulheres.
Essa constatação coloca imediatamente uma questão: já que não há
mais nenhuma discriminação legal, qual a razão de tão poucas ocuparem po-
sições relevantes no sistema científico e tecnológico? Há certamente algumas
dificuldades em conciliar a vida familiar e a afetiva com a grande dedicação
exigida pela prática da ciência, sobretudo considerando-se as atuais exigên-
cias de “produtividade” e a enorme competição inerente à atividade. Afinal,
as mudanças na estrutura familiar ainda não foram suficientes para levar os
homens a dividir com as mulheres a condução da vida doméstica, aí incluído
o cuidado com os filhos de modo igualitário. Por outro lado, talvez a socieda-
de brasileira ainda mantenha uma visão estereotipada - calcada num modelo
masculino tradicional - do que seja um profissional da ciência. E certamente
faltam às mulheres modelos positivos - as grandes cientistas que lograram
conciliar sucesso profissional com vida pessoal realizada. Para quebrar os
estereótipos femininos, para que novas gerações possam se mirar em novos
modelos, é necessário resgatar do esquecimento mulheres que inadvertida
ou deliberadamente permaneceram ocultas na história da ciência brasileira
(MELO e RODRIGUES, 2006).
As mudanças lentamente vão legitimando-se e por isso é necessário
que estudos e pesquisas desmistifiquem a imagem partida feminina e que
a ciência não é um lugar exclusivo dos homens, mas de quem tem talen-
to para desempenhar estas funções, seja homem ou mulher. Infelizmente,
essa literatura não tem sido sensível à temática de gênero. Estes estudos
ignoraram que mulheres e homens têm trajetórias diferenciadas e que é ne-
cessário conhecer os dados por sexo das situações analisadas para compre-
ender o papel de cada um no mundo científico e tecnológico. Tal critério,
sob aparente neutralidade, de fato iguala os que não são iguais no acesso às
carreiras científicas e tecnológicas.

149
150
Tabela 4 - Brasil, Comitês de Assessoramento CNPq nas Grandes Áreas, segundo o sexo, 2010
Titular Suplente
Área do
Sexo Sexo
Conhecimento
Fem. % Masc. % Total % Fem. % Masc. % Total %
Ciências
Humanas
25 42,37 34 57,63 59 25,21 11 47,83 12 52,17 23 22,77
e Sociais
Aplicadas
Ciências da
24 26,09 68 73,91 92 39,32 10 25,64 29 74,36 39 38,61
Vida
Ciências
Exatas
Ciências 8 9,64 75 90,36 83 35,47 3 7,69 36 92,31 39 38,61
da Terra
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Engenharias
Total 57 24,36 177 75,64 234 100,00 24 77 76,24 101 100,00
Fonte: CNPq, site acessado em 19/08/2010.
Hildete Pereira de Melo

Uma política pública feminista!

Conscientes desta invisibilidade das mulheres no campo científico, a


Secretaria de Políticas para as Mulheres criou um programa de Educação e
Ciência e, desde 2005, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvi-
mento Científico e Tecnológico (CNPq) do Ministério de Ciência e Tecnolo-
gia (MCT), Ministério da Educação (MEC) e o Fundo de Desenvolvimento
das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), formulou o Programa Mulher
e Ciência com o objetivo de estimular a produção científica no campo das
relações de gênero no Brasil e o empoderamento das mulheres nas carreiras
científicas. A seguir apresentamos em linhas gerais as ações desenvolvidas
por este Programa:

Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero

Este prêmio é um concurso composto de redações e artigos científicos


que tratam das questões de gênero, mulheres e feminismos. O ano de 2010
marca a sua sexta edição, da qual participaram nas cinco edições anteriores
cerca de 12 mil estudantes de todo o Brasil (tabela 5).
Este concurso premia redações e artigos científicos dos estudantes de
Ensino Médio, estudantes de graduação, graduados, especialistas, estudantes
de Mestrado, mestres e estudantes de Doutorado. Para fomentar melhor a
perspectiva de gênero no meio educacional, em 2009 foi criado um prêmio es-
pecial para as escolas de nível médio: Escola Promotora da Igualdade. A sexta
edição (2010) distribuirá cerca de 400 mil reais em prêmios, além das bolsas de
estudo (CNPq) que são concedidas aos premiados de todas as categorias.

151
152
Tabela 5 - Inscrições no Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, todas as edições
Trabalhos Inscritos - 2005-2009
Categoria 2005 2006 2007 2008 2009 TOTAL
Aluno de Ensino Médio 1270 1284 620 2299 2976 8449
Aluno de Graduação 141 154 171 218 271 955
Graduado - - 429 485 - 914
Aluno de Pós-Graduação 176 207 - - - 383
Graduado, Especialista e Aluno de
- - - - 283 283
Mestrado
Mestre, Aluno de Doutorado - - - - 156 156
Escola Promotora da Igualdade de
- - - - 17* 17
Gênero
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

TOTAL 1587 1645 1220 3002 3686 11140


Fonte: Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM/PR), janeiro de 2010.
Hildete Pereira de Melo

Edital de Fomento à Pesquisa em Feminismos, Mulheres e


Relações de Gênero

Em convênio com o CNPq/MCT a SPM desenvolve uma linha de finan-


ciamento para projetos de pesquisa no campo dos Estudos de Relações de Gê-
nero, Mulheres e Feminismos. Já foram organizados dois editais e no segundo
semestre de 2010 o terceiro edital (2010) está aberto, no valor de 7 milhões
de reais, com encerramento em 7 de outubro de 2010. À obstinação da SPM e
do CNPq juntou-se o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e isto
possibilitou o aumento deste financiamento ao longo desta gestão. Foram 1,5
milhão e meio de reais em 2005, que foi elevado para 5 milhões de reais em
2008 e finalmente agora, em 2010, alcançou o montante de 7 milhões de reais.
O montante de sete milhões reais do edital de 2010 é muito próximo ao
apoio dado este ano pelo CNPq e CAPES às Ciências Humanas e Sociais no va-
lor de oito milhões de reais, o que demonstra a importância que este campo de
estudos ganhou nesta gestão. Os dois primeiros editais apoiaram diretamente
303 pesquisas de universidades brasileiras de todo o país.
É preciso lembrar que pela primeira vez na história da ciência brasileira
foram abertas linhas de financiamento para as questões de gênero. Ainda é
pouco, mas é preciso ter perseverança e construir parcerias com os órgãos go-
vernamentais encarregados da política de fomento científico no País para que
esta linha de financiamento permaneça para os próximos anos.

Outras ações

A SPM organizou dois eventos nacionais com a comunidade científica


- PENSANDO GÊNERO E CIÊNCIA, edições 2006 e 2009, com expressivo
número de participantes para debater o papel das mulheres na Ciência e Tec-
nologia. Além de apoiar a realização de encontros, há seminários sobre estes
temas que os diversos núcleos de estudo têm realizado pelo Brasil afora ao
longo destes anos.
Uma linha de ação foi desenvolvida pela SPM para ampliar a linha de
publicações no campo dos Estudos de Gênero, Mulheres e Feminismos. Publi-
camos diretamente mais de 50 títulos e temos apoiado a publicação de resulta-
dos de encontros, seminários e trabalhos de diferentes pesquisadoras e grupos
de pesquisa nacionais.

153
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Podemos afirmar também que os milhares de textos elaborados pela so-


ciedade brasileira nas sucessivas edições do Prêmio Construindo a Igualdade
de Gênero são indiretamente reflexões sobre feminismo e gênero induzidas
por esta política da SPM.
Outro destaque refere-se ao fomento à pesquisa de relações de gêne-
ro nos estados brasileiros, sendo que as iniciativas da SPM têm contribuído
para que organismos estaduais de políticas para as mulheres e Fundações de
Apoio à Pesquisa Estaduais (FAPs) tenham desenvolvido linhas de fomento a
pesquisas neste campo de estudo, como já aconteceu nos estados de Sergipe,
Pernambuco, Maranhão e Goiás.

Considerações finais

Pode-se afirmar que o Brasil tem intensificado os esforços para acelerar


e aprofundar as mudanças; vencer a cultura patriarcal e transformar as relações
de gênero. As ações e atividades relatadas brevemente acima representam este
esforço, apontam os campos que foram prioritários e a reafirmação do pro-
blema dos estereótipos de gênero associados às áreas de atuação profissional.
Valorizam o campo de estudo das relações de gênero, mulheres e feminismos e
promovem a reflexão sobre estas questões na sociedade brasileira.

Referências

BANDEIRA, Lourdes M.; MELO, Hildete P. de.; PINHEIRO, Luana S. Mulhe-


res em Dados - o que informa a PNAD/IBGE, 2008. Revista do Observatório
BRASIL da Igualdade de Gênero. Secretaria de Políticas para as Mulheres da
Presidência da República. Edição especial. Brasília, julho de 2010, p. 107-119.

GARCIA, Marta I. G. & PÉREZ SEDEÑO, Eulalia. Ciência, Tecnologia e Gê-


nero. In: SANTOS, Lucy W.; ICHIKAWA.; Elisa Y.; CARGANO, Doralice de F.
(orgs.). Ciência, Tecnologia e Gênero - desvelando o feminino na construção do
conhecimento. Londrina: IAPAR, 2006, p. 33-72.

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Síntese de Indicadores


Sociais, 2008. Rio de Janeiro, 2009.

154
Hildete Pereira de Melo

MELO, Hildete P. de & LASTRES, Helena M. BRASIL, Gênero, Ciência, Tecno-


logia, Inovação - um olhar de gênero. UNESCO, OEI, Relatório Final do Projeto
Iberoamericano de Gênero, Ciência e Tecnologia (GenTec). Capítulo Brasil,
2003, 68p.

MELO, Hildete P. de., LASTRES, Helena M. & MARQUES, Teresa C. de N.


Gênero no Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil. Revista Gêne-
ro. v. 4, n. 2. Niterói: NUTEG/UFF, 2004, p. 73-94.

MELO, Hildete P. de.; RODRIGUES, Ligia C. Pioneiras da Ciência no Brasil. So-


ciedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Rio de Janeiro, 2006, 47 p.

MELO, Hildete P. de. Um olhar de gênero sobre o Sistema de Concessão de Bol-


sas de Pesquisa no CNPq - 2001/2008. 2º ENCONTRO NACIONAL DE NÚ-
CLEOS E GRUPOS DE PESQUISA – PENSANDO GÊNERO E CIÊNCIAS.
Anais. Secretaria de Políticas para as Mulheres. Brasília: 2010, p. 176-191.

MEC - Ministério de Educação. Censo Escolar - Educação Básica, 2007.

SCHIEBINGER, Londa. O Feminismo mudou a Ciência? Bauru: EDUSC, 2001,


381p.

VIOTTI, Eduardo. (coord.). Doutores 2010: estudo da demografia da base téc-


nico-científica brasileira. CGEE - Centro de Gestão de Estudos Estratégicos do
Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Brasília, DF, 2010.

155
CAMINHOS TRANSVERSAIS
DOS FEMINISMOS E DOS
MOVIMENTOS SOCIAIS

Maria Amélia de Almeida Teles

... o encontro entre os grupos feministas e os


movimentos populares de mulheres que não
reivindicavam-se feministas ainda, e, muitas
vezes até repulsavam o feminismo, no decor-
rer dos anos 1970 e 1980 aproximaram-se
do feminismo e contribuíram para que este
se estabelecesse como movimento de massas.
E, pode-se dizer que, no país ... o feminis-
mo contemporâneo assumiu desde o início
uma dimensão claramente reivindicatória
e transformadora: mudar a situação da
mulher implicando mudar a pouco demo-
crática e extremamente desigual sociedade
brasileira. O programa das feministas, neste
sentido, incluía reivindicações “específicas”
(creche, mudanças na legislação da família,
etc.) e “gerais” (o fim da ditadura, uma so-
ciedade socializada, etc.)
MORAES, 1997 p.301.

1 Extraído de MORAES, Maria Lygia Quartim de. O Feminismo e a vitória do neoliberalismo. In: Mônica
Raisa Schpun (org). Gênero sem fronteiras, oito olhares sobre mulheres e relações de gênero. Florianópolis:
Mulheres, 1997.

157
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Como ativista feminista desde os anos de 1970, constantemente sou


indagada: Como andam os feminismos? Como se organizam na atualidade?
Quem se interessa pelos feminismos? Mulheres com maior ou menor escolari-
dade? Mulheres de alto poder aquisitivo ou com menor potencial de consumo?
Não estaria ultrapassada a ideologia feminista? Expressões como patriarcado
não fazem mais sentido, hoje em dia, você não acha? Os movimentos estão co-
optados? Institucionalizados? Os movimentos feministas são populares? Como
os movimentos feministas se relacionam com os movimentos populares?
Estas indagações também fazem parte de um projeto de pesquisas que
reúne feministas de diversos países e de algumas universidades num grupo de
pesquisadoras/es e militantes feministas, das quais eu sou uma destas.
Não pretendo responder a estas perguntas neste texto. Aqui coloco no pa-
pel algumas inquietações que me perseguem. Algumas coincidem com as levan-
tadas acima. Na condição de uma das coordenadoras do Projeto de Promotoras
Legais Populares (PLPs) que se desenvolve em diversos municípios e estados
brasileiros - no Estado de São Paulo temos um contingente de 5 mil promotoras
legais populares, tenho contato com experiências diversas, mulheres que buscam
obter respostas feministas para as suas demandas, de modo frequente, com mu-
lheres populares, ou seja, mulheres com militância política em movimentos de
moradia, de saúde, de educação, entre outros, de poder aquisitivo baixo ou mé-
dio, pertencentes aos segmentos da população negra, imigrantes, lésbicas, dos
sindicatos, periferias e até integradas em universidades.
Atualmente na coordenação deste trabalho, há uma participação dire-
ta de jovens (Coletivo Feminista Dandara da Faculdade de Direito da USP)
responsáveis pelas atividades de formação junto às PLPs com a realização de
oficinas, debates, palestras, entre outras.
Tenho tido também oportunidade de dialogar, debater e trocar experi-
ências com diversas comunidades de homens e mulheres que se reúnem em
sindicatos, em espaços religiosos e mesmo em espaços políticos, movimentos
sociais ou em ONGs.
O título que eu dei a este texto refere-se às andanças transversais dos femi-
nismos nos movimentos sociais, apresentadas em várias manifestações feminis-
tas, em que mulheres populares se autodefiniam mulheres populares feministas
em meados dos anos de 1980, o que alavancou a aproximação de negras, rurais,
mulheres da periferia, dos sindicatos às feministas brancas ou não, da classe
média ou não, mas de esquerda, em sua maioria. É interessante lembrar que
quase uma década atrás (anos 1970) as feministas buscavam as populares em

158
Maria Amélia de Almeida Teles

suas comunidades, bairros periféricos e sindicatos. Já em meados da década de


1980, com o processo de redemocratização, e com a difusão de ideias feministas,
muitas feministas passaram a ter outras atividades, e não mais nos movimentos
de mulheres, como atuar nos incipientes órgãos governamentais voltados para as
questões das mulheres, nos partidos políticos, em articulações sindicais, nas uni-
versidades e em grupos autônomos dentre os quais alguns se transformavam em
ONGs. As populares reclamavam das feministas a ampliação dos espaços femi-
nistas para que elas também pudessem participar. Deu-se, portanto, o caminho
inverso: não eram mais as feministas que buscavam as mulheres da periferia,
eram estas que buscavam as feministas.
As mulheres populares a que me refiro aqui são aquelas com baixo po-
der aquisitivo ou não que têm como objetivo participar dos movimentos para
mudar sua vida e transformar a sociedade em justiça e dignidade. Não excluo
aqui, portanto, as mulheres de classe média que assumiram o compromisso de
defender ideais de justiça e igualdade desde que criem ou busquem espaços
para que as sem ou com pouco poder aquisitivo também participem.
Ao pensar e avaliar as relações dos feminismos e dos movimentos so-
ciais populares, compartilho com Moraes da ideia de que não começamos
do zero. Iniciativas como as que eu mencionei no parágrafo anterior já ocor-
reram nos anos 1970 e 1980 e aproximaram de uma tal forma feministas e
populares em nossos movimentos, que tornou-se possível realizar manifes-
tações massivas de mulheres. Exemplos: a data do dia 8 de março, passea-
tas contra a violência sexista e os encontros de mulheres, as conferências
de mulheres que se desenvolvem em todo território nacional, seminários,
debates, protestos, dentre tantas manifestações. Em todos estes eventos, as
mulheres populares expressavam e expressam essa mistura de classe média,
periferia, urbanas e rurais, onde se reúnem brancas, negras, amarelas e indí-
genas, velhas, jovens e adultas do campo e da cidade, das comunidades, das
universidades, dos partidos políticos, das diversas religiões e dos sindicatos,
sejam lésbicas, bissexuais ou heterossexuais.
De cada um destes momentos dedicados à expressão política dos mo-
vimentos feministas e de mulheres surgem e ampliam-se novos repertórios,
novas e velhas bandeiras consolidam-se, entre as participantes, desenvolvem-
se discursos, pensamentos e identidades feministas.
O feminismo em nosso país e provavelmente em nossa região se espa-
lhou em tecidos sociais de características diversas, enfrentando e convivendo
no cotidiano com os limites e as transgressões às fronteiras das classes sociais,

159
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

raça/etnia, orientação sexual, cultura local, regional e global, com linguagem,


idiomas e também necessidades e temáticas distintas.
O 4º Encontro Latinoamericano e Caribenho, ocorrido no México, em
1987, é exemplo e “mostrou o crescimento do feminismo quando mulheres
de vários setores sociais se proclamavam feministas. As mulheres do Coletivo
Ven Seremos consideraram que o mais gratificante do encontro

foi ver que o feminismo vem atingindo setores que há dez anos eram im-
pensáveis. Ao ouvir, numa plenária, companheiras de outros países, em pé
de guerra, que hoje se denominam feministas, ao ouvir religiosas reivindi-
carem uma Teologia Feminista de Libertação e defender o direito ao aborto,
e ao ver igualmente a participação das mulheres do movimento urbano po-
pular reconhecerem a necessidade da dupla luta, a de classe e a de gênero,
constatamos que o feminismo está vivo e crescendo, adotando novos rostos
e fisionomias (TELES,1993, p. 156).

Foi nesta ocasião que foram adotadas, amplamente, e com mais frequ-
ência, práticas lúdicas com dinâmicas de trabalhar entre as próprias mulheres
os temas do feminismo nos quais razão e emoção pudessem ter uma expressão
equilibrada.
Começam a ser criados, então, os feminismos, dada a diversidade temá-
tica e de sujeitos políticos, protagonistas de suas histórias e lutas. Há necessi-
dade de se empregar a expressão feminismos.
No meio de tantas desigualdades e diferenças, tudo isso não ocorreu
nem ocorre sem conflitos explícitos ou não, compreendidos, incompreendi-
dos, com alaridos e silêncios. Apresentam-se as dificuldades de superação,
há obstáculos e barreiras longe de ser removidos, o que leva à fragmentação,
muitas vezes. No Brasil, com um território grande, proliferam-se movimentos
nascidos e impulsionados pelos feminismos e que têm dificuldades de dialogar
entre si; não se comunicam mesmo considerando que os grandes avanços das
tecnologias de informação e comunicação encurtam distâncias e reduzem o
espaço e o tempo. E o que mais nos surpreende são porta-vozes dos mesmos
ideais e objetivos que estão voltados para mulheres populares. Talvez sejam
um pouco distantes nas práticas ou talvez adotem teorias distintas. Não tenho
tanta certeza disso. Mas talvez o que os levam a uma maior distância sejam
as disputas políticas presentes tanto para angariar financiamentos como para
ocupar espaços de poder. Nenhuma destas dificuldades impedem, contudo,
que os movimentos sejam atuantes, com capacidade incrível de capilaridade,

160
Maria Amélia de Almeida Teles

intervenção e portadores de bandeiras feministas históricas. Estas questões co-


locadas no movimento, entretanto, prejudicam ações unitárias de intervenção,
às vezes despolitizam estas ações, dispersam-se e sobrepõem-se, paradoxal-
mente, às forças vindas das mulheres.
O Brasil é um país capitalista e como os demais tem um jeito ora sutil
de explorar e subjugar as mulheres, ora mais intenso e violento. Durante a
ditadura militar as feministas tiveram um papel preponderante de enfrenta-
mento à ideologia patriarcal - dentro e fora de casa - que se impunha de forma
brutal. Tornou-se famosa a reivindicação das chilenas: Democracia em casa e
nas ruas! Tiveram que enfrentar a ideologia e práticas de ordem patriarcal nas
prisões, nas torturas e sob todas as formas de violência estatal.
Flávia Schilling, presa política pela ditadura do Uruguai, fala em um
dos seus depoimentos de memória que nós éramos feministas antes mesmo de
eclodir o feminismo daquela época. Os militares se incomodavam muito de
ver mulheres na luta armada e queriam “nos puxar para dentro de um campo
conhecido e tradicional, como se tivéssemos sido vítimas do marido ou do
namorado”2.
O estado democrático, em construção, continua a desvalorizar e subes-
timar as mulheres, fazendo-as submeter-se à manutenção da discriminação
histórica que pesa sobre elas. Mas não é só. Convive-se com forças políticas e
religiosas conservadoras que desrespeitam os direitos das mulheres e mantêm a
mentalidade e práticas que contribuem para a violência de gênero, a violação de
direitos e ferem a sua dignidade humana. Portanto, nossos feminismos enfren-
tam situações de opressão patriarcal tanto nos espaços públicos como privados.
Só lembrando que recente pesquisa, “Mapa da Violência 2010”, feita pelo Institu-
to Zangari, mostra que a cada 2 horas uma mulher é morta no Brasil3.
Os movimentos de mulheres e feministas buscam ações que alcancem
reivindicações imediatas, mas ao mesmo tempo precisam atuar na construção
da autonomia e na desconstrução da identidade imposta, na expressão de seus

2 A Ditadura de Segurança Nacional. v. 3. Conexão Repressiva e Operação Condor, p. 152.


3 Dados do Disque-Denúncia, do Governo Federal, mostram que a violência ocorre na frente dos filhos:
68% assistem às agressões e 15% sofrem violência com as mães - fisicamente. Uma mulher é assassinada
a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º no ranking mundial de homicídios de mulheres.
A maioria das vítimas é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que
foram rejeitados por elas. Segundo o Mapa da Violência 2010, 40% dessas mulheres têm entre 18 e 30
anos, a mesma faixa de idade de Eliza Samudio, 25 anos, que teria sido morta a mando do goleiro Bru-
no. Em dez anos (de 1997 a 2007), 41.532 meninas e adultas foram assassinadas - estudo dos homicídios
feito com base nos dados do SUS.

161
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

próprios valores, precisam desenvolver a consciência crítica feminista sobre


a vida pessoal, política e suas relações dialéticas que se dão na família e em
outras instituições da vida em sociedade.
Nos movimentos de mulheres populares, no Brasil, há as que se declaram
feministas, feministas e classistas, feministas antirracistas, feministas antirracistas
e antihomofóbicos. Há as que se organizam de forma autônoma e as que se or-
ganizam de forma mista. Estas estão dentro de sindicatos, instituições religiosas,
partidos políticos. Há movimentos de mulheres negras e de mulheres indígenas.
As imigrantes têm muito mais dificuldade de se organizarem, mas tentam. As tra-
balhadoras do sexo ou prostitutas se organizam também com dificuldades.
Dentro deste cenário destaca-se o emaranhado de movimentos que se
autoproclamam feministas, outros que temem se intitular feministas, mas to-
dos compostos de mulheres populares; outros se declaram mulheres negras
antirracistas ou movimento de lésbicas e feministas.
Há algumas ONGs localizadas nas diversas regiões brasileiras que são
feministas, autônomas e têm uma certa estabilidade política e financeira. Re-
presentam uma força significativa dos feminismos e trabalham para que se
multipliquem suas forças nos diversos movimentos sociais.
Torna-se difícil classificar estes movimentos, pois eles se agrupam e se
dispersam com frequência e suas integrantes se deslocam para outras temáti-
cas ou movimentos, ou deixam de participar por estarem empregadas ou de-
sempregadas, grávidas e com muitos afazeres pessoais.
As mulheres têm tido oportunidade de refletir de forma coletiva a res-
peito de suas experiências, principalmente nos movimentos de mulheres, mas
também em sindicatos ou nos locais de trabalho, nas escolas ou em alguns
espaços religiosos. Ali começam a pensar se são ou não feministas. Nas Igrejas,
os espaços que se referem às perspectivas feministas encontram-se cada vez
mais estreitos e reprimidos, com limites rigidamente pautados pelo dogmatis-
mo, o que reforça os estereótipos, produzindo uma ambiguidade nos feminis-
mos ali revelados.
Assim manifesta uma feminista, promotora legal popular:

As maiores dificuldades que enfrento no momento são de ordem


religiosa, porque uma das reivindicações feministas, o direito ao
aborto, esbarra em recomendações doutrinárias da filosofia reli-
giosa que adoto. Entretanto, considero que o sistema público de
saúde deve garantir condições adequadas para a mulher que deseja

162
Maria Amélia de Almeida Teles

abortar, aliado a condições que garantam à mulher o planejamen-


to familiar e criar/cuidar dos filhos4.

Nos demais espaços, como os sindicatos ou partidos políticos, os feminis-


mos causam um certo incômodo, um desconforto. De um modo geral, tem se lan-
çado mão da expressão “gênero” que tem sido amplamente usada, com significados
ainda que reduzidos, para introduzir as reflexões e propostas de lutas das mulheres.
Os significados de gênero, nos espaços mencionados, vêm sendo entendidos como
“mulheres” ou “relações entre homens e mulheres” ou mesmo “desigualdade entre
os sexos”. Emprega-se o termo também para designar “mulheres” ou “questão das
mulheres”. Na realidade tende-se a priorizar a expressão gênero, considerada bem
mais palatável. No entendimento frequente, nestes espaços populares feminismo
seria exclusão dos homens, enquanto gênero incluiria os homens. Com isso assun-
tos como o direito ao aborto ou a violência contra as mulheres são marginalizados
ou tratados como questões menores. Confunde-se ser feminista com a negação
de ser feminina mesmo nos espaços de jovens. Em espaços de jovens com maior
escolaridade, os feminismos seriam assuntos superados, pois as mulheres “moder-
nas” já têm todos os direitos iguais aos dos homens. Ou seja, as jovens feministas
também enfrentam dificuldades para tratar do tema. Às vezes, ouvindo as jovens,
tenho a sensação de que “já assistimos a este filme”.
Uma das jovens do Coletivo Feminista Dandara5 deu o seguinte depoi-
mento:

Outro argumento comum consiste na afirmação de que o feminismo “divi-


de a luta”, vale dizer que o feminismo se contrapõe às demais lutas sociais
- isso é afirmado com ainda mais ênfase em face de grupos auto-organizados
como o Dandara. Também nos deparamos com companheiros que entendem
a opressão contra as mulheres como uma questão meramente individual e
concernente apenas às ditas mulheres “mal resolvidas” (sob a ótica patriarcal),
proferindo frases como “mas fulana é tão bem resolvida, não sei por que é
feminista”. Por fim, em espaços mistos é comum que a questão da dominação
- exploração das mulheres - seja uma pauta relegada em face de “urgências”
que determinam o adiamento das discussões sobre a opressão de gênero que,
quando muito, é feita de forma apressada e superficial. Desta feita, tais seg-
mentos dos movimentos sociais que se pretendem emancipatórios acabam

4 Depoimento de uma promotora legal popular de São Paulo colhido via internet em 13 de julho de 2010.
Seu nome é Raydália Coelho Lopes Bittencourt.
5 Coletivo Feminista Dandara é uma organização autônoma de mulheres, estudantes de Direito da Facul-
dade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

sendo absolutamente coniventes com a desigualdade de gênero; quando ela


não é reforçada, eis que a estrutura de tais organizações é frequentemente
permeada de sexismo. No âmbito do movimento estudantil, a participação
política das estudantes é muitas vezes tolhida em razão da violência políti-
ca que elas sofrem inclusive dentro de suas organizações. No cotidiano do
movimento estudantil, as mulheres são muitas vezes deslegitimadas com
“brincadeiras” carregadas de sexismo6.

Como fruto de resistência e desejo de mudança, no Brasil, há movimen-


tos feministas populares bastante consolidados. As ideias feministas e, princi-
palmente, suas bandeiras de luta, encontram uma certa receptividade no meio
das mulheres. Há momentos de maior pico e em outros há um certo refluxo,
como ocorre com qualquer outro movimento social. Mas é certo que a luta
continua e recria bandeiras e novas formas de se apresentar em público.
Alguns desafios apresentados no avanço da participação e organização
dos movimentos feministas merecem destaque:
1) A desigualdade entre as próprias mulheres, o que traz implicações em
conciliar interesses e formas de manifestar-se, organizar-se. A própria dimen-
são da subjetividade torna-se distante entre as próprias mulheres a partir de
sua classe social, de sua raça/etnia, de sua orientação/identidade sexual, de sua
faixa etária, entre outros fatores usados para reforçar a discriminação histórica
contra as mulheres, o que atinge o campo individual como coletivo.
2) Há uma forte presença de ideias essencialistas nos movimentos sociais
que acreditam que basta ser mulher para ser feminista. A visão essencialista7

6 Depoimento de Ligia Trindade, do Coletivo Feminista Dandara, colhido via internet em 13 de julho de 2010.
7 Para o essencialista, o natural fornece a matéria-prima e o ponto de partida determinante para as práti-
cas e leis do social, pois a diferença sexual precede qualquer diferença social. Em oposição a esta teoria,
o construcionista acredita que o próprio natural é uma construção do social. Assim sendo, a diferença
sexual é discursivamente produzida e formada como efeito do social. Enquanto o essencialista sustenta
que o natural é reprimido pelo social, o construcionista mantém a ideia de que o natural é produzido
pelo social (FUSS, 1989: p. 251). Deste modo, o construcionismo baseia-se no argumento de que as
“mulheres” constituem uma categoria historicamente específica e socialmente construÍda. Categorias
como “homem” e “mulher” não são fixadas pela natureza e muito menos se consubstanciam numa
essência natural imutável. Pelo contrário, são socialmente construídas e variam consideravelmente de
uma cultura para outra e de um momento histórico para outro. Um dos tópicos de maior interesse para
os construcionistas sociais tem sido o gênero e a sua construção social. Os construcionistas sociais
veem o gênero não como uma característica do indivíduo - como os essencialistas fazem, mas como um
processo que lhe é externo. O gênero é definido pelas interações entre as pessoas, pela linguagem e pelo
discurso de uma cultura. Os construcionistas sociais argumentam que não existem essências verdadei-
ras, mas que a realidade é socialmente construída, e, por isso, os fenômenos são construções sociais,
produto de uma cultura particular, língua e instituições. Dossier: Em Defesa da Utopia/Essencialismo
e Construcionismo na Ficção Utópica de Charlotte Perkins, Gilman/Herland e Withher em Ourland.
Consulta feita ao Google: ler.letras.up.pt/uploads/ficheiras/5175.pdf, em 17/09/2010.

164
Maria Amélia de Almeida Teles

parte da ideia de que as mulheres são naturalmente feministas. Não se dão


conta de que os feminismos baseiam-se numa teoria crítica da sociedade que
deslegitima e desconstrói a concepção patriarcal, o que contribui para emergir
sujeitos políticos e protagonistas de sua história que buscam direitos e espaços
políticos e sociais, de um lado. Por outro lado, enfrentam profundas contradi-
ções sociais que se estendem nas instituições sexistas e misóginas. Os feminis-
mos nos movimentos sociais significam impactos quantitativos e qualitativos.
Mais mulheres e homens que exercem direitos com autonomia e com a pers-
pectiva de igualdade social, política e econômica para os sexos. Mulheres femi-
nistas que abordam com consciência crítica não aceitam a situação da maioria
que vive em condições de subalternidade como algo dado, normal e imutável.
Propõem o aprofundamento das causas culturais discriminatórias a que estão
submersas pra transformar relações desiguais de poder em igualdade e equida-
de de gênero, raça/etnia e classe social. Enfrentam a divisão sexual do trabalho
como fator preponderante na causa e na manutenção das desigualdades. Com
isso, quero dizer que não basta ser mulher, mas é necessário toda esta visão
crítica para pensar e agir em favor dos feminismos. Caso contrário - o que
ocorre em diversas situações - são produzidos resultados que reforçam os este-
reótipos devido a uma baixa visão crítica feminista para intervir na realidade
social numa perspectiva transformadora. As mulheres acabam assumindo um
comportamento de submissão.
3) O desconhecimento ou o não querer tomar conhecimento sobre a
discriminação histórica das mulheres por parte dos movimentos, inclusive de
mulheres, que não assumem concretamente a responsabilidade de mudar ou de
contribuir para mudar esta realidade. Os feminismos são impelidos ao enfrenta-
mento contra as estruturas sociais existentes, mas também contra as mentalida-
des das próprias mulheres que interiorizam os modelos sociais patriarcais que as
culpabilizam e as responsabilizam por sua opressão e exploração.
4) O desafio da participação feminista nos espaços de decisão de ordem
política, econômica e publicitária provoca ora um avanço, ora torna-se um
obstáculo, o que provoca um entrave ou isolamento dos feminismos, o que faz
prevalecer estereótipos, reforçando a representação social de mulheres como
objetos sexuais e mercadorias. As mulheres são a “moda” na política neste mo-
mento eleitoral. Nem por isso deixaram de serem tratadas como objeto de ma-
nipulação na mídia e em apresentações publicitárias.
5) A sobrecarga de trabalho e de responsabilidade sobre as mulheres,
principalmente as pobres, negras e de baixo poder aquisitivo tem sido a causa

165
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

do estresse, da baixa qualidade de vida e da falta de condições de participar, inter-


ferir e decidir. Não podemos deixar de destacar que a primeira causa mortis das
brasileiras, em idade reprodutiva, ou seja, de 15 a 45 anos, é o AVC, acidente vascu-
lar cerebral, seguidas de AIDS e homicídio (que provavelmente seria femicídio).
6) Nos movimentos populares as desigualdades de classe são mais des-
tacadas que as desigualdades de gênero. Assim, os movimentos populares
ainda se mostram incapazes de incorporar a sua prática cotidiana e estraté-
gica às reivindicações, interesses e necessidades das mulheres. A questão da
desigualdade sexual não é central nem prioridade. O que se pode afirmar é
que as feministas são consideradas um valor positivo quando elas participam
dos movimentos populares - sem insistir em destacar suas bandeiras. Ou seja,
todos os movimentos recebem bem a adesão das feministas às suas causas,
mas quase sempre não aderem às causas feministas. A discriminação contra as
mulheres é ainda tida como uma questão secundária.
7) Os mais graves desafios são aqueles apresentados pelos próprios mo-
vimentos feministas como o medo de se expor e criar incompatibilidades com
forças políticas que se encontram no poder; cautela em mostrar sua indigna-
ção. Há uma preocupação em se mostrar e ser confundida com o processo de
cooptação ou o complexo de serem interpretadas como “mal amadas?” - o que
ainda é frequente em nossa sociedade; o jogo do silêncio: fingir que não ouviu
a crítica ou a demanda quando são difíceis de enfrentar; isolar-se em determi-
nadas bandeiras. Muitas vezes nossos feminismos vivem a angústia de viver a
contradição entre a especialização e a omissão. Falamos pouco das experiên-
cias individuais/pessoais, tornando nossos feminismos impessoais, imparciais,
neutros, sem tempero, empobrecendo a criação da consciência e identidade
coletiva. Ainda precisamos criar nas organizações feministas condições que
facilitem a incorporação das mulheres populares, principalmente quando estas
estão dispostas a atuar, a intervir, a participar, ou seja, temos que praticar a de-
mocracia dentro de nossos próprios movimentos. Lembrando Judith Astelarra
(2005): “como todo o projeto de grande envergadura é difícil que seja acabado
e rígido e, sem dúvida, devemos fazer o caminho ao caminhar”.
8) Como estamos sempre caminhando, estamos sempre fazendo o caminho.
Mas não há motivo para o “otimismo exagerado”. A “política do leite derramado”
tem sido a panaceia para as tragédias que ocorrem contra as mulheres. Não há por
que não responsabilizar o estado por omissão, negligência e ausência de iniciati-
vas para implementar políticas públicas que o obrigam a tomar as providências
necessárias e realizar as ações para alcançar a igualdade/equidade entre mulheres

166
Maria Amélia de Almeida Teles

e homens. É necessário investir nas políticas do cotidiano que deem conta das
mazelas milenares contra as mulheres que naturalizam a violência de gênero, a
divisão sexual do trabalho que alimentam o racismo e a homofobia.
9) Os nossos feminismos têm que se preparar para acolher de forma afeti-
va, política e efetiva a terceira geração de feministas, considerando as gerações
que vêm a partir dos anos de 1970. Há jovens de 20 e poucos anos que estão
principalmente nas universidades, mas também e que se declaram feministas.
Abraçam os feminismos, de forma autônoma, com força, carinho e muito empe-
nho. Suas falas apontam para uma participação densa e comprometida:

Acho que o ponto central do feminismo está na articulação das esferas pú-
blica e privada. Daí a importância do feminismo enquanto movimento que
luta por uma transformação substancial da condição das mulheres - vale
dizer que luta por uma transformação social profunda, contra o sistema
patriarcal, racista e capitalista e em prol da construção de uma outra so-
ciedade, que ultrapasse os limites da sociedade de classes; eis que reivindi-
camos um projeto global de emancipação. Indissociável dessa construção
coletiva está a questão individual, a questão das vivências de cada uma de
nós enquanto mulher em uma sociedade patriarcal. E aí está a riqueza do fe-
minismo: possibilitar a articulação da nossa história de vida com a história
da sociedade que oprime as mulheres, vale dizer, a articulação do individual
com o social (Ligia Trindade, Coletivo Feminista Dandara, USP).

Eu termino minhas anotações lembrando que o Brasil está sendo con-


siderado um dos países que mais mantém a desigualdade de gênero entre os
demais latino-americanos. Mesmo assim apresentou duas candidatas mulhe-
res para a Presidência da República, cujas trajetórias de vida são voltadas para
a defesa da justiça social. Os nossos feminismos conseguem romper barreiras,
sem dúvida. Continuaremos caminhando e fazendo caminhos. Estes caminhos
extrapolam nossos feminismos e se estendem aos muitos movimentos sociais,
levando-os a questionar a ausência de mulheres nas direções, assim como são
chamados a enfrentar as relações desiguais de gênero.

Referências

ASTELARRA, Judith. Libres e Iguales? Sociedad y política desde el feminismo.


Havana: Editorial de Ciências Sociales - Cuba, 2005.

167
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

CELIBERTI, Lilian. Articulación Feminista Marcosur. Uruguai: Cotidiano


Mujer. Montevideu, 2010. Serie: Desafios Feministas: reflexiones colectivas, es-
crituras horizontales.
SOUSA, Fátima.“Essencialismo e Construcionismo na Ficção utópica de
Charlotte Perkins Gilman: Herland e With her in Ourlandi.” Via Panorâmica:
Revista Electrónica de Estudos Anglo-Americanos /An Anglo-American Studies
Journal 2.ª ser.1 (2008): 83-98. Web. <http://ler.letras.up.pt>.

TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São


Paulo: Brasiliense, 1993.

168
DIMENSÕES DE CORPO
E BIO-POLÍTICAS
NEM MINOTAURO, NEM MATERNAL:
REPENSANDO O CONCEITO DE
PATERNALISMO NO CONTEXTO DA
FORMULAÇÃO DAS POLÍTICAS
DA MATERNIDADE

Ana Paula Vosne Martins

Historicamente, para um bom número de


homens a ideologia individualista da au-
toconfiança não foi uma realidade. Para as
mulheres ela nunca existiu.
Virginia Sapiro, 1986

R efletir sobre as maternidades contemporâneas requer inicialmente a com-


preensão de que este é um terreno atravessado por múltiplas determina-
ções e experiências sociais. Partimos de uma concepção pluralista da mater-
nidade e de sua inserção numa cultura marcada por valores conflitantes na
constituição e transformação das subjetividades nas quais o gênero pode ser
para muitos de nós uma experiência ou uma referência de autonomia, mas
que continua a ser também uma experiência de dependência e de limitação. A
maternidade é, sem dúvida, uma destas experiências da subjetividade de gêne-
ro que continua a nos colocar - como feministas - uma série de problemas, de
desafios e de questões em aberto que abarcam diferentes níveis da cultura, das
sociabilidades e da política. Pensada inicialmente pelas feministas da primeira
onda como o lugar positivo da diferença feminina por excelência, a mater-
nidade tornou-se, para as feministas da segunda onda, um problema quase
incontornável, uma marca da diferença feminina que foi associada por muitas
delas à dependência e à dominação.

171
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

O feminismo contemporâneo procura pensar a maternidade a partir


de referenciais teóricos que levam em consideração a diversidade de expe-
riências culturais, históricas, sociais e políticas não só das mulheres, mas
das instituições e das representações. Pensar a maternidade, portanto, requer
uma atitude reflexiva que dê conta da força das ideias e dos valores asso-
ciados à reprodução social e às relações de poder que constituem aspectos
importantes do gênero, mas é preciso também olhar para as margens, para
as possibilidades criadoras dos indivíduos e as complexas maneiras como
muitas vezes, a partir da dominação os indivíduos, transformam suas expe-
riências e suas subjetividades.
Uma atitude reflexiva sobre a maternidade contemporânea deve levar
em consideração o aspecto da reprodução social e da normatização, mas deve
igualmente considerar as formas políticas a partir das quais a sociedade e o
Estado recriam padrões normativos de gênero para afirmar o que entendem
por maternidade, delimitando comportamentos, estabelecendo condutas, de-
finindo práticas e sujeitos a partir das expectativas produzidas pelo imaginário
social e pelas políticas públicas.
Propomos no âmbito deste texto realizar uma análise das políticas de
gênero voltadas para a maternidade a partir da problematização dos concei-
tos de necessidade e dependência, centrais na formulação destas políticas no
contexto da estruturação dos Estados de Bem Estar. Em seguida propomos
uma análise das políticas materno-infantis durante o Estado Novo, período
da Era Vargas marcado por um regime político ditatorial acompanhado de
várias ações intervencionistas na economia e nas relações entre o Estado e a
sociedade. Uma das áreas privilegiadas deste intervencionismo foi a assistên-
cia às mães e às crianças, bem como a proteção do Estado à família. Pautadas
em definições muito restritas de família, paternidade e maternidade, as po-
líticas públicas do Estado Novo reproduziram valores e modelos normativos
a partir dos quais a legislação e os programas assistenciais foram elaborados.
O Estado Novo getulista criou políticas públicas materno-infantis paterna-
listas nas quais as mulheres foram definidas a partir do desamparo, da po-
breza e da condição de indivíduos que precisavam do amparo e da proteção
de um Estado provedor e paternal. Procuramos com esta discussão retomar
a utilidade do conceito de paternalismo para se avaliar as políticas públicas,
bem como propor uma reavaliação política deste conceito a partir de suas
explícitas conotações de gênero.

172
Ana Paula Vosne Martins

Necessidade, dependência e políticas de gênero

Em 1885 a feminista francesa Hubertine Auclert escreveu defendendo


a necessidade de uma nova forma de organização do poder político que se
espelhasse nas qualidades naturais e morais da maternidade. Ela compartilha-
va com muitas outras mulheres, feministas e não feministas, a ideia de que a
maternidade não era um assunto restrito à vida particular e privada das mu-
lheres e das famílias. Gerar e cuidar da vida tinha um significado muito mais
profundo e envolvia responsabilidades que não podiam ser atribuídas exclusi-
vamente às mães ou às famílias. A maternidade, segundo o pensamento refor-
mista e feminista de finais do século XIX, deveria ser apoiada e protegida pelo
Estado. Desta maneira Hubertine Auclert apontava para o que ela considerava
serem as duas opções políticas dos Estados europeus: um Estado minotauro,
que consumia seus cidadãos no ritual canibalístico das guerras e do descaso
com a vida, numa explícita referência às péssimas condições de vida das classes
trabalhadoras, ao abandono, ao pauperismo, à insegurança geral da existência,
especialmente dos idosos, das crianças de das mulheres. A segunda opção é
a configuração de um Estado maternal, ou seja, um ordenamento político da
sociedade no qual as mulheres fossem efetivamente cidadãs no gozo dos seus
direitos políticos e sociais a partir do reconhecimento da diferença feminina
assegurada pela maternidade.
Um Estado maternal deveria valorizar e proteger a diferença feminina
da maternidade ao mesmo tempo em que estenderia para toda a sociedade os
valores associados ao cuidar, regulamentando a vida social através de leis pro-
tetoras das mulheres-mães e das crianças, da saúde, da educação e da assistên-
cia aos pobres e necessitados. Desta forma, um Estado maternal devia garantir
a igualdade através da amplitude da cidadania (sufrágio universal e direitos
civis para as mulheres) ao mesmo tempo em que preservaria a diferença de
gênero protegendo e valorizando a maternidade.
Estas ideias constituem o que as historiadoras feministas denominaram
de maternalismo, ou seja, um termo que abarca (a) a qualidade e os valores
morais positivos referentes à maternidade como a reprodução, os cuidados
e a proteção da vida; (b) uma percepção política de tais valores, bem como a
compreensão de que a maternidade estava associada à dominação das mulhe-
res numa sociedade patriarcal e que tal situação seria transformada através
da ação política das mulheres; (c) uma firme e valorizada noção de diferença
sexual que não devia ser limitadora, mas que garantisse o lugar social e moral

173
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

das mulheres numa ordem social mais justa e humanitária (KOVEN & MI-
CHEL, 1990; PEDERSEN, 1990; BOCK & THANE, 1996).
Ao analisarmos as legislações sociais produzidas entre o final do século
XIX e início do XX observamos que os primeiros trabalhadores das fábricas,
ateliês e oficinas a contar com a proteção especial do Estado foram as mulheres e
as crianças. Esta atenção diferenciada foi resultado de um conjunto de pressões
políticas, mas cabe ressaltar que as análises sobre o welfare state minimizaram
ou simplesmente ignoraram a influência do gênero na formulação das políticas
de bem-estar que iniciaram no final do século XIX. Isto se deve ao tipo de abor-
dagem realizada pelos especialistas que enfocaram a questão pela perspectiva
da força de trabalho, vista como masculina, embora fosse grande a participação
feminina na mão de obra, e pela economia política, salientando principalmente
a intervenção do Estado na economia e a questão dos gastos públicos1.
As análises históricas do Estado do Bem Estar enfocaram somente as
relações políticas a partir das organizações formais e oficiais como partidos,
sindicatos, associações patronais, o poder legislativo e o quadro burocrático
estatal. Contudo, análises mais recentes vêm mostrando como outras instân-
cias de ação política desempenharam papel fundamental no desenvolvimento
tanto do pensamento quanto do Estado do Bem Estar (KOVEN & MICHEL,
1990). O ativismo político e social das mulheres europeias e norte-americanas
do final do século XIX, bem como as organizações assistenciais e filantrópicas,
exerceram forte pressão na opinião pública e junto aos parlamentares em favor
da infância e da maternidade. Como salientam Koven e Michel, não se pode
compreender o desenvolvimento das políticas públicas de bem-estar social
sem entender este movimento político que foi o maternalismo; sem levar em
conta que havia interesses não apenas humanitários por parte do Estado em
proteger a maternidade e a infância.
Análises levando em consideração o impacto do gênero na formula-
ção do pensamento do bem-estar e no desenvolvimento de políticas públicas
começaram a ser realizadas por historiadoras e sociólogas feministas na dé-
cada de 1980. As críticas às teorias da modernização - que viam no Estado do
Bem Estar apenas uma resposta às crises do liberalismo e do capitalismo - e
aos historiadores sociais - que enfocaram apenas padrões políticos conven-
cionais de ação - estão na origem da formulação de outras explicações por

1 Sobre as diferentes abordagens do welfare state ver EVANS, Peter B.; RUESCHEMEYER, Dietrich;
SKOCPOL, Theda (eds.). Bringing the State back in. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

174
Ana Paula Vosne Martins

parte das acadêmicas feministas dos dois lados do Atlântico para entender o
desenvolvimento do Estado entre o final do século XIX e a primeira metade
do século XX. Embora não se possa falar de uma teoria feminista do wel-
fare state, pois as interpretações são muito diversificadas, da mesma forma
que o arsenal conceitual, o que há em comum entre estes trabalhos é uma
orientação teórica e metodológica em se repensar o Estado a partir de uma
ampliação do conceito de política e a utilização do gênero como categoria de
análise articulada a outras categorias como classe e raça. Foi a partir dessa
nova orientação teórica que conceitos mais tradicionais na teoria feminista
como patriarcado, por exemplo, foram repensados, bem como novos concei-
tos começaram a ser utilizados, como o maternalismo.
Entender como historicamente o maternalismo foi formulado enquan-
to valor moral e serviu de referência para a formulação de políticas públicas
nos leva para o contexto das tensões sociais do capitalismo industrial no sé-
culo XIX. A construção ideológica que opôs o mundo do trabalho assalariado
ao mundo da casa e da família nasceu sob o signo das diferenças de gênero.
Nesta construção discursiva da oposição complementar de gênero as noções
de necessidade e de dependência ganharam outros significados, como bem
analisaram Nancy Fraser e Linda Gordon (1994). Tanto nos discursos patro-
nais, religiosos e oficiais, quanto nos discursos dos trabalhadores organizados,
a independência era um valor associado à ação no mundo e ao alargamento
da noção de direitos que vinha ocorrendo no interior da cultura política desde
o contexto revolucionário do final do século XVIII. As necessidades dos tra-
balhadores - víveres, moradia, educação, saúde, assistência social - passaram
a ser associadas no interior daqueles discursos à independência que somente
o trabalho assalariado poderia prover. Desta forma, mesmo para aqueles tra-
balhadores organizados e conscientes dos mecanismos de exploração sob o
capital se fortaleceu uma identidade social e de gênero em torno da imagem
do homem provedor capaz de proteger sua família e de atender às suas neces-
sidades (HALL, 1986; STEEDMAN, 1994).
O estabelecimento da seguridade social, do salário familiar, dos chamados
direitos dos trabalhadores garantidos pela legislação trabalhista compõe uma
das faces mais conhecidas e estudadas do Estado e das sociedades de Bem Estar,
que é a redistribuição e a garantia dos direitos através da intervenção do Estado.
No entanto, a elaboração deste modelo de redistribuição numa ordem social ca-
pitalista profundamente associada ao mundo do trabalho assalariado gerou ima-
gens em negativo do homem trabalhador (FRASER & GORDON, 1994). Estas

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imagens são as do pauperismo, ou seja, de todos aqueles indivíduos que viviam


à margem do mundo do trabalho, como os mendigos, desempregados, incapa-
citados e os vagabundos; os dominados (nativos, africanos, orientais, ou seja, os
outros da sociedade branca ocidental); e a dona de casa. De acordo com Fraser e
Gordon para criar a independência do trabalhador assalariado e seu valor moral
foi necessário criar a dependência econômica das mulheres.
No plano discursivo tais imagens de ordem, de suficiência e de poder
paterno foram compartilhadas pelas elites e pelos trabalhadores. No plano das
existências cotidianas das pessoas comuns duramente afetadas pelos desequilí-
brios e crises do capitalismo as coisas não eram tão ordenadas assim. São muitos
os registros do crescente pauperismo e das tensões sociais em diferentes cidades
europeias e dos Estados Unidos ao longo do século XIX. A caridade cristã e a
filantropia humanitarista procuravam aliviar as mazelas associadas ao paupe-
rismo visitando os pobres, conhecendo as suas necessidades e atendendo em
parte as necessidades mais urgentes. Relatos presentes na documentação privada
de homens e mulheres, bem como os tocantes retratos realistas da literatura de
cunho social produzida no século XIX, dão mostras de que o homem trabalha-
dor nem sempre estava presente ou então não conseguia exercer este papel tão
esperado para que a ordem social e de gênero fosse garantida.
É neste contexto oitocentista que as ideias maternalistas são enunciadas
tanto pelas feministas quanto por aquelas mulheres que, querendo manter dis-
tância das feministas, dedicavam-se à filantropia. Apesar das diferenças políti-
cas, ambos os grupos de mulheres sabiam que os termos da equação necessi-
dade, independência e masculinidade não eram necessariamente compatíveis
e que as mulheres mães e seus filhos estavam mais vulneráveis à pobreza e aos
seus efeitos, caindo nas agruras das necessidades não satisfeitas. A defesa da
maternidade e da infância foi o ponto de partida para as mulheres ativistas re-
colocarem a questão politicamente sensível da dependência das mulheres e das
crianças numa ordem social e de gênero na qual o poder dos maridos e pais era
inquestionável, inclusive para algumas delas próprias.
Mulheres como a feminista Hubertine Auclert compartilhavam um
novo ideal no cenário liberal do final do século XIX: a intervenção do Estado
em assuntos que até então eram considerados restritos aos indivíduos, à fa-
mília ou na impossibilidade destes, à caridade e à filantropia. Inspiradas pelo
ideário igualitário dos direitos civis e políticos para homens e mulheres, ao
mesmo tempo em que sublinhavam as diferenças naturais e morais entre os se-
xos, as mulheres reformistas defendiam a intervenção do Estado para proteger,

176
Ana Paula Vosne Martins

amparar e assistir as mulheres mães e seus filhos a fim de suprir as necessida-


des que a temporária dependência agravava. Portanto, como bem demonstrou
Virginia Sapiro (1986), as mulheres não só estão na origem da formulação das
políticas públicas, como também foram as suas beneficiárias ou dependentes.
Contudo, no processo de organização dos Estados de Bem Estar social
a opção apresentada por Hubertine Auclert não se configurou historicamente.
Se observarmos as diferentes configurações do Estado de Bem Estar na Europa
e no continente americano vamos notar que ele não foi nem minotauro, nem
maternal. Certamente que as leis e as práticas intervencionistas conduzidas pe-
los Estados ainda no final do século XIX tiveram como objetivo a proteção das
mães e das crianças, mas raras foram as situações nas quais esta ação política
teve como resultado um empoderamento das mulheres ou então um enfren-
tamento político das desigualdades de gênero como desejavam as feministas e
algumas reformistas sociais.
Se observarmos com atenção as políticas de gênero dos Estados de Bem
Estar veremos como a ideia de dependência das mulheres foi equacionada à
valorização e à proteção de uma concepção bastante tradicional e conservadora
da maternidade. Boa parte da legislação produzida nos países europeus e mais
tarde nos países americanos regulava as condições de trabalho das mulheres
grávidas e daquelas que ainda amamentavam como as licenças para o parto, o
estabelecimento das condições de trabalho (horário de trabalho e a questão da
salubridade), os abonos maternais e familiares e, em alguns países, a obriga-
toriedade de creches nos locais de trabalho. Também foram organizados ser-
viços de atendimento médico-hospitalar, assistência social para mães solteiras
ou viúvas com filhos pequenos e a distribuição de alimentos. Estes benefícios
foram defendidos pelas feministas e reformistas sociais, mas na organização
das políticas públicas as outras demandas maternalistas pelos direitos civis e
políticos das mulheres foram negligenciadas, secundarizadas ou nem sequer
cogitadas, pelo menos até logo após a Segunda Guerra Mundial.
E isto se deve ao fato de que tais políticas foram políticas de gênero.
Historiadoras que estudam estas políticas e sua relação com a maternidade
mostram como na formulação das políticas de Bem Estar o gênero foi uma
categoria fundamental com diferentes significados e desdobramentos dificil-
mente generalizáveis (GORDON, 1994; BOCK & THANE, 1996; NASH, 1996;
NARI, 2004). No entanto, apesar das diferenças históricas das políticas de Bem
Estar para a maternidade e a infância talvez possamos estabelecer uma carac-
terística comum a elas: na maior parte dos países ocidentais as mulheres foram

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

percebidas e definidas como indivíduos dependentes e, portanto, alvo da tutela


ou da proteção de um poder benevolente cujo objetivo era corrigir dispari-
dades e propiciar as condições mínimas que nem a sociedade, nem a família
conseguiram suprir a fim de que as mulheres pudessem exercer plenamente o
seu papel ou a sua função materna. Apesar dos notáveis e incansáveis esforços
das feministas e das mulheres que participaram inclusive profissionalmente da
elaboração das políticas públicas para colocar em prática os ideais materna-
listas do equacionamento da igualdade e da diferença, prevaleceram as visões
essencialistas e naturalizantes do gênero, bem como uma concepção de poder
na qual as mulheres foram vistas como receptáculos passivos de concessões e
da proteção do poder do Estado e da benemerência privada.
Conforme já exposto, a política de gênero dos Estados de Bem Estar
se sustentava no ideal do trabalhador provedor da sua família. Quando uma
“anomalia” ou uma realidade incontornável como a mulher assalariada coloca-
va demandas que exigiam uma ação intervencionista no mercado de trabalho,
o Estado a definia somente a partir da maternidade ou da fragilidade de uma
natureza feminina que requeria a proteção benevolente, fosse do patrão ou de
um Estado paternal. Daí a necessidade de se enfrentar um tema extremamente
espinhoso, que foi a questão da autoridade paterna e a necessidade de uma
regulamentação do mercado de trabalho que garantisse um salário para que
o homem trabalhador fosse capaz de manter a sua família (esposa e os filhos).
Desta forma a ordem familiar e o poder masculino não sofreriam nenhum
abalo ou desequilíbrio.
Apesar da influência notável do ideário maternalista na origem das polí-
ticas públicas materno-infantis a articulação entre necessidades e dependência
feminina foi predominante não só na construção de uma definição de benefi-
ciária ou assistida, mas também na elaboração de programas e ações públicas
que foram pensadas e desenvolvidas a partir de uma concepção paternalista de
poder que reproduziu institucional e politicamente a noção de dependência
feminina de um poder benevolente e protetor masculino, só que incorporado
pelo Estado e conduzido pelos burocratas e funcionários públicos.
Este qualificativo paternalista do poder do Estado nos leva a uma reflexão,
mesmo que breve, sobre gênero e política. Retomando a clássica teoria políti-
ca liberal enunciada por John Locke ainda no século XVII encontramos uma
bem estabelecida justificativa para a separação entre o pátrio poder e o poder
político. Nesta interpretação que posteriormente fundamentou as constitui-
ções políticas dos países democráticos ocidentais era importante estabelecer

178
Ana Paula Vosne Martins

as diferenças entre os dois tipos de poder a fim de retirar do terreno da política


qualquer referência providencialista ou personalista. Mesmo que o pátrio poder
tivesse uma origem natural ele não era ilimitado, pois o poder do pai e da mãe
não era absoluto e sua jurisdição ia até o momento que os filhos alcançassem
a idade do uso da razão. O poder político era resultado do consentimento da
maioria dos indivíduos que o instituíram para gozar da sua liberdade sob a lei
soberana, sendo, portanto, uma ação racional, impessoal e cuja finalidade era a
preservação da propriedade, da liberdade e a garantia do bem comum. Dessa
forma, ambos tinham origens e finalidades muito diferentes e o mais importante
era definir que o poder político não dependia em nada do poder paterno e muito
menos nada compartilhava com ele nas suas finalidades e jurisdições.
Ao escrever o Segundo Tratado sobre o Governo Civil John Locke enfren-
tou uma bem consolidada tradição do pensamento político que fora reforçada
no contexto do fortalecimento das monarquias modernas. Este pensamento
sustentava que o poder dos reis era não só justo e soberano, mas igualmente
moral, tendo em vista que por sua natureza se exercia com a mesma finalidade
do poder paterno, ou seja, cuidar benevolamente, mas com autoridade, de seus
súditos-filhos. Esta extrapolação do poder paterno para o poder político foi
bastante recorrente na justificativa moral da soberania monárquica, migrando
para outras formas de relação de poder nas democracias, como nas relações
entre patrões e empregados e entre o Estado e os cidadãos.
Este qualificativo moral de um poder que se exerce a partir de uma rela-
ção supostamente natural originária da paternidade sustentou e ainda sustenta
diferentes práticas e relações sociais e políticas. Seu fundamento moral na na-
tureza e no bem justifica as mais diferentes hierarquias (classe, raça, religiosa,
geracional, profissional, política e de gênero) afinal aquele que exerce o poder
de forma paternal visa tão somente atender às necessidades de seus subordi-
nados ou protegidos. O poder é, na sua definição paternalista, bom e protetor
e parte do princípio da enunciação da autoridade, pois somente o dispensador
da proteção e dos cuidados detém o conhecimento do que são as necessidades e
dos meios efetivos para supri-las. Encontramos nesta formulação paternalista do
poder a conjunção das condições que estão presentes nas políticas de gênero de
que estamos tratando: necessidades, dependência e incluímos também o lugar
do sujeito que necessita e que é dependente deste poder benévolo e superior.
Muito já se escreveu sobre o paternalismo no âmbito da filosofia moral,
das ciências políticas e da história social, geralmente de um ponto de vista crí-
tico ao autoritarismo que preside este tipo de instituição do poder político ou

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

no interior de outras relações sociais (GARCÍA, 2005). As análises, no entanto,


carecem de uma perspectiva analítica que entendemos ser fundamental para
compreender o paternalismo, suas transformações e sobrevivência tanto do
ponto de vista institucional e social, quanto do ponto de vista simbólico.
O gênero é o discurso que organiza esta concepção do poder. Por que o
poder é paternal? O que enuncia este qualificativo? Qual a sua qualidade, qual
a sua especificidade para ter legitimidade? É nos quadros de um pensamento
binário no qual o gênero é uma forma de dar sentido ao mundo das coisas,
dos sujeitos e das suas relações que encontramos as justificativas para o pa-
ternalismo. Numa longa tradição filosófica o poder é identificado a uma força
agregadora, racional e produtiva que não é extensiva a todos os seres humanos,
mas somente àqueles que têm capacidades naturais para exercê-lo. O poder,
assim, foi identificado desde os primeiros textos que o definiram como um
atributo dos homens, como uma qualidade masculina. O mesmo discurso na-
turalizador formulado a partir de um processo histórico e cultural de exclusão
e dominação das mulheres estabeleceu que o elo social tem uma origem igual-
mente natural na família e no poder dos maridos e pais, mais fortes e racionais,
capazes de saber o que é melhor para seus dependentes, a esposa, os filhos,
os escravos e todos aqueles que vivessem sob a sua tutela protetora. O pater-
nalismo tem, portanto, uma justificativa original no gênero, nesta diferença
construída culturalmente a partir do sexo, criadora de outras diferenças. É o
discurso do gênero que estabelece igualmente a dicotomia entre os potentes e
os impotentes, bem como o que cabe a cada um no interior das relações entre
si estabelecidas. Cabe ao mais potente não só o poder natural sobre os mais
fracos, como enunciou Aristóteles e tantos filósofos depois dele, mas também
a responsabilidade sobre a vida, a fim de que ela seja protegida e que se re-
produza. Na sua origem de gênero o poder masculino supre as necessidades,
organiza e protege a vida daqueles que por serem definidos pela impotência
precisam se colocar sob a sua proteção e tutela.
Avançando em nossa análise podemos agora pensar de que maneira
esta concepção personalizada de poder e circunscrita à esfera da família e às
qualidades masculinas de seu portador foi instituinte do poder do Estado, em
particular no contexto do triunfo do liberalismo político e econômico nas so-
ciedades ocidentais desde meados do século XIX. Sabe-se que o paternalismo
foi rejeitado e condenado pela ideologia liberal como uma afronta ao individu-
alismo, à autonomia e à liberdade de mercado e dos cidadãos, numa linha que
remonta às críticas ao absolutismo formuladas nos dois séculos anteriores. No

180
Ana Paula Vosne Martins

entanto, a crítica ao liberalismo econômico e aos nefastos resultados sociais do


capitalismo industrial acabou por amenizar o tom da rejeição ao paternalis-
mo político. Muitos homens e mulheres começaram a defender a necessidade
de um Estado mais intervencionista que atendesse as necessidades daqueles
que não podiam supri-las sozinhos, não porque fossem incapazes, mas por-
que havia barreiras quase intransponíveis no acesso ao trabalho, à renda e aos
bens, especialmente em relação às mulheres e às crianças. Não queremos dizer
que esta reivindicação intervencionista do Estado na economia e nas relações
entre o capital e o trabalho tenha sido na sua totalidade paternalista, afinal,
diferentes foram os pontos de vista neste acirramento do debate ideológico en-
volvendo cristãos (católicos e protestantes), liberais humanitaristas, feministas
e socialistas. Contudo, podemos afirmar que mesmo em países nos quais o in-
tervencionismo estatal foi muito limitado, como é o caso dos Estados Unidos
e da Inglaterra, pelo menos até a Segunda Guerra Mundial, as políticas sociais
que então eram denominadas de assistência pública foram concebidas e inter-
pretadas a partir daquele modelo masculino e personalista do poder paternal.
Susan Pedersen (1990) analisou de maneira precisa esta transformação
do Estado liberal em Estado paternal no começo do século XX na Inglaterra.
Ao estudar o sistema de pensões e de outros benefícios concedidos às esposas
de soldados que lutaram na Primeira Guerra Mundial a autora mostra que na
formulação das políticas assistenciais as mulheres recebiam os auxílios estatais
não como um direito originário de sua cidadania, mas porque eram esposas de
soldados. Desta forma os benefícios eram, na verdade, de seus maridos, exer-
cendo o Estado o papel tutelar das esposas na ausência dos seus maridos, pro-
vendo as necessidades e controlando seus comportamentos, inclusive sexuais.
Como bem observaram Fraser e Gordon (1994), no processo de redefi-
nição do papel do Estado entre o final do século XIX e o contexto entre guerras
no século XX algumas áreas e certos grupos sociais foram mais circunscritos
a uma ação paternalista do poder a partir da articulação entre necessidades e
dependência. As mulheres, em especial as mulheres das classes trabalhadoras,
casadas ou solteiras, mas com filhos, se encaixavam particularmente nestas
duas situações: tinham necessidades não satisfeitas (alimentação, assistência
à saúde, educação, moradia adequada, renda) e eram definidas a partir de um
estatuto social, político e moral da dependência dos maridos ou, na impossi-
bilidade destes cumprirem seu papel de provedores, do Estado. Desta forma,
o que vemos se configurar no cenário dos ordenamentos políticos estatais na
Europa e no continente americano é uma concepção paternalista do Estado

181
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

que certamente não foi adstrita às mulheres e às crianças, mas que teve nestes
dois grupos seu alvo privilegiado e justificado de ação.

Paternalismo e políticas públicas materno-infantis

Em alguns países, como é o caso do Brasil da Era Vargas, as políticas pú-


blicas foram francamente paternalistas, especialmente as políticas de gênero,
embora muitos dos valores originais do maternalismo estivessem presentes na
sua formulação. O conceito de paternalismo pode ser útil para entendermos
como se constituem as relações entre o Estado e a sociedade não só para a Era
Vargas, mas para a nossa época, este começo do século XXI, afinal, o vocabu-
lário político continua recorrendo às metáforas paternalistas porque elas são
entendidas e continuam tendo ressonância.
Quando a esta concepção paternal de poder se acrescenta uma ideologia
política que reforça uma imagem moral e pessoal do poder político funda-
mentada na pessoa do líder e, por outro lado, se estabelece que o espelho das
relações políticas deve ser o bom ordenamento da família patriarcal, tem-se as
condições suficientes para o exercício paternalista do poder político.
Os discursos políticos da Era Vargas reforçaram de várias maneiras -
pela propaganda política, pela presença mais eficaz e visível do Estado, pe-
los mecanismos ideológicos da personalização do poder em Getúlio Vargas
- que o Brasil do Estado Novo seria governado como uma família (FERREIRA,
1997; LEVINE, 2001; MARTINS, 2008). A organização das políticas públicas
materno-infantis no Brasil resultou do reformismo social dos médicos e das
pessoas ligadas à filantropia, como também das ideias maternalistas das mu-
lheres feministas e não feministas que tiveram uma intensa participação na
defesa dos direitos das mulheres no contexto da Constituinte de 1934. Contu-
do, com o recuo da ordem política para um modelo centralizado, autoritário
e personalizado de poder como ocorreu a partir de 1937 com a instituição do
Estado Novo, as ideias maternalistas foram esvaziadas de seu conteúdo mais
igualitário e tomaram uma nova feição, paternalista e autoritária.
Esta reorganização do maternalismo se deu no Brasil seguindo mode-
los muito semelhantes àqueles que se organizaram em países como a Itália, a
França, a Espanha e Portugal (BOCK & THANE, 1996). Considero este um
modelo paternalista das políticas maternalistas. Do maternalismo manteve-
se somente a valorização moral da maternidade reforçando a diferença entre
homens e mulheres, mas sem a igualdade. Neste modelo a autoridade paterna

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Ana Paula Vosne Martins

foi reforçada de cima para baixo, sobrepondo-se politicamente ao ideário mais


igualitário do maternalismo. As políticas paternalistas se sustentaram no mo-
delo conjugal da autoridade paterna, na família constituída pelo casamento in-
dissolúvel e pelo ideal natalista de famílias numerosas. Vejamos mais de perto
este paternalismo à brasileira.
Ao olharmos com atenção para a elaboração da Constituição de 1934
e a de 1937 vemos como estes valores paternalistas foram objetivados na for-
ma da lei, sustentando os programas e as instituições voltadas para atender as
necessidades das mulheres-mães e das crianças a partir de uma noção de de-
pendência e não de direitos. A família foi colocada sob a proteção especial do
Estado nos dois textos constitucionais e ao Estado cabia compensar financei-
ramente as famílias numerosas, bem como colaborar para que os pais dessem
educação aos filhos - de maneira direta ou através de subsídios. Também era
atribuição do Estado, segundo os textos constitucionais, o cuidado da infância
e da juventude, tornando obrigatório em todo o território nacional o amparo
à maternidade e à infância.
Pode-se dizer que estas atribuições do Estado e mesmo sua interven-
ção mais direta sobre a família e a autoridade paterna seguiram de perto as
políticas mais centralizadoras e personalistas de alguns países europeus, par-
ticularmente a Itália fascista. No Brasil tais políticas foram acentuadamente
paternalistas não só porque se fundamentavam num ideário político mais cen-
tralizador e autoritário, mas igualmente porque fizeram parte da propaganda
política do regime personalista de Vargas que sublinhava a indissociação entre
seu papel de presidente da república e de pai protetor da grande família que
era a nação brasileira.
Outro aspecto deste modelo paternalista das políticas públicas materno-
infantis refere-se à definição das mulheres. A legislação trabalhista as reconhe-
cia como trabalhadoras assalariadas, mas os discursos políticos reforçavam o
ideal de dependência das mulheres. Isto é bastante evidente na formulação da
política familiar do Estado Novo. Todos os argumentos técnicos, sociais e po-
líticos se fundamentavam na premissa de que um mal temporário não deveria
se tornar uma regra. Se as mulheres-mães estavam no mercado de trabalho
como assalariadas e precisavam ser protegidas na sua especificidade, era dever
do Estado e da sociedade corrigir este desvio favorecendo os homens trabalha-
dores não só com salários suficientes para manter a família, mas se necessário
por meio da criação de condições econômicas como os abonos familiares a fim
de evitar que as mulheres saíssem de casa e deixassem a família ao desamparo e

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

o marido numa situação humilhante de não poder cumprir com o seu papel de
provedor. A eficácia deste discurso pode ser observada numa documentação
produzida por homens e mulheres comuns que ao escrever cartas para Getúlio
Vargas acionaram o modelo paternalista como estratégia de comunicação com
o poder para conseguir o que pediam, ou mesmo como adesão à política pa-
ternalista e à ideologia do regime. Em outro momento tratamos destas cartas
atentando para os limites analíticos de uma qualificação paternalista das rela-
ções entre os poderosos e as pessoas comuns (MARTINS, 2008). Procuramos
agora, todavia, sustentar a utilidade do conceito de paternalismo para analisar
a formulação das políticas públicas de forte conotação de gênero e para tanto
vamos recolocar analiticamente as cartas escritas por mulheres que escreve-
ram para Vargas na condição de mães, tendo em vista a maneira como elas
recorreram ao vocabulário e ao imaginário político paternalista nesta busca
pela comunicação com o poder.
Há diferentes tipos de cartas escritas por mulheres no conjunto das
correspondências enviadas para Getúlio Vargas, em especial no período entre
1937 e 1942. As cartas que vamos brevemente apresentar aqui foram aquelas
escritas por mulheres pobres que passavam por algum tipo de dificuldade para
cuidar de suas famílias, desde a falta de recursos para dar educação para os
filhos, até a mais acentuada penúria. Se compararmos com as cartas escritas
por homens que se dirigiam a Vargas também na condição de pais de família
veremos que a principal diferença está na estrutura narrativa. Dificilmente os
homens demonstravam desespero, embora muitos deles descrevessem em de-
talhes suas extremas dificuldades, narrando histórias de desemprego, fome, a
morte dos filhos pequenos e a desesperança.
As cartas escritas por mulheres são mais suplicantes e recorrem com mais
frequência às metáforas religiosas e paternas. Demonstram também ter consci-
ência de que ao escrever transpunham limites. Primeiro porque se fossem obe-
decer à hierarquia familiar quem deveria escrever era o chefe da família, o mari-
do; segundo porque expunham suas histórias pessoais a ninguém menos que o
homem mais poderoso do país e, por fim, porque transpunham limites culturais
ao tomar a palavra escrita para narrar suas histórias marcadas pela pobreza.
Uma primeira questão que aparece na narrativa ao escreverem para
Vargas é a forma como se dirigem a ele. O poder político de Vargas não anula
seus atributos morais, sempre exaltados pelas missivistas. Ele é homem de co-
ração bondoso, generoso, caridoso, justo, patriótico e de coragem. Nas cartas
as missivistas fazem questão de sublinhar que ele não era mais um homem

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Ana Paula Vosne Martins

poderoso, mas que o exercício do seu poder era acrescido e diferenciado por
suas qualidades morais que o aproximavam das pessoas comuns como elas.
Conscientes da imensa distância que as separava daquele homem pode-
roso, elas expressam subalternidade e extrema deferência na maioria das car-
tas, como também o fazem alguns homens missivistas. Elas se dirigem a Var-
gas como “paupérrimas servas”, “filhas”, “criadas”. Destes lugares elas pedem
auxílio, socorro, esmola, indulgência e algumas o fazem “beijando as mãos
deste segundo pai”2. A diferença em relação aos homens que recorrem a estas
mesmas fórmulas de subalternidade é que eles o fazem quando se encontram
em situação desesperadora. Defendemos a hipótese de que as mulheres que
escreveram estas cartas a Vargas recorrem com mais frequência a estas fór-
mulas porque culturalmente se esperava que as mulheres demonstrassem pela
linguagem corporal e escrita a humildade, a honestidade e a sujeição. Neste
sentido, ao escreverem para Vargas recorriam a um habitus da sujeição e da su-
balternidade que as qualificava como mulheres, habilitando-as frente ao poder
para receberem o que pediam. Neste sentido podemos pensar o paternalismo
não só como um poder que se exerce de cima para baixo e que transforma os
sujeitos em receptáculos passivos da benevolência, mas também numa lingua-
gem que pode ser usada pelos subalternos nas estratégias que inventam para se
comunicar com os poderosos e obter o que almejam.
Por fim, outro elemento comum nas narrativas das cartas escritas pelas
mulheres é a forma como elas se apresentam nas suas demandas. Todas são
mães preocupadas com o futuro e com a sobrevivência dos seus filhos. O que
as habilita moralmente para tomar o tempo do presidente é esta responsabili-
dade moral pelos filhos. Os maridos aparecem pontualmente nas cartas, seja
para deles reclamarem, seja para justificar sua incapacidade momentânea para
serem os provedores. São os filhos que constituem o argumento principal da
mulher que escreve porque é mãe.
Tomar a decisão de escrever uma carta para o presidente contando his-
tórias de vida marcadas pela pobreza, violência, pelo abandono, pela fome e na
maioria das vezes pela morte dos filhos certamente não era uma decisão fácil,
especialmente porque as missivistas eram mulheres pobres e sem muita fami-
liaridade com a cultura escrita. Mas ao fazê-lo recorreram ao que conheciam:
saber colocar-se numa posição de humildade e respeito ao se dirigir ao poder;

2 Estas expressões são citações de diferentes cartas que se encontram no Arquivo Nacional. Presidência da Re-
pública. Série 17 - Ministérios. Foram lidas no total 786 cartas, mas para este texto selecionamos 11 cartas.

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saber como pedir, ou seja, contar uma história na qual justificassem sua de-
manda por ajuda e proteção. Parafraseando Natalie Z. Davis (2001), estas cartas
são formas narrativas que revelam a habilidade de transformar o vivido em uma
história que deve necessariamente comover o homem poderoso em favor dos
seus interesses próprios. Indo um pouco mais além, são apropriações do pater-
nalismo, reconhecendo, mesmo que momentaneamente, a eficácia da ideologia
do regime político em favor dos interesses das mulheres- mães que se dirigiam
a Vargas a partir do imaginário do poder: ele como o pai dos pobres e elas como
mães de crianças pobres que se colocavam sob a proteção paternal de Vargas.
Concluindo, podemos dizer que se configura no Brasil a partir de 1937
uma política de proteção à família e à maternidade na qual vemos bem delimi-
tadas duas categorias de beneficiários do Estado: os sujeitos ativos dos bene-
fícios de um Estado provedor ou dispensador dos direitos dos homens traba-
lhadores, aqueles com a carteira assinada, com férias e décimo terceiro salário;
e os sujeitos passivos dos benefícios, as esposas e mães dos filhos do homem
trabalhador. Nesta categorização hierárquica paternalista outra questão se co-
loca de maneira muito diferente do que previa o maternalismo. As mulheres
são definidas somente pela sua condição de dependentes - seja do marido, seja
do Estado - e não como cidadãs. Podemos pensar, então, até que ponto as po-
líticas públicas para a maternidade foram realmente voltadas para atender as
mulheres. Nesta concepção paternalista do poder do Estado as mulheres não
são os alvos das políticas públicas. Elas são instrumentos para se alcançar as
crianças e como na construção ideológica de um regime político paternalista
mães e crianças têm um lugar fixo, um lugar moral que é a família tutelada
pelo pai, o Estado e seus agentes (médicos, enfermeiras, assistentes sociais,
funcionários públicos) que recorreram às imagens moralizadoras da família e
da maternidade a fim de alcançar seus objetivos normalizadores.
A tutela paternalista das políticas públicas materno-infantis contribuiu
decisivamente para a construção de uma definição de feminilidade fundada na
dependência. As leis e os programas de assistência visavam à manutenção de
uma ordem hierárquica de gênero cujo fundamento era a família e a pedagogia
materna. As mães deviam não só ser mães, mas boas mães, capazes de cuidar
dos seus, daqueles que temporariamente eram delas dependentes. Diferente-
mente do ideário maternalista mais igualitarista o paternalismo do Estado su-
blinhou a dependência e a tutela das mulheres mães, indivíduos merecedores
da proteção e talvez até mesmo da piedade, mas não de direitos. Seus direitos
na verdade não eram seus, eram de seus maridos e de seus filhos.

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Ana Paula Vosne Martins

Nem minotauro, nem maternal, o Estado paternalista brasileiro refor-


çou uma concepção naturalista e limitada da maternidade indiferente aos con-
ceitos modernos de autonomia, autodeterminação e de cidadania. Uma mater-
nidade dependente.

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STEEDMAN, Carolyn. The price of experience: women and the making of


English working class. Radical History Review. n. 59, 1994, p. 108-119.

188
A MATERNIDADE CONTEMPORÂNEA
EM FASE EXPERIMENTAL DA
ASSISTÊNCIA MÉDICA À PROCRIAÇÃO

O canal mundial do trabalho reprodutivo

Laurence Tain1

Introdução

Esta intervenção pretende discutir o uso de técnicas reprodutivas como


revelador de reconfigurações do corpo reprodutor e da recomposição das de-
sigualdades relativas ao trabalho reprodutivo na sociedade global.
A transformação das relações de reprodução vigentes foi magistralmen-
te esboçada por Paola Tabet desde os anos 1980 (TABET, [1980] 1985, p. 127-
131). Ela colocou em evidência o desmoronamento das estruturas sólidas que
controlavam a reprodução havia séculos. Lembrou, por exemplo, que o aluguel
do útero tornava visível o fato de que a apropriação privada de reprodutoras
não era mais a condição necessária de reprodução. Esta transação atinge, na
verdade, a condição necessária à reprodução independentemente da apro-
priação da pessoa. Ela analisou esta evolução como uma “transformação estru-
tural dos direitos de reprodução, comparável, de certa maneira, à dissolução
do vínculo de servitude na Europa” (TABET, [1980] 1985, p. 129).
O panorama da sociedade global implica novas transformações. Há
uma plasticidade dos responsáveis e uma intervenção dos atores sociais que
operam em escala nacional. Mas, simultaneamente, há contradições que acon-
tecem na cena da sociedade dita global.

1 Tradução: Bárbara Fraga Góes. Revisão Rosa Alice Mosimann.

189
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

O método que proponho para atingir as instabilidades potenciais das con-


figurações reprodutivas, agentes de processos de mudanças, sustenta-se, em pri-
meiro lugar, numa transformação ternária do corpo. Observo a fabricação social
diferenciada do corpo reprodutor a partir das três dimensões que identifiquei:
uma biomédica, uma sócio-relacional e uma terceira cósmico-sagrada. Mais
precisamente, a elaboração das configurações reprodutivas de cada país mobiliza
as instituições ligadas, de maneira privilegiada, a estas três dimensões - a insti-
tuição médica, a instituição jurídica, a instituição religiosa. A arbitragem entre
esses diferentes registros é, porém, fonte de ambiguidades e incoerências.
Este artigo trata da noção de trabalho reprodutivo na sociedade global.
A fim de situar detalhadamente a recomposição das desigualdades neste novo
panorama, proponho acrescentar ao conceito de trabalho reprodutivo os con-
ceitos de “cadeia mundial de cuidados”, de “mulher global”, antecipado por
Barbara Ehrenreich e Arlie Russel Hochschild (2002). Estes autores mostra-
ram, com sucesso, a transferência de uma parte do trabalho atribuído ao ele-
mento feminino das classes médias e superiores do mundo ocidental para as
mulheres migrantes. O comportamento não é novo, mas toma formas específi-
cas, notadamente em razão da distância entre os países de origem e de destino
das migrações. Esta extensão de conceitos será tratada no final do texto.

O descompasso, na França, entre discurso e práticas

A promulgação, na França, da primeira lei de bioética, em 1994, que


prevê a assistência médica à procriação, retomada em 2004, é sintomática da
produção de um quadro ambíguo a partir de uma combinação das diferentes
dimensões do corpo reprodutor e das instituições ligadas à prática. A escolha
do professor Jean-François Mattei, deputado, médico, católico praticante, para
dirigir a redação final da lei, ilustra este processo. Esboço, aqui, a construção
dos paradoxos desta configuração com a ajuda dos trabalhos de René Frydman
(1997, p. 90-100) e de Dominique Mehl:

A dimensão biomédica foi fundamental, assim como o ponto de vista da


instituição médica - onipresente durante a elaboração. De um lado as prá-
ticas hospitalares, centradas sobre o casal heterossexual, anteciparam as
disposições da lei. Por outro lado, os biólogos e os médicos especialistas
ocuparam o primeiro lugar nos debates, como mostrou Dominique Memmi
(1989), analisando a distribuição das posições nos colóquios de bioética.

190
Laurence Tain

A referência à dimensão sagrada do corpo e à instituição eclesial tem


sido decisiva, também, para a tendência heteronormativa da legislação. É, de
fato, a noção de sacralidade do corpo humano que o professor Jean-François
Mattei adianta quando se vê confiar a responsabilidade da redação da lei após
a mudança da maioria parlamentar na primavera de 1993, e que orienta suas
escolhas de sondagem. Ele apela, sobretudo, de maneira significativa, para as
comunidades religiosas. Esta demanda é o eco das preocupações da Igreja ca-
tólica, principalmente na França que, como o lembra Danièle Hervieu-Léger
(2007, p. 243), encontrou nas temáticas da vida privada um terreno privilegia-
do para o controle dos corpos e das consciências, considerando seu afastamen-
to da arena política com o advento da modernidade.
As respectivas posturas das duas instituições podem aparecer, a priori,
contraditórias, já que a Igreja católica proscreve o recurso à qualquer técnica de
reprodução, que se trate de práticas homólogas no seio de um mesmo casal ou
de práticas heterólogas que fazem apelo a terceiros. A posição da Igreja se apoia,
com efeito, na não intervenção no surgimento da vida humana, considerada
um dom de Deus (FRYDMAN, 1997, p. 80; HERVIEU-LÉGER 2007, p. 247). É,
pois, proibido dissociar sexualidade e reprodução porque o objetivo visado é “a
perfeição do ato conjugal” que não se realiza senão quando as finalidades rela-
cional e procriadora estão reunidas. A condenação dos cotraceptivos mecânicos
e químicos pela encíclica Humanae Vitae (1968), como da assistência médica à
procriação pela instrução DonumVitae (1987), são frutos desta coerência doutri-
nal - uma aliança se estabelece, portanto, entre a ciência e a Igreja católica, com
base na re-naturalização do corpo reprodutor que os teólogos católicos tinham
tornado técnico. Como sublinha Danièle Hervieu-Léger (2007, p. 244-246), os
argumentos da Igreja católica tendem a assimilar “a ordem natural” e “a ordem
biológica”. A invocação da lei da natureza e seu endosso à “aquisição da ciência”
permitem-lhe, assim, num momento em que se afirma o domínio do espírito
científico, renunciar ao magistério moral, dando testemunho de seu interesse
pela inteligência humana e os progressos do conhecimento.
A superposição das representações e das práticas destas duas institui-
ções contribui, de maneira essencial, para embaralhar o modelo que cria a lei
da bioética. Estas contradições são visíveis antes mesmo de a lei ser votada e
perduram em sua aplicação.
As referências à ‘naturalidade biológica’, a assimilação do biológico
e do sagrado no contexto da assistência médica à procriação são contesta-
das, com efeito, no seio do meio católico francês desde o fim dos anos 1980.

191
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Um documento redigido pela Federação protestante da França sublinha que


o “casal humano, a procriação humana, a infância humana não se medem
somente em termos de processos biológicos”.2 Católicos, pertencentes aos
meios profissionais e religiosos, põem em causa os fundamentos éticos da
hierarquia católica em uma obra coletiva Aux débuts de la vie. Des Catholi-
ques prennent position (No início da vida. Católicos tomam posição)3 (SURE-
AU et al., 1990). Assim, por exemplo, Georges David (SUREAU et al., 1990,
p. 152-153) contesta “a obsessão” do biológico nesta doutrina: “a insistência
excessiva dada ao fator biológico alinha a autoridade católica com a obses-
são moderna pela determinação da paternidade pelo biológico, quando se
esperava que ela defendesse uma concepção mais elevada e mais justa da
paternidade e da maternidade”.
Uma outra contradição aparece com a aplicação de técnicas reprodu-
tivas. O modelo “natural” do casal heterossexual não coincide com a prática
hospitalar que mobiliza, separadamente, os dois parceiros e às vezes até mesmo
uma terceira pessoa. Ora, estas tensões atravessam a Igreja já que os católicos,
mesmo praticantes e preocupados com a opinião das autoridades religiosas,
efetuam fecundações in vitro homólogas e às vezes heterólogas, do que dão
testemunho as decisões tomadas depois da consulta ético-religiosa do hospital
Antoine-Béclère de Clamart (FRYDMAN, 1997, p. 115).
É, portanto, na associação do sagrado com o científico que se constrói
o quadro centrado nas relações heterossexuais da lei de 1994. O projeto inicial
da lei de 1992, adotado pela Câmara de deputados,4 era um tanto vago, sendo
a assistência médica à procriação devendo responder a um “projeto dos pais”.
A lei de 1994 limita o campo de beneficiários e reserva a assistência médica,
as doações de gametas exclusivamente aos casais heterossexuais, casados ou
“capazes de fornecer a prova de uma vida comum de pelo menos dois anos”.5

2 Citação extraída do Livro branco da Comissão de ética protestante da França, mencionada por
René Frydman (1997, p. 90) que tomou conhecimento desta obra.
3 A obra emana de Claude Sureau, ginecologista-obstetra renomado, antigo chefe da maternidade Saint-
Vincent-de-Paul em Paris, presidente do Comitê de ética da Federação Internacional de Ginecologia e
Obstetrícia (no momento em que escreveu a obra); Roger Chartier, diretor do serviço de ginecologia
e obstetrícia do hospital Notre Dame de Bon Secours em Paris desde 1961 e demissionário depois da
publicação da instrução Donum Vitae; Georges David, fundador das CECOS; Charles Thibault, biólogo
renomado (cf. capítulo 1); Bernard Quelquejeu, padre dominicano, diretor de La revue de sciences philo-
sophiques et théologiques e professor de ética no Instituto Católico de Paris; Joseph Moingt e Paul Valadier,
padres jesuítas e professores no centro Sèvres em Paris [referências apud Mehl, 1999, p. 170-173].
4 Lei adotada aos 25 de novembro de 1992 (349 vozes a favor e 78 contra), foi deixada em suspenso pelo
Senado até a mudança da maioria parlamentar, na primavera de 1993, e abandonada pela nova maioria.
5 Lei de 29 de julho de 1994, código de Saúde Pública, artigo L 152-2.

192
Laurence Tain

Considerar as diferentes dimensões do corpo e das instituições que


lhe são associadas, a análise das práticas sociais da doutrina católica - que
se pode considerar como um elemento da sociedade global - são abor-
dagens pertinentes para apreender a gênese das contradições do modelo
“natural” francês subjacente às leis de bioética6 de 1994 e 2004. Esse qua-
dro social é marcado por uma dupla opacidade, propulsoras contestações e
desvios. Por um lado, a ambiguidade da naturalidade do modelo se enraíza
na aliança entre ciência e religião, que se traduz por uma confusão entre
representações biomédicas e concepção sagrada do princípio de vida. Por
outro lado, o quadro heteronormativo proposto não corresponde, de fato,
ao desenvolvimento dos tratamentos. Estas contradições ressurgem com
o debate em torno da revisão da lei de bioética, mais que configurações
diferentes são legítimas em outros países.

Os agentes de recursos transnacionais a partir da França

Neste contexto, a procura de indivíduos ou de casais franceses por uma


assistência médica à reprodução em outros países tem origem, na maioria das
vezes, nas proibições da legislação francesa. As doações dos gametas para sol-
teiros ou casais homossexuais são, de fato, proibidos, bem como gestação para
outrem. Este descompasso entre a lei francesa e os costumes foi muitas vezes le-
vantado (DELAISI DE PARSEVAL, 2008; MEHL, 2008; BOSSO-PLATIÈRE, 2006).
Percebo indignação em alguns protagonistas da área, médicos especialistas, como
Joëlle Belaisch-Allart, ou em pessoas visando à homoparentalidade, como Nicolas S.:

Os legisladores são provavelmente homens, ou até mulheres, brilhantes,


mas eles não podem conhecer tudo, nem compreender tudo. É tentador
acrescentar que eles são, no mais das vezes, idosos, às vezes até submetidos
a pressões para assegurar sua reeleição, que tiveram a chance de ter filhos
facilmente e que a diferença entre o embrião das OVG e o das provetas (com
quatro células) escapa-lhes! (BELAISCH-ALLART, 2007, p. 165).

6 Entre todos os elementos do debate, refiro-me ao relatório de 2008 estabelecido por Alain Claeys e Jean-
Sébastien Vialatte como resultado de consultas de especialistas e destinado a esclarecer a Assembleia na-
cional e o Senado. As recomendações visam, primeiramente, as condições de aplicação referentes a casais
heterossexuais e abrem o debate sobre outras configurações reprodutivas. Foi, de fato, proposto que a
noção de casal estável fosse reconsiderada, bem como o prazo de dois anos de estabilidade, a abertura às
mulheres solteiras inférteis o acesso à AMP com um apoio psicológico e a condução de um debate apro-
fundado sobre o acesso de casais homossexuais à AMP por ocasião da revisão da lei - p. 125.

193
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Existe uma arrogância francesa. Ninguém se entende nas descrições feitas


pelos mandachuvas franceses. Eles estão a mil milhas da realidade. Eles
são autistas. Em que delírio se encontram? Um delírio fantasmático? Eu sei
do que eu falo, pois sou jurista e conheço dezenas de casais que recorreram
à GPA. O sistema americano tem o mérito de existir. Há um obscurismo
francês sobre a realidade das coisas. Existe a necessidade de se fazer de
desentendido (NÍCOLAS S.).

Um outro motivo diz respeito às listas de espera para receber uma doa-
ção de ovócitos. Na França o prazo é muito longo - mínimo de dois anos - e as
demandas são rejeitadas pelos centros assim que a mulher atinge a idade de 38
anos (MARCHAUDON et al., 2009 p. 1236). A história de Catherine B. ilustra
esta situação.

Nós nos casamos com 32 anos e decidimos ter um filho um ano mais
tarde. (...) A ginecologista me prescreveu um pequeno estímulo (...) de-
pois recomendou o livro Les maux de dos pour le dire (Os males das
costas para dizê-lo), de Claudine Corti, pensando que se tratava, talvez,
de uma causa psicológica. Eu não me convenci e nós consultamos, na
“cidade grande” - (estimulações, inseminações, fecundação in vitro e
tivemos o diagnóstico de insuficiência ovariana que necessita de uma
doação de ovócito). Nós encontramos a Associação Pauline et Adrien.
Como a doação direta de ovócito era impossível na França, nós fomos
à Bélgica (1ª transferência, aborto; 2ª transferência, aborto). Nós nos
dirigimos, então, para a França. Eu tenho 39 anos. Disseram-me clara-
mente que eu era “velha”, que havia um prazo mínimo de dois anos para
uma doação de ovócito, salvo se eu viesse com uma doadora. Nós não
conhecíamos ninguém, então voltamos para a Bélgica (nova tentativa
com os embriões congelados, que não deu em nada).Graças à Pauline et
Adrien nós tivemos um contato na Grécia (transferência, aborto), depois
uma consulta com um grande especialista (resultado: má fragmentação
do esperma; única possibilidade: a dupla doação). Nós nos dirigimos de
novo à Grécia. Fiquei grávida e tenho, hoje, dois maravilhosos gêmeos
de cinco anos. (...) Além disso, a espera é inútil. Eu esperei durante sete
anos, de 33 a 39 anos. Sem Pauline e Adrien, sem a contribuição dos
especialistas, eu não teria filhos hoje em dia. O percurso na França toma
muito tempo. Eu tive meus filhos com 41 anos ½. É o limite, para mim.
E, no entanto, eu fui acompanhada por uma ginecologista formidável
(...). Ninguém pode imaginar nosso percurso (CATHERINE B.).

194
Laurence Tain

Neste contexto, o corpo médico francês é muito dividido. É o que de-


monstra, por exemplo, o debate iniciado por Jean Cohen (2006) na revista
especializada Ginecologia obstetrícia e fertilidade (Gynécologie obstétrique et
fertilité), que trata do interesse de uma legislação internacional sobre estas prá-
ticas, que qualificam de “turismo procriador”.7 As opiniões são, de fato, bem
variadas (BELAISCH-ALLART, 2007; MANDELBAUM, 2007; MERVIEL,
2007; NOIZET; POULY, 2007).
Esta ambivalência é inteiramente ressentida por mulheres e homens
durante as consultas com os médicos; Catherine B., como outras, compara a
situação com o período dos abortos clandestinos. Esta obrigação de tergiversar
obriga ao recurso ao estrangeiro, como explica Philippe H..

Os médicos têm discursos diferentes na televisão e durante as consultas.


Na França, as doadoras são mal recebidas, enquanto as doações, o fato de dar
é uma parte de si mesmo (...). A medicina, na França, é reprimida. Pela lei
da bioética, elas não liberam seu potencial. No entanto, eles têm esse poten-
cial. Eles têm medo de reprimendas. É como para aborto, em outros tempos,
quando os médicos o praticavam na ilegalidade (CATHERINE B.).

Na França, era obrigatório fazer isso discretamente. A França nos obriga a


ser fora da lei para satisfazer uma necessidade elementar, ter um filho, ser
pais (...) Então traficamos: pequenos anúncios, inseminações artesanais ou
relação sexual. Eu tinha um amigo homo que se casou somente para ter
filhos (...) Quanto à nós, fomos à Yale para encontrar uma mãe de aluguel
e Thierry nasceu em 2008 (PHILIPPE H.).

Os trâmites transnacionais são, pois, frequentemente facilitados pelos


médicos ginecologistas. Fica evidente, com efeito, em entrevistas de sonda-
gem, que os mesmos médicos que se recusam a executar práticas não regula-
mentadas na França dão endereços, indicam circuitos transnacionais que per-
mitem contornar as proibições francesas. O apoio mais decisivo vem, todavia,
de associações que acompanham os projetos de pais, organizam os contatos,
até negociam “preços de grupo” com as clínicas.8

7 Não sou responsável por esta categorização de “turismo procriador” que não corresponde, a meu ver, à
experiência de pessoas que recorreram a uma assistência médica no estrangeiro.
8 Pode-se citar, por exemplo, as Associações Pauline et Adrien, Maïa, Clara, APGL (Associação de Pais
Gays e Lésbicos).

195
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Os circuitos transnacionais de assistência à reprodução

Neste contexto, quais são os circuitos utilizados para contornar a legis-


lação francesa? Quais representações da reprodução, quais prioridades estas
escolhas colocam em evidência? Trago alguns elementos de resposta a partir
de experiências narradas no que concerne às doações de gametas e a gestação
para outrem (ROZEE, 2009).
O recurso das mulheres francesas a uma doação de esperma transna-
cional é opção de mulheres solteiras ou casais de mulheres lésbicas. A maioria
escolhe, de maneira pragmática, a proximidade e o menor custo. É a Bél-
gica, país limítrofe, de fácil acesso, com profissionais da médicina que, fre-
quentemente, falam o francês, que tem a preferência (85% a 90% de mulheres
francesas de acordo com as estimativas das associações). A quase totalidade
das outras mulheres se volta para a Espanha por razões de proximidade, mas
também de urgência. Os preços são mais elevados, mas os prazos mais curtos,
como conta Maeva C.

Eu formo um casal com uma mulher. Isso vai fazer quatro anos. O desejo de
filhos, o questionamento em torno disso apareceu relativamente rápido (...)
Nos demos conta de que a adoção poderia ser muito complicada. A atuali-
dade nos mostrou que havia muitas recusas de aprovação (...). A adoção nos
pareceu um impasse, uma coisa difícil para nós e também para a própria
criança. Depois a gente concluiu que a IAD era a solução mais saudável
porque as coisas são claras (...). Informamo-nos a respeito da APLG, Asso-
ciação de Pais Gays e Lésbicos. E vimos que a Espanha, com os elementos
que tínhamos reunido, era a solução mais simples para nós: proximida-
de geográfica, prazos bastante reduzidos para obter um encontro e em
seguida uma inseminação (MAEVA C.).

No entanto, existe também uma outra escolha muito mais marginal,


motivada pela possibilidade de a criança conhecer a identidade de seu genitor
se ele o desejar na sua maioridade. Os destinos, nesse caso, são a Holanda e a
Dinamarca. Às vezes, os circuitos combinam-se e completam-se, associando a
proximidade geográfica de um país e as modalidades bioéticas do outro. As-
sim, por exemplo, a inseminação é praticada na Bélgica com esperma prove-
niente da província do Cyros, o principal banco de esperma da Dinamarca.
É também o custo que parece comandar as escolhas relativas aos cir-
cuitos transnacionais de doações de ovócitos. As mulheres francesas que deles

196
Laurence Tain

fazem uso têm, geralmente, entre 36 e 45 anos - os limites de idade são mais
flexíveis em outros países. As mulheres escolhem prioritariamente a Grécia,
em razão do menor custo, depois a Espanha. Surge uma nova escolha com os
países ao leste: a República Tcheca e a Romênia propõem tarifas menos eleva-
das e centros especializados para mulheres estrangeiras.
Em compensação, a seleção de países por uma gestação por outrem faz
menção a vários fatores. As pessoas que fazem essa escolha são, grossomodo, mu-
lheres para as quais a infertilidade se situa em nível do útero, ou homens homos-
sexuais. Os critérios são, antes de mais nada, bem concretos: o custo, o enquadra-
mento legal e médico, as taxas de êxito. A triagem de destinações por ordem de
preço seriam a Índia, o “low cost” das gestações para outrem, depois a Ucrânia e a
Rússia e enfim os Estados Unidos e o Canadá. Há, paralelamente, a eventualidade
do “mercado negro” na França. A segurança jurídica, as garantias oferecidas tam-
bém pesam na decisão. A experiência de “falcatruas”, como as que relata Pierre B.,
levam a preferir contextos aparentemente mais “confiáveis” como a Índia ou os
EUA com agências que se encarregam das formalidades administrativas e legais e
oferecem às vezes até “pacotes” com tudo incluído (visitas médicas, avião, hotel)
para facilitar a estadia. A estes critérios adiciona-se uma consideração de ligações
potenciais com a mãe portadora que força a escolha da proximidade geográfica.

Há sérios riscos legais (...) com uma criança GPA vinda do estrangeiro, há
um problema de transcrição de estado civil. Quando você vai para o es-
trangeiro, aos EUA ou à Ucrânia, assim que a criança nasce você vai ao
consulado da França registrá-la. Se o consulado suspeita que não é um
nascimento de todo normal, podem causar-lhe aborrecimentos, processos
judiciais. Existem histórias assim. Provavelmente, é por isso que o mer-
cado negro francês se desenvolveu (...). Aqui, nas ofertas, há muitos
trapaceiros. Meus amigos que fizeram, afinal, uma GPA na Índia, foram
extorquidos por moças por duas vezes. Eles tinham começado por fazer a
coisa no mercado negro, por querer fazer o negócio aqui. E por duas vezes
eles foram enganados. Era: envie para mim dinheiro e veremos depois. Eles
enviaram o dinheiro e não viram nada depois (PIERRE B.).

Assim, o esboço destes circuitos transnacionais coloca em evidência cri-


térios pragmáticos de escolha - o custo, as taxas de êxito, a proximidade, a segu-
rança jurídica, mas também outras considerações ligadas à forma da montagem
reprodutiva, o anonimato e/ou as ligações com os parceiros da gestação. São
estas modalidades que eu vou aprofundar no parágrafo que segue.

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O trabalho normativo em curso

É a vulnerabilidade do quadro normativo social que fica evidente nas


entrevistas junto a pioneiros(as) destes novos usos de técnicas reprodutivas. Se
o pessoal médico francês é ambivalente, em revanche a acolhida destas situa-
ções fora da norma é respeitosa na França, calorosa em clínicas especializadas
no estrangeiro como descobriram Clotilde M. e Sylvia A. As redes paralelas
desenvolvem-se também na França, notadamente com o “mercado negro” li-
gado à gestação por outrem, de acordo com os levantamentos de Pierre B.

Como em toda clínica, existe a obrigação de começar por uma entrevista


com um psicólogo. Esperávamos uma entrevista de aptidão ou de avaliação
do casal. E não foi de maneira alguma o caso (...) na clínica, os conselhos
nos pareceram bastante respeitosos (CLOTILDE M.).

Descobre-se a Dinamarca pela Internet (...) a recepção é muito humana, caloro-


sa, acolhedora (...) a cama parece uma cama de princesa, uma cama com dossel,
lençóis de verdade, almofadas. Durante a inseminação, o doutor explica todo o
processo, diz e repete que eu estou verdadeiramente em plena ovulação e que
há grandes chances que dê certo (...) era quase mágico! (SYLVIA A.).

Será que o mercado é importante na França? É difícil dizer... Por definição,


não há estatísticas. Se acredito no que vejo nos sites sobre o assunto, os dois
ou três sites que eu conheço, está assimilado, quer dizer, há muita deman-
da, muita demanda, muitas ofertas para o GPA (PIERRE B.).

Da mesma maneira que a técnica de fecundação in vitro tornava-se


banal no final do século XX, eu observo hoje uma dinâmica de apropriação
social destas novas configurações reprodutivas. Os testemunhos dos homens
e mulheres que as experimentaram colocam em cena toda uma renovação
normativa no seio do entorno social. Nota-se um trabalho de persuasão, expli-
cações da parte dos pioneiros(as) - (Pierre B.; Maeva C.), um encaminhamento
de pessoas próximas (Sylvia A.), uma adesão positiva, até mesmo entusiasta
(Pierre B. ; Maeva C.; Clotilde M.), sendo que, segundo Sylvia A., “a chegada
da criança tende a normalizar a situação”.

Pouquísimas pessoas sabem. O que resta de minha família não sabe. Entre
meus amigos, só alguns sabem. Os que sabem são inteiramente entusiastas.

198
Laurence Tain

Eles vivem praticamente dia-a-dia a evolução da situação (...) no dia em


que minha mãe portadora estiver grávida, eu contarei, forçosamente (...) Eu
acho que a maior parte compreenderá, aceitará, que não vai se zangar com
isso, que não vai se afastar por isso. Senão compreenderem por que o faço,
azar deles (PIERRE B.).

Os pais de minha amiga estão muito, muito contentes. Minha mãe, igual-
mente. Meu pai ainda não foi informado, ele é um pouco da velha guarda,
um pouco tradicional, então eu vou devagar (...) os amigos estão todos sa-
bendo, é claro, eles estão nos dando o maior apoio (MAEVA C.).

Quando se anuncia homopaternidade, quando isso só é ainda um projeto, as


pessoas próximas fazem uma série de questionamentos, não sabem como re-
agir. No começo há uma certa reticência, depois, quando se conversa, um certo
apoio. Então, quando a criança chega, tudo fica normal (SYLVIA A.).

Tudo vai muito muito bem. Nós tivemos muita sorte, pois não temos difi-
culdades com relação à nossa homossexualidade em nosso entorno de um
ponto de vista social. Na família nos veem como um casal. Nosso entorno,
principalmente heterossexual, que nos considera como um casal, não faz
nenhuma diferença entre casal “tradicional” e o casal que formo com minha
companheira (CLOTILDE M.).

Como se reconfigura, então, o trabalho reprodutivo? Eu distingo duas


evoluções. Uma diz respeito à divisão do trabalho no seio dos casais de mesmo
sexo. A outra concerne à colaboração efetiva entre várias pessoas no processo
reprodutivo.

As reconfigurações sexuadas do trabalho reprodutivo

Com o projeto de crianças de casais do mesmo sexo, a divisão sexuada


do trabalho reprodutivo se encontra abalada. As entrevistas põem à mostra
novas atribuições do masculino e do feminino.9

9 Trata-se aqui de uma primeira série de entrevistas de indivíduos motivados e será preciso confirmar
esta análise diversificando a amostragem. Eu destacaria notadamente esta afirmação com a leitura do
folheto da Associação de Pais Gays e Lésbicos (APGL). As reivindicações referentes ao casal são geral-
mente ilustradas por fotos de casais de homens, enquanto as reivindicações no que respeita à paterni-
dade são ilustradas por fotos de casais de mulheres.

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No caso de casais de dois homens que recorreram a uma gestação por


outrem, é o investimento dos dois no itinerário reprodutivo que me parece
importante. Philippe H. conta a viagem deles aos EUA, a presença no final
da gravidez, o acompanhamento da mãe portadora ao parto e depois. Aliás,
afirma-se que o pai é aquele que cria a criança, de acordo com uma concepção
largamente difundida da paternidade. A escolha do pai biológico, doador do
esperma é, desse ponto de vista, vivida como algo fácil.

Primeiro encontro em janeiro. Tudo estava claro, transparente (...). Em se-


tembro, nos encontramos com a mãe portadora e em dezembro, primeira im-
plantação de dois embriões. Nosso filho nasceu em setembro. Nós estávamos
nos EUA duas semanas antes do parto e nós ficamos um mês após. Desde
o parto, o médico entregou a criança ao pai e ele passou a primeira noite no
hospital com o bebê. A mãe portadora, Jenny, estava em um quarto à parte e,
de tempos em tempos, ia ver se tudo estava bem. Nós nos surpreendemos que
tudo tenha sido tão transparente (...). Para mim, os laços genéticos têm pou-
ca importância: é aquele que cria que é o pai. A escolha de quem doaria seu
esperma importava pouco. Foi feita essencialmente porque era importante,
para a família de meu cônjuge, que ele tivesse um filho biológico. Além disso,
de minha parte, eu tinha pequenos problemas de saúde (PHILIPPE H.).

O caso de casais de duas mulheres leva a mais rupturas com a imagem


da maternidade ligada à gravidez. De acordo com a ordem de gênero, a mãe
é aquela que porta a criança, aquela que dá a luz. Dois tipos de itinerários
aparecem, então, no seio dos casais de lésbicas: um itinerário sucessivo, um
itinerário diferenciado.
No primeiro itinerário, as duas mulheres assumem, em alternância, o
papel na carga do trabalho reprodutivo material, corporal da gravidez. A es-
colha se faz em função da idade, da saúde, do desejo. Às vezes considera-se
até a possibilidade de que as duas mulheres contribuam simultaneamente à
procriação, uma como mãe genética - doando seus óvulos - a outra como mãe
portadora. Os percursos de Anastasia K., Sylvia A. e suas companheiras ilus-
tram esta configuração.

Era lógico começar por mim, pois eu sou a mais velha e eu tinha um impor-
tante desejo de filhos. Minha companheira na época ainda não estava pronta.
Eu percorri um caminho e desisti. Eu não tinha nenhuma vontade de conti-
nuar. Então minha companheira assumiu a tarefa (ANASTASIA K.).

200
Laurence Tain

Minha companheira ficou deprimida após quatro inseminações. Depois


descobriu-se que ela possuía uma doença (...) portanto, não quisemos cor-
rer riscos. Não há nenhuma rivalidade, nenhuma competição entre nós
(...) Eu propus doar meus óvulos e que minha companheira carregasse a
criança (...) assim eu poderia ser a mãe em nível médico e Brigitte em nível
legal (SYLVIA A.).

O segundo itinerário se separa mais claramente dos atributos sexuados


da paternidade. Torna, de fato, mais visível a afirmação de uma “maternida-
de social”, inabitual no sentido de ordem de gênero. Uma das duas mulheres
assume a carga biológica de acordo com a representação social de mãe. É o
caso, por exemplo, para Maeva C. Mas a parceira coloca em evidência uma
outra forma de maternidade: deseja criar a criança sem por isso querer viver
corporalmente a gravidez. Este descompasso com a ordem de gênero pode
ser vivida “muito simplesmente”, “naturalmente” (Clotilde M.) ou de maneira
“bizarra” (Sylvie T.).

As formas de colaboração reprodutiva

A outra evolução aparente trata das formas de colaboração com tercei-


ros, sem contacto com o casal em todo o trabalho reprodutivo. A partir das
entrevistas, duas configurações se apresentam, segundo o sentido atribuído
à contribuição biológica de terceiros em relação ao casal, seja ele homo ou
heterossexual.
Uma primeira concepção focaliza o casal de pais. A terceira pessoa é
elemento secundário. É vivido enquanto assistência biológica momentânea,
exterior ao projeto de filho. É esta maneira de viver e de dar sentido à experiên-
cia que encontro em dois casais de lésbicas (Sylvie T. e sua companheira, Lina
G.; Clotilde M. e sua companheira, Brigitte L.) que optaram pelo anonimato
do doador de gametas.

Nós queríamos uma doação anônima para que nunca uma terceira pes-
soa viesse se imiscuir em nosso casal e nosso filho. Queríamos uma famí-
lia de verdade. É engraçado essa família um pouco triangular. Não há um
homem, uma mulher, uma criança - mas em algum lugar talvez seja um
pouco nossa educação, nossa cultura que faz esse triângulo, remodelado à
nossa maneira, importante apesar de tudo. Nós queríamos ser duas com
nosso filho (SYLVIE T.).

201
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Fizemos a escolha de um doador anônimo. É uma escolha por eliminação.


Não é forçosamente a escolha ideal, pois evidentemente sabemos de ante-
mão que teremos que explicar ao nosso filho que ele não tem uma mãe e
um pai, mas duas mães e um genitor anônimo (...) nós não queríamos um
doador conhecido porque isso seria um problema de parentesco mais tarde,
a possível reivindicação daquele homem (...) nós queríamos um filho das
duas (CLOTILDE M.).

Um outro conceito integra a terceira pessoa na configuração em volta da


criança. Trata-se de uma colaboração reprodutiva ilustrada pela preocupação
da criança ter acesso ao doador (Sylvia A.), ou conheça sua mãe portadora
(Pierre B.; Philippe H.).

Por que a Holanda? Porque nós escolhemos uma doação com acesso às ori-
gens e gratuita. Na época, era o único país em que o acesso às origens e o
doador não eram remunerados. Nós refletimos com a ajuda de reportagens
sobre os partos sob X, sobre a importância deste acesso. Nós vimos que
todas as crianças nascidas sob X não querem forçosamente ter acesso às
suas origens, mas para os que querem e os que não querem, pode ser uma
verdadeira desvantagem (SYLVIA A.).

Eu fiz a escolha de uma mãe portadora na França. A ideia de recorrer a


esta solução, além do aspecto financeiro, é que é previsto em nosso acordo
com minha parceira que manteremos contato, que ela terá de tempos em
tempos ter notícia de nosso filho. E, então, em X anos se a criança - porque
eu acabarei por lhe dizer a verdade – (...) quiser conhecê-la, poderá fazê-lo
(PIERRE B.).

Nós mantivemos contato com Jenny, a mãe portadora. É como uma mãe
distante para Thierry (PHILIPPE H.).

Assim, a observação dos usos transnacionais a partir da França confir-


ma a existência de um trabalho normativo que respeita o quadro reprodutor.
O acesso às práticas fora das normas francesas, em países estrangeiros, como o
encaminhamento do círculo em que vivem as pessoas envolvidas, o confirma.
Este trabalho trata da distribuição sexuada do investimento reproduti-
vo. As linhas divisórias entre paternidade biológica e social são ativas. Um dos
elementos, talvez o mais novo, seria a afirmação de uma maternidade social.

202
Laurence Tain

Enfim, as modalidades de doação de gametas, dupla doação, ges-


tação por outrem tornam visível uma colaboração reprodutiva que ultra-
passa, ou até contradiz, o contexto do casal heteronômico. Quais são as
consequências desse comportamento sobre a natureza das representações
sociais?

O canal mundial do trabalho reprodutivo

O objetivo desta seção é deixar visível o conjunto de protagonistas


das configurações transnacionais de reprodução. Na parte anterior, evo-
quei as mulheres e homens que fazem uso destas redes a partir da Fran-
ça. Eu gostaria, aqui, de deslocar o olhar para os outros protagonistas,
frequentemente na sombra, parceiros decisivos destas novas colaborações
reprodutivas. A compreensão destes processos implica novas pesquisas e
eu vou esboçar aqui algumas pistas que concernem às mulheres a partir
do conceito de “canal mundial do trabalho reprodutivo” que proponho,
por analogia, junto com o conceito de “canal mundial de cuidados”. A
comparação desses dois conceitos me permite precisar as especificidades
desta nova noção.
O canal mundial do trabalho reprodutivo beneficia homens e mu-
lheres, com mais frequência os de cor branca, de classe média ou pri-
vilegiada, com o potencial reprodutor de outras mulheres em situação
desfavorável em um outro país, em troca de dinheiro e com base em um
contrato. CA “migração” temporária, a viagem, se faz geralmente em sen-
tido inverso. É o cliente que migra, como o assinala, aliás, Bruno Lautier
para outras atividades care (LAUTIER, 2006, p. 45). A gestação por ou-
trem acontece geralmente no país de origem da mãe portadora. São os
pais sociais que migram, ao contrário das mulheres empregadas como
domésticas que vêm se estabelecer em um país diferente daquele onde
vive sua própria família.
Em consequência, fica possível à doadora dos ovócitos ou à mãe porta-
dora utilizar uma parte de sua energia de produção doméstica à sua própria
família. Não há efeito de distância que torne incompatível o cuidado quotidia-
no a seus próprios filhos com o emprego de doméstica a centenas ou milhares
de quilômetros.

203
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Esta forma do trabalho reprodutivo se integra bem em uma recompo-


sição mundial da divisão sexual do trabalho, ou seja, “a ordem doméstica está
em vias de ser submetida à ordem econômica” (LAUTIER, 2006, p. 64). O
trabalho assalariado de centenas de milhões de mulheres na escala mundial
engaja, com efeito, a entrada no mercado do trabalho, por sua vez, de outras
mulheres carregadas do trabalho doméstico. O apelo a doadoras de ovócitos
mais jovens por mulheres que primeiro desenvolveram sua carreira profissio-
nal ilustra este movimento na esfera do trabalho reprodutivo.
A questão torna-se então: este sistema reforça ou alivia a carga das for-
mas de dominação? A resposta me parece delicada e paradoxal e vou trazer
aqui vários pontos de vista divergentes.
Por um lado, assistimos a um reforço das desigualdades sociais entre mu-
lheres. Algumas delas podem “pagar” ovócitos, enquanto outras são forçadas a
vendê-los. Isso é particularmente verdade em países - como o Brasil - onde o
acesso a programas de fecundação in vitro é pago (BARBOSA, 2003, p. 46).
Da mesma maneira, argumentos se levantam contra a “alienação bioló-
gica” (AGACINSKI, 2009, p. 129), a “mercantilização” do corpo humano que
explode “em pedacinhos”. A maternidade se encontra, com efeito, dividida em
maternidade genética, de gestação e de educação.
Por outro lado, usuários(as) de circuitos transnacionais contestam esta
ideia de mercantilização, exploração. Assim, Nicolas S. cuidou para que a doa-
dora de óvulos e a mãe portadora estivessem no mesmo nível que ele a fim de
evitar, diz, toda noção de exploração. Ele se insurge contra esta qualificação e
destaca, ao contrário, o orgulho das mães portadoras. Catherine B., igualmen-
te, denuncia a hostilidade, na França, em relação às doadoras de ovócitos e
valoriza a noção de doação.

Fala-se de exploração, mercantilização. Os estudos feitos não vão jamais


neste sentido. Claro, há uma história de dinheiro e se fosse necessário su-
primir alguma coisa, seria talvez as agências que, como empresas privadas,
visam antes de tudo o lucro (...). Há um certo orgulho nas mães portadoras
nos EUA. Nossa mãe portadora foi contactada pela mídia para contar sua ex-
periência. Ela passou a imagem de fazer uma coisa do bem, de fazer uma boa
ação. Os perfis feitos pelos parlamentares são falsos (NÍCOLAS S.).

Na França, as doadoras são mal vistas. A doação, no entanto, doar, é


uma parte de si mesmo. Eu conheço o exemplo de uma amiga que tinha
feito uma doação e que queria apenas saber se isso teria sido exitoso para

204
Laurence Tain

alguém. Ela foi despachada. É necessário mais humanidade nos hospitais


franceses (CATHERINE B.).

Todavia, entrevistas sobre a opinião das mães portadoras não são, atu-
almente, muito numerosas. Os testemunhos, frutos das primeiríssimas entre-
vistas, reunidas por Françoise Laborie (1985, p. 1528-1539) mostravam mais
uma forma de generosidade na doação, de realismo quanto ao pagamento e
aceitação da colaboração na maternidade.

Isso não me faz falta e dá muito a eles. É o que nos dizemos, não nos faz
falta... Minha decisão vem do fato de que eu imaginei esse casal. Então Pas-
cal e eu nos colocamos no lugar deles: se fôssemos nós (...) eu sou a mãe no
plano genético, não sou a mãe no plano afetivo (...). Portanto esta criança,
se ela quiser me ver quando ela tiver idade de compreender, eu aceitarei de
muito boa vontade. Eu direi a ela: “Eu te gerei, mas não sou tua mãe (...).
Tua mãe é aquela que te pegou nos seus braços. Não fui eu que te dei ma-
madeira, não fui eu que te consolei: foi tua mãe” ( Patrícia In: LABORIE,
1985, p. 1528-1538).

Conclusão

O esclarecimento sobre as combinações institucionais da Igreja, Esta-


do e instituição médica ligadas ao uso ternário do corpo no contexto de uma
sociedade global, caracterizada pelas sobreposições nacional/global mostra,
claramente, a vulnerabilidade dos quadros sociais reprodutivos. Observa-se
tensões internas relativas aos arranjos específicos de cada país, reforçadas pela
coexistência de diferenças entre as diversas configurações nacionais que de-
vem ser desenvolvidas nas futuras pesquisas.
A noção de “canal mundial do trabalho reprodutivo” considera, de
maneira pertinente, as novas configurações que emergem nos usos transna-
cionais de técnicas reprodutivas. A ordem de gênero é parcialmente abalada
por essas recomposições do trabalho reprodutivo. Entretanto, outros traba-
lhos me parecem necessários para ser possível apreciar os efeitos do “canal
mundial do trabalho reprodutivo” sobre as relações sociais em termos de
agravamento ou alívio da dominação. Por enquanto, diria que o transtorno
maior com o pagamento destes atos reprodutores é torná-los de domínio
público, dar visibilidade à sua dificuldade e seu valor como trabalho. Pois
como comparar, em termos de dominação no trabalho, a situação de uma

205
DI V E R SI DA DE : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

mulher casada que interrompe sua atividade profissional, cessa suas relações
sexuais com seu marido, se consagra à reprodução assistida que lhe ocasiona
um cisto em cada ovário (Delphine B.), com uma mãe portadora (Patricia) que
põe seu corpo a serviço da gestação, em troca de um benefício financeiro, de
uma criança que ela não educará?

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Laurence Tain

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207
TECNOLOGIAS REPRODUTIVAS
CONCEPTIVAS: IMPERATIVO DA
MATERNIDADE? OU OUTRO
LUGAR DE FALA?

Marlene Tamanini

Introdução

E ste texto se produz a partir do contexto da reprodução assistida e analisa


aspectos da maternidade em um campo de procedimentos e de conheci-
mentos que são bastante utilitários no que tange ao fazer embriões, óvulos,
espermatozóides e materiais para biotecnologias e desde onde, seguidamente,
se utilizam conceitos sobre o fazer a vida que são polissêmicos, ainda quando
pareça que se está falando de um benéfico mútuo entre mulheres, casais espe-
cialistas e clínicas.
A maternidade nunca foi um tema menor do ponto de vista de quanto
se podia controlar, medicalizar, intervir ou utilizá-la para fins políticos, de-
mográficos, sanitários, higienistas e morais. No caso da reprodução assistida
também há uma vinculação que não é tão recente e esteve inserida em uma
vontade de intervencionismo como atitude cultural humana, constituída em
força material e política, desde longa data, o que hoje atinge a possibilidade da
transformação material dos corpos e dos ciclos naturais.
Segundo atestam Bateman (1999) e Rodhen (2001), desde o século
XVIII já havia uma intervenção instrumental na infecundidade, que foi pen-
sada e elaborada de maneira artesanal como caminho experimental em bio-
logia. Foi desse modo que o cientista italiano Lazzaro Spallanzani concebeu
a ideia de tentar a fecundação por meio de instrumentos para responder às
questões que os cientistas à época se colocavam sobre a reprodução animal no

209
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

contexto da polêmica que contrapunha ovistas a animaculistas. Contudo, essas


primeiras inseminações animais não permitiram a Spallanzani, que era um
ovista preformacionista, resolver essa questão, embora ele tenha concluído que
um contato entre ovo e esperma era necessário e poderia ser suficiente para a
fecundação, contrariando ideias largamente difundidas no século XVII e que
vinham das teorias de Galeno, de que o essencial à fecundidade era o orgasmo
da mulher (RAGO, 2000). Spallanzani descobriu, por suas experiências, que
a relação sexual não era necessária à fecundação, questão que reaparece com
as novas tecnologias reprodutivas. Nesse contexto, não somente se prescinde
do ato sexual, mas também do prazer do ato sexual e mesmo de dois corpos,
podendo-se trabalhar somente a partir de duas células, um gameta masculino,
outro feminino - e distantes do corpo que os gerou. Essas polêmicas ocorreram
durante os séculos XVII e XVIII, quando se desenvolveram os estudos sobre os
ovários, descobertos por De Graaf em 1672. Desde então se pode imaginar que
a mulher “poria ovos assim como as galinhas”, diz Rodhen, o que gerava gran-
des polêmicas morais ao mesmo tempo em que se transferia à mulher quase
toda a honra e responsabilidade na geração. Tal teoria foi condenada e “em
1677 o holandês Louis de Ham observa ao microscópio ‘pequenos animais’
presentes no líquido espermático que são descritos por Antony Van Leeuwe-
nhoek como a alma animal do embrião” (RODHEN, 2001, p. 45).
Essas descobertas trouxeram muita fascinação e interesse recolocando
o espermatozóide em um espaço preponderante sobre o ovo, que só voltou em
cena por Spallanzani no final do século XVIII, quando então também se reco-
nheceu a função pró-criativa do espermatozóide, embora ainda não houvesse
uma solução precisa para o problema da geração. De outro lado, esses aspec-
tos também produziam um contexto gerador das demandas e preocupações
com a infertilidade que visavam normatizar a sexualidade, a reprodução e a
maternidade. Essas descobertas, bem como as experiências com as primeiras
inseminações artificiais e as primeiras procriações com o dom de esperma que
já haviam sido realizadas até o final do século XIX, foram relegadas à margina-
lidade após sucessivas condenações por diferentes instituições, especialmente
por parte da Igreja Católica, quando a primeira fecundação in vitro volta a
ser utilizada, em 1948, com os trabalhos de Menken e Rock (BARBARINO-
MONNIER, 2000). No contexto da II Guerra Mundial, de acordo com Jou-
annet (2001) e, sobretudo, no final do século XX, as intervenções médicas na
procriação humana ganharam impulso maior. Esse movimento se apoiou so-
bre três acontecimentos: 1) a entrada em cena de procedimentos biológicos

210
Marlene Tamanini

capazes de reproduzir e regrar em laboratório os processos de fecundação e


desenvolvimento do embrião dos mamíferos antes da sua implantação no úte-
ro; 2) a medicalização da procriação, que marca o início de uma demanda de
contracepção eficaz, inscrita nos movimentos de emancipação das mulheres e
3) a vontade de certo número de médicos de não mais ignorar os problemas
de esterilidade e de retirar as técnicas existentes de sua clandestinidade; além
disso, a demanda social ligada à oferta médica.
Claro que se conectam neste caminho os interesses da indústria farma-
cêutica, produtora desses medicamentos para o mercado da reprodução assisti-
da - em franca expansão no pós-guerra e com o desenvolvimento do ultrassom,
introduzido no processo de fertilização in vitro no Brasil somente em 1980, o
que permitiu a aspiração de óvulos da mulher por via vaginal, substituindo a co-
leta abdominal por cirurgia laparoscópica sem necessidade de hospitalização e
contribuindo, assim, para a difusão e maior segurança dessas práticas, conforme
desenvolvi em outro texto (TAMANINI, 2009). Segundo Barbarino-Monnier
(2000), durante a década de 1980 a reprodução assistida cresceu imensamente
na Europa do Oeste, na América do Norte, na Oceania, na Austrália e na Nova
Zelândia, sobretudo. No Canadá os primeiros bebês produzidos pela fertilização
in vitro foram os gêmeos nascidos no ano de 1983 em Vancouver. Em 1983,
na Austrália, ocorreu a primeira FIV com óvulo de doadora e no ano seguinte
um nascimento por meio de embrião congelado. Em 1985 ocorreu o primeiro
nascimento de um menino com sexo pré-determinado nos EUA. Em Quebec,
desde 1979 uma equipe especializada do Centro Hospitalar da Universidade La-
val (CHUL) já tinha começado esse tipo de experiência e obteve o primeiro bebê
em 1985. Eles já haviam experimentado a fertilização in vitro com transferência
de embrião antes da metade dos anos 70 em diversas espécies animais. Essa foi a
segunda equipe do mundo a obter um bezerro por fecundação in vitro.
No entanto, as questões que atingiram mais de perto os dilemas do fazer
a vida, dos nascimentos, da gestação, da ausência de gametas, da ausência de
pai, dos medos da clonagem vieram junto ao nascimento da ovelha Dolly - em
fevereiro de 1997 - no contexto do crescimento da biologia molecular e das bio-
tecnologias, que também abriam outra visão sobre o modo como a natureza e a
cultura estavam se conectando, já que a natureza podia não somente ser inter-
pretada e significada, mas também fabricada. Esse fato também suscitou possi-
bilidades e mitos sobre a concepção assexuada, situação que poderia ser levada
também para o útero artificial, conforme desenvolvida por Atlan (2005), médico
e biólogo inserido no complexo universo da análise crítica das técnicas.

211
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Desde esses processos seguiu-se introduzindo a maternidade, a paterni-


dade, a filiação em um importante potencial interventivo que vem dos centros
de reprodução humana com uma gama de novas especialidades e vinculada
às biotecnologias, sobretudo, à medicina regenerativa e ao mercado global de
materiais reprodutivos. Igualmente, foi inserida em um processo de sedução
realizado pela posição da clínica, no contexto local ou dos países, ao mesmo
tempo em desafios e riscos de difícil controle, englobando o território da sub-
jetivação dos desejos que se amplia ao mesmo tempo em que não cessa de ser
construído com diferentes conteúdos frente às possibilidades da biotecnologia
como prática bio-política e bio-econômica.
Deste modo, neste texto, como é próprio dos estudos de gênero, faço um
esforço para decodificar e compreender as relações complexas entre as diversas
especialidades e os conteúdos que podem ser pensados como vinculados à
maternidade. Reporto-me, por isso, a aspectos que foram sendo percebidos em
situações de pesquisas com temporalidades diferentes, mas conectados com as
mesmas preocupações de analisar as dinâmicas do campo no que se refere às
mudanças e à compreensão de que valores se recolocam ou se ressignificam
como esses conteúdos valorativos são capazes de produzir novas intervenções,
de socializar práticas reprodutivas, de construir novos mercados e novas inser-
ções profissionais para novas especialidades, e de que modo trouxeram impor-
tantes deslocamentos para as preocupações clínicas e laboratoriais.
Devo ainda dizer que parte as ideias que aqui se produzem são proces-
sos em construção, vinculados à tentativa de refletir de modo mais englobador
os diferentes espaços de intervenção sobre a procriação humana, seus valores
e seus conteúdos. São ideias construídas desde o trabalho de coleta de material
para identificar as especialidades e os conteúdos de publicações encontradas
nos sites das clínicas brasileiras e da América Latina1. Outros aspectos são re-
flexões que estão sendo produzidas em situação de pos doc durante o ano de
2010, em Barcelona, na condição de bolsista Capes a quem agradeço pela via-
bilização de novas pesquisas com especialistas das clínicas de reprodução as-
sistida e que trabalham nos laboratórios de sêmen, de óvulos, de fertilização in

1 Trabalho de coleta nos sites das clínicas Latino-americanas filiadas à Rede Latino-americana de Re-
produção Assistida que se iniciou ainda em 2007, com o projeto de pesquisa intitulado: Tecnologias
conceptivas: a natureza e os corpos para gênero e ciência e que contou com dois bolsistas de iniciação
científica, alunos de graduação em Ciências Sociais. Diógenes Parzianello defendendo sua monografia
sobre o tema barriga de substituição em 2008 e que esteve em continuidade em 2008, 2009 e 2010 com
a participação da aluna Anna Carolina Horstmann Amorim que também analisou em seu trabalho
monográfico as imagens utilizadas nos sites em busca dos conteúdos e dos valores.

212
Marlene Tamanini

vitro e de medicina regenerativa, bem como do contato e das entrevistas com


pesquisadores das ciências humanas.
Este texto se estrutura a partir de alguns elementos referidos às práticas
bio-políticas e bio-econômicas vinculadas aos corpos que maternam por meio
da circulação de materiais reprodutivos nos modos como neles se intervêm, e
a partir de aspectos que se vinculam ao corpo de especialistas e de instituições
clínicas ou de outras que cuidam para que mulheres maternem no contexto da
reprodução assistida em laboratório. Desde estes dois lugares de discursos e
práticas de um mesmo contexto, pode-se observar quem são os que pretendem
maternar hoje, como maternam, o que maternam.

Práticas bio-políticas e bio-econômicas de como circulam


materiais reprodutivos e maternidades

Quando falamos em práticas bio-políticas e bio-econômicas dos corpos


que maternam estamos nos referindo ao que Waldby e Cooper (2010) mostram
sobre como as mulheres se constituem hoje em doadoras de tecidos primários
para a produção de células-tronco destinadas às indústrias - sobretudo as que
necessitam de grande volume de embriões humanos, de óvulos, de tecido fetal
(materiais desprezados de processos de fertilização in vitro, por exemplo) e de
sangue do cordão umbilical.
Esses materiais que integram hoje uma importante rede de trabalho femi-
nino - segundo as autoras, e que são fornecidos gratuitamente nas democracias
industriais avançadas, constituem-se em excedentes cujas competências são ge-
radoras de outros produtos e que são extraídos de corpos de mulheres pobres em
operações francamente transnacionais para apoiar pesquisas bio-econômicas,
embora o valor econômico envolvido nessas relações seja desconhecido, confor-
me analisa Waldby (2008). Desse modo, mulheres pobres estariam implemen-
tando uma importante rede de atuação de rentáveis negociações a partir do seu
trabalho corporal, caracterizado por atividades bio-econômicas que são advin-
das dos mesmos processos da maternidade ou do chamado ciclo reprodutivo das
mulheres - segundo entendo. Essas atividades, certamente, e de acordo com as
autoras, seriam hoje formas complexas e ainda desconhecidas de identificação
e valorização de atividades econômicas femininas e se constituem em tarefas
fundamentais na ampliação do conceito de trabalho e que teóricas feministas
como Barrett (1980), Delphy (1984) e Tronto (1997) já se impuseram desde os
anos 60, embora para outros contextos. Além disso, essas mulheres permitem à

213
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

medicina reprodutiva encontrar os óvulos e embriões de que necessita, incluso


o sêmen que, porém, não está inserido nas mesma lógica.
Nesta forma de pensar e argumentar a medicina reprodutiva vem encon-
trando seu sentido prático e valorativo, vem formando novas redes de circulação
de materialidades reprodutivas, como é o caso das doadoras de óvulos - que po-
dem estar inseridas em situações diversas. Desde aquelas em que as legislações
dos países regram práticas baseadas no anonimato e previsão de compensação
econômica, tratando-se, por exemplo, do estudo de Bestard e Orobitg (2009) em
etnografia realizada junto a uma clínica de Barcelona, em que as representações
se fundam na ideia do dom de algo que não se precisa, um óvulo, bem como que
se trata de um trabalho reprodutivo pelo qual são compensadas. E isto significa
que é uma maneira de cobrir gastos com locomoção, com os incômodos produ-
zidos pelos tratamentos hormonais, pela pressão psicológica para que produzam
óvulos e pela extração cirúrgica dos mesmos. Até em países como a Noruega,
que proíbe a reimplantação de um óvulo fertilizado em uma mulher que não
seja ela mesma a que forneceu o óvulo, o dom de óvulos está proibido. Conforme
estudo de Melhuus (2009), o adágio de que a mãe é sempre certa foi mantido
na legislação de 2007, enquanto que de modo curioso, a paternidade assumida
como incerta também possibilitou a doação não anônima de sêmen e assume
que, ao completar 18 anos, a pessoa possa vir a conhecer suas origens biológicas
como um direito considerado, indispensável à construção de sua identidade de
indivíduo ao mesmo tempo em que há impossibilidade completa de uma mu-
lher dar a luz a uma criança e torná-la isenta de mãe biológica, como ocorre no
parto anônimo francês. A autora mostra que a proibição do dom de óvulos e a
abolição do anonimato para o dom de espermatozóide caminham em direção à
certeza biológica, aspectos da maternidade e da paternidade sobre os quais não
vamos nos deter aqui, mas que são importantes discussões no campo das filia-
ções, na adoção internacional e igualmente para as maternidades e paternidades
lésbicas, gays, transexuais e transgêneros.
O foco que elegemos sobre como circulam materiais e maternidades nos
leva ainda à outra parte, para o que encontramos nos materiais das clínicas de
reprodução assistida da América Latina a respeito de óvulos e embriões como
resultado da relação entre gametas.
O embrião ocupa o primeiro lugar no conteúdo das publicações dos
especialistas para a América Latina - 21,5%, estando o Brasil em terceiro lugar
com 15.02%, uma vez que os estudos sobre sêmen ocupam o primeiro lugar
com 34% dos conteúdos nas publicações. Os principais conteúdos dizem res-
peito: a) à avaliação da eficácia do uso de laser no preparo da crio-preservação

214
Marlene Tamanini

por congelamentos e recongelamentos - recentemente em alguns centros por


verificação. São estudos sobre metodologias de hatching para adelgaçar e afinar
a zona pelúcida do embrião, facilitando sua implantação; b) estabelecimento de
comparações entre a crio-preservação de embriões humanos obtidos depois da
injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI) com lento refrigeramen-
to e procedimentos rápidos de refrigeramento; c) avaliação da morfologia pró-
nuclear com subsequente avaliação da morfologia do embrião em relação com o
aumento de taxas de implantação e diagnóstico genético pré-implantacional; d)
seleção de embriões por parâmetros de clivagens entre 25 e 27 horas depois da
ICSI, transferências em 48, 72 horas e fase de blastocisto; e) estudos comparando
culturas de embriões com produtos mercadológicos diferentes e comparando as
vantagens de múltiplos congelamentos de embrião em programas de transferên-
cia; f) estudo dos processos sobre a dinâmica do próprio embrião com o obje-
tivo de comparar a implantação de embriões em ICSI usando espermatozóides
originários do marido, ou do doador, ou de diferentes tipos de coletas: a fresco
ou crio preservados, se de sêmen fresco, ou de maturação de gametas retirados
de tecido gonodal no epidídimo; g) determinação da importância do lugar da
transferência do embrião, se na parte superior ou média baixa da cavidade en-
dometrial e sua relação com a taxa de implantação e de gravidez.
Analisa-se também se os lugares de implantação do embrião pós-trans-
ferência têm relação com as altas taxas de implantação em ICSI com transfe-
rência de embrião no 5º dia e baixas taxas de gravidez em meios de cultura
prolongada; avalia-se qual é a taxa de embriões XX e XY provenientes de ciclos
de ICSI e avalia-se o ritmo de clivagem e desenvolvimento dos mesmos.
Outros temas menos presentes e que aparecem como subtemas dizem
respeito a) ao controle da poluição do ar em reprodução assistida em laborató-
rio e áreas adjacentes e sua influência sobre o desenvolvimento e formação dos
embriões; b) à frequência das taxas de abortos; c) à avaliação sobre a incidência
de mal formação congênita em crianças concebidas por ICSI. Não menos rele-
vante é o tema sobre o que fazer com os embriões excedentes e as baixas escolhas
dos casais depois da reprodução assistida associado à doação de embriões para
pesquisa, doação de gametas e embriões in vitro, a cessão temporária de útero,
aspectos que por questões morais de ética e direito estão fora do comércio e
seguem a legislação, não existente porém, em muitos países. Estudos mais
recentes, como são os de 2006 e 2007, referem-se a embriões com ausência de
esperma e gerados por ativação química, mal formação congênita e enfermida-
des genéticas, infecção pelo vírus HIV e impacto na qualidade do embrião, ou
das anormalidades cromossômicas com aumento de anomalias em processos

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

conforme o tempo de sua utilização em ICSI, além da referência a blastócitos tri-


plo nucleados corrigidos através de cirurgia e de diagnóstico pré-implantacional
e genético. Fala-se de multinucleação do embrião, produção de embrião em um
chip que funciona como um miniútero2 e embriões híbridos a partir da integra-
ção entre DNA humano em óvulos de animais para buscar a cura de doenças. A
utilização de técnica de fluorescência para diagnósticos preventivos à transmis-
são de doenças ligadas ao sexo e em caso de paciente com aborto recorrente. Já
os estudos anteriores se voltam para questões como as referidas à adesão embrio-
nária e ao uso de hormônios, ao endométrio em interação com a implantação

2 Num procedimento que lembra as linhas de montagem para fabricar bebês, descritas no livro “Admirá-
vel Mundo Novo”, de Aldous Huxley, cientistas dos Estados Unidos estão desenvolvendo um chip capaz
de executar automaticamente todos os passos da fertilização in vitro, da fecundação dos óvulos até a
preparação dos embriões para implantação. Finalmente, esses aparelhos podem até analisar e testar
embriões para detectar defeitos genéticos. Até o momento, os pesquisadores David Beebe e Mathew
Wheeler construíram protótipos que efetuam os principais passos da fertilização artificial, embora não
sejam todos feitos pelo mesmo chip. Mais ainda, embriões de camundongos se desenvolveram melhor
nos aparelhos do que com os métodos tradicionais. Os pesquisadores dizem esperar que a tecnologia
seja usada a princípio na produção de gado, mas pretendem usá-la, um dia, com embriões humanos. O
trabalho seria o primeiro passo rumo a um futuro em que a fertilização artificial será a regra, segundo
George Seidel, fisiologista reprodutivo da Universidade Estadual do Colorado em Fort Collins (EUA):
“Daqui a cinquenta ou cem anos, os procedimentos in vitro para partes ou mesmo toda a gravidez serão
mais seguros que lidar com as diversas mudanças que acontecem no corpo - como vírus transmitidos
pela mãe, toxinas e assim por diante”, afirma o pesquisador. Na fertilização in vitro convencional, esper-
matozóides e óvulos são colocados numa placa de petri. Nela, os óvulos fecundados crescem até ficar
no ponto para implantação. Como os embriões requerem diferentes meios de cultura em diferentes
estágios, os embriologistas os transferem de uma placa a outra usando uma pipeta. “É como ser suga-
do do oceano Atlântico e soprado no Pacífico”, diz Beebe, engenheiro biomédico da Universidade de
Wisconsin, em Madison (EUA). Melhor que na barriga. Por isso, Beebe e Wheeler, embriologista da
Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, criaram um aparelho que imita as condições do trato
reprodutivo feminino. O aparelho, feito de um elastômero (substância elástica) transparente, lembra
um pequeno tubo de ensaio e contém uma rede de canaletas, cada uma com 0,2 milímetros de compri-
mento e largura. Os cientistas conectam os canais a bulbos de seringa programáveis que podem mover
os embriões pelo aparelho e adicionar ou remover fluidos. Para testar o aparelho, a equipe cultivou
embriões de camundongos para ver como eles atingiriam a fase de blastocisto - hora da implantação.
“Em 48 horas, na placa de petri tradicional, nenhum deles passou para o estágio de blastocisto. Nas
canaletas, cerca de 75% passaram”, diz Beebe. “Os embriões foram transplantados para hospedeiros e
animais saudáveis nasceram. Então, não parece haver nenhum efeito prejudicial”, afirma. Os pesquisa-
dores também usaram o aparelho para retirar a “zona pelúcida” que recobre os embriões nos estágios
iniciais. Na fertilização in vitro humana essa “incubação assistida” pode ser usada para estimular a
implantação. Tradicionalmente, o embrião é colocado num meio ácido, sendo logo removido quando
o embriologista vê a zona se quebrar. Tamanha espera, porém, pode danificar os embriões. Lavando os
embriões de camundongo “estacionados” numa canaleta do chip com ácido, a equipe viu que, até depois
de uma breve exposição, a zona se quebrava com a remoção do ácido. “Os embriões têm sido deixados
no ácido por tempo demais”, diz Beebe. Num segundo experimento, a equipe maturou óvulos de ca-
mundongo nas canaletas e os fecundou respingando sobre eles alguns espermatozóides.No futuro, eles
devem juntar todos os passos num só trato reprodutivo artificial. Disponível em: http://eumat.vilabol.
uol.com.br/concepcao.htm. Acesso em: 12 ago 2010.

216
Marlene Tamanini

de embriões, embriões doados com consentimento, crio-preservação, detecção


precoce de embrião aneuplóide em casos de aborto espontâneo, correlação entre
morfologia do embrião e qualidade do esperma, barreiras para implante do em-
brião, comparação entre implantação e dia da cultura do embrião, transferência
de blastócitos e doação de óvulos.
Essas práticas inserem-se ainda no mesmo rol do que se faz com embriões
na problemática da sexagem que, embora ilegal em muitos países, foi apresenta-
da muitas vezes nos discursos midiativos, aparece no interior das práticas sobre
embriões e no Brasil representa 2% dos temas encontrados em 192 resumos.
O tema do uso e da investigação sobre óvulos também é importante e
ocupa o 4º lugar para o Brasil e América Latina com 9.84% e 11,8%. Aparece
somente em resumos de artigos apresentados em congressos. Seus conteúdos
falam de falência ovariana precoce associada à deleção do cromossomo e à
tensão que se coloca para a FIV quando há óvulos excedentes. Apresenta-se
resultados de programas de congelamento com uso de diferentes meios de
cultivo. Discutem-se questões ligadas a programas de óvulos congelados e de
doação dos mesmos. Analisa-se a idade oócitária e a qualidade espermática
em relação à sua influência sobre as taxas de sucesso. Afirma-se que, embora
o número de folículos seja baixo, eles podem prover boa qualidade de oócitos
e embriões. Em contrapartida, apresentam-se estudos para demonstração de
que o índice de sucesso de FIV em mulheres acima de 44 anos é limitado ao
grupo de mulheres de 45 anos com reserva ovariana normal e com resposta
de pelo menos cinco óvulos durante a hiperestimulação ovariana. Compara-
se a ICSI e a FIV convencional em caso de um único óvulo e esperma fértil
disponível. Discute-se a rara associação do lugar da implantação ovariana para
pacientes com gravidez heterotópica e com gravidez ectópica primária depois
da ICSI. Fazem-se estudos sobre a fertilização de oócitos reconstruídos por
núcleos de células de doadores. Há ainda uma série de temas como tabagis-
mo, consumo de álcool e café versus envelhecimento ovariano; avaliação da
resposta inflamatória no soro e líquido folicular em pacientes com anovulação
crônica submetidas à hiperestimulação ovariana controlada se comparada a
pacientes ovulatórias e com ciclos regulares, submetidas à ICSI.
Esses temas estão imbricados em muitas questões éticas que só apare-
cem superficialmente no caso de óvulos congelados, doação oocitária, idade
oocitária, produção de gametas in vitro.
Nas práticas clínicas a doação de óvulos é uma forma de viabilizar a ma-
ternidade que, sem uma rede que dê suporte fornecendo gametas aos casais,

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

sobretudo, às clínicas, não teria como fazer e atender as demandas de mulheres


sem óvulos ou com baixa ovulação. Mulheres que por razões de idade já não
têm uma taxa de sucesso elevada com a utilização dos seus próprios. Esta di-
nâmica da idade faz com que, em busca de sucesso, as clínicas já não estejam
incentivando essas mulheres a seguirem os tratamentos com seus próprios
óvulos, mas as encaminhem em direção à ovo-doação.
Segundo o relatório da Rede Latino América de reprodução Assistida
(REDLARA), as transferências de embriões em mulheres com mais de 35 anos
e que vinham se mantendo em alta desde 2002 - representando 50%, em 2007
chegaram a 56%, o que dá uma noção de que tipo de dinâmica etária está se
estabelecendo para a maternidade quando em reprodução assistida e, igual-
mente, uma explicação importante para o aumento dos processos com ovo-
doação - 64% das aspirações corresponderam a ciclos com donantes exclusivas
em 2007. Considere-se que nesses processos ocorrem também maiores índices
do número de abortos, sobretudo em mulheres com mais de 40 anos, porque
as mulheres passam por mais números de ciclos de transferência e porque a
tendência é a de transferir mais do que dois embriões nessa faixa etária. Além
do fato apontado pelo relatório, de que ocorre maior número de abortos es-
pontâneos nos casos de transferências com embriões crio-preservados, como
também há uma correlação direta entre baixa taxa de gravidez e mais idade,
utilizando-se embriões frescos. Os embriões descongelados parecem nidar
melhor, porém se aborta mais, isto somado à multigestação e aos bebês prema-
turos - a necessidade em muitos casos de doador de sêmen pode trazer signifi-
cativos problemas de ordem clínica, emocional e social para uma mulher que
quer ser mãe depois dos 40 anos. É por essas razões que o discurso médico em
reprodução assistida é tão insistente em relação a quando uma mulher deve
fazer sua escolha reprodutiva.
Com a ovo-doação é claro que são evitados excessos de estimulação,
transferências extremas de embriões, sobretudo em mulheres com mais de 40
anos, sendo que se reduz taxas de multigestação extremas com nascimentos de
muitos bebês prematuros, mas também se cria um mercado. Um novo mercado
que permite que os ciclos de reprodução assistida impossíveis de serem manti-
dos em outras condições possam ser mantidos frente à utilização de óvulos de
mulheres mais jovens, com melhores capacidades reprodutivas e condições de
anonimato. Essas mulheres entram nesta rede prestando um chamado ‘serviço’
aos casais, ou a mulheres e homens em situações diversas, ou fornecendo di-
retamente materiais reprodutivos às clínicas, os quais são vendidos em alguns

218
Marlene Tamanini

países; em todos os casos, a relação que as doadoras estabelecem com este ato
parece não estar inserida em representações sobre o seu próprio maternar e
sim sobre o de outras. Estes aspectos se conjugam à subrrogação de úteros ou
à barriga de substituição, quando a legislação permite e segundo necessidades
específicas e de diferentes atores.
São processos dinâmicos sobre os quais puderam ser expandidas as pos-
sibilidades de maternidade que no campo da reprodução assistida por vezes
beiram quase à patologia. Tanto frente à forte insistência, o relato de dor, o in-
conformismo e a depressão vividos pelas mulheres que fazem do caminho da
busca pelo filho o seu único e absorvente objetivo de vida ao buscá-lo de qual-
quer modo, inclusive fora da relação de matrimônio, quando seu companheiro
não aceita uma doação de sêmen, como está bem demonstrado pelo estudo de
Fito (2008) para a Catalunha, como pelo modo como nos argumentos dos es-
pecialistas e nos caminhos do mercado se ressignificam valores operativos das
práticas nos discursos biomédicos, nas bio-informações e a partir das ofertas
de novos protocolos e tecnologias que se ampliam cada vez mais, que se vão
para o conhecimento do interior das células.
Estas tecnologias e esses usos, considerados simples - não faz muito
tempo - e vinculados às necessidades produzidas pela inseminação artificial,
fertilização in vitro, injeção intracitoplasmática de espermatozóide sofreram
desde os anos 90 aperfeiçoamentos e grande incremento tecnológico nos úl-
timos 15 anos. Sobretudo nos últimos 5 anos com os novos microscópios, os
diagnósticos mais capacitados e os processos de conservação de materiais re-
produtivos, porém, ainda mantêm-se desafios importantes, mostrados antes
pela crítica feminista e que apontavam para os riscos dos usos dessas tecnolo-
gias para mulheres e bebês.
Segundo consta no Relatório Latino-americano de reprodução assistida
de 2007, se pode perceber que, embora em declínio, em torno de 6.9% menos,
tem-se multigestação e especialmente a multigestação extrema que, em sua
grande frequência, se deve à transferência de uma quantidade excessiva de em-
briões, independente da idade da mulher e do tipo de embrião transferido, que
resulta em mais multigestação, especialmente extrema, quando a transferência
é de mais de 3 embriões, além do maior número de bebês prematuros, o que se
acentua em mulheres com mais de 40 anos.
É também um fato, todavia, que as clínicas separam-se das relações
vinculadas a decisões personalizadas tomadas a partir da experiência de cada
profissional e frente à especificidade de cada quadro ‘trazido’ pela mulher.

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Hoje elas seguem em muitas partes do mundo protocolos standartizados por


laboratórios em complexas cadeias industriais voltadas aos hormônios, por
exemplo, e que formam uma rede econômica enorme, com distintas marcas e
distintas indicações porque também fornecem quase tudo o que uma clínica
necessita para preservar gametas e embriões ou meios de cultivo com controle
de qualidade e adaptados aos materiais humanos e a cada tipo de processo. São
opções distintas e contratos de compra e venda regrada por staff administrati-
vo dos laboratórios e das clínicas, com protocolos e cláusulas específicas para
cada clínica e para cada situação vivida. Isso ocorre, sobretudo, nas clínicas de
grande porte e que têm alta demanda de todo tipo de necessidade, desde as que
são vinculadas à busca por gravidez, aos diagnósticos genéticos e ou à preser-
vação de gametas para os processos de fertilização in vitro posteriores a uma
radioterapia ou a uma quimioterapia. No mais, há hoje uma reespacializaçao
dos serviços que se voltam para os bancos de coleta, à manutenção e recapa-
citação de gametas masculinos e femininos. Estes muitas vezes são lugares se-
parados dos lugares onde ocorrem as fertilizações in vitro ou dos lugares onde
se faz diagnósticos pré-implantacionais ou desde onde se preserva o material
reprodutivo de pessoas que estão em tratamento para câncer.
Assim estas diferentes formas de dar conteúdo ao mesmo processo da
reprodução assistida se encontram também muito ampliadas no interior da
própria prática que faz o quadro de inserção das especialidades e cria a ne-
cessidade de infraestruturas, de ofertas de serviços e de pesquisas que não
estavam presentes até décadas muito recentes. Desse modo aumentam-se as
plantas físicas para dentro do campo, a capacidade administrativa, o quadro
de recursos em especialistas e técnicos de laboratório, bem como a necessi-
dade de formação para novos profissionais, visando ao trabalho em clínica
e em laboratório. Delimitam-se assim também as áreas de atuação, embora
estas sejam cada vez mais interdisciplinares. Essa espacialização é adequada às
muitas, diversas e diferentes demandas, facilita a visibilização da diversidade
profissional, possibilita o desenvolvimento de algumas pesquisas em centros
mais avançados, permite a dedicação de embriologistas, biólogos, geneticis-
tas e permite à área de ginecologia ou de andrologia apoiar-se incondicional-
mente nesta rede de outros profissionais para a tomada das decisões e para a
execução dos processos, sejam eles sobre a coleta, a crio-preservação ou os
testes em gametas e embriões, bem como sobre a confecção de embriões ou
decisões sobre transferências que dependam das informações e das condições
do laboratório e das pessoas envolvidas. Por vezes, igualmente, o profissional

220
Marlene Tamanini

do laboratório está mais perto das pessoas - homens ou mulheres envolvidos


no processo - embora, em geral, ele esteja lidando com um material que, no
espaço do laboratório, se apresenta completamente desvinculado de um corpo
de uma pessoa. E por isso, para preservar, cuidar e dar o fim desejado a este
material, necessita assumir sua tarefa, que é de outra ordem.
Muito diferente “era nos anos 80”, me dizia uma bióloga em Barcelona,
quando começaram a nascer em todo o mundo os bebês chamados nesta épo-
ca de “provetas” e que eram fruto literalmente de muito trabalho adaptativo e
artesanal de um biólogo muitas vezes solitário em um laboratório e a tentar
encontrar o melhor caminho para que esse embrião se desenvolvesse ou não
morresse por falta de recurso adequado - como seria um meio de cultivo ne-
cessário às suas meioses e ao seu crescimento. Hoje os microscópios de alta
precisão também podem eleger e garantir os melhores espermatozóides e as-
sim os melhores embriões3 no que depende dos gametas masculinos. No mais,
o embrião já pode ser estudado por meio de técnicas moleculares e já se pode
identificar os cromossomos que produzem doenças ou abortos4.
Sem desenvolver neste exíguo texto os aspectos demandados por cada
uma dessas situações e desconsiderando a necessidade de legislação específica
a cada prática ou técnica, o fato é que o campo da reprodução humana assistida
no laboratório vem se modificando e, embora no caso dos filhos esteja consti-
tuído sobre uma representação de maternidade marcadamente biológica, ainda
que permita muitas outras práticas, vem se expandindo para outros domínios,
como são os de intervenção e pesquisa, tais quais: os diagnósticos genéticos pré-
implantacionais, a preservação de óvulos, sêmen, de embriões e de tecidos gono-

3 Em um site de uma clínica em Barcelona encontra-se: a descoberta de novas formas para selecionar
embriões com a melhor qualidade tem sido um desafio para o embriologista e cientista da infertilidade
de todo o mundo. A chance de gravidez para o casal depende da qualidade do embrião. Isso significa
que a qualidade dos gametas é essencial para produzir um embrião saudável para obter a gravidez. Du-
rante a seleção para o ICSI convencional 200/400X de 200 a 400X não se podia detectar os problemas
com a ampliação da IMSI (intracitoplasmática de espermatozóides morfologicamente selecionados
por injeção). Aplicando o procedimento Super - ICSI o espermatozóide é selecionado com ampliação
até 12.500X e os defeitos, tais como vacúolos ou fragmentos no DNA dos espermatozóides podem ser
identificados. Disponível em: http://www.crh.com.br/english/treatment.htm. Acesso em: 6 ago 2010.
4 O diagnóstico genético embrionário é um diagnóstico precoce com o objetivo de prevenir as doenças
antes da transferência embrionária. É realizado por uma equipe multidisciplinar, associando os mé-
todos de reprodução assistida (FIV, ICSI e biópsia de blastômero) às técnicas de investigação genética
(citogenética e biologia molecular). A biópsia do embrião (quando tem 6-10 células) permite o estudo
genético de uma célula única, tornando possível a transferência dos embriões para as características
testadas como normais. O PGD é indicado para casais com alterações cromossômicas numéricas de
alto risco (aneuploidias) ou estruturais (translocações/inversões) e para determinadas doenças mono-
gênicas. Disponível em: http://www.crh.com.br/english/treatment.htm. Acesso em: 6 ago 2010.

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dais para pacientes que necessitam de quimioterapia, expansão e pesquisa com


hormônios sintéticos. Juntamente com estes aspectos da ordem das técnicas
de laboratório, forma-se um novo campo de procedimentos, consentimentos e
argumentos, intervenções, pesquisas e mercados. Em todos esses casos, do pon-
to de vista biomédico, fala-se de reprodução assistida; não creio que se trate de
iatrogenia do campo dos procedimentos que eram relativos unicamente às ques-
tões de infertilidade, mais simples, ou que se trate de esgotamento do campo
porque eventualmente teria atingido seu ponto máximo de expansão aos 30 e
poucos anos, trata-se, igualmente, de novas fronteiras.

O corpo que cuida para que mulheres maternem

Considerando os resumos dos artigos e as entrevistas que estou reali-


zando em situação de pós doc, em Barcelona, essas técnicas, seus protocólos,
os equipamentos, os produtos para manutenção de gametas e embriões se vão
em direção a procedimentos de alta complexidade e essa se constata de modos
diferentes, seja a partir do desenvolvimento de tecnologia para gametas, visan-
do melhorar sua qualidade, morfologia, mobilidade, ou os novos processos de
crio-preservação por vitrificação, que evitam a formação de cristais de gelo
durante o congelamento de óvulos, sêmen e embriões, sobretudo em óvulos, já
que estes possuem maior quantidade de água. Também se constata essa com-
plexificação em relação às novas tecnologias para preservar melhores gametas
e embriões sem causar danos às células no que se refere às possibilidades de
fecundação, manutenção, maturação, cultivo, desenvolvimento e seleção mais
adequada de materiais, protocolos de coleta, manipulação e preservação em
laboratório. Outras técnicas parecem ter sido abandonadas, como é o caso do
rejuvenescimento de óvulos, que já não é tão utilizada, pelo menos em Barcelo-
na, embora apareça em alguns trabalhos científicos observados para o material
da América Latina. Segundo os especialistas que entrevistei em 2010, porém,

já se sabe que é o DNA mitocondrial quem passa os maiores problemas, de


modo que como me explicou um embriologista recentemente, esta técnica
não resolveria a maior parte dos problemas, além de estar implicada em
questões éticas porque se misturam núcleos de células diferentes e pouco
ou em nada solucionaria os problemas que estariam no citoplasma das cé-
lulas. Esses aspectos também incidem sobre os embriões no que tange aos

222
Marlene Tamanini

diagnósticos genéticos pré-implantacionais para detectar doenças genéti-


cas, favorecer o nascimento de bebês que possam curar irmãos ou no que
diz respeito à engenharia genética voltada aos hormônios para produzir
cópias dos hormônios naturais5. Estes, embora tecnicamente mais ca-
ros, são menos agressivos e em alguns lugares, como na Espanha,
substituíram o uso dos hormônios de urina humana na maioria
dos centros, onde são usados os recombinantes [sic].

Outros também são os aspectos relativos às mudanças nos meios de


cultura, às melhorias nas condições dos laboratórios, na difusão e reconhe-
cimento do conhecimento produzido. Igualmente em termos biomédicos, há
maior eficácia e maiores resultados em direção aos objetivos dos tratamen-
tos, sejam estes para buscar uma gravidez ou para preservar a fertilidade em
casos de câncer, conforme citado. Os especialistas que busquei ultimamente
são otimistas e seus trabalhos revelam dinâmicas importantes tanto em ter-
mos de mudanças nas abordagens dos problemas e dos desafios, como nas
formas de uso e desenvolvimento de novas tecnologias e novos protocolos
clínicos e laboratoriais. Além do mais, revelam grande satisfação pessoal,
sobretudo por uma história de vida que cada um tem neste campo. Um me
dizia: “estou nisso desde que a reprodução assistida era o patinho feio da
ginecologia e que não interessava a ninguém”.
Aspectos diversos podem ainda ser visibilizados se observadas as condi-
ções regionais dessas dinâmicas, principalmente comparando o que encontra-
mos em pesquisa anterior para o Brasil e a América Latina, exceto pelas condi-
ções de muitos laboratórios e porque há ausência de legislação para quase todos
os países latino-americanos e as práticas sobre o que se faz com materiais repro-
dutivos, sobretudo gametas e embriões, que são globais, e não estão distantes do
que se faz com materiais reprodutivos, redes de especialistas e laboratórios em
grandes centros de reprodução humana de muitos países. Exceto quando se fala
em legislação, o que existe é uma tentativa muito pouco informada, pouco eficaz
e com pouco conhecimento sobre os reais conteúdos a legislar. Na maioria dos
casos, como o é para o Brasil, os poucos pontos de interesse legislativo que se
encontram em chamados projetos de leis são mal postos, nunca discutidos e de

5 No site do Instituto CEFER BCN ES consta que os medicamentos que se receitam são hormônios
recombinantes; quer dizer que são sintetizados com técnicas de engenharia genética e são como os
hormônios produzidos pela hipófise. Disponível em: http://www.institutocefer.com/es/qh-prguntas-
frecuentes.php. Acesso em: 6 ago 2010.

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fato em pouco ou em nada cercariam as complexas problemáticas envolvidas


com reprodução assistida. Este fato me parece grave e, especialmente, quan-
do centros internacionais passam a entrar em território brasileiro e de outros
países latino americanos para estabelecer suas clínicas. Qual legislação levarão
em conta? Por que vêm? Quem dá as regras desse mercado? Farão aí o que as
legislações de seus próprios países não permitem que seja feito em seu país?
Ou trata-se de sempre de um sentimento altruísta e de um dever de ajuda -
sempre afirmado em situação de entrevista?
Pudemos entrevistar 15 especialistas nos meses de julho e agosto, e den-
tre eles, pelo menos 6 se disseram ligados ao trabalho de equipes brasileiras,
ou argentinas, ou mexicanas, aspecto que já havíamos observado quando Ana
Horstmann Amorim, bolsista de iniciação científica no curso de Ciências So-
ciais da UFPR, recolhia as informações desde os sites até quando eu as anali-
sava. Vários apareciam publicando junto com outros que estão nas clínicas de
Barcelona ou de Valência, lugares da Espanha em que mais se faz reprodução
assistida. Muitos desses estudos são conduzidos em situação de investigação
também com trocas importantes entre Brasil e Espanha nos centros de medi-
cina regenerativa ou de pesquisas com células-mães, segundo me disse uma
bióloga. Estas redes estão focadas sobre as terapêuticas tecnológicas que, ao
invés de ser como no início dos processos, dirigidas aos corpos de mulheres,
estão claramente implementando as práticas sobre gametas e, sobretudo, sobre
embriões, ou sobre pesquisa genética e molecular.
No caso da reprodução assistida, observa-se que ao mesmo tempo em
que há um crescimento e uma complexificação das técnicas, compartilha-se o
conhecimento entre diferentes especialidades e há necessidade de um traba-
lho intenso de equipe para sustentar essas tecnologias no seu amplo sentido:
seja dos protocolos, das intervenções e da obtenção de materiais genéticos,
dos diagnósticos pré-implantacionais em embriões ou dos novos exames para
identificar perdas de embriões pós-transferência sobre a presença ou não de
determinados cromossomos, interferindo nos processos das divisões celula-
res ou nas dificuldades genéticas para engravidar. Também já não se encontra
sempre o estrelismo de uma especialidade sobre a outra. Conforme constata-
mos para América Latina, ainda que a ginecologia siga sendo muito expressiva
tanto na produção de publicações como em sua prática clínica, outras áreas
tornaram-se imprescindíveis. Foram expandidas as inserções de diferentes es-
pecialidades, estabelecidos os âmbitos de atuação e modificadas antigas hie-
rarquias entre profissionais da biomedicina, por exemplo, as que mantinham

224
Marlene Tamanini

a hierarquia entre médicos, biólogos e veterinários. Hoje não se pode pensar


o laboratório sem considerar que nele atuam diferentes especialidades, muitos
técnicos e muitas tecnologias tanto no sentido de ferramentas, como no sen-
tido do argumento e do discurso, ou no sentido econômico e político. Dizia-
me um entrevistado embriólogo recentemente: “si me estropea una máquina
de estas (...) mi costara más dinero que arreglar dos coches”, o que quer dizer
que há também um importante cálculo em relação ao custo benefício desta
maternidade em termos da manutenção da infraestrutura e do material de um
laboratório. São muitas vozes e desde muitos pontos a fazer eco ou a construir
um grito por maternidade e por novas inserções profissionais.
Além disso, o fato de que haja muitas outras especialidades forma ou-
tros olhares sobre as possibilidades para a maternidade, sobretudo os que se
vinculam aos aspectos mais tardios, relativos à doação e recepção de óvulos,
ou de sêmen, ou a decisão de não ter filhos, ou de adotá-los. Ainda, as mu-
lheres podem se relacionar por razões de substituição de útero, ou por meio
de decisões que envolvem doadores de sêmen, compartilhamento de óvulos e
útero, ou no caso em que os procedimentos sejam para dois homens.
Em direção às considerações finais é preciso dizer que, conjuntamen-
te com estas questões técnicas e éticas, ocorrem os processos de feminização
em várias especialidades - são muitas mulheres cuidando para que outras ma-
ternem. Ao mesmo tempo estão realizando importantes pesquisas no fazer
científico, porém, ainda quando se reconhece sua importante inserção, com
recente entrada, porém intensa, elas o fazem no contexto de um saber tácito e
não estão sempre presentes com reconhecimento no saber oficial, nem nas pu-
blicações e isto significa que o campo não está sendo compartilhado em iguais
condições com referência às especialidades.
Em entrevista recente eu perguntei à bióloga e responsável com mais
dois membros da equipe pelo nascimento do primeiro bebê em Barcelona
como foi essa história de que a biologia tenha saído na frente da ginecologia
e que ela, sendo mulher, estivesse neste lugar. Disse-me que ela foi a primeira
mulher e o primeiro homem, porque não havia nada, encarou duplamente sua
posição de campo, situação que eu entendi como parte de sua luta para elevar
a biologia ao estatuto que ocupava e ocupa em reprodução assistida. Digo isso
porque outros biólogos entrevistados me fizeram referência ao trabalho dela,
desde onde se dilui, a partir desse olhar, a sempre estabelecida hierarquia entre
o ginecologista e os demais membros dessas equipes. Em um momento de

225
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

exigência interdisciplinar para esses procedimentos e intervenções entende-se


melhor do que fala esta mulher.
Da mesma forma é comum que encontremos os profissionais desta área
- como o é para a biologia, a embriologia, a bioquímica e a química, a bacte-
riologia, a biomedicina e às vezes a genética - em tarefas repetitivas, vinculadas
a uma importante divisão sexual do trabalho, com esforços de movimentos de
mão, de olhos, controles de tempo que são extenuantes, aspectos desenvolvi-
dos por muitos estudos do campo da divisão sexual do trabalho e gênero. É
também o caso do técnico de laboratório com maioria mulheres, sendo que se
exige destreza manual, habilidade com detalhes, repetição, protocolos rígidos
a cumprir, contato direto com máquinas (microscópios, centrifugadoras, siste-
mas de ventilação e refrigeração), observação minuciosa do que se passa com
os materiais, cuidados intensificados para não perder ou prejudicar as amos-
tras e demais produtos, ferramentas e aparatos técnicos. Nestes lugares ocor-
rem frequentemente muitos estereótipos de gênero - desde os que distinguem
desigualmente à capacidade de homens e mulheres, quanto por distribuição de
atividades e tarefas. Donde se observa que, em geral, existe uma forte presença
feminina nos laboratórios em atividades estressantes.
Segundo informação em situação de entrevista em julho de 2010, a
bióloga chefe de um dos laboratórios de animais transgênicos de Barcelona
me dizia que sempre busca prioritariamente mulheres para o trabalho por-
que estas têm acuidade de olhar, facilidade de manipulação visual e manual,
cuidados mais intensos com as manipulações de pipetas e pequenos frascos.
Referia-se ela principalmente às amostras de DNA, de ratos que me mostrou
naquele momento e materiais que estavam em pequenos e sensíveis frascos.
Acrescentou que “se quebrados, vão custar muito trabalho, muito dinheiro
e a perda dessas amostras, que são cepas importantes”. Falava do controle e
de como as mulheres trabalham de modo concentrado, sistemático, de como
seguem protocolos e são capazes de manter o ambiente em ordem, condição
indispensável a este tipo de trabalho. Disse que elas têm a medida de força,
de controle e de movimento necessária ao toque dos materiais e ao espaço
que é cheio de detalhes. Ao final acrescentou: “quiçá porque nos educaram
assim”. Ao que eu comentei: “... e o mercado sabe muito bem como se apro-
veitar dessas habilidades, não?”. Ela acrescentou: “a verdade é que nos explo-
ram demasiado, nos dão muito trabalho”. Nesse momento uma das mulheres,
técnica de laboratório, que ela havia me apresentado, juntamente com mais
uma, me olhou em sinal de cumplicidade. Tratava-se da mesma que, ao ser

226
Marlene Tamanini

apresentada a minha chegada, me explicou que não podia estender a mão ao


cumprimento porque estava com luvas e tratando com as amostras de DNA,
ainda que eu não tivesse estendido a minha, o que raramente o faço - ela se
comunicava pelo olhar, que era muito expressivo. Neste momento a entrevis-
tada dedicou-se todo o tempo de modo inteligente, organizado, pedagógico e
muito ilustrativo a me descrever as fases de cada procedimento, os termos, o
conhecimento e os desafios desse campo. Também expressou sua consciência
sobre a divisão sexual do trabalho, falou sobre as tensões do seu trabalho com
as hierarquias e os gerenciamentos que estavam acima de sua equipe e que
vinham da parte de homens. Isto se revelou também quando, ao sair do labora-
tório, já no elevador para descer ao ponto de chegada, falou-se das habilidades
necessárias a uma equipe e ela me disse que era preciso muita harmonia e que
havia conflitos com outras instâncias de gerenciamento, mas que a equipe dela
era muito boa e que sempre o que mais pedia era honestidade pessoal porque
se alguém comete um erro em uma amostra e não diz nada, ao final de dois
anos, que é o tempo que levam para obter uma amostra de DNA, terão perdido
muito tempo e muito dinheiro, além do que o resultado será nulo. Isso com-
promete as pessoas, o laboratório e até o trabalho de todos.
Da minha parte, observar essa configuração de sexo entre profissionais
é mais do que falar em termos de divisão sexual de trabalho, inclusive, porque
se os conteúdos destas relações forem olhados pela perspectiva de gênero, seus
significados são muito mais amplos do que aquilo que se poderia atribuir à
divisão sexual do trabalho. No caso da reprodução assistida a biologia vem de-
marcando importante protagonismo e com participação intensa de mulheres.
O último aspecto sobre o qual me detenho é o de dizer que quando se
segue o curso das condições de produção e de intervenções possíveis sobre os
tecidos, óvulos, sêmen e embriões, hipófise e útero, se acompanha o que se pode
e se deve saber para compreender e poder compor o que se exige dos próprios
profissionais médicos e ou dos investigadores no interior do campo de inter-
venções sobre a reprodução. Neste caso se evidencia um quadro intenso de re-
lações medidas, quantificadas, racionalizadas a partir de expectativas a respeito
do que um corpo deve estar apto a produzir para reproduzir-se, que deve conter
os gametas, como deve ser morfologicamente, que idade deve ter, como ocorre
a reação aos processos de resfriamentos, congelamentos e de vitrificações, em
que condições necessita encontrar-se. O mundo aqui aparece em situação de
intensa fragmentação e os sentidos só se conectam quando os fins desses usos
são explicitados na forma de “ajudamos a fazer a vida”, “trabalhamos pela vida”,

227
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

“buscamos a felicidade de pessoas”. No mais, na prática cotidiana parece ser


o mundo dos fragmentos. O processo é tomado como o da competência do
laboratório e os encomendantes (clientes) serão mais ou menos comunicados
também somente a partir dos resultados. Aqui contam os protocolos sobre
como campos hormonais, úteros e endométrios devem ser preparados, como
tomar medicamentos para obter rendimentos e sincronizações de ciclos, a des-
peito dos problemas que os interessados possam estar vivendo ou de sua his-
tória subjetiva geradora da demanda ou da história sobre a própria filiação do
casal e o modo como ela está sendo mobilizada, aspecto que se sabe contar se
o olhar for desde outros campos. Estas questões recaem sobre uma doxa maior
e que se pretende universal, que desde o olhar crítico das ciências humanas,
sociais e feministas estabelece-se sobre a necessidade de indagar a respeito dos
movimentos e mecanismos históricos responsáveis por fazer com que se pense
que essas intervenções tecnológicas são compatíveis com a experiência sub-
jetiva, com a ideia sobre superação do sofrimento por ausência reprodutiva.
Ou sobre modelos de família que seguem sendo planteados na emergência do
laboratório - onde se pensa estar superando um sofrimento e uma dor por
ausência reprodutiva. O fato é que muitos conteúdos já foram objeto dessas
práticas e desses estudos em reprodução assistida alguns foram abandonados,
outros seguem presentes porque concomitante aos processos de investigação
existem de fato práticas implementadas e argumentos valorativos que as legiti-
mam como são os argumentos sobre a gratuidade do exercício do gerar a vida,
da cura de uma impossibilidade reprodutiva. Assim, o discurso e as proposi-
ções médico-científicas jogam importante peso no processo de naturalização e
legitimação das tecnologias, dos protocolos e das intervenções sobre gametas,
órgãos e embriões.
Afirma-se ainda que, mesmo quando as vozes dos médicos e dos labora-
tórios no contexto das novas tecnologias conceptivas não conformem sozinhas
parâmetros definitivos para compreender-se esta realidade, é certo que desem-
penham papel fundamental, sobretudo, se colocadas frente à forma como são
constituídos os dispositivos desta bio-informação, os dispositivos técnicos e de
linguagem, e como se produzem os agenciamentos bio-políticos (FOUCAULT,
1988; 1990; 2002). No mais, a prática evidencia ainda a comunidade científica
que a produziu, os seus interesses, avanços e limites. Portanto, é uma produção
cognitiva e social (DORE; SAINT-ARNAUD, 1995).
Assim o afirmo porque existe uma importante rede de interesse por de-
trás do trabalho de cada clínica de reprodução assistida que é composta por

228
Marlene Tamanini

indústrias, laboratórios, centros de crio-preservação de gametas, de circulação


de materiais reprodutivos e aluguéis de úteros. Essa rede independe, muitas
vezes, da concordância ou da avaliação de profissionais que se encontram na
ponta de um processo, como o é o trabalho em uma clínica. Isso é só o começo
visível de um novelo que ainda está para ser desenrolado.

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“MEIO QUILO DE GENTE!” - A
BIO-POLÍTICA DAS IMAGENS
ULTRASSONOGRÁFICAS FETAIS

Lilian Krakowski Chazan

V erifica-se na atualidade um fenômeno em torno das imagens ultras-


sonográficas fetais. O que era a princípio e em princípio uma tecno-
logia de imagem médica transformou-se em objeto de consumo e ‘lazer’.
Investiguei esse fenômeno em uma etnografia desenvolvida em três clíni-
cas de ultrassonografia no Rio de Janeiro. Discuto de que modo o consumo
de imagens fetais é constitutivo de novas subjetividades, fetais e maternas,
e ao mesmo tempo contribui para o reforço de uma visão medicalizada da
gravidez. A produção do prazer de ver o feto é a pedra de toque que une
o útil ao agradável, e o consumo de imagens é um ponto de articulação de
diversas questões. No campo observado, as grávidas buscam ativamente
obter imagens fetais. No decorrer do exame, os profissionais produzem
narrativas visuais e discursivas. Constrói-se uma subjetivação que engloba
indistintamente as imagens, a gestante e o feto, ao mesmo tempo em que é
produzida uma estetização das imagens, uma exteriorização do feto e uma
‘con-fusão’ da imagem com o feto propriamente dito. Desse modo ocorre
uma reconfiguração de vivências da gravidez mediada pela tecnologia de
imageamento. Os vídeos com imagens fetais tornam-se um entretenimen-
to de caráter similar ao proporcionado por documentários. Entendo esta
situação como parte de um panopticismo que devassa corpos femininos
e fetais, ao mesmo tempo normatizando-os e construindo novos sujeitos
calcados em corporalidades virtuais.

233
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

“Meio quilo de gente!” A bio-política das imagens ultrassonográficas


fetais

A partir dos anos 1990, no Brasil, o ultrassom obstétrico expandiu-se


como prática de acompanhamento pré-natal, tornando-se um exame conside-
rado essencial para o acompanhamento da gravidez nas sociedades urbanas.
Esta prática apresentou - e apresenta - uma série de desdobramentos inusi-
tados. Visando à compreensão deste fenômeno, desenvolvi uma etnografia
em três clínicas privadas de imagem, no decorrer de 2003, no Rio de Janeiro
(CHAZAN, 2005; 2007a).
A pesquisa evidenciou de que modo são produzidas diversas reconfigu-
rações na construção social da gravidez e do feto como Pessoa por meio de nar-
rativas discursivas e visuais, em um processo interativo que ocorre durante as
sessões de ultrassom. Os aspectos lúdico e de consumo da imagem são elemen-
tos centrais para a produção, manutenção e expansão do ultrassom obstétrico no
universo observado. Em um mesmo movimento a ultrassonografia é reafirma-
da como produtora de verdades médicas sobre a gravidez e o feto (CHAZAN,
2008); este é constituído como indivíduo subjetivado e ‘inserido’ socialmente
e, por meio da visibilização do corpo fetal1, o processo de gestação passa a ser
compartilhado por parceiros, familiares e amigos. Em paralelo, paradoxalmente,
embora o ultrassom seja realizado no corpo da mulher, este torna-se ‘invisível’
(STABILE, 1998), sendo relegado a um segundo plano nos discursos. No mesmo
processo, ignora-se o devassamento intrínseco à tecnologia de ultrassom e, com
isso são de certo modo reconfiguradas - ao menos no contexto observado - no-
ções relativas à intimidade e à privacidade (CHAZAN, 2007b).
A construção da ultrassonografia obstétrica como objeto de consumo,
apreciação e desejo é um fenômeno superdeterminado. Diversas histórias en-
trelaçadas possibilitam estabelecer a compreensão do problema, lançando luz
sobre a questão por ângulos diferentes dentro de uma outra história que en-
compassa e modela aquelas que são ‘setorizadas’.
A ‘grande’ história seria a da modificação das formas de relações de po-
der com a instauração final de um regime de monitoramento e vigilância den-

1 Utilizo os termos ‘visibilizar’ e ‘visibilização’ (em contraste com ‘visualizar’ e ‘visualização’) porque,
em primeiro lugar, são termos nativos e consistem em uma distinção êmica. Em segundo lugar, cabe
ressaltar que, a rigor, a tecnologia do ultraSsom - assim como todas as tecnologias de imagem médica -
‘torna visível’, ou ‘visibiliza’ algo não acessível diretamente ao olhar. O termo ‘visualização’ diz respeito
à situação direta durante os exames: todos ‘visualizavam’ as imagens na tela do monitor.

234
Lilian Krakowski Chazan

tro dos moldes do panóptico (FOUCAULT, 1984; 1999), uma estratégia sem
estrategista que engendra um modo peculiar de os seres humanos lidarem com
variados aspectos da vida, com ênfase especial no papel da visualidade neste
constructo. O fenômeno pode ser compreendido em termos da bio-política do
corpo, pensando-se em uma construção social do mesmo calcada na visuali-
dade, com a mediação da tecnologia.
Nesse panorama mais amplo e, de certo modo, inacessível à pesquisa
empírica, tecem-se outras histórias mais passíveis de apreensão. A primeira
história a que me refiro aqui é a de como foram construídos, no Ocidente,
o olhar e o observador modernos e, consequentemente, a cultura visual na
qual nos encontramos imersos (CRARY, 1999; CHAZAN, 2003). A segunda
diz respeito à construção social do corpo, com ênfase na visualização do seu
interior e na gradual neutralização do horror pela sua visão (FERRARI, 1987;
HARCOURT, 1987; KEMP, 1998), até chegarmos à busca ativa e ao prazer
produzido em torno das imagens fetais. Uma terceira história consiste nas for-
mas de representação do corpo e no desenvolvimento de tecnologias visuais,
concomitante à valorização da ‘objetividade’ dessas representações (DASTON
e GALISON, 1992; KEMP, 1998). A quarta história é a de como a gravidez
foi transformada em um assunto médico e o feto tornou-se objeto de atenção
médica e social (ARNEY, 1982; CHAZAN, 2000).
Não pretendo afirmar que sejam apenas estas as histórias envolvidas na
produção do fenômeno a que me dispus a esclarecer, e cada uma delas con-
tém continuidades e rupturas. Existe mais uma, por exemplo, que não abor-
darei aqui especificamente e que diz respeito à construção da Pessoa moderna
(MAUSS, 1974), que se encontra entrançada nas outras histórias.
Ao longo do século XIX a visão foi reconceitualizada como um fato do
corpo, um fenômeno fisiológico, tornando-se imbuída de um sentido de opa-
cidade e temporalidade até então inexistentes na construção cultural da visão.
Instaura-se uma descontinuidade em relação à noção vigente até aquele perí-
odo, pois dentro do paradigma em vigor até o século XIX a visão era tomada
como algo abstrato, incorpóreo, equivalente à razão desprendida do observa-
dor cartesiano (CRARY, 1999). A invenção dos raios-X, em 1895, ao gerar um
‘corpo transparente’, produziu uma nova ruptura no significado da visualidade
com a possibilidade de visibilizar o interior do corpo sem abri-lo, ao mesmo
tempo em que construiu socialmente um corpo diferente do que existia ante-
riormente (CARTWRIGHT,1995).

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Conjuntamente e entrelaçado nesse movimento, existe no ocidente um


processo de consolidação da posição da ciência enquanto produtora de saberes
confiáveis e de delegação social à medicina - como geradora de conhecimentos
e normas acerca da vida humana - do controle dos mais variados aspectos e
etapas da vida. Este novo corpo deve ser passível de escrutínio nos menores
detalhes no mesmo processo em que, na medicina, a visão adquire um status
fundante no que concerne à produção de conhecimento sobre o corpo vivo e
sobre a doença. É dentro desse movimento e dessa lógica de transformação
que são engendradas as condições favoráveis à pesquisa e à invenção de diver-
sas tecnologias de imagem médica. Com a ampliação do escrutínio o corpo
é também fragmentado infinitamente. Vale frisar ainda que tal processo não
se dá de modo unidirecional, e sim dissolvido e entranhado em uma rede de
relações entre os sujeitos, produtores ativos e incessantes de variadas formas e
significados desse escrutínio e dessa vigilância. Como em todo processo social,
há continuidades e rupturas que passo a discutir.
De um modo ou de outro, abrir corpos sempre esteve vinculado à pro-
cura de conhecimento com o seu significado modelado pelo paradigma cul-
tural no qual se inseria. Na Idade Média, esta prática visava à busca de sinais
de santidade ou pecado - sinais espirituais, portanto -, havendo também au-
tópsias em casos de envenenamento fundando, desse modo, a investigação da
causa mortis dentro do próprio corpo (PARK, 1994). Assim, pode-se traçar a
ligação cultural que propicia o surgimento do modo de conhecimento ana-
tômico do qual o médico e anatomista Vesalius torna-se o grande expoente.
Seu trabalho instaura um novo paradigma, quando o próprio corpo desloca os
textos galênicos e é instituído como fonte direta de pesquisa e conhecimento
ou, se preferirmos, como um novo tipo de texto em si: o paradigma anatômico
(SAWDAY, 1996). Assim, a longa história de busca de visualização do interior
do corpo contém também uma história de neutralização do horror de visuali-
zação das entranhas. A gradual modificação cultural no tocante à visão direta
do interior do corpo encontra-se estreitamente vinculada à mudança de signi-
ficados existente nessa busca de visualização.
No contexto do Renascimento - um período em que a busca do saber
começa a se desvincular da Igreja como produtora de verdades -, a noção de
que o conhecimento acerca do corpo pode ser encontrado no seu próprio in-
terior e não mais exclusivamente determinado pela religião é um dos fatores
para a mudança nas sensibilidades acerca da abertura dos corpos. Nesse mo-
vimento de secularização do conhecimento - referido frequentemente como

236
Lilian Krakowski Chazan

‘revolução científica’ - a atividade investigativa transforma-se em uma prática


moral e socialmente valorizada. Essa modificação e, especialmente, a valori-
zação cultural da busca de saber passa a sancionar - ou, ao menos, a tornar
socialmente toleráveis - práticas anteriormente consideradas inaceitáveis.
Entendendo tal transformação como inscrita no processo de mudança
de formas de exercício de poder, do poder punitivo para o disciplinar - com
o conhecimento do corpo morto dos condenados visando propiciar saberes
sobre o corpo vivo (TIERNEY, 1998) e, especialmente, produzindo novas for-
mas de gerenciamento da vida - torna-se compreensível que gradualmente o
interior do corpo deixe de provocar horror e passe a ser objeto de fascínio. Por
este prisma, o processo de transformação do olhar médico que desembocou
no olhar anátomo-clínico está em continuidade com a modificação gradual do
significado cultural da abertura de corpos, não implicando necessariamente
uma mudança qualitativa ou uma ruptura, conforme sustentava Michel Fou-
cault (1998a). A ruptura pode ser encontrada na construção social da doença
que, ao invés de um ‘mandamento divino’, passa a ser compreendida como um
fato inerente ao próprio corpo.
A visualização do interior do corpo como espetáculo tem uma história
que remonta, no mínimo, ao século XVI. Nesse sentido, o ultrassom como
‘espetáculo’ encontra-se na sequência de uma longa tradição na cultura visual
e na construção social do corpo no ocidente. Pode-se propor a existência de
uma analogia entre a estetização e a estilização, propostas por Vesalius, nas
pranchas da De humani corpori fabrica libri septem (HARCOURT, 1987), e a
instituição gradual do fascínio pelas imagens fetais, no qual os profissionais
desempenham um papel relevante, ‘roteirizando’, decodificando e subjetivan-
do - em suma, estetizando - as imagens para os ‘espectadores’ presentes ao
exame. Acima de tudo, contribuem para gerar uma ‘socialização visual’, uma
linguagem compartilhada pelos atores do universo etnografado.
Por outro ângulo, contudo, existe uma ruptura significativa referente à
particularidade das tecnologias de imageamento, inaugurada com a invenção
dos raios-X: a possibilidade de tornar público o interior dos corpos sem ne-
cessidade de abri-los. A mudança qualitativa evidencia-se, portanto, no modo
de acesso ao interior do corpo, que ocorre com a invenção de Röntgen: pela
primeira vez, para ‘ver dentro’ não é mais necessário destruir os corpos nem
introduzir dispositivos pelos orifícios naturais. Com o ultrassom, os abdomens
anteriormente opacos das mulheres grávidas tornam-se ‘visíveis’ e ‘transparen-
tes’, e a existência do feto pode ser testemunhada visualmente por todos, antes
mesmo que a gestante se dê conta sensorialmente de sua presença.

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A vinculação entre ciência e espetáculo não é exatamente uma novida-


de, assim como a transformação de diversos artefatos inicialmente inventados
com o propósito de pesquisa em objetos lúdicos. A lista desses objetos é inter-
minável, desde a câmera obscura, estereoscópios, passando por fluoroscópios
etc. (CRARY, 1999). O que existe de peculiar na questão da ultrassonografia
obstétrica é que - ao menos na proporção atingida pelo fenômeno, na atua-
lidade - até então nenhum exame médico havia se constituído como objeto
popular de desejo e consumo e, menos ainda, como um dispositivo de lazer.
Desconheço alguém que tenha sido convidado para assistir, como um progra-
ma em casa, a uma sessão de vídeo da colonoscopia ou do cateterismo cardía-
co de um parente ou amigo.
A transformação de aparatos científicos em produtos de consumo de-
tém um papel relevante na divulgação e na popularização dos conhecimentos
científicos. Do mesmo modo que os dispositivos óticos do século XIX desem-
penharam uma função significativa na constituição de um novo tipo de aten-
ção visual (CRARY, 2001), a transformação da ultrassonografia obstétrica em
produto de consumo contribui de maneira marcante para a construção de uma
socialização visual e médica da gravidez. Esse processo implica a reconfigura-
ção da construção social da própria gestação, mudança que acontece articula-
da a uma transformação mais geral na medicina.
Em meados do século XX ocorre uma modificação no modelo médico
no ocidente ao ser introduzido um novo paradigma que leva em conta a ‘tota-
lidade’ do doente - em outros termos, seu ser ‘bio-psico-social’. Na obstetrícia,
essa mudança corresponde a um processo de reforma da profissão vinculada
aos movimentos em favor do parto natural que, em sua maioria ‘pilotados’ por
médicos, conjugam-se às demandas do movimento da contracultura. Origina-
se a partir daí uma proposta que se torna conhecida por ‘humanização’ do
parto (ARNEY, 1982).
Nessa nova proposta, ao mesmo tempo em que existe, de fato, uma ate-
nuação da intervenção dura do modelo obstétrico anterior, ampliam-se o mo-
nitoramento e a vigilância sobre a mulher, a gravidez e a parturição, que pas-
sam a ser escrutinados, acompanhados, avaliados e, sobretudo, normatizados
nos menores detalhes - abrangendo desde as relações familiares da gestante até
seus processos bioquímicos intracelulares (ARNEY, 1982). Mais recentemente,
com a biologia molecular, a gravidez antes mesmo de acontecer já é objeto de
avaliação e normatização, quando não - com a emergência das novas tecnolo-
gias reprodutivas - de consumo mesmo.

238
Lilian Krakowski Chazan

Seria ingênuo supor que todo esse movimento corresponde a uma gi-
gantesca maquinação maquiavélica. A produção da ‘necessidade’ de monito-
ramento encontra-se vinculada à construção de uma ‘cultura do risco’, parti-
lhada por todos, cujo objetivo final seria, acima de tudo, uma ‘medicina sem
surpresas’. É, sobretudo, um conjunto de crenças e valores compartilhados e
em constante circulação na cultura. Conjugada a melhorias efetivas para a vida
e a saúde dos sujeitos concretos - proporcionadas pela mais variada gama de
dispositivos tecnológicos e diagnósticos - é gerada também uma ilusão de con-
trole e saber totais sobre os fenômenos da vida.
A ampliação da vigilância, nesses moldes, encontra-se inscrita em um
contexto mais amplo em que a visualidade é soberana e no qual a imagem
técnica detém o status de produtora de verdades incontestáveis, um constructo
que tem suas raízes firmemente plantadas no século XIX. Esta noção é consoli-
dada, do ponto de vista cultural, com a valorização da ‘objetividade’ nas repre-
sentações do corpo, em conjunto com a invenção de dispositivos tecnológicos
que, a começar pela fotografia, aparentemente ‘eliminam’ a intermediação do
artista ilustrador. A rigor, sabe-se que as coisas não se passaram exatamente
assim, e que as primeiras imagens fotográficas do interior do corpo com pro-
pósitos médicos eram incompreensíveis, necessitando ou de um desenhista
que destacasse determinadas estruturas, ou de alguém que fosse capaz de de-
codificar as imagens (DASTON e GALISON, 1982; KEMP, 1998). Em suma,
desde o nascedouro, a imagem técnica utilizada para fins médicos é objeto de
debates no que se refere ao eixo subjetividade/objetividade. Contudo, ao longo
do século XX, com a multiplicação de tecnologias de imagem, médicas e não
médicas, passa a prevalecer, na cultura ocidental urbana e industrializada, um
mito: o da ‘objetividade’ da imagem técnica.
Esse mito se estabelece e passa a preponderar porque vem ao encontro
da forma disciplinar de exercício de poder, cuja síntese seria o panóptico. Se a
imagem técnica é ‘objetiva’, expressão da ‘verdade’, o escrutínio visual dos cor-
pos por meio de tecnologias, buscado pelos atores sociais, é instituído como
uma forma eficaz de controle, na medida em que traz a ‘verdade’ dos corpos e
das doenças para a superfície, em imagens externalizadas tecnologicamente.
A etnografia de clínicas de ultrassom evidenciou as diversas maneiras
de ‘produção’ de novos seres por meio de uma tecnologia visual. No universo
observado a interatividade presente no decorrer dos exames responde por boa
parte da ampliação do monitoramento e do escrutínio. É na interação entre ges-
tantes, profissionais e acompanhantes que os médicos ‘ensinam’ as gestantes a

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

verem, nas sombras cinzentas esfumaçadas, os seus ‘bebês’ subjetivados, gene-


rificados, ativos e, sobretudo, ‘interativos’, com quem ‘conversam’, a quem dão
ordens. A rigor, o próprio fato de as imagens serem esfumaçadas e indistintas
propicia em grande parte que se veja nelas exatamente o que se desejaria ver,
como nas nuvens. É, sobretudo, nessa interação, que se constrói a pedra de to-
que de uma engrenagem: o prazer de ver as imagens fetais. Ao ser produzido
este prazer, é alavancado o consumo das imagens fetais: o feto é ‘apresenta-
do’ à família através da exibição doméstica de vídeos, constroem-se verdades
médicas e não médicas acerca da gestação e do feto, e este se torna parte de
um espetáculo. A consolidação do prazer de ver evidencia a existência de um
processo em uma via de mão dupla. As gestantes observadas, em sua grande
maioria, submetem-se prazerosamente aos exames ultrassonográficos ou bus-
cam ativamente obter imagens fetais, um elemento essencial para a acentuação
ou mesmo para a produção da gravidez como um assunto médico, no qual a
tecnologia de imagem ocupa um lugar crucial.
O prazer de ver, considerado dentro de um quadro cultural de hege-
monia da visualidade, é o elemento central que matiza e intermedia o moni-
toramento e a vigilância que marcam o novo modelo ecológico da obstetrícia
desde o final da II Guerra Mundial. Nesse novo modelo, as minúcias são essen-
ciais para a composição de um quadro ‘integral’ de acompanhamento da gesta-
ção. O escrutínio ampliado é perceptível nos mais variados aspectos como, por
exemplo, na mudança no modo de contagem do tempo gestacional em ‘meses’
para a contagem em ‘semanas’, na multiplicação de exames de bioquímica san-
guínea que permitem a detecção cada vez mais precoce de anomalias fetais, e
tem como epítome o ultrassom obstétrico.
No bojo dessa situação é construída uma socialização visual que se
transforma em linguagem comum aos atores do universo observado. A rigor,
não é apenas no grupo etnografado que se encontra em curso a construção
dessa nova cultura visual, envolvendo também a imagem técnica médica. Vol-
to a sublinhar que esse processo está inscrito em outro, mais amplo, no qual a
visualidade foi gradualmente instituída e reforçada como uma forma privile-
giada de produção de conhecimento. Apesar de culturalmente ter-se solidifica-
do a ideia da imagem técnica como ‘objetiva’ por excelência, as imagens fetais
colocam em pauta diversos aspectos relativos ao interjogo entre subjetividade
e objetividade do olhar. No universo observado, o problema esteve presente
todo o tempo: sem o olhar treinado do especialista, ou seja, de sua subjetivi-
dade atuante na decodificação e na interpretação das imagens, dificilmente se

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Lilian Krakowski Chazan

compreende o que se vê. Por outro lado, é claro que o ponto de partida de todo
o processo reside na existência objetiva de um embrião ou feto, além do que
determinados parâmetros evidenciados pelo exame são codificados numerica-
mente pela aparelhagem, como é o caso da frequência cardíaca fetal, das me-
didas anatômicas, entre outras. A atividade discursiva em torno das imagens
e parâmetros fetais, contudo, era claramente modelada pelos valores subjeti-
vos dos atores presentes ao exame: tanto os profissionais quanto as gestantes e
acompanhantes engajavam-se ativamente na produção das ‘verdades’ as mais
inusitadas acerca do feto, entrelaçadas com as avaliações e as normatizações
objetivas fornecidas pelo aparelho, eventualmente em uma mesma frase desli-
zando de um polo a outro.
Com a imagem fetal externalizada compartilhada com diversas pesso-
as se, por um lado, passa a existir uma relativa ‘dessubjetivação’ da vivência
da gravidez pela gestante, por outro as imagens da tela são incessantemente
‘subjetivadas’ pelos atores presentes ao exame. O feto é transformado em um
ser ‘destacado’ da grávida, como se tivesse uma vida independente. A ênfase e
valorização acentuadas na avaliação dos parâmetros físicos se encontram ins-
critas e são modeladas pelo fenômeno da ‘cultura do corpo’, na qual o valor
máximo consiste na ‘perfeição’ corporal, dentro de certas normas cultural-
mente compartilhadas.
Como um contraponto ao fenômeno de psicologização do feto, pesqui-
sado na década de 1980, no Rio de Janeiro (LO BIANCO, 1985), existe na
atualidade o que designo como ‘fisicalização’ do feto, fundamentalmente de-
pendente de sua visibilização mediada pela tecnologia de ultrassom. Possivel-
mente essa mudança na percepção acerca do feto vincula-se à retração do que,
nos anos 1980, foi descrito como ‘cultura da psicanálise’, largamente difundida
nas camadas médias intelectualizadas da população (FIGUEIRA, 1985). Da
hegemonia da ‘cultura da psicanálise’, interiorizada, passou-se para a hegemo-
nia de uma ‘cultura visual’, externalizada e virtual, e as percepções contempo-
râneas acerca do feto vêm sendo modeladas de acordo com tais codificações.
Durante a gestação, cada grávida se familiariza com as imagens de seu
feto. Entretanto, verifica-se a veiculação pela mídia de imagens fetais com os
mais variados propósitos, da venda de carros a seguro-saúde, anúncio de pro-
gramas de TV e etc., o que propicia alguma familiaridade generalizada com
as imagens fetais. A questão é que, a rigor, essas imagens são todas muito pa-
recidas entre si e os atores têm relativo conhecimento disto, os profissionais
em especial. Mesmo assim, à medida que transcorre a gravidez, não apenas as

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

gestantes, orientadas pelos profissionais, ‘aprendem a ver’ as imagens projeta-


das na tela do monitor do aparelho de ultrassom, como veem nessas mesmas
imagens os seus ‘bebês’ singulares, tecendo comentários como “é a tua cara!”,
“o nariz é igualzinho ao do pai”, e outros no gênero.
Todos os atores presentes ao exame se empenham com afinco na pro-
dução de uma nova cultura visual, ainda que as motivações de uns e de ou-
tros - médicos, gestantes e acompanhantes - possam diferir radicalmente.
Para os profissionais, no tocante ao desenvolvimento e ao apuro da capaci-
dade de ‘ver’ e de decodificar as imagens fetais, estão em jogo várias questões
que envolvem desde o aperfeiçoamento da proficiência na investigação de
vários aspectos diagnósticos até sua credibilidade e renome no meio médico,
juntamente com o interesse na formação e na consolidação de uma clientela.
Para as gestantes, a curiosidade sobre o feto é a motivação principal para que
se empenhem em ‘aprender a ver’. Para os atores do universo observado, pa-
rece ter-se tornado impossível não ‘ver’ o que se passa dentro do útero, uma
atividade que muitas vezes ultrapassa as quatro ou cinco ultrassonografias
- a média considerada necessária para o acompanhamento de uma gestação
sem intercorrências. O exemplo emblemático desta situação é o exame soli-
citado pelas gestantes - com o apoio dos obstetras - única e exclusivamente
para a determinação do sexo fetal, ou o ultrassom 3D “para ver a carinha do
neném”. Para os acompanhantes, os mais variados possíveis, as motivações
também são bastante diversificadas, mas guardam um ponto em comum: a
inclusão social do feto, antecipando sua ‘existência’ para todos como neto,
irmãozinho ou irmãzinha, sobrinho, afilhado, etc. A ultrassonografia obsté-
trica parece ter-se transformado em uma ocasião chave dessa inclusão social,
mesmo que ainda apenas virtual, por meio das imagens tecnológicas obti-
das mediante ultrassom. Nessa perspectiva, o exame pode ser compreendido
como uma atividade ritualística modelada por uma cultura eminentemente
visual, medicalizada e tecnologizada.
A construção desse tipo de cultura tem como resultado final a natura-
lização do escrutínio constante das gestações e dos fetos por meio do ultras-
som, mediada por ‘sentimentos’ de grávidas que declaravam estar “com sauda-
des dele (ou dela), faz tempo que não vejo ele (ou ela)”, o que intrinsecamente
transformava a realização do exame em uma ‘necessidade’ do ponto de vista
emocional. O ultrassom leva ao limite máximo a possibilidade de vigilância,

242
Lilian Krakowski Chazan

quando as próprias mulheres a internalizam e passam ativamente a desejar e a


solicitar poderem ‘ver’ os seus fetos.
O produto final é a antecipação da existência social do feto, mediada
pela tecnologia, modelada e codificada em termos da cultura visual, da cultura
do corpo e da cultura do consumo. As imagens de diversos fragmentos do
corpo fetal tornam-se equivalentes à ‘prova de verdade’ de sua existência no
mundo, fora do útero materno, como se fosse um ‘nascimento virtual’ antes de
vir à luz de fato. A construção do prazer de ver as imagens fetais que legitima
e estimula esse ‘nascimento virtual’ tem raízes múltiplas, e a pluralidade de
utilizações e significados parece ser inerente à tecnologia de ultrassom. A me-
dicalização da gravidez e do feto, o prazer de ver as imagens fetais, o consumo
destas, a produção de conhecimento e entretenimento vinculados à codifica-
ção da gravidez em termos médicos fazem, todos, parte de um mesmo proces-
so: conforme Foucault, “um grande empreendimento de aculturação médica”
(1998b, p. 200-201).
Um aspecto fundamental consiste no fato de que, ao se tornarem con-
sumidoras de imagens fetais, as gestantes assumem um papel essencial como
agentes ativas na rotinização do ultrassom na gravidez. Internalizam-se as dis-
ciplinas, a gestação é monitorada e escrutinada passo a passo e no decurso des-
se processo reforça-se a convicção de que o uso de tecnologias e a obediência
às recomendações médicas são imprescindíveis para que uma gravidez seja
levada a termo de maneira bem-sucedida.
Abordando a popularização e o consumo de ultrassonografias obstétri-
cas pelo prisma da produção do prazer de ver e da elaboração de uma cultura
visual, a construção social do feto como Pessoa apresenta-se, acima de tudo,
como um corolário do processo mais amplo de monitoramento, vigilância e
medicalização da gravidez e não como um fim em si. O escrutínio visual torna
públicas as diversas etapas do desenvolvimento fetal que anteriormente se pas-
savam no interior do útero de modo inacessível ao olhar.
Existem três momentos marcantes a serem destacados no continuum
do processo de transformação do feto em Pessoa, sintetizados de modo bem-
humorado nas expressões utilizadas - em geral pelos profissionais - para des-
crever ou fazer referências ao concepto no decorrer das ultrassonografias. O
primeiro deles é quando, no exame entre a 6ª e a 8ª semana gestacional, pode-
se verificar visualmente a presença e a localização do embrião dentro do saco

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gestacional no útero, saudado de maneira festiva com: “Dois centímetros de


bebê!”. No exame de translucência nucal, entre a 11ª e a 13ª semana gestacio-
nal, deixa de ser o “feijãozinho” ou “uma massinha branca ali no canto do saco
gestacional” do exame anterior, para ser descrito como “seu bebezinho, com
braços e pernas”. Com a visibilização do sexo fetal, a partir da 15ª semana,
transforma-se em “ele” ou “ela” - com o respectivo nome - para, finalmente, ao
atingir a marca dos 500g em torno da 20ª semana, ser designado pelo expres-
sivo “Meio quilo de gente!”.
Sintetizando, o feto é tornado ‘humano’ ao serem visibilizados ‘braços
e pernas’, mesmo que incipientes, mas só se transforma em ‘gente’ após rece-
ber o nome que passará a ser utilizado para designá-lo. A curiosidade pela
determinação do sexo fetal é significativa da importância deste aspecto no
processo de singularização, subjetivação e inclusão social do feto. Atualmen-
te essa definição com 100% de acerto é possível mediante um exame de san-
gue realizado a partir da 7ª semana: a análise do DNA fetal no plasma ma-
terno. Ou seja, em relação ao observado na etnografia mencionada o tempo
foi consideravelmente encurtado e, para as mulheres que buscam e podem
arcar com os custos desse exame, provavelmente a surpresa pela visualização
da genitália fetal na tela diminuiu.
No campo observado, o instante da determinação do sexo cristalizava
a transformação do feto em Pessoa. A situação que melhor sintetizou a vincu-
lação de um aspecto a outro me foi descrita, com espanto, por um médico: ao
revelar a uma gestante que seu feto era anencéfalo e que não iria sobreviver
ao parto, esta imediatamente perguntou pelo sexo fetal. Para o médico, um
anencéfalo era, sobretudo, um problema, um ‘caso médico’, um ‘feto inviável’,
enquanto a pergunta da gestante denotava seu interesse em saber quem era seu
filho/a, mesmo que não fosse sobreviver ao nascimento. A determinação do
sexo delimitaria e definiria que Pessoa iria morrer.
A determinação do sexo fetal reforça a atividade mais frequentemente
observada no campo: a construção de gênero, em conjunto com a subje-
tivação fetal. Este aspecto foi evidenciado em pesquisas antropológicas no
exterior e, no meio observado, passa-se de maneira similar à relatada nessa
literatura. O que diferiu acentuadamente, no grupo etnografado, foi o con-
sumo de imagens fetais e seus subprodutos: ‘fotos’, vídeos, DVDs. Outra ver-
tente de consumo concernia à corrida gerada a partir da determinação do

244
Lilian Krakowski Chazan

sexo fetal, voltada para bens de consumo ‘para o neném’, com características
bastante peculiares. Tratava-se de uma mescla insólita de construção de gê-
nero com consumo de bens, sobre a qual não havia referência na literatura.
A montagem do quarto e do enxoval do futuro bebê dependia totalmente da
determinação do sexo fetal, com cores e brinquedos ‘para menino’ ou ‘para
menina’. Outra diferença marcante com os relatos da literatura antropoló-
gica americana e europeia era referente ao sentimento daquelas gestantes
em relação ao ultrassom: frequentemente elas referiam sentir-se invadidas e
submetidas pelo poder médico durante o exame. No campo observado, não
apenas todas elas pareciam estar muito à vontade, como participavam ativa-
mente na obtenção de imagens de seus fetos.
A construção de gênero fetal é uma produção conjunta, envolvendo
valores e crenças preexistentes de profissionais e clientes. A transformação
do feto em ‘consumidor’, generificado por meio de cores e do tipo de brin-
quedos comprados para ele, é também um modo de inclusão social, tornan-
do-o um ser ‘participante’ da rede econômica de trocas. O mesmo pode ser
dito no tocante à sua transformação em ‘celebridade’, através de vídeos ou
DVDs exibidos - como se fossem ‘documentários’ individualizados - para a
família e os amigos em sessões domésticas. O feto-Pessoa, generificado, con-
sumidor, além de ‘paciente’, torna-se um ‘astro televisivo’ em um espetáculo
literalmente ‘pay-per-view’.
A espetacularização da gravidez por meio da exacerbação do consumo
de ultrassom per se obscurece um aspecto que, na origem, foi a raison d’être
de sua invenção. A detecção in utero de anomalias fetais e a conduta a adotar
quando isto ocorre ficam em segundo plano nos discursos do campo observado.
Considerando-se, em acréscimo, a proibição legal do aborto no Brasil, o silêncio
sobre o tema adquire um sentido que se encontra fortemente entrelaçado com
a exacerbação do conceito que passou a ser difundido e popularizado no meio
leigo - o do ultrassom obstétrico muito mais como espetáculo do que como meio
diagnóstico. O ocultamento do assunto, em conjunto com a externalização da
gravidez por meio das imagens fetais, propicia a construção de um discurso de
conotação nitidamente natalista sobre o ‘reforço do vínculo’ materno com feto,
por meio de uma antecipação de sua existência social, como se já se tratasse de
um bebê nascido. Essa estratégia discursiva evidencia o pressuposto subjacente:

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

o de que, uma vez a mulher estando grávida, o feto passaria a ter existência autô-
noma, e que inevitavelmente seu nascimento irá ocorrer.
Em suma, no que diz respeito à questão do aborto e do direito de esco-
lha, a constituição do ultrassom como ‘espetáculo’ em um contexto no qual o
aborto é ilegal equivale à situação de um prestidigitador que entretém sua pla-
teia chamando a atenção sobre suas atividades explícitas enquanto desenvolve
outras, ocultas, em paralelo.
É importante frisar que não se trata de estratégias intencionais, e sim de
um conjunto de fatores que, como apontei no início que, articulados, produzem
um fenômeno superdeterminado. Mais ainda, o ‘sucesso’ da ultrassonografia no
meio observado pode ser atribuído exatamente ao fato de responder e, ao mes-
mo tempo, reproduzir e ampliar demandas sociais tão diversificadas quanto as
que foram aqui discutidas.
Finalmente, a antecipação da existência social do feto pode ser com-
preendida tomando-se como pano de fundo a acentuação da ideologia indi-
vidualista, na qual o indivíduo é erigido como um valor moral. Como se o
quanto antes os seres se tornassem ‘indivíduos’, mais investidos desta quali-
dade moral estariam. Em uma sociedade medicalizada, monitorada, na qual
vigora a ‘cultura do risco’ e onde a visualidade consiste no modo privilegiado
de obtenção de conhecimento, faz sentido o fato de que novos sujeitos sejam
inseridos socialmente por meio de uma tecnologia visual médica. Esse modo
de inclusão de novos seres, além de propiciar e incitar ao consumo de proce-
dimentos médicos e de bens variados, permite que o processo de produção
de criaturas seja transformado em espetáculo, o que por seu turno contribui
para a ilusão de que, em se tornando as coisas visíveis, ‘tudo se sabe’ acerca
da vida e que, consequentemente, em última instância, passa-se a conhecer
tudo sobre a morte.

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“NÃO ME SINTO CULPADA”: PRÁTICAS
CONTRACEPTIVAS E ABORTO EM
GRUPOS POPULARES URBANOS 1

Flávia de Mattos Motta


Carmen Susana Tornquist
Denise Soares Miguel
Glaucia de Oliveira Assis

O objetivo da pesquisa da qual fazem parte estas reflexões que se seguem


é analisar as representações de mulheres e de homens de grupos po-
pulares urbanos e compreender o que pensam sobre práticas contracepti-
vas, aborto e legislação sobre o tema, a partir de um inventário das práticas
contraceptivas e de interrupção voluntária da gravidez, bem como as ex-
periências dos sujeitos no que se refere aos chamados direitos reproduti-
vos e sexualidade. A escolha deste universo de pesquisa deveu-se ao fato
de considerarmos que o recorte de classe - no caso, de classes populares – é
fundamental e não deve ser negligenciado nem secundarizado nas análises
identificadas com os estudos de gênero, entre outros.
Como nos chama atenção Claudia Fonseca, que sublinha a centralidade
da dimensão de classe para pensar o caso do Brasil: “país onde quase um terço
da população vive em situação de pobreza crônica e a distância entre ricos e
pobres é uma das maiores do mundo (frequentemente comparado ao fenôme-
no do apartheid na África)”. Daí a importância de não perdermos de vista as
diferenças e sutilezas entre matrizes simbólicas internas aos grupos populares,
ou classes subalternas e/ou populares (FONSECA, 2006). A autora nos instiga

1 Artigo apresentado no simpósio temático Interrupção voluntária da gravidez, tecnologias da repro-


dução, sexualidade e religião, coordenado por Rozeli Porto e Marlene Tamanini, a quem agradecemos
a oportunidade e, muito especialmente, a Eliane Portes Vargas, debatedora que teceu valiosas contri-
buições a este trabalho, muitas das quais ainda não incorporadas neste artigo. O texto foi escrito a seis
mãos, mas resulta do trabalho de toda a equipe da pesquisa, entre as quais Silvia Arend, Glaucia de Oli-
veira Assis, Antero Maximiliano Reis, Silvana Pereira, Rozeli Porto e alunos envolvidos na pesquisa.

251
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

a pensar sobre o tema específico do aborto, tendo em vista as flagrantes desi-


gualdades de acesso aos serviços, muitas vezes clandestinos, a que mulheres
de diferentes classes sociais recorrem em situações de gravidez indesejada, ex-
pressando uma flagrante desigualdade estrutural da sociedade brasileira.
A importância social e a complexidade que envolvem o tema aborto (ou
interrupção voluntária da gravidez - IGV) exigem pesquisas de toda a ordem
e nas mais diversas áreas do conhecimento, ainda que muitas pesquisas já te-
nham sido feitas no Brasil (WERNECK, 2009). O registro etnográfico é impor-
tante no sentido de conta da diversidade não só das práticas, mas dos códigos
morais que as orientam. O aborto é revelador das “múltiplas faces da cultura e
de como as representações nela produzidas são contraditórias, sintomáticas de
conflitos e relações de poder, constantemente reelaboradas e reatualizadas. É
preciso pensar os valores, a moral, como partes de uma rede composta por ma-
lhas diversas e contraditórias” (MOTTA, 1997). Nossa pesquisa, interessada no
aspecto plural das representações sociais sobre aborto, tem se empenhado em
buscar e registrar a diversidade, o que esbarra na normatização dos discursos.
Sendo alvo de penalização, valoração moral, normatização religiosa e conde-
nações sociais de todo o tipo, é muito fácil obter depoimentos condenatórios
sobre o aborto. Encontrar quem rompa o silêncio, revele o segredo, reconheça
que fez, fale sobre o assunto e não se sinta culpada e assuma isso diante das
pesquisadoras é que é difícil. Neste texto, optamos por privilegiar o depoi-
mento de uma entrevistada, Beatriz, moradora de uma das comunidades na
qual realizamos a pesquisa, que testemunha uma dentre tantas possibilidades
no plano das práticas e da moral, a qual não pretendemos que seja entendida
como “típica” nem tampouco “original” ou “excepcional”.

A experiência do aborto: o segredo e a ambiguidade

A interrupção voluntária da gravidez não é temática simples de ser ana-


lisada: na pesquisa acadêmica esta complexidade se manifesta tanto em termos
metodológicos quanto éticos, e o acesso aos dados se coloca como particular-
mente difícil em virtude de não se tratar de prática legal, à exceção dos casos
previstos por lei e, mesmo nestes, de difícil aplicabilidade (PORTO, 2006). No
entanto, práticas ditas “abortivas” têm permeado as práticas sexuais e repro-
dutivas de mulheres de diferentes grupos sociais desde séculos no Brasil e no
mundo, como mostram vários estudos (GREER, 1987; PEDRO, 2003; ROH-
DEN, 2003). Os significados para estas práticas nem sempre nos permitem

252
Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

agrupá-las sob a mesma denominação ou mesma acepção (“aborto” ou “inter-


rupção involuntária da gravidez”, “aborto terapêutico”, “tirar”, “fazer vir”, “fazer
descer”). Os sentidos da concepção, da contracepção, do corpo e, sobretudo,
da noção de pessoa humana são diversos e nuançados tanto ao longo do tempo
quanto nas próprias sociedades contemporâneas em função das diversidades
culturais que envolvem as dimensões étnica, religiosa, de classe, entre outras,
como mostram vários estudos realizados sobre o tema (MOTTA, 1998; VIC-
TORA, 1995; LEAL E LEWGOY, 1995).
É justamente por conta do desafio que representa analisar este tema
em sua complexidade que consideramos necessário aprofundar nosso conhe-
cimento científico acerca das representações sociais2 em torno desta prática
social da qual tão pouco se “fala”, mas que se coloca como uma possibilidade
(ainda que não levada a termo) para a grande maioria das mulheres em algum
momento de suas vidas (FERRAND, 2008). Para tanto, é preciso interpelar
os sujeitos sociais de uma forma mais ampla, situando esta temática nos seus
contextos socioculturais e ao longo de suas trajetórias de vida e suas experiên-
cias afetivas e conjugais em que pese o significativo fato de que a experiência
da interrupção voluntária da gravidez se coloca como uma possibilidade em
um repertório mais amplo de controle da fecundidade para quaisquer mulhe-
res, independentemente das diferenças sociais. Nesta pesquisa nos interessa
perceber e analisar como mulheres de grupos populares pensam sobre esta
possibilidade - e como - e a experiência social deste grupo diante do aborto.
Como sabemos, uma das principais causas da mortalidade materna no Brasil
advém de práticas inseguras de abortamento que envolvem mulheres de ca-
madas populares, para quem os riscos em relação a tal prática são muito maio-
res (VOLOSCHKO, 2003; VALONGUEIRO, 2003); SCAVONE, 2004). Neste
sentido, o aborto tem sido considerado um caso importante de saúde pública
ao mesmo tempo em que se acirra campanha dos chamados movimentos pró-
vida, encabeçados pela Igreja Católica. No entanto, em que pese a importância
deste aspecto - com o qual concordamos absolutamente - nos interessa sa-
ber como as mulheres (e os homens) das classes populares pensam o aborto
e se, de alguma maneira, a ideia que impulsiona os movimentos feministas
em prol de sua descriminalização fazem sentido a estes setores sociais, mui-
tas vezes pautados por outros códigos morais nem sempre afeitos ao ideário

2 Quando pensamos em representações sociais nos referimos aos diferentes e contraditórios discursos
acionados pelos sujeitos sociais, bem como as práticas sociais propriamente ditas.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

emancipatório presente no feminismo “difuso” que se estende entre mulheres


de camadas médias. Neste sentido, esta pesquisa situa-se no campo de uma
antropologia feminista, orientada pelas ideias do feminismo contemporâneo,
mas articulado com a busca de compreensão de universos simbólicos mais
heterogêneos que imaginamos estar presentes entre o que chamamos aqui de
“grupos populares” urbanos.
A pesquisa tem por universo empírico um dos maiores bairros popu-
lares de Florianópolis, que de certa forma aglutina várias comunidades, cujas
histórias e identidades são heterogêneas: algumas são fruto de projetos habi-
tacionais destinados à população tida como carente, outros são fruto das lutas
pelo acesso à moradia que aconteceram nos anos 90 que congregam muitos
migrantes de outras regiões do estado e do país, e que compuseram o movi-
mento dos ‘Sem teto’ (CANELLA, 2006; MIGUEL, 2008). Desde então, esta
área outrora marcada pelos vazios urbanos - fruto de especulação imobiliária
- e pela presença de moradias de classes populares e camadas médias mais
tradicionais da cidade, passou a ser alvo de investimentos de todas as ordens:
projetos de moradia popular, equipamentos coletivos como escolas, postos de
saúde, ONGs e projetos sociais ligados a Igrejas e a outras entidades de cunho
filantrópico. Muitas destas comunidades são consideradas ZEIs (zonas espe-
ciais de interesse social) em função da precariedade das condições de vida da
maioria desta população3. A heterogeneidade pode ser pensada também em
vários sentidos e dimensões (escolaridade, renda, profissão, religião, o que in-
terfere e condiciona) - mas não determina, como veremos depois - as formas
de pensar sobre a sexualidade e reprodução.
Tratando-se, então, de comunidades empobrecidas4, consideramos que
os riscos à saúde da mulher ampliam-se neste contexto uma vez que nas ca-
madas médias urbanas, mesmo sendo o aborto ilegal, as mulheres com recur-
sos podem buscar clínicas ou outros serviços clandestinos - porém de maior
qualidade - enquanto as mulheres mais pobres não contam com esta rede de

3 Esta heterogeneidade, no entanto, se ofusca diante do pesado estigma que cotidianamente é reiterado
pelas mídias da cidade, que costumam associar a região ao que Caldeira chama de “fala do crime”
(2001), transformando todos seus moradores em pessoas potencialmente perigosas e ligadas à crimina-
lidade, notadamente ao tráfico e à violência.
4 Utilizamos aqui o itálico para indicar as expressões utilizadas pelas pessoas das comunidades do bairro
(categorias êmicas), e as aspas para indicar categorias subscritas pelas pesquisadoras. No campo da
saúde pública poderíamos utilizar a categoria “vulnerabilidade social” para referir as condições en-
contradas nas localidades estudadas. Optamos por “comunidade empobrecida”, que nos parece uma
categoria igualmente descritiva, a qual talvez não seja exatamente corriqueira, mas que é bastante usada
por nossas entrevistadas.

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Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

apoio para amparar a decisão de interromper voluntariamente uma gravi-


dez não desejada. Atualmente, como colocam vários estudos (BRASIL, 2009;
SCAVONE, 2009), a entrada em cena de cytotec tem modificado um pouco
o quadro dos abortos clandestinos realizados fora das clínicas, promovendo
em cena uma substituição de métodos mecânicos invasivos, outrora utilizados
entre mulheres de classes populares, mas o recurso a chás e a certas práticas
físicas (notadamente, o carregar peso excessivo) compõe o repertório de mé-
todos familiares acionados em caso de uma gravidez indesejada. Observamos
neste universo várias referências ao uso do cytotec, junto ao recurso dos chás
e outras combinações alimentares consideradas capazes de promover a inter-
rupção da gravidez (vinho tinto com sonrisal, por exemplo). Cabe destacar
que o medo da penalização altamente eficaz do ponto de vista simbólico, e em
ascensão no país nos últimos anos5, faz com que muitas mulheres recorram a
métodos danosos e de grande risco ao seu próprio corpo e sua saúde, ao mes-
mo tempo “acessíveis” no mercado, como é o caso do medicamento Misopros-
tol, o Cytotec (SCAVONE, 1998).
No universo da pesquisa encontramos situações muito similares àquelas
apontadas pela pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo. A maioria
das pessoas entrevistadas acerca do tema “aborto” posiciona-se contrária a tal
prática (VENTURI e RECAMÁN, 2003). Situação similar àquela apontada
por outras pesquisas, qualitativas, sobre o tema, realizadas no sul do Brasil
com grupos populares, apontam as ambiguidades das representações sociais
em torno do tema aborto. Se não deixam de colher depoimentos de mulheres
adeptas da prática (MOTTA, 1998; PEDRO, 2003), também é explícito um
posicionamento contrário e condenatório à prática do aborto entre mulheres
dos mesmos grupos sociais de baixa renda (MOTTA, 2008). No entanto, não
há apenas pessoas com opiniões conflitantes. As mesmas pessoas que criticavam
o aborto também acionavam uma outra lógica ao analisar situações concretas,
emergenciais. Esta espécie de “dupla moral”, presente na expressão “em princípio,
sou contra, mas....”, revelaria, segundo os/as autores/as, a lógica do senso prático,
ou seja, o uso concomitante (e não “contraditório”) de regras (gerais) e estra-
tégias (individuais) (LEAL, 1995, p. 62). Nos parece que, assim como a prática
da “doação/adoção” informal de crianças, comum em grupos populares, como

5 O caso do Mato Grosso do Sul, em 2007, tornou-se emblemático nesta escalada recente da criminaliza-
ção de mulheres e profissionais de saúde no Brasil, tendo, ao que tudo indica, demarcado um momento
diferenciado daquele no qual ao chamado “estouro” de clínicas não era sucedido de perseguições nem
de violação aos direitos humanos, como aconteceu em Campo Grande (NEGRÃO, 2009).

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

mostra Fonseca (1999), intercala-se com criação de filhos consanguíneos tam-


bém a “opção” pelo aborto, que não necessariamente desvincula-se do desejo
de ter filhos e de atravessar uma gestação. O que revela o quanto a maternidade
é uma “escolha” das mulheres de classes populares - e não um destino, confor-
me observa Scavone (2004) e, junto com isto, a noção mesma de capacidade
de agenciamento destas mulheres, na medida em que parece haver uma esco-
lha na interrupção de uma determinada gravidez, em algum momento e por
razões muito mais complexas e diversas do que aquela que atribui a gravidez
apenas à “falta de informação” sobre métodos contraceptivos.
Neste sentido é que afirmamos, no início, que o caso de Beatriz, analisa-
do a seguir, não chega a ser um exemplo, já que ela destoa (por relatar o feito
e declarar-se sem culpa) daqueles obtidos nas situações formais de entrevistas,
nas quais as mulheres que faziam aborto sempre eram “as outras”, e nunca
aquela que estava sendo entrevistada. No entanto, uma escuta mais atenta às
falas corriqueiras e cotidianas nos contextos comunitários do bairro permite
perceber a presença de um discurso contrário (ou, até, condenatório) em ní-
veis abstratos do discurso, mas que, ao nível das práticas e das singularidades
de cada sujeito ocupam uma outra valoração, menos normativa e mais sensível
às circunstâncias e condições concretas vividas pelas mulheres.
Ao analisar as narrativas de mulheres que haviam realizado aborto, no
interior de São Paulo, Lucila Scavone observa também que o recurso à inter-
rupção da gestação, geralmente fonte de sofrimentos dos mais diversos, não
necessariamente se coaduna com uma postura favorável à legalização do abor-
to, muitas vezes sendo fonte de autoculpabilização das mulheres no contexto
de uma sociedade que associa, quase diretamente, a feminilidade à procriação
(SCAVONE, 2004).
O problema é antigo - tanto quanto a prática associada à pobreza e ex-
clusão social é histórica no Brasil. O mesmo atinge, no entanto, a atualidade na
medida em que os níveis de mortalidade materna ainda são altos para um país
como o Brasil, tendo em vista sua situação de clandestinidade. Cabe registrar,
entretanto, que a mensuração da mortalidade materna no Brasil é um proble-
ma que vem chamando atenção de pesquisadores e gestores da saúde pública,
tendo em vista o alto nível de subinformação da mortalidade materna no Bra-
sil (VOLOSCHKO, 2003; VALONGUEIRO, 2003). Mesmo assim alguns indi-
cadores têm apontado que o aborto tem ocupado os primeiros lugares entre as
causas das mortes maternas no Brasil (SCAVONE, 2004), e grande parte delas
são vistas como evitáveis. Neste contexto, cabe destacar que uma das maiores

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Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

causas de mortalidade materna refere-se aos processos de aborto mal suce-


didos que, em geral, são feitos sem condições de saúde e higiene adequadas,
tendo em vista a ilegalidade da prática e a ausência de recursos adequados que
as mulheres pobres, ao contrário daquelas de classe média e alta dispõem6. Por
estes motivos saúde sexual e reprodutiva, que inclui o tema “aborto”, tem sido
prioridade na agenda dos movimentos de mulheres e feminista, no movimen-
to sanitarista e também no plano das políticas públicas, não apenas no Brasil,
mas no mundo. Nos últimos anos tem se reascendido a chamada reação con-
servadora, conhecida como “movimentos pró-vida”, que tem se feito presente
em diferentes espaços sociais, seja em boa parte das Igrejas, seja nos meios
de comunicação escritos7 e televisivos, como observamos durante os anos de
2009 e 2010 (POMAR, 2010).
Nos últimos anos, os debates sobre a inclusão do aborto legal por ano-
malia fetal recolocaram a polêmica do aborto mais uma vez em cena, acrescida
dos discursos feitos pelo Papa Bento XVI, em visita ao país em 2007, e da cres-
cente campanha em prol dos chamados direitos do recém nascido, que aparece
(ainda que não de forma unívoca) na imprensa nacional. Muitos grupos e asso-
ciações civis têm procurado ampliar o debate do “aborto legal” para o questio-
namento da legalidade como um todo, justamente considerando a recorrência
desta prática e as formas perversas como a desigualdade socioeconômica se
manifesta também sobre este aspecto, que polemizam e são contraditadas por
boa parte dos discursos médicos e religiosos sobre o tema.
Vários estudos, como colocamos antes, têm discutido a dificuldade de
perscrutar o sonoro silêncio que permeia a prática e a memória sobre o aborto
(MOTTA, 2008; PEDRO, 2003). As dificuldades na pesquisa de um tema re-
vestido de segredo, não é novidade, e um certo leque de respostas eram por nós
desconhecidos. Mas a existência da prática do aborto também está registrada
nos estudos locais sobre a história ou a sociedade contemporânea, as quais dis-
cutem os recursos dos chás e receitas caseiras, a introdução de sonda e outros
objetos no útero, as comadres, e mais recentemente o misoprostol e a questão
das interrupções voluntárias da gravidez reconhecidas por lei (PORTO, 2009).

6 Por estes motivos, saúde sexual e reprodutiva, que inclui o tema “aborto”, têm sido prioridades na agen-
da dos movimentos de mulheres e feminista, no movimento sanitarista e, também, no plano das políti-
cas públicas, não apenas no Brasil, mas do mundo (SCAVONE, 1998).
7 O estudo de Silvia de Fávero Arend, integrante da equipe desta pesquisa, tem, justamente, analisado
como o tema do aborto (e correlatos) aparece em revistas de ampla circulação nacional, e também nas
revistas e jornais de igrejas espíritas e católicas no Brasil (AREND, 2009).

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Sobre o uso deste medicamento pode-se comentar que tem sido usado, segun-
do apontam vários estudos, como um dos principais métodos de interrup-
ção da gravidez, tendo sido observado seu crescente uso desde a década de 90
(BRASIL, 2009). Verificamos, de fato, em campo, que muitas mulheres fazem
referências ao Cytotec, às vezes obtido com auxílio de alguma conhecida que
disponha de acesso à receita (tendo em vista sua indicação médica habitual) ou
no mercado local, de forma também clandestina, mas não exatamente difícil,
como observamos anteriormente.
A bibliografia tem apontado também para o fato de que, nos grupos
populares, as práticas contraceptivas e o aborto envolvem mulheres numa rede
de apoio mútuo que constrói um conjunto de saberes e práticas que circulam
entre gerações, o que está presente no contexto deste bairro. Não obstante as
ambiguidades e o segredo que revestem a prática, Rozeli Porto (2009), apoiada
nas colocações acerca do tema feitas por Georg Simmel, ilumina a reflexão
sobre o aborto introduzindo a discussão do segredo.
Como colocamos antes, há que se sublinhar as dificuldades propriamen-
te metodológicas de acesso às/aos informantes no que tange a um tema que já
se encontra no cotidiano, revestido desta dimensão do segredo (e, talvez, da
intimidade). Neste sentido, o recurso à observação etnográfica tem revelado
grande eficácia. A inserção prévia no universo da pesquisa por parte de alguns
membros da equipe em outras atividades acadêmicas (pesquisa e extensão)
contribuiu de forma crucial para o acesso às pessoas, mas mais do que isto, à
contextualização das entrevistas em um cotidiano marcado por conversas e
convívio de mulheres.

Tira esse nenê da chuva, mulher: comunidade, ambiguidades,


solidariedade e conflito

A partir dos dados obtidos por meio da observação participante, conco-


mitante a etapa em que coletamos histórias de vida e reprodutiva de mulheres
de diferentes gerações, pudemos descrever os arranjos familiares, as relações de
gênero dentro da família e as relações de solidariedade ou conflito. Vimos como
a comunidade tem uma experiência e uma memória em torno de noções de gru-
po, de coletivo e solidariedade. A experiência do (e no) movimento ‘Sem teto’, a
história da ocupação são reais, mas se produziram uma cultura política da união
e de uma identidade comum e não eliminaram, obviamente, as diferenças inter-
nas, as hierarquias e os conflitos. Tudo isso se manifesta em situações cotidianas

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Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

que envolvem algum desses elementos ou situações-limite, momentos por ve-


zes dramáticos ou questões que envolvem comportamentos e juízos morais.
Não só os terrenos destas famílias foram obtidos coletivamente como re-
sultado do movimento que os uniu, como as casas da comunidade foram cons-
truídas no sistema de mutirão pelas próprias mulheres as quais relatam o trabalho
que chegou a tirar sangue de suas mãos. A organização do trabalho era coletiva.
Enquanto umas construíam as casas, outras cuidavam das crianças numa creche
improvisada. Em vários momentos do trabalho de campo vimos essa memória
em torno de noções de grupo, de coletivo e solidariedade ser acionada para rei-
vindicar a união do grupo em torno do que era visto como objetivos comuns. E
em várias situações vimos membros da comunidade mobilizar-se em torno de
um interesse comum ou a favor de algum membro necessitado - seja na ajuda
do descarregamento de materiais de construção em uma casa, seja pelos rapazes
que acorreram para salvar uma senhora vítima de tentativa de estupro.
Na primeira vez em que estivemos na comunidade com o fim específico
de dar início à pesquisa, ao participarmos de uma reunião na casa comunitária
numa noite em que caía uma chuvinha fina, escutamos alguém passar na rua
e gritar para vizinha: “Tira esse nenê da chuva, mulher”. À luz do trabalho de
campo feito ao longo de quase um ano nesta comunidade podemos tomar essa
frase como emblemática da conhecida responsabilidade coletiva da comunida-
de sobre uma criança nesses grupos (FONSECA, 1999). Evidentemente tam-
bém podem ser lidas aqui as relações de poder envolvidas no que chamamos
marcadores de gênero, idade e raça (o nenê era negro, a voz era masculina, a
mãe era uma mocinha). Não obstante, o que queremos reter desta frase é essa
proximidade das relações de vizinhança nas quais as fronteiras do privado e do
doméstico podem até ser claras, mas não são impermeáveis.
A memória e ideais de grupo, de coletivo e solidariedade que marcam
os “tempos da ocupação” aparecem nos discursos como uma espécie de pas-
sado de ouro, uma vez que contemporaneamente as relações são vistas como
desarticuladas e conflituadas. Já os relatos sobre aborto vêm marcados pela
ambiguidade, pois ora ressaltam redes de apoio, ora ilustram rivalidades e acu-
sações acerca da moral alheia.
Em relação ao tópico “aborto” desta pesquisa, a “desarticulação” do sen-
tido comunitário ressaltado na memória coletiva configura-se na forma da fo-
foca e maledicência que aponta e condena a outra de quem se ouviu falar ou
se tem evidências que pratica aborto ou favorece a prática de outra/s mulheres
(filha/s, por exemplo). Estes discursos vêm permeados de ideologias religiosas,

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tanto a católica, que marcou fortemente a liderança do movimento fundador


da comunidade, e que se faz presente no cotidiano daqueles grupos ainda
vinculados a este ethos, quanto às espíritas de que são também adeptos/as
muitos/as moradores/as (exclusivamente ou concomitantemente com o cato-
licismo). Os relatos sobre aborto demonstram a prática do segredo e contam
com uma rede de solidariedade, mas muito restrita, que inclui basicamente
mulheres e eventualmente homens, conforme ilustrado no caso de Beatriz,
que apresentaremos adiante.

Não me sinto culpada: aborto, recursos, ajudas e como se livrar


do “retorno”

Beatriz é uma mulher de 34 anos, tem Ensino Médio completo (“Fiz


supletivo, mas terminei.”), sem emprego fixo (trabalha como vendedora autô-
noma) e mora com a irmã adolescente e a mãe, uma das lideranças do grupo
de mulheres da comunidade, técnica em contabilidade e com cerca de 55 anos,
ativa participante da ocupação que fundou o bairro).
Como afirmamos na introdução, o relato de Beatriz não é “típico”, mas
em certos aspectos repete as experiências de outras mulheres. É, por exemplo,
representativo dos itinerários e buscas por soluções no caso de uma gravi-
dez indesejada. A exemplo do demonstrado por estudos da Antropologia da
Saúde, que analisam os “itinerários terapêuticos” (caminhos percorridos pelo
doente em busca de soluções diversas e, aparentemente, contraditórias, pas-
sando por várias etapas e especialistas) diante de uma gravidez indesejada,
que se pretende interromper, mulheres enfrentam uma espécie de “itinerário
abortivo”, no qual há presença de outras pessoas - em geral mulheres (amigas)
mas também homens - e, claro, de vários tipos de “métodos”ou estratégias. A
história de Beatriz, neste aspecto, é muito similar a de outras mulheres que
passaram pela experiência do aborto:

Eu lembro depois quando contei pra Paloma ela ficou triste, chorou. Se ela
soubesse de uma coisa dessas, ela jamais teria deixado acontecer... (E como
que tu fizeste pra?…). Mas assim, eu não me arrependo! Eu tinha uma vizi-
nha... Uma vizinha aqui do lado que é enfermeira e outra vizinha na outra
rua, a Margarida (…). Aí a Margarida sabia onde tinha, onde vender o re-
médio. (Ah... o Cytotec!) É! Primeiro eu fui no ginecologista e falei pra ele.
Daí ele falou, me indicou uma clínica e eu... Depois me falaram toma vinho

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Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

com... sonrisal! Tomei (risos) (…) Tomei! Depois o que mais, chá de arruda!
Tomei! Ah... que mais... daí fui inventar de tomar esse negócio, esse negócio
era caro! Cytotec... [sic].

A confirmação da gravidez, no caso de Beatriz, compartilhada, como


ela conta, por outras mulheres de sua rede de relações, é lembrada como um
momento secreto e dramático compartilhado com o namorado:

(Tá, mas assim, quando tu soubestes que estava grávida, que que tu falas-
tes?) (silêncio) eu fui fazer o exame! (…). E ele foi buscar! Na hora do meio
dia, daí ele veio aqui em casa, daí ele veio com o exame desesperado, e o
pneu da moto furou ali na frente... O pneu da moto furou, eu chorei, chorei,
chorei e ele chorou também. Ahm... aí a gente ficou pensando o que nós ia
fazer pra ninguém saber, entendeu? Aí como nós ia fazer, eu era de menor,
ia ter que baixar hospital, entendeu? Daí a gente pensou “meu Deus como é
que nós vamos fazer?” [sic].

É interessante observar nesta fala o toque dramático assumido pelo


evento envolvendo o pneu da moto do namorado. Malgrado a banalidade do
evento, o pneu furado confere, entretanto, dramaticidade ao relato, como se
expressasse simbolicamente toda a imprevisibilidade da situação e o despre-
paro inicial diante dela. Imprevisibilidade, despreparo: desalento e desespero.
Passado o momento do choque da constatação e o das buscas de soluções pa-
liativas, ineficazes, vem a etapa de acionamento das redes, da busca por infor-
mação, o enfrentamento da decisão e dos problemas impostos por ela, como o
econômico. E finalmente a ação:

Eu já tinha pensado em ir nessa clínica de aborto, só que essa clínica de aborto


era em Joinville e era muito caro. Ele sempre trabalhou, mas nunca teve as-
sim... muito (enfatiza com a voz o “muito”) dinheiro. Daí eu sei que eu olhei
pra minha vizinha e daí a gente falou com a outra aí... (A tua vizinha era mais
velha? E era a tua amiga assim?) Aham. Aí me ajudou, daí peguei e fui, falei
com a outra, a gente foi lá e encontrou o remédio. Mas quando tu é nova tu
não sabe das coisas, entende? O cara mandou eu tomar 11 remédios! 11 re-
médios! E duas injeções eu tomei. Tomei duas injeções pra dilatar o útero e o
remédio eu tomei seis e botei quatro, alguma coisa assim... só que quando eu
fui tomar os comprimidos, quando eu tomei o primeiro remédio eu tava na
casa dele. Quando eu tomei o primeiro remédio eu já vomitei. (E ele fez tudo

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

junto contigo?) Tudo, tudo, tudo! Tudo junto! Foi comprá, me ajudou, fi-
cou comigo, me cuidou. Daí me falaram que tinha que ficar não sei quanto
tempo antes de começar a sangrar. Aí eu tomei de madrugada, não lembro
que horas eu tomei, comecei a passar mal de madrugada e eu tremia, tre-
mia, tremia. Daí eu tinha que ficar até umas sete horas, depois tinha que
vir embora, ficava vendo filme. (…). Tá, aí eu passei mal, mal, mal. Flávia,
tu não tem noção porque aquele idiota não falava com ninguém. Falaram
pra eu fazer que ia sair. Fui, fiz. Quase morri. Tava de três meses já. (…)
E eu tremia tanto, tremia tanto, tremia tanto que eu pulava na cama de
tanto que eu tremia. Horrível! (…) Tremia. Tremia muito, imagina tomei
11 remédios, guria! Não se toma 11 remédios! 4 já resolve! (…) Eu não
lembro qual foi a hora, passei mal a noite inteira. (E a enfermeira não ficou
junto nem nada?). Não, qualquer coisa a gente ligava pra ela. Entendeu?
Daí sei que fiz, ele pagou. E daí de manhã eu comecei a sangrar, fui no
banheiro, teve uma hora que eu fui no banheiro que desceu uma bola e
fez assim “ploct”! (…) Desceu uma bola e “ploct”! Aí eu chamei ele. Aí ele
veio puxou a descarga.

É muito curioso e instigante o que esses dados sugerem em termos da


novidade da participação masculina, ativa, quando o recurso é o misoprostol.
Há dois homens neste relato. Um é o homem que vende o remédio indican-
do uma dosagem excessiva, orientando mal, um “idiota que não falava com
ninguém”. Que o misoprostol torna a interrupção menos arriscada que outros
procedimentos “populares” parece indiscutível, no entanto a desinformação -
consequência de sua proibição - aumenta os riscos. O detalhe do “idiota que
não falava nada” é sugestivo disso como também do interesse econômico do
negociante em vender mais a despeito dos riscos de uma superdosagem ou de
outros riscos decorrentes do uso de um medicamento controlado, que hoje só
é fornecido pelos hospitais.
O outro homem é o namorado, que compartilha todos os momentos,
desde a descoberta, a confirmação desesperada da gravidez, a compra do re-
médio (arriscada também), parceiro de todo o procedimento e cuidador. Essa
participação masculina ativa no processo representa uma grande mudança se
comparada a outros registros, em que o homem não aparece ou, se aparece,
é como ‘aquele que não entende’, que abandona a mulher nesta situação, está
ausente de todo o processo ou que aparece só para condenar a sua escolha. A
novidade da participação masculina, tal como aparece neste como em outros
relatos, também coletados entre jovens de camadas médias durante a mesma

262
Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

pesquisa, se realiza através da compra do misoprostol, do acompanhamento


durante o procedimento e do ato de “puxar a descarga”8.

O trecho do relato reproduzido acima se refere à parte mais secreta da


experiência, a que, além de incluir o segredo, é feita no privado, correndo-se
todos os riscos e com poucas garantias de controle sobre o que pode dar errado
(as tremedeiras, a overdose, a segurança vaga de uma enfermeira conhecida
que pode ser acionada). Cumprida essa etapa, ainda em segredo, pode-se re-
correr ao sistema público de saúde:

Daí eu não sei mais quantas horas eu fiquei deitada... depois fui pro hospital.
A minha vizinha tava trabalhando nessa semana, daí ela me ajudou. (Ai que
bom! Aí tu fez curetagem?) Fiz curetagem. Aí fiquei só uma noite e já fui
embora. Minha mãe ficou comigo. (Tu diz de ficar lá, internar lá?) Aham, só
uma noite! No sábado pra domingo, acho que foi de sábado pra domingo.

Como em outros relatos, nesse de Beatriz vemos a mulher muito segura


do que fez e não se diz arrependida. Ronda, no entanto, o aspecto da culpabi-
lização de uma prática socialmente, legalmente e religiosamente condenada.
Nos relatos que obtivemos, é recorrente a ideia de que a prática do aborto “é
um assassinato”, envolve (“tirando”) uma vida e impede que um espírito reen-
carne. A consequência disto é o temor pelo “retorno” - a ideia de que o mal
praticado “retorne” para quem o praticou. Beatriz não se deixa intimidar por
esses temores. Se informada sobre a doutrina espírita que sustenta tal ideia, é
na própria doutrina que ela garante a sua “salvação”:

(E sobre aborto, lá no centro espírita falam disso?). São contra. (São contra,
não é? E tu já ouviste lá alguma vez alguma falação sobre isso? Não sei,
numa palestra eu acho. Mas a prática descrita eles condenam isso! Porque
depois até, tu vai ter, tu pode ter em outras vidas. (Por que eles condenam?
Por que eles são contra?) (silêncio) Ai, eu não sei te falar agora... (silêncio),

8 Durante o desenrolar da pesquisa temos ouvido muitos depoimentos de jovens de camadas médias,
estudantes universitários, seja através de relatos em diário de campo, entrevistas e grupos focais, utili-
zados como grupos de controle. Nestes contextos, também tem chamado atenção a presença de acom-
panhantes masculinos - não necessariamente os parceiros, mas amigos, irmãos, etc. (POMAR, 2010).
Assim é o registro feito por um estudante em que a presença masculina não é o namorado da moça, de
classe média, mas sim o irmão dela, homossexual, e seu companheiro, que acompanham todo o proces-
so, desde a compra do remédio, até o gesto final de “puxar a descarga”, feito pelo irmão da moça.

263
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

não lembro. (Uhum.) É porque a pessoa tá querendo nascer de novo e daí


tu vai interrompe aquele ciclo que ele tá esperando não sei quanto tempo.
(Que é um espírito que vai...) Isso. É, que vai reencarna e tal. Por isso tem que
fazer trabalhos voluntários. Faço isso pra me redimir dos pecados (risos). É,
vou fazendo pro bem, quem sabe a gente tenha perdão. (É, até a circunstância
que foi, não é? Tu tinhas uma situação que foi como tu conseguiu lidar, não é,
novinha, não é, acho que isso aí deve contar também, né? (risos)... Não sei...
porque se fosse hoje eu faria de novo, entendeu? Não me sinto culpada.

É notável aqui a capacidade de agência da mulher. Ela vai buscar na


própria doutrina religiosa a saída para o conflito. Não obstante a condenação
moral e a criminalização do aborto, ao se deparar com uma gravidez indese-
jada ela, sem deixar de enfatizar toda dramaticidade e dificuldade da situação
e da escolha feita, opta por interromper a gestação, sem nenhuma sombra de
dúvida sobre essa decisão. E se a doutrina religiosa por que opta oferece algum
desconforto pela forma que entende a concepção e seus significados, dando
caráter de “pecado” ou “mal” a suas escolhas, é justamente nesta doutrina que
ela vai buscar a solução para a situação de viver em suposto conflito com ela:
uma ação pode neutralizar outra. Assim ela faz o bem para neutralizar o su-
posto mal. Uma ação neutraliza a outra e é a sua leitura ativa da doutrina es-
pírita que lhe permite isto: ela obtém “perdão” e não se sente culpada, tanto
resolve o conflito, que faria de novo.

Considerações finais

Conforme mencionamos antes, embora na sociedade brasileira, em


geral, ocorra um discurso contra as práticas abortivas em contextos sociais
específicos ou nas experiências privadas dos sujeitos, quando essa questão
é colocada na experiência concreta das mulheres, são acionadas justifica-
tivas diversas para que, em determinadas situações, mesmo sendo prática
ilegal e, talvez, mais do que isto, moralmente condenada por diversas igre-
jas, essa prática ocorra, ou seja, aventada como uma possibilidade a ser
alvo de escolha em face de uma gravidez que não se quer que seja levada a
termo. Saber quais são esses contextos, que redes são acionadas, como as
informações circulam, quais as consequências para a saúde das mulheres,
quais os contextos de tomada de decisão tornam-se questões importantes
para nortear o debate e a formulação de políticas públicas - nesse sentido
a importância desta investigação. Observamos que, como mostra o recente

264
Flávia de Mattos Motta, Carmen Susana Tornquist, Denise Soares Miguel, Glaucia de Oliveira Assis

levantamento do Ministério da Saúde acerca da temática no nosso país, a


imensa maioria dos estudos feitos sobre o tema recorrem a técnicas de pes-
quisa documental e entrevistas, em geral com cerca de 12 meses de coleta
(BRASIL, 2009, p. 47), e em sua maioria apontam para a questão como um
desafio para a saúde pública, o que consideramos absolutamente importan-
te e significativo, ainda mais no contexto de reação conservadora no cam-
po dos direitos humanos e aos direitos sexuais e reprodutivos firmados em
acordos internacionais pelo governo brasileiro. Acreditamos também, to-
davia, que pesquisas qualitativas como esta, e orientadas pelos referenciais
feministas, podem contribuir com o aprofundamento da questão do aborto
desde um ponto de vista que vá além de sua dimensão de saúde pública
(necessária, mas insuficiente) pois, como coloca Michèle Ferrand (2008),
“o direto ao aborto, independente da condição de classe, é uma condição
necessária para a emancipação das mulheres”.

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267
PSICANÁLISE, SEXO E GÊNERO:
ALGUMAS REFLEXÕES

Paulo Roberto Ceccarelli

Pensar a alteridade é, então, pensar o dife-


rente, a relação, o conflito. Isto é mais difícil,
evidentemente, do que pensar a diferença
dos sexos apoiada em invariantes culturais,
antropológicas ou psicanalíticas ou, ainda,
graças a boas intenções sobre a complemen-
taridade natural dos sexos e a boa consciên-
cia sobre a perenidade do mal feminino.
Geneviève Fraisse

Introdução

Antes de abordar a questão proposta pela mesa - Psicanálise, gênero e


sexualidade - gostaria de precisar aquilo que hoje se chama “estudos de gêne-
ro”. Trata-se, de um lado, dos movimentos feministas com as teorias que os
sustentam; e, de outro lado, das práticas políticas às quais estes movimentos
conduzem. Ao mesmo tempo, o conceito operatório de gênero não se limita
aos estudos feministas e nem todo trabalho que implica a utilização de gênero
engloba alguma forma de militância.
É interessante lembrar que algumas passagens da obra de Freud abri-
ram perspectivas inéditas e revolucionárias sobre a sexualidade, a ponto de

269
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

algumas feministas verem na psicanálise uma possibilidade de emancipação.


Porém, mais tarde elas passaram a acusar Freud de androcentrismo por perpe-
tuar o modelo patriarcal que sustentava algumas de suas posições. O problema
tomou novas proporções quando, em 1925, Freud teorizou sobre a fase fálica
no desenvolvimento das meninas. Ao responder as reivindicações feministas,
Freud acabou patologizando suas demandas: “Não devemos nos permitir ser
desviados de tais conclusões (sobre a formação do superego nas mulheres) pe-
las negações dos feministas, que estão ansiosos por nos forçar a encarar os dois
sexos como completamente iguais em posição e valor (FREUD, 1925, p. 320).
A posição falocêntrica defendida por Freud, entretanto, começou a pro-
duzir polêmicas a partir de 1930. “Vozes isoladas”, como dizia Freud, falavam da
existência de sensações vaginais precoces. Dentre estas “vozes” destacam-se as de
Melanie Klein, Joan Riviere, Hélène Deutsch, Karen Horney e Ernest Jones. Estes
autores questionavam a concepção freudiana da fase fálica e da inveja do pênis.
Melanie Klein (1959), por exemplo, defendia que a menina, desde pequena, pos-
suía o conhecimento da vagina, embora fosse recalcado em função do clitóris.
O rompimento quase definitivo com a teoria psicanalítica por parte de
algumas feministas se deu em 1927, em O Futuro de uma ilusão, e em 1929, em
O mal-estar na civilização. Nestes textos Freud fala das injustiças sociais e das
classes oprimidas sem mencionar a opressão social que sofrem as mulheres.
A utilização da palavra gênero aparece em várias áreas do conhecimento.
Por exemplo, a antropologia nos mostra que as noções de gênero, das diferenças
sexuais anatômicas, a criação simbólica do sexo, o modelo do masculino e do
feminino devem ser compreendidos como uma criação própria a cada cultura.
Nas relações psico-sociais ou interpessoais o gênero é um modo de organização
de modelos que são transmitidos aos indivíduos, e através dos quais as estruturas
sociais e as relações entre os sexos se estabelecem: a divisão de trabalho, as rela-
ções de poder entre homens e mulheres, que determinam tanto os processos de
subjetivação e de socialização quanto as interações sociais. Em psicologia fala-se
de identidade de gênero e de papel de gênero para designar o modo que o sujeito
vive o gênero ao qual se sente pertencer, e responde aos ideais social e historica-
mente construídos e atribuídos ao gênero em questão.

Psicanálise e gênero

A literatura sobre a questão do gênero em psicanálise deixa claro duas


perspectivas conflituais: a interseção do individual - da constituição do Eu, ou

270
Paulo Roberto Ceccarelli

do sujeito - e as construções sociais como tributárias de processos históricos.


Para alguns psicanalistas, por mais que os processos sociais possam interferir
nas construções constitutivas do Eu, os conflitos observados são sempre indivi-
duais, relacionados a mecanismos intrapsíquicos inconscientes, logo, indepen-
dentes, com raras exceções, do social. Para estes, o conceito de gênero não traria
grandes contribuições à psicanálise, e os trabalhos de Freud sobre a sexualidade,
sobretudo a infantil, já trazem no seu bojo postulados bem avançados e ideias
inovadoras e originais para a época sobre a questão de gênero. Outros, partindo
da famosa observação freudiana segundo a qual “toda psicologia individual é, ao
mesmo tempo, também psicologia social” (FREUD, 1921, p. 91), entendem que
o tema contribui para a compreensão de certos conflitos.
A utilização do termo “gênero” tem gerado mais polêmica do que con-
senso no universo psicanalítico. Esse termo, frequentemente utilizado na lite-
ratura anglo-saxônica, na qual encontramos expressões como: “identidade de
gênero”, “problemas de gênero”, “disforia de gênero”, é de uso bem mais recente
e restrito na terminologia psicanalítica brasileira.
A distinção entre sexo e gênero foi introduzida na psicanálise pelo psi-
canalista norte-americano Robert Stoller visando uma melhor compreensão
da psicodinâmica do transexual. Stoller isola, para melhor delinear, os aspec-
tos da psico-sexualidade que, para ele, são “independentes” do biológico: gê-
nero. Para isso, ele parte do que Freud chama de “caracteres sexuais mentais”
(atitude masculina e feminina) que são, até certo ponto, independentes dos
caracteres sexuais físicos e do “tipo de escolha de objeto” (FREUD, 1920).
Stoller separa, então, os dois aspectos do conceito freudiano de bis-
sexualidade - o biológico e o psíquico - para, em seguida, examinar a di-
mensão biológica (sexo) por meio do estudo dos interssexuais, e a dimensão
psíquica (gênero) pelo estudo dos transexuais. Stoller conclui que o gênero
prima sobre o sexo. Este desdobramento vai permitir-lhe apreender a aqui-
sição do feminino e do masculino - o gênero -, por um homem (male) ou
uma mulher (female) - o sexo1. Segundo Stoller, “gênero”, tal como o gênero
gramatical (masculino, feminino), traduz melhor as conotações psicológicas
e/ou culturais que “sexo”. “O gênero é a quantidade de masculinidade, ou de
feminilidade, que uma pessoa possui. Ainda que existam misturas dos dois
nos seres humanos, o homem (male) “normal” possui uma preponderância

1 A tradução de “male” por homem e de “female” por mulher não é adequada. O mais correto seria
traduzir “male” por macho e “female” por fêmea. Entretanto, o uso destas palavras em português tem
conotações ambíguas.

271
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

de masculinidade, e a mulher (female) “normal” uma preponderância de fe-


minilidade” (STOLLER, 1978, p. 61).
A crítica que se faz a esta divisão proposta por Stoller - “sexo” para fa-
lar do biológico, e gênero para falar da ordem social - é que ela restabelece
o binarismo “natureza/cultura”, dando ao “sexo” a conotação de biológico e
“natural”, o que escamotearia completamente o fato de que o sexo, assim como
o gênero, é uma construção conceitual. Não se trata, evidentemente, de negar
a diferença biológica, mas os Estudos de Gênero (Gender Studies) há muito
nos ensinaram a não confundir esta diferença com o uso ideológico que delas
fazem as sociedades.
A teoria lacaniana critica radicalmente a utilização da noção de “gê-
nero” alegando que tais noções não levam em conta que a identidade sexual
- construção imaginária - se constitui pela articulação do real e do simbólico.
Uma vez que o real do sexo é inacessível, o essencial para a construção da
identidade sexual é que ela seja simbolicamente reconhecida pela palavra do
Outro, encarnada por quem acolhe a criança no mundo. Esse reconhecimento
inscreverá o recém-nascido na função fálica e transformará a criança em ser
falante, homem ou mulher. Nada, no psiquismo, permite que o sujeito se situe
como macho ou fêmea; é do Outro que o ser humano aprende, peça por peça,
o que fazer como homem ou como mulher (LACAN, 1985).
Por outro lado, com Bertini (2009) acreditamos que, contrariamente o
que diz a teoria lacaniana, não existe nenhuma lei absoluta e única que susten-
taria as construções simbólicas - nenhum “re-Père” - susceptível de nos guiar.
Nada determina nada; o sentido aparece como errante em busca das possíveis
determinações provisórias; e qualquer ordem simbólica, embora necessária,
é pura indeterminação. Neste sentido, acho deplorável a insistência lacaniana
em colocar o falo no fundamento da ordem simbólica pois, em realidade,

as diferenças visíveis entre o corpo feminino e corpo masculino que, sendo


percebidas e construídas segundo os esquemas práticos da visão androcên-
trica, tornam-se o penhor mais perfeitamente indiscutível de significações
de valores que estão de acordo com esta visão: não é o falo (ou a falta de)
que é o fundamento desta visão de mundo, e sim é essa visão de mundo que,
estando organizada segundo a divisão em gêneros relacionais, masculino e
feminino, pode instituir o falo, constituído em símbolo da virilidade, de
ponto de honra (nif) caracteristicamente masculino; e instituir a diferença
entre os corpos biológicos em fundamentos objetivos da diferença entre os
sexos, no sentido de gênero construídos como duas essências sociais hierar-
quizadas (BOURDIEU, 2002, p. 43).

272
Paulo Roberto Ceccarelli

Para alguns, perturbar esta ordem simbólica ameaçaria a circulação dos


signos e impediria a separação/alienação do sujeito e seu subsequente posicio-
namento na ordem simbólica - no Outro - na qual a metáfora paterna seria a
única garantia possível. Podemos observar, com inquietação, como nos últi-
mos anos uma parte significativa dos psicanalistas solicitados a se pronuncia-
rem sobre as mudanças nas organizações sociais veem nelas a agonia do pai,
o fim da ordem simbólica e o retorno a uma fusão originária e fantasmatica-
mente temida com a mãe, o que demonstra uma confusão sintomática entre o
poder das mulheres e o das mães (CECCARELLI, 2002; 2007). O pai separa-
dor, única via possível de acesso à ordem simbólica segundo a teoria lacania-
na, aparece como um dogma intocável: “o dogma paterno” (TORT, 2005). A
prevalência no Pai como guardião da ordem simbólica marca, por um lado, a
separação necessária e vital com a mãe, vista como onipotente e abusiva e, por
outro lado, a entrada no universo simbólico regido pelo princípio masculino,
pela dominação masculina. As consequências políticas e ideológicas de tal vi-
são da organização social, na qual o Pai detém o poder organizador central, é
por demais conhecida e dispensa comentários.

O pensamento freudiano

Em Freud não encontraremos o termo “gênero”, pois, em alemão, uma


só palavra designa sexo e gênero: Geschlecht. Entretanto, ele fala de uma forma
de classificação que começa numa etapa anterior à castração, e que poderíamos
classificar de “segundo o gênero”. Em seu texto de 1908, Sobre as teorias sexuais
das crianças, Freud nos convida a imaginar uma situação em que, despojados
de nossa “existência corpórea” e como “seres puramente pensantes” vindos de
outro planeta, chegássemos a Terra. Neste planeta desconhecido, o que mais
nos chamaria a atenção seria a existência de dois sexos (ou de dois gêneros).
Tal distinção seria feita pelos “sinais externos mais óbvios”, sem levar em conta
a existência de uma diferença anatômica.
A criança, imersa desde o nascimento no universo cultural e discursivo
da sociedade da qual faz parte, aceita sem questionamento a existência do pai
e da mãe, coloca-se de um lado ou de outro, e diferencia aquele que não se
assemelha a ela. Ela constata que, ao seu redor, as pessoas têm vestimentas di-
ferentes; fazem, ou não, determinadas coisas; aprende que certas coisas, ela - a
criança - pode fazer por ser menino, ou menina, mas, que outras, pela mesma
razão, não podem fazer. Essa distinção só é possível porque “suas lembranças

273
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

(as das crianças) mais antigas já incluem um pai e uma mãe” (FREUD, 1908, p.
215). Mas, para além dessa primeira classificação operada pelo discurso social,
pelos costumes, por aquilo que podemos chamar de “função social do sexo”,
temos também o olhar da criança que, aos poucos, vai transformando o corpo
anatômico (real) em corpo sexuado.
Resumindo: é possível dizer que, em Freud, existe uma classificação se-
gundo o gênero; uma distinção que começa em uma etapa anterior à castração,
sem levar em conta a anatomia, cuja base é a diferenciação pai/mãe. A apreen-
são dos gêneros se faz sem levar em conta o órgão sexual. A presença ou a au-
sência do órgão sexual masculino ou feminino não constituem garantia de que
o sujeito se coloque do lado dos homens ou do das mulheres: o transexualismo
é o maior exemplo disso. A distinção de gênero, categorias binárias fundamen-
tais, é dada à criança desde cedo e não leva em conta o pulsional. Talvez seja
por isso que, em Freud, não encontramos uma “teoria de gênero”.
Ao mesmo tempo, uma leitura cuidadosa da obra de Freud no que diz
respeito à «masculinidade» e à «feminilidade» revela o quanto ele estava à
frente do seu tempo, operando aquilo que chamaríamos hoje de desconstru-
ção, no sentido que Derrida dá a este termo2. Embora trabalhe com categorias
binárias, Freud acaba desconstruindo tais categorias ao mostrar que tanto a
«masculinidade» quanto a «feminilidade» são pontos de chegada e não de par-
tida; e que o ponto de chegada é sempre único, pois tributário da particulari-
dade dos processos identificatórios de cada um. Ao chamar a atenção para o
caráter incerto da masculinidade e da feminilidade, para a dificuldade em se
definir masculino e feminino, Freud é revolucionário, pois recusa toda amarra
na realidade anatômica: a significação dessas noções nada tem de natural e de
convencional. Elas são resultados de processos bem mais complexos que as
determinações instintuais3.
O que leva uma criança a dizer que é menino ou menina é a consolidação
de uma crença que começa após o nascimento - hoje mais cedo, com a ecogra-
fia -, a partir da designação do sexo/gênero do recém-nascido feita pela pessoa
que presenciou o nascimento e, mais tarde, pela inscrição no cartório civil. Tal

2 Desconstruir um texto não é destruí-lo, e sim ‘re-interrogar’ os pressupostos para abrir novamente, a
partir daí, novas significações. Desta forma, colocam-se em crise seus conceitos e suas categorias mais
seguras para relançar o sentido e a precária verdade.
3 Freud expõe longamente sobre a dificuldade de se encontrar uma significação satisfatória para “masculi-
no” e “feminino” numa extensa nota de rodapé acrescentada em 1915 aos Três ensaios (p. 226 ); e, também,
em uma outra nota, ainda mais longa, no Capítulo VII de O mal-estar na Civilização (p. 126 e seg.).

274
Paulo Roberto Ceccarelli

designação se baseia, tradicionalmente, nos dados anatômicos do bebê. Em


seguida, ele começará a ser tratado de acordo com os atributos do sexo/gênero
que lhe foi designado. É nessa referência que lhe será dito - através de palavras,
do discurso dos pais sobre a criança e para com a criança, discurso baseado
nos desejos de quem lhe deu vida psíquica, em seus fantasmas e crenças, pelos
presentes que serão dados ao recém-nascido, pelo lugar que ele ocupa na fa-
mília e na sociedade etc. - que ele é um menino ou uma menina. Tal crença lhe
será confirmada durante toda a vida pelo seu corpo, pela sua psico-sexualidade
e pela opinião comum. Aos poucos, a criança será informada do lugar do qual
ela deverá responder, segundo o sexo/gênero ao qual pertence. Isto significa
que o que é designado como atributos do gênero faz parte das identificações e
são inseparáveis do sexo e a existência de ambos é relacional.
É inicialmente por intermédio dos pais e do grupo primário que a crian-
ça vai adquirir os elementos de informação sobre o sistema simbólico relativo
à sociedade na qual ela está inserida, assim como os códigos aos quais, como
menina ou menino, deverá se submeter, e que lhe prescreverão o registro no
interior do qual ela - a criança - deverá inserir seus comportamentos e suas
condutas. Isso significa que o que se espera de uma criança está intimamente
atrelado a convenções sociais e a regras de conduta oriundas de um sistema
simbólico no qual ela se locomove, sem nenhuma relação com uma suposta
“natureza” masculina ou feminina em relação direta com a anatomia. Nesta
perspectiva pode-se dizer que quando a criança é criada com convicção e con-
tinuidade no sexo que lhe foi atribuído, o sentimento de identidade sexual
que ela construirá concordará com o sexo de atribuição, e não com seu sexo
biológico: em caso de conflito entre forças biológicas e psicológicas, as últimas
ganham - no que diz respeito à construção do sentimento de identidade sexu-
al. É o sexo de atribuição, e não o anatomobiológico, que assegura à criança o
sentimento de ser menino ou menina.
No imaginário social existe uma correspondência “natural” entre o sen-
tir-se homem (sexo) e ser masculino (gênero), e o sentir-se mulher (sexo) e
ser feminina (gênero), dando a impressão de que existiria uma relação direta e
natural entre corpo anatômico e identidade de gênero. Às vezes, entretanto, o
cotidiano, quando não a clínica, nos leva a repensar esta relação.
Foi o que aconteceu em abril de 2008, quando a foto de Thomas Beatie,
de 34 anos, com a filha recém-nascida Susan Juliette, foi publicada pela revista
americana People. A foto, que foi manchete em vários jornais do mundo, mos-
tra Thomas, um transexual que, ao nascer, recebeu o nome de Tracy Iagondino,

275
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

e que ficou conhecido como ‘o homem grávido’. Após uma dupla mastectomia
no final dos anos noventa e à administração de hormônios, Thomas Beatie
tornou-se ‘um homem’, mas guardou os seus órgãos reprodutores femininos.
Mais tarde conseguiu legalmente, nos documentos de identidade, mudar do
gênero feminino para o masculino. A notícia causou furor na pacata cidade de
Bend, no estado americano do Oregon, onde Thomas reside com a esposa, pois
ninguém sabia de seu passado como mulher. O ‘homem grávido’ percorreu o
mundo, virou notícia na net com blogs, e filmes no You tube.
Thomas e Nancy estão casados há cinco anos e queriam ter um filho.
Nancy já tinha duas filhas de um casamento anterior. Como Nancy não po-
dia engravidar-se devido a uma histerectomia a qual se submetera, Thomas
decidiu engravidar-se, o que conseguiu sem problemas após a interrupção do
uso de testosterona, para que seus níveis de hormônio femininos voltassem ao
normal. “Ter um filho”, disse ele, “não é um desejo masculino ou feminino, é
um desejo humano”. Para Thomas, que sente a sua identidade masculina como
muito estável, o fato de ter-se engravidado não o define, e muito menos o faz
sentir-se mulher. O casal optou pela inseminação artificial - Nancy inseminou
Thomas com uma seringa, utilizando o esperma adquirido num banco de es-
perma. Em casa os papéis não mudaram com a chegada do bebê. “Ele vai ser o
pai e eu serei a mãe”, diz Nancy, que fez um tratamento para induzir a produ-
ção de leite, a fim de amamentar a pequena Susan no peito.
Para Thomas, trata-se de “uma nova definição do que a diversidade sig-
nifica para cada um”. Atualmente ele escreve um livro sobre sua infância no
Havaí onde participou e ganhou, quando jovem, de um concurso de beleza.
Ele conta do suicídio da mãe, e de como, mais tarde, conquistou a categoria
máxima em artes marciais.
O interessante da história de Thomas é a desorganização provocada no
imaginário social quando as categorias, supostas imutáveis, de gênero, assim
como a concepção identidade sexual são desconstruídas. A notícia do ‘homem
grávido’ abala o senso comum, que nos diz que não é possível que um homem
engravide. O impacto foi tal, que passou totalmente despercebido o fato de
Thomas Beatie não ser um homem, mas uma mulher (sexo) que adquiriu uma
aparência masculina (gênero) após uma série de cirurgias. Isto mostra o quan-
to as referências simbólicas do masculino e do feminino e os papéis sexuais são
sustentados pelas diferenças anatômicas que são, elas também, construções
simbólicas a partir de um real inacessível. Este imaginário está em ressonância
direta com as teorias sexuais infantis relatadas por Freud que qualificam de

276
Paulo Roberto Ceccarelli

‘mulher’ um sujeito sem pênis. Mas, uma mulher não é um homem sem pênis,
e um homem sem pênis não é uma mulher. Ou seja, o sentimento de ser me-
nino, ou menina (gênero), não pode ser vinculado à presença ou à ausência do
órgão sexual (sexo) (CECCARELLI, 2008).

Transexuais e os estados interssexuais

As dificuldades e incongruências em se traçar uma relação direta entre


sexo e gênero tornam-se evidentes tanto nos transexuais quanto nos chamados
‘estados interssexuais’ ou ‘pseudo- hermafroditismo’ (KREISLER, 1973; AN-
SERMET, 2005). Tais sujeitos nos ensinam sobre a sexuação em geral e sobre
as relações entre o corpo como objeto estrangeiro ao Eu (Ich), além de coloca-
rem importantes questões sobre a heterogeneidade daquilo que é da ordem do
organismo e o que é do subjetivo.
Sem dúvida, o transexualismo é a solução4 que interpela da forma mais
radical o conceito de normalidade e, por extensão, o de patologia, assim como
nos leva a repensar as referências simbólicas que definem o que, culturalmen-
te, chamamos de noções de gênero. Nesta organização pulsional evidencia-se
a importância do fato psíquico e do discurso sobre o corpo, em detrimento de
determinações naturais na construção do sentimento de identidade sexual. O
que está em jogo é a intricada questão da assunção subjetiva do sexo, embora,
evidentemente, esta questão não seja específica ao transexualismo: todo ser
humano, macho ou fêmea do ponto de vista biológico, terá que tornar-se, sub-
jetivamente, homem ou mulher, o que, como a clínica nos informa, não é uma
evidência em si (CECCARELLI, 2008).
O sentimento de pertencer ao outro sexo presente no transexual é tão
antigo quanto a sexualidade humana (GREEN, 1969). Relatos mitológicos,
fontes literárias e antropológicas falam de personagens que se viviam regular-
mente, ou definitivamente, como sujeitos do outro sexo, dizendo sentirem-se
como do outro sexo. Nesta perspectiva, o que hoje chamamos de ‘transexualis-
mo’ não é próprio nem à nossa época e nem de nossa cultura: o que é recente

4 A palavra “solução” parece-me melhor definir os destinos pulsionais: a forma como cada experiência,
a sua psico-sexualidade é uma “solução”, um sintoma, no sentido psicanalítico do termo, entre, de um
lado, as demandas pulsionais e, de outro, os limites impostos pelo processo civilizatório como todos
os elementos que ele contém. “Solução” no sentido matemático do termo: uma equação que comporta
múltiplas variáveis frente às quais, tal como em um sistema vetorial de forças, uma resultante, uma
solução, será alcançada.

277
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

é a possibilidade de ‘mudar de sexo’ graças às novas técnicas cirúrgicas e a hor-


monoterapia.
Contudo, como vimos na história de Thomas Beatie, o transexual não
‘viaja’, como no mito de Tirésias, através da sexuação. Por mais bem sucedida que
for a cirurgia, ela só intervirá na dimensão morfológica mudando as insígnias de
gênero de um sexo pelas aparências do outro sexo. Mas, deixe intacto o que mar-
ca o sexo do sujeito: o cromossomo XY ou o XX. A ‘mudança de sexo’ de Thomas
Beatie deve ser entendida como uma ‘mudança de fachada’ - de ‘envelope’, como
dizem alguns transexuais -, afetando apenas a sua aparência exterior.
Lembremos ainda que o tratamento hormonal necessário para ‘mudar
de sexo’ pode ter consequências imprevisíveis, e o passar dos anos reservar
surpresas desagradáveis: há algum tempo, encontramos um transexual opera-
do com sucesso há anos atrás. Devido a complicações e aos efeitos decorrentes
da utilização prolongada de hormônios, este sujeito foi obrigado a interromper
a hormonoterapia, o que provocou o retorno de alguns dos caracteres de seu
sexo de origem - no caso, o masculino. Sua situação era bastante complicada:
em seus documentos de identidade lia-se um nome feminino e via-se uma
foto de mulher. Entretanto, em consequência das alterações físicas provoca-
das pela interrupção dos hormônios, ela não se reconhece na imagem que via
de si mesma no espelho. Atualmente, observa-se uma tendência crescente em
evitar a cirurgia e em contentar-se com a mudança do sexo na certidão de
nascimento, o que garante ao transexual a equivalência entre sua identidade
sexual e social.
Nos estados interssexuais ocorre uma ambiguidade, ou mesmo uma au-
sência de representação sexual, devido a uma malformação dos órgãos genitais
externos, o que faz emergir um real que não encontra simbolização nos uni-
versais da anatomia em relação às categorias de homem e de mulher.
Quando a malformação é detectada após o nascimento, decidir-se-á
pela realização, ou não, da cirurgia corretiva e dos tratamentos hormonais
subsequentes, na tentativa de reconstruir a anatomia que deveria estar ali5.
Todo este procedimento requer uma longa discussão entre os pais e a equipe
médica, pois o recém-nascido não tem, evidentemente, condições de opinar

5 O “estranho” (Unheimlich) faz retorno quando a anatomia falha: a desorientação da equipe médica
frente a uma malformação anatômica é evidente quando não se consegue determinar, “a olho nu”, o sexo
anatômico do bebê.

278
Paulo Roberto Ceccarelli

sobre seu futuro sexual. Estas intervenções não são sem riscos: as reduções
clitorianas, assim com as plastias vaginais, podem destruir a sensibilidade
desses órgãos. Da mesma forma, é difícil tornar funcional um pênis várias
vezes operado.
Por outro lado, quando a malformação não é detectada ao nascimento,
desfechos dramáticos podem ocorrer. O início de vida destes sujeitos não foi
marcado por nenhum problema quanto ao investimento corporal, e a rela-
ção do sujeito com o seu corpo e com os investimentos libidinais dos pais
não apresentaram conflitos maiores. Um belo dia, entretanto, devido, por
exemplo, a um exame ginecológico de rotina no início da puberdade, ou a
um retardo incomum da menarca, a jovem é informada que é portadora de
uma ambiguidade sexual e, consequentemente, ela não pertence ao sexo que,
até então, acreditava pertencer, e que sua identidade de gênero está em de-
sacordo com sua anatomia. Desamparada pelo saber instituído, a jovem vive
uma situação vertiginosa: “é importante que você saiba que, de fato, você
não é uma mulher, mas um homem” (ou o contrário no de pseudo-herma-
froditismo feminino). Muitas vezes, na mesma consulta, ela é informada que
uma intervenção cirúrgica se fará necessária para retirar os testículos devido
ao risco de malignização. E que, posteriormente, uma plastia vaginal, com
a utilização de um fragmento do intestino, será feita para fins de relações
sexuais. Mas, jamais ela poderá ter filhos. Todas estas informações podem
produzir um desmoronamento de suas construções identitárias. Nada mais
lhe serve como ponto de apoio: nem o corpo nem os diferencias externos do
masculino e do feminino. As construções sintagmáticas utilizadas para se
localizar no mundo revelam cruelmente seu caráter imaginário e enganoso, e
tudo aquilo que o sujeito acreditava ser mostra-se sem valor. Em quem con-
fiar? A que sexo pertenço? Desenganado pelo Outro, o sujeito não mais se
reconhece. A desorganização psíquica provocada pela perda das referências
identificatórias que sustentam o sentimento de identidade sexual pode ser de
tal forma insuportável, que para continuar a existir psiquicamente o sujeito
apresente um episódio psicótico.
Existe um movimento (BUTLER, 1990; FAUSTO-STERLING, 2000)
que defende que os interssexuados sejam deixados como estão. Sustenta-se que
a atribuição de um sexo a um recém-nascido pseudo-hermafrodita constitui
uma prática abusiva em consequência do imperativo social que determina a

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existência de dois sexos mutuamente excludentes. Segundo esta corrente, os


trabalhos em biologia partem de pressupostos culturais, nunca questionados,
baseados em uma bipartição natural dos sexos. Pensar a sexuação sobre uma
base binária equivale a manter o imperativo da heterossexualidade norma-
tiva dominante, referência para toda e qualquer discussão sobre o tema. As
cirurgias corretivas, entendidas como verdadeiras ‘mutilações’, impediriam
que os interssexuados descobrissem uma ‘sexualidade pseudo-hermafrodita’.
Este movimento, que criou uma associação internacional de ‘direito de gê-
nero’, parte do princípio de que a sexualidade é um continuum e que é im-
possível traçar o destino sexual de uma criança quando de seu nascimento.
O movimento milita pelos direitos dos hermafroditas, dos transexuais, dos
travestis enfim, dos ‘transgêneros’. Trata-se, finalmente, de associação que
defende que todos, e todas, que assim o desejarem, possam mudar de sexo,
casarem-se com a pessoa do sexo que escolherem e educar os filhos fora dos
padrões convencionais que ditam as diferenças clássicas entre homem e mu-
lher. Ou seja, a cada um cabe o direito e a liberdade de se situar lá onde se crê
pertencer, quando assim o quiser, sem uma referência explícita ao corte da
sexuação (ANSERMET, 2005).
A malformação responsável pela interssexualidade induz, no psiquis-
mo, uma situação que guarda certas semelhanças com a que encontramos no
transexualismo: ambos desenvolveram uma psico-sexualidade em oposição
ao sexo cromossômico. Nos interssexuais ocorreu uma atribuição sexual em
desacordo com o sexo cromossômico, mas em acordo com os genitais exter-
nos. Nos transexuais, a atribuição corresponde ao lugar que eles ocupam na
dinâmica pulsional de quem os acolheu no mundo, mas em desacordo com o
sexo anatômico, sem que exista qualquer malformação anátomo-biológica e/
ou desequilíbrio hormonal.
O transexual procura ajuda para adaptar seu corpo a seu sentimento de
identidade sexual; o interssexual é informado que seu corpo deve ser modifi-
cado para adaptar-se a seu sentimento de identidade sexual.
A riqueza das possibilidades de organizações simbólicas relativas ao
masculino e ao feminino mostra toda a sua complexidade graças à antropo-
logia. Com efeito, essa disciplina demonstra o quanto é impossível chegar-se
a um consenso universal para masculino/feminino, masculinidade/feminili-
dade, o que nos leva ao antigo debate epistemológico, jamais completamente

280
Paulo Roberto Ceccarelli

concluído, da polaridade natureza-cultura, cuja problemática embute outra


questão ainda mais antiga: a da origem da espécie humana.
Estamos, aqui, diante de uma questão fundamental da contemporanei-
dade que afeta diretamente o nosso debate: o que especifica a natureza hu-
mana. Para Bertini (2009), a capacidade de se autoinventar é a característica
central do ser humano e sua única universalidade está na aptidão inovadora de
criar. O particular, o acidental, o singular, nada mais é do que uma expressão
da potencialidade do universal; uma transformação deste universal.
Por falta de identidade somos condenados à identificação, processo in-
consciente que possui uma dinâmica própria: o Eu se constitui através de uma
série de identificações. E por serem as identificações, ou melhor, os processos
identificatórios, tributários da particularidade do simbólico da cultura onde
emergem, é por este processo que a cultura “humaniza” o ser humano e mos-
tra, ao mesmo tempo, a sua diversidade, desfazendo, assim, a ideia de uma
natureza intrínseca e reguladora. Com isso, desfaz-se, igualmente,

de um instrumento que por muito tempo serviu para obrigar-nos a aceitar


as formas de sociabilidade tradicional marcadas pelo dispositivo de Gêne-
ro e pelo discurso de ordem simbólica entendido, ao mesmo tempo, como
horizonte intransponível e como realização de uma humanidade manifesta
(BERTINI, 2009, p. 143).

A constituição do Eu, assim como dos ideais e do superego, a consti-


tuição do sujeito em Lacan, é o resultado de um longo processo que começa
antes do nascimento do bebê. Nenhum indivíduo nasce “sexuado”: tanto a se-
xuação quanto a subjetivação são produtos das relações que o recém-nascido
estabelece com os outros, e cada sexo é, em certa medida, uma mascarada para
o outro (BUTLER, 1990). As bases sobre as quais repousam as identificações
constitutivas do Eu e as futuras escolhas de objeto são indefinidas e indetermi-
nadas, posto que dependentes da polimorfia e da heterogeneidade das pulsões
parciais e da multiplicidade das zonas erógenas.
O fato de nascermos “sexualmente indiferenciados”, e não menino ou
menina, faz com que a masculinidade e a feminilidade sejam pontos de chega-
da sem que exista uma unicidade. A questão, então, é saber como, a partir da
indiferenciação inicial, se produz este “artefato social que é o homem viril, ou
uma mulher feminina” (BOURDIEU, 2002, p. 42).

281
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

A partir daí, a questão “onde se situa esta diferença entre os sexos?”


transforma-se em uma pergunta difícil: em sua intricada determinação te-
mos que considerar o sexo morfológico, o cromossômico, o genético, o en-
docrinológico e as questões de gênero, as determinações sociais, a atribuição
fálica e a escolha do gozo... Ademais, ao tentarmos definir a morfologia dos
‘estados normais’, somos confrontados a uma tal complexidade de esquemas
de enzimas e de genes, que mais parece que estamos lidando com um modelo
utópico. Então, em que consiste diferença dos sexos? Onde ela se encontra?
Na linguagem? Na lei? Será a diferença apenas um operador, como susten-
tam alguns antropólogos?
Sem dúvida, a questão da diferença é complexa no processo de assunção
subjetiva do sexo, posto ser tributária de um real incontornável e independente
das formas biológicas, sociais e psicológicas das quais ela emerge. A diferença
não é um dado localizável, e sua escolha será sempre incerta e ambígua, pois
os caminhos da sexuação são sempre enigmáticos. Assim, a pergunta ‘o que
é uma mulher?’ ou ‘o que é um homem?’ vai além da lógica fálica, e fica sem
resposta- a cada um de situar-se nesta diferença - mais ou menos do lado dos
homens ou das mulheres - de forma singular e imprevista.
Faz parte deste processo a violência simbólica que consiste em um sé-
rie de operações de diferenciação através das quais os signos mais exteriores
do sexo são incentivados (o que inclui o que a criança deve e não deve fazer
se for menino ou menina), conforme a distinção sexual socialmente criada
(BOURDIEU, 2002). Ao mesmo tempo, as condutas impróprias (ao sexo em
questão) são interditadas ou desencorajadas, sobretudo as que “pertencem”
ao outro sexo. É assim que alguns rituais que os jovens devem seguir para
“tornarem-se homens” consistem, basicamente, na produção de uma ruptura
com o universo maternal.
Os “rituais” reservados pelo exército aos recrutas nada deixam a desejar
aos antigos rituais iniciáticos quanto à dureza e a crueldade da disciplina impos-
ta. Isto é particularmente verdadeiro nos Marines americanos: para se ter acesso
ao grupo dos homens, dos “verdadeiros”, é necessário despojar-se de toda con-
taminação feminina. A “filosofia” dos Marines é suficientemente clara: para se
criar um grupo de homens, mate a mulher que está neles (BADINTER, 1994).
Na perspectiva desenvolvida até aqui, tudo que é relativo às teorias de gê-
nero no sentido amplo faz parte dos caminhos identificatórios constitutivos da

282
Paulo Roberto Ceccarelli

psico-sexualidade não havendo, portanto, razões para separar sexo e gênero.


Talvez devêssemos falar de sexo/gênero: o gênero é, na realidade, o sexo so-
cial. Sendo a socialização sexuada, ela constrói o corpo como realidade sexu-
ada - resultado de uma visão que produz uma divisão sexuante. Se não existe,
como vimos, algo como uma essência do masculino/masculinidade e nem do
feminino/feminilidade, mas apenas a potencialidade de tornar-se, o gênero
nada mais seria do que uma falsa alteridade que gera estratégias de dominação
(BERTINI, 2009). Apoiando-se em dados históricos, Thomas Laquer (1992)
mostra que quase tudo que possa ser dito sobre o sexo - como o compreenda-
mos e o vivenciamos - contém uma afirmação sobre o gênero, sobre o que é o
masculino e o feminino.
A maneira como o sexual será captado pelos dispositivos da sexua-
lidade dependem não apenas da sexuação mas, e sobretudo, da disposição
perversa polimorfa da qual nos fala Freud, fazendo como que as regras do
uso do sexo sejam criadas sócio-historicamente, logo, abertas a inúmeras
possibilidades.
Seja como for, todo cuidado deve ser tomado neste tipo de debate para
não corrermos o risco de que a diferença - seja ela de sexo ou de gênero - sirva
para sustentar desigualdades graças a poderosos dispositivos da ordem sim-
bólica, que são verdadeiras teologias apoiadas na antropologia estrutural e em
certas práticas psicanalíticas. A diferença dos sexos e os atributos de gênero só
podem ser pensados historicamente.

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285
A PSICANÁLISE NAS
ONDAS DOS FEMINISMOS

Mara Coelho de Souza Lago

Introdução

A teoria feminista ocidental conta sua pró-


pria história como uma narrativa em de-
senvolvimento, onde nos movemos de uma
preocupação com unidade e semelhança,
passando pela identidade e diversidade, em
direção à diferença e à fragmentação
Clare Hemmings, 2009.

O s feminismos e a psicanálise, como discursos que se articularam a partir


dos finais do século XIX1 e se constituíram como movimentos (d)e pen-
samentos em diferentes momentos de elaboração e atuação por todo século
XX, não foram estranhos desde sempre, mesmo que suas relações tenham sido
marcadas por desencontros, polêmicas, oposições - relações ambivalentes que
continuam se fazendo na atualidade.
E isso provavelmente não poderia ter sido diferente. A psicanálise, que
vai sendo elaborada nos estudos, nas práticas clínicas e nas reflexões de Freud

1 Refiro-me aqui especialmente aos movimentos feministas ocidentais de primeira onda, os chamados
movimentos sufragistas. Para refletir sobre reivindicações feministas por igualdade e cidadania em épo-
cas anteriores, conferir, entre outr@s, SCOTT, Joan. A cidadã paradoxal: as feministas francesas e os
direitos do homem. Florianópolis: Mulheres, 2002.

287
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

como um pensamento outro sobre o psiquismo, que acaba por subverter a


concepção iluminista de sujeito universal, consciente, na verdade, é um pen-
samento que não questiona o fato desse sujeito universal ser europeu, branco,
burguês e homem e isto é uma questão para o feminismo em geral. Mas não se
tratava, naquelas circunstâncias, de olhar para as diferenças (étnicas, de classe,
de gênero) a que somos convocad@s a refletir pelas contingências históricas
coloniais/pós-coloniais das últimas décadas do século XX e deste início do
século XXI. Embora o conhecimento filosófico, econômico e social estivesse
sendo revolucionado pelo pensamento de Marx sobre a formação da socieda-
de de classes no sistema capitalista, a ruptura epistemológica de Freud se fazia
no questionamento da organização do psiquismo, com vistas ao tratamento do
sofrimento psíquico2.
A psicanálise, este conhecimento que se arquitetou sobre a constituição
das singularidades, estruturou-se na consideração das diferenças sexuais que
transformam as crianças, a partir de sua bissexualidade psíquica inicial, em
homens e mulheres posicionad@s, sem qualquer estabilidade, ao lado da femi-
nilidade ou da masculinidade, desligadas ambas dos corpos biológicos.
Freud elaborou um saber sobre o inconsciente que descentrou o sujeito
filosófico (o sujeito do conhecimento descartiano) e isso teve consequências
formidáveis também para as teorias feministas que se foram construindo nas
ondas dos movimentos feministas, a bela metáfora utilizada para significar este
fluxo e refluxo das atuações das mulheres, reivindicando direitos e questionan-
do saberes. Como todas as classificações, esta é uma divisão arbitrária, mas
muito corrente nos estudos feministas. Situa a primeira onda dos movimentos
na virada dos séculos XIX e XX e no entre guerras com as reivindicações por
cidadania, voto, trabalho, educação: os chamados feminismos da igualdade. A
segunda onda, pós segunda guerra e a partir dos anos 60, recrudesceu as lutas
por igualdade de direitos, mas estabeleceu também as teorizações afirmativas
das diferenças: os feminismos das diferenças.
A psicanálise não se construiu, no entanto, como uma reflexão críti-
ca sobre a estrutura patriarcal da sociedade e da família. Suas perguntas eram
outras e suas concepções se elaboraram dentro destas estruturas do pensamento

2 Leandro de Lajonquière (1992), em interessante análise sobre as possibilidades de uma clínica psico-
pedagógica do conhecimento fundada nas práticas clínicas de Freud e nas concepções de Jean Piaget,
pondera sobre as inconveniências epistemológicas de perguntarmos (esperando respostas) a uma teoria
sobre questões que não eram as dela, aquelas nas quais se constituiu como um corpo teórico.

288
Mara Coelho de Souza Lago

ocidental patriarcal, em que a categoria “homem” equivale à humanidade, en-


globando a categoria mulher subsumida neste sujeito genérico homem (no
entanto, para esse corpo teórico, não mais o sujeito racional, mas o sujeito do
inconsciente, sujeito do desejo). Isto também fez questão para o feminismo.
Este novo saber construído por Freud se fundamentou muito especial-
mente no tratamento das pacientes diagnosticadas como histéricas pelo discurso
médico da época. Em seus movimentos (MONZANI, 1989), o pensamento de
Freud precisou refluir sobre as consequências psíquicas das diferenças anatômicas
entre os sexos, a centralidade do complexo de castração na dissolução do com-
plexo de Édipo, para pensar na sexualidade feminina, na feminilidade, quando
se viu diante da importância das vivências pré-edípicas na organização psíquica
da criança (e das meninas, especialmente) - questão que esteve muito ligada aos
resultados do trabalho das analistas mulheres com suas pacientes femininas. E
foi aí que se instaurou a grande polêmica no interior da psicanálise.
Chamando a atenção para a sequência dos escritos de Freud nessa época,
Sílvia Tubert (1995, p. 11) ressalta que a promoção teórica do complexo de cas-
tração foi o que despertou o rechaço de muitos de seus discípulos, provocando
a contestação desse conceito, especialmente em sua versão feminina (a inveja do
pênis), num debate com Freud que tomou a década seguinte e teve como demais
protagonistas, entre outr@s, de um lado Melanie Klein, Karen Horney, Ernest Jo-
nes3, e ao lado de Freud, Jeanne Lampl-de Groot, Hélène Deutsch, Marie Bona-
parte. Ressalvando a validade do questionamento do falocentrismo das teorias,
Tubert (1995, p. 12) aponta que, nessa polêmica, as críticas, ao desconheceram a
dimensão histórica e simbólica da explicação freudiana da organização das dife-
renças entre os sexos, tiveram que recorrer a uma explicação biológica, postulan-
do uma feminilidade primária essencial. Em carta a Carl Müller-Braunschweig,
datada de 1935, Freud deixa clara essa questão:

Eu me oponho a todos vocês (Horney, Jones, Rado, etc) na medida em que


não fazem uma distinção clara entre o que é psíquico e o que é biológico,
pois vocês tentam estabelecer um paralelismo nítido entre os dois e, moti-
vados por tal intento, constroem irrefletidamente fatos psíquicos que são
improváveis e que vocês, no processo de fazê-lo, devem declarar como rea-
tivos ou regressivos, mas que sem dúvida são primários. Logicamente essas

3 Assinalo também a importância do texto produzido por Joan Riviére neste contexto, A feminilidade
como máscara (1929), por ter promovido esta relação entre feminilidade e mascarada com desdobra-
mentos na teoria psicanalítica e, mais recentemente, nas teorias queer (BUTLER, 1990/2003, p. 74-91).

289
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

censuras devem ficar sem divulgação. Além disso, eu gostaria de enfatizar


que devemos manter a psicanálise separada da biologia, assim como a man-
tivemos afastada da anatomia e da fisiologia... (Freud, [1935], 1969).

É bastante conhecida a importância do movimento feminista europeu


e de Viena, no final do século XIX (SCHORSKE, 1998; MITCHELL, 1979).
Assim, foi com as feministas de primeira onda, além das polêmicas com psi-
canalistas, que Freud teve que se confrontar em diversos momentos de suas
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise; é a elas que se dirige, procurando
responder às objeções que certamente lhe fariam (e fizeram).

A Psicanálise e a Segunda Onda Feminista: diálogos de tensões

Em artigo que desencadeia as discussões na seção Debates da Revista de


Estudos Feministas4, Clare Hemmings (2009, p. 215) analisa textos de autoras
que contam estórias sobre a segunda onda do feminismo ocidental e que, de
acordo com ela, constroem uma história dominante “de marcha incansável de
progresso e de perda” - narrativa que Hemmings questiona e procura com-
plexificar através da análise dos padrões de citações e recortes discursivos de
alguns desses textos.
A leitura de seu artigo levou-me a buscar, nas citações de teóricas femi-
nistas, alguns pontos das infindáveis polêmicas entre feminismo e psicanálise,
centrando-me nos escritos das feministas de segunda onda, em debates que se
dão nos campos epistêmicos estruturalistas, pós-estruturalistas, desconstru-
cionistas e, mais recentemente, nos estudos queer (no fluxo de novas ondas).
A precursora da produção teórica deste novo momento de intensifica-
ção dos movimentos feministas foi Simone de Beauvoir que, no primeiro volu-
me de seu alentado estudo O segundo sexo, editado em 1949, deteve-se sobre o
ponto de vista psicanalítico. Como filósofa existencialista, Beauvoir tinha com
a psicanálise uma discordância de base: a questão da escolha que envolve a
vontade consciente (concepção problematizada na teoria freudiana pelas pro-
porções assumidas pelo conceito de inconsciente).

Freud recusou-se, não sendo filósofo, a justificar filosoficamente seu siste-


ma; seus discípulos pretendem que dessa maneira ele elude a todo ataque

4 Organizada por Cláudia de Lima Costa. v.17, n.1/2009.

290
Mara Coelho de Souza Lago

de ordem metafísica. Há, entretanto, por trás de todas as suas afirmações,


postulados metafísicos (BEAUVOIR, 2000, p. 60).

O ponto de vista psicanalítico é seguido neste volume d’O segundo sexo,


em que a autora se dedicava a separar os mitos dos fatos pela exposição do
ponto de vista do materialismo histórico. Toda a produção posterior das teó-
ricas feministas da segunda onda, assim como para Simone de Beauvoir, foi
marcada pelo debate ou recurso tanto à psicanálise quanto ao marxismo - em
textos favoráveis ou de oposição a essas teorias.
No bestseller da produção feminista da década de 1960 A Mística Femi-
nina Betty Friedan detém-se sobre postulados da psicanálise americana, criti-
cando o complexo de castração feminino:

O conceito de “inveja do pênis”, que Freud cunhou para descrever um fenô-


meno que ele observava nas mulheres - isto é, nas mulheres de classe média
que eram suas pacientes na Viena de uma época vitoriana -, foi aproveitado
neste país, nos anos 40, como a explicação literal de tudo aquilo que estava
errado com as mulheres americanas. (...) Tudo o que é necessário saber é
o que Freud estava descrevendo naquelas mulheres vitorianas para ver a
falácia que existe em aplicar literalmente a sua teoria da feminilidade às
mulheres de hoje (FRIEDAN, 1963, p. 92).

No livro, em que faz defesa da utilização da psicanálise pelas feministas,


Juliet Mitchell (1979), uma feminista marxista clássica (que - conforme Jane
Gallop (1997) - fez o percurso à psicanálise de Lacan via o estruturalismo de
Louis Althusser), apresenta uma síntese das críticas de acadêmicas e militan-
tes feministas a Freud, analisando-as e procurando contrapor-se a alguns de
seus argumentos (MITCHELL, 1979, p. 319-375) - Simone de Beauvoir; Betty
Friedan; Germaine Greer, com outro bestseller do feminismo americano, A
Mulher Eunuco, publicado em 1971.

Interrogada a respeito do significado do título de seu livro, em uma entre-


vista à televisão Germaine Greer disse que foi Freud, e não ela, quem disse
que as mulheres eram castradas e, consequentemente, eunucos. O objetivo
de seu trabalho é devolver à mulher sua feminilidade não castrada (MI-
TCHELL, 1979, p. 361).

Shulamith Firestone, autora d’A Dialética dos Sexos (1970), questionou


e propôs:

291
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Mas havia qualquer valor nas ideias de Freud? Vamos reexaminá-las nova-
mente, desta vez de um ponto de vista radical. Acredito que Freud estava
falando a respeito de alguma coisa real, mesmo que suas ideias, tomadas
literalmente, levem ao absurdo. Com relação a isso, consideremos que o
gênio de Freud foi mais poético do que científico; suas ideias mais válidas
como metáforas do que como verdades literais (FIRESTONE apud Mi-
tchell, op.cit, P. 364).

Kate Millet, com Sexual Politics (1970), entre outras, que disse:

Dado que Freud não tem, na realidade, qualquer prova objetiva realmente im-
portante a oferecer para apoiar sua noção de inveja do pênis ou do complexo
de castração feminino, não se pode deixar de pensar que o subjetivismo que
preside a análise dos acontecimentos é o do próprio Freud, ou então provém
de um forte preconceito masculino e até mesmo de um preconceito de supre-
macia masculina bastante acentuado (MILLET apud MITCHELL, p. 369).

Mitchell destaca o teor das críticas destas feministas à psicanálise com


relação à questão da submissão das mulheres - o falocentrismo da teoria, o
complexo de castração, o patriarcalismo da teoria e do próprio autor, ressal-
tando sua posição:

a despeito de como tenha sido usada, a psicanálise não é uma prescrição para
uma sociedade patriarcal, mas uma análise de uma sociedade patriarcal. Se
estamos interessados em compreender e recusar a opressão da mulher, não
podemos nos dar ao luxo de negligenciá-la (MITCHELL, 1979, p.17).

Neste ponto, em que as militantes feministas adentraram as academias


e começaram a produzir em seu interior, foi quando se deu gradativamente a
passagem dos estudos de mulheres para os estudos de gênero5.
Textos clássicos - também entre nós brasileiras6 - são os de Gayle Ru-
bin (1975/1993) e Joan Scott (1980/1990). Gayle Rubin introduz as discussões
com o estruturalismo de Lévi-Strauss e a psicanálise após haver dimensiona-
do a falha da teoria marxista para dar conta das questões envolvidas no que

5 É importante ressaltar que muitas teóricas francesas não aderiram ao conceito, utilizando a categoria de
“relações sociais de sexo”.
6 E as traduções de seus textos para o português (e espanhol) tiveram papel importante na viagem das
teorias ao Brasil. Conferir Lago, 2010, artigo em que desenvolvo reflexões iniciais sobre esse tema.

292
Mara Coelho de Souza Lago

ela classificou como o sistema sexo-gênero. Suas cobranças à psicanálise se fa-


zem a Freud e a Lacan, relacionadas à concepção do falo como o significante
estrutural do psiquismo. O tráfico das mulheres como objeto de troca entre
os homens, processo fundante das estruturas elementares do parentesco e da
sociedade, na concepção de Lévi Strauss, fundamenta as reflexões da autora
sobre a submissão das mulheres.
A concepção da organização psíquica nas identificações parentais, cen-
tradas na significação do falo na diferenciação de crianças em meninos e meni-
nas, colocando as mulheres no polo negativo da oposição, é o reclamo que faz a
psicanálise. Ela a vê também como uma normatização da heterossexualidade,
questão que será central para as teorias queer, das quais ela vai se tornar, em
estudos posteriores, uma das figuras importantes. Rubin cobra tanto ao estru-
turalismo de Lévi-Strauss, quanto à psicanálise (na releitura que Lacan faz de
Freud), o fato de, sendo teorias que trabalham com as diferenças masculino-
feminino, com parentesco, família, sexualidade, subjetividades, não se terem
posicionado em relação às estruturas que subjugam as mulheres em lugares
sociais e familiares de opressão7.

A batalha entre a psicanálise e os movimentos de mulheres e de homos-


sexuais tornou-se legendária. Em parte, este confronto entre revolucio-
nários sexuais e o establishment clínico foi devido à evolução da psica-
nálise nos Estados Unidos, onde a tradição clínica fetichizou a anatomia
[...]. A psicanálise contém um único conjunto de conceitos para compre-
ender homens, mulheres e a sexualidade. É uma teoria da sexualidade
na sociedade humana. De forma mais importante, a psicanálise forne-
ce uma descrição dos mecanismos pelos quais os sexos são divididos e
deformados, de como bebês bissexuais, andróginos, são transformados
em meninos e meninas. A psicanálise é uma teoria feminista manquée
(RUBIN, 1975/1993, p. 14).

A historiadora Joan Scott é a autora mais conhecida, a mais citada entre


nós quando se trata de conceituar gênero. Seu texto referente ao uso do con-
ceito apresenta a psicanálise (uma das vias dos estudos de gênero no “estado
da arte” que traçou no início dos anos 80) nas duas leituras que dialogam com
as feministas: psicanálise das relações objetais anglo-americana e psicanálise

7 Para uma visão do contexto epistemológico e político (políticas feministas, inclusive) de produção de
seu texto, conferir a entrevista que concedeu a Butler, publicada pela Cadernos Pagu (n. 21, 2003).

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

francesa na releitura de Lacan, que caracteriza como simbólica e que valoriza,


mesmo que não lhe pareça uma teoria utilizável por historiador@s8.

A linguagem é o centro da teoria lacaniana [...]. Esta interpretação implica


também que o sujeito se acha em um processo constante de construção [...]
me sinto incomodada pela fixação exclusiva sobre as questões relativas ao ‘su-
jeito’ e pela tendência a reificar, como a dimensão principal do gênero, o anta-
gonismo subjetivamente produzido entre homens e mulheres. Além do mais,
mesmo se a maneira pela qual o sujeito é produzido permanece aberta, a te-
oria tende a universalizar as categorias e as relações masculino e feminino. A
consequência para as(os) historiadoras(es) é uma leitura redutiva dos dados
do passado. Mesmo se esta teoria toma em consideração as relações sociais
ligando a castração à proibição e à lei, ela não permite introduzir uma noção
de especificidade e variabilidade histórica (SCOTT, 1980/1990, p. 12).

Estes diálogos críticos de teóricas feministas com a psicanálise se deram


principalmente no campo das ciências humanas, com destaque para a Antropo-
logia, a Sociologia, a História, como o artigo de Scott demonstra. Neste percurso
da relação ambivalente entre os dois campos, pode-se perceber a substituição
da categoria mulher pela concepção de mulheres e a gradativa consolidação dos
estudos de gênero, que passam a se utilizar do recurso à desconstrução.
A história dominante (HEMMINGS, 2009) dos movimentos e es-
tudos feministas é contada numa geografia que transita entre os Estados
Unidos, Inglaterra e França. América Latina e outros países, em diferen-
tes situações em relação aos países “desenvolvidos”, têm outras estórias,
certamente, mas estiveram sobre a influência destes textos fundadores,
dependendo das traduções dos novos cânones dos estudos de mulheres,
feministas, de gênero. É parte dessa história oficial o impacto das contesta-
ções das mulheres negras ao feminismo ocidental, de mulheres brancas (de
classe média, com níveis superiores de instrução) exigindo espaços para
a consideração das diferenças entre as mulheres. As vozes das mulheres
lésbicas e dos movimentos gays dentro do feminismo produziram também
significativas rupturas teóricas. Neste sentido, é importante considerar o
destaque dos feminismos da diferença em várias áreas dos estudos feminis-
tas e de gênero. Na psicologia americana, os nomes mais conhecidos são os

8 A obra de Scott, bastante traduzida para o português no Brasil, demonstra a importância da leitura de
Foucault para as teóricas/teorias feministas.

294
Mara Coelho de Souza Lago

de Nancy Chodorow (1990), ligada à psicanálise das relações objetais (ou


às psicologias do ego segundo Toril Moi, 1997), e Carol Gilligan (1982),
com pesquisas na área da psicologia cognitiva9.
Tem muita importância para esta análise parcial das relações entre psi-
canálise e feminismo a produção de teóricas francesas em diálogo com Lacan,
Derrida, Foucault, Deleuze (Hegel, Nietzsche, Heidegger, Sartre...) - centradas
nas questões do falologocentrismo do conhecimento ocidental e na afirmação
das diferenças das mulheres.
Os nomes a destacar são os de Júlia Kristeva, Luce Irigaray, Hélène Ci-
xous - que tematizam uma escritura feminista10 (para Irigaray e Cixous especí-
fica das mulheres - segundo Jones, 2001). Com exceção de Kristeva, as outras
duas foram pouco traduzidas para o português (tendo algumas de suas obras
traduzidas para o espanhol). No artigo Escribiendo el cuerpo: hacia uma com-
preensión de L’Écriture Féminine, Ann Rosalind Jones (2001) analisa também
Monique Wittig, autora francesa mais divulgada na academia brasileira pela
discussão de suas ideias por outras autoras (mais traduzidas entre nós do que
ela) como Judith Butler (2003) e por seu combate teórico à organização da se-
xualidade em torno do que caracteriza como heterossexualidade compulsória,
um dos temas fundamentais dos estudos queer.
Júlia Kristeva, uma das fundadoras da revista feminista marxista Tel
Quel, encontrou na psicanálise, segundo Jones (2001), a concepção de pul-
sões corporais que sobrevivem às pressões culturais e podem ser sublimadas,
resultando no que chamou de discurso semiótico. Discurso produtor de uma
escrita que privilegia a linguagem de gestos, rítmica e pré-referencial, parti-
lhada por escritores como Mallarmé, Antonin Artaud, James Joyce - que não
renunciaram à fusão infantil com suas mães, podendo experimentar essas
jouissances inconscientes que lhes permitiram escrever textos fora e contra
as regras da escrita convencional. Para Kristeva, segundo Jones (1995, p. 27),
“as mulheres também falam e escrevem como histéricas, como estranhas ao
discurso dominado pelo masculino [...] seu estilo semiótico inclui separa-
ções repetitivas e espasmódicas do discurso dominante, que se veem mais
forçadas a imitar”.

9 Conferir Lago, 2010, p. 190-191.


10 Não estarão sendo aqui referidas aqui feministas francesas de diferentes áreas disciplinares como His-
tória, Sociologia, mas apenas algumas daquelas que produzem dentro da perspectiva das diferenças
sexuais, em diálogos/discussões com a psicanálise.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Em coletânea organizada por Teresa Brennan (1997)11 sobre psicanálise


e feminismo, várias feministas acadêmicas de diferentes nacionalidades anali-
sam as obras das feministas francesas da diferença. Lisa Jardine (1997) contra-
põe ao discurso de Lacan sobre a jouissance (o gozo suplementar feminino) a
escrita de Irigaray em Speculum, l’autre femme, em que esta abandona Lacan e
começa a produzir seu modelo teórico de um imaginário feminino alternativo.
Jardine acredita que este discurso dentro do discurso psicanalítico é político, já
que tem a capacidade de nele se introduzir para desancorar o falocentrismo do
discurso masculino da teoria.
Margaret Whitford (1997) ressalta que a reafirmação da diferença ante-
rior ao Édipo entre homens e mulheres e a recuperação da centralidade da re-
lação mãe/filha como base da diferença não tornam Irigaray uma essencialista
biológica linear. Whitford entende que a argumentação da autora ao caracteri-
zar a relação mãe/filha como não simbolizada, é uma argumentação construída
sobre o simbólico, postulando por um simbólico feminino e um imaginário fe-
minino. Lembra que Irigaray não é uma pré-lacaniana, mas uma pós-lacaniana
que se confronta com as implicações da obra de Lacan, ressaltando que a or-
dem simbólica está amarrada a uma estrutura metafísica masculina, fundada
num imaginário masculino, que precisaria ser subvertida:

o simbólico que vocês (Messieurs les psycanalistes) impõem como um uni-


versal, livre de qualquer contingência empírica ou histórica, é o imaginário
de vocês transformado numa ordem, uma ordem social (Irigaray, Parler nést
jamais neutre. Paris: Minuit, 1985, p. 269).

Na mesma coletânea, Morag Schiach (1997) analisa a obra de Cixous,


de quem é tradutora para o inglês. Em seu entender, os escritos desta autora
permitem “analisar o que definimos como teoria feminista ou crítica feminista
e considerar as implicações de uma prática teórica que começa com uma polí-
tica articulada” (CIXOUS, 1995, p. 205) já que o feminismo é um termo políti-
co, um questionamento do poder e da possibilidade de mudança. Para Schia-
ch, mesmo recorrendo aos termos da psicanálise, Cixous está constantemente

11 A tradução da coletânea organizada por Brennan a partir de seminários realizados por ela na Uni-
versidade de Cambridge, em 1987, trouxe-nos os ecos de um diálogo com/entre teóricas feministas e
psicanalistas inglesas e de outras nacionalidades, com escritoras e psicanalistas francesas. Sobre essa
publicação, conferir também resenha que realizei para a Revista Estudos Feministas (Lago, 2001), da
qual tomei a liberdade de reproduzir aqui alguns parágrafos.

296
Mara Coelho de Souza Lago

minando-os. O simbólico é descrito como o simbólico deles, um conceito do


qual as mulheres deveriam distanciar-se na possibilidade de articularem um
novo simbólico - nosso. O argumento de Schiach é que os textos em que a au-
tora francesa analisa a obra de Clarice Lispector, como também suas peças de
teatro, não devem ser lidos somente como parte da construção de uma estética
feminina, mas devem ser colocados no contexto de um conjunto de problemas
teóricos sobre a natureza da diferença. Tomando o gênero como um termo
estruturante, na opressão oficial e simbólica, Cixous tenta desenvolver uma
prática de escrita para as e em benefício das mulheres, já que é na escrita que
ela vislumbra a possibilidade de transformação.
No texto La risa de La Medusa, Cixous escreve:

Diré: hoy la escritura es de las mujeres. No es uma provocación, significa que:


la mujer acepta lo del outro. No há eliminado, em su convertirse-em-mujer, la
bissexualidad latente en el niño y en la nina. Feminidad y bissexualidad van
juntas, en una combinatória que varía según los indivíduos, distribuyendo de
manera distinta sus intensidades, y según los momentos de su historia privi-
legiando tal o cual componente. Al hombre le resulta mucho má difícil dejarse
atravesar por el outro. La escritura es, en mi, el paso, entrada, salida, estância,
del outro que soy y no soy, que no sé ser, pero que siento pasar, que me hace
vivir – que me destroza, me inquieta, me altera, ?quién? - ,? Uno, una, unas?,
vários, del desconocido que me despierta precisamente las ganas de conocer
a partir delas que toda vida se eleva. Tal poblamiento no permite descanso ni
seguridad, enrarece siempre la relación con lo ‘real’, produce efectos de incer-
tidumbre que obstaculizan la socialización del sujeto. Es angustiante, consu-
me; y, para los hombres, esta permeabilidad, esta no-exclusión, es la amenaza,
lo intolerable (CIXOUS, 1995, p. 46).

As autoras da Écriture Féminine - que partem das discussões do sig-


nificado das diferenças sexuais teorizado pela psicanálise - trouxeram para o
centro das reflexões feministas, uma vez mais, o tema do essencialismo.
Rosi Braidotti (1997) volta a esse tema evidenciando as complexidades
que pode conter. Chama a atenção para o conceito de diferença - que tem ocupa-
do a agenda ocidental desde Nietzsche e Freud, minando a concepção de sujeito
conhecedor, derivada do homem da razão. Reconhecendo a psicanálise como
teoria que representa a mudança histórica que abre a modernidade para a crise
da visão clássica do sujeito e para a proliferação das imagens do outro como sig-
no da diferença, reflete sobre as relações entre psicanálise e feminismo nos seus

297
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

encontros e discordâncias. Considerando mulher e feminismo como metáforas


privilegiadas da diferença e da crise dos valores racionais masculinos, Brai-
dotti idealiza uma ontologia feminista em que as mulheres se responsabilizem
por todas as definições que têm sido feitas sobre a mulher como essência his-
tórica (1997, p. 140). A autora retoma a questão do corpo e do essencialismo
reportando-se a Irigaray e seu projeto de um simbólico feminino. Tomando o
essencialismo como uma diferença, ela ressalta

em vez de separar da afirmação da diferença a luta pela igualdade, vejo-


as como complementares e parte de uma história contínua. O movimento
feminista é o espaço onde a diferença sexual se torna operacional por inter-
médio da estratégia de lutar pela igualdade dos sexos numa ordem cultural
e econômica dominada pelo vínculo masculino homossocial. O que está em
jogo é a definição da mulher como um outro que não seja um não homem
(BRAIDOTTI, 1997, p. 126).

Braidotti se posiciona por um outro essencialismo que não abra mão do


jogo de representação da mulher ou da ligação entre o simbólico ou discursivo,
e o corporal, ou material, afirmando que “... a mulher teórica feminista que está
interessada em pensar sobre a diferença sexual e o feminismo hoje não pode se
dar ao luxo de não ser uma essencialista” (BRAIDOTTI, 1997, p. 128).
Finalizo essa série de citações com escritos da filósofa americana Ju-
dith Butler, de projeção no campo dos estudos feministas e de gênero e no
desenvolvimento dos estudos queer. Butler desenvolve um diálogo crítico com
a psicanálise e recorre a conceitos psicanalíticos, que utiliza de modo singu-
lar, articulados a suas reflexões e propostas teóricas. Seus textos são bastante
discutidos e têm rendido publicações inclusive no Brasil12. Penso mesmo que
ela está implicada em uma certa renovação do interesse das teóricas feministas
pela psicanálise nos dias de hoje.
Nas publicações em que introduz novos conceitos (o gênero como per-
formance, por exemplo), que levam a mudanças de rumos nas reflexões femi-
nistas, Butler dialoga com muit@s autor@s, desde filósofos modernos, estru-
turalistas, pós-estruturalistas, desconstrucionistas (advogando a consideração
da materialidade do corpo, por exemplo). Retoma também o diálogo com as
feministas de segunda onda e com as teóricas francesas da escritura feminina.

12 Conferir KNUDSEN, Patrícia Porchat P. da S. Gênero, psicanálise e Judith Butler - do transexualismo à


política. Tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da USP, São Paulo, 2007.

298
Mara Coelho de Souza Lago

No primeiro capítulo de seu livro Problemas de gênero (1990/2003, p. 28-29),


Butler escreve:

As mulheres são o ‘sexo’ que não é ‘uno’. Numa linguagem difusamente


masculinista, uma linguagem falocêntrica, as mulheres constituem o irre-
presentável. Em outras palavras, as mulheres representam o sexo que não
pode ser pensado, uma ausência e opacidade linguísticas. Numa lingua-
gem que repousa na significação unívoca, o sexo feminino constitui aqui-
lo que não se pode restringir nem designar. Nesse sentido, as mulheres são
o sexo que não é ‘uno’, mas múltiplo. Em oposição a Beauvoir, para quem
as mulheres são designadas como o Outro, Irigaray argumenta que tanto
o sujeito como o Outro são os esteios de uma economia significante falo-
cêntrica e fechada, que atinge seu objetivo totalizante por via da completa
exclusão do feminino.

No capítulo desse livro em que trata da produção da matriz heterossexual


Butler analisa as implicações do estruturalismo e da psicanálise nessa produ-
ção seguindo o trajeto já percorrido por Rubin. Nesse sentido desenvolve uma
elaborada interlocução com textos de Freud sobre a questão da melancolia
feminina. A citação seguinte explicita os desdobramentos de suas concepções
a partir desse diálogo:

considerando que as identificações substituem as relações de objeto e são a


consequência de uma perda, a identificação de gênero é uma espécie de me-
lancolia em que o sexo do objeto perdido é internalizado como proibição.
Esta proibição sanciona e regula identidades de gênero distintas e a lei do
desejo heterossexual. A resolução do complexo de Édipo afeta a identifica-
ção de gênero por via não só do tabu do incesto, mas, antes disso, do tabu
contra a homossexualidade (BUTLER, 2003, p. 98).

Butler retoma o tema da melancolia na consideração da concepção de


linguagem semiótica de Kristeva e suas implicações com a maternidade das
mulheres, concepções que critica consistentemente. Em Cuerpos que impor-
tan: sobre los limites materiales y discursivos del ‘sexo’ (1993/2005), publicação
em que elabora a construção, no interior das normas produtoras do gênero, do
abjeto, do inumano, Butler reporta-se a Kristeva citando o ensaio sobre abjeção
que escreveu, marcando seu enfoque como diferente e relacionando-o com o
conceito psicanalítico de forclusão.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Mientras la noción psicoanalitica de Verwerfung traducida como


‘forclusión’ produce la socialidad a través del repudio de un sig-
nificante primário que produce un inconsciente o, en la teoria
lacaniana, el registro de lo real, la noción de abyección designa
uma condición degradada o excluída dentro de los termos de la
socialidad (BUTLER, 2005, p. 20).

Para concluir,

Procurei confrontar as relações de teóricas feministas com a psicaná-


lise nos tempos da constituição da teoria com o fluxo da primeira onda dos
movimentos feministas nas lutas por igualdades de direitos. Detive-me em al-
gumas autoras da segunda onda feminista que retomaram relações tensas, de
afastamento, de adesão, com o corpo conceitual da psicanálise. Relações de
ambivalência que se deram, nestes tempos, tanto com teóricas dos feminismos
da igualdade (refletindo, em geral, sobre igualdade e diferenças, no sentido de
superação desta divisão dicotômica), quanto com teóricas dos feminismos das
diferenças. No interior dessa relação nos campos de conhecimento psicanalis-
ta e feminista, as reflexões continuam se complexificando, instruídas também
pelas áreas da Literatura, da Crítica Literária, da Filosofia e relacionadas, mais
recentemente, aos estudos queer.
Ressalto novamente a parcialidade das reflexões deste artigo, em que
certamente deixaram de ser mencionadas autoras feministas, psicanalistas ou
contrárias à psicanálise que deveriam ter sido lembradas.
Busquei algumas citações de autoras feministas no intuito de deixar vis-
lumbrar o teor de complexidade que reveste esses tensos e profícuos diálogos em
críticas que retornam a antigas questões, constituídas, ainda, para teóricas femi-
nistas, como os nós da psicanálise enredados em torno das diferenciações que
constituem feminilidades. Mas críticas e reflexões que se fazem em novos para-
digmas discursivos, nos fluxos de novas temporalidades e movimentos e, como
podemos perceber, em novos níveis de complexidade, na retomada de velhos
temas e na ênfase em questões atuais: o complexo de castração feminino; o falo
como significante universal; o falologocentrismo do conhecimento ocidental de
que partilha a teoria; a produção da heterossexualidade como norma.
Em desdobramentos atuais das tensas e produtivas relações entre psi-
canálise e teorias feministas/estudos de gênero/teorias queer colocados pela
emergência de novas configurações familiares e pelas disputas políticas em

300
Mara Coelho de Souza Lago

torno da parentalidade homossexual, as disputas e reflexões se elaboram também


em torno da concepção de diferença sexual e do tema lacaniano da sexuação13.

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13 Conferir Simone Perelson (2006), Márcia Arán (2009), Patrícia Porchat (2010), entre outr@s.

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304
DIMENSÕES
TEXTUAIS
FEMINISMOS Y ESTUDIOS
FEMINISTAS EN LA ARGENTINA

Dora Barrancos

A gradezco profundamente a quienes una vez más han realizado el enorme


esfuerzo de llevar adelante “Fazendo Género” en la Universidade Federal
de Santa Catarina, acontecimiento que ya se ha constituido en una indiscutible
tradición latinoamericana en materia de pensamiento y praxis feminista. Estoy
muy complacida por haberme invitado a participar de este panel con tan dis-
tinguidas colegas que ostentan tan singulares trayectos feministas.
Voy a referirme en esta comunicación a dos cuestiones centrales. En
primer lugar abordaré aspectos de la raigambre feminista en la Argentina, a
sus antecedentes, para focalizar luego las expresiones recientes de los femi-
nismos, puesto que es imprescindible abordar pluralmente el pensamiento y
la militancia a favor de los derechos de las mujeres en nuestro país. Nunca ha
habido, por otra parte, un feminismo en singular. En segundo lugar, analizaré
algunos aspectos del desarrollo de los estudios feministas y de género en las
instituciones académicas argentinas.

I - Inicios y características actuales de los feminismos en la


Argentina

Resulta singular la temprana recepción del feminismo en la Argentina,


poco tiempo después de inaugurarse el término. En efecto, a fines del siglo XIX,
coincidiendo con las notas modernas del país, el concepto arribó de ultramar
y ya sabemos que en buena medida se debe a la notable activista francesa Hubertine

307
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

Auclert. Más allá de las confusiones semánticas que pudieron exhibirse, rápi-
damente concitó el alineamiento de algunas mujeres. Se impone caracterizar a
la primera leva de feministas que, sin lugar a dudas, fueron letradas y librepen-
sadoras entre las que descollaron las socialistas - el Partido Socialista surgió
en 1896 y se extendió en el área capitalina para alcanzar luego otros lugares
-, quienes acabaron dando su tono al grueso del feminismo. Esta inscripción
difiere de la habida en Brasil y en Uruguay, en donde la corriente se instaló
sobre todo formando parte de las posiciones liberales, y esta inscripción dotó
por largo tiempo los sentidos articuladores de la reivindicación de derechos y
marcó en buena medida sus derivas posteriores.
Debido a la acogida socialista pues, el feminismo argentino se apegará
- y ya lo he señalado muchas veces - a la forma relacional, en términos de
Karen Offen (1991), lo que significa que la lucha por los derechos de las mujeres
siempre comportó un excedente, un plus, dirigido a indexar los derechos a otros
sectores subalternos. Nuestras feministas inaugurales estaban orientadas a pro-
curar también derechos para los grupos sociales de las márgenes, especialmen-
te para los sectores obreros, formando parte de las agitaciones a favor de las/
los trabajadores que se movilizaron en la Argentina de las primeras décadas
del siglo pasado (1900-1930). Podríamos sintetizar el ideario y los combates
del feminismo inaugural en el siguiente orden de dimensiones: extinción de
la inferioridad jurídica, sufragio, protección de la maternidad precarizada,
divorcio vincular, educación.
Esa marca relacional de nuestro feminismo pudo matizarse en cierto
grado con la emergencia de nuevos movimientos femeninos surgidos desde
mediados de la década de 1920. Algunas manifestaciones eran liberales, pero
otras expresaron una adecuación más conservadora - en alguna medida vincu-
lada a la Iglesia, cuyas máximas jerarquías se habían convencido de la ventaja
del voto de las mujeres. No sería extraño que los sectores filoliberales renuen-
tes al sufragio, los hubieran convencido de que en efecto, estas votarían tal
como aquellos aseguraban, bajo la influencia de los sacerdotes. Es innecesario
recordar que esta era la argumentación más empleada para denegar el derecho
al sufragio por parte de grupos ideológicos y políticos más distantes de las
fuerzas conservadoras.
Aunque la primera iniciativa sobre el voto femenino se produjo en 1919,
fue recién en 1932 que ocurrió la primera oportunidad de debate del sufragio
en el Parlamento. La medida obtuvo media sanción de Diputados pero no con-
siguió tratamiento en el Senado. Durante los años 1930, y hasta mediados de

308
Dora Barrancos

la década de 1940, las feministas “relacionales” se unieron a las de cuño liberal


para enfrentar al nazifascismo. La hora internacional era grave debido a las
experiencias autoritarias que amenazaban el globo, y nuestras feministas coo-
peraron decididamente con los refugiados de la Guerra Civil española, siendo
la organización femenina denominada la Junta de la Victoria una prueba de
ello. Las unía además, la amenaza autoritaria en la Argentina. Debe pensarse
que las derechas reaccionarias han sido proverbiales en nuestro medio, con
características singulares cuando se las compara con las de otros países de la
región. Por lo tanto, durante esos años se redujo en buena medida la agencia
por los derechos propios, y más bien el tono general imprimido a la acción fe-
menina entre mediadas de las décadas 1930 y 1040 fue comprometer esfuerzos
para que no avanzara el fascismo, para evitar la derrocada de la democracia.
La estación peronista encontró a las feministas relacionales en la vereda
de la mayor oposición, y tal como sostuvo el grueso de las expresiones liberales
y de izquierda, el nuevo régimen se emparentaba con el fascismo. Además de
la singular fase distributiva, de los logros en materia de prerrogativas sociales,
fue notable el avance de la participación política de las mujeres bajo el régi-
men y el papel jugado por Eva Perón en la movilización de aquellas. El antife-
minismo del peronismo, que a menudo proclamó Evita, parecía morigerarse
de hecho con las intervenciones a favor de los derechos de las trabajadoras y
de las mujeres de los sectores de menores recursos. La acción de la Fundación
Eva Perón debe leerse - como lo han hecho trabajos recientes (VALOBRA;
RAMACCIOTTI; BARRY, 2008) e - como una evidencia del elevado involu-
cramiento de la esposa de Perón con la condición de las mujeres, sin duda un
reverbero de su propia caracterización, de su historia de padecimientos como
muchacha proveniente de una clase social estigmatizada. Resulta indiscutible
que las congéneres ocuparon un lugar central en las devociones de Evita. Des-
de luego, lo paradójico se halla en la irrevocable perspectiva de la condición
femenina ajustada ónticamente al ser madre/esposa que afianzaba el estado
peronista, en el indiscutible acatamiento del régimen a las valencias estere-
otipadas de género. Sin embargo, no debe olvidarse que fue el peronismo el
que produjo un salto cualitativo en materia de representación femenina en los
escaños parlamentares, circunstancia única en América Latina a inicios de la
década de 1950, momento en que el Parlamento argentino llegó a tener casi el
30% de mujeres en ambas Cámaras (VALOBRA, 2010).
Las décadas 1960-1970 significaron enormes cambios en la sociedad na-
cional, como ocurrió también en buena parte de los países latinoamericanos.

309
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

La incorporación masiva de las mujeres en la Universidad, las transformacio-


nes ocurridas en el mercado laboral y muy especialmente, las mudanzas de la
moral sexual - para lo que contribuyeron nuevos patrones culturales, a lo que
se unió la revolución de la píldora anticonceptiva -, se enlazaron con las ma-
nifestaciones políticas radicalizadas. Nuestro país había vivido largos perio-
dos de Estado de excepción, con suspensión de las garantías constitucionales.
Durante esas décadas las expresiones radicalizadas respondían no sólo a la
situación interna de déficit de democracia, sino a las intervenciones imperia-
listas, a la guerra de Vietnam entre otros fenómenos contundentes de la acción
norteamericana. Las voces disonantes se entusiasmaban con el triunfo de la
Revolución cubana y más tarde, fueron incitadas por la heroicidad del Che
Guevara, que además era nuestro compatriota. El enrolamiento en la acci-
ón política violenta marcó a mi generación y en la lucha armada participaron
probablemente la misma proporción de varones que de mujeres, aunque estas
estuvieran relegadas de los altos cargos de conducción de las organizaciones
beligerantes1. Pero no deja de ser remarcable que el feminismo - que había re-
nacido en los años 60 con diversas expresiones, en su mayoría acompañantes
del jacobinismo político que expresaba la época -, no encontraba cabida en las
nuevas subjetividades femeninas que se aprestaban a la militancia. No éramos
feministas, ni constaba en nuestro programa de reformas radicales, modificar
el patriarcado. En general, asimilábamos la opresión de género como una for-
ma sucedánea de la opresión de clase. Y con relación a la píldora éramos por
completos ambivalentes: la aceptábamos para nosotras, las mujeres de clase
media, pero la rechazábamos para nuestras congéneres de los sectores popula-
res, puesto que creíamos que cualquier intervención anticonceptiva respondía
a designios imperialistas (COSSE, 2010).
La reconquista de la democracia significó una revisión drástica de las
convicciones, de las actitudes y de las conductas en materia de derechos y una
severa reflexión sobre el estatuto de ciudadanía. Entre los nuevos enlaces sin-
tagmáticos que se realizaron sobre las prerrogativas adeudadas, la cuestión de
la asimetría de los sexos ingresó con particular vigor y el feminismo encon-
tró una ancha calzada. Muchas mujeres habían partido para el exilio y en las
cuencas acogedoras de los países europeos y latinoamericanos encontraron la
matriz feminista. Tal fue mi caso. Debo mi feminismo a la experiencia de mi

1 Ver especialmente FELITTI, Karina. Regulación de la natalidad en la historia argentina reciente. Discursos
y experiencias (1960-1987), Tesis Doctoral. Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras, UBA, 2009.

310
Dora Barrancos

exilio en este querido país, al calor de las movilizaciones “mineiras” produ-


cidas por el crimen de Angela Diniz, tanto como a la acción desplegada por
las mujeres del movimiento por la Amnistía, que ha sido fundamental para la
extinción de la dictadura. Por su parte, quienes no habían salido de la Argen-
tina y resistieron como pudieron el terrorismo de Estado, también recogieron
el guante de las reivindicaciones de derechos que les concernían. No puedo
dejar de mencionar al heroico núcleo de las Madres y Abuelas de Plaza de
Mayo, que sin proponerse la acción política - y mucho menos la del feminismo
-, realizaron la hazaña de socavar la sangrienta dictadura. Desde antes de su
caída, algunas voces de mujeres se encontraron en la reivindicación de muy
diversos derechos, aunque los principales puntos de la agenda fueron sin lugar
a dudas dos: el reconocimiento en la vida política partidaria y la demanda
de medidas contra la violencia doméstica. Si estas fueron las cuestiones de
mayor agitación durante los primeros años del regreso a la vida democráti-
ca, la agenda se ensanchó notablemente a medida que corrieron los años de
la transición. Permítaseme repasar algunos de los más importantes derechos
conquistados desde 1984 gracias en gran medida a la acción de las feministas
(BARRANCOS, 2008, p. 1) La ley de “patria potestad compartida”, de 1985.
Con esta reforma la “patria potestad” es ejercida por ambos cónyuges, a me-
nos que estos pacten en cuál de ellos recae. 2) La ratificación de la Convención
contra todas las Formas de Discriminación contra la Mujer - CEDAW, en 1985
y su incorporación a la Constitución sancionada en 1994. Esta circunstancia
es casi excepcional pues son escasísimos los estados que han incorporado la
Convención al cuerpo de sus respectivas “cartas magnas”. 3) La sanción del di-
vorcio vincular, en 1987. La Argentina había obtenido su sanción en 1954, bajo
el régimen peronista, y el golpe de Estado que lo derrocó suspendió por un
decreto la ley que facultaba el divorcio vincular. 4) La ley de cupo femenino - o
de cuota como prefiere llamarse en la mayoría de los países latinoamericanos
- sancionada en 1991 que significó que haya al menos el 30% de representaci-
ón femenina en los organismos legislativos. Su acatamiento no fue inmediato,
algunas mujeres debieron recurrir a la justicia y aún a instancias internacio-
nales para que se les reconociera su lugar en las listas partidarias, pero hoy se
cumple rigurosamente. Sólo hay dos estados provinciales que no reconocen
ese derecho. 5) La ley integral contra la violencia de género en cualquiera de
los ámbitos de la sociedad, sancionada en 2009 y reglamentada recientemente.
6) Adhesión a la Convención para Prevenir, Sancionar y Erradicar la Violencia
contra la Mujer (Belén do Pará, Brasil, 1994) en 1996. 7) Incorporación de las

311
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

amas de casa al Sistema Integrado de Pensiones y Jubilaciones - Ley 24.828 de


1997. 8) Sanción de la ley que considera despido discriminatorio al originado
por razones de sexo u orientación sexual en 1998. 9) La ley de matrimonio
igualitario, sancionada recientemente (julio de 2010) que concede los mismos
derechos de la conyugalidad heterosexual a las parejas homosexuales, y que
constituye a la Argentina en el primer país latinoamericano en conceder el
derecho (México reconoce la igualdad matrimonial sólo en Distrito Federal).
Sin duda se debe a la agencia GLTTBI su promulgación, pero me gustaría su-
brayar que el feminismo aggiornado de los años 1990 tuvo mucho que ver con
el acicate a las agencias de la diversidad sexual. No tengo dudas de que fue el
ímpetu crítico de ese feminismo uno de los impulsores de los nuevos derechos
de los individuos de sexualidad disidente.
Me detendré ahora en algunas consideraciones sobre ciertas caracterís-
ticas a mi juicio centrales de los feminismos actuales en la Argentina. Creo que
hay un trazo común que todavía caracteriza a la pluralidad de nuestros colec-
tivos a favor de los derechos de las mujeres, y mi convicción es que persiste la
vertiente “relacional” sobre la “individual”. Aunque no deriva de modo directo
la característica relacional, el “feminismo de la diferencia” constituye la matriz
hegemónica que abunda en nuestras manifestaciones del arco ancho feminista.
A pesar de que no conozco trabajos que hayan explorado en profundidad esa
circunstancia, conjeturo que el “feminismo identitario”, de corte individual y
plegado al viejo cóncavo liberal, no es el que concita más adhesiones en nuestro
país. Por cierto, la afinidad con estos últimos presupuestos coloca a la acción
feminista en una perspectiva menos comprensiva de los ángulos de clase que
presentan una fracción sustantiva de la población femenina. De modo que la
persistencia de la forma relacional ha permitido comprender más a las mujeres
que sufren opresión de género y clase, y ha provocado alianzas sinergiales en la
lucha por la conquista de derechos.
Por otra parte, las expresiones que dividieron a las feministas entre “ins-
titucionales” y “autónomas” no alcanzaron en la Argentina el enfrentamiento
abrupto - a menudo enconado - de otras latitudes, tal vez porque la Argentina
no fue una receptora de recursos internacionales relevantes entre las agencias
que secundaron la obtención de derechos femeninos. No es el mismo caso de
otros países de la región. Los recursos más abundantes y la mayor visibilidad
y reconocimiento por parte de organismos internacionales de algunas figuras
líderes - que fueron atacadas con cierta alevosía por lo que se denunció como
“cooptación”-, no presentó en la Argentina el significado que tuvo en otros

312
Dora Barrancos

países. Menor dotación de recursos y menor exposición al desarraigo de las


principales figuras de nuestro feminismo durante la década 1990 hayan sido
tal vez las principales razones para la morigeración del debate. Desde luego,
hay grupos que reivindican la entera independencia de cualquier forma de
vinculación con esferas consideradas limitantes - sobre todo el poder político y
los organismos internacionales-, pero no me parece que sean estos los ángulos
que sugieran la partición de vínculos entre nuestras feministas.
Creo que uno de los aspectos principales en el que las feministas argen-
tinas hemos desarrollado posiciones encontradas - sin que esto signifique que
la sangre llegue al río, ni mucho menos - es en lo que respecta a la perspectiva
de la prostitución. Para un grupo de feministas amigas, la condena de la pros-
titución es inexorable en clara identidad con los principios más intransigentes
en la materia. El patriarcado sigue esclavizando a las mujeres a través del insti-
tuto de la prostitución que debe ser repudiado y erradicado bajo cualquiera de
sus formas. Pero esta posición radical no acepta el punto de vista de las propias
oficiantes, ni sus subjetividades absolutorias. En la vereda de enfrente se sitúan
las feministas que, aunque condenan el sometimiento patriarcal, introducen
la capacidad de juicio y de voluntad por parte de las prostitutas, y aceptan su
experiencia como una realidad existencial que va más allá de la condena a la
opresión masculina. Deseo admitir que este es mi punto de vista. No comparto
la iracundia contra la prostitución porque creo que, por encima del sujeta-
miento que produce la venta de sexo, hay que considerar la racionalidad que
expresan las oficiantes. Desde luego, debe haber guerra total a los proxenetas y
a los tratantes, no es esa la cuestión en debate.
Otro aspecto que suele dividirnos a las feministas es la aceptación de fór-
mulas de género amigables con la identidad femenina, como lo es el caso de las
personas travestis. Hay grupos feministas resistentes a la incorporación de travestis
militantes por derechos como parte de la identidad feminista. Deseo expresar que
no aceptar a las travestis “femeninas” es tan inapropiado como no aceptar fórmulas
de la orientación sexual lésbica deslizadas hacia los modos estereotipados masculi-
nos. Excluir forma parte de una violenta operación patriarcal.
Seguramente hay una sutil división - o no tal sutil! - que demarca nues-
tros territorios feministas: la militancia política vs. la acción académica. Esta
fragmentación no ha significado estilos confrontativos, pero a menudo se per-
cibe que en la base de ciertos desacuerdos subyace esa inscripción diferencial.
Pero creo no equivocarme al sostener que la enorme mayoría de las acadé-
micas hemos participado activamente de la vida política feminista, que nos

313
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

hemos envuelto en la misma demanda de derechos y que no nos caracteriza


ninguna pretensión jerárquica de hipérbole cognitiva en torno de las relacio-
nes de género. A diferencia de la vida académica de los EEUU, nuestras tradi-
ciones de compromiso político nos han llevado siempre a la arena del “mundo
de la vida” - en términos fenomenológicos - y es de allí que hemos extraído los
principales estímulos para conocer y modificar el sujetamiento femenino.
No puedo dejar de considerar una circunstancia de gran significado
que se constata en mi país, y es que estamos asistiendo a una especie de “der-
rame feminista”, de dispersión de los principios feministas, entre amplios sec-
tores de mujeres que constituyen formas de un “feminismo popular”, como ha
señalado Graciela Di Marco (2008). Tengo la impresión de que se ha agotado
el feminismo de “capilla”, circunscripto a núcleos cerrados a los que se ingre-
saba cumpliendo ciertos ritos de pasaje y que tantas veces terminaron siendo
expulsivos. Las demandas feministas están siendo encaradas por una miríada
de mujeres en movimiento, una verdadera diáspora de sensibilidades, senti-
mientos y voluntades que arrojan más lejos todavía los principios para obtener
la completada igualdad.

II. Los estudios relacionados con las mujeres y las relaciones de


género en la academia argentina

Los estudios académicos vinculados con la condición de las mujeres y en


general con las relaciones de género se impusieron con lentitud en la Argentina.
El asedio provino de afuera hacia adentro: primero se construyeron en la peri-
feria de las universidades, y luego y de modo muy pausado, alcanzaron legitimi-
dad en estas instituciones. Sin duda el orden de los saberes consagrados recela-
ba francamente de la incursión feminista, y tal como expuse hace algunos años
(BARRANCOS, 2003), el sistema académico padecía de los siguientes síntomas
y tal vez todavía no haya superado por completo algunos de ellos:
a) Ausencia de pensamiento crítico universitario por efecto de la diás-
pora provocada por la dictadura;
b) Ausencia de contingentes académicos femeninos críticos, y menos aún
feministas, que sólo se establecieron con la reapertura democrática;
c) Temor a la disrupción institucional;

Desarrollaré de modo sintético los episodios centrales de la constitución


de los estudios de la condición femenina y de género en mi país.

314
Dora Barrancos

Aún en plena dictadura, a fines de los 70, diversos grupos de mujeres se


decidieron a desarrollar al menos ejercicios teóricos en torno del feminismo, y
piénsese en la ferocidad del régimen militar imperante. Así, un bastión inició
algunas reuniones en el Instituto Goethe de Buenos Aires, en el que sobresalían
las profesionales en el área de Psicología. Algo más adelante se creó el Centro
de Estudios de la Mujer que no hay dudas fue el semillero de la primera inicia-
tiva universitaria. Otro centro privado de investigación académica, el CEDES
- Centro de Estudios del Estado y la Sociedad -, también había inaugurado una
línea destinada a la investigación sobre mujeres y el CENEP (Centro de Estu-
dios de Población) se le unía en el propósito. En 1987 la Facultad de Psicología
de la Universidad de Buenos Aires hacía lugar a la Especialización en Estudios
de la Mujer que hizo una gran contribución para la formación sistemática de
los cuadros feministas.
A pesar de esa incorporación a un ámbito universitario a sólo tres
años de terminada la dictadura, hubo que aguardar pacientemente a que
otros centros especializados fueran reconocidos. En los primeros años de la
década 1990 pudieron instalarse núcleos ad hoc aunque con disímil legitimi-
dad contextual. Pero lo cierto es que las Universidades Nacionales de Buenos
Aires, Luján, Rosario, Santa Fe, La Plata y algo más tarde Tucumán, Salta,
Córdoba, Neuquén y La Pampa, contaron con áreas o centros destinados a
promover docencia, desarrollar investigación y ofrecer acciones de extensi-
ón. Hoy día en la casi totalidad de las Universidades públicas - y en no pocas
de orden privado - se cuenta alguna experiencia académica en las cuestiones
que nos ocupan. No es posible olvidar el impulso dado, en 1991, por nuestra
gran historiadora residente en España, Reyna Pastor, quien promovió una
Red de centros cuya disciplina central era la Historia. Más allá de los per-
cances de la Red - que en verdad no llegó a constituirse-, lo cierto es que los
centros localizados en las Universidades han sostenido con periodicidad bia-
nual las Jornadas de Historia de las Mujeres y Estudios de Género, que se ha
tornado una experiencia de especial significado en nuestra vida académica.
Desde el año 2000, han tenido carácter ibero y latinoamericano y en el futuro
deberá sostenerse esa integración. Esas Jornadas permiten apreciar cuanti y
cualitativamente el desarrollo de nuestros estudios, y basta señalar que desde
1991, en que tuvieron lugar por primera vez y donde no alcanzaron a veinte
las comunicaciones presentadas, hasta el realizado en Rosario hace dos años
que superó el número de las cuatrocientas ponencias, se advierte un singular
afianzamiento de la investigación en nuestro campo de saberes.

315
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

La Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires


cuenta con el Instituto Interdisciplinario de Estudios de Género (IIEGE) cuyos
objetivos son patrocinar docencia en pregrado y posgrado, desarrollar investi-
gación y realizar extensión. Tuvo como antecedente un Area Interdisciplinaria
de Estudios de la Mujer surgido en 1992, y en 1997 en una coyuntura nota-
blemente favorable, fue transformada en Instituto con el mismo rango de los
que respondían a los tópicos disciplinarios tradicionales. Tiene una destacada
membresía, hospeda diversos proyectos de investigación con financiamiento
oficial, bien como la Red de Ciencia y Técnica Mujer, y el Archivo de Imágenes
y Palabras de Mujeres y publica la Revista Mora con un arbitraje exigente.
La UBA también posee en la ya mencionada Facultad de Psicología y
en la de Ciencias Sociales núcleos que orientan la investigación y la docencia
hacia nuestra problemática. Se destaca en el último caso el grupo que examina
sexualidades en el Instituto Gino Germani, con una producción singular. La
Facultad de Derecho dispone de grupos de interés - aún menos formalizados -
que analizan cuestiones de género ligadas al orden disciplinario jurídico.
En todas las carreras de las Facultades mencionadas - Ciencias Socia-
les, Psicología, Filosofía y Letras y Derecho - varias docentes incorporan la
perspectiva de género en las materias que dictan, pero no constan disciplinas
obligatorias en los planes de estudios, de modo tal que los estudios de pre-
grado se han visto sólo esporádicamente atravesados por nuestra perspectiva.
Durante algunos años hubo un seminario regular en la Carrera de Historia
(FFYL-UBA) bajo el nombre de “Introducción a la Historia de las Mujeres
y a los Estudios de Género, por iniciativa del IIEGE. Diversas circunstancias
detuvieron su desarrollo pero seguramente volverá a ofrecerse pues ha sido un
valioso precedente en la estructuración de la oferta formativa de grado.
Con relación a los estudios de posgrado, además del antecedente ya
mencionado de la Especialización en Estudios de la Mujer, la Universidad de
Rosario lleva la delantera pues desde hace algunos años desarrolla la Maestría
“El poder, la sociedad y la problemática de Género” del que han egresado un
buen número de especialistas. Por su parte, la Universidad de Luján creó una
Especialización y se haya próxima a funcionar la Maestría. Esta Universidad
junto con la de Neuquen y La Pampa, publican la Revista “La Aljaba”. Recien-
temente, y en razón de las transformaciones notables que ha imprimido a su
gestión la actual Ministra de Defensa, la Dra. Nilda Garré, que convocó a un
Consejo de Polìticas de Género para orientar sus decisiones, se instituciona-
lizó la Diplomatura de Género en el ámbito de la Fuerza Aérea, seguramente
algo impensado hace una década.

316
Dora Barrancos

El Doctorado de Filosofía y Letras de la UBA ofrece anualmente se-


minarios para un amplio conjunto de disciplinas, con contenidos que aluden
a la perspectiva de género en buena medida impulsados por el IIEGE. Hace
unos años, este Instituto tomó la iniciativa de realizar un esfuerzo común con
Universidades del Mercosur y con la Universidad de Chile para llevar ade-
lante un proyecto de Doctorado de Estudios de Género, para lo que se reali-
zaron una serie de reuniones que hoy permiten entrever la firme posibilidad
de concretarlo. Se trata de una iniciativa que debe sortear diversos escollos,
especialmente burocráticos, debido a las limitaciones que ofrecen las diversas
tradiciones de las instituciones involucradas. Recientemente, la Universidad
Nacional de Córdoba, plasmó el Doctorado en Estudios de Género, el primero
en establecerse en el país, y del que esperamos una labor singular.
Desde el año 2005, la Asociación de Universidades Grupo Montevideo
- AUGM - que asocia a un vasto número de casas de altos estudios de la re-
gión, cuenta con un Comité de Género que ha venido evidenciando una rica
actividad. Esta iniciativa es un paso fundamental en la estrategia de reunir
los esfuerzos del trabajo académico, de docencia e investigación, de nuestros
centros especializados.
No puedo dejar de mencionar las iniciativas del ámbito privado. En la
ciudad de Buenos Aires hubo un antecedente de estudios de pogrado en la
Universidad Hebrea Bar-ila en la década de 1990. El mismo grupo, formado
por muy competentes académicas originó una Diplomatura en Género en la
UCES - Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales -, y recientemente
ha creado la Maestría, que se haya envías de aprobación, a través del Instituto
de Altos Estudios de Psicología y Ciencias Sociales. En la actualidad esta Uni-
versidad ofrece un Posdoctorado en Estudios de Género, único formalizado en
nuestro medio que ya tiene egresadas. Se trata de una iniciativa desafiante.
El Programa Regional de Políticas Públicas y Género (PRIGEP) localizado
en FLACSO constituye una real alternativa a la formación en el nivel posgrado y
tiene alcance internacional. En la actualidad el Programa ofrece una Maestría y
reúne a un grupo docente de reconocida calidad en América Latina.
Un balance de la situación general de los estudios concernientes a las
mujeres y a las dimensiones de género en los centros de enseñanza superior,
muestra ciertas fragilidades, inestabilidades y discontinuidades en la formaci-
ón de pre grado, y una clara tendencia a la especialización de posgrado al par
que se advierte un incremento de la legitimación académica. El crecimiento
que ha tenido la investigación científica en todas las disciplinas sociales y en las

317
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

humanidades, así como la mayor sofisticación teórica y metodológica en los


análisis de la condición femenina, resulta incontestable en todos los países. El
número y calidad de los trabajos producidos expresan una curva ascendente
y hablan claramente de la presencia de una “masa crítica” expresiva, aunque
subsistan las dificultades. Diana Mafia (1998) señaló con acierto por lo menos
ocho problemas que caracterizaban a los estudios académicos en la Argentina,
pero muy probablemente puedan extenderse a la experiencia general de los
restantes países del área. Maffía situaba entonces cuestiones como la legiti-
midad, la integración, la jerarquía y el nivel académico que se les confería, la
relación con la práctica, la profesionalización, el excesivo eclectismo, y por
último - y no menos importante-los visos de dogmatismo. “A medida que se
construyen tradiciones académicas - decía- hay un deslizamiento a posiciones
cerradas, vocabularios iniciáticos, disputas escolásticas (...)”. “Por cierto - con-
cluía Maffía - la tendencia al dogmatismo favorece el statu quo”.
Han corrido los años y no obstante el mayor reconocimiento que gozan los
centros académicos universitarios relativos a la tarea docente y a la producción ob-
tenida por el trabajo de investigación, prevalecen aspectos críticos que se indexan
a las percepciones de Diana Maffía y que deberían ser removidos, si se desea una
más satisfactoria incorporación y sustentabilidad de estos estudios en la educación
superior de nuestros países. Los principales problemas detectados son:

a) Ausencia de políticas universitarias genéricas, lo que contrasta con sis-


temas educativos paradojalmente feminizados. En la actualidad el sistema
universitario se encuentra feminizado o en proceso de franca supremacía
numérica de contingentes femeninos. En la Argentina, la única excepción
siguen siendo las carreras de Ingeniería todavía renuentes a la matrícula
femenina. Pero la sobre representación de las mujeres no ha significado un
cambio en las políticas hacia la generización por parte del sistema públi-
co de educación superior. El número de profesoras se ha incrementado y
en algunas unidades académicas lo ha hecho de modo exponencial, pero
la diferencia salarial expresa brechas de género debido a que los cargos de
“dedicación exclusiva” son usufrutuados sobre todo por los varones. De la
misma manera, la representación de los claustros en el sistema de gobierno
de las altas casas de estudio no revela equidad, y mucho menos las mujeres
ocupan los cargos de mayor responsabilidad académica. El número de Rec-
toras es diminuto, las ha habido en escasísimo número, la Universidad de
Buenos Aires nunca ha sido dirigido por una mujer.

318
Dora Barrancos

b) Precaria presencia o falta de obligatoriedad, de los estudios de géne-


ro en los programas de pregrado. A pesar de la mayor legitimidad obte-
nida durante estos casi veinte años de desarrollo académico de nuestros
estudios, hay enormes dificultades en transformar la currícula de las
diversas carreras universitarias. Ni siquiera en las disciplinas sociales y
en las humanidades se ha revisado la trama curricular para dar lugar al
nuevo conocimiento. Se registran experiencias esporádicas de incorpo-
ración y en todos los casos como consecuencia de la voluntad personal
de quienes ejercen la docencia.
c) Insuficiencia de recursos, en especial falta de becas y subsidios. Sin
duda, ha habido una expansión de los beneficios de las becas doctorales
en nuestro medio gracias a los mayores recursos que ha dispuesto el
CONICET que se ha mostrado crecientemente poroso para auspiciar
proyectos de investigación relacionados con nuestros intereses espe-
cializados. Pero resulta necesario aumentar los recursos de las propias
universidades. Se constata que no hay becas para Maestría, aspecto que
todavía no ha encontrado resolución.
d) Comportamientos institucionales pocos porosos en relación a otras
unidades académicas. Sin duda hay en esto cabe mucha responsabi-
lidad de los propios institutos, núcleos o centros destinados a nues-
tros estudios. Suele ocurrir lo que también Diana Maffía denominaba
la “ghetización” de los estudios de género que a menudo auspician ciu-
dadelas o cotos aislados. Es fundamental que las unidades que hemos
constituido, o que nos albergan, mantengan diálogos con otros espacios
académicos, tanto los cercanos y correspondientes a una misma institu-
ción, como los situados en otros organismos académicos. Es rigurosa-
mente desacertado mantener políticas de cerramiento, endogámicas y
perpetuadoras de la mismidad. Nada puede ser más estimulante que el
intercambio amplio con otras unidades de docencia e investigación.
e) Ausencia de articulación entre los centros universitarios especiali-
zados de un mismo país. Debemos lamentar que al menos en la expe-
riencia argentina carezcamos de una ligazón sistemática entre los di-
versos centros dedicados a enseñar e investigar en materia de género.
Las relaciones fluidas se producen sobre todo por ocasión de congresos
o jornadas, pero de ordinario hay más interacción por conocimiento y
reciprocidad personal que por razones estrictamente institucionales.
f) Concentración en posgrados especializados de nivel intermedio (es-
pecialización y maestrías) y carencia de doctorados especializados.
Esta circunstancia comienza a ser revertida en nuestro país gracias a

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

la ya citada iniciativa de las colegas de la Universidad Nacional de Cór-


doba que acaban de concretar la apertura del Doctorado en Estudios
de Género. Ya he señalado que nos hayamos propiciando un doctorado
regional al menos en la región sur latinoamericana.
g) Déficit de titulación a nivel de posgrado que afecta a buena parte de la
masa docente. Esta evidencia se encuentra estrictamente vinculada con la
constatación anterior. Necesitamos fortalecer en nuestro país la titulación
doctoral a fin de aumentar los contingentes dedicados a la investigación y
la docencia sobre todo en el área de posgrado. La tradición de los docto-
rados en las ciencias sociales es muy reciente en la Argentina y aunque en
la última década se han expandido notablemente, todavía se registra un
déficit sobre todo si se tiene en cuenta nuestra especialidad.

Para cerrar esta intervención, y más allá de las observaciones críticas


precedentes, me gustaría afirmar que en menos de un cuarto de siglo hemos
avanzado de modo singular en la Argentina, tanto en materia de conquista de
derechos como en lo que atañe a saberes críticos especializados. Hemos conse-
guido desestabilizar el “sentido común” con las evidencias de la discriminación
y sin duda hemos contribuido, también gracias a la fuerza de los feminismos
- y creo que con bastante destreza -, a la operación de desmontar la naturaliza-
ción de la asimetría. Nos ha ayudado alguna parte de la “midia” comprometida
con la equidad: no puedo dejar de señalar el valor que han tenido algunas
expresiones periodísticas feministas, por cierto capilares teniendo en cuenta
la omisión y negligencia de la mayoría de los medios de comunicación. Y
también hemos avanzado en materia de “conocimiento situado” - el único con
capacidad objetiva si nos atenemos a las lecciones de Donna Haraway (1995) -
en muy diversas disciplinas sociales y humanísticas. Basta señalar que al inicio
de la democracia eran escasísimos los trabajos de investigación que ponían en
foco la situación de las mujeres, lo que contrasta con el crecimiento exponen-
cial habido en estos últimos años, Pero desde luego, todavía resta mucho más,
muchísimos más por hacer y conocer. Las feministas somos insaciables, y lo
seremos mientras no cese la discriminación y la inequidad.

Referências

BARRANCOS, Dora. Mujeres, entre la casa y la plaza. Buenos Aires: Sudame-


ricana, 2008.

320
Dora Barrancos

COSSE, Isabella. Pareja, sexualidad y familia en los años sesenta. Buenos Aires:
Siglo XXI, 2010.

DI MARCO, Graciela. Social Justice and Gender Rights. International Social


Science Journal. v. 59- Issue 191 - March 2008, p.43-55.

FELITTI, Karina. Regulación de la natalidad en la historia argentina reciente.


Discursos y experiencias (1960-1987). Buenos Aires: UBA, 2009. Dissertação
(Doctorado), Facultad de Filosofía y Letras, 2009.

HARAWAY, Donna. Ciencia, cyborgs y mujeres. La reinversión de la naturaleza.


Valencia: Cátedra, 1995.

MAFFÍA, Diana. Aventuras y desventuras del encuentro entre Género y la aca-


demia. Revista Feminaria. Año XI, n.21, 1998.

OFFEN, Karen. Definir el feminismo. Un análisis histórico comparativo. His-


toria Social. n. 9. Universidad de Valencia, 1991.

VALOBRA, Adriana.; RAMACCIOTTI, Karina y BARRY, Carolina. (comp).


La Fundación Eva Perón. Buenos Aires: Biblos, 2008.

VALOBRA, Adriana. Del hogar a las urnas. Recorridos de la ciudadanía política


femenina argentina, 1946 - 1955. Rosario: Prohistoria, 2010.

321
MULHERES SOLTEIRAS E CASADAS
NAS SÉRIES TELEVISIVAS

Ivia Alves

T ratar de séries televisivas já está se tornando comum no país, mas ainda


encontra resistência no meio acadêmico. Associando-me ao grupo que
abre espaço para os seriados, examinando sites e blogs, além das várias comu-
nidades nos sites de relacionamentos e revistas on line, passei a ver o quanto é
importante analisar e discutir os conteúdos veiculados por esse tipo de gênero
visto o alcance e fidelidade de seu público. Também observei que existe espaço
para comentários mais específicos que possam interessar a esse público cativo
e fiel, como a discussão das representações das mulheres e de como essas séries
lidam com as relações de gênero e poder. O presente texto é mais um recorte
da minha atual pesquisa, que analisa as representações e imagens de mulheres
em séries norte-americanas (preferencialmente, policiais investigativas).
De antemão, deixo de lado qualquer discussão sobre a programação da
televisão, bem como sobre os produtos que ela oferece e suas íntimas relações
financeiras com a indústria e comércio através das propagandas (no espaço
denominado por um outro programa de “No intervalo”). Também não vou
entrar na discussão sobre alta e baixa cultura, tema bastante discutido nos anos
noventa. A televisão e sua programação (com sua articulação com o rádio)
povoam o cenário de qualquer pessoa que viva sob o sol deste planeta. Entre os
“apocalípticos e integrados”, conforme o título do livro de Umberto Eco, passei
a fazer parte, há muito tempo, dos integrados.
A mídia está no centro do nosso cotidiano seja através de revistas, mú-
sicas, seja pela televisão com seus inúmeros canais, que apresenta (ou oferece)

323
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

uma programação variadíssima e que segmenta o seu público por classe, raça/
etnia, faixa etária e, evidentemente, na atualidade, por gênero1. E como a TV
(principalmente pela sua oralidade) atravessa todos os nossos rituais diários,
quando se trata de “lazer” e até mesmo quando não se tem o hábito de assisti-
la, ela alcança um raio sem limites e imprime no telespectador ou “ouvinte”
discursos reiterados. Observando esse fato infere-se que a TV não só pode
modelizar atitudes, comportamentos, vestimentas, como também imprimir e
reiterar um discurso (o dominante) que pode ser internalizado como a própria
expressão de pensamento da pessoa; melhor dizendo, a TV, pela sua oralidade,
concretiza, põe em palavras o que a pessoa quer dizer, quer pensar (ou não).
É por esse intervalo que se instala entre o lazer e a modelização (mesmo que o
telespectador não seja passivo) que meu trabalho se insere.
O meu tema - séries televisivas policiais norte-americanas2 - busca observar
e analisar como estão sendo representadas e configuradas as mulheres (persona-
gens) do elenco fixo de cada série, e de acordo com Susana Funk e Nara Widholzer
(2005), quando, na introdução do livro Gênero em discursos da Mídia, afirmam ser
através desses meios (as mídias) que se entrecruzam representações e ideologia, (e
por essa razão) justificam os estudos acadêmicos. Fundamentando-se em Thomp-
son (1995) elas reiteram que, “em uma cultura em que as relações de poder são
cada vez mais midiatizadas”, qualquer análise cultural deve ser

o estudo das formas simbólicas - isto é, ações, objetos e expressões significa-


tivas de vários tipos - em relação a contextos e processos historicamente es-
pecíficos e socialmente estruturados dentro dos quais, e por meio dos quais,
essas formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas (THOMP-
SON, 1995, p. 181).

Complementam as autoras:

Desse modo, a maior ou menor valoração dos bens simbólicos depende de


sua inserção em instituições e mecanismos de comunicação de massa. O
campo da semiótica social torna-se, assim, um lugar privilegiado para o

1 As televisões abertas passam as séries norte-americanas à noite, para um público adulto, e comédias e
sitcom à tarde, para jovens e crianças. Para ampliar seu público, todas elas são dubladas. No caso da TV
paga, existem canais que são especificamente de séries, cada canal buscando o seu nicho, mais especifi-
camente, por faixa etária ou por classificação do gênero (dramas, comédias, ficção científica etc.).
2 Neste artigo deixo de lado a análise de séries policiais europeias como Julie Lescaut (Fr,1992), Prime Sus-
pect (UK, 1991-2006), Testemunha Silenciosa (Silent Witness, 1996), Trial and Retribution (UK, 1997)
Waking the Dead (UK, 2000), Rastros da Maldade (Wire in the Blood, UK, 2002), Life on Mars (2006-
2007) ou Ashes to Ashes (UK, 2008).

324
Ivia Alves

trabalho de pesquisadores de diferentes áreas disciplinares no seu intuito


de identificar e expor à crítica ideologias e formas de poder baseadas na
diferença (FUNCK; WIDHOLZER, 2005, p. 11-12).

Finalmente, os/as telespectadores/as podem refutar qualquer análise crí-


tica porque, aparentemente, as personagens são diversificadas, o que me leva a
registrar um trecho do Editorial da Revista Ex Aequo, em número dedicado à
mídia e às representações de mulheres, escrito pela pesquisadora portuguesa
Maria João Silveirinha em 2006:

Do ponto de vista da análise dos media, o que nos obriga a encarar as repre-
sentações como plurais é sobretudo o facto de os significados codificados
nos textos mediáticos não serem uniformes e serem mesmo contraditórios.
Eles são, na verdade, o resultado de muitos e complexos problemas de inte-
racção, com raízes profundas em diferentes fontes ideológicas, sociais, polí-
ticas e económicas de desigualdade de género. (...)
Para compreendermos em que é que se juntam e simultaneamente se diferen-
ciam as representações mediáticas das mulheres, não podemos abandonar, no
entanto, os necessários quadros explicativos que precisam de estar associados
às questões de poder, de trabalho, de género e de etnia, por sua vez interliga-
dos pela questão da sexualidade e da construção de feminilidade. (...)
As indústrias culturais (como o cinema ou a música pop, mas também as
séries televisivas, as telenovelas e outros espaços televisivos), apresentam-nos
um imenso campo a abordar do ponto de vista da representação mediática.

O gênero drama policial de procedimento investigativo, em geral, par-


ticipa do discurso dominante e de uma ideologia tradicional, inclusive pelo
seu próprio formato: crime, investigação e prisão ou conhecimento do crimi-
noso. Torna-se, assim, um espaço para construir, de acordo com a realidade,
representações de mulheres plausíveis, comuns, com carreira profissional con-
solidada e ascendente por merecimento, bem como representar mulheres fi-
nanceiramente independentes e sexualmente livres. No entanto, é o lugar mais
visível para observar as desigualdades de gênero e poder, visto que as perso-
nagens se inserem em instituições de ideologia eminentemente masculina. E,
muitas vezes, quando se trata da violência simbólica entre os personagens do
elenco fixo de cada série, tais situações tornam-se explícitas3.

3 As relações de gênero e poder são sempre muito claras nas séries policiais europeias, principalmente na-
quelas produzidas nos anos noventa, porém tais questões são bastante sutis nas séries norte-americanas.

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DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

No geral, independentemente de gênero, as séries norte-americanas estão


em alta no circuito das redes fechadas ou mesmo nas emissoras de canal aberto
para uma audiência brasileira. Embora tais programas nunca tenham deixado de
ser transmitidos desde o começo da televisão no país, houve uma rarefação entre
as décadas de 70 e 80 por causa da crítica de que os “enlatados” prejudicavam o
desenvolvimento da indústria televisiva local. Relegadas, então, para as madru-
gadas, retornaram com força a partir da sua veiculação por canais exclusivos
da TV paga aliada à influência da internet4. Muito mais fáceis de captar uma
audiência fiel contínua por apresentarem apenas um episódio por semana e sem
continuidade, elas oferecem uma variada gama de gêneros e subgêneros.
Este recorte tratará dos dramas policiais produzidos entre 1990 e 2009,
tentando evidenciar as modificações introduzidas no gênero, mapear as repre-
sentações e imagens das personagens principais do elenco fixo e, secundaria-
mente, discutir a relação dessas configurações e as práticas das sociedades que
as produzem e daquelas que são receptoras.

As mudanças radicais

Deixando para trás o modelo literário, de onde se originam os dramas po-


liciais, receberam as mais radicais mudanças em meados de 1980, distanciando-se
da figura do detetive enigmático, objetivo, isolado do cotidiano e/ou de uma dupla
de detetives investigadores que passam por aventuras em suas investigações.
As transformações começam pelos roteiros. Os temas são atualizados, pas-
sando a dialogar (denunciando ou levando à reflexão) com o contexto cultural
do momento e a trama de cada episódio deixa de ser linear, exibindo mais de um
tema/estória (tema e subtemas) em cada episódio. Por outro lado, o enfraqueci-
mento entre as fronteiras do público e do privado proverá as condições necessárias
para um maior aprofundamento da vida dos investigadores: abre-se a cortina que
vela sua vida privada, suas opiniões, seu modo de viver a vida cotidiana, tornando-
os personagens redondos, mais sólidos em seus comportamentos e atitudes, visto

4 A diferença da TV paga (operadoras de televisão por assinatura) para os canais abertos é que a pro-
gramação se repete, mais de uma vez, em horários diferentes e a segmentação do público abre várias
possibilidades. A segmentação por faixa etária e por classe é enorme para uma audiência considerada
a partir dos 7 a 49 anos, desde canais infantis, canais que passam séries para adolescentes e a fatia
maior que representa o público dos 18 aos 35 anos, quando se abre uma variadíssima gama de gêneros
dramáticos e comédias, fechando com os policiais e ficção científica. Os canais na TV por assinatura,
na maioria, são detidos pelas distribuidoras norte-americanas e quase a maior parte dessas séries são
produzidas para os canais abertos dos EEUU. As séries produzidas por canais pagos, como a HBO,
Lifetime, Showtime e outras são bem mais inovadoras, seja nos temas ou gêneros ou por questionarem
ou fazerem uma metáfora do contexto cultural do país.

326
Ivia Alves

que são evidenciados os motivos que o levaram à profissão (a causa, a “ferida pro-
funda” que os move) e fatos que acontecem em sua vida cotidiana, afetiva e pessoal
os quais podem modificar ou interferir em suas atitudes. Também, agora, os roteiros
priorizam um maior número de personagens âncoras (de apenas um protagonista
ou dupla, passa-se para equipes compostas por quatro a oito personagens fixos).
Se, nas séries das décadas anteriores, a ênfase estaria em seguir os passos
e trajetórias de um único detetive ou uma única parceria, agora a narrativa
engloba vários pares de investigadores, inclusive parcerias formadas por um
homem e uma mulher. Assim, as estórias trabalham hoje, em geral, com temas
e subtemas que dão a possibilidade da criação de arcos narrativos sobre as vi-
das pessoais do elenco fixo, arcos que atravessam várias temporadas.
Além disso, o gênero passa a preferir espaços organizados, seja a polícia
ou agências de inteligência; os roteiros procuram misturar a ação com espaços
de interlocução reflexiva entre parceiros ou equipes, transformando-o em um
gênero mais reflexivo e com menos cenas de sangue e ação. Talvez com essas
modificações, os roteiristas quisessem criar maior plausibilidade (verossimi-
lhança) com a realidade, maior realismo nas narrativas e acompanhar o con-
texto de sua época que preferia paz em vez de guerra, embora muitos embates
tenham ocorrido. Os detetives passam a ser do tamanho das pessoas comuns
mais do que heróis ou gênios do raciocínio e dedução. O foco da ação se divide
e apreende a intimidade, as dificuldades cotidianas desses personagens, possi-
bilitando à audiência maior identificação com eles, porque não são perfeitos.
A caracterização dos personagens torna acessível contemplar mais ver-
ticalmente a sua psicologia, seus interesses, seus defeitos e preconceitos, des-
fazendo o estereótipo daquele detetive impenetrável, cuja vida privada não
se conhece. Nos EEUU, a série considerada como exemplo de renovação do
gênero é Hill Street Blues (86 episódios, 1981-1987), de Steven Bochco5, que
recebeu, no Brasil, o nome de Chumbo Grosso6.

5 O produtor e escritor Steven Bochco (nascido em 1943, em New York) começa a carreira de escritor em 1967
que alia, em 1972, à de produtor. Tem, em seus créditos, Columbo (início da carreira, 7 episódios, 1972), Hill
Street Blues (1981-1987), Murder one (1995-1997), NYPD Blue (1993-2005), dentre outras séries.
6 Hill Street Blues (1981-1987), um drama policial centrado na vida dos membros de uma delegacia ur-
bana de Chicago, mostrava crônicas das vidas pessoais dos policiais do distrito. A MTM Enterprises
desenvolveu a série para a rede NBC, juntamente com os roteiristas Steven Bochco e Michael Kozoll,
que estavam autorizados a escrever qualquer ideia como resposta às criações lineares e às novas ideias
para as séries dramáticas. Cada episódio contava com um determinado número de linhas temáticas que
não se resolviam em apenas um capítulo, mas eram levadas através dos episódios. Muitos conflitos esta-
vam ligados ao trabalho e à vida particular de cada personagem. Disponível em: <http://www.tvsinopse.
kinghost.net/c/chumbo-grosso.htm>. Acesso em: 30 mai. 2010.

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Década de noventa: a “era” das representações de mulheres solteiras

Já com o novo formato consolidado, a década de noventa alarga os ho-


rizontes, dando maior visibilidade às mulheres dentro da corporação7, tornan-
do-se, assim a década da mulher liberada, independente financeira e sexual-
mente, tanto nas séries policiais, quanto nos principais sitcoms8. Embora com
atraso em relação ao contexto sociocultural dos EEUU, que já havia passado
pela luta das minorias e pela segunda onda feminista, faz-se visível a mulher
no ambiente de trabalho e, embora com essa defasagem, é nesse momento que
várias produções vão focar as mulheres solteiras9.
Nunca houve, na TV, melhor espaço para colocar e representar as
mulheres solteiras (na faixa etária de 30 a 40 anos) do que no gênero poli-
cial10. Seguindo carreiras absorventes e impedidas de ter qualquer envol-

7 O centro da minha pesquisa focaliza as séries policiais de procedimento investigativo, embora haja neces-
sidade de, também, analisar comédias e, mesmo, dramas de família. A escolha procede porque, sendo uma
instituição constituída, originariamente, eminentemente por homens, com regras e hierarquias rígidas, só
houve a inserção de mulheres a partir de 1960, oferecendo, assim, maiores possibilidades de análise das
relações de gênero e de poder. Sendo, em geral, classificadas como dramas, nelas os fatos, as desigualdades
não se colocam da mesma maneira como são exercitadas na comédia, em geral, vista como brincadeiras.
Mesmo tais questionamentos aparecendo de forma muito sutil entre o elenco fixo nas séries norte-ameri-
canas, é possível detectar as desigualdades, como vai se observar nos anos de 2000.
8 Chamo a atenção para os sitcoms de grande sucesso como Friends (1994-2004), Seinfeld (1990-1998),
Frazier (1993-2004) e Will and Grace (1998-2006), que são marcadas por representações de mulheres
solteiras, com profissões diversas, relações afetivas casuais, que estão em busca de se acertar na pro-
fissão. Essas séries tematizam, acima de tudo, a apologia da amizade, os desafios de experimentações
afetivas, os fracassos, as falhas e defeitos de cada um dos personagens.
9 Anteriormente, ao mesmo tempo em que transcorriam as manifestações públicas do feminismo, três
séries tentaram construir mulheres independentes, inteligentes e maduras emocionalmente, porém,
exceto Police woman, que teve quatro temporadas (1974-1978), as outras duas não conseguiram ul-
trapassar a primeira temporada: Honey West, com trinta episódios (1965-1966) e Dama de ouro (Lady
Blue, 1985), mais conhecida no Brasil como Kate Mahoney, nome da protagonista policial-detetive, que
foi cancelada por ter sido considerada uma série muita violenta. Os epítetos que trazem ambiguidade
às configurações dessas protagonistas estão ou no próprio título da série (Honey, lady) ou no apelido da
protagonista, como em Police woman: Pepper ou Sargent Pepper (pepper = pimenta) - é como é chamada
enquanto seu nome real é Suzanne Anderson. A série obteve bastante sucesso, mas é válido aqui ressal-
tar que a investigadora, quase sempre, nos 91 episódios, trabalhava disfarçada em situações escusas: o
submundo dos cartéis, corrupção e tráfico de droga e se vestia disfarçada como stripper, dançarina de
boate, prostituta ou mulher que procura um homem rico para sustentá-la. Assim, como o gênero era
classificado até então de lazer para uma audiência masculina, o disfarce fazia com que a atriz vestisse
roupas sumárias e tivesse comportamentos entre sedutor (sexy) e de mulher liberada sexualmente.
10 Neste artigo não se trabalha com os gêneros aventuras-ação nem espionagem, onde estão incluídas
algumas séries protagonizadas por mulheres ou que têm mulheres como participantes de grupos ou
equipes e nas quais as mulheres têm superpoderes ou foram capacitadas para a atividade policial, como
A Poderosa Isis (1975), Mulher Maravilha (Wonderful Woman, 1975), Charlie’s Angels (As panteras,
veiculada entre 1976 e 1981) e Mission: impossible (Missão Impossível, 1966-1973).

328
Ivia Alves

vimento afetivo com pessoas da mesma delegacia, é dentro desse espaço


que se tem a melhor diversificação de representações de mulheres seja pela
aparência física, seja pelos comportamentos. Mas isso não quer dizer que
não apareçam relações afetivas mesmo dentro das delegacias, entre colegas
(relação proibida) ou com pessoas relacionadas à investigação (relações
permitidas) como promotoras, juizes, mas relações quase sempre mal-su-
cedidas. Também aparecem os encontros afetivos casuais, demonstrando
que essas personagens não são assexuadas, mas que não consta de sua meta
imediata a constituição de uma família. Chamo a atenção para o fato por-
que o estado civil das personagens do elenco fixo vai ser deslocado nas
séries produzidas após 2005.
Desfila diante da telinha grande diversidade de representações de mu-
lheres, tanto com relação à raça/etnia, faixa etária, conformação física, quanto
em relação a comportamentos e atitudes11. Além das mulheres solteiras, com-
parecem representações de mulheres casadas (muito mais presentes nos dois
últimos anos da década), com casamentos em conflito seja pela profissão exer-
cida ou em crise familiar criada pelos maridos ou pelos filhos ou, mesmo, pelo
iminente divórcio.
As principais séries dos anos noventa, Nova York contra o crime (NYPD
Blue, 1993-2005)12, Lei e Ordem (Law & Order, 1990-2010)13, Profiler (1996-
2000), Terceiro Turno (Third Watch, 1999-2005) e a excelente Lei e Ordem: Uni-
dade de Vítimas Especiais (Law & Order: Special Victims Unit - SVU, 1999)14, se
localizam dentro de distritos policiais ou do FBI e são marcadas pela presença,

11 Devo aqui um esclarecimento: meu interesse por séries televisivas e pela observação das relações de
gênero que nelas aparecem, explicitamente ou de forma sutil, se originou da minha observação do
entorno, de como os jovens estavam assimilando tais seriados. Passei a assisti-las e ampliei o leque de
escolhas, sempre com o enfoque de gênero, a partir do ano de 2000, e só em 2007 encaminhei o projeto,
que foi aprovado ao CNPq. Assim, foi difícil recuperar as séries dos anos noventa, excetuando-se aque-
las que foram sucesso e obtiveram prêmios no lugar de sua produção. Algumas delas foram reprisadas
nos canais fechados depois de 2000.
12 A série sofreu várias modificações a fim de se adaptar às novas entradas de combinação e desfilou, ao
longo dos seus doze anos, uma galeria de mulheres solteiras, viúvas e casadas sem filhos. Apenas um
caso afetivo de mulher e homem, ambos com crianças anteriores ao casamento, é contemplado e cons-
tará da parte romanesca de Nova York contra o crime, da 9ª à 11ª temporadas (2002-2004). Tal mudança
ficará esclarecida com a entrada dos vários policiais que começam a surgir desde 2001.
13 Law & Order apresenta, rapidamente, na segunda temporada, com a entrada da chefe da delegacia,
Anita van Buren, um pequeno - mas singular - questionamento sobre uma mulher ocupar o cargo de
chefia, situação que está incrustada em dois episódios apenas.
14 Não serão incluídas nem analisadas as séries Oz, The shield, The wire, Numb3rs porque o núcleo de per-
sonagens fixos é majoritariamente constituído de homens. Também Law & Order por causa do formato
e porque pouco apresenta questionamentos de relações de poder.

329
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

em massa, de mulheres que abraçam a carreira profissional15 e se apresentam


bem diversificadas tanto na aparência física quanto nos comportamentos. São
mulheres que, independentes, não mantêm laços estreitos com a família pa-
rental, que só aparece em cena para a configuração do personagem16.
A série que sofreu maiores modificações, sempre tentando acompanhar o
contexto da época, foi a premiadíssima Nova York contra o crime (NYPD Blue),
do criador Steven Bochco, talvez por ter sobrevivido por doze anos, de 1993
a 2005, com suas doze temporadas. Observei três mudanças significativas na
narrativa, desde a mudança de alguns dos personagens âncora até o tratamento
dado aos temas e subtemas cruzados em cada episódio. Sem perder o formato
inovador de não linearidade narrativa e certa dose de ironia, cada episódio era
construído por um tema central, um subtema e um arco narrativo sobre um dos
personagens do elenco fixo. Os roteiros vão, assim, se adequando ao contexto, às
inquietações e respostas existenciais da sociedade norte-americana.
Nova York contra o crime que, inicialmente, captava mais ação - apre-
sentava diálogos agressivos e discursos que evidenciavam diversos tipos de
preconceitos entravam em cena - se modifica, em um segundo momento, para
a exploração da reflexão e das atitudes psicológicas do elenco fixo e, final-
mente, na entrada do século, busca se sustentar com o uso do romanesco (em
decorrência das mudanças de visão do mundo que ressignificam o que é do
masculino e do feminino na sociedade)17. Esse novo momento ao qual a série
esteve atenta vem coincidir com a consolidação de uma nova representação de
mulheres que já tinha começado nos sitcoms, mais ou menos, em 1996.
Voltando a tratar de parceiros de trabalho, o desenvolvimento da ação de
Lei & Ordem: Unidade de Vítimas Especiais envolve o trabalho em duplas, sendo
a mais importante aquela formada por Olívia Benson e Eliot Stabler, enquanto a
ação passa a se centrar em uma delegacia especial que investiga casos de estupro,
abuso e crimes de fundo sexual. Mais cerebral a série traz, nas três parcerias que
constituem o elenco fixo, a diversidade de gênero, etnia, religião, estado civil,
bem como as diferentes atitudes e comportamentos diante do crime.

15 Há várias séries que tiveram uma única temporada e não estão aqui nomeadas, mesmo quando analisa-
das. Elas não comprometem esse estudo porque seguem quase sempre a mesma linha. Foram deixados
de lado os gêneros aventura, comédia e drama familiar, médico e justiça.
16 Chamo a atenção para a família parental, nesse momento, porque esse será outro acréscimo que apare-
cerá na virada das séries de procedimentos investigativos após 2000.
17 A relação romanesca entre os detetives Andy e Connie McDowell se desenvolve entre a 9ª e 11ª tem-
poradas, correspondendo aos anos de 2001/02 a 2003/04. Tornou-se tão emocionante para a audiência
que, entre os sites, existe um com o nome deles em vez do nome do seriado.

330
Ivia Alves

A parceria principal compõe-se de personagens que atuam com atitudes


opostas: enquanto ocorre a identificação e a interação de Olívia com as víti-
mas, há, no impetuoso Eliot, indignação e revolta contra os criminosos que
chega, às vezes, ao descontrole emocional, porque ele projeta e transfere as
ações do agressor em um potencial ataque a sua família. Nessa dupla, que atua
em perfeita sintonia, um complementando o outro, não há desigualdades nas
relações de gênero, muito pelo contrário, ambos sabem se defender e acatam
as deduções do outro.
Essas parcerias mistas ainda penetram as séries produzidas entre 2000
e 2005. Embora em CSI, diferente de CSI: NY, não sejam parcerias fixas, a hie-
rarquia dentro do trabalho não cria desigualdades, talvez até porque cada um
exerce uma especialidade18.
Existe, em menor número, pares formados por mulheres casadas, com
filhos, cujos casamentos estão em crise por diferenciados motivos. Este é o
caso da policial Yokas, em Third Watch ou mesmo da paramédica Kim Zam-
brano, que retomaremos depois.
Tomando como paradigma de análise o notável estudo de Esther Ham-
burger (2007) sobre novelas brasileiras, adaptando-o para as séries policiais,
com algumas diferenças e acréscimos por se tratarem de gêneros, momentos
diferentes e culturas distintas, é possível detectar a importância e a aceitação
da liberalização das mulheres nesses policiais investigativos. Fato que já estava
acontecendo há cerca de vinte anos atrás, nas sociedades ocidentais e que só vão
ser refletidas nas representações e imagens femininas das séries dessa década19.
Durante, pelo menos, quinze anos, as mulheres passaram a ter papéis
que envolviam mais a profissão do que mesmo o casamento e os papéis de es-
posa e mãe. As mulheres solteiras, delineadas, nas séries, na faixa etária entre
30 e 40 anos, dispunham de espaço dentro da mídia para seguir suas carreiras e
seus próprios caminhos com deliberações ou opções próprias, sem um questio-
namento imperativo para a constituição de uma família. Não era, na verdade,

18 A exceção está em CSI: Miami que se modificou, ficando como protagonista um técnico forense, ex-
detetive. É a permanência de um tipo de seriado muito comum nos primórdios dos anos 60/70: o de
detetive, com uma narrativa linear, focada nas ações de um personagem masculino.
19 O citado estudo de Hamburger trabalha com as novelas dos anos 70 a 90, mas, nos EEUU, as séries só
aprofundam as questões feministas, pelo menos, nas séries policiais, a partir dos anos 90. Há uma gran-
de defasagem nas séries norte-americanas no que diz respeito à mulher liberada, provavelmente por
serem a sociedade e a publicidade da época conservadoras e terem várias formas de escape, enquanto o
Brasil passava por uma opressiva ditadura. Os momentos são diferentes, de aceitação, por uma parte, e
de rebeldia, pela outra.

331
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

questionado o estado civil dessas mulheres. A profissão dentro da corporação,


ao mesmo tempo em que era difícil, por ser essa uma instituição de mentalida-
de eminentemente masculina, lhes dava a possibilidade de alcançarem postos
mais altos, porque gerados por merecimento e, principalmente, porque esta-
vam fora da órbita dos trabalhos geralmente associados à mulher20.
Quanto à representação da aparência física dessas mulheres, a diversidade
de corpos e de atitudes escapava aos estereótipos construídos, mesmo dentro de
uma formatação de comportamento previsível ou paradigmático previsto pela
sociedade. Fisicamente são figuras alongadas, sólidas, altas (atrizes com mais ou
menos 1,70 a 1.85), fortes, equilibradas emocionalmente (convivendo com suas
angústias existenciais sem que isso as perturbe ou dificulte o exercício de suas
profissões). Algumas demonstram, diante do crime, atitudes de certo distancia-
mento, contendo suas emoções. Outras deixam transparecer a compaixão, mas
tais sentimentos não as impedem de ser objetivas nem desvirtuam os procedi-
mentos das investigações. Em geral, elas caminham e agem junto com seus par-
ceiros, em harmonia, e enfrentam e refutam qualquer sugestão de desigualdade
nas relações de gênero e de poder. Segundo minha observação, essas represen-
tações estão mais próximas das mulheres que foram se construindo dentro da
visão de mundo da segunda onda feminista e que ganharam visibilidade em seus
trabalhos, no ambiente da sociedade, nos anos 80.
Mas a própria década traz variações. Nos primeiros cinco anos ain-
da existiam cenas provocativas demonstrando as desigualdades de gênero
dentro das delegacias e agências e são construídas cenas e diálogos que evi-
denciavam a violência simbólica sobre as minorias e sobre as mulheres21,
situações que aconteciam em relação ao elenco fixo ou ao caso com o qual
estavam lidando. Ficavam bem demarcadas, nas cenas, as relações de gênero
e qualquer posição e/ou comentário considerado conservador ou preconcei-
tuoso no discurso ou nas atitudes dos homens com relação às mulheres era
rebatido. Já no segundo lustro, amainam-se as desigualdades e raramente
aparecem marcas de desigualdade de gênero.
As séries produzidas nos dois últimos anos da década já apresentam
modificações, talvez pelo cansaço do foco narrativo em delegacias, e se diver-
sificam, centrando as ações nos bastidores do crime. Aparecem como locais

20 Observe-se que, só nos anos 90 ocorre situação semelhante à série Police Woman, sua antecessora de
sucesso dos anos 70, já comentada anteriormente.
21 As melhores séries para se perceber as dificuldades e as reações da entrada das mulheres no seio da corpo-
ração são aquelas produzidas, na mesma época, na Inglaterra: Prime Suspect, Silent Witness entre outras.

332
Ivia Alves

de investigação os espaços especializados (como em Law & Order: SVU, Law


& Order: Criminal Intent, Karen Sisco), os antropólogos forenses (Bones) ou
o laboratório dos técnicos forenses (perfil de CSI e seus derivados). Também
no FBI aparecem os psicólogos de perfis criminosos (com a pioneira Profiler,
1996, seguida de Criminal Minds, 2005) e também as médicas legistas (Cros-
sing Jordan)22. Outros veios narrativos de investigação dentro de delegacias são
realizados por equipes (Without a Trace e Cold Case). As várias hipóteses da
investigação se tornam presentes e, agora, o trabalho de equipe se torna funda-
mental, construindo, mais uma vez, uma narrativa em ziguezague.
Quanto à representação de mulheres, permanece quase sempre seguin-
do as configurações anteriores, mas, através das personagens solteiras, já se
percebe um leve movimento deixando no ar que elas não têm tempo para a
vida íntima e amorosa. Esse leve movimento de capturar as mulheres solteiras
para o estado civil de casadas ou para uma relação estável já aparece em Third
Watch que apresenta, dos nove componentes do elenco fixo, duas das três mu-
lheres já casadas. A estória mais explorada é da policial de rua, Yokas, que vive
em crise com o marido e na sua exigência para a supervisão de seus três filhos.
Kim Zambrano, a paramédica da série, está no estágio final do seu divórcio
e luta pela guarda do filho de seis anos, situação sempre comentada com seu
parceiro e uma preocupação que, às vezes, a atrapalha no cumprimento de sua
profissão, que exige atenção e rapidez.
Vários fatos se acumulam para outra visão de mundo a partir de 2001.
Com o atentado das torres gêmeas, a entrada na guerra contra o Iraque e as
seguidas crises financeiras que assolaram os EEUU no último quinquênio, a
visão fundamentalista e conservadora vai se aprofundar (tema constante da
série Boston Legal), assim como novos preconceitos afloram. Acrescente-se a
entrada de uma literatura de autoria feminina que, ao final da década de no-
venta, capitula e redesenha as mulheres e seus desejos. São esses livros que
darão vida às primeiras séries, os sitcoms e comédias.
Embora todas essas situações do contexto social e econômico sejam,
de uma forma ou de outra, citadas ou situadas nas séries, o consumismo
e um afastamento do político (seja individual ou público) mudaram a
base da audiência local e, logicamente, vão se refletir na cultura do lazer,

22 Houve várias tentativas sem sucesso de criar roteiros com protagonistas mulheres, cruzando suas pro-
fissões, como foi o caso de Women’s Murder Club (2007) e outras, que nem conseguiram ultrapassar
cinco episódios, logo canceladas. Também tentativas na esteira de Sex and the city foram canceladas,
como Lipstick Jungle e Cashmere Máfia, ambas de 2007.

333
DI V E R SI DA DE S : D i me ns õ e s d e G ê ne ro e S e x u a l i d a d e

tomando a frente das programações a comédia e os sitcoms e tornando os


dramas policiais mais leves - “dramédias”. Anunciando a virada, aparece
a produção em massa de comédias policiais (Psych, Monk entre outras).
Mas essa transição também faz entrar em cena visões mais conservado-
ras sobre as mulheres, que já eram visíveis na sociedade (o backlash). É
dentro desse espaço dos policiais que se insere um novo modelo de repre-
sentações de mulheres, que vinha sendo experimentado, desde 1996/98,
através das sitcoms e comédias23.
A divisão de campos de interesses na sociedade (e representado por ca-
nais de tv e revistas) que caracterizam o que é “do feminino” e “do masculino”
e temas sobre as mulheres que, já tendo uma estabilidade profissional, vão em
busca do par afetivo estável, começam a se instalar nas sitcoms24 e nas práticas
sociais, vão se instalar, definitivamente, a partir de 2005, às séries investigati-
vas. Dessa maneira, as representações de mulheres equilibradas serão desesta-
bilizadas e mulheres contraditórias e emocionalmente instáveis passam a ser o
centro das novas formas de representação25.

A virada

Da ‘falta de homens’ à ‘epidemia de infertilidade’, do ‘estresse feminino’ à


‘prejudicial dupla jornada de trabalho’, estas pretensas crises femininas tive-
ram sua origem não nas condições reais da vida das mulheres, mas sim num
sistema fechado que começa e termina na mídia, na cultura popular e na
publicidade - um contínuo feedback que perpetua e exagera a sua própria
imagem fictícia da feminilidade (FALUDI, 2001, p. 14).

23 As primeiras sitcoms e que não fizeram sucesso foram Just Shoot Me (1997-2003) e Suddenly Susan
(1996-2000).
24 Vale sinalizar o sucesso das séries Ally McBeal e Sex and the City, produzidas entre 1998 e 2004. Iniciada
a desestabilização da mulher, com tais séries e outras, a consolidação do paradigma dessa nova mulher
vai ocorrer com os filmes de Bridget Jones (pelas atitudes, comportamentos e desejo de um par amoroso
estável) combinados com a indústria da beleza apresentada nas séries e filmes derivados de Sex and
the City, como refere Naomi Wolf (1992) em seu livro O mito da beleza: como as imagens de beleza são
usadas contra as mulheres.
25 Também começam a ser produzidas muitas comédias e dramas familiares onde predominam, cada vez
mais, a partir de 2005, a família e a solteirice abominável. Neste artigo, preferi deixar de lado a análise e
comentários sobre a inserção da família parental, bem como dos filhos e filhas de pais divorciados, para
dar mais ênfase a essas novas representações de mulheres solteiras. No entanto, é interessante realçar
que a família funciona como estratégia cômica dentro de uma narrativa dramática policial que se quer
leve, apesar de haver sangue, mortos, assassinatos e crimes. Algumas séries policiais ou de aventuras
foram criadas com protagonistas femininas, como Bionic Woman, mas foram canceladas.

334
Ivia Alves

Esse novo ideário (conservador) vai se consolidar com o sucesso no ci-


nema, com as filmagens do livro O diário de Bridget Jones, em 2001 e em 200426
(que levam o mesmo nome) - roteiros que se originam dos romances da inglesa
Helen Fielding - e, na televisão, primeiro, com Ally McBeal (1997), a primeira
representação da mulher instável emocionalmente, em busca do ex-primeiro
amor e da constituição de uma família estável que ganha força e começa a apa-
gar outras representações, através da série Sex and the city, novamente, uma
produção reescrita a partir de um livro da jornalista Candance Bushnell. Com
esse seriado, estabeleceu-se a estratégia, definitivamente, a divisão de campos
de interesses característicos “do masculino” e “do feminino27. Observamos,
como também assinalou Hamburger (2007), que as profissões das mulheres
passam a girar em torno do considerado “mundo feminino”, como a estudiosa
coloca no estudo de novelas: o “domínio (profissional) em geral associado ao
espaço da mulher é o domínio da arte, da moda, da estética e da cozinha”.
Ally Mcbeal e Sex and the City marcaram o fim da mulher realizada pro-
fissionalmente e com a opção de constituir ou não uma família28. Até então não

26 (Helen) Fielding’s first novel, Cause Celeb was published in 1994 to great reviews but limited sales. She
was struggling to make ends meet while working on her second novel, a satire about cultural divides in the
Caribbean when she was approached by London’s The Independent newspaper to write a column as herself
about single life in London. Fielding rejected this idea as too embarrassing and exposing and offered instead
to create an imaginary, exaggerated, comic character. Writing anonymously, she felt freed up to be honest
about the preoccupations of single girls in their thirties. It quickly acquired a following, her identity was
revealed and her publishers asked her to replace her novel about the Caribbean by a novel on Bridget Jones’s
Diary. The hardback was published in 1996 to good reviews but modest sales. Word of mouth spread,
however and the paperback, published in 1997 went straight to the top of the bestseller chart, stayed there
for over six months and went on to become a worldwide bestseller. The diary − starting each day with its
signature list of calories, alcohol and cigarette intake, is credited with spawning a new confessional literary
genre in the form of Chick Lit. Fielding continued her columns in The Independent, and then The Daily
Telegraph until 1997, publishing a second Bridget novel Bridget Jones: The Edge of Reason in November
1999. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Helen_Fielding>. Acesso em: 15 ago. 2010.
27 Candace Bushnell (Glastonbury, 1 de dezembro de 1959) é uma jornalista norte-americana. Vive em
Nova Iorque e é conhecida pela sua coluna de sexo, que se tornou inspiração da série O Sexo e a Cidade.
Em 1994, o editor do jornal onde trabalhava lhe pediu que tentasse escrever uma coluna para o jornal.
Candace se baseou nas aventuras que ouvia das suas amigas e chamou-a de Sex and the City. Em 1998,
a HBO começou a transmitir a série, O Sexo e a Cidade, baseada na coluna de Candace, mas não exa-
tamente fiel. A série aumentou o seu prestígio, tornando o seu nome conhecido também por pessoas
que não tinham lido o livro, se tornou de culto e terminou em 2004. Muitos escritores compararam a
personagem de Carrie Bradshaw, na série, com Candace, porque Carrie, tal como Candace, é uma co-
lunista de sexo e adora a vida nocturna de Nova Iorque. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Candace_Bushnell>. Acesso em: 15 ago. 2010.
28 Um dado interessante é que as duas escritoras, a inglesa e a norte-americana, nasceram em 1958 e 1959,
respectivamente, correspondendo, portanto, à mesma geração, próxima à segunda onda feminista, e
publicaram seus livros mais ou menos com a idade de 38 anos. Elas demonstram a divisão entre os dois
paradigmas introjetados para a vida das mulheres e seus papéis na sociedade burguesa.

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existia preconceito em relação ao fato da personagem ser solteira, mas as duas


séries e os dois filmes acima citados se voltaram para mulheres obcecadas em
busca de parceiros, do casamento e da procriação. Tais imagens se configuram
por estados emocionais oscilantes entre momentos de êxtase e momentos de de-
cepção, construindo uma nova mulher turbilhonada por desejos e emoções que
se tornam aparentes em seus comportamentos e atitudes. Constroem-se, assim,
representações de mulheres emocionalmente instáveis, na faixa etária entre 30
e 40 anos, perto do final do ciclo de concepção e que, obsessivamente, correm
em busca da constituição da família. Por outro lado, essa imaturidade, que chega
perto da infantilidade e da superficialidade, se associa a uma fase infantil não su-
perada que busca proteção, enquanto solteira, em amigas ou na família parental.
Porém, o mais paradoxal é que essas personagens são excelentes profissionais,
capazes, inteligentes e criadoras galgando, cada vez mais, postos de destaque.
Essa nova configuração, construída, inclusive, com a mudança na aparência das
personagens que vão se apresentar visivelmente frágeis, delicadas, magras, bem
vestidas, se revela no gênero policial, mais ou menos na virada do século, crian-
do a desigualdade nas parcerias ou a excentricidade das protagonistas.
À medida que se percorre os dez últimos anos, aparecem dois ou três tipos
de séries, quando se trata de protagonistas do sexo feminino - as primeiras tenta-
tivas não foram bem sucedidas. As narrativas compostas por três ou quatro prota-
gonistas amigas e de profissões semelhantes nem chegaram a completar a primeira
temporada, sendo retiradas repentinamente do ar em função da baixa audiência29.
A segunda, que obtém êxito, é aquela construída com uma protagonista principal
que comanda e “arrasta” toda a equipe em função de suas ações, em primeiro lugar
Crossing Jordan (5 temporadas), seguida de The Closer (já na 6ª temporada).
Finalmente, também exitosa, as duplas nas quais o homem está fora dos
paradigmas de procedimentos policiais, criando situações inusitadas, cômicas
muitas vezes, mas sempre são eles que, com seus métodos, resolvem o caso ou
descobrem as pistas. Estão nesse último tipo as séries produzidas desde a me-
tade desta década, como Life (cancelada), The Mentalist, Castle e Lie - to - me30.

29 Uma delas foi Women’s Murder Club (2007-2008), e mesmo as comédias Lipstick Jungle, Cashmere Mafia
e outras.
30 Life, que foi cancelada na segunda temporada, foi a pioneira e tinha como tema central um policial que
ficou doze anos na prisão, injustamente, e passou a ter como meta de vida a filosofia zen. Aprofundando
esse lado “diferente” do protagonista temos The mentalist e Castle. No primeiro, como na comédia Psych
(2006), o personagem Patrick Jane é um finório que, adestrado desde pequeno a observar os mínimos
detalhes da pessoa, ganhava a vida como médium sensitivo. Já em Castle temos um escritor de novelas
policiais, rico, vivendo e sustentando sua mãe e sua filha e com um grande círculo de amizades no meio
nova-iorquino, inclusive autoridades locais.

336
Ivia Alves

O interessante é que, em todas elas, não mais será questionada a desigualdade


de gênero nem de poder (mas essa desigualdade existe, apesar das estratégias
dos roteiros)31.
Quanto aos seriados policiais investigativos, poucos lançam seu foco
de narração centrando-se mais nas atitudes das protagonistas mulheres. A
pioneira foi Crossing Jordan (2001), cuja protagonista principal, a médica le-
gista Jordan, se mostra uma personagem instável emocionalmente devido a
vários traumas anteriores e que não perdeu seu emprego por ter como chefe
um grande amigo que reconhecia sua competência profissional e a acobertava
diante dos superiores. É dentro desse mesmo formato que The Closer inicia sua
trajetória vitoriosa em 2005.
Criação de James Duff, The Closer tem como personagem principal a de-
legada chefe Brenda Lee Johnson (Deputy Chief Brenda Leigh Johnson), que é a
mais bem acabada representação dessa nova mulher: uma excelente profissio-
nal que, fora do trabalho, ironicamente, demonstra insegurança, insatisfação.
É emocionalmente cheia de altos e baixos, com emoções que se refletem em
suas atitudes e nas nuances de sua voz. Tais variações se configuram em situa-
ções de imaturidade nas relações com os pais, na atitude intencionalmente afe-
tuosa ao pedir auxílio ao amigo e futuro marido, e em ser forte no comando de
sua equipe e sinuosa nos interrogatórios com os suspeitos. De aparência frágil,
sua indumentária habitual é um vestido (quase sempre floral devido ao clima
da Califórnia) usado com um blazer de tons pastéis. Sempre usando sapatos
de salto alto, seu traje, às vezes, dificulta a investigação32. Viciada em doces e
chocolates quando frustrada ou contrariada, luta contra o hábito, obrigando
toda a equipe a se privar também. Brenda Johnson, logo no início da primeira
temporada, começa um relacionamento afetivo que irá levá-la ao casamento.
Mas essa mulher de 40 anos tem um passado afetivo bastante ativo e livre: já
foi casada e teve um longo affaire com seu atual chefe. Assim, a delegada chefe
Johnson se livra da “demonização” da mulher solteira que vai sendo aplicada
na virada do século e que começa em paralelo com esse novo paradigma de
mulheres que representa a “feminilidade”. O foco dessa reviravolta (backlash)
estará nessas representações de mulheres racionais e equilibradas cujos com-
portamentos serão deslocados para uma “feminização” através do uso de um

31 Este artigo não comporta uma abordagem mais séria dessas novas duplas, mas elas foram analisadas em
outro ensaio.
32 É incomum a mulher, dentro da corporação policial, usar saias. Temos apenas a chefe de delegacia da
série Lei & Ordem que, em geral, não sai a campo e aparenta estar com mais de cinquenta anos.