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Agrotóxico.

Pilar do agronegócio

Mohamed Mostafa Habib


Agricultura brasileira é deficiente
E mais:

>> Erick Felinto


Wanderlei Pignati A era da memória total e
Não existe uso seguro de agrotóxicos do esquecimento contínuo

368
Maria Aparecida
>>
Letícia Rodrigues da Silva Marques da Rocha
Ano XI A luta pela reavaliação de agrotóxicos Bolsas universitárias: um processo
04.07.2011 no Brasil de inclusão ilusório
ISSN 1981-8769
Agrotóxicos. Pilar do agronegócio
Enquanto uma área de floresta amazônica, do tamanho de 180 campos de futebol, é destruída pela
ação de herbicidas, uma parcela da população brasileira grita “agrotóxicos, nunca mais!” Entender o
contexto do uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras brasileiras e seus efeitos diversos é o obje-
tivo do tema de capa da IHU On-Line desta semana. É possível cultivar alimentos sem o uso de herbi-
cidas? Em busca desta e de outras respostas, nossos entrevistados refletem também sobre os rumos da
agricultura no Brasil e sobre o modelo de agronegócio empregado no país.

O engenheiro agrônomo Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib, considera possível desenvolver uma
agricultura sustentável por meio do manejo ambiental, sem utilizar agrotóxicos. Enquanto isso, o mé-
dico Wanderlei Pignati alerta que não existe uso seguro de agrotóxicos, e que é impossível estar
imune a esses produtos. Por sua vez, o professor de Economia e Administração da USP, José Juliano
de Carvalho, é enfático quando afirma que “o uso de agrotóxicos no Brasil é abusivo, exagerado e
incontrolável”.

Já a gerente de normatização e reavaliação da Anvisa, Letícia Rodrigues da Silva, reconhece que


reavaliação de agrotóxicos no Brasil ainda faz parte de um processo lento, frágil e nebuloso.

Quem também contribui com o debate é o agrônomo Rubens Nodari, para quem “é preciso descons-
truir essa concepção criada de que a produção agrícola dependia do uso de agrotóxicos”.

Leia nesta edição uma entrevista com o pesquisador Erick Felinto, que avalia como as tecnologias
modificaram e impactaram a sociedade nos últimos anos.

Maria Aparecida Marques da Rocha, professora do curso de Serviço Social da Unisinos, fala sobre
seu livro recém lançado Processo de Inclusão Ilusória: a condição do jovem bolsista universitário (Jun-
diaí: Paco Editora, 2011).

“Os contornos e nuances de uma mídia regulamentada: um caminho mais democrático” é o tema do
artigo de Aléxon Gabriel João.

O jornalista e professor da Unisinos, Ronaldo Henn, conta aspectos sobre sua trajetória de vida e
profissional.

A próxima edição da revista IHU On-Line será publicada no dia 01 de agosto de 2011.

A todas e a todos uma boa semana, um ótimo mês de julho e uma excelente leitura!

IHU On-Line é a revista semanal do Instituto Humanitas Unisinos – IHU – Universidade do Vale do
Rio dos Sinos - Unisinos. ISSN 1981-8769. Diretor da Revista IHU On-Line: Inácio Neutzling (ina-
Expediente

cio@unisinos.br). Editora executiva: Graziela Wolfart MTB 13159 (grazielaw@unisinos.br). Redação:


Márcia Junges MTB 9447 (mjunges@unisinos.br) e Patricia Fachin MTB 13062 (prfachin@unisinos.
br). Revisão: Isaque Correa (icorrea@unisinos.br). Colaboração: César Sanson, André Langer e Darli
Sampaio, do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT, de Curitiba-PR. Projeto gráfico:
Bistrô de Design Ltda e Patricia Fachin. Atualização diária do sítio: Inácio Neutzling, Rafaela Kley
e Stefanie Telles. IHU On-Line pode ser acessada às segundas-feiras, no sítio www.ihu.unisinos.br.
Sua versão impressa circula às terças-feiras, a partir das 8h, na Unisinos. Apoio: Comunidade dos
Jesuítas - Residência Conceição. Instituto Humanitas Unisinos - Diretor: Prof. Dr. Inácio Neutzling.
Gerente Administrativo: Jacinto Schneider (jacintos@unisinos.br). Endereço: Av. Unisinos, 950 – São
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mail do IHU: humanitas@unisinos.br - ramal 4121.
Leia nesta edição
PÁGINA 02 | Editorial

A. Tema de capa
» Entrevistas
PÁGINA 05 | Wanderlei Pignati: Não existe uso seguro de agrotóxicos
PÁGINA 08 | José Juliano de Carvalho: “O uso de agrotóxicos no Brasil é abusivo, exagerado e incontrolável”
PÁGINA 10 | Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib: Agricultura brasileira é deficiente
PÁGINA 12 | Letícia Rodrigues da Silva: A luta pela reavaliação de agrotóxicos no Brasil
PÁGINA 15 | Rubens Nodari: Agroecologia: um modelo agrícola sustentável

B. Destaques da semana
» Entrevista da Semana
PÁGINA 18 |Erick Felinto: A era da memória total e do esquecimento contínuo
» Livro da Semana
PÁGINA 22 |Maria Aparecida Marques da Rocha: Bolsas universitárias: um processo de inclusão ilusório

» Coluna do Cepos
PÁGINA 26 |Aléxon Gabriel João: Os contornos e nuances de uma mídia regulamentada: um caminho mais democrático

» Destaques On-Line
PÁGINA 28 | Destaques On-Line

C. IHU em Revista
» IHU Repórter
PÁGINA 30 | Ronaldo Henn

SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368 


 SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368
Não existe uso seguro de agrotóxicos
Mais de 30 tipos de pesticidas proibidos na União Europeia continuam a ser usados no Brasil,
como o endosulfan, clorado que se aloja na gordura e, por isso, pode ser encontrado inclusive
no leite materno. Mesmo com o uso de EPIs, é impossível estar imune a esses produtos, acen-
tua Wanderlei Pignati

Por Graziela Wolfart e Márcia Junges

I
ntoxicações crônicas que, em longo prazo, resultam em câncer, descontrole da tireoide, do sistema
neurológico em geral, surdez, diminuição da acuidade visual e até mesmo Mal de Parkinson são pos-
síveis problemas de saúde causados pelos agrotóxicos. De acordo com o médico sanitarista Wanderlei
Pignati, quem trabalha com saúde pública não deixa de se perguntar onde foram parar os conteúdos dos
temíveis frascos de agrotóxicos. Produtos banidos pela União Europeia continuam a ser usados no Brasil,
país do mundo que mais emprega pesticidas em suas lavouras. Por que razão isso continua a ser permitido,
questiona Pignati. Onde está o comprometimento com o ambiente, como um todo? A situação é tão grave
que, além de serem encontradas nos alimentos, na água, no solo, no ar, essas substâncias foram detectadas,
inclusive, no leite materno. Conforme Pignati, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, “vários
tipos de agrotóxicos se depositam na gordura e muitos deles, como os clorados, nunca mais saem dela. É o
caso do endosulfan. Quando a mulher produz o leite para amamentar seu filho, esse líquido terá agrotóxico
em sua composição. Isso porque o leite é composto por 2 a 3% de gordura”. Como se isso não fosse assustador
o bastante, o médico é categórico ao afirmar que é impossível um uso totalmente seguro dos agrotóxicos.
Mesmo que sejam usados equipamentos de proteção individual pelos trabalhadores que fazem as aplicações
nas lavouras, “esses produtos penetram pela mucosa de pele, do olho, da orelha das pessoas, e inclusive
pela respiração”.
Wanderlei Pignati é graduado pela Universidade de Brasília – UnB, especialista em Saúde Pública pela
Universidade de São Paulo – USP, mestre em Saúde e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Mato Gros-
so – UFMT e doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Fundação Oswaldo Cruz com a
tese Os riscos, agravos e vigilância em saúde no espaço de desenvolvimento do agronegócio no Mato Grosso.
Estuda a contaminação das águas e as bacias, além de participar de uma pesquisa no município de Lucas do
Rio Verde, no Mato Grosso do Sul, onde há cinco anos houve um grande acidente de contaminação por agro-
tóxicos por pulverização. Atualmente, leciona na UFMT. Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as principais falando do agrotóxico diluído. Um li- síduos na água potável ou na água dos
consequências do uso de agrotóxi- tro de herbicida comprado nesses es- rios, córregos e do Pantanal, inclu-
cos para as águas, no caso, os rios e tabelecimentos é diluído em 100 litros sive. Isso terá impactos na saúde dos
suas nascentes, bacias e os lençóis de água para fazer a calda e pulveri- animais e dos seres humanos.
d’água? zar. Isso tem um destino, e parte vai O grande problema, na verdade,
Wanderlei Pignati – A água é um dos para combater aquilo que se costuma não são as embalagens vazias de agro-
componentes ambientais para onde chamar de “pragas da lavoura”. São tóxicos. Claro que o ideal é que elas
os resíduos de agrotóxicos vão. Com o insetos e ervas classificadas como da- sejam recolhidas, pois em sua maio-
uso intensivo de agrotóxicos na agri- ninhas, como os fungos. Uma parte vai ria são feitas de plástico. Mas quem
cultura brasileira isso vem se agra- para o solo, outra evapora e vai para se preocupa com a saúde pública e
vando. No ano passado, foram usados o ar. Uma outra condensa e vai para a ambiente como um todo se pergunta
cerca de um bilhão de litros de agro- chuva, e outra ainda vai para o lençol  Sobre o tema, confira a edição 345 da revis-
tóxicos em nosso país, do tipo que se freático. Essa ida dos agrotóxicos para ta IHU On-Line, de 27-09-2010, intitulada O
Pantanal em alerta, disponível em http://bit.
compra em agropecuárias. Não estou o lençol freático é o que irá deixar re- ly/jZtTqu. (Nota da IHU On-Line)

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onde foi parar o que estava dentro “Quem se preocupa com IHU On-Line – Qual é a especificidade
desses frascos. Esses produtos vão pa- do caso de Lucas do Rio Verde em re-
rar nesses componentes ambientais, a saúde pública e lação ao uso de agrotóxicos?
inclusive nos alimentos. Resíduos de Wanderlei Pignati – Não sei se o Mato
agrotóxicos podem ser encontrados ambiente como um todo Grosso é o estado mais crítico do Brasil
não só na água, mas nos alimentos, na em termos de uso de agrotóxicos. Dos
chuva, ar, solo. Quando falo de resídu- se pergunta onde foi quase um bilhão de litros desses pro-
os de agrotóxicos nos alimentos, refi- dutos usados no ano passado no Brasil,
ro-me inclusive ao leite materno. parar o que estava o Mato Grosso é o maior consumidor
Fizemos uma pesquisa e constatamos porque é o maior produtor de soja, mi-
a presença de agrotóxicos no leite ma- dentro desses frascos” lho e gado. É preciso lembrar de que,
terno de mulheres matogrossenses. Na inclusive nas pastagens para o gado,
cidade de Lucas do Rio Verde, interior são usados agrotóxicos. Nesse estado
do Mato Grosso, é usada larga quantida- bém contaminado. Espero que sejam se cultiva 50% do algodão brasileiro,
de de agrotóxicos nas culturas da soja, tomadas medidas para que isso não con- produto que utiliza mais agrotóxicos
milho e algodão. Isso se reflete nos ali- tinue a ocorrer. por hectare. O uso intensivo, em mé-
mentos produzidos e, inclusive, no leite dia, no Brasil, é de dez litros de agro-
materno. Vários tipos de agrotóxicos se IHU On-Line – Quais as principais se- tóxicos por hectare de soja plantado.
depositam na gordura e muitos, como os quelas para a saúde humana provo- Isso abrange fungicidas, herbicidas,
clorados, nunca mais saem dela. É o caso cadas pelos agrotóxicos? inseticidas e dissecante para secar a
do endosulfan. Quando a mulher produz Wanderlei Pignati – Essa discussão é soja para a colheita. O milho usa em
o leite para amamentar seu filho, esse bastante ampla. Primeiramente, falo torno de 5 litros de agrotóxico por hec-
líquido terá agrotóxico em sua compo- sobre as intoxicações agudas por agro- tare, enquanto a cana usa em torno de
sição. Isso porque o leite é composto tóxicos, que têm aumentado muito no quatro litros. Já o algodão emprega
por 2 a 3% de gordura. Assim, inclusive Brasil. Dessas intoxicações, salvamos aproximadamente 20 litros dessa subs-
a própria criança pode ser prejudicada. 99% das pessoas intoxicadas. Exce- tância por hectare. Esse problema é
A análise de resíduos de agrotóxicos no ções ocorrem em casos de que tenha grande no país inteiro, mas no Mato
leite materno é, portanto, muito impor- sido ingerida uma quantidade muito Grosso a dimensão é maior em função
tante. Foi o que fizemos, analisando dez grande de produtos tóxicos, como em de este estado ter a maior produtivi-
tipos diferentes desses produtos. Todos caso de tentativas de suicídio ou en- dade nacional. Em segundo está São
eles estavam presentes no leite de 62 venenamento proposital de terceiros. Paulo, seguido pelo Paraná, Rio Gran-
mulheres dessa cidade. Isso é muito pro- Também há os casos extremos em que de do Sul, Goiás, Tocantins e Minas
blemático, pois o alimento que deveria uma pessoa que aplicou ou preparou os Gerais. Temos uma equipe com a qual
ser o mais puro da nossa vida está tam- agrotóxicos não fez o uso dos Equipa- fazemos diversas pesquisas, junto da
mentos de Proteção Individual – EPIs, Fiocruz do Rio de Janeiro e divulgamos
 Endosulfan: inseticida e acaricida. Este intoxicando-se fatalmente.
sólido incolor emergiu como um agrotóxico esses dados.
altamente controverso devido à sua grande Mas o grande problema são as into-
toxicidade, ao seu potencial de biocumulação xicações crônicas, cuja exposição ocor- IHU On-Line – Quais os riscos de con-
e também por interrupção endócrina. Banido re a baixas doses durante meses e anos.
em mais de 62 países, incluindo a União Eu- taminação por agrotóxicos na água
ropeia e várias nações ao Oeste da África e Após um período mais longo de tempo, que bebemos?
Ásia, continua sendo extensivamente usado podem surgir problemas como câncer, Wanderlei Pignati – Se você tem um
na Índia e Austrália, por exemplo. É produzi- descontrole da tireoide e do sistema
do pela Bayer CropScience, Makhteshim Agan, grande consumo do princípio ativo glifo-
Nortox S.A. e pelo governo indiano - dono da neurológico, além de diabetes. Especu- sato na região, que é o agrotóxico mais
Hindustan Insecticides Limited - entre outras. la-se, ainda, que uma das causas do Mal
Devido ao seu risco ao meio ambiente, um ba- de Parkinson esteja associada ao efei-  Glifosato (N-fosfonometil glicina,
nimento global do uso e produção do ensosul- C3H8NO5P): herbicida sistêmico não seletivo
fan está sendo considerado pela convenção de to cumulativo de agrotóxicos. Surdez, (mata qualquer tipo de planta) desenvolvido
Estocolmo. A substância foi proibida no Brasil diminuição da acuidade visual e outros para matar ervas, principalmente perenes. É
em 16 de agosto de 2010, pela Anvisa. A agên- distúrbios neurológicos também são fre- o ingrediente principal do Roundup, herbicida
cia publicou resolução que determina o ba- da Monsanto. Muitas plantas culturais geneti-
nimento do ingrediente ativo endossulfan do quentes. Quando uma mulher está em camente modificadas são simplesmente modi-
Brasil. A determinação foi fundamentada em seus primeiros três meses de gestação ficações genéticas para resistir ao glifosato. A
estudos toxicológicos que associam o uso desse e entra em contato com agrotóxicos, Monsanto vende sementes dessas plantas com
agrotóxico, considerado extremante tóxico, a o marca RR (Roundup Ready). O herbicida é
problemas reprodutivos e endócrinos em tra- pode ocorrer má formação fetal. Por- absorvido pelas folhas das plantas, não por
balhadores rurais e na população. De acordo tanto, são várias as consequências para suas raízes. Sobre o glifosato, leia alguns dos
com cronograma estabelecido pela norma, o a saúde causadas por esses produtos, materiais disponiblizados pelo site do Instituto
endossulfan não poderá ser comercializado, no Humanitas Unisinos – IHU: Reféns de um mode-
Brasil, a partir de 31 de julho de 2013. A partir desde intoxicações agudas até aquelas lo produtivo pouco sustentável, disponível em
de 2011, o produto não pode mais ser importa- de caráter crônico. Saliento que os pro- http://bit.ly/lj6Cht, Glifosato: uma sentença
do, e a fabricação em território nacional será blemas dependem igualmente do tipo inovadora, disponível em http://bit.ly/jWb-
proibida a partir de 31 de julho de 2012. (Nota mKa; Glifosato: mais polêmica, disponível em
da IHU On-Line) de agrotóxico utilizado. http://bit.ly/kGvrnt; ‘O glifosato estimula a

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consumido no Brasil, você irá encontrá- Wanderlei Pignati – A vigilância em torno paraquat? Esses são os produtos mais
lo na água. Há os clorados, que são mais dos agrotóxicos existe, de certa forma. consumidos no Mato Grosso.
“persistentes” em se desfazerem, como Ela limita inclusive o registro, a venda e São mais de 30 tipos de agrotóxicos
o endosulfan, que ainda não foi banido. aplicação dos produtos. A lei regulamen- bastante consumidos no Brasil que são
A previsão é que isso aconteça somente ta isso. A maioria dos estados tem suas proibidos na União Europeia. Alguns
em julho de 2013. Há, ainda, a atrazi- leis próprias quanto a isso. Contudo, já têm legislação que irá proibi-los,
na, um herbicida bastante persistente grande parte dessas legislações não são como o endosulfan, que a partir de ju-
e liberado para uso nas lavouras. Ambos cumpridas. Então, a primeira questão é lho de 2013 será tirado do mercado. O
aparecerão na água. É preciso lembrar o cumprimento dessas leis, como no que metamidofós sai de circulação a partir
também dos fungicidas que, se forem diz respeito à pulverização perto de rios, de julho de 2012. Mas e os outros? A
usados para combater a ferrugem da córregos, e a pulverização aérea, que Agência Nacional de Vigilância Sanitá-
soja, irão ser encontrados na água da nós, médicos sanitaristas, lutamos para ria – Anvisa está fazendo a revisão de
forma mesma que os outros. proibir. Mesmo assim, existe hoje uma 14 tipos de agrotóxicos, mas não con-
Há, contudo, uma legislação dos agro- legislação do Ministério da Agricultura segue avançar porque os produtores
tóxicos que delimita máximo de conta- e Pecuária – MAPA, a Instrução Norma- dessas substâncias entraram com uma
minação permitida na água. Na verdade, tiva n. 2, de 2008, que permite pulveri- ação na justiça. Um juiz federal con-
isso nem deveria acontecer. É um absur- zar agrotóxicos de avião a, no mínimo, cedeu liminar exigindo que a Anvisa
do! Como é que se pode permitir algum 500 metros de distância das nascentes suspendesse a revisão. Veja o absurdo.
tipo de agrotóxico na água? Temos que de águas, onde moram populações e em O processo iniciado em 2008 ficou mais
fazer uma análise dos agrotóxicos mais que há criação de animais. Isso, na maio- de um ano parado e foi retomado so-
consumidos na região para vermos qual ria das vezes, não é respeitado, como mente agora. Com toda a dificuldade,
é o tipo de contaminação que vamos ocorre no Mato Grosso. As legislações es- a Anvisa vem insistindo no processo.
supor. Tudo depende da solubilidade do taduais quanto à pulverização terrestre É preciso haver uma consciên-
agrotóxico, da sua persistência, se foi constam que o limite é de, no mínimo, cia dos grandes produtores de que se
usado perto de rios ou córregos, se o 250 metros afastados dessas nascentes, está proibido lá fora, aqui deve ocor-
lençol freático é profundo ou superficial. de criação de animais e moradia huma- rer o mesmo. Por que continuar a usar
Na maioria das vezes há a contaminação na. Mesmo assim, não são respeitadas. agrotóxicos dessa natureza? Por que
desses componentes ambientais em suas Planta-se e pulveriza-se até encostado é mais barato? Ou por que é mais efi-
mais variadas formas. nas residências, sobretudo em comuni- ciente? Mas qual é o custo em termos
O mesmo pode-se dizer dos alimen- dades rurais e nas pequenas cidades do de saúde humana, animal e vegetal,
tos que irão conter esses produtos. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, do ambiente como um todo? Precisa-
Todos os tipos de agrotóxicos usados Rio Grande do Sul e no Sul do Paraná. mos pensar na saúde da água, porque
nos alimentos serão posteriormente As pulverizações aéreas e terrestres são o nosso organismo é composto de 70%
encontrados neles. A isso chamamos feitas sem nenhum respeito. de água, e se aquela que consumimos
de resíduos nos alimentos. Eles podem Em segundo lugar, há toda uma estiver contaminada com agrotóxicos,
ser encontrados no tomate, pimentão, discussão a ser feita pela vigilância isso irá prejudicar nosso corpo. Então,
abobrinha, arroz, soja ou milho. sanitária nacional e dos estados para repito: é preciso respeitar a legislação
tentar proibir os agrotóxicos que já e proibir no Brasil os agrotóxicos que já
IHU On-Line – Como poderia se cons- são banidos na União Europeia. Por são proibidos lá fora. Também é preciso
tituir um movimento social de vi- que estamos consumindo, ainda, o en- que a população se conscientize e não
gilância sanitária e ambiental que dosulfan, o metamidofós, o 2,4-D e consuma produtos que têm agrotóxicos
envolvesse não só entidades do go-  Methamidophos: utilizado nas culturas do no seu desenvolvimento. Todos os anos
verno, mas a sociedade civil de for- amendoim, tabaco, pimenta e trigo. O seu uso o Ministério da Saúde coloca no Progra-
ma organizada e participativa? tem sido discutido porque se suspeita ser a ma de Análise de Resíduos de Agrotóxi-
causa da morte de trabalhadores rurais por he-
morte das células de embriões humanos’, dis- morragias e suicídios, o que levou à sua proibi- cos em Alimentos e vê os resultados dos
ponível em http://bit.ly/jfKobK; ‘O que acon- ção no Brasil, programada para 30 de junho de últimos anos. Desde o ano 2000, dos
tece na Argentina é quase um experimento em 2012. (Nota da IHU On-Line) vinte tipos de alimentos analisados, a
massa’, disponível em http://bit.ly/l7KHgW.  Áido diclorofenóxiacético (2,4-D): herbicida
(Nota da IHU On-Line) produzido durante o programa da guerra quí- maioria contém agrotóxicos. Tem que
 Atrazina: herbicida de tipo triazina, usado mica e biológica no período da segunda Guerra haver uma divulgação mais ampla para
em plantações de milho, cana-de-açúcar e sor- Mundial (1939-1945), sendo também utilizado a sociedade. A vigilância sanitária só
go para o controle de ervas daninhas. Herbici- na guerra do Vietnã (1954-1975), fazendo par-
da antigo, é ainda empregado devido ao seu te, juntamente com o herbicida 2,4,5-T e o irá funciona se a população se cons-
baixo custo e porque atua em sinergia quando pentaclorofenol, de um composto conhecido cientizar e mobilizar para isso. Há uma
utilizado com outros herbicidas. É um inibidor como agente laranja, que era utilizado como  Paraquat: com nome comercial Gramoxone
do fotossistema II. Um estudo publicado em desfolhante das florestas vietnamitas. Desde 200, é um composto quartenário do amônio
2010 pela Proceedings of the National Aca- então o 2,4-D vem sendo utilizado no controle utilizado como herbicida e altamente perigoso
demy of Sciences revelou que este composto seletivo de ervas daninhas, principalmente em para os humanos, caso ingerido. Esse compos-
pode mudar o sexo de rãs. A pesquisa recebeu pastagens, pois, nesta situação, controla dico- to sólido cristalino é instável em meio alcali-
questionamentos da indústria química Syngen- tiledôneas, preservando as monocotiledôneas. no, solúvel em água, pouco solúvel em álcool e
ta, grande produtora deste defensivo. (Nota Sua ação nas plantas é como mimetizador de insolúvel em solventes orgânicos não polares.
da IHU On-Line) auxinas. (Nota da IHU On-Line) (Nota da IHU On-Line)

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“O grande problema são
as intoxicações crônicas,
cuja exposição ocorre “O uso de agrotóxicos no Brasil é
a baixas doses durante abusivo, exagerado e incontrolável”
meses e anos” José Juliano de Carvalho entende que a situação atualmente
campanha nacional contra o uso de está mais difícil para a agricultura familiar. E quando se fala
agrotóxicos lançada no I Simpósio Bra- em integração da agricultura familiar com a indústria, o que se
sileiro de Saúde Ambiental, em Belém,
vê é uma relação de subordinação
em dezembro de 2010, com o apoio da
Associação Brasileira de Saúde Coletiva
– Abrasco. A iniciativa chama-se Cam- Por Graziela Wolfart, Greyce Vargas e Patricia Fachin
panha permanente contra os agrotóxi-

“O
cos e pela vida. A primeira audiência
pública aconteceu dia 7 de abril, Dia s agrotóxicos são usados sem nenhum controle pela so-
Mundial da Saúde, no Congresso Nacio- ciedade brasileira. Seu uso está sob os interesses do
nal. que se chama de agronegócio”. Essa é a ideia principal
defendida pelo professor José Juliano de Carvalho, na
IHU On-Line – Podemos falar em “uso
entrevista a seguir, concedida por telefone para a IHU
seguro dos agrotóxicos”?
On-Line. Professor da Faculdade de Economia e Administração da Universida-
Wanderlei Pignati – Não. Essa é outra
discussão que precisa ser desmistifica- de de São Paulo – USP, Carvalho tem percebido a destruição e a inviabilização
da. O uso totalmente seguro dos agro- da agricultura familiar não apenas pelo agrotóxico, mas pelo conjunto do
tóxicos é impossível. Os agrotóxicos modelo do agronegócio. “É preciso que se institua a regulação do agronegó-
penetram pela mucosa de pele, do cio. Senão, pega-se um investimento público feito para a agricultura familiar
olho, da orelha das pessoas, inclusive ou para áreas de assentamento e deixa-se que essa área seja dominada por
pela respiração. Se o trabalhador que monoculturas ligadas ao agronegócio, com uso de agrotóxicos, transgênicos,
aplicar esse produto estiver vestido prejudicando assim todas as pessoas que ali estão”.
como um astronauta (porque é assim José Juliano de Carvalho Filho possui graduação e doutorado em Economia
que se parecem os EPIs criados para pela Universidade de São Paulo, e pós-doutorado pela Ohio State University. Além
proteger os trabalhadores da contami- de professor, integra a Associação Brasileira de Reforma Agrária – Abra. Confira a
nação por esses produtos), ele quase
entrevista.
não será atingido ou contaminado. Isso
porque a eficiência do filtro químico é
de 80 a 90%, e com as moléculas dos IHU On-Line – Qual sua opinião em re- tóxicos no Brasil, que chega a 5,7
novos agrotóxicos essa eficiência dimi- lação ao uso de agrotóxicos no Brasil? litros de veneno por habitante, es-
nui mais ainda, pois há algumas delas José Juliano de Carvalho – Minha tão ligados a esse modelo. Isso tudo
que penetram no filtro de agrotóxicos atividade de pesquisa junto das po- está dentro de uma questão maior,
da máscara e prejudicarão quem está pulações camponesas durante mui- a questão agrária, que se caracteri-
realizando a aplicação. O efeito pode tos anos pôs-me em contato com os za aqui no Brasil pela concentração
levar de cinco a dez anos para ser sen- efeitos do agrotóxico. Mas o que im- fundiária, que está crescendo. Os
tido. Pode não haver um impacto ime- porta é discutir esse modelo que se agrotóxicos são usados sem nenhum
diato. Mas e a segurança do ambiente, chama de agronegócio. Não se trata controle pela sociedade brasileira.
como fica? Será colocado EPI nos pei- de uma simples técnica. É um mode- Seu uso está sob os interesses do que
xes, bois, cachorros e plantas que não lo com efeitos perversos para a eco- se chama de agronegócio. Olhando
se quer afetar? Não existe, portanto, nomia nacional, que nos faz voltar para o campo, veremos que há um
uso seguro de agrotóxicos. O ambiente ao passado em relação à exportação mecanismo que torna o governo re-
será poluído com substâncias cujo ob- de produtos primários e, o pior, com fém dos ruralistas. Neste mecanismo
jetivo é matar as “pragas” da lavoura a dependência de poucas empresas está embutida a própria questão ma-
mas, com isso, cria-se todo um ônus multinacionais. O agrotóxico, evi- croeconômica, que tem um déficit
ambiental. dentemente, está ligado à questão crescente em contas correntes. Isso
 Sobre a Campanha, confira mais detalhes no das patentes e dos transgênicos. E os implica em pressão para se exportar
link http://bit.ly/e6YOfT. (Nota da IHU On- efeitos do enorme consumo de agro- mais commodities e o governo acaba
Line)

 SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368


ficando refém. Basta olhar para o Con-
gresso Nacional e ver que ali há um
domínio muito amplo dessas forças,
que eu considero as mais retrógradas
do país. Tenho visto muito a destrui-
ção e a inviabilização da agricultura
familiar. Não só por causa do agrotó-
xico, mas pelo conjunto do modelo
do agronegócio. Um caso emblemáti-
co no Rio Grande do Sul é a detec-
ção do agrotóxico no leite materno.
A mãe, ao amamentar, envenena o
filho com o próprio leite. Isso é um
absurdo, um descontrole total. Minha
opinião sobre o uso de agrotóxicos no
Brasil é que é abusivo, exagerado, in-
controlável. Ficou muito mais difícil
para a agricultura familiar. Quando
se fala em integração da agricultura
familiar com a indústria, eu vejo mais
uma relação de subordinação. O Bra-
sil se sujeita a se entregar à economia
mundial num lugar subalterno e sob o
domínio de grandes empresas multi-
nacionais. Elas fazem o que querem
aqui, sem regulação e com domínio to-
tal. E não são punidas por seus crimes.

IHU On-Line – Então o impacto do


uso de agrotóxicos pode prejudicar a
economia brasileira?
José Juliano de Carvalho – Penso que
sim. E falo do impacto do pacote in-
teiro do modelo do agronegócio. Exis-
te um eufemismo em torno disso, que
vem dos Estados Unidos com o agro-
business. O modelo inteiro prejudica o
agrotóxico, inclusive, visto que ele está
junto. É preciso que se institua a regu- soja, sempre com pouco valor agrega- IHU On-Line – Quais são as alternati-
lação do agronegócio. Senão, pega-se do. Estamos nos colocando não como vas aos agrotóxicos?
um investimento público feito para a o país do futuro, mas como subalter- José Juliano de Carvalho – Nós pode-
agricultura familiar ou para áreas de nos. Continuaremos sendo periferia. mos ter uso de química na agricultura,
assentamento e deixa-se que essa área mas tem que ser um uso regulado. O
seja dominada por monoculturas liga- IHU On-Line – Por que os países em que eu não vejo é alternativa ao mo-
das ao agronegócio, com uso de agro- desenvolvimento são os que mais delo do agronegócio. Porque não é um
tóxicos, transgênicos, prejudicando utilizam agrotóxicos? modelo de produção, mas um modelo
assim todas as pessoas que ali estão. José Juliano de Carvalho – Porque de domínio econômico, em que nem
eles são dominados pelas empre- a reprodução das sementes é mais fa-
IHU On-Line – O Brasil é um dos países sas, que têm um domínio inclusive cultada aos agricultores. Eles têm que
que mais utilizam agrotóxicos. O que sobre as terras. E a tática que essas pagar pelas sementes e estas implicam
isso revela sobre a posição brasileira empresas usam é do jogo mais bai- no uso do agrotóxico X. É preciso que-
em relação ao futuro da agricultura? xo possível. Fazem de tudo, até su- brar com o poder de mercado dessas
José Juliano de Carvalho – Isso reve- borno. Isso está ligado ao avanço do empresas. Um país como o nosso de-
la a subordinação brasileira na nova capital financeiro em todo o mundo, veria regular a atividade do agronegó-
divisão internacional do trabalho. A sendo que esses países vão perdendo cio, voltada aos interesses nacionais.
nós coube voltar nossa pauta de ex- a capacidade de fazer política. Eles Como se podem usar produtos que
portação para os produtos primários, fazem apenas a pequena política. prejudicam a saúde da própria popu-
vendendo etanol, massa de celulose, lação trabalhadora?
SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368 
Agricultura brasileira é deficiente
De acordo com o engenheiro agrônomo Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib, é possível desen-
volver uma agricultura sustentável por meio do manejo ambiental, sem utilizar agrotóxicos

Por Graziela Wolfart e Patricia Fachin

M
ohamed Ezz El Din Mostafa Habib assinou, juntamente com outros pesquisadores, um relatório
que acusa a Monsanto de saber, há mais de 30 anos, que o herbicida Roundup provoca anoma-
lias congênitas. O professor da Unicamp estuda os efeitos dos agrotóxicos na saúde e no meio
ambiente desde a década de 1970 e afirma que testes feitos com o glifosato, princípio ativo do
Roundup, “mata qualquer criatura de origem vegetal, (...) causa problemas de desenvolvimen-
to embrionário, atinge células de tecidos do corpo humano e prejudica o desenvolvimento das crianças”.
Em entrevista à IHU On-Line por telefone, Mostafa Habib menciona ainda que a transgenia, outro ramo
de atividades de empresas que produzem agrotóxicos, também causa impactos à saúde humana. “Realizamos
testes em animais de laboratório com a ração fabricada a partir da soja transgênica e soja não transgênica. Ob-
servamos impactos negativos no desenvolvimento dos ovários e do sistema reprodutor dos animais”, relata.
Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib é graduado em Engenharia Agronômica e mestre em Entomologia (Con-
trole Biológico) pela Universidade de Alexandria, Egito, e doutor em Ciências Biológicas (Entomologia) pela
Unicamp. Além de lecionar na instituição, ele é pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor assina, junta- O glifosato, diferentemente do que o mundo precisa conhecer a realidade
mente com outros pesquisadores, o a Monsanto vem dizendo e diferente- da soja transgênica e as origens do gli-
relatório de pesquisa que acusa a mul- mente daquilo que a Comissão Técnica fosato. Realizamos testes em animais
tinacional de agroindústria e biotecno- Nacional de Biossegurança – CTNBio de laboratório com a ração fabrica-
logia Monsanto de saber, desde 1980, entendeu quando aprovou a produção da a partir da soja transgênica e soja
que o herbicida Roundup – cujo princí- e a comercialização, é um produto de não transgênica. Observamos impac-
pio ativo é o glifosato – provocaria ano- largo espectro tóxico, ou seja, mata tos negativos no desenvolvimento dos
malias congênitas. Pode nos dar mais qualquer criatura de origem vegetal. ovários e do sistema reprodutor dos
detalhes sobre o relatório? Como esta Ele ainda é tóxico para o ser humano e animais. Portanto, a soja transgênica
pesquisa foi realizada? causa problemas de desenvolvimento precisa ser retirada do mercado ime-
Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib embrionário, atinge células de tecidos diatamente. As pesquisas de transge-
– Minha carreira começou em 1964. do corpo humano e prejudica o desen- nia precisam continuar a desenvolver
Portanto, tenho 47 anos de experiên- volvimento das crianças. técnicas mais seguras para a saúde e o
cia. Nesse período, pesquisei os efei- Todas as pesquisas e levantamen- meio ambiente.
tos negativos do agrotóxico na saúde e tos científicos feitos concluíram que Também é preciso rever o impacto
no meio ambiente de países agrícolas.  CTNBio: instância colegiada multi­disciplinar, do glifosato. Quando o Brasil não cul-
criada através da lei nº 11.105, de 24 de mar-
A Monsanto, dona e produtora do ço de 2005, cuja finalidade é prestar apoio
tivava transgênico e estabelecia, pela
defensivo Roundup, sempre trabalhou técnico consultivo e assessoramento ao Go- lei, o máximo de 0,2 partes por milhão
para dominar o mercado. Portanto, o verno Federal na formulação, atualização e de glifosato na soja, a Monsanto pres-
implementação da Política Nacional de Bios­
investimento da empresa em transge- segurança relativa à OGM, bem como no esta­
sionou o governo e quis, numa primei-
nia é justamente para fazer do Roun- belecimento de normas técnicas de segurança ra instância, mudar a lei para permitir
dup um produto a ser vendido no e pareceres técnicos referentes à proteção até 100 partes por milhão. Entretanto,
da saúde humana, dos organismos vivos e do
mundo inteiro. meio ambiente, para atividades que envolvam
em função das pressões da sociedade,
 Roundup: pesticida fabricado pela Monsan- a construção, experimentação, cultivo, mani­ a lei permitiu ter 10 partes por milhão
to cuja base é o glifosato. Estudos indicam que pulação, transporte, comercialização, consu­ de glifosato nos grãos da soja. Isso sig-
mesmo em pequenas quantidades o pesticida mo, armazenamento, liberação e descarte de
pode ser nocivo à saúde humana. (Nota da IHU OGM e derivados. Mais informações em www.
nifica 50 vezes mais o valor que era
On-Line) ctnbio.gov.br. (Nota da IHU On-Line) permitido anteriormente.
10 SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368
Os grãos da soja de hoje têm um “As companhias dizem contra os interesses nacionais. Minha
teor de glifosato superior àquele que preocupação é com a interferência e
existia antes. Portanto, mesmo com a que os transgênicos a influência das multinacionais nos ór-
introdução da transgenia, o Brasil não gãos públicos. A CTNBio é pró-multina-
ganhou nada. consomem menos cionais e 2/3 da instituição trabalham
em prol das multinacionais. Isso é
IHU On-Line – Além do uso de agrotó- agrotóxicos, mas assustador porque a sociedade confia
xicos, que outras medidas podem ser nessas organizações que trabalham na
tomadas para o controle biológico acontece o contrário. contramão dos interesses nacionais.
das lavouras?
Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib – O Os transgênicos IHU On-Line – O Brasil é o maior con-
controle biológico é uma das medidas, sumidor de agrotóxicos do planeta e
mas nós podemos trabalhar para que consomem mais ainda permite a utilização de produ-
haja um manejo ambiental do próprio tos banidos em diversos países. Como
ecossistema e da lavoura. Por meio do agrotóxicos do que a entender essa cultura pró-agrotóxi-
manejo ambiental é possível cultivar cos em nosso país?
a diversidade vegetal. Cada vez que cultura convencional Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib – O
se tem diversidade na composição da que a academia e certos meios de comu-
flora, consegue-se ter uma riqueza na anterior” nicação estão fazendo é o início de um
diversidade faunística. A partir disso, processo, ou seja, temos de continuar
alcança-se o equilíbrio ecológico natu- conscientizando a sociedade. A trans-
para definir o zoneamento agríco-
ral, que acaba automaticamente man- genia veio para enganar a população.
la brasileiro e verificar quais são as
tendo as populações das pragas sob o As companhias dizem que os transgêni-
condições agrícolas de cada região do
nível ou abaixo do nível que poderia cos consomem menos agrotóxicos, mas
país. Dentro desse zoneamento, é pre-
causar algum dano econômico. acontece o contrário. Os transgênicos
ciso ter um plano governamental para
A ciência mostrou que o conceito de consomem mais agrotóxicos do que a
otimizar as condições de cada região.
agricultura convencional de monocultu- cultura convencional anterior.
Não é possível plantar soja desde o Rio
ra, de tirar do mapa toda a complexida- Precisamos sair em campanhas nas
Grande do Sul até o Amazonas; isso é
de vegetal que existia e substituí-la por ruas dizendo: “Agrotóxicos nunca mais!”.
ridículo. Portanto, cada região do Bra-
uma única cultura, não é sustentável. Com isso, podemos pressionar para que
sil deve identificar a sua vocação, a
Hoje, o mundo procura uma agri- as multinacionais comecem a pesquisar
sua coerência e ver como ela se mani-
cultura sustentável e este novo mo- e desenvolver produtos alternativos. As
festa na cultura local.
delo não pode ficar dependente de empresas não aceitam as propostas das
fertilizantes, agrotóxicos. É preciso universidades porque jogar veneno nas
IHU On-Line – Como vê a atuação de
investir em uma produção mais sau- lavouras é mais fácil. Elas ainda insistem
órgãos responsáveis pela regulação
dável para o meio ambiente e para o em chamar o agrotóxico de defensivo
de agrotóxicos em todo o mundo?
homem que cultiva e que consome. agrícola, de remédios. Temos que abra-
Quais os maiores dilemas dessas ins-
Nesse sentido, é possível fazer uso de çar essa campanha contra os agrotóxicos
tituições?
métodos de controle biológico natural, porque é muito complicado continuar-
Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib
aproveitando a riqueza da fauna. Nós mos desse jeito.
– Não tenho reclamação dos órgãos re-
temos de preservar o ambiente para
guladores que liberam e autorizam o
que os inimigos naturais (pragas) que IHU On-Line – Qual a origem e a ne-
uso dos agrotóxicos. O problema não
ocorrem naturalmente no ambiente cessidade de utilizar agrotóxicos no
está nesses órgãos e, sim, no outro
possam estar seguros na propriedade Brasil?
lado, que pressiona o trabalho de-
para trabalhar a favor da agricultura. Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib
les. As multinacionais que produzem
Também é possível utilizar o con- – O uso de agrotóxicos se disseminou
agrotóxicos desrespeitam a sociedade
trole biológico aplicado, ou seja, é pelo mundo em função da pressão das
brasileira e o futuro desse país. Elas
possível liberar os inimigos naturais multinacionais. Quando cheguei ao
utilizam o Brasil para ter retorno fi-
para fazer o controle microbiano apli- Brasil, em 1972, pude perceber o que
nanceiro e, hoje, trabalham para re-
cado, aplicando bactérias, fungos. as vendedoras de agrotóxicos faziam:
tirar da Agência Nacional de Vigilância
Igualmente, existe o conceito de pre- contratavam agrônomos brasileiros
Sanitária (Anvisa) o poder de opinar
servação e de investimento cada vez para receber um salário por meio de
sobre os agrotóxicos, que são os maio-
maior na diversidade biológica da pro- comissão, assim, quanto mais eles
res inimigos da saúde brasileira.
priedade rural. É preciso partir para vendiam, maior era o rendimento fi-
A academia não tem força para
rotações agrícolas, policultivos nas nanceiro. Esse comportamento, além
enfrentar as pressões das multinacio-
propriedades para ter uma estabilida- de ser antiético, é um crime.
nais. As empresas têm um lobby fortís-
de econômica maior. Antigamente, as multinacionais
simo no Congresso e estão trabalhando
É fundamental realizar pesquisas não tinham influência no governo fe-

SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368 11


deral, no parlamento brasileiro. Hoje,
elas têm lobby no Congresso e aliados
em órgãos públicos como na CTNBio.
O brasileiro não tinha a cultura de
utilizar venenos; isso é influência das A luta pela reavaliação de
multinacionais, que utilizam produtos
proibidos em seus países de origem
para comercializá-los no Brasil.
agrotóxicos no Brasil
Segundo Letícia Rodrigues da Silva, gerente de normatização
IHU On-Line – Em que medida o mo-
delo do agronegócio brasileiro con- e reavaliação da Anvisa, a instituição colocou 14 ingredientes
tribui para a cultura do uso de agro- ativos em reavaliação em 2008. Três anos depois, apenas seis
tóxicos no Brasil? reavaliações foram concluídas, sendo cinco, com ações judi-
Mohamed Ezz El Din Mostafa Habib
– O modelo do agronegócio brasileiro ciais
é arcaico porque se baseia na exporta-
ção de grãos, que serve de matéria-pri- Por Patricia Fachin
ma para os europeus fabricarem ração

A
animal. Se esse setor fosse um pouco
mais inteligente, poderia produzir a ra- reavaliação de agrotóxicos no Brasil ainda faz parte de um processo
ção no Brasil e exportar o produto com lento, frágil e nebuloso. Produtos que receberam a certificação de
um valor agregado. Já estou cansado uso da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, Ibama e do
de ver o Brasil exportando matéria-pri-
Ministério da Agricultura somente são reavaliados novamente quan-
ma e chamar isso de agronegócio; isso
do estudos internacionais apontam para riscos à saúde humana.
é agroburrice, ignorância. Países que
buscam o seu desenvolvimento não po- Segundo Letícia da Silva, um dos motivos que dificulta este procedimento é a
dem exportar matéria-prima, energia inexistência de investimento para linhas de pesquisa sobre o tema.
e, muito menos, água. O Brasil está “As pessoas que trabalham nos órgãos governamentais têm feito o possível
fazendo exatamente isso. E depois, o e o impossível para avaliar, regular e controlar esses produtos. Entretanto, te-
brasileiro vai para o exterior e volta mos várias fragilidades”, desabafa, em entrevista à IHU On-Line concedida por
com dois presentes: um pacote de café telefone. Entre as dificuldades, ela aponta o quadro deficitário de funcionários
solúvel da Alemanha, que não planta responsáveis pelo procedimento de reavaliação dos agrotóxicos. “Nos EUA, que
nenhum pé de café em seu território; é o segundo maior mercado de agrotóxicos do mundo, as agências de proteção
e chocolate suíço, o melhor chocolate ambiental têm 800 funcionários para avaliar produtos agrotóxicos. No Brasil, por
do mundo, feito à base de cacau. A Su- outro lado, se reunirmos todos os técnicos do Ibama, do Ministério da Agricultura
íça não cultiva nenhum pé de cacau.
e da Anvisa, não somamos o total de 80 técnicos”.
O Brasil vende essas matérias-primas
Letícia Rodrigues da Silva é especialista em Regulação e Vigilância Sanitária,
para ambos.
O que acontece no Brasil é uma gerente de normatização e reavaliação da Anvisa e responsável pelas reavalia-
atividade agrícola extremamente defi- ções toxicológicas dos agrotóxicos. Confira a entrevista.
ciente, que precisa evoluir. O grão de
soja nunca é superior a um real e para
produzi-lo, o país gastou no mínimo IHU On-Line – Como e por que a in- 1975. Nesta época foi desenvolvido
200 litros de água. O Brasil já perdeu dústria de agrotóxicos se proliferou o Plano Nacional de Defensivos Agrí-
95% da Mata Atlântica, mais de 80% do no Brasil? colas, que incentiva o uso de agro-
cerrado e 20% da Floresta Amazônica. Letícia Rodrigues da Silva – O uso de tóxicos e, inclusive, disponibilizava
Será que está valendo a pena vender agrotóxicos no mundo começou com créditos para produtores rurais que
energia e chamar agroenergia de bioe- a Revolução Verde ocorrida na déca- quisessem utilizar esta tecnologia.
nergia para enganar o povo brasileiro? da de 1970 e, no Brasil, por volta de Indústrias também receberam incen-
Não se produz bioenergia com a cana- tivos para se instalarem no Brasil. A
 Revolução Verde: refere-se à invenção e partir disso, se fortaleceu e se disse-
de-açúcar e com a soja. Já estou can- disseminação de novas sementes e práticas
sado desse tipo de tática enganosa. agrícolas que permitiram um vasto aumento minou o uso de agrotóxicos no país.
Dizem que este é o setor que mais na produção agrícola em países menos de- Nos anos 1990, houve um movimen-
senvolvidos durante as décadas de 1960 e to mundial de reestruturação dessas
cresce, mas também é o setor que mais 1970. É um amplo programa idealizado para
destrói o país. É um setor que precisa aumentar a produção agrícola no mundo empresas e, no final dos anos 2000,
trabalhar com mais inteligência, mais por meio do “melhoramento genético” de aconteceram muitas fusões, incorpo-
sementes, uso intensivo de insumos indus- rações em função do esgotamento da
ciência e mais tecnologia. triais, mecanização e redução do custo de
manejo. (Nota da IHU On-Line) matriz petroquímica.
12 SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368
Desde então, muitas dessas empre- to, os estudos dos efeitos de agrotóxi- houve desde 1989 até hoje foram para
sas químicas começaram a atuar no cos são feitos em condições ideais de afrouxar a legislação de agrotóxicos e
ramo de sementes transgênicas e aí uso, de temperatura, clima e, quando não para torná-la mais rígida ou res-
teve a consolidação de outro tipo de esse produto passa a ser utilizado no tritiva.
mercado: as empresas que eram gran- campo, apresenta efeitos diferentes:
des ficaram ainda maiores ao adquiri- às vezes se mostra ser mais tóxico, tem IHU On-Line – Quais as principais fra-
rem empresas pequenas. Por volta de efeitos que não aparecem nos animais gilidades da legislação brasileira em
2007 em diante, passou a se ter a en- de experimentação, mas aparecem relação à regulação e a reavaliação
trada de empresas chinesas no merca- nos seres humanos posteriormente ao de agrotóxicos? Como vê a posição
do de agrotóxicos. Essas indústrias têm uso. Então, há uma limitação cientí- do Brasil em relação ao rigor do uso
fábricas na China e trazem grande par- fica neste processo. Por mais que se desses produtos?
te de seus produtos de lá em função da busquem situações realistas de uso, Letícia Rodrigues da Silva – As pes-
redução do custo de mão de obra e dos outros fatores podem interferir na ex- soas que trabalham nos órgãos go-
custos de produção desses produtos. posição de agrotóxicos. vernamentais têm feito o possível e
Atualmente, seis empresas são res- o impossível para avaliar, regular e
ponsáveis por 105% do mercado brasi- IHU On-Line – Como e com que fre- controlar esses produtos. Entretanto,
leiro e, dessas, três são responsáveis quência são feitas as reavaliações temos várias fragilidades e uma delas
por 90% do mercado nacional. Isso se toxicológicas dos agrotóxicos no Bra- é o número de técnicos envolvidos na
repete no âmbito mundial, onde o sil? Como avalia o processo de rea- avaliação dos agrotóxicos. Nos EUA,
mercado é ainda mais concentrado: valiação dos agrotóxicos no país? Ele que é o segundo maior mercado de
seis empresas são responsáveis por ainda é dependente de pesquisas in- agrotóxicos do mundo, as agências de
70% do mercado. ternacionais? proteção ambiental têm 800 funcioná-
Letícia Rodrigues da Silva – As rea- rios para avaliar produtos agrotóxicos.
IHU On-Line – Quais são os critérios valiações são feitas sempre que há No Brasil, por outro lado, se reunirmos
adotados no Brasil para registrar agro- detecção de estudos que apontam todos os técnicos do Ibama, do Minis-
tóxicos? E qual a participação do setor para riscos à saúde, quer dizer, quan- tério da Agricultura e da Anvisa, não
de saúde pública neste processo? do outros países começam a efetuar somamos o total de 80 técnicos. Esse
Letícia Rodrigues da Silva – O regis- proibições, restrições e quando orga- é um número pequeno de pessoas en-
tro de agrotóxicos é um ato comparti- nizações internacionais alertam para volvidas na regulação e hoje o Brasil é
lhado entre Ministério da Agricultura, riscos. Ainda existe um número peque- o maior consumidor de agrotóxicos do
Anvisa e Instituto Brasileiro do Meio no de pesquisas sobre produtos agro- mundo. Essa é a primeira fragilidade,
Ambiente - Ibama. O Ministério da tóxicos feitas no Brasil, especialmente que chamaria de fragilidade de recur-
Agricultura faz a avaliação de eficácia estudos epidemiológicos, de exposição sos humanos.
agronômica dos produtos agrotóxicos; com trabalhadores. Inexistem linhas de A outra fragilidade é que a lei que
o Ibama faz a avaliação do impacto financiamento de pesquisa para isso e, rege a questão dos agrotóxicos não
ambiental desses produtos; e a Anvi- quando se faz pesquisa, encontram-se determina nenhum prazo para a reno-
sa analisa o impacto desses produtos efeitos relacionados ao uso de agrotó- vação de seu registro, diferentemen-
à saúde humana. São exigidos estudos xicos, a ingredientes ativos específicos te do que ocorre com os registros de
para todas essas avaliações e, na Anvi- ou a vários tipos de produtos ou gru- medicamentos que, a cada cinco anos,
sa, são realizados estudos com animais pos químicos diferentes e efeitos gra- são renovados. Na área de agrotóxicos,
de experimentação para verificar que ves à saúde humana. Várias pesquisas uma vez que o registro foi concedido,
efeitos esses produtos podem causar à estão sendo desenvolvidas no sentido ele fica concedido para todo o sempre
saúde humana. Quando os três órgãos de apontar efeitos de depressão, de e a única medida feita ao longo do
dizem que o produto tem condições transtornos psiquiátricos em popula- tempo é a reavaliação.
aceitáveis para saúde, para o ambien- ções expostas a agrotóxicos. A reavaliação tem se demonstrado
te e eficácia agronômica, é concedido Ao fazer a reavaliação de um pro- um processo lento e demorado porque
o registro. Se um dos três órgãos mani- duto, utilizamos todas as pesquisas o órgão governamental é único res-
festa posição contrária, o produto não feitas em relação a ele. Nesse senti- ponsável pela reavaliação. Cabe a ele
pode ser registrado no país. do, a reavaliação é uma salvaguarda. juntar todas as informações para fazer
A lei 7802, de 1989, estabelece Por outro lado, ela também joga para a reavaliação, publicar uma nota téc-
alguns requisitos e assegura que são o órgão público a responsabilidade de nica, onde são elencados os estudos
proibidos registros de agrotóxicos que juntar os dados dos danos que esses que demonstram as inseguranças as-
tenham características mutagênicas, produtos estão causando. Esse proces- sociadas ao produto, observar o devi-
teratogênicas e que causem efeitos so inverte o princípio da precaução, já do processo legal, deixar as notas em
hormonais, danos ao aparelho repro- que as empresas deveriam assegurar consulta pública e, depois, ficar susce-
dutor etc. Quer dizer, a lei determina que seu produto apresenta todas as tível a pressões políticas e à judiciali-
alguns critérios para proibir o registro condições de segurança. zação do processo. A Anvisa colocou 14
de substâncias inadequadas. Entretan- Aliás, todas as manifestações que ingredientes ativos em reavaliação no
SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368 13
ano de 2008 e até agora conseguimos “Todos os anos surgem Nesse sentido houve uma manifesta-
concluir seis dessas reavaliações, com ção da sociedade.
cinco ações judiciais. Embora o pro- pelo menos dois ou três
cesso já tenha sido concluído do ponto IHU On-Line – Como o cidadão pode
de vista administrativo, ele continua projetos de lei para identificar produtos contaminados
sendo discutido do ponto de vista ju- por agrotóxicos?
dicial. Então, os técnicos da Anvisa tirarem as competências Letícia Rodrigues da Silva – Frutas,
têm de ficar fazendo notas técnicas, verduras e legumes produzidos na es-
dar suporte técnico para a defesa e da Anvisa e do Ibama” tação tendem a ter menos agrotóxicos
a contestação. É um processo muito do que aqueles produzidos em estufas.
desgastante. Sempre que possível, o consumidor
Por isso é importante que haja o pode tentar descobrir se os produtos
controle social dos agrotóxicos. Os es- programa para verificar os agrotóxi- possuem rastreabilidade, quer dizer,
tudos da Fiocruz e de diversas univer- cos falsificados? saber onde o alimento foi produzido.
sidades demonstram que a contami- Letícia Rodrigues da Silva – Não, Em várias redes de supermercados já
nação não afeta apenas o trabalhador porque apenas conseguimos saber a existe esse sistema de rastreabilida-
rural, mas se dissemina entre os con- especificação do produto registrado. de. Na gôndola onde o produto está,
sumidores. Todos os anos os resultados Não temos como saber quais são as há um número ou uma etiqueta para
do Programa de Análise de Resíduos de substâncias que existem nos produtos identificar a sua origem. Quando se
Agrotóxicos demonstram a contamina- que entram no país por meio do con- verifica uma irregularidade, é possível
ção dos alimentos vendidos nos super- trabando ou são fabricados no fundo encontrar quem produziu aquele ali-
mercados, a contaminação ambiental de quintal. mento. Também é importante variar a
feita por meio da água, do ar. Muitas Temos feito fiscalizações nas fábri- alimentação e consumir alimentos que
vezes as áreas onde estão inseridas as cas e, de 13 empresas fiscalizadas, 11 possuam certificação de produção or-
cidades são muito próximas das áreas tinham alterado as formulações sem a gânica.
de lavouras. Então, por vento e dife- autorização da Anvisa. Elas registra-
rentes formas de contaminação, toda vam uma formulação e depois substi- IHU On-Line – Até 2012 a Anvisa pre-
a população acaba sendo exposta a es- tuíam componentes daquela formula- tende proibir a produção e comer-
ses produtos. ção e produziam produtos com outra cialização de agrotóxicos que con-
classe toxicológica. tenham o ativo metamidofós. Quais
IHU On-Line – Segundo notícias da im- os riscos deste ativo? E qual sua ex-
prensa, no próximo mês, a Anvisa divul- IHU On-Line – Que atores sociais mais pectativa em relação a essa possível
gará os resultados anuais do Programa pressionam a Anvisa para regular de- proibição?
de Análise de Resíduos de Agrotóxicos, terminados produtos? Letícia Rodrigues da Silva – O me-
que em 2010 apontou irregularidades Letícia Rodrigues da Silva – Nós quase tamidofós está com um programa de
em 30% das amostras de produtos agrí- não recebemos pedidos por parte da descontinuidade de uso estabelecido
colas. Pode adiantar algo? sociedade ou de organizações e movi- para quase todas as empresas. Apenas
Letícia Rodrigues da Silva – O Progra- mentos para que os órgãos do governo uma indústria está recorrendo judi-
ma de Análise de Resíduos Agrotóxicos controlem de forma mais rigorosa es- cialmente e outra está produzindo o
é coordenado pela Anvisa e feito por sas substâncias. Recebemos frequen- produto no país. As demais já cance-
todos os estados da federação. Ele temente pedidos para liberação do laram as fabricações e a importação
funciona da seguinte forma: os esta- produto X, Y, Z, de diferentes atores também foi cancelada. A comerciali-
dos coletam amostras de 18 culturas como, por exemplo, cooperativas, sin- zação deste ativo ainda está permitida
alimentares (batata, banana, cebola dicatos, prefeituras, parlamentares, até 2012, ficando mais um prazo para
etc.) no supermercado; essas amostras empresas. Praticamente, inexiste o uso e, posteriormente, o uso não será
são enviadas para laboratórios e eles número de pleitos onde pudéssemos mais permitido. Esse cronograma de
analisam se os alimentos estão conta- dizer que existe um controle social. descontinuidade foi estabelecido para
minados por agrotóxicos, por qual tipo Costumamos dizer que é preciso que que não se tenha estoque remanes-
e em que quantidade. a sociedade se aproprie deste tema e cente do produto e nem incremento
Não sei dizer qual foi o resultado diga que risco ela está disposta a cor- de uso legal.
do plano de 2010, mas esses dados de- rer em face da produtividade. O metamidofós está associado à
monstram, de modo contínuo, conta- Todos os anos surgem pelo menos desregulação endócrina, a efeitos
minação de algumas culturas por agro- dois ou três projetos de lei para tira- imunotóxicos, e prejuízos ao desen-
tóxicos. No ano passado, foi detectado rem as competências da Anvisa e do volvimento embriofetal. Ele está proi-
que agrotóxicos não autorizados no Ibama. Este ano, tramitou pelo Senado bido em países da África, da China, da
Brasil estão sendo utilizados. um projeto de lei que propunha que Indonésia, do Japão e do Paquistão.
a avaliação dos agrotóxicos fosse feita
IHU On-Line – A Anvisa tem algum apenas pelo Ministério da Agricultura.

14 SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368


Agroecologia: um modelo agrícola sustentável
“É preciso desconstruir essa concepção criada de que a produção agrícola dependia do uso de
agrotóxicos”, diz o agrônomo Rubens Nodari

Por Patricia Fachin

O
Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos e o principal incentivador desta prática
é o governo, diz Rubens Nodari à IHU On-Line em entrevista por telefone. “As políticas go-
vernamentais favorecem o uso de agrotóxicos porque o governo incentiva a utilização desses
produtos quando, no financiamento, exige dos agricultores o uso de tecnologias. Ocorre que,
para o governo, uso de tecnologias subentende utilização de sementes, fertilizantes químicos,
agrotóxicos”, reitera.
Rubens Nodari é graduado em Agronomia pela Universidade de Passo Fundo – UPF, mestre em Agronomia (Fi-
totecnia) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFGRS e doutor pela University Of California At Davis.
Atualmente, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que relações podemos demonstram que a maioria deles usa sendo assim, sempre será prejudicial.
estabelecer entre a transgenia e o esses produtos. Não há hipótese em que a aplicação de
uso de agrotóxicos? Produtos trans- agrotóxicos não cause efeitos secundá-
gênicos ainda exigem o uso de agro- IHU On-Line – O uso de agrotóxicos rios. O uso dessas substâncias sempre
tóxicos? pode prejudicar ou alterar a diversi- acarretará em efeitos adicionais não
Rubens Onofre Nodari – Sim. Nos dade biológica? desejados.
EUA, houve uma diminuição no uso de Rubens Onofre Nodari – Os agrotóxi-
agrotóxicos, mas, após a liberação da cos atuam de maneira diferente nas IHU On-Line – Intensificou-se o uso
transgenia, o consumo de herbicidas espécies: umas sofrem mais e outras de agrotóxicos nas florestas brasilei-
aumentou. No Brasil não foi diferente: menos. Então, algumas espécies po- ras. Quais os riscos desses produtos
depois da liberação do uso de transgê- dem ser diminuídas, como os anfíbios, para as áreas florestais?
nicos, o uso de agrotóxicos cresceu e o que são suscetíveis a esses produtos. Rubens Onofre Nodari – Algumas es-
país passou a ser o maior consumidor Além de extinguir algumas espé- pécies serão prejudicadas porque os
de agrotóxicos do mundo. Isso também cies, o uso de agrotóxicos irá afetar os agrotóxicos têm a função de inibir
ocorreu na Argentina e onde mais hou- processos ecológicos do meio ambien- enzimas ou bloquear processos ana-
ve liberação de transgênicos. te. As funções ecológicas são mantidas bólicos e metabólicos em organismos
por dois componentes: a presença dos vivos. Como nós temos uma biodiversi-
IHU On-Line – Quais são as razões que organismos vivos e o processo ecoló- dade imensa e ainda não conhecemos
levam o Brasil a ser o maior consumi- gico em si. Então, quando se rompe a todas as espécies que vivem nas flores-
dor de agrotóxicos? cadeia trófica, rompem-se também os tas, não sabemos quais serão os danos
Rubens Onofre Nodari – As políti- serviços ambientais que estão no ecos- a essas espécies.
cas governamentais favorecem o uso sistema. Portanto, quando o agrotóxi-
de agrotóxicos porque o governo in- co cai no rio e atinge a cadeia trófica, IHU On-Line – Que impactos ambien-
centiva a utilização desses produtos o rio perde a capacidade de ciclar nu- tais o uso de agrotóxicos já causou
quando, no financiamento, exige dos trientes. Essa situação também ocorre no Brasil?
agricultores o uso de tecnologias. no solo, no ar. Rubens Onofre Nodari – Nós não te-
Ocorre que, para o governo, uso de mos trabalhos globais para demonstrar
tecnologias subentende utilização IHU On-Line – É possível utilizar agro- os impactos do uso de agrotóxicos no
de sementes, fertilizantes químicos, tóxicos na medida certa? país. Os estudos realizados abordam
agrotóxicos. Dificilmente um banco li- Rubens Onofre Nodari – Por definição, os impactos de um tipo específico de
bera recursos para o custeio agrícola o agrotóxico tem a função de inibir ou agrotóxicos em uma espécie determi-
sem atender a esses critérios. Estudos diminuir o desenvolvimento de seres nada. Os EUA desenvolvem mais estu-
realizados com pequenos agricultores vivos. Portanto, ele é um veneno e, dos. Nós sabemos que aumentou o uso

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desses produtos, mas não os correla- “A população está de produção agroecológico, sem uso
cionamos com extermínio de popula- de agrotóxicos. Para isso, é necessá-
ções ou diminuição de peixes em rios, desinformada. Se o meio rio um plano, recursos do governo e
por exemplo. agrônomos com outra visão agrícola.
acadêmico, que é É preciso desconstruir essa concepção
IHU On-Line – Quais os desafios da criada de que a produção agrícola de-
ciência, da pesquisa e da tecnologia informado, não reage, pendia do uso de agrotóxicos.
em relação aos agrotóxicos?
Rubens Onofre Nodari – O desafio é como a sociedade civil, Leia Mais...
encontrar outro sistema agrícola. Esse
sistema dependente de químicos, seja que mal conhece o Confira outras entrevistas concedidas por
na forma de fertilizantes ou agrotóxi- Rubens Nodari e publicadas na IHU On-Line.
cos, está com os dias contados. Nós assunto, irá reagir?” • Glifosato: “‘todo veneno deveria ser proibido”.
não temos alternativa como espécie Entrevista publicada nas Notícias do Dia de 09-04-
humana. 2010, disponível em http://bit.ly/9MfonX
por equivalência. Ou seja, o governo • Mudanças no Código Florestal: ‘Isto é suicídio
queria ter mais moléculas à disposição ecológico’. Entrevista publicada nas Notícias do
IHU On-Line – Como vê a reação da Dia de 29-04-2009, disponível em http://bit.ly/
da agricultura. Então, há uma ação
sociedade civil em relação aos agro- m9KxaV
deliberada do Estado em favor do uso
tóxicos?
desses produtos.
Rubens Onofre Nodari – A população
está desinformada. Se o meio acadê-
IHU On-Line – É em função desse in-
Baú da IHU On-Line
mico, que é informado, não reage,
centivo do governo que os pequenos A IHU On-Line já publicou outra edição so-
como a sociedade civil, que pouco bre os agrotóxicos.
agricultores também reiteram o dis-
conhece o assunto, irá reagir? A maior
curso de que é importante utilizar * Agrotóxicos. Remédio ou veneno? Uma discussão.
parte dos estudos sobre os efeitos dos
agrotóxicos? Edição 296, publicada em 08-06-2009. Acesse no link
agrotóxicos são escritos em inglês e o http://migre.me/58DXH.
Rubens Onofre Nodari – Sim. Esse dis-
acesso a essas informações fica res- * Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo.
curso foi passado para eles. Durante a Notícia publicada no sítio do IHU em 08-07-2010 e
trito a um grupo pequeno de pessoas.
Revolução Verde, tanto políticas públi- disponível em http://bit.ly/cxN3Uk
De outro lado, o setor do agronegócio * Brasil. O maior consumidor de agrotóxicos agríco-
cas quanto as faculdades de agronomia
tem apoio de políticas públicas para las. Entrevista especial com Maria José Guazzelli,
ensinavam duas coisas: fazer análise publicada no sítio do IHU em 07-06-2009 e disponível
continuar se expandindo. A sociedade
de solo para saber quando é preciso em http://bit.ly/iSNosu
não tem informação adequada e não * Agrotóxicos. Um problema brasileiro. Entrevista
pôr adubo; e usar agrotóxicos porque
vai se mobilizar porque não sabe se há especial com Jean Remy Davée Guimarães, publi-
eles matam as pragas. Esse era o B- cada no sítio do IHU em 15-06-2010 e disponível em
necessidade de fazer isso e, portanto,
A-BÁ das escolas. Essa mensagem foi http://bit.ly/95cvVo
continuamos nesse processo de utili- * ‘Precisamos conscientizar a população sobre os
passada aos agricultores pelas empre-
zar mais agrotóxicos. efeitos dos agrotóxicos’. Matéria publicada no sítio
sas, pelo governo e pelos agrônomos. do IHU em 24-09-2010 e disponível em http://bit.
Os técnicos do governo são infor-
Como nós vamos dizer para eles que ly/ag9NZH
mados, mas preferem ficar do lado * Agrotóxicos. A herança maldita do agronegócio.
não se pode mais utilizar agrotóxicos?
atual de agricultura, que beneficia Entrevista com Raquel Rigotto, publicada no sítio
O ecossistema está tão desequi- do IHU em 23-02-2011 e disponível em http://bit.
o uso desses agrotóxicos. Para se ter
librado que, se retirar o agrotóxico, ly/hg8dno
uma ideia, no segundo governo Lula * Lançada campanha nacional permanente contra
tem de ter um projeto de transição
foi criado um grupo de trabalho que o uso de agrotóxicos. Notícia publicada no sítio do
para outro projeto agrícola. Precisa ter IHU em 09-04-2011 e disponível em http://bit.ly/
se reuniu na Casa Civil com o objetivo
uma ação que possibilite ao agricultor e6YOfT
de acelerar o registro de agrotóxicos
fazer uma transição para um processo

ObservaSinos - Oficina sobre os dados censitários 2010


da Região do Vale do Sinos

Ministrantes: Prof. Ademir Barbosa Koncher,


do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Data: 24/8/2011
Horário: das 14h à 17h
Informações em www.ihu.unisinos.br

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Entrevista da Semana
A era da memória total e do esquecimento contínuo
Nossos arquivos de memória estão se tornando digitais, constata Erick Felinto. Criatura sim-
bólica, o ser humano tem relações mediadas, e aquelas “face a face” não podem ser consi-
deradas mais autênticas do que as mediadas tecnologicamente

Por Márcia Junges

N
a opinião do pesquisador Erick Felinto, “vivemos uma era da ‘memória total’, já que a digitalização
dos suportes trouxe capacidades inauditas de armazenagem de informação”. Por outro lado, existe
um excesso de informação e uma rapidez que produzem “esquecimento contínuo e um apagamento
do passado. O que acontece, também, é que todos os ‘arquivos’, toda nossa memória, estão as-
sumindo a forma do digital”. Estas ponderações fazem parte da entrevista a seguir concedida por
e-mail à IHU On-Line. Felinto critica o fato de as relações “face a face” serem consideradas mais autênticas do
que aquelas mediadas tecnologicamente, classificadas por vezes como “ilusórias”: “Isso é de uma ingenuidade
absurda. O ser humano é uma criatura simbólica. Suas relações com o mundo são, desde sempre, ‘mediadas’.
Minhas relações sociais nas redes podem ser tão ou mais intensas (ou superficiais) quanto minhas conexões
‘presenciais’”. Sobre as tecnológicas que pretensamente teriam revolucionado o mundo, é enfático: “Todas as
tecnologias foram de algum modo ‘revolucionárias’, especialmente no contexto histórico de sua emergência. O
desenvolvimento da escrita é tão (ou possivelmente mais) ‘revolucionário’ que o surgimento da internet”.
Erick Felinto é graduado em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, mes-
tre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e doutor em Letras pela UERJ, onde
atualmente leciona. Cursou pós-doutorado na Universidade de Kunst, em Berlim, Alemanha. Com Ivana Bentes
escreveu Avatar: o Futuro do Cinema e a Ecologia das Imagens Digitais (Porto Alegre: Sulina, 2010). Outras de
suas obras são A religião das máquinas: ensaios sobre o imaginário da cibercultura (Porto Alegre: Sulina, 2005);
Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna (Porto Ale-
gre: Sulina, 2008) e A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica (São Paulo: Ateliê,
2008). Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em seu ponto de vista, está exaustivamente estudado como a cem acontecer em ondas históricas de
quais são as tecnologias que revolu- retórica popular sobre a invenção tec- desenvolvimento, o que põe em che-
cionaram o mundo? nológica repete os mesmo chavões de que o discurso de “novidade radical”
Erick Felinto – O termo “revolucioná- um período histórico ao outro: o que com que as tecnologias costumam ser
rio’ é próprio de uma abordagem tipica- se fala hoje sobre a internet é muito apresentadas. Isso não significa que
mente marqueteira e propagandística semelhante ao que se falou sobre o te- não existam novidades nem mutações
que caracteriza boa parte da literatu- légrafo no século XIX. Nesse sentido, radicais, mas elas são um traço contí-
ra não acadêmica (e também, infeliz- procuro evitar expressões como essa, nuo da história humana – quiçá mesmo
mente, acadêmica) sobre o tema das que produzem uma cegueira histórica da história natural. A instauração das
tecnologias comunicacionais. Todas as danosa aos estudos de comunicação e tecnologias digitais nos apresenta, po-
tecnologias foram de algum modo “re- tecnologia. Contudo, se em vez disso rém, um traço interessante e singular.
volucionárias”, especialmente no con- falarmos em transformações culturais Eles produziram uma espécie de ce-
texto histórico de sua emergência. O tecnologicamente motivadas, então sura histórico-tecnológica, no sentido
desenvolvimento da escrita é tão (ou teremos, antes de qualquer coisa, que em que todo tipo de informação – ima-
possivelmente mais) “revolucionário” atentar para o caráter cíclico dessas gética, sonora, textual – passou a ser
que o surgimento da internet. E já mudanças. Essas “revoluções” pare- constituído em modo digital.

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Uma língua universal “O que se fala hoje sobre mem e máquina poderão se esfumaçar
radicalmente. Se isso é positivo ou ne-
A “digitalização” do mundo é um a internet é muito gativo, está aberto à discussão.
acontecimento extremamente impor-
tante, pois atinge desde nossa visão semelhante ao que se IHU On-Line – Numa cultura caracte-
da comunicação até nossa percepção rizada pela comunicação de massas,
sobre a vida, agora traduzida também falou sobre o telégrafo qual é o lugar da memória e do es-
em forma binária (o código genético, quecimento?
mapeado, por exemplo, no projeto no século XIX” Erick Felinto – Não estou seguro de
genoma humano). Se quisermos entrar que nossa cultura ainda seja carac-
no domínio do imaginário, poderíamos terizada pela “cultura de massas”. O
não é um fenômeno “naturalmente”
especular que o digital realiza um an- digital problematizou esse conceito
humano, e que tem, na verdade, uma
tigo sonho da Filosofia: a criação de (mas não acabou com ele, como alguns
data de nascimento e uma origem his-
uma mathesis universalis, de uma lín- parecem pensar), de modo que já não
tórica (por volta de 3 mil anos atrás). A
gua universal capaz de traduzir tudo podemos falar hoje tranquilamente de
emergência da consciência, para ele,
em bits e bytes. Desse modo, em lugar uma “sociedade de massas”. Da multi-
estava de algum modo conectada ao
de falar de tecnologias que revolucio- plicação de emissores, graças a plata-
desenvolvimento da escrita, que teria
naram o mundo, prefiro assinalar essa formas como blogs ou redes sociais, a
auxiliado num processo de distancia-
peculiaridade do paradigma digital, fenômenos como a “Cauda Longa”, de
mento do sujeito em relação a seu
que afeta de modo abrangente uma Chris Anderson, as tecnologias digitais
próprio self. Reformulando o que já foi
série de diferentes tecnologias. perturbaram amplamente a ideia de
dito: toda tecnologia é “revolucioná-
Na base dessa perspectiva que pre- uma cultura de massas. Agora, é fato
ria” porque reconfigura a cultura e os
firo adotar está uma concepção de his- que os temas da memória e do esque-
processos de subjetivação. No arquivo
tória totalmente não linear, marcada cimento terão papel fundamental nos
Flusser, em Berlim, descobri um texto
por saltos e rupturas (ou “catástro- anos vindouros. Flusser, McLuhan, Ben-
inédito do filósofo no qual ele estabe-
fes”, como já se afirmou) em vez de jamin, assim como outros pensadores
lece uma brilhante reflexão sobre toda
continuidades. A história das tecnolo- das mídias mais recentes (por exem-
a cultura ocidental a partir da inven-
gias demonstra esse aspecto descon- plo, Wofgang Ernst ou R. L. Rutsky),
ção da roda (e dos automóveis). Mais
tínuo da nossa experiência temporal. tomam essas questões como eixos fun-
importante que enumerar tecnologias
Ray Kurzweil defende uma teoria da damentais de suas reflexões. Vivemos
particulares, é estarmos atentos para
evolução tecnológica caracterizada uma era da “memória total”, já que
o tipo de reconfiguração que os apara-
por transformações exponenciais ou a digitalização dos suportes trouxe ca-
tos próprios de nosso momento histó-
longo da história. Ou seja, atualmen- pacidades inauditas de armazenagem
rico estão produzindo. Nesse sentido,
te, num espaço de 40 anos, testemu- de informação. Contudo, paradoxal-
podemos afirmar que o computador,
nhamos mais transformações do que mente, esta também é a era do esque-
a internet e o paradigma tecnológico
se processou na duração inteira dos cimento, marcada pela volatilidade da
digital estão cooperando para uma
dois séculos antecedentes. informação (e também das relações
profunda reconfiguração do que en-
sociais). Se para Nietzsche, o excesso
tendemos por “ser humano”. Não é à
IHU On-Line – Sob quais aspectos es- de memória era um grave problema
toa que o tema do “pós-humanismo”
sas tecnologias são revolucionárias e para o homem do ressentimento, hoje
é um dos mais populares, hoje, no âm-
ainda prometem mudar ainda mais a talvez possamos afirmar que estamos
bito das ciências humanas. A separa-
vida dos sujeitos contemporâneos? realizando um projeto nietzscheano
ção entre o natural e o artificial – se
Erick Felinto – Como eu disse na res- (ainda que de forma bastarda). O ex-
é que ela realmente existiu algum dia
posta anterior, acho que essa expres- cesso de informação, a rapidez com
– está para ser dramaticamente pro-
são tremendamente problemática, e que as coisas se processam produz um
blematizada. Há fortes indicações de
toda tecnologia desencadeia trans- esquecimento contínuo e um apaga-
que o futuro trará uma reinvenção do
formações radicais nos sujeitos que mento do passado. O que acontece,
humano, na qual a tecnologia será li-
a vivenciam. Julian Jaynes, um psi- também, é que todos os “arquivos”,
teralmente “incorporada” por nós, de
cólogo hoje quase que inteiramente toda nossa memória, estão assumindo
tal modo que as fronteiras entre ho-
esquecido, que tinha vínculos com a a forma do digital.
Escola de Toronto, desenvolveu a in-  Vilém Flusser (1920-1991): filósofo tcheco, Para usar uma metáfora tipicamen-
naturalizado brasileiro. Autodidata, durante
teressante tese de que a consciência a Segunda Guerra, fugindo do nazismo, mu- te barroca, a internet pode ser imagi-
 Raymond Kurzweil (1948): inventor e futu- dou-se para o Brasil, estabelecendo-se em São nada como um “palácio da memória”.
rista dos Estados Unidos, pioneiro nos campos Paulo, onde atuou por cerca de 20 anos como Desde a Antiguidade, temos notícia do
de reconhecimento ótico de caracteres, sínte- professor de filosofia, jornalista, conferencista
se de voz, reconhecimento de fala e teclados e escritor. (Nota da IHU On-Line) ensino de técnicas de memorização
eletrônicos. Ele é autor de livros sobre saúde,  Sobre o tema do pós-humanismo leia a revis- baseadas na ideia da criação de “pa-
inteligência artificial, transumanismo, singula- ta IHU On-Line número 200, de 16-10-2006, lácios” mentais nos quais se “armaze-
ridade tecnológica e futurologia. (Nota da IHU intitulada “O Pós-humano”, disponível em
On-Line) http://bit.ly/lgSa3O (Nota da IHU On-Line) nariam” as informações desejadas na

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forma de imagens e cenas (para uma “Mais importante que bastante provável que nos aguarda e
excelente história dessas técnicas de que mostra a profunda relação entre
memorização e dos “palácios da me- enumerar tecnologias os aspectos materiais e imateriais da
mória”, ver o livro de Frances Yates, cultura tecnológica contemporânea
The art of memory). Hoje, a internet particulares, é estarmos – algo que nem sempre se percebe com
funciona como nosso grande repositó- a necessária profundidade.
rio da memória (em formas visuais, au- atentos para o tipo de
ditivas, escritas...), mas nosso maior IHU On-Line – O que é a religião das
problema passa a ser, agora, como, em reconfiguração que os máquinas a que se refere em seu li-
meio à gigantesca névoa de dados que vro? Como essas máquinas ajudam a
nos cerca, chegar à informação que é aparatos próprios de compor o imaginário da cibercultu-
realmente relevante para nós, filtran- ra?
do todo o inessencial. nosso momento histórico Erick Felinto – A religião das máquinas
é um título fantasioso, inspirado, por
IHU On-Line – O que podemos com- estão produzindo” sua vez, num livro bastante fantasioso
preender por imaginário da cibercul- e estranho, La réligion des géants et
tura? la civilisation des insectes, de Denis
Erick Felinto – Imaginário é um con- “computação em nuvem” e “objetos Saurat. Ele pode ser lido tanto como
ceito complexo e profundo, que pode inteligentes”, que tipo de imaginário uma imagem ficcional (imaginemos
ser definido de muitas diferentes ma- tecnológico pode ser constatado em que as máquinas inteligentes desen-
neiras. Para simplificar, digamos que nossa sociedade? volvam uma cultura e criem sua pró-
um imaginário é, ao mesmo tempo, Erick Felinto – Essa pergunta confunde pria religião...) quanto como indicador
um repositório de imagens e uma algumas categorias. Em primeiro lu- de um aspecto essencial do imaginário
“faculdade” de criação de imagens. gar, “mobilidade” não é uma tecnolo- tecnológico contemporâneo: sua rela-
Em outras palavras, um imaginário é gia, mas sim um aspecto relevante do ção com a religião. Como já aponta-
uma tradução do mundo em imagens, paradigma tecnológico dominante na ram diversos autores, a cibercultura
compostas por mitos, símbolos, repre- contemporaneidade. O fato de que os é pródiga em produzir mitos de cunho
sentações mentais. Uma forma rápida computadores e sistemas inteligentes espiritual, como a ideia da internet
de definir o que seria o “imaginário podem estar em toda parte, a minia- como “Nova Jerusalém Celestial” ou
da cibercultura” é explicar que nossa turização dos aparatos e a possibilida- do internauta como “anjo eletrônico”.
relação com os aparatos nunca é uni- de de conexão constante compõem o Os vínculos da tecnologia com a reli-
camente (ou mesmo prioritariamen- cenário tecnológico contemporâneo e giosidade são bastante antigos, como
te) racional. Símbolos e mitos atuam fazem do tema da mobilidade um eixo demonstra o estudo de David Noble,
frequentemente como mediadores de importante. Mas obviamente, a mo- The religion of technlogy. Desde pelo
nossa relação com as máquinas, in- bilidade não é uma “tecnologia”. Em menos a Idade Média, ela é entendida
clusive (e talvez especialmente) com segundo lugar, ainda que esses três no âmbito de um projeto de transcen-
os aparatos da cibercultura, como o fenômenos possam se manifestar em dência da condição humana, de modo
computador. Aliás, poucas tecnologias conjunto, não há ligação direta neces- a nos aproximar de Deus ou mesmo su-
foram tão poderosas em gerar imagi- sária entre eles – e, portanto, não se plantá-lo. Um dos aspectos mais inte-
nários como o computador, que apa- compreende porque deveríamos tomá- ressantes do mito bíblico da Torre de
rece ao longo de nossa história – por los como balizadores especiais para Babel (mas muito pouco estudado) é
exemplo, na ficção científica – como uma definição do “imaginário tecno- sua dimensão tecnológica. Os homens
entidade dotada de vida autônoma, lógico da nossa sociedade”. Se existe desenvolvem uma nova técnica para
por vezes benéfica, por vezes malé- alguma relação importante entre os construir a torre e se acercar de Deus
fica. A história dos autômatos, como três termos é o fato de que nosso atual no céu. Mas com isso ameaçam o domí-
bem ilustra o belo estudo de Philipe paradigma tecnológico é caracteriza- nio da autoridade divina e são afligidos
Breton, À l’image de l’homme, mostra do pela ubiquidade. Não existe mais com a diferenciação linguística. Esse
nossa relação contraditória com esses centro, não há mais uma “visibilidade” mito tem ressonâncias muito relevan-
seres, que em nossas ficções frequen- específica do tecnológico (que muitas tes nos dias de hoje. Se prestarmos um
temente se voltam contra seus criado- vezes opera por trás de caixas pretas pouco mais de atenção nas grandes fá-
res. O mito de Frankenstein tem aqui ou fora do alcance de nossos olhos). bulas contemporâneas da cibercultu-
um papel estrutural. Mas eu diria que o A noção de “internet das coisas” me ra, em suas representações ficcionais,
imaginário da cibercultura tem raízes parece, nesse sentido, extremamente vamos perceber claramente uma teia
fortemente religiosas, e explico isso reveladora. Imaginemos um mundo de de valores ou noções religiosas ligadas
melhor numa das respostas seguintes. máquinas diminutas operando por toda ao mundo tecnológico. O filme Matrix,
parte, todas conectadas entre si e des- que analiso no primeiro capítulo do li-
IHU On-Line – Analisando especifica- frutando de uma espécie de “inteligên- vro, é um excelente exemplo disso.
mente as tecnologias “mobilidade”, cia compartilhada”. Esse é um futuro

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IHU On-Line – O que explica a postu- ta e microscópica que acaba nos li-
ra de idolatria, euforia e inclusive de mitando a tabular números, analisar
ingenuidade de algumas pessoas em questionários e quantificar dados.

Participe dos Eventos do IHU. A programação do segundo


relação às tecnologias como a inter- Tudo isso é muito importante, mas o
net, por exemplo? que marca a excelência num domínio
Erick Felinto – Ela se explica, pelo do saber é o surgimento desse pen-
menos em parte, por nossa colos- samento do risco, capaz de lançar
sal ignorância histórica. O discurso sobre a realidade olhares mais vas-

semestre está disponível no endereço eletrônico


da “revolução tecnológica” se fun- tos e mais fundados numa sinfonia
da numa mitologia da transcendên- de diferentes saberes articulados.
cia que surge quando esquecemos o Enquanto por aqui ficamos exausti-
passado e deixamos de relativizar o vamente discutindo os limites legíti-
“novo”. De fato, acho que o proble- mos e os fundamentos epistemológi-
ma de muitos estudos sobre a cultura cos do “campo da comunicação”, em
tecnológica, hoje, é sua extrema li- outros cenários acadêmicos estão se
mitação de escopo – tanto em termos descortinando fascinantes novos te-
temporais (a assustadora ignorância mas e objetos de pesquisa ligados às
de muitos pesquisadores em relação mídias e à cultura das mídias. Para
à história da tecnologia e da cultu- mim, um dos campos de pesquisa
ra) quanto de foco (o olhar é quase mais intrigantes que se descortinou

www.ihu.unisinos.br
sempre microscópico, incapaz de en- nos últimos anos (com origem na Ale-
xergar os problemas numa dimensão manha) é a chamada “arqueologia
panorâmica). A função de pensadores da mídia” (Archäologie der Medien).
do “risco” – ou “proféticos”, como os Creio que ela representa um antído-
define um amigo meu – é buscar esse to importante contra a amnésia his-
olhar panorâmico que muitas vezes tórica que caracteriza boa parte da
nos falta. Esses pensadores (Flusser pesquisa sobre os meios hoje, mas
é um bom exemplo) assumem muitos pouquíssima gente no Brasil sabe se-
riscos e podem certamente cometer quer de sua existência.
muitos erros. Contudo, até mesmo
seus erros são frequentemente inte- IHU On-Line – O que pensa sobre a
ressantes e reveladores. Bruno Latour, crítica de alguns teóricos que consi-
um pensador a quem muito admiro, deram que as redes sociais promo-
escreveu com Antoine Hennion um vem uma ilusão de contato?
texto sobre Walter Benjamin no qual Erick Felinto – Não creio que se tra-
critica radicalmente o famoso ensaio te de ilusão. Aliás, por que razão de-
A obra de arte na época de sua repro- vemos dizer que as relações “face a
dutibilidade técnica. O����������������
texto é sinto- face” são “autênicas” e as mediadas
maticamente intitulado How to make tecnologicamente (nas redes sociais,
mistakes at so many things at once por exemplo) são “ilusórias”? Isso é de
– and become famous for this. ������
Mesmo uma ingenuidade absurda. O ser hu-
concordando com algumas das repri- mano é uma criatura simbólica. Suas
mendas dos autores a certas teses de relações com o mundo são, desde sem-
Benjamin no ensaio, considero o arti- pre, “mediadas”. Minhas relações so-
go de Latour equivocado. Se Benjamin ciais nas redes podem ser tão ou mais
cometeu muitos erros – e ficou famoso intensas (ou superficiais) quanto mi-
por causa deles –, foi porque assumiu nhas conexões “presenciais”. E meus
grandes riscos em seu pensar. E esses contatos e relações fundamentais no
riscos e seus equívocos abriram o ca- dia a dia se dão tanto com seres huma-
minho para vários pensadores e teóri- nos quanto com os aparatos e objetos
cos depois dele. Como diz a célebre que me cercam. Está mais do que na
sentença de Bernardo de Chartres, hora de revermos o humanismo rastei-
“somos anões nos ombros de gigan- ro e o antropocentrismo ingênuo que
tes, mas por isso enxergamos melhor operam, muitas vezes, no fundo das
e mais longe”. nossas interpretações do mundo. Ser
No Brasil, a pesquisa e o texto humano é ser profundamente artificial
acadêmico no campo da comunicação e ter, desde sempre, uma relação vis-
vêm assumindo uma feição tecnicis- ceral com a tecnologia.

SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368 21


Livro da Semana
ROCHA, Maria Aparecida Marques da. Processo de inclusão ilusória:
o jovem bolsista universitário. Jundiaí: Paco Editora, 2011.

Bolsas universitárias: um processo de inclusão ilusório


Estudantes bolsistas não vivem uma fase tranquila na universidade, e não é possível se falar
em processo de inclusão completo, pondera a assistente social Maria Aparecida Marques da
Rocha

Por Márcia Junges e Patricia Fachin

“O
s jovens alunos bolsistas não vivenciam a vida acadêmica em sua totalidade, devido às
injunções pertinentes à sua condição socioeconômica cultural que impedem que isso acon-
teça na realidade concreta. O processo de inclusão acadêmica, mesmo para os alunos que
têm bolsa de estudos na universidade, não se dá de forma completa. Por isso, entendemos
que a sua permanência na formação superior é intranquila e que o processo de inclusão é
ilusório, diferentemente do que o sistema de ensino superior brasileiro preconiza e defende, isto é, que o jovem
bolsista, por ter uma bolsa de estudos, tem assegurada sua total inclusão acadêmica na universidade comuni-
tária”. As conclusões fazem parte da entrevista a seguir, concedida por Maria Aparecida Marques da Rocha na
entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, sobre seu livro Processo de Inclusão Ilusória: a condição do
jovem bolsista universitário (Jundiaí: Paco Editora, 2011).
Maria Aparecida é graduada, especialista, mestre e doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS com a tese que acaba de ser convertida em seu presente livro. É autora de
Creche para crianças de até dois anos: o que pensar (Porto Alegre: Da Casa Editora, 1997). Atualmente, leciona
na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Confira a entrevista.

IHU On-Line – A partir da sua pesqui- a sua permanência na formação supe- recursos financeiros, para manterem-
sa, quais suas conclusões em relação rior é intranquila e que o processo de se estudando.
ao acesso e permanência do jovem inclusão é ilusório, diferentemente Além disso, ao olharmos o ensino
bolsista no ensino superior? do que o sistema de ensino superior superior brasileiro e o segmento ju-
Maria Aparecida Marques da Rocha brasileiro preconiza e defende, isto venil, fica uma certeza: falta muito
– As conclusões são sempre prelimina- é, que o jovem bolsista, por ter uma ainda para que políticas públicas mais
res; não são um ponto final. Signifi- bolsa de estudos, tem assegurada sua amplas possam ocorrer no sentido de
cam um arremate num determinado total inclusão acadêmica na univer- açambarcar essas outras necessidades
tempo e espaço. Com base nos dados sidade comunitária. Compreendemos que se mostram como impeditivos de
analisados do estudo, concluímos que que tal premissa se dê aparentemente uma plena inclusão acadêmica.
os jovens alunos bolsistas não viven- de forma simplista, havendo a neces-
ciam a vida acadêmica em sua totali- sidade de se fazer uma leitura crítica IHU On-Line – Como avalia as bol-
dade, devido às injunções pertinentes sobre essa situação que reflete uma sas universitárias como Filantropia
à sua condição socioeconômica cultu- das expressões da questão social. Ter e o Programa Universidade para To-
ral que impedem que isso aconteça bolsa de estudos não constitui para dos, ProUni? Elas são compreendidas
na realidade concreta. O processo o jovem bolsista um “porto seguro” como um processo de inclusão ou in-
de inclusão acadêmica, mesmo para para permanecer na universidade, clusão ilusória?
os alunos que têm bolsa de estudos haja vista os discursos dos estudantes Maria Aparecida Marques da Rocha
na universidade, não se dá de forma que revelam em cada pronunciamen- – Entendo que o acesso ao ensino su-
completa. Por isso, entendemos que to a necessidade que têm de buscar perior via o sistema de bolsas de es-

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tudo no caso Filantropia e ProUni é to de matrícula e mensalidades, fi-
válido como um aporte importante,
“É necessário que se cando, então, mais acessível àqueles
como oportunidade de ingresso e per- que provêm das classes média e alta
manência dos jovens provenientes das
estabeleçam metas para da sociedade. Cabe aos demais, devi-
classes de menor poder aquisitivo da do à insuficiência de recursos finan-
população brasileira. Contudo, discor-
haver maior acesso e ceiros, buscarem apoios nos sistemas
do do fato de que apenas o fato de o de benefícios aos estudos superiores
jovem ter uma bolsa de estudos asse-
permanência com oferecidos pelo governo federal, es-
gure sua total inclusão na universida- tadual e municipal, ou mesmo às pró-
de, como geralmente é preconizado e
sucesso das populações prias instituições superiores de cunho
defendido pelo sistema de ensino su- privado, convertidos em programas
perior brasileiro.
de menor poder de financiamentos ou bolsas de estu-
dos parciais ou integrais. Nota-se que
IHU On-Line – Que foco as políticas
aquisitivo, como os recursos existentes são insuficien-
públicas poderiam ter para incluir os tes para o grande contingente de es-
jovens na universidade?
ocorre em outros países tudantes dos cursos de graduação que
Maria Aparecida Marques da Rocha buscam esses recursos.
– O sistema de educação de um modo
em desenvolvimento e
geral, e especificamente o ensino su- IHU On-Line – Quais os desafios da
perior, necessita da criação e geren-
desenvolvidos, sob pena educação universitária no Brasil?
ciamento de políticas públicas socio- Maria Aparecida Marques da Rocha
educacionais consistentes, em que
de avançarmos muito – Os desafios da educação universitá-
sejam levadas em conta não apenas as ria são muitos e merecem ser analisa-
necessidades reais destes jovens que
lentamente, num mundo dos com a devida atenção. Verifica-se
buscam na formação superior a possi- uma explosão de demanda pelo ensino
bilidade de ascensão social, mas tam-
que se transforma superior no Brasil, consequência do
bém a garantia de seu direito ao de- aumento no número de alunos matri-
senvolvimento como ser humano mais
rapidamente” culados e concluintes no ensino mé-
completo, que busca conhecimento e dio. Essa elevação da demanda provo-
IHU On-Line – Como avalia o processo
realizações mediante a continuidade ca uma violenta pressão na sociedade
de inclusão nas universidades brasi-
dos estudos. O fato de uma conside- pelo aumento de vagas na educação
leiras? Desde a formação das univer-
rável parcela da população brasileira superior. Mesmo com uma grande ex-
sidades no país, percebe avanços?
ter baixo poder aquisitivo faz com que pansão do ensino superior brasilei-
Maria Aparecida Marques da Rocha
os jovens, provenientes destes extra- ro, principalmente entre os anos de
– A democratização do ensino supe-
tos da população, não tenham como 1989 e 2002, não foi possível cumprir
rior, nos últimos anos, tem apresen-
escapar de tal situação, necessitando a meta prevista no Plano Nacional de
tado alguns avanços. Entretanto, as
de bolsas de estudos, bem como de Educação – PNE, que é de ter 30% dos
formas de acesso e permanência do
auxílio para locomoção e alimenta- jovens com idade entre 18 e 24 anos
jovem neste nível de ensino apresen-
ção. Ainda assim para muitos, estas matriculados na educação superior.
tam inúmeras limitações, principal-
condições não seriam as mais favorá- Enfim, a necessidade de incremento
mente daqueles oriundos das classes
veis. Provavelmente, se uma parcela substancial de recursos financeiros em
populares. Mesmo com iniciativas do
deste segmento jovem da população políticas socioeducacionais mais bem
MEC como o ProUni, Reuni, ações
estivesse estudando em universidades definidas e comprometidas é o cami-
afirmativas entre outros, ainda assim
públicas, permaneceria com algumas nho possível para a reversão do qua-
é desalentador o tamanho da exclu-
destas dificuldades, devido à pauperi- dro a médio e longo prazo. Fato que só
são universitária. A permanência na
zação da população. poderá ocorrer com decisões políticas
universidade e sua conclusão com su-
realmente comprometidas com o de-
cesso, tanto na universidade pública
senvolvimento do país e que visem à
 ProUni: Programa Universidade para Todos como privada, apresenta exigências
foi instituído em 2004 pelo Governo Federal concretização de justiça social.
de custeio que vão além do pagamen-
do Brasil, pela Medida Provisória (MP) nº 213,
de 10/09/2004, posteriormente convertida na  Reuni: Plano de Reestruturação e Expansão IHU On-Line – Em que consistiria, na
Lei nº 11.096, de 13 janeiro de 2005 e regula- das Universidades Federais visa integrar todas
mentado pelo Decreto nº 5.493, de 18 de ju- as universidades federais a uma hierarquia sua avaliação, uma universidade in-
lho de 2005. O programa destina-se, conforme única de administração, além da ampliação clusiva?
disposto no Caput do art. 1º do Decreto supra- da mobilidade estudantil, com a implantação Maria Aparecida Marques da Rocha –
citado, a conceder bolsas de estudo integrais de regimes curriculares e sistemas de títulos
e parciais de 50% ou de 25%, para estudantes que possibilitem a construção de itinerários Quando ela trata a educação como um
de cursos de graduação ou sequenciais de for- formativos, mediante o aproveitamento de direito, levando em conta a emancipa-
mação específica, em instituições privadas de créditos e a circulação de estudantes entre ção do sujeito. No Brasil do século XXI
ensino superior, com ou sem fins lucrativos. instituições, cursos e programas de educação
(Nota da IHU On-Line) superior. (Nota da IHU On-Line) ainda somos carentes quanto ao res-

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peito das necessidades básicas, como
saúde, segurança, moradia, educação,
embora – mesmo que se constituam em
direitos – ainda estejam no patamar de EAD - Jesus e o reino no Evangelho
serem minimamente cumpridos. Por-
tanto, são desrespeitados, apesar de de Marcos - 2011
toda a legislação social vigente que
ampara, justifica e preconiza-os num
Estado democrático.
É necessário que se estabeleçam
metas para haver maior acesso e
permanência com sucesso das popu-
lações de menor poder aquisitivo,
como ocorre em outros países em
desenvolvimento e desenvolvidos,
sob pena de avançarmos muito len-
tamente, num mundo que se trans-
forma rapidamente. O governo reco-
nhece que a tarefa é árdua, uma vez
que está condicionada à conjuntura
social e econômica, além da vontade
política.

IHU On-Line – Deseja acrescentar


algo?
Maria Aparecida Marques da Rocha
– O estudo realizado resultou no li-
vro Processo de Inclusão Ilusória: o
jovem bolsista universitário, e tra-
balhou com o conhecimento gerado O INÍCIO DO EVANGELHO DE
pela existência de dois conceitos
de moratória juvenil, vital e social. MARCOS (Mc 1,1-15)
Entendo que estes conceitos podem
transformar-se em importante aliado
quanto ao uso de critérios para pes-
quisas futuras sobre juventude, bem Contexto histórico e literário do
como para a organização de políticas
sociais voltadas à juventude, uma Evangelho de Marcos
vez que se torna mais presente e cla-
ra a ideologia que permeia a produ-
ção sobre juventude.
Por fim, o livro compartilha um
conhecimento específico sobre aque-
les jovens que têm bolsa de estudos e De 29 de agosto a 04 setembro – Jesus, o
que, ao olhar de muitos, se mostram
como sujeitos tidos por “terem muita Messias, e as expectativas messiânicas
sorte”, devido à bolsa de estudos. Cal-
cadas na pesquisa realizada, entendo (Mc 1, 1-15)
que ela não nega isso, mas nos remete
a ir além, quando possibilita a discus-
são de qual é a real qualidade desta
inclusão, atenta aos condicionamentos Horário: Ensino a distância (EAD) - Livre
pertinentes à condição de juventude
no Brasil, uma vez que leva o jovem
bolsista das classes de menor poder
aquisitivo a ingressar mais rapidamen- Informações em www.ihu.unisinos.br
te no mundo adulto.

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Confira as publicações do
Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Elas estão disponíveis na página eletrônica


www.ihu.unisinos.br

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Os contornos e nuances de uma mídia
regulamentada: um caminho mais democrático
Por Aléxon Gabriel João�*

Mesmo sendo a liberdade de expres- Constituição Federal de 1988 (artigos


são e informação um ato democrático 221, 222 e 223). Nela já se abria a
que todos deveriam exercitar, ainda possibilidade para se criar um Conse-
existem muitos que, além de desco- lho de Comunicação Social, instituído
nhecer, passam a acreditar que exigir a pelo Congresso Nacional (art. 224)
regulamentação da mídia abriria lacu- como órgão auxiliar (e hoje inope-
nas para restringir tais liberdades. Isso rante) da Câmara dos Deputados e do
é resultado de anos de desinformação, Senado Federal. No texto constitu-
eficiente propaganda das grandes em- cional, o papel das leis da mídia e da
presas de comunicação para manter imprensa é servir de instrumento re-
e prosperar sua posição hegemônica, gulador das atividades dos veículos de
resultando no confortável oligopólio comunicação e definir os limites entre
do setor da Comunicação Social no o direito à expressão e à informação e
Brasil. Nesse mesmo viés, é quase que os interesses individuais de grupos so-
naturalizado o movimento feito pelos ciais, empresas, pessoas e entidades.
parlamentares em legislar em causa Criar mecanismos reguladores signifi-
própria, concedendo aumentos sig- ca impedir a propriedade cruzada e
nificativos e privilégios a si próprios, concentração e controle dos meios de
assim como não informar a população comunicação nas mãos de poucas fa-
sobre questões que atingem seus inte- mílias e oligarquias políticas; garantir
resses particulares. Tais interesses em a pluralidade e diversidade de ideias
geral são monopolistas, antidemocrá- e incentivar a competição entre em-
ticos e, na maioria das vezes, estão presas produtoras de bens simbólicos
em sintonia com os grandes grupos e modelos não empresariais desta
comunicacionais do país que sempre mesma produção. Vale lembrar que
mantiveram uma relação estreita com um novo marco regulatório abrange-
o poder, salvo raras exceções. Estas, ria além da radiodifusão (um bem pú-
na contramão dessa tendência, aca- blico), também as novas tecnologias
bam se constituindo na voz dissonante (banda larga, internet, telefonia mó-
desse jogo. vel, etc.).
Mas vale ressaltar, a regulamen- Estados de capitalismo avançado
tação da mídia está prevista desde a e com democracias formais está-

* Jornalista, mestre em Comunicação Social, integrante e pesquisador do Grupo de Pesquisa comuni-


cação, Economia Política e Sociedade – Cepos, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comuni-
cação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e discente na Especialização em TV Digital.
Email: <alexon_gabriel@ig.com.br>.

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veis possuem órgãos fiscalizadores,
como é o caso da França que, desde
“Estados de capitalismo Antes disso, existem questões-chave
que normatizam qualquer iniciativa
1881, possui a sua Lei de Imprensa,
influenciando outros países, como
avançado e com de regulamentar o setor. A primei-
ra delas é reconhecer a centralida-
Portugal. Na lei francesa a liberda-
de de expressão e informação é ga-
democracias formais de da palavra “público” em toda e
qualquer iniciativa de estruturação
rantida, com a livre circulação de
jornais sem regulação governamen-
estáveis possuem órgãos de um sistema comunicacional de-
mocrático. No caso, significa criar,
tal, assim como a internet. Portugal
criou há cinco anos a Entidade Re-
fiscalizadores, como é o mesmo que em disputa com um sis-
tema comercial hegemônico, outros
guladora para a Comunicação Social
que, além de ajudar na construção
caso da França que, dois sistemas complementares, o es-
tatal e o público não estatal de rádio
de políticas públicas do setor, cria
e fiscaliza concessões de TV, rádio,
desde 1881, possui a sua e TVs abertas, com qualidade técni-
ca e de programação e com fontes
telefonia e telecomunicações em ge-
ral, assim como serve de instrumen-
Lei de Imprensa” de financiamento garantidas. A ou-
tra é efetivamente fazer com que
to regulador de jornais impressos, as concessões sejam de fato outor-
blogs e sítios independentes. Nos gas de serviço público, e não, como
EUA há uma série de regras contidas hoje, licenças frouxas, que tornam
nas mais diferentes legislações e não proibição de monopólio e oligopó- o uso das radiofrequências uma ati-
uma lei de imprensa específica. A de lio no sistema de comunicação (art. vidade quase privada. Assim como
maior destaque é a famosa primei- 220). reconhecer que o momento atual de
ra emenda da constituição, onde a Um país democrático, garantidor transição tecnológica possibilita au-
liberdade de expressão é garantida da plena voz do seu povo deve tra- mentar os atores estatais, públicos e
como um dos direitos fundamentais balhar no sentido de construir ferra- privados, que são capazes de prover
da sociedade. mentais eficazes que sejam capazes a sociedade com as mais variadas
Já no Brasil, o único instrumento de promover a cidadania e o bem- programações informativas, cultu-
fiscalizador do setor – a Lei da Im- estar. Isso passa necessariamente rais, jornalísticas e entretenimento.
prensa – foi derrubado pelo Superior pela efetiva construção de políticas Não se pode pensar a comunica-
Tribunal Federal – STF o que deixou públicas eficientes e que estejam ção sem um aparato de regulação
um enorme vácuo nessa área, mo- em sintonia com os anseios da po- eficaz e permeado pela sociedade
tivando o jurista e professor Fábio pulação. Hoje, por exemplo, vive-se civil organizada. Se estas diretrizes
Konder Comparato a ajuizar uma um momento impar com o adven- forem seguidas pelos agentes envol-
Ação Direta de Inconstitucionalida- to da TV digital. Com ela se traz à vidos, haverá no futuro próximo ou-
de por Omissão. Nela, o STF se veria tona a necessidade de reformular a tra concepção de cidadania, susten-
obrigado a regulamentar os direitos legislação, criando um marco regu- tada em pilares democráticos mais
de resposta na mídia, os princípios latório geral, superando, a partir de sólidos e voltada para as maiorias.
dos meios de comunicação e a regio- princípios comuns, a contraditória Somente assim poderemos dizer que
nalização da produção (art. 221), e legislação brasileira para a comu- estamos no caminho de um país de-
a omissão que existe em relação à nicação social e telecomunicações. mocrático e mais igualitário.

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Destaques On-Line
Essa editoria veicula entrevistas que foram destaques nas Notícias do Dia do sítio do IHU.
Apresentamos um resumo delas, que podem ser conferidas, na íntegra, na data correspondente.

Entrevistas especiais feitas pela IHU On-Line e disponíveis do Programa de Justiça Econômica de Amigos da Terra In-
nas Notícias do Dia do sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br) ternacional
de 28-6-2011 a 03-6-2011. Confira nas Notícias do Dia de 30-06-2011
Acesse no link http://bit.ly/jI0VCl
Quanto vale um retuite? Ao promover e financiar a energia suja, o Banco Mundial
Entrevista especial com Gabriela Zago, jornalista, doutoran- é colocado como um dos principais culpados pela crise
da em Comunicação e Informação pela UFRGS climática global pelo ativista ambiental. “O Banco Mundial
Confira nas Notícias do Dia de 28-06-2011 é, ao impor seu pacote paradigmático de soluções, um dos
Acesse no link http://bit.ly/kmLBiF principais envolvidos nas mudanças climáticas em nível glo-
Ao encarar o ato de retuitar como uma moeda de troca na bal”.
rede social, a jornalista aponta que existe uma economia
do retuite que busca determinados valores, geralmente as- ‘’O Código Florestal cria o caminho ‘legal’ para concluir a
sociados a bens privados. grilagem da terra’’
Entrevista especial com Mauricio Torres, professor de Ge-
Militares ameaçam religiosos em Goiás ografia na USP
Entrevista especial com Tomás Balduíno, bispo emérito da Confira nas Notícias do Dia de 01-07-2011
diocese de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Acesse no link http://bit.ly/iLm4HM
Pastoral da Terra, e Geraldo Labarrère Nascimento, padre “Entendo que a pesquisa nas situações de conflito não pode
jesuíta, diretor da Casa da Juventude de Goiânia, mem- se limitar ao modelo onde o pesquisador ocupa o papel de
bro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Ad- sujeito, como agente das ações de perguntar e registrar, e o
olescente e do Conselho Municipal de Assistência Social, grupo estudado se limita a ser objeto da pesquisa”, acentua
ameaçado de morte. o pesquisador.
Confira nas Notícias do Dia de 29-06-2011
Acesse no link http://bit.ly/lP4sgH O caso Dom Morris e a tensão entre liberdade e obediência
Assassinatos sem fundamento, um grande número de de- Entrevista especial com Paul Collins, historiador e escritor
saparecidos e uma infinidade de pessoas agredidas sem australiano
motivo. Todos esses abusos têm sido praticados pela polícia Confira nas Notícias do Dia de 03-07-2011
de Goiás. Alvo de denúncias tanto por parte da população Acesse no link http://bit.ly/jfbhVC
quanto por parte da Igreja local, os militares têm não ap- A diocese de Toowoomba na Austrália abrange uma área de
enas defendido sua forma violenta de atuar como também 488.000 quilômetros quadrados, quase uma vez e um terço
têm criado estratégias de ameaças que vão desde plantar o tamanho da Alemanha. Sua população é de 244.000 pes-
informações inexistentes quanto pressionar bispos para soas, das quais 26% são católicos. Seu pastor, D. William M.
transferirem os religiosos que têm defendido as vítimas da Morris, buscava soluções para equilibrar a balança entre o
polícia. déficit de vocações e as grandes dimensões geográficas e
populacionais de sua diocese. Mas foi removido pelo Vati-
Banco Mundial: o principal financiador da crise climática cano em maio deste ano por defender saídas consideradas
global extremas, como a ordenação de mulheres e de homens
Entrevista especial com Sebastian Valdomir, coordenador casados.

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SÃO LEOPOLDO, 04 DE JULHO DE 2011 | EDIÇÃO 368 29
IHU Repórter

Ronaldo Henn
Por Graziela Wolfart | Foto Arquivo Pessoal

“S
ou curioso e um tímido espalhafatoso, como diz a canção do Cae-
tano Veloso”. É desta forma que se autodefine o professor Ronaldo
Henn, do PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos. Nascido
em Caxias do Sul-RS, teve a infância marcada por fortes experi-
ências, que contribuíram para a formação de sua personalidade.
Leia, a seguir, aspectos da trajetória de vida deste pesquisador que adora caminhar,
ir ao cinema e estar com os amigos.

Origens e lembranças da infância – prio dinheiro. Adorava ir ao cinema e minha vida vivi na situação de poder só
Nasci em Caxias do Sul. Minha mãe era precisava dinheiro para isso. Então, estudar. Conclui o mestrado em 1994 e
operária da indústria têxtil e meu pai vendia pastéis nas portas de fábrica, em 1996 voltei para a PUC-SP para fa-
era funcionário da CEEE. Éramos uma vendia picolés e ainda catava material zer o doutorado. Eu já trabalhava na
família humilde, com poucos recursos. reciclável. Mas esses trabalhos nunca Unisinos e havia um incentivo da uni-
Meu pai faleceu muito cedo, quando prejudicavam meus horários de estu- versidade de que seus professores se
eu tinha apenas dois anos, vítima de dos. Quando eu estava na 8ª série do capacitassem. Então, fui beneficiado
um acidente. A morte do meu pai foi ensino fundamental, consegui um em- por isso e pude fazer meu doutorado
uma marca muito profunda na minha prego de office-boy e passei a estudar financiado pela própria universidade.
infância. Além da perda, teve também à noite.
o impacto econômico. Minha mãe teve Jornalismo e carreira profissional
que dar conta de sustentar a mim e a Formação – Iniciei meus estudos – Como eu gostava de ler jornal, com
minha irmã mais velha. Mesmo nesse em escola pública, em Caxias do Sul, 12 anos de idade fiz uma assinatura do
contexto sempre aprendemos que se- na época em que o ensino público era Correio do Povo, com o dinheiro que eu
ria muito importante que estudásse- de qualidade. Lembro que a professo- ganhava vendendo as coisas que con-
mos. Lembro-me que havia um senso ra nos levava para a biblioteca da es- tei. Eu tinha aquele idealismo de que
comunitário entre os vizinhos, de soli- cola, para ficarmos lendo, o que me o Jornalismo poderia mudar o mundo.
dariedade entre as pessoas do bairro. estimulou o gosto pela leitura. Estudei Isso me fez escolher o curso. Ainda du-
Outra questão marcante da minha in- em Caxias até parte do ensino médio. rante a faculdade comecei a trabalhar
fância é que sou da primeira geração Depois me mudei para São Leopoldo e no Jornal VS. Também fiz freelancer na
que cresceu tendo um televisor den- terminei o ensino médio no Colégio São revista Contigo e IstoÉ. Quando termi-
tro de casa. Mesmo assim, as pessoas Luís. Então, fiz a graduação em Jor- nei os créditos do mestrado, voltei de
se reuniam em volta da mesa ou nos nalismo na Unisinos e tive aulas com São Paulo, me instalei em Porto Alegre
pátios para contarem histórias. Outro professores admiráveis da área das ci- para concluir a dissertação, e comecei
elemento muito presente dessa época ências humanas que foram muito im- minha carreira no ensino acadêmico.
é o rádio. Ouvíamos a Rádio Princesa, portantes na minha formação. Quatro Fui contratado pela Ulbra, para a pri-
com uma programação musical de al- anos depois que me formei, em 1988, meira turma de Jornalismo, onde fui
tíssima qualidade. Muito do meu gosto decidi fazer mestrado e escolhi a PUC- professor até 1994. Nesse meio tempo
musical veio com essa matriz. SP que abrigava um pensamento sobre também entrei na Unisinos como pro-
comunicação muito instigante. Conse- fessor, onde estou até hoje. Na época
Trabalho desde cedo – Ainda quan- gui uma bolsa integral da Capes, que do meu ingresso, recém havia sido im-
do criança, de 8 a 12 anos, tive que me pagava o curso e também me ga- plementado na universidade o mestra-
trabalhar para poder ter meu pró- rantia um salário. Pela primeira vez na do que, na ocasião, era de semiótica e

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depois deu origem ao que é o PPG pais torturadores do país. Eu já leiros faz, que é o self-service
em Ciências da Comunicação hoje. tinha vínculos muito fortes com religioso, colhendo um pouco de
Retornei do doutorado em 2000, ideias democráticas, com uma in- cada crença e fazendo um mix
entrando automaticamente para clinação para a esquerda. Então, para construir a minha espiritu-
o corpo docente de pesquisadores estar naquele lugar era bastante alidade. Minhas crenças são para
do PPG. Nessa trajetória, uma das complicado. Evidentemente que mim, para minha vida íntima e
experiências mais importantes eu tinha que ficar mudo em rela- para meus valores. Não faço delas
que tive na Unisinos foi o grupo ção a tudo isso. Mas no fim deu uma arma de difusão de ideias.
de pesquisa transdisciplinar sobre tudo certo.
criminalidade e violência. Foi de- Um sonho – Escrever ficção.
safiador para nós, pois consegui- Cotidiano – Atualmente, moro
mos fazer, entre outras coisas, um em Porto Alegre. Eu e minha irmã Unisinos – Uma instituição que
diagnóstico sobre a violência no nos revezamos nos cuidados com cresceu muito nos últimos anos,
município de São Leopoldo. Infe- nossa mãe, que já tem 93 anos. sobretudo na qualificação da pes-
lizmente, esse grupo acabou sen- Minha estrutura doméstica atual- quisa, da pós-graduação e desse
do extinto. mente é vinculada a essa ques- patamar de excelência que se es-
tão. pera de uma universidade. Está vi-
Serviço militar – Tive que in- vendo um momento de mudanças
terromper a faculdade de Jorna- Autor - Walter Benjamin. administrativas, de gestão, e que
lismo por um tempo, porque em eu acompanho com muita atenção
1979 entrei para o quartel. Servi Livro – Grande Sertão: Vere- para ver onde vai dar.
no 16º Batalhão, ao lado da Uni- das, de Guimarães Rosa.
sinos, durante um ano inteiro. Foi IHU – É um dos campos mais in-
um período muito complicado. Mi- Filme – Amarcord, de Federico teressantes que a Unisinos tem. É
nha inserção no quartel foi difícil Fellini. um espaço de discussão e difusão
por questões políticas. 1979 foi o de ideias de grande profundidade
ano da chamada “abertura”. Ti- Nas horas livres – Caminhar, ir e diversidade. É o lugar da uni-
vemos a anistia, eclodiram greves ao cinema e estar com os amigos. versidade, hoje, onde há um pen-
no ABC e aqui na região também. samento diverso e de vanguarda,
Era um momento politicamente Política – Hoje está muito me- com um nível de excelência muito
fervilhante e os quartéis ainda lhor do que já foi. Vivemos num grande. Um espaço que deve ser
estavam muito ligados à perspec- espaço de liberdade e de avanços mantido e consolidado pela im-
tiva mais dura do regime militar. democráticos muito significativos, portância que tem.
O comandante deste quartel era apesar de todos os problemas que
o Carlos Alberto Brilhante Ustra, ainda possuímos. Quem viveu o Leia Mais...
que liderava as listas dos princi- período de ditadura e vive hoje
>> Ronaldo Henn já concedeu ou-
 Carlos Alberto Brilhante Ustra: coro- esse aperfeiçoamento das insti-
tras entrevistas à IHU On-Line, dentre as
nel reformado do Exército Brasileiro, ex- tuições democráticas, é incom- quais:
comandante do DOI/CODI/IIEx de 1970 a parável a sensação de estar num
1974 e o primeiro oficial brasileiro a ser * A expansão da violência no interior do RS:
declarado torturador em uma sentença bom momento político.
BR-116 é rota para operações criminosas.
judicial. O sítio do IHU (www.ihu.unisi- Entrevista especial com Ronaldo Henn,
nos.br) publicou uma série de matérias Religião – Sou católico, mas publicada no sítio do IHU em 30-03-2008 e
sobre Brilhante Ustra. Acesse e leia mais. disponível em http://bit.ly/kfFs6H
(Nota da IHU On-Line) faço o que a maioria dos brasi-

Ciclo de Estudos: Repensando os Clássicos da Economia – Edição 2011

Data de início: 29 de agosto de 2011

Data de término: 07 de novembro de 2011

Local: Sala Ignacio Ellacuría

e Companheiros – IHU

Informações em www.ihu.unisinos.br
Destaques
Notícias do Dia
Nas Notícias do Dia você confere matérias, artigos, entrevistas e reportagens veiculadas na mídia do
Brasil e do mundo, em uma seleção preparada pela equipe do IHU em parceria com o Centro de Pesquisa
e Apoio do Trabalhador – Cepat, de Curitiba. Elas são publicadas diariamente, de segunda a segunda, no
sitio do IHU. E são atualizadas a partir das 7h da manhã. Antes das 9h é expedida a ‘newsletter’. Para
recebê-la, basta clicar no ‘cadastre-se’ na primeira página do sítio do IHU.

Entrevista do Dia
A Entrevista do Dia é uma produção especial do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em parceria com
o Centro de Pesquisa e Apoio do Trabalhador – Cepat, de Curitiba. Diariamente, o sítio do IHU publica
uma entrevista inédita, de segunda a segunda, debatendo temas atuais.

Conjuntura da Semana
Semanalmente, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU publica uma conjuntura de temas atuais, redigida em
fina sintonia com o Centro de Pesquisa e Apoio do Trabalhador Cepat, parceiro estratégico do IHU. A análise
da conjuntura da semana é uma (re) leitura das “Notícias do Dia” publicadas diariamente no sítio do IHU.

Revista IHU On-Line


Semanalmente publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a revista IHU On-Line veicula entrevistas
inéditas sobre temas da atualidade, sempre com um tema de capa que ouve vozes de vários especialistas
sobre um mesmo assunto.

Outras publicações do IHU


Cadernos IHU – com periodicidade bimestral, divulgam pesquisas e trabalhos
de conclusão, abordando os temas ética, trabalho e teologia pública.
Cadernos IHU ideias - apresenta artigos produzidos pelos palestrantes dos
eventos promovidos pelo IHU. Com diversidade dos temas, caráter científico,
mas de agradável leitura, tem periodicidade é quinzenal.
Cadernos Teologia Pública – divulga artigos que apresentam a contribuição
da teologia com os debates que se desenvolvem na esfera pública da socie-
dade e na universidade, com abertura ao diálogo com as ciências, com a Apoio:
cultura e as religiões. É publicado mensalmente.
Cadernos IHU em Formação - de periodicidade mensal, em formato digital,
reúne entrevistas e textos produzidos pelo IHU e já veiculados tanto na Re-
vista IHU On-Line quanto nas Notícias e Entrevistas do Dia.