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doi: 10.4025/bolgeogr.v30i2.

11325

A HISTÓRIA ORAL COMO INSTRUMENTO NO


DESENVOLVIMENTO E ELABORAÇÃO DA PESQUISA

Oral History as a tool in the development of research and development

Josué Carneiro

Universidade Estadual de Maringá


Programa de Pós-Graduação em Geografia - Mestrado
Avenida Júpiter, 442 – Centro, Quinta do Sol, Paraná – Brasil. 87265-000
josufati@hotmail.com

RESUMO

Este trabalho pretende apresentar uma análise sobre a importância da utilização da história oral como procedimento
metodológico em uma pesquisa quando o assunto abordado nos leva a tentar entender de forma prática e empírica fatos
ocorridos em épocas anteriores que envolveram como agentes principais “pessoas”. Quando nos referimos a fatos e
pessoas como temas centrais de uma pesquisa devemos lembrar que é necessário haver uma ponderação entre o que é
relatado e o que aconteceu de fato. Este tipo de análise foi importante para o desenvolvimento de pesquisa realizada
para a elaboração da dissertação de mestrado junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia na Universidade
Estadual de Maringá (UEM). A pesquisa teve como tema principal as modificações ocorridas em Quinta do Sol durante
as décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990. O trabalho envolveu não só interesses econômicos em âmbito local, regional e
nacional, mas também investigou as profundas transformações no modo de vida das pessoas que moravam no município
na época. Portanto, para entender o que aconteceu neste espaço e com os seus moradores destacamos a relevância da
história oral como procedimento metodológico, abrangendo os relatos, fotos, documentos e outros. Procuramos
valorizar cada fato ou dado apresentado para o desenvolvimento da pesquisa.

Palavras-Chave: Geografia. História Oral. Procedimento Metodológico. Pesquisa.

ABSTRACT

This work intends to present an analysis under the importance of the use of oral history as methodological procedure in
a search when the matter raised leads us to try to understand and practical way empirical facts occurred in previous
seasons involving as main agents "people". When we talk about facts and persons as central themes of a search we must
not forget that we need a balance between what is reported and what has happened in fact. This analysis was important
for the development of research carried out for drawing up the master's thesis along the Program of Post-Graduation in
Geography in Universidade Estadual de Maringá (UEM). The research had as main theme of the dissertation the
changes in farm the sun during the 1960, 1970.1980 and 1990. The work involved not only economic interests in the
local, regional and national level, but also caused profound changes in life of people that dwelt in the municipality in
time. Therefore, to understand what happened in this area and with their inhabitants we highlight the importance of oral
history as procedure methodological, covering the reports, photographs, documents and other. We appreciate each fact
or given submitted for the development of research.

Key-words: Geography. Oral history. Procedure Methodological. Search.

1 INTRODUÇÃO pioneiros e agentes, que passaram por todas


as transformações ocorridas conforme
Para a realização e concretização deste disposto neste trabalho.
trabalho foram realizadas cinco entrevistas As entrevistas realizadas privilegiaram
com habitantes do município de Quinta do diversos segmentos sociais do município, os
Sol, habitantes estes que são considerados quais são trabalhadores rurais, comerciantes,

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profissionais liberais, proprietários de terras. uma das ferramentas as entrevistas, é possível
A escolha por diversos tipos de entrevistados reconstruir as trajetórias de vida destas
e profissões para os referidos relatos deu-se pessoas e, assim, compreender em um foco
em função das diferentes perspectivas que bastante aproximado o que ocorreu. Pode-se
cada segmento social e profissional tem sobre ainda constatar que com esse procedimento
essas questões históricas - que possibilita o existe a possibilidade do estabelecimento de
enriquecimento da pesquisa -. um diálogo entre o entrevistado e o
Pesquisas que procuram enfocar a pesquisador, onde será possível alcançar um
perspectiva humana nos processos de ponto de intersecção em que ambos passam a
transformações ocorridos precisam contar compartilhar algo novo.
com procedimentos metodológicos que dão a Neste sentido, para explicitar a
palavra aos agentes envolvidos. Neste sentido, importância da utilização da história oral
destacamos a história oral ou a história de como instrumento teórico no
vida como procedimento no trabalho de desenvolvimento da pesquisa abordaremos a
pesquisa desenvolvido e que serve de base importância das entrevistas orais realizadas
para o desenvolvimento deste texto. Talvez com pioneiros de Quinta do Sol que tiveram
não haja procedimento metodológico suas trajetórias de vida transformadas na
equivalente que nos permita aproximação condição de vida no campo e da vida na
entre o tempo atual e o que aconteceu cidade durante os anos 1960, 1970, 1980 e
anteriormente. 1990 e que vivenciaram essas transformações
Os relatos serviram para compreender num âmbito social, econômico e cultural, mas
o contexto histórico da condição humana e que ao relatar fatos, curiosidades por eles
social, tanto anterior, quanto a atual dos vividos aproximam a realidade da teoria
agentes envolvidos no processo de legitimando esse procedimento metodológico
transformação ocorrido no município de apontado como instrumento de ligação entre
Quinta do Sol durante as décadas de 1960, fatos ocorridos anteriormente e os agentes que
1970, 1980 e 1990. Como a maioria dos viveram esse fatos. Em um primeiro momento
municípios do Noroeste, Quinta do Sol passou foi necessário fazer uma pesquisa acerca da
por modificações econômicas diversas. As chegada desses pioneiros a Quinta do Sol
culturas agrícolas foram substituídas, através de informações, fotos, documentos
incluindo um processo de modernização com colhidos das pessoas que ainda residem no
uso mais intensivo de capital e tecnologia. Do município e, ainda, sistematizar as
ponto de vista social, esse processo significou informações coletadas e relacioná-las com o
profundas mudanças na moradia, nas relações que está posto, criando assim um caráter
de trabalho, enfim, nas condições sociais material, com maior concretude que irá
como um todo. Os processos locais subsidiar o trabalho.
acompanham a tendência nacional de inversão
do local de moradia da população do campo 2 A HISTÓRIA ORAL
para a cidade resultado de um processo que
atingiu uma grande parcela dos pequenos A história oral desenvolveu-se
municípios paranaenses. As entrevistas inicialmente após a II Guerra Mundial, tendo
ajudaram a entender como esse processo como grande marco a criação do primeiro
atingiu os moradores do município de Quinta projeto formal de História Oral, na
do Sol, como estão vivendo atualmente, onde Universidade de Columbia, Nova York
estão morando, o tipo de relação de trabalho (GRELE, 2001). Deve-se registrar que esse
que vivenciam e o que esperam do futuro, desenvolvimento deu-se através da
levando em consideração todo o processo combinação dos avanços tecnológicos, entre
pelo qual passaram. eles o gravador e a necessidade de se
Ao utilizar a história oral como conhecer as experiências vividas por ex-
instrumento teórico necessário, tendo como combatentes, familiares e vítimas da guerra,

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através dos relatos orais. “De início a História miscigenação, os grupos marginalizados e
Oral combinou três funções complementares: excluídos (MEIHY, 2000, p. 17).
registrar relatos, divulgar experiências A História na própria essência da
relevantes e estabelecer vínculos com o palavra nos remete a fatos, pessoas,
imediato urbano, promovendo assim um realizações, invenções e muitos outros itens
incentivo à história local e imediata” que foram produzidos e continuam em
(MEIHY, 1998, p. 22). Para Joutard (2001), a evolução pelo ser humano. Por isso, é muito
primeira geração de historiadores orais surgiu importante o debate e a análise da
nos Estados Unidos nos anos de 1950, com o especificidade da história oral pelos
propósito de reunir material para historiadores estudiosos para ter clareza quanto ao seu uso
futuros. Tendo ainda como característica nas pesquisas. No entanto, a História Oral na
privilegiar a Ciência Política e se ocupar da sua prática quando colocada em uso, talvez
história dos “notáveis”. Entretanto, na Itália a carregue os caracteres como uma disciplina,
pesquisa oral foi utilizada para reconstituir a pois seria impossível chegar aos resultados
cultura popular, e no México os arquivos esperados sem passar pela história de vida de
orais registravam as memórias e recordações uma pessoa - no caso a História como
dos chefes da revolução mexicana, sendo disciplina -, mas também não poderíamos
estes considerados por Joutard (2001), como a utilizá-la em qualquer que seja o objetivo sem
segunda geração dos historiadores orais. determinarmos um método a ser seguido
Esta segunda geração foi marcada por sistematicamente para atingir objetivos mais
uma nova concepção da oralidade, se amplos e específicos - nesse caso caberia a
reportando aos relatos orais das minorias história oral como método -; entretanto, no
étnicas, dos iletrados, dos marginalizados ato da abordagem pelos estudiosos,
entre outros. É uma história vista como pesquisadores, escritores e outros diretamente
alternativa a todas as construções no objeto de estudo ou pesquisa é necessário
historiográficas baseadas no escrito. criar e desenvolver técnicas eficazes de
Desenvolveu-se à margem da Academia, aproximação, pois, não há como extrair
baseando-se implicitamente na idéia de que se hipóteses, experiências, relatos, de pessoas
chega à “verdade do povo” graças ao sem um contato direto com a mesma, nesse
“testemunho oral” (JOUTARD, 2001, p. 201). caso poderíamos enfatizar a importância da
No Brasil em 25 de junho de 1973, foi técnica adotada para isso - caberia a História
criado o Centro de Pesquisa e Documentação oral com uma técnica -, como salienta Alberti
de História Contemporânea do Brasil da (1989, p. 52) quando se refere a esse debate:
Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV),
que buscava através dos relatos orais “pensar Consiste, então, de um método de pesquisa
(histórica, antropológica, sociológica [...]) que
e entender melhor o Brasil daquele período” privilegia a realização de entrevistas com
(CAMARGO, 1999, p. 23). Cabe pontuar que pessoas que participaram de, ou testemunharam
a história oral no Brasil assim como no acontecimentos, conjunturas, visões de mundo,
restante da América Latina, principalmente como forma de se aproximar do objeto de
nos países que viveram governos ditatoriais, estudo. Trata-se de estudar acontecimentos
históricos, instituições, grupos sociais,
teve sua incorporação associada ao processo categorias profissionais, movimentos, etc [...]).
de redemocratização, o que diferencia o papel
da história oral latino-americana da européia No entanto, as idéias, opiniões,
ou norte-americana. Outra diferença entre, a tendências, contradições continuaram a ser
história oral brasileira e a “história oral desenvolvidas para um entendimento mais
primeiro - mundista” -, era o fato de não preciso do uso da História oral como
podermos utilizar os mesmos critérios “disciplina”, “método” ou “técnica”
analíticos usados pelos autores estrangeiros denominada História oral, como descreve
para estudar, por exemplo, a escravidão, a alguns estudiosos como Ferreira e Amado
(2001):

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Em nosso entender, a História Oral, como todas pudéssemos compreender, desde um foco
as metodologias, apenas estabelecem e mais aproximado, o que significou o processo
ordenam procedimentos de trabalho - tais como
os diversos tipos de entrevistas e as implicações
de urbanização na perspectiva da condição de
de cada um deles para a pesquisa, as várias vida para a sociedade envolvida neste
possibilidades de transcrição de depoimentos, processo de intensas modificações. Para
suas vantagens e desvantagens, as diferentes Alberti (1989, p. 41), “sua especificidade está
maneiras de o historiador relacionar-se com no próprio fato de se prestar a diversas
seus entrevistados e as influências disso sobre
seu trabalho - funcionando como ponte entre
abordagens, de se mover num terreno
teoria e prática (FERREIRA; AMADO, 2001, p. pluridisciplinar”. Esta dificuldade está
16). relacionada ao fato da História Oral não
pertencer a um campo estrito do
Para Ferreira e Amado (2001, p. 31), a conhecimento. A própria autora quando se
divergência entre os que postulam a História propõe a conceituar a História Oral, usa a
Oral como disciplina e não metodologia está palavra “arriscando”, quando o faz. Segundo
no fato destes “reconhecerem na história oral Meihy (1998) “Talvez, em virtude dessa
uma área de estudos com objeto próprio e abrangência a História Oral comporta três
capacidade - como fazem todas as disciplinas tipos de abordagens, a saber: História Oral de
- de gerar no seu interior soluções teóricas Vida, Temática e Tradição Oral”.
para as questões surgidas na prática...”. Os A História Oral de vida
que defendem que a História Oral seja uma particularmente pode garantir a riqueza que a
técnica, geralmente, são pessoas envolvidas técnica que a História Oral por si mesma não
na constituição e preservação de acervos possuía nada mais consistente do que uma
orais. Estes pesquisadores utilizam as fontes longa vida que se decifra, com a chancela de
orais de forma esporádica, como fontes de um gravador. Segundo Debert (1988), a
informação complementar, o que História Oral de vida tem aumentado seu
teoricamente justificaria essa postura âmbito de atuação, sendo enfaticamente
(FERREIRA; AMADO, 2001). Entretanto, reivindicada por várias disciplinas - História,
que a história oral atingiu sua maioridade é Antropologia e Sociologia -. A participação
consensual, pois cada vez mais encontramos do entrevistador nesse caso torna-se muito
pessoas interessadas no tema. importante, pois quando vem à tona nas
entrevistas algumas particularidades que não
2.1 Vidas que compõem histórias dizem respeito ao objeto da pesquisa, o
caminho mais propício e interessante é deixar
Os moradores, através de seus relatos que a pessoa fale sem interrupções, pois ela
orais tiveram a oportunidade de vivenciar tem uma carga de fatos e experiências que às
através de uma viagem saudosista todas as vezes precisam ser faladas e discutidas com
fases, causas e consequências dos outras pessoas e, que no caso de grande parte
acontecimentos que marcaram suas vidas. É dos envolvidos na pesquisa não tiveram essa
claro que não só de momentos positivos a chance de contar para a geração mais nova.
história de vida de uma pessoa foi construída, É nesse sentido de preocupação que
nesse caso, o relato de uma experiência entrevistador sempre deve estar atento, em
negativa também poderá fazer com que o todos os momentos da entrevista, não
entrevistado traga a tona algumas lembranças hesitando em nenhum instante em deixar o
não muito boas, mas que faz parte do entrevistado a vontade para se expressar e,
processo de reestruturação dos relatar todos os acontecimentos que recordar
acontecimentos. no ato da entrevista.
De acordo com os objetivos da
pesquisa, estes relatos da história de vida dos
pioneiros que passaram pelas transformações
citadas anteriormente contribuíram para que

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3 O MUNICÍPIO DE QUINTA DO SOL 3.1 As transformações na condição de vida
no campo e na cidade e a História Oral
O município de Quinta do Sol, como elo entre teoria e realidade
localizado no Estado do Paraná, está situado
na região Sul do Brasil, especificamente na Considerando as transformações que
região Noroeste do estado. Pertencente a aconteceram no município de Quinta do Sol
mesorregião do Centro Ocidental Paranaense, abrangendo toda a sociedade e junto com ela
possui uma extensão territorial de 326.085 um modelo econômico, é importante ressaltar
quilômetros quadrados e está a 491 metros como está a vida urbana atualmente dos novos
acima do nível do mar. A população do citadinos, já que houve uma intensa migração
município sofreu variações durante muitas do campo para a cidade. Quais são as
décadas quanto ao número total de habitantes, condições condição de vida, numa perspectiva
atualmente a população total é de 5.173 que envolve a situação de moradia, trabalho e
habitantes - Censo de 2007 -. O município a sociabilidade - e qual a opinião atual desses
conta com um distrito que se denomina “novos moradores” que sofreram as
Irapuã, localizado a uma distância de 14 consequências dessas transformações? Eles
quilômetros da sede a nordeste. tiveram que mudar padrões construídos desde
O município de Quinta do Sol faz a infância devido à necessidade de se
limites com Engenheiro Beltrão, Itambé, organizar em um novo espaço de
Fênix e Peabiru. O principal e mais influente sobrevivência.
rio da região é o Ivaí, que corta boa parte da Nessa perspectiva, a História Oral de
região norte - rio este pertencente à bacia do vida desses agentes foi de grande importância
Paraná -. Apresenta um clima subtropical, para entendermos como foram tais mudanças,
com verões quentes e ocorrências regulares de quando abordado o assunto moradia, as
precipitação, e no inverno podem ocorrer condições em que antes moravam e nos dias
geadas; A vegetação predominante é de atuais, o senhor P.M.N.1, 84 anos, diz:
floresta subtropical, com algumas ocorrências
de mata de araucárias em pequena proporção. Quando morava em Poções na Bahia, na
Fazenda Samambaia, nossa casa era humilde, de
Quanto ao relevo, as terras pertencentes ao madeira, com chão batido e bem limpo.
município de Quinta do Sol são encontradas Chegando a Marília em 1951, fui direto para
no Terceiro Planalto ou Planalto de Quinta do Sol. Trabalhei na Fazenda Jaraguá
Guarapuava, com altitudes que não plantando pés de café, morei por lá, as casas
ultrapassam a média de 300 a 400 metros de eram de madeira, bem rústica, construíamos
quando derrubávamos a mata, não eram muito
altitude. Na divisão de relevo, o solo boas. Quando fui para Quinta do Sol, no ano de
predominante na região do município é de 1951, passei a morar lá, a casa era pequena, de
terra roxa avermelhada, muito fértil para o madeira, chão batido, e não tínhamos segurança,
cultivo de plantas como café, milho, hortelã, ainda era tudo no meio do mato ainda. Hoje,
trigo, algodão, soja, mandioca e feijão, dentre moro em minha casa própria, onde criei meus
filhos, está muito melhor do que antigamente, a
outros. Parte do solo próximo a morros é casa é de material, com muros e grades, tem
utilizada para a criação de gado bovino. asfalto, coleta de lixo, água tratada, então para
Um dos fatores que mais arraigaram as mim melhorou e muito [...] (NETTO, 2009).
famílias nas regiões Norte e Noroeste do
Paraná foi o cultivo do café que cresceu Na perspectiva do senhor P.M.N., está
assustadoramente nos anos quarenta e muito melhor à situação de moradia
cinquenta. Com o fascínio do plantio da atualmente do que aquela vivenciada por ele
rubiácea surgiram cidades, umas após as quando saiu de sua terra natal na qual morava
outras, nelas, juntaram-se famílias de em condições precárias, atualmente o
agricultores e comerciantes e várias outras entrevistado reside em uma área da cidade
famílias que vieram de inúmeras regiões do com boas condições de infraestrutura,
Brasil atrás de uma melhor condição de vida. considerada centro. Mas nem todas as pessoas

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que vieram do campo para a cidade na mesma Com a produção cafeeira em plena
época do senhor P.M.N., tiveram a chance de expansão no norte paranaense, a criação das
traçar um caminho de desenvolvimento como fazendas-modelo para dar suporte à produção,
ele, da mesma forma o senhor A.A.C.2, 75 a demanda por trabalho era muito grande,
anos, comenta: chegavam vários migrantes para trabalhar
nessas fazendas e, nesse cenário, Quinta do
[...] nem todos tiveram a mesma chance ou sorte Sol não se diferenciou das demais regiões,
que tive de encontrar um lote bem localizado na
cidade. Posso falar do meu compadre Joaquim
recebeu muitos novos trabalhadores, o senhor
Alves Bezerra que não conseguiu comprar um R.S.3, 77 anos, fala dessa questão:
bom lote, não tinha o valor total e foi obrigado a
se deslocar para o que conhecemos como Havia muito trabalho quando cheguei em 1951,
Paineirinha, um local que naquela época não todas as fazendas precisavam de gente para
tinha nada além dos lotes abertos, muito mato, trabalhar no café, tanto que acabei ainda
buracos, cobras, não tinha água tratada. Ele me avisando muitos parentes meus que ficaram lá
contava que sofria muito, principalmente à que viessem para cá, inclusive meu irmão João.
noite, era uma escuridão só, dizia ele, por isso Me lembro que todas as fazendas de café e
muita gente que veio para a cidade acabou indo hortelã estavam cheias de gente, eles moravam
morar em lugares como esse, também não na própria fazenda, tinha trabalho par quem
tinham muito dinheiro, até hoje vemos muitas quisesse. Nas fazendas tinha os empórios onde
famílias morando ainda nos mesmos lugares, e as pessoas compravam alimentos, bebidas e,
não melhorou muita coisa não [...]. também a igreja [...] (SILVA, 2009).
(CORDEIRO, 2009).
Enquanto existia uma grande oferta de
A maioria das famílias que se fixaram mão-de-obra na região nas décadas de 1960 e
na cidade de Quinta do Sol a partir de 1975 1970, o município de Quinta do Sol aumentou
não conseguiu lotes urbanos bem localizados consideravelmente de população, mas quando
ou no centro da cidade e acabaram por questionado sobre a atual situação referente
constituir os bairros periféricos, por isso ao trabalho e a perda de população o senhor
tiveram que enfrentar muitos problemas como R.S. destaca:
falta de infraestrutura e de assistência social.
Nesse cenário de mudanças significativas na [...] Infelizmente hoje já não é mais a mesma
coisa, as fazendas estão praticamente vazias
vida desses habitantes no que se refere ao com os tratores trabalhando no lugar das
local de moradia e a inversão - campo para a pessoas, quem veio para a cidade não tinha
cidade - a História Oral torna-se importante trabalho e acabou virando bóia fria ou indo
instrumento de busca aos fatos ocorridos embora para outras cidades. Quem ficou não
numa visão pessoal desses moradores, pois tem muito que fazer, ou trabalha na cana ou vai
trabalhar em outras cidades e retorna final de
conseguiram relatar com precisão alguns semana. Aquela época onde existia muito
elementos que contribuíram para as trabalho não existe mais [...] (SILVA, 2009).
transformações em suas vidas conforme já
citados. Reforçando a perspectiva relatada pelo
Outra característica que merece uma senhor. R.S., Endlich e Moro (2003) ao tratar
maior análise dentro desse cenário de das inovações na articulação cidade-campo e
transformações socioespaciais refere-se ao sobre as relações de trabalho agora complexas
trabalho, a oferta de mão-de-obra e a assinalam:
demanda existente nas décadas citadas 1960,
1970, 1980 e 1990 - e a atual situação, Com a agricultura moderna, estas relações
tornaram-se amplas e complexas, pois os
considerando que vários fatores estabelecimentos agropecuários deixam de ser
transformaram e diversificaram a economia autossuficientes e os agricultores tornam-se
do município, concomitante com a situação dependentes do comércio urbano. As venda
dos trabalhadores que viveram essa rurais, bem como os patrimônios rurais
experiência e ainda são trabalhadores ativos (pequeninos núcleos urbanos que sediavam as
vendas, a igreja e outros) praticamente
em Quinta do Sol. desapareceram da paisagem rural, com o

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esvaziamento populacional do campo. Os ambiente em que as relações sociais, tendem
trabalhadores que antes moravam no seu local principalmente como em cidades maiores, a
de trabalho, ou seja, no estabelecimento
agropecuário, ao transferirem-se para a cidade,
se concretizar pelo profissional e econômico,
precisam deslocar-se diariamente para o campo, como relata Endlich (2006) sobre essa
onde realizam tarefas esporádicas (bóias frias) questão:
(ENDLICH; MORO. 2003 p. 33).
No ambiente urbano, a sociabilidade tende a
Com a introdução do modelo moderno se concretizar com relações criadas no meio
de produção na agricultura alteraram-se profissional, resultante das atividades
econômicas, diferenciadas daquelas
bruscamente a tipologia da mão-de-obra na fundamentadas na amizade, no
região e as relações de trabalho, invertendo o companheirismo e de base familiar. Ocorre de
local de moradia, mas ainda mantendo parte forma geral, uma secularização dos valores.
desses trabalhadores no campo, só que como Fala-se em tendências, não em transformação
bóia-fria, quanto a este fato o senhor Sr. absoluta, pois ainda existem relações
ancoradas nas mais diversas combinações
O.M.P.4, 76 anos, comenta: (ENDLICH, 2006, p. 162).
O que acho meio curioso é a situação dos que
moravam nas fazendas e trabalhavam nelas.
Conforme assinala a autora, as
Antes eles tinham tudo lá, casa, comida, frutas, relações sociais urbanas não se concretizam
porcos, horta e hoje os que ficaram na cidade a pelos laços familiares ou pela amizade, e sim
maioria paga aluguel, trabalham na mesma pela tendência que o mercado capitalista
fazenda que moravam antes, só que como bóia- exige no momento, mas apesar de todas as
fria e não tem mais idade para trabalhar tanto
assim. Quando chove muitos ficam sem ganhar
transformações e obstáculos a qual
e até passam necessidades, é ruim isso, não era encontraram os “novos citadinos” da época no
assim na época do café, da hortelã [...] (PINTO, município de Quinta do Sol, hoje ainda
2009). procuram manter muitas tradições que eles
próprios criaram como encontros que
Uma marca cultural importante promovem para que os “compadres possam
praticada pelos habitantes rurais e urbanos de jogar conversa fora”, como no passado, na
Quinta do Sol durante as décadas de 1960 até vida no campo, como podemos observar na
final dos anos 1990 é a socialização entre figura 1.
esses cidadãos quintasolenses, pois como já Portanto, apesar de alguns laços terem
verificamos anteriormente, apesar do trabalho se perdido no processo de mudança, muitas
árduo e cansativo, havia muitas festas famílias que se conheceram anteriormente
religiosas, torneios de futebol, bate-papo em ainda mantém contato permanente, sem
finais de tarde e de semana. Era uma forma deixar que o tempo e as mudanças separem ou
de, apesar da distância entre as fazendas, se destruam esses laços construídos com respeito
encontrarem para conversar, bailões nas e admiração entre eles, podemos verificar essa
fazendas, etc. Essas relações criadas entre os situação no relato do senhor A.A.C., quando
habitantes não surgem do “dia para a noite” 5, relata suas visitas ao senhor O.M.P. e ao R.S.:
são relações criadas e mantidas durante certo
tempo necessário para se adquirir respeito e Ainda hoje gosto de visitar meus amigos para
confiança. Para os que saíram do campo para conversarmos um pouco como nos velhos
a cidade as relações sociais recomeçaram, tempos, sempre visito o Otavio pitoco, apesar
dele estar doente, sempre nos demos bem; vou
pois no “novo espaço” de moradia as sempre ao salão do Raimundão, meu amigo
características são diferentes e se tornou cearense para jogarmos conversa fora. Também
necessário criar um novo ciclo de amizades e é comum nos encontrarmos em alguns locais
relações sociais. sem querer e nos reunirmos, como antigamente,
Nem todos os quais com quem se claro que agora todos com cabelos brancos, mas
é uma satisfação enorme estar sempre em
tinham relações de confiança e respeito contato com eles e a família deles [...].
ficaram na cidade, portanto houve a (CORDEIRO, 2009).
necessidade de se adaptar a um novo

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ocorrem de maneira mais lenta, sendo estes
locais onde predominam permanências por
mais tempo [...]”. Essas permanências
verificadas nas palavras da autora continuam
a ser o elo entre esses cidadãos que procuram
manter essa relação tão saudável entre
pessoas.
O modo de vida, os padrões de
consumo e os valores que as pessoas
constroem dependem exclusivamente de
vários fatores, principalmente da sociedade a
que pertence e da condição de
Figura 1: Quinta do Sol - Moradores reunidos na desenvolvimento e evolução da mesma, sem
Avenida Brasil, 1974. esquecer o meio social, portanto, tomemos
Fonte: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quinta como referência os habitantes de Quinta do
do Sol/histórico do S.T.R. Sol que assistiram e participaram de muitas
transformações já observadas anteriormente e,
O senhor O.M.P. 4, quando solicitado ao discorrer a opinião deles em relação ao
para dar a sua opinião sobre o que pensava modo de vida que levam hoje, percebemos
sobre esses laços sociais construídos durante que esses habitantes são e têm história, pois
quase cinqüenta anos e que ainda hoje são presenciaram todos os reveses provocados
preservados, comenta: pelo capitalismo e seus objetivos imediatos.
Apesar de estar doente e não poder sair para Tiveram a rotina mudada, o local de
visitar meus amigos, me sinto feliz porque a moradia invertido, a força de trabalho e as
maioria deles vem em minha casa, nos sentamos relações sociais transformadas em uma
aqui de frente para a rua e conversamos horas e velocidade espantosa, mas os hábitos são
horas sem parar. Falamos de muitas coisas,
alicerçados nas relações sociais e não na
principalmente da época que chegamos aqui,
como tudo mudou, ficamos mais velhos, mas o exigência de um modelo econômico, seja a
importante, é que não perdemos nossa amizade, sociedade rural ou urbana como define
respeito e carinho pelos nossos companheiros Endlich e Moro (2003, p. 93) quando
[...] Só sinto falta de não poder sair mais para assinalam: “Os hábitos são reflexos das
visitar eles [...] (PINTO, 2009).
relações estabelecidas no cotidiano. São
A manutenção dessa sociabilidade que construídos sob a égide da lógica que os guia,
era peculiar ao campo encontra maior seja ela fundamentada na relação com a terra
facilidade em cidades menores, portanto, ou não”. Nesse sentido quando indagado
apesar do mundo moderno exigir que se sobre o que acha da situação em que vive
mudem os padrões de consumo, as relações hoje, o senhor R.S. 3, comenta:
sociais e os valores, podemos verificar que Hoje, eu vivo na cidade, tenho meu ganha-pão,
esses senhores e senhoras que construíram ao criei meus filhos basicamente trabalhando como
longo do tempo uma amizade sólida, baseada barbeiro, acho que não posso dizer que está
na cooperação que a vida no campo exigia, melhor agora, porque em épocas anteriores,
principalmente quando cheguei aqui, era mais
marcada pelo companheirismo, respeito e
fácil ganhar dinheiro, apesar de trabalhar
carinho, não mudaram o jeito de tratar as bastante. Havia muito serviço, para mim posso
pessoas, como revela a fala da maioria dos dizer que quando trabalhei nas fazendas, se não
entrevistados. tivesse mudado tanto por causa da geada, tenho
Podemos entender porque em Quinta certeza que estaria melhor, mesmo vindo morar
na cidade. Hoje tenho uma casa de madeira.
do Sol as mudanças sociais não destruíram
Ainda não consegui construir uma de material,
esses laços com a observação de Endlich mesmo tendo ficado vários anos fora de Quinta
(2006, p. 165) quando afirma: “Nas pequenas do Sol, quando me mudei para São Paulo, são
cidades, de maneira geral, as inovações mais de 50 anos e, a casa continua de madeira,

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não posso reclamar, mas hoje, poderia estar como antes, porque a gente não tinha nenhuma
melhor [...] (SILVA, 2009). garantia do trabalho, podia trabalhar hoje,
amanhã não, e ainda tinha os gatos que
Pelo relato do senhor R.S., podemos explorava muito a gente. Na época das fazendas
notar que apesar de ter conseguido construir de café, existia segurança no trabalho, eu ficava
tranqüilo porque sabia que iria continuar
uma condição razoável de sobrevivência na plantando pés de café. Hoje, sou morador na
cidade trabalhando como barbeiro, criando cidade, estou aposentado, mas acho que a vida
sua família como diz, notamos que ainda da época antiga lá pelos anos 60 e 70 era bem
sente saudades/é nostálgico do tempo em que melhor que a de hoje, apesar de ter melhorado
vivia no campo, nas fazendas, época em que bastante, tenho minha casa, de material, antes
era uma casinha de madeira de chão batido.
era mais fácil ganhar dinheiro, por isso as Tenho mais saudades dos amigos, das festas e
mudanças e transformações socioespaciais da amizade, pois hoje, apesar de nos
ocorridas não conseguiram modificar a forma encontrarmos sempre, muita coisa mudou [...]
de pensar e a opinião desses habitantes, como (NETTO, 2009).
a do senhor R.S.
Ainda sobre a situação atual Podemos notar que o senhor P.M.N.,
comparada com a anterior, o senhor F.P.M. 6, apesar de relatar que está bem melhor a sua
67 anos, morador urbano que chegou a Quinta condição de vida atual, às vezes se reporta aos
do Sol para ser comerciante ainda mantém anos 1960 e 1970 para chamar atenção à
uma das casas de variedades mais tradicionais condição de vida rural que levava sem medo
- Casa dos Retalhos - comenta sobre o de ser demitido de suas funções. Ao passar
assunto: pela crise do café e procurar outro local de
residência e outra forma de trabalho - bóia-
Cheguei aqui em Maio de 1966, sozinho, e já fria - já não tinha mais nenhuma segurança, o
montei a Casa dos Retalhos e fixei moradia na que antes era sua tranqüilidade. Ele procura
cidade. Posso dizer que apesar de todas as enfatizar que as coisas mudaram bastante,
mudanças ocorridas aqui, as coisas poderiam
sempre comentando as épocas áureas de
estar melhor sim, para mim, pessoalmente
melhorou muito, consegui construir minha casa, morador na fazenda e a tranquilidade, apesar
comprar alguns bens e estudar meus filhos. Mas da rotina de esforço árduo plantando pés de
apesar de estar um pouco melhor, poderia estar café. Quanto ao fato que transformou a sua
bem melhor, não senti tanto os problemas vida, antes totalmente rural para urbana, o
porque não dependia do café, mas senti no meu
senhor O.M.P. 4, diz:
comércio o que aconteceu por aqui. A minha
vida mudou bastante, aprendi muita coisa e vi
A minha vida mudou muito depois que resolvi
muita coisa, boa e ruim, mas acho que a
sair do campo e ir para a cidade, vendi minha
situação poderia ser bem melhor,
pequena propriedade e fui tentar melhorar na
principalmente para algumas famílias que
cidade. Não dava mais para ficar no sítio sem
perderam tudo com a crise do café [...].
conseguir produzir nada, não tinha mais hortelã,
(MARCOS, 2009).
nem café, produzir soja era muito caro. Peguei o
que recebi do valor da venda e comprei um lote
O senhor P.M.N. 1 comenta sobre a urbano bem no centro, na principal avenida.
atual situação comparada à anterior, Hoje posso dizer que fiz a coisa certa, mesmo
principalmente levando em conta todas as tendo que vender meu sítio, pois consegui até
transformações ocorridas na sua vida, antes agora criar meus filhos e estudar todos eles. Não
me sobrou muita coisa só o lote que comprei,
trabalhador e morador rural, depois
mas acho que naquele instante de muita
trabalhador rural e morador urbano, e agora confusão, acho que fiz a escolha certa [...] Não
morador urbano e aposentado: posso dizer que estou melhor que antes, era a
vida que gostava, mas foi necessário [...]
A minha vida passou por muitas coisas, coisas (PINTO, 2009).
boas e ruins, na época em que trabalhei e morei
nas fazendas havia muita fartura, tanto de Quando indagados sobre o que mudou
alimento, frutas como de gente. Depois acabei
na vida deles comparado com a vida que
vindo para a cidade e ainda trabalhei nas
fazendas como diarista, já não estava tão bom levavam nas fazendas no tempo da produção

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do café, a maior parte comenta que, se Para estes habitantes as mudanças que
pudessem e tivessem condições de voltar ao aconteceram entre os anos 1960 até 1990
período anterior e escolher se queriam ou não transformaram toda uma estrutura de vida
sair - o que não aconteceu, pois em sua pela qual eles foram os agentes principais.
maioria foram demitidos de suas funções na Para eles uma das transformações mais
época -, jamais teriam saído daquela condição drásticas que atingiram quase toda a
de vida, principalmente pela garantia do população do município direta e
serviço, da moradia e da demanda da mão-de- indiretamente foi a mudança do modo de vida
obra existente e dos laços de amizade rural para o urbano, pois durante os anos 1960
construídos. e até o final dos anos 1970 toda a estrutura
Portanto, a História Oral possibilita a econômica estava voltada para o trabalho nas
essas pessoas condições particulares e fazendas de café, nesse modelo criaram um
específicas de poderem contar através de suas modo de vida característico do homem do
experiências tanto positivas quanto negativas campo, com acesso a alimentos com
que não são exclusivos de Quinta do Sol, mas facilidade através de hortas e da solidariedade
de toda a região norte paranaense. O que ficou entre eles, festas em fazendas principalmente
de mais importante para eles foi a manutenção em dias de manifestação religiosa, a missa aos
de hábitos, tradições e costumes criados em domingos – uma obrigação aos moradores
tempos de vida rural, são laços que uniram rurais – , a garantia de trabalho, etc.
famílias de diversas regiões do Brasil, A partir do início de 1980, toda essa
principalmente nordestinos, paulistas, estrutura ruiu com a crise do café e,
mineiros e paranaenses, que criaram um consequentemente, a falência do modelo
universo entre eles de respeito e admiração, cafeeiro no Norte do Paraná e
passando isso para as novas gerações e especificamente em Quinta do Sol. Com a
criando um marco na cultura local. crise quase todos os trabalhadores rurais
Como foi possível perceber pelos foram demitidos de suas funções e tiveram
relatos, essa manutenção não se refere à que ir morar na cidade, esse momento foi
forma de produção, o tipo de relação de crucial na vida desses habitantes, pois
trabalho e mão-de-obra atualmente utilizada, estavam vinculados ao modo de vida rural
tampouco quanto à forma e volume de com todas as suas garantias e facilidades, e, a
consumo. A manutenção que aqui se destaca é partir de então tiveram que enfrentar e se
também aquela que para eles é mais acostumar com o modo de vida urbano, muito
importante do que a condição material, diferente daquele vivenciado por eles durante
marcada pelas características das relações e duas décadas anteriores na região de Quinta
interações sociais, marcadas pela amizade do Sol. Na cidade tudo que necessitavam para
sincera e duradoura que persiste em meio às construir uma nova vida girava em torno de
mudanças, formando um elo entre as pessoas aquisição através da compra, tanto para
residentes no município de Quinta do Sol. Só adquirir uma casa, alimentos, verduras, etc.
foi possível chegar a estas conclusões através Tudo muito diferente do modo de vida no
dos relatos da história de vida desses campo.
pioneiros que contaram sem nenhuma Para os habitantes, o principal
restrição tudo o que lembravam detalhes e aprendizado foi a velocidade que aconteceram
fatos que vinham à mente na hora da essas transformações e que para não sofrer
entrevista, é nesse ponto da pesquisa que a mais do que estavam acostumados - pois a
História Oral se torna a ponte entre realidade maioria desses agentes são oriundos de outros
e teoria, trazendo a tona os acontecimentos estados como Ceará, Minas Gerais, São
através de experiências vividas e contadas Paulo, Bahia - , tiveram que acompanhá-las
pelos próprios agentes envolvidos. modificar o modo de vida rural para o urbano
e toda uma estrutura de vida por eles sonhada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS Já para alguns não foram tantas mudanças

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assim, pois já vinham de regiões diversas M. M. Usos & abusos da história oral. 4. ed.
conforme sua naturalidade em busca de Rio de Janeiro: FGV, 2001. cap. 4 , p. 267-
melhores condições de vida. 277.

NOTAS JOUTARD, P. História Oral: balanço da


metodologia e da produção nos últimos 25
1
Relato concedido pelo senhor. P.M.N. no dia anos. In: AMADO, J.; FERREIRA, M.M.
15 de Setembro de 2009. Usos & abusos da história oral. 4. ed. Rio
2
Relato concedido pelo senhor. A.A.C. no dia de Janeiro: FGV, 2001. cap. 4, p. 267-277.
20 de Setembro de 2009.
3
Relato concedido pelo senhor. R.S. em 27 de MEIHY, J.C.S.B. Manual de História Oral. 2.
agosto de 2009. ed. São Paulo: Loyola, 1998. 86 p.
4
Relato concedido pelo senhor. O. M. P. em 2
de Novembro de 2009. MORO, D. A. (Org.). Maringá Espaço e
5
Expressão muito utilizada pelos Tempo: ensaio de geografia Urbana.
entrevistados quando queriam se referir a um Maringá: EdUEM, 2003.
acontecimento muito rápido, depressa.
6
Relato concedido pelo senhor F.P.M. no dia Data de submissão: 01.10.2010
18 de Outubro de 2009. Data de aceite: 09.04.2012

REFERÊNCIAS

ALBERTI, V. História oral: a experiência do


CPDOC. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do
Brasil, 1989.

CAMARGO, A.; D’ARAÚJO, C. Como a


história oral chegou ao Brasil. História oral,
Rio de Janeiro, v. 2, n.4, p.167-179, 1999.

CARNEIRO, Josué. Da vida no campo à


vida na cidade: transformações sócio
espaciais no Município de Quinta do Sol:
1970-1980-1990. Maringá, 2010.

DEBERT, G. G. Problemas relativos à


utilização da história oral de vida e história
oral. In: AMADO, J.; FERREIRA, M. M.
Usos & abusos da história oral. 4. ed. Rio
de Janeiro: FGV, 2001.

ENDLICH, Ângela Maria. Pensando os


papéis e significados das pequenas cidades
do Noroeste do Paraná. Presidente Prudente:
[s.n.], 2006.

GRELE, R. J. Pode-se confiar em alguém


com mais de 30 anos? Uma crítica construtiva
a história oral. In: AMADO, J.; FERREIRA,

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