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PATRIZIA ROSEMARY BORGONOVO (8019932)

Licenciatura em Pedagogia

OS DESAFIOS DO PROFESSOR FRENTE AO ALUNO COM


DEFICIÊNCIA, INCLUÍDO NO ENSINO REGULAR.

Orientador: Professora Jaqueline Belga Marques

Claretiano Centro Universitário

CURITIBA
2017
OS DESAFIOS DO PROFESSOR FRENTE AO ALUNO COM
DEFICIÊNCIA, INCLUÍDO NO ENSINO REGULAR.

RESUMO:

O conceito de educação especial dentro de uma nova perspectiva da educação inclusiva precisa
ser reformulado. A visão de uma educação que trabalha com a deficiência precisa ser ampliada
para uma educação que trabalha com a diferença. A inclusão de alunos com deficiência no
ensino regular estar amparada e reconhecida legalmente, não tem sido suficiente para garantir
que o aluno efetivamente aprenda e se desenvolva como qualquer outra criança. Nesta
perspectiva, este artigo tem como principais objetivos buscar compreender quais são os maiores
desafios que o professor enfrenta para efetivamente assegurar a todos os alunos este direito, e
provocar reflexões sobre as suas concepções e a sua prática. A partir deste estudo, foi possível
perceber que o processo de inclusão é um desafio permanente e seu sucesso depende de
inúmeros fatores, entre eles: construir uma rede de apoio de trabalho colaborativo, dar maior
ênfase na qualidade dos conhecimentos e menor na quantidade de conteúdos, adotar
metodologias mais flexíveis, aprender a deslocar o olhar da patologia e enxergar as
possibilidades que existem além da deficiência e valorizar a diversidade como um fator
propulsor da aprendizagem. Uma escola verdadeiramente inclusiva precisa oferecer
oportunidades iguais a todos e estratégias diferentes para cada um, a fim de que todos possam
desenvolver seu potencial, sendo respeitados em suas singularidades.

Palavras-chave: Deficiência. Desafios. Diversidade. Educação Inclusiva.

INTRODUÇÃO:

A diversidade e a riqueza da população brasileira ficaram mais conhecidas e evidenciadas


diante da universalização da escola básica, impondo aos educadores uma visão mais clara da
multiplicidade de características dos alunos, e ao mesmo tempo, cobrando uma ação urgente.
Sendo assim, diante das políticas de inclusão que ampliam o acesso à escola regular e asseguram
a permanência de todos os alunos nela, independentemente de suas particularidades e
deficiências, os professores, comprometidos com o processo de ensino e aprendizagem e com a
verdadeira inclusão destes alunos, se veem diante de inúmeros desafios, decorrentes de diversos
fatores como turmas numerosas, carência de recursos, falta de formação adequada e de redes de
apoio, espaços não adaptados, entre outros.
“No entanto, todos os problemas elencados não justificam, nem poderiam justificar
qualquer argumento contra o processo inclusivo. Em uma sociedade democrática, não é mais
tolerável que a qualquer ser humano [...] seja vetado acesso aos bens públicos.” (FACION, 2012,
p. 136). Ou seja, mesmo frente a tantos desafios enfrentados no dia a dia, a educação inclusiva
está irreversivelmente instalada no sistema educacional e cabe agora a todos os envolvidos, pais,
professores, gestores educacionais e governo construírem instrumentos e recursos para garantir
experiências bem sucedidas de inclusão escolar.
Sabemos, portanto que a inclusão é uma realidade, um fato que não podemos mais
desconsiderar. Porém, para uma efetiva e verdadeira educação de qualidade para todos, são
muitos os fatores envolvidos: habilidades, competências, redes de apoio, recursos disponíveis,
condições de trabalho, formação, estratégias metodológicas, entre outros fatores que desafiam
diariamente o professor em sala de aula. O direito da criança com deficiência não termina com
uma simples inserção na classe regular, é seu direito também e principalmente, que ele possa
efetivamente aprender e se desenvolver como qualquer outra criança. E é da escola a obrigação
de assegurar ao aluno este direito.
Assim, frente a esta realidade, esta pesquisa se justifica por buscar compreender melhor a
complexidade desta situação, buscando identificar quais são os maiores desafios que o professor
do ensino regular enfrenta quando tem um aluno com deficiência inserido em sua classe, e a
partir disso, oportunizar reflexões sobre possíveis mudanças de condutas de atuação e auxiliar
este professor na tarefa de responder efetivamente às necessidades individuais de cada aluno, a
quebrar paradigmas e a construir novos saberes para realizar as mudanças necessárias e possíveis
dentro deste contexto escolar da inclusão, um tema de estudo que só existe, porque
lamentavelmente ainda existe a exclusão.
Para efetivar este estudo será realizada uma revisão bibliográfica de livros, artigos e
documentos que referenciam o assunto do tema da pesquisa.

DESENVOLVIMENTO:

No exercício da profissão, os professores se colocam diante de um trabalho desafiador


que é o de educar crianças e jovens sem as condições adequadas para tanto e ainda sem a devida
valorização profissional. Adversidades como baixos salários, falta de recursos e até a violência
em sala de aula são fatores que, segundo Fácion (2012) incidem diretamente sobre a qualidade
do seu trabalho e em sua saúde física e mental. O movimento de inclusão vem agravando esse
quadro, pois o professor, diante das demandas às quais nem sempre consegue corresponder, por
lhe faltarem recursos ou por não estar ou se sentir capacitado para isso, sente-se impotente,
sobrecarregado e acaba por adoecer.
A sala de aula por si já é um dos ambientes mais desafiadores do mundo, e a
complexidade cresce ainda mais quando nesta sala, estão inseridos alunos com alguma
deficiência e que exigem posturas diferenciadas e inovadoras do professor.
A tarefa da inclusão, segundo Oliveira (2014, p.11):
[...] constitui um grande desafio porque nos coloca diante das condições por
vezes aviltantes a que famílias, alunos, professores e gestores da instituição
escolar tem sido submetidos. Aponta-nos os anseios frustrados das famílias e a
impotência de crianças e jovens diante de uma escola que muitas vezes não os
reconhece como sujeitos, com pleno direito de acesso aos conhecimentos
sistematizados, os quais é dever dela transmitir e a todos indistintamente.

A inclusão de pessoas com deficiência é prevista na Constituição e é um direito do


cidadão. Porém este direito não se resume apenas a garantir a presença das pessoas com
deficiência em todos os espaços. É preciso quebrar paradigmas e ler as deficiências em um
contexto de diversidade, pois em muitas realidades, a deficiência passa a tomar um lugar central
e a pessoa passar a ser definida mais pelo que não tem do que pelos outros diversos elementos e
potencialidades que tem. Todos temos necessidades e perfis específicos. Todos vivemos e
aprendemos de maneira únicas. (MOREIRA, 2014). Inclusão é estar com, não é simplesmente
estar junto, ou seja, a verdadeira inclusão exige mais do que inserir um aluno com deficiência
em sala de aula, exige proporcionar oportunidades de aprendizagem e desenvolver as habilidades
do educando.
Apesar desta clara necessidade, uma pesquisa realizada com o objetivo de verificar a
concepção dos professores sobre o processo de inclusão escolar constatou que a maioria dos
professores não entendem que a inclusão envolve o aluno com deficiência ser atendido de acordo
com suas necessidades e especificidades, referenciando a inclusão escolar apenas como o aluno
estar junto, ou seja, ocupando o mesmo espaço físico que os demais alunos sem deficiência.
(TESSARO, 2011) Desta forma, Tessaro (2011, p.105) conclui que: “a educação apenas será
inclusiva a partir do momento que for compreendida como um direito humano, em que todos,
sem exceção, terão garantidos também sua aprendizagem e desenvolvimento.” Esta realidade
deixa claro, portanto, que o conceito de inclusão precisa urgentemente ser melhor esclarecido
entre os docentes, pois ninguém consegue concretizar ou por em prática aquilo que não conhece.
Esta pesquisa também apontou os dois maiores dificultadores da inclusão escolar: a falta de
estrutura das escolas e a falta de capacitação dos profissionais.
O professor é constantemente desafiado a corresponder às novas expectativas projetadas
sobre ele. Os desafios diários são os mais diversos, mas um dos desafios mais frequentes dos
professores do ensino regular que tem em suas turmas alunos com deficiência intelectual, é a
queixa da dificuldade destes em concluir as tarefas no mesmo tempo do restante da turma. Este
fato nos revela o quanto ainda persiste esta busca constante de uma uniformidade da turma, a
tentativa de homogeneizar os alunos quanto ao ritmo de aprendizagem e capacidades. Sabemos,
no entanto, que é um erro pensar que as turmas ditas “homogêneas”, as quais são um mito,
garantem o desenvolvimento de um bom trabalho. É preciso ter claro que os alunos, traçam
diferentes caminhos para aprender e que cabe ao professor disponibilizar as mais variadas formas
de atingir os objetivos de construir os conhecimentos, considerando as diferenças de ritmo,
interesses, habilidades e necessidades.
De acordo com Andrioli (2013), não há como favorecer a aprendizagem de todas as
crianças se considerarmos todos os alunos da mesma forma, se não considerarmos a pluralidade
e não flexibilizarmos o uso de recursos e estratégias. É preciso romper com urgência o enfoque
homogeneizador em que todos os alunos precisam realizar a mesma atividade, da mesma forma e
utilizando o mesmo tempo e recursos. É claro que isso não quer dizer dividir os alunos em
grupos, separando quem tem mais facilidade dos que tem dificuldades, [...]“mas sim propor
estratégias diferenciadas para cada grupo de alunos de modo a atingir os mesmos objetivos”
(ANDRIOLI, 2013 p.73).
Outro desafio muito frequente encontrado no dia a dia em sala de aula, é a necessidade
de um atendimento mais individualizado para atender as necessidades específicas do aluno com
deficiência, dificultando o desenvolvimento do trabalho com o restante da turma, que também
precisam de atenção. Além do desafio do planejamento de atividades diferenciadas para este
aluno, voltadas para o conteúdo trabalhado e que atenda suas especificidades.
A necessidade de formação na área da educação especial e inclusão é outro ponto muito
questionado pelos profissionais envolvidos na educação inclusiva. Pesquisas apontam que a falta
de preparo dos professores para o processo de inclusão foi a principal fonte geradora de stress e
que os fatores que devem ser investigados no exercício do magistério nos parâmetros da inclusão
são a formação insuficiente do professor e as condições de trabalho inadequadas.
A lacuna na formação de professores é apontada por muitos autores como um dos fatores
mais importantes que dificultam a efetivação do processo de inclusão. Em decorrência desta
questão foi realizada uma pesquisa com professores que revelaram acreditar não ter preparo
suficiente para a inclusão de alunos com deficiência. Eles reconhecem a importância da
formação, porém se mostram angustiados pela percepção da formação insuficiente. A pesquisa
concluiu que a educação inclusiva ainda tem muito a avançar, principalmente no que diz respeito
à formação dos professores que lidam diretamente com essas crianças, e sugere que os currículos
de formação docente contenham disciplinas específicas com a temática da inclusão, mas também
que seja abordada de forma transversal em outras disciplinas. A pesquisa propõe ainda que os
cursos ofereçam mais práticas com crianças com deficiência, como estágios em salas inclusivas.
(TAVARES; SANTOS; FREITAS, 2016).
Apesar disso, Paganelli (2017), nos traz uma interessante reflexão quanto a esta tão
almejada formação e capacitação do professor e afirma que não há especialização ou curso capaz
de antever o que somente no dia a dia poderá ser revelado. O preparo do professor é o resultado
da vivência, da interação cotidiana com cada um dos alunos, com ou sem deficiência, sempre
partindo de uma prática pedagógica que reconhece e valoriza as diferenças. Dessa forma, fica
claro que não existe um caminho único ou uma metodologia, nem mesmo uma formação que
seja suficiente para abarcar toda a multiplicidade de situações que envolvem a educação
inclusiva. Apesar disso, muitos professores ainda tem a ilusão de que um curso lhe dará algo
pronto, como um manual com regras de como trabalhar com as crianças com deficiência em sala
de aula, ou que uma especialização lhe trará capacitação e preparo suficiente para enfrentar os
desafios da inclusão.
Em uma escola que se considere verdadeiramente inclusiva e de qualidade, a diversidade
é considerada um fator enriquecedor e propulsor do processo educativo de todos os alunos e não
um fator impeditivo para o bom andamento da aula como tradicionalmente tem sido. É preciso
sempre ter em mente que todos os alunos podem aprender, mas no seu tempo e do seu jeito
particular (MANTOAN, 2013). Ou seja, existe uma necessidade emergente de uma mudança de
lógica da postura pedagógica da escola, da organização e do currículo para que a educação
inclusiva cumpra seu objetivo educativo.
Percebe-se que a maioria dos professores tem consciência da importância de se
considerar as particularidades de cada aluno, mas, muitas vezes, ainda ficam restritos ao que é
característico da maioria e buscam, sem perceber ou querer, a homogeneidade da turma.
Carneiro (2008) sugere que o professor, neste novo contexto, não procure eliminar as diferenças
em favor de uma suposta igualdade do alunado, mas antes, esteja atento à singularidade das
vozes que compõe a turma. Portanto, uma escola que trabalhe para todos os alunos igualmente,
não pode se utilizar de práticas onde todos têm de dominar os mesmos conteúdos, no mesmo
ritmo e através dos mesmos métodos de ensino. As estratégias desenvolvidas na escola devem
possibilitar múltiplas maneiras de participação, expressão e execução das propostas realizadas
em sala de aula. O desenvolvimento em geral pressupõe trocas, porem somente a partir das
diferenças. Trocas entre iguais não provocam desequilíbrios, portanto nem avanços, nem
desenvolvimento.
Sobre as práticas pedagógicas Alonso (2013, n.p.) explica que:
As flexibilizações da prática pedagógica deverão estar a serviço de uma única
premissa: diferenciar os meios para igualar os direitos, principalmente o direito
à participação e ao convívio. [...] Planejamentos que contemplem regulações
organizativas diversas, com possibilidades de adequações ou flexibilizações,
tem sido uma das alternativas mais discutidas como opção para o rompimento
com estratégias e práticas limitadas e limitantes.
Historicamente, a tendência sempre foi focar na deficiência e incompetência do aluno.
Sabe-se hoje da importância de se reverter esse quadro, mudar o foco e refletir sobre o papel do
professor no processo de ensino aprendizagem deste aluno. Pereira (2008) nos aponta alguns
caminhos: valorizar mais as metas e menos os obstáculos, dar mais ênfase à qualidade do
conhecimento e menos à quantidade de conteúdos, dar mais oportunidade ao aluno para criar,
participar e cooperar com os colegas, utilizar metodologias mais flexíveis, diversificar conteúdos
e práticas que valorizam a singularidade de cada aluno, construir uma rede de apoio que possa
dar assessoria ao professor, criando alternativas que possam beneficiar a todos os alunos, são
algumas formas de contribuir para aproximar da nossa realidade, o princípio fundamental da
verdadeira educação inclusiva que diz que: “todos os alunos devem aprender juntos, sempre que
possível independente das dificuldades e diferenças que apresentam”. (PEREIRA, 2008, n.p.)
Conforme Silva (2012), especialistas tem demonstrado a importância de uma parceria
entre os professores da classe comum, da educação especial, outros profissionais da escola,
profissionais da saúde e familiares, de forma a construir uma consultoria colaborativa entre todos
os envolvidos, visto que sozinhos, os profissionais ou a família, dificilmente conseguirão garantir
um ambiente acolhedor, rico e adequado para a escolarização do aluno com deficiência no ensino
regular. O professor é a peça principal para que a inclusão realmente aconteça e por isso ele não
deve se sentir sozinho, ele necessita ser amparado e orientado para que possa agir com
segurança. Essa segurança se constrói nas trocas de experiências, nos debates com os colegas,
nos cursos de atualização e nos desafios vividos a cada dia. O trabalho em parceria e baseado em
trocas de experiências é uma rica fonte de construção de conhecimentos.
A família da criança, por exemplo, é uma importante fonte de informações sobre as
necessidades e interesses específicos do aluno com deficiência, tornando o vínculo entre a
família e a escola, essencial para estabelecer uma relação de confiança e cooperação para
favorecer o desenvolvimento da criança. Os profissionais que trabalham com o aluno, como
fisioterapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos, médicos, etc., também devem compor a rede de
apoio, na medida em que podem dar informações importantes sobre o desenvolvimento da
criança e ainda, sugerir alternativas para o atendimento das suas necessidades específicas.
(ALONSO, 2013)
O professor precisa se sentir fortalecido para colocar em prática seus conhecimentos
muitas vezes desvalorizados por eles mesmos. Ele precisa aprender a perceber que pode e deve
contar com seu próprio conhecimento, com sua formação e vivências diárias como educador, e,
quando necessário, receber auxílio para reconhecer os recursos que já possui e trazer a tona seus
conhecimentos, os quais com certeza serão importantes instrumentos de trabalho. (CASTRO;
ANTUNES, 2014). É preciso, portanto, fortalecer a atuação do professor fazendo com que ele
seja protagonista do seu fazer diante do desafio da inclusão escolar.
Alonso (2013) corrobora com esta afirmação quando diz que o aluno com deficiência não
pode ser visto como responsabilidade unicamente do professor, mas de todos os envolvidos no
processo educacional. Os gestores educacionais devem sempre organizar momentos para que os
professores possam manifestar suas dúvidas e angústias, legitimando as necessidades dos
docentes, oportunizando espaços e momentos para relatos de situações de sala e discussões de
estratégias ou possibilidades para o enfrentamento dos desafios diários. Da mesma forma
Tavares, Santos e Freitas (2016) afirmam que deve haver uma parceria entre o professor regente
da sala e o professor especialista. Deve haver uma noção de responsabilidade coletiva quanto ao
processo de inclusão do aluno com deficiência, pois quando o trabalho colaborativo é efetivado,
mais oportunidades de aprendizagem são criadas, sempre em favor do desenvolvimento do
estudante.
Mesmo sabendo que já há muito tempo que a inclusão de pessoas com deficiência é um
direito inquestionável, muitos professores e gestores escolares ainda resistem e declaram-se
despreparados para concretizá-la. Desde 1994 a Declaração de Salamanca enfatiza que educação
para todos é efetivamente para todos. Sabemos também que não se trata só de acesso, se trata de
participação efetiva, com base na igualdade de oportunidades, para o desenvolvimento pleno do
potencial do educando. Apesar disso, sabemos também que a escola não saberá de antemão o que
fazer até porque isso não seria possível. Durante muito tempo acreditava-se que era possível
generalizar pessoas e assim padronizar estratégias terapêuticas e pedagógicas a partir de um
quadro diagnóstico. Atualmente sabemos que essa noção é no mínimo simplista. Uma escola
inclusiva oferece oportunidades iguais a todos e estratégias diferentes para cada um de modo que
todos possam desenvolver seu potencial. A educação inclusiva é um processo contínuo e
dinâmico que implica a participação de todos os envolvidos. As adaptações precisam ocorrer de
forma colaborativa e todos os envolvidos, inclusive a família deve participar desse processo.
(PAGANELLI, 2017)
Por trás do discurso aparentemente responsável que a escola não está pronta para receber
determinado aluno por não ser capaz de suprir suas necessidades, está a noção de que estes
estudantes não estão aptos a frequentá-las devido a sua condição. É preciso, portanto, que a
instituição escolar, ressignifique o olhar sobre a deficiência, repense suas concepções e práticas a
fim de atender as necessidades de todos os educandos. A inclusão escolar e social exige muitas
reflexões, quebra de paradigmas, mudanças de pontos de vista e perspectivas e, principalmente, a
valorização da diversidade humana, que é onde reside uma das maiores dificuldades do processo
de inclusão, a aceitação do outro como diferente, como um ser especial em sua singularidade.
A realidade é que ainda existe muita resistência por parte dos professores e gestores
educacionais quanto ao processo de inclusão. O professor se coloca como dependente de apoio e
está sempre em busca de uma solução mágica que ele sabe que não existe. O professor se sente
desvalorizado e impotente e, por considerar esse aluno doente, acredita que não pode fazer nada
por ele. Então o círculo da exclusão se fecha, o aluno está fisicamente inserido na sala de aula,
mas excluído do processo de ensino-aprendizagem. (PEREIRA, 2008)
A filosofia da inclusão não vê as diferenças como um problema, mas como diversidade e
essa realidade amplia a visão de mundo. Conforme afirma Castro (2014), a presença da
diversidade em sala de aula amplia de forma significativa a oportunidade de compartilhar,
confrontar e reconstruir seus saberes com seus pares. A convivência com todos, inclusive com as
pessoas com deficiência, ensina a articular diferentes pontos de vista, a reconhecer os direitos
dos outros, a olhar para o coletivo, a serem menos centrados, entre tantos outros benefícios. A
diversidade deveria estar longe de ser um aspecto que dificulta o trabalho do professor, pelo
contrário é um dos instrumentos de trabalho capaz de promover a troca e a ressignificação dos
objetos de conhecimento, o que caracteriza os legítimos processos de aprendizagem.
É histórica a dificuldade dos professores e da escola em compreender e lidar com o
diferente, com o que sai do padrão e da norma. A diferença esteve por muito tempo associada à
“anormalidade” e quando a diferença é vista assim, subestimam-se as condições deficitárias do
ensino. É comum os professores traçarem uma linha entre o normal e o patológico, entre os que
aprendem e os que não aprendem. Ao longo do percurso da história da educação, muitos avanços
têm sido registrados quanto aos direitos das pessoas com deficiência, no entanto, só a existência
de políticas públicas, embora imprescindíveis, tem sido insuficientes para eliminar com todos os
preconceitos e estereótipos quanto à pessoa com deficiência. (DUEK, 2007)
A pesquisa realizada por Duek (2007) demonstrou que os professores que valorizam mais
os progressos acadêmicos, têm mais dificuldades em aceitar os alunos que não progridem com
um ritmo “normal” junto com a turma. Quanto maior a rigidez do professor quanto às suas
expectativas em enquadrar este aluno no padrão da turma, maior a dificuldade e a repercussão
negativa no ritmo de aprendizagem desse aluno. A maioria dos professores tem uma visão
funcional do ensino e tudo o que ameaçar romper com o esquema de trabalho prático que
aprendem a aplicar em suas salas de aula é inicialmente rejeitado. Esta pesquisa revela então, que
o sucesso da inclusão está muito relacionado com a postura do professor frente ao desconhecido,
frente à diferença do outro. Por outro lado, os professores revelam que a coexistência com esse
aluno intensifica o processo de autoconhecimento e amadurecimento pessoal e profissional e que
a partir da estranheza gerada no encontro com a diferença há uma busca de autodescoberta de si
e do outro, como seres inacabados e incompletos, com limitações e possibilidades.
Nesta coexistência do professor com o aluno com dificuldades, o professor é
constantemente desafiado e convidado a refletir sobre sua prática, a se reinventar e inovar suas
estratégias, na busca de conferir a oportunidade de aprendizagem ao educando. O aluno precisa
ter sua singularidade reconhecida e respeitada. O foco deveria recair sempre sobre a diferença e
não sobre a deficiência. É preciso deslocar o olhar da patologia e ver a pessoa que existe por trás
e além da deficiência, um ser dotado de sentimentos, potencialidades e limitações como todo ser
humano. É preciso ressignificar sua presença em sala de aula, com uma postura de aceitação
deste ser incompleto, o que pode vir a ser um facilitador da aprendizagem. (DUEK, 2007)
Percebe-se na prática, que o modelo médico serve, ainda hoje, de critério de definição
entre o “normal” e o “anormal” traçando potenciais e limitações sobre o ser diferente,
dificultando a aceitação dele na sociedade. O diagnóstico médico é considerado por muitos
docentes como essencial para o planejamento e desenvolvimento do trabalho com o aluno com
deficiência e, na ausência do laudo, a diferença deste educando põe-se como uma incógnita a ser
desvendada pelo professor. (DUEK, 2007). Não há nada de errado em aprender com outras
áreas do saber, porém, segundo Beguoci (2017), as falas da maioria dos professores são
permeadas por uma linguagem médica: “esse aluno tem laudo”, ou, “essa aluna é certamente um
caso de laudo”, e infelizmente muitas vezes, percebe-se que na prática, o laudo se transforma em
um atestado para o professor que acaba por limitar as expectativas que ele tem sobre o aluno com
deficiência, passando a acreditar que pela sua condição médica não há nada ou a pouco a se fazer
pela aprendizagem daquele aluno.
Sem dúvida o conhecimento prévio sobre o diagnóstico e suas características pode
auxiliar e transmitir um pouco mais de segurança aos professores, mas somente no percurso com
aquele aluno que o professor vai realmente se deparar com suas reais necessidades e a partir
disso poder construir um planejamento específico e individualizado para aquele estudante,
levando em conta suas especificidades. (CASTRO; ANTUNES, 2014). Portanto, não se
questiona a necessidade de que a deficiência seja identificada e nomeada, o que se questiona é o
uso inadequado que muitas vezes é feito deste rótulo, prejudicando a autoestima da criança e
aumentando os riscos de preconceitos sociais. O perigo maior está em deixar que a delimitação
das áreas com deficiência seja o condutor do processo de ensino.
É preciso ter sempre em mente que a educação numa perspectiva inclusiva se efetiva por
meio de um processo contínuo e coletivo de reflexão sobre a prática, sabendo que o processo de
aprendizagem de cada estudante é singular, e que não existe um caminho único ou uma
metodologia que possa ser aplicada com eficiência para todos os alunos, e isso não se aplica
apenas às pessoas com deficiência, visto que a diferença é própria da condição humana. Por fim,
é urgente e necessário garantir a todos, não só a aqueles com deficiência, a oportunidade de
conviver com as diferenças e construir relações pautadas no respeito e na igualdade social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Uma sociedade inclusiva está baseada em uma filosofia que reconhece e valoriza a
diversidade, o que significa considerar as especificidades e necessidades especiais de todos os
alunos, independente da existência de alguma deficiência. Porém sabemos que existem
necessidades que interferem de forma significativa no processo de ensino aprendizagem e
exigem dos profissionais envolvidos a utilização de metodologias, recursos e apoios
especializados para favorecer a aprendizagem do aluno e assim realizar a verdadeira inclusão.
No entanto, esta nova realidade que exige nova postura dos professores traz consigo inúmeros
desafios que angustiam e adoecem muitos profissionais no cotidiano das escolas em todo o país.
O complexo tema desta pesquisa é fruto justamente desta inquietação de tantos
profissionais da educação que não se contentam em simplesmente cumprir a lei que impõe a
inserção do aluno com deficiência em uma sala de aula regular. Eles buscam aproximar cada vez
mais a observância destas leis com as vivências no cotidiano escolar e fazer cumprir o direito
dessa criança de ser atendido em suas necessidades e especificidades e efetivamente aprender e
se desenvolver como qualquer outra criança. E é nesta busca que se deparam com inúmeros
desafios os quais este estudo procurou trazer a tona e elucidar, provocando reflexões e
desequilibrando concepções fundamentadas muitas vezes em noções segregacionistas e
preconceituosas sobre a deficiência e a diversidade.
Este estudo mostrou que muitas vezes, o que falta é justamente uma mudança de
paradigmas, de antigos conceitos há muito tempo construídos, baseados em concepções do ideal
de homogeneidade e produtividade. A maioria dos professores sente-se desafiados com o fato do
aluno com deficiência não conseguir concluir as atividades no mesmo tempo que o restante da
turma ou com a necessidade de dar um suporte individualizado para aquele aluno em detrimento
do restante da turma. No entanto, se o professor conseguir compreender e aceitar o conceito de
equidade, valorizar a heterogeneidade, levando em conta que as turmas nunca serão homogêneas
e que cada um aprende por formas e caminhos diferentes, ele vai perceber que cabe a ele
flexibilizar e disponibilizar variadas metodologias e formas para atingir os objetivos,
considerando a pluralidade da turma e as especificidades e necessidades de cada estudante.
Outra reflexão interessante que revelou este estudo refere-se à falta de preparo e de
formação do professor na área da inclusão. A maioria dos professores acredita que alguma
formação ou curso poderá lhes fornecer a fórmula mágica ou um manual prático de como
trabalhar com seus alunos com deficiência. No entanto, o que ele está precisando é confiar mais
em seu conhecimento e valorizar mais seus próprios recursos, pois a melhor capacitação são suas
próprias vivências e experiências cotidianas em sala de aula, a interação direta com seus alunos
que podem lhe fornecer preciosas informações sobre o funcionamento de cada um, dados que
nenhum curso, por melhor que seja, poderá antever. Apesar disso, ele não pode se sentir sozinho,
pois o processo de inclusão do aluno com deficiência não é responsabilidade apenas do professor
da sala de aula. Ele precisa contar com uma rede de apoio formada por coordenadores
pedagógicos, profissionais da saúde, professores especialistas e familiares que poderão construir
um trabalho colaborativo e lhe dar suporte para viabilizar de fato o processo inclusivo.
Atualmente, com a educação especial inserida na escola regular, dentro de uma proposta
inclusiva, tornou-se urgente que a escola se reconstrua, ou seja, busque reformular seus
princípios, rever velhos conceitos, fazer reflexões, mudar paradigmas e adequar seu currículo
dentro de uma ótica inclusiva, centrada mais no aluno, nas suas especificidades e menos nos
conteúdos e resultados quantitativos, levando em conta mais as suas potencialidades e
possibilidades e menos suas limitações e deficiências, explorando o valor das diferenças e a
riqueza da diversidade, e buscando a cada dia tomar mais consciência de que as nossas
diferenças são justamente o que nos iguala enquanto seres humanos.
Como afirma a pesquisadora Maria Tereza Mantoan (2013): as turmas escolares queiram
ou não, são e sempre serão desiguais e a escola é um lugar privilegiado de encontro com o outro.
Este outro que é, sempre e necessariamente, diferente! E é justamente nesta multiplicidade do ser
que podemos encontrar uma multiplicidade de possibilidades de ação e renovação, de
redimensionamento de velhas práticas, de recomeço, em qualquer tempo e lugar.

“Uma resposta é sempre um trecho do caminho que está atrás de você.


Só uma pergunta pode apontar o caminho para frente.”
(Jostein Gaarder)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVES, Fátima. Inclusão, muitos olhares, vários caminhos e um grande desafio. 5ª ed. Rio de
Janeiro: Wak Editora, 2012.

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Paulo, SP: Pearson Education do Brasil, 2013.

CARNEIRO, Moaci Alves. O acesso de alunos com deficiência às escolas e classes comuns:
possibilidades e limitações. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

FACION, José Raimundo. Inclusão escolar e suas implicações. Curitiba, PR: Intersaberes, 2012.

MANTOAN, M.T.E. O desafio das diferenças nas escolas. 5ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.

OLIVEIRA, Ivone Martins. Educação para todos. As muitas faces da Inclusão Escolar.
Campinas, SP: Papirus Editora, 2014.

SILVA, Aline Maira. Educação Especial e inclusão escolar, história e fundamentos. 1ª ed.
Curitiba, PR: Intersaberes, 2012.

TESSARO, Nilza Sanches. Inclusão Escolar: concepções de professores e alunos da educação


regular e especial. 1ª ed. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 2011.

E-REFERÊNCIAS:

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BEGUOCI, Leandro. Um bom professor não usa laudo como desculpa, 2017. Disponível em:
http://novaescola.org.br\conteudo\6759\um-bom-professor-nao-usa-laudo-como-desculpa Acesso
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CASTRO, Maria da Paz; ANTUNES, Irene. A inclusão como uma das forças da Escola da Vila,
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http://educaçãointegral.org.br\reportagens\em-debate-os-desafios-da-inclusao-escolar. Acesso
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