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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA

Nº 22212/18 - HG/PGR
PROCESSO: AREsp nº 1231422/DF (2018/0005681-9)
RELATOR(A): MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO – SEXTA TURMA

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AGRAVANTE : CELINA LEÃO HIZIM FERREIRA
ADVOGADO: JOSE FRANCISCO FISCHINGER MOURA DE SOUZA E OUTRO(S)
ADVOGADO: MARCUS VINÍCIUS DE CAMARGO FIGUEIREDO
ADVOGADO: MARCOS ANTONIO RIBEIRO GOMES
ADVOGADO: ARY LITMAN BERGHER
ADVOGADO: FERNANDA DE ALMEIDA TOLEDO
ADVOGADO: EDUARDO DE VILHENA TOLEDO
AGRAVANTE: CHRISTIANNO NOGUEIRA ARAUJO
ADVOGADO: BRUNO RODRIGUES E OUTRO(S)
ADVOGADO: JOE DA CRUZ BARBOSA
AGRAVADO: MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS

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1. Trata-se de agravo contra decisão que negou seguimento ao recurso


especial interposto contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do
Distrito Federal e Territórios, assim ementado (e-STJ fl. 3265):

AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA. DEPUTADOS DISTRITAIS. DENÚNCIA. CRIME


CORRUPÇÃO PASSIVA. PRELIMINARES. ACESSO AO CONTEÚDO
INTEGRAL DE DADOS COLIGIDOS. CERCEAMENTO DE DEFESA.
DECLARAÇÕES PRESTADAS POR TESTEMUNHA. INDÍCIOS DE PRÁTICA
DE CRIMES. IMPRESTABILIDADE DAS INFORMAÇÕES. BUSCAS E
APREENSÕES. NULIDADE. GRAVAÇÕES. QUEBRA DE CUSTÓDIA.
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ÁUDIOS QUE EMBASARAM O INQUÉRITO. INTERCEPTAÇÃO


AMBIENTAL. SUPOSTO COMPARTILHAMENTO DE PROVAS. VÍCIOS.
REJEIÇÃO. DENÚNCIA. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS DO ARTIGO
41 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. INDÍCIOS MÍNIMOS. JUSTA
CAUSA. RECEBIMENTO.
I - As partes tiveram acesso ao conteúdo integral dos elementos incorporados
aos autos, que fundamentam a denúncia, e os dados que forem colhidos
posteriormente serão submetidos ao contraditório, daí porque não se cogita de

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cerceamento de defesa.
II - Os documentos apresentados pelos denunciados, que, a seu juízo,
demonstrariam a prática de crimes, foram remetidos ao Ministério Público que
não vislumbrou a existência de indícios mínimos a justificar a instauração de
inquérito.
Ill - A alegação de que as testemunhas que assinaram o auto circunstanciado
poderiam não ter presenciado as diligências não é, em princípio, causa de
nulidade, máxime porque a regra inserta no art. 245, § 7°, do CPP, pode ser
afastada, caso não haja pessoas para testemunhar o ato (§ 4°). Depois, não se
decreta a nulidade, se não houver prejuízo para a acusação ou defesa.
IV - Na fase em que se analisa apenas a viabilidade da denúncia, não há espaço
para exame crítico dos elementos colhidos, o que será efetivado por ocasião da

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instrução, podendo ser declarada a nulidade, se comprovado que a colheita do
material efetivada sem as formalidades legais resultou em prejuízos para a
defesa.
V - O laudo pericial contendo os elementos colhidos na captação ambiental
ainda está em fase de elaboração, de maneira que não foram incorporados aos
autos.
VI - Ao se deparar com a ocorrência, em tese, de fato definido como crime em
que caiba ação penal pública, o promotor responsável por inquérito civil, que
não disponha de atribuição criminal, pode, a exemplo de qualquer do povo,
encaminhar os dados e documentos de que dispõe ao setor competente do
Ministério Público para, em sendo o caso, instruir ou viabilizar a instauração
de inquérito criminal. Inteligência do art. 27 do Código Penal.
VII - A denúncia expõe os fatos criminosos, com as suas circunstâncias,
procedeu à qualificação dos acusados e indicou a classificação do delito e rol
de testemunhas, nos moldes do artigo 41 do Código de Processo Penal.
VIII - A análise de recebimento da denúncia abrange um juízo sumário de
prelibação sobre os indícios colhidos na fase investigativa acerca da
materialidade e da autoria.
IX - Presentes indícios mínimos, impõe-se o recebimento da denúncia, máxime
porque há justa causa para a instauração da ação penal.
X - Denúncia recebida.

2. O recurso especial de Celina Leão Hizim Ferreira (e-STJ fls.


3619/3633) sustenta violação aos arts. 411 e 395, inciso I2, do CPP, e 6º,

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Art. 41. A denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a
qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e,
quando necessário, o rol das testemunhas.

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caput3, da Lei 8.039/90, pois, em síntese, a denúncia é manifestamente


inepta, por ser genérica e não descrever fatos juridicamente relevantes
quanto ao suposto crime de corrupção passiva, ao não relatar e descrever
sua participação no fato delituoso (e-STJ fl. 3928).

3. Por sua vez, o recurso especial de Christianno Nogueira Araújo (e-


STJ fls. 3634/3645) sustenta violação aos arts. 41 e 395, inciso I, do CPP, e

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134 e 295 do CP, pois, em síntese, a denúncia é manifestamente inepta, por
ser genérica e não descrever fatos juridicamente relevantes quanto ao
suposto crime de corrupção passiva, ao não relatar e descrever sua
participação no fato delituoso.

4. A douta Presidência do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e


Territórios não admitiu os recursos e citou a Súmula 83/STJ6 (e-STJ fls.
3923/3928).

5. Sobrevieram agravos em recurso especial (e-STJ fls. 4049/4064 e


4090/4107), nos quais os agravantes questionam a súmula aplicada.

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6. Primeiramente, importa registrar que o trancamento de ação penal é
medida excepcional, só admitida quando restar provada, inequivocamente,
sem a necessidade de exame valorativo do conjunto fático ou probatório, a
atipicidade da conduta, a ocorrência de causa extintiva da punibilidade, ou,
ainda, a ausência de indícios de autoria ou de prova da materialidade do
delito, circunstâncias não evidenciadas na hipótese em exame.

7. Nesse sentido é a jurisprudência dessa Egrégia Corte:

PROCESSUAL PENAL E PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE


RECURSO ESPECIAL, ORDINÁRIO OU DE REVISÃO CRIMINAL. PEDIDO DE
TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. INÉPCIA
DA DENÚNCIA. NÃO CONFIGURAÇÃO. PEÇA INAUGURAL QUE ATENDE

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Art. 395. A denúncia ou queixa será rejeitada quando:
I - for manifestamente inepta;

3
Art. 6º - A seguir, o relator pedirá dia para que o Tribunal delibere sobre o recebimento, a rejeição da
denúncia ou da queixa, ou a improcedência da acusação, se a decisão não depender de outras provas.

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Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa.
Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido.

5
Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de
sua culpabilidade.

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Súmula 83, STJ - Não se conhece do recurso especial pela divergência, quando a orientação do tribunal se
firmou no mesmo sentido da decisão recorrida.
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AOS REQUISITOS DO ART. 41 DO CPP. AMPLA DEFESA GARANTIDA.


CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO.
1. Ressalvada pessoal compreensão diversa, uniformizou o Superior Tribunal de
Justiça ser inadequado o writ em substituição a recursos especial e ordinário, ou
de revisão criminal, admitindo-se, de ofício, a concessão da ordem ante a
constatação de ilegalidade flagrante, abuso de poder ou teratologia.
2. Orienta-se a jurisprudência no sentido de que o trancamento da ação penal é
medida de exceção, possível somente quando inequívoca a inépcia da denúncia e

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a ausência de justa causa, o que não se verifica na hipótese.
3 . É afastada a inépcia quando a denúncia preencher os requisitos do art. 41 do
CPP, com a individualização da conduta do réu, descrição dos fatos e
classificação dos crimes, de forma suficiente para dar início à persecução penal
na via judicial, bem como para o pleno exercício da defesa.
4. Habeas corpus não conhecido.
(HC 99.105/MT, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em
19/05/2015, DJe 28/05/2015)

8. Sem a preocupação de esgotar a reprodução da peça, o Ministério


Público Federal observa que a denúncia em desfavor dos agravantes aponta,
em apertada síntese, 02 (duas) condutas criminosas (e-STJ fl. 3269/3270):

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9.
3282/3284):
Procuradoria Geral da República

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Eis parte do detalhamento dos fatos segundo a Corte a quo (e-STJ fls.

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10.
(...)
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que aderiram à relatoria, no particular (e-STJ fls. 3311/3333):

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Extrai-se, ainda, dos votos vogais dos eminentes desembargadores


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(...)
(...)
(...)
(...)
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(...)
(...)
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11. Segue-se outra exposição, no acórdão, com detalhamento das


condutas dos réus.

12. Como bem registrado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e


Territórios, na fase de recebimento da denúncia, não se analisa se os fatos
narrados realmente ocorreram e se os denunciados foram, realmente, os

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autores dos crimes a eles atribuídos, porquanto se trata de matéria afeta ao
juízo de mérito, a ser exercido no momento oportuno, após a produção de
provas pelas partes, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa, de
maneira a viabilizar a incidência do juízo de censurabilidade sobre a
conduta (e-STJ fl. 3282).

13. Aquela Corte detalhou de forma minudente e exaustiva todo o


conjunto fático-probatório que sustenta a denúncia, como se vê
principalmente nas fls. 3284/3292 e-STJ (voto do Desembargador Relator,
José Divino), 3306/3313 (voto-vogal do Desembargador Roberval Casemiro

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Belinati), 3321/3323 (voto-vogal do Desembargador Mário-Zam Belmiro),
3324/3326 (voto-vogal do Desembargador Jesuíno Rissato).

14. Por sua vez, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios


assim registrou quanto ao recurso de Christianno Nogueira Araújo (e-STJ fls.
3728/3730):

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15.
Procuradoria Geral da República

do Distrito Federal e Territórios (e-STJ fls. 3746/3748):


ARESP 1231422/DF

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Quanto à agravante Celina Leão, assim registrou o Ministério Público
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16. Como se vê, os agravantes pretendem nada mais que o revolvimento
de matéria fático-probatória que sustenta a denúncia, o que é inviável face à
Súmula 7/STJ7.

17. De todo modo, qualquer dúvida sobre a participação de algum dos


agravantes será dirimida no curso da instrução criminal em juízo, etapa na
qual poderão contestar a denúncia e indicar, de modo detalhado, os elementos
fáticos para a sua inocência.

18. Neste momento processual, impossível trancar a denúncia, que traz


fartos elementos indiciários de prática de conduta delituosa, de acordo do o
art. 41 do CPP, com a individualização da conduta dos réus, descrição dos
fatos e classificação dos crimes, de forma suficiente para dar início à

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Súmula 7, STJ - A pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial.
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Procuradoria Geral da República ARESP 1231422/DF

persecução penal na via judicial, bem como para o pleno exercício da defesa.
Dar outro enfoque à matéria iria contra a jurisprudência pacífica dessa
egrégia Corte Superior de Justiça, o que atrai o enunciado da Súmula 83/STJ,
antes citada.

19. De todo o exposto, o Ministério Público Federal opina pela


manutenção da decisão impugnada.

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Hugo Gueiros Bernardes Filho
Subprocurador-Geral da República

Indexação.
1.Penal. 2.Crimes contra a Administração Pública. 3.Corrupção. 4.Recebimento da denúncia. 5.Presença de
justa causa. 6.Ausência de irregularidade. 02/04/2018. M:DL C:HG

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