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RESENHA

GILBERT, Paul. Introdução à teologia medieval. Tradução Dion Davi Macedo. São Paulo,
Loyola, 1999.

Jesuíta francês, Paul Gilbert, é professor catedrático de metafísica na Pontifícia


Universidade Gregoriana de Roma. Em 1979, formou-se em Teologia Dogmática na mesma
Universidade e em 1983 formou-se em Filosofia pela Universidade de Louvain, com uma tese
sobre o Monologium de S. Anselmo. Professor da Universidade Iberoamericana e do Instituto
Católico de Paris, é diretor da revista Gregorianum e membro do conselho editorial da nova
edição da Enciclopédia Filosófica do Centro de Estudos Filosóficos de Gallarate. Suas áreas
de interesse principais e atuais dizem respeito à essência ética da metafísica, à filosofia
racionalista no mundo francófono e à filosofia transcendental.
Na presente obra, e permanecendo num rigoroso nível de análise histórica, o autor se
propõe a levar a cabo a tarefa de introduzir sistematicamente, e com a máxima exatidão
possível, ao pensamento teológico medieval, ressaltando como esta reflexão contribuiu
decisivamente para a formação intelectual e cultural do Ocidente, não apenas no viés
teológico, mas também antropológico, social, legal, moral etc.
A partir de revisão literária das fontes diretas dos autores medievais, Gilbert busca
oferecer um ponto de vista abrangente o suficiente do pensamento de mais de dez séculos.
Seu trabalho visa mostrar, preferentemente, como a reflexão teológica, pouco a pouco, foi
tomando consciência de sua identidade científica e oferecendo à sociedade de seu tempo e às
futuras uma contribuição original para o desenvolvimento do pensamento humano. Assim,
podemos afirmar que o autor se insere numa corrente de defesa do pensamento medieval,
contra os que preconceituosa e erroneamente julgam este período histórico ainda como “idade
das trevas”.
De fato, o autor recorda que, nas nossas culturas atuais, persiste uma visão quase que
espontânea da Idade Média como período em que a razão esteve subjugada e em que não
houve produção intelectual alguma digna de crédito e de importância na contemporaneidade.
Essa imagem caricaturada do medievo não surgiu do nada. Gilbert cita vários pensadores que,
a partir do dito “Renascimento” investiram pesadamente contra tudo o que se relacionasse à
Idade Média (termo, de per si, já pejorativo). Eis alguns nomes desse roll: Descartes, Kant,
Hegel com suas ácidas críticas, posteriormente revistas ou, ao menos, matizadas, pela própria
filosofia.
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O problema de fundo, segundo nosso autor, é o de saber se na Idade Média houve


ciência. O que subjaz a pergunta: que de fato é a ciência? Pode haver uma ciência (teologia)
que caminhe pari passu com a realidade da fé? Recorrendo a Santo Agostinho, Gilbert afirma
que a teologia é uma recusa a se fechar sistematicamente a razão para o que a fé aponta e não
um mero mover-se no interior da fé, desprezando e subjugando a razão. Destarte por teologia
não se pode depreender uma razão anã, decadente e presa, mas, bem ao invés disso, uma
razão essencialmente aberta. Gilbert apresenta, pois, uma teologia e uma filosofia da Idade
Média muito ricas em reflexões e que continuam atuais, sob vários aspectos. Uma filosofia,
aliás, desde aquele tempo, bem distinguida da teologia e um lógos bem desenvolvido pelos
medievais.
Aduz ainda que, do ponto de vista estritamente histórico, é impossível negar que o
cristianismo tenha trazido elementos novos à reflexão ocidental. Organizando um discurso
verdadeiramente científico. A despeito das mais adversas circunstâncias sociais e culturais,
políticas e econômicas que ameaçavam constantemente a Europa entre os séculos V a XV.
Entre as quais a terrível crise das invasões bárbaras, depois muçulmana e de um século de
peste negra.
Para sua analise histórica, o autor traça um marco temporal: a Idade Média de que
nos falará abre-se com o doutor africano, Agostinho de Hipona. Recorda-nos que a influência
de Santo Agostinho foi enorme durante toda a Idade Média. Uma vez que este santo, homem
de rara capacidade intelectual, integra, ao lado de Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant,
Hegel o grupo dos fundadores da cultura ocidental.
De gênio especulativo e espírito de busca eterna, o homem Agostinho aproxima-se
muito de nosso tempo, segundo Gilbert. Elabora reflexões ainda totalmente pertinentes no que
tange ao tema da liberdade humana, existência e realização, além das suas grandes
contribuições no campo especificamente teológico como sua obra magistral De Trinitate e o
De civitate Dei.
Contudo, após a morte de Agostinho e a subsequente queda do Império Romano, a
reflexão teológica ocidental atravessou um período de inatividade. Condições sociais e
político-econômicas absolutamente desfavoráveis da primeira Idade Média obstaculizaram de
fora a produção intelectual ocidental. Ainda assim, mesmo nesse período, os mosteiros
conservaram toda a riqueza cultural ocidental e lentamente gestaram um novo tempo de
formulações teóricas.
Com o passar do tempo e a lenta melhora nas condições de vida, a alta Idade Média
viu surgirem as Escolas, com o desenvolvimento de um novo método sistemático de ensino e
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de pesquisa. Foi-se criando, assim, uma nova cultura sobre as ruínas da tradição latina abatida
pelas invasões bárbaras. Entre as novidades trazidas pelas escolas figuram, sobremaneira, a
disputatio e a suma.
Gilbert destaca que a partir do ano 1050, a Europa desperta verdadeiramente para as
joias da cultura e da reflexão, são desse período grandes autores como Anselmo de Cantuária,
Abelardo e São Bernardo. Marcando um autêntico renascimento cultural na segunda metade
do século XI que se estenderá e ganhará forças no século seguinte.
O século XIII verá surgir um grande nome com São Boaventura. De matriz filosófica
ainda totalmente platônica e agostiniana, mas já com aberturas ao “novo” filósofo que a
Europa começava a descobrir, Aristóteles. A luta pela aceitação ou rechaço ao estagirita
haveria de durar mais de um século e só seria dirimida graças à contribuição do outro nome de
peso colossal da Idade Média: Santo Tomás de Aquino.
Santo Tomás, teólogo dominicano, por sua competência extraordinária, logo haveria
de se tornar uma das maiores referências da reflexão teológica de todos os tempos,
especialmente por ter concebido um sistema muito amplo e muito unificado que acolhia com
imparcialidade as teses e os procedimentos aristotélicos que fascinavam a época. Com Tomás
surge, de fato, uma nova cultura teológica. Sua obra prima é a Suma Teológica que, com seus
doze tomos, trata de todos os temas teológicos além de questões pertinentes à ética social,
antropologia e filosofia política.
Com Tomás a cultura teológica ocidental atinge o seu clímax na Idade Média. Porém,
mais uma vez, circunstancias externas, como a guerra dos cem anos, a peste negra e as
consequentes carestias, trouxeram ao século seguinte à morte de Tomás novas fraturas e
tempo de instabilidade na produção teológica ocidental.
Com tudo isso, entretanto, o autor faz-nos ver que o pensamento medieval está longe
de ser morto ou não inventivo. Muito ao contrário, é dele que nasce a razão moderna, ele lhe
prepara seus verdadeiros arcabouços teóricos e lhe transmite os tesouros da tradição greco-
latina. Em síntese, na teologia da Idade Média, temos uma reflexão não fechada à razão livre,
mas que na liberdade desta a une ainda mais poderosamente ao contributo da fé.
A leitura da obra de Gilbert tem, assim, muito a contribuir não apenas ao estudante de
teologia, mas a qualquer pessoa que procure conhecer mais profundamente a cultura
ocidental, gestada nesse período tão rico, e paradoxalmente tão incompreendido, que foi a
Idade Média.