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Universidade Presbiteriana Mackenzie

Nancy Rabello de Barros Trindade

.
A BRUXA NOS CONTOS DE FADAS

São Paulo
2008
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NANCY RABELLO DE BARROS TRINDADE

.
A BRUXA NOS CONTOS DE FADAS

Dissertação apresentada à Universidade


Presbiteriana Mackenzie como requisito para
obtenção do título de mestre em Educação
Arte e História da Cultura.

Orientador – Prof.Dr. Arnaldo Daraya Contier

São Paulo
2008
Trindade, Nancy R.B.
A bruxa nos contos de fadas / Nancy Rabello de Barros Trindade. 2008
204f. ; 30 cm.

Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) -


Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2008. Bibliografia: f.
197-204

l. Contos de fadas 2. Bruxa 3. Arquétipos 4. Psicologia analítica


5. Símbolos 6. Imagens arquetípicas. I. Título.
NANCY RABELLO DE BARROS TRINDADE

.
A BRUXA NOS CONTOS DE FADAS

Dissertação apresentada à Universidade


Presbiteriana Mackenzie como requisito
para obtenção do título de mestre em
Educação Arte e História da Cultura.

Aprovado em de de 2008.

COMISSÃO EXAMINADORA

Prof. Dr. Arnaldo Daraya Contier________________________________________


(orientador)

Prof. Dra.Patrícia Pinna Bernardo_________________________________________


(USP)

Prof. Dra. Maria Aparecida de Aquino _____________________________________


AGRADECIMENTOS

O mestrado, para mim, foi motivo de satisfação. Um sonho que acalentei por muitos
anos e que, enfim, se tornou uma realidade. Poder estudar, me aprofundar e
apropriar dos contos de fadas foi muito gratificante. Ir, aos poucos, percebendo o
quanto eles são importantes em nossas vidas, conhecer mais a fundo os autores
que os estudam, fazer as relações, perceber o quanto a personagem por mim
escolhida A bruxa nos contos de fadas traz consigo uma sabedoria muito grande, é
a Grande Mãe conhecedora da vida, de seus encantamentos e mistérios, me
acrescentou muito em todos os sentidos e, principalmente, enquanto mulher. Pois,
o estudo da bruxa na história da humanidade é, por certo, o estudo da mulher. É por
tudo isso que conquistei ao longo deste mestrado que faço aqui os meus
agradecimentos.

Em primeiríssimo lugar ao meu filho Alessandro, que me fez perceber que os


desafios estão aí para serem vencidos. Seu incentivo fez com que eu ingressasse
no mestrado, sabendo que tinha junto a mim um dos meus maiores incentivadores.

Ao Rodrigo, que acompanhou todos os passos e soube compreender as noites de


estudos e leituras, os passeios não feitos, acreditando sempre que este esforço era
importante para o meu desempenho acadêmico.

À minha mãe e minhas irmãs, que me incentivaram a prosseguir sempre, apesar das
possíveis dificuldades encontradas.

Ao apoio recebido do Fundo Mackenzie de Pesquisa, o MACKPESQUISA, que me


ajudou com o reembolso de parte da verba destinada à conclusão deste projeto.

Os meus agradecimentos especiais aos professores do curso de mestrado, que


abriram meus horizontes, que me ofereceram as possibilidades de atingir o grande
momento que é a defesa do mestrado. Em especial ao Prof. Dr. Feijó, que ao longo
do curso me possibilitou aprofundar meus conhecimentos sobre as bruxas,
indicando-me bibliografias, textos e emprestando livros.
À amiga e Prof. Dra. Patrícia Pinna, que através de seus cursos me propiciou um
maior e amplo conhecimento sobre os contos de fadas e as bruxas neles contidos, e
que me dá a honra de tê-la em minha banca.

À Clara Custódio, que com o seu jeito meigo me orientou em relação à arte de
escrever, o que muito me ajudou durante todo o processo da escrita da minha
dissertação e nesta etapa final.

E um agradecimento especialíssimo ao meu querido orientador Prof. Dr. Contier,


que com seu jeito carinhoso e seguro soube fazer com que as minhas idéias fossem
transcritas com o rigor acadêmico necessário, mas que, em nenhum momento,
tolheu meu caminho, deixando que eu realmente fosse autora desta dissertação.

Como acontece nos contos de fadas, esta dissertação teve seu começo algumas
provas à serem vencidas, a ajuda dos seres sobrenaturais e, em diferentes
momentos houve a necessidade de recorrer a sabedoria e às poções mágicas das
bruxas. Mas, como quase todo conto de fadas, existe um final feliz. E este final é o
que estou vivendo agora, fazendo a minha defesa com a colaboração e o carinho de
todos vocês que estiveram comigo durante este percurso.
RESUMO

Esta dissertação visa analisar e estudar a bruxa nos contos de fadas. Busca, no
teórico e no prático, a resposta para uma questão principal: como as crianças e
adultos da atualidade vêem a bruxa nos contos de fadas? Para melhor entender e
desenvolver este tema, busca-se respaldo em Jung e autores como Paz, von Franz,
Coelho e Byington, que seguem a linha da Psicologia Analítica de Jung para seus
estudos sobre os contos de fadas. A construção da personagem também é vista
ainda sob o olhar de historiadores como Darnton, Clark e Nogueira, que analisam a
figura da bruxa e da mulher no contexto histórico.
Em relação à parte teórica, buscou-se observar a estrutura dos contos sob o olhar
de Propp e de outros tantos que fazem análises através das ações e das
personagens neles inseridos. Analisaram-se os principais conceitos relacionados
aos contos de fadas e suas personagens, como arquétipo, Grande Mãe e imagens
arquetípicas, além da contribuição da bruxa na formação da personalidade das
crianças. Os símbolos e as imagens são privilegiados ao longo do trabalho, pois é
através da linguagem simbólica que os contos transmitem seus conteúdos à
humanidade. Os autores usados para entender os símbolos são Byington,
Neumann, Bussato e Kast, entre outros.
Este estudo está dividido em dois grandes momentos: os dados teóricos e as
pesquisas realizadas com crianças e adultos. Para a parte prática foram escolhidos
três contos: João e Maria, Branca de Neve e Rapunzel, que apresentam a bruxa de
diferentes maneiras. Após ouvirem os contos, as crianças foram convidadas a
desenhar a bruxa e, posteriormente, buscou-se analisar estes desenhos a partir das
teorias da Arteterapia, com aporte teórico de autores como Futh, Derdyk, Cox e
Mèredieu.
A partir das atividades conduzidas, chegou-se à conclusão de que as bruxas dos
contos de fadas não são percebidas como puramente más, uma vez que a
personagem é importante para que os contos de fadas cumpram seu potencial para
ajudar as crianças a atravessarem a infância.

Palavras-chave: contos de fadas – bruxa – arquétipos – psicologia analítica –


símbolos – imagens arquetípicas
ABSTRACT

This paper´s objective is to focus on the witch of the fairy tales – more specifically on
they way witches are perceived by adults and children. In order to better understand
and develop this theme, it seeks background on Jung himself and authors as Paz,
von Franz, Coelho, Byington – who follow the Analytical Psychology of Jung on their
studies about fairy tales. The research is enriched by the perspectives of authors as
Darnton, Clark and Nogueira, who analyze the construction of the images of the
witch and the woman within the historical context
The structure of the fairy tale was based on Propp’ s view among other authors who
analyze the fairytale through the actions of the characters within it. It was also
analyzed the contribution of this character to the development of the children’s
personality. The main concepts related to fairy tales (archetypes, Great Mother and
other archetypical images) were also identified on several chapters. The symbols
and images are the focus of the following chapter, as it is through the symbolic
language that the fairy tales bring out their meanings to the mankind. The authors
used to understand the symbols are Byington, Neumann, Bussato and Kast among
others.
This study is divided in 2 great moments: theoretic data and interviews conduct
among children and adults. For interviews work, 3 stories were chosen: Hänsel and
Grethel, Snow white and Rapunzel, which represent the witch in 3 different
perspectives. After listening to the stories, the children were invited to draw the
witch. Those drawings were analyzed using as a starting point the theories of Art-
therapy, supported by authors as Futh, Derdyk, Cox and Mèredieu.
The conclusion achieved from the conducted study is that the witches are not
perceived by children as being totally mean, and that this character has a
fundamental part in order to allow the fairy tales to accomplish its potential of helping
children across their childhood.

Key words: fairy tales – witch – archetypes – Analytical Psychology – symbols –


archetypical images
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO........................................................................................................... 10
A – Justificativa........................................................................................ 10
B- Objetivos principais............................................................................. 12
C - Critérios teórico-metodológicos......................................................... 15
D - Corpus - Estudo de caso - A representação da bruxa........................ 21

CAPÍTULO I - CONTOS NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE.................................... 24


1.1. As primeiras coletâneas e as origens dos contos de fadas..................... 31

CAPÍTULO II - OS CONTOS DE FADAS................................................................. 38


2.1. João e Maria...................................................................................... 40
2.2. Branca de Neve................................................................................. 46
2.3. Rapunzel........................................................................................... 51

CAPÍTULO III............................................................................................................. 56
3.1. A estrutura dos contos............................................................................. 56

CAPÍTULO IV - CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONTOS, ARQUÉTIPOS


E A CONTRIBUIÇÃO DA PSICOLOGIA JUNGUIANA............................................ 62
4.1. Jung e os arquétipos contidos nos contos de fadas.......................... 62
4.2. Símbolos e imagens nos contos de fadas......................................... 68

CAPÍTULO V - A BRUXA NOS CONTOS DE FADAS............................................. 79


5.1. A bruxa: o arquétipo da Grande Mãe................................................ 82
5.2. A relação mãe/criança e as bruxas................................................... 87

CAPÍTULO VI - DARNTON E A VISÃO HISTÓRICA DOS CONTOS DE FADAS.. 91


6.1. A construção histórica da figura da bruxa e a relação mulher/bruxa. 96

CAPÍTULOVII - A CRIANÇA E A CONCEPÇÃO DA BRUXA


NA CONTEMPORANEIDADE: UM ESTUDO DE CASO......................................... 100
7.1. Aporte teórico para a interpretação dos desenhos............................ 100
7.2. Comparação dos desenhos de cada criança nos diferentes
contos – descrição e análise................................................................... 106
7.3. Os desenhos dos adultos/professoras.............................................. 151
7.4. Considerações finais sobre os desenhos e depoimentos................. 154
COSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................... 158

APÊNDICE I - JOÃO E MARIA................................................................................. 161

APÊNDICE II - BRANCA DE NEVE.......................................................................... 174

APÊNDICE III – RAPUNZEL..................................................................................... 190

REFERÊNCIAS......................................................................................................... 197
INTRODUÇÃO

A – Justificativa

No estudo sobre contos de fadas, é possível observá-los como portadores


de mensagens. Os temas neles tratados revelam as dificuldades encontradas na
vida de toda a humanidade. Apresentam, em seu bojo, conteúdos da sabedoria
universal. Cada época reflete mudanças quanto à interpretação de seus possíveis
significados.

Von Franz (1990) assegura que alguns contos de fadas são tradições
religiosas e folclóricas. Desta forma, ao estudá-los, reinterpretam-se as tradições e
os ritos. Os contos apresentam aos leitores diferentes conflitos, semelhantes às
suas vivências reais, e também lhes sugerem as possíveis soluções para resolvê-
los. Dentre os estudiosos dos contos de fadas, encontra-se Bettelheim (1979), que
discute sobre os contos e sua importância, e reporta-se às crianças que se
maravilham e se encantam com as histórias. E que, ao mesmo tempo, sentem-se
compreendidas, pois os contos segundo este autor lidam com as angústias infantis.

Os contos contêm uma estrutura básica, permanecendo ao imaginário


popular durante séculos. Suas personagens, reis, príncipes, princesas, fadas e
bruxas estão sempre presentes, independentemente da cultura na qual estes
contos estão inseridos. No entanto, cada cultura apresenta diferentes contextos
sociais. Desta forma, para melhor compreensão dos contos, torna-se importante o
conhecimento da cultura da qual este conto é originário.

Entre as personagens que compõe o conto de fadas, uma das mais


marcantes é a bruxa. Ela conhece a natureza, as ervas, e diferentes maneiras de
produzir encantamentos.
Nesta pesquisa, a bruxa é a personagem central, pois procurar-se-á
discutir a construção de discursos nas mais diferentes conjunturas históricas e
psicológicas que caracterizam seu comportamento conforme realidades diversas.

A bruxa será estudada, portanto, de acordo com comportamentos


femininos específicos e variáveis e, conforme momentos sócio-culturais no decorrer
da história.

Entre as personagens dos contos de fadas, encontram-se os aliados do


bem e os antagonistas do mal. Estas personagens fazem parte de um mundo
diferente, onde fatos inimagináveis podem acontecer, onde existem heróis e
heroínas que passam por provas até alcançarem seus objetivos. Lá existem fadas e
bruxas. É o mundo do Era uma vez....

O estudo da bruxa nos contos de fada justifica-se por ser, esta


personagem, uma mulher que, por transgredir os valores sócio-culturais de uma
determinada comunidade, é excluída do convívio social, vivendo de maneira
independente. Ela sabe cuidar da alma e do corpo das pessoas de sua comunidade,
ela conhece as ervas que curam e as poções para os encantamentos. Por este
motivo, ela é valorizada e temida ao mesmo tempo.

Para a realização desta pesquisa, faz-se necessário elucidar e considerar


inúmeros conceitos como os contos de fadas, arquétipo, imagens arquetípicas,
Grande Mãe e símbolo, entre outros.

Analisando-se esta personagem, portanto, do ponto de vista psicológico,


Jung esclarece “os contos de fadas são em si mesmo a sua melhor explicação. Seu
significado está contido nos temas que compõe a história da humanidade” (apud
VON FRANZ, 1990, p. 9)

Do ponto de vista histórico, buscar-se-á ponderar seu percurso em


diferentes momentos culturais, tendo como base bibliográfica historiadores que
discursam sobre a bruxa enquanto personagem de uma cultura inserida em uma
comunidade. Analisando-se desta maneira, também será ponderado como constrói-
se a figura da bruxa levando em conta a comunidade na qual ela vive.
Os contos de fadas fazem parte de um momento mágico da vida das
crianças. Através deles, elas vivenciam fantasias, medos, conquistas e sonhos. Os
contos são, acima de tudo, obras de arte literária que possibilitam transcender o
cotidiano e viajar com a imaginação. Suas mensagens são entendidas de diferentes
maneiras pelas pessoas que os lêem, independentemente da faixa etária na qual se
encontram.

Através da imaginação criam-se castelos, florestas, fadas, bruxas


princesas, príncipes, reis e rainhas. Sendo que, para cada leitor ou ouvinte, existe
uma imagem diferente, pois esta depende de suas vivências.

Nos contos de fadas, as figuras da fada e da bruxa são uma


constante. Desta forma, Robles (2006) afirma que fadas são personagens que têm o
poder de reger os destinos humanos muito antes de seu nascimento. São jovens,
belas e sempre dispostas a resolver problemas. Já as bruxas desviam a ordem e o
bem estar, pois se entregam aos mistérios da feitiçaria. A bruxa é representada, na
maioria dos contos, através do esteriótipo da mulher feia e velha.

B - Objetivos principais

A figura da bruxa faz parte do imaginário popular. Sendo assim, esta


dissertação tem por objetivo analisar como as crianças da atualidade vêem esta
figura, fazendo comparações entre visões antigas e atuais.

A bruxa, como personagem significativa nos contos de fadas, é nesta


pesquisa o foco principal. Cabe, neste estudo, considerar quais os riscos que esta
figura pode representar para a personalidade em formação destas crianças, assim
como, quais as oportunidades que esta personagem trás para o crescimento
psicológico destas mesmas crianças. Desta feita, é objetivo básico analisar o
aspecto psicológico dessa figura e a sua influência para as crianças entre a faixa
etária de 4 a 6 anos. Além de analisar também como essa figura permanece no
imaginário dos adultos.

Para entender como é vista a bruxa pelas crianças dos dias de hoje e
pelos adultos, valer-me-ei de três contos escolhidos: João e Maria, Branca de Neve
e Rapunzel, nos quais a bruxa aparece de maneiras diferentes. Estes contos serão
narrados aos grupos de alunos de acordo com cada faixa etária, juntamente com os
adultos (professoras).

A representação das bruxas dar-se-á através do desenho. Segundo


Mèredieu (1974), o desenho constitui-se numa linguagem própria e específica que
se dá a conhecer através das possíveis metáforas e simbologias nele inseridas.
Sabe-se que a criança, ao desenhar, utiliza-se de uma série de signos gráficos, os
quais se assemelham em crianças de uma mesma faixa etária. Isso facilita as
pesquisa em relação ao desenvolvimento do desenho infantil.

A criança convive com o imaginário desde muito cedo. Esta coexistência


entre seres reais e imaginários faz com que os contos de fadas encontrem
facilmente lugar em sua vida. Eles proporcionam crescimento e amadurecimento
emocional, gerando compreensão das situações vividas no dia-a-dia.

A imagem traz em si mensagens subjetivas, sendo que a subjetividade é


menor quando se lida com a palavra. As imagens carregam consigo um cabedal
imenso de simbologias.

A representação da figura da bruxa também será feita pelas professoras


da escola da mesma maneira como será realizada pelas crianças, visto que os
contos, segundo Dieckmann (1986), conseguem atingir o interesse de diferentes
pessoas, em diferentes fases de suas vidas, e com diferentes graus de
amadurecimento. Isso porque, os contos trazem os problemas fundamentais da
humanidade, os quais transitam não só durante vários momentos de nossa vida,
assim como na vida da humanidade. Desta forma, torna-se importante neste estudo
analisar como a bruxa permanece no imaginário dos adultos.

As entrevistas ou depoimentos serão baseados nas leituras da história


oral, que asseguram que as informações colhidas oralmente e os estudos
acadêmicos podem ter divergências, pois se estruturam de maneiras diferentes. Os
trabalhos acadêmicos devem ser entendidos como uma narrativa que é estruturada
pela linguagem do discurso acadêmico. Não podemos nivelar os depoimentos orais
a estes escritos. Os depoimentos orais devem ser ouvidos e entendidos no seu
contexto, isso porque recebem sempre a influência cultural.

Estudar a simbologia que a bruxa carrega é um dos objetivos pretendidos


nesta dissertação. Para tanto, a interpretação dos contos tendo como base a
Psicologia Junguiana será a responsável para atingir este objetivo.

Bernardo (2006) coloca que os contos de fadas apontam e mostram-


nos como se dá a construção de diferentes formas de relação destes com a
realidade. Os contos, porém, não pertencem somente ao passado, pois são
processos criativos referentes a um momento histórico no qual foi produzido através
da relação entre a percepção do real agregado do imaginário, trazendo em si
diferentes significados. Desta forma, ao representarem a bruxa, as crianças e os
adultos dialogarão com aspectos do seu mundo interno. Pode-se observar que
através destas representações, o imaginário, tanto das crianças quanto dos adultos,
estará sendo revelado.

Conhecer a bruxa do ponto de vista histórico e entender sua passagem


para os contos de fadas incide num dos pontos nodais desta pesquisa.

Darnton (1986) afirma que no século XVIII a população de camponeses


vivia na pobreza, com muitas dificuldades, com falta de alimentos, moravam em
casebres longe da comunidade. Os homens enviuvavam cedo, necessitando casar-
se novamente, pois eram muitos os filhos e precisava-se de uma mulher e/ou de
uma madrasta para cuidá-los. Este era o cenário da vida real. Portanto, segundo a
visão histórica deste autor, é este cenário real que foi transposto para os contos de
fadas, os quais chegaram até os dias de hoje pela tradição oral, a princípio e,
posteriormente, recolhidos por folcloristas e transformados em coletâneas.

As duas visões, tanto a psicológica quanto a histórica fazem parte desta


pesquisa. Cada um dos aspectos estudados ampliará a visão sobre a bruxa que,
acrescido dos desenhos e depoimentos das crianças e adultos, formará a visão da
bruxa no imaginário destas pessoas, dando subsídios para que os objetivos traçados
possam ser atingidos.

Desta maneira, não cabe aqui procurar debater se foram os contos de


fadas se espelharam na realidade ou se esta é que foi acrescida de fantasias, isso
porque, a fantasia faz parte da vida de todos os indivíduos em diferentes momentos,
pois ela não existe somente nos livros e nos contos. Assim como, também não é
vivida somente na infância, pois em diferentes fases de nossas vidas há a
possibilidade de se viver a fantasia. É importante ressaltar que nem sempre a arte
imita a realidade, sendo que muitas vezes é a realidade que imita a arte.

C - Critérios teórico-metodológicos

Os autores arrolados nesta dissertação compõem-se daqueles que, de


diferentes maneiras, colaboram para a discussão do tema da bruxa nos contos de
fadas, tanto na sua análise sob o olhar da Psicologia Junguiana, como sob olhar
histórico.

Definir contos de fadas e ampliar os conceitos a eles relacionados é o


ponto de partida desta pesquisa. Estudiosos e teóricos que vêem o conto sob o
enfoque da Psicologia Analítica postulada por Jung mostram-no como portador de
mensagens e carregado de conteúdos arquetípicos. As mensagens inseridas nos
contos de fadas vão ao encontro dos anseios das diferentes faixas etárias, pois
estes conteúdos mostram os dilemas da humanidade. Desta forma,
independentemente da idade em que se encontre o leitor, os contos de fadas podem
trazer mensagens muito importantes, além de possibilitar vislumbrar novos
caminhos.

Sendo assim, por meio de diferentes leituras ampliam-se os conceitos,


agregam-se valores, alargam-se os pontos de vista. E pode-se, desta maneira,
construir o tema com raízes sólidas.
Dos autores lidos, Jung é o que dá a base para a dissertação. Ampliando
os conceitos apresentados por Jung, encontram-se Marie Louise von Franz, Nelly
Coelho, Noemi Paz, Dieckmann e Neumann, que conceituam contos de fadas,
arquétipos, símbolos , imagem arquetípica e o arquétipo da Grande Mãe .

Em relação ao aspecto histórico desta dissertação, os principais


autores arrolados foram Clark, Nogueira, e Darnton.

Os conceitos inicialmente trabalhados nesta pesquisa são as definições


de contos de fadas dados por diferentes autores, os quais, em linhas gerais, afirmam
que os contos são produtos originários da uma determinada cultura e da fantasia.
Estes contos fazem parte da literatura infantil. Coelho (2003) e Abramovich (1997)
enfatizam a importância da literatura infantil, ilustram o percurso histórico dos contos
e as primeiras coletâneas. Apresentam os primeiros e mais importantes autores de
contos de fadas, como Perrault, Irmãos Grimm e Andersen, que elucidam as
diferentes versões dos contos.

Von Franz (1990) conceitua contos de fadas sob diferentes aspectos.


Esta autora coloca que os contos se apresentam por meio de um sistema
relativamente fechado e que neles vamos encontrar uma linguagem simbólica. Von
Franz (1990) faz referência à linguagem dos contos, afirmando que esta é comum a
toda uma espécie humana independentemente de idade, raças e culturas.

Dieckmann (1986) complementa a conceituação de contos de fadas


afirmando que estes são produções culturais, com os quais muitas pessoas
colaboraram e foram trazidos pela oralidade até o momento em que foram
coletados, transformado - se em coletâneas com os contos que conhecemos na
atualidade.

Coelho (2000) assegura que os contos de fadas são histórias originárias


dos Celtas, entre os personagens que fazem parte de seus enredos encontram-se
os mediadores vividos por fadas, que recebem a ajuda de talismãs e varinhas
mágicas para realizar suas ações. E os opositores são representados por gigantes,
bruxas e bruxos, feiticeiros, que interferem na vida e nas ações dos heróis e
heroínas, dificultando seu caminho. Todos fazem parte das aventuras nas quais os
heróis e heroínas são os personagens principais
Paz (1996) amplia a visão sobre os contos de fadas quando afirma que
estes podem ser entendidos como parte de passagens iniciáticas.

Jung (2006) traz conceitos relevantes para o estudo dos contos de fadas.
Este autor desenvolve o conceito de arquétipo, que é fundamental para o estudo dos
contos de fadas, Jung afirma que os arquétipos que são conteúdos inconscientes
que estão inseridos nos contos de fadas.

Jung (2006, p. 87) esclarece que “o arquétipo nada mais é do que uma
expressão já existente na Antiguidade, sinônimo de ‘idéia’ no sentido platônico”.

Entende-se arquétipo como conteúdos que habitam no nosso inconsciente


e que são como matrizes que geram nossos comportamentos. Herdamos as formas
e não a idéia propriamente dita. Sendo assim, são as formas que compõe as idéias.
Cada arquétipo apresenta vários aspectos distintos, o positivo e o negativo,
respectivamente.

Giordano (2007) e Coelho (2003) escrevem sobre a trajetória dos contos,


dando ênfase aos contadores de histórias e aos contos trazidos da cultura oral.
Descrevem os conceitos de arquétipo, inconsciente coletivo, símbolos e mundo
simbólico dos contos. Giordano conceitua o arquétipo enquanto Potencialidades
Psíquicas que habitam no inconsciente coletivo. Esta autora ainda afirma que os
arquétipos são universais, todos os humanos herdam as mesmas imagens sendo
que, de acordo com nossas vivências, ampliamos estas imagens arquetípicas que
recebemos.

Giordano (2007) assegura ainda que há uma predisposição arquetípica


para desempenhar papéis como mães e filhos, entre tantos outros papéis que
desempenhamos nas nossas vidas, e que impulsionados pelos arquétipos, é que
agimos de diferentes maneiras frente as mais diversas situações, pois, herdamos o
potencial para a experimentação dos diferentes papéis sociais.

Neumann (1974) permite analisar a bruxa como a Grande Mãe, vista sob
sua face negativa, a mãe perversa, destrutiva. Discursa sobre o arquétipo da Grande
Mãe, enfocando os diferentes aspectos do seu pólo positivo e negativo. Acrescenta
novos conceitos sobre o arquétipo aos já existentes. Este autor assegura que o
arquétipo da Grande Mãe, pode ser observado ao longo do percurso da
humanidade, estando presente em ritos e mitos.

Este autor exemplifica os dois pólos da personagem. Coloca que no conto


de João e Maria, a casinha de pão-de-ló, decorada com chocolate, esconde uma
devoradora de crianças, a bruxa, o pólo negativo da Grande Mãe.

Neumann (1974) faz relação entre os conceitos de Grande Mãe e Grande


Feminino, definindo o Feminino como “princípio criativo”, representando a totalidade
de onde a vida surge. Esclarece que a Grande Mãe não é somente a mãe
provedora, mas também aquela que traz a morte. Esta morte não é,
necessariamente, a morte física, podendo significar a morte de uma etapa da vida,
para o nascimento ou surgimento de uma nova fase. Portanto, momentos de
transformações.

A Grande Mãe é representada como aquela que nutre, no seu aspecto


positivo, e vista como a que abandona, a mulher perversa e má, em seu aspecto
negativo. E é este aspecto da Grande Mãe que é geralmente associado ao símbolo
da bruxa.

O símbolo da Mãe, segundo Chevalier e Gheerbrant (2006), adquire valor


arquetípico, apresentando dois aspectos distintos. Um construtivo e outro destrutivo.
Ao considerar os aspectos positivos, essenciais para a existência humana, encontra-
se o nutrir, a proteção, o alimentar, dar segurança, aquecer, que estão intimamente
ligados ao Grande Feminino e a Grande Mãe, assegurando à criança os conteúdos
positivos do relacionamento. As rupturas e cisões também pertencem ao símbolo
Grande Mãe, no seu aspecto de mãe terrível e má, representado pela bruxa, a mãe
diabólica, a velha sábia. A bruxa, sendo mulher, relaciona-se à imagem arquetípica
da Grande Mãe vivenciada desta maneira nos contos de fadas.

Chevalier e Gheerbrant (2006, p. XXV) esclarecem que “o símbolo é


sempre pluridimensional, sendo susceptível de um número infinito de dimensões”.
Os símbolos só existem para uma pessoa, uma comunidade ou mesmo para um
grupo, na medida em que possam ser identificados de alguma maneira.
A bruxa, nesta pesquisa, também é vista sob olhar dos historiadores,
que tem pontos de vista divergentes dos autores que a enfocam sob o prisma da
Psicologia Analítica.

Darnton (1986) acredita que contos são documentos históricos, os


quais sofreram as transformações das diferentes tradições culturais. Considera,
portanto, que os contos retratam fatos reais. Desta forma, o autor vê os contos como
documentos que possibilitam conhecer melhor os camponeses e como viviam no
século XVIII.

Nogueira (2004) afirma que os poderes mágicos e a magia,


existentes nos contos, fazem parte do imaginário popular e visam satisfazer a psique
coletiva, em seus desejos, anseios, e necessidades. Seus estudos são baseados em
fatos históricos, buscam analisar a bruxa e a caça às bruxas. Esta conceituação é
valiosa, favorecendo desta maneira, relacionar e analisar a figura “bruxa” pelo viés
da história cultural. Ainda coloca a importância que teve a Igreja em relação ao
movimento da caça às bruxas.

Clark (2006) apresenta a bruxa como “modelo” antifeminino, juntamente


com o símbolo de mãe má. Não obstante, a bruxa é segregada por sua comunidade.
Afinal, expressam o ponto negro social no suposto quadro branco da comunidade.
Esta dicotomia preserva as relações de poder então estabelecidas para manter a
ordem vigente. Este autor é da opinião de que a caça às bruxas refletiu também uma
caça às mulheres. O uso do conceito de bruxaria como foco permitiu que se
alcançassem outros objetivos, como a opressão desta mulher e seu controle social.

A Arteterapia, que dará base para a interpretação dos contos e à sua real
contribuição para a formação da personalidade das crianças, é neste trabalho
representada por Ostrower (2004), que conceitua criatividade e processo criativo, e
Byington, que esclarece sobre o desenvolvimento da personalidade das crianças
sob o enfoque da Psicologia Junguiana. O autor afirma que o desenvolvimento da
personalidade percorre ciclos, iniciando com o matriarcal, patriarcal, alteridade e
cósmico, sendo que, em cada um deles, existem dinamismos diferentes que os
diferenciam. Nesta pesquisa, porém, nos deteremos somente nos dois primeiros
ciclos.
Ostrower (2004) acredita que a criatividade na criança é vivida na sua
totalidade Faz parte integrante de sua vida, surge em diferentes situações, nas
brincadeiras, no faz-de-conta, nos sonhos, para que a criança aprenda e controle as
diferentes situações da vida. Assegura que, para criar, há necessidade de se
integrar os novos conhecimentos significativos às nossas vivências e poder, de
alguma, maneira transmiti-los aos outros.

A interpretação dos contos será embasada nos conceitos trabalhados por


Bonaventure (1992), e Chevalier e Gheerbrant (2006), que apresentam os
simbolismos que podem-se relacionar a diferentes elementos encontrados nos
enredos dos contos de fadas, como por exemplo, os diferentes significados da torre ,
da madrasta e das florestas.

Pain e Jureau (2001) acreditam que a imagem pode ser definida como
representação mental e esta é construída na sua totalidade. Sua criação não
acontece em partes separadas, portanto, é um todo que se transforma em resultado.
É frágil, surge como objeto ou a figura, sendo construída a partir de algum
conhecimento. Continuamente, são feitas análises e sínteses. Criar imagens é,
portanto, um processo.

As entrevistas e os depoimentos desta pesquisa baseiam-se nas leituras


da história oral, que asseguram que as informações colhidas oralmente e os estudos
acadêmicos podem ter divergências, pois se estruturam de maneiras diferentes. Os
trabalhos acadêmicos devem ser entendidos como uma narrativa que é estruturada
pela linguagem do discurso acadêmico. Não podemos nivelar os depoimentos orais
a estes escritos. Os depoimentos orais devem ser ouvidos e entendidos no seu
contexto, isso porque recebem sempre a influência cultural.

Ao final desta dissertação ter- se -a material suficiente para, então,


analisar e concluir a construção de um novo discurso sobre a bruxa, pois, a
personagem terá sido vista de maneira ampla e abrangente nos seus diferentes
aspectos e sob o ponto de vista de diversos autores.
D - Corpus

Estudo de caso - A representação da bruxa

O estudo de caso será realizado em uma pré-escola situada no bairro de


Higienópolis, em São Paulo. A escola é pequena e possui, no máximo, dez crianças
por sala, sob a orientação de uma professora. A escola atende crianças desde a
faixa etária referente ao berçário, com bebês a partir de 4 meses, até crianças com 6
anos completos.

As crianças são separadas em salas, tendo como critério a faixa etária e o


desenvolvimento cognitivo. Esta escola atende uma população de classe média,
cujos pais trabalham fora durante o dia e, desta forma, muitas crianças permanecem
na escola em período integral.

A intervenção consta da representação da bruxa através de desenhos


realizados pelas crianças e adultos da escola, a partir da narração dos contos e dos
depoimentos gravados sobre a visão que fazem da bruxa.

As crianças do Jardim I, que estão com 4 anos, as do Jardim II, com 5


anos, e as do Pré, com 6 anos, perfazem um total de 16 crianças. Todas suas
professoras apresentam formação acadêmica.

As professoras farão parte desta pesquisa para que, ao final, possamos


ter a visão da criança e do adulto em relação à bruxa nos contos de fadas

As crianças do Jardim I, ainda não alfabetizadas somente escutarão o


conto e, posteriormente, farão uma representação através do desenho. As crianças
do Jardim II, que já escrevem um pouco, poderão escrever uma palavra que defina a
bruxa e também farão o desenho. As crianças do Pré, por já estarem alfabetizadas,
escreverão uma frase sobre a bruxa, além de fazerem o desenho.

Para a realização do desenho, as crianças terão à disposição folhas de


Papel Canson A4 e giz de cera ou lápis de cor. Todos os desenhos serão
identificados com o nome da criança ou adulto e com o nome do conto ouvido, para
que se possa, posteriormente, relacioná-los aos depoimentos sobre a bruxa.

No depoimento individual sobre a bruxa constará perguntas que serão


gravadas. Este depoimento terá o objetivo de analisar o que as crianças e os adultos
verbalizam sobre a bruxa, como a descrevem, seus sentimentos em relação à
personagem e se esta fala difere do desenho realizado.

A cada encontro serão tiradas fotos das etapas do trabalho. Elas serão
anexadas à dissertação.

Foram escolhidos os contos da coletânea Contos e Lendas, dos Irmãos


Grimm (1962). Estes contos são João e Maria, Branca de Neve e Rapunzel. As
versões utilizadas serão as antigas, e não as atualizadas.

Estes contos foram escolhidos por apresentarem a personagem da bruxa


através de diferentes formas de ações. Em João e Maria, pode-se observar a bruxa
que mora na casa de chocolate, mas também a postura da madrasta pode ser
entendida como a de uma bruxa. Em Branca de Neve, pode-se observar a
transformação da rainha invejosa em bruxa, que busca retirar a vida da jovem para
continuar sendo a mais bela. Já em Rapunzel, a bruxa age contra os pais da
menina, contra a própria Rapunzel e contra o príncipe.

Sendo assim, os contos escolhidos mostram a figura da bruxa nos seus


diferentes aspectos, o que possibilita aos ouvintes percebê-la também de várias
maneiras, Outro motivo que levou a escolha destes contos para integrarem a
pesquisa é que são contos de uma coletânea que apresenta uma versão dos anos
60, sem muitas mudanças.

Os três contos escolhidos serão narrados às crianças na faixa etária de 4


a 6 anos e, para os adultos, objetivando verificar a pertinência ou não de certas
características da figura bruxa nos desenhos representados pelas crianças e pelos
adultos na contemporaneidade. Observando-se, portanto, nos adultos, o que ainda
permanece no seu imaginário e, nas crianças, como elas constroem a figura da
bruxa.
Ao finalizar esta intervenção, pode-se analisar como os integrantes desta
pesquisa idealizam esta personagem, quais suas características, como se constrói
esta figura no imaginário tanto de crianças quanto de adultos.

Desta forma, teremos ao todo três desenhos de cada participante da


pesquisa, podendo, portanto, analisar como esta personagem é vista na atualidade,
visto que uma das questões levantadas é que antigamente esta personagem
causava medo, era temida e assustadora. Já nos nossos dias, parece-nos que esta
personagem é vista pelas crianças não mais como portadora do mal, que assusta e
amedronta, mas sim como portadora de conhecimentos que podem ajudar.
CAPÍTULO I

CONTOS NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

Von Franz comenta que Platão faz referências sobre o contar histórias,
afirma “... que as mulheres mais velhas contavam às suas crianças histórias
simbólicas denominadas – mythoi” (1990, p. 11). Isso demonstra que, desde muito
tempo, os contos de fadas são vinculados à educação das crianças.

Ainda cita que, na Antiguidade, Apuleio1, escritor e filósofo do século II


d.C. escreveu uma novela famosa : O asno de ouro. Uma narrativa em prosa com 11
livros, denominada inicialmente Metamorfoses. Essa obra narra as aventuras do
jovem Lúcio que, para se transformar em pássaro, unta-se de um unguento mágico.
Mas, em função do uso equivocado do unguento, vê-se transformado em asno.
Depois de uma série de aventuras extraordinárias, ele recupera a forma humana
graças à intervenção de Ísis.

Desta coletânea, o único romance da Antigüidade a chegar intacto aos


nossos dias é Amor e Psique. Esta história pode ser interpretada como uma alegoria
da união mística, relacionando cenas grotescas e obscenas.

Interaja com este mito:

1
Apuléio - Lucius Apuleius (125 - 164) - nasceu em Madaura, na Numídia (hoje Argélia) no ano de
125. Educado em Cartago e Atenas, viajou pelo Mediterrâneo, estudando ritos de iniciação e cultos.
Profundo conhecedor de autores gregos e latinos, ensinou retórica em Roma antes de regressar à
África para casar-se com uma rica viúva. Em virtude da oposição da família da noiva ao casamento,
escreveu a obra Apologia (173), uma espécie de autobiografia, em que se defende da acusação da
prática de magia. Escreveu ainda diversos poemas e tratados, entre os quais Florida, Coletânea de
trabalhos de eloqüência. A sua obra mais conhecida é O asno de ouro.
<http:// www.mundocultural.com.br/literatura1/latina/apuleio.htm - 4>
Psique era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era
extremamente bela. Sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões
iam admirá-la, assombrados, rendendo-lhe homenagens que só eram
devidas à própria Afrodite. Afrodite enviou seu filho, Eros, para fazê-la
apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua
beleza, Eros apaixonou-se profundamente Psique continuava só. Seus pais
procuram um oráculo que disse que deviam levar Psique ao cume de uma
montanha e lá surgiria seu marido, uma terrível serpente, e assim ocorreu.
Ao chegar a montanha Psique sentou e sentiu muito sono adormecendo, ao
acordar se viu num lindo lugar onde foi levada a um castelo escuro lá , na
escuridão encontrou seu marido. Sendo alertada que nunca o poderia ver.
Ao amanhecer o marido não se encontrava lá, sendo assim por muito
tempo. Com saudades de suas irmãs, pediu permissão para visitá-las,
recebendo a permissão do marido, mas ao contar às irmãs que era muito
feliz mas, que nunca vira seu marido foi instigada por elas para vê- lo.
Voltando ao castelo, com uma lamparina tentou vê-lo, viu ao seu lado um
lindo jovem, mas Eros acorda com um pingo de óleo que caiu da lamparina.
Afirmou que o amor não sobrevive às suspeitas e a abandona. Para
recuperar o amor de Eros que realizar três provas e somente depois disto
foi realmente feliz.2

Esta história assemelha-se à conhecida A Bela e a fera. O enredo relata


a história de uma jovem que é obrigada a viver em um castelo, convivendo com um
príncipe transformado em fera. Ela aprende a amá-lo, valorizando sua beleza
interior. Quando o feitiço é quebrado através do beijo entre ambos, “Fera”
transforma-se em príncipe novamente.

É possível observar a similaridade entre estes contos e outros, ainda da


atualidade, encontrados na Rússia, Suécia e Noruega. Este tipo de conto, pontuado
por transformações, se refere à figura feminina enquanto personagem que através
do seu amor redime seu amado. Existe, aproximadamente, há mais de 2.000 anos,
mantendo-se praticamente inalterado em seu conteúdo até os dias de hoje.

Von Franz (1990), a respeito da trajetória dos contos de fadas, cita


documentos como as colunas de papiros egípcios que os descrevem. Um dos mais
célebres, por exemplo, é o conto sobre a história de dois irmãos Anúbis e Bata, que
relata as desavenças entre dois irmãos, projetadas na dupla de deuses. Eles
constantemente brigam entre si, mas dependem um do outro.
Observa-se, então, que os temas básicos dos contos permanecem muito
semelhantes entre si. Outra informação que von Franz fornece é sobre a teoria do

2
Disponível em: <http://www.angelfire.com/la/psique/mito.html>
padre W. Schimidt, segundo a qual os temas dos principais contos permanecem
inalterados desde aproximadamente 25.000 anos a.C.
Nos séculos XVII e XVIII, os contos eram dirigidos para crianças e
adultos, sendo a narração de histórias uma prática permanente nos centros de
civilização primitiva.

Vale elucidar que “[...] o contar histórias era tido como uma espécie de
ocupação espiritual essencial sendo até chamado de: ‘filosofia da roda de fiar’ -
Rocken Philosophie.” (VON FRANZ, 1990, p. 12)

Herder, um estudioso do século XVIII, afirmava que estes contos


continham lembranças de crenças já enterradas e que eram expressas através de
seus símbolos. Eram reminiscências de uma sabedoria ou fé, isto é, a busca de algo
que melhor satisfizesse os ensinamentos dados às crianças pelo Cristianismo, uma
nova aspiração vital. (id., ibid)

Os irmãos Grimm (apud VON FRANZ, 1990), integrantes da escola


romântica alemã, investigaram os contos folclóricos. Segundo Giordano (2007),
Folclore é a palavra que designa “conjunto de tradições” e de conhecimentos que
pertencem a uma sociedade. É, portanto, uma herança social transmitida pelos
diferentes participantes das comunidades, independentemente de onde habitem.

Giordano esclarece que a palavra Folclore surgiu pela primeira vez em


Londres, na revista Ateneu, em 22 de Agosto de 1846, tendo sido criada pelo
arqueólogo inglês Willian John Thomas. Esta palavra se compõe da junção de dois
vocábulos folk, que significa povo, e lori cujo significado é sabedoria.

Os irmãos Grimm escreveram contos sem mudar as histórias contadas


pelos camponeses e pessoas dos arredores. Porém, não resistiram à tentação de
misturar elementos fantasiosos em algumas versões. Cautelosos, mediante alguma
modificação no original do conto, explicavam-na nas notas de rodapé de página.
Eles “não conseguiam deixar coisas ou fatos desconexos, vazios, como os
paradoxos aparecerem” afirma von Franz (1990, p. 14). A coletânea dos Irmãos
Grimm nasce com muito sucesso, sendo que existiram várias edições.
Surge Perrault na França, ressaltando que em todos os países as
pessoas começaram a colecionar os contos de fadas locais. Os estudiosos
identificavam, admirados, a quantidade de temas que se assemelhavam e que se
repetiam. Um tema presente na França era também encontrado, com algumas
variações, na Rússia ou na Itália. (VON FRANZ, 1990)

Para explicar este fenômeno, os irmãos Grimm usaram a seguinte


metáfora: “Contos são como cristais, que quando quebrados, espalham seus
fragmentos pela grama”. (apud VON FRANZ, 1990, p. 14)

Paralelamente aos irmãos Grimm, surgiu uma linha de pensamento que


considerava que os mitos expressavam, simbolicamente, as realizações e os
pensamentos filosóficos mais profundos. Nesse sentido, pode-se ver como um
“ensinamento místico de algumas das verdades mais profundas da relação de Deus
e o mundo”. (id., ibid.)

O interesse em verificar o que causava a repetição e a semelhança entre


os temas conquistou expressão histórica e enfoque científico. A pesquisa foi
direcionada para a descoberta dos originais e de suas migrações, pois não havia,
até então, estudos sobre o inconsciente coletivo e a psique. Alguns acreditavam
que os contos eram, em sua maioria, originários da Índia ou até da Babilônia. De lá,
migravam para toda a Europa. Outros acreditavam que esses fossem oriundos da
Ásia Menor, centro de origem dos contos, e assim algumas teorias se
desenvolveram sobre as possíveis migrações. (VON FRANZ, 1990)

A autora enfatiza que o Centro Folclórico buscava analisar a teoria das


migrações. Vários estudiosos chegaram à conclusão que os contos não poderiam ter
sua origem em um só país. Eles acreditavam que diferentes contos surgiam em
diversos locais. A partir desta teoria, surgiram coletâneas agregando contos do
mesmo tipo, acreditando-se que a melhor das versões, a mais rica, ou a mais
poética, seria a geradora dos demais.

Von Franz (1990) declara sua posição sobre o pensar em relação aos
contos: alguns migram e se desintegram e outros recebem valor agregado. No
percurso da história dos contos, a autora assegura que no século XVIII outras
pesquisas foram feitas. Surge Ludwig Laistner que escreveu em Berlim Das Ratsel
der Sphinx, em 1889. Este autor defendia a hipótese que os temas básicos, tanto
dos contos de fadas, como dos folclóricos, derivam de sonhos. Faz a relação entre
os temas repetidos de sonhos típicos, aqueles que são comuns às pessoas em
diferentes fases da vida, como sonhos de se casar, ter filhos, e os temas folclóricos.

Para Bastain3, os temas mitológicos são denominados de “pensamentos


elementares” (apud VON FRANZ, 1990, p. 17) da espécie humana. Esta, possui um
estoque de Elementargedanken, os quais não migram, são congênitos a cada
indivíduo. Estes “pensamentos elementares” aparecem com variações geográficas
na Índia, Babilônia, por exemplo, o que denominou como “Histórias Especificas”.
Tais idéias se aproximam muito das de Jung sobre o arquétipo e imagem
arquetípica, conforme explica von Franz.

Segundo Jung,

[...] o arquétipo é a disposição estrutural básica para produzir certa narração


mítica e a imagem específica sob a qual os arquétipos acabam de uma
forma recebendo então o nome de Imagens arquetípicas. ( id., ibid.)

Bastian acreditava que “os pensamentos elementares” refletiam um fator


hipotético, o que significa que não poderiam ser vistos. Mas, ao deparar com
“pensamentos nacionais” semelhantes, tem-se indício da existência de um
pensamento básico que está subjacente a estes. (id, ibid.)

A Escola Literária visava investigar os contos sob o ponto de vista


estritamente formal. “Faz a distinção entre os vários contos: mitos, lendas, histórias
cômicas, histórias com animais e histórias jocosas, e o que se denomina de contos
de fadas clássicas” (id., p. 18). Estes contos são os de autoria de Perrault, Grimm e
Andersen, que transcrevem os contos da tradição oral de suas comunidades,

3
Antropólogo alemão, Adolf Bastian (1826-1905), abria o campo da experiência da datação dos mitos
para distinguir duas importantes concepções da esfera mitológica. Obsessivo historiador dos
costumes de cada povo, experimentado e curioso explorador, Bastian, dentro das longas viagens que
fez, desenvolveu a teoria das "idéais elementares" (Elementargedanke), em contrapartida as "idéias
étnicas ou culturais" (Volkergedanke).

Disponível em: <http://www.symbolon.com.br/artigos/papainoel.htm>


mantendo suas singularidades. Estes estudos foram importantes e denotaram as
diferenças existentes entre os heróis dos contos de fadas, que podem ser definidos
como aqueles que salvam, matam e não têm medos. Agem sem demonstrar seus
sentimentos, são reações que seguem os mesmos padrões em diferentes contos.
Nas lendas e sagas, o herói já demonstra seus sentimentos. (VON FRANZ, 1990)

Os contos de fadas foram estudados por etnólogos, antropólogos e


especialistas em mitologia e histórias das religiões, o que permitiu ampliação poética
e cientifica sobre o assunto em pauta.

A trajetória realizada sobre os contos de fadas permite observar os


diferentes enfoques sobre seus significados. Von Franz conclui que os estudiosos,
aos poucos, começaram a notar as semelhanças entre os temas, os motivos
simbólicos contidos nos contos e a semelhança nas ações dos personagens. Com o
avanço da Psicologia, percebeu - se o quanto os contos possibilitam o conhecimento
das estruturas mentais, emocionais e sociais dos indivíduos.

Jung, ao estudar os mitos, percebeu que os contos de fadas também


continham ensinamentos vindos da sabedoria popular. Em suas pesquisas sobre os
arquétipos, constatou-os presentes em mitos e em contos de fadas.

Uma definição interessante sobre os contos coloca que “os contos de


fadas são as expressões mais pura e mais simples dos processos psíquicos do
inconsciente coletivo”. (VON FRANZ, 1990, p. 9)

A autora comenta o motivo que Jung e a Psicologia Junguiana têm para


estudar os contos. Deve-se ao fato de ser “nos contos onde melhor se pode estudar
a anatomia comparada da psique” (JUNG apud VON FRANZ, 1990, p. 25), pois nos
contos existe um material cultural que tem suas raízes no imaginário da psique
coletiva, possibilitando a criação de imagens diferenciadas. Conseqüentemente, eles
oferecem uma imagem mais clara das estruturas psíquicas. Já nos mitos e lendas,
ou outro material mais elaborado, temos as estruturas básicas da psique através de
uma grande quantidade de material cultural.

Silveira (2000) sugere tratar-se uma maneira de lidar com vários dramas
que temos durante as diferentes etapas de nossas vidas. Ela ressalta que estes
elementos trazidos nos contos são comuns a todos os homens, tendo sua origem
nas profundas camadas do inconsciente, comuns a pisque de todos os seres
humanos e pertencentes ao mundo dos arquétipos. Por este motivo é que os
mesmos temas aparecem em contos de países distantes, em diferentes épocas e
com muito pouca variação.

Von Franz (1985) afirma que as tendências inatas, os arquétipos que


encontram-se nos contos, podem ser influenciados pelas civilizações nas quais se
originaram. O conto se origina de uma história, tendo um núcleo que é formado a
partir de um sonho. Este revela um ou mais arquétipos da sociedade em que se
encontra. Observa-se, assim, a permanência dos arquétipos.

Apesar das ramificações de contos europeus e africanos, percebe-se a


inter-relação entre eles, isso porque, os contos de fadas podem migrar de um lugar
ao outro com maior facilidade. Apresentam uma estrutura simples e básica, o que
lhe permite fazer sentido para qualquer pessoa. (VON FRANZ, 1985)

Segundo Silveira, para Jung:

Mitos e contos de fadas dão expressão aos processos inconscientes e sua


narração provoca revitalização destes processos, restabelecendo a conexão
do consciente ao inconsciente (JUNG apud SILVEIRA, 2006 p.105)

Isso acontece quando se escuta ou se lê um conto. É este o motivo pelo


qual as crianças solicitam para que lhes contem várias vezes os mesmos contos.
Enquanto não vêem soluções para suas dificuldades, buscam no conto a resposta
para seus conflitos.

Jung define arquétipo:

[...] o arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o


qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo
matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se
manifesta (JUNG, 2006, p. 17 )

O autor expõe que, além do arquétipo ser um pensamento padrão e estar


interligado a outros, é também uma experiência emocional que pertence a um
indivíduo. Quando adquire valor emocional e afetivo, pode ter vida. Jung defende
que não há significado em copilarmos os temas, as Grandes Mães, os santos. Só
há significado em algo quando existe, junto a ele, uma experiência afetiva. (apud
VON FRANZ, 1990).

Os arquétipos são contaminados uns pelos outros no inconsciente. São


representações simultâneas que lá estão, e quando o consciente dá atenção a um
deles é como se um foco de luz fosse projetado nele, realçando-o neste momento
(id., ibid.). Este conceito é muito importante ao estudar-se os contos.

Pode-se verificar quando o arquétipo foi focalizado por um ou outro


indivíduo. Isso acontece de acordo com o momento de vida e com a percepção
deste momento específico.

É importante perceber que cada indivíduo, a seu modo, irá contribuir para
a interpretação do conto. Selecionará um ou outro aspecto para validá-la.
Observará a maneira com que os contos se conectam. Frente a uma visão racional,
talvez se encontrem explicações baseadas na hierarquia de valores expressos no
conteúdo do texto. Outros leitores observarão os símbolos neles contidos e suas
possíveis ampliações. Outros ainda tenderão a ver os elementos em sua totalidade,
ao invés de mensagens fragmentadas, cujo conjunto representa uma interpretação
de casualidade entre as ações e os resultados obtidos.

1.1. As primeiras coletâneas e as origens dos contos de fadas

A primeira coletânea de contos infantis surgiu na França, no reinado de


Luís XVI, Contos para Mãe Gansa. Esta coletânea tem autoria de Perrault
apresentando o total de oito contos recolhidos dos relatos da população. São eles: A
Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de
Botas, As Fadas, Cinderela ou A Gata Borralheira, Henrique do Topete, e O
Pequeno Polegar. Numa próxima edição foram acrescentados os contos Pele de
Asno, Griselidis, e Desejos Ridículos. (COELHO, 2003)

Coelho (2003) assegura que Perrault foi o primeiro escritor a fazer uma
coletânea. Pode-se dizer que a literatura infantil surgiu na Alemanha, século XVIII,
tendo como objetivo a pesquisa da língua alemã. No país também surgiram os
Irmãos Grimm. A partir do trabalho deles, a literatura infantil começou a se expandir
pela Europa e Américas.

Os irmãos Grimm tentavam buscar as raízes de sua língua. Os objetos de


estudo preferenciais destes autores eram os mitos, lendas e sagas que
permaneceram vivos na tradição popular, por serem transmitidos de geração a
geração. Nos textos que usavam para seus estudos lingüísticos, encontravam-se os
contos, trazidos pela cultura popular: Os Contos de Grimm, nesta coleção
receberam o nome de “Contos de Fadas para Crianças e Adultos”. (id., ibid.)

As histórias mais conhecidas, tais como A Bela Adormecida, Branca de


Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, A Gata Borralheira, O Ganso de
Ouro, Os Sete Corvos, Os Músicos de Bremen, A Guardadora de Gansos,
Joãozinho e Maria, O Pequeno Polegar, As Três Fiandeiras, O Príncipe Sapo, entre
outros, foram publicadas como contos avulsos, entre os anos de 1812 a 1822. Na
segunda edição, os Irmãos Grimm retiraram alguns episódios que continham fatos
cruéis e aqueles que envolviam as crianças. (id., p. 23)

Décadas depois dos Irmãos Grimm, surgiu, no início do romantismo,


Andersen, dinamarquês que publicou seus 187 contos de 1835 até 1877,
denominado Eventyr. Andersen era um homem ligado aos valores cristãos e tinha os
mesmos ideais românticos, acreditando nos valores populares. Sensível, torna-se o
primeiro escritor a escrever para o público infantil. Sua linguagem é singela e toca o
coração das crianças. Seus contos transmitem sua visão do mundo, veiculando
valores como bondade, lealdade e honestidade. Seus contos, em geral, são tristes e
retratam um final nem sempre feliz, diante do egoísmo e da injustiça social.

Desta maneira, os contos de Andersen refletem, em seus conteúdos, os


problemas religiosos de seu país. Estes não apresentam estrutura folclórica, mas
são impregnados de problemas pessoais, a maioria deles vivenciados pelo autor.
(VON FRANZ, 1985)

Andersen busca resgatar o folclore da Dinamarca. Ao mesmo tempo em


que mostra as injustiças da sociedade, apresenta o caminho da religião como
solução. Assim, procura passar às crianças padrões que acreditava serem os ideais
para se alcançar o céu. Seus principais contos são O soldadinho de Chumbo, A
pequena vendedora de fósforos, O rouxinol e o imperador, A roupa nova do
imperador, João e Maria e A rainha da neve. (COELHO, 2003)

Andersen trazia em seus contos os valores ideológicos que prezava.


Temos como exemplo os contos A pastora e Limpador de Chaminés, que mostram a
defesa dos direitos iguais para todos, propondo a anulação das classes sociais. O
patinho Feio e A pequena vendedora de fósforos demonstram a necessidade da
valorização individual, através das qualidades de cada um. A aceitação é explicitada
nos contos A Sereiazinha, O sapo e O pinheirinho. O Soldadinho de Chumbo e O
homem da Neve apresentam os valores que envolvem a incerteza da vida. O
Rouxinol e o Imperador discorre sobre os valores naturais em relação aos artificiais.
E, finalmente, os contos Os Cisnes Selvagens e Os Sapatinhos Vermelhos mostram
a necessidade de se incentivar a fraternidade, a caridade, a resignação e a
paciência diante dos infortúnios da vida. (id., ibid.)

Coelho (2003) investiga algumas origens dos contos de fadas. Vale a


pena relembrar Chapeuzinho Vermelho:

Uma menina conhecida pelo apelido de Chapeuzinho Vermelho, que a


pedido de sua mãe deve levar uns doces e sua avó. No caminho,
desobedece a sua mãe e conversa com estranhos. Um lobo fica sabendo
então que irá à casa da avó, a antecede, (em algumas versões come e avó
e depois a menina). Ambas são salvas pelo caçador que passava. o
caçador mata o lobo (em algumas versões são colocadas pedras na barriga
4
do lobo que morre)

Este conto existe em vários folclores pesquisados, mas não tem origem
certa. Acredita-se que tenha sido originário do mito grego de Cronos.

4
*Nota da autora
O mito nos fala sobre que a esposa de Urano era Gaia (a Terra) e que cada
vez que Gaia tinha um filho, Urano o devolvia ao ventre de Gaia. Cansada
disto, Gaia tramou com seu filho Cronos. Ela fez de seu próprio seio uma
pedra em forma de âmina e a deu para Cronos. Cronos esperou que
Urano, seu pai, dormisse e o castrou. Atirou a genitália de Urano no mar, de
onde brotou Afrodite, a deusa do amor. Depois, Cronos reinou entre os
deuses durante um período de prosperidade conhecido como Idade
Dourada. Mas uma profecia dizia que ele seria enfim vencido por um filho
seu. Assim, temendo uma revolta tal qual a sua, ele passou a devorar seus
próprios filhos assim que nasciam. Até que a profecia se cumpriu, e Zeus,
auxiliado por sua mãe, Réia, o destronou na guerra que ficaria conhecida
como titanomaquia. Zeus libertou definitivamente seus irmãos e baniu os
5
titãs paraTártaro.

Esta mesma história é encontrada numa fábula latina do século XI,


Fecunda Ratis. Ela conta sobre uma menina que usava um capuz vermelho, é
devorada por lobos, e consegue escapar, enchendo a barriga do lobo com pedras.

A Bela Adormecida é conhecida numa coletânea que circulou pela Europa


com um tema semelhante, cujo original é datado do século XIII: O cavaleiro Troylus
e a bela Zellandine. (COELHO, 2003)

Outro conto, cuja célula original vem de uma lenda da mitologia grega, é
O Barba Azul. Sua origem seria a lenda do “Tesouro de Ixion”. (id., ibid.)

O conto Henrique do Topete, segundo o autor, é uma variante de A Bela e


a Fera. Ambos teriam suas origens no conto oriental O príncipe porco e as três
irmãs, no qual uma das irmãs é desencantada, se transformando numa bela jovem.
Este mesmo tema aparece em Pantscahtantra. O príncipe serpente também sofre o
processo de desencantamento. Esta lenda procede de Portugal e tem o nome de
Nobitário do conde D. Pedro. Este é um bom exemplo de migração. Sua possível
origem, o mito Psique e Cupido, de Apuléio.

Cinderela ou a Gata Borralheira tem sua origem em La Gata Ceneréntola,


registrada por Basile, na qual existe uma moça feia que se transforma em bela.
Ainda no folclore italiano, outra história apresenta o tema da transformação: O rei e
seus três filhos. Neste conto, há uma princesa que aparece transformada em rã. (id.
Ibid.)

5
Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cronos>
Coelho (2003) revela que as origens do Pequeno Polegar, conto que
relata a história de uma família, já não são descritas com tamanha exatidão. Porém,
o tema é visto em quase todos os folclores do mundo. A história conta a tradição
milenar do nascimento de uma criança muito pequena que ajuda seus pais.
Segundo Coelho (2003), há uma fusão de contos entre este, Joãozinho e Maria e
ainda com a história que tem o nome de Crianças e feiticeira.

Em todos estes contos o cenário é muito semelhante: a floresta, onde


crianças são abandonadas, um ogre que se alimenta de crianças, a troca de gorros
e a bota de sete léguas. Este é um bom exemplo de como os contos se fundem e
trazem temas semelhantes com sua migração de um local para outro. (COELHO,
2003)

E, finalmente, o autor menciona o Gato de Botas, que tem origem incerta,


embora conhecido nos folclores de diferentes localidades. Anteriormente a Perrault,
Basile, em sua coletânea Conto dos Contos, datada do século XVI, na Itália, relata
um conto cujo nome é Cogluso. Trata-se de um gato astuto, audacioso e sagaz, que
consegue transformar um amo pobre em rico senhor da corte, casando-se com a
princesa, da mesma maneira que acontece no conto Gato de Botas. O conto relata
as experiências arriscadas de um gato astuto que, para agradar seu amo, busca
soluções diferentes e audaciosas para os problemas existentes. Tais atitudes
causam espanto entre os moradores da sua comunidade. Pode-se afirmar que os
recursos por ele encontrados são criativos.

Por meio desses exemplos de contos conhecidos de geração em


geração, pode-se constatar o quão antigos são e que se originam de mitos ou
lendas vindas da Europa. Cabem, então, alguns questionamentos: Qual o motivo
que faz com que sejam contados até a atualidade? Como, e porque, se perpetuam
no tempo?

Em geral, os contos apresentam características comuns. Sua composição


é mais simples e básica que seus elementos estruturais. Por isso, podem fazer
sentido para qualquer pessoa. Apresentam uma linguagem que é compreendida por
adultos e crianças. Entre as principais características pode-se observar:
1. A presença do elemento fada, ser fantástico imaginário, embora alguns
contos não revelem a sua presença. Pode-se dizer que é a presença do
mediador entre o herói (ou heroína) e o objetivo a ser alcançado;

2. A oposição bem e mal. É uma visão maniqueísta. Aquele que pratica o bem
é bondoso na sua totalidade. Não existem dúvidas sobre a sua bondade.
Aquele que pratica o mal é perverso em suas atitudes e incapaz de
qualquer ação ponderada entre bem e mal. Frente a esta dualidade em
constante guerra, o bem deverá ser o vencedor.

3. A ambigüidade entre as personagens: bom e o mau; ou o personagem é


muito bom ou ao contrário. São lindos ou muito feios. Os valores são
absolutos, em essência, e seus opostos não coabitam uma mesma
personagem. As personagens são divididas de acordo com o esteriótipo
produzido pelos valores que carregam em suas ações.

4. As provas ou desafios, que normalmente acontecem ao herói do conto,


dificultam sua trajetória ao tentar atingir seus objetivos.

5. Estereótipos: Em sua maioria as personagens do conto são dotadas de


beleza, mesmo que pobres. Os opositores são feios. As princesas são
lindas e meigas. As bruxas são feias, velhas e com verruga no nariz.

6. Os elementos mágicos são aqueles que ajudam o herói. Como a varinha de


condão ou poções mágicas, o caldeirão ou a vassoura, que ajudam a fazer
o mal.

7. O Final feliz, que corresponde à conquista do objetivo. (VON FRANZ, 1990)

Paz (1995) esclarece que os contos podem ser classificados de acordo


com os temas que desenvolvem no seu enredo. Sendo assim, temos:

Ciclo arcaico – nele, encontram-se crianças abandonadas, que ficam a


mercê de poderes do mal (da bruxa), crianças na casa do Ogro, espíritos que são
aprisionados em garrafas, o rei e seus filhos, o animal que recupera forma humana.
Ciclo dos adormecidos – neste ciclo, encontram-se contos nos quais o
príncipe é adormecido por magia e as princesas adormecem por feitiços.

Ciclo heróico – abrange contos onde existem lutas. A luta contra o


dragão, a busca e o resgate, e as provas que levam ao casamento.

Bettelheim (1979) acrescenta que nos contos de fadas o mal é tão


presente quanto o bem, sendo comum estarem inseridos sob forma de personagens
e suas ações, pois estes também são onipresentes em nossas vidas. É a dualidade
que possibilita à criança observar o problema existente e também a necessidade de
resolvê-lo.

O mal está presente nos contos, sendo simbolizado pela poderosa bruxa,
pelos gigantes maus ou, por exemplo, pela astuta rainha de Branca de Neve. As
ações exercidas pelos detentores do mal prevalecem por um determinado período
em destaque. Porém, no final da história, o mal será punido, mostrando à criança
que a pessoa má quase sempre é perdedora. Fica claro que o conto sugere às
crianças uma maneira de agir. Como podem lidar com seus sentimentos. Mostra-
lhes que existem, ao mesmo tempo, uma mãe boa, e uma madrasta má, que
coabitam a mesma personagem.
CAPÍTULO II

OS CONTOS DE FADAS

Os contos de fadas trazem-nos de volta ao mundo maravilhoso da


imaginação e da fantasia, onde vivem os reis, as rainhas, os príncipes, as princesas,
as bruxas e as fadas. Além disso, os contos destacam em seus conteúdos o
conhecimento sobre o comportamento humano, pois têm uma estrutura que reflete
as diferentes formas atitudinais e traços que personificam o homem. Através deles,
pode-se estudar as estruturas básicas do comportamento humano. Sua maior
importância, como afirma von Franz (1990), está no fato de que os contos de fadas
trazem em seus conteúdos mensagens, as quais são importantes tanto para as
crianças que os lêem ou escutam, como para os adultos.

Os conteúdos dos contos de fadas vão se conectar com o nosso


inconsciente, ao mostrarem, em seus enredos, situações comuns ao nosso
cotidiano. Por vezes, falam de problemas e também das situações agradáveis que
podem se assemelhar ao nosso dia-a-dia. As soluções destes problemas ou
dificuldades nos são mostradas através das ações dos seus heróis.

Von Franz (1985) contextualiza que antigamente os contos de fadas não


eram destinados às crianças, e sim aos adultos das classes inferiores da população,
como lenhadores e camponeses. Conta-se que enquanto as mulheres fiavam,
ouviam contos. A autora relata ainda que, em alguns locais, existiam profissionais
contadores de contos, que eram convidados a contá-los e a repeti-los, se
necessário. Essas atividades eram herdadas ou aprendidas, caracterizando-se como
uma tradição cultural.

Os contos conquistavam valor. Havia uma tradição oral que os mantinham


sempre no imaginário das crianças e dos adultos. Ao mesmo tempo em que revelam
uma forma de entreterem adultos e crianças, trazem ensinamentos através de seus
conteúdos simbólicos, o que aumenta sua importância. Portanto, expressam
aspectos da sabedoria popular, passados de geração a geração. (VON FRANZ,
1990)

Von Franz afirma que, para Jung, “o conto de fadas é, em si mesmo, a


sua melhor explicação. Seu significado está contido na totalidade dos temas que
ligam o fio da história”. (apud VON FRANZ, 1990, p. 9).

Os temas encontrados nos contos de fadas são temas comuns a toda


humanidade. Contam histórias de famílias, de pais e mães, relacionadas aos medos,
às madrastas, aos ricos e pobres.

Bettelheim (1979) afirma que nos contos de fadas, os personagens são


muito parecidos com os homens, mas se diferem destes pois não têm um nome
próprio. As citações se apresentam como: “um certo rei...”, “uma moça que...” ou
então “o rei tinha três filhos”, “seu filho mais velho...” E quando, porventura, estes
personagens têm nomes próprios, eles são os mais comuns, como Maria ou João.
Da mesma forma, fadas e bruxas também não têm nomes próprios. Isso acontece
para que a identificação com as personagens flua com maior facilidade.

Os personagens têm vida e características próprias. Cabe refletir que os


indivíduos que os habitam nos contos atravessam o tempo da história, que são
finitos. O indivíduo morre. O personagem se mantém vivo. Logo, a personagem tem
prioridade ao individuo, em se tratando de contos de fadas. O indivíduo não constrói
um diferencial com relação à personagem. Esta possui vida e lugar próprios. É
diferenciada por si só. Cada personagem é eterna no conto de fadas, pois nos
contos sempre encontramos rainhas, reis, príncipes e princesas, além de bruxas e
fadas. Assim, podemos pensar que esta possibilidade, de ser eterno e com
características próprias, é um elemento essencial para que os contos existam até os
dias atuais.

Assim, as personagens ganham vitalidade para atravessar a linha do


tempo em que transita a humanidade. Por exemplo, o rei quando falece deixa o
trono para que outro indivíduo possa ocupá-lo. Quem morre não é o rei, mas sim o
humano que exercia o reinado. A função rei permanece viva no imaginário histórico.
Surge a indagação: quem será o próximo rei?
Observa-se que a identificação entre personagem e indivíduo encontra-se
facilitada. Trata-se de representações arquetípicas de pais, mães e filhos.

Para Bettelheim (1979), os contos, ao lidarem com o imaginário, não


iludem as crianças. Estes apenas colocam-nas em contato com diferentes emoções
e dificuldades comuns à humanidade.

2.1. João e Maria

Este conto encontra-se na Coleção Contos e Lendas, dos Irmãos Grimm,


de junho 1962, volume I. Recebe, nesta edição, o nome de Joãozinho e Margarida.

Este conto relata a vida de um casal com dois filhos, vivendo numa
época em que a fome era comum nas diferentes comunidades européias. Por este
motivo, a madrasta e o pai das crianças decidem deixá-los abandonados na floresta.
Esta foi a solução encontrada para sanar a falta de alimentos para a família.
Joãozinho, por ter ouvido a conversa dos adultos, que decidiram abandoná-los na
floresta, leva em seu bolso ao sair de casa, pedrinhas com as quais pretende marcar
o caminho para retornar a casa. Com esta atitude, as crianças conseguem retornar
para casa.

Mas a situação de falta de alimento persiste, e mais uma vez, são levados
à floresta e, desta vez, João não encontra as pedrinhas e, por isso, leva pedaços de
pão. As migalhas são comidas pelos pássaros, impedindo a volta das crianças para
casa.

Na floresta, buscam abrigo e, depois de algum tempo, encontram uma


casinha de chocolate. Como estavam famintos, resolvem comer partes da casinha,
que era de uma bruxa. Esta, logo vem ao encontro das crianças. A princípio, os
cativa com boa alimentação e cama gostosa para dormirem. Mas, logo depois,
prende Joãozinho em uma gaiola e faz Maria trabalhar para ela. A bruxa tem a
intenção de comer as crianças e é enganada por elas no final da história. Maria
empurra a bruxa no fogão e solta João. Depois, as crianças encontram um tesouro e
voltam para casa com a ajuda de um pássaro. Encontram o pai sozinho e podem,
então, viver tranqüilos e felizes.

No conto João e Maria, a madrasta e a bruxa apresentam características


do pólo negativo da Grande Mãe.

Neumann (1974) afirma que muitas imagens simbólicas representam o


arquétipo da Grande Mãe. Os arquétipos transitam entre os dois pólos: um negativo
e outro positivo. Sendo um complementar ao outro.

Segundo Grinberg (2003), o arquétipo da Grande Mãe, no seu pólo


positivo, apresenta a mãe como aquela que provém, alimenta e acolhe a criança. E
o pólo negativo da Grande Mãe, manifesta-se através da mãe devoradora e terrível,
que seduz, asfixia, abandona e aprisiona, quase sempre representada nas histórias
como a personagem da bruxa ou da madrasta.

Grinberg (2003) esclarece que estas estruturas arquetípicas são sempre


bipolares e, desta forma, apresentam aspectos que são criativos e estruturantes, ao
lado dos aspectos negativos e destruidores. Mas estas polaridades não estão
relacionadas às noções de bem e mal.

No conto João e Maria, a figura da mulher assume posturas também


vividas pelas mulheres atuais. Uma delas é a função da mãe que, neste conto, é
vivida pela madrasta. A outra função é a de filha, vivenciada pela Mariazinha. Toda
mulher vive o arquétipo da Grande Mãe em fases distintas de sua vida.
Primeiramente, vive este arquétipo como filha, quando é ainda bebê e é acolhida no
colo e, posteriormente, o vive em outra fase, quando é já mãe que dá o colo aos
seus filhos. Estes, em alguns momentos de suas vidas, podem sentir-se
abandonados assim como João e Mariazinha. (BONAVENTURE, 1992).

Neste conto a madrasta (bruxa) pode ser entendida pelas crianças como
modelo de mãe. Isso significa que as crianças, durante suas vidas, podem sentir sua
mãe como a personificação da bruxa, por exemplo, quando a mãe não lhes faz
todas as vontades. Sendo assim pode-se dizer que toda mãe tem uma bruxa dentro
de si.

A mãe normalmente é vista como provedora de amor e de acolhimento,


mas ela deve também afastar-se um pouco para que as crianças possam agir de
maneira independente, pois é importante que ela mostre aos filhos que eles devem e
podem caminhar sozinhos. Uma mãe zelosa e cuidadosa, que alimenta seus filhos
na boca quando estas crianças já têm condições de se alimentarem por conta
própria, estarão atuando como bruxas que não permitem o crescimento das
crianças, por mais que estejam agindo com amor e carinho. Pode-se, então,
perceber que as atitudes das mães podem ser entendidas como a Grande Mãe no
seu aspecto negativo ou positivo, nas diferentes situações da vida.

A floresta é um local onde não há segurança. É escuro, o que causa


medo. É um lugar desconhecido, obscuro, inatingível. Segundo Chevalier e
Gheerbrant (2006), a floresta simboliza o inconsciente, sendo o local onde vivem os
animais selvagens, que correspondem aos nossos instintos, e onde deparamo-nos
com o desconhecido. Na vida, precisamos também passar pela floresta para que
possamos crescer.

As situações pelas quais as crianças passam desde pequenas, como o


primeiro dia na escola, ou tendo que fazer sozinhas algumas atividades, podem
gerar uma sensação de abando. Essas situações podem ser relacionadas à entrada
na floresta, levando à novas conquistas. Isso porque proporciona à criança buscar
recursos próprios para resolver suas possíveis dificuldades.

Mellon (2006) explica que a floresta é também o local onde se busca


conhecimentos, podendo ser vista sob dois aspectos. Uma situação que dá medo,
ou ainda aquela que nos liberta. Na floresta, moram os monstros e as bruxas, assim
como fadas e princesas.

A casa da bruxa fica na floresta. Ela é feita de pão-de-ló e vários doces.


Lá vive a mulher velha, feia, magra e de olhos esbugalhados. A casa da bruxa é
construída com alimento, que alivia a fome e dá subsistência às crianças.
A bruxa atrai as crianças pelo “alimento”, pois a “mãe alimenta” e cuida.
Alimentar é uma das funções da mãe. Crianças adoram doces, bolos e, desta
maneira a casinha de pão-de-ló é convidativa e apetitosa, principalmente, quando se
tem fome.

A bruxa deste conto está sempre envolvida com o alimento. Oferece às


crianças uma mesa farta de iguarias, cativando-as definitivamente, e seu
comportamento, a princípio, é acolhedor. Bonaventure (1992) tece um comentário a
respeito da atitude da bruxa, colocando que, ao contrário da atitude que teve a
madrasta com relação às crianças, a bruxa as protege, oferecendo-lhes alimentos
apetitosos e preparando uma cama macia e gostosa. Assim, o medo que havia
causado às crianças no seu primeiro contato deixa de existir.

A bruxa nesse conto é ambígua, mostrando-se bondosa no início da


história, mas usa desse artifício para conquistar as crianças. Este comportamento da
bruxa possibilita vê-la como uma mulher boa ou má, e é semelhante à visão que
algumas crianças têm de suas mães, em suas vidas reais, ora boas, ora ruins.
Quando a mãe briga com seu filho, pode parecer à ele uma bruxa, mas quando é
carinhosa a bruxa deixa de existir dando lugar a fada bondosa.

A nossa vida está repleta destas ambigüidades. Mesmo dentro de cada


um de nós, encontramos um lado bondoso e outro lado perverso.

João, neste conto, representa o lado masculino, e a Maria, o feminino que


existe dentro de cada indivíduo. Um lado que pondera, apresentando soluções, e o
outro que se desespera e chora. Estes dois aspectos são importantes e se
complementam.

João, pressentindo o abandono, separa pedrinhas para marcar seu


caminho. Marcar o caminho com pedras traz segurança, pois a pedra é imóvel,
permanece onde é colocada. Assim, pode facilitar o caminho de volta. Maria, apesar
de demonstrar fragilidade no início deste conto, age com segurança no final. Acha,
dentro dela, forças para sair da dificuldade em que se encontra, jogando a bruxa no
forno e salvando João da gaiola. Relacionando esta situação à vida infantil, pode-se
observar que, quando as crianças se sentem acuadas, por vezes conseguem ter
soluções criativas para seus problemas, assim como Mariazinha.
Bonaventure (1992) explica que ao relacionarmos a atitude de João, ao
tomar a iniciativa de buscar uma solução para ao problema, e a atitude de Maria, de
ficar com medo e chorar, observamos explicitamente os valores culturais e sociais,
em relação à atuação dos homens e das mulheres frente à vida. Mas, ainda
esclarece que dentro de cada ser humano há um João e uma Maria, que são as
nossas polaridades. Uma que se deixa levar pelo desespero, não pára para pensar,
e outra que é mais destemida, busca saídas para as diferentes situações. Ao
observar-se estas duas atitudes, pode- se perceber que elas não são antagônicas, e
sim complementares.

Segundo Lerner (1992), é através da lua clara, que ilumina o céu, que as
crianças conseguem ver as pedrinhas e voltar para casa, pois a lua ilumina os
caminhos. A lua está simbolicamente associada ao feminino. É como uma mãe que
orienta, ajuda, mostra o caminho, a sabedoria. Neumann (1974) afirma que a lua é
um dos símbolos da Grande Mãe, representando, por causa de suas fases, a
capacidade do nascimento, assim como de um renascimento. Chevalier e
Gheerbrant (2006) ampliam as colocações de Neumann afirmando que a lua pode
representar a periodicidade, o feminino e a transformação.

As mulheres deste conto assumem papéis bem definidos. A madrasta


abandona as crianças na floresta, tem atitudes claras, sem rodeios, não se deixa
influenciar pelos sentimentos, é radical, leva seu plano adiante sem se deixar abater
pelos empecilhos, personificando, assim, a mãe perversa e má, que também pode
ser associada a uma espécie de bruxa. A bruxa da floresta tinha por objetivo se
alimentar das crianças. Através de suas atitudes, a madrasta e a bruxa impulsionam
as crianças para o crescimento, para a busca de soluções, sendo assim, são
personagens que levam à transformação, à busca de soluções, à mudança de
comportamento.

A mãe/madrasta, a bruxa e Maria são mulheres que demonstram as


diferentes fases da mulher: jovem, madura e velha. E ainda evidenciam os opostos:
salvadora e destruidora, boa e má.
Em relação à bruxa, esta personifica a mãe devoradora ao se alimentar
das crianças, procurando se apoderar da inocência perdida, da pureza, e da alegria
da vida, da graça, que não possui mais, pois é velha, feia, e cruel.

A bruxa de João e Maria mora afastada da sua comunidade, não tem


vizinhos, vive isolada, representada um padrão de comportamento que é visto na
literatura, através da figura da mulher velha, magra, feia, e neste conto em especial
não enxerga bem.

Relacionando a bruxa deste conto com as bruxas da Idade Média


percebe-se que existem semelhanças. As bruxas da Idade Média eram velhas,
moravam afastadas das cidades, cuidavam da natureza e das ervas, faziam poções
mágicas com as quais cuidavam daqueles que as procuravam, alimentando-os. A
bruxa do conto assemelha-se às antigas na medida em que também é velha, mora
afastada da comunidade e alimenta as crianças.

Representantes do mal, segundo Mellon (1992), as bruxas são


apresentadas com roupas negras e, em relação ao seu comportamento, são
orgulhosas e invejosas, normalmente provocando espanto e medo. Mas ao mesmo
tempo, exercem fascínio tanto nas crianças como nos adultos. Usam vassouras
mágicas e têm o poder de transformar pela palavra.

A bruxa deste conto não enxergava bem. Pode-se relacionar esta


característica às diferentes situações de nossas vidas, nas quais não queremos
enxergar, ver o que está a nossa frente, fugindo do confronto. Nessas situações, ou
choramos como Maria e obedecemos à bruxa (à vida), ou tentamos adiar a situação,
como fez João, ao mostrar durante um bom tempo o ossinho à bruxa.
(BONAVENTURE, 1992)

No final deste conto, depois de conseguirem sua liberdade, as crianças


acham na casa da bruxa um tesouro com pedras preciosas, voltam para casa e
vivem felizes com seu pai. Relacionando este episódio à vida das crianças, pode-se
observar que, quando a criança consegue buscar no seu interior as soluções para
enfrentar suas dificuldades, ela encontra o seu tesouro, as suas possibilidades, os
recursos com os quais poderá lidar com as adversidades.
A confiança que os irmãos depositaram um no outro possibilitou a sua
salvação. João, ao ficar preso e impossibilitado de buscar soluções para se verem
livres da bruxa, como havia feito no início da história, leva Maria à busca de uma
nova força interior, que a faz forte e ativa, pois não podia agora contar com uma
ajuda externa. Maria, por passar por estas difíceis experiências, deixa de agir
apenas com seu lado afetivo, buscando as soluções. Aprendeu, portanto, a
desenvolver e usar sua polaridade masculina.

A comunhão de objetivos e a confiança que um depositava no outro


fazem com que João e Maria, juntos, consigam atingir suas metas, pois ambos
tinham o mesmo propósito: voltar para casa e se livrar da bruxa. João confiou em
Maria e vice-versa

Os contos, através de seus conteúdos simbólicos, possibilitam ao


ouvinte/leitor vivenciar com mais clareza seus momentos difíceis, tanto internamente
quanto externamente, e encontrar neles soluções e tesouros. Porém, isso não
garante que as dificuldades deixem de existir. Os contos apenas apontam caminhos
que apontam onde buscar forças para enfrentar estas dificuldades.

Observa-se, neste conto, os dois aspectos que compõem o arquétipo da


Grande Mãe, o negativo e o positivo. Deve-se ter o cuidado de não vê-los como bom
ou mau, pois é preciso analisá-los como pólos opostos e complementares de um
mesmo símbolo. Isso significa que temos sempre dentro nós estas polaridades.

2.2. Branca de Neve

O Conto da Branca de Neve, relatado aqui, foi retirado do volume I da


Coleção Contos e Lendas, dos Irmãos Grimm, de 1962.

Este conto refere-se à história de uma menina, filha de uma rainha que
faleceu quando ela era ainda muito pequena. Ao ficar viúvo, o rei casa-se
novamente com uma rainha muito linda, porém invejosa e ciumenta. A rainha julga-
se a mais bela das mulheres. Ela possuía um espelho mágico, que sempre lhe
confirmava sua beleza.

À medida que foi crescendo, Branca de Neve foi se tornando cada vez
mais bela. A rainha, ao constatar esta realidade, fica enfurecida e cheia de inveja,
pois seu espelho mágico não lhe afirma ser ela a mais bela entre todas as mulheres.
Diante disso, a rainha tenta várias vezes pôr fim à vida de Branca de Neve. Mas
somente depois de três tentativas consegue envenená–la.

Branca de Neve, depois de comer a maçã envenenada, permanece


dormindo durante muitos anos, até o dia em que um príncipe, ao vê-la, enamora-se
por sua beleza, levando-a ao seu castelo.

Branca de Neve revive e casa-se com o príncipe. A madrasta (bruxa) é


convidada para a festa de casamento, e lá é obrigada a dançar com botas quentes
como brasa até morrer.

Neste conto, as figuras masculinas têm pouco significado, pois nada


sabemos a respeito do rei e o caçador é uma figura pouco expressiva, mesmo
representando a segurança de Branca de Neve diante da morte. Este homem não
mata a jovem, mas a deixa na floresta, viva e abandonada. (BONAVENTURE, 1992)

São sete os anões presentes na história. Estes pequenos homens


protegem a menina, que passa a morar com eles. Eles, ao seu modo, orientam
Branca de Neve sobre as maldades que podem prejudicá-la. Segundo Chevalier e
Gheerbrant (2006), anões estão relacionados com a terra, com as grutas e com as
cavernas incrustadas nas montanhas, podem representar, portanto, o inconsciente.
São misteriosos. Podem ser considerados, desta forma, os guardiões dos segredos.

Chevalier e Gheerbrant (2006) explicam que os gnomos recebem o nome


popular de anões e são representados pela figura de homenzinhos pequenos e
feios, às vezes maliciosos e perversos. Na Cabala, são os donos dos tesouros,
assim como das pedras preciosas. Em relação à alma humana, são considerados
como clarões da nossa consciência. Ainda sobre o simbolismo dos anões,
Bonaventure (1992) coloca que eles representam a necessidade do trabalho para a
conquista de tesouros, sendo o oposto ao que acontece com reis, rainhas e
princesas, que obtém tesouros e jóias, assim como Branca de Neve, sem se
esforçar para isso. E é por este motivo que na casa dos anões a menina terá que
trabalhar para poder comer, pois não tem mais súditos ao seu dispor. Transpondo
esta situação para a vida real, observa-se que as crianças não têm
responsabilidades de cuidar, lavar, ou mesmo de fazer comida, mas quando estas
vão crescendo, podem e devem ter algumas responsabilidades, de acordo com suas
possibilidades.

Segundo Chevalier e Gheerbrant (2006), os anões eram sete, o número é


formado pela junção do 4, que simboliza a terra e seus pontos cardeais, e o número
3, que simboliza o céu. Sendo assim, este número representa a totalidade do
universo em movimento, sendo portador de um dinamismo. Também representa a
passagem do conhecido para o desconhecido, o fim de um ciclo que dá inicio a
outro. Ainda representa a perfeição, visto que cada ciclo lunar é composto de sete
dias. Esse número representa, portanto, a mudança que acontece ao final de cada
ciclo.

As figuras mais expressivas neste conto são as femininas, aqui


representadas pela madrasta (bruxa) e por Branca de Neve. A madrasta nos contos
de fadas, normalmente é vivenciada pela figura da mulher má, ou seja, representa o
arquétipo da Grande Mãe em seu aspecto perverso, destruidor. A madrasta deste
conto não consegue amar, não tem filhos, e não ama os filhos do primeiro
casamento do marido.

Ao trazer esta situação para os nossos dias, pode-se intuir que, com as
separações cada vez mais freqüentes e os novos casamentos dos parceiros, os
filhos normalmente vêem a nova mulher de seu pai como uma madrasta, aquela que
quer assumir o lugar de sua mãe, podendo ser vista pelas crianças, possivelmente,
como uma bruxa.

Especialmente no conto Branca de Neve, a madrasta é portadora da


inveja, do ciúme e da cobiça. Tem medo de perder sua beleza e formosura. Quer,
portanto, continuar bela para sempre. Sente ciúmes da beleza de Branca de Neve.
Essa situação, vivida no conto, segundo Bonaventure (1992), é muito comum no
relacionamento entre mãe e filha, pois com o crescimento da criança, a comparação
entre ambas é evidente. A mãe, neste momento, percebe que sua juventude está
passando e que não retornará. Vê-se diante de uma nova etapa de sua vida, o
envelhecimento, sendo assim, o espelho da vida lhe mostra que agora a mãe não
brilhará mais, pois este é o momento em que a filha, via de regra, passa a ser
considerada a mais bela. As filhas, geralmente, se espelham na mãe como modelo
de mulher, sendo sua referência. Isso significa que as mães são os espelhos nos
quais as jovens se miram ao se transformarem em mulheres.

Entre a relação da mãe ou madrasta e a filha deve existir a figura do pai.


É ele quem ameniza as desavenças entre mães e filhas. Mas, neste conto isso não
acontece, o pai de Branca de Neve não tem presença física, não pode impedir a
madrasta de tentar matar a personagem. Dessa maneira, a presença masculina é
vivida pelos dos anões.

As bruxas ficaram conhecidas na Antiguidade por usarem os segredos da


natureza para conseguirem poderes mágicos. E julgava-se que tinham efeitos
malévolos. A madrasta da Branca de Neve também age desta maneira, usando de
efeitos mágicos para matar a menina.

Segundo Chevalier e Gheerbrant (2006), as bruxas ou feiticeiras sabem


como exercer poder sobre os outros, por vezes buscam vinganças pessoais. É isso
o que acontece neste conto, em que a madrasta, transformada em bruxa, vai
pessoalmente se vingar de Branca de Neve.

A madrasta usa o espelho para saber o quanto é bela. Os espelhos têm o


poder de refletir imagens, mas também de revelar a verdade, a qual pode ser boa ou
ruim. Na China, o espelho é símbolo lunar e feminino, sendo também considerado o
emblema da rainha. É utilizado para adivinhação. O espelho mágico permite ler tanto
o passado, como o presente e o futuro. É considerado “o próprio símbolo dos
simbolismos”, segundo Chevalier e Gheerbrant (2006). Gillig (1999) também afirma
que os espelhos não refletem o lado físico somente. Eles mostram também o que há
dentro do coração dos seres humanos, mostram a realidade moral, refletindo a alma
do homem e suas forças, do bem e do mau.
A madrasta procura várias maneiras para retirar Branca de Neve de seu
caminho e usa, para isso, diferentes artifícios:

- o primeiro é um cinto que pode dar força e poder, mas também pode
prender. Portanto, é o lado oposto à liberdade, pois oprime e aprisiona. Este é o
significado que mais próximo chega ao cinto do conto de Branca de Neve.
(CHEVALIER e GHEERBRANT, 2006).

A madrasta vai à casa dos anões, onde vive a menina, oferece-lhe um


lindo cinto e, ao colocá-lo em Branca de Neve, aperta-o em sua cintura, oprimindo
sua respiração, fazendo a menina desfalecer.

- o segundo artifício é um pente envenenado. O pente embeleza e enfeita,


porém, este pente contém dentes envenenados. Dessa forma, o pente deixa de ser
um simples adorno para ser o portador da morte.

- o terceiro e último artifício é a maçã envenenada. Esta maçã, assim


como a vida, tem dois lados: a maçã oferecida à Branca de Neve tem um lado
branco e outro vermelho. É na parte vermelha que se achava o veneno mortal.
Maçãs são significativas, no Cristianismo, a maçã foi considerada o símbolo do
conhecimento, como fruto da árvore da vida, do bem e do mal. (id., ibid.)

O conhecimento tanto pode ser unificador como degenerador, pois


pressupõe escolhas. Branca de Neve, ao comer a maçã, busca novos
conhecimentos e faz sua escolha.

Neste conto, a madrasta impede que Branca de Neve viva diferentes


momentos de sua meninice e juventude. Ao comer a maçã envenenada, permanece
“dormindo” por muitos anos. E, ao ser encontrada e amada pelo príncipe, ela
renasce, entretanto não mais como uma jovem, e sim como mulher. A bruxa luta
contra esta passagem, tentando estagnar a vida da jovem numa fase. Relacionando
a atitude com a vida real, observa-se este fato quando uma mãe não deixa que a
filha viva suas frustrações, suas dificuldades, protegendo-a como se estivesse em
uma redoma, como ficou Branca de Neve durante muitos anos. Assim, essa atitude
equivale à da madrasta da Branca de Neve.
Os contos mostram as diferentes situações que podemos encontrar em
nossas vidas e, juntamente com elas, mostram as possíveis soluções. Dessa forma,
as crianças, os jovens ou os adultos aprendem a lidar com suas tristezas e mágoas
ao escutar os contos de fadas. Esta é a grande contribuição que os contos nos
trazem.

2.3. Rapunzel

Conto dos Irmãos Grimm, retirado Coleção Contos e Lendas, volume II,
Para esta pesquisa e para a interpretação também foi lida uma versão mais
atualizada deste conto no livro Meu primeiro livro de contos de fadas. Porém, o
conto lido para a representação das crianças foi o da coleção dos Grimm. Ambos os
livros relatam a história de um homem e uma mulher que durante muito tempo
desejam ter um filho. Finalmente, este desejo se realiza através da premonição de
uma rã. Nos fundos da casa do casal podia-se ver o quintal da casa da bruxa e nele
existe uma plantação de repônsios.

Um dia, a mulher falou ao marido que tinha muita vontade de comer


repônsios. O homem foi até o quintal e os trouxe para sua mulher. Fez isso mais
uma vez, até que um dia foi descoberto pela bruxa. Ela, furiosa, propõe ao homem
um acordo por ter retirado os repônsios do seu quintal. Pede a criança que irá
nascer em troca dos repônsios retirados de seu quintal. Com medo da bruxa, o
homem concorda com esta troca.

Ao nascer a menina, a bruxa vai buscá-la. A criança recebe o nome de


Rapunzel, por sua mãe ter comido os repônsios do quintal da bruxa. A bruxa cuida
da menina até, aproximadamente, os 12 anos. Mas quando a menina fica mais
jovem, a bruxa prende Rapunzel numa torre muito alta e sem portas. Para visitá-la
no alto da torre, a bruxa pede que Rapunzel jogue as tranças para que suba por
elas.
Um príncipe, ao passar próximo da torre, ouve uma linda canção, fica
encantado e passa a vir ouvi-la todos os dias. Ele observa a atitude da bruxa para
entrar na torre. Curioso por saber de quem era a voz que entoava a canção, um dia
faz o mesmo que a bruxa pede que Rapunzel jogue as tranças. O príncipe sobe na
torre pelos cabelos da jovem e os dois se enamoram. Ele, então, passa a visitar
Rapunzel sempre que a bruxa vai embora.

A bruxa, porém, descobre e castiga o príncipe, fazendo com que fique


cego, e o deixa vagando pelo deserto. Ela também castiga Rapunzel. Abandona a
jovem no deserto como castigo pela traição. Um dia, o jovem príncipe cego, vagando
pelo deserto, ouve um canto e reconhece a voz de Rapunzel. Segue em sua
direção. A jovem, ao vê-lo cego, chora sobre seus olhos e suas lagrimas o fazem
enxergar novamente. Casam-se e são felizes.

Esta é uma síntese do conto retirado dos dois livros, um antigo e outro do
ano de 2005. A história de Rapunzel permanece praticamente inalterada, sendo
somente alguns detalhes retirados da edição atualizada, como os dois filhos que
viviam com Rapunzel no deserto (os quais seriam os filhos da união entre o príncipe
e Rapunzel, mas isso não fica claro no texto).

De acordo com as leituras anteriores, percebe-se claramente, o quanto os


contos mantêm seus enredos quase inalterados, apesar de suas diferentes versões.

Este conto possibilita observar diferentes atitudes realizadas pela bruxa. A


primeira ação refere-se à ameaça de ficar com a criança que irá nascer porque o
homem retirou alguns repônsios de seu quintal. Esta ameaça concretiza-se. Ela leva
a criança, cuida dela, mas, na sua juventude, deixa Rapunzel presa na torre,
impossibilitando-a do contato com o mundo, deixando-a sozinha no deserto, ao
perceber que foi enganada por ela. Castiga também o príncipe, deixando-o cego no
deserto, ao descobrir que visitava Rapunzel com freqüência.

Ao aprisionar a personagem na torre, a bruxa impede a jovem de viver as


experiências da juventude. Com isso, a menina torna-se frágil, sem defesas para o
mundo, pois o seu mundo se transforma na torre e na solidão.
A torre, segundo Chevalier e Gheerbrant (2006), significa um local
sagrado que se direciona ao céu, possivelmente com o intuito de aproximar-se dos
poderes celestes e trazê-los para a terra. Na Idade Média, as torres podiam servir
para avistar de longe os inimigos, também sendo o local onde se aprisionavam os
soldados. Apresenta o sentido de escada, que vai da terra ao céu, sendo que cada
degrau da torre significava uma etapa conquistada.

Rapunzel possuía tranças muito compridas e fortes, pois elas eram


usadas como escada para que a bruxa e, posteriormente, o príncipe pudessem
atingir o topo da torre para visitá-la. Segundo Chevalier e Gheerbrant, as tranças de
cabelos, assim como a torre, podem ter o significado de ligação entre dois mundos,
o que aprisiona e o que liberta. Neste conto, as tranças de Rapunzel fazem a
ligação dela com o mundo, na relação dela com a bruxa e também com o jovem
príncipe.

A trança apresenta também o significado de escada, simbolizando a


relação entre céu e terra.

A bruxa do conto Rapunzel, como as demais bruxas de outros contos,


não têm nome. De acordo com Bettelheim (1979), é conhecida somente por bruxa e
por seus poderes malévolos. Este aspecto dos contos já foi mencionado
anteriormente. Isso acontece para que a identificação entre as personagens e os
leitores flua mais facilmente.

A bruxa faz uma troca entre duas vidas: a vida do pai pela vida da criança.
Ela não cuida desta criança e transforma sua vida em prisão, não lhe dando
escolhas nem autonomia. A bruxa, como a Grande Mãe no seu pólo negativo, é a
mãe que aprisiona e não dá possibilidades de crescimento.

O deserto é um local frio e sem vida. Estar no deserto significa ficar sem
orientação, isso porque o local faz nos sentir perdidos, sem rumo. Pode-se fazer a
relação entre perder a vida no deserto e na torre. Os dois locais deixam as pessoas
sem contato com o mundo. A torre, por não ter portas, dificulta o acesso das
pessoas, e o deserto, por ser imenso, faz com que se perca os parâmetros,
deixando os que lá vivem afastados do mundo.
A bruxa transformou o príncipe em um homem cego. Ser cego, segundo
Chevalier e Gheerbrant (2006), tem dois aspectos: um que significa estar fora do
mundo, se negando a vê-lo, e o outro aspecto afirma que ser cego é olhar para o
mundo interno, para dentro de si mesmo.

A bruxa teve como objetivo deixar o príncipe impossibilitado de ver sua


amada. Porém, estando cego, o príncipe olhou para dentro de si e buscou forças
para viver no deserto e, quando surgiu o momento, reencontrou sua princesa. Na
vida, por vezes, é importante que as pessoas olhem para dentro de si, como fez o
príncipe, e busquem forças para lutar contra as dificuldades que encontram em suas
vidas.

Este conto trabalha com a possibilidade de crescer tanto externamente


quanto internamente. A bruxa, através de suas ações, quer barrar o processo de
crescimento e amadurecimento pessoal da jovem, pois mantendo Rapunzel presa
na torre, a jovem é excluída do mundo das experiências.

Em linhas gerais, os contos mostram as situações que se encontram na


vida. Através de suas metáforas, também mostram os caminhos para a resolução
dos problemas. A bruxa, neste conto, é a personagem que, apesar de aprisionar,
possibilita as mudanças e as buscas de soluções criativas para a vida.

Portanto, os contos permitem olhar para as fantasias, assim como


olhamos para os diferentes lados de um imenso diamante, que a cada momento
reluz com um brilho diferente e especial, inigualável e para o qual podemos olhar
horas sem cansarmos de admirá-lo.

Concluindo, Dieckmann assegura que:

Mesmo sem interpretação determinada o conto de fada nos fala, e se dirige


ao problema mais agudo em nós naquele momento. Assim o conto
desenvolve sua ação no inconsciente humano. E aí esta ação se aprofunda
e esclarece. (1986, p. 43)
Segundo o autor, o conto deve sempre trazer uma mensagem ao homem
e, ao mesmo tempo, deve favorecer para que exista a possibilidade de se aprender
com ele, por meio das imagens nele contidas.
CAPÍTULO III

3.1. A estrutura dos contos

Às características acima mencionadas, junta-se a estrutura dos contos,


apresentando um esquema referente às ações neles inseridas. Os contos de fadas
sempre acontecem em um tempo e em um lugar. Mas estes não estão claramente
especificados. Isso porque, na terra de ninguém, os contos começam assim: “Era
uma vez, num castelo...” ou então “Numa extremidade da terra onde...”. Isso pode
ser entendido como uma eternidade atemporal de agora e de sempre. Depois, o
conto apresenta as pessoas envolvidas: “um rei que tinha 3 filhos...” Percebe-se
neste exemplo que existem 4 personagens e que a mãe está sendo omitida desta
história. (VON FRANZ, 1990)

Posteriormente, surge o problema ou a situação principal. Sempre é


apresentado no início da história, pois se não o apresentar logo no início, não haverá
história. Na continuidade, encontram-se os altos e baixos que constróem o enredo
do conto. Seguem as provas pelas quais o herói terá que passar, podendo receber
ou não a ajuda dos elementos mágicos. Então, aparecem as bruxas e magos, as
fadas e, na maioria das vezes, um final feliz. Em algumas histórias muito primitivas
nem sempre há um final elaborado, somente a história termina. O final da história é
muito importante, visto que não se pode permanecer no mundo do faz-de-conta,
tem-se que voltar à realidade. Os contos de fadas são as expressões mais puras e
mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo.

os contos são sistemas mais ou menos fechados, compostos por um


significado psíquico essencial, que é expresso através de figuras, eventos
simbólicos, sendo desvendável através deles. (VON FRANZ, 1990, p.10)
A autora expõe que as histórias arquetípicas teriam como origem os
mistérios tanto individuais como coletivos. Os conteúdos apresentados são parte do
inconsciente, trazidos por sonhos ou mesmo alucinações. Afirma que os contos são
“a base humana universal, pois estas nos mostram a estrutura primeira, a psique”.
(VON FRANZ apud PASSERINI, 1998 p. 83)

Campbell (apud BUSSATO, 2004, p. 30) coloca que “um conto de fadas é
um mito para a criança. Há mitos certos para cada estágio da vida” (p. 30). Alguns
estudiosos dizem que o conto é um mito degenerado. Isso significa que, quando
uma sociedade tem sua ordem social e religiosa enfraquecidas, as reminiscências
destes mitos conseguem sobreviver no formato de contos de fadas. Isso significa
que, quando os homens se apropriam de um aspecto do mito, humanizando-o este
deixa de ter seu caráter mitológico, transformando-se, assim, em conto de fadas. Há
os que acreditam que os contos são ampliações dos mitos. Cada um destes gêneros
tem suas características básicas, atingindo faixas etárias diferentes.

Passerini (1998) assegura que os contos de fadas devem ser recebidos


pela criança de maneira natural, lidando com seus arquétipos como convier a cada
idade. Respeita-se como estes foram recebidos e trabalhados pela humanidade.

Os contos trazem uma experiência que é atemporal. Isso traz a


possibilidade de acontecer a qualquer momento. Seus episódios referem-se tanto
aos fatos vividos pela humanidade durante seu desenvolvimento, como aos que
acontecem no desenrolar da existência individual. “[...] o conto de fadas é uma
imagem grandiosa da história da humanidade. Desde os primórdios, é uma imagem
muito ampla que não abrange uma única época cultural”. (PASSERINI, 1998, p. 104)

Passerini esclarece que, para as crianças, ouvir um conto seria como se


estivessem voltando ao seu país de origem. Isso porque a autora acredita que nos
contos é que se encontra o berço da humanidade, e também que os seus conteúdos
são próprios para esta faixa etária. A autora complementa dizendo que o adulto
também pode viver esses conteúdos em sua plenitude. Isso pode acontecer através
da arte e das pinturas, pois viver um conto de fadas seria poder sentir a floresta, ver
seus castelos. Para tanto, devemos, segundo Passerini, ler com a alma e não
somente as palavras, podendo assim, vivenciar este conto. Os adultos poderão, em
momentos difíceis de sua vida, resgatar e buscar forças contidas nas mensagens
dos contos. Isso faz do conto um recurso muito valioso em nossas vidas.

Passerini (1998) afirma que as vivências dos contos permitem às crianças


melhores condições de auto-conhecimento, bem como conhecimento do outro e do
mundo. Tais vivências ocorrem através do contato com diferentes símbolos e a
relação com o momento mágico relatado.

Em relação às estruturas dos contos de fadas, Propp as estuda partindo


do pressuposto que:

[...] o conto maravilhoso, enquanto fenômeno cultural e produto de


superestruturas, também têm relação direta com o modo de produção deste
as suas formas rudimentares, conservando vestígios de formas extintas de
vida social de sociedades remotíssimas. (PROPP, 2003, p. XII)

Propp busca estudar as raízes dos contos maravilhosos, isto é, quer


descobrir sua base histórica. Este autor coloca que dentre os contos existe uma
categoria a qual ele denomina de contos maravilhosos, que podem ser definidos
como “uma totalidade em que todos os assuntos estão ligados e condicionados
entre si”. (2002, p.5)

Para estudar a estrutura dos contos, Propp (2006), considera que o mais
importante é observar as funções das personagens. Gillig (1999) coloca que a busca
de Propp é a estrutura narrativa destes contos. Ele estuda as morfologias das
histórias, que significam uma descrição dos contos, segundo as partes que o
constituem, e a relação destas entre si e em relação ao todo.

Gillig (1999) afirma que Propp observou que as funções integrantes de um


conto sempre são as mesmas, independentemente da personagem que as realiza.
Assim, ela sempre terá um valor, podendo variar as configurações pelas quais ela se
realiza. Esta autora afirma que, para Propp, as funções apresentam-se em número
limitado e que sempre acontecem numa mesma seqüência. Estes contos
caracterizam-se como sendo um mesmo tipo de conto, por causa da sua estrutura.
Coelho (2003) concorda com Gillig (1999) quando afirma que as funções
são os elementos que estruturam o texto. Coelho (2003) explica que Propp faz uma
pesquisa que busca identificar as possíveis igualdades e diferenças das funções nos
contos. Desta forma, descobre funções constantes, as quais apresentam ações
básicas ao conto, e as variáveis, que podem ser identificadas como secundárias à
estrutura do conto. Essas oscilações, Propp denomina-as de “invariantes e
variantes” de um conto. A função invariante seria caracterizada pela “ordem” e pela
“partida” que está relacionada a uma “busca”. Já as variantes seriam caracterizadas
pelos “agentes” da ordem, os “sujeitos” desta partida e da busca e também os
“objetos” os quais eles buscam. A partir desta estrutura, Propp estabelece as 31
funções que considera como invariantes nos contos.

As funções aparecem em pares complementares, da seguinte maneira:


interdição/transgressão – interrogação/informação – ou então perseguição/socorro.
(PROPP apud GILLIG, 1999). O autor, segundo Gillig (1999), coloca que as funções
são como unidades de medida. Propp (2006) esclarece que nos contos folclóricos,
esta seqüência de funções é mais rígida, sendo que, nos outros contos, nem todas
elas aparecem. Mas deixa claro que a ausência de algumas delas não interfere na
disposição das demais funções.

Estas 31 funções, segundo Propp vão dar seqüência ao texto. Elas são:

afastamento, proibição e transgressão da proibição, interrogatório e


informação sobre o herói, embuste e cumplicidade, dano (ou carência)
mediação, início da reação, partida, primeira função do doador e reação do
herói, recepção do objeto mágico, deslocamento no espaço, combate,
marca do herói, vitória, reparação do dano ou carência, regresso do herói,
perseguição e socorro, chegada incógnito, falsas pretensões, tarefa difícil e
tarefa cumprida, reconhecimento e desmascaramento, transfiguração
castigo, casamento. (PROPP, 2006, p. 160)

O conto, portanto, segundo este autor, acontece de acordo com a


seqüência de diferentes funções. Coloca também que a maioria dos contos tem esta
estrutura de ações e funções. O autor esclarece que, normalmente, os contos
contêm 7 personagens, as quais vão surgindo durante o decorrer do conto e que
têm várias qualidades, que também são sempre iguais.
As personagens do conto são “o antagonista (ou agressor), o doador, o
auxiliar, a princesa ou seu pai, o mandante, o herói e o falso herói, os quais vão
assumir uma esfera de ações, ou seja, várias funções” (id., ibid.).

Propp assegura que podemos encontrar dois modelos estruturais. Um


mais amplo e detalhado, que nos mostra a seqüência temporal das ações. E outro
mostra-nos a atuação das personagens sendo, portanto, menos amplo. Dessa
forma, o primeiro modelo engloba o segundo.

Gillig (1999) explica que existem vários estudos sobre a estrutura dos
contos. Desta maneira, cabe ressaltar os estudos realizados por Greimas (1966),
cuja obra de referência é Semântica Estrutural. Gillig (1999) explica que estes
estudos são importantes para ampliar os já realizados por Propp. Greimas (1966)
reduz as funções de Propp, de 31 para 20 e introduz no estudo das estruturas a
noção de actante, significando o personagem ou sujeito que realiza uma ação,
indicado pela pergunta: o que faz..... ? Uma vez que é o sujeito que age, é
considerado actante ou agente da ação, retomando assim o antigo modelo sujeito–
verbo–objeto, ainda introduz outros termos com os quais compõe a estrutura do
texto. São eles: o destinador - que leva o herói a realizar as difíceis provas; o
destinatário - que é o mandatário, o destinador e não o herói; o adjuvante - que é o
auxiliar mágico, sendo ao mesmo tempo o doador; e, por último, o oponente - que é
o sujeito mais fácil de ser identificado. É aquele que vai fazer o mal ao herói, sendo
um falso herói ou mesmo um agressor.

Este autor faz também a relação entre o sujeito e o objeto, deixando clara
a busca do herói para a realização do desejo, sendo esta a ação que une o sujeito
ao objeto.

Gillig (1999) apresenta mais um autor que estudou a estrutura dos contos,
Bremond (1966) que não aceita a colocação de Propp sobre a seqüência das
funções num conto. Ele afirma que o curso de uma narrativa não é seqüencial, isso
porque acredita que existe a motivação dos heróis, que segundo este autor, é
ignorada por Propp. Bremond contesta Propp quando assegura que o curso de uma
narrativa deve levar em conta o aspecto psicológico das personagens e não
somente as leis da causalidade linear e, portanto, mecânica de Propp. O autor
ainda coloca a importância e a influência da cultura, das crenças e das religiões nas
estruturas dos contos.
Outro estudioso deste assunto citado por Gillig (1999) é Larivaille (1974),
que apresenta a estrutura em três tempos: antes, durante e depois. As ações nesse
estudo têm relação com os tempos verbais pretérito perfeito e imperfeito.
Em linhas gerais, esses estudos mostram que os contos apresentam,
através de suas ações, uma trajetória na qual as personagens atuam passando por
provas, lutando contra os antagonistas e chegando ao final depois de realizar seus
desejos que, na maioria das vezes, é um casamento feliz ou então a subida ao
trono.
Independentemente do modo pelo qual se analisa a estrutura do conto,
sempre se encontram os heróis, príncipes, princesas, reis e rainhas, bruxas e fadas,
personagens que vivificam o conto desde muitos anos atrás até os nossos dias.

Seja qual for a linha de analise das estruturas, pode-se observar que é
através de personagens e ações que o conto traz suas mensagens, que podem ser
úteis às crianças e aos adultos na resolução de seus problemas, além de encantar a
todos com seus enredos.
CAPÍTULO IV

CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONTOS, ARQUÉTIPOS E A CONTRIBUIÇÃO


DA PSICOLOGIA ANALÍTICA JUNGUIANA.

4.1. Jung e os arquétipos contidos nos contos de fadas

De maneira geral, os contos representam os arquétipos na sua forma


mais simples, plena e concisa. As imagens arquetípicas nos oferecem as pistas para
compreender os processos do inconsciente coletivo. Os contos são materiais
culturais menos específicos que os mitos e lendas, sendo que os contos espelham
as estruturas da psique.

Von Franz (1990) relata que um arquétipo é um impulso específico que


produz seus efeitos como um raio de irradiação e, ao mesmo tempo, um campo
magnético que se expande em todas as direções. A energia psíquica de um
determinado arquétipo tem relação com os demais arquétipos, formando assim, uma
trama.

. O arquétipo, segundo Jung (2006), não deve ser confundido com


símbolos ou imagens. Trata-se de um fator desconhecido, sendo representado por
imagens arquetípicas.

Os estudos dos contos de fadas são essenciais. Eles delineiam a base


humana universal porque versam sobre personagens “do outro lado do mundo”, o
mundo da fantasia, onde tudo é possível, o mundo do faz-de-conta, veiculando uma
linguagem que é entendida por todos. Os contos estão além das diferenças culturais
e raciais, podendo migrar de um país a outro. Sendo assim, apresentam uma
linguagem que parece ser internacional. (VON FRANZ, 1990)

Paz coloca que:


O conto de fadas é uma alegoria de passagem iniciática na qual o herói
representa a alma perdida no mundo a lutar contra os poderes inferiores de
sua própria natureza e contar os enigmas que a vida lhe propõe, até
encontrar, após aceitar e realizara as provas, os meios para sua própria
redenção. (1985, p.18)

O conto traz em seus conteúdos, muitas vezes, alusões aos ritos de


iniciação ou ritos de passagem, mostrando a luta entre o bem e o mal, os obstáculos
que o herói tem à sua frente, os diferentes enigmas que surgem e devem ser
resolvidos, equivalendo à descida ao inferno e/ou a subida ao céu. Pode-se concluir
que o importante, tanto no mito como no conto, não são as personagens, e sim suas
ações, o que elas fazem e como fazem. (VON FRANZ apud TRINDADE, 2004).

Considerando-se, portanto, que nos contos as ações dos personagens


são conforme afirma Propp, as que dão encadeamento a eles, gerando seus
enredos. Os contos estão repletos de personagens, reis e rainhas, príncipes e
princesas, bruxas e fadas, que exercem suas ações boas ou más sobre as outras
personagens. São essas ações, portanto, que criam a trama dos contos, por meio de
diferentes personagens.

Chinen relata que através dos contos de fadas e da imaginação são


vividos acontecimentos “do que pode ser e não do que simplesmente é”. (1989, p.
12) Porque os contos lidam com a fantasia e mostram uma maneira ideal de ser.
Observa-se personagens semelhantes aos do mundo real, o que facilita a
identificação do indivíduo com a personagem.

“Era uma vez...”, com estas palavras começam a maioria dos contos de
fadas que já se ouviu. E são elas que transportam o ouvinte e/ou o leitor, para um
mundo muito distante, onde acontecem coisas formidáveis e maravilhosas. Neste
mundo existem monstros, duendes, fadas, bruxas, príncipes e princesas, reis e
rainhas (DIECKMANN, 1986).

Considerando o início de um conto, Radino mostra que os contos


acontecem “em um outro lugar e num outro tempo”. (2003, p. 135) As crianças
sabem muito bem disso e, ao ouvirem a frase ”Era uma vez...”, transportam-se para
um outro mundo longe deste, e fazem uma linda e maravilhosa viagem, só voltando
ao ouvirem a frase: “... e foram felizes para sempre”.

Ao pensar em contos de fadas, vale considerar um mundo onde as coisas


acontecem de maneira muito diferente das vividas no cotidiano das crianças.
Segundo Dieckmann (1986), existem dois mundos vividos pelas crianças, o real e o
da fantasia.

Dieckmann afirma que o primeiro desses mundos corresponde à nossa


consciência. Aí estão os acontecimentos do dia-a-dia. Já o segundo mundo
corresponde ao nosso inconsciente, lugar dos sonhos e das fantasias, onde tudo
pode acontecer. E é neste mundo que se encontram os contos de fadas. A diferença
entre eles está no fato de que no segundo mundo se instala o mundo mágico, e lá os
animais falam, existem bruxas e fadas, uma floresta com uma casinha de chocolate
e um espelho mágico.

Este autor assegura que os problemas básicos e fundamentais da


humanidade, tais como medos, temores, ansiedades, alegrias e satisfações, passam
pela vida de diferentes maneiras. Todos os homens atravessam estas experiências,
e as percepções que se tem sobre elas variam de acordo com a etapa de
desenvolvimento em que o indivíduo se encontra.

Bonaventure (apud GIORDANO, 2007) esclarece que os contos lidam


com as situações que fazem parte da realidade humana. Através deles é que a
criança percebe as dificuldades encontradas na convivência com seus pais e irmãos.
O fato de se identificarem com os heróis ou personagens contidas no conto
demonstra que existe semelhança entre os seres humanos, independentemente de
nacionalidade. Os contos mostram que a vida é composta de bons e maus
momentos e a vitória reside na elaboração saudável deles.

A consciência racional é desenvolvida com o crescimento das crianças e


com o seu amadurecimento. Durante muitos anos a criança vive em um mundo
mágico mitológico (DIECKMANN, 1986), onde habitam as fadas, duendes e bruxas.
A consciência da criança, nos seus primeiros anos, é povoada por motivos
mitológicos, imagens e identificações, que surgem muito antes da consciência, da
emoção e da razão.
Os arquétipos são forças que têm como função regular e formar o mundo
simbólico. Podem ser vistos como a ligação ou ponte entre percepções sensoriais e
as idéias. (id., ibid.).

Os contos de fadas têm sua origem nas profundas camadas do


inconsciente, comuns à psique de todos os seres humanos, e pertencem ao mundo
dos arquétipos. Por este motivo, os mesmos temas aparecem em contos de países
distantes e em diferentes épocas, com uma pequena variação. (SILVEIRA, 2006)

Jung mostra que o conceito de arquétipo indica a existência de


determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e lugar.

[...] arquétipo é um motivo mitológico e que, como conteúdo “eternamente


presente” do inconsciente coletivo – ou seja comum a todos os homens
pode aparecer tanto na teologia egípcia, como nos mistérios helenísticos do
Mitra , no simbolismo da Idade Média e nas visões de um doente mental
nos dias de hoje. (JUNG apud NEUMANN, 1974, p. 27)

O símbolo é a maneira pela qual os arquétipos são visíveis ao homem,


isto é, através de seus símbolos torna-se possível reconhecer a existência de
arquétipos. Os mitologemas são as linguagens primordiais dos arquétipos. Estes
fazem das linguagens figurativas suas representantes. A linguagem dos símbolos
pode ser considerada a forma de expressão do inconsciente pessoal e coletivo
(idem).

Outras ciências denominam estas forças de forma diferente. Para as


pesquisas mitológicas, estas são motivos ou temas. Adolf Bastian (1874) reporta-se
a elas e as considerou como “pensamentos elementares ou primordiais”. O conceito
de arquétipo, portanto, é pré-existente a sua definição. Jung não é o único pensador
que buscou explicar este conceito.

Von Franz (1990) afirma que Jung define arquétipo como os conteúdos do
inconsciente coletivo. Esta palavra significa um modelo original: são como formas
que se localizam na pisque e que estão presentes em todo tempo e lugar.

Há arquétipos, afirma a autora, que correspondem a várias situações, tais


como relações com os pais, casamento, nascimento dos filhos e confronto com a
morte. São estas situações ou imagens arquetípicas que se encontram nos contos
de fadas. (TRINDADE, 2004)

Os principais arquétipos encontrados nos contos são: a Grande


Mãe/pai/persona/sombra/anima/animus/herói e self (si mesmo). São estruturas
bipolares, com aspectos positivos e negativos. Pode-se dizer que, para a totalidade
psíquica, não existe nem o bem nem o mal, independentemente um do outro. Existe
uma inter-relação entre os pares de opostos que compõe o todo.

Os contos de fadas fazem parte, atualmente, da literatura infantil, mas são


lidos tanto por crianças como por adultos. Os temas que existem nos contos se
repetem com infinitas variações. Eles contêm em si elementos da sabedoria popular,
que, mediante uma nova leitura, se transformam, isto é, as suas imagens, a cada
etapa da vida, assumem uma forma, a mais significativa para o momento vivenciado.

Von Franz (1990) discute, que para Jung, uma imagem arquetípica não é
somente um pensamento padrão (estando desta forma ligada a todos os
pensamentos). Trata-se também de uma experiência emocional do indivíduo.

Os arquétipos aparecem nas narrações através das imagens


arquetípicas. Uma imagem arquetípica é “a forma ou a representação de um
arquétipo na consciência é uma experiência emocional, não somente um
pensamento padrão”. (VON FRANZ, 1990, p. 19) Os arquétipos são padrões
universais ou motivos que se originam do inconsciente coletivo e que formam os
conteúdos básicos das religiões, mitologias, lendas e contos de fadas.

Calvin e Nordby (1973) afirmam que a palavra arquétipo expressa um


modelo original que agrega coisas do mesmo tipo. Estes são universais. Isso
significa que todos herdam as mesmas imagens arquetípicas. Exemplificando, todos
recebem o arquétipo materno, que seria a imagem pré-moldada da mãe, que com o
tempo irá transformar-se em uma imagem definida pela aparência e formas de agir
da mãe real.

Jung (2006) afirma que existem tantos arquétipos quantos situações da


nossa vida. E expressam meras possibilidades de um determinado tipo de
percepção ou ação.
Outra definição de Jung sobre arquétipo coloca que “arquétipo nada mais
é do que uma expressão já existente na Antiguidade, sinônimo idéia no sentido
platônico”. (JUNG, 2006, p. 87)

Dessa maneira, ao se escolher os contos para narrar a uma determinada


população é importante verificar quais seriam os melhores, levando-se em
consideração os conteúdos que se pretende mobilizar no ouvinte.

Bettelheim (1979), apesar de pertencer à outra linha de pensamento


psicológico, afirma que, para os Junguianos, os contos de fadas trabalham com os
arquétipos e que se utilizam de diversos simbolismos para revelar os caminhos e as
possibilidades para um estado de autoconfiança.

Ao observar-se o feminino contido em alguns contos, nota-se que na


época do Cristianismo, e principalmente, no Catolicismo, a mãe é representada pela
Virgem Maria. No Paganismo, ela é suprimida de vez. Nestas representações
cristãs, só existe o lado belo, puro e casto da mulher. O lado destrutivo desaparece
totalmente. Esses contos retratam a mulher elevada e luminosa, mantendo oculto o
lado oposto, o que fotografaria a realidade. (VON FRANZ, 1985)

Segundo Jung (2006), os arquétipos são como matrizes, uma raiz comum
a toda a humanidade. Através dela a consciência emerge. Exitem, duas camadas
de inconsciente, onde estes se manifestam: o pessoal e o coletivo.

Quando age positivamente, o arquétipo proporciona a eclosão da


atividade criadora. Diante da ação negativa, observa-se o fanatismo, as possessões
e a rigidez em suas possíveis interpretações. Os arquétipos carregam,
simultaneamente, possibilidades de saúde e de doença, de bem e de mal, de certo e
do errado, do feio e do belo. Cabe refletir se existem venenos curativos.

A lógica separatista, que associa veneno ao mal e à doença, ao


envenenamento, à insanidade, à bruxaria, se rompe. Torna-se necessário pensar na
coexistência de opostos. Isso autoriza considerar os fitoterápicos, por exemplo,
como restituintes da saúde, onde bruxas nem sempre são más ou boas, feias ou
bonitas.
Vale lembrar que algumas bruxas ofereciam às gestantes beladonas
ervas consideradas venenosas com o objetivo de minimizar as dores da parturiente.
Atropa belladonna é um veneno homeopático que tem propriedades adstringentes,
calmantes, e sedativas.

Relembrando o conto da Bela Adormecida no Bosque,

o rei e a rainha desejam muito um filho, este desejo fora realizado através
da fala de uma rã que afirma que antes que se completasse um ano a
rainha seria mãe.. Isso realmente aconteceu , na festa do batismo , muitos
foram convidados, porém o rei deixou de convidar uma fada por não
possuir 13 pratos de ouro.Então esta fada que não foi convidada ficou muito
brava , seus sentimentos fizeram com que se transformasse em bruxa. A
bruxa então roga a menina uma profecia – ao completar 15 anos morreria
ao picar o dedo em uma roca de fiar e o conto continua6

O exemplo foi trazido para explicitar a dualidade entre o bem e o mal que
pode existir separadamente ou ambos numa mesma pessoa. Bruxas e fadas são,
portanto, os dois lados da mulher. Podendo existir mães ruins e madrastas boas e
vice versa.

4.2 Símbolos e imagens nos contos de fadas

A palavra Símbolo tem origem na palavra grega symbolon. Segundo Kast


(1997), antigamente, quando amigos se separavam, cada um levava consigo uma
metade de uma moeda e, quando se encontravam depois de algum tempo
apresentavam sua parte um ao outro. Ao combinarem as duas partes, a identidade
de ambos era então revelada.

Metaforicamente, pode-se então entender que o símbolo é a junção de


duas partes. Etimologicamente, entende-se como algo combinado ou mesmo

6
Nota da autora
composto. Isso significa que o símbolo somente existe na medida em que se
compõe de duas metades que se complementam. Uma parte que está representada
e outra, que a representa. Sendo assim, o símbolo não deve estar separado daquilo
que ele representa. Os símbolos mantêm entre si uma relação interna. Símbolos são
irracionais e, quase sempre, não totalmente compreendidos, sendo na maioria das
vezes representados de maneira espontânea. (KAST, 1997)

A diferença entre símbolo e sinal é que este último refere-se a um


combinado, não sendo enigmático, podendo ser facilmente identificado. O símbolo
está sempre diretamente relacionado à sua imagem. Já o sinal é mais racional. Para
Kast, os símbolos têm um “tempo de origem, de floração, e um tempo de
perecimento.” (idem, p. 22.)

O símbolo é a linguagem pela qual os arquétipos presentes, tanto nos


mitos, quanto nos contos de fadas, falam à humanidade. Essa linguagem se
apresenta através de metáforas e alegorias ou mesmo por intermédio da linguagem
poética. Quando se estuda os contos de fadas, encontra-se a linguagem simbólica,
que traz para a realidade o que surgiu no imaginário para possibilitar, então, a
comunicação com os leitores.

Para esclarecer:

Tudo aquilo que um conteúdo arquetípico exprime é, antes de mais nada,


uma figura de linguagem. Se ela fala de sol e indica-o como leão, com o rei ,
com o tesouro vigiado pelo dragão e com a vitalidade e potencialidade dos
homens, não é uma coisa nem outra , mas um terceiro elemento
desconhecido que se expressa de maneira mais ou menos adequada,
através destes símiles. Mas para o intelecto, aquilo permanece
desconhecido e informulável em sua linguagem lógica. (COELHO apud
SILVEIRA, 1981, p. 94)

Coelho coloca que a linguagem simbólica é que possibilita que as


mensagens contidas nos contos nos falem da sabedoria da vida. Esta vem sendo
transmitida à humanidade até os nossos dias, pois apesar da mudança dos tempos,
as mensagens permanecem imutáveis.
Sendo assim, pode-se entender que a linguagem simbólica é a mediadora
entre o mundo imaginário e o mundo real. Fazendo a conexão entre o inconsciente e
a consciência.

Giordano (2007) esclarece que é no inconsciente coletivo que habitam os


arquétipos. O inconsciente coletivo é o responsável por trazer à consciência as
percepções, e isso acontece por meio dos sonhos, da imaginação e da criação dos
símbolos. Esta autora afirma que, para Jung, o inconsciente coletivo se apresenta
ao mundo através da linguagem simbólica. É lá que estão alojados os motivos
universais, a raiz da humanidade. Sendo assim, Jung (1987) considera o
inconsciente coletivo como atemporal, onde se encontram o passado e o futuro, e
sua evolução. Jung coloca que “O inconsciente coletivo é o arquivo da experiência
da humanidade, como um todo, codificada em arquétipos”. (apud GIORDANO, 2007)

Chevalier e Gheerbrant (2006) colocam que, para Jung, “o símbolo não é


seguramente, nem uma alegoria, nem um mero signo, mas sim, uma imagem
apropriada para designar da melhor maneira possível, a natureza obscuramente do
espírito.” (introdução) Adiante, completa seu pensamento observando que Jung
afirma que o símbolo não explica, ele somente vai nos remeter aos significados.
Sendo assim:

o símbolo nada encerra nada explica – remete para além de si próprio , em


direção a um significado também neste além , inatingível , obscuramente
pressentido, e que nenhum vocábulo da linguagem que nos falamos poderia
expressar de maneira satisfatória (JUNG apud CHEVALIER e
GHEERBRANT, 2006, p. 92)

Os autores fazem uma citação bastante esclarecedora a partir das


palavras de Hugo von Hofmannstal. “O símbolo afasta o que está próximo,
reaproxima o que está longe , de modo que o sentimento possa apreender tanto de
uma coisa como outra “ (id., ibid.)

Um símbolo nunca é igual para todos os indivíduos e nem o mesmo


sempre. Sua compreensão dá-se muito mais pela percepção do que pelos meios
racionais.
Os contos contêm símbolos e figuras simbólicas. Os primeiros nos
possibilitam uma compreensão de informações sobre o mundo e as pessoas.
Apresentam forças humanas nas suas polaridades, bem e mal, ódio e amor, feio e
bonito, etc.

Quando um conto é lido na busca de se analisar seus conteúdos


simbólicos, encontram-se uma infinidade de associações que levam à compreensão
de determinados conteúdos, os quais não seriam possíveis aos olhos da razão. São
as figuras simbólicas que nos possibilitam fazer tais associações.

Eliade (1996) corrobora com esta idéia, pois afirma que, através dos
símbolos podemos perceber alguns aspectos da realidade, os quais são difíceis de
serem notados por outros meios·.

Jung (2002) afirma que os símbolos nos mostram aspectos e direções


diferentes da que conseguimos perceber somente com a mente. Segundo este
autor, os símbolos estão relacionados com o inconsciente, sendo somente
parcialmente conscientes.

Jung (2002) explica que a humanidade utiliza-se da linguagem, tanto


escrita como falada para poder expressar ao outro seus sentimentos ou contar algo.
Estas linguagens estão repletas de símbolos. Para Jung, o símbolo, apesar de nos
ser familiar, vai além desta familiaridade, é vago, desconhecido e oculto para as
pessoas. As palavras ou imagens são consideradas simbólicas quando implicam em
algo que vai além do que é visível, do que é manifesto. Quando nos deparamos
com um símbolo e tentamos explorá-lo, chegamos a idéias que estão fora do
alcance da nossa razão. É isso que caracteriza um símbolo.

Bonaventure (1992) afirma que os contos, através da sua linguagem


simbólica, trazem aos seus leitores os conflitos vividos na infância, na adolescência
e também na vida adulta, mostrando as diferentes situações vividas pela
humanidade, sendo que, junto aos conflitos, trazem as soluções simbólicas para
estes problemas, por intermédio da sabedoria popular.

Os temas tratados nos contos de fadas são muito variados, podendo


trazer as conquistas de um príncipe, a perda da mãe, a nova madrasta, etc. É esta
variedade temática que possibilita às pessoas se identificarem com as personagens
e com as imagens simbólicas contidas contos de fadas.

Bonaventure (1992) explica que ao lermos os contos, ou mesmo ouví-los,


relembra-se momentos de vida por meio da imaginação. Isto é, as imagens contidas
nos contos trazem à tona lembranças de situações vividas. Sendo assim, além das
histórias imaginárias dos contos, eles nos falam da história real de cada um de nós.
Isso porque, qualquer ser humano vive ou já viveu em uma família, passou por
perdas e conquistas durante sua trajetória na vida.

A importância, portanto, de se narrar os contos está na possibilidade de


trabalhar, dentro de cada leitor ou ouvinte, as experiências vividas pelas
personagens dos contos, fazendo, portanto, a relação entre o mundo da fantasia, e o
mundo real.

Os contos esclarece Bonaventure, não se abrem a uma única


interpretação, pois são muitas as possibilidades. Não havendo certo ou errado, pois
cada leitor/ouvinte é, a seu modo, tocado pelos diferentes símbolos e imagens em
diferentes momentos de sua vida. Isso acontece porque é através destes contos que
muitas vezes sente-se medos, angústias e alegrias. É, portanto, necessário que este
contato com os símbolos, seja de algum modo entendido e vivido, pois, segundo
esta autora, “o próprio símbolo é que é transformador” (BONAVENTURE, 1992, p.
204).

Sobre a personagem da bruxa como símbolo, poderá conter diferentes


interpretações, pois cada em conto a bruxa poderá trazer diferentes aspectos de um
mesmo símbolo.

Bonaventure coloca que “[...] não podemos negar que a bruxa, ou as


feiticeiras, as deusa guerreiras, as deusa do amor, mulheres fortes, respeitáveis são
necessária para a vida”. (BONAVENTURE, 2000, p.16)

A autora observa que os contos trazem, em seus conteúdos, diferentes


comportamentos relacionados à mulher. Estes também são encontrados na vida
real. Isso acontece quando, diante de determinadas situações, as mulheres se
sentem como meninas abandonadas, da mesma forma que Maria do conto João e
Maria, ou mesmo madrastas perversas, como a de Branca de Neve.

Von Franz (1980) ressalta que é importante esclarecer que o arquétipo


representa a estrutura básica que produz imagens e símbolos. Esta autora ainda
explana que os símbolos não se esgotam em relação aos seus significados,
podendo esgotar-se em algum sentido, para quem o interpreta.

Byington (1988) coloca que tanto o símbolo quanto o arquétipo são


constituídos de polaridades. O arquétipo é um potencial universal e imutável, já o
símbolo é a expressão de um determinado arquétipo dentro de uma história, sendo
relacionado com o aqui e agora, projetando-se para o futuro. É o símbolo que, ao
aglutinar a energia psíquica que estava inconsciente, a transporta para a
consciência. Este autor ressalta que as representações que atuam no campo
psíquico são símbolos. O símbolo pode ser entendido como a manifestação da
energia psíquica através de coisas ou acontecimentos.

Busatto (2006) afirma que contos trazem, em seus conteúdos, a


compreensão tanto cultural como espiritual de um povo. Sua estrutura é composta
de imagens e símbolos, os quais “falam” para as diferentes pessoas que os lêem e
escutam indo ao encontro de suas necessidades em determinados momentos de
suas vidas.

A linguagem simbólica existente nos contos de fadas ressalta, através dos


enredos os temas ou situações que são fatores problemáticos em diferentes
momentos a vida da criança, como a rejeição encontrada no O Patinho Feio, o
abandono apresentado em João e Maria, a inveja visível em Cinderela e Branca de
Neve; assim como a falta de visão e de projeção futura que está representada nos
Três Porquinhos.

Jung (2006) esclarece que os contos de fadas são, em si mesmo, a sua


melhor explicação. Seu significado está contido nos diferentes temas que compõe a
história da humanidade.

Em relação aos arquétipos Jung afirma que:


O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente o qual se
modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes
que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta.
(2006, p. 17)

Neumann (1974) assegura que é através dos símbolos que os arquétipos


se manifestam com imagens específicas, dando um caráter peculiar a cada
arquétipo. Salienta, ainda, que estas imagens arquetípicas devem ser distintas do
arquétipo em si, pois este é inelegível. Elas atuam na mente do indivíduo quando
este está podendo organizar os materiais que lhe chegam em figuras definidas. Os
arquétipos atuam tanto em relação aos padrões de comportamento, como aos
modelos de visão na consciência, podendo então organizar os materiais psíquicos,
fazendo a relação entre imagem e símbolo.

Sobre os símbolos, Neumann esclarece:

[...] a visibilidade manifesta dos arquétipos, correspondendo a invisibilidade


latente do mesmo [...] os símbolos dispõem, como o próprio arquétipo, de
um componente dinâmico e de um componente material.eles abrangem a
totalidade da personalidade humana por eles estimulada e fascinada ,
induzindo a consciência a interpretá-los. (1974, p. 22)

Para entender como que o símbolo se manifesta, é preciso entender que


o símbolo nos fala através das linguagens simbólicas. Por exemplo, em um conto,
quando se fala em sol, pode-se identificá-lo com sendo o rei, ou o leão, com a força,
o gato pode ser relacionado com astúcia, etc. O símbolo pode ser entendido e
explicado de diferentes maneiras. Ele sempre sugere, indica algo, mas não
determina. A elaboração de um símbolo, quando é puramente conceitual, torna-se
inadequada. Os símbolos se apresentam através da linguagem figurativa. Esta
linguagem que é oriunda do inconsciente. (Id., ibid.)

Nos contos de fadas, a bruxa é uma figura simbólica, podendo receber


muitas e distintas interpretações, sendo que uma seria a Grande Mãe.

Neumann coloca que existe uma grande gama de imagens simbólicas


que representam a Grande Mãe e são difundidas através de rituais, mitos, religiões e
fábulas, sendo estas representadas por deusas e fadas, ou mesmo por demônios
femininos, entidades malévolas e/ou encantadoras.

A bruxa dos contos de fadas corresponde, portanto, a polaridade negativa


ligada ao arquétipo da Grande Mãe.

O arquétipo da Grande Mãe pode ser entendido por meio de três


aspectos que a simbolizam: a mãe bondosa, a mãe terrível e a mãe bondosa/má. É
através da mãe bondosa/má que a Grande Mãe pode ser vista, como portadora da
possibilidade de unir os pólos, positivo e negativo do arquétipo da Grande Mãe
(NEUMANN, 1974). A Mãe bondosa/má pode ser definida por aquela que age como
uma pessoa má para proporcionar o desenvolvimento do outro

Para compreender e poder descrever o arquétipo da Grande Mãe será


necessário utilizarmos o processo da ampliação. Isso significa buscar diferentes
contextos para esta representação.

É importante ressaltar, como assegura Nogueira (2004), que a bruxa no


final do século XVIII, foi vista como portadora de loucura contagiosa e, desta forma,
atingia a coletividade. Os primeiros estudiosos que fizeram esta colocação foram
Philippe Pinel7, que acreditava serem as bruxas mulheres enfermas ou doentes
mentais, mas tinha-se a impressão de que elas se comportavam dessa maneira por
estarem continuamente em contato com as imagens do catolicismo.

Esquirol8, outro estudioso e médico, que se esforçou em provar que as


bruxas eram mulheres mentalmente perturbadas. Suas colocações foram aceitas
pelos estudiosos da época. E Charcot9, outro médico deste tempo, acreditava que a
participação mágica podia atingir um estado de neuropatologia. Mas não deixa clara
a diferença entre elas e as chamadas “neuroses endemoniadas”. Estes médicos
fundaram a escola francesa de psiquiatria.

7
*Considerado por muitos o pai da psiquiatria. Notabilizou-se por ter considerado que os seres
humanos que sofriam de perturbações mentais eram doentes e que ao contrário do que acontecia na
época, deviam ser tratados como doentes e não de forma violenta. Foi o primeiro médico a tentar
descrever e classificar algumas perturbações mentais.
8
*Discípulo e herdeiro intelectual de Pinel
9
CHARCOT, Jean-Martin (Paris, 1825 — Morvan, 1893) foi um médico e cientista francês; alcançou
fama no terreno da psiquiatria na segunda metade do século XIX
Mais tarde, Freud, seguindo os passos, principalmente de Charcot,
denominou que o comportamento observado nessas mulheres era pertinente a
histerias psicológicas, classificando-as como sendo mulheres neuróticas, retirando,
desta maneira, o estigma religioso. (NOGUEIRA, 2004)

Sendo consideradas doentes mentais, essas mulheres eram levadas às


fogueiras, sendo eliminadas do convívio da sociedade.

As bruxas, neste momento, histórico simbolizavam “a doença da


comunidade” e, ao mesmo tempo, a possibilidade da cura das aflições através de
poções consideradas ”mágicas”. A visão da bruxa que encontramos nos contos é a
da mulher que vivia longe da comunidade, que cuidava dos males do coração e da
alma, com ervas e poções. Ou aquela que amedrontava por suas características
físicas: velha, magra e com cabelos desarrumados que, segundo alguns, faria o mal.
Esta é forma com que os diferentes autores a descrevem nos contos de fadas.

Segundo Barros (2004), existe uma dualidade na mulher que está


presente também na humanidade. Os deuses na antiguidade eram representantes
do bem e do mal. Com o nascimento das religiões monoteístas (Deus UNO e
bondoso) surgiram dificuldades para explicar a existência do mal.

Na Idade Média, comenta Nogueira (2004), o cavaleiro era o que


simbolizava a nobreza, e a bruxa carregava o símbolo da depravação. Nesta época,
então, fica clara a dicotomia entre bem, que era representado pelo símbolo do
Senhor e, conseqüentemente homem, e o mal, representado pelo símbolo da bruxa,
a mulher. Na filosofia grega, segundo Nogueira (2004) e Barros (2004), observa-se a
dicotomia entre bem/mal, corpo/alma. Porém, inexistia uma divindade que se
ocupasse do simbolismo mal.

Mendes (1999), analisando as colocações de Neumann (1990) sobre o


mito Eros e Psique, afirma que em alguns contos a deusa assume o papel da Mãe
Terrível, personificando o papel da bruxa, não obstante ela pode impulsionar as
ações dos personagens na busca de soluções novas e criativas.

Esta autora, quando analisa os símbolos do feminino nos contos de


Perrault, assegura que o autor escreve ironicamente sobre a mulher. Mas, mesmo
assim, não deixa de reconhecer a importância do poder da mulher divina. Nestes
contos não há uma descrição física das mulheres. Elas são descritas como fadas e
aparecem em cenas nas quais agraciam as personagens com dons ou dotes
mágicos. As bruxas aparecem nessas mesmas histórias simbolizando o mal. As
bruxas eram sempre muito poderosas no início das histórias sendo que, no decorrer
do conto, são vencidas pela boa fada. (MENDES, 2004). Esta é uma visão
maniqueísta, pois separa as ações entre boas e más.

Ao simbolizar as mulheres, Perrault as diferenciava de acordo com as


seguintes qualidades: a mulher bela era o sinal da feminilidade, sempre ligada à
bondade, à honestidade, assim como a delicadeza. As personagens que possuíam
estas qualidades eram as princesas, rainhas e fadas. As mulheres que não eram
agraciadas com estas qualidades ou atributos eram, portanto, as bruxas ou
mulheres más, que tentavam conseguir méritos através de sua inteligência, da
maldade, sendo sempre castigadas, muitas vezes, por estes comportamentos. (id.,
ibid.)

A simbologia encontrada nos contos de fadas é sempre muito importante.


Isso porque, é através destes símbolos e arquétipos contidos nos contos que as
crianças e adultos podem transcender aos fatos narrados nos contos para, a partir
deles, compreender por meio dos símbolos, diferentes situações que passam
durante sua vida, reestruturando assim suas vivências, (re) significando-as quando
necessário para obter uma vida mais saudável. Vive-se, portanto, num mundo
simbólico, onde a linguagem falada, os gestos, as figuras e os desenhos fazem parte
integrante deste mundo. É importante que saibamos entender e compreender essa
simbologia.
CAPÍTULO V

A BRUXA NOS CONTOS DE FADAS

As bruxas e os monstros dos contos de fadas, segundo Dieckmann


(1986), refletem medos ou as situações que se tem dificuldade de enfrentar e contra
as quais se luta constantemente.

Pode-se afirmar que a bruxa, em alguns contos, pode ocupar o lugar da


mulher ou a figura materna demoníaca. Essas figuras são personificações das
figuras universais humanas em suas diferentes características. Isso possibilita que a
criança descubra, no seu mundo exterior, situações relacionadas à experiência
emocional relativa ao simbolismo da bruxa e os meios que vai usar para lidar com
estas questões. O conto de fadas propicia às crianças, através de imagens
simbólicas, possibilidades de agir frente a diferentes, múltiplas e adversas situações
de sua vida. (DIECKMANN, 1986).

Radino (2003) afirma que ao transpor para as personagens dos contos de


fadas seus medos, a criança se sente mais “protegida”. É melhor sentir medo de
uma bruxa do que da mãe. Freqüentemente, a figura da mãe é projetada nas
personagens dos contos como a bruxa e a madrasta.

A autora assegura que através da identificação com as personagens dos


contos, por intermédio de seus simbolismos e metáforas, os ouvintes/leitores entram
em contato com suas dificuldades, angústias e temores. Os heróis oferecem a eles
referências de que as dificuldades podem ser enfrentadas. É necessário que o
indivíduo queira se apropriar de sua história, de modo a tornar-se herói.

Von Franz (1985) expressa que o mágico, a bruxa e o animal que ajuda
estão, de certa forma, sempre presentes nos enredos dos contos de fadas, sendo
que o enredo ou a situação são sempre uma resposta a uma circunstância ou a um
fato consciente. Deparando-se com contos de civilizações diferentes, notam-se a
existência das mesmas personagens, porém numa estrutura diferente. Assinala que
não se pode estudar ou analisar um conto sem o conhecimento da civilização onde
este está inserido. Existem diferentes significados para determinadas situações nas
culturas. É importante ressaltar que o material cultural, contido nos contos de fadas,
não é especifico. É atemporal e (a)espacial. (VON FRANZ, 1985, p. 24) Isso
possibilita imagens arquetípicas claras das estruturas psíquicas, dando maior ou
menor destaque às diferentes etapas do desenvolvimento da pisque humana.

Abramovich (1997) menciona que é comum, nos contos e nas ilustrações,


a presença de bruxas e monstros extremamente feios, figuras normalmente
grotescas, provocando a vontade de afastamento, gerando medo e temor para as
crianças. A bruxa é quase sempre apresentada como um ser misterioso e
incompreensível. Ao mesmo tempo, ela é conhecedora de saberes que as pessoas
normalmente não têm acesso. Porém, apesar destas características, pode ser
sedutora e atraente, mas perigosa.

Coelho expressa que nos contos, a fada aparece como um “problema”


(2000, p. 167) a ser enfrentado na literatura infantil, pois lida com o eterno feminino,
tentando compreender o papel da mulher num mundo construído pelo poder dos
homens. A mulher é, muitas vezes, vista como o universo. É também valorizada,
vista como uma força primordial. Torna-se, por este motivo, temida pelos homens,
muito hostilizada, reprimida e dominada.

Podemos então verificar que os dois lados do arquétipo da Grande Mãe,


podem estar presentes nos contos de fadas sendo, respectivamente, personificados
pelas fadas que, segundo Robles (2006), podem reger os destinos dos humanos e
ajudá-los, e pelas bruxas, que têm o poder de alterar este destino fazendo o mal.

Robles (2006) coloca que as bruxas podem ser brancas ou negras, têm
poderes mágicos e conhecimentos de elixires, que possuem diversos efeitos, e
podem transformar diferentes materiais.

Há uma crença que diz que as bruxas, por vezes, se transformam em


raposas e saem pela noite com o intuito de fazer maldades. E, caso se machuque
durante a noite, ou mesmo sejam atingidas por um caçador, logo se descobrirá que
é uma bruxa. Isso porque, na manhã seguinte, já na pele de uma mulher, pode-se
notar que está com a perna machucada. Sendo assim, confirma-se ser esta mulher
uma bruxa, que foi atingida durante a noite quando havia se transformado em
raposa. (VON FRANZ, 1990)

A bruxa ou o mal é quase sempre visto como o oposto à fada e ao bem.


A fada e a bruxa são as formas simbólicas que representam os lados opostos das
mulheres. (COELHO, 2003)

Em relação às fadas, Robles (2006) afirma que elas vivem num mundo
onde existe a fantasia e um final feliz. Fadas são as que ajudam, estão ligadas ao
sonho de poder renascer. Trata-se de personagens libertadores. Já as bruxas, em
contrapartida, alteram essa ordem, esse sonho. Em geral, são representadas por
velhas feias e mal humoradas, o que as diferencia das demais personagens do
conto. Outras características desta mulher podem ser citadas: são magras, com
olhos muito fundos, uma verruga na ponta do nariz, corcunda e com uma voz
tenebrosa. Ainda são aquelas que moram num local sombrio, vagando pelas noites
escuras e são sempre muito temidas por todos. (ROBLES, 2006)

As bruxas também eram vistas, neste momento histórico, como que


personificações do diabo, herdeiras das sibilas10, das magas e também das
sacerdotisas.

ao tipificar a perversidade na mulher madura,que traz às costas a


experiência e seguramente, muitas tristezas mal resolvidas, os moralistas
impingiram a elas , o maior preconceito anti-feminino da nossa civilização
(ROBLES, 2006, p. 227)

Os gregos denominavam as bruxas como elementos obscuros do


inconsciente. Afirmavam que, desde criança, é possível reconhecê-las por sua
feiúra. Suas frustrações e danos atingem o outro quando seus desejos são mal
sucedidos e a sua irresistível vontade de ir contra o bem-estar das pessoas está
presente. (id., ibid.)

10
Nome que os antigos romanos davam a qualquer mulher idosa, supostamente capaz de predizer o
futuro.
Nesta época, as grandes deusas habitavam o imaginário coletivo,
acompanhavam os destinos dos homens, ajudando nas diferentes situações que a
vida lhes propiciava. Já no século XII, estas mesmas mulheres eram denominadas
fadas. Exerciam o bem e o mal. Eram, ao mesmo tempo, angelicais e diabólicas,
mantendo a dualidade sempre presente. As fadas, nos contos Celtas, trazidas da
literatura medieval, possuíam o conhecimento da natureza e conheciam também o
mundo dos mortos. Enaltecidas pela beleza e sexualidade, estas mulheres
conheciam as metamorfoses e as ervas, os filtros amorosos e os objetos mágicos.
Elas podiam transformar-se em mulheres belas ou feias. Assim, enfeitiçavam os
homens e tinham soberania sobre eles.

As figuras das bruxas ou feiticeiras são muito antigas. Sua origem é


anterior ao fenômeno da Inquisição. A crença de mulheres dotadas de alguns
poderes sobrenaturais, que lhes foram dados pelas deusas, dava sustentação à
simbologia mantida nos contos, nas lendas e no folclore. Faziam parte do imaginário
popular. Estas mulheres cuidavam também da fertilidade ou esterilidade, da
natureza e da mulher. (BARROS, 2004)

5.1. A bruxa: o arquétipo da Grande Mãe

O termo Grande Mãe também deve ser entendido como o Grande


Feminino, que vem a surgir tardiamente na história da humanidade apesar de
venerada muito antes de seu aparecimento. Este arquétipo não é constituído
somente pela junção dos dois nomes Grande e Mãe, e sim pelos simbolismos
contidos nestes dois nomes. A Grande Mãe é antes de tudo a mãe terra, a árvore.
Aos poucos estes diferentes símbolos vão se unindo ao arquétipo primordial da
Grande Mãe, que se manifesta em ritos e mitos. (NEUMANN, 1974)

Em conseqüência disso, pode-se afirmar que não há uma única Grande


Mãe, projetada no real. Diferentes figuras humanas podem, circunstancialmente,
exercer o lugar da imagem arquetípica perante a mesma pessoa. O papel Grande
Mãe circula entre as relações, dependendo das necessidades do momento e dos
vínculos interpessoais manifestos que melhor possam atendê-la. Foram difundidas
através de mitos, rituais, fábulas e religiões, nas quais tomam diferentes formas,
como ninfas, fadas, deusas, bruxas e demônios femininos. Todas representantes do
arquétipo da Grande Mãe e, conseqüentemente, do Grande Feminino. (id., ibid.)

Segundo Chevalier e Gheerbrant (2006), as Grandes Mães foram deusas


da fertilidade. A mãe possibilita o nascer e o morrer. Ao nascer, a criança do seu
ventre e, ao morrer, retorna à terra, que também é mãe que alimenta o ser
humano com seus frutos. A mãe carrega o simbolismo de abrigo, ternura,
alimentação. Através de seu lado negativo, é vista como devoradora. Em relação ao
Cristianismo, a mãe é a Igreja, como local onde se encontram a vida e a graça.

A mãe, como arquétipo, apresenta dois aspectos, um construtivo e outro


destrutivo, que agem através de instintos. (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2006)

Estes autores defendem que para a pisque, a noção do bem ou do mal


não existe. Essa noção passa a ter significado quando a nossa consciência
reconhece a moral judaica-cristã e seus preceitos.

O arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada


indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isso inclui
mulheres em geral, imagens míticas de mulheres como Vênus, Virgem Maria e mãe
Natureza, além de símbolos de apoio e nutrição, como a Igreja e o Paraíso.

O arquétipo da Grande Mãe corresponde à imagem primordial de mãe.


Sintetiza todas as experiências relacionadas à maternidade acumuladas ao longo do
tempo pela humanidade durante séculos. Von Franz (1990) observa que o arquétipo
sempre é composto de dois lados, um que é luminoso e outro sombrio. No arquétipo
da Grande Mãe são encontradas a deusa, que representa a fertilidade, e a bruxa,
como mãe diabólica.

Na sua polaridade positiva, a Grande Mãe apresenta as qualidades de


amor, carinho, proteção, nutrição e aceitação. Está ligada a todos os impulsos ou
instintos benignos, a tudo que acaricia ao que sustenta e propicia o crescimento e
fertilidade. Seu lado negativo manifesta-se como a mãe terrível, devoradora, que
seduz e asfixia, abandona e aprisiona. Esta é ligada à escuridão e ao mundo dos
mortos. A bruxa dos contos é a figura arquetípica da Grande Mãe, é a Deusa Mãe
negligenciada, abandonada, como também Deusa Terra que é Deusa Mãe, no seu
aspecto destrutivo. (GRINBERG e GHEERBRANT, 2003).

Na Idade Média, por exemplo, esse aspecto do arquétipo estava


cristalizado na imagem da velha bruxa. Nesta época, o lado sombrio da Grande Mãe
foi projetado na mulher que deu origem às bruxas. O lado luminoso deste arquétipo
é a Virgem Maria. A mãe destrutiva não poderia fazer parte dos cultos. Inicia-se uma
grande perseguição às bruxas, sendo que, nos contos de fadas, elas vivem sob o
aspecto da velha má. (VON FRANZ, 1985)

A Grande Mãe não é somente a provedora da vida. Ela é também é


aquela que traz consigo a morte. A morte pode ser entendida, segundo Neumann
(1974), não como a morte física, mas sim a espiritual. Em muitos momentos da vida
devemos morrer para uma determinada situação e renascer para outras. Para
Chevalier e Gheerbrant (2006), tem a conotação de finitude da vida, entre outros
significados, mas também pode ser vista como introdução para outros mundos,
podendo aproximar-nos dos ritos de passagens e de iniciação, pois é ela quem
promove a nova vida. Isso porque, tanto o direito à vida como à morte pertencem
aos deuses. Ainda existe o significado de libertadora, que nos dá acesso à
verdadeira vida, podendo simbolizar uma mudança intensa pela qual passamos a
caminho da iniciação.

No aspecto negativo da Grande Mãe, há possibilidades de sedução,


enfeitiçamento, encantamento e estereótipos, ou seja, modelos sem originalidade
das ações das bruxas. (NEUMANN, 1974)

Os contos migram e existem em diferentes países. Sua estrutura pouco é


modificada. Nos contos de versão russa encontra-se Baba-Yaga, como a mãe
natureza. Ela é a deusa da vida e da morte. Ela usa uma vassoura e tem um
caldeirão. (VON FRANZ, 1985) Suas características são semelhantes às utilizadas
pelas ditas bruxas dos contos europeus.
Existe uma crença geral de origem arquetípica que se encontra tanto nos
Alpes como na China, Áustria e Japão. Ela diz que algumas mulheres têm almas de
raposa. Um tema arquetípico universal foi associado ao tema da raposa para que a
tornasse mais coerente. Com isso, pode-se perceber que, às vezes, os temas não
se degeneram, mas ampliam-se. (id., ibid.)

Nos contos em que se encontra a personagem da bruxa, fala-se do


arquétipo da Grande Mãe, sendo se que pode ainda encontrar nos contos outros
arquétipos como do pai ou da criança. É possível sentir muitas emoções diferentes
relacionados a este tema. Os temas que relatam os feitos das bruxas estão sempre
muito ligados ao feminino e à mulher. Os contos relatam “trabalhos”, feitiços, enfim,
o medo e a ameaça.

O símbolo mais representativo da Grande Mãe está no vaso. Neumann


(1974) afirma que a relação existente entre corpo e vaso é muito importante, visto
que é nele que estão contidos os fenômenos psíquicos. Sendo assim, coloca que a
mulher vista como corpo-vaso, tem a possibilidade de criar um ser dentro de si,
protegendo-o. Este vaso assemelha-se ao útero que contém uma nova vida, não
sendo um vaso comum, mas sim peculiar, porque contém uma vida. O vaso, então,
é aquele que contém. Este é o símbolo em seu aspecto positivo.

Outros símbolos culturais que se relacionam ao simbolismo do conter são,


segundo Neumann (1974), a caixa, os cestos, os baús e os gamelas. Ainda
podemos observar que existe outro grupo de simbolismos relacionados ao estar
contido como o berço, o leito e o navio, que podem nos levar a idéia de segurança e
proteção. Diferentes símbolos estão relacionados à proteção. Entre eles, encontram-
se a camisa, o véu, o casaco e o vestido. Ainda podemos fazer relação entre a
mulher e a taça. Estes símbolos ressaltam a polaridade positiva do arquétipo da
Grande Mãe enquanto protetora.

O símbolo de vaso para o arquétipo da Grande Mãe, em seu aspecto


negativo, é o caldeirão. Nele está contida não a vida, mas a morte.

Outro simbolismo junto à Grande Mãe revela a água como o líquido da


vida. A bruxa também se utiliza deste líquido. Ela o usa para a realização de suas
poções mágicas que, na maioria das vezes leva à morte.
Neumann (1974), porém, expõe que o caldeirão não é somente o vaso da
morte ou da vida. Ele é considerado também o vaso da transformação, da magia e
da inspiração.

A mulher conhece a natureza e a bruxa que vive junto a ela. Também usa
de sua sabedoria para curar. Ela é a sacerdotisa que tem poderes de incubação, de
transformação e de ressurreição. (NEUMANN, 1974) Esta é, portanto, a
ambigüidade que também está presente no simbolismo da bruxa enquanto mulher.

Os aspectos negativos do arquétipo da Grande Mãe não significam,


necessariamente, aspectos relacionados ao mal, pois o rejeitar pode estar
propiciando uma busca pela sua própria subsistência.

Neumann esclarece esta atitude da Grande Mãe

Ela utiliza ”a suspensão do amor” como instrumento de seu poder como


recurso para eternizar seu domínio como Grande Mãe. A fim de não permitir
que sua progênie atinja a liberdade. Nesse momento, rejeitar e privar
converte-se em reter, e mesmo em aprisionar que conhecemos como
funções negativas do caráter elementar (1974, p. 68)

5.2. A relação mãe/criança e as bruxas

A criança se desenvolve de maneira gradativa e evolutiva. Este


desenvolvimento se dá de maneira cronológica. Dependendo da maturação e do
sistema nervoso central. Junto a esse crescimento físico acontece o
desenvolvimento evolutivo da personalidade. Segundo Byington (1987), o
desenvolvimento da personalidade não é sempre o mesmo em todas as crianças,
isso porque ele é influenciado pela cultura e pela família na qual a criança é criada.

O autor coloca que a nossa cultura tem sua gênese na dominância do


dinamismo matriarcal, isso porque temos descendências índias e negras, e nessas
culturas há predominância das dinâmicas matriarcais.
O começo da vida da criança é regido pelo dinamismo matriarcal. A mãe
e a criança, neste início da vida, estão muito ligadas. A criança vive um
relacionamento afetivo corporal com a mãe, com o prazer e com a fertilidade, os
quais estão inseridos nesse dinamismo. As situações vividas no início da vida são
representadas pelos atos de acolher, cuidar e proteger. Em relação ao
desenvolvimento da personalidade, esse dinamismo é regido pelo prazer e pela
fertilidade.

O bebê expressa-se e comunica-se através do choro, que pode ser de


fome ou não, ou das necessidades fisiológicas. Ele não é somente um corpo que
tem que ser alimentado e cuidado, o bebê também é mente. Dessa forma, ambos
formam uma totalidade, uma união. Tratar essa criança, que por tanto tempo estava
tão próxima de sua mãe, com mamadas em horários pré-estabelecidos, e não de
acordo com o seu desejo e suas necessidades, faz com que o bebê perca seus elos
que eram muito próximos.

Os primeiros anos da vida da criança são regidos pelo arquétipo da


Grande Mãe. O dinamismo matriarcal está ligado ao processo de desenvolvimento
da consciência, que tem mais proximidade como o inconsciente, apresentando,
portanto, incapacidade de agir em conformidade com a cultura, refinamento e
sofisticação. Nesse dinamismo, o que se conhece enquanto respostas são as
necessidades existentes, as quais são bipolares, que representam os pares como
sim e não, ou afeto e ódio.

O dinamismo favorece a intuição, trazendo consigo as experiências


vividas através da afetividade e sensualidade, que são essencialmente fontes de
prazer vinculadas ao cuidar e ao acolher, que são características pertencentes ao
arquétipo da Grande Mãe. (BYINGTON, 2003)

O dinamismo matriarcal está muito relacionado à magia, ao brincar de faz-


de-conta, falar com as bonecas e com os objetos. A criança, quando vivencia este
dinamismo, tem como ação principal a imitação. Isso acontece de acordo com suas
características, necessitando de vários modelos para que, desta forma, possa
escolher qual modelo irá imitar. É por meio da imitação dos gestos, da falas e das
posturas, que a criança age, transferindo e imitando as pessoas com as quais
convive. Estão ligados ao dinamismo matriarcal, a intuição, o sentimento, a
ludicidade, a imaginação e o prazer.

A criança, ao longo do seu desenvolvimento, conhece os símbolos que


são aceitos ou não pela família na qual vive, assim como na sua cultura, e os usa de
maneira adequada. Apesar de não estar sendo ensinada a isso, a criança sabe os
comportamentos que agradam à mãe, à avó ou ao pai, e age de acordo com eles
em diferentes ocasiões. Nesta fase matriarcal, a criança também se expressa
através do seu corpo, podendo ter febre para não ir à escola ou uma dor de cabeça,
que pode indicar insatisfação sobre alguma situação corriqueira.

Se formos relacionar a bruxa dos contos de fadas a esta fase, seria bem
provável que a bruxa fosse identificada como uma mãe que, por desconhecimento,
exige da criança alguns comportamentos que ela ainda não está pronta a responder.
Como exemplo, se uma mãe quer que seu filho com menos de 1 ano, use o
banheiro de forma adequada e o faz sentar no “piniquinho” por muito tempo, estará
agindo como uma bruxa. Mas, ao mesmo tempo, se a criança já tem idade e
possibilidade de usar adequadamente o banheiro e a mãe continua com o uso de
fraldas, também estará sendo uma bruxa, não permitindo o desenvolvimento e
crescimento desta criança, fazendo com que permaneça um bebê. A professora da
pré-escola que quer que tudo fique em ordem ou que a criança permaneça muito
tempo sentada ou quieta quando ela ainda não tem condições para realizar este tipo
de comportamento. A professora, então, poderá ser vista como uma bruxa, mesmo
que a criança ainda não tenha consciência desta relação.

Essas pessoas, ao atuarem dessa maneira com a criança nesta fase,


vivenciam a Grande Mãe” em seu aspecto negativo, representando a bruxa má e
perversa, impossibilitando o crescimento saudável da criança.

A criança, ao ser deixada na escola com pouca idade, não consegue


perceber e reconhecer esta atitude como boa. Sendo assim, sua mãe a está
abandonando, da mesma forma que a madrasta de João e Maria, que os abandonou
na floresta. A criança terá esta visão, não tendo ainda a possibilidade de perceber
que não tem condições de ficar só em casa. O melhor neste momento é ir para a
escola. Estas atitudes não são conscientes para as crianças e, por vezes, nem
mesmo para os adultos.

No conto de fadas de João e Maria, a bruxa age, a princípio, da mesma


maneira como agem as mães. Ela acolheu, deu carinho, mas, posteriormente, por
ser uma bruxa, quer comer as crianças.

Byington (2003) explica que a polaridade que existe entre o homem e a


mulher é muito importante, sendo que cada um dos ciclos arquetípicos apresentam
uma função diferente. Porém, cada função é necessária e importante no
desenvolvimento da personalidade infantil.

O próximo dinamismo a compor o desenvolvimento da personalidade


infantil é o patriarcal, que está ligado à figura do homem. Já o matriarcal é
relacionado à figura da mulher. Esses ciclos estão ligados às figuras maternas e
paternas, porém qualquer pessoa pode atuar como protagonista: a professora, a avó
e a própria mãe, assim como o avô, um tio próximo e o pai.

O dinamismo patriarcal está relacionado à introdução da ordem e da lei


na vida das crianças, pois é o pai que dá a criança a noção do certo e do errado, das
leis e normas de ação, tanto do lar quanto da sociedade.

Quando imaginamos a criança que está saindo do ciclo matriarcal e


ingressando no novo ciclo, pode-se avaliar quantas bruxas ela vê em seu caminho.
Na pré-escola e/ou nas escolas tradicionais, as professoras que exigem a
organização da sala o fazem priorizando as leis do ciclo patriarcal, que tem na
organização, na ordem e na lei suas prioridades. As crianças, porém, ainda não têm
a possibilidade de atuar desta maneira e encontram dificuldade em se organizar.
Elas vêem esta situação como má, como algo ruim, e a professora, como portadora
do mal, como uma bruxa.

Durante as nossas vidas, em diferentes momentos encontramos


situações pertencentes a um ou outro dinamismo que fazem parte do
desenvolvimento de nossa consciência. E vamos, com o tempo, sabendo como lidar
com estas situações. Aprendemos, portanto, como livrar-nos das bruxas que
encontramos em nosso caminho.
Pode-se afirmar, conforme Greer (1994), que a antiga bruxa é uma figura
matriarcal. Agrega em si o princípio da irmandade, que vê o grupo e sua
comunidade acima do indivíduo. Com o início do patriarcado, elimina-se os direitos e
privilégios da mulher e, assim sendo, o poder se dissipa.

Cabe, por fim, observar que as bruxas dos contos podem mostrar-nos de
maneira construtiva os diferentes caminhos que temos, as dificuldades pelas quais
passamos e as possibilidades de escolhas que nos são apresentadas. 8

Em cada faixa etária a bruxa apresenta-se de uma maneira. Todos nós,


crianças e adultos, sempre estamos nos deparando com várias bruxas no
transcorrer de nossas vidas. Elas nos trazem lições de vida, nos mostram as
possibilidades de olhar para os obstáculos que encontramos de diferentes maneiras.
Assim como nos contos, as nossas bruxas podem ser desafiadas. Em alguns
contos, as bruxas morrem, em outros são castigadas, mas apesar disso estão
mostrando-nos os novos caminhos e possibilidades criativas para a resolução dos
problemas.

Acredita-se ser de suma importância que tanto as crianças quanto os


adultos, possam ver esta personagem dos contos de fadas como aquela que
possibilita a morte de uma fase da nossa vida para o surgimento de outra. E não
somente a mulher má, pois toda a mulher traz consigo uma fada e uma bruxa. Os
contos revelam fadas boas e más. A ambigüidade permanece viva na figura da
mulher. No entanto, o tempo resgata a variação das ações. Mulheres são boas e
más em diferentes momentos de suas vidas.
CAPÍTULO VI

DARNTON E A VISÃO HISTÓRICA DOS CONTOS DE FADAS

Darnton (2006) como historiador, analisa os contos de fadas sob o ponto


de vista da história da cultura. Seu estudo busca descobrir a dimensão social dos
pensamentos, dentro de um contexto histórico. Retira dos documentos encontrados
os fatos significativos que possam, de alguma maneira, ajudar a explicar os contos
como documentos históricos.

Darnton (2006) busca, portanto, analisar os fatos sociais e culturais, vistos


por diferentes representantes da cultura, tanto os intelectuais quanto as pessoas
comuns.

Este autor considera que os contos de fadas têm origem histórica.


Acredita, por exemplo, que os contos trazidos da tradição cultural pelos irmãos
Grimm, não traziam uma carga alemã, nem tão representativos da cultura e da
tradição quanto deveriam ser. Porque, ao migrarem, receberam um tom
afrancesado. E considera que, durante a trajetória oral até a sua publicação, os
contos recebem inúmeras transformações.

Darnton questiona a interpretação dos contos realizadas por psicólogos


que, ao interpretar os contos, o fazem como se estes não tivessem nenhuma história
inserida em seus conteúdos .

O autor acredita que os contos sejam “documentos históricos, surgiram


ao longo de muitos séculos e sofreram diferentes transformações, em diferentes
tradições culturais”. (2006, p. 26)

Darnton afirma que os historiadores devem basear-se na antropologia e


no folclore, deixando de lado as análises psicológicas. Os antropólogos, assim como
os folcloristas, acreditam que os contos podem relacionar a arte de narrar, com os
contextos reais de onde estão inseridos. Estes analisam também como acontece a
transformação e a adaptação dos contos, adequando-os aos diferentes tempos e
locais.

Assegura também a importância que os contos trazem ao apresentarem


aos leitores uma população analfabeta com seus costumes, mesmo que esta já não
exista mais. Dessa forma, deixa nos contos um registro histórico. Ainda afirma que
alguns elementos referentes aos contos, como o escutar, a forma como foram
narrados, os gestos usados pelo narrador ou o uso de sons ambientais, se perderam
no tempo e não podem ser restaurados. Assim, deixam a história sem este
conhecimento, sem a certeza se o que é narrado nos contos atualmente coincide
com a realidade anteriormente vivida. Apesar deste fato, o autor acredita que o
conto permanece vivo durante os séculos, apesar das possíveis transformações
pelas quais possa ter passado.

Este autor pondera que para se fazer uma boa interpretação dos contos,
os estudiosos devem utilizar-se de mais de uma versão de uma mesma história. Em
suas análises, assegura que existem inúmeras versões de um mesmo conto. Cita
que Chapeuzinho Vermelho pode ser encontrado em 35 versões. Já O Pequeno
Polegar tem 90 delas. Um número maior ainda é o de versões para Cinderela,
aproximadamente 105 foram encontradas.

Darnton (2006) afirma que ao estudar estas versões, pode-se observar


como aconteceu o percurso oral deste conto, e também estudar sua estrutura. Ainda
nestes estudos, percebe-se o que foi introduzido de novo no conto e o que se
manteve inalterado, apesar do tempo transcorrido. Pode-se ainda analisar a maneira
como estas narrativas foram organizadas e como os diferentes temas passam a
combinar entre si. Acredita, portanto que estes estudos são muito valiosos enquanto
representantes de mudanças sociais e culturais.

Darnton (2006) explana sobre os processos de transmissão oral, que


acredita serem mais “duráveis” e “tenazes” nos contos do que os temas folclóricos.
Assegura que os temas folclóricos podem apresentar permanências ou então
contaminações.

Ao analisar os contos de diferentes culturas, observa-se que cada povo


imprime características singulares em seus textos. Assim, os contos germânicos
apresentam um tom de terror e fantasia em seus enredos e os franceses
contemplam o humor e as situações domésticas.

Este autor coloca que os contos franceses e os ingleses, apesar de


conterem certa afinidade em seus conteúdos, apresentam gêneros diferentes. Os
ingleses têm em seus enredos fantasia e humor, com detalhes bastante elaborados,
fantasmas e duendes, criando um universo prazeroso. Já os franceses mostram
situações onde a astúcia está sempre presente e, por vezes, são dramáticos. Os
italianos têm um todo burlesco e bem humorado. E os alemães criam situações
macabras e horripilantes.

Segundo Darnton (2006), o importante é perceber que, apesar das


estruturas destes contos serem mantidas nas diferentes versões, trazem em seu
bojo as mudanças pertinentes às culturas das quais emergem. E mesmo tratando de
temas semelhantes, podem parecer aos despercebidos contos diferentes.

O autor enfatiza que alguns contos apresentam um cenário muito próximo


da realidade dos tempos de 1730. Explica que os homens dessas comunidades
trabalhavam do nascer ao pôr-do-sol e que as mulheres casavam-se muito cedo e
davam luz à cinco ou seis filhos, dos quais somente dois ou três sobreviviam. Como
a subnutrição era muito grande, para a maioria dos camponeses a vida era uma
grande luta pela sobrevivência. A subnutrição era a que separava os pobres dos
considerados indigentes. Os jovens buscavam sobreviver através de pequenos
trabalhos como lavradores, sendo que alguns deles também teciam e até fiavam
panos em suas moradias. Quando não havia mais trabalho por perto, os jovens
saíam pelas estradas em busca de qualquer outro trabalho.

Afirma também que os diferentes temas, segundo seu ponto de vista,


surgiram no mundo real e, com o passar do tempo, foram transportados para os
contos de fadas. Coloca que as situações reais como “comer ou não comer”
aparecem em vários contos, como se observa em João e Maria. Em relação às
madrastas, que eram muito comuns nas comunidades, elas surgem nas histórias
como sendo más, parecidas com a existente em Cinderela. .

Darnton (2006) explana que em relação às madrastas, existiam


semelhanças entre as dos contos e as mulheres que viviam nas comunidades do
Antigo Regime, as quais eram figuras importantes nas comunidades das aldeias.
Coloca que Perrault apresenta este tema em muitos de seus contos, porém deixa de
salientar a subnutrição existente. “Os contos populares mostram, constantemente,
os pais trabalhando nos campos, enquanto os filhos recolhem madeira, guardam as
ovelhas, pegam água, tecem a lã ou mendigam”. (2006, p. 54)

Em relação aos filhos, o autor acredita que eles ocupavam uma dimensão
diferente da dos pais. Explica que

os filhos têm maior área de ação, nos contos. Exploram a segunda


dimensão da experiência camponesa, a vida na estrada. Os rapazes partem
em busca de fortuna e muitas vezes a obtém, graças a ajuda de velhas
horrorosas, que pedem um pedaço de pão e, na verdade, são fadas
bondosas disfarçadas. (idem, p. 56)

Este autor afirma que apesar destas intervenções naturais, os heróis dos
contos partem de um mundo real, fugindo da pobreza na qual vivem, para encontrar
novas possibilidades. Uma delas é conquistar uma princesa. O sonho que está
inserido nos contos dos camponeses gira em torno da mudança de vida.

Darnton (2006) relata que nas versões de João e Maria e do Pequeno


Polegar, ao mostrarem os jovens batendo em casas misteriosas, mostram a
realidade existente e não a fantasia. Pois, ao adentrarem pelas florestas, os jovens
se deparavam com um perigo muito grande, como o encontrado por João e Maria ao
encontrarem a casinha de pão-de-ló.

O autor continua sua linha de pensamento em relação à transformação da


vida real em contos afirmando que:
Sempre que alguém procura por trás das versões de Mamãe Ganso,
encontra elementos de realismo, não narrativas fotográficas sobre o pátio
no pátio da estrebaria (os camponeses não tinham tantos filhos quanto os
buracos de uma peneira, e não os comiam), mas o quadro que corresponde
a tudo que os historiadores sociais conseguiram reconstruir a partir das
matérias existentes nos arquivos (idem, p. 59)

Enfatiza ainda que os contos podem transitar entre os dois mundos: o dos
cultos e o dos camponeses, e trazem em seus enredos as características e os
valores sociais, as diferentes maneiras de interpretar o universo francês e outras
culturas, como as italianas, alemãs e inglesas do século XVIII.

Esclarece ainda que, apesar dos contos terem chegado até os nossos
dias, nunca se saberá como realmente eram contados. Somente pode-se ter uma
idéia aproximada de como os narradores contavam suas histórias. Mas, por mais
que estas sejam dificuldades reais, assegura que os parcos registros destes contos
possibilitam declarar que eles relatam situações existentes no Antigo Regime e que
foram trazidos pelas tradições orais até os dias de hoje. Estas fontes, mesmo que
não sejam muito fiéis, são de inestimável riqueza para os estudos sobre os
camponeses e o seu universo.

Com a leitura histórica de Darnton (2006) em relação aos contos, tem-se


um outro enfoque diferente do feito por Jung e seus seguidores, pois o primeiro tem
um olhar que busca os documentos que possam dar registro de diferentes fatos e
passagens na história da humanidade. Já Jung busca entender como esta mesma
humanidade pode vivenciar diferentes situações do ponto de vista psicológico e
transmiti-las aos outros indivíduos por meio de metáforas e linguagem simbólica.
Uma posição não invalida a outra, pois partem de pressupostos diferentes.

Não cabe aqui analisar se os contos partiram do real para o imaginário ou


vice-versa, pois a vida é composta do real e do imaginário, sendo que um sempre
precisa do outro. Não se pode viver somente no mundo real ou mesmo no mundo da
fantasia, ambos os mundos são necessários para a nossa vida saudável.
6.1. A construção histórica da figura da bruxa e a relação mulher/bruxa

Segundo Clark, “a história da bruxaria é, principalmente, a história da


mulher” (2006, p. 156) que se baseia nas transformações do seu papel ocorridas ao
longo da história. Esta é a opinião deste historiador, que vê na bruxa a mulher que
está contida nela.

Para ele, a associação que é feita entre as mulheres e as bruxas advém


da construção do pensamento Aristotélico, que considerava a mulher um ser
imperfeito. Acrescenta-se a hostilidade cristã, que as considerava originárias do
pecado, cuja natureza é inferior à do homem.

As bruxas, segundo Greer (1994), sempre existiram em todas as


sociedades, tempo e lugar. Tornam-se protagonizadas nos contos, em geral pela
expressão da mulher velha. A crença na existência destas mulheres acontece, de
preferência, em locais onde não se encontra explicações convincentes e plausíveis
para mortes, infertilidade e doenças. Entre essas mulheres, aquelas denominadas
bruxas são as mais velhas, as carrancudas e as de olhos esbugalhados.

Na Idade Média, as bruxas, por agirem em consenso e cumplicidade com


a comunidade, eram vistas sob dois prismas diferentes: eram respeitadas em
relação aos seus poderes ocultos, porém deixavam de respeitar as leis do Estado e
da Igreja, que eram a expressão de poder social, político e religioso vigentes. Esta
atitude deixa claro que a mesma sociedade que recorre à bruxa para solução de
infinitos problemas, exerce a crueldade de lançá-la à fogueira. (GREER, 1994)

Barros (2004) assegura que a mulher sempre reinou entre os dois pólos
contraditórios, entre a vida e a morte. Dessa forma, passou a ser responsável tanto
pelo bem como pelo mal. Sendo assim, era temida e admirada, provocando medo,
inveja e temor. O fenômeno da bruxaria pode ser explicado por um viés que o
enxerga como crime. Pretendia-se punir as mulheres que não se submetem ao
patriarcalismo, que incomodavam a sociedade vigente e eram herdeiras de
patrimônios. (CLARK, 2006)
O autor também explana que a bruxaria era vista como um artifício e um
crime que retratava certo tipo de comportamento. Suas atitudes diferiam das da
comunidade. Viviam afastadas, sós e usavam ervas para curar. Esta maneira de
viver as marginalizava, pois não agiam de acordo com o comportamento vigente na
época.

É evidente que as bruxas ameaçavam a ordem patriarcal,


independentemente de serem ou não casadas ou viúvas. O modelo popular as
colocava como mulheres ora vingativas, ora exigentes com seus vizinhos. A bruxa é
vista como “modelo” antifeminino, juntamente com o símbolo de mãe má, como
aparece nos contos de fadas. Não obstante, a bruxa é segregada por sua
comunidade. Afinal, expressam o ponto negro social no suposto quadro branco da
comunidade. Esta dicotomia preserva as relações de poder então estabelecidas
para manter a ordem vigente.

A Igreja, através de sua dominância patriarcal, não favoreceu a


integração de Cristo na cultura devido a seu forte conteúdo revolucionário. Junto ao
símbolo de Cristo, foi criada a imagem do diabo. Ao final da Idade Média, a
demonologia ocupava a posição central no Cristianismo, sendo que o Santo Oficio
também adquiria prestígio por investigar este fenômeno. O poder dado à Inquisição
torna-se expressivo e se expande. Ele é temido e respeitado. O diabo toma
proporções fascinantes. Há momentos em que seu encantamento supera as
reverências feitas à Jesus. (BYINGTON, 1996)

A construção da figura da bruxa pode ser vinculada à maneira como a


Igreja via o bem e o mal. Com o Cristianismo, surge uma religião que exclui a mulher
das funções por ela exercida, até então, em outras religiões e culturas. É a religião
do masculino, onde somente o homem exerce diferentes funções. A Igreja Católica
não aceitava a religião advinda da mãe, pois precisava manter a religião do Deus
Pai e Filho. E faz com que a imagem de Eva permaneça vinculada à da Serpente.
Por conseguinte esta ligação estendeu-se a todas as mulheres, as quais foram
consideradas diabólicas. (BARROS, 2004)

O imaginário, segundo Barros, mobiliza o homem. Ele traz consigo as


fantasias de uma sociedade ou de uma cultura. Assim sendo, os desejos
inconscientes podem ser vividos por meio desta fantasia. Na literatura, recebe o
nome de maravilhoso e é ele que dá conta das criações trazidas pelo imaginário
popular. Na Idade Média, o maravilhoso é importante quando possibilita a leitura do
sobrenatural, que tem relação com o milagroso da Igreja Católica, o sobrenatural
divino. Surge, então, a dicotomia entre este, que representava o bem, e o
sobrenatural diabólico, que representava o mal.

Barros (2004) expressa que o homem transpôs para a mulher estes


poderes e fascínio. Muitas delas conheciam ervas e as usavam para fazer remédios.
Assim, o conhecimento que possuíam sobre as ervas letais, curativas, afrodisíacas
ou alucinógenas denotava um contato íntimo com a natureza e com a arte de curar.

Segundo Chevalier e Gheerbrant (2006), a palavra “erva” tem relação


com a restituição da saúde, a virilidade e a fertilidade. A bruxa, em contato com
estas ervas, permanece associada a esses conceitos. Em Bretão, “erva”, no sentido
arcaico, refere-se à “remédio”, tendo o mesmo significado usado pelas bruxas, que é
o de “curar”.

Essas médicas sem diploma nem formação acadêmica tinham tanto ou


mais conhecimentos do que os doutores, sabiam usar ervas como ninguém,
misturando-as de maneira adequada para extinguir diferentes males. Essa mulher é
a bruxa nas culturas populares.

Nos contos Celtas, o poder era dado à mulher. Esta não se mostra nem
submissa, nem inferior aos homens. As bruxas eram consideradas pecadoras,
admiravam a luxúria e desconheciam o pudor. Esta relação não tardou a aparecer.
O mal estava dominando o mundo e a responsável era a mulher. A guerra entre
bem e mal estabelecia, de um lado a Igreja, representante de Deus na terra, e de
outro a mulher, na figura da bruxa, que materializava forças demoníacas. As fadas,
nos contos Celtas, trazidas da literatura medieval, possuíam o conhecimento da
natureza e conheciam também o mundo dos mortos. Ao contrário das bruxas as
fadas eram portadoras de beleza e sexualidade e eram enaltecidas por isso, estas
mulheres conheciam as metamorfoses e as ervas, os filtros amorosos e os objetos
mágicos. Através da metamorfose revelavam-se lindas ou então velhas de aspecto
asqueroso. Portanto, enfeitiçavam os homens e tinham soberania sobre eles.
Desta forma, a bruxaria satânica ocupou lugar histórico de expressão da
Idade Média ao Renascimento. (BARROS, 2004)

Os contos revelam fadas boas e más. A ambigüidade permanece viva na


figura da mulher. Podendo ser vistas como bruxas ou fadas dependendo de suas
ações e dos momentos em que atuam no transcorrer da trajetória humana.
CAPÍTULO VII

A CRIANÇA E A CONCEPÇÃO DA BRUXA NA CONTEMPORANEIDADE:

UM ESTUDO DE CASO

7.1. Aporte teórico para a interpretação dos desenhos

Partindo dos desenhos realizados pelas crianças de uma pré-escola de


São Paulo, com idades entre 4 a 6 anos, será observada e discutida a visão delas
sobre a bruxa dos contos de fadas. Será, portanto, observado o que as crianças
trazem à tona por meio do desenho, em relação à figura da bruxa dos contos de
fadas nos dias atuais.

Segundo Derdyk (2004), o desenho pode ser entendido como uma


linguagem, a qual apresenta uma maneira peculiar de comunicar uma idéia, uma
imagem, ou mesmo um signo, usando para isso de diferentes suportes como: chão,
areia, muro, pano, papel, cartolina ou lousa. Para se expressarem, podem usar
distintos instrumentos como lapiseira, giz de cera, canetas hidrográficas e lápis de
cor. Esta autora coloca que a criança de pré-escola, enquanto desenha, canta, se
movimenta, conta histórias, fala, conversa ou permanece quieta. Atua
conjuntamente e não consegue dissociar as suas ações, pois ao desenhar ela vai ao
encontro do imaginário.

O desenho, na visão da autora, é mais amplo do que uma simples


manifestação gráfica. Ele é um instrumento de reflexão, podendo também promover
a abstração e a conceituação. Desta forma, pode-se dizer que o desenho é uma
forma de pensar sobre o papel. O papel, para a criança, é o local da fantasia, da
ilusão. Ele dá à criança possibilidades de realizar seus sonhos e também é nele que
a criança poderá colocar suas carências, suas necessidades e suas buscas.

O desenho ainda, segundo Derdyk (2004), é uma representação podendo


demonstrar medo, opressão ou alegria, afirmar ou negar algo. Sendo assim,
enquanto a criança desenha, ela está passando por um processo vivencial e
existencial.

Há um desenvolvimento e um caminho pelo qual todas as crianças


passam. A autora afirma que alguns gestos utilizados pelas crianças ao realizarem
suas garatujas podem ser definidos como gestos arquetípicos, inatos a todas as
crianças, sendo que não dependem da cultura ou da sociedade na qual estas
crianças estão inseridas. Significa dizer que há uma parcela no desenvolvimento do
grafismo infantil que pertence ao patrimônio universal da inteligência humana e outra
parte dele, que é decorrente da cultura.

Os desenhos, segundo Furth (2006), frequentemente expressam muitas


informações que estão no inconsciente. Os desenhos, aqui analisados, segundo a
concepção do autor, são denominados de desenhos de improviso, pois foram
realizados a partir de um pedido, isto é, que desenhassem a bruxa da história
contada. Apesar das crianças não saberem com antecedência a história que seria
narrada, este é um desenho com um tópico pré estabelecido: A bruxa dos contos de
fadas .

Furth (2006) assegura que Jung considerava os desenhos portadores dos


símbolos do inconsciente. Jung (apud FURTH, 2006) afirma que os conteúdos do
inconsciente podem ser representados e trazidos à tona pelas imagens e símbolos
que estão nos desenhos. Entender que os desenhos trazem símbolos nos possibilita
uma melhor interpretação.

Os símbolos são, na sua maioria, elementos inexplicáveis. Assim, não


são facilmente descritos através das palavras. Eles trazem de maneira mais natural
o que estava no inconsciente. É, portanto, relevante compreender que existe uma
relação entre os dois mundos, o interno e o externo, tanto nas crianças como nos
adultos, sendo que podemos perceber o quanto o mundo inconsciente e o
consciente afetam um ao outro. Esta relação poderá ser expressa pelos desenhos.

Os símbolos, segundo Di Leo (1987), são os meios de comunicação mais


eficazes e universais, mas é importante ressaltar que os símbolos não contêm o
mesmo significado para diferentes pessoas. O autor afirma que algumas crianças
podem colocar em, seus desenhos, sentimentos como medo, infelicidade,
hostilidade e alegria.

O desenho é a linguagem pela qual podemos nos expressar. Ele busca


suas referências no imaginário. A criança, quando desenha, é no inconsciente que
vai buscar os conteúdos para sua representação, apesar de não ter consciência
disso, baseando-se também no que conhece da sua realidade e das representações
culturais. (DERDYK, 2004)

Ostrower (2004) afirma que “a criatividade é inerente à condição


humana”. Sendo assim, todos, indiscriminadamente, criamos, independentemente
da idade, cultura ou raça. Desta forma, as crianças e os adultos, ao representarem
as bruxas dos contos lidos, estão criando a partir do que ouviram no conto e do que
está no seu inconsciente.

Além dos processos inconscientes que fazem parte do ato de criar, estão
envolvidos os conhecimentos adquiridos, as dúvidas, as perguntas e incertezas,
tudo o que se pensa ou pode-se imaginar. Estes elementos compõem a consciência
que se tem ao criar.

Esta autora coloca que as imagens carregam valores de uma cultura. As


imagens vão se configurando a partir das experiências que são adquiridas durante a
vida, sendo que também recebem influência cultural, além do caráter pessoal, pelo
qual fazem suas representações. .

Ostrower (2004) afirma que a visão que a criança tem do mundo é global
e não parcial. Assim, não consegue fazer discriminações e separar alguns
elementos do todo. É inicialmente egocêntrica, mas, pouco a pouco, vai deixando de
sê-lo para participar com os outros das diferentes experiências da vida.

A criança percebe o mundo de maneira sensorial, fazendo vínculos


afetivos com as coisas que a rodeiam. A cada etapa, amplia sua maneira de
perceber o mundo e tudo que está seu redor, podendo ter a percepção, mais tarde,
sob o ponto de vista intelectual. Estas duas formas de observar o mundo são
diferentes, porém uma não desmerece a outra. Elas se complementam. Serão úteis
em diferentes momentos da vida, possibilitando diferentes olhares sobre o mesmo
objeto ou situação. (OSTROWER, 2004)

Nossa cultura faz com que a compreensão sensível do mundo fique em


segundo plano. Prioriza-se, portanto, a visão intelectual e racional. Aos poucos, a
criança deixa de perceber mundo e expressá-lo pelo prisma da sensibilidade, pois
assim é que lhe é ensinado pela sociedade na qual vive.

.A criança age com muita liberdade, o que já não acontece com o adulto.
Com o seu crescimento e desenvolvimento, surgem mudanças na maneira da
criança expressar-se, as quais ocorrem nas seguintes idades: 2, 4, 7, e 10 anos. Os
desenhos, aqui analisados, foram realizados por crianças compreendidas neste
período, em que algumas transformações na forma de se expressar estão
presentes.

Segundo Ostrower (2004), o que acarreta mudanças entre 2 e 4 anos de


idade realciona-se as experiências e ao controle que as crianças exercem sobre o
mundo que as cerca. Suas formas de expressões visuais são experiências sensório-
motoras que se apresentam através de traços, pontos, círculos e espirais. Nesta
fase, o importante para a criança é o controle que consegue ter do lápis sobre o
papel.

Mèredieu (1974) amplia a visão sobre o desenvolvimento do desenho


infantil. Afirma que de traços contínuos a criança passa a realizar traçados
descontínuos, começando a usar o desenho como uma tentativa de comunicar-se
com o mundo e com as pessoas, passando mais tarde a representar um círculo com
raios, denominado “boneco girino”. Com o tempo, vai dando corpo a este boneco, a
partir do desenvolvimento e da noção que tem de seu esquema corporal. As
crianças que fazem parte desta pesquisa estão nesta fase que se inicia por volta 4
anos de idade.

Mèredieu (1974) explica que o grafismo infantil é uma representação


narrativa e figurativa. Dessa maneira, os desenhos produzidos logo após a leitura
dos contos, provavelmente, estarão narrando algo sobre a história ou,
especificamente, sobre a bruxa. As crianças estarão expressando-se através de
figuras reconhecidas e significativas, pois este grupo já consegue representar o real
por meio de signos, não fazendo ainda muitas abstrações em seus desenhos.

Observa-se, nestes desenhos, outra característica importante de ser


mencionada aqui. Esta tem relação à proporção das figuras traçadas no papel.
Segundo Mèredieu (1974), a criança apresenta, nesta faixa etária, o que chama de
“grandeza afetiva”, caracterizada pelo tamanho desproporcional de alguns
elementos do desenho.

O espaço no qual a criança deve transitar e dominar é a amplitude do


papel a elas apresentado para fazerem seus desenhos. Este espaço vai sendo
delimitado quando a criança começa a apresentar a linha do céu e da terra, que
pode ou não ser preenchida por cores, podendo ainda apresentar alguns outros
elementos que vão completar este espaço, como árvores, pássaros ou flores que
completam o desenho.

As crianças, ao desenharem a bruxa das histórias contadas, certamente


estarão trazendo à tona os conteúdos do imaginário e estarão fazendo a
contraposição destas informações com as que recebem da sua realidade cultural e
social. Com isso, ela inventa, cria, mas também repete algumas formas que
conhece. Considerando-se, portanto, o desenho como uma ação lúdica que envolve
aspectos emocionais e imaginativos.

Estes dois aspectos integram-se, fazendo com que a criança use


adequadamente o espaço físico do desenho e o material que lhe é apresentado.
Nesta pesquisa, especificamente, o papel Canson A4 e os lápis de cor. As crianças
ainda deveriam administrar o tempo que teriam para desenhar. As regras que
deveriam ser seguir foram claras: deveriam desenhar a bruxa da história contada. O
outro aspecto a ser mencionado é que as crianças e adultos se valeriam do seu
imaginário, o qual envolve o pensar, pois sabe-se que é necessário buscar na
imaginação os elementos para representar a bruxa que estava na história. Cabe,
então, idealizar esta personagem, imaginar as diferentes situações em que a bruxa
se envolve, e desenhar. É neste momento que o espaço do papel toma outra
dimensão, que pode ser designada de atividade lúdica, segundo Derdyk (2004).
O tempo que as crianças usaram para a realização dos desenhos
obedece a um ritmo e um desenvolvimento individual que, segundo esta autora,
representa um tempo emocional e também mental. As crianças, enquanto
desenham, conversam e discutem entre elas sobre as atitudes da bruxa,
percebendo-se o grau de envolvimento emocional com a história.

O ato de desenhar integra presente, passado e futuro. As imagens que se


criam ao desenhar são embasadas na memória e na imaginação. Acredita-se que
tanto as crianças, como os adultos tenham em seu repertório de memória figuras de
bruxas, as quais foram vistas em desenhos animados ou nas ilustrações dos livros
de contos de fadas e, ao representarem a personagem do conto lido, recorrem a
estas imagens e as ampliam na imaginação.

Pode-se, portanto, fazer a seguinte relação: a observação está


relacionada ao presente; a memória, que é ativada, refere-se ao passado; e a
representação em si que trabalha com a imaginação é o futuro.

Derdyk (2004) afirma que existe um diálogo entre o que a criança sabe e
conhece com o que ela imagina. Portanto, os inúmeros estímulos que se
apresentam a todo o momento, serão os responsáveis por definir a produção de um
desenho, dando um significado a ele.

O desenho, segundo a autora, pode ser considerado como “o mapa da


consciência”, pois a memória evoca a imaginação, projeta para o futuro, e o
presente é a realização. Existe, portanto, uma ponte que liga o que foi ao que será.
7.2. Comparação dos desenhos de cada criança nos diferentes contos.
Descrição e análise

7.2.1. Os desenhos de “B”

O desenho de “B” (figura 1) apresenta uma figura bastante grande que


ocupa quase toda a folha A4. Tem feições duras. Usa cores fortes, o preto somente
para os cabelos. Faz a linha da terra e um sol que pode determinar a linha do céu.

Figura 1

“B” realiza um desenho para a representação da bruxa desta história


com as mesmas características do realizado para a representação de João e Maria
(figura 2). Seu desenho é grande, ocupando quase toda a folha. Faz a linha do céu e
a da terra, onde a figura esta apoiada.
Figura 2

O desenho de “B” para a representação da bruxa em Rapunzel é bastante


confuso (figura 3). Pode-se pensar que este conto lhe trouxe muitas imagens à
cabeça. No meio de muitos traçados é visível um rosto. Imagina-se que ele
representa a bruxa.

Figura 3
Em todas as representações de “B”, nota-se que ainda não consegue
representar figurativamente uma personagem ou mesmo um fato da história. Esta
criança é muito irrequieta e tal característica parece visível nas suas produções. As
figuras que desenha têm fisionomias no meio de muitas ouras formas. Todos os
seus desenhos são muito grandes e utiliza cores fortes como vermelho, laranja e
verde.

Percebe que esta criança por ser agitada, ainda encontra dificuldades ao
organizar-se na folha para a realização dos desenhos. As idéias vão surgindo como
num emaranhado. Este desenho confirma a teoria de Derdyk (2004), que a criança
age ativamente enquanto desenha, não conseguindo manter-se quieta ou mesmo
concentrada para poder expressar-se adequadamente.

7.2.2. Os desenhos de “I”

“I” pertence à sala com crianças de 4 anos de idade. Representa a bruxa


através do “boneco girino”, com uma forma alongada (figura 4). Segundo Mèredieu
(1974), esta representação é um enriquecimento desta fase.

Figura 4

O seu desenho já é mais figurativo, pois representa a verruga no nariz da


bruxa. A figura da bruxa é representada com tamanho desproporcional ao desenho
da casa, demonstrando claramente a “grandeza afetiva” citada por Mèredieu (1974).
Este desenho chama a atenção por alguns detalhes: a bruxa é desenhada sobre a
linha da terra, próxima à outra figura feminina, e ao lado de uma casa com janela
colorida, porém sem porta e sem telhado. A bruxa, apesar de estar com um chapéu
roxo na cabeça (não pontiagudo) e ter nariz grande com uma verruga na ponta,
parece sorrir, deixa transparecer alegria em seu rosto (boca para cima). Isso pode
denotar um sentimento amistoso em relação à bruxa, e não a retratando como uma
personagem má.

As crianças, normalmente, representam figuras bravas ou más, fazendo a


boca voltada para baixo e, quando querem representar alegria, risos ou felicidade
desenham a boca voltada para cima.

De acordo com as colocações de Derdyk (2004) já citadas anteriormente,


pode-se perceber um diálogo entre o que as crianças imaginam e o que desenham.
Algumas figuras são como que padrões dados pela cultura ou pelo grupo, como as
bocas, os chapéus pontiagudos e as cores usadas. Poucas são as crianças que
usam cores diferentes. Mas, como a criança também usa de sua imaginação ao
desenhar, pode-se encontrar uma mescla destas informações.

Para a representação da bruxa de Branca de Neve, “I” desenha duas


figuras. Uma elas está com uma maçã próxima à boca e tem fisionomia sorridente. A
outra figura tem o rosto pintado de vermelho (figura 5).

Figura 5

Uma figura tem uma espécie de coroa sobre a cabeça, podendo


representar a rainha que vai disfarçada até Branca de Neve. “I” faz a linha da terra
com lápis verde e apóia as figuras sobre ela. Há traços da cor marrom abaixo da
linha verde e uma flor ao lado da figura que segura a maçã. Na linha do céu
desenha um sol, algumas linhas azuis e círculos que podem representar as nuvens.

O próximo desenho realizado por “I” é muito interessante (figura 6). A


criança somente faz a linha da terra, onde apóia duas pequenas flores sem cor e, ao
lado delas, “I” desenha uma torre muito alta e sem porta. Nas janelas, surgem duas
figuras. Uma delas é Rapunzel com suas tranças muito longas. Na outra janela há
uma figura masculina e, acima deles, atrás das muralhas da torre, uma outra figura,
que parece ser a representação da bruxa, manipulando os destinos de Rapunzel e
do príncipe.

Figura 6

Este é um desenho bastante representativo. Nota-se que a criança


consegue perceber qual é a ação da bruxa: ficar com os destinos dos personagens
em suas mãos.

Derdyk (2004) afirma que o desenho é um desejo de representação, onde


quem desenha vai passando por muitos sentimentos, desde medo até alegria. Estes
desenhos estão representando vários significados, pois a criança, ao desenhar,
busca no imaginário e na realidade em que vive elementos que vão compor seu
desenho.
“I”, ao representar a bruxa, desenha-a sempre próxima a outras
personagens do conto, montando uma cena com as que mais lhe marcou. Ao
representar uma pequena cena, a criança conta um pouco da história e demonstra o
que teve maior significado para ela.

As crianças com 4 anos mantêm constante sua maneira de representar a


bruxa. Nesta representação, a maioria delas colocou a maçã na mão da bruxa.
Algumas representaram uma outra figura, que pode ser a Branca de Neve, porém
não se pode concluir que realmente tenha sido este o desejo das crianças. Esta
idéia pode vir à mente em função das figuras parecerem femininas.

Nas suas duas primeiras representações, “I” fez desenhos muito


semelhantes, com figuras femininas alongadas, tipo girino. Ao lado das personagens
mais importantes há sempre um outro desenho que complementa a cena, porém na
representação do conto da Rapunzel, “I” faz um desenho diferente dos demais.
Representa a torre e somente rostos nas janelas e na muralha do castelo. Em todos
os seus desenhos há a linha da terra, mas somente em um deles aparece a linha do
céu.

Ao olharmos os desenhos de “I”, fica clara a importância dada a cada


figura. Há sempre, em seus desenhos, um emocional aparente. A bruxa tem maior
destaque no primeiro conto, já no segundo desenho tanto a bruxa e a Branca de
Neve têm a mesma significação, pois ambas tem o mesmo tamanho. E no último
desenho, que parece mais significativo, a bruxa surge acima das demais figuras,
como que as manipulando.
7.2.3. Os desenhos de “GA”

“GA” é uma criança com 4 anos de idade. Ela desenha a bruxa solta no
meio da folha, em forma de “boneco girino”, sem braços (figura 7). Esta figura tem
um arco sobre ela, um chapéu verde e roupa vermelha. Acima deste arco, há outras
linhas triangulares. A criança faz a linha da terra com traços quebrados verdes, bem
altos, e, no espaço em que está a figura, as linhas são menores. Faz também um sol
vermelho com muitos raios amarelos.

Figura 7

Para representar a bruxa de Branca de Neve, “GA” faz o seu desenho


ocupando toda a página (figura 8). Usa cores fortes como o laranja, roxo, vinho,
verde e lilás. Sua pintura tem traços amplos em diferentes direções, definidos como
rabiscos por Derdyk (2004). Esses traços têm muita intensidade, parecendo com
descargas motoras, segundo afirma esta autora.
Figura 8

Neste desenho, “GA” faz duas figuras. A primeira parece representar a


bruxa e tem um chapéu verde, com uma maçã próxima à mão, cujo tamanho é
desproporcional à figura que a segura. Como afirma Mèredieu (1974), essa criança
demonstra uma “grandeza afetiva” em relação à maçã que envenena a Branca de
Neve. Denota-se, então, um sentimento expresso em relação à esta figura.

A outra figura desenhada é maior. As duas figuras estão apoiadas no fim


da folha, porém não apresentam pés, têm braços, mas sem mãos e, no rosto, “GA”
desenha somente olhos grandes. Ao lado das figuras femininas está desenhada
uma casa que é muito menor do que as figuras humanas. O restante da folha é
totalmente pintado com traços fortes na cor roxa. Existe uma linha do céu, onde se
vê um sol e uma nuvem.

No novo desenho, “GA” mantém a mesma maneira de representar as


bruxas (figura 9). Parece-nos que a criança faz o desenho, e posteriormente, o cobre
com cores vivas e traçados com diferentes movimentos. Apresenta linha da terra e
nela usa cor diferente da que recobre todo o desenho. Para completar a cena criada,
faz algumas flores enormes, muito maiores do que a figura feminina. Não há a
representação da bruxa.
Figura 9

A figura desenhada pode ser a representação da Rapunzel, pois


apresenta cabelos longos que vão até os pés e está sorridente. Ao seu lado,
desenha algo que pode ser a representação de uma torre bem alta. A totalidade
deste desenho está pintada na cor roxa e, no alto da folha, há um sol com olhos e
boca.

Cox (2007) afirma que mesmo quando as crianças começam a fazer


desenhos figurativos, como podemos observar nos desenho de “GA”, estas não
deixam de usar os rabiscos. Há ainda a busca de uma semelhança visual com o que
está buscando representar (a bruxa). Desta forma, vai se preocupar, segundo o
autor, com os traçados que mais se assemelhem ao que vai representar. Cox coloca
ainda que o desenho figurativo requer um esforço maior por parte das crianças, o
que não acontece com os rabiscos, que lhes proporcionam maior prazer.

Percebe-se, portanto, que esta criança ainda necessita dos rabiscos para
poder expressar seus sentimentos e os faz através das possíveis descargas
motoras, deixando transparecer os movimentos repetitivos e fortes que usa para
cobrir o desenho depois que desenha os personagens. Imagina-se que estas
histórias tenham trazido à tona alguns sentimentos, os quais não estão totalmente
claros. Mas, somente por esta forma de se expressar percebe-se que existem vários
sentimentos contidos nos desenhos e que em cada um deles a bruxa está
representada de maneira muito efusiva, trazendo à tona sentimentos e emoções
ainda indiferenciadas.

7.2.4. Os desenhos de “LO”

“LO” não realizou o primeiro desenhou da representação da bruxa, pois


não estava na escola no dia. Somente fez duas representações, as quais são
bastante semelhantes em relação às cores usadas e o estilo de desenho.

“LO” desenha a bruxa da Branca de Neve (figura 10) usando cores bem
fortes, com traços que lembram a fase de rabiscos, anterior a do desenho figurativo,
como afirmam os autores Cox (2007) e Derdyk (2004). Pode-se observar que usa as
duas formas de representação simultaneamente. Os autores explicam que, ao
iniciar, uma a criança não deixa de usar os recursos da fase anterior.

Figura 10
Cox (2007) afirma que algumas partes do corpo humano são difíceis de
serem representadas, desta forma usam as linhas que se tornam soluções mais
fáceis. Sendo assim, braços e pernas, por vezes, são meros alongamentos. A
cabeça e o corpo são mais volumosos. Às vezes, as crianças usam este tipo de
representação também para pés e mãos, mas os dedos continuam sendo traços,
parecendo então garras. “LO”, porém, não faz mãos nem pés, o que é uma das
etapas pelas quais algumas crianças passam até poder representá-los com mais
detalhes.

A criança faz a linha do céu e da terra, usa a cor marrom com linhas
quebradas e pinta este espaço com a cor verde para a representação do chão onde
as figuras ficam apoiadas. A linha do céu é delimitada por traçados (rabiscos) de cor
azul escuro.

A figura que parece representar a personagem da bruxa tem uma maçã


vermelha na mão (fim do braço), usa um chapéu roxo na cabeça com 3 pontas,
como uma coroa. Esta figura tem o rosto pintado e olhos pretos e corpo em formato
triangular. Ao lado desta figura, “LO” desenhou outras cinco figuras que têm o corpo
desenhado como bonecos girinos alongados, sendo que algumas podem ser
identificadas como figuras femininas e outras masculinas, pois algumas têm cabelos
longos e outras, cabelos bem curtos. Os rostos das figuras não estão pintados e
apresentam fisionomias menos carregadas, sendo que os rostos de todas estas
figuras estão completos.

Para a representação de Rapunzel (figura 11), “LO” faz um desenho com


algumas características do desenho anterior realizado. Neste, há três figuras. Uma
delas, uma figura feminina muita alta, pode ser vista como a representação de
Rapunzel. Esta figura já não apresenta a forma de girino, é mais alongada com os
cabelos caídos até tocar o chão. Do outro lado da folha, há uma torre fina sem porta
e uma janela aberta. Ao lado da torre há outra figura feminina, do mesmo tamanho
da torre, com braços abertos e tem pernas longas. Ambas as figuras humanas têm
corpos longos disformes, com pernas muito longas e corpos pequenos. Os braços
são desproporcionais ao tamanho do corpo.
Figura 11

Cox (2007) informa que, por vezes, as crianças usam essa maneira de se
expressar em seus desenhos para separar as partes do corpo. Esse parece ser o
caso de “LO”, que já inicia uma diferenciação entre as partes do corpo em seus
desenhos.

Segundo afirmam os autores lidos, pode-se imaginar que a criança


expressa seus sentimentos de alegria, de prazer, seus medos e incertezas ao
desenhar.

O desenho da representação de Rapunzel realizado por “LO” parece dizer


a intensidade que este conto lhe trouxe diferentes sensações e vivências, inclusive
pelo tamanho com que desenhou as figuras. Segundo Mèredieu (1974), são
caracterizadas como “grandeza afetiva”, isso quando as figuras apresentam
tamanhos desproporcionais em relação à realidade ou mesmo em relação aos
outros desenhos feitos na mesma folha. Pode-se observar que as figuras humanas e
a torre têm o mesmo tamanho.

Em seus dois desenhos “LO” usa tanto o recurso do rabisco como do


desenho figurativo. Isso porque se percebe a intenção de representar algo, por meio
das figuras humanas e da torre. Cox (2007) afirma que o desenho figurativo não
precisa, necessariamente, acontecer logo após a fase dos rabiscos, mas, na maioria
das vezes, estas fases se sucedem. E que rabiscar não é a condição para que a
criança inicie a fase do desenho figurativo. Cita que algumas crianças omitem esta
fase e já iniciam seus desenhos os fazendo de maneia figurativa.

Os desenhos realizados por “LO” estão entre uma fase e outra, uma vez
que utiliza os dois recursos num mesmo desenho.

É importante ressaltar que esta criança, em seus dois desenhos, deixou


clara a representação da bruxa de acordo com o conto. Não deixou transparecer que
a personagem fosse má, somente a desenhou com as características pertinentes ao
conto no qual ela surge. Cabe notar que no desenho da Rapunzel, a bruxa aparece
com menor destaque do que a personagem principal, demonstrando que suas ações
não são marcantes para a criança, sendo mais representativa a figura da jovem
Rapunzel.

7.2.5. Os desenhos de “GP”

Ao fazer a representação da bruxa do conto João e Maria (figura 12),


“GP” desenha a figura solta no meio da folha. Seu desenho ainda é da fase de
boneco girino, com braços e pernas, como prolongamentos do corpo. Esta criança
ainda não representa a linha de terra nem a linha do céu. Não desenha o rosto, faz
somente uma mancha preta que pode ser a boca.

Figura 12
No próximo desenho “GP” representa a bruxa da Branca de Neve (figura
13) com as mesmas características da sua representação da bruxa anterior. Seus
desenhos apresentam-se soltos na parte superior da folha A4, não apresenta linha
do céu nem da terra. Desenha duas figuras, uma delas parece representar a bruxa,
pois está com um chapéu pontiagudo sobre a cabeça pintado com a cor azul. Estas
figuras apresentam rostos com olhos e boca, sendo que na figura da bruxa, tem
rosto verde e seus olhos e boca têm formas triangulares. O corpo também apresenta
uma forma triangular. A outra figura desenhada na folha tem rosto e corpo azuis e as
partes do rosto são pouco visíveis, mas apresentam uma feição risonha (boca para
cima).

Figura 13

Para a representação da Rapunzel (figura14), “GP” desenha duas personagens que


se apóiam na parte inferior da folha. As figuras apresentam o rosto maior que o
restante do corpo, tornando a figura desproporcional, com o corpo muito pequeno e
rosto muito grande. Esta característica é de crianças que ainda estão na fase inicial
dos bonecos girinos. Uma das figuras apresenta os olhos grandes sem pupilas (que
chama atenção), parece que sempre estão abertos. Greig (2004) afirma que quando
a criança começa a colocar olhos em suas figuras passa a dar uma autenticidade ou
veracidade ao seu desenho, pois está buscando semelhanças entre eles e as figuras
humanas. Em algumas semanas, segundo este autor, outros elementos do rosto vão
surgindo como a boca, o nariz ou então as sobrancelhas. Isso é o que se pode
observar nestes desenhos feitos por “GP”. A cada desenho surge uma parte do rosto
Figura 14

Nesta figura, “G “faz um chapéu pontiagudo verde como o do primeiro


desenho, que representava a bruxa de João e Maria. Nota-se que em todos os
desenhos a bruxa vem representada por uma figura que porta um chapéu
pontiagudo. Sabe-se também que esta é a representação feita nas ilustrações dos
contos de fadas. Por isso, parece-nos que esta criança já conhece essa informação.

Como afirma Ostrower (2004), as imagens trazem valores de uma cultura.


Sendo assim, as crianças, por terem contato com a televisão e livros infantis,
certamente já tenham em sua memória a imagem referente à figura da bruxa. Isso
pode fazer com que “GP”, em suas representações, sempre coloque em uma das
figuras desenhadas um chapéu pontiagudo na que representa a bruxa, pois o
chapéu, culturalmente, define e representa a bruxa. Fica claro que por mais que esta
criança ainda não consiga desenhar figurativamente vai buscar na sua memória uma
representação condizente com o que lhe foi solicitado, a bruxa dos contos de fadas,
que já havia registrado ao assistir desenhos animados, em ilustrações dos livros de
contos de fadas. Seu desenho, portanto, apresenta-se como uma reprodução
cultural, não deixando transparecer seus sentimentos.

Apesar da pouca representatividade apresentada, a criança consegue


deixar explícita qual das figuras desenhada é a da bruxa nos diferentes contos
apresentados. Nota-se que em dois deles a bruxa porta um chapéu pintado com a
mesma cor, o que pode ter acontecido por coincidência ou pode ser sido feito com o
intuito de marcar esta personagem.
A maneira com que “GP” desenha é comum nas suas três
representações, notando-se somente poucas mudanças de um desenho para outro.
Porém, cada desenho é único, pois a cada conto há uma diferença sutil que os
diferenciam.

7.2.6. Os desenhos de “J”

“J” não estava na escola no dia em que foi realizada a atividade do


primeiro conto. Assim, só são apresentados os desenhos referentes à Branca de
Neve e Rapunzel. “J” desenhou na folha A4 somente duas figuras femininas (figura
15). Em uma delas pode-se ver uma figura que deve ser a representação da bruxa,
pois apresenta um grande chapéu pontiagudo. Este desenho tem forma de “boneco
girino” um pouco alongada. Apresenta braços, mãos, pernas e pés. Seu desenho é
feito com o lápis de cor azul, sendo que a maçã que tem em uma das mãos é
vermelha. A figura da bruxa está apoiada na linha da terra, que é verde. Nesta linha
também estão fixadas duas flores, uma de cada lado do desenho. São flores
amarelas, com o miolo preto e folhas que saem de suas hastes. Há ainda outra
figura feminina desenhada com formas mais arredondadas em tamanho bem menor.
Ela não está apoiada na linha da terra, está solta no papel.

Figura 15

Essas duas figuras apresentam fisionomias diferentes. A figura maior


demonstra ser mais dura, brava, o que fica registrado no desenho da boca com
linhas onduladas. Já a outra figura é sorridente (a boca desenhada para cima), tem
cabelos mais longos e usa fita na cabeça.

“J” faz a linha do céu tênue na parte superior da folha com a cor azul. Faz
muitas nuvens e um sol com raios, quase no centro da folha.

Greig (2004) coloca que no desenvolvimento do desenho da criança


pode-se observar alguns aspectos vistos no desenho de “J”, como a linha da terra
ou de solo com hastes que podem ser de ervas ou de flores e também uma linha do
céu que apresenta o sol, podendo ou não conter nuvens que, segundo este autor,
estrutura o espaço. Somente aos poucos é que vão surgindo as cores que dão a
idéia de obras de arte aos desenhos.

Como afirma Derdyk (2004), as crianças usam da memória e da


imaginação ao realizarem seus desenhos. Aqui, a representação mostra que a
referência da memória entende que as bruxas usam chapéus pontiagudos e são
bravas ou más, entretanto, para Branca de Neve, ou não há referência da memória
ou é identificada como boa e sorridente.

Para a representação de Rapunzel (figura 16), “J” apresenta um momento


da história. Seu desenho não é pintado como a representação anterior e usa
somente uma cor. Neste desenho, somente o rosto, as mãos e os pés de uma das
personagens é que são pintados de cor de rosa, o restante do desenho é feito na cor
preta. Esta personagem apresenta cabelos que vão quase até o chão, um fato
relatado pelo conto. Ao lado do desenho há uma flor com o mesmo tamanho da
personagem. “J” desenha outra personagem, que parece ser masculino, e está com
os braços abertos com uma flor ao lado. Completa este desenho uma torre, com a
porta fechada e uma janela na alto também fechada, há nuvens no céu e um sol
com muitos raios. É interessante observar que ao lado de Rapunzel há uma figura
masculina que parece estar caindo. “J” retratou aqui a parte que provavelmente que
lhe chamou mais atenção. Tenta representar o episódio em que a bruxa empurra o
príncipe, fazendo-o cair do alto da torre e ficar cego.
Figura 16

Ao observar este desenho, pode-se perceber que “J” desenha figuras que
são marcantes no conto. Rapunzel com seus longos cabelos, o príncipe caindo da
torre, a própria torre, sendo que a outra personagem não parece representar a
bruxa.

Esta criança conserva em seus dois desenhos as mesmas características,


que demonstram uma etapa pela qual está passando no grafismo infantil. Pode-se
perceber que mesmo sabendo o que deveria ser registrado, as crianças ao
desenharem expressam suas emoções e contam o que lhes marcou na história.

7.2.7. Os desenhos de “RM”

A representação feita por “RM” para a bruxa do conto de João e Maria foi
uma figura desenhada no meio da folha (figura 17), que apresenta o rosto maior que
o corpo e tem o rosto completo, com olhos boca e nariz faz também os cabelos. Os
braços e penas saem do corpo que já não é arredondado e não apresenta nem
mãos nem pés. O que caracteriza esta figura como sendo a bruxa é o chapéu
pontiagudo. Esta é a imagem estereotipada das bruxas nos livros de contos de fadas
tradicionais. Desta forma, percebe-se que a criança teve ou tem contato com os
livros infantis tradicionais.

Figura 17

Para a representação do segundo conto de fadas, “RM” desenha duas


personagens (figura 18). Uma delas pode ser identificada como sendo a rainha, que
se transforma em bruxa. Esta figura recebe uma coroa na cabeça. A outra figura
desenhada pode ser a Branca de Neve. No desenho não há a linha do céu nem a
linha da terra. “RM” ainda não faz a representação completa do corpo humano,
omitindo mãos e pés. O corpo sai diretamente da cabeça e os braços são somente
linhas, sem apresentar volume.

Figura 18
Para a representação de Rapunzel (figura 19), nota-se um crescimento ou
amadurecimento no desenho apresentado por “RM”. As duas figuras humanas
representadas têm o rosto maior que o corpo, podendo ser intencional ou por ainda
estar saindo da fase dos desenhos de bonecos girinos. Neste desenho também
surge a linha da terra com a cor verde, onde apóia seus desenhos. Greig (2004)
coloca que algumas crianças, ao colocarem a linha da terra, a complementam com
flores. Também já existe uma linha do céu, pois desenha um sol num dos cantos da
folha. Desenha um arco que se imagina ser a torre. No meio deste desenho faz uma
figura com o rosto ainda maior que o corpo, com chapéu pontiagudo azul, que se
acredita representar a bruxa da história. Ao lado desse desenho, a outra figura
humana, o que dá a entender que a criança representou Rapunzel já com os
cabelos cortados.

Figura 19

Nota-se que do primeiro desenho ao último apresentado, realizados em


semanas consecutivas, houve uma mudança visível em suas representações.
Segundo Cox (2007), as crianças, durante seu desenvolvimento, ampliam suas
formas de representar, sendo que, a princípio, desenham a cabeça maior e os
braços e pernas como linhas únicas o alongadas, como bonecos girinos. Aos
poucos, “RM” começa a fazer desenhos figurativos, começa a contar um pouco da
história ouvida. Vê-se nestes desenhos uma ação criadora que, segundo Derdyk
(2004), envolve o presente, o passado e o imaginar, que representa o futuro.
Começa, então, a pensar, idealizar o que vai transpor para o papel. A bruxa dos
contos é o ponto de partida, mas ela talvez não seja para esta criança o mais
importante, sendo primordial contar um pouco da história.

A bruxa para muitas crianças tem a representação marcada pelo chapéu


pontiagudo, o que significa o conhecimento das figuras esteriotipadas das
ilustrações existentes em livros infantis.

As crianças de 5 e 6 anos de idade

7.2.8. Os desenhos de “TH”

“TH”, apesar de já ter 6 anos, mostra traços figurativos em seu desenho.


Não faz a linha do céu nem a da terra nesta representação do primeiro conto (figura
20). Seu desenho está solto na folha. Desenha uma figura feminina com as partes
do corpo diferenciadas, que tem braços, mãos e pés (em forma de bolas para
representar volume) Esta é uma solução encontrada por muitas crianças para
representar e diferenciar braços e pernas, que por vezes parecem desproporcionais
em relação ao tamanho do corpo, afirma Cox (2007).

Figura 20
“TH” apresenta uma figura de bruxa diferenciada das apresentadas pelas
outras crianças. Não faz um boneco girino e há diferenciação entre rosto e corpo. É
uma figura “magra”, que está vestida com roupas em cores preto e roxo. Apresenta
cabelos compridos e pretos. Sua fisionomia é alegre e o rosto é completo com a
boca da cor vinho (voltada para cima). Como já sabe escrever, faz um balão no qual
escreve “o seu dedo ainda está magro”. Este era um questionamento constante da
bruxa no conto. Acredita-se que este detalhe tenha sido o que mais chamou a
atenção da criança e, desta maneira, deixa registrado.

Para a representação do conto da Branca de Neve (figura 21), “TH” divide


a folha em duas partes com um risco preto. De um lado da folha faz uma figura com
um chapéu pontiagudo preto, corpo esguio e com braços e pernas representados
por linhas.

Figura 21

A outra figura que é desenhada está na parte inferior, quase apoiada no


final da folha. Esta figura apresenta traços arredondados, traz alguns detalhes como
fita nos cabelos e uma cesta na mão. O desenho não apresenta nem linha de céu
nem de terra, desta forma, as figuras desenhadas ficam soltas na folha.

Parece-nos que “TH” desejou representar os dois momentos distintos da


bruxa no conto de Branca de Neve, uma figura é a rainha vista como Bruxa, pois usa
chapéu pontiagudo e o outro desenho estaria representando a rainha quando se
aproxima de Branca de Neve para vender maçãs. Este desenho é bastante figurativo
e relata o que mais chama atenção de “TH”.

A última representação feita por “TH” foi a bruxa no conto Rapunzel


(figura 22). Demonstra um avanço nos desenhos apresentados por esta criança.
Neste desenho, observa-se as linhas da terra e a do céu. Mesmo que tênues, ambas
foram feitas com lápis azul, sendo que a do céu é uma pintura e a da terra é
somente um traço.

Figura 22

“TH” representou a bruxa do conto de Rapunzel desenhando sobre a


linha da terra algo que representa a torre pintada de preto e com grades na parte
superior. De uma janela, vê-se Rapunzel com tranças loiras e longas. Uma figura
que somente tem rosto, um chapéu pontiagudo e pernas, parece ser a
representação da bruxa. “TH” faz um balão e, dentro dele, uma frase: “Rapunzel
jogue as tranças”. Esta frase não está corretamente escrita, mas para estas crianças
que já conseguem escrever é muito importante a comunicação por meio das
palavras.

Quando “TH” desenha, fica visível que há uma intencionalidade de


produção, denotando assim o desenho figurativo, pois conta algo. Segundo Derdyk
(2004), o desenho é uma forma de raciocinar sobre o papel, estas representações
deixam clara a intenção de registrar o episódio que lhe causou maior interesse ou
que lhe trouxe um sentimento que é explicitado no desenho.
7.2.9. Os desenhos de “Ga”

Segundo Derdyk (2004), a criança busca um resultado nas suas


produções. Assim, procura verificar se gosta ou não do que produz e, por vezes,
tenta até rasgar seu desenho, quando o que produziu não lhe agrada, pois quer ter
autonomia sobre o que realiza. Faz uma análise do que desenha.

Esta atitude foi observada no desenho de “Ga”, pois, ao representar a


bruxa, do conto de João e Maria (figura 23), a criança, em sua primeira tentativa,
usou um lado da folha. Por estar descontente com sua produção, virou a folha
refazendo o desenho. “GAa” continuou fazendo tentativas para chegar ao que
imaginava produzir e refez novamente o desenho. Ainda assim não gostou do que
fez e tentou novamente. Tentou apagar, mas por não conseguir seu objetivo, fez o
desenho num canto da folha, abandonando suas tentativas anteriores.

Figura 23

Observa-se as tentativas anteriores, as quais não foram totalmente


apagadas. Ao lado desta do desenho apagado está aceito por ele como satisfatório.

Segundo Cox (2007), algumas crianças começam seu desenho pelo


corpo e, posteriormente, vestem seus desenhos. Assim, estes são denominados de
desenho com “efeito transparência”. Este tipo de figura é também observado no
registro de ”Ga”. Seu desenho (figura 24) mostra uma figura pequena com o corpo
transparente e a roupa colorida, calça laranja e blusa vermelha sobre o corpo. O
chapéu, que define a personagem como bruxa, não está pintado. Da boca da
personagem aparece um balão com a frase “rapa, rapa, rapia”, que é a frase dita e
repetida várias vezes pela bruxa na história. Há uma casa e uma árvore com um
pássaro no galho. A árvore tem copa arredondada com o tronco fino. Todas as
figuras estão colocadas bem na margem inferior da folha, sem a linha da terra e
nem a linha do céu. Este desenho é bastante significativo e expressivo, visto que as
primeiras tentativas na folha onde fez o desenho eram figuras grandes, com feições
de monstros, denotando-se uma possível idéia de bruxa como um ser monstruoso.
Mas o que realmente desenha é uma figura pequena.

Figura 24

Na representação de Branca de Neve (figura 25), acontece a mesma


situação ocorrida com o primeiro desenho. “Ga” inicia um desenho de um dos lados
da folha e, por não gostar do que faz, o abandona, reiniciando sua representação do
outro lado (figura 26). Este desenho tem como característica a narração. “Ga” conta
os episódios que lhe chama mais a atenção no conto. Faz cenas distintas. Em uma
delas, vê-se um castelo com escadarias, tochas colocadas nas muralhas e uma
maçã vermelha caída (parece ser o local onde a bruxa faz seus venenos para atingir
Branca de Neve). Outro episódio retratado neste desenho parece ser a Branca de
Neve caída no chão. Neste desenho “GAa”, faz a linha da terra, onde apóia seus
desenhos, faz uma árvore muito grande e, perto dela, nuvens formam a linha do céu.
Há também um sol amarelo de um lado do desenho e do outro lado “Ga” faz outro
sol, sendo este menor e da cor vermelha. Esta divisão de desenhos parece mostrar
os episódios que tiveram maior impacto durante o conto. Fazer o sol nos dois lados
da folha deixa claro que esta fazendo dois desenhos ou duas cenas separadas em
uma só representação.

Figura 25

Figura 26

No terceiro conto, Rapunzel (figura 27), “Ga” também retrata cenas da


história. Neste desenho fez a linha do céu com nuvens e a linha da terra da cor
verde, sendo esta somente uma tênue linha de onde partem árvores de diferentes
tamanhos, com troncos frágeis e copas mais amplas Seu desenho fica completo
com um castelo, tendo uma torre que atinge as nuvens, uma pequena porta sem
trinco, uma janela bem no alto de onde se vê um rosto muito pequeno e uma trança
que atinge o chão. Esta trança apresenta laços que parecem ser degraus. Embaixo
da torre há uma personagem com braços enorme e mãos como garras e, bem
próximo a esta personagem, um animal.
Figura 27

Como os autores Chevalier e Gheerbrant (2006) colocam, a trança pode


ser interpretada como uma escada que une céu e terra. Intuitivamente, “Ga” fez esta
representação, o que é muito significativo quando se imagina que os contos trazem
mensagens e que muitas delas atingem nosso inconsciente.

O desenho retrata a bruxa como uma personagem estranha, com braços


deformados e mãos em garra. Ela parece esperar Rapunzel no pé da torre. É
interessante perceber o quanto do afetivo das crianças fica registrado nos desenhos.
A bruxa, por vezes, não aparece claramente, mas o que as crianças expressam são
seus feitos, sua indignação ou como a percebem.

Cabe ressaltar que através dos depoimentos pouco se sabe a respeito do


que as crianças pensam da bruxa, pois a maioria a coloca como má ou ruim que são
as informações que parecem receber dos pais ou irmãos mais velhos. Mas o que
fica registrado nem sempre retrata a informação falada. Dessa forma, acredita-se
que é através dos registros feitos nos desenhos que realmente se tem a visão de
bruxa das crianças que participaram desta pesquisa.

Isso fica muito claro nos desenho de “Ga”, onde a primeira realização traz
sempre uma forma grotesca e monstruosa, porém não é esta a produção que ele
realmente mostra e aceita. A produção aceita é a que mostra a bruxa pouco
agressiva e é aquela que traz registros do seu inconsciente, como a trança em forma
de escada da última representação.
7.2.10. Os desenhos de “JP”

A primeira representação da bruxa é referente ao conto de João e Maria


(figura 28) e o desenho não conta história, há somente a representação de como
“JP” imagina a bruxa através da narração da história.

Figura 28

O desenho da bruxa de João e Maria é uma figura feminina que está no


meio da folha de papel Canson A4. Segundo Cox (2007), algumas crianças por volta
dos seis anos já desenham pares de linhas para representar pernas e braços.
Assim, as figuras apresentam as partes do corpo mais delineadas. Isso é o que pode
ser observado no desenho de “JP”. As pernas e braços têm volume, não são
somente linhas. Seu desenho é bastante completo, apresentando corpo, pernas
mãos e pés. Além de delineados, são pintados de cores diferentes para diferenciá-
los. Uma das características dos desenhos para demonstrar se a personagem é boa
ou má, feliz ou triste, é a maneira com que desenham a boca. Sendo assim, a bruxa,
por estar com a boca desenhada para cima, parece sorrir.

Este conto, por ser de uma edição bastante antiga, conta que a bruxa não
enxergava muito bem. Desta forma, “JP” a desenha usando óculos, pois para as
crianças quem usa óculos é quem não enxerga. O chapéu pontiagudo é outra
característica que a maioria das crianças coloca como indispensável na
representação da bruxa. Esta bruxa tem o chapéu pontiagudo, mas a criança não
usa a cor preta para pintá-lo, e sim a cor amarela. A roupa que cobre o corpo da
bruxa que é da cor preta. Interessante é que a figura que representa a bruxa usa
calças compridas que, para a maioria das crianças é usada para a figura masculina.
Existe um balão com uma frase que não está completa. A frase diz “rapa rapa
rapadinha....”. Na representação do desenho, não existe a linha de céu nem a da
terra.

Para a representação do conto de Branca de Neve (figura 29), “JP” dividiu


a folha de Canson A4 ao meio, desenhando uma figura em cada uma das partes. Ao
que parece, ambas representam a bruxa, sendo que uma delas é a bruxa enquanto
rainha e a outra é a bruxa quando vai ao encontro de Branca de Neve.

Figura 29

Uma das figuras está com uma cesta de maçãs na mão, está pintada em
tons de azul, usa calças curtas, chapéu pontiagudo preto e tem cabelos pretos. A
outra figura parece ser a rainha, pois tem uma coroa amarela com três pontas na
cabeça e tem um vestido da cor vinho. Esta figura parece mais severa do que
aquela que representa a bruxa, se observarmos o olhar e a boca. “JP” representa
suas figuras soltas na folha na folha, sem a linha da terra nem a do céu.

Como os autores lidos afirmam, as crianças narram um pouco da história


em seus desenhos, sendo que colocam no papel o que mais lhes marcou ou
chamou a atenção além do que foi pedido. Derdyk (2004) afirma que este é um
dialogo que a criança realiza entre os conteúdos que ela já conhece e os que ela
desconhece. Faz, assim, os desenhos usando sua imaginação e colocando neles
dados da realidade que conhece. É isso que se pode observar no desenho de “JP”,
que retrata a rainha com coroa e a bruxa com chapéu pontiagudo, informações que
possui, trazidas dos livros das histórias infantis. O mesmo acontece no primeiro
conto, no qual faz a bruxa usando óculos, uma vez que se subentende que as
pessoas que não enxergam bem necessitam de óculos. Esta constatação é feita
pelas crianças no dia-a-dia por meio de observação.

Na representação do conto de Rapunzel (figura 30), percebe-se a


introdução das linhas da terra, verde, e do céu, azul. Neste desenho em especial,
“JP” apresenta uma produção figurativa. Desenha uma torre de um lado da folha e,
da janela, surgem tranças longas que chegam até ao chão. Ao lado desta torre,
desenha uma figura feminina com cabelos pretos e um vestido vermelho. Seu corpo
já é bem delineado, mas as mãos e pés ainda são apenas linhas. Esta figura diz,
apesar da ortografia não estar correta, “Rapunzel jogue as tranças”. Há ainda, na
representação, um castelo somente com porta e sem janela. Na torre menor, que
fica ao lado deste castelo, há dois pontos azuis.

Figura 30

Parece que “JP” representa a bruxa agindo, dialogando com Rapunzel.


Não a identifica como em seus outros desenhos com o chapéu pontiagudo. O
interessante é observar que não se vê Rapunzel, somente suas tranças são
desenhadas. Pergunta-se porque não desenhar Rapunzel? A resposta mais
adequada é de que se acredita que Rapunzel está na torre, mas como não tem
contato com o mundo, também não é vista pelo mundo. Esta é uma informação que,
por certo, está no inconsciente de “JP” e que ele deixou transparecer nesta
representação. Mais uma vez fica claro que, como afirmam os autores lidos, o
desenho traz à tona materiais do nosso inconsciente.

7.2.11. Os desenhos de “Lu”

“Lu” ouviu a história com muita atenção. Ao iniciar sua representação, faz
um desenho, o apaga e refaz a representação, parecendo não gostar do que tinha
feito. Esta atuação de “Lu” já foi observada com outra criança e vai ao encontro do
que os autores colocam a respeito da autoria dos trabalhos e da aceitação destes.
Isso significa que a criança, ao fazer um desenho, o olha e observa para verificar se
era realmente isso que desejava e, caso não aprove, tenta refazer, até que fique
satisfeita com a sua produção. (DERDYK, 2004)

Para o conto de João e Maria (figura 31), “Lu” desenhou uma bruxa no
meio da folha, sem a linha da terra nem a do céu, mas a faz cercada de estrelas.
Esta figura da bruxa é grande, demonstrando o que afirmam os autores, que as
crianças deixam transparecer seus sentimentos ao desenharem. Esta figura tem o
corpo já bem delineado. Percebem-se pernas com pares de linhas para a sua
configuração, dando à figura volume, assim como os braços, mãos e pés, de acordo
com o que afirma Cox (2007).
Figura 31

As pernas são muito longas em relação ao tamanho do corpo. Cox (2007)


afirma que há algumas razões para os desenhos desproporcionais. Uma delas faz
referência à observação das crianças em relação aos tamanhos e proporções de um
corpo. Ainda afirma que a capacidade de lidar com a proporção surge, em média,
aos oito anos, sendo assim, às vezes existe uma falta de planejamento por parte da
criança ao desenhar. Se a intenção é ocupar o espaço todo e se iniciou o desenho
pela cabeça, ainda resta muito espaço na folha. Por isso, as pernas serão mais
longas, para atingir a linha da terra ou o fim da folha. Outra explicação é a
necessidade de fazer as roupas e os detalhes.

Cox (2007) afirma ainda que algumas crianças procuram uma maneira
diferente de fazer seus desenhos, inventando o que lhes parece melhor, sendo o
seu modo de desenhar.

A fisionomia da bruxa demonstra seriedade, usa a cor preta para o


chapéu pontiagudo, para os cabelos e para as botas, e a cor azul para o corpo,
laranja para o rosto e pernas. É estranho se pensar em uma figura brava ou má
sendo colocada no meio de tantas estrelas. Pode-se, portanto, imaginar que fadas
estariam nesse cenário, mas bruxas? Sendo assim, podemos interpretar que “Lu”
vê a bruxa como uma personagem boa ou do bem. O tamanho desta figura reforça o
que afirma Mèredieu (1974) sobre a “grandeza afetiva”, que nos sugere emoção em
relação à este desenho. Percebe-se também, como afirma Derdyk (2004), que esta
criança está vivendo um processo ao desenhar.

Na representação do conto de Branca de Neve (figura 32), “Lu” desenhou


figuras bem grandes, formando uma cena da história lida. Seu desenho apresenta
linha da terra e do céu. Este desenho é composto de um grande sol, na parte
superior da folha, com olhos e uma boca bem vermelha, com muitos raios da cor
preta e amarela. O céu é composto por uma nuvem azul, sendo o restante do céu
pintado desta mesma cor. As figuras estão apoiadas na linha da terra, feita com a
cor verde, ondulada em forma de grama.

Figura 32

Ao todo, o desenho apresenta três figuras humanas e, como afirma


Mèredieu (1974), pode representar “a grandeza afetiva”, pois duas das figuras são
maiores que a casa desenhada ao lado. Uma figura feminina tem laço de fitas nos
cabelos negros, seu corpo é esguio e tem roupas coloridas. Pela descrição de
Branca de Neve no conto, imagina-se ser esta a sua representação. A outra figura
grande tem fisionomia séria, um chapéu pontiagudo, uma bolsa na mão e, dentro
dela, algo que se assemelha a uma maçã. Entre essas duas figuras existe uma
outra, bem menor, de chapéu, que parece ser um anão. Nesse desenho, o que
chama bastante atenção são os pés das duas figuras femininas, os quais são muito
grandes. Essas figuras têm a mesma altura do castelo desenhado ao lado com
janelas e portas fechadas. Pode-se observar que as duas figuras femininas
assemelham-se, sendo que uma delas é a representação da bruxa, pois está com
um chapéu pontiagudo, e a outra parece ser Branca de Neve, com seus cabelos
negros e laço de fita na cabeça. O desenho é figurativo, porém não relata um
episódio, e sim as personagens marcantes.

“Lu” faz na sua representação da bruxa de Rapunzel uma cena (figura


33). Nela, a criança desenha uma figura feminina com rosto muito sério,
sobrancelhas fechadas, corpo bem delineado, braços abertos e apoiada na linha da
terra. Sai de sua boca um balão com uma frase que apresenta erros ortográficos,
mas mesmo assim pode-se ler “Rapunzel joga a sua trança”. Na linha do céu faz um
sol entre nuvens roxas, um pouco de azul completa o céu onde voam pássaros. Há
um castelo pintado de azul e uma torre pintada de laranja surge entre as muralhas
do telhado e, da janela, cai uma trança que atinge o chão. No chão “Lu” desenhou
algumas cruzes que parecem representar espinhos. Outra figura que chama a
atenção é uma figura inclinada, que parece estar caindo, e pode ser a representação
do príncipe. Também desenha outra figura feminina, que está sobre as muralhas,
tem cabelo curto e fisionomia triste (boca para baixo). Esta figura parece ser
Rapunzel, já com os cabelos cortados, observando o Príncipe cair. Percebe-se que
“Lu” fez no seu desenho as personagens que lhe causaram emoção. Não representa
Rapunzel jogando as tranças, a representa com cabelos cortados. A figura é
importante na medida em que cortar os cabelos é um ato agressivo e parece ter sido
bem marcante para a criança.

Figura 33
Como coloca Derdyk (2004), nesta fase os desenhos das crianças são
considerados como representações que narram momentos vividos ou não e, ao
mesmo tempo buscam representar com símbolos algo que lhes chama atenção.

Derdyk (2004) afirma que a proximidade ou não dos desenhos em uma


folha representam, de certo modo, a percepção topológica que tem do mundo e,
neste caso da história, a aproximação ou distância das personagens acontece de
acordo com a emoção e percepção que causaram. Sendo assim, percebe-se a
emoção das crianças de acordo com a organização espacial que criam nas suas
representações.

7.2.12. Os desenhos de “JR”

“JR” apresenta ainda a forma de boneco girino alongado apesar de já


estar com 6 anos. Nesta representação da bruxa de João e Maria (figura 34), “JR”
não apresenta a linha do céu nem a da terra. A bruxa desenhada apresenta um
chapéu pontiagudo da cor azul e corpo na cor roxa. Os braços e pernas são
desenhados com linhas que saem do corpo girino, e não faz mãos nem pés. Como
afirma Cox (2007), algumas crianças encontram dificuldades para representar pés e
mãos e, sendo assim, os representam somente com linhas. Pode-se notar que este
desenho ainda não está muito elaborado, mas apesar disso, “JR” faz o balão com a
frase “rapa, rapa, rapadinha” em letras roxas. Esta frase é ouvida muitas vezes
durante o conto. A bruxa que JR desenha usa óculos. Algumas crianças,
principalmente os mais velhos entre 5 e 6 anos, desenharam a bruxa com óculos,
pois o conto afirma que ela não enxergava muito bem. Desta forma, acredita-se que
as crianças imaginem que os óculos ajudam a enxergar melhor.
Figura 34

Na representação da bruxa do conto Branca de Neve (figura 35) “JR”,


assim como outras crianças deste grupo, desenha duas figuras, sendo que as duas
usam coroas. Uma delas está próxima a uma árvore, seu corpo ainda tem a forma
de boneco girino alongado, usa capa e coroa marrons. A árvore próxima desta figura
é muito alta, com tronco forte e uma pequena copa verde. Cox (2007) afirma que
algumas crianças se organizam no papel quando fazem a linha da terra ou do solo,
sendo que podem utilizar a beira da folha como referência. “JR” usa a margem da
página nos seus desenhos como linha da terra.

Figura 35

A outra figura desenhada por “JR” também parece ser uma figura
feminina, com cabelos verdes, coroa amarela de três pontas sobre a cabeça. Os
detalhes vermelhos nas mãos desta figura são como garras que. segundo Cox
(2007), é uma das formas que as crianças utilizam na representação destas partes
do corpo quando ainda não conseguem desenhá-las. Esta figura tem uma capa nas
costas, que foi pintada de vermelho e, sobre esta pintura, “JR” passou uma
canetinha azul.

“JR” diferenciou as duas figuras desenhadas, uma mais pobre de detalhes


e a outra mais rica, o que chama mais atenção. As bruxas, mesmo em desenhos
animados não usam capas, porém as rainhas as usam nos desenhos e nas
ilustrações. Desta maneira, pode se pensar que “JR” quis representar a rainha que
se transforma em bruxa neste conto.

Ao observar estes desenhos, percebe-se as figuras como sendo rainhas,


mas somente a figura que está com coroa amarela deixa transparecer, pelo seu
rosto e pelas mãos, a bruxa contida nela. Nessa representação observa-se o lado
inconsciente que é trazido aos desenhos, o que fica explícito nas garras.

Na representação da bruxa do conto Rapunzel (figura 36) “JR” faz um


desenho bastante interessante. Faz a linha do céu, mas não usa a cor azul e sim a
cor vermelha muito forte. A bruxa está representada por uma figura ainda com a
forma de boneco girino alongado, com chapéu pontiagudo pintado de laranja. A
roupa que cobre o boneco é vermelha e as mãos em garra com a palma pintada de
verde. Uma torre foi desenhada ao lado. Há uma janela e dela vê-se um esboço de
rosto que representa Rapunzel, com suas tranças longas atingindo quase o fim da
folha. Ao lado da torre, “JR” desenha um castelo com o telhado como uma muralha,
uma porta muito comprida pintada de verde que parece estar fechada, assim como
as janelas. “JR” não usa a linha da terra ou do solo, sua figura está solta na folha,
sem apoio. Um recurso muito usado por crianças que não desenham a linha da terra
é colocar as figuras apoiadas na margem inferior da folha
Figura 36

Este desenho é figurativo e conta um trecho da história, provavelmente o


que mais marcou esta criança. “JR” faz um balão com uma frase, que mesmo
contendo erros ortográficos, transmitem uma mensagem de ordem: “Rapunzel jogue
suas trancas logo”. E, no verso da folha, ainda escreve: “bruxa você é má”, deixando
clara a idéia que tem a respeito desta personagem.

Observa-se que “JR” apresenta desenhos com bastante emoção. Apesar


de já usar o recurso de desenho figurativo, que conta um episódio da história, “JR”
ainda mantém suas figuras humanas como bonecos girinos alongados.

7.2.13. Os desenhos de “GM”

O desenho de “GM” é semelhante a um boneco girino, porém o corpo tem


traços retos e não arredondados como os bonecos girinos autênticos (figura 37). É
um desenho pouco estruturado, os braços e as pernas saem do corpo e são como
palitos.
Figura 37

A cabeça é desproporcional ao corpo. Os braços estão desenhados sem


volume o faz com uma só linha, já as mãos e os pés apresentam um volume como
bolinhas. Esta é uma maneira que a criança utiliza para desenhar estas partes
quando ainda encontra dificuldade para reproduzir. Como a figura é muito grande e
desenhada no meio da folha A4, pode-se pensar ser este desenho uma
representação que contém “grandeza afetiva”, como afirma Mèredieu (1974). O
chapéu é roxo e pontiagudo, a expressão do rosto é serena. “GM” não faz a linha do
céu nem a da terra, mas seu desenho está perpendicular à folha. Como já consegue
se comunicar através da escrita, “GM” faz um balão no qual escreve a frase “mi
mostra seu dedo”, repetida muitas vezes durante a leitura do conto. Sendo assim,
parece que esta frase dita pela bruxa foi marcante para a criança.

“GM”, na representação do conto de Branca de Neve, apresenta um


desenho com duas figuras grandes (figura 38). No seu desenho não aparece o corpo
completo. A cabeça é muito grande e o corpo bem menor, saindo dele braços como
palitos. Cox (2007) explica que algumas crianças por iniciarem seus desenhos pela
cabeça não deixam espaço para o restante do desenho, como o corpo, as pernas e
os pés. Desta forma, pode-se encontrar figuras que apresentam um
superdimensionamento da cabeça, e um sub-dimensionamento do corpo. Esta forma
de desenhar é o que parece a que acontece com “GM”.
Figura 38

A criança desenha para representação da bruxa em Branca de Neve


duas figuras com lápis amarelo muito claro, ficando em evidência apenas os
detalhes, nos quais usa cores mais fortes. O que torna estas figuras diferenciadas
são exatamente estes detalhes. Uma das figuras usa uma coroa com três pontas e a
outra tem um chapéu pontiagudo. A figura que tem o chapéu está no centro de um
castelo com muralhas da cor marrom, portanto deve ser a representação da bruxa. A
outra deve ser a representação da rainha. GM dá realce na boca de suas figuras,
também grandes em relação aos olhos destes desenhos.

Para a representação da bruxa em Rapunzel (figura 39), “GM” faz um


desenho bem interessante e diferente das demais crianças da sala. Desenha de um
lado da folha alguns frutos (que se imagina serem os repônsios). Uma figura, usando
um chapéu, está ao lado destes frutos. A figura poderá ser a representação da
bruxa. O desenho é feito com palitos, o que não é muito comum entre as crianças
ocidentais conforme, coloca Paget (apud COX, 2007).

Completando a representação, “GM” desenha a casa com formato de


torre. Entre as muralhas está Rapunzel, que se pode ver somente parte do corpo e o
rosto com os cabelos enormes soltos para fora da torre. Há uma personagem
inclinada e próxima aos cabelos de Rapunzel. Tem a forma de girino alongado, que
se imagina ser o príncipe, e lhe diz “Obrigado”, escrito num balão.
Figura 39

As representações da criança retratam alguns momentos que não foram


muito notados pelas outras crianças da sala. Isso fortalece a idéia de que os
desenhos, quando elaborados, trazem consigo os conhecimentos possuídos, assim
como recursos da imaginação para a sua elaboração.

7.2.14. Os desenhos de “GI”

A criança não estava na escola no dia da leitura do conto de Branca de


Neve, desta forma só desenha os contos João e Maria e Rapunzel.

“GI” faz um desenho que se diferencia dos demais da classe (figura 40). A
bruxa está bem no meio da folha, sem se apoiar na linha da terra. Não há também,
neste desenho, a linha do céu. “GI” desenha bem no canto da folha as crianças João
e Maria, as quais apresentam fisionomia sorridente e parecem estar em movimento.
Pode-se pensar também que houve, como alguns autores colocam, falta de
organização para o desenho. Por isso que as crianças João e Maria estariam tão
próximas da margem. A figura da bruxa assemelha-se a um super-homem, com
calça comprida azul e um cinturão verde limão, no qual aparece a palavra “ATAX”.
Apresenta um chapéu que não é pontiagudo como os das bruxas.

Figura 40

A fisionomia desta personagem apresenta a boca para baixo (brava) e


está com óculos. O conto refere-se a uma bruxa que enxergava pouco. Faz um
balão onde escreve uma frase incompleta: “sai da minha” (imagina-se que o
complemento seria casa). Completando a cena, há uma casinha azul com um
pássaro o seu telhado. No conto, há uma passagem que faz referência a um
pássaro que indica às crianças a casa da bruxa, feita de pão-de-ló.

Este desenho foge à regra dos demais. Será que esta criança vê a bruxa
como uma figura como o super-homem?

Para a representação de Rapunzel (figura 41), “GI” faz um desenho


narrativo, segundo Mèredieu (1974). Conta dois momentos que lhe pareceram ser
os mais significativos. Faz linha do céu com o lápis azul e um sol muito grande no
canto da folha. A linha do solo ou da terra parece ser a base do papel, onde os
desenhos estão apoiados. Uma enorme árvore separa as duas cenas. Uma delas
retrata Rapunzel e o príncipe juntos no deserto. Há um coração vermelho acima da
cabeça deles. Rapunzel ainda está com os cabelos longos. Ao pé da árvore há um
cavalo e, do outro lado, um castelo pintado de preto com torre. Vê-se, neste castelo,
duas janelas fechadas e uma figura feminina desenhada sob um arco. É uma figura
pequena e totalmente pintada de preto. Ao lado, uma frase: “Rapunzel joga sua
trança”. A frase apresenta erros ortográficos, mas, mesmo assim, a mensagem pode
ser identificada. Na parte posterior da folha “GI” escreve a palavra “má”.

Figura 41

A criança colocou, em suas representações, episódios que lhe foram


importantes, sendo que suas representações são bastante diferenciadas das demais
crianças, apesar de ter ouvido os contos juntamente a elas. Isso confirma a idéia de
que, ao desenharem, trazem matérias que estavam no inconsciente. Algumas
informações que temos sobre o que se vai desenhar e outras que se imagina a partir
destas.

7.3. Os desenhos dos adultos/ professoras

Os adultos, ao desenharem as bruxas dos contos, trazem muito das


experiências anteriores quando ouviram estes contos ainda crianças. Os desenhos
são mais elaborados. Como dizem não saber desenhar, dão preferência a escrever
o que imaginam a respeito da bruxa. Assim, fica evidente que esses adultos não
conseguiriam falar sem se sentirem envergonhados, e escrever é algo muito mais
fácil. Dessa forma, tem-se mais informações sobre o que pensam sobre a bruxa
quando buscamos os depoimentos escritos.
7.3.1. Os desenhos da professora “A”

O desenho da professora “A” é somente um rosto, cuja fisionomia


demonstra uma pessoa brava (com a boca desenhada para baixo), deixando
transparecer a idéia que faz da bruxa, como sendo uma mulher má (figura 42). Usa
o roxo para o chapéu, que é pontiagudo, e preto para os cabelos. Desenhou o nariz
grande, pontiagudo e com uma verruga na ponta, conforme relata a história.
Apresenta uma expressão forte no olhar, muito séria. Em seu depoimento, coloca
que assim como a bruxa, existem outras pessoas que são más, e ressalta que
temos que saber nos defender dessas pessoas. Pode-se perceber que tem a
imagem pré-concebida de bruxa como sendo uma mulher má.

Figura 42

Para a representação do segundo conto (figura 43), “A” desenha uma


figura feminina estilizada como um sol, com raios pretos e vermelhos. Faz o
contorno do rosto, dos olhos, do nariz e da boca, a qual é bem vermelha. É uma
figura enigmática. O que se pode imaginar é que “A” vê a bruxa como um ponto de
interrogação. Ressalta, em seu depoimento, que a bruxa é uma pessoa má e que
pode chegar a matar para atingir seus objetivos.
Figura 43

Na representação de Rapunzel (figura 44), a professora “A” faz,


novamente, somente o rosto da bruxa com cabelos na cor marrom, um chapéu
pontiagudo em azul, olhar severo e boca para baixo, significando braveza ou
maldade. Ao lado, uma trança e uma tesoura aberta. A figura da bruxa tem olhar
direcionado para a trança e para a tesoura. Em todos os seus desenhos, “A”
representa a bruxa com fisionomia de uma pessoa má ou, pelo menos, brava. Desta
forma, pode-se imaginar que é esta a idéia que a professora adulta tem em relação
à personagem da bruxa.

Apesar de não usar a cor preta, suas bruxas têm chapéus pontiagudos, o
nariz é grande e o olhar é severo. No seu depoimento sobre a bruxa deste conto,
coloca que a personagem é egoísta e que este sentimento prejudica os
relacionamentos. Nos três contos, relata a bruxa como uma personagem negativa.
No primeiro é má, em Branca de Neve, invejosa e, em Rapunzel, também invejosa.
Figura 44

7.3.2. Os desenhos da professora “C”

Esta professora apresentou maior dificuldade para representar as bruxas


nos seus desenhos, afirmando que não sabia desenhar. Em uma das
representações, agiu como algumas crianças, iniciando o desenho e o abandonado,
fazendo, em seguida, outro desenho mais aceito por ela.

A professora “C” parece ter dividido seu desenho em dois momentos


(figura 45). O primeiro foi uma casinha no pé da folha, que mostra uma porta
aparentemente aberta e uma janela fechada, com detalhes nos quadro ângulos. Há
também uma chaminé, de onde sai fumaça. Acima da casa ela desenhou nuvens e o
apoio da casa é a base da folha. Na mesma linha das nuvens, já no segundo
momento, “C” desenha uma linha da terra verde e uma bruxa com roupa preta,
chapéu pontiagudo preto e cabelos pretos.

A figura da bruxa tem as mãos desenhadas de maneira muito fraca


encoberta, pela pintura da roupa. O rosto tem um nariz muito grande e fino, com
uma verruga quase na ponta (como é afirmado no conto). A boca é grande e
vermelha com um sorriso. Os olhos são pequenos. Também desenha uma vassoura
com o cabo no chão e a palha para cima. Esta vassoura não está apoiada em
nenhum local.

Figura 45

A professora escreve “venha crianças entre vou dar de comer para


vocês”, e continua com um comentário: “As bruxas vem de mansinho se
apresentando como boa menina, quando você menos espera, elas dão o ‘bote’ e
tiram a máscara”. Fica a idéia de que esta professora vê a personagem como uma
pessoa camuflada, que engana, que aproveita da boa fé das pessoas, assim como
vez com as crianças João e Maria. Esta frase reflete o que “C” pensa da bruxa. Em
seu desenho, usa vários objetos que identificam a bruxa de uma forma
convencional, vista em ilustrações de livros infantis.

No desenho do segundo conto vê-se uma cena onde aparece um castelo


com portas e janelas fechadas, uma figura feminina com uma cesta de maçãs e uma
árvore com muitas frutas (figura 46). Seu desenho apresenta as linhas da terra e do
céu. A figura não está vestida com roupas negras. Sua vestimenta tem flores e ela
também não usa chapéu. Sendo assim, pode-se imaginar que “C” representou,
neste desenho, uma simples vendedora de maçãs, e não a bruxa má.

Figura 46

Em seu depoimento escrito, “C” relata a semelhança entre as pessoas


reais e as bruxas, principalmente deste conto, no qual a bruxa não aceita a beleza
de Branca de Neve. Explana sobre alguns sentimentos como inveja, ganância e
disputa entre as mulheres. Pode-se imaginar que esta professora já tenha
vivenciado esta situação em algum momento de sua vida.

Na representação do conto Rapunzel (figura 47), “C” apresenta um


desenho estilizado. Faz um castelo amarelo com a muralha preta. Este castelo tem
uma porta fechada e uma janela aberta. Nela, vê-se Rapunzel com suas tranças
loiras soltas para fora. Uma mão ao lado com uma tesoura tocando a ponta da
trança completa o desenho. A bruxa não aparece, sendo somente vista sua ação, a
mão que corta os cabelos com a tesoura. Ficam estas perguntas: o que mais esta
tesoura poderá cortar? Qual é a importância do ato de cortar?
Figura 47

Em seu depoimento, “C” coloca que esta bruxa, em especial, é egoísta,


querendo que o mundo gire ao seu redor, e faz a relação entre ela e as pessoas
reais da sociedade que vivemos atualmente.

Relata que o conto de fadas mostra o bem e o mal e que prepara as


crianças para o futuro.

7.4. Considerações finais sobre os desenhos e os depoimentos

Ao buscar os desenhos como uma forma de representação, objetivava-se


registrar de maneira gráfica a idéia que tanto as crianças como os adultos fazem das
bruxas nos contos de fadas, visto que o desenho, de alguma maneira, vai retratar o
que está no inconsciente e, ao mesmo tempo, ele é uma atividade que busca
recursos na imaginação, na memória e no imaginário. Pode-se, então, trazer à tona
alguns conteúdos simbólicos.

Derdyk (2004) afirma que o desenho, principalmente para a criança,


reúne dois aspectos: o operacional, que corresponde ao ato físico de desenhar, e o
imaginário, que envolve a idealização de algo, o pensar sobre o que se pretende
transpor para o papel. Podendo, segundo este autora, ser também caracterizado
como jogo simbólico ou imaginário, pois permite que a criança se manifeste
individualmente através dele.

Se o objetivo desta pesquisa é observar como as crianças e os adultos


vêem a personagem da bruxa nos contos de fadas, o desenho favorece esta análise
na medida em que, segundo Derdyk (2004), ele “não reproduz as coisas, mas traduz
a visão que delas se tem”. Sendo assim, através dos desenhos, pode-se perceber
como as crianças e adultos vêem esta personagem, isso porque, ainda segundo
esta autora, o desenho não é nem uma cópia nem uma reprodução mecânica. É
sempre uma interpretação que se faz através da elaboração e do uso de diferentes
símbolos, dando, portanto, uma nova configuração em relação ao que julgamos ser
o original.

O desenho, visto por esse prisma, possibilita considerá-lo como uma


“fábrica de imagens”, as quais trazem em seu bojo a observação do real e a
imaginação, que vão além do que é somente percebido e buscam na memória e na
vontade de criar os recursos para a sua produção.

Fica claro nos desenhos apresentados o quanto as crianças se


envolveram, trazendo a criatividade à tona, deixando que o ato de criar atuasse.

Para que o desenho aconteça, é necessário que exista um diálogo entre o


pensar e o fazer. Assim, tanto crianças como adultos ouviram o conto, memorizaram
algumas cenas e falas, fizeram associações com os conteúdos dos contos lidos com
os que, em outros momentos de suas vidas, tinham ouvido ou mesmo lido e, a partir
desta elaboração, puderam simbolizar e representar a bruxa nos contos de fadas.
Isso significa que valorizaram alguns aspectos, ignoram outros e, por fim,
simbolizaram a sua bruxa, que foi composta com diferentes conteúdos contidos na
memória, os quais foram ampliados através da imaginação. É, portanto, a memória
que vai buscar os dados que vão dar origem aos novos repertórios.

Os desenhos realizados tanto por crianças como por adultos


demonstraram que havia, no imaginário destes grupos, uma idéia de bruxa, com
suas roupas e seu visual, mas, mesmo assim, alguns acrescentaram a estas
características pré-estabelecidas sua maneira de ver a bruxa.

Outro aspecto muito freqüente nos desenhos foi a dificuldade encontrada


em somente desenharem a personagem da bruxa. Dessa forma, a maioria desenhou
cenas onde a bruxa estava presente. Suas ações, desta feita, são mais importantes
do que o seu aspecto. Nos depoimentos, as crianças se referiam à bruxa como má
ou ruim, sendo que a personagem que menos gostavam era exatamente a bruxa.
Exceto algumas crianças que não gostaram da atitude de Maria, que só chorava.
Houve quem achasse que a personagem do pai aparecia pouco no conto.

Os depoimentos das crianças pouco contribuíram para a visão da bruxa


nos contos, sendo que estes foram mais valiosos em relação aos adultos. Apesar
das crianças responderem, em sua maioria, que a bruxa era má, os seus desenhos
mostram figuras risonhas, com feições pouco carregadas, deixando a idéia que a
bruxa é vista, hoje em dia, como sendo uma personagem inofensiva, que não busca
fazer o mal.

Acredita-se, portanto, que as crianças já não se assustam com esta


personagem, já não sentem medo de suas ações, sabem de seus poderes, mas não
a temem. A bruxa, então, é uma personagem como as demais. Tem mais
conhecimentos, sabe fazer poções mágicas e maçãs envenenadas, mas não é
assustadora e pode até ser vista como super-homem, que ajudam e não fazem o
mal.

É de suma importância resgatar a visão que se teve das bruxas num


passado, alertando-se que a sua imagem foi construída pelo imaginário de uma
sociedade que tinha uma Igreja com força muito grande, que rejeitava a mulher
enquanto criadora e possuidora de valores, vendo-a somente como a pecadora de
uma sociedade patriarcal. Não eram aceitos os poderes e ações advindos da
mulher. Nesta sociedade também havia a divisão muito clara entre bem e mal,
sendo que o bem era relacionado ao homem, independentemente de suas ações, e
o mal, às mulheres, sem considerá-las capazes de terem boas atitudes.

Acredita-se, portanto, que as mulheres são boas e más no seu percurso,


sendo fadas e bruxas em diferentes momentos. Porque esta é a dualidade que
acompanha a mulher desde os primórdios, não necessitando, desta forma, julgá-la,
e sim, compreendê-la e aceitá-la em sua totalidade.

Considerando-se que esta pesquisa tem por objetivo conhecer a bruxa


nos contos de fadas, fica aqui registrado que esta personagem é vista, atualmente,
como deveria ter sido vista sempre, como uma mulher que tem em si as polaridades
do bem e do mal, as quais não são antagônicas, e sim complementares.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao terminar esta dissertação, depois de uma minuciosa análise dos


desenhos que foram realizados por crianças e adultos sobre a bruxa nos contos de
fadas, e após ler muito sobre a personagem, há várias considerações importantes a
serem aqui colocadas.

Ao representarem as bruxas, as crianças fazem poucas relações entre a


personagem e o seu cotidiano. Porém é importante perceber que a maioria das
crianças desenhou a bruxa sorridente, apesar de colocarem falas da personagem
indicando-as como figuras más. Esta é uma ambigüidade também observada nos
textos lidos. A bruxa sendo, ao mesmo tempo, admirada e temida por sua
comunidade.

É importante perceber que essas bruxas podem, inconscientemente, estar


dando às crianças os recursos para suas próximas ações nas adversidades que
encontrarão em suas vidas. Pois quando as bruxas aprisionam “Rapunzel” na torre
ou prendem Joãozinho na gaiola, possibilitam que as personagens encontrem
soluções criativas para resolver estes problemas, assim como as crianças poderão
buscar essa criatividade para agirem na vida real. Esta é uma das grandes
contribuições que as bruxas dos contos de fadas podem nos transmitir.

Isso porque as bruxas, no nosso entendimento, impulsionam as demais


personagens dos contos a buscarem ações e soluções criativas, gerando mudanças
de comportamentos. Pode-se citar “Mariazinha”, que atirou a bruxa no caldeirão. As
ações realizadas pelas diferentes personagens, a partir das desempenhadas pelas
bruxas nos contos de fadas, oferecem às crianças exemplos de como agir frente às
diferentes situações de suas vidas, favorecendo um crescimento e amadurecimento
em relação a suas vidas reais, fortalecendo-as. Isso nos autoriza a dizer que as
bruxas são personagens restauradoras em relação aos diferentes comportamentos
da vida das crianças.

Os questionamentos feitos durante esta dissertação foram, aos poucos,


respondidos através dos desenhos feitos pelas crianças, pois suas representações
não demonstram uma figura má Há desenhos que identificam ações tidas como
más, entretanto, na sua maioria, os desenhos representam a bruxa como uma
personagem serena, sorridente e “do bem“.

Sabe-se que a figura da bruxa é culturalmente conhecida como uma


mulher má que, veste roupas negras tem cabelos desarrumados, normalmente
negros, usa um chapéu pontiagudo também negro e age maldosamente contra as
pessoas. Esta é, portanto, a figura da bruxa que se encontra normalmente nas
ilustrações de contos de fadas.

Parece-nos que a figura da bruxa na atualidade é resgatada deste papel


do passado sendo que é vista como portadora da dualidade existente na mulher, ora
boa e ora má. Por isso, não pode ser vista somente sob um viés, e sim na sua
polaridade.

Resgatar esta idéia errônea sobre a bruxa faz se necessário e assim


estaremos resgatando também a figura da mulher e do feminino.

É de suma importância perceber que as crianças de hoje vêem a bruxa


como ela deve ser vista, e que a trazem isso inconscientemente nos seus desenhos,
contradizendo suas falas, compostas por informações recebidas de livros e dos
adultos que, invariavelmente, têm uma visão maniqueísta, contrapondo o bem e o
mal, não os possibilitando enxergar como pólos complementares e não antagônicos.
A criança já consegue perceber que algumas ações más podem viabilizar outras
mais criativas e espontâneas, possibilitando uma vida mais saudável e harmoniosa.
Esta visão das crianças, por certo, não é consciente, mas é a que ficou registrada
nos desenhos aqui apresentados. Desta maneira, cabe ressaltar que as crianças,
inconscientemente, conseguem perceber as mensagens contidas nos contos de
fadas e podem usufruir delas quando lhes forem necessárias.

Já os adultos se esquivam dos desenhos e, em suas falas, fazem relação


entre as ações da bruxa e as situações onde vêem maldades. Sua visão, portanto, é
que bruxas são mulheres más, como as mulheres más que conhecem em suas vidas
reais. Ressaltam suas atitudes e seus atos. Não a vêem com os olhos inocentes das
crianças. Estas professoras não conseguem perceber as ações das bruxas como
elementos impulsionadores para novos comportamentos e formas de atuar mais
criativas.
APÊNDICE I

João e Maria
APÊNDICE II

Branca de Neve
APÊNDICE III

Rapunzel
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