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Jacob Pinheiro Goldberg

Cultura
da Agressividade
SUMÁRIOTC "SUMÁRIO"

Prefácio, 11

1 Apartheid nas megalópoles, 15

2 A violência como fator desagregador essencial na metrópole


contemporânea, 19

3 A razão política. A vivência do homem como ser situado no


mundo e a psicologia social diante do indivíduo operante, 37

4 Eva será Deus, 81

5 O fim da história masculina, 99

6 Mecanismos de autodestruição, 103

7 O senso moral. O anseio por uma proposta ética na coisa pública, 113

8 Não me deixe morrer, 129

9 Olhar masculino perverso, 133

10 A matriz educacional e a capacidade de realizar a inteligência, 135

11 O menor, faixa etária do desalento. O velho, um desafio ao humanismo, 147

12 O humor político e a idéia psicológica — do folclore à advertência, 153

13 A Ecologia como preocupação harmônica indivíduo-natureza e como cuidado no


desenvolvimento, 159

14 O sadomasoquismo na economia brasileira, 163

15 A unidade na multiplicidade. O homem como esperança de realização no mapeamento


psicológico brasileiro, 167
PREFÁCIO

ESTA OBRA TEVE DUAS EDIÇÕES EM 1984. Apareceu com o título Psicologia da Agressividade. Esta
reedição, revista e ampliada, ganhou novos contornos e vem enfeixada em novo título: Cultura da
Agressividade, necessidade que se impôs pela abrangência da abordagem.
A agressividade aqui vem tratada em sua rede de interligações com as realidades humanas
que estão em íntima associação com o fato psicológico. Como um raio especular, desenha a
figura da agressividade relacionada aos diversos campos do atuar humano e ao modo como a
humanidade se situa no mundo e age sobre ele. A psicologia não desponta como fenômeno
humano isolado. Sai da particularização estanque e lança-se no todo em que ela se gera e ao
qual se integra. O termo cultura, tal como empregado pela sociologia e antropologia, aqui
empresta a justa dimensão da obra. O complexo das crenças, instituições, valores espirituais e
materiais característicos de uma civilização é trazido para a abordagem como componente
integrador e inseparável do fenômeno psicológico, que àquele cria e por aquele é criado, a
conjugação de um cosmo todo gerado e originado no interior do fazer humano e no modo como
esse fazer humano no mundo se espelha. Como a palavra cultura, empregada no seu significado
corriqueiro de “cultivar”, “modo de cultivar”, expressa também o justo vigor desta obra,
estendemos esse termo para dizer que o “modo de cultivar o mundo” em nossos tempos tem
nestas páginas seu significado mais premente.
Assim é que por esse compasso as matrizes que geram a agressividade são desvendadas:
desenham-se alimentadas pelas estruturas mentais que construíram e sustentam essa figura
caótica que hoje é o mundo. Percorre a linha do tempo e a apanha desde a pré-história. Evoca os
diversos momentos históricos em que o horror irrompeu gerado previamente em estruturas que
lhe abriram as portas, e encara no presente o estado mórbido que alcançou, estendida à
Natureza, à vida global, impasse que desafia a civilização. São ameaças que podem
desencadear novamente o horror: o político e o social. Aquele horror que a História já viu
repetidas vezes. Acena para esse campo do provável. Não como atitude pessimista, profecia da
catástrofe e do medo. Mas prognóstico mediante dados de experiência que se relacionam, para
afinal fazer um outro aceno: diverso modo de pensar o homem, o outro campo do provável, a
ponte aberta para a irrupção da virtualidade criativa humana: “o propósito da civilidade maior — o
direito do homem de merecer a transcendência”, nas palavras do autor.
Abre-se pois a perspectiva e o tema tratado desponta com força singular nesse abraçar do
humano no seu todo. Não se apega a uma sistematologia especializada, faz-se abordagem
despojada e francamente aberta a todos por não se restringir a leitores especializados nessa ou
naquela ciência. Sua linguagem despojada e seu conteúdo libertário têm sua razão de ser na
concepção do humano de quem assim se expressa, como é natural: “o estilo é o homem”, definiu
Buffon; “espelho da alma”, definiu bem antes Sêneca; nos campos abertos que Jacob Pinheiro
Goldberg deixa ao leitor para reflexão; por último, em não se fazer confinada ao universo fechado
de uma ciência ou de um conhecimento, tampouco dotar-se de carismática linguagem, o que lhe
compete é cumprir o que em toda a obra se sente emergir da voz de seu autor: empreender um
diálogo com todos sobre uma questão que pertence a todos, o espaço da expressão humana
cultivado, região do poder criador, recriador, o estilo é também o outro.
E esta é uma voz preocupada com os destinos humanos, a favor do homem e da vida:
curemo-nos da agressividade, antes que seja tarde, é o que nos diz Jacob Pinheiro Goldberg
nesta obra, que no todo é fruto de uma ação e vivência amplas realizadas no campo social,
político e psicossocial, tanto no Brasil como no exterior. Desnecessário é arrolar aqui o extenso
panorama de sua atuação, caminho longo, de que esta obra é apenas um resultado entre tantos.
Importa sim os significados que essa atuação detém para o desenvolvimento libertário e humano
de nossas sociedades. As percepções abertas para o que em nosso mundo se agita e se
conforma em atos flageladores de nós mesmos, sintoma de doença e morte. No interior do nosso
mundo, o que vive e se agita são gritos de decomposição que na ação exterior se manifesta em
agressão à vida. Uma necrofilia, diz Jacob Pinheiro, palavra precisa para definir a condição de
nossos tempos. Por que esse gosto da morte? O suicida não quer matar-se; quer sim matar o que
nele lhe faz mal e lhe torna insuportável a vida. Mas o que lhe faz mal está em sua própria
estrutura interior. E para matar o mal que o consome, mata-se junto num gesto desesperado de
quem não vê alternativa. No âmbito da sociedade, ela mata-se a si mesma quando não supera o
mal que lhe corrói o tecido interior.
Nesse dilema inclui-se a dramática questão: o homem que, no percurso da história, rompeu
sua ligação com o sagrado. Causou-lhe isso a ruptura de si mesmo, porque não se pode
conceber o humano sem sua contraparte transcendente, fonte de sua Imitatio Dei. Rompida essa
predisposição humana, o homem se lançou num mundo esvaziado de espiritualidade e sucumbe
no próprio caos, desencadeado pela irrupção de impulsos inconscientes de uma humanidade que
adoeceu na incerteza e nas solicitações de uma demanda cujo centro motivador pressupõe o
consumo como ideal do homem bem-sucedido. Ter é preciso, Ser não é preciso: desvirtuamento
do verso dos marinheiros antigos, preservado o duplo sentido que na sentença aporta, modo de
escapar ao foco único e abrirem-se as perspectivas do olhar, inverter: Ser é preciso, Ser é Ter-se.

Vilma Maria da Silva


Apartheid nas megalópoles

DEBAIXO DO IMPACTO DIUTURNO DE BOATOS E NOTÍCIAS QUE DÃO CONTA DE UMA ONDA DE
CRIMINALIDADE DIFUSA, que reúne características de banditismo e crueldade, a população vive,
reage e sobrevive, com formas infantis de mecanismo de autodefesa e ataque.
As sucessivas placas tectônicas de informação mal digerida e não elaborada constituem uma
kulturkampf que habita desde os palácios suspensos da arquitetura de ostentação até os cortiços
e favelas dos sem-terra. Um resultado é o idioma da indelicadeza, da molecagem,
a vadiagem orgulhosa, o sadomasoquismo que se interpenetra do berço até o enterro,
sacrificando os rituais de socialização.
Nem ética nem estética protegem os núcleos de identidade pessoal. Prevalecem o alpinismo
econômico e o narcisismo do lumpen. Por causa, vagarosa mas firmemente, se estabelecem
pactos exógenos e endógenos com a transgressão e o crime. Alguns fenômenos percebemos
quase a olho nu, através da observação direta, depoimentos, testemunhos, condutas. Em ordem
só descritiva: no trânsito, a ausência de qualquer policiamento eficaz. Unicamente, a preocupação
primitiva da multa aplicada pela autoridade. Balbúrdia ocasionando raiva do motorista, que
desrespeita quaisquer sinais, atropela o pedestre (que, por sua vez, desrespeita o perigo), briga
com outros motoristas. Milhares de motoboys, que jogam seus veículos em ritmo insano, para
corresponder à ansiedade e à obrigação de produzir para as empresas empregadoras. Sem
qualquer proteção pessoal ou conceito de urbanidade. O trânsito caótico enerva ao paroxismo e
se transforma num exercício permanente de ceticismo, insatisfação e selvageria no trato reativo.
O convívio desarmônico e debochado dos segmentos da comunidade, numa zona
ambivalente entre a legalidade e a ilegalidade, a moral e a avacalhação.
O jogo do bicho, sujeito a uma proibição hipócrita que roda e movimenta milhões de dólares,
na convivência entre bicheiro, policial e jogador. O bingo, seu primo-irmão no lusco-fusco, da
classe média ociosa, polícia de segurança particular, lavagem de dinheiro e lobbies de poder
político-eleitoral.
As igrejas e grupos de superstição usando TV e rádio, manobrando multidões de centenas de
milhares de fiéis, explorando a crendice, com o uso do voto de aluguel, sistema de saúde e
educacional, estrutura espiritual. A disputa pela imaginação histérica do desespero,
principalmente na periferia, induz inclusive as instituições tradicionais a cederem aos espetáculos
mágicos de persuasão pelo instrumental de apresentadores de TV arrebatados pelos índices do
Ibope. O milagre prometido na Terra do desamparo.
As escolas públicas entregues à violência de alunos que chegam a estuprar professoras, as
escolas particulares na caça competitiva do lucro, uma permissividade que celebra o
analfabetismo e a boçalidade. O sistema de ensino, retrógrado e ultrapassado, que paga salários
miseráveis aos professores. A medicina sucateada, com raras e riquíssimas ilhas de excelência,
pelos sofisticados jogos de exploração sistemática, armados por convênios, laboratórios e pela
indústria farmacêutica, levando doentes ao medo e profissionais ao desinteresse pela pesquisa e
pelo desenvolvimento científico, na vizinhança da proletarização. As famílias abandonam as ruas,
principalmente à noite, ao vazio, com receio do assalto. Crianças e adolescentes sem alternativa
de esporte e lazer, a não ser uma TV pornográfica e comercializada até a desbragada apologia de
produtos de uso condenável, com a linguagem rasteira da sedução do sexo, principalmente a do
corpo feminino. A droga como mercadoria de contato entre o crime organizado e a sociedade sem
perspectivas.
Esse esgarçamento de códigos e pautas de civilidade convoca um apartheid emocional, que
pode ser sintetizado na figura anedótica da sensação do cego no meio do tiroteio. O
individualismo mal disfarçado em gangues conjunturais. Torcidas de futebol, tietes de funk e
rappers, ricos freqüentadores das colunas sociais e academias de musculação, gerontocracia
contra jovens, jovens desprezando os mais velhos, homens contra mulheres. A paranóia que
escolhe “eles” como o inimigo. A culpa “deles”, sempre o outro, diferente, desconhecido, vizinho.
Megalópoles em que a lógica da convivência foi substituída pelo conflito, obrigando o mais
frágil à frase ditada numa entrevista, no Parque do Ibirapuera. Moça de 28 anos de idade, babá
pernambucana, humilde. Perguntada, disse que era bem tratada pela patroa. “Como igual, como
ser humano?” Dos olhos baixos, desce, devagar, uma lágrima: “Eu conheço o meu lugar”. Que a
maioria começa a desconhecer.
A violência como fator
desagregador principal
na metrópole contemporânea
O radical
O RADICAL TENDE A DESPREZAR O GRADUALISMO NA SOLUÇÃO DE PROBLEMAS SOCIAIS . Seus impulsos
interiores demandam comportamentos de impaciência e agressividade. Refuga a discussão
porque se sente em crise. Acredita, por primarismo e infantilismo, que o ajustamento é covardia
ou sinônimo de obscuros interesses cristalizados. Daí desencadeia uma compulsão irrealista —
individual ou em grupo — para impor sua vontade ao mundo, num exercício onipotente somado à
síndrome persecutória.
Tal esquema condiciona o raciocínio patológico ao pressupor uma filosofia totalitária: o
maniqueísmo estreito e paranóico na dupla inconsciência, pessoal e universal, da certeza
dogmática da sua razão; o direito e escolha preferencial do “caminho justo”, opondo-se ao
inimigo, obtuso e demoníaco — o “eles” que domina o cosmos, através da perfídia, da infiltração
ou da força bruta; a visão onírica de um Armagedon em cada esquina. Na massa inimiga, mira o
elemento estimulante da controvérsia que ameaça o seu equilíbrio precário.
O assassinato de Trotski por um fanático stalinista é um exemplo típico da eliminação
daquele que, pela argumentação, busca um mínimo de sensatez. Por refletir e extrapolar uma
rebeldia que intentava manter-se lúcida, Trotski foi vitimado por um Stalin desvairado, e pelo
Stalinismo, excrescência teratológica de práxis brutal.
Excitante e excitado, o extremista advoga mudanças drásticas para aliviar a sua angústia em
enfrentar emergências, temendo alterações sociais reais que ameacem sua frágil estabilidade.
Incapaz de uma atuação madura e conseqüente, socorre-se do patético, da sensação do novo
em lugar do novo. A desordem da revisão institucional a qualquer preço é outro recurso ideológico
do “quanto pior, melhor”.
Quando Hitler ordena o incêndio do Reichstag e acende os fornos crematórios de
Buchenwald, aciona, ao mesmo tempo, o gatilho do terrorismo pessoal, no homicídio de Erich
Rohem. Uma vida de frustração afetiva, sexo anormal e sífilis progressiva invoca a paranóia
hitlerista — proposta de ordem no caos do mundo — que é reflexo do seu caos interior.
Matar passa a ser uma defesa que impede a exposição prolongada ao hipotético. O
absolutista usa a doutrina como álibi. Daí Mussolini, saído da esquerda para o delírio fascista.
Para a personalidade mórbida, os ideais são racionalizações irrelevantes.
Excêntrico, irracional ou assassino, o que importa politicamente ao ressentido é atingir certos
indivíduos, classes ou agremiações em sua potência criativa.
O movimento pelo movimento: eis o objetivo do caráter animal e instintivo que acumula a
força como tática e estratégia de jogo político. Nas fantasias do ódio religioso, apetites financeiros
que deságuam na impossibilidade de uma aplicação disciplinada.
De personalidade cindida, o grupo irascível (vide os atentados, em 1981, contra o então
Presidente dos EUA, Ronald Reagan, ou contra o Papa João Paulo II, executados por egressos
de bandos nazistas) constrói impérios de ficção sobre a destruição. Devido à inveja ao êxito do
herói positivo e independente, sua motivação é a ânsia pelo desespero, a negação da alegria, a
incapacidade de interagir calmamente. Quando é massa ignorante, dada à histeria, é opressiva,
irritadiça até o limite do pânico e, por isso mesmo, sempre tensa.
A notoriedade é outro ponto nodal para o atentado tornar-se rotina. Quando se divulga, à
guisa de informação, o efeito malsinado, rompe-se a premissa da cultura, como resposta
humanística ao impasse. Aquele retrato reproduzido mundialmente pela TV implica a falácia de
que matar com eficiência é ontogênese admissível: o gangster sucede a Kennedy, forjando-se a
simbiose do bandido-mocinho.
A sociedade está consciente do número cada vez maior de elementos presos ao narcisismo,
arrogantes e gananciosos nos seus egos desorganizados. Ora, a recusa dos sadios em se curvar
às injunções dos vilões da História abre a perspectiva da volição democrática. Negar a violência
representa mais do que mera autoconservação. A ação do pacifista é não ceder, não se
corromper. O resto é o resto. Uma bala de revólver e um sonho desfeito, Dachau e a carnificina —
pela miséria, junto aos muros dos fuzilados ou nas câmeras de tortura. Ah, o pesadelo do pirata-
da-perna-de-pau, com máscara e bazuca. Unamuno, presente.

Nunca é demais lembrar a lenta mutação


social para o totalitarismo
Num rasgo original, o escritor búlgaro Arthur Koestler (1905-1983) chama a atenção do leitor para
a mutação social que tende lenta e vagarosamente para o fascismo e que se infiltra, viscosa, em
toda a comunidade, envolvendo a criança e o velho, a igreja e o sindicato, o clube e o quartel.
Num determinado dia, a Nação e o Estado estão, por golpe ou até por eleições regulares,
imersos na realidade brutal da ausência de liberdade, no fim dos direitos civis, na abolição das
prerrogativas políticas e da soberania popular.
O delírio fantástico do último século, atrás da morte, impregna as ideologias da sensação de
poder absoluto: o estupro da História. Nenhum dos pesadelos de Borges ou Kafka pode
equiparar-se à brutalidade de Auschwitz.
Estas são as matrizes que aninham as disposições de extremistas que, sob idealistas
arrazoados, justificam seu mando com o horror: pela propaganda e suplício, atentado e
terrorismo, a guerra suja da calúnia e a insídia da desmoralização pessoal do adversário, os
rigorosos instrumentos de frenesi que buscam esconder a falácia real; a decadência da civilização
que é o sobrevôo da mediocridade, do medo, da incapacidade de enfrentar o descontínuo dos
módulos de modificação da consciência. Einstein disse que a “violência fascina os seres
moralmente mais fracos”, frase que deve orientar a psicologia e a teologia.
É razoável considerar que o progresso tecnológico e as taxas de desenvolvimento são
insuficientes para evitar a angústia que, nos negócios comuns, despojam a decisão pela maioria.
Pelo contrário, as ditaduras, às vezes, vicejam no clima de melhoria das condições sócio-
econômicas.
É desproporcional a disputa entre a força estatal absorvente e tentacular em contraposição
ao resistente. O espaço daquela alarga-se à custa deste — perturbado, drenado pela crise de
valores, numa escala de fúria sexual, violência urbana, suicídio, corrupção, droga, alcoolismo,
desorientação juvenil, niilismo filosófico e auto-ódio. Desequilíbrio e achatamento intelectual
reduzem a capacidade de questionar, resultando na megalomania do princípio da autoridade que
privilegia, denominada por Freud de “estruturas libidinosas do Estado”. Esta mentalidade verifica
a ocorrência do Satã polimorfo na repressão onipresente.
O que mais se assemelha ao inferno do que uma câmara de torturas? As máscaras dos
interrogadores, o sangue da vítima e o ritmo dantesco contribuem para a comprovação da tese.
Substituir felicidade por funcionalidade cria uma patogênica pedagogia de recalque. O uso e
a disposição da lei para a fecundação do arbítrio é um objeto de escárnio do fraco, do
insubmisso, do marginal ou do explorado.
Cultuar a forma física e a fixação narcisista na estética aparente une umbilicalmente as
maratonas de Mussolini às batalhas oníricas de Idi Amin.
O descuido pelo isolamento e a solidão do humano, desprezando-o como “traidor, pequeno-
burguês, anti-social”, é a constante neste sistema de paranóia que evidencia o agressivo e a
perseguição, promovendo o instituto da malta, o pensamento coletivo e homogêneo, usando
preferencialmente os elementos da TV, a imprensa de serviço e o rádio alienado, cuidando de
manipular a mentira, mas não hesitando, ultima ratio, diante da carnificina e da crueldade policial.
A instabilidade espiritual criou a achieving society, sociedade do êxito, em que o estilo de
viver é “chegar lá”, a aspiração do individuo ou do grupo, na escola, no futebol ou até no trânsito.
Coincidentemente, o egoísmo aumenta na sociedade coletivizada. Se o liberal tem a
preocupação tradicional com o discurso da atuação fraterna, o radical expõe sua anulação como
ser estimulado pelo amor a si mesmo — os imensos comícios com oratória teatral, a
supervalorização dos “quadros” partidários, o parentesco entre o fechamento mental diante da
dúvida e o uso da intelligentsia pela cultura oficial.
O robô alienado pelo primitivo é a observação simétrica da realidade unânime. Se uma
sociedade pretende resistir à “demência”, tem de encontrar a saída no consenso para suas
dificuldades e desacertos. A resposta concentracionária é a extensão desta loucura no grotesco,
pairando sobre a servidão. Aí a autofagia se torna ciclo da tentação. Há diante dessa obscuridade
do inquisidor um mandamento imperativo, consagrado pela sabedoria da resistência: falar ao
homem, claramente. Esta fala lúcida é a última esperança na sobrevivência da dignidade, porque
é a hora depois da hora, a 25.a, na feliz expressão do romancista.

Os crimes com implicações


sexuais e seu contexto
A sucessão de crimes com implicações sexuais merece uma reflexão, por se tratar de sintoma
significativo sobre as reações da comunidade, que variam da aceitação em Belo Horizonte ao
linchamento em Macaé.
Não existe uma psicologia do individuo sem o entendimento, também, de sua inserção social.
Violência também como causa e não só efeito.
O conceito de sanidade mental está intimamente ligado à posição cultural que a sociedade
estabelece a respeito de seus valores morais e de comportamento. É louco quem não
corresponde a um mínimo da expectativa exigida pela sociedade no seu procedimento comum.
Maquiavel disse que “um povo é mais sábio e mais firme que um príncipe, e tem opinião mais
bem formada. Não sem razão, compara-se a voz do povo à voz de Deus”.
A sabedoria do povo, do príncipe e de Deus costumam equivaler-se. As três coexistem num
sistema de ajustes mútuos, concessões e voz média.
Mais sábio e o único critério a mais é o do indivíduo, juiz maior de sua vida, atos e coisas. Por
isso, o respeito ao indivíduo demanda uma política comunitária que deve se voltar para o
florescimento do aspecto pessoal, contra as tendências de emasculamento e pluralização do
grupo.
A saúde psicológica se transformou no maior desafio sociológico de nossa época. Pelo
menos um terço da humanidade revela problemas emocionais, metade disso de natureza grave.
Isso segundo apreciações institucionalizadas. Infelizmente, o homem não sabe lidar com as suas
realidades mais diretas só pela cultura. Os delitos sexuais tendem a uma freqüência muito alta,
quase como resultante catártica.
Os números falam em todos os aspectos por si mesmos. E as causas?
A família, como instituição, se vê contraditada, sem que qualquer alternativa se apresente
como válida e sem respostas dinâmicas para as contradições culturais. O desenvolvimento
econômico não vem acompanhado de uma distribuição de renda mais eqüitativa e o desamparo
ressente-se ainda mais dos problemas de interação.
O empobrecido é psicologicamente vitimizado. E o diagnóstico é válido para as demais
dificuldades ambientais. A civilização continua a não responder aos dolorosos sintomas de
insensibilidade e imaturidade espiritual.
A educação não está voltada para um esforço qualitativo de desenvolvimento emocional.
Rende-se à quantificação sem objetivos singulares, como se fosse a repetição do mito de Sísifo.1
Se no Gênesis se afirma que “comerás o teu pão com o suor de teu rosto”, compra-se hoje o
último modelo de televisão com o suor da “angústia neurótica”. O consumismo desenfreado é a
religião industrial.
A habitação tornou-se mais um esconderijo contra a violência do que meio para um módulo
de paz e realização. A arquitetura se limita a um conúbio irresponsável entre a ânsia de
simplificação e o desenvolvimento sem sentido.
A recreação apresenta-se como fuga. A criatividade inexiste e os elementos de prazer vêm
sendo substituídos por farsas coletivas, verdadeiro ersatz do trabalho. Profissão, ganho e lazer
não estão equilibrados. Na verdade, servem ao “Deus Processo Social”. Apavorado, o homem
foge do Sétimo Dia. Coitado se tiver de descansar: poderá até pensar, e não sabe (se é que
algum dia soube) como fazê-lo.
A mobilidade social, migração e imigração, continua correspondendo a ansiedades de
prestígio como afirmação, conhecimento e renda. O desenraizado vai para a reação psicógena,
suicídio e manifestações hipocondríaco-paranóides. Todos estes fenômenos vão desaguar na
área da criminalidade.
Spinoza já afirmou que “cada um tem tanto direito quanto poder possui”.
Na falta de outras opções, o doente mental e o desajustado procuram a sua parcela de poder
na violência. O crime e a doença mental estão relacionados, muitas vezes, a uma incompreensão
do fato sexual. A educação e a legislação devem abordar o comportamento sexual de maneira
científica. Por sua vez, a sociedade precisa estabelecer uma política de respeito à pessoa e
trabalhar para a sua elevação individual e social segundo o entendimento freudiano de que “na
vida espiritual de cada ser, o próximo está sempre presente, quer como exemplo, objeto, ajuda,
quer como inimigo e, por isso mesmo, desde o princípio, a psicologia individual também é
psicologia social, no sentido mais amplo, mas nem por isso menos válido”.
O Apocalipse — da luta armada às sutilezas
do pensamento ideológico
Nossos tempos assistem a um autêntico apocalipse político-religioso, cujas batalhas se
desenrolam, desde os campos da luta armada às sutilezas do pensamento ideológico, por
meio das disputas que se travam pela imprensa, sindicatos, partidos e universidade.
Num dado momento histórico, o vulto da convulsão cristalizou-se por meio da proclamação
nazista, lida pelo gauleiter da Baviera, Adolf Wagner: “O estilo de vida alemão está
definitivamente assegurado pelos próximos mil anos”. Genocida, o nazismo realizou a forma
suprema de violência contra o homem, a 25.ª hora de Deus. O espancamento, a tortura e a
degradação corresponderam às formas mais incríveis de consagração de uma filosofia que fazia
a apologia da morte. Os campos de concentração eram guardados pelas Unidades da Caveira,
Totenkopfverbaende, que usavam a insígnia do crânio e do osso em suas túnicas negras.
Forjou-se, a ferro e fogo, a práxis do Mal. Sobre um monte de cadáveres, sonhos e
esperanças de toda a Humanidade, Hitler, o vagabundo austríaco, desafiou Deus, arrasando as
noções de Bem e da Moral.
Esta assunção da morte, dor e destruição como fundamentos do comportamento humano foi
alardeada por Gregor Strasser, que afirmou: “Tudo que sirva para precipitar a catástrofe é bom,
muito bom, para nós e para a nossa revolução alemã”, numa confissão de confusão mental que,
por suas terríveis conseqüências, seria cômica se não fosse trágica.
Esta tendência, a necessidade de projetar a moléstia da impotência humana na natureza,
conduz à metafísica do terror que, na sentença de Nietzsche, dispõe a vida contra a vida.
Nossa especulação atravessa noutro capítulo a fixação ateísta de Marx, que desemboca no
Gulag — o universo concentracionário de Stalin, seminarista frustrado que ousou ter a pretensão
de unificar o anseio dos pobres da Terra numa ontologia messiânica em que desempenha o papel
do Ungido, Misericordioso, que exige a dedicação, a inteligência e o coração de seus acólitos.
Religião que passa a agonizar nas revelações de Kruschev, em que um deus enlouquecido (de
quem a filha Svetlana nos dá uma descrição magistral) é enterrado para a orfandade autofágica
de uma obsessão.
Como se fosse a seita de um movimento de mil faces, nos Estados Unidos um grupo de
professores lançou certa vez a “Teologia da Morte de Deus”, preconizando uma revolução
cultural. No cinema, a diabologia encarna no clássico “Bebê de Rosemary” a aspiração pelo
absurdo da desintegração — a anti-Humanidade.
Outrora, os jornais informaram que guerrilheiros urbanos, em Paris, fizeram experiências com
bactérias mortais, inclusive a Clostridum Botulinum, capaz de envenenar alimentos, numa
antevisão de uma teoria da cultura, uma weltanschauung de terrorismo, de ódio contra o homem
sob uma fraseologia de amor, uma doutrina de salvação erguida num senso esquizofrênico.
A subjetivação da agressão, o acúmulo de culpa é fator precípuo na neurose social da
Humanidade contra a atividade espiritual, que procura o equilíbrio entre o corpo e a alma; e
contra o espírito de exaltação que anseia pela excelência superior, a sublimação de ser mais do
que homem, objetivando a imortalidade que encontra no monoteísmo sua realização no tempo e
a iniciação no mistério do divino. Nas palavras de Píndaro, “a sombra de um sonho”.
Nesta luta global de Deus contra deus, de Eros contra Tânatos, os estabelecimentos se
alcançam desde a sexologia de Sade à angústia retratada nos versos de Yeats, “Mas o amor
escorou sua mansão no lugar do excremento”.
A natureza essencial do drama cósmico não pode ser resolvida pelos índices do Produto
Nacional Bruto nem pelas viagens interespaciais, apostadas numa corrida para o vazio.
Quando eterna, a cidade se humaniza. O tempo é a vitória sobre a morte e o mundo precisa
de menos contenda; do fim da dialética da insensatez, que recusa a noção de harmonia e
humildade; da possibilidade de recusar a etiqueta da repressão ao ver no adversário um amigo,
imortal em Deus.
A esperança se encerra num encantamento quase utópico, a apologética radical do amor,
para exorcizar os selvagens desígnios maldisfarçados de Satã — a paixão da metralhadora, o
discurso do conflito, a ameaça nuclear, o anátema passional de raças, religiões, partidarismos, a
linguagem hipócrita ou desvairada do terror.
O guerrilheiro é o órfão da noção de Deus.
Em 1876 Mainlander afirmou que Deus estava morto. Propôs o suicídio universal e matou-se.
O culto da morte, pelo homem que se vê apenas no espelho da solidão, instrui a violência e
ameaça a razão de nossa época.

A manutenção do direito à vida


É preciso viver pelo que se ama, e não morrer pelo que se supõe acreditar.
Os tempos modernos trouxeram a tortura e o desprezo pela dor, mercadejando a alma em
Auchwitz, no Gulag, e nos subúrbios metropolitanos.
Um compromisso fundamental da sociedade democrática é a manutenção do direito do
homem à vida. A ameaça permanente, que leva à intranqüilidade e ao medo, reflete o declínio dos
valores morais.
Há concordância quase unânime de que a engrenagem estatal não corresponde à
expectativa de segurança, e discordância quanto às causas.
Duas são as teses opostas mais populares: a afirmação de que a miséria econômica é a
única responsável pelo agravamento do índice de criminalidade (embora Caim não morasse na
favela...), e aquela que afirma ser o fenômeno oriundo de uma destinação maldita, uma espécie
de vingança do azar.
Essas posições não levam em conta o fator preponderante: a responsabilidade de cada
indivíduo, criando uma dicotomia alienada entre a pessoa e o mundo. O furor agressivo é
resultado das vontades subjacentes, dos propósitos inconscientes e do comportamento de cada
homem e mulher.
Diante do perigo disseminado, o repertório psicológico dos seres humanos se recolhe. A
impotência tende a se transformar na resposta eletiva. Curvamo-nos diante da fácil constatação
de que outros países também são vulneráveis ao mesmo problema, aquietando nossa reação.
A intenção, mais do que uma fábula poética, por se tratar de uma afirmação política, deve ser
uma proposta de reação objetiva à agressividade compulsiva. O que se espera? Vamos continuar
na guerra do trânsito que mata e mutila centenas de milhares de pessoas, numa engenharia
falida? Esgotaremos nossos recursos naturais, numa sarabanda desenfreada de imediatismo,
assistindo à poluição da atmosfera, à deterioração dos serviços de comunicação, saúde e
educação, promovendo um deserto para a criatura humana que sofre, cegamente e sem
esperança, no sanatório da metrópole? Habitat medíocre, sem árvores, folguedos,
personalidade? Álcool, sexo desenfreado, drogas e desemprego constituem o zumbi assassino,
fruto dessa recusa do sagrado.
Enquanto isso, caçam-se delinqüentes formados nas casas de detenção, nos asilos de
menores, de um sistema jurídico e policial, alvo de críticas intensas.
Urge contrapor a decisão à histeria. O excesso de desespero conduz ao niilismo de que tiram
proveito os profetas idealizados que desejam uma opinião pública negativa, débil e estúpida.
Portanto, é preciso verificar a emoção social, o que está encorajando desempenhos rígidos e
hostis, nas suas raízes de constipação ética e psíquica.
Margaret Mead argumenta que as exigências das culturas sobre seus participantes são mais
suportáveis para uns do que para outros.
A inquietude faz parte da origem da irritação, módulo das tensões presentes nas sociedades
violentas. Equilibra-se a ansiedade de ordem e autoridade com a possibilidade de manifestação
das expressões emocionais, lembrando a árvore genealógica da Destrutividade — filha de Hitler,
sobrinha-torta de Stalin com Al Capone, neta de Torquemada, bisneta de Calígula, aborto do
ciúme e da frustração.
Na comunidade, os desencadeantes da emoção são suscitados pelos conflitos. O ritmo
frenético do ódio e do crime diminuiria se o homem figurasse não como objeto, mas como agente
de mudança, o que demanda alto grau de maturidade.
Relações sociais harmônicas e interação construtiva dependem de sentido comunitário
(convívio amistoso), sentido de participação (integridade de envolvimento com o meio ambiente
físico e social) e sentido de controle (responsabilidade, no jogo da permissividade, para canalizar
os impulsos inconscientes).
Instituições modelares e a transformação de nossa cultura dependem da participação de
todos e não de infantis e românticos anelos radicais de esquerda ou direita (metabolização
ideológica dos medíocres e infelizes).
A estabilidade social depende da satisfação humana — única premissa revolucionária real —
e esta não pode ser condicionada pelo Produto Nacional Bruto.
Na crítica de Freud à armadilha tecnológica: “Se não existissem estradas de ferro para
encurtar as distâncias, meu filho jamais teria saído de casa e eu não precisaria do telefone para
ouvir sua voz”.
Estender o acesso à plenitude por meio de sistemas humanizados de planejamento urbano e
desenvolvimento geral é a única forma de resposta à equação de Slater — se pretendemos
roubar, roubemos quantias elevadas; se pretendemos matar, matemos grande número de
indivíduos.
Finalmente, o horror deve ser o resultado da revolta contra a tirania, pois o assaltante e o
burocrata terrorista são carrascos medievais, juízes autonomeados da vida e morte do homem.
A arma de fogo do João das Quantas é o instrumento do miserável enlouquecido que acredita
ser o deus menor no altar do administrador corrupto José das Tantas, cuja caneta é o condão
mágico do operacional, simbologia fálica do vazio.
Em contrapartida, a história dos homens é o esforço educado, com os pés no chão e a
cabeça no céu. Poesia versus necrofilia.

Sobre o impulso filogenético


do homem programado para a agressão
Ao “Não Matarás”, o homem responde com o impulso filogenético programado para a
agressão, herdado de uma era pré-histórica.
Realmente, os proto-hominídeos e os homens primitivos eram caçadores, consumidores de
segunda ou terceira ordem. Depreendemos esta informação dos ossos animais encontrados junto
aos dos autralopithecus sul-africanos e outros depósitos de fósseis. Mais tarde, o homem
escolheu uma variedade de carne crua, ostras e insetos para pescar e caçar. Só com o
aprendizado do controle do fogo ele pôde transformar-se, predominantemente, em vegetariano.
Tanto nas pesquisas relativas ao australopithecus como ao Homem de Pequim ou de
Neanderthal, parece que o estranho padrão comportamental de matar um ao outro começou cedo
entre os hominídeos. A vontade de matar, recalcada pela cultura, prosperou, procurando
justificativas ideológicas capazes de inibir o tabu e de evitar arrependimentos na linha da história
primitiva da Humanidade — um rol de assassínios individuais e coletivos.
O homem é o único primata capaz de torturar e eliminar membros da mesma espécie sem
razão biológica, econômica e com prazer. Da prisão ao assalto.
A violência vem resistindo às tentativas de enquadramento da civilização e,
contemporaneamente, acabou-se transformando numa cosmologia que cria seus mitos e exorciza
seus horrores. Pode-se falar num tempo de criatividade imaginativa e fantasia intensiva, de
agressões delirantes de tal sorte que existe uma “consciência” a serviço da violência. Caim
recusa-se ao limbo da marginalidade e pleiteia o papel do carrasco, em nome da moralidade
social.
Tentemos compreender a dialética desta irracionalidade — dimensões, características e
repercussões como fórmulas de alternativas no espaço do livre-arbítrio e da decisão. Afinal, é
dado ao homem escolher entre o convívio e o conflito.
Alguns elementos de pressão que provocam aumento da violência devem ser equacionados.
Travamos uma corrida contra a fome em que constatamos que dois terços ou mais dos habitantes
do mundo estão subnutridos, sem moradia adequada, saúde e educação. A pressão populacional
aumenta nos países menos desenvolvidos, exatamente os mais despreparados para as
demandas. Outrossim, diante das variáveis políticas e religiosas que apresenta, essa questão é
tratada de maneira passional. À exceção dos elefantes, a taxa de reprodução do homem moderno
é a mais baixa entre os mamíferos — mesmo assim, o crescimento é estonteante, em
conseqüência da mortalidade decrescente, processo que começou com o homem pós-neolítico, o
desenvolvimento da agricultura e uma série de fatores tecnológicos que escapam aos
ordenamentos biológicos.
O fator energia é considerável para essas cogitações. Mais combustíveis de hidrocarbonetos,
ferro e cobre tem sido consumidos desde 1900 do que toda a vida anterior do homem na Terra.
Em grande parte, isto se deve à aplicação das máquinas de combustão interna nos transportes. A
preocupação com o transporte cada vez mais rápido, para um número cada vez maior de
pessoas, resulta em incontáveis lesões pessoais no mundo inteiro. Isso sem contar a
problemática da construção das modernas rodovias, com rupturas geológicas que removem terra
e alteram o equilíbrio ecológico sem uma visão abrangente.
A exaustão das reservas energéticas não se limita ao petróleo. A importância da madeira, a
situação da água, os minerais levam-nos a perceber que o meio ambiente é finito.
Os estudos dos problemas de saúde tanto física como mental exigem, num contexto global
de transformações aceleradas, atenção redobrada. Um paradoxo crítico é a contradição de que a
manutenção da vida até idades mais avançadas transforma-se em uma agravante na explosão
populacional.
As ciências da saúde descobrem meios cada vez mais efetivos de resolver os desafios das
doenças e as novas técnicas exigem fórmulas pioneiras, aproveitadas pelo maior número
possível de usuários. Todavia, o fato é que novas clínicas e redes hospitalares terão de ser
construídas unicamente para manter o padrão atual que, unanimemente, é considerado
deficitário.
Na área da educação acumulam-se conflitos interiores resultantes das dificuldades de
adaptação às explosivas solicitações comunitárias, somadas aos inquietantes saltos qualitativos
exigidos por novos conceitos da própria inteligência, cultura e aparato de formação.
Mais habitações, sistemas de esgotos, suprimento de água, uma urbanística que não se
definiu ainda para a ultrapassagem das concentrações simples que formaram as megalópoles,
apresenta baixa qualidade de vida mesmo para as classes mais abastadas.
Neste fluxo e refluxo das grandes cidades, desenha-se a legenda da Rainha Vermelha do
Through the looking-glass, de Lewis Carroll, onde se tem que correr o mais ligeiro possível para
ficar no mesmo lugar.
As guerras, localizadas e não-convencionais, vão-se disseminando com o nacionalismo
chauvinista, ameaçam a segurança do globo com armas de poderosa destruição, como as
atômicas e biológicas. Esse dito nacionalismo alicia, por intermédio do grande alcance dos meios
de comunicação, adeptos suscetíveis à propaganda e ao proselitismo, que inclui em seus
recursos de persuasão o uso da religião e do fanatismo ideológico.
Nos acampamentos verticais em que se transformaram nossas cidades, qual a esperança de
progresso no sentido de civilização? Se o século XVII foi chamado “O Século das Luzes”, a
eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, pôs em dúvida o valor da ciência, da filosofia e
das atividades do espírito.
As causas que desencadearam a Segunda Guerra Mundial enterraram as promessas de
democracia e justiça que haviam sido cultivadas no século XIX e no começo do século XX. A
tortura e a matança foram institucionalizadas e transformadas em hábitos aceitáveis.
A radicalização partidária, o racismo e o terrorismo correspondem à brutalidade que povoa as
artes, deserdadas dos sentimentos nobres, servindo à exposição vulgar e grosseira do crime, do
vilipêndio sexual, das aberrações desumanas. O conflito de gerações toma o caráter de um
diálogo de surdos, da formação de verdadeiras quadrilhas juvenis que infestam os quarteirões
mal-iluminados de guetos fantásticos que dividem as metrópoles, para quem a competição
selvagem é a cínica realidade.
Se queremos controlar os mecanismos da agressão, temos que desativar as ansiedades de
poder e promover uma floração de alegria. Será que teremos, para isso, inteligência que altere ou
limite os impulsos atávicos que levaram ao impasse da civilização? E até, para uma revolução da
esperança, capaz de reverter as expectativas, abrindo o espaço da liberdade na terra dos
homens, em direção a um novo reino de possibilidades, experiências e promessas?
“E [o patriarca Jacob] sonhou: Eis posta na terra uma escada, cujo topo atingia o céu; e os
anjos de Deus subiam e desciam por ela”.

A concentração demográfica
e o comportamento destrutivo
Infelizmente, as tentativas de compreensão dos fenômenos da violência urbana esbarram em
especulações gratuitas e controvérsias de exploração política. De fato, a concentração
demográfica que originou os grandes centros populacionais criou uma complexidade de
comportamentos destrutivos que desencadearam ansiedade e angústia, perceptíveis desde as
reações à poluição sonora até o trânsito, homicídios sem causa direta até a difusa sistematologia
de claustrofobia — elementos estes constitutivos de agressão e hostilidade crescentes.
Conseqüentemente, ocorre uma série de assassinatos que, por suas características
traumatizantes, despertam a atenção da opinião pública, provocando clima de insegurança
pessoal e coletiva.
O noticiário policial focaliza, principalmente no eixo Rio-São Paulo, uma expectativa diária de
crimes rumorosos. Contudo, é preciso cautela para evitar interferências simplistas e
generalizações fáceis.
Sabemos que há duas espécies de agressão: aquela comum a todos os animais, o impulso
filogenético, programado para o ataque ou o recuo quando a vida ou o espaço vital são
ameaçados; e a chamada agressão “cruel”, inexistente na maioria dos mamíferos, sem finalidade,
com objetivo de satisfação lúbrica. O homem é o único primata capaz de torturar membros da
mesma espécie sem motivo biológico, econômico e com obtenção de prazer (sadismo, paixão
pelo poder sobre outro ser de sensibilidade).
Como distingui-las num meio social dilacerante?
São Paulo sofre a migração diária de milhares de pessoas. Em todo o País, são milhões de
migrantes, com as conseqüências decorrentes da mendicância, prostituição, falta de moradia e
escola, declínio qualitativo do nível de vida.
Ao pensarmos uma estratégia para atenuar as tensões causadas pela criminalidade e outras
manifestações de violência urbana, enfrentamos o desafio de uma sociedade brutalizada, com
valores distorcidos, que acaba moldando indivíduos insensíveis e prontos para o ódio.
Vale ainda lembrar que a história da civilização é o repertório de conflitos entre duas
concepções transcendentes: o psiquismo idealizado de Maimônides (1135-1204): “Senhor,
sustenta a força do meu coração, para que esteja sempre pronto a servir o pobre e o rico, o
amigo e o inimigo, o bom e o mau. Faze com que eu veja somente o homem naquele que sofre”,
e o imediatismo do tecido celular da destruição, base da patologia comportamental agressiva.
A cidade deve se transformar no espaço da pessoa, no oposto da vertigem infernal em que
mergulharam o egoísmo, o terror e a alienação.
A razão política. A vivência
do homem como ser situado
no mundo e a psicologia social
diante do indivíduo operante

A POLÍTICA DA COMOÇÃO OU A COMOÇÃO DA POLÍTICA? Se partirmos do pressuposto de que o


comportamento humano é altamente ritualizado e de que este ritual projeta-se na sociedade
como extrapolação do psiquismo pessoal, poderemos entender melhor, nos quadros da História,
determinados movimentos, fatos e situações aparentemente inexplicáveis.
Exprimindo uma alternativa emocional para a resolução de problemas, é interessante
destacar que, antes do final do século XIX, não existia uma palavra na língua japonesa para
“lógica”. Posteriormente, o padrão de pensamento ocidental concretizou-se na palavra “rogikku”,
a aplicação da racionalidade.
O paradoxo do rito e do absurdo está presente no assassinato de John Lennon em 1980, que
trouxe à tona o uso da ambivalência ódio-amor e da morte como elementos sociais de
transformação. O atentado pessoal como instrumento na dialética do poder.
Independentemente das motivações pessoais do criminoso, o acontecimento denota duas
lições essenciais que precisam ser analisadas: a relativa facilidade com que um só indivíduo, num
gesto tresloucado, pode efetuar a consumação de mudanças básicas no contexto humano em
nível nacional e até internacional; e o turbilhão de ambíguos e irrefreáveis sentimentos coletivos
desencadeados por um evento desta natureza.
Politicamente, a começar desta verificação, com a capacidade de irradiação e simultaneidade
dos órgãos de comunicação para as massas, principalmente o rádio, a TV e, mais recentemente,
a Internet, existe a possibilidade de que grupos ideológicos sem pruridos éticos galvanizem estas
potencialidades em benefício próprio.
Certos crimes são antológicos — nesta ordem de possibilidades: os assassinatos de Leon
Trotsky, Abraham Lincoln, Gandhi, Martin Luther King e os Kennedy, por exemplo.
No entanto, a agressividade e o passionalismo dramáticos não dependem sempre de luta,
violência, lesão ou contato físico. A maioria dos conflitos é resolvida por sinais sociais que não
exigem uma disputa direta. O comportamento agonístico é sofisticado e formalizado — desde os
chimpanzés selvagens até os círculos da ONU — onde o sim significa não, paz é sinônimo de
guerra e a hipocrisia baila num concerto de máscaras enganosas.
Em certas ocasiões, a simples emissão de informações ameaçadoras é suficiente para
submeter pessoas ou grupos ao domínio e ao pânico. Sabem-no os chantagistas (à mesma altura
do delito comum), os seqüestradores ou os candidatos ao arbítrio das ditaduras.
Palavras, gestos, programas e exibições agressivas substituem, às vezes com economia de
esforços, o ataque propriamente dito. Tanto Hitler como um macaco babuíno sabem que, em
geral, também obtêm êxitos por meio de ameaças.
Os dentes caninos expostos e o pêlo eriçado das costas causam a impressão de aumento da
cabeça. As pálpebras brancas cobrem momentaneamente os olhos, e produz uma sensação de
ferocidade. Vocalização de gritos, punhos erguidos, histeria, olhar fixo e penetrante, o braço
acima da cabeça, o arquear do dorso, o uso de símbolos como armas possíveis são
componentes da propaganda, atitudes da cultura do medo.
Que papel desempenham a emoção desvairada e o choque nos exercícios do controle? Qual
o peso diagnosticável do homicídio como fator de desequilíbrio comunitário?
Em versos que a arte do bardo levará através dos séculos, os Beatles atreveram-se a
desafiar o ódio e o desentendimento: You say Goodbye, and I say Hello! (Você diz adeus, e eu
digo alô!) Este fenômeno — que não foi só musical, mas político, pelas energias que liberou —
não ocorreria sob um regime totalitário. Era uma declaração fundamentalmente pluralista que
dependia da distinção, do convívio das diferenças, ou seja, de um espectro democrático de
linguagem.
O terrorista que atinge as pernas do jornalista; o estado demencial que extrapola sua vontade
delinqüente na manutenção de reféns; ou a epidemia criminosa com contornos de guerra civil,
nas grandes cidades, são os contrapontos da deserção da razão e da inteligência que encobrem
a indiferença sob o disfarce da crueldade.
O desprezo do talento, da identidade do homem — qualquer que seja ele e em quaisquer
circunstâncias — na Terra é degradação que serve à filosofia da comoção na política, que arma a
tortura policial e convoca os urros nos comícios do ódio. Este comício é a arena romana do nosso
medo.
Entre o verso e a arma de fogo balança o pêndulo do mundo que busca um tema de
esperança enquanto precisa defender-se dos deuses da morte.
É preciso sonhar com uma escada de anjos subindo em hierarquia celestial — na
beatlemania, I wanna hold your hand (Eu quero segurar na sua mão) — para ouvir a pergunta dos
astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin em 1969: “Que são aquelas contas coloridas na
janela?”, para não transformar a existência num medíocre e contínuo pleito de câmaras
municipais ou numa caça às bruxas perpetrada por messiânicos, fanáticos e iluminados.

Interesse: estar em tomar parte.


A relação entre a pessoa e o mundo
Enquanto sente motivação, a criança atua nos folguedos. Esgotada, vem o tédio, até novo
interesse provocar sua tensão impulsiva.
Etimologicamente, “inter-esse” é estar entre, estar em, tomar parte. Portanto, uma relação
entre a pessoa e o mundo. Corresponde a um estado interior que depende de satisfação e
excitação, tensão e distensão. E o indivíduo seleciona uma situação que o seduz. A indiferença
opõe-se ao interesse. A forma latina acédia, derivada do grego, em nossa língua significa apatia e
prostração, cuja conotação ética pode ser: o homem que não cuida do seu dever.
A despreocupação com o destino social leva o indivíduo a se transformar no deserteur du
monde, um estranho entre as gentes, um peregrino na cidade e no seu tempo, aparentado ao
gozador que, impossibilitado de conviver com a ação, é motivado pela ameaça e a violência,
frutos da egolatria e da cultura do prazer.
A fuga da participação se faz em geral por meio dessas duas vias: a apatia ou a busca do
prazer limitado.
A observação de certos ângulos da Psicologia Social nos permite verificar a ocorrência desta
fenomenologia nas sociedades totalitárias, como seqüela da centralização dos poderes, da
burocratização das decisões, da globalidade representativa. Por outro lado, a vontade de
intervenção é característica das sociedades abertas, livres, em que os jogos democráticos
dinamizam as possibilidades plurais.
Na engrenagem coletiva totalitária, o indivíduo operante ou é cooptado para o serviço do
Poder, ou marginalizado, tomado como inimigo da massa unânime. A participação pode ser
qualificada como uma experiência de aspiração com objetivo. Se a aspiração já está determinada,
o homem é levado ao estado de “repouso acordado” definido como ócio, do qual foge por meio da
rotina que pode ser entendida como uma espécie de amaro far niente, o mal-estar da inatividade
típico do comportamento patológico dos períodos da ditadura, em que o paternalismo grosseiro
deixa ao cidadão um divertimento “espasmódico”, agitado e sem conteúdo — no esporte, na
cultura ou no trabalho. Zamgwill diz: “Tirem-me a esperança de mudar o futuro e enlouquecer-me-
ão”.
Nos regimes totalitários — grandes ou pequenos, do passado ou do presente — o excesso
de excitação ou hiper-tensão — desfiles, discursos de várias horas, ondas culturais de histeria
coletiva, preocupação excessiva com o planejamento onipotente, palavras de ordem substituindo
a crítica direta — criam a neurose coletiva, que substitui a participação democrática, pela guerra
no Exterior (ou pela revolução permanente no Interior), sejam quais forem as suas justificativas
ideológicas. A apatia ou a superexcitação são resultantes da sobrecarga de ansiedades e
expectativas provocadas pelo marasmo totalizante. Um tempo histórico que oscila,
pendularmente, em forma de doença social.
A sociedade democrática abre a possibilidade do futuro e potencializa as variáveis de
mudança, dependentes da ação.
Em oposição, as tendências autoritárias ensejam uma espécie de perversão, denunciada por
Koestler: “Se um paranóico lhe confia que a Lua é uma esfera que os marcianos encheram de
vapores afrodisíacos a fim de entorpecer a humanidade, e você se opõe a essa atraente teoria
por falta de provas, ele imediatamente o acusará de pertencer à conspiração mundial dos
inimigos da verdade”.
Certos comportamentos em nações presas à “Síndrome da Agressão Ritualizada” como
substituta da participação lembram um relato feito por Delgado em que, certa vez, um missionário
intentava convencer um selvagem de que o canibalismo era um mal. O selvagem assinalou que
os homens brancos faziam a mesma coisa porque se engajavam em guerras e matanças. O
missionário admitiu que isso era, de fato, verdade; contudo, em um tom moralmente superior,
acrescentou que pelo menos os homens brancos não comiam as suas vítimas. A isso o canibal
retrucou: “Então, para que matar? Que desperdício!”.
Exige-se a nossa atenção relativamente ao entorpecimento da inteligência criativa, com a
ocorrência do vocabulário repetitivo, da sociologia dogmática e da ideologia frívola que
operacionalizam o autoritarismo, em contraposição à mentalidade renovadora, inerente ao
sistema democrático. A nossa interioridade conjuga-se à nossa exterioridade numa
permeabilização emocional, cultural e espiritual, ao passarmos da “era dos meios” para a época
dos problemas.
A multiplicidade da produção tulmutuária que se perde no consumismo desenfreado conduz o
homem a um conjunto de paradoxos: agachado, horizontalmente, diante de um Estado-Leviatã
que exige mais, cada vez mais, sob a ameaça permanente de privações temidas como o Inferno,
viciado que está em ver na satisfação dos prazeres a sua “razão de ser”; e uma obsessão pela
procura de novas experiências vivenciais no vazio profundo das drogas, na pornografia, nos
modismos excêntricos, no endeusamento carismático dos oportunistas e charlatões dispostos a
oferecer o Paraíso em troca da liberdade.
A possibilidade de ser agente (pessoa) e não objeto é o oferecimento ambíguo, difícil e, não
obstante, insubstituível dos verdadeiros regimes democráticos.
O totalitarismo vem deixando, mundo afora, milhões de zumbis com fogo nas veias,
incapazes de resolver seus destinos e de tomar o poder nas mãos.
No eixo entre a dominação e a liberação, por debaixo de ilusão, impulsos ou mistificação se
inscreve a única opção que a sociedade deve fazer. A democracia rende estas possibilidades
para o psiquismo humanizado — o exercício do poder pelo povo, um estado de igualdade perante
a Lei, a generalidade dos direitos, o acesso a todos os cargos sem distinção espúria entre classes
governantes e governadas, a luta contra a servidão, a função na vida intelectual e moral com
solidariedade e instrução, a tendência para uma legislação renovada e, principalmente, a
realidade liberal do estado psicológico que, na democracia, impede a autoridade imposta — até
mesmo por maiorias variáveis — de violentar o senso ético.
Aqueles resistentes em aprender a lição da História estão condenados ao monólogo do medo
que, por sua vez, conduz à violência do desespero: e uma sociedade desesperada é o ambiente
cultural propício ao crime impune que, quando impera, inibe os recursos dos cidadãos e
transforma a democracia numa zombaria.
Este jogo pode ser armado num inteligível tabuleiro de lógica, pela dicotomia de citações que
encarnam a rude e verdadeira eleição espiritual: de apatia ou participação, como objeto ou
agente, na massa amorfa ou na plenitude democrática da relação inter-humana, no canto de John
Donne (1572-1631): “Nenhum homem é uma ilha em si mesmo, todos os homens são um pedaço
do Continente, uma parte do Todo; pois se uma parcela de terreno é arrebatada pelo mar, a
Europa é lesada; mesmo que se tratasse de uma Morada de teus amigos ou do teu próprio eu... a
morte de todo homem me diminui porque faço parte do Gênero Humano. Portanto, não perguntes
jamais por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”. Lágrimas, sorriso.
Assim não haveria a cumplicidade dos silêncios diante da tirania, o deboche pela corrupção
nem o aplauso pela mediocridade do niilismo.

A tirania nivela por baixo


Trasíbulo, o tirano de Mileto, pediu a Periandro, tirano de Corinto e um dos sete sábios da Grécia,
conselhos sobre a arte de governar. Em vez de responder, Periandro nivelou um campo de trigo,
cortando as espigas que se sobressaíam. Máximo Divisor Comum.
O julgamento de Chiang Ching — viúva de Mao Tse-Tung (1883-1976) — e companheiros de
desdita reabriu a cena para mais um espetáculo da miséria moral do nosso tempo, bizarra
encenação que os ditadores necessitam para justificar seu comportamento e que, com alterações
de menor importância, se repete desde muito e em circunstâncias diversas: em Berlim, quando os
nazistas precisaram de um bode expiatório para o incêndio do Reichstag, desencadeando o
terror; na Tchecoslováquia, em 1952, quando Rudof Slansky, então Secretário-Geral do Partido
Comunista, acusado de espionagem para o Sionismo e os EUA, foi condenado à pena capital; na
URSS, durante os processos intermináveis em que Stalin liquidou as possibilidades da resistência
ideológica e, na sua paranóia de síndrome persecutória, dizimou os quadros da elite militar e
partidária que culminou com o Julgamento dos Médicos, projeto de um genocídio cultural
interrompido por sua morte oportuna. Foi esta uma loucura com método, que afirmara em 1938
que os médicos mataram Máximo Gorki; e, posteriormente, no final do terror stalinista, assumia
uma característica social de morbidez denunciada nas memórias do escritor soviético Ilya
Ehrenburg: “Todos diziam que nos hospitais reinava um inferno. Muitos doentes olhavam para os
médicos como para assassinos covardes e se negavam a tomar os remédios”.
O uso do Poder Judiciário, acanalhado e desfibrado, a serviço do Executivo totalitário, leva ao
requinte da confissão como elemento de mistificação pela coerção externa e interna, e visa forjar
uma consciência teratológica do homem — ou estruturas demenciais que aprisionam a alma e a
entregam ao escárnio do mundo, às vezes de maneiras marginais, como aquela que martirizou a
OAB por consubstanciar os Direitos Humanos, em Lyda Monteiro da Silva.2
Em seu libelo acusatório, o promotor chinês Huang Huequing afirmava que a “camarilha dos
quatro” era responsável pela morte de 34.374 pessoas, por perseguições contra 727.420 e o
expurgo de 425 líderes. A minúcia e a exatidão, paixão sádica e mentirosa, desnuda a infâmia
burocrática que, em Kafka, foi reduzida à dimensão do subjetivo. O Processo já antecipava o
dantesco espetáculo televisionado de Pequim e denunciava a angústia do indivíduo diante da
acusação telúrica do mundo moderno: o crime de pensar, o delito da dissidência.
A pantomima dos acusados que, qual farrapos de gente, afirmam: “Mereço a pena pela qual
estou sendo julgado neste tribunal especial” (Jiang Teng-Jiao), ou “Estou consciente de ter
cometido crimes demasiado grandes. A acusação está fundamentada nos fatos e, portanto, é
eqüitativa” (Wu Faxian) — repete-se, monocórdia, nas cortes demoníacas que traem a esperança
e encarnam a imaginação delirante. Para a apreciação desta fenomenologia de violência, é
fundamental a constatação de um traço comum: a vontade de quebrar as oposições, intelectual,
moral e psicológica; a intenção de provar que qualquer resistência é inútil, que o poder tudo pode.
A invasão final do espírito e o estupro do ego. Chen Boda, de 76 anos, precisava receber
inalações de oxigênio no próprio tribunal. Não seria de espantar uma cena de Tonton Macoute, a
polícia secreta da ditadura de Baby Doc no Haiti, levando o cadáver de um torturado para, através
de um médium, recitar seu mea-culpa, mea maxima-culpa...
O ódio contra a dignidade é refletido num comentário do “Diário do Povo” chinês criticando
Chiang Ching: “Usando a habilidade de encenação de seus dias de atriz, ela manteve
deliberadamente a cabeça erguida, sob o olhar da multidão, e passeou lentamente pelo tribunal.
Foi um espetáculo nauseante”.
A compostura é um desafio e um insulto para o tirano.
Cumpre-se a humilhação. E o sarcasmo final. Nos campos de concentração hitlerista havia
um dístico nos portões: “O trabalho alegra”. A câmara de gás era a façanha do cérebro diabólico.
Com a farsa chinesa, desmorona outra sedutora ilusão do totalitarismo.
Quando os sonhos infantis e as carências das multidões irão permitir o repúdio ao exercício
da servidão?
Com o homem transformado em agente da história, desencadear-se-á o contraprocesso dos
delegados das violências, culpados pela figura da “não-pessoa”, zumbi das farsas jurídicas dos
Estados policiais.

O poder como inspiração de temor


Os conflitos sócio-econômicos e os desafios culturais impõem o discurso do sentido ético do
homem e até sua viabilidade nos planos da natureza, diante do uso indiscriminado das forças
que, na história, levam ao medo, violentam a independência individual, desmoralizam a crítica e
traem as emoções.
Na inspiração de Isaías, no testemunho de Martin Luther King, no fervor de Sakharov a
resistência a estes impulsos transparece através das idéias e do despojamento, contrapondo-se o
sofrimento e a esperança à crueldade, o clã e o tribal à arrogância e ao ódio.
A aspiração profética de libertação, o esforço pela tolerância e o pacifismo, o cuidado de
justiça para os pobres e impotentes têm sido um compromisso desesperado da mente humana,
que informa o comportamento ou, pelo contrário, serve ao processo de alienação totalitária ao
usurpar os direitos da espécie, farrapo do contrato entre o espírito e a matéria, terreno comum
dos mafiosi e ditadores, corruptos e ignorantes — a massa informe e delirante nas arquibancadas
da cena comunitária.
Expressões dramáticas dessa desmoralização do pacto de redenção evoluem em todos os
quadrantes, como na Arábia Saudita e na Itália.
Em Jedá, numa sexta-feira, dia dedicado a Deus pela religião mulçumana, decepam a
cabeça de um moço de vinte e cinco anos de idade em cerimônia aberta e documentada
fotograficamente. O sangue derramado, a passividade do executado e a reação entusiástica dos
assistentes são transmitidos, para o escândalo das gentes, pelas agências de notícias.
Entretanto, nas páginas internas dos jornais e nos comentários apressados da TV, perdem-se
entre a notícia de um incêndio e a fofoca partidária. Esse estupro estatal de um corpo não
provocou indignação ou condenação, porque não está inscrito nos registros propagandísticos dos
grupos de pressão da opinião pública. A manifestação da bestialidade, assumida pelo governo de
uma nação que se faz representar nos organismos internacionais, caiu no vazio covarde de uma
linhagem de abstenção: que me interessa o crime de Jedá? Contudo, a distância — letal,
hipócrita e seletiva — já prepara um próximo comício de protesto em nome da “solidariedade
internacional”, motivada no Congo, na Espanha ou em Caixa Prego, variando desonestamente
segundo conveniências partidárias imediatistas.
Na Itália do gênio humanista de Beccaria, os remanescentes fascistas, por meio do MSI, vão
às ruas coletar assinaturas exigindo a aprovação da pena de morte. A marcha-ré no sistema de
valores morais pretende a entrega, de mão beijada e num consenso democrático e popular, do
direito supremo à vida ao Estado.
Na verdade, o acaso reúne os impulsos de morte do marginal e do enquadrado na blasfêmia
comum, o autoritarismo e a veleidade de coisificar o semelhante até a destruição final, a
eliminação física e a morte; o apagar da memória, baleada pelo terrorista das Brigadas Vermelhas
ou executada numa câmara governamental, com mandato legislativo e gratuidade do ato de
poder, irrestrito no exercício da lei da selva, que se dá na armadilha ideológica e na tortura
política, habita em todas as latitudes, no tempo e no espaço.
Vivemos a carência do traço divino, o assalto à zona do amor que repele o perdão, a
clemência e a justiça. O desinteresse real pelo destino da alma e pela transcendência
desencadeia diabólicas intenções e desencontros, ressuscitando a cosmogonia do inferno, cujas
descrições se embrulham entre crônicas futebolísticas e fotos sensuais.
O resultado é a indiferença, vizinha da ignomínia.
Feito à imagem e semelhança de Deus, o homem não pode chegar a ser Deus. Confuso e
atribulado no labirinto de suas angústias, inerte para construir a vida, compensa destruindo-a sob
pretextos ideológicos, no processo jurídico ou, simplesmente, no drama do mal.
Laços incestuosos com o inconsciente prendem o ser à forma e fazem-no desprezar a
essência.
O respeito à consciência e aos princípios de moralidade integra o homem ao
desenvolvimento grupal, enquanto a idolatria do poder, em qualquer instância, implica a perda da
liberdade, o que acaba por divorciar a fé da esperança.
As referências de estrutura da nossa civilização dificultam o interesse e a participação
autênticos que, em última análise, ligam-se ao direito de viver, mantendo a identidade
compassiva.
A Imitatio Dei começa na prática do amor ao próximo. Barnard transplantou o coração. Sem
ele, resta o desespero do mistério que alimenta o terror e a violência no logro da salvação.
Sodoma e Gomorra instalam-se numa ditadura sul-americana, numa cubata africana ou num
Gulag russo, quando a cartografia se transforma num capricho demonológico, na tensão entre o
sagrado e a indignidade.

“Desde o princípio do mundo os homens sempre buscaram silenciar as línguas. Mas as


palavras do primeiro homem serão novamente pronunciadas pelo último homem, pois nunca se
deixará de falar”, é o que diz uma antiga lenda chinesa.

A gênese do totalitarismo e as massas


A massa assinala sua presença na História a partir das primeiras décadas do século XX, com a
gênese das estruturas totalitárias, quando surge o endeusamento da quantificação social, do
desprezo pelos direitos humanos e pela sacralidade da pessoa. É a época em que o “povo” passa
a incorporar uma entidade, como se fora um organismo vivo e independente.
Um requinte de mau gosto estilístico recebe o prêmio da aceitação pública, pois o “povo” é a
personagem da trama, o fetiche de todos os talentos num maniqueísmo em que o “inimigo do
povo” encarna a demagogia.
A ligação entre a figura sociológica da massa e o chefe carismático está vinculada à
compreensão da emoção. Trata-se do fim da explicação racional, um tempo fora da consciência.
O carismático se comunica com a massa por meio do sentimento e procura atiçar as relações de
dor e de prazer. Usa da lascívia, do ódio, do engano, do desespero. A massa tem dificuldade em
tolerar a emoção, que exige disciplina intelectual, e o Chefe assume o controle e os
encaminhamentos, lembrando as funções dos treinadores que ensinam ursos e cachorros.
Entre o chefe e a multidão estabelece-se um diálogo implícito, em que ele fica calmo quando
ela enraivece e se enraivece quando ela se aquieta.
Aliás, a hostilidade pode ser explicada por Émile Zola: “A verdadeira máxima do homem-
massa é esta: sei que sou um verme, mas todo mundo é...”.
Violência e hostilidade estão próximas da identidade percebida, fenômeno comum em
períodos de transição. Uma das maneiras propostas para a canalização da emoção é a paixão
servindo à ideologia, à ambição, ao ódio racial e religioso, à indulgência sensual, fanaticamente
compostas.
O meio ambiental da cidade moderna é propício para esse estado de espírito, porque
acumula os instrumentos de serviço gerando desconforto. A múltipla oferta de serviços
automáticos, impessoais e, opcionalmente, à distância, entorpece os instintos naturais de
observação e profundidade.
Nas antigas cidades da América Central ou numa cultura descoberta na Anatólia, a
dependência costumava ser de um grão — por exemplo, da cevada — em oposição à cidade
hodierna das opções infinitas, que redundam num peso para o psiquismo individual: “Longe da
ignóbil disputa da multidão exasperante, aprenderam a não dispersar jamais seus sóbrios
anseios”, lembrando Gray.
O homem perdido no redemoinho das solicitações reduz-se até o útero da massa. Não
pensar ou discordar. Um povo, uma pátria, um chefe, o untermensch, anseio neurótico por uma
fantasia de disciplina capaz de evitar a angústia existencial. A palavra de ordem em oposição ao
universo singular de Bach ou Garcia Lorca.
Ressalte-se a importância do rádio no processo da ascensão nazista que, segundo McLuhan,
se deve ao sincopado, ao intervalo que substitui o mundo da conexão. A hipnose no ouvinte, que
troca o raciocínio pelo embalo. Isso é constatado nos discursos dos caudilhos tribais, ambíguos,
em que o eco é mais importante do que a frase. A repetição, o esdrúxulo e o inusitado ocupam o
lugar do raciocínio lógico e da idéia bem disposta.
A noção de massa leva à transformação do homem num “estranho para si”, o princípio da
alienação, uma espécie contraditória de egoísmo no plural, tal como descrito por Aldous Huxley:
bem alimentado, bem vestido, sexualmente satisfeito, mas sem individualidade harmônica, sem
convivência real com seus semelhantes — componente da horda que tem como objetivo o bem-
estar e o gozo, a satisfação de “ter” objetos, alimentos, paisagens, bebidas, cigarros, palestras,
arte...
Uma das variáveis da ideologia da massa é o “sacrifício pelo Todo” com o esquecimento do
eu, num gênero de autofagia. O coletivo tende para o amor idólatra, a necessidade do ídolo, em
quem se projeta.
A fé é uma condição da existência humana. Desfigura-se quando transferida ao carismático,
em quem se deposita um mandato incondicional. Em oposição à fé religiosa ou às idéias
humanísticas, a obediência cega ao dirigente marca a diferença entre educação e manipulação.
Educar significa levar em frente, fazer com que se desenvolva o que existe em potencial,
enquanto manipular é aquilo que se faz com um instrumento.
O Chefe é onipotente. Dele depende e a ele submete-se a massa sem vontade. O crente é
aquele que obedece à Regra de Ouro “Ama a teu próximo como a ti mesmo”, que não pode ser
estabelecida com o tirano, que não espera amor, mas devoção através da anulação da
personalidade do adepto. O demagogo exige arrebatamento e perda de controle por mecanismos
compulsivos; portanto, uma conduta oposta à igualdade nas relações humanas.
A conseqüência do regime da massa é a ditadura, um painel onde se pode estudar esta
pragmática. Uma vez derrubada (dificilmente ocorre a sucessão pacífica de poder neste sistema),
por revolução ou guerra, o cidadão é acometido de uma febre de consciência: das haben wir nicht
gewust, “eu não sabia..., eu não tive culpa...”.
O arrependimento pela perda da individualidade, da imersão na manada dos elementos
ativos e passivos, responsáveis pela ordem política da submissão terrena, precisa ser
questionado, para que não se esgote em si.
A transformação em um Estado autoritário dá-se com o sacrifício da alma do homem, a perda
do senso crítico. Por isso, a inteligência não sobrevive neste estado/Estado em que os ideais de
justiça são usados para a criação do sistema de opressão.
Em relação ao uso que a demagogia possa fazer dos meios de comunicação de massa, o
perigo é de que a televisão possa ajudar a formar indivíduos insensíveis, uma sociedade de
gostos comuns, aquilo que Tocqueville chamou de “tirania da maioria”, que pode levar à
repressão legalizada das minorias. Existe muito espaço para os aspirantes da ditadura num
mundo em que dois terços da população vive com renda per capita anual de um punhado de
dólares e quase metade é subnutrida.
A mortalidade infantil é quatro vezes maior nos países pobres do que nos ricos. Um quinto de
todos os homens nos países pobres não tem emprego, enquanto gasta-se centenas de bilhões de
dólares em armamentos. O ex-Primeiro-Ministro canadense Lester Pearson certa vez declarou:
“Um planeta não pode, assim como uma nação, sobreviver metade livre, metade escravo”.
A massa manobrável é capaz de confundir o Museu de Cera com o Panteão Grego. A
desorganização mental — que transforma a Universidade em ginásio de asneiras, a Justiça em
circo de gladiadores e a Verdade em instrumento dos medíocres — faz a roda da História girar
velozmente... para trás.
Enquanto comunidade capaz de manifestação livre, o povo resiste aos “iluminados” e traça
seu próprio destino, respeitando todas as opções. O saber humanizado, inclusive com direito à
desobediência, é o antídoto para a demagogia e o totalitarismo, e deve servir ao discernimento
como substitutivo da mobilização passional, eis que a forma de evitar a fúria do fanático é
conhecer seus mecanismos e desarmá-los.
Para o militante, viver significa estar de acordo com modelos impostos por meio de gestos
paradigmáticos e cerimoniais. Sua existência é um investimento no clichê e no arquétipo. O
empobrecimento espiritual do homem-massa, que pensa de acordo com os modismos das
imposições doutrinárias, é retratado no anticlímax do historiador norte-americano Daniel Boorstin:
“‘É uma linda criança a sua, madame’. ‘Isso não é nada, espere até que eu lhe mostre uma
fotografia dela’”.
A vida e a foto; a foto da vida.

O povo como artifício de falsa representação


Para a clara expressão da vontade popular exige-se pluralismo partidário concreto. A
ambigüidade e a indefinição agravam manifestações colaterais de ação política, espraiando-se
para as universidades, a ciência, igrejas e sindicatos, bem como, perigosamente, para atos
individuais desesperados, grupelhos de ação direta ou a simples derivação criminógena. A vaia e
a agressão substituem a conversação.
As alternativas de possibilidades ideológicas devem ser mais uma conquista comunitária do
que uma dádiva do Príncipe, embora seja de bom conselho que o soberano tenha a sensibilidade
necessária para ser o porta-voz do anseio comum, caso contrário o consenso público ameaçará
seu poder.
A galvanização do tácito regime de participação da sociedade nas decisões maiores teve um
instante épico nos anais de nossa crônica. O episódio é referenciado pelo ex-ministro Leitão da
Cunha (entre 1945 e 1946), em “Foi o povo que declarou a guerra em 42”.
O testemunho lembra a resposta da opinião pública, criando a iminência que significou o
envio da FEB à Itália para combater o Eixo. Foi uma vitória na rua, com múltiplas ressonâncias
para o ulterior desenvolvimento das saídas internas, exorcizando o sistema ditatorial de Getúlio
Vargas.
Além disso, o cortejo dos depoimentos na obra delineia um quadro nítido debaixo de
perguntas aliadas que permite compreender a psicologia social, ao informar alguns instantes
dramáticos da mentalidade de líderes e liderados, daquilo que se convenciona chamar de “povo”.
Aliás, certa vez, numa certa cidade de um incerto país, um demagogo se dirigia flamante e
vaidoso ao seu auditório, falando em nome do “povo”. Um gaiato que assistia ao comício
solicitou-lhe a exibição do mandato: “Quero ver a procuração outorgada pelo Sr. Povo da Silva,
com CIC e RG, endereço sabido e qualificação... se não desmascaro a farsa da representação...”.
Realmente, quanto menos significante é o processo de eleição, mais se exercita a
autocredencial. Massa marginalizada, sem direitos, tem donatários às pencas... Num estupro do
bom senso e da semântica, temos a “ditadura do proletariado”, em que votação é plebiscito de via
única, uma nação em que se permite a oposição a favor, combinando bem com os rascunhos
nacionais — que fazem questão de situar o país numa geografia do absurdo, no continente do
Terceiro Mundo —, rascunhos nos quais o trono do déspota se justapõe no altar do
megalomaníaco fanático, não importa se à esquerda ou à direita, ambos escamoteando a
condição de comportamento consciente do cidadão.
O contemporâneo favorece o culto de mistérios: o sim traduzindo o não, o não aplaudindo o
quem sabe, e os dois, uma seqüência mecânica de purgação da angústia, um clichê que faz da
tecnologia o abrigo da alienação.
O fundamental é afastar o homem da obsoleta cultura democrática. Não pensar, não decidir,
não participar. Arquétipo anatômico totalitário enraizado nas cavernas, atravessando o tempo
suicida e desembocando no horror, negro ou vermelho, assassino ou manso, da liquidação
pessoal ou do “zumbi” consumidor de uma vida Felliniana.
Numa noite dessas, num flash otário, um político (na escassez de vocações, a síndrome
burro-cenoura consagra o tipo) concedia seu parecer num programa de TV de altíssima
audiência. A impostação da voz, os trejeitos de corpo, o artificialismo do olhar de águia, aquela
impressão fingida de fidelidade que o desacredita fazia corar um frade de cimento armado. O
bobo, deslocado no tempo e no espaço, arengava uma oratória radiofônica. Desconhecia ou
minimizava o telespectador, capaz de ver sua cara dura num tormento de Jeremias: por que
prospera a vida dos ímpios e são afortunados os pérfidos?
É nessas que se esvazia a esperança por uma honesta instituição de conseqüência
doutrinária: partidos autênticos, canais de investimento para o veículo de idéias opostas no trato
da Economia, da Escola, da Saúde Pública, enfim, da Administração e da Filosofia.
Afinal de contas, a agremiação do caudilho ou do arrivista não tem qualquer filosofia ou
lealdade de princípios. O indivíduo que se agita num grotesco faz-de-conta é a figura que “casou-
se com sua sombra”. Hoje comunista, amanhã fascista ou vice-versa — que o recado chegue ao
destino, no mapa do inferno. Suas emoções efêmeras variam de gosto, mas não de gasto,
satisfazendo-se com a emulação, tal como o desejo de um propósito inalcançável. Burro de êxito
faz burros os demais que, na abdicação da revolta, se fizeram medíocres.
Para o fato democrático não existem duas faces, suave ou grosseira, assim como a
virgindade não admite tonalidades dubitativas. De um filé se gosta, por um sonho se apaixona; na
troca de sinais que o tolo comete, apaixona-se pelo filé e gosta de sonhar.
“Fazer o memorial da servidão ou a via única da liberdade”. Lembra-me Cecília Meirelles, em
“Ou Isto ou Aquilo” (1964).

Um estudo psicológico
sobre as relações entre os Poderes
Esta é uma tentativa de compreensão das relações entre o Legislativo e o Executivo, máxime das
pressões e contrapressões que se estabelecem. Tomar-se-ão elementos fornecidos pela
Psicologia Social. Como entender os jogos do Poder numa dimensão coletiva sem acudir aos
ensinamentos da ciência do comportamento?
No Brasil, com interrupções históricas de menor significado, temos vivido sob um
presidencialismo rígido, quando não sob o regime autocrático, nas palavras de Sampaio Dória: “O
Chefe de Estado ou é rei hereditário e perpétuo, cuja vontade decreta e executa as leis, ou é um
caudilho que, usurpando ao povo a soberania, decreta como poder pessoal as leis que executa
ou manda executar. Um e outro, onipotentes e irresponsáveis. Os governados estão paralisados e
sem voz, sob o jugo da não-partilha do déspota, coroado ou sem coroa”. Esta é uma realidade
profundamente entranhada no psiquismo do Poder em nosso país, e que mereceu uma
dissecação, em profundidade, de Oliveira Viana em Instituições Políticas Brasileiras: “Nos
engenhos e fazendas, só o senhor decidia, ordenava, mesmo em questões que só interessavam
à população moradora e à sua vida econômica”.
O povo não tinha a quem recorrer contra a autoridade onipotente; desarmado, não dispunha
de independência de ação e de pensamento, nem do conhecimento prático de qualquer
instituição democrática. Carecia de consciência jurídica, decorrente dos costumes e tradições,
para determinar o comportamento dos homens na vida pública.
Realmente, nosso domínio rural, como se organizou, não continha, nem em sua estrutura,
nem em sua culturologia, nenhuma instituição que o adequasse, como no domínio rural europeu,
a se constituir numa escola de preparação das nossas populações rurais para as práticas
democráticas, para os hábitos eletivos, para a preparação objetiva do interesse público da
comunidade. Das instituições democráticas, o que havia eram as idéias gerais hauridas nas
universidades e no direito público dos povos mais avançados nessa questão. A ausência de uma
força própria nascida do contexto vivencial da comunidade, de um coeficiente emocional, só
possível nos complexos culturais que em suas próprias especificidades a si mesmos se criaram, a
ausência em suma de um direito público costumeiro do povo ou consciência jurídica pública,
conforme a expressão de Bielsa, é o que teria gerado “o artificialismo de nossas instituições e de
nossa formação cultural”.
Quais as implicações reais deste quadro de fundo?
A fundação do governo do pai sobre os filhos. Um Poder que tenta agilizar-se, estender sua
influência, fazer-se presente. O Legislativo diante de um Poder onipotente (com todos os vícios
que a exacerbação patológica possa significar), o Executivo.
Essa disputa, o conflito que se trava, encontra sua arquitetura de entendimento na concepção
de Freud — a revolta dos irmãos contra a tirania paterna, que, segundo Marcuse, marca o início
da civilização.
Por suas características e tipicidades — um contexto que admite ideologias diversas,
representadas pelos partidos políticos, discordâncias, propostas diferenciadas de
encaminhamento dos conflitos sociais e dos choques de interesses —, o Legislativo assume a
condição natural de “representante do povo” e, em decorrência, uma identificação maior com a
realidade social na sua globalidade e com a vida psíquica individual. A dinâmica daí originária,
não obstante, pode levar, às vezes, os congressistas a rupturas comportamentais infantis
carregadas de tônus passional. Esta tendência a partilhar, pelo jogo das compensações, permite
certo equilíbrio, evita o pior, mesmo admitindo que o poder único supremo possa dar excelentes
resultados, porém, mais freqüentemente catástrofes, no entendimento de Alfred Sauvy. O que
redunda numa permeabilidade maior com o 4.° Poder e a informação de massa, que tende à
valorização do debate, auscultando a opinião pública.
Não é de estranhar, por isso, que hoje grande parte dos conflitos ente Legislativo e Executivo
se estabeleçam sobre a área comum das relações com a imprensa, que deve ter, além dos seus
tradicionais papéis de informar e ensinar, o de testemunhar, como catarse da sanidade
psicológica do cidadão, desamparado diante do Estado Leviatã. Mesmo porque urge assinalar a
tautologia de que não pode existir democracia sem informação, que por sua vez depende da
postura observadora do Legislativo na instância política do Estado e da imprensa, na rua. Essa
ausência acarretaria a síndrome do abandono para o indivíduo que, frustrado e receoso, acaba
por desenvolver sua agressividade e violência.
Por outro lado, o Executivo se considera, o mais das vezes, mesmo quando oriundo do voto
popular, o “agente” de uma “vontade nacional” abstrata que ele pretende encarnar. Poder que
tende ao exercício individual, numa sistemática de centração auto-referenciada, dificultando a
harmonia de inter-relacionamento, pesando-lhe o respeito à imunidade do mandato parlamentar,
por exemplo.
Infelizmente, a sociedade hoje vive seduções de processos psicológicos regressivos — a
minimização das faculdades de comunicação levando a um estado mórbido e ao não-diálogo, à
incapacidade para reagir e cumprir a cidadania plena, à facilidade de apelo a elementos de
necrofilia — na concepção de Felipe Ramirez: “O parlamentarismo é cortesia cívica, tolerância,
discussão pública, tradição; é, pois sistema exótico em regimes de caudilhagem”.
A autoridade que, por efeito da própria rebelião edipiana mal elaborada, não consegue a
reintrojeção de um superego construtivo, tende a medidas coercitivas, promovendo a hostilidade
e a arbitrariedade.
É fundamental uma tentativa de reflexão sobre estes processos. Pela demonstração da
existência do inconsciente, Freud estabeleceu o princípio do determinismo psíquico, evidenciando
que a razão não é a única condutora de nossos comportamentos. O exercício e a divisão do
poder precisam ser estudados também sob este enfoque, juntamente com o econômico e o
social. Ou então, ficaremos sob o Sísifo, “cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem
fim”. Finalmente, esta introspecção pode permitir a limitação do Executivo, produzindo um efeito
moderador e o delineamento da atuação do Legislativo com bases operacionais vinculadas ao
interesse social.
Um ajuste harmônico, fundado num comportamento maduro entre o Executivo e o Legislativo,
fica na dependência básica da compreensão dos mecanismos internos e externos de tensões e
contratensões. Ou, em detrimento da sociedade, ficam as relações entre os dois poderes
condicionadas por impulsos de mútua agressividade sem corresponder às expectativas
psicológicas da comunidade, necessitada de modelos de equilíbrio na condução dos negócios
públicos como parâmetros de sanidade. Cabe uma citação de Bernard Chantebout: “C’est en effet
l’honneur de nos sociétés que d’avoir tenté d’enfermer la conquête et l’exercice du pouvoir dans
des règles de Droit” (É com efeito uma honra para nossas sociedades terem se esforçado para
consolidar a conquista e o exercício do poder segundo as regras do Direito).

A importância da linguagem
no sistema político-legal
Em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, Humpty Dumpty diz: “Quando uso uma
palavra, ela quer dizer aquilo que eu escolhi que deve significar”. A psicologia da força tenta dar
esta conotação para a linguagem política e legal em toda parte, em toda época.
As sociedades têm seus códigos em que definem algumas ações como criminosas e outras
como aprovadas. Para as primeiras reservam punições, classificadas como sanções e com o
apoio da política organizada.
Toda a história da civilização consigna as leis e seus registros formulados em códigos legais
nos quais a sociedade reflete sua máxima desaprovação, com os conseqüentes castigos.
Tudo indica que um dos mais antigos códigos legais é o de Lipit Isjtar, escrito em língua
suméria, que seria dois mil anos anterior ao Código de Hamurabi, da Babilônia de 1690 a.C.
No Oriente Próximo também foram encontrados os códigos da Assíria e dos hititas. Sempre
existiu, ao longo da História, esta preocupação codificada que se verifica, por exemplo, nas Doze
Tábuas Romanas, no Corpus Juris Civillis romano, no Código Bizantino de Justiniano
e no Código de Napoleão.
Por seu significado transcendental e relevância ética, os Dez Mandamentos de Moisés
podem ser considerados a legislação mais expressiva da Humanidade. Em todos os códigos
legais, o comportamento do homem é solicitado, permitido ou vedado por manifestações verbais.
Por outro lado, fundamentada nesta forma de comunicação, fica sempre evidente que a
palavra pode ser interpretada por enfoques subjetivos e objetivos diversos, dando nascimento à
jurisprudência, ao esforço dos juízes em adequar a lei às realidades sociais e do homem.
Contudo, a debilidade do julgamento e as injunções que se verificam sobre os critérios de
aplicação empobrecem o valor intrínseco do Código Legal e sua práxis política. Neste contexto,
constitui uma extraordinária conquista das últimas décadas o princípio que começa a se
universalizar de que os Direitos Humanos básicos independem da soberania de diplomas legais
conjunturais e restritivos, ao mesmo tempo em que ninguém deverá aplicar uma lei que violente a
consciência ética da Humanidade.
A Psicologia da Liberdade busca fazer da língua um instrumento de tradução verdadeiro e o
mais próximo do espírito, sentimentos e razão do homem. Neste contexto, um código legal só
deve ser respeitado quando identificado com o código moral. Este, por sua vez, deve ser um
conjunto de normas que tenha por única diretriz a noção de amor e de responsabilidade.
Jamais devemos esquecer a infinita possibilidade de adultério das palavras para seduzir a
opinião pública. Hitler denominou o ultimato dirigido à Inglaterra de “Oração à Paz”; Stalin
justificou a ocupação da Europa Oriental com a doutrina de “autodeterminação dos povos”.
De um lado, temos a função essencial da língua como elemento de caracterização cultural da
comunidade e como força que dá unidade e identidade a um povo. De outro, fica claro que se for
usada de forma a associar-lhe referentes deturpados — mediante sentimentos e atos aos quais o
enunciador relaciona suas palavras ao universo de sua subjetividade, doentia no caso de Hitler —
promove a desorganização individual e, conseqüentemente, a social.
É o que ocorre na “Oração à Paz”, de Hitler. Seu referente não é outra coisa senão a
matança de seres humanos inocentes, deturpação e distorção dos conceitos de Oração e Paz
originalmente compreendidos. Mas associado a palavras que retêm significados de valor
transcendente passou a significar a via para o alcance de uma meta humana válida moralmente e
inscrita nas tábuas espirituais, de que o ser humano é portador para encaminhar o bem maior que
lhe está subjacente. A distorção penetra nas consciências nesses tons de significação
transcendente, o que na verdade é estímulo para a barbárie.
Lembrando Freud, para o mundo infantil desenvolve-se uma crença na “onipotência das
palavras”.
O totalitarismo que se serve dos recursos da mistificação das palavras é um momento de
desordem emocional na vida da comunidade, um estágio de primarismo mágico em que as
realidades são exorcizadas pela vontade da minoria no poder, por meio da mensagem alienatória.
Põe em risco a sanidade social e promove como resultado o tumulto, o conflito e a violência na
interação humana.

O sagrado e o profano para o indivíduo


A perspectiva emocional e o impacto do crescimento são dois elementos constitutivos de qualquer
análise sobre a crise em nosso tempo.
Cabe indagar qual atitude a sociedade deve tomar em relação ao meio ambiente: se de
confiança, alegria, indignação, desespero, hilaridade, indiferença — porque esta postura é que irá
levá-la a um comportamento de aceitação, resignação, revolta ou serenidade.
O filósofo Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) afirma que “nada veremos se não tivermos,
em nossos olhos, o meio de surpreender, questionar e dar forma a um número indefinido de
configurações de cor e de espaço”. O esforço de entendimento do universo é a base para o nosso
sentimento da realidade, da qual percebemos o que nossa educação permite conforme
estereótipos e modelos. Para Ronchi, “cada observador localiza seus fantasmas segundo sua
maneira de raciocinar e os elementos que traz em sua memória, ou ainda, seu treinamento”,
devendo-se acrescentar as demais possibilidades sensoriais do indivíduo relativas ao tato,
audição, paladar, movimento e ao próprio pensamento para aquilatarmos seu espaço crítico.
Vivemos a primeira época em que existe uma proposta concreta de dessacralizar a óptica do
homem em sua relação com o mundo. O objetivo de retirar Deus do centro da comunidade
estabelece uma afinidade entre a sistemática totalitária e o materialismo teórico e sua práxis.
Trata-se de um esforço orgânico para a mudança da posição tradicional do observador. Do fundo
das idades vinha uma cultura que se refletia, por exemplo, na arte Zen, atingível quando o espírito
do sábio tornava-se o espelho do universo, o speculum da criação.
O culto pagão cria uma mitologia secundária e, em Auschwitz e no Gulag, Deus é aprisionado
pelo poder secular. A fé no führer ou a sacralização partidária são as distorções que deslocam a
perspectiva psicológica diante dos desafios do desenvolvimento.
A perda de esperança é a traição que se esconde por trás da pobreza, da deterioração
urbanística, da insegurança nos empregos, da alienação dos jovens, da rejeição dos valores
éticos, das dificuldades da inflação e dos esquemas econômicos e monetários. População,
produção agrícola, recursos naturais, produção industrial e poluição são as variáveis do
problema.
Devemos perceber que o que foi descrito por Aristóteles é uma inversão patológica: “A
maioria das pessoas pensa que, para ser feliz, uma nação precisa ser grande; mas mesmo que
estejam certas, elas não têm a menor idéia do que seja uma nação grande ou uma nação
pequena... Há um limite para o tamanho das nações, assim como há um limite para outras coisas:
plantas, animais, instrumentos; pois nenhuma delas retém seu poder natural quando é muito
grande ou muito pequena;
ao contrário, ou perde inteiramente sua natureza ou se deteriora”.
O homem não quer existir só quantitativamente, mas qualitativamente; um ser com sentido.
A atual convulsão educacional esconde a batalha pelo desejo do poder, enquanto uma
cantilena repete que o mundo consciente pode ser um coral de estatutos comunitários no qual a
natureza é colonizada pela razão. Ave, fracasso!
Roquetin, o personagem sartreano, acha que o sentimento comum da vida perdeu a graça
porque não pode ser reduzido ao racional. Alguns homens, aliás, acham que são racionais, e que
as mulheres não; ou que os brancos são mais racionais que os negros.
A função totalitária é reduzir o homem a uma máquina impessoal, cobaia do progresso, no
qual procuraríamos em vão por uma expressão de amor. Um exemplo pode espelhar esta
intenção. Em fazendas-modelo, tiram às porcas os seus porquinhos logo após o nascimento. Os
leitões são alimentados com leite sintético, mamam em mamilos artificiais, e um alto-falante
transmite os grunhidos duma porca a amamentar. Assim, as fêmeas têm crias três vezes por ano
ao invés de duas.
Não há flores neste universo. Seringas e agulhas ocupam o lugar de guitarras e preces,
culminando com a caricatura demagógica do pai protetor e do chefe predestinado que se
presume capaz de construir um mundo melhor, acionado pelo progresso científico ou por
modificações dos estratos sociais.
A noção de que a justiça iria triunfar com a expansão da democracia; a educação iria igualar
as pessoas; a corrupção iria acabar; a tortura desapareceria da Terra; a prosperidade iria preparar
o terreno para instituições internacionais fundadas na liberdade, igualdade e fraternidade, a partir
de 1914 passa a ser questionada.
Sacrificando a piedade, Stalin criou um regime mais funcional do que o do Czar. Exilando
Deus, o nazifascismo banhou a Humanidade em sangue.
Só a sabedoria centrada em Deus pode despertar o homem para os mistérios da vida, sem
os quais o Ser se transforma em Nada e a sociedade se brutaliza. O homem não pode e não quer
viver com culpa e sem esperança.
A loucura de Nietzsche fê-lo predizer a morte de Deus. Esta morte levou a Humanidade ao
ódio racial e nacional, à alienação e ao risco da carnificina nuclear.
Quando John Lennon informou que “o sonho acabou”, estava entoando a “aleluia” de um
tempo.
Nossos problemas não têm soluções tecnológicas ou radicais. É preciso uma hipótese
sustentável como padrão de verificação do mundo, em que a alma possa freqüentar sua carência
no horizonte infinito.
No meio da selva peruana existe uma construção inca, Huinay Huayana, “eternamente
jovem”. Na selva de asfalto e desodorante, que templos construiremos?
Hoje, a essência do processo político exige uma resposta espiritual. Podemos determinar as
tramas das relações físicas, biológicas, psicológicas e econômicas que ligam a população, o
ambiente e suas atividades. Entretanto, se não houver a consciência do sagrado, não haverá
liberdade e a dialética da ideologia será uma estratégia de perversidade vazia que conduzirá à
violência, ao desespero e à destruição.
A ideologia servida por manipulações que castram os órgãos de comunicação sacrifica a
universidade livre como espaço de pesquisa independente, atrela os sindicatos ao centralismo
burocrático, desagrega a família por um individualismo caótico e torna a religião um movimento
sem Deus. Toda essa distorção da perspectiva do humano faz-se com a cumplicidade do
intelectual, que é expressão de ansiedade e de ceticismo, pronto a pregar a coexistência da
dúvida no eterno à crença cega nos valores hedonísticos: álcool, pornografia, excitação artificial,
ativismo compulsivo — mecanismos de fuga da angústia existencial.
A dimensão espiritual, o senso divino pode inverter esta tendência suicida, que se manifesta
às vezes por meio do próprio fanatismo religioso.
As fontes da aventura e da imaginação
para a educação do homem
Certas sociedades se desgraçaram por tentarem educar o homem sem ouvir as fontes da
aventura e da imaginação. Outrossim, não notaram que o passado, para a cultura, só existe como
consciência.
Estas duas concepções sintetizam a necessidade de entendimento dos hábitos mentais dos
povos para evitar a ruptura entre o Poder e o consenso, sem o que não existe interação social.
Daí a importância da história da memória como elemento da práxis ideológica.
É fascinante pesquisar com atenção as manifestações da sabedoria folclórica. Quanto de
superstição coexiste com conquistas tecnológicas num mundo onde as influências transitam.
Quanto há da infância dos povos nos costumes das gentes.
Uma ilustração desse processo cultural é o papagaio/pipa/arraia. Tem-se notícia de que já no
século II a.C., o general chinês Han-Sin já se valia do papagaio de papel para enviar notícias a
uma praça sitiada. Arquitas de Tarento (contemporâneo de Platão) é citado como autor do
brinquedo, vindo do Oriente. Além de inspirar pintores, azulejistas, músicos, escritores, poetas,
caricaturistas e compositores, seu uso não era privilégio das crianças, pois até os adultos de
posição social se deixavam empolgar pelo folguedo.
Nos EUA existe uma Associação Internacional de Empinadores de Papagaios, e pipas são
alçadas com dizeres contra o governo.
A desvalorização da nossa moeda ao longo da história fez com que, em 1861, a revista
Semana Ilustrada publicasse a gravura de um rapaz empinando um papagaio coberto com notas
de dinheiro.
Na prática deste exercício, existe a violência, através de giletes ou pó de vidro aplicado na
linha. A pipa está pronta para a guerra, partindo os garotos para cortar as outras pipas. Os
pedagogos do século XIX recomendavam o papagaio, e Pinon acentuava que a pipa, além de
permitir que a criança ficasse em contato com a natureza, aguçava-lhe a habilidade.
O ritual do bem e do mal, da construção e da destruição, do maniqueísmo do certo e do
errado, evoca o reinado do Demônio. A pergunta: “Pode-se vender a própria alma?” leva-nos à
presença do diabo no folclore. O “Príncipe das trevas” é uma figura popular numa sociedade que
intelectualmente o detesta e tenta racionalmente afastá-lo da sua presença, mas não com a
emoção. É marcante a sua influência no linguajar do dia-a-dia.
Na rota do diabo pelo cordel, destaca-se que as pessoas tremem por suspeitarem da sua
presença. Exorcizam-no e se dispõem a negociar com ele. É o reflexo do homem que, para
chegar até o fundo do conhecimento e do poder, está disposto a tudo sacrificar. Goethe deu-lhe a
dimensão de “tragédia do homem moderno, do racionalismo, do ceticismo e do realismo”. O
fracasso do diabo nos “pactos fáusticos” não redunda na vitória da ortodoxia religiosa. Trata-se de
“um abrir de portas ao espírito moderno”. A presença do demônio em nossas mentes é realidade
de tensão. Os filósofos tomaram consciência disso quando dispuseram que no coração de cada
homem existe a dualidade do universo, o Bem e o Mal.
Deslocando-se para a presença do fato folclórico na geografia, observamos que nomear o
que se vê, estabelecer uma ligação entre um episódio acontecido em determinado lugar por um
apelido é fenômeno tipicamente popular. A origem dessa necessidade vem da insegurança
humana, que sempre precisa ter pontos de referência para seus anseios.
Esteticamente, a distinção que deve ser feita entre pintura folclórica e pintura primitiva
permite fixar a fronteira do discurso simples.
Em números: “Um grão não enche o celeiro, mas ajuda o companheiro”. “Abra um olho para
vender e dois para comprar”. “Dois bicudos não se beijam”. “Um homem prevenido vale por dois”.
“Quem aos vinte não sabe, aos trinta não casa, aos quarenta não tem; tarde sabe, tarde casa,
tarde tem”. “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, muito usado nas artes e manhas
da corrupção.
Os trava-línguas têm lugar importante em nosso linguajar. Podem ser usados no
desenvolvimento psicológico da criança, ajudam a aguçar a inteligência e promovem reflexos
rápidos. “Lá em cima daquele morro tem uma arara e uma aranha. Tanto a arara arranha a
aranha, como a aranha arranha a arara” (lição de muito aprender de vivaldinos de cargos e
eleições). “Bagre branco, branco bagre”. “Titia toca a tropa com o trapo de prato”.
E o que dizer da presença dos bichos no idioma popular? “Danado que nem o cão”. “Morte de
cavalo é alegria de urubu”. É a ciência do Poder e a metafísica da contestação, no jargão da rua.
O bicho-homem se faz bicho-bicho para exprimir verdades doloridas.
Chegamos agora a um tema que toca diretamente ao estômago e ao psiquismo: os tabus e
superstições alimentares. A proibição de misturar certos alimentos, de consumi-los em
determinadas épocas.
Freud chama a atenção para a interpretação dos tabus: ser sagrado ou consagrado e
inquietante ou impuro.
Wundt diz que o tabu é o mais antigo dos códigos não-escritos da humanidade.
Muitos proprietários, para defenderem seus bens, ou seja, baseados na economia e não na
biologia, mantinham tabus ou interdições alimentares em nível de policiamento moral.
Certos tabus se transformaram em barreiras emocionais contra o uso de frutas. Hoje, há que
se aprender em relação ao feijão! E, quem sabe, inovar um tabu alimentar citadino — comer
feijões faz mal, provoca enjôo, fermentação e pesadelos. Solucionaríamos um desafio econômico
e político e enriqueceríamos o fabulário de asneiras com o mito inflacionado...
Em matéria de folclore estamos bem servidos. O curso de respeito ao feitiço popular exige
constância, humildade e prontidão, porque “quem vai ao vento, perde o assento”. E, para o
político, o assento é a conquista mais preciosa, pela qual se esforça. Quando não, segundo a
ironia popular, oferece a honra e até a vida.
Aos que crêem ingenuamente na veracidade das pesquisas sociológicas, nas mudanças de
eixo da opinião, seria de bom alvitre que atentassem para os veios os mais profundos das
realidades dos mundos interiores da ciência popular. Como na adivinhação: ninguém quer ter.
Quem tem não quer perder. Estes, sim, determinam no longo prazo o destino das nações.
Complexos como o universo das coisas inesperadas, capazes de levar o insólito e o indesejado
aos príncipes desprevenidos.

E à noite nas tabas,


Se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente:
— Meninos, eu vi.
(Gonçalves Dias)

Os deuses não perdoam os sonâmbulos.


Os sons e a leitura do discurso ideológico da música
Na linguagem cinematográfica, os povos desenvolvem um script e uma trilha sonora de sua
história. Sem dúvida, é um exercício de sensibilidade procurar entender a política social e o
psiquismo coletivo por meio dessa epistemologia, às vezes mais reveladora do que os
pretensiosos cânones das ciências comportamentais.
Um chinês, Liu Bo We, ensinava que “a música de uma época bem ordenada é calma e
alegre e o governo é uniforme. A música de uma época inquieta é excitada e sombria, e o
governo é errado. A música de um Estado decadente é sentimental e triste e o governo está
ameaçado”.
Aliás, os chineses nomeavam as notas musicais em consonância com as relações sociais —
kong (imperador), chang (ministro), kyo (burguês), tchi (funcionário) e yu (camponês).
Na guerra, demonstra-se a importância mitológica da música por meio das muralhas de
Jericó que, na versão bíblica, caíram ao toque de trombetas.
Na vida coletiva, o som tem uma influência ilimitada. É capaz de influenciar as revoluções,
acompanhar a espiritualidade e provocar o sensualismo. Pode devastar a concentração
inteligente, embriagar a consciência e desencadear paixões. Serve para a generosidade
educativa como elemento de sustentação e esperança e também para excitar a agressividade,
levando à destruição.
Um exemplo antológico de resposta ao discurso político e significância ideológica por meio da
música é a composição entusiasmada de Beethoven, a Sinfonia Heróica pelos feitos de
Napoleão. Angustiado pela proclamação do Império, compõe a Marcha Fúnebre, da mesma
sinfonia.
Uma época pode ser entendida em toda a sua dimensão trágica pelos acordes da Giovinezza
fascista ou do Horst Wessel nazista, que enterra as românticas valsas vienenses num mar de
sangue e opróbrio. Outrossim, a esperança de um movimento de libertação é adivinhada pelo
feitiço da Marselhesa, sem a qual não se imagina a Queda da Bastilha.
Se a história não pode ser uma descrição de cânticos seráficos, cumpre entender as
mensagens que vêm dos hinos a Apolo, na Grécia; dos cantos gregorianos, na Europa a partir do
século VII, chegando às cortes e às igrejas; da ars nova; a música da Renascença; da Reforma (o
coral apreciado por Lutero seria mais tarde usado por Bach); a música instrumental; a
composição clássica; a romântica; a moderna.
Jazz ou música erudita, Hollywood ou Santa Rita do Passa-Quatro, na fantasia e na
realidade. Vivenciar as variações e os movimentos dos episódios sociais, com suas composições
políticas, econômicas, religiosas ou raciais, é mais fácil pelo ritmo e pela melodia, pelo lamento e
pelo sincopado, pelos instrumentos e pela voz.
A coreografia da ditadura de Getúlio Vargas toma um relevo especial quando, no botequim, o
gramofone empurra o disco: “O retrato do velhinho faz a gente trabalhar...”. E a Consolidação das
Leis do Trabalho deixa de ser só um arremedo da “Carta del Lavoro” mussoliniana para ser uma
integração tropicalista aos estímulos do profixo da “Voz do Brasil”, irmanando em uníssono o
silêncio dolorido de toda a opinião pública.
Os cantos nos comícios e o rufar dos tambores substituem a dignidade da música séria, o
acalanto, o mavioso e o épico, vide “Don’t cry for me Argentina” peronista ou a Internacional
comunista num coro da finada nomenklatura burocrática russa...
O processo de doutrinação e o proselitismo podem ser percebidos na sugestão de Manuel da
Nóbrega, feita ao padre José de Anchieta, para que pusesse “em solfa as orações e documentos
mais necessários à nossa santa fé, para que, à volta da suavidade do canto, entrasse em suas
almas a inteligência das coisas do céu”.
Conceitos antropológicos e etnográficos podem ser estabelecidos para firmar a correlação
entre cultura e criações musicais como formas projetivas de impulsos psicológicos e sociais.
Ainda agora, a inclinação conservadora nos Estados Unidos faz-se acompanhar do assobio
inconfundível do cowboy melancólico e individualista, conquistador capaz de enfrentar todos os
inimigos de forma indomável.
Um passeio pelas escalas da alma da nossa dança, cancioneiro e intrigante inspiração,
permite uma múltipla indicação das vocações plurais brasileiras. Desde o Amazonas, os
pássaros, o chefe dos cangaceiros, a despedida do rouxinol, o gavião real, o corrupião, amo,
macumbeira, princesa e canjerê, até o aboio no Sul, a cantar.
Nos últimos anos, o samba de uma nota só é um lamento do rock, a função citadina da droga
na apologia do “baseado”, que já teve como contraponto a voz de Amelinha, na sinfonia de que
“Foi Deus quem fez você”.
A tradução dessa mensagem pode esclarecer a resposta para o espectro político da nossa
sociedade: propósito atualizado ou anacronismo deliberado.

A epifania da sedução
na unanimidade do pensamento
A fantasia e a imaginação social são alimentadas por grande número de mitos e crenças
estranhas. Sobre estas criações humanas, desde a Antigüidade cientistas, poetas, pragmáticos e
místicos desenvolveram teorias e extrapolaram conclusões.
Módulos deste fenômeno, a tartaruga e o grou foram considerados símbolos de imortalidade.
Na China, Pao P’u-tzu assegurava que se podia aumentar a vitalidade bebendo poções de ovos
de grou com carapaças de tartarugas. Afirmava ainda que, se alguém cobrisse os tornozelos com
seiva de cipreste, poderia andar sobre as águas; e se a esfregasse em todo o corpo, ficaria
invisível. A tradição chinesa rezava também que, em se comendo sementes de pinheiro, viver-se-
ia 300 anos.
Há uma espécie de mini-Xamãs desde os parlamentos à publicidade, passando pelos
condutos formadores da opinião pública cíclica, que incorporam novos sagrados e
transformações alquímicas do pensamento coletivo. Tão sugestivos, densos e fantásticos quanto
as lendas que vêm da pré-história e enchem as páginas dos fabulários das terras com deuses,
demônios e ritos que envolvem o mundo subterrâneo das mentes.
Por exemplo, em 1942 havia, só no Novo Mundo, duas mil línguas. Contemporaneamente,
conseguiu-se o milagre da regressão, jargão que universaliza um complexo de gêneros, servido
pela antropologia e pela psicologia: os idiomas das palavras de ordem. Totalitarismo absoluto,
feito ao nível horizontal da compreensão com apelo permanente aos desequilibrados, explosivos
e famintos de ação; os fronteiriços de inteligência.
O material desta epifania é a substituição do equilíbrio individual pela fusão com os outros em
grupos compactos, atuando em comícios eleitorais, assembléias universitárias ou auditórios de
televisão.
Explosão demográfica, concentração urbana e comunicação de massa provocam a
domesticação da inteligência. A “Religião do Sim”, dimensão de claque, tem sua profissão de fé
nas formas icônicas planas. O clichê é o altar da organização social. A frase feita, os modismos
de pensamento, o circuito interrompido do direito à critica, o personagem-sem-caráter de uma
epopéia cinzenta são frutos da especialização e da fragmentação. Um cômico francês, Coluche,
com um apelo ao imbecil, conseguiu numa pesquisa 27% dos sufrágios como eventual candidato
à Presidência.
Nesta conjuntura, as Cartas Magnas, sejam elas vermelhas, verdes ou negras, estatuem que
liberdade é o direito de pensar dos que pensam como nós e democracia é a acumulação do
poder nas mãos que representam o poder.
Em meados do século XIX, o russo Petrashevsky afirmou: “Não encontrando nada digno do
meu apego, tanto entre as mulheres como entre os homens, devotei-me ao serviço da
Humanidade”. Transformou-se em partidário de Fourier e instalou um falanstério3 que acabou
incendiado pelos camponeses, irritados com as imposições do Big Brother.
Sacerdotes ou proto-Xamãs desta confraria, primeiro Mao Tse-Tung, o Grande Caminheiro da
Grande Marcha, considerava um pecado liberal o fato de as pessoas não delatarem os erros de
“parentes, amigos e pessoas queridas”, afinando-se com Mussolini, “tem sempre razão”, que
castigava os que se destacavam por sua obstinação de autonomia, ministrando-lhes óleo de
rícino ou assassinando-os.
O conto mentiroso do maniqueísmo simplista não se dirige à consciência despertada, mas
encaminha sua tirania à imaginação popular.
Em maiúsculo: Futuro, Juventude, Mulheres, Trabalhadores, Minorias, Maiorias, Passado,
Revolução, Raça. Entidades místicas, são algumas das chaves iniciatórias que desencadeiam o
êxtase, a salivação dos cães condicionados de Pavlov. A liturgia das almas dóceis é composta por
Sieg Heil, punhos cerrados, rufar dos tambores, passo de ganso e até a cucaracha tropical.
A ameaça política implícita na cosmogonia dos “bons” é o apelo para o regressus ad uterum
— a aceitação total, bovina, no calor tépido da massa em oposição ao direito de acreditar ou não
num partido, igreja, raça ou nação.
A onipotência lesa a condição humana e provoca a luta dos pequenos deuses, que se
imaginam intérpretes da natureza e legisladores da humanidade, conforme James Joyce: “Amar
minha etiqueta como a mim mesmo”.

O empenho pessoal
como salvação e redenção
Todo sentimento básico que anima a sociedade, em nossos dias, é uma composição repassada
de medo e ódio, um sonho de poder numa descrição de angústia.
No Brasil, um gostinho repetido de dejà-vu combina questiúnculas menores de um cotidiano
político-partidário a um monotônico monólogo que pretende reduzir uma grandeza continental a
um pássaro engaiolado ou a um tigre desdentado.
Ora, o renascimento da esperança é essencial para o desenvolvimento da civilização e um
projeto democrático depende de uma visão social inspirada na imaginação. Os instrumentos
ideológicos demandam um toque de fantasia capaz de alimentar a pólis. O urbanista e sociólogo
Lewis Munford nos lembra que “utopia foi por muito tempo o nome dado ao irreal e ao impossível.
Temos dado destaque à utopia em oposição ao mundo. Na realidade, são nossas utopias que
tornam tolerável o mundo — as cidades e mansões com que sonha o povo são, finalmente,
aquelas em que estão vivendo”.
Certas sociedades e o nosso tempo têm tido dificuldade para reativar o potencial dos seus
nexos simbólicos e infra-estruturais, sem os quais a vivência política torna-se incoerente. Se não
queremos comprometer o futuro devemos estimular verdadeiros e profundos anseios de
progresso. A ideologia de uma época traída é o pesadelo das extensões do passado, verdadeira
“distopia”, perspectiva pavorosa do Admirável Mundo Novo.
Por outro lado, na tragédia que se revela num terremoto ocorrido outrora na Itália, na pressa
do noticiário foi transmitido um fato que não se deve perder como lição quase oracular; uma
resposta em nível individual para este beco-sem-saída existencial. Em Castelnuovo Di Consenza,
o médico Gennaro Venutolo perdeu a mulher e uma filha. Porém, após cavar horas a fio,
conseguiu resgatar outra filha. A seguir deixou-a sozinha e correu a assistir os moribundos.
No meio da morte e da destruição, o anjo derrota o animal e sustenta a mensagem da força
maravilhosa que espiritualiza a existência: pospõe sua visão na metacondição sócio-cultural, além
do tempo e da história.
Se o nosso objetivo é a concordata de um corpo político inerte e a manutenção de privilégios
e interesses, devemos reduzir o poder catalítico das reformas, frear as mudanças e substituir o
trabalho contra a injustiça e o sofrimento pelo circo demagógico dos totalitarismos. Enquadrar as
vontades em Planos Qüinqüenais ou Decenais e hipotecar as almas na eficiência dos
computadores. O prosseguimento infernal do jogo das contas-de-vidro do nada, com o vamos ver,
do quem sabe, com o quero crer, a diluição dos esforços, o sacrifício da juventude, o jargão dos
comos disfarçando o desejamos...
Contudo, se tivermos a coragem de assumir o compromisso da esperança radical, o
magnetismo emocional da solidariedade proporcionará uma força de motivação capaz de
estimular a cultura a transcender a si mesma, promovendo modelos de comunidades
humanizadas. O santo e revolucionário partiu de Gennaro Venutolo e não da pálida figura do
burocrata dos aparelhos partidários, criado pelos macroorganismos e flutuações societárias; e
seu engajamento é o que justifica um programa policromático para uma revolução de fé.
Demagogos e mistagogos
Na história do Brasil, de seu povo, freqüentemente as superstições, o obscurantismo, um
radicalismo personalizado e a miséria econômica têm favorecido o surgimento dos messiânicos,
sob condições místico-religiosas ou político-ideológicas.
Fatores psicológicos e sociais interpenetram motivações para que episódios de “revelação”
se repitam ciclicamente. O processo obedece a determinadas etapas, quais sejam: o módulo da
mitificação global, início e apoteose do tema.
Começa com a escolha providencial do carismático — que pode se dar por um “chamamento”
interior, uma eleição popular, um golpe militar ou uma pressão de grupos marginais da sociedade,
em geral — com apelos ao lumpen, o fronteiriço mental e cultural, passional por excelência.
O segundo passo é o sacrifício, que se caracteriza por sua prisão, forças indistintas que o
perseguem, a renúncia aparente ao poder ou à doença, fase em que as características
fantásticas são aprofundadas.
Daí segue-se o despojamento. O escolhido abandona tudo e vai para o interior do país,
recolhe-se à humildade do seu destino, resigna-se a um momentâneo cotidiano comum de
simples cidadão. Com isso ameaça seus partidários ou acólitos com a síndrome da rejeição, o
abandono edipiano — os filhos ingratos são punidos pela incompreensão e ingratidão que
mostraram em relação ao idealismo e à “missão” do iluminado. Não se entregaram o suficiente;
não valorizaram o tanto necessário o espírito e a grandeza do mestre, do visionário. Este se volta
para sua horta, seus livros, seu escritório. Substitui o macrocosmo da salvação da humanidade,
da pátria ou do seu grupo pelos afazeres domésticos com a mulher e os filhos; ou por uma
introvisão: vai escrever suas “memórias” ou estudar línguas mortas. Está pronto o patético do
degredo, que pode ser espacial ou emocional. De qualquer maneira, efetua uma viagem para
dentro de si mesmo, à procura de novas forças ou, mais contemporaneamente, a bordo de
confortáveis meios de transporte.
O romântico exilado, cheio de lembranças para as personalidades infantis e de mistérios para
os adultos inseguros, prepara a última jornada, o retorno triunfal. Aos rogos dos filhos
arrependidos, da massa feminina apavorada diante das dificuldades, o relevado exalta o paraíso
moral e material que vai estabelecer, a qualquer custo. Sangue e revolução, depuração moral,
perseguições, tudo será permitido em nome da glorificação do reino celeste no aqui e no agora. O
modelo sobrenatural justifica que os adeptos compartilhem das virtudes e do poder do
personagem santificado.
A expectativa do anúncio é discutida. Revoltado com os homens, ainda assim, seu altruísmo
e vocação vencem os bloqueios da resistência.
Ressalta-se o comportamento dual no herói. No Brasil, Hamlets provincianos de uma
tropicália shakespereana que oscilam entre Corinthians e São Paulo, Portela e Mangueira.
Realmente, o fabulário registra que ele é, o mais das vezes, de um moralismo brutal e simplista
que contrasta com a safadeza e o pecadilho; tem grandiloqüência e magnitude angelicais
misturadas a mesquinharias; junta a aparência de erudição e sabedoria a imbecilidades
inacreditáveis. Veste a roupagem e a estatura de um semideus grego combinado ao ridículo de
um amanuense de quinta categoria.
Todo isso favorece as projeções sociais dos frustrados e obsessivos no ídolo.
O perigo, na sociedade, das ondas que se dirigem para o milenarismo e a tendência ao clima
de apocalipse nem sempre é percebido em tempo. As elites culturais tendem a considerar os
esquemas que despontam como simples “loucuras” passageiras.
Sabemos o quanto a cultura brasileira, como realidade de uma civilização do campo e
agrícola que desembocou na cidade grande, vivencia essas verdades. De Antonio Conselheiro a
Getúlio Dornelles Vargas, os “sinais” da Anunciação se fazem presentes, seja pela “Voz do Brasil”
aos trabalhadores, à classe eleita ou no sermão recolhido por Euclides da Cunha: “Em verdade
vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a
Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu
exército”. O taumaturgo usa o discurso apropriado, pleno da metafísica do horror e do socorro.
Canudos e São Borja são duas faces do mesmo impulso inconsciente. A compensação da
inteligência pelas matrizes operacionais do pensamento. A participação substituída pela
obediência mansa. Os ressentimentos e a agressividade aguda que tomam o lugar do otimismo e
da esperança lúcida.
Será que a contemporaneidade de uma sociedade industrial — com grandes pólos urbanos,
em que uma população oriunda de condições arcaicas sofre os confrontos de uma nova
expressão — não alimenta a ameaça do surgimento de um mistagogo,4 que pode emergir de um
sindicato, de uma academia literária ou de uma ânsia religiosa não-resolvida? Eis uma
interessante questão, a desafiar os cuidados democratas e a voracidade da demagogia.
A Psicologia Social mostra que, às vezes, entre a máscara do terror e um palhaço imperador
existe apenas o espaço da consciência.

Niilismo versus autenticidade

Assim como o psiquismo individual, também as nações se aferram à necrofilia para não
realizarem seus desígnios maiores. Esta autofagia promove banalidade, desinformação e
mediocridade, compondo o substrato cultural que alimenta as tendências autoritárias na
sociedade e facilita o poder dos tiranos, poupados em sua nudez moral pela ignorância e apatia.
Os meios de comunicação para as massas, em especial a TV, estabelecem a simbiose
sectária que gratifica o lugar-comum, marginaliza o pensamento original e dita normas
facilitadoras que impõem a vontade minoritária sobre a manifestação livre, diversificada e
colorida; o colorido do gênio e do talento é substituído pelo das aparências.
A originalidade humana é corrompida pela pusilanimidade, redundando na mixórdia que repete
fórmulas estandardizadas e deformadas.
Caçar com o olho vesgo da megalomania a manifestação de rebeldia e concentrar o
pensamento social no tatibitate é o sonho (ou pesadelo) dourado da hidra-de-mil-cabeças que
constitui o impulso contemporâneo para o escândalo do mundo — um conjunto de solidões.
De que forma a aspiração do homem pelo transcendental e pelo sobrenatural é violenta,
introduzindo-se a política como show de energúmenos, demagogos e corruptos? Ao tornar
ridícula a justiça, desviando-a da questão moral e ética para barganhas, seduções e casuísmos.
Ao cantar um réquiem para a juventude, emburrecida entre o cantochão de um hino ao nada e ao
bestial — “não sou ninguém”, “eguinha pocotó” — e a falsa impressão de tonicidade, num sexo
desesperado ou num misticismo messiânico da ação niilista. O empobrecimento começa na
linguagem rude e rastaqüera e termina na crise existencial, gerando videntes e profetas da moda
que, na saison, correspondem aos anseios da esquerda, centro e direita, com as respectivas
nuances e mudanças periódicas de posição.
Hoje aqui, amanhã acolá. Dois prá frente, dois prá trás, no bolero do malandro que entra na
história pela porta dos fundos, personagem vil de autodestruição moral e espiritual.
Mobilizando a ciência para servir aos donos presunçosos da verdade, senhores e
distribuidores das benesses da aprovação. Aprovação, palavra-mágica que oculta o preço da
indulgência, da timidez, da subserviência; a concessão para o aplauso fácil do auditório imbecil
que se espelha num teatrinho-de-vanguarda ou num tribunal do ditador-de-plantão.
Incrementando uma arte institucionalizada no clube dos elogios mútuos, cujo agreement é a
insegurança e a castração, o medo da crítica policialesca, obtusa e demitida da noção de conflito
real pela ambivalência entre o achaque e o aplauso à custa dos sorrisos forçados; a máscara que
procura avacalhar a originalidade educando para a mediocridade. Como é possível!
Se a democracia é o regime, por excelência, do respeito à santidade do homem, como resistir
a esta force majeure? Ou devemos obedecer a ela como fizeram Goethe, Galileu e Pushkin?
A dança insignificante das siglas partidárias, que esconde o desprezo pelos ideais, não
justifica o culto à igualdade, a determinação férrea em participar jogando os propósitos pessoais
no destino da comunidade.
O que deve constituir a aventura do saber nobre, encarado na consciência social? A ficção à
James Bond; a telenovela cretina, que relata um romance mentiroso excitante da mente boba de
robôs periféricos; as façanhas dos vilões que propõem prorrogação de mandatos; os que jogam
areia nos olhos da opinião pública para prosseguir com a orgia dos gastos com o programa
nuclear; aqueloutros que alimentam ilusões sobre o drama do menor carente e manipulam os
eventos como se fossem anúncios de eletrodomésticos; ou o elixir para a política-do-corpo? Não.
O vital é a interpretação ousada da liberdade a inspirar a revolução do homem. O totalitarismo se
mantém no poder enquanto os homens são débeis e incapazes de traduzir sua dialética: o certo é
errado e o errado, certo. Por isso, o risco do conceito minimizado de regime democrático é o
terror apocalíptico da vitória do vão e da insensibilidade, que se reflete na velha canção: “Nem
tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai”.
A indiferença moral que situa a práxis política além do Bem e do Mal resulta no suicídio
psicológico do caráter nacional.
O clichê é a maldita impressão mecânica do pequeno mundo, revelada por Erasmo em seu
Elogio da Loucura: “... obviamente o elogio de alguma coisa olhada convencionalmente como
indigna de uma oração apropriada”. Essa percepção não consta dos programas partidários
mentirosos, dos ritos de comportamento convencionais ou das histórias para boi dormir... Exige a
altitude que um dia Lorca e Evtuchenko alcançaram nos comícios da História. Da outra História.
A constipação do insignificante e do violento, não importa se fantasiada de preto, vermelho ou
furta-cor, é inimiga do sistema democrático.

A desinformatio
como estratégia de desmoralização

Pode-se imaginar facilmente a desinformatio se dependermos dos critérios impostos pelas


ditaduras grotescas que pululam no universo do subdesenvolvimento econômico e, às vezes,
também cultural e moral. Seria um arremedo de criatividade à custa da imaginação, substituindo a
realidade pela vontade. O verdadeiro 1984 de George Orwell (Syme, referindo-se à linguagem do
futuro: “Você não vê que todo alvo da fala nova é estreitar o âmbito do pensamento?”),
institucionalizado por delírios megalomaníacos visando à usurpação autocrática, sem críticas do
mundo exterior, e à sedução espiritual através da mentira. Isso na farândola5 político-militar de
minorias agressivas e famintas de popularidade.
Certa vez na Costa Rica, modelo de regime democrático na América Central, um jornalista foi
proibido de escrever nos jornais por não ter seu registro cadastrado segundo os cânones legais
impostos por normas jurídicas restritivas. Legislação que repete outras existentes nos “tristes
tropiques”, vedando ao intelectual ou artista um espaço livre que é ocupado por corporações
profissionais — legado de cúpulas policialescas e fascistóides. Uma confusão entre o organismo
de classe e institutos que prosperam à sombra do poder, viciados num sistema que vai da
delação ao profissionalismo proxeneta da exploração do talento alheio.
Na contra-face, acompanhamos a autocrítica conseqüente do jornal Washington Post
relacionada ao caso da repórter Janet Cooke que, em 29 de setembro de 1981, forjou a matéria
“O Mundo de Jimmy”, ganhou o prêmio Pulitzer (posteriormente revogado), bem como a
demissão de O’Neil do Daily News — acusado de reportar falsamente os acontecimentos em
Belfast, levantando celeuma nos EUA a respeito da credibilidade da mídia. Estas questões e
incidentes que se repetem em todas as latitudes — menos, é claro, no mundo concentracionário
da verdade absoluta do totalitarismo que iguala, no rebaixamento, todas as opiniões e mazelas
diferenciadas de pensamento — referem o poder mágico da comunicação disseminada na mídia.
Desde a publicidade que vende blue jeans até o editorial sobre turbulências urbanas,
qualquer matéria está sujeita a “tratamento” que só ocorre quando maquiada. O exercício amplo
da liberdade noticiosa e/ou opinativa exerce influência extraordinária contra a mistificação,
lembrando o monstro do filme “Yellow Submarine”, que devora a si mesmo e desaparece.
O pressuposto básico da imposição comportamental sem contestação é a eliminação do
elemento competitivo. Sem variedade, não há liberdade nem escolha adulta de alternativa. E esta
depende da discussão dos temas públicos através de um leque de divergências. Esta postura
democrática não deve impedir, contudo, a investigação comunitária sobre o senso de
responsabilidade do órgão de imprensa virtual, escrito, falado e televisivo.
Sabemos, por exemplo, do fascínio que o Estado e os lobbies (igrejas, partidos, sindicatos,
alianças financeiras) sentem pelos que detêm o condão de induzir ao favor social.
Hoje, a excomunhão e as fogueiras inquisitoriais foram substituídas pela noção psicológica
de dropping out (cair fora).
Quem não tem medo da censura coletiva? Nossa sociedade concede pouco àqueles que
fogem ao integrado e ao monolítico. Há uma espécie de dependência paradisíaca em relação aos
modelos aceitos. Estar in e pertencer a, eis os sonhos vitoriosos que regem os rituais do clube de
unidade de propósitos.
Vestir a roupa certa, votar no candidato adequado, ir ao Resort Hotel da moda, assistir ao
filme do momento, usar o jargão do dia, e “opor-se” na dissidência mais badalada... estes os
requisitos da religião majoritária fabricada, numa purificação gradativa para o nada.
Existe todo um processo “científico, tecnológico e acadêmico” de aprendizagem que serve a
esta ânsia; e nenhuma defesa da comunidade pode ser mais eficaz do que a observação liberal
das atitudes e dos motivos.
O idiota moderno não é o carente de informações, mas o papagaio inconsciente que repete,
ad nauseam, as mensagens codificadas dos intérpretes do Rei ou das “panelas” ideológicas,
sempre com a pobre ilusão do improviso e da informalidade. O robô que pensa que pensa...
Resta a lição de que, felizmente, o narcisismo estruturado do êxito não consegue coexistir
com o sonho do debate e o crivo da crítica.
Os meios de comunicação social e a higiene mental
No equacionamento da discussão deste problema, a primeira questão que se impõe é se existe a
possibilidade de verificação científica do nexo de causalidade entre a função dos órgãos de
comunicação e cultura de massa — principalmente TV, rádio e jornal e Internet — e o grau de
sanidade comunitária. A fronteira sutil entre o país demencial e a cidade do real.
As posições a respeito são, via de regra, passionais e radicalizadas.
De um lado, aqueles que atribuem um poder mágico de controle e manipulação à imprensa e,
por isso, na prontidão exorbitante de cobrança de culpa que chega aos níveis de censura, aberta
ou velada. São características de segmentos políticos e ideológicos com tendências totalitárias e
que mal escondem aspirações de instrumentalizar os meios de comunicação social em favor da
criação de uma opinião pública massificada.
De outra parte, há aqueles que tendem a minimizar o papel da imprensa, reduzida a um
incômodo testemunho do registro de acontecimentos que oscilam entre os critérios burocráticos e
o divertisement da coluna social.
Os que se filiam a grandes academias do press release na escola apologética do nada... no
império tropical do nonsense. A divagação oligofrênica que irradia do umbigo pessoal para o
transcendente inútil.
O levantamento e o debate destas especulações exigem algumas preliminares:
Nos regimes de franquia livre, o indivíduo sente-se amparado pela informação aberta. Os
horizontes são perscrutáveis. Os espaços para a alimentação de tendências persecutórias
diminuem. O fluxo aberto das idéias, a controvérsia franca, a notícia jogada no impacto e na
dramaticidade sincronizada do fato solidificam no Self a credibilidade de sua possibilidade de
atuação, na vida privada e no campo público.
Perde-se a fantasia do “eles” — a Maçonaria, o ouro do Kremlin, os judeus, o Vaticano, Wall
Street, os discos voadores a até a reencarnação de Cleópatra... o mandonismo cósmico do
superego projetado.
O direito do indivíduo de ser bem informado: eis um diapasão de reforço da auto-imagem.
Nas cidades altamente despersonalizantes do mundo contemporâneo, um dos grandes
inimigos da saúde mental é o medo da perda da identidade, acompanhada de sintomatologia
patológica da solidão. Uma angústia existencial que ultrapassa a crise política para caracterizar
uma forma estatal e interesses que industrializam a cultura para o uso massacrante do
superobjeto.
1984, de George Orwell, não é um pesadelo ficcional de um delírio literário, mas uma
denúncia da vivência do nosso devir.
Quem é que organiza o circuito da aldeia global (antevista por McLuhan), selecionando as
notícias, hierarquiza a aparência de sua importância e elitiza os engenhos de formação de opinião
publica dirigida?
A inteligência e o talento, o filtro natural da cultura e da arte, os interesses mesquinhos e as
personalidades servis, capazes de orquestrar o êxito para a mediocridade?
A telenovela, que espelha comportamentos, também preside modificações de conduta. Quem
são os poderosos ditadores, conscientes ou inconscientes do discurso óbvio ou subliminar? O
que é aquilo que forma a infância deformada, sem visagem, excita o adolescente criminógeno e
mortifica o idoso?
Uma sociedade tanto pode ser considerada próxima de padrões razoáveis de higiene mental
quanto mais ela se sente condômina do acesso absoluto à informação e participante da leitura da
fenomenologia do real como atributos de decisão.
Infere-se daí que é tanto mais doente — por infantilizada, marginalizada e alienada (ao
extremo da insanidade) — quanto mais a informação é “tratada, elaborada e dirigida” por quem
quer que seja (do poder estatal ou do poder sócio-econômico-cultural privado repressor na
aristocracia oligárquica). Privilegiados de uma linguagem otário-hermética.
A segurança emocional advém da consciência do direito de usar, lucidamente, o poder que
uma participação democrática admite.
A desvalorização do consumidor pela avacalhação propositada — o mundo-cão elevado à
categoria de expectativa do ideal — um streep-tease de mentiras e meias-verdades, a defasagem
entre a oferta e o possível na aquisição dos bens de consumo inferiorizam o cidadão, agacham
seu psiquismo até a subcondição da passividade, da acomodação e de uma retração neurótica
diante do universo transformável.
A dramatização — segundo o conceito helênico — da catarse na alma mobiliza a vontade, a
disposição, o assumir e a dignidade da reintegração da cidadania.
Em um episódio marcante da história do Brasil, no dia 23 de maio de 1954 um policial carioca
apelidado “Coice de Mula” assassinou dentro de uma delegacia o jornalista Nestor Moreira,
desencadeando uma página de indignação e vitalidade mental que se corporificou no espetáculo
da rua. O choro virou raiva, a raiva se fez consciência.
O endeusamento dos bandidos no vídeo não substitui a leitura de um poema de Cecília
Meirelles, que ninguém pode roubar sob a alegação elitista da incompreensão da massa ignara...
Porque higiene mental é poder viver o mundo como protagonista e não como coadjuvante,
condenado à mercê do produto torpe de terceira ordem.
Se o pobre serve como calouro ridicularizado, gongado por um quase débil mental, também
deve reinar quando filmado nos “Sertões” de Euclides, e não se penalizar, condenado à boçal
poltrona cativa da família “Seria se Fosse”.
Eva será Deus
Três coisas ignoro, e tampouco a quarta sei: os caminhos da águia nos céus, da
serpente sobre a rocha, do navio em alto mar, e os do homem no interior da
donzela.
Provérbios 30:18-19

AGORA, SABE-SE. O exame do DNA. O filho do Homem. A certeza do pai. Outra volta na
civilização.
Por meio desta identificação, tudo o que se diz, nas interpretações talmúdicas do Cântico dos
Cânticos sobre a Comunidade de Israel como filha e noiva, foi transferido para a Schehiná.7 É
impossível, creio, dizer qual foi o fator primário: a revivescência, pelos primeiros cabalistas, da
idéia do elemento feminino em Deus ou a identificação exegética dos conceitos anteriormente
distintos de Ecclesia8 e de Schehiná, esta metamorfose especificamente judaica por meio da qual
tanta substância gnóstica ingressou na tradição judaica. Não posso, aqui, distinguir entre o
processo psicológico e o histórico, cuja unidade peculiar constituiu o passo decisivo dado pela
teosofia cabalística. Porém, como vimos, existe ainda um terceiro elemento: o simbolismo da
Schehiná como alma, no Bahir9 e no Zohar.10 A esfera da Schehiná como morada da alma é
uma concepção completamente nova. A residência mais elevada da alma, em sistemas judaicos
anteriores, era situada dentro ou debaixo do trono de Deus. A noção de que a alma tinha sua
origem no recinto feminino dentro do próprio Deus foi de grande alcance para a psicologia da
Cabala.
Mas se nos incumbe avaliar plenamente o caráter mítico da Schehiná, devemos examinar
mais duas concepções que são inseparáveis dela: sua ambivalência e seu exílio. Aqui, como em
tantos outros lugares, a Agadá11 remonta a idéias bem distantes do texto bíblico. Um exemplo
semelhante é a estória de que uma mulher teria sido criada antes de Eva, o que pode, é verdade,
ter sua origem em uma tentativa de solucionar a contradição entre Gênesis 1:27, em que o
homem e a mulher são criados simultaneamente, e Gênesis 2:21, em que Eva é feita de uma
costela de Adão. Segundo um midrash12 que, a bem dizer, não é citado nesta forma antes do
século IX ou X, uma mulher foi feita para Adão primeiramente de terra, e não de seu flanco ou de
sua costela. Esta mulher foi Lilith, que irritou o Senhor da Criação por exigir direitos iguais.
Afirmava ela: “Nós (Adão e eu) somos iguais, porque ambos viemos da terra”. Depois disso eles
brigaram e Lilith, amargamente descontente, pronunciou o nome de Deus e fugiu, iniciando sua
carreira demoníaca. No século III, esta estória era aparentemente conhecida em uma forma
diferente, sem a demoníaca Lilith. Esta versão fala da “primeira Eva”, criada independentemente
de Adão, e sem relação, portanto, com Caim e Abel, os quais lutaram pela sua posse, “pelo que
Deus fê-la voltar ao pó” (Guershom Scholem).

A omissão da escrita femininatc "A omissão da escrita feminina"

“Aprendei como se dá que alguém veja sem querer e ame sem querer. Se investigardes
cuidadosamente estes assuntos, o encontrareis em vós mesmos.” (Hipólito, em Heresias) .
“O primeiro passo para longe do totemismo foi a humanização do ser que era adorado. Em
lugar dos animais, aparecem deuses humanos, cuja derivação do totem não é escondida. O deus
ainda é representado sob a forma de um animal ou, ao menos, com um rosto de animal, ou o
totem se torna o companheiro favorito do deus, inseparável dele, ou a lenda nos conta que o deus
matou esse animal exato, que era, afinal de contas, apenas um estágio preliminar dele próprio.
Em certo ponto dessa evolução, que não é facilmente determinado, aparecem grandes deusas-
mães, provavelmente antes mesmo dos deuses masculinos, persistindo após, por longo tempo,
ao lado destes.” (Freud).

Para quem reza a mulher? Para “o” Deus.


Quem é o intermediário? Buda, Moisés, Jesus, Maomé, Confúcio.
E a revelação feminina?

O cineasta Ingmar Bergman se pergunta qual o propósito da linearidade na obra de arte. A


quem serve?
Depois da teoria do caos e da importância do fluxo do inconsciente (Freud); bem como a
viagem de Joyce, dos “extratos fragmentados que de/formam” a nossa mentalidade, peço licença
para pensar alto, num cut-up:
O limite dos estudos da mentalidade feito pela École des Annales é o desenho lógico. Nesta
matéria, lembre-se Gramsci: “o velho ainda não morreu e o novo ainda não nasceu”. Portanto se
sabe sobre o quê, mas não se sabe o porquê.
O programa Word de computação (milhões de exemplares) quando refere a sinonímia para
ansiedade masculina oferece uma série de palavras que vão do patológico ao produtivo. Em
relação à ansiedade feminina, no entanto, relaciona só quatro palavras, centradas na noção
ninfomaníaca.
A proibição do casamento dos padres e freiras e a feitura da Igreja, esposa de Cristo, jogam a
mulher e o homem no “extra-ordinário”, aquilo que vira tabu — no profano e no sagrado, surreal.
Pensar e duvidar. Para alguns, heresia e blasfêmia. O medo da engenharia genética esconde
a resistência ao dito, o pacto com o Indizível.
Começamos a entender, se desconectamos. Entendendo, começamos a conectar.
Para fazer Cristo, foi preciso esquecer Jesus.
As Tábuas da Lei quebradas por Moisés: o enigma a ser devolvido. As Tábuas oferecidas: o
plágio aceitável.
O filósofo Santayana escreveu que “Deus não existe e Maria é a sua mãe”. A concepção de
Mãe de Deus sem a intervenção masculina é um elemento nesta dialética que se reproduz. A
tensão entre Eva e Adão predetermina a vocação original do Poder. E a projeção divina... A
escrita feminina foi omitida, prevaleceu o masculino.

A mulher como instrumento do Mal


Lilith, o demônio feminino babilônico. Na literatura esotérica, rainha do mal, esposa de Satã. Uma
lenda diz que foi a primeira mulher de Adão e porque o abandonou, Deus criou Eva. Lilith é
símbolo de tentação sexual.

A pomba-gira, na umbanda e quimbanda, é entidade da ambivalência feminina.


La donna è mobile.
O Cosmo inteiro balança e se desloca.
O fixado no Direito Romano — “mãe certa, pai incerto” — permaneceu estabelecido até a
investigação do DNA — final da temporada.
“Se o lobo compreendesse o cordeiro, morreria de fome”, segundo Henri Michaux.

Mas Isaías...

O relatório da Unicef de junho de 2000 registra 60 milhões de mulheres a menos nas


estatísticas globais devido a fatores como: violência (espancamentos, crimes de honra);
desatenção; falta de acesso a unidades médicas e educação; incesto; aborto seletivo; infanticídio;
mutilação genital; matrimônio precoce; desnutrição; prostituição e trabalhos forçados.
1 – Abortos: levantamento oficial revelou que 12% dos fetos de sexo feminino foram
abortados.
2 – Infanticídios: na Índia, relatório registrou 100 mil casos anuais de infanticídio de meninas
(não levando em conta abortos seletivos).
3 – Suicídios: em Sri Lanka, o número de suicídios de jovens entre 15 e 24 anos é 55 vezes
maior que o número de mortes causadas por gravidez ou parto. Nos Estados Unidos, entre 35% e
40% das mulheres maltratadas tentam o suicídio.
4 – Mutilações: cerca de 130 milhões de mulheres já sofreram mutilação genital no mundo, e
cerca de 2 milhões continuam a ser submetidas à prática anualmente. O problema existe em 28
países da África, em regiões da Ásia e do Oriente Médio e em comunidades de imigrantes na
América do Norte, Europa e Austrália.
5 – Meninas: entre 40% e 60% das violências sexuais na família atingem meninas de 15 anos
ou menos. Estudo recente demonstrou que, na Holanda, 45% das vítimas de violência sexual
doméstica tinham menos de 18 anos.
6 – HIV: 14 milhões de mulheres estão infectadas com o vírus da Aids no mundo. Segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS), o maior fator de risco para a mulher é o parceiro sexual
habitual, e o problema é agravado pelo caráter desigual da relação, que torna difícil ou impossível
negociar o sexo seguro.
7 – Crimes de honra: em países como Bangladesh, Egito, Jordânia, Líbano, Paquistão e
Turquia, mulheres são assassinadas “em nome da honra” da família por motivos que incluem
adultério, relações pré-matrimoniais (com ou sem sexo), estupro, apaixonar-se por uma pessoa
sem a aprovação da família. Só em uma província do Paquistão, em 1997, foram mais de 300
vítimas. As leis são particularmente complacentes com os homicidas na Jordânia, mas os crimes
de honra foram postos fora da lei no Paquistão há um mês.
Na língua dos índios axê, do Paraguai, jamo panka pixipre jamo (“aquele que cai nas garras
do jaguar tem que ser jaguar”).
Em Gênesis 3:1-6, o primeiro pecado: “A serpente era o mais astuto de todos os animais
terrestres criados pelo Senhor Deus. Ela disse à mulher: É verdade que Deus proibiu de comer de
alguma árvore do jardim? E a mulher à serpente: Podemos comer os frutos das árvores do jardim,
mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus nos disse que não comêssemos nem
tocássemos, para não morrermos. E a serpente à mulher: Não, não morrereis. Antes, Deus sabe
que quando dele comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo
o bem e o mal. Então a mulher viu que a árvore era boa ao paladar e agradável à vista, e
apetecível para adquirir conhecimento. Por isso, colheu um fruto e comeu, e deu também ao seu
marido, que comeu juntamente com ela”.
Em Êxodo, o nascimento de Moisés: “Ora, um homem da casa de Levi desposou a filha de
um levita, a qual concebeu e deu à luz um filho. Vendo que era belo, conservou-o oculto durante
três meses. Mas, não podendo mais ocultá-lo, tomou um cesto de papiro, calafetou-o com betume
e pez, colocou nele o menino e o pôs entre os juncais à margem do rio. Sua irmã ficou
observando de longe, para ver o que aconteceria.
“A filha do faraó desceu para banhar-se, enquanto suas servas passeavam à beira do rio; e,
descobrindo ela o cesto no meio dos juncais, mandou uma serva apanhá-lo. Abriu-o e viu a
criança que chorava. Compadeceu-se dela, e disse: É um filho dos hebreus. E a irmã dele disse à
filha do faraó: Queres que vá chamar uma ama dentre as hebréias, para te amamentar o menino?
Disse-lhe a filha do faraó: Vai. E a menina foi chamar a mãe do menino. A filha do faraó disse-lhe:
Toma este menino e amamenta-o, e eu te pagarei o que for justo. E a mulher tomou o menino e o
amamentou. E quando o menino já estava crescido, levou-o à filha do faraó, que o recebeu como
filho, e lhe deu o nome de Moisés: Porque — disse — das águas o retirei”. Em Moisés e o
Monoteísmo, Freud defende a tese da filiação de Moisés à princesa egípcia que o “salvou” do
meio das juncas e a teoria de que os judeus o mataram, revoltados contra a imagem do pai.
No Evangelho segundo Mateus (o primeiro a ser escrito), o nascimento virginal de Jesus
(Mateus 1:18-25): “Ora, o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada
com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo.
José, seu esposo, sendo justo e não a querendo expor à infâmia, resolveu desvincular-se dela
secretamente. Mas, andando ele com estes pensamentos no seu íntimo, apareceu-lhe, em sonho,
um anjo do Senhor, que lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber contigo Maria, tua
esposa, pois o que nela está gerado é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem
porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Ora, tudo isto
aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha anunciado por meio do profeta: Eis que a
virgem conceberá e dará à luz um filho, a quem será dado o nome de Emanuel, que quer dizer
‘Deus conosco’. Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor; recebeu
sua esposa, a qual, sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de
Jesus.” No Sefer Toledot Yeshu,13 compilação feita na Idade Média, consta uma versão, entre
outras, relatando que Jesus seria o filho ilegítimo de Maria com o soldado romano Pandera. Daí a
alcunha de Ben (filho) de Pandera-raposa. Na mixagem se explicariam incidentes descritos nos
Evangelhos (exemplos: sinagoga, casa do meu Pai; ameaça de lapidação contra Maria Madalena
e assim por diante).
Entre os hebreus, o noivado unia legalmente o noivo e a noiva em verdadeiro matrimônio.
Maria, por isso, desposada por José, era sua verdadeira esposa. Depois do noivado, porém, a
noiva ficava ainda durante um ano, se era virgem, e não viúva, na casa paterna. Quando o
esposo a levava para sua casa, celebrava-se a festa das núpcias (ver vers.19). O noivado podia
ser desfeito somente por vontade do esposo, o qual devia, em tal caso, entregar à esposa o libelo
de repúdio, na presença de uma ou duas testemunhas. Se, durante o noivado, a esposa
houvesse tido relações com outro homem, era considerada adúltera e, por isso, sujeita ao
apedrejamento (Jó 8:3-5). São José, percebendo que Maria estava grávida, não podia, por um
lado, conhecendo-lhe a pureza e a virtude, pensar mal dela, por outro, não sabendo explicar o
fato, pensou em lhe dar o libelo de repúdio e enviá-la novamente à casa dos pais, em segredo,
para não expô-la à difamação. Esta lhe parecia a via mais segura para manter a própria honra e a
de Maria. Deus intervém no momento oportuno, enviando um anjo para dissipar toda a nuvem da
mente de José e para confortar o coração tão sensível da Virgem (vers. 22-23). O evangelista,
sempre com o olhar fito na finalidade de demonstrar a messianidade e a divindade de Jesus,
ressalta muitas vezes que os fatos narrados não sucederam por concurso fortuito de
circunstâncias, mas segundo um fim pré-estabelecido por Deus, que guia todas as coisas,
segundo sua natureza, para a realização de seu plano, e cita Isaías 7:14-25. Com a expressão “a
conhecesse”, no sentido bíblico de ter relações conjugais (cf. Gênesis 4,1; I Samuel: 1:19), o
evangelista quer evidenciar que Jesus nasceu de uma virgem.
Ainda Mateus, no episódio da morte de Jesus (cf. Marcos 15:33-41; Lucas 23:44-49; João
19:28-30): “Desde a hora sexta, cobriu-se de trevas toda a terra, até a hora nona. Cerca da hora
nona, Jesus exclamou com voz forte: Eli, Eli, láma sabactáni, isto é: Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?.”
O cúmulo e a violência de tamanhas dores arrancam a Jesus um lamento que ele exprime
com as palavras iniciais do Salmo 22, canto profético da sua paixão. Naquele mar de amarguras,
parece-lhe que o Pai celeste o abandonara, mas não perde a calma e a confiança
(cf. Lucas 23:46).

Longa jornada
É uma longa viagem, a da espécie humana. Animal bípede, da família dos primatas, aprendeu a
falar e a fabricar utensílios reconhecíveis. No fim da primeira etapa, aprendeu a usar o fogo e
surgiu solitário, na sua classe de animais. Era biologia. Na segunda etapa, aprendeu a cozinhar
alimentos e fazer roupas quentes; criou o arco e a flecha e domesticou o cão para a caçada.
Melhorou sua habilidade. Na terceira etapa, cultivou plantas, celebrou a cerâmica, fez carroças,
fundiu o cobre, escreveu com carvão, criou máquinas a vapor, comércio, imprensa, dinheiro,
canhão. Desgastou o planeta e a natureza sofreu. Uma história de mais de um milhão de anos.
Aonde conduzirá esta aventura que começou com os longínquos antepassados? Saberemos
combinar os dons e adivinhar? Ou, como macacos nas árvores, nossa visão será a de meros
sobreviventes, os que não puderam dar o salto que liberta da angústia e do medo? Enfim,
relativizar a morte. É uma longa jornada, que apenas começou.
Nem tudo o que sinto e penso, eu conto. Nem tudo o que conto, eu sinto. O que eu mais
oculto nem é meu o segredo. Quem pensa e sente por mim, para onde se encaminha meu
pensamento, meu sentimento? O útero alimenta e é o campo da expansão. Dialeticamente, é o
universo com limites que expulsa e tem que ser abandonado. A cela-paraíso detém e é a
plenitude. Até que, pela rachadura, perde-se todo o aconchego e se ganha a liberdade e o medo.
A síndrome da rejeição. O desamparo e a provocação. No último livro do Novo Testamento que
fala em uma Segunda Vinda: “E vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira
terra desapareceram...” (Apocalipse 21:1-2).
A introspecção e a conquista do externo são os dois elementos do conflito que se instaura —
e que vão moldando o destrutivo e o construtivo da psique e, em decorrência disso, da civilização.
O indivíduo, divíduo, a universalidade, o provincianismo, conteúdo e forma, escolha e compulsão.
Disto se pode refletir e falar, pensando, monocórdio, na estrutura linear que Ingmar Bergman
denuncia (a quem interessa?), ou, estranho no ninho, jogando um jogo sem regras, fragmentário,
que permite chances a algum acerto, por inteligência e/ou acaso. Prefiro esta rota ou ela se me
dita. Ou falta de rota, fronteira da poesia, esquizofrenia, mística.
A insistência na unidade e na integridade pode esconder o valor da dúvida e da multiplicação.
Auto-restrição que tem contornos morais e emocionais. A dicotomia do espírito e da matéria, e
mesmo a vontade de ligar as duas concepções, pode representar a armadilha formadora de um
estrato de nossas mentalidades... A fé, enquanto crença que abdica do saber, é um elemento de
resposta ao Assombro. Mas, talvez, seja necessário a consciência ou a ciência para a simbiose
com a Outra Coisa. O otimismo e o desastre genocida da II Guerra Mundial que advogaram o
diálogo para o entendimento foram passos decisivos. Mas João XXIII tem sua contrapartida. Urge
o próximo, o autêntico monólogo, capaz de registrar a confissão na psicanálise. O Eu.
Segundo Meister Eckhart (século XIV): “A geração não é no tempo, mas no fim e limite do
tempo. No movimento passado e futuro das coisas, vosso coração perpassa; é em vão que
tentais conhecer as coisas eternas; das coisas divinas, deveis vos ocupar intelectualmente...”
Para o mestre budista. D.T. Suzuki, co-autor com Erich Fromm de Psicanálise e Zen-
budismo, “a terminologia é tudo que nos separa”. Na realidade acho que a terminologia é tudo
que nos une, e por isto separa o eu do eu, enquanto nos junta ao outro que, por sua vez, junta-se
a nós e se separa de si. Agostinho exclama: “O que é isto para mim, embora ninguém o
compreenda!”. A compreensão é uma ponte, mas o anúncio é do abismo. Criar o abismo, o Nada,
passa pela doutrina budista do Nirvana: “Ver a face de alguém ainda antes do seu nascimento”,
Hui-neng (Yeno, morto em 713). Numa justaposição, o Tao significa caminho, mas Lao-tzu, no Tao
Te Ching afirma: “O caminho é semelhante a uma vasilha vazia, quando olhas para ele, não
podes vê-lo”. Uma versão linda da desconstrução do Nome de Deus, na Cabala judaica reportada
por Martin Buber: o Nem. A sacralidade da forma que ilumina o conteúdo se proclama, no
hebraico, como a língua do Senhor, em que cada letra, per si, resulta em um mundo, os
ideogramas chineses em que os caracteres comunicam, diretamente, o senso.
“Era uma vez…”. Assim se iniciam as histórias que nos pretendem ligar a uma tradição.
Diferentemente do depoimento que, em juízo, introduz-se com “A bem da verdade”, “Era uma vez”
admite a mentira como a instância da fantasia — a imaginação, o simbólico. Daí um salto ao
pecado e à absolvição. O conhecimento das razões mais profundas, estranhas, condenáveis, a
desrazão iluminada, nos escaninhos do Inconsciente. O mestre Halaludin Rumi (séc. XIII), mestre
do sufismo, reporta a peculiaridade operacional alusiva das estórias, em que o factual serve,
unicamente, como uma abertura para outro e outro fechamento. O homem que bailava com as
estrelas. O Mulá Nasrudim, convidado a discursar numa aldeia, pergunta à multidão: “Vocês
sabem o que vou dizer?”. Em coro, as pessoas respondem que não. “Se não sabem, é inútil
falar”. Retira-se. Protestam e ele volta. “Vocês sabem o que vou dizer?” “Sim”. “Se sabem é
desnecessário falar.” Então se retira. Protestam. Volta. “Vocês sabem o que vou dizer?” Metade
diz que sim, metade grita que não. Nasrudim arremata: “Então a metade que sabe conta para a
metade que não sabe”. Numa passagem italiana do teatro do absurdo, alguém anda com o pé
enfaixado. Inquirido, responde que havia sonhado que quebrara o pé. Woody Allen, em um de
seus arroubos, afirma que, em um domingo em Nova Iorque, é mais fácil encontrar Deus do que
um encanador. Desavisado, o cineasta não sabe que fala do sábado e não do domingo, e que, no
seu arquétipo, no dia sagrado não se encontra um maker (no sentido da concretude), mas um
marker (o peregrino que anda com a cabeça na lua, o espírito no Céu). Somos criador e criatura
do mito/minto. Sagrado, lenda ou folclore. Verifico, pela literatura, os processos mentais da
pessoa e da multidão. A crítica, também arquetípica. Em psicanálise procura-se o passado para
compreender o presente e planificar o futuro. Na saga islandesa desloca-se o presente, vive-se
no passado e no futuro. Quando falo (fallus) “a alma do homem”, referindo-me à espécie, excluo
as mulheres, não só da fala (fallus), mas da espécie. Quando invento um personagem (crio),
como um deus, crio pessoas que serão virtualidade enfeitada
Entre a dessacralização da realidade e sua banalização, eis aí o espaço para outra aventura.
Além do fato e do ato, saio do profano e tento a história. Psicanalista e analisando — gato e rato
mutuamente se caçando.

O exteriortc "O exterior"

O que é um personagem, senão a corporificação de um incidente? O que é um incidente, senão a


ilustração de um personagem? O que é um quadro ou um romance que não seja de
personagem? Que mais procuramos e encontramos nele? Quando uma mulher se levanta com a
mão apoiada na mesa e olha para você de uma certa maneira, isto é um incidente; ou, se não for
incidente, penso que será difícil dizer o que é (cf. Henry James, The Art of Fiction, 1884).
O interiortc "O interior"

Em metade dos monólogos interiores da Ilíada, uma linha inteira se repete a um ponto crucial:
“alla ti e moi tauta philos dielexato thymos” [Mas por que meu próprio coração (thymos) disputa
comigo assim?]. Odisseu usa a frase em seu monólogo, externando medo (Ilíada, XI, linha 402);
Menelau também a utiliza em seu monólogo, exprimindo medo (XVII, 97); o mesmo faz Agenor
em seu monólogo, refletindo medo (XXI, 562), assim como Heitor lança mão da mesma pergunta
em seu monólogo e exterioriza o medo (XXII, 122).
Antes de Freud, todo movimento do estudo do espírito, menos o literário, era fruto de auto-
análise. A vida, na cultura judaico-cristã, vai do Gênesis ao Apocalipse — o nascimento e a
eternidade (Paraíso), expulsão e morte, até o perdão na Cidade de Deus. A caminhada para o
longínquo (Eneida), o retorno ao ninho (Odisséia), o romance heróico desemboca no emaranhado
da psicologia moderna (fenômeno do final do século XIX). O ego se revela, o trato do traumatismo
consagra o drama — misto da comédia e da tragédia — em Chaplin ou Jack Nicholson. Para
longe, para longe, uma desenfreada conquista da pergunta. Repudiando a resposta, como em um
salto cavalar de obstáculos. Aí é que se desenha a trajetória do divino, escape. Minha estória só
existe em cima de uma versão que construo para mim e, se quiser, relato. Se passo adiante,
narrativa oral ou escrita, o enredo passa à construção da mentalidade, mais ou menos estética ou
inestética. O conteúdo pode ser feio e embelezado pela forma, belo e enfeado pelo contador, belo
e belo, feio e feio, triste, alegre, irônico, mas, seja qual for a perspectiva, estamos diante de
inúmeras possibilidades — personagens, incidentes, audiência, narrador, autoria, memória,
crítica. A ironia, a surpresa e o depoimento testemunhal que constituem o material que orna a
sensação e vai se infiltrando em nossa própria realização.
Em Dom Quixote de La Mancha, Cervantes escreve:
“É necessário casar a fábula enganosa à compreensão do leitor, escrevendo de modo a
tornar aceitável o impossível, encobrindo monstruosidades, mantendo a atenção em suspenso e
em estado de expectativa, satisfeita e divertida ao mesmo tempo, a fim de que admiração e
entretenimento sigam juntos, lado a lado; e todas estas coisas, ninguém as poderá realizar se
evitar a verossimilhança e a representação da natureza (de la verisimilitud y de la imitación), na
qual consiste a perfeição de coisas escritas.”
Einstein dizia que o milagre é que o quarto lado do quadrado é paralelo ao segundo e
perpendicular aos outros dois. Herdeiro da Carruagem Celestial,14 afirmou que se inspirou num
facho de luz no céu para criar a Teoria da Relatividade. Em clássico da ficção científica, um hiper
supercomputador, alimentado com todas as informações universais disponíveis, indagado se
Deus existe, processa em tensão a resposta: “Agora, sim.” A megalomania contaminando a
máquina.
E assim a simbiose entre o irreal, a ficção e o acontecido é a maternidade no devir. A
informática e a comunicação simultânea, instantânea e quase onipotente oferecem um enfoque
de onisciência, com o projeto da onipresença, e esta via dupla entre o exterior e o interior da
mente sugere múltiplas percepções. A multimídia dispensa a testemunha ocular e convoca a
consciência para a ordenação de dados, dinamicamente desenquadrados.
A intermediação é compreendida quando analisamos um espectador que assiste a uma
orquestra, no teatro, e o mesmo espectador diante da TV. Long shots (planos distantes), close-up
(primeiros planos), o comentário do locutor e, finalmente, a manipulação tecnológica, com
inúmeras possibilidades de reedição, por parte do espectador.
A forma da narrativa não mudara muito desde Sófocles, mas agora, entre o relato e a autoria,
eu situo e rearranjo quase infinitamente, sempre contornando as imperfeições na busca. Na
busca do quê? Tenho uma paciente que, sessão após sessão, reclama e protesta contra os
outros e o mundo. A sogra, chata, foi operada de câncer no seio. Ficou com um seio só. “Que
chato, que gente feia, que gente chata! A empregada é mal-educada, fala alto e atrasa para
chegar ao serviço. Governo ladrão e corrupto, e, ainda por cima, o marido, um distraído, tem que
pagar multa por sonegação de imposto. Mas que desagradável, tudo!”
O itinerário da utopiatc "O itinerário da utopia"

Adão, quando enxerga o poder de Eva dando nascimento a uma criatura, tem a revelação de sua
imagem e semelhança com Deus. Eva é deusa. E a inveja leva à mentira. Então conta que ela foi
tirada do corpo dele: a primeira se/men/te que desemboca em Maria, que dá nascimento a Jesus,
criatura-criador, a Moisés, o filho da princesa egípcia e do escravo hebreu.
Deus-Mulher e o Simbólico desencadeiam a cultura da força masculina, a compensação
como instrumento perene da escrita. E este deus que não pode ter a face feminina não terá,
então, nenhuma aparência, nomenclatura, visão. E não divide: o monoteísmo.
Religiosos do Mistério, o gnóstico, conhecedor do secreto; o psychic, o que vive apenas da
fé. Segundo Vissert Hooft, foram quatro as ondas históricas do sincretismo. A primeira, no século
anterior ao Exílio. A segunda, quando Alexandre, o Grande lança o movimento da oikoumene
(ecumenia) — o equivalente a um único mundo. A terceira, preparada pela Renascença e o
Iluminismo. A quarta, de hoje. Herança antevista em Leaves of Grass, deWalt Whitman:

A ti, em tua veneração que tudo provê e tudo abrange –


A ti, não meramente limitada a uma só bíblia ou salvador,
Teus salvadores inúmeros, latentes dentro de ti mesma,
Tuas bíblias incessantes dentro de ti mesma, iguais a
quaisquer outras, divinas como quaisquer outras...

A castidade, vista como sublimação do desejo sexual e aprimoramento para a salvação. A


circuncisão e a excisão que levam à paranóia e ao sentimento de culpa, em um trauma que é o
atentado e a lesão corporal à criança, em nome do Pacto amoroso. Gersom Scholem, em A
Cabala e seu simbolismo, apoiado no Bahir, diz que a Schechiná torna-se um aspecto de Deus,
um elemento feminino, independente, dentro dele. E a revelação da face feminina de Deus, que
os cabalistas explicam por meio de exegese gnóstica, mostra um impulso religioso revolucionário.
A separação, em Deus, do princípio masculino e feminino, é o princípio do Exílio. Deus se exila de
Deus. A pessoa se aliena da pessoa. A inteireza se rompe em mil pedaços. Reunir as centelhas,
exterior e interior, cima e baixo, é o itinerário da Utopia, a Terra Prometida, o êxtase. A sanidade.
A massa absorve e absolve o esquizofrênico. Difícil no contato, solitário em relação ao
humano, é, também, profundamente sugestionável. Por estas características, é um escravo do
dever e se sente estimulado e amparado na multidão. Freqüentemente, o som da massa é
intraduzível. Urros são constantes. A torcida patriótica no futebol pratica a guerra sem risco, em
um orgasmo covarde. O computador — o robot, o domínio da inteligência mecânica — associa-se
ao Golem, criado por artes mágicas e que alguns imaginam o próprio Adão. A conexão
etimológica entre Adam e a terra (adamá, em hebraico) curiosamente não é referida no Gênesis,
na história da Criação. Todo instante é um momento de interlocução entre a pessoa e o Universo,
entre a alma e Deus, a discrição e a temeridade. A libido compulsiva do garanhão e a aflição do
menino conduzem o macho atrás da dama. O adesivo pregado no vidro traseiro do automóvel
informa: “Não me siga. Também estou perdida”. O grupo batista americano, do qual fazem parte o
presidente Bill Clinton e o vice-presidente Al Gore, recentemente afirmou em declaração de fé a
submissão da mulher ao homem, baseada na Bíblia. Entrevistado, em seguida, o presidente
Clinton, respondeu: “O que posso fazer a respeito?”. Este é o limite. Os aviões habitam o Céu.
Exilado das nuvens, para onde irá o Deus? Freud afirma: “Tem-se a impressão de um demônio
que luta para não chegar à luz do dia, porque sabe que será seu fim”.
No movimento circular-mandala ou o eterno retorno, a inveja masculina que projetou a
arquitetura antropomórfica do deus-pai será desmontada. Concomitante com as transformações
sociais e culturais de nossa época, uma perspectiva feminina da divindade, inédita, abrirá sendas
inesperadas para a mentalidade. A arqueologia lança luz sobre um estranho comportamento, que
pode ser observado no caso de Raquel, quando se apoderou dos deuses do lar do pai, Labão,
sem o conhecimento deste. A lei e o costume hurrianos nos informam de que aquelas figurinhas
simbolizavam seu direito à parte que lhe cabia dos bens de Labão. Levando-os, Raquel procurou
proteger seus próprios direitos e os do marido.
Giorgio Vassari escreveu que “a graça de Deus possui a mente de Leonardo da Vinci”.
“Não sabeis que sois, cada uma de vós, uma Eva? A sentença de Deus sobre esse vosso
sexo permanece viva hoje: a culpa deve necessariamente viver também. Vós sois o portal do
demônio; vós sois a violadora da árvore proibida; vós sois a primeira desertora da lei divina; vós
sois aquela que convenceu aquele a quem o demônio não foi suficientemente valente para atacar.
Vós destruístes de modo tão irresponsável o homem, imagem de Deus. Por vossa culpa, até o
filho de Deus teve de morrer”.
Agostinho concordava: “Qual a diferença” — escreveu a um amigo — “se se trata de esposa
ou de mãe, continua sendo a tentadora Eva, da qual devemos nos acautelar em qualquer
mulher”. Na verdade, Agostinho está claramente intrigado por Deus ter feito o sexo feminino:
afinal, “se era de boa companhia e conversa que Adão precisava, seria muito mais conveniente
ter dois homens como amigos, não um homem e uma mulher”.
No período paleolítico o culto da Mãe-deusa, fruto da fertilidade. Deus: mulher nua, grávida,
esculpidas em estátuas, descobertas pelos arqueólogos na Europa, Oriente Médio e Índia. Mais
tarde, Inana, na Suméria; Ishtar, na Babilônia; Auat, em Canaã; Ísis, no Egito e Afrodite, na
Grécia.
A dessacralização da vida levou à banalização da existência. O profano legitimou a
profanação. Reconquistar o pensamento mágico e juntá-lo, irmão siamês, ao pensamento lógico
rasga o véu da alienação.
O homem só se faz se conquistado pela mulher. Nas palavras de Borges: “Para um
cavalheiro, só interessam as causas perdidas”.

Londres
3 de julho de 1998
O fim da história masculina

A FRAGMENTAÇÃO, ELEMENTO CONSTITUTIVO DA CRISE SOCIAL CONTEMPORÂNEA , atinge a condição da


mulher, dramaticamente. Esta fissura estimula a divisão das pessoas, segundo critérios
convenientes à manipulação do poder, enquanto administração e uso do Estado ou controle
cultural e ideológico. E este terreno é dos mais dolorosos pelas tensões que promove e os
desacertos que desencadeia nas relações pessoais. Porque a distinção maior na escolha dos
objetivos tem de ser feita a partir da família humana, e não de padrões de diferenças individuais,
de subjetivismos alcançados por preconceitos, interesses ou fantasias da histeria persecutória.
Fonte de vida ligada à mitologia do enigma da fertilidade ou objeto de prazer —, o dualismo
tem servido de introdução ao que se convencionou chamar de problema da mulher. Reprimida,
com débil margem de liberdade e menos perceptível mutação ao longo da espécie, a mulher
resiste, no seu universo instintivo.
Os gregos dizem que, na ilha de Lemnos, as mulheres abandonadas por seus maridos se
haviam conjurado para eliminar em seu país o sexo masculino: maridos, pais e irmãos. O que
lhes trouxe vazio existencial. Assim, quando os argonautas fizeram escala em Lemnos, foram
convidados a permanecer por um ano, povoando a terra. E as mulheres voltaram à sujeição com
alegria.
Perde-se na noite dos tempos a noção brutal, contraditória e fatídica de que qualquer
liberação da mulher fica presa à dicotomia radical — antagonizar-se ao homem (feminismo e
caricatura) ou dele depender, carga maldita, na selva de especulação biológica. Nos jogos,
relatando o sexo e a agressão na civilização, o papel feminino identifica-se, magicamente, com
uma teoria do conflito.
Os bárbaros celtas, segundo Plutarco, cerca do Mediterrâneo, introduzem o papel da mulher,
numa descrição heróica: “... em cima de seus carros, vestidas de negro em sinal de luto,
matavam os que fugiam, indistintamente, pais, maridos, irmãos e estrangulavam seus filhos com
suas próprias mãos, lançando-os embaixo das rodas dos carros e às patas dos cavalos; logo se
matavam a si mesmas...”. Em contraste, César tenta destruir a temida legenda sobre as galas,
acusando-as de medrosas e pérfidas. Aliás, nesta conversão, funde-se a rejeição do preconceito
contra o outro-medo e covardia, a projeção que faz adulto contra criança, jovem contra velho,
branco contra negro, e assim por diante, no instinto de morte que se revela, atrás da divisão, a
impotência do monismo.
Freud demonstrou como o amor pode transformar-se em ódio, e ambos na dominação do
sadismo.
Na Germânia, os elementos religiosos atribuíram às profetisas poder de previsão do futuro,
tendência para eliminar as tensões e obter a inatividade da mulher, numa espécie de
homoeostase. Tão maravilhosa que nem parece gente... no estatuto matriarcal, rainha, com
poderes no estado virginal, esposa e mãe para conferir símbolos emitindo valores, e força
produtora dos bens de consumo. No regime patriarcal acessório do homem, instrumento para
perpetuar a espécie, guarda da educação dos filhos, trabalhadora para o agregado familiar.
Somente na comunidade democrática e liberal, a mulher se sobreleva às injunções totalizantes de
classificação simplista. Pois que é na variedade psicológica e na conquista do humano que a
mulher ocupa o princípio da assimilação, no propósito da ascese. Sirva a lição da primeira mulher
de espírito público da Bíblia, Débora. Sua vocação não a afasta dos homens. “E cantaram Débora
e Barac. O cântico era dela, mas cantou-o em dueto”. E Barac disse: “Se fores comigo irei, se não
fores, não irei”.
A disputa entre as mulheres apresenta o episódio antológico da luta entre Fredegunda e
Brunehilda, uma concepção inspirada na noção de “virilidade” masculina. É de Cervantes que
vem o arroubo descontente: “Os tempos mudaram, as cadeias encerram o corpo. Mas o desejo é
livre, nada pode encerrá-lo”.
Hoje, no serviço informativo, principalmente da TV, confusa tela de esperanças se dissipa, a
fase feminina exterioriza a vil exploração: manequim para consumo do sexo desvairado;
falsamente liberada num propósito infantil de “guerra” contra o homem; pairando entre as
exigências de Sidarta “que para seus sogros seja um modelo de nora e para suas escravas um
modelo de dona, enfim, que seja a primeira a levantar-se e a última a deitar-se”, e a infâmia de
acompanhar as células e os partidos, numa vanguarda de araque; adoidada personagem do
“shopping”.
No macrocosmo da criação, a mulher e o homem têm sua essência no envolver do amor,
experimentada na consciência e não na categoria que postula o poder sobre o outro para matar,
destruir, dominar; analogamente, registre-se a dialética para o mundo: homem e mulher, não
opostos, mas como companheiros na reunião espiritual. Fechem-se simultaneamente a
temporada homicida de caça às mulheres e o sensacionalismo irresponsável. Admita-se a
sublimação numa ética superior de participação igualitária, independentemente de modelos
impostos e paranóia das lideranças do ódio, equacionando os desafios do trabalho, educação,
prazer e saúde.

Mecanismos de autodestruição
Uma tentativa de compreensão dos
impulsos inconscientes que bloqueiam e
levam o indivíduo e o grupo ao fracasso
A PSICOLOGIA DA DESTRUIÇÃO . Este tema exerce fascínio desde Freud, que a ele dedicou um
trabalho precursor de análise.
Já na mais remota Antigüidade, os artistas procuravam interpretar e traduzir os impulsos que
levam o homem (e, muitas vezes, grupos e até mesmo nações) a percorrer um estranho caminho:
do nadir ao zênite, em termos de consagração; e, na assunção, a ruptura dramática, o anticlímax
representado pelo fracasso absoluto, a doença trágica, a renúncia — enfim, a incapacidade ou o
gozo impossível da tão almejada satisfação da vitória.
A mitologia da Fênix empresta uma vontade de superação do efêmero que se esconde por
trás da temida (e inconscientemente planejada) derrota. Fênix, a ave capaz de renascer das
cinzas; uma espécie de fantasia antecipada para compensar o medo do risco fatal.
Paralelamente, a descrição do Apocalipse retrata a angústia humana pelo terror do
esfacelamento.
A uma observação histórica vemos desfilar exemplos antológicos:
Marilyn Monroe, com esforço e tenacidade, galgou todos os degraus do “sonho americano”: a
jovem humilde e humilhada, de origem plebéia, que se transforma no mito do corpo de uma
sociedade sequiosa pela supervalorização dos astros do cinema. Acumulou troféus numa
complexa sucessão: de mulher mais cobiçada, casou-se com o ídolo do esporte, Joe DiMaggio; e,
depois, com o nome-chave da literatura, Arthur Miller, que escreveu a saga “After the Fall”.15 Mas
seu psiquismo foi sendo corroído pelo comportamento agonístico. Tânatos não perdoa Eros e
exige a expiação, a purga infernal, dramatizada pelo suicídio. É muito alto o preço cobrado pela
fama, beleza e picardia. O Homo Sapiens não pode conviver facilmente com a plenitude do
ganho, e sua natureza esconde a disputa entre os componentes da biofilia e da necrofilia.
Algumas questões talvez possam aclarar a fenomenologia desta sina maldita.
Quase todas as religiões imprimiram um senso espiritual à civilização, especulando com a
noção do pecado original, do mal profundo da pessoa, que exige a contrapartida da expiação
catártica. Isso implica uma tendência agourenta, repassada por uma exigência de condenação
sem esperança, dentro da qual o vitorioso é o usurpador, aquele que terá de pagar pela violação
das rígidas normas culturais.
Se buscarmos um elemento comparativo, verificamos que o progresso científico vem sendo
acompanhado por um destino maligno de sombra que leva, por exemplo, cada universidade ou
hospital construído à lembrança do depósito de quinze toneladas de TNT reservado por indivíduo.
É o deserto do prazer. O instinto freudiano de morte casa-se com as concepções ambientais,
numa pletora de respostas a esta esquisita forma de diálogo coloquial com o azar, constituindo
sempre a legitimação de atos que espelham o auto-ódio.
O ritual do esforço oferece algumas pistas interessantes. A hostilidade e a violência estão
latentes no movimento de ascese. A paixão que industrializa o poder invoca a sensibilidade para o
pleito de alterar, crescer e decair. Onde ou quando a identidade humana constrange a virtude
para colecionar um vazio de desejo? O fim incorpora o propósito moral e nada mais existe para
ser executado. É a hora de abandonar o proscênio, sair de cena para entregar o cadáver às aves
de rapina. Curiosa e terrível disputa entre os dois fatores antagônicos — e, aparentemente,
contraditórios — como causa da queda: o êxito e a derrota.
“Saio da vida para entrar na História” é a despedida lancinante de Getúlio Vargas, incapaz de
conviver com o fracasso político, com a decadência de uma irradiação que faz a simbiose entre o
viver e o triunfo. A renúncia de Jânio Quadros segue o mesmo padrão. A carreira de Fernando
Collor de Mello é a cavalgada trágica que reflete o mesmo processo.
“Não mereço” o aplauso. Se aplaudem, inventa-se uma estratégia: ou por serem imbecis e,
nesta hipótese, merecerem desprezo; ou minha farsa é funcional, e esta alternativa me é
insuportável, devido à ameaça de desmascaramento. Esta fala introduz uma reflexão familiar ao
exercício psicanalítico. Independentemente da dimensão do ambicionado — um botequim de
esquina ou uma cátedra universitária — a habitualidade exige uma reflexão. Consigne-se uma
interação social que pode ter uma contemporaneidade significante: em um panorama de futilidade
medíocre, a marginalização do gênio e do talento tem, neste sistema, um componente de
explicação.
O lugar dos deuses não pode ser ocupado pelos homens que abandonam o calor do inferno.
Resta o limbo cinzento, a despersonalização asséptica de um não-comprometido que foge da
sanção, prendendo-se, covarde, ao roteiro da ação combinada.
Uma fórmula para a compreensão da realidade que estamos pretendendo verificar localiza-se
na relutância natural do ser humano em aceitar que a meta atingida não correspondeu à
expectativa. A lua não era o astro no céu; era a luz da lua refletida numa tampa de lata de lixo...
O homem que dedica toda a sua vida, por um abandono alienado de si mesmo, a corrigir a
glória do narcisismo em meio a uma cultura do ego, corre o espaço para a conversão repentina
de ter trabalhado, lutado e sofrido inutilmente. Na sua fantasia e desespero, destruirá o “eu” que
há muito já havia assassinado o seu eu.
Este autêntico harakiri da alma que devora a si mesma totaliza-se no instante da morte,
devendo ser a prova suprema e mais clara da sua existência. O popular estatui: “Quanto mais
alto, maior é o tombo”. Na analogia com a roda: “Hoje por cima, amanhã por baixo”.
Ocorre uma transmutação que compromete a própria gênese da intuição do ser, que vai do
nada ao bojo da crise existencial — pelas drogas, o álcool, a renúncia, uma lesão somatizada
irreversível, um escândalo moral e, finalmente, a morte.
A rejeição na infância, a ingente e retumbante vontade de acertar contas com o grupo de
rejeição — principalmente aquele estribado na família — desencadeia os pesadelos que se
seguem:
– O pianista é acometido por uma paralisia nas mãos.
– O jogador de futebol, em um treino de “pelada”, sofre uma lesão no pé às vésperas do
campeonato.
– Guimarães Rosa intuiu e sofreu a doença cardíaca fatal em 19 de novembro de 1967, três
dias após ter assumido sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em
1963.
– Richard Nixon perseguiu a presidência dos Estados Unidos como um sonho dourado, pelo
qual despendeu esforços e sacrifícios inimagináveis. Depois, cometeu o erro imperdoável em um
político de formação jurídica maliciosa, como foi o seu comportamento no “Caso Watergate”. As
gravações e a imprudência são uma descrição dos meandros fantásticos que estarreceram uma
nação. Simplesmente “coincidência”? Erros políticos ou fatalidade atroz?
Do cotidiano ao épico, uma conspiração inconsciente:
– O noivo, ansioso pela hora de obter a noiva ambicionada, erra o nome da amada, “Eu te
amo Maria... quer dizer, Joana”, e assim, compromete a conquista. O material é exposto nos
pastelões.
– Júlio César enfrenta as facadas assassinas, apesar de avisado do pressentimento de sua
mulher.
– Charles De Gaulle recolhe-se ao interior. Uma retirada tática, deixando a presidência da
França com o objetivo de uma volta ao poder; mas também desvenda a face depressiva que
acompanha o passo da vitória.
– Winston Churchill apelidou de black dog esta composição entre o superego e a “cobrança”
psíquica que fustiga e exige o preço da realização.
– Uma lenda se dispôs com a identidade do século XX: a ascensão e o fim dos Beatles. O
mundo inteiro se apaixonou pelos quatro rapazes de Liverpool — John, Paul, George e Ringo —
que saíram do anonimato e, como ases privilegiados, bancaram o cacife da História. Reis e
multidões prestaram-lhes homenagens. Era impossível chegar mais alto. No topo e no pico, o
grupo se dissolveu. Let It Be..., “Deixa estar” é o título revelador do conformismo que surpreendeu
a opinião pública, em 1970, diante de tal atitude inesperada. Um autêntico suicídio artístico.
As modalidades são as mais diversificadas, complexas e, muitas vezes, escondem-se por
trás de racionalizações aparentemente convincentes:
– A voraz fotógrafa Jacqueline casou-se com o status do ídolo, o menino de ouro da
coragem, Quixote da política e presidente da América: John F. Kennedy. Uma vez viúva,
depositou-se em suas mãos a extensão carismática do morto. Ela tornou-se a dama da fé. Em um
movimento sem causa, aceitou a corte de Aristóteles S. Onassis, o aventureiro do dinheiro. A
decepção popular refletiu-se na manchete de um jornal francês: “Oh, Jacqueline...”.
Entre nós, ninguém espelha melhor esse feitiço do que o “Timão”. Na final perdida para o
Palmeiras, em 1974, Rivelino é “crucificado”. Então, quase 30 anos depois, volta para o
Corinthians como diretor técnico. O eterno retorno de Nietzsche. O limite entre o inconsciente
coletivo do paulista e o seu time preferido se estreita. As aspirações se afinam nesta ambigüidade
de apogeu e declínio. O corinthiano se fez em cada susto, na frustração e no desejo, lembrando o
verso do poeta irlandês W. B. Yeats (1865-1939), Prêmio Nobel de Literatura em 1923: “Devo
deitar-me onde começam todas as escadas”. Porque, neste jogo duro, às vezes quem ganha
perde — é a etnografia do “já era”.
Cada um coloca em uma entidade eleita o mistério da esfinge, que devora todo aquele que
não consegue resolver o enigma proposto: ser bem-sucedido e ter paz de espírito. Só Édipo
escapou do Götterdämmerung e, por isso, foi convidado a ocupar o trono, vazio desde a morte de
Laio. Mas, depois, já viu o que lhe aconteceu, arrancou-se os olhos quando soube quem era. A
esfinge verdadeira era ele próprio, e era essa que ele devia decifrar primeiro. Elvis Presley,
tragicamente, não aprendeu com Eugéne Ionesco a lição de que a palavra “faca” pode matar.
Como toque final, o acento messiânico que sustenta a lenda do êxito: a escolha divina, a
provação, a queda e o retorno post-mortem. “Sacode a poeira e dá a volta por cima”. Que o
digam as viúvas de Rodolfo Valentino ou de Perón. Perón... Perón está presente: “se siente”.
O Milênio como anunciação religiosa, político-social ou microparaíso individual é o infeliz
onírico da impotência para a felicidade adulta. O homem não deve ser perverso consigo mesmo.
Ele pode perdoar-se o fracasso e saborear a vitória...

A desrazão do terror —
O vampirismo do assassino político

O ataque do 11 de setembro contra o World Trade Center, em 2001, reúne todos os elementos
emblemáticos do sadomasoquismo. Einstein lembrou que “a violência fascina os seres
moralmente mais fracos”. Ao usar o atentado, a mão do terror faz o exorcismo do medo, da
tanatofobia dos ajuntamentos pessoais. Repentinamente, numa fração de segundo, as camadas
de cultura se esgotam diante da violência inaudita. A maturidade e a civilidade de regras suaves
de interação são substituídas pela linguagem brutal do assassinato.
Misteriosamente, como se correspondesse a impulsos inconscientes até então refreados pela
educação, o terrorista sente-se onipotente, todo-poderoso. Ele é capaz — e, realmente, num
lance absoluto, muda a história.
O que é que anima o indivíduo ou um determinado grupo a se arrogar realizador dos anseios
da sociedade e, num acesso de fúria ou fria determinação, eliminar aquele que simboliza o
esforço construtivo da comunidade?
São inúmeras as racionalizações e os pretextos ideológicos, políticos e religiosos que podem
se invocar altruístas, espiritualizados e lógicos. Dificilmente alguém confessa, por trás do gesto
tresloucado, uma causa menor, um motivo pessoal e mesquinho. Uma característica comum nos
atentados é a superestrutura, elaborada por fatores éticos e até estéticos.
O estudo da realidade pode fornecer pistas para a dupla compreensão, ao mesmo tempo, do
psiquismo do criminoso e da psicologia social, que favorece a sua ocorrência ao irradiar a
cumplicidade, o que torna o crime, na sua cruel expressão, quase inevitável.
O crime antológico da espécie é o golpe desferido por Stalin contra Trotski, então exilado no
México, em 1940. O patético na tragédia: político e revolucionário, Trotski era considerado, por
unanimidade, o mais inteligente, o melhor orador, o soldado mais corajoso, o estrategista mais
clarividente, o teórico mais elaborado e erudito. No entanto, ao lançar mão da perfídia e dos
pequenos truques típicos da mentalidade policialesca de seminarista, Stalin chegou ao poder
contornando o próprio testamento político de Lênin. Todavia, a sombra do talento formidável do
adversário corroía o seu ego teratológico, monstruoso. A síndrome persecutória — que surgiria
mais tarde na fantástica “conspiração dos médicos” — adivinhava o pesadelo de uma rede
trotskista que o envolvia: armar o braço de Monard ou Dreschd é afastar de sua própria cabeça a
espada de Demócles. Stalin matou em Trotski a sua parte idealizada, como em geral castramos,
por ação ou omissão, algum objeto interior que nos inquieta. E quando a turbulência se socializa
para uma projeção pública, é a doença coletiva que sonha relaxar para a repressão.
Esta estranha identificação oferece outro dado reflexivo. O jovem turco Mehmet Ali Agca, que
feriu o Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981, reconheceu o medo de que o invulgar
magnetismo pessoal do pontífice, sua atuação e proselitismo pudessem ameaçar a extrapolação
que fazia de sua própria religião. O fanatismo (a fé levada às raias da obsessão) é uma práxis
constante no terrorismo. Uma aliteração na crença obstinada e cega, impassível diante do
diálogo, rígida proprietária da verdade unilateral. Enfim, a sua insegurança interior transformou-se
no mecanismo de ansiedade que disparou contra suas próprias dúvidas. Optou pelo “ not to be”, o
“não ser” no teatro existencial.
A investigação psicológica mostra facilmente uma concentração ambivalente no movimento
do indivíduo e da multidão, nesta simbiose de amor e ódio, convertendo o egoísmo em altruísmo
e a perversidade em compaixão. A idolatria da massa pelo carisma, numa antítese sentimental,
não raras vezes desvia para a mesma pessoa um ódio descontrolado, desenvolvido a partir de
um estado infantil cujas raízes mergulham na necrofilia, o amor à morte. Para este reduto hostil, o
sorriso é provocação, a alegria é insulto e o sucesso é pecado.
Kennedy, cuja biografia é um rol de vitórias, espelhava otimismo nas mãos abanando e no
rosto aberto. Foi abatido por Lee Oswald, o desorientado lumpen lombrosiano, de família
desestruturada e vocação desfeita — ou por conspiração anônima.
No homicídio, suspeita-se da instabilidade do agente, gerando a alegação de insanidade
temporária. Entretanto, jamais se estabeleceu uma ligação entre história de doença psíquica e
maior propensão à violência. Em 1970, Gulevich e Bourne publicaram uma pesquisa feita com
dezenas de milhares de doentes após a alta. Suas transgressões legais tinham freqüência igual
ao do resto da sociedade, ou até menor.
A sociedade convida, implicitamente, à boa ação, e ganha para este comportamento a
maioria dos seus componentes. Quando, porém, esta comunhão exclui certos indivíduos ou
grupos, e a exigência, em si, é imposta, o recalque de impulsos destrutivos é incapaz de impedir
manifestações e compensações instintivas, descontroladas e destrutivas da alma coletiva.
Um fato relevante é a nossa relação com a morte, partindo do homicídio singular até o
genocídio; do acidente ao suicídio. O tema paira entre o tabu e o horror, um imenso
constrangimento com o qual não se pretende vizinhança; escora-se nas trevas e mergulha-se no
esquecimento. Morrem os outros. Ninguém aceita a evidência da sua morte. Nesta transferência
para o outro, minimizamos o nosso sentimento de culpa. “De mortuis nihi, nisi bene” (“O morto é
sempre bom”), Freud, em “Psicanálise dos Tempos Neuróticos”, lembra que “nos comportamos
como uma espécie de Asrael, que também morre quando morre a pessoa de quem gosta”. O
assassinato do herói, do grande homem, é acompanhado na maioria das vezes de um altíssimo
grau de risco para o executor — quase um “comando kamikaze”. É como se, num desígnio
autofágico, a renúncia à vida metabolizasse na fama e no prestígio do outro sobre quem se
realizou o êxito. Uma espécie de transmutação química, num passe-relâmpago do anonimato ao
estrelato: a lenda do Drácula na TV da classe média. O mesmo em relação ao World Trade
Center, pelo signo. Para a surpresa, o delírio, o luto e o desespero da ausência do semideus que,
na essência simbólica, é também o superego. Saciamos o intervalo — ou a ruptura entre o
respeito à vida alheia e o pasto destrutivo — com uma redução do sagrado ao profano.
O bandido é uma caricatura do objeto odiado, concretizando a lembrança dos Rolling Stones:
“No, you can´t always get what you want. And if you try sometime you find. You get what you
need” (“Não, você não pode, sempre, conseguir o que deseja. E se tentar, algumas vezes você
conseguirá. Você consegue aquilo que necessita”).
O paradoxo conclui que a debilidade do forte se apóia no força do fraco. Com um punhal ou
uma bazuca se faz a catarse do destino das gentes. Será sempre o risco a pagar, no emergir do
rosto sem face da sobra despersonalizada da periferia. O assassino político busca a identidade
no vampirismo, ao mutilar a consciência social e desqualificar a auto-imagem coletiva.
7TC ""

O senso moral. O anseio por


uma proposta ética na coisa públicatc "O senso moral. O anseio por
uma proposta ética na coisa pública"

A LEI NÃO DEVE PRIVILEGIAR, DISCRIMINAR, FAVORECER, PERSEGUIR. DEVE SER GERAL. É de boa
política que, em sua vida social, uma nação prospere num ritmo normal, vivendo tempos comuns,
por meio de comportamentos comuns.
Ainda se recomenda que os povos tenham como referencial básico a noção de que a lei é
geral e que não privilegia, discrimina, favorece ou persegue. Quando isto não acontece,
manifesta-se o protesto incontido de dor e rebeldia que pode tomar inúmeras formas.
Desde o discurso de 8 de novembro de 66 a.C., em que Cícero, usando dos meios de
comunicação de então, pronunciou a sua Catilinária,16 indignado contra seus tempos e
costumes, e lançava seu exórdio fulminante: “Quousque tamdem abutere, Catilina, patientia
nostra?” (Mas até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?) — culminando no desespero
moderno de Kafka, porta-voz da perplexidade de uma época de hipocrisia em que o sim quer
dizer não e o não traduz o talvez; em que o exercício do Direito não reflete a Moral, mas o império
da habilidade; em que o talento é humilhado pela mediocridade e a virtude é acuada pelo azar, as
ambigüidades entre o certo e o errado — quais as conseqüências disso, em nível individual e
social?
Basicamente, isto representa o alastramento da corrupção — com todas as suas seqüelas de
inquietação e violência — e que o próprio dicionário assinala quando considera que não se trata
somente do ato de corromper e decompor, de putrefazer e desmoralizar, de depravar e devassar,
de adulterar e seduzir, de subornar e prevaricar; mas também de uma espécie de diarréia, ou
seja, uma fenomenologia infecciosa capaz de gangrenar os tecidos sociais, impregnando-os
indelevelmente de moléstia irreversível. Doença que suga suas forças íntimas, corrói o psiquismo
da sociedade, favorece o crime no varejo e no atacado, e desfibra a consciência na escola, na
família e no trabalho.
A história ensina a respeito dos perigos da exceção nos negócios que conduzem a tempos
acelerados (a cronologia perde seu ritmo) e sobre costumes flexíveis e maleáveis em demasia no
trato da coisa social.

O escândalotc "O escândalo"

A experiência vem demonstrando que esta é uma problemática que angustia países de regimes
políticos e ideologias as mais diversas, ligando-se a profundos condicionamentos culturais e
evocando raízes complexas da própria natureza humana.
Até uma nação já teve sua imagem desfigurada pelo escândalo causado por gastos e
desperdícios na aplicação do dinheiro público. Embora “panamá” (equivale ao “colarinho branco”)
tenha se transformado em sinônimo de negociata de alto coturno, lembra-se que a Corte de
Cassação de Paris anulou a sentença condenatória, beneficiando os acusados com a Lei da
Prescrição e dando origem a novos processos. Todos os parlamentares franceses envolvidos
foram absolvidos, não obstante uma comissão especial da Câmara dos Deputados tivesse
manifestado publicamente uma censura às autoridades judiciárias encarregadas do caso. No
Brasil a sucessão de escândalos acaba no acerto mafioso da “pizza”.
O preço pago pela sociedade francesa ao longo dos anos — em decorrência dos fatos, não
do escândalo — foi terrível. Porque o escândalo, na medida em que significa uma depuração,
pode servir de alívio e de corretivo para as angústias subjacentes da sociedade. O escândalo
pode ser a denúncia salvadora capaz de impedir a farsa, vestibular da violência social. É a
contrapartida da imprecação de PJ de Béranger (1780-1857): “N’allez pas vous laisser de vivre:
Bons esclaves, amusez-vous” (Não deixem de viver: bons escravos, divirtam-se). Planet Hemp.
Em nossa época, a corrupção se serve do desencontro da inteligência do homem — premido
entre o progresso tecnológico e a sua exaustão espiritual — e da incapacidade renitente para
enfrentar a quantificação cultural sem a qualificação ética. Este paradoxo faz aumentarem os
casos de corruptos e corruptores, que se servem da comunidade apresentando-se numa imagem
torta que, como na anamorfose,17 o espectador tem que distorcer para descobrir o que significa.
Vivemos uma época em que não só na Botânica ou na Zoologia se constata a alteração de
forma em plantas e animais, produzida repentinamente por modificação orgânica ou em troca
com o meio. A arte da dissimulação dificulta a compreensão do fenômeno, muitas vezes uma
série de superposições que devem ser decifradas para serem compreendidas.
Numa Sodoma ou Gomorra enlouquecidas pela técnica da informática e da comunicação
eletrônica, a desinformação psicológica acarreta a acomodação e a covardia comportamental.
Nas palavras de Tolkien (eternizado por seu “O Senhor dos Anéis”), “precisamos limpar nossos
vitrôs para poder enxergar perfeitamente e libertar-nos das manchas sujas do cotidiano, dos
hábitos e da passividade”.
Consta que existem nos requintados cassinos salas adequadas para o suicídio, dispondo
inclusive de revólver, indicadas aos infelizes perdedores como solução para a sua
irresponsabilidade. E mais: papel e caneta para sua despedida final. Para o cidadão comum, a
corrupção social é a roleta fatídica que causa a sua inapelável derrota no dia-a-dia de infortúnios
contra a realidade. Urge atentar para o significado da arma, do papel e da caneta, quando se
monta um jogo de vencedores privilegiados. Caso contrário, seremos vítimas da doença
emocional do “amolecimento ético”, o triunfo da corrupção como sistema de valores.
Finalmente, verifique-se que a corrupção, o peculato, a rapina e a concussão, quando
endêmicas, são componentes explosivos da patologia política, cuja diabologia da exaustão
espiritual, à qual sucumbem as gentes, foi um dia encarnada por Rasputin em determinadas
circunstâncias históricas.
O ético, ainda que oculto, antecede o funcional na ordem seqüencial da natureza.

A ligação umbilical entre o trabalho


intelectual e os processos de conquista,
equilíbrio e manutenção do Podertc "A ligação umbilical entre o trabalho
intelectual e os processos de conquista,
equilíbrio e manutenção do Poder"

Se entendermos o trabalho intelectual e sua difusão como atributos da intelligentsia, iremos


perceber, no seu sentido abrangente, a ligação umbilical deste com os processos de conquista,
equilíbrio e manutenção do Poder.
Diversamente daquele do artista, o conceito do philosophe reveste-se de uma idéia de
atuação pragmática militante na origem da noção do intelectual. Por isso, o artista pode (e talvez
deva) divorciar-se do engajamento social, sob pena de transformar-se num elemento do partido,
condutor de palavras-de-ordem, empobrecendo sua obra e deixando de ser o tradutor do
inconsciente coletivo, a antena (de que fala Henry Miller) dos sentimentos, angústias e
esperanças do seu tempo e do seu mundo.
Esta dicotomia, na maior parte das vezes, açula e provoca o interesse do Poder, interessado
na magia da arte, preocupado em operacionalizá-la, em captar sua imagem e usar seus
elementos intrínsecos de convicção. Aqui se entende o Poder na sua dupla face: o aparelho do
Estado e suas formas paralelas (e, às vezes, opositoras) — agremiações ideológicas, igrejas,
sindicatos, institutos universitários. Mesmo porque, na complexidade da comunidade
contemporânea, o jogo pelo domínio da consciência corresponde às mais variadas e agudas
formas de pressão e contrapressão.
A sutileza na instrumentalização do conduto artístico — exercida de tal sorte e com tamanha
insistência, que, mesmo através dos órgãos de comunicação e da cultura de massa, se observa a
fenomenologia do envolvimento — é capaz de, em última instância, promover o chamado “artista
de aluguel”, reduzido a mera figura sociológica do setor terciário, na categoria de prestação de
serviços... O comunicólogo, feito à imagem e semelhança do nada.
A Revolução Francesa delimitou historicamente o instante em que o intelectual passou a
exercitar um papel proeminente na interpretação da realidade e na escolha de alternativas
prospectivas, espaço que se veio ampliando.
Em conseqüência dos estímulos antagônicos, contínuos e poderosos que a comunicação de
massa inspira — principalmente por meio da simultaneidade permitida pela TV — o povo fica na
dependência ansiosa da explicação cultural. Trata-se de uma conseqüência paradoxal do maior
acesso à informação. As pessoas querem conhecer os códigos de ordenação dos acontecimentos
para entendê-los e criar os seus próprios discursos interiores de padrões referenciais. Daí uma
revalorização do intelectual tout court e o perigo de que o exercício crítico do pensamento — o
compromisso com a verdade — seja falseado por interesses subalternos ou por uma
predisposição ao fanatismo, pelo enquadramento emocional numa corrente política e, mais do
que isto, pelo servilismo diante do Rei: é a criação do “guru” arrivista, que dita idéias tal como os
costureiros ditam o cumprimento das saias para as mulheres nervosas.
Na sociedade tecnologicamente avançada, o intelectual passa por herdeiro dos carismas de
liderança ao emprestar, muitas vezes, sua inteligência para mistificar as tendências da multidão,
enganando-a por meio da sedução, ou amedrontando-a pela censura.
A pressa onipotente em transformar o mundo leva a angústia ao espírito do trabalhador da
cultura, descaracterizando seu compromisso humanístico, condenando-o à esterilidade, à
impotência e à imutabilidade.
Nos comícios, o escriba aos pés do palanque tem sido uma caricatura da grandeza do
pensador. Esta postura rebaixada leva ao horror, bipolarizado no espectro aparentemente oposto:
o endeusamento do terrorista assassinado ou do doutrinador, que justifica os métodos da tortura
policial. Ambos, na verdade, serviçais da tônica da ação direta.
Ao manipulador, encaminha-se um bilhete atrevido:

Sr. Comissário,
Às vezes ando pelas ruas e vejo o sol e a lua explodindo nas caras dos homens.
As mulheres têm tornozelos de chocolate.
Estarei louco nessas horas?
Qual é o seu critério de sanidade?
Como certas pessoas-cinzentas, que sempre enxergam o mundo verde de dor, se
arrogam o direito de julgar os demais?
E de aprisioná-las nas suas paredes fechadas?
Sei que as horas em que ando para trás e para os lados são poucas.
Serão, todavia, as horas em que justificarão minha vida.
E a sua [vida], Sr. Comissário?
Julgo e condeno seu destino ao cinzento eterno.
Em sua cela estará pendurado um cartaz: “É proibido pensar?”.
Da prisão em que me internou, sangro os pulsos em urros de revolta.
Sei que um dia os braços irão se alongar no abraço total.
E as pernas se alongarão para a cabeça atingir o céu.
E nessa hora a prisão que você construiu será motivo de riso e ódio.
Sol e lua baterão nas janelas.
E as janelas não responderão, porque sempre estiveram abertas..

O dramaturgo francês Antonin Artaud (1896-1948), desesperado nas malhas da lógica, exala
o arbítrio que conduz ao delírio.
As contradições e absurdos que criam
fortunas aceleradas e impunidade globaltc "As contradições e absurdos que criam
fortunas aceleradas e impunidade global"

A imprensa noticia angústias e uma nota de fé igualando desiguais na miséria e na grandeza do


humano.
No elenco, a Itália ostenta a “Loja P-2”, exemplo raro de um concentrado jogo de influências
na área política e social, criando uma fórmula original (nem tanto...) de acesso ao poder. A
posteriori, Berlusconi.
O compadrismo por trás de clandestina massa de manobra, ao usar os generosos ideais
libertários — conspurcados, nestes nossos tempos iconoclastas, pelos aventureiros que
começam na República Social de Mussolini —, sobe a escala governamental com a metodologia
fascista de tradição mafiosa.
Em compensação, permitimos, no lusco-fusco da omissão, que parlamentares de regiões
paupérrimas, como o Acre, recebam fortunas mensais em acertos fraternos e amigáveis,
revelando não menos aguerrida solidariedade de “corpo”, que, aliás, promete funcionar numa
provável prorrogação de mandatos, “sacrifício” que o homem público deve à sua comunidade.
Isso, provavelmente, para equacionar e resolver, junto aos seus colegas federais, entre outros, o
desafio do preço do feijão. Sintoma mais óbvio da realidade cruel em que vive 60% da população
com carência alimentícia, que causa desnutrição profunda desde o útero materno e que se
estende por todo o desenvolvimento pessoal, acarretando seqüelas físicas e emocionais pelas
quais a comunidade paga um pesado ônus: deficiência mental, delinqüência, saúde combalida,
infra-índice de inteligência, regressão cultural. Enquanto isso, a incompreensão exige de um
médico residente 60 horas semanais de atuação, mais dois plantões de doze horas cada um, com
um salário mínimo, sem os direitos trabalhistas correspondentes.
Prosseguindo neste confronto entre cá e lá, tão próximo e tão distante, se na França o
escândalo dos brilhantes que, segundo Jean-Bedel Bokassa, teriam passado para as mãos de
Giscard D’Estaing, representou uma acusação que o acompanhou por toda a campanha eleitoral,
no mercado dos nossos valores em crise as empresas “acertam e desacertam” num ritmo
admirável. Temos fortunas aceleradas, e a impunidade global é capaz de transformar um bicheiro
no herói-do-dia ou um ladrão inglês numa glória nacional18 e deificado pela TV. A “mass-
maravilha” da mediocridade e do deboche, que confunde liberdade com licenciosidade, talento
com grosseria e originalidade com non-sense.
Temos dotações fantásticas para obras faraônicas, nas quais o Estado investe
descontroladamente e sem critério, abandonando a política municipalista. Não obstante, do outro
lado, no Rio de Janeiro (não no Nordeste, secularmente descapitalizado), milhares de crianças
permanecem fora da rede escolar por falta de salas de aula, não obstante os Cieps controversos.
Prossegue o discurso que estimula o nosso estado de espírito, familiarizando-nos com a
informação que nos cerca (cerca, digo bem).
Na Irlanda, de tempos em tempos a população se confronta numa espiral sanguinária,
erigindo diferenças religiosas em motivo para ódio cujo fim não se divisa, contracenando com a
pax dos cemitérios onde, na dramática imagem literária, os intelectuais continuam exilados em
sua própria pátria ou internados nos hospícios para o devido tratamento de “readaptação social”.
Permanecendo no capítulo do desequilíbrio emocional, terroristas mantêm Nova York em
pânico com ameaças e atentados antes inimagináveis, num festival de horrores que balança o
status da Baixada Fluminense, aliás, palco de um filme (ou novela — ou que nome se dá para
esse espetáculo de barbárie e didática selvagem?) exibido na TV, estimulante da fantasia sexual
e criminógena, com requintes das anormalidades encontradiças num dicionário de patologia
comportamental. É o que se está oferecendo para educar uma geração de jovens na universidade
do submundo.
E quem resta, nesta ladainha de sofrimentos, para anunciar o reino de Deus? Uma humilde
enfermeira que, arriscando sua própria vida, jogou-se da janela do seu apartamento para aparar
uma criança que estava caindo. Ela mesma esclareceu, numa entrevista, que tomou a atitude
“num impulso”, “sem pensar”, partindo para o gesto desprendido. Este impulso — a santa
entrega, o esquecimento de si mesmo — é a resposta para o labirinto kafkiano do homem
contemporâneo.
Diz a “Lenda dos Justos” que basta uma só pessoa decente para salvar o mundo. Ela, a
enfermeira, o redimiu para nós.

O sentido do mundo
a partir da fórmula de Einsteintc " O sentido do mundo
a partir da fórmula de Einstein"

A partir do conceito de Einstein de que “o mais extraordinário é que o mundo tem certamente um
sentido”, não se pode imaginar o exercício político como fórmula adúltera de vaidade pessoal,
ganho mesquinho do indivíduo, ou mesmo como interesse ideológico de manipulação social.
Há, no processo histórico de nosso tempo, dois momentos significantes para o entendimento
desta proposta: o célebre discurso de Nixon, em 1952, quando conseguiu garantir sua
candidatura à vice-presidência dos EUA, respondendo às acusações relativas às suas finanças
eleitorais e seduzindo milhões de telespectadores com acenos sentimentais à humildade de sua
esposa e à ternura do cãozinho de sua filha; e Watergate, como a expiação final da metodologia
maquiavélica.
Na verdade, não se pode conceber, depois desta consecução patética, o entendimento da
práxis partidária, como um instrumento de mera “carreira”.
No século XX tentou-se criar na juggernaut esta força massiva inexorável e destruidora
proveniente do profissionalismo sectário, uma sorte de mística formal do conglomerado como
salvação para-religiosa.
O stalinismo popularizou a concepção de que “com o Partido tudo, preferindo errar com ele a
acertar fora dele” na obsolescência do revolucionário por contrato.
O nazifascismo e seus sistemas derivados menores (mas não menos cruéis) de estímulo
bestial da tortura e do maniqueísmo persecutório engendraram uma espécie de militante do nada,
capaz de reproduzir uma quase-filosofia para uma quase sociologia de uma quase administração;
eis que fica sempre preso ao seu ideal oco de força, sob o domínio do medo.
O problema apresenta conotações sociológicas muito sérias, demandando uma análise
psicológica acurada, quando o populismo, este estreito fenômeno antidemocrático, encontra o
culto do Super-Homem. Trata-se da imagem pervertida de um desejo de controle que
absolutamente não respeita o ser humano. Promove o exílio de Deus na casa da Terra, a cidade
da interação comunitária. A imposição do carisma que leva ao artifício de compensar, administrar
e corromper, e não à arte de participar e resolver.
A confusão entre objetos e valores supremos foi, talvez, uma das conseqüências mais
abjetas da civilização da máquina, porque encara o próprio sujeito como índice estático de
planejamento; portanto, removível, transferível e, até, porque não, aniquilável.
Por tudo isso, a preservação da ética na Ciência do Poder: umbilicalmente ligada a que o
Governo governe cada vez menos, e não à pantagruélica vontade de ocupação de espaços pelos
que se acreditam predestinados a decidir por todos e organizar, nos mínimos detalhes, a vida de
cada um.
A inteligência traz consigo o sucesso de interrogações que deve facilitar o movimento do
círculo de salvação e resgate, na busca de uma existência mais livre, criativa, relaxada e aberta.
Qualquer miséria — econômica, emocional, física, espiritual, como a fome, o desemprego, a
doença, a solidão, o abandono, o preconceito e a inferioridade — insulta nosso bem-estar pessoal
e nos contamina do sentimento de preocupação com o outro. O ser real e o corpo coletivo
maduro têm um compromisso absoluto com a felicidade e a realização total das pessoas.
Uma escolha outra será uma fantasia de ludíbrio e esterilidade, na qual o parasitismo da
recompensa, ansioso e desesperado, comete suicídio. O mais abundante recurso existente no
mundo é a esperança, paradoxalmente esgotada pela voracidade e obstinação do burro, que trota
pelo prazer de trotar.
Um fim: o direito do homem de merecer a transcendência. Este é um propósito de civilidade
maior — e não um meio, a minoridade do aplauso anônimo nas grotescas instituições da riqueza
— o jogo do Eu.
O equilíbrio e a decência na aplicação dos recursos da sociedade se contrapõem ao
narcisismo que modela o tipo monomaníaco, altamente competitivo, iniciado nas práticas
egoístas.
Se requeremos desvencilhar da atração inconsciente do utilitário nossas energias particulares
e de grupo, temos que aprender a substituir, em nossa cultura, o papel do assassino pelo do
apaixonado, e a ver uma praia como o sonho dos horizontes das aves e não como lata de lixo
para detritos atômicos.
Na inexorável marcha que induz às mudanças coletivas, a moral tem que ser um elo que
deita suas raízes no passado imemorial, misturando, indistintamente, o testemunho diante dos
sacrifícios e a inspiração pela Justiça. Um Estado justo e dirigido por preceitos legais é a nobre
herança da civilização, capaz de exorcizar a violência do casuísmo, fruto da pobreza, da
ignorância e da solicitude da infâmia. A democracia é um regime que depende do senso ético,
sem o qual torna-se valhacouto, refúgio autoritário.
Num tempo sem ética, a proposta moral há que ser revolucionária.

Hendiadys — conceito grego


para a estrutura: “uma através de duas”tc "Hendiadys — conceito grego
para a estrutura\: “uma através de duas”"

Paralelamente a uma ordem passível de leitura na conduta individual, acontece uma


sistematologia no pensar da atuação política como reflexo da organização do poder, da ideologia
e da administração.
Diante disso, ressalta-se a importância do entendimento dos componentes desta articulação
para demitificá-la, evitando sua degeneração ou instrumentalização voluntarista. Hendiadys, “uma
através de duas”, é o conceito grego para essa estrutura.
A tenuidade e o silogismo crítico do motivo pedem um autocontato preciso, distinguindo o
oportunismo autoritário da ambigüidade especializada, paradigma das hipóteses de razões
democráticas. Tanto o cientista como o artista usam seus sentidos num intercâmbio com a
multiplicidade das respostas aos estímulos impostos e a eventuais resultados sobre o
comportamento grupal.
O sorriso irônico do locutor de TV, enquanto lê um texto, causa o efeito esperado com maior
eficácia do que um discurso doutrinário ou um assalto à mão armada. Dependendo de outras
variáveis, esta seqüência pode ser invertida. Tais evidências incorporam-se ao desenvolvimento
de objetos para a formação e mobilização da coletividade.
O diretor cinematográfico que orienta o ator, personagem de cowboy, conhece truques
gestuais para evitar os deslizes de uma atitude menos viril, contrastando a agressividade com
movimentos efeminados. Impostação de voz, mãos na cintura, pernas abertas, olhar duro e fixo e
brusquidão compõem o patético elemento da imagem. A mesma cena, numa sátira, interromper-
se-ia com a introdução chocante do falso passado.
O fotógrafo, enquanto cobre um evento, sabe captar intuitivamente o instante em que o
entrevistado desmente, com o corpo, a verbalização de seus elevados princípios morais, na
ruptura entre o consciente determinado e o reflexo automático compulsivamente transmitido. A
foto do mistagogo19 de máscara cômica tem destruído carreiras promissoras.
“O Grande Ditador” é o filme genial em que Chaplin fragmenta a pesquisa que Goebbels
havia projetado sobre o artificial histrionismo hitlerista. A mixórdia decodificou-se na ilustração de
juízo percuciente e perspicaz com os resultados que assinalam o capítulo nobre da decência: o
riso e a observação contra a raiva, o preconceito e o ódio.
A linguagem emocional, por sua teoria e experimentação, ocupou lugar especial nos debates
finais que vêm decidindo as eleições nos EUA e na França há muitos anos. Em 1980, por
exemplo, a ansiedade do esteta Carter perdeu para a determinação de Reagan.
Com efeito, um mestre da fotografia pode mudar o destino de uma nação: o cochilo do
parlamentar, o dedo no nariz do carismático, o riso hipócrita da falsa vestal são insultos que
ganham força no ritmo, permeabilizando a forma e o conteúdo, tornando-se uma sonda espiritual.
Majestade, delicadeza ou cordura reforçam ou aliviam a freqüência e intensidade para que se
atinja o alvo desejado.
O ritual é parte do ambiental e do invisível, uma deformação intencional ou inconsciente da
nossa fala real, ao mesmo tempo em que dificulta a separação entre o ensino, a propaganda e a
cultura.
Avivar a percepção é manter a liberdade, ameaçada pela paixão no senso do eco. A
exigência do clima neutro e da discussão aberta permite declinar, consecutivamente, os valores.
Um prélio esportivo é um combate esportivo, mas também pode ser uma feliz manobra para a
catarse angustiante de uma crise.
Rir ou chorar, exaltar-se ou comover-se é uma verdadeira possibilidade humana, mas pode
tornar-se enganosa exploração de bastidores e corrupção psíquica, com conseqüências
colaterais.
O pseudo-acontecimento resulta na mimese preguiçosa, uma espécie de subcultura das
relações públicas. Aprender a especular o que e o como é compreender parte do drama
euclidiano de nosso tempo de total perda de objetividade, ricorso poluído do despotismo.
Nem todos estamos mortos: a recusa do império e o antagonismo à técnica industrial de
repetição podem tornar-se, nos versos do poeta irlandês W.B. Yeats, “De ouro martelado a ouro
esmaltado para manter desperto um Imperador sonolento...”.
Na hipótese de os meios eletrônicos de comunicação servirem ao desempenho político,
tende-se à tribalização do procedimento pessoal. O repúdio ao “plástico”, no comportamento
político, é uma saída que substitui o deboche pela honestidade.
O que se esconde por trás do vocabulário rebuscado do demagogo vazio? E da aparência de
força de uma repressão ilegal? E da frase feita, no jargão do populismo que promete a salvação
em pleno reino do conflito?
A psicologia, como humanismo, pode repelir o mundo absurdo, nas palavras do escritor e
filósofo argelino Albert Camus (1913-1960): “Para falar de todos e a todos, é preciso falar daquilo
que todos conhecem”.
A pequena aldeia concentrou o polimento coletivo, o fim do individual solitário.
A imprensa livre em contraposição
ao compromisso espúrio tc "A imprensa livre em contraposição
ao compromisso espúrio "

O homem é senhor da realidade, como ser cultural e por diferenças diacrônicas, e evolui
intelectualmente para relações sincrônicas. Por isso é impossível escrever a história
contemporânea sem o auxilio da reportagem, depoimento vívido de sangue, carne, esperança e
nervos que ressuma e verte do editorial, da foto, da notícia perdida nos cantos das páginas e até
do anúncio.
O jornal é a testemunha insubmissa, o dedo acusador que descreve a covardia e a vileza, a
corrupção e o erro — quando livre; porque se não for, transforma-se no mandato do Poder, na
diretriz partidária e, finalmente, na figuração esdrúxula cuja metáfora exemplar pode ser
representada na rainha que reclama, envaidecida: “Espelho, espelho meu, existe no mundo
alguém mais belo do que eu?”.
Aliás, o desacerto entre as conveniências e a objetividade praticamente começa com
Gutenberg enterrando, na altura de 1500, toda forma de julgamento do processo medieval, então
preso à oralidade do cavaleiro.
Fazendo-se o cotejo entre os dois conceitos: o Volkisher Beobachter, que advoga a
coincidência entre o destino da Pátria, o anti-marxismo, o anti-semitismo, o anti-liberalismo e o
anti-cristianismo, contrapõe-se ao denodo do Washington Post, na busca do fato que se torna
uma obsessão, que desmascara a mentira e a casuística no comportamento de Nixon,
transformando sua queda numa vitória moral da nação norte-americana.
Se existe uma linha comum entre as ideologias da força, esta é a das reservas mentais. O
sigilo, o “interesse nacional”, o mas combinado com o talvez se ajustam na perturbação de uma
filosofia que acaba se degenerando na descrença da procura lúcida.
Numa passagem clássica, Shakespeare denuncia o patético do problema:

Otelo: Quero a prova ocular; ou pela minha eterna alma, seria melhor que tivesses
nascido um cão do que responder à ira provocada.
Iago: É assim?
Otelo: Mostra, quero ver, ou pelo menos prova, e que a prova não tenha canto ou curva
onde restar uma dúvida; ou pobre de tua vida.
Algumas das razões recônditas dos mecanismos que conduzem ao medo com que se encara
o jornalista podem alinhar-se na ansiedade deste pelo fato, impondo-se pelo mais direto relato
entre o olho do leitor e o acontecimento. Isso lhe confere a grandeza do sociólogo, o sucesso que
demanda a participação democrática.
Diante da TV, a fenomenologia é diferente. O meio se distancia, permitindo o
desengajamento. Psicologicamente, a teatralização já se basta.
O hiato que o jornal cria é uma guarnição de liberdade. Queima nos dedos o reflexo, obriga à
meditação, leva à formulação do juízo pessoal. Daí o seu poder de fogo singular que aterroriza a
seita e o dogma, desregula o ego reprimido e tira o cidadão da rotina do cotidiano.
Em cima da suspeita trabalha o jornalista que tem senso do destino existencial, sem nenhum
ajustamento prévio com a “confiança”. A diferença moral entre o press-release e a coluna
assinada é a autoridade que emana do risco a correr, pelos interesses contrariados.
Aquilo que é sonho e a esperança visionária da civilização — acesso à informação ampla,
livre e controvertida — é o pesadelo do burocrata e do fanático, que projeta na tela do seu
inconsciente a reação descontrolada, sinônimo de desordem e ameaça.
Quando o delírio se junta à má-fé, os desdobramentos escolásticos conduzem à monomania,
ao ódio e ao complexo.
Dois mil e trezentos anos antes de o homem descer na Lua, Platão afirmou que “os astros,
por mais belos que sejam, pertencem apenas ao mundo visível, que não é mais que vaga sombra
ou cópia deformada do mundo real das idéias. É absurdo, portanto, trabalhar na determinação
exata dos movimentos desses corpos imperfeitos”. Agrupar os fatos, revelar a ocorrência na
dimensão exata, realiza a imaginação no estamento racional. Atrás de cada mudança decisiva, o
jornal, dramático observador, catalisa o enfático e liga o público ao ativista. De outro modo, é a
confusão, plano caótico de expressão alienada.
Quixote alucinado ou Sancho Pança estabelecido, metalúrgico ou empresário, o leitor refaz o
noticiário por cima de sua auto-atualização, longe do decorum, perto da cognição e do
reconhecimento.
Pobre época retratada num jornal, pergaminho que daqui a dez mil anos será o diário da
nossa catástrofe.
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Não me deixe morrertc "Não me deixe morrer"

AIDÉTICO. ISTO DIZ ALGUMA COISA SOBRE ELE? Nada. A não ser as diarréias violentas,
acompanhadas por dores insuportáveis. As noites de pesadelos enlouquecidos, o medo, suores
frios (gelados). Mãe, mãe. O peito parece que vai quebrar. A magreza que escandaliza e
envergonha. Só saía na rua à noite. No ônibus, as pessoas se afastam, com ares de nojo,
desprezo e condenação.
A Aids está na cara. Prá eles. Para ele, está nas vísceras, no coração, no seu passado, na
estória, na história. 23 anos de idade. Paciente terminal. Isto diz alguma coisa sobre ele? Nada. A
não ser o pânico da morte. Não quero morrer. Não vou morrer. Deve ser erro dos médicos. Já
soube de resultados laboratoriais com margem de engano. O AZT talvez possa curar. Se eu me
alimentasse melhor. Mas como se a cesta-base termina a ração na altura do dia 20. Seu
companheiro, também aidético, mas sem sintomas, continua trabalhando, e traz frutas e pão, às
vezes até carne.
Escrevi hoje um poema, posso ler prá você? Mas do que adianta, prá que escrever se
ninguém vai publicar? Fui numa editora, disseram que livro de poesia não vende. E quadro? Vou
pintar. Resolvi pintar, vou pintar um quadro, usando o meu sangue, quando vomito sangue, vou
molhar o pincel e pintar na tela. Vi que um artista francês fez isso e os jornais publicaram. Quem
sabe se eu fizer os jornais publicam também e eu ganho um dinheiro prá comprar os remédios.
Aos 15 anos de idade pegou um táxi, vinha do interior, inexperiente, pobre (miserável), e na
hora de pagar não tinha dinheiro. O motorista exigiu-lhe sexo oral. Chorou de vergonha, de
humilhação, mas ficou fascinado com a força física, e a riqueza do chauffeur. Dono de um táxi.
Ele só tinha um blusão e duas calças. Seu pai expulsou-o de casa, porque os vizinhos diziam que
ele era v... “Prefiro meu filho morto do que v... Seria capaz de te matar com minhas próprias
mãos”. A mãe arrematou: “Teria sido melhor se tivesse nascido morto”. Na verdade, invejava seus
amiguinhos de rua, mais agressivos, mais fortes, briguentos. Sempre pelos cantos, tímido,
aceitava o uso de seu corpo, como carícias dos moleques mais velhos. Não entendia porque,
depois ridicularizavam-no. Debochavam e até batiam, nele, ele que satisfazia o desejo deles, ele
que só queria sobreviver, em paz, que o esquecessem. Que o esquecessem, pelo amor de Deus.
Resolveu amar a Deus. Deus era homem também? Homoafetividade. Queria um Pai, um pai,
precisava de irmãos, queria um filho. Jamais iria ter um filho, era incapaz de sentir desejo sexual
por mulheres. Não entendia, sua alma se encantava com qualquer sorriso masculino (quem sabe
este homem forte o protegeria dos moleques que todas as noites, nos pesadelos, vinham exigir
seu corpinho fraco, para depois cuspi-lo fora). Este homem forte, casado, que, furtivamente, nos
banheiros dos cinemas, nas saunas, o tocava, depressa, para logo, depois, com brutalidade,
murmurar: “Se arranca v.”.
Hoje, agora que já tenho 23 anos, que já estou velho, eu sei que foi aí que peguei a Aids.
Mas agora não quero mais sexo, só penso em Deus. Deus vai me perdoar? Devo ter feito alguma
coisa terrível, não sei o quê, castigo tão grande. O quê? Acho que envergonhei meus pais. Mas
eu voltei à minha terra e prometi ao meu pai que nunca mais faria o mesmo. Ele me deu um
murro na cara. Naquela hora, pensei, ele não é mais meu pai, eu nunca tive pai, agora eu serei
sozinho prá sempre. Até que encontrei o C... Ele cuida de mim, e eu sou estúpido com ele, mando
ele embora e ele volta. Porque é que esse desgraçado não me larga? Passa as noites sem
dormir, me carregando até o banheiro e quando eu enlouqueço... Eu estou louco, não é?
Eu peço prá ele: “Não me deixe morrer”. E ele me promete: “Não. Não vou deixar você
morrer”. Na confusão, é uma confusão, às vezes eu o chamo de pai. Na UTI, ondas de fogo e
gelo pelo corpo, cheguei a pensar: Devo perdoar a Deus?
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Olhar masculino perversotc "Olhar masculino perverso"

O DESEJO ERÓTICO DE POSSE DA MENINA, da moça jovem, freqüentemente é uma das variantes da
patologia sexual do macho. É curioso que raramente se observe o fenômeno inverso. A mulher
adulta e madura não se interessa sexualmente pelo menino ou jovenzinho. O que se percebe,
também, é que o interesse e o olhar cobiçoso do homem aumenta com a idade, chegando ao
paroxismo na velhice.
Na Antigüidade existia a violência da posse gerontocrática pelas virgens recém-entradas na
puberdade. Manifestação libidinosa muito ligada à impotência concreta, o olhar desejoso em
relação à infância revela uma fantasia de domínio absoluto e transgressão. É como se a
inocência da menina pudesse excitar a fragilidade do homem inseguro quanto à sua própria
identidade sexual. Traduzindo de forma objetiva, trata-se de doença e lesão no desenvolvimento
da sexualidade e da personalidade, que pode se associar a comportamento doloso de natureza
criminal. Esta realidade precisa ser verificada com cautela para que o criminoso não se acoberte
debaixo das atenuantes de problemático emocional.
A posse sexual de menor, a sedução, o assédio, são formas torpes de manipulação do corpo
inocente. Tanto a civilização clássica como a moderna exprimem vivências éticas ambivalentes
sobre esta questão. Nabokov criou a figura de Lolita, a ninfeta tentadora. A publicidade,
principalmente a da TV, avacalha os cânones morais e usa as crianças, muitas vezes com o apoio
familiar, para transformá-las em mercadoria e consumo. Mas quem se sensibiliza e trata o tarado
corretamente é o criminoso comum, que não perdoa este crime infame, dando-lhe o corretivo na
prisão. Existe uma correlação entre machismo desbragado, autoritarismo e perversidade sexual
voltada contra a criança: são frutos dementes e delinqüenciais da onipotência.
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A matriz educacional
e a capacidade de realizar
a inteligênciatc "A matriz educacional
e a capacidade de realizar
a inteligência"

A conservação social e a paixão do futurotc "A conservação social e a paixão do futuro"

A MATRIZ DA EVOLUÇÃO CULTURAL DOS POVOS reside na capacidade de realizar a inteligência no


intervalo entre a conservação social e a paixão pelo futuro.
Determinou-se no currículo nacional um hiato entre o ensino médio e a universidade, dois
momentos do processo de aprendizado. Então, nos verões opacos de perspectivas, as
temporadas dos vestibulares (roletas-russas da ignorância) inspiram considerações sobre o tema.
Quando o jovem, na procura de consciência da condição humana, verifica sua crise pessoal
como indivíduo, a sociedade lhe oferece um coercitivo ritual da passagem. Em torno desse drama
voejam protagonistas e cenários que confundem e mistificam, mas neles podemos determinar
certos vetores: a anomalia de organizações criadas para suprir as carências óbvias da escola,
testemunhas-de-acusação que denuncia as bases do ensino; o total alheamento do significado da
práxis da educação pelas autoridades, oscilando entre as verbas e o nada, como se o dualismo
nesta área se prendesse à estratégia financeira ou à perplexidade; a intervenção dos
exploradores da reflexão social, motivados por confusas dedicações religiosas ou interesses
ideológicos sub-reptícios, prontos para o proselitismo que impõe projetos históricos e salários
desqualificados para os professores.
Repetir aspectos desta arquitetura é de uma estereotipia inútil. Trata-se mais do sacrifício de
gerações perdidas entre vocações castradas e esquemas de ensino mortos. Para a comunidade,
fica o medo provocado pelo vazio cultural que impede a nação, objetivamente, de se renovar e,
subjetivamente, transforma-se no sujeito fundamental da violência, com a incompreensão do
discurso universal como causa da agressividade que se radicaliza na encarnação da impotência
instrutiva. Situação trágica de quem não pode crescer pelo esqueleto da informação dominada
pela redução sócio-econômica asfixiante.
Tal desordem espiritual lembra uma falácia hollywoodiana de Cecil B. de Mille: “O modo de se
fazer um filme é começar com um terremoto e partir daí para o clímax”.
Até o personagem-cadáver tem marcado sua presença. No holocausto de enganos,
omissões, desacertos e irresponsabilidades, ocorre o martírio na boçalidade do trote que colhe a
vítima fatal que comparece para compor as cores alucinantes da trama onde, como lembra
Machado de Assis, “a ferocidade é o grotesco a sério”.
Os alunos, ao introjetarem a repressão do obscurantismo, oferecem um espetáculo de auto-
indulgência, no ódio mútuo gratuito, quando as palavras de baixo calão, a alegria mentirosa e o
antagonismo entre veteranos e calouros formam a justaposição de um bambolê, cuja função é
estreitar a autonomia crítica e o pensamento diferenciado — enfim, a democracia comportamental
— subordinando o jovem ao reino da burrice paramentada pela carcomida aparência acadêmica,
cujo título de glória seria o de doutor honoris causa, capaz da equivalência entre o letrado e o
iletrado no espaço de um museu de artefatos inúteis.
Enfrentamos a Tecnologia da Informação — jornal, rádio, TV
e Internet — com a sua força de irradiação, sem um pingo de criatividade, no campo pedagógico.
A cadência acelerada das exigências de desenvolvimento esbarra em preconceitos de linguagem
dum código tribal.
Capazes de investir num programa nuclear questionado por toda a ciência lúcida do País e
sem recursos, instalamos conflitos na erudição ignorante de nossas faculdades, onde o aluno
desfila no mundo como um teatro de formas. Caberia responder aos latifundiários da liberdade,
aos filósofos totalitários, aos condôminos dos diplomas, com as palavras de Descartes: “Dubito
ergo sum...”.
Na Espanha, gritando diante de Unamuno, um fascista humilhou a Universidade: “Viva la
muerte!”.
Com mais insídia entre nós, desde o Estado Novo busca-se criar uma simbiose entre o Poder
e a intelectualidade, cooptada para a função do pensar. O resultado desta triste realidade: num
contexto de questões para o vestibular de uma prestigiada universidade, verifica-se a convicção
da mediocridade na versão cabocla e o induzimento totalitário nas alternativas propostas.
Resta a esperança registrada na Ética dos Pais,20 na qual se diz o sábio que fala primeiro
sobre os primeiros e, por último, sobre os últimos. O sábio — não o fanático ou o burocrata.

Como impedir
que o futuro se torne caduco?tc "Como impedir
que o futuro se torne caduco?"

Diante da progressão geométrica da tecnologia — cada vez mais incorporada ao cotidiano —


apurando a qualidade de vida nos países desenvolvidos, levanta-se um paradoxo: como impedir
que o futuro se torne caduco? Por outro lado, quem reflete sobre nossas realidades políticas
formula uma questão decepcionante: como evitar que o passado se torne futuro?
O giro repetitivo de fórmulas mecânicas, ideologicamente ultrapassadas em outras latitudes,
faz par com a molecagem atrevida da corrupção, no varejo e no atacado. Como se fora num
teatro de marionetes (dirigido pelo Absurdo, mesclando Ionesco e Mãe Menininha do Gantois),
protagonistas e coadjuvantes se sucedem. Bonecos feiosos, mensagens ocas, mudando
máscaras gastas para gáudio da platéia televisiva idiotizada. Figurantes e assuntos à procura de
um autor.21
O ilusionismo chegou a tal ponto que podemos fixá-lo num calendário. Assim teríamos, por
exemplo: vestibular, greve, menores carentes, trânsito, violência, eleições e até o imprevisto,
banalizado pela dimensão do já sabido.
Acontece que passamos da era dos meios para a dos problemas. Chegou a hora (ou já
estamos atrasados?) de substituir, na sala de jantar, a fotografia do vovô burro e safado por uma
tela impressionista. Isso implica esquecer as fantasias populistas de anos passados. Ou seja,
devemos enterrar no baú da memória os badulaques fáceis e esclerosados e convocar a
metodologia para enfrentar o futuro.
Um audacioso encontro sociológico com o destino, pois determinadas situações se
agravaram de tal sorte que já poderíamos batizá-las de anti-problemas — estado calamitoso da
saúde, em nível público e individual, começando com a mortalidade, desnutrição e miséria infantil,
passando pelo atendimento corriqueiro e a cirurgia sofisticada, chegando ao espaço mental; o
processo econômico-financeiro que acarreta timidez empresarial, o aviltamento dos salários e da
moeda, desemprego e subemprego; a fome como espectro selvagem e vergonhoso de
impotência maldita; os transportes, enredados em modelos que repeliram a solução ferroviária e
fluvial; a Universidade, seduzida pela provável esterilidade e por estereótipos abstratos; o
comportamento dividido pela superposição de culturas. O pé-no-chão do interior piauiense em
contraste com os edifícios da Avenida Paulista.
Florence Vidal apela: “melhor seria tentar curar-se das neuroses que se opõem ao
progresso”. Faz-se mister quebrar a idéia fatalista da cronicidade de nossos atrasos.
O medo do vazio acompanha o homem na sua aventura existencial. Dele pode-se escapar:
pela negação que conduz ao desespero; ou pela sublimação criativa.
Nosso destino coletivo depende do exercício da inteligência, da pedagogia da realização.
Freud, Newton, Buber, Einstein e Sabin são gênios azimutes para uma atuação de originalidades.
Nesse ritmo, a dialética democrática tem de se transformar em uma convocação da
inteligência entendida como um juiz crítico sobre o possível; não a intelligentsia soberana e
mentirosa que traiu a consciência nas mesas de bar, no conúbio teratológico de Ezra Pound com
Mussolini, Paul Eluard com Stalin, corvejando da esquerda para a direita.
A informação deve servir como Ovo de Colombo na descoberta do pensar, em contrário à
desinformação alienada e boçalizante da TV em cores, medíocre e violenta. Compreender a
nossa sociedade é refletir sobre as possibilidades de um salto para a tecnologia pós-industrial
sobre as ruínas do clichê vulgar. Formidável somatória do ânimo das gentes com a potencialidade
da terra, numa equação criativa de ciência e humanismo, fruto do compasso e da imaginação.
Arquivados os Heils e bandeiras vermelhas, que sempre precisam de um amanuense tolo para
gritar e de um pobre diabo para desfraldar. O contrato com a inteligência demanda um acerto de
liberdade, um esforço lógico e uma esperança concreta capazes de forjar um Brasil vital e
guarnecido.
Sem isso, continuam os hip hurras de ontem. A alquimia da tolice.

Um estudo sobre a TVtc "Um estudo sobre a TV"

Com a televisão implementada quase que universalmente, os conceitos de comunicação,


englobando vias informativas e educacionais, passam a ter um papel excepcional na sociedade.
Interesses públicos, do governo e da sociedade, bem como a liberdade fundamental ao direito de
crítica tomam aspectos que devem ser amplamente discutidos.
Uma questão básica refere-se ao poder de proselitismo da TV e a necessidade de
conscientizar a opinião pública sobre os perigos daí oriundos. Ocupando um espaço privilegiado
na vida do cidadão desde a infância, a televisão segue pelo cotidiano e vai formando opiniões,
padrões de comportamento e atitudes políticas em profundidade em todas as faixas etárias. A TV
transformou-se — particularmente no Brasil, onde o índice de leitura é baixíssimo — no principal
formador cultural de massas da República.
A instituição (des)educativa (direta ou indireta — pelo noticiário e a novela, o anúncio e a
música) da TV foi levada para o lar, onde penetra de maneira mais trivial e, conseqüentemente,
sem despertar a necessária análise da sua proposta e discurso. A TV se incorpora ao nosso
mundo mental, familiariza-se com nossos hábitos, confundindo-se com a nossa vontade.
O espetáculo evolui mesmo sem a concordância integral do espectador. O aparelho ligado,
pelo som ou pela imagem, transmite continuamente a sua mensagem, no ambiente, enquanto a
mulher cozinha ou, em outro ambiente da sala, a família “conversa”. Temos encontrado na
experiência da psicologia clínica jovens que “lêem ou estudam vendo TV”. É a consagração do
veículo subliminar.
Em sua modalidade de comunicação de massas, a TV representa três ameaças, agravadas
pelo impacto da simultaneidade capaz de forjar um ambiente maciço:
1) A despersonalização, motivada pela inércia, não-participação e passividade do
telespectador, tratado como público de multidão, fixado na rigidez do plural — mesmo porque as
tentativas de “réplica” (talk back) não têm tido êxito.
2) A homogeneização, considerando que, quase obrigatoriamente, a linguagem da TV tende
a simplificar, condensar e generalizar, criando um pensamento horizontal, igualado por baixo, sem
originalidade, penetração ou riqueza de detalhes, propício ao pensamento global, sem respeito às
diferenças individuais, o que se alivia com a TV a cabo. Com raras exceções, o programa é
dirigido aos ignorantes e pouco educados, a ponto de certas camadas mais sofisticadas
passarem a considerar um insulto a idéia de assistir à TV. A necessidade do serviço de baixa
qualidade é cúmplice do mau-caráter, disposto a vender seus préstimos para o empulhamento da
mente de crianças, jovens e adultos pouco preparados. Afinal de contas, em geral não são
cientistas mais qualificados ou os artesãos sérios que vão formar o juízo-de-bricabraque do
telespectador.
3) A manipulação, tendo em vista que grande parte da programação é feita em função da
vontade de induzir o espectador a consumir, sejam mercadorias ou idéias. A tela exposta como
uma loja de variedades em que, num ritmo chaplinesco, sucede o banditismo, uma erupção
vulcânica e um jingle de geladeira, cuja composição final depende do subjetivismo do editor e dos
maiores interessados da organização, num conflito desconhecido pelo público.
A democracia deve permitir às grandes maiorias o direito a um mínimo de educação e
informação aberta. Ora, no terreno da TV, disputa-se hoje a consciência da nação, sem que esta
tome consciência desta disputa. Dezenas de milhões de pessoas enfrentam um apelo da mais
transcendental essência, o “como ser”, sob uma parafernália de luzes, barulho e paetês confusos,
em que o show substitui o raciocínio e a novidade afasta a meditação.
Uma pesquisa realizada nos EUA constatou que fazendeiros do setor rural do Estado de Iowa
estavam mais preocupados com a vida nos campi universitários e o crime nas grandes cidades
do que com seus problemas imediatos. Trata-se do reflexo da extensão da influência da TV.
É preciso dimensionar seu impacto social no Brasil, inclusive — ou principalmente — no seu
dilema moral, preocupação filosófica do grande drama desde o teatro grego. Em sua Poética,
Aristóteles alude à história que não é bonita, mas que envolve emocionalmente o auditório. Freud
acreditava que a expressão emocional oferece uma saída para instintos agressivos armazenados.
O quê? Com quem? Por quê? Como? Quem? — Além destas, mais algumas dezenas de
dúvidas devem ser trazidas ao debate nacional, com a TV na berlinda.
Sob pena de comprometimento da própria liberdade e da cultura, há que se ter coragem de
exigir que a mentira e a casuística não sejam os frutos do desenvolvimento da TV e que esta não
se transforme no canal da vulgaridade, da ignorância e da violência obscena.
Cena final — Próximo Capítulo: “A Inteligência no Vídeo”.
Janusz Korczak e a revolução pedagógicatc "Janusz Korczak e a revolução pedagógica"

Nas terras de Lech Walesa registra-se a memória de um Justo. Viveu como santo e morreu na
glorificação do martírio, sublimado pelo amor e pela crença no semelhante, rebelde aos sistemas
convencionais e apaixonado pelo futuro: o médico judeu Janusz Korczak que, na Europa pré-
guerra, transformando-se no apóstolo da infância desamparada, introduziu um revolucionário
sistema pedagógico de valorização da criança. Já seu avô participara na rebelião de 1863 contra
os russos. Da mesma forja que concebeu o poeta nacional Adam Mickiewicz, Korczak militou no
movimento universitário contra o czarismo. Também motivado pelos ideais de reforma social,
abandonou por um ano seus estudos de medicina para ir morar e trabalhar numa vila operária,
onde vivenciou a solidariedade dos abandonados. Por atender, conversar e brincar com as
crianças esfarrapadas pelas vielas de Varsóvia, foi apelidado pelos adultos de “doutor maluco”.
Escreveu o livro Se Eu Voltasse a Ser Criança, no qual dirigia-se aos adultos: “Dizeis — Temos
que nos curvar para entendê-las. Enganai-vos. Não é isso que vos aborrece, mas ter que elevar
vossos sentimentos para não agravá-las”. Afirmava que o adulto foge de sua monótona alienação
recordando a infância e suplicava: “Permita, adulto, que a criança viva seu próprio mundo”.
Criticava a leitura infantil inócua e irresponsável e os filmes perniciosos. Foi um precursor das
teorias pedagógicas (de que os educadores têm muito que aprender com os educandos), pondo-
as em prática pela fundação de colônias para crianças trabalhadoras e pela criação do famoso
asilo para órfãos da Rua Krochmalna 92, a revolucionária República Infantil que dirigiu por 25
anos, comendo no seu refeitório e dormindo com os cidadãos-mirins. Elaborou com eles uma
Constituição; elegeu-se um Parlamento, uma Corte de Justiça com regulamentos e um Código
Penal cujo preâmbulo rezava: “Se alguém procede mal, o melhor será perdoá-lo”.
Korczak propôs ao governo polaco a instituição de um Dia da Criança, entregando-se a
administração dos municípios e da nação aos menores (aliás, uma idéia a ser aproveitada, ainda
hoje, em outras latitudes, não?). O governo rechaçou, irritado, a sugestão. Korczak publicou
então uma carta aberta afirmando que o gabinete temia que os pequenos demonstrassem mais
competência — ou pelo menos mais honestidade — do que os usuários do poder.
Em 1921 escreveu um trabalho propondo a feitura de um periódico pioneiro da imprensa
infantil, elaborado por crianças — e, de fato, editou em 1926 a semanal Maly Przegloud (Pequena
Revista), contando com a participação entusiástica de milhares de leitores.
Em 1922 publicou um ensaio sobre educação física. Ensinava música, xadrez, canto, dança e
pintura. Criou um teatro infantil e de marionetes e um coro.
No período do gueto, para consolar os pupilos famintos, falava sobre a justiça, a bondade e a
dignidade dos seres humanos. Debaixo do terror nazista, patrocinava aulas de filosofia helênica;
para distraí-los, promovia concertos e danças. Engajou-se no desafio da “Casa do Órfão”, onde
milhares de menores viviam entre dejetos humanos e cadáveres, em meio ao tifo e à disenteria.
Korczak pôs um mínimo de ordem naquele caos, transmitindo seu entusiasmo a médicos e
enfermeiros.
Na manhã de 5 de agosto de 1942, dentro dos muros do Gueto de Varsóvia, um estranho
cotejo se movimentou — 200 órfãos com trajes de festa (as crianças imaginavam que partiam
para férias) — em direção à estação ferroviária. À frente da fantástica caravana, o professor
Korczak, com a criança mais nova no colo e de mãos dadas com o mais velho. Iam embarcar no
trem para a câmara de gás de Treblinka. O comandante nazista Brandt adiantou-se para dizer ao
professor que ele não era obrigado a partir naquele comboio. Com 64 anos de idade, o “doutor
maluco” consumou sua última rebelião. Respondeu: “Estou acompanhando meus filhos”.
Após a sua morte, entre seus escritos foi encontrado um texto: “Minha vida foi difícil, mas
interessante. Uma vida assim pedi a Deus, na juventude. Rezei, na profundidade de minha alma:
‘Deus, dê-me uma vida dura, difícil, mas de belos e elevados propósitos’”.
Korczak legou à humanidade a sublime lição da eminência espiritual pelo exemplo do amor e
do ideal prevalecendo sobre a incompreensão e o ódio. Um Quixote do Vístula cavalgando o
maravilhoso sonho impossível...
A comunicação, nas suas conseqüênciastc "A comunicação, nas suas conseqüências"

James Olds (1922-1976), que pela primeira vez conduziu a experiência de implantação de
eletrodos na zona de prazer do cérebro, relatou posteriormente que o rato preferia a estimulação
do prazer à oferta de alimento. De fato, por mais faminto que estivesse, enquanto tivesse forças
para comprimir o pedal estimulante, não dava atenção à comida. Numa experiência, comprimiu o
pedal por 24 horas a fio, até que a exaustão o fez cair em colapso. Como afastar o perigo de o
Estado totalitário transplantar esses exercícios cibernéticos para o homem, se Yelena Saparina
levantou a hipótese de um rato poder chegar a distinguir a “Madonna” de Rafael da “Moça Azul”
de Picasso?
Os que desejam aprofundar o conhecimento do homem, defendendo a sua privacidade
espiritual, compreendem a importância do binômio comunicação-sociedade, no qual está implícita
uma ambigüidade expressa por Saint-Exupéry em “Carta a um refém”: “O essencial, na maioria
das vezes, não tem valor... Um sorriso é freqüentemente o essencial. Somos pagos por um
sorriso. Somos recompensados por um sorriso. Somos animados por um sorriso. E a qualidade
de um sorriso pode fazer com que se morra... Esta qualidade da alegria, não será ela o fruto mais
precioso da nossa civilização? Uma tirania totalitária poderia satisfazer-nos, ela também, em
nossas necessidades materiais. Mas nós não somos gado...”.
Sabe-se que um dos componentes dos conflitos humanos é a comunicação imperfeita. Além
do quê, a linguagem verbal é um instrumento pobre quando não leva em conta a expressão
corporal. Problemas surgidos principalmente nas áreas de Psicologia, Filosofia e Política
motivaram o aprofundamento de pesquisas no sentido de conhecer-se a natureza e os múltiplos
papéis da linguagem, o que se fez necessário dado o seu papel estratégico na vida do homem.
No seu sentido mais universal, a linguagem é muito importante tanto para a adequação do
indivíduo à sociedade quanto para a conservação, propriamente dita, da sociedade em si.
Quanto às origens, a palavra-chave é dúvida. Vale citar os estatutos da Sociedade Lingüística
de Paris: “A sociedade não receberá qualquer comunicação a respeito da origem da
linguagem...”.
Quanto à definição, consideramos a linguagem uma estrutura de símbolos por meio da qual
os indivíduos de uma sociedade se integram, independentemente de lei ou regra.
A linguagem serve tanto para a interação entre os homens vivos, como também entre os
vivos e os mortos — para a compreensão de quase tudo o que aconteceu no passado, do que
acontece e nas previsões futuras. Portanto, a linguagem tem, entre outras, a função de ligar os
tempos.
Vários fenômenos muito importantes de comportamento dos adultos advêm da combinação
de alguns fatores e de crenças infantis no poder da palavra. Os potenciais fonéticos de uma
criança podem ser equiparados aos de um poliglota. O mundo adulto em que ela irá se
desenvolver será responsável pelo fato de estimular somente os sons que lhe são familiares,
restringindo o potencial da criança. É notável a capacidade da criança, quando um adulto lhe
dirige a palavra, de perceber sua variação. O lingüista Otto Jespersen (1860-1943) conta que “um
tom de censura aplicado a palavras carinhosas faz com que a maioria dos bebês chorem,
enquanto um tom afetuoso dado a uma repreensão provoca um sorriso”. A descoberta de que “o
mundo inteiro é um palco”, ou seja, deste traço de imitação do comportamento humano, está
plenamente consciente na criança, em geral, antes mesmo dos quatro anos de vida.
A linguagem representa um papel fundamental tanto para a socialização quanto para a
aculturação. Hoje está clara a relação entre as tipicidades da língua do homem e suas formas de
pensamento.
Não precisamos voltar muito na história para observarmos as diferenças de linguajar entre
nossos ancestrais e nós. Se nos ativermos à nossa própria vida, com um pouco de sensibilidade
às nuances da linguagem, nos espantaremos com tantas mudanças. Advém daí uma pergunta: o
que é que muda nas línguas? Praticamente tudo, da gramática aos sons. Essa mudança é um
processo universal. As modificações podem partir de influências — do nativo e do intelectual —
que podem ser ou não imitadas. Vem daí que mudanças nascidas de “pioneiros desconhecidos”
podem representar um “processo criativo coletivo”.
Todos os problemas do homem refletem-se também na linguagem por ele usada. Quando se
faz referência ao nosso primeiro amor infantil — ou nossos envolvimentos edipianos — a língua
da primeira infância também está mergulhada profundamente em nossos mundos interiores. Esta
sensação, tão forte, de nomear as coisas e tudo o que acontece só ocorre uma vez na nossa
vida. Os homens têm suas reações restritas tanto ao que lhes acontece no momento quanto às
recordações sociais (entre outros fenômenos psicológicos importantes).
Deparamo-nos agora com as barreiras existentes que impedem a comunicação entre os
povos, decorrentes da multiplicidade das línguas (e, dentro delas, dos dialetos). Num retrocesso
histórico, chegamos à narrativa no Gênesis, o mito no qual a construção da Torre de Babel se
apóia é o fato de terem pretendido os homens alcançar o céu. Deus alarmou-se com esta
proposta de invasão e confundiu suas línguas. O termo Babel de fato pode ser interpretado pelo
verbo hebraico lebalbêl, que significa confundir.
Reações inteligentes diante das origens das interpretações lingüísticas são fundamentais
para a tentativa de resolver tais diferenças. Cada vez mais os problemas da comunicação devem
ficar expostos ao livre jogo da crítica democrática, com ampla exposição às observações da
sociedade. Neste aspecto, o Estado deve estar sujeito a uma linguagem de informação aberta
que — quantitativa e qualitativamente — seja de amplo acesso aos cidadãos, sob pena de
decomposição do clima da sanidade, gerando insegurança e desespero. Na apóstrofe de Isaías:
“... toda cabeça está enferma e todo coração desvairado”.
Porque todo o esforço moral e cultural de nosso tempo deve ser dirigido para uma forma não
coisificada do Homem.
Nem um falso conceito de progresso, nem a paz de cemitérios políticos, dogmas ou carismas
podem substituir a vocação espiritual que almeja uma autêntica revolução humanística, baseada
na informação livre que, por isso, repele as concepções dos “sistemas de engenharia das almas”.
Nessa dimensão, a comunicação se fixa em parâmetros de intercâmbio direto de todos os
segmentos nacionais, sem manipulação onipotente do poder ou condicionamentos de grupos
ideológicos baseados em impulsos patológicos de conspirações e visões paranóicas da História.
11TC ""

O menor, faixa etária


do desalento. O velho,
um desafio ao humanismotc "O menor, faixa etária
do desalento. O velho,
um desafio ao humanismo"

O desafio do problema do menortc "O desafio do problema do menor"

UMA CIRANDA DE MISÉRIA, abandono e incompreensão cercam o problema do menor no Brasil.


Temos um dos mais altos índices mundiais de mortalidade infantil, em boa parte atribuível à
desnutrição, da qual um quarto de milhões de crianças com menos de 5 anos não se livra. Em
nossa população infantil encontram-se freqüentemente casos de diarréias agudas,
esquistossomose, sarampo, amebíase, ancilostomose, tétano, difteria e tuberculose.
Anote-se que a desnutrição compromete o aparelho físico-mental da criança, que, mesmo
sobrevivendo, apresentará lesões, sendo notável a relação entre o menor quociente de
inteligência e a carência alimentar. Inclusive, a dimensão do cérebro é reduzida pela desnutrição.
Feita a correlação entre prejuízo nutricional, crescimento do cérebro e desenvolvimento mental,
constatam-se perímetros cefálicos de 48,9 cm contra 50,4 cm em meninos americanos da mesma
idade. O peso e a altura menores são dados relevantes, resultado desta triste realidade. Neste
aspecto, ao considerarmos como básico o consumo de 3.200 calorias e 120 gramas de proteínas
por dia na alimentação individual, verificamos que a disponibilidade média tem sido de 2.690
calorias e de 66,3 gramas de proteínas.
O assunto percorre todos os estamentos de nossa sociedade com um enredo que abrange
desde o crime e a delinqüência infanto-juvenil às dificuldades da chamada classe alta em conciliar
suas demandas de transformação cultural e aos cuidados nos deveres de paternidade e família.
Entre as entidades assistenciais voltadas para o vestuário, atenção médica e psicológica,
brinquedos, escolas, lazer, alimentação adequada e a violência praticada contra a infância,
vivenciamos um verdadeiro estigma coletivo, que requer a imaginação criadora de autoridades e
organismos de encontro comunitário.
Verificamos as conseqüências deste processo no universo subjetivo da criança e suas
implicações de comportamento. Assim, por exemplo, metade das crianças em idade escolar não
come carne; mais de um terço sente medo constante e não sabe se gostam de si mesmas;
aproximadamente um quinto delas não conversa com o pai, não possui brinquedos e detesta sua
cidade; quase um décimo delas não dialoga nem com a própria mãe.
Se a família não forma e a escola informa, a babá eletrônica, a malsinada TV medíocre, com
seu poder de fascínio, seduz a fantasia infanto-juvenil ao forjar uma ficção boba e mentirosa para
a sua vida pálida. No esbulho homogeneizante do “democratismo de massas”, o nivelamento por
baixo, em que a linguagem é um produto secundário de pouco talento e da nenhuma
sensibilidade que leva, por recursos manipulatórios, à despersonalização. Em meio aos intervalos
dos falatórios políticos provincianos, estimula-se a violência.
As crises das megalópoles aumentaram o isolamento dos membros das famílias devido à
ruptura com costumes e comportamentos históricos, antes da sedimentação de formas
substitutivas.
No ensino, temos vivido um período de experiências e frustrações para professores e para
alunos. Os anos 70 assistiram a uma dinâmica de transplante de técnicas, modismos e ideologias
apressadas, com ensaios caboclos de linhas didáticas e escolinhas de vanguarda (a letra do
samba-do-crioulo-doido com a música de Summerhill) ao lado da caótica rede pública,
empobrecida por um lado pela falta de recursos e técnicas educacionais apropriadas e, por outro,
pelos salários minguados dos mestres.
O que tem sido feito pelo esporte infanto-juvenil? E, além dos programas de vacinação em
massa, o que pela saúde quanto ao acompanhamento junto à família e à escola, prevenindo
doenças e erradicando problemas odontológicos?
A solução arquitetônica dos apartamentos substitui o território livre dos play-grounds pelas
garagens coletivas. Com a crise editorial, o livro para essas faixas etárias cede terreno para as
revistas em quadrinhos ou, mais uma vez, para a TV.
Urge a tomada de consciência para incentivar um programa nacional pela infância e
adolescência, sustentado por recursos carregados de toda a infra-estrutura (econômica, religiosa,
sindical, de empresas, política, organizacional) da comunidade, partindo do bairro até a Nação.
Desloque-se a discussão do problema do menor das páginas policiais, agendas paternalistas de
serviço social ou das promessas estatais descumpridas. Caso contrário, a explosão demográfica,
a crise econômico-social, os conflitos de geração e das escaladas de valores tornarão aguda a
sucessão: de uma criança-trombadinha para uma criança-bandida, que, através da TV, conhece o
Irã e o Senegal, mas não sabe onde fica o MASP; o jovem que, na sua angústia de mundo,
confunde amor com libertinagem, nos “lares liberados” da confusão ideológica e espiritual de pais
ansiosos.
Que tal a criação do Ministério da Infância e Juventude, aquele que seria o mais importante
da República... um propósito de esperança?
Para cumprir o mandato político internacional pertinente, “a criança gozará de proteção
especial e ser-lhe-ão proporcionadas, oportunamente, facilidades, por lei e por outros meios, a fim
de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e
normal e em condições de liberdade e dignidade”.22
O papel do velho
numa sociedade jovemtc "O papel do velho
numa sociedade jovem"

Não havendo uma política específica para o velho em nosso país, qual o seu lugar e papel na
sociedade? Da marginalização no mercado de trabalho, oscilando entre a figura acomodada que
merece uma distinção de respeito formal e a condição desprezada de ser atípico, principalmente
nas grandes metrópoles.
Realmente, o psiquismo social partiu da importação de estereótipos radicais, numa ótica
aguda do chamado “choque de gerações”: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”,
seqüela de um período de revolta juvenil que jogou num confuso cadinho — da beat generation a
Marcuse, as drogas e Katmandu — o interesse pela comercialização e venda de calças jeans, a
excêntrica onda dos gurus orientais, onda modista característica da sociedade de consumo,
ondas das imagens das “cascatas” e dos surfistas...
Sociedade esta que valoriza a força física e a aparência estética, que procura promover uma
faixa etária endeusada — aquela que produz mais, conseqüentemente perturba menos (embora,
formalmente, conteste mais o poder gerontocrático), aplicando seu dinheiro em mercadorias
supérfluas sem um senso crítico acabado — a juventude, vítima fácil de mecanismos ansiolíticos
de voracidade, eis que seres em formação, tanto sob o ponto de vista físico como emocional,
educativo ou espiritual.
A tentativa de sinonímia entre jovem, forte e belo, particularmente através de uma televisão
ensandecida (pela exploração comercial nos anúncios provocadores que raiam a pornografia e
pela vacuidade na óbvia correspondência entre idoso, fraco e feio). Isso num tempo sem
compostura ética, em que ser fraco e feio é quase uma patologia que deve ser corrigida pela
eliminação física, lembrando o romance de Casares em que, numa Buenos Aires ficcional, os
velhos são caçados e mortos nas ruas.
Esta noção do velho amaldiçoado por uma sociedade acelerada, em que os músculos e a
grosseria adolescente são colhidos pela permissividade da família e das ideologias avacalhadas,
é um reflexo da contrapartida do filicídio, o atentado e a discriminação contra as crianças. Porque,
na verdade, a comunidade que desrespeita um dos seus estamentos não respeita nenhum.
Diga-se de passagem, esta fenomenologia não é só do nosso tempo. Já os índios
Nhambiquaras tinham uma só palavra para designar jovem e belo e outra para velho e feio.
A noção de velhice associada à idéia de decadência e fealdade dificulta a cada um o seu
próprio envelhecimento; a Psicologia constata que velhos são os outros, nunca nós mesmos,
paradoxo denunciado por Sartre. Aliás, um de nossos dicionaristas, badalado e discriminatório,
arrola no verbete “velhice”: rabugice ou disparate, próprio de velho; e em “velho”: desusado,
antiquado, obsoleto. Esquecido que era, talvez, da sua própria velhice. Ah, as armadilhas
ideológicas da lingüística...
O critério de velhice é muito relativo, dependente que é de fatores subjetivos e objetivos os
mais diversos: para Hipócrates, aos 50 anos; para Aristóteles, que associava esta idade ao
apogeu do indivíduo, aos 35 anos; e para Dante, aos 45. A menina casadoira acha-se “velha” aos
25 anos...
Os costumes e comportamentos pertinentes merecem uma observação. Os esquimós de
Amassalik, na Groenlândia, suicidam-se quando se sentem pesados ao grupo, existindo uma
literatura que retrata a angústia dos velhos e a facilidade com que os próprios filhos conduzem os
pais e avós até o local do suicídio. Entre os Hotentotes na África, apenas os velhos lúcidos são
respeitados, desembaraçando-se a tribo dos que perdem a clarividência. Em certas aldeias
japonesas, sacrificavam-se os velhos nas chamadas montanhas da morte, onde eram
abandonados apenas com cuias de arroz e gravetos para o fogo.
Já entre os Yahgans, na Terra do Fogo, os velhos são acolhidos, ouvidos no “Conselho”,
instituição com poder deliberativo. Também têm grande autoridade entre os índios Navajo, onde
se valoriza o conhecimento que é fruto da experiência. Na Idade Média, como eram os jovens que
sustentavam a organização do poder pela força das armas, havia uma tendência em associar a
velhice à decrepitude. A mitologia dos bárbaros germânicos sempre exaltou a força física e, como
decorrência, a juventude. De uma forma geral, desde o Egito até o Renascimento, a velhice foi
considerada o inverno da vida.
Nos campos de concentração nazistas os idosos eram sacrificados em primeiro lugar, inúteis
que eram para o trabalho escravo. Em contrapartida, no Livro de Provérbios está escrito: “Os
cabelos brancos são uma coroa de honra” e “o amor ao Eterno aumenta os dias, mas serão
abreviados os anos dos maus”.
Picasso e Chaplin, ainda em idade avançada, continuaram marcando nossa civilização.
Uma experiência digna de atenção é a chamada “cidade dos velhos”, em Kopenhagen, onde
frutifica um esforço de realização aprovado pela sociedade.
Émile Durkheim mostrou que o suicídio é mais freqüente na velhice do que em qualquer outro
período da vida da pessoa, e uma estatística comprovou que na França três quartos das mortes
nesta faixa etária são voluntárias.
Em 1973, no Azerbaijão, Shjimos Mislimov, então o homem mais idoso do mundo, com 168
anos de idade, explicava sua longevidade por continuar a trabalhar e não ter pressa em morrer.
Sem que se faça a apologia do Matusalém bíblico, uma sociedade só merece a consagração
humanística quando entende que “the answer, my friend, is going in the wind...” (“a verdade, meu
caro, segue com o vento...”) porque, na verdade, começamos a envelhecer a partir do
nascimento. A função da vida é acomodar a pessoa ao presente em mudança. Com referência ao
idoso, é bem-vinda a criação de uma legislação de amparo, simultânea a uma conscientização,
privada e pública, do problema.
12TC " "

O humor político
e a idéia psicológica —
do folclore à advertênciatc "O humor político
e a idéia psicológica —
do folclore à advertência"

O trágico e cômico
na descrição do horrortc "O trágico e cômico
na descrição do horror"

KAFKA, O PERCUCIENTE CRÍTICO DA ALIENAÇÃO SOCIAL, lia às gargalhadas seus manuscritos para os
amigos. Realmente, existe um traço que une o trágico e o cômico na descrição do horror e da
inadequação do homem. Orwell provoca ao mesmo tempo medo pelo espetáculo manipulatório
do poder que antecipa e hilaridade pelo desacerto e nonsense dos anti-heróis no clima viscoso e
amalucado das suas intenções onipotentes.
O humorista ocupa um papel ideológico em momentos de crise da civilização: quando a
tragédia se faz comédia, a dor se transveste em gargalhada — ou, otimista, a esperança se faz
vestibular do sorriso.
Foi nos estertores da Antigüidade clássica, no fecho da Idade Média, antes da Revolução
Francesa e hoje. Petrônio, Cervantes, Voltaire, Shaw, Carlitos. Carlitos, aliás, que arrancou a
máscara do sangrento palhaço Adolf, mostrando-o na hipnose do culto patológico à morte. Fez a
catarse do ódio provocado pelo terror institucionalizado. Porque, para além do medo e da raiva, o
nazifascismo é ridículo na sua pretensão de amestrar a alma, controlar a consciência e instaurar
uma “ordem salvadora”.
A fraqueza, leveza e gênio inventivo chaplinesco desenham a vulnerabilidade da força do
mito hitlerista, reduzido à sua dimensão demoníaca, à perda das características humanas, à
regressão na escala ao bicho, com o berro substituindo a palavra e o grotesco da ameaça no
lugar da expressão corporal. A falácia que esconde o real desígnio. A galeria dos tipos é ampla:
façanhudo Mussolini, na sua corrida felliniana; camarada Mao, octagenário campeão de natação.
O humorista autêntico permite-se ao ceticismo diante do ritual e da cerimônia de
consagração, faz mofa ao dogma, à certeza absoluta, ao fanatismo e à razão acadêmica. Insiste
em analisar todos os ângulos das questões e, no aprendizado da sua própria autocrítica, é
solidário com o oprimido; joga com o contraste para medir a resistência do alvo, a maleabilidade
do objeto de gozo. É o contrário do bobo da corte profissionalizado, o caricaturista e servidor do
rei, que se presta ao torpe papel de popularizar o dono por intermédio do humor partidário, pondo
seu talento a serviço da causa vil. Pão e circo!
Ehrenburg disse que o nazismo começou com piadinhas anti-semitas nas cervejarias de
Munique.
Mesmo certos preconceitos do folclore chulo contra a mulher, o negro, o pobre, o velho, o
doente, o diferenciado sexual, dão vazão à agressividade subjacente reforçada, em vez de se
esconder nos desvãos da comunidade — o que se desmascara em “A vida pela frente”, de Emile
Najar, patética contra a arquitetura hipócrita: “‘Você compreende?’ ‘Não, mas não faz mal. Estou
acostumado’. ‘É lá que eu vou me esconder quando estou com medo’. ‘Medo do que, D. Rosa?’
‘Não é necessário motivo para se ter medo, Momô’”.
O surrealismo de Breton viu no “humor negro” um radicalismo da visão da realidade.
Shakespeare soube trabalhar as cargas de ambigüidade no anseio do riso, nas suas tragédias,
desaguando no humor de ficção científica que adianta o porvir, como por exemplo o de Murray
Leinster. Ítalo Svevo, sutil no engraçado do seu personagem Zeno.
A sátira e o humor foram armas dos colonos durante a revolução americana. Trumbull relata,
na epopéia cômica M’Fingal, o aperto dum senhor Tory.
Uma anedota do período stalinista: o americano vangloria-se: “Meu país é livre. Posso gritar
na frente da Casa Branca: Morra Roosevelt”. O russo responde: “E eu posso gritar na frente do
Kremlin: Morra Roosevelt”.
A política, arte da manha e irmã canhestra da safadeza, é canal fácil para a definição de
Kant: “O riso advém de uma espera que dá subitamente em nada”.
Alguns dos nossos mais pomposos “estadistas” tiveram seus destinos alterados na vox
populi das esquinas impiedosas que retratam sua empáfia e burrice com um dito engraçado e
total. Uma piada tornou-se antológica pelo efeito devastador em relação a certo presidente da
República que, viajando pelo país, intrigado, perguntou ao ministro que empresa era a tal de
Emobrás, da qual tinha visto tantas placas.
Uma das mais fortes sátiras da literatura, o lamento de Isaías sobre a morte do rei da
Babilônia, e a malícia apressada sobre uma bebedeira do bufo tiranete latino-americano,
coincidem no respeito ao espírito do homem. O direito de ver o mundo ao contrário, de mostrar o
pluralismo, instrumento de libertação contra a feroz gravidade.
Despir o Ferrabrás é reconduzi-lo ao lugar de onde nunca deveria ter saído: do pobre e tosco
planeta pessoal.
Freud, em “Humor e sua relação com o inconsciente”, ilustra o entrelaçamento de diferentes
áreas de experiência nas implicações sociais, documentando a matéria.

O mito político
entre o sentido e a inteligência tc "O mito político
entre o sentido e a inteligência "

Entre o sentido e a inteligência aninha-se o mito político, incorporado em personalidades e fatos.


Escrevendo-se um script épico ou depressivo, com fundo musical ilustrando nomes que
guarnecem nossa lembrança, inserida na vida social.
Projete-se o roteiro, sem cronologia ou lógica, na procura da identidade; versão cabocla da
busca proustiana, entre cavaleiros do Apocalipse e vereadores analfabetos. Martela no cérebro,
sincopado, o estribilho de “Brigadeiro”. Garotos pela Rua Espírito Santo, em Juiz de Fora,
carregavam seu pôster, com “aplomb” para desempenhar o papel de mocinho no seriado que era
exibido no Cine Central; caminhando pelo país, havia a legenda da UDN, depois dos negros anos
das torturas policiais, da ditadura que, pressionada, concordou em enviar a FEB para a Itália. Os
“pracinhas” retornando, a cobra tá fumando, a turma no Colégio Normal correndo atrás da tropa.
Na recepção, o político-menor saúda Zenóbio da Costa: “General José Nóbio da Costa”, o
assessor cochila, “é Zenóbio”, e o pelego “E eu lá tenho intimidade para chamá-lo de Zé?”.
No mergulho ideológico, Paulo Duarte, figura fabiana do socialismo; Otávio Mangabeira
falando da “tenra plantinha”, a democracia; Mattos Pimenta, criador do “Jornal de Debates”, uma
tribuna redigida com cartas do leitor, onde se travavam candentes polêmicas de nosso carisma.
Direita, centro e esquerda, abrigados sob Voltaire: “Não concordo com uma só palavra do que
dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”.
Perplexidade no Granbery, o missionário Mr. Moore lamentando a Guerra da Coréia com
sotaque sulista: “Oh, meus filhos, tem sangue correndo, numa triste batalha...”. E quem não iria
superpor a imagem do pastor grisalho com a de Dom Pedro II, há pouco descrito na sala 10 como
um “erudito e paternal imperador”, a quem chorávamos o exílio. Se o objetivo era mudar o regime,
porque não eleger Pedro Presidente da República?
Às quatro da tarde, na Halfeld, esperava-se a “Tribuna da Imprensa” e a “Última Hora”, que
decidiram nas rotativas a sorte do Brasil; editoriais discutidos aos gritos no DCE.
Os aliados, com Eisenhover e Timoschenko, derrotando o Eixo; confundindo, na voracidade
de fatos, a bandeira americana, Iwojima e Arco do Triunfo. “Adeus amor, eu vou partir... ouço ao
longe os clarins...”.
A cassação de Barreto Pinto, provocador queremista, na denúncia de David Nasser:
“Integralista até o integralismo cair. Seria comunista, anarquista, peronista, chafurdista,
salazarista — o que viesse. Não hesitaria jamais por uma questão de consciência. Seu preço é
prolongado e indefinido da vida boa que ele leva... Ele diverte e faz rir, mas é bem pago. Bobo é o
povo que lhe paga por essas graças”. Foi o escalpelo do ridículo, que é o eleito do totalitário.
Peter Farb disse sobre os iroqueses: “A cara falsa não deve ser tomada por uma máscara, uma
vez que não se pretende com ela ocultar coisa alguma”, em contraposição ao conceito “voto não
enche barriga”, que percorre como nota de desalento o país. A mente se acendeu com os gritos
nas passeatas. O voto é tônus de paixão, infla o sonho infantil, agiliza o moço.
A saudade de Carmem Miranda e Armstrong, o bordão dos sons na PRB-3.
História, sátira ou festa, a política parte dos arquétipos para cimentar a hipótese de redenção
da vida. Cabanagem, Revolta dos Farrapos, Tiradentes, decorar matéria para a prova mensal. Se
tirar 4,0, precisa de 6,0 pra passar, nota de reprovação entre o gênio e o escroque, mediocridade
suficiente para sobreviver.
Histórias que ressaltam a filosofia de que governo admissível é a coexistência de pressões
mútuas na comunidade e não uma compulsão tecnológica e burocrática.
Caracteriza este filme, estilo, ambiente, o anseio pela reforma de costumes no trato da coisa
pública, um propósito contra a miséria ética e social; ordenando lembrar, pois assim há de
ressurgir a viabilidade de Utopia. McLuhan descortinou o possível atrás do fantástico: “Ajude a
embelezar o depósito de lixo. Jogue fora algo bonito”. A insensibilidade é forma pré-agônica de
revolução maldita. A incapacidade de reação a estímulos constantes promove o desespero no
mecanismo da emoção.
Cumpre que a nação vivencie a experiência agradável ou desagradável, com o consciente
absoluto desprezando a asséptica encenação autoritária.
13TC ""

A Ecologia como preocupação


harmônica indivíduo-natureza
e como cuidado no
desenvolvimentotc "A Ecologia como preocupação
harmônica indivíduo-natureza
e como cuidado no
desenvolvimento"

A ECOLOGIA É A DIVISÃO DA BIOLOGIA que estuda e se preocupa com as relações mútuas entre os
seres vivos e o meio ambiente. A criação do termo se atribui a Haeckel, que lançou a tese de que
o indivíduo é resultado da somatória do ambiente com os fatores de hereditariedade. Os primeiros
estudos ecológicos com base científica começaram com Forel, na Suíça, em 1892, e Warming, na
Dinamarca, em 1869.
Os seres vivos têm instrumentais que possibilitam uma adaptação às modificações do meio
físico e biótico. Neste conceito verifica-se a idéia de adaptação que permite que o ajuste às
condições mesológicas implique um dos fatores de evolução. O clima e a atuação do homem
sobre o meio são dois elementos fundamentais para a compreensão do problema. Sabemos que
todos os seres vivos são atingidos pelas variações do meio. Basta citar um fator ecológico
fundamental na vida do mar, por exemplo: a profundidade, que confere tipicidade aos seres nele
vivos: atrofia ou hipertrofia dos olhos; luminiscência e forma achatada. Nas relações entre
indivíduos de mesma espécie, faça-se menção à reprodução sexual, assistência, competição e
hostilidade. Já nas relações interespecíficas (diferentes espécies), observa-se que costumam ser
decisivas a competição em relação ao alimento, o espaço vital, o parasitismo, o mutalismo, o
comensalismo, a simbiose. Referencia-se a Lei de Chapman, que reza que a população de uma
espécie é determinada pela relação entre o potencial biótico e a resistência ao ambiente.
A chegada do homem à idade contemporânea levanta certas questões para nossa
sobrevivência. Alguns dos problemas: a conquista do espaço, significando as possibilidades da
comunicação entre o mundo e o Universo; a juvenilidade dos velhos pelo avanço das Ciências da
Saúde que acenam com o envelhecimento de faixas consideráveis da população, mudando em
níveis etários a constelação da maioria dos homens, com o que isto pode representar em
modificações de padrões culturais e de formulação social, econômica e política; impossibilidade
de guerra atômica e imposição de critérios de pacifismo pelo risco do desaparecimento da
humanidade numa catástrofe nuclear; a revolução dos cérebros eletrônicos, com a intromissão da
Internet, dos computadores, da televisão, e dos instrumentos de comunicação e cultura de massa
em geral; as pesquisas genéticas, a disseminação dos anticoncepcionais, os abortivos e até a
continuação do desenvolvimento da inteligência nos mais fantásticos êxitos de laboratórios; a
droga como tentativa de fuga e alienação de realidades sociais difíceis.
Um astronauta esclarece as pressões que o progresso pode significar: “Eu sabia que, ao
deixar a pátria, o homem é acometido de certa nostalgia. Sei agora que sentimos coisa parecida
quando deixamos a Terra, mas não sei como deveria chamar este sentimento”. Vivemos numa
época de situações novas, em que a tecnologia, o impacto histórico de duas grandes guerras
mundiais e conflitos generalizados representam conjunturas que exigem análise.
O medo atômico — causa de ansiedade — com idéias de perigo e tensão acabou por levar
alguns países a construir milhares de abrigos de emergência. A fuga do tédio pelo encadeamento
de horários de trabalho e a substituição da atividade humana pela máquina. Os surtos de
violência que tomam aspectos epidêmicos, com o aumento assustador da delinqüência. O
homicídio como emoção despertada pela onda de agressividade. A procura do êxtase artificial,
como sistema compensatório de um mundo de ilusões forjado pelo consumismo. Os
tranqüilizantes, como conquistas de laboratório para acalmar as tradicionais ondas de
desassossego em substituição às atividades de criação artística ou esportiva. A proximidade com
o desastre pelas corridas automobilísticas e o trânsito nas grandes cidades. O passionalismo do
herói-quase-suicida. Contágio mental e histeria de massa através dos grandes campeonatos
esportivos. A família convidada a rever padrões sedimentados por séculos de consenso. A
poluição industrial dos rios, mares e atmosfera, causando traumas psíquicos e complicações
fisiológicas pela quebra da harmonia vivencial. A explosão demográfica, sem o acompanhamento
de condutos inteligentes capazes de absorver a demanda inédita.
Aquilo que foi exposto por um cacique norte-americano: “Prometeram acabar com os nossos
montes, rios e florestas. O branco cumpriu sua promessa. Tomou nossa terra. Mas vai perdê-la,
porque não sabe amá-la”. Este dimensionamento tem prevalência sobre os desafios do
desenvolvimento brasileiro. No Brasil impõe-se uma dúvida de grande responsabilidade para
nossos pesquisadores e políticos: como conciliar a ânsia de crescimento e as melhores condições
de vida que a industrialização e o progresso podem proporcionar com a conservação do meio-
ambiente? Para Elliot Jacques, a Psicanálise é relevante para a resolução dos nossos dilemas
ecológicos.
Faça-se a avaliação do conflito entre impulsos conscientes e inconscientes do trabalho, as
ansiedades inconscientes que influenciam nosso comportamento na vida social, a conspiração
inconsciente nas relações de grupo, o controle das conspirações sociais inconscientes — tudo
para obter uma crescente sanidade social gradualmente conquistada. O antropólogo Loren
Eiseley qualifica o realismo de que o homem poderá vencer os desafios ecológicos: “Os homens
são súditos da sociedade. É verdade que carregam consigo bocados do passado, mas também
se examinam, dissimuladamente, no espelho social de suas mentes”.
Urge incorporar ao debate brasileiro essa visão ecológica de problemáticas relacionadas aos
anseios profundos do homem: a interação política do desenvolvimento com o respeito pela
equação indivíduo-sociedade-natureza.
14TC ""

O sadomasoquismo
na economia brasileiratc "O sadomasoquismo
na economia brasileira"

O RICO BRASILEIRO É, ANTES DE TUDO, UM SÁDICO . O pobre brasileiro é, antes de tudo, um


masoquista.
Durante anos denunciei a obrigatoriedade do uso do “elevador de serviço” para a empregada
doméstica. Surgiu então uma legislação (aliás, matéria consagrada pela Constituição) proibindo a
discriminação. Imaginava na ocasião uma nova cena do “apartheid” — a empregada tendo que
subir 12 andares pela escada, por um acerto verbal com a madame.
Isto só muda quando a sociedade renova a mentalidade. As autênticas revoluções de
costumes são psicológicas e não políticas ou jurídicas. A questão é de infra-estrutura ética e
emocional.
Nem Grouxo Marx concebe superestrutura que vive por decreto-lei.
No dia em que o governador, atriz global e o leitor se recusarem a usar o elevador social,
protestando contra a humilhação infligida ao pobre, aí, sim, a moda se altera.
“Eu sei o meu lugar”. Ícone do pobre, a legenda do milionário carioca: “Falo com qualquer
um. Banqueiro, engraxate, pra mim tudo é gente”. A desconstrução mal esconde o menosprezo.
Mentira de estilo para discurso na Academia — linguagem rica para conteúdo pobre. Que nem
certo intelectual. Vem terminar genial.
Na verdade, a não ser como transgressão para confirmar o dogma, o rico brasileiro sequer
enxerga o miserável, a não ser para coisificá-lo, usá-lo como instrumento de trabalho, sexo e,
principalmente, como contraponto.
O verdadeiro orgasmo do rico é a ostentação, dos mínimos aos máximos detalhes.
Para uma contradição luxuriante, o pobre há que ser grotesco. E Joãozinho Trinta sacralizou
a inverdade “pobre gosta de luxo”. Não gosta. Tem medo e ódio da riqueza.
O pobre, informado pelo delírio religioso, foi condicionado ao prazer da penúria, ao sofrimento
catártico da desgraça. Seu banquete é a saliva do doutor.
“Sou pobre mas, graças a Deus, decente”. E a oligarquia, gargalhando, confronta uma das
economias mais poderosas do mundo com uma distribuição de renda canalha.
Atrás e na frente uma discreta e quase charmosa guerra civil, em que a máfia, dos
inconformados, mira no rico e acerta no pobre. Morre o otário, na contramão. Droga, jogo do
bicho, igreja salvacionista, farândula do esquema. Miami, minha Pasárgada, é onde vou me
acabar.
Alguém acredita, mesmo, que não existem soluções razoáveis para os pontos nodais da
carência social brasileira? Qualquer indivíduo dotado de Q.I. de ostra é capaz de adivinhar que
bastaria o dinheiro de três ou quatro desvios, desses faraônicos da oligarquia ensandecida, da
política bandalha, para resolver o problema dos meninos de rua.
Para os meninos de casa, a sem-cultura do Dinho, nas mamonas assassinas, introduz a
concepção de “suruba”, na avacalhação total.
Uma estratégia sensata para assentar os sem-terra. Uma política eficiente para o drama da
saúde pública. Privatizar o funcionalismo do Estado-babá.
É o país do futuro de Stefan Zweig, seria o país presentificado.
Quando criança, em Juiz de Fora, onde nasci e vivi a meninice, escrevia nas paredes
proibidas o pichamento proibido: “Viva Luiz Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança”.
Imaginava o PC como a única salvação contra o sórdido nazifacismo do grotesco Adolf, ou
Getulio, a imagem ridícula agasalhada pelo estereótipo do cão de guarda, o pobre leal e fiel
Gregório, o “Anjo Negro”.
Anos depois, numa campanha eleitoral, encontrei Prestes e enxerguei nele o stalinismo
embrutecido, ponta do iceberg deste jogo de cena da crueldade e da expiação.
O povão gritando na rua — “Getulio, o nosso pai”; Luiz Quixote Goldberg, meu pai, irônico
acrescentava: “Os ricos no salão, estão murmurando — ‘E nossa mãe...’.”
Prestes cumprimentando Getulio, o carrasco da mãe de sua filha, o seu carrasco. Hitler, o
pervertido, atingia o gozo nas formas da fase anal, quando uma adolescente defecava em seu
peito. Depois mandava matar a jovem que o excitava, como foi o caso de sua sobrinha.
E, por causa, condenava os homossexuais aos campos de concentração.
A emblemática desta teratológica jogada de tortura e subserviência. O pobre, na avenida,
esgotado, dançando de graça para o turista vibrar “que folclore, que sensualidade”.
E na quarta-feira, sentado na calçada esperando o ônibus, o favelado pode se imaginar
personagem de Jorge Amado, no “País do Carnaval”. A suprema cerimônia deste balé
psicodramático em que protagonistas e coadjuvantes sabem direitinho qual o seu papel.
Passar fome para que o Outro possa fazer regime contra a obesidade.
No prisma de Einstein, tudo relativo. E a enfermeira, arrogante, no alto de seu salário mínimo,
pergunta, imperial, ao coitado na sala de espera, em voz alta: “Convênio ou particular?” E, por um
minuto, se sente no Clube dos Eleitos. O paciente impaciente imagina. Nem um, nem outro.
Presunto. Bingo.
15TC ""

A unidade na multiplicidade.
O homem como esperança
de realização no mapeamento
psicológico brasileiro tc "A unidade na multiplicidade.
O homem como esperança
de realização no mapeamento
psicológico brasileiro "

O DISCURSO DO MUNDO REINVENTADO POR FREUD admitiu uma lógica que a língua japonesa,
magicamente, reproduz.
Na feliz expressão de Koestler, a vida é uma sincronicidade e não uma equação matemática.
O homem brasileiro cometeu este mergulho macunaímico na operação que desencadeou a
Tropicália e construiu a Embraer.
A somatória formidável de um Joyce caboclo, nos arabescos das Gerais; o Tiradentes da
força e da sadia loucura conspiratória desembocando na Independência política e pessoal.
Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?
A história, sob uma teoria e análise global, incrementa a transferência da emoção do
paciente, de objeto a sujeito de sua vida, pessoal e coletiva.
Nem o prazer, nem a dor justificam o ser psicológico. Ele se explica pela dúvida no mundo
afetivo e a busca ética na área da vontade.
Agressividade do bisturi curativo, não do punhal que mata.
NOTAS

1. Sísifo: herói grego punido pelos deuses. Seu castigo é transportar por toda a eternidade uma
rocha até o topo de um monte, deixá-la cair até a base e tornar a levá-la até o alto, assim
sucessivamente, e ter a trágica consciência da condenação a um trabalho inútil e sem
esperança (NP).

2. Lyda Monteiro da Silva (1920-1980) chegou a ser diretora do Conselho Federal da OAB/RJ.
À época do governo Figueiredo, em 1980, quando atuava como secretária do então presidente
da OAB/RJ, Eduardo Seabra Fagundes, foi morta na chamada “Operação Cristal” pela
explosão de uma carta-bomba. (NP)

3. No fourierismo, organização comunitária concebida como uma realização plena da natureza


humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade coletiva dos
meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual
(fonte: Houaiss).

4. Mestre, mentor (NR).

5. Bando de indivíduos de má fama (NP).

6. Este foi o tema escolhido por Jacob Pinheiro Goldberg para uma conferência realizada no
dia 3 de julho de 1998 no Lecture Hall da Universidade de Londres. O professor Goldberg
falou para uma audiência composta de intelectuais e cientistas de diversas nacionalidades
com background cultural eclético. O que este psicanalista e gênio criativo fez em Londres foi
como jogar uma pedra num lago. Impressionante ver como as ondas criadas por ele se
propagaram e continuam indo longe de sua fonte. Neste novo milênio o que as pessoas mais
buscam é uma fonte de inspiração e subsídios para reflexões mais profundas do que a
assimilação da história tal como nos foi apresentada.
Uma análise histórica não seria razão suficiente para o professor Goldberg se deslocar para
a Europa para um encontro de tal importância, pois embora a história possa ser destituída de
sua legitimidade, por trás das crenças religiosas há sempre um modo de pensar e de sentir,
hábitos e práticas culturais, valores que se originam de uma série de instintos obscuros. Por
que não investigar estes instintos? Esta foi a razão que o levou até lá. Afinal, derrubar
fantasmas é um dever moral. Ionesco disse: “Somente as palavras contam, o resto é falatório”.
Através da lingüística torna-se possível encontrar a essência, mas foi preciso coragem para
retornar ao início dos tempos e recompor a imagem de Eva. Ao invés de
maquiavélica o professor Goldberg apresentou uma mulher de qualidades e integridade, pois
ela primeiro experimentou o fruto e só depois de comprovadamente inofensivo, o ofereceu a
Adão. E assim, Goldberg começa esclarecendo um alveário de contradições inserido numa
temática fussy. Os instrumentos intelectuais necessários foram reunidos para a evolução do
assunto.
“Deus não existe, a Maria é sua mãe”. Uma reinterpretação desta frase e os fatos foram
abordados com muita coragem. Foi perguntado ao professor se ele acredita na virgindade de
Maria. Ele disse que sim, tanto quanto na de sua [própria] mãe. Na história de Moisés mostra
que há indicações de que teria sido gerado pela princesa e um escravo egípcio. Seria perigoso
retirar do contexto quaisquer das indicações apresentadas, porém, o professor o faz com uma
energia intelectual de homem culto e tolerante.
Prosseguindo a conferência, o professor Goldberg insiste na necessidade de repensar o
papel da mulher nas sociedades e ressalta a posição invejável da mulher, uma vez que a ela
foi dada a função da procriação sobre a evolução da humanidade. Neste momento, Goldberg
atinge o objetivo de sua conferência ao provocar na audiência a reação desejada: não o
reconhecimento do valor da mulher nem a conquista de direitos para ela, mas a descoberta de
uma perspectiva. Após séculos e séculos seguindo um modelo masculino, qual deve ser o
modelo feminino? Será preciso criá-lo. Neste milênio, eis o grande desafio. (Texto de Silvana
Ramos)
7. Shechiná: conceito judaico da Presença Divina.
8. Ecclesia: a Igreja cristã.
9. Bahir: obra cabalística de autoria de Rabi Nechunia ben Ha-Kanah.
10. Zohar, O Livro do Esplendor: obra central da Cabala, de autoria de Rabi Shimon Bar Yochai
(séc. II EC).
11. Agadá: conjunto de relatos da tradição oral judaica contidos no Talmud, que ilustram
passagens do texto bíblico.
12. Midrash: um estudo, relato oral da tradição judaica.

13. Sefer Toledot Yeshu: o Livro dos Relatos sobre Jesus.

14. Referência ao Relato das Carruagens Celestiais, em Isaías, que deu origem a toda uma
literatura mística.

15. Obra com referências de caráter autobiográfico sobre sua relação com a atriz, sua segunda
esposa (NP).

16. As Catilinárias foram quatro discursos feitos por Cícero (106-43 a.C.) para denunciar
Catilina, político romano que tramava um golpe de Estado. Até hoje o termo catilinária é
utilizado para designar qualquer discurso violento e acusatório (NP).

17. Anamorfose — nas artes plásticas é a representação de uma figura que, se observada de
frente, parece distorcida, tornando-se legível quando vista de um determinado ângulo, a certa
distância, ou ainda com o uso de lentes especiais ou de um espelho curvo. Na biologia,
significa evolução contínua, sem estágios intermediários definidos. O autor fez o analógico
para o campo da percepção emocional em seu livro “Psicoterapia e Reflexões do
Inconsciente” (NP).

18. Ronald Biggs — ladrão inglês que, numa quadrilha de 15 homens, assaltou um trem que ia
de Glascow para Londres, em agosto de 1963. Preso e condenado, conseguiu fugir para o
Brasil, onde se casou com uma brasileira, teve um filho e tornou-se uma celebridade, com
diversas aparições na mídia por vários anos. Do resultado do assalto, $2,6 milhões de libras,
coube-lhe $147 mil. Biggs, doente e falido, voltou para a Inglaterra em maio de 2001, aos 71
anos, após 31 anos foragido no Brasil (NP).

19. Mistagogo: aquele que inicia alguém em algum conhecimento; mestre, mentor (NP).

20. Pirkê Avot: obra clássica da sabedoria judaica (NP).


21. Paráfrase à peça teatral de Pirandelo “Seis personagens à procura de um autor”, o que no
fim resulta numa ironia de tons tristonhos. Aqui são os figurantes e os assuntos que procuram
um autor criativo que lhes dê retrato inteligente e original, invista-os de sua existência e alma,
salve-os da morte dos clichês e fórmulas prontas (NE).

22. Declaração dos Direitos da Criança — ONU.