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PESQUISA PARTICIPAN TE:

METODOLOGIA PEDAGÓGICA ALTERNATIVA PARA ENFERMEIROS *

Lélia Maria Madeira" "

RESUMO. Através das etapas da pesq u i sa partici pante, considerando-se os prin cfpios da
ação democrática e utilizando-se da d iscussão em gru po, estu d o u -se a p roblemática da
hospitalização da criança, com p r i m e i ro enfoque na ad missão. A anál ise c rítica do pro­
cesso evo l utivo da pesq u i sa mostrou q u e a vivência do processo educativo-part i c i pativo
promoveu nos enfermeiros, seja i n d i v i d ualmente o u como g ru p o social, uma p rog ressiva
ascensão de sua vi são da real idade, com evidente superação de uma consciência i n g ê ­
n u a , espontâ nea, para outra m a i s críti ca, reflexiva, a i n d a que n ã o se tenha ati n g i d o o n í­
vel desejado de uma consciência de classe.

ABSTRACT. In thi s paper, made up w i th a g roup of n u rses from a g overnam e ntal school
hospital, the m ethodology used was that of the part i c i pating research, tak i n g the p raxis
phi losophy as a theoretic refe rence. The c h i l d ren hosp ital ization p robl em was d i scussed
i n the g ro u p throughout the principies of the democracy em phas i s i n g the ad m ission. But
other necessities arouse u s i n g the historical d ialectical app roachi n g . They w i l l be stu died
contin ual ly. The criticai analysis of the p robl em showed us that the n u rses made a g reat
progress ind ividually or as a g roup, in thei r view of the real ity. They gained a more refl exive
and criticai class conscience despite until beg i n i n g .

1. INTRODUÇÃO quisados participam em todo o processo, deixando as­


sim de serem "objeto" para serem o "sujeito" de pes­
Este trabalho surgiu, inicialmente, devido ao nos­ quisa.
so interesse em reestudar a admissão da criança. Pela Esta metodologia tem suas bases na filosofia da prá­
nossa vivência profissional sabíamos da importância xis, dentro do referencial epistemológico do materia­
deste momento para a criança e conhecíamos as defi­ lismo dialético histórico, onde procura ver o homem
ciências assistenciais e a pouca ou nenhuma atuação em sua totalidade, acreditando em suas potencialida­
do enfermeiro. des e em sua capacidade para criar e transformar sua
Para nós, também era importante que o trabalho própria história (GRAMSCI, 1978). Thmbém não se per­
a ser realizado não se limitasse apenas ao meio acadê­ de de vista a interação necessária entre conhecimen­
mico e que pudesse ser útil aos pesquisados, promo­ to e ação, ou seja, entre teoria e prática.
vendo alguma mudança na situação enfocada. Atualmente vários trabalhos têm sido realizados
Através de nossa orientadora ficamos conhecen­ nesta linha de pesquisa. Apesar dos enfoques diver­
do a metodologia de pesquisa participante e à medida sos, todos seguem os mesmos princípios, destacando­
que aprofundávamos esse conhecimento, mais premen­ se a ação educativa e a participação, visando sempre
te ia ficando para nós a necessidade de sua utilização a mudança de uma consciência ingênua para outra mais
na pesquisa a ser empreendida. crítica, no sentido de se conseguir melhores condições
A pesquisa participante é uma metodologia ainda de vida.
pouco utilizada, principalmente, na área da saúde. Nes­ Sobre as idéias centrais do método, no artigo do Ins­
te método há um compromisso mútuo entre pesquisa­ tituto de Ação Cultural (IDAC, 1978, p. 14-39), afirma­
dor e pesquisados; a pesquisa é feita "junto" e os pes- se que, o pesquisador, ao invés de se preocupar com

" Dissertação de mestrado apresentada à Escola de Enfermagem da USP. 1985 .

•• Professora Assistente de Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFMG.

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as explicações dos fatos que acontecem, tentará, atra­ Nas etapas iniciais da pesquisa houve grande ro­
vés da ação e da pesquisa, fazer brotar no grupo uma dízio de pessoal, coincidindo com a crise porque pas­
compreensão do processo de mudança que está expe­ sava o Serviço de Enfermagem. Na 1 � etapa tínhamos
rimentando, capacitando-o, assim, a redefinir e apro­ 9 enfermeiros com 2 licenciados. Até a 4� etapa hou­
fundar a visão de sua ação cortiunta. ve 1 demissão, 3 transferências e 5 admissões. Tínha­
O processo participativo só vai ser possível através mos assim 10 enfermeiros, com 2 licenciados.
da ação educativa onde se procura valorizar a pessoa O presente trabalho foi �mpreendido visando os se­
do outro; priorizar as necessidades do grupo e o conhe­ guintes objetivos.
cimento é adquirido através da descoberta e da parti­
cipação. Thnto o pesquisador quanto o grupo envolvi­
do, desvendando sua realidade, interagem e se ensi­ 3. OBJETIVOS
nam mutuamente.
Para VALLE (1982), o trabalho desenvolvido atra­ - Conhecer a problemática da assistência de en­
vés da ação educativa deve permitir uma aprendiza­ fermagem à criança hospitalizada, destacando a per­
gem partilhada pela população e equipe de saúde, on­ cepção do enfermeiro;
de haja troca de informação, capacitando o grupo a - Verificar transformações ocorridas, individual­
analisar criticamente sua situação, identificar e prio­ mente ou no grupo, mediante a utilização da metodo­
rizar problemas, indicando soluções e se organizando logia de pesquisa participante.
para promover as soluções.
Em relação à ação educativa como processo de ca­
pacitação de indivíduos e grupos para assumirem a so­ 4. ETAPAS DA PESQUISA
lução dos problemas de saúde, MENDONÇA (1982 , p.
9) diz que ele deve incluir também o crescimento dos Para LE BarERF (1984) não existe um modelo úni­
profissionais de saúde, através da reflexão cortiunta so­ co de pesquisa participante. O importante é adaptar
bre o trabalho que desenvolvem e suas relações com o processo às condições particulares de cada situação
a melhoria das condições da saúde da população. concreta. Neste trabalho, utilizamos o modelo recomen­
Já PIN'ID (1982) ressalta que o profissional da saú­ dado no artigo do Instituto de Ação Cultural IDAC
de deve superar sua formação academicista e alcan­ (1978). Para estes autores a Pesquisa Participante pos­
çar uma compreensão mais totalizadora, mais global sui 4 etapas que são:
da realidade, dentro da qual se insere a problemática - inserção do pesquisador no grupo
da saúde. - coleta de dados
Considerando-se as características da metodologia - organização de dados
descritas acima e, conhecendo a problemática da as­ - devolução do material ao grupo.
sistência à criança hospitalizada, optamos pela utili­ Na pesquisa empreendida estas etapas acontece­
zação, neste trabalho, da pesquisa participante. A nosso ram da seguinte forma:
ver, somente um trabalho educativo-participativo po­
deria levar o grupo de enfermeiros a uma atuação efe­ 4 . 1 Inserção do pesquisador no grupo
tiva junto à criança hospitalizada. Fizemos contato com chefias de enfermagem do
Elaboramos o projeto e iniciamos a 1 � etapa dan­ hospital (autorização) e com enfermeiros e auxiliares
do principal enfoque à admissão da criança. Posterior­ de enfermagem da pediatria (interesse pelo trabalho).
mente, percebemos que, se queríamos um trabalho den­ Fizemos esclarecimentos necessários e perguntamos:
tro de uma visão dialética histórica, com análise críti­ "O que você acha do trabalho proposto?"
ca e compreensão dos fenômenos em sua totalidade, Passamos 5 dias na unidade (manhã, tarde e noi­
teríamos que ampliar tanto o tema quanto nossa po­ te). Fizemos observações assistemáticas do processo de
pulação. admissão da criança e após, às pessoas envolvidas fi­
Decidimos ampliar a abordagem (hospitalização da zemos uma entrevista não estruturada com pergunta
criança) e conhecer melhor as percepções dos elemen­ aberta: "O que você acha da admissão da criança?"
tos da enfermagem que lidam mais diretamente com Ao final, realizamos uma reunião com os enfermei­
a criança. ros para reafirmarmos o interesse sobre o assunto e o
compromisso com a pesquisa. Neste encontro, aparen­
temente, confirmamos o interesse sobre o assunto e o
2. LOCAL E COMPONENTES DO G R U PO
compromisso para fazermos o trabalho juntos.
Com as observações das admissões, através das con­
O trabalho foi realizado com o grupo de enfermei­ versas informais com as pessoas da enfermagem e com
ros da unidade pediátrica do Hospital de Clínicas da o conhecimento prévio sobre a questão, foi possível tra­
UFMG - Belo Horizonte - MG. Esta unidade possui çar um perfil provisório da admissão da criança nesta
52 leitos em 2 alas.
unidade.

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4.2 Coleta de informações 5 . APRESENTAÇÃO E ANÁLlS� DO
TRABALHO COM O GRUPO
Após decisão de se ampliar o tema e o grupo de
trabalho, elaboramos um roteiro de entrevista, que per­ Pretendemos implementar uma análise crítica do
mitisse conhecer a pe!'cepção da equipe de enferma­ processo evolutivo ocorrido com o grupo de enfermei­
gem sobre a hospitalização da criança, que favoreces­ ros em relação à práxis, ao longo da pesquisa partici­
se uma visão mais ampla do grupo, de suas relações pante. Como a mesma se processa através da intera­
com a realidade contextual em que atuavam. ção pesquisador/pesquisados e esta interação aconte­
Comparecemos à unidade durante 10 dias para as ce desde a 1 � etapa da pesquisa, sentimos necessida­
entrevistas. Foram entrevistados 8 enfermeiros e 18 au­ de de analisarmos fatos ocorridos durante todo o trans­
xiliares de todos os turnos. As entrevistas foram feitas curso da pesquisa.
individualmente, com perguntas abertas e tentando­ Nos 1'?s contatos com os enfermeiros, ao fazermos
se explorar todas as informações importantes e rela­ observações das admissões e ao conversarmos com os
cionadas com o estudo. 1bdas as entrevistas foram gra­ mesmos, já verificávamos contradições entre o que ver­
vadas após consentimento do entrevistado e o tempo balizavam e o que estavam fazendo. Por exemplo, em
da entrevista variou entre 15 a 45 minutos cada. uma das admissões a enfermeira não entrevistou a mãe
nem elaborou o plano de cuidados pertinente. No en­
tanto, ao ser questionada, disse: Acho que precisa con­
4.3 Organização dos dados
versar mais com a mãe, obter mais informações sobre
a criança." . . . "Os planos de cuidados de enfermagem
Inicialmente as entrevistas foram transcritas na ín­
são vergonhosos, baseados apenas em prescrições mé­
tegra.
dicas. Precisam melhorar cientificamente".
Procuramos' destacar todas as idéias que, direta ou
Nesta mesma ocasião, um dos enfermeiros verba­
indiretamente, se relacionavam com o tema ou que se
lizou:
constituiriam em instrumentos potenciais para a fase
"Gostaria de falar algo que não disse na'outra en­
seguinte.
trevista. Creio que se deve dar màior relevãncia para
Fizemos um agrupamento por pergunta e catego­ a admissão da criança. Ela não é valorizada . . . não é
rizamos os dados de forma a favorecer a compreensão dada nenhuma orientação nem apoio; não se ouve a
do grupo. criança." . . . "A enfermagem que a recepciona deve ca­
Foram mantidas as formas de expressão de cada um tivar sua confiança, fazê-la sentir-se à vontade e se­
e incluídas no m�terial as observações das admissões gura em sua internação."
feitas na 1 � etapa. Evidencia-se a mudança na percepção desta pes­
soa quantQ à admissão da criança. Sua 1 � fala decor­
reu de uma visão individual, espontânea. O fato de ter
4.4 Devolução do material ao grupo
sido questionada, a forma como foi abordada e a dis­
cussão do tema em grupo levou-lhe a refletir e a refor­
Após coleta de dados procuramos manter conta­
mular seus conceitos.
tos periódicos com o grupo, informando-lhes do anda­
Os dados colhidos nas entrevistas individuais pos­
mento do trabalho. Neste ínterim, verificamos a invia­
sibilitou-nos aprofundar mais o conhecimento do gru­
bilidade de iniciarmos a devolução dos dados aos dois
po. Tínhamos desde enfermeiros recém-formados até
grupos entrevistados. Optamos, assim, por começarmos
pessoas com mais de 20 anos de trabalho em pediatria.
apenas com os enfermeiros. Foi explicado a todos os
Verificamos, também, que a maioria delas não havia
motivos da restrição aos enfermeiros.
feito nenhum curso de atualização nos últimos 2 anos.
Por esta ocasião o hospital passava por uma séria Pela pergunta "Como você se percebe na equipe
crise de pessoal ( demissões, transferências), o que nos em que trabalha?" indentificamos sérios problemas de
levou a adiar o processo de discussões em grupo. relacionamento entre o grupo. Como se vê:
Posteriormente, procuramos conhecer os enfermei­ " As dificuldades que sinto são relacionadas às colegas. . .
ros recém-admitidos e esclarecer-lhes sobre nossas pre­ às vezes surge ciúme, desconfiança . . ."
tensões. Entregamos os dados colhidos anteriormen­ "O relacionamento tanto comigo como com o pessoal
te, organizados em apostila, com o pedido de que fos­ auxiliar está ótimo . . . com excessâo das enfermeiras,
se lida com antecedência. Após, marcamos a 1 � reu­ porque o que a gente nota é um certo despeito. . ."
nião para vermos como o grupo reagiria ao material e Para alguns também foi difícil responder:
para discutirmos o interesse para a continuação do tra­ "Ah, é muito difícil. . . não consegui me perceber mui­
balho. to bem."
Conseqüentes a esta tivemos mais 11 reuniões, só "Fica difícil a gente ver a gente."
com os enfermeiros e cujos resultados passaremos a re­ Pelas respostas sentimos que os enfermeiros, ape­
latar. sar de perseguirem um mesmo objetivo, encontra-

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vam-se desintegrados enquanto grupo. Vários problemas forám levantados e sugeridos para
Outros pontos mereceram nossa atenção. Ao mani­ posterior encaminhamento. Verificamos que os enfer­
festarem a percepção da criança e da mãe, entre ou­ meiros sentiam os problemas da clínica só que cada um
tras coisas, disseram: direcionando sua atenção para aspectos dispersos da
"A criança que está com a mãe dá mais trabalho; ela realidade.
quer chamar atenção." 2 � reunião- grupo muito emotivo
"A criança que não está com a mãe é mais dócil; acei­ - revoltados pelo rodízio e deficiências
ta tudo que a enfermeira vai fazer. . ." de pessoal
" As mães, às vezes, têm um comportamento favorável, - discutiram dificuldades sentidas e
outras vezes apresentam um comportamento negati­ programaram reunião com chefias.
vo, uma atitude de superproteção e prejudica a recu­ Novamente, sentimos que a atitude do grupo, re­
peração da criança." velando superação de uma consciência isolada, indi­
" Elas ficam reclamando pela mínima coisa; parece que vidualizada para outra grupal, corporativa, tenha si­
querem repor o que faltou prá criança quando estava do gerada pela vivência do processo de pesquisa par­
sã." tiCipante, quando foi possível aos enfermeiros passa­
"A gente está vendo que a internação cOI\Íunta é óti­ rem da situação dos objetos a sujeitos da situação. Eles
ma para a criança. . . Prá gente não foi tão bom porque discutiam os problemas sentidos e encaminhavam so­
a mãe exige um pouquinho mais." luções.
A forma de perceberem a mãe e a criança se reve­ Na 4� reunião começa-se a delinear o problema
la, essencialmente, pelo comportamento de ambos na considerado prioritário: aspectos psicológicos da hos­
instituição. No entanto, nos parece que consideram esse pitalização da criança, só que com I ? enfoque sobre
comportamento sem se alertarem e refletirem sobre os a admissão. Surgiram muitos conflitos; muitas falas si­
motivos de sua ocorrência. Suas percepções baseiam-se multãneas. Neste sentido, tentamos moderar as deci­
nos efeitos imediatos dos acontecimentos, dentro dos sões do grupo e oferecemos referencial bibliográfico so­
parãmetros do senso comum. Não se identifica uma bre o assunto. Já surge a necessidade de preparo dos
tentativa de análise mais profunda sobre as reações da auxiliares de enfermagem para atuarem na admissão.
mãe e da criança frente à assistência recebida. Neste ínterim desencadeia a greve e conseqüente
As respostas revelam uma postura acrítica do en­ desativação do hospital. Surge a proposta de aprovei­
fermeiro frente a seu objeto de trabalho. tarmos o tempo ocioso. Em 36 dias fizemos 6 reuniões,
Por outro lado, encontramos também falas bastante da 5� à 1O� reunião.
teóricas, com utilização de terminologia científica: Reuníamo-nos semanalmente o que favoreceu, a
" A hospitalização eu acho uma coisa violenta, uma nosso ver, a organização da visão de mundo do grupo.
agressão que se faz à criança pela separação mãe-fi­ Muito se estudou e discutiu sobre o papel do en­
lho." fermeiro dentro do sistema assistencial. A problemá­
Desse modo, supomos que não está havendo inte­ tica da hospitalização da criança passa a ser vista de
gração entre teoria e prática; elas coexistem mas des­ forma mais ampla e estrutural.
vinculadas uma da outra. À medida que evoluíam neste processo percebía­
Através da pergunta ' 'O que você pensa que se po­ mos que a problemática da hospitalização da criança
deria fazer em relação à hospitalização da criança?" passa a ser vista de forma mais ampla e estrutural. Os
confirmamos o interesse do grupo na continuidade do enfermeiros demonstram uma postura analítico-críti­
trabalho. ca frente aos problemas levantados, principalmente,
Implementamos a devolução dos dados, através de no que se refere à atuação do enfermeiro, em relação à:
reuniões com discussões em grupo. - comunicação com a mãe
Nos reunimos no período entre abril a setembro " Thmos muita oportunidade de entrosar com a mãe e
de 1984, fazendo 12 reuniões ao todo; num tempo mé­ não aproveitamos. ( . . . ) Às vezes, é fuga o enfermeiro
dio de 75 minutos cada reunião e com a participação ficar mexendo com uma série de outras coisas. . ."
de 6 elementos, em média. - comunicação com a criança
Na medida em que progrediam na vivência do pro­ " Acho importante você se comunicar com a criança de
cesso de práxis, através de discussões em grupo, per­ acordo com a idade dela."
cebíamos transformações ocorridas tanto a nível do dis­ - elaboração de planos de cuidados
curso quanto em suas ações. E é isto que tentaremos " Precisamos tornar nossos planos mais respeitáveis. . .
apresentar e analisar a seguir. E m primeiro lugar torná-los mais decentes e em segun­
1 � reunião - grupo tenso; reunião serviu mais para do, atualizá-los."
desabafo. - entre outras.
- sobre o material disseram: - " . . . es­ Somente no 8? encontro se define como seria e
tão sendo destacados os problemas emocionais, psico­ quem executaria as diversas atividades propostas na
lógicos da criança hospitalizada." nova admissão. Para isso foi necessário a superação de

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uma série de conflitos surgidos, ligados ao tema em À partir da admissão perceberam inadequações
pauta e, principalmente, em tomo de quem faria a pessoais; questões internas a serem solucionadas; des­
admissão; se seria atribuição só do enfermeiro, do en­ preparo dos auxiliares e a necessidade de se implemen­
fermeiro e do auxiliar ou só do auxiliar. tar treinamento para os mesmos; entre outras coisas.
Frente à coesão da maioria, decidiram pela apli­ Várias mudanças foram percebidas no grupo:
cação de um roteiro de admissão, quando o enfermei­ - no relacionamento entre si e entre eles e os au­
ro faria a entrevista com a mãe, um exame físico su­ xiliares;
mário da Criança e elaboraria o plano de cuidados. Ao - procuravam atender suas necessidades: faziam
auxiliar caberiam as atividades já desempenhadas. cursos de atualização em pediatria, apresentaram um
Nestes encontros fica premente a necessidade de trabalho em congresso, faziam reuniões regulares com
preparo dos auxiliares. Como se vê: auxiliares de enfermagem para discussão de assuntos
"Está precisando um preparo para todos nós. As auxi­ pertinentes e era evidente a preocupação em se im­
liares estão reclamando. . . . ' ' plementar o trabalho junto aos auxiliares.
, 'Poderíamos discutir com os auxiliares para eles mes­ Entretanto, estas mudanças não ocorreram de for­
mos sentirem a necessidade de fazerem uma boa ad­ ma linear, simétrica, com todos os elementos do gru­
missão. E nesta reunião, levantarmos as necessidades po. Alguns demonstravam desenvolver mais rapida­
deles em termos de reciclagem." mente que outros. Como exemplo temos a pouca ou ne­
Desse modo, iniciamos as reuniões com os auxilia- nhuma participação de enfermeiros recém-admitidos
res de enfermagem para: nas discussões grupais.
- esclarecer sobre o andamento do trabalho Outro enfermeiro, na 1 � reunião, disse:
- pedir sugestões "Não adianta discutir esta coisa, não. Vai ficar uma coi­
- levantar necessidades para reciclagem. sa só. Não temos com quem falar; todos se acomodam.' '
Após reunirmos com o 2? grupo resolvemos sus­ Ao se decidir sobre a admissão, diz:
pender devido a agudização da greve. O clima de ten­ " Acho que a gente deve tentar, melhorar um pouqui­
são vivido não permitia nenhum trabalho paralelo. nho mais."
Depois de um mês a situação voltou a se normali­ " Este roteiro é bom: o menino chega aí, fica jogado
zar, com suspensão da greve e, novamente, nos reuni­ e você não sabe nada dele."
mos para revermos o encaminhamento do trabalho. É visível a mudança quanto a seu comportamento
11 � reunião - surge nova necessidade. no grupo e à sua percepção sobre o tema discutido. No
" Sabe, estamos pensando em elaborar as rotinas da pe­ entanto, continuam as contradições em suas falas e é
diatria; é o mais urgente." nítida a dificuldade em associar conhecimentos teóri­
"Estamos pensando na elaboração das rotinas com a cos à sua prática. Como se confirma:
participação dos enfermeiros e auxiliares. Acho que se­ " Acho que a admissão deveria ser feita pela enfermei­
rá uma forma de estimular as pessoas a estudarem, a ra porque é um trabalho mais científico . . ."
pesquisarem." "Está precisando um preparo para todos nós, enfer­
, Por estas ocorrências, percebemos a expansão da meiros e auxiliares de enfermagem ."
consciência do grupo, quando se amplia a visão sobre Mas, ao se decidir por formas de preparo dos auxi­
o preparo dos auxiliares. Não pensavam mais em pre­ liares, diz:
parar algo e oferecer-lhes, mas em levá-los a estuda­ "Dar aulas não é comigo, não gosto."
rem junto com os enfermeiros. Quanto à elaboração das rotinas:
A 12� reunião foi coordenada pela enfermeira-co­ " Acho importante, mas não vou fazer; não gosto, não
ordenadora da unidade; nós participamos como mem­ tenho tempo."
bros e nesta reunião foram selecionados temas para a Como se vê, no processo dialético, as pessoas vão
elaboração das rotinas e, novamente, se colocou a im­ e voltam; o processo de evolução da consciência se dá
portância de se trabalhar junto com os auxiliares. em espiral, num crescente. Neste sentido, parece-nos
Nestas últimas reuniões percebíamos um bom cli­ que alguns elementos do grupo talvez não tenham pas­
ma nas discussões, sem agressões, quase não havendo sado por nenhuma mudança perceptível. Porém, pelo
falas superpostas, aparecendo até risos. fato de terem experienciado um processo educati­
Como dito, o grupo foi capaz, por si só, de identifi­ vo-participativo espera-se que alguma coisa em si te­
car seus problemas e destacar suas prioridades, sem nha modificado: em suas percepçêos, atitudes, etc. ,
a necessidade de nossa interferência, o que confirma porque na práxis as pessoas passam por um vai e vem
o êxito da pesquisa participante. dentro do processo de transformação; elas recuam, mas
O tema prioritário escolhido (admissão da criança), nunca ao ponto em que estavam antes.
serviu apenas como fator desencadeador do processo Assim, através da evolução do processo, ficou evi­
participativo. A admissão da criança é limitante e en­ dente as transformações ocorridas, tanto em termos
volve muitas outras dimensões - isto sendo descoberto pessoais como do grupo, apesar das diferenças indivi­
devido à vivência do processo dialético estrutural. duais. A vivência no processo educativo-participativo,

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com valorização de princípios de ação democrática, le­ socializarem a experiência, numa busca constante de
vando-os a refletirem sobre suas ações, e pensarem suas crescimento e integração. Tudo isto, acreditamos, re­
contradições, impulsionou os enfermeiros na supera­ verterá em benefício da criança e família.
ção de uma práxis espontãnea, pasando para outra mais Confirmou-se, assim, a necessidade de procurar­
reflexiva. mos metodologias de pesquisa alternativas na' enfer­
Quanto a nós (pesquisadora), ao fazermos uma ava­ magem. Metodologias estas que procurem mais com­
liação do processo vivido, identificamos mudanças em preender que explicar os fatos e cujos trabalhos pos­
nossas posturas: sam gerar resultados que revertam em benefício das
- como enfermeira; populações estudadas.
- como docente " . . . O materialista é um eterno inconforma­
- como pessoa. do, porque a realidade não se fecha; a realida­
de é horizonte. A própria vida é linha do hori­
zonte. ( . . . ) À medida que você marcha em di­
6. CONCLUSÕES reção ao horizonte ele vai se afastando e aí vo­
cê vai divisando outras coisas, vai mostrando
Como os resultados obtidos tornou-se evidente a que as anteriores você superou . . . é o desafio. . .
efetividade da pesquisa participante, na capacitação é outra postura de ciência."
dos enfermeiros que compuseram o grupo pesquisado.
A vivência no processo educativo-participativo possi­
bilitou ao grupo, maior integração: como pessoas, co­
mo grupo, em relação à chefias e subordinados e em REFER�NCIAS BIBLIOGRÁFICAS
relação à criança e pais.
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A passagem de objetos a sujeitos da pesquisa, com Repensando a pesquisa par·
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as discussões promovidas, com participação nas reso­ ticipante. 1984. p. 51·81 .
São Paulo, Brasiliense,
luções, levou-os a melhor conhecer e interpretar a rea­ 2. GRAMSCI, A. Introdução à filosofia da práxis. Lisboa, Antído­
lidade da hospitalização da criança e a superar a exe­ to, 1978. 165 p.
3. INSTITUTO DE AÇÃO CULTURAL - IDAC - A observação par­
cução alienada de suas funções, com o devido ques­
ticipante, uma alternativa sociológica. Rio de Janeiro, CEI,
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O processo interativo com o grupo foi de aprendi­ 4. MENDONÇA, G . F. Ação educativa nos serviços básicos de saú­
zagem contínua e mutúa, sendo possível detectarmos de. .In: ENCONTRp DE EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO E

transformações ocorridas tanto em nós quanto nos pes­ SAUDE DA REGIAO NORDESTE . Anais. . . Brasília, Ministé­
rio da Saúde. Centro de Documentação, 1 982 . p. 9-14.
quisados, apesar de que, no grupo, aconteceu mais ra­ 5. PINTO, J. B. Ação educativa através de um método participati­
pidamente em uns que em outros. vo no setor saúde. In: ENCONTRO DE EXPERIÊNCIAS DE
Confirmou-se a importância da aplicação da pes­ EDUCAÇÃO E SAÚDE DA REGiÃO NORDESTE. Anais. . . Bra­
quisa participante, orientada pela filosofia da práxis, sília, Ministério da Saúde. Centro de Documentação, 1982 .
através da evolução do processo e, especialmente, nas p. 15-9.
6. Aspectos psicológicos da recreação infan­
VALLE , E . R . M . do.
deciões finais tomadas, quando já demonstravam pos­ til, educação permanente de enfermeiras pediátricas num
suir uma visão mais estrutural da problemática da hos­ modelo de pesquisa de ação participante. Ribeirão Preto, Es­
pitalização da criança e ao emergir a necessidade de cola de Enfermagem, 1982 . 182 p. Diss. mestr.

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