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O PORTUGUÊS NO BRASIL:

Em Busca de uma Abordagem Desapaixonada


da Questão da Língua Falada
pelos Brasileiros

Eunice Nicolau – UFMG

1. Considerações Iniciais

O presente estudo busca esboçar uma reflexão, na medida do possível, objetiva sobre a
questão da língua falada pelos brasileiros nos dias atuais. Em vista dessa pretensão, focaliza a
posição em favor da existência de uma língua diferente da portuguesa (uma língua brasileira)
em território brasileiro, invocando alguns autores que

A questão da língua que se fala no Brasil parece tranqüilamente resolvida, ou seja, a

pergunta: Que língua se fala no Brasil? já pode ser vista como “bastante senhora”
que inicialmente divide as opiniões de escritores/poetas brasileiros e estudiosos (filólogos
e gramáticos), hoje coloca de um mesmo lado:
os falantes comuns – convencidos, na grande maioria, de que não sabem a sua língua,
que é a língua portuguesa (proclamada orgulhosamente por esses falantes como a língua mais
difícil do mundo e, que, portanto, nunca vão mesmo saber);
alguns professores/divulgadores da língua que os brasileiros devem falar, que é a língua
portuguesa – indignados pelos abusos e os maltratos praticados pelos ignorantes brasileiros
contra “a última flor do Lácio”;
um grande número de lingüistas – empenhados em atestar/analisar fatos da fala brasileira
que identifiquem as diferenças entre essa fala e a fala portuguesa, buscando evidenciar as
peculiaridades do português do Brasil.

2. Da Relação entre Língua Cultura e Sociedade

Entre os elementos mais importantes de qualquer cultura, figura reconhecidamente a


língua, que, há mais de um século, deixou de ser entendida como organismo vivo e independente
de falantes. Para MELO (1981:20), essa concepção de língua, já contestada por WHITNEY (1875) e
BRÉAL (1897), cedeu o lugar à concepção de língua como um fenômeno de cultura, assumida por
lingüistas do século XX, que passaram a salientar exatamente o que há nas línguas de
indeterminado, de imprevisível, de humano, enfim. A língua tem sido considerada como fenômeno
de cultura, portanto sujeita a leis de subsistência e sucessão das culturas.
Na verdade, essa concepção de língua não é a única presente nos modelos teóricos
que vêm sendo propostos e adotados desde o surgimento da chamada lingüística moderna, no
início do século XX, mas cabe observar que, ao longo desse mesmo período, as relações entre
língua, cultura e sociedade nunca deixaram de estar em cena. Na perspectiva estruturalista, a
língua tem como função a comunicação entre os falantes e desempenha papel relevante na
cultura – para os tagmemistas, que seguem a orientação sapiriana, por exemplo, a língua
constitui parte e meio de expressão da cultura. Assumindo que a língua ‘é, sem dúvida, cultural
em sua natureza e seus propósitos, ’CÂMARA JR. (1967:21) argumenta em favor de
especificidades da língua enquanto um fato cultural. Afirma esse autor que:

... funcionando na sociedade para a comunicação de seus membros, a língua


depende de toda a cultura, pois tem de expressá-la a cada momento. É o resultado
de uma cultura global. Tal não acontece com os outros aspectos culturais (...) não
tem finalidade em si mesma. A sua função é expressar a cultura para permitir a
comunicação social.

A inter-relação entre língua e sociedade é explicitamente assumida nos estudos que vêm
sendo realizados á luz do modelo sociolingüístico variacionista, proposto por Labov (1972-2000).
Esse modelo consiste numa proposta teórico-metodológica cujos pressupostos básicos foram
primeiramente postulados por Weinreich, Labov e Herzog (1968), que apontam para a seguinte
posição defendida por Meillet ao atentar para o caráter instável da língua1:

A língua é uma instituição com autonomia; é preciso, portanto, determinar as


condições gerais do seu desenvolvimento de um ponto de vista puramente
lingüístico; mas, uma vez que a língua é também uma instituição social, a
lingüística é uma ciência social, e o único elemento variável para o qual se pode
apelar para explicar uma mudança lingüística é a mudança social, da qual as
variações lingüísticas são conseqüências, algumas vezes, imediatas e diretas e, mais
freqüentemente, mediatas e indiretas. (cf. WLH, 1968:41)

Esses autores (doravante,WLH) argumentam em favor da fundamentação empírica de


uma teoria da mudança lingüística, ou seja: para WLH, as línguas são, por natureza,
heterogêneas, em decorrência da relação entre língua e organização social, de modo que a

1
cf. WEINREICH, LABOV E HERZOG (1968:41); a tradução é minha.
explicação da estrutura lingüística deve considerar o fato de que os processos lingüísticos são
influenciados por combinações de fatores internos e externos à língua. Tal posição é assumida por
Labov, que concebe a língua como um sistema heterogêneo, ao qual é inerente a variação, por
ser um fato humano e, portanto, social .
Admitindo que o uso da língua está estreitamente relacionado às condições sociais do
falante e, por isso, a variação lingüística não pode ser analisada sem se levar em conta o contexto
social no qual ocorre, Labov insiste que há influência contínua e mensurável de fatores, estruturais
e sociais, sobre a variação lingüística, que pode:
(i) representar uma mudança em progresso – nesse caso, a variante inovadora apresenta
maiores índices de realização nos grupos sociais centrais (padrão curvilíneo) e entre
os falantes mais jovens (evidência do tempo aparente) e, a essas duas evidências,
associa-se a observação das transformações ocorridas ao longo do tempo (tempo
real);
(ii) constituir uma variável estável – nesse segundo caso, as freqüências de ocorrência
ligam-se à noção de prestígio, ou seja, a variante de prestígio ocorre mais
freqüentemente nas classes mais altas, e a variável não-prestigiosa, nas classes mais
baixas (padrão não-curvilíneo) e não há qualquer relação entre o comportamento da
variável e o fator idade.

De acordo com as gramáticas normativas (BECHARA:1982, CUNHA:1978, CUNHA &


CINTRA:1985, ROCHA LIMA:1974, etc.), o verbo concorda obrigatoriamente com o sujeito em
português:
a) Os candidatos afirmam que vão criar milhões de empregos. C
b) Os candidatos afirma que vai criar milhões de empregos. E
c) Os candidatos incluíram a violência entre as suas preocupações. C
d) Os candidatos incluiu a violência entre as suas preocupações. E
e) Os eleitores estão otimistas em relação ao futuro presidente. C
f) Os eleitores está otimistas em relação ao futuro presidente. E

Mas a ausência de concordância entre o verbo e o sujeito tem sido registrada, há várias
décadas, em estudos que buscam descrever e/ou explicar peculiaridades do português do Brasil
(doravante, PB), entre os quais, se incluem:
I – o estudo de Naro & Lemle (1977), cuja conclusão é de que a regra variável de
concordância verbal, no PB, estaria em pleno processo de mudança nas classes baixas (que
produzem muito mais sentenças sem do que sentenças com a concordância), apesar de ainda
ser categórica nas classes média e alta.
II - o estudo de Nicolau (1984), que aponta para os seguintes fatos:
1) Nos dados analisados:
a) quanto mais baixo o nível social do falante, mais alto o peso relativo (PR) de
ausência de concordância verbal
Baixo: PR = .75 > Operário: PR = .58 > Médio: PR = .40 > Alto: PR = .26;
b) em todos esses grupos sociais, os falantes mais velhos apresentam PRs de
ausência de concordância verbal superiores aos apresentados pelos jovens;
c) esses resultados permitem, portanto, afirmar que o fato de algumas vezes
ocorrer e, outras vezes, não ocorrer a concordância entre o verbo e o sujeito
de 3PP no PB caracteriza-se como uma variável estável; ou seja, permitem
descartar definitivamente a hipótese segundo a qual a variação analisada
constitui uma variação que representa um caso de mudança em progresso.
2) Com base na posição do acento tônico, as formas verbais portuguesas, de terceira
pessoa do plural, podem ser distribuídas em três categorias:
R = as formas em que a oposição singular/plural afeta apenas as terminações, que são átonas
P = as formas de pretérito perfeito, nas quais, a oposição singular/plural não afeta apenas as
terminações, que também são átonas
A = as formas com terminação tônica

E, quanto às categorias com terminação átona, observa-se que:


a) nas formas da categoria R, a presença de concordância implica a presença de um
ditongo nasal átono final [-ãw] ou [-ey], através do qual, se expressa apenas a
concordância padrão (CP);
b) nas formas da categoria P, a presença das marcas de pluralidade leva as
terminações a se realizarem variavelmente como [-ãw ~ -U ~ -u ], ou seja, a forma
de CP, [-ãw], ocorre ao lado de duas formas de concordância não-padrão (CNP).
Essa diferença na realização das marcas de pluralidade é de crucial relevância para a interpretação
dos resultados da análise da aplicação, ou não, da regra de concordância que se encontram na
Tabela 1, abaixo (adaptada de NICOLAU:1984, Tabela 6-9, p. 118):

Nº total Ausência de Presença de Casos de casos de


Fatores de casos concordância concordância CP CNP
% % % %
Subgrupo R (Verbos
"Regulares") 1065 63 37 37 --------
Subgrupo P (Formas de
pretérito perfeito) 405 18 82 14 68
Subgrupo A (Formas de
terminação acentuada) 443 21 79 79 ---------
Tabela 1: A realização de concordância padrão e de concordância não-padrão

Através desses resultados, pode-se observar o seguinte:


a) A categoria R favorece mais a ausência de concordância do que as outras (esse
fato é também registrado em Guy (1981), Lemle e Naro(1977), Motta(1979) e
Naro(1980)).
b) Em relação ao total de casos com concordância, existe uma diferença considerável
entre o comportamento dos verbos R e o comportamento dos verbos P: em R,
apenas 37% dos casos apresentam concordância; em P, as marcas de pluralidade
estão presentes em 82% dos casos. Mas, em relação ao total de casos com CP,
observa-se uma inversão no comportamento dos dois subgrupos: em R, os 37%
correspondem a casos em que se verifica a presença de ditongo nasal átono final, [-
ãw] ou [-ey], enquanto no subgrupo P, apenas 14% das formas com concordância
apresentam o ditongo nasal átono final [-ãw] e 68% das formas apresentam
realizações de CNP.
c) Esses resultados permitem supor que o fato de a ausência de concordância verbal
no PB ser altamente favorecida por alguns verbos não se explica apenas pela não-
aplicação de uma regra morfo-sintática, variável e sincrônica, de concordância; ou
seja, que:
 nos verbos do tipo P – nos quais, o alto índice de concordância se associa a formas
com CNP – as terminações de 3PP foram atingidas por processos fonológicos
variáveis ocorridos ainda no português arcaico e, desses processos, resultaram
variaçoes, nas quais a marca da presença de pluralidade é preservada;
 nos verbos do tipo R – nos quais, a ausência de concordância se associa a índices
mais elevados – as terminações de 3PP também foram atingidas por processos
fonológicos variáveis ocorridos ainda no português arcaico mas, desses processos,
diferentes dos que atingiram os verbos de P, resultaram em variações contendo
formas que coincidem com as terminações de singular; nesses verbos, a atuação da
regra de concordância não garante, portanto, a distinção das formas de plural, na
medida em que a ausência de concordância resulta da interação entre um processo
morfo-sintático, variável e sincrônico, e alguns processos fonológicos, também
variáveis, diacrônicos.
Em síntese: esses resultados obtidos corroboram a hipótese de Oliveira (1983), de que
a ausência de concordância verbal no PB, em certos casos, resulta da ação de processos
fonológicos 2 que o português sofreu antes de ser transplantado para o Brasil.

2
A proposta de evolução contendo tais processos pode ser encontrada em Oliveira (1983).