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Roma: de cidade-estado a império mundial

A grande realização de Roma foi transcender a estreita


orientação política da cidade-estado e criar um Estado universal
que unificou as diferentes nações do mundo mediterrâneo.
Considerando a pólis como o único caminho para a felicidade, os
gregos não almejavam uma unidade política mais ampla e excluíram
quase totalmente os estrangeiros da cidadania. Embora os filósofos
helenísticos tivessem vislumbrado a possibilidade de uma
comunidade mundial, os políticos do período não conseguiram dar
forma a essa concepção. Roma, no entanto, ultrapassou as
limitações da mentalidade de cidade-estado e desenvolveu um
sistema de lei cidadania para todo o império. Os hebreus
distinguiram-se por seus profetas e os gregos, por seus filósofos; o
gênio de Roma encontrou expressão no direito e no governo.
A história de Roma divide-se em dois períodos: a República,
que tem início em 509 a.C. com a derrubada da monarquia etrusca;
e o Império, que se iniciou em 27 a.C., quando Otávio (Augusto) se
tornou, de fato, o primeiro imperador romano, pondo fim a quase
500 anos de autogoverno republicano. A República romana, ao
conquistar o mundo mediterrâneo e estender sua lei e, em alguns
casos, cidadania a diferentes na- cìonalidades, ultrapassou o
provincianismo típico da cidade-estado. A República deu início à
tendência ao universalismo político e jurídico, que se concretizou
na segunda fase da história romana, o Império.
A evolução da constituição romana
Por volta do século VIII a.C., algumas das sete colinas de
Roma, perto do rio Tibre, na Itália central, eram habitadas por
comunidades de camponeses. Ao norte situavam-se cidades
etruscas e ao sui, cidades gregas. Essas civilizações mais adiantadas
foram pouco a pouco sendo absorvidas pelos romanos. A origem
dos etruscos ainda hoje permanece um mistério, embora alguns
estudiosos acreditem que tenham vindo da Ásia Menor. Dos
etruscos os romanos adquiriram estilos de arquitetura, técnicas de
construção de estradas, instalações sanitárias, engenharia hidráulica
inclusive as tubulações subterrâneas, metalurgia, cerâmica e
escultura de retratos. Vocábulos e nomes etruscos entraram para a
língua latina e os deuses etruscos foram absorvidos pela religião
romana.
Os etruscos expandiram seu território na Itália durante os
séculos VII e VI a.C., e controlaram a monarquia em Roma.
Derrotados pelos celtas, pelos gregos e finalmente pelos romanos,
os etruscos perderam seu domínio político na Itália em torno do
século III a.C.
Roma tornou-se uma república em fins do século VI a.C.,
quando os aristocratas rurais, ou patrícios, derrubaram o rei
etrusco. Tal como ocorreu nas cidades gregas, a transição da
monarquia teocrática para a república propiciou oportunidades
para o desenvolvimento político e jurídico. Na primeira fase da
história republicana, a religião governava as pessoas, ditava a lei e
legitimava o governo dos patrícios, que se consideravam como
preservadores das tradições sagradas. Pouco a pouco, os romanos
foram afrouxando os elos entre a religião e elaboraram um sistema
constitucional que se equiparou à realização grega de tornar
racionais e selares a política e o direito. Tal como os gregos, os
romanos acabaram por considerar a lei como expressão da vontade
pública e não como criação de reis-deuses, reis-sacerdotes ou de
uma casta sacerdotal.
o impulso para o desenvolvimento da constituição romana foi
por um conflito — conhecido como a Luta das Ordens — entre os
patrícios e as pessoas comuns, ou plebeus. No início do século V
a.C., o governo de dominação patrícia compunha-se de dois
cônsules, da Assembleia das Centúrias e do Senado. Os patrícios
possuíam a maior parte da terra e controlavam o exército. Os
chefes do governo eram os dois cônsules, provenientes da nobreza,
eleitos anualmente; comandavam o exército, atuavam como juízes e
estabeleciam as leis.
A Assembleia das Centúrias era uma assembleia popular, mas
em virtude dos sistemas de votação era controlada pela nobreza. A
Assembleia elegia os cônsules e outros magistrados e formulava
leis, que precisavam também da aprovação do Senado. Este
aconselhava a Assembleia mas não legislava, controlava as finanças
públicas e a política externa. Os senadores eram nomeados
vitaliciamente pelos cônsules ou eram antigos magistrados. O
Senado era o principal órgão do poder patrício.
A tensão entre patrícios e plebeus provinha dos agravos
impostos a estes últimos, tais como escravidão por dívida,
discriminação nos tribunais, proibição de casamentos entre
membros das duas classes, falta de representação política e ausência
de um código de leis escrito. Ressentidos com essa posição inferior,
os plebeus organizaram e empreenderam uma luta pela igualdade
política, jurídica e social.
Os plebeus tinham uma única arma decisiva: a ameaça de se
desligarem de Roma, isto é, deixarem de pagar impostos, de
trabalhar ou de servir o exército. Os pragmáticos patrícios;
reconhecendo que Roma, constantemente envolvida em guerras na
península Itálica, não poderia sobreviver sem a ajuda plebeia, a
contragosto fizeram concessões. Desse modo, os plebeus foram
vagarosamente obtendo a igualdade jurídica.
No início do século V, os plebeus conquistaram o direito de
formar sua própria assembléja (a Assembleia da Plebe, que mais
tarde cresceu e recebeu o nome de Assembleia Tribal). Essa
Assembleia podia eleger tribunos, oficiais investidos de poderes
para proteger os direitos da plebe. Como resultado da pressão
plebeia, por volta de 450 a.C. foi escrito o primeiro código de leis
romano. Conhecido como a Lei das Doze Tábuas, o código
concedia aos plebeus alguma proteção contra os injustos e
opressores funcionários patrícios que sempre podiam interpretar de
maneira arbitrária a lei baseada nos costumes. Mais tarde, os
plebeus conquistaram outros direitos, entre os quais a permissão de
casar com patrícios, o acesso aos mais altos postos políticos,
judiciários e religiosos do Estado e o fim da escravidão por dívida.
Em 287 a.C., data geralmente aceita como o término da luta entre
patrícios e plebeus, os atos da Assembleia Tribal estenderam-se a
todos os cidadãos e já não necessitavam da aprovação do Senado.
Embora os plebeus tivessem conquistado a igualdade jurídica e
o direito de sentar-se no Senado e ocupar altos cargos, Roma era
ainda governada pela classe alta. A oligarquia que agora detinha o
poder era formada de patrícios e plebeus influentes, que haviam
unido suas forças às da antiga nobreza. Os casamentos entre
patrícios e plebeus politicamente poderosos fortaleciam essa
aliança. Como apenas os plebeus ricos se tornavam tribunos,
tendiam mais para o lado da antiga nobreza do que para a defesa
dos interesses dos plebeus pobres. Pela prática do suborno, a
oligarquia governante mantinha o controle sobre a Assembleia, e o
Senado continuava sendo o baluarte do poder aristocrático. A
oligarquia governante, considerando- se como os melhores
cidadãos, dirigiu Roma durante seu período de expansão e
demonstrou senso de responsabilidade e talento para governar.
Durante os 200 anos de luta de classe, os romanos forjaram um
sistema constitucional baseado não no ministério religioso mas nas
necessidades civis. O dever essencial do governo deixou de ser o
desempenho regular de rituais religiosos para tornar-se a
manutenção da ordem interna e a preservação do poder e
dignidade dos romanos nas relações internacionais. Embora os
romanos conservassem as cerimônias e práticas de sua religião
ancestral, era o interesse público, não a tradição religiosa ou a
perspectiva do castigo divino, que determinava o conteúdo do
direito. O interesse público era também o padrão segundo o qual
todos os atos importantes da cidade eram julgados. Na primeira
fase da história republicana, o direito era sacerdotal e sagrado,
ditado somente por sacerdotes e conhecido apenas dos homens de
famílias religiosas. À medida que a lei foi sendo escrita, discutida e
emendada, aos poucos separou-se da religião. Um outro passo
nesse processo de secularização e racionalização ocorreu quando o
estudo e a interpretação da lei passou das mãos dos sacerdotes para
uma classe de juristas profissionais, que analisavam, classificavam,
sistematizavam e buscavam soluções de senso comum para os
problemas jurídicos.
Os romanos, diferentemente dos gregos, distinguiram-se pelo
espírito prático e pelo bom senso, não pelo amor ao pensamento
abstrato. No seu modo pragmático e empírico, foram aos poucos
desenvolvendo os processos da política pública e do Estado
jurídico.
A expansão romana até l46 a.C.
Ao mesmo tempo em que as classes lutavam entre si, Roma
também começara a estender o seu poderio sobre a península
Itálica. Sem harmonia e estabilidade cívicas, ela não poderia ter
realizado a expansão. Em l46 a.C., Roma tornara-se a potência
dominante no mundo mediterrâneo.
A expansão romana ocorreu em três etapas principais: a
unificação da península itálica, que deu a Roma o potencial
humano que a transformou de cidade- estado em grande potência;
o conflito com Cartago, a partir do qual Roma emergiu como
senhora do Mediterrâneo ocidental; e a sujeição dos Estados
helenísticos (cidades gregas do sul), que colocou os romanos em
estreito contato com a civilização grega. À medida que Roma se
expandia territorialmente, seus chefes ampliavam o próprio
horizonte. Em vez de cidadania baseada em parentesco racial,
Roma assimilou outros povos à sua comunidade política. Assim
como o direito se desenvolvera antes para atender às reivindicações
dos plebeus, assim também ajustou- se às novas situações
resultantes da criação de um império multinacional. A cidade de
Roma transformava-se na cidade da humanidade.
A unificação da Itália
Durante a primeira fase de expansão, Roma estendeu sua
hegemonia sobre a Itália, subjugando pouco a pouco as tribos
italianas semicivilizadas — seus vizinhos latinos de mesma origem
—, os outrora prepotentes etruscos e as cidades- estados gregas da
Itália meridional. A conquista romana da Itália em parte derivou de
organização e disciplina militares superiores. Os romanos, seguindo
o modelo grego, organizaram seus soldados em formação de
batalha; ao contrário de seus inimigos, que muitas vezes lutavam
como hordas desorganizadas, predispostas ao pânico e à fuga.
Além disso, os romanos voluntariamente faziam sacrifícios para
que Roma pudesse sobreviver. Ao conquistarem a Itália, estavam
uni- dos por uma devoção moral e religiosa à sua cidade forte o
bastante para superar conflitos sociais, rixas partidárias e ambição
pessoal.
Apesar da força de seu exército, Roma não poderia ter
dominado a Itália sem a cooperação de outros povos italianos. Em
vez de reduzir os adversários à escravidão e confiscar-lhes todas as
terras — método de guerra comum no mundo antigo —, Roma
empenhava-se em ganhar a lealdade do povo conquistado me-
diante um tratamento generoso. Algumas comunidades derrotadas
mantinham até certo ponto um governo próprio, mas cediam aos
romanos a condução dos assuntos externos e contribuíam com
contingentes para o exército quando Roma ia à guerra. Outros
povos conquistados recebiam cidadania parcial ou total. Ao
estender seu domínio sobre a Itália, Roma demonstrou um talento
notável para converter antigos inimigos em aliados e finalmente
cidadãos romanos. Nenhuma cidade grega jamais pensara em
integrar os não-nativos em sua comunidade política.