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Artigo surgido na Revista sul-africana 'Panorama', n.

º 60

"O piloto moçambicano Adriano Francisco Bomba denuncia a mentira da


propaganda estrangeira contra a Africa do Sul"

Em 8 de Julho de 1981, o tenente Adriano Francisco Bomba, piloto da Força Aérea de


Moçambique, a bordo de um aviãoMIG-17, penetrou no espaço aéreo da República da
Africa do Sul, onde solicitou autorização de residência. Num dos dias seguintes, o
tenente Bomba deu uma conferência de imprensa na base da Força Aérea Sul-Africana
de Hoedspruit, a fim de explicar as razões da sua atitude. O que se segue é a gravação
integral das respostas dadas pelo tenente Adriano Bomba às perguntas dos jornalistas,
em número superior a uma centena, representando os principais órgãos de informação
do mundo ocidental. Os subtítulos são da Redacção da Panorama.

Este é o moçambicano tenente Adriano Francisco Bomba, fotografado a bordo do


M1G-17 com que saiu de Moçambique e aterrou na Africa do Sul, no aeródromo de
Hoedspruit, em 8 de Julho de 1981. As declarações feitas pelo tenente Bomba aos
numerosos jornalistas presentes na conferência de imprensa revestem-se da maior
importância
Pergunta:

Quais as razões que o levaram a subtrair-se ao poder do Presidente Samora Machel?

Resposta:

Em Moçambique, até ao ano de 1974, havia muito desenvolvimento. A partir de 74, com
o governo de transição até 75, quando o governo da Frelimo tomou o poder e recebeu a
independência nacional, a situação em Moçambique era emocional e, embora ainda não
se visse nada de concreto, as pessoas continuavam à espera, ainda tinham esperança. De
75 a 77, vimos as coisas em Moçambique só a piorar. Nesse tempo, eu ainda estava a
estudar no liceu e, em. 1977, quando estava para começar o décimo ano, o Presidente de
Moçambique fez uma reunião com estudantes, no dia 8 de Março. Nessa altura
informou os estudantes de que em Moçambique iam acabar o décimo e o décimo
primeiro ano do liceu. Os estudantes que estavam a frequentar esses anos seriam
incorporados no exército e noutros sectores de actividade social e económica de
Moçambique. Ora isto afectava-me, como a muitos outros estudantes, pois tínhamos os
nossos objectivos, queríamos tirar os nossos cursos. Então pusemos a questão: somos ou
não livres de escolher o nosso destino? A esta pergunta jamais quiseram dar resposta,
mas os factos falam por si, os factos mostraram que só podemos escolher o nosso
destino, se a nossa escolha for a mesma que a Frelimo fez por nós. Ora, sabemos que em
política tudo o que é contra a vontade do indivíduo chama-se pressão, ao passo que a
vontade desse indivíduo é organização.

Após o regresso da União Soviética, onde tirei um curso de aviação, continuei a minha
vida em Moçambique, a ver se alguma coisa melhorava. Mas vi as coisas piorarem de
tal maneira, que decidi: já estou farto de Moçambique. Dói-me muito ver o povo
moçambicano - que durante o tempo colonial soube escolher aquilo que queria, em certa
medida, claro - submetido à ditadura do governo da Frelimo. Hoje em dia, o povo
moçambicano não tem alimentação boa, não encontra géneros alimentares no mercado,
o que o povo moçambicano come são os discursos do

Presidente, mais nada...

Contudo, os políticos estão a todo o momento a dizer que o que fazem em Moçambique
é a satisfação do desejo do povo. Tentam sempre confundir os seus próprios desejos
com os desejos e as aspirações do povo. O que joga a favor deles para continuarem essa
acção é o facto de o povo moçambicano, como é característico em todos os países sob
dominação comunista, ficar apático. O povo não diz aquilo que pensa.

Toda esta situação me levou a pensar que eu podia ser útil a Moçambique a partir de
fora, porque lá dentro eu estava de mãos amarradas, como todos os outros
moçambicanos, que querem. ser livres. Esta situação que se vive em Moçambique é que
me. fez decidir vir para a África do Sul.

Bomba - Vim para a África do Sul a fim de poder ser útil a um povo de mãos
amarradas, que não tem que comer

Pergunta:
O facto de ter trazido consigo um avião MIG.I7 acaso representa um acto de guerra
particular contra o sistema Presidente Machel, em Moçambique?

Resposta:

Utilizei o avião como simples meio de transporte, mais nada. Um meio de transporte
mais eficaz. Sei que aquele avião não pode ser utilizado contra a Frelimo. Porquê?
Porque sei que não sou o primeiro piloto que foge de um país num avião de guerra. Sei
que depois disto tudo o avião irá de volta. Isto já aconteceu com um piloto soviético que
saiu da URSS num MIG-25, aterrou no Japão e depois seguiu para os Estados Unidos.
Depois de ter sido estudado e todo desmontado, o MIG-25 foi reenviado para a União
Soviética.

Pergunta:

Em declaração anterior, disse que se sentia mais útil a Moçambique fora do país, do
que na situação em que ali se encontrava. Quer ser mais explícito sobre este aspecto?

Resposta:

Em Moçambique, quando estava a estudar, eu tinha em mente tirar um curso, o meu


curso. A importância que vejo nele não é unicamente nacional, resulta da importância
que esse curso ocupa no campo científico, e a ciência para mim não tem nacionalidade.
Aquilo que eu pudesse fazer no campo da ciência poderia beneficiar Moçambique, pelo
menos a longo prazo. O facto de não ter podido segui-lo demonstra que as pessoas em
Moçambique não se desenvolvem. Porquê? Porque não têm o direito de optar. Quando
um indivíduo opta, é muito mais dedicado à sua causa.

Pergunta:

Teria a sua deserção surpreendido os seus camaradas de armas de Moçambique?

Resposta:

Penso que os meus colegas, principalmente os da Força Aérea, não se admiraram


daquilo que eu fiz, porque os nossos ideais convergem. Mas tomar a decisão que tomei
é coisa que tem muito mais importância e é muito mais difícil. Este meu acto vai
despertar muita gente; tenho consciência de que muitas mentalidades adormecidas vão
despertar por causa deste meu acto.

Bomba - Os meus colegas da Forca Aérea não se admiraram do que fiz, porque os
nossos ideais convergem

Pergunta:

Com um acto de ousadia quase agressiva, modificou subitamente o curso de seu


destino. Como antevê o desenrolar desse destino?

Resposta:
Os meus planos são aumentar os meus conhecimentos na África do Sul.

Pergunta:

Conhecido o carácter fortemente repressivo dos governos comunistas, não receia que
a sua família em Moçambique esteja agora em perigo?

Resposta:

Não penso que a minha família esteja em perigo. Porquê? Porque as autoridades
moçambicanas não têm um argumento concreto. O que fiz foi uma decisão que tomei
sozinho, que não partilhei com ninguém.

Pergunta:

Entretanto foi divulgado que o seu irmão, Boaventura Bomba, teria dado o mesmo
passo e teria pedido também residência permanente na África do Sul, onde entrou
pela fronteira da Suazilândia. Qual é o seu comentário a este facto?

Resposta: Isso é muito natural. Porquê? Porque quando eu vim para a África do Sul, o
meu irmão não se encontrava em Moçambique. Logo que ele chegou e se avistou
comigo, disse-me que tinha sabido da minha saída de Moçambique quando se
encontrava na Suazilândia.

Pergunta:

Segundo consta, a dispositivo militar em Moçambique conta com o apoio de um


número substancial de conselheiros militares vindos de países da «cortina de ferro».
Que se lhe oferece dizer a este respeito?

Resposta:

Os militares estrangeiros em Moçambique têm o papel de conselheiros, treinam os


moçambicanos.

Pergunta:

Como é do conhecimento geral a República da África do Sul é alvo de propaganda


muitas vezes falaciosa e muitíssimo agressiva acerca do sistema interno do país.
Sendo negro, pede asilo político à África do Sul. Porquê?

Resposta:

Eu não vim para a África do Sul para me envolver nas suas actividades internas. Não
estou para me intrometer nos assuntos internos da África do Sul.

Pergunta:

Moçambique, terá realmente intenções agressivas contra a África do Sul?


Resposta:

Quando um militar se treina, sempre tem um inimigo provável com quem se deve
comparar. Portanto, o inimigo provável que se apresenta na preparação de qualquer
militar moçambicano é a República da África do Sul.

Bomba - O inimigo provável apresentado a um militar moçambicano é a República


da África do Sul

Pergunta:

Tendo recebido treino militar na União Soviética durante dois anos e nove meses,
como reagiu a essa primeira experiência para lá da «cortina de ferro» propriamente
dita?

Resposta:

Por causa da propaganda que me era incutida em Moçambique, eu esperava, ao sair do


avião que me transportou para a União Soviética, ver-me num mar-de-rosas. Quando lá
cheguei, a primeira desilusão foi mesmo a própria paisagem, mas isso é uma coisa da
natureza, de que eles não têm culpa... Depois comecei a ver como os soviéticos se
relacionam connosco. Aquele paternalismo de quem está a lidar com um inferior era
patente. Isto porque eles nos consideram inferiores. Depois pude ler algumas coisas que
a própria propaganda soviética não deixa circular no país, enfim tive acesso a esses
documentos e comecei a conhecer a fundo a vida na União Soviética, as perseguições
políticas de que são vítimas os intelectuais que não alinham pela política do Partido
Comunista da União Soviética. Ora, a perseguição que é movida a esses intelectuais ou
a qualquer outra pessoa que não alinhe pela política do partido é a mesma perseguição
que é movida aos moçambicanos pela polícia política moçambicana.

É de salientar uma coisa que é importante para a União Soviética, de um ponto de vista
estratégico: nunca falta a característica «lavagem ao cérebro», a fim de que, ao voltar da
União Soviética, cada um seja um pró-soviético nato. A verdade, porém, é que a vida
social não favorecia, antes contrariava essa preparação ideológica. Por isso, eu regressei
da União Soviética praticamente o mesmo, só que tinha mais conhecimentos.

Bomba - Conheci a vida na União Soviética e as perseguições políticas a quem não


alinha no partido único, tal como acontece em Moçambique
o MiG-17 levado por Adriano Bomba é posteriormente exibido num voo de
demonstração, vendo-se aqui a passar junto ao monumento Voortrekkerhoogte nos
arredores de Pretória

Bomba - As relações entre pretos e brancos que tenho visto na África do Sul
provam a mentira do que se diz lá fora

Pergunta:

Não receia as atitudes raciais que provavelmente terá de enfrentar na Africa do Sul?

Resposta:

Quando vim para a África do Sul não sabia como é que se vivia aqui. O que sabia da
África do Sul era aquilo que a propaganda anti-sul-africana dizia. Até fiquei admirado,
depois de chegar à África do Sul, quando saí e vi a maneira como convivem os pretos e
os brancos. A realidade entrava em choque com aquilo que a propaganda lá fora diz. É
claro que eu não sei tudo acerca das relações sociais entre pretos e brancos aqui na
África do Sul, porque pouco ainda vi. Mas o que já vi é a demonstração de que é
mentira o que dizem lá fora.

Pergunta:

Declarou várias vezes ser um moçambicano que ama a sua terra e o seu povo. Vê no
futuro uma oportunidade de regressar ao seu país?

Resposta:

Se outro dirigente tomasse conta do poder, eu voltaria. Mas mantendo-se o governo da


Frelimo, já não está nas suas mãos decidir da orientação da política em Moçambique.
Porquê? Porque eles são marionetas nas mãos do comunismo internacional, nas mãos da
União Soviética. Esta minha saída de Moçambique fala por si. Se eu saí de Moçambique
é porque sei o que o governo da Frelimo não pode fazer.

Pergunta:

Considera-se um exilado político na Africa do Sul?

Resposta:
Eu pedi residência permanente na África do Sul.

Pergunta:

Tendo chegado à Africa do Sul em circunstâncias invulgares, para dizer o mínimo,


como está a ser tratado pelos que o acolheram no país?

Resposta:

Sou tratado mesmo muito bem. Nos tempos livres, vejo televisão e ouço música. Os
oficiais da Força Aérea Sul-Africana tratam-me como um oficial. Ainda ontem estive a
conversar com os meus colegas de especialidade, os pilotos da Força Aérea Sul-
Africana, aqui no clube. Tem sido um contacto reconfortante para mim, não me sinto
um estranho.

Pergunta:

Faz parte de uma elite de homens bastante reduzida, é um piloto de caça-


bombardeiro. Com a decisão de vir para a África do Sul nestas circunstâncias, não se
ressentirá do facto de não voltar a pilotar o seu MIG-17?

Resposta:

Eu gosto da minha especialidade. Todo o piloto de caça-bombardeiro adora a sua


especialidade. É algo que entra no sangue. Gostaria de continuar a voar na qualidade de
piloto de caça-bombardeiro. Mas isso na perspectiva de voltar para Moçambique,
estando lá outro governo.

Bomba - Os governantes de Moçambique são marionetas nas mãos dos dirigentes


soviéticos

Pergunta:

Teve medo quando viu um Mirage ao pé do seu MIG-17?

Resposta:

Eu tinha visto o Mirage somente em fotografias e sabia que não era nenhum bicho do
outro mundo. Quando vi os Mirages perto de mim, fiquei mais tranquilo, porque um
Mirage perto de um MIG-17 é muito menos perigoso que um Mirage longe de um MIG-
17.

Pergunta:

Tendo entrado na Africa do Sul pela fronteira do Leste e sido interceptado poucos
minutos depois, como encara a situação de estado de alerta da Força Aérea Sul-
Africana?
Resposta:

A única coisa que posso dizer é com referência à intercepção que foi feita pelos pilotos
sul-africanos ao meu avião. Mas não posso concluir daí a capacidade de acção de um
regimento, por exemplo, muito menos de toda a Força Aérea Sul-africana. Sou uma
pessoa, vinha num avião, atravessei a fronteira num ponto. Só o caso de a fronteira ser
atravessada em diversos pontos me permitiria avaliar, no total, a capacidade de reacção
da Força Aérea Sul-africana.

Pergunta:

A sua saída de Moçambique, nas circunstâncias conhecidas, foi certamente um teste


à sua capacidade de imaginação...

Resposta:

Eu preparei o voo. Quando vão voar, os pilotos têm de fazer um desenho da rota que
vão seguir. Eu não ia, com certeza, desenhar uma rota com descolagem em Maputo e
aterragem em Hoedspruít .. Isso era o suficiente para... O voo que desenhei era a rota
normal para atingir o alvo a determinada hora e depois retomar a Maputo. Mas, claro,
dentro do avião fiz outra rota, para sair, passar pelos pontos de mudança de rota e fazer,
portanto, a aterragem em Hoedspruít. Mas tudo isso foi só dentro da minha cabeça.

Pergunta:

Tendo a sua mãe nascido na Africa do Sul, será que a influência materna terá
determinado a decisão do filho, muitos anos mais tarde?

Resposta:

A minha mãe nasceu na África do Sul, mas saiu daqui há vinte e cinco anos; por isso ela
não tinha qualquer informação actualizada acerca da África do Sul.

Bomba com humor - Mirage não é bicho do outro mundo e é menos perigoso perto
que longe

Pergunta:

Encontrando-se na República da Africa do Sul há cerca de dez dias, será tempo


suficiente para poder avaliar se terá tomado uma decisão correcta?

Resposta:

Que tomei a decisão correcta, isso eu concluí ainda em Moçambique. Por tal razão vim
para aqui. Agora não tenho dúvidas nenhumas.

Pergunta:

O que pode explicitar acerca da situação de paranóia que se vive agora em


Moçambique no que respeita a atitudes defensivas?
Resposta:

As instruções são para cavar abrigos, preparar uma fuga organizada, dar apoio às forças
armadas moçambicanas no contra-ataque. Para justificar isso, utilizou-se como pretexto
aquela incursão dos comandos sul-africanos à Matola. Com base nisso fazem, portanto,
essa preparação toda. Simulações não têm feito, pelo menos de que eu tenha notícias,
não vi. Não vi nenhum caso de simulação de um ataque aéreo. Mas sei que se preparam,
porque vi algumas coisas, actividades. Mas isso não é assim, num sentido global, em
todo o Maputo.

Pergunta:

Como encara o povo moçambicano essa intensa actividade de cavar abrigos e


preparar para ataques, na sua maioria hipotéticos?

Resposta:

Os moçambicanos estão fartos das saídas da Frelimo, já estão fartos do que a Frelimo
diz, porque já viram que ela não merece crédito. A Frelimo fala e não faz, promete e não
dá. Contudo, porque todo o regime tem os seus agentes, há alguns elementos, mesmo da
população, para espalhar a propaganda da Frelimo. Esses elementos tentam que as
pessoas não vejam os factos. Mas eles já não têm campo, porque a Frelimo já se
desacreditou em Moçambique.

Bomba - Moçambicanos estão fartos do governo da Frelimo, que fala e não faz, que
promete e não dá