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EPS em Movimento – Entrada Experimentações – Usuário Guia

Usuário-guia

Este é um convite para construir um usuário-guia. Um caso que servirá como um fio condutor pelo
complexo labirinto do cuidado em saúde. Aceito o convite, apresentaremos pontos importantes para a
construção de um usuário-guia.

O que é um usuário-guia?
O usuário-guia é o relato da produção do cuidado com um usuário que acompanhamos no serviço de
saúde. Como vimos, entendemos que a produção do cuidado não se limita à realização de procedimentos
técnicos e se dá na relação entre o usuário e o trabalhador. Sendo assim, é necessário compreender o
usuário-guia como A NARRATIVA DE UM ENCONTRO. Um encontro entre o trabalhador de saúde e o
usuário, incluindo todos os outros encontros que atravessam esta relação: com outros profissionais, com
a família, com outros serviços de saúde, com o bairro, etc. Encontro de encontros... Porém, trata-se de
uma narrativa produzida que tem como referencial o usuário; é, portanto, uma descrição usuário
centrada. (busca textos no varal que possam lhe ajudar, como os do Luis Cláudio Carvalho, ou o
do Ferramentas Analisadoras).
É como se fôssemos fazer um mapa. Mais que um mapa, uma cartografia que se preocupasse mais com
esses encontros e com os afetos que eles produziram. Uma cartografia de como o cuidado se produziu.
Usamos, então, o usuário-guia como uma das possibilidades para colocar em análise a produção do
cuidado. Pensem... não é simples estudar o cuidado, já que ele é produzido em ato, e, como fruto do
trabalho em saúde, também é consumido em ato. Vamos, então, atrás de vestígios... Neste caso, tomando
o usuário como principal referência.

Que usuário-guia escolher?


Para começar, podemos nos perguntar sobre a escolha do usuário-guia. Como escolher?
Em primeiro lugar, nossa sugestão é que essa escolha seja coletiva, discutida com sua equipe, podendo
partir do seguinte questionamento: quais são os casos que mais têm mobilizado a equipe? Quem são
aqueles usuários sobre os quais mais falamos? Quais casos nos incomodam por não sabermos como agir,
o que fazer? Ou mesmo que pessoas chegamos até a abandonar, desistimos de acompanhá-las, de cuidá-
las, de apoiá-las? Com isso, queremos dizer que o usuário-guia deve ser escolhido por ser um caso com
alto grau de complexidade para a equipe em questão.
Quando falamos de uma situação com alto grau de complexidade, não estamos falando apenas da
necessidade de disponibilizar uma série de recursos e equipamentos tecnológicos para o tratamento, mas,
também, e principalmente, daqueles casos que exigem a mobilização de vários tipos de saberes, tanto os
saberes de distintos profissionais, como também o saber dos usuários e a consideração às suas escolhas
de vida.

Como construir o usuário-guia?


Como dissemos, o usuário-guia será como uma cartografia dos encontros em torno da produção de
cuidado. E como rastrear estes encontros? Como usar o radar que há em nós? Que informações são
importantes para relatarmos a produção do cuidado? Onde buscaremos dados sobre o caso?
Aqui apresentaremos algumas sugestões de onde podemos buscar “pistas” sobre esses encontros. As
“pistas” são alguns dos vestígios dos encontros vividos pelo usuário (com a unidade, os trabalhadores, sua
família, outros atores etc.).
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Pista 1: prontuário

O prontuário é a fonte “oficial” sobre o caso. É comum que os prontuários só nos ofereçam
informações genéricas e padronizadas, sem considerar o que há de singular, de único, naquele caso.
Certamente, no entanto, os prontuários não devem ser descartados e podem ser utilizados para
auxiliar a construção dos relatos, pois possuem informações básicas e nos apresentam um
panorama da trajetória e dos sujeitos envolvidos na produção do cuidado, muito embora
geralmente estejam marcadamente centrados nas referências às tecnologias duras e leve duras
(condutas, procedimentos etc.).

Pista 2: memória

Entendemos que a memória do próprio trabalhador, de outros profissionais da equipe, dos usuários
e de outros sujeitos, como familiares e vizinhos, que foram envolvidos na produção do cuidado, são
fontes potentes para se pensarem os processos de trabalho.
Ao recordar, a memória atualiza-se no presente. Ou dizendo de outro modo: o passado só existe
quando o atualizamos e, como vamos mudando, podemos atualizá-lo de maneiras distintas. A
memória não é estática, sempre a mesma. Ela transforma-se conforme o momento em que
recordamos, conforme a relação que estabelecemos. A recordação do passado é uma produção dos
sujeitos em contato com o outro. Por exemplo, quando contamos algum fato que aconteceu em
nossa vida, durante nossa infância ou adolescência, ele está carregado da forma pela qual
significamos nossa existência no momento em que estamos narrando. Provavelmente, esse fato
não será contado da mesma forma hoje como o será daqui a cinco anos, pois nossas recordações
são relatadas a partir do que somos hoje e levando em consideração o que nos faz contar, o que
está nos mobilizando, afetando, no instante em questão. Cada vez que contamos nossa experiência
profissional, ela vem carregada de diferentes sentidos, de acordo com o momento, com a cena, por
que e para quem estamos narrando.
Assim, incentivamos que você escreva sobre tudo que lembra do caso. Como ele chegou até você?
Quais foram suas impressões? O que lhe foi pedido? O que você decidiu fazer? Por que decidiu fazer
assim? Você tinha outras escolhas? Você conversou com outros profissionais? Como foram essas
conversas? O que foi mais difícil pra você? O que você teria feito diferente?
Talvez, neste processo de recordação, você perceba muitas coisas que não havia notado antes,
inclusive sobre você mesmo. É por isso que compreendemos que, ao produzir um usuário-guia, os
trabalhadores ativam um saber que é resultado das vivências da sua existência no mundo. Pretende-
se, assim, que a formação não trate apenas do conhecimento produzido anterior e exteriormente à
prática, mas que faça refletir sobre os modos de levar a vida.

Pista 3: usuários, profissionais e outros

Além do relato da nossa própria memória, indicamos, para compor o usuário-guia, buscar também
a narrativa do usuário, dos demais profissionais e outros sujeitos envolvidos na produção do
cuidado a esse usuário. Quando falamos de outros sujeitos, nos referimos a familiares, membros
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dos grupos dos quais o usuário participa, pessoas que, de uma forma ou outra, estiveram envolvidas
no percurso do usuário em busca da solução para o seu problema de saúde. Ao chamar todos esses
sujeitos para a cena, enriquecemos o debate e também ampliamos o entendimento sobre o cuidado
em saúde, pois o mesmo não se limita ao que é ofertado pelos serviços de saúde.
Incluir esses diferentes saberes e esses vários mapas que compõem o cuidado em saúde é muito
importante para compormos a nossa cartografia. Perceber as formas que o usuário inventa para
lidar com a sua vida, com seus problemas de saúde, é fundamental para ampliarmos nosso modo
de trabalhar.
Sendo assim, na descrição do caso, é importante considerarmos os modos de existência do usuário,
ou seja, como ele vive, por onde circula, o que ele considera importante. Os modos de existência do
usuário são tão ou mais importantes para o cuidado do que seu diagnóstico. Da mesma forma,
devemos atentar sobre como as equipes de saúde decidiram cuidar. Por quais estabelecimentos de
saúde e/ou de cuidado[1] este usuário passou? Como foi a intervenção de cada equipe? Há
diferença entre o que as equipes consideraram importante para o cuidado e aquilo que o usuário
considera relevante para o seu cuidado?
Para lhe auxiliar na organização desses relatos, você pode elaborar um pequeno roteiro. Esse roteiro
é apenas um guia com questões que você acha importante explorar. O objetivo é deixar que as
pessoas falem livremente sobre o caso, portanto o roteiro é apenas um lembrete para que não
percamos o foco do que queremos.

Se você quiser aprofundar mais leia o texto "Uma conversa sobre fontes narrativas" na ENTRADA
TEXTOS

A Análise do usuário-guia
Percebemos, assim, que a construção do usuário-guia está baseada em diferentes narrativas: das equipes
de cuidado, do usuário, de familiares e de outras pessoas que integram a rede de relações do usuário, do
prontuário, entre outras. Certamente essas narrativas não serão homogêneas. Cada uma nos apresentará
diferentes planos de produção do modo de existência do usuário. É aí que está a riqueza do usuário-guia
e por isso é importante considerar o maior número possível de narrativas.
Após relatarmos os casos, que de alguma forma nos desafiaram por sua complexidade, estes serão alvo
de uma discussão coletiva entre o grupo que estiver participando da atividade. Entendemos que, dessa
forma, estaremos produzindo um conhecimento coletivo sobre o caso e um conhecimento sobre nós
mesmos. Ao tornar nossos relatos públicos, trazemos questões para debater coletivamente, que podem
ter utilidade para todos que estão participando. Assim, como um autor escreve um livro e este é
reconhecido como um saber, acreditamos que as discussões acerca das práticas cotidianas devam ser
reconhecidas com um conhecimento válido a ser utilizado, em outros processos de Educação Permanente
– EP ou, até mesmo, na formação inicial de estudantes nos cursos de graduação na área de saúde.
Além disso, os relatos dos casos, por envolverem nossa memória e saberes de outros sujeitos (usuários,
outros profissionais, etc.), são fontes que operam diferentes planos da produção cuidado (saberes,
processos de subjetivação, cultura, história de vida etc.) e propiciam uma reflexão sobre o vivido (ou seja,
uma EP) para a equipe. Assim, temos não apenas a possibilidade de apreendermos mecanismos de
terapêuticas inovadoras e criativas, mas também de nos colocar em análise. Por que me senti assim? Por
que atuei deste modo aqui? O que este usuário provoca em mim de diferente em relação a outro? Por
quê? Ao questionarmos “O que o caso relatado nos diz? O que diz de mim?”, estamos fazendo uma EP
em nós.
Não é possível separar o que conhecemos daquilo que somos, ou ainda, não é possível transformar nosso
conhecimento sem transformarmos a nós mesmos. Acreditamos que o processo de educação não diz
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respeito apenas à aprendizagem de determinados conteúdos, mas é uma transformação de si. Sendo
assim, ao construir um usuário-guia, você refletirá sobre o caso e também sobre si mesmo. A análise do
caso deve permitir uma autoanálise do próprio trabalhador.
Nessa perspectiva, os relatos dos trabalhadores são uma ferramenta importante para a formação, pois
incluem formas múltiplas e singulares de conhecer, capazes de contribuir para o enriquecimento do saber-
fazer profissional. Segundo Clementino de Souza (2008): “A organização e construção da narrativa de si
implicam em colocar o sujeito em contato com suas experiências formadoras, as quais são perspectivadas
a partir daquilo que cada um viveu e vive, das simbolizações e subjetivações construídas ao longo da vida”.
Consideramos, portanto, que ao narrar casos e as opções adotadas na terapêutica, estamos expondo
também modos de existência e um conhecimento sobre nós mesmos. Esses modos de existência são
fundamentais para nos colocarmos em autoanálise e para produção de um conhecimento coletivo.
Dessa forma, nossas invenções cotidianas assumem o lugar central na produção do cuidado e nos
processos de EP. A ideia é entendermos que as normas, por mais que sejam importantes, devem estar
abertas às práticas que surgem desde a ponta, e não ao contrário (às vezes elas não estão abertas, mas
são arrombadas por trabalhadores e usuários...). Quando pensamos a possibilidade de aprendizagem
desse jeito, a partir da experiência, estamos colocando os trabalhadores como sujeitos dos processos
reflexivos que produzem aprendizagens (e por isso também podem ser chamados de educativos). Assim,
passamos a nos entender como protagonistas da construção do SUS e podemos nos dar conta de que
nossa prática cotidiana pode ter uma potência transformadora e constituir material para a nossa própria
formação e também de outros trabalhadores.

[1] Os estabelecimentos de saúde não são os únicos que produzem o cuidado em saúde. Os demais
equipamentos das políticas públicas – educação, cultura, assistência social, justiça, etc. – também
devem ser considerados, assim como os recursos comunitários (igrejas, centros comunitários,
associações de bairro, entre outros).
SUGESTÃO: Assistir os vídeos da Conferência do Émerson Merhy, disponível na Entrada Vídeos, em
Outras Ofertas:
- Conferência Émerson Merhy - Parte 1
- Conferência Émerson Merhy - Parte 2
- Conferência Émerson Merhy - Parte 3
- Conferência Émerson Merhy - Parte 4
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Como incluir este artigo em sua lista de referências, utilizando o formato ABNT (conforme a NBR 6023
- Informação e Documentação - Referências - Elaboração.)
Exemplo:
EPS EM MOVIMENTO. Usuário guia. 2014. Disponível em: <http://eps.otics.org/material/entrada-
experimentacoes/usuario-guia>. Acesso em: dd mmm. aaaa.
Atenção!!
- substitua a data de "acesso em", do exemplo acima, de acordo com a data em que você acessou o
documento. Exemplo: 29 jul. 2014. (o mês é abreviado)
- o recurso tipográfico utilizado acima (itálico), pode ser substituído por negrito, se você optar por este
padrão em suas referências (consulte a NBR 6023).
- para verificar como citar documentos dentro de um texto, consulte a NBR 10520:2002 - Informação e
documentação - Citações em documentos - Apresentação

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