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As novas tecnologias

aplicadas à educação
::::::: elvira coelho hoffmann* | pesquisadora Lembro-me, particularmente, de um tempo,
nos anos setenta, quando, nas universidades brasilei-
ras, começava-se a discutir a questão das tecnologias
educativas. O retroprojetor era a novidade da época e
muitos colegas apressavam-se em declarar o fim da
utilidade do quadro-negro e do giz. Por outro lado,
havia os ferrenhos defensores que ainda atribuíam à
sala da aula tradicional a exclusividade da competên-
cia e do bem ensinar. O tempo passou, o retroprojetor
firmou-se como imprescindível e surgiu o videocasse-
te. As escolas empenharam-se, então, no cuidado com
seus aparelhos, adaptaram salas para o novo recurso,
as quais passaram a merecer grades de proteção nas
* Diretora de janelas e fechaduras mais confiáveis. Enquanto isso,
Graduação de
a sala com quadro-negro (agora quadro-verde)
Pró-Reitoria
de Ensino e resistia impávida aos avanços da tecnologia.
Pesquisa da
Unisinos
O advento dos anos noventa vieram trazer à baila
Coordenadora outro tipo de discussão: como lidar com os computa-
pedagógica
do Programa dores no ensino. O alto custo dos mesmos, a Internet
Genesis que titubeava em seus primeiros passos e, principal-
mente, as condições econômicas da maioria brasileira
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Lidar com equipamentos sofisticados, como
estabelecer alguns pressupostos para discussão.
computadores, impressoras, scanners, redes de alta
Em primeiro lugar, a consciência de que, até o
velocidade, implica muito mais do que reconhecer presente momento, a emergência dessa tecnologia
nos alunos a familiaridade com jogos eletrônicos e não tem podido beneficiar o número desejado de
com linguagens hipermídia. usuários. Ainda: em que pese o progresso das
pesquisas nas hostes acadêmicas, políticas
voltadas à disseminação dos recursos têm esbarra-
foram obstáculos que, hoje ainda, limitam o acesso do, com indesejada freqüência, na reduzida
dos estudantes à poderosa ferramenta. No entanto, compreensão do mérito e na inadequação dos
malgrado as restrições que impedem a democrati- laboratórios destinados a qualificar o processo de
zação dos computadores no ensino, não se permite ensino-aprendizagem. Lidar com equipamentos
hoje desconsiderar sua importância. sofisticados, como computadores, impressoras,
Todas as vezes que surgem inovações que scanners, redes de alta velocidade, implica muito
possam colocar em xeque a qualidade ou a mais do que reconhecer nos alunos a familiaridade
eficiência dos modos de ensinar e aprender, nem com jogos eletrônicos e com linguagens hipermí-
sempre aqueles que começaram por confiar na dia. Em outras palavras: conhecer a máquina em
ferramenta mais atualizada têm sido felizes em sua suas imensas possibilidades nem sempre significa
utilização. Muitas vezes, o excesso de entusiasmo aplicar esses recursos com resultados educativos.
ou a ânsia do novo obliteram a objetividade e Então, no mínimo, dois limitadores se interpõem
colocam em risco a utilidade de seu objeto de para dificultar o bom sucesso das tecnologias com
estudo. É por isso que, não tão raro nem estranho, fins educativos: o alto custo dos equipamentos e
professores deixam-se encantar pela melopéia dos periféricos e uma certa ignorância ingênua de suas
mercadores de softwares ditos educacionais, cuja aplicações.
concepção, no entanto, passa muito longe de Um sem número de vezes têm-se ouvido
propósitos realmente voltados à aprendizagem. depoimentos de professores que falam de suas
Quando são abordadas questões relativas a aulas onde utilizaram PowerPoint e Data Show
novas tecnologias educacionais é necessário para suas exposições. Cada vez que mudavam a

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tela, era um espetáculo. De luz e som: se questione em seus efetivos metáfora no ciberespaço, o tempo
de teclado de máquina "tiroteando" a saberes. Pois essas ferramentas tão governado pela sincronia já não é
cada letra do título, cores e imagens eficientes costumam desalojar mais absolutamente necessário. O
se desintegrando em grânulos. E as conceitos e pôr em evidência fragili- professor não tem diante de si uma
figuras? O trabalho que deram para dades e incertezas. Nunca como classe de trinta, cinqüenta alunos.
serem pesquisadas e ilustrarem cada agora se discutiu tanto o papel do Estes manifestam sua presença
clique na tela! Agora só falta o mestre em seus, até então, indiscuti- (virtual) mediante a produção de um
computador ter potência suficiente dos domínios: a sala de aula. No texto. Mas...como serão seus rostos?
para permitir aqueles movimentos conceito tradicional, o professor Terão personalidades introvertidas
incríveis que dão tanta vida ao que detinha sempre o conhecimento, dele ou expansivas? A um professor,
está sendo explicado... Mas esse emanando todo o conhecimento. Pois acostumado a medir a compreensão
professor já se perguntou se a do conteúdo pelas respostas imedia-
apresentação multimídia, que ...vai ser preciso, nestas tas da classe presencial, não vai ser
prepara com tanto afinco, oferece fácil encarar um outro paradigma de
circunstâncias, lançar mão
realmente uma nova visão de ensino? ensino-aprendizagem. Nem tam-
Qual a eficácia didática da tecnologia de outras estratégias, pouco lhe vai ser permitido improvi-
assim usada? Estariam os alunos ajustar conceitos, construir sar: a aula não estará acontecendo no
aprendendo melhor ou distraindo-se novos pressupostos "aqui e agora". Quanto ao aluno, vai
com a pirotecnia? Uma sala de aula ser preciso uma disposição nova para
convencional, sem a sofisticação dos
teóricos, a fim de aprender, novas aptidões para buscar
equipamentos, não poderia alcançar potencializar a eficácia da o conhecimento e, muitas vezes,
os mesmos resultados? aprendizagem. enfrentar a solidão e o isolamento que
Estabelecidos os limitadores, lhe arrefecem o entusiasmo.
vamos à questão: até onde as um dos resultados colaterais (e É evidente que vai ser preciso,
tecnologias mencionadas têm podido benéficos, por que não?) da emergên- nestas circunstâncias, lançar mão de
melhorar e qualificar o processo de cia das tecnologias, no campo da outras estratégias, ajustar conceitos,
ensino-aprendizagem? As TICs Educação, vem a ser a contestação construir novos pressupostos
(Tecnologias de Infor mação e desse axioma: o mestre também teóricos, a fim de potencializar a
Comunicação), como são hoje aprende, o discípulo também ensina. eficácia da aprendizagem. Na pré-
chamadas, têm perfeitas condições, Tome-se, como exemplo, o ensino história da aula on-line , houve
sim, de alavancar o ensino e facilitar a mediado por computador, na sala de episódios em que criadores de curso
aprendizagem. Para isso, porém, vai aula on-line, um curso à distância: os reproduziam páginas inteiras de
ser necessário que o professor se alunos estão fisicamente distantes, a livros, colocando na tela a imagem
debruce sobre seu próprio processo e sala de aula transforma-se numa obtida através de scanner! Como

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resultado desse tipo de transposição Outra possibilidade reside na professores sabemos muito bem que
inadequada de tecnologia, os alunos criação de comunidades virtuais de não são questões secundárias.
desistiam de freqüentar as classes, é aprendizagem, onde grupos de Aqueles que já tiveram um "branco"
claro. Os recursos telemáticos, na alunos têm a chance de analisar e em aula, que se puseram a gaguejar e
verdade, evidenciam com muito mais discutir, juntos, temas cuja comple- a tremer descontroladamente hão de
eficiência os erros e falhas de um xidade oferece desafios e dificulda- lembrar-se!
curso mal-estruturado, pois inviabi- des que estimulem sua iniciativa e A criação de comunidades virtuais
lizam a possibilidade imediata de desejo de aprender. Interessante tem-se provado altamente eficiente.
correções. mencionar que muitos estudantes A atribuição de tarefas que precisam
Quando se apontam dificuldades tímidos e calados em salas de aula ser compartilhadas entre os colegas,
como acima, as pessoas então presenciais têm podido manifestar- a construção do processo de aprendi-
perguntam quais as vantagens de um zagem que é sempre dinâmico e
recurso tão sofisticado. O espaço de Cabe a nós, professores, mutável, a consciência da utilidade e
um artigo torna difícil uma explana- aplicação do conhecimento,
a responsabilidade de nos
ção mais completa, mas, mesmo transformando e produzindo o
assim, é possível assinalar alguns apropriarmos
amadurecimento intelectual e
ganhos com sua utilização. Por criticamente dos recursos psíquico - são todas elas vantagens e
exemplo, o aprendizado pode ser da tecnologia e oportunidades que permitem
realizado mediante a relativização da construir uma rede de saberes. É o
memória, cuja função é transferida
transmutá-los no metal
momento, também, de mestres e
para a tecnologia, à qual compete dar precioso do conhecimento alunos descobrirem que a Educação
suporte ao armazenamento de dados libertador. é um destino comum, em que o
recolhidos em textos de livros, ensinar e o aprender fluem numa via
jornais, revistas, sites selecionados se confortavelmente, quando a de duas mãos.
etc . O sujeito aprendente terá assim interface do computador lhes serve Deixemos, pois, a desconfiança e o
melhores condições de aproveitar de proteção. Quantas vezes o receio descrédito para trás. São novos os
suas capacidades cognitivas em de expor-se diante de uma turma, tempos e cheios de esperança. Cabe a
outras atividades que transformem numa situação como as de seminári- nós, professores, conscientes das
informação em conhecimento. A os, ou o medo de emitir opiniões e forças e fragilidades que nos confor-
supervalorizada memorização de receber risos de colegas, em respos- mam, a responsabilidade de nos
outros tempos cederá lugar à ta, têm paralisado manifestações apropriarmos criticamente dos
compreensão e à análise do raciocí- que alunos introvertidos se vêem recursos da tecnologia e transmutá-
nio, cuja importância deverá receber impotentes para exteriorizar! los no metal precioso do conhecimen-
o devido reconhecimento. Bobagem? Tolice? Todos que somos
to libertador.

9 novembro 2002 REVISTA TEXTUAL