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verve

verve
Revista Semestral do Nu-Sol — Núcleo de Sociabilidade Libertária
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP

3
2003
VERVE: Revista Semestral do NU-SOL - Núcleo de Sociabilidade Libertária/
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP.
Nº3 (abril 2003 - ). - São Paulo: o Programa, 2003-
Semestral
1. Ciências Humanas - Periódicos. 2. Anarquismo. 3. Abolicionismo Penal.
I. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos
Pós-Graduados em Ciências Sociais.

ISSN 1676-9090

VERVE é uma publicação do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária


do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-
SP. Coordenadoras: Lucia M. M. Bógus e Vera L. M. Chaia.

Editoria
Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária.

Nu-Sol
Acácio Augusto S. Jr., Andre R. Degenszajn, Maria Cristina Lima, Edson
Lopes Jr., Edson Passetti (coordenador), Francisco E. de Freitas, Guilherme
C. Corrêa, Heleusa F. Câmara, José Eduardo Azevedo, Lúcia Soares da
Silva, Martha C. Lossurdo, Natalia M. Montebello, Rogério H. Z. Nascimen-
to, Salete M. de Oliveira, Thiago M. S. Rodrigues, Thiago Souza Santos.

Conselho Editorial
Adelaide Gonçalves (UFCE), Christina Lopreato (UFU), Clovis N. Kassick
(UFSC), Guilherme C. Corrêa (UFSM), Margareth Rago (Unicamp), Rogério
H. Z. Nascimento (UFPB), Silvana Tótora (PUC-SP).

Conselho Consultivo
Alexandre Samis (Centro de Estudos Libertários Ideal Perez – CELIP/RJ),
Christian Ferrer (Universidade de Buenos Aires), Dorothea V. Passetti (PUC-
SP), Francisco Estigarribia de Freitas (UFSM), Heleusa F. Câmara (UESB),
José Carlos Morel (Centro de Cultura Social – CSS/SP), José Maria Carva-
lho Ferreira (Universidade Técnica de Lisboa), Maria Lúcia Karam, Paulo-
Edgard de Almeida Resende (PUC-SP), Plínio A. Coelho (Instituto de Cultura
e Ação Libertária – ICAL/SP), Silvio Gallo (Unicamp, Unimep), Vera Malaguti
Batista (Instituto Carioca de Criminologia).

ISSN 1676-9090
verve
revista de atitudes. transita por limiares e ins-
tantes arruinadores de hierarquias. nela, não
há dono, chefe, senhor, contador ou progra-
mador. verve é parte de uma associação livre
formada por pessoas diferentes na igualdade.
amigos. vive por si, para uns. instala-se numa
universidade que alimenta o fogo da liberdade.
verve é uma labareda que lambe corpos, ges-
tos, movimentos e fluxos, como ardentia. ela
agita liberações. atiça-me!

verve é uma revista semestral do nu-sol que


estuda, pesquisa, publica, edita, grava e faz
anarquias e abolicionismo penal.
SU M Á R I O

Mistérios de Paris
Max Stirner 11

Realismo e anarquismo na obra e


na vida de Gustave Coubert
Pietro Ferrua 30

Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen


Daniel Aarão Reis Filho 50

O espírito das leis: anarquismo e


repressão política no Brasil
Christina R. Lopreato 75

Guerras, deuses, educação,


liberdade sob olhares anárquicos
Rogério H. Z. Nascimento 92

Gastronomia e anarquismo — vestígios de


viagens à Patagônia trapeiro
Christian Ferrer 137

Porque a idéia de anarquismo é


necessária à sociedade japonesa
Misato Toda 161

Rebeldias e invenções na anarquia


Edson Passetti 178

Temas e conceitos numa abordagem


abolicionista da justiça criminal
Louk Hulsman 190

O Estado contra os jovens


Salete Oliveira 220

Violência contra a mulher e abolicionismo penal


Lucia Soares 246

Política das drogas e a lógica dos danos


Thiago Rodrigues 257
O mundo do terror e da insegurança
José Maria Carvalho Ferreira 278

RESENHAS

Minha avó me fez anarquista


Frank Mintz 297

História, memória, invenção


Acácio Augusto 301

O anarquismo hedonista de Michel Onfray


Silvio Gallo 305

Oreste Ristori, uma biografia


Alexandre Samis 310

Clevelândia do Norte — aqui começa o Brasil!


Carlo Romani 314

Ruídos e rebeldias:
Boletim do Centro de Cultura Social (1985-2003)
Thiago Souza Santos 321

Elogio no desejo, juízo na prisão


Edson Lopes 324

Crime e sobrevivência
Roberto Barbato Jr. 328

Kropotkin e as prisões
Natalia Montebello 332

O fogo de Foucault
Salete Oliveira e Edson Passetti 336
verve chega ao terceiro número sempre edita-
da de maneira autogestionária. o nu-sol dis-
cute o índice segundo os debates e pesquisas
do momento, contata escritores e recebe tex-
tos para publicação (nu-sol@nu-sol.org). acio-
na conselheiros para emitir sugestões, revisa,
redige resumos e abstracts quando não envia-
dos pelos autores. inventa capas e prepara os
originais para a gráfica contatada para aquele
número. depois de pronta ela é lançada, distri-
buída e debatida publicamente pelos integran-
tes do nu-sol.
verve 3 traz nesta edição outro artigo inédito
de max stirner e reflexões intensas sobre o
abolicionismo penal e a atualidade do
anarquismo. cresce nosso interesse e o dos lei-
tores por resenhas de livros e publicações
libertárias tanto quanto o número de colabo-
radores escrevendo artigos e ensaios libertários.
verve é uma revista libertária, semestral e
autogestionária realizada pelo nu-sol.
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Ser governado significa ser vigiado, inspecio-


nado, espiado, dirigido, valorado, pesado, cen-
surado, por pessoas que não têm o título, nem
a ciência, nem a virtude. Ser governado signifi-
ca, por cada operação, cada movimento, cada
transação, ser anotado, registrado, listado,
tarifado, carimbado, apontado, coisificado, pa-
tenteado, licenciado, autorizado, apostrofado,
castigado, impedido, reformado, alinhado, cor-
rigido. Significa, sob o pretexto da autoridade
pública, e sob o pretexto do interesse geral, ser
amestrado, esquadrinhado, explorado, mistifi-
cado, roubado; ao menor sinal de resistência,
ou a primeira palavra de protesto, ser preso,
multado, mutilado, vilipendiado, humilhado,
golpeado, reduzido ao mínimo sopro de vida,
desarmado, encarcerado, fuzilado, metralhado,
condenado, deportado, vendido, traído e como
se isso não fosse suficiente, desarmado, ridi-
cularizado, ultrajado, burlado. Isto é o gover-
no, esta é a sua justiça, esta é a sua moral.

Proudhon. Idée generale de la


revólution au XIX siècle.

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Mistérios de Paris

mistérios de paris

max stirner *

Os Mistérios fizeram sensação no mundo e as imita-


ções já se avolumam apressadas. Pretende-se conhe-
cer o fundo escondido, as “últimas camadas” da socie-
dade, e com um olhar curioso esquadrinha-se os re-
cantos sombrios e horríveis. Mas com que olhos se
penetra nesses lugares? Com os de uma moralidade
segura de si ou os de uma virtude fremente de horror.
“Que abismo de perdição, que abominação, que
profundeza de vício! Oh, meu Deus, como é possível
que semelhante infâmia ocorra no teu mundo?” Ime-
diatamente o amor cristão desperta, armando-me para
todas as suas obras de comiseração e de ajuda ativa.
“Há aí uma necessidade de saúde, é preciso trabalhar
contra a malignidade de Satã; Oh, decerto há aí muito
que salvar, e mais de uma alma será ganha para o rei-
no do bem!”

* Século XIX, autor de um único livro e alguns escritos esparsos anarquizantes.


Textos dispersos. Lisboa, Via Editora, 1979. Publicado originalmente em 1844, na
Gazeta Mensal de Berlim, de Ludwig Buhl. Tradução para o português de J.
Bragança de Miranda.

verve, 3: 11-29, 2003

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E eis que as idéias se acotovelam, que se examinam


toda a espécie de meios e de métodos para remediar o
mal, para obstar à infinidade da corrupção. Não se li-
mitam a propor prisões com celas separadas, nem
montepios para trabalhadores desempregados, nem
instituições para jovens arrependidas que deram um
mau passo ou quaisquer outros projetos, procura-se
passar de imediato à execução. As sociedades de be-
neficência vão tomar uma extensão que nunca ousari-
am esperar; nem os sacrifícios, nem a caridade deixa-
rão sentir a sua ausência. Eugène Sue faz de Rodolphe,
grão-duque de Gerolstein, o modelo luminoso dessa
moral pelo próximo que, visivelmente, vai ganhando
amplitude.
Que mal se pretende suprimir, afinal? O vício, esse
gozo do pecado! As raízes do vício deverão ser extirpa-
das por meio de úteis reformas. Pretende-se arrancar-
lhe as almas que seduziu, levando-as ao empenho to-
tal da sua consciência na moralidade. E quem se apres-
tará para realizar esta obra excelsa, arrebatando ao
pecado as suas vítimas e servidores? Ninguém, a não
ser os que amam a virtude e vêem na existência virtu-
osa a autêntica vocação do homem!
Desta forma, os virtuosos pretendem trazer para o
bom caminho os sustentáculos do vício, os servidores
do reino do bem querem destruir o reino do mal.
Será que não concordareis todos em dizer que não
pode existir nada maior nem mais nobre que a glorifi-
cação do bem? E não tereis mais nada para lamentar
ou censurar além dos vossos demasiado freqüentes
desvios e pecados? Alguma vez ocorreu ao espírito de
um de vós perguntar se valerá verdadeiramente a pena
o esforço pelo bem, se na verdade o homem deverá ten-
tar realizá-lo na sua vida? Acerca disto tendes tão pou-

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Mistérios de Paris

cas dúvidas que os sustentáculos do vício e os ímpios


não conseguem opor-vos uma objeção fundamental,
por mínimo que seja o pecado cometido por eles con-
tra os vossos princípios.
Vós, que pretendeis converter e emendar os peca-
dores, estais vós próprios fechados a qualquer conver-
são e emenda. Recusais-vos absolutamente a inquirir
se o Bem não será uma ilusão vazia, e mesmo quando
sois obrigados a confessar, à maneira dos filósofos que
nunca passam de “amigos da sabedoria”, que jamais o
alcançareis, perseverais em pensar que é preciso tor-
nar os pecadores capazes do bem, levando-os a “agi-
rem bem”. Vós, que pretendeis desviar os pecadores
do prazer que eles extraem do mal, não poderíeis igual-
mente afastar-vos do prazer que extraís do bem? Não
pergunteis o que é o bem, mas sim se ele tem qualquer
existência ou, se tiverdes absolutamente de saber o
que ele é, perguntai-vos primeiro se não será um pro-
duto da vossa imaginação.
São estas as vossas provas admiráveis: “A mentira
é má, mas a sinceridade é boa, a impenitência é má,
mas a contrição e o arrependimento são bons, a impu-
reza é pecado, mas castidade é virtude, etc...”. Toda-
via, seria suficiente que désseis o exemplo!
Penetremos nos Mistérios e assistamos às folias do
vício e da virtude nesse romance. Não direi nada sobre
a intriga nem do desenrolar da narrativa porque supo-
nho que todos o leram. Também está inteiramente fora
da minha intenção falar-vos acerca do pretenso valor
artístico do livro. Que o assim chamado malabarista
faça as habilidades mais siderantes, ou que um pres-
tidigitador as execute da forma mais surpreendente,
isso não obstará a que se diga que são sortes de mala-
barista ou de prestidigitação, embora excelentes à sua

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maneira, mas falar-se-á disso sem qualquer conside-


ração particular. Assim, não pretendo examinar de
perto a arte consumada do nosso compositor em des-
crever os contrastes e os tipos sociais, se bem que só
com muita dificuldade ele tenha conseguido satisfazer
completamente os mais sutis amantes da arte. No re-
ferente à descrição, considerada em si mesma, não lhe
concedo suficiente importância para que o talento que
manifesta possa me tornar cego perante a ausência de
uma penetração suficientemente profunda e vigorosa
que revelasse a essência da sociedade. Também
Goerres expendeu muito talento ao obstinar-se numa
idéia tola, mas isso não impedirá que as suas criancices
o conduzam, puxado pela trela, para a morte, tal como
sucede a tantos outros.
Se bem que o Grão-duque de Gerolstein não possa
ser considerado o herói do romance, isso não significa
que o seu papel se reduza a colocar em movimento
toda a maquinaria: ele representa igualmente a eleva-
ção de visão e pensamento a que o romancista se exal-
ta. Todavia, essa elevação não é outra senão a idéia de
moralidade e cada um dos pensamentos e ações é me-
dido de uma vez por todas pela mesma régua, a
moralidade.
Temos, portanto, diante de nós uma obra literária
que, inteiramente concebida do ponto de vista da
moralidade, vai-nos mostrar a espécie de homens que
são formados por este ponto de vista e tudo aquilo que,
de modo geral, se manifesta à luz do dia, devido ao
poder deste princípio.
Tendo ofendido o direito sagrado de seu pai e se-
nhor, contra quem levantou a espada num momento
de furor amoroso, Rodolphe (o Grão-duque), impulsio-
nado pelo mais profundo arrependimento, toma a re-

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Mistérios de Paris

solução de se penitenciar, mas só o podendo fazer,


segundo as suas palavras, “pela prática do bem, até ao
limite das suas forças”. Esse desígnio levou-o a Paris,
onde freqüenta as espeluncas da pobreza e do crime a
fim de minorar os sofrimentos, enternecer os corações
endurecidos ou, através de um ajuizamento implacá-
vel, precipitá-los no desespero, mas prestando socor-
ro sempre que possível. Graças aos meios principes-
cos de que dispõe, é fácil para ele remediar muitas
misérias físicas. Assim, a família Morcel, entre outras,
é sua devedora da felicidade. Mas acima da destruição
dos sofrimentos físicos o que mais o vangloria é a dis-
sipação dos perigos morais, e foi um esforço nesse sen-
tido que o levou a encontrar a heroína propriamente
dita do romance.
Flor de Maria, ou como preferimos chamá-la, Ma-
ria, filha do primeiro amor de Rodolphe, cuja existên-
cia este ignora, acha-se prisioneira, presa nas garras
da horrível “Chouette”. Através de várias circunstân-
cias trágicas, a vemos tornar-se uma moça na flor da
idade que acabará finalmente, pressionada pela pobre-
za e aliciada por alcoviteiras, por transformar-se em
prostituta. Poupada ainda do prazer que este gênero
de vida comporta, ela está desonrada, mas não é a ela
que se deve essa desonra, pois não se entregou cega-
mente, nem é escrava do desejo, cujos primeiros efei-
tos seriam os únicos que poderiam conferir um verda-
deiro fundamento ao seu estado. É então que Rodolphe
a encontra e aquilo que o vício não conseguiu fazer,
será doravante a virtude que tentará fazê-lo, esforçan-
do-se por tornar virtuosa a pobre criança ameaçada de
cair prisioneira do mal. Rodolphe usa de todas as pro-
messas e seduções que lhe permitem esperar conse-
guir corromper a imaginação facilmente impressioná-
vel da moça. Ela que no seio da vida sombria do vício

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não tinha sucumbido, não resistirá às promessas


lisonjeadoras da virtude e sucumbirá. Todavia, a pro-
fundidade da queda não importaria se depois ela se
levantasse. Mas como poderia um E. Sue, autor da
burguesia virtuosa e moral, deixar-lhe uma oportuni-
dade para se levantar? Não está ela salva precisamen-
te por se ter refugiado no regaço da moralidade, a úni-
ca fonte de beatitude? Talvez se pretenda que ela se
eleve até à piedade, mas isso já se realizou plenamen-
te, pois a verdadeira moralidade e a verdadeira pieda-
de não se deixam nunca distinguir inteiramente. É que
mesmo os adeptos da moral que negam a existência
do Deus pessoal conservam no bem, na verdade e na
virtude, o seu Deus e a sua Deusa.
Todavia, não é minha intenção dizer que Maria, após
ter caído, deveria se elevar para a piedade, mas sim
que se existisse algo de valor superior à moralidade e
à piedade, o nosso autor não o poderia saber, porque
isto reside fora do campo de seu pensamento e tam-
bém as suas personagens não o saberiam, já que as
melhores dentre elas não poderiam ir além do seu cri-
ador. Maria, trazida por Rodolphe para o serviço da
moralidade, manter-se-á fiel e obediente a esse servi-
ço, como uma serva submissa e dócil, e seja qual for a
história de sua vida futura, esta registrará apenas os
abanões do destino que submeterá a fiel serva ao ser-
viço estrito da sua divindade.
Escapando às garras da horrível Chouette que só
podia corromper o seu corpo, Maria cai nas mãos do
Padre que corromperá a sua alma delicada por inter-
médio dessa doutrina piedosa que exige que a sua vida
seja, doravante, uma vida de penitência, se quiser ob-
ter de Deus o perdão futuro. É isto que vai decidir todo
o seu futuro. Esse verme que o padre introduziu no
seu coração irá roê-la sempre e cada vez mais, até a

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Mistérios de Paris

obrigar à renúncia, a apartar-se do mundo e que final-


mente devorará e reduzirá à poeira esse coração sub-
metido a Deus. E, todavia, esta doutrina piedosa do
padre é a verdadeira doutrina da moralidade, diante
da qual todas as objeções “racionais” de Rodolphe aca-
barão por ter de se calar.
É que Rodolphe entregara-se à doce esperança de
saborear na corte de Gerolstein, juntamente com Ma-
ria, a sua encantadora filha, as delícias de uma vida
íntima de família e as alegrias de um pai que em cada
novo dia pode cumular com novas dádivas de amor a
sua filha, essa modesta e virtuosa princesa que todos
veneram e adoram, indenizando-a principescamente
por todas as torturas que ela teve de suportar durante
a sua existência abandonada. Doravante, todo o pra-
zer do mundo, como só uma grande corte ducal pode
oferecer, deverá ser-lhe acessível.
Mas a que preço deverá Maria comprar o prazer do
mundo? Só se reconheceria o valor do seu comporta-
mento atual se qualquer pessoa pudesse conhecer a
sua conduta anterior. Sucede, porém, que se chegas-
se a ser conhecida, não haveria esplendor principesco
que pudesse proteger a pobre princesa dos olhares en-
venenados ou dos encolhimentos de ombros desdenho-
sos dos implacáveis adoradores da pureza dos costu-
mes. Rodolphe sabe-o perfeitamente e assim não tem
o menor escrúpulo em enganar todos os que o rodei-
am, acerca dos anos de juventude de Maria. Que ho-
mem racional agiria de modo diferente? Sobretudo nada
de excessos, mesmo na moralidade! Esta é bem a lin-
guagem do moralista liberal.
Mas Maria, sacerdotisa pura do princípio moral, a
partir do momento que penetrou no mundo da
moralidade, poderia rejeitar a penitência, em vez de

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suportar com contrição as conseqüências de sua fal-


ta? Poderia, porventura, imiscuir-se neste mundo atra-
vés do engano, tendo o desejo de aparecer mais pura
do que é? “Enganar, enganar sempre, exclama ela de-
sesperada, recear sempre, mentir sempre, sempre a
tremer diante do olhar daquele que amamos e estima-
mos, tal como o criminoso que treme diante do olhar
implacável do juiz”! Maria, a serva do altar da
moralidade, poderia mentir?
A mentira é um pecado que nenhum ser moral po-
derá perdoar. Desde que se queira, a necessidade tudo
desculpa, mas a mentira piedosa não deixa de ser uma
mentira. Aquele que perante certas tentações se deixa
arrastar pela mentira, poderia servir a verdade contra
todas as tentações? Nenhum professor de moral pode-
rá justificar a mentira e se apesar de tudo os virtuosos
mentem tanto, isso prova somente que o princípio da
moralidade, ou do bem, é demasiado fraco para orien-
tar a vida real. É que nela o homem é inconsciente-
mente conduzido a atos que ridicularizam esse débil
princípio e que poderiam encorajá-lo a libertar-se da
sua tutela. Porém, não há outra forma de se libertar de
uma ilusão que não seja a sua superação teórica.
Uma vez ganha para o culto do bem, Maria tem um
espírito demasiado delicado para ser uma exceção à
regra. É impossível para ela mentir. Mas que aconte-
ceria se lhe fosse igualmente impossível comunicar ao
mundo, a esse “juiz implacável”, a falta que cometeu?
Ela poderia confessá-la, mas então seria “condenada”.
O mundo da moralidade não se poderia manter se não
tivesse “bens”, e a virtude é um desses bens cuja per-
da não se desculpa a uma mulher. Se depois ela de-
monstrar uma atitude casta e plena de constância, isso
permitirá que a ferida primitivamente feita à honra ci-
catrize, mas em nenhum instante apagará a marca

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Mistérios de Paris

aviltante dessa cicatriz. O mundo que acredita na


moralidade e nos seus bens não pode esquecer. Para
ele, esses bens têm valor e se bem que possa enten-
der-se com eles como quiser, não poderá reprimir o
sentimento de uma falta e de um erro logo que um
deles, a que na sua ilusão aderiu, acaba de ser cor-
rompido. Uma mulher que perdeu a sua virtude, que
viveu entre o “rebotalho da sociedade”, que “perdeu a
sua dignidade”, será para todo o sempre olhada de re-
vés. Porque está “manchada, empeçonhada, atingida
pela torpidez”: ela está “desonrada”. E em paga de de-
sonra que ela atraiu sobre si, o mundo exige como pe-
nitência que suporte uma vergonha sem fim, uma ver-
gonha cuja consciência ele se esforçará por manter
acesa na penitente.
Talvez se pense que isto não passa de uma forma de
exaltação e de falsa vergonha que qualquer homem de
sã sensibilidade poderia superar. Todavia, deveremos
perguntar-nos o que é que no juízo moral do mundo
tem valor, se é o homem enquanto tal ou se são os
seus bens. Há uma íntima conexão no fato de ser pre-
cisamente a época do liberalismo e da burguesia que
tenta celebrar a moralidade: um banqueiro e um mo-
ralista julgam o homem desde um único e mesmo ponto
de vista, não segundo o que ele é em si mesmo, mas
segundo aquilo que os seus bens fazem dele. “Tem di-
nheiro?”, é uma pergunta que vai ao lado da seguinte:
“tem virtude?”. O banqueiro não se ocupa do despro-
vido, “tem vergonha” da nudez. Aquele que não pos-
suir as virtudes de um honrado burguês não deverá
aproximar-se demasiadamente dele. Tanto um como
outro se prendem à medida dos bens e a falta de um
bem é e permanece um defeito. Da mesma maneira
que um cavalo que tem todas as qualidades de um ex-
celente cavalo mas cuja pelagem é defeituosa trará

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sempre em si a marca de uma falta, também uma mu-


lher que não conservou imaculada a sua pureza, con-
servará durante todo o tempo de sua vida o sinal de
uma mancha. E isso com razão, pois lhe falta um dos
bens mais importantes que honram a sua moralidade.
Maria tornou-se pura, mas isso não impedirá que nem
sempre o tenha sido.
A inocência é de uma essência tão delicada que nun-
ca deverá ser aflorada; uma vez atingida, desaparecerá
para sempre. A inocência é de tal modo uma idéia fixa
que tornará Morel louco e Maria devota. E terá de ser
assim. Se a distância entre a réproba e a pura, entre o
homem de bons costumes e o homem de maus costu-
mes está fixada de uma vez por todas, então Maria não
faz mais do que exprimir com suavidade, do mais pro-
fundo de si mesma, sem rodeios, o sentimento dessa
oposição irredutível. Ela está “profanada”.
Afinal, que poderá provar a objeção segundo a qual
já não se é, desde há muito, tão esmiuçador e que, em
comparação com as épocas anteriores, se gosta de mos-
trar acerca deste ponto uma grande indulgência? Para
começar, seria fácil combater em bloco esta afirmação
pois se é verdade que já não se prescreve a pena
canônica, os nossos juízos morais são de longe mais
severos do que na época do Antigo Regime; aliás, sabe-
se que em todos os tempos a grande massa teve
calosidades em mais de um lugar da pele, conseguin-
do assim mostrar-se insensível perante as circunstân-
cias rigorosas dos seus artigos de fé. Mas um ser da
maior delicadeza de sentimentos, do maior rigor de pen-
samento, como é Maria, deveria só por isso enfraque-
cer, imitando o ramerame dos homens vulgares?
Antes pelo contrário, devemos reconhecer que, para
ela, que se sentia pressionada a dar a mais completa

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verve
Mistérios de Paris

satisfação às exigências da moralidade, apartar-se do


mundo era inevitável. De fato, ela não poderia enga-
nar o mundo sem agir contra a moral e se não quises-
se, em vez de prazer, partilhar o desprezo e o escárnio
dos homens, então não deveria fazer confissões. Toda
a alegria que lhe era oferecia estava imediatamente
empeçonhada pelo aguilhão da vergonha. É sob o im-
pério desse sentimento que quando o seu pai mostrou
intenção de se abrir acerca dos seus projetos com o
Príncipe Henri, o noivo de Maria, ela exclama: “Vós
quereis que eu morra ao ver-me tão rebaixada diante
dos seus olhos”. Ela já nada tinha a esperar do mun-
do: perante a mera presença deste, ela teria de supor-
tar as censuras da sua própria consciência ou então
se deixar perseguir pelo rancor e a lembrança que este
lhe faria da sua falta — o mundo e ela seguiam cami-
nhos divergentes.
Mas por que razão vai se refugiar em Deus? Porque
o mundo, tal como ela, não pode redimi-la do seu pe-
cado. Só Deus pode perdoar-lhe. Os homens devem
ater-se ao código do bem e no reino deste são apenas
súditos: só Deus é o rei absoluto a que o próprio bem
está submetido e quando pretende conceder a sua gra-
ça Ele não a obtém do bem, limitando-se a consultar a
sua vontade infinita. Que significa então o abandono
de Maria ao seu Senhor? Nada mais, digamo-lo outra
vez, que o sentimento de que já não se poderia fazer
justiça segundo as regras da moralidade, precisando
de outra medida e de um outro juízo. O fato dela pro-
curar obter de Deus a sua absolvição, por intermédio
de uma vida de arrependimento, é também obra do
padre devoto que não podia nem seguramente deve-
ria, dizer-lhe: aquele que se prende está preso, e aque-
le que se absolve, está absolvido. Aquilo que por si pró-
pria não conseguia realizar, ela procura obter algures:

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agindo de outra forma teria faltado à moralidade e à


piedade.
Como é que a jovem, prisioneira da moral, perdoa-
ria a si mesma, primeiro a sua impureza, e depois, a
própria mentira? Para isso a moralidade não basta, e
se Maria tivesse conseguido fazê-lo toda a bela cons-
trução de E. Sue se desmoronaria num nada ridículo,
o Bem deixaria de ser a mais alta instância e o homem
teria sido elevado acima da moralidade e do pecado.
Todo o choque resulta do fato de um par de perso-
nagens próximas se defrontarem, ambas limitadas pela
ilusão do bem e do mal. O mundo julga que isto é per-
mitido porque está bem; que aquilo, mentir por exem-
plo, é interdito porque está mal. Maria, trazida por
Rodolphe para a virtude, pensa da mesma maneira.
Se o autor não aplicasse em Maria a regra da virtu-
de e da moralidade, se pelo contrário a medisse por si
mesma, em conformidade com a sua própria medida, e
só se procederia inteligentemente se não se quisesse
julgar um leão segundo uma qualidade humana, a no-
breza, mas antes em conformidade com a sua nature-
za animal de leão, poderia muito bem surgir um resul-
tado estranho pelo apercebimento de que Maria se tor-
nou uma jovem miserável e perdida desde o momento
em que descobriu a virtude e se consagrou ao seu ser-
viço, enquanto que, na época infame de sua vida, ela
era uma criatura sã, livre, cheia de esperança. Nunca
poderia ser satisfatória a explicação que assevera, por
exemplo, que o arrependimento, companheiro
inseparável da virtude, tornou infeliz a pobre jovem,
fazendo-a perder o seu caráter alegre. Demonstrar-se-
á maior perspicácia dizendo que inevitavelmente se
tornaria uma escrava oprimida desde que penetrou no
mundo da moralidade para ficar, então, submetida aos

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verve
Mistérios de Paris

seus deveres. Mal o anjo exterminador da conversão


se apoderou dela, foi o fim dessa delicada jovem. Sob a
pressão das circunstâncias em que o seu destino a ti-
nha lançado, o espírito aberto e judicioso desta
baiadeira teve força o bastante para reunir o violento
fogo da cólera que precisava para arrostar o peso ma-
ciço de uma sociedade coagulada e libertar-se do seu
estado de aviltamento. Que importava a perda da pu-
reza a uma jovem que tinha suficiente coragem e inte-
ligência para se vingar de um mundo culpável por essa
perda e por todas as perdas?
Mas um E. Sue não conhece outra felicidade que
não seja a das pessoas honradas, nem outra grandeza
para além da moralidade, nem outro valor humano que
não seja o de uma existência virtuosa e a submissão a
Deus. Era preciso que um ser humano, que poderia
tornar-se uma criatura livre, fosse seduzido pelo ser-
viço da virtude, era preciso que um coração ainda
intacto fosse empeçonhado e corrompido pela ilusão
dos “homens bons”. É bem um autor capaz de mostrar
de que modo a sua heroína, apesar de fazer a sua vida
na efervescência dos vícios mais repugnantes, obriga-
da a entregar o seu corpo como presa, na flor da idade,
não se torna, contrariamente a Chouette e ao Mestre
escola, ou mesmo às suas companheiras de idade, uma
serva do vício, permanecendo antes livre como uma
atéia que apenas à força obedece aos usos da Igreja:
não será legítimo pensar-se que também deveria ser
capaz de se manter acima da influência da virtude?
Mas não, o poeta sem energia que sonha com o ideal
“da boa burguesia e do verdadeiro Estado”, faz dela,
em lugar de um caráter com têmpera, uma alma senti-
mental facilmente enganada pela ilusão do “bem”, faz
justamente da mesma jovem que se afirmara contra o

23
3
2003

vício, uma criatura fraca, débil que se abandona de


corpo e alma à virtude que a subjuga.
No romance não se encontrará um único persona-
gem a que se possa dar o nome de criador de si mes-
mo, de homem que, sem maior contemplação com as
suas pulsões que com os impulsos que lhe advenham
de uma crença (crença na virtude, na moralidade, etc.,
ou crença no vício), fizesse a si mesmo, exaurindo do
fundo de si todo o seu poderio criador.
De fato, uns obedecem cegamente aos impulsos do
coração, da sua disposição, do seu natural. É o caso
de Rigolette: ela é apenas aquilo que é um coração sa-
tisfeito e uma mediocridade feliz, e sendo apenas aquilo
que é, ela continuará sempre um ser incapaz de evo-
luir, exatamente como os seus canários. Estes têm de
suportar todos os abanões do destino, pois lhes é im-
possível qualquer mudança. O pequeno Boiteux mos-
tra-nos o inverso de Rigolette, é uma criança diabólica
que só se deixa determinar pelo prazer de se regozijar
com o mal, prazer esse que, naturalmente, aumenta
com a idade nos seres perniciosos, até que o cadafalso
lhes corta o pio. Desta maneira, ele acabará no cala-
bouço e a Rigolette numa respeitável tumba, após te-
rem vivido existências desprovidas de história, tanto
uma como a outra. Os diversos impulsos que exercem
seu domínio sobre um indivíduo durante toda uma vida
não apresentam nenhuma diferença essencial (para um
será a avareza, para outro, a tagarelice fútil, etc....).
Quanto à segunda espécie de homens sem liberda-
de e incapazes de evoluir, aqueles que, na realidade,
dependem menos dos impulsos naturais e em maior
grau de uma crença, de uma idéia fixa, E. Sue que,
sendo também ele um servidor entre servidores, os
conhece perfeitamente, utilizou para os descrever uma

24
verve
Mistérios de Paris

precisão quase patológica, particularmente na descri-


ção dos zelosos adeptos da virtude. Na primeira fila
encontra-se o fervoroso da virtude, o Grão-duque,
membro da grande ordem dos “Benfeitores da Huma-
nidade Sofredora” e que ostenta as suas insígnias não
no peito, mas no coração. Rodolphe, esse “irmão da
caridade”, doce e severo, feito para “rodear os homens
com os seus cuidados”, pretende melhorar o estado
físico e moral dos infelizes que apodrecem na cloaca
do pecado, recompensando-os. Mas aos perdidos sem
remissão, ele quer torná-los inofensivos, castigando-
os através de torturas morais. Fortalecido por essa in-
tenção chega a Paris, acabando por partir sem ter-se
curado do seu delírio e após ter introduzido a sua filha
no templo da virtude, retirando-lhe a última possibili-
dade de se tornar um ser autônomo. E quando a virtu-
de tiver feito essa jovem perder definitivamente o en-
tendimento e a vida, os olhos do irmão caridade hão
de abrir-se, finalmente, mas não para desvelar o ídolo
a cujo serviço sacrificou a infeliz, mas para se abismar
perante a “justiça insondável de Deus” que vinga, hoje,
a paternidade outrora lesada na sua honra, tirando a
filha de seu pai. Este defensor da virtude e da religião
é de uma inteligência tão imbecil que apenas vê um
decreto de cólera divina naquilo que é a execução con-
seqüente do princípio por ele professado, quando afi-
nal não pode deixar de reconhecê-lo e admirá-lo no
comportamento de sua filha. Maria responde plena-
mente às exigências da moralidade e da religião; o seu
próprio pai terá de confessar que “a sua infeliz crian-
ça, em tudo o que respeita à delicadeza de coração e à
honra, é dotada de uma lógica tão implacável que nada
lhe pode censurar” e que ele “renuncia a persuadi-la
já que todas as razões são vãs diante de tão invencível
convicção que tem a sua origem nos sentimentos no-
bres e sublimes”, chegando a confessar que no lugar

25
3
2003

de Maria também ele teria agido “tão dignamente e tão


corajosamente”. E o que vê ele, então, nessa moralidade
inflexível e perfeita de sua filha? Um “castigo” de Deus
que concedeu à sua filha essa “sublimidade” para a
sua própria “correção”!!! Na verdade não se pode des-
crever com mais atrocidade nem com mais irrisão o
covarde justo meio-termo da nossa época liberal do
que aquilo que aqui foi feito, involuntariamente, por
um adepto sentimental desse justo meio-termo. O bom
príncipe, durante a sua peregrinação “nada aprendeu,
nem nada esqueceu”. Sendo um homem incapaz de
evolução ou de criação de si, ele limita-se a suportar
os duros decretos da sorte que o serviço da virtude
prepara aos seus fiéis. Ele tem somente experiências
de ordem teológica, mas nenhuma de ordem humana.
Ou será que alguma vez submeteu à crítica o senhor
que serve, ou ocorreu-lhe ao espírito, porventura uma
vez, interrogar bem a fundo as idéias de moralidade,
de religiosidade, de honra, etc...? Diante delas, como
se estivesse diante de limites infranqueáveis, o seu
entendimento cola-se a qualquer outra elevação, qual-
quer autonomia e libertação fora das mãos desse se-
nhor absoluto tornam-se impossíveis para esse prín-
cipe sentencioso. Ele é tão desprovido de espírito no
seu juízo sobre os homens, quão penetrante se mos-
trará enquanto servo da moral, sendo nisso a fiel re-
produção do ser reles autor que faz oferendas à virtu-
de.
Eis agora a Mãe Martial, prisioneira de uma crença
oposta, a que se entrega com fanatismo. Também o
crime tem, e deverá ter, os seus fanáticos que nele crê-
em e pretendem honrá-lo — a mãe Martial é uma hero-
ína do vício. Ela vive e mata pelo seu ideal, o crime; da
mesma maneira que os fiéis da virtude, ela é a fiel do
vício devido à sua idéia fixa, sendo incapaz de qual-

26
verve
Mistérios de Paris

quer evolução e criação de si. Impotente para se desfa-


zer dela, perecerá com esse pathos. Também para ela
é válida a fórmula: “esta é a minha posição, não posso
alterá-la em nada”. Congelada e envelhecida na sua
crença, tal como os outros crentes, ela acha-se com-
pletamente incapacitada para a crítica, única saída,
que, para além de todo o delírio, eleva-se até a inatin-
gível santidade; todas as razões que poderiam livrá-la
do delírio servem, pelo contrário, como acontece com
todos os dementes, para reforçá-lo. Ela não consegue
efetuar outras experiências que não sejam os abalos
do destino que o seu delírio, que é onde a sua vida se
desenrola e procura realizar-se, faz recair sobre ela.
Tal como os que estão nos seus antípodas só efetuam
experiências santas e morais, ela passa apenas por ex-
periências imorais e ímpias.
No espírito de Rodolphe vemos a crença na virtude
tornada firme intenção. A mãe Martial representa a fir-
me intenção do vício. Que juízo horrível e rigoroso ela
pronuncia contra o seu filho, “perdido” por não querer
saber da intenção sem compromisso do vício. Ela ad-
ministra a sua vida, como uma mulher de princípios,
da mesma forma que outros, chefes de família, reple-
tos pelo princípio do bem exercem uma dominação
agreste sobre os seus e que, à maneira de Brutus, ani-
quilam dentro de si qualquer sentimento paternal. A
majestade da virtude é na sua essência diferente da
majestade do vício? E o rígido estatuto de um é mais
suportável que o outro? Por intermédio do seu roman-
ce anterior “Atar Gull”, E. Sue teria podido descobrir
que o sentimento da vingança e do direito são idênti-
cos, que o bem e o mal se confundem e que o mouro
negro só pertence ao diabo pela sua negritude, enquan-
to o parisiense branco, a que concedeu o prêmio da
virtude, só pertence a Deus graças à sua brancura sem-

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3
2003

pre inalterável. Contudo, é tão impossível melhorar o


nosso autor como as suas figuras romanescas que,
desde que se convertem, tornam-se necessariamente
mais dignas de dó e mais subjugadas que antes.
Como já vimos os personagens principais, e alguns
outros, todos eles indivíduos submetidos e subjuga-
dos, dominados pelos seus instintos e pelas suas cren-
ças, para os quais toda a criação de si e toda a autono-
mia se tornaram impossíveis, não precisaremos fazer
alusão particular às personagens secundárias. É evi-
dente que o autor criou somente seres restritos aos
quais um natural ossificado no estado grosseiro ou uma
educação contra natura, os desejos ou os dogmas, pre-
param este ou aquele destino. É verdade que isso é o
que se passa no mundo, e E. Sue limitou-se a demons-
trar que embora saiba atrair as boas graças deste, não
é capaz de soerguê-lo dos seus eixos, nem de libertá-
lo.
O êxito retumbante dos Mistérios nada tem de es-
pantoso. O mundo da moralidade acolhe dentro de si o
mais aprimorado produto do espírito filisteu, a fiel re-
produção da sua própria filantropia, o eco completo
das queixas que dele se elevam, a mesma tentativa de
reformar situações que têm tão pouco que reformar
como a situação turca. Mahmoud II não era o único
reformador bem intencionado e inútil da nossa época.
Apoiado em grandes esperanças todo o liberalismo —
e hoje não há ninguém que não seja liberal, esteja alto
ou baixamente colocado — reedita o brilho de uma si-
tuação tal qual turca. “A nossa época está doente”, diz
com um olhar contristado um amigo para o amigo, e
imediatamente ambos decidem plantar árvores a fim
de encontrar, entre a bela vegetação do campo, o “re-
médio bom”.

28
verve
Mistérios de Paris

Amigos, a nossa época não está doente, acontece


que já viveu tudo; não a torturem também tentando
curá-la, apressem a sua última hora abreviando-a, e
como não é possível curá-la, deixem-na morrer.
“Que fraco de carências, de enfermidades!”, sois vós
próprios que o confessais e se tendes ainda alguma
dúvida abri então os Mistérios e vereis toda a miséria
das vossas enfermidades. Experimentai “reformar, en-
tão, esta situação à turca”. Pensais dar-lhe remédio,
mas entretanto acabais por desagregá-la. Ela já não
tem nenhuma necessidade, tal como um velho enquan-
to velho não tem necessidades. É certo que ele se vê
abandonado pela sua exuberância juvenil. Mas justa-
mente não seria velho se ainda a detivesse, e se o que
pretendesse remediar fosse este “defeito” da velhice
seria um reformador bem intencionado, à maneira de
Mahmoud II e dos nossos liberais. O velho vai à frente
da sua decomposição e sois vós que quereis
rejuvenescê-lo, fortalecer o seu esqueleto vacilante! A
nossa época não está doente, nem pede para ser cura-
da, ela está velha e a sua hora já soou. Mas eis que
ocorrem milhares de E. Sue trazendo como oferendas
uma medicina de charlatão.
Concluindo, deveremos gastar mais alguma pala-
vra acerca dos excelentes preparativos do príncipe da
Ordem dos Benfeitores e sobre os projetos filantrópi-
cos do romancista? Todos eles procuram abalar os
homens através de recompensas e de punições até que
faça da virtude a sua soberana! Elaboram-se propos-
tas sem conta para melhorar o Estado, tal como antes
da Reforma se fazia para melhorar a Igreja: procura-se
melhorar onde já não há nada para melhorar.

29
3
2003

realismo e anarquismo
na obra e na vida de gustave courbet

pietro ferrua*

O que se esconde por trás dos rótulos


Na história da arte tem-se tendência a generalizar.
De tal a tal ano, tal movimento teria vivido depois desa-
parecido. Isso ocorre com todas as escolas artísticas,
inclusive a do Realismo. Decidiu-se a posteriori que a
pintura realista seguiu e substituiu a Arte Romântica e
precedeu o Impressionismo. Por comodismo pedagógi-
co, isso simplifica os problemas de datação, derivação,
influências e assim por diante. O Realismo não é um
movimento exclusivamente francês, mas como uma
moldura para o discurso já foi delimitada, não iremos
estudar as escolas estrangeiras que surgiram paralela-
mente, um pouco antes ou francamente depois. Tam-
bém seria perigoso querer caracterizar o Realismo ape-
nas pelo exemplo de Courbet, quando sabemos que

* Profesor emérito do Lewis Clark College, Portland, criador do CIRA (Centre


International de Recherche sur Anarchisme) e viveu no Brasil de 1963 a 1969.
verve, 3: 30-49, 2003

30
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

outros também se distinguiram na França, nesse domí-


nio, na mesma época. Basta mencionar alguns “gran-
des” como Millet e Daumier.
O próprio Courbet pregou-se o rótulo de “Realista”,
para o Salão que ele inaugura em 28/6/1855 em Paris
e que ele intitula: “O Realismo. G. Courbet. Exibição de
40 quadros de sua obra”. Depois, em seu “Discurso ao
Congresso de Anvers”1, ele afirma o Realismo e rejeita a
concepção da arte da escola Romântica e da escola Clás-
sica (estranha comparação) e explica que seu Enterro
de Ornans é — metaforicamente — o do Romantismo.
Mas também acontece-lhe de nuançar seu pensamen-
to e de tomar distância do teórico do Realismo francês,
Champfleury, que é entretanto um grande amigo, a quem
ele atribui um lugar de honra no célebre quadro O ateliê
do pintor2, ao lado de outros mestres reverenciados, como
Baudelaire.
Courbet, no entanto, também irá escrever: “O título
de Realismo me foi imposto como impuseram aos ho-
mens de 1930 o título de Romântico. Os títulos não dão,
em nenhum sentido, uma idéia justa das coisas; se fos-
se diferente, as obras seriam supérfluas.....”3
Assim, seríamos tentados a assinalar uma contradi-
ção entre o título da exposição e o conteúdo do catálo-
go, mas se por várias vezes o homem pode parecer am-
bíguo, é porque a realidade às vezes também o é.
Courbet pinta sua época e pensa que “o artista só
pode reproduzir o seu século”, assim como afirma o ro-
mancista Alain Robbe-Grillet, que dirá um século de-
pois: “Flaubert escrevia o novo romance de 1860, Proust
o novo romance de 1910. O escritor deve aceitar com
orgulho sustentar sua própria data...”4
Courbet, um século antes do romancista nosso con-
temporâneo, raciocina da mesma maneira, e faz uma

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3
2003

arte que ele “quer” realista em princípio, sem entretan-


to conseguir escapar totalmente de outros rótulos que
lhe foram colados: naturalista5, idealista6, etc...
O rótulo de anarquista é ainda mais difícil de enten-
der: até onde se sabe, Courbet não escreveu essa pala-
vra uma vez sequer. Então, por que? Proudhon, que
Courbet venera e cujo pensamento invoca, tampouco
empregara a palavra e entretanto ele é frequentemente
chamado (e nisso coincidem seus partidários, seus
detratores e os historiadores) de “Pai do anarquismo”.
Embora a palavra “anarquia” (e seus derivados) já exis-
tisse durante a vida de Courbet e Proudhon, ainda não
havia realmente um movimento anarquista propriamen-
te dito na França7, e será preciso esperar o período pós-
Comuna para assistir a seu florescimento.
Os contemporâneos de Proudhon e Courbet falam
antes de “descentralização”, de “federalismo”, de “soci-
alismo”, de autonomia comunal e, nesse nível, a coe-
rência de Courbet é total, antes, durante e depois do
grande acontecimento revolucionário de 1871.

A pintura engajada de Courbet


O mais belo retrato de Proudhon realizado por
Courbet — entre alguns outros anteriores ou posterio-
res do mesmo artista, ou comparado ao de Amédé
Bourson8 — encontra-se hoje no Museu de Orsay e foi
pintado e repintado após a morte do pensador, datan-
do de 1865.9 Proudhon já figurava em O ateliê do pintor
de 1865 e também retomado num desenho de 1868,
Retrato de Proudhon em seu leito de morte. Sabe-se até
que Courbet quis esculpir uma estátua de Proudhon,
trabalho que ele descreveu, mas nunca realizou.

32
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

Poderíamos separar a obra de pintura de Courbet


em duas épocas que correspondem também a duas
“maneiras”. A primeira, mais longa, que vai desde seus
primeiros quadros até a Comuna, e a segunda, que vai
da Comuna até sua morte. Eu caracterizaria a primeira
fase como “alegórica” e a segunda, mais especificamen-
te “engajada”.
O poeta Dante também se considerava realista, mas
não rejeitava a alegoria; de fato, além deste conceito ele
também desenvolve o de Anagogia. Sem dúvida, é pre-
ciso interpretar Courbet a partir de parâmetros seme-
lhantes, ou seja, aceitar a imagem como esteticamente
realista, correspondendo a uma visão fiel dos persona-
gens e dos objetos, mas possuindo um conteúdo sub-
jetivo que se imprime à intenção do autor e isso em
virtude exatamente de suas declarações ou às de
Proudhon, que irá tornar-se seu exegeta, senão exclu-
sivo, certamente o mais legítimo. Portanto, sabemos pela
boca de Courbet ou pela de Proudhon (por vezes não se
vê a costura que os junta, como gostava de dizer
Montaigne quando falava de Etienne de la Boétie) o que
está escondido por trás de um quadro.
A volta da Conferência10, primeiro quadro comentado
por Proudhon em Sobre o princípio da arte e sua
destinação social11 mostra uma cena com bêbados, que
ilustraria os sete pecados capitais praticados pelos mem-
bros do clero. O quadro foi proibido devido a seu violen-
to realismo, que tocava o sacrilégio. Nesse sentido, sua
potência política não será igualada até Guernica de
Picasso e Pinelli de Baj (outra intrusão policial na arte),
passando pela condenação dos pintores alemães de van-
guarda por Hitler, que falará em seu Mein Kampf de “arte
degenerada”. Pode-se assim notar que a intenção de um
artista — por mais oculta que seja — não escapa de
seus detratores.

33
3
2003

Os quebradores de pedras é um outro quadro de


Courbet concebido como uma descrição do proletaria-
do. O velho operário expressa compaixão e uma vida de
luta, miséria e sofrimento. Mas ele não é “alienado” como
se diria hoje, ao passo que o jovem está destinado a não
saber “nada das alegrias da vida... seu ombro é defor-
mado, seu andar abatido, suas calças caem, a desleixada
miséria fez com que ele perdesse o cuidado por sua pes-
soa e a agilidade de seus 18 anos”12. A descrição dada
pelo próprio pintor numa carta a Champfleury de mar-
ço de 185013 confirma as palavras de Proudhon.
O ateliê do pintor14 é explicado em detalhe por Courbet
a Champfleury em uma longa carta datada do fim de
185415, a quem ele conta estar ocupado em pintar “um
imenso quadro” que seria “a história moral e física de
meu ateliê... é minha maneira de ver a sociedade em
seus interesses e suas paixões”. Proudhon figura como
personagem no quadro mas, contrariamente à maioria
das outras pessoas que posaram para Courbet, esse
retrato de Proudhon, como todos os outros, baseia-se
em fotos, gravuras e telas de outros autores16. Courbet
está em Ornans quando ele se dirige a Champfleury,
que se encontra em Paris, onde também está Proudhon.
É por isso que ele lhe escreve: “Se o senhor o vir, per-
gunte-lhe se posso contar com ele”. Proudhon nunca
posará para Courbet, nem em Paris, nem em Besançon,
nem em Ornans, por razões desconhecidas que exclu-
em a má vontade, pois sua colaboração continua. É ver-
dade que Proudhon foi muito mais severo com Courbet
e o trata mesmo como artista de segunda ordem por
causa de seu orgulho, embora admita que é o fenômeo
Courbet que o leva a elaborar uma teoria da arte, coisa
em que não teria pensado sozinho. Courbet, mesmo
achando que Proudhon compreende pouco de arte, ins-
pira-lhe a obra para a qual irá contribuir. Numa carta a

34
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

Max Bouchon (agosto de 1863), ele escreve: “Vamos fi-


nalmente ter um completo tratado de arte moderna e a
via indicada por mim corresponde à filosofia
proudhoniana”17.
A seu pai ele escreve (carta de Paris, de 28 de julho
de 1863): “Neste momento estou me correspondendo
com Proudhon. Estamos realizando juntos uma obra
importante que liga minha arte à sua filosofia e sua obra
à minha”18. Quando o livro é publicado, ele irá escrever
a seus pais: “Eu lhes enviei o volume que P.-J. Proudhon
escreveu sobre mim. É a coisa mais maravilhosa que se
possa ver, e é o maior benefício e a maior honra que um
homem poderia desejar em sua existência. Uma sorte
dessas nunca aconteceu a ninguém. Um volume assim
por um homem assim sobre um indivíduo? É
desconcertante! Paris inteira sente inveja e está cons-
ternada. Isso vai aumentar meus inimigos, e me trans-
formar num homem sem igual”19.
A ligação Courbet-Proudhon (antes de tornar-se uma
amizade profunda) remonta a 1848, quando o filósofo
era deputado na Assembléia Constituinte e Courbet ti-
nha desenhado o frontispício do jornal redigido por
Baudelaire, a Salvação Pública e fundara um Círculo
Socialista20. Proudhon foi preso no ano seguinte e pas-
sou três anos na prisão. Sua correspondência é bem
documentada, seus encontros nunca o foram, mas sua
colaboração artística, intelectual, política, assim como
sua amizade é confirmada por uma caricatura de Cham,
que remonta a 1855 e mostra Courbet em pé e Proudhon
sentado em um banco. Os dois estão pintando a mesma
tela. Isto pareceria avalizar a tese dessa influência recí-
proca que as crônicas relatam apenas dez anos mais
tarde.

35
3
2003

Mas a arte mais abertamente engajada de Courbet


desenvolveu-se devido à Comuna. Seu Auto-retrato em
São Pelágio (que sem dúvida inspira a série impres-
sionista dos auto-retratos de revolucionários em pri-
são, caracterizada, por exemplo, por Maximilien Luce) é
uma declaração de fé política. Não apenas ele mostra o
artista encarcerado por razões políticas, mas este os-
tenta a echarpe vermelha dos partidários da Comuna21.
Pode-se notar que o quadro não é muito realista, pois o
artista se pinta mais jovem e mais magro do que era na
realidade na época, mas o que conta é seu vigor alegóri-
co: o combatente que está feliz com sua sorte e que, em
sua infelicidade, faz questão de mostrar sua coerência.
Há uma série de seis desenhos (obras que sempre
foram consideradas menores) que se encontram no
Louvre (e se acrescentam às suas obras políticas prece-
dentes, a República Universal e A Salvação Pública22,
que se encontram no Gabinete das Estampas) e que são
rememorações de cenas vividas: Os grandes estábulos
em Versalhes, Cortejo de civis escoltados pelos morado-
res de Versalhes, Combate numa cela na Conciergerie,
Uma execução sumária, Courbet em pé em sua cela em
São Pelágio. Se ele os tivesse pintado em óleo sobre tela
(e nada prova que ele não o teria feito se não tivesse
partido em exílio, pois já lhe acontecera de esboçar de-
senhos que em seguida resultaram em quadros) essas
cenas estariam penduradas no Louvre ou no Museu
d´Orsay, ao lado de suas outras obras-primas.
A última grande obra de alegoria política de Courbet
é uma estátua esculpida quando de seu exílio político,
pouco antes de sua morte. Trata-se de Helvécia, nome
escolhido pela municipalidade de Martigny dans le
Valais, da estátua batizada A República, mas cujo título
original tinha sido A Liberdade. Título característico não

36
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

apenas de suas convicções políticas, mas também de


sua concepção estética de uma liberdade total na arte.

As concepções políticas de Courbet


O primeiro engajamento político do pintor é, sem
dúvida, o da esquerda laica e socialista pré-marxista
francesa representada por esse grande leque das idéias
de Cabet, Considérant, Fourier e, sobretudo, Proudhon.
O termo anarquista ainda não faz parte da lingua-
gem corrente e fala-se principalmente de República, o
inimigo maior sendo a monarquia despótica, fosse ela
constitucional ou não. Mas é fácil reconhecer os defen-
sores do socialismo utópico pelo epípeto Universal que
eles acrescentam ao substantivo República. A corres-
pondência de Courbet é salpicada de alusões políticas
e, se suas atividades socialistas durante a revolução
Republicana de 1848 são ambíguas, temos muito mais
testemunhos de suas ações. Numa carta a seus pais
datada de 26 de junho de 1848, ele se expressa como
não-violento23: “Não luto por duas razões: em primeiro
lugar porque não tenho fé na guerra com fuzis e ca-
nhões, e porque isso não está em meus princípios. Já
há dez anos faço a guerra da inteligência”, o que ele
próprio irá contradizer alguns meses depois, sem dúvi-
da sob o impacto da emoção após ter assistido a cenas
de violência gratuita: “Com exceção de duas ou três
legiões, toda a guarda nacional é pela constituição. Ela
foi fazer uma manifestação, foi atacada pela cavalaria e
ficou em sua mira de fogo. O Sr. Changarnier teria gol-
peado um deles com a parte plana de seu sabre. Várias
pessoas já foram mortas tanto pela cavalaria quanto por
alguns tiros de pelotão da parte da linha da primeira e
da segunda legião da Guarda Nacional. O Sr. Napoleão
que ainda não é imperador passeava a cavalo pelos

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3
2003

bulevares distribuindo saudações com um ar protetor.


O Sr. Changarnier que o acompanhava recebeu um tiro
que infelizmente não o atingiu. Quanto ao Sr. Napoleão,
por uma infelicidade ainda maior, ele ainda não rece-
beu nenhum tiro de fuzil”24.
Sua animosidade para com Napoleão não parece ir
contra o homem em si, mas contra o poder que ele re-
presenta. Courbet não cessará de se opor a Napoleão e
seus representantes. Numa carta a Alfred Bruyas, de
outubro de 1853, Courbet conta a seu amigo como o
governador tinha enviado à sua casa o Sr. Nieuwerkerke,
diretor das Belas-Artes, para encarregá-lo de pintar um
quadro para a Exposição oficial de 1855: “Eu o deixo
imaginar como fiquei furioso depois de tal abertura.
Respondi imediatamente que não entendia nada daquilo
tudo que ele acabara de dizer, em primeiro lugar por-
que ele me afirmava que ele era um governo, e que eu
não me sentia absolutamente incluído nesse governo, e
que eu desafiava o seu a fazer qualquer coisa pelo meu
que eu pudesse aceitar. Continuei dizendo a ele que eu
era o único juiz de minha pintura, não para fazer arte
pela arte, mas sim para conquistar minha liberdade in-
telectual...”25.
No ano seguinte, em uma outra carta a Bruyas (da-
tada de 3 de maio de 1854), fala de sua alegria por ele
ter comprado um retrato que Napoleão desejava: “Es-
tou encantado que o senhor possua o meu retrato. Ele
finalmente escapou dos Bárbaros. É miraculoso, pois
após um tempo de pobreza profunda, tive a coragem de
recusá-lo a Napoleão, pela soma de dois mil francos...”26
Mas foi principalmente no decorrer de seus contatos
intelectuais com Proudhon que suas idéias amadure-
ceram e se refinaram. Courbet, muito cioso de sua in-
dependência, não é um individualista que se fecha numa

38
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

torre de marfim: ele é aberto à discussão, ajuda seus


amigos perseguidos pela justiça (caso do poeta Buchon),
os artistas ainda não consagrados (o caso de Monet) e
pratica a solidariedade em todos os níveis. Em 1861,
participa de um Congresso em Anvers e lamenta ter que
tomar a palavra no lugar de Proudhon pois: “ Eu só me
expresso bem com o pincel, e não com a palavra”. Tra-
ta-se de um excesso de modéstia, já que conhecemos
seu texto que foi publicado em Le precurseur d´Anvers
de 28/6/1861. Courbet apresenta o Realismo como a
emancipação da razão e do indivíduo. Contrariamente
à pintura que o precede e que é aristocrática e autoritá-
ria, na qual o povo recebia tudo do alto, o Realismo é
democrático. Como prova de abertura à sociabilidade,
Courbet abre para o Natal de 1861 um ateliê em Notre-
Dame-des-Champs, embora professe não acreditar no
ensino. O curto texto que ele escreve nessa ocasião é
uma jóia27 ao gosto socrático. Logo de início, Courbet
quer suprimir a distinção entre professores e alunos,
pois trata-se de aprender juntos, e não acredita na ne-
cessidade de um ensino. A arte é uma expressão do
indivíduo, e o verdadeiro artista deve ser seu próprio
mestre. Num ateliê de artistas só pode haver colabora-
dores, e caso haja um mestre, por acidente ou pela for-
ça das circunstâncias, este deve propor apenas um
método. Quer seja chamado maiêutica ou anarquista (e
Courbet não emprega nenhum dos dois termos), ou
qualquer outro, esse método nos faz pensar nos ateliês
de pintura da Renascença ou mesmo na vida na Abadia
de Thélème (mas nada prova que ele tenha lido Rabelais).
É exatamente o que ocorre nas Escolas Modernas
lançadas por Francisco Ferrer (ou em sua memória):
basta lembrar do Ferrer Center de Nova Iorque no início
do século vinte, frequentado pela vanguarda da época,
e onde o anarquista Robert Henri, “ensinando” arte, tem
como “aluno” o anarquista Man Ray.

39
3
2003

O ateliê de Courbet só teve uma breve existência e


parece ter sido frequentado por personalidades de pri-
meira ordem, entre as quais Fantin-Latour. Mas res-
tam-nos poucos testemunhos dessa experiência, o mais
suculento sendo o de Castagnary, que afirma tê-lo visto
transformado em estábulo, com uma vaca mugindo, re-
presentando “natureza viva”, que Courbet propunha aos
novos companheiros à guisa de tema de inspiração.
Proudhon retorna de seu exílio na Bélgica e Courbet
segue-o como uma sombra: quer fazer seu retrato, quer
que ele escreva um tratado sobre arte, oferece-lhe sua
colaboração. Ele, que não gosta de escrever, preenche
todos os dias várias folhas para o teórico, e quando So-
bre o princípio da arte e sua destinação social é publica-
do em 1865, não se sabe muito bem o que é da pluma
de um ou de outro. Pouco importa, tanto eles se com-
pletam e se integram mutuamente. A morte de Proudhon
é uma verdadeira catástrofe para Courbet , mas ele re-
age imediatamente: trata-se de garantir a publicação
de suas obras inéditas e de ajudar sua família. Courbet
coleta fundos para a viúva do filósofo e dirige-se aos
amigos nesse sentido. Sua correspondência com Bruyas
revela essa solicitação financeira e informa que Bruyas
responde ipso facto. Courbet permanece coerente com
as idéias que sempre preconizou, mas que agora difun-
de cada vez mais sob o rótulo de “federalista”.
Antes mesmo de sua participação ativa e gloriosa na
Comuna de 1871, ele realiza vários atos políticos. A re-
cusa da “Legião de Honra” é um deles. Em sua carta ao
Ministro Richard — que no entanto ele tinha em bem
melhor conta que seu predecessor, o Marechal Vaillant
— Courbet apressa-se em declarar (23/6/1870): “Mi-
nhas opiniões de cidadão opõem-se a que eu aceite uma
distinção que procede essencialmente da ordem
monárquica. Essa condecoração com a Legião de Honra

40
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

que os senhores estipularam em minha ausência e para


mim, é incompatível com meus princípios”. Depois, os
acontecimentos se precipitam e a guerra que acabara
de explodir entre a França e a Prússia leva em 2 de
setembro de 1870 à derrota de Sedan. A Républica é
proclamada em 4 de setembro e dois dias depois Courbet
é eleito presidente da Comissão das Artes encarregada
de proteger as obras de arte em Paris. Paris é sitiada
pelo prussianos e Courbet dá provas de uma grande
maturidade política: nem chauvinismo, nem patriotis-
mo. Assim como farão mais tarde certos anarquistas
(mas infelizmente não todos), por ocasião da Primeira e
da Segunda Guerras Mundiais do século vinte, ele pro-
põe que a guerra dos governos seja transformada em
revolução social dos povos.
Em seu discurso Ao Exército Alemão, lido em 29 de
outubro de 1870 a convite de Victor Considérant,
Courbet os exorta: “...voltem para o seu país: suas mu-
lheres e filhos estão chamando-os com fome. Nossos
camponeses, que vieram lutar contra suas culpáveis
inciativas, estão no mesmo caso que vocês. Quando
voltarem, gritem ‘Viva a República! Abaixo as frontei-
ras...’ Vocês só têm a ganhar com isso: participarão de
seu país como irmãos”28.
Era um convite à deserção, à revolta, à derrubada de
seu próprio governo, à conclusão de uma paz instantâ-
nea e total. A mensagem era avançada demais para a
época, e Courbet sabia muito bem que ele estava se
dirigindo a militares que, como os de seu país, preferi-
am sempre outro tipo de solução.
Ele também dirige um outro manifesto Aos Artistas
Alemães29, lembrando ter conhecido muitos deles por
ocasião de suas exposições em Frankfurt e Munique,
aos quais ele propõe: “deixem-nos os seus canhões

41
3
2003

Krupp, nós os fundiremos junto com os nossos; o últi-


mo canhão, com a boca ao ar, enfeitado com uma boina
frígia, plantado sobre um pedestal arrimado em três
balas, e esse monumento colossal, que ergueremos junto
na Praça Vendôme, será a sua e a nossa coluna, a colu-
na dos povos, a coluna da Alemanha e da França para
sempre federadas”.
Que se saiba, não houve resposta para nenhum dos
dois manifestos. Embora não tenham tido repercussão
junto aos alemães, não deixaram de ser uma maneira
original e progressista de lutar contra os conflitos e uma
bela atitude revolucionária. Eles também antecipam a
posição de Signac, algumas décadas mais tarde, opon-
do-se à Primeira Guerra Mundial como anarquista e
reprovando a Jean Grave e a alguns outros (Kropotkin
inclusive) sua tomada de posição partidária.
Vamos ressaltar dois outros aspectos desses mani-
festos que irão se revelar importantes na vida de
Courbet; a Coluna Vêndome e o conceito de “Federa-
ção”. A Coluna foi desmontada durante a Comuna, em
14 de abril de 1871. Em 14 de setembro de 1870,
Courbet dirigira-se à Assembléia Geral dos Artistas da
qual fora eleito presidente e recomendara a
desmontagem da Coluna Vendôme: “Monumento des-
provido de qualquer valor artístico, tendendo a perpe-
tuar, por sua expressão, as idéias de guerras e de con-
quistas próprios a uma dinastia imperial, mas que o
sentimento de uma nação republicana repudia”30.
Courbet esclarece seu pensamento alguns dias após,
e essa distinção é capital para a sequência dos aconte-
cimentos: “ Eu não pedia que a Coluna Vendôme fosse
quebrada: queria que ela fosse retirada de sua rua dita
‘da Paz’... Que os relevos sejam transportados para um
museu histórico, que sejam dispostos em painéis nas

42
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

paredes do Pátio dos Invalides, não vejo mal nisso. Es-


ses corajosos sujeitos ganharam tais canhões ao preço
de seus membros: sua visão irá lembrá-los de suas vi-
tórias!... — e sobretudo de seus sofrimentos”31.
Apesar disso, em alguns meses Courbet será trans-
formado em único culpado pela destruição da Coluna,
o que causará sua prisão por seis meses, processos,
uma perseguição financeira constante do novo gover-
no, seu exílio e sua morte prematura na Suiça.
O outro aspecto importante a notar nesses dois ma-
nifestos aos alemães é, como já dissemos, o conceito de
“federação”. Ele vem em linha direta de Proudhon, que
havia escrito, salvo erro, já em 1858, quando se encon-
trava exilado na Bélgica;
“Quem diz liberdade, diz federação, ou não diz
nada.
Quem diz república , diz federação, ou não diz
nada.
Quem diz socialismo, diz federação, ou não diz
nada”.
Proudhon já tinha morrido, mas Courbet considera
que a Comuna de Paris é sua obra. Numa carta aberta
Aos Artistas de Paris, datada de 6 de abril de 1871, ele
anuncia que:
“A revolução é tanto mais justa por partir do povo.
Seus apóstolos são operários, seu Cristo foi Proudhon”32.
De fato, o Comitê Central, em 23/3/1871, tinha de-
cretado “a autonomia comunal, o fim do princípio de
autoridade, a liberdade, a solidariedade, o crédito, a
associação...em suma, a revolução comunal, base da
revolução social”.

43
3
2003

É um momento de frenética atividade para Courbet,


que trabalha pelo menos quinze horas por dia pela re-
volução e pela Comuna. Ele desempenha quatro fun-
ções distintas: Presidente da Federação dos Artistas,
membro da Comuna, delegado na Prefeitura, delegado
na Instrução Pública. Numa carta de Charenton a seus
pais, datada de 30 de abril de 1871, ele lhes comunica
seu entusiasmo: “Paris está um verdadeiro paraíso! Nada
de polícia, nada de estupidez, nenhuma cobrança
abusiva, nada de disputas. Paris funciona sozinha, às
mil maravilhas. Seria preciso que permanecesse sem-
pre assim. Para dizer numa só palavra, é um verdadeiro
encantamento. Todos os órgãos públicos se organiza-
ram em federação e pertencem uns aos outros”33.
Courbet, por sua posição, teve uma grande influên-
cia e, ao forjar a Federação dos Artistas, cria um exem-
plo libertário para todas as outras federações de ofícios.
Ele propõe a livre expansão da arte, livre de qualquer
tutela governamental e de todos os privilégios, preconi-
za a igualdade a independência dos artistas, deseja o
abandono radical de qualquer princípio autoritário, etc...
Em resumo, ele retoma não somente as idéias já ex-
pressas em seu ateliê de 1871, mas também os postu-
lados libertários federalistas de Proudhon.
A Federação dos Artistas é muito ativa: não apenas
se ocupa da proteção das obras de arte do Louvre e do
Luxembourg, mas ainda de catalogar a coleção particu-
lar de seu inimigo mais feroz, o general Thiers. Os mai-
ores artistas da época são eleitos para a Federação dos
Artistas: ao lado de Courbet, encontramos Corot,
Daumier, Millet, Gill, e passo rapidamente adiante, ape-
nas lembrando ainda de Eugène Potter, o futuro autor
de “A Marselhesa” sobre o qual se silencia o fato de per-
tencer à Associação Internacional dos Trabalhadores e
de seu exílio americano.

44
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

Impulsionada pela Federação dos Artistas, a Comuna


tenta favorecer outras federações no domínio cultural e
convoca os artistas líricos, cantores e instrumentistas
da Ópera, da Ópera Comique e do Teatro Lírico para
uma reunião constitutiva em 23 de maio para estudar
as medidas a serem tomadas para “substituir o regime
de exploração por um diretor ou uma sociedade, pelo
regime de associação”34 .
Os acontecimentos se precipitam: a Comuna será
esmagada e sufocada em sangue (calcula-se que pelo
menos 30000 federados são fuzilados) e os sobreviven-
tes partem para o exílio em Londres, Bruxelas, Gene-
bra, Estados Unidos.
Courbet é hospedado por um amigo, mas acaba sen-
do preso em 7 de junho de 1871. Passa seis meses na
prisão e seus bens são confiscados pelo Estado. Bruyas
testemunha em seu favor no processo do mês de agos-
to, mas isso não impede que Courbet seja considerado
o responsável “intelectual” pela destruição da Coluna
Vendôme. Ele comete a imprudência de oferecer ao go-
verno o dinheiro necessário para sua restauração. Essa
fanfarrice custa-lhe caro e o Estado lhe fatura uma soma
enorme, que obrigaria o pintor a trabalhar para o gover-
no durante toda sua vida. Preso numa armadilha, o ar-
tista exila-se na Suiça em 1873. Envelhecendo,
adoentado, ele irá pintar cada vez menos e continua a
negociar – através de seu advogado – seu retorno para
Ornans ou Paris. As saudades da família e dos amigos
são grandes e ele está praticamente voltando para Fran-
ça quando a morte o surpreende, no fim de 1877, nas
margens do lago Léman.

45
3
2003

Conclusão
A figura humana de Courbet não é irrepreensível.
Sua posição com relação às mulheres, por exemplo, re-
vela uma certa misoginia, como em Proudhon. Nisso,
encontra-se atrasado com relação a Joseph Dejacques
(que ele não menciona), Louise Michel (que no entanto
é da Comuna, sobre a qual não se encontra qualquer
menção na correspondência de Courbet) ou Elisée
Reclus (com quem ele convive na Suiça, mas que talvez
nunca tenha lido). Sem dúvida, ele pensaria de outra
forma se seu entusiasmo por Proudhon (do qual
Champfleury e Victor Hugo zombavam) o tivesse levado
a ler anarquistas contemporâneos mais maduros e coe-
rentes. Mas a história não pode ser modificada a
posteriori. De qualquer forma, Courbet não deixa de ser
um exemplo de grande artista, corajoso, generoso,
libertário, que soube unir o pensamento e a ação, e que
defendeu encarniçadamente idéias progressistas que,
apesar de não levarem o rótulo de anarquistas, mos-
tram uma concepção profunda e autenticamente
libertária da sociedade tal qual ela é, e tal como poderia
ser em um clima de cooperação comunalista federada.
Suas idéias federalistas não são distantes das do dele-
gado espanhol na Conferência de Londres de 1872, nem
do organograma da CNT-FAI na Espanha de 1936.

Notas
1
Cf. “Compte-rendu de l´intervention de Courbet au Congrès d´Anvers” in
Peut-on enseigner l´art? Paris, L´Échoppe, 1986.
2
Coleção: Regards sur la peinture, nº 41, Paris, Fabbri, s.d., pp. 16-19
3
Catálogo da Exposição de 1855.
4
Pour un nouveau roman. Paris, Editions de Minuit, 1963.
5
George Boas. “ Courbet and the naturalistic movement”. (Ensaios lidos no
Baltimore Museum of Art, 16, 17 e 18 de maio de 1938).

46
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

6
Pierre-Joseph Proudhon. Du principe de l´art et de as destination sociale. Paris,
Garnier, 1865, pp. 106-107.
7
Na verdade, há um embrião de movimento anarquista francófono mas, muito
curiosamente, nos Estados Unidos. São os exilados franceses reunidos ao re-
dor de Joseph Dejacques que lançaram, já em 1858, o periódico Le Libertaire.
Esse mesmo militante, aliás, é o autor de um panfleto anti-proudhoniano que
ataca o pensador (tratado de conservador) situando-se mais à esquerda do que
ele, devido a idéias bastante coerentes. Mas, na correspondência de Courbet,
não há qualquer traço desse nome, e é provável que ele nunca o tenha encon-
trado ou lido, pois eles navegavam em meios totalmente diferentes.
8
Óleo sobre tela que se encontra no Museu Histórico do Palácio Granvelle de
Besançon.
9
Existem ao menos dois estados do quadro Proudhon e sua família, pintado em
1865 após o falecimento do filósofo. A data de 1853 refere-se ao retratado de
um outro autor no qual ele se baseou, já que Proudhon nunca posou para ele.
10
É difícil falar sobre ele sem vê-lo ( baseando-se em pálidas reproduções ou
em descriões escritas). Esse quadro desapareceu e imagina-se que foi através
das manipulações dos inimigos de Courbet que sem dúvida ele foi comprado
para poder ser escondido ou destruído.
11
Proudhon, op. cit, pp. 160-107.
12
Idem, pp. 239-240.
13
Edição estabelecida, apresentada e anotada pro Petra tem-Doesschate Chu
(org). Correspondance de Courbet. Paris, Flammarion, 1996, pp. 85-86.
14
“L´atelier du peintre” in Regards sur la peinture, nº 41. Paris, Fabbri, s.d., pp.
16-19.
15
Courbet, Correspondance, p. 208.
16
Fotos de Nadar, quadros de Corbineau e Bourson, litografia de Charles Bazin,
entre outros.
17
Proudhon, op. cit, p. 282.
18
Courbet, Correspondance, p. 208.
19
Idem, pp. 204-205.
20
Ibidem, p. 238.
21
Visível, unicamente nas reproduções a cores.
22
Seria preciso também mencionar A Partida do Conscrito (1863) e O Cemitério de
Solferino (1872), fortemente antimilitaristas. Ver principalmetne o artigo de Petra
Ten-Doesschate Chu “Courbet´s Unpainted Pictures”, in Arts Magazine, 1982,
pp. 134-141.

47
3
2003

23
Courbet, Correspondance, p.76. Bem antes que Tolstoi (que aliás também inspi-
rou-se em Proudhon) desenvolvesse teorias que chegaram a Gandhi, Vinoba
Babe e toda uma concepção não violenta do anarquismo.
24
Courbet, Correspondance, p. 78.
25
Idem, p. 108.
26
Courbet à Montpellier. Museu Fabre 5 de novembro — 29 de dezembro de
1985, Cidade de Montpellier, Comité du Millenaire, Catálogo de Exposição, p.
124.
27
“Compte-rendu de l´intervention de Courbet au Congrès d´Anvers” in Peut-
on enseigner l´art? Paris, L´Échoppe, 1986.
28
Courbet, Correspondance, p. 208.
29
Idem, p. 350.
30
Ibidem, p. 342.
31
Esta carta, dirigida ao Governo da Defesa Nacional, é datada de Paris, 5 de
outubro de 1870. Courbet, Correspondance, pp. 345-346.
32
Idem, p. 360.
33
Ibidem, p. 366.
34
Paul Hippeau. Les Fédérations Artistiques sous la Commune. Paris, Comptoir
d´Éditions Lettres, Sciences et Arts, 1890, p. 36.

48
verve
Realismo e anarquismo na obra e vida de Gustave Courbet

RESUMO

Para além do rótulo de pintor realista que se costuma atribuir


a Gustave Courbet, este texto faz aparecer toda uma vida volta-
da à luta contra os poderes centralizadores, contra o terror e as
consequências das maniefestações de recusa que culminaram
com o exílio na Suíça. Sua amizade com Proudhon é a linha
que costura arte e ação política.

ABSTRACT

Para além do rótulo de pintor realista que se costuma atribuir


a Gustave Courbet, este texto faz aparecer toda uma vida volta-
da à luta contra os poderes centralizadores, contra o terror e as
consequências das maniefestações de recusa que culminaram
com o exílio na Suíça. Sua amizade com Proudhon é a linha
que costura arte e ação política.

49
3
2003

revolução e liberdade: a trajetória de


alexandre herzen1

daniel aarão reis filho*

I - anos russos: a formação de um rebelde


Alexandre Ivanovitch Herzen nasceu em Moscou, em
25 de março/06 de abril de 18122. Três meses depois,
em julho, o Grande Exército começou a invasão
napoleônica da Rússia. Em setembro, houve a grandio-
sa e incerta batalha de Borodino, deixando 100 mil
mortos de ambos os lados. Mais alguns dias, a entrada
de Napoleão na velha capital russa, onde a família de
Herzen, por inadvertência, ainda se encontrava, pare-
ceu selar o fim da guerra. Mas o Tsar não se rendeu.
Sequer aceitou conversar ou negociar nos termos pro-
postos pelo Imperador dos franceses. Seguiu-se um ter-
rível incêndio, deflagrado pelos russos, que arrasou a
velha capital e impôs aos franceses o início de uma lon-
ga e penosa retirada que, após o desastre de Berezina
(fins de novembro), desdobrou-se numa derrota catas-
trófica para Napoleão3.

* Professor no Departamento de História da Universidade Federal Fluminense.


verve, 3: 50-74, 2003

50
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

Os exércitos russos marchavam agora, céleres, pela


Europa Central. Em torno deles, uma ampla aliança,
constituída por prussianos e austríacos, apoiados tam-
bém pelos ingleses. Estavam criadas as condições para
a batalha de Leipzig, em outubro de 1813, e para a en-
trada gloriosa em Paris, em 31 de março de 1814.
Napoleão ainda teria uma sobrevida, depois de esca-
par da ilha de Elba, mas durou pouco: de março a ju-
nho de 1815, quando Waterloo encerrou definitivamen-
te sua aventura.
O Congresso de Viena, entre setembro de 1814 e ju-
nho de 1815, reorganizaria a Europa nos termos dita-
dos pelos vencedores. A restauração e a Santa Aliança
sob a égide dos exércitos do Tsar. A Rússia, campeã da
paz, da legitimidade e da ordem. Dias de glória para a
nação e para as águias russas. Nunca houvera nada
parecido no passado, nem haveria no futuro.
Os relatos desta saga, contados e cantados em prosa
e verso, povoaram a infância e a adolescência de Herzen,
marcando-o com o ferro em brasa das experiências
primevas, conferindo à sua personalidade traços per-
manentes, que o tempo não desfaria: a consciência e o
orgulho de pertencer a um povo ímpar e de ter, de al-
gum modo, participado de acontecimentos históricos. A
celebração da vontade que não se deixa abater por mai-
or que seja a adversidade. O caráter épico da tremenda
resistência e da gloriosa vitória.
Os primeiros anos do século XIX não foram anos de
glória apenas para a Rússia e para o Tsar, mas também,
talvez principalmente, para a nobreza russa. Com efei-
to, culminava então um longo processo, o da emancipa-
ção da nobreza em relação ao Estado, formalizado em
18 de fevereiro/1de março de 1762, quando a obriga-
toriedade do serviço de Estado foi abolida4, consagran-

51
3
2003

do o século XVIII como um século de ouro para a nobre-


za russa, duplamente fortalecida: ao mesmo tempo em
que se emancipou do Estado, consolidaram-se as es-
truturas da servidão na Rússia. De um lado, a liberda-
de, reforçada pela instauração de instituições de poder
local dominadas pela nobreza. De outro lado, a força
conferida pela transferência progressiva da vida de mi-
lhões de almas para o controle discricionário dos no-
bres5.
Gradativamente emancipados e também ocidenta-
lizados. Viagens de estudos, viagens de exploração,
aprendizado de línguas estrangeiras (principalmente o
francês, mas também o alemão), múltiplos intercâmbi-
os, guerras e conquistas, a nobreza russa adquiria ci-
ência e técnicas, boas maneiras, modismos e idéias do
Ocidente europeu. O fato de muitos se prestarem ao
ridículo, meros pedantes, imitadores e repetidores, sen-
do objeto de sátiras contundentes, não obscurece o pro-
cesso real de troca, ensejando o aparecimento de uma
cultura moderna na Rússia, específica, capaz de sínte-
ses criativas, e que cedo projetaria vultos de estatura
intelectual comparável ao que havia de mais sofisticado
no mundo de então.
O pai de Herzen, Ivan Alexeevitch Iakovlev (1767-
1846), fez parte da primeira geração de nobres formal-
mente emancipados e que seriam, de certa forma, pre-
cursores da intelligentsia russa do século XIX6. Herdei-
ro de uma das famílias mais tradicionais da nobreza
russa, imensas terras, milhares de servos, ricos
cabedais, cedo se desligou, como passara a ser seu di-
reito, do serviço de Estado para se dedicar a viagens e
ao cultivo do espírito, tornando-se, como tantos outros
de seu meio, um homem supérfluo: “Estrangeiros no
próprio país, estrangeiros em outros países, espectado-
res ociosos, imprestáveis na Rússia em virtude de seus

52
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

preconceitos ocidentais, imprestáveis no Ocidente por


causa de seus costumes russos, representavam uma
espécie de inteligência supérflua e se perdiam numa
existência factícia, nas delícias dos sentidos e num ego-
ísmo desenfreado”7.
Preocupado com a formação do filho, cercou-o, na
tradição da época, de tutores, preceptores e servos, al-
guns caricaturais, outros sábios, conferindo-lhe uma
formação humanista, com vernizes religiosos, mais ri-
tuais e “literários”8, consolidada no domínio seguro do
russo, do alemão e do francês.
Desde cedo Alexandre Herzen respondeu bem a es-
tes estímulos, mostrando-se vivo, perspicaz, crítico e
criativo. No entanto, embora filho de nobre, não era um
nobre comme il faut, como os outros da sua estirpe, e
cedo percebeu sua falsa posição: a mãe, Henriette-
Wilhelmine Luisa Haag (1795-1851), doce e inteligente
criatura, embora não cultivada, não era nobre, mas ple-
béia. Alemã de Stuttgart, aos 17 anos fora trazida grávi-
da para a Rússia, à socapa, onde pariu Herzen e onde
permaneceria até o fim de seus dias. Ivan Alexeevitch
lhe concederia abrigo e pensão, mas não amor, nem o
casamento9.
A situação poderia ter abatido nosso personagem,
mas produziu o efeito contrário: estimulou nele uma
sensação de estranhamento, e a vontade, o orgulho e o
sentimento de independência10, outros traços de cará-
ter, indeléveis, que se manteriam ao longo de toda a
vida.
Os exércitos russos, como foi referido, levaram para
o Ocidente, com o fogo e o ferro, a restauração e a or-
dem. Entretanto, oficiais mais críticos, todos nobres,
perceberam o contraste entre o que se pensava e se
dizia a oeste do Reno e a leste do Vístula. Entre a Fran-

53
3
2003

ça e a Rússia. Não era apenas uma questão de riqueza


material, mas de modo de se comportar e de se organi-
zar, de viver. De instituições, de memórias, de expecta-
tivas, de perspectivas.
Na volta, organizaram associações clandestinas. Em
dezembro de 1825, após a morte de Alexandre I, apro-
veitando-se de um imbroglio sucessório, tipicamente
russo, tentaram um golpe11. Propunham reformas, a
conquista da liberdade, a abolição da servidão, a maio-
ria queria limitar os poderes do Tsar (monarquia consti-
tucional) e alguns já preconizavam a República. A re-
volta nasceu frágil e foi esmagada. Seguiu-se a repres-
são brutal, exemplar. Os cinco líderes principais, depois
de batidos e quebrados, foram enforcados. Outros 31
receberam penas perpétuas ou condenações de 25 anos
de prisão. E mais degredos na Sibéria, sem contar inú-
meros rebaixados à condição de soldados, mas sem di-
reito a promoções, enviados para frentes de risco, des-
tinados à morte12.
Passaram à história com o nome do mês da tentativa
malograda: os decembristas.
O impacto da revolta foi profundo em Herzen. A bru-
talidade da repressão provocou nele horror e asco. Im-
pregnado de referências românticas (alemãs e france-
sas), animado pelos versos de Schiller e de Pushkin,
elaborou um ódio concentrado ao poder arbitrário e à
opressão.
E jurou ódio eterno à tirania. Com seu então recente
amigo, Nicolau Platonovich Ogarev, que o acompanha-
ria até o fim da vida, do alto das Colinas dos Pardais,
nas cercanias de Moscou, “sós, superiores e gloriosos”,
juraram lutar, onde estivessem, para todo o sempre, com
todas as suas forças, contra todas as formas de tira-
nia13.

54
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

Herzen tinha então somente 15 anos, mas aparenta-


va dispor de firmes convicções. E, ao longo de toda uma
vida, honraria o juramento. Num momento em que
muitos apenas esboçam pontos de vista, ele já se for-
mara como rebelde.
O contexto não podia ser mais desfavorável.
O reino de Nicolau I, iniciado com o massacre dos
decembristas, em 1825, prolongar-se-ia por longos trinta
anos. Foi um tempo de trevas, “...onde cada comissário
de polícia é um soberano e em que o soberano é um
comissário de polícia coroado”14. Nada mais emblemático
do que a formulação do Conde Uvarov15, autor da dou-
trina oficial do nacionalismo tsarista, e ministro da Ins-
trução Pública entre 1833 e 1849: “Eu teria o senti-
mento do dever cumprido, se conseguisse empurrar a
Rússia para trás cinquenta anos em relação ao que pre-
vêem para ela certas teorias”16.
Entretanto, apesar do obscurantismo do Autocrata e
de muitos de seus acólitos, o Império não deixara de
mudar e de se transformar.
A população, de 36 milhões de súditos, em fins do
século XVIII, aumentara para 67 milhões, em 1851. É
verdade que os servos, em 1858, ainda constituíam
44,5% da população, mas a população urbana, embora
ainda muito minoritária, quase dobrara, de 4,1% no
começo do século XIX para 7,8% do total, em 1851. A
produção agrícola e industrial registrou uma significa-
tiva progressão, assim como o comércio interno e exter-
no (aumento das exportações de cereais), começando a
fazer da Rússia o “celeiro” da Europa.
No plano cultural, a primeira metade do século XIX
foi uma época de afirmação das ciências, das artes e da
literatura russa. Em muitas áreas surgiram vultos no-
táveis, como, entre muitos outros, N. Lobatchevski (ma-

55
3
2003

temática), B. Petrov (física), N. Zinin (química), N.


Karamzin (História), A. Pushkin e N. Gogol (Literatura),
B. Jukovski e M. Lermontov (poesia)17.
Esta elite não era expressão de um processo de
massificação da educação e da cultura, mas também
não se poderia imaginá-la como emanando do vácuo.
Na verdade, uma crescente efervescência intelectual,
expressa no florescimento de revistas e jornais18, agita-
va a sociedade, desembocando na chamada “década
notável” dos anos 40 do século XIX19. Um de seus cen-
tros principais foram as universidades que, a despeito
das restrições e da censura, mantiveram-se e se desen-
volveram como núcleos de formulação e de debates.
Neste ambiente, minimamente propício à crítica, com-
binavam-se filhos da alta e da pequena nobreza e —
fato novo — filhos de classes e setores sociais plebeus
(os raznachintsi), produzindo combinações inéditas, po-
tencialmente explosivas.
Ao lado do coro da Autocracia, reunindo a maioria
de sempre, formada por toda a classe de adesistas, e do
pessimismo negativista de um Tchadaiev, profundamen-
te descrente das possibilidades da Rússia e dos rus-
sos20, aparecia uma geração crítica, formando círculos
intelectuais, formada por eles, e onde se sobressaía,
estimulando, criticando e incentivando a notável figura
do crítico V. Belinsky21.
Quando ingressou na Universidade, em Moscou, em
1829, Herzen viveria os primeiros eflúvios desta atmos-
fera, tornando-se rapidamente um de seus protagonis-
tas.
Por se destacar, com suas características de crítico e
de rebelde, e depois de receber admoestações e uma
pena de prisão na própria universidade22, Herzen foi

56
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

novamente preso, desta vez pela polícia política, por


ordem do governador geral de Moscou.
A polícia invadindo seu domicílio, bisbilhotando e
revirando papéis, vasculhando, o arbítrio no detalhe,
traduzido em pequenos, assustadores e banais gestos e
ordens, destinados a intimidar e a assustar, a
apequenar, mas que, no caso, só fariam crescer a indig-
nação e a revolta23.
Herzen permaneceu nas grades entre julho de 1834
e abril de 1835. Processado, acusado de “ofender Sua
Majestade”, considerado “nocivo e absolutamente
irrecuperável” pelo promotor, foi condenado, por perío-
do indeterminado, ao exílio interno, onde serviria como
funcionário sob controle das autoridades locais24.
Cinco anos durou este exílio. Três passados na lon-
gínqua e áspera Viatka, a meio caminho dos Urais, e
mais dois, na mais amena e próxima Vladimir.
Nele Herzen amadureceu algumas escolhas e orienta-
ções. A idéia de que a Rússia tinha uma “missão”, a de
civilizar a Ásia, enlaçando-a com a Europa, a de que a
Rússia dispunha de um grande trunfo, a juventude, o
que a predisporia favoravelmente em relação ao futuro.
Assim, embora o país só proporcionasse “tormentos” às
generosas aspirações de sua população, não estava gra-
vado, como as velhas e cansadas nações européias, por
tradições pesadas e incontornáveis. O ter feito muito
pouco na história universal aparecia como uma virtude
do ponto de vista dos enfrentamentos dos desafios co-
locados pelo futuro25.
Mas não apenas a política povoou os pensamentos e
as emoções de Herzen. No exílio, através de intensa cor-
respondência, amadureceram as relações amorosas com
Natália, uma prima cinco anos mais moça, também bas-
tarda, e que se tornaria amiga e confidente. Ele, expan-

57
3
2003

sivo, com variados interesses intelectuais, cultivando


ambições políticas. Ela, introspectiva, a própria
encarnação de um fervoroso amor, quase religioso. O
machismo tradicional em estado puro, sem reservas e
culpas, marcaria as relações afetivas entre os dois, con-
duzindo ao “rapto” de Natália e ao casamento, realizado
em maio de 183826.
Herzen tinha então 26 anos, Natália, 21. Viveriam
uma fase de amor autoencapsulado, a primeira gravi-
dez, o primeiro filho27, a felicidade sem limites, tipica-
mente romântica, a vida imitando a arte.
Em 2 de março de 1840, finalmente, este mundo a
dois se desfaria. Sobreveio a autorização do Tsar permi-
tindo a volta de Herzen a Moscou, o retorno aos deba-
tes, à vida mundana, ao grande mundo para o qual ele
tanto se imaginava talhado. Ao mesmo tempo, o “cora-
ção apertado”, a apreensão, o sentimento de que certas
velas estavam sendo recolhidas para nunca mais28.
Estava se iniciando a “década notável”29.
A descoberta de Hegel, a conversão “frenética” ao fi-
lósofo alemão30. Diálogo e querelas com Belinsky e
Bakunin. O mundo e os entreveros dos círculos e dos
salões. A histórica polêmica entre eslavófilos e
ocidentalistas. A efervescência delirante de uma
intelectualidade brilhante cercada pelos muros da pri-
são autocrática, o surpreendente amálgama da escravi-
dão política envolvente e da emancipação intelectual
interna31.
Já instalado em St. Petersburg, cedo Herzen se veria
novamente com a polícia política em seu encalço... e
destinado a um novo exílio, desta vez, é verdade, bem
mais suave, em Novgorod, e bem mais curto, cerca de
um ano e meio32.

58
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

De volta a Moscou, a partir de julho de 1842, ali per-


maneceria, participando dos debates e escrevendo seus
primeiros artigos, até janeiro de 1847, quando, meses
depois da morte do pai, ocorrida em maio do ano ante-
rior, e tendo herdado uma sólida fortuna, decide partir
para o exterior.
Foi um tempo importante na formação de Herzen.
Entre muitos aspectos o que o singulariza, a meu ver, é
a tentativa de síntese no grande debate que opôs
ocidentalistas e eslavófilos.
Em termos gerais, sem dúvida, Herzen era um
ocidentalista. No sentido da crítica contundente que
formulava sobre a Rússia, o sistema da servidão, o obs-
curantismo da opressão autocrática, a censura, a polí-
cia política, o atraso sufocante e asfixiante. A celebra-
ção da liberdade em todos os seus aspectos: de pensa-
mento, de expressão, de organização, também e
essencialmente o aproximaria da experiência e das tra-
dições recentes de algumas nações da Europa Ociden-
tal e faria dele um cidadão universal, cosmopolita.
Numa outra dimensão, entretanto, Herzen mantinha
vínculos profundos com seu país, cultivava grandes
expectativas e esperanças na “missão” histórica da
Rússia. Neste sentido, era, e se orgulhava de ser, um
russo. Daí a possibilidade de pontes e laços com os
eslavófilos. Não compartilhava com eles concepções re-
ligiosas, nem o ódio pelo ocidente porque via neste viéis
um ódio pela liberdade, mas prezava algumas de suas
contribuições como, por exemplo, a crítica ao capitalis-
mo individualista europeu, a valorização da comuna
agrária, organização tradicional fundada em torno dos
valores comunitários e solidários, a idéia de sobornost,
onde se combinavam uma visão orgânica, fraterna e
comunitária da sociedade e, finalmente, mas não me-

59
3
2003

nos importante, a idéia de narodnost (nacionalidade/


povo), o elogio da nacionalidade e da classe nacional,
por excelência, o campesinato, distinto da autocracia33.
Aqui se revelava o patriotismo de Herzen.
Cosmopolita ou patriota? Por paradoxal que possa
ressoar, Herzen aparecia como cosmopolita e patriota.
Ambiguidades análogas poderiam ser encontradas na
visão de Herzen sobre o povo russo e sobre a revolução
social.
De um lado, os mujiks surgem como “gentes perdi-
das, atrasadas, miseráveis, um traço na história”. A veia
ocidental. Ao mesmo tempo, no mesmo texto, a idéia de
que o futuro lhes pertence, pois sua história apenas
está começando, o que lhes confere “dois títulos à vida:
a juventude e o socialismo”34. A veia eslavófila.
A esperança e o receio de uma revolução social, o
que não o impedia, como Belinsky, e antes mesmo de
partir da Rússia, de formular e defender a idéia de
sotsialnost (socialismo).

II - anos ocidentais: o revolucionário no exílio


Com a família — Natália, três filhos35, a mãe, e res-
pectiva criadagem —, Herzen chegou a Paris em 25 de
março de 1847, sessenta longos dias depois de partir
de Moscou.
O maravilhamento e o encontro com velhos camara-
das: Bakunin, Sazonov...: “Eu estava louco de alegria!”
Em seguida, menos de seis meses depois, a decepção
com a monarquia financeira, o clima de negócios e a
corrupção, o materialismo tacanho do regime de Luís
Filipe36. E a nova partida, desta vez para Roma, onde
Herzen encontrou a efervescência revolucionária de uma

60
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

Itália balbuciante, em formação, a ante-sala de grandes


enfrentamentos vindouros, a atmosfera épica e revolu-
cionária.
A revolução de fevereiro de 1848 o surpreendeu,
acendendo nele a sensação de estar perdendo a histó-
ria, embora, desde as primeiras notícias, manifestasse
dúvidas a respeito da solidez do movimento vitorioso37.
Desde começos de maio em Paris, Herzen assistiu ao
massacre de junho e se horrorizou com ele: “Os cossacos
e os croatas são mansos como cordeiros em compara-
ção com a Guarda Nacional burguesa francesa”38.
Foi um trauma, histórico e pessoal.
A crítica contundente à burguesia contra-revolucio-
nária, acusada de representar uma emancipação pela
metade, e de encarnar um “insolente ataque ao passa-
do, combinado com o desejo de herdar os seus direi-
tos”39. O mesmo em relação às tentativas reformistas
derrotadas: “As pequenas revoluções, as pequenas re-
formas, as pequenas repúblicas são insuficientes... es-
tão todas infectadas pelo conservadorismo... são palia-
tivos nocivos; por um alívio momentâneo, fazem esque-
cer a doença”40. A perspectiva de uma superação radical
das tradições: “O Terror executava homens; nossa tare-
fa é mais fácil: estamos chamados a executar institui-
ções, a demolir crenças, a acabar com a esperança no
que é velho, a quebrar os preconceitos, a estremecer
todas as relíquias, sem concessões, sem misericórdia”41.
Não imaginava Herzen a complexidade e a enormi-
dade do que concebia como uma “tarefa mais fácil”? Ou
seria apenas uma maneira elíptica de mostrar o quão
prezava as vidas humanas e o quão difícil lhe parecia
aniquilar sequer uma delas?
Nas reflexões sobre as revoluções frustradas de 1848,
pensando nos movimentos das plebes urbanas das gran-

61
3
2003

des cidades européias, ou, talvez, tendo em considera-


ção os mujiks russos, Herzen voltaria a manifestar dú-
vidas e sentimentos ambíguos.
Em relação às massas, que despontavam como pro-
tagonistas da história, muita esperança, mas também
desconfiança, e um certo ceticismo: “As massas são in-
diferentes à liberdade e à independência individual e
desconfiam do talento; elas desejam um governo que
exerça o poder em benefício delas e não... contra elas.
Mas governarem-se a si mesmas não lhes entra na ca-
beça”. E ainda: “O comunismo varrerá o mundo como
uma violenta tempestade — pavorosa, sangrenta, in-
justa, veloz...”42.
A responsabilidade, no entanto, seria menos delas e
mais das elites dominantes, acusadas de manter insti-
tuições que nada traziam às massas, senão “lágrimas,
penúria, ignorância e humilhação”43.
O grande desafio seria estabelecer uma ponte entre
as elites esclarecidas e as grandes massas do povo. O
problema era como fazê-lo, uma vez que aquelas se en-
contravam fechadas em sua própria esfera44?
A derrota das revoluções combinar-se-ia com trági-
cas perdas pessoais: as aventuras extraconjugais de
Natália, transformadas em escândalo mundano45; a per-
da da nacionalidade russa, decretada em 1850 e a luta
para impedir o confisco da fortuna pessoal; a morte num
naufrágio acidental da mãe (Luisa Haag) e do pequeno
filho surdo-mudo (Nicolau/Kolia); finalmente, a morte
da própria Natália, em 25 de agosto de 1852, vítima de
pneumonia...
Insucesso político, tormentos pessoais. Abalado por
eles, Herzen e o que restava da família arribaram na
Inglaterra em 25 de agosto de 1852. Um novo exílio: um
exílio dentro do exílio.

62
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

Com quarenta anos, um novo recomeço?


Para este homem, de vontade inabalável, um novo
ciclo, ascensional, em direção ao auge da celebridade e
do prestígio, antes que o alcançassem, na última etapa
da vida, o declínio e a rejeição dos contemporâneos.
Entre 1852 e 1861, quando, após longa preparação,
por um decreto do Tsar, foi abolida a servidão na Rússia,
desdobrou-se o período mais ativo, criativo e brilhante
de Herzen.
Residindo numa das duas maiores metrópoles do
mundo de então, transformado em grande agitador po-
lítico e cultural, relacionado com as elites revolucioná-
rias e exiladas de sua época, dispondo de completa li-
berdade para articular e publicar suas idéias, e de ri-
queza suficiente para viabilizar os projetos que
formulava, Alexandre Herzen alcançou a maturidade
num lugar e numa conjuntura extraordinariamente pro-
pícios a sua aventura intelectual e revolucionária.
Na Rússia, a Guerra da Criméia (1853-1856) e a ter-
rível derrota da Rússia evidenciaram o anacronismo do
regime da servidão. As múltiplas crises que precede-
ram, acompanharam e sucederam à guerra, impunham
reformas urgentes, consideradas agora inadiáveis. A
morte do Tsar Nicolau I, em 1855, removendo o auto-
crata reacionário, par excellence, criara condições favo-
ráveis, no topo do poder, à implementação de mudan-
ças, às quais o novo Tsar, Alexandre II, cedo se mani-
festaria sensível.
Com efeito, em sua primeira fala do Trono, depois do
anúncio oficial do fim da guerra, em março de 1856, o
Tsar diria sem delongas: “Mais vale fazer as reformas
pelo alto antes que venham por baixo”46.

63
3
2003

Seguiu-se intensa discussão na sociedade, com mar-


gens apreciáveis de liberdade, considerando-se as tra-
dições russas.
Por baixo, na expressão empregada pelo Tsar, a pres-
são aumentava de forma crescente: relatórios da sinis-
tra Terceira Seção47 registraram 550 revoltas campone-
sas entre 1800 e 1861. Mais tarde, especialistas traba-
lhando com arquivos locais, computaram 1467 rebeliões,
crescentes em intensidade, gerando mais perdas mate-
riais e humanas e necessitando mais tropas para matá-
las: 281 (19%), entre 1801 e 1825; 712 (49%), entre
1826 e 1854; 474 (32%), entre 1854 e 186048. Além das
revoltas, desordens e fugas, em massa, para as livres
regiões da vasta Sibéria.
Entre as elites, sucediam-se os projetos: da nobreza
lituana; do Professor Kavelin, divulgado pelo Contempo-
râneo; de N. Miliutin, apresentado pela grã-duquesa
Helena Pavlovna ao Tsar; do próprio irmão do Tsar,
Constantino; de Nazimov, governador geral de Vilna.
Em janeiro de 1857, um comitê secreto foi constituí-
do para debater os projetos de Kavelin49 e de Miliutin50.
Em fins deste mesmo ano, o Tsar determinou que a no-
breza lituana discutisse e preparasse um projeto de
emancipação atribuindo terras aos camponeses. No ano
seguinte, um passo decisivo: constituíram-se comitês
em todas as províncias para discutir o assunto, organi-
zando-se em St. Petersburg um comitê coordenador for-
mado por nove pessoas nomeadas pelo Tsar.
Intensificava-se e acelerava-se o debate em torno de
três grandes questões: a emancipação seria feita de uma
vez ou gradualmente? Os nobres seriam, ou não, inde-
nizados? Os camponeses seriam emancipados com ou
sem terras?

64
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

Afinal, o ukase (decreto) emancipador viria em 19 de


fevereiro/03 de março de 1861, beneficiando, segundo
os autores, entre 47 e 52 milhões de servos51.
Entretanto, a perspectiva de atender a uma
pluralidade de interesses contraditórios, e o desejo de
fortalecer o Estado, resultaram numa reforma híbrida e
complexa, gerando, desde então, e até os dias de hoje,
avaliações diversas e contraditórias.
Com efeito, se emancipação houve, da servidão, nem
por isso os mujiks adquiriram a condição de cidadãos
livres, como os demais, pois permaneceram vinculados
à Comuna, submetidos à captação, à responsabilida-
des coletivas (pelas quais deveriam responder solidari-
amente), à proibição de livre deslocamento (salvo com
autorização das autoridades da Comuna), e julgados,
em eventuais querelas, conforme as normas do direito
costumeiro.
Por outro lado, e segundo as regiões, a emancipação
não foi imediata: teve um prazo variável de aplicação.
Finalmente, os camponeses eram obrigados a pagar
pelas terras que lhes foram atribuídas, em 49 presta-
ções anuais, provocando questionamentos e denúncias
a respeito da qualidade das mesmas e dos preços arbi-
trados por elas52.
Entre as elites, interesses contrariados denunciari-
am o caráter desagregador da reforma, vendo nela o tri-
unfo de um partido vermelho, encabeçado, entre outros,
pelos irmãos Dimitri e Nicolau Miliutin, responsável pelo
enfraquecimento econômico decisivo, histórico, da no-
breza russa.
A rigor, o debate historiográfico evidencia múltiplas
nuanças. Segundo alguns, a maioria dos servos, com
destaque para os vinculados ao Estado, ganhou terras
suficientes para viver, restando, porém, uma expressi-

65
3
2003

va parcela com fundadas razões para descontentamen-


to. Em algumas regiões, o deficit em relação às disposi-
ções da própria lei chegou a patamares elevados. Desi-
gualdades gritantes subsistiram, com os nobres man-
tendo o controle de extensões desproporcionais das
melhores terras, obrigando-se freqüentemente os cam-
poneses a pagar muito mais do que o valor de mercado
por terras medíocres53.
Entre os revolucionários, no entanto, estas nuanças
não impressionaram: depois de uma fase de expectati-
vas favoráveis, que antecedeu à decretação da reforma,
prevaleceu a amargura e a frustração: a reforma fora
uma farsa.
Todo este período, dos últimos anos de Nicolau I,
incluindo-se, naturalmente, as tensões e crises
provocadas pela guerra da Criméia, aos primeiros anos
de Alexandre II, até a decretação da reforma que aboliu
a servidão, em 1861, foram, como referido, os anos de
maior brilho, e glória, de Alexandre Herzen.
Em seu exílio londrino, ajudado, desde 1856, por seu
velho e querido amigo, N. Ogarev, Herzen, transbordan-
do de energia e vitalidade, estaria sempre na linha de
frente, recebendo e animando os exilados, clamando pela
abolição da servidão, fustigando o Tsar e o tsarismo,
paladino das liberdades, amigo dos oprimidos, porta-
voz de todo o tipo de denúncias, sempre contundente
na crítica ao regime russo.
Logo depois de chegar a Londres, em fevereiro de
1853, fundara a Imprensa Livre russa, uma verdadeira
editora alternativa, publicando e traduzindo autores
russos e estrangeiros, contrabandeando os textos para
dentro do território russo.
Mas seria com uma revista: a Estrela Polar (Poliarnaia
zvezda), desde agosto de 1855, e, sobretudo, com um

66
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

jornal, a partir de julho de 1857, o Sino (Kolokol), que


Herzen atingiria o ponto culminante.
Tentando combinar referências do socialismo
libertário e do reformismo liberal, Herzen imaginou, em
certo momento, que uma síntese poderia ser construída
a partir do reformismo pelo alto de Alexandre II, reunin-
do, em torno de objetivos comuns, um amplo espectro,
dos nobres liberais, passando pelos intelectocratas re-
formistas54 aos revolucionários socialistas.
Estas expectativas frustraram-se.
O próprio Herzen, depois de um momento de eufo-
ria, quando vieram as primeiras notícias a respeito do
ukase emancipador, foi tomado pelo sentimento de de-
cepção e de amargura.
A reforma não correspondera a suas expectativas,
muito menos às das alas mais radicais, lideradas por N.
Tchernichevsky que, já antes de fevereiro de 1861, a via
com descrença crescente e que apenas tiveram confir-
madas suas convicções com a leitura do decreto tsarista.
Outras reformas ainda viriam nos anos vindouros:
nas administrações locais (1864 e 1870), na estrutura
judiciária (1864), na educação (anos 60 e 70), nas fi-
nanças públicas (1866), nas forças armadas (1874).
Apesar de sua importância histórica, já não acenderam
as imaginações, nem despertaram as paixões dos con-
temporâneos, nem muito menos reverteram as expec-
tativas construídas no período anterior à abolição da
servidão e agora frustradas.
Desencadeara-se uma reação anti-liberal no plano
maior da sociedade: retorno da censura estrita e estrei-
ta, perseguição de oposicionistas e críticos, simboliza-
da pelo fechamento do Contemporâneo (Sovremenik) e
pela prisão de N. Tchernichevsky, demissão do princi-

67
3
2003

pal líder do partido vermelho, inspirador da grande re-


forma, N. Miliutin.
Movimento pendular do Tsar, tentando recuperar
bases políticas perdidas na nobreza insatisfeita? Mera
compensação à reação e ao movimento contra-reformis-
tas?
O fato é que mudara a atmosfera política.
Os revolucionários, desiludidos e amargurados, pas-
sariam à ofensiva. Novas formulações, radicais, se defi-
niam. Novas figuras se consolidavam como referências,
outros símbolos, como o representado por
Tchernichevsky, solitário, ascético, “puro e duro” em
sua prisão perpétua. A idéia do enfrentamento violen-
to, armado, amadurecia.
Herzen sentiu o chão escapar.
As novas gerações55, como previra Turguenev em seu
clássico romance Pais e filhos, recusavam suas orienta-
ções e conselhos. Escarneciam-no. Consideravam-no
velho, anacrônico. Superado.
Em 1863, um novo choque. A insurreição polonesa,
esmagada com a tradicional brutalidade, estimulou uma
onda nacionalista na Rússia. Os revolucionários encon-
trariam no episódio argumentos suplementares para
atitudes e práticas radicais. Herzen, como sempre, ao
lado da Polônia livre, sem conseguir recuperar influên-
cia entre os jovens, perderia apoios agora entre os naci-
onalistas da tradição eslavófila, acentuando a sensação
de isolamento.
Ainda tentou uma última cartada, transferindo-se
com a revista e o jornal, para Genebra, em 1865. O es-
boço de uma reaproximação com os exilados russos,
então cada vez mais concentrados nas cidades suiças.

68
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

Não obteve resultados tangíveis. E parecia, cada vez


mais, falando num deserto. Um primeiro atentado ao
Tsar (Karakosov, 1866), embora fracassado, acentuou a
radicalização dos espíritos, aprofundando o isolamento
político de Herzen.
Por escassez de leitores, o Sino e a Estrela Polar dei-
xaram de ser publicados, em 1868 e 1869. A grande
voz, à míngua de audiência.
Quase silenciado, Alexandre Herzen morreu em 1870,
às vésperas da guerra franco-prussiana e da Comuna
de Paris. Ainda materialmente muito rico, mas já sem
fortuna, conservou, porém, arraigadas, as grandes refe-
rências que haviam guiado e orientado sua vida, pelas
quais havia jurado nas colinas de Moscou e às quais se
mantivera fiel através do tempo. Morreu convencido de
que haveriam de prevalecer e de que ele, Herzen, seria,
então, e para além do tempo imediato, reconhecido por
ter sabido guardar fidelidade a valores universais.
O respeito pela dignidade humana. A luta intransi-
gente contra a tirania. A defesa do indivíduo e a cele-
bração de seus direitos de escolha. A liberdade. E o so-
cialismo com liberdade.
Desafios, ainda de pé, neste limiar do século XXI.

Notas
1
Este artigo, preparado para a reunião da ANPUH do Rio de Janeiro, realizada
entre 14 e 18 de outubro de 2002, na Universidade do Estado do Rio de Janei-
ro/UERJ, apresenta resultados parciais da pesquisa: Intelectuais, política e poder,
desenvolvida sob os auspícios de bolsa do CNPq.
2
Então, em virtude da defasagem de calendários, havia uma diferença de 12
dias entre o calendário Juliano, ao qual se mantinham fiéis os russos, e o calen-
dário Gregoriano, adotado na Europa Ocidental.

69
3
2003

3
Dos 600 mil invasores, apenas entre 30 a 50 mil conseguiram cruzar a frontei-
ra do Império tsarista no caminho de volta.
4
Em 1736, fora dado um primeiro golpe no serviço obrigatório, com a redu-
ção do mesmo a um período de 25 anos. Cf. Riasanovsky. A parting of ways.
Government and the educated public in Russia, 1801-1855. Oxford, Oxford at the
Clarendon Press, 1976.
5
Riassanovsky, op. cit., pp. 275 e seguintes.
6
Uma das mais ilustres personalidades desta primeira geração foi Alexandre
Radichtchev, autor de um livro clássico de crítica social: Viagem de St. Petersbourg
a Moscou, um libelo contra a servidão, que lhe valeria a prisão e a condenação à
morte, depois comutada em pena de exílio. Cf. D. A. Reis Filho, “Intelectuais e
política nas fronteiras entre reforma e revolução” in Daniel Aarão Reis Filho
(org.) Intelectuais, história e política, Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000, pp. 11-34.
7
Alexandre Herzen. Passé et Méditations (Byloié i Dumy). L’Age d’Homme. Volumes
I-IV, 1974, volume 1, 1974-1981, Genebra, p. 116.
8
Idem, pp. 74 e seguintes.
9
Não sem amargura, Herzen refere-se ao choque da “descoberta”de suas
origens em sua clássica autobiografia: Byloie i Dumy (Passado e Meditações).
Alexandre Herzen, ibidem, vol. 1, pp. 59- 60.
10
Depois de saber de sua falsa posição (a expressão é dele mesmo), Herzen
confidenciou: “Eu me senti livre em relação a uma sociedade que não
conhecia…entregue a minhas próprias forças…com uma presunção um tanto
infantil, eu me dizia que ainda mostraria quem eu era”. Alexandre Herzen,
ibidem, volume 1, p. 60.
11
À morte de Alexandre I, o sucessor legítimo era Constantino, segundo filho
do imperador Paulo I, já que Alexandre não teve descendência. Mas ele há
muito renunciara ao trono, embora secretamente. Até que isto fosse devida-
mente esclarecido, houve um hiato no poder supremo, do qual se aproveitari-
am os decembristas para empreender sua revolta.
12
O estudo é feito por M. Miakotin, vol. 2, cap. XV, pp 717-733, P.N. Miliukov
(org.) Histoire de Russie. Paris, Librairie Ernest Leroux, 1932.
13
A descrição detalhada do episódio, extremamente romântico, que marcou
para sempre os dois amigos, encontra-se em Alexandre Herzen, op. cit., volu-
me 1, 1974, p. 109.
14
Alexandre Herzen, 1853, p. 96.
15
Conde Serge Semionovitch Uvarov (1786-1855), alto funcionário, presiden-
te da Academia de Ciências, ministro da Instrução Pública de 1836 a 1849.
Nacionalista extremado, é dele a famosa divisa: Autocracia, Ortodoxia, Nacio-
nalidade.

70
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

16
N. V. Riassanovsky, op. cit., p. 370.
17
N. V. Riassanovsky, op. cit., pp. 375 e seguintes.
18
Entre outros, o Telégrafo de Moscou, O Mensageiro de Moscou, O Mensa-
geiro da Europa, O Telescópio, O Europeu, todos fundados entre 1825 e 1832,
por intelectuais e/ou professores universitários in M. Malia, 1975, p. 60.
19
I. Berlin, 1988, dedica vários ensaios, sob este título, à análise das correntes
intelectuais e dos debates então ocorridos na Rússia.
20
Cf. a fórmula antológica de Tchadaeiv: “Digo à Rússia: seu passado foi inútil,
seu presente é supérfluo e seu futuro é nenhum”. In Alexandre Herzen, 1853,
p. 95.
21
Cf. o excelente ensaio a respeito de Belinsky formulado por I. Berlin, op. cit.,
pp. 158-191.
22
Herzen e mais cinco colegas foram acusados de liderar uma monumental
vaia ao Professor Malov, detestado por suas maneiras rudes e por sua ignorân-
cia. A vaia, iniciada no anfiteatro, interrompeu a aula e “acompanhou”o profes-
sor até o portão da universidade. A punição, decretada pelo Conselho Superior
da Universidade, consistiu em detenção, na cave da Universidade, a pão e água,
por alguns dias. Na prática, os estudantes driblavam a vigilância e organizavam
grandes tertúlias, regadas a vinho, dormindo de dia. Cf. Alexandre Herzen, vol.
1, pp. 152 e seguintes.
23
A. Herzen, 1974, vol. 1, p. 215 e seguintes.
24
Op. cit., pp. 249 e 251.
25
Alexandre Herzen, 1853, pp. 95-96.
26
Cf. E.H.Carr, 1968, p. 21. Herzen desloca-se ilegalmente a Moscou e, num
episódio teatral e romântico, rapta Natália, levando-a para o seu novo lugar de
exílio — Vladimir — para onde fora recentemente transferido, e onde se efe-
tuaria finalmente o casamento.
27
Alexandre (Sacha), nasceu em 13 de junho de 1839.
28
Alexandre Herzen, 1974, volume 2, pp. 13 e seguintes.
29
Cf. nota 14.
30
“A filosofia de Hegel é a álgebra da revolução; ela liberta extraordinariamen-
te o homem e não deixa pedra sobre pedra do universo cristão, do universo das
tradições remanescentes”. Alexandre Herzen, 1974, volume 2, p. 28.
31
Cf. N.V. Riasanovsky, 1994, pp. 390 e seguintes. Da situação, A. Herzen diria:
“Nós estamos muito habituados a nos distrair entre as paredes de uma
prisão”.Cf. A. Herzen, 1853, p. 95.
32
A descrição detalhada do episódio está narrada pelo próprio Hezen, cf. op.
cit., volume 2, pp. 70 e seguintes.

71
3
2003

33
Cf. Martin Malia, 1975, capítulo XII e esta interessante “confissão”de Herzen
sobre suas relações com os eslavófilos: “Nós tínhamos o mesmo amor, mas
não amávamos da mesma forma, éramos como a águia de duas cabeças, ou
Janus, olhando simultaneamente em duas direções opostas, mas, por baixo, no
corpo, o coração batia em uníssono”, idem, p. 312.
34
Alexandre Herzen, op. cit., 1853, Introdução, pp. X e XXIII.
35
Além de Sacha, o primogênito, Natália e Herzen teriam ainda três filhos na
Rússia: Ivan, nascido em fevereiro de 1841, que não sobreviveu, e mais Nicolau
(nascido surdo-mudo, em 30 de dezembro de 1843) e Natalia (Tata, nascida em
13 de dezembro de 1844).
36
Alexandre Herzen, 1974, volume 2, p. 291.
37
“Eu teria traído minhas convicções, se não tivesse retornado a Paris, onde se
instaurara a República”. Alexandre Herzen, idem, p. 293.
38
E.H. Carr, op. cit., p. 38.
39
Alexandre Herzen, 1871, p. 82.
40
Idem, p. 107.
41
Idem, p. 123.
42
I. Berlin, op. cit., p. 203.
43
Idem, pp. 203-204.
44
“No presente, como no passado, vejo o saber, a verdade, a força moral, a
aspiração à independência, o amor da estética - tudo isto num pequeno punha-
do de homens que são antipáticos à maioria, que não simpatizam com ela,
fechados em sua própria esfera”. Alexandre Herzen, 1871, p. 150.
45
E.H.Carr, op. cit. principalmente os capítulos 3 e 4; e o relato do próprio
Herzen, 1974, volume 3, pp. 109-207.
46
Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit., pp. 401-402.
47
A Terceira Seção da Chancelaria Particular de Sua Majestade, polícia secreta,
política, instituída por Nicolau I, verdadeiro ministério, subordinada direta-
mente ao autocrata. Seria suprimida nos anos 80, substituída pela não menos
temível Okhrana, abolida em 1917 para dar lugar às não menos eficientes e
assustadoras polícias políticas do regime soviético. Uma tradição.
48
Observar a multiplicação das revoltas na conjuntura que antecede imediata-
mente à abolição da servidão, uma vez que as primeiras cifras referem-se a
períodos de 25 anos ou mais, enquanto a última cifra refere-se a um período de
apenas 6 anos. Cf. N.V. Riasanovsky, op. cit. p. 400.
49
Constantino Dmitrievitch Kavelin (1818-1885), historiador e jurista, publicista
liberal. Professor da Universidade de Moscou desde 1844.

72
verve
Revolução e liberdade: a trajetória de Alexandre Herzen

50
Nicolau A. Miliutin, funcionário do Estado tsarista, considerado pelos con-
servadores líder do partido reformista.
51
N.V. Riasanovsky, op. cit., pp. 400 e seguintes. e M. Mirkin-Guetzevitch in
P.M. Miliukov, 1932, tomo III, capítulo XVII, pp. 829-885.
52
Os pagamentos foram feitos ao Estado, já que as terras atribuídas aos mujiks,
embora propriedade dos nobres, estavam hipotecadas por dívidas colossais.
Assim, a nobreza perdeu terras, mas quem recebeu por elas foi o Estado.
53
Khodsky calculou que 13% dos servos foram bem aquinhoados; 45% ganha-
ram o suficiente para viver, mas em 42% dos casos os lotes atribuídos teriam
sido insuficientes. A questão dos pagamentos também seria enfatizada: quan-
do, em 1905, suspendeu-se o pagamento das anuidades, os mujiks já haviam
pago 1,5 bilhão de rublos por terras avaliadas em 1 bilhão de rublos…cf. N.V.
Riasanovsky, op. cit., pp. 400 e seguintes.
54
Chamo assim os funcionários do Estado empenhados no processo de refor-
mas pelo alto. Entre muitos outros, destacaram-se os irmãos Miliutin. Cf. Daniel
Aarão Reis Filho, 2000. A trajetória de Herzen no exílio londrino está particu-
larmente bem narrada pelo própiro Herzen em sua obra clássica, 1974, volume
IV, sétima parte, pp. 255-388. Cf. igualmente, a obra de F. Venturi, 1972, pp.
103-158.
55
Emprego o termo “geração” no sentido construído por J. F. Sirinelli, ou seja,
um grupo de pessoas menos referido a marcos cronológicos do que a determi-
nados períodos/acontecimentos decisivos, que estruturam e nucleiam sua me-
mória. Assim, Herzen seria um filho da geração dos decembristas, ou da déca-
da notável (anos 40), enquanto os filhos — radicais — seriam nucleados pela
frustração da reforma de 1861. Cf. J. F. Sirinelli, 1986.

73
3
2003

RESUMO

Histórias transbordam na vida de Alexandre Herzem: Rússia,


no século XIX, é o lugar dos confrontos políticos entre as inven-
ções de liberdade que buscam expandir espaços e as práticas
autoritárias que querem conservar silêncios, consentimentos e
privilégios; é, também, o momento de paixões, de camarada-
gem, de sonhos, de lutas, de decepções, de exílios, de mortes.
São espaços e momentos de paixões libertárias, mais que polí-
ticas, vivas.

ABSTRACT

Histórias transbordam na vida de Alexandre Herzem: Rússia,


no século XIX, é o lugar dos confrontos políticos entre as inven-
ções de liberdade que buscam expandir espaços e as práticas
autoritárias que querem conservar silêncios, consentimentos e
privilégios; é, também, o momento de paixões, de camarada-
gem, de sonhos, de lutas, de decepções, de exílios, de mortes.
São espaços e momentos de paixões libertárias, mais que polí-
ticas, vivas.

74
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

o espírito das leis: anarquismo e repressão


política no Brasil

christina roquette lopreato*

A vinda de estrangeiros para o Brasil foi estimulada


pela política de imigração subsidiada, colocada em prá-
tica por autoridades governamentais em fins do século
XIX. Depois de mais de três séculos de exploração do
trabalho escravo, o sistema escravista dava sinais de
esgotamento e a abolição tornou-se inevitável. O fluxo
imigratório foi estimulado pelo oferecimento gratuito de
transporte para a família de trabalhadores europeus1
com o objetivo primordial de suprir a demanda de mão-
de-obra nas lavouras, principalmente de café.
Atraídos pelas promessas de um melhor viver em
terras brasileiras feitas por recrutadores de mão-de-obra
européia no exterior, milhares de italianos, espanhóis,
portugueses, entre outras nacionalidades, em sua mai-
oria provenientes da zona rural, deixaram suas terras e
atravessaram o Atlântico em busca de uma vida pro-
missora no Brasil. O sonho acalentado pelos imigran-
tes de “fazer a América”, de acumular pecúlio e voltar

* Professora no Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia.

verve, 3: 75-91, 2003

75
3
2003

aos seus países de origem, em pouco tempo foi se tor-


nando um pesadelo. O ethos escravista ainda persistia
entre os fazendeiros e o tratamento dispensado ao tra-
balhador livre e assalariado era aviltante. Submetidos a
um trabalho exaustivo e a precárias condições de tra-
balho, parcela considerável dos imigrantes rebelou-se
contra o patronato agrícola. Muitos retornaram aos seus
países de origem, desiludidos. Outros deslocaram-se
para as cidades e ingressaram na incipiente atividade
industrial, constituindo a primeira geração de operári-
os fabris.
Se por um lado, o fluxo da corrente imigratória trou-
xe alívio para os fazendeiros que conseguiram manter
baixo os custos com a mão-de-obra, por outro trouxe
preocupação às autoridades que consideraram hóspe-
des “perigosos” e “indesejáveis” os imigrantes que não
se enquadravam no ideário de ordem e progresso que
marcou a primeira fase do período republicano no Bra-
sil (1889-1930). “Indesejáveis” eram os estrangeiros que
por “palavras ou ações voltavam-se contra a ordem po-
lítica, econômica, moral e social existentes, considera-
dos nocivos à sociedade e perigosos à segurança públi-
ca”2. Entre eles, destacavam-se os anarquistas estran-
geiros.
O registro da presença anarquista em São Paulo e no
Rio de Janeiro data de 1893. Nesse ano, o jornal Correio
Paulistano — órgão oficial do Partido Republicano
Paulista (PRP) — publicou nos meses de julho e agosto
uma série de quatro reportagens intitulada Imigrantes
Anarquistas. As matérias jornalísticas tinham como ob-
jetivo informar o público e alertar as autoridades para a
presença desses indivíduos por elas considerados “che-
fes e partidários dessa terrível seita destruidora... que
têm buscado penetrar nesta grande e hospitaleira terra
que se chama o Estado de São Paulo, usufruindo as

76
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

vantagens que os nossos cofres públicos lhes dão, tais


como o transporte gratuito das suas pessoas e baga-
gens e o seu primeiro estabelecimento na capital, até
que lhes apareçam as ambicionadas colocações, para
no fim de contas virem aqui implantar a desordem e
uma luta fraticida, incompatíveis com a abundância e a
excelência dos nossos recursos de vida”3.
Não é por acaso que o primeiro registro policial so-
bre a atuação dos libertários em solo paulistano tam-
bém date de 1893, quando foram presas vinte pessoas
rotuladas de anarquistas e outras dez identificadas como
“anarquistas e socialistas” foram fotografadas na Re-
partição da Polícia Central. No ano seguinte, como afir-
ma Guido Fonseca, o chefe de polícia de São Paulo,
Theodoro Dias Carvalho Jr, registrava em seu relatório
que o fato mais importante relativo à segurança pública
em 1894 foram as medidas tomadas contra “essa peri-
gosa classe de indivíduos... que celebravam conferênci-
as públicas que visavam o desenvolvimento da tene-
brosa doutrina na sociedade paulista obrigando-o a vi-
giar e a observar os indivíduos denunciados como
adeptos extremados da perigosa seita e em momento
oportuno apreende-los em seus planos e frustrar de
pronto a realização dos seus sinistros intentos”4.
No Rio de Janeiro, o chefe de polícia do Distrito Fe-
deral anunciava, no seu relatório relativo ao ano de 1893,
a prisão de anarquistas estrangeiros e a apreensão de
jornais anarquistas e dos estatutos de uma associação
que estava se constituindo no bairro da Gávea “cujos
primeiros artigos eram verdadeiros gritos contra o capi-
tal e diziam que o operário, não sendo uma máquina,
era necessário por todos os meios até pela destruição,
emancipar-se, visto que o trabalho é para todos e o seu
fruto é pra quem produz”5.

77
3
2003

Como bem observa Lená Menezes em seu estudo


sobre “os indesejáveis”, “embora o ideário anarquista
não comportasse princípios que, em tese, constituís-
sem delitos, os anarquistas, transformados em indiví-
duos anti-sociais, tenderam a ser vistos como os crimi-
nosos mais perigosos da virada do século”6. Assim como
em vários outros países, o anarquismo foi inscrito na
história brasileira pelas lentes da polícia.

A incriminação do anarquismo
O anarquismo, considerado pelas classes conserva-
doras brasileiras como uma doutrina originária da Eu-
ropa, própria dos países desenvolvidos que enfrenta-
vam a luta de classes, era visto como uma “planta exó-
tica” que não encontraria solo fértil para germinar no
Brasil, mesmo porque as relações que aqui se estabele-
ciam entre o capital e o trabalho eram tidas como “har-
mônicas”. No entanto, o anarquismo deitou raízes em
terras brasileiras e floresceu revelando ser uma força
política ativa, capaz de fazer adeptos e de mobilizar tra-
balhadores em movimentos de protesto que tomaram
conta do cenário político-social durante as primeiras
décadas dos novecentos.
A influência das idéias anarquistas no nascente
mundo operário brasileiro foi marcante. Os militantes,
em sua maioria estrangeiros7, introduziram uma nova
leitura do universo social brasileiro desnudando a rela-
ção tensa e conflituosa existente entre o capital e o tra-
balho conquistando a ira das elites e a mira da repres-
são. A ressonância da estratégia política anarquista de
ação direta8 junto ao operariado despertou a solidarie-
dade entre os trabalhadores assustando as autorida-
des. Movimentos de protesto contra a carestia de vida,
contra as precárias condições de moradia, contra a ex-

78
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

ploração do trabalho, em especial das mulheres e das


crianças, organizados e orientados pelos libertários, fo-
ram se tornando mais freqüentes a partir da virada do
século XX. As reivindicações operárias ganharam as
ruas, ultrapassando os muros do espaço privado das
fábricas. Greves e passeatas foram se incorporando ao
cotidiano das principais cidades do país agitando o ce-
nário social brasileiro.
A repressão não se fez esperar e voltou-se,
prioritariamente, contra os chamados “hóspedes inde-
sejáveis” considerados pelas autoridades elementos
nocivos ao país pelo poder demonstrado em provocar
agitações colocando em xeque a ordem pública, um dos
pilares do regime republicano. Em 1893, quando da di-
vulgação das primeiras notícias sobre a presença anar-
quista no Brasil, medidas repressivas foram tomadas
contra o “delito de anarquismo” atingindo, em especial,
os militantes estrangeiros.
O decreto presidencial nº 1.566 de 13 de outubro
de 1893 regulamentou “a entrada de estrangeiros ao
território nacional e sua expulsão durante o estado de
sítio”. Duramente criticado pelos opositores do presi-
dente Floriano Peixoto que consideraram o decreto como
“entronização do arbítrio”, foi revogado dois meses de-
pois. Apesar da vida curta, o decreto instituiu a idéia
de que a expulsão se funda no direito da soberania na-
cional, ou seja, “que é inerente à soberania nacional o
direito de não permitir no território em que se exerce a
permanência de estrangeiros cuja presença se demons-
tre perigosa à ordem e à segurança públicas, e que este
inconcusso princípio tem sido mais de uma vez consa-
grado pelos mais elevados tribunais da República”9.
Um novo projeto de expulsão de estrangeiros do ter-
ritório nacional tramitou na Câmara dos Deputados em

79
3
2003

1902, mas encontrou resistência no Senado e ficou es-


quecido nos porões do Congresso Nacional até 1906,
quando a eclosão de movimentos grevistas no eixo Rio-
São Paulo despertou, novamente, o interesse dos con-
gressistas pelo assunto10. Ao final do ano, o direito de
expulsão de estrangeiros do país foi recolocado na pauta
de discussão do Senado, retomando-se as emendas ao
projeto de lei da Câmara dos Deputados nº 317 de 1902
que dispunha sobre o assunto. Embora o direito de ex-
pulsão fosse reconhecido como imanente da soberania
da Nação, parlamentares e juristas acreditavam ser ne-
cessário condicionar seu exercício à lei que a regulas-
se. Depois de acalorados debates sobre a
constitucionalidade ou não do projeto de lei apresenta-
do pelo deputado da bancada paulista, Adolpho Gordo,
entrou em vigor, em 8 de Janeiro de 1907, o Decreto-
Lei de 1641, que ficou conhecida como “Lei Adolpho
Gordo”.
Neste texto, objetivamos tecer algumas considera-
ções sobre a repressão ao anarquismo no Brasil, com
ênfase na lei de expulsão de estrangeiros. Procuramos
mostrar que a sua promulgação, ao tornar visível o
incômodo que as idéias e as práticas anarquistas repre-
sentavam para as autoridades governamentais, é
reveladora do anarquismo enquanto força política ati-
va no cenário brasileiro do início dos novecentos.
Na lei de 1907, consta, já no seu primeiro artigo, a
definição de quem era “hóspede indesejável” passível
de expulsão: “o estrangeiro que, por qualquer motivo,
comprometer a segurança nacional ou a tranqüilidade
pública pode ser expulso de parte ou de todo o territó-
rio nacional”. Apesar da prática da vagabundagem, da
mendicidade e do lenocínio serem causas bastantes para
a expulsão conforme o artigo 2º da lei, é possível afir-
mar que o alvo privilegiado da lei foi eliminar do cenário

80
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

político-social brasileiro os militantes anarquistas e


socialistas estrangeiros considerados nocivos e perni-
ciosos ao país porque incomodavam industriais e auto-
ridades constituídas com sua bandeira de luta, que co-
locava em xeque o regime de exploração a que estavam
submetidos os trabalhadores.
Entre as medidas colocadas em prática para vigiar e
controlar a ação dos militantes estrangeiros, a “Lei
Adolpho Gordo” revelou ser o instrumento mais eficaz
por estar ancorada na tese de que o anarquismo no Brasil
foi obra de estrangeiros, “aves de arribação” que aqui
aportaram para disseminar a discórdia e a desarmonia
social. A lei era vista como a intervenção cirúrgica ne-
cessária para combater o vírus corrosivo do anarquismo.
Em seus comentários sobre o fundamento jurídico e
aplicação prática da lei, feitos logo após a sua promul-
gação, o professor da Faculdade de Direito do Rio de
Janeiro, Francisco de Paula Lacerda Almeida afirmou:
“... o Estado que defende a saúde pública contra a inva-
são da peste estabelecendo cordões sanitários e punin-
do de morte as vezes a quem os rompe, pode com igual
direito velar pela sorte da imigração e fechar suas por-
tas e fronteiras ao estrangeiro pernicioso à ordem pú-
blica como o anarchista, à moralidade como o cáften, à
segurança particular como o condenado ou indiciado
em crime comum11”. Em tom interrogativo, procurou ex-
plorar o significado da expressão “comprometer a segu-
rança nacional” no artigo 1º da lei: “... pois o Estado há
de cruzar os braços à inoculação de idéias subversivas
de toda a ordem moral ou social com práticas imorais
ou objetos de fetichismo, sacrifícios humanos, poliga-
mia ou comunhão de mulheres, ou anarquismo com
juramentos, conciliábulos e incitações para o extermí-
nio de todos os chefes de Estado, destruição da coisas
públicas, pilhagens das riquezas particulares e suble-

81
3
2003

vação das classes menos instruídas e por isso mais fá-


ceis de seduzir, mais acessíveis à ação do embuste e da
exploração política”12? E concluiu: “todas as nações que
ainda não perderam o juízo nem sacrificam a realidade
das coisas à sonoridade das frases de jornalistas ves-
gos ou às interpretações bisantinas de juristas míopes,
estão de acordo na guerra de extermínio ao anarquismo
e entendem a liberdade de consciência como ela deve
ser entendida”13.
Na linguagem médica, tão comumente usada no iní-
cio do século XX vinculando o social ao biológico, o in-
divíduo anarquista configurava-se como corpo estranho,
invasor e contaminador do corpo social. A defesa da
saúde pública era, portanto, argumento precioso para
justificar a lei de expulsão. Contra o crime da “desor-
dem” pública, a lei de expulsão foi o castigo reservado
aos militantes estrangeiros. Contra eles, foi decretada
guerra de extermínio.
Poucos meses após entrar em vigor a lei de expulsão
de estrangeiros do país, o assunto voltou à baila no
Congresso Nacional. Uma vez mais, um deputado re-
presentando o estado de São Paulo retomava o assun-
to no Parlamento. O interesse demonstrado por parla-
mentares paulistas em “aprimorar a lei” pode ser expli-
cado pelos sobressaltos que as manifestações operárias
causavam às autoridades da Paulicéia. Em agosto de
1907, Altino Arantes, então deputado pela bancada
paulista, propôs a revogação do artigo 3º, que dispunha
sobre o tempo de residência mínimo no país necessá-
rio para se evitar a expulsão14. Justificou a necessida-
de de alterar o dispositivo da lei que tornava inexpulsável
o estrangeiro com mais de dois anos de residência no
país por beneficiar, segundo ele, os anarquistas, a quem
chamava de “irredutíveis revoltados que querem che-
gar à conquista de seus princípios, à posse de suas so-

82
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

nhadas reivindicações pelos expedientes mais conde-


náveis, pelos processos arbitrários e mais subversivos”.
Contra o que definia ser uma “generosidade da lei”, que
só beneficiava “hóspedes perigosos”, o parlamentar ar-
gumentava: “o esforço desse indivíduo, enquanto isola-
do, desconhecido, em país estranho, exprimindo-se di-
ficilmente, talvez, num idioma que não é o seu, seria
improfícuo e quase nulo nos primeiros tempos de sua
residência. Ele aguardaria pacientemente a ocasião
azada e momento propício para iniciar a propaganda de
sua teorias, para desenvolver a sua atividade maléfica;
ele esperaria tornar-se conhecido, angariar amizades,
estender o círculo de suas relações, adquirir influência
e prestígio; e, só depois de aparelhado com estes ele-
mentos indispensáveis, é que sairia a campo, descobri-
ria as suas baterias e encetaria a sua campanha de des-
truição e extermínio. Mas, então já não o poderia atin-
gir a mão previdente da polícia, porque teriam decorrido
dois anos ou mais após sua chegada ao Brasil, e nestas
condições ser-lhe-ia abrigo inexpugnável a exceção
libérrima da primeira parte do artigo 3º do Decreto
1.641”15.
Enquanto medida de “saneamento social”, os defen-
sores da lei “Adolpho Gordo” afirmavam que a sua efi-
cácia dependia de ajustes e não mediram esforços para
conseguir as alterações que julgavam necessárias. Em
8 de Janeiro de 1913, o Decreto lei n° 2.741 promulgou
uma nova lei de expulsão em que foram revogados não
só o artigo 3º, como também os artigos 4º e o seu pará-
grafo único, e o 8º16. Desta forma, a legislação tornou-
se ainda mais draconiana e desencadeou uma onda de
protestos no país e além-mar. A derrogação da lei que
ficou conhecida como “lei celerada” passou a ser ban-
deira de luta da Confederação Operária Brasileira (COB).
Em sua campanha de protesto, a COB fez divulgar no

83
3
2003

exterior as condições adversas a que estavam submeti-


dos os trabalhadores estrangeiros no Brasil, denunci-
ando não só o cerceamento da liberdade de expressão e
de manifestação no país, mas também as precárias con-
dições de vida e de trabalho.
Estava em curso mais uma campanha anti-
emigratória para o Brasil. Papel de destaque coube aos
que sofreram a pena de expulsão. No exterior, fizeram
não só campanha contra a emigração, mas também in-
centivaram o boicote aos produtos brasileiros. Florentino
de Carvalho, militante anarquista de origem espanho-
la, que engrossou a leva de expulsões em 1912, em
manifesto divulgado no seu país de origem, afirmou que
a lei de expulsão prejudicava também aqueles que a
defenderam: “a lei de expulsão e a deportação de mui-
tos companheiros estão sendo a ruína de muitos capi-
talistas e a desmoralização de muitos governantes. Se
os fazendeiros quiserem fazer a colheita de café terão
eles mesmos de arregaçar as mangas e substituir os
colonos”17.

Sobre a (in)constitucionalidade da lei de expulsão


A celeuma em torno da lei de expulsão, em vigor a
partir de janeiro de 1913, perdurou até o final do ano.
No mês de dezembro, o Supremo Tribunal Federal ao
deferir o pedido de habeas-corpus impetrado a favor de
José Ferro, preso para ser expulso do território nacio-
nal, julgou-a inconstitucional por ferir o artigo 72 da
Constituição que assegurava indistintamente as mes-
mas regalias para estrangeiros e brasileiros natos. Ao
suprimir da lei de 1907 três artigos, entre eles o 8º que
determinava que da expulsão decretada pelo Poder Exe-
cutivo cabia recurso ao Poder Judiciário, os ministros
do STF decretaram a sua inconstitucionalidade. De nada

84
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

valeram os argumentos dos que defendiam não só a lei


mas a sua aplicação, propugnando o princípio básico
da soberania das nações, pela qual importava a cada
uma evitar a manutenção das “células perniciosas, con-
taminando as sadias e úteis, no convívio social”.
Há que se ressaltar que a aplicação da lei de expul-
são dos estrangeiros contra os denominados agitadores
e perturbadores da ordem pública se dava, de forma
mais intensa, nos períodos em que manifestações de
protesto e de reivindicações dos trabalhadores toma-
vam as ruas das principais cidades do país. Os anos de
1907 e 1913, por exemplo, marcados pela deflagração
de greves principalmente no eixo Rio-São Paulo, re-
sultaram em processos de expulsão dos militantes anar-
quistas estrangeiros que mais se destacaram na orien-
tação dos movimentos grevistas. Em 1917, a nova onda
de greves que assolou o país também trouxe consigo
nova leva de expulsões.
No mês de Julho de 1917, a cidade de São Paulo foi
sacudida por uma greve geral que paralisou as ativida-
des industriais, comerciais, de transporte e de lazer por
três dias. Para as autoridades paulistanas, o movimen-
to teria sido pacífico e ordeiro “não fora a atitude sub-
versiva assumida pelos operários, evidentemente ins-
pirados, nesse passo, por elementos anárquicos”18. Aos
olhos do governo, os anarquistas eram vistos como um
“cancro social” que corroía os valores da harmonia so-
cial instituídos pela sociedade moderna. Era preciso,
então, extirpá-los. Cabia ao governo executar a “inter-
venção cirúrgica” e restabelecer a saúde corroída do
tecido social.
Justificada no nível do discurso, o governo do esta-
do de São Paulo partiu para a repressão efetiva. A partir
de 13 de setembro de 1917, forças policiais se espalha-

85
3
2003

ram pela cidade. Ao mesmo tempo e em lugares dife-


rentes, sem processo, sem formação de culpa e às ocul-
tas, policiais invadiram lares na calada da noite e pren-
deram vários trabalhadores considerados elementos
subversivos, conservando-os incomunicáveis. Nove mi-
litantes anarquistas considerados “hóspedes perigosos”
e “indesejáveis” foram embarcados clandestinamente no
porão do navio Curvello rumo ao degredo19.
O episódio da expulsão no ano de 1917 acalorou os
ânimos no Congresso Nacional e na imprensa do país.
Jornais de circulação nacional voltaram suas baterias
contra a decisão arbitrária do governo paulista de ex-
pulsar sumariamente os estrangeiros que tiveram par-
ticipação ativa no movimento grevista de Julho de 1917.
Na imprensa carioca, o Jornal do Brasil classificou de
“odioso” a expulsão ressaltando o ineditismo do gover-
no paulista ao inaugurar uma nova praxe de expulsão
sem as formalidades exigidas pela lei. Ao expulsar os
nove anarquistas estrangeiros, sem formalização de
culpa, impediu o direito à defesa. No Congresso Nacio-
nal, uma vez mais, a constitucionalidade da lei de ex-
pulsão foi questionada por colocar em jogo a liberdade
individual e os direitos de livre expressão, garantidos
pela Constituição do Brasil. A deportação dos militan-
tes estrangeiros provocou um debate entre os parlamen-
tares sobre o direito de expulsão. O deputado da ban-
cada carioca, Maurício de Lacerda, saiu em defesa dos
anarquistas expulsos denunciando a confusão propo-
sital que se estabeleceu entre o problema dos “indese-
jáveis” e o dos “expulsáveis”. Argumentou ser inconve-
niente e improcedente o governo lançar mão de medi-
das desta natureza “criando a ficção feudal de um delito
de opinião, qual seja, declarar crime a crença filosófica
do anarquismo”20. Já o senador Adolpho Gordo saiu em
defesa da lei que levava o seu nome, engrossando o coro

86
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

de vozes que defendia o direito de expulsão como uma


manifestação do direito de soberania nacional.
Nas palavras de Altino Arantes, presidente da pro-
víncia de São Paulo em 1917, a expulsão sumária foi
uma “medida profilática” necessária para extirpar o “in-
cômodo tumor” que andava molestando a população
brasileira e precisava desaparecer. Com ela, argumen-
tava, seria possível expelir os desordeiros que intenta-
vam “anarquizar” o país. Os que defendiam a atitude do
governante paulista justificavam a medida não só como
um direito de soberania, mas um dever do Estado, in-
cumbido de realizar a obra de “saneamento social”, de
dar cabo à “infecção social” que ameaçava contaminar
o país.
“O Caso dos Indesejáveis” levantou uma discussão
polêmica não só sobre a permanência de estrangeiros
no Brasil, mas também sobre a entrada deles no país. A
tradição brasileira de acolher imigrantes sem restrições
foi lembrada como nefasta aos interesses nacionais. Os
defensores da expulsão dos “indesejáveis” lembraram
que desde os primórdios da colonização, com a chegada
dos degredados para povoar as terras brasileiras, a en-
trada de estrangeiros no país se deu de forma
indiscriminada, o que permitiu aos anarquistas, por eles
considerados elementos deletérios, aqui aportarem atra-
vés da corrente imigratória. A guerra em curso na Eu-
ropa foi usada como justificativa para reforçar a tese da
necessidade de adoção de uma política seletiva para a
entrada de estrangeiros no país, sob pena do Brasil vi-
rar a cloaca do mundo se para cá viessem os mutilados,
os inválidos, os estropiados e os incapazes do pós-guer-
ra.
Em 6 de janeiro de 1921, o Decreto nº 4.247 regula-
mentou não só a entrada de estrangeiros no Brasil, im-

87
3
2003

pedindo o desembarque de indivíduos considerados


nocivos à saúde (doentes), à moral (prostitutas) e à eco-
nomia (velhos, mendigos e aleijados), mas também re-
gulamentou a expulsão de estrangeiros mudando para
5 anos o tempo de residência no país para o estrangeiro
se tornar inexpulsável. Poucos dias depois, o presiden-
te da República, Epitácio Pessoa, assinou, em 17 de ja-
neiro de 1921, o Decreto n° 4.269 regulando a repres-
são ao anarquismo.
Inscrito nas leis brasileiras, o anarquismo foi
doravante considerado oficialmente como crime contra
a organização social seja pela manifestação de idéias
ou por atitudes praticadas por seus adeptos, fossem eles
estrangeiros ou nacionais. No texto da lei de 1921, em
seu artigo 3º21, nota-se a preocupação do(s) legislador(es)
em incriminar qualquer tentativa de angariar a simpa-
tia de soldados à causa anarquista como o que ocorreu
no movimento insurrecional do Rio de Janeiro,
deflagrado em novembro de 1918, no qual militantes,
inspirados na experiência da Revolução Russa de 1917,
procuraram conquistar, sem sucesso, a adesão dos
soldados dos escalões inferiores ao movimento.
De igual maneira, reflexos dos acontecimentos que
marcaram as mobilizações grevistas em São Paulo, no
ano de 1919, podem ser encontrados no artigos 4º, 5º e
6º que tratam da fabricação e do uso de explosivos com
intuito de causar tumulto ou desordem. Os estilhaços
da bomba que explodiu por manuseio indevido durante
a preparação da greve paulista foram recolhidos pelas
autoridades que deles fizeram uso explosivo contra os
“indesejáveis anarquistas”.
Com o respaldo da lei, a perseguição aos anarquis-
tas tornou-se implacável. Mas, é preciso registrar que
não compartilhamos com aqueles que consideram que,

88
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

em razão da repressão a eles impingida, os anarquis-


tas, a partir da década de 20, perderam vitalidade e sa-
íram da cena pública. Apesar da emergência de novas
forças políticas, nos anos 20, que atraíram o interesse
da classe trabalhadora com propostas mais sedutoras,
porém de eficácia duvidosa, os anarquistas continua-
ram agitando o cenário social e político brasileiro.

Notas
1
Além da questão econômica de suprir a demanda de mão-de-obra nas lavou-
ras de café a baixo custo, estava em jogo, nos bastidores das discussões sobre a
opção pelo trabalhador branco-europeu, o aprimoramento da raça, apregoado
pelas teorias eugênicas que aportaram no Brasil em fins do século XIX.
2
Lená Medeiros Menezes. Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade (Protesto,
crime e expulsão na capital federal 1890-1930). Rio de Janeiro, EDUERJ, 1996, p.
91.
3
Correio Paulistano, 30 de Julho de 1893, p. 1.
4
Guido Fonseca. “O anarquismo e as origens da polícia política em São Pau-
lo”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo, vol. XCIII,
1996, p. 1.
5
Lená Menezes. Op. cit., p. 165.
6
Idem, p. 98.
7
Merece destaque a importância dos libertários estrangeiros na difusão das
idéias anarquistas no Brasil. Mas, deve-se ressaltar que muitos destes imigran-
tes que professavam o anarquismo aqui chegaram ainda jovens e aqui se fize-
ram militantes aguerridos. Por outro lado, não se pode esquecer a existência de
uma matriz brasileira do anarquismo oriunda do republicanismo de fins dos
oitocentos como é exemplar o caso de Edgard Leuenroth, reconhecido mili-
tante brasileiro pela difusão das idéias anarquistas no país.
8
A estratégia política de ação direta contrapõe-se a qualquer forma de repre-
sentação política. Ela se caracteriza pela autonomia do indivíduo e pelo impul-
so da iniciativa. Segundo os princípios fundantes do anarquismo, cada indiví-
duo é o melhor juiz da sua capacidade de agir. O trabalhador deve, portanto,
confiar na influência da sua própria ação, direta e autônoma, prescindindo de
intermediários no conflito capital x trabalho.

89
3
2003

9
O decreto nº 1.169 de 15 de dezembro de 1893 revogou o decreto nº 1.566 de
13 de outubro de 1893. Informações complementares sobre estes decretos
podem ser encontrados no livro Expulsão de Estrangeiros de autoria de Anor
Butler Maciel. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1953, p.
35.
10
“Estava esquecida esta tentativa legislativa, quando a irrupção violenta de
uma parede operária despertou, novamente, interesse pelo assunto. Foi, então,
desenterrado dos arquivos o projeto da Câmara e emendado foi convertido no
Decreto Lei nº 1641 de 7 de janeiro de 1907”. Cf. Anor Butler Maciel, Op.cit.,
p. 37.
11
Francisco de Paula Lacerda Almeida. O Decreto nº 1.641 de 7 de Janeiro de
1907 sobre a expulsão de estrangeiros do território nacional (ligeiramente co-
mentado e precedido de alguns capítulos doutrinários sobre o fundamento
jurídico e aplicação prática do direito de expulsão com referencia aos autores
nacionais e à jurisprudência prática). Rio de Janeiro, Typographia da Revista
dos Tribunais, 1907, p. 9.
12
Francisco de Paula Lacerda Almeida, op. cit., p. 70.
13
Idem, ibidem, grifo nosso.
14
Antes mesmo da promulgação da lei de expulsão, o critério de residência
suscitou um debate acalorado. Em dezembro de 1906, no calor das discussões
sobre o artigo da lei em que se definia o tempo de residência (2 anos contínuos
ou por menos tempo quando: a) casado com brasileira ou b) viúvo com filho
brasileiro) como impeditivo da expulsão, o deputado Medeiros de Albuquerque,
em discurso proferido na Câmara, salientou que “a lei não tem ternuras para as
mulheres casadas com brazileiros... é antifeminista a seu modo...” E acrescen-
tava: “Tem mais medo das anarchistas que dos anarchistas”, pois a lei era
omissa quanto a situação das mulheres casadas com brasileiros ou viúvas com
filhos brasileiros. Cf. Anais da Câmara dos Deputados, sessão de 26 de dezem-
bro de 1906, p. 988. Sobre o critério de residência, muitas dúvidas ainda paira-
vam no ano de 1917, quando da leva de expulsão após a greve geral que teve
lugar em São Paulo.
15
Anais da Câmara dos Deputados, sessão de 12 de agosto de 1907, pp. 396-
397.
16
Os artigos suprimidos do Decreto Lei nº 1641 de 7 de Janeiro de 1907 são:
artigo 3º — “não pode ser expulso o estrangeiro que residir no território da
República por 2 anos contínuos, ou por menos tempo, quando: 1) casado com
brasileira e 2) viúvo com filho brasileiro”; artigo 4º: “O Poder Executivo pode
impedir a entrada no território da República a todo o estrangeiro cujos antece-
dentes autorizem a incluí-lo entre aqueles que se referem os artigos 1º e 2º.
Parágrafo único: a entrada não pode ser vedada ao estrangeiro nas condições
do 3º, se tiver se retirado da República temporariamente” e artigo 8º: “Dentro

90
verve
O espírito das leis: anarquismo e repressão política no Brasil

do prazo que for concedido, pode o estrangeiro recorrer para o próprio poder
que ordenou a expulsão, se ela se fundou na disposição do artigo 1º, ou para o
Poder Judiciário Federal, quando proceder do disposto no artigo 2º. Somente
neste último caso o recurso terá efeito suspensivo”.
17
Florentino de Carvalho. Agitação internacional contra a lei de expulsão bra-
sileira. Germinal (semanário anarquista). São Paulo, Ano I, nº 7, 10 de Maio de
1913, p. 1.
18
Mensagem presidencial de Altino Arantes dirigida ao Congresso Legislativo
de São Paulo, em 15 de Julho de 1917.
19
Para informações detalhadas sobre o episódio da expulsão de anarquistas no
ano de 1917 consultar: Christina Roquette Lopreato. O espírito da revolta: a
greve geral anarquista de 1917. São Paulo, Editora Annablume/FAPESP, 2000
(em especial capítulo 5: Os indesejáveis).
20
Discurso de Maurício de Lacerda proferido na sessão de 5 de outubro de
1917 na Câmara dos Deputados. Anais da Câmara dos Deputados, v. VII, p.
449.
21
Artigo 3º: “Se a provocação de que trata o art. 1º for dirigida diretamente a
militares, praças ou oficiais de corporações militarizadas da União ou dos Esta-
dos, ou se a apologia ou elogio de que trata o art. 2º forem feitos perante os
mesmos militares, praças ou oficiais de corporações militarizadas. Pena: prisão
celular, no caso de provocação por dois a cinco anos; no caso da instigação, por
um a dois anos”. Decreto nº 4.269 de 17 de janeiro de 1921.

RESUMO

Estudo sobre a perseguição política realizada pelo Estado bra-


sileiro contra os anarquistas no início do século XX. A imagem
do anarquista construída para identificá-lo como perigo à saú-
de social, que tal qual a peste deveria ser contido por um cor-
dão sanitário estatal.

ABSTRACT

Estudo sobre a perseguição política realizada pelo Estado bra-


sileiro contra os anarquistas no início do século XX. A imagem
do anarquista construída para identificá-lo como perigo à saú-
de social, que tal qual a peste deveria ser contido por um cor-
dão sanitário estatal.

91
3
2003

guerras, deuses, educação, liberdade sob


olhares anárquicos

rogério h. z. nascimento*

Os textos ora apresentados (pp. 112-135 ) são de uma


atualidade impressionante: guerras, religiões, escola, so-
cialismo, democracia e liberdade são alguns dos assun-
tos deste nosso início de século e que, como paradigma
da sociedade hierarquizada, encontramos discutidos em
diversos periódicos operários nas primeiras décadas do
século passado. Escritos em tempos de preparação dos
governos centrais para a primeira guerra mundial, os
artigos de Florentino de Carvalho, pseudônimo de Pri-
mitivo Raymundo Soares, Francisco Viotti, Éfren Lima,
João Penteado e Adelino de Pinho, todos trabalhadores
da passagem do século XIX para o XX, refletem não ape-
nas esforços particulares de colaborar no estabelecimen-
to de ações diretas por parte, sobretudo, dos proletári-
os contra a carnificina preparada por governantes e
patronato. Houve de fato uma significativa mobilização

* Professor na Universidade Federal de Campina Grande, pesquisador no Nu-


Sol e autor do livro Florentino de Carvalho, Pensamento Social de um Anarquista. Rio
de Janeiro, Achiamé, 2000, 206 pp.

verve, 3: 92-136, 2003

92
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

em todo o mundo através de manifestações e outros


meios, como boicote e sabotagem, contra a eminência
de um confronto geral. Estas manifestações culmina-
ram com a organização, por parte do movimento inter-
nacional dos trabalhadores, do Congresso Internacio-
nal da Paz no ano de 1915. Este congresso foi planejado
para se realizar em Ferrol na Espanha, mas, por conta
da pressão de Estados europeus contra o Estado espa-
nhol no sentido deste não permitir a sua realização, este
findou sendo transferido para o Rio de Janeiro, então
capital federal do Brasil.
Neste contexto a imprensa proletária exerceu um
papel fundamental na organização das mobilizações
antiguerreiras junto aos segmentos marginalizados da
sociedade brasileira. A Vida1, revista de expressão anar-
quista apesar de ter tido vida breve, colaborou sobre-
maneira nesta direção, tendo deixado marcas profun-
das na história da imprensa operária brasileira deste
período. Para ela convergiram contribuições de diver-
sas regiões do Brasil, como podemos ver nos nomes
selecionados para esta publicação: Éfren Lima de Reci-
fe, Florentino de Carvalho, Adelino de Pinho e João Pen-
teado de São Paulo e Francisco Viotti, compunham o
grupo de redatores da revista, no Rio de Janeiro, então
capital federal. As colunas da revista registram nomes
de outras regiões. Mesmo assim, seu fim deveu princi-
palmente a dificuldades financeiras, por não receber,
no geral, os proventos relativos às cotas dos assinan-
tes. Através de suas colunas, a questão social, sob seus
variados aspectos, era analisada pelos colaboradores.
Desta maneira, nela encontramos expressas, além de
discussões sobre educação, guerra, filosofia, outras
como poesias, orientação teórica e uma das primeiras
preocupações em desenvolver pesquisa sobre o que se
tinha publicado até então no Brasil acerca da questão

93
3
2003

social. Esta seção chama-se “Bibliografia Brasileira so-


bre a Questão Social”. Interessante é observar no con-
junto dos artigos selecionados, grosso modo, duas ver-
tentes dentro do movimento proletário. Se os artigos de
Florentino de Carvalho, Francisco Viotti e Adelino de
Pinho apontam para análises elaboradas em
contraposição aos postulados absolutistas, em Éfren
Lima e João Penteado encontramos proveniências de
transcendências. De fato, o movimento anarquista com-
punha distintas procedências e abordagens da questão
social, fato este que os artigos aqui apresentados
espelham com propriedade. Este elemento aponta para
limites e méritos deste movimento como dos autores
destes artigos.
A insistência dos autores, sobretudo Florentino de
Carvalho2, Francisco Viotti e Adelino de Pinho, em tra-
tar do que nomeiam de “moral” relaciona-se com os
predicados da sociabilidade humana e não com um sen-
tido absolutista, universalizante de cunho místico-reli-
gioso. Neste sentido estes autores não operam com cri-
térios diferenciadores para a idéia de “moral” e “ética”.
Estes dois conceitos são passíveis de significação opos-
tas dependendo do autor. Para uns “ética” diz respeito
a projeto universalizante quanto ao comportamento so-
cial, enquanto moral tem relação com a variedade de
comportamentos na espécie humana. Para outros o
entendimento destas duas palavras deve se dar em sen-
tido oposto: ética sendo entendida como variável e mo-
ral como geral, universal. Como disse anteriormente,
dos cinco autores, os três destacados operam
desconsiderando todo absoluto, emprestando às pala-
vras “moral” e “ética” o mesmo significado, e ao mesmo
tempo opostas ao absoluto.
Chamo a atenção para o fato de que os artigos aqui
expostos abordam o tema da liberdade não como con-

94
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

cessão ou dádiva de deuses, quer espirituais, quer tem-


porais, mas como conseqüência das ações diretas de
segmentos marginalizados. As liberdades sociais são
frutos de ações iconoclastas de individualidades e cole-
tividades. As configurações sociais são frutos diretos
da natureza das individualidades existentes nos agru-
pamentos humanos. Tanto o estabelecimento de formas
sociais libertárias como de autoritárias pode ser devi-
damente explicado através do tipo de sociabilidade cul-
tivado pelos integrantes dos agregados sociais. Os au-
tores dos artigos abordam este assunto de forma a evi-
denciarem, nas suas críticas à sociedade do domínio e
da exploração, aspectos e nuances diferentes na situa-
ção dos trabalhadores e de todos numa sociedade
hierarquizada. Éfren Lima, Adelino de Pinho e João Pen-
teado tratam especificamente do papel social da escola
no estabelecimento da sociabilidade humana, seu uso
pelos Estados no sentido de perpetuar o status quo e na
primeira conflagração mundial. Os dois últimos funda-
ram e dirigiram a Escola Moderna no 1 e no 2 em São
Paulo. Florentino de Carvalho também era professor,
tendo fundado em 1915, no bairro operário do Brás, a
Escola Nova, cujo fechamento se deu pelo governo do
Estado de São Paulo no ano de 1917 por conta de seu
envolvimento com a greve geral3, que paralisou todo o
estado naquele ano. Dirigiu também a Escola Moderna
no 1 durante um período no ano de 1917 quando seu
diretor encontrava-se enfermo.
Há que se observar diferenças e aproximações em
seus textos. Se, por um lado, encontram-se, por exem-
plo, na crítica às instituições vigentes por instituírem a
idéia do normal, de códigos rígidos de conduta, afas-
tam-se em outros aspectos. Os artigos de Éfren Lima e
João Penteado paradoxalmente atualizam o próprio ob-
jeto de crítica ao operarem com maniqueísmos e

95
3
2003

referenciais absolutos. Adelino de Pinho, Francisco Viotti


e Florentino de Carvalho se distanciam deles, desen-
volvendo reflexões desprovidas destes referenciais. Fran-
cisco Viotti desnuda o efeito do positivismo na instau-
ração de sociabilidades. Esta crítica ao positivismo, que
é a base filosófica da então recém fundada república
brasileira, foi elaborada nos idos de 1914 é bom ressal-
tar, pois este é um período em que havia muita euforia
entre a intelectualidade mundial quanto a esta nova
república. Para Viotti, a doutrina social, política e reli-
giosa de Augusto Comte constitui num revigoramento
da desigualdade social, portanto, na manutenção da vi-
olência e das hostilidades entre os povos. A distinção
defendida pelo positivismo entre altruísmo e egoísmo
se mostra infecunda e desnecessária, uma vez encon-
trada como causa inicial das ações humanas o prazer
individual, ou o esforço em evitar um desprazer maior.
Este texto de Viotti sugere procedências stirneanas, ta-
manha é a defesa do autor quanto à relevância do ego-
ísmo no estabelecimento da sociabilidade humana.
Todos os artigos aqui presentes manifestam ponde-
rações, advertências, críticas e informações sobre a si-
tuação da eminente primeira guerra mundial. Particu-
larmente quanto a seus efeitos sobre os trabalhadores
no mundo e no Brasil. Incluem-se nos debates da épo-
ca, registrado pela escrita de Florentino de Carvalho, a
adesão, por parte de militantes anarquistas de reconhe-
cida projeção no cenário internacional, dentre estes
Kropotkin e Jean Grave, aos empreendimentos guer-
reiros através de apoio aos aliados. Este apontamento
marca sua crítica quanto à adoção de certas estratégi-
as, aceitas por frações expressivas do movimento ope-
rário e anarquista internacional, que frutificaram num
desserviço aos esforços em situar referenciais libertários,
igualitários e de fraternidade entre os povos. Tais táti-

96
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

cas findaram por reforçar intuitos belicistas dos impé-


rios do momento. Como advertiu Florentino em outros
escritos, o resultado deste primeiro confronto bélico
entre as nações resultou no estabelecimento de tirani-
as genocidas, de abusos sem medidas e de despotis-
mos mundo afora.
Entre outras relevâncias dos autores dos artigos, o
maior me parece ser o de apontarem para o processo de
instauração de um certo tipo de sociabilidade, fundada
no misticismo, propagador não apenas de pensamen-
tos, mas também de sentimentos autoritários como cau-
sa explicativa primordial para um bom entendimento
do quadro belicista a se desenhar. Através de estilos de
escrita particulares e maneira diferenciada de elabora-
ção argumentativa, apontam para o fato da gestação de
desastres sociais como um dos efeitos de maciço inves-
timento social na constituição de individualidades mís-
ticas, obedientes, disciplinadas. Evidenciam a relação
direta entre noções absolutistas da vida com o estabe-
lecimento e desenvolvimento de sociabilidades autori-
tárias. A configuração de uma cosmovisão fundamen-
tada em referenciais absolutistas, tidos na conta de
paradigmas centrais ou fundamentais para a efetivação
dos fenômenos sociais humanos, ou mesmo a crença
na existência de um ser superior na natureza ou fora
da natureza, se desdobra no estabelecimento de supe-
riores e outras centralidades na totalidade da vida soci-
al humana. A escola orientada pelos postulados nacio-
nalistas, militarista e religiosos, exerce um papel fun-
damental na constituição deste tipo de individualidades,
matéria-prima para o estabelecimento de atitudes beli-
cosas entre os povos.
Um outro eixo nesta constatação diz respeito à na-
turalização de relações sociais baseadas no mando e na
obediência. Aqui vemos delineadas as críticas incisivas

97
3
2003

às instituições da sociedade moderna, com destaque à


escola. Nesta se processa um ensino disseminador de
individualidades servis entre os trabalhadores e a po-
pulação em geral, enquanto nos filhos dos estratos do-
minantes se inocula a idéia do mando. A vontade de
servir cultivada nos trabalhadores, ao lado de uma es-
pécie de cauterização na percepção através de um pro-
cesso calculado de constante e contínuo enrijecimento
dos sentimentos, disseminado nos estratos dominan-
tes, são os resultados, entre outros fatores, da educa-
ção oficial. Estes dois aspectos antagônicos e comple-
mentares constituem na concepção de educação e de
ser humano, defendida e estabelecida pelo positivismo,
esta que foi a escola filosófica inspiradora dos republi-
canos brasileiros em suas lutas contra a monarquia.
Tanto é assim que o mais expressivo axioma positivista,
forjado por Augusto Comte — ordem e progresso —, en-
controu na bandeira nacional da república brasileira
seu refúgio mais seguro.
A propósito do positivismo, Francisco Viotti expõe
reflexões sobre esta corrente do pensamento social. Uma
nota escrita no primeiro número da revista A Vida, so-
bre uma greve por conta do atraso de quinze meses no
pagamento do salário, provocou o vice-presidente do
Apostolado Positivista do Brasil, o Sr. Teixeira Mendes ,
por conta da referência ao proprietário da fábrica men-
cionando o fato de ser integrante da Igreja Positivista.
Por causa disto, se estabeleceu um debate entre
positivistas e anarquistas, expondo o pensamento anar-
quista em face do positivismo. A crítica ao positivismo e
à república nascente teve na pena de Florentino de
Carvalho uma das mais acuradas e penetrantes expres-
sões. Em artigos e livros demonstra a obsolescência dos
governos centrais em todas as suas formas. Este arca-
ísmo se aplicava também à nova república saudada por

98
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

governos do mundo como a mais moderna por ter a cons-


tituição mais avançada e liberal. Estas assertivas servi-
ram como argumentos, por ele utilizados em outros
momentos, para demonstrar a futilidade da luta, defen-
dida pelos socialistas democratas, por melhoramentos
da legislação e na elaboração e aperfeiçoamento das
chamadas leis sociais. Críticas estas extensivas aos par-
tidários da ditadura proletária.
O dilema da escolha entre ditadura ou democracia
colocado em alguns períodos para o movimento anar-
quista internacional e que envolveram militantes da al-
tura de um Errico Malatesta, consiste num grande equí-
voco. Isto porque, afirmava Florentino de Carvalho em
outros momentos, acontecia mesmo de existir mais li-
berdade de fato em alguns paises monarquistas, católi-
cos e conservadores do que na festejada república bra-
sileira. Na seqüência destas reflexões denunciava a in-
tensidade da violência e da repressão aos mais
comezinhos princípios de liberdade perpetrados pelas
autoridades republicanas de maneira a proibir brutal-
mente — em nome da fé, da família e dos bons costu-
mes — a simples expressão de pensamento, destruindo
“democraticamente” ou não — e em benefício da sacra
propriedade privada — associações operárias,
empastelando “constitucionalmente” ou não — e em
defesa da moral e dos “bons cidadãos” — gráficas de
trabalhadores, invadindo rotineiramente — a bem da
saúde pública e da preservação da “civilização” — seus
lares a qualquer hora do dia ou da noite a fim de espan-
car, torturar, deportar ou assassinar homens, mulhe-
res e crianças.
Além destas e outras críticas, encontramos em seu
pensamento de uma forma ampla, e no artigo aqui pre-
sente em particular, expressa a crítica aos postulados
de Cesare Lombroso. Lombroso forjou um pensamento

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3
2003

social centrado na idéia de crime como fenômeno de-


terminado por imperativos congênitos. Para se conhe-
cer as causas dos crimes, haver-se-ia que recorrer a
um procedimento de medição anatômica a fim de se
conhecer o tipo criminoso e o tratamento adequado a
ser aplicado pelas autoridades. Estes procedimentos
foram largamente utilizados quando da captura de can-
gaceiros no nordeste do Brasil. Entretanto os anarquis-
tas constituíam o exemplo por excelência do “crimino-
so nato”, aparecendo a Lombroso como os tipos mais
imorais, violentos e propensos ao crime. A imagem do
anarquista como monstro, foi largamente difundida nes-
te período.
Podemos afirmar a respeito das reflexões dos mili-
tantes anarquistas aqui apresentados, uma atuação
direcionada no sentido de modificar a maneira de pen-
sar e de sentir das pessoas através, não do doutrina-
mento político nem ao menos pela imposição da ciên-
cia, mas da exposição de análises e reflexões nas mani-
festações, nos demais periódicos e livros da imprensa
operária, por intermédio de outros meios e pela ação
direta. A impossibilidade de se sensibilizar com o qua-
dro social aterrador era fruto de uma certa configura-
ção social que envidava energias na formação de indivi-
dualidades inertes, entorpecidas e alheias às violênci-
as a atingir crianças, mulheres, adultos e sexagenários
das camadas marginalizadas. Na medida em que as pes-
soas se sensibilizem com os acontecimentos sociais ao
redor e, ao mesmo tempo, possuam nítidos pensamen-
tos livres, em conjunto com uma vontade livre,
deflagrariam ações diretas libertárias.
Estes são pensamentos vertiginosos, descentraliza-
dores, instaurando liberdade com os riscos que ela com-
porta como cadência nas vidas; promovendo descon-
certos em vidas acostumadas aos centralismos. Estas

100
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

existências, gangrenadas através de séculos de domí-


nio e escravidão, possuem corações vergados ao abso-
luto. Existências nostálgicas, sofridas, melancólicas,
fazem suas trajetórias esmagadas por pesada cruz, mas
insistindo em segurá-las. Caminham, por vontade pró-
pria, através de veredas sofríveis, íngremes, pedrego-
sas, espinhentas, acreditando ser este seu destino, de-
ver e missão. Imolar constantemente a própria carne e
desejos, cultivando sofrimento e dor — com aparência
de alegria — como modo de vida interior. Policiamento,
ressentimento e vingança contra diferentes, contra os
que escaparam de uma aridez na vida como a que expe-
rimenta nos seus corações, coloca-se como regra de vida
exterior, semeando intolerâncias que se transformam
em culturas na chamada civilização ocidental, nascen-
do assim fascismos de variados graus e formas. Estes
espíritos se tornam adormecidos, enfraquecidos, aco-
modados, adaptados a um inferno em vida na esperan-
ça de recompensa no além-túmulo.
“Qual o sentido da vida?” perguntam eles — deline-
ando no tom deste questionamento dor, mágoa, vazio
interior, ausência de sensibilidade e menosprezo às
belezas e mazelas da existência; a resposta desenha
nostalgia a um lugar ansiado, pessimismo quanto à real
existência e recusa do mundo em que vivem — apon-
tando para a divindade e um além como solução aos
dissabores. Não consideram ser esta vida a única ga-
rantida. Segundo um amigo, a resposta mais adequada
à questão proposta — e que tem minha total aprovação
— deveria ser: “O sentido da vida é dar vida aos senti-
dos!”

101
3
2003

O objetivo dos deuses e o ideal dos demagogos


A Vida — Ano I — Nº 01
Rio de Janeiro — RJ — 30.11.1914
Primitivo Soares

O hodierno fenômeno de perturbação social, de


desequilíbrio econômico e suspensão da razão huma-
na, presta-se maravilhosamente ao estudo das causas
que o determinam.
O indescritível e compungente espetáculo de des-
truição pavorosa da vida humana não deve fazer-nos
chorar como crianças. As lamentações, as lágrimas, nada
remediam por si mesmas, nada resolvem ou produzem,
a não ser a exaltação religiosa com as suas peculiares
nostalgias e alucinações. Conhecendo-se a origem e o
desenvolvimento dos sentimentos e das idéias, a mar-
cha das sociedades, baseadas nas mais irritantes desi-
gualdades, nem outra coisa se podia esperar.
O sentimentalismo religioso fruto da organização fi-
siológica rudimentária, conseqüência da debilidade fí-
sica e intelectual, visa incutir na mente dos homens a
crença de que existe dentro ou fora da Natureza alguma
coisa superior a ele, um ser supremo, uma inteligência
universal, e determinar sua conduta sob uma forma
negativa.
Os seres superiores, divinos, governam o homem e
têm o privilégio de fazer dele um verdadeiro joguete,
conferindo-lhe caprichosamente direitos e impondo-lhe
despoticamente deveres e castigos.
A razão de ser do prêmio e do castigo afirma-se na
existência do livre arbítrio e da responsabilidade.
As condições econômicas ou sociais são determina-
das pelos deuses os quais realizam uma distribuição

102
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

eqüitativa segundo o mérito, dando a uns o supérfluo


da riqueza a outros o supérfluo da miséria, para que
estes trabalhem ao serviço dos que nadam na abun-
dância. Se o indivíduo possui grandes propriedades e
posições sociais privilegiadas é porque Deus lhe fez de-
las presente, pela linda cara que o torna simpático ao
Padre Eterno. Este é o princípio em que se assentam as
monarquias de direito divino, absoluto.
Se o indivíduo se encontra numa situação premente
é porque é mau e não merece a graça divina. Daí pro-
vém o qualificativo de vilãos, que sempre se aplicou aos
escravos, aos plebeus. Quando um indivíduo ou uma
coletividade é vítima de alguma desgraça, esta repre-
senta o castigo pelas faltas cometidas. Nisto estão de
perfeito acordo todas as doutrinas e filosofias religio-
sas, metafísicas, inclusive o cristianismo, o espiritismo
e o espiritualismo.
Estas duas últimas doutrinas afirmam com toda a
retumbância que os homens que padecem enfermida-
des, privações e castigos é porque cometeram faltas gra-
ves que agora estão expiando, e, portanto, é muito jus-
to é muito bem feito.
Não somente a inferioridade de condições significa a
maldade do indivíduo: os defeitos físicos ou a pouca
beleza dos que chegam ao completo ou exagerado de-
senvolvimento muscular são considerados como crimi-
nosos pelos deistas.
Homem feio, homem mau.
O indivíduo bom deve ser necessariamente formoso,
pois que a formosura é a graça de Deus. A sua catadura
é causa suficiente para se aplicar ao homem feio as mais
severas penas.

103
3
2003

A escola positivista italiana, com Lombroso e Ferri à


vanguarda, afirma a existência do criminoso nato. O
indivíduo herda de seus pais a degeneração física, os
seus vícios e a tendência para o crime, se os pais foram
degenerados, viciosos e delinqüentes.
Certa conformação craniana, pronunciação dos
pômulos, mandíbulas proeminentes, rosto, em fim, pou-
co simpático são indícios de delinqüência.
Na teimosia de sustentar estas afirmações chega-se
a criar uma teoria especiosa, segundo a qual os crimi-
nosos, os homens feios não são descendentes de Adão
nem do macaco, são descendentes de animais ferozes e
felinos.
Para que os anarquistas aparecessem ante o vulgo
como criminosos foram descritos com fisionomia espan-
tosa e aspecto furibundo.
Esta doutrina está em concordância com as anterio-
res. Como elas, estabelece que o homem bom, sociável,
deve ser por excelência belo. E como a beleza se adqui-
re pelo repouso e pelo bem estar que dependem de con-
dições econômicas favoráveis, as quais burilam a carinha
dos proprietários, enquanto a miséria, o excesso de tra-
balho, deformam o organismo dos trabalhadores, che-
gamos à conclusão de que os ricos são bons, transpi-
ram amor por todos os povos ao passo que os proletári-
os são perversos e ferozes, delinqüentes natos, contra
os quais é necessário precaver-se, contendo com os sis-
temas jurídicos de coação e punição, com as institui-
ções armadas, que mantêm a ordem social, com a força
bruta, as suas transgressões.
A anatomia e a antropologia vêm felizmente destruir
a sabedoria dos deuses e dos deistas e pôr em quaren-
tena a escola lombrosiana. Estas ciências ensinam que
os indivíduos normais, são os que apresentam mais

104
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

pronunciados os caracteres nos quais os inspirados


pelas divindades e os criminalistas do positivismo itali-
ano descobrem os delinqüentes.
Cristo, que no dizer dos seus sectários, tirou o pri-
meiro prêmio no universal concurso de beleza, é por
essa mesma beleza, mantida pela falta de desenvolvi-
mento físico — como são os jovens e as crianças, que
Spencer qualifica de selvagens — apresentado como in-
divíduo anormal, patológico, pelo célebre autor da gran-
de obra A Loucura de Jesus (sic). As formas afeminadas
dos sibaritas e dos eunucos fornecem sobejas provas
da anormalidade e degeneração dos indivíduos que se
destacam pela sua formosura.
O excesso de opulência impede à quietude, e desde
que a falta de exercício atrofia os órgãos segue-se que
os ricos devem ser formosos e anormais.
Mas estas demonstrações não querem dizer que o
excesso de miséria faça dos mais famintos e mais feios
os tipos mais normais e melhores; quer dizer que o ex-
cesso de riqueza e o excesso de miséria são igualmente
prejudiciais.
A classe média teve necessidade de opor vitoriosa-
mente às arcaicas e místicas concepções do universo e
da vida, concepções mais racionais baseadas na ciên-
cia experimental, e uma nova moral mais humana, a
fim de triunfar na sua luta contra a autocracia. Desta
necessidade surgiu o positivismo.
Esta doutrina impôs-se com facilidade porque os
povos simples desconfiam das abstrações e preferem
adorar o que é visível, palpável, o que mais fere os seus
sentidos.

105
3
2003

Chegada ao poder, a burguesia deixou de atacar as


antigas doutrinas religiosas e começou a servir-se de-
las para consolidar o seu domínio.
Com o triunfo ruidoso do positivismo desapareceu a
idéia de sacrifício em holocausto dos deuses, forman-
do-se a religião da humanidade.
A religião da humanidade significa a união dos seres
humanos ou, em outros termos a Sociedade, tendo o
indivíduo o dever de servi-la, sacrificando-lhe todos os
seus direitos, sem escatimar a própria vida.
A este princípio vinham ligados outros: o das raças e
das nacionalidades. Então o sentimento patriótico, fei-
to idéia, e esta confundida com aqueles princípios deu
à luz ao catecismo cívico ou a religião de Estado.
A filosofia materialista, que parecia finalmente as-
sentar as bases de uma doutrina iconoclasta foi tam-
bém transformada em sofisma pelos demagogos con-
servadores, sob os extravios de um individualismo fe-
roz e irredento, justificando o triunfo brutal do mais
forte.
O mesmo fizeram com o determinismo, pretendendo
dar à Sociedade o direito de suprimir o indivíduo ina-
daptável e eximi-la da responsabilidade que lhe cabe
no grande mal que causa a todos os povos.
A brutal lei de seleção descrita por Darwin serviu
para que desta lei se forjassem doutrinas de morte, que
pretendem dar à guerra um caráter natural, e defini-la
como uma necessidade à supervivência e reprodução
dos mais fortes e a supremacia de uns sobre outros,
para a possibilidade do progresso.
Assim se escreve a história da brutalidade humana,
do despotismo e da escravidão milenar que ainda nos
atinge.

106
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

Jesus crucificado voluntariamente para salvar o gê-


nero humano, dá o maior exemplo de servidão voluntá-
ria, de altruísmo, ensinando o povo a sacrificar-se pe-
los tiranos.
O positivismo segue as mesmas pegadas, resumindo
a sua doutrina na servidão, elevando à categoria divina
a razão de Estado, que suprime o indivíduo. O que ha-
via sem dúvida, de mais doloroso, no regime antigo da
escravidão e da servidão para as almas belas — dizia
Augusto Comte era não poder entregar-se livremente
ao serviço da coletividade.
Os demagogos de todas estas filosofias metafísicas,
positivistas ou pseudomaterialistas de caráter negativo
da personalidade humana, calcadas no mais exagerado
altruísmo fizeram delas as religiões populares, desen-
volvendo entre humildes um sentimentalismo cego,
hostil a todos os princípios de justiça, a fim de aferrá-
los à escravidão e obrigá-los a fazerem em benefício ex-
clusivo dos senhores, os maiores sacrifícios.
Ao mesmo tempo, o ceticismo mais refinado foi culti-
vado entre nobres e os burgueses, até se extinguir ne-
les todo sentimento e presenciarem com a maior indife-
rença ou alegria — como nos circos romanos — as mais
desgarradoras cenas.
O egoísmo mais absoluto constituiu sempre a reli-
gião dos ricos.
O Príncipe, de Maquiavel, foi a eterna cartilha da no-
breza e da burguesia.
Conquistar os maiores privilégios e gozar todos os
excessos do luxo e do vício, numa interminável bacanal,
sacrificando a vida do próximo, cometendo toda sorte
de crimes e de infâmias tal foi o postulado dos podero-

107
3
2003

sos, que ainda hoje impera com o nome de Direito Ro-


mano.
O ceticismo e o egoísmo originavam a mística doutri-
na do super-homem, pregada sob a doentia inspiração
de Zaratustra, intensificando a crueldade das classes
dirigentes.
A teoria evolucionista e anti-revolucionária de
Spencer, o materialismo histórico e a catastrófica dou-
trina de Marx, que sem o concurso das idéias da revo-
lução intelectual pretendiam realizar uma relativa trans-
formação econômica, criaram os fundamentos do
reformismo que serve de pedestal à Social Democracia e
deram vida a um incomparável dogma de altruísmo de
adaptação e de obediência, que nada deixa a desejar.
Paralisaram a inteligência das classes trabalhado-
ras, penetrando no seio dos sindicatos operários, di-
fundindo o negativo princípio de neutralidade, e a sufi-
ciência da luta puramente econômica e legal, alheia a
qualquer idealidade, descambando para o mais abjeto
cooperativismo conservador e reacionário.
As conseqüências destas idéias e sentimentos religi-
osos, destas doutrinas, teorias e dogmas do ultra-
egoismo, linha de combate das classes dirigentes e do
mais exagerado altruísmo, linha de conduta das clas-
ses populares, tocam-se hoje, demonstrando-nos a fa-
cilidade com que a burguesia soube lançar os povos na
pavorosa conflagração atual e a incapacidade dos tra-
balhadores para evitar ou quando menos, perturbar o
formidável choque.
Estas conseqüências são uma soberana lição a qual
confirma que todos estes postulados serviram para pro-
telar indefinidamente a emancipação dos trabalhado-
res.

108
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

A análise destes fenômenos resume-se na seguinte


verdade: que todas as filosofias, doutrinas ou dogmas
que não tenham por princípio a mediata revolução inte-
lectual dos povos, e o aceleramento da revolução eco-
nômica e social, no sentido da mais perfeita igualdade e
da mais estrita justiça, carecem de valor e não mere-
cem a menor atenção, salvo se for a fim de conhecê-las
para melhor destruí-las.

Positivismo e anarquismo
A Vida. Ano I — N° 05.
Rio de Janeiro — RJ — 31.03.1915.
Francisco Viotti (não assinado).

Conforme fora combinado entre nós e o Sr. Teixeira


Mendes, juntamos ao presente número de A VIDA o
opúsculo que aquele Sr. (sic) ficara de escrever em re-
futação às considerações que opusemos à sua carta de
6 de dezembro do ano passado, e que publicamos na
nossa edição de 31 daquele mesmo mês.
Como o público vê, o opúsculo do eminente apóstolo
do positivismo contém 56 páginas maciças, com largas
citações de trechos das obras de Augusto Comte e um
longo desenvolvimento que lhes deu o Sr. Mendes.
Gastou o Sr. Mendes 3 meses em escrever e organi-
zar a sua resposta e claro é que não seria em dois ou
três dias que lhe poderiam oferecer uma réplica deta-
lhada e cabal. Tampouco a estreiteza do espaço de que
podemos dispor numa revista nos moldes de A VIDA
nos permitiria fazê-lo a nosso contento.
Limitar-nos-emos, portanto, a algumas sumárias
considerações, pois, como o Sr. Mendes, nós também
estamos convencidos de que só a leitura meditada das

109
3
2003

obras dos escritores anarquistas será capaz de levar a


persuasão e a convicção aos espíritos, libertando-os das
ficções e quimeras convencionais que tanto entravam o
pensamento humano.
Repetimos: o comunismo anárquico só tomou a con-
sistência de doutrina filosófica após a morte de Augusto
Comte.
Este genial filósofo jogou na construção de seu sis-
tema político com os elementos de que podia dispor até
aquela época. Daí o referir-se só ao “comunismo” auto-
ritário e o empregar a palavra “anarquia” como sinôni-
mo de desordem.
É o que notará quem ler os trechos transcritos pelo
Sr. Mendes em seu opúsculo.
O que, entretanto, é de lamentar é que os discípulos
de Augusto Comte se limitem à leitura das obras do
grande filósofo, conservando-se completamente estra-
nhos a tudo quanto se produziu depois dele.
Dotado de um orgulho desmedido, o grande filósofo
do Montpellier, não admitiu que houvesse alguém ca-
paz de modificar a sua obra. Estava convencido de que
dissera a última palavra. Ninguém como ele desvenda-
ra com mais clareza o passado e previra com mais segu-
rança o futuro.
Em religião, em ciência e em política, nada mais ha-
via a fazer; ele fizera tudo.
“Je ne puis reconnnaitrepour mes sevais disciples
que ceuxe qui, renonçantá fondereux nêmes une
synthèse, regardent celle que j’aiconstruite
commeessentiellemente suffisant et radicalement
preferible á toute autre. Leur devoir est alors de la
propager et de l’appliquer, sans pretendre la critiquer
ou mê me la perfectionner” (sic), escreveu A. Comte.

110
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

É natural, portanto, que o Sr. Mendes, o mais sábio


e o mais fiel dos seus discípulos, desconheça o “comu-
nismo anárquico” e só se refira ao comunismo autoritá-
rio de que falou A. Comte, continuando a dar ao vocá-
bulo “anarquia” a significação de desordem e confusão.
O Sr. Mendes insiste em separar o egoísmo do altru-
ísmo e toda a sua argumentação é em torno a essa tese.
Na resposta que demos à sua carta de 6 de dezem-
bro, dissemos que, “para nós anarquistas, egoísmo e
altruísmo sempre andaram confundidos, mesmo por-
que aqueles pendores chamados altruístas no fundo
nada mais são do que puro egoísmo”.
Entende o Sr. Mendes que são funções perfeitamen-
te distintas e que o que cumpre é submeter o egoísmo
ao altruísmo, visto como só dessa submissão poderá
resultar a verdadeira moral. No seu entender, o egoís-
mo calcula, o altruísmo não.
Destarte, se um indivíduo pratica um ato de altruís-
mo, o faz espontaneamente e não calculando o prazer
que tal ato lhe vai proporcionar.
Mas, não é preciso calcular esse prazer, pois que o
indivíduo o sente no próprio momento da ação. È claro
que quem salva outro de um perigo, com o risco da pró-
pria vida, não esteve a considerar no prazer que senti-
ria após o seu ato ou no sofrimento que lhe resultaria
se não o praticasse. O que o Sr. Mendes, nem ninguém,
poderá negar é que, se esse ato não lhe desse prazer,
isto é, não satisfizesse umas tantas exigências do seu
“eu” moral, ele o não praticaria.
“Esse senso moral não é mais do que o desenvolvi-
mento dos instintos, dos hábitos de apoio mútuo, que
existem em todas as sociedades animais, bem antes da
aparição sobre a terra dos primeiros seres de aparência

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2003

humana”. E não é preciso um ser estranho e superior a


nós, como é o Deus dos católicos ou a Humanidade dos
positivistas, para trazer o homem constantemente ao
caminho da moral.
A própria sociedade, o próprio instinto da sociabili-
dade, bastará para evitar as aberrações individuais, isto
é, a prática de atos contrários à utilidade.
É preciso notar que essa noção de utilidade a tem os
próprios animais inferiores, pois para eles como para o
homem, só é útil ao indivíduo o que é também útil à
espécie.
Ninguém negou os instintos chamados pelo positi-
vismo altruístas ou sociais, o que dissemos é que essas
funções altruístas e egoístas sempre andaram confun-
didas e que no fundo o altruísmo redunda em puro ego-
ísmo, pois que “o homem age sempre ou para ter um
prazer ou para evitar um sofrimento”. E como esse pra-
zer e esse sofrimento quem os sente é o indivíduo se-
gue-se que, afinal, é sempre a satisfação do “eu” que
está em jogo.
Dirá o Sr. Mendes que todo o ato em benefício de
outrem é altruísta e que todo aquele que visar o benefí-
cio de quem o pratica é egoísta.
Admitimos a distinção, mas o que afirmamos é que
esses atos em benefício de outrem não seriam pratica-
dos se não causassem prazer a quem os pratica ou se
não lhe evitassem um sofrimento. É, portanto, sempre
a satisfação das exigências do nosso “eu” que nos leva
ao bem ou ao mal, isto é, à prática de atos favoráveis ou
contrários à “utilidade”.
Se um indivíduo mata a fome a outro pela satisfação
de si mesmo tal prazer é egoísta, diz o Sr. Mendes, mas
se o prazer for determinado pelo bem que outrem goza,

112
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

tal prazer, então, é altruísta. Para nós, tal prazer, seja


por este ou aquele motivo, quem o sente é quem pratica
o ato que o determina. No fundo é a satisfação do “eu”:
é egoísmo portanto.
Toda a gente se horroriza com a atual guerra euro-
péia. Suponhamos que estivesse nas mãos de um indi-
víduo evitá-la e suponhamos que esse alguém a evitas-
se. De duas maneiras, entenderá o Sr. Teixeira Men-
des, esse ato poderia ser classificado — como egoísta
ou como altruísta. Se ele fosse levado a praticá-lo para
conquistar os aplausos da sociedade e alto renome
mundial, por orgulho, ou por vaidade, em suma, seria o
seu ato egoísta; mas se ele só visasse o prazer em ter-
minar o sofrimento alheio, seria então, altruísta. Pois,
para nós, em um ou em outro caso, o prazer seria indi-
vidual, pessoal, portanto egoísta no fundo.
Era em satisfação às exigências do seu “eu” que tal
indivíduo teria agido.
O longo desenvolvimento dos instintos, e dos hábi-
tos de apoio mútuo, terá conseguido aperfeiçoar o sen-
so moral dos homens a ponto de se encarar hoje a guer-
ra como uma coisa abominável, prejudicial à espécie
humana e portanto também prejudicial ao próprio indi-
víduo. Daí o considerar-se uma aberração do senso
moral a guerra. Quem a evitasse ou a terminasse pela
simples satisfação de praticar o bem, não há dúvida,
que teria o senso moral mais aperfeiçoado do que quem
a evitasse pela vaidade ou pelo orgulho. Mas, num como
noutro caso era a satisfação do seu “eu”.
Daí poder-se concluir que as exigências desse “eu” é
que podem variar de indivíduo a indivíduo, conforme o
grau do desenvolvimento moral.
Mas, o que nós contestamos é que haja necessidade
de um ser estranho ao homem — o Deus dos católicos

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3
2003

ou a Humanidade dos positivistas — diante do qual pre-


cisemos nos prosternar a fim de aperfeiçoarmos o nos-
so senso moral.
Por isso nós, os anarquistas, combatemos os símbo-
los, as convenções artificiais e toda a sorte de quime-
ras, que só podem concorrer para a escravização do cé-
rebro, impedindo-lhe o desenvolvimento e atrofiando-
o.
Fazer o bem pela satisfação do próprio bem é prati-
car o altruísmo, segundo a moral positivista, mas é pre-
ciso saber o que é bem e o que é mal.
Pelas religiões antigas o bem é de origem divina; quem
o determina no indivíduo é o anjo da guarda; o mal pro-
cede do demônio. Na luta entre as solicitações do de-
mônio para o mal e as injunções do anjo da guarda para
o bem, vive o homem. Se atende ao anjo da guarda pra-
tica um ato moral, se atende, porém ao demônio atenta
contra a moral.
O positivismo substitui o anjo da guarda e o demô-
nio pelo altruísmo e egoísmo.
Se o indivíduo atende às solicitações do altruísmo
pratica o bem, se atende ao egoísmo pratica o mal.
A moral anarquista dispensa os anjos do mal e do
bem e tampouco se preocupa com altruísmo e com ego-
ísmo.
Para o anarquista não foram os homens que fizeram
a sociedade, porque esta existiu antes do aparecimento
dos primeiros seres na terra com aparência humana.
A noção de bem e do mal quem a instituiu foi a pró-
pria sociedade pelos hábitos de solidariedade e apoio
mútuo, hábitos cultivados em todas as sociedades ani-
mais. Na sociedade humana, como nas sociedades ani-

114
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

mais, é bem para o indivíduo o que é bem para a espé-


cie, e assim também o mal.
No seu opúsculo, o eminente apóstolo positivista
demonstra que não fez uma leitura meditada dos auto-
res anarquistas, porquanto edita a crítica de Augusto
Comte à filosofia metafísica, de que o anarquismo está
completamente liberto.
A filosofia anarquista não interdiz à investigação do
espírito nenhum ramo dos conhecimentos humanos.
Cientificamente tudo pode e deve ser investigado. O
anarquismo não impõe ciência a quem quer que seja,
apenas demonstra a necessidade de só aceitarmos aquilo
que estiver de acordo com a nossa razão. A fé científica
preconizada tão largamente pelo positivismo, o
anarquismo não aceita. Tudo quanto for susceptível de
demonstração deve ser demonstrado. O contrário seria
um odioso despotismo, como quer A. Comte, que não
admite críticas à sua obra e interdiz aos seus discípu-
los a tentação de aperfeiçoá-la. Descreveu o presente,
desvendou o passado e previu o futuro e julga ter dito a
última palavra. Descreveu um período de transição com
precisão matemática, e fixou um “estado normal” ou
definitivo para a Humanidade. Não admitiu que o espí-
rito humano se desviasse do caminho por ele traçado,
de modo que vivem já os seus discípulos em sérias difi-
culdades para justificar a não realização das previsões
do mestre.
O estado normal ou definitivo (como se pudesse ha-
ver um estado definitivo para a sociedade) que Augusto
Comte descreveu é uma verdadeira utopia em face do
anarquismo.
Enquanto o positivismo, conservando todas as desi-
gualdades sociais, pretende transformar os homens em
anjos, para que resulte dessa transformação o chama-

115
3
2003

do “estado normal”, o anarquismo proclama que esta


mesma sociedade se organizaria livremente para pro-
duzir e consumir desde que fossem abolidos os apare-
lhos de compressão existentes, aparelhos que o
positivismo conserva e aperfeiçoa.
Pretender conservar uma grande massa de proletá-
rios a sustentar as classes parasitárias e prescrever a
submissão dessa massa como base do aperfeiçoamen-
to, devendo ainda se satisfazer com a bondade desses
pretensos fortes, a quem, em compensação, devem vo-
tar veneração, é a utopia das utopias.
Será possível que essa grande massa proletária, que
Augusto Comte chama a “providência material da soci-
edade” não tratasse de investigar a razão de ser consi-
derada a classe dos fracos, enquanto os fortes seriam
os ricos?
Mas, se o proletariado é a providência material da
sociedade, não passando os ricos de meros explorado-
res do trabalho alheio porque seriam os proletários os
fracos e os ricos os fortes?
Como subsistir uma ordem social baseada nessa ini-
qüidade, que Augusto Comte pretende justificar?
Então a massa proletária, espoliada no seu trabalho,
se deverá satisfazer com a bondade que lhe dispensa-
rão os chamados fortes, isto é, os exploradores do seu
suor e ainda por cima votar-lhes veneração?
Mas não é tudo. O positivismo ainda proclama que a
submissão é a base do aperfeiçoamento.
Nada menos verdadeiro que esta máxima. Ao contrá-
rio, pode-se garantir que não há um só aperfeiçoamen-
to que não seja o produto de uma revolta.

116
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

Se não houvesse revoltados, não haveria progresso,


pois que todos estariam submissos e, por conseqüên-
cia, contentes com a sua situação individual e com a
situação da sociedade.
Não, a submissão não é a regra nem o poderá ser
nunca.
Não se tivesse revoltado Galileu contra o que era acei-
to na sua época com relação à astronomia e até hoje
não se teria descoberto que é a terra e não o sol que se
move produzindo os dias e as noites.
A revolta supõe sempre um anseio de aperfeiçoamen-
to e é pelo espírito de revolta que tudo se aperfeiçoa na
sociedade humana.
Eis aí porque o anarquismo considera quimérica a
solução que Augusto Comte dá ao problema social.
O genial filósofo funda a ordem social na concentra-
ção do poder político e da riqueza nas mesmas mãos.
Não examina a origem dessa riqueza e tampouco os pro-
cesso pelas quais ela se encontra nas mãos de alguns.
É uma verdadeira plutocracia que ele institui no seu
chamado “estado normal”. Proletários, patrícios, ban-
queiros, sacerdotes etc... se equilibrando pela “submis-
são como base do aperfeiçoamento” e pela bondade dos
fortes para com os fracos e a veneração destes para com
aqueles. Entretanto, devem persistir todas as desigual-
dades decorrentes da desigualdade econômica, todos
os motivos, portanto, para as lutas de interesses; daí o
ter mantido Comte um código penal, a cadeia, a pena
de morte, para os que ele chama os seres não conver-
gentes ou insociais.
Nesse “estado normal” composto de anjos, havendo
cadeia, haverá carrascos, havendo a vindita social com
o nome de justiça, haverá juízes e tribunais, e,

117
3
2003

cumulando todas estas infâmias, um poder temporal


composto de banqueiros e uma polícia para conter os
que se não quiserem submeter a essa “ordem”.
O anarquismo concebe diferentemente a sociedade
futura.
Abolida a propriedade privada com a volta de todos
os bens à comunhão, abolido o Estado com toda essa
engrenagem que o constitui, os homens, por isso mes-
mo que são sociáveis e que devem o progresso até hoje
ao apoio mútuo e não à luta pela vida, se organizarão
livremente para produzir e consumir, produzindo na
medida de suas forças e consumindo de acordo com as
suas necessidades.
E como o homem é um produto determinado de cau-
sas várias, resulta imediata e conseqüentemente a
irresponsabilidade pelas suas ações anti-sociais.
Como tudo será de todos; não haverá nem o roubo,
nem essa série enorme de delitos enumerados nos atu-
ais códigos penais.
Haverá, é certo, aberrações, mas para essa espécie
de delinqüentes a ciência já achou remédio — são do-
entes que precisam de uma assistência especial e, so-
bretudo, fraternal.
Para o anarquismo também a sociedade não é um
acervo qualquer. Bem sabemos que “ela se caracteriza
pela divisão de ofícios e a convergência de esforços”,
conforme proclamou Aristóteles. Mas não há duas na-
turezas humanas, uma destinada a ser escrava e outra
a ser senhora, como também disse o mesmo filósofo e
como implicitamente pretende o positivismo, manten-
do essa hierarquia piramidal cuja base é a massa prole-
tária e cujo vértice é representado pela união da rique-
za com o poder.

118
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

O que o anarquismo proclama é a imprescindível


necessidade do homem viver sem senhores quaisquer
que eles sejam, a fim de não entravar a mais larga ex-
pansão de suas faculdades morais, intelectuais e práti-
cas. A liberdade sem limites só pode prejudicar a uma
sociedade baseada na violência organizada, como é a
atual e como seria ainda se ela pudesse atingir a esse
“estado normal” de que nos fala Comte.
O público que tiver lido o opúsculo do Sr. Mendes
junto a este número de “A VIDA” verá que impossível
nos é lhe dar uma resposta em um simples artigo, es-
crito às pressas, nos joelhos, pode-se mesmo dizer.
Não há dúvida que firmados os pontos cardeais da
obra de Augusto Comte, dentro do círculo em que ele
enfeixou as suas doutrinas, tudo o mais obedece a uma
lógica admirável.
Examinem-se, porém, os alicerces dessa grandiosa
construção e ver-se-ão as falhas, os erros capitais, de
que decorrem as falazes e quiméricas esperanças do
grande filósofo, que sonhou com uma sociedade de an-
jos, mas da qual não pode excluir os carcereiros, os
policias, os juízes e os carrascos.
Aceitando o princípio de Aristóteles que a sociedade
se caracteriza pela divisão dos ofícios e a convergência
dos esforços, Comte mantém a classificação entre es-
ses mesmos ofícios por graus de nobreza e dignidade.
Assim, o juiz que condena um indivíduo à pena de mor-
te exerce uma função incomparavelmente mais nobre
do que o carrasco incumbido de a executar.
E esse mesmo juiz, que age em defesa da sociedade,
que age por altruísmo, no entender do Sr. Mendes, por
que deve ser cercado de mais regalias, de mais privilé-
gios do que o carrasco, cuja missão deveria ser também
considerada eminentemente social ou altruísta?

119
3
2003

Não, a divisão de ofícios existe de fato e deve existir


para que a sociedade possa subsistir, mas o que o
anarquismo quer é que esses ofícios sejam de livre es-
colha e não determinados por necessidades implacá-
veis criadas por essa mesma sociedade. Numa socieda-
de organizada pelo comunismo anárquico, em que a
mulher não precisasse vender o seu corpo para matar a
fome, não haveria prostituição; numa sociedade em que
não houvesse famintos, também pouco poderia haver
carcereiros, policias e carrascos.
O positivismo, entretanto, não se propõe a extinguir
essas classes de miseráveis; ao contrário, mantendo a
hierarquia dos ofícios por graus de nobreza e dignida-
de, precisa dessas classes, precisa desses ofícios de-
gradantes e ignóbeis.
Para o anarquista, porém, tão ignóbil é a função do
juiz como a do carrasco, por isso terão de desaparecer
esses ofícios, numa sociedade anarquicamente organi-
zada.
Não se diga que garantido o direito de todos à casa, à
alimentação e ao vestuário, quer trabalhem, quer não
trabalhem, a sociedade desaparecerá, porque ninguém
quererá trabalhar.
O anarquismo não é uma doutrina artificial, basea-
da em quimeras. O que se deve esperar é que em uma
sociedade organizada sem hierarquia, sem senhores e
sem escravos, todos trabalharão com mais gosto. O tra-
balho é uma necessidade orgânica. Parasitas só são
possíveis numa sociedade baseada na exploração do
homem pelo homem, em que ninguém educa os filhos
para o trabalho, porque é melhor ser explorador do que
explorado. Numa sociedade baseada no comunismo
anárquico será o contrário, cada qual poderá dar livre
expansão às suas predileções e aptidões.

120
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

O parasita será uma exceção e não a regra. Mas es-


sas exceções serão ainda muito menores que os parasi-
tas da sociedade atual, ou mesmo desse “estado nor-
mal” de que nos fala A. Comte, funcionalismo público,
civil e militar, banqueiros, juízes, sacerdotes, etc...
Não temos também a pretensão de converter a quem
quer que seja ao anarquismo, apenas o que pretende-
mos é despertar a atenção do público para esses pro-
blemas sociais e levá-lo a meditar sobre eles.
Tampouco queremos entreter polêmica com o Sr.
Mendes; o que, porém, não podíamos era deixar de dar
as razões por que somos anarquistas e porque somos
anarquistas revolucionários.
Não pretendemos a revolução porque sejamos seden-
tos de sangue, mas porque julgamos fatal, inevitável.
Entre evolução e revolução, como bem o demons-
trou Elysée Reclus não há essa tão grande distância
que se afigura aos positivistas. Quando uma idéia ga-
nha um certo número de adeptos que se julgam fortes
para a luta, eis que se lançam na revolução. É a lição da
história. E que é, na maioria das vezes a evolução, se-
não uma série de freqüentes revoluções? E que são as
revoluções senão conseqüências fatais da evolução?
Vamos terminar estas sumárias considerações, la-
mentando que as condições desta revista não nos per-
mitam abordar a todos os pontos de que o Sr. Teixeira
Mendes tratou no seu opúsculo.
Esperamos, entretanto, que estas apagadas reflexões
induzam o eminente apóstolo do positivismo a meditar
sobre as obras dos filósofos anarquistas e não se limite
a ler por mera curiosidade escritos esparsos cedidos por
outrem.

121
3
2003

Além dos elementos que manejou Augusto Comte na


elaboração de sua obra, outros muitos vieram, após a
sua morte, enriquecer o tesouro científico da humani-
dade e não devem ser desprezados pelos homens da
estatura do grande apóstolo do positivismo no Brasil, a
quem temos enfrentado tão somente escudados na con-
vicção em que estamos de que conosco está a verdade,
a lógica, a verdadeira moral e a razão.

As escolas e sua influência social. O ensino oficial e


o ensino racionalista
A Vida. Ano I — N° 02.
Rio de Janeiro — RJ — 31.12.1914.
João Penteado.

As escolas, fontes alimentadoras das caudais de idéi-


as que tão poderosamente influem no destino das soci-
edades humanas — devem, por certo, merecer a mais
acurada, a mais cariciosa, a mais desvelada dedicação
por parte dos reformadores sociais, dos que sonham um
futuro diferente para a humanidade, — porque é nelas,
justamente nelas, nos seus bancos e nos seus livros
que se preparam as novas gerações, que fatalmente se-
rão arrastadas para a felicidade ou para a desgraça, para
o bem ou para o mal, para a liberdade ou para a escra-
vidão, para a paz ou para a guerra, para a vida ou para
a morte, segundo o critério em que elas se baseiam,
segundo o espírito bom ou mau que as anima e o obje-
tivo a que elas se destinam.
É nelas que reside o segredo da força mantenedora
dos preconceitos patrióticos, das convenções sociais,
das superstições e dos dogmas religiosos.

122
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

Daí, pois, a razão porque o Estado e a Igreja dispu-


tam entre si a primazia no mister da instrução popular
e têm as suas vistas constantemente voltadas para a
questão do ensino procurando aumentar sempre e de
maneira considerável as instituições destinadas à for-
mação de mentalidades que melhor se adaptem à vida
de degeneração e perversidade das sacristias e dos quar-
téis que à atmosfera sadia da liberdade e da felicidade
resultantes da emancipação da consciência e do pen-
samento.
Isto quer dizer que ambos, em sua arguta previsão,
já imaginaram que não poderia haver mais hoje igrejas,
nem conventos, nem casernas se não fora o árduo e
incessante trabalho de suas inumeráveis escolas. É
nelas que se amoldam, é nelas que se mutilam as cons-
ciências, que se atrofia a razão e se infiltram na alma da
infância as mentiras patrióticas e religiosas.
E por este motivo, só por este motivo, as escolas sem-
pre mereceram e ainda merecem as mais fortes, as mais
sérias preocupações da parte dos mais argutos e pers-
picazes chefes de nações e ministros religiosos, que se
dão ao trabalho de monopolizar o ensino público para
se precaverem contra o progresso das idéias novas que
levam os trabalhadores à revolta, à luta, à guerra con-
tra todas as explorações do homem pelo homem, contra
todas as injustiças, contra todos os privilégios sociais.
Não houve nação no passado que não houvesse ins-
tituído escolas de acordo com a sua mentalidade, com
as suas aspirações e seus sentimentos. Mas se elas
correspondiam à forma, à maneira despótica de gover-
no daquelas eras — as de hoje, todavia, com quanto
nos gabemos de ser tão civilizados, não deixam de ter
senão pequeníssima diferença.

123
3
2003

As escolas oficiais do Estado são umas casernas em


perspectivas. Nelas, em vez de se prepararem homens
para uma sociedade humana, apenas se tem a preocu-
pação de transformar as gerações nascentes em futu-
ros gendarmes, formando-lhes uma mentalidade assas-
sina e belicosa, propensa para o derramamento de san-
gue, para o saque, para o espingardeamento de seus
semelhantes, para a obra de devastação das cidades,
de vilas, de aldeias populosas das nações cujos chefes
estejam em desacordo com os seus.
E querem uma prova?
A guerra européia aí está, com todos os seus horro-
res, para provar da maneira mais frisante, mais forte e
mais inconcussa o que acabamos de afirmar.
Ela não é senão o fruto de um lento e premeditado
trabalho elaborado nas escolas oficiais das nações con-
flagradas, que preparam surdamente os espíritos de seus
concidadãos para a tremenda e vergonhosa luta que tem
posto em jogo todas as força destruidoras inventadas
pela perversidade humana levando a dor, a miséria, o
desconforto e a morte por toda a parte.
E esse prélio terrível, essa luta monstruosa, esses
embates furiosos, bárbaros, selvagens, em que se lan-
çam os povos da velha e mais culta parte do mundo
civilizado, tiveram começo, primeiramente nas escolas
oficiais, por meio da infiltração do nefasto patriotismo,
que inocula no espírito da juventude de uma nação ou
de uma raça o sentimento de repulsa, de despeito e de
ódio pelos indivíduos de outra raça. As escolas prepa-
raram e as casernas, por seu turno, completaram a obra
terrível, auxiliadas pela imprensa vendida ao serviço dos
promotores das guerras internacionais, que são os che-
fes de Estado e os banqueiros.

124
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

Foi assim que se produziu a guerra européia e será


assim que se reproduzirão outras tantas hecatombes
futuras — se nós, os que trabalhamos pelo bem da hu-
manidade, não opusermos à influência nefasta destas
escolas de perversão e de morte a benéfica, a eficaz, a
salutaríssima ação das nossas escolas racionalistas que
excluem de seu programa todos os preconceitos patrió-
ticos e religiosos, tendo sempre em mira, antes de tudo,
a educação e a instrução da infância de acordo com a
razão e com a verdade das coisas que constituem o ob-
jetivo principal de nossa vida e a razão de nossos atos,
já fazendo despertar-lhe todas as aptidões naturalmen-
te manifestadas para o trabalho produtivo, para a ciên-
cia e para as artes, já a encaminhando de modo huma-
no e racional para a conquista de todas as felicidades,
descortinando para suas vistas horizontes novos, ful-
gurantes, iluminados.
É este, pois, se bem que modestamente, o trabalho
que temos iniciado em São Paulo e que precisa, decer-
to, da decidida boa vontade de todas as consciências
livres, da cooperação de todos aqueles que sentem a
verdadeira e urgente necessidade de se opor uma bar-
reira a tanta degenerescência moral que se observa nos
espíritos de nossos contemporâneos.
A sociedade degenerada, perdida, desorientada, de-
bate-se num caos reclamando o trabalho de reforma
iniciado com tanto sacrifício pelos apóstolos do bem, da
verdade e da justiça, que deram o melhor de sua vida
pela causa da redenção humana.
Não esmoreçamos, pois, na luta!
Marchemos para frente!
A causa da reforma exige a nossa dedicação, o nosso
esforço.

125
3
2003

Mãos à obra!
As escolas racionalistas serão o meio, e a transfor-
mação social o fim, de nossos atos, de nossa dedicação,
de nosso esforço de hoje e de amanhã e de sempre, em
quanto pudermos articular uma palavra, mover um pas-
so, fazer um gesto enunciador de força, de energia, de
vida!
As escolas racionalistas, as escolas livres, as escolas
despidas de todos os prejuízos políticos, sociais e religi-
osos — eis o recurso mais eficaz, mais poderoso, mais
praticamente realizável para a consecução do ideal lu-
minoso, radiante de amor, de bondade e de justiça, que
tenta reabilitar a humanidade para a vida de harmonia
e de fraternidade que se nos afigura perto, muito perto,
na perspectiva feliz e iluminada da cidade Futura, em
que seremos todos iguais, fortes e livres sobre a Terra
livre.
Ai! então, não haverá mais mendigos nem potenta-
dos, porque o homem, emancipado, de posse de todos
os seus direitos, saberá tirar da nossa mãe Natureza o
pão da alegria e o pão da vida.
S. Paulo, 15 de dezembro de 1914

A instrução e o Estado
A Vida. Ano I — N° 03.
Rio de Janeiro — RJ — 31.01.1915.
Éfren Lima.

Está evidente à simples apreciação, o quanto de


nocividade resulta da dependência em que a instrução
contemporânea vive para com o Estado. Altamente las-
timável é este protetorado sobre uma instituição social

126
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

que necessita de uma liberdade própria, a mais plena e


completa possível. O indivíduo socializado, não sendo
como demonstram as leis do determinismo, mais que o
resultado de três fatores preponderantes na gênese —
hereditariedade, educação e meio, será na vida em co-
mum tanto melhor ou pior quanto as influências cria-
doras atuarem para o bem ou para o mal.
O homem que por efeitos de hereditariedade, vem ao
mundo com predisposições grosseiras, poderá modificá-
las ou aniquilá-las, servindo-se do auxílio fornecido
pelas deformações resultantes da convivência social, isto
é, do — meio, ou dos conhecimentos metafísicos que
lhe forem ministrados, isto é, da — instrução. De forma
oposta, o ser predestinado que herda, dos seus ascen-
dentes, inclinações as mais felizes, está determinado a
desenvolvê-las, aumentando-as vantajosamente, ou a
atrofiá-las, em prejuízo próprio e da sociedade. Então,
verificada a segunda condição, uma substituição mais
ou menos completa da inteligência pela brutalidade, de
uma forma mais perfeita por outra mais retrógrada, dar-
se-á fatalmente.
Deste raciocínio, evidencia-se a maior importância
dos dois últimos fatores enunciados, ambos de ação
modificativa, e dos quais incontestavelmente o primei-
ro reclama uma atenção mais delicada. O ser maléfico
por origem submetido a uma orientação meticulosa,
dirigido para o bem supremo, e vivendo num ambiente
adiantado, onde as aspirações elevadas predominem,
perderá quantitativamente o instinto para o mal.
A energia primordial adquirida por via biológica, po-
derá ser apaziguada ou extinta, por via de adaptações
deformantes e posteriores. Portanto um esforço coleti-
vo de todas as pessoas das várias nações das diversas
raças terrestres, e tendente a tornar a educação dos

127
3
2003

novos indivíduos a primeira preocupação da humani-


dade, colocando-a em nível superior e purificando zelo-
samente o meio social, deveria constituir o horizonte
para o qual seriam dirigidos os valores máximos dos
nossos trabalhos.
Agora que esboçamos os pontos principais do argu-
mento, perguntamos, — haverá essa comunhão de von-
tades? A educação subministrada atualmente aos po-
vos atingiu tal perfeição? É fácil constatar o contrário.
Em todas as nações em que foi a terra parcelada, é
regra geral, que o Estado, o governo constituído, encar-
regue-se do ensino público, tanto em sua parte primá-
ria como na alta fração das academias e universidades.
É o Estado quem possui a faculdade de nomear pro-
fessores, selecionando-os entre os candidatos que lhe
parecem mais aptos para o mister de conservadores das
tradições.
O povo custeia, e os governos administram. Com-
preendendo, com a sagacidade peculiar aos dilapida-
dores, a grande importância da instrução pública como
arma para a tácita submissão das massas ao jugo auto-
ritário, os governos de todos os países apressaram-se
em fazer da sua distribuição uma espécie de exclusivi-
dade para os poderes diretores. Amordaçada, com os
movimentos em parte tolhidos ou desviados, do alvo que
visava, ela debate-se sob a monstruosa tutela do mais
rancoroso inimigo.
As escolas públicas, primárias e superiores, forne-
cem uns programas instrutivos, cuidadosamente com-
pilados pelos governos e consoante com os seus inte-
resses econômicos, políticos, partidários, etc.
O jovem que entra para um curso, neófito nos pre-
conceitos sociais, isento de concepções metafísicas an-

128
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

teriores, é imediatamente assediado por todas as abs-


trações hipócritas costumeiras. Ensinam-se-lhe cren-
ças religiosas, amor pelas pátrias, respeito às autorida-
des, obediência às leis, proteção à propriedade privada,
e milhares de monstruosidades análogas. E a desgraça-
da criança, convicta que adquire o conhecimento do bem
e da sabedoria, vai lentamente assimilando o veneno
degenerescente do erro. Ah! é realmente assim! e aí está
a causa porque desprezamos todos esses professores
de conhecimentos antiquados e uniformes, assalaria-
dos pelo Estado! Como são abomináveis e perversos!
Também uma biblioteca fartíssima acha-se criada para
uso dos estabelecimentos de educação pública e parti-
cular.
Milhares de autores precisos de numerário que lhes
assegure o pão diário, escreveram estes livros. Visando
em primeiro lugar o lucro, a recompensa abundante dos
seus labores, estes escritores sem escrúpulos sacrifi-
caram o porvir do estudante ao egoísmo pessoal. Elabo-
raram obras pueris, concordes com as tolerâncias do
meio, que acham bom como é, e ao qual nunca ousari-
am tentar uma depuração. Esquivaram-se da apresen-
tação de idéias novas e robustas com propensões a re-
fundi-lo.
Temos lido dezenas destes volumes, e sempre o nos-
so espírito é obrigado a acompanhar a espiral infinita
de conceitos maus, contrários à perfeição intérmina (sic)
que almejamos. E todos repetem uníssonos o canto ve-
nenoso — amai vossa pátria, ela é melhor que todas as
outras! Acatai as ordens sagradas da autoridade! Adorai
vosso Deus! Nada de sublevações, obedecei, obedecei!
Como são doentios, nocivos, todos esses livros que co-
nhecemos para uso das escolas! Infiltram na mentali-
dade indecisa do estudante, idéias pequeninas, cria-
ções confusas e quando o jovem faz-se homem, percebe

129
3
2003

as areias estéreis em que está imobilizado, e empreen-


de sua libertação, esta é dolorosa.
A lei do hábito é mundial e os que são por ela domi-
nados, só com lutas formidáveis conseguem fugir ao
jugo. Um ser habituado é um ser escravizado. Libertar-
se e habituar-se são duas ações incompatíveis, são duas
leis igualmente poderosas, que se repelem, que se que-
rem esmagar. O bovino estúpido que por anos consecu-
tivos trabalhou sob o peso da carga, habitua-se, e quan-
do a invalidez o liberta não pode mais suportar a au-
sência do suplício. Então se lhe apresentarem o pesado
madeiro, ele inclinará servilmente o pescoço para rece-
ber o instrumento que lhe macera as carnes.
Também o homem habitua-se, e mais ainda que os
outros similares do reino. Tenha-se em vista as desgra-
çadas vítimas dos vícios, — esses milhares que jogam,
arruínam-se, bebem álcool, envenenam-se, e que não
podem deixar de assim fazer. É um grande mal, e que
poderemos evitar. Assim como o corpo físico modifica-
se de instante pra instante, também o conjunto moral
deverá modificar-se. O hábito, a imutabilidade, é a qui-
etude, o aniquilamento, e opõe-se à transformação
evolutiva, ao progresso.
Irmãos nossos, fugi, fugi do hábito, caminhai para a
liberdade, para a mutação, para a perfeição inacabável.
Jamais até hoje um segundo homem compreendeu
melhor do que Ferrer, a necessidade de um ensino raci-
onal, novo e que se afastando do dogmatismo pedagógi-
co presente, ministrasse uma educação realmente im-
pecável, e que evoluísse a par com o desenvolvimento
das ciências. Ao mártir excelso coube a glória de reali-
zar este ideal tão puro, e aos homens filantrópicos cum-
pre o dever de amparar a obra iniciada, consolidá-la e
multiplicá-la infinitamente.

130
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

A Escola, prelúdio da caserna


A Vida. Ano I — N° 05.
Rio de Janeiro — RJ — 31.03.1915.
Adelino de Pinho.

A escola atual, confessional ou governamental, é a


sistematização da violência. Exemplifiquemos tão au-
daz afirmativa.
A conflagração européia, essa tremenda guerra que
tão desastrosas conseqüências acarretou ao desenvol-
vimento físico, moral e intelectual da humanidade, é
um produto da escola primária.
Os estados modernos, compreendendo perfeitamen-
te que com a decadência da religião e com o desenvolvi-
mento comercial e industrial das sociedades era impos-
sível manter na ignorância suína, dos tempos idos, as
multidões, abriram escolas, as mais diversas que pude-
ram, especialmente nas cidades onde os agrupamentos
são maiores e onde as idéias se disseminam mais facil-
mente, porque há mais sociabilidade, para por esse meio
lançarem mão dos cérebros infantis e modelá-los a seu
bel-prazer, enchendo-os de fórmulas metafísicas e abar-
rotando-os de palavrões estragados, como pátria, fron-
teira, estrangeiro e inimigos, acostumando os ternos in-
fantes a desconfiar dos outros povos e a precaver-se
contra eles, o que leva os do país estranho a fazer o
mesmo e vice-versa.
Os professores primários transformaram-se numa
espécie de instrutores de soldados e a escola surgiu
como uma ante-sala do quartel.
A educação cívica e até os exercícios militares
erigiram-se em dogma infalível, em bíblia e evangelho.

131
3
2003

As novas gerações, saídas desses antros de desmo-


ralização, que outra coisa poderiam dar a não ser bons
soldados? À força de ouvirem falar de amor à pátria —
dos ricos — de ver desfilar regimentos, de assistirem às
paradas, de ouvirem e entoarem canções ferozes de
chauvinismo e hinos triunfais de guerra, tomaram como
fim e missão a atingir serem bons soldados, obedientes
à disciplina e à voz de seus chefes, prontos a arremes-
sarem-se contra os trabalhadores em greve ou contra
os povos de outros paises,desde que os interesses mo-
netários dos ricos e capitalistas assim o exigissem.
E quanto isto é verdade está à vista de todos com as
desgraças desenroladas desde agosto até agora na Bél-
gica, na Polônia, na França e também na Alemanha e
Rússia e tutti quanti.
Foi há dois séculos que Leibnitz pronunciou aquela
frase célebre e verdadeira: “Fazei-me senhor do ensino
e eu me encarrego de transformar a face do mundo!”
Todos os estados a ouviram e trataram de a aplicar à
defesa dos próprios interesses. E como as primeiras
impressões, que os cérebros infantis assimilam, deixam
vestígios, impressões indeléveis para toda a vida, trata-
ram de ir abrindo escolas e de preparar programas ade-
quados, não às necessidades reais da mente infantil,
mas necessários à conservação perpétua e indefinida
dos governos, com os regimes de casta, explorando o
povo, e defendidas por soldados, filhos do povo, mas
obliteradas as suas idéias pela influência nefasta da
escola.
Mas Estado nenhum compreende tão bem como a
Alemanha a verdade lançada pelo seu filósofo. Nesse
país notou-se tão evidentemente a significação profun-
da daquele aforismo e a influência decisiva da escola
nos espíritos infantis, desviando as suas tenras inteli-

132
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

gências da natural tendência, que o movimento escolar


foi enorme e quase o analfabetismo desapareceu. As
conseqüências deste surto se ofereceram nesta emer-
gência vendo-se a totalidade dos alemães educados
como fiéis e leais súditos do Kaiser “a quem juraram
obediência” porquanto aquele os chama “filhos da sua
guarda” e diz-lhes cruamente que se “os mandar atirar
sobre os próprios pais, eles terão que obedecer”, mar-
charem unidos à busca da morte.
E quem preparou estes espíritos a uma submissão
tão passiva e incondicional? A escola oficial!... Era na-
tural, pois, tantos desvelos pelos filhinhos dos pobres
deveria levar água no bico!... (sic)
Mas temos mais. Não é só da Alemanha que temos
que dizer. Lá está a democrática França, que em mais
pequeno (sic) ponto não fica atrás à sua rival. Terra da
revolução, da proclamação dos direitos do homem, der-
rubou a realeza e a aristocracia; terra de socialismo, de
sindicalismo, de anarquismo e de antimilitarismo, don-
de os revolucionários de todo o mundo esperavam que
espirasse a fagulha que incendiaria a Revolução Social
por todo o universo, o que fez? — Caminhou para a fron-
teira a deter o inimigo. Mas depois de se ter desembara-
çado dos inimigos internos: burocratas de todas a es-
pécie, juizes, merceeiros, especuladores, agiotas e ca-
pitalistas?
— Não, tudo isto ficou em paz. Nem com a ponta dum
alfinete foram molestados. Pelo contrário, valem-se das
circunstâncias atuais para se defenderem. E até mui-
tos (quem o acreditaria?) desses chamados revolucio-
nários sociais foram arrastados não só para a frente da
batalha, mas, o que é pior, a fazer declarações um pou-
co intempestivas e em desacordo com as idéias antes

133
3
2003

emitidas. Fizeram mal? Fizeram bem? E chi lo sá? (sic)


O tempo o dirá.
Não nos iludamos. Todos esses, sob o verniz das idéi-
as espalhadas durante o tempo de paz, ocultavam, como
a cinza o fogo, as idéias bebidas com o leite materno e
fortificadas, reforçadas e desenvolvidas, na escola pri-
mária por esses agentes governamentais — os profes-
sores — que são obrigados a cingir-se ao programa e a
não ultrapassá-los, nem quase criticá-los. E os progra-
mas são forjados tendo em vista a estreiteza e o aca-
nhamento das idéias. Porque idéias boas só as que os
governantes defendem, para gáudio de seus estômagos
e de seus prazeres. É certo que assim criam-se reba-
nhos, não se formam coletividades. Precisamente, re-
banhos que se deixam tosquiar e que se dilaceram mu-
tuamente a um sinal dos amos, assistindo estes como
de palanques a brigas de touros, é o que desejam.
Concluamos: todo este carinho revelado pelos man-
dões a respeito da instrução do povo, não é sincero,
nem honesto, nem desinteressado, mas somente uma
manobra habilíssima para se apoderarem dos filhos dos
trabalhadores e prepará-los, como já aconteceu aos pais,
amoldando-lhes os cérebros e deprimindo-lhes o cará-
ter, a serem obedientes, humildes, submissos e
respeitadores do status quo, bons manequins, dentro
da oficina, quando há necessidade de produção, e bons
manequins, no campo de batalha, quando os stocks (sic)
de mercadorias abundam nos armazéns e se faz mister
conquistar mercados à força de pulso, a ferro e fogo,
para dar saída aos produtos invendíveis.
De sorte que os trabalhadores não saem desta alter-
nativa: serem carne de oficina e de canhão!... Mas não
haverá meio de abandonar este agudo dilema?

134
verve
Guerras, deuses, educação, liberdade sob olhares anárquicos

Vejamos: demonstrado como fica a influência


primacial que as primeiras impressões exercem no ul-
terior desenvolvimento individual e coletivo dos indiví-
duos e, por outro lado, observando-se o cuidado com
que os governantes têm em se apoderar das escolas in-
fantis para as transformar em instrumentos de
embrutecimento e de domínio, já naturalmente todos
notaram que é de máxima urgência e necessidade a
abertura e manutenção de Escolas Racionais onde as
mentes infantis desabrochem e se desenvolvam livres
de toda a pressão e de toda a imposição. E se queremos,
desejamos e aspiramos um mundo melhor onde todos
gozem a alegria de viver, satisfeitos da vida e libertos da
fome, da opressão e da ignorância bestial; se queremos
edificar este belo monumento, “a escola, — a Escola Ra-
cional — é o PEDESTAL!”
S. Paulo, março de 1915

Notas
1
Em 1988 o Centro de Memória Sindical — CMS — junto do Arquivo Storico
do Movimento Operário Brasileiro - ASMOB — de Milão, dando continuida-
de ao projeto de reedição de jornais e revistas produzidas pelos operários da
primeira república brasileira, organizaram a reedição em fac-símile de A Vida.
Regina Aída Crespo desenvolveu pesquisa de Mestrado na UNICAMP em que
trata, dentre outros periódicos, de A Vida. Sua dissertação intitula-se Crônicas e
Outros Registros: flagrantes do pré-modernismo (1911-1918).
2
Em relação à questão dos universais em Florentino de Carvalho ver Nasci-
mento, op. cit. todo o capítulo cinco, sobretudo o primeiro item intitulado
“Anarquismo sem Adjetivos”.
3
Sobre a greve de 1917 ver Christina Roquete Lopreato. O Espírito da Revolta: a
greve geral anarquista de 1917. São Paulo, Annablume, 2000.

135
3
2003

RESUMO

Os cinco artigos apresentados são da autoria de anarquistas


que viveram no Brasi, na passagem do século XIX para o XX
Escritos nos preparativos da primeira guerra mundial, abor-
dam o tema de formas diferenciada, articulando-o à religião,
escola, governos e na crítica ao positivismo.

ABSTRACT

Os cinco artigos apresentados são da autoria de anarquistas


que viveram no Brasi, na passagem do século XIX para o XX
Escritos nos preparativos da primeira guerra mundial, abor-
dam o tema de formas diferenciada, articulando-o à religião,
escola, governos e na crítica ao positivismo.

136
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

gastronomia e anarquismo — vestígios de


viagens à patagônia trapeiro

christian ferrer*

As expedições
Quatro são os pontos cardeais e quatro os homens
significativos que entraram pela Patagônia no final do
século XIX. Pelo norte, o General Julio Argentino Roca
no comando de um exército; pelo sul, o anarquista Errico
Malatesta junto a outros quatro companheiros de idéi-
as; pelo leste, duzentos imigrantes galeses que desem-
barcaram num navio chamado Mimosa, um tipo de
Mayflower para a região do Chubut, em busca de uma
nova vida; e pelo oeste, através de terras araucanas, o
francês Orllie Antoine de Tounens, fidalgo provinciano
falido que pretende um cetro e uma coroa. A Patagônia
foi invadida por um militar, que seria em breve Presi-
dente da Argentina; por um rei de opereta; por um anar-
quista fugitivo do governo italiano; e por colonos cujo
líder, Lewis Jones, acreditava num vago ideário socia-
lista de inspiração fabiana. Cada um deles tinha em

* Professor na Universidade de Buenos Aires.


verve, 3: 137-160, 2003

137
3
2003

mente um modelo de organização coletiva: a Comuni-


dade corresponde aos colonos; o Império ao auto-assu-
mido Rei de Araucânia e Patagônia; o Estado-nação ao
General Roca, e, por último, a Revolução Mundial aos
anarquistas. Cada uma destas expedições patagônicas
deixou restos históricos, emblemáticos, espirituais, e
inclusive gastronômicos, que, excetuando a crônica da
incursão estatal-militar, foram se dissolvendo no esque-
cimento, e resultam ser diáfanos para os argentinos de
hoje em dia; no máximo, anedotas. Esses vestígios his-
tóricos estão enterrados à flor da terra: sobrevivem frá-
geis nas lendas populares da região ou nos rumores
excêntricos de rememorações. Certamente: o Estado se
ocupa de divulgar as façanhas unificadoras do territó-
rio e de incrustá-las nos programas curriculares difun-
didos nas escolas e universidades. Os outros só podem
esperar a piedade histórica que se transmite de boca a
boca, as cavidades carnais que amparam a história so-
cial de um povo. Em certas ocasiões, uma só pessoa no
mundo lembra o que passou.
Na metade do século XIX, a Patagônia era sinônimo
de território desconhecido, vento furioso, espaço gigan-
te, semidespovoado e jamais medido, de terras de índi-
os Tehuelches e Mapuches. Circulavam ainda lendas
improváveis sobre a existência do El Dorado, a cidade
coberta de ouro que buscaram insistentemente os con-
quistadores espanhóis, desta vez num dos últimos ter-
ritórios ainda inexplorados da América do Sul. Longe
de sua longa costa, onde de vez em vez se detiveram
exploradores, baleeiros ou fornecedores dos escassos
portos ali estabelecidos, o interior patagônico era terra
de ninguém, isto é, de indígenas; era La Tierra, tal como
a chamavam os Mapuches, seus habitantes primeiros.
Só alguns pioneiros e os eternos trapeiros que
comercializavam com os índios conheciam os caminhos

138
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

do interior. O autêntico governante da Patagônia no


século XIX era o vento, cujas borrascas fogosas alcan-
çavam, em seu momento de esplendor, cento e vinte
quilômetros por hora. Ao terminar o dia, o silêncio trans-
parente e a noite austral, espelhos simétricos, fundi-
am-se suavemente. Patagônia era uma palavra escrita
num mapa vazio, em que os governantes argentinos re-
centemente liberados de sua longa guerra civil vigia-
vam ansiosa e cobiçadamente desde Buenos Aires, pre-
ocupados com as possíveis reclamações chilenas ou
européias.

Colonos e soldados
Alguns galeses fugiam da intolerância religiosa; e
todos eles, dos ingleses. Em 1865, os colonos desem-
barcaram no Golfo Nuevo e se embrenharam pelo vale
do rio Chubut. Lutaram contra as intempéries e funda-
ram povoados ao longo das margens: Madryn, Rawson,
Gayman, Trevelyn. Por muitos anos, seus vizinhos ha-
bituais não seriam os argentinos, mas os índios
Tehuelches, que, pedintes por natureza, solicitavam
constantemente comida e todo tipo de objeto. A troca
se fazia em linguagens intraduzíveis em Buenos Aires:
em galês e em tehuelche. Pouco depois de chegar, mor-
reu o primeiro dos colonos e foi enterrado num cemité-
rio consagrado, atrás da capela protestante. Foi então
que a cidade dos imigrantes concluiu a primeira rota-
ção sobre si mesma. Esse cemitério, já repleto, foi fe-
chado na década de 1930. Mesmo assim, o último dos
imigrantes originários foi enterrado nesse primeiro cam-
po-santo, reaberto exclusivamente para este último dos
primeiros. Lentamente, os galeses se miscigenaram, e o
vale do rio Chubut começou a ser compartilhado com
outras correntes migratórias, incluindo argentinos.

139
3
2003

Anos mais tarde, em 1878, o governo argentino co-


meçaria a ocupação final da Patagônia mediante um
movimento militar obstinado, chamado oficialmente “a
conquista do deserto”, isto é, a subordinação dos donos
originais ao Estado argentino. Para liquidar com o “pro-
blema do índio” foi enviado um exército sob comando
do Ministro de Guerra, Julio A. Roca, cuja missão su-
punha ultrapassar a linha de fronteira estabelecida,
décadas anteriores, com os índios por meio de uma sé-
rie de fortins, e derrotar de maneira drástica as tribos
Ranqueles, Pehuenches, Pampas, Mapuches e
Huiliches. Eram 6000 soldados organizados em 5 divi-
sões de exército contra 2000 combatentes indígenas
dispersos. Eram fuzis e telégrafos contra lanças e
boleadeiras. Em 25 de maio de 1879, o impulso belige-
rante desse exército havia deixado para trás a terra ar-
rasada e acabado com o poder do último capitanejo in-
dígena. O General Roca dá por finalizada a expedição
ao chegar às margens do Rio Negro. Morreram 1300 ín-
dios, foram feitos 10500 prisioneiros, e 55 milhões de
hectares foram incorporados ao mapa do Estado argen-
tino. Pouco tempo depois, nesses territórios, foi funda-
da uma cidade que até os dias de hoje preserva sua
origem toponímica militar: Forte General Roca. O desti-
no posterior do Comandante seria a política, tendo se
transformado durante as décadas seguintes no “grande
árbitro”. Militar, político, sempre seria um Homem de
Estado. Mesmo assim, a ocupação definitiva da
Patagônia levaria dez anos mais de escaramuças com
os indígenas localizados mais ao sul.

O rei
Duas décadas antes, pelo leste, desde o Chile, um
homem solitário que sonha com impérios, cruza a Cor-

140
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

dilheira dos Andes. Tem trinta e cinco anos. Fora pro-


curador em Périgueux e ávido leitor de livros de geogra-
fia e de viagens de exploradores. O esforço rotineiro,
sem proveito algum, se decantou a favor de uma via-
gem à América do Sul para tentar a sorte e conquistar
terras. Em 1858, desembarca no porto de Coquimbo,
no Chile. Durante os dois anos seguintes, e ainda antes
de pisar os territórios onde os araucanios viviam alhei-
os aos desígnios estatais do governo chileno, já se mu-
nira de uma bandeira, um escudo e uma constituição
para seu futuro reinado. Em 1860, junto a dois comer-
ciantes franceses que costumavam traficar miudezas e
maus hábitos com os índios, e que prometera os elevar
à posição de ministros, adentra-se pela Araucania. Aos
poucos, sobre uma mula, chegou à terra que se prome-
tera a si mesmo. Em 17 de novembro de 1860, apenas
conseguido um tímido e ambíguo apoio dos caciques
indígenas, Orllie Antoine emite um decreto proclaman-
do-se a si próprio Rei de Araucania. Em seguida, envia
uma comunicação postal ao Presidente do Chile, Ma-
nuel Montt, anunciando a boa nova; notícia que o go-
verno chileno ignorou por completo. Um rei sem exérci-
to não supõe um problema, por mais que o primeiro
número romano substituísse o sobrenome Tounens.
Três dias depois, com outro decreto, anexa a Patagônia
argentina inteira a seu reino, batizando-a com o nome
de Nouvelle France. A primeira aventura araucana de
Orllie Antoine termina abruptamente em janeiro de
1862, quando, traído por dois de seus guias e insolen-
tes chilenos, é capturado por um destacamento militar.
Nesse momento, o governo do novo presidente José
Joaquín Pérez estava medianamente alarmado diante
da possibilidade de uma sedição indígena induzida e
liderada por um maníaco francês. Dois anos de dispu-
tas com os índios e de patético reinado se desfazem len-
tamente numa prisão chilena, onde permanece por nove

141
3
2003

meses. É julgado, e condenado à reclusão na Casa de


Orates de Santiago de Chile, humilhação da qual é sal-
vo pela oportuna intervenção do Cônsul da França em
Valparaíso, que consegue repatriá-lo a Paris. Foi des-
tronado. Durante o “desterro” francês, que dura de 1862
a 1869, tornar-se-ia objeto de zombaria ou de curiosi-
dade. Mas o homem é incansável. Publica um periódico
próprio, lança um manifesto, exaure o senado francês
com uma petição depois da outra. Em 1869, desembar-
ca novamente em San Antonio, costa argentina da
Patagônia, e atravessando os pampas desemboca entre
as tribos araucanas do Chile. Um de seus acompanhan-
tes chamava-se Eleuterio Mendoza, que bem poderia
ser o nome de um anarquista. Perseguido pelo exército
chileno, volta a cruzar a cordilheira no sentido inverso
e chega ao porto de Bahía Blanca, quase onde havia
iniciado a reconquista de seus territórios. Era julho de
1871. Embarca para Buenos Aires, onde é entrevistado
por vários jornais. La Tribuna, que seria o órgão político
do “roquismo”, surpreende-se ironicamente de que o
governo argentino “não havia feito a recepção devida a
sua alta patente”. Em abril de 1874 tenta por terceira
vez chegar a seus súditos. Saindo de Buenos Aires no
barco Pampita viaja até Bahía Blanca, onde é reconhe-
cido, detido e expulso rapidamente para a França. Dali
em diante viverá numa corte de mentira, rodeado de
ministros sem poder e de vários aventureiros que inau-
guravam as seções da corte cantando o hino do Império
a toda voz. Outorgava títulos de nobreza e vendia moe-
das acunhadas de um reino inexistente, de valor uni-
camente numismático, pois nem sequer em sua falsa
corte eram aceitas como meio de pagamento. Curioso:
enquanto compartilhou as rotas dos Mapuches apenas
o antigo método da troca permitiu-lhe sobreviver. No
final, acossado por seus credores, refugiou-se na região
de Dordoña, onde ganhou o pão de cada dia com o ofí-

142
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

cio de lampadeiro público no Município de Tourtoirac,


até 19 de setembro de 1878, quando o Rei da Araucania
e da Patagônia foi chamado a visitar um reino superior.

O anarquista
Errico Malatesta nascera em 14 de dezembro de 1853,
em Santa Maria Capua Vetere, uma cidade presidiária.
Seus pais eram modestos latifundiários, de idéias libe-
rais. Quando Malatesta tinha catorze anos escreveu uma
carta, insolente e ameaçadora, dirigida ao Rei Vittorio
Emmanuele II. A polícia levou a correspondência muito
a sério: foi detido e apenas conseguiu salvar a roupa. O
prognóstico do seu pai não foi alentador: “pobre filho,
não gosto de dizer isto, mas deste jeito você vai acabar
na forca”. Depois de saber da insurreição de Paris, em
1871, aderiu às idéias da Internacional, e com dezessete
anos viajou para Suíça, para conhecer Mikhail Bakunin.
Dali em diante, transformou-se num dos revolucionári-
os mais famosos de seu tempo. Editou o periódico La
Questione Sociale, primeiro em Florença, entre 1883 e
1884, depois em Buenos Aires, entre 1885 e 1886, e
por último em Nova Jersey, entre 1899 e 1900. Organi-
zou grupos de companheiros, sindicatos e publicações,
liderou revoltas, escreveu alguns livretos, sobretudo
procurou unir a “família anarquista” e salvá-la de suas
tendências centrífugas. Com o tempo, editaria também
os jornais L’Associazíone, L’Agitazíone, Volontà, Umanità
Nova e Pensiero e Volontà. Passou trinta e cinco anos de
sua vida no exílio, difundindo “a idéia” pela Espanha,
França, Suíça, Inglaterra, Portugal, Egito, Romênia,
Áustria-Hungria, Bélgica, Holanda, Estados Unidos,
Cuba e Argentina. Em 1874, foi preso pela primeira vez
por liderar uma insurreição em Apulia. Três anos de-
pois, no comando de um grupo de anarquistas, Malatesta

143
3
2003

ocupa a aldeia de Letino, onde, na presença dos cam-


poneses, destitui o Rei Vittorio Emmanuele e ordena
queimar os registros fiscais da região. O grupo anar-
quista se dirigiu depois ao povoado de Gallo, onde su-
primira a medida com a qual se pesava o imposto em
farinha. Mais uma vez é levado a julgamento e conde-
nado a três anos de prisão, dos quais cumpre apenas
um. Passaria mais tarde muitas temporadas na cadeia.
Quando se tornou um nome conhecido nos ambientes
anarquistas, consegue burlar um mandato de prisão
decretado em Florença escondendo-se num barco, ocul-
to numa caixa que também continha uma máquina de
costurar. Chegaria à Argentina com o passaporte ple-
beu de clandestino, junto a outros quatro camaradas.
Era o ano de 1885. Em Buenos Aires entra em contato
com anarquistas italianos estabelecidos ao redor do
Círculo Comunista Anárquico, e quase imediatamente
reinicia a publicação de La Questione Sociale, que era
distribuído gratuitamente e do qual foram editados ca-
torze números. Nesta cidade trabalhou, no início, como
mecânico eletricista na oficina de seu companheiro
Francesco Natta, e depois na produção de vinhos. Per-
maneceria na Argentina até 1889. Durante toda sua
vida, cuja metade se passou em prisões, exílios e de-
tenções domiciliares, Malatesta destacou-se por seu
sentido prático e sua capacidade organizativa e
publicista. Nunca foi um sonhador: sempre acreditou
que a vontade humana era mais importante que a
“inevitabilidade histórica” da revolução e que nenhum
enquadramento utópico poderia substituir a análise
precisa das conjunturas históricas. Sem dúvida, ele tam-
bém se enfiou Patagônia adentro.

144
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

Geografia espiritual
Bússolas, teodolitos e astrolábios são imprescindí-
veis para cartógrafos e exploradores; também para pro-
prietários de terras e governantes. Não obstante, a ter-
ra também foi uma cavidade moldada por caravanas
nômades, expedições perdidas, errâncias, diásporas,
odisséias e êxodos. O espaço físico não é um dado ma-
terial constante; ao contrário, é a argila fendida e modi-
ficada continuamente pelas leis humanas do
espaçamento, em cuja jurisdição regem o esforço e a
imaginação tanto quanto a sorte e a reticência da natu-
reza. Na conjunção destas quatro condições abrem-se
caminho às expedições de homens solitários ou de tro-
pas organizadas. Assim como alguns adivinham o des-
tino sobre um atlas portuário ou observando a rosa dos
ventos, outros avistam o caminho em manifestos ou nos
rumores emitidos nas cidades. Entre os homens e as
regiões existem secretas correspondências que o
cartógrafo faria bem em atender: paralelos insuspeitos,
e meridianos caprichosos. Onde localizar a seção áu-
rea, o “corte de ouro” dos pintores renacentistas, que
ajude a organizar as proporções de um atlas espiritual?
O ar familiar entre humanos e territórios pertence à or-
dem dos elementos cuja correspondência pode elevar-
se à altura de princípio cosmogônico. Essa correspon-
dência “cartográfica” podemos chamá-la geografia espi-
ritual, uma ciência que, sem renegar a história ou a
economia, torna evidente os passos perdidos, os cami-
nhos esquecidos, as rotas abandonadas, e sobretudo,
permite-nos a interseção com atlas imaginários (literá-
rios, utópicos, lendários) e com os dramas biográficos.
A imaginação se sobrepõe e se imprime na matéria: ser-
ve de exemplo a toponímia patagônica, que expõe a
transbordante criatividade lingüística de exploradores
e pioneiros: o humor e o delírio se unem a uma hagiologia

145
3
2003

e a uma simbologia estatal. Inútil consultar os mapas


da geografia espiritual por energias cósmicas ou hori-
zontes turísticos novidadeiros, pois neles só ressalta a
matéria emocional que um historiador atento deveria
resgatar dos escombros, documentos e relatos orais. O
bom cartógrafo deve aprender a desconfiar das medi-
ções precisas, pois a cada espaço físico corresponde um
atlas simbólico. A geografia paralela é a psique da car-
tografia e também a “anímica” das nações.
Certas extensões do planeta estão filiadas entre si,
por guardar curvas, entradas e paisagens que nenhum
homem jamais viu. Entretanto, não são os primeiros
homens os inimigos das terras virgens, mas o Estado. O
explorador sempre foi um Emissário do Verbo: nomeia
os rios, classifica a flora e batiza os confins; mas o agri-
mensor, notário estatal, mede, calcula e diagrama o ter-
reno. Não obstante, os exploradores, os misantropos e
os réprobos chegam antes. A Patagônia, inclusive até
os dias de hoje, carece de história; somente dispõe de
histórias, que o sistema pedagógico nacional esquiva
prolixamente e que só podem ser resgatadas dos rumo-
res que o vento levou. A de Malatesta é uma de tantas
outras. As dimensões da cartografia povoada de históri-
as devem projetar-se a escala humana, levando em con-
sideração o modo como a geografia atuou sobre o desti-
no dos que ali incursionaram, menos como condição
topográfica ou econômica, mais como “iniciador” de ta-
refas ou como “equacionador” de forças anímicas em
tensão. O drama pessoal e o meio ambiente onde este
se desenvolve conformam as duas pernas do compasso
que traçam os arcos espirituais desta geografia parale-
la. Homens como Malatesta, Orllie Antoine ou os colo-
nos galeses queriam confirmar que nas grandes exten-
sões havia liberdade. Não uma liberdade metafísica. Aqui
é necessário inventariar em benefício do inventário a

146
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

geometria defeituosa: falta cadastro, fronteira, demar-


cações, praça, sinalização. Mas à liberdade geográfica
perfeita, que é polar, a natureza não lhe é propícia. Pro-
mover o lirismo da liberdade expedicionária ou a nos-
talgia dos pioneiros e outros homens de fronteira tor-
na-se inoportuno, pois se estes exemplos servem de algo,
é para pensar no impulso centrípeto dos últimos cem
anos, isto é, a crescente escassez da capacidade huma-
na para anelar e imaginar liberdades. Ao contrário, a
preferência por lugares lendários de índole acéfala ador-
na nosso olhar de maneira a poder avistar a fenda na
armadura, a babeira no elmo, o esgar grotesco da cabe-
ça coroada.
Cada nação tem seus próprios territórios lendários,
cujos meridianos e paralelos seria inútil determinar em
forma positivista. O Brasil dispõe de seu Amazonas; a
África do Norte, de seu Saara; a Rússia, da Sibéria; a
Índia, do Himalaia; o Canadá, do Yukon. A Argentina
tem sua Patagônia. E a cada uma destas regiões de len-
da correspondem “tipos caracterológicos”: o exilado à
Sibéria; o tuareg ao deserto; o alpinista ao Himalaia; o
seringueiro ao Amazonas; o buscador de ouro ao Yukon
e o pioneiro à Patagônia. A cidade não oferece este tipo
de vistos às vocações de seus habitantes; apenas os
tickets imprescindíveis para lubrificar a circulação ur-
bana. Por fim: a globalização midiática, financeira e
tecnológica fez com que todas as grandes cidades do
mundo se replicassem mutuamente.

Ouro e anarquia
O arame farpado e os decretos de criação de
governanças são as conseqüências forçosas do povoa-
mento pioneiro, prévio e desordenado, de um território.
Muito mais tarde, exploram-se as riquezas “naturais”

147
3
2003

da região. Mas este tipo de isolamentos, antes de in-


gressar nas relevâncias estatísticas e nos atlas fiscais
de um país, apenas ofereciam uma riqueza, para a qual
se dirigem, desde antanho, enxames de desfavorecidos
pela roda da fortuna. Ainda mais do que a fome ou do
que a procura de “oportunidades”, mais ainda do que o
êxodo forçado pela guerra civil ou pela perseguição reli-
giosa, foram os metais os que desde os primórdios rege-
ram as migrações humanas. Uma história do nomadismo
evidenciaria um mapa dos deslocamentos de ferreiros e
metalúrgicos da Idade do Ferro em diante. Ao norte do
Canadá como ao sul da Argentina, o ouro hibernou du-
rante séculos, mas quem busca a Cidade dos Césares
cedo ou tarde encontra os detritos de suas ruínas. De
qualquer modo, a história das grandes cidades que cres-
ceram sob o amparo de uma única exploração é a mes-
ma história das efêmeras febres do ouro. Essas cidades
se erguem, declinam, são abandonadas e esquecidas.
Samarkanda, Petra, Timbuctú, Potosí, Nantuckett,
Iquique, Manaus. Povoados de acampamento, de estra-
da, dormitório, povoados fantasma.
Em 1882, alguns colonos galeses descobriram ouro
num lugar próximo ao rio Chubut, no Vale do Tecka. A
notícia chega meses depois a Buenos Aires. Em Chubut,
na verdade, foi encontrada apenas uma substância cha-
mada pirita, metal resplandecente sem valor algum,
chamado “ouro de tolo”. Não houve tempo para organi-
zar uma corrida de aventureiros para a Patagônia, mas
muita gente atinou. Quatro anos depois, em 1886, anun-
cia-se que no Cabo Vírgenes (atual província de Santa
Cruz, então Território Nacional da Patagônia), muito
mais ao sul, havia ouro em quantidade considerável.
Malatesta, anarquista foragido, entusiasma-se com a
notícia e com três comparsas1 constrói soviets no ar.
Ouro: com esse objetivo, viajou Errico Malatesta ao ex-

148
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

tremo sul da Patagônia. O que faziam quatro anarquis-


tas escavando a Patagônia em busca de ouro? Malatesta
liderara um par de revoltas fracassadas na Itália — pre-
via destruição de formulários fiscais e símbolos muni-
cipais — que o forçaram a fugir para o exílio. Em Buenos
Aires, inicialmente, procurou estimular a ação gremial
com parcos pobres. Era ainda um homem jovem, que
mal falava o espanhol, e que estava encalhado neste
porto longínquo; e, sendo desaconselhável o retorno à
Europa, considerava que nada perdia tentando encon-
trar seu peculiar El Dorado, com o honesto fim de fi-
nanciar uma imponente revolução mundial com lingo-
tes patagônicos. A imaginação dos revolucionários cos-
tuma impulsioná-los tanto a esplêndidas auroras,
quanto ao disparate e à catástrofe. As aventuras
auríferas do século XIX abrigaram numerosos utópicos
e carbonários: à febre do ouro da Califórnia acorreram
muitos fugitivos da frustrada revolução francesa de
1848. Mas a febre do ouro dos anarquistas italianos
duraria apenas um instante: a expedição terminou num
beco sem saída. Os distritos auríferos estavam majori-
tariamente sob o controle de uma companhia explora-
dora, à noite a temperatura caía para 14 graus negati-
vos, havia pouca esperança de encontrar outra região
de bom rendimento e chegou o momento em que os re-
volucionários se cansaram de sobreviver caçando as
lontras do mar. Sete meses depois de sua chegada, em
pleno inverno, os anarquistas decidem abandonar a re-
gião, depois de aventuras nada promissoras: quase
morrem de fome e acabaram sendo resgatados como
náufragos por uma embarcação e aportados no povoa-
do de Carmen de Patagones, na província de Buenos
Aires. Na cidade de Buenos Aires, Malatesta se dedica a
atividades propagandísticas, e outro dos falidos pros-
pectores mineiros, Galileo Palla, a falsificar dinheiro.
Os meses passados no sul constituíram um excêntrico

149
3
2003

episódio na vida do tão sensato revolucionário. Quando


Malatesta, meio morto de fome, regressa a Buenos Aires,
profere conferências em italiano na Libreria
Internationale de E. Piette, no Círculo Operário de Es-
tudos Sociais, e no saguão do Clube Vorwärts. Em 1887,
ajuda a organizar o primeiro sindicato argentino mo-
derno: a Sociedade de Resistência dos Operários Padei-
ros2, para a qual redige seus estatutos. Em 1888, par-
ticiparia da primeira greve de padeiros do país, que du-
rou dez dias, e acabou triunfante. Um ano depois,
regressa à Europa, onde mais tarde lideraria o movi-
mento anarquista italiano, depois de passar incontáveis
dias no cárcere em muitos países. Ao morrer, em 1932,
tinha passado anos em prisão domiciliar imposta por
Mussolini.

A febre
Às vezes, a geografia prega peças pesadas aos esta-
distas: o ouro do Yukon se encontra a escassos quilô-
metros do Alaska, território norte-americano. Entretan-
to, sempre há compensação para os poderosos: déca-
das depois descobriu-se ouro negro no Alaska. E antes
ainda, os russos prosperaram com a carne da baleia e
com as peles dos grandes roedores e veados. Porém, ao
populacho, aos mendigos, aos párias e ao proletariado
somente lhes resta recorrer à sorte e à ilusão. Muitas
vezes isto acaba em desvario: o ouro e a febre são sia-
meses inseparáveis. A corrida do ouro, filme do comu-
nista Charles Chaplin sobre o rush do ouro do Yukon, e
o livro do anarquista B. Traven (Rett Marut) O Tesouro
de Sierra Madre, do qual John Houston dirigiu sua ver-
são, são duas indagações desoladoras sobre as conse-
qüências que traz consigo essa droga em pó. Muitos
que peregrinaram ao Yukon morreram de fome durante

150
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

a travessia para o norte gelado, e os que ali ficaram


retornaram ao antigo ofício da caça e ao comércio de
peles. Na Patagônia, o ouro apenas dava para sobrevi-
ver e extrai-lo custava um trabalho extenuante. Contu-
do, o ouro encontrado nas regiões auríferas é “ouro de
tolo”, pois na história centenária das febres do ouro
poucos ficaram ricos de verdade. A maioria apenas en-
contrava as pepitas suficientes para subsistir ociosos
por alguns dias, para depois voltar a transitar pelas
águas do rio. O único lugar da Patagônia onde se en-
controu ouro com fartura foi na ilha de Terra do Fogo.
Dali, na década de 80, o extravagante romeno Julius
Popper extrairá uma boa quantidade, disporá de um
pequeno exército próprio, emitirá moeda e selo até que
sua morte prematura lhe evitaria as escaramuças habi-
tuais com o governo argentino. Em Santa Cruz, o único
ramo seguro e promissor é o da criação de carneiros.
Mas o velocino não é de ouro.
No final das contas, nos fornos de pão, a massa de
farinha fica dourada.

Em letra de forma
Cada uma das expedições teve seu cronista. Ao ge-
neral Roca corresponde toda a história oficial, e em par-
ticular os comunicados de guerra da campanha militar
enviados a Buenos Aires. Seu partido político editará
um jornal, La Tribuna. Atualmente, o nome de Roca re-
pete-se em todas as placas de rua de uma das mais
importantes avenidas da cidade de Buenos Aires e seu
rosto ilustra a nota de 100 pesos, a mais valiosa das
notas argentinas. Não é surpreendente: a toponímia do
território assim como os monumentos urbanos e a efígie
gráfica obrigatória são privilégios dos Estados. Mas a
monetária constituirá, sem dúvida, uma glória efêmera:

151
3
2003

na Argentina a inflação costuma devorar o valor da


moeda com muita rapidez.
Malatesta deixou um breve testemunho3, e mais tar-
de seu biógrafo, Luigi Fabbri, contará a aventura aurífera
num capítulo de sua biografia sobre o revolucionário
italiano4. O Rei Orllie Antoine I foi obrigado a ser o
escriturário de suas atas, engrandecendo os fatos de
seu fiasco imperial em francês, num livro intitulado Orllie
Antoine I, roi d’Araucanie et de Patagonie. Son avènement
au trône. Relation écrite par lui même5. Cinqüenta anos
mais tarde, o fazendeiro Armando Braun Menéndez se-
ria o primeiro a se ocupar de recuperar e ajustar a his-
tória grotesca do Rei, e alguém rodaria um filme6. No
tempo transcorrido entre seu primeiro retorno forçado
à França e sua segunda viagem à Patagônia, Orllie
Antoine publicou intermitentemente um jornal em Mar-
selha destinado a defender sua causa, La Corona de
Acero, uma espécie de boletim oficial de um reino
inexistente. Lewis Jones, em galês, escreveu a história
dos colonos, Una Nueva Gales en América del Sur,
traduzida para o espanhol apenas na década de 1960.
Mas antes fundaria o jornal I Dravod (“A Verdade”), edi-
tado em galês no Chubut, crônica diária da experiência
dos colonos.
Mesmo quando as biografias, os jornais facciosos e
os testemunhos foram esquecidos, estas lendas ainda
subsistem em outros estilos e formatos. Sabe-se que
nas mesas de bares circula um curioso anedotário so-
bre personagens e eventos apenas conhecidos. Tudo isso
acaba em “conversas de bar” ainda que, às vezes, trans-
forme-se também em sopa literária, matéria-prima de
escritores. Roberto Arlt deve ter escutado a história do
fracasso da expedição de Malatesta em algum bar
portenho. São conhecidas suas simpatias pelo
acratismo. Malatesta, que em sua maturidade seria co-

152
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

nhecido como o “Lênin da Itália”, nunca soube que sua


anedota biográfica faria parte da novela Los Siete Locos,
transmutada sob a forma de um personagem que se
propõe financiar a revolução mundial com uma rede de
prostíbulos.

Tragédia
Em 1921, a Patagônia seria o cenário de um dos dra-
mas mais conhecidos da epopéia anarquista. Esse epi-
sódio trágico garantiu à região seu aparecimento no atlas
histórico da revolução. Nas greves e revoltas ocorridas
no Território de Santa Cruz morreram mais de mil tra-
balhadores. Mesmo assim, a Patagônia atrai a imagina-
ção libertária até os dias de hoje. Osvaldo Bayer, cro-
nista daquelas epopéias anarquistas de 1920 e 19217,
exigiu em 1996 a independência da Patagônia8, propos-
ta que lhe rendeu o desafeto do Senado Nacional, e a
ameaça de ser declarado persona non grata. Mas, pen-
sando melhor, é inevitável que encontremos anarquis-
tas em todos os aprisionamentos febris da história. Na
Febre do Ouro, lá estavam. A terra prometida é sempre
Terra Nova, e os primeiros que ali chegam logo desco-
brem que andaram a passos demasiado rápidos que os
levaram demasiado longe e que é tarde para voltar atrás.
Ironicamente, os anarquistas, quando ainda eram peri-
gosos, costumavam acabar no presídio de Usuahia, ins-
tituição que maculou a Terra do Fogo com o mote sinis-
tro de A Sibéria Argentina, a fria Ilha do Diabo9.

Seqüelas
Em 2 de abril de 1982, o exército argentino iniciou
abruptamente a conquista do único pedaço de solo
patagônico que cem anos atrás ficara fora de seu alcan-

153
3
2003

ce. Logo no início da Guerra das Malvinas, a coletivida-


de galesa do Chubut tomou imediato partido da causa
argentina. Não foram as três gerações nascidas na
Patagônia as únicas causas que motivaram essa prefe-
rência política e subjetiva. Os galeses ainda lembravam
a antiga opressão de Gales pelos ingleses, que inclusi-
ve chegaram a proibir o uso público dos nomes própri-
os escritos em galês, condição que só recuperariam ao
pisarem solo argentino. Por sua vez, os escassos gru-
pos anarquistas locais se constituíram num dos
pouquíssimos grupos do arco da esquerda local a se
manifestar contra a guerra. Nessa época, no mesmo
momento em que a armada inglesa navegava para o
Atlântico sul, um pequeno navio deslizou pelo Canal da
Mancha em direção às Ilhas do Canal, sob soberania
inglesa. Na madrugada, o herdeiro atual do Reino de
Araucania e Patagônia, junto com um pequeno séquito,
fincou a bandeira do Reino na praia da Ilha Guernsy. O
rei no exílio francês decidira protestar contra a tentati-
va inglesa de invadir suas “Illes Malouinas”, as quais
considerava um apêndice insular de seu enorme ainda
que proibido império.
Muito antes, e na mesma época em que Malatesta
buscava ouro na Patagônia, o Presidente Julio Argenti-
no Roca dirigiu-se caminhando, ao lado de todos seus
ministros e seguido pela escolta militar, até o Congres-
so da Nação. Pouco antes de entregar o comando a seu
concunhado Miguel Juárez Celman, deveria inaugurar
o XXVI período de sessões do Parlamento Argentino. Ali
proferiria a cíclica e tradicional mensagem ao país. Era
10 de maio de 1886. Nessa época, o Congresso funcio-
nava numa mansão que pertencera à família Balcarce e
que depois seria a sede do Banco Hipotecário Nacional.
Eram três da tarde. Nesse momento um anarquista cha-
mado, paradoxalmente, Ignacio Monjes, saiu da multi-

154
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

dão e se lançou contra Roca, ferindo seu rosto com uma


pedra. Enquanto Roca cai no chão, Carlos Pellegrini,
seu ministro de guerra e futuro presidente, derruba o
atacante. O ferimento era leve, e já no Congresso o mi-
nistro da saúde, Eduardo Wilde, encarregou-se dos pri-
meiros cuidados e fez um curativo. Apesar do desalinho
cerimonial, Roca proferiu sua mensagem ao país. A cena
foi imortalizada num quadro que até hoje pode ser visto
no Salón de los Pasos Perdidos del Congreso. Ignacio
Monjes passaria dez anos de sua vida no cárcere. Ses-
senta anos depois, Laureano Riera Díaz, último dirigente
anarquista do Sindicato dos Padeiros, uma vez perdida
a condução do grêmio, viajou com vários companheiros
de idéias para Barcelona. Era o ano de 1936 e na
Catalunha não só os padeiros eram anarquistas; a ci-
dade inteira estava ornamentada de bandeiras verme-
lhas e negras.

Gastronomia
Aqueles que se embrenham num território desconhe-
cido devem passar ainda por mais uma prova, e uma
das mais básicas: a prova da fome. Muitas vezes comer
e sobreviver tornam-se verbos homônimos. A comida —
salvo no caso do exército organizado de Roca — não era
garantida aos pioneiros, ao rei sem coroa, nem aos anar-
quistas. De cada uma das quatro expedições à Patagônia
cabe destacar sua derivação gastronômica, que depois
de tudo seria a única permanente. De antigos impérios
e de linguagens que alguma vez se falaram em enormes
extensões, hoje somente restam suas ruínas e suas
ininteligíveis escrituras. Entretanto, seus costumes
culinários sobreviveram às posteriores reorganizações
geopolíticas e na população, que, ao mesmo tempo, pôde
mudar seus deuses, sua tecnologia e seu alfabeto. A

155
3
2003

relação entre uma cultura gastronômica e o território


onde ela se desdobra é determinada pela quota de ani-
mais e vegetais que no momento da criação lhes fora
oferecida como quinhão. Também pelo clima benévolo
e a vontade de aprendizagem e metamorfose de um povo.
Mas aqueles que caminham também o fazem a mercê
de seus provimentos, da bondade dos desconhecidos, e
da sorte.
Sem dúvida, os colonos galeses viveram do que em
Chubut semearam e colheram e, também, Orllie Antoine
e os anarquistas viram-se obrigados, em algum momento
de suas travessias, a recorrer à caça e à pesca, e talvez
saciaram a fome com um bife de guanaco ou com um
pedaço de picanha de avestruz10. Porém, todos eles ino-
varam em matéria de gastronomia. Artemio Gramajo,
auxiliar de campanha do General Roca em sua incur-
são pela Patagônia, inventou para seu chefe o único
prato aceito atualmente nos mais finos restaurantes
parisienses como autenticamente argentino: o Revuelto
Gramajo, batizado a partir de seu sobrenome. Enquan-
to os soldados eram obrigados a mastigar sua porção
diária de charque, a carne seca com que se alimenta-
vam as tropas, Roca se deliciava, dentro do que as cir-
cunstâncias permitiam, diante de um prato superior. O
revuelto gramajo, mistura de batata-frita, ovo, cebola,
alho, presunto, ervilha e especiarias é, até hoje, um prato
prazerosamente aceito pelas crianças e adolescentes
argentinos. A colônia galesa do Chubut transmite ain-
da às novas gerações a receita da Torta Galesa. Origina-
riamente vinculado às festas de casamento, este bolo,
firme e enfeitado interiormente de frutas secas, é uma
das típicas oferendas turísticas da região. Quando um
casal galês se unia em matrimônio, comia apenas um
pequeno pedaço do bolo e guardava o restante numa
lata fechada hermeticamente, que era novamente aber-

156
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

ta nos aniversários seguintes, como prova confirmatória


da força e duração do vínculo amoroso. É uma dieta
possível para apaixonados, mas decididamente insufi-
ciente para um rei.
Gustave Laviarde D’Alsena era o nome de um dos
substitutos de Orllie Antoine I, e seu primo em segun-
do grau. Fora designado como sucessor, e com a morte
do fundador da dinastia assumiu o cetro, adotando o
nome de Aquiles I. Antes já se arrogava outros títulos
nobiliários que lhe foram conferidos pelo Rei da
Patagônia: o de Príncipe dos Aucas e Duque de Kialeú.
Apesar de outorgar — e a granel — títulos nobiliários de
seu impossível reino de ultramar, Aquiles I nunca saiu
de Paris. Em seu desterro parisiense, longe das rique-
zas exploráveis de seu reino, e enquanto denunciava
continuamente a usurpação de seus territórios nas mãos
dos governos do Chile e da Argentina, o novo monarca
se viu obrigado a terminar seus dias como comensal
assalariado de Le Chat Noir, cabaré de moda na década
de 1890, onde oficiava a modo de urso carolina, isto é,
de número “sensacional” para os clientes. Ao morrer,
em 1902, já reinava havia um quarto de século sobre
um mapa que apenas uma seita consultava, e em cujo
centro estava marcada Mapú, a aldeia indígena que fora
eleita como capital por seu predecessor.
Em 1889, Errico Malatesta abandona a Argentina,
deixando atrás o combativo Sindicato dos Padeiros, que
ele ajudara a organizar. Além de pão, nas padarias ar-
gentinas vendem-se também os confeitos matinais que
os portenhos tomam com maior freqüência no seu café
da manhã, as facturas, de gosto doce e assadas a partir
de uma mistura de farinha, fermento e manteiga. Algu-
mas delas são de origem européia, mas na Argentina
adquiriram formas singulares e apelidos sugestivamente
blasfemos. Talvez a mais conhecida delas, a media luna,

157
3
2003

permita entender o sentido sarcástico desses nomes.


Quando, em 1529, Viena foi sitiada por muitos meses
pelos exércitos turcos, os confeiteiros locais, com a fi-
nalidade de avivar o ânimo abatido da população, to-
maram o emblema dos sitiadores, a meia lua muçulma-
na que flamejava nas bandeirolas do acampamento ini-
migo, e as moldaram em seus fornos de pão. Depois, o
populacho se fazia notar discretamente nas muralhas
da cidade diante dos irritados soldados turcos masti-
gando seu símbolo sagrado. Blasfêmia e gastronomia.
Por sua vez, estas mostras da confeitaria argentina le-
vam por nome cañones, bombas, vigilantes, bolas de
fraile, suspiros de monja e sacramentos, para escárnio
do exército, da polícia e da igreja respectivamente11.
Haveria uma secreta conspiração dos padeiros de idéi-
as anarquistas para dar nomes blasfemos às facturas?
Cabe conjeturar: o vínculo entre palavra e comida pare-
ce ter sido costurado com linha de coser ideológica. O
sindicato dos padeiros foi conduzido por dirigentes anar-
quistas durante várias décadas.
Os usos gastronômicos que legaram as quatro ex-
pedições resultaram da nostalgia (a Torta Galesa), do
fracasso (a refeição semanal no Le Chat Noir), da urgên-
cia (o Revuelto Gramajo) e da vontade de protesto (as
Facturas). Passado o tempo, os habitantes atuais de
Buenos Aires já não reconhecem nos nomes dos
confeitos que costumam degustar pelas manhãs sua
malícia inquietante, pois raramente pensamos o víncu-
lo entre nome e forma, entre palavra e coisa, menos ainda
a relação entre origem político-lingüística e costume
gastronômico. As palavras costumam ossificar-se no uso
cotidiano, e aquilo que no passado foi escândalo, hoje é
rotina. Por sua vez, o anarquismo argentino ficou redu-
zido a um mínimo caudal político e sua repercussão
política é muito escassa. Mas, sem dúvida, cada vez que

158
verve
Gastronomia e anarquismo — vestígios de viagem à Patagonia trapeiro

mordemos uma factura, o som crocante do que em ou-


tros tempos fora sarcasmo sedicioso popular range en-
tre os dentes.

Notas
1
Galileo Palla, Cesare Agostinelli e outro, de sobrenome Meniconi.
2
Existia um sindicato de tipógrafos desde a década de 1870, organizado segun-
do modalidades mais clássicas, semelhante às organizações gremiais que for-
neciam ajuda mútua e formação profissional.
3
Foi publicado como prólogo do livro de Max Nettlau. Errico Malatesta. La vida
de un anarquista. Buenos Aires, Ed. La Protesta, 1923.
4
Luigi Fabbri. Malatesta. Buenos Aires, 1954.
5
Publicado em Paris em 1863. Antes de morrer voltaria a tentar uma alegação
em favor de seu reino, Araucanie, publicado em Bordeaux em 1878.
6
El reino de Araucanía y Patagonia. Buenos Aires, EMECE Editores, colección
“Buen Aire”, 1936. É curioso que Braun Menéndez, membro de uma das três
famílias mais ricas da Patagônia, contara a história do rei pobre. O filme cha-
mou-se La película del Rey, lançado em 1986, e dirigido por Carlos Sorín, com
roteiro dele e de Jorge Goldemberg.
7
Osvaldo Bayer. La Patagonia rebelde. 4 volúmenes, edición revisada y aumentada.
Buenos Aires, Ed. Planeta, 1982-2000. A edição original chamava-se Los
vengadores de la Patagonia trágica, editada em três volumes por Ed. Galerna, em
Buenos Aires, 1974-1975, e cujo quarto e último volume foi editado, já no
exílio de Bayer, na Alemanha, em 1978. Do livro, fez-se uma versão cinemato-
gráfica em 1974, que seria proibida naqueles anos: La Patagonia rebelde, dirigida
por Héctor Olivera, com roteiro de Bayer e Olivera.
8
Numa entrevista realizada na efêmera seção “Patagônia” do jornal Página/12.
9
O presídio funcionou até finais dos anos 1950. O anarquista mais famoso que
lá esteve confinado foi Simón Radowitzky, que executara o chefe de policia
Coronel Ramón Falcón, e que seria protagonista de duas frustradas fugas. Mui-
tos outros anarquistas permaneceram anos nesse lugar. Mas também ali estava
um preso enlouquecido conhecido como “O Rei das Finanças”, que realizava
rocambolescas e imaginárias especulações financeiras que faziam afluir à sua
cela milhões de dólares todos os dias para divertimento dos turistas ocasionais.
A história da via-crúcis de Radowitzky foi contada por Osvaldo Bayer em seu
livro Los anarquistas expropiadores. Buenos Aires, Ed. Galerna, 1975. E a história

159
3
2003

do planejamento das duas fugas de Radowitzky, a cargo de Juan Arcángel


Roscigna, foi filmada recentemente, no Uruguai, num documentário intitulado
Acratas.
10
São dois pratos tradicionais da região patagônica, ainda que a caça do guanaco,
camelídeo sul-americano, e do avestruz, com cujo peito se confecciona a picana,
estejam atualmente proibidas.
11
Em alguns lugares da Argentina existem facturas com nomes equivalentes.
Por exemplo, em Venado Tuerto, Província de Santa Fé, come-se a jesuita.

RESUMO

A Patagônia argentina é o espaço onde se entretecem histórias


que respondem à História pela invenção de quatro pontos car-
deais que não são nem a origem nem a referência de começos,
mas tempos dos quais emergem vontades que desenham topo-
grafias de liberdade e de autoridade. Vontades potencializadas
em escritas e práticas que percorrem lembranças e nos mos-
tram uma discreta mas certeira eloquência das coisas, dos lu-
gares e da gastronomia.

ABSTRACT

A Patagônia argentina é o espaço onde se entretecem histórias


que respondem à História pela invenção de quatro pontos car-
deais que não são nem a origem nem a referência de começos,
mas tempos dos quais emergem vontades que desenham topo-
grafias de liberdade e de autoridade. Vontades potencializadas
em escritas e práticas que percorrem lembranças e nos mos-
tram uma discreta mas certeira eloquência das coisas, dos lu-
gares e da gastronomia.

160
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

porque a idéia de anarquismo é necessária


para a sociedade japonesa: uma carta do
japão1

misato toda*

Você ainda se lembra do verão de 1976? Foi no fim


de maio que nos encontramos pela primeira vez, em
Caserta, cidadezinha tradicional do sul da Itália, com
um enorme palácio construído no século 18, pela di-
nastia dos Bourbons. A cidade se situa num distrito
suburbano de Nápoles, a antiga capital dos Bourbons
até a unificação da Itália, em 1860. Tanto você quanto
eu éramos membros editoriais do “Quotidiano dei
lavoratori” (Cotidiano dos Trabalhadores), um pequeno
jornal da Nova Esquerda, muito ativa também na Itália.
Você tinha dois filhos, uma menina e um menino, e toda
sua família vivia no quarto andar de um apartamento
grande, se não me engano. Na sua casa, à tardezinha,
costumava haver discussões calorosas entre seus ami-
gos, a maioria dos quais dividia as tarefas editoriais,
enquanto outros eram ainda estudantes. Não me lem-
bro quem me levou para casa, provavelmente Marisa,

*
Professora na Universidade de Dunkyo, Japão. Autora de Errico Malatesta da
Mazzine à Bakunin. La sua formazione giovaline nell ‘ambiente napoletano (1868-1873).
Napoli, Guida, 1988.
verve, 3: 161-177, 2003

161
3
2003

uma feminista apaixonada, que vivia e trabalhava em


Benevento, uma outra cidadezinha perto de Caserta.
Nesta época, eu tinha apenas começado minha pes-
quisa sobre a vida e pensamento de Errico Malatesta
(1853-1932), anarquista, que pertenceu à geração cria-
da durante o período da Unificação Italiana. Ele nasce-
ra em Santa Maria Capua Vetere, uma cidadezinha per-
to de Caserta, numa família abastada. Quando estuda-
va medicina na Universidade de Nápoles, iniciou suas
atividades políticas, associando-se à Seção Napolitana
da Internacional dos Trabalhadores (Primeira Interna-
cional). Por mais de 50 anos, ele foi uma das figuras
mais famosas do movimento anarquista internacional.
Até se diz que sua própria vida representa o anarquismo
italiano.
Quando tinha 7 anos de idade, a Itália se unira como
um “Estado-nação” moderno, sob o reino de Savóia de
Piemonte no Norte. Este fato significou que o sul da
Itália foi praticamente conquistado pelo norte. Antes da
Unificação, sobretudo, antes da formação do Estado-
nação, o sul — tendo pertencido ao território dos
Bourbons — tinha mais ou menos desenvolvido sua
própria cultura; política e economicamente, a área se
tornara independente. Depois de 1860, o sul passou
por uma profunda mudança em sua vida econômica,
política e social: Nápoles deixou de ser a capital e tor-
nou-se uma mera cidadezinha; um sistema tributário
pesado e de cadastro geral foi introduzido; e a política
alfandegária unificada destruiu a indústria do sul. Ao
contrário, as cidades do norte como Milão, Turim e Gê-
nova se tornaram altamente industrializadas. Quanto
mais o norte enriqueceu, tanto mais o sul empobreceu.
De fato, a política governamental fez o sul tornar-se uma
colônia interna do norte, na Itália “moderna”, “nação”
Estado. Naturalmente, o povo do sul sofreu com a po-

162
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

breza e a discriminação social. A situação seria similar


aos problemas atuais entre o sul e o norte no contexto
global.
Errico Malatesta cresceu nesta atmosfera de agonia
e tristeza no sul. Com simpatia pelo povo e ódio da in-
justiça social, começou sua busca por uma sociedade
em que todos pudessem se amar na felicidade e, ao
mesmo tempo, procurou seu próprio modo de vida, com
o qual poderia encontrar relações pacíficas com os ou-
tros. Este foi seu primeiro passo ao pensar nos proble-
mas sociais, enquanto considerava seu próprio modo
de vida individual. Ele olhou em volta: aqui havia crian-
ças passando fome, velhos tremendo de frio... De início,
simpatizando com as idéias de Mazzini e Garibaldi, acre-
ditou que um estado republicano poderia assegurar a
felicidade para o povo. Então, em 1871, sob a influência
do movimento revolucionário da Comuna de Paris, tor-
nou-se anarquista e membro da Seção Napolitana da
Primeira Internacional. Descobriu claramente que o ini-
migo real do povo sofredor era o Estado e o Capital.
Quando eu a encontrei, costumava visitar os Arqui-
vos Estaduais de Caserta, desejando esclarecer, pelos
documentos históricos, o processo que levou Malatesta
a tornar-se anarquista, isto é, um socialista a seu modo.
Uma noite antes de minha partida, você me convidou
para jantar num velho restaurante no topo da monta-
nha das redondezas. Nós falamos muito seriamente so-
bre os problemas políticos e sociais tanto da Itália quanto
do Japão, e da situação internacional da Europa e da
Ásia. Nós também discutimos nossa história. No final,
Giulio me perguntou: “Misato, por que a idéia de Errico
Malatesta é necessária para o povo japonês? Você disse
que a sociedade japonesa é muito autoritária. Por que a
idéia de anarquismo é necessária para aqueles que pa-

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3
2003

recem estar felizes com o Imperador Hiroito? Por favor,


escreva um artigo sobre esse tema para nosso jornal.”
Prometi escrever, dizendo: “Mas não agora. Preciso
aprofundar minhas idéias. Quando elas estiverem
amadurecidas, escreverei e enviarei a você.” Eu me lem-
bro muito bem de seu rosto pensativo ao responder:
“Sim, eu sei. Somente quando as idéias estão maduras,
é que podemos pô-las no papel. Eu espero, Misato...”
Sem ter respondido à sua pergunta, em 1988, publi-
quei um pequeno livro em italiano. Era o primeiro fruto
de minha investigação sobre a vida e pensamento de
Errico Malatesta. O livro se chama: Errico Malatesta de
Mazzini a Bakunin. Sua formação juvenil no ambiente
napolitano (1868-1873), Napoli, Guida Editore. Se eu
soubesse seu endereço hoje, enviá-lo-ia a você. Quero
muito saber sua opinião sobre meu livro. E provavel-
mente hoje, estou em condições de responder às per-
guntas de Giulio: por que é necessário para o povo ja-
ponês, especialmente para a juventude, compreender
as idéias de Errico Malatesta, sobretudo seus pensa-
mentos sobre a Anarquia e o Anarquismo? Eu gostaria
de começar com a história da modernização japonesa.
Em 1868, o Japão formou um estado “moderno”, sob
o nome de “Grande Império Japonês”, com Meiji Tenno
no trono. Foi um período no qual as grandes potências
européias estavam procurando suas colônias, ou esfe-
ras de influência na Ásia, África e Leste. Confrontando
a situação política internacional, o recém-formado es-
tado do Japão foi obrigado a enriquecer e possuir uma
força militar poderosa, para não perder sua indepen-
dência. Portanto, era indispensável que os líderes do
novo governo concentrassem todo o povo em torno des-
te objetivo nacional. Com perspicácia, os líderes usa-
ram a família Tenno, que tinha previamente desempe-

164
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

nhado um papel mais ou menos importante na socie-


dade japonesa, criando um novo Sistema Tenno, de
modo a atrair e concentrar as atenções populares. Opri-
mindo o Movimento de Liberdade e Direitos Populares,
a Constituição do Grande Império Japonês (Constitui-
ção Meiji) publicada em 1889, definiu o Imperador como
um deus vivo. Era uma ficção. Mas nos livros das esco-
las primárias, até o final da Segunda Guerra Mundial,
Tenno era representado, senão diretamente traduzido,
como “deus na figura de homem” (arahitogami, ou deus
vivo); e também se escrevia que o “Japão era um país de
deuses”.
Eu me pergunto como: “deus na figura de um ho-
mem” pode ser responsável pela soberania de um esta-
do moderno? Agora que escrevo sobre este fenômeno,
isto parece ridículo. Contudo, até agosto de 1945, quan-
do o Grande Império Japonês foi derrotado, o povo ja-
ponês era obrigado a acreditar no sistema Tenno, como
mencionei acima. Nesse contexto, deveriam ser enten-
didas as idéias da sra. Suga Kanno, um dos líderes do
movimento anarquista japonês. Ela ensinava que era
importante para o povo que Tenno fosse considerado
um homem comum, e não um espírito ou deus. O re-
sultado foi que ela morreu como uma mártir por sua fé
na liberdade. Ela precisou morrer, porque tinha tocado
na chave secreta do sistema Tenno, cujo caráter ficcional
está claro hoje para todos.
Vou contar-lhe minhas experiências pessoais. Quan-
do eu estava na escola primária, acreditava no que me
era ensinado: que o Japão era um país de deuses e Tenno
um tipo de deus. Nessa época, meninos e meninas eram
persuadidos de que deveriam morrer por Tenno porque
eles eram todos crianças (sekishi) de Tenno; portanto,
era natural dedicar sua vida a Ele sem nenhuma hesi-
tação. Do mesmo modo psicológico, os jovens deveriam

165
3
2003

ir ao campo de batalha morrer como Kamikaze (o vento


dos deuses). Finalmente, veio o dia 15 de agosto de 1945,
quando eu estava no sexto ano do primário. Para nossa
surpresa, em apenas algumas semanas todos os pro-
fessores que haviam elogiado Tenno como um deus vivo,
de repente começaram a falar sobre democracia!!
O Japão foi ocupado pelas forças militares norte-ame-
ricanas. Os líderes americanos queriam fazer do Japão
um país democrático, mas sem abolir o sistema Tenno
num sentido amplo, porque tinham medo de que o povo
se tornasse revolucionário, ou de que a situação ficasse
caótica sem aquele sistema do qual o povo estava acos-
tumado a ser dependente. Mas como resultado desta
política, nasceu uma grande contradição: enquanto o
povo japonês recebeu pela primeira vez em sua história
os direitos humanos de livre discussão e determinação
de suas decisões, esperava-se que eles permanecessem
dependentes do modo tradicional de pensamento. Como
resultado do sucesso da ocupação americana no Ja-
pão, a política de manter Tenno foi extremamente útil;
funcionou quase que milagrosamente para manter o
povo obediente. Embora Hirohito Tenno declarasse que
não era mais um deus, mas apenas um homem, e em-
bora na nova constituição, ele deixasse de ser um so-
berano, mas apenas um mero símbolo do Estado, um
remanescente da antiga estrutura psicológica que ha-
via habitado o povo permaneceu.
O moderno Estado japonês foi estabelecido, assim
como outros países do mundo, sob uma certa ficção,
usando-se elementos históricos (mas ainda fictícios) na
sociedade. O estado foi formado como se fosse uma gran-
de família. No topo, havia um deus vivo, Tenno, cujo
trono se justificava apenas pelo mito (mas na vida in-
terna de um Tenno poderia ser a Fé) de que seu
antecessor era a deusa do Sol (Amaterasu-omikami). O

166
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

governo Meiji fez um grande esforço para implantar este


mito entre o povo, especialmente através do ensino obri-
gatório. Não é preciso dizer que a educação das forças
militares japonesas foi feita deste modo. Poderia ser dito
que por volta da Guerra russo-japonesa de 1904-5, este
esforço dos líderes japoneses tinha produzido frutos
suficientes para construir um estado mental psicológi-
co comum entre o povo. Segundo esta ilusão, todos de-
veriam parecer crianças na frente de Tenno, que deve-
ria amar a todos igualmente.
Mas a realidade foi cruel. Uma vez que o mito foi im-
posto à sociedade real, o mundo de suas “crianças” não
era igual, mas altamente hierárquico, porque as distri-
buições sociais eram estimuladas de acordo com a dis-
tância do trono de Tenno. Além do mais, a grande famí-
lia fictícia japonesa estava baseada no atual sistema
familiar japonês, no qual o pai era o superior, como se
ele fosse um pequeno Tenno — e os membros machos
da família fossem superiores às mulheres. Cada família
patriarcal deveria ser um elemento da grande família
nacional patriarcal. Cada membro da família deveria ser
obediente ao seu próprio pai, assim como ao Pai Nacio-
nal. Não havia lugar algum para a liberdade individual,
especialmente para as mulheres.
Hoje, se pensarmos logicamente, teremos dúvidas
sobre como Tenno, sendo um meio deus e portanto
não um homem real, poderia ter responsabilidade so-
berana do tipo ocidental num estado moderno, em imi-
tação do qual o Império japonês foi construído. Não é
preciso dizer que, no modelo ocidental, todos os mem-
bros do estado são seres humanos, incluindo-se o rei
ou o imperador. Portanto, poderia ser dito que o trono
de Tenno, como foi expresso na Constituição Meiji, es-
tava vazio; que a ele, como um deus vivo, não era per-
mitido assumir nenhuma responsabilidade, porque o

167
3
2003

trono era tão sagrado que seria destruído pelos erros


humanos. De fato, na história do Império japonês, o
sistema Tenno provou ser o da irresponsabilidade. Um
bom exemplo são os militares japoneses: toda ordem
era dada em nome de Tenno, no entanto, ninguém acei-
tava a responsabilidade final. Isto se passou cada vez
mais até que atingiu finalmente o trono sagrado e vazio.
Este fato revela que o sentido de responsabilidade
humana pode nascer somente nas profundezas da li-
berdade individual, com a qual cada um decide seu pró-
prio papel de acordo com sua vontade, isto é, sem auto-
nomia e auto-determinação, nunca teria nascido ne-
nhum sentimento de responsabilidade. No Império
japonês da constituição Meiji, não havia espaço para
ninguém realizar sua liberdade individual e social ine-
vitáveis para a construção de uma sociedade feliz.
Este sistema político foi quebrado em 15 de agosto
de 1945. No sexto ano da escola primária, testemunhei
a quebra desse velho sistema. O que eu havia aprendi-
do e acreditava foi negado numa única noite. Nunca me
esquecerei da seguinte cena: na classe, os alunos esta-
vam apagando com a caneta um grande número de pa-
lavras e frases nos seus livros. Algumas páginas fica-
ram totalmente negras. As partes apagadas eram, se-
gundo as forças da ocupação americana, perigosas e
maléficas para a democratização japonesa por causa da
expressão do militarismo ou do pensamento reacioná-
rio. O professor ditava e os alunos pintavam a parte em
preto. Era como um cerimonial de enterro do antigo sis-
tema ficcional. Durante este processo, contudo, nós vi-
mos professores negarem aquilo que eles nos tinham
previamente ensinado como verdade absoluta. Foi uma
experiência dolorosa. Do fundo do meu coração, decidi
que nunca mais acreditaria em tais adultos que traem a
confiança que as crianças depositam neles; e que eu

168
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

nunca me tornaria um adulto deste tipo. Provavelmen-


te, neste momento, eu renasci como um novo ser que
estava começando a procurar por um “verdadeiro eu”,
que não seria incompatível com a existência de outros
seres humanos.
É claro que nessa época eu ainda não tinha me dado
conta tão claramente da situação. Como uma menina
de 12 anos, apenas intui minhas circunstâncias. Con-
tudo, por causa da experiência de ter visto simultanea-
mente o fim de um período histórico e o começo de uma
nova era, quase 40 anos depois, pude ser capaz de en-
tender muito bem a situação em torno do jovem Errico
Malatesta. Ele também viu, com seus próprios olhos, o
fim do reino dos Bourbons e o começo de um novo mo-
mento histórico: a transição política, econômica e cul-
tural de um sistema de valores. Com ódio, ele viu al-
guns adultos serem cooptados pelo novo sistema de
poder para satisfazer desejos egoístas e a mágoa de ou-
tros. Nesta situação caótica, ele começou a procurar seu
próprio caminho; primeiro como um sonho infantil, de-
pois com mais certeza, ele perseguiu uma revolta moral
contra a injustiça social.
Em 1925, no momento preciso de ascensão de
Mussolini, ele escreveu as seguintes frases em seu jor-
nal “Pensiero e Volontà”, que deveria ser calado um ano
depois de opressão fascista: “A Anarquia é um modo de
vida coletivo, no qual todos os homens e mulheres vi-
vem como irmãos e irmãs, sem oprimirem-se ou explo-
rarem-se, e cada um pode obter os meios que a civiliza-
ção neste estágio histórico é capaz de prover, de modo a
conseguir o desenvolvimento moral e material de mais
alto nível; e Anarquismo é um método de realizar a Anar-
quia, através da liberdade e sem nenhum governo, isto
é, sem autoridades que imponham, mesmo que com boas

169
3
2003

intenções, seus próprios desejos sobre os outros pela


força”.
Aos setenta e dois anos, ele escreveu seu profundo
insight: “O que é importante e define os anarquistas é
seu sentimento e aspiração pela liberdade e bem-estar
para todos, e seu amor por todo o povo”. No esforço de
realizar a liberdade mais radical, ele deu forte ênfase à
vontade do indivíduo: “A Anarquia é... aspiração huma-
na; se vai realizar-se ou não depende, da vontade hu-
mana”.
Esta expressão é muito simples e clara para não ser
compreendida. Na situação crítica em que a liberdade
de cada um deveria ser suprimida pelo fascismo italia-
no, ele cristalizou a essência desta idéia, que deveria
ter sido a herança da luta humana por liberdade, auto-
nomia e auto-determinação contra o poder, empreendi-
da por gerações. O Anarquismo nasceu na Europa na
metade do século XIX, quando a concentração do poder
estatal (dentro do sistema militar e da burocracia) emer-
giu junto com o poder capitalista. No século XX, con-
frontando a maior concentração do poder do Estado e
do capital, Errico Malatesta propôs uma revolução hu-
mana do amor: “O programa anarquista, baseando-se
na solidariedade e no amor, vai além da própria justi-
ça... o amor facilita tudo o que é possível e sempre dará
mais... Faça como você deseja que seja feito pelos ou-
tros (sobretudo faça o melhor possível); isto quer dizer
que o que os cristãos chamam de caridade, nós chama-
mos de solidariedade: nada mais é do que amor”.
Parece-me que ele queria mudar toda a ordem hie-
rárquica das relações sociais, continuamente criando
uma nova relação entre homens e homens, entre ho-
mens e mulheres, entre mulheres e mulheres, através
do amor e da solidariedade. De acordo com o testemu-

170
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

nho de Luigi Fabbri, seu antigo colaborador em vários


aspectos do movimento, a idéia anarquista de Malatesta
era completamente coerente com seu sentimento revo-
lucionário, sua sensibilidade e seu profundo sentimen-
to de amor. Em minha opinião, ele foi fiel a si mesmo, e
desejava cooperar com os que eram fiéis a si mesmos.
Se um ser humano é fiel à sua consciência, ele/ela
seria suficientemente sensível para perceber que al-
guns podem se inclinar para as várias formas de poder,
não importa quão pequeno seja, para dominar outros; e
ele/ela seria capaz de ter uma chance de superar tal
tendência para o poder, se fosse encorajado por seu
próprio sentimento de solidariedade. Portanto, sem a
liberdade da consciência e a liberdade de exprimir li-
vremente sua consciência, não haveria espaço para criar
uma sociedade baseada na igualdade, sem nenhum tipo
de discriminação social. A Anarquia, portanto, é a liber-
dade na forma mais radical do humanismo; nascida pri-
meiro na consciência humana e no sentido de
moralidade de cada pessoa; depois, desenvolvida atra-
vés da solidariedade entre os povos, sempre respeitan-
do a autonomia e a auto-determinação de cada um. O
princípio é também sempre o mesmo para os grupos
em diferentes áreas ou distritos. Não importa a que grupo
nacional ou étnico se pertença, a autonomia deve ser
respeitada por outros grupos; e não importa que sexo
se tenha, sua auto-determinação deve ser respeitada.
Sem nenhuma dominação social, os seres humanos
podem organizar relações livres e igualitárias entre si
através da autonomia e da solidariedade. — Este foi o
princípio estabelecido quando a Primeira Internacional
começou: a Associação Internacional dos Trabalhado-
res, fundada na Europa em 1864, no coração do mo-
derno sistema estatal ocidental. Na Europa, enquanto o
poder do Estado se fortalecia, a resistência do povo se

171
3
2003

intensificou. Assim, a Primeira Internacional ultrapas-


sou as fronteiras do Estado, tornando-se internacional.
Ao contrário, no Japão, o Estado moderno se forma-
ra sobre um mito: a origem divina do poder de Tenno
derivava do mito de que seus ancestrais eram deuses e
de que a família Tenno tinha sempre governado o país
desde tempos desconhecidos. Portanto, o governo di-
zia, devemos obedecer a este deus vivo. O anacronismo
é tão claro aos nossos olhos hoje, mas o sistema funci-
onava muito bem. Uma das razões era que o governo
não permitia ao povo a liberdade de pensar livremente;
negava-lhe a liberdade de consciência. É claro que houve
resistências entre o povo. No entanto, o governo, en-
quanto oprimia o movimento consciente do povo, em
1890, introduziu o princípio da educação nacional na
forma do decreto de Tenno: que cada um se dedique a
Tenno e ao Estado japonês. Outra ordem de Tenno foi
estabelecer a Universidade Imperial como o mais alto
órgão da educação nacional, afirmando que ela deveria
instruir os estudantes a serem úteis para o Estado ja-
ponês. Portanto, enquanto a tecnologia ocidental e a
idéia de poder político haviam sido ansiosamente im-
portadas, a idéia da resistência popular era cuidadosa-
mente rejeitada. Ainda hoje esta tendência subsiste
persistente em nossa sociedade.
Outro motivo foi a situação internacional. O tempo
de formação do Império japonês em 1868 estava ape-
nas na véspera do período imperialista. O Japão pode-
ria ser conquistado, como tinha sido a Índia, ou semi-
conquistado, como fora a China pelos grandes poderes
europeus. O povo sabia que a pátria estava em perigo
iminente, especialmente — sentia-se — no período da
Guerra Russo-japonesa. Os sentimentos populares fo-
ram explorados pelos líderes do sistema Tenno, inclu-
indo os militares.

172
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

A terceira razão era a tradição da história feudal ja-


ponesa, na qual o Japão havia fechado o país para quais-
quer poderes estrangeiros depois de 1639. Um ano de-
pois, o governo militar japonês reprimiu sangrentamente
a grande insurreição dos cristãos japoneses no sul do
Japão. A liberdade de crença não poderia mais existir.
Cada um deveria obedecer somente às ordens da auto-
ridade feudal, que era chamada Okami (topo da hierar-
quia). Embora o Japão estivesse formalmente aberto com
a Restauração Meiji, a mentalidade feudal permaneceu:
sob o mesmo nome, Okami, a autoridade feudal foi subs-
tituída pelo Tenno, que facilmente ocupou um lugar
sublime na psicologia do povo.
Vou relatar-lhe um episódio. Dois anos atrás, eu par-
ticipava de um seminário de verão com meus estudan-
tes no norte do Japão. Uma dezena de estudantes es-
trangeiros de vários países que estavam estudando nas
universidades japonesas também participavam, inclu-
sive coreanos, chineses, indonésios e iranianos. Uma
noite, tivemos uma sessão livre, da seguinte maneira:
cada estrangeiro, depois de se apresentar, fazia pergun-
tas sobre sua experiência na sociedade japonesa; os
estudantes japoneses, por seu turno, depois de se apre-
sentarem, procuravam responder. O resultado foi mui-
to interessante: todos nós estávamos começando a pen-
sar por que o povo e a sociedade japonesa era tão anti-
comunicativa. Por exemplo, um estudante estrangeiro
perguntou: “Por que os japoneses têm atitudes ambí-
guas?”: Um amigo japonês convidou-o, dizendo: “Por
favor, venha à minha casa”. Então, ele foi à casa do amigo
um dia: o amigo disse “Seja bem-vindo”, mas do outro
lado do portão, o japonês perguntou: “você tem algum
negócio comigo?”. Ele estava tão assustado que não
sabia como comportar-se...

173
3
2003

A maioria dos estudantes estrangeiros teve uma


experiência similar com o povo japonês e parecia ter
experimentado, no Japão, a diferença entre a intenção
real e a pretensa. Eles desejavam mostrar, penso eu,
que deste modo seria quase impossível construir uma
relação real com o outro, porque ninguém pode contar
com atitudes tão ambíguas. Se uma pessoa não é sin-
cera para si nem para os outros, ela não pode comuni-
car-se com ninguém, porque uma relação verdadeira
está baseada no coração de cada um, no seu verdadeiro
eu.
Afim de responder aos estudantes estrangeiros, vá-
rios japoneses referiam-se à história da política fecha-
da durante a era feudal e terminavam com a Restaura-
ção Meiji; uma vez que a sociedade estivera sob estrito
controle das autoridades, o povo fechara seus corações
e exprimia suas verdadeiras opiniões somente entre
pessoas nas quais acreditassem; embora o Japão tives-
se aberto depois da Modernização, permanecia a men-
talidade tradicional. Outros acrescentaram que mesmo
depois, sob o sistema Tenno, não havia chance de ex-
primir livremente suas opiniões em público; todos es-
condiam suas intenções reais em público, de outro modo
seria perigoso. Nós calculamos desde que o Japão en-
trara em isolamento nacional, em 1639, até a Restaura-
ção Meiji, em 1868, quase 230 anos haviam-se passa-
do; de 1868 até 1988, exatamente 130. Obviamente, o
período de isolamento fora um século mais do que o
tempo que se sucedeu. Portanto, a mentalidade ambí-
gua passou de geração a geração, por mais de dois sé-
culos; enquanto que menos de quatro gerações haviam
passado desde o tempo da abertura política; e depois
de 1945, apenas menos de duas gerações! Todos nós
compreendemos o quão severa a situação poderia ficar

174
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

para as gerações mais jovens (e para as gerações que


viessem).
Queridos Carla e Giulio, minha carta está ficando
muito longa. Contudo, ainda tenho muitas coisas para
dizer, especialmente sobre o sistema de controle educa-
cional que atinge a geração jovem com violência tanto
física, quanto psicológica. Darei apenas um exemplo: há
pouco tempo uma garota foi morta no portão do colégio
depois de ter sido presa no pesado portão de ferro. A
pessoa que cuidadosamente empurrara a porta era seu
professor. Ele queria deixar de fora os alunos que esti-
vessem atrasados para a aula. O novo sistema educacio-
nal, modelado segundo os princípios americanos de pós-
guerra, hoje parece haver sido revertido para um tipo de
“militarismo educacional”, especialmente no colégio. Os
professores controlam o comportamento dos alunos em
todos os aspectos (examinando o tamanho do cabelo, das
saias, a cor das meias, etc.), sob o cuidado do diretor
(principal), que em troca, deveria obedecer às diretrizes
do Ministério da Educação, isto é, o governo e os líderes
políticos. Obviamente, eles querem ganhar os jovens
obedientes para suas causas. Assim também os líderes
econômicos. Eles querem ter soldados capitalistas que
se dediquem à atividade industrial, sem levar em conta
sua vida privada ou social. Isto quer dizer que hoje, tam-
bém o estado e o capital são inimigos da felicidade, da
liberdade e da autonomia. Além do mais, eles querem
usar o novo Tenno e sua família para reorganizar a soci-
edade japonesa sob o nome de “tradição”. Principalmen-
te o Estado e o Capital do Japão utilizam os defeitos tra-
dicionais que foram historicamente formados, como vi-
mos acima, na sociedade japonesa, para produzir uma
nova estrutura social de discriminação.
Hoje, o povo japonês, afim de reconquistar sua auto-
nomia contra tais violências perpetradas pelo Estado e

175
3
2003

pelo Capital, deveria, acima de tudo, perceber sua situa-


ção real, porque sem esta percepção, ninguém poderia
perceber que “eu estou perpetuando a violência do Esta-
do e do Capital inconscientemente”. Uma vez que se per-
cebe isto, pode-se mudar e escolher sua própria maneira
de não cooperar com tal violência social. A idéia de
Anarquismo e de Anarquia de Errico Malatesta poderia
servir ao povo japonês para encontrar seu próprio cami-
nho num processo de reconquistar sua própria liberda-
de e autonomia, a fim de descobrir a solidariedade real
com todos os outros povos no mundo. É portanto uma
das mais distintas tradições da sabedoria humana na
história moderna da Europa.
Escrevi esta carta durante o período da cerimônia de
coroação do novo Tenno no Japão. Enquanto se realiza-
va a cerimônia, sob estrita guarda policial (contra os
movimentos radicais), alguns jornais asiáticos exprimi-
ram sua ansiedade de que o Tenno, uma vez mais, pode-
ria obter o status de um “deus vivo”. O povo asiático lem-
bra-se muito bem da agressão dos militares japoneses
sobre seu país, sob o nome de Tenno, ou do deus vivo; e
eles foram forçados a acreditar neste mito e ficção. O
sistema Tenno da Constituição Meiji tinha uma dupla
face: internamente, era um sistema de violência social,
enquanto externamente, funcionava como um mecanis-
mo de agressão. Sua essência era forçar seus próprios
sistemas de valores sobre os outros a fim de manipulá-
los, enquanto privava-os da autonomia e auto-determi-
nação indispensáveis para formar a personalidade hu-
mana e inevitáveis para organizar as comunidades. O
sistema era totalmente oposto ao modelo social de auto-
nomia e solidariedade no Anarquismo. Se o novo Tenno
se torna ou não um deus vivo, sustentado pela “tradi-
ção” fictícia, depende apenas do desejo do povo japonês.

176
verve
Porque a idéia de anarquismo é necessária à sociedade japonesa...

Hoje, durante um período crítico na história, todos


nós devemos cooperar globalmente para conseguir a paz
na terra. Contudo, não podemos fazer nada mais do que
começar por nós mesmos. Errico Malatesta foi um ho-
mem que começou por si mesmo, e mostrou ao povo como
ele sentia e pensava através de feitos e palavras até onde
foi capaz, de modo a criar uma relação humana na qual
aplicasse tanto a autonomia quanto a solidariedade. E
ele foi fiel a si mesmo durante a sua vida. Ele não foi um
adulto falso. Portanto, posso acreditar nele, mesmo que
tenha cometido alguns erros. Este pode ser um dos prin-
cipais motivos pelos quais eu gostaria de apresentar suas
idéias para os japoneses, especialmente para os jovens.
Novembro de 1990

Nota
1
Tradução de Margareth Rago

RESUMO

Carta de uma anarquista japonesa, a dois amigos, sobre a im-


portância de Malatesta e sua atualidade para os jovens no Ja-
pão. Ressalta, diante da eficaz educação tradicional para a
subserviência a força dos costumes anarquistas como ruptura
na cultura da obediência.

ABSTRACT

Carta de uma anarquista japonesa, a dois amigos, sobre a im-


portância de Malatesta e sua atualidade para os jovens no Ja-
pão. Ressalta, diante da eficaz educação tradicional para a
subserviência a força dos costumes anarquistas como ruptura
na cultura da obediência.

177
3
2003

rebeldias e invenções na anarquia

edson passetti*

É preciso ser rebelde. Os anarquistas não esperam


pelo futuro. Atuam no presente alimentando a utopia
dos universalistas tanto quanto a vivência de singula-
res libertários na atualidade. Os anarquistas são rebel-
des, muitas vezes utópicos e comumente realizadores
de experiências liberadoras. Mais do que lutar por jus-
tiça e fermentar práticas igualitárias, os anarquismos
são invenções da vida.
Os anarquistas querem a anarquia, como expôs com
clareza e potência Pierre-Joseph Proudhon. Não a ba-
gunça como enfaticamente seus adversários proclamam.
A anarquia é uma existência social com pessoas livres
associadas. Construí-la requer a rebeldia1 de quem não
dá sossego a si mesmo, convulsiona-se, incomoda-se,
atiça a potência da liberdade em si e no amigo. A anar-
quia não é um regime estável, contínuo e tranqüilo que
será encontrado no futuro após alguma gloriosa revolu-
ção vencedora capitaneada pelos desveladores da ver-

*
Professor no Depto. de Política do Programa de Estudos Pós-Graduados em
Ciências Sociais da PUC-SP e Coordenador do Nu-Sol.

verve, 3: 178-188, 2003


178
verve
Rebeldias e invenções na anarquia

dadeira consciência e chefes da grande massa ou no


findar de um processo pacífico liderado no parlamento
pela social-democracia. Baseia-se no mutualismo eco-
nômico e no federalismo político vividos pelas associa-
ções. É o terceiro momento na série justiça iniciada pela
humanidade com a comunidade e seguida pela propri-
edade. Em ambas o que era justo para alguns permane-
cia como injustiça aos demais. Os fortes que eram ex-
plorados pelos fracos no regime da comunidade, funda-
do na força física diante das intempéries naturais,
revoltaram-se contra tal injustiça e fundaram o regime
da propriedade, passando a partir de então a explorar
os demais, segundo o uso combinado das forças físicas
e intelectuais. Foi na busca por soluções justas que se
percorreu a história que vai da criação do patriarca ao
povo soberano até chegar aos homens livres de governo
superior e propriedade privada. A anarquia é o regime
da liberdade dos indivíduos livres associados com base
no apoio mútuo, que se dispensam de soberanos e ul-
trapassam as normas, leis e injustiças decorrentes da
propriedade. Anarquia e liberdade são sinônimos, dois
nomes para o mesmo regime. A anarquia é a possibili-
dade de uma sociedade justa que abole a exploração
entre os homens e sua instituição-mor, o Estado.
Foi desta matriz proudhoniana que os demais
anarquismos contemporâneos se inventaram, dissemi-
nando a anarquia como um regime que não orquestra
territórios a partir de uma instância, mas que é com-
posto por atos intensos provocados por cada um, cada
rebelde associado. Para existir, a sociedade igualitária,
fundada no indivíduo livre e autônomo, requer abolição
da autoridade centralizada, do pai, do chefe, do profes-
sor, do governante. É a revolta contra a autoridade cen-
tral que fortalece a liberdade e instiga a novas relações

179
3
2003

horizontalizadas abreviando sociabilidades autoritári-


as a cada associação que se efetiva.
Para os anarquistas, a anarquia e os anarquismos
estão na formação distendida de relações de autoridade
e liberdade que abolem o centro, o saber superior e a
Verdade verdadeira dos religiosos ou cientistas, em fa-
vor de uma descontinuidade. A vida se vive na coexis-
tência: não há homens, saberes ou poderes verdadei-
ros, superiores ou inferiores: abolir hierarquias é
potencializar liberdades. Os anarquismos não subesti-
mam as ciências, apenas alertam para o poder da co-
munidade científica que determina a verdade verdadei-
ra. Nada é fixo, constante e imutável, constatara
Bakunin.
Liberdade e autoridade vivem em tensão, são insu-
peráveis e não dependem de uma síntese pacificadora:
a vida potencializada em liberdades provoca e incentiva
outras rebeldias. As séries justiça e liberdade e justiça e
autoridade caminham para infinitos opostos. Segundo
Proudhon2, é por intermédio da análise das séries que
se compreende a história das forças em luta, captam-se
as atuações segundo as decisões descentralizadas ou
centralizadas, formas pelas quais se realiza tanto a exis-
tência do indivíduo livre como sua acomodação como
servo, súdito do governante ou democrata juramentado.
A emancipação humana, para os anarquistas, está
relacionada aos avanços em progressão geométrica da
séries justiça e liberdade, diante das estagnações ou
crescimentos em progressão aritmética na série justiça
e autoridade. A invenção da vida libertária — descen-
tralizada, mutualista e federalista — leva à sociedade
igualitária fomentando a diversidade e a singularidade
de ações libertadoras vinculadas às incessantes rebel-
dias. A rebeldia de cada um garantirá a sociedade anar-

180
verve
Rebeldias e invenções na anarquia

quista e igualitária e não a falsa ilusão de paz divulgada


pelos Estados e seus governantes, em nome da ordem,
da autoridade superior, do saber mais sábio, da classe
destinada. A emancipação humana não é uma meta a
ser alcançada no futuro por meio de um traçado cons-
ciente e preciso, é uma criação no presente. Ela não
supõe a uniformidade para libertar a diversidade. Ao
contrário dos socialistas autoritários, ela afirma a di-
versidade para garanti-la no futuro.
Certas pessoas identificam o anarquista com o jo-
vem rebelde que questiona a autoridade centralizada,
como homem insatisfeito com a ordem e que ainda não
amadureceu, com pessoas que se recusam a ceder aos
efeitos inevitáveis dos acomodamentos necessários, com
um marginal, um convicto iracundo. Daí decorre a
constatação que comanda o passo firme das forças con-
servadoras da sociedade em direção ao anarquista, tido
como sinônimo de terrorista, de sujeito perigoso, alguém
que deve ser combatido, preso, excluído, exilado, es-
quecido. Na melhor das hipóteses, um sonhador, um
nostálgico, peça de museu vivo a ser colecionada, anti-
quado e ultrapassado romântico, um infantilizado polí-
tico, ou ainda, como prefere parte da historiografia de
inspiração social-estatista, um ator pré-político, um
dinossauro na política. Entretanto, apesar das múlti-
plas conotações a ele atribuídas, os anarquistas tam-
bém não estranharam ou se surpreenderam quando,
na segunda metade do século XX, os socialismos come-
çaram a ruir. Muito menos quando estes teóricos, an-
tes de dialogarem sobre a crise do socialismo estatista
com os anarquistas, preferiram se acomodar às lições
democráticas institucionais dos conservadores. Por não
poderem abdicar do Estado, acabaram confirmando na
história o que sua teoria supunha ter superado como
metafísica; o fim do Estado, não passou de uma utopia

181
3
2003

irrealizável. Como disseram os liberais, este tipo de so-


cialismo nunca passou de uma forma de
intervencionismo incapaz de destruir o capitalismo. Por
linhas tortas estes socialistas teóricos e estatistas ape-
nas colaboraram para redimensionar e recriar o próprio
capitalismo, seja da maneira autoritária como socialis-
ta estatal histórico e efêmero, seja como um dissimula-
do retorno social-democrata, fazendo crer que pela via
institucional democrática será possível chegar ao soci-
alismo. É o percurso abandonado pelos revolucionári-
os, no início do século XX.
Proudhon mostrou com a análise serial que a demo-
cracia é o regime mais livre dentre os instituídos sob a
autoridade centralizada do Estado e que no seu interior
são gestadas as condições para o regime da anarquia
ou liberdade, aquele que sucede o da comunidade e o
da propriedade. A democracia pertence à série liberda-
de e posiciona-se numa relação distinta e oposta ao
comunismo, o regime superior na série autoridade. A
democracia é o regime onde se pode inventar uma as-
sociação, fazê-la existir para além da legislação, difun-
dir leituras e práticas libertárias, experimentar libera-
ções, apontar os limites políticos da representação, as
amarras da propriedade privada. Na democracia é pos-
sível experimentar a anarquia, não como concessão, mas
como realização. O mutualismo é um sistema econômi-
co e o federalismo uma articulação política para as as-
sociações. A ajuda mútua que fundamenta estas reali-
zações não é filantropia, mas invenção de pessoas li-
vres diante das misérias criadas pelo regime da
propriedade privada. O federalismo, assim, não é exer-
cício da representação das partes, mas vida destas par-
tes que não se subordinam sequer à assembléia.
Proudhon procurava, na sua época, analisar como inte-
grar cidade e campo, indústria e agricultura — proble-

182
verve
Rebeldias e invenções na anarquia

mas hoje redimensionados no interior de um capitalis-


mo transnacional — sem o mando da propriedade e o
comando do Estado. Para ele, a democracia é um regi-
me de liberdade que permite a superação da represen-
tação com a conseqüente supressão da propriedade,
instituindo-se, de maneira pacífica, pela ação contínua
das forças em luta, a sociedade igualitária, a anarquia.
Depois da queda dos regimes socialistas estatistas e da
conformação federativa centralizada que vem assumin-
do a Europa, desde o final do século passado, decorren-
te dos desdobramentos derivados da ultrapassagem da
era do Estado nacional, o tema do federalismo descen-
tralizado permanece atual, tanto quanto o do
mutualismo, agora sob o regime capitalista totalizado.
A democracia permanece atual não só como o melhor
regime para manter a dominação, mas também pelo seu
outro lado que instiga à superação da institucionalidade
dos seus procedimentos hierarquizados e da represen-
tação. Não se trata de buscar uma condição a priori; a
construção de associações livres inventoras da vida, li-
vres também dos prosélitos defensores de palavras e
verdades do passado, legadas pelos intelectuais e
ativistas desde o século XIX, é uma tarefa do presente.
O anarquista não é um a mais nas ruas gritando pala-
vras de ordem ou distribuindo panfletos. Não se trata,
também, de demonstrar uma verdade diante de outra
ou do regime da prova. Os detratores sabem da
contundência das análises libertárias. Não as reconhe-
cem por medo ou ignorância. Diferente dos anarquistas
que sabem extrair da democracia limites ofuscados, seus
críticos e adversários, pela carência de argumentos,
preferem a detração ou a subestimação.
O anarquista é mesmo perigoso à sociedade. Ele não
está aqui para defendê-la, reformá-la ou recriá-la. Ele
quer inventar vida e isso não implica sempre em nova

183
3
2003

sociedade, utopia do paraíso ou sequer uma heterotopia


de idealização criando um lugar capaz de dimensionar
as positividades da utopia no presente, um lugar de
perfectibilidade. É um rebelde entre os seus. Onde há
rebeldia há desassossego e imperfeição, mesmo quan-
do se tem a expectativa de uma nova sociedade iguali-
tária, anarquista. Ele não menospreza a democracia, a
potencializa. Ele recusa a identidade. É anarquista tam-
bém por evitar ser identificado como tal entre outros
anarquistas. É a atuação dissonante quando querem
harmonia, desestabilizando os prováveis condutores3.
A invenção da vida exige uma educação livre de hie-
rarquias: diante das utopias educativas da modernidade,
baseadas na internação de todos objetivando a forma-
ção e a formatação de iguais, os anarquismos irão pro-
por a abolição dos confinamentos. Os anarquistas se
reconhecem como iguais e diferentes, duas caracterís-
ticas que os colocam como únicos. Se para uma vida
igualitária é preciso rebeldia, cada um deve ser único
entre os anarquistas, um diferente. Menos do que rela-
cionar-se por afinidades — o que os nivelaria a todos os
demais políticos atuando como forças sociais, segundo
os interesses do momento, característica que define os
aliados e os inimigos do Estado, no território e nas rela-
ções transnacionais, ou ainda a versão liberal que tole-
ra a presença do diferente entre os iguais —, associam-
se como amigos, seus melhores inimigos.
A associação anarquista supõe a liberdade de sair, a
ética dos amigos que fazem coexistir suas diferenças
provocando rebeldias — ética como abrigo precário —,
alheia ao julgamento e em constante reviravolta
provocada pela coexistência gerada pelos diferentes, um
rio heraclítico. Manter os anarquismos relacionando-se
segundo o princípio da afinidade é o mesmo que
transformá-lo em proselitismo e atribuir aos seus de-

184
verve
Rebeldias e invenções na anarquia

fensores o papel de guardiães das tábuas sagradas do


passado. De iracundo a sacerdote passa qualquer anar-
quista toda vez que se voltar para a palavra certa, ou
muito menos, a cada instante que se identifica como
anarquista. O anarquista na atualidade desvencilha-se
da aspiração a ser sujeito. Desconsidera outros socia-
listas que se dizem interessados em aproximar-se do
anarquismo para aprender e dialogar segundo as afini-
dades socialistas. Sabe que eles, nostálgicos do XIX,
acabam modorrentos como um efeito burocrático e aca-
dêmico, refazendo a mesma antiga crítica aos anarquis-
tas.
Estamos frente a frente a confrontos inevitáveis?
Critica-se os socialistas estatistas por preferirem dialo-
gar com os conservadores e repudia-se a aproximação
no interior de uma atuação fundada na afinidade. Re-
conhece-se que a democracia é o melhor dos regimes
para se fomentar o regime da anarquia ou liberdade,
mas contorna-se os democratas. Declarar guerra a es-
tas forças seria o mesmo que jogar no terreno do inimi-
go, o da destruição, da escravização, da morte, da glori-
ficação do superior, do assujeitamento. A rebeldia aba-
la mais do que bradar contra a autoridade superior,
organizar-se como oposição, propor ser alternativo. Es-
tes são os campos de atuação das rebeldias necessári-
as às reformas, à continuidade do Estado. Anarquia é
descontinuidade por cada anarquismo, articulações fe-
derativas, no interior de cada uma e em cada outra nova
associação, formada por únicos.
O único não é somente o indivíduo indivizível, autô-
nomo forjado pelas utopias do século XIX. Por único
podemos compreender também os divíduos, únicos que
se fazem e refazem atravessados por múltiplas singula-
ridades liberadoras expandidas pelas rebeldias. No pri-
meiro caso estaremos ainda no campo da emancipação

185
3
2003

humana, da anarquia como regime para a sociedade,


das experiências libertadoras sendo capazes de respon-
der às soluções para as injustiças sociais e assim su-
cessivamente, metafísicos. Do outro lado, estamos no
âmbito de uma diversificação de anarquismos, inven-
ções, constatações de ascensos e descensos temporári-
os de práticas, campo específico para atuação por meio
de afinidades e por éticas dos amigos, diferenças entre
iguais que sinalizam para experiências de anarquismos,
transcendentais ou não, voltados para o presente como
balão de ensaio para o futuro ou para a atualidade como
vida no presente, metafísicos no limite, neste lugar em
que é preciso tomar uma atitude. Sabe-se pelas libera-
ções que o reconhecimento do indivíduo indivisível é a
expressão do Senhor e, por sê-lo, nada mais anti-anar-
quista, restando uma derradeira constatação ou nova
questão: a perfectibilidade do indivíduo autônomo e
indivisível foi a última transcendentalidade? Se não há
sossego nas séries para autoridade e liberdade num
absoluto reconfortante, não há, nem haverá, o indiví-
duo indivisível, a não ser como utopia irrealizável.
Os anarquismos se diferenciam podendo ou não sus-
citar confrontos internos. Quando isso não acontecer,
não se estará mais falando ou inventando anarquismos,
mas apenas professando palavras sacerdotais de uma
doutrina. Os anarquismos coexistem sem duelar por
hegemonia; existem e atuam com mais ou menos velo-
cidades e intensidades, segundo as épocas. Não pre-
tendem a verdade verdadeira; isto seria um suicídio.
Composto por únicos e associados livremente, cada
anarquismo dissolve gradativamente as hierarquias
superiores, que muitas vezes permanecem como res-
quícios, segundo o culto a uma liderança do passado. O
anarquismo não é isso ou aquilo, é precioso lembrar,
ele é isso e aquilo; é rebeldia e é esta rebeldia que edu-

186
verve
Rebeldias e invenções na anarquia

ca para a coexistência, para a federação, para a disse-


minação de miríades de associações. O anarquismo é
simultaneamente uma utopia da sociedade igualitária
e um modo de viver igualitário no presente despojado
de utopia.
A anarquia não é um projeto futuro de sociedade.
Quando ela aparece como utopia é um perigo e consolo
para a anarquia4. Só há o presente, sob quaisquer con-
dições históricas; isso é o que a análise serial apreende
da permanência do anarquismo, inclusive sob regimes
de autoridade, e que nenhuma teoria pode dar conta. É
o que se faz como associações no presente. Cada uma
inventa o anarquismo. Repletas de anarquistas, de úni-
cos, educados pela rebeldia e inventores de revoltas.
Dissolvem suas identidades e surpreendem.
O anarquista é uma pessoa insubordinável ao coleti-
vo.

Notas
1
Neste sentido, permanece atual e ativa a noção de homem revoltado de Albert
Camus, em O homem revoltado. Record, Rio de Janeiro/São Paulo, 1996.
2
Proudhon Pierre-Joseph, O princípio federativo, São Paulo, Imaginário, 2000; De
la création de l’ordre dans l’humanité, Paris, Marcel Rivière, 1927. Convém
ainda chamar a atenção para o derradeiro livro escrito por Proudhon e atual a
qualquer ocasião. Trata-se do livro concluído em 1864, De la capacite politique da
clase ouvrière, Paris, Marcel Rivière, 1924, no qual Proudhon sublinha a necessi-
dade de se rebelar constantemente, não havendo descanso para os libertários
na história. A sociedade livre, da Anarquia ou Liberdade, depende de uma re-
belião permanente antes, durante e depois. Os libertarismos de Proudhon e
Stirner se comunicam por intensidades, assim como podem ser remetidos a
Camus.
3
A historiadora Christina Lopreato, chamava minha atenção para a crítica
dirigida por mim a Kropotkin, em artigo na Verve 2. Dizia ela que a aversão de
Kropotkin à universidade se devia às condições históricas de época. De fato.
Contudo, há uma permanência ossificada desta aversão histórica que prosse-

187
3
2003

gue até a atualidade e que comanda certa identificação da universidade como


lugar de um anarquismo de cátedra. Os tempos mudaram. Não só o anarquismo
tem sido tema de dissertações e teses de pesquisadores que pretendem ascen-
der à vida acadêmica, como passou a ser uma maneira de seus adversários
investirem em sua crítica e derrocada. Diferente destas duas posturas, outras
têm levado o anarquismo como maneira diversa de viver na universidade. Não
há dono nem de mim, nem do anarquismo. A universidade é outra, os seus
críticos são diversos e no anarquismo não há proibição tolerável.
4
E aqui reside a contundente crítica de Max Stirner a Proudhon em O único e
sua propriedade. Para ele a metafísica de Proudhon pretende substituir o Estado
pela Sociedade, uma troca de absolutos. Em Filosofia da Miséria, Proudhon cha-
ma a filosofia do trabalho, propositalmente de metafísica ou lei serial, método
serial.

RESUMO

A atualidade da anarquia tensionada atravessando a perma-


nência de anarquismos no presente. Do vigor de Proudhon,
extraem-se espaços de resistências nos regimes da série liber-
dade valorizando práticas de revolta no interior da sociedade,
mesmo sob o regime democrático. Do incontível de Stirner, acon-
tecem atitudes insurretas para as quais a sociedade não é meio,
nem fim, mas é também o alvo.

ABSTRACT

A atualidade da anarquia tensionada atravessando a perma-


nência de anarquismos no presente. Do vigor de Proudhon,
extraem-se espaços de resistências nos regimes da série liber-
dade valorizando práticas de revolta no interior da sociedade,
mesmo sob o regime democrático. Do incontível de Stirner, acon-
tecem atitudes insurretas para as quais a sociedade não é meio,
nem fim, mas é também o alvo.

188
verve

Diversões decriança ,
as idéias humanas.

Heráclito

189
3
2003

temas e conceitos numa abordagem


abolicionista da justiça criminal1

louk hulsman*

Neste texto falarei sobre temas e conceitos, numa


abordagem abolicionista da justiça criminal. Ele não visa
a questão geral da punição. Eu vejo a punição como
uma forma específica de interação humana que pode
ser observada em muitas práticas sociais: família, esco-
la, trabalho, esportes. Nesse sentido, praticamente todo
mundo está familiarizado com a punição, tanto no pa-
pel de “ser punido” quanto no papel de “punidor”2.
As imagens que as pessoas têm a respeito da justiça
criminal são predominantemente baseadas na apresen-
tação das atividades de justiça criminal feita pela mídia3.
Quando elas participam de modo vicariante da justiça
criminal ou avaliam o sistema como observadoras, o
fazem baseadas nas imagens da mídia. Na justiça cri-
minal, é usada uma linguagem da punição e as pessoas
pressupõem a existência de uma congruência entre o
contexto de punição com o qual estão familiarizadas,

verve, 3: 190-219, 2003

190
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

por experiência direta, e os processos internos da justi-


ça criminal. Esta congruência, no entanto, não existe.
Com respeito ao que dentro do sistema é chamado,
profissionalmente, de “punição” (certas decisões judi-
ciais e sua implementação), uma relação “punidor-pu-
nido” “está faltando”4. E é somente na relação entre o
“punidor” e o “punido” que se encontra o caráter de “pu-
nição” (ao contrário de violência). Então, na justiça cri-
minal, as atividades (e as experiências) formalmente
chamadas de punição não têm qualquer semelhança
com os eventos que, fora dela, são considerados como
punição. Na prática, chamar aquelas atividades de pu-
nição equivale a criar uma legitimação infundada. En-
tão, não considero a justiça criminal como um sistema
que distribui a punição, mas como um sistema que usa
a linguagem da punição de uma maneira que esconde
os reais processos que acontecem e gera apoio através
da apresentação incorreta destes processos como se-
melhantes a processos conhecidos e aceitos pelo públi-
co.
A linguagem convencional no discurso público ocul-
ta as realidades de situações-problema (crime) e da
criminalização. Assim, a primeira parte irá lidar princi-
palmente com questões de linguagem. A segunda irá
abordar por que abolição? E a terceira intitula-se: como
abolir?

Parte I – Linguagem e conceitos


1. Um debate público em Córdoba
Em outubro de 1996, tive o privilégio de participar
de um debate público sobre problemas de segurança
na cidade de Córdoba (Argentina). Esse debate foi reali-
zado por uma organização voluntária chamada “El Ago-

191
3
2003

ra”, que tenta motivar cidadãos a expressarem opiniões


e a desenvolverem atividades em questões públicas5.
O debate começou com pequenos grupos de 10 a 15
pessoas. Qualquer interessado podia registrar-se num
destes grupos. “El Agora” fornecia um coordenador para
cada grupo. As questões que deveriam ser discutidas
no primeiro encontro dos grupos eram: Você sente-se,
às vezes, inseguro nesta cidade? Em que contexto, sob
quais circunstâncias? O que poderia ser feito para di-
minuir esses sentimentos de insegurança? Quem po-
deria contribuir para isto, de que maneira?
Na primeira sessão de discussões, os participantes
não falaram como especialistas, mas a partir de sua
própria experiência, de seus próprios sentimentos e de
suas próprias opiniões como cidadãos. Os participan-
tes não tentaram atingir um consenso. Eles queriam
tentar identificar-se com a diversidade de experiências,
sentimentos e necessidades expressos no grupo.
À noite, sintetizamos num grande esquema todas as
opiniões e posições colocadas nos pequenos grupos. No
molde pré-fabricado deste esquema nós havíamos, na-
turalmente, deixado espaço para observações concen-
trando-se no que deveria ser feito a respeito dos
agressores, mas esta seção permaneceu praticamente
em branco.
As pessoas queriam muitas ações concretas que pu-
dessem ser classificadas na categorias de indenizações
e prevenções, mas o assunto que está no âmago do de-
bate oficial — punição de agressores — foi apenas mar-
ginalmente representado. E para as ações concretas
sugeridas pelos participantes nos grupos de trabalho,
não havia lugar previsto, não havia palavras na lingua-
gem do debate oficial. Não é de surpreender que todos
os especialistas que chegaram a comentar sobre o re-

192
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

sultado da discussão nos grupos de trabalho observa-


ram a diferença impressionante entre as duas lingua-
gens.

2. A academia e as linguagens sobre crime, justiça


criminal e segurança
Para acadêmicos que trabalham no campo abordado
pelo debate sobre crime e justiça criminal (e que subs-
crevem a valores críticos incorporados na tradição aca-
dêmica)6 eu vejo uma dupla tarefa: a) descrever e anali-
sar os processos de criminalização de uma maneira que
permita avaliar suas conseqüências e sua legitimidade;
b) ajudar as pessoas (profissionais e outras) que ten-
tam dar conta (sob a perspectiva da compensação e/ou
prevenção) de situações-problema7 que são o objeto da
criminalização secundária ou alegações de crimina-
lização primária8.
Para cumprir sua tarefa, uma linguagem tem de ser
construída. Não pode ser a linguagem na qual a justiça
criminal é praticada e legitimada. Quando o uso dessa
linguagem tem de tornar possível avaliar a legitimidade
da justiça criminal sob a luz de certos valores explíci-
tos, é melhor começarmos a formular estes valores. Eles
têm de mostrar-nos para onde e como olhar. Então, co-
mecemos a olhar para alguns valores explícitos.
Valores
Temos de olhar para um modelo normativo ao redor
do qual, neste período nas sociedades (pós)modernas,
um grande apoio possa ser mobilizado. O modelo
normativo tem de ser apresentado com indicadores que
possam ser aplicados a sistemas sociais nos quais pro-
fissionais fazem um papel proeminente e nos quais
muitos casos são lidados num nível micro: como os sis-

193
3
2003

temas educacionais, o sistema médico e os sistemas


legais. O modelo normativo pressupõe estar de acordo
com o caráter secular e não-fundamentalista do Esta-
do9. Os indicadores seguintes parecem satisfazer as con-
dições que mencionei10.
a) Respeito pela diversidade
Suposição básica: a sobrevivência da vida depende
do respeito à diversidade e da solidariedade para com
ela. A diferença entre e dentro das espécies é hoje em
dia ameaçada por nossos arranjos sociais e técnicos.
As diferenças entre as pessoas vivendo numa mesma
sociedade são, no discurso público, subestimadas.
Valores: respeito pela diferença entre indivíduos (e
mesmo num mesmo indivíduo durante sua vida) e en-
tre coletividades. Solidariedade para com estas diferen-
ças.
b) Profissões e autoridades a serviço dos clientes
Valores: profissões e autoridades estão a serviço das
pessoas em sua diversidade. As pessoas não estão a
serviço das profissões e autoridades. Isto implica que
autoridades e profissões têm de servir aos interesses
de seus clientes em sua diversidade para serem legíti-
mas.
Suposição básica: autoridades e profissões somente
são capazes de servir aos interesses dos clientes em
sua diversidade quando estes têm poder para orientar
suas próprias atividades.
c) Validade de reconstrução
Suposição básica: o cardápio não é a refeição, o mapa
não é o território. Um evento que é o objeto de um dis-
curso ou de qualquer tipo de processo de tomada de

194
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

decisão é sempre reconstruído. A reconstrução nunca


é idêntica ao evento.
Valor: ao avaliar práticas sociais, o primeiro aspecto
a ser avaliado é a qualidade da reconstrução de um even-
to ou de um estado das coisas. É a reconstrução “váli-
da”? A reconstrução de eventos, que (também) perten-
ce ao reino de um mundo vivo, é válida somente se for
baseada nos significados dos atores principais do mun-
do vivo. Este critério deriva diretamente dos valores e
suposições básicas mencionados em “a” e “b”.
Conceitos
a) Crime
Nós somos inclinados a considerar “eventos crimi-
nais” como eventos excepcionais que diferem de forma
importante de outros eventos que não são definidos
como criminais. Na visão convencional, a conduta cri-
minal é considerada a causa mais importante destes
eventos. Criminosos são — nesta visão — uma catego-
ria especial de pessoas e a natureza excepcional da con-
duta criminal e/ou do criminoso justificam a natureza
especial da reação contra eles.
As pessoas que estão envolvidas em eventos “crimi-
nais”, no entanto, não parecem, em si mesmas, formar
uma categoria especial. Aqueles que são registrados ofi-
cialmente como “criminosos” constituem apenas uma
pequena parte dos envolvidos em eventos que legalmen-
te permitem a criminalização. Entre eles, jovens das
partes mais desfavorecidas da população são fortemen-
te super-representados.
Dentro do conceito de criminalidade, uma grande
variedade de situações são colocadas juntas. A maioria
delas, no entanto, tem propriedades separadas e ne-
nhum denominador comum: violência dentro da famí-

195
3
2003

lia, violência num contexto anônimo nas ruas, invasão


de propriedades privadas, formas completamente dife-
rentes de receber bens ilegalmente, diferentes tipos de
conduta no tráfico, poluição do meio-ambiente e algu-
mas formas de atividades políticas. Nenhuma estrutu-
ra comum pode ser encontrada na motivação daqueles
que estão envolvidos em tais eventos, nem na natureza
das conseqüências, nem nas possibilidades de se lidar
com eles (seja no sentido preventivo, seja no sentido do
controle do conflito). Tudo o que estes eventos têm em
comum é o fato de que o sistema judiciário está autori-
zado a tomar providências contra eles. Alguns destes
eventos causam sofrimento considerável àqueles dire-
tamente envolvidos, freqüentemente atingindo tanto o
causador quanto a vítima. Considere, por exemplo, aci-
dentes de trânsito e violência dentro da família. A gran-
de maioria dos eventos lidados pela justiça criminal, no
entanto, não estariam em pontos muito elevados numa
escala imaginária de sofrimento pessoal. Dificuldades
matrimoniais, dificuldades entre pais e filhos, dificul-
dades sérias no trabalho e problemas de moradia se-
rão, regra geral, experimentados como mais sérios tan-
to em grau quanto em duração. Se compararmos even-
tos criminais com outros eventos, não há — no nível
daqueles diretamente envolvidos — nada de intrínseco
que distinga estes “eventos criminais” de outras difi-
culdades ou situações desprazerosas. Nem, regra geral,
são eles escolhidos pelos diretamente envolvidos para
serem lidados de qualquer modo que difira radicalmen-
te da maneira pela qual outros eventos são lidados. Não
é, portanto, surpreendente que uma proporção consi-
derável dos eventos que seriam definidos como “crime
sério” no contexto do sistema de justiça criminal, per-
maneçam completamente fora desse sistema. Eles são
resolvidos dentro do contexto social no qual ocorrem (a
família, o sindicato, as associações, a vizinhança) de uma

196
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

maneira similar à que outros conflitos “não criminais”


são resolvidos. Tudo isto significa que não há uma rea-
lidade ontológica do crime.
b) Abolição
Tenho falado repetidamente sobre uma abordagem
abolicionista. O que quero dizer com isto?
É útil fazer uma distinção analítica entre dois tipos
de posturas abolicionistas. De um lado, temos uma pos-
tura abolicionista que nega a legitimidade de ativida-
des desenvolvidas na organização cultural e social da
justiça criminal. Esta postura rejeita também as ima-
gens da vida social que são formadas com base nestas
atividades em dois diferentes segmentos da sociedade.
Nesta visão, a justiça criminal não é uma resposta legí-
tima a situações-problema, mas apresenta as caracte-
rísticas de um problema público. Isto implica que esses
abolicionistas têm de cumprir uma tarefa dupla: têm de
parar com as atividades num molde da justiça criminal,
mas também se envolvem em lidar com situações-pro-
blema criminalizáveis fora da justiça criminal.
Esta forma de abolicionismo tem o caráter de um
movimento social comparável a movimentos sociais his-
tóricos para a abolição da escravatura e da perseguição
às bruxas e hereges e movimentos sociais contemporâ-
neos como os em favor da abolição da discriminação
racial e de gênero.
De outro lado, temos uma postura abolicionista na
qual não necessariamente a justiça criminal, mas uma
maneira de olhar para a justiça criminal é abolida. Esta
forma de abolição concentra-se nas atividades de uma
das organizações por trás da justiça criminal: a univer-
sidade e, mais especificamente, os departamentos de
direito penal e criminologia. Referindo-se a valores aca-
dêmicos que requerem independência acadêmica de

197
3
2003

práticas sociais existentes para permitir uma avaliação


mais objetiva destas práticas sob a luz de critérios es-
pecíficos, esta forma de abolicionismo reprova as leitu-
ras dominantes do crime e da justiça criminal pela falta
da independência necessária. Estas “leituras” dominan-
tes, implicitamente, apóiam a idéia de uma “naturali-
dade e necessidade” da justiça criminal.
Neste sentido, a abolição é a abolição da linguagem
prevalecente sobre justiça criminal e a substituição
desta linguagem por outra linguagem que permita sub-
meter a justiça criminal à hipótese crítica; em outras
palavras, que permita testar a hipótese de que a justiça
criminal não é “natural” e que sua “construção” não pode
ser legitimada. Se essa hipótese for validada, a lingua-
gem prevalecente sobre a justiça criminal tem de ser
desconstruída e a justiça criminal aparecerá como um
problema público em vez de uma solução para proble-
mas públicos. O primeiro tipo de abolição será assim
legitimado.
Falo, neste texto, principalmente, sobre a segunda
forma de abolição. A abolição como uma hipótese críti-
ca, abolição acadêmica.
c) Criminalização e justiça criminal
O que é a justiça criminal? Para nós, a justiça crimi-
nal é uma forma específica de interação entre um certo
número de agências tais como a polícia, os tribunais
(no sentido mais amplo, isto é, não só os juízes, mas
também o promotor público, os procuradores etc), o
serviço de prisões e de sursis, departamentos de direito
e criminologia no mundo acadêmico, o Ministro da Jus-
tiça e o Parlamento. Nenhuma destas organizações são,
em si, ligadas à justiça criminal, elas têm (mesmo se
forem ligadas a elas) vida própria. A maioria das ativi-
dades da polícia, por exemplo, não ocorre dentro do

198
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

modelo daquele tipo especial de interação. Similarmen-


te, a maioria das atividades dos tribunais não acontece
dentro de um modelo da justiça criminal:
freqüentemente elas agem no modelo da justiça civil ou
administrativa.
Qual é, então, esse tipo específico de interação ou,
em outras palavras, de organização social e cultural11,
que produz a criminalização? Serei muito breve e ape-
nas sublinharei um certo número de aspectos que me
parecem importantes para nosso assunto imediato.
A primeira especificidade da organização cultural é
que a justiça criminal é o ato de construir (ou recons-
truir) a realidade de uma forma muito específica. Ela
produz uma construção da realidade ao enfocar um in-
cidente, estreitamente definido num tempo e lugar e
congela a ação ali e olha, a respeito daquele incidente,
para uma pessoa, um indivíduo, a quem
instrumentalidade (causalidade) e culpa possam ser
atribuídas. O resultado é que o indivíduo então é dis-
criminado. Ele é isolado, por causa daquele incidente,
de seu meio-ambiente, de seus amigos, de sua família,
do substrato material de seu mundo. Ele também é se-
parado das pessoas que sentem-se vitimizadas numa
situação que pode, de alguma maneira, ser atribuída à
sua ação. Estas “vítimas” são separadas de maneira
semelhante. Então, a organização cultural de referên-
cia separa artificialmente alguns indivíduos de seu meio-
ambiente e separa pessoas que se sentem vitimadas das
pessoas que são consideradas nesta situação específi-
ca como “violadores”. Neste sentido, a organização cul-
tural de justiça criminal cria “indivíduos fictícios” e uma
interação “fictícia” entre eles.
Outra característica da organização cultural da jus-
tiça criminal é a sua ênfase na “alocação da culpa”. Há

199
3
2003

uma forte tendência na justiça criminal de agrupar even-


tos e comportamentos com os quais lida e as sanções
aplicadas num padrão consistente e coerente ao redor
de uma hierarquia de “gravidade”12. Esta hierarquia de
gravidade é construída principalmente sobre a experi-
ência de uma variedade limitada de eventos na compe-
tência real (ou considerada) do sistema. Nesta pirâmi-
de, praticamente nenhuma comparação é feita com even-
tos e comportamentos fora desta variedade. A
classificação ocorre num universo separado, determi-
nado pela própria estrutura da justiça criminal. A con-
sistência da escala dentro do sistema leva necessaria-
mente a inconsistências com as escalas daqueles dire-
tamente envolvidos fora do sistema, já que valores e
percepções numa sociedade não são uniformes. O “pro-
grama” para alocação da culpa típico da justiça crimi-
nal é uma verdadeira cópia da doutrina do “julgamento
final” e do “purgatório” desenvolvida em algumas varie-
dades da teologia cristã ocidental. É também marcado
por traços de “centralidade” e “totalitarismo”, específi-
cos dessas doutrinas. Naturalmente, essas origens —
esta “velha” racionalidade — está escondida atrás de
palavras novas: “Deus” é substituído pela “Lei” e o “con-
senso das pessoas” por “nós”.
Tratarei agora das características especiais da orga-
nização social da justiça criminal. Mencionarei duas: a
primeira característica especial da organização da jus-
tiça criminal é a posição muito fraca que têm as “víti-
mas” — e chamo de vítimas a pessoa ou as pessoas que
sentem-se aborrecidas com um evento ou uma série de
eventos — em seu referencial13.
Argumentaríamos que as atividades de profissões e
as burocracias somente podem ser úteis a clientes quan-
do são guiadas por uma participação ativa de todas as
pessoas em cujo nome estão trabalhando. No referencial

200
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

da justiça criminal, não há — em princípio — nenhum


espaço para tal participação e orientação. Quando a
polícia está trabalhando dentro de um referencial de
justiça criminal, tende a não ser mais dirigida pelos
desejos e reclamações das pessoas que apresentaram a
queixa, mas pelas exigências do procedimento legal que
estão preparando. O queixoso — a pessoa que pediu
providências para a polícia — torna-se, ao invés de um
guia para suas atividades, uma “testemunha”. Uma tes-
temunha é, principalmente, uma “ferramenta” para le-
var procedimentos legais a um fim com sucesso. De for-
ma comparável, o modelo de procedimentos no tribunal
impede — ou de qualquer jeito torna especialmente di-
fícil — que a vítima expresse livremente sua visão da
situação ou entre numa interação com a pessoa que
está fazendo o papel de suposto agressor no tribunal.
Também nessa situação, ela é, em primeiro lugar, uma
“testemunha”, mesmo nos sistemas legais nos quais
uma posição especial foi criada para as vítimas. Os es-
tudos avaliativos feitos até agora sobre os resultados de
mudanças em procedimentos legais que tendem a re-
forçar a posição da vítima dentro do referencial da jus-
tiça criminal têm mostrado um resultado muito
desapontador14.
Uma segunda característica da organização social da
justiça criminal é sua extrema divisão de trabalho ori-
entada por uma lei criminal (escrita ou comum) centra-
lizada. Isto torna muito difícil para os funcionários
direcionarem suas atividades aos problemas como ex-
perimentados pelos diretamente envolvidos. E torna
extremamente difícil para eles assumirem responsabi-
lidade pessoal por suas atividades. Uma das principais
características da justiça criminal é que ela prega em
seu discurso a “responsabilidade pessoal” para

201
3
2003

“agressores” e suprime a “responsabilidade pessoal”


daqueles que trabalham dentro de seu referencial.
A organização social e cultural real das atividades de
uma organização podem estar mais ou menos na expli-
cação da justiça criminal e isto permite avaliar de que
maneira se desenvolve o “comportamento” das práti-
cas.
Para resumir, a justiça criminal consiste, por um lado,
nas atividades de certas agências, sendo elas o fruto da
organização cultural e social descrita previamente e, por
outro lado, na recepção e legitimação dessas atividades
nos diferentes segmentos da “sociedade”. A abolição
dirige-se a ambas as áreas: as atividades das organiza-
ções e sua recepção na “sociedade”.
d) Política criminal
A “política criminal” é freqüentemente entendida
como uma “política em relação ao crime e aos crimino-
sos”. A existência de “crime e criminosos” é, geralmen-
te, considerada como um fato social “dado”, natural, não
como um processo de definição (seletiva), a responsabi-
lidade e o objeto da política. Seria um erro fundamental
em nosso debate definir “política criminal” de um modo
tão limitado. Uma das condições necessárias para uma
discussão útil sobre a política criminal é problematizar
as noções de “crime e criminosos”. O grau até o qual
“eventos e situações” devem ser sujeitos à criminalização
será uma das questões mais importantes em nosso de-
bate.
A “política criminal” é, por um lado, parte de uma
política social mais ampla, mas, por outro lado, ela pre-
cisa reter uma certa autonomia com relação a este campo
mais amplo. Uma abordagem útil, neste caso, é consi-
derar a “política criminal” como uma “política em rela-
ção a sistemas de justiça criminal”.

202
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

Tal política com relação a “sistemas de justiça crimi-


nal” seria multi-focada: 1) trataria do desenvolvimento
das organizações que formam a base material do siste-
ma (polícia, tribunais, prisões etc) e dos sistemas de
referência que elas usam; 2) dirigir-se-ia à questão de
quais tipos de eventos poderiam ser lidados pelo siste-
ma, sob quais condições e de que modo (sob esta cate-
goria, a função de “guardiã da moral” da política crimi-
nal requer atenção particular); 3) expressaria recomen-
dações sobre a reorganização social em outras áreas da
sociedade em relação a situações-problema que se tor-
naram o objeto de um debate de política criminal15.
Após estas observações sobre diferentes conceitos-
chave na linguagem de e sobre a justiça criminal, ainda
não podemos chegar a uma conclusão sobre as diferen-
tes questões de linguagem antes de havermos exami-
nado a questão de por que a abolição? Vamos, portan-
to, nos dirigir a esta questão.

Parte II – Por que abolição?


Antes de tentar responder à questão “Por que aboli-
ção?”, é necessário fornecer algumas informações so-
bre desenvolvimentos de nosso conhecimento no cam-
po do que na criminologia é chamado de “cifra negra”.
Originalmente, criminologistas trabalharam — para te-
rem uma idéia sobre a freqüência e a natureza do crime
— com “dados estatísticos” sobre as atividades de tri-
bunais criminais.
Quando foi descoberto que muitos eventos crimi-
nalizáveis denunciados à polícia jamais chegavam aos
tribunais (por muitas razões, uma das quais sendo que
agressores não eram encontrados), os crimino-
logistas começaram a trabalhar mais com estatísticas
da polícia que com estatísticas dos tribunais. A diferen-

203
3
2003

ça entre os crimes denunciados (nas estatísticas da


polícia) e estatísticas dos tribunais foi chamada de cifra
negra. Algumas décadas atrás, uma nova perspectiva
sobre ela começou a desenvolver-se, quando questio-
nários sobre auto-denúncia e sobre vítimas16 foram in-
troduzidos. Seguiram-se técnicas de observação. Hoje
em dia sabemos que a criminalização efetiva é um evento
raro e excepcional.
No campo da criminalização baseada no “policiamen-
to reativo” (há pessoas que sentem que foram tratadas
injustamente num evento e, na prática, a polícia age
somente depois que uma queixa foi registrada), a razão
principal pela qual eventos criminalizáveis não são
criminalizados é que as vítimas não denunciam o even-
to à polícia. Mas há muitas outras razões. Talvez a polí-
cia não tenha tido tempo de lidar com um evento de-
nunciado; ou não achou um agressor, ou lidaram com
ele de uma maneira orientada para o problema, não
criminalizante. Talvez o tribunal não tenha tido tempo
para lidar com o evento ou houve obstáculos de proce-
dimento.
No campo da criminalização baseada no “policiamen-
to pré-ativo” (como ofensas no campo de drogas ilegais
ou segurança no trânsito) é difícil para a polícia tomar
conhecimento dos eventos. Isto e mais os limitados re-
cursos policiais para processar administrativamente os
eventos conhecidos, são as razões principais pela qual
a “criminalização efetiva” (levar um caso a um tribunal
criminal ou aplicar alguma outra sanção legal) é um
evento tão raro.
A grande maioria de eventos criminalizáveis (“séri-
os” e “menores”) pertence, assim, à cifra negra. Todos
esses eventos são, portanto, lidados fora da justiça cri-
minal. Digo “lidados” de propósito, porque não deve-

204
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

mos cometer o erro de pensar que o que não é in acto


não está in mundo. O fato de não sabermos que se “li-
dou” com alguma coisa, não significa que não se “lidou”
com ela. No mundo tudo é lidado de alguma maneira
por aqueles diretamente envolvidos.
Em outro texto17, forneci exemplos detalhados de
maneiras diferentes com as quais eventos criminalizá-
veis são lidados fora da justiça criminal e como, na mi-
nha opinião, pesquisas deveriam ser feitas neste cam-
po. Aqui, limito-me a algumas observações gerais.
Quase todos os eventos problemáticos para alguém
(uma pessoa, uma organização, um movimento) podem
ser abordados num processo legal de uma forma ou de
outra (justiça criminal, civil ou administrativa), mas
muito poucos deles são realmente abordados desta for-
ma, como mostram a cifra negra e outras formas de jus-
tiça. A maioria das alternativas à justiça criminal são
de natureza predominantemente não-legal. Estas alter-
nativas geralmente não são “invenções” das pessoas
envolvidas na política criminal ou na política legal em
geral, mas são aplicadas diariamente por aqueles en-
volvidos direta ou indiretamente em eventos problemá-
ticos. Abordagens não-legais são a regra “estatística” e
“normativa” (na normatividade das pessoas envolvidas);
a “legalização” é uma rara exceção. Isto sempre foi as-
sim, é assim agora e provavelmente será assim no futu-
ro. Esta realidade é obscurecida quando tomamos como
ponto de partida a “normatividade” implícita no debate
tradicional da justiça criminal. Já que somente ali en-
contramos uma normatividade na qual a justiça crimi-
nal é a regra e é freqüentemente (inconscientemente)
considerada — opondo-se a todo o conhecimento cien-
tífico — um fato estatístico.

205
3
2003

A excepcionalidade da criminalização efetiva18 de


eventos criminalizáveis e o fato de que eles são, regra
geral, lidados de diferentes maneiras sobre as quais nos
falta informações, têm, em muitos aspectos, relevância
para a avaliação da legitimidade da justiça criminal.
Os aspectos negativos da justiça criminal (para os
agressores e aqueles próximos a eles, para a pessoa que
sofreu uma injustiça no evento criminalizável, para os
funcionários das agências e para o público em geral)
foram desenvolvidos longamente em outro texto19. Um
aspecto, no entanto, quero desenvolver detalhadamente
aqui.
O fato de que a criminalização de eventos criminalizá-
veis é estatística e normativamente excepcional, coloca
em pauta uma nova questão sobre a legitimidade da
justiça criminal. O referencial da justiça criminal não é
uma maneira normal de interação entre cidadãos e pro-
fissionais. Muitas das atividades que profissionais de-
senvolvem dentro da justiça criminal estão em desa-
cordo com as exigências das convenções sobre direitos
humanos. Essas convenções contêm exceções a respei-
to das exigências para uma abordagem de justiça cri-
minal, mas somente se tal abordagem for “necessária
numa sociedade democrática”20. Quem poderia alegar
que “uma exceção é necessária” quando se sabe que a
criminalização é uma rara exceção e que não se tem
idéia alguma de como estes eventos são lidados fora da
justiça criminal21?
Concluindo, podemos sintetizar nossas críticas ao
sistema de justiça criminal do seguinte modo: nossa
reprovação mais profunda à justiça criminal é a de que
ela tende a fornecer uma construção não realista do
que aconteceu e, portanto, a fornecer também uma res-
posta não realista e ineficiente. Mais ainda, ele tende a

206
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

impedir que as organizações formais tais como a polícia


e os tribunais lidem de uma forma criativa com estes
eventos e que aprendam com eles. A justiça criminal
parece estar em desacordo com todos os três valores
mencionados anteriormente.
A “criminalização” é injusta, já que, através de sua
própria estrutura, nega as variedades existentes na vida
social e os diferentes “significados” daí gerados, e por-
que ela é incapaz de percebê-los e lidar com eles. É in-
justa, também — em seus próprios termos — porque
não consegue lidar igualmente com agressores e víti-
mas: a maioria deles nem mesmo aparece na justiça
criminal (cifra negra); regra geral, são lidados em algum
outro lugar de uma forma que não é sequer conhecida
pela justiça criminal.

Parte III – Como abolir?


1. Como abolir a justiça criminal?
Abolição acadêmica
Vamos, em primeiro lugar, olhar mais detalhada-
mente para a forma acadêmica de abolição. Algumas
das questões conceituais e de linguagem já foram dis-
cutidas na Parte I. Temos de voltar a elas agora que
assimilamos a informação dada na Parte II.
Não se pode trabalhar com as definições de realida-
de produzidas pela justiça criminal. De acordo com os
valores mencionados anteriormente, essas imagens da
realidade são inválidas e não confiáveis. Isto implica a
reconstrução dos próprios eventos pelos acadêmicos,
independentes do sistema de justiça criminal e em con-
formidade com os valores definidos anteriormente.

207
3
2003

Em primeiro lugar, temos de ir até aqueles direta-


mente envolvidos no caso e perguntar-lhes sobre o que
aconteceu, de que maneira eles se sentiram ou se sen-
tem injustiçados por ele, a quem ou a qual “estado de
coisas” eles atribuem responsabilidade pelo evento, o
que desejam fazer a respeito dele e/ou o que eles que-
rem que seja feito por outros.
Esta “nova” forma de reconstrução deve, naturalmen-
te, respeitar a dinâmica do desenvolvimento de eventos
para aqueles diretamente envolvidos e para seu meio-
ambiente. Desta maneira, também fornecerá um insight
sobre a variedade de maneiras pelas quais eventos
criminalizáveis são lidados. Assim, teremos uma idéia
de como estas variedades relacionam-se aos valores
mencionados anteriormente22. Novas imagens sobre
campos e áreas de situações-problema tornar-se-ão dis-
poníveis e, baseados nestas novas imagens, aqueles di-
retamente envolvidos e a organização pública podem
desenvolver novas políticas.
A ferramenta conceitual óbvia para iniciar esta nova
maneira de olhar para a realidade é substituir o “com-
portamento criminoso ou criminalizável”, como a pedra
fundamental de nossa linguagem profissional, pelo con-
ceito de “situação problemática”. A introdução do con-
ceito de “situação problemática” é uma estratégia para
levantar questões. A primeira questão é: quem acha que
esta situação (vagamente formulada) é problemática?
Quando tivermos uma resposta a esta primeira pergun-
ta, temos de fazer uma distinção entre os que respon-
deram. Em princípio não estamos interessados nas res-
postas de profissionais não envolvidos diretamente23.
Para aqueles que podemos considerar mais ou me-
nos envolvidos24, temos uma segunda série de questões
do tipo mencionado no terceiro parágrafo desta parte (o

208
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

que aconteceu? O que se deseja?, etc). Se as pessoas


prejudicadas atribuíram o evento a um agressor e esse
agressor tornou-se conhecido, suas respostas às posi-
ções das pessoas prejudicadas também tornam-se par-
te de nossa reconstrução.
Agindo desta forma, liberamos a diversidade de pes-
soas que se sentem injustiçadas ou prejudicadas25. E
também libertamos a diversidade daqueles que são con-
vidados a interferir em situações-problema (profissio-
nais ou não-profissionais). Estas intervenções podem
concentrar-se em indenizações e/ou prevenção. Elas
podem ser dirigidas a situações num nível micro, meso
ou macro26.
Para avaliar a legitimidade da justiça criminal e para
dar uma mão a profissionais tentando lidar com situa-
ções-problema mencionadas em debates sobre a
criminalização, é necessário descrever e analisar como
situações-problema criminalizáveis são lidadas fora da
justiça criminal (na cifra negra). Para fazê-lo, temos que
ser capazes de rastreá-las, “enquanto tais”, mesmo
quando elas assumem uma forma diferente e uma di-
nâmica diferente da que teriam assumido se fossem
criminalizadas. Há alguns conceitos que podem nos
auxiliar a fazer isto.
Quando olhamos à nossa volta e para dentro de nós
mesmos, vemos que as pessoas têm pontos de partida
muito diferentes quando iniciam sua construção de
eventos, que parecem, na superfície indiferenciada do
começo, muito semelhantes.
Em primeiro lugar, é impressionante que coisas que
parecem perigosas e más para alguns, não provocam
tais sentimentos e pensamentos em outros. No relató-
rio de descriminalização do Conselho da Europa (1980)
nós chamamos isto de diferenças no meio-ambiente sim-

209
3
2003

bólico de um evento. O grau de tolerância para com di-


ferenças no estilo de vida também tem peso neste as-
pecto. É claro que tais diferenças têm um impacto im-
portante na “leitura” de um evento.
Algumas pessoas constroem eventos problemáticos
que acontecem a elas como “atos de Deus”, eventual-
mente como uma punição merecida a elas. Qualquer
um que viaje pelo mundo muçulmano irá descobrir
quanto esta forma de reconstrução de eventos ainda é
forte: “Ins Allah”. Ela também permanece viva em co-
munidades que aparentemente não pertencem a uma
religião explícita.
Uma terceira maneira de construir um evento pro-
blemático é construí-lo como um acidente. Ele não é
atribuído a ninguém ou a alguma coisa e visto somente
como um fato da vida, sob uma perspectiva de
reordenação no presente e prevenção de riscos no futu-
ro. Esta é uma maneira de construir eventos que é mui-
to freqüentemente usada em tipos de casos nos quais o
“racismo” ou a “rivalidade religiosa” estão implicados.
Como uma resposta à violência na qual sua casa é quei-
mada e seu filho é morto, você se torna ainda mais ativo
para criar uma sociedade sem apartheid.
É somente na quarta e ampla categoria de construir
eventos — uma abordagem de controle social — que
um ator responsável, um “agressor”, entra em cena.
Mesmo neste caso, o “modelo de punição” é somente
uma das maneiras de construir uma responsabilidade
do ator. Ao lado dela, temos outros modelos para
responsabilizá-lo, tais como o educacional, o compen-
satório, o terapêutico e o conciliatório27.
Para resumir: na nova linguagem que substituiria a
linguagem convencional sobre “crime e justiça crimi-
nal”, a ênfase estaria:

210
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

- Em situações, em vez de comportamentos.


- Na natureza problemática, em vez de na natureza
ilegal criminosa.
- Na pessoa/instância para quem algo é problemático
(vítima), em vez do agressor. O agressor somente entra
em cena quando a vítima define o evento de uma
maneira que o torna relevante.
- Na questão: “o que pode ser feito, por quem?” sob a
perspectiva do futuro (menos problemas ou menos
problemático) e do passado (reordenação), em vez de
na gravidade e na alocação da culpa ao agressor.
Esta linguagem é a linguagem que vemos hoje em
dia ser usada, regularmente, por aqueles que trabalham
no campo da segurança urbana.

A abolição como movimento social


O desenvolvimento da criminalização na Europa e
na América do Norte mostra-nos uma imagem muito
árida. Há, no entanto, desenvolvimentos importantes
no sentido de “políticas criminais” que desejam evitar a
criminalização e são orientadas para a vítima. Estes
desenvolvimentos podem ser achados, por exemplo, no
campo da segurança urbana. Na França, esta orienta-
ção teve origem na criação dos “Conseils de Prévéntion”
no nível local. Lá, Gilbert Bonnemaison, um prefeito e
membro do parlamento francês, criou um contexto no
qual novas forças foram mobilizadas para enfrentar e
lidar com situações-problema (que poderiam ser defini-
das como “crime”) de novas maneiras. Diferentes for-
mas de partenariat desenvolveram-se no nível local;
muitas organizações locais (públicas e privadas, volun-
tárias e profissionais) foram envolvidas. Estes desen-
volvimentos não são restritos à França, eles germina-

211
3
2003

ram como cogumelos em muitos países europeus. Os


conceitos e outras ferramentas usados nestas ativida-
des são muito próximos às abordagens que encontra-
mos na literatura abolicionista e são uma fonte rica para
o desenvolvimento do pensamento e da pesquisa
abolicionistas.
Na União Européia, um “Fórum Europeu para a Se-
gurança Urbana” foi criado28. Ele fornece um contexto
no qual muitas formas de cooperação entre cidades em
países diferentes acontecem e os resultados de diferen-
tes formas de experiência são trocados. Pode muito bem
ser que estas formas de cooperação, muito próximas
aos diretamente envolvidos nos campos problemáticos,
forneçam um “berçário” para novas práticas e novos sis-
temas de referência para organizações que estão na base
da justiça criminal e que desta maneira levem ao desa-
parecimento da organização social e cultural que defi-
no como o âmago da justiça criminal.
As contribuições que podemos fazer para a abolição
da justiça criminal diferem de acordo com a nossa posi-
ção na vida. Se pertencemos a uma das organizações
que formam a base material da justiça criminal, temos
possibilidades diferentes das dos que não pertencem a
estas profissões.
A maioria dos “profissionais” trabalhando nestas
organizações (polícia, tribunais, serviços legislativos) têm
chances de influenciar as práticas existentes de uma
forma abolicionista29. Freqüentemente, uma perspecti-
va abolicionista torna-se a única perspectiva capaz de
nos deixar realmente satisfeitos com o que fazemos em
tais organizações. A perspectiva abolicionista é boa para
sua saúde.
Também fora destas profissões, não somos impoten-
tes. A justiça criminal não existe somente nas institui-

212
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

ções formais. As atividades exercidas no código da or-


ganização cultural e social da justiça criminal, a lin-
guagem usada, as imagens criadas são tão familiares
para quase todos nós que são parte de nossas percep-
ções, atitudes e comportamento. Também neste aspec-
to o campo dos “crimes e criminosos” é muito seme-
lhante a outros campos onde questões de “guerra e paz”,
“raciais” e “de gênero” são debatidas. Espero que mi-
nha descrição muito detalhada de algumas das alter-
nativas30 ajudem a entender como esta linguagem e es-
tas imagens da justiça criminal nos influenciam e nos
restringem.
Neste sentido, a justiça criminal existe em quase to-
dos nós assim como em algumas áreas do planeta o
“preconceito de gênero” e o “preconceito racial” existem
em quase todos. A abolição é, assim, em primeiro lugar,
a abolição da justiça criminal em nós mesmos: mudar
percepções, atitudes e comportamentos. Tal mudança
causa uma mudança na linguagem e, por outro lado,
uma mudança na linguagem pode ser um veículo pode-
roso para causar mudanças em percepções e atitudes.
Mudar a própria linguagem é algo que todos somos ca-
pazes de fazer: até certo ponto isto pode ser ainda mais
fácil para não-profissionais que para profissionais.
Somos capazes de abolir a justiça criminal em nós
mesmos, de usar outra linguagem para que possamos
perceber e mobilizar outros recursos para lidar com si-
tuações-problema. Quando usamos outra linguagem,
ensinamos esta linguagem a outras pessoas. Nós as
convidamos, de uma certa maneira, para também abo-
lirem a justiça criminal.

Dordrecht, 22 de setembro de 1997.

213
3
2003

Notas
1
Texto apresentado, inicialmente, no “Seminário Internacional: O abolicionismo
Penal”, realizado na PUC-SP, em 1997 e publicado em Edson Passetti e Roberto
B. Dias da Silva (orgs). Conversações abolicionistas: uma crítica do sistema penal e da
sociedade punitiva. São Paulo, IBCCrim/PPG - Ciências Sociais PUC-SP, 1997.
Edição esgotada. Tradução de Maria Abramo Brant de Carvalho.
2
Nos contextos sociais com os quais tornei-me mais ou menos familiarizado
em muitas partes do mundo, o modo de interação de punição era reservado a
situações-problema relativamente simples de importância menor. Questões mais
complicadas ou mais importantes eram sempre lidadas de outras maneiras.
3
Isto é verdadeiro até para as pessoas que, enquanto profissionais, trabalham
nas organizações que formam a base material do sistema. A divisão de trabalho
dentro do sistema torna praticamente impossível para os funcionários terem
experiência direta das diferentes atividades que, juntas, formam o processo de
criminalização.
4
A punição “completa” pressupõe o acordo entre punidor e punido: um
“punidor” que quer punir e uma pessoa punida que aceite a atividade do punidor
como uma punição. É possível que alguém experimente uma decisão de outra
pessoa como punição, apesar do suposto punidor não ter tido a intenção de
punir. Considere alguém que receba em seu emprego outra função que experi-
menta como sendo degradante e que erroneamente supõe que esta mudança
de função foi feita com a intenção de puni-lo. É possível, também, que alguém
queira punir e o “punido” não reconheça sua autoridade para fazê-lo, experi-
mentando esta atividade como violência ilegítima. Dentro de um processo de
justiça criminal, eventos de punição “real” podem ocorrer quando relações de
autoridade entre as pessoas envolvidas forem estabelecidas. Observei isto num
documentário onde um policial mais velho criou uma relação real com um
acusado mais jovem e o puniu durante o processo de investigação. Ele repre-
endeu sua atitude numa relação de autoridade e esta repreensão foi aceita como
tal. A punição é melhor definida, para mim, como uma repreensão numa rela-
ção de autoridade. Esta repreensão pode ser combinada ou expressa com o
inflingimento de dor, mas este inflingimento de dor não parece ser um ele-
mento necessário da punição.
5
Claudia Lauh, uma socióloga argentina que trabalhou por muito tempo no
Ministério de Questões Sociais na província de Córdoba, Argentina, tem um
papel central nesta organização. Ela também está associada às atividades do
Fórum Europeu para a Segurança Urbana. Foi no contexto das atividades do
Fórum que eu a encontrei pela primeira vez. A participação nas atividades do
Fórum foi muito frutífera para que eu tivesse uma compreensão melhor das
questões discutidas neste texto.

214
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

6
Refiro-me aqui, em primeiro lugar, ao valor crítico acadêmico incorporado na
expressão: “não necessariamente”: um valor crítico emancipatório. Uma parte
muito importante da produção acadêmica refere-se a valores que não são de
maneira alguma emancipatórios.
7
Explicarei mais tarde, com mais detalhes, que o fato de que uma situação
possa catalisar processos de criminalização (primária ou secundária) não impli-
ca de maneira alguma que a situação seja problemática. Organizações como a
polícia, tribunais, o executivo e o parlamento envolvem-se, em primeiro lugar,
em atividades de criminalização porque isto é visto como seu interesse ou por-
que não fazê-lo é visto como prejudicial a elas; a mesma coisa é, em muitos
aspectos, verdadeira para os atores individuais dentro destas organizações. Sob
a perspectiva da linguagem dominante no debate da justiça criminal (e no de-
bate político em geral) é fácil para os atores individuais neutralizarem “sua
própria responsabilidade” pelas conseqüências.
8
Digo “ajudar as pessoas” e não “desenvolver modelos para lidar...” porque
concordo com a maneira pela qual Foucault (em “Qu’ apelle -t-on punir”, in F.
Ringelheim (org.). Punir mon beau souci. Bruxelas, Presses Universitaires de l’
Université Libre, 1985.) define o papel do acadêmico nestas questões. De acor-
do com ele, os acadêmicos não deveriam lutar para fazer o papel do profeta
intelectual que diz às pessoas o que elas devem fazer e lhes prescreve mentali-
dades, objetivos e meios (que desenvolve em sua cabeça, trabalhando em seu
escritório, cercado por suas ferramentas – a maneira tradicional na qual muitos
acadêmicos da lei criminal trabalharam). Ao invés disto, o papel do acadêmico
é mostrar 1) como as instituições realmente funcionam e 2) quais são as conse-
qüências reais de seu funcionamento nos diferentes segmentos da sociedade.
Além disso, ele tem de descobrir 3) os sistemas de pensamento que jazem sob
estas instituições e suas práticas. Ele tem de mostrar o contexto histórico des-
tes sistemas, as restrições que eles exercem sobre nós, e o fato de que eles
tornaram-se tão familiares que são parte de nossas percepções, atitudes e com-
portamentos. Por último, 4) ele tem que trabalhar com os envolvidos e com
praticantes para modificar as instituições e suas práticas e desenvolver outras
formas de pensamento. Não é possível ser fiel a este modelo de funcionamen-
to e desenvolver modelos especulativos de alternativas.
9
Quero dizer acordo no fato de que as estruturas estatais devem ser seculares
e não fundamentalistas. Todo mundo tem consciência do fato de que esta exi-
gência não é, em muitas áreas, satisfeita de maneira alguma. Muitas práticas
estatais ainda seguem o modelo de religiões totalitárias e autoritárias.
10
Menciono-as aqui de forma “estenográfica”, como as apresentei anterior-
mente em Hulsman (em “Prevención del delito y nuevas formas de justicia”.
Prevencio quaderns déstudis/documentacio, Março, 1996). Elas foram mais
desenvolvidas em Faugeron e Hulsman (em “Le développemente de la
criminologie au sein du Conceil de l’Europe: état et perspectives”, in F. Tulkens
e H. Boslay (orgs.). La justice pénale en Europe. Bruxelas, 1996).

215
3
2003

11
J. Gunsfield. The culture of public problems. Drinking and driving and the symbolic
order. Chicago/Londres, 1981.
12
A idéia básica é a de que a punição de acordo com a gravidade é a pedra
fundamental da ordem. Relacionada a isto está a idéia de que agressores espe-
cialmente sérios não podem escapar da punição: “isto é tão sério que não pode
deixar de receber punição”. Na prática, eventos com conseqüências realmente
desastrosas, como a limpeza étnica na Iugoslávia e na África são quase sempre
praticados sem punição. Além disso, na minha experiência, pessoas que conhe-
ço (na Holanda e em outros lugares do mundo) usam o modelo de punição
para controlar socialmente transgressões de regras pequenas e não tão impor-
tantes. Quando as coisas se tornam sérias, as pessoas recorrem a tipos muito
diferentes de controle social: recompensas, conciliação, negociação. Isto não é
verdadeiro somente em problemas familiares, mas em geral (relações de traba-
lho e negócios etc).
13
Em outros processos legais (civis/administrativos), a pessoa prejudicada é
claramente o cliente e tem o poder (sobre os profissionais) de orientar os pro-
cedimentos. Se não estiver satisfeita, ela pode parar com os procedimentos. A
parte chamada ao tribunal também torna-se um cliente e também tem poder.
Na justiça criminal, isto é diferente. Este aspecto foi mais elaborado em
Faugeron e Hulsman, Op. Cit., 1996.
14
E. Fattah. “From a handful of dollars to tea and sympathy”. Amsterdam, 9th.
International Symposium on Victimology, 1997.
15
Para uma aplicação concreta de tal abordagem à política criminal veja a 15ª
Conferência de Pesquisa Criminológica do Conselho da Europa (1984), espe-
cialmente as recomendações adotadas e conclusões da conferência. Conselho
da Europa: “Comportamento e Atitudes Sexuais e Suas Implicações na Lei
Criminal” (Strasburgo, 1984).
16
Em questionários de auto-denúncia, pergunta-se a uma amostra de pessoas a
freqüência com a qual cometeram atos criminalizáveis em um determinado
período e o quão freqüentemente isto foi seguido por uma intervenção da jus-
tiça criminal. Nos questionários sobre vítimas, questões são perguntadas sobre
a freqüência e natureza de problemas que foram conseqüência de atos
criminalizáveis. Em muitos países: Estados Unidos, Holanda etc, questionários
sobre vítimas ocorrem regularmente e levam a estatísticas separadas. Estas
estatísticas formam, então, a base primária de dados (combinadas com estatís-
ticas da polícia e dos tribunais) para os criminologistas.
17
L. Hulsman. “The abolicionist case: alternative crime policies”. Israel Law
Review, vol. 25, no. 3-4, 1991.
18
No entanto, o impacto negativo da criminalização em certos segmentos da
população é muito maior do que geralmente se imagina. Mesmo num país como
a Holanda (que tinha uma população carcerária relativamente baixa), um estu-

216
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

do estatístico publicado nos anos 60 mostrou que 1 em cada 10 homens que


morreram durante um certo período haviam estado pelo menos uma vez na
prisão. Em certas cidades norte-americanas, mais da metade da população
masculina negra entre 18 e 45 anos está na prisão, sob condicional ou em sursis.
19
L. Hulsman e J. Bernat de Celis. Penas perdidas. Niterói, Luam, 1993.
20
Estas são as palavras usadas na Convenção Européia sobre Direitos Huma-
nos.
21
Muito interessante a este respeito é Hanak, Stehr e Steinert (Argenisse und
lebenskatastrophen, Bielefeld. AJZ, 1989), porque também permite fazer uma
comparação entre situações-problema criminalizáveis e não-criminalizáveis.
Freqüentemente, pessoas envolvidas em debates sobre justiça criminal tornam-
se tão “possuídas” pelos mitos e imagens que jazem sob este debate que não
são conscientes do fato que a ausência de uma reação da justiça criminal a um
evento criminalizável não significa de maneira alguma que tal evento não foi
lidado (quid non est in acto non est in mondo). Se há uma pessoa diretamente
envolvida para quem um evento criminalizável é problemático, essa pessoa irá
sempre lidar de alguma forma com tal evento e pode mobilizar profissionais e
não-profissionais para auxiliá-la.
22
Um exemplo concreto: em Faugeron e Hulsman (Op. Cit., 1996), menciona-
mos um estudo sobre uma prática holandesa na qual as mulheres usam a lei
civil para reagir contra comportamentos violentos (e criminalizáveis) de ho-
mens contra elas. O estudo mostra como nesta prática os três valores básicos
mencionados neste artigo são respeitados em um grau muito importante pelos
profissionais envolvidos e como isto contribui muito para a satisfação das
mulheres envolvidas. Além disso, este procedimento tem a grande vantagem
de não implicar violações de direitos humanos básicos (como mencionado an-
teriormente) em relação aos homens.
23
Para evitar qualquer mal-entendido a respeito desta colocação, faço duas
observações: 1) falamos sobre o uso de um conceito de situação-problema no
contexto de um debate sobre crime e justiça criminal; em outras palavras, em
um contexto no qual direitos humanos estão em perigo porque o poder de
restrição do Estado está implícito. Em outros contextos, opiniões de especia-
listas sobre o caráter problemático de um estado de coisas não necessariamen-
te têm de ser descartadas quando não representam clientes concretos. 2) Va-
mos ilustrar o significado da colocação com um exemplo. Em nossos discur-
sos, não estamos preocupados com o fato de que o texto legal (explícita ou
implicitamente) defina uma situação como problemática; estamos interessados
em opiniões concretas dos envolvidos no problema. Isto implica, naturalmen-
te, que não estamos interessados na opinião de promotores públicos e policiais
que referem-se somente à lei. A lei é problemática para nós. A lei é parte do
estado de coisas que temos de avaliar sob a luz de nossos valores explícitos.

217
3
2003

24
A distinção entre os que estão diretamente envolvidos e os que não estão é
bastante clara na área central do conceito, mas na periferia pode ser bastante
controversa. A distinção também não é uniforme para as diferentes práticas
nas quais o conceito tem de ser aplicado (especialidades sócio-médicas, legais,
de administração pública, jornalísticas e de outros meios de comunicação). O
pesquisador tem de estar consciente destas diferenças na construção dos indi-
cadores necessários. Na minha opinião, a noção dos “diretamente envolvidos”
não pode ser restrita nas práticas legais a pessoas físicas individuais: corporações
e outras “coletividades” podem também ser diretamente envolvidas. Na lei
civil, muito material interessante para delimitar as fronteiras entre os direta-
mente envolvidos e os não diretamente envolvidos pode ser encontrado.
25
Liberar a sua diversidade também é uma obrigação legal na perspectiva dos
direitos humanos: a igualdade das pessoas perante a lei tem de ser baseada no
reconhecimento de sua diversidade. Sem a emancipação das pessoas que se
sentem prejudicadas ou vitimizadas, a integração social permanece sendo uma
ilusão.
26
A liberação de pessoas injustiçadas e daqueles que são convidados a intervir
em situações-problema já é posta em prática em algumas forças policiais locais
para promover a segurança urbana. Informações sobre estas práticas podem
ser obtidas nas publicações do Forum European for Urban Security, 38, Rue
Liancourt, 75014, Paris, France. Tel. 33-143278311.
27
Hulsman e Bernard de Celis, Op. Cit., 1993.
28
A respeito do Fórum, veja a publicação (em inglês e francês) Security and
Democracy. Analytical college on urban safety. Forum Europeen pour la Securité
Urbaine, 1994.
29
E. Zaffaroni (Em busca de las penas perdidas. Buenos Aires, Ed. Ediar, 1989) é,
duplamente, um bom exemplo: o que você pode conseguir numa direção
abolicionista na universidade e como advogados podem contribuir de modo
abolicionista nos tribunais.
30
Hulsman e Bernat de Celis, Op. Cit.,1993 e Hulsman, Op Cit., 1991.

218
verve
Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justiça criminal

RESUMO

Em seus dois primeiros movimentos aborda o sistema punitivo


e sua linguagem fomentada e colocada em curso, principalmen-
te, por especialistas que se perguntam o que é o crime e reagem
a ele. O último movimento desloca a punição da lógica punitiva
para a perspectiva abolicionista, formulando outra questão para
a linguagem: como abolir?

ABSTRACT

Em seus dois primeiros movimentos aborda o sistema punitivo


e sua linguagem fomentada e colocada em curso, principalmen-
te, por especialistas que se perguntam o que é o crime e reagem
a ele. O último movimento desloca a punição da lógica punitiva
para a perspectiva abolicionista, formulando outra questão para
a linguagem: como abolir?

219
3
2003

o estado contra os jovens1

salete oliveira*

Grotescos
Crianças são temidas. Crianças exasperam. Crian-
ças desconcertam. Crianças descabelam. Crianças des-
fazem certezas seguras no extravio inesperado de bus-
cas inférteis que não suportam o jogo arriscado da ins-
tabilidade. Crianças reverberam tons cruéis que
desfazem os nós planos de verdades centralizadas que
não concebem a vida sem o seu assentamento entrela-
çado em confortáveis redes de segurança. Crianças são
o desespero para a centralidade da ordem e seus diletos
defensores. Crianças são enjauladas nas grades da es-
perança do futuro no progresso, precisamente, por se
mostrarem o incontível na afirmação do presente.
Crianças são enclausuradas no jogo da defesa dos
direitos porque a lógica da centralidade não dispensa
que sejam destinadas a elas cotas de proteção e corre-
ção que devem fazer cabê-las na reconstrução do rol
dos confessados, reatualizando acomodações entre pas-

* Professora na Faculdade Santa Marcelina e pesquisadora no Nu-Sol.

verve, 3: 220-245, 2003

220
verve
O Estado contra os jovens

sado e futuro como padrão preferencial da justificativa


de reformas edificadas no perpétuo jogo de inovações e
metas corespondentes à sua própria falácia.
A tradição deste tipo de prática dirigida a crianças e
adolescentes no Brasil é constituva de uma forma de
sociabilidade que prima pelo autoritarismo quer em fa-
ses “reconhecidas” como ditatoriais quer em democrá-
ticas. A atual política de atendimento destinada a ado-
lescentes considerados infratores, no Brasil, reserva a
estes a face moderna da transfiguração do julgamento
justo parametrado por seu parceiro ideal: a assepsia da
morte mensurável na proliferação da vida sob a égide
da segurança.
“O pensamento jurídico desde o século XIX procu-
rou caracterizar a infância criminalizada com base na
patologia e na irreversível condição destas crianças que
emergiram de setores pauperizados de imigrantes e
negros escravos libertos. Na melhor das hipóteses, eram
considerados vagabundos para os quais criaram as es-
colas agrícolas com o intuito, desde lá, se possível,
integrá-los aos setores inferiores da hierarquia social.
A isso somou-se a internação em São Paulo, de crian-
ças no Manicômio Judiciário misturados a adultos até
a consagração de sua periculosidade no Código de Me-
nores de 1927, destinando-lhes pequenos encarcera-
mentos; da mesma maneira que fez aparecer, em 1922,
uma sessão especial no Juquery para crianças
enlouquecidas. As crianças sempre foram vistas, estu-
dadas e dispostas como mini-adultos; e quando prove-
nientes dos setores mais pauperizados, como um ma-
nancial de periculosidades”2.
Não cabe neste momento reconstruir a história da
política de atendimento a crianças e adolescentes no
Brasil durante toda a República. No entanto, convém

221
3
2003

detalhar mais especificamente a demarcação entre duas


séries mais recentes: a série do Estado Ditatorial e a
série do Estado Democrático, na medida em que ambas
respondem respectivamente, à política da Ditadura Mi-
litar, coroada pelo Código de Menores de 1979, e à le-
gislação subseqüente representada pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente, promulgado em 1990, e cons-
tituem procedências significativas da atual política
dirigida aos adolescentes considerados infratores. Inte-
ressa problematizar nestas séries alguns elementos ine-
rentes à sua elaboração; resistências gestadas a partir
de seus efeitos, bem como os desdobramentos das pos-
turas decorrentes destas mesmas resistências.
A série do Estado Ditatorial teve por corolário maior
a elaboração da Política Nacional do Bem-Estar do Me-
nor (PNBM) que por sua vez estava assentada na Políti-
ca de Segurança Nacional cujas diretrizes obedeciam
aos princípios da Escola Superior de Guerra (ESG).
“Preferimos, no entanto, ao examinar a postura da
ESG, não considerá-la como um pensamento sui-generis
mas inseri-la como um pensamento que procura com-
binar a teoria da marginalização social (que estava ex-
plícita no ISEB [Instituto Superior de Estudos Brasilei-
ros]) revestida de justificativas políticas de cunho auto-
ritário. A ESG irá reconhecer e dar status de problemas
nacionais a determinados fenômenos submetidos aos
Objetivos Nacionais Permanentes da Segurança Nacio-
nal”3.
Segundo Passetti, a eficácia da PNBM residiu na ar-
ticulação estratégica da seleção de problemas específi-
cos que deveriam ser abordados a partir da conexão de
elementos garantidores da integração nacional,
subjacente ao controle da população. Tratava-se de coi-
bir tudo aquilo que poderia suscitar ameaça à ordem,

222
verve
O Estado contra os jovens

privilegiando a instauração de uma política de Bem-


Estar que propugnava a elaboração de programas soci-
ais com a capacidade de proporcionar, simultaneamen-
te, a incorporação de segmentos sociais considerados
perigosos no interior de um discurso cuja principal prer-
rogativa assentava-se na promoção da seguridade,
retraduzida pela segurança como forma adequada de
afirmação, e naturalização do autoritarismo.
O autor demonstra, de forma inequívoca, que foi jus-
tamente a Ditadura Militar a responsável pela instau-
ração do Estado de Bem-Estar Social moderno no Bra-
sil — ou, se for preferível aos olhos de hoje, welfare-
state com ditadura —, ressaltando que se o Estado Novo
de Getúlio Vargas introduziu diretrizes gerais da políti-
ca de bem-estar, foi a Ditadura Militar a responsável
pela articulação de seus contornos concretos ao inves-
tir de forma acabada na constituição de mecanismos de
controle precisos sob a rubrica da disseminação das
políticas sociais, e neste caso em particular emergiu a
Política Nacional do Bem-Estar do Menor, fomentadora
da antiga FUNABEM e posterior FEBEM.
A série do Estado Ditatorial teve por referência jurí-
dico-política o Código de Menores de 1979, este, por
sua vez, deve ser visto para além de um mero instru-
mento técnico circunscrito ao parâmetro legal, pois ele
cristaliza um ideário que perfaz linhas de continuidade
do conceito de prevenção geral conectado ao enunciado
de periculosidade que já era referendado pelo Código
de Menores de Mello Matos de 1927, quando se inau-
gurou o conceito de menoridade desvinculado da mera
correlação etária. Contudo, se o referencial legislativo
que perdurou no Brasil da década de 20 à década de 70
tinha por principal objetivo investir na correção de cri-
anças e adolescentes com base na prática
multidisciplinar, o Código de Menores de 1979 investiu

223
3
2003

na descontinuidade do dispositivo da correção para


passar a privilegiar o princípio da ressocialização,
redimensionando a antiga associação marginalidade-
pobreza fundamentada em teses econômicas para me-
lhor responder ao que o referencial legislativo da Dita-
dura Militar passou a designar por “situação irregular”,
sedimentada na construção do conceito de família
desestruturada como causalidade primeira da emergên-
cia de condutas consideradas delituosas.
O código de Menores de 1979, edificado sobre as
bases apontadas acima, parametrou um tipo de legisla-
ção referente a crianças e adolescentes que enfatizava
a figura do juiz e este por sua vez estabelecia
interlocução preferencialmente com o Ministério Públi-
co (promotor), prescindindo da figura do advogado nos
processos referentes à apuração da chamada “infração
penal”.
A PNBM, ainda, operou a introdução de uma nova
dinâmica institucional no interior dos estabelecimen-
tos de confinamento para crianças e adolescentes, es-
tabelecendo descontinuidades em relação à prática
multidiscplinar para passar a investir em uma prática
de rotina institucional parametrada pelo saber
interdisciplinar engajado no exercício de adequação de
valores e regras de comportamento, que devem ser
introjetados para melhor responder ao padrão de con-
duta normalizada.
As resistências frente a esta política específica foram
múltiplas e provenientes de inúmeros lugares. Uma
gama variada de associações se articulou de forma mais
explícita ao longo da década de 80, dirigindo críticas
contundentes tanto à FEBEM quanto ao Código de Me-
nores, tendo como um dos alvos principais a chamada
“situação irregular”4 — conceito articulador de disposi-

224
verve
O Estado contra os jovens

tivos presentes na legislação e na própria rotina


institucional dos estabelecimentos de internação para
os quais eram encaminhados crianças e adolescentes.
Tais práticas de resistência foram imprescindíveis para
gestar os novos contornos de uma política distinta, si-
nalizando para elementos específicos que viriam com-
por a constituição de uma outra série localizada sob o
registro do Estado Democrático.
Se a série do Estado Ditatorial teve como represen-
tação máxima a Política Nacional do Bem-Estar do Me-
nor, a série do Estado Democrático é coroada pela re-
presentação da política de formação do futuro cidadão.
Esta série por sua vez privilegia as chamadas políticas
locais cujo pressuposto opera pela descentralização
administrativa, pela elaboração de um novo referencial
jurídico e político e pela proposta do gradativo desapa-
recimento da FEBEM.
É possível perceber, já num primeiro momento, que
a ênfase nas chamadas políticas locais vinculadas à
necessidade de descentralização administrativa não é
tão nova assim, pois o que a série Estado Democrático
tenta fazer reluzir como novidade em sua política, já
havia sido operacionalizado pela Ditadura Militar quan-
do o que dava espaço para a antiga FUNABEM foi
redimensionado para fazer emergir as FEBENs em uma
proliferação acentuada que visava implantar institui-
ções estaduais de encarceramento para crianças e jo-
vens por todo o Território Nacional. Um exemplo con-
creto dessa prática, na série do Estado Democrático, e
no caso particular do Estado de São Paulo, foi a criação
da Secretaria do Menor, em 19875. Este posicionamento
estabeleceu os contornos dos principais parâmetros para
as mudanças que seriam delimitadas posteriormente
na Constituição de 1988, em relação aos aspectos rela-
tivos aos direitos de crianças e adolescentes, bem como

225
3
2003

ao substrato de referência pedagógica que serviria como


base para a elaboração do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA). Frente a isso é preciso demarcar as
linhas de continuidade e descontinuidade que tal polí-
tica estabeleceu em relação àquela adotada pela Dita-
dura Militar.
Tais descontinuidades concentram-se no rompimento
com a associação marginalidade-pobreza; com o con-
ceito de situação irregular; com a introdução do meca-
nismo de valorização local por intermédio da criação de
Conselhos Tutelares e, finalmente, com a introdução
da figura do advogado da criança e do adolescente. Se
por um lado o ECA significou um relativo avanço jurídi-
co frente às legislações anteriores, na medida em que
afirma que a internação não é mais a regra e que ado-
lescentes considerados infratores passam a receber
medidas sócio-educativas a partir do critério pedagógi-
co valorizando a formação do futuro cidadão, por outro
lado estas descontinuidades assumem em grande par-
te uma conotação de redimensionamento de uma práti-
ca autoritária quando confrontadas com a problemati-
zação analítica que estanca os termos da ruptura, pro-
curando explicitar o que há de contínuo no descontínuo.
As continuidades na descontinuidade fulguram es-
cancaradas em elipses imperceptíveis na rota ânsia de
mudar o incabível, conjugando na projeção do novo o
espelho da velha imagem refletida. O escorregadio jogo
de silhuetas espectrais reveste-se de lupas amplas como
forma de melhor aplicar algum tipo de verniz tosco na
moldura saturada de decalques modernos da retórica
reformada.
A ruptura com o conceito de situação irregular não
passa de tagarelice na construção de termos
substitutivos na fachada dos direitos, para o que deve

226
verve
O Estado contra os jovens

passar a ser designado em torno de crianças e adoles-


centes, sob seu novo enquadramento em tempos de ares
democráticos, outorgando a eles a chancela do eufe-
mismo como meninos e meninas em “situação de rua”
ou “situação de risco”. O que era irregular para a Dita-
dura Militar configura-se na Democracia em equivalen-
te cidadão à espera de direitos. A condição de ameaça à
ordem é reequacionada em diferentes valorações de grau
que transitam no interior da mesma lógica. A diferenci-
ação dos termos gravita na continuidade da órbita da
tutela sob a alegação que professa a intenção de valori-
zar circunstâncias locais. Corrobora-se, assim, com a
reprodução de hierarquias múltiplas subvencionadas
pela constituição de conselhos tutelares, que por sua
vez remetem-se a instâncias superiores conformadas nos
Conselhos de Direitos, subordinados em última instân-
cia ao Ministério Público que é reconhecido no Estado
de Direito como “Guardião do Bem-Comum”. Os ter-
mos “situação de risco”, “situação de rua” e “Conselhos
Tutelares” estancados neles próprios, explicitam a
complementaridade indispensável ao anseio de afirma-
ção da defesa da sociedade, da vontade de nada revestida
pela denúncia que a democracia requer para as
infindáveis correções de injustiças em sua abstração
maior: a justiça.
Por fim, o que era a grande novidade introduzida no
novo referencial jurídico-político, substantivado no ECA,
com a emergência do advogado da criança e do adoles-
cente, vira artifício performático no substrato do devido
processo legal envolvendo adolescentes considerados
infratores. Na prática judiciária, a maior parte das “de-
fesas” realizadas pelos advogados instituídos restringe-
se à mera presença formal que tem por objetivo impu-
tar regularidade legal ao procedimento burocrático. O
ECA continua sendo aplicado atravessado pela menta-

227
3
2003

lidade do Código de Menores de 1979, que já trazia a do


código Melo Mattos de 1927 abrilhantada pela ditadu-
ra. Mas não só, a mesma legislação que traz a ruptura é
atravessada por lacunas convenientes que operam a
troca de sinais entre a primazia do juiz no referencial
jurídico-político da Ditadura e a preponderância
positivada da tutela, agora, sob a figura do promotor. A
internação prevista como exceção torna-se a regra sob
o respaldo científico da elaboração de pareceres bio-
psico-sociais — fundamentação científica da prática
encarceradora de crianças e jovens no Brasil, exercita-
da, há muito, antes mesmo do código de menores de
1979 e da PNBM — que fornecem o testemunho prefe-
rencial para legitimar as sentenças de internação pro-
feridas pelos juízes como forma de melhor responder à
manutenção da Ordem Pública.
Sob a justificativa de investimento nas políticas lo-
cais, a série do Estado Democrático perpetua o velho
circuito das reformas. Diante da construção de uma crise
primeira, edifica-se a necessidade de sua reforma cor-
respondente, que por sua vez não alcança os objetivos
almejados, constituindo uma nova crise para justificar
a elaboração de novas metas, sendo que o vaivém buro-
crático das diretrizes que permeiam este processo é
subsidiado pela participação de vários saberes de espe-
cialistas angariados em institutos de pesquisa, univer-
sidades, consórcios científicos, consultorias de bases
estatísticas e econômicas, enfim, profissionais e inte-
lectuais diversos que estão sempre dispostos e disponí-
veis para lucrar com o que é edificado como insuportá-
vel. Os reformadores de plantão encontram neste tipo
de expediente a melhor forma de garantir seus empre-
gos, de retroalimentar a liberação de verbas para suas
pesquisas “engajadas”, “conscientes” e “cidadãs” e si-
multaneamente engendram e fortalecem a manutenção

228
verve
O Estado contra os jovens

do discurso da ordem conectado ao espetáculo da de-


núncia. Sob a defesa da política local reinscrevem sua
totalização predileta: a segurança universalizada. Tan-
to afã pela descentralização administrativa deixa
intocado o óbvio, a centralidade do poder.
“O grotesco é um dos procedimentos essenciais
à soberania arbitrária. Mas vocês sabem que o grotesco
é um procedimento inerente à burocracia aplicada. Que
a máquina administrativa, com seus efeitos de poder
incontornáveis, passa pelo funcionário medíocre, nulo,
imbecil, cheio de caspa, ridículo, puído, pobre, impo-
tente, tudo isso foi um dos traços essenciais das gran-
des burocracias ocidentais, desde o século XIX. O gro-
tesco administrativo não foi simplesmente a espécie de
percepção visionária da administração que Balzac,
Dostoiévski, Courteline ou Kafka tiveram. O grotesco
administrativo é, de fato, uma possibilidade que a bu-
rocracia se deu. ‘Ubu burocrata’ pertence ao funciona-
mento da administração moderna, como pertencia ao
funcionamento do poder imperial de Roma ser como um
istrião louco. E o que digo do Império romano, o que
digo da burocracia moderna, poderia perfeitamente ser
dito de outras formas mecânicas de poder, no nazismo
ou no fascismo. O grotesco de alguém como Mussolini
estava absolutamente inscrito na mecânica do poder. O
poder se dava essa imagem de provir de alguém que
estava teatralmente disfarçado, desenhado como um
palhaço como um bufão de feira”6.

Espelho inequívoco
Os perpétuos reequacionamentos burocráticos tra-
zem subordinados a si as resistências mais veiculadas,
portadoras de reacomodações que imprimem uma du-
pla centralização, equalizando-se no mesmo tom daquilo

229
3
2003

que é substância de sua crítica. O espelho inequívoco


do outro e do mesmo também se reproduz no binômio
do autoritarismo explícito complementar ao autorita-
rismo latente.
Há os que defendem a diminuição da idade penal,
propugnando a existência da prisão conectada à utili-
dade do trabalho, por vezes encontrando brechas para
a prescrição da pena de morte, sublinhando o alerta
máximo em torno de pequenas infrações que devem ser
perseguidas pela polícia ostensiva e intensiva no encal-
ço de ínfimos atos, passíveis de ser criminalizados a
qualquer momento. A elasticidade de quem será o alvo
preferencial, neste tipo de autoritarismo, assume sua
visibilidade maior na proliferação da pertinência de sua
política, que veio encontrar sua face moderna naquilo
que passou a ser designado como “tolerância zero”. E,
neste caso, o que tem procedência no princípio religio-
so constitui a zona do insuportável na fração de razão
que deve caber à garantia dos direitos. Sua base abso-
luta é o zero multiplicado na prerrogativa de sua pró-
pria abstração. Convenção arbitrária de origem que traz
seu fim em si mesma. Corolário irônico e inerente à idéia
de tolerância.
Há ainda aqueles que pleiteiam a maximização da
tolerância ao refazer as bases da descentralização ad-
ministrativa vinculada à humanização da prisão, cimen-
tando os elos de encadeamento da reforma dos direitos
cuja publicização em torno da realidade deve ser levada
a cabo pelo investimento na polícia comunitária que,
como bem mostrou Wacquant7, é aquela que deve pro-
mover, simultaneamente, a integração da comunidade
e ser por ela integrado como seu elemento mais visível.
A polícia comunitária é aquela que integra na visibili-
dade. É a realidade presente na presença da polícia re-
alizada. Lado a lado caminham a filantropia e o

230
verve
O Estado contra os jovens

voluntariado, vestes reformadas da assistência policial.


O que é visível na polícia comunitária é o assistido na
política filantrópica voluntária. Corroboração tolerante
que traz por insígnia predileta a promoção da qualidade
de vida. Contudo, quando se começa a precisar, a exigir
a adjetivação da vida, isto é um sinal de que algo não
vai bem na vida daqueles que primam por atribuir um
significado alegórico para ela.
O autoritarismo explícito e o latente são complemen-
tares. Um não vive sem o outro, da mesma maneira que
a defesa dos direitos não sobrevive sem a reinvenção
das vítimas. A tolerância zero neste caso encontra seu
parceiro específico ideal na defesa da maximização da
tolerância. A analítica, frente a estas resistências con-
servadoras e reacomodações, afirma que pouco impor-
ta implementar uma discussão circunscrita ao jogo in-
teressado entre valorações de maior ou menor grau de
tolerência para quem quer que seja. Pois o pressuposto
da tolerância é a intolerância diante do que não se su-
porta e de tudo que é intolerável para a ordem. A analí-
tica associada ao abolicionismo é também o que é
incontível, intolerável, insuportável tanto para postu-
ras autoritárias explícitas quanto para aquelas que se
fazem latentes sob a capa da defesa dos direitos. O
abolicionismo é insuportável tanto para quem defende
a pena de morte como para quem defende a continuida-
de da prisão com qualidade de vida.

Três procedências do sistema penalizador


Há inúmeras procedências que podem ser
demarcadas acerca da perpetuação do sistema
penalizador, parametrado pela moral do confinamento
e do tribunal. Cabe aqui problematizar três procedênci-

231
3
2003

as específicas: a polícia, a estatística e o seqüestro da


vontade.
A primeira procedência encontra-se cristalizada na
construção da legítima defesa do Estado e da socieda-
de. Esta construção de via de mão dupla não passa de
uma abstração que nomeia sua própria representação,
assumindo suas variações de acordo com o que a
sedimenta, a vontade de todos, a vontade do grupo ca-
paz de maioria, a vontade geral.
Em nome desta defesa, a cristalização que emerge
da realidade traz seus contornos concretos quando res-
ponde ao que se torna vislumbre de ameaça. O Estado
persegue, mata, pune, aqueles que contestam a ordem.
A polícia encarna a face correspondente na realidade
do que era abstração da representação de defesa do
Estado e da sociedade. Aquilo que na abstração prote-
ge, na vida aniquila.
Frente a esta aniquilação é possível constatar a emer-
gência de discursos de resistências e contra-poderes
endereçados à contestação da ordem. Importa apontar
duas séries de práticas de contestação: a série da indig-
nação e a série da contestação radical.
Marx já apontara em A Questão Judaica e em “Intro-
dução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” que a
crítica, ressaltando o que ele denomina por ‘crítica ab-
soluta’, faz parte do jogo da indignação. Nestes seus
escritos de juventude Marx ainda compartilhava do
envolvimento com uma prática radical que não pressu-
punha vinculações mediadoras remetidas ao Estado.
“O crítico se esquece que, por outro lado, o pró-
prio direito se distingue muito expressadamente dos ‘es-
tados de ânimo e de consciência’, que esta distinção
encontra seu fundamento tanto na essência unilateral
do direito como em sua forma dogmática, figurando, in-

232
verve
O Estado contra os jovens

clusive, entre os dogmas fundamentais do direito e, fi-


nalmente, que a aplicação prática desta distinção é o
ápice da evolução jurídica, da mesma maneira que a re-
ligião, ao suprimir todo o seu conteúdo profano, se con-
verte numa religião abstrata, absoluta. (...) As ‘defini-
ções e distinções da Crítica absoluta’ nos preparam
suficientemente para escutar suas novíssimas ‘desco-
bertas’ sobre ‘sociedade’ e ‘Direito’”8.
Marx, ao estabelecer a distinção entre emancipação
política e emancipação humana, sublinhava o estado
teológico do direito e, simultaneamente, não confundia
Estado livre com homens livres, sabendo bem que um
não era sinônimo do outro. Segundo ele, a emancipa-
ção política transformava servos em homens livres para
a realização da liberdade no Estado Moderno. Esta li-
berdade era a verdade da liberdade diante de qualquer
Estado, pois o limite da emancipação política se realiza
na substituição do que era privilégio em direito. A igual-
dade na lei assumia o seu equivalente de liberdade no
mercado. Por sua vez, a igualdade política, com a ma-
nutenção da igualdade econômica e social, não passa-
va de supressão genérica da desigualdade, reacomo-
dando a abstração da igualdade perante a lei. O direito
é a tradução moderna do privilégio, neste sentido o Es-
tado Moderno retraduz a servidão assentada na abstra-
ção da igualdade, na qual o Homem genérico
corresponde ao homem burguês e o cidadão ao propri-
etário, e é nisto que reside a igualdade concretizada na
lei, pois sua correspondência iguala homem e cidadão.
A democracia representativa, para Marx, conjuga no
direito a promessa do cristianismo já que este por sua
vez funda a ilusão de que todos são atendidos, desig-
nando o ânimo teológico presente no Estado e na Reli-
gião. O salto proposto por Marx para uma forma de igual-
dade material é efetuado pela emancipação humana,

233
3
2003

na qual o Estado torna-se dispensável. Diante da críti-


ca absoluta que refaz o circuito da denúncia em torno
do privilégio transformado em direito, interessa para ele
a crítica da política, não a da opinião que se volta para a
indignação e refaz a denúncia em si, mas aquela que
provoca a indignação em quem a elabora e produz uma
força material que se volta contra a própria política.
A contundência destes escritos de juventude de Marx
pode ser estancada em duas direções respectivamente:
nos escritos que ele efetua posteriormente, numa fase
mais madura, e nestes apontados acima, quando seu
fogo chamuscava ele próprio. Os posteriores trazem o
apaziguamento da mediação necessária a uma teoria
que ansiava ser soberana.
“É exatamente contra os efeitos de poder próprios de
um discusro considerado científico que a genealogia
deve travar o combate. (...) Mas a esta pergunta: ‘É ou
não é ciência?’, as genealogias ou os genealogistas res-
ponderiam: ‘Pois bem, precisamente, o que criticamos
em vocês é fazer do marxismo, ou da psicanálise, ou
desta ou daquela coisa, uma ciência. (...) antes mesmo
de se fazer essa pergunta da analogia formal ou estru-
tural de um discurso marxista ou psicanalítico com um
discurso científico, não é necessário primeiro levantar
a questão, se interrogar sobre a ambição de poder que a
pretensão de ser uma ciência traz consigo? (...) A
genealogia seria uma espécie de empreendimento para
dessujeitar os saberes históricos e torná-los livres, isto
é, capazes de oposição e de luta contra a coerção de um
discurso teórico unitário, formal e científico. A reativação
dos saberes locais — ‘menores’, talvez dissesse Deleuze9
— contra a hierarquização científica do conhecimento e
seus efeitos de poder intrínsecos, esse é o projeto des-
sas genealogias em desordem e picadinhas”10.

234
verve
O Estado contra os jovens

Contudo, apesar do jovem Marx não pretender ainda


a construção de uma teoria política, esteve animado
historicamente pelo fantasma da abstração ao perse-
guir duas formas transcendentais: a emancipação e o
humano. Tal busca transita no campo do movimento de
libertação. Nunca é demais lembrar que o Mito que ani-
mava Marx era o de Prometeu e quanto a isso vale não
esquecer de Beckett, do que há de menor no inominável:
“Que Prometeu tenha sido libertado vinte nove mil
novecentos e setenta anos antes de purgado sua pena,
pouco se me dá. Pois entre mim e esse miserável que
zombava dos Deuses, inventou o fogo, desfigurou a ar-
gila, domesticou o cavalo, numa palavra sujeitou a hu-
manidade, espero não haver nada em comum. Mas a
coisa deve ser notada. Em suma: poderei falar de mim,
deste lugar, sem nos suprimir? Será que nunca poderei
calar-me? Haverá uma relação entre essas duas per-
guntas? Gosta-se de apostas. Heis aí várias, talvez uma
só”11.
A série da indignação se caracteriza pelo discurso da
negação, circunscrevendo-se ao jogo elástico entre as
noções de maioria e minoria, neste caso minoria faz parte
da fundamentação da substância que anseia pela mai-
oridade e respalda a maioria em sua ordem de repre-
sentação, e recai na produção, distribuição e circula-
ção do discurso uniforme do combate à impunidade.
Seu não à realidade policial no cotidiano, roga pela
mediação da polícia reformada, e, portanto, não rompe
com a realidade policiada.
“Penso que, atrás do ódio que o povo tem da justiça,
dos tribunais, das prisões, não se deve apenas ver a
idéia de outra justiça melhor e mais justa, mas antes
de tudo a percepção de um ponto singular em que o
poder se exerce em detrimento do povo. A luta anti-

235
3
2003

judiciária é uma luta contra o poder e não uma luta


contra as injustiças, contra as injustiças da justiça e
por um melhor funcionamento da instituição judiciá-
ria”12.
A pulverização de resistências entrelaçadas no jogo
de maioria e minoria, avolumadas no rebanho
participativo, não arranham nem de longe o Estado e as
diversas instituições de controle, pois quando se
universalizam modelos ideais de comportamento enve-
reda-se na retórica que faz parte do jogo dos indigna-
dos. Para além da indignação existe o quê? Parece que
se a procura da resposta se dirigir ao campo restrito da
indignação, o que encontramos são corpos sadios para
o Estado à espera do Estado para seus corpos sãos, e
isto já não é outra coisa senão a vontade de nada.
Por sua vez, a série da contestação radical associada
ao abolicionismo exige a coragem da subversão,
instauradora do discurso da afirmação, vontade de po-
tência no sentido atribuído por Nietzsche. Seu NÃO é
dirigido à mediação externa. Está interessada no SIM
que potencializa o sim, vontade de vida. Não cabe fazer
concessões ao pressuposto da reforma, a vida exige de
quem está vivo que ela seja vivida, sem anteparos
construídos a partir de abstrações e transcenden-
talismos. Este SIM afirma a vontade interessada no fim
da polícia, das prisões, e do tribunal.
O abolicionismo é um estilo de vida arriscado. Não
pretende disputar posições soberanas com ninguém. Ele
é uma prática de fio de navalha. É uma escolha de to-
que no mundo, vida em carne viva e à flor da pele. Pele
desabrocha, enruga, se troca. É repleta de buracos. A
vontade de nada quer tudo liso, plano, Plano. Mas sem
buracos a pele não respira, sufoca. Não se vive sem to-
dos esse buracos, e tantos outros.

236
verve
O Estado contra os jovens

À flor da pele é indissociável das vísceras. É visceral


a crueldade desta superfície, cujo dilaceramento não
repete ou comenta. A crueldade instaura. A mediação
fica para aqueles interessados na vontade de nada, aque-
les que não passam um minuto sequer sem rogar por
um grande ou pequeno tribunal. A vontade de nada que
fique com suas inúmeras pontes que levam à cruz.
Que esta vontade contabilize seus números em nome
do santo espetáculo da denúncia. Estatística consola-
dora, em torno das cotas de mil mortes que cabem no
sagrado ofício dos indignados.
A segunda procedência possível de ser demarcada é
o trato que se dá, regularmente, à estatística como for-
ma de responder à moral do confinamento. A procedên-
cia da estatística pode ser trabalhada a partir de duas
séries: a da constatação dirigida à teoria e a constatação
indissociada da analítica genealógica.
A primeira série aplica sua constatação a uma reali-
dade sobre-representada cuja explicação se justifica sob
o respaldo de uma interpretação que carece muito mais
de dar sustentação a uma determinada teoria do que
fazer com que a realidade se escancare horizontalizada
ao escândalo do acontecimento.
Por sua vez, a este primeiro movimento que já parte
de uma sobre-representação para se remeter à teoria é
acoplado um segundo, traçando o delineamento de seu
destinatário preferencial: a centralidade de poder en-
tendida como violência legitimada. Este segundo movi-
mento provoca uma nova alimentação estatística que
refaz ela própria o saber de Estado. Frente a este se-
gundo movimento há duas posturas de desdobramento
possíveis de ser apontadas, a contestação dos indigna-
dos e a política da reforma. No entanto, estes
dedobramentos longe de se mostrarem díspares são re-

237
3
2003

versos que se complementam, mesmo quando se afir-


mam distantes. Pois a contestação também remetida à
lógica da ordem transforma a contestação em mera de-
núncia dos dados, rogando por direitos; ou pela defesa
de direitos; ou pela conquista de novos ou velhos direi-
tos, deixando o princípio punitivo e prisional intocado.
Neste limiar há o entrelaçamento complementar com
o segundo desdobramento dirigido à reforma. A refor-
ma reafirmada refaz seu ciclo de perpetuação, e o que
era encarado, providencialmente, como substância da
denúncia é revelado como crise emergencial, que por
sua vez suscita um novo planejamento para novas re-
formas. E a cada construção de crise deve caber uma
representação correspondente de reforma da ordem, do
Estado, da polícia. O elemento comum que atravessa
esta saturação de representações é o clamor por mais e
maior segurança, que em seu limite é coroado por sua
representação máxima: a incrementação da prisão.
Contudo, desacatar o jogo da representação e demo-
li-lo exige da constatação associada à analítica
genealógica, que frente à estatística se estanque as pa-
lavras do próprio acontecimento no presente desta rea-
lidade, possibilitando mais do que a contestação. Inte-
ressa neste caso a transgressão, a subversão, a
insubmissão. E, neste encontro associativo com o
abolicionismo penal não há espaço para a representa-
ção, e tampouco para a interpretação da representação.
O destinatário deste encontro não é o banco de dados
do controle disponível para alimentar as reformas, nem
o Estado, nem a polícia, nem o tribunal, pois tudo isto é
o alvo desta associação, cuja escolha interessada re-
quer a postura afirmativa pelo fim da FEBEM ou da pri-
são para adolescentes no Brasil.

238
verve
O Estado contra os jovens

A terceira procedência possível de ser demarcada é o


seqüestro da vontade operacionalizado pela legislação
e pelo direito penal. Diante da prática policial de aprisi-
onamento, espancamento, ou morte há posicionamentos
distintos no que concerne à burguesia e classe média
bem como aos pobres. Interessa à analítica demarcar
estas posturas, apontando continuidades de sujeições,
bem como explicitar a existência de afirmações
trangressoras e insubmissas.
A burguesia e a classe média, ancoradas na tradição
reformista da legislação, diante da violência policial e
posterior aprisionamento, assumem, regularmente, três
tipos de posicionamentos: há aqueles que acham pou-
co e defendem abertamente o extermínio; há os que
defendem os direitos e concordam com o aprisionamento
e há outros que defendem a internação em outro esta-
belecimento adequado. Os primeiros, partidários da
pena de morte nem merecem comentários. Os dois últi-
mos se equivalem na medida em que assumem sintonia
na perpetuação da existência da prisão, com o respaldo
da reforma legal e do espaço asséptico.
Por sua vez, parte significativa dos pobres pede mais
segurança e lazer na periferia, sujeitando-se a ser prisi-
oneiros do Estado e de seu próprio território. E, quando
vêem seus barracos virarem conjuntos habitacionais,
num arremedo dos grandes condomínios fechados sob
a rubrica desta famigerada invencionice chamada “qua-
lidade de vida” acreditam que estão virando classe mé-
dia.
Diante disto, a classe média e a burguesia aplaudem
a segurança e o lazer na periferia, pois pretendem
pacificá-la e, assim, assegurar-se em seus condomíni-
os fechados repletos de ‘qualidade de vida’, eventual-
mente, podendo até consumir civilizadamente os pro-

239
3
2003

dutos exóticos provenientes da periferia. E quando cada


um dos seus é preso? O que acontece?
As parcelas da burguesia e classe média que defen-
dem a prisão asséptica ou a reforma legal como forma
de continuidade do princípio prisional para pobres,
quando se deparam com seus próprios filhos presos não
suportam a prisão, mesmo sendo asséptica ou sob a
rubrica de estabelecimentos adequados. Passam a de-
nunciar o abuso contra os direitos, pagando fiança como
modo de ter seus filhos soltos. Para, posteriormente,
endossar mais uma vez o coro pelo fim da impunidade e
reafirmar o Estado, o monopólio legítimo da violência, a
polícia e a prisão para todos.
Os pobres, por outro lado, na maioria das vezes, nem
sabem que mediante o pagamento de uma fiança seus
filhos seriam liberados e, grande parte, mesmo que sou-
besse não teria dinheiro para fazê-lo, mas seus filhos
sabem negociar com a polícia.
Entretanto, algumas destas pessoas (principalmen-
te as mães) que têm seus filhos apanhados pela polícia
e levados a julgamento sabem o óbvio. Elas sabem que
esta é a porta de entrada de um sistema de interceptação
no qual tanto faz ser aprisionado por três minutos ou
três anos. Estas pessoas desafinam e desafiam o coro
das certezas e subvertem a ordem do rebanho. Elas não
clamam por mais polícia e afirmam o fim da prisão.
Estas mulheres, estas mães às quais me refiro, não
são nem mulheres e nem mães em geral, são algumas
pessoas que têm seus filhos presos e que após rebeli-
ões na FEBEM dirigem-se para as portas da prisão an-
tes mesmo da rebelião acabar, e exigem seus filhos de
volta. O vínculo que as associa não é institucional e
não provém de uma centralidade superior. Elas agem
associadas, muitas vezes, pelo instantâneo do aconte-

240
verve
O Estado contra os jovens

cimento e apontam saídas possíveis para afirmar o fim


da prisão para adolescentes.
Um exemplo deste tipo de ação fica explícito quando
lembramos, e talvez poucos se lembrem, de que no se-
gundo semestre de 1999 — período convulsivo de repe-
tidas rebeliões em várias unidades da FEBEM de São
Paulo, e motivo de assunto-destaque na mídia em ge-
ral, quando especialistas de toda ordem discutiam, mais
uma vez, qual a melhor ‘forma de reforma’ da FEBEM
ou de seu correlato com outro nome, ‘pois algo há de
mudar para que tudo permaneça igual’ — estas mulhe-
res responderam a este acontecimento invadindo o Com-
plexo Imigrantes da FEBEM e levando seus filhos con-
sigo. Dos mil e quinhentos internos, restaram mil.
A solução apontada por este tipo de atitude, diante
das discussões que mobilizam especialistas,
governantes, a mídia e tudo aquilo que se nomeia como
sociedade em geral, foi relegada à dimensão de espisódio
inconveniente. No entanto, a desqualificação de tal acon-
tecimento é própria de práticas que não suportam a
poeira de atitudes infames. Enquanto a política da or-
dem prefere discutir problemas abstratos e dedicar-se
a elaborar o rol das receitas para saná-los no interior de
gabinetes, estas pessoas que invadiram a FEBEM e par-
tiram com seus filhos apontaram antes de mais nada
para uma eficaz resposta frente à superlotação da pri-
são, esvaziando-a. Contudo, foram mais além, o escân-
dalo deste ato reside na escolha de arruinar a prisão lá
onde ela subjaz quieta, solene e ereta: na superfície de
cada um. Na superfície da mente e do corpo, no confor-
to diante da imagem do medo na exterioridade de cada
dia.
Estas mulheres explicitam o que é insuportável para
os ouvidos moucos, horizontalizando-se na crueldade

241
3
2003

do abolicionismo, pois elas exigem seus filhos de volta.


Seus meninos e meninas não são filhos do Estado, dos
direitos, da justiça ou de abstrações de qualquer ordem.
O investimento abolicionista repara nestas posturas
interessadas em desafinar, desafiar, subverter, demolir
e inventar a partir de pessoas concretas em torno de seus
problemas concretos.
Não há meio-termo possível. A escolha se dá entre a
vontade de nada — com sua policiazinha, seu
tribunalzinho, seu carcerezinho, seus direitozinhos, sua
justiçazinha, sua individualidadezinha, sua segurança-
zinha, seu bem-comunzinho, seu pastorzinho, seu
julgamentozinho, seu planozinho e quantos inhos e inhas
couber neste anseio pela maioridade da ordem — ou a
vontade de potência indissociável da afirmação da vida
metida no meio das coisas, sem repouso, sem receitas. O
abolicionismo é um convite generoso à esta escolha. E,
seu convite é sua própria afirmação: Decida abolir em si
mesmo.
“Abolição é, então, em primeiro lugar, a abolição da
justiça criminal na pessoa: mudando as percepções, ati-
tudes, comportamentos. Tal mudança implica na mu-
dança da linguagem e, por outro lado, a mudança de lin-
guagem será um instrumento poderoso para fazer acon-
tecer as mudanças nas percepções e nas atitudes. Essa
mudança de linguagem é algo que todos são capazes de
fazer: para não-profissionais, em certo nível, deve ser até
mais fácil que para profissionais. Estamos todos aptos a
abolir a justiça criminal dentro de nós e usar uma outra
linguagem com a qual possamos perceber e mobilizar
outras fontes a lidar com situações problemáticas. Quan-
do usamos outra linguagem, ensinamos esta linguagem
para outras pessoas. Desta forma, nós os convidamos
para também abolir a justiça criminal”13.

242
verve
O Estado contra os jovens

Notas
1
Texto extraído de Política e Peste: Crueldade, Plano Beveridge, Abolicionismo Penal.
São Paulo, Tese de Doutorado em Ciências Sociais - PUC/SP, 2001.
2
Edson Passetti. “Abolicionismo penal: um saber interessado” in Discursos Sedi-
ciosos - crime, direito e sociedade, ano 6 no 12, Rio de Janeiro, Freitas Bastos Editora/
Instituto Carioca de Criminologia, 2001, p. 51.
3
Idem. Política Nacional de Bem-Estar do Menor. São Paulo, Dissertação de Mestrado
- PUC/SP, 1982, p. 56.
4
“Art. 2°. Para os efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor:
I - privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instru-
ção obrigatória, ainda que eventualmente, em razão de:
a) falta, ação ou omissão dos pais ou responsável;
b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-
los;
II - vítima de maus tratos ou castigos imoderados impostos pelos
pais ou responsável;
III - em perigo moral, devido a:
a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons
costumes;
b) exploração em atividade contrária aos bons costumes;
IV - privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual
dos pais ou responsável;
V - com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação famili-
ar ou comunitária;
VI - autor de infração penal.
Parágrafo único. Entende-se por responsável aquele que, não sendo pai ou mãe,
exerce a qualquer título, vigilância, direção ou educação do menor, ou voluntariamente o traz
em seu poder ou companhia, independentemente de ato judicial”. Código de menores de
1979.
5
Sobre a criação da Secretaria do Menor e seus posteriores desdobramentos
até 1994, ver Marcia Cristina Lazzari. Panacéia Burocrática: uma secretaria de governo
para crianças e adolescentes no estado de São Paulo. São Paulo, Dissertação de Mestrado
em Ciências Sociais - PUC/SP, 1998. “Foram analisados os documentos elaborados
pela Secretaria concernentes às formulações básicas dos programas, os dados estatísticos de
boletins relativos ao número de atendimentos e cálculos orçamentários voltados para as folhas
de pagamento e despesas. (...) A Secretaria entendida enquanto produto da intervenção demo-

243
3
2003

crática mostra o jogo de deslocamentos entre beneficiários que consolida a burocracia adminis-
trativa como articuladora central e segmento principal na realização dos interesses e dentro do
governo. As reformas administrativas, como resposta às crises cíclicas das políticas sociais,
apontaram para um reajuste das burocracias, enquanto a clientela alvo continuou funcionando
como justificativa para outras reformas (...) assistimos a realização da panacéia burocrática
como continuidade fundada numa suposta política de descontinuidade” (Idem, p. 3). A
autora, neste estudo, demonstra como os vários projetos, introdução de pro-
gramas, revisão de metas e reprodução de reformas da Secretaria provocou o
escandaloso resultado remetido à sua própria sobrevivência: a realização fan-
tástica que consistiu em que em 1994 o número de funcionários administrati-
vos ultrapassasse de longe o número de crianças e adolescentes atendidos pe-
los diversos programas criados no período analisado.
6
Michel Foucault. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo,
Martins Fontes, 2001, p. 16.
7
Loïc Wacquant. As prisões da miséria. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2001.
8
Karl Marx. A questão judaica. São Paulo, Editora Moraes, s.d., pp. 75-76.
9
“Os conceitos de ‘menor’ e de ‘minoria’ — antes acontecimentos singulares do que essências
individuais, antes individuações por ‘ecceidade’ do que substancialidade — foram elaborados
por G. Deleuze e F. Guatarri, in Kafka Pour une littérature mineure (Paris, Éd de Minuit,
1975), retomados por Deleuze no artigo ‘Philosophie et minorité” (Critique, fevereiro
1978), e desenvolvido ulteriormente em especial em G. Deleuze e F. Guatarri. Mille plateux.
Capitalisme et schizophrénie. Paris, Éd De Minuit, 1980. Nota de Foucault.
10
Michel Foucault. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976).
São Paulo, Martins Fontes, 1999, pp. 14-16.
11
Samuel Beckett. O inominável. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989, p.18.
12
Michel Foucault. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1979, pp.
73-74.
13
Louk Hulsman &Jacqueline Bernat de Celis. Penas perdidas: o sistema penal em
questão. Rio de Janeiro, Luam Editora, 1993, pp. 179-180.

244
verve
O Estado contra os jovens

RESUMO

Análise da continuidade da prática de encarceramento de jo-


vens no Brasil, problematizando três procedências possíveis
em relação à prática punitiva envolvendo adolescentes infrato-
res: a polícia, a estatística e o seqüestro da vontade.

ABSTRACT

Análise da continuidade da prática de encarceramento de jo-


vens no Brasil, problematizando três procedências possíveis
em relação à prática punitiva envolvendo adolescentes infrato-
res: a polícia, a estatística e o seqüestro da vontade.

245
3
2003

violência contra a mulher e o


abolicionismo penal1

lúcia soares*

O movimento feminista organizou-se e explodiu no


século XX. As feministas reivindicaram o direito ao su-
frágio, à educação, à saúde, ao trabalho, à liberdade
sexual, enfim, à emancipação da mulher. Nos anos 70 e
início dos anos 80, o aviltamento das mulheres vítimas
de violência começou a ser questionado e denunciado
pelas feministas que se voltaram para o Estado. Por este
caminho, do assistencialismo estatal, percorreram di-
versas correntes feministas reivindicando políticas so-
ciais específicas para as mulheres violentadas.
Com a redemocratização do país e a retomada do
pluripartidarismo em 1980, os movimentos sociais pas-
saram a reivindicar mais atenção do Estado em nome
da cidadania. No caso do movimento feminista, apoiou
e participou diretamente da criação de novas institui-
ções por meio de políticas de atendimento e defesa de
direitos, as chamadas políticas sociais, assumidas pelo

*
Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e pesquisadora no Nu-Sol.
verve, 3: 246-256, 2003

246
verve
Violência contra a mulher e o abolicionismo penal

Estado, dentre elas em 1983, o CECF — Conselho Esta-


dual da Condição Feminina e em 1985, a DDM — Dele-
gacia de Defesa da Mulher.
As DDMs tinham por obrigação ser diferentes, a co-
meçar pela sua própria concepção de ter um quadro de
funcionários composto somente por mulheres, inclusi-
ve nas equipes de apoio: médicas no IML, psicólogas e
assintentes-sociais. Diferenciando-se, de uma delega-
cia comum. Outro fator, era garantir o atendimento e
apoio às mulheres vítimas de violência e num sentido
mais amplo prevenir e reprimir a violência sofrida por
elas.
No final dos anos 80 e início dos anos 90, houve uma
proliferação das DDMs no estado de São Paulo — atu-
almente existem 125 delegacias da mulher, 09 na Capi-
tal, 12 na Grande São Paulo e 104 no interior do esta-
do. Entretanto, a maioria das DDMs está nas periferias,
o que está de acordo com a antiga fórmula de controle
social que exige mais policiamento na periferia, porque
lá se encontrariam sujeitos problemáticos com suas
relações sociais violentas.
Algumas correntes do feminismo concluíram que as
violências contra a mulher e sua defesa policial deveri-
am ser preocupação e responsabilidade do Estado. Fo-
ram condescendentes com a idéia de que a mulher po-
bre, a mulher “desprivilegiada”, que mora na periferia,
seria a grande vítima da violência de âmbito familiar, e
que deveria ser atendida por um conjunto de delegaci-
as especializadas no processamento e na criminalização
seletiva. Esta violência, que antes era tratada e silenci-
ada no espaço doméstico, é agora competência das de-
legacias.
Dez anos após o surgimento da 1ª Delegacia da Mu-
lher, foi criada a Lei 9.099/95 — dos Juizados Especi-

247
3
2003

ais Cíveis e Criminais — que abrange os “delitos leves”


(lesão corporal dolosa, ameaça, maus-tratos e constran-
gimento ilegal) de “menor potencial ofensivo”, isto é,
“crimes” com penalização máxima igual ou inferior a
um ano.
Com a Lei 9.099/95 ocorreram mudanças significa-
tivas desde o atendimento realizado nas delegacias po-
liciais até a audiência e sentença nos tribunais com a
aplicação das chamadas penas alternativas.
A agilidade proposta pela lei se fundamenta na in-
trodução dos “termos circunstanciados”, as formas es-
peciais de registro de ocorrência que objetivam simpli-
ficar os procedimentos legais que envolvem os “delitos”
sujeitos a punição de reclusão de até um ano. Finaliza-
da a elaboração dos “termos circunstanciados”, estes
são enviados imediatamente ao Judiciário que na pri-
meira audiência propõe a conciliação entre vítima e
agressor. Não sendo possível conciliar, sentencia-se uma
pena alternativa.
Antes da Lei 9.099/95, os procedimentos utilizados
para o registro de ocorrência dos “delitos leves” eram
idênticos aos considerados “graves”, ou seja, a vítima
ao noticiar o “crime” registrava o boletim de ocorrência
e em seguida poderia haver a instauração do inquérito
policial para a apuração dos fatos. Realizada a apura-
ção e encerrado o inquérito policial, este seria enviado
ao Judiciário, tornando-se um processo penal a ser jul-
gado.
A violência contra a mulher e principalmente os “cri-
mes” considerados leves pela Lei 9.099/95, nas delega-
cias comuns e nas DDMs — bem como no sistema de
justiça criminal — não são considerados como “crimes
sérios”. Não apenas estes acontecimentos, mas diver-
sos outros, não chegam ao conhecimento do Judiciário

248
verve
Violência contra a mulher e o abolicionismo penal

porque podem ser resolvidos dentro de outra conjuntu-


ra de uma forma semelhante a outros conflitos consi-
derados “não criminais”2.
A Lei 9.099/95 é uma lei que veio aperfeiçoar e
normatizar o que já acontecia comumente no Sistema
Judiciário. Procurava-se, por exemplo, um meio para
que os envolvidos num conflito chegassem a uma con-
ciliação deixando a penalização ser aplicada em última
instância, mediante a comprovada má conduta do
agressor, com base na reincidência ou antecedentes
criminais. Faltava apenas acelerar estes procedimen-
tos, visto que o Sistema Judiciário encontrava-se reple-
to destes “casos simples” que tumultuavam cada vez
mais o Judiciário e demoravam muito para serem jul-
gados. Em busca de um referendum é que surgiu a Lei
9.099/95, tida como uma lei reformadora e
despenalizadora, cujo objetivo primordial é desafogar o
Judiciário e estimular o acordo, a informalidade e a
celeridade, tentando reparar o sofrimento da vítima com
a aplicação das chamadas penas alternativas.
Com a criação da Lei 9.099/95, o Estado pretendeu
mostrar novas formas institucionais possíveis de resol-
ver os litígios e problemas sociais de forma menos trau-
mática, com rapidez, compensando as vítimas e não
aprisionando os autores destes acontecimentos.
Esta lei pode parecer, à primeira vista, não punitiva,
porém ela incrementa o Sistema de Justiça Criminal,
reescrevendo o ciclo de reformas elaboradas pelo Esta-
do com a intenção de aperfeiçoar a eficiência do siste-
ma penal para possibilitar o atendimento de suas fina-
lidades. Na tentativa de conter a violência contra a mu-
lher, a intervenção estatal aperfeiçoa suas técnicas
punitivas como forma de resolução dos conflitos.

249
3
2003

Entretanto, nos ramos feministas há um desconten-


tamento em relação à Lei 9.099/95. As feministas con-
sideram esta lei omissa em relação às vítimas e apon-
tam falhas com relação à aplicação de penas punitivas
criminalizáveis. O anseio de feministas e delegadas por
penas severas nos leva a pressupor a vontade de
enclausuramento do “agressor”.
Segundo elas, o privilegiado é o réu e não a vítima,
revelando o outro lado do processo de reforma via
despenalização, o lado do retrocesso perante a lei e as
aspirações despenalizadoras, acreditando na maior
penalização como corretivo de comportamento, mas que
nada mais é do que a face mais medonha da vingança.
Paradoxalmente as penas alternativas conciliadoras
deveriam obter maior legitimidade no regime democrá-
tico; contudo, o que se nota no caso específico deste é
que a democracia é entendida apenas como instrumen-
to generalizador da punição.
O movimento de mulheres que outrora também foi
anti-estatista e anti-institucionalista, portanto, contra
a repressão do Estado, em nome da democracia e da
cidadania descobriu os supostos benefícios da Justiça
Criminal. Pedindo mais punição, estas mulheres colo-
caram-se contra a chamada tolerância social, para
criminalizar ou penalizar atendendo às demandas ad-
ministrativas e burocráticas do sistema de justiça pe-
nal e o mercado justificador de sua permanência.
Para esta corrente do movimento feminista, a Lei
9.099/95 não levou, necessariamente, à punição do
culpado, porque estabeleceu como estratégia de abor-
dagem práticas de conciliação e punições chamadas,
metaforicamente, de “penas alternativas”, quando na
verdade, existe a permanência e a recuperação de pro-
cedimentos “comuns” de criminalização. As feministas

250
verve
Violência contra a mulher e o abolicionismo penal

querem uma justiça baseada no ressentimento e na vin-


gança, tendo como finalidade o castigo.
A expectativa do castigo como prática de contenção
social fundou-se na crença em sua utilidade social, psi-
cológica e pedagógica. Segundo Nietzsche, o valor do
castigo está em despertar no culpado o “sentimento de
culpa”, “a má consciência”, “o remorso”, e, obviamente,
“o arrependimento”. O infrator das normalizações, con-
tinua a ser visto, desde o início do século XIX, como
causador de danos físicos e morais, isto é, um devedor
público, pois da violação duma regra de sociabilidade
alcançamos a infração das regras soberanas
estabelecidas, portanto, estatais. E se está em dívida
com o Estado, ele deveria pagar, e na pior das hipóteses
pagaria sua dívida “pública” com o enclausuramento
de seu corpo.
O que o abolicionismo penal pode propor em relação
à Lei 9.099/95, e ao movimento feminista que quer pu-
nições mais severas?
Quanto à violência contra as mulheres, que muitas
vezes procuram a Delegacia da Mulher para fazer recla-
mações, desabafos, buscar reconfortos, não haveria
necessidade do estabelecimento de um processo penal,
ou, no caso dos crimes “leves”, não precisaria ter como
cenário de conciliação e alternativa o tribunal, já que a
própria estrutura física do tribunal “apresenta” o Esta-
do como o maior — no caso do direito penal, ao trans-
formar a vítima em testemunha — e o único interessa-
do num processo inquisitorial de culpabilização.
O abolicionismo penal abandonou as noções de “cri-
mes” e/ou “delitos” para restringir o acontecimento
conflituoso às pessoas envolvidas e a seus interesses,
desejos e vontades. Acontecimentos e práticas de não

251
3
2003

penalização que são entendidos como “situação-proble-


ma”3.
Cada caso é especial e único, e envolveria arranjos
entre as partes que prescindem do julgamento e da
mediação de um sistema de justiça voltado para uma
forma-tribunal. Segundo Hulsman, tais casos seriam
muito melhor resolvidos no interior do próprio lugar de
seu acontecimento e abordando as pessoas concreta-
mente envolvidas em seu pequeno círculo de sociabili-
dades alcançados pela ocorrência de determinada e es-
pecífica “situação-problema”. As respostas possíveis
consistiriam, principalmente, na conversão dos gastos
públicos dispendidos em ressarcimento das vítimas,
mediante o estabelecimento de um seguro público re-
parador; dado que, estatisticamente, a maioria dos even-
tos criminalizáveis tem fundamento econômico.
Logo, o abolicionismo penal rejeita a concepção de
“crime” ou “delito”, pois enxerga os conflitos como uma
situação-problema e os seus maiores interesses são as
opiniões concretas dos envolvidos.
A situação-problema é vista como uma somatória de
variantes que resultou num conflito. Se existe uma pes-
soa que se sentiu prejudicada, a resolução desse con-
flito exige que as pessoas envolvidas lidem e conversem
de alguma maneira. Vítima e agressor têm a opção de
resolver entre si ou dentro de um contexto social suas
diferenças e dificuldades em relação ao sofrimento in-
dividual de cada um.
Há mulheres que não vêem diferença nenhuma de
atendimento entre uma delegacia da mulher e uma de-
legacia comum, não confiam na polícia, não a procu-
ram, ou simplesmente não querem ir a um tribunal,
seja para um acordo, seja para um julgamento. Portan-
to, estes acontecimentos podem ser encarados de outra

252
verve
Violência contra a mulher e o abolicionismo penal

forma e não dentro do circuito criminal. Expressão dis-


to é a cifra negra: conflitos criminalizáveis que são re-
solvidos ou não fora do âmbito da Justiça Criminal. Estes
acontecimentos problemáticos podem ser levados ao
conhecimento legal, ou podem ser resolvidos mediante
práticas e maneiras alternativas às empreendidas pelo
sistema penal. Para Hulsman, o fato de não serem de-
nunciados à justiça não significa que inexistem, pelo
contrário, as pessoas envolvidas têm seus motivos e
experiências para não encaminharem seus problemas
à polícia, nem pretenderem resolver seus problemas
através de uma ação judicial.
A Lei 9.099/95 ao prescrever a conciliação e a com-
pensação o faz na tentativa de melhorar o sistema pe-
nal e controlar a “criminalidade”, isto é, aperfeiçoar a
punição dentro do sistema reformador. Busca nestes
modelos uma negociação e pretensamente quer estimu-
lar o diálogo entre vítima e agressor para solucionar os
conflitos.
Fica claro que a negociação e o diálogo são interme-
diados em tribunais e mediados por profissionais (juízes
e advogados), onde a “vítima” passa a ser testemunha e
o “agressor” tem de assumir sua responsabilidade pelo
“delito”, sendo que a mesma negociação e diálogo pode-
riam realizar-se de outra forma, ou seja, dentro de uma
perspectiva abolicionista.
O abolicionismo penal entende que as pessoas en-
volvidas em conflitos, muitas vezes, procuram formas
específicas como respostas às situações-problema (“de-
lito”), pois não podemos esquecer que cada caso é um
caso diferente e único. Neste sentido, a busca por uma
solução prescinde do tribunal e de seus profissionais
que apenas inflam a burocracia estatal.

253
3
2003

No âmbito abolicionista prioriza-se a conciliação e a


compensação, mas diferente da forma apresentada pela
Lei 9.099/95, porque se investe no diálogo e na negoci-
ação dos conflitos entre as pessoas envolvidas para que
elas pensem numa solução do problema e sintam-se
satisfeitas, podendo para isso até ser orientadas e acon-
selhadas por outras pessoas, em outros espaços e de
outra forma, sem a necessidade de verem como única
saída, como única verdade a Justiça Criminal.
O abolicionismo penal investe em novos percursos,
em outras atitudes, sem buscar quem é vítima ou quem
é agressor, interessa-se por pessoas que possam
equacionar sua situação no interior de uma sociabili-
dade autoritária. As possibilidades de mudanças na
sociedade em nome dos seus direitos não estariam, as-
sim, apenas pautadas na intervenção estatal, que gera
mais violência e mais controle com seu ciclo perma-
nente de reformas, podendo ser realizados de outra for-
ma, num contexto libertário.

Notas
1
Texto extraído de Mulheres e punição: uma história das Delegacias de Defesa da Mu-
lher. São Paulo, Tese de Mestrado em Ciências Sociais — PUC/SP, 2001.
2
“Dentro do conceito de criminalidade, uma grande variedade de situações
são colocadas juntas. A maioria delas, no entanto, tem propriedades separadas
e nenhum denominador comum: violência dentro da família, violência num
contexto anônimo nas ruas, invasão de propriedades privadas, formas comple-
tamente diferentes de receber bens ilegalmente, diferentes tipos de conduta no
tráfico, poluição do meio-ambiente e algumas formas de atividades políticas.
Nenhuma estrutura comum pode ser encontrada na motivação daqueles que
estão envolvidos em tais eventos, nem na natureza das conseqüências, nem nas
possibilidades de se lidar com eles (seja no sentido preventivo, seja no sentido
do controle do conflito). Tudo o que estes eventos têm em comum é o fato de
que o sistema judiciário está autorizado a tomar providências contra eles. Al-
guns destes eventos causam sofrimento considerável àqueles diretamente en-

254
verve
Violência contra a mulher e o abolicionismo penal

volvidos, freqüentemente atingindo tanto o causador quanto a vítima. (...) Não


é, portanto, surpreendente que uma proporção considerável dos eventos que
seriam definidos como “crime sério” no contexto do sistema de justiça crimi-
nal, permaneçam completamente fora desse sistema. Eles são resolvidos den-
tro do contexto social no qual ocorrem (a família, o sindicato, as associações, a
vizinhança) de uma maneira similar a que outros conflitos “não criminais” são
resolvidos. Tudo isto significa que não há uma realidade ontológica do crime.”
(Louck Hulsman. “Temas e conceitos numa abordagem abolicionista da justi-
ça criminal”, in Edson Passetti e R.B.D.Silva (orgs.) Conversações abolicionistas:
uma crítica do sistema penal e da sociedade punitiva. São Paulo, IBCrim e PEPG Ciên-
cias Sociais PUC/SP, 1997, pp. 195-196.
3
“A ferramenta conceitual óbvia para iniciar esta nova maneira de olhar para a
realidade é substituir o ‘comportamento criminoso ou criminalizável’, como a
pedra fundamental de nossa linguagem profissional, pelo conceito de ‘situação
problemática’. A introdução do conceito de ‘situação problemática’ é uma es-
tratégia para levantar questões. A primeira questão é: quem acha que esta situ-
ação (vagamente formulada) é problemática? Quando tivermos uma resposta a
esta primeira pergunta, temos de fazer uma distinção entre os que responde-
ram. Em princípio não estamos interessados nas respostas de profissionais não
envolvidos diretamente.” (Hulsman, op. cit., p. 207).

255
3
2003

RESUMO

As Delegacias de Defesa da Mulher aparecem em decorrência


de reivindicações do movimento feminista que apela ao Estado
no sentido de exigir leis, e uma estrutura física adequada ao
atendimento das mulheres vítimas de violência. Frente a esta
conformação jurídica que naturaliza o Direito Penal, o
abolicionismo é apresentado como possibilidade de romper o
duplo vítima/agressor, dimensionando o conflito como situa-
ção-problema.

ABSTRACT

As Delegacias de Defesa da Mulher aparecem em decorrência


de reivindicações do movimento feminista que apela ao Estado
no sentido de exigir leis, e uma estrutura física adequada ao
atendimento das mulheres vítimas de violência. Frente a esta
conformação jurídica que naturaliza o Direito Penal, o
abolicionismo é apresentado como possibilidade de romper o
duplo vítima/agressor, dimensionando o conflito como situa-
ção-problema.

256
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

política de drogas e a lógica dos danos

thiago rodrigues*

O homem que se tornou livre pisa sobre o


modo desprezível do bem-estar

Friedrich Nietzsche

O acirramento da violência relacionada ao tráfico de


drogas ilícitas vem aguçando sensibilidades atentas a
posturas outras de enfrentamento da questão do uso
de substâncias psicoativas. Conservadores e progres-
sistas convergem para a crítica do modelo de banimento
legal dos psicoativos capitaneado pelos Estados Unidos
e aceito pela maioria dos Estados no globo. O objetivo
expresso da Proibição é a erradicação do uso de qual-
quer droga que altere a consciência ou a percepção da
realidade. Neste quadro, até mesmo psicoativos legais
como o álcool e o tabaco caminham para uma situação
de controle estrito que beira a proibição total. Em meio
à grande quantidade de forças sociais que resistem à

* Cientista Político, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP,


poeta e pesquisador no Nu-sol.
verve, 3: 257-277, 2003

257
3
2003

proscrição das drogas, cresce, desde meados dos anos


1980, uma postura reformista conhecida como redução
de danos que vem conseguindo espaço entre os
proibicionismos, principalmente nos países mais ricos
da Europa e Oceania. Este artigo busca fazer uma leitu-
ra preliminar das propostas de redução de danos, ex-
pondo suas frentes de combate com o proibicionismo,
suas potencialidades estratégicas na mudança do tra-
tamento legal dos psicoativos e seus limites enquanto
proposta alternativa ao modelo. Sem almejar conclu-
sões, essa reflexão procurará instigar os defensores da
redução de danos a contornarem o medo, o excesso de
moderação e toda prudência que não seja tática.

A abstinência como fim


Declarada pelo governo de Richard Nixon, em 1972,
a guerra às drogas tornou-se a tônica na abordagem
internacional da questão das substâncias psicoativas
ilícitas. Naquele momento, o tema do controle mundial
de psicoativos havia alcançado um patamar de alta re-
gulamentação, cujo documento maior era a Convenção
Única da ONU sobre Psicotrópicos, de 1961. Esse trata-
do sintetizava décadas de convenções multilaterais que,
desde o Congresso de Xangai, em 1909, vinham elabo-
rando restrições à livre produção, venda e consumo de
drogas estimulantes, como a cocaína, e narcóticas, como
os opiáceos (ópio, morfina, heroína). O objetivo das nor-
mas internacionais acordadas desde então era o
banimento de todo uso que não fosse considerado para
fins médicos. Na luta da medicalização contra os usos
tradicionais ou hedonistas, estava impressa a marca da
política externa dos Estados Unidos que, com grande
empenho, defendeu a confecção de legislações
antidrogas restritivas.

258
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

A postura estadunidense toma a forma de combate


direto às drogas ilícitas com Nixon, o que significava a
identificação, por parte do governo dos Estados Unidos,
de países produtores e de países consumidores dessas
substâncias1. Essa distinção mostrou-se uma hábil es-
tratégia de política externa, pois identificava países-fon-
te, e, portanto, agressores, e países-alvo, vítimas das
subterrâneas máfias globais. Nesse quadro binário, tão
próprio das políticas estadunidenses, o sudeste asiáti-
co se encarregava da heroína, assim como o México e o
Caribe incumbiam-se de projetar maconha dos EUA. Na
América do Sul, uma droga bastante marginal desde os
anos 1920, a cocaína, passava a substituir a marijuana
nos negócios ilícitos dos traficantes locais. As culturas
de maconha existentes em solo estadunidense, que
desde os desertos de Nevada e do Oregon abasteciam o
mercado interno, não foram elencadas pelo governo nos
EUA como uma preocupação, já que era necessário an-
gariar apoio político e social para ações internacionais
de interceptação e erradicação de colheitas ilícitas de
papoula e coca. A guerra às drogas era desenhada, as-
sim, como uma postura governamental dirigida à
exteriorização do problema da produção de psicoativos
e à repressão interna a consumidores e organizações
narcotraficantes. A um só tempo, uma instrumentali-
zação da Proibição às drogas como artifício de política
externa e recurso para a governamentalização — discipli-
narização, vigilância e confinamento — de grupos soci-
ais ameaçadores à ordem interna como negros, hispâ-
nicos e jovens pacifistas.
A associação entre drogas psicoativas e grupos es-
pecíficos e dissonantes não era, de modo algum, um
fato novo entre os estadunidenses. As associações pu-
ritanas que clamavam, ainda no século XIX, pela proi-
bição do álcool e do ópio traçavam uma linha direta entre

259
3
2003

essas substâncias e comunidades imigrantes, respecti-


vamente, irlandeses e chineses. De maneira análoga,
mexicanos eram vistos como inveterados consumido-
res de maconha e os negros, como perigosos usuários
de cocaína. Nos anos 1960, os estereótipos herdados
das décadas de consolidação do proibicionismo não
haviam se apagado, mas ao contrário, ganhavam em
complexidade. Da geração dos escritores beats e dos
músicos do jazz dos anos cinqüenta ao não-movimento
flower power da segunda metade da década de sessen-
ta, o consumo de drogas ilícitas conquistou definitiva-
mente espaço entre jovens brancos de classe média. A
heroína dos beats cedeu lugar às drogas alucinógenas,
com destaque para a maconha e para o ácido lisérgico.
O combate ao hábito de usar drogas psicoativas era
o alvo primordial do moralismo puritano que sustenta-
va as políticas proibicionistas. A adoção de psicoativos
entre jovens brancos soou como alarme para os defen-
sores da erradicação do consumo dessas substâncias.
Se o objetivo era banir um costume, o esforço para tal
não poderia recair apenas sobre guetos. Uma visão
epidemiológica tomou de assalto os círculos conserva-
dores e o governo dos EUA, identificando que a “conta-
minação” causada pelas drogas espalhava-se pelo cor-
po social. Contra a decadência física e moral era preci-
so antepor um dique virtuoso composto de políticas
repressivas. As “drogas” eram o problema diagnostica-
do pelo governo; assim, para eliminar o “vício” do ambi-
ente social devia-se atacar a origem do flagelo. Dessa
forma, às organizações narcotraficantes cabia a desar-
ticulação, aos traficantes e aos usuários restava a pu-
nição. A postura de tolerância zero norteadora das polí-
ticas de segurança pública contemporâneas nos Esta-
dos Unidos tomaram seus primeiros contornos no

260
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

tratamento dispensado aos negociadores e aos consu-


midores de substâncias ilícitas.
No âmbito internacional, as normas acordadas sob a
ONU não assumiram outras cores que não as da re-
pressão total às drogas e seus “usos não medicinais”.
Adendos à Convenção Única baniram psicoativos como
o LSD e a maconha — as drogas da contracultura — por
não se ver neles propriedade médica alguma. O máxi-
mo de avanço registrado pela política antidrogas
estadunidense, e por extensão da ONU, foi a identifica-
ção de que a demanda (o lado dos consumidores) deve-
ria receber atenção especial na qualidade de enfermos.
A meta final não deixa de ser a abstinência, a sobrieda-
de em nome da saúde individual e do bem-estar social.
As décadas de proibicionismo não trouxeram, no
entanto, a erradicação do consumo. Pelo contrário, o
mercado negro instaurado pelo banimento legal dos
psicoativos tornou-se uma pujante economia negocia-
dora de compostos produzidos, transportados, vendi-
dos e usufruídos na clandestinidade. A violência trazida
na esteira das máfias narcotraficantes e as conseqüên-
cias individuais do uso de substâncias adulteradas e
ministradas sem segurança produziram vozes críticas
dentro de Estados proibicionistas. O combate às drogas
passou a ser visto por alguns grupos de médicos e cien-
tistas sociais, europeus, australianos e estadunidenses
em sua maioria, como uma guerra de impossível con-
clusão que deveria ser substituída por uma outra ótica
que procurasse não investir no improvável (o fim uni-
versal do consumo), mas em alternativas que buscas-
sem minimizar os perigos para aqueles que optaram pela
ebriedade. Essa visão reformista, genericamente conhe-
cida como redução de danos, pretende buscar formas
de administrar o hábito de utilizar drogas psicoativas,

261
3
2003

diante da percepção de que o contrário é tarefa quixo-


tesca e politicamente intencionada.

A abstinência como utopia


Os partidários das políticas de redução de danos
constroem seus argumentos a partir de um pressupos-
to simples: consumir psicoativos faz parte de qualquer
cultura, é hábito sempre presente na história humana
e que não pode ser suprimido. Assumindo a
inevitabilidade do uso de drogas psicoativas, a preocu-
pação deveria ser em fazer com que esse consumo pro-
duzisse o menor prejuízo possível ao indivíduo que se
intoxica e à sociedade2. Admite-se que há “conseqüên-
cias negativas” do uso de drogas psicoativas para quem
as consome (problemas físicos, financeiros, de relacio-
namento interpessoal) e, por extensão, para o “conjun-
to social” (perda de um ente produtivo ou, em casos
extremos, um agente instabilizador da ordem). Fixada
nesses pontos, a perspectiva da redução de danos em
nada se diferenciaria da postura proibicionista. No en-
tanto, autores como Marlatt3, MacRae4 e Lurie5 valori-
zam a distinção entre a tônica proibicionista, calcada
no par redução da demanda/redução da oferta, e o ob-
jetivo da minimização de danos, centrado na elimina-
ção do “mau uso”. Desse modo, o investimento das po-
líticas sociais deveria ser destinado a intervenções que
buscassem banir não o uso de drogas, mas “o mau uso
que pode resultar em importantes ameaças ao bem-es-
tar do indivíduo ou da sociedade”6. Coloca-se, assim,
uma clara distinção entre uso controlado e uso descon-
trolado (ou abuso) de psicoativos.
As políticas de redução de danos, segundo Marlatt7,
emergem em termos contemporâneos nos anos 1980,
motivadas pelo alastramento dos casos de AIDS entre

262
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

usuários de drogas injetáveis. Ao compartilharem se-


ringas, os consumidores de heroína ou da menos usual
cocaína injetável, corriam o risco de contaminação pelo
vírus HIV. Frente ao fato de que parecia improvável que
os usuários de drogas injetáveis pudessem abandonar
seu hábito devido à AIDS, surgem estudos e propostas
para a formulação de políticas de saúde que levassem
em conta a necessidade em tornar a prática da injeção
do opiáceo menos arriscada. Na cidade holandesa de
Roterdã foi instituído, em 1984, um programa de trocas
de seringas no qual funcionários do Serviço Municipal
de Saúde encarregavam-se de fornecer seringas e ma-
terial para higienização aos usuários de heroína, desde
que eles se apresentassem com regularidade aos pos-
tos móveis destinados para tanto. O programa rapida-
mente se desenvolveu para além da troca de seringas:
nos pontos de atendimento, os consumidores de heroí-
na passaram a ter acesso a serviço de checagem de
pureza da droga adquirida, além de prescrições e apli-
cações de metadona, opiáceo sintético desenvolvido para
substituir a heroína em tratamentos de desintoxicação8.
Aos programas desenvolvidos na Holanda, seguiram-
se outros similares na Austrália, Inglaterra, Alemanha,
Suíça, Canadá e, até mesmo no Brasil, quando, em prin-
cípios dos anos 1990, a prefeitura da cidade de Santos
implantou com grande polêmica um projeto de troca de
seringas.
Em linhas gerais, as medidas de redução de danos
se organizam em torno de medidas como as já mencio-
nadas trocas de seringas e assistência médica ao usuá-
rio, mas também podem englobar serviços interdiscipli-
nares de aconselhamento e acompanhamento dos indi-
víduos considerados como “estilos de vida arriscados”.
Equipes de psicólogos, assistentes sociais e médicos
interagem, em países como a Inglaterra, com o intuito

263
3
2003

declarado de evitar a estigmatização do consumidor de


drogas injetáveis e de auxiliá-lo a seguir saudável e pro-
dutivo. No Reino Unido é possível que pessoas
diagnosticadas pelo serviço médico estatal como depen-
dentes possam receber prescrições de heroína e cocaí-
na para que seu hábito seja controlado, tendo como
objetivo imediato evitar a morte por overdose e a conta-
minação pelo HIV e, no futuro, a abstinência. Para tan-
to, é preciso que o consumidor se inscreva no Serviço
de Dependência de Drogas, entrando num cadastro ge-
ral que se esforça para se distinguir dos bancos de da-
dos policiais.
Os programas de redução de danos são considera-
dos9 como táticas de “baixa exigência” em contraposição
aos projetos de “alta exigência”, que preconizam a abs-
tinência imediata do indivíduo tratado como dependen-
te químico. Posturas de “alta exigência”são as levadas a
cabo pelo governo dos Estados Unidos, que investem
na redução de demanda pelo tríptico caminho da re-
pressão ao uso, tratamento compulsório aos condena-
dos por porte de drogas e campanhas educacionais do
tipo “diga não às drogas”. Exemplo das iniciativas de
“conscientização de jovens”, citado por Weingardt &
Marlatt10, é o programa D.A.R.E. (Drug Abuse Resistence
Education), desenvolvido desde 1983 pela polícia de Los
Angeles e que leva policiais uniformizados para as sa-
las de aulas de 5a e 6a séries para aulas sobre os efeitos
das drogas ilícitas. Vale destacar que em inglês a sigla
que nomeia o projeto significa desafio, fato que diz mui-
to sobre o caráter da iniciativa: em aulas conduzidas
por policiais, os psicoativos ilegais são apresentados
como agentes de sedução e destruição pessoal e social,
“forças” a que se deve resistir. Importante lembrar que
em escolas brasileiras, quase vinte anos após a criação
do D.A.R.E. nos Estados Unidos, policiais militares pas-

264
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

sam a ministrar aulas com o mesmo teor do projeto pi-


oneiro, indicando a afinidade — apesar do atraso — das
políticas antidrogas brasileiras e estadunidenses11.
As táticas de “baixa exigência”, no entanto, buscam
atrair o usuário das drogas tidas como “pesadas” (hero-
ína, crack e cocaína, principalmente), tendo como arma
a promessa de uma acolhida respeitosa, distinta da po-
licial e não destinada diretamente contra seu hábito.
Como o princípio assumido pelos defensores da redu-
ção de danos é a impossibilidade em suprimir univer-
salmente o uso de substâncias psicoativas, “metas in-
termediárias”12 são estabelecidas visando a eliminação
dos problemas decorrentes da não-assistência aos usu-
ários criminalizados sob um regime proibicionista. As-
sim, admitindo o não abandono da heroína, é desejável
que o indivíduo tenha acesso a quotas não adulteradas
dessa droga, o que evita intoxicação e overdose. A ma-
nutenção do uso de heroína de boa qualidade deve ser
acompanhada pela troca regular de seringas, o que difi-
culta a transmissão de AIDS e outras doenças infecto-
contagiosas. Ao consumidor de heroína, pode ser ofere-
cido um ambiente seguro para o uso da droga (são as
salas de uso controlado instaladas em países como
Espanha, Alemanha e Austrália), no qual enfermeiros e
para-médicos estão de prontidão para socorrer o usuá-
rio em dificuldades. Havendo possibilidade, a heroína
injetável deve ser substituída por modalidades fumáveis
ou ministrada por via oral. Nos postos de atendimento,
as equipes multidisciplinares compõem um grande qua-
dro assistencial que procura dar ao consumidor desde
suporte psicológico e médico até auxílio para encontrar
empregos fixos. Por fim, se for vontade do habituado à
heroína, as equipes de saúde podem encaminhá-lo para
clínicas de desintoxicação. Assim, o objetivo final de um

265
3
2003

programa de redução de danos como os instaurados


desde dos anos 1980 é a abstinência.
Do mesmo modo que o uso de psicoativos é tido como
inevitável na vida social, a abstinência é vista como o
único meio completamente seguro de evitar danos ao
usuário e conseqüências percebidas como prejudiciais
para a comunidade. A aura que deve circundar as polí-
ticas de redução de danos deve ser, entretanto, a da
autonomia do consumidor e do respeito por seu hábito
e modo de vida. Segundo Marlatt, “a redução de danos
reconhece a abstinência como resultado ideal, mas acei-
ta alternativas que reduzam danos”13; postura que dife-
renciaria a redução de danos das políticas proibicio-
nistas para as quais “a única meta aceitável (...) é a abs-
tinência vitalícia”14. Uma vida de usos moderados não
significaria isolamento social ou padecimento físico para
o usuário, ainda que o ideal seja evitar qualquer consu-
mo de psicoativos.
Os defensores de posturas alternativas ao
proibicionismo estampado pelas diretrizes estadu-
nidenses parecem convergir para a constatação de que
a guerra às drogas significa não a erradicação do uso de
drogas psicoativas — meta inatingível — mas o
banimento dos consumidores dessas substâncias para
uma zona marginal, na qual os hábitos permanecem
em modalidades pouco saudáveis, pois clandestinas. Um
dos objetivos das políticas de redução de danos é trazer
o usuário à tona, inseri-lo na sociedade, acomodá-lo ao
normal. O consumidor pode ser identificado como um
usuário regular e estável — que mantém seu hábito e
pode viver ainda melhor com o auxílio das políticas de
redução de danos — ou como um usuário problema que,
com o respaldo dos serviços médicos e assistenciais de
um Estado que adote posturas reformistas, pode ser tra-
tado e recuperado. O uso de drogas tem potencialidade

266
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

para ser inócuo ou perigoso para o consumidor. Nesse


ponto, a ótica da redução de danos significa um grande
avanço com relação ao proibicionismo que só identifica
nas substâncias psicoativas conseqüências globais ne-
gativas. As drogas são, desse modo, vistas como com-
postos químicos com características próprias, mas que
em si não são más ou boas. O que torna uma droga (a
pharmakós dos gregos) inofensiva ou venenosa é o in-
tuito de quem a administra15. Contudo, a permanência
da percepção medicalizadora que identifica “consumi-
dores com vida desestruturada” (por desemprego,
marginalização, prostituição, etc.), ou qualquer outro
critério de anormalidade, aproxima a redução de danos
do proibicionismo levemente reformado, como o de Por-
tugal, que não mais penaliza os indivíduos flagrados
com pequenas porções de psicoativos, mas os encami-
nha para tratamento compulsório. A medicalização traz
consigo o deslocamento da criminalização mais direta
(encarceramento) para outras formas de controle e res-
trição de liberdade.
A crítica ao proibicionismo presente nos discursos
de redução de danos não implica necessariamente numa
defesa de posturas mais radicais no que se refere à si-
tuação legal das drogas. Conforme apontam Weingardt
& Marlatt, “a abordagem de redução de danos é compa-
tível com uma grande variedade de opções políticas que
se situam em um espectro entre a legalização total e a
proibição total”16. Por “legalização total” poder-se-ia su-
por uma situação na qual não houvesse controles go-
vernamentais sobre a produção, circulação, venda e
consumo de psicoativos, compondo um cenário de
desregulamentação ultra-liberal. Os autores, no entan-
to, fazem questão de salientar que tal grau de
liberalização não seria prudente devido à ausência de
controles públicos efetivos sobre o circuito comercial

267
3
2003

das drogas psicoativas. Em todo caso, “as intervenções


de redução de danos são compatíveis com todas as op-
ções de políticas de drogas, inclusive a proibição”17. Em
um ambiente proibicionista alguns movimentos são
possíveis, como a troca de seringas, mas as chances de
ampliação do auxílio aos consumidores de psicoativos
aumentam com a flexibilização das políticas antidrogas.
Assim, o terreno para a redução de danos é mais fértil
num país como a Holanda, em que há descriminalização
de facto18 do uso de psicoativos, do que nos Estados
Unidos ou Brasil.
A possibilidade de que táticas de redução de danos
coexistam com medidas de guerra às drogas expõe a nu
o fato de que, em seu conjunto, elas não ambicionam
mais do que reformulações dentro do regime
proibicionista. No “espectro legal” citado por Weingardt
& Marlatt19, a situação mais progressista tolerável é a
de uma legalização com forte controle estatal, na qual o
narcotráfico sucumbiria pela concorrência de um Esta-
do droguista que produzisse e vendesse psicoativos ou
que, ao menos, controlasse a comercialização em pon-
tos específicos de venda20. Os partidários da redução de
danos apuram-se em explicitar que sua preocupação é
minimizar o uso inevitável de drogas e não incentivar
seu consumo. Querem ser vistos como pragmáticos e
não apologistas.

O menos pior dos mundos


Assim como a perspectiva da redução de danos é crí-
tica ao proibicionismo, mas pode conviver com ele, pode-
se dizer que tal visão alternativa não implica numa per-
cepção positiva, ou mesmo isenta de juízos de valor, do
uso de drogas psicoativas. O consumo dessas substân-
cias é percebido como “inevitável”, o que não significa

268
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

“desejável”. Além do esforço para se distinguir dos de-


fensores de transformações mais radicais da situação
legal dos psicoativos, a perspectiva das políticas de re-
dução de danos se dá a partir de um ponto de vista
negativo: a preocupação está em minimizar prejuízos,
dada a impossibilidade de um mundo abstêmio. As es-
tratégias de implementação de políticas de redução de
danos investem em educação para a diminuição dos ris-
cos e em programas para suavizar seqüelas do uso de
drogas. A acusação vinda de proibicionistas de que a
redução de danos incita o uso de drogas (ou o sexo, no
caso da distribuição de preservativos) não procede; um
pouco distanciados da obtusidade, os conservadores
constatariam, ao menos, um certo grau de reprovação à
intoxicação.
O consumo de psicoativos não recebe incentivo dire-
to dos projetos de redução de danos que, focados na
questão da saúde pública, buscam intervir no que con-
sideram um problema social. O hábito de injetar heroí-
na ou consumir qualquer substância psicoativa, longe
de ser glamourizado, é tido como um desvio, uma anor-
malidade da conduta saudável. Estar ligado compulsi-
vamente a uma droga é considerado um “comportamento
aditivo” e tais padrões de comportamento “são respos-
tas mal-adaptadas ao enfrentamento de problemas e não
(uma) doença”21. Distanciado da abordagem que quali-
fica imediatamente o consumidor como “doente” — um
avanço com relação ao proibicionismo — a afirmação
do psicólogo estadunidense transita na fronteira que
separa a patologização da não-patologização do uso de
drogas, mas não a transpõe. Adiante em seu artigo,
Marlatt afirma que as políticas de redução de danos são
alternativas de “promoção de saúde aos problemas de
estilo de vida”22. O hábito é uma opção do indivíduo e
ele não pode ser obrigado a deixá-lo, no entanto, sua

269
3
2003

prática é desviante e pode causar-lhe mal, ou ainda,


pode vir a prejudicar outros indivíduos, o universo fora
de si, a sociedade.
A fatalidade do uso parece ser constatação dolorosa
que coloca em marcha um tipo de cálculo muito especí-
fico, uma matemática dos prejuízos, uma lógica dos
danos. Em seu clássico escrito de 1859, Sobre a Liber-
dade, John Stuart Mill desenvolve, entre outros pon-
tos, a discussão sobre os limites de intervenção da so-
ciedade sobre a conduta individual. O liberal fia-se na
idéia de que a sacrossanta esfera da liberdade individu-
al não pode ser alvo de reprimendas ou ingerências
indiscriminadas do Estado ou de outros indivíduos. O
espaço reservado ao autogoverno deveria ser mantido a
todo custo, uma vez que os interesses individuais são
mais preciosos do que os abstratos interesses sociais.
O primado liberal da autonomia individual não poderia,
assim, ser subjugado em nome do bem-estar coletivo.
Para Stuart Mill, as pequenas vilanias de um indivíduo,
seus hábitos privados imorais, seus “defeitos pessoais”
podem causar repulsa, mas não justificam punição.
Aquela pessoa que “não possa viver com moderação,
que não consiga se refrear de deleites perniciosos, que
busque prazeres animais às expensas dos que possu-
em sentimento e intelecto, deve esperar ser rebaixada
na opinião alheia, e ter um quinhão menor de seus sen-
timentos favoráveis”23. Trata-se, assim, de uma repro-
vação moral que pode implicar em isolamento social,
mas nunca em sanções pela lei.
Quando o ato privado extrapola seus limites? As bar-
reiras ao livre exercício do autogoverno são burladas no
momento em que o ato pernicioso de alguém atinge um
outro indivíduo. Afirma Stuart Mill que se “as danosas
conseqüências de seus atos não recaem sobre ela mes-
ma [a pessoa autora desses atos], mas sobre outros, é

270
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

preciso que a sociedade, como protetora de todos os


seus membros, exerça represália sobre o infrator”24. O
Estado e a força da lei devem ser convocados para res-
taurar a ordem e restituir os direitos usurpados pelo
exercício desmesurado da liberdade a que se entregou
um dos indivíduos da comunidade. A fórmula que esta-
belece os limites e a justeza de uma intervenção da so-
ciedade sobre o indivíduo pode ser sintetizada como a
pergunta: sobre quem recaem os danos? Se o autor dos
atos é o único prejudicado, não há justificativas para a
intromissão social; se outro indivíduo termina por ser
ferido em seus direitos, então o maquinário para
reconstituição da normalidade deve ser acionado.
Uma lógica dos prejuízos infligidos muito similar apa-
rece nos discursos sobre redução de danos quando os
autores mencionados neste artigo defendem a postura
alternativa como modo de enfrentar o tema do consu-
mo de drogas ilícitas. Como para os liberais clássicos a
existência do Estado era um mal necessário para ga-
rantir os direitos civis e a propriedade privada, os de-
fensores da política de redução de danos assumem suas
políticas alternativas como resposta à “existência infe-
liz” do hábito de se intoxicar. Diante do incontornável,
deve-se minimizar o sofrimento individual e social. No
raciocínio da redução de danos, a manutenção de usu-
ários de drogas injetáveis pelo controle de pureza das
substâncias inoculadas e pela troca de seringas é um
mal muito menor do que deixá-los desamparados, con-
taminando e contaminados pelo vírus da AIDS. Tratar
os consumidores como cidadãos plenos é menos preju-
dicial para os próprios e para a sociedade do que julgá-
los como criminosos. O fornecimento de substâncias
psicoativas ilegais por médicos credenciados é mais
saudável e seguro ao consumidor (pelas garantias de
pureza e acompanhamento profissional) e para a socie-

271
3
2003

dade (desarticulação, ainda que parcial, do narcotráfico)


do que lançar os usuários no circuito da marginalização.
A abstinência solveria o problema, no entanto, não há
como se contar com sua conquista universal.
A medição do dano social e individual surge, talvez,
sem a marca punitiva explícita do pensamento liberal;
entretanto, os instrumentos de controle não se apagam
numa situação mais flexível com relação às drogas ile-
gais (tendo sempre como referência o proibicionismo).
Apesar dos programas de redução de danos serem con-
siderados de “baixa exigência” por não impingir o aban-
dono do hábito pela internação compulsória, a criação
de pré-requisitos como a inscrição nos serviços de saú-
de ou a relação próxima com os funcionários desse apa-
rato estatal criam outros circuitos de registro e catalo-
gação dos indivíduos e seus hábitos. Em países euro-
peus como a Inglaterra e a Alemanha, que criaram ainda
no século XIX estruturas complexas de registro dos vi-
vos e de manutenção dos corpos produtivos, como apre-
sentou Michel Foucault25, não parece coincidência que
as políticas de redução de danos possam encontrar es-
paço em meio às posturas proibicionistas. No conjunto
de técnicas de controle social não existem apenas
vetores coercitivos. O investimento na saúde instaura
outras modalidades de intervenção positiva; contar os
mortos e os vivos e trazer a população com suas
especificidades para o campo da normalidade são téc-
nicas de governo não desprezadas pelos Estados oci-
dentais. O Estado julga, por vezes mata legalmente, mas
também permite que se viva. Por meio do proibicionismo
o acesso que o Estado tem sobre o consumidor é pela
via repressiva; num ambiente no qual transitem postu-
ras reformistas de redução de danos, o Estado mantém
contato com o consumidor pela via assistencial. Em ter-
mos de controle, muda-se o instrumento de acesso, mas

272
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

ele permanece. É preciso afirmar que as estratégias de


redução de danos abrem brechas importantes no
proibicionismo, abalando abordagens criminalizadoras
e punitivas ao produzir um pequeno ruído nas diretri-
zes da guerra às drogas. No entanto, as políticas de re-
dução de danos demonstram uma grande fé na capaci-
dade assistencialista do Estado, denotando suas pro-
cedências social-democratas e que sugerem uma
nostalgia do Estado de Bem-Estar Social e seu potenci-
al de intervenção saneadora. Essa crença, todavia, não
torna possível perceber que há controle também onde
se promove a saúde e se combate as pestes26.
Levada a seus limites, a ótica da redução de danos
pode sugerir questões interessantes como a da prima-
zia do indivíduo em decidir sobre si e seu hábito ou
sobre a capacidade de regulação local das práticas de
intoxicação, sem que haja a necessidade de leis ou cri-
térios universais e homogêneos a pautar condutas en-
tre os indivíduos e as substâncias psicoativas27. Abrem-
se possibilidades de pensar que a localidade, o convívio
direto, a vida do consumidor e os seus relacionamentos
sejam espaços de uma regulação não imposta, mas acor-
dada na particularidade de cada existência. O argumento
histórico de que a relação dos homens com os psicoativos
é milenar e que não provocou a implosão das socieda-
des — premissa levantada pela redução de danos — deve
ser lembrada aqui como uma chamada para refletir so-
bre as intencionalidades políticas da Proibição e a uni-
versalidade da Lei. O campo se fertiliza, então, para li-
berações que forcem a barreira da lógica da padroniza-
ção e criminalização de condutas, abrindo espaços para
o governo de si. Não o governo de si ensimesmado dos
liberais, lembrados aqui via Stuart Mill, mas uma con-
dução da própria existência que se dê na relação com o

273
3
2003

outro e que prescinda de controles ou apaziguamentos


assistenciais.
As propostas e programas de redução de danos ex-
pressam uma vontade: minimizar o sofrimento e tratar
com humanidade os usuários de drogas. Ainda que essa
postura seja um passo além em tempos de
proibicionismo visceral, cabe aos seus partidários um
pouco de surpresa, de desconcerto, de instabilização.
Em 1922, Errico Malatesta aconselhava a liberação da
venda de cocaína — numa proposta que agradaria os
defensores da redução de danos —, baseando sua pro-
posição no fato de que o acesso à cocaína diminuiria os
problemas sociais ainda que não impedisse o “uso no-
civo”, pois “as causas sociais que criam a infelicidade”
jamais desaparecerão. Vibrando em freqüência afim,
Antonin Artaud bradava em seu texto “Segurança Pú-
blica: a liquidação do ópio” que a proibição desta droga
não suprimiria os usos “absolutamente desesperados”.
Que “os perdidos se percam”, provoca o poeta. Eles são
poucos e não podem ser contidos, pois se decidiram.
Em todo caso, não justificam a Proibição e esta não abole
a infelicidade. Como contabilizar, em lógicas e cálculos
de danos, o incomensurável?

Notas
1
Edson Passetti. Das fumeries ao narcotráfico. São Paulo, EDUC, 1991.
2
John Marks. “Dosagem de manutenção de heroína e cocaína” in Maurides
Ribeiro & Sérgio Seibel (orgs.). Drogas: hegemonia do cinismo. São Paulo, Memorial
da América Latina, 1997.
3
G. Alan Marlatt. “Redução de danos no mundo: uma breve história” in G.
Alan Marlatt (e cols.). Redução de danos: estratégias práticas para lidar com comportamen-
tos de alto risco. Porto Alegre, Artmed, 1999.

274
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

4
Edward MacRae. Redução de danos para cannabis e alucinógenos. Apresentação rea-
lizada no Seminário Nacional de Redução de Danos. São Paulo, novembro de
2002, [mimeo].
5
Peter Lurie. “Redução de danos: a experiência norte-americana” in Maurides
Ribeiro e Sérgio Seibel (orgs.), op. cit.
6
Edward MacRae, op. cit., 2002, p. 01.
7
Idem.
8
A eficiência da metadona no tratamento de heroinômanos é contestada no
meio médico devido ao alto grau aditivo atribuído à droga. Questiona-se se a
aplicação de metadona simplesmente não substituiria um hábito por outro;
com a diferença de que a produção comercial da metadona envolve maiores
interesses da indústria farmacêutica do que a banida produção de heroína. Essa
mesma indústria defende a eficiência da substância nos processos de
desintoxicação. Antonio Escohotado. O livro das drogas. São Paulo, Dymanis
Editorial, 1997 e John Marks. “Dosagem de manutenção de heroína e cocaína”
in Maurides Ribeiro & Sérgio Seibel (orgs.). Drogas: hegemonia do cinismo. São
Paulo, Memorial da América Latina, 1997.
9
G. Alan Marlatt. “Princípios básicos e estratégias de redução de danos” in G.
Alan Marlatt, op. cit.
10
G. Alan Marlatt & Kenneth Wingardt. “Redução de danos e políticas públi-
cas” in G. Alan Marlatt, op. cit.
11
Guilherme Corrêa. “Escola-droga” in Verve. São Paulo, Nu-sol/PUC-SP, no
1, 2002, pp. 165-181.
12
G. Alan Marlatt. “Redução de danos no mundo: uma breve história” in G.
Alan Marlatt (e cols.), op. cit.
13
idem, p. 46.
14
Ibidem.
15
Antonio Escohotado. O livro das drogas. São Paulo, Dymanis Editorial, 1997.
16
G. Alan Marlatt & Kenneth Wingardt. “Redução de danos e políticas públi-
cas” in G. Alan Marlatt, op. cit. p. 257.
17
Idem, p. 258.
18
Na Holanda, o proibicionismo mais tradicional (aquele afinado às diretrizes
internacionais e estadunidenses) vigorou até meados da década de 1970. Em
1976, foi aprovada a Lei Holandesa do Ópio, que diferenciava drogas psicoativas
que produziam efeitos toleráveis (haxixe, maconha) e as que não (heroína, co-
caína, LSD, anfetaminas). Nos anos oitenta, as mudanças ocorridas no sentido
da aplicação de medidas de redução de danos para consumidores de heroína
assinalou um novo percurso que, todavia, não implicava na reformulação das
leis específicas de drogas. Em 1996, em resposta às pressões dos Estados Uni-

275
3
2003

dos e de vizinhos europeus (que visavam coibir viagens de “turismo das dro-
gas” à Holanda), os Países Baixos limitaram a venda de maconha e haxixe nos
coffee shops (estabelecimentos com autorização para vender esses psicoativos)
das antigas 30g para 05g por pessoa. Aos holandeses ficou permitido o cultivo
de até 10 pés de maconha por indivíduo cultivador. Essas medidas denotam a
preocupação do Estado holandês em restringir a produção e venda de maco-
nha e haxixe em níveis mínimos para consumo pessoal. Dessa maneira, perce-
be-se que a Holanda não é um país tão permissivo quanto o senso comum
sobre a questão das drogas ilegais ou as diretrizes proibicionistas internacio-
nais pode considerar.
19
G. Alan Marlatt & Kenneth Wingardt, op. cit.
20
John Marks, op. cit.
21
G. Alan Marlatt. “Redução de danos no mundo: uma breve história” in G.
Alan Marlatt (e cols.), op. cit., p. 50.
22
Idem, p. 51.
23
John Stuart Mill. A Liberdade e Utilitarismo. São Paulo, Martins Fontes, 2000,
pp. 119-120.
24
Idem, p. 122.
25
Michel Foucault. “O nascimento da medicina social” in Microfísica do poder,
Rio de Janeiro, Graal, 1998.
26
Salete Oliveira. Política e Peste: Crueldade, Plano Beveridge, Abolicionismo Penal. São
Paulo, Tese de Doutorado em Ciências Sociais — PUC/SP, 2001.
27
Edward MacRae & Júlio Simões. Rodas de Fumo — O uso da maconha entre cama-
das médias urbanas. Salvador, EDUFBA, 2000.

276
verve
Política das drogas e a lógica dos danos

RESUMO

A política de guerra às drogas recebe críticas diante da impro-


vável erradicação do hábito de consumir substâncias
psicoativas. Este artigo busca tecer uma breve apresentação
das políticas de redução danos que foram formuladas como
alternativa à abordagem proibicionista da questão dos
psicoativos, mostrando os avanços estratégicos e seus limites
quando confrontadas à postura da liberação.

ABSTRACT

A política de guerra às drogas recebe críticas diante da impro-


vável erradicação do hábito de consumir substâncias
psicoativas. Este artigo busca tecer uma breve apresentação
das políticas de redução danos que foram formuladas como
alternativa à abordagem proibicionista da questão dos
psicoativos, mostrando os avanços estratégicos e seus limites
quando confrontadas à postura da liberação.

277
3
2003

o mundo do terror e da insegurança

josé maria carvalho ferreira*

Manifestamente a nossa tragédia biológica e social


no contexto da evolução do Estado e do capitalismo não
tem limites. Demonstrando-se incapazes de legitimar
as suas funções de regulação e controle da dominação
e da exploração pelas vias normativas clássicas, a úni-
ca solução que prolifera envolve a produção do terror e
da segurança junto a uma espécie humana atomizada e
desesperada, cujo sentido histórico caminha a passos
largos para a sua extinção.
A dimensão geográfica e territorial dessa tendência
não se resume às fronteiras político-administrativas da
Europa. Apesar dos diferentes desenvolvimentos e per-
versões provocadas pelo capitalismo à escala mundial,
todos os continentes, sem exceção, estão articulados
entre si através da mesma tragédia e exprimem a mes-
ma realidade negativa: 1) destruição avassaladora do
equilíbrio ecossistêmico; 2) guerras regionais e nacio-
nais e guerras civis entre indivíduos e grupos da socie-

* Professor no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Téc-


nica de Lisboa e editor da revista Utopia.
verve, 3: 278-295, 2003

278
verve
O mundo do terror e da insegurança

dade civil; 3) aumento galopante dos processos migra-


tórios locais, regionais, nacionais e continentais indu-
zidos pelas calamidades naturais, guerras, desempre-
go, precarização da vinculação contratual do trabalho
assalariado, exclusão social, indigência, pobreza, cri-
me, droga e violência, que afetam sobremaneira os mais
vulneráveis e os oprimidos, mas também todos os indi-
víduos que sofrem as vicissitudes da alienação e outros
que se aproveitam das perversões resultantes desse
processo; 4) crescente padronização espaço-temporal da
racionalidade instrumental do capitalismo no sentido
da estruturação de uma nova ordem econômica, social,
política e cultural.
Perdidos e anestesiados por mecanismos de
regulação assentes no poder do mercado, do Estado e
dos mass media, para o cidadão comum o que mais in-
flui na sua percepção cotidiana são as imagens e as
consequências mortíferas e violentas de um terror ge-
neralizado e normalizado dos exércitos e das polícias
dos diferentes Estados e organizações transnacionais
(ONU, OSCE; NATO). Impotentes para explicar fenôme-
nos que há algumas décadas eram considerados
impensáveis em termos de direitos humanos, emergem
novos maniqueísmos civilizacionais atravessados por
integrismos religiosos e nacionalismos atávicos. No caso
específico da defesa da civilização ocidental, face ao
perigo iminente da implementação de civilizações “bár-
baras e retrógadas”, os argumentos teóricos e práticos
mais em voga desenvolvem-se na produção de pulsões
de morte em detrimento das pulsões de vida. A produ-
ção do terror e da segurança pela via das armas e das
prisões é a arma escolhida pela civilização ocidental.
Os fins justificam uma imensidão de meios de terror e
de segurança utilizados e a utilizar. Em nome da luta
contra um terror islâmico que nasceu das entranhas da

279
3
2003

racionalidade instrumental do capitalismo e com o qual


este se vivificou e sempre pactuou, surgem agora limi-
tações e contradições inesperadas para a civilização
ocidental. Para o Estado e os senhores do capital, os
terroristas não são somente aqueles que protagonizaram
o ataque ao World Trade Center, em Nova Iorque, no dia
11 de Setembro de 2002, mas são sobretudo todos aque-
les que subjetivamente e objetivamente não se vergam
perante a grande mistificação e manipulação simbólica
do poder instituído, cuja função ideológica primacial
consiste em realizar uma anestesia sistemática e pro-
funda da nossa memória histórica, que há séculos pug-
na pela emancipação social. Por isso, em nome de um
emprego que mata e embrutece e nos transforma em
meros produtores e consumidores de mercadorias, em
nome de uma “guerra santa” comandada pelos interes-
ses estratégicos das transnacionais do petróleo, do
material de guerra e da finança, cada um de nós é cons-
trangido a tornar-se um indivíduo que luta por um em-
prego e um salário de forma desenfreada, seja em fábri-
cas que caminham para a falência, seja, na melhor das
hipóteses, integrando os contingentes militares e poli-
ciais, que tendem a aumentar exponencialmente.
Para compreender a natureza da luta contra o terror
islâmico e os potenciais terroristas de todo o mundo e a
insegurança que os diferentes Estados e o capitalismo
propagam a nível mundial é preciso saber, primeiro,
onde está a sua origem e, depois, perceber os contor-
nos dos seus efeitos negativos. Deste modo, importa
sobremaneira refletir sobre as características da
racionalidade instrumental do capitalismo associados
ao advento das tecnologias da informação e da comuni-
cação e, por outro lado, à crescente integração da ciên-
cia e da técnica no domínio das atividades econômicas
correlacionadas com a produção, distribuição, troca e

280
verve
O mundo do terror e da insegurança

consumo de bens e serviços. Em segundo lugar, é crucial


explicar as mudanças profundas que estão ocorrendo
na organização do trabalho e a crise de regulação da
sociedade civil pelo Estado e pelo mercado, em presen-
ça das contingências resultantes das mudanças econô-
micas, sociais, políticas e culturais provocadas pela atual
fase da globalização. Por último, interessa sobremanei-
ra discernir sobre os conteúdos e as formas do desvio,
do crime e da violência que geram a exclusão social e a
marginalidade social e, consequentemente, as modali-
dades de terror e de segurança do capitalismo contem-
porâneo e do Estado transnacional em formação para
controlar e integrar os múltiplos desviantes na lógica
da sua estabilidade normativa.

1. Racionalidade instrumental do capitalismo, no-


vas tecnologias e mundo do trabalho
Muitas das críticas que habitualmente se fazem ao
Estado e ao capitalismo têm origem em modelos
interpretativos e explicativos com referências exclusi-
vas às contradições e antagonismos gerados pela domi-
nação e a exploração.
Não obstante esta análise continue sendo válida, na
minha opinião, há que compreender as outras razões
que estão na base da identidade e da conformidade dos
oprimidos e explorados em relação à reprodução da
legitimação do Estado e do capitalismo. Para este efei-
to, é necessário perceber os contornos de regulação e
de estruturação da racionalidade instrumental do capi-
talismo, realidade que, pelo seu caráter abstrato e uni-
versal, é exterior à vontade dos milhares de milhões de
trabalhadores assalariados e, inclusive, dos milhares
de milhões de acionistas que controlam e vivem do ca-
pital. É uma racionalidade que ao transformar o ser

281
3
2003

humano em objeto de produção, de distribuição, de troca


e consumo de bens e serviços, torna-o imperativamen-
te em objeto de maximização de lucro que, posterior-
mente, é objeto de socialização e apropriação
diversificada de uma multidão de pequenos e grandes
acionistas do capital, cuja essência é cada vez mais abs-
trata e cujo rosto se torna cada vez mais difícil discernir.
O trabalhador assalariado, ao transformar-se num
mero objeto de uma racionalidade que lhe escapa e não
pode controlar, foi, é e só poderá ser objeto de aperfei-
çoamento sistemático de produção de mercadorias e de
lucro. Com a crescente integração da ciência e da técni-
ca promovidas pela evolução da racionalidade instru-
mental do capitalismo, a sua capacidade produtiva de
mercadorias e de lucro aumentou inexoravelmente.
As novas tecnologias são a expressão mais genuína
dessa evolução. De fato, se tivermos presente o impac-
to das novas tecnologias nos domínios da socialização
da informação e da comunicação no contexto da orga-
nização do trabalho, facilmente nos apercebemos das
grandes mudanças que vêm sendo progressivamente
desenvolvidas no mundo do trabalho. Fazendo parte de
um processo contínuo de crescente integração da ciên-
cia e da técnica, as novas tecnologias observáveis so-
bremaneira na informática, na micro-eletrônica, na
telemática, na robótica e na biotecnologia, são funda-
mentalmente um processo de automatização dos ges-
tos, movimentos, pausas e tempos que antes estavam
confinados à execução de tarefas e funções adstritas ao
fator de produção-trabalho. É um processo secular que
começou a ser visível no tempo histórico da contesta-
ção ludita no século XIX na Inglaterra e que hoje atinge
paroxismos inauditos no mundo do trabalho contem-
porâneo. Um denominador comum atravessa a crescente
integração da ciência e da técnica na organização do

282
verve
O mundo do terror e da insegurança

trabalho: a deslocação e integração progressiva de gran-


de parte da energia, da informação e do conhecimento,
que antes estava corporizado no “saber-fazer” do opera-
riado clássico, nos mecanismos automáticos das novas
tecnologias, no fundo, tudo o que personificava a perí-
cia, competências e qualificações decorrentes das pro-
fissões e constrangimentos estruturais e funcionais da
divisão do trabalho, da autoridade hierárquica, do pro-
cesso de decisão e do processo de liderança que
corporizam o processo de produção de bens e serviços.
As consequências desta evolução são cada vez mais
evidentes na vida cotidiana do mundo do trabalho. De
uma forma sistemática e profunda, nunca como agora
as transnacionais e as multinacionais do capitalismo
desenvolvido puderam padronizar num espaço-tempo
universal o mesmo modelo de novas tecnologias e de
organização do trabalho. Os efeitos da globalização em
curso são francamente visíveis na produção, distribui-
ção, troca e consumo dos mesmos bens e serviços no
âmbito do planeta Terra, na deslocalização de capitais,
investimentos, fusões, concentrações de capital atra-
vés de um sistema financeiro abstrato e sem rosto, a
partir do qual redes sociais aproximam o tempo real do
tempo virtual e permitem a interação e a conexão entre
milhares de milhões de trabalhadores assalariados com
diferentes qualificações e competências, com diferen-
tes salários e com diferentes tipos de contratos de tra-
balho.
É evidente que, nestas circunstâncias, assiste-se a
uma potenciação generalizada da valorização do capital
à escala mundial, ao mesmo tempo que são reforçados
os mecanismos de concorrência e de competição no
mundo do trabalho assalariado. Os processos de toma-
da de decisão tornam-se, por tais motivos, mais abstra-
tos e as hipóteses de participação dos trabalhadores

283
3
2003

assalariados são cada vez mais irrelevantes. A desigual-


dade social acentua-se, ao mesmo tempo que a mobili-
dade social na escala de estratificação social evolui no
sentido descendente.
Mantendo-se os fatores estruturantes da racionali-
dade instrumental do capitalismo, a tendência é para
aumentar a dualização e a crescente estratificação e
desigualdade no seio do mundo do trabalho. A correla-
ção existente entre as novas tecnologias e a organiza-
ção do trabalho determinará, em primeiro lugar, que
uma grande parte dos trabalhadores assalariados se-
jam despedidos e que uma parte dos jovens ou outros
grupos sociais que pretendem trabalhar como assalari-
ados nunca o possam fazer. Esta dualização nos diz que
hoje e amanhã a tendência é para que poucos tenham a
hipótese de ter um emprego e que outros engrossam a
multidão de desempregados já existentes. Em segundo
lugar, todos aqueles que foram suficientemente qualifi-
cados e que estiverem na base da concepção, da pro-
gramação, controle e manutenção das novas tecnologias
terão as competências requeridas para usufruírem de
salários altos e, se forem suficientemente competitivos
e actualizarem as suas competências e qualificações,
terão chances de obter alguma estabilidade na sua
vinculação contratual no mercado de trabalho. Toda-
via, todos aqueles que possuírem pouca ou nenhuma
qualificação, que não sejam suficientemente competiti-
vos, que não adquiram a formação e a reciclagem pro-
fissional exigidas para adquirirem as competências ade-
quadas para se tornarem vigilantes ou apêndices funci-
onais das novas tecnologias, mergulharão no
desemprego ou tenderão a usufruir de salários baixos e
de uma vinculação contratual precária no mercado de
trabalho. Em terceiro lugar, todos aqueles que, efetiva-
mente, conseguirem adaptar-se de forma competitiva,

284
verve
O mundo do terror e da insegurança

flexível e polivalente aos constrangimentos estruturais


e funcionais das qualificações e competências exigidas
pela racionalidade instrumental do capitalismo, para
além de usufruírem de salários altos e de alguma esta-
bilidade na sua vinculação contratual, serão os produ-
tores de uma subjetividade, cujo sentido e orientação
se identifica com a ordem social e a ordem econômica
vigente. Os outros milhares de milhões, ao manter-se a
sua situação de desempregados, de desqualificados, de
salários baixos e de precariedade na vinculação
contratual, são constrangidos a evoluir para uma situ-
ação de exclusão social, de pobreza ou de indigência, o
que manifestamente os induz a uma produção de senti-
do desviante contrária aos desígnios normativos da or-
dem social e da ordem econômica subsistente. Por ou-
tro lado, o sentido da subjetividade que gera objetiva-
mente a pobreza, a miséria, o crime, a violência e a droga
que não é enquadrável nos mecanismos de regulação e
de controle do Estado e do mercado normativo, produz
sobremaneira uma economia subterrânea ou informal
que não pára de crescer e que induz necessariamente à
emergência de um Estado e de um mercado com carac-
terísticas ilegais e informais.
Um denominador comum atravessa o mundo do tra-
balho assalariado: contradições e limites que indiciam
a sua insustentabilidade histórica. Na verdade, o traba-
lho assalariado atingiu um paroxismo inaudito. O ho-
mem, ao transformar-se na negação da sua própria es-
sência biológica e social, caminha a passos largos para
a sua própria destruição. A tragédia tanto se passa na
condição de empregado como na de desempregado. A
alienação capitalista restringiu a condição humana e o
seu destino individual ao emprego assalariado. Quan-
do esta finalidade imperativa não é consumada, acen-
tua-se a sua dependência das caridades do Estado-pa-

285
3
2003

drinho, tendo como quadro de vida a absoluta


monetarização das relações sociais, e por isso, sem sa-
lário, apenas lhes resta a miséria, a submissão e a de-
sumanidade. Os recentes episódios de encerramento de
unidades industriais de multinacionais em Portugal, ao
arrepio das leis e dos acordos estabelecidos com os go-
vernos é demonstrativo da erosão do contrato social que
envolve o capital e o trabalho assalariado.
É por demais evidente que as tipologias desviantes
são muito diferentes entre países capitalistas desen-
volvidos e países capitalistas pouco desenvolvidos. O
mesmo se poderá afirmar em relação aos níveis de de-
senvolvimento diferenciados, comparando continentes,
nacionalidades, regiões e localidades do planeta Terra.
Na estrita medida em que a padronização espaço-tem-
poral da produção, distribuição, troca e consumo de
bens e serviços ainda não atingiu o mesmo grau de sis-
tematização e de intensidade no quadro da racionalidade
instrumental do capitalismo, não admira que em vez de
um único modelo padrão de novas tecnologias e de or-
ganização do trabalho assumam-se as lógicas de
deslocalização e territorialização do capital à escala
mundial. Face a essa incapacidade relativa, são as pró-
prias massas trabalhadoras esfomeadas e empobrecidas
pelas calamidades naturais, guerras nacionais e regio-
nais e conflitos religiosos, que são constrangidas a emi-
grar para outros continentes, países ou regiões que ain-
da têm capacidade de integrar trabalho assalariado nas
suas economias específicas.
Quando escrevemos ou falamos sobre a espiral do
terror e esquemas de segurança cada vez mais sofisti-
cados, estamos, logicamente, pensando na ação do Es-
tado-Nação clássico e de organizações transnacionais
mais visíveis (ONU, OMC, UE, NAFTA, NATO, Banco
Mundial, Grupo dos 8, etc.) contra a emergência de ter-

286
verve
O mundo do terror e da insegurança

rorismos religiosos desviantes que manifestamente de-


rivam das perversões da implementação da raciona-
lidade instrumental do capitalismo à escala mundial.
Mas se correlacionamos outras formas de terrorismo e
implementação de esquemas de segurança contra os
imigrantes e os trabalhadores assalariados que traba-
lham nas fábricas e nos hipermercados, nas escolas e
nos hospitais, nos cafés e nos transportes, etc., facil-
mente nos apercebemos de um outro tipo de terror,
cujo caráter objetivo e subjectivo está sendo desenvol-
vidos por um big brother mundial assente no poder das
armas e da vigilância de milhares de câmaras de televi-
são; de vigilância e controle que entram subrepticia-
mente nas nossas casas, nos locais de trabalho, nos
locais públicos, com a finalidade de incutir nas nossas
mentes que todos somos potenciais terroristas e que se
não formos obedientes e submissos em relação ao po-
der simbólico dos mass media, dos senhores da guerra,
da finança, da droga e do petróleo, não poderemos so-
breviver enquanto seres humanos. Por outro lado, for-
çam-nos, ainda, a aceitar passivamente as modalida-
des de concorrência e de competição impostas pela guer-
ra civil existente entre trabalhadores assalariados, por
forma a sermos efetivamente polivalentes, flexíveis e
atores da empregabilidade. Esta guerra é fratricida por-
que ela transforma o homem lobo do homem e porque
atravessa profundamente o mundo do trabalho. É uma
forma sofisticada de uma guerra civil individualizada,
na qual apenas a lei do mais forte impera.
Por ironia do destino, a grande massa de desviantes
tem a sua origem nos milhares de milhões de desem-
pregados e pobres que não podem ser trabalhadores
assalariados, nem produtores e consumidores de bens
e serviços no contexto da racionalidade instrumental
do capitalismo. Uma das decisões mais em voga do Es-

287
3
2003

tado-Nação ou das organizações internacionais tende a


corporizar-se na generalização de uma esquadra da po-
lícia em cada rua, de um hospital psiquiátrico em cada
bairro e de um exército com capacidade de intervenção
à escala local, regional, nacional e mundial. Nestes do-
mínios, efetivamente, não existem problemas de desem-
prego e, provavelmente, só com a expansão inaudita
deste tipo de terror e de segurança capitalista e estatal
se poderão controlar e integrar os desviantes no senti-
do da estabilidade normativa.

2. Globalização: o desenvolvimento desigual das or-


dens econômica, social, política e cultural
Com base nas tendências já referidas em termos da
evolução da racionalidade instrumental do capitalismo
e nos fatores substantivos que são a sua essência bási-
ca — novas tecnologias e organização do trabalho —
depreende-se que a globalização é fundamentalmente
veiculada pela construção de uma ordem econômica.
Todavia, com base nas contradições e conflitos gerados
por esta ordem econômica, verifica-se que a evolução
das ordens política, social e cultural não se identifica
com as necessidades estruturais e institucionais da
racionalidade instrumental do capitalismo.
No que concerne à ordem política, as modalidades
de governação do Estado-Nação em termos executivos,
legislativos e jurídicos estão desadaptadas das necessi-
dades do controle e da regulação das atividades econô-
micas que decorrem da expansão geográfica e territorial
das multinacionais e das transnacionais a nível mundi-
al. A governação política do Estado-Nação está
desajustada em relação aos requisitos institucionais e
estruturais que a nova ordem econômica mundial exi-
ge, na estrita medida em que a sua capacidade de con-

288
verve
O mundo do terror e da insegurança

trole e regulação territorial e político-administrativa


revela-se inconseqüente face à força do poder econômi-
co e financeiro das multinacionais e das transnacionais.
As guerras de caráter regional ou nacional, embora
correspondam a uma luta pela formação de novos Esta-
dos e à reconfiguração político-administrativa e
territorial dos Estados já existentes, por outro lado ex-
primem sobremaneira a estrutura de uma nova confi-
guração política mundial que se adapte de forma efici-
ente à ordem econômica em curso. Em termos geográfi-
cos, a centralidade territorial do processo de
configuração de uma nova ordem política está sediada
no modelo hegemônico dos EUA, porque este país tem
a força militar mais representativa para impor uma
governação política baseada nos princípios e práticas
da democracia representativa. As atuais guerras e as
suas expressões diversificadas em fenômenos terroris-
tas são determinadas por interesses econômicos e fi-
nanceiros, mas em última instância têm como grande
objetivo estratégico a implementação de um sistema
político incrustado por uma governação legislativa, ju-
rídica e executiva de cariz totalitário.
Pela natureza das tendências em curso já analisa-
das podemos opinar no sentido da persistência de defa-
sagens entre a ordem econômica e a ordem política. To-
davia, essas defasagens são menores do que aqueles
que subsistem entre a ordem econômica e a ordem so-
cial. No quadro da evolução da racionalidade instrumen-
tal do capitalismo já detectamos fenômenos sociais cuja
pertinência e perversões societais não podem ser omiti-
das, nomeadamente se tivermos presente a sua dimen-
são qualitativa e quantitativa em termos de desvio soci-
al consubstanciado em desemprego, pobreza, miséria,
crime, violência e droga. São problemas desviantes de
caráter estrutural e institucional que tendem a desen-

289
3
2003

volver-se, não podendo, por via disso, ser tratados como


meros fenômenos casuísticos que podem ser supera-
dos pela guerra, pela fome e a indigência, pela
contratação generalizada de mais polícias e militares, e
a construção desenfreada de prisões e hospitais psiqui-
átricos ou, ainda, pura e simplesmente, deixar morrer
indiscriminadamente de fome uma parte substancial da
espécie humana através de calamidades e catástrofes
naturais.
A criação de redes transnacionais de controle e re-
pressão dos desviantes pode diminuir a ação do famige-
rado terrorismo internacional protagonizado pelo inte-
grismo religioso, mas não pode controlar e reprimir to-
dos os potenciais “terroristas” que já mergulharam ou
mergulharão no desemprego, na indigência ou na po-
breza, porque já não têm emprego ou não podem traba-
lhar como assalariados no quadro da racionalidade ins-
trumental do capitalismo.
Neste sentido, não se entende nem se compreende
como é que a UE e os EUA se transformaram em ilhas
de um capitalismo desenvolvido, quando fecham as suas
fronteiras e reprimem de uma forma selvática os pro-
cessos migratórios de uma multidão de esfomeados e
empobrecidos, cuja única hipótese de sobrevivência é
transformarem-se em objetos de produção, de distri-
buição, de troca e de consumo de mercadorias. Seria
lógico tornar todos os imigrantes em escravos moder-
nos da nova ordem econômica. Todavia, não é isso que
ocorre. Em vez de serem integrados na lógica normativa
da racionalidade instrumental do capitalismo são obje-
to de esquemas de segurança próprios das sociedades
escravistas de antanho e, na pior das hipóteses, pela
cor da sua pele e tamanho da sua barba, pura e sim-
plesmente, tornam-se potenciais terroristas. Não é de
admirar que perante este cenário se assista ao fim da

290
verve
O mundo do terror e da insegurança

negociação e da contratação coletiva com base nas rei-


vindicações fomentadas pelos trabalhadores assalaria-
dos nos trinta gloriosos anos do capitalismo (1945-1975)
e que as premissas democráticas da justiça e da políti-
ca social, no sentido da diminuição da desigualdade
social e do desenvolvimento da mobilidade social, este-
jam sendo invertidas ou extintas. Neste domínio, pode-
mos dizer que a evolução da ordem social caminha,
tendencialmente, para o desvio e a exclusão social em
detrimento da coesão social e da integração social que
são fundamentais para a manutenção e reprodução do
capitalismo e do Estado.
Em função do que acabamos de referir, o hiato que
observamos entre a ordem política e a ordem econômi-
ca é muito menor do que aquele que subsiste entre esta
última e a ordem social. Pela natureza das contradições
e antagonismos sociais subsistentes, é extremamente
difícil que o sentido da ação individual e coletiva se tra-
duza na construção de uma identidade colectiva har-
moniosa e conducente com a ordem social vigente. A
explicação plausível para a fomentação do terror por
parte dos diferentes Estados e organizações trans-
nacionais do poder instituído advém do fato de que cada
indivíduo “per si”, objetivamente e subjetivamente, é
cada vez menos produtor de sociabilidade e de coopera-
ção, necessitando, para o efeito, de constrangimentos e
sanções punitivas que vão desde a anestesia e lavagem
cerebral até ao encarceramento e morte através da vio-
lência e do terror dinamizados pelas ações policiais,
militares, educacionais, midiáticas e psiquiátricas.
Partindo do mesmo raciocínio, não podemos esque-
cer que uma das formas mais sofisticadas da globalização
é dinamizada pelas tecnologias de informação e da co-
municação. A latitude e a importância desta realidade é
incontestável. Na verdade, se pensarmos nas caracte-

291
3
2003

rísticas da informação que é possível socializar, quer


em termos quantitativos quer qualitativos, e se pensar-
mos, ainda, nos meios e formas inauditas que existem
para emitir, transmitir e recepcionar toda essa informa-
ção, então podemos e devemos admitir que as nossas
capacidades/possibilidades de comunicação nunca
atingiram a expressão que estamos vivendo. É uma re-
alidade que é perpassada também por um processo de
aprendizagem social e um processo de aculturação que
implicam novas modalidades de percepção,
categorização e organização da informação que mudam
substancialmente os nossos hábitos cognitivos e
comportamentais. Os signos e significados são traduzi-
dos em linguagens baseadas em imagens que nos re-
metem para formas e conteúdos de aculturação dos
domínios do audiovisual, eliminando e condicionando
a nossa autonomia e margem de manobra no sentido
de uma aculturação traduzida em cognições e compor-
tamentos verbalizados por formas e conteúdos escritos
ou oralizados.
É evidente que esta evolução no sentido da criação
de uma mesma linguagem padrão em nível mundial,
com intuito de estruturar uma nova ordem cultural, é
objeto de grandes antagonismos e contradições. Por-
que a cultura tem a sua origem em valores, crenças,
linguagens e ideologias que se traduzem em sistemas
de representação coletiva inquestionáveis, normalmente
associados à moral e à ética de cada sociedade ou cul-
tura; não admira que a ordem cultural identificada com
os desígnios de evolução da racionalidade instrumen-
tal do capitalismo seja a mais difícil de concretizar. A
emergência de conflitos e guerras atravessados por for-
mas contraproducentes de violência e de terror no
Afeganistão e no Oriente Médio , e com previsibilidade
de se generalizar a outras regiões e continentes, ape-

292
verve
O mundo do terror e da insegurança

nas demonstra que as maiores perversões e a conse-


qüente oposição contra a ordem econômica, social e
política do capitalismo em nível mundial têm a sua ori-
gem na defesa intransigente de uma ordem cultural com
raízes seculares. Os nacionalismos e os integrismos re-
ligiosos transformaram-se, assim, quase no único antí-
doto e a única âncora que permitem aos oprimidos e
esfomeados do mundo inteiro assumir a sua salvação e
a sua identidade coletiva. A cultura, no sentido relativo
e largo do termo, personifica, por este motivo, quase a
única forma de resistir às perversões da racionalidade
instrumental e, por outro lado, de cimentar a ligação e
fortalecer os laços de solidariedade e de cooperação de
uma vida sem sentido histórico.
Portanto, antes de se escrever ou falar do terrorismo
religioso ou do terrorismo nacionalista é fundamental
caracterizar o terrorismo da guerra e os esquemas de
encarceramento e as medidas de segurança fomenta-
das pelo Estado-Nação e as organizações transnacionais
que, indubitavelmente, estão na sustentação dos pri-
meiros. Simultaneamente, é necessário caracterizar o
terrorismo dos mass media e de todos o poderes insti-
tuídos do Estado-Nação e das organizações transnacio-
nais que procuram anestesiar e moldar as nossas men-
tes no sentido de transformar todos os desviantes em
potenciais terroristas, quando a sua subjetividade e ação
vão no sentido da crítica e da transformação radical da
ordem social, econômica, política e cultural vigentes.
Por fim, importa sublinhar que a probabilidade de
constituição de movimentos sociais alternativos aos
nacionalismos e integrismos religiosos não passa, ne-
cessariamente, pela reprodução mecanicista de movi-
mentos sociais tradicionais decorrentes dos modelos
sindicais ou partidários.

293
3
2003

Todo e qualquer movimento social alternativo, nos


dias de hoje, passa pela criação de um sentido histórico
balizado pela emancipação social. O que implica a
erradicação do Estado e da racionalidade instrumental
do capitalismo à escala universal.
Enquanto seres biológicos e seres sociais, a nossa
trajetória histórica só pode ser refletida enquanto seres
de âmbito universal. A nossa natureza biológica nos diz
que o sol, o mar, a água, os rios, as florestas, espécies
animais e espécies vegetais, são de todos e não são de
ninguém. Mas o que é fato é que só somos vida se der-
mos vida a esses elementos naturais que são a nossa
própria vida. Enquanto seres alienados e oprimidos pela
guerra, violência, crime e competição provocados pela
nossa condição de escravos do Estado e do capital, só
deixaremos de o ser se nos transformarmos em cida-
dãos do mundo, e nos transformarmos em fonte de li-
berdade, de amor, de solidariedade e de cooperação,
estimuladoras de pulsões de vida, invertendo o atual
sentido de produção de pulsões morte.

294
verve
O mundo do terror e da insegurança

RESUMO

O terror não é um acidente de percurso ou mesmo um efeito


indesejável da ordem social, hoje imperativamente planetária,
do modelo de civilização moderna e ocidental. Longe disto, há,
na política e na economia, a produção sistemática do terror e
da segurança como potencialização de dominações sobre men-
tes que buscam abrigo, já que a escolha universalista pelo
adormecimento não é mais do que a escolha por pulsões de
morte.

ABSTRACT

O terror não é um acidente de percurso ou mesmo um efeito


indesejável da ordem social, hoje imperativamente planetária,
do modelo de civilização moderna e ocidental. Longe disto, há,
na política e na economia, a produção sistemática do terror e
da segurança como potencialização de dominações sobre men-
tes que buscam abrigo, já que a escolha universalista pelo
adormecimento não é mais do que a escolha por pulsões de
morte.

295
3
2003

Nenhum de nós pode ter certeza de escapar à


prisão. Hoje, menos do que nunca. Sobre nos-
sa vida do dia-a-dia, o enquadramento policial
estreita o cerco: nas ruas e nas estradas; em
torno dos estrangeiros e dos jovens. O delito
de opinião reapareceu: as medidas antidrogas
multiplicam a arbitrariedade. Estamos sob o
signo do “vigiar de perto”. Dizem-nos que a jus-
tiça está sobrecarregada. Nós bem o vemos.
Mas, e se foi a polícia que a sobrecarregou?
Dizem-nos que as prisões estão superpovoa-
das. Mas, e se foi a população que foi super
aprisionada?

Manifesto do Grupo de Informação


sobre as Prisões, 1971

296
verve
Minha avó me fez anarquista

Resenhas

minha avó me fez anarquista1 frank mintz*

Stuart Christie. My granny made me an anarchist (the Christie


file: part 1, 1946-1964 the cultural and political formation of a west
of Scotland baby-boomer), www.christebooks.com, setembro de 2002,
257 pp.

Esta nova biografia de Stuart Christie surpreende


porque difere em muito da primeira, The Christie File,
de 1980, que destacava a detenção em Carabanchel e,
na volta à Inglaterra, a vigilância policial e novas deten-
ções. Desta vez, com My granny made me an anarchist,
temos, como se deduz do título, um amplo panorama
de uma geração, relatado com um estilo ameno e muito
rico.

*
Autodidata. Entre outras publiações encontram-se Errico Malatesta, Articles
politiques, Paris, 10/18, 1979, 439 pp., com o psudônimo de Isräel Renov e Ouevres,
de Piotr Kropotkin, Paris, Maspéro, 1976, 445 pp., sob o pseudônimo de Martin
Zemliak.
1
Tradução de Natalia Montebello.
verve, 3: 297-300, 2003

297
3
2003

A evocação e a homenagem à família escocesa desta-


ca suas divisões religiosas, seu sectarismo inerente à
Escócia. A avó do título (presbiteriana casada com um
católico) “influenciou muito minha infância [...]
Cavilando, parece que foi provavelmente minha avó que
me fez anarquista. Quero dizer que com seu exemplo e
sua sabedoria projetou-me um mapa moral claro e me
ensinou um código ético indelével — uma espécie de
calvinismo secular —, que me levou direta e
inexoravelmente, através do emaranhado político e
moral, ao anarquismo, que entendo como a única ideo-
logia não religiosa que pretende a justiça social sem
buscar a dominação social, política ou econômica sobre
os outros” (p. 52).
Esta indagação a respeito do tempo vivido desdobra-
se sob a forma de uma reportagem muito bem ilustrada
sobre a vida de um jovem escocês e seu preconceito
religioso, tanto dentro da família como no seu entorno.
A evolução dos costumes com a influência entre os jo-
vens das bandas dos Estados Unidos e da Grã Bretanha,
o subsequente choque na vida provinciana, são mais
importantes que as crises psicológicas e os debates in-
teriores.
O incipiente movimento anti-nuclear britânico do
Comitê dos Cem (com Bertrand Russell) foi o aprendi-
zado político de Stuart, que depois entrou em cheio no
movimento libertário. Stuart descarta a diplomacia ou
a linguagem dúbia para falar de Freedom Press, tanto a
livraria quanto a editora, cuja propriedade “tinha como
detentor a Vernon Richards, que era considerado elitista,
pois não era responsável por nenhum outro movimento
ou pessoa que não fosse o excêntrico, irascível,
prepotente e manipulador editor Vernon Richards” (p.
170). Com certeza Stuart tem razão na maior parte de
suas críticas, mas deverá reconhecer que Vernon

298
verve
Minha avó me fez anarquista

Richards teve pelo menos três qualidades: seu livro


Ensinamentos da Revolução Espanhola (retomando a
argumentação de artigos da imprensa cenetista exilada
de Pierre Besnard), sua antologia de Malatesta e sua
tradução para o inglês do livro de Gastón Leval sobre a
autogestão durante a Guerra Civil Espanhola.
A evocação da Espanha dos anos 60 é precisa, peca
de certo otimismo sobre as greves de 1962. Stuart can-
sa-se das manifestações contra o franquismo e busca
uma ação eficaz, para oferecer uma ajuda consistente à
luta antifranquista. “Meus motivos se misturavam com
o desejo de entusiasmo e de aventura, mas eu sentia
que se fosse para fazer algo aventureiro só seria por
uma coisa socialmente positiva, e oposta à própria auto-
satisfação. Minha escolha consciente sobre como seria
meu compromisso na luta antifranquista era a de ser
um combatente, e não um assistencialista das vítimas
de Franco. Atuar de outra maneira teria sido como fu-
gir para frente, psicológica e intelectualmente. Eu me
sentiria hipócrita ao escolher a opção fácil e tranqüila,
mas inútil e ineficiente, das demonstrações, os pique-
tes e os panfletos, sem mostrar diretamente o chefe que
era Franco” (p. 199).
Os primeiros contatos foram através dos irmãos
Gurruchari. Pouco antes de sair para Espanha, em ju-
lho de 1964, Stuart participou de um programa de tele-
visão sobre os anarquistas; por sorte, na montagem fi-
nal, não apareceu a parte em que respondia afirmativa-
mente à pergunta sobre se estaria disposto a assassinar
Franco.
A militância em Londres nos meios anarquistas pro-
vocaram evocações dos meios políticos da época. De
especial interesse são as relações entre determinados
anti-nucleares e ultra-direitistas para trocar informa-

299
3
2003

ções secretas sobre certos indivíduos. Intervém tam-


bém o papel dos confidentes. A evocação do exílio
cenetista de Londres destaca Soledad Portales e o gru-
po Mujeres Libres. Evoca-se a luta da guerrilha
antifranquista, o seqüestro do Santa Maria, um navio
português, a criação do setor de Defesa Interior, o DI,
que deu novo vigor aos membros das Juventudes
Libertárias na luta antifranquista. Stuart, sempre con-
creto, julga corretamente: “O DI estava mal formulado.
Mesmo que pouca gente do exílio — se é que havia —
estava bem informada nesse momento, o erro principal
era confundir, diretamente, a luta clandestina dentro
da Espanha com a burocracia de uma organização le-
galmente reconhecida no exílio, dado que esta não que-
ria se ver implicada em coisa alguma que pudesse ques-
tionar seu estatuto relativamente seguro e favorável na
França. O movimento no exílio estava também vigiado
de perto pelos serviços de segurança, não só da nação
anfitriã, França, mas também pela polícia secreta espa-
nhola, que estava totalmente inteirada da criação do
DI.” (p. 230)
Stuart descreve de dentro, evocando o caso de Del-
gado e Granado, que foram deslealmente (como era a
jurisdição franquista) condenados a execução por vil
garrote.
Ricamente ilustrado, bem escrito e sem preconcei-
tos, este primeiro volume sobre o movimento anarquis-
ta inglês e o exílio cenetista incita a ler o próximo.

300
verve
História, memória, invenção

história, memória e invenção acácio augusto*

Javier Cercas. Soldados de Salamina. São Paulo, Ed. Globo, 2002,


241 pp.
Frank Mintz (org.). Autogestão e Anarquia. São Paulo, Ed. Imaginá-
rio, 2002, 95 pp.

A Guerra Civil Espanhola certamente é um aconteci-


mento que causa fascínio. Se esquecido em seus deta-
lhes por muitos, há também uma enorme produção que
a ele faz referências: livros de literatura a estudos his-
tóricos, filmes, quadros, documentários, compilação de
documentos, conferências... Um vasto exercício de me-
mória e invenção é feito em relação aos acontecimentos
ocorridos na Espanha de 1936 a 1939. O que dizer, en-
tão, de dois livros que têm como eixo este mesmo perí-
odo, mas trazem abordagens completamente diferen-
tes?
Autogestão e Anarquismo, uma compilação de
três artigos, escritos há trinta anos por Gaston Leval,
René Berthier e Frank Mintz, trata das experiências
autogestionárias levadas a cabo pelos trabalhadores
filiados à C.N.T. em meio à guerra. Como diz em sua
apresentação “os três textos articulam-se de maneira
complementar” (p. 7).
O primeiro, de Gaston Leval, trata das referências
teóricas, desde Proudhon, que nortearam a ação dos
grupos anarquistas na Espanha, ressaltando o caráter
construtivo, ou melhor, de negação e afirmação das
análises desenvolvida pelos anarquistas. O texto de René
Berthier busca reconstruir a concepção de autogestão

* Estudante de Ciências Sociais na PUC-SP e integrante do Nu-Sol.

verve, 3: 301-305, 2003


301
3
2003

no seio do movimento anarco-sindicalista, apontada por


ele, trinta anos depois da experiência espanhola como
alvo de distorções. Para ele as federações, as uniões
regionais, os comitês, os sindicatos, eram os organis-
mos e associações que compunham a produção e a or-
ganização social para a realização da autogestão. Mintz
recorre às contradições internas, talvez tentando ob-
servar os erros cometidos na Guerra Civil, que fizeram
o projeto de uma nova sociedade dos anarquistas espa-
nhóis ter sido derrotado pelos fascistas. O autor mostra
como alguns membros da C.N.T. chegam a associar-se
ao governo republicano — como é o caso de Garcia Óliver
— com o objetivo de compor uma frente antifascista.
Agindo desta maneira entram em contradição com os
princípios anarquistas e, inclusive, com a base do mo-
vimento sindical e grupos anarquistas dentro da pró-
pria C.N.T., como por exemplo “Os Amigos de Durruti”.
Autogestão e Anarquismo é um exercício de memória
e articulação das análises anarquistas sobre a socieda-
de, interessado nas experiências vividas pelos anarquis-
tas em meio aos acontecimentos da Guerra Civil Espa-
nhola. Recorrendo a registros históricos, arquivos e do-
cumentos da C.N.T., os textos nos permitem perceber a
importância da discussão desses acontecimentos para
o anarquismo contemporâneo.
Soldados de Salamina é um exercício de invenção.
Javier Cercas chama de narrativa real. No livro, quem
narra a história de Sánchez Mazas é Javier Cercas, mas
não o Javier Cercas autor, como ele mesmo diz em en-
trevista ao “El país”, um Javier elevado a enésima po-
tência. Javier Cercas autor escreve como Javier Cercas
personagem escreve sobre Sánches Mazas. E é Javier
Cercas personagem, duplo do autor, que vive a inquie-
tação de escrever um livro a partir do inesperado, do
disparate, que faz com que Sánches Mazas, importante

302
verve
História, memória, invenção

figura do cenário fascista, sob a mira de um republica-


no, seja por este poupado. Portanto, não é um livro so-
bre a vida de um falangista, talvez possa até ser um
livro sobre histórias de guerra que a História não capta,
presente, por exemplo, na figura de Miralles, persona-
gem importante que aparece no magnífico final do livro.
Mas é sobretudo um livro sobre Javier Cercas, perso-
nagem e autor, um autor que inventa um personagem
como máscara dele próprio para desnudar suas inquie-
tações de escritor, eu que se torna outros. Neste senti-
do, inventa situações e personagens para poder traba-
lhar os elementos reais e dar curso à sua narrativa, já
que o que interessa não é afirmar verdades, e sim con-
tar uma história.
Forma-se então um jogo entre ficção e realidade. A
guerra existiu, Sánchez Mazas também, a história do
fuzilamento é real. Em meio à Guerra Civil Espanhola
com os nacionais a ponto de vencer, um republicano
decide poupar a vida de um membro do alto escalão da
Falange. Um dos responsáveis por todo o conflito, ami-
go pessoal de Primo de Riviera, é posto totalmente in-
defeso frente a frente com um republicano que poderia
naquele momento acabar com sua vida, e este não atira
e nem o denuncia. O que levou o republicano desco-
nhecido a tomar esta atitude?
A maneira como o Javier-autor relata a história da
batalha, e mais ainda, como o Javier-personagem bus-
ca solucionar esta inquietação que o leva a querer es-
crever um livro, é surpreendente. Sua escrita transita
por acasos, encontros e desencontros, vislumbra o ines-
perado.
Uma entrevista, uma mulher, telefonemas, almoços,
outra entrevista, inúmeros telefonemas. Tudo: partida
e chegada, começo e retorno, e sempre adiante adian-

303
3
2003

te... Uma busca, um deslizar-história. Vinculada a um


episódio ocorrido com Sánchez Mazas, um dos perso-
nagens mais importantes da história da Guerra Civil
Espanhola e da própria história da Espanha.
Hans Magnus Enzensberger em seu romance O Cur-
to Verão da Anarquia, apresenta a história como ficção
coletiva, nome dado ao primeiro comentário que faz no
seu livro sobre a vida de Durruti. Chama a atenção para
a importância da narrativa-história oral ao contar a vida
de Durruti. Há neste sentido um trecho que merece ser
lembrado no livro de Enzensberger: “A História é uma
invenção para qual a realidade fornece os elementos.
Não é, porém, uma invenção arbitrária. A curiosidade
que desperta se baseia no interesse dos que a narram;
permite àquele que a escuta reconhecer e determinar
melhor seus próprios referenciais como também os de
seus inimigos”1. A importância de Durruti na Guerra
Civil Espanhola é indiscutível, e o livro que Enzensberger
escreve sobre sua trajetória nesta guerra é um dos mais
belos sobre o tema e poderia ser reeditado, já que se
encontra esgotado. O trajeto que faz Javier Cercas é
parecido. Sánchez Mazas é um personagem histórico, e
sua história tem como ponto de partida um depoimento
oral. Juntar estes depoimentos para compor a história
é como um trabalho de bricolagem, que requer grande
inventividade.
Nestes dois livros encontramos duas maneiras de
fazer História: uma como memória e outra que agrega à
memória, a invenção. Autogestão e Anarquismo recorre
aos arquivos, Soldados de Salamina à memória das pes-
soas e à inventividade de Javier Cercas (ambos, autor e
personagem). Memória e invenção como elementos não
excludentes, sempre misturados. A vida, vivida no seu
dia-a-dia, sobretudo em meio a guerra, será sempre
submetida ao inesperado.

304
verve
História, memória, invenção

Nota
1
Hans Magnus Enzensberger. O Curto Verão da Anar-
quia. São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p. 16.

o anarquismo hedonista de michel onfray


sílvio gallo*

Michel Onfray. A Política do Rebelde — tratado de resistência e


insubmissão. Rio de Janeiro, Rocco, 2001, 291 pp.

Michel Onfray é professor de filosofia num liceu téc-


nico da cidade medieval de Argentan, na França. Dou-
torou-se em Filosofia e se especializou em resgatar o
hedonismo, uma perspectiva filosófica que desde a an-
tiguidade grega defende que a vida humana deve cons-
tituir-se, sobretudo, na busca do prazer.
Como toda uma geração da filosofia francesa con-
temporânea, Onfray foi e é profundamente influenciado
por Nietzsche. A influência do filósofo alemão e do
hedonismo antigo é evidente em seus livros publicados
no Brasil: A Escultura de Si trata da ética hedonista.
Parte da máxima grega de que é preciso “fazer de sua
vida uma obra de arte”, retomada contemporaneamente
por Nietzsche e Foucault, para demarcar a aceitação do
caráter trágico da existência humana e a necessidade
de superação do niilismo contemporâneo. O Ventre dos

* Doutor em Filosofia da Educação, Professor Assistente-Doutor no Depto.


de Filosofia e História da Educação da FE-Unicamp e Professor Titular da
Faculdade de Filosofia, História e Letras da Unimep.
verve, 3: 305-309, 2003

305
3
2003

Filósofos — crítica da razão dietética parte de outra pro-


vocação de Nietzsche quando, em Ecce Homo, chama a
atenção para a questão da alimentação; Onfray traça
então uma excêntrica historieta da filosofia, de Diógenes
a Sartre, passando por Rousseau, Kant, Fourier,
Nietzsche e Marinetti, construindo inferências sobre as
relações destes filósofos com os alimentos e aquilo que
produziram em termos de pensamento. Em A Razão
Gulosa — filosofia do gosto, prossegue sua trajetória pela
alimentação. Pretende nessa obra resgatar o paladar e
o olfato como sentidos estéticos, uma vez que são rele-
gados a segundo plano pela visão, pela audição e pelo
tato, quando se trata de arte. Esta “estética do efêmero”
é tratada através de comidas exóticas e do vinho. A Arte
de ter Prazer — por um materialismo hedonista, talvez
possa ser visto como a síntese do hedonismo proposto
por Onfray. Aqui, ele procura resgatar a história da filo-
sofia como uma história do corpo, muito mais do que
uma história da mente, destacando pequenos aconteci-
mentos e incidentes na vida de filósofos, que podem ser
decisivos para a constituição de seus pensamentos e
sistemas filosóficos.
É bom que se diga: Onfray é um grande literato, tan-
to que ganhou diversos prêmios na França por sua obra.
É um escritor de mãos cheias e, coerente com sua pro-
posta hedonista, a leitura de seus livros é algo que se
faz com refinado prazer.
Pois bem. Conhecia essas aventuras hedonistas de
Onfray, desde que li, no final dos anos 90, A Escultura
de Si. Mas, em setembro de 2001, ao ler a dissertação
de mestrado de Jorge Goia, do Coletivo Anarquista
Brancaleone, fui surpreendido pela citação de alguns
parágrafos de Onfray onde ele falava de um anarquismo
hedonista. A citação era de uma obra em espanhol,
traduzida de La Politique du Rebelle, publicada na Fran-

306
verve
O anarquismo hedonista de Michel Onfray

ça em 1997. Pedi ao Goia que me providenciasse uma


cópia do texto, mas ele deu-me uma notícia melhor:
acabava de ser lançada a edição brasileira: A Política do
Rebelde — tratado de resistência e insubmissão, pela
Editora Rocco.
Li com avidez e com o prazer peculiar que nos pro-
porcionam as obras de Onfray. Se anteriormente ele se
havia dedicado a construir uma ética e uma estética
hedonistas, aqui se trata de propor uma política
hedonista. E a via eleita por Onfray é a do anarquismo,
da busca de um anarquismo contemporâneo, que diga
respeito a esse mundo em que vivemos no início do sé-
culo vinte e um.
A abertura da obra é, como sempre, uma citação de
Nietzsche, desta vez de A Gaia Ciência: “para mim é tão
odioso seguir quanto guiar”. Esta frase já dá o tom das
páginas seguintes, o de um anarquismo que toma o in-
divíduo como valor central. Onfray inicia com reminis-
cências de sua infância e adolescência numa aldeia fran-
cesa e com sua primeira experiência de trabalho, numa
fábrica de queijo local. Relembra os operários, a sub-
missão, o despotismo do contra-mestre. E relembra
aquele que ele considera como o episódio fundador de
sua rebeldia: sua revolta com a dominação do contra-
mestre e sua recusa em servir, saindo da fábrica para
não mais retornar.
A obra está organizada em quatro partes: Do Real;
Do Ideal; Dos Meios; Das Forças. Essas, por sua vez,
dividem-se em capítulos que abordam os mais diversos
temas, compondo seu projeto político hedonista. Não
vou reproduzi-los nem mesmo citá-los aqui. Basta des-
tacar que Onfray estuda a gênese do indivíduo, a abso-
luta desindividualização e desumanização levadas a
cabo pelo nazismo e pelos fascismos contemporâneos,

307
3
2003

para advogar a necessidade de uma política do indiví-


duo.
O que mais me impressionou neste livro, e por isso
convido-os a lê-lo, é a defesa que Onfray faz da necessi-
dade de um anarquismo contemporâneo. Estejamos ou
não de acordo com sua argumentação, penso que é ne-
cessário conhecê-la, se não por outras razões, ao me-
nos pela lufada de ar fresco que traz e por tudo que nos
faz pensar.
Para Onfray — e eu tendo a concordar com ele — há
uma certa caducidade no pensamento anarquista do
século dezenove. O mundo mudou, a exploração per-
manece, mas seus mecanismos são outros; portanto,
nossa luta também deve ser a mesma, mas com outras
armas, eficazes para atacar a exploração contemporâ-
nea. Apenas um exemplo: para Onfray, o anarquismo
contemporâneo deve perder a fixação no Estado que ti-
nha o anarquismo novecentista; para além do fascismo
de Estado, hoje são inúmeros os microfascismos que
nos assolam e é contra eles que devemos lutar. Para
além de uma revolução molar, contra o Estado, deve-
mos buscar revoluções moleculares, contra os
micropoderes que formam a teia social; revoluções no
cotidiano, criando novas opções libertárias, ou para usar
uma expressão de Guattari e Negri, “novos espaços de
liberdade”.
Assim, Onfray investe no anarquismo como resistên-
cia à lógica do capital. Escreveu ele que: “Se a pergun-
ta: como se pode ser anarquista, hoje? pode ser feita, a
resposta parece imediata: instalando a ética e a política
sobre o perpétuo terreno da resistência. Palavra-mes-
tra, ambição cardinal do libertário. Resistir, a saber,
nunca colaborar, nunca ceder, guardar em poder de si
tudo que faz a força, a energia e a potência do indivíduo

308
verve
O anarquismo hedonista de Michel Onfray

que diz não a tudo aquilo que visa a diminuição de seu


império, senão o puro e simples desaparecimento de
sua identidade. Recusar os mil e um laços feitos, ridí-
culos, irrisórios, que acabam por produzir a sujeição
dos mais vigorosos gigantes. Que se lembre de Gulliver,
imenso e poderoso, mas constrangido e mantido no chão
pela quantidade infinita de laços que tornava possível a
eficácia” (p. 195). E ainda: “O devir revolucionário dos
indivíduos parece então a única via para injetar a resis-
tência e o antifascismo, a rebelião e a insubmissão onde
triunfam os modos autoritários. De maneira que a revo-
lução se faça menos molar e monolítica, centralizada e
jacobina, que molecular e difusa, plural e resplande-
cente” (p. 232).
Se a revolução contra os microfascismos é uma coi-
sa que se faz por necessidade, também não deve deixar
de ser feita com prazer. Não devemos nos deixar cair no
ascetismo da revolução, com seu lema: primeiro o de-
ver, depois o prazer! Devemos lutar com prazer, pelo
prazer. Eis a política hedonista proposta por Onfray.
Haveria algo mais libertário do que opor a lógica do pra-
zer à lógica do capital? Talvez hoje o prazer seja a arma
mais revolucionária contra o ascetismo do capital.
Concluo esse breve convite à leitura de Onfray e para
que o tragamos para nossos debates sobre o anarquismo
contemporâneo, citando uma vez mais seu apelo pela
rebeldia: nesses tempos sombrios, o espírito e a ação de
novos ludistas seriam necessários, e eu subscreveria com
muito gosto sua vontade de fogos furiosos... (p. 262).

309
3
2003

oreste ristori: uma biografia alexandre samis*

Carlo Romani. Oreste Ristori – uma aventura anarquista. São Paulo,


Annablume, 2002, 307 pp.

Quando, ainda no século XIX, Thomas Carlyle afir-


mou que “... a história universal, a história daquilo que
o homem tem realizado neste mundo, é, no fundo, a
história dos grandes homens” ele colaborava significa-
tivamente para reforçar um gênero que não cessaria de
crescer século adentro. Após o sucesso de sua História
da Revolução Francesa, gozando de notoriedade e reco-
nhecimento de boa parte da crítica, Carlyle publicaria
um conjunto de conferências, versando sobre os “gran-
des homens” da história, sob o título sugestivo e ao
mesmo tempo esclarecedor de Os Heróis. O conjunto de
sua obra, em particular os livros aqui aludidos, carac-
terizava-se por uma inspiração panegirista e apresen-
tava clara inclinação à adaptação, sob desembaraçada
prosa, de epopéias biográficas. Naquele tempo, as bio-
grafias eram elementos de primeira grandeza na insti-
tuição de uma História Política ancorada em datas, es-
tadistas, conquistadores e batalhas.
Entretanto, o século que se inicia, e mesmo os anos
que compuseram o ocaso do anterior, já em determina-
da medida, anuncia a reabilitação do gênero biográfico
na História. Sob a égide da História Política Renovada
ou da Nova História Social, as improváveis biografias de
São Luiz, de Jacques Le Goff, e de Guilherme Marechal,
de Georges Duby, entre outras, aparecem revigoradas

* Mestre em História e integrante do Círculo de Estudos Libertários Ideal


Peres.

verve, 3: 310-313, 2003

310
verve
Oreste Ristori, uma biografia

em estilo, significado e contemporaneizadas por uma


longa discussão para a qual foram chamados a colabo-
rar o movimento dos Annales, a História das Mentali-
dades, a crítica propositiva ao marxismo e mesmo o pós-
estruturalismo. Tais movimentos de idéias, nas suas
marchas e contramarchas, possibilitaram uma enorme
produção teórica da qual somos hoje beneficiários. As-
sim, como afirmava Georges Duby, ao falar sobre o que
move o profissional da História: “Inelutavelmente, as
agitações e as inquietudes do presente repercutem-se
sobre o trabalho do historiador. Por muito indiferente
que este seja, por muito decidido que esteja a fechar-se
nas suas papeladas e na sua torre de marfim, o presen-
te sacode-o, engole-o”.
O trabalho de Carlo Romani, trazido a lume pela edi-
tora paulista Annablume, em parceria com a Fapesp,
pode ser apontado como um dos mais louváveis esfor-
ços no sentido de uma biografia renovada e comprome-
tida com as mais recentes discussões no campo
historiográfico. Ao investigar a vida e carreira militante
do anarquista italiano Oreste Ristori, Romani não pou-
pou esforços investigativos. O livro, pontuado por farta
documentação recolhida cuidadosamente no Brasil e
em diversos países do Velho Continente, é bem o traba-
lho que se espera do que há de melhor na história soci-
al.
Destarte, conduzido por uma prosa leve e bem dosa-
da, o livro nos revela a vida conturbada de Ristori, nas-
cido na Toscana de 1874, expressão viva da relação con-
jugal entre o camponês bracciante Egisto Ristori e
Massima Gracci. Tendo tido uma infância de privações,
como era comum aos de sua condição social, já aos 18
anos experimenta o primeiro de seus inúmeros
encarceramentos. Ao que tudo indica, inteiramente iden-
tificado com as idéias anarquistas, nos anos após a de-

311
3
2003

tenção trava contato com as idéias de Malatesta e Luigi


Fabri e radicaliza ainda mais suas posições, fato que o
levará ao degredo e a mais dissabores.
Os motivos que levaram à saída de Ristori da Itália
estão ainda sob uma cobertura opaca; a partir de rela-
tório policial, uma delicada questão à época, a da sexu-
alidade, parece ter motivado em grande parte o seu afas-
tamento de seu país e dos companheiros de ideais. Seja
como for, ao chegar a Argentina em 1902, após breve
passagem por Marselha, retorno involuntário para a Itá-
lia e fuga para Barcelona, inicia nova peregrinação que
o levará ao Uruguai, país aparentemente mais toleran-
te com ativistas, e posteriormente ao Brasil.
Uma vez no Brasil, Ristori radica-se em São Paulo,
inteirando-se das questões e polêmicas entre anarquis-
tas e socialistas, e passa a colaborar com as publica-
ções libertárias da capital paulista. Logo se torna um
elemento da mais virulenta e profusa militância, con-
tribuindo sobremaneira para o avanço do movimento
anarquista na cidade. A notoriedade de Ristori, seu gê-
nio incomum e temperamento singular, colocaram-no
em contato com as principais figuras do anarquismo e,
por assim dizer, essa parte da sua biografia confunde-
se com a história do operariado mais organizado no pe-
ríodo.
Entretanto, a militância do proceloso italiano no cam-
po libertário iria, como a de muitos outros no período,
sofrer significativa transformação após o fenômeno da
Revolução Russa. Ao que tudo indica, já em 1922, como
afirma Romani, escrevia a favor dos comunistas na re-
vista Movimento Comunista, editada no Brasil. Todavia,
a sua vinculação ao bolchevismo nos anos seguintes
não parecia muito clara. Assim, agia mais como um
antifascista do que um fiel cumpridor dos preceitos da

312
verve
Oreste Ristori, uma biografia

Terceira Internacional e, como muitos outros, com po-


sições semelhantes, foi preso e deportado, no ano de
1936, pelo governo Vargas.
O retorno de Ristori, então homem maduro, à Euro-
pa não logrará sedentarizar o seu espírito aventureiro.
Ao que tudo indica, teria ele ainda participado da Revo-
lução Espanhola (1936-1939) e se exilado na França,
onde padeceria de novas circunstâncias adversas. Seu
retorno à Itália, o esforço em combater o fascismo em
seu país e seu passado anarquista selaram definitiva-
mente o seu destino. Fuzilado pelos que ocupavam pela
ditadura o seu torrão natal, teria, segundo declarações,
morrido cantando a Internacional.
A vida de Ristori, resgatada por Carlo Romani em
seu livro, é muito mais que a biografia de uma singular
figura do século recém-acabado. Ao reunir em frases,
parágrafos e capítulos os caminhos de um anarquista
movido pela “vontade” revolucionária, o autor conjugou
a nobre arte de contar histórias com a homenagem a
todos que, como seu biografado, se entregam por toda a
vida, à custa da sua própria existência, à construção
das utopias coletivas.

313
3
2003

clevelândia do norte
— aqui começa o brasil! carlo romani*

Alexandre Samis. Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repres-


são política no Brasil. São Paulo, Imaginário, 340 pp.

Quem chega ao Brasil pelo rio Oiapoque vindo da


Guiana Francesa, logo que chega a Clevelândia avista
um monumento com a bandeira verde e amarela tre-
mulando alto e, logo abaixo, a frase de efeito, título des-
ta resenha, dando as boas vindas aos visitantes. Atual-
mente, Clevelândia é a vila militar sede da 2ª Compa-
nhia de Fuzileiros de Selva, o quartel avançado guardião
da floresta na fronteira distante. O Brasil começa em
Clevelândia-Oiapoque e termina algumas ruas depois.
Finda a cidade, daí em diante são mais 600 km de es-
trada, 450 em terra, lamacenta ou poeirenta, depen-
dendo da época do ano em que se viaja, até se alcançar
Macapá, a primeira cidade digna deste nome.
É nessa erma região setentrional do território brasi-
leiro, ainda hoje necessitando reafirmar aos visitantes
e a si mesma a sua própria identidade nacional, que há
quase 80 anos atrás ocorreu um dos episódios mais trá-
gicos de nossa história republicana. Logo após a revo-
lução de julho de 1924 em São Paulo, por si só
violentíssima — em menos de um mês de luta houve
mais de mil vítimas civis — o governo do então Presi-
dente Arthur Bernardes decretou estado de sítio. En-
quanto tentava sufocar a revolta de Isidoro e seus te-
nentes, que teve como um de seus desdobramentos a

* Mestre em História pelo IFCH da Unicamp, desenvolve doutorado financia-


do pela FAPESP na mesma instituição.
verve, 3: 314-320, 2003

314
verve
Clevelândia do Norte — aqui começa o Brasil!

formação da Coluna Prestes, o governo federal varreu


as ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro recolhendo
soldados rebeldes e ativistas sindicalistas. Eram as cha-
madas canoas que a polícia fazia pelos bairros popula-
res e operários da cidade maravilhosa. As masmorras
cariocas da 4ª Delegacia Auxiliar, da Polícia Central,
depois passando para a Detenção ou Casa de Correção,
o navio-prisão Campos e inúmeras ilhas ao largo da Baía
de Guanabara, para onde foi confinada a maior parte
dos detidos perigosos, permaneceram lotadas durante
todo o segundo semestre de 1924.
Sobravam prisioneiros, faltava espaço. A grande im-
prensa que ainda podia circular alardeava como porta
voz oficial do governo: “trata-se de perigosos revolucio-
nários”. Com essa conjuntura e argumentos favoráveis,
os quadros do governo apresentaram uma única solu-
ção possível para o destino desses homens enjaulados:
o exílio interno. A França, país modelo da civilização
ocidental já não mantinha desde o século passado as
suas ilhas do Diabo para segregar os tipos mais perigo-
sos? Por que não o Brasil? Pensando bem, esses bagné
coloniais do Diabo são nossos vizinhos de fronteira.
Assim, seguindo a recomendação de seus funcionários,
Bernardes não titubeou em inaugurar o primeiro cam-
po de concentração brasileiro na selva equatorial para
o confinamento de prisioneiros políticos. Aproveitou-se
da existência de um núcleo de colonização agrícola re-
cém criado, o Núcleo Cleveland na fronteira com a
Guiana Francesa, lugar para onde confluiu o sonho de
muitos migrantes do Pará e Ceará, e transformou aque-
le prometido Eldorado em Inferno Equatorial. Para lá
foram “oficialmente” degredados algo em torno de 1200
prisioneiros entre soldados rebeldes, operários sindi-
calistas, anarquistas, ladrões, loucos e vadios, confor-
me a classificação elaborada pela polícia nas listas de

315
3
2003

envio. Deste total, mais da metade sucumbiu às doen-


ças tropicais e faleceu, vítima do impaludismo, malária,
beribéri, disenteria e desidratação. Os que voltaram trou-
xeram consigo seqüelas permanentes: o olhar distante,
sem vida, a face amarelada e o corpo esquálido, na des-
crição feita por Everardo Dias. Esta história surreal na
selva equatorial brasileira, digna de ser filmada, um
campo de prisioneiros, ou de extermínio como o Lager
nazista. Sob a custódia do Ministério da Agricultura,
marcou o fim do governo Bernardes, homem que rece-
beu a alcunha posterior de Presidente Clevelândia.
Esta história, mais uma das trágicas epopéias das
lutas sociais no Brasil, já deveria ter sido bastante con-
tada e recontada por nossa historiografia, contudo não
foi. Além da imensa obra já clássica de Edgar Rodrigues
sobre a história dos movimentos sociais no Brasil, pou-
cos autores detiveram-se em Clevelândia. Foi preciso a
chegada de um historiador norte-americano, John F.
Dulles, em uma pequena parte de um capítulo de seu
clássico Anarquistas e comunistas no Brasil (1973), para
trazer novamente esta história à tona. Depois dele, foi a
vez do cientista político Paulo Sérgio Pinheiro retomar a
questão quase vinte anos depois, usando as fontes ori-
ginais conseguidas no arquivo particular de Arthur
Bernardes. Uma pequena história de Clevelândia é nar-
rada no quinto capítulo de seu livro Estratégias da Ilu-
são (1991). Somente com a chegada de um novo século,
a surreal história de Clevelândia, emblema da política
repressiva dos governos republicanos, ganhou um
exaustivo trabalho de análise. As condições de produ-
ção dessa repressão e os detalhes das desventuras vivi-
das pelos prisioneiros foram esmiuçados nas 340 pági-
nas escritas por Alexandre Samis, um trabalho de fôle-
go desenvolvido ao longo de vários anos de pesquisa.

316
verve
Clevelândia do Norte — aqui começa o Brasil!

Um tema de difícil leitura elucidado num livro que,


no entanto, lê-se facilmente, dado o empenho do autor
em apresentar inúmeras histórias desenterradas de ar-
quivos policiais e encontradas em jornais operários co-
midos pelo tempo. O livro Clevelândia: anarquismo,
sindicalismo e repressão política no Brasil narra a histó-
ria desse confinamento trágico de brasileiros a partir do
olhar privilegiado de alguns ativistas anarquistas da-
quela época. Militantes que foram duramente reprimi-
dos e perseguidos. Tratando-se de uma obra sobre anar-
quistas e realizada por um historiador que participa
deste movimento (Alexandre Samis é membro do CELIP,
Círculo de Estudos Libertários Ideal Perez, no Rio de
Janeiro) poderíamos até esperar um manual panfletário
sobre a visão que os anarquistas tiveram e têm da per-
seguição política por eles sofrida. Mas não. Samis se
mantém distante do objeto estudado, mostra-se bas-
tante prudente nas opiniões emitidas, sempre calcado
em rigorosa metodologia de análise e vastíssima docu-
mentação conseguida nos arquivos do Estado do Rio,
de Minas, de São Paulo, no Arquivo Edgar Leuenroth da
Unicamp, no Instituto de História Social de Amsterdã e
em diversos arquivos libertários pesquisados, inclusive
em Portugal. Penso até que Samis se manteve distante
e prudente demais ante a evidente crueldade praticada
por aquele Estado e a óbvia omissão dos militantes co-
munistas daquela época e de quase toda a historiografia
posterior ao evento.
Descreve o perverso desfecho da repressão ao movi-
mento de 1924 que culminou na morte diária de deze-
nas de prisioneiros enterrados em valas coletivas. An-
tes disto, porém, o autor traça todo o processo político
que permitiu a emergência de um Estado policial mo-
derno no Brasil, desde os antecedentes políticos da re-
pressão aos opositores da ordem instituída durante a

317
3
2003

República Velha. Mostra claramente o tratamento dife-


renciado no combate dado à planta exótica anarquista
e à sucessiva profissionalização dos meios de controle
social engendrados pelo aparelho de Estado. A Revolu-
ção de 1924 tornou-se o estopim ou o álibi faltante para
a implantação definitiva de uma política repressiva ar-
ticulada e totalitária. Milhares de prisioneiros foram fei-
tos durante o período em que vigorou o estado de sítio,
entre 1924 e 1926. Contudo, somente os presos mais
pobres, aqueles com menor possibilidade de defesa ex-
terna foram confinados em Clevelândia. Os militares sem
padrinhos políticos, os sindicalistas mais pobres e
combativos, jornalistas anarquistas, todos misturados
junto ao rebotalho das ruas cariocas, com o objetivo de
descaracterizar o caráter eminentemente político do
campo de prisioneiros. Estranhamente, nenhum ativista
do Partido Comunista Brasileiro fundado em 1922, nem
os redatores de seu órgão porta-voz, A Classe Operária,
foram enviados ao exílio interno na fronteira distante.
Questionados sobre esse tratamento diferenciado, a
resposta dada pelos comunistas em 1927 foi a de que
fizeram como o camelo quando chega a tormenta: “me-
teram o pescoço na areia e deixaram o simum passar...”1
Parece que essa mesma postura do camelo enterra-
do na areia foi adotada pela historiografia brasileira ocu-
pada com o movimento operário. Nas décadas que se
seguiram ao evento, grandes mestres orientados pela
teoria marxista como Azis Simão, Luiz Pereira e Edgar
Carone e militantes notórios do Partido como Leôncio
Basbaum em sua História sincera da República, se es-
queceram completamente do sofrimento daqueles tra-
balhadores confinados em Clevelândia. Presos à teoria,
usada como aríete ideológico de estilo quixotesco, não
perceberam, também, que nesse momento estava sen-
do gerado o moderno Estado brasileiro com a chegada

318
verve
Clevelândia do Norte — aqui começa o Brasil!

definitiva das práticas políticas de gestão do corpo soci-


al. Se no início dos anos vinte já era perceptível o su-
cessivo aumento das práticas de controle em uma soci-
edade cada vez mais disciplinar, a política repressiva
montada pelo Estado comandado por Arthur Bernardes
efetiva de modo contundente uma prática totalitária de
domínio sobre a vida. O nascimento de uma estratégia
política no campo do biopoder calcada no discurso do
saneamento e higiene, na disciplina no trabalho, no
adestramento do corpo e no interesse comum entre
patrões e empregados, ganha, em contrapartida, outra
face da mesma moeda, a necessidade de depuração dos
corpos indigestos. Com a implantação da colônia penal
de Clevelândia, esta estratégia adquire a forma limite
possível: a prática do extermínio. Quando os mecanis-
mos de controle social não surtem mais o efeito deseja-
do faz-se necessário o expurgo dos elementos nocivos
ao corpo são. Nestes momentos, geralmente períodos
conturbados de convulsão pré-revolucionária, o Estado
submete ao isolamento os elementos que, de um modo
ou de outro, desestabilizam as instituições aceitas pela
normalidade.
Sustentado pelas análises conceituais encontradas
em Hannah Arendt, que viveu a política de controle do
nazismo, Alexandre Samis desmascara a política repres-
siva exercida pelo Estado brasileiro e pelos grupos par-
tidários e coniventes a ele durante a República Velha. E
o faz de modo bastante preciso ao escolher como palco
privilegiado de sua análise, um episódio em que o Esta-
do se vê confrontado em suas bases por várias frentes
de ataque. E o anarquismo foi, como bem mostra o au-
tor, entre as manifestações políticas que contestam o
modelo instituído, seguramente a mais perseguida.
O campo de prisioneiros de Clevelândia foi o primei-
ro grande palco onde se exerceu essa política de depu-

319
3
2003

ração do corpo social em nossa história. Clevelândia


serviu como um laboratório de testes para as formas de
controle e expurgo cada vez mais sofisticadas que serão
implantadas na década seguinte sob a ditadura de
Vargas. Os prisioneiros foram suas cobaias. Experimen-
tos nas mãos de médicos em busca do alcance possível
para o quinino como medicamento. Experimento de so-
ciabilidade entre diferentes confinados num espaço
como sendo iguais e onde todos lutavam entre si pela
sobrevivência. Instrumento para a ocupação e povoa-
mento de uma zona de fronteira com uma potência es-
trangeira, à imitação mal feita do que faziam os vizi-
nhos franceses em seus presídios coloniais. E enfim, a
bucólica Clevelândia transformou-se, para a história,
em sinônimo de algoz das vítimas, descartes inúteis de
uma máquina que procura a maior eficiência. Triste in-
justiça com a hoje pacata vila, retirou do Estado o seu
papel nada glorioso de carrasco, empurrando para a força
da natureza a ação da morte forçada daqueles mais re-
beldes e menos aptos a viver em uma sociedade domes-
ticada.

Nota
1
“Aos companheiros da construção civil”, A Nação, 10/03/1927 in J. F. Dulles,
Anarquistas e comunistas no Brasil.

320
verve
Ruídos e rebeldias: Boletim do Centro de Cultura Social (1985-2003)

ruídos e rebeldias thiago souza santos*

Boletins do Centro de Cultura Social — 1985/2003

“Toda permissão encerra em si mesma a possibilidade de


usurpação legítima”
Nildo Avelino

Vidas completamente vazias. Passamos por ela como


meros espectadores. Evitamos riscos, tememos ousar,
simplesmente acontecemos. Utilizamo-nos do bom sen-
so para esconder toda nossa covardia. Vamos sucum-
bindo em abulia e fechamos os olhos para o que estamos
fazendo com nós mesmos. “O que somos?”, já não sabe-
mos — nos confundimos em representações. Vivemos
conforme regras que nos dispõem no mundo. Temos nos-
sas vontades seqüestradas, nossos corpos docilizados
e nossos instintos pacificados, e nem ao menos nos sen-
timos incomodados — pelo contrário, a impressão é que
agora que se tomou tudo o que nós tínhamos, clama-
mos para que, por favor, leve-nos também.
Frente a toda essa passividade, os anarquistas, edi-
tando jornais, revistas, informativos, livros e boletins,
inflamam rebeldias, inventam ruídos. Os Boletins edi-
tados pelo Centro de Cultura Social (CCS) mantêm esta
posição de afronta direta com as verdades midiáticas.
Como o próprio nome já nos indica, seu foco princi-
pal está na produção de atividades culturais, tais como,
conferências, debates, vídeos, sarais; para “estimular,
apoiar e promover o estudo de todas as questões soci-
ais contribuindo para o desenvolvimento do indivíduo

* Estudante de Ciências Sociais na PUC-SP e integrante do Nu-Sol.


verve, 3: 321-324, 2003

321
3
2003

dentro da coletividade próspera e livre”. Apesar das mais


importantes iniciativas do Centro serem estas ativida-
des culturais, não se pode ignorar a importância do
boletim; pelo contrário, o boletim tem um papel funda-
mental para o CCS, criando espaços para a divulgação
destes mesmos eventos, exposições de análises e ainda
criando um diálogo com o leitor.
Apesar do centro ter sido fundado em 1933, os bole-
tins só são editados a partir de 1985, após 17 anos de
encerramento forçado de suas atividades. De sua fun-
dação até seus ocasionais e temporários fechamentos,
o Centro sempre esteve em estreita ligação com a im-
prensa operária, na qual muitos dos militantes do pró-
prio Centro faziam parte. Isto possibilitava uma abertu-
ra de espaços dos jornais operários para a divulgação
de suas atividades — por isso mesmo não havia a ne-
cessidade da produção de um boletim. Quando de sua
reabertura em 1985, o Centro já não podia mais contar
com jornais operários; era preciso produzir um boletim
próprio. Os primeiros números tiveram um caráter muito
específico de divulgação da programação cultural pro-
movida pelo CCS. Com o avançar dos números, os bole-
tins foram tomando outra forma. Análises mais
instigantes e insuportáveis descrevem esse caráter tran-
sitório. De basicamente uma proposta de órgão de di-
vulgação das atividades culturais do Centro, torna-se
mais analítico e expressivo.
Ao tratar da III Gay Pride de São Paulo o boletim as-
sume um posicionamento que perturba o sono dos de-
mocratas e de todos aqueles que gritam e saem às ruas
pedindo cada vez mais direitos. “Reivindicações de união
civil, direito de herança, direitos providenciários a par-
ceiros, etc... podem amenizar a vida de uma parcela —
muito pequena — de indivíduos, estas reivindicações
serão, por outro lado, a cadeia deste florescente movi-

322
verve
Ruídos e rebeldias: Boletim do Centro de Cultura Social (1985-2003)

mento social”1. Saindo da mediocridade das aquisições


de direitos, a análise busca uma reflexão acerca da in-
clusão como uma forma de pacificação dos corpos —
um tornar dócil, estilizado e útil. Incluir para adorme-
cer, captar para a gerência dos dissensos, criando as-
sim uma sociedade do consenso — sem oposição.
Não há nem mesmo momento mais propício para
estas reflexões que os boletins nos apresentam. Passa-
mos por uma eleição e logo após por uma cerimônia de
posse do novo presidente; foram festas dignas de re-
cepção do Papa — nenhuma semelhança é mera coinci-
dência. Criou-se uma fé absurda no “santuário oficioso
da democracia burguesa”, e por isso mesmo uma cren-
ça na reforma e no salvador.
Junto às análises da situação política e social da atu-
alidade, os boletins também atravessam a história do
movimento operário e anarquista. É um resgatar, um
percorrer-caminho por ele atravessado. Por isso mes-
mo encontramos projetos como o “Histórias de Vidas
Anarquistas”, que não pretendem idolatrar um indiví-
duo, apenas procuram não deixar o anonimato silenci-
ar as muitas vozes que gritam, “contribuindo assim para
a própria preservação da memória e da história do
anarquismo”. Assim, pelo deslocar dos boletins encon-
tramos resgates biográficos de Liberto Lemos, Antonio
Martinez, Maurício Tragtenberg, Jaime Cubero. A co-
memoração do 70º ano da morte de Errico Malatesta
também nunca poderia faltar. Uma das primeiras ativi-
dades do centro, em 1933, foi a comemoração do 1º ano
da morte deste anarquista italiano que muito influen-
ciou o CCS com sua concepção voluntarista da anar-
quia.
Este ano, o centro completa 70 anos resistindo a di-
taduras, democracias, capitalismos, oferecendo um es-

323
3
2003

paço para o diálogo político e social. Manter um espaço


por 70 anos conservando um posicionamento crítico e
reflexivo torna-se uma grande batalha. Em tempos que
o rebanho está em alta, espaços como estes são como
um pouco de ar.

Nota
1
Nildo Avelino. Boletim do Centro de Cultura Social. No 3. CCS, maio/junho
1999.

elogio no
desejo, juízo na prisão edson lopes*

Marcello Rollemberg (org). Sempre Seu, Oscar: Uma biografia


epistolar. São Paulo, Iluminuras, 2001, 249 pp.

As cartas de Oscar Wilde são os espaços aonde sua


literatura se mostra incansável, ininterrupta, diária. Não
se pretende acrescentá-las a outras literaturas e come-
morar a construção de “obras completas”; dispensa-se
a obra como um bloco monolítico, seqüência de produ-
ções, estancamento de matérias, o coágulo de uma obra
inteira. Para além da reconstrução de uma biografia pela
literatura, porque não a tomar como relação limite com
que se enfrenta, ironiza, faz-se uma vida? Atenta-se à
leitura, a um interesse.

* Estudante de Ciências Sociais na PUC-SP e integrante do Nu-Sol.

verve, 3: 324-328, 2003

324
verve
Elogio no desejo, juizo na prisão

Os escritos se remetem, fazem leituras, trapaceiam,


comunicam com outras artes, estabelecem conversa-
ções intertextuais com Mary Wollstonecraft, William
Godwin, Kropotkin, poetas, atrizes, Constance Wilde,
Lord Alfred Douglas, a prisão e amigos. A prosa, a poe-
sia, as peças e as correspondências de Wilde respeitam
e violam o vitorianismo inglês de fim do XIX, associadas
ao seu dandismo e estilo de vida que o faz dobrar em
ascetismo indispensável, inspirado pelo individualismo,
quando a modernidade às compleições delicadas apre-
senta-se como “a bainha que, ao mesmo tempo que pro-
tege, desgasta a espada” (p. 206).
Wilde e Alfred avizinhavam-se por Salomé na insis-
tência e intertícios da sedução que não quer o desprezo
e portanto decapta a seriedade da cabeça, ao determi-
nar que o mistério do amor é maior que o mistério da
morte e quando só no amor é que se deve pensar. O
desejo não se acalma aos sabores das frutas, à oferta de
jóias, ou visita da poesia. Há o destinatário exato a quem
se diz: “você é a coisa divina que eu quero, a graça e a
beleza” (p. 34). Alfred era o único garoto gracioso e nada
tedioso, mesmo entre a variedade de michês; dono da
lírica luminosa, garoto que atualizava a beleza helênica.
Sobretudo, o amante encarnado, nu dourado.
Em uma década Wilde conheceu a celebridade nos
salões britânicos e franceses, exibiu excentricidades,
apaixonou-se, endividou-se até a alma, passou por três
prisões e à cova simples em cemitério de indigentes.
Na prisão de Reading surpreende um ensaio irônico
de sensações, memórias vilãs, juízo de paixões; última
prosa, De Profundis. Escrita a Alfred Douglas em 80
páginas rabiscadas por letras miúdas em folhas de pa-
pel azul timbradas com armas da coroa, fornecidas uma
a uma, pela direção da prisão. Wilde não revisou o texto

325
3
2003

pronto e a carta nunca saiu de Reading. Seleciona pala-


vras que poderiam ferir Douglas como fogo ou bisturi
de cirurgião. Suas escrituras e costumes variam quan-
do se considera um desgraçado e arruinado, quando se
julga culpado por uma amizade cujo objetivo principal
jamais fora a criação ou a contemplação do belo que
dominava sua vida como forma superior. Julga a vaida-
de e inabilidade de Alfred Douglas com as finanças e
lhe imputa a responsabilidade pela ruína absoluta de
sua arte. Avalia suas relações pelo triunfo de uma na-
tureza menor sobre uma maior, fracasso da personali-
dade que fez contrair hábitos, provou ser ruína. Assim,
Alfred ganha um caráter destrutivo no aspecto ético,
naquilo que poderia intensificar a personalidade do ar-
tista. O local-prisão faz sombras, atualiza a culpa na
medida que se pensa constantemente no delito,
potencializa a estação do pesar; substitui a um julga-
mento, outro julgamento. A separação voluntária de Lord
Alfred Douglas é mais dolorosa. Wilde não dança; vaga,
chora, odeia o anteparo de quem evita mostrar o corpo,
sentencia como Salomé.
Posteriormente, escreveria duas cartas ao editor do
The Daily Chronicle comentando a situação das prisões
inglesas. Em uma, especialmente, aponta para todos os
tipos de crueldades sofridas pelas crianças aprisiona-
das. Ridiculariza e ironiza as boas intenções dos que
mantêm o sistema penal, seus excessos de humanismo.
O resultado do sistema penitenciário para crianças lhe
é um caso de completa falta de imaginação. A criança
não entende ou compreende a punição aplicada pela
sociedade, não faz a menor idéia do que seja a socieda-
de; é aprisionada por uma força estranha e abstrata.
“Uma criança é completamente contaminada pela vida
na prisão. Mas essa influência contaminadora não vem
dos prisioneiros. Ela vem de todo o sistema penitenciá-

326
verve
Elogio no desejo, juizo na prisão

rio — do diretor, do capelão, dos carcereiros, da solitá-


ria, do isolamento, da comida revoltante, das regras da
Comissão da Prisão, da forma de disciplina que no en-
tender deles, é um modo de vida” (p. 196). Embora não
suporte o confinamento para crianças em celas, propõe
a aplicação de penas alternativas a menores de 14 anos,
como o trabalho em oficinas ou o estudo sob vigilância;
e no limite, propõe reformas e espera por uma resolu-
ção da Câmara dos Comuns. Em A alma do homem sob
o socialismo, a punição é intima ao Estado e sistema de
propriedade; portanto, suas extinções seriam simultâ-
neas. “Não havendo punição, ou o crime deixará de exis-
tir, ou quando ocorrer, será tratado pelos médicos como
uma forma de demência, que deve ser curada com afeto
e compreensão”1.
Na prisão, nada ganha mais valor para Wilde do que
a mais absoluta Humildade, a aceitação de tudo. Des-
cobre a relação íntima entre o sofrimento e a arte, in-
tensa e extraordinária realidade, condição para a inte-
gridade dos que sofrem. Ganha romantismo, tal como o
Cristo precursor do movimento. Está em relação
descontínua à A Alma do Homem sob o socialismo. Nes-
te o individualismo de Cristo é desconfortável, porque é
desconfortável suportar tudo incondicionalmente, fos-
se o Estado, o governo, o socialismo autoritário, a pro-
priedade, o casamento, ou a punição. A desobediência
era-lhe virtude.
Ao sair da prisão, exilado voluntariamente, sem nome,
é que Oscar Wilde supõe que a possibilidade de fazer
algo de belo e novo na arte repousa na perspectiva de
estar com Alfred Douglas, aprofundar-se e atravessar
sua atmosfera, aquilo que cria ao redor a beleza por qual
se apresenta a vida, por qual se encarnam as coisas
lindas, concentram-se as cores, refazem-se as
criatividades. É preciso estar ao lado.

327
3
2003

Nota
1
Oscar Wilde. A alma do Homem sob o socialismo. Rio Grande do Sul, LP&M,
1998, p. 26.

crime e sobrevivência roberto barbato jr*

Luiz Alberto Mendez. Memórias de um sobrevivente. São Paulo, Com-


panhia das Letras, 2001, 478 pp.

Em Memórias de um sobrevivente, Luis Alberto Men-


des relata sua trajetória pessoal, vivida entre a liber-
dade e o confinamento. Não é apenas um livro de me-
mórias, mas um claro painel do sistema carcerário bra-
sileiro desde a década de sessenta até os nossos dias.
Nele, percorremos o cotidiano dos institutos de corre-
ção para menores e da famosa Casa de Detenção. En-
gana-se, contudo, o leitor que supõe tratar-se de uma
denúncia escandalosa das condições da estrutura
prisional. Antes, o que encontramos é uma revelação
concreta, porque baseada em passagens de sua vida.
É por meio delas, aliás, que toda a tessitura do siste-
ma carcerário nos é descrita. As circunstâncias narra-
das, conhecidas de tantos leitores que já ouviram re-
latos semelhantes, não são produtos de inventivas li-
terárias, mas recordações daquele que se supõe um
sobrevivente na seara penal.

* Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP e professor de Sociologia da


Universidade Paulista, UNIP.

verve, 3: 328-332, 2003


328
verve
Crime e sobrevivência

A questão que talvez a muitos soe descabida con-


siste em saber porque, depois de tantas vezes confina-
do e torturado, o autor reincide na prática criminosa,
correndo riscos de novamente voltar à prisão. Uma tal
inquietude é acentuada pelo realismo da exposição que
não poupa detalhes sobre os métodos da tortura em-
preendida nos institutos correcionais e na prisão. A
leitura de certos trechos acaba por nos incitar a
interagir com o narrador, como se houvesse a possibi-
lidade de adentrar nos meandros da história e mudar
um destino que, desde o início do texto, já se encontra
selado. Em razão da tensão constante dos episódios
registrados, o leitor flagra-se impotente e coloca-se na
posição de um espectador resignado. A ele cabe ape-
nas acompanhar os motivos pelos quais se dá a reinci-
dência mencionada. E não é preciso ler muitas pági-
nas para notar que a prática reiterada do crime está
calcada na sedução que o submundo oferece ao prota-
gonista. Armas, drogas, mulheres, dinheiro fácil pare-
cem mais do que suficientes para justificar os atos
bárbaros cometidos amiúde por Mendes. Esse aspecto
sedutor converte-se em uma rotina imperativa, na
medida em que o autor passa a encarar o submundo
como entidade dada a fiscalizá-lo permanentemente.
Neste sentido, ocorre uma curiosa metamorfose: de ob-
jeto de desejo o próprio submundo se transforma em
seu algoz, aferindo significado a sua vida e norteando
sua conduta. Disso resulta o fato de o crime ter se lhe
apresentado como única alternativa.
A luta pelo reconhecimento de sua posição também
é algo que perpassa todo o texto e, a julgar pela impor-
tância atribuída a ela em várias fases do relato, pode-
ríamos considerá-la sua meta fundamental. Com efei-
to, não bastava ao autor o poder que o submundo po-
deria lhe dar; era necessário que tal poder fosse

329
3
2003

efetivamente reconhecido, de modo a lhe atribuir o


prestígio que tanto ansiava. Para tanto, a atividade de
punguista não poderia ser seu meio de vida, posto que
somente assaltantes e arrombadores logravam crédi-
to. É o que nos mostra em passagem elucidativa: “Não
queria mais saber de bater carteiras. Sentia-me rebai-
xado como punguista. O conceito no meio criminal,
nessa época, era para assaltantes e arrombadores. Pun-
guistas, traficantes, estelionatários eram desconceitu-
ados na estratificação social do submundo, eles esta-
vam em baixa” (p. 346). Notemos que a forma pela qual
se adquiria a sociabilidade entre os grupos que procu-
rava para dar vazão aos seus anseios criminosos não
poderia circunscrever-se aos crimes de menor monta,
mas deveria converter-se em atividade profissional,
consoante a uma organização que dava seus primeiros
passos no período focado.
Um outro aspecto do livro que não convém ser ne-
gligenciado refere-se à descrição de como se estrutura
o poder no submundo. É bastante sabido que, em con-
dições adversas, os grupos marginalizados acabem por
criar normas específicas de convívio a fim de que sua
sobrevivência não seja ameaçada. Em filmes e mesmo
em enredos policiais o tema é freqüentemente aborda-
do, mostrando-nos uma ampla gama de procedimen-
tos tacitamente acordados. Na narrativa de Mendes,
as normas sociais então imperantes no cárcere assu-
mem relevo e se apresentam como o único universo
legiferante possível para aqueles que habitam o mes-
mo espaço físico e que, via de regra, estão sujeitos às
mesmas contingências pessoais. Transgredir esse sis-
tema de normas sociais, tecido a par do direito oficial,
é algo que a poucos é dado descurar. Tamanha é a sua
força que o próprio estatuto legal é colocado como mero
figurante: a cadeia é vista como um “relógio automáti-

330
verve
Crime e sobrevivência

co”, no qual “os guardas só abriam e trancavam as


portas e faziam contagem, o resto funcionava sob o
controle dos presos” (p. 411).
É também nessa perspectiva que, em seu relato,
emerge a noção do relativo. A respeito de uma das ve-
zes em que foi parar na Casa de Detenção, observa:
“Havia alguns em quem sabia que podia depositar con-
fiança relativa. Era a sociedade do relativo. Nada era
absoluto, apenas a morte, que podia ocorrer até por
uma simples ofensa” (p. 334). Pois é esse senso do re-
lativo, se assim podemos qualificá-lo, que talvez tenha
gerado as condições essenciais da sobrevivência de
nosso protagonista. Em momentos de sensibilidade
aguçada ou mesmo atenuada, é o relativismo o ponto
mediador de suas ações, porquanto delimita e deter-
mina sua postura consoante ao objetivo de se manter
isento das contendas entre seus pares. Assim, mais
do que um mero indicativo, é um elemento propulsor
de seu comportamento. E se pudéssemos arriscar pal-
pites, a título de curiosidade, diríamos que a percep-
ção do relativo é condição tão importante quanto mais
se faz necessária a sobrevivência.
Mas, de qual sobrevivência se fala? Ao que tudo in-
dica, o autor refere-se à sobrevivência do indivíduo
numa sociedade desprovida de preceitos humanitári-
os para com aqueles que, por razões diversas, apre-
sentam um comportamento socialmente desviante.
Num trecho esclarecedor o narrador nos oferece sua
interpretação sobre essa sociedade. Vejamos: “Estáva-
mos cientes de que aqueles que nos barbarizam o fize-
ram em nome de uma sociedade. Uma sociedade que
nos repelia, brutalizava, segregava, e que quase nos
destruía. E o pior: uma sociedade que precisava des-
sas monstruosidades para se manter. A tortura era uma
instituição social” (pp. 399-400). Aqui, de modo

331
3
2003

subjacente, está a crítica a um sistema incapaz de


ressocializar o criminoso. Ao colocar a tortura como
instituição social, há o questionamento da legitimida-
de de um método entendido pelas autoridades como
uma panacéia no combate à criminalidade.
Ao acompanhar a história de Mendes, o leitor terá a
nítida sensação de que ele não procura justificar seus
atos criminosos. Embora o relato exponha pontos de
revolta e amargura, deixando entrever uma opinião pes-
soal, pretende-se isento, alheio a juízos de valor. E,
diante do teor de sua narrativa, pouco importa saber
se o intento foi levado a termo. O que realmente vale é
o olhar crítico, perspicaz, disposto a trafegar por um
emaranhado de situações nas quais se combinam, com
rigor, violência e sensibilidade.

kropotikin e as prisões natalia montebello*

Piotr Kropotkin. As prisões. São Paulo, Index Librorum


Prohibitorum, 2003.

Erguemos nossas prisões com o suor da nossa fé


democrática, civilizatória e filantrópica. Porque é muito
mais do que o nosso trabalho o que sustenta velhas e
novas prisões: é o nosso amor, mais do que qualquer
outra coisa o nosso amor pela humanidade. Diz a sabe-
doria popular que o amor é cego: diria que a nossa com-
placente cegueira nos faz amar a paz e a ordem acima

* Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP e pesquisdora no Nu-Sol.


verve, 3: 332-335, 2003

332
verve
Kropotkin e as prisões

de todas as coisas. Somos cegos e estamos presos em


inúmeras obediências, sacralizando o silêncio diante da
violência que, sendo cegos, chamamos de legítima.
Para que servem as prisões? Qualquer intelecto
cartesiano facilmente concluiria: para nada! Mas é mais
do que isso. O olhar atento diante da prisão nos faria
tremer, não de terror diante da sofisticada prática
institucional da crueldade, mas tremer ao sentir vida
em nossos corpos convenientemente civilizados, tremer
diante da bem-comportada cumplicidade que entretece
as nossas vidas cheias de direitos — grandes e nobres
direitos civis — com uma tosca invenção, de direito,
contra a vida. E é porque amamos a humanidade que
nos consideramos piedosos e, de vez em quando, senti-
mos pena das pobres almas que condenamos a viver
em condições sub-humanas. Ensaiamos pensar: o que
são condições humanas de vida? Daí que, também de
vez em quando, alguém clama pela humanização das
prisões. Então ouvimos o que também nos faria tremer:
que as prisões devem ser mais higiênicas. Pedimos lim-
peza geral: dos edifícios, da índole dos funcionários, do
sistema, da comida, etcétera e etcétera e tal. Mas nova-
mente não há tremor, pois também somos surdos.
Em 1866 houve uma sublevação de mineiros pola-
cos na Sibéria. Seguiu-se, é claro, o devido julgamento,
em nome da ordem. Kropotkin, o príncipe, quis decla-
rar a favor: foi silenciado. O artigo que escreva para não
calar lhe rendeu o rompimento com sua nobre família.
Foi depois que se tornara Secretário da Sociedade Geo-
gráfica Russa. Nos dez anos que seguiriam, o príncipe
seria, também, o rebelde Borodin. Foi demais para a
ordem: ao ser descoberto seria novamente silenciado.
Desta vez, a violência se desdobraria em seu lugar exem-
plar, a prisão. Kropotkin ou Borodin, a um ou qualquer
outro, é sempre assim: ao insuportável o silêncio.

333
3
2003

Kropotkin foi encarcerado, incomunicado, na prisão de


Pedro e Pablo.
O amor é assim: quando os amantes da humanidade
nos dizem que a higienização da prisão humaniza a pri-
são, não ouvimos a imbecilidade brandindo a espada
do ódio pela vida; e não ouvimos porque estamos sur-
dos. Assim é bem mais fácil. Quando falamos das pri-
sões o fazemos como se estivéssemos à mesa, num al-
moço familiar de domingo, exercendo os nossos sagra-
dos direitos civis, falando, porque não falamos também,
sem proferir palavra que possa arranhar o nosso amor à
ordem. Mas temos o grande direito da liberdade de ex-
pressão! Resguardamos a ordem e falamos em nome da
humanidade, para não dizer coisa alguma. E é disso
que se trata.
A misericórdia do Estado deu a Kropotkin um pouco
de voz e de ouvidos: foi transferido para uma prisão mais
humana. Seus trinta anos, porém, não foram suficiente
para suportar as precárias condições higiênicas do edi-
fício. Se fosse apenas isso, tudo bem, há sempre um
remédio: foi transferido para a enfermaria. Mas não era
isso. Na segunda tentativa, ajudado por vinte amigos,
Kropotkin foge, e enuncia: a prisão é insuportável, e
não se trata de higiene. A rebeldia é incontível, não pac-
tua com medidas, não se interessa pelas reformas da-
quilo que aniquila, é uma afirmação de vida diante do
bom comportamento e das boas intenções. É um falar
que transborda as palavras e diz sobre a vontade, igno-
rando conveniências. A rebeldia não busca redenção
nem aceita castigos. Não há outra vida a ser vivida.
O nosso amor cristão pela humanidade nos reclama
sem olhos e ouvidos atentos, sem palavras que cortem.
Devemos proferir, em uníssono — em nome da huma-
nidade —, o nosso ódio pela vida. A vida não nos faz

334
verve
Kropotkin e as prisões

tremer porque estamos presos no amor a isso que os


nossos direitos descrevem como vida: a ordem civil. Uma
história deste mundo muito bem poderia narrar o fim
da vida desta maneira: quando a vida passou a ser en-
tendida como uma série de direitos civis. O nosso herói
é o cidadão!
Diante de qual princípio “filosófico” erguemos as pri-
sões-laboratório de nosso sistema penal? É o bíblico olho
por olho, dente por dente, nos diz Kropotkin — porque
suas palavras dizem. É o nosso ódio que sustenta nos-
sas prisões. Nosso profundo ressentimento, porque
amamos profundamente e é assim que devemos odiar.
Construímos prisões para exercer legítima e lucrativa-
mente o nosso ódio pela vida.
Os operários que em Paris, no ano de 1877, escuta-
ram Kropotkin falar sobre as prisões talvez tenham es-
cutado, porque diante deles alguém falou, não graças a
seu direito de expressão, mas por um sério tremor: vida
transbordando em palavras sem tempo, sem ordem, sem
paz. Hoje lemos estas palavras e sabemos, apaixonada-
mente, que o único que temos por fazer com as prisões
é aboli-las. O resto já foi feito e os resultados, em 1877
ou hoje, são os mesmos: nada.
“Se me perguntassem: ‘O que poderia ser feito para
melhorar o regime penitenciário?’ Responderia: nada!
Porque não é possível melhorar uma prisão” (p. 16).
No meio de toda essa nossa calma civilizada, no ma-
rasmo de direitos em nome de nossa segurança, sabe-
mos que inventamos a prisão porque não podemos vi-
ver sem o céu e o inferno, sem a culpa e a redenção,
sem o pai, sem um lugar que não existe, sem um mo-
mento que virá, porque estamos presos na ausência,
na negação e em terríveis silêncios.

335
3
2003

salete oliveira e
o fogo de foucault edson passetti*

Michel Foucault. Ditos e escritos IV. (Org. Manoel Barros da Motta


e tradução de Vera Lúcia A. Ribeiro). Rio de Janeiro, Forense, 2003,
390 pp.

Chega em português, o quarto volume de Ditos e es-


critos. Como sabe o leitor que acompanha a publicação
da Forense, o organizador Manoel Barros da Motta op-
tou por selecionar por blocos temáticos quase todos os
ditos e escritos de Foucault publicados em francês. So-
luções como esta apresentam desvantagens em relação
à obra original unicamente por privar o leitor da exaus-
tiva compilação levada a cabo por Daniel Defert e
François Ewald. Mas de outro lado surpreende o leitor,
como no caso deste volume. Aqui está um Foucault em
chamas, a vida do fogo, da revolta, da rebeldia, da de-
molição, sem medo de ser chamado de radical.
Não há concessões como no debate com o lingüista
anarquista Noam Chomsky que soa diante dos argu-
mentos iracundos de Foucault como um bem compor-
tado filósofo no MIT estadunidense. Aparecem os seus
vínculos com o GIP (Grupo de Informações sobre Pri-
sões) e o manifesto já conhecido no Brasil a partir da
tradução do Michel Foucault, de Didier Eribon. Foucault
aparta-se da posição clássica de esquerda e amplamen-
te defendida por Sartre privilegiando os presos políti-
cos. Defende a mesma condição para presos comuns e
políticos; aprende com Jean Genet os efeitos da secular
separação difundida pela burguesia que opõe presos
políticos a delinqüentes. Remexe nas forças em rela-
ções por dentro e por fora das grades (na contundente
entrevista “Attica”), escancarando os anos que antece-

verve, 3: 336-339, 2003


336
verve
O fogo de Foucault

dem Vigiar e punir com seus efeitos sobre este especial


livro contra as prisões.
Aqui há o fogo de quem não teme dizer que a prisão
é uma criação recente que emana do direito e que o
direito é sempre burguês, forma de domínio. Foucault
não quer humanizar a polícia, agilizar a justiça, refor-
mar o sistema penal. Nos seus ditos e escritos nos fa-
miliarizamos com a estratégia genealógica. A cada mo-
vimento, segundo as forças em luta, Foucault afirma de
uma maneira. Ele é capaz de defender a reforma (para
falar de uma reforma da prisão como fim da prisão), a
seguir detonar os reformistas e por vezes associar o
reformador ao revolucionário. O preciosismo conceitual
está de lado. Foucault é importante pelo avesso que
Leonard propõe (leia “A poeira e a nuvem”); é um ins-
trumento para a des-disciplinarização, não fala em nome
de ninguém. Ao lado de Deleuze e com Reich, contesta
a criação do nazismo como o mal exterior, por ser a von-
tade de cada um. Não evita autores, incorpora suas idéi-
as evitando notas de rodapé. Quem está na jogada, quem
pode estar, entram todos no fogo. É preciso manter a
chama ardendo. Foucault revira a mesa, acaba com a
baboseira dos juristas e dos defensores de direitos e da
sociedade. Mas também, estrategicamente, grita ao lado
dos prisioneiros contra a fedentina das prisões france-
sas e o corredor E de Attica, o corredor da psiquiatria.
Aqui faltam pelo menos dois ou três contundentes
pronunciamentos de Foucault. De 1979, o resumo do
curso no Collège de France “La fobie d’État”, publicado
inicialmente no Libération de junho/julho de 1984,
quando o Estado aparece como efeito móvel de um regi-
me de governamentalidades múltiplas. Em “Qu’apelle-
t-on punir?”, entrevista de 1983, publicada em Bruxe-
las no ano seguinte na Revue de l’Université de Bruxelles,
n o 1-4, na qual é apresentada a Foucault a tese

337
3
2003

abolicionista penal como sendo uma possível continui-


dade para as decorrências de Vigiar e punir. Em 1981,
pronuncia em Genebra, “Face aux governements lês
droits de l’Homme”, durante a criação do comitê inter-
nacional para defender os direitos humanos, quando
além de realçar o papel de cada um na contenção ao
monopólio estatal sobre nossas vontades afirma,
nietzscheanamente, que devemos rechaçar também o
papel de pura indignação que o Estado espera de nós.
Novamente, estrategicamente, Foucault usa do discur-
so do direito para destruí-lo. A chama permanecerá ar-
dente de vida até quando for apanhado pela morte.
O Ditos e escritos IV, trazido pelo organizador da Motta,
é um convite a sair da contemplação e da acomodação.
Faz ecoar palavras ditas e escritas por Foucault sobre
uma sociedade que se funda na punição, não só na pri-
são, mas desde a educação de crianças. Um grande li-
vro se escreve com a intensidade das experiências da
vida. Vigiar e punir existe em sua potência porque havia
uma vida atravessada pela “vontade de combate”, ex-
pressão usada e abusada por Foucault para precisar
atitudes de coragem que habitam cada lugar de onde se
fala na urgência do que se diz. Vigiar e punir não é nem
o estudo de um período histórico, nem o retrato bem
acabado de uma análise sociológica sobre a delinqüên-
cia após a pesquisa participativa do pesquisador junto
aos presos, tampouco se limita a ser um arsenal de fer-
ramentas para análise sobre o tema. Ele é um proble-
ma, problema incendiário, um “livro-bomba”, como res-
ponde Foucault a um estudante, em Los Angeles (veja
“Diálogo sobre o poder”), quando perguntado sobre qual
o papel que devem assumir as ferramentas e as desco-
bertas intelectuais.
O Foucault que nos chega neste ditos-bomba-escri-
tos-bomba, principalmente de maneira mais concentra-

338
verve
O fogo de Foucault

da até a metade do livro, é aquele exasperado que tran-


sita alucinadamente da academia às portas da prisão.
Um Foucault incontível em sua própria desmesura e
audácia. Vontade de combate ousada que desperta o
ódio e a inveja, tanto daqueles que querem a prerroga-
tiva da militância sob a direção de um pastor qualquer,
quanto daqueles que se pretendem proprietários-espe-
cialistas da “severidade do porta-voz competente”.
Fogo-audaz. Este é o Foucault que interessa a
abolicionistas e anarquistas. Mesmo que ele não o diga
— pois já havia há muito tempo se recusado em ficar
disponível a ser localizado pelo poder —, trata-se de um
Foucault anarquista e ele bem o sabe, não por intermé-
dio de uma interpretação externa posterior tecida por
outrem, mas por aquilo que o seu próprio corpo experi-
menta. Aquilo que range, deforma, grita. Ele é um anar-
quista e nós também. Quem nos diz? O fogo que habita
em nossos corpos precários. Eles existem, insistem e
não vão cessar de resistir e inventar outros fogos-bom-
ba. Vontade de combate viva.

339
3
2003

Deveremos gastar mais alguma palavra acer-


ca dos excelentes preparativos do príncipe da
Ordem dos Benfeitores e sobre os projetos fi-
lantrópicos do romancista? Todos eles procu-
ram abalar os homens através de recompen-
sas e de punições até que faça da virtude a
sua soberana! Elaboram-se propostas sem
conta para melhorar o Estado, tal como antes
da Reforma se fazia para melhorar a Igreja:
procura-se melhorar onde já não há nada para
melhorar.

Max Stirner

340
verve

341