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Resenhas

sentido único e essencial. Esse alerta Essas e outras questões, afloradas da PUC-Rio. Ao invés de seguir a ten-
vale, também, para as considerações pelo modo como Hall examina a im- dência dominante – de tratar o cinema
gerais, que farei a seguir, acerca do portância da noção de cultura para a como mais um recurso didático para o
pensamento do autor e de algumas in- análise social contemporânea, projetam ensino –, Rosália parte do entendi-
quietações que ele pode gerar. um mosaico das crescentes fragilidades mento de que a educação e o cinema
Neste artigo, Hall expõe uma lei- que atingem o, assim denominado, são formas de socialização dos indiví-
tura clara sobre as transformações cul- pensamento moderno. E, na outra face duos e instâncias culturais que produ-
turais que estão em processo com o de- desse mosaico, essas mesmas questões zem saberes, identidades, visões de
senvolvimento das tecnologias, com a inscrevem possibilidades de invenção mundo, subjetividades. Assumindo
celeridade dos processos de comunica- de saberes que não sejam formatados que muitas das concepções veiculadas
ção e com a expansão da indústria cul- pela linearidade arrogante e/ou em nossa cultura têm como referência
tural e sua influência no funcionamen- “higienizados” em quarentenas significados que emergem das rela-
to dos aspectos sociais. Com a cientificistas. ções construídas tanto entre alunos e
expressão leitura clara, refiro-me ao Em suma: para falar sobre a cen- professores quanto entre espectadores
fato de que o autor abarca uma diversi- tralidade da cultura, esse autor desloca- e filmes, a autora aponta o caráter ex-
dade de aspectos, sem ser reducionista se da lógica segundo a qual haveria um tremamente educativo do cinema. A
e sem recorrer à segmentação própria centro irradiador da verdade última. E, medida em que vai estabelecendo co-
dos campos científicos denominados dessa maneira, não se pode imputar-lhe nexões entre o currículo nas salas de
tradicionais. a pretensão de ocupar o que seria um aula e o currículo no cinema, Rosália
Ao abordar, por exemplo, a rela- lugar explicativo acima de todos os ou- levanta questões importantes seja no
ção entre o que seriam aspectos inter- tros lugares: uma suposta pretensão de que diz respeito às dimensões culturais
nos – da psique – e o que seriam aspec- ocupar o que seria o suposto lugar mais do campo educacional, seja no que diz
tos externos – objetivos –, o autor alto do podium. Hall sequer se coloca respeito ao próprio uso do cinema na
aponta para a dificuldade cada vez nessa disputa. E, essa despretensão, educação escolarizada.
maior de separar-se estas duas dimen- principalmente, confere vigor e A prática de ver filmes fez com
sões no contexto da cultura: a formação fecundidade ao seu pensamento. que a própria autora ampliasse seus co-
cultural, da identidade, implica ambas nhecimentos, o que lhe instigou a estu-
as dimensões e não reconhece as fron- João de Deus dos Santos dar as relações das pessoas com o cine-
teiras formais modernamente estabeleci- Professor de didática da Faculdade de ma e o papel desempenhado pelos
das. Considerando-se essa dificuldade, Educação da Universidade do Estado filmes na formação das pessoas em so-
pode-se questionar: como ficam as dis- de Mato Grosso – UNEMAT, no ciedades audiovisuais como a nossa.
ciplinas ou campos do conhecimento Campus Universitário de Cáceres, MT, Ela diz que o livro foi fruto de sua ex-
que estudam, cada qual do seu lado, a e doutorando em educação na Univer- periência pessoal como espectadora,
questão psíquica e a questão social? sidade Federal do Rio Grande do Sul. pesquisadora e professora. Assim é
Como elas respondem – ou têm respon- E-mail : jzeus@terra.com.br que, como toda escrita apaixonada, é
dido – a essa problemática? possível sentirmos a presença da autora
A questão da identidade sob o no decorrer da leitura. Comenta sobre
enfoque cultural coloca, assim, um DUARTE, Rosália. Cinema & sua paixão por assistir a filmes desde
enorme ponto de interrogação sobre a educação: refletindo sobre cinema e quando era criança (muitos deles, na
tradição disciplinar, sobre a divisão do educação. Belo Horizonte: Autênti- televisão), bem como sua paixão pelo
conhecimento em campos específicos, ca, 2002, (p. 126) cinema, o que envolve certos “sacrifí-
fechados, absolutos, incomunicáveis. cios” para que se possa entrar no mun-
Essa pergunta não se satisfaz com uma do dos cinéfilos.1
possível resposta moderna de que basta Mais um livro da interessante e
um sujeito racional; aliás, a afirmação útil coleção Temas & Educação, da
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da formação cultural da identidade co- Editora Autêntica acaba de ser lança- Segundo a autora, no mundo do cine-
loca em dúvida a própria possibilidade do. Trata-se de Cinema & Educação, ma, cinéfilos são pessoas que desenvolvem
de um sujeito monolítico, concluso e de Rosália Duarte, professora do De- uma relação muito intensa com filmes: vêem
fixo. Eis uma contribuição ao pensa- partamento de Educação e do Progra- de tudo, vão ao cinema regularmente, vêem
mento contemporâneo. ma de Pós-Graduação em Educação, filmes em vídeo e na tevê, freqüentam festi-

Revista Brasileira de Educação 171


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No primeiro capítulo, a autora de que forma o cinema foi se constituin- terossexual, ao invés de outras represen-
discute a pedagogia do cinema. Cita do e se modificando ao longo do tempo. tações mais democráticas e mais plurais.
Pierre Bourdieu, diz que a experiência Reporta-nos à época em que o cinema Rosália discute, também, uma
das pessoas com o cinema contribui era percebido como registro do “real”. questão recorrente e complexa no meio
para desenvolver o que se pode chamar Assinala que em 1910, nos Estados Uni- cinematográfico: a questão da autoria e
de “competência para ver”. Porém, o dos, D.W. Griffith dá novo significado à o quanto a autoria interferiu no fazer
desenvolvimento de tal competência linguagem cinematográfica. Tratava-se, cinematográfico, originando vários
não se restringe ao simples ato de as- então, não apenas de captar o “real”, movimentos estéticos mundo afora.
sistir a filmes; tal competência tem li- mas de criar uma ilusão de realidade No quarto capítulo, a autora traba-
gação com o universo social e cultural que é própria do cinema (possibilidade lha com a idéia do espectador enquanto
dos indivíduos. de criar outros mundos, de inventar cos- sujeito. Aborda a questão da recepção
Rosália Duarte afirma que, em tumes, ficções e tradições). que tem sido tateada por diversos profis-
sociedades audiovisuais como a nossa, Discute o cinema-indústria nos Es- sionais no intuito de entenderem o modo
o domínio dessa linguagem é requisito tados Unidos e as produções milionárias como as relações entre mídia audiovi-
fundamental para que possamos transi- de Hollywood. Apesar de uma certa pa- sual e sociedade interferem na composi-
tar em diferentes campos sociais. A dronização neste tipo de produção, o ci- ção das identidades, do imaginário social
imagem em movimento tem relação nema, por ser uma arte inquieta, não se etc. Segundo Rosália, no olhar do recep-
com aquilo que somos, com nossas submete a uma homogeneização. Cita al- tor está impressa uma forma de ver o
identidades, o que nos remete a uma guns movimentos ligados ao cinema, mundo a partir de sua cultura. Sendo as-
reflexão sobre a importância da lingua- bem como as contribuições que tais mo- sim, os significados que as narrativas de-
gem audiovisual na nossa sociedade. vimentos trouxeram para a arte cinema- sejam imprimir dependem de como elas
Valoriza-se muito, em nossa cultura, a tográfica. Retrata, também, um pouco serão vistas e interpretadas.
linguagem escrita e a importância de da história do cinema brasileiro e de que A autora ainda apresenta as narra-
conhecermos uma série de obras literá- forma ele veio se constituindo em dife- tivas em imagem-som, a partir das se-
rias, bem como seus autores; mas a lei- rentes momentos de sua trajetória. guintes questões: a ficção e a realidade;
tura de imagens e a prática de ver e O terceiro capítulo é voltado para a importância da identificação do espec-
analisar filmes é de extrema relevância a gramática cinematográfica e sua lin- tador com os filmes; a interpretação (ar-
e importância no nosso cotidiano. guagem. Rosália discorre sobre cada um ticulação entre informações e saberes de
Essa questão da linguagem au- dos elementos das narrativas fílmicas – nossas experiências de vida e aqueles
diovisual tem especial importância para câmera, iluminação, som, fala, música e adquiridos em nossas experiências com
nós, professores e professoras, se pen- montagem ou edição – e o quanto tais artefatos audiovisuais); o processo de
sarmos a educação com um processo de elementos adquirem significado à medi- significação das narrativas fílmicas.
socialização. Ela discute esse tema a da que se unem formando um todo. A No quinto capítulo, a autora discu-
partir de dois autores – Émile Durkheim linguagem do cinema está ao alcance de te especificamente o cinema na escola.
e Georg Simmel –, de duas correntes todos nós que vivemos em sociedades Cita uma série de “filmes de escola”
distintas da teoria sociológica. audiovisuais e, à medida que conhece- que veiculam representações de currícu-
No segundo capítulo, Rosália mos tal linguagem, aprimoramos nossa lo, de professores/as, de preferências se-
apresenta um breve painel da história do competência de ver. xuais, entre outras questões. Rosália re-
cinema. No apanhado que faz, mostra O cinema é compreendido en- afirma a necessidade de explorarmos
quanto prática social, pois o significado filmes na escola, mas não somente
cultural de um filme depende do contex- como recurso de apoio didático, de se-
to em que é visto ou produzido. Neste gunda ordem. Podemos contribuir no
vais e podem passar horas e horas discutindo sentido, os filmes trazem uma série de processo de “ensinar a ver”. Porém, de-
o assunto com os amigos – pois é preciso co- convenções, de representações – de vemos nos preocupar também com a es-
nhecer um pouco de história do cinema, ver masculinidade, de feminilidade, de in- colha dos filmes, a partir do que sabe-
os filmes consagrados, saber falar de técnica fância, de etnia, de misticismo etc. – e mos sobre cinema. O cinema é uma rica
cinematográfica usando vocabulário adequa- de padrões sociais, de forma que façam fonte de conhecimentos, apesar de ter-
do, identificar os diretores, as tendências, os sentido para o público. A autora ressalta mos uma certa dificuldade em percebê-
movimentos. No quarto capítulo, a autora de- que no cinema dominante sobressai o lo desta maneira; e é, também, uma for-
senvolve esta questão em detalhe. olhar masculino, branco, ocidental, he- ma de arte. A autora traz idéias e

172 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23


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propostas de trabalhos com filmes, prin- sor na literatura infanto-juvenil. Para siste na análise de 23 obras da literatura
cipalmente os de ficção científica, cujo proceder tal exame, foram seleciona- infantil para caracterizar o discurso
caráter pedagógico, segundo ela, tem dos cem livros que compõem a produ- professoral, isto é, os jeitos das profes-
um sentido bem mais abrangente. Por ção brasileira mais recente. O objetivo soras falarem em sala de aula. São
isso, reitera a importância da análise das da coletânea, ao examinar as represen- apontadas três características básicas;
imagens e das narrativas fílmicas. tações de professores e professoras, uma delas é que professoras são bas-
O sexto capítulo discute os filmes não é evidenciar um modo “real” de tante loquazes, falam, falam, falam
enquanto objeto e campo de pesquisa ser professor ou professora, mas mos- muito; outra é a falta de controle da
em educação. Os filmes podem ser li- trar regularidades nas formas como são voz, fazendo uso de muitos gritos e,
dos e analisados enquanto textos, o que apresentadas essas personagens ao pú- por fim, abusam de palavras difíceis,
implica uma análise descritiva de fil- blico infanto-juvenil. tornando a fala professoral incompre-
mes. Relata a experiência de alguns au- As autoras conduzem suas análi- ensível aos alunos e alunas e compro-
tores nessa análise, tais como Mary ses a partir de um mesmo referencial metendo a comunicação entre eles.
Dalton, Henry Giroux, Guacira Lopes teórico, qual seja, os Estudos Culturais Na seqüência, o texto intitulado
Louro, Áurea Guimarães. “que se interessam pelas questões de re- “Formosura parelhada na inteligência:
Encerra o livro dizendo que: presentação, de identidade e poder, num a beleza que ensina nos livros infanto-
“Ver e interpretar filmes implica, aci- ponto de vista pós-moderno” (p. 10). Ao juvenis”, elaborado por Daniela Ripoll,
ma de tudo, perceber o significado mesmo tempo, os textos são marcados relata o que seu olhar atento para “al-
que eles têm no contexto social do pelas experiências e estudos já realiza- gumas questões de gênero, sexualidade
qual participam” (p. 107). dos pelas autoras, o que certamente in- e docência” (p. 70) encontrou nas 15
No final do livro, e seguindo a or- fluenciou o tema trabalhado por cada obras pesquisadas. Segundo Ripoll, é
ganização geral da coleção, a autora su- uma delas: ciências, raça/etnia, alfabeti- ambivalente a forma como as professo-
gere leituras adicionais e vários sites da zação, mídia, língua materna, gênero/se- ras são narradas sob o ponto de vista
Internet comentados sobre história e xualidade, educação física. do gênero e da sexualidade, pois ao
teoria do cinema e filmografia em geral. Após a apresentação feita pela lado de clássicas representações de re-
Não há dúvida de que este livro, organizadora, o primeiro estudo, de au- cato, bondade, mulheres sozinhas que
além de informativo, discute importantes toria de Maria Lúcia Wortmann, doam seu amor aos “filhos empresta-
questões pertinentes ao campo educacio- intitula-se “Sujeitos estranhos, distraí- dos”, encontram-se professoras seduto-
nal e traz sugestões úteis para o ensino dos, curiosos, inventivos, mas também ras, desejáveis e que despertam amores
em geral, uma vez que assume o enten- éticos, confiáveis, desprendidos e ab- e paixões em seus alunos. As citações
dimento de que existem uma ampla série negados: professores de ciências e feitas pela autora deixam claro o quan-
de pedagogias culturais que não podem cientistas na literatura infanto-juvenil”. to os corpos de professoras/es e de
ser ignoradas por nós, educadores e edu- Analisa 12 obras, mostrando as marcas alunos(as) vêm ganhando visibilidade
cadoras. O cinema é uma delas. com que são apresentados os professo- nesta literatura.
res de ciências e os cientistas. Para Em “As representações do(a)
Viviane Klaus proceder tal exame, Wortmann faz con- professor(a) negro(a) na literatura
Professora da Rede Municipal de Ensi- siderações sobre como vêm se desen- infanto-juvenil ou sobre os fluxos das
no de São Leopoldo e mestranda do volvendo questões atuais no campo da águas...”, a autora, Gládis Kaercher, ini-
Programa de Pós-Graduação em Edu- ciência e, ainda, discute o termo “re- cialmente revisa os termos raça e etnia,
cação da UFRGS, como bolsista do presentação”, já que este tem uma série discutindo sob aspectos biológicos e
CNPq. E-mail : viklaus@terra.com.br de significados que lhe são atribuídos culturais os cambiantes significados que
em diferentes áreas. Tal conceito é uti- eles assumem nos discursos, por exem-
lizado nos demais capítulos desse livro. plo, nos campos da sociologia e dos es-
SILVEIRA, Rosa M. H. (org.). Professo- Quanto aos traços que marcam aqueles tudos culturais. Foram selecionados 10
ras que as histórias nos contam. Rio que ensinam/praticam ciência, o pró- livros infanto-juvenis que têm como
de Janeiro: DP&A, 2002. prio título desse capítulo é elucidativo. personagens professores(as) negros(as).
O capítulo seguinte, “Gritos, pa- Eles são marcados por estereótipos ra-
O livro organizado por Silveira lavras difíceis e verborragia: como a cistas que “naturalmente” vinculam os
apresenta oito textos que analisam as professora fala na literatura infantil”, negros ao que é feio, sujo e que cheira
representações de professora e profes- escrito pela organizadora do livro, con- mal. Assim, mesmo que a profissão do-

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