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2 • Contos

Mário de Carvalho, "Famílias desavindas"


a. Introdução
Mário de Carvalho nasceu em 1944 e tem a cidade de Lisboa como centro da sua obra, embora a ação
st
d_e : conto decorra na baixa portuense. Licenciado em Direito, acabou por cumprir pena devido à resis-
tenc,a antifascista Distin · d . -
. · gu,n o-se em diversos generos, lançou Contos Vagabundos, em 2000, no qual se
insere o conto "Famílias desavindas''.

b. Resumo do conto
Numa na rrativa breve e ancorada numa linguagem precisa e irónica, este conto relata o conflito criado
ent re duas família s - a dos semaforeiros e a dos méd icos - devido a um semáforo instalado numa "dessas
alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba".
A invenção de Gerard Letelessier - "os únicos semáforos do mundo movidos a pedal"- trouxe a mudança
para a "infrequentado Rua Fernão Penteado", "no dobrar do século XIX", t endo sido introduzidas melhorias à
máquina durante a Primeira Guerra, nomeadamente a ret irada da roda da frente do aparelho. A escolha do
primeiro semaforeiro, Ramo n, baseou-se no facto de ser familiar "do proprietário dum bom restaurante",
tendo o cargo passado para os seus descendentes - Ximenez, Asdrúbal e Paco - , sempre com empenho,
num claro "amor à p rofissão".
Esta existência calma e de salutar convívio com os viandantes foi alterada com a vinda do Dr. João Pedro
Bekett para a esquina da rua, onde montou con sultório. Com a sua inusitada atitude de andar "pelas ruas a
interpelar os transeuntes", via no semáforo um travão à sua impulsividade. Um dia, afirma rispidamente a
Ramon que não há nada nem ninguém que possa interferir com a sua atividade, o que provocou o desa-
grado no semaforeiro, que passou a dificultar a passagem do médico - "E eis duas famílias desavindas".
Esta contenda foi passando para os filhos e para os netos, com insultos pelo meio, até ao dia em que
Paco foi vítima colateral de um roubo por esticão, levando o Dr. Paulo a abandonar ódios e a assistir a ví-
tima. E enquanto o semaforeiro não regressava, o médico pedalava até à exaustão, " cheio de remorsos", a
querer "penitenciar-se, ser útil".

e. História pessoal e história social: as duas famílias


Sem apelido conhecido, mas dedicados à sua missão de pedalar para sustentar o semáforo, os galegos
caracterizam-se pela dedicação à melhoria e conservação daquele dispositivo, mesmo a "altas horas da
madrugada", quando andavam "de ferramenta em riste".
Os Bekett têm em comum a medicina, apesar de nem todos a exercerem do mesmo modo. De modo
. , • 1· se que se O primeiro Bekett angariava pacientes na rua, o segundo alertava todos para os
1ronico, exp 1ca-
. , t · s ·, ncorretos e o terceiro era tão minucioso nas suas explicações que provocava o sono nos
seus d 1agnos 1co
j pacientes. , . . . . . ,
'= . companhar estas historias 1nd1v1dua1s, observa tambem a passagem do tempo, desde o
;: 0 1e1tor, ao a
~. , . d , XX com a invenção do jovem engenheiro francês, até à Revolução dos Cravos, passando
? 1n,c10 o secu 1o ,
§ pelas sangrentas duas guerras mundiais.
Capitulo IV · Educo ão l11erório . 12 º ano

História pessoal História social


Semaforeiros Médicos

Ramon - primeiro semaforeiro, foi João Pedro Bekett _ "pai de filhos e médico
selecionado por ter um familiar que singular", esta figura oriunda d e Coimbra
tinha um bom res taurante. ocupou urn primeiro andar na esquina do
Apesar de n unca ter pedalado, cruzamento, daí não gost ar das restrições que 1.• Guerra Mundial
•era esforçado, cheio de boa vonrade". o sem áforo (ou Ramon) lhe impunha qua ndo
interpelava impulsivamente os possíveis
pacientes.

Ximenez ub slitui o seu pai Ramon no João - "médico muito modesto", era bastante
temp0 d.~ Segunda Guerra Mundial. inseguro na sua prática médica e informava os
pacientes dos seus erros abundant es, porque
·'enganava-se, era um facto", encamin hando-os 2.ª Guerra Mundial
para um outro colega de profissão.
Herdou o ódio do pai ao semáforo e gostava de
encandear Ximenez com um espelho.

Asd rúbal assume o legado do avô, Paulo - insultava Asdrúbal, rosnando


•pouco depois da revolução de Abril~ "Sus, galego':
Revolução do
Alimentava o odio contra os Bekett, Em termos profissionais, •era muito
25 de Abril
insultando Paulo - •xô, magarefe - rendo explicativo; o q ue levava ao adormecimento
até levantado a mão uma vez. dos seus pacientes, numa "técnica" que os seus
colegas ironicamente denominavam d e
Paco - último representante da família, "terapio do sono".
pedalando com empenho, pese embora o Após a consulta, incitava os d oentes a
parco vencimento dado pela administração. insultarem Asdrúbal e depois Paco.
Interagindo com os transeuntes, comuta o
"um dia destes";
O roubo por esticão que d eixa Paco estendid o
sinal se está bem-disposto. no asfalto leva Paulo a largar •ódios velhos· e a
"Há dias"
analisar o seu estado, mas t ambém a ocupar o
lugar do semaforeiro enquanto est e estava no
hospital.
_J_ _ _ _ _ _ _ __

d. Valor simbólico dos marcos históricos referidos


Conhecer a história destas duas famílias até ao conflito gerado é também conhecer o contexto histó-
rico-social da sociedade portuguesa, desde o "dobrar do século XIX" até à época contemporânea.
Os marcos históricos mais evidentes são as referências às grandes guerras, bem como a Revolução de
Abril de 1974.
Estas coordenadas temporais têm como função conferir verosimilhança à história, fazendo crer que
esta invenção foi real.

e. A dimensão irónica do conto


A ironia do narrador é bastante evidente nesta pequena narrativa, logo na sequência inicial, ao referir o
agrado com que o autarca do Porto recebeu as garrafas de Bordéus que acompanhavam a proposta do
engenheiro, depois da recusa que recebeu em Paris e em Lisboa, reforçada pela escolha de uma "infrequen-
tado" rua para a sua instalação.
Também o "cuidadoso" processo de seleção dos candidatos (em que a rede de ligações pesa) ou a de-
terminação dos semaforeiros em manterem a (inútil) roda de trás revelam esse fino sarcasmo, que atinge
354
• . 2 - Cc,r•rf.,
ponto inte ressante quando , .
un1 . ~ e enfatizada a fe/;c·dI -
ranií/ías desa v, nd ªs, para nao transform ade de nao haver ''descendentes cosodoíros H nestas
. , ar este conflito , .
O modus operand I da familia Bek t . . numa traged,a shakespea riana .
e t susota ,gua/m .
O nso, porque os trés méd icos têm posturas c l,-
,
·cas diferentes, apesar de todas e/a . . . ente
nl s co,nc,d,rem
tes. Aliás, Pa co foi prontamente atend·d na eS t ranheza dos seus relac ionamen tos com os pacíen-
, 0 por uma amb / ~ · ,, d
no capítulo das 'manchas de sangue"'. u anc,a, antes que o doutor [Pa ulo] ti vesse entro o

f. A importância dos episódios e da peripécia final


De estrutura bastante linear, esta história tem três sequências narrativas:
• o relato das histórias pessoais das duas famílias;
• o conflito entre João Pedro Bekett e Ramon, resultando na inimizade que se perpetua nos descen-
dentes;
• a reconciliação entre ambos após o acidente de Paco, o que levou à rápida intervenção do Dr. Bekett.

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