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ESCOLA BÁSICA E SECUNDÁRIA HENRIQUE SOMMER

Português – 12º ano


Ficha de Preparação para o exame nacional (Nº 1)
GRAMÁTICA/ EDUCAÇÃO LITERÁRIA: Recursos Expressivos
RELEMBRA / APRENDE / SABE…

 Introdução
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como um rio.
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
[…] Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
[…] E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio
Fernando Pessoa, Poesias-heterónimos, Porto Editora, 2010

1. Explica o sentido das imagens “como um rio” e “um mar muito ao longe”.
As imagens permitem “visualizar” o rio com seu curso sempre constante e o mar infinito, cuja extensão é
imensurável, para transmitir a ideia da transitoriedade da vida e de um destino que não controlamos.
2. Explicita o efeito produzido pelo eufemismo e pela perífrase presentes nos dois últimos versos.
Estes recursos expressivos atenuam a ideia da morte inevitável.
Para responder cabalmente a este tipo de questões em que se procura que os alunos comentem ou
interpretem o sentido ou o efeito dos recursos expressivos, é necessário conhecê-los, assim como
compreender a sua funcionalidade no texto. Os recursos expressivos são procedimentos literários que
permitem ornamentar o discurso e tornar a expressão mais eficaz.

Recurso expressivo – processo linguístico que atribui beleza e expressividade à informação apresentada nos
textos literários (géneros narrativo, dramático e lírico) e não literários (produzidos na vida quotidiana, na
publicidade, no desporto, na política…) estruturando a linguagem.

 Diferentes tipos de Figuras (alguns exemplos)


 As figuras de analogia
Estas figuras também designadas por imagens são recursos expressivos que estabelecem uma
aproximação poética entre duas realidades comparáveis ou que têm um aspeto em comum.

Definição Exemplo Comentário


A comparação é uma figura que Os seus olhos (termo comparado) A aproximação entre os olhos e as
associa duas realidades distintas, brilhantes pareciam ( verbo de estrelas pretende sublinhar a
apresentando ao mesmo tempo o comparação) estrelas no seu beleza dos olhos da amada.
comparado, o seu comparante e o rosto. (termo comparante)
termo de comparação (como, tal,
assim, à semelhança, parecer…).
A metáfora é uma comparação A doce fala, o riso doce e grave / Os rubis são os lábios e as perlas
entre duas realidades diferentes, Entre rubis e perlas lampejando. os dentes. O processo
sem a presença do termo de (Diogo Bernardes) transfigurador pretende estimular
comparação para estimular a os sentidos do leitor para
imaginação e a sensibilidade do imaginar a beleza da dama.
leitor. O verbo ser pode surgir na
construção desta figura.
A personificação é uma figura O meu pião fungava, adormecia Para descrever os movimentos
que atribui características […] voltava a bailar. (Aquilino irregulares do pião, o emissor
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humanas a um objeto, um animal Ribeiro, Cinco Réis de Gente) humaniza-o para tornar mais
ou uma ideia. expressivo o que parecia ser um
pião dotado de humor
inconstante.
A alegoria é uma figura em que O polvo, com aquele seu capelo Padre António vieira recorre à
as abstrações ou os diversos na cabeça, parece um monge; figura do polvo para concretizar a
aspetos de uma ideia são com aqueles seus raios ideia da hipocrisia e evidenciar o
concretizados sob a forma de estendidos, parece uma estrela; jogo de aparências em que se
imagens, mediante elementos com aquele não ter osso nem compraz o hipócrita ou o
descritivos ou narrativos. espinha, parece a brandura, a dissimulador para melhor
Diferentemente da metáfora, a mesma mansidão. apanhar os ingénuos.
alegoria é um tipo de imagem na (Pde. António Vieira, Sermão de Santo
António aos Peixes)
qual o comparado é abstrato e o
comparante é concreto.

 As figuras de substituição
Estas figuras substituem um termo por outro ou uma expressão com o mesmo sentido. Estes
recursos expressivos acentuam pormenores significativos ou sublinham as relações lógicas de proximidade
ou poéticas entre dois elementos.

Definição Exemplo Comentário


A metonímia opera uma relação Ele ficou em casa com o seu Porto A primeira metonímia, Porto,
lógica de proximidade através da e um Saramago. designa o produto (o vinho) pelo
transferência de significado das seu local de origem; na segunda
palavras: a causa pelo efeito, o metonímia, o nome Saramago
continente pelo conteúdo, um designa uma obra do escritor
objeto pela sua matéria, o autor (Saramago) e não o próprio.
pela obra, o local pelo produto.
A perífrase consiste na Eternos moradores do luzente / O poeta, em vez de usar uma só
substituição de uma palavra por Estrelífero Polo e claro assento palavra, “deuses”, recorre a uma
uma expressão mais longa e de (Luís de Camões, Os Lusíadas) expressão mais longa para
sentido idêntico. É a designação descrever eloquentemente a
de uma personagem ou de um natureza grandiosa dos
fenómeno pelas suas interlocutores de Júpiter.
características, evitando
repetições, descrevendo ou
valorizando o que se evoca.
A sinédoque é um caso particular As armas e os barões Substituição do todo (Portugal)
de metonímia em que se assinalados / Da Ocidental praia pela parte (praia Ocidental),
estabelece uma relação lógica (a Lusitana, (= Portugal) valorizando a orla portuguesa
parte pelo todo e vice-versa, (Camões, Os Lusíadas) como a parte mais ocidental da
singular pelo plural e vice-versa). Europa.
Este recurso valoriza uma
característica, um aspeto
simbólico.
A antonomásia é uma figura de 1. Dama de Ferro (Margaret Substituição de um nome próprio

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linguagem caracterizada pela Thatcher) por outro com o qual mantém
substituição de um nome próprio 2. O Troiano (Eneias) uma relação semântica,
por um nome comum ou por 3. Rei da Selva (o leão) destacando características ou
expressão que lembre uma 4. Cidade Luz (Paris) factos conhecidos e facilmente
qualidade, característica ou um reconhecidos pelo recetor.
facto que identifique o nome de
alguma forma. É uma variante da
metonímia.

 As figuras de oposição
Estes recursos põem em relação termos de sentido contrário.

Definição Exemplo Comentário


A antítese funda-se numa O tempo o claro dia torna escuro. Acentua-se a oposição entre o dia
oposição lógica entre dois (Camões) claro que se tornou escuro,
termos. realidades opostas mas não
antagónicas: registo disfórico
acerca da passagem do tempo.
A ironia consiste em usar palavras Diabo, dirigindo-se ao Fidalgo: Substituição de um nome próprio
com um sentido oposto ao da Embarqu’a a vossa doçura, por outro com o qual mantém
intenção do emissor. Há uma Que cá nos entenderemos. uma relação semântica,
distância entre o que se diz e o (Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno) destacando características ou
que se pretende dizer. factos conhecidos e facilmente
A ironia tem, por vezes, uma reconhecidos pelo recetor.
intenção crítica.
O oximoro associa, numa mesma É ferida que dói e não se sente. O exemplo mostra a associação
expressão, dois termos (Camões, Rimas) de dois termos irreconciliáveis
contraditórios, para surpreender (ter dor/ e não sentir) para
e convidar o recetor à reflexão. sublinhar a forma intensa e
absurda como se vive a paixão
amorosa.

 As figuras de atenuação e de amplificação


Estas figuras têm como objetivo atenuar ou intensificar (exagerar) a realidade evocada de forma a atingir a
sensibilidade do destinatário.
Definição Exemplo Comentário
A hipérbole amplifica (exagera) 1. Chorei rios de lágrimas Estes exemplos são a expressão
os termos do discurso para 2. Estou a morrer de fome. propositada de um exagero, por
valorizar o objeto ou uma ideia. 3. Ela gastou rios de dinheiro vezes dramatizada, para valorizar
com a sobrinha. uma dor, uma necessidade ou
uma ação.
O eufemismo atenua a expressão 1. Entregou a alma ao criador No 1º exemplo, a expressão da
de uma ideia ou de um (= morreu) morte como fim ou
sentimento para suavizar uma 2. Esta barca vai para a Ilha desaparecimento da pessoa é
realidade desagradável. Perdida. (= Inferno) suavizada com a imagem da alma
junto do criador; no 2º exemplo,
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o eufemismo atenua o
sentimento de medo que provoca
a ideia do Inferno.
A lítote é um processo que 1. O Rui não é dos mais Cada um destes exemplos sugere
consiste em dizer pouco para perspicazes da turma. o contrário do que se afirma. No
sugerir muito, realçando sentidos 2. A minha amiga Ana não é 1º caso, o autor diz que o Rui é
implícitos. É a expressão de uma nenhuma modelo. tolo, pouco esperto; no 2º caso,
ideia através da negação do seu 3. A Joana não canta mal. afirma-se que a Ana não é
contrário, atenuando o impacto 4. Eu não desgosto de ti de elegante; no 3º exemplo, sugere-
da verdade direta. Por vezes, todo. (= gosto bastante de ti) se que a Joana canta bem; no 4º,
pode ter um registo irónico. 5. Não te conto entre os meus a frase acentua a intensidade do
inimigos. (= conto-te entre os afeto pela sugestão da expressão
meus amigos) “de todo”; no último exemplo, a
frase pode ter um conteúdo
irónico, dependendo do contexto.
A gradação é um tipo de Come-o o sangrador que lhe tirou Neste exemplo de gradação,
enumeração que apresenta uma o sangue; come-o a mesma temos uma enumeração em que a
sucessão de elementos segundo mulher, que lhe dá de má ordem ascendente dos elementos
uma progressão crescente ou vontade para a mortalha o lençol sublinha dramaticamente a triste
decrescente. A ordem pode ter velho da casa; come-o o que lhe sina do defunto até ser “comido”
um valor positivo ou negativo. abre a cova, […] pela terra.
(Padre Antº Vieira, Sermão de Santo Antº A presença dos diversos
aos Peixes)
elementos (sangrador, mulher, o
que lhe abra a cova) amplifica a
importância da situação.

 As figuras de repetição
Estas figuras de construção jogam com os sons, o vocabulário e a sintaxe. Longe de mostrar pobreza de
vocabulário, estas figuras revelam a intenção de intensificar uma ideia, de marcar o espírito do destinatário.
Definição Exemplo Comentário
A anáfora é um procedimento de É urgente o amor O exemplo de anáfora que se
amplificação rítmica que consiste É urgente um barco no mar. desenvolve na base da repetição
na repetição sucessiva de uma É urgente destruir certas palavras da mesma estrutura sintática
palavra ou expressão no início de (Eugénio de Andrade) pretende dar mais peso à ideia da
versos ou frases para salientar a urgência do amor entre as
mensagem. pessoas.
O paralelismo consiste na Ou é porque o sal não salga, ou O exemplo de paralelismo assenta
repetição sucessiva da mesma porque a terra não se deixa na repetição da mesma estrutura
estrutura frásica. O paralelismo salgar. Ou é porque o sal não sintática “ou é porque”
está associado a outras figuras, salga, e os pregadores não procurando insistentemente as
como a anáfora e a aliteração. pregam a verdadeira doutrina. causas possíveis para a
(Padre Antº Vieira, Sermão de Santo Antº degradação da terra.
aos Peixes)
O quaismo é uma construção 1. Ó minha menina loura No 1º exemplo, os dois primeiros
simétrica no interior de uma frase Ó minha loura menina, versos repetem “menina” e
ou de um parágrafo que procura Dize quem te vê agora “loura”, sugerindo uma espécie

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explorar uma repetição invertida Que já foste pequenina. de eco que acentua as
formando uma estrutura em X. o (Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto características da figura feminina;
Popular)
quiasmo tem valor de insistência, no 2º exemplo, a repetição
2. Aos homens deu Deus o uso
de acentuação. cruzada e invertida das palavras
da razão, e não deu aos
“uso” e “razão” assinala o
peixes; mas neste caso os
absurdo da situação entre os
homens tinham a razão sem
homens e os peixes quanto ao
uso, e os peixes o uso sem
comportamento racional. Reforça
razão.
o aspeto crítico.
Padre Antº Vieira, Sermão de Santo
Antº aos Peixes)
A aliteração é uma repetição Leve, breve, suave, A repetição do som [v] sugere a
intencional dos mesmos sons Um canto de ave. leveza e doçura melódica do
consonânticos em palavras (Frenando Pessoa) canto da ave.
sucessivas ou próximas.

 Recursos estilísticos (outros exemplos)

Na língua portuguesa há mais de cem recursos estilísticos ou figuras de estilo. Ficam aqui mais alguns
exemplos dos mais utilizados.

As Figuras de Estilo ou Recursos Estilísticos são geralmente agrupados segundo a sua função no texto:

Recursos Fonéticos

Assonância
– Repetição intencional da vogal tónica e ou de vocábulos com as mesmas consoantes e com vogais
diferentes.
Ex:
Repetição de vogais : “Pássaro da Lua; que queres cantar; nessa terra tua; sem flor e sem mar?” (Cecília
Meireles)

Rima
– Repetição de sons em locais determinados ao longo do texto, a Rima é também uma forma de
Assonância. A rima pode ser colocada no interior ou no final dos versos podendo ainda ser alternada,
cruzada ou interpolada (ver tipo de rimas) ou emparelhada dependendo da localização do verso dentro da
estrofe.

Onomatopeia
– Imitação de uma voz, som, ruído ou animal como por exemplo as palavras “Atchim”(espirro) ou “Buá”
(choro).
Ex:
“E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.”
(Machado de Assis)
“Crac, zigue-zague, pumba”

Recursos Sintáxicos

Assíndeto
– Exclusão dos elementos que ligam as frases ou orações como é o exemplo comum da conjunção “e”.
Ex:
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“Vim, vi, venci.” (Júlio César)
“Grita o mar, brama o fogo, silva a fera,
Chora Adão, geme o pranto, brada o rogo”
(Poetas do Período Barroco, apres. de Maria Lucília Gonçalves Pires)

Elipse
– Omissão de uma frase ou uma ou mais palavras que estão subentendidas no contexto.
Ex:
“A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos” (Carlos Drummond de Andrade)
“As rosas florescem em maio, as margaridas em agosto.”

Polissíndeto
– É o contrário do assíndeto. O polissíndeto caracteriza-se pela repetição dos elementos que ligas as frases
ou orações.
Ex:
Ora, há dez anos, neste chão de lava,
E argila e areia e aluviões dispersas,
Entre espécies botânicas diversas,
Forte, a nossa família radiava!
(Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde)

Enumeração
- Exposição de pelo menos dois elementos do mesmo valor na frase.
Ex:
“O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a milhares de edições; essas rudes análises,
apoderando-se da Igreja, da Realeza, da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas (…)”
(Eça de Queirós, Os Maias)

Gradação
– Exposição de uma sequencia de palavras ou frases segundo uma ordem lógica crescente ou decrescente.
Ex:
“Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião, uns cingidos de luz, outros ensanguentados (…)” (Machado de
Assis)
“Por uma omissão perde-se uma inspiração; por uma inspiração perde-se um auxílio; por um auxílio, uma
contrição.”

Pleonasmo
– Reforço de uma ideia que já está expressa através de uma palavra ou expressão com o mesmo sentido.
Ex: “Eu canto um canto matinal” (Guilherme de Almeida) // “Subir para cima…. Descer para baixo…”

Anacoluto
– Desvio da estrutura ou sentido da frase. O tipo mais comum de anacoluto é aquele em que o sujeito inicial
é abandonado a meio ficando sem nenhuma ação na frase.
Ex: “O relógio da parede eu estou acostumado com ele, mas você precisa mais de relógio do que eu”. (Rubem
Braga)
“A minha roupa, levo-a sempre àquela lavandaria.”

Hipérbato ou inversão
– Alteração da ordem mais comum das palavras numa frase. Esta pode também ser feita através do
intercalar de outros sintagmas na frase.
Ex:
“Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!”
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(Fernando Pessoa, Mensagem, “Os castelos”, D, Afonso Henriques)

Recursos Semânticos

Imagem
– Trecho de texto que descreve ou evoca vividamente aspetos sensoriais. É frequente a imagem conter
outros recursos de estilo como comparações e metáforas
Ex: “Os teus olhos são dois lagos encantados onde o céu se mira como num espelho!” (Carlos Queirós,
Desaparecido)
“Para os vales, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram
como um musgo macio onde apetecia rolar.”

Alegoria
– Conjunto de metáforas e ou comparações que formam uma imagem ou conjunto de ideias com um
sentido ou contexto final mais extenso e determinado.
Ex:
“Os dias da nossa idade, ou seja curta ou comprida, são como as marés, que ora enchem, ora vazam:
enchem nos rios da vida, vazam no mar da morte.“ (António das Chagas, Cartas Espirituais)

Animismo
– O animismo atribui vida ou movimento a objetos inanimados. Ao contrário da personificação ele não lhes
confere características próprias de seres humanos.
Ex:
“E assim nas calhas de roda,
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)

Paradoxo
– Utilizar palavras ou expressões opostas ou contraditórias como parte da mesma ideia.
Ex:
“Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer”.
(Camões)
Sinestesia
– Misturar diversas perceções para exprimir uma ideia englobando assim os diferentes sentidos (tato;
olfato; visão; audição, e paladar).
Ex:
“(…) água de que se exala um hálito verde envolvido nas ondas.” (Raul Brandão, Os Pescadores)
“Cheira a mel e sabe a vento”

Hipálage
– Atribuir a um substantivo um adjetivo, característica ou qualidade que pelo contexto se subentende que
pertence a outro.
Ex:
“(…) precisava de vexar aquela tipa, que, de perna cruzada, baforava um fumo feliz.” (Vergílio Ferreira, Aparição)
“…uma tímida fila de janelinhas.” (Eça de Queirós, Os Maias)

APLICA / TREINA…
1. Lê o texto.
Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente,

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Repousa lá no Céu eternamente, E se vires que pode merecer-te
E viva eu cá na terra sempre triste. Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente, Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Não te esqueças daquele amor ardente, Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Que já nos olhos meus tão puro viste. Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís Vaz de Camões, Rimas

1.1 Estabelece a correspondência correta entre as colunas A, B e C.

Coluna A Coluna B Coluna C


Frase Recurso expressivo Valor expressivo
1. “Alma minha gentil, que te A – anástrofe I – Cria uma imagem gratificante.
partiste” (v.1) D - V
2. “lá no Céu […] / cá na terra” B – paralelismo de construção II – Complexifica o conceito em
(vv.3-4) C - VI referência.
3. “assento Etéreo” (v.5) C – antítese III – Altera a ordem sintática da
F- I frase, de modo a valorizar o sentido
da visão.
4. “lá no assento Etéreo onde D – eufemismo IV – Precisa limites temporais.
subiste” (v.5) E - II
5. “Já nos meus olhos tão puro E – perífrase V – Suaviza a ideia de morte.
viste” (v.8) A - III
6. “que tão cedo de cá me leve a F – metáfora VI – Posiciona / localiza conceitos
ver-te,/” de vida.
“quão cedo de meus olhos te
levou.” (vv.13-4) B – IV
2. Estabelece a correspondência correta entre a coluna A e a coluna B.

Coluna A Coluna B
1. Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
(Camões)
2. Deixa as praças, vai às praias, deixa a terra, vai-
(A) Pleonasmo
se ao mar. (Pde. Antº Vieira)
3. Os Lusitanos combateram o Mouro enraivecido. (B) Comparação
4. Os espaços, a estrada parecia banhada de uma
claridade quente que faiscava. (Eça de Queirós) (C) Metáfora
5. Fachadas de casas, caladas e pálidas, surgiam,
de entre as árvores… (Eça de Queirós) (D) Quiasmo
6. Tu és aluz dos meus olhos.
7. Falar e ninguém responder, é a tristeza mais (E) Antítese
triste que alguma vez senti.
(F) Aliteração
8. Toda a noite o rouxinol chorou, gemeu, rezou,
gritou perdidamente. (Florbela Espanca) (G) Paralelismo de construção
9. Vistos do alto, os automóveis pareciam um
formigueiro. (H) Hipálage
10.O silêncio pesava como chuva.
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11.Trave da tua casa, lume da tua lareira. (José (I) Onomatopeia
Saramago)
12.E fere a vista com brancuras quentes. (Cesário (J) Polissíndeto
Verde)
13.O português é valente. (K) Ironia
14.É ferida que dói e não se sente (Camões)
15.O Amor é um fogo… / é ferida…/ é um (L) Personificação
contentamento…/ é dor que desatina…/é um
(M) Sinestesia
andar solitário… (Camões)
16.Casos que Adamastor contou futuros (Camões) (N) Oximoro
17.Vi claramente visto o lume vivo (Camões)
18.Não acertaste nenhuma resposta. És um rapaz (O) Apóstrofe
muito esperto!
19.Joana deu à luz uma menina. (P) Gradação
20.Hé-lá! Hê-hô! Ho-o-o-o-o-o! (Álvaro de Campos)
21.A vela desfraldando…/ Nos troncos fez o usado (Q) Hipérbole
movimento. (Camões)
22.Suspira e chora e canta e geme. (António Ferreira) (R) Sinédoque
23.O amor ao sacerdócio, o sacerdócio pelo amor
(S) Hipérbato
(Alexandre Herculano)

(T) Trocadilho

(U) Anástrofe

(V) Antonomásia

24.Pela janelinha sem vidro do meu quarto entra 1. Aliteração


uma coluna de sol…(Raul Brandão) 2. Paraleleismo de construção
25.Está um calor de assar canas… 3. Sinédoque
26.Ó rodas, ó engrenagens… (Álvaro de Campos) 4. Sinestesia
27.O rapaz dormia, comia, jogava, fazia os 5. Hipálage
trabalhos, levantava-se e voltava a dormir. 6. Metáfora
28.Quando a nau se aproxima, […]/ Mais perto […]/
7. Pleonasmo
E no desembarcar, há árvores, flores, (F. Pessoa)
8. Personificação
29.A tarde descia pensativa e doce… (Eça de Queirós)
9. Comparação
30.Esta é a cativa / Que me tem cativo / e pois nela
10. Comparação
vivo / é força que viva. (Camões)
31.Da lua os claros raios rutilavam. (Camões) 11. Metáfora
32.Estavas, linda Inês, posta em sossego… (Camões) 12. Sinestesia
33.Manuel fumava um pensativo cigarro. 13. Sinédoque
34.Erguem-se velas, avançam rebocadores, / 14. Oximoro
Surgem barcos pequenos… (Álvaro de Campos) 15. Anáfora
35.Com a doçura dolorosa que sobe em mim… 16. Hipérbato
(Álvaro de Campos) 17. Pleonasmo
36.Não menos é trabalho […]/ ainda que tivesse a 18. Ironia
voz de ferro (Camões) 19. Eufemismo
37.Aqui se estreita, aqui se alarga…. (Camões)
20. Onomatopeia
38.E disse: “Ó gente ousada, mais que quantas / No
21. Anástrofe
mundo…” (Camões)
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39.Pensar incomoda como andar à chuva. (Alberto 22. Polissíndeto
Caeiro) 23. Quiasmo
40.Não posso viver comigo / Nem posso fugir de 24. Metáfora
mim. (Sá de Miranda) 25. Hipérbole
41.Se a gente se cansa /Do mesmo lugar/ Do
26. Apóstrofe
mesmo ser… (F. Pessoa)
27. Assíndeto
42.Eu não sou eu nem sou o outro… (Mário de Sá-
28. Gradação
Carneiro)
43.Tendes jardins,…/ E tendes regras, e tratados, e 29. Personificação
filósofos, e sábios… (José Régio) 30. Trocadilho
44.Não hei de morre sem saber/ qual a cor da 31. Hipérbato
liberdade (Jorge de Sena) 32. Apóstrofe
45.Pálidas, pesadas, ó abandonado. (Eugénio de 33. Hipálage
Andrade) 34. Enumeração
46.Por isso com teus gestos me vestiste / E aprendi 35. Oximoro
a viver em pleno vento. (Sophia de Mello B. Andresen) 36. Hipérbole
47.O mito é o nada que é tudo. (F. Pessoa) 37. Antítese
48.Beber este copo soube-me bem.
38. Apóstrofe
49.Lhe dá no Estígio lago eterno ninho. (Camões)
39. Comparação 45. Apóstrofe
50. Este miúdo é o Figo da nossa seleção.
40. Antítese 46. Metáfora
41.
( Adaptado de Como terAnáfora
sucesso no exame 47. Paradoxo
do 12º ano, Didática Editora ) )
42. Antítese 48. Metonímia
43. Polissíndeto 49. Eufemismo
44. Metáfora 50. Antonomásia

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