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Fichamento elaborado por João Vitor Fontanelli - 11/04/2018

André Leroi-Gourhan – O Gesto e a Palavra: técnica e linguagem. Trad. Vitor Gonçalves. Ed 70. Lisboa, 1990, vol. I, p.147-166

Capítulo V – O organismo social

Biologia das sociedades

O homem até agora foi visto como uma “sequência de indivíduos coletivos e específicos (australantropo, arcantropo, paleantropo) substituindo-se no tempo. (p. 147).

“Este indivíduos (…) acompanharam o desenvolvimento da técnica e da linguagem até ao ponto de afloramento no homo sapiens. Com este último assiste-se a uma transformação que parece imputável a uma modificação importante no aparelho cerebral [expansão do córtex pré-frontal]”

Coincidem com estes fatores [desenvolvimento da técnica e do cérebro] a aparição de um “dispositivo social baseado em valores culturais que fracionam em etnias a espécie zoológica humana”.

A vida social organizada não é, todavia, exclusivamente humana. Está presente na vida de outros antropoides, assim como entre mamíferos vertebrados e em todo o reino dos seres vivos.

Há, na vida social, uma opção biológica fundamental, pela mesma razão que na simetria bilateral por oposição à simetria radial, ou que na especialização do membro anterior para preensão.”

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“A relação indivíduo-sociedade varia, no homem, na razão direta da evolução das estruturas tecnoeconômicas (…)”

(p.148)

“A consequência mais direta do nível técnico sobre o grupo social diz respeito à densidade dos grupos.”

Ou seja, quanto maior o grupo, maior a variedade de instrumentos e técnicas de coabitação e de domínio do meio.

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“A análise das técnicas mostra que, no tempo, elas se comportam à maneira das espécies vivas, gozando de uma força de evolução que parece ser-lhes própria e ter tendência para as fazer escapar do domínio do homem. [liberação da técnica pelo homem e evolução particular da mesma].

“Seria portanto de se fazer uma verdadeira biologia da técnica, de se considerar o corpo social como um ser independente do corpo zoológico, animado pelo homem, mas acumulando uma tal

soma de efeitos imprevisíveis que a sua estrutura íntima ultrapassa em muito os meios de apreensão dos indivíduos.”

Questão: “Este corpo social desmesurado será o resultado de uma evolução progressiva comparável e sincronizável com a do cérebro [que, por seu turno, veio de uma evolução da posição], ou outras razões, de caráter não biológico, determinarão a forma tomada em menos de 10.000 anos pelas sociedades atuais?”

A paleontologia e a história do cérebro e da mão dão testemunhos sobre a realidade corporal do

homem, a partir da evolução anatômica e dos materiais fabricados pelas mãos, porém não pode ir muito longe quando se trata da realidade incorpórea do homem, ou seja, o corpo social, as

instituições sociais e os pensamentos.

(p.149)

“(…) só se pode dar testemunhos metafísicos do fato de o pensamento poder ter guiado a evolução,

o que leva o debate para um terreno a que só imperfeitamente o método paleontológico está adaptado.”

Pela etnologia, “pode-se provar que o equilíbrio material, técnico e econômico influenciam diretamente as formas sociais e, por consequência, a maneira de pensar, porém não é possível erigir em lei que o pensamento filosófico ou religioso coincida com a evolução material das sociedades.”

“Se assim fosse, o pensamento de Platão ou de Confúcio parecer-nos-iam tão curiosamente obsoletos como as charruas do primeiro milênio antes da nossa era.”

“A equivalência dos pensamentos humanos é um fato simultaneamente do tempo e do espaço:

naquilo que não está ligado ao domínio das técnicas e ao seu contexto histórico, o pensamento de um Africano ou de um Gaulês são de uma completa equivalência ao meu. (…) conhecido os seu sistema de referência, os seus valores são transparentes”.

“Esse fato é de uma ordem que não pode transpor-se ao mundo material, assim como não se pode fazer caso da força expansiva do cérebro na evolução do crânio. Cada domínio tem suas vias de demonstração, o do material na tecnoeconomia e na história, o do pensamento na filosofia moral ou metafísica; se justificados por os acharmos complementares, esta complementaridade está numa real oposição (?).”

Técnica, econômica e social

Hipótese: Há uma relação de mão dupla entre o meio material do ser humano e seu “corpo social”; um determina o outro.

(p.149)

“Sem que os problemas morais mudem realmente de natureza, a sociedade modela o seu comportamento com os instrumentos que o mundo material lhe oferece (…)”

“Admitir a realidade do mundo do pensamento em face do mundo da matéria, afirmar mesmo que o segundo só está vivo por efeito do primeiro, nada retira ao fato de que o pensamento se traduz em matéria organizada e que esta organização marca diretamente, segundo modalidades variáveis, todos os estados da vida humana.”

(p.151-50)

Comportamento social vs aparelho tecnoeconômico: “dialética comparável a das relações do aparelho corporal e do pensamento alcançado pelo sistema nervoso.”

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Os trabalhos existentes desde Rosseau acerca do “homem primitivo” trataram de conjecturar sobre a ideologia política das diferentes sociedades e “uma curva teórica das instituições sociais, demonstrando até que ponto a sociedade ocidental se afastava e qual era a via a seguir para responder ao bem-estar social dos homens futuros.” *Abordagens que, de um modo ou de outro, caracterizaram as sociedades não-ocidentais pela falta (de “cultura”, de “instituições sociais”, etc.)

Leroi-Gourhan cita como exemplo desta abordagem o marxismo e a sociologia da ação política (?). Entra nesta abordagem o evolucionismo social (de Tylor, Herbert Spencer, entre tantos outros)?

Émile Durkheim, Marcel Mauss, Claude Lévi-Strauss, Lucien Levi-Bruhl → com ideias convergentes às de Leroi-Gourhan, buscaram nos “primitivos vivos” o comportamento social elementar do ser humano.

Em Durkheim – o fato social (definido por sua generalidade em uma sociedade; exterioridade ao indivíduo e coercitividade em sua manifestação);

Em Marcel Mauss – o fato social total (definido pela predominância do social em todos os domínios da vida; por exemplo, o mecanismo da dádiva, composto pelo atos de dar, receber e retribuir)

Lévi-Strauss – a proibição do incesto (definido pela interdição de casamentos entre pais, filhos, irmãos e irmãs; a proibição do incenso condensa de modo primordial os domínios zoológico e étnico no ser humano)

Lévi-Bruhl – a razão da mentalidade primitiva (?)

“(…) a infraestrutura tecnoeconômica só interveio, as mais das vezes, na medida em que marcava de maneira indiscreta a superestrutura das práticas matrimoniais e dos ritos. A continuidade entre as duas fases da existência dos grupos foi penetrantemente expressa pelos melhores sociólogos, mas antes como um desaguar do social no material do que como uma corrente de duplo sentido cujo impulso profundo é o do material.”

Durkheim e Mauss: “enquanto defenderam o ‘fato social total’, consideraram a infra-estrutura tecnoeconômica conhecida”, onde “toda a vida material existe no fato social, o que é particularmente adequado à demonstração do aspecto especificamente humano do grupo étnico (…), mas deixa na sombra o aspecto das condições biológicas gerais pelas quais o agrupamento humano se insere no que é vivo, em que se baseia a humanização dos fenômenos sociais”.

“Para o sociólogo ou para o antropólogo social, o fato social é totalmente humano, pois que atira o homem do cimo da vertente até abaixo. Para quem praticasse uma ‘etnologia das profundidades’, o fato social apareceria como um fato biológico geral, mas totalmente humanizado. (…)”

Comprovar com o zijantropo que a humanização começa pelos pés é talvez menos exaltante do que imaginar o pensamento despedaçando as limitações anatômicas para se forjar um cérebro, mas é um caminho bastante seguro. Para o edifício social deve seguir-se a mesma via”.

O grupo primitivo

(p.151-50)

Hipótese: A forma de organização dos agrupamentos humanos se dá em função:

(a) do regime do ser humano, voltado a alimentos carnudos (vegetais e animais, como frutas,

tubérculos, rebentos, insetos, larvas), e;

(b) das condições ambientais de desenvolvimento e de obtenção destes alimentos.

Assim como nos demais antropianos e primatas, o organismo do homem não desempenha de forma notável [ou exclusiva] a fermentação da celulose (diferentemente dos bisontes, por exemplo).

O ser humano é o único Primata que desenvolveu o consumo da carne de animais. Outros primatas comem carne animal para outros fins que não a alimentação “pura e simplesmente”. P. ex, para marcar posições de chefia, para estabelecer domínio sobre territórios, etc.

“Vegetais ou animais, os alimentos carnudos estão espalhados pela natureza e submetidos a importantes variações no decurso do ano”.

Esta caracterização ecológica e o regime do ser humano impuseram “condições de agrupamento muito precisas”.

(p.152)

“Se o homem tivesse possuído uma dentadura raspadora e um estômago de ruminante, as bases da sociologia teriam sido radicalmente diferentes. Apto a consumir as plantas herbáceas, teria podido como os bisontes formar coletividades transumantes de milhares de indivíduos”

O território

(p.152)

Hipótese: há uma constância do comportamento do ser humano (assim como outros antropoides e primatas) na forma de habitar o mundo: ele precisa de um território de referência. Isto vale para os nômades, caçadores-coletores, etc.

“A alimentação está ligada ao conhecimento aprofundado dos habitats animais e vegetais e a velha imagem da ‘horda’ primitiva errante é, certamente, falsa: um certo deslizar progressivo do território do grupo é possível, a emigração acidental e brutal também é possível, mas a situação normal é a frequentação prolongada de um território conhecido nas suas menores possibilidades alimentares.”

(p.153)

“A densidade alimentar intervém como um fator imediatamente limitativo do número de consumidores, a superfície territorial não é menos limitativa, pois que o grupo só pode existir na medida em que os deslocamentos diários asseguram a coabitação ou que os deslocamentos periódicos asseguram a alimentação de um número relativo de indivíduos agrupados”.

Os grupos primitivos vivos recorrem simultaneamente à busca por recursos periódicos e recursos

constantes em seu meio.

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Divisão e especialização das atividades técnicas sobre o território:

“Em todos os grupos humanos conhecidos, as relações tecnoeconômicas do homem e da mulher são de estreita complementaridade: para os primitivos podemos dizer, mesmo, de estreita especialização”.

Ou seja, o homem caça animais de grande porte, a mulher planta e colhe e caça pequenos animais e

invertebrados. Esta separação é, todavia, flutuante (por exemplo, grupos em que as mulheres abatem certos tipos de animais e os homens não, e outros grupos em que os homens participam do universo da colheita/coleta, como na captura de detrminados frutos ou larvas, na abertura de roças,

etc).

Explicação biológica desta separação: a agressividade dos machos, frequente no reino animal, e a pouca mobilidade da mulher (por conta das necessidades da prole) dividem suas disposições entre a caça e a colheita/coleta.

O imperativo biológico é então humanizado por modalidades sócio-religiosas de racionalização das

trocas alimentares entre homem e mulher.

(p.154)

primitivo

funcionalmente especializados.

O grupo

é

constituído

Polivalência técnica

por

um

número

restrito

de

indivíduos

dos

dois

sexos,

Podem formar uma única unidade de subsistência e/ou se integrar a outras unidades maiores, mas estão em condições de assegurar sua sobrevivência prolongada.

“O seu primeiro caráter é o de possuir um conhecimento completo das práticas de natureza vital e

de ser tecnicamente polivalente.”

O grupo elementar é formado por um número reduzido de casais e sua descendência, que também

podem, dispondo do meio material necessário, viver em relativo isolamento.

“O grupo primitivo é impensável se considerado isoladamente”. “Normalmente, cada grupo integra-se num dispositivo mais largo, constituído por vários outros grupos com os quais efetua trocas a vários planos e em particular no plano matrimonial.”

Seguindo Lévi-Strauss, Leror-Gourhan aponta para a existência de redes de trocas matrimoniais que por suas vezes movimentam trocas de produtos e recursos, sendo a partilha da alimentação um dos fatores “normalizadores” destas relações.

(p.156)

“Geração [de produtos? de vínculos?] e alimentação são tecnoeconomicamente inseparáveis ao nível dos antropianos”.

“A ideia de ‘promiscuidade sexual’ primitiva é tão inconsciente no plano biológico como a da ‘horda errante’.”

Dois níveis de agrupamento:

primário – caracterizado por fatos de aquisição alimentar (casal ou família doméstica) secundário – caracterizado por fatos de aquisição matrimonial (parentesco, etnia).

As simbioses

(p.156)

“As atividades técnicas complementares dos esposos constituem um fato de simbiose, no sentido restrito, porque nenhuma fórmula de separação é concebível, no plano tecnoeconômico, sem desumanizar a sociedade”.

“A simbiose de sobrevivência imediata detém-se ao nível do casal”, porém “(…) existem produtos, matérias ou objetos, considerados como ncessários, de que o grupo elementar não disporia. Entre os primitivos recentes a circulação de objetos [seguindo Mauss; e podendo incluir a circulação de esposas e palavras, seguindo Lévi-Strauss] é um fato de anotação constante.

(p.157)

Clã: grupo de células matrimoniais – fórmula de equilíbrio tecnoeconômico e social.

“Nada autoriza a pensar que desde o Paleolítico recente, pelo menos, não tenha sido assim.”

“A idéia de povoamento primitivo constituído por pequenas hordas errando em percursos intermináveis, sem contatos organizados entre si, é contrária às regras mais simples da biologia”.

“Para todas as espécies a sobrevivência exige a organização simbiótica de um número suficiente de indivíduos, quer em grupos coerentes e numerosos para as espécies cujos recursos alimentares são maçicos [no caso do homem, os agricultores], quer sob a forma de invíduos alojados em territórios contíguos para espécie de recursos dispersos [é o caso dos nômades-caçadores-coletores]

(p.158)

“A forma específica do agrupamento humano implica a permanência, pelo menos relativa, no território e a sua continuidade com outros territórios permanentes, para que se iniciem fenômenos especificamente humanos da vida técnica, econômica e social.”

A passagem zoológica à “espécie étnica” implica inevitavelmente num tal agrupamento humano.

“Este agrupamento, de organização social complexa, possibilita a elaboração de pensamentos e símbolos, e consequentemente da linguagem, que intervêm como instrumentos no domínio do meio exterior.”

Passagem à economia agrícola

(p.158)

Também conhecida como Revolução Neolítica.

“Entre 8000 e 5000 a.C, o dispositivo tecnoeconômico baseado na agricultura e criação de gado aparece e as sociedades tomam uma forma totalmente diferente da que conhece desde as origens.”

(p.159)

“Invenção da agricultura” - possível conjunção de “meio favorável” e “associação espontânea”, sem que tenha havido alguma anormalidade ou “convulsões que comprometeram a sobrevivência cultural”.

“Esta passagem faz-se de maneira imperceptível; as foices estão presentes antes da agricultura e só as estatísticas demonstram que as cabras deixaram de ser caça.”

A protocriação do gado

(p.159)

“A aparição de uma criação de gado que possa servir de transição da cala exige condições de meio favorável bastante particulares porque supõe que caçadores e criadores mantenham relações de algum modo pessoais.”

Os primeiros animais domesticados não puderam ser herbívoros grandes migradores, nem herbívoros perigosos ou rápidos (como o boi, o bisonte, o cavalo).

(p.162)

“As condições do meio físico são ainda mais imperativas do que as condições biozoológicas para a criação do gado.”

Exemplo de Leroi-Gourhan: os vales montanhosos onde circulam os rebanhos de renas da Sibéria e da Lapônia teriam propiciado a domesticação destas, por uma conjunção de fatores zoológicos e geográficos.

Probabilidade da protocriação ter nascido nas montanhas. O único grande mamífero domesticado pelos índios das Américas é o lama dos Andes, que é montanhês.

(p.163)

Prioridade por domesticar animais que não são agressivos, cujo comportamento de fuga é o agrupamento (e não a dispersão), e que o modo de vida coaduna-se aos dos homens sem alterar-lhe significativamente o modo de vida. Relação simbiótica.

A proto-agricultura

(p.163)

A agricultura aparece na mesma época e nas mesmas regiões que a criação de gado.

Leroi-Gourhan nos lembra que o regime do ser humano repousa na complementaridade de recursos dos reinos vegetal e animal.

Hipótese: Esta complementaridade pode ter se dado entre grupos com especializações diferentes, um canalizando rebanhos e outro desenvolvendo técnicas de manejo.

A agricultura nasce das prioridades do ser humano por grãos comestíveis e já conhecidos no seu meio mediante técnicas de coleta.

(p.164)

Condições favoráveis para a domesticação das plantas: proteção e atribuição pessoal de habitats de plantas selvagens, coletadas periodicamente e através de campanhas específicas para isso.

Caso dos índios norte americanos: o arroz selvagem, coletado acessoriamente para suprir a dieta de alguns grupos, era um alimento indispensável à dieta de outros.

“A agricultura é solidária com a criação de gado e a linha de separação entre a economia primitiva e a dos agricultores-criadores não é perceptível; existe uma verdadeira engrenagem”. (p.164)

(p.165)

“(…) a nova economia encontra-se conjugada com as técnicas da caça e da colheita [coleta?] tradicionais.”

“Será certamente necessário rever os julgamentos sobre a “revolução agrícola” que, à escala geológica, é um fato instantâneo mas que, em relação às gerações que a conheceram, deve ter sido, senão imperceptível, pelo menos muito discreta.”

A agricultura e a criação de gado

(p.165)

5000 a.C – Já se encontram nos agrupamentos humanos a associação do trigo e da cevada com o carneiro e o porco, e surgem as primeiras aldeias permanentes.

“A protocriação corresponde a um equilibro que não rompe com as estruturas anteriores (…) todavia a sedentarização só tem sentido a partir do momento em que a sobrevivência do grupo dependa totalmente do grão cultivado.”

(p.166)

Nos agrupamentos, o esquema funcional é praticamente uniforme; contém células de habitação de forma e materiais variáveis, agrupados em ordem densa e não deixando transparecer edifícios que testemunhassem diferenças sociais muito marcadas. (…) Este núcleo de povoamento está provido de estruturas protetoras, paliçadas ou muralhas, parques de gado, silos subterrâneos para grão. O que é imediatamente sensível, por comparação com os grupos primitivos, é a concentração de um número de indivíduos relativamente elevado.”

Traços mais marcantes da sedentarização: capitalização, sujeição social, hegemonia militar e maior densidade populacional.