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CIP-BRASIL.CATALOGAÇÃONAPUBLICAÇÃO

SINDICATONACIONALDOSEDITORESDELIVROS,RJ

B562c

Black,Holly

Achavedebronze[recursoeletrônico]/HollyBlack,CassandraClare;traduçãoRitaSussekind.-1.ed.-RiodeJaneiro:

Record,2016.

(Magisterium;3)

Traduçãode:Thebronzekey Formato:epub Requisitosdosistema:adobedigitaleditions Mododeacesso:worldwideweb

ISBN978-85-01-07736-3(recursoeletrônico)

1.Ficçãojuvenilamericana.I.Clare,Cassandra.II.Sussekind,Rita.III.Título.IV.Série.

16-36513

 

CDD:028.5

CDU:087.5

Títulooriginal:TheBronzeKey

Copyright©2016byHolyBlackandCassandraClareLLC

PublicadomedianteacordocomasautoraseBarorInternational,INC.,ArmonkNewYork,USA.

Todososdireitosreservados.Proibidaareprodução,notodoouemparte,atravésdequaisquermeios.Osdireitosmoraisdaautora

foramassegurados.

Editoraçãoeletrônicadaversãoimpressa:Abreu’sSystem

TextorevisadosegundoonovoAcordoOrtográficodaLínguaPortuguesa.

DireitosexclusivosdepublicaçãoemlínguaportuguesasomenteparaoBrasiladquiridospela EDITORARECORDLTDA.

RuaArgentina,171–RiodeJaneiro,RJ–20921-380–Tel.:(21)2585-2000,quesereservaapropriedadeliteráriadestatradução.

ImpressonoBrasil

ISBN978-85-01-07736-3

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Atendimentoevendadiretaaoleitor:

mdireto@record.com.brou(21)2585-2002.

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ParaJonahLowellChurchill,

quepodeserogêmeodomal.

ParaJonahLowellChurchill, quepodeserogêmeodomal.
CAPÍTULOUM Callfezalgunsajustesfinaisnorobôpoucoantesdeenviá-loao“anel”–umpedaçodochãodagaragem

CAPÍTULOUM

Callfezalgunsajustesfinaisnorobôpoucoantesdeenviá-loao“anel”–umpedaçodochãodagaragem demarcadocomgizazul.EleconsideravaaquelaazonadelutadosrobôsqueeleeAaronconstruirão! commuitoesforçousandopeçasdecarro,magiametálicaemuitaSilverTape.Naquelechãoensopado degasolina,umdosrobôsseriatragicamentereduzidoapedacinhos,eooutrosairiavitorioso.Umse ergueria,enquantoooutrosucumbiria!Um

OrobôdeAaronavançoufazendobarulho.Umdosbracinhosdisparou,oscilou4decapitouorobô

deCall.Foscasriscaramoar.—Nãoéjusto!—gritouCall. Aaron riu. Ele estava com uma mancha de sujeira na bochecha e parte do cabelo ficou arrepiada depois que passou as mãos na cabeça, frustrado. Õ calor Implacável da Carolina do Norte o havia deixadocomonarizqueimadodesoleasbochechassardentas.ElenãosepareciaemnadacomoMakar elegante que havia passado o último verão em festas nos jardins, conversando com adultos chatos e importantes. —Achoqueconstruorobôsmelhordoquevocê—disseAaronemtomdespreocupado. —Ah,é? —retrucou Call,voltandoseconcentrar.Seu robôcomeçou asemover,lentamenteno início,depoismaisdepressaàmedidaqueamagiametálicareanimavaseu corpodecapitado.—Toma essa. OrobôdeCalllevantouumbraçoeofogoquelançoufoicomoáguasaindodeumamangueira.A labaredaatingiu orobôde Aaron, cujocorpocomeçou aesfumaçar. Aarontentou invocar amagiada águaparaextingui-la,maseratardedemais—oSilver Tapeestavaemchamas.Seu robôdesabou em umapilhadepeçasfumegantes. —-Yay!—gritouCall,quenuncaseguiuosconselhosdeseupaisobreser umvencedor humilde. Devastação, o lobo Dominado pelo Caos de Call, acordou de repente quando uma faísca caiu em seu pelo.Começoualatir. — Ei!— gritou Alastair, o pai de Call, correndo para fora da casa e olhando em volta com olhos ligeiramentearregalados.—Nadadelutastãopertodomeucarro!Euacabeideconsertaressetroço!

Apesar dabronca,Callsentia-serelaxado.Eletinhapassadopraticamenteasfériasinteirasassim, relaxado.TinhaatéparadodeseatribuirpontosnaescaladeSuseranodoMal.Atéondeomundosabia, oInimigodaMorte,ConstantineMadden,estavamorto,derrotadopor Alastair.SóAaron,Tamara,o falso amigo Jasper DeWinter e o pai de Call sabiam a verdade — que Call era Constantine Madden renascido,massemsuaslembranças,e,comsorte,semsuainclinaçãoparaomal. Considerando que o mundo achava que Constantine estava morto e os amigos de Call não se importavam, Call estava seguro. Aaron, apesar de ser Makar, podia voltar a brincar com ele. Os dois voltariamaoMagisteriumembreve,edestavezseriamalunosdoAnodeBronze,oquesignificavaque mexeriamcommagiasbemlegais-—feitiçosdelutaefeitiçosdevoo. Tudoestavamelhor.Tudoestavaótimo. Alémdisso,orobôdeAaronestavadestruídoesoltandofumaça. Deverdade,eradifícilparaCallimaginarcomoascoisaspoderiamficarmelhores. —Esperoqueestejamlembrados—disseAlastair.—HojeéafestanoMagisterium.Vocêssabem, aquevainoshomenagear. AaroneCallseolharam,horrorizados.Tinhamseesquecido,éclaro.Osúltimosdiassepassaram emumborrãodeskate,sorvete,filmesevideogame,eambostinhamapagadocompletamenteofatode queaAssembléiadariaumafestadavitórianaescola,reconhecendoqueoInimigodaMortetinhasido derrotadoapóstrezelongosanosdeguerrafria. A Assembléia tinha escolhido cinco pessoas para homenagear: Call, Aaron, Tamara, Jasper e Alastair. Call tinha ficado surpreso por Alastair ter concordado em ir — ele odiava mágica, o Magisterium,etudoquetinhaavercommagosdesdequeCallseentendiaporgente.Calldesconfiava que Alastair tivesse concordado por querer ver a Assembléia aplaudindo Call e concordando em uníssonoqueeleeraumgarotodobem.Queeleeraumherói. Callengoliuemseco,nervosoderepente. —Nãotenhooquevestir—disseemtomdeobjeção. —Nemeu.—Aaronpareciaespantado. — Mas a família da Tamara não comprou todas aquelas roupas chiques no ano passado? — perguntouCall. OspaisdeTamaraficaramtãoanimadoscomaideiadeafilhaser amigadeumMakar —umdos rarosmagoscapazesdecontrolaramagiadocaos—quepraticamenteadotaramAaron,levando--opara casaegastandodinheirocomcortesdecabelocaros,roupasefestas. CallaindanãoconseguiaentenderporqueAarontinharesolvidopassarasfériascomele,enãocom osRajavi,masAaronfoimuitofirmeemrelaçãoaisso. —Nadamaisestácabendo—Aaronrespondeu.—Sótenhocalçasjeansecamisetas. —Entãoiremosaoshopping—disseAlastair,mostrandoaschavesdocarro.—Vamos,meninos. —OspaisdaTamaramelevaramnaBrooksBrothers—disseAaronenquantocaminhavamparaa coleçãodecarrosreformadosdeAlastair.—Foimeioestranho. Callpensounopequenoshoppinglocalesorriu. —Bem,seprepareparaoutrotipodecoisaestranha—falou.—Vamosvoltar notempo,sóque semmagia.

notempo,sóque semmagia.

—Achoqueeutalvezsejaalérgicoaessetecido—disseAaron,emfrenteaumespelhonosfundos da JL Dimes. Vendiam tudo na loja: tratores, roupas, lava-louças baratos. Alastair sempre comprava

seusmacacõesdetrabalhoaqui.Calldetestava. —Ficoubom—disseAlastair,quetinhapegadoumaspiradordepóemalgummomentoenquanto passeavampela loja, e o estava examinando, provavelmente interessado nas peças. Ele tambémtinha escolhidoumpaletóparasi,masaindanãotinhaexperimentado. Aaron deu mais uma olhada no temo cinza de tecido preocupantemente lustroso. A calça estava larganaalturadoscalcanhares,easlapelaslembravambarbatanasdetubarões. —Muitobem—disseAaroncomsuavidade,sempremuitoconscientedequetudocompradopara eleeraumfavor.Elesabiaquenãotinhadinheiroenempaisparatal,portantoerasempregrato. Tanto Aaron quanto Call perderam suas mães. O pai de Aaron estava vivo, mas preso, coisa que Aaron não gostava que as pessoas soubessem. Call não achava que isso fosse algo muito sério, provavelmenteporqueosegredoqueelemesmoguardavaeramuitomaior. — Não sei, pai — disse Call, semicerrando os olhos para o espelho. O paletó que vestia era de

poliéster azul-escuro e estava justo demais embaixo dos braços. — Acho que os tamanhos não estão certos. Alastairsuspirou.

Talvez devesse

experimentaroutracoisa.Nãoadiantacomprarumacoisaquesóvaiservirparaumaúnicanoite. —Voutirarumafoto—Calldisse,pegandoocelular.—Tamarapodeajudaraescolher.Elasabe comosevestirparaeventoschiquesdemagos. OcelularemitiuumsomdeventoquandoCallenviouafotoparaTamara.Algunssegundosdepois elarespondeu:Aaronpareceumvigaristaquepassou por umraioencolhedor,evocêparecealunode Collegiumcatólico. AaronolhouparaasombreirasnopaletódeCallefezumacaretaparaamensagem. —Então? —perguntou Alastair.—Podemoscolocar fitaadesivanabarradacalça.Paraficar do tamanhocerto. —Ou—disseCall—podemosiraoutralojaenãopassarvergonhanafrentedaAssembléia. AlastairolhoudeCallparaAarone,depoisdeumsuspiro,cedeuedeixouoaspiradordepódelado. —Ok.Vamos. Foiumalíviosairdaqueleshoppingsuperaquecidoeabafado.Apósumrápidotrajetodecarro,Calle Aaronestavamdiantedeumbrechóquevendiatodotipodepeçasvintage,desdecapachosacômodase máquinasdecostura.Calltinhaestadoaliantescomopaieselembravadequeadona,MirandaKeyes, adorava roupas antigas. Estava sempre vestindo alguma peça do tipo, sem dar muita importância à combinaçãodecoreseestilos,oquesignificavaquefrequentementeeravistaandandoporaícomuma saiapoodle,botascompridasebrilhanteseumablusacurtadelantejoulascomumaestampadegatos mal-humorados. MasAaronnãosabiadisso.Eleestavaolhandoaoredordaloja,sorrindocomhesitação,eissofezo coraçãodeCallafundar.SeriaaindapiorquenaJLDimes.Oquecomeçoucomoumacoisaengraçada agoraestavacomeçandoadeixar Callnauseado.Elesabiaqueseu paiera“excêntrico”—oqueéuma forma gentil de dizer “esquisito” — e nunca se incomodou com isso, mas não era justo que Aaron tivessequeparecer“excêntrico”também.EseMirandasótivessesmokingsdeveludovermelhooucoisa pior? JáeraruimobastantequeAarontivessequepassar overãotomandolimonadaempóemvezde feita com limões frescos, como na casa de Tamara; dormindo em um catre militar que Alastair tinha montado no quarto de Call; correndo por um jardim onde a irrigação do gramado era feita por uma mangueiracomfurinhosemvezdesprinkler;ecomendocerealcomumnocafédamanhã,emvezade

— Um temo é um temo. Aaron vai crescer e caber no dele. E o seu, bem

ovospreparadosaseugostoporumchef.SeAaronchegassenatestaparecendoumbobo,talvezfossea gotad’água.CalltalvezperdesseaGuerradeMelhorAmigodevez. Alastairsaiudocarro.CallseguiuopaieAaronparadentro,comummaupressentimento. Os ternos ficavam no fundo da loja, atrás das mesas com instrumentos musicais de bronze esquisitoseumbowlfeitoemjadecheiodechavesenferrujadas.Erabemparecidacomalojadopróprio Alastair,AgoraeSempre.Aúnicadiferençaeraoteto,quealieracheiodecasacosdepeleecachecóisde sedaenquantoalojade Alastair eraespecializadaemantiguidadesmaisindustriais. Mirandaveiodos fundos e conversou com Alastair por alguns minutos sobre o que tinha trazido de Brimfield — uma enormefeiradeantiguidadesnonorte—equemtinhaencontradolá.OpavordeCallaumentou. Finalmente,Alastairconseguiudizeraelaoqueprecisavam.Elaanalisoucadaumdosmeninoscom um olhar firme, como se estivesse observando através deles e enxergando outra coisa. Fez o mesmo comAlastairatéque,estreitandoosolhos,voltouadesaparecernosfundosdaloja. AaroneCallsedistraíramvagandopelolocal,procurandopeloobjetomaisestranho.Aarontinha achado um despertador em formato de Batman que dizia "ACORDE, GAROTO PRODÍGIO” ao ser pressionado no topo, e Call tinha desenterrado ura casaco feito de pirulitos presos e colados um no outroquandoMirandaressurgiu,cantarolando,comumapilhaderoupasqueempilhounobalcão. A primeira coisa que puxou foium paletó para Alastair. Parecia feito de cetim com uma estampa sutilemverde-escuroeforrodesedabrilhante.Eradefinitivamentevelhoeestranho,masdeumjeito nãoconstrangedor. —Agora—disseelaapontandoparaCalleAaron—éavezdevocês. Entregouacadaumdelesumtemodelinhodobrado.OdeAaroneracremeeodeCall,cinza. —Dacor dosseusolhos,Call—disseMiranda,satisfeitaconsigomesma,enquantoCalleAaron vestiam os temos por cima das bermudas e camisetas. Ela bateu as mãos e gesticulou para que se olhassemnoespelho. Callencarouopróprioreflexo.Elenãoentendiamuitodemoda,masotemocabiaeelenãoestava bizarro. Na verdade parecia até um pouco adulto. Aaron também. As cores claras deixavam ambos parecendobronzeados. —Sãoparaalgumaocasiãoespecial?—perguntouMiranda. —Pode-sedizerquesim—disseAlastair,parecendosatisfeito.—Osdoisvãoreceberprêmios. —Por,hum,serviçoscomunitários—disseAaron,encontrandoosolhosdeCallpeloespelho.Call supôs que fosse parcialmente mentira, apesar de a maioria dos serviços comunitários não envolver cabeçasdecapitadas. —Fantástico!—disseMiranda.—Osdoisestãomuitobonitos. Bonitos.Callnuncapensou issoarespeitodesi.Aaroneraobonito.Calleraobaixinho,mancoe

comfeiçõesmuitomarcanteseintensas.Maselesupunhaquevendedorastinhamquedizeraocliente que ele estava bonito. Por capricho, Call pegou o celular, tirou foto dos reflexos dele e de Aaron e mandouparaTamara. Umminutodepoisveioaresposta.Legal.Emanexoveioumvideozinhodealguémcaindodacadeira, surpreso.Callnãoconseguiuseguraroriso.

qualquer

coisa? —Bem,camisas,obviamente—disseMiranda.—Tenhobelasgravatas —Nãoprecisoquecompremaisnadaparamim,senhorHunt—disseAaron,parecendoansioso. —Deverdade. —Ah,nãosepreocupecomisso—respondeu Alastair comumtomdevoz surpreendentemente

—Elesprecisamdemaisalgumacoisa?—perguntouAlastair.—Sapatos,abotoaduras

leve.—EueMirandaestamosnomesmoramo.Chegaremosaumacordo. CallolhouparaMiranda,eaviusorrindo. —Fiqueideolhoemumbrochevitorianoquevinasualoja. Ao ouvir isso, Alastair enrijeceu um pouco a expressão em seu rosto, mas quase imediatamente depoisrelaxoueriu. —Bem,seforpelobroche,definitivamentevamoslevarasabotoaduras.Esapatostambém,sevocê tiver.

Quandosaíram,estavamcomsacolasenormescheiasderoupas,e11estavasesentindomuitobem.

Elesvoltaramparacasacomohorárioapertadoparatomarbanhoepentearocabelo.Alastairsaiudo quartofedendoaalgumperfumevelho,eparecendomal-humoradocomseu novopaletóeumacalça queprovavelmenteencontrounofundodoarmário.Murmurando,começouimediatamenteaprocurar aschavesdocarro.Callmalconseguiareconhecê-locomoomesmopaiquetrabalhavaemcasavestindo camisadelãemacacãojeans,opaiquetinhapassadoasfériasajudandoosdoisafazerrobôscompeças sobressalentes. Ele parecia um estranho e isso fez com que Call começasse a pensar no que estava prestes a acontecer. Calltinhapassadoasfériasinteirassentindo-se muitoconvencidopelofalecimentodoInimigoda Morte. Morto havia anos, conservado em um túmulo esquisito a ponto de dar medo, Constantine Maddenesperavaparatersuaalmadevolvidaaocorpo.Mas,comoninguémsabiadisso,todoomundo dosmagosesperavaqueConstantinereiniciasseaTerceiraGuerradosMagos.QuandoCallumlevoua cabeçadecapitadadoInimigoparaoMagisterium,provadequeeleestavaincontestavelmentemorto, todoomundodosmagossuspiroudealívio. OqueelesnãosabiameraqueaalmadeConstantineaindavivia—emCall.Estanoiteomundodos magoshomenageariaoInimigodaMorteempessoa. ApesardeCallnãoterqualquerdesejodemachucarninguém,aameaçadeumaTerceiraGuerrados

Magosestavalongedofim.0substitutoimediatodeConstantine,MestreJoseph,tinhaocontroledo

exército Dominado pelo Caos do falecido. E detinha também o poderoso Alkahest, capaz de destruir dominadores do caos, como Aaron — e Call. Se Mestre Joseph se cansasse de esperar que Call debandasseparaoseulado,talvezatacasseporcontaprópria. Callseapoiounamesadacozinha.Devastação,queestavadormindoembaixodela,ergueuacabeça comolhosperturbadoramentereluzentes,comosepudessesentirainquietaçãodeCall. Issodeveriaterfeitocomquesesentissemelhor,masnaverdadeodeixouatéumpoucopior. Elequaseconseguiaouvir avozdeMestreJoseph:muitobem,vocêfeztodoomundodosmagos baixaraguarda,Call.Nãoconseguefugirdasuapróprianatureza. Ele afastou o pensamento com determinação. Tinha se empenhado durante as férias para não prestaratençãoemsimesmoembuscadesinaisdequetalvezestivesseficandomalvado.Passoutodo aqueleperíododizendoasimesmoqueeraCallumHunt,filhodeAlastairHunt,equenãocometeriaos mesmoserrosdeConstantineMadden.Eleeraumapessoadiferente.Eramesmo. Algunsminutosdepois,AaronsaiudoquartodeCall,eleganteemseutemocreme.Ocabelolouro estava penteado para trás e até as abotoaduras brilhavam. Parecia tão feliz como quando vestia os ternosdegrifepresenteadospelafamíliadeTamara. OupelomenospareciafelizatéverCallehesitar. —Tudobem?—perguntouAaron.—Vocêpareceumpoucoenjoado.Vocênãoédotipoquetem pânicodesubirnopalco,né? — Talvez — disse Call. — Não estou acostumado a pessoas me olhando muito. Quer dizer, as

pessoasmeolhamporcausadasminhaspernasàsvezes,masnãoéumaolhadaboa. —Tentepensar nissocomoacenafinaldeStar Warsquandotodomundoestácomemorandoea PrincesaLeiacolocamedalhasnoHanenoLuke. Callergueuumadassobrancelhas. —QueméaPrincesaLeianessecenário?OMestreRufus? MestreRufuseraoprofessordogrupodeaprendizesnoMagisterium.Eraumsujeitorígidoesábio, todoenrugado,etinhabemmaiscabelogrisalhodoqueaPrincesaLeia. —Depoisdacerimônia—disseAaron—,elevaivestirobiquínidourado. Devastaçãolatiu.Alastairergueuaschavesdocarro,triunfante. —Ajudariaseeuprometesseavocêsqueanoitevaiserchataetediosa?Emteoria,essafestaépara noshomenagear,masgarantoque,emessência,éparaaAssembléiaparabenizaraelamesma. —Parecequevocêjáfoiaalgumadessasantes—disseCall,desencostando-sedamesa.Parecendo ansioso,passouamãopelopaletóparaalisá-lo;linhoéumtecidoqueenrugarápido.Malpodiaesperar paravoltarausarjeansecamiseta. —VocêviuapulseiraqueConstantineusavaquandoestudávamosjuntosnoMagisterium—disse Alastair.—Eleganhoumuitosprêmiosedistinções.Todoonossogrupodeaprendizesganhou. Calltinhavistoapulseira,eraverdade.AlastairaenviaraaoMestreRufusnoanoemqueCallestava noMagisterium.Todososalunosrecebiampulseirasdecouroemetal:ometalmudavasemprequeo aluno iniciava um novo ano escolar, e a pulseira também era ornada com pedras, cada qual representando uma conquista ou umtalento. A de Constantine tinha uma quantidade de pedras que Calljamaishaviavisto. Callesticou-separatocarsuaprópria.AindamostravaometaldeumalunoCobredosegundoano. AssimcomoadeAaron,adelebrilhavacomapedrapretadoMakar.OsolhosdeCallencontraramosde Aaronquandoeleabaixouamão,edeuparaperceberqueoamigosabiaoqueeleestavapensando— aquiestavaele,Call,recebendoumprêmio,sendohomenageadoporfazerobem,eaindaassimissoo faziaigualaConstantineMadden. Alastairbalançouaschavesdocarro,despertandoCalldodevaneio. —Vamos—disseAlastair.—AAssembléianãogostaquandooshomenageadosseatrasam. Devastaçãoosacompanhouatéaporta,depoissentouruidosamenteesoltouumganidofino. —Ele pode ir? —perguntou Callaopassarempelaporta. —Ele vaise comportar. Eele também mereceumprêmio. —Dejeitonenhum—disseAlastair. — É porque você não confia nele perto da Assembléia? — perguntou Call, embora não tivesse certezadequererouviraresposta. EporquenãoconfionaAssembléiapertodele—respondeu Alastair comumolhar firme.Depois saiu,deixandoCallsemescolhaalémdesegui-lo.

CAPÍTULODOIS O Collegium, como o Magisterium, era construído de forma a ser escondido de quem

CAPÍTULODOIS

O Collegium, como o Magisterium, era construído de forma a ser escondido de quem não era mago. FicavasobolitoraldaVirgínia,oscorredoresdescendaemespiralsobaágua.Calljátinhaouvidofalara respeito da localização, mas mesmo assim não estava preparado para Alastair pará-lo enquanto caminhavam sobre um píer e apontar para uma grade no chão, parcialmente escondida sob folhas e sujeira. —Secolocaremaorelhapertodela,quasesempredáparaouvirumapalestraincrivelmentechata. Mas hoje talvez escutem música. — Apesar de não ser um discurso particularmente elogioso ao Collegium, Alastair falou aquilo com certo saudosismo. — Mas você nunca frequentou esse lugar, certo?—perguntouCall. —Nãocomoaluno—respondeu ele. —Houve todaumageraçãode nósque basicamente nãoo fez.Estávamosocupadosdemaismorrendonaguerra. Às vezes Call pensava, impiedosamente, que todos deveriam ter deixado Constantine Madden quieto.Eletinhafeitoexperimentosterríveis,éclaro,inserindoocaosnasalmasdeanimaisecriandoos DominadospeloCaos.Eletinhareanimadoosmortos,éclaro,procurandoumamaneiraderevertera morteetrazerseuirmãodevolta.Eleestavatransgredindoaleidosmagos,éclaro.Mastalvezsetodos otivessemdeixadoempaz,muitosaindaestivessemvivos.AmãedeCallaindaestariaviva. OverdadeiroCalltambémestaria,Callnãopôdedeixardepensar. Mas como não podia falar nada a respeito disso, então não disse nada a respeito de nada. Aaron estavaolhandoasondasaosolpoente.Ter Aaronemcasaduranteasfériasdeverãofoicomoter um irmão, uma pessoa com quem fazer piadas, alguém que estava sempre ali para assistir um filme ou destruir robôs. Mas à medida que vieram percorrendo o caminho até o Collegium, Aaron foi ficando mais quieto. Quando Alastair parou seu Rolls-Royce Phantom 1937 prateado perto da calçada e eles passaram por uma estátua grande e estranha de Poseidon, Aaron já tinha parado de falar completamente. —Tudobemcomvocê?—perguntouCallenquantocaminhavam. Aarondeudeombros.

— Não sei. É só que eu estava preparado para ser o Makar. Eu sabia que era perigoso e fiquei

assustado, é claro, mas entendia o que tinha que fazer. E quando as pessoas me davam coisas, eu

entendiaomotivo.Entendiaoqueeu deviaaelasemtroca.Masagoranãoseioquesignificaser um Makar.Querdizer,senãohámaisguerracontraoInimigo,issoéótimo,massendoassim,oqueeu —Chegamos—disseAlastair,parando.Ondasquebravamnaspedrasnegras,lançandoesguichos deáguasalgadaeformandopequenaspiscinascomespuma.Callsentiu asgotículascomoumalufada

friaemseurosto. ElequeriadizeralgumacoisaparatranquilizarAaron,masoamigonãoestavamaisolhandoemsua direção. Estava franzindo o rosto para um caranguejo apressado. O bicho atravessou uma trança de algas,enroladaemumpedaçodecordavelha,aspontasesfarrapadasflutuandonaáguacomoocabelo soltodealguém. —Éseguro?—FoioqueCallperguntounofimdascontas.

— Tãoseguroquantoqualquer coisarelacionadaamagos — disse Alastair, batendocomopé no

chão em um ritmo rápido e repetitivo. Por um instante nada aconteceu; em seguida veio um som

arranhado, e um bloco quadrado de pedra deslizou lateralmente, revelando uma longa escadaria em caracol.Elaespiralavacadavezmaisparabaixo,comoadabibliotecadoMagisterium,aúnicadiferença équeaquinãohaviafileirasdelivros,apenasdegrause,aofundo,davaparaverumpedaçoquadradodo chãodemármore. Callengoliuemseco.Qualquer umachariaacaminhadalonga,masparaele,pareciaimpossível.A perna estaria cheia de cãibras antes da metade do caminho. Se ele tropeçasse, seria uma queda assustadora. —Hum—disseCall.—Achoquenãoconsigo —Podelevitar—disseAaronquietamente. —Quê? —Levitaçãoémagiadoar.Estamoscercadosporpedras;terraepedra.Ésóempurrarevocêvaise erguer.Nãoprecisavoar,sóflutuaralgunscentímetrosacimadochão. Callolhou paraAlastair.Eleaindaeracautelosoemrelaçãoafazer mágicapertodopai,depoisde passartantosanosouvindoAlastairfalarquemagiaeraumacoisamaléfica,quemagoserammalvadose que queriam matá-lo. Mas Alastair, olhando para a longa escada, apenas fez que sim com a cabeça brevemente. —Euvounafrente—disseAaron.—Sevocêcair,euseguro.

— Ao menos vamos cair juntos. — Call começou a descer, colocando um pé cuidadosamente na

frentedooutro.Conseguiaouvir obarulhodevozesedetalherestilintandonumpontobemdistante abaixo. Então respirou fundo e se esforçou para tocar a força da terra: alcançá-la e atraí-la para si, depoisafastá-la,comoseestivessedentrodaágua,sedistanciandodabordadeumapiscina. Elesentiuapuxadanosmúsculosedepoisumalevezaquandoseucorposeelevouparaoar.Como Aaron havia instruído, ele não tentou subir mais do que alguns centímetros. Com espaço suficiente apenasparasedistanciardosdegraus,Callflutuouparabaixo.ApesardequererdizeraAaronquenão iacair,erabomsaberqueseissoacontecesse,alguémestariapreparadoparasegurá-lo. Os passos firmes de Alastair também o tranquilizavam. Foram descendo com cuidado, Alastair e AaronandandoeCallflutuandopoucoacimadosdegraus.Aalgunsmetrosdofimdadescida,Callfoi diminuindo suavemente a altura da flutuação. Então tocou o degrau e tropeçou. Foi Alastair que se esticouparapegá-lopeloombro. —Seguraaí—disseele. —Estoubem—disseCallcommauhumor,edesceumancandorapidamenteosúltimosdegraus.

Seus músculos doíam um pouco, mas nada como a dor que estaria sentindo se tivesse descido a pé. Aaron,quejátinhachegadoaochão,lançouumsorrisolargoparaele. —Olhasó—disseele.—OCollegium.

— Uau! — Call nunca tinha visto nada parecido. Os ambientes do Magisterium costumavam ser

magníficos,ealgunserammesmoenormes,maseramsemprecavernassubterrâneastalhadasempedra natural.Aquiloalieradiferente. Umgrandesalãoseabriadiantedeles.Asparedes,ochãoeascolunasquesustentavamotetoeram todosdemármorebrancocompontinhosdourados.UmatapeçariacomomapadoCollegiumdecorava uma das paredes. Um extenso palanque percorria uma das laterais do recinto e havia bandeirinhas

multicoloridas por toda a parede atrás dele. Exibiam citações de Paracelso e de outros alquimistas famosos,impressasemletrasdouradas.Tudoérelacionado,diziauma.Fogoeterra,areágua.Etudo umacoisasó,nãosãoquatro,nemduas,nemtrês,masuma.Ondenãoestãojuntas,nadamaissãodo quepedaçosincompletos. Umenormelustrependiadoteto.Cristaisespessosbalançavamcomolágrimas,lançandoluzesem todas as direções sobre a multidão de pessoas — membros da Assembléia com túnicas douradas, MestresdoMagisteriumvestidosdepretoetodososdemaisemseusternosevestidoselegantes. —Chique—disseAlastair,numtomsombrio.—Chiqueatédemais. —É—disseCall.—OMagisteriuméumapocilga.Eunãofaziaideia. —Nãotemnenhumajanela—disseAaron,olhandoaoredor.—Porquenãohájanelas?

— Provavelmente porque estamos embaixo d’água — respondeu Call. — A pressão quebraria o

vidro,não? Antesquepudessemcontinuarcomasespeculações,oMestreNorth,diretordoMagisterium,saiu domeiodamultidãoeveioatéeles. —Alastair.Aaron.Call.Estãoatrasados. —Trânsitosubmarino—disseCall. Aaronocutucoucomocotovelo. OMestreNorthoolhoucomdureza. —Enfim,aomenosestãoaqui.OsoutrosestãoesperandocomaAssembléia. —MestreNorth—disseAlastair,comumcumprimentocurtodecabeça.—Peçodesculpaspelo nossoatraso,massomososhomenageados.Nãopoderiamcomeçarsemagente,certo? OMestre North sorriu umsorriso discreto. Tanto ele quanto Alastair davama impressão de que logoficariamexaustosemvirtudedoesforçodeagircivilizadamente. Aaron e Call trocaram um olhar antes de seguirem os adultos pelo recinto. À medida que a aglomeração foificando mais densa, as pessoas começaram a pressionar o grupo, encarando Aaron e Call.Umsenhorbarrigudodemeia-idadepegouCallpelobraço. —Obrigado—sussurrouohomemantesdesoltá-lo.—ObrigadopormatarConstantine. Nãomatei.Callavançoucomdificuldadeenquantomãosseesticavamemsuadireção.Eleapertou algumas,evitoutantas,fezumhigh-fiveeentãosesentiumeiobobo. —Éassimqueéasuavidaotempotodo?—perguntouparaAaron. —Atéasfériaspassadasnão—respondeuAaron.—Masacheiquevocêquisesseserherói. Suponhoquesejamelhordoqueservilão,Callpensou,masdeixouaspalavrasmorreremantesde saíremdaboca. Finalmente chegaram ao local onde a Assembléia os aguardava, separada do restante da sala por cordas prateadas flutuantes, Anastasia Tarquin, uma das integrantes mais poderosas da Assembléia, conversavacomamãedeTamara.Tarquineraextremamentealta,maisvelhaetinhaumdensocabelo

prateadoebrilhosopenteadoparacima,eamãedeTamaratinhaqueesticaropescoçoparafalarcom

ela.

Tamara estava com Célia e Jasper, os três rindo de alguma coisa. Era a primeira vez que Call via Tamara desde o começo das férias. Ela estava com um vestido amarelo luminoso que fazia sua pele morenabrilhar.Ocabelocaíaemondaspesadaseescurasaoredordorostoepelascostas.Céliatinha feitoalgumacoisaesquisita,eleganteecomplicadanocabelolouro.Vestiaumapeçaemtecidoverdee levefeitoespumadomarequepareciaflutuaraoseuredor. AsduasviraramnadireçãodeCalleAaron.OrostodeTamaraseiluminou eCéliasorriu.Callse sentiu um pouco como se alguém o tivesse chutado no peito. Estranhamente, não foi uma sensação desagradável. TamaracorreuparaAaronedeuumrápidoabraçonele.Céliaficouparatráscomosetivessesido atingidaporumtimidezsúbita.FoiJasperquemveioatéCalledeuumcutucãoemseuombro,oquefoi um alívio, considerando que nada no garoto fazia Call ter a sensação de que seu mundo estivesse inclinandoparaolado.Jasperpareciaconvencidocomosempre,ocabeloescuroarrepiadocomgel. —Então,comovaiosinistrãoempessoa?—Jaspersussurrou,fazendoCallseencolher.—Vocêé aestreladoespetáculo. CalldetestavaofatodequeJaspersoubesseaverdadesobreele.Mesmoquetivessequasecerteza dequeJasper jamaisrevelariaosegredo,issonãoimpediaqueelefizessecomentárioseoprovocasse emtodasasoportunidades.

— Vamos — disse o Mestre Rufus. — O tempo está passando. Temos uma cerimônia a qual

comparecer,querendoounão. Comisso,Call,Aaron,Tamara,Jasper,MestreRufus,MestraMilagroseAlastairforamconduzidos aopalanque.Céliadeutchauzinhoparaogrupo. Call sabia que estavam encrencados quando viu cadeiras no palanque. Cadeiras significavam cerimônia longa. Ele estava certo. A cerimônia passou em um borrão, mas foi um borrão longo e tedioso.VáriosmembrosdaAssembléiafizeramdiscursossobreoquãofundamentaiselestinhamsido

namissão.

— Eles não teriam conseguido sem mim — disse uma integrante loura da Assembléia, que Call

nuncatinhavistoantes. Mestre Rufuse MestraMilagrosforamcelebradospor teremaprendizestão magníficos.OsRajaviforamcelebradosporteremcriadoumafilhatãocorajosa.Alastairfoicelebrado porsuadiligênciaaolideraraexpedição.CalleAaronreceberamcréditosporseremosmaioresheróis desuageração. Foram aplaudidos e beijados nas bochechas e afagados nas costas. Alastair recebeu uma medalha pesadaqueagorabalançavaemseupescoço.Tinhacomeçadoaparecerumpoucoincomodadoquando selevantaramparaasextarodadadeaplausos. NinguémmencionoucabeçasdecapitadasnemtodoomalentendidoemqueacharamqueAlastair estavatrabalhandoparaoInimigo,nemcomoninguémnoMagisteriumsequer sabiaqueosmeninos fariampartedamissão.Todosagiramcomosetudotivessesidoplanejado. TodosreceberamaspulseirasdoAnodeBronzeepedrasdeberilovermelhascomodemonstração dovalordeseufeito.Callficouimaginandooqueexatamenteapedravermelhasignificava—todasas corestinhamumsignificado:amareloparacura,laranjaparacoragemeporaívai. Call deu um passo à frente para que o Mestre Rufus colocasse a pedra em sua pulseira. O berilo vermelho se encaixou com um clique, como uma fechadura sendo trancada. Callum Hunt, Makar! alguémnorecintogritou.MaisalguémselevantouegritouonomedeAaron.Calldeixouqueosgritoso lavassemcomoumamarédescontrolada.CalleAaron!Makaris,Makaris,Makaris!

Callsentiuumamãoesfregarseuombro.EraAnastasiaTarquin. —NaEuropa—disseela—,quandodescobremquealguémémagodocaos,elesnãoocelebram. Elesomatam. Chocado,Callvirouparaencará-la,masAnastasiajáseafastavaemmeioàmultidãodemembrosda Assembléia.MestreRufus,queclaramentenãotinhaescutadoaquilo—ninguémalémdeCalltinha— avançouemdireçãoaAaroneCall. —Makaris—disseele.—Issonãoéapenasumacelebração.Temosalgoadiscutir. —Aqui?—perguntouAaron,claramenteespantado. Rufusbalançouacabeça. —Ehoradevocêsveremalgoquepouquíssimosaprendizespodemver.ASaladeGuerra.Venham comigo. TamaraficouolhandoparaAaroneCallcompreocupaçãoenquantoeramconduzidosemmeioaos presentes. —ASaladeGuerra?—murmurouAaron.—Quesalaéessa? —Nãosei—Callsussurroudevolta.—Acheiqueaguerrativesseacabado. Familiarizadocomolugar,MestreRufusosconduziuparatrásdascordasflutuantes,evitandoos olhares da multidão. Chegarama uma porta na parede oposta. Era feita de bronze, navios de mastro altonavegando,canhõeseexplosõesnomaresculpidosnometal. RufusabriuaportaeostrêsentraramnaSaladeGuerra.Callouviusuaprópriavozperguntando porquenãohaviajanelasnosalão.Resposta:porquehaviamuitasjanelasnaSaladeGuerra.Ochãoera demármore,mastodasasoutrassuperfícieseramdeumvidroquebrilhavasobumaluzenfeitiçada. Alémdele, Callviu criaturas marinhas nadando: peixes comlistras de cores brilhantes, tubarões com olhosnegroscomocarvãoearraiasnadandograciosamente. —Uau—disseAaron,esticandoopescoço.—Olhaparacima. Callviu aáguaacimadeles, brilhandocomaluz dasuperfície. Umcardume prateadopassou com pressaedepois,seguindoalgumsinalinvisível,todosospeixesviraramaceleraramemoutradireção. —Sentem-se —disse Graves, ovelho, rabugentoe malvadomembrodaAssembléia. —Sabemos que estamos em uma comemoração, mas temos assuntos a tratar. Mestre Rufus, você e seus dois aprendizespodemseacomodaraqui.—Eleindicouascadeirasaoseulado. Call e Aaron trocaram um olhar relutante antes de irem para as próprias cadeiras. O resto dos membros da Assembléia estava se organizando ao redor da mesa, conversando sobre amenidades. Acimadeles,visívelatravésdovidro,umaenguiapassounadandoeagarrouumpeixelento.Callficou imaginandoseseriaummaupresságio. Umavezqueorecintoficouemsilêncio,Gravesvoltouafalar:

— Graças aos esforços de nossos homenageados da noite, trataremos de um assunto muito diferente do que poderíamos ter imaginado. Constantine Madden está morto. — Ele olhou em volta comoseestivesseesperandoainformaçãoserassimilada.Callnãoconseguiadeixardepensarque,sea fichaaindanãotinhacaído,nãocairíanunca,considerandoaquantidadedevezesqueafrase“OInimigo daMorteestámorto!”tinhasidorepetidaduranteacerimônia.—Mesmoassim—Gravesbateucoma mão na mesa, fazendo Call pular de susto — não podemos descansar!Constantine Madden pode ter sidoderrotado,masseuexércitocontinuaasolta.TemosqueatacaragoraeacabarcomosDominados peloCaosecomtodososaliadosdeConstantine. Ummurmúriopercorreuorecinto. —NinguémconseguiudetectarqualquersinaldosDominadospeloCaosdesdeamortedeMadden. Váriosmagospareceramesperançososcomestainformação,masGravesapenasbalançouacabeça,

sombrio.

—Elesestãoporaíemalgumlugar.Temosquereunirequipesparacaçá-losedestruí-los.

Call se sentiu um pouco enjoado. Os Dominados pelo Caos eram basicamente zumbis sem consciência,serescujahumanidadetinhasidocompletamenteafastadaparadarlugaraocaos.Masele játinhaouvidoascriaturasfalando.Játinhavistoelasemmovimento,eatémesmoajoelhadasdiante dele.Aideiadeumapiracomseuscorposemchamasfaziaseuestômagoembrulhar.

— E animais Dominados pelo Caos? — perguntou Anastasia Tarquin. — A maioria deles nunca

serviuaoInimigodaMorte.Sãoapenasdescendentesdasinfelizescriaturasqueofizeram.Aocontrário

doshumanostransformadosemDominadospeloCaos,elessãoseresvivos,enãocorposreanimados.

—Sãoperigososmesmoassim.Euvotoqueexterminemostodos—disseGraves.

—Devastaçãonão!—berrouCallantesquepudessemcontê-lo.

OsmembrosdaAssembléiaviraramemsuadireção.Anastasiatinhaumlevesorrisonorosto,como

setivessegostadodaexplosão.Elapareciaalguémquenãoseimportavaquandoascoisasnãosaíamdo

jeitoesperadoportodos.SeuolhardesviouparaAaron,procurandopelareaçãodele.

—OanimaldeestimaçãodosMakaris—disseela,olhandoparaCall.—CertamenteDevastação

podeserpoupado.

— E a Ordem da Desordem vem estudando feras Dominadas pelo Caos. Mantendo algumas em

cativeiroparalegitimarapesquisaqueestãofazendo—acrescentouRufus. AOrdemdaDesordemeraumpequenogrupodemagosrebeldesqueviviamnaflorestaaoredordo Magisterium, estudando magia do caos. Call não sabia ao certo o que pensava sobre eles. Tinham

tentado forçar Aaron a ficar por lá para ajudá-los em seus experimentos com o caos. Também não tinhamsidogentisemrelaçãoaisso.

— Sim, sim — disse Graves, dispensando aquela informação. — Talvez alguns possam ser

preservados, apesar de eu nunca ter gostado muito da Ordem da Desordem, como bem sabem. Precisamos ficar de olho nessa gente, para ter certeza de que nenhum dos conspiradores de Constantine esteja se escondendo entre eles. E precisamos encontrar Mestre Joseph. Não podemos

esquecerdequeeleaindaéperigosoecertamentetentaráusaroAlkahestcontranós. Anastasia Tarquin fez uma breve anotação. Muitos outros magos cochicharam entre si; alguns estavamsentadoscomacolunamuitoreta,tentandoparecerimportantes.MestreRufusassentia,mas CalldesconfiavadequeeletambémnãogostavamuitodeGraves. —Porfim,temosquenoscertificardequeCallumHunteAaronStewartutilizemsuashabilidades de Makar a serviço da Assembléia e da comunidade de magos como um todo. Mestre Rufus, é fundamentalquevocênosforneçarelatosregularesarespeitodosestudosdestesjovens,àmedidaque foremavançandonosanosdeBronze,PrataeOuro,preparando-separaoCollegium. —Elessãomeusaprendizes.—MestreRufusergueuumasobrancelha.—Precisoterautonomia paraensiná-losdaformaqueacharmelhor. —Podemosdiscutirissomaistarde—disseGraves.—AntesdeseremalunosdoMagisterium,eles sãoMakaris.Seriabomquetantovocêquantoelesselembrassemdisso. AaronlançouumolharpreocupadoaCall.MestreRufuspareciaameaçador. Gravescontinuou.

— Em virtude da proximidade do Magisterium com a maioria dos animais Dominados pelo Caos, vamosesperarqueaescolatomeiniciativaemrelaçãoàideiadedestruí-losounão.

— Não é possível que você espere que os alunos do Magisterium passem o tempo de aula

assassinando animais — protestou Mestre Rufus, levantando. — Sou fortemente contrário a essa

sugestão.MestreNorth?

—ConcordocomRufus—disseMestreNorthapósumapausa. — Não são animais. São monstros — argumentou Graves. — A floresta nos arredores do

Magisterium é habitada há anos por vários deles e até o momento não tratamos a situação com a

seriedadedevida,jáqueoInimigosemprepoderiaterfeitocoisaspiores.Masagora

chancedeexterminá-los. —Elespodemser monstros—disseRufus—,masseparecemcomanimais.Eháaqueles,como Devastação,quenosfazempararepensarsenãopoderiamsersalvosemvezdedestruídos.Certamente todo o mundo dos magos tem interesse em que nossos alunos aprendam a ser misericordiosos. ConstantineMadden—acrescentouele,comavozbaixa—nuncafoi. Graveslançouaeleumolharcheiodealgoquesepareciamuitocomódio. —Tudobem—disseelecomavozentrecortada.—AremoçãodosanimaisDominadospeloCaos será feita por uma equipe liderada por mim e por outros integrantes da Assembléia. Por favor, não esperequeeu recebaqualquer reclamaçãosobrecomoestamosocupandoaflorestaondeseusalunos treinam.Issoémaisimportantequeasuaescola. —Éclaro—disseoMestreRufus,aindacomamesmavozbaixa.Calltentoucaptarseuolhar,mas Rufusestavaimperturbável. —Issonosdeixacomumúltimotópicodediscussão—disseGraves.-—Oespião. Destavezomurmúrioquecorreupelamesafoidefatomuitoalto. —TemosmotivoparaacreditarqueháumespiãonoMagisterium—declarouGraves.—Alguém libertouomonstroelementalAutomotoneseoenviouparaassassinaroMakarAaronStewart. TodosolharamparaCalleAaron. —Sim—disseCall.—Issoaconteceu. Gravesfezquesimcomacabeça. —Vamoscolocar diversasarmadilhascontraespiõesnaescolaeAnastasiavaificar deguardanos túneisondeosgrandesdementaissãomantidos.Oespiãoserápego,ecuidaremosdele. Armadilhascontraespiões?,disseAaronparaCallapenascomomovimentodoslábios.Calltentou não rir, porque o que ele estava imaginando era um grande buraco no chão escondido com papéis importantes ou coisa do tipo. Mas considerando que, para variar, a Assembléia e o Magisterium pareciamterumplanoparacuidardoverdadeiroperigo,talvezCallpudessepassarseuAnodeBronze apenasaprendendocoisaseseenvolvendoemencrencasnormaisedivertidas,emvezdasqueacabam comomundoetudomais. DesdequemantivesseDevastaçãolongedaflorestaedosassassinosdeanimais. DesdequeoMestreJosephnãovoltasse. Desdequerealmentenãohouvessenadadeerradocomsuaalma.

agoratemosuma

CAPÍTULOTRÊS Terminada a reunião coma Assembléia, Call e Aaron ficaramlivres para voltar para a festa.

CAPÍTULOTRÊS

Terminada a reunião coma Assembléia, Call e Aaron ficaramlivres para voltar para a festa. Canapés estavamsendoservidos,masCallestavasemfome.EstavapensandonafamíliacaóticadeDevastaçãoe emtodososoutrosanimaisDominadospeloCaosnafloresta.CallnãoselembravadeserConstantine

Madden, mas isso não significava que não devesse algo às inocentes criaturas que Constantine havia transformado.Tinhaquehaveralgoqueelepudessefazer. —Então,comofoiareuniãosecreta?—perguntouJasper,aproximando-secomCéliaeTamara.Os trêspareciamalegreserelaxados,comosetivessemridobastante.Outalvezdançado.Algumaspessoas tinhamcomeçadoadançardooutroladodafesta.Callficouolhandocomdesconfiança.

— Estranha — respondeu Aaron, semperceber o humor de Call. Aaron pegou umsalgadinho de

queijo da bandeja de um garçom e enfiou na boca. Depois emitiu um ruído abafado, como se tivesse planejadofalarmaisantesdafomebater. Callcontoutudo. —FoisobrepessoaseanimaisDominadospeloCaos.Sobrenoslivrarmosdeles,basicamente.

—Devastaçãonão!—disseTamaracomhorror estampadonosolhosescuros.Callficou felizpor elater amesmareaçãoqueeletivera.Erabomser lembradoqueDevastaçãotambémeraimportante paraseusdoismelhoresamigos. Maisdoisgarçonspassaramcompetiscosembandejas.Callpegoutrêstorradasdecamarãodeuma eumespetodefrangodeoutra.Eramelhortentarcomeralgumacoisa,pensou,apesardeestarcomo estômagoembrulhado.Jasperencheuoprópriopratocomumaquantidadeenormedeitensecomeçou

acomercomadeterminaçãodeumtubarão.

— Devastação foi liberado — disse Call. — Mas Graves está basicamente no modo faxina. Quer apagartudoquerestoudotempodoInimigodaMorte. Tamaraclaramentetinhamuitasperguntas.

— Você — Ela começou, mas em seguida olhou para Célia e pareceu pensar melhor. Célia não estavacomelesquandosaíramdaescolaparatentarencontrarAlastair.Elanãoconheciaosegredode Call.—Esquece.Hojevamossimplesmentenosdivertir.Aaron,vamos,vemdançarcomigo. AaronconseguiupegarmaisumsalgadinhodequeijoantesdeserpuxadoporTamara.Entregouseu

prato vazio a Jasper e desapareceu na massa de pessoas dançantes em um giro da saia amarela de Tamara.

CélialançouaCallumolharesperançosoqueelefingiunãonotar.Comaquelaperna,elenãotinha chance de fazer nada além de passar vergonha em uma pista de dança. Call sorriu para ela, mas não dissenada.Depoisqueomomentoconstrangedorseestendeupelomáximodetempoqueummomento constrangedorpodeseestender,Céliasuspirou. —Voubuscaralgumacoisaparabeber—disseela,entãofoiemdireçãoaumaenormevasilhade ponche. — Incrível, hein? — disse Jasper. — Acho que tudo o que dizem sobre o carisma mortal de Constantinetalveznãosejatãoverdadeiro. De todos eles, Jasper era o único que Call às vezes via olhando para ele com desconfiança ou preocupação,comosetalveznãooconhecesse. —NãosouoInimigo—disseCallbaixinho. — Vamos testar — disse Jasper, olhandoparaopratode Call. — OInimigodaMorte jamais me dariaoúltimoespetodefrango. Callentregousemdizernada.Nãoestavamesmocomfome. —OInimigodaMortetambémjamaismeapresentariaparaaquelagataqueacaboudeacenarpara você. CallolhousurpresoparaverqueameninaaquemJaspersereferiaeraalguémqueelejáconhecia, umaamigadeKimiya,airmãmaisvelhadeTamara.Elatinhaumcabelopretolongoemaçãsdorosto bonitas.Elaacenouquandooviuolhandoemsuadireção. CalllançouaJasperseuolharmaismaligno. —Temrazão—disseele,saindoparaencontrar Alastair.Teveaimpressãodetê-lovistofalando comAnastasiaTarquin,ocabeloprateadodespontandoacimadamultidão.Callestavapassandoporum aglomeradodepessoasportodamesadebebidasquandoalguémocutucounoombro. EraameninaqueJaspermencionara,JenniferMatsui.ElaeradoAnodeOuro,comoKimiya,ede pertoeraumacabeçamaisaltaqueCall. —Callum—dissedaalegremente.-Parabénspeloprêmio. —Obrigado—disseCall,esticandoopescoçoparaverJasperencarando-odooutroladodosalão,

comosenãoconseguisseacreditarnoqueestavaacontecendo.—Foiumbom

Nãoeraoqueelequeriaterdito,deformaalguma. —Tenhoumacoisaparavocê—disseela,diminuindoavozaumtombaixoeconspirador.—Uma garotalouraebonitamedeu. ElaestendeuumpapeldobradocomonomedeCallescrito.Confuso,Callpegouobilhete.Jennifer soprouumbeijoevoltouemmeioàmultidãoparajuntodeKimiyaedeumgrupinhodealunosqueria junto. Call viu um rosto familiar — Alex Strike, um dos poucos alunos mais velhos de quem ele era amigo. Alex e Kimiya tinham terminado no ano anterior, mas pela forma como estavam próximos e rindojuntos,outinhamreatado,ouaomenoseramamigosoutravez. Calldesdobrouobilhete. Call,precisamosfalarasós.MeencontrenaSaladeTroféus.Celia. Porumlongoinstante,Callficoualiapenasencarandoopapel,ocoraçãoacelerado.Tentoudizera simesmoquenãodeveriasepreocupar,queCeliaerasuaamigaequemuitasvezesjátinhamlevado DevastaçãoparapassearnosarredoresdoMagisterium.EncontrarcomelanaSaladeTroféusnãoera muitodiferente.Mas,pelasuaexperiência,quandoalguémdiz“precisamosfalarasós”,normalmenteo motivoéruim.

prêmio.

Ou podia ser outra coisa, ligada a encontros. Ele já tinha visto alunos do Ano de Bronze de mãos dadasedividindobebidasedandorisadinhaspelaGaleria.Elerealmentetorciaparaquenãofosseessaa intençãodeCélia.Masesefosse?Eseelenãolevasseomenorjeitoparaacoisa? Alémdomais,elenemsabiaondeficavaaSaladeTroféus. Suasmãoscomeçaramasuar. Callcerrouosdenteselimpouasmãosnacalça.Jaspernãotinhaacabadodetestarsuastendências aSuseranodoMal? EranissoqueCalltinhaqueseconcentrar.UmSuseranodoMal,mesmoquando não se lembra de que é um Suserano do Mal, não deve ter medo de encontrar com uma amiga que calhavadesermenina.Calliaficarbem.Estavatudotranquilo. Com um otimismo renovado e ligeiramente desesperado, ele foi até o mapa de tapeçaria. Viu

TamaraeAaronaindanapista,dançandocomosoutros.FicouimaginandoseteriaocorridoaTamara convidá-lo para dançar, mas sabia que ela sempre escolheria Aaron primeiro. Já tinha aceitado isso haviaumbomtempo.Naverdade,Callnemseimportava. Enfim.Céliatinhaditoquequeriaconversarasós.Coisaqueeledefinitivamentedeveriaobedecer, seoassuntoestivessemesmorelacionadoaencontros.Oqueeletorciamuitoparaquenãoestivesse. Deacordocomomapa,aSaladeTroféusnãoficavalonge.Callseafastoudamultidão,passoupor algumas portas e por um corredor de mármore com pequenas alcovas nas paredes, dentro delas manuscritos antigos e artefatos. Ele gostava do ruído estalado que seus sapatos faziam no chão ao caminhar.Parou paraolhar umaantigapulseiraqueprovavelmenteeraoprotótipodaqueeleestava usando.Ocouroestavagastoemuitaspedrasestavamfaltando.Elenãoreconheceuonomedomagona

placaatrásdapulseira,masadatadamorteera1609,oquepareciatersidohámuitotempo.

Mais alguns passos e Call chegou à Sala de Troféus. Sobre a porta aberta, lia-se PRÊMIOS E HONRAS.Callentrousilenciosamente. Era uma sala majestosa e escura, menor do que o salão principal. Mas, assim como ele, era iluminadaporumlustreenorme,feitocombraçosfeitosdevidrosoprado,parecendotentáculos,cada qualcomgotasdecristalpenduradascomosefossemgotasd‘água.Asparedeseramcobertasporuma coleçãodeplacasemedalhasqueprovavelmenteforamconcedidasaalunosdoCollegium. Callestavacompletamentesozinho. Eledeuumaolhadaaoredor,examinandoasfotosdemagosnasparedes,desejandoumajanelapela qual pudesse olhar os peixes ou alguma coisa para passar o tempo. Tinha certeza de que Célia logo chegaria. Após vários minutos, ele pegou o bilhete e releu. Talvez tivesse entendido mal. Talvez ela tivesse escritoqueoencontrariaemquinzeminutosouumahora.Masnão,obilhetenãoespecificavahorário algum. Passadosmaisalgunsminutos,Callconcluiuqueelanãoviria. Sentiu-se inesperadamente mal-humorado. Se esse tivesse sido seu primeiro encontro, tinha sido umfracasso.Céliaprovavelmenteescreveuobilhete,esqueceu,elogoachououtroparadançarcomela — alguém que de fato pudesse fazer isso. Talvez estivesse dançando com Jasper. Ou simplesmente estava por aí com algum aluno brilhante do Ano de Ouro, que teria contado a ela tudo sobre suas conquistas,deixando-atãoimpressionadaapontodedarumboloemCall.Maistardeeleaencontraria do lado de fora do Magisterium para passear com Devastação e ela diria algo com desdém. Eu ia te

encontrar,massabecomoé

Callolhouparaopróprioreflexonovidrodeumaestantedetroféus.Estavacomocabeloarrepiado. Provavelmente ficaria sozinho pelo resto da vida, morreria sozinho, e Alastair o enterraria em um ferro-velho.

Quandoagenteencontraalguémrealmenteinteressante,otempovoa!

Aportaabriu.Somdepassos.Callgirou,masnãoeraCélia.EramTamaraeAaron. —OquevocêestáfazendonaSaladeTroféus? —perguntou Tamara,franzindoatesta.—Está tudobem? Aaronolhouemvolta,confuso. —Estáseescondendo? Call tinha certeza de que nada parecido com isso — levar um bolo e ser humilhado — já havia acontecidocomAaron.EtinhaodobrodecertezadequecomTamaratambémnão. Pensandobem,oqueAaroneTamaraestavamfazendoaqui,juntos?Esetivessemvindoparaficar demãosdadasecoisasdotipo?EraruimobastanteCalltercertezadequeTamarasempreescolheria Aaronprimeiro,mas,seelesestivessemnamorando,AarontambémsempreescolheriaTamara. —Estátudobem?—perguntouAaron,atestafranzidaemconfusãodiantedosilênciodeCall.— Seupaidissequeteviuvindonessadireção. Callficoumuitoaliviadoporelesnãoteremvindoparaficarasós,masparaencontrá-lo.Agoraele sóprecisavaencontrarumamaneiradeexplicaroqueestavafazendo. —Bem—disseele,dandoumpassonadireçãodosdois—Vejam Ele foi interrompido por um chiado e um barulho metálico horrível. Call olhou para cima no momentoemqueolustrecomseustentáculos,cristaisetudomais,começouacairemsuadireção. — Call! — Tamara gritou. O lustre estava exatamente sobre Call. Mas então algo o atingiu violentamente pelo lado. Uma dor subiu por sua perna quando caiu no chão e derrapou, os dedos de alguémenterrandonascostasdeseupaletó. EraTamara.Eleviuumborrãodeseucabelopretoedovestidoamarelo,eentãoolustreatingiuo chão ao lado deles. Foi como uma bomba explodindo. Houve um terrível estilhaço musical. Cacos de cristal explodiram na direção deles. Call tentou encolher o corpo para proteger Tamara, que gritou. Depoisdisso,derepentetudoficoumuitoescuroequieto. Por uminstante, Call se perguntou se estaria morto. Mas não parecia provável que a vida após a morte fosse estar deitado num chão de mármore ao lado de Tamara, enquanto uma nuvem negra pairavasobreeles.Tamaraestavacomarespiraçãoofeganteecomosolhosarregalados.Callroloupara oladodeumjeitomeioesquisitoeaencarou. Aaronestavadepénafrentedeles,comamãoesticada.Caosescuroenebulososederramavadesua mão,formandoumaparedeaoredordeTamaraeCall.Eleatraíaparasioscacosdevidroedecristaldo lustrequeflutuavamnoar.CalltentouchamarAaron,masocaoscontevesuavoz. Call sentiu um puxão dentro de si — como ele era o contrapeso de Aaron, sentia toda vez que o amigousavaamagiadocaos.AtrásdeAaron,osalãopareciatremular—eemseguida,Aaronabaixoua mãoeaescuridãodesapareceu. Callficou de pé comdificuldade, esticando o braço para ajudar Tamara a se levantar. Umcaco de vidro tinha feito um corte na bochecha dela, que sangrava. Tamara pegou seu braço com uma força absurda,mas,agoraqueestavadepé,Callpensouquetalvezaintençãodelafosseimpedirqueelenão caísse.Aaronestavaapoiadonaparede,comosolhosarregaladosearfandopeloesforço. Masoqueperguntouele,rouco—foiisso? AntesqueCallpudesseresponder,asportasseabrirameosoutrosconvidadosdafestainvadiramo recinto.

CAPÍTULOQUATRO A visão de Call estava turva e isso deixava tudo um pouco surreal. As

CAPÍTULOQUATRO

A visão de Call estava turva e isso deixava tudo um pouco surreal. As pessoas entravam, chocadas e boquiabertaVozesmurmurandoegritandoinundaramseucérebro. Olustrepareciaumenormeanimalmorto,abatidonomeiodosalão.Quasetodososbraçosdapeça estavamestilhaçados,ecacosdevidrosseespalhavamportodocanto,brilhanteseafiados. — O que está acontecendo aqui? — gritou um homem de cabelos negros. Call tinha uma vaga lembrançadacerimôniaeachavaqueeleeraumprofessordoCollegiumesechamavaMestreSukarno. Eraumhomemgrande,imponenteeestavacomorostorubrodefúria. —Issofoimagiadocaos!—ElevirouparaAaroneCall.—Vocêsestavambrincandocommagiado vazio? São realmente tolos assim? Em todos os lugares esse tipo de magia é estritamente regulamentada,masaquinestessalõeselaéproibida.Estamosembaixodáguaenãopodemosarriscar aintegridadedaestruturadaescolaporquecriançasarrogantesresolveramsedivertir!Poderíamoster todosnosafogado. Tamarapareciaprestesaexplodirderaiva. —Comoousa—disse ela. —Ninguémestavabrincando. Estávamosaquiquandoolustre caiu e quasenosesmagou.SeAaronnãotivessefeitooquefez,eueCallestaríamosmortos!Nãoaconteceu nadacomseupreciosoCollegium!Estátudobem! O que vocês fizeram para o lustre cair? — perguntou o Mestre Taisuke, um dos Mestres do Magisterium.—Eleestápenduradoaíhácemanos.Vocêstrêsentramaquieelesimplesmentecai? —Basta!—EraavozdopaideTamara.OsRajavitinhamlevitadosobreosdestroçosparachegar atéafilha.Dooutroladodorecinto,CallconseguiaverKimiyaeAlexjuntos,ambosolhandoacenacom osolhosarregaladosdehorror.AmãedeTamaradisparouemdireçãoàfilha,puxando-aparalongede Call,afagandoseucabeloeolhandoparaelacompreocupação.Amulhercuidoudocortenabochechade

Tamara, estancando o sangue com um guardanapo. Logo depois era Alastair quem abria caminho na multidãoparachegaraCall.Eleestavapálido,maispálidodoqueCallesperaria.Elenemseincomodou emlevitar,sóabriucaminhopeloscristaisestilhaçadosepelometalretorcido,atéagarrarCallepuxá-lo paraosseusbraços.

—Callum—disseelecomavozáspera.Sobreoombrodopai,CallpodiaverAaron,aindaapoiado contra a parede. Não havia ninguém alipara cuidar de seus cortes ou abraçá-lo. Com uma expressão estranhanorosto,eleolhavaparaaprópriamão,aquetinhausadoparaliberarocaos.

— Minhafilhanãoéencrenqueira—irritou-seoSr.Rajavi

— Casotenhaseesquecido,estamostodosaquihojeparahomenagearoheroísmodela

—Eoheroísmodeváriosoutrosalunos—acrescentouoMestreNorth,quetinhaafastadoalguns

dos curiosos para perto da parede, para que ele e Mestre Rufus pudessem examinar os destroços do lustre.

— Eufuicontraacerimôniadepremiaçãodesdeoprincípio

— disse Taisuke. — Crianças não devem ser recompensadas por desobediência, mesmo que o

resultadofinalsejapositivo. Mentalmente, Call colocou o Mestre Taisuke na categoria Não É Meu Fã. Era uma categoria em expansão.

— Os Makaris, especialmente, deveriam ser controlados — continuou Taisuke. — Como vimos comConstantineMadden,umjovemMakarquenãoconheceoprópriopoderéacoisamaisperigosado mundo.

— EntãovocêestádizendoquejovensMakarisdevemser mortos,comoéocostumeemoutros

países? — perguntou Mestre Rufus. Ele não falou alto, mas a voz soou clara, poderosa e firme. — Porquealguémtentoufazerisso.Olustrecaiuporquemexeramnacorrente.Alguémestavatentando assassinarosMakaris. —Assassinar?—perguntouMestreSukamo,murchandoumpouco. OutroprofessordoCollegiumfezumgestoabruptonoaredisseumapalavraestranha. Um rugido súbito e ensurdecedor percorreu o salão. Alastair apertou Call ainda mais, os pais de Tamara a agarraram, e o Mestre Rufus foi na direção de Aaron. Uma espécie de sistema de alarme parecia ter disparado — então de repente umcaminho se acendeu diante deles e, na parede, Call viu portas antes ocultas agora iluminarem-se. Ele, Aaron e Tamara foram levados por uma delas, percorreram um corredor e chegaram a uma sala escura e sem janelas, cheia de sofás e cadeiras. FuncionáriosdoCollegiumcorriamdeumladoparaooutro,protegendoaárea. Alguém trouxe cobertores e canecas de chá bem doce que pareciam um pedido de desculpas por Mestre Sukarno tê-los acusado de serem delinquentes relapsos. Anastasia Tarquin surgiu com uma barrinhadecerealeaentregouaAaron,dizendoqueusar todaaquelamagiacaótica,mesmocomum contrapeso,provavelmenteohaviadeixadoexausto. Por um instante, Call achou que talvez isso significasse que os adultos os deixariam sozinhos. Tamara estava aconchegada em um sofá com os pais, e Aaron estava encolhido em uma poltrona, parecendoarrasadoeexausto.Mas,claro,nadadissoimportava.AssimqueaequipedoCollegiumsaiu, Mestre Rufus, Mestre North, Anastasia e Graves começaram a fazer inúmeras perguntas desconfortáveis. PorqueCallfoiparaaSaladeTroféus?Alguémoameaçounafesta?ElesabiaqueAaroniriaatrás dele? Nãofaziasentidosecolocaremumasituaçãoconstrangedoranafrentedaequipedeprofessoresdo MagisteriumedoCollegium,quantomaisdaAssembléia,entãoCallmentiu.Não,ninguémsabiaqueele

estavaindoparaaSaladeTroféus.Não,ninguémsabiaqueAaronestariacomele.Eledetestavadançar

eestavaandandosemrumo,olhandoparaosobjetosantigos.Éclaroqueelenãotinhalevadoumbolo

em um possível encontro. Definitivamente ele não era um perdedor cujos amigos quase foram esmagadossobolustredaderrota. Depois,CéliaeJasperforamautorizadosaentrar.Céliaco^|suasduasmãeseJaspercomamãee opai.OSr.DeWinterdeuumempurrãozinhoelançouumolharseveroaJasper,comosealertandoo filhoanãofazerqualquercoisapotencialmentehumilhanteparaonomedafamília. Callsuspirou, preparadoparaopior. Játinhasidoruimobastante imaginar Céliaexplicandopor

quetinhadecididonãoirao1seuencontro,masouviraexplicaçãonafrentedetodomundoera1como

umabolaextradehumilhaçãoemcimadeumsundaedeívergonhaquejáerasuficientementegrande.

Callseperguntouseeraruimdesejartersidoesmagadopelolustre.

— Vocêssãoamigosdessestrês—disseMestreNorthaCéliaeJasper,indicandoCall,Aarone

Tamara.Céliapareceusatisfeitaaoouvirisso;Jasper,porsuavez,pareceuencararcomoumaacusação.

—Notaramalgumacoisadiferenteestanoite?Alguémsecomportandodemaneirasuspeitaemrelação

aeles?

—JenniferMatsuiestavafalandocomCall—disseJasper.—Oqueéestranhoporqueelaébonita

epopular,enquantoeleéhorrívelezeropopular—JasperviuAlastairolhandoparaele,eenrubesceu.

—Brincadeira.Maseunãosabiaqueelesseconheciam.

— Superficialmente—disseTamara.—Jenniferéamigadaminhairmã.

— MaselanãoéamigadoCall—disseCélia,virando-separaele.—Porquevocêestavafalando

comJennifer,Call?

Callficoudesacocheio.

— Elaestavaentregandoobilheteparamim—disseele.—0seubilhete.

— Quebilhete?—Céliapareceutotalmenteespantada.—Nãoescrevibilhetenenhum.

Callpegouopapeldobolso.

— Entãooqueéisso?

Céliafranziuorostoparaopapel.

— Essanãoéaminhaletra.Enãotemaminhaassinaturanemnada;sóomeunomeescrito.Ela

dissequeerameu?—Emseguida,releuaspalavraseruborizou,opescoçovermelho.—Vocêfoiparaa

SaladeTroféusporqueachouquefossemeencontrarlá?

Tamarafezumacareta.

— Vocênãocontouisso.

— Callum—disseMestreNorth,comavozausteraosuficienteparaquetodossecalassem.—

Vamosrefazerosacontecimentosdehoje,lentamente.E,destavez,nãovaideixarnenhumdetalhede

fora.Estáentendendo?Issoémuitoimportante.

— Certo—disseCall,resignado.—Foisóqueeu

— Semdesculpas—disseMestreNorth.—Comece.

— Eu estavaprocurandoAlastair quandoJennifer Matsuimeentregou obilheteedissequeera

umalourabonita—disseCall,desejandosaberfazermagiaosuficienteparasetornarinvisívelou

de

fumaçaedescerpelostacosdochão.

Céliasorriuparaele.

— Jura?

Jaspertinhacomeçadoariremsilêncio.AoveraexpressãodeMestreRufus,tentouparar,masnão tevemuitosucesso.

— Você é a única loura que ele conhece — disparou Tamara, claramente menos entretida. Ser

quaseesmagadapor deztoneladasdevidroecristalpareceu deixá-lamenosinteressadaemfazer Call passarvergonha. MestreNorthesticouamãoparapegarobilhetedasmãosdeCélia.Olhouopapelporuminstante, depoisdevoltaparaela. —Vocênãoescreveuisso?Temcerteza? Céliabalançouacabeça.

— Não escrevi. Quer dizer — Célia lançou um olhar infeliz para Call. — Estou me sentindo muitomalquealguémtenhatentadousarmeunomeparatentarmachucarvocê.

— Tudobem—disseCall,tentandoparecer quenãoseportavacomisso.Depois,percebeu que

dizertudobem”depoisdequaseseresmagadoporumlustreeraumpoucobizarro.Desoladoeleolhou

paraopai.Alastairdeudeombros. — Onde está Jennifer Matsui agora? — perguntou Mestre Rufus, claramente impaciente com o vacilodeCall.—Provavelmentefoioresponsávelporsabotarolustrequementregouobilheteaela.A nãoserqueaprópriaJennifertenhafeitoisso.

— Jennifer?—disseTamara.—Porqueelafariaisso?

Aaronfranziuatesta.

— PorquealguémiriaquerermatarCall?

— Bem,eleéumMakar—disseMestreRufus.—Assimcomovocê.

Aaron, Tamara e Call se entreolharam rapidamente. Era verdade que Call era Makar, mas, na perguntadeAaron,Calltinhaouvidooutraperguntaimplícita,amesmaquetodosqueconheciamoseu segredo provavelmente estavam se fazendo. Um questionamento que não podiam fazer nem compartilhar. Porque enquanto todos pensavam que a pessoa tentando matar Call estava tentando pegar um dos Makaris, havia outra possibilidade: a de essa pessoa estar tentando matá-lo por saber quemelerealmenteera. Talvez, se a verdade vier à tona, Call pensou, quem quer que tenha tentado jogar um lustre na minhacabeçarecebaumprêmiotambém.

— Sim,comessapersonalidadeincrívelqueeletemédifícilimaginarquemiriaquererumacoisa

dessas—disseJasper.

— Jasper!—disseTamara,masCall,pelaprimeiravez,nãoseimportou.Jasper ser umbabaca comeleeranormal,enaquelemomento,normalidadeeratudoqueCallqueria.

Masissonãoiriaacontecer.Umgritoparouasala—seguidodeoutroedepoismaisoutro.Alguém

noCollegiumestavaberrandodepavor.

Tamaraficoudepé.AbarrinhacerealdeAaronvoou.Alastairpareciaapavorado.

— Oqueestáacontecendo?—perguntouasenhoraRajavi,virandoparaolharparaosMestres.

Call também tinha levantado e foi correndo para a porta. A perna dele doía e assim mesmo ele forçou o movimento — mas ainda não era tão veloz quanto os outros. Podia ouvir vozes, gritos e berros,todosecoandodeumdosladosdoCollegium. Correram por um longo corredor, atravessaram outro salão e voltaram para a Sala de Guerra. Estavacheiadegente.Apessoaaindagritava.EraKimiya.Umadesuasmãosestavasegurandoafrente dovestido,eaoutraapontavaparacima. Dooutroladodovidroclaro,Callviaaáguaaoredor detodooCollegium,brilhandoemumazul- esverdeado meio embaçado. Os cardumes de peixes tinham desaparecido. Havia apenas a água e um corpoflutuandonela.Umamenina,descalça,comumvestidoqueaenvolviaparcialmente,comoalga. Seuscabelosescurosbalançavamcomacorrente. Tamaracorreunadireçãodairmã,masAlexjáestavaabraçandoKimiya.Eletinhaumaexpressãode

horrornorosto.

—Jen—disseKimiyaentresoluços,orostocoladonacamisadele.—Jen

Callsentiu-secongelar.Ocorponaáguaboiou,viroueCallviuduascoisas:primeiro,quehaviauma

longaadagadeferroenfiadanopeitodameninamorta.Segundo,queorostoerafamiliar.

EraJenniferMatsui,ealguématinhamatado.

CAPÍTULOCINCO Ouviu-seumaexplosãoalta. —Todomundo,parafora—gritouoMestreGraves,quetinhasubidonamesadaSaladeGuerra.

CAPÍTULOCINCO

Ouviu-seumaexplosãoalta. —Todomundo,parafora—gritouoMestreGraves,quetinhasubidonamesadaSaladeGuerra. Estavacomumadasmãoslevantadas,fogobrilhandodesuapalma.—Agora! O rosto do Mestre Rufus estava enrugado e abatido à luz azul. Call se perguntou se o mestre conheciaJenMatsui.Ficouimaginandocomoseriaparaeleverumalunomorrer.MestreRufustinha sido professor de Constantine Madden — tinha visto muitos alunos morrerem. Será que estaria acostumadocomisso?Pelaexpressãodomestre,Callsupôsquenão. Rufusergueuamãoealuzirradiadadeseusdedosiluminouumatrilhaatéasportas. — Andem — disse ele com um tom que não permitia discussão. Os outros Mestres e vários integrantesdaAssembléiaforamparaafrentedamultidãoeajudavamosconvidadosasairdaSalãode Guerra.Empânico,aspessoaschoravamegritavam. Elas inundaram o corredor e depois o salão principal. Anastasia Tarquin estava lá com diversos Mestres,incluindoTaisukeEntãocomeçaramadirecionar aspessoasparaaescadariaquelevavapara foradoCollegium.CallviuCéliadesaparecendopelosdegrauscomasmãeseseperguntouseelaestaria bem. Alastair, que estava com uma das mãos no ombro de Call, o empurrou na direção da saída, gesticulandoparaqueAaronosseguisse. Aoolharparatrás,CallviuqueTamaraestavatendoumaespéciedeconversaintensacomospaise osDeWinter.ASra.DeWinternãopareciasatisfeita,nemosRajavi.Noentanto,aexpressãonorosto doSr.DeWintereraesquisita,comoseeleestivessesatisfeitoenãoquisessedemonstrar.Amultidãose dividiaemvoltadelesàmedidaqueseguiaparaasaída.Aparentemente,osmembrosdaAssembléianão precisavamseguirordens. —AgentenemsedespediudaTamara—disseCallparaAlastair. — Agora não — respondeu ele, empurrando Call commais força. — Temos que sair daquiantes

que

—Alastair—disseoMestreRufus.—Espere.

Alastairparou.Callpôdesenti-lotensoderaiva.Eleviroulentamente,assimcomoCalleAaron.As

cordasflutuantestinhamsubidoemtornodeles,cercandoAaron,CalleAlastair.

— Você não podem simplesmente ir embora — disse Mestra Milagros. — Call foi atacado, e

Jennifer, assassinada. Nossos aprendizes precisam ir para algum lugar onde possamos mantê-los seguros.

— Considerando que vocês sequer conseguem manter a segurança desses garotos em uma festa, achoexageradoprometerqueficarãosegurosemalgumoutrolugarsóporquevocêsestarãopresentes. —AvozdeAlastairestavafria.

— As aulas começam em três dias — disse Mestre Rufus. — E tanto eu quanto a Assembléia esperamosencontrarosdoisMakarislá.Vamosmantê-losseguros;vaiterqueconfiarnagente.

Alastair virou para Rufus, o rosto aceso com a mesma raiva que Call se lembrava de ter visto do JulgamentodeFerro. —Fazmuitotempoqueconfieiemvocê,Rufus—disseAlastair.—Evejasóoqueaconteceu.— Eleesticouamãoeascordasqueoscercavamsucumbiramemcinzas.Faíscasficaramcontidasemseus dedos.CallolhouparaAaroncomolhosarregalados.—Avisequandoencontraroresponsável,porque atélá,nãoconfionemumpoucoemvocê.Vamos,meninos. Alastair foimarchando emdireção a escada comCall e Aaron logo atrás. Surpreendentemente as pessoas abriram espaço para que passassem, até os membros da Assembléia. Provavelmente porque todosachavamqueeraeleapessoaquetinhacortadoacabeçadeConstantineMaddenequeparecia prontoaarrancarmaisalgumas. CalleAaronseentreolharamcomolhosarregaladosenquantoAlastairosarrastavaparaosdegraus. —Espere!—disseTamara,correndoparaelesepuxandoJas-peratrásdesicomoumrebocador. Ospaisdelacontinuavamnomesmolugar;tinhamafastadoAlexdeKimiyaeelesmesmoconsolavama filha.—Euvoucomvocês.Nósdoisvamos. —Oi?—disseJasper.—Nadadisso!Nãoacheiqueestivessefalandosério.Suairmãgataprecisa de umombroamigo. Vou me oferecer. Vou me sair bemmelhor fazendoissodoque estandoemum casebrequalquerqueCalleopaiestranhodele TamaradeuumchuteviolentoemJasper,quesecalou. Alastairolhousurpresoparaambos. —Bem,serábem-vinda,masachoqueseuspaisnãovãoquerer.Euosconheçohámuitotempoe ficariasurpresoseconcordassememtervocêlongedasupervisãodeles. Tamaracerrouamandíbula,umardedeterminaçãoemcadalinhadorosto. —TemosquefazerturnosparacuidardasegurançadoCall. Eudisseissoeelesconcordaram. —Turnos?—repetiuAaron.

— Tentaram matar Call — disse Tamara. — Isso significa que não podemos tirar os olhos dele. Precisamosteralguémtomandocontadeleotempotodo,vinteequatrohoraspordia. —Mesmoquandoestoudormindo?—perguntouCall. Tamaraoencaroumuitoséria. —Especialmentequandoestiverdormindo—respondeu.—Dormindovocêficavulnerável. Callnãoficoumuitofelizcomoplano. —Oquê?Não!NãoqueroJasperolhandoparamimenquantoeudurmo,quecoisaesquisita.Não queroninguémmevendodormir!

— Podemos discutir isso depois — disse Alastair. — Tamara, Jasper, se quiserem vir conosco estamosindoagora. CallolhouparaAaron,maselenãoestavaprestandomuitaatençãonadiscussão.Observavaalgum

pontoalémdelesnaSaladeGuerraeaindamaisdistante,ondeocorpodeJenflutuava.Callpensounas férias que passaram, sem preocupações, construindo robôs e correndo pelo jardim com sprinklers improvisados na mangueira. Se perguntou se tinha sido tolo o bastante para achar que as coisas realmentetinhammudadosóporterfeitoosmagosacreditaremnisso. —Vamos—disseTamaraaAaron,tocando-onoombroeatraindonovamentesuaatençãoparao aquieagora.Callsepermitiuserlevadopelopaiparaasescadas.Passarampelamesadebebidas,agora revirada,ondeJenhaviaentregadoobilheteaCall. Quando Alastair chegou à escada, ergueu Call no ar, fazendo-o deslizar com facilidade e rapidez sobreosdegraus.Ogestofoidistraídoesemesforço,assimcomoquandotinhaqueimadoascordasde

veludo; como se não estivesse prestando atenção ao que estava fazendo. Call estava chocado. Seu pai tinha passado tanto tempo evitando usar mágica que Call não achava que ele se lembrasse de como fazer. Chegaram ao topo da escada e Alastair colocou Call cuidadosamente no chão. Ele começou a marcharnafrentedosquatro,pelaorla,emdireçãoaocarroestacionado.

TinhamacabadodepassarpelaestátuagiganteeestranhadePoseidonquandoJaspernotouoRolls-

RoycePhantomdeAlastair.Eledeuumassobiolongoesatisfeitoqueseencerrouabruptamente—em umruídoengasgado—quandopercebeuqueocarroqueadmiravapertenciaaopaideCall.

— Nãoé oque você esperava? — perguntou CallquandoAlastair abriu aportae os conduziu ao

espaçosobancodetrás. Pelaprimeiraveznavida,Jasper pareciasempalavras.Todosentraramsilenciosamentenocarro, Callnobancodocarona.Aoseafastaremdacalçada,Callolhouparatráseviuumgrupodemagosperto domar,juntoàentradadoCollegium.Enquantoobservava,umdelesentrounaáguaedesapareceu. —Magosdaágua.Vãobuscarocorpodamenina—Alastaircomumtomsevero. Calldesviouoolhar.EradifícilacreditarqueaquelaJenalegrequeohaviaprovocadoaoentregaro bilhete e que Jasper queriaconhecer, estavamorta. Anoite tinhasidoparahomenagear odaguerra, mas,dealgumjeito,essedetalhetornavaosacontecimentosaindamaisgrotescos.Seráquealgumdia

poderiahaverpazdeverdade,Callpensou,umavezqueoInimigodaMortenãoestámesmomorto?

Aochegarememcasa,Alastairdeuumjeitodeencontrartravesseirosecobertoresosuficientepara

todoseles.AaronabriumãodeseucatreparaqueTamarapudesseficarentocada;sim,esseeraAaron. Jasper ficou com o sofá, apesar de ter reclamado muito de não ser do tipo sofá-cama, e acusou Devastaçãodeter deixadopulgasnasalmofadas.Call,quesabiamuitobemqueDevastaçãonãotinha pulgas,tinhavoltadoaodiarJasper.Aaronpegouumapilhadecobertores,fezumacamaimprovisada nochãoaopédeCallefoidormir. OpróprioCalljáestavaquasedormindoquandoouviuumabatidaàporta.EraTamara,parecendo ligeiramenteenvergonhada.

— Tem alguma roupa que eu possa usar como pijama? — perguntou ela. — Só tenho isso —

indicouovestidodefesta—,e,bem,provavelmenteeunãodeveriadormirsem Callpercebeuqueestavaruborizado.Desejouquepudessesertotalmentesemcomplicaçõesofato de ter uma menina como melhor amiga. Deveria ser exatamente como era com Aaron. Não deveria importarofatodequeTamaraeraumagarota.MesmoassimCallsesentiudesajeitadoetoloenquanto vasculhava sua gaveta de camisas. Achou uma camiseta grande que dizia BEM-VINDO À CAVERNA

LURAYemamarelofosforescente.Entregouemsilêncio.

—Obrigada—disseTamara.—Voulavaredevolver

—Tudobem,podeficarcomela

— ECall?

—Querdizer,eununcauseimesmo,égrandedemaise

Callrepetiuela,olhandoparaCallcomolhosgrandesesérios.—Vamosmantervocêemsegurança,

ok?

Callqueriapoderacreditar.

—Ok—disseele.

ok? Callqueriapoderacreditar. —Ok—disseele. No dia seguinte, Call, Tamara e Jasper estavam sentados no

No dia seguinte, Call, Tamara e Jasper estavam sentados no jardim. Tamara usando o vestido amareloeJaspercomumaestranhacombinaçãodepeçasderoupasdeleedeCall.Odiaestavamuito

ensolaradoeTamaraolhavacomdesconfiançaparaalimonadaempóqueAlastairtinhapreparado.Call suspeitava que ela não costumasse beber coisas instantâneas. Jasper olhava com arrogância para o pequenoquintaldeCalleparaagramaligeiramentealta. NãoqueAlastairparecessenotar.Eleestavasentadoemumapedra,mexendoemumdespertador quebrado. Apesar de haver alarmes digitais e celulares hoje em dia, as pessoas pagavam caro por telefonesantigoseoutrascoisasconsertadasdemodoafuncionarembem.

— Então o que isso quer dizer? - Tamara perguntou. - Se alguém está tentando machucar Call

porqueeleéo

-Elaengoliuemseco.

—InimigodaMorte?—Jasperofereceu.

— Não acho que seja uma boa ideia ficar repetindo “Inimigo da Morte” -disse Aaron. -É melhor bolarmosumcódigo.ComoCapitãoCaradePeixe. Devastaçãolatiu.Callconcordavaqueonomeerapéssimo. —PorqueCapitãoCaradePeixe?

— Bem, você tem uma cara meio de peixe — disse Jasper. — Além do mais, ninguém jamais

adivinhariaoqueestamosfalandoporquenãohánadadeassustadornisso. —Tudobem,queseja—disseTamara,parecendoachartudoaquiloumaperdadetempo.—Então quemseráquesabequeCalléoCapitãoCaradePeixe?

— Eu me recuso a ser chamado assim! — disse Call. — Principalmente levando em conta os recenteseventos. TamararesmungoucomoseestaconversaaestivesseatormentandomaisdoqueaCall. —Tudobem,comovocêquerserchamado? —QuetalComandanteCabeçadeVento?—sugeriuAaron.Jasperriu,cuspindoalimonada.

Callapoiouacabeçanasmãoserespiroufundo,absorvendoosaromasdoverãooperfumedaterra morna, da grama cortada e do óleo de máquina. Não tinha como sair ganhando. Ele ficaria com um nomeidiotadequalquerforma. —PodeserCapitãoCaradePeixe. —Ótimo—disseTamara,revirandoosolhos.—Agorapodemosconversarsobrequempodesaber sobreCall?

— O pai dele — disse Jasper, e todos olharam para Alastair, que parecia totalmente alheio, assobiandoumacançãoalegrementeeumpoucoforadotom. —Meupainãoestátentandomematar—disseCall.Háumanoelenãotinhatantacertezadisso,

masagorasim.—Etambémnãoachoquesejanenhumdevocês.Nemvocê,Jasper.Quemmais? —Algumdenóscontouparaalguém?—perguntouTamara,olhandoparaogrupo.

— Para quem eu contaria? — perguntou Jasper, e em seguida empalideceu com os olhares

demorados que recebeu. — Não, ok? Não contei para ninguém! É um segredo grande demais, e eu

tambémmeencrencaria. —Nemeu—disseAaron. Tamarasuspirou. —Eunãocontei.Masacheimelhor perguntar.Tudobem,entãochegamosaoMestreJoseph.Ele deveestarmuitoirritadocomCall. —AcheiqueeleprecisassedeCall—disseJasper.—OCapitãoCaradePeixenãoé,tipo,arazãode viverdele? Aaronsorriu. —AchoqueeleestavatorcendoparaCallser bemmaisobedientedoqueé,ou paraquepudesse usá-loparatrazerdevoltaoCapitãoCaradePeixecomtodasaslembrançasintactas. Call,queachavabasicamenteomesmo,estremeceu. —PodeserqueelemeculpepelamortedeDrew. —Provavelmenteeletambémmeculpa—disseAaron.—Sefazvocêsesentirmelhor.

Drew era o filho do Mestre Joseph. Ele tinha ido para o Magisterium se passando por um aluno normal,masseuverdadeiromotivoeraseaproximardeCall.DrewatéajudouopaiasequestrarAaron e depois o colocou em uma jaula com um elemental do caos que, ironicamente, acabou matando o próprioDrew.Calltinhaqueadmitirqueeletambémtinhaalgumacoisaavercomisso. —Muitobem—disseTamara.NossoprincipalsuspeitoéoMestreJoseph. Callbalançouacabeça. —Nãosei.Seelequisessemepegar,porquenãousaroAlkahest?E,bem,achoqueeleaindanão estáprontoparadesistir.Eletentousalvaraminhavidanotúmulo.Achoqueeleaindatemesperança

dequeeuváficar

—EWarren?—perguntouAaron.Todosoencararamporumlongoinstante. CallolhouparaeledomesmojeitoqueTamaratinhaolhadoparaalimonada. —Vocêachaqueumlagartoestátentandomematar?EqueeleforjouumbilhetedeCélia? —Eleéumelemental!EestavaaserviçodoDevoradoquenosdeuaquelaprofeciaarrepiante.— Aaronsuspirou.—Ok,éumateoriamuitomaluca. —Tudobem—disse Tamara. —Temosque pensar foradacaixa. Por maisimprovávelque seja, temosquecolocartodasasnossasideiasnamesa.Ou,pelomenos,nessegramado.

— Não temos nenhum suspeito — disse Call. — Não temos ideias. Não sabemos nem por que

estavamatrásdemim.TalvezsejaporquesouumMakar.Talveznãotenhanadaavercomofatodeser oCapitãoCaradePeixe.Talvezapessoaquetentoumeesmagarcomumlustresejaamesmaquesoltou Automotonesparanosmatar. —Éissoqueosmagosvãopresumir.—Tamarasuspirou.—Talvezsejaissomesmo. —Vamosterquenosmanterjuntos—disseAaron,sorrindoparaocéuazul.—Evamosdarum jeitonisso,ok?Afinal,somosheróis,certo?Ganhamosmedalhas.Agenteconsegue. Em dado momento Call produziu um baralho e todos jogaram algumas rodadas de um jogo que envolvia dar tapas nas mãos uns dos outros. Falaram sobre voltar para o Magisterium e sobre o que pretendiam alcançar naquele ano. Devastação perseguiu várias abelhas, avançando nelas até que, preguiçosas,retiravam-sedoseu alcance.Aocair datarde,Stebbinschegou commalasparaTamarae um recado dos pais dela que só poderia ser transmitido confidencialmente. Jasper usou um dos

maisparecidocomooCapitãoCaradePeixe.

telefones fixos consertados por Alastair, em estilo castiçal, para ligar para casa. Depois de desligar, relatou com tristeza que a família mandaria seus pertences direto para o Magisterium. Call ficou imaginandoseeleteriatentadoconvencerospaisaproibi-lodeficaraqui.Tambémseperguntouseos paisdeJasperoteriamobrigadoavir,masrapidamenteafastouaideia. —Táolhandooquê?—perguntouJasperquandonotouCallolhandoemsuadireção. —Nada—respondeuCall.AúltimacoisaqueprecisavaeraterquesepreocuparcomJasper. Naquela noite todos jantaram do lado de fora, em pratos de papel. Alastair assou carne, que foi servidacommilhoamanteigado,ervilhasefatiasfriasdemelancia.Tamarajogou melanciaemAaron, queficoucomcaroçospordentrodablusa.DevastaçãosubiuemJasperquandoeleserecusoualhedar umpedaçodecarne.Elesbrincaramdeverquemconseguiafazerfaíscassobreoscarvõesnagrelha.Foi quaseumafesta,excetopelofantasmademortedeJen,queosimpediaderiraltooudeseesquecerpor muitotempodequepoderiamserospróximos.

muitotempodequepoderiamserospróximos. Dois dias depois, Alastair levou todos ao Magisterium. Call

Dois dias depois, Alastair levou todos ao Magisterium. Call foi na carona, olhando pela janela enquantoAaroncochilavanobanco.TamaraestavaouvindomúsicanocelulareJasperliaomaisnovo quadrinho encontrado no quarto de Call, pelo qual estava obcecado. Devastação estava esticado ao longodoscolos,dormindo. —Meavisasequiservoltarparacasa—disseAlastairaCallpelamilionésimavez.—Vocêjáfezo suficiente. Sabe bastante mágica, o suficiente para controlar suas habilidades. Não precisa do Magisterium. Call se lembrou de Graves insistindo para que o Mestre Rufus atualizasse sobre a evolução dos Makaris. Ele se lembrou de todasasreferênciasapaísesonde magoscomahabilidade de controlar o caos eram mortos ou privados da magia apesar de ser uma festa para homenageá-los. Enquanto Constantine Madden estava vivo, Makaris eram ótimos. Eram armas muito necessárias. Eles significavam o fim da guerra. Mas com Constantine Madden morto, Aaron e Call não passavam de lembretes da guerra e de como ele poderia retornar. Call duvidava que fosse poder abandonar Magisterium,independentedoqueAlastairacreditasse. —Tudobem,pai—disseCall.—Vouficarbem. À medida que se aproximavam do Magisterium, as estradas se tornavam mais estreitas e curvas. Não tinham nenhuma sinalização: só aqueles que sabiam onde o Magisterium ficava conseguiam encontrá-lo.Callsempreficavaimaginandoquetipodemagiaimpediaqueandarilhosepessoasnormais fossem parar lá. Alguma coisa avançada, ele supunha. Alguma coisa relacionada à terra. As floresta ficavamaisdensaàsmargensdaestrada.CallnãoconseguiadeixardepensarnaOrdemdaDesordem— eraclaroqueaAssembléiasabiasobreelesetoleravasuaexistência,maselenãoconseguiaentendero motivo. OuviramumapitoàfrenteeissotrouxeaatençãodeCalldevoltaparaaestrada.Pararamocarro emumaclareira,ondeumônibusescolar jáhaviachegado.Alunossaltavamdele,carregandomalase bolsas.Oportãoprincipaldaescolaestavaaberto;porele,Callpodiavermagosemvestesdeumpreto sóbrioeváriosalunosdeuniforme—vermelho,branco,azul,verdeecinza—misturadosaalunosque tinhamacabadodechegareaindavestiamjeansecamiseta. Aaron acordou e ele, Jasper e Tamara começaram a se cutucar, inclinando-se para as janelas ao reconheceremcolegasdosanosanteriores—Célialançouaelesumsorrisoreservadoaoatravessaros portõescomGwenda,queeradomesmogrupodeaprendizesqueelaeJasper.AlexStrikeconversava

comAnastasiaTarquin,quetinhaestacionadoseu Mercedesbrancoaoladodoônibusescolar.Calljá tinhavistoaquelecarroantes:eraomesmoqueeladirigiaquandofoibuscarAlexnacasadosRajavino anopassado.Callquasetinhaseesquecido:AnastasiaTarquineramadrastadeAlex. Anastasiaemergiu docarroemumterninhobranco,elegantecomosempre.Alexgesticulavapara

ela, parecendo irritado, quando uma van preta parou ao lado deles. A porta se abriu e dois jovens musculosos saltaram, para deleite de alguns dos alunos do Magisterium. Começaram levar móveis volumosospelosportões–umamesa,umalumináriaeumsofáperfeitamentebranco. —Oqueestáacontecendoali?—AlastairpensoualtoenquantotodossaltavamdoRolls-Royce.Call seespreguiçoupararelaxaramusculatura.Devastaçãofezomesmo. —AAssembleiacolocou Anastasianaescolaparaficar deolhonascoisas—respondeu Alex,que tinhaabandonadoamadrastaparacumprimenta-los.ElecumprimentouCalleAaroncomumhigh-five esorriuparaTamara.—ElavaificarnoantigoescritóriodoMestreLemuel.Anastasialevaissomuitoa

sérioe

Bem,podemosdizerqueelaexageranasmalas.

—Elavaiprocuraroespião?—perguntouAlastair.

—Achoquenãodevemosfalarsobreisso—disseAlex,olhandoparaJaspercompreocupação.—

Querdizer,ninguémdeveriasaber.

Alastairergueuassobrancelhasedisse:

—AindabemqueAnastasiaestásendobemdiscreta. Alexolhou paraamadrasta,queestavasupervisionandoocarregamentodeváriasmalasenormes paradentrodascavernas.Estavamtodascobertasdecarimbosantigosdelugaresdistantes—México, Itália,Austrália,RivieraFrancesa,Provença,Cornualha. —Ahistóriaquevaiacobertá-laéqueelaveioparacáafimdegarantirqueoprocessodeexpulsão dosanimaisDominadospeloCaosdaflorestacorrabem. Call colocou a mão nas costas de Devastação, com a intenção de tranquilizá-lo. Devastação olhou para ele, começando a abanar o rabo. Uma onda de raiva o percorreu ao pensar que alguém poderia querermachucá-lo. Ébomquenão,pensou. Alastairvoltou-separaCall. Se mudar de ideia, sabe como me encontrar — disse, e então abraçou Call com força. Força um poucodemais,parafalaraverdade,deixandoogarotopreocupadocomascostelas. Tchau, pai disse Call com a voz esganiçada. Mesmo com o aperto um pouco exagerado, era a primeiravezqueAlastairaceitavabemqueelefosseparaoMagisterium.Asensaçãoeraótima. Tamara tinha encontrado Kimiya e as duas estavam rindo. Jasper tinha ido em direção a Célia e Gwenda. Aaron, o únicoque tinha ficado à espera de Call, lançou a ele umsorrisode lado. Callficou imaginandoquãodifícildeveriaserparaAaronficarotempotodopertodasfamíliasdeoutraspessoas. — Passa isso pra cá — disse Aaron, colocando a bolsa de Call no ombro e levantando a própria bagagemcomaoutramão.Elecomeçouacaminharnadireçãodaescola,aparentementenemumpouco abaladopelopesoquecarregava.Callfoiatrásdele,comapernaduradaviagem,epensouemcomoa vidaerainjusta. As cavernas eram úmidas, mas legais. Água pingava das estalactites para as estalagmites que pareciam velas derretidas. Lâminas de gipsita pendiam do teto, lembrando bandeiras e faixas de uma festa há muito esquecida. Call passou por tudo aquilo, pela pedra molhada e pelas piscinas que brilhavampor causadamica,peixesclarosnadandoàtodavelocidade.Eleestavatãoacostumadocom tudoaquiloquenãoachavamaisrealmenteestranho.Erasóolocalondeestudava,tãofamiliarquanto abatidadosarmáriosdemetaleobarulhodostênisderrapandonochãodoginásioeramhátrêsanos.

FicouimaginandoseveriamWarren,assassinoempotencialeseeleteriaalgumacoisahorripilante adizerparaeles,masolagartinhonãoestavaemlugarnenhum. Callusou suapulseira,comtodasassuaspedrasnovas,paratecer ocaminhoatéoquarto.Aaron colocouamaladeCallnosofácomumresmungoquefezoamigosesentirumpoucomelhorrelaçãoàs própriashabilidadeseumpoucomaisculpadoquantoàgenerosidadedeAaron.Oquartopareciamenor doquenoanoanterior,eelelevouuminstanteparaperceberquefoiporqueelemesmotinhacrescido, enãoporqueoquartotinhaencolhido. AportaseabriueTamaraentrou,puxandoasmalas. —Eu nãosabiaparaondevocêsdoistinhamido!Simplesmentesumiram!—anunciou,oqueera completamenteinjusto,porquefoielaquesumiu,Callpensou.ElasevirouparaAaron.-Evocêsabeque nãopodemosdeixarCallsozinho! —Eunãodeixei—disseAaron. —Humpf.—FoioqueTamaradisse,antesdeentrarnopróprioquarto.Callfoiparaodele,que estavafrio,empoeiradoeabandonado,comosempreacontecianoiníciodeumanoescolar.Eleabriua malaevestiuouniforme:azulnoterceiroano.Fechouospunhosdacamisaeseolhounoespelhodo armário.Houveumtempoemqueeleerabaixoosuficienteparaseenxergarinteironovidro;agora,a cabeçaestavamaisacimaeeletinhaqueagachar. Ele foi para a sala compartilhada e encontrou Aaron e Tamara esperando, ambos uniformizados. Após prometer para Devastação que traria algumas sobras pra ele, foramao refeitório para o jantar. Todos,excetoosalunosdoAnodeFerro—queestavamchegandodeseusJulgamentosenormalmente podiamcomernoquarto—tomavamseuslugaresàsmesasdesempreeescolhiamentreasopçõesdo cardápio.Hojehaviaumpurêarroxeado,cogumelosgrandescortadosemfatiastãogrossasquequase pareciamdepão,cobertospor umapastaamarela,etrêstiposdelíquen—verdevibrante,marrome vermelho-escuro.Callempilhoutudonoprato,juntocomumcopodelíquidocomumacamadafinade algaporcima. Eraassustador oquantoCallachavaolíquendelicioso.Elelevou ogarfoàbocacomoumhomem famintoeimaginouseseriapossívelqueolíquentivessealgumpropósitosinistro.Comoacapacidade derealizarumalavagemcerebralqueofariacomertantoqueacabariasetornandoumaformadevida inteiramente baseada em líquen. Seria possível? Ele deu uma olhada longa e desconfiada na próxima garfadaantesdecomer. JaspersentouaoladodeCall,comosefossemamigos,oucoisadotipo. —Então,qualéoplano? —Doquevocêestáfalando?—perguntouCall. —Ah,deixapralá—respondeuJasper,revirandoosolhos,edepoisvirouparaTamara.—Nemsei porqueperdimeutempoperguntandoparaele.Qualéoplano? —Nãopodemosconversaraqui—disseela,inclinando-seebaixandoavoz.Callnãopôdedeixarde repararqueocortesoboolhodelacontinuavavisível,umalinhafina.Todavezqueeleovia,pensava emseusdedosnopaletódele,puxando-oparaasegurança.Pensounoquedeviaaela. Eledeviamuitoatodososamigos.Nãosabiaseumdiaseriacapazderetribuir. Aaron,queestavafalandocomRafe—outroalunodoAnodeBronze—sobreosrobôsqueelee Call tiveram que construir no verão, pareceu perceber que tinha algo importante rolando. Inter_ rompeuaconversacomRafeejuntou-seaogrupo. — Amanhã — respondeu Tamara, depois do jantar, vam0s nos encontrar na biblioteca. Aí poderemosconversar. —Doqueestamosfalando?perguntouCélia,sentandodiantedeCallcomumpratocheiodepurê

roxo.—Estáacontecendoalgumacoisa?

—Não!—AaroneJasperfalaramaomesmotempo.

—Ahclaro,nãoparecenemumpoucosuspeito.—Elaselevantou.—Senãoqueriamqueeume

sentasseaqui,erasóavisarEuvouparaoutrolugare

Callficoudepénumpulo.

— Não — disse antes de pensar em podería convencê-la a ficar. — Estávamos falando sobre a Galeria.Masnãodecidimosaindasevamos.Mas,querodizer,talvezagentevá.NaGaleria,digo.

— Está me convidando para ir a Galeria com você? — perguntou Célia, com uma expressão impossíveldeinterpretar.AGaleriaeraolugarparaondeduaspessoasiamquandoestavam Numencontro.Elaestáfalandodeumencontro.Elaachaqueestouconvidando-aparasair.

—Eu

— Bem, talvez devesse descobrir — disse Célia, jogando o cabelo louro para o lado e saindo para

nãosei?—Callgaguejou.

sentarcomRafe,KaieGwenda.

—Abolaestánassuasmãos,meuamigo—anunciouJasperassimqueCéliaficouforadoalcance

davoz.

—Vocêestámisturandoasmetáforas—disseCall.—Estámedandodordecabeça.

Podemos falar sobre salvar a vida de Call de fato, em vez de salvar sua vida amorosa? — disse Tamara,parecendodesacocheio.

— Até amanhã à noite, um de nós vai ficar com Call o tempo todo. Provavelmente terá que ser

Aaron e eu, porque se for você, Jasper, todo mundo vai achar estranho, considerando que você não gostadeCall. ClaroquegostadisseAaron,parecendosurpreso.—Somostodosamigos. Que seja disse Tamara. — Amanhã, depois do jantar, biblioteca. Levem boas ideias. — Ela olhou paraolado.—AlexStrikeestágesticulandoparamim.Eu jávolto.—Elaselevantou epegou Aaron pelamangadacamisa.—Vamos.Provavelmenteelequerfalarcomvocêtambém.

— Aaroncomeçou a dizer ao ser levantado e puxado para a mesa onde Alex, Kimiya e

seusoutrosamigosdoAnodeOuroestavamsentados.Pareciamumgrupomelancólico.Callnãopodia culpá-los.Perderumaamigadaquelejeito —Então,vocêgostadaCéliaou não? —perguntou Jasper,mastigandoumpedaçodelíquen.Ele estavacomcortedecabelonovoantesdacerimônia.Penteado,ocabeloparecialambidoeumamecha escurarecaiusobreseusolhos. —Oquevocêtemavercomisso?—perguntouCall. —Talvezeuaconvideparasair—disseJasper.—Jápensounisso? Callnãotinhapensado.Arregalouosolhos. —Fazoquevocêquiser—disseporfim. —Achoquevocêrealmentenãoseimporta.—OsolhosdeJasperbrilharam,entretidos.—Talvez porquegostedaTamara? —Jasper —Vocêgosta?DaTamara? —Elaéminhamelhoramiga—respondeuCall,entredentes.

—Issonãoquerdizernada.—Jaspergirouogarfoentreosdedos.—Aspessoasvivemgostando umas das outras emgrupos de aprendizes. VejaKimiyae AlexStrike. Ou, você sabe, eu e Célia. Você superpoderiagostardeTamara

— Que importância isso tem? — Call explodiu de raiva, para a própria surpresa. Ele olhou para Jasper,ecomavozbaixadisse:—Vocênãoentende?Issonãoimporta.ElasemprevaipreferiroAaron.

— Quê ?

OsolhosdeJaspersearregalaram.

—Uau—disseele.—Parecequeacerteiumaverdadeincômodaaí.

AcabeçadeCallestavaumabagunça.Vagamente,atravésdamultidão,elepôdeverAaroneTamara

vindoemdireçãoaeles.Estavamrindo,comosemprefaziamquandoestavamjuntos.

—Issoqueeuacabeidefalar—CallolhouparaJasper—,nãorepita.

Jasperseinclinouparatrásnacadeira.

—Nãosepreocupe,Callum—disseelecomsarcasmo.—Guardotodososseussegredos.

CAPÍTULOSEIS Asaulasnaqueleprimeirodiaforamaoarlivre,sobosolquente,osalunossentadosemumsemicírculo de pedras. O Mestre

CAPÍTULOSEIS

Asaulasnaqueleprimeirodiaforamaoarlivre,sobosolquente,osalunossentadosemumsemicírculo de pedras. O Mestre Rufus achava que, como a Assembléia em breve pretendia começar andar pela floresta, eramelhor usaremaparte externaomáximopossívelaté lá. Callsentiu faltadofrescor das cavernas.Suacamisalogoficoumolhadadesuor.Atéocourocabeludopareciaestarqueimandocomo sol.OnarizeasbochechasdeAaronjáestavamvermelhos,eTamaraestavausandoumdoscadernos comochapéu. Bem-vindosaoAnodeBronzedoMagisterium—disseMestreRufus,andandodeumladoparao outronafrentedeles,acabeçacarecabrilhando.-Vocêspodemnãoseramaiorencrencaquejápeguei emtermosdeaprendizes,mascertamenteestãoquaselá.Vamostentarconduziresteanodeumjeito diferente. ConsiderandoqueMestreRufussereferiaaumantigogrupodeaprendizesqueincluíaopróprio CapitãoCaradePeixe,issorealmenteerasignificativo. — Todos nós acabamos de receber medalhas!— disse Tamara, que recebeu um olhar severo por interrompê-lo,mascontinuouassimmesmo:—Somosoopostodeencrenca. As sobrancelhas do Mestre Rufus fizeram um movimento complicado, subindo e sacudindo ao mesmotempo. —Mesmoassim,vamostentarnoscertificardequenenhumdevocêssejasequestradooupartam emmissõesderesgateouadotemmaisanimaisDominadospeloCaosouabandonemaescolaporalgum motivo. Ninguémteveoqueresponderdiantedisso. — Este ano aprenderemos sobre responsabilidade pessoal. Vocês podem achar que isso não seja particularmenteparecidocomumaliçãodemágica,masfoinoAnodeBronzequeConstantineiniciou seusexperimentoscomMestreJoseph,tentandodescobrir umcaminhoparaaimortalidade.Esteéo anoemquevocêsdeixamobásicoparatrásecomeçamafocarnaquiloemquepodemseespecializar. Sendo assim, queremos ter certeza de que todos, mas principalmente Call e Aaron, entendam a

amplitudedeimplicaçõesembutidasemcadaespecialização.Ébomquecomecemapensar noslimites damagiadocaos. Emcomoé irresponsávele desonestousar métodos que ponhamvidas emriscosó para descobrir esses limites. Como todas as escolas, estamos sempre interessados em aprendizado, pesquisaeemampliaroslimitesdoconhecimento.Mastemosdeequilibrarissocomanossaobrigação deprotegeromundo,mesmoquesejadenósmesmos. — E — Mestre Rufus prosseguiu — quero que se lembrem que, nos anos anteriores, vocês atravessaramosportõesdamagiaantecipadamente.Issodevelhesensinarnãoquesãomelhoresdoque os outros alunos, mas que os portões da magia só se abrem quando o aluno está pronto. Se não aprenderemasliçõesdoAnodeBronze,permanecerãonoanodeBronzeatéqueofaçam. CallolhouparaAaroneTamara.PareciamtãoassoladosquantoopróprioCall.Nãosabiaaocerto como nenhuma das coisas que o Mestre Rufus estava falando poderia ser ensinada na escola. Era remotamentepossível,noentanto,queseucérebroestivesseficandolentoporinsolação. —Maisumacoisa—disseMestreRufus.—EmrelaçãoaoespiãonoMagisterium.Tamara,acho que não falei diretamente com você sobre isso, mas tenho certeza de que Call ou Aaron já lhe informaram, então não vou constranger a nenhum de nós fingindo o contrário. Você tem direito de saber. Contudo, eu insisto, insisto, que não tentemcapturar o espião por conta própria. Deixemisso conosco. Nenhumdosdoisdissenada. AssobrancelhasdoMestreRufusficaramaindamaisunidas. —Entenderam? Callassentiu. —Claro—disseAaron. —Tudobem—disseTamara. FoiacenamenosconvincentequeCalljátinhavistonavida.ElenãosabiaaocertoseMestreRufus tinhaacreditadoousimplesmentedesistidoquandofezquesimcomacabeçaefalou. — Ótimo! Agora, acho que nossa primeira aula deve ser sobre o elemento água e sobre como equilibrá-la com o ar de modo a podermos respirar quando submersos. Sei exatamente em que lago podemostreinar. Callficoudepénumpulo,felizcomaideiadeserefrescar.Sóquandocomeçaramasemoverqueele se lembrou do corpo de Jen flutuando no mar e ficou imaginando se haveria algum motivo para o MestreRufustercolocadoestaaulanoprimeirodia. ApesardospensamentossombriosdeCall,aturmapassouumdiaagradávelboiandonaparterasa deumpequenolagopertodaescola.MestreRufusdeuacadaalunoumamuletocheiodear,deonde poderiam extrair oxigênio enquanto estivessem embaixo d agua. Nas primeiras tentativas, Call não conseguiuseconcentrareemergiu,cuspindoeengasgando.Aarontambémnãosesaiumuitobem,mas Tamarapareceutranquila. Frustrado, Call por fim pegou o amuleto e mergulhou em direção ao fundo do lago. Ele sempre gostou denadar —naágua,suapernanãodoía.Elemanteveosolhosabertos.Oáguaeraumpouco lodosa,masfresca;davaparaverasformasborradasdeTamaraeAarondebaixodela. Poralgummotivo,Callpensounopai.TinhavistonaslembrançasdeMestreJosephcomoAlastair havia escalado a face de uma geleira para chegar até a cena do Massacre Gelado, onde o Inimigo da Morte tinha matado dezenas de magos indefesos. Alastair tinha feito isso pela mulher e pelo filho; utilizara magia da agua para formar apoios para as mãos e os pés na face da geleira. Deve ter sido exaustivo.Deveterparecidoimpossível. Comparadoàquilo,issoaquinãoeranada.

Callapertouoamuletocomforça,tantoqueteveaimpressãodetê-losentidorachar.Ar,pensou.Ar

aoseuredor,haviaarnaágua,todososelementoseramumsó,fogo,areágua

nãosãoquatro,nemduas,nemtrês,masuma. Eleabriuabocaerespirou. Foicomorespirarumarúmidoepantanoso.Eleengasgouumpouco,deixandoocorpoboiarparao altoenquantooarpreenchiaosseuspulmões.Asegundavezquepuxouoarfoimaisfácil,enaterceira e na quarta ele estava respirando normalmente. Estava em pé, no fundo do lago, respirando normalmente. Muito contente, Call jogou o amuleto de lado e começou a emergir até romper a superfíciecomumgrito. —Consegui!—gritou.—Respireiembaixodagua! —Eusei!—disseTamara,jogandoágua.—Euvi! —Uhul!—disse Aaron. Ele socou asuperfície dolago, fazendo-aesguichar paracima. —Você é incrível! —Alô,todosnóssomos!—protestouTamara.Callnadavaemcírculos,mergulhandopararespirar evoltandoàtona.Eleesguichouáguaesorriu. Àsvezesamágicaerarealmentetãoincrívelquantoelesecretamentetorciaparaquefosse.

Étudoumacoisasó,

Étudoumacoisasó, Naquela noite, Tamara, Call, Aaron e Jasper eram as únicas

Naquela noite, Tamara, Call, Aaron e Jasper eram as únicas pessoas na biblioteca. Os quatro reuniam-se emtornode umamesaonde umaluz brilhavaemumabajur cujacúpulaeraaconchade umalesmamarinhaenorme.Mantiveramasvozesbaixas;osomtendiaaecoarnaquelagrandesalade pedra. —EntãoaquestãoésaberseapessoaquetentoumatarCallnacerimôniaéalguémqueestariano Magisterium — disse Tamara, mexendo em alguns papéis. — Fiz uma lista de todas as pessoas que estudamoudãoaulaaqui,assimcomomembrosdaAssembléiaquetêmtrânsitolivre. Jasperseinclinouparafrenteparaolharalista. —Vocênãoestánela—disseele. —Claroquenão!—Tamaraficouvermelha.—EunãotenteimatarCall. —Kimiyatambémnãotá—disseJasper.—NemAaron. —Porqueelesnãoestãotentandomematar—disseCall.

— Você não tem como saber — disse Jasper. — A lista deve ser objetiva. Eu também tenho que estarnela. —Vocêestá—disseTamara.—Podeacreditar. Jasperfezumacareta. —Ótimo.

—Vejam,euseiquenosmetermosondenãosomoschamadoséanossamarcaregistrada—disse Call, interrompendo os amigos. — Mas que tal se dessa vez a gente não tentasse pegar o espião por contaprópria?OMestreRufusdissequeelestêmumplano,amadrastadoAlexestáaquiparapreparar umaarmadilha.Talvezagentepossadeixarissoporcontadeles. TodosencararamCallcomoseeletivesseduascabeças.FinalmenteAaronsemanifestou. —Vocêbebeumuitaáguadolagohojeoucoisadotipo?Vocêjamaisdiriaumacoisadessassefosse umdenóscorrendoperigo.

— Pense desta forma — disse Jasper. — Se a mesma pessoa que soltou o Automotones tentou

derrubar o lustre em você, então qualquer pessoa ao seu lado tem tanta probabilidade de ser

assassinadaquantovocê.Então,peloeuprópriobem,euqueroinvestigar. Callnãotinhacomoargumentarcontraumalógicadessas. —Estivepensando—disseTamara.—Precisamosdescer nostúneisondeosgrandeselementais ficam.TalvezagenteconsigadescobrirquemteveacessoaoAutomotonesecomo.Podemosusaressa listaparaversealgumadessaspessoasesteveláembaixo;devehaveralgumregistrodevisitantesoude pessoasautorizadasaentrar. —Masseráqueosmagosjánãofizeramisso?—perguntouAaron. Tamaradeudeombros. —Mesmoquetenham,elesnãovãodarosnomes.Ostúneissãoumbomlugarparacomeçarmosa reduzirnossalistadesuspeitos. —Achoquealguémpassouasfériaslendolivrosdemistério—comentouJasper. Tamaraofereceuaeleumsorrisocheiodedentes. —Achoquealguémvailevarumsoconacara. —Vocêtemumaideiamelhor?—perguntouAaron.—Porquesenãotiver,nãocritique.

—EseCallsefizer deisca? —sugeriu Jasper.—Quer dizer,por quetermostodoessetrabalho quando podemos fazer o assassino vir até nós? É só espalharmos que Call vai estar em algum lugar afastado,sozinho,edepois,quandooassassinoaparecerparaacabarcomele,agenteatacae —Ei,calmaaí—disseCall.—Essaideiaéidiota. —Acheiquenãofosseparacriticar —disseJasper,sorrindodesatisfação.—Achoquenãotem comoumplanodessesdarerrado. Tamarabalançouacabeça. —Callpodeacabarmorrendo!

— Ainda assim pegaríamos o espião — respondeu Jasper, depois fez uma careta após levar um

chuteviolentoporbaixodamesa.—Quê?Nãosãomuitosplanosquevêmcomessagarantiaembutida! —VamostentaraestratégiadaTamaraprimeiro—disseAaron,quelogodepoisbocejoueficoude pé. — Amanhã, depois da aula, a gente se encontra aqui de novo. Podemos olhar os mapas do

Magisterium para ver se conseguimos descobrir onde ficam os ele-mentais. Eu fico com o primeiro turnohojeànoite.Tamara,Call,vocêsdoispodemdormir.

— Então até mais, babacas — disse Jasper que foi embora pela escada em espiral, subindo dois

degrausporvez. Call queria protestar, dizer que era desnecessário que um deles ficasse acordado vigiando, mas ninguém ia dar ouvidos. Ele se levantou com um suspiro e seguiu Tamara e Aaron de volta para os respectivosquartos. Mas,nomeiodocaminho,umaideiasúbitaofezparar. —Euseiquemteriaacessoaesseselementais!—disseCall—Warren! No fim das contas, o pequeno lagarto era um elemental do fogo e, apesar de não ser totalmente confiável,eleconheciaasdependênciasdoMagisteriummelhordoquequalquerumouqualquercoisa. Elejátinhaguiadoogrupopeloslabirintosantesébemverdadequeissooshaviacolocadonoradarde umelementalmaispoderosoesinistro—,masaindaassim,nadadetãomimaconteceu. Além disso, no ano anterior eles haviam salvado a vida de Warren. Na ocasião, o Mestre Rufus preparouumtesteparaamagiadocaosemqueAarondeveriamandarolagartoparaovazio.Callnão sabiaaocertooqueaconteciacomcoisasqueeramsugadasparaonada,mastinhacertezadequenão sobreviveriam.EletinhaajudadoAaronafazeralgumasmágicascomplexasparaqueolagartopudesse escapar.AtéondeCallsabia,Warrenestavaemdívidacomeles. —Vamos—disseele,dandomeia-voltanomeiodocorredor.—Poraqui.

Quanto mais tempo o espião estivesse entre eles, mais tempo os amigos ficariam na cola de Call comosehouvessealgodeerrado.Eledetestavaisso.Nãoqueriaqueficassemacordadosenquantoele dormia.Nãoqueriaquecorressemperigo.Sehaviaalgoaserfeito,elequeriafazeragora.

— Aonde vamos? — Tamara protestou quando viu que iriam voltar pelo caminho percorrido. —

Voltarparaabiblioteca? Ocorredor sedividiaemdois.Callfoiparaaesquerda.Eleselembrou decomoachou quejamais fosse aprender a se localizar nos túneis quando chegou ao Magisterium, com seus corredores que pareciam labirintos passando por baixo e através da montanha. Mas ele aprendeu, e agora caminhar pelos andares superiores do Magisterium era tão familiar quanto andar pelas ruas da cidade onde morava. —Vamosparaorio?—perguntouAaronmeioquesussurrando.Oarnostúneiscomeçavaaficar maisúmido.Passarampelosquartosdeváriosoutrosgruposdeaprendizes,nenhumaluzsaindopela frestaembaixodecadaporta.OMagisteriumdormia. Osriosquecorriampelaescolaeramseusistemavascular.Levavamalunosdassalasparaosportões

daáreaexterna,paraorefeitórioedevoltaaosquartos.Pequenosbarcostrafegavamporessesistema, guiados por mágica e assistidos por elementais da água. Na medida em que Call, Aaron e Tamara se aproximaramdaágua,acavernasetornoumaisfriaeCallpôdeouviroruídodacorrenteza. AaroneTamaramurmuravamarespeitodeCallestarlevando-osatéumbarco.Ocorredorseabriu emumapraiadepedrassubterrânea.Lodofosforescenteseagarravaàsparedeseaoteto,iluminandoo espaço.Peixescegosnadavam. —Warren!—chamouCall.—Warren! AaroneTamaratrocaramumolhar.EstavaclaroqueachavamqueCalltinhaenlouquecido. —Talvezeleprecisedormir—disseTamara. —Talvezprecisecomer—disseAaron. —Warren!—Callgritounovamente.—Ofimestámaispróximodoqueimagina! —Lagartosnãovêmquandoagentechama—disseTamara.—Vamossairdaqui,Call Algumacoisasemexeudaspedrasacimadeles.Entãoumvislumbredefogo,umaluzrefletindoem algoescamoso.Olhosvermelhosbrilharamnoescuro.OquepareciaumdragãodeKomodominúsculo, comumabarbaeumacristadefogonascostas,searrastounadireçãodelespelaspedras. —Warren?—disseCall. —Elerealmenteveio—Aaronpareceuimpressionado.—Incrível,Call. — Sorrateiros. — Warren parecia irritado. Sorrateiros e incomodando Warren. O que vocês querem,estudantesmagos?

— Queremos que nos leve aos elementais adormecidos. Os que são presos pelo Magisterium — respondeuCall. —Agora?—perguntouTamara,virandoparaCall.—Acheiqueagenteestivesseindodormir! —Sim,dormir.Andarfurtivamenteporaíperigoso—disseWarren.—Túneismuitoprofundos. —Vocêestáemdívidacomagente,Warren—disseCall.—Salvamosasuavida.Nãoselembra? —Jápaguei—murmurouWarren.—Avisei.UltimaForsan. —Issonãoajudaemnada—disseCall.ElesabiaoqueUltimaForsanera:afraseemlatimgravada nojazigoperpétuodoInimigodaMorte. SignificavaOfimestámaispróximodoque imagina. Callsó nãoconseguiaentendercomoissopoderiaserumalertaútil. —Noslevaratéoselementaiséoqueajudaria. —Talvezvocênãosaibacomochegarlá—disseAaron,provocandoolagarto.Apesardetersidoele quembocejoudesononabiblioteca,agoraestavacomosolhosbrilhandoenãoparecianemumpouco

cansado. Aaron não era do tipo que gostava de falar sobre fazer coisas, mas sim de fazê-las. — O problemaéesse?NofimdascontastalvezvocênãosaibatantoassimsobreoMagisterium. OsolhosvermelhosdeWarrenmoveram-serapidamente. — Eu sei — disse ele. — Sei tudo. Mas isso é perigoso, pequenos estudantes de magos. Assunto perigoso.Possolevarvocês,masvãoterqueenganaraguardiã. —Aguardiã?—perguntouTamara,apavorada. Calltambémgostariademaioresesclarecimentos,masWarren,aparentementedecidindoquesua participaçãonaconversatinhaacabado,pulouparaaparededemicabrilhanteecorreuparacima,antes dedispararnadireçãodaentradadaoutracaverna. —Sigamaquelelagarto!—anunciouCall,indoatrásdele. Tamararesmungou,masfoiatrás. Eletinhaseesquecidoquesedeixar guiar por WarrenpelascavernasdoMagisterium—inclusive poralgumaspassagensquetalvezjamaistivessemsidousadaspornenhummagoantesdeles—eraum exercíciofrustranteepor vezesassustador.Olagartoosconduziu por penhascosnaturaisepor lagos quepareciamser delamafervente.Warrenosguiou por recintosnosquaisquaseengasgaramcomo cheiro de enxofre e nos quais tinham que se encolher e desviar para não serem arranhados por estalactitespontiagudas. Callnãosabiaaocertooquantotinhamandadoquandosuapernacomeçouadoer—otipodedor muscular violentaque sóiapiorar, Ele se sentiu idiotapor sugerir que fizessemisso, por pensar que poderiaandartanto,MasnãopodiapedirqueWarrenparasse—olagartoestavamuitoadiantadoem relaçãoaeles,pulandoderochaemrocha,oscristaisbrilhandoemsuascostas. EseTâmaraeAaronparassemparaesperá-lo,Warrenpodiadisparar,deixandoogrupoperdidonas cavernas.Issojátinhaacontecidoantes, Atítulodeteste,Callinvocoumagiadoar,empurrandodeleve.EleselembroudecomoAlastairo levou pelos muitos degraus do Collegium. Ele se lembrou de como havia descido sozinho. Tudo que tinhadefazereraseconcentrareempurrar. Calllevitou, rápidoosuficiente parater que morder oladodabochechaafimde evitar umgrito, mas logo conseguiu se estabilizar. Estava flutuando só um pouco acima do solo e não tinha nenhum pesonaperna.Sentiu-seótimo. Callfoientãopropelindoocorpocomopoderdamente,semtropeçarmaiscomoAaroneTamara. Deslizavasobreaterracomosetivessesidofeitoparaandar assim.Aoprosseguirem,aspassagensse aprofundavam na montanha, as paredes tomavam mais lisas e o chão, mais lustroso, Era como se percorressemocorredordeummuseu.Asportasnapedradecadaladoeramelegantes,decoradascom símbolosalquímicosealfabetosqueCallnãoconhecia. Finalmente,Warrenparou diantedeumaportaimensafeitacomoscincometaisdoMagisterium —ferro,cobre,bronze,prataeouro. —Aqui,estudantesdemagos.Aquiestáaportanocaminhodocaminho.Aguardiãestáaqui.Vocês devemenfrentá-laparaseguiradiante. —Oqueagentefaz? —Respondamosenigmas—disseWarren,queesticoualínguaparacapturaruminsetoqueCall nãotinhavistoatéentãoecorreu peloteto.—Enigmatizemasrespostasdela!—gritou eleantesde desaparecer. —DrogadisseAaron.—Issosempreacontece.Odeioenigmas. Tamarapareciaengoliraspalavraseusabiaedetestarogostodelas. —Agentesimplesmentebate?—Calllevantouamãofechadaempunhoehesitou.

—Eubato—Tamarabateuàporta.—Olá?Somosalunoseviemosfazerumprojeto

Aportaabriu.Ládentro,comumtemobrancoabsolutamenteintocado,estavaAnastasiaTarquin.

Sua nuvem de cabelo prateado estava penteada para trás com firmeza e os brincos de prata em suas orelhaspareciamtersidoenfeitiçadosparabrilhardaquelaforma.Suassobrancelhasfeitasseergueram aoverogrupo,eabocacomprimiu-seemumalinhafina. —Vocêéaguardiã?—perguntouAaron,incrédulo. —Nãoseidoquevocêestáfalando—disseela,abrindomaisaporta.Atrásdela,davaparaverum longocorredorquedescia.DoismeninoscomidadedefrequentaroCollegium,uniformizados,estavam juntoàsparedes.Guardas,Callpensou.—Oqueeuseiéquevocêsnãodeveriamestaraqui. —OMestreRufusquerquecomecemosumprojeto—disseCall.—ComoTamaradisse.Énosso AnodeBronzeetemosquecomeçaradecidirsobreonossofuturoeresponsabilidades.Comoestamos pensandoemnosespecializaremelementaispensamosem,hum,conheceralguns.

— Os três? — perguntou Anastasia. — Inclusive os dois mágicos do caos? Todos querem se especializaremelementais?

— Estamos pensando. — Aaronrespondeu rapidamente. — Não queremos nos precipitar, mas é

interessante.Achamosquesepudéssemosveralgunsdosmelhoreselementais,poderíamostercerteza

doquequeremos. AnastasiaTarquinnãopareceuacreditarnemumpouco.

— Temo informar que, apesar de alguns alunos terem sido autorizados a entrar, embora com

baixíssimafrequência,esseprivilégiofoisuspensopormotivosqueimaginoqueconheçam. Automotones.Callselembrou doenormemonstrodemetalvindoparacimadeles,rasgandooar comofogoegarras. —Agora—disseAnastasia—,anãoserquequeiramqueeudiscutaaquestãocomMestreRufus, sugiroquevoltempelocaminhoquevieram,evamostodosfingirquenãonosvimos. CallolhoudeTamaraparaAaron.

— E nada de enigmas — suspirou Aaron. Em seguida, sempre educado, ele virou para Anastasia

Tarquin.—Sentimosmuitopeloincômodo.

Ela,noentanto,nãopareciaparticularmenteencantadaporele.Seusolhosnãoperderamarigidez

usual.

— Só um instante — disse ela, mas não estava olhando para Aaron. — Callum Hunt. Entre.

Gostariadefalarcomvocê.Asós. —Comigo? —perguntou Call,comavozlevementeesganiçada.Elenãoesperavapor isso,ecom todaaquestãodoespião,nãosabiasequeriaficarsozinhocomqualquermembrodaAssembléia.Mas AnastasiaeramadrastadeAlexetinhasidoenviadapelaAssembléiaparaprotegê-lo.—Tudobem. Tamara e Aaron olharam em silêncio para ele. Call tinha toda certeza de que os dois não iriam querertrocardelugarcomelenaquelemomento. ElepassoupelaportaquelogoemseguidaAnastasiafechoucomumabatidapesada. ElacolocouumadasmãosnoombrodeCall. —Vocêdeveestar muitopreocupadoparavir atéaquiprocurandorespostas—disseela,suavoz suavizandodeumjeitoqueodeixou nervoso.Callpensou emcomoascobrasqueelevianatelevisão faziamumapequenadançaantesdeatacarem. —EeuseioquantovocêépróximodeAaron.Vocêscuidamumdooutro,nãoé? —Sim?Querdizer,sim.Aaron,Tamaraeeu.Todosnós. Émuitobomteramigospróximos—disseAnastasia,assentindo.—Principalmentequandosetem umpaiquenãoaprovamagia.

—Meupaiestácomeçandoaceder—disseCall,tentandoadivinharqualeraoassunto. — Quando me casei com o pai de Alex, jurei que jamais tentaria substituir a mãe dele. Eu tinha meusfilhosdoprimeirocasamentoesabiaoquantoeraimportantenãotentarmeimporondenãome queriam. Tentei ser amiga, guia, mentora. Alguém que pudesse responder as perguntas dele objetivamente,comomuitosadultosnãofazem.Eu ficariafelizemfazer omesmopor você,sealgum diaprecisarconversarcomalguém. — Hum, tudo bem — disse Call, confuso com toda aquela conversa. Ele tentou olhar um pouco além de Anastasia, ver o que havia escondido atrás dela. Os dois guardas do Collegium estavam completamentemudos,encostadosàsparedesdasalacomoarmaduras.Haviaumjornalemcimadeum sofá, provavelmente onde ela estivera sentada, e um corredor que se estendia atrás. Um brilho vermelhoprofundoiluminavaasparedes.—Então,definitivamentenãovainosdeixarentrar? Anastasiapareceuentretidaemvezdeirritada. —Vocêquerqueeudigaquedeixariasepudesse,imagino.Masvocênãofazideiadoquãoperigosos sãoosgrandeselementais.Seriaquaseomesmoquejogá-lonabocadeumvulcão.Umamigojamaiso colocariaemperigo,Callum,vocêentende? —PorqueeusouumMakar—,disseCall.—Euentendo,mas —Sem“mas”.—Anastasiabalançou acabeça.—VocêeAarondeveriamvoltar paradormir.São importantesdemaisparasearriscarem.Tenteselembrardisto. Com isso, ela abriu a porta. Quando Call saiu para onde Aaron e Tamara o aguardavam, ouviu a portabateratrásdesi.

CAPÍTULOSETE —Vocêsforamsemmim?—perguntouJasper,espetandoasobremesacinzacomogarfo.

CAPÍTULOSETE

—Vocêsforamsemmim?—perguntouJasper,espetandoasobremesacinzacomogarfo. Eraoturnodatarde.Call,TamaraeAarondormirameperderamocafédamanhãapósaaventura nostúneisnanoiteanterior.Callsentiudoretonturaduranteaaulaetinhaquasejogadouma*bolade fogonacabeçadeTamaraequeimadoosprópriosdedos.TinhaseesquecidodepassearcomDevastação atéametadedaaulaetevequelimparabagunçaqueresultoudisso.Voltaràescolanãoestavasendo tãofácilquantoeletinhaimaginado. —Foicoisademomento—disseCallemtomconciliatório.Entãoselembroudecomquemestava falando. — Quer dizer, nãoque eu fosse optar por levar você aqualquer lugar que fosse, mas, neste caso,deixarvocêdeladofoiapenasumefeitocolateralbenéfico. —Ei—disseJasper.—Estoutentandosalvarsuavida! —Nãoligueparaele—interrompeuAaron.—Eleficairritadiçoquandoestácansado. —Entãooque Anastasiafez comvocê? —perguntou Jasper. —Meu paisempre disse que elaé umaespéciederainhadegelocomocoraçãodepedra. —ElafoimuitogentilcomCall—disseTamara.—Foiestranho.Elanãomedeuamenor bolae malolhouparaAaron.FoisóCall,Call,Call. —AchoquesouoMakar-novidadeevocêoMakar-não-tão-novidade-assim—desseCallaAaron. —Eufaçoesseuniformeazulparecerlindo. Tamarariu.Aaronsuspirou,resignado. — Uau — disse Jasper, olhando para Call com olhos arregalados. — Você não me disse que ele deliravaquandoestavacansado. Call tomou um grande gole da substância marrom que parecia chá em sua caneca de madeira. Torceudesesperadamenteparaquetivessecafeína.Aolongodasfériaselepôdetomarquantoscafésele quis—Alastairtinhaconsertadoumamáquinaantigaquechiavafeitoumtrem—,masagora,quando elerealmenteprecisava,nãohaviacaféemlugarnenhum. Eleestavacansado.Cansadodeservigiadopelosamigos,mesmoqueelessóquisessemmantê-loem

segurança.Cansadodeteressacoisahorrívelaseurespeito—algoquenãopodiacontrolar—pairando sobre siotempotodo. Ele queriafrequentar aescolacomoumapessoanormale, naquele momento, estavadispostoatudoparafazerissoacontecer. —Certo—disseele.—Vamosseguiresseseuplanoidiota. —Quê?—perguntouJasper,franzindoatestaparaele.—Queplanoidiota? Call fez uma breve careta, subiu na cadeira, e da cadeira para a mesa. Por pouco seu pé não aterrissoubemnasobremesacinzadeJasper.Callexaminouorecinto. —Ah,não—disseAaron.—Achoquevocêestavacertosobreeleestardelirandodecansaço. Váriosalunosriameconversavamunscomosoutros.Magoscomiamlíquen.AtéqueRafeviuCall

em cima da mesa. Ele soltou um gritinho e cutucou Gwenda, que estava ao seu lado. Um murmúrio percorreuorecintoelogotodosestavamolhandoparaCall,apontandoesussurrando. —Call!—Tamarasibilouemumsussurro.—Descedaí! Callnãoestavanemaí. —ADIVINHEMSÓ—gritouele,avozaltaosuficienteparaalcançartodoorefeitório.—ESTAREI NABIBLIOTECAHOJEÀMEIA-NOITE.SOZINHO. Voltouasentar.Tamara,AaroneJasperolharamparaele.Outrosaprendizesolhavamparaamesa deles.GwendasussurroualgumacoisaaoouvidodeCéliaeasduascomeçaramarir.AlexStrikeestava comumaexpressãoestranhaepreocupadanorosto.MestraMilagrosolhavaparaCallcomosealguém tivessedeixadoelecairdecabeçaquandoerapequeno.

—Isso

Isso

Oquefoiisso?—perguntouTamara.—Vocêficoumaluco?

—Eleestavasetransformandoemisca—disseAaron,olhandoparaCallcomumaexpressãoséria. —Esperoquetenhasidoumaboaideia.Adesvantagemdeavisaratodosquevocêestarásozinhopara quepossamatacá-loéquetodossaberãoqueestarásozinhoparaseratacado. —Pfff —disseTamara.—Ninguémvaiser burroosuficienteparair atrásdelepor causadessa declaraçãopública.Qualquerumseriapegoimediatamente. Call deu de ombros deu uma boa mordida no líquen. Sentia-se estranhamente melhor. As coisas estavamdevoltaaosdevidoslugares—seusamigosoachavamlouco,eeleestavaprestesafazeruma tolice.Umsorrisoseformounocantodesuaboca. Alguém tem que sedar esse cara depressa — disse Jasper. -r Sabe-se lá o que ele vai fazer em seguida. Mas,ou olíquidomarromdeCalltinhacafeínaou ter algoafazer ajudou,porqueestavacheiode energiacorrendonasveias.Nãoestavamaiscansado.Estavapronto.

energiacorrendonasveias.Nãoestavamaiscansado.Estavapronto.

Callmeioqueesperavaencontrarumgrupodecuriososquandochegouàbibliotecanaquelanoite, masolugarestavavazio.Tamara,AaroneJasperfizeramumavarredura,olhandoatrásdeprateleiras, enquantoDevastaçãofarejavaembaixodasmesas.Estavadefinitivamentedeserto. Call se sentou à uma das mesas, iluminada por uma enorme estalactite que tinha atravessado o centrodotampodemadeira,prendendoamesaaochão.Luzgiravaebrilhavadentrodaestalactite. — Certo — disse Tamara, voltando do andar superior da biblioteca em espiral. — Você está por contaprópria. AaroncolocouamãonoombrodeCall. — Não se esqueça, Call — disse ele. — Se precisar fazer alguma magia do caos, não tente fazer sozinho.Eusouseucontrapeso.Estareialiforacomosoutros.Puxademim,daminhaenergiadocaos,

comopuxariaoarseestivesseembaixod’água. Call assentiu quando Aaron o soltou e agarrou o pelo de Devastação. Seus olhos verde-escuros estavampreocupados. -—Tentenãofazernenhumaidiotice—disseJasper.Noquesitomanifestaçõesdeapoio,essanão

era uma das piores de Jasper. — Aqui, tente fingir que está lendo alguma coisa emvez de ficar aqui sozinhofeitoummaluco. —Elecolocou umaporçãodelivrossobre amesanafrente deCallevirou parasair. Call observou enquanto seus amigos saíam do recinto. Um instante depois ele estava sozinho na biblioteca.Puxademim,Aarontinhadito.MasaverdadeeraqueCallaindatinhamedodeusarAaron como contrapeso. Foi isso o que transformou Constantine no Inimigo da Morte. Todos os magos do caos tinham que ter um contrapeso que fosse um ser humano, uma alma viva que os ancorasse ao mundorealeosimpedissedecairnocaos.OdeConstantineeraseuirmãogêmeo,Jericho.Atéqueum diasuamágicasaiudocontrole.Elefoidominadoepuxouamagiadoirmãoparatentarseancorar,mas foiemvão.TudoqueconseguiufoidestruirJericho. Call não conseguia imaginar como seria isso, matar acidentalmente alguém que amava. Mas eu deveria saber como é, pensou. Afinal de contas, isso tinha acontecido com uma alma que agora o habitavaecertamenteessetipodecoisadeviadeixarmarcas.MasCallnãosentianadaquandopensava noassunto,sósepreocupavacomapossibilidadedecometeromesmoerro. Talvezissofosseprovadoquehaviadeerradocomele.EledeveriaestarcompenadeJericho,que tinhamorrido.MastinhapenadeConstantine. —Call? Elequasesaltouparaforadocorpo.Aovirar,viuquealguémtinhaentradonabiblioteca.Umaloura vestindojeansecamisetaecomocabelopresoemdoisrabos.Estavacomasmãosenfiadasdeumjeito meioesquisitonosbolsostraseirosdacalça. —Call?—disseCélianovamente.Eladeumaisumpasso,maisparapertodele.Estavavermelhade vergonha, o que imediatamente fez Call enrubescer também, como se fosse algo contagioso como catapora.—Vocêdissequeiaficarsozinhoaqui,entãopensei —Hum? No que Célia tinha pensado? Que talvez Call tivesse ficado maluco e precisasse ler levado para a enfermaria? —Acheiquetalvezquisessefalarcomigo—disseela,seempoleirandoemumamesaemfrentea ele. — É difícil conversar a sós emqualquer lugar Orefeitório vive cheio, a Galeria também, e não tenhovistovocêpasseandocomDevastaçãoultimamente Eraverdade.Noúltimoano,duranteumaépoca,CalleCéliapasseavamtodanoitecomDevastação. Masagoraelenãopodiamaissairsozinhocomolobo.TamaraeJasperalternavam-separaacompanhar Callnessespasseios. — É, eu ando — A voz de Call falhou. Ele ficou imaginando se seria possível ter uma conversa inteiracomfrasesinterrompidas.Sesim,eleeCéliaestavamprestesdarumexemplomarcante. —Ondearrumou? —perguntou Célia,rindoderepente.Callolhou parabaixoepercebeu queela apontavaparaoslivrossobreamesa. ElementosdeFogoeFeitiços,umaCartilha. AAlquimiadoAmor. MagiadaÁguaeFeitiçosdeCompromisso:ComoFazê-laDizerSim. EleiamatarJasper.

—Eu

bem,euestavasó

éparaumtrabalho—disseCall.

Céliaapoiouoscotovelosnosjoelhoseolhouparaele,pensativa. —Se quer me chamar parasair, Call, é sófalar —disse ela. —Estamosnoterceiroanoagora, e gostodevocêdesdeoAnodeFerro. —Jura?—Callestavaimpressionado. Elasorriucomhesitação. —Vocênãosabia?TodasaquelasvezesemquelevamosDevastaçãoparapassear.Eobeijo.Achei quevocêsoubesse,masaGwendamedissequeeudeviatecontar,entãoaquiestou. —Elafalouquevocêdeviamecontar?—CallsesentiumuitoburroporrepetiroqueCéliadizia, massuacabeçatinhaficadocompletamentevazia.Seráqueeletinhaqueagradecê-la,comosegostar delefosseumelogio?Nãopareciacerto.Eleprovavelmentedeveriadizerquegostavadelatambém,eele realmente gostava, mas contar a ela significaria o quê? Que iriam namorar? Teriam que se beijar? SignificariaquenãopoderiammaispassearcomDevastaçãojuntosesedivertir? QuandoCallabriu abocaparadizer algumacoisa—apesar denãosaber aocertooqueTamarae Jasper vieramsubiramaescadacorrendo.AaroneDevastaçãovieramdoalto.OloboDominadopelo

Caoscomeçoualatir.Aaronpareciaprontoparabriga. —Pareaímesmo!—gritouJasper.FogoacendeunapalmadeTamara. Céliagirou,comolhosarregalados. Achamaseapagousubitamente.Tamarafechouasduasmiosatrásdascostas. —Ah,oi—disseelacomumarisadaconstrangidaeligeiramentehistérica.—Estávamossó —Oquevocêestáfazendoaqui?—perguntouAaron.Umpoucodaluzdalutaaindabrilhavaem seus olhos e ele nãosoavagentilcomosempre. Devemter ficadomuitosurpresos quandoviramque Callnãoestavasozinho;surpresoseassustados. —Callestavaprestesamechamarparasair—disseCélia,confusaeclaramentechateada.—Ouao menos eu achei que estivesse. O que todos vocês estão fazendo aqui? Por que está todo mundo gritando? Por um longo instante todos ficaram quietos. Call não fazia ideia de como explicar isso para ela. Talvez eu devesse simplesmente falar a verdade, pensou. Ao menos parcialmente. Ele não precisava falar sobreaquestãodoCapitãoCaradePeixe.MasCalllogopercebeu quenadafariasentidosenão mencionasseoCapitãoCaradePeixe.Mesmoassim,eleprecisavafalaralgumacoisa.Céliaaindaerasua amiga.

—Callcomeçou,seucorpointeiroficandovermelhoe

quentedevergonha.EletinhacertezadequeiafalaralgumacoisaidiotaequeTamaracomeçariaarir dacaradele.EletinhacertezadequeCélianãoiaentender. — Eu vim para te convidar para sair comigo — disse Jasper subitamente em voz alta, interrompendo a explicação de Call. — Por isso eu disse “pare aí mesmo”. Porque, hum, eu queria impedirqueeleteconvidasseparasairantesqueeutivessechance.Nãosaiacomele!Saiacomigo. As sobrancelhas de Aaron se ergueram. Tamara emitiu um ruído engasgado. Call não conseguia acreditarnoqueestavaouvindo. CéliaolhousurpresaparaJasper. —Vocêgostademim? —Gosto!—disseele,umpoucoafobado.—Definitivamentegostodevocê. CalllembrouquequandoJasperperguntouseelegostavadeCélia,quandodissequetalvezquisesse convidá-la para sair. Ele queria mesmo? Ou só estava tentando despistá-la do que realmente estava acontecendo?OuseráqueestavatentandoirritarCall?Aúltimahipótesepareciaamaisprovável. Ansiosa, Célia desviou o olhar para Call, como se ele devesse falar ou fazer alguma coisa. Ele

—Aquestãoéquetemalguémtentando

retribuiuoolharcomtotalespanto.

Finalmente,elasuspirouevirouparaJasper.

—Euadorariasaircomvocê.

—Euadorariasaircomvocê.

—Bem,achoquetodospodemosconcordarqueissofoiumaroubadatotal—disseAaronenquanto voltavamparaosquartos. —NãoparaJasper—disseTamara,que,parairritaçãodeCall,pareciaachartudoaquiloumpouco engraçado.Muitoengraçado,naverdade.Elaquaseexplodiu tentandosegurar orisodepoisqueCélia concordou sair com Jasper. Call não sabia quem parecia mais confuso, ele ou Jasper. No entanto, JasperlogoserecuperouecomeçouafalaraCéliasobrecomoiriamsedivertirnaGaleria. Àquelaaltura,Calljátinhadesistido.Saiudabiblioteca.Aaron,TamaraeDevastaçãoforamatrás. TamaradançavacomDevastação,fazendo-opularparacolocaraspatasemseusombros. —Estevaiseromelhorencontrodomundo—disseela.—Jaspernãosabenadasobremeninas. Provavelmenteelevaidarumbuquêdepeixescegospraela. —Nãovaiseromelhorencontrodomundo!Callseirritou.—Jasperestáfazendoissosóparame irritar. Provavelmente ele vai ser péssimo com ela. Vai acabar magoando Célia e vai ser tudo minha culpa. —Ah,Call,peloamordeDeus.—Tamarabufou.—ElenãovaiserpéssimocomCélia.Nemtudo giraaoseuredor. —Issogira—disseCall. —Talveznão.—HaviaumtomdeterminadonavozdeTamara.—Talvezelegostedela. — Acho que vocês dois estão perdendo o foco aqui — disse Aaron ao dobrarem uma esquina no pontoemqueocorredorficavamaisestreito,t—EseCéliaforaassassina? —Quê?—perguntouCall. —Bem,elafoiatéláquandosoubequevocêiaestarsozinhonabiblioteca***Aaronobservou. —Paraverseeuiachamá-laparasair—disseCall. —Essaéahistóriaqueelacontou.Apostoqueelablefouquandopercebeualgumacoisaerradaao chegar. —PorqueCéliairiaquerermatarCall?—perguntouTamara.Elestinhamchegadoaocorredordos quartos, e ela usou a pulseira para abrir a porta. Entraram na sala compartilhada, que estava na penumbra.Devastaçãorapidamentesaltounosofáeseespreguiçoucomvontade,prontoparadormir. —É—disseCall.—Porqueelairiaquerermematar? —Podeserqueelaestejaàserviçodealgumaorganização—respondeuAaron,teimoso.—Gente, Drewtinhaumahistóriatotalmentefalsa.Elenãoeraquemdiziaser.Alémdisso,oMestreRufusdisse queháumespiãoentrenós.Podeserela. Callbalançouacabeça,retirandoMiridocintoecolocandoafacasobreamesadacozinha. —Céliavemdeumafamíliatradicionaldemagos.Elaéquemdizser. Comovocêsabe? —insistiu Aaron.—Sóporqueelacontou sobrealgumatianãoquer dizer que issosejaverdade.OutalveztodaafamíliadelaapoieoInimigo.Lembraquevocêachouqueobilheteera dela?Esefossemesmo?Seriaumaexplicaçãomaissimplesdoquequalqueroutra.Alémdomais,sedá paraperceberqueelaéumaespiã,nãoédasmelhores,né? —VocêpodeacusarDevastaçãodeserespiãotambém,quetal?—disseCall.Todosolharampara Devastação,quedormiacomalínguapenduradaatéochão.Aspatasbalançavamcomoseeleestivesse

indoatrásdeumpatoimaginário. — Não estou dizendo que a gente deva arrastar Célia e colocá-la na frente da Assembléia imediatamente—disseAaron.—Sóachoquedevemosficardeolho.Aliás,temosqueficardeolhoem qualquerpessoasecomportandodemaneiraesquisita. —QuererqueCallaconvideparasairnãoéesquisito—disseTamara,esfregandooestômagode Devastação.—Bem,talvezsejaumpouco,masnãoéilegal. —Obrigado—disseCall.—Obrigadopeloapoio.—CallpegouMiriefoiparaoquarto.Quando estavaquaseentrando,virouparaAaron.—Estouindodormir. —Eutambém.—Aaroncruzouosbraçossobreopeito.—Voudormirnochãodoladodeforado seuquarto.Paraocasodealgumacoisatentaratacarvocêduranteanoite. Callficouarrasado. —Precisamesmo? Em resposta, Aaron deitou exatamente onde disse que deitaria, cruzou os braços sobre o peito e fechouosolhos.Devastaçãodeitouaoladodele. Traidor,Callpensou.Comumsuspiro,entrounoquartoefechoubemaporta. Ocômodoestavailuminadoporumaluzfosforescentefraca.Calltirouasbotasesentounacama.A perna doía. Sentia-se cansado, desanimado e mais irritado com a questão Célia/Jasper do que imaginava.Viuseureflexonoespelhodoarmário.Pareciacansado.Oquartoestavacheiodesombras. Callcongelou. Umadelassemoveu.

CAPÍTULOOITO Callqueriagritar.Elesabiaquedeviagritar,masasurpresaeomedoodeixaramsemar.Asombrase

CAPÍTULOOITO

Callqueriagritar.Elesabiaquedeviagritar,masasurpresaeomedoodeixaramsemar.Asombrase mexeunovamente,desdobrando-secontraapedradesigualdoteto.Aodeslizarmaisparapertodolodo fosforescente,Callperdeuaesperançadequefosseapenasumtruquedaluz. Era um enorme elemental do ar, veloz como uma chicotada e incorpóreo. Parecia uma enguia imensa vinda da parte mais profunda do oceano — isso se enguias tivessem boca gigante e cheia de dentesemcadalateraldocorpoenorme.Movia-selentamentecomooarúmidoefrioqueantecedeuma tempestade. —Aaron.—Calltentou gritar,mastuavozsaiu comoumsuspiro,suavedemaisparaser ouvida porqualquerumalémdoelemental.Umadascabeçasdacoisaseafastoudotetocomumruídomolhado desucçãoelançou-seemdireçãoaCall.Quandoaenguiaabriuaboca,Callpôdeverqueapesardeser feitadear,acoisatinhadentesquepareciammuitoreaisemuitoafiados.Apeleemvoltadabocaera repuxadademodoqueacriaturatinhaumsorrisoperpétuo.Pareciaser capazdearrancar metadede Callcomumamordidaedepoisrirdisso.Nãotinhaolhos,apenasentalhesnacabeça. Miri,elepensou.AfacaqueAlastairtinhadadoaele,aquesuamãefez.Estavaemsuacabeceira,a muitosmetrosdedistância.Seráqueoelementalpodiavê-la?Callnãotinhacomosaber.Muito,muito lentamente,elefoichegandoparatrásnacama.Esticouocorpo,deitandodeumjeitoqueexpunhasuas partes mais vulneráveis — o pescoço e a barriga. O elemental se moveu em direção a ele, como se farejasseoar. Call engoliu em seco, esticando o braço por cima da cabeça, esticando até seus dedos tocarem a pontadocabodeMiri. Nooutrocômodo,Devastaçãocomeçoualatir.Oelementalatacou.Umgritoexplodiudospulmões deCallquandoelepegoualâminaesentou,atacandoàscegas.Oimensopesodacriaturaoderruboude volta.OelementalmordeuoarnatentativadeabocanharacabeçadeCallque,naqueleexatomomento, enterrou a adaga sob a mandíbula da criatura. Ele tentou fechar a boca da enguia com a faca, mas, apesardealâminatercortadosmaisprofundamentesuacarnefeitadear,elaseaproximou.

Aosentiraquelesdenteshorríveiseasgarrasafiadasarranhandosuasroupasecortandosuapele, Callrolou dacama,sentindoocalor dosangue.Aindanãoestavadoendo,maseletinhaasensaçãode quelogoiriadoer. Issoseelesobrevivesse. Oelementalchicoteouemcírculo,rápidocomoumtornado,emergulhoumaisumavezemdireção aCallnoinstanteemqueoMakarsaltouparaaporta.DavaparaouvirDevastaçãolatindosemparardo outrolado,eavozconfusaesonolentadeAaron. —Oqueestáacontecendo?Oquehouve,garotão? Callsejogoucontraaporta.Nãoabriu. —Aaron!—gritou,encontrandoaprópriavoz.«ar-Aaron,temumelementalaquidentro!Abraa porta! — Call? — Aaron soou desesperado. A maçaneta mexeu e a porta sacudiu no quadro, mas não cedeu. —Estácheiafeitiçosdetranca!—gritouAaron.—Call,saiadocaminho!Paratrás\ Aaron não precisou dizer duas vezes. Call se jogou para longe da porta e rolou contra o armário, abrindo-o quando o elemental mergulhou. A criatura bateu na porta do armário, farpas de madeira voando em todas as direções. Call só teve tempo de pular e se esconder embaixo da cama quando o elementalavançoudenovo.Callsaiupelooutrolado,oelementalformandoumredemoinhosobreele. Uma de suas cabeças se lançou contra a cama, mas a outra recuou, sibilando, claramente prestes a atacar. BemnomomentoemqueCallergueuMiri,houveumaexplosãoabafadajuntoàporta.Issoatraiua atenção do elemental, que abriu a boca em um gesto grotesco de surpresa. A escuridão consumia as quinasdaporta,masnãosóisso. Caos. Callsentiuopuxãosobascostelasepercebeuoqueestavaacontecendo.Aaronestavausandoseu poderdocaos,fazendoCalldecontrapeso.Callficouparadoquandoaportacomeçouaruir. Eentãodesapareceu,tragadapelovazio.Aaronentrounoquartoàtoda,osolhosarregalados. —Makar!—gritouele,comaprópriamãoaindaerguidaeminvocação,umaluznegraqueimando aoredor.—Usesuamagia,idiota! Oelementalchicoteavadeumladoparaooutro,claramenteconfusocomosúbitoaparecimentode Aaron. Call se levantou cambaleando e se esticou em direção ao caos. Sentiu a desmaterialização selvagemdovazioseabrindoemumturbilhão.Aescuridãoderramou-sepeloquarto. Oelementalgritou,expelindoar,eseencaminhouparaasalacompartilhadapeloburacoondeantes haviaaporta.ChicoteouoombrodeAaronaopassarporele,deslizandoparaoquartodeTamara. Noexatoinstanteemqueelaabriuaportaacoisaavançouparaasuagarganta. Tamarasejogounochão,rolandosobacriaturacommaisagilidadedoqueCalljamaisteriaemmil anos. Devastação foi na direção dela e avançou no elemental. A coisa girou no ar, suas pernas horrorosas estremecendo, sua mandíbula medonha abrindo-se o suficiente para engolir qualquer um delesdeumasóvez. Aaron acrescentou o seu poder ao de Call. O caos cresceu, e tentáculos de um nada oleoso começaramaentrarsinuosamentenoquarto.Algoemergiudaaberturanovazio,cordefumaçaesobo formatogrosseirodeumfelinomonstruosamenteelegantecomincontáveisolhos. Umelementaldocaossaltavaparadentrodocômodo. Callemitiuumruídoqueveiodagarganta.Abrirumapassagemparaocaoseraumacoisa—invocar umelementaldocaoseraoutra.

O elemental do ar girou, sentindo uma nova ameaça. Então emitiu um ruído grave e correu na direçãodoelementaldocaos,nomesmoinstanteemqueoelementalrecém-invocadoavançavaparaele.

Encontraram-se no ar. O elemental do caos mordeu a parte inferior do inimigo e o envolveu em seu corpo,apertandocomforça. AportadocômodoseabriueMestreRufusentrou,seguidoporMestraMilagros.

agritar.Entãoviu oselementaisflutuando,umenroscadonooutro.

Pareceuquasefascinadoporuminstante.Emseguidafezumgestocomamãonoaresoprou. Seusoprosetomouumaondadechoquequevarreuascriaturas.Oquartointeirovibrou.Callcaiu no chão quando o elemental do ar estremeceu e explodiu em redemoinhos que giraram como tempestades de areia em miniatura. O elemental do caos se chocou contra a parede, como tinta derramada.Nãoserecompôs. —Uau—disseAaron. Callficoudepé,seucoraçãobatiaforte.Tamara,usandoumpijamaazul—agorarasgadonojoelho —atravessou ocômodoatéele,colocandoamãoemseu braço.Calltevequesesegurar paraimpedir umasúbitavontadedeseapoiarnela. Eleolhouparaoprópriopeito,paraacamisarasgadaeosangueaindajorrando.Osmachucadosnão eramfundos,masardiamcomopicadasdeabelha. Aaron estava afagando a cabeça de Devastação, encarando pensativamente o ponto onde o elementaldocaostinhaestado. — Nós ouvimos os gritos — disse Mestra Milagros. — Não achamos que Vocês estão muito machucados? —Euestoubem—disseCall. Mestre Rufus suspirou, claramente perturbado. Todos estavam, mas era enervante vê-lo em qualqueroutroestadonãofosseperfeitamentecomposto.Callsesentiubobo.MestreRufustinhadito paranãoinvestigarem,maselesofizeramassimmesmo.EdepoisJasper bolou umplanototalmente ridículo.Comonenhumdelespercebeu queaodeixar claroondeCallestaria,tambémdeixariamclaro ondeelenãoestaria?Qualquerumquequisesseinvadiroquartosaberiaexatamenteomomentocerto. — Aprendizes, sentem-se todos— disse oMestre Rufus. — Podemme contar exatamente oque aconteceu.Edepoisdecidiremosoquefazeremseguida. MestraMilagrosfoiparapertodaportadocorredor. —Eu vou mecertificar dequemaisninguémentreou saiadaquil|gdisseela.—Absolutamente ninguém. Soouumpoucoparanoica,masissofoireconfortanteparaCall.Eletambémestavasesentindoum poucoassim. Call foi para o sofá com Tamara e Aaron. Tão logo sentaram, Devastação pulou no colo de Call e começou a lamber seu rosto. Tamara fez questão de explicar que estavam todos na biblioteca, estudandocomJasper,equedepoisvoltaramparaosquartos.ElanãomencionouoqueCalltinhafeito norefeitório,nemoplanodeJasper.Callficougratoporisso;jáestavasesentindoburroeapavoradoo suficiente. Call explicou que a coisa estava em seu quarto e que a porta tinha sido trancada por um feitiço. Quando começou a falar no assunto, sentiu que as mãos começavam a tremer e as enfiou entre os joelhosparaesconderissodeMestreRufusedosamigos. Depois de ouvir sobre o feitiço de tranca, Mestre Rufus foi até a porta inspecionar o que havia sobradodela.ConsiderandoqueAarontinhasumidocomquasetodaaestrutura,nãohaviamuitooque ver.

—Call

!—Rufuscomeçou

Apósalgunsminutos,elesuspirou. —Vamostrazer umaequipedemagosaqui.E,casomaisalgumacoisatenhasidoalterada,vamos mudá-losparaoutroquarto.Emcaráter permanente.Seiqueétarde,masprecisoquepeguemoque estavam usando, e apenas isso. Devolveremos o restante dos pertences de vocês assim que confirmarmosqueestãolimpos. —Precisamosmesmofazerisso?—perguntouTamara. MestreRufuslançouaelaoseumaisseveroolhar. —Precisamos. Aaronselevantou. —Estoupronto,então,euacho.Nãomudeideroupa,nemnada.NemCall. Tamarapegououniformenoquartoevoltouparaaáreacomum,comosapatonamão.Callolhou em volta, para os símbolos nas paredes, as pedras brilhantes, a lareira gigante. Aquele era o espaço deles,confortável,familiar.Masnãotinhacertezadequepoderiavoltarasedeitarnacamaeolharpara otetosemveracriatura.Callestremeceu.Naqueleinstante,elesequersabiasealgumdiaconseguiria voltaradormir.

voltaradormir.

OquartoparaoqualoMestreRufusoslevounãopareciamuitodiferentedodeles.Calljásabiaque amaioriadosaposentosdosalunoseramiguais—doisacincoquartosagrupadosemtornodeumasala compartilhadaondeosalunospodiamcomeretrabalhar. Haviaquatroquartosnonovoespaço.Cadaumpegouum,inclusiveDevastação,quedeitounochão aoladodacamadeCalledormiu comospésparacima.Callchecou parasecertificar dequeseu lobo estavabeme emseguidavoltou paraasala. Tamarae Aaronestavamsentadosnosofá. Aaronestava comamangapuxada,obraçoparafora.Tamaraolhavaemtomdecríticaparaoantebraçodele,onde umagrandemanchavermelhaeravisível. —Écomoumaqueimadura,massemserumaqueimadura—disseela.—Talvezalgumaespéciede reaçãoportersidoatingidocomtodaaquelamagiadocaos? —MaseleéumMakar—protestouCall.—MagiadocaosnãodeveriamachucarAaron.Porque vocênãomostrouobraçoparaoMestreRufus?—Nãopareciaummachucadograve,masCallapostava queestavadoendo. Aaronsuspirou. —Nãoestavaafimdelidarcomisso—respondeuAaron.—Elesvãoficaraindamaishistéricos, nosrestringiraindamais,massabemtantoquantoeuarespeitodoqueestáacontecendo.Vãodecidir queoutrapessoadevepassarvinteequatrohorasdeolhoemvocê,masninguémvaifazerumtrabalho melhordoqueonosso.Alémdisso,vocêtambémnãopareceestarseimportandocomofatodequeestá sangrando.—Aaronpuxou amangaparabaixo.—Eu vou tomar banho—disse.—Aindaestou me sentindoumpoucogosmentoporaquelacoisatertocadoemmim. Tamara deu um tchau cansado enquanto Aaron ia para a porta que os levava até as piscinas de banho. —Tudobem?—perguntouaCallquandoestavamasós. —Achoquesim—respondeuele.—Nãoentendomuitobemporqueestamosmaissegurosnesse quarto. — Porque menos gente sabe que estamos aqui — disse Tamara. A frase foi curta, mas ela não pareciairritadacomCall, sóumpoucocansada. — OMestre Rufusdeve achar que temmuitopouca

gente em quem ele pode confiar. O que significa que qualquer um pode ser o espião. Literalmente qualquerum.

— Anastasia — disse Call, mas de repente a porta se abriu e Mestre Rufus entrou. Seu rosto sombrioerainexpressivo,masCalljátinhacomeçadoaaprender aler sinaisdetensãonaposturado professor,naposiçãodosombros.MestreRufusestavarealmentetenso. —Call-—disseele.—Possofalarcomvocêumminuto? CallolhouparaTamara,quedeudeombros. —Sejaláoquefor,podedizernafrentedela—disse. MestreRufusnãopareceusatisfeito.

— Call, não estamos em um filme. Ou me deixa falar a sós com você, ou vão passar a próxima semanapeneirandoareia. Tamarasoltouumarisadadeescárnio. —Minhadeixaparairdeitar.—Entãolevantou,astrançasescurasbalançando,eacenouboanoite paraCallantesdedesaparecernoquarto. MestreRufusnãosentou.Apenasseapoiounamesa.

— Callum— disse ele. — Sabemos que alguémcomacesso a magia complexa está atrás de você.

Masoquenósnãosabemosé

porqueessapessoanãoestáatrásdeAaron?

Callsesentiusombriamenteofendido. —EutambémsouumMakar! MestreRufusergueuumdoscantosdaboca,oquenãoajudouCallasesentirmelhor.

— Suponho que eu tenha que formular melhor. Não estou dizendo que você não seja um alvo

valioso, mas é estranho que venham exclusivamente atrás de você, principalmente quando Aaron é Makarhámaistempo.Porquenãotentarmatarosdois? —TalvezestejamtentandodisseCall.—Quer dizer,Aaronestavapor pertonasduastentativas. Talvezoelementalfosseatrásdelequandoacabassecomigo.

— E talvez o lustre precisasse ser ativado por umgatilho para cair e o assassino esperou até que Aaronestivessepresente ? —Exatamente—disseCall,aliviadopor MestreRufuster concluídosozinho.Elenãogostavado termoassassino,noentanto. A palavra percorreu seus pensamento, sibilando como uma cobra. Assassino era muito pior que espião. MestreRufusfranziuatesta. —Talvez.MasachoquedesdequechegouaoMagisterium,vocêtemguardadosegredos.Primeiro osdoseupai,agora,talvezumquesejaseu.Sevocêsabequemestáatrásdevocê,ouporqueestãoatrás devocê,medigaparaqueeupossaprotegê-lomelhor. CalltentounãoencararMestreRufus.ElenãosabesobreoCapitãoCaradePeixe,Calllembrouasi mesmo.Sóestáfazendoumapergunta.MasmesmoassimCallcomeçouasuar nasmãosenasaxilas. Fezomelhorquepôdeparamanteraexpressãoneutra;nãotinhacertezasetinhaconseguido. —Nãohánadaqueeuestejaescondendo—disseCall,mentindotãobemquantoeracapaz.—Se alguémestárealmentetentandomemataremvezdeAaron,eunãoseioporquê.

— Quem quer que seja, sabia como entrar no seu quarto — disse Mestre Rufus. — Ninguém

deveriasercapazdetalcoisa,excetoeuevocêstrês.Mesmoassimtinhasóumelementalesperando

doseuteto.

o

Callestremeceu,masnãofaloumaisnada.Oquepoderiadizer?

MestreRufuspareceudecepcionado.

—Gostariaquevocêacreditassequepodeconfiar emmim.Esperoqueentendaaseriedadedisto tudo. Call pensou em Aaron e na estranha queimadura-não-exata-mente-queimadura. Pensou no elementalenaquelesolhosterríveisencarando-onoescuro,asgarrascravadasemsuapele.Pensouno anoanterior e emtodasascoisasque nuncacontou aoMestre Rufussobre amissãofracassadapara recuperar o Alkahest. Se ele fosse uma pessoa melhor, teria confessado tudo ali mesmo. Mas, se ele fosseumapessoamelhor,oproblematalvezsequerexistisse. —Nãoseidenada.Nãotenhosegredos—disseCallaoMestreRufus.—Souumlivroaberto.

CAPÍTULONOVE Os dias que se seguiram transcorreram normalmente. Call não gostava do quarto novo, que

CAPÍTULONOVE

Os dias que se seguiram transcorreram normalmente. Call não gostava do quarto novo, que mais parecia umhotel do que umlugar que pertencia a eles. Livros, papéis e roupas novas foramtrazidos pelosmagos—todavezqueCallpassavapelaportaantiga,viaqueestavafechadacomumabarrade ferro.Eletentouusarsuapulseiranafechadura,masnãodeuemnada.NãogostavadofatodequeMiri estava trancada lá dentro e até agora não tinha criado coragem de pedir a faca aos magos. Por sorte conseguiu ficar com a pulseira de Constantine Madden, mas só porque ele a usava embaixo da sua, enfiadanamangadouniformeoudopijama.Callsabiaquedeveriatirá-la,talvezatéselivrardela,mas descobriuqueestavatendodificuldadeemlidarcomaideiadeabrirmãodela. SuaantipatiapeloquartosetornoupiorquandoTamaraencontrouumafoto,enfiadasobumcanto dacama.EraumretratodeDrew,sorrindoparaapessoaatrásdacâmeraeenvolvendoMestreJoseph comumdosbraços.Drewerajovemnafoto—talvezunsdezanosdeidade—enãopareciaotipode pessoa que poderia torturar Aaron só por diversão. E Mestre Joseph parecia um daqueles pais mais velhos, com ar de professor, aquele tipo que deseja que os filhos leiam livros infantis no original em francês.Nãopareciaumpsicopataquetinhatreinadooutropsicopatapiorqueele.Nãopareciaumcara quequeriadominaromundo. Call não conseguia parar de olhar para a foto. Um dos lados tinha sido rasgado, mas um braço e partedeumacamisetaazulmostravamquehaviamaisalguémcomeles.Acamisatinhalistraspretas. Por uminstante de horror Callachou que pudesse ser obraçodoInimigodaMorte, maslogose deu contadequeConstantineMaddenteriamorridomaisoumenosnaépocaemqueDrewnasceu. Masnãoeramsóanovidadedoquarto,aperdadeMirieafotoquedeixavamCalldesconfortável. Ele também não gostava de como o Mestre Rufus vinha olhando para ele atualmente. Nem de como Tamaraviviaotempotodonervosaeolhandoporcimadoombro.Nãogostavadarugadepreocupação que recentemente tinha se formado entre as sobrancelhas de Aaron. E em particular não gostava de comoseusamigosnãoodeixavamlongenemporumsegundo. —Oitoolhossãomelhoresdoqueum—disseAaronquandoCallmanifestouavontadedepassear sozinhocomDevastação.

—Eutenhodoisolhos—disseCall. —Sim,éclaro—disseAaron.—Esóumditado. Você está torcendo para encontrar Célia, não está? — perguntou Tamara, fazendo Aaron lançar maisumolhardereprovaçãoaCall.

O encontro de Célia e Jasper estava marcado para aquela sexta-feira, e Aaron achava que seria a oportunidade perfeita para descobrir se ela era a espiã. Tamara tinha conseguido arrancar de Célia quasetodososdetalhesarespeitodoencontro.TinhammarcadonaGaleria,àsoito,depoisdojantar,e iriamassistiraumfilme. —Pareceinocente—disseTamara,dandodeombrosaosesentaremparaalmoçareespetandoo garfonomacarrãodelíquen.

— Bem, é claro que parece — disse Aaron. — Ou você acha que ela iria declarar tão cedo suas intençõesmaléficas? —Elelançou umolhar aCélia,queriaalegrementecomRafeeGwenda.Jasper

estavasentadocomKaieparecianomeiodeumahistóriaanimada. Se for mesmo coisa da Célia, como ela conseguiu controlar um elemental gigante daqueles? — perguntouCall.—Semqueele,vocêsabe,amatasseecomesse? —Elementaisnãocomemgente—disseTamara.—Elesabsorvemaenergiadelas. Callparouporuminstante.EstavaselembrandodeDrew,quetinhasidomortoporumelemental docaossoboolharaterrorizadodeCallduranteseuprimeiroanocomoaluno.Lembrou-sedecomoa peledeDrewtinhaficadoazul,edepoiscinza,seusolhosficandovazios.

— achoestranho.—?CallouviuAarondizerquandosaiudodevaneio.

—Oquê?—perguntouCall. —Ojeitocomotodomundoestáolhandoparaagente—respondeu Tamaracomavozbaixa.— Vocênotou? Callnãotinhanotado.MasagoraqueTamarafalou,elepercebeuqueaspessoasvinhamencarando elestrês—Aaron,especificamente.Enãodojeitocomonormalmenteoencaravam,comadmiraçãoou aquelaexpressãocomoquemdizolhaláoMakar.

Oqueestavaacontecendoeradiferente.Aspessoasobservavamcomolhossemicerrados,falavam em voz baixas. Todos lançavam olhares desconfiados, sussurravam e apontavam. Se dar conta disso deixouCallcomumasensaçãodesconfortávelnabocadoestômago. —Oqueestárolando?—perguntouAaron,espantado.—Temalgumacoisanomeurosto? —Vocêsrealmentequeremsaber?—disseumavozporumadacabeçadeles. Callolhouparacima.EraJasper. —TodomundoestáfalandodacoisaquequasecomeuCall —Elementaisnãocomempessoas—insistiuTamara,cortandoafaladeJasper. Eledeudeombros.

— Tudo bem. Que seja. Enfim, as pessoas estão falando que foi Aaron que o invocou. Alguém contou paraalguémque ouviramvocêsdoisbrigandoe todomundoviu quandoAaroninvocou todas aquelascriaturasdocaosnasférias Callficouboquiaberto. —Issoéridículo—disse.

Aaron olhou em volta. Quando encontrou os olhares dos outros aprendizes, todos desviaram o rosto.AlgunsdosalunosdoAnodeFerrocomeçaramarir.Umdelescomeçouachorar. —Quemestádizendoisso?—perguntouAaron,voltando-senovamenteparaJasper.Estavacom asorelhascoradaseumaexpressãoquediziaqueelegostariadeestaremqualqueroutrolugar.

— Todo mundo — respondeu Jasper. — É um boato. Acho que pelo fato dos Makaris serem

instáveisetudomais,concluíramquevocêtentoumatarCall.Querdizer,algumaspessoasachamqueé compreensível, porque Call é muito irritante, mas outras acham que está rolando um triângulo amorosoentrevocêseTamara.

— Jasper. — Tamara falou com a voz mais firme possível. — Diga para as pessoas que isso é

mentira. —Qualparte? —Nadadissoéverdade!—retrucouTamara,elevandoavozdeformadramática. Jasperergueuasduasmãosemumgestoderedenção. —Tudobem.Massabemcomoéfofoca.Ninguémvaimedaratenção.—Ecomissoeleseafastou damesa,devoltaparaarefeição.

— Não dê ouvidos a ele — disse Tamara a Aaron. — Ele é ridículo e fica maldoso quando está assustado.Provavelmenteestánervosocomoencontroeresolveudescontaremvocê.

Talvez, Call pensou, mas alguma coisa estava realmente acontecendo. As pessoas definitivamente estavam lançando olhares a eles. Call levantou e foi atrás de Jasper, pegando-o pelo cotovelo no momentoemqueelechegouaumgrandepotedelíquidomarromcomcheirodecanelaecravo. —Jasper,esperaaí.Vocênãopodesimplesmentecontar tudoissoeir embora.Quemcomeçou o boato?Quemestáinventandoessascoisas?Vocêtemqueternomínimoumpalpite. Jasperfranziuatestaocenho.

dequedevodizer quemefezpensar.Aaron

contou a você e Tamara histórias diferentes sobre o passado dele. Isso é bem suspeito. Não fazemos ideiadeondeeleveio,ouqueméafamíliadeledeverdade.Elesimplesmenteaparecedonadaepronto! Makar. —Aaronéumaboapessoa—disseCall.—Tipo,muitomelhordoquenósdois. Jaspersuspirou.Nãoestavarindo,nemdesdenhando,nemfazendoqualquerumadesuashabituais expressõesafetadas. —Vocênãoachaissosuspeito?—perguntou.

—Não—respondeuCall,marchandodevoltaparaamesaefervendodefúriapordentro.Jasper eraumidiota.Aliás,todomundoaliera,excetoele,TamaraeAaron.Elesejogou nacadeira.Tamara estavainclinadaparapertodeAaron,falandocomamãonoombrodele. —Tudobem—diziaAaroncomavozesgotada.—Maseurealmenteachoquetemosquesair. —Oqueestáacontecendo?—perguntouCall. —Eusóestavafalandoparaelenãosedeixarafetarporisso.—Tamaraestavacomorostocorado, manchasvermelhasnasbochechasmorenas.Callsabiaqueissosignificavaqueelaestavafuriosa.

— É ridículo — disse Call. — Vai passar. Ninguém pode acreditar em uma bobagem dessas por muitotempo. MasaexpressãodeAarondiziaaCallqueelenãoestavatranquilo.Seusolhosverdespercorriamo refeitórioquasecomoseeleesperassequeaspessoasfossemcomeçarajogarcoisasnele. —Euvouvoltarparaoquarto—disseAaron.

—Calmaaí—disseAlexStrike,comsuaformacompridaeesguiaprojetandoumasombranamesa. Sua pulseira do Ano de Ouro brilhou quando ele estendeu a mão. Ao abrir a mão, revelaram-se três pedrasredondaseavermelhadas.—Sãoparavocês. —Estáconvidandoagenteprajogarbolinhadegude?—Callpresumiu. Alexsorriu.

— São pedras-guia — falou. — Os Mestres vão fazer uma reunião hoje à noite. Vocês foram convidados.—Elemexeuosdedos.—Umapedraparacadaum.

—Nãofuieu,seéissoqueestáinsinuando

apesar

—Fomosconvidados? —Aaronperguntou enquantoelespegavamaspedrasdamãodeAlex.Ele parecianervoso.—Porquê? —Nãofaçoideia.Souapenasomensageiro. —Oquefazemoscomissoentão?—perguntouCall,examinandoaprópriapedra.Perfeitamente redondaebrilhante,realmentepareciamuitoumabolinhadegudevermelha.Umadasgrandesquese usamparaatingirasoutras. —OsMestresestãomudandooslocaisdasreuniõesporquestõesdesegurança—explicouAlex.— Seapessoanãotiverumadessasnãoconsegueencontrarasala.Areuniãocomeçaàsseis.Bastadeixara pedralevá-losaondedevemir.

pedralevá-losaondedevemir.

Àsseisdatarde,ostrês,maisDevastação,estavamsentadosnanovasalacompartilhada,cadaum

olhandoparaapedranamão.Todosvestiamuniformesescolaresdecorazul;Aarontinhaengraxadoos

sapatos e Tamara estava com o cabelo solto, com presilhas de ouro acima das orelhas. O máximo de concessãoqueCallfezparaficarchiquefoilavarorosto. — Opa, opa!— disse Tamaraquandosuapedra-guiaacendeu comoumpisca-piscade natal. Ade AaronfoiaseguinteedepoisadeCall.Todosselevantaram. —Devastação,fiqueaqui—disseCall. ApósareuniãoanteriorcomaAssembléia,elenãoqueriadarnenhumadesculpaparaselembrarem daexistênciadeDevastação. No corredor, Tamara se deixava guiar por sua pedra. Sempre que ia na direção errada, o brilho diminuía. —OMestreRufusdeviaternosdadoumadessasquandofomosparaostúneis—disseCallquando partiram.—Emvezdaquelemapaquedesaparecia. —Achoqueissoteriaanuladoopropósitodaaula—observouAaron,cobrindoapedracomamão emconchaparanãoprecisarandardeolhossemicerradosporcausadaluz.—Vocêsabe,acoisatodade encontrarnossoprópriocaminho. —Nãosejaarrogante—disseTamara,fazendoumacurvasúbita.Todasaspedrasficaramcomo brilhomaisfraco. —Achoquevocê,hum,virouerrado—disseCall,apontandoparatrás,paraagrandesalacomuma cachoeirasubterrâneaqueapedrapareciaindicar.

—Vamosdisseela,avançandomeiocambaleante,deixandoAaroneCallsemopçãoquenãosegui-

la.

Ela passou por uma pequena entrada que levava a um espaço com pé-direito alto. Um pequeno bandodemorcegosseamontoou,emitindochiadosunsaosoutros.Osbichosfaziamtodoolugarfeder. Calltampouonarizcomosdedos. —Oquevocêestáfazendo,Tamara?—perguntouAaron,comavozbaixa. Elaagachouerastejouporumapassagemestreita.CalleAarontrocaramolharespreocupados.Era perigosoexplorarascavernassemummapaoualgumaespéciedeguia.Haviaburacosprofundoselagos delamafervente,semfalarnoselementais. EntrandonapassagematrásdeTamara,Calltorceumuitoparaqueelasoubesseparaondeia. ApedrapareciaásperaemsuamãoenquantoCallengatinhavapeloquepareciaumtúnelnatural.A passagemficouaindamaisestreitaeCallnãotinhacertezaseiamcaber.Seucoraçãocomeçouabater forteenquantoaúnicaluzdequedispunhamdesbotavacadavezmais.Apósalgunsminutosdetensãoa

passagemseabriuemumasaladesconhecida,masquenãopareciaparticularmenteperigosa.Aspedras brilharam. —Vocêvaiexplicaroquefoiisso?—perguntouCall. Tamaracolocouasmãosnosquadris. —Nãofazemosideiadequemestejaatrásdevocê.PodeserumdosMestres,oualguémquesabe ondeseráareunião.Nãopodemospegar arotadireta.Podeser umaarmadilha.Oobjetivodepedras comoestaségarantirqueagentenãosepercaindependentedocaminho. —Ah,issofoiinteligente—disseCall,tentandoignoraropânicogeladoqueseacumulavaemseu estômago. Ele queria acreditar que seja lá quemfosse o inimigo, ou inimigos, não seriamMestres da escola. Ele queriaacreditar que eraapenasumcapangadoMestre Joseph, ou algumpobre magoque detestavaMakaris.Ou talvezumalunoquetivesseirritadomuito.Callsabiaqueconseguiaser muito irritante,principalmentequandoseesforçavaparaisso. Call ainda estava pensando no assunto quando chegaramà sala que os Mestres tinhamescolhido para a reunião. Estavam atrasados, e a reunião já tinha começado. Um grupo de Mestres vestidos de preto estava sentado em um semicírculo lustroso de mármore. Um banco longo e baixo, também de mármore, percorria o exterior desse semicírculo, permitindo que os Mestres encarassemo centro do recinto. As estalactites culminavam em lâmpadas redondas feitas de pedra clara, cada uma brilhando comumaluzamarelada. — Tamara, Aaron e Call — entoou Mestre Rufus quando os três entraram. — Por favor, acomodem-seemseuslugares. Ele indicou três montes de pedras polidas diretamente à frente da mesa dos Mestres. Call ficou encarando. Era para eles sentarem naquilo? As pedras não iam simplesmente ceder e se espalhar, derrubandocadaumdelesnochãoecausandoconstrangimento? TamarapassouconfianteporCallesimplesmentesentouemumadaspilhas.Elaafundouumpouco ecruzouosbraços,masaspedrasnãosemoveram.AaronfoiopróximoeCall,depoisdele,sejogouna últimapilha.Aspedraschiarameestalaramquandoseupesoasdeslocou,maseracomosentaremuma cadeira feita de caramelo, só que menos grudento. As pedras se ajustaram ao corpo de Call até que estavasentadodaformamaisconfortávelquesuapernapermitia. —Legal!Precisamosdissonanossasalacompartilhada—disseCall. —Call—disseMestreRufusemtomsombrio.Callteveasensaçãodequeomestreaindaachava que ele escondia algo. — Por favor, guarde para você seus comentários sobre a mobília; isso é uma reunião. Sério? Achei que fosse uma festa! Call teve vontade de dizer, mas não o fez. Definitivamente, a atmosferanãopoderiaser menosfestiva.MestreNortheMestraMilagrosladeavamoMestreRufus; AnastasiaTarquinestavapróximaàbeiradadamesa,seuolharsombriofixoemCall. —Oqueestáacontecendo?—perguntouAaron,olhandoemvolta.—Estamosencrencados? —Não—MestraMilagrosdisseaomesmotempoemqueMestreNorthdisse“talvez”ebufou. —Sóestamostentandoentendercomoesseataquepodeteracontecido—disseMestraMilagros, lançandoumolhardeesguelhaparaAnastasia.—Tínhamosváriossegurançasposicionados.Sabemos quevocêsjádisseramoqueaconteceu,maspodemcontardenovo,sóparaconstar? Calltentourelatartudo,tentouseconcentraremdetalhesquepudessemajudaremvezdecausar pavor e desespero, que eram exatamente o que ele sentia. Tamara e Aaron começaram a explicar as próprias partes. Call fez questão de destacar o quão útil Devastação tinha sido, uma vez que ainda estavapreocupadocomavisãodaAssembléiasobreosanimaisDominadospeloCaos. —Alguémdeveestarmuitodeterminado.Sealgumdevocêsfazideiadoporquê,esteseriaumbom

momentoparacompartilhar—disseMestreRufus,maisumavezlançandoumolharseveroparaCall, como se novamente o instigasse a confessar. Depois que Call entregou o Inimigo da Morte para a Assembléia,eleachouqueseusegredoestivessesalvo,masagorapareciamaispróximodoquenuncade ser revelado. Se ao menos ele pudesse contar aos magos. Se ao menos acreditassem que Call era diferentedeConstantine. Callabriuabocaparafalar,masfoiemvão.Tamarafoiquemrespondeu. —NãofazemosideiadeporquealguémpoderiaquerermachucarCall.Elenãoteminimigos. —Eunãoiriatãolonge—murmurouCall,eTamaraochutou.Forte.

— Há um boato correndo entre os alunos — disse Mestra Milagros. — Hesitamos em trazê-lo a

vocês, mas precisamos ouvir o que pensam. Aaron, você teve alguma coisa a ver com o ataque do elemental?

— Claro que não teve!— gritou Call. Desta vez Tamara não o chutou por se meter na conversa

alheia. —PrecisamosouvirdeAaron—disseMestraMilagrosgentilmente. Aaronolhouparaasprópriasmãos. —Não,eunãofizisso.EunãomachucariaCall.Nãoqueromachucarninguém. —Acreditamosemvocê,Aaron.CalluméumMakar—disseMestreRockmaple,ummagobaixoe de barbaruiva. Callnãotinhagostadodele noJulgamentode Ferro, masestavafeliz pelofatode ele acreditaremAaron.—ExistemmuitasrazõesparaaquelesqueseopõemaoMagisteriumeaoqueele representa atacarem um Makar. Acho que nossa primeira preocupação deve ser descobrir como um elementalmaliciosoteveacessoaoquartodeumalunoe,maisimportante,comopodemosgarantirque issonuncamaisaconteça. Callolhou paraAaron.Elecontinuavaolhandoparaosprópriosdedos,puxandoascutículas.Pela primeiravez,Callnotouqueasunhasdeleestavamcompletamenteroídas. —Nãoeraumelementalqualquer—disseoMestreRufus.—Eraumdosgrandeselementais.Um dosqueestavaemnossasprópriascelas.SechamavaSkelmis. CallpensouemAutomotonesquebrandoacasadeumdosamigosdoseupainoanoanterior,louco paradestruirCall.Automotonestambémeraumdosgrandeselementais.Eraperturbadorpensarque alguémestavatentandomatarCallhámaisdeumanoequeessapessoapareciasercapazdeconseguir as criaturas mais poderosas do Magisterium para isso. Call ficou imaginando se não seria um dos Mestres,afinal.Eleolhouemvoltadamesaeestremeceu. —Agora,talvezprecisemosqueostrêsrespondamemmaioresdetalhes—disseMestreNorth.— Eissopodelevarumtempo.ÉuminquéritoformalsobreAnastasiaTarquinesobreahipótesedeelater sido negligente em sua função de guardiã dos elementais. Mestre Rockmaple vai registrar nossas descobertaseenviá-lasàAssembléia. —Eujáexpliquei—disseAnastasia. Anastasia vestia seu tradicional terno branco, o cabelo cor de gelo estava preso por pentes de marfim.Anéisdeourobrancobrilhavamnosdedos.Atéapulseiradamulher erafeitadecourocinza claro.Aúnicacoremseurostovinhadosolhos,vermelhosporprivaçãodesonoepreocupação. —OelementalSkelmisdevetersidosoltoantesdeeucolocarosguardas.Sóexistemduaspedras enfeitiçadasqueabremascriptasondeoselementaisestão.Umadelaspermaneceupenduradanomeu pescoço. A outra estava no meu quarto, em um cofre fechado por mágica e seguro por três trancas diferentes.Monitoreicuidadosamentetodosqueentraramesaíram.Vocêsviramasanotações.Falaram com os guardas. Colocar a culpa em mim a fim de ter uma desculpa para expulsar da escola uma integrantedaAssembléianãonosajudaemnada.

— Então só porque você não notou ninguém entrando, ninguém deve ter entrado? É nisso que devemosacreditar?—perguntouMestreNorth. Anastasiaselevantouebateucomasmãosnamesa,fazendoCallsaltar. —Sepretendemeacusardealgumacoisa,simplesmenteacuse.Achaqueestoumancomunadacom forçasdoInimigo?Achaquecoloqueiestemeninoeseusamigosemperigodepropósito? —Não,éclaroquenão—disseMestreNorth,claramenteespantado.—Nãoestouacusandovocê

de nada. Estou dizendo que pode se gabar sobre seus guardas o quanto quiser, mas eles não funcionaram. —Entãovocêsómeachaincompetente—disseele,comavozgelada.

— O que você prefere? — disse Mestre Rufus, entrando no diálogo. — Porque é uma coisa ou

outra. Se Mestre North não diz, eu digo. Era obrigação sua garantir que ninguém libertasse um elementaldascriptassubterrâneas.Mesmoassimumdelessaiuequasematouumaluno,umdosmeus aprendizes.Aculpaésua,Tarquin,gostevocêounão. —Nãoépossível—insistiuela.—Estoudizendo,eujamaisfarianadaparamachucarCallumou Aaron.Jamaisdeixariaumalunoemperigo. Tamarabufoudeescárniolevementeapósserexcluídadadeclaração.

— E mesmo assim eles correram grave perigo — disse o Mestre Rufus: — Então nos ajude a descobriroqueaconteceu. Anastasiasentounovamente.

— Muitobem. — Elalevou amãoaopescoçoe puxou acorrente de baixodacamisa. Umagaiola

grandefaziaasvezesdepingente

formato de cadinho. — Quando assumi a guarda das criptas dos elementais das profundezas, eu me certifiqueidequeachavejamaissaíssedepertodemim.

— E quanto à outra? — perguntou Mestre North. — São duas chaves. Você disse que trancou a outra.Alguémpoderiaterroubadoedepoisdevolvido?

— É muito improvável — respondeu Anastasia. — A pessoa teria que passar por três tipos

diferentesdefeitiçodetrancaparaentrarnomeucofre.Eocofreemsifoitrazidoparacájuntocomo restodosmeuspertences.OpróprioMestreTaisukemeajudouacolocá-lonapedra. —Quetipodefeitiçosdetranca?—perguntouMestraMilagros. Anastasiahesitou,depoissuspirou.

— Suponho que eu vá ter que mudá-los agora, apesar de eu achar muito improvável que alguém

tenhafeitooquevocêsestãosugerindo.Tudobem.Aprimeiratrancaéumasenhaquedeveserditaem vozalta.Enão,nãovourevelarqualé.Nãodisseissoaninguém. Poruminstante,elaencarouaprópriamãoesuasunhasperfeitas.Anastasiaeramaisvelhadoque aparentavaser,maisvelhadoqueAlastair,e,naquelemomento,estavaparecendomesmo. Entãoelaergueuacabeçaasuaexpressãovoltouaficarséria. —Osegundoéumfeitiçobeminteligente,ativadopelasenha.Umburacoaparecenocofre,masse você simplesmente enfiar a mão, um elemental cobra ataca, envenenando o ladrão com uma toxina

letal. Para passar por ele, é preciso conjurar fogo dentro da abertura. — Um sorrisinho malicioso se formounocantodesuaboca. —Legal—disseAaronbaixinho.Callconcordoucomele.

— Edepois, por último, háumfeitiçofinal, criadopor mim. Vocês sãoas primeiras pessoas para

quem conto sobre ele e lamento que depois disso ele precise ser substituído. Depois que o fogo é conjurado,nadamudavisualmente.Aessaalturaapessoapoderáenfiaramãopeloburacodesdequeo façalentamente.Setiraramãorapidamente,alarmesdisparameocofresefechaoutravez.Contudo,é

edentrodessagaiolahaviaumachavedebronzecujacabeçaeraem

criada a ilusão de um elemental cobra saindo da abertura em posição de ataque, o que torna compreensívelatentaçãoderecolheramãodepressa.

Poruminstantetodosficaramemsilêncio.Calltinhacertezadequeestavammaravilhadoscomos dispositivos de segurança criados por Anastasia, mas também achava que estavam maravilhados com suaastúcia,poiseramfeitiçosbemcriativos. —Acabamos,afinal? AlgomaléficoestáentrenósaquinoMagisterium—disseAnastasia,coma cabeçaerguida.—Todossabemosdisso.Époressemotivoqueeuvim.Sugiroqueagentedescubraa fonteemvezdefazeracusaçõessembase.Antesquesejatarde. MestreNorthvoltou-separaCall,AaroneTamara. —QueremosqueentendamquenadaparecidoaconteceunoMagisteriumevamosnoscertificarde quejamaisvolteaacontecer.Vocêstrêsestãodispensados.Vamosprosseguircomareunião,masnão duvidemdequevamosdescobriroqueaconteceu. Estava claro que os magos talvez fossem passar a noite toda discutindo, apesar de não terem nenhumapistapelaqualcomeçar.Callpensou,derepente,emJerichoMadden,eemcomoasuamorte tinha sido acidental — um experimento que fracassou. Será que houve um inquérito depois? Várias pessoasseacusandoinutilmente? —Aindaacreditoqueomaisseguroseriaensiná-los—disseAnastasia,airritaçãoemsuavozera inconfundível. — Pode me achar negligente em minhas obrigações, mas isso não quer dizer que não tenhasidorelapsonassuastambém. —Eu jáosensino—disseMestreRufus,lançandoseu olhar maisausteroaela.—Ensinooque elesprecisamsaber.

— Ah — disse ela, e pareceu claro que não estava mais incomodada, já que tinha certeza de que estava com a vantagem. — Então Aaron e Callum sabem que têm o poder de remover uma alma de

dentro do corpo? Eles sabem como fazer? Que alívio, porque achei que você tivesse tanto medo das habilidadesdelesqueestavaplanejandonãocontar,mesmoqueissoosmatasse.

— Eu libereinossos alunos — disse Mestre North com exaltação incomum. — Tarquin, deixe os

garotosiremembora.Ousemedesafiardenovoeeuvoubani-ladaescola,independentedasordensda Assembléia. Do lado de fora da sala de reunião, Call se voltou para Aaron e Tamara. Tamara ergueu as sobrancelhasemumgestoquepareciacapturaroquãocompletamenteestranhotinhasidoaquilotudo. Aaronbalançouacabeça.Viramumcaminhofamiliarapósalgunspassos,oquefoibom,considerando queaspedras-guiasóapontavamemumadireçãoeficariameternamenteconduzindoogrupoàsalade reunião. Finalmente,Aaronfalou. —AindabemquesaímosdeláantesdoencontrodeJasper.Euestavaficandopreocupado. —VocênãoachadeverdadequeCéliaéaespiã,né?—perguntouCall.—Querdizer,nãopravaler, certo?

— Sei que você não quer que seja ela — disse Aaron, passando por uma área pantanosa que floresciaemazulsobarespiraçãodeles.—Seiquevocêachaqueelaésuaamiga,mastemosqueter cuidado.Céliafezalgoestranhonaépocadosdoisataques.Podesercoincidência.Ou,talveznão. —EntãocomoessacoisatodadoencontrocomJaspervaiajudar?—perguntouTamara.—Mesmo queelasejaaespiã,Jaspernãoéoalvo. —JaspermeprometeuquefalariacoisassobreCall.Seelamorderaisca,saberemos. Tamararevirouosolhos.ElaprovavelmenteachouqueCallnãonotariaàpoucaluzdopântano,mas elenotou.

ChegaramsemfôlegoàGaleria,queestavailuminadaparaanoitecomriachosreluzentesdelodo, brilhando em azul e verde. Alunos

ChegaramsemfôlegoàGaleria,queestavailuminadaparaanoitecomriachosreluzentesdelodo, brilhando em azul e verde. Alunos mergulhavam em piscinas fundas de água que brilhavam em turquesa.Callselembroudaprimeiravezemquetinhaestadoaqui:Céliaotinhaconvidadoduranteo Anode Ferro, e foiumadascoisasnoMagisteriumque ele gostou muito. Naocasiãoele tinhaficado semfôlegoepercebidoqueestavadiantedecoisasquenenhumapessoacomumjamaisveria. Agoraeleolhavaparaolocalcommaisfamiliaridade.Chegavaatéareconheceralgumaspessoas— emumcanto,estavamAlex,airmãdeTamaraeoutrameninadoAnodeOuro.GwendaeRafepulavam emumadaspiscinas,jogandoáguaumnooutro.Kaiestavapertodostubosdevidroqueliberavambala queespumava,cavandoumamontanhadedocescomumadasmãosesegurandoumlivrocomoutra. —Olhasóisso!—gritoualguém.Por umsegundoCallpensouter vistoumafiguramagrinha,de cabeloscastanhosecomumacamisetagasta,acenandoparaele.Alguémcujosolhosbrilhavamnegros emumrostopálidodemais.

Drew. Call piscou, e a visão entrou em foco na figura de Rafe, que dava um salto com tudo na piscina, espirrandoáguaparatodososlados.Pessoasbaterampalmasevibraram;Aaronseinclinouesussurrou paraCalleTamara:

—Láestãoeles. Ele apontou para onde Jasper e Célia estavam sentados em um grande sofá roxo. Célia estava bonita,comumvestidocor-de-rosa,oscabelosamarradosemumrabodecavalo.JasperestavaJasper. Umavasilhadepedraflutuavaentreeles.Céliacolocouosdedosdentrodelae,aopuxá-losdevolta, estavambrilhando.Elaossoprouebolhasmulticoloridassubiramemespiralparaoteto.Céliariu.

Ela

nemgostadele.Ou,pelomenos,segosta,nuncadissenada. —ElaestáatraindoJasperparasuasgarras—disseAaron. —Vocêssãodoisidiotas—disseTamara,soandoresignada.—Vamos. Sorrateiramente,ostrêsforamatéobarcheiodepetiscosebalasqueficavapertodaparede.Estava escuro;CallseguiualuzdaspresilhasdeourobrilhantesdeTamara.Quandoemergiramdooutrolado, estavamatrásdosofároxo,muitomaispertodeJaspereCélia.EraavezdeJaspercolocarosdedosna vasilha,aparentemente,ElelançouumolharexpressivoaCéliaeemseguidasoprouosdedos.Bolasou formadecoraçõessubiramparaoar. —Ah,quenojo—disseCall.—Euvouvomitar. Tamaraprecisoucolocaramãonabocaparaabafararisada. —Eumencontro—disseelaquandoparouderir.—Emencontrosaspessoasdevemsedivertir. —Oufingirqueestãosedivertindo—disseAaron,estreitandoosolhosparaCélia.Elerealmente pareciaacreditarqueelapodiaserumaespiã. —Oquetemdedivertidoemolharumparaacaradooutro?—perguntouCafl. — Certo — disse Tamara, lançando um olhar impenetrável aos meninos. — Se vocês dois engraçadinhosfossemsaircomalguém,oquefariam? CallviuasbochechasdeCéliaruborizaremquandoJasperseindignouedissealgumacoisaparaela. Era estranho assistir. Para começar, era bizarro ver Jasper sendo legal com alguém. Normalmente, mesmoquandoeleestavadisfarçadodealguém-não-mui-to-babaca,tinhaumaardearrogânciaaofalar. ComCélia,noentanto,pareciaagircomoumapessoanormal.

—Putz—disseCall.—CéliaestácomosolhosesbugalhadosparaJasper.Issoétãoestranho

Eelapareciainteressadanele. Oque eratotalmente injusto, considerandoque oúnicomotivopeloqualJasper aconvidou para sairfoiacobertaroqueestavamrealmentefazendonabiblioteca. Pensando bem, Célia sempre dizia que Call estava exagerando quando ele chamava Jasper de

babaca. Talvez ela gostasse mesmo de Jasper! Talvez só estivesse fingindo gostar de Call para se aproximardele. —Nãosei—disseAaron.—Fariaoqueagarotaemquestãoquisessefazer. CalltinhaseesquecidodaperguntaqueAaronestavarespondendo.Por uminstante,torceu para queCéliafosseaespiãnofimdascontas.SeriabemfeitoparaJasper. TamaracutucouCallnoombro. —-Uau.Vocêrealmentedevegostardela. —Quê?N-não!—disparouele.—Eusóestavaviajandoaqui!SobrecomoJasperéumbabaca. Aaronassentiu vigorosamente. Jasper e Céliaestavammergulhandoos dedos aomesmotempoe soprando,criandobolhasemformatodeborboletasepássarosqueflutuavam.Osdoiscomeçaramarir quandoumdospássarosdeJasperdesceuparacomerumadasborboletasdeCélia. Agoraestámaisreal!Callsorriu.Ficouimaginandooqueaconteceriaseeleconjurasseailusãode umgatoparaperseguirospássaros.

— Se gosta tanto assim dela, você deveria convidá-la para sair — disse Tamara lentamente,

escolhendoaspalavrascomcuidado. —Querdizer,achoqueelaperdoaria,sevocêexplicasse. —Explicasseoquê?—perguntouAaron. Call ouviu quando Jasper começou a reclamar sobre Fofinho, o furão de Gwenda. Célia tinha contadoaCallsobreareaçãoalérgicadeJasper aFofinhonoanopassado,entãoJasper sabiaqueela sabia. Mesmoassim, Céliafingiu que eraumainformaçãonova. Jasper acreditou. Continuou falando semparardofurãoesobrecomonãogostavadele,eelaagiucomoseestivessefascinada. Callqueriagritar.

—Ahh, olha—disse CéliaquandoJasper finalmente esgotou oassuntodofurão. —AlexStrike acaboudecolocarumfilme.Querassistir? Alex era mago do ar, e uma das maneiras com as quais ele demonstrava o próprio talento era formando ar colorido contra a parede da caverna da Galeria, criando a ilusão de filmes populares. Às vezeselemudavaosfinaisparasedivertir.CalltinhaumalembrançaclaradeumEwok,umdroideeo fantasmadeDarthVaderdançandoaconganaversãodeAlexdoRetornodeJedi. Jasper pegou a mão de Célia e a ajudou a levantar do sofá. Os dois foram para o lado oeste do recinto, onde fileiras de bancos baixos tinham sido armadas. Encontraram dois assentos contíguos quandoaluznaquelapartedacavernadiminuiueasprimeirascenasdeumfilmecomeçaramapassar naparede. —Lávamosnós—sussurrouAaron.—ElavaiseaproveitardoescuroenocautearJasper. Callderepentesecansoudaquilotudo.

— Não, ela não vai — disse. — Eu já fiquei sozinho com ela várias vezes. Se ela quisesse me

machucar, poderia ter feito isso. Deveríamos desistir dessa ideia. O único perigo desse encontro é

Jasperfazê-lamorrerdetédio. —Ounósmorrermospelomesmomotivo—murmurouTamara.—Calltemrazão,Aaron.Jasper prometeu interrogá-lasobreCall,masachoquepodemosafirmar comsegurançaqueeleseesqueceu disso. Formas se moviam contra a parede, projetando estranhos padrões de luz. Call podia ver Alex

sentadonofundo,movendoasmãoslentamenteparafazerasimagensdançarem.PeloqueCallpodia

notar,ofilmeeraumacombinaçãodeToyStorycomParquedosdinossauros,ondebrinquedoseram

perseguidosporvelociraptors.

—Nãovaidaremnada—disseCall.—Mastenhoumaideiadoquepodemosfazerhojeànoite.

IssofezAaronolhá-losurpreso.

—Oquê?

—SealguémfoiatéascriptasdoselementaiselibertouSkelmis,entãoexistemaomenosalgumas testemunhas.Temquehaver.

— Os outros elementais — disse Tamara, percebendo de cara o que ele queria dizer. — Eles continuampresosláembaixo.Provavelmenteviramoqueaconteceu. —MasaAssembléiajánãoteriaperguntadoaeles?—indagouAaron.

— Não necessariamente — respondeu Call. — A maioria das pessoas tem muito medo de

elementais.Nãoosconsideramcriaturascomasquaissepossaconversar.Eédifícilenfrentá-los.Mas

tendodoisMakaris

eumavezqueesseselementaisestãopresos

—Éumplanolouco—disseTamara,masseusolhoscastanhosestavamdespertos. —Estádizendoquenãoquerfazer?—perguntouCall.

— Não — respondeu Tamara. — Só estou falando que é um plano louco. Como chegaríamos lá

embaixo? —Anastasiapraticamentenosexplicouissoduranteareunião—disseCall.—Eladissequeguarda umachavenoquartoeoutraemvoltadopescoço.Tudoqueprecisamosfazeréentrarnoquartodela quandoelanãoestiver. —Eosguardas?—perguntouAaron.—Osqueficamnaporta? —Agentesepreocupacomissoquandochegarlá—respondeuCall.—Seoespiãoentrou,temque haverumjeito.Esenãofizermosissohoje,elavaimudarastrancas.Nãoteremosoutrachance. AaronlançouumúltimoolhardesconfiadoaCéliaefezquesimcomacabeça.Juntos,ostrêsforam sorrateiramenteparaocorredor.AopartiremnadireçãodosquartosdosMestres,Callpercebeuqueo planotinhatrêscomplicadores.Um,elenãosabiaqualeraoquartodeAnastasiaTarquin.Dois,elenão tinhacomoentrar.Três,umavezládentro,teriamqueadivinharasenhadela. Quãodifícilpodeser?, Callse perguntou. Asenhaprovavelmente eraalgumacoisaóbvia. Alguma coisaquepoderiamdescobrirsódeolharparaospertencesdela. Eoquartotambémpoderiaseróbvio.EleolhouparaTamaraeAaron.Ambospareciamprontosase deixarconvencerdequeoplanopoderiadarcerto.Talvezjátivessempensadoemumamaneiradefazer com que desse. E, seja como for, ao menos estariam fazendo alguma coisa em vez de simplesmente esperandoqueoespiãoatacasseoutravez. Call suspirou. Se os Mestres da Assembléia não conseguiamresolver a situação, então estava por contadeles.

CAPÍTULODEZ NãolevarammuitotempoparachegaràáreadosMestres. Call nunca tinha ido naquela parte do Magisterium. Apesar

CAPÍTULODEZ

NãolevarammuitotempoparachegaràáreadosMestres. Call nunca tinha ido naquela parte do Magisterium. Apesar de não ser proibido, os únicos alunos que normalmente se aventuravam eram assistentes, como Alex, cumprindo funções ou levando recados.Foraisso,viratéaquieraumconviteparaencrenca. Call, inclusive, estava com dificuldades para andar com confiança como normalmente fazia,

conforme Tamara o aconselhou. Ele queria se esconder perto das paredes, fugir das vistas, apesar de poucos alunos terem passado por eles. Nenhum Mestre apareceu. Ainda estavam todos enfiados naquelareunião,tentandoentenderoquetinhadadoerrado,oqueerabomparaoplanodeCall.Mas, ao mesmo tempo, isso deixou as coisas um pouco assustadoras quando eles viraram nos corredores ondeficavamosaposentosdosMestres. Foidivertidotentaradivinharqualportaeradequem.AdoMestreRockmapledeviaseraenorme portacravejadacombronze;adoMestreNorth,umalisademetal;adoMestreRufus,umadeprata escovada.AdeMestraMilagrosobviamenteeraumacomafotodeumgatinhopenduradaporumfioe comosdizeresAGUENTEFIRME. A de Anastasia foi tão fácil de identificar quanto as deles. Um grosso tapete branco tinha sido colocadonafrenteeaportaemsierafeitademármoreclarocomveiosnegrosquepareciamfumaça. Call se lembrou do carregamento de móveis caros e brancos que vira os empregados de Anastasia descarregaremnoprimeirodiadeaula. —Esseéodela—disseCall,apontando.—Temqueser. —Concordo—Aaronseaproximou,tamborilou osdedosnomármore.Examinou asbeiradasda porta, mas assim como todas do Magisterium, não havia dobradiças, só a parte lisa onde era preciso passarapulseiraparaentrar.EmdadomomentoAarondeuumpassoparatráselevantouamão.Call sentiuopuxãofamiliarsobascostelas. Aaronestavaprestesausarmagiadocaos.

—Calma—disseCall.—Não

Asensaçãodepuxãodesapareceu,masAaronlançouaeleumolharquequasemachucou.

sóseforabsolutamentenecessário.

—Oquevocêtemcontramagiadocaosderepente? Calltentoucolocarseuspensamentosdesorganizadosempalavras. —AchoqueusarmagiadocaosfazosMestresviremcorrendo—disseele.—Achoqueelespodem sentirdealgumaforma,aomenosquandoéaquidentrodoMagisterium. —Acheique tinhasidoabagunçade Skelmisemnossoquartoque fez comque aparecessemtão rápido—disseTamarapensativamente.—Maselesrealmentechegaramrápidodemaisparatersidosó umbarulho.Callpodeestarcerto. —Tudobem,então—disseAaron.—Oquevocêsugere? Passaram os dez minutos seguintes tentando abrir a porta de todos os jeitos que conseguiram pensar. Tamara lançou um feitiço de fogo, mas a porta nem se mexeu. E também não reagiu a congelamento,nema“abra-tesésamo”,nemaofeitiçodedestrancamentoqueTamaratinhausadonas jaulasdaviladaOrdemdaDesordem.Apenasficoualiparada,sendoaportaqueera. Etambémnãoreagiaachutes,Calldescobriu. — Sério? — disse Aaron, depois de terem esgotado as ideias. Os três estavam apoiados contra a

paredeoposta,suando.Aaronencarouopôster degatinhodaMestraMilagros.—Tantapreocupação comocofreenãoconseguimospassarnemdaporta. —Alguémpassoupelanossaporta—observouTamara. —Entãoépossível—disseCall.—Ou,pelomenos,deveriaser.Querdizer,sabíamosquenãoseria fácil. Essas portas são a segurança do Magisterium. Acenar uma pulseira qualquer realmente não deveriaabri-las.—Elepassouobraçonafrentedaportaparaenfatizar. Ouviu-seumclique. Tamaraautomaticamenteendireitouapostura. —Aportaacaboude ? Aarondeudoispassoslargospelocorredoreempurrouaporta. Abriucomfacilidade.Estavadestrancada. —Nãoestácerto.—Tamaranãopareciaestargostandodaquilo;pareciaincomodada.—Oquefoi isso?Oqueaconteceu?—ElavirouparaCall.—Vocêestásócomasuapulseiranormal?

—Callpuxouamangadablusatérmica.Eobservoulongamente.Suapulseira

estava no lugar, é verdade. Mas ele tinha se esquecido da pulseira que tinha subido pelo braço até a alturadocotovelo.

ApulseiradoInimigodaMorte. Tamararespiroufundo. —Issotambémnãofazsentido. —Vamoster quetentar entender maistarde—disseAarondaentrada.—Nãosabemosquanto tempotemosnoquartodela.—Elepareciaagitado,masmuitomaisfelizdoquehápoucosinstantes. CalleTamaraoseguiramparadentro,apesardeaexpressãodeTamaraaindaserdepreocupação. CallsentiuapulseiradoInimigoqueimaremseubraço.Porquenãoadeixouemcasa,comAlastair?Por que quis usá-la na escola? Ele detestava o Inimigo da Morte. Mesmo que de alguma forma fossem a mesmapessoa,eledetestavatudoqueConstantineMaddendefendiaetudoqueelehaviasetomado. —Uau—disseTamara,fechandoaportaatrásdeles.—Olhasóessequarto. OquartodeAnastasiaeraimpressionante.Asparedescintilavam,repletasdequartzos.Umgrosso tapete branco cobria o chão. 0sofá era de veludo branco, a mesa e as cadeiras eram brancas. Até os quadrosnasparedeserampintadosemtonsdebranco,cremeeprata. —Écomoestardentrodeumapérola—disseTamara,dandoumavoltacompleta. —Euestavapensandoqueécomoestardentrodeumabarradesabãogigante—disseCall.

—Sim,éclaro,eu

Tamara lançou a ele um olhar cansado. Aaron que, perambulava pelo quarto, olhou atrás de um armário de louças (branco e com louças brancas), atrás de uma prateleira (branca, cheia de livros envoltosemcapasbrancas),eembaixodeumbaú(branco)nochão.Finalmenteseaproximoudeuma grandetapeçariapenduradaemumadasparedes.Eratecidaemfiosnascorescreme,marfimepreto,e retratavaumamontanhabrancadeneve. LaRinconada?,Callficouimaginando.OMassacreGelado? Masnãodavaparatercerteza. Aaronpuxouatapeçariadelado. —Achei—disseele,levantandoetirandoapeçadolugar.Atrásdelahaviaumenormecofre,feito deaçoesmaltado.Atéissoerabranco. —Talvezasenhasejaalgumavariaçãodapalavrabranco? —sugeriu Aaron,olhandoaoredor do cômodo.—Édefinitivamenteapraiadela. Tamarafezquenão. —Seriafácildemaisalguémfalaressapalavrasemquereraquidentro. Aaronfranziuatesta. —Entãoderepenteooposto?Âmbar-negro?Ônix?Ouumacorbembrilhante.Rosanéon! Nadaaconteceu. —Oquesabemossobreela?—perguntouCall.—QueémembrodaAssembléia,certo?Ecasada comopaideAlex,cujosobrenomeéStrike,entãoobviamenteelanãousaonomedomarido.

— Augustus Strike — disse Tamara. — Ele morreu há alguns anos, mas já era muito velho. Ela vinhacuidandodascoisasdeleháanos,meuspaismedisseram.

esobreterfilhos—disseCall.—

Talvez elatenhase divorciado, masse nãofor isso, duaspessoasque se casaramcomela, morreram. Talvezelasejaumadessaspessoasquemataosmaridospelodinheiro.

— Uma viúva negra? — disse Tamara com desdém. — Se ela tivesse matado Augustus Strike, as pessoassaberiam.Eleeraummagomuitoimportante.ElaconseguiuocuparumacadeiranaAssembléia

porcausadele;antesdocasamentoelaerasóumafeiticeiraeuropeiadesconhecida. -—Vaiver queelasóéazarada—~disseCall.ElenãotinhasetocadodequeopaideAlexestava morto. Imaginou se os pais de Tamara tinham dissuadido Kimiya de namorá-lo graças à ausência de conexões. Agora, Alex e Kimiya pareciam próximos de novo, mas Call não sabia ao certo o que isso significava. —Alexander—disseeleemvozalta.—AlexanderStrike. Tambémnãoeraasenha.

— Sabemos exatamente de onde eles vêm? — perguntou Aaron. — A Europa é um lugar bem

grande. —França!—gritouCall.Nadaaconteceu. —NãogriteFrança,simplesmente!—Tamaraorepreendeu.—Existemváriosoutrospaíses. —Vamosdarumaolhadapeloquartoeveroqueconseguimosachar—disseCall,jogandoasmãos paraoalto.—Oqueaspessoasusamcomosenhas? Adatadopróprioaniversário? Dosaniversários dosbichosdeestimação? Tamara encontrou um caderno, de capa de couro cinza clara, sob uma pilha de livros. Continha anotaçõessobreasidasevindasdeguardas,nomesdeelementaiseumbilheteparcialmenteredigido paraaAssembléia,explicandocomoasmedidasdesegurançapoderíammelhorarnoMagisteriumeno CollegiumenquantoosMakarisaindafossemaprendizes. Tamarafoilendoqualquercoisaqueparecesseumasenha,masocofrenãosealterou.

—EelafaloualgumacoisasobreummaridoantesdeAugustus

Aarondescobriu ummontinhode fotos. Nelas, váriaspessoasde expressãoaustera, doisbebêse, paradaemumdoscantos, umamulher muitojovem, de cabeloescuroe usandoumvestidolargo. As fotoseramgranuladasenadanelaserafamiliar.Apaisagemerarural,comcamposdefloresatrásdeles. SeráqueumadascriançaseraAlex?Callnãosabiadizer.Elesempreachavatodososbebêsiguais. Nãohavianadaescritonosversosdasfotos.Nadaquepudesseajudá-losadescobrirumasenha. Por fim, Call olhou embaixo da cama. A essa altura ele estava começando a se sentir um pouco desesperado.Estavamtãopróximosdeconseguirachaveefalarcomoselementais,mas,cadavezmais, elecomeçavaaacharimpossíveldescobrirasenhadeumapessoaquemalconhecia. Haviaalgunssapatosbrancosdesaltobaixoeumúnicochinelocordecreme.Atrásdeleshaviauma caixa de madeira. Provavelmente era a única coisa no quarto que não tinha alguma variação da cor branca.Aochegarmaisperto,CallseperguntouseacaixaeramesmodeAnastasia.Talveztivessesido esquecidapeloantigoocupantedoquarto. Ele a empurrou para o outro lado e deu a volta na cama para inspecioná-la. Madeira gasta e dobradiçasenferrujadas—nemumpoucooestilodaocupanteatual. —Oquevocêencontrouaí? —perguntouAaron,indoparapertodeCall.Tamarasentouaolado deles. Calllevantouatampa eConstantineMaddenoencaroudevolta. Callsentiucomosetivesselevadoumsoconoestômago. EraConstantinenafoto,semdúvida.Eleconheciaaquelerostotãobemquantoconheciaopróprio, pordiversosmotivos. Constantinenãoestavatotalmentevisível.Metadedorostoerajovemeaindabonita.Aoutraestava cobertaporumamáscaradeprata.NãoeraamesmaqueoMestreJosephusouumdiaparaenganara todossepassandopeloInimigo.Essaeramenor—escondiaasterríveisqueimadurasqueConstantine tinhasofridoaoescapardoMagisterium,masissoeratudo. Constantineestavadepénomeiodeumgrupodemagos,todoscomomesmouniformeverde.Call sóreconheceuumdeles:MestreJoseph.Eletambémestavamaisjovemnafoto,oscabeloscastanhos emvezdegrisalhos. Os olhos acinzentados e nítidos de Constantine encararam Call. Era como se sorrisse para ele atravésdosanos.Sorrisseparasimesmo. —EsseéoInimigodaMortedisseAaroncomavozbaixa,inclinando-sesobreoombrodeCall. —EMestreJoseph,eváriosoutrosseguidoresdeConstantine—disseTamara,comavozbaixa.— Reconheçoalgunsdeles.Estoucomeçandoaacharque —QueAnastasiaTarquinfaziapartedogrupo?—perguntouCall.—Definitivamentetemalguma coisaestranhaacontecendo.ApulseiradoInimigoabriuaporta,elatemfotosdele —PodeserqueelaestejaguardandoessasfotosnãoporcausadeConstantine—disseTamara—, masserporcausadequalquerumadessaspessoas. Callficoudepéesuaspernaspareciambambas.Comasmãosempunhojuntoàslateraisdocorpo, eleencarouocofre. —Constantine—disseele. Nadaaconteceu.TamaraeAaronficaramondeestavam,olhandoparaCallmeioagachadossobrea caixaabertadeAnastasia.AmbostinhamamesmaexpressãoaquelaqueCallentendiacomoTendoque LidarcomoFatoDequeCallEMau.Amaiorpartedotempoelesconseguiamignorarouesquecerquea almadeCalleraadeConstantineMadden. Masnemsempre.

Call pensou nos seguidores do Inimigo da Morte. O que os havia atraído para Constantine? A promessadevidaeterna,deummundosemmorte.Apromessadequetodaperdaseriarevertidaetoda dor apagada. Uma promessa que o Inimigo fez a si mesmo quando seu irmão morreu e que depois estendeuaosseusseguidores.Callnuncatinhaexperimentadoumaperdadeverdadeenãoconseguia imaginarcomoseriaisso—elesequerlembravadamãe—,masdavaparaimaginarotipodeseguidores que Constantine semdúvidaatraía. Pessoasde luto, ou que temiamamorte. Pessoasparaasquaisa determinaçãodeConstantineemrecuperaroirmãoteriasidoumsímbolo. Anastasiatinhaperdidováriosmaridos,afinal.Talvezquisesseumdelesdevolta. Callergueuamão,olhouparaapulseiradoInimigo,edepois,novamente,paraocofre. —Jericho—disseele. Ouviu-seumclique,eocofreabriu. Call, Tamara e Aaron ficaram imóveis com o som. Estava destrancado. Eles conseguiriam descer

para ver os elementais. Oplano tinha dado certo. No entanto, Call ainda estava nervoso o suficiente paraquesuasmãostremessem. Anastasia parecia uma pesssoa gentil e não assassina, mas mesmo assim, ou ela estava tentando matá-lo,ouestavaaoseuladopormotivoshorríveis.Elenãogostavadenenhumadasopções.

— Então melhor conjurar fogo na tranca — disse Tamara. — Antes que a elemental cobra

venenosasaia. —Ah,sim.—Callvasculhou seuspensamentostentandoorganizá-los.Estalandoosdedos,criou umachama.Emseguida,aproximando-sedaaberturadocofre,fezachamacresceremumalinhalonga efina;comoumaflechasemarco.Elelançouachama,quechioubrevemente,parecendoseexpandir,e finalmente explodiu no espaço diminuto da abertura. Call não sabia dizer se havia um elemental ali dentro, encolhendo-se. Será que tinha lançado fogo o suficiente para destruí-lo? Será que a criatura tinhasidodissipadaousimplesmentedeslizadoparaalgumcanto? Callesticouobraçoparaenfiá-lonoburaconocofre. Nãohesite,disseasimesmo.Nãosemovarápidodemais.Sevirumacobra,éumailusão.

Seusdedosesticaramnomomentoemqueouviuarespiraçãodealguématrásdesi. —Call—disseAaronemalerta—,nãovárápidodemais. A cabeça da cobra deslizou para fora do buraco quando a mão de Call passou por ele. Era de um verde tóxico, os olhos negros como duas gotículas de tinta derramada. Uma pequena língua laranja apareceu,farejandooar. Os pelos nos braços de Call ficaram arrepiados. A pele retesou com a sensação de uma cobra

deslizando sobre ela, fria e seca. Era uma ilusão? Não parecia uma ilusão. Todos os músculos do seu corposecontraíramquando,contratodososseusinstintos,elefoimaisfundonocofre.Apalpou por uminstante,espiraisdoquepareciaserumacordalisa. Callestremeceuinvoluntariamente.Foradocofre,acobracomeçouasubirpeloseubraço.

— Anastasia não teria mentido para os Mestres, teria? — perguntou Call com uma voz apenas

ligeiramentevacilante.—Issoéumailusão,certo? —Mesmoquenãoseja,nãoachoquevocêdevaassustá-la—disseTamaraemtomassertivo,mas parecendonervosa. —Tamara!repreendeuAaron.—Call,temoscerteza.Éumailusão.Continue.Estáquaselá. Aaron provavelmente deveria ter sido o encarregado de fazer isso, Ca 11 pensou. Aaron definitivamentenãoestariacogitandosoltarumgritinhoagudoecorrersemsequersepreocuparcomo alarme. Mas junto comesse pensamento vinha uma pontinha de dúvida. Se Aaron o quisesse morto, que

jeitopoderiasermaiseficazdoquemandá-lofazeralgumaestupidez?Oquepoderiasermelhordoque

encorajá-loasercorajosoetolo?

Não,Calldisseasimesmo,Aaronnãoéassim.Aaronémeuamigo.

AcobratinhachegadoaopescoçodeCall.Entãocomeçouadaravoltanele,transformando-seem

umcolar

ouemumnó.

Nesse momento o dedo de Call tocou o que pareceu uma chave. O metal denteado pareceu frio

contraapele.Elefechouamãoaoredordoobjeto.

—Peguei.Euacho—disse,começandoaretiraramão.

—Devagar!—ordenouAaron,quaseofazendosaltar.

EleolhoufixamentenadireçãodeAaron.

—Estouindodevagar!

—Estamosquaselá—disseTamara.

ObraçodeCallemergiudocofreedepoisamão,achavedentronela.Assimqueestavalivre,acobra

desapareceuemumalufadadefumaçamalcheirosa,eocofresesoltou.

Conseguiram.Estavamcomachavedebronze.

Conseguiram.Estavamcomachavedebronze. Fecharam a porta do quarto de Anastasia tão rápido quanto

Fecharam a porta do quarto de Anastasia tão rápido quanto puderam e se apressaram para a passagem profunda do Magisterium onde ficavam os elementais. Call olhava o tempo todo para trás, nervoso, quase esperando que Rufus ou um dos outros Mestres tivessem descoberto o que estavam fazendoeestivessemvindoatrásdeles. Masnãohavianinguém.Oscorredoresestavamquietos,eficaramaindamaissilenciososàmedida que as pedras ao redor deles iam ficando mais lisas, as paredes e o chão transformando-se num mármoretãopolidoquechegavaaser escorregadio.Passarampor maisportastalhadascomsímbolos alquímicos,masdessavezCallnãoparouparaolhá-las.Estavamergulhadoemreflexõesarespeitode AnastasiaTarquin,dafotoemseuquarto.PensavaemMestreJoseph.SeráqueAnastasiaTarquinera umadesuasservas?SeráqueelaeraaespiãdoMagisteriumeestavacuidandodeCallporque—apesar detodososacontecimentos—eleaindaeraoEscolhidodoMestreJoseph,aalmadoInimigodaMorte? Tamara parou diante de uma porta enorme feita com os cinco metais do Magisterium — ferro, cobre,bronze,prataeouro.Brilhavasuavementeàluzambientedocorredor.Elavirouparaolharpara CalleAaroncomumaexpressãodeterminada. —Deixemqueeucuidodisso—disse,ebateuumavezàporta,comforça. Apósumalongapausaaportaabriu.UmdosjovensguardasdequemCallselembravaolhoupara Tamaracomdesconfiança. — O que está acontecendo? — perguntou ele. Parecia ter mais ou menos dezenove anos, com cabelopretobagunçado.OsuniformesdoCollegiumeramazul-escuros,comlistrasdediferentescores namanga.Calldesconfiavaqueelassignificassemalgumacoisa;tudonomundodosmagossignificava. —Oquefoi,garota? FoiadmirávelaformacomqueTamaraconseguiuconterairritaçãoemserchamadade“garota”. —OsMestresqueremfalarcomvocê<*hdisseela.—Disseramqueéimportante. Omeninoaumentou aaberturadaporta. Atrásdele, Callpôde ver aantessala, comseu sofáe as paredesvermelho-escuras.Otúnelqueseestendia.Seucoraçãoacelerou.Estavammuitoperto. —Eeutenhoqueacreditarnisso?—perguntouoguarda. PorqueosMestresiriamquererqueeuabandonassemeuposto?Eporquemandariamumapessoa

insignificantecomovocê? AarontrocouumolharcomCall.SeogarotodoCollegiumnãoseacalmasse,Callpensou,acabaria nochão,comabotadeTamaranopescoço.

— Sou assistente do Mestre North — disse Tamara. Ele pediu para que eu entregasse isso. —

Tamara entregou a pedra--guia. Os olhos do menino ficaram arregalados. — Irá levá-lo ao local da reunião; querem que você apresente provas sobre as proteções desse local. Do contrário, pode se encrencar,ouasuachefepodeseencrencar. Omeninopegouapedra-guia. —Nãofoiculpadela—disseele,soandoressentido.—Nemdosguardas.Aqueleelementalveiode outrolugar. —Entãovailácontarissopraeles—disseTamara. Agarrandoapedra-guia,oguardafechouaportaatrásdesi,e Callouviuosestalosdedezenasdetrancasenquantoelasentravamnolugar. —Deemoforadaqui—disseele,olhandobrevementeparaostrês,edepoisseguiupelocorredor. Quandooguardasumiudevista,Callpegouachavenobolso. Haviaumpontonaimensaportanoqualelaseencaixavaperfeitamente,eaosercolocadaali,um traçadodesímboloscomeçouabrilharportodaaporta.PalavrasqueCallnuncatinhavistonavidase revelaram:nemcarne,nemsangue,masespírito.EnquantoCalltentavaentenderoquesignificavam,a portaabriuparadentro. Eles entraram, passando rapidamente pela antessala até o corredor vermelho-escuro. Era curto e levavaaumsegundopardeportasimensasealtíssimas,comoasdeumacatedralgigantesca. Masnessastambémhaviaumencaixe,umburaquinhoquasepequenodemaisparasernotado.Call engoliuemsecoecolocouachavedebronzeali.Asportasabriramcomumronco. Ostrêsentraram. Callnãosabiaoqueesperar,masosúbitocalordorecintoosurpreendeu.Oarestavacarregadoe tinha um cheiro azedo e metálico. Parecia haver uma enorme fogueira ardendo, mas não se via fogo

algum. Dava para ouvir água correndo ao longe e, mais perto, o rugido de chamas. Portais em arco escavados na pedra levavam a cinco direções diferentes. Na pedra também se liam talhadas algumas palavrasconhecidas:Ofogoquerqueimar,aáguaquercorrer,oarquerlevitar,aterraquerunir,ocaos querdevorar. —Qualcaminho? Aarondeudeombros,depoisgiroucomumbraçoesticadoqueapontavaaleatoriamente,comoum cata-vento. —Aquele—disseelequandoparou.Oarcoparaoqualapontavapareciaoidênticoaosoutros. —Warren?—Callchamoubaixinho.Pareciaumpalpitearriscadoacharqueolagartinhopoderia ouvi-lo daqui, mas Warren já tinha aparecido em lugares estranhos e horários esquisitos anteriormente.—Warren,precisamosdasuaajuda.

— Não tenho certeza disso — disse Tamara, indo na direção que Aaron escolheu. — Não confio

nele.

— Ele não é tão ruim assim — disse Call, embora não conseguisse deixar de pensar em como

WarrenostinhalevadoaMarcus,oantigoMestredoMestreRufus,agoraumdosDevorados,atraído peloelementodofogoaousardemaisoseupoder.Aindaassim,Marcusnãoosmachucou.Sóassustou. Passado o portal, o caminho estava na penumbra. Não parecia ser um corredor. Estava mais um espaçovaziocompedras derrubadas, cortadopor umatrilhaque levavaamais escuridão. Haviauma tochaemumaparede,queimandoemumaluzverde;Aaronapegouefoinafrente,comCalleTamara

logoatrás. Atrilhadesciaesetornavaumressaltosobreumburacofundo.OcoraçãodeCallcomeçouabater forte.Elesabiaquehaviagrandeselementaispresosali,sabiaqueteoricamenteosmagosconseguiamse aproximarsemserdevorados—eexatamenteissopermitiaoaprisionamentodessascriaturas.Masà luzfracadatochadeAaron,Callnãoconseguiadeixardeterasensaçãodequeestavamseaproximando datocadeumdragão,enãodeumconjuntodecelas. Um pouco mais adiante havia uma alcova na parede. Dentro dela pairava uma serpente alada, cobertadepenascordelaranja,vermelhaseazuis,brilhantesmesmonoescuro. —Oqueéisso?—CallperguntouaTamara. Elabalançouacabeça. —Nuncaviantes.Pareceumelementaldoar. —Devemosacordá-la?—sussurrouAaron. Elesdevemestarpresosporcorrentes,certo?,Callpensou,masnãoviu nenhuma.Nembarrasde prisão,nemnada.Sóeleseumelementalmortíferoapoucosmetrosdedistância.

—- Não sei respondeu Call, sussurrando. Call vasculhou o cérebro, pensando nos monstros dos livrosquejátinhalido,masnãoconseguiapensaremcomoessesechamava. Umdosolhosdacriaturaabriurevelandoumapupilagrandeepreta;aíris,emumtomintensode roxo,tinhaformatodeestrela. —Crianças—sussurrouacriatura.—Eugostodecrianças. Aparte“nocafédamanhã”nãofoidita,maspareceubemclaraparaCall. —EusouChalcon.Vierammecomandar?—AansiedadecomqueperguntoudeixouCallnervoso. Elequeriacomandá-la.Queriaforçá-laacontaraeletudooquesabia;ou,melhorainda,aencontrare devoraroespião.Maselenãosabiaaocertoqualseriaopreçodisso.Setinhaumacoisaqueaprendeu durante oseu tempode Magisterium, eraque criaturasmágicaseramaindamenosconfiáveisdoque magos. —-Sou Aaron. — Típico de Aaron se apresentar educadamente para uma serpente flutuante. — EstessãoTamaraeCall. —Aaron—Tamaradisse,entredentescerrados. —Estamosaquiparainterrogá-lo—prosseguiuAaron.

— Interrogar Chalcon? — repetiu a serpente. Call ficou se perguntando se a criatura seria

inteligente.Definitivamenteeragrande.Inclusive,Calltinhaaimpressãodequeestavamaiordoquehá poucossegundos. —Alguéminvadiuesselugarrecentementeelibertouumdevocês—disseAaron.—Vocêfazideia dequempossatersido? — Libertou — repetiu Chalconmais uma vez. — Seria bomser livre — disse, e então inflou um poucomais. Calltrocou umolhar ansiosocomTamara. Chalcondefinitivamente estavaaumentando. Aaron, comatochaerguidadiante dacriatura, pareciamuitopequeno. — Se libertaremChalcon, ele contatudoquesabe. Aaronergueuumasobrancelha.Tamarabalançouacabeça. —Nempensar—disseele.

Houve uma batida alta. Chalcon tinha arremetido contra eles de repente, os olhos de estrela ardendo vermelhos de raiva. Aaron deu um salto para trás, mas a serpente se debatia contra uma barreirainvisível,comoseumalinhadevidroosseparassem.

— Essa coisa não vai nos contar nada — disse Call, chegando para o lado. — Vamos tentar encontraroutroelemental.Alguémmaisdispostoacolaborar.

Chalconrosnouquandoseafastaramdasuacela.Issoéumacela,afinal,não?,Callpensou,mesmo quenãotenhaportaoubarras.Sentiu-seumpoucomalpelacriaturaalada,feitaparavoar,masque,em vezdisso,estavapresaaquiembaixo. É claro que, se estivesse livre, Chalcon provavelmente fisgaria Call e o comeria como um falcão caçandoumrato. Elesdesceramparaumespaçomaior—umenormesalãocheiodealcovas,cadaumaaprisionando emelementaldiferente.Criaturasgritaramebateramasasas. —Elementaisdoar—disseTamara.—Sãotodoselementaisdoar;asoutrasentradasdeviamlevar aosdemaiselementos. —Aqui—disseAaron,apontandoparaumacelavazia.—-EraaquiqueestavaSkelmis;onomedele estámarcadonaplaca.Entãooselementaisdaquidevemtervistoalgumacoisa. Call foi até uma das celas. Nela, uma criatura com três grandes olhos castanhos em longos pedúnculoseumcorpoquemaispareciamiasmaolhouparaele.Elenãosabianemseaquilotinhauma boca.Nãopareciater. —VocêviuquemlibertouSkelmis?—perguntouCall. Acriaturasimplesmenteoencarou,flutuandosuavementenaprisão.Callsuspirou. Tamara foi até uma cela que abria em um enorme espaço onde três elementais que pareciam enguiasnadavampeloar.EramosmesmoselementaisquecarregaramCall,Tamara,AaroneJasperde volta do túmulo do Inimigo da Morte em suas barrigas, só que bem menores agora. Talvez todos os elementaispudessemalterarseustamanhos,comoChalcon. Lembrar-se de ter voado dentro de elementais também fez com que Call se lembrasse de onde Jasper estavaagora.Emumencontro.ComCélia.Quequasecomcertezanãoestavatentandomatar Call,masquetambémtalveznãofossemaissuaamiga. —Todososelementaisdoarsãomuitoburros?—perguntouCall,eairritaçãocomJasperestava claraemsuavoz.TinhampoucotempoatéqueosMestresdescobrissemquemtinhaenviadooguardae surgissemnacripta,acabandocomtodaaoperação.Senãotivessemnadaatéessemomento,aencrenca teriasidoatrocodenada. —Pegoupesado—disseAaron. —Sim,masparecejusto.—Tamaraobservavaosmovimentosplácidosdascriaturasquepareciam enguias.—Vamostentaroselementaisdaterra.Elessãomaisamigáveis. Voltaram pelo caminho, passaram por Chalcon, que os encarou com um olhar faminto enquanto emitia um chiado sinistro. A perna esquerda de Call parecia cravada de facas. Eles tinham andado bastante,massubir aladeirafez seusmúsculosqueimarem.Quandochegaramaocorredor principal, apesar de ser o autor do plano, ele meio que teve vontade de desistir. Tamara examinava a pedra, tentandoversehaviamarcasindicandoqualentradalevavaaoselementaisdaterra.Aaronestavacoma testafranzida,comoseestivessetentandomontartodoessequebra-cabeça. — Eu os ouço aí, aprendizes — disse alguém da entrada mais distante, uma voz que parecia sinistramentefamiliar.—Venhammeencontrar. Callcongelou.Seriaoespião?Seráquetinhamencontradoapessoaqueoqueriamorto? Aarongiroucomatocha.Aentradaestavavazia,oespaçoalémbrilhavaemumpreto-avermelhado muito intenso, parecido com o tom de sangue há muito derramado. O corredor parecia cheio de sombrasameaçadoras. —Conheçoessavoz—-sussurrouTamara.Estavacomosolhosarregalados,aspupilasenormesna escuridão. — Venham me encontrar, crianças de Rufus — disse novamente a voz. — E eu lhes conto um

segredo. Sobobrilhoesverdeadodatochaqueseguravaacimadacabeça,Aaronpareciadeterminado.Ofogo emsuamãoestalava. —Poraqui—disseeleefoicorrendoemdireçãoaosom,comTamaralogoatrás. Éissoqueosheróisfazem,Callsupôs.Corremdiretoparaoperigoenuncadesistem.Callqueria desesperadamente ir na outra direção, ou simplesmente deitar e segurar a perna até que parasse de doer,maselenãodeixariaAaroneventualmentelutarsemseucontrapeso. Aaronnãoeraseuinimigo. Callarfouumavez,tentandoignorarador,eentãofoiatrásdeles. Ficouimediatamenteclaroparaqualelementotinhamido.Umcaloropressorexplodiadaentradae docorredoralém.Asparedeseramfeitasdepedrasvulcânicasendurecidas,negrasecheiasdeburacos endentados.Orugidodofogooscercava,comamesmaexplosãoeimpactodeumacachoeira. Aaronestavanomeiodocaminhoparaosalão,comTamaraaoseulado.Eletinhaabaixadoamão queseguravaatocha,apesardeaindaprojetarumaestranhaluzesverdeadasobreeles. —Call—disseAaroncomumtomestranhonavoz.—Call,vemaqui. Callavançou mancandopelosalão,passandopor diferentescelasqueencarceravamelementaisdo

fogo. As jaulas não eram fechadas por paredes claras, mas por barras douradas enterradas fundo na terra. Atrás delas dava para ver as criaturas feitas de algo que parecia sombra negra e com olhos ardentes. Umadelaseraumcírculode mãosemchamas. Outraeraumaglomeradode anéisde fogo, flutuandoepulsandonoar. Ocaloreratãoopressorque,quandoCallalcançouAaroneTamara,suacamisaestavaensopadade suor e ele estava prestes a desmaiar. Mas ainda assimconseguiu ver imediatamente por que Aarone Tamaraestavamimóveis.Estavamolhandofixamenteatravésdasbarrasdeumajaula.Ládentro,um mardechamase,nocentro,umagarotaflutuava.

— Ravan? — disse Tamara com uma voz falha que Call jamais havia escutado. C-como você está

aqui?

Ravan.Callsentiuumchoquedehorroratravessá-lo.RavanerairmãdeTamara.Elesabiaqueela

tinhasidoengolidapeloselementais, tornando-se umdosDevorados, masjamaislhe ocorreu que ela estivesseaqui.

— Onde mais eu estaria? — perguntou a menina em chamas. — Eles mentem para nós, sabe?

DiziamqueessamagiazinhadenadaqueaprendemosnoMagisteriumétudoquepodemosfazer,mas soumuitomaispoderosaagora.Nãoinvocomaisofogo,Tamara.Eusoufogo.—Asírisdosolhosdela piscavamedançavamcomoqueinicialmenteCallachouquefosseoreflexodaschamas.Atéperceber quehaviafogoportrásdosolhosdelatambém.—Éporissoquetiveramquemetrancar.

— Uma bela reunião de família — disse uma voz do outro lado da sala. Call virou. Marcus, o

Devorado,olhavaparaelesdeumajaulaquaseidêntica,sorrindo.—CallumHunt—dissecomsuavoz estalada e rugida. —- Aaron Stewart. Tamara Rajavi. Cá estão. Parece que nem todas as minhas profeciassecumpriramainda,nãoémesmo? CallselembroudaspalavrasdeMarcusdedoisanosatrás,umterrívelecodosseusmedos:umde vocêsiráfracassar.Umirámorrer.Eumjáestámorto. Elessabiam,agora,qualdelesjáestavamorto:Call.EletinhamorridocomoConstantineMadden. Jáestámorto.Aspalavraspairavamnoar,umaprovaterríveldequeMarcustinhaditoaverdade. —Marcus.—Aaronfranziuorostoparaele.—Vocêdissequetinhaumsegredoparanós. TamaranãoconseguiadesviarosolhosdeRavan.Seusdedosalcançaramamãoemchamasdairmã, comoseelanãoconseguisseaceitarqueelanãoeramaishumana.

Marcusriueofogoemtornodelesaltouedançou,subindodeformavulcânica.AtéTamaravirou paraver,puxandoamãodepressa,comosesóagorativessepercebidooqueestavaprestesafazer. —VocêprocuraaquelequelibertouAutomotoneseSkelmis,não?—perguntouMarcus.—Oque estátentandomatarCallum?Poissãoamesmapessoa. —Sabemosdisso—disseAaron.—Digaquemé.

— Não vão gostar da resposta. — Marcus sorriu umsorriso de fogo. — É omaior Makar da sua geração. Tamarapareceuaindamaisabalada. -—AaronestátentandomatarCall? AspalavrasatingiramCall,fazendo-osentircomosetodooartivessedeixadoorecinto.Aaronnão

podia ser o espião. Mas ao ouvir as palavras de Marcus, Callse sentiu tolo. Eramdestinados a serem inimigos. Aaron era destinado a ser o herói, e Call a ser o vilão. Simples assim. Ele nunca tinha tido amigoscomoAaroneTamaraantes,eàsvezesCallficavaimaginandoporquegostavamdele.Talveza respostafossesimples.TalvezAaronnãofossedefatoseuamigo.

— Não! — disse Aaron, abrindo os braços em um gesto que quase apagou a chama da tocha. —

Obvioquenãoestou! —Entãoeuestoutentandomematar?—perguntouCallaAaron,semconseguirbotarparaforao que estava pensando. — Isso não faz o menor sentido. Além disso, é impossível alguém me achar o maiorMakardaminhageração. —Vocênãoacharealmentequequerotefazermal,acha?—perguntouAaron.—Depoisdetudo, tudo,queaprendisobrevocêetivequeaceitar —Talveznãotenhaaceitado! —Olustrequasecaiuemmimtambém!—gritouAaron. —Abramminhajaula—disseRavanparaTamara,comorostopressionadocontraasbarras.—A minha e de Marcus, e vamos ajudá-los. Você me conhece, Tamara. Posso ser uma criatura diferente agora,masaindasousuairmã.Sintosuafalta.Deixequeeumostreoqueseifazer.

—Vocêquerajudar?—perguntouAaron.—FaçaMarcuscontarquenãosouoespião!

— Acalmem-se todos vocês! — disse Tamara, voltando o olhar para o Mestre Devorado e depois paraairmã.—Nãosabemosquantodissotudoéverdade.TalvezMarcusestejainventando.Talvezele sóqueiraoquetodososelementaisaquiquerem:umpassedesaída.

— Você achaque issoé tudoque eu quero? — Ravancolocou amãonoquadril. — Você se acha

ótima,Tamara,maséigualaopapai.Achaquepor quebrar asregrasenãoser responsabilizada,pode

julgartodosquenãotêmamesmasorte.—E,ditoisso,Ravanfoidominadapelofogo,transformando-

seemumpilarflamejanteecaindoparatrássobreaschamas. —Não,espere!—disseTamara,correndoparaaceladairmã,agarrandoasbarrasquentesporum instantededesespero,apesardeCalltervistoapeledesuaspalmasrosadaquandoelasoltou.Tinhase queimado.—Nãoquisdizerisso!Volte! Ofogooscilou,masnãosecondensouemnenhumaformahumana.SeRavanaindaestavalá,não conseguiamidentificá-lanaschamasdançantes. —Seiquenãovãomesoltar,meuspequenosaprendizes,aindanão,apesardeeupoderlhesensinar muita coisa. Ensinei Rufus bem, não foi? — Havia algo de faminto no olhar de Marcus que tomava difícilolhardiretamenteparaorostodele.—Bem,e,noentanto,nãotãobemassim.Elenãoenxergao queestábemembaixodonarizdele. Seu olhar estava fixo em Call, que estremeceu. Ele não conseguia olhar para Tamara e Aaron. EncarouMarcus.

—VocêestánoMagisteriumhámuitotempo—disseele. —Obastante—disseMarcus. EntãovocêconheceuConstantine?OInimigo?

— Inimigo de quem? — respondeu Marcus com desdém. — Meu é que não é. Sim, conheci

ConstantineMadden.Euoalertei,exatamentecomofizcomvocês.Eelemeignorou,exatamentecomo

vocêsfizeram.—ElesorriuparaCall.—Eincomumveramesmaalmaduasvezes.

— Mas ele não era como eu, era? — perguntou Call. — Quer dizer, somos completamente diferentes,nãosomos? Marcusapenassorriuseusorrisofamintoeafundounaschamas.

CAPÍTULOONZE ElesjátinhamquasechegadonocorredorquandoosMestresentraramexplodindonasaladosguardas, com mágica ardendo

CAPÍTULOONZE

ElesjátinhamquasechegadonocorredorquandoosMestresentraramexplodindonasaladosguardas,

com mágica ardendo das mãos. Estavam de olhos arregalados, prontos para o combate. Ao verem Tamara, Aarone Call, abolabrancade energiaflutuandonafrente doMestre North escorregou e se partiunochãoemumbanhodefaíscas. —Aprendizes—demandou.—Oqueestãofazendoaqui?Expliquem-se! MestreRufusavançou,agarrandoocolarinhodeAaroncomumadasmãoseodeCallcomaoutra.

— Dentre todas as coisas imprudentes e ridículas que vocês já fizeram, essa, essa foi a pior! Colocaramnãosóasprópriasvidasemrisco,masadetodooMagisterium. Tamara,queaindanãoestavasendoarrastadapeloMestreRufus,ousoufalar. —AchamosqueumdoselementaispudessesaberquemsoltouSkelmis.Seiquenosfezprometer quenãoinvestigaríamos,masissofoiantesdeCallseratacado! MestreRufuslançouumolharparaelaquefezCalltemerquepudesserealmentequeimarapele.

— Então invadiram o quarto de um membro da Assembléia e roubaram uma coisa de um cofre

trancado?Algoquepoderiatersidoroubadodevocês?Consideraramessahipótese? —Hum—disseTamara,semterumarespostaboa. —Ah,nãosejatãodurocomeles—disseAnastasia,comavoztãòfriaquantosempre.Comcerteza elasabiaquetinhamencontradosuasfotoseadivinhadosuasenha,masaindaassimpareciainabalada, como se não tivesse motivo para se sentir culpada ou com medo. — É difícil quando alguém está caçandoagente,nossentimosdesamparados.Eelessãoheróisafinal,nãoé?Deveserduasvezesmais difícilparaheróis. Mestre Rufus estremeceu quando ouviu a palavra caçando, mas não diminuiu a força com que seguravaCalleAaron. Tamara observava Anastasia. Call percebeu que ela estava tentada a dizer algo a respeito do que tinhamencontradonoquartodeAnastasia,maseradifícilsecolocar contraaúnicapessoaqueestáa seu lado. Além disso, Tamara ainda estava perturbada por ter visto a irmã, trancada como uma elementalqualquer.

— Não podemos deixar isso passar — disse Mestre North. — Disciplina é importante para aprendizesemagosemgeral.Vamosterquepuni-los. AmãofriadeAnastasiaafagouabochechadeCall.Elesesentiuligeiramentecongelado. —Amanhãaindaétempo,certamente—disseela.—Eufuiaofendida,afinal.Mereçoteralguma

voz.

—Voulevaressestrêsatéoquartodelespessoalmente—disseMestreRufus.Agora. Comisso,elearrastouCalleAaronparaosportões.Tamarafoiatrás,provavelmentefelizpelofato deMestreRufussóterduasmãos.CallolhouparaAnastasia;estavajuntoaosoutrosmagos,massem interagir com eles. Seu olhar estava fixo em Aaron, com um fascínio que fez o estômago do garoto revirarsemqueelesoubesseexatamenteomotivo.

do garoto revirarsemqueelesoubesseexatamenteomotivo. Call temia que a qualquer momento Mestre Rufus explodisse

Call temia que a qualquer momento Mestre Rufus explodisse pela porta, aos gritos por terem

invadidoacriptadoselementais.Dormiuinquietoanoitetoda.Acordouváriasvezesengasgando,mão nopeito,saindodeumsonhoemquealgoqueelenãoconseguiaverestavaprestesacairemcimadele. Devastação,quetinhadesistidodedormirnoúltimoquarto,lambeuospésdeCallsolidariamente cadavezqueelegritou.Eraumpouconojento,masreconfortante. Quandooalarmetocou,pormaiscansadoqueestivesse,Callficouquasealiviadopornãotermais quelutarcontraosono.Bocejando,vestiuouniformeefoiparaasalacompartilhada.Devastaçãovinha logoatrás,ansiosoporumpasseio. Tamaraestavasentadaemumbraçodosofá.Estavaderoupãodebanhoetoalhanacabeça.Aaron estavaaoladodela,comacabeloarrepiadodanoitedesono.AoladodelesnosofáestavaMestreRufus, comorostosério.ClaramenteestavamesperandoCallaparecer. Bem,elejáimaginavaqueissofosseacontecer.Sentou-sepesadamenteaoladodeAaron. —Sabemqueoquefizeramontemànoitefoiimperdoável—disseMestreRufus.—Invadiramo quarto de uma integrante da Assembléia e mandaram o guarda para longe do portão da prisão dos elementais; um menino que, por sinal, caiu em uma fenda e quebrou a perna. Se isso não tivesse acontecido,euteriaencontradovocêsbemantes. —Elequebrouaperna?—perguntouAaron,parecendohorrorizado. —Issomesmo—disseMestreRufus.—ThomasLachmanagoraestásoboscuidadosdoMestre Amaranth na enfermaria. Por sorte um aluno o viu. Estava quase inconsciente no fundo de um desfiladeiroseco.Comopodemimaginar,apósadescobertadessafatoareuniãodosMestresdesandou. Senãotivéssemostidoessadistração,aaventuradevocêsnodomíniodoselementaisteriasidoainda mais curta do que foi. — Ele olhou friamente para os três. — Quero que saibam que eu os responsabilizopelosferimentosdorapaz.Seeletivesseficadomaistempolá,poderiatermorrido. Tamarapareciaarrasada.Foielaquedeuapedra-guiaaThomas.

—Masnós

nósandamospelascavernasotempotodoenuncaacontecenada.

AexpressãodoMestreRufusficouaindamaisséria. — Ele não foi aprendiz aqui. Anastasia o escolheu por ser de fora, por ter sido educado em um Magisteriumdiferente.Sendoassim,elenãotinhafamiliaridadecomascavernascomovocêstêm. Espontaneamente, Callse lembrou dos alertas de seu paisobre oMagisteriume as cavernas: não tem luz lá embaixo. Nem janelas. O lugar é um labirinto. Você pode se perder e morrer e ninguém jamaisficariasabendo. Bem,aomenosAlastairseenganouquantoaisso,porqueencontraramThomas.

—Sentimosmuito—disseCallcomsinceridade.DeumjeitoqueRufustalveznãoentendesse,ele lamentavateridoatéascriptas.QuerianuncaterouvidoMarcusdizerqueapessoatentandomatá-lo eraomelhorMakardageraçãodeles.QueriaqueTamaranãotivessevistoairmã,oupelomenosoque restou dela.Elanãochorou eficou terrivelmentecaladaquandooMestreRufusosdeixou noquarto apóspuxá-losdevoltadasaladosguardas.Foiparaopróprioquartoetrancouaporta.CalleAaronse entreolharamporummomentoantesdeiremparaasprópriascamas. —Sentimosmuitomesmo.—disseAaron. —Nãoéparamimqueprecisamdizerisso—disseRufus.—Anastasiajáconsiderouocastigode vocêsedecidiuquedevempassarnoquartodelaesedesculparpessoalmente.—Eleergueuamão,já impedindoqualquercomentário.—Eusugeririaqueofizessemestanoite.Deramsortedeescapartão fácil. Fácildemais,Callpensou,enãofoisorte.

fácil. Fácildemais,Callpensou,enãofoisorte. Quando Call, Aaron e Tamara entraram no refeitório, um

Quando Call, Aaron e Tamara entraram no refeitório, um burburinho percorreu o recinto. Aprendizes que estavamenfileirados para encher suas vasilhas comlíquen, cogumelos e chá amarelo apimentadocongelarameficaramencarandootrio. — Oque está acontecendo? — sussurrou Tamara à medida que se apressavam em direção à sua mesahabitual.Soueuouestãotodosagindodeumjeitobizarro? Callolhou emvolta. Alexolhavaparaeles de umamesacheiade alunos doAnode Ouro. Acenou brevementeedepoisolhouparabaixo,paraopróprioprato.Kai,RafeeGwendatambémencaravam— GwendaapontouparaCéliaedepoisparaAaron,oquenãofezomenorsentido.QuantoàprópriaCélia, estava sentada com Jasper, de mãos dadas com ele sobre um prato do que pareciam ser folhas molhadas.Pareciamnãoterolhosparamaisninguém. —Achoquenemseimaisoqueénormal—disseAaronbaixinho!—Achaquesabemsobreanoite passada?Queinvadimosaprisãodoselementais? —Nãosei—respondeuCall.EmcircunstânciasnormaiseleteriaidoeperguntadoaJasper,mas aqueleJasperapaixonadopareciaincapazdequalquercoisaquenãoolharparaCélia,dizercoisastolase babarumpouco. Call se perguntou por quanto tempo Jasper seria um idiota apaixonado. Ficou imaginando se a mesmacoisateriaacontecidocomelesetivesseidonoencontroemvezdeJasper. — Vamos simplesmente sentar — disse Tamara, mas sua voz não estava firme. Ela estava obviamenteabalada,deumjeitoqueCallnãoviadesdequandoeladescobriuquemelerealmenteera. Desejouqueestivessememalgumlugarondepudessemconversarsobreairmãdela.Desejouquetodos parassemdeolharparaeles. —Tamara—foiKimiyaquefalou,paradadebraçoscruzadosdiantedamesadeles.—Porquenão vemsentarcomigo? Tamaraergueuosolhosbruscamente,seusolhosescurosficandoarregalados.Pareceuperderafala aoverairmã.

—Eu

masporquê?

—Vamos,Tamara—disseKimiya.—Nãomefaçafazerissonafrentedetodomundo. —Fazer oquê? —perguntouCall,irritadoderepente.KimiyaestavaagindocomoseeleeAaron nãoexistissem. —Nãoqueroir—respondeuTamara.—Querosentarcomosmeusamigos.

KimiyaapontoucomoqueixoparaAaron. —Elenãoéseuamigo.Eleéperigoso. Aaronpareceuchocado. —Doquevocêestáfalando?

— Seu pai está preso — disse Kimiya subitamente. Aaron se encolheu como se ela o tivesse

estapeado.—Oquejáéruimobastante,masalémdisso,vocêmentiu.Paratodomundo. —Edaí?—disseCall.—VocênãotemodireitodesaberdetalhesdavidaparticulardeAaron.

— Se ele se hospeda na minha casa eu tenho sim! — Kimiya se irritou. — Meus pais mereciam saber,aomenos.—ElaencarouAaron.—Depoisdetudoquefizeramporvocê RaivapercorreuCall,fervente;partedelaeraporAaron,epartedeAaron.Porqueelenãoconseguia calar avozqueoirritavapor dentro,dizendoese,ese,ese,eeledetestavatodososaspectosdenão confiaremAaron.InclusiveopróprioAaron.Eleselevantou,encarandoKimiya. —SeuspaispuxaramosacodeAaronporqueeleéMakar—rosnou.—Eagoravocêvaiagircomo seissosignificassequeAarondevealgumacoisa?Elenãodevenadaavocê!

—Parem!Vocêsdois,parem!—Tamaravirouparaairmã.—Vocêcontouparaosnossospais? Kimiyapareceuofendida. —Claroquecontei.ElestêmodireitodesaberquetipodepessoaéoMakar. Aaronbaixouorostoparaasmãos. —Dedo-duro.—TamaraseirritoucomKimiya,seurostoruborizando.—Quemtecontousobreo paidoAaron?Quem? —Eusóconteiparatrêspessoas—disseAaroncomavozabafada.—Call,Jasperevocê. —Bem,nãosoubepornenhumdostrês—disseKimiya,irritada.—Olha

— Jasper contou para Célia — disse Alex, surgindo atrás de Kimiya e colocando a mão no braço dela.—ECéliacontouparatodomundo.Sintomuito,Aaron. Aaronergueuacabeça.Seusolhosverdesestavamcomumasombraescura. —Oqueeufaçoagora?

— Todos estão inquietos — disse Alex. — Depois do que aconteceu com Jen, e do ataque do

elemental.Queremculparalguém,e,bem,vocêéumMakar.Issootomapotencialmenteassustador. —EunãofizmalaJen!EjamaisfariaaCallprotestouAaron.—Nemaninguém. Alexpareceusolidário. —Ésóseguraraonda—disseele.—Aspessoasvãoacharoutroassunto.Sempreacham.Vamos, Kimiya. Comumsuspirorelutante,KimiyasepermitiuserconduzidadevoltaàmesadosalunosdoAnode Ouro. Tamaraergueuoqueixo. —Vamospegarcomida—disseela—,esealguémdisseralgumacoisananossacara,agentefala umaverdades.Osquesussurrarempelasnossascostasnãomerecemnossaatenção.Tudobem? ApósuminstanteAaronselevantou. —Tudobem.—Enquantoiamparaamesadecomida,elefaloubaixinhocomCall.—Obrigadopor medefender. Callassentiu,sentindo-semalporsequerterconsideradoqueAaronpudesseseroespião. Mesmoassim,opensamentonãoiaembora. Serviram-se.Callencheuopratodelíquen,cogumelosebatatas,masospratosdeTamaraeAaron estavam estranhamente vazios. Os três aprendizes foram para seus lugares de sempre à mesa onde estavamJasper e Célia, tendo, no entanto, o cuidado de escolher lugares o mais longe possível deles.

Céliadesviou oolhar deJasper por tempoosuficienteparaolhar nadireçãodelescompena.Oolhar maléfico de Call a fez virar o rosto rapidinho. Ele sempre soube que ela era fofoqueira, mas nunca imaginouquepudessecontarumacoisadessasparatodomundo.Jasper,éclaro,provavelmentefeza famíliadeAaronsoarpiordoqueera,paraimpressioná-la.JaspereCéliaprovavelmentesemereciam. Calltorceuparaquesebeijassemosuficienteparaficaremsemoxigênioeengasgarem.

— Precisamos encontrar o espião — disse Aaron, trazendo os pensamentos de Call de volta ao

presente. — Nada disso vai passar até o verdadeiro espião ser pego. E nós, principalmente Call, não estaremossegurosatéentão. —Certo—respondeu Calllentamente.—Quer dizer,sou afavor desseplano,excetopelaparte queéapenasumadeclaraçãodoobjetivofinal,enãoumplanodefato.Comovamosencontraroespião?

— Anastasia deve saber de alguma coisa — disse Aaron. — Quer dizer, levando em conta o que encontramosnoquartodela,elatemqueestarenvolvidadealgumaforma.

— A senha dela é o nome do irmão do Inimigo da — Tamara começou a sussurrar e depois se conteve.—Querdizer,doCapitãoCaradePeixe.AsenhadelaéoirmãodoCapitãoCaradePeixe.Ela

tem uma foto do Capitão Cara de Peixe no quarto. Ela tem que estar do lado dos seguidores dele. O únicoproblemadestateoriaéquenãosãoelesquequeremCallmorto. Callabriuabocaparaprotestar,masTamaraointerrompeu.

— Ou, pelomenos nãooqueriamquandoAutomotones foienviadoparamatar Call. Mesmoque

MestreJosephtenhamudadodeideiadesdeentão. —TalvezelaodeieMestreJoseph,odeieoInimigoeguardeaquelascoisasparaselembrardasua missãodevingança—sugeriuAaron.—TalvezelatenhaenviadoSkelmisatrásdeCallporquesabeque elerealmenteéoCapitãoCaradePeixe. —Elanãopareceessetipodepessoa—protestouCall. —E—disseAaronparecendoinseguro.—VocêdisseamesmacoisadeCélia.Paredeagircomose oespiãofossealguémquetratavocêmalouquevocêodeie.Nãopodesimplesmenteacreditarqueuma pessoaérealmentesuaamigasóporqueestáagindocomotal! —Ah,é?—perguntouCall,deixandoaspalavrasdeAaronpairaremnoar. Aaronsuspiroueabaixouacabeçaparaamesa,apoiando-anasmãos. —Nãofoiissoqueeuquisdizer.Soouerrado. —Talvezdevêssemossoltarminhairmã.Talvezelapossanosajudar—disseTamaraemvozbaixa. Callvirouparaela,chocado. —Estáfalandosério? —Nãosei—disseela,empurrandoalgumasverdurasnopratocomogarfo.—Precisopensarmais sobreoassunto.DepoisqueRavansetomou umaDevorada,meuspais,osamigosdela,enfim,todos agiramcomoseelaestivessemorta.Euestavapensandoneladessemodotambém.Querdizer,àsvezes eutentavaimaginá-lafeliz,nadandonalavadeumvulcãooucoisadotipo,masnuncaimagineiqueela estivesse presa no Magisterium. E agora, depois de ver a verdade, sinto como se todo mundo tivesse mentido para mim. Sinto que não tentamos o suficiente. E sinto como se eu não soubesse como me sentir.—Tamaradeuumsuspirouentrecortado. —Sequersoltá-la,vamossoltá-la—disseCall,decoração. —Masprecisamostercuidado—alertouAaron.—PrecisamossabermaissobreosDevorados.No AnodeFerroprometemosavocê,Tamara,quenãodeixaríamosquefossetentadaasetomarumdeles. Acho que a promessa se estende a não deixar que você seja tentada por eles. Quando se tornam Devoradas,aspessoascontinuamsendoquemeramantes?Quantodelasrealmentesobra?Sefosseum parentemeuali,euiaquereracreditarqueeraele.

—Temrazão—disseTamara,emboranãoparecessetotalmenteconvencida.—Seiquetem. — Temos aula de manhã hoje, certo? A primeira coisa que temos que fazer depois disso é ir ao quartodeAnastasiaepedirdesculpas—disseCall. —Eseelaforaespiã,tambémtemosquesairvivosdelá—acrescentouTamara. —OMestreRufussabeondeestaremos—disseAaron.—Serialoucuranosatacar.Elaseriapega. —Dependeseelavaicontinuarporaquidepois—disseCall.Seubraçodoía;eleaindaestavacomas duaspulseiras,apesardeagoraestarmuitomaisconscientedaquepertenceraaoInimigo. —Vejam,ouelaquernospegareestámetratandobemparanosiludircomumafalsasensaçãode segurança, ou está mancomunada com o Mestre Joseph e está me tratando bem porque eu sou o CapitãoCaradePeixe.Sejacomofor,amulheréperigosa. —VocênãoéoCapitãoCaradePeixe—sibilouTamara. —Vocêentendeu.—-Callsuspirou. —Vamosentraresairrapidinhodoquarto—disseAaron. — Sem comer nada, sem beber nada, e vamos ficar juntos. Pediremos desculpa, e depois vamos. Ficaremosalertasotempotodo. Call e Tamara assentiram. Em termos de planos não era o melhor deles, mas com Tamara preocupadacomairmãetodoorecintosussurrandosobrecomomagosdocaoserampéssimos,erao melhor que conseguiriambolar. Callnãoconseguiaparar de lembrar oque tinhapercebidodepoisda cerimônia no Collegium: que havia um problema no fato de o Inimigo da Morte ser considerado oficialmentemortoeaguerraacabada—nestenovomundo,osMakarisnãoeramdesesperadoramente necessários,eassustavamtodomundo.

necessários,eassustavamtodomundo.

CallseperguntavacomoseriaaauladoMestreRufusnaquelamanhã,jáqueostrêsestavammuito abalados.Parasuasurpresa,umapalestranteconvidadatinhasidodesignadaparafalaraoseugrupo. Parasuaaindamaisextremasurpresa,eraalguémqueeleconhecia:Alma,daOrdemdaDesordem. Naúltimavez emque avira, elaestavatentandosequestrar Devastaçãoparaincluí-loemseu grande estábulodeanimaisDominadospeloCaosnomeiodafloresta. Elacontinuavanãoparecendoumasequestradoradecachorros.Pareciaumaprofessoradojardim deinfância.Seu cabelobrancoestavaarrumadoemumpenteadocontraapelemorena.Usavacamisa cinzasobreumasaiaverde.Várioscolaresdecontasdejadependiamdopescoço.Quandoelaosviutrês, seu olhar foi imediatamente para Aaron. Alma sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos, que permaneceramprofundoseatentos. —Estaéminhavelhaamiga,AlmaAmdurer—disseMestreRufus.—EladeuaulanoMagisterium quandoeueraaprendizeconheceumeuMestre,Marcus. Call ficou imaginando se Alma sabia o que tinha acontecido com Marcus. A expressão dela não mudouaoouvironomedele. —Elasabemuitosobremagiadocaos.Muitomais,sintodizer,doqueeu.CalleAaron,vocêsvão passar amanhãtrabalhandocomAlmaenquantodou aulaparaTamaraasós. Andeipensandomuito sobreoqueTarquindissenareuniãocomosmagosedecidique,pormaisqueeunãogostedeadmitir, ela tinha razão. Vocês precisam saber das coisas, e não acho que sou a pessoa certa para ensiná-los. Almaconcordou emvir,mesmotendosidochamadaemcimadahora.Sendoassim,queroquesejam educadoseouçamcomatençãooqueelatemadizer. OdiscursodeixouCallmaisdoqueumpouconervoso.AlmatinhaficadoemêxtasequandoAaron

apareceunaOrdemdaDesordem.ElaestavaloucaparacolocarasmãosemumMakar.Eleselembrou dela tentando convencer Aaron a voltar para a Ordem da Desordem para que pudesse fazer experimentoscomele.Agora,MestreRufusestavapraticamenteentregando-o. —Tudobem—disseAaronlentamente,semsoarmuitoentusiasmado. —Masnósvamosficarporaqui,certo?—Tamarasooucomosecompartilhassedaspreocupações deCallenãoquisessedeixarAaronsozinho.

—Estaremosnasalaaolado—disseMestreRufus.Comumaceno,fezaparededepedraroncare se abrir em uma rachadura, cada vez mais ampla, que daria passagem a ele e Tamara. Ele virou para Alma.—Aviseseprecisardealgumacoisa. —Ficaremosbem—disseele,lançandoumolharparaCalleAaron. Call observou Mestre Rufus e Tamara entrarem na sala ao lado. Pareciam distantes depois que transpuseram a rachadura na pedra. Tamara tentava comunicar alguma coisa a Call através da expressãocorporal—olhosarregaladosemãosfazendoumgestoquepareciamumpássaromoribundo —quandoapedrasefechoudevoltaeosdoisdesapareceram. Semescolha,CallvoltouaatençãoaAlma. —Vocêsparecemdesconfiados—disseelacomumarisada.—Nãoosculpo.Possocontaralgoque talvezossurpreenda?MestreRufusnãocontouamaisninguémqueiameconvidarparadaraulapara vocês. Nem para o Mestre North. Nem para a Assembléia. Não contou a ninguém. A Ordem da Desordemnãoéexatamenterespeitávelnosdiasdehoje,enemeu. —Vocêameaçoumeulobo—disseCall.—t-Emeuamigo. Almacontinuavasorrindo. —Esperoqueseuamigoaquinãoleveparaoladopessoalofatodequevocêfalouprimeironolobo. —Nãolevo—disseAaron.—Callsabequeeuconsigocuidardemimmesmo.Masnenhumdenós confiaemvocê.Esperoquenãoleveissoparaoladopessoal. —Eunãoesperariaqueconfiassem.—Almarecuouatéapoiar-senamesadepedradeRufus.Ela cruzouosbraços.—DoisMakaris—disse.—AúltimavezemquehouvedoisMakarisvivosaomesmo tempoeramConstantineMaddeneVerityTorres.Findaramprotagonizandoumabatalhaatéamorte. —Bem,issonãovaiacontecercomagente—disseCall.Almaestavacomeçandoairritá-lo.

sabemoquantoRufus

seencrencacomosoutrosMestresporisso?Osoutrosachamque,dealgummodo,eletrapaceounos Julgamentos de Ferro. — Alma riu. — Principalmente ao ganhar você, Call. Aaron era uma escolha óbvia,masvocêémuitodiferente. —Vamosaprenderalgumacoisaaqui?—perguntouAaron. —Alémdefofocasdeprofessores,querodizer. —Podeaprenderaliçãomaisimportantedasuavida,Makar—disseAlmaemtomríspido.—Vou ensiná-losaenxergaralmas. OsolhosdeAaronarregalaram. —Vocêssãoocontrapesoumdooutro—prosseguiuela.—Eambossãomagosdocaos.Osdois podemtrabalharamagiadovazio,eéporissoquecarregampedraspretasemsuaspulseiras;éissoque, imagino, todos lhe dizem desde que foram revelados como Makaris. Mas existe outra mágica que tambémpodemtrabalhar. Adaalmahumana, que é exatamente oopostodocaos, donada. Aalmaé tudo. Osolhosdelaardiamcomumaluzfanática.CallolhoudeladoparaAaron;elepareciafascinado. — A maioria dos seres humanos nunca vai enxergar verdadeiramente a alma — prosseguiu a mulher.—Trabalhamoscomooscegos,noescuro.Masvocêspodemver.CalleAaron,olhemumpara

—DoisMakarisnomesmoMagisterium,nomesmogrupodeaprendizes

ooutro. Call virou para olhar para Aaron. Percebeu com surpresa que tinham mais ou menos a mesma altura;elesemprefoiumpoucomaisbaixoqueoamigo.Deviaterespichadoalgunscentímetros. —Seolhem—disseAlma.—Concentrem-senoquefazcomqueseuamigosejaquemrealmenteé. Imaginemqueconseguemenxergar atravésdapeleedosossos,dosangueedosmúsculos.Nãoestão procurando pelo coração, mas por algo que está além disso. —t A voz de Alma tinha uma cadência hipnótica.CallficouolhandoparaafrentedacamisetadeAaron.Ficouimaginandooquedeveriaver. HaviaumamanchaescuraondeAaronhaviaentornadochánorefeitório. Olhou de relance para os olhos de Aaron e descobriu que Aaron estava olhando pra ele. Ambos

sorriram, sem conseguir evitar. Call encarou mais. O que fazia Aaron ser Aaron? Ele era amigável; sempresorriaparatodos;erapopular;faziapiadasruins;seucabelonuncaarrepiavacomoodeCall.Era isso?Oueramascoisasmaissombriasquesabiasobreele—oAaronqueexplodiaderaiva,quesabia comofazerumaligaçãodiretanumcarro,quedetestouquandosedescobriuMakarporquenãoqueria morrercomoVerityTorres? Callsentiusuavisãomudar.ContinuavaolhandoparaAaron,mastambémestavaolhandodentro dele. Havia luz no interior de Aaron, de uma cor que Call nunca tinha visto antes. Não conseguia descreveressanovatonalidade.Estavasemovendoemudando,comoumbrilhoprojetadocontrauma parede,aluzrefletidadeumlampiãosendocarregado. Callfezumbarulhoepulouparatrásemsurpresa.Aluzeacordesaparecerameeledescobriuque olhavaparaAaronapenas,queporsuavezoencaravacomosolhosverdesarregalados. —Aquelacor—disseAaron.

— Eu também vi! — exclamou Call. Eles riram um para o outro, como dois montanhistas que tinhamacabadodechegaraotopo. —Muitobem—disseAlma,soandosatisfeita.—Vocêsacabaramdeveraalmaumdooutro. —Éesquisito—disseCall.—Achoquenãodevemosmencionarparaninguém. Aaronfezumacaretaparaele.

Callsesentiu inquieto.Elenãotinhaconseguidousar umamagianovanaprimeiratentativa,mas ver aalmadeAaronfezsuabrevedesconfiançaarespeitodeleparecer ridícula.Aaroneraseu amigo, seu melhor amigo, seu contrapeso. Aaron jamais iria querer machucá-lo. Aaron precisava dele, exatamentecomoeleprecisavadeAaron. Oalíviofoiavassalador. —Achoqueéosuficienteporhoje—disseAlma.—Vocêsdoissesaírammuitobem.Emseguida, queroqueinterajamcomoutrasalmas.Vãoaprenderotoquedaalma. —Nãovoufazerisso—disseCall.Nãoseioqueé,masnãovougostar. AlmasuspiroucomoseachassequeMestreRufushátemposvinhasofrendoporterqueaturarCall, oqueeramuitoinjustoconsiderandoqueanteselahaviaditoqueosoutrosMestresgostariamdetê-lo escolhido. —Éummétodoparaderrubarooponentesemfazernenhummalverdadeiroaele—disseela.— Aindaassimvaiseopor? —Comosabemosquenãoosmachuca?—perguntouAaron.

— Não parece machucar —» respondeu Alma. — Mas, como toda magia de alma, não existem

estudos o bastante para comprovar totalmente qualquer coisa. Quando Joseph, eu e vários outros começamos nossas pesquisas, achamos que a magia do caos tinha potencial para fazer muito bem ao mundo.PorseremmuitopoucosMakarisnascidosemcadageraçãoepelamagiadocaossempretersido consideradaperigosa,nãosabemososuficientesobreela.

Omaior Makar da sua geração. As palavras voltarama Call, perturbando-o. Ele não se importava queAaronfossemelhordoqueele,masnãogostavadeideiadealguémsendomelhordoqueAaron. Almacontinuou,aprofundando-senoassunto. —Vocêsprecisamentendercomotudopareciaincrível.Estávamosdescobrindocoisasinteiramente

novas.Ah,magosdocaosjátinhamvistoalmasantes;algunsatéaprenderamcomoarrancá-lasdosseus corpos. Mas ninguém nunca tinha tentado tocar uma alma. Ninguém nunca tinha tentado colocar o caosemumanimal.Ninguémnuncatinhatentadotrocarumaalmadeumcorpoparaooutro.

— Então Joseph ficou maluco ou o quê? — perguntou Aaron. — Quer dizer, por que ele não impediuConstantineantesqueelematasseoirmão?Eleestavaanimadodemaiscomamágica?

Jericho Madden. Call sentiu sua cabeça flutuar. Apesar de tudo isso ser um passado distante, pareciamaispróximodoquenunca.Ultimamente,Callsentiacomoseissofossetirá-lodaprópriavida, dojeitoqueoMestreJosephqueriatirarsuaalmadocorpo. OsolhosdeAlmaanuviaram.

— Para falar a verdade, olhando em retrospecto para aquele dia, eu não sei o que aconteceu. Repasseiváriasvezesoseventosnacabeçaenãoconsigodeixar dechegar àconclusãodequeJericho morreuporqueJosephoqueriamorto. IssochamouaatençãodeCall. —Quê? —Constantineerajovem.Eletinhaoutrosinteressesalémdoestudodamagiadocaos;oumelhor, eleachavaquetinhaavidainteiraparaestudar.E,claro,Rufuseraseumestre,enãoJoseph.Achoque JosephqueriaqueConstantinetivessecompromissocomacausa. Callficouhorrorizado. —OMestreJosepharranjouamortedeJerichoparaqueConstantinesecomprometessemaiscom aideiadeusaramagiadocaosparatrazerdevoltaosmortos? Almafezquesimcomacabeça. —EparaqueConstantineodiasseoMagisterium,queeleculpavapelamortedeJericó.Nãoacho queJosephsoubessequeestavacriandoummonstro,éclaro.Achoqueelesóqueriagarantiralealdade deConstantine.Achoqueelequeriaseroresponsávelpelasdescobertas,queriaqueseunomeentrasse paraahistória. Callpensou emMestre Joseph no túmulo, na curva do seu lábio e na luz selvagemque havia em seusolhos.CallnãotinhatantacertezadequeJosephnãosabiaenãodesejavacriarummonstro. —AspessoasselembramdoInimigodaMorte—disseAlma.—Masseesquecemdohomemqueo fezquemeleera.Constantinepodeter sidomau,mastambémpassou por umatragédia.Elequeriao irmãodevolta.MestreJoseph,poroutrolado,sóqueriapoder.Apenasisso.Epessoasassimsãoasmais perigosasdomundo.

CAPÍTULODOZE —Comoestou?—perguntouCall.—Pareçoarrependido? Ele estava diante da porta de Anastasia Tarquin, no

CAPÍTULODOZE

—Comoestou?—perguntouCall.—Pareçoarrependido? Ele estava diante da porta de Anastasia Tarquin, no corredor que abrigava os aposentos dos Mestres. Call, Aaron e Tamara tinham decidido que deveriam se arrumar um pouquinho antes de encontrarem a integrante da Assembléia. Ela era uma presença relativamente assustadora, com suas joiasesuaatitudecultaedesdenhosa.Callachouqueelafosselevaropedidodedesculpasmaisasério se eles se arrumassem, então ele e Aaron estavam com os paletós que usaram para a cerimônia de premiaçãoeTamaraestavacomumvestidinhopreto. Devastaçãonãofoicomelesjáque,comoCallobservou,nãotinharazõesparasedesculpar. Tamarasoltouoarcomforçasuficienteparaafastarumcachodatesta. —Vocêestáótimo—disseelapelaenésimavez. Tamaraestremeceu. —Estáfrioaqui.Batanaportadeumavez. Aaronergueuumasobrancelha. —Estátudobem? —Nãosei—disseTamara.—Desdequeviminhairmã,sópensonela—engoliuemseco.Edepois tiveramasaulasdehoje.Nãogostodeserseparadadevocêscomosehouvessealgodeerradocomofato de eu não ser Makar. Além disso, o Mestre Rufus foi duas vezes mais rígido comigo do que normalmenteé. Bem,vamosrepetiradosenasegunda-feira—disseCall. —Almavaivirnosensinarumacoisaarrepiantechamadatoquedaalma. —Nãogostodela—disseTamara.—Elamedáarrepios.Aaronfoiatéaporta. —Emelhoracabarmoslogocomisso. Ele bateu. Osom pareceu explodir e ecoar no corredor. A porta de Anastasia se abriu. Ela estava diantedelescomumroupãodesedabrancamagníficosobreumacamisolaaindamaischique.Seuspés estavamemchinelosdecourobranco. —Estavacomeçandoaacharquenãoviriam—disseela,erguendoumasobrancelhaprateada.

—Hum—disseCall.—Podemos

entrar?Queremospedirdesculpas.

Anastasiaabriumaisaporta. —Ah,éclaro.Entrem.—Elasorriuquandopassaramporela. —Achoqueseráumaconversainteressante. TamaralançouumolharsignificativoaCall,quedeudeombros.TalvezAnastasiaestivessedecidida aassassiná-los—descobririamdeumjeitooudeoutro,eissoeraumalívio.AintegrantedaAssembléia fechouaportapesadaatrásdesicomumabatidaforteejuntou-seaotrionasala.Elaeraaltaobastante paraquesuasombra,projetadanaparedeopostaondeficavaocofre,fosseenorme.Ocofretinhasido removido;CallficouimaginandoondeosMestresoteriamcolocado. —Porfavor,sentem-se—disseela.Diamantesbrilhavamemsuasorelhasereluziamcontraoseu cabelo. Call, Tamara e Aaron se ajeitaramno sofá branco. Anastasia sentou diante deles emuma cadeira marfim. Sobre a mesa de centro na frente deles havia cinco xícaras de um bule sobre uma bandeja ornadacomalgoquepoderiaserosso. —Aceitamumpouco?—elaperguntou.—Tenhoumdelavandaecapim-limãoquepodemgostar tendo em vista todos aqueles fungos e líquens que servem no refeitório. — Ela fez uma careta. — Nuncaconseguigostardaculináriasubterrânea. Todosseinclinaramparalonge. —Dadasascircunstâncias—disseTamara—,achoquenãoqueremos. —Entendo—Anastasiarespondeu,comumsorrisoforçado. —Masvejam,issofazmesmosentido?Vocêsinvadirammeuquartoeroubarammeuspertences. Invadiramaprisãodosele-mentais.Nãoémaisprovávelquevocêssejamumaameaçaamimdoqueo contrário? —Somosalunos—disseTamara,parecendoindignada.—Vocêéadulta. —VocêssãoMakaris—argumentouAnastasia.—Bem,doisdevocêssão.—Elagesticuloupara CalleAaron.—Efoiumaperguntaretórica.Seiquenãoqueremmefazermalalgum.Mas,damesma forma,nãoquerofazermalavocês.Tudoqueeusemprequisfoiprotegê-los.Nãomereçodesconfiança. AssobrancelhasdeCallergueram-seconsideravelmente. —Sério?EntãoporquevocêtemumafotodeConstantineMaddenemumacaixaestranhadebaixo dacama,eporqueasenhadoseucofreéonomedoirmãodele? —JáeupoderiaperguntarcomovocêobteveapulseiradeConstantineMadden,e,depossedela,o queofezvesti-la?—AnastasialançouumolharsignificativoaCall. Call empalideceu, levando a mão à pulseira, guardada sob a manga do paletó. Agora que estava atento,viaqueapulseiracriavaumcontornosutilsobotecidodacamisa. —Comovocêsabe? Anastasialevantouobuleeseserviudeumaxícara.Oagradávelaromadecapim-limãopreencheuo recinto. — Sem ela vocês não teriam conseguido entrar aqui. O motivo é simples: há muito tempo, usei magiaparasincronizarnossaspulseiras.EuconheciConstantinequandoeleeraummenino.Euseique, paraageraçãodevocês,imaginar opoderosoInimigodaMortecomoummeninoéchocante,masele eraapenasumacriançaquandoveioparaoMagisterium. “Eu me sinto parcialmente responsável pelo que aconteceu com ele e Jericho. Lembretes de ConstantinedeJerichosãolembretesdomeuprópriofracasso.—Elaolhouparabaixo.—Eudeveria terpercebidooqueestavaacontecendo,deveriaterimpedidoJosephantesqueelelevasseosmeninos longedemais.Decertaforma,souresponsávelpelamortedeJerichoepeloqueConstantinesetomou. Nãovoumepermitiresquecerdisso.”

Elatomouumgoledechá.

—Tenhoumadívidacomessesmeninos.Eomeujeitodepagarégarantindoqueapróximageração

de Makaris permaneça intacta. Sou uma velha senhora e já perdimuito, mas antes de morrer, quero saberquevocêsdoisestãoseguros.CallumeAaron,vocêssãominhaesperançaparaumfuturomelhor. —Entãoéporissoqueseofereceuparaviraquiajudaraencontraroespião?—perguntouTamara. Elaassentiulentamente. —Eseeusoubessequemé,acreditem,eunãohesitariaemagir. —Sentimosmuito—disseAaron.—Querdizer,foiissoqueviemosdizer,massentimosmesmo. Nãodeveríamosterbisbilhotadosuascoisas,neminvadidoseuquarto,nemnadadisso.Querdizer,não podemosnosdesculparportentarmanterCallemsegurança,massentimosmuitopelamaneiracomo fizemos. Tamaraassentiu.Callsesentiudesconfortávelportodosestaremdandoacaraatapaporele. Anastasiasorriu, dojeitoque adultossorriamquandoAaronligavaobotãozinhodocharme. Mas antes que pudesse responder, ouviram uma batida à porta. Call, Aaron e Tamara se entreolharam alarmados. —Nãoprecisamsepreocupar.—Anastasiaselevantou.—Énossoquartoconvidado.Alguémque chameiparasejuntaranós. MestreRufus?,Callseperguntou.AlguémdaAssembléia?MasquandoAnastasiaabriuaporta,era Alma Amdurer, vestindo um poncho vermelho. Ela entrou no quarto e Anastasia fechou a porta novamente. —Olá,crianças—disseAlmacomumsorriso.—Anastasiajáexplicoutudoparavocês?

— Não— disse Anastasia, indoparapertode Alma. Comelatodade brancoe Almade vermelho

escuro,elaslembravamasRainhasVermelhaeBrancadeAlicenoPaísdasMaravilhas.—Acheimelhor vocêfazerisso. Almafixouseusolhosescurosneles. —Vocêssabem,éclaro,sobreosplanosdaAssembléiaparapegarosanimaisDominadospeloCaos eeliminá-los?—perguntousempreâmbulos. Callpiscouosolhos,imaginandooqueissoteriaavercomAnastasia—oucomqualquerumdeles. —Éhorrível—disseele. Almasorriu. — Ótimo. A maioria das pessoas não acha. Mas a Ordem da Desordem concorda, e estamos dispostosafazeroqueforprecisoparamanteressesanimaisseguros.

—Bem,gostaríamosdeajudar—disseAaron.—Masoquepodemosfazer?

— Sabemos quando os animais reunidos aqui na floresta serão transportados — disse Alma. — PrecisamosdaajudadeumMakarparalevá-losdosveículosdetransporteaumlugarseguro. Tamaralevantouamão,contendoAaroneCallantesqueelespudessemseoferecer.Seuolharera impiedoso. —Nempensar.Éperigosodemais—disse. Almaolhouintensamenteparaostrêsamigos.

— Se vocêsse importamcomDevastação, entãodeveriamme ajudar. Sãoirmãose irmãsdele no caos.Etalvezatéliteralmente. —Sevamosajudá-la,e,sim,eutambémvou,mesmonãosendoMakar,entãoprecisafazeralgopor nós—disseTamara. —Bem,parecejusto—concordouAnastasia,comumsorrisodiscreto. —Anastasiamecontou sobreasdificuldadesqueestãoenfrentando—disseAlma.—E,éclaro,

ouvimos coisas. A Ordemnão é inteiramente desligada do mundo dos magos. Estaríamos dispostos a ajudá-losaencontraroespião. Aaronsesentouereto. —Oqueafazpensarquepodeencontraroespião? —Temosumatestemunhaquepodemosinterrogar. —Masnãohátestemunhas!—protestouCall.—AAssembléianãoencontrounenhuma —JenniferMatsui—respondeuAlmacalmamente. Fez-sesilêncio. —Elaestámorta—disse Tamara, afinal, olhandoparaAlmacomose elaestivesse louca. —Jen estámorta. —AOrdemestudamagiadocaosháanos—explicouAlma. — Otipo de magia praticada pelo Inimigo. A magia da vida e da morte. Mestre Lemuel aprendeu uma forma de conversar com os mortos. Podemos falar com Jennifer Matsui e perguntar quem a atacousenosajudaremcomosanimaisDominadospeloCaos. Call olhou do rosto espantado de Tamara para Aaron, que parecia esperançoso. Aaron queria encontraroespiãomaisdoquequalquerum,Callpensou.MaisdoqueopróprioCall. —Tudobem—disseCall.—Oqueexatamentevocêprecisaqueagentefaça?

Naquela noite, Call e Tamara foram para a área externa

Naquela noite, Call e Tamara foram para a área externa passear com Devastação. Aaron estava dispostoair,masficouóbvioqueelenãoqueriadeverdade—estavasentadonosofá,aconchegadocom umcobertor,lendoasrevistinhasqueAlastairmandavaparaCall.Algumaspessoasquandoseirritam andamdeumladoparaooutro,gritam,masAaronsefechavaemsimesmo,comportamentoqueCall achavamaispreocupante. —Nãoéculpasua,vocêsabe—disseTamaraparaCallenquantoDevastaçãofarejavaumtrechode ervasdaninhas.Olobosabiaqueassimqueescolhesseumaárvoreefizesseoquetinhadefazer,iam levá-lodevoltaparadentro,entãoeleadiavaomáximopossível. —Euseidisso.—Callsuspirou.—Nãopedipranascer,ourenascer,ouoquequerqueseja. Elariu.Anoiteestavaclara,asestrelasbrilhantes,eoar menosfriodoquedeveriaestar naquela épocadoano.Tamaranãoestavanemusandocasaco. —Nãofoiissoquequisdizer. Respirandofundo,elecontinuou. —Eusósintoquealgumacoisaaconteceuhámuitotempo,comConstantineeoMestreJoseph,e mesmo como Mestre Rufus e Alastair. Eles descobriramcoisas no Magisterium. Coisas importantes. Tipo,aOrdemdaDesordemsabecomofalar comosmortos?Issoémuitosério.Emesmoassimmais ninguémparecesaberdessainformação. —Ninguémquersaber—disseTamara.—Não,esqueçaisso.ApostoqueéaAssembléiaquenão querqueaspessoassaibam. Callpiscouparaela. —Eseuspais?ElessãodaAssembléia. —ElessequermedeixaramsabersobreRavan.—Tamarachutouummontedeterracomabota. —Temrazão.AnastasiaeaOrdemdaDesordemconheceramConstantinenaescola,oquesignificaque sabemmaissobreoqueaconteceudoqueagente.Muitomais. —Eelessabemmaissobrecomoamagiadocaosrealmentefunciona—CallchamouDevastação,

apressando-oparavoltarparadentro.—Etalvezsaibamalgosobreoespião,também. — O maior Makar da nossa geração — disse Tamara, pensativa. — Então mais alguém, aqui na escola,estáusandomagiadocaos.Sónãofoipegoainda. —Nãopornós—disseCall.—Masvaiser. O vento ficou mais forte, soprando as árvores com intensidade o bastante para derrubar uma cascata de folhas sobre eles. Bagunçou o cabelo solto de Tamara e carregou suas vozes quando chamaram um ao outro. Após um instante de frustração, Call apontou para o Magisterium e eles abaixaramascabeçasevoltaramparaoportão,comDevastaçãocorrendoatrás. Devoltaaoscorredoresescurecidosepassagensestreitas,Callnãopôdedeixar depensar nopeso que recaía sobre seus ombros à medida que adentravam nas cavernas: o peso de, mais uma vez, não saberemquempodiaconfiar.

o peso de, mais uma vez, não saberemquempodiaconfiar. Na segunda-feira, Mestre Rufus anunciou que teriam um

Na segunda-feira, Mestre Rufus anunciou que teriam um teste na sexta, em que todo o Ano de Bronzecompetiriaentresi.MestreRufusatéfezbraçadeirasparaTamara,AaroneCall,declarando-os umaequipedetrêspessoas. Callum resmungou. Ele nunca gostou dos testes, pelo menos desde que teve que lutar contra dragõesnoseuAnodeFerro.Apósfugir duranteoAnodeCobreevoltar comacabeçadoInimigoda Morte, ele conseguiu escapar de mais alguns, mas agora parecia que sua sorte em evitar testes tinha acabado. Aaron estava envolvido demais em sua melancolia por não ser querido, ou pelo menos ser considerado suspeito, por todos na escola. Com ar solene, simplesmente aceitou sua braçadeira. Call queriadizerparaAaronqueelenuncafoipopularequeaindaestavabem,mastemeuquetalvezAaron nãoachassesuaspalavrastãoreconfortantes.Aindaassim,oAaronsorumbáticoprovavelmentetinha menosdisposiçãoparadiscutirdoqueoAaronnormal. —Podenosfalaralgumacoisasobreoteste?—perguntouTamara.—Qualquercoisa? MestreRufusbalançouacabeça. —Certamentenão.Vocêstrêssãoconsiderados,pormuitosmotivos,umgrupoextraordinário.Se nãosecomportarembem,vãodecepcionarmuitagente,inclusiveamim.Esperoquefaçamomelhor.E esperoqueofaçamsemprecisardedicas. Tamaradeudeombrosesorriu. —Aomenoseutentei,né? Mestre Rufus lançou a ela um olhar que dizia que, apesar de poder, ele não se aprofundaria no assunto.Emvezdisso,embarcouemumapalestrasobreoquefazerquandosepareceterabundância demagiaeumfeitiçocomeçaaficarmaiordoquedeveria.Arespostaobjetiva:eraresponsabilidadeda pessoaqueinvocouopodercontrolá-lo. Tudo que aprendiam atualmente era sobre responsabilidade e controle. E nada disso estava ajudando.

responsabilidade e controle. E nada disso estava ajudando. No caminho de volta para os novos aposentos,

No caminho de volta para os novos aposentos, os três viram Gwenda espreitando no corredor. Estava frio ali, e ela vestia um casaco pesado e jeans. Tinha uma expressão irritada no rosto, mas se

alegrouquandoelesseaproximaram,esfregandoasmãospelosbraçosparaseaquecer. —Estavatorcendoparaencontrá-los—disseela. —Oquefoi?—perguntouTamara.Aaronficouatrás,parecendopreocupadocomapossibilidade deelalhedarumforaouencará-lo.Maselaapenaspareciaesperançosa. —Precisofalarcomvocês—disseela.—Maspodemosentrarnoquartonovodevocês? Ostrêsseolharam.Callpodiaver suaprópriafaíscadeexcitaçãoespelhadanosolhosdosamigos.

Talvez Gwenda soubesse de alguma coisa sobre o espião. Será que tinha visto alguma coisa ou desconfiadodealguém? ForamatéasalacompartilhadaeCallguiouDevastaçãoparaficardeguardanaportacasoalguém tentasseinvadir.Devastaçãoassumiuseupostocomoarvigilante.

— Olhem — disse Gwenda, uma vez que os três tinham se ajeitado no sofá e a olhavam com

expectativa—,aquestãoé —Continue,Gwenda—disseTamara.—Podenoscontarqualquercoisa. —Querovirmorarcomvocês!—disparouGwenda,umruborsurgindoemsuapelemorena.—Sei queaprendizesdomesmogrupodevemcompartilharoquarto,maseupesquiseiequalqueralunopode mudarsequiser.Ouvidizerquevocêstêmumquartoextra,eaquestãoéquenãosuportomais! —Nãosuportaoquê?—perguntouAaron.

— Jasper e Célia! — respondeu Gwenda, exasperada. — Eles vivem se abraçando no sofá, se

beijando,cochichandobaboseirasnoouvidoumdooutro.Ehorrível. —Entãodigaparapararem—disseCall,decepcionado.Tamara,poroutrolado,pareceuentretida.

— Não adianta — argumentou Gwenda. — Eu tentei, Rafe tentou, e não adianta nada. Eles não

escutam. E por isso que relacionamentos dentro de grupos de aprendizes são péssimos para todo mundo.

— Teríamos que perguntar ao Mestre Rufus — respondeu Aaron, que sempre caía em histórias

tristeseprovavelmenteestavasatisfeitoporelapreferirseupassadocriminosoapresenciarosbeijosde

Jasper.

Call ficou encarando. Ele gostava de Gwenda, mas, considerando a quantidade de armações e tramóiasqueele,TamaraeAaronfaziam,elenãoenxergavacomotê-laemseuquartoseriaalgoalémde umainconveniência. —Meuspaiseramdomesmogrupodeaprendizesquandocomeçaramaserelacionar—disseele. —Bem,apostoquequemquerquefossedogrupodelesdetestavaisso—disseGwenda,irritada. Call estava prestes a abrir a boca para dizer que tinham compartilhado o mesmo grupo com o

InimigodaMorteeseuirmão,masdecidiuficarquieto.Nãoeraexatamenteumsegredo,mastambém não era algo que todo mundo soubesse. Call achava que quanto menos as pessoas fizessemqualquer conexãoentreeleeConstantineMadden,melhor. Alémdisso,seelacomeçasseasugerirqueoInimigodaMortefoilevadoaserumSuseranodoMal porcausadonamorodospaisdeCall,eletalveztivessequematá-la.

—Gwenda

Houveumabatidanaporta.Gwendadeuumsalto,emseguidaapareceuesperançosa.

—EoMestreRufus?—perguntouela.—Sefor,vocêspodemperguntarpraeleagoramesmo.

Aaronbalançouacabeça.

—OMestreRufussimplesmenteentra—respondeu,ficandodepé.Atravessouorecintoeabriua

—Tamaracomeçou,claramentetendoalgumasdasmesmasdúvidasdeCall.

porta.

EraJasper.

—Ah,meuDeus!—disseGwenda.—Porquenãoconsigomelivrardevocê?

Jasperpareceuconfuso. —Porquealguémiaquererumacoisadessas? ElavirouparaCalleTamara. —Elevemaquiassimotempotodo?Apareceassim,semavisar? —Constantemente—respondeuTamara. —Éumproblema—reafirmouCall. Gwendajogouosbraçosparaoaltoemsinalderendição. —Deixapralá,então—disseela.—Esqueçamtudoqueeufalei. Elaseretiroudoquarto,passandoporJasper,quepareciaconfuso. —Oquefoiisso?—perguntouele. —Basicamentevocêéumsaco—respondeuCall.—Masjásabíamosdisso. Jasper entrou, fechando a porta atrás de si. Estava respirando fundo para dizer alguma coisa quandoDevastaçãosaltou,derrubando-oparaochão.Jaspergritou. —Ops—disseCall.—PedimosparaDevastaçãocuidardaporta,então

Jasper gritou umpouco mais, coisa que Call achou desnecessária. Não houve qualquer indício de queDevastaçãofossemachucá-lo.DevastaçãoconheciaJasper.Eleestavaapenassentadoemcimadele, línguadeforaeparecendopensativo.

mim—Jasperfalouentredentes.

Callsuspiroueassobiou. — Vamos, Devastação— disse ele. QuandoDevastaçãosaiu de cimade Jasper e foiaté Callpara receberelogioseafagos,Jasperselevantou,esfregandoocasacoexageradamente. —Tudobem,Jasper—disseTamara.—Falalogo.Porqueestáaqui? —Oupodesimplesmenteseretirar—disseAaronfriamente,levantando.—Issotambéméuma possibilidade. Tamaraergueuassobrancelhas.Callestavaumpoucoboquiaberto.Aaronsimplesmentenãofalava assimcomaspessoas.Aaronnormalmentenãoolhavaparaaspessoasdojeitoqueestavaolhandopara aJasper:comosefossesocá-lonacara. Callsentiuumdesejoenormeporumbaldedepipoca. Jasperpareceudesconfortável. —Queriapedirdesculpas. Aaronnãodissenada. —Seiqueachamquefuieuquemplanteioboato—prosseguiuJasper.—Querdizer,nãoqueseja exatamenteumboato,sobreseupai.Éaverdade. Seéqueissoerapossível,Aaronpareceuaindamaisameaçador. —Erasegredo—disseele.—Evocêsabiadisso. —Sim—Jasperteveadecênciadeparecerenvergonhado. —Eorestoémentira-—disseAaronsemrodeios.—EujamaismachucariaCall.Eleémeumelhor amigo.Émeucontrapeso. —Eusei—disseJasper,parasurpresadeCall.Eeunãodisseaninguémquevocêfariaisso.Não mesmo!Eu conteiaCéliaapartesobreseu pai,sim,enãodeviater feitoisso.Sintomuito,mesmo.E queestavamtodosfalandodevocê,eacabeimemetendo.Maseunãodissenadasobreoresto. —Entãovocêachaquesouoespião?—perguntouAaron. Call se lembrou das palavras de Jasper no refeitório: Aaron contou a você e Tamara histórias diferentessobreopassadodele.Issoébemsuspeito.Nãofazemosideiadeondeeleveio,ouqueméa famíliadeledeverdade.Elesimplesmenteaparecedonadaepronto!Makar.

—Tire

ele

de

cima

de

JasperolhouparaCall.Provavelmenteestavaselembrandodamesmacoisa.

— Não acho — respondeu Jasper. — Fiquei pensando, depois que os boatos começaram. Mas a únicapessoaparaquemfaleiquevocêpoderiaserfoiCall. AaronlançouumolharespantadoaCall,antesdeolharnovamenteparaJasper. —Vocênãoacha? —Não—respondeuJasper.—Vocênãoéoespião,ok?Nãoachoqueseja,esintomuitoporter

contado para Célia sobre o seu pai. E, se serve de consolo, ela também está arrependida. Ela nunca achou que as coisas fugiriam tanto do controle. Ela contou para duas pessoas e fez com que as duas jurassemsegredo,masacoisaacabouseespalhando. Aaronsuspirouearaivaodeixou.

— Tudo bem, eu acho. Você realmente não plantou o boato sobre eu estar querendo acabar com

Call? Jasperseendireitouemumaposeestranhamenteformalecolocouumamãonocoração. JuropelonomedafamíliaDeWinter. CallriucomdesdémerecebeuumaencaradadeJasper.Ascoisasquasepareciamnormais. —Ah,não«disseTamara.-—Sequerquefiquetudobem,vaiterquefazeralgoporAaron.ECélia vaiterqueajudar.

— Oquê? — Jasper olhou preocupado para Tamara, o que era sempre uma boa conduta, porém especialmenteboanomomento,quandoelaoencaravacomumbrilhonoolhar. —Céliaestánocircuitodoboato—disseTamara.-^DescubrasepodehaveroutroMakarnaescola, ouemalgumlugar.Alguématuandoàsescondidas.EvejasetemalguémcomquemDrewconversava muito,podeser? —Edescubraquemplantouoboato—acrescentouCall. Jasper fezquesimcomacabeça,erguendoasmãosparaevitar quequalquer umseirritassecom

ele.

—Ok.

— Ótimo. Desculpas aceitas. — Aaron se jogou no sofá. — Seja como for, você tem problemas maioresdoquenós.Gwendaveioaquiporquequersemudardoquartodevocês. —-Porminhacausa?—disseJasper.—Issoéridículo. —Talvezelanãosejamuitofãderomance—Tamarafaloucomumsorrisomaldoso. JaspersentouaoladodeAaronsemserconvidado.

— Ela só está com inveja porque não tem um namorado como eu. Sou um ótimo namorado. Sei

exatamentecomomanterumagarotafeliz. Tamara revirou os olhos. Call ficou feliz por ela não ter achado o discurso convincente. Após a deserçãodeCélia,elenãosabiaaocertooqueimpressionavagarotas.

— Como prova do quão arrependido estou, posso oferecer algumas das minhas melhores dicas

românticas—sugeriuJasper. Call, que estavaprestesase empoleirar emumdosbraçosdosofá, começou arir tantoque caiu. Bateucomapernaruimnochão—oquedoeu,masnãoosuficienteparaimpedi-lodegargalhar. Tamara estava claramente tentando impedir uma risada. Seus lábios não paravam de tremer nos cantos. —Vocêestábem?—perguntouAaron,seinclinandoparaajudarCallalevantar. —Sim—Callconseguiuresponderantesdecomeçararirdenovo.Aindarindo,foiemdireçãoao sofá,paraoladoopostodeAaron.—Tudobem!Estoubem! —Emprimeirolugar—disseJasper,fazendoumacaretaparaCall,queclaramentenãoapreciavaa

sabedoriaqueeleestavaprestesacompartilhar—quandoforemfalarcomumagarota,devemolharem seusolhos.Sempiscar.Issoémuitoimportante. —Issonãovaifazeragentecomeçaralacrimejar?—perguntouAaron. —Nãosefizeremdireito—respondeuJasper.Callficouimaginandooqueissopoderiasignificar. Seráqueapessoatinhaquedesenvolverumasegundapálpebra,comoumlagarto? —Ok,entãoaprimeiradicaé,sevocêgostadeumagarota,vocêtemqueficarencarando—disse Call. —Adicanúmerodois—continuouJasper—éfazerquesimcomcabeçaparatudoqueeladisser, erirmuito. —Rirdela?—disseTamara,duvidosa. —Comoseelafossehilária—disseJasper.—Garotasgostamdeacharqueestãoseduzindovocê. Dicatrês:jogarolharesparaela. —Jogarolhares?—repetiuAaron,incrédulo.—Oqueissosignifica,exatamente? Jasperseendireitou,jogandoocabeloparatrás.Elebaixouoscílioseencarouostrêsdiretamente, comabocacurvadaparabaixo,emumacarrancasombria. —Vocêtáparecendoummaluco—disseCall. Jaspercerrouaindamaisosolhos,fechandoumdeleseencarandocomooutro. —Agoravocêpareceumpirata—disseTamara. —FuncionacomCélia-g-disseJasper.—Elaficatodaderretidaquandoeufaçoisso. —Eladevegostardepiratas—disseAaron. Jasperrevirouosolhos. —Adicaquatroéter ocortedecabelocerto,masobviamenteissonãotemmaisjeitonocasode vocês. —Nãotemnadadeerradocomomeucabelo!—disseAaron. —Oseuestáok—disseJasper.MasodeCallparecequefoicortadocomumapedraafiada. —Temumadicacinco?perguntouTamara. — Compre um calendário com fotos de gatinhos pra ela — respondeu. — Garotas adoram calendáriosdegatinhos. Devastaçãolatiu.Tamarasoltouumagargalhada,rolandoparaoladodosofáelevantandoospés. Callachavaquenuncaatinhavistosedivertirtanto. — Ah, e se sua mente vagar enquanto ela estiver falando, você deve dizer que se distraiu com a belezadela—acrescentouJasper. —Eoquequerqueelaestejavestindo,digaqueésuacorpreferida. —Elanãovaipercebersevocêtivercoresfavoritasdiferentes?—perguntouAaron. Jasperdeudeombros. Provavelmentenão. OsrisinhosdeTamaraestavamsetransformandoemsoluços. —Jasper—disseela.—Possotepedirumfavor?ilSim? —Nuncagostedemimdessejeito. Jasperpareceuindignado. —Vocêsnãoentendem—disseele,selevantando.—Bem,minhamissãoaquijáfoicumprida.Já pedidesculpasejádeiasdicas. —EprometeufazerCéliaprocurarinformaçõesúteis—disseCall. Jasperassentiu. —Voufalarcomela.

Nãoseesqueçadejogarolhares!—TamaragritoudosofáquandoJasperchegounaporta.Elefez umacaretaaoabrir,emseguidafranziuatesta. —Temumbilhetepresoaqui—disseele,pegandoumpedaçodepapelqueestavapresoàporta.— ÉparaCalleAaron. Eraumbilhetedobrado,escritocomumaletratortuosa.CallumHunteAaronStewart. — Pode me dar — disse Aaron, ficando de pé. Mas Jasper, com um sorriso de lado, já estava tentandoabrir. —Ai!—disseele,tomandoumchoque.Opapeltinhaemitidoumapequenafaísca,comoumpulso elétrico. —Estáenfeitiçado—disseTamara,soandocontente.—SóCalleAaronpodemabrir. Jasperpareceuimpressionadoecomumpoucodeinveja. —Legal—disseele,jogandoobilheteparaAaron.—Atémaistarde— Edesapareceuparaocorredor. Aaronabriuobilhetequandoaportasefechou.Suassobrancelhasbaixaramaoler. —EdeAnastasiaTarquin—disse.—ElaestápedindoparaquenósaencontremosnoPortãoda Missãoàsdezparameia-noitenasexta-feira.ElamandoulevarmosDevastação. —Énomesmodiadoteste—disseTamara,sentandoereta.—Sobreoqueelaquerconversar? — Não acho que queira conversar — falou Aaron, ainda olhando para o papel. -M* Acho que é quandovamosfazeroqueelapediu.ÉquandovamosroubarosanimaisDominadospeloCaos.

CAPÍTULOTREZE Faltavamquatrodiasparasexta-feira,eCall,AaroneTamarapassaramtodootemposepreocupando

CAPÍTULOTREZE

Faltavamquatrodiasparasexta-feira,eCall,AaroneTamarapassaramtodootemposepreocupando alternadamentecomoplanodeAlmaecomoteste.MestreRufusdiziacoisasenigmáticasduranteas aulas e passava trabalhos bizarros. Naquela semana, Call aprendeu a (A) pegar um fogo que Tamara lançoucontraele,(B)respirardepoisqueAaronusoumagiadoarparasugartodooseuoxigênio,e(C) secarasroupasdepoisqueoMestreRufusoensopou.Aúltimaparte,infelizmente,nãofoicommágica. Nãoajudouofatodequeestavamtodosmal-humorados.Tamaranãoparavadeolharparachamas develaselareiras,comosepudessever orostodairmãnofogo.Aaronolhavaemvoltanorefeitório comoseesperassequetodosfossemjogarcomidanele.ECallseassustavacomsombras.Estavaficando tãosérioqueatéDevastaçãoestavatenso. EnãoajudavaofatodequeJasper continuavainútilnaquestãodosboatos.DeacordocomCélia, Drew não teve muitos amigos. Ele se mantinha discreto, ocasionalmente procurando alunos mais velhosembuscadeconselhossobrecomolidarcomMestreLemuel.Aparentemente,AlexStriketinha ditoaDrew queeledeveriaprocurar MestreNorth,maselenãoofez.Provavelmentetinharecebido ordensdeficarnadele,semreclamarcomodiretordaescola. Quanto ao responsável pelo início dos boatos sobre Aaron, Jasper ainda não sabia nada. Ele prometeuqueteriamaisinformaçõesatéofimdasemana.

Quando a noite de quinta-feira chegou, Call estava pronto para sexta, por pior que pudesse ser. Qualquer coisa que o deixasse mais perto de respostas. Mas no refeitório, Mestre Rufus disse que teriamumaaulanoturna,poisAlmatinharetomado.

—Tamara,éumaaulasobremagiadocaos,então

—disseele,maselaointerrompeu.

—Queroassistir,vaiserinteressante.Poucaspessoasconseguemvermagiadocaospessoalmente, eeujávimuita.Querosabermaissobrecomofunciona. Ele assentiu, apesar de não parecer inteiramente feliz. Mas como a expressão normal do Mestre Rufusnormalmenteerasombria,talvezissonãosignificassenada,éclaro. Apósterminaremolíqueneoscogumelos,eossucoscinzentos,elessereuniramnasaladesempre. MestreRufusandoudeumladoparaooutro.Almaseapoiouemumpequenobastãoefalou:

—Comosabem,oopostodamagiadocaos,oudovazio,éaalma,aqualvocêsaprenderamaverna últimaaula.Agoraqueroqueaprendamatocar aalmadeoutrapessoacommágica.Umbrevetoque, apenas.

—AchoquejádissequesoucontraissodisseCall.—Éarrepianteeestranhoenemsabemosoque

issofazcomaoutrapessoa.

Almasoltouumsuspirosofrido.

—Comodisseantes,vocêsódeixaapessoainconsciente.Nadamais.Masseficamuitoaflito,sugiro

queAaroncomece.Elepodetreinaremvocê.

—Eu,hum

—Callcomeçou.

Tamaraselevantoudeondeestava,sentadanochãocontraumaparededepedra. —Eufaço. —Nãopode!—dissoCall.—Alémdisso,porquetodomundoquermeapagar? —Deveteravercomoseurosto—disseTamara,balançandoacabeçacomoseeleestivessesendo aindamaisridículodoqueonormal.—MasoqueeuquisdizerfoiqueAaronpodepraticaremmim.Eu meofereçoparateraalmatocada. Aaronlançouumolharincertoaela. —Porquê?Nãoqueromachucá-la! Eladeudeombros. — Quero saber como funciona, e talvez eu não perceba muita coisa, mas talvez sim. E se está preocupadoemmemachucar,eufaloseissoacontecer. Call hesitou. Ele se sentiu tolo por se opor àquilo. Aprender a fazer uma pessoa dormir com um toqueeraincrível,desdequenãobagunçasseaalmadela.Sealguémoestivesseirritando,umtoquede almapoderiaresolveraquestão.ElepoderiafazerJasperdesmaiarconstantemente. —Tudobem,tudobem—disseCall.—Eutambémqueroaprender. Tamaralançouaeleumolharreprovador,masAlmaerasósorriso. —Éfácil—disseela. Não era. Alma conhecia a teoria, mas nunca tinha feito, e a última vez em que fez um Makar experimentar, tinha sido há quase duas décadas. De acordo com ela, o ato necessitava de uma quantidade enorme de foco, primeiro para ver uma alma, è depois para alcançar um mínimo de caos paratocá-la. CallfoiposicionadoaoladodeAlma,parasuairritação,enquantoAaronficoucomTamara.Aideia detocaraalmadealguémqueelemalconheciaodeixavainquietoeestranho. Masele tinhaque tentar. Fechou osolhose tentou fazer oque elamandou, tentou enxergar sua alma como havia feito com a de Aaron. Mas não era a mesma coisa. Aaron era um de seus melhores amigos. Com ela era como brincar de esconde-esconde quando estava tudo escuro, era tatear aleatoriamente.Massemmuitaintenção,Callacabouconseguindo.Nãoestavaapenastocandonaalma da professora; ele pôde sentir o comprimento prateado da alma debatendo-se como um peixe fora d’água. Antes de afastar seus pensamentos, sentiu dentro dela uma força de vontade imensa, muita tristezaeumsúbitopavor.Engasgando,eleabriuosolhosatempodeverqueAlmareviravaosolhos. Ela caiu em uma pilha de travesseiros que o Mestre Rufus havia conjurado de outra área do Magisterium. Ele olhou para ver Aaron pegando Tamara nos braços enquanto ela desmaiava graciosamente. Aaronasegurou por uminstanteantesqueelaabrisseosolhos,risseeseendireitasse,sorrindopara ele.

RufustinhaseapressadoparaoladodeAlma. —Elacontinuainconsciente—disseele.—Masestábem. —Omagopareciasombrio.—Bomtrabalho,pessoal. Call tinha conseguido. Tinha tocado a alma de alguém. Só não se sentia bem com isso. Nem um

pouco.

pouco. Asexta-feiraamanheceu.Callumfoiacordadopor Devastaçãolambendoseuspésdescalços,oque continuavanojentoe

Asexta-feiraamanheceu.Callumfoiacordadopor Devastaçãolambendoseuspésdescalços,oque

continuavanojentoe faziacócegas. Callgirou, aindameiodormindo, tentandoproteger osdedosdos pés,colocando-ossobascobertas.MasissosófezDevastaçãopularnacamaelamberseurosto.

sai!—falouCall,cobrindoacabeçacomumadasmãoseempurrandoolobocoma

outra.Àsvezes,saberporondealínguadeDevastaçãojátinhapassadoerapiordoquenãosaber. Vestindo o uniforme, ainda grogue, Call ficou imaginando se poderia tocar a alma de Devastação para fazê-lo dormir por mais quinze minutos, mas concluiu que por Devastação ser Dominado pelo Caos,suaalmajátinhasofridoobastante. CallmarchouparaasalacompartilhadaebateuàportadeTamara.Eraavezdelaoacompanharna caminhadamatutina.Umresmungoveiodedentroealgunsminutosdepoiselaabriuaporta,parecendo estarcomtantosonoquantoele,usandosuabraçadeiraroxa.IssofezCallselembrardebuscaradele. Os dois cambalearam para o corredor, segurando uma coleira que ninguém tinha se incomodado em amarraremDevastação. —Hojeéodia—disseTamaraquandoestavamnametadedocaminhoparaoPortãodaMissão, apontandoparaabraçadeira. —Todosesperamgrandescoisasdenósnesseteste,maseu andeifalandocomoutrosalunoseo Mestre Rufus tem passado tanto tempo nos ensinando sobre responsabilidade pessoal e ensinando a vocêsdoissobremagiadocaosqueachoquenãoestamosprontos. Call estava concentrado em não tropeçar. Sua perna sempre ficava dura pela manhã e era complicadoapoiarmuitopesonelaantesqueamusculaturarelaxasse.Elefezquesimcomacabeça.Call sempreachavaquenãoestavaprontoparaascoisas,masnãogostavadeverTamaraconcordandocom ele.

—Talvezagentepossausarmagiadocaos—sugeriuele.—Podesernossaarmanãotãosecreta. Elariu. —Claro,sequiserquetodomundopensequevocêtrapaceou. —Issonãoétrapacear!Éaminhamágica,edeAaron. Tamaraergueuassobrancelhas. —EraissoquevocêpensariasenãofosseumMakar? —Provavelmentenão—disseCall,sendorazoável.—MaseusouumMakar. Ela fez uma careta para ele, que significava que estava irritada, ou entretida. Call nunca sabia ao certoemquedireçãoaexpressãopesava;sósabiaqueTamaraausavabastante,principalmenteperto dele. Devastação fez suas necessidades enquanto Call absorveu o ar fresco e chutou algumas folhas. Voltaram para dentro do Magisterium, onde descobriram que suas coisas finalmente tinha sido consideradasinofensivaspelosmagoseforamdevolvidas.ApesardeCallsentir-setentadoaolhartudo, pegouMiri,guardouafacanabainhaefoiparaorefeitóriocomTamara.EncontraramAaronjásentado àmesa,comJaspereRafe.OcorpotododeAaronestavacurvadosobreoprato,comoseeleestivesse tentandodesaparecer. TamarasentouemumacadeiraeolhouparaJasper. —Eentão?Descobriualgumacoisaútil? Jasperergueuumadassobrancelhasparaela.

—Sai humpf

—Váembora,Rafe—disseele. —Porquê?—gritouRafe.—PeloamordeDeus,porquê?—Elepegouopratoemudoudemesa enquantoJasperoolhavacomassobrancelhaserguidas. —Nãoliguemparaele.Sempreficademauhumordemanhã—disse.—Enfim,eufaleicomCélia. Tivequeusartodoomeucharmeparaarrancaralgumacoisadela. Aaronpareceualarmado.Callrevirouosolhos. —Porfavor,chegadedicasmasculinas—implorouAaron. —Apenasdigaoqueeladisse,seéquedissealgumacoisa. Jasperpareceuumpoucodesanimado. — Não existem boatos sobre a existência de outro Makar além de vocês dois. Apesar de

aparentemente haver muitas conversas sobre vocês, caso estejam interessados em saber. Histórias sobre como derrubaram o Inimigo. Se vão começar a fazer experiências para testar seus poderes. Se vocêstêmnamorada. —Porqueteriam?Tamarapareceuchocada. —Dêumvotodeconfiança,Tamara—disseCall.

—Sóquisdizerque

—Seforamor,apessoaarrumatempo—falouJasper,olhandocomardesuperioridade.

Tamararesmungou.

—Eosboatos?Quemcomeçou?

Jasperbalançouacabeça.

—Aindanãosei.Céliadissequeachouquetalvezfosseumdosalunosmaisvelhos.

Tamararespiroufundo.

—AchaquepodetersidoKimiya?—perguntou.—ElafoipéssimacomAaron.

Bem,nãoécomosevocêstivessemtempopraisso.

pelomenosum

pouco. — Acho que não foiela — disse Call. — Ela agiu como se estivesse chocada pela possibilidade de

Aaronnãoserquemelapensava.Nãocomoalguémquejátinhainiciadoumboatosobreele.

—Masporqueelainventariacoisasassim?perguntouAaron.—Elameconhece

Jasperjogouumcogumeloparaoaltoecomeu.

—Sófazumasemana.Voudescobrirmaiscoisas.

—ÓtimodisseAaron.—Talvezagenteconsigaalgumasrespostassesobrevivermosaotestehoje.

Callresmungou.Quasetinhaseesquecidodoteste.

MestreRufusosconduziuquandoestavamsaindodorefeitório.Estavacomumsorrisosinistrono

rostoeumabolsagrandenoombro.

—Vamos,aprendizes.Achoquevãogostardoquetemosparavocêshoje.

Callnãogostou. Estavamnaenorme salaonde

Callnãogostou. Estavamnaenorme salaonde muitosdostesteseramrealizados, inclusive alutacomdragõesno AnodeFerro.Masdestavez,ocômodoestavapegandofogo—tudobem,nemtodoele,masboaparte. Call sentiu o calor envolvê-lo imediatamente, tostando a camada mais superficial do corpo como um marshmallowprestesaqueimar. Chamas saltitavam no meio da sala, mas não de forma aleatória. Estavam dispostas seguindo um padrão. Linhas de chamas corriam paralelas umas às outras, formando o que pareciam trilhas entre elas.FaziamCallselembrardoslabirintosquejátinhavistoemilustraçõesdelivros,pessoasvagando

poremaranhadosfeitosdeárvoresearbustos.Masesteerafeitodechamasvivas. —Umlabirintodefogo—disseAaron,olhandofixamente.Tamaratambémencarava,aschamas refletidas em seus olhos. O fogo subia e descia, espalhando faíscas. Call ficou imaginando se Tamara estariapensandonairmã. Uma das alunas do Ano de Ouro, provavelmente aprendiz do Mestre North, passou por eles e entregou aoMestreRufustrêscantisdeumapilhaqueestavacarregando.Rufusassentiu esevoltou novamenteparaseusaprendizes. —Sãoparavocês—disseele,indicandooscantis,cadaqualcuidadosamentemarcadocominiciais:

AS.CH.TR.—Aáguaéoelementoopostoaofogo.Estãotodoscheioscomumapequenaquantidadede águaquevocêspodemextrairenquantonavegampelolabirinto.Lembrem-sedequepodemusartudoe perfurarasparedesoueconomizarasuamágica.Nãovoulhesdizerqualéasoluçãomaissábia.Vocês devemseguirseuprópriojulgamento. Call tinha quase certeza de que Mestre Rufus estava indicando o preferível, mesmo que não quisesseadmitir. — A única coisa absolutamente inadmissível é voar sobre o labirinto. Isso resultará em desqualificaçãoimediata.Entenderam?—MestreRufuslançouumolharseveroacadaumdeles. Callassentiu. —Porqueissoseriatrapacear? —Alémdeperigoso—disseTamara.—Ocalorsobe.Oaracimadolabirintoestaráfervendo. —Issomesmo—disseMestreRufus.—Maisumacoisa:vocêsvãoentrarindividualmente.—Ele olhou longae duramente paracadaumadas expressões de choque dos três. — Nãocomoumgrupo, massozinhos. —Espera.Oquê?—perguntouTamara.—MastemosqueprotegerCall!Nãotemosdeixadoque elefiqueumminutolongedosnossosolhares. —Pensamosquefosseumdesafioemequipe—observouAaron.—Easbraçadeiras? OMestreRufusolhouemdireçãoaalgunsdosoutrosMestresqueestavamcomseusaprendizes, preparando-osparaolabirinto.Algunsdosalunosmaisvelhoscosturavamseucaminhoemmeioaeles, entregandocantis,respondendoperguntas.Eramassistentes.Callviuobrilhodepulseirasdouradase prateadas.Viu AlexeKimiya,queolhou nadireçãodeleseacenou brevementeparaTamara,quenão acenoudevolta.Seusolhosescurosestavamimpiedosos. —Éumdesafioemequipe;suaspontuaçõesformarãoumamédia—disseoMestreRufus.—Este teste é para demonstrar que é importante que todos vocês assumam responsabilidade sobre as educaçõesdosoutrosaprendizesnoseugrupo.Eaopassoqueéimportantequesaibamcomofuncionar emgrupo,tambéméimportantequesaibamfuncionarsozinhos. “NãosepreocupemcomCall—acrescentouMestreRufus.—Preocupem-secomvocêsmesmose comsuasnotas.Cadaumentraráporumapartediferentedolabirinto.Oobjetivoéchegaraomeio.A primeirapessoaqueconseguirissoteráumdiainteirodedispensadasaulasepoderáirparaaGaleria juntocomorestodaequipe. Call sentiu uma motivação súbita para vencer. Um dia inteiro de folga, nas piscinas termais, assistindoafilmesecomendodocescomTamaraeAaron.Seriaincrível! Ele também se sentiu grato por estar por conta própria no teste. Era grato pelo que os amigos estavam fazendo, mas não tinha o costume de ficar acompanhado o tempo todo e estava ficando cansado.Oquetinhamdiantedesieraumteste,criadoeaplicadopelosmestres.Issosignificavaque ninguémestavaseguro.Mas,provavelmente,elenãocorriamaisperigodoqueorestantedosalunos. AvozdeMestreNorthveioexplodindopelocampodefogo,amplificadapormagiadoar.Elerepetiu

as regras, enfatizando a parte sobre não voar, e depois começou a indicar os pontos de partida

individuais.Callprocurouporsuamarcadegiz:BY9.

—Boasorte—disseeleaAaroneTamara,ambosagarrandoospróprioscantiseolhandoparaele compreocupação. Call sentiu uma onda de calor, e não foipor causa do fogo. Ambos os seus amigos estavamprestesaentraremumlabirintoemchamas,eambosestavampreocupadoscomele,enãocom sipróprios. — Cuidado — disse Aaron, dando um tapinha no ombro de Call. Seus olhos verdes eram tranquilizadores. — A gente consegue — disse Tamara, parte do seu antigo entusiasmo de volta. Estaremos nos divertindonaGalerialogo,logo. ElaeAaronassumiramosrespectivoslugares.CallouviuavozdoMestreNorthseelevandosobre osestaloseoclamordaschamas. —Emsuasmarcas.Preparar.Valendo! Osaprendizesdispararamparaolabirinto.Haviamúltiplastrilhasapercorrer.Callseguiuaprópria rota,queolevavaparaasprofundezasdofogo.Aschamasardiamaoseuredor.Osoutrosalunoseram sombrasatravésdofogolaranjaevermelho. O labirinto bifurcava em dois caminhos diferentes. Call escolheu o esquerdo aleatoriamente e o seguiu.Seucoraçãobatiaforteesuagargantapareciaqueimarcomoarsuperaquecidoqueeleinalava. Pelomenosnãotinhafumaça. Fogo quer queimar. Ele se lembrou de sua própria resposta irônica naquela primeira vez em que ouviu o poema. Call quer viver. Naquele momento, o ardor das chamas diminuiu e Call pôde olhar atravésdolabirinto. Nãoviuninguém.Seucoraçãoacelerouquandopercebeuquenenhumoutroalunoeravisível.Ele pareciasozinhoahdentro,apesardeaindaconseguirverosMestresdoladodefora,juntoàsparedes. —Aaron?—chamou.—Tamara? Ele apurou os ouvidos para conseguir escutar acima dos estalos do fogo. Teve a impressão de ter captado seu nome, suave como umsussurro. Ele avançou emdireção ao som, exatamente quando as chamas ao seu redor ergueram-se outra vez, agora ardendo tão altas quanto postes de telefone. Ao quase ser atingido por uma explosão de chama, Call cambaleou; a ponta de uma de suas mangas queimava.Eleapagouabrasacomumtapa,masseusolhosardiam,quasecegos,eeleestavatossindo muito. Elealcançouocantileoabriucomopolegar,esperandoverobrilhofamiliardaágua.Aguadaqual pudesseextrair,cujopoderelepudesseusarparareduzirachama. Masestavavazio. Call sacudiu o cantil perto do ouvido, torcendo para estar errado, torcendo para ouvir o ruído familiardelíquido.Elesacudiuabocadocantilsobreamão,torcendoporumaúnicagota.Nãotinha. Nãohavianadadentrodele,excetoumpequenoburaconabase.Pareciatersidofurado. —MestreRufus!—gritouele.—Meucantilnãotemágua!Vocêprecisapararoteste! Masaschamassóaumentavamaoseuredor.Umaexplosãovoouemsuadireçãoeeletevequepular paraoladoparaevitá-la.Calltropeçou ecaiu violentamentesobreumjoelho,epor pouconãodeu de caracomumaparededefogo.Umador subiu pelalateraldocorpo.Por ummomento,aoselevantar, Callnãotevecertezadequesuapernaruimiriasegurá-lo. —MestreRufus!—gritoudenovo.—MestreNorth!Alguém! Por que ele achou que ficaria bem sozinho? Por que confiou nos Mestres para garantirem Sua segurança? Se Tamaraou Aaronestivessemali, teriacomopegar umpoucodaáguadeles!Masentão

seus pensamentos mudaram bruscamente de direção: e se os cantis de Aaron e Tamara também estivessemsemágua?Eseapessoaqueestavaatrásdelequisessesecertificardequeelesnãopoderiam ajudardejeitonenhum? Tinhaqueencontrá-los. Callcomeçouaandarnovamente,tentandoignorarocalorquecresciaaoseuredor.Bolasdefogose soltavamdetemposemtemposevoavamemdireçõesaleatórias,comolabaredas.Eledesvioudeumaao dobrarumaesquina.Viroumaisumaeseviudiantedeumaparededefogo. Estavaemumbecosemsaída. Callfreou de repente e virou, prontopararefazer os passos, mas encontrou mais umaparede. O labirintotinhamudadode formae pareciabuscá-locomlínguasde fogo, queimando-o, deixandooar comcheirodecabeloetecidoqueimados. OuivoagoniadodeCallfoiengolidopelorugirdaschamas.Claroqueolabirintomudavadeforma. Docontrárionãohaverianecessidadedeteremágua—tinhaquehaverpontosemquefossenecessário fazermágica. Naquelemomentoumadasparedesseaproximou.Callpôdeverosrebitesdemetalemsuasbotas brilhando em um vermelho alaranjado. A não ser que quisesse virar churrasco, tinha que encontrar umamaneiradesair dali.Nãopodiavoar;Tamaratinharazão,estariaaindamaisquentenoar acima daschamas. Ar.Calma,Callpensou.Fogoprecisadear,certo?Fogosealimentadear. Eleteveumaideia. Eleesticou suamãoesquerda,dojeitoquehaviavistomagosfazeremquandoestavaminvocando poderparaseusfeitiços.ComojátinhavistoAaronfazer.Eleesticou,alémdofogoaoseuredor,além da pedra sob seus pés. Além da água correndo nos rios e riachos muito acima deles. Além do ar. Ele tocounoespaçoqueexistiaenoquenãoexistia,alcançandoalémdonada.Ocoraçãodovazio. O calor do fogo esmaeceu. Ele não conseguia mais sentir sua pele queimando e ardendo. Aliás, estavacomfrio.Umfriocomoodoespaçosideral,ondenãohaviacalor,apenasonada.Nocentrode suapalma,umaespiralnegrocomeçouadançar.Elevou-sedesuapelecomoumredemoinhodefumaça libertada. Fogoquerqueimar. Arquerlevitar. Águaquercorrer. Terraquerunir. Caosquerdevorar. OcaosseergueudamãodeCall,cadavezmaisveloz.Tinhasetransformadoemumtomadonegro, girandoaoredor deseu pulsoedamão.Eleconseguiasenti-lo,espessoeoleosocomoareiamovediça queosugariaparabaixo.Eleergueuamãoaindamais,omaisaltoqueconseguia,atéalcançaracimado topodaschamas. Devore,elepensou.Devoreoar. A fumaça explodiu para fora. Call engasgou quando um ruído que parecia uma explosão sônica perfurouoar.Aschamascomeçaramasacudirdeformaselvagem,deumladoparaooutroenquantoa fumaçanegracorriasobreelas,seespalhandocomoumacamadadenuvem,devorandoooxigênio.Fogo precisa de oxigênio para sobreviver. Call tinha aprendido isso na aula de ciências. Seu caos sombrio estavacomendoooxigênioquecercavaaschamas. Ele conseguia ouvir outros barulhos agora: outros aprendizes, gritando de surpresa e medo. As chamasemitiramumruídocomoseestivessemsendoviradasdoavesso—emseguidadesapareceram,

sucumbindo em pilhas de cinzas queimadas. De repente toda a sala era visível — Call podia ver os outrosalunosespalhadospelochão,algunsagarrandoseuscantis,todosolhandoemvolta,chocados. AfumaçaprovocadaporCallaindapairavanoar.Escuraesinuosa,pareciaterdilatadocomoarque engoliu.Callcomeçouaengasgar,lembrando-sedemaisumacoisaqueaprendeunaauladeciências.O fogopodiaprecisardeoxigênioparasobreviver,masaspessoastambém. Afumaçacomeçouaassentar.MestreRufusmarchavaemdireçãoaolabirintodestruído,gritando:

—Call!Livre-sedisso,Call! Empânico,Callesticouamãooutravez,alcançandoocaos,tentandopuxá-lodevoltaparasi.Sentiu aenergiaresistir. Queriaempurrar aquiloe se libertar. Queriaque odeixasse empaz, Callesticavaa mãocomtantaforçaqueosdedosestavamsetransformandoemgarrasdoloridas.Volte. Derepenteafumaçaescuradocaosgirouemumredemoinhoeavançouparaochão.Callsoltouum grito—depoisviuqueelaiaemdireçãoaAaron,cujamãotambémestavalevantada.Sedesfezemsua palmaedesapareceu. O Mestre Rufus parou a alguns metros de Call. Aaron abaixou lentamente a mão. Call pôde ver Tamara,suasbochechasmanchadasdecinzas,abocaaberta.Sobreosmontesdecinzaseosgruposde alunosassustados,CalleAaronolharamumparaooutro.

alunosassustados,CalleAaronolharamumparaooutro.

Naquelanoite,Tamarafoiaúnicadostrêsadescerparaorefeitórioparajantar.Elalevoucomida

para Call e Aaron — uma bandeja cheia de líquen, cogumelos, batatas e a sobremesa roxa que Call gostava. —Comofoi?—perguntouAaron. Eladeudeombros. —Foitudobem,euacho.—Tamarasabiamentirmuitobem,entãoCallficoudeolhonela,pronto paraacreditarqueindependentedoqueeladissesse,averdadeeramuitopior.—Todomundoqueria fazerperguntas,masfoisóisso.

— Que tipo de perguntas? — Call quis saber. — Tipo, se eu sou maluco? Se estou me tornando

mau?

—Nãosejaparanoico—disseTamara.

— É, eles provavelmente achamque eu sou o maluco — disse Aaron, dando umsuspiro. A parte maisestranhafoiqueCalltevequereconhecer queissoprovavelmenteeraverdade.Apesar deAaron tersalvadotodomundo—salvadodeCall,oquefezcomqueCallselembrassedalistadeSuseranodo Maldoanopassado,jáquequasematartodososgruposdeaprendizesdoAnodeCobreterialhedado muitospontos—,seuusodamagiadocaosprovavelmenteaindaassustavaatodos. —Estáquaseacabando—disseTamaraaeles.—VamosajudarAlma,eelavaientraremcontato

Ok,nãoseioqueelavaifazer,exatamente.MasvamossaberquemmatouJennifer,

comJenniferpra

eissosignificaquevamossaberquemestáatrásdevocê.Entãocomam.Vãoprecisardeforça. —Então,quemganhou?—perguntouCall. —Quê? —Tamarapareceudesconcertada.—Comoassim? —Quemganhouoteste? —repetiu Call.—QuemvaipoderirparaaGaleria?Querdizer,elesescolheramapessoamaispróximadocentro ouresolveramdesistirdetudo?

— Nós vamos ±4 disse Tamara lentamente, como se estivesse tentando ser muito solidária com alguémaquemestavadandoumamánotícia.—Vocêganhou,Call. —Ah—disseele,semsabermuitobemcomoreceberanotícia.Ninguémoparabenizounahora.

MestreNorthvierarugindosobreoquesobraraapósofogoparasacudirosombrosdeCalleperguntar no que ele estava pensando. Entretanto, quando Call mostrou a ele o cantil vazio com o buraco no fundo,suaexpressãoficousériaeestranha. Mestre Rufus tinha olhado em volta com frieza, como se estivesse pensando no que faria com o culpado. Callsabiacomoeraasensação, apesar de ter se preocupadopor uminstante que oolhar do MestreRufustivesserepousadoemAnastasia. Às vezes quando Call olhava em volta do refeitório, achava impossível que alguém que quisesse matá-lopudessesemisturaratodomundo.

— Tamara tem razão — disse Aaron, dando uma garfada generosa no líquen. — Precisamos

descansar enospreparar parahojeànoite.Jáusamosmagiaosuficienteeprecisodeumcochilo,ou voucairnosonoabraçandoumursoDominadopeloCaosesereidevorado. Call, que dormia abraçado com um lobo Dominado pelo Caos com frequência, riu. Em seguida

atacou acomida.EleeAaroncomeramtudobemrápido.Aessaalturaeletambémestavasesentindo grogue e tonto, como se a pele que habitava não fosse sua. Lembrou-se de Aaron passando mal e desmaiandoapósusarintensamenteamagiadocaos,maselenuncatinhasesentidoassimantes.Elese levantouefoideitar. Quandoacordou,enroladonoslençóis,aindadeuniformeesapato,sequerconseguiaselembrarde terdeitado.Doladodeforadoquartoouvia-sevozes.Jádeviaestarnahora. Callselevantouefoiparaasalacompartilhada. Alexestavasentadonosofá,conversandocomTamara.Ambosvestiamroupaspretas,comoninjas. OcabelocastanhodeAlexestavameioescondidosobumbonéescuroeTamarausavaumcasacopreto grandedemaiselegging.Seucabeloestavampresoemtrançassedosasamarradascomlaçospretos.Alex sorriaparaeladeumjeitodiferente,umjeitoqueCallsóotinhavistosorrirparaKimiya. Callnãogostoudisso. —Minhamadrastamemandouajudar—disseAlex,voltando-separaCall.—Vocêstêmcertezade

quequeremfazerisso?Participardessa

—Eu nãosabiaquevocêiaparticipar —disseCall,eAlexpiscou comoseestivessesurpresopelo tomdeCall.TamaralançouaCallumolharreprovador. —EleéenteadodeAnastasia—disseTamara.—Eémagodoar.Seráútil. Aaronentrounasala,tambémdepreto,apesardenãotercobertoocabelobrilhoso.Aaronfezum gestodecabeçaparaCall. —Deixamosquedormisseomáximopossível.

— Vocês usaram muita magia do caos no teste hoje disse Alex. — Estou vendo que vou ter

dificuldadedeacompanhá-los. CalleAarontrocaramumolharquediziaquenenhumdosdoisestavaexatamenteansiosoparaser convocadoausaressespoderesdenovo.Callestavacompletamenteesgotado. —Emelhorvestirumaroupaescura—disseAlex.—Nãoqueremosservistosnocaminho. Callvoltou para o quarto e vestiu seu jeans preto e o casaco mais escuro que encontrou, que era azul. Quase se esquecendo, pegou Mirique estavaemcimadacabeceirae guardou afacanocintoda calçajeans.EntãoacordouDevastação,quedormiaemcimadacamacomalínguaapoiadanacolcha. —Vamos,garoto—disseCall.—Horadaaventura. VoltouparaasalacomDevastaçãoatrásdesi.Alexabriuaportaparaogruposair.Comumolharna direçãodeCall,Tamaraoseguiu. Já no corredor, Call olhou em volta, surpreso. Estava tudo normal — as paredes de pedra, os corredoresqueseestendiamdosdoislados—,mashaviaumestranhobrilhonoar,comosevibrasse

travessuranoturna?Issoémuitosério.

emvoltadeles. — Camuflagem — disse Alex em voz baixa. Ele estava com a mão direita levantada, os dedos fazendo uma série de movimentos complexos, como se ele estivesse tocando piano. — Alterar a estruturamoleculardoartomamaisdifícilqueaspessoasnosvejam. Callolhou paraTamaracomumasobrancelhaerguida, comose buscasse confirmação. Eladeu de ombros, mas claramente estava impressionada. O que também era irritante— se alguém tinha feito algumamágicaimpressionantenaqueledia,definitivamentetinhasidoCall. Emboraeleprovavelmentenãodevessepensardestaforma. Mas não pôde deixar de imaginar se Aaron estava pensando o mesmo, considerando que um segundodepoisumabrasabrotoudamãodeAaron,iluminandoocaminho. —Vamos—disseele.—PassaremospeloPortãodaMissão? Alexassentiueogrupofoiemfrente,aluzdeAaronprojetandoassombrasdecadaumdelescontra aparede—Alex,depoisAaron,depoisCalleTamara,e,atrásdeles,Devastaçãotrotando. Encontraram apenas algumas pessoas no caminho para o portão, e exatamente como Alex falou,

ninguémpareceuser capazdevê-los,oumesmosuassombras.CéliaestavacomRafe,falandoemvoz baixa.Quandopassaramporela,Céliafranziuatesta,mas,foraisso,nãoreagiu.MestreNorthtambém passouporelescomorostoenterradoemumapilhadepapéis.Nãoergueuosolhosnenhumavez. Call se perguntou quando o Mestre Rufus ensinaria a eles um truque tão incrível quanto esse e percebeu,melancolicamente,quearespostaprovavelmenteeranunca.MestreRufusnãoeraotipode pessoaqueapostariacontraasuacapacidadedeencontrarosprópriosaprendizes. Eles saíram pelo Portão da Missão. Devastação, acostumado a ser levado por esse caminho para passear, foi na direção habitual das árvores e do campo de ervas daninhas. Alexgesticulava na outra direção. —Poraqui,Devastação.—Calldissenotommaisaltoqueousou.—Vamos,garoto. —Paraondevamos?—perguntouAaron. —Almaestáesperando—disseAlex,conduzindo-ospelaestradadeterraque,nocomeçodecada ano letivo, o ônibus pegava para subir a colina até o Magisterium. Era uma descida íngreme, porém rápida.Muitomaisrápidadoquefugirpelafloresta,comofizeramnoAnodeCobre,ouaostropeços, empânico,comoCalleTamarafizeramdepoisqueAaronfoisequestradonoAnodeFerro. Estradas são ótimas, Call pensou contemplativo, jurando pegá-las com mais frequência. Menos sequestrosporelementais,maisestradas. Dobraramumaesquinaeviramumavanpertodeummontedepedras.Almasedebruçouparafora dajanela. —Nãoacheiquefossemtercoragemdeaparecer—disseelaresmungando.—Entrem. Alexabriuaportadavaneelesseempilharamumemcimadooutro.Assimqueaportasefechou, Almadeupartidanocarro,dirigindomaisdepressadoqueCalljulgavanecessário.Devastaçãocomeçou aganir.

—Então,achoqueconseguiremosultrapassarocaminhãonaRodovia211.Aquestãoécomofazê-

lo parar sem ser jogando para fora da pista. E antes que digam “e daí, qual o problema?”, isso pode machucarosanimais—Almatinhaopéssimohábitodeolharparaelesenquantofalava,checandosuas reações.Callqueriamuito,muitolembrá-ladequeprecisavaolhar paraaestrada,mastinhamedode surpreendê-laefazercomqueelavirasseovolanteeosjogassedeumpenhasco. —Tudobem—disseCallnofimdascontas. —Porquevocênãopodiafazerissosozinha,vocêeorestodaOrdemdaDesordem?—perguntou Alex.

Almasuspirou,comoseaperguntafossemuitoboba.

— De quem você acha que vão desconfiar primeiro? A Ordem atua na floresta em tomo do

Magisteriumdesdequefomosautorizadosaestar ali,capturando,marcando,eàsvezesatéabatendo animais Dominados pelo Caos. Mas só quando necessário. A Assembléia sabe que somos firmemente contraoextermíniodessasvaliosascobaias,entãonossosmembrosprecisamdeálibisàprovadebalas.

— É tocante, o quanto ela se importa, t— Aaron suspirou para Call, em um raro momento de

desdém. Call concordou. Devastação não era uma cobaia valiosa; ele era um lobo de estimação. Call gostariaquetodososanimaistivessemopçõesmelhoresdoquemorrerouseremusadospelaOrdem. —Maseoseuálibi?—perguntouTamara.

— Eu? — disse Alma. — Bem, os registros mostram que eu estava com Anastasia Tarquin,

respeitávelintegrantedaAssembléia,estanoite.Elafoigentilosuficienteparameconcederacessoaos elementaiseperdemosanoçãodotempotentandoalgunsexperimentosnovo. —Enós?—perguntouCall,voltandoaoqueconsideravaseraquestãocentral. —Vãoficardetocaia—disseAlma,saindodaestradaeentrandonaviaexpressa.Passaramvoando pelopostodegasolinaonde,noanoanterior,ficaramesperandoomordomodeTamara,Stebbins,vir buscá-los. Aviaexpressase abriadiante deles. Por uminstante, Callfantasiou que estivessemindoa algumlugarsóparasedivertir.MastalveznãocomAlma.Issoseriaestranho. Almasoltouumarisadacacarejadaeparou.Elessaltaramdavan,felizescomoarfresco.Estavafrio, eoargelavaasbochechaseoqueixodeCallenquantoeleolhavaemvolta.Estavamemumabifurcação, onde a Rodovia 211 e a Rodovia 340 se dividiam. As duas estavam desertas, e a lua, enorme e clara, iluminavaaslinhasbrancasquepintavamocentrodoasfalto. Almaolhouparaorelógio. — Estãoamaisou menoscincominutosdaqui— disse ela. — Nãomaisdoque isso. Temosque descobrir comobloquear apassagem.—elaolhou paraCall,comoseoimaginassecomoumbloqueio adequadonaestrada. —Eufaço—disseAlexecaminhouatéotrechodegramanafrentedeondeasestradassedividiam. —Oqueelevaifazer?—sussurrouTamara,masCallapenasbalançouacabeça.Elenãofaziaideia. FicouolhandoenquantoAlexerguiaasmãosefaziaosmesmosmovimentosdepianista. Coreluzgiraramnafrentedele.Alexseinclinouparatrásenquantoelasseexpandiam.Callassistiu aquilo com uma pontinha de inveja. Aquilo era o que ele sempre achou que a mágica fosse, não a escuridãomortalquesederramavadassuasmãos. —Láestãoeles—sussurrouTamara,apontando.Comonãopodiadeixardeser,aolongeCallpôde ver um grande caminhão preto vindo na direção deles, do lado leste. Os faróis pareciam cabeças de alfinetebrilhandoaolonge,masaproximavam-semuitorapidamente. —Depressa,Alexander!—Almaseirritou. Alex cerrou os dentes. Ele claramente estava dando tudo de si, e Call sentiu uma pontada de arrependimento por ter sido impaciente com ele. A luz na frente de Alex tinha escurecido e a cor pareceusolidificaremformas—umamisturadebarreirasdetrânsitocordelaranjaeamarelascomas palavrasESTRADAFECHADAemletrasgrandesepretas.Eramenormesepareciamassustadoramente sólidas. —Alex,saidaí!—gritou Tamara.Parecendocansado,Alexcambaleou emdireçãoaeles.Almaos puxouparatrásdavanaomesmotempoemqueocaminhãochegou,parandodiantedabarricada. O caminhão em si era um veículo indassifícável com dezoito rodas, sem nada escrito na lateral. Quandoomotoristasaiudacabine,pareciatotalmentenãomágico.Estavaatédeboné.Entãofoiatéa barricadaefranziuorostoparaela.Docaminhãoveioumavoz.

—Ésótirardafrente!—disseavoz,claramentemuitoirritadaeacostumadaaserobedecida.—

Temoshora!

—Eseessaestradaestiverforadeuso?—perguntouosujeitodeboné.—Aspessoasnãocolocam

essascoisassemmotivo.

Callnãosabiaaocertoseailusãoseriacapazdesuportarcontatofísico.Eletinhaquefazeralguma

coisa.OlhouparaAlmaesemicerrouosolhos,derepenteficandomuitoconscientedeporqueelatinha

ensinadoaeleeAaronsobreotoquedaalma.

—Temosqueapagá-los—sussurrouele.

Aaronassentiu,maselejáestavaparecendoumpoucoesgotado.Osdoistinhamusadomuitamagia

docaosnaquelediaenãoseriamcapazesdeusarumaooutrocomocontrapesosseambosestivessem

igualmenteexaustos.Teriamquetentarnãoirlongedemais.

A pele de Call formigou. O caos surgiu entre seus dedos com facilidade, por mais que estivesse

cansado.Comdesconforto,imaginouquetalvezaexaustãotomasseamagiamaisfácil.Talvezocaoso

devorassesemqueelenotasse.

O outro homem saltou da cabine de cara fechada para o motorista. Estava vestido de verde-oliva

comoosoutrosmembrosdaAssembléia.Callselembroudetê-lovistoantes,masnãoexatamenteonde. Tamararespiroufundo.Elaconheciaosujeito,éda-ro.Eleprovavelmenteeraalguémimportante. AlextinhaarregaladoumpoucoosolhoseatéAlmapareciaprontaparacancelartudo.Callteveque agir depressa, antes que o pânico os dominasse. Eles tinham vindo aqui para libertar os animais que estavampresosnacaçambadocaminhão,animaiscomoDevastação,quecorriamperigo.Sódepensar nissoedeverDevastaçãoagachadonavala,Callfoitomadoporumaondasúbitadecoragem. —Notrês—sussurroueleparaAaron.—Vamostocaraalmadeles.Vocêcuidadomotoristaeeu ficocomodeboné. OslábiosdeAaronsecurvaramemumdosladoseCallimaginou seoamigoestariaansiosopara testarofeitiçodeverdade.Talvezeletambémestivessepensandonosanimais. Usandosuamagia,CallfoiembuscadaalmadomembrodaAssembléia.FoidiferentedetocarAlma

noambiente segurodoMagisterium, onde ele poderialevar todootempoque precisasse e elaestava preparada para isso. A alma do membro da Assembléia era escorregadia, difícil de agarrar, como se desviassedele.Elequaseconseguiavê-la—umacoisaprateadaquedavaimpressãodesecontorcerem ondascomplicadas.Eleexpandiuaextensãodopodercomrapidez,semtempopararefinamentoscomo tiveraantes.Sentiuamagiadocaosseconectar,maspareceumaisumtapadoqueumtoque. Pelomenosnãofoiumapertodessavez.

O homem caiu. Quando Call trouxe o foco de volta a si mesmo, estava caído no chão, Aaron e

Tamaraagachadosjuntoaele.

-—Vocêsabequemeraaquele?—perguntouTamara.—Sabequemacaboudederrubar?

Callbalançouacabeça.Claroquenãosabia.

—OpaideJasper—respondeuTamara.

—Uau—CallsabiaqueopaideJasperfaziapartedaAssembléia,atéoviunafestaondeJennifer

morreu. Não podia acreditar que tinha se esquecido. Agora entendia as expressões de todos. — Sou incrível!Jaspervaificarcompletamenteirritado. EleeAaroncomemoraramcomumhigh-five. —Vocêétãoimaturo—disseTamara,esticandoamãoparaajudá-loaselevantar.Devastaçãolatiu epulou,colocandoaspatasnopeitodeCall.Elecoçouacabeçadoloboeolhouaoredor.OpaideJasper estavadeitadotranquilamentenapista,aroupaverdeolivaespalhando-seaoredordelesobreoasfalto. Deperto,eraumsujeitorelativamenteindefinível,decabelocastanhoescuroebarbaaparadarente.

Ocorpodesmaiadodocaminhoneirotinhasidocolocadoemumavaladoladodaestrada.Enquanto Call observava, Alex saiu da vala e foi até o pai de Jasper. Levitou um pouco o corpo do homem e começouamovê-loemdireçãoaoacostamento. Alexpareciaexausto,cinzaepálido,comosetivesseesgotadotodasuaenergia.Callolhouemvolta. OndeestavaAlma?ElanãodeveriaestarajudandoAlex?

— Ela está ali. — Aaron apontou, como se tivesse lido os pensamentos de Call. Alma estava na frentedaportadocaminhão,fechadaporumacorrenteeumcadeadoenorme.Seucabelobrancovoava aovento.Aogesticular,faíscasvoavamdesuasmãos:magiametálica.Oarcheiravaaferroquente.

— Ah, não disse Tamara bem na hora em que o cadeado arrebentou e a traseira do caminhão se

abriu. Alma agarrou a parte de baixo e empurrou para cima, como se estivesse erguendo uma ponte levadiça. —Elesestãoaqui—gritouela,edepoisberrou. UmatempestadedeanimaisDominadospeloCaosjorroudocaminhão.Devastaçãosoltouumlongo uivo quando eles explodiram de seu confinamento — lobos, cachorros, doninhas e ratos, cervos e gambás,atéursos,coisasgrandescomolhosmulticoloridosecoruscantes. —Acheiquefossemestarenjaulados!gritouAlmaquandoosanimaiscomeçaramacorreremtodas asdireções.—Depressa!Temosquecercá-los! Os animais ignoraram o chamado. Alma correu atrás deles, levitando alguns de volta para o caminhão,maseradifícilcontê-los. —Poderíamosfazê-losdesaparecer—disseAaron.—Paraovazio. —Não!—disseCall.Elenãopoderiafazer isso,mesmoqueosanimaisparecessemassustadores. Mesmoquealgunsestivessemvindonadireçãodeles.ElestrêseDevastaçãorecuaramparaavan,que derepentepareceumuitopequenaparaCall. —Rápido—disseAlex,queveiomancandoatéeles.Osanimaissemoviamatrásdele,correndopela estrada, perseguindo uns aos outros. Ao contrários dos animais normais, eram estranhamente silenciosos.Callpôdeouvirumrosnadobaixo,masvinhadeDevastação.—Precisamoscriarumfeitiço delaços.Darformaaoardemodoquesefaçaumacorrenteemtornodeles. —Vocêconsegue?—perguntouCall. Alexbalançouacabeça. —Estouexausto.—Elerealmentepareciapéssimo.Atéobrancodeseusolhospareciacinzento. —Nóstambém—disseAaron,indicandoasimesmo,eCall. AlexsevoltouparaTamara. —Tamara,eupossoensinar.Nãoétãodifícil. —Euconsigo,mesmoquesejadifícil—disseelacomavozfirme.—Digaoquefazer.

— Uau! — disse Aaron. Alguma coisa passou correndo por ele, lustrosa, escura e com olhos

ardentes. Ele pressionou as costas contra a van, puxando Call atrás de si. Devastação parecia pronto

paraavançar,masCallochamoudevoltacomumcomandoríspido. AlexfalavacomTamaraemvozbaixaeelaassentiaaoouvi-lo.AntesmesmodeAlexacabardefalar, elaergueuasmãosecomeçouamovê-las.ElanãomexiaosdedoscomoAlex.Pareciamaisestartocando ascordasdeumaharpa.Callconcluiuquecadaumfaziamágicaàsuamaneira. Elequasepôdesentir opoder irradiandodeTamara.Emvezdear,noentanto,foifogoquesubiu embrasas,emumcírculoamploaoredordosanimaisemfuga.Masmesmoenquantoacercaestalava, ganhandovida,encurralandoagrandemaioriadosbichos,orestodelesconseguiuseespalhar.Alguns foramparaafloresta,outrosnadireçãodequalquer umquevissem.Agora,apavoradospelofogo,os olhosdosDominadospeloCaospareciaminsanoseselvagens.Muitosestavamcomosdentesàmostra.

Oqueacontecequandosetemocaosdentrodesi?,Callimaginou.Elequeriausarseupoderetocar umadaquelasalmas,paradescobriroquerealmentehaviasidofeitocomaquelesanimais.Masnãoteve tempodefazernadaalémdereagir. UmaraposapulounadireçãodagargantadeAlmaeelaaempurrouparalonge.Outramirousuas pernas.Umacobradisparoupelagramaparabaixodavanedesapareceu. —Cuidado!—AlexempurrouTamaraparaoladoexatamentequandodoisursospardosenormes foramparacimadavan,seuscorposgigantescoscomotanquesdeguerra.AlexeTamaracaíramnochão quandoCalljogouasmãosparaoaltoparaatirarnelesoquepudesse,fogooucaosnegro,elenãosabia ao certo. De toda forma, foi como raspar o fundo de um poço seco. Suas mãos tremeram e nada aconteceu. Eentãooursofoiparacimadele. EleouviuAarongritarquandooanimalbalançouapata,jogandoCallnochãonumúnicogolpe.Call rolouparaolado,espantado,eoursofoiparacimadele,rugindo.CallviuAaronesticaramão,maso mesmopareciaacontecercomele—apenasfaíscassemforçasaíamdeseusdedos.Nadademágica. CallseesticouporcimadoombroparaalcançarMiriaomesmotempoemqueDevastaçãopulou.O lobo Dominado pelo Caos fechou a mandíbula no pescoço do urso, enterrando os dentes no pelo espesso.Oursosoltouumuivorosnado.Devastaçãofoiparaascostasdele,enterrandoasgarraseos dentes.Oursosacudiu fortementeseu corpopesado,tentandoselivrar deDevastação,masolobose segurou.Finalmente,oursoconseguiuderrubá-lo.Devastaçãocaiunochãocomumgemido,eoursose afastouparaomeiodaestrada. CallconseguiusoltarMirieficardepécomdificuldade.UmaolhadarápidagarantiuqueDevastação estavabem. Aarontinhaencontradoumgravetoque estavausandoparatentar manter ooutrourso longe.Alex,quetinhaempurradoTamaraparatrásdavan,correudevoltaparaeles,nomesmoinstante emqueoursoestapeouogravetodamãodeAaron.AlexempurrouAaronparaforadocaminhoegirou paraoursocomasmãosesticadas,magiadoarentornandodaspalmas. Mas o urso não era um animal comum. Seus olhos giravam em vermelho e laranja enquanto ele usava as garras para atacar Alex, que gritou e caiu ajoelhado. Seu casaco brilhou num tom úmido de vermelhoaoluar,comumrasgonoombro. —Alex!—Tamaraveiocorrendoemdireçãoaeles.CallpoderiaterditoaAlexqueelanãoiaficar quieta.Aaronmoviaasmãoscomosetentassealcançaramagiadocaos,masnadaacontecia. —Aaron!Pega!—gritouCall,lançandoMiriparaoamigo. Aaronpegouafacaeempunhoualâminacontraourso.Sanguevoouemumesguichoquandoela atingiu o corpo da criatura. 0urso rugiu, cerrando os olhos. Ao mesmo tempo Tamara se aproximou commaisfogobrotandodasmãos. Encarandoofogoealâmina,oursovirouecomeçouaseafastarrapidamente.Masomaljáestava feito—aatençãodeTamaratinhasidodesviada,eascercasdefogotinhamcomeçadoacair.Osanimais Dominados pelo Caos espalhavam-se ainda mais, e alguns deles avançavam em direção à van com os olhosselvagensvasculhandoanoite. Call foi mancando em direção os amigos ao mesmo tempo em que Alexcaiu no chão. Seu casaco estacaaindamaisensopadodesangueagora.Callouviu avozexasperadadeTamara,viu Aaronolhar pra baixo, para as próprias mãos vazias de mágica. Estavam todos esgotados. Não havia nada que pudessemfazereosanimaiscontinuavamvindo. Masissonãoéexatamenteverdade,é?,disseumavozinhanofundodamentedeCall.Nãoeracomo senãohouvessenadaqueelepudessefazer.EleselembroudotúmuloDominadopeloCaosdoInimigo. Decomotinhamescutadosuavozporquesuaalmaosfezescutar.

Tenhoquecontrolá-los,Callpensou.Tenhoquefazeralgumacoisa. Aalmadeletambémtinhafeitoestascriaturas. —Ei,vocês!—disseele,avozsaindofracaeincerta.—Todosvocês!Parem! Os animais continuaram se movendo. Call engoliu em seco. Ele não podia ser covarde. Estavam todos em perigo. Podiam morrer. Até o pai de Jasper, que estava deitado na vala, desprotegido e, se tivessesorte,semtersidopisoteadoporesquilosDominadospeloCaos. Callrespirou fundoetocou suaprópriaalma,umaalmaquetinhahabitadooutrocorpoantesdo dele.Umcorpoquetinhacolocadoasmãosnocaosecolocadoessaenergiadentrodosanimais. —Ouçam-me!—gritouCall.—DominadospeloCaos!Vocêssabemquemeusou! Os animais congelaram. Call também. Podia ouvir seu coração batendo. Estava funcionando? Ele levantouavozmaisumavez. —DominadospeloCaos!Voltemparaocaminhão!Obedeçam! Ocomandopareceusoarpeloarmesmodepoisqueeleparoudefalar. AsPalavrasecoaramacabeçadeCall.Pontospretostinhamsurgidonoscantosdesuavisão.Todos osanimaisestavamsemovendo—pareciaquealgunsestavamvirando,começandoaseaglomerarnum mesmosentido—,masavisãodeCallestavaborrada.EletentouabraçarAaron,seucontrapeso,masa magia de Aaron estava tão fraca que ele não conseguia encontra-lo. Estava sozinho no escuro sem Aaron.Desesperado,sepermitiucairdecostasnonada.

CAPÍTULOCATORZE Callacordouderepente,engasgando.Estavanaenfermaria. O Mestre Rufus falava com alguém, provavelmente

CAPÍTULOCATORZE

Callacordouderepente,engasgando.Estavanaenfermaria.

O Mestre Rufus falava com alguém, provavelmente Mestra Amaranth. Ela gostava de andar com cobrasnoombro,maseraumaexcelentefeiticeiradacura.

— Não achei que o teste o tivesse esgotado tanto. Tem certeza de que ele vai ficar bem? — perguntouRufus. Elasooucomosejátivesserespondidoaquelaperguntaantes.—Eleestábem,sóestáexausto.Os

dois meninos usando as respectivas magias daquele jeito, ao mesmo tempo; não sei se deveria ter deixado que continuassem sendo o contrapeso um do outro. O que acontece se os dois forem longe demais?

— Levarei isto em consideração. — Call sentiu a mão do Mestre Rufus ir até seu ombro, e ele

manteveosolhosfechados,fingindodormir.—Énossaobrigaçãomantê-loseguro.Temosquemantê-

lostodosseguros,ouestaremoscondenadosarepetiropassado.

— Bem, ao menos ele não é tão tolo quanto o jovem Alex Strike ali, que conseguiu cair em um

monte de estalagmites. Juro, os alunos do Ano de Ouro se tornam mais tolos na medida em que se aproximamdoportãofinal. —Soubedoacidente—disseMestreRufus,semmuitointeresse,masalgumacoisaemsuavozfez comqueCallpensassequeelesabiamaisdoqueestavarevelando. MestreRufusapertouoombrodeCalleemseguidadeixouaenfermaria.Callouviuseuspassosà medidaqueseafastava.Manteveosolhosfechados.Emalgumlugar dooutroladodorecinto,Mestra

Amaranthcantarolava,fazendoalgoqueenvolviavidrostilintando. Vou contar até trinta, Call pensou. Depois finjo acordar. Assim ela não vai saber que eu estava fingindonafrentedoMestreRufus.

Elecomeçouacontar

masacaboudormindo.

Elecomeçouacontar masacaboudormindo.

Quandoacordoudenovo,CallviuTamaradiantedesi.Quandotentoufalar,elacolocouamãoem

suaboca.Cheiravaasândalo. —Conseguelevantar?—disseelanumsussurro.—Façaquesimouquenãocomacabeça. Eledeudeombroseela,exasperada,tirouamão. —NãoacordeAlexenãodênenhummotivoparaaMestraAmaranthviratéaqui.Elalevouhoras parasair.

— Pode deixar. — Call sussurrou de volta e saiu da cama. Suas pernas o sustentaram. Sentia-se muitobem,naverdade.Descansado.Aindaestavacomasmesmasroupasdequandotinhadesmaiado naviaexpressa.—Oqueaconteceu? —Shhhh. Vamos. —Tamaraolevou paraforadaenfermaria. Nocorredor, Calldeu umaúltima

olhada antes de a porta se fechar. Alexaparentou continuar dormindo, com uma atadura no ombro. MestraAmaranthnãoestavaemlugarnenhum. Aaron e Alma estavam esperando por eles. Assim como Tamara, Aaron estava com o uniforme escolar.SeusolhosseiluminaramaoverCall,eeledeuumpassoparaafrenteparalhedarumtapinha nascostas. —Vocêestábem?—perguntou.

— Um pouco dolorido, mas sim, estou melhor — disse CalLEle olhou para Alma, que usava um vestidoflutuantedealgodãoecasacocinzalongo.Seusbraçosestavamcheiosdecurativos. —Estátodacobertademordidasderaposa? Aexpressãode Almaficou sombria. Aaronbalançou acabeçae fez umgestode cortar agarganta paraCall,portrásdela. —Nãovamosfalarsobreisso!—disseAlma,seirritando. —Tudobem.—CallimaginouseAlmateriasearrependidodeterabertoaportadocaminhão.A culpaerabasicamentedelapor eleeseusamigosquaseteremsidomortospor ursos.—Então,oque estãofazendoaqui?

— Vocês cumpriram sua parte do acordo — disse Alma. — Está tudo pronto para eu cumprir a

minha. IssosignificavaqueJenniferestavaemalgumlugarporperto.Tinhaqueestar.Callestremeceusó depensar.Elenãosabiaseestavaprontoparaveroutrapessoamortafalando.Eramuitoparecidocom acabeçadeVerityTorreseosenigmas.TinhasidoumacoisamuitoSuseranodoMal. O rosto de Aaron era o de alguém com os mesmos questionamentos. Mas Tamara parecia determinada. —Ótimo—disseela.—Vamosacabarlogocomisso.

Alma começou a marchar pelo corredor e o trio foi atrás. Ao contrário de Alex, ela não parecia interessadaemfazernenhumamagiacomplexadearparaescondê-los.Deviasertardeeoscorredores estavambemdesertos.Elesficarampertodasparedeseseaproveitaramdassombras. —Alexestábem?—perguntouTamara. Callsentiusuapeleformigar.EranormalqueelasepreocupassecomAlex,disseasimesmo,ainda quejamaistivesseprestadoatençãoneleantes.Nãosignificavanada. —OuviRufuseAmaranthconversandomaiscedo—disseCall.—Elevaificar bem.Então,você sabe,podeavisarparaKimiya. Tamarapareceuconfusa. —Elanãosabequeeleseferiu. Callacenou. —Bem,vocênuncasabeoqueperdeuquandoestádesmaiado,certo?

— Shh — disse Alma, indicando que ficassem quietos. Tinham entrado na parte do Magisterium

ondeficavamosquartosdosMestres.AtravessaramemsilêncioatéodeAnastasia. Alma bateu à porta com três soquinhos rápidos, parou e bateu novamente. Um instante depois

Anastasiaabriuaporta.Estavacomumvestidobrancocobertopor umalongacapa,bordadacomfios pretos. Acenou para que todos entrassem e, uma vez lá dentro, Call quase engasgou. O local estava imaculado,assimcomoantes,massobreamesademármorenomeiodorecintoestavaJennifer. Ela parecia dormir. Seu cabelo negro e longo formava uma poça em volta da sua cabeça. Estava descalçaecomomesmovestidomanchadodesanguedafesta.Asmãosestavamcruzadassobreopeito.

— O corpo estava no Collegium desde o assassinato — disse Alma, trancando a porta. — Eles a

preservaramcontraadecomposição,paraquandofossenecessáriacomoevidência. Callficou imaginandoseteriasidoassimqueConstantinepreservou acabeçadeVerityTorreshá tantosanos.Eletinhaaimpressãodeque,independentedoquefizesse,estavacadavezmaispróximo davidaedasdecisõesdeConstantine.Eracomoestaremumarotadecolisãocomelemesmo. —Nãovãonotarqueelaestádesaparecida?—perguntouAaron. —VamosdevolverantesquequalquerumdoCollegiumprocureporela—informouAnastasia. Callpensounavelocidadecomqueelementaisviajavamenahabilidadeespecíficadosmembrosda Assembléia em controlá-los. Se Anastasia pegasse um dos elementais do Magisterium emprestado,

provavelmente conseguiria devolver Jennifer ao Collegium rapidinho. Mas se ela e Alma conseguiam roubarumcorpodoCollegium,entãooespiãoprovavelmenteconseguiufazermuitascoisastambém. Afinal,eleouelaeraomaiorMakardageraçãodeles.

— Vou explicar o que precisamos fazer — disse Alma para Call e Aaron. — Vocês terão que

aprenderumahabilidaderelativamentedifícil,erápido. Call se lembrou de Alma tentando ensiná-los sobre o toque da alma. Foi difícil aprender a fazer algumacoisacomalguémque entende ateoriajátinhavistosendofeito, masnuncarealizadoaação

pessoalmente. Ele e Aaron levaram horas para aprender. Call não tinha certeza de que teriam horas destavez.

— E você — disse Anastasia para Tamara — precisa impedir que qualquer pessoa procure por

CallumouAaron. —Quê?—perguntouTamara. —AMestraAmaranthprovavelmentevaichecarospacientesantesdeterminarmos.Váatéládigaa ela que Callum voltou para o quarto e que irá a enfermaria amanhã se ela desejar. Precisamos ter certezadequeaescolainteiranãoentreemfrenesiprocurandoporCallenquantoestamosnomeiode umexperimentomágicoilícito. Tamarasuspirou. —Tudobem.Euvou. —Umdenósnãodeveriairjuntocomela?—perguntouCall.Elenãosabiasegostavadaideiade algumdelesvagandosozinhopeloMagisteriumcomumespiãoàsolta.OlhouparaAaronparaverseele estavapensandoamesmacoisa,masoamigoestavacomorostopálido,encarandoocorpodeJensobre amesa. —EulevoDevastação.Pelomenosassimfaçoalgumacoisa,emvezdeapenasficarparadaolhando. Detestonãopoderajudar—disseTamaraindoparaaporta.DepoisvirouparaCall,sorrindo,astranças balançando.—Boasortenaconversacomosmortos. DepoisqueTamarasaiu,Callsesentiumuitosozinho.EramsóeleeAaron,duassenhorasmalucas eumcadáver. —Muitobem—disseele.—Oquefaremos? —Peloquesei—disseAlma,lembrandoaCallqueelaprovavelmentenãotinhatantacerteza—,

você precisa imaginar a magia do caos correndo pelo cérebro do morto, como sangue. Você precisa enviarenergiacaóticaparaele,ativandoamente. Pareciadifícil.Enãomuitoespecífico. —Ativandoamente?—repetiuAaron.ElepareciatãoespantadoquantoCall. — Sim — disse Alma com mais certeza na voz. — A magia do caos aproxima a faísca da vida, permitindoqueomortosecomunique. AnastasiagesticulouparaocorpodeJensobreamesa. —CalleAaron.Aproximem-seeolhemparaagarota. Incertos, os dois aproximaram-se da mesa. Os olhos de Jen estavam fechados, mas havia uma

mancha de sangue em sua bochecha. Call se lembrou dela rindo na cerimônia de premiação. Parecia

incompreensívelquenuncamaisfossesorriroumexerocabeloousussurrarumamensagemoucorrer

peloscorredores. EraissoqueConstantinequeriaconter,pensou.Essasensaçãodecoisaerrada.Aperdadeumavida

e de seu significado. Ele tentou imaginar se fosse alguém que realmente amava deitado ali; Alastair, Tamara,Aaron.EradifícilnãoentenderamotivaçãodeConstantine. Eleforçouamentedevoltaaopresente.EntenderasmotivaçõesdeConstantinenãoeraoqueele deveriaestarfazendo.Esimencontraroespião. —Alcancemumaooutro—instruiuAlma.—Usem-secomocontrapesos.Vocêscarregamemsio poderdocaos,doverdadeironada.Oqueestãoalcançandoéaalma.Averdadeiraexistência.Usemisso paraalcançarJennifer. Isso fazia umpouco mais de sentido, Call pensou. Talvez. Ele trocou umrápido olhar comAaron antesdeambosfecharemosolhos.

No escuro, Call se equilibrou. Agora que ele já tinha praticado, era mais fácil cair naquele espaço interior.Eracomosetudofosseemboramuitodepressa,atéadormesmodaperna.Tudoficavaescuro

e silencioso, mas de um jeito reconfortante, como se enrolar num cobertor familiar. Ele alcançou e sentiuAaronpresente.AvidadeAaron,suaessência,suaconfiançaalegrequeencobriaumnúcleomais sombriodedeterminaçãoeraiva.Aaronoalcançoudevolta,eCallsentiuaforçafluirparadentrodesi. ConseguiaverAaronagora,seucontornobrilhantecontraaescuridão. Outro contorno, mais fraco, pareceu flutuar em direção a eles, com um cabelo que parecia ser brancocomosenumnegativodefoto. Jen. Osolhosde Callse abrirame ele quase gritou. Jennãotinhase movidonamesa, masseusolhos estavambemabertos,asírisnegrascobertasporumacamada.Aarontambémencaravaaquilo,chocado eumpouconauseado. AbocadeJennãosemoveu,masumavozsecasaiuporentreseuslábios. —Quemmechama? —Hum,oi?—disseCall.Quandoviva,Jennifersempreodeixounervoso.Elaeraumadasgarotas maisvelhasepopulareseeletinhamuitosproblemasparafalarcomela.Masagora,falarcomeladava nervosodeumjeitototalmentediferente. —CalleAaron—prosseguiuele.—Lembradagente?Queríamossabersevocêpoderianosdizer

quemmatouvocê?

—Estoumorta?—perguntouJennifer.—Estoumesentindo

Elatambémsoavaestranha—haviaumvazioemsuavoz.Umvácuo.Callnãoachavaquesuaalma

estavapresente,nãodeverdade.Eramaiscomosehouvessetraçosdela,alembrançadoquefoiixado

paratrásquandosefoi.Sóouvi-lafalarjáarrepiavaCalldeumjeitoqueeletemiasercapazdecomeçar

estranha.

a gargalhar de pânico. Seu coração bateu forte e ele sentiu como se não conseguisse respirar. Como poderiacontarparaelaqueelanãoestavamaisviva? Ele lembrou a si mesmo que não era realmente ela. Não tinha sentimentos que pudessem ser feridos.

— Pode nos contar sobre a festa? — perguntou Aaron, educadamente como sempre. Call olhou paraoamigocomgratidão.—Oqueaconteceunaquelanoite? AbocadeJennifersecurvounasombradeumsorriso. —Sim,afesta.Eumelembro.Euestavamedivertindocommeusamigos.Tinhaummeninoqueeu

gostava,maseleestavameevitandoeaí

nãoconsegui.Kimiya!Kimiya!Fiquelongedele! —Oquê?—perguntouCall.—OquetemKimiya?Oqueaconteceu?Dequemelatinhaqueficar longe?Nãofoielaquefezisso,foi? Mas Jennifer parecia perdida em lembranças. Seu corpo começou a se debater, as palavras transformando-seemumgritolongoecontínuo. Calltinha que se concentrar na magia. Ele fechou os olhos e tentou voltar a ver aquele contorno desbotado de Jen, aquela versão de negativo de foto. Conseguiu identificá-la no escuro, desbotada e

esfarrapada. Se quisesse, poderia fazê-la falar palavras que não eram dela. Mas ele precisava que ela tivesseaprópriavoz,enãoadele.Entãoperseguiuaquelassobrasbrilhantesdeumaalma,felizporela sótersidopreservadaporpoucotempodepoisqueaalmapartiu.Elecanalizoumaismagiacaóticapara fortalecê-la. Quandoabriuosolhos,asfeiçõesdeJenestavamtranquilas. —Jennifer,estámeouvindo?—perguntou. —Sim—disseela,suavozsecaesemafeto.—Oqueordena? —Quê?—CallolhouparaAaron,queestavamuitopálido.

— Ah, não — disse Anastasia, levando as mãos à boca para cobri-la. Os olhos de Alma tinhamse arregaladoeelaseesticoucomosepudesseimpediralgoquejáestavafeito.—Call,oquevocêfez? CallolhouparaJennifereelaolhouparaelecomolhosqueestavamcomeçandoagirar.

aíasluzesseapagaram.Emeupeitodoeu.Tenteigritar,mas

—Call—sussurrouAnastasia.—Ah,não,denovonão

denovonão.

—Oquê?Callestavarecuando,umasensaçãodechoqueseespalhandoporele.“Oquê?”pareciaa

únicacoisaqueeleconseguiafalaroupensar.—Eu

MascomoConstantinefizcentenas,milharesdevezes. Jen sentou sobre a mesa. Ocabelo peto caindo sobre os ombros brancos como ossos. Seus olhos eramfogogirando. —Ordene,Mestre—disseelaaCall.—Sódesejoservir.

porqueninguémme

contou? Aaronsemoveu parabloquear Calldosolhareshorrorizadosdasduasmulheresedaencaradade Jennifereseusolhosdefogo.

— Nunca deveriam ter sugerido que fizéssemos isso — disse ele furiosamente. — E horrível. Roubarocorpodelafoihorrível. —Vãoemboravocêsdois—disseAnastasia.Cuidaremosdisso. CallsentiuamãodeAaronemseuombro,euminstantedepoiseletinhasidoguiadoparaforado quartoeestavadevoltaaocorredor.Elepuxouasmangasdocasacosobreasmãos.Estavacongelando defrio,ocorpotodotremia. —Nãotiveaintençãodefazeraquilo—disseele.—Sóestavatentandomeprenderàalmadela.

eunão

eununcafizissoantes

—Evocê—disseAlma,olhandoparaCallcomhorror.—PequenoMakar

OsolhosdeAaronficarammaissuaves. —Eusei.Poderiateracontecidocomqualquerumdenós. —Nãopoderia—disseCall.—EusouoúnicodenósdoisqueéoInimigodaMorte! AaronapertouoombrodeCallesoltou. —VocênãoéoInimigo—disseele.—OInimigofoiMakarumdia,assimcomoeu.Talveztenha sidoumacidentequandoelefezissopelaprimeiravez.Existeummotivo—disseelecomavozmais baixa—peloqualelestodostêmtantomedodagente. Callolhou paratrás,paraaportafechadadoquartodeAnastasia.Ah,não,denovonão,disseela. SeráqueelaachavaqueCalljátinhafeitoantes,ou elasóestavadizendoAh,não,outroConstantine não? Ele começou a andar de volta na direção do seu quarto, mancando. Aaron o seguiu, comas mãos enfiadasnosbolsosdouniforme. —AchoqueAnastasiasabe—disseCall.—Quemeurealmentesou.TalvezAlmatambém. AaronabriuabocacomosequisessedizerVocêéCall,edepoisafechounovamente.Umsegundo depois,eledisse:

— Ela o viu controlando todos aqueles animais Dominados pelo Caos ontem. E você falou umas

coisas estranhas antes de desmaiar. Quer dizer, nada muito claro, só alguma coisa sobre como os animaisdeveriamsaberquemvocêera. —Esperoqueeladescarteissocomoummomentoextremamenteestranhoparaalguémsegabar —disseCall.—Alexouviu? —Não.Eleestavadesmaiado. PensaremAlexfezcomqueCallselembrassedeKimiya.Eleficoutodotensooutravez. —TemosqueencontrarTamara.TemosquecontarqueJenniferfalousobreairmãdela.

— Kimiya não assassinou ninguém — disse Aaron com desdém. — Além disso, seria muito

estranhoseeladerepentefosseamaiorMakardanossageração.Seriaumabeladistraçãodosmagos.

— Não não acho que tenha sido ela — disse Call, tentando entender seus pensamentos

embaralhados. A cabeça dele tinha começado a latejar. — Quer dizer, se Jennifer estava chamando Kimiya,ou queriachamar nahoraemquemorreu,entãotalvezKimiyasaibadealgumacoisa.Talvez algumacoisaqueelanãotenhaachadoimportanteantes. Aaronassentiu. —Queriaquetivéssemosrespostas,maspelomenostemosumapista. —Aaron?—Calltinhaoutraperguntasobreaquelanoiteenãosabiaaocertosequeriaaresposta. —OpaideJasperestábem? —Viu,vocêconsideraJaspercomoamigo!—disseAaron. —Seopaideleestivermachucadopornossacausa,não. —Opaideleestábem.Nósnoscertificamosdissoantesdeoamarrarmosevendarmos.Euoouvi xingandoenquantoíamosembora.—Aaronestavasorrindo,comosetivessevencidoumaaposta.Call ficavafelizporumdelesaindaconseguirsorrir. Elesforamatéaenfermaria,masTamaranãoestavalá,nemAlex.Acamadeleestavavazia. AMestraAmaranth,queestavarefazendoumadascamascommagiadoar,lançouumolharsevero aCall. —Queriaquealguémporaquimeouvissequandomandoficarnacamaatéeuliberar—falou. —OqueaconteceucomAlex?—perguntouAaron. —Eu omatei—respondeu MestreAmaranth,dandoumarisadasecaaover asexpressõesdeles. —-Eudeipermissãoparaquesaísse,naverdade;verifiqueiosferimentoseestavamcurados.Eleestava

bemquandosaiu.Aocontráriodevocê. —VocêviuTamaraRajavi?—perguntouCall.

— Vi, ela veio me avisar que você tinha voltado para o seu próprio quarto porque não gosta da enfermaria.Nãoseiqualéoproblemadevocês,meninos.Aenfermariaéolugarmaissegurodaescola inteira.Oselementaisdaquigarantemisso. Call olhou em volta desconfortável. Ele nunca percebeu que havia elementais observando os

pacientesnaenfermaria.Considerandoaquantidadedevezesemquetinhasaídodaqui,elesupôsque nãoeramorientadosaimpedirqueaspessoasentrassemesaíssem.Elenãosabiaoqueobservavam— doenças, talvez —, mas se sentiu melhor quanto a estar inconsciente sabendo que não poderiam simplesmenteentrareatacá-lo,pelomenosnãosemdispararumalarme. —Eladisseparaondeestavaindo?perguntouAaron. MestreAmarantholhouparaeleconfusa. —Estamosnomeiodamadrugada.Presumiqueestivessevoltandoparaoquartoparaquetodos vocês pudessem dormir um pouco antes das aulas. Agora, Callum, já que voltou, talvez devesse considerarpassarorestodanoiteaqui. —Não—disseele,fingindonãoestarcomdordecabeça.—Estoumesentindobem.Estoubem.

— Bem, nenhum de vocês deveria vagar pelo corredor tão tarde assim. Voltem para o quarto.

Callum,venhameveramanhãdepoisdaaula.Enadademagiadocaosporalgunsdias,ok? Call, pensando na magia que já tinha usado naquela noite, fez que simcoma cabeça, se sentindo culpado. Eles voltaram para os próprios quartos. Chegaram à porta e Call estava prestas a abri-la com a pulseiraquandoouvirampassospesadosnocorredor.CalleAaronsevirarameviramAlexcorrendoem direçãoaeles.Estavacomosolhosarregaladosetinhaumhematomafresconorosto. Ele desacelerou e parou, se curvando sobre as mãos apoiadas nos joelhos enquanto recuperava o fôlego. —Tamara.—Alexengasgou.—ElelevouaTamara! AaroneCallseolharamconfusos. —Doquevocêestáfalando?—perguntouAaron. —Oespião—disseAlex.—ElepegouaTamara. Callficourijo.Derepenteseucoraçãobatiamuitorápidonagarganta. —Doquevocêestáfalando,Alex?—perguntou. —Digaexatamenteoqueaconteceu.—AaronpareciatãoperturbadoquantoCall.—Exatamente. —Eusaídaenfermariaquandoacordei—disseAlex.—ViTamaraindoparaoPortãodaMissão comDevastação.Fuiatrásdelaporquequeriaagradecer pelaajudadeontem.Griteiparaela,masela não me ouviu. Ela foi para o lado de fora, e já estava escuro. Achei que tivesse visto alguma coisa se mexendo nas árvores, então corri para Tamara, mas não cheguei a tempo. Alguém a pegou. Eu não estava perto o suficiente para ver o rosto, mas foi definitivamente um adulto. Joguei mágica, mas a pessoa lançou umraio imenso de alguma coisa emmime eu caí. Quando conseguime recuperar e ir atrásdeles,játinhaperdidoorastro.—AcamisetaazuldeAlexestavamanchadadesangueondeos curativosestavam,emvoltadoombro.Eleprovavelmentetinhareabertooferimento. —Precisoquevocêsdoisvãocomigoatrásdelefalou.—Sejaquemforaquelecara,époderoso.Não achoqueconsigolutarsozinho. AaroneCalltrocaramumolhardepânico. —Temosquecontarparaalguém—disseAaron. —Nãotemostempo.—Alexbalançouacabeçaloucamente.—Primeirovamosterqueconvencer

aspessoasdequeestamosfalandoaverdade,eatélá,qualquercoisapodeteracontecidocomela.

CallselembroudaterrívelnoiteemqueAaronfoilevadoporMestreJosepheDrew.Eleselembrou

do terrível elemental do caos. Naquele dia também não teve tempo de avisar a ninguém. Se tivesse esperado,Aaronteriamorrido. —Tudobem—disseele.—Vamos. CorreramatrásdeAlexemdireçãoaoPortãodaMissãoeadentraramnanoite.Callcorriaomais rápidopossível,apernagritandodedor.

— Por ali — disse Alex, arfando e apontando para uma trilha que seguia pela floresta. O luar iluminavaocaminho.Deumaformameioterrível,anoiteestavalinda,cheiadeestrelaseluzbranca. Atéasárvorespareciambrilhar.

Eles correram para a trilha, finalmente desacelerando quando ela se transformou em pedras e galhosquetomavamcorrerperigoso.CalltentouimaginarTamarasendoarrastadaporummagoadulto assustador,alguémqueaestivesseameaçando,talvezmachucando.Entãotentounãoimaginareuma fúriaquaseooprimiu. —Devastação—disseelederepente. Alex,queestavaavançandoomaisdepressapossível,virou. —Quê?

— Você disse que ela estava passeando com Devastação — disse Call. — O cara também levou Devastação? Alexbalançouacabeça. —Devastaçãocorreuparaafloresta. —Devastaçãonãofariaisso—disseCall.—ElenãoabandonariaTamara.

— Talvez a esteja seguindo — disse Aaron. — Devastação sabe ser sorrateiro; ele é muito mais inteligentedoqueumlobocomum.

— Deve ser issoque estáacontecendo— disse Alex. — Nãotenhamedo, Call. Vamos pegar esse

cara.

Callnãoestavacommedo.ElevasculhouapaisagemembuscadeDevastação.Seseuloboestivesse comTamara,elesconseguiríamescapar.TamaraeDevastaçãoformavamumbelotime. — Você falou que era um adulto, certo? — perguntou Call, ignorando o comentário condescendente de Alex. Ele era mais velho do que Call, e provavelmente se considerava mais sábio. Talvezfosse,masnãosabiadetudo. Call pensou sobre de onde estavam vindo. Tinham deixado Anastasia e Alma com uma Jennifer dominada pelo caos, então não podia ser nenhuma das duas. As duas estavam diante de uma crise totalmentediferenteeestranhapararesolver.Callnãoconseguiapensaremnenhumoutroadultoque estivesse agindo de forma estranha. Mestre Lemuel? Call não o via há um ano e parecia maldoso desconfiardelesóporquenuncasederammuitobem. —PodetersidoumdosmembrosdaAssembléia?—perguntou.—MasporquelevariamTamara? Arespostaveioassimqueelefezaperguntaemvozalta. ParameatrairparaforadoMagisterium. —Porquevocêfalouquefoioespião?—perguntouCallaAlex.—Aindanãosabemosquemeleé.

— Bem, faz sentido, não? — disse Alex. — Quem mais seria, se não a pessoa que está tentando machucá-lo?

— O que significa que estamos indo para uma armadilha — disse Aaron. — Vamos ter que ter

muitocuidadoe fazer muitosilêncio. Quemquer que seja, sabe que estamos indo. Provavelmente se

certificoudequevocêovisse,Alex.Conseguefazeraqueletruquequenosdeixainvisíveisoutravez?

—Boaideia—disseAlex,erguendoasmãos.Oargirouemvoltadeles,soprandoasfolhas.

Callfranziuorosto.FaziasentidoqueTamarativessesidolevadapeloespiãoequeeleotivessefeito

na frente de Alex, que logo iria buscá-los e levá-los para fora do Magisterium. Mais ou menos. Fazia mais ou menos sentido. Mas como o espião saberia que Alex iria atrás de Aaron e Call em vez dos Mestres? ComooespiãosaberiaqueAlexestavalá? Isso,poroutrolado,tinhaumaresposta.Oespião,quemquerquefosse,sabiaquelevarTamarae DevastaçãoeventualmentetirariaCalleAarondoMagisterium.Elesiriamprocuraraamiga. MaselespoderiamterlevadoconsigotodososmagosdoMagisterium. Pensando bem, Call não se lembrava de ter visto qualquer evidência de explosão do lado de fora. Estava escuro, mas mesmo no escuro não sentia o cheiro de ozônio e madeira queimada que denunciavamousodemagia. EleolhouparaAlexefranziuatesta.EstavamlongedoMagisteriumagora,eestavacadavezmais escuro.AflorestaosenclausuravapelosladoseelenãoconseguiaenxergaraexpressãodeAlex.

— Este é ocaminhoparaaOrdemdaDesordem— disse Aaron, interrompendoos pensamentos

cadavezmaisperturbadoresdeCall.—Masestáabandonada.Almadissequeelesforamforçadosasair quandoaAssembléiacomeçouareunirosanimais.

— Talvez seja lá que o espião esteja segurando Tamara. — Alexsoou animado, mas não como se

essa fosse uma grande aventura, e também não como se estivesse em pânico por causa de Tamara. HaviaumaansiedadeemsuavozdaqualCallnãogostounemumpouco. A floresta parecia profunda e estranhamente vazia sem os Dominados pelo Caos, ecoando sua ausência.Ocasionalmente,umacorujadistantepiava.Oventosoprava,empurrando-os.Masospassos deCalltinhamdesaceleradoesetomadoincertos. Alexeraseuamigo.QuandoCallchegouaoMagisterium,Alexfoigentilcomele,apesardeCallser umgarotinhofracoteeAlexserinteligenteelegal,cheiodeamigos.EAlexdesabafoucomCalldepoisde terseucoraçãopartidoporKimiya.ElerealmenteacreditavaqueAlexgostassedele. Mas Alextinha acesso. Ele era o assistente do Mestre Rufus. Poderia ter obtido o cantilde Calle feitoumburaco.TeriatidoacessoaoquequerqueRufustivessefeitoparafazercomquesuaspulseiras abrissema sala compartilhada deles; poderia ter usado isso para esconder Skelmis no quarto de Call. SeráqueAnastasiapoderiatê-lodeixadoentrarnaprisãodoselementaisquandoestevelá?Callsupôs que sim; ele era enteado dela, afinal. Será que ela teria notado se ele tivesse desaparecido por um instante?E,alémdisso,noanoanterior,tinhasidoAlexquemdisseaCallqueosmagostinhamdecidido matarAlastair,apesardeMestreRufusterditoqueissonuncafoiverdade. Mas por que Alex faria isso? Call olhou para seu rosto impassível enquanto seguiam pelo escuro banhado pela luz da lua. Estavam quase na vila da Ordem. Call conseguia ver a clareira na frente, as sombrasdasinstalações. EleselembroudabocadeJennifersemexendo,edassuasúltimaspalavras:Kimiya,Kimiya,fique longedele.MaspertodequemKimiyaestavanafesta?Quantoaquemelateriaqueseralertada? Sópoderiasercontraseusamigos.Eseunamorado. Alex. Não fazia o menor sentido. Mesmo assim. Algo ainda incomodava Call, vinha incomodando desdequeviramAlexnaportadoquarto.Semfôlego,parecendoapavorado,comsanguenacamisaazul. Camisa azul. Engrenagens giraram na mente de Call. A imagem de uma foto rasgada, Drew com MestreJosephemaisalguém,alguémdecamisaazulcomlistraspretasnítidasdescendodascosturas doombro. —Estoucomfrio—disseCall,derepente—Alex,meemprestaoseucasaco?

Alexpareceuconfuso.Aaronpareceuconfuso.Callnãocostumavapegarroupasdeoutraspessoas emprestadas.MasAlextirouocasacoaindaassim,eoentregouaCall. Callparouondeestava.AcamisaazuldeAlextinhaduaslinhaspretasnosombros. Osoutrosdoismeninospararameolharamparaele.AexpressãodeAaroneradepreocupação. AdeAlexnão. —Alex—disseCallcomavoztãocalmaquantofoicapaz—,comovocêconheceuDrew? Alexlevantouacabeçalentamente. —Porquevocêseimporta?—perguntouele.—Vocêomatou. Aaronparouondeestava.Oventouivoupelosgalhosdasárvoresqueoscercavam. —Porquevocêdiriaisso,Alex?—EleolhoudeCallparaAlex.—Oqueestáacontecendo? —Eele—disseCall,sentindo-seentorpecido.—Alexéoespião. Alex deu um passo em direção a Call. Aaron esticou a mão, como se quisesse impedi-lo de se aproximarmais. —Afaste-sedeCall—alertou,«fcSouumMakar,Alex.Possomachucá-lofeio. Masomeninomaisvelhooignorou. —Dreweracomosefossemeuirmão—disseAlex.—OMestreJosephmerecrutounomeuAno de Cobre, precisavade ummagodoar talentoso. Enãohavianinguémmaistalentosodoque eu. Até vocêsdoisaparecerem. Callrespiroufundo. —Meupaieravelho—disseAlex.—MalnotouquandoentreinoMagisterium.EntãoJosephse tornou meu pai. Ele ensinou amime aDrew juntos. Nos deu aulas extras. Por issome tomeibomo bastanteparaserassistentedeRufus.EmeuDeus,comoJosephriuquandoconteiissoparaele.—Um sorrisorepartiuorostobonitodeAlex.—FoimaisdifícilenganarAnastasia.Maselatambémcaiuna minha cena de bom enteado. Estava ocupada demais fingindo se importar com meu pai para prestar atençãoemmim.—Osolhosdeleardiam.—Enquantoisso,Josephmecontoutudo.Elemecontoua verdadesobreoInimigodaMorte.Elemecontousobrevocê. —Entãovocêsabiaquemeueraessetempotodo?—perguntouCall. Alexmalpareceuouvi-lo. — Sabe o quão ingrato você é? — disse Alex. — Joseph se importa com você mais do que com qualquer outra coisa. Vocês dois têm poder, mas você, Call, você é especial. Sabe o que significa ser especial?Temideiadoqueestájogandofora? —Seserespecialsignificasercomovocê—disseCall—,entãoeunãoquero. OrostodeAlexsecontorceu.AmãodeAaronbrilhoudeformaprotetora,ofogojácresciaemsua palma, mas, naquele instante, sombras explodiramda floresta, de ambos os lados deles. Adultos com roupasemáscaraspretascobrindoseusrostos.MãosfortesebraçosagarraramCalleAaron. —Levem-nosatéavila—disseAlex. Callfoiempurradoparaafrente,tropeçando.EleeAaronforamconduzidosviolentamenteaolongo docaminho.Nãofaziaideiadequemoestavasegurando—nãoeraumDominadopeloCaos;Alexnão podiacontrolarumDominadopeloCaos. Oupodia?OmaiorMakardasuageração. Não, se Alex fosse usuário do caos, ele teria se gabado disso, Call tinha certeza. Pelo visto uma pessoanãoprecisavaternadaavercomocaosparaterambiçõesdeSuseranodoMal.

CAPÍTULOQUINZE Calltentou secontorcer paraforadasgarrasdaspessoasqueoseguravam,masnãoconseguiu.Eram

CAPÍTULOQUINZE

Calltentou secontorcer paraforadasgarrasdaspessoasqueoseguravam,masnãoconseguiu.Eram fortesdemais.Eletentoutrazerfogoparaasmãos,masassimqueelasfaiscaram,alguémopegoupela nucaeeleperdeuaconcentração.Achamaseextinguiu. Um instante depois ele foi arremessado na grama no centro da vila abandonada da Ordem da Desordem,suasconstruçõesvaziasparecendosombriasaoluar.Haviatrouxas,comidaeumapequena fogueira. Alexnãoestavatrabalhandosozinho.Asfigurasmascaradas,quemquerquefossem,deviamestar esperandoainvocaçãodele. Callrolouparaolado,procurandoporAaron.Eletambémestavanagrama;umafiguramascarada corpulenta tinha o pé em suas costas. Call tentou se levantar, mas foi empurrado novamente para o chão. —Deixemelesentar—disseavozdeAlex.CalllutouparaseajoelhareverAlexcaminhandoem direção a eles. Uma enorme luva de cobre estava em seu braço, cobrindo sua mão até a altura do cotovelo. OAlkahest.OassassinodeMakaris. O próprio Call tinha usado essa ferramenta para destruir o corpo de Constantine Madden. Não conseguiaimaginaroqueoseupoderpoderiafazercomumapessoaviva.Pegariaocaosdedentroda suaalma,oudeAaron,eousariaparadestruí-losdedentroparafora. —Assustado,Makar? —Alexmoveu osdedosmetálicosdoAlkahestedepoisriu dacaradeCall, quetrocouumrápidoolharcomAaron,ajoelhadoaoseulado.Haviagravetospresosnocabelolourode Aaron,maselenãopareciaferido.Porenquanto. Aomenosnãoainda. MantenhaAlexfalando, Callpensou. Mantenha-o falando e não entre empânico e não deixe que machuqueAaron. —ETamara?—perguntouCall.—Vocêamachucou?Elaestáaqui?

IssofezAlexriraindamais.

—Vocêérealmenteumidiota,sabia?NãofaçoideiadeondeTamaraesteja.Nãomedeiaotrabalho

de sequestrá-la. Por que fazer isso se eu podia apenas mentir pra vocês, e vocês caírem na minha mentira? Ela e o seu lobo idiota devem estar dormindo. Acho que vão ficar bem tristes quando acordaremedescobriremoqueaconteceucomvocês.

— O Mestre Joseph sabe que você pegou o Alkahest? — perguntou Aaron. — Foi ele que te

mandoufazerisso? Alexjogouacabeçaparatrás,masdessavezarisadapareceuforçada. —Elenãosabenadasobreomeuplano;eupegueioAlkahestedeixeiumailusãonolugar.Nãovai durar para sempre, mas o suficiente. Desde que ele começou a me ensinar, eu o ouço falar de você.

Sobre como o glorioso Constantine estava voltando, e sobre como tínhamos que nos preparar. O incrível Constantine Madden, tão importante que Drew teve que se infiltrar no Magisteriume fingir quenemmeconhecia.Eaísurgevocê.Quedecepção. —Sintomuitoemouvirisso—respondeuCallcomacidez.

— Então por que quis matá-lo? Vingança? — perguntou Aaron. Call ficou feliz por ele estar seguindoalinhademantê-lofalando,porqueCallestavatãoatordoadoquenãoestavasendofácil. —IssonãoirritariaoMestreJoseph? —ElesóprecisadeumMakar—disseAlex,erguendooAlkahest.—Eagoraeudescobricomome tomarum.EureconfigureioAlkahest.Elenãovaiapenasarrancaramagiadocaosdevocê.Tambémvai canalizaressahabilidadeemmim. —Issonãoépossível!—disseCall,maseleselembravadecomoopodertinhavindoaelequandoo corpodeConstantineMaddenfoidevoradopeloAlkahest.Talvezfossepossívelsim. —Dizomeninoqueestámortohácatorzeanos—disseAlex.

— Você pensa nele, em algum momento? Pobre Callum Hunt, morto antes mesmo de dizer a

primeirapalavra.Assassinadoporvocê,Constantine,domesmojeitoquematouomaispróximoquejá tive de umirmão. Assimcomomatou oseu próprioirmão. Você nuncadeveriater tidoesse poder. E

agoravoutirá-lodevocêesereiumInimigodaMortemelhordoquevocêjamaispoderiatersido. —Tudobem—disseCall.—MasnãomachuqueAaron. Aaronemitiuumruídosufocado.Alexrevirouosolhos.

— Isso mesmo, Aaron, seu precioso contrapeso. Foi por isso que jogou tudo fora, Call? Seus amigos? —Jogueioquefora?—perguntouCall,entrandoempânico.Eletinhaqueacreditarquealguémdo Magisteriumvira.Quealguémiriaencontrá-los.Alexestavaalucinado,foradesi.—SerConstantine? Eununcaquisisso. —VocênãodeveriamachucarCall—disseAaron.Deveriaarrancaramágicademim. —Todaessanobrezaémuitonauseante—disseAlex,suapulseiradeourobrilhandoquandoele puxouumfiodeseucabelocastanhoparatrás.Elepareciaespectralaoluar.Comoumespíritodomal. —Masseissofazcomquesesintammelhor,eraesseomeuplano.MatarCall,fazertudoparecerum

acidente e depoispegar suahabilidade de Makar, matandoAaronnoprocesso. Masagoraque osdois estãoaqui,naminhafrente,estádifícilescolher. —OMestreJosephvaimatarvocêsefizermalaCall—argumentouAaron.—Elepulounafrente deCallparaprotegê-lonotúmulodoInimigo,sabia?Eleteriasacrificadoaprópriavidaporele! —ElesempreachouqueCallfossecederequererseuniraele—disseAlex.—Vocêquercombater

amorte,masaverdadeéqueécovardedemais,Call.Alguémquenãoqueressepodernãodevepossuí-

lo.Naverdade,estoufazendoumfavoraoMestreJoseph.

Ele foiemdireçãoaCall. Aaroncomeçou alutar parase levantar, masfoiempurradonovamente parabaixo.Fogonegrocomeçouacresceremsuasmãos. —FiquelongedeCall! AlexgirouparacimadelecomoAlkahest. — Não entende? — disse ele com desdém. — Se fizer alguma coisa contra mim, eu mato você e depoismatoCalldequalquerjeito.Eaindafaçoissolentamente. Aaroncerrouasmãosempunhos.Callsentiuocorpotodosecontrairenquantosepreparavapara pularetentarcorrer —Pare!—Umavozsooupelaclareira.EraTamara,comDevastaçãologoatrás.Asorelhasdolobo estavambemrenteàcabeçaeelerosnava.Tamaraestavacomamãoesticada,efogovermelhoardiaem suapalma.—Vocênãopodemeferircomisso,Alex—disseela.—NãosouMakar. —Tamara!—gritouCall.—Comovocênosachou? — Devastação — respondeu ela. — Estávamos na sala, e de repente ele começou a rosnar e a se jogar naporta, apesar de eu játer passeadocomele. Eu abriaportae ele me trouxe até aqui. — Ela olhoufixamenteparaAlex.—Eelevaiarrancaragargantadequalquerumquechegarpertodemim, entãonempensenisso—Tamaraavançouemdireçãoaeles,eoscapangasderamumpassoparatrás.O fogo ardeu com mais intensidade. Call ficou imaginando quem seriam os encapuzados. Devotos do MestreJoseph?Pessoasnormaisquenãotinhamnadaavercommagia,mastinhamsidoenfeitiçadas? Ele tinha que admitir que, considerando o plano louco de Alex, seus capangas e sua ostentação, ele estavaacumulandomuitospontosdeSuseranodoMal. Calltentouselevantar,masestavabempreso.DavaparaverAaronlutandoaolado. —Ah,ótimo—disseAlex.—Plateia. Tamarapareceu furiosa. Calltorceu paraver osmagosdoMagisteriumvindoatrásdela, masnão havia ninguém. Isso era culpa dele, ele sabia. Por três anos, Tamara e Aaron vinham guardando segredos,escondendocoisasimportantesdetodos,inclusivedoMestreRufus.Elesnãopediamajudade ninguém,mesmoquandoprecisavam. AlexcolocouoAlkahestnaalturadeleseesticouobraço. —TalvezoAlkahestdevaescolher.Talvezeuoenvienadireçãodosdoisparaver oqueacontece. Talvezelepuxeamagiadeambos.Oqueacham? CallesticouobraçoepegouamãodeAaron,quepareceusurpresouporumsegundo.Depoisfechou amãonadeCall. Call queria dizer ao seu melhor amigo o quanto lamentava, que era tudo culpa dele por ser ConstantineMadden.MasAaronfalouantesqueeletivesseachance. —Pelomenosvamosmorrerjuntos—disseAaron.Depois,inacreditavelmente,sorriuparaCall. Nãovamos,Callqueriadizer.Vamossobreviver.Masaocomeçarafalar,umflashdeluzoscegou. Tamara tinha lançado um raio de fogo. Alex desviou, esticando a mão e jogando magia do ar para redirecionarachama,quevoounadireçãodeCall. O homem que segurava Call cambaleou para trás e ele afrouxou a pegada. A camisa do capanga agoraestavapegandofogoeelegritava.Callselevantou,ignorandoadornaperna.Aindasegurandoa mãodeAaron,eleopuxouparacimatambém.Tudopareciaaconteceraomesmotempo. —Devastação,vá!gritouTamara. Devastaçãovirouumborrãoescuronoar,correndoemdireçãoaAlex.AaronsoltouamãodeCall,e um caos escuro brotou de sua palma. Alex ergueu o braço, o Alkahest brilhando de energia. Aaron lançouamãoparaafrente,masaluzescuraqueevocoufoiparar longe,derrubandoumadasfiguras encapuzadas, mas errando Alex. A mão de garra do Alkahest se abriu e uma chama acobreada de luz

vooudeseusdedos. Otempopareceuparar.Aquelaluzeratudoqueocaosnãoera.Erabrilhanteeardente,friacomoa pontadeumafaca.Callnãoteveamenordúvidadequequandooatingisse,omataria. Elefechouosolhos. Algumacoisaoempurrouportrás.Elecaiuesparramado,rolandopelagrama.Oraiodeluzoerrou porpoucoscentímetros.Sentiualgoqueimarsuabochechaaocambalearparaafrenteedepois,rolando delado,levantouacabeçaeviuopoderatingindoAaronnopeito. AforçadoimpactolevantouAarondochãoeoarremessoulonge.Elecaiunagramaaváriosmetros dedistância,comosolhosarregaladosevítreos,olhandoparaocéu.

— Não — disse alguém. — Aaron, não, não, não\ — Call pensou ter sido a própria voz por um

segundo,maseraadeTamara.Elaestavajogadanagramaaoladodele. Foielaqueoatingiu.ElaotiroudarotadoAlkahest.Elasalvouasuavida. MasnãoadeAaron. Call tocou a própria bochecha. Estava ardendo. Talvez o Alkahest só tivesse queimado Aaron também.Eletentouselevantarparairatéoamigo,massuaspernasnãooobedeceram.Emvezdisso, elefoiatéAaronusandotodososseussentidos. EleselembroudoquetinhaexperimentadoantesaotocaraalmadeAaron.Asensaçãodevida,de algumacoisaexistindonomundo,claraesólida. Masnãohavianadaaliagora.Seucorpoeraumacasca.Suaalmatinhaidoembora,deixandoapenas sombrasbrilhantesdoqueAarontinhasido.

Call virou para Alex, que tinha tirado o Alkahest do braço. É claro — agora poderia machucá-lo também.Agoraeleestavacomopoder deAaron.Pareciapulsar,comoumaestrelaprestesaexplodir. Suapelebrilhavaeondulavacomlistrasdeluzeescuridão.

— Poder. — Alexengasgou. Ele ergueu a mão, escuridão se contorcendo como fumaça. — Posso

sentir.Opoderdocaos,correndopormim —Nãoseeupuderevitar—disseCall,esticandoamão.Umraiodeluzpretavooudesuapalmaem direçãoaAlex.Eletinhacertezadequeomataria,oenviariagritandoparaovazio. Ficoufeliz. Aflechademagiavoou emdireçãoaAlex,masamãodogarotosubiu ecapturou aenergia.Ficou olhandopensativopor umsegundo,eCalltambémencarou,comumasensaçãoruimnabarriga.Alex eraumMakaragora.Podiacontrolaremanipularocaos.EeramaisvelhoemaisexperientedoqueCall. EentãoAlexgritou.Donada,Devastaçãotinhaaparecidodaescuridãoeenterradoosdentesemsua perna. Alexatacou comcaos,masDevastaçãofoirápidoedesviou,aindarosnando.Eleatacou denovo,e desta vez Alex não teve chance de reagir: Devastação o derrubou no chão, seus dentes rasgando a camisa. —Tireessebichodecimademim!—gritouAlex.—Tireeledecimademim! Várias das figuras encapuzadas correram; Devastação soltou Alex, que se levantou cambaleando, sangrandoemdiversospontos.Suapelecontinuavaondulando,orostosecontorcendo.Callselembrou decomotinhasidoparaelenotúmulo,quandoamagiadocaossemanifestou.Ecomosesentiu sem controle,enjoado. Alexesticou umadasmãossobre Devastação, masdestavez amágicaque explodiu deu errado. A escuridãoderramou-seportodasasdireções.Caiuemlinhasqueseerguerampeloarenuvensquese elevaram ao céu. Onde ela tocava as coisas começavam a se desfazer. Uma das casas da Ordem da Desordemsucumbiuquandoocaosdevorouseusalicerces.Trêsárvoresforaminteiramentedevoradas.

O próprio chão ficou esburacado quando pedaços foram engolidos pelo vazio. Duas das figuras mascaradasgritaramaoseremtragadasantesdeocaosdissipar. Alexolhou paraas próprias mãos, horrorizado, mas aomesmotempo, claramente impressionado também. —PegueoAlkahest—disseemvozroucaparaumdeseuscapangasqueaindarestavam.—Temos quesairdaqui!—eleolhouparaCallporuminstante,depoiscurvouoslábios. —Cuidodevocêmaistarde—disseAlex,eentãocorreudaclareiracomoscapangasatrásdele. Callmalseimportou.ElevirounovamenteparaverTamaraaindaagachadasobreocorpoimóvelde Aaron.Quasecurvadaaomeio,Tamarachorava,ocorpotodotremendo.Devastaçãofoiparapertodela, afocinhando-anoombro. Callnemsentiuseuspéssemexerem,mastinhachegadopertodeAaron,estavaaliabaixadoaolado doamigo,diantedeTamara.EletocouamãodeAaron,amãoquetinhaagarradohápoucosinstantes. Estavafria. Tamara ainda chorava suavemente. Ela tinha derrubado Call para fora do caminho do Alkahest. Tinhasalvadosuavida. —Porquevocêfezisso?—perguntouderepente.—Comopôdefazerisso?Aaronéquedeveria viver.Nãoeu.EusouoInimigodaMorte.Nãosoubom.Aaronera. Elaolhouparaeleporumlongoinstante. —Eusei—disseela,comlágrimasnosolhos.—Mas,Call Umgritoveiodecimadoquerestavadavila. — Ali!— Alguém gritou. Entre as árvores, Call pôde ver esferas voadoras. Os magos tinham ido procurá-los, afinal, assim como procuraram por Drew naquela noite. E chegaram tarde demais, mais umavez.Sempretardedemais. Mestre North, Mestre Rufus, Alma e vários outros Mestres correram para a clareira. North e os outros olhavam boquiabertos para o cenário de destruição, os pedaços de terra que simplesmente desapareceram, as casas sucumbidas e as árvores destruídas. Mas Rufus Rufus olhava para Aaron.

Empurrandoosoutrosdelado,elecorreuparaocorpocaído,apoiando-sesobreumjoelhoparasentiro pulsodeAaron. Callsabiaquenãosentirianada.NãohaviamaisAaron.Nãohaviacontrapesodasuaprópriaalma. Só essa sensação de vazio, a sensação de que algo tinha sido arrancado dele e que jamais poderia ser reposto. EleagoraentendiaqueConstantineMaddentivessedesejadoacabar comomundodepoisqueseu irmãomorreu. Rufus fechou os olhos. Seus ombros despencaram. Call achou o mestre muito velho naquele momento.Velhoedestruído. — O que aconteceu aqui? — perguntou Mestre North. — Parece que houve alguma espécie de batalha.—ElefranziuorostoparaCall.—Oquevocêfez? FúriaexplodiunacabeçadeCall.

oscapangasdele!EleestácomoAlkaheste

matou Aaron. E vocês estão permitindo que ele escape! Vocês não deveriam ser nossos professores?

Nãodeixemqueelefuja! —Não!—disseAlma,marchandoemdireçãoaCall,comosolhosbrilhando.Elaapontouumdedo compridoparaele.—Eunãoviantes,masagoraovejo,Constantine.FoivocêquemmatouAaron.Você armouissotudoparaesconderseuscrimes,inclusiveoassassinatodeJennifer. OsolhosdeCallsearregalaram.Elanãopodiaestar dizendooquepareciaestar dizendo.Elenem

—Nãofuieu!—gritouele.—ForamAlexStrikeeos

sabiacomoresponder.Nãopodia,nãocomocorpodeAaronaoseulado. —Fiquequieta—disseMestreRufusaAlma.—Eóbvioquehouveumabatalha,masnãotemos motivos para pensar que Call está mentindo. E mesmo que estivesse, Tamara estava aqui como testemunha. —Callestáfalandoaverdade—acrescentouTamara.—FoiAlexStrike.Devetersidoeleotempo todo. Almabalançouacabeça. — Não acredite em nenhum deles! Nunca pensou em como Callum controla aquele animal DominadopeloCaosaoseulado?OuemcomoderrotouopróprioInimigodaMorte?Ouemporqueele nãoeraumMakar noanopassadoquandooanocomeçou,massetomou umexatamentedepoisque Constantine supostamente morreu? Agora temos a resposta. Constantine colocou a própria alma em CallumHunt.Vocêestáolhandoparaomonstroemformadecriança. Eu oviinserir ocaosemuma almaecriarumDominadospeloCaos.Seioqueeleé! Ela está descontrolada, pensou Call. Ninguém acreditaria nela. Mas ninguém a contradisse, também. —Nãosepreocupe,Callum—disseMestreNorth,mashaviaalgodeestranhoemsuavoz.Umtom deadulação.—Vamosinvestigarisso.Venhacomigo. —NãopossoabandonarAaron—disseCallaele. —VamostodosvoltarparaoMagisterium—disseoMestreNorth. —Não!—gritouCall.Eleestavacansadodementir,cansadodetudoisso.—Vocêstêmqueiratrás deAlex!Precisamencontrá-lo!Eu admito,tudobem? TudoqueAlmaestáfalandoéverdade,excetoa parteemquemateiAaron.Nãomatei!Sim,eusouoInimigodaMorte,masjuroquenãomateiAaron. FoiAlex.Juroqueeujamaismachucaria FoiaúltimacoisaqueCalldisseantesdeseracorrentado.

CAPÍTULODEZESSEIS AceladeCallnoPanopticontinhatrêsparedesbrancaseumaqueerainteiramentetransparente,de modo que ele podia

CAPÍTULODEZESSEIS

AceladeCallnoPanopticontinhatrêsparedesbrancaseumaqueerainteiramentetransparente,de modo que ele podia ser visto o tempo todo pelos guardas na torre que ficava no centro do presídio. Nenhumadasparedespareciaserafetadapormagia,entãoindependentedequantasvezeseletentasse queimá-las ou devorá-las, fissurá-las ou congelá-las, nada funcionava. Duas vezes por dia uma caixa brancaeraempurradaatravésdeumaplacanajanelaclara.Dentrodelahaviaáguaecomidaquasesem gosto.Foraisso,nadamudava. Nãotinhamdadoaelelivros,nempapéis,ou canetas,nemnadaparafazer,entãoCallpassavaos diassentadonocolchão,detestandotodomundoeprincipalmenteasimesmo. Estava preso havia uma semana. Uma semana revivendo mentalmente aquela batalha final na clareira,imaginandocomopoderiatersidodiferente,imaginandoAaronvivo—eàsvezes,noaugeda autopiedade, até se imaginava morto. Às vezes ele acordava de sonhos onde Aaron falava com ele, brincandosobreiratéaGaleria,ouseoferecendoparapassearcomDevastação.Àsvezeseleacordava desonhosondeAarongritavacomele,dizendoqueeraelequemdeveriatermorrido. Callquerviver. Call pensou sem parar no seu acréscimo ao poema. Sua característica definitiva: uma vontade de sobreviver. Era isso que ele pensava. Mas Call não queria ser a pessoa que estava viva porque seu melhoramigomorreu.ElenãosabiasequeriaviveremummundoondeAaronnãoexistia. Ele queria Aaron de volta. Esse desejo como um rugido em sua alma, a tristeza de uma perda horrível.AconstataçãodoqueConstantinedeviatersentidoquandoperdeuJericho. Callnãoqueriaentender comoConstantinehaviasesentido.Talvez fossemelhor eleestar preso, onde nãopoderiamachucar maisninguém, onde pelomenosestavasendopunidopor algunsde seus crimes. Talvez fosse melhor que ninguém viesse vê-lo, nem mesmo seu próprio pai. E certamente Tamaratambémnão.Elaprovavelmentenãoestavaconseguindolidarcomaculpadeterfeitoaescolha errada.EnemMestreRufus,queprovavelmentedesejavaqueCallnuncativesseidoaoJulgamentode Ferro. ComoalguémpoderiaserazaradoosuficienteparaescolheroInimigodaMortecomoseuaprendiz, nãouma,masduasvezes?

Callestavadeitadonochão,olhandoparaoteto,quandoosomdepassosemumhorárionãousual o fez virar a cabeça. Do lado de fora

Callestavadeitadonochão,olhandoparaoteto,quandoosomdepassosemumhorárionãousual

o fez virar a cabeça. Do lado de fora da cela, com um longo casaco branco, o cabelo sob um chapéu branco,estavaAnastasiaTarquin. ElaolhouparaeleeergueuasduassobrancelhasemumgestoquelembravaoMestreRufus.Dizia:

estouachandograçaagora,masnãoachareipormuitotempo. Callnãoseimportou.Continuounochão.Umaguarda—umamulherqueempurravaabandejade Call com um vigor desnecessário — trouxe uma cadeira para a integrante da Assembléia. Anastasia sentou e a guarda saiu. Call tinha imaginado que eventualmente alguém da Assembléia vira colher algumaespéciededepoimentoouinterrogá-lo.ProvavelmentedeveriaestarfelizporserAnastasia,mas nãoestava.Nãoqueriafalarcomela.Nãoqueriafalarcomninguém,ealguémqueconheciaerapiordo queumestranho. —Cheguemaisperto—disseAnastasia,cruzandoasmãosnocolo. Comumsuspiro,Callfoiatéajanelaesentou. —Tudobem,masvocêvaiprecisarresponderduasperguntas. —Muitobem—disseela.—Quaissão? Callhesitou,porqueapesardeestarobcecadoporessasduascoisas,nashorasmaislongasdanoite elenãosabiaoquefariacomasrespostas.

— Tamara está bem? -— Call conseguiu perguntar, a voz saindo engasgada. — Ela se encrencou

muito? Anastasiadeuumsorrisodiscreto. —Tamaraestásegura.Sobreograudeencrenca,aindanãosesabe.Satisfeito? —Não—respondeuCall.—Devastação?Eleestábem?Elesomachucaram? OsorrisodeAnastasianãofalhou. —SeuloboestácomosRajavi,perfeitamenteseguro.Pronto? —Suponhoquesim—respondeuCall.SaberqueTamaraestavabemequeDevastaçãoestavavivo foioprimeiroalívioquesentiuemmuitotempo. —Ótimo—disseAnastasia.—Nãotemosmuitotempo.Temalgoqueprecisotefalar.Meunome nãoéAnastasiaTarquin. Callpiscouosolhos. —Quê?

— Hámuitotempoeu tive doisfilhosque foramparaoMagisterium— disse ela. — Nãosomos

uma família de renome. Admito que eu não me sentia confortável coma minha própria mágica e me

interesseipoucopelosestudosdeles.Nãoconhecinenhumdosprofessores,nãofuianenhumareunião, deixava meu marido cuidar de tudo. Isso se provou um erro fatal. — A mulher respirou fundo. — QuandofaleiqueconheciaConstantineeJerichoMadden,equetinhaumadívidacomeles,euestava contandoapenaspartedaverdade.Vejabem,eusouamãedeles,oquesignificaquetambémsou sua mãe,detodasasmaneirasrelevantes. OquequerqueCallestivesseimaginandoouvir,nãoeraisso.Eleaencarou.

—Mas

mascomo?OMagisterium

elessaberiam

—Nãotinhacomosaberem—disseAnastasia.—Issotudofoihámuitotempo,e,comoeudisse, eu mal conheci os magos. Mas quando meus dois filhos morreram o Mestre Joseph entrou em contatocomigo.Meumarido,oseupai,játinhasematadoaessaaltura.—Suavoznãotinhaemoção.

—JosephmecontouoqueConstantinetinhafeito.Comotransferiuaalma.Euestavadeterminadaa serpresenteparaomeufilhoemseunovocorpocomonãotinhasidoantes.Deixeiopaísevolteipara minha terra natal. Lá, roubei identidade de uma mulher que tinha mais ou menos a minha idade:

Anastasia Tarquin. Altereiminha aparência. Pratiqueiminha magia comdevoção. Depois, retomando como uma poderosa feiticeira do exterior, me casei com Augustus Strike para obter um assento no Conselho.Ninguémadivinhouquemeuera,ouqualeraomeuverdadeiroobjetivo. —Seuverdadeiroobjetivo?—AmentedeCallestavagirando. — Você — disse ela. — Por issofuipara a escola. Por isso ingresseina Assembléia. Foitudo por você.Eissonãomudou—-Anastasiaselevantou,colocandoamãonajanelaquenãoeradevidro,como setudoquequisessefosseatravessá-laetocaramãodeCall.Seusolhoseramtristes,porémcheiosde determinação.—Destavezvousalvá-lo,meufilho.Destavezvoulibertá-lo.