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Ergonomia e design universal contribuindo para a acessibilidade

integral em sítios históricos

Gabriela Sousa Ribeiro (UFPE) gabi_s_r@hotmail.com


Laura Bezerra Martins (UFPE) laurabm@folha.rec.br

Resumo: Este trabalho trata de uma discussão sobre como a ergonomia e o design universal
podem contribuir para tornar os ambientes de sítios históricos acessíveis a pessoas
portadoras de deficiência. Para tal, foram realizadas pesquisas bibliográficas sobre os temas
pertinentes a discussão e analisados a partir de uma visão crítica. Foi possível perceber que
a ergonomia participativa é uma importante ferramente no auxílio de levantamento de dados
sobre as necessidades dos usuários de sítios históricos. Conlui-se, ainda, com o descaso da
sociedade para com as pessoas com deficiência, impedindo ou dificultando o pleno acesso
destas aos serviços de lazer, turismo, trabalho e moradia relacionados aos sítios históricos.
Palavras-chave: Sítios históricos; Acessibilidade integral; Ergonomia.

1. Introdução
Os sítios históricos de uma cidade consistem num complexo sistema configurado pela
diversidade urbana, associada à diversidade de fatores multiculturais e multisociais, traduzida
em múltiplas atividades. Estes ambientes são compostos por diversos elementos dinâmicos,
relativos à natureza da sociedade, como variação das características dos usuários, de sua
história e sua cultura; e estáticos, que dizem respeito às características do ambiente, como o
próprio patrimônio e suas configurações espaciais, morfológicas, além da interferência de
uma legislação específica.
Coloca-se, então, como pressuposto, que existe a possibilidade de ser exercida uma
infinidade de atividades nestes locais. Entre estas, neste trabalho, destacam-se aquelas
relacionadas à moradia, ao trabalho e ao turismo e lazer. Assim, percebe-se a ampla gama de
usuários que frequenta e utiliza os sítios históricos diariamente. Portanto, parte-se do princípio
que estes ambientes devam ser acessíveis a todos, ou seja, permitir que todos os cidadãos,
independente de suas características físicas, sensoriais ou psicológicas, usufruam destes locais
com segurança, conforto e autonomia.
Neste sentido, a conquista da autonomia e da independência, como uma característica
de cidadania, pode ser uma realidade através da interação efetiva entre a ergonomia e o design
universal, disciplina e conceito que juntos podem garantir a acessibilidade para todos,
assegurando a construção de uma sociedade inclusiva (MARTINS, 2003 apud SILVA et al,
2004).
A ergonomia tem buscado facilitar a integração do segmento de pessoas que tem
dificuldade de participação social, manifestada sob a forma de barreiras ambientais e
arquitetônicas, discriminatórias e segregativas. A diversidade do ser humano é caracterizada
por indivíduos dos mais diferentes biotipos e que apresentam deficiências nos mais diversos
graus. Do ponto de vista ergonômico seria lógico pensar que essas diferenças devem ser
consideradas no planejamento não só dos objetos, máquinas, veículos, mas especialmente, do
espaço construído. Entretanto, isso não ocorre na realidade, pois se planeja para o "homem
padrão" em detrimento do "homem real” (SILVA, 2004).
O uso do design universal, segundo Cohen e Duarte (2003), traz a idéia de produtos e

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espaços que atendam toda uma gama de capacidades e habilidades. Advém deste conceito
uma visão muito positiva da acessibilidade, que se traduz em produtos, ambientes e
transportes universalmente acessíveis. Para Bahia et al (1998), existe uma necessidade da
acessibilidade assumir um caráter holístico, negando medidas de atendimento exclusivo ou
segregador, motivo pelo qual seus benefícios não são oferecidos apenas às pessoas portadoras
de deficiência, mas beneficia todas as pessoas independentes de seu padrão fugir ou não da
normalidade estabelecida pela sociedade. A forma como o design universal têm sido
interpretado em trabalhos recentes, aponta uma tendência mundial para tratar a questão da
acessibilidade como um valor intrínseco aos espaços de uma cidade, como valor indispensável
para uma real integração das pessoas portadoras de deficiências.
Focando que acessibilidade está diretamente relacionada à qualidade de vida das
pessoas, este artigo pretende discutir como a ergonomia e o design universal podem auxiliar
no processo de tornar os ambientes de sítios históricos acessíveis a maior parcela possível da
população.
Para tal, realizou-se pesquisa bibliográfica e procedeu-se à análise dos dados para
construção de uma visão crítica sobre o tema.
Assim, foi possível perceber certo descaso da sociedade para com as pessoas com
algum tipo de deficiência ao desconsiderar seu acesso integral a estes bens.
2. Sítios históricos e pessoas portadoras de deficiência
A partir de Rodrigues (2005), coloca-se que o conceito de sítio histórico está
relacionado ao conceito de patrimônio cultural, entendido como “tudo aquilo que constitui um
bem apropriado pelo homem, com suas características únicas e particulares”. Portanto, a
valorização do patrimônio cultural, consequentemente dos sítios históricos, deve ser visto
como fator de memória das sociedades. Ou seja, além de servir ao conhecimento do passado,
os remanescentes materiais de cultura são testemunhos de experiências vividas, coletiva e
individualmente, e permite à humanidade lembrar e ampliar o sentimento de pertencer a um
mesmo espaço, de partilhar certa cultura e desenvolver a percepção de um conjunto de
elementos comuns, que fornecem o sentido de grupo e compõem a identidade coletiva.
Deste modo, o conceito de sítio histórico vem se desenvolvendo ao longo dos anos,
ampliando-se à medida que agrega valores e conceitos anteriormente desconsiderados.
Na Carta de Petrópolis, de 1987, define-se sítio histórico urbano como o espaço que
concentra testemunhos do fazer cultural de uma cidade. É parte integrante de um contexto
amplo que inclui não só a paisagem construída pelo homem, mas também a natural, incluindo
o próprio homem. Não é um espaço estático, mas em formação, pois engloba também “a
vivência de seus habitantes num espaço de valores produzidos no passado e no presente”
(IPHAN, 1995).
Para o Programa Monumenta (2003), “os sítios históricos urbanos nacionais são locais
privilegiados, onde repousam experiências coletivas e princípios de identidade. Os
monumentos são sinais que perpetuam os testemunhos das sociedades passadas – das
possibilidades perdidas, assim como dos processos formadores de nossa realidade presente”.
Os sítios históricos tem especificidades próprias que dificultam os trabalhos em
relação a acessibilidade, tais como projeto e execução que desconsideraram a diversidade dos
usuários, uma vez que trazem traços de uma época em que a questão da deficiência era vista
como tabu, quando as pessoas com alguma deficiência eram descriminadas e segregadas da
sociedade, e leis de preservação que vigoram sobre estes bens.
Em contrapartida, a legislação brasileira coloca que todas as pessoas, independente de

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classe, raça, cor ou deficiência, têm que ter assegurados seus direitos de ir e vir. A Declaração
Universal dos Direitos do Homem, de 1948, coloca que “toda pessoa tem o direito de
participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do
processo científico e de seus benefícios”. E o Artigo 7 da “Carta Internacional sobre
Conservação e Restauro de Monumentos e Sítios”, instituída a partir de 1964, em Veneza,
coloca que “a remoção do todo ou de parte do monumento não deve ser permitida, exceto
quando tal seja exigido para a conservação do monumento ou por razões de grande interesse
nacional ou internacional” (IPHAN, 2007).
Assim, pode-se justificar a implantação da acessibilidade em sítios históricos pelo
expressivo contingente populacional de pessoas potadoras de algum tipo de deficiência em
todo o mundo, pois a possibilidade da pessoa, independente de suas características ou
habilidades, usufruir dos bens históricos em condições de igualdade aos demais deve ser vista
como “razão de grande interesse nacional e internacional”, incrementando assim tanto
serviços de moradia, trabalho/renda, como aqueles relacionados a cultura, lazer e turismo.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), existem no mundo,
cerca 610 milhões de pessoas que apresentam alguma deficiência (FEIJÓ, 2002). No Brasil,
segundo o Censo de 2000 (IBGE, 2002), em torno de 14,5% da população (cerca de 24,6
milhões de pessoas), que era de 169,8 milhões em 2000, é constituída de pessoas que possuem
algum tipo de deficiência.
Considerando que os dados do Censo 2002 já estão defasados e que a proporção da
deficiência aumenta com a idade, coloca-se que a população de pessoas com algum tipo de
deficiência seja muito maior que os colocados. O que torna fundamental considerar as
características deste expressivo contingente populacional em todos os setores da sociedade,
deixando de lado a idéia de um “homem padrão” (sem problemas de saúde, com estatura ideal
e ótima flexibilidade que possibilite variado e eficiente alcance), e observando a diversidade
de características, habilidades e limitações dos distintos tipos de usuários.
Vale ressaltar, ainda que deficiência e restrição tem deixado de ser sinônimo de
pobreza, pelo contrário, é muito elevado o número de indivíduos com restrições que dispõe de
importantes rendimentos e ainda usufruem de uma agenda flexível. Dados da OMS indicam
que 386 milhões (mais da metade do total estimado mundialmente) de pessoas com
deficiência/restrição fazem parte da população economicamente ativa (FEIJÓ, 2002). Poole
(1996) apud Aguire et al (2003), ao relatar uma pesquisa encomendada pela KEROUL –
Tourisme pour Personnes avec Capacité Physique Restreinte sobre as comunidades de
deficientes do Canadá, Estados Unidos e Europa, afirma que mais de 60 milhões de pessoas
com deficiências realizam viagens constantemente e que melhores acessos ao turismo lhes
resultariam em muitos benefícios.
Em contrapartida, Gerente e Bins Ely (2004), a partir da análise do panorama nacional
com relação à acessibilidade das pessoas com deficiência nos sítios históricos, perceberam
que os progressos obtidos em pesquisas sobre acessibilidade não atingiram ainda o âmbito da
preservação histórica. Assim, a prática apresenta-se ainda mais obsoleta, privando estas
pessoas de usufruírem do patrimônio histórico e cultural.
Para se efetivar o direito da autonomia pessoal e dar um salto qualitativo que
represente transpor da legislação à realidade em matéria de mobilidade e eliminação de
barreiras, é necessário que cada local seja analisado de acordo com o tipo de zona e de uso
que se faz de cada ambiente, podendo as soluções variar de acordo com cada localidade e
necessidade.
Desta maneira, coloca-se a ergonomia como fundamental neste processo. Uma vez que

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esta pode contribuir para tornar esses ambientes mais acessíveis, tanto no que diz respeito a
adaptar os locais às características e necessidades dos usuários, como no processo de
descobrir quais as reais necessidades, expectativas e características destes usuários, dando-
lhes voz ativa, através dos princípios da ergonomia participativa.
3. Métodos e técnicas
Para alcançar os objetivos pretendidos, foram realizadas pesquisas bibliográficas em
livros, periódicos, artigos, pesquisas na Internet sobre temas relacionados a design universal,
acessibilidade, ergonomia, turismo cultural e patrimônio histórico. Pesquisas documentais
sobre Legislação nacional e internacional e intervenções no patrimônio histórico.
A partir dos dados obtidos, foi realizado cruzamento dos dados para obtenção de uma
visão crítica sobre o assunto.
4. Ergonomia: ferramenta para alcançar a acessibilidade integral em sítios históricos
Segundo Tortosa et al (1997), a ergonomia é definida como um campo de
conhecimento multidisciplinar que estuda as características, necessidades, capacidades e
habilidades dos seres humanos para estabelecer os critérios que devem constar nos projetos de
produtos, ambientes e processos de produção, com os quais as pessoas interagem durante a
vida.
Por esta razão, Martins (2007) considera que a ergonomia não tem nenhum enfoque
especial ou distinto ao tratar a questão da deficiência. Sempre se trata de adaptar o entorno às
características das pessoas e para isso deve-se analisar a relação que existe entre as
necessidades, capacidades, habilidades e limitações do indivíduo e as condições do que se
quer adaptar, seja uma residência, um equipamento, um posto de trabalho, etc, com a
finalidade de harmonizar demandas e capacidades, pretensões e realidades, preferências e
restrições.
Ao alinhar as características dos usuários ao entorno, a ergonomia encontra um
equilibrio permitindo que todos possam exercer suas atividades de forma segura, autônoma e
eficiente. Porém, é fundamental conhecer quem são estes usuários e quais atividades
realizadas em determinado espaço contruído.
Nagamachi (1995), Thiollent (1998) e Iida (2005) colocam que quando os usuários
fazem parte do processo de decisão das características que devem estar presentes num
ambiente, este tem mais chances de se adequar às necessidades e expectativas dos mesmos, ao
mesmo tempo em que, assim, consegue-se que as modificações sejam implementadas mais
facilmente e sua manutenção e preservação sejam continuadas ao longo do tempo.
Com base nesses autores, pode-se fazer alusão a fatos vivenciados diariamente nas
cidades brasileiras relacionados a depredação do patrimônio público. Quando a população não
se identifica com determinado ambiente ou produto, tende a destruí-lo, pixando, quebrando,
invadindo. O vandalismo muitas vezes é uma forma de expressar a insatisfação com tal
situação. Este fato fica muito claro quando compara-se espaços abertos públicos sem áreas de
lazer àqueles com um campo de futebol, por exemplo. Por este esporte fazer parte da cultura e
da preferência de muitos brasileiros, a população tende a preservar o campo de futebol,
conservando-o e mantendo-o, tomam aquele local como parte integrante de sua vida, um bem
adquirido.
Para Brown (1995), a participação do usuário, tanto na fase de identificação dos
constrangimentos ergonômicos como na fase de concepção e implementação das propostas
projetuais, é justificada por garantir um maior envolvimento por parte dos mesmos e,
conseqüentemente, gerar maior índice de sucesso nas modificações.

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A ergonomia participativa tem se firmado como a nova tecnologia para disseminação
da ergonomia. Além disso, o principal conceito por trás desta abordagem é o de que a
ergonomia existe na medida em que as pessoas estão envolvidas na sua utilização. A
ergonomia participativa procura exatamente envolver vários níveis organizacionais na
identificação, análise e solução de problemas, principalmente os problemas ergonômicos.
Assim, a ergonomia participativa constitui em uma estratégia para estimular a participação,
pois o envolvimento dos usuários em resolver os problemas ergonômicos pode gerar maior
confiança, interesse e experiência, levando-os a enxergar e resolver problemas relacionados
ao seu ambiente (ADORNO, 2004).
É muito mais do que um trabalho no qual um consultor/pesquisador analisa, diz o que
deve ser executado e dá-se por encerrado o processo – e que muitas vezes acarretam em falhas
e propostas que não atendem às expectativas da comunidade. Ao contrário, é um processo
contínuo, só assim realmente são vistas as melhorias e alcança-se progresso sustentável com
qualidade de vida.
Em compensação, vale ressaltar que dar voz ativa aos usuários não é um processo
simples. Deve-se sempre levar em consideração o filtro do pesquisador/consultor, pois este
tem o conhecimento técnico-científico capaz de filtrar as alternativas pertinentes, que visam a
coletividade, daquelas sem fundamento.
Simões e Bispo (2003) colocam que a participação dos usuários em pesquisas que
buscam soluções mais equilibradas aos mesmos pode ser tida como um direito do cidadão,
além de dar um fundamento qualitativo ao trabalho, pois são eles que tem a visão clara de
suas dificuldades de interação com o meio. E classificam quatro níveis de participação, que
podem ser adotados de acordo com as necessidades do projeto e características do grupo:
• Informado: é o nível mais baixo de interação entre a equipe da pesquisa e
usuários, porém caracteriza-se na base para as outras classificações. Os
usuários são informados das condicionantes e critérios que levaram à decisão
do projeto, dando-lhes informações sobre todas as etapas do projeto, porém
cabem exclusivamente à equipe técnica as decisões a serem tomadas.
• Consultado: além de informar aos usuários as questões a resolver, estes são
escutados e suas opiniões são levadas em consideração pela equipe do projeto
na tomada de decisões. Os usuários sempre devem ser informados sobre os
motivos que levaram a que tais sugestões fossem acatadas em detrimento de
outras.
• Envolvido: os usuários são envolvidos nas várias fases da pesquisa,
participando do processo de decisão de forma partilhada com a equipe técnica.
Cabe aos técnicos decidirem quando os usuários tem poder para decidir, estes
devem, ainda, ser informados das decisões tomadas e dos critérios utilizados
para tal.
• Empowered: os usuários tem autonomia e competência para desempenhar o
processo e decidir quando precisam de apoio da equipe técnica em processos
de decisão liderados pelos primeiros. A decisão é de responsabilidade dos
usuários.
Neste trabalho, coloca-se como ideal lançar mão da participação dos usuários nos
níveis de ‘consultado’ e ‘envolvido’, pois se entende que desta forma consegue-se a efetiva
participação dos mesmos, sem perder o controle da pesquisa. Acredita-se na importância do
filtro do pesquisador para interpretar e selecionar as alternativas condizentes à realidade do
projeto, ao mesmo tempo em que se coloca como fundamental permitir aos usuários a

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participação no projeto, tanto em se tratando de apontamento de problemas como busca de
soluções. Assim, alcança-se satisfação dos usuários em soluções condizentes à realidade,
fazendo com que eles realmente se sintam parte integrante do meio, contribuindo para sua
qualidade de vida e manutenção dos benefícios alcançados.
Em projetos que buscam repassar conhecimentos para a comunidade no intuito das
benfeitorias continuarem sendo alcançadas, podem haver evolução nos níveis de participação
da comunidade.
Para Iida (2005), a participação efetiva envolve níveis crescentes de aquisição de
conhecimentos, mudanças de comportamentos e controles de realimentação, que deve
acontecer de forma contínua e cumulativa. Começa com uma regulação externa e evolui até
alcançar uma regulação interna, auto-suficiente. Isto é, no começo do processo, com
praticamente nenhuma participação interna, os conhecimentos em ergonomia são dominados
apenas pelo consultor/ pesquisador externo, com o desenrolar do processo, o conhecimento
vai sendo assimilado aos demais participantes, sendo incorporado à cultura do local em
estudo, passando a ter uma existência própria, existindo no dia-a-dia sem depender de
estímulos externos, podendo, assim, o consultor/ pesquisador externo ser dispensado. A figura
01 demonstra melhor este processo.

Figura 01: processo de implementação da ergonomia participativa.


Fonte: IIDA (2005).

A ergonomia participativa é capaz de promover melhorias em diferentes setores da


sociedade. Dias et al (2006) corroboram com a afirmação, colocando que a Ergonomia
Participativa é social e que a solução dos problemas a que ela se propõe envolve a interação
entre três elementos básicos: o universo, o agente e as representações externas.
A participação dos usuários é justificada pela qualidade que se pretende incorporar aos
resultados, tanto a curto prazo, na busca de soluções de acessibilidade, como a longo prazo,

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no que tange a manutenção destas soluções.
No caso dos sítios históricos, admite-se que os usuarios envolvidos neste processo
devam englobar desde aqueles que convivem diariamente com o ambiente, os residentes e os
trabalhadores do local, como aqueles usuários exporádicos, os turistas, aqueles responsáveis
pela manutenção do sítio e os gestores.
Segundo Ubierna (1996), reabilitar de modo integral um sítio histórico exige ação
conjunta entre administração pública, comunidade e órgãos de fomento.
Sugere-se que a participação envolva a maior quantidade de usuários possível, sendo
que o passo inicial do processo pode ser dado a partir das associações de moradores, agentes
comunitários. Geralmente, estas pessoas tem facilidade de acesso aos demais membros da
comunidade e lhes são informados os problemas do local, no intuito de que esta pessoas possa
lutar pelo direito de todos junto aos governantes. Sem contar que, como moradores do local,
também vivenciam as circunstâncias do lugar. E, principalmente, facilitam o trabalho do
pesquisadores/consultores por já ser um grupo de pessoas organizado com intuito de alcançar
melhorias àquela localidade.
É importante ressaltar, ainda, que dentre os conhecimentos repassados a comunidade e
que, consequentemente, devam fazer parte do projeto, insira-se os principios do design
universal.
Para Story et al (1998), a principal característica de produtos e ambientes que utilizem
da filosofia do design universal é a possibilidade deles serem usados pelo maior número de
pessoas sem necessidade de adaptações, nem de um projeto especializado. Assim, os autores
propõem sete princípios norteadores aos projetos que busquem esta qualidade:
1. Uso eqüitativo: o projeto é útil e acessível para todas as pessoas;
2. Uso flexível: o projeto se adequa a múltiplas preferências e habilidades;
3. Uso simples e intuitivo: o projeto é compreensível independentemente da
experiência, conhecimento, habilidades de linguagem ou nível de
concentração;
4. Informação percebível: o projeto possui a informação necessária para seu
uso, independente das condições ambientais e capacidades sensoriais dos
usuários;
5. Tolerância ao Erro: o projeto minimiza as conseqüências perigosas derivadas
de ações acidentais ou não intencionais;
6. Mínimo Esforço Físico: o desenho pode ser usado de maneira eficiente,
cômoda com um mínimo de fadiga
7. Espaços e dimensões adequadas para aproximação e uso: proporciona
espaço e dimensões tais que garantam a aproximação, alcance, manipulação e
uso independentemente do tamanho, postura e mobilidade do usuário.
Sabe-se que por terem sido projetados e executados em uma época que as pessoas com
deficiência eram ignoradas e descriminadas, os sítios históricos não foram planejados
considerando essa diversidade populacional. Em contrapartida, intervenções que possibilitem
o acesso destas pessoas a estes bens podem considerar o design universal como premissa
básica a partir do momento em que dá igualdade de condições de uso a todos os tipos de
usuários, fato perfeitamente possível de ser alcançado ao se considerar os sete princípios do
conceito.

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Os princípios do design universal e da acessibilidade integral surgem para a resolução
dos conflitos entre usuários e produtos, e usuários e ambientes, privilegiando o ser humano na
realização de suas atividades. Permitindo, que executem suas tarefas com segurança,
autonomia, eficiência e conforto.
Assim, colocam-se estes princípios como premissas básicas à integração de todas as
pessoas em sítios históricos. Admite-se que, ao projetar pensando na diversidade de usuários,
todos são beneficiados, pois proporciona melhores condições de uso e apreensão do espaço
tanto àqueles com algum tipo de deficiência como a toda a população.
5. Considerações finais
Por seu carater cultural e histórico, as particularidades dos sítios históricos devem ser
levados em consideração, tanto no que diz respeito a não descaracterização do patrimônio,
como em traduzir as reais necessidades dos usuários quanto a acessibilidade integral,
permitindo que maior contigente possível de pessoas façam uso do mesmo de forma segura,
autonoma, eficiente e confortável, sentindo que fazem parte daquele meio, e por isso mesmo,
queiram preservá-lo.
Desta maneira, percebeu-se a ergonomia participativa como importante instrumento na
aquisição de dados que reflitam as reais necessidades desses usuários. Assim como, que esta
prática é capaz de introduzir aos mesmos, conhecimentos necessários para que estes sejam
aptos a avaliar com maior propriedade as questões enfrentadas constantemente e, ainda, para
manter as benfeitorias alcançadas.
Percebeu-se, também, uma grande lacuna em estudos que tratem a questão da
deficiência, principalmente quando se trata do acesso destas pessoas a sítios históricos.
Coloca-se a importância de continuar os estudos referentes a estas questão,
principalmente no que tange a lugares que já conseguiram tornar seus sítios históricos
acessíveis a toda a população, independente de suas habilidades ou restrições.

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