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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

FACULDADE DE SERVIÇO SOCIAL


DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

“NA FOTOGRAFIA ESTAMOS FELIZES”:


SIGNIFICADOS DE FAMÍLIA PARA ADOLESCENTES EM
ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL DA CASA DE PASSAGEM
“NOSSA GENTE” – MOSSORÓ-RN

JULIANA GRASIELA DA SILVA DANTAS

MOSSORÓ-RN
2014
JULIANA GRASIELA DA SILVA DANTAS

“NA FOTOGRAFIA ESTAMOS FELIZES”:


SIGNIFICADOS DE FAMÍLIA PARA ADOLESCENTES EM
ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL DA CASA DE PASSAGEM
“NOSSA GENTE” – MOSSORÓ-RN

Monografia de conclusão de curso


apresentada ao Departamento de Serviço
Social para a obtenção do grau de bacharel
em Serviço Social.

Profª Orientadora: Dra. Gláucia Helena


Araújo Russo

MOSSORÓ-RN
2014
Catalogação da Publicação na Fonte.
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Dantas, Juliana Grasiela da Silva .

“Na fotografia estamos felizes”: significados de família para adolescentes em


acolhimento institucional da casa de passagem “Nossa Gente”/Mossoró-RN. /
Juliana Grasiela da Silva Dantas. – Mossoró, RN, 2014.

70 f.
Orientador(a): Prof.ª Dra. Gláucia Helena Araújo Russo.

Monografia (Graduação em Serviço Social). Universidade do Estado do Rio


Grande do Norte. Departamento de Serviço Social.

1. Adolescentes - Monografia. 2. Família - Monografia. 3. Acolhimento


institucional - Monografia. I. Russo, Gláucia Helena Araújo. II. Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte. III.Título.

UERN/BC CDD 361

Bibliotecária: Elaine Paiva de Assunção CRB 15 / 492


JULIANA GRASIELA DA SILVA DANTAS

“NA FOTOGRAFIA ESTAMOS FELIZES”:


SIGNIFICADOS DE FAMÍLIA PARA ADOLESCENTES EM
ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL DA CASA DE PASSAGEM
“NOSSA GENTE” – MOSSORÓ-RN

Aprovada em ___/___/2014

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________
Profª. Dra. Gláucia Helena Araújo Russo
Orientadora

______________________________________________
Profª. Ma. Janaiky Pereira de Almeida
Examinadora

______________________________________________
Jéssica Lima Rocha Nogueira
Examinadora

MOSSORÓ-RN
2014
“Venho pedir
O que é direito meu
Eu quero jogar bola
Eu quero ir à escola
E ao voltar pra casa
Poder chamar-te mãe
Viver protegido
De abuso e exploração
Sonhar com o futuro
Não ter medo de escuro
Ser livre e ser irmão”
(Josimar Carneiro)
AGRADECIMENTOS

Existem pessoas que tornam nossa caminhada mais significativa, pela


companhia, apoio, carinho e por nos tornar melhores a cada instante. Fico grata a
todos que contribuíram para o meu crescimento pessoal e profissional, pois sou o
resultado da força e crença de cada um.
Aos meus pais, Luzinete e José, exemplos de simplicidade, humildade e
detentores de uma sabedoria que me inspira sempre. A vocês minha eterna
gratidão, pelos ensinamentos, pelo amor dedicado, por acreditar em meu potencial,
torcendo muito para que essa fase fosse cumprida.
Aos meus irmãos, Lílian e Gethêlier que mesmo distantes sempre torceram
pelo meu sucesso.
Ao meu namorado, amigo e amor da minha vida Cleylton, por ter sido
presente nesse processo de maneira tão especial, com todo carinho, dedicação,
amor e paciência acima de tudo, por trazer aos meus dias garra, alegria e apoio
incondicional, sempre dando um empurrãozinho nos meus sonhos e confortando
minhas angústias.
As amigas que conquistei durante a vida acadêmica, que se tornaram únicas
e especiais, sendo elas: Verônica (choquinha), Déborah (amarelófila), Camila
(alvoroço), Fabrícia (Ligeirinha), Maciana (Mestra). Até aqui percorremos essa
jornada juntas, enfrentando obstáculos, abismos, compartilhando vitórias,
“caminhando e cantando e seguindo a canção”. Desejo que nossa despedida seja
um eterno reencontro.
A minha irmãzinha de quarto, Amanda (filhoquinha), sempre sorridente e
paciente com minhas loucuras e um de meus mais firmes alicerces quando os
ventos contrários surgiam. Agradeço acima de tudo, por ser um anjinho de luz em
minha vida.
A minha supervisora de campo de estágio, Laura Pollyanna pelo seu amor,
comprometimento e ética no fazer profissional, te admiro muito. Meus sinceros
agradecimentos por gentilmente abrir as portas da Casa de Passagem e estar
disponível em todo o processo da pesquisa.
Aos adolescentes da Casa de Passagem pela maneira sábia como me
ensinaram que não podemos desistir de nossos sonhos, e que um sorriso sempre
vale a pena, não importam as circunstâncias.
As minhas amigas fofinhas: Ceição e Ivaneide por toda simplicidade,
amizade, companheirismo e apoio durante esse processo.
A adorável Jéssica Nogueira pelo companheirismo, amizade e disponibilidade
de apoio nesse processo tão difícil e angustiante.
Agradeço em especial a professora Gláucia, por me orientar, pela paciência,
amizade, apoio, enriquecimento teórico e compreensão durante toda jornada. Fico
imensamente feliz por confiar e acreditar em mim, seja no NECRIA, PET-Saúde,
pesquisas científicas, orientações de estágio e/ou monografia. Sempre a terei como
exemplo de vida e profissão, pela sua doçura, inteligência, carinho e ética
profissional.
RESUMO

Muitos adolescentes vivem hoje em instituições de acolhimento, principalmente em


decorrência de situações de risco pessoal e social vivenciadas por eles, ocasião em
que seus direitos fundamentais são violados. Assim, esses sujeitos vivem longe de
suas famílias sem previsão ou certeza de voltar para casa. Diante disso, buscou-se
analisar as percepções dos adolescentes acolhidos na Casa de passagem “Nossa
Gente” em Mossoró-RN sobre o significado da família e das relações familiares, de
sua identificação no contexto familiar, bem como os desafios por eles enfrentados
diante do afastamento e/ou ruptura dos vínculos familiares. Partindo de nossos
objetivos realizamos uma pesquisa de natureza qualitativa e elencamos três
categorias, quais sejam: família, adolescência e acolhimento institucional, tendo
como principais referências: Kaloustian (2011), Szymanski (2000), Giddens (2001),
Sarti (2012), Rizzini (2006), Becker (2009), dentre outros. Também realizamos uma
pesquisa de campo na Casa de Passagem “Nossa gente”, por meio da
materialização de 05 (cinco) entrevistas semiestruturadas com os adolescentes
acolhidos e como técnica complementar a pesquisa in loco, utilizamos à observação
sistematizada, cujos dados foram registrados no diário de campo. Ademais,
realizamos três oficinas, com oito adolescentes que se encontravam acolhidos
naquele espaço no momento da pesquisa. Nos depoimentos dos adolescentes o
amor entre pais e filhos é retratado como algo próprio e inerente a natureza
humana/familiar independente de como as relações se firmem e, o afeto quando
ausente nas relações faz com que os adolescentes, projetem a família imaginária,
isenta de conflitos e desigualdades. A casa de passagem é apreendida pelos
adolescentes como lugar de acolhida, garantia de direitos e, para alguns é o mais
próximo da família que eles idealizam. Deste modo, trazem para o seu universo
familiar, pessoas com as quais, de alguma maneira, possuem vínculos,
independente de relações de parentesco. Ao mesmo tempo em que eles incorporam
a família para além das relações consanguíneas não conseguem ir além destas,
pois acabam pensando a família como pai e mãe, ligada a ideia daquilo que não
tem, como é o caso inclusive do amor.

Palavras-Chave: Adolescentes. Família. Acolhimento institucional.


LISTAS DE FIGURAS

FIGURA 1: Percepção de Liberdade para os adolescentes acolhidos na Casa de


Passagem “Nossa Gente” ......................................................................................... 37
FIGURA 2: Percepção de família e instituição para os adolescentes acolhidos na
Casa de Passagem “Nossa gente” - Mossoró-RN .................................................... 54
FIGURA 3: Percepção de família para os adolescentes acolhidos na Casa de
Passagem “Nossa gente”- Mossoró-RN .................................................................... 55
FIGURA 4: Percepção de família para os adolescentes acolhidos na Casa de
Passagem “Nossa gente”- Mossoró-RN .................................................................... 55
FIGURA 5: Percepção de família e instituição para os adolescentes acolhidos na
Casa de Passagem “Nossa gente”- Mossoró-RN ..................................................... 56
LISTA DE SIGLAS

CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente


ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
FASSO – Faculdade de Serviço Social
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social
NECRIA – Núcleo de Estudos e Ações Integradas na Área da Criança e do
Adolescente
NIAC – Núcleo Integral de Assistência a Criança Pinguinho de Gente
PET-SAÚDE – Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde
PNAS – Política Nacional de Assistência Social
PNCFC – Plano Nacional de Proteção, Promoção e Defesa do Direito da Criança e
do Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária
UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10

2. “NA FOTOGRAFIA ESTAMOS FELIZES”: FAMÍLIA E ADOLESCÊNCIA............. 16

2.1 Retratos de família .............................................................................................. 16


2.2 “Adolesci”! E agora? ............................................................................................ 34
3 “TÁ TUDO ASSIM TÃO DIFERENTE”: ADOLESCENTES EM ACOLHIMENTO
INSTITUCIONAL ....................................................................................................... 41

3.1 Adolescentes, acolhimento institucional e pobreza: três lados de uma mesma


equação?................................................................................................................... 41
4 CONCLUSÃO......................................................................................................... 59

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 64

APÊNDICES.............................................................................................................. 69

APÊNDICE A: Roteiro de entrevista.......................................................................... 69

APÊNDICE B: Roteiro das oficinas ........................................................................... 70


10

1 INTRODUÇÃO

A institucionalização de adolescentes é prática frequente no Brasil desde o


século XIX até a atualidade. Destarte, a história deixa marcas no presente e
milhares de adolescentes ainda vivem hoje em instituições de acolhimento,
principalmente em decorrência de situações de risco pessoal e social, quando seus
direitos fundamentais são violados. Assim, permanecem acolhidos e longe de suas
famílias, sem previsão ou certeza de volta para casa.
Dessa forma, a motivação por essa temática e o interesse em estudá-la é
resultado de nossas vivências de estágio na Casa de Passagem “Nossa Gente” em
Mossoró-RN1 por meio do qual tivemos a oportunidade de conviver com
adolescentes que tiveram seus direitos violados e necessitaram se afastar de suas
famílias e/ou comunidades. Outro elemento que impulsionou a escolha do tema foi a
inserção no Núcleo de Estudos e Ações Integradas na Área da Criança e do
Adolescente (NECRIA) no Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde
(PET-SAÚDE), que discutem assuntos referentes à infância e a adolescência.
A experiência de estágio nos permitiu conhecer a realidade de adolescentes
com vínculos familiares fragilizados ou mesmo rompidos. Convém ressaltar que as
principais causas que os levam ao afastamento de suas famílias são situações
classificadas como violações de direitos do adolescente, mencionadas no Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA - Lei 8.069, de 13 de julho de 1990). É o caso da
violência intrafamiliar, expressa no abuso físico e psicológico, negligência, na
exploração sexual, entre outros; quando as famílias por ação ou omissão não
desempenham seu papel de proteção e negam direitos fundamentais inerentes a
esses sujeitos.
Quaisquer que sejam as circunstâncias que condicionam o afastamento dos
adolescentes de suas famílias, estas nos remetem a questionamentos: e o
adolescente, como entende a situação? O que ficou em sua memória sobre família?

1
Estágio curricular obrigatório do curso de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio Grande
do Norte, realizado de janeiro de 2012 a março de 2013.
11

Como expressa isso? Quais os desafios do acolhimento institucional? Qual o sentido


da família e das relações familiares em sua vida? Como o acolhimento institucional
influência na sua visão de família?
Embora sejam aparentemente simples, tais indagações envolvem muitas
variáveis e são muito complexas para o adolescente que vive essa situação e
também para os estudiosos do assunto. Desse modo, o adolescente acolhido
convive com algumas inquietações: em primeiro lugar, afastar-se dos vínculos
familiares, situação que pode ou não ser temporária e, além disso, o conflito de ter
família e se encontrar em situação de acolhimento institucional. Portanto,
permanecem na instituição, aguardando o desfecho de seu destino: à volta para a
família biológica ou a colocação em família substituta, no caso dos pais serem
destituídos do poder familiar.
Consideramos oportuno destacar que esses adolescentes não são pensados
enquanto sujeitos (como prescreve o ECA), eles estão impossibilitados de escolher
ou de traçar o seu destino que depende de outros que, em sua maioria, não
conhecem seus anseios, dificuldades ou necessidades. Parece claro afirmar que
apesar do ECA os preconizar como sujeitos, em algumas situações sua
possibilidade de ação e decisão é altamente reduzida.
A pesquisa, portanto, visou analisar as percepções dos adolescentes
acolhidos na Casa de passagem “Nossa Gente” em Mossoró-RN sobre o significado
da família e das relações familiares, de sua identificação no contexto familiar, bem
como os desafios por eles enfrentados diante do afastamento e/ou ruptura dos
vínculos familiares. Nesse sentido, urgia a necessidade de dar voz a esses sujeitos,
para que pudessem falar acerca dos sentidos que atribuem à família e a sua
representação em suas vidas.
Assim, acreditamos que o ineditismo do tema na Faculdade de Serviço Social
(FASSO) torna o trabalho muito relevante, na medida em que nos incita a pensar
criticamente e remete-nos a possibilidade de compreensão acerca do significado de
família para os adolescentes acolhidos de forma a contribuir para reflexão e
superação de lacunas no conhecimento da temática.
12

Nessa perspectiva, procedemos um estudo de natureza qualitativa, visto que


essa abordagem mostrou-se pertinente para consecução dos objetivos por nós
traçados, sem, contudo desconsiderar os próprios limites dos instrumentos
empregados. Nesse sentido Minayo (2001) revela que esta modalidade de
investigação busca responder, de modo aprofundado e particular a questões que por
englobarem um nível da realidade social, não devem ser quantificadas, isto é,
compõem o universo de significados, motivos, crenças, valores e atitudes dos atores
sociais pertencentes ao contexto investigado.
Como norte de entendimento, utilizamos um método que se preocupa com os
significados que os sujeitos atribuem a sua experiência vivida (ao seu lugar no
mundo), significados estes que se desvelam pelas descrições desses mesmos
sujeitos. Tal método nos possibilitou analisar e compreender os adolescentes em
suas múltiplas facetas, em suas experiências e relações com o cotidiano, ao revelar
o fenômeno vivido em sua essência.
Realizamos então uma pesquisa de campo na Casa de Passagem “Nossa
gente” em Mossoró-RN, por meio da materialização de entrevistas semiestruturadas,
tendo um roteiro2 como subsídio. No período de realização das entrevistas,
encontravam-se acolhidos cinco adolescentes, sendo três do sexo masculino e duas
do sexo feminino e, todos se disponibilizaram a participar de nossa pesquisa. Esse
momento nos possibilitou um contato mais aproximado com os sujeitos e nos fez
perceber sua dificuldade ao falar de família, bem como sua emoção ao discorrerem
sobre determinados aspectos da temática trabalhada. Nessa direção, conseguimos
ir além do roteiro previamente elaborado, e apreendemos elementos significativos
em suas falas, os quais foram aprofundamos a posteriori nas oficinas.
Cabe acrescentar que a entrevista na pesquisa qualitativa, ao privilegiar as
falas dos atores sociais, nos permitiu o desvelamento e interpretação das diferentes
formas de pensar e se colocar no mundo de acordo com as vivências particulares
dos sujeitos entrevistados (Minayo, 2001). Optamos pela entrevista semiestruturada
por ela nos permitir uma maior flexibilidade e aprofundamento de elementos que

2
Ver apêndice A.
13

podem ir surgindo durante a entrevista, bem como possibilitar um melhor


direcionamento à temática abordada com os adolescentes, por pressupor a
construção de uma interação mútua no diálogo com estes.
Como técnica complementar a pesquisa in loco, utilizamos à observação
sistematizada, cujos dados foram registrados no diário de campo, que pode ser
considerado um instrumento pessoal de anotações. Os registros uma vez
aglutinados forneceram elementos significativos para o trabalho ora produzido.
Ademais, realizamos três oficinas3 com os adolescentes acolhidos, que foram
direcionadas pelos seguintes temas: família no futuro e/ou atualidade; amor na
família e, por fim, casa de passagem e família. Dessa forma, as oficinas visavam
preencher algumas lacunas das entrevistas e tínhamos como objetivos:
Compreender como os adolescentes acolhidos idealizam sua família no futuro e/ou
reconhecem sua família na atualidade, sua percepção sobre a presença/ausência do
amor no âmbito familiar e, a relação que os adolescentes acolhidos estabelecem
entre a instituição e suas famílias.
Tendo em vista a dinâmica institucional e o fato das oficinas terem sido
realizadas um mês após as entrevistas havia no momento oito adolescentes
acolhidos na Casa de Passagem, sendo três do sexo masculino e cinco do sexo
feminino. O único critério de participação foi a disponibilidade dos sujeitos e não
obtivemos recusa em nenhum momento no processo de pesquisa.
Para esse momento optamos pela realização de desenhos, recortes, colagem
e dinâmicas, por pensarmos a fase da adolescência como um momento lúdico e a
situação de estar longe da família, como algo que remete a aspectos negativos e
mexe com a emoção desses sujeitos e que por isso precisam ser representados.
Portanto, ao mesmo tempo em que esses procedimentos possibilitaram a
espontaneidade e a descontração, minimizaram os riscos decorrentes da pesquisa e
propiciaram um alcance de nossos objetivos.
Em alguns momentos a temática incitava relatos espontâneos dos
adolescentes, seja de forma escrita ou oral, os quais foram acolhidos com a

3
Ver apêndice B.
14

necessária atenção e cautela de uma escuta eticamente comprometida com os


adolescentes. Destarte, na medida em que trabalhamos com mais de um
instrumento de produção de dados, isso nos possibilitou uma maior aproximação
com a essência dos fenômenos, evitando as armadilhas da aparência, expressas em
interpretações descoladas da realidade concreta ou ainda, em dados que,
individualmente, não dão conta da análise do real, mas ao contrário, a distorcem
(Minayo, 2001). Nesse contexto, os dados que foram cotejados por meio desse
conjunto de procedimentos, potencializaram o aprofundamento da discussão e
enriqueceram esse trabalho monográfico.
Finalmente, contribuindo para alcançar os objetivos propostos e dar
fundamentação teórica ao nosso estudo, realizamos um levantamento bibliográfico,
concernente às categorias de família, adolescência e acolhimento institucional,
tendo como principais referências: Kaloustian (2011), Szymanski (2000), Giddens
(2001), Sarti (2012), Rizzini (2006), Becker (2009), entre outros.
Como metodologia de exposição da pesquisa, o trabalho monográfico foi
estruturado em quatro partes: a presente introdução onde trazemos uma exposição
geral do trabalho, a motivação pela temática abordada, a relevância de estudá-la,
bem como metodologia utilizada na pesquisa, enfatizando os instrumentos de coleta
de dados.
No item dois intitulado: “Na fotografia estamos felizes”: família e adolescência,
exporemos aspectos relacionados à família e adolescência. Nesse sentido, iremos
abordar essas categorias de forma contextualizada com a comunidade e sociedade,
considerando influências culturais e históricas, bem como retrataremos a pluralidade
e as transformações que ocorrem no universo desses grupos. Esse item se
subdivide em dois subitens, o primeiro intitula-se: Retratos de família; aqui
buscamos elucidar a família, trazendo suas características na contemporaneidade,
os impactos socioeconômicos na dinâmica familiar e as contradições existentes
nessa instituição. Ademais, traremos a percepção de família para os adolescentes
acolhidos institucionalmente na Casa de Passagem “Nossa gente” em Mossoró-RN.
No segundo subitem: “Adolesci”! E agora? Buscamos fazer uma breve discussão
15

sobre a adolescência, as mudanças físicas e psíquicas que ocorrem nessa fase,


compreendendo a adolescência como um fenômeno plural interligado às condições
do meio na qual estão inseridos os sujeitos, levando em consideração a sociedade,
cultura e classe social.
No item três intitulado “Tá tudo assim tão diferente”: adolescentes em
acolhimento institucional buscaremos traçar o perfil dos adolescentes acolhidos na
Casa de Passagem “Nossa Gente”. Para tanto, buscamos conhecer o perfil dos
adolescentes acolhidos na Casa de Passagem “Nossa Gente” em Mossoró-RN, por
meio da identificação da renda familiar, escolaridade e motivo de acolhimento.
Temos o intuito de trazer elementos que possam auxiliar na compreensão de quem
são esses sujeitos que, por diferentes motivos, foram abrigados institucionalmente.
Ademais, visamos discutir o acolhimento institucional, trabalhando seus
condicionantes, os impactos na vida do adolescente, buscando-se pensar também
como o acolhimento influência a sua visão de família.
Por fim, exporemos nossas considerações finais acerca da temática
estudada, fazendo uma análise geral dos resultados obtidos na pesquisa de campo
e na pesquisa bibliográfica, bem como traremos apontamentos e diretrizes para
novas possíveis investigações sobre o mesmo tema, e/ou aprofundamento desta.
É mister ressaltar que utilizamos como epígrafes frases ditas pelos
adolescentes em entrevistas, conversas informais e oficinas por consideramos
representativas de cada item. Nessa perspectiva, usamos nomes fictícios visando
preservar a identidade dos sujeitos e o sigilo das informações. Escolhemos dessa
forma, nomes de personagens infantis ou até mesmo designando-os de acordo com
sua personalidade.
16

2. “NA FOTOGRAFIA ESTAMOS FELIZES”: família e adolescência

2.1 Retratos de família


“Assim tia, eu nunca tive amor na minha família (silêncio), mas gosto da
4
minha família” (Bilú, 15 anos) .

De acordo com Prado (2012), todos saberiam o que é uma família, pois todos
são parte integrante de uma; a instituição família seria, por assim dizer, óbvia em
sua totalidade e, uma das instituições sociais mais naturalizadas e sacralizadas em
nosso tempo. Nossa primeira ressalva as discussões empreendidas pela autora, é
que se trata de um conceito amplo e multifacetado que pode ter vários significados,
portanto, o que parece óbvio não o é de fato, tampouco é tão certo que todas as
pessoas tem ou fazem efetivamente parte de uma família.
A depender de quem referencia, ao termo é atribuída uma acepção que
provavelmente estará relacionada à sua origem, valores e vivências particulares.
Nesse sentido, ao falar em família, acabamos naturalizando-a e supondo sua
existência na vida de todos (as), e isso nem sempre acontece. Cabe lembrarmos
que muitas pessoas não tem lembranças de família e, apesar dos cuidados
biológicos serem atribuídos a essa instituição, estes vieram de instituições de
acolhimento responsáveis por esse aparato. Nesse ínterim, cada um tem alguma
memória de sua família, ou da ausência dela, de seus sabores e dessabores, como
podemos vislumbrar na fala5 dos nossos entrevistados:

- Eu era criança, isso, a gente tava andando de jumento, [...] Nesse dia tava
tudo reunido. Antes que... da morte do meu irmão. Tava tudo feliz, meu pai
pescano, meus irmão, tudo reunido e feliz debaixo daquela oiticica lá em
Campo Grande. Nunca esqueci esse momento (Estrela, 17 anos).

4
Utilizamos como epígrafes frases ditas pelos adolescentes em entrevistas, conversas informais e
oficinas por consideramos representativas de cada item. Vale ressaltar que usamos nomes fictícios
para preservar a identidade dos sujeitos participantes de nossa pesquisa. Escolhemos dessa forma,
nomes de personagens infantis ou até mesmo designando-os de acordo com sua personalidade.
5
Respostas dadas pelos adolescentes acolhidos para o seguinte questionamento: Quais os
momentos que mais marcaram sua vida enquanto estava junto a sua família?
17

- Assim, [pausa] família é uma coisa que eu sempre quis ter, mas eu nunca
consegui. O que eu passei na minha casa com eles, eu tento esquecer, mas
eu não consigo (Mafalda, 12 anos).

- Família significa muita coisa. Significa amor, paz, harmonia. Família de


verdade é aquela que é feliz. Mas, eu não tive isso (Charlie, 18 anos).

Torna-se importante refletir, que os discursos acima são distintos porque os


universos familiares também o são. Nessa direção, podemos observar nesses
relatos a presença de sentimentos como a nostalgia e a naturalização, pois todos
têm momentos vividos ou gostaria de tê-los, já que isso compõe sua identidade e
sua história como ser humano. Outro aspecto importante que deve ser pensado é
que a idealização de família perfeita e harmônica é repassada, seja na escola ou
outros veículos de formação de opinião, criando assim um dever ser diferente
daquilo que é de fato.
Comungamos, portanto, com a ideia de Rizzini (2001a) de que a família é
singular em sua especificidade e plural em sua universalidade. Isto é, cada família é
única e, portanto, possui características singulares na maneira como se relaciona e
cuida de seus membros, visto que as subjetividades envolvidas e valores específicos
de cada unidade familiar são revelados de diferentes maneiras nas múltiplas formas
em que essa instituição se apresenta na totalidade/ universalidade do mundo que a
cerca. Portanto, as famílias “são constituídas de muitas formas, e uma forma não é
melhor ou pior do que a outra, elas são apenas diferentes entre si. Isto quer dizer
que não há um modelo ‘certo’ nem um modelo ‘normal’ de família” (GUARÁ, 2010, p.
16). Nessa direção, vejamos como Robin descreve sua família:

- Minha família é tudo espaiada ... Eu morava com minha vó, lá em João
Câmara ... Aí minha mãe me pegou de lá e me levou pra cá. Fui criado mais
pela minha vó... (Robin, 14 anos).

É possível observar no relato acima que a família biológica recorre a


membros da própria família ou a outras pessoas da rede de conhecimento para
cuidar dos filhos, é o que Sarti (2011) vai intitular de rede de solidariedade entre os
mais pobres, uma estratégia de sobrevivência. Essa é uma realidade em que
18

normalmente chamamos de “tomar conta”, e as avós/avôs tem grande participação


nesse contexto. De acordo com o censo de 20106, o número de crianças que são
sustentadas e criadas pelos avós passam dos quatro milhões. Nota-se assim que
essa constituição familiar, possui massiva expressão na sociedade, apesar de que
por vezes seja invisibilizada ou nos termos de Fonseca (2001) pouco ou nunca
abordada.
Para tanto, no que tange a família Szymanski a entende como,

Uma associação de pessoas que escolhe conviver por razões afetivas e


assume um compromisso de cuidado mútuo e, se houver, com crianças e
adolescentes, não levando em conta para isto, a existência de laços
consanguíneos ou de parentesco (2002, p. 09).

Partindo dessa ideia, a família acaba sendo pensada sob uma ótica
romântica; isenta de contradições, conflitos ou discordâncias nas relações
estabelecidas entre seus membros, contradizendo-se, dessa forma, com a própria
realidade.
Nessa lógica, podemos compreender essa instituição como um simulacro das
relações sociais, constituída de poderes e contradições. Cabe acrescentar que a
família é criação humana, engendrada pelas necessidades dos seres humanos,
logo, suscetível a transformações, decorrentes de “[...] questões culturais, políticas,
socioeconômicas e emocionais, compreendidas no tempo histórico e no espaço
onde ela está inserida” (RIZZINI, 2001a, p. 218).
Analisando a temática, Prado (2012) nos esclarece que o termo família, é
originário do latim famulus, significando “o conjunto de servos e dependentes de um
senhor” (p. 51). Contudo, o sentido original da palavra vem se modificando e hoje há
várias acepções concernentes ao termo, embora o sentido hierárquico seja ainda
muito presente nas relações familiares.
A nosso ver, a família pode ser entendida como processo histórico, social e
cultural em construção e mudança. É também,

6
Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/default.php> Acesso em: 11 Dez. 2013.
19

[...] o lugar onde se ouvem as primeiras falas com as quais se constrói a


auto-imagem e a imagem do mundo exterior. É onde se aprende a falar e,
por meio da linguagem, a ordenar e dar sentido às experiências vividas. A
família, seja como for composta, vivida e organizada, é o filtro através do
qual se começa a ver e a significar o mundo. Este processo que se inicia ao
nascer prolonga-se ao longo de toda a vida, a partir de diferentes lugares
que se ocupa na família (SARTI, 1999, p. 100).

Em geral, a família é um espaço onde os indivíduos iniciam sua socialização e


constroem suas primeiras redes de sociabilidade; podendo se constituir como local
de proteção e referência para crianças e adolescentes, portanto, como relevante no
seu desenvolvimento social e afetivo. Ao mesmo tempo, trata-se de uma instituição
contraditória, haja vista que nem sempre será um lócus de proteção e segurança,
mas, como a própria autora diz, independente de sua composição ou organização, é
por meio dela que construímos nossa forma de estar e ver o mundo. Todavia é
necessário pensarmos que a família nem sempre será espaço de socialização ou de
sociabilidade, seja pela inexistência dessas relações em situações de violência ou
da própria família na vida dos sujeitos. Vejamos um depoimento coletado em nossas
oficinas:

Como uma família deve ser...

Amiga qe esteja com a gente pro qe der e vinher....Tem qe criar o seu filho
em todo o momento... mesmo nos momentos difíceis e o momento mais
especial de uma família é o filho. Ser família é ser unido, ser família é
alimentar quando estever com fome dar de comer, quando estever com
sede ter água pro bebé... até os animais tem família... Amar é ter carinho
pros seus pais, tios, avós, irmãos por que Deus disse amais os próximos
como a ti mesmo e família é uma coisa muito importante pra se ter e se
orgulha e viver em harmonia e união... ate os velhinhos nos temos qe amar
por que ter família no coração, não se compra, se conquista, a vida é muito
importante nos temos que compartilha a alegria, o sorriso, o sofrimento,
família tem que acompanha desde pequeno – eu não sei o que é família por
que eu nao tive mais eu posso sentir como é bom ter auguem pra nos
7
ajudar a andar, seguir nossos passos” (Mafalda, 12 anos).

7
O depoimento supracitado foi escrito por uma adolescente durante uma oficina realizada na Casa de
Passagem “Nossa Gente” no dia 11 de outubro de 2013.
20

O discurso da adolescente Mafalda traz em seu escopo a sua percepção de


família, como deve ser e o que é na verdade em suas vivências. A ideação do ‘criar’
ao qual se refere em seu discurso, representa o atendimento às necessidades
básicas, materiais e emocionais dos filhos – alimentação, higiene, carinho, atenção –
e também ‘educar’ no sentido de ensinar, transmitir valores, princípios, atitudes e
conhecimento universais (MONTEIRO; CARDOSO, 2001). Pode ser observada
também a carência de afeto e carinho, consequentemente sua ideação de família
caracteriza-se pela presença de afetos, cuidados, atenção e apoio mútuo, família
para ela é na verdade estar presente em todos os momentos, sejam eles tristes ou
alegres.
A ideia de família como esse ambiente harmônico, cheio de paz e amor, é
algo que se espraia pela sociedade e por isso mesmo aparece tão fortemente no
discurso de Mafalda. Há na sociedade um padrão a ser seguido em relação à família
que, na grande maioria dos casos contrasta com aquilo que ela é de fato.
Como podemos perceber a definição de família tem assumido várias formas
e, na maioria das vezes aparece vinculada a uma série de funções sociais, entre
outros contextos possíveis de serem pensados. Por isso mesmo, conceituar família é
algo complexo, pois se trata de uma realidade em constante transformação, uma
rede intricada de significações que depende fundamentalmente do espaço
sociocultural em que essa instituição encontra-se inserida.
Sendo historicamente construída, a família foi se configurando diferentemente
nas diversas sociedades. Se antes essa instituição era marcada pela figura do pai
como chefe de família e pela mãe que vivia em função do lar e dos filhos,
atualmente o mundo familiar vem apresentando e reconhecendo novas significações
e ganhando formas cada vez mais diferenciadas que se afastam de um modelo
considerado ideal. Nesse sentido, não somente suas funções mudam, mas a própria
percepção sobre sua constituição. Como Giddens nos revela:

A grande diversidade de formas de família e de núcleos domésticos tornou-


se uma característica cotidiana de nossos tempos. As pessoas estão menos
propensas a casar do que antes e também estão se casando mais tarde. A
21

taxa de divórcios aumentou significativamente, contribuindo para o


crescimento do número de famílias monoparentais. As “famílias
reconstituídas” formam-se através de segundos casamentos ou através de
novos relacionamentos envolvendo filhos de uniões anteriores. As pessoas
estão optando cada vez mais por viverem juntas – coabitar – antes do
casamento, até mesmo preferindo isso a se casar. Enfim, o mundo da
família está bem diferente do que há 50 anos. Embora as instituições da
família e do casamento ainda existam e sejam importantes em nossas
vidas, tiveram uma mudança drástica de caráter (2005, p. 151).

Logo, vem se tornando comum a coexistência de múltiplas formas de família


que se tornam cada vez mais complexas com o transcorrer da história. Giddens
(2000), por exemplo, pensa a família como uma “instituição-casca”8, ou seja, ela
recebe a mesma designação conferida antes, mas seu sentido vem mudando
completamente, como expressa a citação acima.
As mudanças ocorridas no universo familiar são decorrentes de uma
multiplicidade de aspectos e estão relacionadas, sobretudo ao avanço científico,
assim como as alterações vividas no contexto político, social, econômico e cultural
do nosso tempo/espaço, como exemplo podemos citar as transformações
relacionadas aos processos educativos, à organização do trabalho e ao
fortalecimento da lógica individualista. Conforme Mioto (1997) ocorrem mudanças na
área de reprodução humana, transformações e liberalização dos hábitos e
costumes, principalmente no que concerne a sexualidade, bem como a nova posição
da mulher na sociedade, trazendo assim repercussões na organização,
funcionamento e dinâmica familiar.
É relevante acentuar que a família é produtora e reprodutora de cultura e
ideologias, influencia a sociedade e é influenciada por ela, como se pode perceber
pela rapidez com que vem mudando a própria família9 nas últimas décadas
(MONTEIRO; CARDOSO, 2001). Isso acontece porque a instituição familiar está

8
Para um maior aprofundamento nessa temática ler: GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole. Rio
de Janeiro: Record, 2000.
9
As famílias tendem a ser menores. Fenômeno este sem precedentes: as famílias sempre foram mais
numerosas. Assim, um dos importantes indicadores verificados são: declínio da taxa de fertilidade,
aumento do número de família chefiadas por um dos pais, principalmente a mãe. número de grupos
de irmãos é menor, bem como também as redes familiares (ZWINGLE, 1998 apud RIZZINI, 2006).
22

inserida na sociedade, por sua vez detentora de valores, cultura e ideologias. Assim,
em uma relação dialética a sociedade e a família se transformam e influenciam
mutuamente. Prado trata desse assunto afirmando que: “De fato, não se poderá
mudar a instituição familiar sem que toda a sociedade mude também” (2012 p.10),
pois as mudanças estão entrelaçadas e a família encontra-se diretamente
relacionada com questões de ordem cultural, econômica e social.
Parece ser consensual que não podemos mais falar em família (no singular),
mas de famílias (no plural). Em contrapartida, apesar de existirem novas unidades
familiares pautadas nas mais diversas organizações, o protótipo de família nuclear
ainda permanece enaltecido socialmente como modelo ideal e ideológico que se
firma na harmonia das relações e dos papéis que aparecem como complementares
e isentos de conflitos.
Tal imaginário de organização familiar tornou-se uma expectativa normativa
para a sociedade e quando as famílias se contrapõem ao lar idealizado são
denominadas “desestruturadas”.

Ao tentar-se estabelecer um único padrão de família, foram consideradas


“desestruturadas” quando comparadas com o modelo idealizado e
legitimado pelas classes dominantes. Desta feita, a família, em suas
diferentes formas, vista por um viés de família ideal, é estranhada. Esse
estranhamento se dá por uma postura etnocêntrica, que leva o indivíduo a
tentar interpretar a realidade a partir de seus próprios parâmetros. A família
do outro é vista por um desvio, pelo biombo de uma concepção própria de
família, tomando a si mesmo como referência para chegar ao outro. Nessa
concepção a diversidade é considerada desigualdade (PEREIRA, 2006, p.
25).

Nesse âmbito, é necessário desconstruir paradigmas, no que concerne as


formas familiares diferenciadas, deve-se reconhecer a diversidade no sentido de não
normatizar as ações a partir de um modelo rígido e único, artificialmente imposto
(SARTI, 1999).
Ao abordar essa temática, Kaloustian (2011) aponta a família como espaço da
garantia da proteção integral e da sobrevivência, independente da configuração em
23

que se baseie. Mas, é importante pensarmos que esta instituição também pode ser
violadora de direitos e protagonista de conflitos e violências entre os seus membros.

- [...] pra mim família é uma perca muito grande, é uma palavra muito triste
(Estrela, 17 anos).

- Eu queria ser igual... Num existe ninguém diferente tia, mas eu era...
(lágrimas) Mainha não deixava eu assistir, nem brincar, nem mim divertir
(Mafalda, 12 anos).

O discurso ideológico da sociedade “tem como correspondente, no espaço


doméstico a metáfora da pressuposta harmonia e felicidade familiar (MONTEIRO,
CARDOSO, 2001, p. 97). Com base no clichê: “[...] e foram felizes para sempre”
presente em todos os contos de fadas e no ideário coletivo, a sociedade percebe e
reforça a ideia de que o lar é sempre harmônico e imutável, mas esse modelo de
família não corresponde à realidade e a própria vivência da felicidade se diferencia
daquela apontada nos romances e contos de fada. Nessa perspectiva, a família
também deve ser pensada sob um viés de perdas de referenciais, identidade e lócus
de sentimentos de não-pertencimento e negação de direitos essenciais.

- A minha família bebia muito, era destruturada, não era estruturada, bebia
muito, acontecia muitas briga com meu pai, meus irmão. Bebia os dois,
quando eles tava bêbo ficava batendo em mim e nos meus irmão, obrigando
a gente pidir esmola pra... pra arrumar dinhero pra comprá bebida pra eles
(Estrela, 17 anos).

A família é considerada por alguns estudiosos como o lugar mais importante


para o desenvolvimento dos sujeitos, ainda que não atenda aos padrões ideais
estabelecidos pela sociedade. Na fala acima, a família é retratada como
“desestruturada”, justamente por apresentar conflitos relacionais, se contrapondo ao
modelo harmônico da família ideal.
Consideramos oportuno destacar que nesse mesmo espaço considerado
propício ao desenvolvimento dos laços afetivos, a violência, a negligência, os
conflitos e os abusos também podem se instalar. E é justamente por esses, entre
tantos outros motivos, que algumas crianças e adolescentes são encaminhados para
24

instituições de acolhimento, já que se acredita que ali eles poderão receber os


cuidados que a família, momentânea ou permanentemente, não pode oferecer-lhes.

- Eu num era uma filha, eu era uma empregada. Ela [mãe] batia muito em
10
mim, muito, muito. Dexava eu sem blusa pro Conselho vê as mancha. Ela
batia em mim tia, que cortava... cortava, com aquelas burrachinha de
encher pneu de carro. Ela dava em mim tanto que eu ficava toda cortada e
ela jogava perfume e ainda deixava eu em cima da cama pro conselho vê.
O perfume era pra queimar mais. Ela me acorrentava tia. Pra eu não fugir
de casa. Eu num podia nem ir no banheiro (silêncio). Assim, mãe é tudo né?
(silêncio) (lágrimas) mas é que assim, eu amo ela, amo muito ela, é porque
ela num entende meu lado não. Ela num fazia eu feliz. Ela me chamava de
imunda, sabe tia? De nojenta... dizia que não sabia como eu tinha saído de
dentro dela. Sabe um negoço que impata a vida de uma pessoa? Ela disse
que eu fui... Né fácil não tia, falar da vida da pessoa não, né fácil passar por
tudo que eu passei não (Mafalda, 12 anos).

Torna-se evidente que a violência no âmbito familiar é uma experiência que


marca física e psicologicamente quem a sofre e afeta a vida de crianças e
adolescentes tanto em suas relações familiares, como sociais e pessoais, e faz com
que estes construam sentidos próprios para tal vivência (BORGES, 2001). Ademais,
a violência é um fenômeno gerado nos processos sociais, historicamente
construídos, manifestando-se no cotidiano desses sujeitos e deixando marcas na
própria sociedade, quando o acolhimento institucional se faz necessário, por
exemplo.
De acordo com Minayo:

A violência contra crianças e adolescentes implica, de um lado, uma


transgressão do poder/dever de proteção do adulto e da sociedade em geral
e, de outro, na coisificação da infância. Isto é, uma negação do direito que
crianças e adolescentes têm de serem tratados como sujeitos e pessoas em
condições especiais de crescimento e desenvolvimento. (2001, p. 02)

10
Esse conselho a que Mafalda se refere em sua fala é o Tutelar. Os Conselhos Tutelares são
órgãos que devem zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, tornando-se
parte fundamental do sistema de garantias. Atender as crianças, os adolescentes e suas famílias,
realizar encaminhamentos, orientar, apoiar, incluir em programas, requisitar serviços públicos,
garantir os direitos e realizar medidas de proteção são algumas das atribuições dos Conselhos
Tutelares (BRASIL, 1990).
25

Para tanto, a violência se expressa de variadas formas e se desenvolve em


torno das relações de poder estabelecidas do mais forte sobre o mais fraco. Nesse
contexto, a violência intrafamiliar é uma das facetas por meio da qual a violência se
apresenta e a sociedade não apenas aceita como naturaliza e responsabiliza
crianças e adolescentes pelo que ocorre no âmbito da família (MOTTA, 2003).
Dessa forma, podemos deduzir que a violência é um método educativo fortemente
legitimado socialmente, ao ponto que a família é vista como sagrada, sem mácula e
tem o poder de vida e morte sobre suas crianças e adolescentes, tratados assim,
como objetos de posse e não como sujeitos de direitos.
Além de violentada fisicamente, Mafalda vivenciava abusos psicológicos de
diversas ordens como: humilhação, rejeição, quando por exemplo a mãe afirma não
saber como a menina saiu de dentro dela e a deixa exposta para que o Conselho
Tutelar visse o que havia acontecido. Com efeito, surgem questionamentos. Seria
para desresponsabilizar ou para provar sua força diante do legal que seria
representado pelo conselho? Aparentemente, há certo prazer em demonstrar seu
poder de mãe/adulto e transformar a adolescente em objeto/coisa, subjugando-a a
suas necessidades. Uma coisa é certa: o amor materno não é inato ou incondicional
é um mito historicamente construído e, a sua inexistência no âmbito das relações
muitas vezes materializa-se por meio da violência.
No depoimento acima, podemos vislumbrar múltiplas expressões da violência
intrafamiliar: violência física, psicológica e negligência, que simultaneamente
causam diversos danos a adolescente, tanto de natureza física, quanto psicológicas.
No que diz respeito à violência física, Faleiros e Faleiros (2008) esclarecem:

Ela apresenta-se em diferentes graus, cuja severidade e gravidade podem


ser medidas pela intensidade da força física utilizada pelo agressor, pelo
grau de sofrimento causado à vítima, pela gravidade dos ferimentos
ocasionados, pela frequência com que é aplicada e pelas sequelas físicas e
psicológicas que provoca (p. 35).

Nesse contexto, a violência física contra crianças e adolescentes caracteriza-


se pelo uso indevido da força física e em consequência provoca danos à integridade
26

corporal, a dignidade, bem como a saúde e vida desses sujeitos. É, portanto, um ato
intencional e manifesta-se de variadas formas, por meio de tapas, socos, cortes,
queimaduras, empurrões entre outros, podendo ou não deixar marcas evidentes.
É preciso ressaltar que geralmente a violência física não aparece isolada, é
acompanhada de rejeição, depreciação, discriminação, humilhação, desrespeito e
punições exageradas, isto é, da violência psicológica. De acordo com Guerra: "a
violência psicológica também designada como tortura psicológica ocorre quando um
adulto constantemente deprecia a criança, bloqueia seus esforços de auto-
aceitação, causando-lhe grande sofrimento mental" (2008, p. 33). Portanto, a
violência psicológica não deixa marcas corporais visíveis, mas
emocionalmente/psicologicamente marca de forma indelével. Esses sinais,
inclusive, podemos detectar no depoimento da adolescente quando ela diz que não
é fácil falar da própria vida, ela chora, se emociona, enfim; um conjunto de indícios
que revelam o potencial destrutivo da violência psicológica.
Outra expressão da violência intrafamiliar em que muitas “Mafaldas” são
vítimas cotidianamente é a negligência. Tal violência pode ser compreendida como:

[...] uma omissão em termos de prover as necessidades físicas e


emocionais de uma criança ou adolescente. Configura-se quando os pais
(ou responsáveis) falham em termos de alimentar, de vestir adequadamente
seus filhos etc., e quando tal falha não é o resultado das condições de vida
além do seu controle (GUERRA, 2008, p.33. Grifos originais).

Parece claro afirmar que a negligência trata-se de uma omissão proposital de


todo o tipo de cuidados necessários ao bem estar de crianças e/ou adolescentes.
Segundo Faleiros e Faleiros (2008) há muitas formas e graus de negligência, como
por exemplo: o abandono como forma extrema; crianças não registradas; pais que
não reconhecem sua paternidade; crianças “entregues/dadas sem papel passado” a
familiares, conhecidos ou mesmo desconhecidos; crianças “pingue- pongue”, que
circulam de “mão em mão” e que “não são de ninguém”; crianças e adolescentes
que assumem responsabilidades de adultos (cuidam de próprios e/ou de irmãos
pequenos, assumem todas as tarefas domésticas, contribuem com a renda familiar
27

e/ou se sustentam através da mendicância, trabalho infantil); meninos e meninas


em situação de rua, sem proteção alguma e expostos à violência familiar ou
comunitária.
Cabe acrescentarmos ainda a negligência emocional, que assim como as
demais violências supracitadas, repercute negativamente no desenvolvimento de
crianças e adolescentes, causando danos psicológicos e sociais extremamente
graves “pois se configuram como ausência ou vazio de afeto, de reconhecimento, de
valorização, de socialização, de direitos (filiação, convivência familiar, nacionalidade,
cidadania) e de pleno desenvolvimento” (FALEIROS; FALEIROS, 2008, p. 35)
Portanto, ainda que no imaginário ideal a família seja frequentemente
associada a todos os sentimentos positivos como amor, ternura e alegria, no
cotidiano relacional é uma instituição envolta por antagonismos e contradições,
sendo ainda lócus de violação de direitos e das mais variadas formas de violência. 11
Falar sobre a família real, a família concreta com todos os seus problemas,
como disse Mafalda, “não é fácil”, principalmente quando a violência é algo
presente. Outrossim, incontáveis são as dificuldades enfrentados no cotidiano das
relações entre os membros familiares, seja em virtude de fatores geracionais,
econômicos e/ou singulares. É pertinente dizer que os conflitos fazem parte da
família e decorrem de sua complexa dinamicidade.
Outro aspecto importante de ser analisado quando pensamos em família é a
presença e/ou ausência de afeto no âmbito das relações:

- Minha vó me tratava bem, dava mais carinho que minha mãe (Robin, 14
anos).

- Na minha casa eu num sinto amor não, até porque eu nunca tive uma
família completa, sem pai, mãe morreu, fui criada pelos meus avós, não

11
Outra face da violência intrafamiliar que merece destaque é a violência sexual, que apesar de não
aparecer no relato da adolescente, é um fenômeno muito frequente na vida de crianças e
adolescentes em todo o mundo. Assim, Azevêdo e Guerra (1995) conceituam-na como: “Todo ato ou
jogo sexual, relação hetero ou homossexual, entre um ou mais adultos e uma criança ou adolescente,
tendo por finalidade estimular sexualmente uma criança ou adolescente ou utilizá-los para obter uma
estimulação sexual sobre sua pessoa ou outra pessoa. ressalte-se que em ocorrências desse tipo a
criança é sempre vítima e não poderá ser transformada em ré” (p. 29).
28

gosto dos meus avós, então, quando eu falo em família eu só sinto tristeza
(Lilo, 14 anos).

- Ai tia, amor na família. Tia amor na família é algo que num pode faltar né?
Mas tia vou chorar, (lágrimas) mas amor na família é algo que eu nunca
tive, então eu num posso falar o que é amor, num posso tia. Num sei o que
é totalmente o amor de família, num posso porque eu nunca tive tia, o amor
de família. O certo é pra um filho agradar a mãe, a mãe agradar o filho e
assim, amor de família tem que ser do começo ao fim. Mas eu nunca tive
isso não. Em todo canto que eu chegava tia, o povo dizia: essa minina é tão
carente, e lá eu começava a chorar e dizê que eu nunca tive família na
minha vida. Minha família era quase que eu podia dizer que eu não tinha,
porque uma pessoa que bate em mim, que num deixava meus irmão falar
comigo, meu padrasto... Num cuidavam de mim (Mafalda, 12 anos).

Nas falas acima, bem como na ideia que abre esse item, percebemos que o
amor na família é exposto como algo próprio e inerente a natureza humana/familiar.
Parece-nos então que amar a família é sentimento obrigatório em nossa sociedade
independente de como as relações se firmem. Não amar a mãe, por exemplo, vai
contra o paradigma clássico imposto socialmente. Cabe pensarmos também que
prevalece uma idealização da mãe, mesmo que a figura criada em nível de
representação esteja em completo desacordo com a figura concreta de “carne e
osso” que muitas vezes viola direitos, mas também tem os seus direitos violados.
Ariès (1981) aponta que as mudanças pautadas nos cuidados com a criança,
começaram a surgir por volta do século XVII, pois até então o amor materno, tal
como se descreve hoje, era inexistente. Nesse contexto, nossa sociedade foi
alimentando a falsa ideia de que amor de mãe é inato e/ou instintivo, sacralizando
assim a figura materna. Para Badinter:

O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo


sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos,
ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina.
Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o
interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A
ternura existe ou não existe (BADINTER, 1985, p. 21).

Precisamos então ter em mente que o amor materno não constitui um


sentimento inerente à condição feminina, ele não é algo determinado, mas adquirido.
29

Ou seja, o sentimento de amor materno não é natural muito menos incondicional, é


algo construído no âmbito das relações e isso pode não ocorrer.
Podemos então inferir que socialmente a família deve ser antes de tudo,
alicerçada no amor e no cuidado mútuo entre seus membros. Tais relatos
convergem com a afirmação de Osório (1996) quando este afirma que o alimento
afetivo é tão indispensável para a sobrevivência do ser humano quanto o são o
oxigênio que respira ou a água e os nutrientes orgânicos que ingere. Nessa lógica,
quando as relações familiares não são pautadas no afeto, a “criança/adolescente
sente a dor de não ser amado, a dor de se perceber pouco importante para o outro,
a dor de se sentir desvalorizado, injustiçado, traído, vulnerável, etc” (OLIVEIRA,
CAFÉ, 2001, p. 43).
O ‘cuidar’ expressa mais uma atenção da família voltada para a criança ou
adolescente: o zelo dedicado, a assistência ao seu desenvolvimento, o atendimento
a suas necessidades básicas, bem como a relação afetiva existente; (MONTEIRO,
CARDOSO, 2001) são o amparo e proteção conferidos no contexto das relações
familiares. Portanto, o ‘cuidar’ advém de uma necessidade humana e o apego, o
amor e o carinho são aspectos que passam a fazer parte dessa relação ao mesmo
tempo em que são exigidas delas. Em outras palavras, da mesma forma que
acreditamos ser uma obrigação dos filhos amar seus pais, especialmente os
biológicos, essa obrigação é pensada em relação aos pais.
Para Szymanski (2002) as trocas afetivas no âmbito familiar imprimem marcas
que as pessoas carregam a vida toda, direcionam o modo de ser com os outros
afetivamente e o modo de agir com as pessoas. A forma como se estabelecem as
relações com os outros tem como referência pessoas significativas e as vivências
familiares geralmente influenciam na projeção das famílias que se formam
posteriormente.

- Quero ser um pai de família... Ter uma família boa, estruturada. Que nem
a minha não (Bilú, 15 anos).
30

- Vou ter uma família normal, dessa otas... Vou trabaiá, comprar minha
casa, vou butar meus filho pra estudar e ser alguém na vida. Dar carinho
também, cuidar (Robin, 14 anos).

- Eu quero dar muito carinho pros meus filho, tudo que eu num tive,
educação, tudo que eu num tive pela minha mãe e meu pai (Estrela, 17
anos).

Quando o afeto é algo ausente nas relações percebemos uma reação


defensiva, há uma tendência a projetar a família imaginária, onde, inclusive, não há
lugar para conflitos e desigualdades, iniciando um processo de idealização da
família desejada no futuro a partir da negação da família existente no presente, o
que traz expectativas de mudanças no seu contexto relacional.
Nos discursos acima vimos que os adolescentes mostram a necessidade de
romper com o modelo relacional adotado pelos pais e, esperam que suas famílias
sejam capazes de fornecer todo um aparato afetivo, social e material para o
desenvolvimento dos seus membros, suprindo suas próprias carências; a família é
então idealizada como instituição sólida e saudável. Destarte, eles associam a
família “boa” e “normal” àquela estruturada, isto é, aos moldes do padrão
preestabelecido, chegando a imaginar, assim, uma família que de fato não existe e
tampouco poderá existir, pois nenhuma relação humana prescinde da contradição.
Portanto, ao menos teoricamente, a condição de bem-estar dos adolescentes
encontra-se diretamente relacionada à possibilidade de manutenção de um vínculo
familiar estável, tendo a proteção e o afeto como elementos basilares
(KALOUSTIAN, 2011). É no meio familiar que estes desenvolverão sua identidade,
individualidade e vínculos afetivos, que carregarão ao longo de sua vida.
Gostaríamos de chamar atenção ainda para a responsabilidade da família em suprir
os aspectos materiais de suas crianças e adolescentes, atribuição esta que também
se relaciona à condição de bem-estar desses sujeitos.
31

É necessário acentuarmos que as famílias brasileiras encontram-se situadas


num contexto desfavorável, de desigualdade, pobreza e vulnerabilidade12(SARTI,
2011). As famílias têm cada vez mais dificuldades de satisfazer suas necessidades
básicas, o que se torna mais complexo devido à redução dos serviços das políticas.
Para tanto, a idealização de família perfeita está muito presente para os
adolescentes, tanto pelo padrão de unidade familiar imposto socialmente, como por
vivenciarem situações de vulnerabilidade, risco pessoal e social. “E, embora a
experiência vivida contradiga a visão idealizada, esta se mantém povoando, talvez
não somente as expectativas de realização familiar, mas especialmente o complexo
cotidiano emocional das relações entre os membros” (PERES, 2001, p. 228).
Historicamente, “há muitos registros de intervenção estatal na família,
essencialmente na família pobre, quando [a sociedade] a julga incompetente para
função de criar/educar seus filhos” (MONTEIRO, CARDOSO, 2001, p. 25). No
tocante a esse assunto, é fundamental que se desfaça um equívoco muito comum
na apreensão da capacidade de famílias expostas a situação de pobreza: elas não
devem ser vistas como incapazes de cuidar de seus filhos e o Estado tem o dever
de apoiá-las por meio de políticas públicas. Tal garantia é constitucional, mais tarde
reforçada no ECA e no Plano Nacional de Promoção, Defesa e Garantia do Direito
das Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC)13,
publicado em 2006.

Constituiu-se a ideia, de certa forma prevalecente até hoje, de que a


pobreza, significando a falta de recursos materiais, era motivo suficiente
para intervenção na família, chegando até a medida judicial de destituição

12
A pobreza é a questão mais urgente que o país necessita enfrentar no início do novo milênio.
Temos cerca de 55 milhões de brasileiros pobres, dos quais 24 milhões estão na condição de
extrema pobreza (UNESCO, 2003).
13
Segundo Gulassa (2010) o Plano Nacional de Proteção, Promoção e Defesa do Direito da Criança
e do Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária (2006) vem fortalecer, detalhar e aprofundar
os conceitos básicos definidos pelo ECA . Prioriza a família como lócus de desenvolvimento e
reafirma apoio e proteção para que ela possa cuidar de seus filhos e protegê-los. Lembra ainda que
esta proteção dada às crianças e aos adolescentes não deve isolá-los ou segregá-los da
comunidade.
32
14
do pátrio poder . Esse mesmo Estado, no entanto, pouco privilegiou a
família nas suas políticas sociais (MONTEIRO, CARDOSO, 2001, p. 105).

Sobre esse aspecto Szymanski considera que “[...] é no mínimo hipócrita


atribuir às famílias das camadas mais empobrecidas de nossa sociedade uma
função de proteção às crianças e adolescentes sem lhes oferecer meios para isso”
(2000, p. 30). Diante dessa realidade, o ECA estabelece em seu artigo 23 que a falta
ou carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou
suspensão do poder familiar. Porém a história nos mostra que tal direito não está
sendo assegurado de modo efetivo na universalidade da sociedade.
Pesquisas em âmbito nacional15 indicam que as causas que motivaram o
acolhimento de expressiva parcela das crianças e adolescentes estavam
relacionadas à pobreza, consequência da falha ou inexistência das políticas
complementares de apoio aos que delas necessitam.
“O Brasil continua sendo um país jovem, marcado pela desigualdade de renda
e de oportunidades de vida digna para muitos” (RIZZINI, 2006, p. 17). Destarte,
famílias em níveis extremos de pobreza e miséria, premidas pelas necessidades de
sobrevivência, pelas condições precárias de habitação, saúde e escolarização, pela
exposição constante a ambientes de alta violência urbana, dentre outros (BRASIL,
2006), terão dificuldades de dar a seus filhos o que eles necessitam para o seu
desenvolvimento. O Estado, nesse contexto, na grande maioria das vezes, não
garante serviços e políticas públicas àqueles que estão em situação de
vulnerabilidade social, deflagrando mais uma vez a grande lacuna existente entre as
legislações brasileiras e a realidade. Não queremos afirmar com isto que as famílias

14
"Pátrio poder" é uma expressão em desuso que foi substituída por "poder familiar” no novo Código
Civil de 2002.
15
Trata-se do levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e
promovido pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República e pelo
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), em 2003 (IPEA/CONANDA)
Disponível em: http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/home/home_interna>Acesso em: 21. Ago.
2013
33

pobres estejam menos aptas a criar seus filhos, mas sim questionando porque são
elas que tem suas crianças e adolescentes retiradas de casa.
Nessa direção Chauí (2006) salienta que a sociedade brasileira é autoritária,
vertical, hierarquizada e transforma todas as diferenças em desigualdades e as
naturaliza operando com a discriminação e o preconceito de classe, por exemplo. É,
por assim dizer, uma sociedade extremamente violenta. Nela, as relações são entre
alguém visto ou posto como superior e alguém como inferior nesse processo, em
que os violadores de direitos são sempre os “outros”, fato este que reforça o mito da
não-violência16. Em outros termos, esse mito permite determinar quem são os
"agentes violentos" (de modo geral, os pobres).
A sociedade que naturaliza as desigualdades sociais é a mesma que oferece
descrença em relação à capacidade das famílias pobres de oferecer proteção e
cuidado aos seus filhos, é a mesma que os , exclui, estigmatiza e os discrimina. A
mesma sociedade que os acusa, que lhes imprime rótulos de ordem negativa, é a
que os diagnostica e institui um padrão de tratamento diferenciado, impondo-lhes
limitações de espaço e de oportunidades em relação a emprego, estudo, formação
etc., em uma clara demonstração que não os reconhece como sujeitos de uma
mesma ordem social. Essa relação edificada é aprendida no cotidiano e reproduzida
com absoluta naturalidade.
Posto isso, crianças e adolescentes não deveriam ser institucionalizados
simplesmente em função da carência de recursos materiais por parte dos pais ou
responsáveis. Porém, segundo o Ipea (2003), 52% dos motivos para acolhimento no
Brasil estão relacionados à pobreza. Em outras variadas razões para o acolhimento
institucional, a condição de pobreza ou carência material pode ser um fator
agravante da situação (IPEA, 2003).
Ao que parece, o acolhimento institucional de adolescentes no Brasil está
intrinsecamente relacionado a fatores estruturais, potencializadores de situações

16
Para um maior aprofundamento nessa temática ler: CHAUÍ, Marilena. Democracia e autoritarismo:
O mito da não-violência. In: Simulacro e Poder: Uma Análise da Mídia. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2006.
34

que comprometem as possibilidades de uma família empobrecida zelar por seus


membros, particularmente aqueles em situação peculiar de desenvolvimento.
Diante do exposto, vimos que a família de forma singular, caminha na linha
tênue entre o que ela é e o que a sociedade espera que ela seja e, também que o
lugar de aconchego, afeto e segurança para crianças e adolescentes pode
transformar-se em espaço de conflitos e violência. Como dito anteriormente, trata-se
de uma instituição contraditória, tanto internamente, quanto em sua dimensão
externa, visto que contém e expressa às contradições inerentes à sociedade mais
ampla.
Face ao exposto, no próximo subitem tentaremos contemplar a adolescência,
as mudanças que ocorrem nessa fase (transformações físicas e psíquicas), bem
como fazer um paradoxo entre a adolescência em situação de pobreza e a
adolescência de classes economicamente mais favorecidas, tendo como pano de
fundo a família, haja vista que esses sujeitos estão em constante relação com essa
instituição.

2.2 “Adolesci”17! E agora?


“Eu fugia de casa tia, fugia e parecia que eu tava voando sabe? Era bom!
(Mafalda, 12 anos)

Da mesma maneira que as famílias mudam seus contornos, redesenham


novos laços (monoparentais, reconstituídas, homoafetivas, dentre outras), a
adolescência, como etapa da vida, apresenta particularidades de acordo com o
momento histórico e social em que se insere e também com os sujeitos que a
vivenciam.
Segundo Becker (2009), não existe uma adolescência e sim várias. Existem
sociedades nas quais a passagem da vida infantil para a adulta se faz de forma
gradativa e a criança vai recebendo funções, adquirindo direitos e deveres até que

17
O conceito adolescer tem sua origem no latim e se subdivide em: ad + olescere, ou seja, “para +
crescer” (BECKER, 2009), prevalecendo à ideia de mudança e busca de amadurecimento. No que
concerne à definição etária da adolescência, recorremos ao que prescreve o Estatuto da Criança e do
Adolescente, isto é, a adolescência vai dos 12 aos 18 anos incompletos.
35

atinja a condição de adulto. Há sociedades em que ocorrem rituais de passagem


com sofrimentos físicos e psíquicos, após os quais, são conferidos ao indivíduo
direitos, responsabilidades e atribuições próprias a vida adulta. Destarte,
percebemos que são variadas adolescências, oscilando em conformidade com a
cultura, a classe social, etnia e/ou gênero.
Nessa direção Ariès (1981) destaca que a adolescência foi historicamente
confundida com a infância e somente é reconhecida a partir do século XVIII no plano
internacional e no Brasil a partir de 1990 com o ECA.
Na tentativa de circunscrever a adolescência no tempo, como idade da vida,
há, quase sempre, uma referência ao seu começo: ele é decidido pela puberdade,
isto é, pelo amadurecimento dos órgãos sexuais (CALLIGARIS, 2000). Nessa etapa
da vida, o corpo adquire a maturidade para a reprodução, a tonalidade da voz, pelos,
seios, curvas, músculos se redefinem e transformam. Mudanças que causam no
adolescente uma aceitação mesclada a inúmeras dúvidas e confusões, no que
concerne à nova imagem de si mesmo.
Esta fase está relacionada à maturidade biopsicossocial que se refere às
transformações corporais, a uma nova forma de pensar desses sujeitos, não mais
atrelada a dos pais e a inserção em outros grupos (BECKER, 2009), diferentes dos
que até então participaram. O adolescente vivencia uma fase transitória do
desenvolvimento humano entre a infância e a vida adulta,

[...] é um viajante que deixou um lugar e ainda não chegou no seguinte. Vive
um intervalo entre liberdades anteriores e responsabilidades/compromissos
subsequentes. [...] É um período de contradição, confuso, ambivalente e
muitas vezes doloroso (LOSACCO, 2004, p. 69).

Assim, buscamos compreender a adolescência como um processo de


transformação em que o ser criança vai aos poucos dando espaço para o ser
adolescente, momento este de particular complexidade, sobretudo, por gerar
instabilidades e inseguranças em decorrência das profundas modificações que
ocorrem tanto no aspecto físico como na esfera psicossocial desses sujeitos.
36

Frequentemente, em nossa sociedade há uma visão estereotipada dos


adolescentes que, comumente, são denominados ‘aborrecentes’ pois são
percebidos como instáveis e geradores de conflitos (GÜNTHER, 2000). Nessa
perspectiva, a imagem do adolescente é tida como negativa, na medida em que se
afasta dos pais na busca de sua própria identidade e se relaciona com seus iguais,
trata-se da luta pelo seu reconhecimento enquanto sujeito e por respeito aos seus
ideais. Devido a isso, o adolescente é tido como rebelde, como alguém que não se
adapta e isso está diretamente relacionado ao fato de contestar a autoridade dos
adultos, seu modo de ser e de viver.
Ora, o adolescente vivencia uma fase de metamorfoses que se inicia com as
mudanças corporais, com a definição do seu papel na procriação e segue-se com
mudanças psicológicas. É tencionado a renunciar a sua condição de criança;
devendo abdicar também de ser tratado como tal, já que a partir desse instante se é
chamado dessa forma será com um matiz depreciativo, zombador ou de
desvalorização (ABERASTURY, 1981).
Trata-se de um momento emergencial na busca de experiências fora de casa,
um espírito de aventura prevalece em suas ações (NASCIMENTO, 2013). Vale
ressaltar que o uso ilimitado da liberdade pode leva-los a situações definitivamente
danosas e deixa-los em condição de risco pessoal ou social e, inclusive ser
condicionante para o acolhimento institucional.
Além disso, em alguns casos os adolescentes fogem de casa e vão morar
com seus companheiros, seja em consequência de maus tratos no âmbito familiar,
pelo uso de drogas, ou simplesmente por desejarem seu espaço. No caso daqueles
que convivem com a violação de direitos a rua aparece como uma possibilidade de
liberdade e mudança.

- Eu fui morar com meus parceiro. Eu já conhecia esses menino sabe? E aí


eu fui pegando amizade com eles, já ele chamava eu pra ir pra casa dele eu
ia Ia todo dia, dé fé, eu fiquei, fiquei durmino na casa dele, morano lá
(Charlie, 18 anos).
37

Nessa efervescência de mutações, alguns adolescentes tentam se afastar da


família, pois essa já não lhes satisfaz em relação aos interesses sociais. Como dito
anteriormente, neste momento há uma grande necessidade de pertencimento a um
grupo para além daquele constituído por essa instituição. Segundo Becker (2009), o
grupo adolescente constitui uma base de segurança, na qual o jovem pode avançar
para uma solução própria no processo de identidade, junto com seus companheiros
existe certa uniformidade de comportamento, hábitos e pensamentos.
Nesse âmbito, outra pretensão do adolescer é a busca pela liberdade. Tal
elemento torna-se imprescindível para a conquista de sua independência e
autonomia junto aos companheiros, padronizando ideias e atitudes na constituição
de sua identidade. Além disso, Aberastury (1981) acrescenta três exigências básicas
de liberdade que o adolescente apresenta a seus pais: nas saídas e horários, a de
defender uma ideologia e a de viver um amor e um trabalho. A figura 1 sinaliza
esses aspectos:

Figura 1: Percepção de Liberdade para os adolescentes acolhidos na Casa de


Passagem “Nossa Gente”

Fonte: Desenho de Charlie durante oficina realizada em 11 de outubro na Casa de Passagem “Nossa
Gente”- Mossoró-RN
38

Analisando a figura acima, parece-nos que “ser livre” torna-se algo ainda mais
relevante quando o processo da adolescência ocorre dentro de uma instituição de
acolhimento, que mesmo não se configurando como privação de liberdade, de certa
forma, limita suas vivências e desejos. É importante frisar que as fugas são
frequentes na instituição. Parece-nos que essas fugas são uma forma que os
adolescentes encontram para denunciar suas inquietações, expressar suas
necessidades de pertencimento a algum lugar. Fogem e ficam fora da instituição por
alguns dias, ou apenas algumas horas e voltam de livre e espontânea vontade, na
maioria das vezes 18.
Também em abordagem sobre a adolescência, Becker (2009) esclarece que
para que sejamos justos e sistemáticos, se faz necessário dividir os adolescentes
brasileiros em dois grandes grupos: os das camadas médias e altas urbanas e o
“resto”. O tom pejorativo é proposital. Na maioria das vezes em que se fala de
adolescentes no Brasil, se está referindo ao primeiro grupo. O “resto” ao qual o autor
faz referência é constituído de milhões de adolescentes e jovens da cidade e do
campo, pobres, negros, etc e, que vivem de forma precarizada em nossa sociedade
e, porque não dizer, subalternizada. Esses sujeitos, geralmente aparecem
adjetivados como: delinquentes, menores, marginais, carentes, de rua. Assim, o
segmento fica dividido entre “menores”19 e “adolescentes”.
Inseridos numa realidade contraditória, se faz necessário explicitar que o
adolescente das camadas mais abastadas da sociedade provavelmente possui uma
maneira de ser e existir diferenciada do adolescente oriundo de camadas
economicamente menos favorecidas. O adolescente mais abastado possui
oportunidade de acesso a educação e saúde qualificada, tem a sua disposição
transporte e habitação e seu ingresso no mercado de trabalho é tardio tendo em
vista um maior aperfeiçoamento profissional. Estes dentre outros fatores em
conjunto, oferecem condições de vida consideradas satisfatórias.

18
No momento da pesquisa ocorreram 12 fugas de adolescentes da instituição.
19
Terminologia que tem por função negar a infância e a adolescência, ao ponto que cria uma
categoria de adolescente que, todavia, não possui o mesmo status que os indivíduos da mesma faixa
etária, porém oriundos de outra classe e/ou população étnico-racial.
39

Por outro lado, os adolescentes pobres, geralmente não estão na escola ou


estão em situação irregular, inseridos em atividades de trabalho, tem necessidades
gritantes de comida, saúde, transporte e, geralmente não tem casa para morar,
sendo a rua, algumas vezes, o seu espaço de sobrevivência:

- Ta na rua é ruim, porque a pessoa dorme e nem sabe se vai amanhecer


vivo, tenho medo de voltar. Se eu voltar pra lá... eu entro no mundo do
crime de novo (Charlie, 18 anos).

- A relação lá em casa nera boa não. Porque eu desagradava eles. Fumava


droga. Num fazia o que eles queria. Ai isso causava conflito, conflito grande
(Bilú, 15 anos).

- A gente nunca teve casa não. Não, minha mãe, minha mãe morou 16 ano
cum uns cigano, aí pronto, a vida da gente foi essa, morar de cidade em
cidade, de baixo de ponte, pé de árvore, pronto, aonde chegava era
moradia (Estrela, 17 anos).

É interessante pensarmos a droga como algo atrativo para os adolescentes,


solução dos problemas que os afligem, bem como uma possibilidade real para esses
sujeitos conquistarem sua liberdade psicológica e em alguns casos até materiais.
Ademais, podemos induzir que “uma criança pobre, por exemplo, será
empurrada para vida adulta muito mais precoce e abruptamente do que um jovem
de classe mais privilegiada, que pode prolongar sua adolescência indefinidamente”
(BECKER, 2009, p. 13).
Mediante os relatos supracitados inferimos que a rua pode ser pensada como
espaço do crime e exposição a todos os perigos para esses sujeitos. A luta pela
sobrevivência nas ruas demanda atitudes nem sempre concernentes com os valores
socialmente desejados, nesse espaço crianças e adolescentes vivenciam diversas
situações arriscadas, sem possuir, majoritariamente condições físicas, tampouco
psicológicas para isso. É comum, o uso excessivo de substâncias psicoativas que
influenciam fortemente no cotidiano familiar, ocasionando conflitos nessa esfera;
práticas de atos infracionais, exploração sexual, bem como a passagem por
instituições de acolhimento institucional.
40

De outro modo, a rua também pode ser pensada como uma estratégia de
sobrevivência para as crianças e adolescentes, seja para fugir da violência, seja pela
liberdade que ela oferece e também para as famílias, visto que ela de diversas
formas estratégicas, possibilita a sobrevivência desses grupos.
Em síntese, vimos no transcorrer do texto que é junto ao grupo que os
adolescentes buscam reconhecimento social e constroem sua identidade, é um
momento de formação do “vir a ser” e mudanças de ordem física e psíquica. Além
disso, tais reflexões nos incitam a pensar sobre a realidade da adolescência pobre
que, como dito, ocupa um lugar marginal em nossa sociedade, sendo dela exigidas
responsabilidades nem sempre possíveis de serem assumidas. Outrossim, não
podemos considerar a adolescência como um conceito engessado e rígido, mas sim
compreendê-la como um fenômeno plural interligado às condições do meio na qual
estão inseridos esses sujeitos, levando em consideração a sociedade, cultura e
classe social, gênero, etnia, etc.
Fica demonstrado que a adolescência é marcada por transformações,
inquietações e inseguranças. Esta fase também atinge os adultos da casa,
principalmente os pais, visto que os adolescentes questionam valores, regras
existentes na própria família e expressam novas ideias e atitudes. Desse modo, as
famílias tendem a ter problemas e dificuldades no relacionamento com seus filhos.
Nesse sentido, no próximo item tentaremos contemplar a adolescência inserida em
uma outra realidade: aqueles que por diferentes motivos permanecem longe de suas
famílias e vivenciam as conturbações e indefinições dessa fase em uma instituição
de acolhimento.
41

3 “TÁ TUDO ASSIM TÃO DIFERENTE”: adolescentes em acolhimento institucional

3.1 Adolescentes, acolhimento institucional e pobreza: três lados de uma


mesma equação?

“Eu acho que minha família eu nunca tive, mas eu acho que tô tendo agora sabe?
(Bilú, 15 anos)

A institucionalização de crianças e adolescentes é prática frequente no Brasil


desde o século XIX (RIZZINI, 2006). A lógica de proteção e assistência permitiu que
esses sujeitos, por sua condição de pobreza, estivessem aptos a se enquadrar no
raio da ação da Justiça e da assistência, que sob o argumento de “prender para
proteger” confinava-os em instituições do tipo “internato para menores”,
caracterizadas como “orfanatos”. Assim, procediam à suspensão provisória do poder
familiar ou destituição dos pais de seus deveres e direitos em relação aos filhos
(BRASIL, 2006).
Nesse sentido, crianças e adolescentes eram institucionalizadas quando
identificadas necessitando de algum tipo de proteção; ainda que a lógica de
proteção fosse ambivalente e contraditória: da criança (em perigo, por não receber
de seus progenitores uma educação adequada) e da sociedade (contra crianças que
representassem uma ameaça à ordem e à paz). Rizzini (2008) esclarece que os
encaminhamentos se restringiam aos sujeitos oriundos de segmentos sociais vistos
como desvalidos ou de menos valia/importância para a sociedade, ou seja, os
pobres – agregando-se a eles uma (des)valorização de ordem moral: o estigma da
viciosidade, da violência e da criminalidade. Convém frisar que por séculos, crianças
e adolescentes foram consideradas como “propriedade” de suas famílias, sem
qualquer respaldo legal que as protegesse de abusos e violências.
De acordo com Gulassa (2010) duas leis pautaram o atendimento em
acolhimento institucional no século XX: o Código Brasileiro do Menor (o Código de
Mello Matos, 1927) e o Código de Menores, 1979. Ambos propunham a proteção
social, na qual prevalecia a ideia de culpabilização da pobreza em que as crianças e
42

os adolescentes eram classificados como vadios, libertinos e perigosos. Além disso,


as grandes instituições mantiveram esses sujeitos segregados da sociedade,
oferecendo um atendimento que repetia a cultura da violência, opressão, humilhação
e exclusão social dos atendidos (GULASSA, 2010). Dessa forma, até então, a
resposta para os problemas sociais envolvendo crianças e adolescentes era a
institucionalização, ou seja, a ruptura da convivência familiar e comunitária.
Diante dessa realidade, a década de 1990 trás importantes mudanças de
paradigmas no que concerne ao cuidado e proteção da população infantil e juvenil,
sob a ótica de seus direitos (RIZZINI, 2006). As mobilizações e organizações sociais
ocorridas durante o processo constituinte de 1988 e à regulamentação de lei
específica (o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990), reconhecem o valor
intrínseco da criança e do adolescente como seres humanos e sujeitos de direitos.
Ademais, a ratificação da Convenção sobre os Direitos da Criança em 1990 e a Lei
Orgânica da Assistência Social (LOAS) em 1993, provocam, ao menos legalmente,
rupturas em relação às concepções e práticas assistencialistas e institucionalizantes
até então vigentes no país (BRASIL, 2006).
Por tudo isso, hoje se reconhece que crianças e adolescentes têm direitos,
pelo simples fato de existirem e merecerem respeito, como pessoas, independente
de sua origem, raça, etnia, sexo, orientação sexual, idade, condição física, social e
econômica ou quaisquer outras características físicas ou sociais.
Entre as mudanças introduzidas pelo ECA destaca-se o reordenamento das
entidades de acolhimento institucional, rompendo com a lógica de confinamento dos
internatos do passado. Esses serviços de acolhimento de crianças e adolescentes
são considerados de “proteção especial de alta complexidade” conforme explicitado
na Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004), e voltam-se às pessoas
que se encontram sem referência familiar ou em situação de ameaça, necessitando
ser retiradas de seu núcleo familiar e comunitário – e, por isso, devem garantir-lhes
43

a proteção integral, oferecendo-lhes moradia, alimentação, higiene e trabalho. Assim


como, devem estar em concordância com o que prescreve o ECA20.
Esse serviço é acionado nos casos de abusos, violação ou omissão de
direitos de crianças e adolescentes por parte dos pais ou responsáveis, que
acarretem em danos a sua integridade física, psíquica, moral e à sua dignidade
como pessoa e devem oferecer suporte de caráter excepcional e provisório21, com o
propósito de promover a reintegração ou reinserção familiar e comunitária (BRASIL,
2006). Se efetiva como a sétima entre as nove medidas de proteção prescritas pelo
ECA22 e, implica na abertura de um processo judicial, o afastamento (provisório ou
não) da convivência familiar e a passagem da guarda provisória do adolescente para
o coordenador da instituição.
Tal medida de proteção deve ser aplicada visando não à institucionalização e
privação de liberdade dos adolescentes, mas com o firme propósito de reinserção
familiar, seja na família de origem (formada pelos pais ou qualquer deles e seus
descendentes), ou colocação em família substituta que: “é aquela que se estende
para além da unidade pais e filhos ou da unidade do casal, formada por parentes
próximos com os quais a criança ou adolescente convive e mantém vínculos de
afinidade e afetividade” (BRASIL, 1990).

20
I - preservação dos vínculos familiares; II – integração em família substituta, quando esgotados os
recursos de manutenção na família de origem; III – atendimento personalizado e em pequenos
grupos; IV – desenvolvimento de atividades em regime de co-educação; V – não desmembramento
de grupos de irmãos; VI – evitar, sempre que possível, a transferência para outras entidades de
crianças e adolescentes abrigados; VII – participação na vida comunitária local; VIII – preparação
gradativa para o desligamento; IX – participação gradativa para o desligamento. (BRASIL, 1990)
21
Entende-se por provisório o tempo de permanência da criança/adolescente na instituição que deve
ser sempre o menor possível, entretanto não se deve colocar essa questão como “meta”, pois o
objetivo é primeiramente fortalecer a família para que ela efetive o dever de proteção à
criança/adolescente. O acolhimento institucional deve ser pensado como uma condição excepcional
na vida da criança ou do adolescente. (BRASIL, 2006)
22
I – encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; II – orientação,
apoio e acompanhamento temporários; III – matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento
oficial de ensino fundamental; IV – inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família,
à criança e ao adolescente; V – requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em
regime hospitalar ou ambulatorial; VI – inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio,
orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; VII – abrigo em entidade; VIII – colocação em
família substituta (BRASIL, 1990).
44

Nesse contexto, os novos referenciais legislativos enfatizam a convivência


familiar enquanto direito básico da infância e adolescência e, paralelamente
dessacraliza a família quando introduz a ideia da necessidade de se proteger
legalmente qualquer criança ou adolescente contra seus próprios familiares, diante
de situações de violação de direitos (KALOUSTIAN, 2011). Reconhecendo dessa
forma, que “o ambiente familiar é o que mais pode proteger ou expor crianças e
adolescentes à violência” (BRASIL, 2010, p. 22).
Portanto, o Plano Nacional de Proteção, Promoção e Defesa do Direito da
Criança e do Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC) é
implantado em 2006 como reforço ao ECA enquanto produto histórico da elaboração
de inúmeros atores sociais comprometidos com os direitos das crianças e
adolescentes brasileiros. No que concerne ao acolhimento, o plano enfatiza que esta
proteção dada às crianças e aos adolescentes não deve isolá-los ou segregá-los da
comunidade.
Para crianças e adolescentes a convivência com a família e comunidade
adquire uma importância vital, uma vez que tal direito é imprescindível para a própria
formação do ser humano que se encontra em processo de desenvolvimento físico,
psicológico, social, ou seja, um processo de construção de identidade e instituição
de valores que serão à base da sua vida adulta.

Por convivência familiar e comunitária, entende-se a possibilidade da


criança permanecer no meio a que pertence. De preferência junto à sua
família, ou seja, seus pais e/ou outros familiares. Ou, caso isso não seja
possível, em outra família que a possa acolher. Assim, para os casos em
que há necessidade das crianças [e adolescentes] serem afastadas
provisoriamente de seu meio, qualquer que seja a forma de acolhimento
possível, deve ser priorizada a reintegração ou reinserção familiar – mesmo
que este acolhimento tenha que ser institucional (RIZZINI, 2006, p. 22).

Ao assegurar a convivência familiar e comunitária, o ECA reconhece a


primazia da família como instituição voltada à educação e socialização da infância e
adolescência e à comunidade como ambiente fortalecedor desta, percebendo a
relevância da preservação de tais vínculos (LOSACCO, 2004). Paralelamente,
45

também reconhece que esses vínculos podem ser prejudiciais a criança e


ou/adolescente, seja por situações extremas de pobreza, o que exigiria uma
intervenção estatal capaz de dar as condições para essa família garantir os direitos
de seus membros; seja quando a própria família ou membros dela violam os direitos
desses sujeitos. É relevante pensarmos que o ECA e o PNCFC apontam a
responsabilidade coletiva (Estado, sociedade e família) para com as crianças e
adolescentes.
Cumpre frisar que quando o acolhimento institucional acontece, o vínculo
passa a ter uma dimensão política, pois para sua manutenção e desenvolvimento,
necessita de proteção do Estado (VICENTE, 2011). Tanto a construção quanto o
fortalecimento dos vínculos dependem também, dente outros fatores, da atuação
estatal em políticas públicas voltadas à família, à comunidade e ao espaço coletivo.
Conquanto, a realidade nos aponta o afastamento estatal das suas funções e
consequente vulnerabilidade social de famílias extenuadas para cumprir suas
funções de proteção social de seus membros em condição peculiar de
desenvolvimento em especial, as crianças e adolescentes, resultando, muitas vezes,
na determinação de uma medida de proteção, como forma de garantir direitos
ameaçados ou violados destes sujeitos (IPEA, 2003).
Parece claro afirmar que o vínculo é um aspecto tão fundamental na condição
humana, e particularmente essencial ao desenvolvimento, que os direitos da criança
o levam em consideração na categoria convivência – viver junto. O que está em jogo
não é uma questão moral, religiosa ou cultural, mas sim uma questão vital
(VICENTE, 2011, p. 51). Mas isso ocorrerá é claro quando os direitos da criança e
do adolescente forem plenamente respeitados dentro das famílias.
Gulassa (2010) salienta que a partir da promulgação do ECA, os municípios
começam a tomar para si a responsabilidade dos cuidados com as crianças e os
adolescentes desprotegidos, passando a assumir diretamente a execução de
políticas públicas voltadas para esses indivíduos, que necessitavam de proteção
especial em razão de sua situação pessoal e social (BRASIL, 1990).
46

De forma geral existem três modalidades de acolhimento para crianças e


adolescentes: Abrigo Institucional para pequenos grupos, Casa Lar e Casa de
Passagem (BRASIL, 2006).
O município de Mossoró/RN possui três instituições responsáveis pela
aplicação da medida protetiva de acolhimento: Casa de passagem “Nossa Gente”,
Aldeias Infantis SOS Casa Lar e o Núcleo Integral de Assistência a Criança
Pinguinho de Gente (NIAC).
Nesse contexto, a partir de agora vamos tratar particularmente e de forma
breve da instituição casa de passagem, tendo em vista ser este espaço voltado
especificamente para adolescentes, foco desse trabalho, quanto por ter sido nesse
espaço que realizamos nossa pesquisa.
A Casa de passagem “Nossa Gente” visa realizar acolhimento provisório a
famílias ou indivíduos que tiveram seus vínculos rompidos ou fragilizados. Posto
isso, tem finalidade formadora, oferecendo moradia provisória, proteção,
alimentação e acompanhamento psicossocial, além de acolher pessoas em
situação de rua e desabrigo por abandono, migração e ausência de residência, e
sem condições de autofinanciamento, a indivíduos e famílias que tiveram seus
vínculos familiares rompidos ou fragilizados em situação de abandono e violação
de direitos (MOSSORÓ, 2010). Assim, seguindo o seu Regulamento Interno (2010)
a instituição atende não apenas adolescentes entre 12 e 18 anos de idade (ambos
os sexos), mas também pessoas com deficiência física, homens, mulheres
acompanhadas ou não de seus filhos, idosos. Como se pode ver a instituição
possui público variado.
Nesse contexto, a partir de agora, buscaremos conhecer o perfil dos
adolescentes acolhidos na Casa de Passagem “Nossa Gente” em Mossoró-RN, por
meio da identificação da renda familiar, escolaridade e motivo de acolhimento.
Temos o intuito de trazer elementos que possam auxiliar na compreensão de quem
são esses sujeitos que, por diferentes motivos, foram abrigados institucionalmente.
No período de realização de pesquisa que foi de julho a outubro de 2013,
existiam 10 adolescentes acolhidos na Casa de Passagem. Em sua totalidade,
47

oriundos de famílias de cinco a seis pessoas e, com uma renda mensal, que em
70% dos casos não chegava a 1 salário mínimo23.
É salutar destacar que essas famílias já sofrem a violência estrutural24, uma
violação de direitos que lhes nega condições básicas de sobrevivência, como
alimentação e saúde. Entretanto, nem todas as famílias com escassez de recursos
materiais ou por contingência destes necessariamente violam os direitos de seus
filhos, expondo-os a riscos pessoais ou sociais. Não podemos negar que a maioria
das violações ganha visibilidade nessa camada populacional, bem como, existe uma
propensão a essa violação, no sentido de que essas pessoas já tem a priori seus
direitos violados. Em contrapartida, a pobreza não traz em si elementos suficientes
para explicar a não contemplação dos direitos fundamentais de crianças e
adolescentes. Por tudo isso, talvez possamos nos inquietar e nos questionar: porque
apenas essas crianças e adolescentes em condição de pobreza são acolhidos
institucionalmente?
Também é relevante pensarmos que de acordo com o ECA os adolescentes
acolhidos, oriundos de famílias pobres tem violados seus direitos: à vida e à saúde
(capítulo I); à liberdade, ao respeito e à dignidade (capítulo II); à convivência familiar
e comunitária (capítulo III); à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer (capítulo IV);
de ser considerada em sua privacidade, autonomia e identidade (art. 17); de não
estar em situação vulnerável para diversas formas de exploração (art. 18). Viver e
trabalhar nas ruas (como muitas vezes acontece) significa o não-exercício de todos
estes direitos (BELLENZANI; MALFITANO, 2006).
Cabe acrescentar que ainda que não exista uma relação linear entre a
pobreza e a violência intrafamiliar, as condições sociais podem potencializar
situações causadores de violência. Assim, outro aspecto que consideramos
23
“O contexto brasileiro é de um país cuja distribuição de renda é uma das piores do mundo [...].
Milhões de crianças e adolescentes brasileiras encontram-se nessa situação [de pobreza], na qual
imperam as desigualdades sociais [...].” (OLIVEIRA, CAFÉ, 2001, p. 38). Na Casa de Passagem
“Nossa Gente”, lócus da pesquisa que deu suporte a esse estudo, a realidade não é diferente.
24
Para Minayo (1993), a violência estrutural é gerada por estruturas organizadas e
institucionalizadas, naturalizada e oculta em estruturas sociais, que se expressa na injustiça e na
exploração e que conduz à opressão dos indivíduos.
48

interessante para que possamos conhecer o perfil dos (as) adolescentes acolhidos
diz respeito a sua escolaridade. Portanto, apresentamos abaixo alguns dados que
nos possibilitam visualizar essa realidade:

GRÁFICO 01 - Escolaridade dos adolescentes acolhidos na Casa de Passagem


“Nossa Gente” – Mossoró-RN (n=10), no período de julho à outubro de 2013

8 Não-afalbetizados
7
6
Ensino Fundamental
5
incompleto
4
3
Ensino Fundamental
2 Completo
1
0

É importante pensarmos que as demandas educacionais exigidas socialmente


são cada vez mais amplas e complexas. Se analisarmos o gráfico acima, veremos
que de 10 adolescentes acolhidos, oito não completaram o ensino fundamental e
dois ainda não sabem ler nem escrever. Sem dúvida, uma escolaridade frágil e
interrompida precocemente, ou ainda a não alfabetização, são condições sociais que
não contemplam as habilidades básicas que a sociedade contemporânea demanda.
Ademais, esses adolescentes passam a não ter nenhuma chance em uma
sociedade na qual a educação se configura como uma oportunidade para o
reconhecimento da cidadania.
Os adolescentes pobres vivem uma dupla situação de risco, pois inseridos em
contextos empobrecidos, tem poucas oportunidades de inserção no mercado de
trabalho, aspecto reforçado pela baixa escolaridade, prendendo-os ainda mais em
uma teia de violação de direitos. Os resultados atestam a situação de
vulnerabilidade e risco social desses sujeitos, que tem a pouca escolarização como
agravante e consequência, concomitantemente.
49

Em uma sociabilidade marcada por precárias condições educacionais e,


desigualdades econômicas, para esses adolescentes, “crescer é uma empreitada
que eles devem enfrentar sozinhos, um salto no escuro” (FEFFERMANN, 2013, p.
69). Nas palavras de Dutra-Thomé e Koller (2013), para o adolescente situado em
contextos vulneráveis, o aprimoramento educacional e profissional são aspirações
ofuscadas.
Seja qual for a origem destes adolescentes, todos apresentam traços comuns:
histórias de vida marcadas pela descontinuidade dos vínculos e trajetórias, por
muitas mudanças e constantes rompimentos de seus elos afetivos, além de uma
grande demanda por atenção e cuidados (RIZZINI, 2001b). Durante a realização de
nossa pesquisa vislumbramos essa realidade, pois os adolescentes em muitas
situações encontravam-se tristes, pensativos e nos requisitavam afeto, seja por meio
de uma abraço, de um diálogo ou da atenção prestada em suas histórias cotidianas.
Assim sendo, outro aspecto que, a nosso ver, colabora para que tenhamos
uma visão geral desses adolescentes diz respeito aos motivos de seu acolhimento
que pode ocorrer por determinação do Conselho Tutelar ou da autoridade
judiciária25.
No âmbito de nossa pesquisa, foi possível observar que a drogadição e os
conflitos familiares aparecem em seis casos e são os motivos mais frequentes de
acolhimento, seguidos do abandono, exploração sexual e situação de rua (4) e, a
violência física por parte de alguma pessoa do convívio que se apresentou em dois
casos. Posteriormente, aparecem problemáticas menos expressivas, porém
importantes para que possamos pensar a diversidade de aspectos a serem
considerados em nossa análise, são elas: a fuga de casa, ausência de familiares e
morte da mãe que aparecem pelo menos uma vez entre as causas de acolhimento.
Mas falar sobre as razões que levam ao acolhimento não é tarefa simples.
É necessário explicitarmos que embora pareçam isoladas, as causas de
acolhimento estão geralmente imbricadas. A título de ilustração, podemos citar o

25
Na Casa de Passagem “Nossa Gente” os Conselhos Tutelares (33ª e 34ª zona) e a Vara da
Infância e Juventude são os órgãos que contribuem no encaminhamento de adolescentes para o
acolhimento institucional.
50

caso de Charlie. O adolescente mencionado foi acolhido por causa de uma situação
em que vários motivos estão associados: morte da mãe, abandono, conflito familiar,
situação de rua e drogadição. Envolvendo diferentes formas de violação de direitos e
motivos de acolhimento multifatoriais. Ou seja, um mesmo adolescente geralmente
não chega à instituição por uma única razão e sim por inúmeros motivos.
Nessa direção, adolescentes vítimas de violência da família, do Estado e/ou
da sociedade ganham visibilidade na figura do “menor abandonado” ou do “menino
de rua”, constituindo, geralmente, os sujeitos acolhidos. As vivências desses sujeitos
sugerem o seu encaminhamento, ainda que de forma transitória, a uma instituição,
como forma de afastá-los, temporariamente, do contexto de risco pessoal e social.
Os relatos a seguir nos mostram essa realidade:

- Ta na rua é mais pior, porque a pessoa dorme e nem sabe se vai


amanhecê vivo... tenho medo de voltá... Mas aqui, aqui dento eu tô seguro,
lá fora eu num tô (Charlie, 18 anos).

- Quando eu tava na rua, antes da casa de passagem... Na rua era só


droga, droga, droga, eu me drogava e era assim... eu saia, minha felicidade
era isso, me drogava, pra me esquecer das coisa, pra ter mais corage de tá
dormindo na rua, esquecer dos meus problema tudin, e... E... E não lembrar
que tudo aquilo era realidade (Estrela, 17 anos).

As falas acima assinalam a Casa de passagem apreendida pelos


adolescentes como lugar de acolhida, garantia de direitos e, para alguns é o mais
próximo da família que eles idealizam. Da mesma forma, podemos inferir que a
violência estrutural é uma realidade na vida desses sujeitos e grupos de nível
socioeconômico baixo tendem a estar expostos a contextos mais vulneráveis sendo
alvos fáceis para as drogas e o álcool (LIMA & MINAYO GOMES, 2003 apud
FIFFERMANN, 2013, p. 149).
Com isso, não estamos afirmando que os adolescentes de classe mais
abastada estão isentos dessas circunstâncias, porém, é possível afirmar que
aqueles que vivem em condições de maior privação são mais suscetíveis, pois já
são vitimados por violências estruturais.
No tocante as situações de acolhimento, Rizzini considera que:
51

Uma das consequências de grande impacto na vida das crianças [e dos


adolescentes] a ser destacada é a própria dificuldade de retorno à família e
à comunidade. Com o tempo, os laços afetivos vão se fragilizando e as
referências vão desaparecendo. Uma vez rompidos os elos familiares e
comunitários, as alternativas vão se tornando cada vez mais restritas. Ao se
analisar suas trajetórias de vida, após o afastamento de casa, detecta-se
que os caminhos vão se estreitando e o quadro vai se agravando. Quando
se concluiu que não há possibilidade de reinserção familiar, são transferidos
de uma instituição para outra (2006, p. 56).

Não é fácil lidar com violações de direitos e com o impacto que estas têm
sobre os vínculos familiares e comunitários do adolescente. O prolongamento do
tempo de permanência desses sujeitos na instituição e a demora judicial na
definição da situação acabam por construir expectativas conflituosas para estes
adolescentes, quanto a retornar à família de origem ou ainda de ser reinserido em
família substituta através da adoção ou mesmo de permanecer na instituição sem
perspectivas de reinserção familiar:

- [...] aqui liga uma televisão, ri de uma piada de um educador (risos). Só é


rim que a pessoa fica longe de quem a gente ama. Tem pessoa que a gente
ama tanto e fica longe sabe? (Bilú, 15 anos)

- Todo dia eu acordo e vou no portão esperando a visita de alguém e num


vem ninguém (lágrimas) (Estrela, 17 anos).

As anotações em Diário de campo esclarecem que a significativa parcela dos


familiares não se faz presente às visitas e, nos relatos acima, os adolescentes
apresentam essa dificuldade: estar longe de pessoas significativas e não receber
visitas delas. Fato este que tem a ver com a afeição e o amor que são um mito
quando vistas como algo inerente as famílias.
Parece ser consensual que o abrigo acaba privando esses sujeitos do
convívio familiar por algum tempo. Contraditoriamente, muitas vezes essa privação
os liberta de violações e violências, e ao mesmo tempo lhes retira a possibilidade de
estar na família, que apesar de ser violadora de direitos, aparece para eles, por meio
de uma realidade idealizada, como um espaço importante, necessário e desejado.
52

Cumpre frisar que em variados casos essa privação acaba se tornando permanente,
e, mesmo quando não se configura como tal, é uma situação singular na vida
desses sujeitos e os marca fortemente, porque a experiência está relacionada
também a negação do modelo idealizado de família.
Segundo o artigo19, § 2º do ECA,

A permanência da criança e do adolescente em programa de acolhimento


institucional não se prolongará por mais de 2 (dois) anos, salvo comprovada
necessidade que atenda ao seu superior interesse, devidamente
fundamentada pela autoridade judiciária (BRASIL, 1990).

Todavia, apesar ou pela lei, por diversas vezes, esses adolescentes


permanecem acolhidos e longe de suas famílias, sem previsão ou certeza de volta
para casa, por tempo indeterminado. Segundo o Levantamento Nacional de Abrigos
Brasileiros para Crianças e Adolescentes de 2003 o período de permanência nas
instituições, varia de sete meses a cinco anos. Na Casa de Passagem “Nossa
Gente”, lócus de nossa pesquisa, a realidade não difere muito.
O adolescente Charlie, por exemplo, encontra-se acolhido na Casa de
Passagem a mais ou menos dois anos e completou 18 anos recentemente. Mesmo
que legalmente a “maioridade” implique no desligamento institucional, ainda
permanece na instituição por não ter perspectivas de reinserção familiar e por não
existir no município as repúblicas preconizadas pelo PNCFC que acolhem esses
sujeitos quando atingem a maioridade. Como agravante Charlie não é alfabetizado,
condição esta fortemente estigmatizante que reflete as desigualdades
socioeconômicas do país e, que compromete seu ingresso no mercado de trabalho e
a construção de sua autonomia. É importante frisarmos que o prolongamento do
tempo na instituição é algo bastante frequente, porém Charlie foi o primeiro
adolescente a atingir à maioridade quando ainda acolhido na Casa de Passagem.
Gostaríamos de salientar que o acolhimento se vivenciado por longos
períodos, representa não apenas uma violação de direitos, mas deixa marcas
irreversíveis na vida desses adolescentes, que, com frequência, não adquirem
sentimento de pertencimento e enfrentam sérias dificuldades para adaptação e
53

convívio em família e na comunidade (IPEA, 2003). Alguns adolescentes com os


quais trabalhamos, por exemplo, em decorrência do longo período de acolhimento,
são muito inseguros, frágeis e não escondem o medo do futuro. Além disso, a
reinserção familiar acaba sendo retratada como algo inalcançável e ao mesmo
tempo permeada de receios, como podemos vislumbrar na fala abaixo:

- Voltá pra casa como tia? ... ninguém me quer lá...(Charlie, 18 anos)

E o problema é justamente esse: embora o passar do tempo seja prejudicial


àquele que vive o acolhimento institucional, como garantir, com prazos burocráticos,
“a resolução” de situações tão complexas, muitas vezes resultantes da falta ou
omissão da família, e na maioria das vezes tendo como pano de fundo o Estado?
Outro aspecto que merece destaque é que esses adolescentes não são
pensados como sujeitos, pois,

A palavra “sujeito” traduz a concepção da criança e do adolescente como


indivíduos autônomos e íntegros, dotados de personalidade e vontade
próprias que, na sua relação com o adulto, não podem ser tratados como
seres passivos, subalternos ou meros “objetos”, devendo participar das
decisões que lhe digam respeito, sendo ouvidos e considerados em
conformidade com suas capacidades e grau de desenvolvimento (BRASIL,
2006, p. 28).

Os adolescentes que se encontram institucionalizados, por sua vez, estão


impossibilitados de escolher ou traçar seu destino, que depende de outros sujeitos
individuais e/ou coletivos e, majoritariamente, desconhecem seu potencial, anseios,
dificuldades ou necessidades. Nessa perspectiva, podemos inferir que apesar do
ECA os preconizar como sujeitos de direitos, em algumas situações sua
possibilidade de ação e decisão é altamente reduzida.
É necessário mencionarmos que para alguns adolescentes, a dificuldade em
definir família, seja ela no contexto ideal ou real, esteve presente. O que pode ser
54

decorrente desse não pertencimento, a experiência de família real que contrasta


com aquela idealizada.

- É difícil essa pergunta tia... (silêncio) é complicado falar de família... (Bilú,


15 anos).

- Quando eu penso em família? (silêncio) xa eu ver... (silêncio). Penso um


bucado de coisa (silêncio) (Robin, 14 anos).

Pode-se explicar tal ocorrência por dois ângulos que se complementam: pelas
vivências antecedentes ao acolhimento e pelo fato de que comumente os
adolescentes vivem um processo de triangulação, isto é, eles estão constantemente
sendo acolhidos, fogem frequentemente para rua tanto de suas casas como da
instituição e essa dinâmica triangular rua/casa/abrigo sugere um desvinculamento
destes das suas famílias de origem.
Nesse contexto, ao realizarmos uma oficina de desenhos e outra de recorte e
colagem sobre família e Casa de Passagem percebemos que os adolescentes
tiveram dificuldades em representar suas famílias biológicas e, não o fizeram. Bilú,
Robin, Charlie e Estrela, por exemplo, enquanto desenvolviam as atividades nos
indicavam cada um dos adolescentes nos desenhos e recortes, incluindo-os na sua
família.

FIGURA 2: Percepção de família e instituição para os adolescentes acolhidos


na Casa de Passagem “Nossa gente” - Mossoró-RN

Fonte: Desenho de Bilú durante oficina realizada em 11 de outubro na Casa de Passagem “Nossa
Gente”- Mossoró-RN
55

FIGURA 3: Percepção de família para os adolescentes acolhidos na Casa de


Passagem “Nossa gente”- Mossoró-RN

Fonte: Recorte de Estrela durante oficina realizada em 11 de outubro na Casa de Passagem “Nossa
Gente”- Mossoró-RN

FIGURA 4: Percepção de família para os adolescentes acolhidos na Casa de


Passagem “Nossa gente”- Mossoró-RN

Fonte: Desenho de Robin durante oficina realizada em 11 de outubro na Casa de Passagem “Nossa
Gente”- Mossoró-RN
56

FIGURA 5: Percepção de família e instituição para os adolescentes acolhidos


na Casa de Passagem “Nossa gente”- Mossoró-RN

Fonte: Recorte de Charlie durante oficina realizada em 11 de outubro na Casa de Passagem “Nossa
Gente”- Mossoró-RN

Como podemos perceber nas figuras acima, na ausência da família e da


comunidade, a instituição acaba se tornando a única referência afetiva e de apoio.
Compreendemos assim, que como bem afirma o PNCFC (2006), os vínculos não
precisam ser apenas de ordem biológica ou oficializados pela lei, mas também
existem vínculos que pressupõem relações e obrigações de caráter afetivo e
simbólico, relações espontâneas que muitas vezes podem ser mais relevantes para
as pessoas, que suas próprias relações de parentesco. As falas abaixo, inclusive a
que abre esse item, complementam as figuras:

- Hoje... Vish, tem tanta gente minha família... (risos) os funcionário tudin da
26
Casa de passage. Minha mãe que ninguém sabe, né? Tia Laura . Eles...
para pra me ouvir, me dá amor, quando eles percebe que eu tô triste, eles
chega junto. “Estrela que foi? Você num é assim... Sabe? Me conhece? E
acho que é isso, que tudo que uma pessoa precisa é isso mesmo... Aqui eu
tenho mais valor. A pessoa vê a realidade, mas sempre com as pessoa pra
segui do nosso lado, escutano aquela palavra: Estrela num desista, cê vai
vencer... (Estrela, 17 anos).

- Minha família é tia Laura e os oto menino... tudin (Bilú, 15 anos).

26
Coordenadora da Casa de Passagem “Nossa Gente”.
57

- Ahh, tudin da Casa de Passagem é minha família... Tudin me ajuda


(Charlie, 18 anos).

Nos discursos acima os adolescentes trazem para o seu universo de família,


pessoas com as quais, de alguma maneira, possuem vínculos, independente de
relações de parentesco; são elas: educadores sociais e coordenadora da instituição,
bem como todos os adolescentes que convivem no ambiente. Essas pessoas são
consideradas significativas pelo apoio e atenção conferidas no âmbito das relações,
fazendo com que os adolescentes acolhidos sintam-se valorizados e, porque não
dizer amados. Não obstante, volta-se a ideia da família como aquela que ajuda,
protege, alimenta, cuida e dá força.
Face ao exposto, podemos pensar a família para além dos laços sanguíneos,
em contrapartida, não podemos desconsiderar os limites do amparo institucional.
Por exemplo, a grande rotatividade dos adolescentes, ou mesmo de funcionários
acabam sendo aspectos prejudiciais ao desenvolvimento afetivo e emocional do
adolescente.
No que concerne às relações que se estabelecem entre os adolescentes com
as pessoas das instituições em que estão acolhidos, Guará (2005) reitera a
importância de se firmarem varias relações de amizade e compreensão dentro do
ambiente institucional, ao passo que essas relações de respeito e compromisso
podem propiciar novas estratégias de sobrevivência e inserção social para os
acolhidos. O essencial é que o adolescente saiba que existe alguém com quem eles
possam contar dentro da instituição.
Gostaríamos de destacar que no contato com os adolescentes, percebemos
uma disponibilidade para estabelecer novos vínculos. Em alguns casos,
evidenciamos, no primeiro instante, uma desconfiança, porém, respeitado o tempo
de cada um, esse temor vai-se modificando, dando lugar a uma significativa
credibilidade e, gradativamente, a confiança se estabelece. Apreendemos a
desconfiança inicial como resultante de receios de não ser acolhido, bem como pela
insegurança ante a possibilidade de um novo abandono. Tais atitudes denotam a
58

autodefesa, levando em consideração suas histórias marcadas pelo desamparo


familiar, bem como estatal e social.
Como foi visto, esses sujeitos estão inseridos em uma realidade complexa:
separados de forma abrupta da família de origem, ou comumente vivendo com a
ausência dela desde sempre, a inserção em ambiente institucional, a incerteza
quanto ao futuro, a ausência de visitas, o prolongamento do tempo na instituição, a
expectativa sobre a oportunidade, ou não de integração na família de origem ou em
alguma outra. Nessa perspectiva, fica claro que de fato o acolhimento institucional
reflete no modo como esses adolescentes pensam, representam e projetam sua
ideia de família.
59

4 CONCLUSÃO

A família pode ser pensada como processo histórico, social e cultural em


construção e mudança e é uma das instituições sociais mais naturalizadas e
sacralizadas em nossa sociedade. Em geral, é um espaço onde os indivíduos
iniciam sua socialização e constroem suas primeiras redes de sociabilidade;
podendo se constituir como local de proteção e referência para crianças e
adolescentes, sendo relevante no seu desenvolvimento social e afetivo de forma
positiva ou não. Ao mesmo tempo, se configura como uma instituição antagônica e
contraditória, haja vista que nem sempre será um lócus de proteção e segurança, e
por muitas vezes será lugar de violação de direitos e violências em suas múltiplas
expressões.
Como fruto da naturalização sobre essa instituição social, acabamos supondo
a existência da família na vida de todos(as), o que nem sempre acontece. Ficou
demonstrado que apesar dos cuidados biológicos no ambiente familiar serem
essenciais, muitas crianças e adolescentes não os detêm, sendo as instituições de
acolhimento, nesses casos, frequentemente responsáveis por esse aparato.
Verificamos por meio de nosso estudo que não podemos mais falar em família
(no singular), mas de famílias (no plural) e independente de sua composição ou
organização é por meio dela que construímos nossa forma de estar e ver o mundo.
Contudo, apesar de existirem novas unidades familiares pautadas nas mais diversas
organizações, o protótipo de família nuclear ainda permanece enaltecido
socialmente como modelo ideal e ideológico que se firma na harmonia das relações
e dos papéis que aparecem como complementares e isentos de conflitos e, quando
as famílias se contrapõem ao lar idealizado são denominadas “desestruturadas”.
Cabe frisar que obtivemos êxito nos objetivos traçados, porém sabemos que
as análises apresentadas estão longe de ser conclusivas em decorrência da
complexidade e amplitude da temática estudada. Nesse prisma, em resposta a
nossa pergunta problema, a saber: Como os adolescentes acolhidos na Casa de
Passagem “Nossa Gente” em Mossoró-RN compreendem o significado de família?
60

Ficou demonstrado que a família acaba sendo vislumbrada pelos adolescentes


como um ambiente harmônico, cheio de paz e amor, contradizendo-se dessa forma,
com a própria realidade vivenciada por eles. A ideia romântica de família é algo que
se espraia pela sociedade e por isso mesmo aparece tão fortemente nos discursos
dos adolescentes. Há socialmente um padrão a ser seguido em relação à família
que, na grande maioria dos casos contrasta com aquilo que ela é de fato.
Nos depoimentos dos adolescentes, o amor na família é retratado como algo
próprio e inerente a natureza humana/familiar. Isso autoriza concluir que amar a
família é sentimento obrigatório em nossa sociedade independente de como as
relações se firmem. Não amar a mãe, por exemplo, vai contra o paradigma clássico
imposto socialmente, pois nossa sociedade foi alimentando a falsa ideia de que
amor de mãe é inato e/ou instintivo, sacralizando assim a figura materna. Como
vimos, o amor materno não constitui um sentimento inerente à condição feminina,
ele não é naturalmente determinado, mas algo que se adquire. Em outras palavras,
o sentimento de amor materno não é natural muito menos incondicional, é algo
construído no âmbito das relações e isso pode não ocorrer e, em muitos casos,
efetivamente não ocorre.
Paralelamente, quando o afeto é algo ausente nas relações percebemos uma
reação defensiva dos adolescentes, há uma tendência a projetar a família
imaginária, onde, inclusive, não há lugar para conflitos e desigualdades, iniciando
um processo de idealização da família desejada no futuro, com expectativas de
mudanças no seu contexto relacional.
Na fase da adolescência ocorrem muitas mudanças e diversos são os fatores
que refletem sobre o adolescente e sua família. O adolescente vivencia uma fase
transitória do desenvolvimento humano entre a infância e a vida adulta marcada por
transformações no corpo e na mente, é momento de turbulências e inquietações.
Começa a se inserir em novos grupos, buscar liberdade e identidade, primar por
uma ideologia, questionar regras dentro de sua casa, mudando assim a dinâmica
familiar. Ademais, dialogamos sobre a realidade da adolescência pobre que, como
61

visto, ocupa um lugar marginal em nossa sociedade, sendo dela exigidas


responsabilidades nem sempre possíveis de serem assumidas.
No caso daqueles que convivem com a violação de direitos e ainda inseridos
numa instituição de acolhimento, a situação torna-se ainda mais complexa. Ora,
estão inseridos em outra realidade: separados de forma abrupta da família de
origem, ou comumente vivendo com a ausência dela desde sempre, a inserção em
ambiente institucional, a incerteza quanto ao futuro, à ausência de visitas, o
prolongamento do tempo na instituição, a expectativa sobre a oportunidade, ou não
de integração na família de origem ou em alguma outra. Por tudo isso, constatamos
que o acolhimento institucional reflete profundamente no modo como esses
adolescentes pensam, representam e projetam sua ideia de família.
Evidenciamos que as famílias dos adolescentes acolhidos são aquelas que na
realidade social situam-se em condições precárias de subsistência. Em sua
totalidade, oriundos de famílias de cinco a seis pessoas e, com uma renda mensal,
que na maioria das vezes não chega a um salário mínimo tem, em muitos casos, a
sobrevivência atrelada apenas aos benefícios sociais. São famílias antes de tudo,
premidas pela desigualdade social, marcadas em seus percursos pela chamada
violência estrutural. A universalização de direitos, não se realiza de forma concreta
na vida desses sujeitos cujos direitos fundamentais são negados e violados.
No que tange à escolarização, observa-se um quadro generalizado de baixo
acesso entre os adolescentes. Em um universo de 10 adolescentes acolhidos, oito
não completaram o ensino fundamental e dois ainda não sabem ler nem escrever.
Nesse sentido, fica claro que esses sujeitos passam a não ter nenhuma chance em
uma sociedade na qual a educação se configura como uma oportunidade para o
reconhecimento da cidadania.
No âmbito de nossa pesquisa, foi possível observar que a drogadição e os
conflitos familiares aparecem em seis casos e são os motivos mais frequentes de
acolhimento, seguidos do abandono, exploração sexual e situação de rua (4) e, a
violência física por parte de alguma pessoa do convívio que se apresentou em dois
casos. Posteriormente, aparecem problemáticas menos expressivas, porém
62

importantes para que possamos pensar a diversidade de aspectos a serem


considerados em nossa análise, são elas: a fuga de casa, ausência de familiares e
morte da mãe que aparecem pelo menos uma vez entre as causas de acolhimento.
Embora pareçam isoladas, as causas de acolhimento estão geralmente imbricadas,
ou seja, um mesmo adolescente não chega à instituição por uma única razão e sim
por inúmeros motivos.
Ficou esclarecido que embora no imaginário ideal a família seja
frequentemente associada a todos os sentimentos positivos como amor, ternura e
alegria, no cotidiano relacional é uma instituição envolta por antagonismos, poderes
e contradições, sendo ainda lócus de violação de direitos e violências nas mais
variadas expressões.
As vivências desses sujeitos sugerem o seu encaminhamento, ainda que de
forma transitória, a uma instituição, como forma de afastá-los, temporariamente, do
contexto de risco pessoal e social. Nessa direção, percebemos a Casa de passagem
apreendida pelos adolescentes como lugar de acolhida, garantia de direitos e, para
alguns é o modelo mais próximo da família que eles idealizam.
Deste modo, percebemos que os adolescentes tem dificuldades em
representar suas famílias biológicas. Trazem para o seu universo de família,
pessoas com as quais, de alguma maneira, possuem vínculos, independente de
relações de parentesco; são elas: educadores sociais e coordenadora da instituição,
bem como todos os adolescentes que convivem no ambiente. Assim, a instituição
torna-se um espaço de referência e pertencimento. Em contrapartida, ao mesmo
tempo em que eles incorporam a família para além das relações consanguíneas não
conseguem ir além desta concepção, pois acabam reduzindo-a as figuras do pai e
da mãe, ligando-a a ideia daquilo que não tem, como é o caso inclusive do amor.
Por tudo isso, podemos pensar a família para além dos laços sanguíneos e ao
mesmo tempo, não podemos desconsiderar os limites do amparo institucional. Por
exemplo, a grande rotatividade dos adolescentes, ou mesmo de funcionários são
aspectos prejudiciais ao desenvolvimento afetivo e emocional do adolescente.
63

Podemos afirmar que as constatações aqui apresentadas e os depoimentos


dos adolescentes sobre suas acepções de família, reafirmam a necessidade urgente
de projeção e efetivação de políticas e projetos sociais, sob o risco de que, cada vez
mais, tais situações sejam ignoradas, naturalizadas ou banalizadas. Precisamos
refletir sobre o uso social das pesquisas.
Finalizamos essas breves ponderações enfatizando que as considerações
aqui expostas não dão conta de toda a intensidade que ocorreu na relação
pesquisadoras e pesquisados em relação ao tema investigado. Elas constituem uma
face, um lado de um todo mais complexo do que aparenta.
64

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APÊNDICES

APÊNDICE A: Roteiro de entrevista

ROTEIRO DE ENTREVISTA

1. Quando falo a palavra família, que palavras lhe vêm à cabeça?


2. Como é a sua família?
3. Fale um pouco de como é a vida na sua casa.
4. Quando eu falo em mãe o que lhe vem a cabeça?
5. E quando falo em pai o que lhe vem a cabeça?
6. O que a família representa na vida de uma pessoa?
7. Na sua opinião o que você mudaria em sua família?
8. Como você imagina sua família no futuro?
9. Qual a diferença entre estar em família e estar na instituição?
10. Quem você considera como parte de sua família? Por quê?
11. Quais os momentos que mais marcaram sua vida enquanto estava junto a
sua família?
12. Como é estar longe de sua família? É difícil viver em instituição?
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APÊNDICE B: Roteiro das oficinas

Oficina 01: Família no futuro e/ou atualidade

Objetivo: Compreender como os adolescentes acolhidos idealizam sua família no


futuro e/ou reconhecem sua família na atualidade.

Oficina 02: Casa de passagem e família

Objetivo: Identificar a relação que os adolescentes acolhidos estabelecem entre a


instituição e suas famílias.

Oficina 03: Amor na Família

Objetivo: Conhecer a percepção dos adolescentes acolhidos presença/ausência do


amor no âmbito das relações familiares.