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INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA SUL-RIO-

GRANDENSE

CURSO SUPERIOR DE ENGENHARIA MECÂNICA

DISCIPLINA DE CIÊNCIA DOS MATERIAIS II

COMPÓSITOS REFORÇADOS COM FIBRAS – (COM FIBRAS POLIMÉRICAS)

VICTÓRIA SCHAEFER

Sapucaia do Sul, outubro de 2015.


1. INTRODUÇÃO

Um compósito é um material formado por dois ou mais materiais com


características e aspectos distintos e que, quando misturados, foram um composto
com propriedades melhores e inatingíveis somente com um dos materiais. Possuem,
com frequência, alta resistência e excepcionais relações resistência-peso, que são
superiores às dos metais.

No compósito, temos uma fase contínua, denominada matriz, e uma ou mais


fases descontínuas que são embebidas nessa fase contínua, chamada de reforço. Os
reforços geralmente são resistentes e duros.

Em compósitos poliméricos, a matriz é geralmente composta por uma resina


termofixa do tipo poliéster insaturada (ortoftálica, tereftálica, isoftálica ou bisfenólica),
dissolvida em solvente reativo como estireno ou ainda uma resina éster vinílica ou
epóxi. Normalmente a fase descontínua é formada por fibra de vidro, aramida, de
carbono, fibras naturais lignocelulósicas ou de origem animal, dependendo da
aplicação final.

Os produtos fabricados a partir das resinas e das fibras usadas como reforço,
acabam gerando compósitos de baixo peso específico, como consequência do baixo
peso específico apresentado pelas resinas. Devido a esta e outras propriedades
características dos materiais compósitos é que eles são amplamente utilizados nos
setores de aeronáutica, naval, automobilístico e outros.
2. COMPÓSITOS POLIMÉRICOS REFORÇADOS COM FIBRAS ARAMIDAS

2.1 CONCEITOS

As fibras de aramida (poli-para-fenileno tereftalamida) são constituídas de um


grupo de polímeros aromáticos de cadeia longa, onde 85% dos grupos amida (-CO-
NH-) ligam dois anéis aromáticos, e foram primeiramente desenvolvidas pela Du Pont,
em 1968. Os nomes comerciais mais conhecidos para as duas aramidas mais comuns
são Kevlar e Nomex, apesar de existir uma variedade de aramidas.

A preferência pelo uso da fibra de carbono para geração de compósitos se dá


pelas suas excelentes características em termos de resistência, ductilidade e
durabilidade. O custo, entretanto, ainda é relativamente elevado – e por esse motivo,
existe a procura por outros compósitos reforçados com fibras que sejam mais baratas
e apresentem bom desempenho. Acredita-se que o emprego da fibra de vidro, cujo
desempenho não é muito inferior à fibra de carbono e tem custo muito menor, seja
uma alternativa técnica e economicamente viável em certas aplicações, em que o
desempenho exigido do reforço é mais modesto. Já a fibra de aramida se apresenta
como uma alternativa intermediária, em termos de desempenho mecânico e
econômico.

Segundo (WIEBECK e HARADA, 2005), os monômeros mais utilizados na


obtenção das aramidas são o cloridrato de cloreto de 4-amino-benzoila, o dicloreto de
tereftaloila, o dicloreto de isoftaloila, o m-fenileno-diamina e o p-fenileno-diamina,
sintetizados por meio de reação na qual os solventes utilizados são amidas
substituídas (Dimetilacetamida, Dimetilformamida, Tetrametiluréia, etc) ou ácido
sulfúrico.

O principal elemento estrutural que proporciona as ilustres propriedades


mecânicas da fibra de aramida são os anéis aromáticos, que facilitam o alinhamento
quase perfeito das cadeias, como mostra a Figura 1:
Figura 1: Estrutura química do Kevlar.

2.2 PROPRIEDADES

Segundo os autores do artigo “Combined effect of interfacial strength and fiber


orientation on mechanical performance of short Kevlar fiber reinforced olefin block
copolymer”, a fibra aramida (Kevlar) é uma das mais promissoras candidatas já
desenvolvida como um agente de reforço de alto desempenho em compósitos
poliméricos, devido a sua alta resistência específica, módulo elevado, e elevada
resistência térmica quando em comparação com fibras metálicas e de poliéster.

Embora as aramidas sejam termoplásticas, elas são, todavia, resistentes à


combustão e estáveis na faixa de temperaturas de -200°C a 200°C. O material é
conhecido pela sua tenacidade, resistência ao impacto e resistência à fluência e a
falha por fadiga.

Existem vários tipos de Kevlar (AP, para alta performance, 29, 49, 100, 119,
129, KM2), que apresentam diferentes comportamentos mecânicos e diferentes
número de fios. Essas variações possibilitam à indústria a escolha do material correto
para suas aplicações, gerando economia ao processo e ao produto final. A Tabela 1
apresenta algumas variações comparando o Kevlar 29 fios e o Kevlar 49 fios.
Tabela 1: Comparativo Kevlar 29 e Kevlar 49

O polímero é suscetível à degradação pela ação de ácidos e bases fortes, mas


relativamente inerentes frente a outros solventes e produtos químicos. A Tabela 2
apresenta os efeitos sob agentes químicos.
Tabela 2: Kevlar e ácidos

2.3 MÉTODOS DE PREPARAÇÃO

As fibras aramidas são manufaturadas por processos de extrusão. Uma


solução do polímero base em um solvente é mantida a temperaturas entre 50-80°C
antes de serem extrudadas em um cilindro mantido a uma temperatura de 200°C.
O solvente então evapora e as fibras são bobinadas em um mandril. Neste
estágio, as fibras têm baixa resistência e rigidez, e são submetidas a um processo de
estiramento a quente para alinhamento das cadeias poliméricas ao longo do eixo da
fibra fazendo com que a resistência e o módulo sejam significativamente aumentados.

Existem diversos processos para produzir plásticos reforçados com fibras. Um


deles é o processo de deposição manual, que é um processo simples e barato e é
adequado para peças grandes e em pequenas quantidades. Primeiramente, é
necessário um molde aberto, que deve ser revestido com gel. Em seguida, o reforço
de fibras (geralmente tecido ou manta) é colocado manualmente no molde, e então a
resina plástica misturada com catalisadores e acelerador é então vazada no molde.
Através da passagem de um rolo a resina molha completamente o reforço, removendo
o ar que possa ter ficado acumulado.

Outro processo interessante utiliza o spray, e é um processo muito semelhante


ao anterior. Nesse processo, porém, a deposição da resina com catalisador e da fibra
ocorrem simultaneamente com uma pistola de corte e projeção.

2.4 APLICAÇÕES

O Kevlar pode ser utilizado para diversas aplicações, e sua aplicação irá
depender tipo de Kevlar utilizado pois, como dito anteriormente, cada Kevlar tem
propriedades e características próprias.

O Kevlar 29 foi o primeiro a surgir é utilizado principalmente para coletes à


prova de balas, cordas e cabos, equipamentos de proteção como luvas resistentes a
cortes; também utilizado em capacetes, blindagem veicular e placas, e como reforço
de borracha em pneus e mangueiras automotivas.

O Kevlar 49 é utilizado principalmente em cabos de fibra óptica, processamento


têxtil e para aplicações aeroespaciais.

Os tecidos de aramida são utilizados principalmente na confecção de


vestimentas resistentes a impacto e ao fogo. São também utilizadas na laminação de
estruturas como raquetes, capacetes e pranchas de windsurf. A fibra na forma de
polpa é utilizada para melhorar o desempenho de elastômeros e resinas,
principalmente quando se necessita resistência a altas temperaturas. Os segmentos
de fibras são empregados na formação de fios torcidos de alta resistência ao desgaste
ou na fabricação de feltros. A Figura 2 apresenta as formas físicas da fibra aramida
comercializadas.

Figura 2: Formas físicas da fibra aramida comercializadas: (a) polpa, (b) segmentos, (c) flocos, (d)(e)
tecidos.

3. ARTIGO CIENTÍFICO

O artigo técnico selecionado para analisar a utilização da aramida foi o


“Experimental investigation of the behavior of aramid fiber reinforced polymer confined
concrete subjected to high strain-rate compression”. Esse estudo visou analisar o
comportamento do compósito polimérico reforçado com fibras aramidas com concreto
confinado e submetido a altas taxas de tensão de compressão.

O estudo testou 71 amostras sob uma alta taxa de tensão de compressão axial
utilizando um sistema acionado hidraulicamente. A influência do confinamento lateral
também foi examinada através da variação do número de camadas de polímero
reforçado por fibras aramidas e impondo taxas de tensão diferentes.

Para fazer os corpos de prova foi utilizado cimento, areia de rio, entulho de
calcário e água de torneira. Foi adicionado sílica ativa para melhorar as propriedades
mecânicas. Um super-plastificante à base de naftaleno foi adicionado para melhorar
a trabalhabilidade. Para a parte externa, foi utilizado o compósito Kevlar CAS-415,
produzido pelo Beijing Carbon Institute of Engineering Technology. A superfície lateral
de cada amostra foi polida, e uma camada adesiva de resina epóxi foi aplicada para
encher as perfurações e microdefeitos. O compósito foi então colado à superfície
lateral das amostras utilizando o epóxi como adesivo. Após essa etapa, outra camada
de adesivo epóxi foi adicionado para permear entre as camadas do compósito. Todas
as amostras foram curadas durante 7 dias em temperatura ambiente para endurecer
a resina de epóxi. A Figura 3 apresenta o Kevlar utilizado e o corpo de prova.

Figura 3: Rolo de Kevlar e amostra pronta

Os resultados do estudo indicam que a força dinâmica, a tensão máxima e a


densidade de absorção de energia são sensíveis à taxa de tensão, e que o
confinamento externo do compósito melhora significativamente essas propriedades.
4. REFERÊNCIAS

CALLISTER, William D. Jr. Ciência e engenharia de materiais: uma introdução. 5ª


edição. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

YANG, Hui; SONG, Hengwen; ZHANG, Shi. Experimental investigation of the


behavior of aramid fiber reinforced polymer confined concrete subjected to high
strain-rate compression. Department of Airfield and Building Engineering, Air Force
Engineering University, Aeronautics and Astronautics Engineering College, Xi’an
710038, PR China, 2015.

FU, Sirui et al. Combined effect of interfacial strength and fiber orientation on
mechanical performance of short Kevlar fiber reinforced olefin block copolymer.
College of Polymer Science and Engineering, State Key Laboratory of Polymer
Materials Engineering, Sichuan University, Chengdu 610065, China, 2015.

BELLINI, Juliana. FIBRAS DE ARAMIDA E SUA APLICAÇÃO NA CONFECÇÃO DE


CABOS ÓPTICOS. Faculdade de Tecnologia de Sorocaba – FATEC – SO. São Paulo,
2012.

TROMBETTA, Fabiane. USO DE FIBRAS ARAMIDAS PARA MELHORIA DE


PROPRIEDADES DE COMPOSTOS DE BORRACHAS NITRÍLICAS. Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2012.

MARGEM, Jean Igor. ESTUDO DAS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS E


PROPRIEDADES DE COMPÓSITOS POLIMÉRICOS REFORÇADOS COM FIBRAS
DE MALVA. Universidade Estadual Do Norte Fluminense – UENF, RJ. 2013.

KEVLAR, TECHINICAL GUIDE. Disponível em:

<http://www.dupont.com/content/dam/dupont/products-and-services/fabrics-fibers-
and-nonwovens/fibers/documents/Kevlar_Technical_Guide.pdf>

Compósitos de Kevlar. Disponível em: < http://compositoskevlar.blogspot.com.br/>

Usos e Aplicações, Marca Kevlar. Du Pont. Disponível em:

<http://www.dupont.com.br/produtos-e-servicos/tecidos-fibras-e-nao-
tecidos/fibras/marcas/kevlar.view-all.hlm-usesapplications-usesapplication.html>