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Os Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas Pecado

Por: Presbítero Solano Portela

Existem mais pecados que ameaçam os calvinistas, mas vou procurar abordar apenas
cinco pecados. Para os que têm interesse no calvinismo, acho que este estudo é
importante, pois procede de um desejo intenso e sincero de que sejamos conhecidos por
nossa firme convicção, mas também pela ampla demonstração do fruto do Espírito em
nossas vidas.

Ao estudar estes cinco pecados estaremos dando um passo além do intelectualismo


estéril, porque muitos avisos são soados repetidamente aos calvinistas sobre estes
perigos de não serem estéreis e intelectuais em sua doutrina. Parece-me que suficientes
avisos já foram colocados aos irmãos sobre esta questão. Como exemplo, registro um
artigo que saiu na Banner of Truth no número 166-167 de julho/agosto/77, cujo autor,
W.J. Seaton, diz:

“Nosso sistema educacional está próximo de educar pessoas acima de sua inteligência e
nossas igrejas reformadas devem ter cuidado para não produzir novas gerações
educadas teologicamente acima do nível de sua espiritualidade. Podemos ter uma
geração que abraça o status da fé reformada, mas que nunca se acha confrontada com o
estigma de ser merecedora das chamas do inferno, salva apenas pelo exercício da livre
graça de Deus tão claramente expostas pelo calvinismo”.

Esse é o alerta com relação ao intelectualismo estéril que apresentamos. Nós também
não vamos tratar de pecados ou de atitudes pessoais que afetam a todos os crentes, sem
distinção, como egoísmo, avareza, maledicência e outras situações das quais nós oramos
constantemente que Deus nos livre sempre. Mas este, também, não é o nosso propósito
aqui. A nossa proposição é examinar certas atitudes pecaminosas que vivem rondando
os calvinistas e que geralmente ocorrem como distorções provocadas por nossas
próprias persuasões que são, geralmente, corretas. É a ação de satanás utilizando a
alavancagem de nossa fé reformada para confundir o nosso coração e o de muitos para
levar à ruína o testemunho da fé reformada. Isso, tanto pode prejudicar a nossa vida
espiritual, quanto à de outros, e de uma forma toda especial essa própria fé reformada
que nós tanto desejamos propagar.

1. Orgulho Espiritual.

O primeiro pecado a ser examinado é o pecado do orgulho espiritual. O que é orgulho


espiritual? Seria o desprezo aos outros irmãos; o achar que é possuidor de uma visão
superior; o achar que é conhecedor de uma faceta de conhecimento que ninguém mais
alcançou. Nós poderíamos até chamar isto do perigo do gnosticismo reformado. A nossa
natureza humana, pecadora, carregou para o seio da comunidade cristã o orgulho
espiritual sob diversas formas ao longo da história da igreja. Uma tendência sempre
latente, quando examinamos esta história, é a de subdividir aquela dicotomia que é
estabelecida na Bíblia na divisão de pessoas com relação ao posicionamento que elas
têm perante o seu Criador. Nesse sentido, todas as pessoas estão subdivididas entre
salvos ou perdidos, crentes ou descrentes. Aqueles que receberam a fé pelo dom de
Deus ou aqueles que, sem fé se encontram no caminho da perdição. Mas aquele orgulho
espiritual renitente tem gerado muitos movimentos dentro da igreja que acrescentam
uma terceira categoria de pessoas no que diz respeito ao status espiritual dos homens
perante Deus. Essa terceira categoria são aqueles sobrenaturalmente agraciados com um
fenômeno fora do comum que difere e está fora do ato da salvação que procede do Deus
soberano. Se fizermos uma viajem ao longo da História da Igreja, vamos ver que
estamos confrontando uma das mais sérias demonstrações da natureza humana caída e
que satanás sutilmente trás em ondas intermitentes no seio da igreja.

Mesmo no início da história neo-testamentária a Igreja já experimentou aquilo que seria


conhecido como uma cristianização da heresia secular gnóstica. Ela afirmava que certos
patamares de conhecimento eram misteriosamente propriedade de uns poucos. Estes
proto-gnósticos cristãos do primeiro século cresceram e tornaram-se uma força
destrutiva dentro das igrejas. Os historiadores registram que, no segundo século da era
cristã, o movimento gnóstico já havia tomado grandes proporções. Eles dividiam os
crentes entre aqueles que possuíam conhecimento espiritual apenas rudimentar e aqueles
que possuíam o verdadeiro conhecimento - gnosis - que era velado aos demais. E mais
uma vez nós temos essa divisão tríplice das pessoas: os descrentes, os crentes
rudimentares e os crentes iluminados.

No terceiro século os alegoristas dividiram os crentes entre aqueles que entendiam o


sentido mais espiritual e profundo das passagens e aqueles que não conseguiam penetrar
além do significado literal do texto. Orígenes, grande expoente da escola de Alexandria,
mas um dos proponentes do alegorismo, ensinava, na realidade que a Palavra de Deus
possuía três sentidos: O comum, histórico, que era inteligível àqueles de mente simples.
O sentido espiritual, que se constituía na alma das Escrituras e o sentido perfeito que
representava um sentido espiritual mais profundo possível de ser expresso somente por
meio de alegorias. Mais uma vez uma subdivisão estranha ao conceito Bíblico do estado
espiritual das pessoas é introduzida no ensinamento das igrejas.

Na época dos puritanos surgiram os Quakers que se declaravam possuidores ou


procuradores daquela “luz interior” que brilhava somente em alguns e que mais uma vez
trazia para dentro da igreja essa divisão espúria que não está na Palavra de Deus, entre o
crente comum, o crente possuidor da luz interior e os descrentes. Mais uma vez temos
as três categorias de pessoas. Se pularmos para uma época mais recente dentro do
campo evangélico conservador, fundamentalista, mesmo quando ainda não absorvido
pelo pentecostalismo, vamos ver que foi gerada uma nova categoria superior chamada
“o crente espiritual”. Esse seria aquele que teria dado o segundo passo de aceitação. Ele
já havia aceito Cristo como Salvador, mas em um segundo passo, em uma segunda
experiência, o aceita como Senhor. E essa aceitação do senhorio de Cristo faz com que
ele se dissocie do crente “carnal”. Os crentes “carnais” seriam aqueles que
permaneceriam no estágio inferior, primitivo de espiritualidade mantendo um
comportamento virtualmente similar ao descrente. Mais uma vez Satanás penetra na
Igreja trazendo o ensinamento da existência de três categorias de pessoas. Os
descrentes, os crentes carnais e os crentes espirituais.

O pentecostalismo abrigou e renovou esta tendência dentro da Igreja e deu-lhe novos


rótulos, mas de forma semelhante postulou também uma hierarquia dos salvos que é
estranha à Palavra de Deus. Ele trouxe à cena evangélica o inusitado, o extraordinário,
como sendo não apenas parte da realidade existencial histórica e religiosa da Igreja, mas
como sendo um objeto de anelo e desejo na vida individual de cada crente. Os
ensinamentos do pentecostalismo deixaram a expectativa de que sem estas experiências
algo estaria a faltar na vida do cristão. Era necessário atingir o patamar superior, obter
uma segunda bênção, elevar além do nível do crente comum. Gerou-se, assim, essa
hierarquia dos crentes: os batizados e os não batizados pelo Espírito Santo. Se
quisermos usar uma outra terminologia: os recebedores e os ainda carentes de uma
segunda bênção. De uma forma semelhante, a questão da cura divina, trazida também
pelo pentecostalismo como sendo algo a ser constantemente procurado, segue ao longo
destas linhas paralelas; coloca os crentes em uma escala hierárquica, qualificando o seu
cristianismo, fazendo uma divisão entre os que já atingiram o patamar de fé que é
suficiente para torná-los recebedores de curas milagrosas e aqueles cuja fé é insuficiente
ao recebimento dessas bênçãos; estariam reservadas aos mais aquinhoados
espiritualmente.

Quando nós examinamos a história da Igreja é fácil acharmos que essa tendência está
fora de nós, que ela está segregada a esses grupos que foram descritos. Mas nós,
calvinistas, precisamos de guardar -nos para não seguirmos essa trilha tão repisada na
história da Igreja. Não podemos nos considerar imunes ao desenvolvimento de uma
atitude que considera a nós , reformados, os iluminados, únicos entendedores das
verdades divinas que se encontraram veladas à grande parte dos crentes comuns, a não
ser que recebam a explicação lógica e incontestável de nossa parte.

Quero dar um exemplo pessoal, citando um amigo meu e não o acusando de orgulho
espiritual. Este exemplo é para nos advertir de como devemos nos guardar, porque às
vezes imperceptivelmente estamos nos colocando, como calvinistas, numa casta
especial de iluminados, cujo resultado será o desenvolvimento deste tão perigoso
orgulho espiritual do qual devemos fugir. Este amigo, após ter lido extensamente vários
trabalhos sobre justificação, de ter ouvido uma brilhante exposição dessa doutrina,
dentro da perspectiva bíblica reformada, me disse: “Estou impressionado, e cheguei à
conclusão de que ninguém sabe, na realidade, o que é a justificação. O nosso povo não
tem a mínima idéia do que significa ser justificado”. Estas palavras foram ditas, não
com orgulho, mas com humildade, com profunda admiração pelo trabalho de Cristo.
Mas o meu ponto é que esta compreensão doutrinária, até a apreciação das doutrinas da
graça, trás em si a semente latente e destruidora que pode germinar sem muito esforço
em orgulho espiritual. Minha resposta na ocasião foi: “As pessoas sabem, meu irmão, os
crentes sabem o que é justificação. Se uma pessoa foi realmente resgatada pelo precioso
sangue de Cristo, ela sabe experimentalmente o que é a justificação”. Eu não estou
colocando a experiência acima da revelação escriturística, mas estou fazendo uma
distinção entre saber o que é e saber realizar uma exposição lógica, sistemática e
detalhada de uma doutrina. Não podemos cair nunca no engano de que a ignorância
espiritual é algo que será arraigado pela visão que nós temos da soberania de Deus. Não
podemos nunca menosprezar a simplicidade do crente comum resgatado que foi por
Cristo Jesus, pelo Deus soberano (que todos nós amamos), predestinado desde a
fundação dos séculos, separado para a glória do Deus todo poderoso. Eles sabem o que
é justificação, mesmo que nunca tenham ouvido falar de Lutero, de Calvino; mesmo que
nunca possam dizer os cinco pontos do calvinismo; mesmo que não possam explicar o
que é justificação. O Deus poderoso que salva, Ele salva soberanamente, não depende
da perspicácia, da lógica, da inteligência daquele que é escolhido.

Nós temos de nos mirar no exemplo do cego curado por Jesus (Jo.9:12-25). Ele não
sabia muitas coisas; ele havia discernido autoridade nas palavras de Jesus e por isso fez
o que Ele mandou e o classificou como profeta. De fato este homem não sabia muitas
coisas, mas o chamou de profeta, reconhecendo a sua autoridade no v.17, mas não sabia
a razão de sua cura; não sabia nem a procedência ou o destino do Soberano que o
curara. Além do lodo com o qual havia sido untado ele não sabia explicar como fora
curado (v.11, 27), mas uma coisa, porém, ele sabia e isto era suficiente naquela ocasião:
“... uma coisa eu sei: Eu era cego, e agora vejo” (v.25). Por que podemos ter comunhão
genuína com irmãos não calvinistas? Porque se somos verdadeiramente salvos somos
filhos do mesmo Deus soberano; porque, apesar das incoerências verificadas nas
formulações teológicas dos nossos irmãos não calvinistas, por mais que eles digam que
a salvação foi fruto do livre arbítrio; por mais que em seus discursos venham a inferir
uma subordinação das ações de Deus ao pretenso livre arbítrio do homem, quando eles
se põem de joelhos e oram, oram ao Deus soberano que tudo pode, a um Deus que é
tudo e a Ele oram reconhecendo que nada são, porque são verdadeiramente salvos. Nós
temos de ter a hombridade de reconhecer que nós mesmos, como seres falíveis, somos
muitas vezes incoerentes com nossas premissas. Um exemplo disso é que nós sabemos a
importância do dia do Senhor, temos a convicção de que neste dia nós devemos nos
reunir e adorar a nosso Deus. A maioria de nós nunca pensaria em esquecer o nosso
culto dominical para nos envolvermos numa partida de futebol. Entretanto muitos de
nós torcemos bastante por este ou aquele clube de futebol. Secretamente nós apoiamos,
tanto o divertimento quanto o ganha pão naquele dia; ou pelo menos fechamos os olhos
e estabelecemos um duplo padrão de comportamento. Um para nós e para nossos filhos,
e outro desculpável para aqueles por quem torcemos. Chegamos até a inventar uma
categoria de cristãos, os “atletas de Cristo”, que sacramentaliza, cristianiza e justifica a
atividade no dia de domingo. Em outras palavras, peça nossa opinião e nós vamos
condenar o esporte no domingo. Observe a nossa prática, condescendência, torcida, e
verificará uma aceitação tácita dos esportes praticados no dia do Senhor. E que é isso? É
incoerência humana, para sermos bem gentis e Deus nos suporta. Por acaso será que
achamos que nós vamos encontrar total coerência entre o discurso e a prática dos
demais cristãos? Digo isso apenas para reforçar que é bastante provável que venhamos
encontrar a fé genuína reformada em pessoas, mesmo quando o discurso externo estiver
um pouco incoerente com aquilo que nós entendemos como sendo a nossa fé reformada.

Nunca devemos ser orgulhosos e menosprezadores daqueles que constituem a


verdadeira Igreja de Cristo pela qual Ele deu o seu sangue. O Pr. Ian Hamilton disse que
“a graça de Deus deveria adoçar nossas discordâncias”. Existe um grande perigo de
absolutizar a nossa forma de fazer as coisas. I Pedro 1: 22 nos fala do amor cristão que
aniquila o orgulho: “Tendo purificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade,
tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros
ardentemente”. O versículo nos fala de amor cristão que aniquila orgulho e a base está
no versículo seguinte: “... pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de
incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (v.23). esse
amor que vemos aqui é um amor que é questão de obediência, amor que tem de ser
sincero e intenso: “...amai-vos uns aos outros ardentemente” porque somos regenerados
pelo Deus vivo e por Sua Palavra viva! Temos de refletir a atitude do próprio Deus, no
versículo 17: “Ora, se invocais como Pai àquele que, sem acepção de pessoas, julga
segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa
peregrinação”. Nossa oração é que possamos ser livres do orgulho espiritual em nossas
vidas e que as nossas doutrinas não nos levem a ter este orgulho espiritual.
2.A Intolerância Fraternal.

Este pecado tem bastante relação com o anterior, mas o orgulho espiritual, talvez seja
mais uma atitude interna e este segundo pecado é uma amplitude da expressão externa
dele. Parece uma contradição de termos, mas significa isto: a falta de tolerância entre
irmãos. Há uma nuança que o faz diferir um pouco do orgulho espiritual ao qual acabei
de me referir.

Preciso fazer alguns esclarecimentos para não deixar o leitor confuso, pois o Pr. Héber,
no seu artigo sobre Pluralismo Religioso, martelou bastante sobre os perigos da
tolerância, e agora eu digo que intolerância é pecado. Mas não vou contradizer o Rev.
Heber, pois ele disse que nós devemos ser politicamente corretos quando a verdade não
está em jogo. Não estou inferindo a relativização das verdades. Quero fazer uma
distinção entre a tolerância externa, que não deve existir, pois devemos estar firmes na
verdade, e a tolerância na fé e, nesse sentido, gostaria de propor que tivéssemos dois
termos. Gostaria de chamar a intolerância externa de intransigência. Considerada e
verificada a aceitação de certas verdades comuns, nós devemos ser tolerantes no âmbito
destas verdades, mantendo simultaneamente intransigência; nesse sentido é que gostaria
de tratar e definir bem estes dois termos.

O que seria, então, intolerância?

Falta de amor no trato, falta de discernimento do que é importante, ou seja, nos


mantermos renitentes em cima de coisas pequenas fazendo delas coisas principais e
fazendo delas cavalo de batalha, atingindo uma situação de discórdia entre os irmãos.
Em Cl. 3. 12-16, lemos: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de
ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de
longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém
tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim
também perdoai vós ... Habite ricamente em vós a palavra de Cristo; instrui-vos (infere
que há necessidade de instrução) e aconselhai-vos (há necessidade de aconselhamento)
mutuamente em toda sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos
espirituais, com gratidão, em vosso coração”. Tolerância seria, então, o amor no trato, o
discernimento das coisas que devem ser alvo de instrução de aconselhamento, mas que
nunca chegarão a perturbar o terno afeto, a misericórdia, a bondade, a humildade, a
mansidão, a longanimidade que devem estar presentes em nossas vidas.

Para cristalizarmos mais o entendimento devo me deter mais na intransigência.


Intransigência seria zelo pela verdade, compreensão das verdades, exercício do zelo
pelas verdades que nos foram confiadas por Deus. Talvez tenhamos o melhor exemplo
disso no ensino que Paulo nos dá através do tratamento de uma situação histórica em
Gálatas 1:6-10. Intransigência seria o contrário de transigir, de ultrapassar os limites, de
quebrar regras recebidas. Intransigência deve ser a característica de cada calvinista, de
cada crente convicto das verdades bíblicas. Ele não pode abrir mão das doutrinas claras,
explanadas na Palavra de Deus, não pode ultrapassar os limites traçados por Deus. No
trecho de Gálatas 1:6-10, Paulo está falando de crentes não tão “quentes” assim, que
estão desenvolvendo um ministério paralelo ao seu. Eles vão de igreja em igreja,
pregando e ensinando coisas que são antagonistas, contrárias ao evangelho que Paulo
pregava. A reação de Paulo aqui é bastante diferente daquela que observamos na carta
aos Filipenses, no capítulo primeiro, quando ele confronta certa oposição até à pregação
do evangelho com falta de sinceridade, mas quando ele é extremamente tolerante ele
diz: “Que importa, contanto que Cristo seja pregado, nisso eu me regozijo”. Mas aqui,
em Gálatas, a visão dele é diferente. Nos 10 versículos iniciais do primeiro capítulo da
carta aos gálatas, vemos que nos primeiros 5 vrs. Paulo está fazendo sua apresentação,
está indicando sua autoridade apostólica, está demonstrando que esta sua autoridade
apostólica vem de Deus e não de homens. A carta foi primariamente dirigida à igreja da
Galácia, mas teve ampla circulação entre as demais igrejas. Paulo dá glória a Deus e
indica que Jesus Cristo se deu por nós para nos livrar das maldades desta era e passa a
tratar de um problema que estava surgindo naquela igreja: a aceitação de um evangelho
adulterado. No v.6, quando Paulo diz que : “Admira-me que estejais passando tão
depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho”, ele mostra
uma profunda perturbação interna; demonstra grande admiração de que os membros
daquela igreja estivessem mudando rapidamente de convicções. A afeição deles, sua
lealdade estava sendo colocada em outra doutrina porque eles estavam dando ouvidos a
“alguns” (v.7). Estes “alguns” perturbavam e queriam perverter o evangelho de Cristo;
pregavam um “outro” (eteros) evangelho. Há até uma distinção com a palavra usada
para “outro” no versículo seguinte que é halos. E aqui este “outro” é igual a “não outro”
do versículo seguinte; ou seja, Paulo está falando que é um “outro evangelho” porque
assim era pregado como tal. Eles diziam que era um “outro evangelho”, quando estes
judaizantes pretendiam adicionar algumas coisas palpáveis, visíveis, à simples pregação
do evangelho. Quem sabe, eles dissessem que era apenas uma simples questão de
método; talvez fosse mais atraente, desse mais substância, mais emoção ao evangelho.
Estas pessoas se apresentavam com autoridade e se propunham a declarar o método da
salvação. Paulo mantém esta designação de evangelho porque ele era apresentado como
tal. Mas, na realidade, diz ele, não é evangelho nenhum; é um sistema diferente, uma
mensagem diferente, uma doutrina diferente. No versículo 8 Paulo vai ao fundo do seu
extenso vocabulário grego para classificar estas pessoas e lança uma fortíssima
condenação. Independentemente de quem quer que seja, estas pessoas, ele próprio, ou
até um anjo do céu, se vier trazer um evangelho que “vá além” - note que não é
necessariamente diferente na aparência, mas com algumas coisas adicionadas, daquilo
que eles tinham previamente ouvido da parte dele - tal pessoa deveria ser considerada
anátema, isto é, amaldiçoada. Estas palavras contêm uma terrível responsabilidade a nós
que fomos comissionados a pregar e transmitir as verdades de Deus. E para que não
pairasse qualquer dúvida sobre seu zelo e sua posição, ele repete mais uma vez as
mesmas palavras no versículo 9. Paulo não quer ser mal-entendido, não quer deixar
passar em branco, não quer parecer precipitado. É um pensamento que o apóstolo está
expressando aqui, depurado, destilado, sob o fogo do zelo da intransigência santa, sob o
direcionamento sobrenatural do Espírito Santo.

Nós podemos, às vezes, até negligenciar o aviso contido, pensando que Paulo se referia
somente à sua situação específica, até porque nós não temos mais judaizantes no nosso
meio. Muitos de nós fazemos a aplicação correta das palavras de Paulo à pregação da
Igreja Católica com suas adições e condições anexadas à graça salvadora de Cristo. Mas
isto não basta, nós temos de estar constantemente analisando o que está acontecendo no
chamado campo evangélico e, tristemente, aqui, neste campo, nós iremos muitas vezes
encontrar a proclamação de outro evangelho.

O que Paulo está ensinando aqui? Ele poderia ter particularizado a questão e até
chamado os judaizantes pelos nomes, mas quis o Espírito Santo, em Sua soberania,
deixar a colocação de forma genérica, de tal forma, que o princípio fosse enfatizado:
não podemos mexer com o cerne do evangelho. E nesse sentido devemos ser
intransigentes. Porque no v.11 Paulo diz: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o
evangelho por mim anunciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o
aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo”. Esta é a razão de
Paulo para ter esta convicção: o evangelho não é doutrina de homens, mas revelação de
Cristo. Ele contraria a perspicácia, os desejos, as motivações carnais do homem, e nós
temos de ter a coragem de remar contra a maré e proclamarmos o puro evangelho de
Cristo, de sermos intransigentes nisso. Mas eu disse que, na epístola aos Filipenses,
Paulo mostrou-se tolerante com relação àqueles que pregavam Cristo até por motivos
errados, por quê? Não há nenhuma menção ali de que houvesse adultério no conteúdo
da mensagem. A tolerância nossa tem de ser uma atitude presente na nossa vida para
com aqueles irmãos com os quais nós temos algumas diferenças. A nossa intransigência
deve se manter àquelas coisas fundamentais que estão mexendo com cerne do
evangelho, mas a caridade cristã, o amor cristão deve estar presente nas nossas vidas e
deve ser derramado sobre todos aqueles que foram resgatados pelo sangue de Cristo.

Pode ser, até, surpresa para alguns, mas o puritano John Owen, escreveu vários sermões
sobre tolerância. Escreveu um sermão que é chamado: “A Prática do Governo na
Igreja”. No volume 8 das suas obras, publicados pela Banner of Truth, nós vamos
encontrar alguns trechos que cito:

“Algumas coisas, na realidade, estão tão claramente estabelecidas nas Escrituras e tão
bem determinadas, que não é possível questioná-las ou negá-las. Geralmente,
entretanto, erros ocorrem em coisas de difícil compreensão, que não são tão claras e
evidentes. Com relação a tais, é muito difícil classificá-las de heresias... A sensibilidade
de nossos próprios males, de nossas falhas, de nossas incompreensões, da nossa
escuridão, do nosso conhecimento parcial, deveria operar em nós uma opinião caridosa
para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro, assim estão com os corações
sinceros e retos com postura semelhante aos que estão com a verdade”.

Em outro local mais à frente ele fala em todo um sermão que tem exatamente esse
título: “Sobre Tolerância”. Ele se dirige não apenas ao magistrado civil, mas também
aos crentes e enfatiza essa necessidade da comunhão cristã e de estarmos olhando por
cima de certas e pequenas diferenças que nos separam e, em nenhum lugar, ele está
sendo transigente com o evangelho. Ele é intransigente com as verdades fundamentais,
mas não tem o pecado da intolerância em seu coração. Owen é extremamente tolerante,
especialmente quando consideramos a época em que ele viveu e em que a sua própria
situação de congregacional o colocava no “topo”; ele era o senhor das coisas naquela
situação. Mas ele foi extremamente tolerante e caridoso.

Nós não podemos nos esquecer do incidente relatado em Mateus 20:20-28, quando a
mãe de Tiago e João vem e faz uma súplica a Jesus para que seus filhos tivessem um
lugar de proeminência no Seu reino. Ela tinha uma visão muito estreita e
horizontalizada do reino que Jesus acabara de expor. Ela tinha um sentimento de
orgulho estranho às palavras que Jesus havia dado aos seus discípulos. É algo que, às
vezes, nos choca ver como eles usaram até de “lobby” para chegar a Jesus pedindo um
posicionamento político. Mas Jesus responde com estas palavras: “Vocês estão por
fora!”. Porém, o que nos impressiona mais é que os outros dez discípulos, ao
verificarem que aqueles dois estão querendo uma posição de proeminência, ao invés de
demonstrarem o caráter do verdadeiro cristão dizendo que eles têm qualificações, ficam
indignados e irados. Isto ocorreu quase no final do ministério de Jesus. O que Ele
pensou? É lógico que Ele sabia de todas as coisas, é o Senhor dos Senhores, mas se nós
estivéssemos naquela situação o que teríamos feito? Talvez tivéssemos nos desesperado
e sido intolerantes e disséssemos: “Há três anos que estou falando e ensinando, mas
agora este tipo de atitude orgulhosa na minha frente, que provoca uma briga!” Mas, o
que Cristo faz? Registra o texto que ele chamou a todos e com toda paciência, tolerância
e com toda longanimidade passou a ensinar mais uma vez tudo que Ele já havia
ensinado. Temos de ser tolerantes, amorosos, longânimos; temos de ser intransigentes
nas matérias centrais da nossa fé, mas tolerantes, pedindo e rogando a Deus que Ele nos
livre do pecado da intolerância.

3. Acomodação no aprendizado.

Este é um pecado comum, especialmente nos mais jovens, aqueles que foram expostos e
convencidos da realidade das doutrinas da graça. Com muita freqüência, após
devorarem alguns livros e aprenderem a discutir e formular alguns pontos, estacionam
por aí, achando que já sabem tudo que é necessário saber e acham que já podem se
envolver em qualquer polêmica, mesmo as mais difíceis. Acham que já podem
prosseguir defendendo a fé reformada porque já aprenderam, já dominaram e
desvendaram todos os segredos que podem ser desvendados na Palavra de Deus. Em
1911, B.B. Warfield (o último dos grandes teólogos conservadores que defenderam a
ortodoxia calvinista no Seminário de Princeton - nota do editor), foi comissionado a
proferir uma palestra no Seminário de Princeton, sobre o tema: A Vida Espiritual do
Estudante de Teologia. Para surpresa de alguns, ao invés de falar consideravelmente
sobre a hora devocional e meditação, Warfield começa a sua palestra dizendo e
martelando pesado na necessidade do estudo. Ele disse: “Antes de ser erudito o ministro
deve ser devotado a Deus, porém, o mais grave erro é colocar estas coisas em
contradição, uma com as outras...existe alguma coisa fundamentalmente errada na vida
do estudante de teologia que não estuda”. Ele se referia ao sentido espiritual da vida do
estudante. Não devemos nos deixar prender pelo pecado da acomodação do
aprendizado. Provérbios 18.2 diz: “O insensato não tem prazer no entendimento, senão
em externar o seu interior”. Se estivermos com grande vontade de externar o nosso
interior vamos parar um pouco, pois muitas vezes estamos precisando de aprendizado e
entendimento. Ainda em Pv.19.27 lemos: “Filho meu, se deixas de ouvir a instrução,
desviar-te-ás das palavras do conhecimento”. O escritor pressupõe que o conhecimento
foi apreendido e existe, mas se deixamos de ouvir a instrução continuadamente o alerta
está aqui colocado porque o desvio vem e vem repentinamente, sorrateiramente. Em II
Pedro 1.3-11, vemos um trecho que é importante para calvinistas. Nós, calvinistas
temos de procurar com diligência o conhecimento e não esperar que Deus, na Sua
soberana providência, automaticamente nos conceda este conhecimento do qual
necessitamos, mas com diligência procuramos as coisas que direcionam as nossas vidas
a Deus e que, assim fazendo, estejamos aumentando e não sejamos inativos nem
infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Deus nos livre deste
pecado da falta e acomodação no aprendizado.

4. Falta de ação.

Este pecado tem muita relação com o pecado anterior. Muitas vezes seguimos,
adquirindo conhecimento e profundidade na nossa fé, mas ficamos inativos e não temos
colocado estas coisas em prática; não temos a ação que deveríamos ter. Esse pecado
representa uma grave distorção da doutrina da soberania de Deus. É o pecado que leva
os calvinistas a cruzarem os braços, achando que Deus vai agir de qualquer forma. É o
pecado que nos faz usar a predestinação como desculpa; o pecado que representa e
retrata, na realidade, uma falha de compreensão do que é a responsabilidade humana.
Temos que nos mirar no exemplo de Paulo. Ele foi um magistral expositor das doutrinas
da graça; foi escolhido para isso pelo Espírito Santo de Deus, mas mesmo assim vemos
Paulo trabalhando, lutando, sofrendo, escrevendo cartas, chegando a perder o sono no
sentido de executar o serviço de Deus.

Vem-me à mente uma ilustração. Um puritano na Nova Inglaterra habitava numa


cabana, no meio da floresta, distante das plantações que ele cuidava. Certo dia teve de
sair de sua cabana para ir ao vilarejo, atravessando aquela floresta infestada de ursos
ferozes que atacavam animais e pessoas. Este puritano coloca sua melhor roupa preta e
começa a se preparar para a jornada. Ao chegar perto da porta de saída ele toma a sua
espingarda e neste momento sua esposa diz: “O que você está fazendo? Para que esta
espingarda?” Ele responde: “A floresta está infestada de ursos e preciso me defender se
aparecer algum urso na minha frente”. Sua esposa disse: “Não entendo, pois se você
estiver predestinado para ser devorado por um urso, será devorado por ele; mas se
estiver predestinado a chegar no vilarejo em segurança, assim chegará; deixe esta arma
aí!”. O puritano voltou-se com toda loganimidade que lhe era habitual e disse: “Mulher,
e se eu encontrar um urso que esteja predestinado a levar um tiro da minha espingarda e
ela tiver sido deixada em casa?”. Podemos rir com isso, mas muitas vezes nós estamos
com este tipo de atitude em nossas vidas. Nós passamos a descansar indevidamente na
soberania de Deus, quando Ele está colocando as coisas à nossa frente e requer de nós a
ação. Vivemos sob a égide da vontade decretória de Deus, mas no conhecimento e ação
da Sua vontade prescrita. Aqui está tudo que precisamos saber para agirmos da forma
como Ele quer.

Talvez o melhor exemplo disso seja a atitude de Paulo em Atos 27:22-44. Lemos sobre
a viagem que Paulo fazia de navio e o naufrágio que sofreu no caminho para Roma.
Paulo diz que nenhuma vida vai se perder (v.22) porque “o anjo de Deus” lhe dissera
isso. Paulo tinha um conhecimento específico. Por revelação, aqui, no auge da época
apostólica, ele recebe uma revelação dizendo que ninguém vai se perder e que todos
aqueles que estão naquele navio serão preservados. Deus tem outros propósitos e Paulo
recebe uma determinação clara, segura e transmite firmeza com suas palavras. Todos no
navio estavam temerosos. Paulo afirma que ninguém morrerá porque Deus lhe dissera
pelo anjo, mas não fica de braços cruzados dormindo, pelo contrário, está ativo
dialogando e persuadindo o centurião de que era necessário que aqueles que estavam
tentando salvar-se, por si mesmos, voltassem ao navio. Paulo manda que todos se
alimentem para ficarem fortes, apesar de saber que Deus poderia salvar a todos, mesmo
em jejum, mas ele estava ali se desincumbindo de suas responsabilidades que foram
colocadas à sua frente por Deus, andando passo a passo, sob a vontade prescritiva do
Senhor. Depois que todas as 270 pessoas que estavam a bordo se alimentaram, passaram
a fazer o que estava à frente para ser feito: aliviaram o navio, lançando o trigo ao mar.
“E foi assim que todos se salvaram em terra” (v.44). Que o pecado da falta de ação
nunca esteja presente em nossas vidas, mas que, como Paulo, nós estejamos andando
passo a passo debaixo da vontade prescritiva de Deus, revelada nas Sagradas Escrituras
e que, como calvinistas sejamos tão confiantes na soberania de Deus como também
engajados nas Suas verdade, na Sua obra, na Sua Palavra.
5. Isolamento.

Este é, também, um pecado que está sempre a nos rondar. O calvinista verdadeiro não é
aquele que vive no passado, mas é aquele que procura aplicar as doutrinas bíblicas
reveladas à sua situação, no seu contexto. O apreço que o calvinista verdadeiro tem pela
história, ele não procede de um interesse meramente arqueológico. Martin Lloyd-Jones
nos alerta para um perigo que existe dentro dos interesses pelo acontecimentos que
marcam a Reforma e nossa herança puritana. No livro “Discernindo Os Tempos”, no
capítulo “Rememorando A Reforma” (PES), o Dr. M. Lloyd-Jones nos confronta com a
forma errada e a forma certa de relembrar o passado do ponto de vista religioso. A
forma errada seria estudar o passado por motivos meramente históricos. Este tipo de
estudo é aquele que é semelhante a abordagem que um antiquário dedica a um objeto.
Por exemplo. Um antiquário examina uma cadeira e não está interessado em saber se a
cadeira é confortável, se é boa para se sentar, se suporta o peso da pessoa, se cumpre
adequadamente a sua função de cadeira ou até como deve ser usada. A preocupação do
antiquário é basicamente: qual a idade desta cadeira, qual seu estado de conservação e
principalmente a quem pertenceu. Isto vai determinar o valor do objeto para ele e
consequentemente o seu apreço pela cadeira é motivado por esta visão. O estudo errado
da história é, muitas vezes, motivado por esta visão. Em Mateus 23:29-35, nós temos
um exemplo desta bordagem errada do passado. Neste trecho Jesus diz que aquelas
pessoas pagavam tributo à memória dos profetas e aos líderes religiosos do passado;
eles prezavam tanto a história que chegavam a ornamentar os sepulcros dos profetas e
proclamavam a todos que os profetas eram bons homens, nobres, e atacavam até aqueles
que rejeitavam os profetas. Diziam: Se nós estivéssemos lá, se vivêssemos naquela
época, não teríamos feito isso (mortos os profetas). Mas Jesus não se impressiona com
isso e os chama de hipócritas. A argumentação de Jesus é a seguinte: Se vocês se dizem
admiradores dos profetas, como estão contra aqueles que representam os profetas e
proclamam a mesma mensagem que eles estão proclamando nos dias de hoje? Jesus
testa a sinceridade deles, pondo à descoberto a atitude no presente para com aqueles que
pregam a mensagem de Deus e mostra-lhes que eles mesmos seriam perseguidores e
assassinos dos proclamadores da mensagem dos profetas. Se eles prezavam tanto a
mensagem daqueles do passado, como é que eles estavam se isolando numa casta
impenetrável e falhando em aplicar aquela mensagem aos dias de hoje? Este também é o
nosso teste! Uma coisa também é olhar para trás e louvar homens famosos, mas isso
pode ser pura hipocrisia se nós não aceitamos, no presente, aqueles que pregam a
mensagem de Lutero e de Calvino e dos puritanos. Mas também somos antiquários se
não estivermos entendendo o que esses servos de Deus procuraram fazer, que foi aplicar
a mensagem ao seu tempo. Somos mesmo admiradores da Reforma e dos puritanos?
Dos grandes profetas de Deus? Se não aplicamos na vida prática as doutrinas
reformadas, o nosso interesse é apenas o de antiquários. Estamos encorajando o pecado
do isolamento com esta visão?

A Palavra de Deus nos dá também uma forma certa de relembrar o passado (Lloyd-
Jones nos orienta). Isto é deduzido não apenas por exclusão do que vemos no texto
anterior, mas um trecho da Palavra de Deus nos diz o seguinte: “Lembrai-vos dos
vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o
fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será
para sempre” (Hb.13:7-8). As doutrinas são de Cristo, Cristo é o mesmo ontem, hoje e
eternamente. Mas vamos olhar atentamente a fé daqueles que nos precederam e o êxito
da sua carreira, como eles aplicaram essas doutrinas em seus dias para que possamos,
igualmente, aplicar estas mesmas doutrinas nos nossos dias.

A maneira correta de relembrar a Reforma e os puritanos é verificando como foi a


mensagem pregada, como a Palavra foi proclamada. Não apenas com um interesse
histórico de antiquário, mas para que nós possamos imitar aquela fé demonstrada.
Devemos observar aqueles eventos daqueles homens para que possamos aprender deles
e seguir seus exemplos, discernindo a sua mensagem e aplicando-a aos nossos dias.

Não podemos viver num mundo isolado, num mundo do passado, não podemos
demonstrar falta de aproximação, muitas vezes, com a nossa igreja à qual pertencemos,
com nossos irmãos, com nosso povo, com nossa realidade. Em Hebreus 1:1-4, lemos
que Deus fala de forma diferente a tempos diferentes. O cerne da mensagem não muda.
Nos nossos dias a revelação escriturísticas está completa; nós não estamos defendendo a
existência de novas revelações, mas reconhecemos , que Deus sempre demonstrou
querer falar com o homem em Seus termos; Deus torna relevante a Sua mensagem para
cada época. Na Palavra de Deus, todos aqueles antropomorfismos que temos significam
que Deus condescende em chegar ao homem até na sua linguagem. Paulo diz que em
Roma ele fez-se como os romanos. A linguagem das Escrituras, no N.T., era o grego
comum falado pelo povo e diferia tanto do grego clássico, da literatura, que durante
muitos anos, estudiosos da Bíblia postulavam que era um tipo de grego sagrado. Até
que descobriram que era o grego falado entre as pessoas normais e entre as transações
que se faziam. Se Deus chega até o homem nas suas limitações e circunstâncias,
objetivando a melhor comunicação, por que devemos pensar que devemos fazer os
crentes chegar até estilos e formas que não são mais nossos? Por que prejudicarmos a
eficácia da nossa comunicação? Por que cristianizarmos estilo e formas que não fluem
da Bíblia, mas pertencem a uma época? Por que nos tornarmos antiquários em vez de
usuários e aplicadores práticos das verdades de Deus? Deus tem a palavra certa, na
certeza da Sua Palavra, para a ocasião certa, na hora certa.

Deus nos livre do pecado do orgulho espiritual, do pecado da intolerância fraternal, da


acomodação no aprendizado, da falta de ação, do pecado do isolamento. Que sejamos
conhecidos, tanto por nossa doutrina firme, sadia, segura, intransigente, quanto por
nosso amor fraternal, por nossa gentileza, por nossa dedicação no estudo, por nossa
aplicação veraz das sãs doutrinas ao nosso tempo.

É tão fácil nós aplicarmos tudo isso aos nossos vizinhos, às pessoas que estão sentadas
ao nosso lado; é tão fácil nos lembrarmos de algumas pessoas. A minha oração é que
possamos, realmente, com sinceridade de coração, buscar a presença de Deus e verificar
se não estamos sendo alvo das ciladas de satanás e caindo nestes cinco ou mais pecados.
Amém.