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chamada do suplemento

Diálogo com a periferia:

Dois dedos de prosa Este é mais um trabalho em parceria com Railson Teixeira que se relaciona à chamada periferia de Maceió, desta feita trabalhando a poesia de Felipe Boka e de

fulano de tal

, ambos estudantes da Universidade Federal de Alagoas.

Você vai ler o que disseram sobre a vida, como expressam o cotidiano em suas poesias e, também, uma pequena introdução procurando situar o rap na sociedade alagoana. Foi um prazer trabalhar novamente com Railton. Um abraço. Sávio

Periferia e música em Maceió: (I) Luiz Sávio de Almeida e Railson Texeira

A natureza da urbanização

O perfil atual da distribuição populacional em Maceió começa a ser esboçado no modo de urbanização aparentemente “caótico” e de inchaço , que aconteceu a partir da década de 60, pela saída de pessoas do meio rural e de pequenas cidades do interior para a capital do Estado. Isto foi resultado de desacertos estruturais de nossa economia, que persistia no processamento do agrarismo de matriz colonial, pela forma que se estabeleceu e desenvolveu o mando político e a dominação correspondente, fundado na relação direta entre poder e propriedade de terra.

Ao falarmos de aparentemente caótico e de inchaço fica claro que consideramos o caos da cidade como aparência; a desordem visível é a ordem historicamente montada para manter privilégios econômicos e políticos. Neste sentido, estamos pensando na instância que propõe e executa uma diferença essencial entre os interesses da coletividade e os de uma elite, que, no seu conjunto e salvo raros setores, representa a tentativa permanente de anular a existência da res publica, pela redução do público ao privado, mediante táticas de corrupção em diversos campos e de diversas formas de atuação, tanto na vida de seus negócios quanto na vida pública de seus cargos. O caos interessa, sobretudo, a quem rouba, desvia, frauda, induz a má condução do urbano a todo momento.

Rotas de acumulação e desigualdades

Historicamente, as rotas de acumulação traçadas sobre o território onde Maceió assenta-se, sublinharam as desigualdades; para que se deixe evidente o modo como se reforça ou se diminui os pesos da riqueza em áreas da Capital, tome-se, como exemplo, o deslocamento da demonstração de poder do Comércio para a orla,

processo que ainda exige estudo a aprofundar o conhecimento sobre o que acontece com a economia política da cidade.

O efeito orla reaponta o nicho do poder, refazendo, por exemplo, o Comércio

que foi se tornando em lugar de permanência e trânsito da pobreza e da pequena

classe média, de comerciários, bancários, funcionários de escritório

de poder e riqueza que existia, quando era ainda possível nominar as grandes lojas locais, como A Brasileira e outras tantas que foram desaparecendo, pontos que eram tradicionais como A Helvética, A Tira-Teima. De repente, locais que não existiam de fato como pontos de status, emergiram em vazios que a orla foi significando, enquanto a Maceió de fora foi sendo estabelecida, dando força mormente à indústria da construção civil e aos negócios imobiliários que assumiram os ventos de fora na mesma forma que se estruturava a indústria do turismo. A bem dizer, são concomitantes a indústria do turismo e a da construção civil que trouxe em seu bojo, o grande setor de serviço que são as imobiliárias.

Perdeu a aura

Nós estamos diante de condição similar à existente no rural ou no agrário. A relação poder e propriedade mantém-se no urbano. A extensão e localização das terras rurais passam a ser substituídas pela qualificação nas áreas urbanas. É assim, que o movimento espacial do capital urbano vai fundando a correspondente distribuição geográfica da riqueza no território de Maceió. Ele funda, refaz ou desmancha a distribuição territorial das manchas de riqueza.

A cidade de Maceió, no seu matizamento atual, é fruto de uma dinâmica que advêm do início da quebra de um processo de condução da economia em que se dava a persistência da tradição e da rotina no meio rural. A sacralizaçao do rural vai sendo corrompida pela montagem do mundano citadino, devendo ser vista a queda da expressão do têxtil que desmancha o algodão e, também, os entraves do açúcar cujo grande caminho atual é o desmanchar-se, refazer o que resta de capital se ainda o mantém ou se é um virtual de propriedade inteligentemente trabalhado como se fosse real. Seria interessante, pelo menos do ponto de vista acadêmico, o estudo do endividamento do setor, tentando responder sobre o que realmente pertence a quem. Trabalho que sem dúvida estaria nas linhas da excelência das teses de doutorado, esperando sempre, que elas continuem a pensar no povo brasileiro que as financiou.

A chegada em Maceió

O econômico viveria crises (está no plural de propósito) que resultariam na expulsão da população que antes destinava-se ao sul do Brasil e, nesta oportunidade, passa a radicar-se, em boa parte, em Maceió na busca de renda e sustentação de vida. Isto muda substancialmente a forma de encaminhar-se a transferência da população; ela, agora, encontrava, internamente, um ponto significativo de destino que foge da seca, do açúcar, das casas derrubadas. Antes o migratório tinha a evidência no sul, simbolizado no pau de arara, no romantismo do pé de serra. Agora, o caminho vai pondo termos intermediários e a Maceió vai atrair, como se fosse possível contrapor a vida imprensada na taipa aos sucessos da cidade, sinônimo de esperada dinâmica na geração de emprego e renda.

A busca da sustentação

Nisto, um outro elemento deve aportar a este ensaio. Os ingressos monetários são fundamentais, devendo ser levado em consideração que a vida só é possível, no sistema capitalista, mediante a compra de mercadoria. Era necessário encontrar forma de aumentar a viabilidade da venda da força de trabalho, que poderia resultar em salários diretos e indiretos ou, então, na atividade de pequenos serviços que ainda eram chamados de biscates. A busca pela moeda era a principal motivação de vir-se de longe procurando pela cidade. O trabalhador tinha de comprar a vida e vendia, para tanto, o que dispunha como mercadoria: a força de trabalho. Eles precisavam encontrar chão de casa na cidade, expressão riquíssima a indicar uma etnografia da relação entre possibilidade e desejo. O pobre, portanto, não enxerga a casa, enxerga o chão onde poderia tê-la se um dia a conseguisse.

Ao chegarem à cidade, as pessoas tiveram de ir procurando onde ficar e descobrir meios de construírem suas casas. Isto demandava o encontro de locais com terrenos de baixo valor ou ocupáveis, mediante legitima expropriação. Houve época, em que as pessoas chegaram a migrar, internamente, de área pobre para área mais pobre, sinal de que se poderia afundar mais ainda, no modo da acumulação urbana de Maceió. As rotas abertas, inclusive, fabricavam áreas para esta pobreza estar, nesta geopolítica que se praticava, incrementando a diversidade de cidades em uma só.

Nestas rotas urbanas de acumulação, pouco ou nada resultou o trato da economia urbana gerar emprego e renda, o que ajudou a retardar incisivamente, a expressão da distribuição de benefícios para a população, confirmando-se esta Maceió “desajustada” que temos e de difícil reorganização, pois teria de superar a força histórica da lógica de acumulação, gerada por interesses econômicos e não pela confirmação dos níveis de vida da população, como até poderia ser num tipo de capital que buscasse essencialmente o mercado e não fosse toldado seu desenvolvimento, especialmente, pelo não deslocamento do modo tradicional da dominação política. Este mesmo capital que acumulava desta forma, trocava a alavancagem de sua dinâmica de crescimento pelo manejo de fatores tradicionais de mando e não buscava a abertura do que era fundamental para ele: mercado.

A geopolítica e pobreza

Deve ser notado, que a cidade foi dividida em, pelo menos, três regiões de pobreza, duas delas situadas a norte, uma correspondendo às grotas, em face das elevações, e outra correspondendo à pobreza que vai localizar-se em tabuleiro, boa parte engessada em conjuntos habitacionais desleixados pelo poder. A terceira corresponde ao território mais antigo de Maceió, estabelecido antes da cidade ter subido para os lados do Jacutinga, estendendo-se no grande entorno da Lagoa, onde se tinha os extremos do Trapiche da Barra e do Bebedouro, apesar de alguns faustos que levaram ao “quê de férias” desta última região para alguns ditos abastados.

Era uma espécie de cinturão pobre que se formou entre esses dois pontos passando pela Levada, uma das grandes áreas de problema do assentamento da

cidade, como seu próprio nome revela. Haverá pobreza, também para os lados do Poço e de Jaraguá, mas o grosso, na área baixa, estaria correspondendo à orla

lacustre.

.

Esta urbanização “caótica” e de inchaço provoca o aparecimento de novas áreas pobres e consolida as antigas. De tal forma este processo é conduzido, que hoje se tem gerações de pobreza assentadas em regiões da cidade, um denso “cortiço” com manchas de riquezas devidamente protegidas pelo poder, ao encontrar a grande fórmula dos condomínios verticais e horizontais, com muros que parecem sugerir pluralidade de feudos ao longo do território, com fossos e mais fossos resguardando a riqueza desta pobreza que incomoda, mormente, quando, a ela, é imputada a razão da

violência.

Por onde Maceió foi pensada

Maceió foi pensada na direção Leste/Oeste, basicamente na articulação de

Bebedouro e Jaraguá, estrada e porto. Maceió não possui apenas ruas; possui, também, ruas-estradas como Rua do Comercio, a que vai da Cambona para

Bebedouro, a Avenida Gustavo Paiva

aberto com clareza o eixo que teria a Rua do Livramento como ponto base e dirigindo- se ao Trapiche, cuja área leste correspondia, em parte, à densas dunas danificadas pela construção do porto. Muito depois é que vem o eixo do Jacutinga e, a partir dele, onde era possível

ser pobre, os pobres foram ficando, abrindo-se o norte como a grande faixa do lucro na fabricação de novos locais, igualmente pobres, dos quais, as grotas ao invés de serem centro de marginais são centros de resistência da pobreza urbana. O que se tem nas grotas é a poderosa força de resistência dos pobres, tanto à ineficácia do estado quanto ao peso cotidiano do tráfico.

Somente na década de 50 do século XIX é

A transfiguração urbana

O sentido da palavra grota mudou. Perdeu-se o angélico do Boca da Grota,

onde estava o bucólico do pobre, para ter-se a imputação infernal de culpas lançadas,

aqui e ali, sobre os empobrecidos que pouco têm o que comer, pouco que estudar, pouco o que ter de saúde, configurando um tipo de sociedade essencialmente diferente, por exemplo, da orla. É a diferença de uma sociedade da carência, ou daquilo que falta, para uma sociedade da abundancia ou daquilo que sobra.

A orla é a Maceió rasa, distante dos padrões da formação histórica, ruptura e

resultado de uma apropriação da paisagem e do ambiente pelo capital, ao se transformar em uma produtora de renda que de fato não está associada integralmente à cidade, embora na cidade. As praias de Maceió demonstram a diferença do raso,

onde as pessoas do profundo vendem raspadinha, água de coco e o mais que der o

trocado do dia, ao contrário da Maceió rasa imponente nos seus edifícios, cometendo também seus próprios, crimes como se pode ver em operações da Polícia Federal. A Polícia Federal vez em quando mexe neste universo e parece que vai se especializando nos grandes crimes contra o patrimônio nacional: é Operação Lava

Jato, Pneu Murcho, Asssopra de Leve

trabalha, tenta fazer seu serviço. Ora, ela, a polícia, não é irresponsável para sair prendendo gente, visitando casas de vestais, pelo simples prazer de andar de preto e desejar carnavalizar o delito. Ela sabe o que faz e sabe direitinho; recorrendo à velha lógica formal, fumaça é sinal de fogo. E se tem comprovado que, ao se mexer em um monturo, logo se chega a outro.

Vamos pensar que neste universo de sinais, uma instituição poderia estar envolvida com cerca de, vamos dizer, vinte milhões de reais; com isto, estaremos diante de uma soma que os ladrões pé de chinelo de Maceió levariam anos e anos para juntarem. Supondo que estes milhões equivaleriam a um milhão de celulares roubados e que fossem praticados 50 assaltos dia, se as contas estiverem certas, equivalem a meio século de pé de chinelo ameaçando a pessoa humana, mas os 20 milhões são igualmente trágicos. Não estamos argumentando que se pode trocar um pelo outro: ambos são socialmente trágicos e equivalentes.

Uma infinidade delas, revelando que

O que seria a periferia

Esta Maceió rasa é a Maceió de fora, constituindo uma cidade cujos limites se estendem nas pressuposições do turismo a norte e sul, esbarrando a leste com o mar e a oeste com a Maceió pobre. Onde der a venda do ambiente, onde puder se agregar desejos, a Maceió rasa se estende. A Maceió profunda é a Maceió de dentro, apertada, enlatada, sem a fantástica possibilidade de expansão que a de fora mantém. É exatamente nesta Maceió de dentro, ou Maceió profunda, que se encontra a periferia. É preciso discutir o que vamos chamar de periferia, termo novo associado ao nosso urbano e utilizado quando vem a noção perfeita de que se está na Maceió profunda. Desta forma, a noção de periferia associada à de profundo é política e gerada quando, de dentro, é fortalecida a ideia do partilhamentopelo que é raso e pelo que é de fora, mas de uma posição dominada. Como se pode notar não estamos dizendo que o fora e o dentro sejam isolados; pelo contrário mantém relações e são elas que fortalecem o conjunto de partilhamentode situações e circunstâncias que formam a periferia.

Ao longo da história esta periferia foi criando as suas próprias formas de expressão, transformando em algo seu, até mesmo o que vem de fora e que, assim que penetra e funda raízes, passa a ser, inexoravelmente, de dentro. Por outro lado esta periferia monta e vive uma intensa ordem cultural geralmente invisível para Maceió de fora, salvo quando deseja acumular. Aí, o que era do povo vira espetáculo mal remunerado como aconteceu com o boi, que era de rua e terminou concurso de prefeitura. O perigoso tornou-se fantástico. É como aconteceu com o côco, que, erroneamente é pensado somente como rural. Hoje virou concurso. As quadrilhas saíram dos salões tradicionais de Maceió foram para os bairros: viraram concursos,

demonstrando que a Maceió rasa nada produz de efeito “popular” e, por isso, tem que se nutrir do que o povo produz.

Nada contra a modernização das formas. Isso demonstra que existe uma circularidade na relação das formas culturais, mas até hoje nunca se conseguiu reduzir o hip-hop e o reggae. Onde está o concurso público do hip-hop, forma de má remuneração? Onde está o concurso público do reggae? A tentação é dizer que eles não se reduzem pelo fato de que a marca negra que têm é inconfundível nesta circularidade, independente de ser produzido pela cor do artista: é negro, por que é pobre e conseguiu no meio pobre seu próprio mercado de consumo. Não são consumidos sequer por concursos na orla que é o raso. E para certos grupos o rap e o reggae não pretendem esta relação. Com eles, há, sem dúvida, algo diferenciado a demandar estudo .

Voltamos a afirmar que nada temos contra as manifestações do boi, da quadrilha, do côco, nem mesmo contra as relações delas com o Estado, e, diretamente com o próprio capital. Apenas desejamos dizer que na ordem das

relações internas da periferia, eles cumprem um papel diferenciado do que está posto

no rap, que vive também seus problemas de relação urbana e de identidade,

discussão sobre o que apresentar e representar, havendo correntes, formas de expressão de estética e conteúdo. No caso os dois artistas que estamos apresentando

são

de tendências diferentes. Um deles é gangstar, o Felipe Boka. O outro é xxxx que

MC

Tribo. O que falam sobre a vida e sobre o mundo, o leitor de Campus irá conhecer

agora.

São de áreas pobres e expressam, cada qual, de sua forma e maneira, como artistas, esta pobreza. E neste sentido, guardam legitimidade e, também, carregam seus próprios conflitos. A poesia fala da vida e da circunstância onde se desenvolve o cotidiano, a forma como os fatos são apresentados e são julgados por eles. Necessariamente, nós estamos diante da relação entre o poeta e sua sociedade e a fala resultante pode ser considerada como vinda de um grupo específico, de dentro de um grande conjunto territorial chamado de periferia, diversificado, heterogêneo e rico nas explicações de suas próprias diferenças. A periferia é uma pluralidade de falas, como qualquer situação cultural; pode até mesmo termos vozes da periferia que diferenciem desta, mas esta existe, é importante, insinua e documentaremos em Campus. Trata-se de um discurso sobre uma situação concreta, sobre a percepção de um cotidiano e tudo está nesta Alagoas que Campus documenta e sobre a qual pretende a formação de um grande painel. Estamos diante de situações que, sem dúvida, devem academicamente ser consideradas. E no caso, ouvindo outros setores do próprio movimento, ver como se espelham na poesia produzida, a avaliação feita sobre a vida.

O que pensam e o que falariam sobre a vida da periferia, grupos evangélicos que buscam expressão junto ao hip-hop? Grupos mais à esquerda? Grupos mais à direita, nesta espécie de catersianismo que se usa para plotar posições políticas? Os textos que apresentamos são, sem dúvida, ricos de observações sobre o Estado e sobre a sociedade, mas nem todas as observações que podem ser feitas, obrigatoriamente, seriam estas. Esta multiplicidade, ao invés de diminuir a importância do que apresentamos hoje, amplia no

sentido de que se descortina, para Campus, a oportunidade de dar espaço a quem normalmente não tem e deixar melhor documentado para os pesquisadores do futuro, o que se passa nesta circunstância que é o ser periférico e os modos como o periférico se percebe em relações que sempre implicam em poder.

Estamos procurando novas entrevistas e agora com os evangélicos, em busca, possivelmente, de um rigor profético sobre a vida e a morte numa cidade entendida como se fosse Sodoma e Gamorra modernas. Como estariam vendo, por exemplo, o cotidiano e o tráfico? Deixariam se ser rap por serem evangélicos?