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Obras Fluviais/2001

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


ESCOLA POLITÉCNICA
DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA HIDRÁULICA E SANITÁRIA

Estabilização e
Proteção de Margens

PHD 5023 – Obras Hidráulicas


Prof. Dr. Giorgio Brighetti
José Rodolfo Scarati Martins

Abril/2001

Estabilização e Proteção de Margens 1


Obras Fluviais/2001

SUMARIO

1 INTRODUÇÃO 3

2 ESTABILIDADE DOS CANAIS SOB A AÇÃO DO ESCOAMENTO 6

2.1.1 CAUSAS DA INSTABILIDADE DAS MARGENS 6


2.1.2 AÇÃO DAS CORRENTES 8
2.1.3 VELOCIDADE MÉDIA MÁXIMA ADMISSÍVEL 8
2.1.4 TENSÃO DE ARRASTE 10
2.1.5 PROTEÇÃO CONTRA EROSÃO 15
2.2 AÇÃO DE ONDAS 17
2.2.1 ONDAS DE VENTO 17
2.2.2 ONDAS DEVIDO À PASSAGEM DE EMBARCAÇÕES 21
2.2.3 DIMENSIONAMENTO DE PROTEÇÕES CONTRA A AÇÃO DE ONDAS 23

3 PROTEÇÕES CONTÍNUAS 27

3.1 REVESTIMENTOS FLEXÍVEIS 27


3.1.1 PROTEÇÃO COM ENROCAMENTO 27
3.1.2 PROTEÇÃO COM COLCHÕES 34
3.1.3 ENROCAMENTOS SINTÉTICOS 49
3.1.4 GABIÕES CAIXA 52
3.2 PROTEÇÕES RÍGIDAS 56
3.2.1 PAINÉIS DE CONCRETO ARMADO 56
3.2.2 CORTINAS ATIRANTADAS 57
3.2.3 MUROS DE GRAVIDADE 57
3.2.4 PLACAS PRÉ-MOLDADAS DE CONCRETO 57

4 PROTEÇÕES DESCONTÍNUAS 59

4.1 CARACTERÍSTICAS GERAIS 59


4.2 ESPIGÕES 59
4.2.1 CLASSIFICAÇÃO DOS ESPIGÕES E EXEMPLOS 60
4.2.2 DIMENSIONAMENTO DOS ESPIGÕES DE PROTEÇÃO 64
4.2.3 MATERIAIS EMPREGADOS NA CONSTRUÇÃO DOS ESPIGÕES E EXEMPLOS 69
4.3 DIQUES 75
4.3.1 CERCAS DE MADEIRA 75

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 77

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1 Introdução
O propósito fundamental da estabilização e proteção de margens, sob o ponto de vista
hidráulico, é manter a seção do curso d’água estável e dentro dos limites
estabelecidos para sua utilização, seja como via de navegação, componente de um
sistema de drenagem, aproveitamento hidrelétrico ou abastecimento de água.

Objetivos Principais Exemplos Específicos


evitar a erosão das margens com perda de proteção de portos, ancoradouros e acesso à
material e dados aos terrenos adjacentes eclusas
melhorar o alinhamento do fluxo, manter a proteção de pistas de tráfego junto às
forma da seção transversal margens, pontes, encontros e acessos
contribuir com a estabilidade geotécnica proteção de tomadas d’água e estruturas de
descarga
contribuir com a manutenção, aspectos proteção de propriedades às margens do
visuais e paisagísticos, limpeza e etc. curso d’água

Figura 1: Exemplos de Proteção de Margens para diferentes finalidades

A ação hidráulica sobre as margens se da na forma de correntes, que arrastam o


material constituinte e na forma de ondas, provocadas pelo próprio escoamento, vento,
operação de estruturas hidráulicas ou pelo movimento das embarcações.

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As formas de proteção usualmente empregadas contra a ação hidráulica, são


classificadas em dois grupos, os revestimentos ou proteções diretas ou contínuas e
os diques e espigões, também considerados como proteções indiretas ou
descontínuas.

Tabela 1: Classificação das Proteções


PROTEÇÃO

DIRETAS OU CONTÍNUAS INDIRETA OU DESCONTÍNUA

apoiadas ou executadas diretamente no talude das obras construídas a uma certa


Método

margens distância da margem para


desviar as correntes e provocar
a decantação de material sólido
transportado pela água
redução do ângulo de talude, revestimento das espigões e diques
Principai
s Obras

margens com pedregulhos, cascalhos, pedras britadas


vegetação, revestimento asfáltico, enrocamento com
pedras lançadas, gabiões, cortinas continuas e muros

As proteções do tipo ‘revestimentos’ são usualmente paralelas ao eixo do canal


enquanto os espigões apresentam algum angulo com o escoamento.

Tabela 2: COMPARAÇAO ENTRE AS OBRAS DE PROTEÇAO DIRETA E INDIRETA


Obras

PROTEÇAO DIRETA 1.1.1.1.1.1 PROTEÇÃO INDIRETA

não há diminuição da área hidráulica do normalmente mais econômicas


rio custos da manutenção diminuem no tempo
Vantagens

destruição em um trecho da obra não


normalmente mais eficientes põe em perigo todo o resto
maior garantia da fixação definitiva das podem ser construídas por etapas
margens a retenção de sedimentos proporciona
uma proteção adicional
construção mais complicada e precisa menos eficazes e de menor garantia
Desvantagens

encarecendo a obra diminuem a área hidráulica


aumentam a rugosidade das margens
necessidade de manutenção cuidadosa produzem perdas de carga adicionais
para não se colocar em perigo toda não são aconselhadas para raios
proteção menores ou iguais a duas vezes a
largura do curso d'água
Podem não fixar a margem entre elas

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Tabela 3: Principais Tipos de Proteção


lançado
enrocamento
arrumado
gabião manta
elementos de concreto
colchões articulados
elementos de madeira
elementos plásticos
bolsas de concreto
Flexíveis enrocamento bolsas de solocimento
sintético bolsas de argamassa
blocos pré-fabricados
gramíneas
vegetação
plantas semi-aquáticas
Revestimentos caixa
gabiões
(proteções contínuas) saco
PROTEÇÕES

pneus usados
outras
troncos de árvore lançados
painéis armados
gabiões revestidos
muros de gravidade
concreto
painéis pré-moldadis
blocos pré-fabricados
Rígidos paredes diafragma
argamassado
enrocamento
com injeção de consolidação
pedra argamassada/alvenaria de pedras
madeira
cercas
metálicas
lançado
enrocamento enrocamento com pilares de
Diques ou concreto ou madeira
Flexíveis
Espigões bolsas de concreto, solo-cimento
enrocamento
(Proteções não e argamassa
contínuas)
sintético blocos pré-moldados
concreto muros de gravidade
Rígidos
muros de concreto armado

FIGURA 2: Destruição típica de margem côncava de um rio por ação da corrente

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2 Estabilidade dos Canais sob a Ação do Escoamento

2.1.1 Causas da Instabilidade das Margens

Para a elaboração de um projeto de proteção de margens é fundamental o


conhecimento dos fatores que afetam a estabilidade tais como as causas e tipos de
erosões, desbarrancamentos e etc. Estas causa podem de moda geral ser
classificadas em

ação fluvial, devido ao escoamento


instabilidade geotécnica, resultados da saturação e infiltrações de água.

As causas das instabilidades por ação do escoamento são subdivididas em:

a) Ação erosiva das correntes

Consideram-se as forças erosivas


críticas sobre o material
constituinte do leito e das
margens. Se a força erosiva
atuante for superior à força erosiva
crítica ou limite do material,
ocorrerá a erosão. Os recuos das
margens ocorre quando da erosão
do pé do talude, provocando o
solapamento dos mesmos

b) Ação das Ondas

As erosões causadas pelo movimento das ondas contra as margens podem ocorrer
devido à diferentes agentes como o vento, embarcações ou a operação de estruturas
hidráulicas do tipo comportas, usinas hidrelétricas e estações elevatórias.

c) Irregularidades localizadas no
escoamento

Neste caso, a presença de


extremidade de espigões, pilares de
pontes, afloramentos rochosos e
outros podem gerar turbilhões na
corrente líquida que causam o
solapamento da parte inferior das
margens.

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Tabela 4 : Principais Ações Hidráulicas atuando sobre as margens

As causas da erosão devido à instabilidade geotécnica dos taludes de margem podem


ser identificadas por:

a) Diminuição do angulo natural de equilíbrio

A saturação do terreno tem por conseqüência uma redução do angulo natural de


equilíbrio relativo ao material, diminuindo sua resistência.

b) rompimento generalizado da margem


A descida ou subida rápida do nível d’água ou a elevação do lençol freático podem
provocar o escorregamento do talude da margem

c) ‘piping’ ou retro erosão


Este fenômeno, causado pela existência de escoamento através de caminhos
preferenciais, em pontos fracos do terreno, permite que as partículas do talude sejam
transportadas pelo fluxo provocando assim a erosão progressiva rtrógrada.

Figura 3 : Principais causas da instabilidade geotécnica

A verificação da estabilidade dos canais sob a ação do escoamento é considerada


após a análise da estabilidade geotécnica. Em muitos casos o revestimento, que tem
como finalidade principal a proteção contra a ação hidráulica, acaba por contribuir com

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a estabilidade geotécnica, como no caso do emprego dos gabiões tipo caixa em mutos
de gabiões.

A inclinação das margens é antes de tudo definida após os critérios de estabilidade


que levam em conta aspectos como as características geotécnicas do solo, saturação
do material, esforços e carregamentos decorrentes de tráfego ou construções, efeitos
sísmicos e etc.

Tabela 5 : Inclinação de Margem recomendada (Lencastre, 1972)


Inclinação Recomanda para

2.1.1.1.1.1 Horizontal / Vertical


os Taludes dos Canais
(Lencastre, 1924)

Tabela 6: Inclinação dos Taludes (Conf. CHOW, 1959)


Inclinação dos Taludes
Material
H:V

Rocha 0:1

Solos pedregosos 0.25:1

Canais em terra revestidos de concreto 0.5:1 a 1:1

Argila resistente e compacta 1.5:1

Solos argilo-arenosos 2:1


Solos arenosos ou argilosos de alta porosidade 3:1

2.1.2 Ação das Correntes

O projeto e a preservação das margens dos canais sob a ação do escoamento está
diretamente relacionado com a distribuição de velocidades ao longo da seção
transversal. Os métodos usuais de análise levam em conta a velocidade máxima
admissível e a tensão de arraste.

2.1.3 Velocidade Média Máxima Admissível

A velocidade máxima admissível é a máxima velocidade média que não causará


erosão no corpo do canal. Esta velocidade limite está relacionada ao tipo de material
do leito e margens, profundidade do escoamento e traçado do leito. CHOW[1] sugere
que esta velocidade depende também da idade do canal, indicando que canais com
mais tempo de utilização são mais estáveis que os novos em função da sedimentação
de partículas coloidais.

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Tabela 7: Velocidades Máximas Admissíveis (CHOW,1959)

Velocidades Admissíveis recomendadas pela


ASCE, em 1926

Tabela 8: Velocidades Máximas Admissíveis Segundo a Bibliografia Russa (Lencastre, 1972)


Materiais não Coesivos
Velocidades Máximas Admissíveis (m/s)
Profundidade Y= 1,00 m

Materiais Coesivos

Profundidades Y ≠ 1,00 m
Fatores Corretivos

Grau de Sinuosidade

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A velocidade máxima admissível para as margens pode ainda ser estimada em função
das características do material componente (Neills,1967). Sendo V a velocidade do
escoamento γ e γ S respectivamente o peso específico do material e o peso específico
da água, D o diâmetro médio característico do material (D50) e y a profundidade do
escoamento, tem-se que na iminência de início de arrastamento:

−0, 20
V2  D
= 2,5  .....Eq. 1
γ S   y
 − 1 gd
γ 

A expressão abaixo permite a determinação do diâmetro mínimo do material de


proteção a ser utilizado em canais com escoamento a uma velocidade média V:

β V2 1
D≥ .....Eq. 2
∆ 2g sen 2θ
1−
sen 2α

onde 0,7 ≤ β ≤ 1,4 é um fator corretivo devido à irregularidade das margens, φ indica
o ângulo do talude e α o angulo de repouso do material submerso. O termo ∆ = ( γs - γ
)/ γ a relação entre os pesos específicos do sedimento e da água.

2.1.4 Tensão de Arraste

A estabilidade das margens de um canal de pode ser analisada pelo método da


Tensão de Arraste (Lane, 1955) e considera que as tensões de cizalhamento máximas
no fundo e nos taludes não devem exceder aos valores admissíveis para o tipo de
material do leito.

Para um canal muito largo tem-se que a tensão de arraste média por unidade de área
molhada, ou tensão trativa unitária é

τ max f = ρgRS0 .....Eq. 3

Nesta equação, ρ e g são propriedades físicas, R≈y é o raio hidráulico da seção e S0 a


declividade do fundo. Embora muitas tentativas tenham sido feitas para se determinar
a força trativa unitária ao longo do perímetro molhado de uma seção qualquer, o
desconhecimento dos perfis reais de velocidade tem impedido que resultados práticos
sejam atingidos.

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Figura 4 :Distribuição de velocidade em seções típicas nos canais (Chow, 1973)

As curvas das figuras abaixo, obtidas através de estudos em modelos matemáticos


indicam a força trativa unitária máxima para canais trapezoidais em função da relação
b/y. Observa-se que em canais muito largos, a força trativa nas margens tende ao
valor 0,76τ0.

Distribuição das Tensões de


Arraste no fundo e taludes de um
canal

Tensão de Arraste Unitária nos Taludes Tensão de Arraste Unitária no fundo

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Quando uma partícula no fundo de um canal está na iminência de movimento, existe


um equilíbrio entre a força trativa e a força de resistência dada pelo peso submerso da
partícula (W s) multiplicado por um coeficiente de atrito, que é aproximado por tan(α),
onde α é o angulo de repouso do material. Esta é a tensão trativa limite para o fundo:

Ws
τ l, f = tan(α ) .....Eq. 4
A

Se a partícula estiver na margem, a tensão trativa é majorada pela força peso na


direção da inclinação θ do talude. A força de resistência será dada pelo peso
submerso multiplicado pelo coeficiente de atrito na direção da inclinação do talude:

Ws tan 2 θ
τ l ,t = cosθ tan α 1 − .....Eq. 5
A tan 2 α

Relacionando-se as duas forças obtém-se o fator K:

τ l, f tan2 θ
K= = cosθ 1 − .....Eq. 6
τ l ,t tan2 α

que representa a relação entre a tensão trativa unitária limite no fundo do canal e nas
margens.

42

40

38

36

34
Muito Angular
32

30 Moderadamente Anguloso
28
Pouco Anguloso
26

24 Pouco Arredondado
Muito Arredondado
22
Moderadamente Arredondado
20
0.01 0.1 1 10
D iâ m e tro d a s p a rtíc u l a s ( m m )

Figura 5 :Angulo de Repouso das partículas para materiais não coesivos

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K 1

0.8

0.6

0.4

Angulo de Repouso
0.2
20 25 30 35 40 45

0
0 10 20 30 40
Inclinação dos Lados (graus)

Figura 6 :Relação entre a tensão trativa no fundo e taludes em função do Angulo de


Repouso do Material em graus e da Inclinação dos Taludes

Para partículas em geral, a estimativa da força trativa unitária limite pode ser efetuada
a partir da curva de Shields, que relaciona a velocidade de início de movimento, já
que:

τ l, f
= gRS0 = V* .....Eq. 7
ρ

Os parâmetros adimensionais empregados são:

V*2 τ l, f V* D
Ψ= = Re* = .....Eq. 8
gD (γ S − γ ) D50 ν

onde V* é a velocidade de atrito, R o raio hidráulico, S0 a declividade longitudinal do


canal, D o diâmetro característico do grão e ν a viscosidade cinemática.

0.1

0.01
0.1 1 10 100 1000
Re*

Figura 7:Curva de Shields

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Os valores definidos nas equações (2) e (3) para a tensão trativa unitária limite são
afetados pelo grau de compacidade do material, pela sinuosidade do trecho e pelo
encouraçamento do leito. Em função da sinuosidade, Lane (in French,1980)
recomenda reduzir a tensão trativa limite de acordo com os valores da tabela abaixo:

Tabela 9 :Redução na Tensão Trativa Limite em função do Grau de Sinuosidade (Lane, 1955)
Fator Multiplicativo da Força Trativa Unitária
2.1.4.1.1.1.1 Grau de
Sinuosidade
Canais Retilíneos 1.00

Canais pouco sinuosos 0.90

Canais moderadamente sinuosos 0.75


Canais muito sinuosos 0.60

Figura 8 :Valores Recomendados para a Figura 9 :Valores Recomendados para a


Tensão Trativa Máxima em canais com Tensão Trativa Máxima em canais em
material não coesivo (U.S.B.R, in CHOW, função do índice de vazios (CHOW, 1959)
1959)

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Tabela 10 : Tensão de Arraste Limite em Diferentes Materiais (Lencastre, 1972)


Materiais
Não τ f = 0,8 ⋅ D75 onde D75 (cm) é o diâmetro que corresponde, na curva de
Coesivos composição granulométrica a 75% em peso, de materials de diâmetro
Grosseiros infeirior
(kgf/m²)

Materiais
não coesivos
finos
(kgf/m²)

Materiais
coesivos
(kgf/m²)

Tabela 11: Dimensionamento e Verificação da Estabilidade de um Canal


Passo Atividade
determinar os valores de n (rugosidade), declividade, ângulo de repouso do
1
material, vazão de dimensionamento e angulo de inclinação dos talude
estimar a sinuosidade a partir da topografia para correção da tensão trativa
2
unitária (tabela 6)
Calcular a tensão trativa unitária atuando no fundo através de
3 τ max f = 0.75 ⋅ γ ⋅ y ⋅ S0
Admitir um diâmetro característico para o material da margem. Determinar a
tensão trativa limite para o fundo a partir das eq. 2 e 3. Corrigir em função
4
da sinuosidade e da forma da seção. Determinar a tensão trativa limite nos
taludes calculando o coeficiente K.
Determinar o diâmetro característico através da expressão de Shields para
5 V*2 τ l, f
o fundo e talude Ψ = =
gD (γ S − γ ) D50
Comparar com o diâmetro de material admitido inicialmente e repetir o
5
procedimento caso necessário.

2.1.5 Proteção contra erosão

O dimensionamento das proteções contra erosão causada pela velocidade acima


daquela limite de resistência do material exige, inicialmente, a definição do material de
base dos revestimentos uma vez que o processo de desestabilização se inicia pela
lavagem ou desagregação do material da base. Estes materiais podem ser
classificados como:

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material grosseiro, não coesivos D50 > 1 mm


material fino, não coesivos D50 < 1 mm
material coesivo

Para materiais grosseiros não coesivos, na maioria dos casos práticos pode ser
utilizada a fórmula desenvolvida por Pilarczik (Delft, 1984):

2 ,5
Dn 50  ucr 

= .....Eq. 9
h  B k ′ψ g ⋅ ∆ ⋅ h 
 1 cr 

Dn50 = (W50 / γ S ) 0, 33 .....Eq. 10

onde:
Dn50 é o diâmetro nominal do material
definido pela curva de
composição granulométrica
h é a profundidade do escoamento
ucr é a velocidade crítica de início de
arraste
B1 é o coeficiente da tabela a seguir
K’ é o fator de redução em função da
estabilidade do talude (eq..
Ψcr é o parâmetro de Shields crítico
∆ é a relação entre os pesos
específicos do material e da água

Tabela 12 : Valores do Parâmetro de Shields


Ψ cr
2.1.5.1.1.1.1 Estado de Movimento das
Partículas
Repouso absoluto 0.03
Início da Instabilidade 0.04
Movimento 0.06

Tabela 13 : Valores do Parâmetro de Shields


B1
2.1.5.1.1.1.2 Condições do Escoamento
Grande Turbulência, extravasamento, perturbações locais e
5-6
restrições de seção
Turbulência Normal em rios e canais 7-8
Pequena turbulência, escoamento uniforme, condições de leito
8-10
liso, escoamentos de laboratório

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O diâmetro nominal da proteção de margens contra o ataque das correntes foi


proposto por Isbash (1970), através da fórmula:
) 2
0,7ucr
Dn 50 ≥ .....Eq. 11
g ⋅∆⋅k

onde ∆ é o peso específico relativo do material de proteção, ûcr é a máxima velocidade


das correntes de retorno (ver ondas) ou do escoamento, aquela que for maior e K o
fator de redução devido à inclinação do talude.

2.2 Ação de Ondas

A instabilidade das margens causadas pelo movimento das ondas contra os taludes
podem ocorrer devido a diferentes agentes, como:

ondas geradas pelo vento


ondas de translação originadas pela variação brusca de vazão
ondas geradas pela passagem ou movimento de embarcações.

2.2.1 Ondas de Vento

A ação do vento sobre as superfícies livres provoca ondas cuja altura, período e
velocidade de propagação são relacionadas à profundidade do escoamento e a
velocidade do vento. Para águas profundas, a altura significativa das ondas é
proporcional à profundidade y, velocidade do vento V e comprimento do fetch L, que
pode ser interpretado como sendo a pista de atuação do vento no sentido da formação
de ondas. Em águas rasas, o efeito do atrito com o leito compete com a energia
transferida pelo vento limitando a altura das ondas.

águas profundas intermediário águas rasas


h h h
> 0.25 0,05 < < 0,25 < 0,05
L0 L0 L0

gT 2
sendo h a profundidade e L0 = o comprimento de onda em águas profundas para

um período T em segundos.

A máxima altura das ondas, em águas rasas pode ser estimada por H s = 0,5h , onde
Hs é a altura da onda significativa (média do terço superior da distribuição de alturas
do trem de ondas) e h a profundidade do escoamento no pé do talude de margem.

Outro importante parâmetro a ser considerado é a arrebentação da onda no talude


revestido, que pode ser estimada por:

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tanα T
ξ= 1 = 1,25 .....Eq. 12
(H s L0 ) 2 Hs

onde α é o ângulo em graus da inclinação dos taludes.

Talude Liso Talude com


proteção de rip-rap

Figura 10: Ondas com arrebentação sobre o talude da margem

Figura 11: Altura das Ondas devido ao Vento em função do fetch, velocidade e duração
do vento, para águas profundas.

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A amplitude das ondas causadas pelo vento pode ser estimada também através de
relações do tipo da USSR Standard:

H = 0,008 ⋅ V 6 ( L 2 + L 4 ) .....Eq. 13
5 1 1

onde H resulta em metros, V em Km/s e L em Km. Deve ser levado em conta que há
um fetch e uma duração de vento limites, acima dos quais as características das
ondas deixam de ser influenciadas por estes parâmetros.

Segundo o U.S. Corps of Engineers, o cálculo da onde de projeto num canal devido à
ação do vento pode ser feito analogamente ao caso das grandes massa de água,
desde que se considere o efeito da redução de largura do fetch na geração da onda.
Fetch Efetivo

Relação Largura/Comprimento do Fetch


Figura 12: Relação Largura/Comprimento do Fetch e Fetch efetivo do vento

Estabilização e Proteção de Margens 19


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Período da Onda T (s) Fetch (Milhas Nauticas)


Altura da Onda H (pés)

Velocidade do Vento V (nós)


Velocidade do Vento V (nós)

Velocidade do Vento V (nós)

Fetch (Milhas Náuticas)


Figura 13: Ábacos para Cálculo do Fetch e Altura da Onda de Projeto

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2.2.2 Ondas devido à Passagem de


embarcações

O movimento de embarcações provoca


ondas geradas pelo abaixamento da
superfície líquida e ondas secundárias,
provocadas pelo cruzamento dos picos de
diferentes frentes de onda.

As ondas provocadas pelo abaixamento Figura 14: Nível d’água ao longo do


da superfície líquida podem ser estimadas tempo em relação à passagem de uma
embarcação
segundo o enfoque da equação da
energia de Schijf, aplicável para embarcações movendo-se pelo eixo do canal, na faixa
1 < bw/Bs < 12, sendo bw a largura da base do canal e Bs a boca da embarcação.

Vs   Ac  
2 2

∆h = α1   − 1 .....Eq. 14
2 g   Aw  
 

AcVs = Aw (Vs + u r ) .....Eq. 15

Aw = bb (h − ∆h ) + m(h − ∆h ) 2 − Am .....Eq. 16

α1 = 1, 4 − 0,4 *Vs .....Eq. 17


VL

1, 5
 Am VL2 
1,5
VL 2
=  1 − +  .....Eq. 18
gh′  3   Ac 2 gh′ 

onde

∆h é o rebaixamento médio da superfície livre


Vs é a velocidade efetiva da embarcação
VL é a velocidade limite da embarcação
u r é a velocidade da corrente de retorno
Am a área da seção transversal ao meio da embarcação
Ac a área da seção transversal do canal
bw a largura na superfície livre
Ac
h′ = a profundidade imaginária do canal
bw
α1 é o coeficiente de velocidade

A figura a seguir resolve diretamente as relações acima:

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Figura 15:Diagrama de Schijf para determinação do rebaixamento do nível d’água e


velocidade da corrente de retorno

A equação abaixo (Delft, 1989) permite o cálculo da altura da altura das ondas
secundárias onda produzida pela passagem de uma embarcação com velocidade Vs ,
para uma profundidade y, junto ao revestimento da margem:

H
= α1 ( S ) −0 ,33 FSα 3
y y .....Eq. 19

VS
FS = .....Eq. 20
gy

V2
L = 0,67 ⋅ 2π .....Eq. 21
2g

gT 3
L= .....Eq. 22

sendo s a distância à margem (m), α1 igual à 1 para lanchas, 0,5 para comboios
europeus e 0,35 para outros tipos de embarcação autopropelida. O coeficiente α3 é
adotado experimentalmente igual à 4.

Segundo Gelencser(1977), a partir de resultados de modelo físico, a onda de projeto


para o cálculo da proteção das margens pode ser estimada por:

H d = 2 × 10 −6 P22,8 .....Eq. 23

Estabilização e Proteção de Margens 22


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H d = 4 × 10 −9 P15, 3 .....Eq. 24

( )
P1 = Vb2 / Av 3 .....Eq. 25
1

1
 2 L20 
3

P2 = Vb Av 1  .....Eq. 26
 xAc 2 

onde
Hd é o rebaixamento do nível d’água
x a distância do barco à margem
L0 o comprimento do barco
Av a área da seção transversal molhada do barco
Ac a área da seção transversal do canal

2.2.3 Dimensionamento de Proteções contra a ação de ondas

Para leitos com base impermeável aplica-se a formula genérica do tipo

β′ H
D≥ .....Eq. 27
∆ (cosα − sin α )

onde D é o diâmetro característico do material (D50), β’ é característico do material do


talude, variando entre 0,25 ≤ β’≤ 0,45, H é a altura da onda, α é o angulo de inclinação
da margem ou talude e ∆ = ( γs - γ )/ γ a relação entre o peso específico submerso do
material e da água.

Para ondas secundárias, originadas pelo movimento das embarcações Verhey e


Pilarczyk (Delft, 1986) propõe:

H (cos β ) 2
1

Dn 50 ≥ s .....Eq. 28
1,8∆

sendo β o ângulo de propagação das


ondas normal à margem (usualmente
55º) E Dn50, diâmetro nominal, dado
por

Dn 50 = (W50 / γ S ) 0 , 33

onde W 50 é valor correspondente à


50% da curva de distribuição em
massa do enrocamento de proteção,
dado pela curva ao lado.

Estabilização e Proteção de Margens 23


Obras Fluviais/2001

Para ondas de vento, Pilarczyk (Delft, 1987) propõe:

Hs ξ
Dn 50 ≥ .....Eq. 29
2,25∆

ξ = tan α ( H L) 2 válido para ξ ≤ (0,05c tanα ) −0,5 .....Eq. 30


1

Para leitos com base permeável, a fórmula de Hudson, desenvolvida pelo USBR no
Lab. de Vicksburg, com base nos trabalhos de Iribarren de 1960, permite a estimativa
do peso do material granular para proteção da margem em função da altura H da onda
e da inclinação da margem α:
γ SH3
P= 3
.....Eq. 31
K d  γ s − 1 cot α
 γ 

6P
D=3 .....Eq. 32
πγ S
onde

Tipo de ação da onda Kd


com arrebentação 1,2 a 2,0
onda sem arrebentação 2,0 a 4,0
talude com enrocamento graduado
2,2 a 2,5
rip-rap

Tabela 14: Valores Sugeridos de Kd pelo USBR

Estabilização e Proteção de Margens 24


Obras Fluviais/2001

Para considerar a influência do período da onda, tipo de onda, duração da


tempestade, permeabilidade da estrutura e intensidade dos estragos admitidos na
camada de revestimento, alguns especialistas aplicam a fórmula de Van der Meer
(1980), com a seguinte estrutura:

0, 2
HS  S 
= 6,2 P 0,18   ξ m 2 .....Eq. 33
1

∆Dn 50  N

para ondas com arrebentação, onde ξm < ξmc

0, 2
HS  S  P
= 1,0 P −0,13   cot α 0,5ξ m .....Eq. 34
∆Dn 50  N
para ondas sem arrebentação, onde ξm > ξmc

sendo
1

ξ mc = (6,2 P 0 ,31
tgα ) P + 0 ,5
.....Eq. 35

onde

P é um parâmetro que depende do arranjo do material de revestimento


S = Ae Dn250 expressa o nível de estragos admitidos no revestimento, sendo Ae
a área afetada pelos danos
N é o número de ondas de projeto (usualmente admitido entre 3000 e 5000 pelo
British Standards)
ξ é o parâmetro de arrebentação de Iribarrem
α é o angulo de inclinação dos taludes.

Para proteção com blocos de concreto, uma aproximação mais sofisticada, que a
fórmula de Hudson foi desenvolvida em Delft também por Pilarczyk(1986) e utiliza:

HS cosα
=ϕ .....Eq. 36
∆D ξ

onde D = espessura do bloco


ϕ = coeficiente de forma do bloco
ξ = parâmetros de arrebentação da onda

Estabilização e Proteção de Margens 25


Obras Fluviais/2001

Valores de P, segundo Van der Meer (1980)

Figura 16 : VAlores de P (Van der Meer, 1980)

Área de Erosão, segundo Van der Meer (1980)

Figura 17: Área de Erosão (Van deer Meer, 1980)

Estabilização e Proteção de Margens 26


Obras Fluviais/2001

3 Proteções Contínuas

Também denominadas de proteções diretas ou revestimentos, são aplicadas


paralelamente à direção do fluxo, ficando em contato direto com o material da margem
propriamente dito.

As proteções contínuas podem flexíveis, quando acompanham as deformações do


material base componente dos leitos, sem perder seu aspecto de integridade. Os
exemplos deste tipo são as proteções de enrocamento naturais e sintéticos, colchões,
revestimentos vegetais naturais ou consolidados, gabiões não revestidos, elementos
tipo sacos de areia, solocimento e argamassa arrumados.

Por sua vez os revestimentos rígidos não admitem deformação sem a perda de
alguma de suas características, como a impermeabilidade, rugosidade, aspecto visual
e etc. Entre estes revestimentos destacam-se os painéis de concreto moldados e pré-
moldados, muros de alvenaria, gabiões e elementos revestidos de concreto ou
argmassa.

Deve ser observado que


embora classificados como
revestimentos, alguns tipos
muitas vezes são
empregados com função
estrutural, para consolidação
das margens e sustentação
de estruturas, como é o caso de gabiões, enrocamento natural e sintético, elementos
tipo saco e muros de modo geral.

3.1 Revestimentos Flexíveis

A característica básica dos revestimentos flexíveis é a de admitir deformações sem a


perda de suas características. Especial atenção deve ser dada para:

• taludamento das margens quando o revestimento não tem função estrutural, para
inclinações da ordem de 1V:2H ou 1V:4H, garantindo a estabilidade em função das
características geotécnicas do material componente;
• revestimento deve ser poroso e drenante de forma a permitir o alívio de pressões
oriundas do fluxo d’água através do maciço componente das margens;
• uso obrigatório de filtros no contato entre o revestimento e o material original,
composto de material granu7lar ou sintético, impedindo a perda de material tanto
por ação da velocidade como por retro erosão;
• como a erosão no pé dos taludes de margens é a causa principal da instabilização,
atenção especial deve ser tomada quanto à proteção destes pontos, com o
prolongamento dos revestimentos para o interior do escoamento ou aplicação de
material de proteção do revestimento.

3.1.1 Proteção com Enrocamento

A proteção com enrocamento lançado é forma padrão de revestimento desde que haja
material disponível em dimensões (diâmetro) e quantidade para aplicação no projeto.

Estabilização e Proteção de Margens 27


Obras Fluviais/2001

Por enrocamento entende-se material granular de origem natural tais o como


produzido em pedreiras e aqueles provenientes de desmonte natural de rochas como
os seixos rolados.

O enrocamento arrumado apresenta economia de material, tanto de proteção como


filtro e tem a vantagem de resultar numa rugosidade final menor. Exige melhor mão
de obra e deve ser feito a seco.

Figura 18: Tipos de Proteção com enrocamento

3.1.1.1 Dimensionamento

A verificação da necessidade de proteção é feita através dos critérios de tensão de


arraste, ou velocidade admissível e altura das ondas.

Velocidade admissível Eq. 2


Tensão de Arraste Eqs. 3 a 8
Altura de Onda – Critérios Pilarczyk Eq.25 e 26
Critério de Hudson ou Van der Meer Eq. 33

Figura 19: Angulo de Repouso de Material Granular para Enrocamento

Estabilização e Proteção de Margens 28


Obras Fluviais/2001

3.1.1.2 Disposição e Detalhes Construtivos

A graduação e os detalhes construtivos devem obedecer:

Critério
Item 3.1.1.2.1.1 Font
e
D<25%Dmaior
D>2,5 a 3 Dmenor
USBR
D50≅2D20
Dmax≅2D50
Graduação dos nenhum bloco com Dmaior≥ 3Dmenor
Blocos U.S Corp of Dmax = 2 a 5 D50
Engineers Dmax < 16 D15
3 D50 → 100%
Depart. Estradas
2 D50 → 80%
USA
0,1 D50 → não exceder 10%
Espessura da mínima 2 D50
Camada base do talude 3 D50
Proteção do pé do
avaliar a evolução do fundo
talude
U.S Corp of 5 < D15 filtro / D15 base < 40
Transição ou Filtro Engineers D15 filtro / D85 base ≤ 5
D50 filtro / D50 base ≤ 25
Espessura das e ≥ 10 cm
camadas Para D50 ≥ 5 cm → 2 D50
Borda Livre da Escoamento 0,50 a 1,00 m
Proteção Ondas 1,5 H

3.1.1.3 Transição e Filtros

Nos revestimentos com enrocamento lançado


e arrumado, da mesma forma que nos do tipo
colchão de gabião, como será visto adiante, a
espessura do revestimento e as dimensões
das pedras devem ser tais que resistam ao
movimento causado pela correnteza e evitem
a erosão do solo da base.

A velocidade da água entre a camada de


pedras e o solo deve ser então
suficientemente pequena para evitar o movimento das partículas. Para tal utilizam-se
filtros naturais granulares ou sintéticos, como os geotexteis. A velocidade logo abaixo
do revestimento pode ser estimada pela equação de Manning.

2
1  Dm  3 12
Vb =   S .....Eq. 37
nf  2 

Estabilização e Proteção de Margens 29


Obras Fluviais/2001

onde Vb é a velocidade na interface da proteção e nf é o coeficiente de Manning da


interface. Os valores recomendados para nf são 0,02 para geotexteis e 0,025 para
material granular tipo cascalho ou areia. Se Dm é o diâmetro médio das pedras, o raio
hidráulico do escoamento no contato é admitido como sendo Dm/2.

Para solos não coesivos, a


velocidade admissível é dada pela
relação

Ve = 16,1 Dbase .....Eq. 38

onde Dbase é o diâmetro das


partículas da base. Para solos
coesivos, as velocidades admissíveis podem ser estimadas pela figura abaixo.

Figura 20: Velocidade Admissível no Contato Enrocamento-Solo

Para transições de material granular cascalho recomenda-se a adoção de uma


camada de espessura mínima 0,15 a 0,20 m e nunca inferior ao valor

Dv   Ve  
2

e≥ 1 −    .....Eq. 39
f   Vb  
 
onde f é o coeficiente de Darcy- Weisbach e Dv o diâmetro equivalente dos vazios,
adotado como sendo:

D50 filtro
Dv = .....Eq. 40
5

A granulometria do filtro obedece à:

5 < D15 filtro / D15 base < 40


D15 filtro / D85 base ≤ 5
D50 filtro / D50 base ≤ 25

Estabilização e Proteção de Margens 30


Obras Fluviais/2001

Figura 21: Critério de Transição para enrocamento lançado (rip-rap) Simons(1973)

3.1.1.4 Uso de Geotexteis

O emprego de geotextil permite a redução da velocidade no contato entre a camada


de revestimento e o solo de base, para valores da ordem de 1/4 a 1/2 de Vb. O
geotextil é uma membrana sintética (Bidim ou similar) filtrante, com resistência
mecânica à compactação. Admite grandes deformações longitudinais, apresentando o
inconveniente de ter seus vazios colmatados por material fino coloidal.

Nestas situações, existem referências a casos onde o contato do geotextil com o solo
de base perde o atrito devido à lubrificação causada por camada coloidal retida,
ocasionando o escorregamento do material de proteção (pedras ou gabiões tipo
colchão).

No emprego sobre camada de base composta por material granular, tipo areia, pode-
se aplicar o enrocamento diretamente sobre o geotextil. Para bases de material fino
como silte ou argila, exige-seainda uma camada de transição.

Figura 22: Emprego de geotextil em revestimento de margens

Estabilização e Proteção de Margens 31


Obras Fluviais/2001

Aplicação Típica de geotextil com


enrocamento e transição

Aplicação do
enrocamento
sobre o getextil
submerso

3.1.1.5 Proteção de Pé

A proteção de pé é indicada para


manter as características estruturais
da capa de revestimento.

Figura 23: Exemplos de Proteção de Pé em taludes revestidos de enrocamento

Estabilização e Proteção de Margens 32


Obras Fluviais/2001

Enrocamento granítico utilizado como


proteção de margem de canal de adução
de água. Sistema Alto Tietê

Enrocamento arrumado utilizado como


proteção contra a ação de ondas

Aplicação de enrocamento de proteção a


partir da balsa com drag-line

Enrocamento de proteção com vegetação


incorporada

Proteção de margem com escoria de


enrocamento no Rio Arkansas

Aplicação mecanizada de enrocamento de proteção

Estabilização e Proteção de Margens 33


Obras Fluviais/2001

3.1.2 Proteção com Colchões

Colchões são conjuntos de elementos de revestimento, articulados ou não, que


apresentam uma grande resistência à ação de ondas e correntes em função de seu
funcionamento em conjunto.

Compostos de materiais diversos apresentam facilidade executiva, excelente


acabamento e economia de material. Geralmente sua resistência é muito superior aos
esforços hidráulicos a que estão submetidos, devendo-se entretanto das especial
atenção à transição entre o material de base da margem e o elemento.

Os colchões podem ser de diferentes tipos, conforme os exemplos citados a seguir:

3.1.2.1 Elementos Articulados de Concreto

Em geral blocos de concreto com ligação entre sí, oferecendo grande flexibilidade e
resistência principalmente contra a ação de ondas.

Colchões articulados de concreto em proteção


contra a ação de ondas

Estabilização e Proteção de Margens 34


Obras Fluviais/2001

Aplicação e acabamento de colchões


articulados de concreto

Ruptura de proteções com elementos


articulados de concreto

Bloco de concreto utilizado como


revestimento em descarga de canalização

Estabilização e Proteção de Margens 35


Obras Fluviais/2001

Colchão com blocos articulados


de concreto como proteçao
portuária

Movimentação de colchão de
concreto na obra

Movimentação de colchão de
concreto com equipamento de
grande porte

3.1.2.2 Elementos Articulados de Madeira

São montados colchões com elementos articulados de madeira, unidos por barras
metálicas, posteriormente preenchidos com enrocamento, aumentando assim a
resistência do conjunto. Exigem os mesmos cuidados com a transição solo-proteção
que os demais tipos de colchão.

Estabilização e Proteção de Margens 36


Obras Fluviais/2001

Figura 24: Colchão de proteção com elementos articulados de madeira

3.1.2.3 Colchões de Gabião

Os colchões de gabião são os elementos de revestimento flexível mais empregados


em obras fluviais devido à suas vantagens técnicas em relação aos revestimentos
lançados.

Os gabiões tipo colchão, constituídos de caixa formada por tela metálica, revestida ou
não, e enchimento de pedra, quando comparados ao revestimento tradicional de
enrocamento lançado, tem a vantagem exigirem espessura menor, pedras de menores
dimensões e menor consumo de material. Sua segurança, no entanto, fica
condicionada à durabilidade das malhas metálicas que compõe as caixas.

Tabela 15: Revestimento de Colchões de Gabião – Dimensões Típicas

Estabilização e Proteção de Margens 37


Obras Fluviais/2001

Figura 25 :Aplicação Típica de Gabiões tipo Colchão

Estabilização e Proteção de Margens 38


Obras Fluviais/2001

Figura 26:Aplicações de gabiões tipo colchão

A verificação do revestimento em gabião tipo colchão é usualmente feito em termos de


tensão de arraste, velocidade crítica e ação de ondas e deformações. O quadro a
seguir permite a verificação passo a passo do comportamento do colchão de gabião:

Figura 27: Deformações no colchão de gabião

Estabilização e Proteção de Margens 39


Obras Fluviais/2001

Verificação Fórmulas
3.1.2.3.1.1

1 Seleção do determinar D90 e Dm (tabela)


Tipo de D1 / 6
Colchão determinar rugosidade n = 90
26
2 Verificação da Tensão de arraste no fundo τ b = γRh S 0
Tensão de
Arraste Tensão crítica de arraste τ c = 0,10(γ s − γ ) Dm
Condição Limite: τ b ≤ τ c
Tensão de arraste nas margens: τ m = 0,75γRh S 0
sin 2 θ
Tensão crítica de arraste nas margens: τ s = τ c 1 −
sin 2 41º
Condição Limite: τ m ≤ τ s
3 Velocidade No. de Froude : F = V / gRh
Admissível
Determinar Vc em função de F e V da figura:

4 Velocidade no Velocidade admissível do material de base V = 16,1d 1 / 2


e
Contato 2/ 3
Colchão Solo 1  Dm  1/ 2
Velocidade no contato colchão-solo: Vb =   i
nf  2 
Adotar nf=0.02 se houver geotextil ou nenhum filtro e
nf=0.025 se houver filtro de cascalho
Verificar se Vb < Ve

Estabilização e Proteção de Margens 40


Obras Fluviais/2001

Verificação Fórmulas
3.1.2.3.1.1

5 Controle das τ b −τ c
Deformações Determinar os parâmetros C*′ = e
(γ s − γ ) Dm
τ m −τ s
C*′ = para fundo e margens
(γ s − γ ) Dm
Verificar o parâmetro ∆z/Dm na figura abaixo

Verificar ∆z / Dm ≤ 2( t − 1)
Dm
6 Verificação da Determinar a espessura mínima do colchão em função da
ação de ondas ação de ondas:

HD
t= para taludes com inclinação
γ
3(1 − V )( s − 1) cotθ
γ
superior à 1V:3,5H
HD
t= para taludes com inclinação
γs
7(1 − V )( − 1) cot θ
1
3

γ
inferior à 1V:3,5H
v
sendo que Vé a porcentagem de vazios no material de
enchimento.

Estabilização e Proteção de Margens 41


Obras Fluviais/2001

Figura 28: Aplicação de Gabiões tipo Colchão

Figura 29: Revestimento de Margem par proteção contra ondas

Estabilização e Proteção de Margens 42


Obras Fluviais/2001

3.1.2.4 Mantas

Mantas são elementos contínuos, aplicados aos taludes dos canais com a finalidade
da aumentar a resistência. Geralmente são associadas à consolidação com
vegetação, predrisco asfáltico e solocimento. A seguir apresentam-se exempos deste
tipo de revestimento:

GeoWEB

Manta formada de elementos losangulares de material geosintético que aumenta a


resistência do solo natural à ação do escoamento através do confinamento de material
de preenchimento. A resistência pode ser aumentada com a associação do
confinamento à fixação da vegetação.

Figura 30 : Manta de Proteção tipo GeoWEB

Estabilização e Proteção de Margens


Obras Fluviais/2001

Tabela 16: Dimensões do GEOWEB

A resistência à ação da corrente e das ondas pode ser estimada pelas figura a seguir

Figura 31: Velocidade x Diâmetros das Pedras de Enchimento para o GeoWEB

Figura 32: Recomendações de Enchimento do GeoWEB em função da Velocidade

Estabilização e Proteção de Margens 44


Obras Fluviais/2001

Figura 33 : Exemplo de Aplicação do GeoWEB

Figura 34 : Exemplo de Aplicação do GeoWEB com concreto

Estabilização e Proteção de Margens 45


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Geomanta Enkamat

Manta geosintética destinada à proteção do solo fino contra a ação da água através da
criação de condições para a fixação da vegetação. A manta é formada por filamentos
de poliamida aleatoriamente dispostos, formando um colchão tridimensional que
inicialmente protege o solo contra a erosão e num segundo estágio, atua de forma
permanente como reforço da camada vegetal.

Figura 35: Funcionamento da Geomanta Enkamat

A seguir são apresentadas algumas características deste tipo de revestimento.

Tabela 17: Run-Up sobre o Talude revestido com Enkamat em função da Altura
Significativa da Onda e Inclinação do Talude

Estabilização e Proteção de Margens 46


Obras Fluviais/2001

Figura 36: Relação De Shields e Campo de Aplicação do Enkamat

Figura 37: Velocidades críticas para aplicação do Enkamat sem vegetação

Figura 38: Velocidades críticas para aplicação do Enkamat com vegetação

Estabilização e Proteção de Margens 47


Obras Fluviais/2001

Figura 39: Exemplo de Aplicação do Enkamat

3.1.2.5 Mantas de Pneus

Esta solução, citada por Petersen (1981), evidentemente depende da disponibilidade


do material de revestimento, que são pneus usados de caminhão, amarrados e fixados
por barras de aço no talude do canal.

Estabilização e Proteção de Margens 48


Obras Fluviais/2001

Revestimento com pneus usados amarrados

3.1.3 Enrocamentos Sintéticos

Enquadram-se nesta categoria de revestimentos as proteções feitas de bolsas


preenchidas com materiais diversos, como areia, concreto, argamassa e solocimento

3.1.3.1 Bolsacreto

A proteção é obtida a partir da montagem de sacos plásticos preenchidos com


concreto. Apresenta a vantagem de poder ser executado submerso. A resistência é
obtida após a cura do concreto, sendo que o material plástico se desfaz com o tempo.
Este revestimento está na interface entre os flexíveis e os rígidos sendo também
aproveitado para obras transversais como os espigões.

Figura 40: Revestimento de Margem com Bolsacreto

Estabilização e Proteção de Margens 49


Obras Fluviais/2001

Figura 41: Revestimento de Margem com Bolsacreto revestida de argamassa

Figura 42: Revestimento de Margem Côncava com Bolsacreto

3.1.3.2 Solocimento

Sacos de material plástico ou textil preenchidos com argamassa de solocimento. Os


sacos de solo cimento são dispostos junto a margem de forma inclinada,
acompanhando o talude. Este revestimento, da mesma forma que o bolsacreto,
também situa-se na interface entre os rígidos e flexíveis pois confere certa resistência
estrutural ao talude.

Figura 43: Revestimento de Talude com Solo Cimento

Estabilização e Proteção de Margens 50


Obras Fluviais/2001

Figura 44: Arranjo dos sacos de solocimento

Figura 45: Revestimento Típico feito em sacos de solo cimento

Estabilização e Proteção de Margens 51


Obras Fluviais/2001

Figura 46: Aplicação de revestimento com solocimento

3.1.4 Gabiões Caixa

Os gabiões tipo caixa são constituídos de tela de arame revestido ou não preenchidos
com pedras. São muito empregados, na forma de muros, para a associação entre a
resistência hidráulica e a estabilidade
geotécnica das margens. Os critérios de
dimensionamento são os mesmos
apresentados para os colchões de
gabiões, especiamente quanto ao critério
de tensões de arraste, velocidade crítica
e velocidade junto ao contado solo –
gabião.

Toda a segurança do gabião reside na


integridade da tela, que para tal pode ser
revestida de plástico. Os gabiões tipo
caixa são disponíveis em caixas de 1 a 2
m de comprimento, com altura de 0,50 a
1 m.

Estabilização e Proteção de Margens 52


Obras Fluviais/2001

Figura 47: Formato dos Gabiões tipo Caixa

Tabela 18 : Disponibilidade de Gabiões tipo Caixa

Os gabiões exigem cuidados especiais com a fundação, especialmente junto ao pé.


Recomenda-se sempre a adoção de proteção com gabião manta, avançando para
dentro do curso d’água para acompanhar a movimentação do fundo.

Figura 48: Deformação da proteção junto ao pé com a evolução do leito

Uma das grandes desvantagens do revestimento em gabião é a manutenção, que


deve ser manual em função do grande risco de rompimento da tela em atividades
mecanizadas. Quando a manutenção é importante, torna-se necessária a adoção de
revestimento sobre o gabião, que melhora muito o coeficiente de rugosidade das
seções.

Estabilização e Proteção de Margens 53


Obras Fluviais/2001

Figura 49 : GAbiões Revestidos de pedra ou argamassa

Figura 50: Gabiões Revestidos com Argamassa

Revestimento de contenção em
margem com gabião manta no pé

Estabilização e Proteção de Margens 54


Obras Fluviais/2001

Revestimento combinado de
gabião caixa e colchão

Proteção de gabião no encontro de


pontes

Proteção de gabião em canalização de


drenagem

Estabilização e Proteção de Margens 55


Obras Fluviais/2001

3.2 Proteções Rígidas

As proteções rígidas são normalmente painéis, muros e paredes que perdem suas
características quando sofrem deformações. Enquandram-se nesta categoria os
revestimentos em placas de concreto pré-moldados e moldados em loco, os muros de
concreto em gravidade e armado, as paredes de alvenaria de pedra.

Da mesma forma que os gabiões, estas proteções devem ter sua estabilidade
geotécnica garantida, devendo-se atentar para a drenagem de sub-pressões e a
proteção contra erosão de pé, além da possibilidade de escorregamento devido à
diminuição do atrito no contado entre o solo e o revestimento.

O dimensionamento destas estruturas deve seguir os critérios estruturais e


geotécnicos do partido adotado. As principais proteções rígidas encontradas na prática
são:

3.2.1 Painéis de Concreto Armado

Apoiados sobre o terreno, estas placas são impermeáveis, devendo para tanto ser
previstos drenos horizontais para alívio das pressões de água.

Figura 51: Painéis em Concreto Armado

Estabilização e Proteção de Margens 56


Obras Fluviais/2001

3.2.2 Cortinas Atirantadas

Elementos estruturais para contenção, geralmente de margens verticais, que


funcionam também como revestimento.

Figura 52: Revestimento de Margem e Conformação Estrutural com Cortina Atirantada

3.2.3 Muros de Gravidade

Se assemelham às cortinas atirantadas em termos de revestimento, sendo que sua


resistência é função do peso próprio.

3.2.4 Placas Pré-Moldadas de concreto

São empregadas como revestimento devido à sua resistência e durabilidade. Especial


atenção deve ser dada à fundação e estabilidade ao escorregamento, no contato entre
o revestimento e o solo.

Também deve ser dada atenção à drenagem de sub pressões da parte anterior do
muro.

Figura 53: Painéis pré-moldados de concreto apoiados sobre estacas

Estabilização e Proteção de Margens 57


Obras Fluviais/2001

Paineis de concreto pré-moldados


utilizados como revestimento, com
drenagem facilitada

Panieis de concreto rígidos com


elementos drenantes

painéis de concreto rígidos

montagem dos painéis de concreto


rígidos com elementos drenantes

Estabilização e Proteção de Margens 58


Obras Fluviais/2001

4 Proteções Descontínuas

4.1 Características Gerais


Estas obras destinam-se a afastar a corrente das margens a serem protegidas,
criando inclusive condições para a formação de depósitos de sedimentos que tendem
a aumentar a proteção com o tempo e reduzir a necessidade de manutenção.

O exemplo mais clássico de aplicação de proteções descontínuas está no uso de


espigões para proteção das margens côncavas dos cursos d’água naturais, que
apresentam erosões devido ao efeito das correntes rotacionais.

As proteções descontínuas podem ser do tipo espigões, quando transversais à


margem, ou diques, quando paralela ao alinhamento do canal.

Figura 54: Proteção Clássica com


espigões de repulsão e sedimentação nas
margens côncavas de um rio (Petersen,
1981)

4.2 Espigões

São obras transversais que avançam desde a margem em direção ao eixo do


escoamento, até o limite adequado para exercer sua proteção, ou até a nova linha da
margem desejada. Um espigão pode ser caracterizado da seguinte forma:

Estabilização e Proteção de Margens 59/77


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Ancoragem ou Parte do espigão que se une a margem e que deve ser perfeitamente
enraizamento ancorada à antiga margem a fim de evitar sua destruição caso seja
contornada pelas águas durante a enchente
Frente Parte do espigão voltada para montante do rio, com um talude que
varia de 1:1 a 1:3
Costa Parte do espigão voltada para jusante do rio, que deve ter uma
declividade suave senão a inclinação produz um desgaste no pé da
face de jusante. 0 talude varia, de acordo com o material empregado
e as condições locais, em torno de 1:3
Cabeça É a ponta do espigão, com um talude que vai de 1:4 a 1:5, até 1:10
ou 1:20. É uma parte muito sujeita a ação das correntes, e por isso
deve ser construída a prova de erosões. Se a cabeça do espigão
permanece por debaixo do nível de estiagem, chama-se "banhado".
Crista E uma espécie de plataforma na parte superior do espigão, com
largura variando de 1 a 3,5 m. Se a crista está abaixo do nível de
estiagem se diz que o espigão é submerso

4.2.1 Classificação dos espigões e exemplos

4.2.1.1 Quanto a finalidade

Quanto à sua finalidade, os espigões podem ser classificados como:

Um espigão isolado ou banco, é na realidade um escarpamento artificial destinado a


Espigão Isolado

empurrar a corrente liquida para longe da margem. Ele cria assim, uma recirculação e um
turbilhonamento acima da face de jusante do espigão, e se esta recirculação se estender
muito mais para baixo, a margem irá erodir mais do que se não existisse o espigão. Para
estas condições. o espigão isolado atrai a corrente em vez de empurrá-la. Em casos
especiais como proteção de encontro de pontes, proteção de talude de ensecadeiras,
direcionamento da corrente líquida para vertedores de barragens e etc é necessário e
vantajoso o uso do espigão isolado
Com a finalidade de se evitar os efeitos erosivos que ocorrem no espigão isolado,
constroi-se uma série de espigões, de tal forma que eles se protegem mutuamente e
criam entre eles, a margem e a corrente do rio, um colchão liquido estático que desvia a
Espigões de repulsão

corrente da margem. Para se obter uma concordância adequada e um bom


funcionamento dos espiões de repulsão, deve-se estudar com cuidado itens como
localização em planta, comprimento de cada espigão, separação entre eles, orientação
em relação a corrente, para cada caso particular de aplicação, pois como são muitas as
variáveis que afetam os espigões de repulsão, teremos para cada caso uma solução
própria de projeto. De um modo geral os comprimentos dos espigões de repulsão vão
crescendo de montante para jusante, sendo que o primeiro espigão de montante deve
ser o menor possível e construído com cuidados especiais para resistir a violenta ação
da corrente. Os espigões de repulsão são portanto de tipo impermeável. A desvantagem
dessa forma de proteção à quanto ao aspecto econômico, pois muitas vezes se torna
mais cara de que a proteção direta da margem.
A finalidade desses espigões é formar um depósito de material sólido no espaço entre
eles, através da diminuição da velocidade da corrente líquida nestes intervalos, o que
Sedimentação
Espigões de

causa a sedimentação do material em suspensão, protegendo-se assim a margem da


ação erosiva da corrente. Esses espiões são portanto do tipo permeáveis e para se evitar
a formação de turbilhões, devem ser curtos e nivelados abaixo da superfície livre.
Conforme vai se formando o depósito de material sólido junto da margem protegida, vão
se prolongando os espigões a fim de se ampliar a área de depósito, permitindo assim
realizar grandes economias nas primeiras obras. Claro fica que estes espigões somente
podem ser utilizados nos rios com grande transporte de sedimentos.

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Figura 55: Espigões de repulsão para estabilização de margem côncava

Figura 56: Conjunto de espigões de repulsão

Figura 57: Espigões de Sedimentação e estabilização de trecho retificado

4.2.1.2 Orientação em relação ao fluxo

Já quanto à sua orientação em relação à corrente líquida, os espigões podem estar


orientados para montante, para jusante ou podem ser normais à corrente. A orientação
do espigão se mede pelo ângulo que forma o eixo longitudinal do mesmo com a
direção, para jusante, da tangente à margem, no ponto de ancoragem ou
enraizamento. A eficácia de cada tipo é bem diferente existindo grandes controvérsias
sobre as vantagens e inconveniências de se orientar os espigões para montante,
jusante ou perpendicularmente às linhas de vazão e muitas vezes a orientação é
determinada pela experiência ou preferência do projetista.

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São os que formam um ãnqulo de 90º com a tangente à margem no ponto de


Normais
ancoragem. São geralmente curtos e executados nas margens côncavas e são
muito usados em rios com maré, onde a inversão da corrente conduz a adoção
de um traçado normal às margens.
São os espiões que formam um ângulo maior que 90º com a tangente à
Inclinante ou para

margem no ponto de ancoragem. Atualmente, os espigões são quase sempre


dirigidos para montante. A corrente que submerge tende a pegar uma direção
montante

perpendicular aos espigões, que tem por efeito conduzir as águas em direção
ao meio do rio. Além disso, tal orientação favorece o desvio de sedimentos do
canal navegável para as zonas entre os espiões na época de águas altas,
exigindo menos proteção nessa face do espigão. Entretanto, espigões
inclinantes obrigam a menores espaçamentos e portanto um maior número
deles, para um mesmo comprimento de proteção.
São os espigões que formam um ângulo menor que 90º com a tangente à
margem no ponto de ancoragem. De um modo geral, são pouco utilizados, pois
nos espigões dirigidos para jusante a tendência de erosão que se observa na
Declinante ou para jusante

extremidade destes, devido aos turbilhões é dirigida numa direção


perpendicular aos espigões, podendo atingir a margem, exigindo então obras
de proteção ou outro espigão próximo que afaste a erosão das margens.
Mesmo assim, segundo alguns autores, os espigões para jusante podem ter
certas vantagens, quais sejam:

• quanto maior a orientação para jusante mais a cavidade de erosão se


afasta do espigão.
• espigões para .jusante causam menores turbulências e profundidade de
erosão nas suas extremidades.
• espigões para jusante acumulam menos entulhos e outros materiais
flutuantes.

Figura 58: Espigão inclinado para montante

Figura 59: Espigão inclinado para jusante

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Figura 60: Espigão normal

4.2.1.3 Quanto à Permeabilidade

Quanto a possibilidade de escoamento pelo interior do espigão, temos:

Os espiogões são impermeáveis ou plenos são destinados principalmente à


modificar a direção da corrente, desviando-a da margem e são utilizados em rios
que transportam mais areias e seixos que sedimentos em suspensão. Estes
espiões suportam cargas menores que os diques, mas suas duas faces são
Impermeáveis ou plenos

submetidas a ação da corrente e elas devem resistir ao desvio da água sobre


sua crista. Os espigões podem ser compactos (ou maciços) ou maleáveis.

Os compactos resistem aos esforços aos quais são submetidos pelo conjunto de
seu peso. Os deformáveis dissipam energia pelas deformações do perfil e atritos
entre elementos construtivos, sendo necessário uma grande compacidade e
evitar-se deformações excessivas, através da utilização de elementos
resistentes.

Os espigões impermeáveis estão sujeitos a fortes esforços na extremidade,


exigindo por isso cuidados especiais de manutenção. Podem formar contra
correntes que atingem a margem antes de se formarem os depósitos protetores.
Destinam-se a reduzir velocidade da corrente na região que se deseja preencher
Permeáveis

com material arrastado pelo rio. O fluxo, ao atravessar o espigão tem sua
velocidade reduzida, o que permite a sedimentação do material.

Estes espigões são menos resistentes que os permeáveis e exigem mais


manutenção geral

4.2.1.4 Quanto à Declividade Longitudinal

Quanto a declividade e elevação da crista, tem-se construído espigões sem


declividade longitudinal (i=0) em direção ao centro do canal e com declividades de
0,02 a 0,25 m/m. Experimentalmente se tem testado espigões com crista horizontal e
com declividade de 0,1 a 0,5 m/m. Os espigões devem ser construídos com

Estabilização e Proteção de Margens 63


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declividade para dentro do rio. Devem ter como elevação inicial a altura da margem ou
a altura da superfície livre para a vazão característica do rio. 0 extremo dentro do rio
deverá ter alturas máximas de 50 cm sobre o fundo atual. Com isso se consegue
declividades de 0, 0,5 a 0,25 m/m, que tem funcionado satisfatoriamente. Ao se
construir espigões com declividades grandes até dentro do rio, temos algumas
vantagens:

• Não existe praticamente solapamento local no extremo do espigão.

• Cada espigão inclinado necessita para ser construído entre 40% a 70% do
material requerido para construir um espigão de crista horizontal.

• Se o espigão é construído com paredes verticais, há apenas uma ligeira


erosão na sua face de montante.

Figura 61: Espigões Inclinados Longitudinalmente

4.2.2 Dimensionamento dos Espigões de Proteçã o

4.2.2.1 Posicionamento em Planta

Ao se projetar uma obra de proteção, seja respeitando a margem atual, ou então em


uma nova margem (caso de retificação), é necessário traçar em planta o eixo do rio e
nas margens delinear uma linha paralela ao eixo, à qual chegarão os extremos dos
espigões.

Figura 62: Traçado dos espigões em planta

Estabilização e Proteção de Margens 64


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Figura 63: Posicionamento dos espigões numa curva

O comprimento de cada espigão será dado pela distância da margem real a esta linha.
A separação entre as novas margens (B) será dada pelo estudo da estabilidade da
seção que deve ser feito a priori, em função da finalidade da obra, como navegação,
retificação e etc.

Quando se trata de uma retificação em canais formados por areias e limos, convém
dentro do possível, que os raios das curvas, medidos até o eixo do rio, tenham os
seguintes comprimentos:

2B ≤ R ≤ 8B

onde B é a largura média do canal.

Se a curva é curva uniforme todos os espigões tem o mesmo comprimento, ângulo de


orientação e portanto uma separação uniforme. Se o raio de curvatura diminui para
jusante a separação entre os espigões diminui e é economicamente preferível
construir uma proteção direta apoiada na margem. Se o raio de curvatura aumenta
nem todos os espiões trabalham de forma uniforme.

Quando só se deseja proteger as margens atuais de um rio e é possível fazer


trabalhos de retificação, a linha que une extremos dos espigões deverá ser a mais
uniforme possível, tendo necessariamente um único raio. A linha que une os extremos
dos espigões influi no comprimento, separação e orientação destes.
Ao se proteger uma curva ou um trecho, os primeiros três espigões de montante
devem ter comprimentos variáveis. 0 primeiro deverá ser do menor comprimento
possível e os outros aumentam uniformemente, de tal maneira que o quarto já tenha o
comprimento de projeto, porém a declividade da crista deverá ser uniforme em todos
eles.

Estabilização e Proteção de Margens 65


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Figura 64: Posicionamento dos espigões numa curva

4.2.2.2 Posicionamento na Margem

Em função da altura da margem, o posicionamento pode ser feito segundo o critério


proposto por Maza Alvares (1990), conforme indicado na figura abaixo

Figura 65: Posicionamento do espigão em relação à margem

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4.2.2.3 Comprimento dos espigões

O comprimento total de um espigão se divide em comprimento de enraizamento ou


cravação e comprimento de trabalho. A primeira parte é a que está dentro da margem
e a segunda a que está dentro da corrente.

Comprimento de trabalho:
0 comprimento de trabalho, medido sobre a crista, se seleciona independentemente,
porém deve estar dentro do seguinte limite:

h ≤ LT ≤ B 4

onde: B é a largura média do canal e h a altura média, ambos referidos a vazão


predominante.

Comprimento de enraizamento
Os espiões podem ser construídos sem ter comprimento de enraizamento, por medida
de economia, porém quando não se pode correr o risco de um espigão falhar, este
comprimento será de no máximo LT/4.

4.2.2.4 Espaçamento entre espigões

Vários fatores estão relacionados com o espaçamento entre os espigões, tais como a
curvatura da margem, a velocidade de escoamento, o ângulo de ataque e
principalmente o comprimento efetivo (projeção na direção perpendicular a corrente)
do espigão. Como regra geral, emprega-se o espaçamento da ordem de 1 a 2 vezes o
comprimento do espigão.

Deve-se notar que a finalidade a que se destina a obra também é um fator que pode
alterar a relação comprimento - espaçamento dos espigões, pois esta relação será
menor para a proteção de margens do que a necessária para canais navegáveis, pois
nestes canais a finalidade é afastar as correntes erodíveis para longe das margens e
criar uma profundidade definida para o canal.

A tabela a seguir, fornece alguns critérios para espaçamento de espigões, para


proteção de margens,

Estabilização e Proteção de Margens 67


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Maza Alvarez (1990) propõe o critério relacionando o comprimento e o raio de


curvatura do canal em função do ângulo de expansão do escoamento, que é a
deflexão da corrente ao passar na frente do espigão. Esta deflexão, observada em
modelos hidráulicos varia entre

9º ≤ β ≤ 14º

Quando a margem é paralela à linha externa que liga os espigões o espaçamento


varia entre os limites

4 LT ≤ S r ≤ 6 LT

Para margens em curva vale a relação

2.5 LT ≤ S c ≤ 4 LT

A inclinação do espigão também influi, conforme indicado na figura a seguir:

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Figura 66: Espaçamento entre os espigões segundo Maza Alvares

4.2.3 Materiais Empregados na construção dos espigões e exemplos

Os espigões são construídos aos mais diversos materiais, como por exemplo madeira,
troncos e ramos de árvores, enrocamento, elementos pré fabricados de concreto e
etc.

Os espigões impermeáveis podem ser construídos em terra, protegidos por


enrocamento ou outro revestimento, bolsas e sacos preenchidos com solo cimento,
argamassa e concreto. Os espigões permeáveis são geralmente construídos com em
enrocamento de blocos granulometria variada, em gabiões, estruturas de madeira com
pilares e estacas preenchidos com enrocamento e outros tipos especiais, como
gaiolas metálicas.

Especial atenção deve ser dada à erosão junto ao pé dos espigões. Maza alvares
recomenda o emprego de uma camada de 30 cm de enrocamento tipo rip-rap sob a
base na qual será lançado o espigão, sempre que a velocidade da corrente for maior
que 1 m/s.

Espigões com inclinação longitudinal produzem menor erosão junto ao pé do que


aqueles que com crista horizontal. Maza Alvares propôs a seguinte expressão para
estimativa da erosão no pé de um espigão, baseado em outros autores:

Q1
d e = 0,855d 0 (4,17 + ln ) exp(0,0028α − 0,24k )
Q0
onde

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de→ erosão no fundo ao final do espigão, medida desde a superfície da água,


em m;
d0→ profundidade da corrente na face do espigão não afetada pela erosão, em
m;
α → ângulo formado pelo eido longitudinal do espigão e a direção do fluxo,
medida desde jusante, em graus;
k → inclinação do talude extremo do espigão, K= cot(φ). Se o espigão é inclinado
longitudinalmente e a crista chega quase até o fundo, deve ser considerada esta
inclinação;
Q1→ vazão que passaria através da área ocupada pelo espigão, em m³/s;
Q0→ vazão total pelo rio, em m³/s;
φ → angulo que forma o talude a ponta do espigão com a horizontal.

4.2.3.1 Espigões de enrocamento

Figura 67: Seções típicas de espigões de enrocamento

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4.2.3.2 Espigões com pilares de madeira preenchidos ou não com


enrocamento

Figura 68:Esquema de espigão feito com pilares de madeira, cravados no leito do rio em
linhas simples ou duplas (Petersen, 1981)

Figura 69: Espigão de enrocamento com pilares de madeira, Rio Arkansas

Estabilização e Proteção de Margens 71


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Figura 70: Enchimento de espigão de enrocamento com pilares de madeira, Rio


Arkansas

Figura 71: Retenção de debris-flow em espigão de madeira, Rio Arkansas

Figura 72: Espigão de Proteção, com retenção de material flutuante, Rio Arkansas

Figura 73: Espigão em pilares de madeira, Rio Missouri

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4.2.3.3 Espigões de Gabião

Figura 74:Espigões de proteção da margem côncava de rio em gabião tipo saco

Figura 75: Espigões em gabião tipo caixa

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4.2.3.4 Espigões com enrocamento sintético

Figura 76: Espigões com bolsacreto, Rio Mogi-Guaçu, SP

Figura 77: Detalhe dos espigões com bolsacreto, Rio Mogi-Guaçu, SP

Figura 78: Vista da costa do espigão com bolsacreto e zona de deposição

Estabilização e Proteção de Margens 74


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4.3 Diques
Os diques são estruturas paralelas ao sentido do escoamento, destinadas à proteção
das margens porém sem ser aplicados sobre elas. Os diques desviam o fluxo de forma
contínua, protegendo a margem ao mesmo tempo que definem um melhor traçado ao
canal, geralmente visando a navegação do trecho.

Tabela 19: Vantagens e desvantagens dos diques comparando-se com os espigões


Vantagens Desvantagens
fixação definitiva do novo traçado já na pode sofrer destruição total no caso de
implantação uma falha pontual
menores perdas de carga exige maiores cuidados para definição
das proteções
proteção contra ondas independente da consomem maior volume de material
resistência do talude da margem
exigem maior manutenção

4.3.1 Cercas de Madeira

Figura 79: Diques laterais em cerca de madeira (Petersen,1981)

Figura 80: Diques de madeira (Petersen, 1981)

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Figura 81: Dique misto em madeira e enrocamento

Estabilização e Proteção de Margens 76


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5 Referências Bibliográficas
[1] Maza Alvares, J.A., - Contribuicion al diseño de espigones – in XIV Congresso
Lation Americano de Hidráulica, Montevideo, 1990.

[2] Petersen, M; - River Engineering, Prentice Haall, 1981.

[3] Chang, Howard H.; - Fluvial Prcesses I River Engineering, John Wiley & Sons,
1986.

[4] Palermo, Marco A. – PHD-824 Obras Fluviais, Ataque de Margens por Ondas,
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 1983

[5] Nations Unies – Commission Economique pour l’Asie er lÉxtreme-Oprient; -


Regularisation du Lit et Protection des Berges, New Yourk, 1954.

[6] Almeida, C. E; Oliveira Jr, Alírio C. – PHD-824 Obras Fluviais, Diferentes Tipos de
Espigões – Vantagens e Inconvenientes, 1984

Estabilização e Proteção de Margens 77

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