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verve

verve
Revista Semestral do Nu-Sol — Núcleo de Sociabilidade Libertária
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP

8
2005
VERVE: Revista Semestral do NU-SOL - Núcleo de Sociabilidade Libertária/
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, PUC-SP.
Nº8 ( outubro 2005 - ). - São Paulo: o Programa, 2005 -
Semestral
1. Ciências Humanas - Periódicos. 2. Anarquismo. 3. Abolicionismo Penal.
I. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos
Pós-Graduados em Ciências Sociais.

ISSN 1676-9090

VERVE é uma publicação do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária do


Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Co-
ordenadores: Teresinha Bernardo e Paulo-Edgar Almeida Resende.

Editoria
Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária.

Nu-Sol
Acácio Augusto S. Jr., Anamaria Salles, Andre R. Degenszajn, Edson Lopes
Jr., Edson Passetti (coordenador), Eliane Knorr de Carvalho, Guilherme C.
Corrêa, Gustavo Ferreira Simões, Lúcia Soares da Silva, Márcio Ferreira
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Salete Oliveira, Thiago M. S. Rodrigues, Thiago Souza Santos.

Conselho Editorial
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Margareth Rago (Unicamp), Roberto Freire (Soma), Rogério H. Z. Nascimen-
to (UFPB), Silvana Tótora (PUC-SP).

Conselho Consultivo
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Christian Ferrer (Universidade de Buenos Aires), Dorothea V. Passetti
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do Azevedo (Unip), José Maria Carvalho Ferreira (Universidade Técnica de
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Achiamé (Editor), Silvio Gallo (Unicamp, Unimep), Vera Malaguti Batista
(Instituto Carioca de Criminologia).

ISSN 1676-9090
verve
revista de atitudes. transita por limiares e ins-
tantes arruinadores de hierarquias. nela, não
há dono, chefe, senhor, contador ou progra-
mador. verve é parte de uma associação livre
formada por pessoas diferentes na igualdade.
amigos. vive por si, para uns. instala-se numa
universidade que alimenta o fogo da liberda-
de. verve é uma labareda que lambe corpos,
gestos, movimentos e fluxos, como ardentia.
ela agita liberações. atiça-me!

verve é uma revista semestral do nu-sol que


estuda, pesquisa, publica, edita, grava e faz
anarquias e abolicionismo penal.
poemas de thiago rodrigues.
SU M Á R I O

Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze


Saul Newman 13

Atravessando Deleuze
Edson Passetti 42

Élisée Reclus:
idéias úteis para análises geopolíticas contemporâneas
Fabrizio Eva 50

Os pedreiros da anarquia 2
Edgar Rodrigues 64

Terceiro setor e limiares da autogestão


José Maria Carvalho Ferreira 84

Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação


e dispositivos de captura social
Salvo Vaccaro 121

As damas
Christian Ferrer 143

A alma paradoxal da casa


Tania Mara Galli Fonseca 149

Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso


Silvana Tótora 160

Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’Neill


Pietro Ferrua 187

Cartografias da experiência militante


Stéfanis S. Caiaffo 214
Estilo de vida e a verdade:
o exercício ético do hipócrita e do cínico
Tony Hara 230

A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal


Louk Hulsman e Jacqueline Bernat de Celis 246

A grandiloqüência da tolerância,
direitos e alguns exercícios ordinários
Salete Oliveira 276

RESENHAS

Do sul, existências anarquistas irrompem


Natalia Montebello 291

Do paleo ao neo-liberalismo:
a empresa com alma
Paulo-Edgar Almeida Resende 295

Maurício Tragtenberg
Antonio José R. Valverde 301

Da desobediência como prática política


Acácio Augusto 308
verve oitavo volume.
8: o infinito em pé, como disse um poeta.
sim, mas
re-que-bran-do.

os anarquismos abordados pelos fluxos deleuzianos,


generosa-mente.
os abolicionismos penais em sua atualidade e
contundências.

estando todos presos,


quero-me livre de qualquer consciência superior
governando os tolos.

guerra ao estado com intensas afinidades


anarquistas, num espaço livre expandido pela leitura
geográfica de élisée reclus, referência para a análise
e a crítica, nesta época dos sinais de controle
emitidos pela biometria.

em meu nome, não!

estão sempre próximos:


as fibras dos pedreiros da anarquia
e as ameaças do poder do terceiro setor;
estão juntos:
a casa e o viajante;
o militante e o cínico, desvencilhados dos hipócritas.

e
desta vez
poemas
de thiago rodrigues
acompanham
as conversações com verve
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2005

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verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

guerra ao estado: o anarquismo de


stirner e deleuze1

saul newman*

O impacto de Max Stirner na teoria política contem-


porânea é freqüentemente negligenciado. Entretanto, é
possível encontrar no pensamento político de Stirner uma
surpreendente convergência com a teoria pós-estrutu-
ralista, particularmente a respeito do funcionamento do
poder. Andrew Koch, por exemplo, considera Stirner um
pensador que transcende a tradição hegeliana, na qual é
habitualmente localizado, argumentando que seu tra-
balho é um precursor das idéias pós-estruturalistas so-
bre os fundamentos do conhecimento e da verdade.2 Ele
argumenta que o desafio individualista de Stirner às
bases filosóficas do Estado vai além dos limites da filo-
sofia Ocidental tradicional, apresentando um desafio à
sua espistemologia transcendental. À luz dessa cone-
xão estabelecida por Koch entre Stirner e a epistemolo-
gia pós-estruturalista, eu considerarei a convergência
de Stirner com certo pensador pós-estruturalista, Gilles

* Professor no Departamento de Ciência Política da University of Western


Australia.
verve, 8: 13-41, 2005

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Deleuze, a respeito da questão do Estado e do poder polí-


tico. Há muitos paralelos importantes entre esses dois
pensadores que podem ser vistos, de maneiras distintas,
como filósofos anti-Estado e anti-autoritários. Pretendo
demonstrar a maneira pela qual a crítica de Stirner ao
Estado antecipa o pensamento pós-estruturalista de
Deleuze de rejeição ao Estado, e principalmente, as for-
mas pelas quais seu anarquismo anti-essencialista e
pós-humanista transcende e, portanto, reflete sobre os
limites do anarquismo clássico. O artigo analisa as co-
nexões entre a essência humana, o desejo e o poder,
que constituem as bases da autoridade do Estado. As-
sim, enquanto Koch tem como foco a rejeição de Stirner
acerca das bases epistemológicas do Estado, a ênfase
deste artigo é a ontologia radical de Stirner — seu des-
mascaramento das sutis conexões entre humanismo,
desejo, e poder. Pretendo ainda argumentar que esta
crítica ao poder humanista que tanto Stirner quanto
Deleuze estão engajados pode nos fornecer estratégias
contemporâneas de resistência à dominação do Estado.
Deve ser entendido, entretanto, que mesmo haven-
do importantes semelhanças entre Stirner e Deleuze,
há também muitas diferenças e, de diversas maneiras,
pode parecer uma abordagem incomum aproximar es-
ses dois pensadores. Por exemplo, Stirner foi, segundo
Marx, um dos jovens hegelianos, cujo trabalho emergiu
como uma crítica individualista suprema ao idealismo
germânico, particularmente do tipo feuerbachiano e
hegeliano. Deleuze, por outro lado, foi um filósofo do sé-
culo XX, considerado junto com Foucault e Derrida um
dos principais pensadores ‘pós-estruturalistas’. Enquanto
o trabalho de Deleuze também pode ser considerado como
um ataque ao hegelianismo, ele segue os mais diferen-
tes e variados caminhos, desde a política e a psicanáli-
se até a literatura e a teoria do cinema. Stirner geral-
mente não é considerado um pós-estruturalista e, ex-

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Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

ceto pelo inovador artigo de Koch3 e o trabalho de Derrida


sobre Marx,4 ele quase não recebeu atenção no âmbito
da teoria contemporânea. Entretanto, e talvez seja esse
o problema com rótulos como “pós-estruturalismo”, há
diversos planos cruciais de convergência que podem ser
extraídos entre esses dois pensadores — particularmen-
te em suas críticas à dominação política e à autoridade
—, e que seriam negados se ficássemos presos a certos
rótulos. É precisamente nessa rejeição à tirania dos ‘ró-
tulos’, identidades essenciais, abstrações e ‘idéias fi-
xas’ — esse ataque aos conceitos autoritários que limi-
tam o pensamento — que Stirner e Deleuze alcançam
certo denominador comum. Não se deve ignorar as dife-
renças entre eles, mas ao contrário, mostrar como es-
sas diferenças ressoam juntas de maneiras imprevisí-
veis e oscilantes para formar, nas palavras de Deleuze,
‘planos de imanência’ a partir dos quais novos concei-
tos políticos podem ser formados.

I. Crítica ao Estado
Stirner e Deleuze enxergam o Estado como uma abs-
tração que transcende suas diferentes manifestações
concretas, ainda que ao mesmo tempo opere por meio
delas. O Estado é mais do que uma instituição particu-
lar que existe em um determinado período histórico. O
Estado é um princípio abstrato de poder e de autoridade
que sempre existiu em diversas formas, ‘mais do que’
atualizações particulares.
A crítica de Stirner ao Estado demonstra esse ponto
crucial. Para ele, o Estado é uma instituição essencial-
mente opressiva. Entretanto, a rejeição de Stirner ao
Estado vai além de uma crítica a Estados particulares —
como o Estado liberal ou o Estado socialista. Mais do que
isso, ela constitui um ataque ao Estado em si — a pró-

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pria categoria de poder de Estado, não apenas as dife-


rentes formas que ele assume. O que deve ser supera-
do, segundo Stirner, é exatamente a idéia de poder do
Estado — o princípio de soberania.5 Por isso, Stirner se
opõe a programas revolucionários como o marxismo, que
tem como objetivo a conquista e não a destruição do po-
der do Estado. O Estado dos trabalhadores marxistas se-
ria apenas uma reafirmação do Estado com um novo dis-
farce — uma ‘troca de senhores’.6 Stirner sugere ainda
que “a guerra deve ser declarada contra o próprio esta-
blishment, o Estado, não a um Estado particular, não a
qualquer coisa como mera condição do Estado em um
dado momento; não é um outro Estado (como um ‘Estado
do povo’) que os homens têm como alvo.”7
A ação revolucionária foi capturada, de acordo com
Stirner, pelo paradigma do Estado. Ela manteve-se apri-
sionada na dialética do poder. As revoluções apenas
obtiveram sucesso em substituir uma forma de auto-
ridade por outra. Isso porque a teoria revolucionária
nunca questionou a própria condição, a idéia de auto-
ridade do Estado, e portanto permanece a seu alcance:
“pouca dúvida ficou sobre revoltar-se contra o Estado
existente ou sobre modificar as leis existentes, mas
transgredir a idéia de Estado, não se submeter à idéia
de lei, quem ousou fazê-lo?”8 O Estado nunca pode ser
reformado porque nunca se pode confiar nele. Stirner
rejeita a noção de Estado democrático de Bruno Bauer
que excede o ‘poder do povo’ e que sempre está subordi-
nado à ‘vontade popular’. Para Stirner, o Estado nunca
pode ser subordinado ao controle do povo. Ele tem sem-
pre sua própria lógica, sua própria agenda, que cumpre
cruelmente, e logo se voltará contra a vontade do povo
que ele deveria representar.9
A concepção de Stirner sobre o Estado como uma en-
tidade independente o coloca em desacordo com o mar-

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Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

xismo, particularmente na sua visão de Estado em rela-


ção ao poder econômico. Stirner está interessado em
formas não-econômicas de dominação na sociedade e
acredita que o Estado, se é para ser completamente com-
preendido, deve ser considerado separadamente dos ar-
ranjos econômicos. O poder da burocracia, por exemplo,
constitui uma forma não-econômica de opressão: sua
operação não pode ser reduzida aos trabalhos da econo-
mia.10 Isto é contrário à teoria marxista, que geralmen-
te enxerga o Estado como redutível aos trabalhos da eco-
nomia capitalista e submetido aos interesses da bur-
guesia. Stirner aponta que ao mesmo tempo em que o
Estado protege a propriedade privada e os interesses da
burguesia, ele também se coloca acima e domina estas
forças.11 Para Stirner, o poder político sacramentado pelo
Estado predomina sobre o poder econômico e seus rela-
tivos interesses de classe. O Estado é a fonte primária
de dominação na sociedade.
Esta análise não-econômica do Estado — o esforço
para enxergar o poder do Estado em sua própria especi-
ficidade — pode ser vista como uma extensão do argu-
mento anarquista. Anarquistas como Mikhail Bakunin
e Piotr Kropotkin apontaram há mais de um século que o
reducionismo econômico marxista negligenciou a impor-
tância do poder do Estado. O Estado para os anarquistas,
tem sua própria lógica opressiva de auto-perpetuação e
isto ocorre, em grande medida, de forma autônoma às re-
lações econômicas e interesses de classes. Bakunin ar-
gumenta que o marxismo presta muita atenção às formas
de poder de Estado, e não leva em conta o meio pelo qual o
poder de Estado opera: “Eles (marxistas) não sabem que o
despotismo não reside na forma do Estado, mas no próprio
princípio do Estado e do poder político.”12 Kropotkin tam-
bém aponta que se deve olhar para além da forma presen-
te do Estado: “Há aqueles, como nós, que vêem no Estado,
não apenas na sua forma atual e todas as formas de do-

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minação que ele pode assumir, mas em sua própria es-


sência, um obstáculo à revolução social.”13 Opressão e
despotismo existem, em outras palavras, na própria es-
trutura e simbolismo do Estado — e isto não é simples-
mente uma derivação do poder de classe. Negligenciar
esta autonomia e usar o Estado como uma ferramenta
da classe revolucionária, como propuseram os marxis-
tas, foi arriscado. Os anarquistas acreditavam que isto
acabaria apenas por perpetuar o poder do Estado em
modos infinitamente mais autoritários. Assim, a análi-
se de Stirner do Estado além do Estado, constituindo uma
dominação a priori, além das preocupações econômicas
e de classe, pode ser vista como uma extensão da críti-
ca anarquista às filosofias do Estado como o marxismo.
Deleuze também enfatiza o princípio de autonomia
do Estado. Ao mesmo tempo em que sua noção de Estado
opera em diferentes níveis conceituais, ele, no entan-
to, compartilha com Stirner e os anarquistas a idéia de
que o Estado é uma forma abstrata de poder não comple-
tamente identificável com suas realizações concretas
particulares. Deleuze refere-se a uma “forma de Esta-
do” — um modelo abstrato de poder: “o aparelho de Esta-
do é uma montagem concreta que realiza a máquina de
codificação de uma sociedade... Esta máquina, por sua
vez, não é o Estado em si, é uma máquina abstrata que
organiza os discursos dominantes e a ordem estabele-
cida de uma sociedade, as linguagens e o conhecimen-
to dominantes, ações e sentimentos conformistas, os
segmentos que prevalecem sobre outros.”14
Para Deleuze o Estado é mais uma máquina abstrata do
que uma instituição concreta, que essencialmente ‘co-
manda’ por meio de pequenas instituições e práticas de
dominação. O Estado codifica e regula essas pequenas do-
minações, estampando-as com a sua cara. E o importante
sobre essa máquina abstrata não é a forma pela qual ela

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Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

aparece, mas sua função, a constituição de um campo de


interioridade em que a soberania política pode ser exerci-
da. O Estado pode ser visto como um processo de captura.15
De forma similar a Stirner, Deleuze rompe com as aná-
lises marxistas do Estado. A função e as origens do Estado
não podem ser inteiramente explicadas por uma análise
econômica. O Estado é um aparelho que codifica fluxos
econômicos e de produção, organizando-os em um padrão.
Este aparelho não surgiu como resultado de um modo agrá-
rio de produção, como apontou Marx, mas de fato antecede
e é pressuposto por este modo de produção. Para Deleuze e
também para Stirner, o Estado não pode ser atribuído a
um modo de produção. Invertendo esta tradicional análise
marxista eles sugerem que o modo de produção pode na
realidade ser derivado do Estado. Como afirma Deleuze:
“Não é o Estado que pressupõe um modo de produção; mas
exatamente o oposto, é o Estado que faz das produções um
‘modo’.”16 Para Deleuze sempre houve um Estado — o Urs-
taat, um eterno Estado que nasce já completamente for-
mado, de uma só vez.17 Esta análise não-econômica do Es-
tado dá abertura a um terreno filosófico radical em que o
poder é teorizado a partir de seu próprio espaço.
Enquanto a concepção de Stirner e Deleuze de Estado
autônomo dos arranjos econômicos rompe com o marxis-
mo, sua rejeição das teorias do contrato social das origens
do Estado também é um afastamento em relação à teoria
liberal. Deleuze aponta que a dominação do Estado é base-
ada em filosofias como a teoria liberal do contrato social.
Esta forma de pensamento de Estado legitima o poder do
Estado por defender que as pessoas entregam voluntaria-
mente parte de sua liberdade a um poder abstrato externo
a elas em troca de segurança, construindo então o Estado
como necessário e inevitável. Deleuze rejeita ainda a ex-
plicação hegeliana “teológica” do Estado baseado na recon-
ciliação dialética.

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Stirner também rejeita as teorias liberais do Estado.


Aponta que o liberalismo é uma filosofia que, em nome de
garantir a liberdade e a autonomia ao indivíduo, na reali-
dade subordina ainda mais o indivíduo ao Estado e às suas
leis. Portanto, ao invés de libertar o indivíduo do Estado, o
liberalismo na realidade liberta o indivíduo de outros la-
ços como a religião, de maneira que ele pode ser mais
efetivamente dominado pelo Estado. “Liberdade política
significa que a polis, o Estado, é livre.... Não significa mi-
nha liberdade, mas a liberdade do poder que me governa e
me subjuga.”18 Stirner ataca a hipocrisia do liberalismo; é
uma filosofia que concede todos os tipos de liberdades for-
mais, mas nega a liberdade de desafiar a sua própria or-
dem, suas leis, etc.19
Este repúdio às teorias liberais do Estado e ao contrato
social tem muitas similaridades com o anarquismo, que
também rejeita estas filosofias justificadoras do Estado.
Entretanto, como pretendo argumentar, é precisamente
nesta crítica à filosofia do Estado que Stirner e Deleuze
vão além dos limites conceituais do anarquismo tradi-
cional e desenvolvem um desafio pós-humanista, anti-
essencialista ao Estado.

II. Pensamento de Estado


Para Stirner, discursos como moralidade e raciona-
lidade são idéias fixas ou espíritos. São aparições, abs-
trações ideológicas que nem mesmo têm efeitos políti-
cos reais — eles fornecem ao Estado uma justificativa
formal para a sua dominação. Koch aponta que o ataque
de Stirner às idéias fixas representa um rompimento
decisivo com o transcendentalismo do pensamento oci-
dental, expondo o poder que se encontra por trás dessas
idéias dominantes e “máscaras transcendentais.”20 Esse
poder foi abstraído do indivíduo e está suspenso sobre

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Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

ele. O domínio da moralidade, por exemplo, está funda-


mentalmente conectado ao poder político, preservando
a existência contínua do Estado policial21 Para Stirner,
moralidade não é apenas uma ficção derivada do idea-
lismo cristão, mas é também um discurso que oprime o
indivíduo. Está baseada na profanação do desejo indivi-
dual — o ego. A moralidade é simplesmente o resto do
cristianismo, apenas em uma nova roupagem huma-
nista: “Fé moral é tão fanática quanto fé religiosa!”22 A
moralidade se transformou na nova religião — a reli-
gião secular — demandando a mesma obediência in-
questionável. Para Stirner, o Estado é a nova Igreja — a
nova autoridade moral e racional exercida sobre o indi-
víduo.23
De maneira similar, a racionalidade também pode
ser vista como um discurso que perpetua o poder do Es-
tado. Verdades racionais são sempre mantidas acima
de perspectivas individuais; e este é outro meio de su-
bordinar o ego individual a um poder abstrato acima do
indivíduo. Assim como a moralidade, a verdade racional
tornou-se sagrada, absoluta, removida do alcance do in-
divíduo.24 Então, para Stirner, moralidade e racionali-
dade são discursos do Estado, e sua função, ao invés de
nos libertar da dominação, é subordinar ainda mais o
indivíduo ao poder do Estado. Assim, de acordo com Stir-
ner, para se travar guerra contra o Estado deve-se tam-
bém travar guerra contra os princípios que sustentam o
poder político com uma base moral e racional.
Deleuze também desmascara formas e estruturas
do pensamento que afirmam o poder do Estado. Como
Stirner, Deleuze acredita que o pensamento é cúmpli-
ce na dominação do Estado, conferindo-lhe bases legíti-
mas e consenso: “Apenas o pensamento é capaz de in-
ventar a ficção de um Estado que é universal por di-
reito, de elevar o Estado à universalidade de jure.”25

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Racionalidade é um exemplo de pensamento de Estado


e Deleuze vai um passo além de Stirner: ao invés de
considerar certas formas de pensamento como simples
concessão de autoridade moral e racional ao Estado, ele
sustenta que discursos racionais e morais na realidade
formam parte da maquinaria do Estado. O Estado não é
apenas uma série de instituições e práticas políticas,
mas também compreende uma multiplicidade de nor-
mas, tecnologias, discursos, práticas, formas de pensa-
mento e estruturas lingüísticas. Não significa apenas
que estes discursos provêem uma justificativa para o
Estado — são eles mesmos manifestações da forma do
Estado em pensamento. O Estado é imanente no pensa-
mento, conferindo-lhe base, símbolos — provendo-o com
um modelo que define suas “metas, caminhos, condu-
tos, canais, órgãos”.26 O Estado penetrou e codificou o
pensamento, em particular o pensamento racional.
Ambos dependem de discursos racionais para sua legi-
timação e funcionamento, ao mesmo tempo em que tor-
nam estes discursos possíveis. O pensamento racional
é filosofia do Estado: “Senso comum, a unidade de todas
as faculdades do centro do Cogito, é o consenso de Esta-
do elevado ao absoluto.”27 É apenas livrando o pensamen-
to desse autoritarismo moral e racional que nós pode-
mos nos libertar do Estado.28
Para Deleuze, o modelo de pensamento de Estado é o
que ele chama de lógica arborescente,29 um modelo ou
“imagem” conceitual que pré-determina o pensamento
a partir de uma base racional. Está baseado no sistema
de raiz e da árvore: há uma unidade central, verdade ou
essência — como racionalidade — que é a raiz, e que
determina o crescimento de seus ‘troncos’. Deleuze afir-
ma: “árvore não é uma metáfora mas uma imagem de
pensamento, um funcionamento, todo um aparelho que
é plantado no pensamento para fazê-lo seguir em linha
reta e produzir as famosas idéias corretas. Há todos os

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verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

tipos de características nas árvores: um ponto de ori-


gem, semente ou centro; é uma máquina binária ou
princípio de dicotomia, que é continuamente dividido e
reproduzido em troncos, seu ponto de arborescência.30
O pensamento é apanhado por identidades binárias
como preto/branco, masculino/feminino, hetero/ho-
mossexual. O pensamento deve sempre se desdobrar de
acordo com uma lógica dialética e, assim, é apanhado
por suas divisões binárias que negam diferença e plu-
ralidade.31 Para Deleuze, este modelo de pensamento é
também o modelo para o poder político — o autoritaris-
mo de um está intrinsecamente ligado ao autoritaris-
mo do outro. “O poder é sempre arbóreo.”32
Portanto, ao invés desse modelo autoritário de pen-
samento, Deleuze propõe um modelo rizomático que re-
jeita essências, unidades e lógica binária, e busca mul-
tiplicidades, pluralidades e devires. O rizoma é uma ‘ima-
gem’ alternativa, não autoritária de pensamento, baseada
na metáfora da grama, que cresce desordenadamente e
imperceptivelmente, em oposição ao crescimento orde-
nado do sistema arborescente da árvore. O propósito do
rizoma é permitir ao pensamento “livrar-se de seu mo-
delo, fazer sua grama crescer — mesmo localmente nas
margens.”33 O rizoma, neste sentido, recusa obedecer a
própria idéia de um modelo: ele é uma interminável
casual multiplicidade de conexões, que não são domi-
nadas por um único centro ou lugar, mas é descentrali-
zado e plural. Inclui quatro características: conexão, he-
terogeneidade, multiplicidade e ruptura.34 Rejeita divisões
binárias e hierarquias, e não é governado por uma lógi-
ca reveladora e dialética. Interroga, assim, as abstra-
ções que governam o pensamento, que formam a base
de diversos discursos do conhecimento e da racionali-
dade. Em outras palavras, pensamento rizomático é o
pensamento que desafia o Poder, recusando ser limita-

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do por ele — rizomáticos “não delegariam isso a nin-


guém, a Poder algum, para ‘apresentar’ questões ou ‘co-
locar’ problemas.
Pode-se argumentar que o ataque de Stirner às abs-
trações, essências e idéias fixas, é um exemplo de pen-
samento rizomático. Assim como Deleuze, Stirner busca
multiplicidades e diferenças individuais, e não abstrações
e unidades. Abstrações, como verdade, racionalidade, es-
sência humana, são imagens que, para esses pensado-
res, negam a pluralidade e deformam a diferença na
semelhança. Koch comenta o desprezo de Stirner pelas
idéias fixas transcendentais. Entretanto, eu afirmaria
que Stirner inventa aqui uma nova forma de pensamento
que enfatiza a multiplicidade, a pluralidade e a indivi-
dualidade sobre o universalismo e o transcendentalis-
mo. Este pensamento anti-essencialista e antifunda-
mentalista, antecipa a abordagem de Deleuze. Além
disso, esse estilo anti-essencialista e antifundamenta-
lista de pensar tem implicações radicais na filosofia
política. A arena política não pode mais ser definida de
acordo com as velhas linhas de batalha do Estado e do
sujeito autônomo e racional que resiste a elas. Isto por-
que a revolução é capaz de formar múltiplas conexões,
incluindo conexões com o próprio poder ao qual se espe-
ra que ela se oponha. “Essas linhas fixam-se uma à ou-
tra. Por esta razão nunca se deve sugerir um dualismo
ou uma dicotomia, nem mesmo na forma rudimentar do
bem e do mal.”35 Portanto, de acordo com suas críticas
aos discursos racional e moral, tanto Stirner quanto
Deleuze veriam as teorias políticas baseadas em uma
crítica racional do Estado como formas de pensar que na
realidade reafirmam o poder do Estado, em vez de resis-
tir. Essas teorias, por não questionarem a distinção es-
sencialista entre racionalidade e irracionalidade, e por
enxergarem o Estado como fundamentalmente irracio-
nal, negligenciam o fato que o Estado já capturou o dis-

24
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

curso racional. Em outras palavras, questionar a base


racional do Estado, afirmar que o poder do Estado é ‘ir-
racional’ ou ‘imoral’, não é necessariamente uma sub-
versão ao Estado, mas pode ser a afirmação de seu po-
der. Isso deixa intacto o poder do Estado, submetendo a
ação revolucionária às injunções racionais e morais que
as canalizam em formas de Estado. Se o Estado deve ser
superado, é preciso inventar novas formas de política
que não se permitam ser capturadas pela racionalida-
de: “política é experimentação ativa já que nós não sa-
bemos com antecedência para que lado a linha se cur-
vará.”36 Discutirei adiante essa questão da resistência.
Para Deleuze e Stirner, portanto, uma filosofia como o
anarquismo, que realiza uma crítica à autoridade do Estado
baseada em princípios morais e racionais, reafirmaria o
poder do Estado. O anarquismo tradicional enxerga o Estado
como profundamente imoral e irracional, e constrói uma
dicotomia maniqueísta entre o Estado e o sujeito essenci-
almente moral e irracional que resiste a esse poder.37
Entretanto, como salientei anteriormente, o pensamento
anti-estatista de Deleuze e Stirner vai além das categorias
do anarquismo tradicional precisamente neste ponto. Para
esses dois pensadores, a própria idéia de essência, centro
e bases racional e moral — os princípios sobre os quais a
crítica anarquista à autoridade é baseada — são elas
mesmas estruturas autoritárias que se prestam à domi-
nação po-lítica. Em outras palavras, Stirner e Deleuze, de
manei-ras distintas, foram além dos limites da crítica anar-
quista à autoridade, fazendo-a virar sobre si mesma. Eles
trouxeram a crítica à autoridade do Estado para um campo
inalcançável aos anarquistas — aquele do próprio
pensamento racional, rompendo, assim, com as categorias
do Iluminismo humanista que demarcam o anarquismo.
Diferente dos anarquistas, Deleuze e Stirner não nos
permitem o privilégio desta oposição estrita entre o poder
irracional, imoral e corrupto do Estado e a essência racio-

25
8
2005

nal e moral do sujeito humano. Eles não permitem, em


outras palavras, o ponto de partida não contaminado da
subjetividade humana que está no centro da crítica
anarquista à autoridade.

III. O Sujeito do desejo


A crítica de Stirner e Deleuze ao Iluminismo hu-
manista que faz parte do anarquismo pode ser vista
mais claramente em sua desconstrução da noção de
um sujeito essencial. O trabalho de Stirner é uma re-
jeição da idéia de uma subjetividade humana essenci-
al, uma essência humana que não é contaminada pelo
poder. Como Koch argumentou, a ruptura de Stirner
com o Iluminismo humanista constituiu um novo ter-
reno teórico que vai além do anarquismo clássico —
um terreno que antecipou o pós-estruturalismo. O pen-
samento de Stirner se desenvolveu como uma crítica
ao humanismo de Feuerbach. Este acreditou que a re-
ligião era alienante porque exigia que o Homem abdi-
casse de suas próprias qualidades e poderes projetan-
do-o em uma abstrata figura de Deus, deslocando, as-
sim, sua própria essência, deixando-o alienado e sem
base.38 Feuerbach considera vontade, bondade e pen-
samento racional características essenciais que foram
abstraídas do Homem; as declarações de Deus foram
apenas declarações do Homem enquanto espécie hu-
mana. Então, ao clamar que as qualidades as quais nós
atribuímos a Deus ou ao Absoluto são realmente as
qualidades do Homem, Feuerbach transformou o Ho-
mem em um ser onipotente. Feuerbach incorpora o
projeto Iluminista humanista recolocando o Homem em
seu devido lugar no centro do universo — para tornar o
“humano divino, o finito infinito.”

26
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

No entanto, é a tentativa de substituir Deus pelo


Homem que Stirner condena. De acordo com Stirner,
Feuerbach, ao clamar pelo fim da religião, simplesmen-
te inverteu a ordem do sujeito e do predicado, sem de-
sestruturar a categoria da própria autoridade religiosa.39
A categoria alienante de Deus é retida e solidificada
pela sua incrustação no Homem. O Homem torna-se,
em outras palavras, o substituto para a ilusão cristã.
Feuerbach, afirma Stirner, é o alto sacerdote de uma
nova religião — o humanismo “a religião Humana é ape-
nas a última metamorfose da religião Cristã.”40 Ao tor-
nar certas características e qualidades essenciais ao
Homem, Feuerbach alienou aqueles nos quais essas
qualidades não existiam. O indivíduo encontra-se sub-
metido a uma nova série de absolutos — Homem e es-
sência Humana. Para Stirner, o Homem é tão opressivo
quanto Deus: “Feuerbach acredita que se ele humani-
zar o divino, ele terá encontrado a verdade. Não, se Deus
nos deu a dor, o ‘Homem’ é capaz de nos afligir de forma
ainda mais torturante.”41 Assim como Deus era um po-
der que oprimia o ego individual, agora ele é essência
humana, e “o medo do Homem é simplesmente uma for-
ma alterada do medo de Deus.”42 Para Stirner, essência
humana é a nova norma que condena a diferença. O
humanismo é um discurso de dominação — ele criou,
nas palavras de Stirner, “um novo feudalismo sob a su-
serania do ‘Homem’.”43 Homem e Humanidade são cons-
truídos no discurso humanista como normas essenci-
ais com as quais os indivíduos têm que se conformar, e
de acordo com a qual a diferença é marginalizada: “eu
estabeleço o que é o ‘Homem’ e o que é agir de forma
‘verdadeiramente humana’, e eu exijo de cada um que
esta lei torne-se norma e ideal a ele; de outra forma,
ele irá revelar-se um ‘pecador e criminoso’.44
Stirner definiu uma nova operação do poder que eludiu
filosofias iluministas clássicas como o anarquismo. Ele

27
8
2005

descreve um processo de assujeitamento no qual o poder


funciona, não reprimindo o Homem, mas o construindo
como um sujeito político e governando por meio dele. O
Homem é constituído como um local de poder, uma uni-
dade política por meio da qual o Estado domina o indiví-
duo.45 O Estado exige que o indivíduo se conforme a cer-
ta identidade essencial para que ele possa fazer parte
da sociedade do Estado e, logo, dominado: “portanto o Es-
tado trai sua inimizade em relação a mim exigindo que
eu seja um Homem... ele impõe sobre mim um Homem
como uma obrigação.”46 Stirner rompeu com a ontologia
humanista tradicional ao enxergar o ego individual e a
essência humana como entidades separadas e opostas.
A humanidade não é uma essência transcendental cri-
ada por leis naturais que o poder vem oprimir, como
acreditavam os anarquistas. Ao contrário, é uma fabri-
cação de poder ou, no mínimo, uma construção discur-
siva que pode ser feita para servir aos interesses do po-
der.
É essa desestruturação da ontologia do Iluminismo
humanista que permite aos pós-estruturalistas como
Deleuze enxergar a política de um modo completamen-
te novo. Assim como Stirner, Deleuze enxerga o sujeito
humano como um efeito do poder, e não uma identidade
essencial e autônoma. A subjetividade é construída de
uma forma que seus desejos tornam-se o desejo de Es-
tado. Segundo Deleuze, o Estado, que uma vez operou
por meio de um aparelho repressivo massivo, agora não
mais necessita dele — ele funciona por meio da auto-
dominação do sujeito. O sujeito torna-se seu próprio le-
gislador: “quanto mais você obedece aos enunciados da
realidade dominante, mais você comanda como um su-
jeito que fala dentro de uma realidade mental, para fi-
nalmente obedecer apenas a si mesmo. Uma nova for-
ma de escravidão foi inventada, aquela em que se é es-
cravo de si mesmo.”47

28
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

Para Deleuze, o desejo é canalizado ao Estado por


meio de nossa vontade de submissão à representação
do Édipo. O Édipo é a defesa do Estado contra o desejo
incontrolável.48 De fato Deleuze vê a psicanálise como a
nova igreja, um novo altar sobre o qual nós nos sacrifi-
camos, não mais para Deus, mas para Édipo. Os psica-
nalistas são “os últimos sacerdotes.”49 Portanto, enquan-
to para Stirner a religião do Estado é o humanismo e o
Homem humanista, para Deleuze a religião do Estado é
o Édipo. A representação do Édipo não reprime o desejo
como tal, mas antes o constrói de uma maneira que ele
mesmo acredita ser reprimido, ser baseado em uma ne-
gatividade, culpa e ausência.50 Assim, a repressão de
Édipo é simplesmente a máscara para a real dominação
do desejo. O desejo é ‘reprimido’ desta forma porque li-
bertá-lo é uma ameaça ao Estado — isso é essencial-
mente revolucionário: “não há nenhuma máquina de
desejo capaz de ser montada sem demolir setores soci-
ais por completo.”51 Deleuze afirma que o Édipo indivi-
dualiza o desejo cortando suas possíveis conexões e apri-
sionando-o dentro do sujeito individual. Da mesma for-
ma, para Stirner, o sujeito humano essencial aprisiona
o ego, tentando capturar suas pluralidades e fluxos em
um único conceito.
A questão do desejo representa uma função crucial
tanto no pensamento político de Deleuze quanto no de
Stirner, e eu poderia afirmar que é impossível enten-
der suas radicais abordagens políticas sem uma consi-
deração sobre esse conceito. Para estes pensadores, nós
podemos desejar nossa própria dominação, da mesma
forma que podemos desejar a liberdade. Deleuze diz:
“para a questão ‘como o desejo pode desejar sua própria
repressão, como pode desejar sua própria escravidão’,
nós respondemos que os poderes que esmagam o dese-
jo, ou que o subjuga, eles mesmos já são partes das
montagens do desejo.”52

29
8
2005

Para Stirner, de modo similar, o desejo não é repri-


mido ou negado — ao contrário, ele é canalizado para o
Estado: “o Estado se esforça para domar o Homem dese-
joso; em outras palavras, ele procura direcionar seu de-
sejo a ele apenas, e contentar aquele desejo com o que
ele oferece.”53 Então, para Stirner o desejo é constituído
de uma maneira pela qual ele se transforma em desejo
pelo Estado. Desta forma, a dominação do Estado torna-se
possível por meio de nossa cumplicidade — por meio de
nosso desejo pela autoridade.54 Como Deleuze, Stirner
não está muito interessado no poder em si, mas nas
razões pelas quais nos permitimos ser dominados pelo
poder. Ele quer estudar as formas pelas quais participa-
mos de nossa própria opressão, e mostrar que o poder
não está apenas preocupado com questões econômicas
ou políticas — ele também está enraizado em necessi-
dades psicológicas. Ele se embutiu, na forma de idéias
abstratas como o Estado, a essência humana e a mora-
lidade, e profundamente em nossa consciência. O do-
mínio do Estado, argumenta Stirner, depende de nossa
aceitação em deixar que ele nos domine: “o Estado não
é pensável sem senhorio e servidão (sujeição); pois o
Estado deve desejar ser senhor de tudo o que ele englo-
ba, e este desejo é chamado de ‘desejo do Estado’... Aquele
que assegura sua propriedade, deve contar com a au-
sência de desejo nos outros como algo criado por estes
outros, assim como um senhor é algo criado pelo servo.
Se a submissão cessasse, toda relação senhorial aca-
baria.”55
Stirner argumenta que o próprio Estado é essencial-
mente uma abstração: ele apenas existe porque nós
permitimos que exista e porque nós abdicamos em seu
favor nossa própria autoridade, da mesma maneira que
nós criamos Deus abdicando de nossa autoridade e o
colocando fora de nós mesmos. Mais importante do que
a instituição do Estado é o ‘principio de governo’ — é a

30
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

idéia do Estado que nos oprime.56 O poder do Estado está


na realidade baseado no nosso poder. Seria o Estado tão
dominante se alguém se recusasse a obedecê-lo, se al-
guém se recusasse a entregar sua autoridade a ele?
Não é inegável que qualquer tipo de governo depende de
nossa permissão em deixá-lo nos governar? O poder po-
lítico não pode estar assentado apenas na coerção. Ele
precisa de nossa ajuda, de nosso desejo de obedecer. É
apenas porque o indivíduo não reconheceu este poder,
porque ele se humilha perante o sagrado, perante a
autoridade, que o Estado continua a existir.”57
Portanto, para Stirner e Deleuze, o Estado deve ser
superado como uma idéia antes que ele seja supera-
do na realidade. Este é o único meio de assegurar que
um novo Estado não floresça no lugar do velho. Esta
também foi a preocupação central do anarquismo. En-
tretanto, de acordo com este argumento, o anarquis-
mo clássico falhou ao não prestar a devida considera-
ção ao problema do poder, subjetividade e desejo. Como
Stirner e Deleuze mostraram, o poder do Estado não
está apenas ligado a discursos morais e racionais, mas
ele também está fundamentalmente ligado à idéia do
sujeito humanista autônomo — a pedra fundamental
do pensamento anarquista. O que os anarquistas clás-
sicos não previram foi a sutil cumplicidade entre o
sujeito desejado e o poder que o oprime. Este é o es-
pectro que assombra a teoria revolucionária. Stirner
e Deleuze vão além da problemática do anarquismo
clássico ao desmascarar as ligações entre essência
humana e poder, e ao reconhecer as possibilidades
autoritárias do desejo. Fica claro, então, que a resis-
tência contra o poder do Estado deve atuar por linhas
distintas daquelas que foram vislumbradas pelos anar-
quistas clássicos.

31
8
2005

IV. Resistência
Para Stirner e Deleuze, a dominação do Estado não
opera apenas por meio de teorias de contrato social e
por discursos morais e racionais, mas fundamentalmen-
te por meio do próprio desejo humanista. Se estamos
intrinsecamente atados ao Estado, a questão deve ser
como resistir a essa dominação? Para Stirner e Deleuze,
resistência ao Estado deve ocorrer no nível de nossos pen-
samentos, idéias e fundamentalmente de nossos desejos.
Devemos aprender a pensar além do paradigma do Estado.
A ação revolucionária falhou no passado pois se manteve
aprisionada por esse paradigma. Mesmo as filosofias re-
volucionárias como o anarquismo, que têm como objeti-
vo a destruição do poder do Estado, mantiveram-se apri-
sionadas a concepções essencialistas e estruturas ma-
niqueístas, como Stirner e Deleuze têm demonstrado,
freqüentemente terminam por reafirmar a autoridade.
Talvez a própria idéia de revolução deva ser abandonada.
Talvez a política deva ser a de escapar de estruturas e
identidades essencialistas. Stirner argumenta, por exem-
plo, que a resistência ao Estado deve assumir não a for-
ma de revolução, mas de “insurreição”.
Revolução e insurreição não devem ser consideradas
como sinônimos. A primeira consiste na inversão de con-
dições, das condições estabelecidas ou status, o Estado ou
sociedade, e é, portanto, um ato político e social. A última
possui, de fato, para sua inevitável conseqüência, uma
transformação de circunstâncias, apesar de não começar
por ela mas pelo descontentamento dos homens com eles
mesmos; não é um levante armado, mas um levante de
indivíduos, um levante sem acatar os arranjos que dele
florescem. A revolução almejava novos arranjos; a insur-
reição não nos leva a permitir ser organizados, mas orga-
nizarmos a nós mesmos, e não deposita nenhuma espe-
rança promissora nas ‘instituições’. Não é uma luta con-

32
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

tra o estabelecido, já que, se ele prospera, o estabeleci-


do colapsa por si mesmo; é apenas uma continuidade
de mim para fora do estabelecido.
A insurreição, pode-se dizer, começa com a recusa
do indivíduo à sua identidade forçada, o ‘Eu’ por meio
do qual o poder opera: ela começa “no descontentamen-
to dos homens com eles mesmos”. Além disso, Stirner
afirma que a insurreição não pretende derrubar as ins-
tituições políticas em si. Ela tem como objetivo fazer
com que o indivíduo ponha um fim à sua própria iden-
tidade — o resultado é, apesar disso, uma mudança na
organização política. Portanto, a insurreição não con-
siste em tornar-se o que cada um ‘é’ de acordo com o
humanismo — tornar-se humano, tornar-se Homem
— mas tornar-se aquele que ele não é. A noção de Stir-
ner de rebelião envolve um processo de devir — refere-
se a uma contínua reinvenção de si mesmo. O eu não
é uma essência, um conjunto definido de característi-
cas, mas, ao contrário, é um vazio, um “nada criativo”,
e cabe ao indivíduo criar algo fora disso e não ser limi-
tado por essências.58
Como vimos, Deleuze também rejeita a unidade e o
essencialismo do sujeito, entendendo-o como uma es-
trutura que constrange o desejo. Ele também vê o devir
— tornar-se outro em vez de Homem, de humano —
como uma forma de resistência. Ele propõe uma noção
de subjetividade que privilegia a multiplicidade, a plu-
ralidade e a diferença em lugar da unidade, e o fluxo
em lugar da estabilidade e essencialismo da identida-
de. A unidade do sujeito é quebrada em uma série de
fluxos, conexões, e composições de partes heterogêne-
as.59 Não se pode nem mesmo pensar o corpo como uni-
ficado: nós somos compostos por diferentes partes que
podem funcionar de forma consideravelmente indepen-
dente. Não importa o sujeito ou os vários componentes

33
8
2005

por eles mesmos, mas o que acontece entre os compo-


nentes: conexões, fluxos, etc.60
Assim, para Deleuze e Stirner, resistência ao Estado
deve envolver uma rejeição a identidades unificadas e
essencialistas — identidades que atam desejo, lingua-
gem e pensamento ao Estado. Sua quebra de unidade na
pluralidade, diferença e devir podem ser vistos como um
exercício no pensamento anti-autoritário, anti-estatal.
Isto pode ser visto como uma tentativa de ir além das
categorias políticas presentes e inventar novas catego-
rias — expandir o campo da política para além dos limi-
tes atuais pelo desmascaramento das conexões que po-
dem ser formadas entre resistência e o poder a que se
resiste. Como afirma Deleuze: “você pode fazer uma
ruptura, desenhar uma linha de fuga, mas ainda assim
há o perigo de re-estratificar tudo, configurações que
restauram o poder a um significante...”61
Talvez uma maneira para se pensar fora dessa lógi-
ca binária, essencialista, seja por meio do conceito de
guerra. Stirner e Deleuze, de diferentes formas, teori-
zam formas não-essencialistas de resistência contra
o Estado em termos de guerra. Stirner convoca a guer-
ra a ser declarada à própria instituição e princípio do
Estado. Além disse, ele enxerga a sociedade em ter-
mos de uma guerra de egos, um tipo de guerra hobbe-
siana de “todos contra todos” na qual não existe apelo
algum a qualquer noção de coletividade ou unidade.62
Em razão disso, ele tem sido freqüentemente acusado
de defender um individualismo egoísta e extremo no
qual “força é direito” e no qual ao indivíduo é permitido
tudo aquilo que está ao alcance do seu poder. Entre-
tanto, eu diria que Stirner não está falando aqui sobre
a guerra de fato, mas de um conflito no nível das repre-
sentações que cria aberturas teóricas radicais e nas
quais todas as unidades essenciais e coletividades são

34
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

rompidas. Guerra para Stirner não é um estado de natu-


reza ou uma característica essencial. Ao contrário, ela é
um modo de pensar que desestrutura a essência.
É no mesmo sentido que Deleuze fala sobre a “máqui-
na de guerra” como uma figura de resistência contra o
Estado. A máquina de guerra constitui um lado exterior ao
Estado. Enquanto o Estado é caracterizado pela interiori-
dade, a máquina de guerra é caracterizada pela exteriori-
dade absoluta. Enquanto o Estado é, como nós vimos, um
plano conceitual codificado confinando o pensamento em
estruturas binárias a máquina de guerra é um puro mo-
vimento nômade, não-estriado e decodificado. É um espa-
ço caracterizado por pluralidades, multiplicidades e dife-
renças, que escapa à codificação do Estado rejeitando es-
truturas binárias.63 A máquina de guerra é a exterioridade
do Estado — tudo o que escapa à captura do Estado: “assim
como Hobbes enxergou nitidamente que o Estado era con-
tra a guerra, então a guerra é contra o Estado e o torna
impossível.”64 Esta é a ausência conceitual da essência e
da autoridade central. Novamente, eu diria que Deleuze,
como foi o caso com Stirner, não está falando aqui sobre a
guerra de fato, mas sobre um ter-reno teórico caracteriza-
do pela abertura conceitual à pluralidade e à diferença,
que rejeita as identidades estabelecidas, essências e uni-
dades conceituais que formam parte da maquinaria do
Estado. A idéia de guerra como um deslocamento radical e
um vazio constitutivo pode ser desenvolvida desta forma,
como uma ferramenta de resistência contra o poder e a
autoridade do Estado.
Resistência, como vimos, é uma operação perigosa: ela
sempre pode ser colonizada pelo poder ao qual se opõe. Ela
não pode mais ser vista como a derrubada do poder do Es-
tado por um sujeito revolucionário essencial. A resistên-
cia deve ser vista agora em termos de guerra: um campo
de múltiplos embates, estratégias, táticas localizadas, con-

35
8
2005

tratempos (recuos) e traições temporárias — antagonis-


mo contínuo sem a promessa de uma vitória final. Como
afirma Deleuze: “o mundo e seus Estados não são mais
senhores de seus planos do que os revolucionários conde-
nados a uma deformação dos seus. Tudo é jogado em jogos
incertos.”65
Como pode esta noção de resistência como guerra, como
um jogo incerto jogado entre indivíduos, coletividades e
autoridade diferir da idéia anarquista de revolução? Para
os anarquistas clássicos a revolução era uma grandiosa,
dialética inversão na sociedade, na qual estruturas de
poder e autoridade seriam derrubadas e o último obstácu-
lo para a completa realização da humanidade do sujeito
seria removido. Para Deleuze e Stirner, de outro lado, re-
sistência não tem uma conclusão ou telos neste sentido.
Resistência é vista como um confrontamento contínuo —
uma guerra perpétua de atrito na qual as linhas de con-
frontação nunca são definidas de antemão, mas, pelo con-
trário, são constantemente renegociadas e disputadas. Re-
sistência contra o Estado é um jogo incerto, precisamente
porque o poder do Estado não pode mais estar circunscrito
a uma única instituição, mas é algo que se espalha no
tecido social, constituindo, como temos visto, desejos, es-
sências e princípios racionais. A própria noção do sujeito
humano moral e racional que é confrontado com o poder
do Estado no discurso anarquista é construída, ou no mí-
nimo infiltrada, por este próprio poder ao qual ele preten-
samente se opõe. Portanto, resistência é um jogo incerto
jogado por indivíduos e grupos engajados na luta diária con-
tra múltiplas formas de dominação.

Conclusão
O pensamento anti-estatal de Stirner e Deleuze pode
nos permitir conceituar e desenvolver formas de resis-

36
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

tência que evitam a armadilha que o Estado nos preparou


— que por nossa adesão absoluta às estruturas racionais
do pensamento, e padrões essencialistas do desejo, aca-
bamos por reafirmar a dominação, em vez de superá-la.
Devemos ser capazes de pensar para além da questão
que instituição, qual forma de dominação deve substituir o
que derrubamos. O pensamento anti-estatal de Stirner e
Deleuze pode nos fornecer um arsenal conceitual para li-
bertar a política das chantagens desta questão eterna. Eu
também afirmaria aqui que embora as análises do poder
do estado de Stirner e Deleuze difiram em muitas formas
do anarquismo tradicional, é precisamente neste ponto
que elas estão mais perto do anarquismo. Elas dividem
com o anarquismo uma incansável crítica a todas as for-
mas de autoridade, e particularmente uma rejeição da
idéia de que certas formas de autoridade podem ser libe-
radoras. A diferença é que Stirner e Deleuze expõem lo-
cais de dominação potencial onde o anarquismo clássico
não procurou — nos discursos morais e racionais, essên-
cias humanas e desejo. Em outras palavras, eles simples-
mente estenderam a crítica ao poder e à autoridade con-
duzida pelo anarquismo clássico. Neste sentido, a crítica
ao Estado de Deleuze e Stirner pode ser vista como uma
forma de anarquismo. Mas um anarquismo sem essênci-
as e garantias de autoridade moral e racional. Talvez des-
ta forma as filosofias anti-estatais de Deleuze e Stirner
podem ser consideradas como um pós-anarquismo — uma
série de estratégias conceituais que podem apenas levar
adiante o anarquismo, tornando-o mais relevante para as
batalhas contemporâneas contra a autoridade.
Como já afirmei, há uma surpreendente e inexplorada
convergência entre Stirner e Deleuze sobre a questão do
Estado. Explorar essa questão pode nos permitir teorizar
políticas não-essencialistas de resistência à dominação
do Estado. Os dois pensadores enxergam o Estado como
um princípio abstrato de poder e soberania que não é re-

37
8
2005

dutível às suas formas concretas. Eles desenvolvem uma


teoria do Estado que vai além do marxismo em enxergar o
Estado como autônomo em relação aos arranjos econômi-
cos, e além do anarquismo em enxergar o Estado operan-
do por meio dos próprios discursos morais e racionais que
foram usados para condená-lo. Agindo desta forma eles
rompem com o paradigma do Iluminismo humanista, des-
mascarando as ligações entre poder e essência humana
e mostrando que o desejo pode algumas vezes desejar sua
própria repressão. Stirner e Deleuze, portanto, podem ser
vistos pertencendo a uma trajetória filosófica e política anti-
autoritária similar — aquela que declara guerra concei-
tual ao Estado e cujas relevantes implicações teóricas ao
anarquismo necessitam ser consideradas.

Tradução do inglês por Anamaria Salles e Andre


Degenszajn.

Notas
1
“War on the State: Stirner’s and Deleuze’s anarchism” publicado, originalmente, em
Anarchist Studies, Volume 9, n° 2. Londres, 2003.
2
Andrew Koch. “Max Stirner: The last hegelian or the first poststructuralist” in
Anarchist Studies 5. pp. 95-107.
3
Idem.
4
Jacques Derrida. Spectres of Marx: the State of debt, the work of mourning & the new
International. Tradução de Peggy Kamuf. New York, Routledge, 1994.
5
Max Stirner. The ego and its own. Tradução de Steven Byington. London, Rebel Press,
1993.
6
Idem, p. 229.
7
Ibidem, p. 224.
8
Ibidem, p. 87.
9
Ibidem, p. 228.

38
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

10
Frank Harrison. The modern State: an anarchist analysis. Montreal, Black Rose Books,
1983, p. 62.
11
Max Stirner, op. cit., p. 115.
12
Mikhail Bakunin. Political Philosophy: scientific anarchism. G. P Maximoff (ed.).
London, Free Press of Glencoe, 1984, p. 221.
13
Piotr Kropotkin. The State: its historic role. London, Freedom Press, 1943, p. 9.
Gilles Deleuze. Dialogues. Tradução de Hugh Tomlinson. New York, Columbia
14

University Press, 1987, 129.


15
Gilles Deleuze e Félix Guattari. A thousand plateaus: capitalism and schizophrenia.
Tradução de Brian Massumi. London, Althone Press, 1988, pp. 436-437.
16
Idem, p. 429.
17
Ibidem, p. 437.
18
Max Stirner, op. cit., p. 107.
19
Idem, p. 108.
20
Andrew Koch, op. cit., p. 101.
21
Max Stirner, op. cit., p. 241.
22
Idem, p. 46.
23
Ibidem, p. 23.
24
Ibidem, p. 353.
25
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1988, op. cit., p. 375.
26
Idem, p. 434.
27
Ibidem, p. 376.
28
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1987, op. cit., p. 23.
29
Idem, p. 23.
30
Ibidem, p. 25.
31
Ibidem, p. 128.
32
Ibidem, p. 25.
33
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1988, op. cit., p. 24.
34
Idem, p. 7.
35
Idem, p. 9.
36
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1987, op. cit., p. 137.

39
8
2005

37
Mikhail Bakunin, op. cit., p. 212.
Ludwig Feuerbach. The essence of christianity. Tradução de George Eliot. New York,
38

Harper, 1957, pp. 27-28.


39
Max Stirner, op. cit., p. 58.
40
Idem, p. 176.
41
Ibidem, p. 174.
42
Ibidem, p. 185.
43
Ibidem, p. 341.
44
Ibidem, p. 204.
45
Ibidem, p. 180.
46
Ibidem, p. 179.
47
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1988, op. cit., p. 162.
48
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1987, op. cit., p. 88.
49
Idem, p. 81.
50
Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: capitalism and schizophrenia. New
York, Viking Press, 1977, p. 116.
51
Idem, p. 116.
52
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1987, op. cit., p. 133.
53
Max Stirner, op. cit., p. 312.
54
Idem, p. 312.
55
Ibidem, pp. 155-156.
56
Ibidem, p. 226.
57
Ibidem, p. 284.
58
Ibidem, p. 150.
59
Ronald Bogue. Deleuze and Guattari. London, Roultedge, 1989, p. 94.
60
Idem, p. 91.
61
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1988, op. cit., p. 9.
62
John Clark. Max Stirner’s egoism. London, Freedom Press, 1976, p. 93.
63
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1987, op. cit., p. 141.
64
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1988, op. cit., p. 359.
65
Gilles Deleuze e Félix Guattari, 1987, op. cit., p. 147.

40
verve
Guerra ao Estado: o anarquismo de Stirner e Deleuze

RESUMO

O artigo explora as convergências entre Max Stirner e Gilles De-


leuze em suas críticas ao Estado e à autoridade a partir da pers-
pectiva da teoria pós-estruturalista.

Palavras-chave: anarquismo, Max Stirner, Gilles Deleuze.

ABSTRACT

The article explores the convergence between Max Stirner and


Gilles Deleuze in their criticism on the state and authority within
the framework of poststructuralist theory.

Keywords: anarchism, Max Stirner, Gilles Deleuze.

Indicado para publicação em 8 de março de 2004.

41
8
2005

atravessando deleuze

edson passetti*

Um território não se restringe a um local físico, nem


serve de referência para uma utopia. É um possível es-
paço a ser habitado de maneira nômade, como a filoso-
fia de Gilles Deleuze. Ele não é propriedade de alguém,
nem terra de ninguém; neste território e nesta filosofia
se desdiz o credo dos evolucionistas que viam os nôma-
des como destruidores da natureza. Também não se pode
dizer que há uma filosofia de Gilles Deleuze, mas sim
uma filosofia deleuziana da diferença, em que o filósofo
não está sozinho, não é o mestre que requer discípulos,
mas que reúne para compartilhar. Trata-se de uma filo-
sofia da diferença e não de uma filosofia diferente, mo-
rada dos habituais freqüentadores dos modelos.
Quando Gilles Deleuze escrevia em companhia de
Félix Guattari, eles não se conformavam em diluir um
no outro, ou estabelecer uma identidade de autoria du-
pla. Ambos soterravam a autoria individual — do escri-

*
Professor no Departamento de Política e no Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais da PUC-SP e Coordena o Nu-Sol. Publicou entre outros livros
Anarquismos e sociedade de controle, São Paulo: Cortez, 2003.

verve, 8: 42-48, 2005

42
verve
atravessando deleuze

tor soberano intelectual, do “O” ao “UM”. Propunham e


situavam a relação entre, no percurso desterritorializante
em que partilhamos ritmos diferentes e somos iguais
por fazer coexistir nossas diferenças.1 Entre Deleuze e
Guattari, neste lugar escolhido que vai de um ao outro,
eles se encontravam desafiando no território dos platôs
e não no das propriedades. Assim, filosofia da diferença
aproxima e propicia a coexistência ao jovem iracundo e
ao experimentado elaborador de conceitos. Ela provoca
a invenção de percursos.
Nômades são conhecedores de derivas, escapam de
itinerários estabelecidos, tramam movimentos estra-
nhos a quem os quer andando em círculos, no vaivém
da reta, derrapando em curvas, deslizando sem rumo
pelas encostas ou tentando, ainda que esbaforidos, dar
mais um passo adiante sob a asfixiante pressão da al-
titude. O território não é só geográfico e não se res-
tringe à relação superfície-profundidade. Ultrapassa o
que pode ser capturado por uma fronteira, o interior de
uma área contornada por uma jurisdição da preserva-
ção como a do santuário ecológico ou da segurança da
propriedade privada. Nômades atravessam territórios,
desgovernam-se sem perder o rumo, deslocam frontei-
ras, não são apanhados pelas semelhanças ou mode-
los; não são migrantes que se deslocam de um ponto
ao outro. São poucos e muitos, pequenos e grandes,
baixos e altos, aéreos e subterrâneos, estão em ban-
dos, redes ou fluxos. São diferentes. Provocam diferen-
ças. Diferenciam pelos transtornos e intensidades.
Resistem. São máquinas de guerra. Não são militares
em luta pelo Estado, soldados remunerados ou merce-
nários matando para sobreviver, comandos que dizi-
mam ou submetem os perdedores como escravos. Sa-
bem que a vida é uma batalha. Não fogem do combate.

43
8
2005

Deleuze andou com Bergson, Espinoza, Nietzsche, e


muitos tantos outros vivos e nem tão mortos assim. Quan-
do saiu da vida se preparava para escrever sobre Marx2,
um Marx atualizado na crítica ao capitalismo, e possivel-
mente, um Marx entre os anarquistas, antes do manifesto
e longe da ditadura do proletariado.
Deleuze forneceu pistas para travessias aéreas, ter-
restres, subterrâneas, interiores. Alertou para as cap-
turas, ampliou linhas de fuga, conectou e desconectou
moleculares e molares, e constatou que se o futuro co-
letivo das revoluções está ultrapassado, nenhum devir
revolucionário pessoal-intransferível pode ser pacifica-
do pela sociedade de controle, esta sociedade que emer-
giu após a II Guerra Mundial, pautada pela comunica-
ção instantânea, controle contínuo e regime do inaca-
bado.3 Deixou de sobreaviso os crentes na democracia
lembrando que sua existência requer muita, muita
miséria, e estraçalhando, neste tempo atual e babaca,
com o tanto de gente que pretende melhorar as condi-
ções de pobreza, administrando o Estado — o sonho de
direita, do centro, de uma nefasta esquerda.
Deleuze afirmava que a cada época de deserto segue
outra de explosão cultural. Se Maio de 68 foi um aconte-
cimento explosivo, era preciso não se manter imóvel di-
ante dos áridos tempos atuais — do início dos anos 1990
—, quando constatava a dificuldade que tinha um jovem
para atravessar tamanha solidão. Os espaços desérti-
cos restauram a transcendência, favorecem o retorno
a uma filosofia universitária e dificultam a filosofia
como criação. É fora deste bolor acadêmico que a filo-
sofia como criação faz funcionar os conceitos no cam-
po da imanência, como o de sociedade disciplinar, de
Michel Foucault, com quem Deleuze manteve conver-
sações intensas, inclusive no silêncio que habitou as
relações entre eles por certo tempo. Para Deleuze, foi

44
verve
atravessando deleuze

Foucault quem levou mais longe a criação de concei-


tos e a ele dedicou um livro homônimo escrito depois
de sua morte. Por sua vez, Foucault, que com ele escre-
vera uma Introdução geral4 à obra de Nietzsche, sabia que
a importância de Deleuze atravessava a fronteira da filo-
sofia. Ao apresentar O anti-Édipo aos leitores em língua
inglesa finaliza dizendo: “o livro faz pensar com freqüên-
cia que só há humor e jogo ali onde entretanto algo de
essencial se passa, algo que é da maior seriedade: o bani-
mento de todas as formas de fascismo, desde aquelas co-
lossais, que nos envolvem e nos esmagam, até as formas
miúdas que fazem a amarga tirania de nossas vidas coti-
dianas.”5 Nas conferências do Brasil, no início dos anos
1970, Michel Foucault dedica especial atenção ao mes-
mo O anti-Édipo sublinhando que “Édipo não seria pois
uma verdade da natureza, mas um instrumento de li-
mitação e coação que os psicanalistas, a partir de Freud,
utilizam para conter o desejo e fazê-lo entrar em uma
estrutura familiar definida por nossa sociedade em um
determinado momento. Em outras palavras, Édipo, se-
gundo Deleuze e Guattari, não é o conteúdo secreto de
nosso inconsciente, mas a forma de coação que a psica-
nálise tenta impor na cura a nosso desejo e a nosso
inconsciente. Édipo é um instrumento de poder, é uma
certa maneira do poder médico e psicanalítico se exer-
cer sobre o desejo e o inconsciente.”6 Michel Foucault
esperava que o século se tornasse deleuziano.7
Em 2001, Daniel Colson, professor de Sociologia na
Université de Saint-Étienne, em Lyon, publicou um es-
pecial volume sobre o anarquismo traçando um percurso
que vai de Proudhon a Deleuze.8 O dicionário de Colson
está povoado de Deleuze, com seus criativos conceitos,
acompanhando o leitor interessado em anarquia como
imanência, esta estranha unidade que abarca o múltiplo
chamada anarquia.

45
8
2005

Colson chama atenção para o renascimento teórico


da anarquia na segunda metade do século XX, depois de
um longo eclipse, e se dispõe a persistir atento às pos-
síveis parcerias libertárias que povoem a desestabilida-
de das sagradas hierarquias. Convida-nos a andar com
Deleuze, e com tantos outros com os quais a anarquia
estabelece afinidades secretas, trazendo-lhe a potên-
cia da saúde. Lembra, ainda, com precisão, que as afi-
nidades anarquistas também dependem do tempera-
mento dos envolvidos, de diferentes formas de sensibi-
lidades, jeitos de fazer, predisposições, enfim, as
afinidades libertárias como se poderia presumir não
são da ordem da ideologia. Uns andam com Deleuze,
outros com Deleuze e tantos mais, traçando mais anar-
quias segundo suas afinidades. Na anarquia cabem
multiplicidades, e dentre elas a diferença de perma-
necer menor e afastado da transcendência iluminista.
Deleuze dizia que seu melhor livro junto com Guattari
chama-se Mil platôs, um livro para uma época que não era
a sua. Este longo livro foi escrito, segundo Deleuze, como
um agrupamento molecular, como na composição musi-
cal.9 Com muito estilo Deleuze levava, em companhia de
Guattari, a diferentes platôs e a andar por rizomas, micro-
políticas, devires, tratado de nomadologia, aparelho de cap-
tura, o liso e o estriado, palavras contendo mais do que
sonoridades estranhas, mas histórias afirmando singula-
ridades. Os escritos de Deleuze encorajam os anarquistas
a situarem-se no entre, um lugar escolhido que vai de um
ao outro, sem dar sossego ao modelo, ao idêntico, ao mes-
mo.
Deleuze foi um professor que apreciava também a
aula como uma concepção musical.10 Para ele a audi-
ção de uma peça não deve ser interrompida, mesmo que
algumas partes pareçam confusas. Da mesma manei-
ra, as dúvidas de uma aula podem estar resolvidas mi-

46
verve
atravessando deleuze

nutos após seu término e as questões mais pertinentes


aparecerem na abertura da aula seguinte. Assim ele
inventou um sistema com seus estudantes, contornan-
do a regra fixa da aula magistral.
Mas a alegria de viver não espera pela morte, pode
estar em sua antecipação, desgastando o estatuto do
suicídio. Deleuze não perdeu tempo em julgar. Abalou-
se e abalou muita gente. Tomara que Foucault tenha
acertado e que este século seja deleuziano e com muita
anarquia. Que o desejo seja a vontade de gozo no encon-
tro atual!

Notas

1
Gilles Deleuze e Claire Parnet Diálogos. Tradução de Eloísa Araújo Ribeiro.
São Paulo, Escrita, 1998.
2
Gilles Deleuze. “Meu próximo livro vai chamar-se ‘Grandeza de Marx’” in
Peter Pál Pelbart e Suely Rolnick (orgs) Cadernos de Subjetividade/Gilles Deleuze.
Tradução de Martha Gambini. São Paulo, Núcleo de Estudos e Pesquisas da
Subjetividade/PUC-SP, jun. 1996, pp. 26-30.
3
Gilles Deleuze. “Política” in Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. São
Paulo, 34 Letras, 1992, pp. 207-226.
4
Michel Foucault e Gilles Deleuze. “Introdução geral (às obras filosóficas
completas de Nietzsche)” in Manoel Barros da Motta (org) Michel Foucault.
Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Coleção Ditos e
Escritos II. Tradução de Elisa Monteiro. Rio de Janeiro, Forense Universitária,
2000, pp. 36-39. Importa ainda indicar a importante entrevista realizada por
ambos à L’arc, em 1972, conhecida por “Os intelectuais e o poder”, In Manoel
Barros da Motta (org) Michel Foucault. Estratégia, poder-saber. Coleção Ditos e
Escritos IV, Trad. Vera Lucia Avellar Ribeiro, Rio de Janeiro, Forense Univer-
sitária, 2003, pp. 37-47.
5
Michel Foucault. “O Anti-Édipo: uma introdução à vida não fascista”. Tradu-
ção de José Fagundes Ribeiro. In Peter Pál Pelbart et al (orgs), op. cit., p. 200.
6
Michel Foucault. A verdade e as formas jurídicas, Tradução de Roberto C. M.
Machado e Eduardo J. Morais. Rio de Janeiro, PUC-Rio/Nau, 1996, pp. 29-
51.

47
8
2005

7
Michel Foucault. “Theatrum Philosophicum” in Manoel B. da Motta (org),
op. cit., p. 230.
8
Daniel Colson. Petit lexique philosophique de l’anarchisme. De Proudhon à Deleuze.
Lyon, Le Livre de Poche, Biblio Essais, 2001.
9
O abecedário de Gilles Deleuze foi um vídeo gravado em VHS por Claire Parnet,
em 1988, e somente veiculado após a morte de Deleuze, segundo acordo entre
ambos. Circula pela Internet a versão original e uma tradução em língua portu-
guesa.

RESUMO

Deleuze como parceria anarquista, a relevância de suas aborda-


gens e a dimensão libertária da afinidade.

Palavras-chave: Deleuze, anarquia, afinidades anarquistas.

ABSTRACT

Deleuze as anarchist partnership, the relevance of his approaches


and the libertarian dimension of affinity.

Keywords: Deleuze, anarchy, anarchists affinities.

Recebido para publicação em 6 de junho de 2005 e confirmado em


4 de julho de 2005.

48
verve
atravessando deleuze

49
8
2005

élisée reclus: idéias úteis para análises


geopolíticas contemporâneas

fabrizio eva*

A idéia é simples: quando se faz do indivíduo a unidade


de medida do mundo, as fronteiras (do indivíduo e do mun-
do) são muitíssimas e nenhuma delas vale mais que a
outra; são apenas funcionais. Cada ser humano as usa de
modo flexível segundo as circunstâncias e contexto; mo-
vem-se continuamente em todos os sentidos e, mais con-
temporaneamente, da área dinâmica em torno de sua
pessoa (“áurea”, espaço “pessoal”, “privacy”) às fronteiras/
limites convencionais de espaços diversos (casa, espaço
público, lugares de trabalho, etc) e entre limites/frontei-
ras de comportamentos (relação homem-mulher, modos
de vestir, reconhecimentos etc.) diversos de outros seres
humanos, considerados isoladamente ou em grupo. E o
mundo é “o complexo das relações (sociais, econômicas,
políticas e culturais) no interior das quais desenvolve-se
a vida humana.”1

* Professor na Universidade de Veneza, autor de Cina e Giappone. Due modelli


per il futuro dell’Asia, Torino, UTET, 2000; I mutamenti geopolitici contemporanei.
Metodologie di studio e interpretazione, Milão, CUEM, 1997; Elementi di geografia
economica e politica (org.), Roma, Carocci, 2003.

verve, 8: 50-63, 2005

50
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

Um geógrafo crítico, que se tornou um clássico do


pensamento geográfico oitocentista, segundo Farinelli,
foi Carl Ritter, que pode ser também considerado o exem-
plo de como a “lição” de um mestre é sempre interpreta-
da pelo discípulo graças a um trabalho de filtro colocado
em ação por uma mente diversa, por uma experiência
de vida diversa. Hegel, Ratzel, Mackinder, orientaram o
pensamento eurocêntrico e colonialista do final século
XVIII e início do século XIX tomando o Estado como ab-
soluto necessário, e Vidal de la Blanche o completou com
pré-destinações “nacionais” com base na geografia.
Mas Farinelli nos diz que essas interpretações eram
inconcebíveis para Ritter, para quem o mundo perma-
necia uma esfera, e por isso forçosamente dotado de uma
infinidade de centros,2 e que sobretudo possuía espes-
sura (tanto em direção ao alto quanto ao baixo); portan-
to, não como uma “tabula” sobre a qual se desenha a
“realidade”. Há um aluno (durante um único ano) que
colheu o sentido complexo e a profundidade do ensina-
mento de Ritter. Foi Élisée Reclus. Ele retomou a frase
de que o globo, na sua superfície, não possui nenhum
centro, pelo qual o pensamento geográfico deve consi-
derar as dinâmicas dos indivíduos e dos grupos huma-
nos como sendo todas equivalentes, sem presunções de
superioridade, e foi sempre Reclus quem aboliu as fron-
teiras estatais de todos os mapas na sua obra mais den-
sa e conhecida, a Nova Geografia Universal, escrita em
19 volumes.
Num outro oposto, um conceito único domina por mais
de um século o pensamento geopolítico: “sabe-se que exis-
te qualquer coisa de pior que um Estado ruim: a ausência
de Estado. A anarquia é pior do que a tirania, porque subs-
titui o arbítrio de um só pelo arbítrio de todos.”3 Este pen-
samento dominante torna impossível a muitos uma refle-
xão sobre as dinâmicas geopolíticas em termos que não

51
8
2005

estejam centrados no Estado, e quando se diz Estado com-


preende-se com isso geralmente os governos e/ou os líde-
res no poder e/ou uma não melhor definida identidade
nacional. Aymeric Chauprade, em um belo livro muito
articulado e circunstanciado que, porém, parece ressen-
tir-se do fato de que ele ensina também no Colégio Inter-
Armas da Defesa Francesa, define a autodeterminação
dos povos como o direito a “inscrever o seu futuro nas fron-
teiras do Estado Nação”,4 e a propósito do Estado se apres-
sa em dizer que “o Estado sonha os povos que não possui e
protege sempre aqueles que o fundaram.”5 Essa visão da
relação Estado-território é um postulado que “impede de
pensar qualquer outra organização do espaço.”6
Esse era um pensamento coerente com o período his-
tórico da expansão colonial européia do fim do século
XIX e com a situação de equilíbrio interno entre as po-
tências européias. Mas a idéia de Estado como fator ne-
cessário e central na política internacional estava se
firmando também em outras disciplinas históricas e so-
ciais. Hoje é finalmente um conceito consolidado, sus-
tentado também pelo fato de que toda a superfície do
globo está organizada politicamente sob a forma de Es-
tado, mas é igualmente evidente que em diversas cultu-
ras (genres de vie, diria Reclus) podem ser, e são efetiva-
mente, muito diversos os modos de “interpretar” ou de fa-
zer funcionar o Estado; usando ainda um dos critérios de
análise de Reclus, ou seja, aquele da diferença de privilé-
gios e propriedade, a idéia de Estado foi cômoda para todos
aqueles que se encontravam (e se encontram) em posi-
ções de poder, e sob o plano das relações internacionais “o
poder está no centro da política internacional.”7 O Ociden-
te construiu uma retórica estatal de modo que “toda forma
alternativa seja pensada respectivamente como supera-
da, utópica e onerosa.”8

52
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

Mas não está excluído que se possa pensar de modo


diferente; existe quem pensou o outro. E outro significa
sair da centralidade do Estado e considerá-lo apenas
como uma das formas possíveis de organização territo-
rial dos grupos humanos; não a mais útil, nem mesmo
a mais importante. Para fazer isso é preciso pensá-lo
em termos não-ideológicos (isto é, considerar que não
exista “direito” e norma fora do Estado) e sacralizado
(isto é, pensar em termos de pátria, identidade coleti-
va, lugar da etnia, “berço da civilidade” etc.).
Pensar outro significa, então, retomar e dar visibili-
dade a correntes de pensamento ou a pensadores sin-
gulares que contribuíram para a formação da cultura
européia, mas que foram removidos ou censurados (ge-
ralmente por comodismo ou por desconhecimento tout
court) nos aspectos considerados social e politicamente
perigosos. Certamente é o caso do geógrafo anarquista
Élisée Reclus, mas a lista é longa e sobre isso Armand
Mattelart nos deu ampla demonstração.9 Seja lembrado
que o mesmo Lucien Febvre afirma que “o Estado não é
nunca um dado de fato, mas uma criação.”10

As idéias de Reclus
Os pontos principais no modo de ser geógrafo (“políti-
co” no sentido mais amplo) de Reclus são os seguintes:
1. as fronteiras devem ser concebidas como móveis
porque são apenas contemporaneamente funcionais.
Quando muda a função ou mudam as escolhas dos grupos
humanos, as fronteiras se deslocam para adequarem-se
às novas funcionalidades;
2. as únicas fronteiras consideráveis são aque-
las que assinalam as diferenciações de hábitos, de
comportamentos e de características dos grupos hu-

53
8
2005

manos; um conjunto articulado desses e outros ele-


mentos constitui o modo de vida (genre de vie), que
possui um papel relevante na formação e nas dinâmi-
cas dos grupos humanos; confluem para essa idéia de
modo de vida “terra, clima, organização do trabalho,
tipo de alimentação, raça, parentesco, modos de agru-
pamento social”;11
3. é preciso tornar o mais livre possível o movi-
mento de idéias e pessoas;
4. o indivíduo deve ser livre, mas não está só. So-
lidariedade e fraternidade são os princípios das rela-
ções entre os seres humanos, que levam à coopera-
ção e à troca;
5. a livre vontade do indivíduo é o motor primeiro
das dinâmicas sociais.
Disso deriva que os hábitos dos grupos humanos e
dos indivíduos se formam e se transformam; daí a ne-
cessidade em contrapor a tendência ou a vontade de
cristalizá-los em identidades/etnias/povos/valores,
sobretudo se referidos a histórias míticas do passado
ou a origens religiosas.
Sobre o plano ideal, mas igualmente da ação con-
creta (individual e coletiva), Reclus possuía uma vi-
são finalista composta por duas idéias guias:
a) a anarquia sobre o plano político e espacial (ou
seja, igualdade e realização prática das concepções
ideais de cada indivíduo);
b) uma confiança muito grande no progresso da
humanidade e nas descobertas técnico-científicas.
A coligação da centralidade do indivíduo com a con-
cepção do espaço derivado pelas identificações dos gru-

54
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

pos humanos segundo o seu gênero de vida constitui


o legado metodológico mais relevante de Reclus.
Aqueles que até mesmo foram definidos como “leis”
(apenas no sentido da sua alta freqüência casual) eram:
1. a tendência dos grupos humanos a se estrutu-
rarem segundo hierarquias (causada pelo desenvolvi-
mento desigual);
2. o impulso insubstituível à liberdade por parte do
indivíduo;
3. o mecanismo de contínua oscilação/balancea-
mento entre essas duas tendências contrastantes.
É necessário considerar os seres humanos como re-
almente são, e não imaginá-los como seres “teóricos”.
Uma das características dos indivíduos é que eles re-
querem tempo para assimilar as transformações, ainda
que se habituem velozmente às novidades cômodas ou
liberadoras. À luz dessa reflexão se percebe ainda mais
precisamente a condição espacial e o modo de vida dos
recentes processos que David Harvey definiu como “com-
pressões espaço-temporais.”12
Na época de Reclus a idéia de revolução (e não ape-
nas para os anarquistas) estava ligada a uma veloz
mudança social (insurreição, tomada de poder), ou seja,
uma compressão espaço-temporal de signo tipicamente
político. Hoje, recuperando a afirmação reclusiana acer-
ca da tendência dos grupos humanos a se estruturar
hierarquicamente, e considerando também as falênci-
as das experiências históricas do chamado “socialismo
real”, ser ativos politicamente (e revolucionários) sig-
nifica imprimir continuas influências na transforma-
ção das relações sociais; essa idéia de revolução pode-
ria ser mais eficaz e mais facilmente durável no tempo.

55
8
2005

A alternância entre o impulso à estabilidade/conser-


vação do grupo e o desejo de liberdade e mudança do
indivíduo são “leis” para Reclus. Entendo por isto que
são dinâmicas que se repetem prescindindo das cultu-
ras e da localidade geográfica. O geógrafo Jean Gottman
delineou esta dinâmica de alternância usando os ter-
mos de Iconografia e Circulação,13 e é possível ver se-
melhanças também com o principio de dinamismo/es-
taticidade presente no equilíbrio sempre em movimen-
to de Ying e Yang presente no Taoísmo.14
Portanto, a escolha conceitual a fazer é partir do pres-
suposto de que a condição de mudança é típica da natu-
reza e os seres humanos são a parte consciente da na-
tureza. No prefácio do primeiro volume da Nova Geogra-
fia Universal, estamos em 1876, Reclus afirma que “essa
natureza, juntamente como os homens que são por ela
nutridos, muda continuamente”,15 e mais adiante refe-
re-se às condições ambientais que possuem uma rele-
vância modificável conforme o estado de cultura em que
chegaram as nações, visto que com o passar do tempo
existem elementos naturais que mudam de uso.16
Portanto, para Reclus interessam ambientes geográ-
ficos e grupos humanos (que ele denomina povos) na
sua interação provocadora de uma lenta transformação.
As transformações ocorridas nos últimos vinte séculos
“indicam que o valor dos traços geográficos se modifica
pouco a pouco no curso da história (...) ao contrário, as
vantagens do clima exercem uma influência durável.”17
Os fatos históricos mostram que o grau de suportabi-
lidade de condições negativas dos grupos humanos é
geralmente elevado, e isso também porque a resistên-
cia à mudança é sempre elevada, sobretudo nos grupos
de “identidade forte”, uma identidade a que se pode fa-
zer referência nos momentos difíceis. As identidades

56
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

fortes derivam de acontecimentos históricos, de carac-


teres culturais casuais, mas também da obra de solici-
tação ou pacificação das emoções exercitadas por re-
presentações e símbolos que respondem aos medos e/
ou à psicologia dos seres humanos. Etnia e identidade
são construídas e se constroem socialmente sobre as
características da psicologia humana.
A idéia de ser “especial” é muito difundida entre os
grupos humanos, prescindindo dos lugares e das condi-
ções socioeconômicas; “naturalmente cada povo deve ser
tentado a crer que em uma descrição da Terra o primei-
ro lugar seja aquele de seu próprio território. A menor
tribo bárbara, o menor grupo humano ainda em estado
de natureza, pensa ocupar o efetivo centro do universo,
se imagina ser o representante mais perfeito da raça
humana.”18
Mesmo manifestando sua vontade de abolição das
fronteiras de modo que os homens possam viver como
irmãos, em Reclus há um preciso pressuposto daque-
les caracteres típicos do ser humano, seja quando age
como indivíduo ou quando se sente associado a um gru-
po de semelhantes, que o leva a querer fechar-se em
barreiras e até mesmo a aceitar uma condição de ser-
vidão. As motivações dos indivíduos a favor das frontei-
ras e das identidades derivam do desejo de não ter
medo, e portanto:
a) quer-se estar em um território conhecido por-
que com isso pensa-se poder viver bem (ou sobreviver
bem) unicamente ali. O não conhecimento de outros
lugares reforça essa convicção;
b) quer-se estar com pessoas conhecidas ou que
se imagina solidárias porque se presume que quem
fala a mesma língua ou tem os mesmos comportamen-

57
8
2005

tos não seja perigoso (ou o seja menos do que os desco-


nhecidos).
Afirmar como um a priori o mito étnico-identitário
favorece a sensação de proteção e “não-medo”, e faz
aceitar, ou confere sentido, a desigualdade (econômi-
ca e/ou de poder).
Como elemento estabilizador das dinâmicas huma-
nas, Reclus reconhece o laço lingüístico e o percurso
histórico que produziu o complexo dos hábitos sociais,
co-dividido porque habitual e devido à resistência das
tradições à mudança. Esses três fatores (língua, histó-
ria e genre de vie) determinam a identificação daquilo
que Reclus define como “regiões naturais”, que ele vê
como conjuntos móveis e sujeitos a transformação con-
tínua; uma transformação substancialmente lenta, mas
que porém pode experimentar acelerações por impulsos
naturais, por progresso tecnológico, por acontecimen-
tos históricos traumáticos ou ainda pela vontade revo-
lucionária dos seres humanos.
E é principalmente contra a idéia de fronteiras sacras,
fixas e intocáveis que Reclus trabalhou como ativista e
como geógrafo. “As divisões políticas estão completamen-
te em contraste com os limites naturais que poderiam
ser estabelecidos pela escolha espontânea dos povos”19, e
por naturais Reclus não entende certamente as “frontei-
ras naturais”, tão caras aos geógrafos militares ou acadê-
micos. Para ele, todas as fronteiras aparecem esvaziadas
de qualquer valor sacro; “não existem fronteiras naturais
no sentido que lhes dão os patriotas”20, dirá Reclus na sua
obra última, O Homem e a Terra, porque a história dos gru-
pos humanos muda com o tempo como muda a geografia,
e as fronteiras devem mover-se com a mudança da socie-
dade, “mas essa liberdade de reagrupamento individual
implica a mobilidade da fronteira.”21

58
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

E quando se apressa em recordar que essas divi-


sões perdem sempre mais importância graças às vias
de comunicação, às conquistas da ciência e à “comum
compreensão dos direitos e dos deveres”, não parece
arriscado ler nelas uma precoce visão dos processos
de integração como aqueles da União Européia ou
mesmo da globalização.
Caso se queira ser geógrafos críticos, as reflexões de
Reclus indicam que é preciso “ler” os grupos humanos
sem um exclusivo pertencimento aos lugares e, portan-
to, “ler” os lugares sem deixar-se enganar pelas repre-
sentações e/ou pelas superestruturas institucionais. E
tendo em conta que as diversas culturas desenvolvem-
se e mudam com referência a lugares precisos e com
base também nas características desses lugares. “To-
dos os limites construídos entre as nações são obras do
homem e nada impediria que fossem modificados ou can-
celados.”22
O ativismo político deve ser endereçado às comuni-
dades que não tenham reivindicações de identidades
coletivas rígidas e referidas a espaços exclusivos, ou a
territórios miticamente conquistados ou “atribuídos” pelo
destino ou por Deus. Ele deve ser endereçado a perten-
cimentos sem representações coletivas, ou seja, enten-
dendo o coletivo como uma dinâmica e como uma modi-
ficável soma das representações individuais (múltiplas).
Isso significa multiplicar as fronteiras em sentido
funcional23 para que percam qualquer significado sagra-
do e para que possam ser deslocadas de modo a segui-
rem as transformações. Estão ainda neste âmbito con-
ceitual também os pertencimentos múltiplos e os pla-
nos decisórios sobrepostos. As fronteiras impermeáveis
podem servir contemporaneamente ou funcionalmente
quando existe incompreensão, e podem servir também
para poder viver a própria diversidade; porém, são limi-

59
8
2005

tes defensivos e não expansivos, porque o espaço deve-


ria ser preponderantemente “público”, porque este é o
espaço da liberdade e da negociação, do encontro, da troca
e da cooperação.
Reclus considerava como prioritários os comporta-
mentos dos indivíduos (livres) e, portanto, considerava
a “democracia” como uma/muitas comunidades que
praticam relações igualitárias e que estão disponíveis
àquela mudança produtora de muitas idéias, muitas
novidades, novas sínteses, da colaboração/negociação
necessária para um real progresso humano, tome ele a
forma que tomar num futuro em que estejam dadas es-
sas condições.
Hoje os estudos de Reclus poderiam ser definidos como
de tipo antropológico, e “ler” as atuais dinâmicas geopo-
líticas mundiais com sua ótica leva a visões decidida-
mente diversas daquelas de quem se contenta com uma
democracia formal que se “exporta” por meio de exérci-
tos. São estudos privados de método, mas que operam
com método.24
Ainda hoje parece “revolucionário” sair da lógica que
confina a política e as relações internacionais no inte-
rior das espacialidades estatais. O atual confronto en-
tre o Ocidente e as outras culturas é um confronto ma-
joritariamente centrado sobre diferentes concepções de
territorialidade (da política e da sociedade) e de sobera-
nia; de um lado a soberania é concebida como indisso-
ciável de um território de confins exatos, porque os con-
fins indicam até onde (e não além) a soberania se exer-
cerá e, de outro, a soberania/autoridade é geralmente
concebida como uma relação interpessoal que pode ter
espacialidades múltiplas e móveis.
O pensamento político “moderno” considera democra-
cia, liberdade e direitos, sempre e unicamente referi-

60
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

dos a um território específico onde possa existir um “Es-


tado de direito”, e a forma consolidada dessa territoria-
lidade é o Estado-nação. Mas o Estado-nação, quando é
“exportado” para outras culturas possuidoras de concep-
ções diversas de representação, de relações sociais e,
sobretudo, de territorialidade, mostra suas dificuldades/
limites porque é fundado sobre um laço ambíguo: o Esta-
do se reporta aos cidadãos (que podem também ser reci-
procamente indiferentes e diversos por hábitos e con-
cepções, mas iguais diante da lei), enquanto a nação se
refere ao povo que deve co-dividir uma identidade que
enfatize o pertencimento comum.
O pensamento político (ocidental) contemporâneo não
dissolveu ainda essa ambigüidade, deixando espaço a
desafios conceituais internos para o mundo cultural
ocidental dominante, sempre que se queira fazê-lo e
sempre que se esteja disposto a recuperar filões de pen-
samento “outros” para provocar uma verdadeira dialéti-
ca. Para esse objetivo o pensamento de Élisée Reclus é
não apenas atual, mas até mesmo necessário.

Tradução do italiano por Nildo Avelino.

Notas
1
Franco Farinelli. Geografia. Un’introduzione ai modelli del mondo. Torino, Einau-
di, 2003, p. 6.
2
Idem, pp. 96-97.
3
Tzvetan Todorov. Il nuovo disordine mondiale. Milão, Garzanti, 2003, pp. 30-31.
4
Aymeric Chauprade. Introduction à l’analyse géopolitique. Paris, Ellipses, 1999, p.
277.
5
Idem, p. 280.
6
Bertrand Badie. La fine dei territori. Trieste, Asterios, 1996, p. 12.

61
8
2005

7
Jean Mearsheimer. La logica di potenza. Milão, Università Bocconi Editore,
2001, p. 51.
8
Bertrand Badie, 1996, op. cit., p. 48.
9
Cf. Armand Mattelart. Storia dell’utopia planetaria. Torino, Einaudi, 2000.
10
Lucien Febvre. La terra e l’evoluzione umana. Torino, Einaudi, 1980, p. 363.
11
Éliseé Reclus. L’Homme et la Terre. Paris, Fayard, 1990, p. 42.
12
Cf. David Harvey. La crisi della modernità. Milão, EST, 1997.
13
Cf. Jean Gottmann. La politique des États et leur géographie. Paris, Armand
Colin, 1952.
14
Cf. John A. Rapp. “Daoism and Anarchism Reconsidered” in Anarchist Studi-
es, n.6, 1998, pp. 123-151.
15
Élisée Reclus. Nouvelle Géographie Universelle: vol. I. Paris, Hachette, 1876, p.
II.
16
Idem, pp. 7-8.
17
Ibidem, p. 23.
18
Ibidem, p. 5.
19
Ibidem, p. 30.
20
Élisée Reclus, 1990, op. cit., p. 34.
21
Idem, p. 47.
22
Ibidem, p. 34.
23
Cf. Fabrizio Eva. “Geografia contro il potere” in Volontà, n.4, 1992, Milão,
pp. 9-23.
24
Cf. Fabrizio Eva. “De Reclus a Feyerabend: utilizar el anarquismo para
comprender a los seres humanos” in Proceedings of the 4th Critical Geography
International Conference, México, 9-12 Janeiro/2005.

62
verve
Élisée Reclus: idéias úteis para análises geopolíticas...

RESUMO

Pensar a geografia na atualidade e fora dos pressupostos conso-


lidados na época colonialista e eurocêntrica do pensamento oci-
dental, implica desvincula-la dos duplos Estado-território e Esta-
do-nação. Nessa crítica, o pensamento do geógrafo anarquista Éli-
sée Reclus se torna significativo quando dissolve a sacralidade
das fronteiras reclamando o dinamismo sócio-espacial dos grupos
humanos.

Palavras-chave: Élisée Reclus, anarquismo, relações internacio-


nais.

ABSTRACT

To think geographically the present times and outside the conso-


lidated Western colonialist and eurocentric points of views it me-
ans not to refer rigidly to the twin concepts State-territory and
State-nation. The thought of the anarchic geographer Élisée Re-
clus is very significant and critical when it dissolves the sacrali-
ty of the borders claiming the accordance between the dynamism
of the human groups with the border flexibility.

Keywords: Élisée Reclus, anarchism, international relations.

Recebido para publicação em 4 de julho de 2005 e confirmado em


28 de agosto de 2005.

63
8
2005

os pedreiros da anarquia 2

edgar rodrigues*

Nas 16 páginas do número anterior da revista Verve,


não consegui alinhar os nomes e falar do esforço de toda
uma plêiade de operários (com e sem idéias libertári-
as), e por isso volto ao tema, com a convicção de que
ainda restarão muitos “esquecidos”. A obra gigantesca
dos carregadores de pedras no século XX, pretendendo
edificar uma sociedade igualitária para todos, tantas
vezes interrompida, e outras tantas “demolida” pelas
autoridades irracionais,1 usando leis que seus servido-
res (deputados e juristas) aprovavam para dificultar e
punir com expulsões e prisões, sem julgamento aplica-
das pelas mãos de seus policiais e soldados, “homologa-
das pela jurisprudência” brasileira de ilustres magis-
trados: coniventes e/ou silenciandos, em forma de apro-
vação tácita.

* Vivendo no Rio de Janeiro desde 1951, Edgar Rodrigues é um dos mais


importantes arquivistas dos movimentos anarquistas no Brasil e em Portugal.
Suas análises, entrevistas e compilações de documentos distribuem-se em mais
de quarenta livros e cerca de mil artigos.

verve, 8: 64-83, 2005

64
verve
Os pedreiros da anarquia 2

Desde as últimas décadas do século XIX, e no começo


do século XX, os governantes brasileiros anunciavam ofer-
tas de emprego na Europa: queriam atrair mão-de-obra
para “desmatar” e construir os 8.456.508 km² de terras
que formavam o espaço geográfico do Brasil.
Segundo Elias Iltcheco, anarquista russo residente em
Erebango, Rio Grande do Sul, que veio ainda criança com
seus pais para o Brasil, as promessas de uma vida para-
disíaca eram anunciadas na Europa.
A realidade era outra. No Brasil, as famílias dos imi-
grantes ficavam meses amontoadas em barracões pas-
sando todo o tipo de privações.
Nesses anos distantes, 38% da superfície do Brasil
era coberta por mata. Os estabelecimentos industri-
ais andavam na casa dos 13.336, a indústria açuca-
reira era de 217.000 e a salineira de 25.400. A produ-
ção industrial da ordem de 2.987.176 contos.2 Para
13.336 estabelecimentos industriais existiam 648.153
estabelecimentos rurais.
Os trabalhadores fabris chegavam a 273.512 e os
trabalhadores rurais a cerca de 9.000.000. Entre os
habitantes que viviam dos recursos da lavoura e os
que viviam da indústria, as diferenças eram enormes.
A população do Brasil era da ordem de 30.635.605
habitantes. 3
A indústria ultrapassava a agricultura e precisava
de operários para trabalhar nas fábricas de tecidos e
na construção civil. Salvo para cargas e descargas de
navios nas docas de Santos, Rio de Janeiro e de ou-
tros portos de menor movimento de embarque e de-
sembarque, o patronato queria mão de obra especi-
alizada — para edificar moradias, estradas, carrua-
gens — sapateiros, alfaiates, barbeiros, costureiras de

65
8
2005

roupas e sacos, gráficos, gente que soubesse fazer as


quatro operações para o comércio, maquinistas, ser-
viçais de hospitais, escolas (bem raras na época).
Atendendo à propaganda na Europa entre 1887 e
1957, chegaram ao Brasil 5.000.000 (cinco milhões)
de imigrantes, sendo 32% de italianos, 30% de portu-
gueses, 14% de espanhóis e 4% de japoneses.
Para as outras procedências como poloneses, fran-
ceses, japoneses, russos, ingleses e de países da Amé-
rica Latina, as quantidades eram menores e alguns
entravam pela fronteira a pé.
Com a chegada dos egressos das fazendas às cida-
des em busca de trabalho agravou-se a pobreza e a
questão social.
Quando a população do Brasil atingiu os 92.000.000
(noventa e dois milhões) de habitantes, 30.000.000 não
tinham empregos fixos, as escolas não passavam de
12.801, sendo 34,7% públicas e 65,3% particulares.
Dos 55.430 professores, mais da metade leigos. Em
1950 havia 1.538 jornais, 777 revistas, 499 boletins e
folhetos, 68 almanaques. Segundo a Unesco, em 1965
as bibliotecas públicas eram 5.577. Cerca de 40 mi-
lhões (1967/70) de seres humanos não tinham casas,
e o número de pessoas que não sabia ler e escrever
era imenso, inclusive imigrantes.
As rivalidades entre os trabalhadores no Brasil e
os vindos de fora era grande com os italianos e maior
com os portugueses (havia dia de mata a galegos), um
pouco por conta da escravidão que os colonizadores lu-
sitanos implantaram, embora essa abominável escra-
vidão fosse igual à imposta em toda a América Latina,
do Norte e África, e os imigrantes nada tinham com
essa indignidade.

66
verve
Os pedreiros da anarquia 2

O patronato explorava os operários como se fossem


máquinas ou produtos descartáveis, independente dos
seus países de nascimento.

***

Ignorando o que lhes esperava em terras brasileiras,


os imigrantes, ao se encontrarem com a realidade social
e política, sentiam-se enganados pela propaganda dos
agenciadores de mão de obra na Europa: o Eldorado que
lhes tinham prometido era uma mentira capitalista! A
Igreja e o Estado, pelas mãos e os cérebros de seus precla-
ros fabricantes de leis, tinham uma imaginação fertilís-
sima para enganar e escravizar os trabalhadores na ge-
neralidade, penalizando mais os mineiros, vítimas da se-
licose, os trabalhadores dos cafezais, sujeitos à malária, e
os estivadores, carregando nas costas sacas de 50, 100 e
150 quilos de grãos de café, laranjas, carnes congeladas e
outros produtos, correndo das carroças estacionadas no
cais, subindo e descendo estreitas pranchas de madeira
até os porões dos vapores cargueiros ancorados nas docas
de Santos. Nesta época as carroças que transportavam as
mercadorias da estrada de ferro até ao cais não tinham
estribos: os cocheiros corriam pelo chão segurando os ar-
reios, acompanhando o trotar dos cavalos, guiando-os.
Nestes serviços extenuantes o número de operários
tuberculosos era alarmante em Santos. Diariamente pro-
curavam o hospital da “Santa Casa” dezenas de trabalha-
dores soltando golfadas de sangue pela boca,4 e morriam
pouco depois.
Os imigrantes, principalmente, contestavam os explo-
radores de 16 a 10 horas, dia de trabalho, entre segunda e
sábado, e aos domingos até meio dia, transformando gen-

67
8
2005

te de 30/40 anos de idade em velhos que logo logo des-


cartavam.
Com o propósito de reverter esta situação, os imi-
grantes recorriam à ajuda mútua, praticando o conhe-
cidíssimo velho hábito de: Um por todos e todos por um!
Nesses anos distantes os operários rebelavam-se “es-
parsamente”...
Em Minas Gerais, os fundidores de ouro declaravam-
se em “greve” no mês de julho de 1720.
Na Bahia, os alfaiates abandonavam o trabalho em
1782 e no Rio de Janeiro, no ano de 1791, os operários
da Casa das armas deflagravam greve.
A questão social penalizava os egressos das fazendas
e os imigrantes que ainda tinham contra eles a adapta-
ção, e muitos nem falavam português. A Igreja, sempre
na vanguarda, como amortecedor servindo à burguesia
e ao Estado, resolveu criar a Casa dos vinte e quatro para
associar, orientar, dominar os operários insubmissos.
Quem primeiro discordou foram os tanoeiros, ceriei-
ros, ourives, lapidadores, cordoeiros e parte dos sapatei-
ros, não aceitando submeter-se à Casa dos vinte e qua-
tro, às ordens da Igreja.5
Em Niterói começa a ser publicado O Anarquista Flu-
minense no ano de 1835; em 1845 O socialista da Provín-
cia do Rio de Janeiro; em 1847 aparece O Proletário em
Pernambuco; no ano seguinte, 1848, O Grito Anarquial e
no Rio de Janeiro6 ouve-se ao longe a Voz dos Operários.
A tiragem dessa imprensa socialista, libertária e de
combate era pequena e saía quando podia. Não tinha
subvenções, nem as doações que as universidades têm
hoje para formar doutores. A distribuição era de mão
em mão, entre companheiros de ofício, enquanto a Igreja

68
verve
Os pedreiros da anarquia 2

Católica, sempre poderosa, apoiada pelo governo, pres-


sionava e ainda “convencia” alguns operários, como
barbeiros de barbear, barbeiros de guarnecer espadas,
fundidores de cobre, funileiros, serralheiros, forrado-
res, douradores, bate-folhas, espingardeiros e cutelei-
ros a adotar São Jorge como patrono de suas associa-
ções de classe.
Nesta ordem: São Miguel “protegia” sete profissões;
São Crispim, quatro; Nossa Senhora da Conceição, três;
Nossa Senhora das Mercês, seis; Santa Justa e Santa
Rufina, três; São José, cinco; São Gonçalo, cinco; Se-
nhora das Oliveiras, cinco; Senhora das Candeias, qua-
tro e Senhora da Encarnação, três, carpinteiros de mó-
veis, entalhadores e coronheiros.7

***

Os brados de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da


Revolução Francesa ouvem-se ao longe. Os Congressos
da Associação Internacional dos Trabalhadores (1866),
o impacto da Comuna de Paris (alguns refugiados pedi-
ram exílio no Brasil), e a declaração de greve geral em
Nova Yorque (1871) anunciavam os novos tempos para o
proletariado. Produz eco, na Europa e na América, a gre-
ve geral de 1º de maio de 1886, resultando no enforca-
mento de cinco anarquistas em 1887, passando à histó-
ria com o nome de Mártires de Chicago.
No Brasil, 1888 marcava a “libertação” oficial dos es-
cravos, e em 1892 publica-se, em São Paulo, o periódico
anarquista Gli Schiavi Bianchi (em italiano), dirigido por
Galileu Boti, e em italiano e português, em 1893, L’Avvenire
e mais sete periódicos, divulgando anarquismo, sob orien-

69
8
2005

tação de imigrantes italianos, portugueses e espanhóis,


todos operários de mãos calejadas.
No ano seguinte (1894), na rua Líbero Badaró, 110, São
Paulo, o anarquista Artur Campagnoli, fundador da Comu-
nidade Libertária de Guararema, com meia dúzia de com-
panheiros de idéias, reuniram-se para organizar as co-
memorações do 1º de maio no Brasil, e foram presos por
“sugestão” do Cônsul italiano (delação).
Quatro anos depois os operários Antônio Costa, Joaquim
Ribeiro Guimarães e Antônio José do Amaral, cocheiros
de profissão, de origem portuguesa, lideraram a greve da
sua classe (1898) e a polícia prendeu-os,8 por atentar con-
tra os “direitos da burguesia”, ignorando os direitos dos
trabalhadores.
Em 1898, o Almanaque de Pernambuco publicou um De-
cálogo dos Anarquistas e estourou como uma bomba o livro
Anarquismo de autoria do Juiz da Corte de Halle, Dr. Paul
Eltzbacher.9
Os “estilhaços” tiveram mais impacto na Europa, mas
o Brasil também sentiu o “estrondo”...
Os pedreiros da anarquia vinham formando grupos e cen-
tros de instrução e educação libertária, “trabalhando as
pedras” que ao longo do século XX suportaram persegui-
ções, punições, leis encomendadas pela burguesia, segui-
das de expulsões, deportações, prisões, torturas policiais.10
E foi assassinado, em São Paulo, o anarquista italiano Po-
linici Mattei, no dia 20 de setembro de 1898, durante
manifestações em praça pública.11
O crescimento da indústria em nada melhorou a vida
do proletariado: agravara-se pela avareza patronal, o de-
semprego e a repressão policial.
As necessidades do patronato de contratar empregados
que soubessem ler e escrever também não mudou o pano-

70
verve
Os pedreiros da anarquia 2

rama do analfabetismo: milhares e milhares de trabalha-


dores não sabiam ler, e entre os que sabiam, a maioria
não fazia as quatro operações, e muitos só assinavam o
nome.
Para enfrentar a falta de escolas alfabetizadoras das
camadas mais pobres brasileiras e dos imigrantes que
também não puderam freqüentar as escolas nos seus pa-
íses de origem, os operários mais lúcidos e com algumas
luzes de ensino, iniciaram a implantação de escolas li-
vres, racionalistas, seguindo o exemplo do espanhol Fran-
cisco Ferrer y Guardia, nos anos distantes de 1901.
Dentro das Associações Operárias e depois sindicatos,
nos Centros de Cultura Libertária, nas sedes dos grupos
de teatro amador (muito desenvolvidos pelos anarquistas
e socialistas) e até fora destes, formaram-se escolas, com
salas modestas, improvisadas, para alfabetizar os operári-
os e seus filhos, inicialmente, e depois prepará-los em
cursos profissionalizantes, de sociologia, de jornalismo
prático e de idéias anarquistas.
O sustento dessas salutares iniciativas era por cotiza-
ções voluntárias, para quem não podia, e fixadas, para
quem tinha melhores condições salariais.
Todo o esforço direcionado no sentido de instruir e tor-
nar cada operário um elemento produtivo, útil ao seu meio,
capaz de se autogovernar sem chefes, enquanto ia aju-
dando e ensinando os que sabiam menos: eram aprendi-
zes e professores ao mesmo tempo! Aprendiam ensinando
conhecimentos gerais, sociológicos, história universal,
conceitos de igualdade social e solidariedade humana.
Foram muitas as escolas livres, racionalistas, em todo
o Brasil. Exemplificamos essa iniciativa com os “Estatu-
tos da Sociedade Pró-Ensino Racionalista”, de Porto Ale-
gre, Rio Grande do Sul (1916).

71
8
2005

“A Escola Moderna destina-se à difusão do ensino ra-


cionalista,12 isto é, procurará dar a todos um conheci-
mento exato da história, da ciência e da filosofia, de tal
forma que, o homem, pelo livre exame, compreenda que
é um valor positivo no seio da humanidade e que esta,
pela perfeição moral, ética dos indivíduos, tenderá para
um estado social de harmonia, justiça e liberdade, tão
completo quanto mais completa e elevada for a educa-
ção de cada um.”
Embasando este intróito, lê-se no texto, Artigo 1º, pa-
rágrafos: “d) criará uma biblioteca de obras escolhidas,
especialmente destinadas à educação e ensino das clas-
ses populares; e) procurará desenvolver entre o povo os
sentimentos de solidariedade e confraternização; g) com-
baterá todo o preconceito religioso, científico, filosófico,
político ou social que pretenda limitar o espírito investi-
gador do homem.”
Dentro das contradições políticas e intelectuais (hoje
é pior!) os pedreiros da anarquia desenvolviam sua pro-
paganda libertária, sustentavam embates com reacio-
nários exploradores e com a experiência que iam ad-
quirindo argamassavam uma obra gigantesca, reduto
de resistência que sobreviveu, durante todo o século XX,
às investidas do patronato, da Igreja, dos governantes,
às duas ditaduras, (1930/1945 e 1964/1985) estados de
sítio, campos de concentração, tribunais militares e aos
comunistas, que a partir de 1922 passaram a atacar
seus companheiros da véspera, atropelando-os, finan-
ciados pela 3ª Internacional de Moscou. Entraram no
século XXI contrariando as autoridades irracionais, das
direitas, das esquerdas e as críticas de alguns acadê-
micos.

***

72
verve
Os pedreiros da anarquia 2

Em nossa breve introdução demonstramos o ambi-


ente político e social encontrado no Brasil pelos pedrei-
ros da anarquia e falamos de mais alguns13 protagonis-
tas de um século de lutas pela emancipação social que
ganhou voz, formou eco, fez-se ouvir pela burguesia, a
Igreja e os governantes, sacudindo-lhes as teias de ara-
nha que anquilosavam os cérebros dos políticos, juris-
tas e acadêmicos, embalados nos cargos vitalícios, nos
cartórios, ministérios, embaixadas, no parlamento, na
magistratura e outros...
E como nem antigamente e nem hoje se implantam
cérebros sadios, abastecidos de lucidez suficiente para
perceber que a questão social mais adiante ficaria incon-
trolável por força dos conflitos econômicos, classistas,
empáfias culturais das camadas mais abastadas, recai o
ônus dessa “cegueira política” sobre o povo marginaliza-
do, mal alimentado, embotado pela fome má conselheira,
analfabeto em sua maioria e/ou de poucas letras e me-
nos raciocínio, vendo-se nesta deplorável demonstração
os elementos do afogamento no alcoolismo, nas drogas
entorpecentes, alucinantes, geradas na desigualdade, na
discriminação, envolvendo disputas, etnias, nativismos,
a violência, os atentados, as guerras intermináveis.
Para proclamar que não estavam de acordo com esse
estado de coisas, os pedreiros da anarquia pleiteavam a
redistribuição das riquezas naturais e das produzidas
pelo trabalho produtivo de todos, em benefício de todos e
de cada um.
E para demonstrar que também queriam a paz, três
anarquistas residentes no Brasil14 foram, em 1915, par-
ticipar do Congresso Pró-Paz, organizado pelo Ateneu
Sindicalista do Ferrol, Espanha. O alvo era a guerra de
1914-1918, mas quando entraram na Galícia, a polícia
do rei Afonso XIII, a mesma que tinha prendido, maltra-
tado e fuzilado o fundador da Escola Moderna em 1909,

73
8
2005

Francisco Ferrer, com ajuda de D. Antonio Maura e ou-


tros verdugos, prendeu os três delegados do anarquismo
do Brasil e expulsou Deoclécio Fagundes (Theofilo Fer-
reira) e Astrojildo Pereira pela fronteira de Portugal, e
assassinou João Castanheira.
A notícia do crime da polícia do rei Afonso XIII che-
gou rapidamente ao Rio de Janeiro, e os anarquistas
fizeram um estrondoso comício no Largo de São Fran-
cisco de Paula, seguido de passeata até a embaixada
espanhola na então capital da república brasileira.
Abriu o comício João Gonçalves da Silva e encerrou-
o a operária têxtil, companheira de João Castanheira,
Juana Bulle e o operário alfaiate, de origem portugue-
sa, Joaquim Leal Júnior, um dos mais fluentes e vi-
brantes oradores do anarquismo no Rio de Janeiro.
No ano de 1920, quando o operário João Plácido de
Albuquerque saiu do Pará para representar sua clas-
se no 3º Congresso Operário Brasileiro, realizado na
rua do Acre, 19 — Rio de Janeiro, a polícia brasileira
também o assassinou durante a viagem de navio.
Estas e outras baixas infringidas pelas autorida-
des não impediram que os pedreiros da anarquia con-
tinuassem a luta que fez história dentro da história
geral em terras brasileiras. E foram tantos? Registra-
mos hoje Alzira Werkauser, costureira, Aldino Agot-
tani, camponês, Aurora Novoa Lozano, costureira, Al-
fredo Dusi, camponês, Antônio Gomes, tintureiro, Ar-
mando Bartolo, tecelão, Antônio Fernandes, canteiro,
Aureliano Silva, pintor, Alexandre Zanella, metalúr-
gico, Antônio Silva Massarelos, estivador, Alexandre
Azevedo, têxtil, João Rocco, Benedito Romano, Nicola
Dalbencio, José Páparo, Justino Salgueiro, José Pa-
zanini, Salvador Arrebola, Eduardo Peralta e Manuel
Trubilhano, todos operários anarquistas.

74
verve
Os pedreiros da anarquia 2

Alguns escreviam na imprensa libertária, outros


organizavam e sustentavam associações operárias,
contribuíam para editar jornais, distribuíam-nos, pa-
gavam com seus tostões a impressão, aluguéis dos
centros de cultura, das sedes de grupos de teatro li-
bertário, compravam livros ácratas, formavam biblio-
tecas em casa, ajudavam uns aos outros em casos de
desemprego, acidentes no trabalho e quando algum
companheiro era preso, deportado ou expulso do Bra-
sil por defender e lutar por suas idéias revolucionári-
as.
Dir-se-á que cada um dos nomes referenciados era ao
mesmo tempo produtor e carregador das pedras para cons-
truir o palácio da anarquia!
Nessa obra edificadora trabalharam também Anastá-
cio Gago, pintor, Adelaide Diz, Antônio José do Amaral,
cocheiro, Atílio Gallo, chapeleiro, Antônio da Costa Car-
valho, gráfico, Antônio Monteiro Júnior, tipógrafo, Antô-
nio Napilinsky, sapateiro, Antônio Lopes, tecelão, Antô-
nio Manno, barbeiro, Amélia Garrido, Antônio Correia
Barbosa, carroceiro, Alcides da Silva, taifeiro, Aida de
Morais, costureira, Anunziatta Miranda, têxtil, Belizário
Pereira de Souza, carroceiro, Benedito Abreu, alfaiate,
Belmiro da Silva Jacintho, vidreiro, Catalice Silva Gre-
co, costureira, Clotilde Duarte, costureira, Pedro Monre-
al, barbeiro, Daniel Conde, sapateiro, Davina Fraga, cos-
tureira, Delfim José de Castro, pedreiro, Elvira Boni, cos-
tureira, Francisco Rubio, barbeiro, Francisco Diz, pedreiro,
Francisco de Paula, marceneiro, Francisco Mércia, cha-
peleiro, Ferdinando D’Allô, funileiro, Francisco Peralta,
pedreiro, Fritz Kock e Georg Sterbeck, tecelões, anarquis-
tas nascidos na Alemanha, por participarem de greve na
Empresa Industrial Garcia, de Santa Catarina, foram pre-
sos, expulsos do Brasil em 13 de julho de 1920, sem “car-
regar as pedras” que se esperava deles...

75
8
2005

***
Resumindo um século de serviços prestados pelos
imigrantes, os pedreiros da anarquia, edificadores de
pedaços do Brasil, produtores de alimentos, panos/rou-
pas, calçados, construíram casas, estradas, pontes e
carruagens para a burguesia, universidades para os
acadêmicos, formaram associações e sindicatos para
reunir seus companheiros de ofício, alfabetizar-se, e a
centenas de filhos dos operários, e ainda dissemina-
ram cultura sociológica, história social e anarquista.
No período de maior intensidade, deflagraram 270
greves, realizaram 80 comemorações, 119 comícios pú-
blicos, 22 grandes passeatas de protesto e de reivindi-
cação, 27 assembléias deliberativas de alto significa-
do, fundaram, dirigiram e sustentaram dezenas de es-
colas de alfabetização, artes e ofícios (além dos grupos
de ensino avulso, periódico), chegaram a ter uma uni-
versidade popular (esta no sindicato dos pintores à rua
da Constituição, 47, sobrado, no Rio de Janeiro, 1904,
com ajuda de alguns intelectuais) e outra universida-
de em São Paulo no ano de 1915 (esta organizada pelo
autodidata Florentino de Carvalho).
Ao todo realizaram doze congressos estaduais para
discutir e traçar os rumos do movimento operário, sete
nacionais e participaram de cinco congressos inter-
nacionais, sendo dois no Rio de Janeiro, no ano de 1915,
um na Argentina, um no Uruguai, um no Ferrol, Espa-
nha, um na França, no final dos anos quarenta.
Aos anarquistas e anarco-sindicalistas coube a tare-
fa de formar quatro colônias experimentais, 14 comuni-
dades de atividades diversas, 55 grêmios e centros de
cultura social, 99 uniões operárias, quatro alianças, 70
cooperativas de socorros mútuos, uma confederação com

76
verve
Os pedreiros da anarquia 2

mais de 150 mil trabalhadores filiados, 26 federações,


29 grupos anarquistas por afinidade, 59 ligas trabalhis-
tas, várias bibliotecas, cerca de 200 sindicatos, 21 gru-
pos de teatro social, libertários e escolas dramáticas,
representando cerca de uma centena de dramas, comé-
dias e realizaram 42 cursos de muito alcance instruti-
vo, cultural e profissionalizantes.
Contei, entre jornais operários e libertários, cinco
diários,15 semanários, quinzenários, mensários e pe-
riódicos, revistas, volantes e prospectos de propaganda
ideológica cerca de dois milhares,16 e salvo umas deze-
nas de exceções, inicialmente a maioria dos trabalha-
dores eram analfabetos e/ou só sabiam ler e escrever.
Só uns poucos tinham cultura geral. E ainda forma-
ram e dirigiram cerca de 20 pequenas editoras e gru-
pos formados para publicar opúsculos, pequenos livros
e panfletos, num total de meia centena.
Em meu livro Rebeldias 2 registrei (e não foram to-
dos!) 109 colaboradores na imprensa ácrata, e só em A
Voz do Trabalhador (1908-1915), órgão da Confederação
Operária Brasileira 48 militantes (homens e mulhe-
res) anarquistas escreviam em suas páginas.
Nos anos 1910 e 1920 muitos operários já tinham ven-
cido a falta de instrução das escolas oficiais e adquirido
conhecimentos culturais invejáveis nos sindicatos, nos
centros de cultura e nas escolas de teatro social, eram
formados na universidade da vida. Escreviam poesias re-
volucionárias, romances, obras de idéias avançadas, de
história, dirigiam jornais como se jornalistas profissionais
fossem! J. Marques da Costa, João Perdigão Gutierrez,
Manoel Moscoso, Lírio de Rezende, Cecílio Vilar, Rozendo
dos Santos e Joaquim Mota Assunção, entre outros.
Joaquim Mota Assunção, nascido em Portugal, cochei-
ro de profissão e depois gráfico, em 1903 lançou o jornal O

77
8
2005

Protesto, participou da Universidade Popular, de 1904, no


Rio de Janeiro, escreveu peças de teatro e obras entre as
quais, Analfabetos Ilustres, tudo ainda na primeira dé-
cada do século XX.
Antonino Dominguez,17 Ricardo Cipolla18 e Pedro Ca-
talo falavam como tribunos e não eram os únicos!
Dos anarquistas foi a tradução do hino A Internacio-
nal. Desde 1901 vivia em São Paulo Neno Vasco, forma-
do em direito pela Universidade de Coimbra. E foi ele
quem traduziu a A Internacional na primeira década do
século XX.
Em 1999, o plagiador promotor de justiça e professor
na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Car-
los Henrique Maciel, fez uma versão e registrou-a como
dele, alegando mentirosamente que em “língua brasi-
leira” A Internacional não havia ainda sido traduzida.
Somando-se à gigantesca obra dos Pedreiros da anar-
quia, já referenciada, à obra dos lutadores, a maioria
esquecidos, foram os anarquistas os responsáveis pelas
oito horas de trabalho diário, descanso aos domingos e
feriados, seguro de acidentes no trabalho, recebimento
dos salários em dia marcado, em dinheiro (antes mui-
tos patrões pagavam quando queriam e em vales para
comprar comida, mais cara em suas lojas). A solidarie-
dade que hoje se banalizou, os anarquistas agilizaram-
na durante as greves, para ajudar companheiros desem-
pregados e presos, publicar imprensa ácrata, fundar e
manter escolas e grupos de teatro, reunir fundos e pres-
tar auxílio a companheiros doentes (nesses anos dis-
tantes não havia institutos), “preparar” operários na arte
da linguagem, nos palcos dos sindicatos, e ainda servia
como festas para dar um pouco de lazer/alegria à famí-
lia trabalhadora. Contestaram na primeira década do
Século XX o idioma português imposto pelos acadêmi-

78
verve
Os pedreiros da anarquia 2

cos brasileiros (veja-se os jornais O Amigo do Povo e A


Terra Livre, São Paulo, 1903-1910).
Lutaram e conseguiram abolição das agressões físi-
cas a mulheres e aprendizes nas indústrias, a implan-
tação de lugares para trocar de roupa e comer nas fábri-
cas e oficinas, banheiros para os operários/operárias
fazerem suas necessidades fisiológicas e lavar-se, re-
cusaram pagar (tecelões e outros) os panos que estra-
gassem e/ou ter de ficar com eles, pagando-os.
Opuseram-se também às determinações patronais
das operárias grávidas nas fábricas de tecidos ter de tra-
balhar até a hora do parto, ir em casa ter os filhos e
voltar ao serviço com os recém nascidos dentro de uma
caixa de papelão e colocá-los no chão, junto aos teares.
Foram ainda os responsáveis pela abolição do uso do
chapéu, por ser anti-higiênico, dos açucareiros abertos
nos botequins (antes serviam de repasto às moscas).
Nessa época não existiam os frigoríficos e os anarquis-
tas fizeram campanha para que carne e peixe só pudes-
sem ser vendidos até as 14 horas (quem não o conse-
guia, depois dessa hora, vendia aos operários por me-
nos da metade do preço fixado para que a saúde pública
não jogasse as sobras fora). Os anarquistas bateram-se
pela implantação do saneamento, contra o serviço mili-
tar obrigatório, em 1907 o português Joaquim Mota As-
sunção e o brasileiro Eloy Pontes lançaram o jornal Não
matarás. Fizeram campanhas contra o armamento e as
guerras, inclusive com postais “Guerra ou Guerra”, pro-
pagavam a procriação consciente (hoje família progra-
mada). Foram os anarquistas os primeiros a realizar bai-
les familiares para trabalhadores, proferiram conferên-
cias para operários, campanhas contra o alcoolismo e o
tabagismo (cigarros-fumadores), combateram tenazmen-
te a carestia da vida e conseguiram do presidente Wen-

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8
2005

ceslau Brás as feiras livres para vender diretamente os


produtos sem impostos, durante a guerra de 1914-1918,
e continuou... hoje depreciada.
Formaram a Editora Mundo Livre, por cotas, em todo
o Brasil, em forma de cooperativa, fundada no Rio de
Janeiro nos anos sessenta (publicando 5 ou 6 livros),
que só acabou por força da invasão dos militares em 1969,
durante a ditadura (1964-1985).
E porque não falar: fundaram, e vive desde 1939 até
hoje, Nossa Chácara e depois Nosso Sítio em São Paulo!
Não tenho a veleidade de pensar que registrei tudo
que os anarquistas realizaram num século de atividades
libertárias no Brasil. Mas posso assegurar que fizeram
muito!!!
Agora que não há mais militantes analfabetos para
ensinar, que a tecnologia é imensa se comparada com
antigamente — Internet, meios sofisticados de comuni-
cação, e locomoção —, e acadêmicos escrevem teses de
doutoramento usando a obra dos anarquistas e podem
realizar simpósios, colóquios, discutir e fazer reparos, nem
sempre justos, à obra dos operários de poucas letras, é
oportuno lembrar que já entramos no século XXI, sem
leis de expulsão, de deportação, nenhum anarquista pre-
so ou perseguido pelas autoridades, e as igrejas “toleram-
nos”...
O anarquista pensa em mais de 50 milhões (só no
Brasil) de desnutridos, marginalizados, sem instrução su-
ficiente, moradias dignas, ocupações profissionais; pen-
sa nas diversidades humanas, numa educação e profis-
sionalização racional, capaz de ajudar cada indivíduo a
fazer o que pode e sabe, a fim de obter da coletividade
aceitação, tudo de que precisa. Pensa também e aceita
cada ser humano como é e não como se queria que fosse,
à imagem e semelhança dos mais preparados.

80
verve
Os pedreiros da anarquia 2

O anarquista terá de educar e preparar cada indiví-


duo para que este possa conviver em harmonia com as
diversidades humanas, adotando a estrofe da Internacio-
nal: “não mais deveres sem direitos; não mais direitos
sem deveres”; ou então: “a cada um segundo as suas
necessidades; de cada um segundo suas possibilidades.”
Não podem esquecer que teremos de consolidar as
bases humanas, grupos coerentes, anarquistas! Filiá-
los em federações locais, regionais, nacionais, forman-
do um movimento de “alicerces” educacional e ideologi-
camente sólidos de baixo para cima.
De cima para baixo é política! E desta estamos todos
fartos!
É, portanto, hora de pôr as mãos à obra e, sem des-
culpas de que existe uma grande diversidade de pesso-
as, fazer mais e melhor do que os pedreiros da anarquia
fizeram durante o século XX.

Notas

1
Distingo aqui “autoridade irracional”, invento dos servidores do Estado,
expressão da violência, da desigualdade social, das guerras, de “autoridade
racional”, formada pela razão, pela inteligência, pelo saber, pelo raciocínio
refletido, humanista, igual para todos!
2
Ver Pedro Calmon. História da Civilização Brasileira. São Paulo, Brasiliana, s.d.
3
Idem.
4
O médico Ranulpho Pratas, em seu excelente livro romanceado, Navios Ilumina-
dos, demonstra, com detalhes minuciosos, que no século XX, nas Docas de
Santos, haia uma escravidão sangrando pulmões operários, em plena República
brasileira.
5
Ver Edgar Rodrigues. Socialismo e Sindicalismo no Brasil – 1675-1913. Rio de
Janeiro, Editora Laemmert, 1969.
6
Idem.

81
8
2005

7
Idem.
8
Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 16-3-1898.
9
Um dos mais cultos anarquistas portugueses, da Ilha da Madeira, o poliglota
Adriano Botelho, confessou-me, em carta, que o primeiro livro que leu ao chegar
a Lisboa, foi Anarquismo, do Dr. Paul Eltzbacher.
10
No início do século XXI, com novas tecnologias, a Internet etc., os anarquistas
acadêmicos e outros, até 2005, não saíram das avaliações da obra do século XX.
11
Ver Edgar Rodrigues. Os Companheiros – 5. Santa Catarina, Editora Insular,
1998.
12
Não é demais, hoje, dizer-se que enquanto o ensino oficial fala à memória e o
aluno decora as matérias, repetindo-as como um gramofone, o ensino racionalis-
ta (dos anarquistas) fala ao cérebro, à razão, à inteligência, ao raciocínio, despertan-
do e desenvolvendo a opinião própria do estudante, sobre o que vê, ouve, lhe é
ensinado, formando uma personalidade pensante. No ensino oficial o aluno de-
cora e repete o que ouviu; no ensino racionalista, o aluno pensa, define o que lhe
ensinaram e forma sua convicção refletida, própria!
13
Os operários militantes, sindicalistas revolucionários e anarquistas, em todo o
território brasileiro, ultrapassaram os milhares, e não cabem todas suas realiza-
ções em dois textos. Um dia, quem sabe, voltarei ao assunto.
14
Deoclécio Fagundes (Theofilo Ferreira), Astrojildo Pereira e João Castanheira.
15
Voz do Povo. Rio de Janeiro, 1920; A Plebe. São Paulo, 1919; Vanguarda Operária.
São Paulo, 1921; A Lanterna. São Paulo, 1901/1904; A Hora Social. Recife,
1919.
16
Não tenho a pretensão de ter encontrado todos os títulos de jornais.
17
Antonino Dominguez nasceu na Espanha. Operário sapateiro, anarquista, foi
assassinado pelos “Rapazes da Tcheka”, Pedro Bastos (Galileu Sanches) e Eusé-
bio Manjon, orientados por Astrojildo Pereira, José Elias da Silva, João da Costa
Pimenta, Octávio Brandão e o deputado pelo P.C.B. Azevedo Lima, na noite de
13 ou 14 de fevereiro de 1928, no sindicato dos gráficos, à rua Frei Caneca, 4,
sobrado, Rio de Janeiro. Ver Edgar Rodrigues. Os Companheiros. Vol. 1. Rio de
Janeiro, 1994.
18
Ricardo Cipolla, operário sapateiro, tornou-se um dos amigos do jornal A Plebe,
e com outros, em São Paulo, formou o Centro Libertário Terra Livre, nos anos de
1921-1922, para angariar recursos para o jornal, e organizou um espetáculo
teatral no Salão Leal Oberdan, no dia 31 de dezembro de 1922: um sujeito que
andava entre os anarquistas e queria ser policial, espanhol de nascimento, Indalé-
cio Iglesias, matou Ricardo Cipolla a tiros no palco, durante o baile que encerraria
a representação teatral beneficente. Ver Edgar Rodrigues. Os Companheiros. Vol.
5. Santa Catarina, 1998.

82
verve
Os pedreiros da anarquia 2

RESUMO

A história do século XX no Brasil é contada pelas ações libertári-


as dos pedreiros da anarquia, que inventaram relações livres em
meio às tradições da hierarquia, no mais das vezes consagrada
pela miséria, antes de mais nada intelectual, em que se encontra-
vam submersos os trabalhadores do início desse século. O artigo
descreve práticas e nomeia os que efetivamente conformam uma
ampliação de espaço de liberdade que se estende até hoje.

Palavras-chave: Pedreiros da anarquia, trabalhadores, anarquis-


mo.

ABSTRACT

The history of the 20th Century in Brazil is told through the liber-
tarian actions of the bricklayers of anarchy, which have invented
free relations among traditions of hierarchy, often praised by mi-
sery — intellectual, above all —, in which workers of this Cen-
tury were submersed. The article describes practices and gives
name to those who effectively result in widening the space for
liberty that remains until today.

Keywords: Bricklayers of anarchy, workers, anarchism.

Recebido para publicação em 2 de maio de 2005 e confirmado em 6


de junho de 2005.

83
8
2005

terceiro setor e limiares da autogestão

josé maria carvalho ferreira*

Os desafios epistemológicos e metodológicos concer-


nentes à construção do objeto científico da sociologia
econômica são extremamente complexos, não obstante
ter conhecido um grande desenvolvimento nas últimas
décadas do século XX.
No contexto histórico atual, todos os que estão inte-
ressados na construção do objeto científico da sociologia
econômica são confrontados com três grandes dilemas.
Em primeiro lugar, os problemas epistemológicos re-
portados às dificuldades históricas de delimitação das
fronteiras do objeto científico da sociologia econômica
têm sido objeto de debates pouco profícuos entre sociólo-
gos e economistas e, até o momento, não se têm con-
substanciado num diálogo consistente e sistemático.1

* Professor no SOCIUS — Instituto Superior de Economia e Gestão da Uni-


versidade Técnica de Lisboa e editor da revista Utopia.

verve, 8: 84-120, 2005

84
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

Em segundo lugar, a institucionalização progressiva da


sociologia como ciência social no contexto da sociedade
e do mercado tem se traduzido em sua fragmentação
científica, ensejando, assim, a proliferação de uma sé-
rie de disciplinas especializadas. Neste domínio, a pro-
cura de uma identidade científica tem gerado a concor-
rência e a competição que não se limita aos sociólogos
e aos economistas, mas se desenvolveu, sobretudo, en-
tre os sociólogos das diferentes especialidades científi-
cas. A sociologia econômica não consegue escapar des-
te dilema, na exata medida em que enquanto objeto ci-
entífico generalista de essência sócio-econômica, é
levada a integrar as abordagens centradas no mercado
do trabalho, da teoria das redes, da teoria das organiza-
ções, do institucionalismo, da cultura, da antropologia e
da história. Em terceiro lugar, os problemas de integra-
ção e de síntese conceitual persistem, na medida em
que o objeto científico da sociologia econômica é o re-
sultado intrínseco de diferentes leituras e interpreta-
ções confinadas ao mesmo objeto de observação.
Apesar das dificuldades em ultrapassar estes dile-
mas científicos, os trabalhos de investigação realiza-
dos recentemente por diversos autores nos Estados
Unidos, no Canadá e na Europa2 têm um valor heurís-
tico importante para a reflexão sobre a atualidade do
objeto científico da sociologia econômica.
Partindo dos pressupostos já referidos, os objetivos prin-
cipais da minha reflexão ligam-se ao estudo empírico e
conceitual da organização do trabalho e do terceiro setor.
Procurarei, simultaneamente, integrar as hipóteses teó-
ricas desse estudo na construção do objeto científico da
sociologia econômica. Para tanto, os diferentes fenôme-
nos que constituem o objeto de observação da organização
do trabalho e do terceiro setor nas sociedades contempo-

85
8
2005

râneas são muito pertinentes, quer do ponto de vista teó-


rico, quer empírico.
Assim sendo, parto do princípio de que a sociologia
econômica, enquanto objeto científico dotado de conteú-
dos e de fronteiras próprias, pode ser definida como a
ciência que estuda “as atividades econômicas de produ-
ção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços
incrustados em estruturas sociais e relações sociais.”3
Enquanto partes integrantes da sociedade global, a or-
ganização do trabalho e o terceiro setor são objetos de
observação que constituem o objeto da sociologia econô-
mica, cuja análise e estudo empírico, decorrerão res-
pectivamente de uma abordagem micro-sociológica e
macro-sociológica.
Analisarei, portanto, em primeiro lugar, a organiza-
ção do trabalho no quadro da racionalidade instrumen-
tal do capitalismo, especificando as modalidades de ra-
cionalização do fator de produção trabalho que estrutu-
ram e viabilizam a maximização do lucro. Desse modo,
os conceitos centrais que analisarei ligam-se à divisão
do trabalho, à autoridade hierárquica, ao processo de to-
mada de decisão e ao processo de liderança, que corpo-
rificam as estruturas sociais e as relações sociais da
organização do trabalho das múltiplas organizações que
integram as sociedades contemporâneas mais desen-
volvidas.
Em seguida, após ter demonstrado as limitações e as
contradições resultantes da atual organização do traba-
lho, confinado aos parâmetros normativos da regulação
do mercado e do Estado, destacarei as variáveis macro-
sociológicas que se traduzem na socialização do fator de
produção trabalho, nomeadamente nas mudanças rela-
cionadas com as qualificações e competências, com o
emprego, o desemprego, a precariedade da vinculação
contratual do trabalho e a exclusão social.

86
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

Para concluir, procurarei caracterizar a emergência


do terceiro setor nas sociedades contemporâneas em dois
sentidos e orientações históricas distintos, que embora
diferentes nos seus conteúdos e formas econômicas, so-
ciais, políticas e culturais, são, no entanto, complemen-
tares e interdependentes. Esta dupla dimensão do ter-
ceiro setor, vai permitir observá-lo e analisá-lo, por um
lado como um setor de atividade econômica que procura
adaptar-se e reagir às coerções da concorrência e da com-
petição geradas pela regulação do Estado, do mercado, da
economia informal e da economia doméstica; e, por ou-
tro, como um setor que procurou historicamente consti-
tuir-se como uma alternativa ao Estado e ao mercado e
que, hoje, procura novamente reconstruir essa hipóte-
se, principalmente a partir de mudanças profundas no
âmbito da organização do trabalho, da distribuição, da tro-
ca e do consumo de bens e serviços com características
muito específicas.

Organização do trabalho
Em quase todos os países do mundo, nomeadamente
aqueles que já foram objeto de um crescimento e de-
senvolvimento econômico significativos, denota-se que
a realidade da organização do trabalho é atravessada,
inexoravelmente, por profundas mudanças no que con-
cerne à divisão do trabalho, à estrutura hierárquica de
autoridade, ao processo de tomada de decisão e ao pro-
cesso de liderança.
O caráter tendencial dessa evolução e, sobretudo, os
contornos e os conteúdos das mudanças que envolvem
a organização do trabalho no contexto da racionalidade
instrumental do capitalismo, levam-me a privilegiar
uma análise centrada na União Européia e em outros
países capitalistas mais desenvolvidos.

87
8
2005

Em termos sócio-históricos o estudo decorre desde


os meados da década de 70 do século XX, mais concreta-
mente a partir do fim dos 30 anos gloriosos do capitalis-
mo. Minha análise é centrada nos constrangimentos
institucionais e estruturais que informam a racionali-
dade instrumental do capitalismo, o que me leva a olhar
para o fator de produção trabalho como meio e objeto de
eficácia e de eficiência sistemática, no sentido da pro-
dutividade máxima de bens e serviços e, logicamente,
da grande finalidade do capital: a maximização do lucro.
No amplo sentido, meios e fins são intrinsecamente li-
gados a uma racionalidade que é exterior à vontade dos
indivíduos e grupos que lhes estão associados.
Uma das manifestações históricas do capitalismo
tem sido sua capacidade manifesta em integrar progres-
sivamente a ciência e a técnica no sentido da susten-
tabilidade de sua racionalidade instrumental.4 O exem-
plo do impacto das novas tecnologias sobre a organiza-
ção do trabalho é paradigmático.5 Por outro lado, no
âmago da própria organização do trabalho, os efeitos es-
truturantes da ciência e da técnica são cada vez mais
visíveis, na medida em que obrigam o fator de produção
trabalho a integrar-se num processo de aprendizagem
social sistemático e profundo, de forma a apropriar-se
das competências e qualificações exigidas pelas novas
tecnologias. Por intermédio destas, a crescente integra-
ção da ciência e técnica revela-se um fator que tem
induzido a um aumento da capacidade produtiva do fa-
tor de produção trabalho.
Não cabe neste texto um estudo exaustivo sobre as
novas tecnologias. Porém, em termos da sua plasticida-
de social na organização do trabalho, elas integram e
interagem sobremaneira nos processos de socialização
reportados à produção, distribuição e consumo de ener-
gia, como também nos processos de socialização do co-

88
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

nhecimento e da informação utilizados pelos seres hu-


manos no processo de trabalho. Nos múltiplos setores
de atividade econômica, as novas tecnologias são visí-
veis sobretudo nas atividades econômicas, cujas fun-
ções e tarefas estão articuladas com a informática, a
microeletrônica, a telemática, a robótica e a biotecno-
logia. Noguchi6 se refere a três setores básicos: 1) as
novas máquinas de síntese, que correspondem às ativi-
dades produtivas da indústria nuclear, da aeronáutica,
da indústria espacial e da indústria marítima; 2) a me-
catrônica, que compreende a produção automobilística
com automatismos numéricos, as máquinas-ferramen-
tas de comando numérico, as máquinas-ferramentas de
controle e programação informática, a robótica (robots
industriais, robots com comando numérico e robots in-
teligentes); 3) a telemática, nomeadamente na trans-
missão da informação, da comunicação visual e aplica-
ção nas novas formas industriais de energia, engenha-
ria genética e produção química.
No que concerne à utilização de materiais específi-
cos às novas tecnologias, destaca-se o plástico, cerâmi-
ca pura, novas ligas metálicas (aço de alta tensão, aço
não magnetizado etc.), materiais compostos (química
sintética, cerâmica têxtil, têxtil carbônico, etc.) e os
materiais eletrônicos (fibra ótica, dispositivo ótico, sili-
cone amorfo etc.). Apesar de existirem várias alternati-
vas de utilização de energia (eólica, solar, hidráulica
etc.) que poderiam, eventualmente, servir para acionar
as novas tecnologias, no cômputo geral, o petróleo, a ele-
tricidade e a energia nuclear assumem uma importân-
cia relevante.7
Quando nos reportamos à energia, informação e co-
nhecimento humano, estamos nos referindo a todo o
tipo de interações que se estabelecem entre as novas
tecnologias e o fator de produção trabalho nos domínios

89
8
2005

do “saber fazer”, das qualificações e das competências e,


logicamente, de todo o espaço-tempo para desenvolver a
sua perícia, movimentos, gestos, pausas e tempos que
são imprescindíveis para produzir qualquer bem ou ser-
viço. De fato, em todos esses domínios, o desenvolvimen-
to da automatização gerado pelas novas tecnologias tem
se traduzido, simultaneamente, num deslocamento pro-
gressivo da energia, da informação e do conhecimento
humano, que antes estava integrado nas funções e tare-
fas executadas pelo fator de produção trabalho, para os
mecanismos automáticos da novas tecnologias. O pro-
cesso de automatização desenvolvido pelas novas tecno-
logias ainda que seja criador de novas qualificações e
competências adstritas às funções e tarefas do fator de
produção trabalho, elimina, de uma forma inexorável, a
autonomia e papel relevante que este detinha no con-
texto do modelo de produção e consumo em massa de tipo
fordista.8
Essa evolução do processo de trabalho no sentido da
automatização obriga a uma adaptação sistemática do
fator de produção trabalho em termos de um novo “saber
fazer” expresso na exigência de novas competências, no-
vas qualificações, novos ritmos, novos gestos, novas pau-
sas, novos tempos e movimentos e, necessariamente,
novas capacidades cognitivas e comportamentais. São
exigências de tipo físico, simbólico e comunicacional, mas
estas últimas predominam em termos quantitativos e
qualitativos.9 Essa adaptação desenvolve-se na lógica da
concorrência e da competição no mercado interno da or-
ganização do trabalho, sempre pautada por uma crescen-
te necessidade do aumento de produtividade do fator de
produção trabalho. Na lógica do management, isto é, dos
imperativos de gestão no atual contexto da racionalidade
instrumental do capitalismo, a flexibilidade, a polivalên-
cia e a empregabilidade são os fatores mais visíveis da

90
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

inovação e da mudança realizada no âmbito da organiza-


ção do trabalho.
Este processo não é, todavia, linear. A adaptação do
fator de produção trabalho às exigências dos mecanis-
mos automáticos das novas tecnologias não é, por si só,
sinônimo de eficiência, nem de eficácia. Não há dúvida
que as novas tecnologias são a personificação da cres-
cente integração e racionalização dinamizadas pela ci-
ência e pela técnica, entretanto, as coerções estrutru-
rais e institucionais da racionalização da organização
do trabalho desenvolvem-se no mesmo sentido: quer em
relação aos processos de tomada de decisão e de lide-
rança, quer em relação à estrutura hierárquica da au-
toridade e tarefas reportadas à divisão do trabalho.10
A divisão do trabalho, como elemento estrutural e
institucional da organização do trabalho, determina de
modo prescritivo o papel de cada trabalhador na execu-
ção de tarefas ou funções que implicam qualificações e
competências específicas. As interdependências e as
complementaridades resultantes dos constrangimentos
institucionais e estruturais determinam, em última ins-
tância, a emergência do processo de produção de bens e
serviços que são incrustados em relações sociais e re-
lações pessoais de tipo formal e informal.
Associando a influência das novas tecnologias no
aumento da capacidade de socialização da informação e
da comunicação no espaço-tempo confinado ao processo
de trabalho, a divisão do trabalho desenvolve-se no sen-
tido da sua extensão e intensidade. O papel do fator de
produção trabalho é, por tais motivos, potencializado, quer
em termos de suas qualificações e competências, quer
em termos de sua autonomia e intervenção espaço-tem-
poral. Para se adequar aos requisitos da emissão, trans-
missão e recepção da informação que estipula os papéis
circunscritos à execução de uma dada tarefa ou função,

91
8
2005

só com uma divisão do trabalho identificada com a poli-


valência, a flexibilidade e a empregabilidade do fator de
produção trabalho é possível que este atinja o máximo
de produtividade de bens e serviços.
As exigências estruturais e institucionais que de-
correm da divisão do trabalho não implicam exclusi-
vamente o aumento da produtividade do trabalho e da
especialização na execução de tarefas relacionadas à
produção de bens e serviços. A racionalidade instru-
mental do capitalismo, assim como as mudanças e as
inovações operadas nas novas tecnologias e a organi-
zação do trabalho, atravessa o espaço-tempo da distri-
buição, da troca e do consumo de bens e serviços. Por
outro lado, as exigências de concorrência e de compe-
titividade entre as múltiplas organizações a escala
local, regional, nacional e mundial tem se traduzido
num incremento da especialização e da parcelariza-
ção das funções e tarefas adstritas à gestão, à progra-
mação, à coordenação e ao controle do processo de tra-
balho, gerando, por conseqüência, um desenvolvimen-
to da divisão do trabalho. 11
No caso específico da divisão do trabalho, Kern e Schu-
man12 defendem que no contexto das sociedades pós-in-
dustriais assistimos a uma tendência progressiva do fim
da divisão do trabalho identificada com os princípios e as
práticas do taylorismo. Quer no tipo das tarefas executa-
das, quer nas hipóteses de desenvolvimento das suas qua-
lificações, com a reestruturação da divisão do trabalho
propiciada pelas novas tecnologias, o fator de produção
trabalho tem probabilidades acrescidas de diversificar
suas qualificações, suas prerrogativas profissionais e au-
tonomia no processo de trabalho. Neste sentido, não ad-
mira que a flexibilidade e a polivalência se tornem os
fatores de integração e de potencialização da qualifica-

92
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

ção do fator de produção trabalho, contribuindo, desse


modo, para o fim da divisão do trabalho taylorista.
Há, no entanto, tendências contrárias ao desenvolvi-
mento da divisão do trabalho, especificamente aquelas
ligadas às capacidades e aos limites de ação cognitiva e
comportamental do fator de produção trabalho. Este aspec-
to pode ser facilmente observado com os imperativos da
socialização da informação no processo de trabalho. Na
medida em que o tempo real se aproxima cada vez mais do
tempo virtual em relação ao acesso, regulação e controle
da informação que são necessários para a execução de
tarefas e funções e, ainda, porque foram substancialmen-
te diminuídos os tempos circunscritos à emissão, trans-
missão e recepção do informação no sentido horizontal e
vertical concernentes aos processos de tomada de decisão
e de liderança, para os devidos efeitos, torna-se crucial
eliminar todos os obstáculos ou condicionamentos que
possam provocar ruídos, enviesamentos ou conflitos en-
tre indivíduos ou grupos que interagem no processo de tra-
balho.
Como já tínhamos dito, as novas tecnologias integram
em seus mecanismos automáticos uma parte substanci-
al do “saber-fazer” que antes estava integrado nas compe-
tências e qualificações, traduzidas na execução de tare-
fas que decorriam das exigências de produção de bens e
serviços adstritos à segunda Revolução Industrial. A par-
tir da década de setenta do século XX, essas competências
e qualificações revelam-se em grande parte obsoletas ou
foram objeto de mudanças significativas, razão pela qual
algumas delas tenham sido pura e simplesmente extin-
tas, outras redefinidas e outras, entretanto, criadas. Como
exemplo significativo do último caso, a introdução da mi-
cro-eletrônica, da informática e da robótica no processo de
trabalho13 exige novas competências e qualificações, cri-
ando desse modo novos postos de trabalho ao nível da pro-

93
8
2005

gramação, da concepção, da manutenção e controle das


novas tecnologias, ao mesmo tempo que outros vão sen-
do progressivamente extintos.
A tendência para um aumento da qualificação ou da
desqualificação do fator de produção trabalho é observa-
do no contexto da racionalização da organização do tra-
balho e da divisão do trabalho que lhe é subjacente. Nos
setores em que as funções e as tarefas exigem compe-
tências e qualificações no âmbito da programação, con-
cepção e manutenção inerentes às novas tecnologias,
a tendência é para um aumento significativo da qualifi-
cação do fator de produção trabalho e, logicamente, da
divisão do trabalho, em termos quantitativos e em ter-
mos qualitativos. Todavia, numa situação oposta, as ta-
refas e funções que exigem poucas competências e qua-
lificações, que estimulam comportamentos e atividades
cognitivas rotineiras e exigem exclusivamente esforço
físico, evoluem no sentido da desqualificação do fator de
produção trabalho e da extinção de postos de trabalho.14
A autoridade hierárquica é um elemento estrutural
e institucional da organização do trabalho que determi-
na de modo prescritivo as modalidades de coordenação
e de controle do processo de trabalho, nomeadamente
aquelas que emergem no processo de produção de bens
e serviços encastrées em relações sociais e em relações
pessoais que informam a socialização do poder e os flu-
xos de autoridade no sentido vertical. As novas tecnolo-
gias não se coadunam com o caráter prescritivo da au-
toridade hierárquica formal. Esta se revela demasiada-
mente rígida em relação às exigências da socialização
da informação e da comunicação que os atores neces-
sitam para desenvolverem suas potencialidades cogni-
tivas e comportamentais. A descentralização e a parti-
cipação impõem-se sobremaneira entre os diferentes
níveis hierárquicos de autoridade e nas relações soci-

94
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

ais e pessoais entre chefes e subordinados. A coordena-


ção e o controle da autoridade hierárquica colide com
um tipo de “democracia direta” imposta pelas novas tec-
nologias na organização do trabalho. Assim, para que o
fator de produção trabalho se torne efetivamente efici-
ente, para que a emissão, transmissão e recepção da
informação reportada à produção de bens e serviços seja
objetivamente realizada, é imperativo que a autoridade
hierárquica permita a socialização da informação no
sentido descendente, ascendente e horizontal.
Devido à persistência de efeitos perversos nesse pro-
cesso, não admira que muitas empresas e outras orga-
nizações, para se tornarem eficientes e competitivas,
eliminem alguns níveis intermediários da estrutura
hierárquica da autoridade e, logicamente, sejam tam-
bém extintas tarefas e funções que antes estavam con-
finadas ao controle e à coordenação das relações soci-
ais e pessoais que manifestamente condicionavam a
socialização da informação e da comunicação que de-
corre do processo de trabalho. Desta maneira, para que
a socialização da informação se realize no sentido ver-
tical e horizontal é fundamental evoluir para o achata-
mento da pirâmide hierárquica das múltiplas organiza-
ções e, simultaneamente, para a extinção de postos de
trabalho.15
As contingências das novas tecnologias e da organi-
zação do trabalho em relação aos processos de tomada de
decisão e de liderança têm múltiplas vertentes. O pro-
cesso de tomada de decisão, enquanto elemento estrutu-
ral e institucional da organização do trabalho, determina
o processo de produção de bens e serviços encastrées nas
relações sociais e pessoais que definem as modalidades
de participação e de socialização da informação dos ato-
res individuais e coletivos. O processo de liderança mos-

95
8
2005

tra-se como elemento articulador da dinamização da


influência social no processo de trabalho.
No caso específico do processo de tomada de decisão,
para que a transmissão de informação seja realizada de
forma adequada e a tempo, é necessário que as rela-
ções sociais sejam estruturadas por um tipo de partici-
pação e de democracia plena, para que as relações soci-
ais possam emergir de uma forma espontânea e infor-
mal, subtraindo-se e adaptando-se às coerções da
estrutura hierárquica da autoridade. Neste caso, quan-
to maiores são os níveis da autoridade hierárquica,
maior é a dificuldade de apropriação, de regulação e so-
cialização da informação. Por outro lado, as linguagens
das novas tecnologias implicam a descodificação e a co-
dificação de novos signos e significados. Os atores que
necessitam de informação para executarem suas tare-
fas e funções, proficientemente, são constrangidos a de-
senvolverem adequadamente suas capacidades de emis-
são e recepção de informação quando estão numa situ-
ação de interação, permitindo assim que a transmissão
da informação que atravessa o funcionamento das or-
ganizações seja efetivamente realizada.
Nas sociedades capitalistas desenvolvidas, as organi-
zações e instituições são bombardeadas por uma infor-
mação gigantesca e complexa, cuja socialização é extre-
mamente difícil realizar, sobretudo quando emerge num
ambiente perpassado pela incerteza e o risco e, por outro
lado, está sujeita aos condicionantes temporais e men-
tais que acompanham a sua integração na execução de
tarefas e funções. Por isso hoje, do início até o fim de
qualquer processo de tomada de decisão, não basta orga-
nizar e categorizar a informação substantiva que é ne-
cessária para iniciar este processo. Em geral, na ausên-
cia dessa informação substantiva, muitas organizações
e instituições limitam-se a desenvolver o processo de

96
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

tomada de decisão de forma rotineira, pondo em risco a


própria sobrevivência da organização. Os problemas de
resolução no processo de tomada de decisão são de tal
modo difíceis e complexos, que se torna imperativo, em
primeiro lugar, organizar e categorizar um tipo de infor-
mação formada por signos e significados prioritariamen-
te abstratos e imateriais e, em segundo lugar, que os
atores, para participarem efetivamente no processo de
tomada de decisão, adquiram valências comunicacionais,
por meio da aprendizagem social e da formação, que lhes
permitam executar suas tarefas e funções de forma pro-
ficiente. 16
Todos os paliativos no sentido do acréscimo da capa-
cidade e do aumento da participação dos trabalhadores
no processo de tomada de decisão tornam-se, por tais
motivos, vitais para que a eficácia e aumento da produ-
tividade do fator de produção trabalho seja uma realida-
de plausível. Todos os esforços de descentralização do
poder e a diminuição dos níveis da autoridade hierár-
quica vão no sentido de uma potenciação da democra-
cia no processo de trabalho. Esta evolução é essencial,
pois só assim é possível dinamizar a polivalência e a
flexibilidade, ao mesmo tempo que são criadas as condi-
ções propícias à execução de tarefas de forma adequa-
da, reduzindo-se, por outro lado, os custos de produção.
As interações entre os múltiplos atores que integram o
processo de tomada de decisão desenvolve-se através
de um diálogo intenso e sistemático, caso contrário as-
sistir-se-á a obstruções e enviesamentos no processo
comunicacional. As novas formas de organização do tra-
balho, como são os círculos de qualidade, grupos autôno-
mos, co-gestão e a democracia industrial, que foram es-
sencialmente testados nos países capitalistas mais de-
senvolvidos, até agora, revelaram-se manifestamente
insuficientes para superarem os problemas comunica-

97
8
2005

cionais e relacionais que informam o processo de toma-


da de decisão.
Embora possamos afirmar que as contingências das
inovações e das mudanças provocadas pelas novas tec-
nologias e a organização do trabalho não sejam tão visí-
veis no processo de liderança, como já foi referido em
relação ao processo de tomada de decisão, seu impacto é,
no entanto, significativo no comportamento dos líderes e
dos membros das organizações, que são influenciados por
suas ações no processo de produção de bens e serviços.
Na estrita medida em que a socialização da informação e
da comunicação atravessa todas as relações sociais em
que estão presentes a autoridade hierárquica e, conse-
quentemente, o exercício do poder, as exigências de maior
participação e de descentralização na execução de tare-
fas e funções implicam que as relações sociais entre os
líderes e o seus subordinados sejam, em muitos casos,
de tipo informal e espontâneo. Todavia, os constrangi-
mentos estruturais e funcionais da organização do tra-
balho legitimam e desenvolvem um tipo de liderança for-
mal. Perante a contingência da implementação da poli-
valência e da flexibilidade na organização do trabalho, os
líderes, para serem efetivamente eficientes, necessitam,
para além das suas prerrogativas de caráter formal, de
valências culturais e comunicacionais que viabilizem as
relações sociais e relações pessoais de tipo informal e
espontâneo. Para se criarem empatias e sociabilidades
positivas entre os líderes e os liderados, estes últimos
necessitam de uma margem de manobra e de criativida-
de que lhes permita desenvolver esta informalidade e
espontaneidade.
A liderança traduz-se, assim, em um processo no qual
o apoio, a cooperação, o diálogo e a solidariedade podem
estar presentes ou não quando emergem relações de in-
terdependência e complementaridade entre o líder e os

98
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

liderados. Se tivermos presente que a liderança não é


simplesmente circunscrita à legitimidade outorgada pela
organização a todos aqueles que exercem funções de li-
derança formal, mas também é resultante das capacida-
des e possibilidades de influência que os liderados po-
dem exercer pela via informal e espontânea, para que
haja uma adaptação consentida às exigências das novas
tecnologias e da organização do trabalho, é imprescindí-
vel que a participação e “democracia direta” estejam pre-
sentes nas relações entre líder e liderados, pois só assim
é possível estruturar uma real interdependência e com-
plementaridade entre ambos e, logicamente, a introdu-
zir eficácia no processo de liderança na organização do
trabalho.

Dualidades do mercado de trabalho


Entre as conseqüências mais representativas das
mudanças operadas pelas novas tecnologias e a organiza-
ção do trabalho, importa, sobremaneira, referir-se às suas
conseqüências nas qualificações e competências do fator
de produção trabalho, especificamente no que concerne
às reestruturações dos perfis sócio-profissionais,17 que têm
implicações profundas na evolução do desemprego, da pre-
cariedade dos vínculos contratuais e na exclusão social.
Ainda que não possamos arbitrariamente raciocinar em
termos de uma evolução linear, mas de uma evolução plu-
rilinear, com base na maioria dos analistas, podemos des-
tacar as principais dualidades que acompanham o atual
processo histórico dos países capitalistas mais desenvol-
vidos: 1) aumento da qualificação/desqualificação; 2) em-
prego/desemprego; 3) estabilidade da vinculação contra-
tual do trabalho/precariedade da vinculação contratual do
trabalho; 4) integração social/exclusão social.

99
8
2005

A controvérsia a respeito das tendências e evidências


empíricas das competências e das qualificações que cor-
porificam os perfis sócio-profissionais e as exigências de
execução de tarefas e funções do fator de produção traba-
lho, geralmente, circunscreve-se àqueles que opinam no
sentido de sua desqualificação,18 ou no sentido do aumen-
to de sua qualificação.19 Ambas as análises são válidas e
pertinentes. Partindo do pressuposto de que todas as fun-
ções e tarefas que estão articuladas com os procedimen-
tos técnicos e laborais das novas tecnologias, nos domíni-
os da programação, concepção, planejamento, gestão, con-
trole e manutenção, são exigidos novos conhecimentos e
valências comportamentais e cognitivas que se consubs-
tanciam num efetivo aumento qualitativo e quantitativo
das qualificações e competências do fator de produção tra-
balho. Por outro lado, diante de todas as funções e tarefas
de tipo rotineiro correlacionadas com um mero dispêndio
de energia e poucas valências comportamentais e cogni-
tivas, adstrita a trabalhos de mera serventia e vigília no
processo de produção e troca de bens e serviços, observa-
mos uma tendência estruturante no sentido de um au-
mento progressivo e sistemático da desqualificação do fa-
tor de produção trabalho.
Para além dessas duas tendências no âmbito da duali-
dade das qualificações no mercado de trabalho, em ambas
subsiste sempre um fator estruturante comum: o proces-
so de automatização incorporado na inovação e mudança
tecnológica e científica, pelo fato de deslocar para os me-
canismos internos das novas tecnologias parte significa-
tiva da informação, do conhecimento e da energia do fator
de produção trabalho, por essa via, extingue e reestrutura
uma parte importante das competências e qualificações
que consubstanciavam a produção de bens e serviços do
modelo fordista, contribuindo, assim, para o aumento da
qualificação do fator de produção trabalho.

100
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

A tendência para a desqualificação do fator de produ-


ção trabalho traduz-se estruturalmente num aumento
do desemprego.20 Como acabei de dizer, os simples efei-
tos do deslocamento da energia, da informação e do co-
nhecimento polarizado no “saber-fazer” do operariado clás-
sico para os mecanismos automáticos das novas tecno-
logias, nomeadamente a tudo o que se reporta a gestos,
movimentos, pausas, tempos, perícia e habilidades tra-
duzidas em capacidades produtivas, traduz-se logo num
aumento do desemprego.
Decorrente deste tipo de constrangimento estrutural
e institucional emerge uma segunda tendência de dua-
lidade no mercado de trabalho, corporificada na hipótese
do fator de produção trabalho: ter emprego ou mergulhar
no desemprego. Só por si, como acabamos de verificar, o
processo de automatização do processo de trabalho gera
desemprego. Todavia, importa ainda fazer referência às
redes sociais de tipo formal e informal que, entretanto,
são estruturadas como procura efetiva de emprego e não
conseguem viabilizar esse objetivo. Os exemplos dos mi-
lhares de milhões de jovens, mulheres, minorias étni-
cas e imigrantes que procuram emprego e vêem frustra-
das suas ações individuais e coletivas são elucidativos.
Nestas condições, a oferta efetiva e a procura efetiva
do fator de produção trabalho no mercado de trabalho
colide com as formas clássicas de negociação e de con-
tratação coletiva que foram desenvolvidos entre o final
da Segunda Guerra Mundial e o princípio da década de
setenta do século XX. As exigências de flexibilidade, de
polivalência e de empregabilidade são hoje as modali-
dades contingentes do processo de regulação do merca-
do de trabalho, ao ponto de que, para poderem subsistir
como trabalhadores assalariados e não integrarem o
contingente dos desempregados, muitos deles aceitam
contratos de trabalho a tempo parcial, contratos de tra-

101
8
2005

balho a tempo determinado, contratos de trabalho com


duração temporária, contratos de trabalho sazonais ou
contratos de trabalho no domicílio. Ainda que diferen-
tes, são formas de contrato de trabalho imbuídos de uma
grande fragilidade temporal e jurídica, razão pela qual
assiste-se ao desenvolvimento significativo de trabalha-
dores assalariados com vinculação contratual precária.21
Não admira que o contingente dos milhões de desem-
pregados e de contratados com vínculos precários não pare
de crescer.22 Todos os trabalhadores assalariados que
estão nessas condições vêem-se impedidos de não so-
mente trabalhar em condições normais, mas também de
usufruir de rendimentos e de outras regalias sociais,
políticas e culturais mínimas.23 Recebendo salários bai-
xos e não usufruindo de uma estabilidade vinculativa no
mercado de trabalho, não admira que no mundo dos tra-
balhadores assalariados sejam remetidos para a base da
pirâmide da atual escala de estratificação social e que,
por outro lado, tenham poucas ou nenhuma possibilida-
de de mobilização social no sentido ascendente dessa
mesma escala de estratificação social. Todavia, todos
aqueles que por meio da formação e da educação possuí-
rem as competências e qualificações requeridas pelas
novas tecnologias e pelas mudanças operadas na organi-
zação do trabalho e tenham, entretanto, adquirido valên-
cias comportamentais e cognitivas traduzíveis em capa-
cidades de competição e de concorrência acrescidas no
mercado de trabalho, têm probabilidades de integrarem o
topo da pirâmide da escala de estratificação social e evo-
luírem no sentido de uma mobilidade social ascendente.
Diante desta realidade, podemos observar uma ter-
ceira dualidade no mercado de trabalho: estabilidade da
vinculação contratual do trabalho, precariedade da vin-
culação contratual do trabalho. Neste caso, todos os que
conseguirem usufruir de qualificações e competências

102
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

adequadas aos constrangimentos técnicos, científicos,


estruturais e institucionais requeridos pela evolução da
racionalidade instrumental do capitalismo tenderão a in-
tegrar o mercado de trabalho com vinculação contratual
estável. No sentido contrário, todos aqueles que evoluí-
rem no sentido da desqualificação e do desemprego ca-
minharão, irremediavelmente, para uma situação de ins-
tabilidade e de precariedade integradas nas múltiplas di-
mensões formais e informais de vinculação contratual
do fator de produção trabalho.
Das três dualidades observadas no mercado de traba-
lho, importa sublinhar uma outra que funciona como sín-
tese delas. Os trabalhadores assalariados que considera-
mos como qualificados, que têm emprego e vinculação
contratual do trabalho estável, se continuarem a demons-
trar uma grande capacidade de concorrência e de com-
petição no mundo do trabalho assalariado, tornar-se-ão
os favorecedores da integração social e da ordem social,
política, cultural e econômica. Todavia, a trajetória tem-
poral previsível dos desqualificados, dos desempregados
e dos que têm um vínculo contratual precário, caminha
no sentido da exclusão social e da marginalidade social.
Quaisquer uma destas condições não é passível de es-
truturar a integração social, nem tampouco se identifica
com a ordem econômica, social, política e cultural que
informam a racionalidade instrumental do capitalismo.
Não admira, assim, que a tendência da exclusão social
culmine na produção sistemática do desvio. Os custos do
desvio são enormes, nomeadamente em termos do au-
mento drástico dos seus efeitos perversos, corporificados
no aumento exponencial do crime, da droga, da violên-
cia, da miséria humana e da destruição do planeta.
Se considerarmos as variáveis explicativas que in-
tegram cada posição na escala de estratificação social
por meio do salário, do poder, da cultura, do local e da

103
8
2005

região geográfica de qualquer trabalhador assalariado no


mundo atual, torna-se difícil incluir e classificar estatis-
ticamente, de uma forma idônea, os milhões de excluí-
dos sociais, de pobres e de miseráveis nessa mesma es-
cala de estratificação social. Sabendo de antemão que
subsistem diferenças de uma região para outra, de um
país para outro, de um continente para outro, não resta
dúvida de que estamos na presença das mesmas variá-
veis que provocam inevitavelmente a exclusão social. As
evidências empíricas que acompanham o atual processo
da emigração para os países capitalistas mais desenvol-
vidos e, sobretudo, a tragédia cultural, econômica, social
e política que se desenvolve nos países de origem e nos
países de acolhimento da imigração, são fenômenos que
configuram não somente o aumento do desemprego e da
precariedade da vinculação contratual dos trabalhadores
assalariados, mas também o desenvolvimento da exclu-
são social de forma exponencial.
Os excluídos sociais, nestas condições, dificilmente
podem integrar qualquer grupo sócio-profissional cujas
expectativas racionais sejam desenvolvidas no quadro da
racionalidade instrumental do capitalismo. E, neste do-
mínio, sejamos claros: se o mercado e o Estado pudes-
sem integrar as expectativas racionais dos indivíduos e
dos grupos, que pretendem emprego e um contrato de
trabalho estável, o fariam. Todavia, as contingências da
racionalidade instrumental do capitalismo não permitem
qualquer tipo de veleidade que contrarie sua essência
básica: produção e maximização de lucro.

A emergência histórica do terceiro setor


A crescente integração da ciência e da técnica no
quadro da racionalidade instrumental do capitalismo
traduziu-se numa série de constrangimentos estrutu-

104
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

rais e institucionais, cujas implicações profundas têm


originado grandes mudanças nas novas tecnologias, na
organização do trabalho e no mercado de trabalho. Entre
os efeitos mais representativos dessas mudanças — se
tivermos presente o aumento significativo do desem-
prego e da precariedade da vinculação contratual do tra-
balho assalariado24 — é lícito inferir que o Estado e o
mercado, nesses domínios, vivem uma crise de legiti-
midade e de regulação. A comparação com o período his-
tórico dos trinta anos gloriosos do capitalismo é, neste
caso, elucidativa. O pleno emprego e a generalização de
políticas sociais permitiram uma regulação e uma es-
tabilidade da vinculação contratual do trabalho assala-
riado, por intermédio da implementação do modelo de
produção e de consumo em massa de tipo fordista25.
Depois do final da década de 1970, as evidências empí-
ricas da crise de regulação e de controle do Estado e do
mercado relacionadas ao fator de produção trabalho são
de tal modo explícitas que não é possível prever os seus
contornos no futuro próximo.
A crise do Estado pode ser visualizada em diferen-
tes dimensões. Em primeiro lugar, no domínio das polí-
ticas sociais, na estrita medida em que não tem capa-
cidade financeira suficiente para investir na saúde,
na assistência social, na segurança social, na forma-
ção e na educação.26 Na política econômica, o Estado
demonstra-se incapaz de implementar o modelo key-
nesiano com a proficiência devida. Os investimentos
públicos que antes serviram de paliativos básicos para
superar as insuficiências da oferta efetiva em relação
às necessidades da procura efetiva resultante da re-
gulação do mercado e da economia privada, hoje, de-
monstram-se inadequados face às exigências de com-
petição e de concorrência dinamizadas pelas grandes
empresas transnacionais. Por outro lado, o Estado-na-
ção clássico vem perdendo capacidade de gerir e admi-

105
8
2005

nistrar o seu território em função da sua identidade


econômica, social, cultural e política. As funções clássi-
cas que o Estado-nação tinha, nestes domínios, foram pro-
gressivamente transferidas para as mãos do sistema fi-
nanceiro mundial e das grandes empresas transnacio-
nais, perdendo, por via disso, muitas de suas capacidades
e prerrogativas de decisão nos domínios da administra-
ção política e territorial.
Outro aspecto da crise do Estado reporta-se a sua rela-
ção com a sociedade civil, enquanto estrutura e institui-
ção de representatividade social e de governança. Na pers-
pectiva de Hobbes, o Estado tinha por função regular e
controlar as relações sociais e as relações pessoais da
sociedade civil por meio de um contrato social, cuja inci-
dência espaço-temporal, transformá-lo-ia num ser oni-
potente e onipresente. Hoje, a crise de legitimidade do
Estado junto à sociedade civil demonstra o contrário. O
Estado perdeu seu dom da ubiqüidade junto ao cidadão
comum. Em grande parte, essa evolução é devida aos al-
tos índices de burocratização e de centralização que as
instituições e as estruturas do Estado atingiram. Por esse
fato, tornou-se demasiado distante dos problemas que
afetam a vida cotidiana do cidadão comum. A perda de
legitimidade do Estado em relação à sociedade civil é de-
monstrada em seu governo intermediado por decisões de
caráter jurídico, legislativo e executivo. O seu impacto é
quase nulo ou pouco eficiente. Diante disto, se tivermos
presente a dimensão gigantesca do aumento do crime,
da violência, do desemprego, da exclusão social, da po-
breza e da destruição do ambiente, limitamo-nos a cons-
tatar que não obstante a aplicação generalizada de políti-
cas sociais e políticas de segurança por parte do Estado,
não se vislumbra que esses sintomas perversos que
afetam a sociedade civil possam ser erradicados ou,
tampouco, invertidos.

106
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

No momento atual, em presença de uma crise de re-


gulação e de controle por parte do Estado, poder-se-ia pen-
sar que o mercado, enquanto uma entidade natural e
abstrata, resolveria facilmente os dilemas e os proble-
mas que afetam, sobremaneira, a sociedade civil: traba-
lho, desemprego, pobreza, miséria, exclusão social, cri-
me e violência. De fato, a procura efetiva que está direta
ou indiretamente reportada à resolução desta imensi-
dão de problemas que atingem a sociedade civil não têm
correspondência por parte de uma hipotética oferta efe-
tiva desenvolvida no âmbito das virtualidades concernen-
tes ao mercado. Raciocinando por intermédio dos postu-
lados dos economistas clássicos e neoclássicos, o merca-
do seria o espaço-tempo de um processo de socialização
de trocas sistemáticas, que refletiria, por meio da procu-
ra efetiva e da oferta efetiva, os interesses, objetivos e
estratégias dos produtores e consumidores de bens e ser-
viços. No seu entendimento e explicação, cada indivíduo
é soberano e livre, para a partir de sua racionalidade e
seus interesses, suas escolhas, suas perferências, de-
terminar a oferta efetiva e a procura efetiva que, por efei-
tos miméticos generalizados, culminaria num equilíbrio
sistemático no mercado.
Assim como o Estado não possui o dom da ubiqüida-
de, o mercado também não. O mercado não é uma reali-
dade natural e abstrata, na medida em que ele é uma
criação das sociedades humanas e, como tal, é um es-
paço, um tempo, um território, no qual se desenvolve a
produção, distribuição, troca e consumo de bens e ser-
viços, incrustrados em estruturas sociais e instituições
sociais que definem e prescrevem relações sociais, nor-
mas sociais, valores e atitudes. Diante da presença das
contradições e dos desvios quantitativos e qualitativos
da economia formal e da economia informal no merca-
do mundial em relação à oferta efetiva e à procura efe-
tiva de bens e serviços, não podemos de forma alguma

107
8
2005

afirmar que axiomas dos modelos dos economistas clás-


sicos e neoclássicos estejam em sintonia com a realida-
de econômica, social, política e cultural persistente. Ve-
rifica-se, assim, que subsistem, também, limites e con-
tradições nas próprias capacidades do mercado controlar
e regular a oferta efetiva e a procura efetiva de bens e
serviços, nomeadamente de tudo o que é subjacente ao
mundo do trabalho e do emprego.
O Estado e o mercado estão em crise, e mediante a
sua manifesta incapacidade de regular e controlar as per-
versões e os desvios potenciais de milhares de milhares
de milhões de trabalhadores assalariados no desempre-
go, de milhares de milhões de trabalhadores assalaria-
dos com vinculação contratual precária, de milhares de
milhões de excluídos sociais. Para estes, as hipóteses de
sobrevivência que se configuram no horizonte próximo
resumem-se a uma escolha de mobilidade social, cujo
sentido mais representativo é a integração na economia
informal. Esta tende a desenvolver-se de uma forma ex-
ponencial nos países capitalistas mais desenvolvidos e
menos desenvolvidos, porque está na origem da própria
sobrevivência histórica de todos aqueles que mergulha-
ram no desemprego, na precariedade da vinculação con-
tratual e na exclusão social. Na atualidade, só a econo-
mia informal pode desenvolver uma dinâmica consistente
no mundo do crime, da droga, da violência e da exclusão
social através da produção, distribuição, troca e consu-
mo de bens e serviços que lhe são específicos. Por outro
lado, existe uma enorme correlação entre a economia
informal e a economia formal, especificamente pelas in-
terdependências e complementaridades criadas entre
elas no que toca às necessidades de produção, distribui-
ção, troca e consumo que estão na base da formação da
procura efetiva e da oferta efetiva do mercado normativo
e do mercado paralelo.

108
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

Neste sentido, a economia informal, legitima em pri-


meiro lugar o Estado e o mercado normativo, na medida
em que estes são estimulados e levados a produz uma
série de bens e serviços para regular e controlar os des-
vios e as perversões da economia informal. Por outro lado,
grande parte da produção legislativa, executiva e jurídi-
ca do Estado é resultante das perversões da economia
informal, que põe em risco sua própria existência e legi-
timidade. A dimensão mundial da racionalidade instru-
mental do capitalismo permite-lhe uma otimização inau-
dita nas correlações subsistentes entre a economia for-
mal e a economia informal, maximizando o lucro por
intermédio de situações nas quais impera a escravidão
sobre o trabalhado assalariado, com condições de traba-
lho paupérrimas, salários de miséria e relações sociais
despóticas.27
Embora seja difícil determinar os contornos do objeto
de observação e do objeto científico concernente ao ter-
ceiro setor, não obstante, é possível delimitá-los, tendo
presente duas dimensões básicas. Uma, que decorre de
sua historicidade enquanto modelo alternativo às moda-
lidades de regulação e de controle desenvolvidas pelo
mercado e pelo Estado. Outra, que está reportada às vi-
cissitudes de adaptação e de reação do terceiro setor à
crise de regulação e de controle por parte do Estado e do
mercado nas sociedades contemporâneas. Desse modo,
o terceiro setor personifica uma evolução histórica inte-
grada por princípios e práticas, com uma geografia cultu-
ral e humana específica28 e resulta dos dilemas contem-
porâneos que a sociedade civil é levada a assumir peran-
te as contingências da crise do Estado e do mercado nas
suas múltiplas dimensões.
Como primeira aproximação conceitual do terceiro
setor, é lícito deduzir que ele personifica todas as ativi-
dades econômicas, sociais, culturais e políticas que es-

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8
2005

capam aos constrangimentos estruturais e institucio-


nais de regulação e de controle do Estado e do mercado,
é preciso ainda deduzir que as suas atividades são dis-
tintas da economia informal e da economia domésti-
ca.29 Não basta dizer que o terceiro setor preenche os
requisitos de produção, distribuição, troca e consumo
em relação a um tipo de atividade específica, importa,
também, que suas estruturas, seus objetivos e estraté-
gias organizacionais tenham visibilidade no contexto das
sociedades contemporâneas. Neste âmbito há um de-
nominador comum que geralmente é corporificado no
regime jurídico e no funcionamento organizacional das
associações, mutualidades ou cooperativas que integram
o terceiro setor: 1) possuem uma estrutura institucio-
nal; 2) são de caráter privado; 3) não geram dividendos
dos lucros; 4) têm autonomia e controle de suas ativida-
des; 5) podem usufruir da participação de trabalho vo-
luntário ou beneficente.30 Portanto, a finalidade é pro-
duzir um dado bem ou serviço, mas não existe uma in-
tenção explícita de enriquecimento ou de distribuição
de lucros para quem integra esses tipos de associações,
mutualidades ou cooperativas. Finalmente, o terceiro
setor depende muito da latitude da crise do Estado e do
mercado, da cultura e da história do país em que emer-
ge e do país que já teve oportunidade de atingir um rela-
tivo desenvolvimento econômico no quadro da raciona-
lidade instrumental do capitalismo.
O ponto de partida crucial que deu origem ao terceiro
setor situa-se no contexto do processo histórico de indus-
trialização e de urbanização das sociedades capitalistas
mais desenvolvidas no século XIX. Neste domínio, deve-
mos ter presente a natureza da crise da trajetória históri-
ca do Estado e do mercado a partir de meados do século XIX
na Europa ocidental e nos EUA. De fato, nesse período his-
tórico o Estado era completamente omisso em relação às
políticas sociais que poderiam adequar-se à dimensão das

110
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

necessidades econômicas e sociais da grande massa de


trabalhadores assalariados, na prevenção das doenças, dos
acidentes de trabalho, do desemprego, da miséria na ve-
lhice, e até da morte, que implicava a necessidade de pa-
gar o funeral. Por outro lado, a escola pública era inexis-
tente nos diferentes níveis de ensino. Se associarmos a
esta realidade, os salários baixos, as condições de traba-
lho paupérrimas, os horários de trabalho extenuantes e a
inexistência de direitos e práticas sindicais nas empre-
sas de então, não admira que as reivindicações e as alter-
nativas da grande massa de trabalhadores assalariados
começasse a se estruturar no sentido de um movimento
associativo extenso e diferenciado.
Para chegarmos a essa conclusão basta analisar as
associações de socorros mútuos, caixas econômicas, mu-
tualidades, cooperativas e montepios que emergiram a
partir de meados do século XIX na Europa ocidental e nos
EUA. De fato, em termos de seus objetivos básicos, eram
organizações com interesses determinados pelo operaria-
do no sentido da criação de estruturas de solidariedade e
de segurança social, de forma a minimizar as suas condi-
ções econômicas e sociais paupérrimas, perante um pa-
tronato despótico e discricionário e um Estado omisso na
concretização prática de políticas sociais.31 Em determi-
nadas circunstâncias, na inexistência de sindicatos e
partidos identificados com os interesses e objetivos do ope-
rariado de então, essas organizações tinham finalidades
que se orientavam no sentido da estruturação de alterna-
tivas societárias opostas à lógica do mercado capitalista e
do Estado.32 Para além disso, há de se destacar as caracte-
rísticas organizacionais dessas organizações. A soberania
de suas decisões, geralmente, estava polarizada na As-
sembléia Geral, permitindo assim que as tipologias de
autogestão, de participação e de motivação dos associa-
dos tivessem uma tradução prática em seu funciona-
mento interno.

111
8
2005

Como primeira aproximação conceitual do que hoje é


convencional caracterizar como terceiro setor, não pode-
mos prescindir destes ensinamentos que tiveram grande
expressividade social no século XIX, na Europa, e também
em outros países capitalistas mais desenvolvidos, como
os EUA. Entretanto, durante o século XX, a sociedade capi-
talista e o Estado evoluíram no sentido do desenvolvimen-
to e do crescimento econômico, integrando grande parte
das reivindicações dessas organizações na lógica norma-
tiva do mercado e das políticas sociais do Estado de provi-
dência. Não admira, assim, que muitas das cooperativas
e mutualidades que integram o terceiro setor tenham sido
objeto de uma grande descaracterização em relação aos
princípios e práticas que estiveram na sua origem no sé-
culo XIX. Quer no modelo organizacional, em termos de
divisão do trabalho, estrutura hierárquica, processo de to-
mada de decisão e processo de liderança, quer nas formas
e conteúdos em que os lucros são distribuídos, muitas das
cooperativas, das mutualidades e até associações que in-
tegram o terceiro setor, seguem os ditames da racionali-
dade instrumental do capitalismo.
Hoje, como já foi dito, em função da natureza da cri-
se do Estado e do mercado, o terceiro setor tem, no en-
tanto, potencialidades específicas que o distanciam da
lógica burocrática e centralista do Estado e das contin-
gências da maximização do lucro desenvolvidas pela
iniciativa privada. Evoluindo no sentido da produção,
distribuição, troca e consumo de bens e serviços de
proximidade incrustados em relações sociais e rela-
ções pessoais atravessadas pela solidariedade, pelo
apoio mútuo e a reciprocidade, torna-se possível criar
uma identidade coletiva entre os que trabalham nas
organizações do terceiro setor, entre produtores e con-
sumidores, de tal forma que as relações informais e o
inter-conhecimento possam criar redes sociais condu-
toras do desenvolvimento local e comunitário.33

112
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

Várias razões estão na origem da probabilidade de


um desenvolvimento exponencial do terceiro setor nas
sociedades contemporâneas.
Em primeiro lugar, mantendo-se a situação estrutu-
ral e institucional de desemprego e de precariedade de
vinculação contratual, com contratos de trabalho a tempo
parcial, com contratos de trabalho temporários, sazonais
ou atípicos, como solução de sobrevivência econômica e
social, os trabalhadores assalariados que se encontram
nestas condições, e que não queiram engrossar o mun-
do da economia informal, serão levados a evoluir para
um tipo de emprego e de contrato de trabalho que lhes
permita maior estabilidade econômica, social, política
e cultural e, logicamente, uma identidade organizacio-
nal que não têm.
No contexto da muldimensionalidade das organizações
emergentes do terceiro setor, sobretudo, por meio da cria-
ção de cooperativas, associações privadas sem fins lucra-
tivos, fundações ou mutualidades, parte delas integra-se
num tipo de atividade econômica denominada Economia
Social, como é o caso em países como França, Bélgica,
Portugal, Canadá e Espanha,34 ou então são denominadas
pelo conceito genérico de organizações sem fins lucrati-
vos, ou de trabalho social,35 como ocorre nos países anglo-
saxônicos e escandinavos. Como denominador comum,
todas elas são de natureza privada, não têm como objetivo
o lucro, seu modo de funcionamento baseia-se na solida-
riedade, no apoio mútuo e na reciprocidade e, em última
instância, são uma hipótese plausível lógica de arranjar
trabalho e manter o emprego de uma forma estável.
Em segundo lugar, o Estado não consegue dinamizar
um conjunto de políticas sociais conseqüentes para er-
radicar os problemas — nos domínios da segurança, do
crime, da droga, da violência, da pobreza e da miséria —
que afetam sobremaneira a vida quotidiana das famíli-

113
8
2005

as e das comunidades locais que integram a sociedade


civil. Todos estes fatores, sem exceção, geram a exclu-
são social e fenômenos sociais desviantes, com inci-
dências negativas na coesão e ordem social.
Desse conjunto de problemas surgem novas necessi-
dades de índole social, política e cultural. São bens e servi-
ços que radicam na crise de identidade social, cultural e
política. Os indivíduos e grupos que constituem a socieda-
de civil perderam sua vocação de produção de sociabilida-
de e de sentido identitário. Não sendo o Estado e o merca-
do as estruturas e a as instituições com capacidade para
obterem esse efeito, as organizações do terceiro setor
emergem como uma solução plausível.
Os bens e serviços que estão integrados no terceiro
setor tanto podem incidir, nos serviços de proximidade no
apoio à velhice, como no apoio e animação cultural e soci-
al a jovens, ou serviços de formação e de educação, por
meio da criação de jardins de infância e escolas de forma-
ção.36 Outros bens e serviços estão diretamente articula-
dos com o controle e a integração social, em particular
aqueles que são decorrentes de fenômenos desviantes e
da marginalidade social, desenvolvendo-se para tal uma
série de serviços sociais, de animação cultural e social.
Outros bens e serviços estão diretamente relacionados com
a saúde, a educação e a formação, com o desenvolvimento
local, com os direitos humanos, com a habitação, com a
defesa do ambiente e, ainda, gerando bens e serviços dos
setores agrícola, industrial e comercial.
Grande parte destas atividades são subsidiadas pelo
Estado, ou por fundações privadas, na medida em que
muitas delas têm extrema dificuldade em manter um equi-
líbrio financeiro com base nos custos de funcionamento
corrente e nas receitas geradas com a venda dos serviços
à comunidade e à sociedade civil.37 Todavia, esta simbio-
se de interesses e objetivos entre o Estado, a iniciativa

114
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

privada e o terceiro setor é produto das interdependênci-


as e complementaridades geradas entre si. O desvio as-
sume formas cada vez mais perversas e com enormes
custos para o Estado e a sociedade civil. Não admira, as-
sim, que perante a manifesta incapacidade do Estado e
do mercado em regular e controlar eficazmente essa re-
alidade, o primeiro e as fundações privadas sejam leva-
dos a financiar todo o tipo de atividades que possam po-
tencialmente diminuir os custos econômicos e sociais
provocados pelos desviantes. Na verdade, perante os enor-
mes custos resultantes da necessidade de integração e
de controle do desvio, se o Estado e o mercado não fossem
auxiliados pelas atividades circunscritas ao terceiro se-
tor, os custos financeiros na criação e manutenção de
hospitais psiquiátricos, prisões, forças policiais e milita-
res, e tribunais, tornar-se-iam inviáveis para qualquer
sociedade.
Em terceiro lugar, há que destacar outras tendências
do terceiro setor que decorrem de suas potencialidades
enquanto hipótese alternativa aos modelos de sociedade
vigentes. Em algumas organizações do terceiro setor a
organização do trabalho reportada às atividades de produ-
ção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços, na
medida em que resultam de uma contingência de adapta-
ção e de reação à crise de regulação e de controle do Esta-
do e do mercado, segue os ditames circunscritos pela ra-
cionalidade instrumental do capitalismo, isto é, os con-
teúdos e as formas da divisão do trabalho, da autoridade
hierárquica formal, do processo de tomada de decisão e do
processo de liderança, cuja eficiência e capacidade de con-
corrência permitem maximizar o lucro.
Para além deste tipo de evolução normativa do ter-
ceiro setor, há de se fazer referência às teorias e às
práticas que pretendem transformar-se numa alterna-
tiva credível ao modelo econômico desenvolvido pelo capi-

115
8
2005

talismo e o Estado, sobretudo as que têm uma incidência


analítica no cooperativimo, na economia solidária, na
economia popular ou na economia social. Os pressupos-
tos alternativos residem em três grandes opções: 1) ex-
tinção das lógicas concorrenciais e competitivas que têm
como finalidade a maximização do lucro; 2) extinção das
estruturas hierárquicas de autoridade formal, de forma
que a execução de tarefas e funções e o processo de to-
mada de decisão sejam baseados numa participação de-
mocrática e autogestionária; 3) fim da oposição entre
produtores e consumidores, introduzindo relações de iden-
tidade generalizada entre os processos de produção, de
troca, de distribuição e consumo de bens e serviços. A
identidade entre produtores e consumidores é possível
desde que suas relações sejam incrustadas em uma rede
social baseada na solidariedade e reciprocidade sistemá-
tica.
Todavia, para que um projeto utópico baseado no ter-
ceiro setor tenha um sentido histórico, com alguma con-
tinuidade e plausibilidade, subsiste a necessidade de criar
redes sociais de tipo formal e informal em âmbito local,
regional, nacional e mundial, de tal forma que a produ-
ção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços
sejam incrustados (encastrées) em relações sociais e re-
lações pessoais, cuja coordenação e controle decorram
da democracia direta. Por outro lado, persiste a neces-
sidade de uma mudança na atual organização do traba-
lho. Esta passaria, inexoravelmente, pela extinção da di-
visão do trabalho e da autoridade hierárquica formal, as-
sim como das modalidades de acesso à informação e
participação no processo de tomada de decisão e no pro-
cesso de liderança. Deste modo, poderíamos pensar na
hipótese da autogestão generalizada no seio do terceiro
setor, base a partir da qual a liberdade, a solidariedade, a
cooperação, o apoio mútuo e a reciprocidade tornar-se-
iam os sustentáculos da democracia direta.

116
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

Notas

1
Richard Swedberg. Une histoire de la sociologie économique. Paris, Desclée de Brou-
wer, 1994. Philippe Steiner. La sociologie économique. Paris, La Découverte, 1999.
2
Benoît Lèvesque et al. La nouvelle sociologie économique. Paris, Desclée de Brou-
wer, 2001.
3
Émile Durkheim. A divisão do trabalho social, (vol. 2.), 3ª edição. Lisboa, Editorial
Presença, 1989/1991. Max Weber. Economia y sociedad. Fondo de Cultura Eco-
nómica, México, 1994. Karl Polanyi. La gran transformación. Madrid, La Piqueta,
1989. Mark Granovetter. “Economic action and social structure: the problem
of embeddedness” in American Journal of Sociology. 1985, pp. 481-510.
4
Lewis Mumford. Le mythe de la machine (vol. 2). Paris, Fayard, 1974.
5
Jacques Kergoat et al. Le monde du travail. Paris, La Découverte, 1998.
6
Tasuku Noguchi. “Technologies de pointe et stratégies industrielles au Japon”,
in Travail et Société, vol. 8, nº 4, octobre-décembre. Genebra, OIT/IIES, 1983,
pp. 411-420.
7
José. Maria Carvalho Ferreira. “Novas tecnologias e organização do trabalho” in
Globalizações – novos rumos no mundo do trabalho. Florianópolis/Lisboa, Ed. UFSC/
SOCIUS, 2001, p. 84.
8
William Cavestro. “Automatisation, organisation du travail et qualification dans
les PME: Le cas des machines-outils à commande numérique”, in Sociologie du
Travail, nº4. Paris, Gauthier-Villars, 1984, pp. 434-446.
9
Josiane Boutet. “Quand le travail rationalise la langage”, in Kergoat, 1998, op.
cit., pp. 153-164.
10
José Maria Carvalho Ferreira et al. Manual de psicossociologia das organizações. Alfra-
gide, McGraw-Hill, 2001.
11
Claude Pottier. “La division internationale du travail”in Kergoat, 1998, op.
cit., pp. 310-318.
12
Horst Kern et Michael Schumann. El fin de la división del trabajo. Racionaliza-
ción en la producción industrial. Madrid, Centro de Publicaciones Ministério de
Trabajo y Seguridad Social, 1988.
13
François Eyraud et al. “Développement des qualifications et apprentissage
par l’entreprise des nouvelles technologies: Le cas des MOCN dans l’industrie
mécanique” in Sociologie du Travail, nº 4. Paris. Gauthier-Villars, 1984, pp. 482-
499; William Cavestro, 1984, op. cit.; Takao Nuki. “Les effets de la micro-

117
8
2005

électronique sur le style de gestion au Japon” in Travail et Société, vol. 8, nº 4,


octobre-décembre. Genebra, OIT/IIES, 1983, pp. 421-428.
14
Ditmar Brock et Hans-Rolf Vetter. “L’érosion biographique comme consé-
quence des bouleversements technologiques. Exemple de l’introduction des
techniques nouvelles dans l’imprimerie en RFA” in Sociologie du Travail, nº2.
Paris, Gauthier-Villars, 1986, pp. 125-143.
15
Dominique Méda. Le travail. Une valeur en voie de disparition. Paris, Aubier,
1995; Jean-François Perraud, Kergoat, 1988, op. cit., pp. 362-372.
16
Charles Goldfinger. Travail et hors-travail – vers une société fluide. Paris, Editions
Odile Jacob, 1998; José Rose. “Travail et formation”, in Kergoat, 1988, op.
cit., pp. 265-272.
Claude Dubar. “Les identités professionnelles”, in Kergoat, 1988, op. cit., pp.
17

66-74.
18
Harry Braverman. Trabalho e capital monopolista. A degradação do trabalho no
século XX. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
19
Horst Kern e Michael Schumann, 1988, op. cit..
20
Jeremy Rifkin. La fin du travail. Paris, La Découverte, 1996.
21
Serge Paugam. Le salarié de la précarité. Paris, PUF, 2000; Andre Gorz. “Le
travail fantôme” in Kergoat, 1988, op. cit., pp. 30-39.
22
Anne-Marie Grozelier. Pour en finir avec la fin du travail. Paris, Les Editions de
l’Atelier, 1998.
23
Robert Castel. “Centralité du travail et cohésion sociale” in Kergoat, 1988,
op. cit., pp. 50-60.
24
Serge Paugam, 1988, op. cit..
25
Robert Boyer. La théorie de la régulation: une analyse critique. Paris, La Décou-
verte, 1986.
26
Pierre Rosanvallon. La nouvelle question sociale: repenser l’Etat-Providence. Paris,
Seuil, 1995.
27
Naomi Klein. No Logo – O poder das marcas. Lisboa, Relógio D’Água, 2002.
28
Fernando Ferreira Costa. As cooperativas e a economia social. Lisboa, Livros
Horizonte, 1986; Charles Gide. Èconomie sociale. Paris, Sirey, 1905; Peter D.
Hall. “A historical overview of the private nonprofit setor” in Walter Powell
(ed.). The nonprofit setor – a research handbook. New Haven and London, Yale
University Press, 1987.
29
I. Billiard, D. Debordeaux, M. Lurol. Vivre la Précarité – trajectoires et projects
de vie. Paris, Ed. L’aube, 2000; Michel Lallement et Jean-Louis Laville. “Qu’est-

118
verve
Terceiro setor e limiares da autogestão

ce que le tiers secteur? Associations, économie solidaire, économie sociale” in


Sociologie du Travail, nº 4, vol. 42, 2002, pp. 523-529.
30
Lester Salamon et Helmut Anheier (orgs.). Global civil society – dimensions of
the nonprofit setor. Baltimore, The Johns Hopkins Center for Society Studies,
1999.
31
Costa Goodolphim. A associação – história e desenvolvimento das associações
portuguesas. Lisboa, Livros Horizonte, 1974; Charles Gide, 1905, op. cit.; Peter
D. Hall, 1987, op. cit..
32
Fernando Ferreira Costa, 1905, op. cit.; H. Desroche. Pour un traité d’économie
sociale. Paris, CIEM, 1983.
33
Jean-Louis Laville. L’économie solidaire. Paris, Desclée de Brower, 2000.
34
Jacques Defourny et José Campos Monzón (eds.). Économie social – the third
setor – cooperative, mutual and nonprofit organizations. Bruxelles, CIRIEC/De Boe-
ck Université, 1992.
35
Estelle James. The nonprofit setor in international perspective. New York/Oxford,
Oxford University Press, 1989; Walter Powell, 1987, op. cit..
36
Jean-Louis Laville, 2000, op. cit..
37
Lester Salamon et Helmut Anheier, 1999, op. cit..

119
8
2005

RESUMO

O artigo enfoca a racionalidade instrumental contemporânea do


capitalismo acoplada às novas tecnologias. A análise aborda, de
forma específica, o papel que o terceiro setor assume tanto como
campo de acomodação do mercado, do Estado e da centralidade
do poder bem como potencialidade de resistência capaz de romper
com tal lógica.

Palavras-chave: capitalismo, novas tecnologias, terceiro setor.

ABSTRACT

The article focuses the contemporary instrumental rationality of


capitalism connected to the new technologies. The analysis de-
als, in a specific way, with the role that the third sector takes on,
both in the field of the accommodation of market, state and power
centrality, and as potentiality for resistance that is able to break
with this logic.

Keywords: capitalism, new technologies, third sector.

Recebido para publicação em 8 de março de 2004 e confirmado em


29 de março de 2004.

120
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

vigiar e expelir:
bio-fronteiras da individuação e
dispositivos de captura social

salvo vaccaro*

O limes entre duas comunidades têm historicamente


significado diversas coisas: a fundação de uma organiza-
ção social que dá a si instituições destinadas a garantir
apropriação e (sentido de) pertencimento; a emergência
da distinção entre comunidade nômade e comunidade
gregária, nem sempre simétrica ao modo de produção
central dado na sociedade (pastoril e agrícola, respectiva-
mente); um dispositivo binário inclusivo/exclusivo que
institui separações rígidas (malgrado a dupla porosidade
dos confins para as populações trans-fronteiriças).
O momento de violência emblemático no estabeleci-
mento do limes é inteiramente legível no mito romano
do fratricídio gemelar entre Rômulo e Remo, sublinhan-

* Professor na Universidade de Palermo, membro da Federação Anarquista


Italiana, redator da revista Libertaria, autor, entre outros, de Globalizzazione e
diritti umani. Milão, ed. Mimesis, 2004; Anarchismo e modernità. Pisa, ed. BFS,
2004; Biopolitica e disciplina. Michel Foucault e l’ortopedia sociale. Milão, ed. Mime-
sis, 2005.

verve, 8: 121-141, 2005

121
8
2005

do a importância do que está em jogo: precisamente a


fundação de um Estado no qual o confim constitui fator
tão crucial para sua sobrevivência a ponto de exigir um
ato sacrifical sublime: o homicídio de um próximo con-
sangüíneo, de um outro de si como é um gêmeo, signifi-
cando quase como o ato de guerra (no qual, como é notó-
rio, se suspende a ética pública que penaliza o homicí-
dio privado cotidiano para aceitar, sem a mínima
inquietação não obstante a absurdidade, a cotidianida-
de do homicídio serial, hoje de massa) que, mesmo radi-
cado no dispositivo estatal, devora parte de si mesmo a
fim de reproduzir-se no tempo. A violência na defesa do
limes, traçada de modo arbitrário, prolonga se em cada
conflito em que a extensão do seu espaço se apresenta
como objetivo supremo que renova o laço arcaico entre
vida e morte, entre sacrifício dos caídos e reprodução da
comunidade política, entre tempo e espaço vital. Quem
diz fronteira, diz igualmente fronte.
Sabe-se que o dispositivo de soberania estatal captu-
rou o confim como fator simbólico e político na consti-
tuição de comunidades distintas no interior do próprio
exercício triangular do poder legítimo, juntamente com
a população e o território, compreendido os recursos (na
superfície e no subsolo). De tal modo que a forma da co-
munidade política se tornou gregária por definição, pro-
cedendo por dinâmicas de institucionalização às quais
dá-se o nome, indicativo em tal sentido, de Estado, uma
entidade fixa e estável que penetra suas próprias raízes
naquele triângulo sobre o qual está fundado seu poder
de sobrevivência e reprodução.
A entrada em cena de tais dinâmicas é o que se de-
nomina ordenamento, lema em que convivem tanto as
formas cristalizadas de estatismo, quanto a estratégia
de constante perseguição do que escapa à ordem, para
capturá-lo na sua reterritorialização, para reconduzi-lo

122
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

ao interior dos limites de compatibilidade com a ordem


pública vigente. E os confins servem, sobretudo, para
capturar populações, ontem para submetê-las, hoje para
garantir-lhes um estatuto de cidadania, pela conquista
de pacotes (sempre mais dilatados em nosso hemisfé-
rio) de direitos e de deveres — na troca entre lealdade e
intangibilidade ao poder que sanciona o frágil equilíbrio
de legitimidade — no qual o mecanismo de titularidade
individual se revela constitutivamente discriminatório,
dado o dispositivo binário da ordem estatal (violentamen-
te inclusivo/exclusivo).
O cuidado com a população enquanto tal, não apenas
como mera soma de indivíduos titulares de prerrogativas
particulares frente ao soberano, encontra-se desde o sé-
culo XVIII no alvorecer daquele Estado de polícia que, longe
de ser confundido com a experiência de Estados ditatori-
ais no século XIX é a matriz originária do welfare-state,
do poder bio-político interpretado em chave de adminis-
tração pastoral do rebanho humano.1 A sua individuação
é tanto tópica (precisamente o território delimitado por
confins) quanto política, pela constitucionalização progres-
siva do estatuto de cidadania, com o complexo de direitos
estendidos ao máximo potencial de postulação, como uni-
versais humanos que ultrapassam as fronteiras nacio-
nais. E é propriamente sobre essa franja de curtos-cir-
cuitos, entre cidadania mono-estatal e direitos huma-
nos supraconstitucionais, que entram em jogo novamente
os mecanismos de reterritorialização no nexo de sobera-
nia território-população em relação ao exercício legítimo
do poder. Nesse conflito, o limes re-emerge como valor
político crucial e violento ao mesmo tempo.
A profundeza espacial que o estabelecimento do con-
fim imprime ao exercício de soberania induz modelos
de ordenamento da população relativo às oportunidades
da sua identificação, da sua colocação, da sua visuali-

123
8
2005

zação pelo lado do poder. A ordem disciplinar da socieda-


de moderna orienta o olhar de soberania sobre os corpos
e sobre os espíritos que se posicionam no interior das
fronteiras do Estado, mas também, e sobretudo, sobre os
corpos e sobre os espíritos que transitam nessas fron-
teiras. O modelo disciplinar que nos ofereceu Michel
Foucault individualiza precisamente esse cruzamento
de trajetórias entre o olhar do poder e a disciplina inte-
riorizada no espírito e que antecipa a ordem do sobera-
no difusa em um mote de integração voluntária (como
poderíamos rescrever hoje o título do célebre libelo de
Etienne de La Boétie). Aqui, a automoralização que se-
gue às prescrições do poder aprisiona o corpo como pro-
jeção de um estilo de vida e de um comportamento pú-
blico coerente com a disciplina validada até o interior
do próprio espírito.2
A correção como elemento representativo do olhar
panóptico decai, entretanto, de relevância na medida
em que a esfera moral enfrenta o mesmo destino de
deus: morre. A supervisão, ao contrário, explode da tor-
re central de controle para projetar-se sobre um hori-
zonte de intensidade muito mais amplo e que hoje do-
mina a nossa vida cotidiana, seja ela terrena no nível
dos portões dos bancos, ou dos gates de passagem nos
aeroportos, ou dos check points difundidos aqui e ali para
vigiar o acesso a espaços privilegiados (edifícios públi-
cos, complexos residenciais privados), ou seja, mesmo
acima das nossas cabeças pela miríade de satélites co-
municativos e de controle colocados em órbita geo-esta-
cionária num espaço em vias de militarização invasi-
va.
Mesmo tendo em conta a forçosa consideração de que
“o problema lógico em estender o panoptismo ao corpo
social na sua totalidade consiste precisamente na ine-
xistência de técnicas e condições de sustento no interi-

124
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

or das quais a força disciplinar possa operar, [ conside-


rado que hoje não existiriam mais ] (...) os instrumen-
tos e as técnicas de isolamento, de fixação espacial, de
juízo normalizante e de intervenção corretiva (...)”,3 tí-
picos dos tempos analisados por Foucault, em todo caso
os novos dispositivos tecnológicos de controle biométri-
co e de vigilância digital predispõem oportunidades nun-
ca vistas para a intensificação das estratégias de indi-
viduação, difundindo o olho do poder através da sua mul-
tiplicação plural — nova Hidra — e da sua diluição
generalizada sobre os processos sociais. A aparente neu-
tralidade e igualdade da técnica, principalmente quan-
do inovadora, oculta a normalização das relações soci-
ais, impelida e estimulada para explorar plenamente
as chances escancaradas de domínio, produzindo um
imenso esquecimento cultural de massa para confir-
má-la “(...) como um vínculo não negociável, homogê-
neo e exterior a todos os participantes.”4 Em suma, uma
destinação inelutável.
Já o lema pós-panóptico em que se denomina uma
forma de poder no qual está radicado o próprio controle
sobre os comportamentos individuais e coletivos, delimi-
tando zonas fluídas que não restituem discernibilidade
às instâncias separadas entre público e privado, entre
nacional e estrangeiro, entre produção e consumo, en-
tre trabalho e tempo livre, entre local e global etc., mani-
festa em si uma continuidade de qualquer gênero com a
produção de identidades sempre mais expostas e trans-
parentes aos olhos alheios que hoje, provavelmente libe-
rados de uma intencionalidade pedagógica, realiza o bio-
poder diretamente por meio de dispositivos de ortopedia
pública, cuja interiorização disciplinar é sustentada des-
medidamente pelos novos aparatos de vigilância. Até
mesmo em um regime ótico em rede, no qual a visibili-
dade não é unilateral segundo o plano orweliano, ainda

125
8
2005

que “(...) pela posição da vídeo-câmera seja impossível


refazer o percurso daquele que observa pela vídeo-câ-
mera (...)”,5 as distâncias atuais na posse e nas oportu-
nidades de acesso a essas técnicas indicam a intole-
rância da vigilância que penetra até o código genético
onde insinua projetar-se a sorte da nossa existência,
especialmente em âmbito sanitário, e onde estamos a
mercê de sujeitos alheios, antecipadamente conscien-
tes em virtude de dados significativos e relevantes, dos
quais a apropriação preclusiva denota tanto o desequilí-
brio do saber, assimetricamente obtido e mantido, quan-
to a justa consciência dos espaços de projeção de cada
projeto de vida em ausência daqueles dados reveláveis
pela análise genética dos quais somos privados. Sem-
pre a pura transparência significa vulnerabilidade e as-
sujeitamento.
A cifra do panóptico hodierno se encontra na digitali-
zação de imagem visual e de variados dados pessoais
com a sua contextual estocagem em micro-ships e ban-
cos de dados em função de múltiplas utilizações. Global
Positioning System, Radio Frequency Identification, Eche-
lon, Total (hoje Terrorism) Information Awareness, Compu-
ter Assisted Passenger Prescreening System (hoje Secure
Flight), constituem dispositivos de controle eletrônico que
extraem dados pessoais de diversas redes comunicati-
vas e informativas, geralmente conectadas ao corpo de
um indivíduo, às vezes de traços humanos vigiados à
distância, em que serão extrapolados arbitrariamente
indícios pré-indicativos de ações, cuja classificação nas
categorias de lícito e ilícito, seja ela moral ou jurídica,
dissolve-se para dar lugar a uma temível presunção de
potencial de periculosidade pública, antecâmara de um
juízo kafkiano de culpabilidade no qual falta o objeto, ou
seja, a conduta ilícita demonstrada com provas e evi-
dências irrefutáveis segundo as regras do procedimen-

126
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

to. A codificação algébrica do número de matrícula que


ontem ligava assinatura ao registro de vigilância fixa,
hoje assume a password como símbolo da fronteira mó-
vel e mais vaga (isto é, menos exata) do reconhecimen-
to facial ou vocal, da incorporação dos dados biométricos
nos documentos (até aos micro-ships sub-cutâneos que
pré-figuram verdadeiros indivíduos cyborg), graças aos
quais “(...) corpos anônimos são transformados em su-
jeitos digitais, identificados e coligados às suas pessoas
digitais, situadas em bancos de dados eletrônicos (...)”,6
e que seqüestram uma miríade de informações utilizá-
veis em muitas direções (marketing comercial, contro-
le de mobilidade, segurança assecurativa, assistência
sanitária etc.).
Nas atuais sociedades de risco, nas quais a vulgata
dominante prevê “(...) a transformação de cada indivíduo
em uma vítima potencial, da própria ou da conduta alheia
(...)”,7 a gestão da insegurança em sentido decrescente é
perseguida por meio da regulação do agir não especifica-
do, não tanto nos seus aspectos claramente individuados
e atingidos porque delituosos, mas segundo modalidades
pró-ativas com o objetivo de minimizar as oportunidades
criminais em prospectiva, controlando vastas áreas de
insegurança, sobretudo metropolitanas.8 O dispositivo
biométrico intervém com (suposta) precisão singular para
integrar, em um horizonte securitário, rostos, impres-
sões digitais, geometrias corpóreas, retinas, sonoridades
vocais e seqüências de DNA como fontes indicativas es-
pecíficas a cada ser humano, que se encontra desse modo
capturado no cruzamento reticular e viscoso das infor-
mações complexivas de si, da própria biografia passada e
presente, mas até mesmo do próprio agir iminente e fu-
turo, re-construível a partir de dados fragmentados.9 Para
visualizá-los é por isso indispensável cobrir cada ponto
espacial que o vetor destes dados ocupa nos mais varia-

127
8
2005

dos lugares da sociedade, com o objetivo de obter uma


identidade estranha à sensibilidade subjetiva do indiví-
duo e ao seu traço biográfico e projetado, mas que é fru-
to de um mapeamento virtual e, após tudo, (literalmen-
te) arbitrário, em que o acesso a poucos — e certamen-
te inacessível ao legítimo “portador” — devém a
fabricação, o controle, a implementação e a correção
eventual do perfil, em tal modo obtido nos vários bancos
de dados e superprogramas de extração e síntese que
deveriam garantir confiabilidade em relação à certeza
identitária dos perfis e ao seu correto uso, quer dizer,
estar em grau de superar os testes de verificação e ve-
racidade.
Na realidade, quando se pensa na fragilidade intrín-
seca desses metacontroles seletivos (humanos) por dis-
positivos eletrônicos, com o alto percentual de erros (até
15%) nos procedimentos de identificação biométrica vi-
sual, tanto para os erros negativos (quando a tecnologia
não consegue individuar uma pessoa na medida ótima
de 5%) quanto para os erros positivos (quando a tecnolo-
gia troca uma identidade por outra, na medida ótima de
1%), percebemos como é possível, sobre um bilhão de
indivíduos inseridos na área rica do planeta aos quais
serão atribuídos passaportes biométricos, que essas ta-
xas de erro signifiquem entre dez a cinqüenta milhões
de pessoas que incorrerão em sérios problemas causa-
dos pelos déficits dos dispositivos de controle e vigilân-
cia, problemas que na sua maior parte se tornarão co-
nhecidos apenas no momento em que será negado um
documento essencial ou até mesmo o trânsito em al-
gum ponto de fronteira!
Por isso é plausível decompor e significar o agir hu-
mano, e às vezes até mesmo as intencionalidades es-
condidas atrás dele, seja no micro-tempo infinitesimal
do controle insistente e persistente (fotograma após fo-

128
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

tograma, célula após célula, seqüência após seqüência),


seja no macro-tempo distribuído naquilo que será re-
construído como identidade individual. Entretanto, a dis-
tinção entre autopercepção e perfil categorial obtido com
o mapeamento virtualizado se bifurca inexoravelmen-
te. No caso do DNA profiling,10 por exemplo, a identifica-
ção autoral é segura e a cadeia de imputabilidade judi-
ciária pode assim impor-se sem nenhuma necessidade
de ulteriores investigações sobre outros fatores circuns-
tanciais, como meios do delito e álibi, resíduos irrele-
vantes de um mosaico enfim definido. E isso malgrado
os numerosos erros judiciários que, com base em dados
deturpados porque errôneos, induziram condenações a
penas capitais não mais revisáveis após um novo vere-
dicto!...
A impressão identitária assim conseguida coloca uma
barreira difícil de ultrapassar quando estamos privados
do direito de acesso aos nossos dados pessoais não-mais-
nossos — de maneira a garantir-nos o controle exclusivo
sobre seu uso e retificações —, quando estamos privados
do controle da nossa imagem digital não-mais-nossa —
de maneira a impedir o acesso de qualquer autoridade e
entidade por nós não expressamente aceitas. Eis porque,
ao contrário de restituir segurança coletiva, a hipoteca
da ameaça eletrônica sempre iminente enfraquece a
sociedade dita liberal no seu conjunto pela via da vulne-
rabilidade permanente induzida no indivíduo pela não
correspondência entre certeza de si (a privacy da própria
biografia passada, presente e futura) e reconhecimento
biométrico por parte de instituições distantes, obsessi-
vas e impalpáveis. “A vida agora depende do conheci-
mento do modo pelo qual comportar-se na distância en-
tre isto que pode acontecer e isto que é mais provável
que aconteça; ela depende da restrição de possibilidade
— e não da sua invenção e da sua realização posteri-

129
8
2005

or.”11 Recupera-se com isso, em chave bio-política, aque-


le juízo normalizante pelo qual, segundo Foucault, com
uma analogia espiritual se ligava conduta e identidade
constitutiva dos indivíduos, fazendo introjetar em si a nor-
ma como lei imanente: uma vez aceita, a regulação soci-
al é absorvida como regra e normalidade ortopédica do pró-
prio colocar-se no mundo.
A nova trama da sociedade recoberta pelos dispositivos
de bio-controle erga omnes et singulatim coloca o laço social
não mais em relação a um agir que pratica um universo
de valorizações no qual se removem as hipotecas desti-
nadas à emancipação da humanidade, mas em relação à
íntima declinação entre normalização e prestação eficaz,
que torna funcional o consenso e a sociabilidade mesma
aos imperativos do sistema de domínio. O movimento de
vitimização que transforma uma conduta apenas levemen-
te dissonante em ameaça suspeita para a segurança co-
letiva obtém o efeito de uma dessocialização pronta a dei-
xar-se capturar pelas instituições administrativas de con-
trole que ciclicamente alimentam a oferta de insegurança
frente a uma demanda que lhe é dependente. O capital de
confiança, reserva essencial e estratégica no momento
em que vacilam as instituições após crises de erosão, de
credibilidade ou de prestação (Luhmann), é totalmente ab-
sorvido, dado que os aparatos de vigilância coincidem com
as tecnologias produtoras de suspeita. “Elas constituem
um dispositivo de modalidade empírica para produzir e in-
terpretar ‘dados’ de modo a fundar previsões e prescrições,
operando sob a forma de tecnologia de supervisão, monito-
ramento, suposta detenção e, enfim, controle. (...) As tec-
nologias de suspeita continuam a ser usadas de modo co-
ercitivo sobre populações tipificadas como incapazes de
autogovernar-se, enquanto outros grupos mais privilegia-
dos são individuados como grupos capazes de autogover-
nar-se ativamente.”12

130
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

Os atuais dispositivos de vigilância sublinham a vo-


cação pan-arquivística da utopia do controle perfeito,
total, minucioso, infalível, preciso, correto, discriminan-
te; a concatenação de Information Technology, evolução
dos computadores (em potência e velocidade de coleta,
acumulação e elaboração de dados pessoais) e instânci-
as de vigilância social configura o vulto hiper-moderno
de um fator específico da territorialização de relações
de poder em exercícios de domínio. A bio-política que
imprime, para Foucault, uma mutação particular ao go-
verno dos vivos, capturando de modo peculiar o nexo
entre doação de vida e de morte com aquele entre o in-
divíduo e a população, encontra na vigilância o “meio
mediante o qual se produz conhecimento com o fim de
administrar a população com respeito ao risco [ da sua
ingovernabilidade, esforçando-se, portanto, para ] “obter
a obediência ou conter comportamentos ameaçadores.”13
Garantir o controle do território significa gerir da me-
lhor maneira um espaço-tempo representado pelas téc-
nicas de deslocamento e de comunicação, como sinteti-
za Paul Virilio. Mais que sobre o gregarismo dos seres
humanos, é essencial observar e inferir um saber pre-
ventivo a respeito das múltiplas linhas de fuga, diria
Deleuze, que cada indivíduo e cada grupo pode escolher
e optar no panorama de múltiplas opções aberto pela
vida. Procurar endereçar tais escolhas, com sofistica-
das técnicas de dissimulação e auto-ilusão, tornou-se
enfim a estratégia ótima de toda bio-política, que difun-
de a servidão voluntária não como violência externa do
poder, mas como escolha racional de uma consciência
livre e volitiva.
Se em um tempo a verticalidade das relações de do-
mínio impunha tais objetivos com a força reclusiva de
uma gaiola de aço, hoje essas táticas de vigilância se
demonstram sempre mais discretas, anônimas, impes-

131
8
2005

soais, cobertas por uma auréola de seguridade, no “rei-


no dos sinais digitais” e das “seqüências alfanuméricas
codificadas.”14 A sua força invasiva é soft porque seduz a
autoconstituição de uma psicologia do espírito doce e
dócil. O grau participativo é disso um índice importan-
te, ainda que involuntário, instituindo um distancia-
mento binário entre vigiado e vigilante, tanto em ter-
mos de visibilidade e de reciprocidade quanto em ter-
mos de saber adquirido e versado.
O risco da vida hipotecada nutre o sentimento de
angústia aumentada pelo olhar assimétrico em condi-
ção de maldade, literal e moral, difuso em cada espaço
de controle: se Bentham no panopticon sugeria a incer-
teza como método de sugestão, no periopticon, de onde
se desprende esse olhar preenchendo diversos horizon-
tes de expectativas, o sentimento de insegurança con-
duz à rendição. Todavia, a dilatação dos canais de con-
trole integra como sujeitos ativos e não só passivos nos
diversos regimes de bio-vigilância, enquadrando a par-
ticipação sob a forma de uma excusatio non petita, ou
seja, pressupondo um pretenso mal oculto quando nos
negamos a tal participação; não tendo nada a ocultar
enquanto sujeitos inocentes moralmente até prova con-
trária, acabamos na armadilha da moralização que cul-
pabiliza e fixa na rede do poder social (o papel desempe-
nhado, segundo Nietzsche, pelo senso de culpa como
predisposição subserviente frente ao domínio). Torna-
se desse modo, e sem dar-se conta, cúmplice ativo “nos
mecanismos que observam e monitoram a vida cotidia-
na, [ enquanto ] (...) aqueles que dirigem a orquestração
social procuram assegurar-se de que as diversas seções
da orquestra soem juntas e no momento oportuno (...)”,15
às vezes mesmo com a mesma partitura e sem comu-
nicação recíproca. A leitura digitalizada dos dados pes-
soais valida uma identidade perdida na prospectiva da

132
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

percepção pessoal, frente à implosão das instituições


voltadas a estabilizar esperas ligadas a papéis sociais
bem precisos e distribuídos no espaço-tempo da socie-
dade.
Aquela função que num tempo, segundo Foucault,
desempenhava a confissão, tanto oral quanto escrita,
como auto de fé dissolutório de cada regime de confusão
identitária de si, muitas vezes obtida com técnicas de
rara violência interior e, como nas torturas da Inquisi-
ção, também corpórea, hoje desempenha a bio-vigilân-
cia visual à distância, seja ela com os circuitos fecha-
dos televisivos, seja por meio da coleta de dados biomé-
tricos dos quais se deduz facilmente a identidade de um
sujeito, sem, todavia, ligá-la a uma sua ação expres-
siva. O ser e o agir se distribuem, graças a essas técni-
cas, sobre vértices diferentes porque a propriedade de
si, coincidente com a razão e com o corpo, é inutilizada
pelo dispositivo de bio-vigilância: as modalidades recons-
trutivas do profiling alertam a veracidade de uma iden-
tidade difícil de superar e, eventualmente, de desmon-
tar, quando resulta errônea em relação à autocertifica-
ção do indivíduo possuidor de uma identidade dissonante,
em virtude do alto conteúdo de cientificidade utilizado
para produzi-la; enquanto a investigação genética reve-
la traços de si que o corpo mesmo demonstra ignorar e,
portanto, incapaz de trazer à visibilidade da própria cons-
ciência, lá onde o requisito operado cientificamente não
encontra zonas secretas, ainda que o exercício de tal
poder investigativo vete o acesso ao próprio direto inte-
ressado. No momento em que o corpo parece dissolver-
se investido pela malha virtual da “gaiola eletrônica”,16
ele se reconfigura sobre um plano de potência mais abs-
trato, manipulável como algoritmo, deslocável à vonta-
de, influenciável conforme a conveniência.
A vídeo-vigilância escaneia o território (substancial-
mente metropolitano), memorizando rostos anônimos

133
8
2005

em “busca” de fatos indexáveis a riscos aos quais gerir


com intervenções que lhes reduzam o valor de perigo
social e de desordem coletiva. A elevação da categoria
de suspeito à tipologia categorial na qual cada um e to-
dos somos involuntariamente portadores sãos — os ini-
migos internos freqüentemente enquadrados como “in-
divíduos perigosos”, parafraseando Foucault — se obtém
uma redução do perigo antecipada sem ter que esperar
a ação real que dele nos imunizaria. O uso securitário
se aproxima dramaticamente do uso consumista de
quem, pelo brilho dos olhos inspecionado por uma mi-
cro-câmera na justa altura das prateleiras nas quais se
expõem, para aquisição, ao olhar voluptuoso, não somen-
te bens e mercadorias mais ou menos vitais, mostra
uma matriz de escolha e gostos que especialistas orga-
nizaram segundo incríveis técnicas de marketing per-
sonalizáveis, desviando toda barreira defensiva, ativando
sub-repticiamente uma compulsão do ter a qualquer
preço, com base na reação psicológica onde se pode ver
revelado o próprio desejo oculto, por parte de uma potên-
cia invisível, mas que tudo indica onisciente, que sub-
juga as resistências, orienta a seleção, reforça a deci-
são direta entre gosto e volição proprietária para além
do gozo real ou efêmero em relação a um valor de uso
que é, após tudo, secundário na era do supérfluo, típico
de uma afluente sociedade comercial de consumo.
A privação da própria imagem digital se torna evi-
dente no mecanismo de identificação com a carteira de
identidade ou passaporte, que certificam a identidade
do indivíduo com conseqüências reais e até mesmo psi-
cológicas superiores à mera existência em vida e evi-
dência corpórea. Em relação à individuação dos deslo-
camentos, a condensação de múltiplos caracteres bio-
métricos na imagem eletrônica do rosto, em grau de
conter cerca de 1800 particularidades faciais, e sobre-

134
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

tudo no escaneamento da retina, além das impressões


digitais, marca a metamorfose contínua do corpo como
superfície de vigilância e investigação, como fonte re-
presentativa e atributiva de direitos e capacidades. A
introdução de um microchip subcutâneo permite a ex-
tração de body data diretamente de cada indivíduo em
carne e osso, garante não apenas a possibilidade de ve-
rificar seus deslocamentos e de testar a individuação
graças a suportes receptores a um raio de distância que
varia de dois centímetros e meio a nove metros (e que
pode mesmo aumentar se o microchip subcutâneo é do-
tado de mini-bateria). Tudo isso prescinde de um agir
eventualmente tipificado em senso criminoso enquan-
to técnica polivalente e onipresente para todos e para
cada um; nem se coloca aos fins específicos de uma con-
duta por observar, ou de um lugar por analisar, mas fun-
ciona como dispositivo abstrato e transcendental em
critérios kantianos.
A geo-vigilância por satélites à distancia é “reticular,
policêntrica e multidimensional, inclui a biometria e as
tecnologias de vídeo, como também a mais convencional
vigilância digital.”17 Ela pertence então ao exercício do po-
der, especificamente nas finalidades de condicionamento
e controle dos indivíduos e dos grupos por meio de uma
série de ações parcelares onde se encontram traços ma-
nipuláveis em sentido reconstrutivo pelos aparatos pre-
postos. O mix de modernidade e pós-modernidade eleva a
eficácia do controle difuso, completado por um complexo
de terminais que desenham um verdadeiro e próprio “ar-
quipélago de polícia”,18 no sentido entrevisto por Foucault
na sua análise do jogo de verdade da governamentalidade
como princípio de um contemporâneo governo estatal “(...)
que comporta o envolvimento de outros sujeitos pela pre-
visão de incentivos e criação de ação cooperativa.”19 A não
distinção de táticas militares e procedimentos civis nes-

135
8
2005

sas estratégias demonstra em última análise a cifra


específica de uma bio-política pós-disciplinar.
De fato, na era da circulação acelerada de mercadorias
e capitais, de bens materiais e signos imateriais, a corpo-
reidade dos indivíduos resiste a integrar-se nos dispositi-
vos gregários das instituições estatais dada a sua erosão,
de um lado, causada pelo fechamento completo do planeta
que obriga grandes massas de pessoas a escapar da colo-
cação destinal e casual do seu lugar no mundo para bus-
car melhores sortes em outros lugares, baseados em ur-
gências de caráter geralmente econômico, político, ecoló-
gico (como se a única forma de mobilidade consentida fosse
a turística); e de outro, erosão causada pelo atrito sempre
mais insistente entre cidadania estatal e prática de facto
dos direitos humanos (universais e portanto supranacio-
nais, e por isso trans-fronteiriços) na sua tradutibilidade
imediata nos espaços de vida restritos às usuais dimen-
sões da comunidade política chamada Estado.20
Os corpos espectrais dos migrantes compreendem esse
duplo curto-circuito para a forma estatal de exercício do
poder. O desafio involuntário que eles lançam não concer-
ne apenas tanto ao problema do controle de confins perfu-
ráveis e perfurados cada vez mais, uma vez que não há
fortaleza perfeita e inexpugnável, e nem mesmo na sua
utilização fantasmática para produzir aquela inseguran-
ça aterrorizante em grau de reativar a troca desigual e
política por excelência com a liberdade, com as liberdades
conquistadas por séculos de conflitos sociais e pelas clas-
ses populares nos confrontos com as elites no poder. Ain-
da que alguns países do sul da América Latina (Chile, Peru
e proximamente México) e da Ásia (Índia, China, Hong-
Kong, Butão, Malásia, Coréia do Sul, Tailândia, Filipinas,
Indonésia, e Vietnã) comecem a adotar carteiras de iden-
tidade e passaportes eletrônicos com a inserção de dados
biométricos, é bastante óbvio que boa parte das disposi-

136
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

ções de controle biométrico, adaptável aos portadores “sãos”


de documentos oficiais em mobilidade para trabalho ou
turismo, se adaptam mal à figura do migrante em fuga
que chega de modo violentamente clandestino graças às
normativas restritivas e proibicionistas dos fluxos ordiná-
rios, que por outro lado engordam as organizações de tráfi-
co humano. No seu confronto, a prática de detenção é mais
usual que os dispositivos de vigilância à distância, de in-
dividuação por satélites, da inspeção por meio da densida-
de calórica da massa corpórea em movimento, como tam-
bém da captura reticular dos bancos de dados uma vez
alcançados pelos mecanismos e pelos aparatos de contro-
le securitários em um dos postos fronteiriços ativados, por
exemplo, no âmbito do Schengen Information System.
Considerada a massa demográfica do sul do mundo,
seja em quantidade, seja em volumes tendênciais, uma
desigualdade planetária de tal modo radicada nos privilé-
gios aristocráticos de uma minoria da população terres-
tre, no benefício e acesso a bens confiados contempora-
neamente a todo mundo — bens de natureza política, eco-
nômica, cultural, social — não pode nem poderá manter-se
com golpes de força bruta (mais ou menos legitimados),
ainda que sob as nobres vestes do cinismo realpolitik dos
regionalismos espinhosos, dos oligopólios neo-imperalis-
tas, das proliferações de regimes de apartheid com esca-
las diferenciadas, da privação intelectual, ou investindo
na guerra permanente como horizonte geo-estacionário
da política inter-estatal, no empobrecimento crescente,
no sufocamento ecológico, no abrutamento cultural dos
fundamentalismos fanáticos e aniquiladores.
Nos confrontos com os migrantes, as bio-fronteiras pos-
suem um valor dissuasivo relativamente à construção do
“inimigo interno” potencialmente aliado solidário e cúm-
plice da prática, não só ideológica, de erosão da estatali-
dade como universo existente para a forma de vida que

137
8
2005

nos é dada a viver neste século XXI. A desestabilização do


pertencimento nacional pelo confronto com as dinâmicas
de mobilidade transnacional — até mesmo conceitual —
é uma aposta que se pode opor, introduzindo-a nas rela-
ções de poder, que de maneira inédita se desenham sob a
cena do real quando insurgem combinações intrincadas
entre teorizações humanitárias radicais, cosmopolitismos
elitistas de fato, mobilidades sem direção, sobre as quais
também se unem guerras, descriminações étnicas e ex-
ploração criminosa, entre uma superfície de inscrição que
produza verticalizações pelos potenciais efeitos desagre-
gantes de uma ordem política e geo-social consolidada por
séculos.
Os controles biométricos, para condensá-los com essa
locução, colocam a estratégia de individuação funcional
ao exercício do poder de um segmento capaz de capturar o
lugar estatal de domínio, no interior de uma constelação
fortemente autoritária e liberticida que vale, sobretudo,
para aqueles que têm a perder não somente as próprias
amarras, por assim dizer. As ameaças proibitivas ao trans-
bordar o limes não valem naturalmente para aqueles que
os transbordam “naturaliter”, ou seja, premidos por urgên-
cias incomparáveis a todo cálculo de benefício em uma
matriz de expectativas racionais e razoáveis. Elas valem,
sobretudo, para aqueles em que tais confins deverão ser
metabolizados até o interior do espírito para dele fazer có-
digo disciplinar de conduta e estilo de vida conforme a for-
ma estatizada da vida. Elas valem em prospectiva para cada
futuro “migrante” que intente fugir, novo nômade sem ter-
ritório e sem pátria, do regime que o administra, o cuida,
o consola, o sanciona, o regulamenta, para praticar aque-
le iluminismo crítico do qual nos fala Foucault, ou seja,
aquela arte de não querer deixar-se mais governar.

Tradução do italiano por Nildo Avelino.

138
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

Notas
1
Ver Michel Foucault. Sécurité, territoire, population. Cours au Collège de France
(1977-1978). Paris, Seuil/Gallimard, 2004.
2
Para uma maior discussão, permitam-me enviá-los a meu trabalho Biopolitica e
disciplina. Milão, Mimesis, 2005.
3
Majid Yar. “Panoptic Power and the Pathologisation of Vision: Critical
Reflections on the Foucauldian Thesis” in Surveillance & Society, I, n.3, 2003, p.
262.
4
Michalis Lianos. “Le contrôle social après Foucault” in Surveillance & Society,
I, n.3, 2003, p. 439.
5
Hille Koskela. “Cam-Era. The Contemporary Urban Panopticon” in Survei-
llance & Society, I, n.3, 2003, p. 299.
6
C. Norris. “From Personal to Digital: CCTV, the Panopticon, and the Techno-
logical Mediation of Suspicion and Social Control” in David Lyon (org.).
Surveillance as Social Sorting: Privacy, Risk and Digital Discrimination. London,
Routledge, 2002, p. 278. Ver também, sobre Echelon, Duncan Campbell. Il
mondo sotto sorveglianza. Milão, Eleuthera, 2002; sobre National Security Agency, a
mega entidade estadunidense preposta ao recolhimento de dados informativos,
James Bamford. L’orecchio di Dio. Roma, Fazi, 2004.
7
Paulo Vaz; Fernanda Bruno. “Types of Self-Surveilance: from Abnormality to
Individuals ‘at risk’” in Surveillance & Society, I, n.3, 2003, p. 284.
8
Robin Williams e Paul Johnson. “Circuits of Surveillance” in Surveillance &
Society, II, n.1, 2004, pp. 1-14, distinguem entre uma vigilância pré-construtiva —
que “recolhe informações sobre cada membro de uma população de indivíduos
cujas ações e aparências corpóreas são observadas e registradas por operadores
no curso da sua função” — e uma vigilância re-construtiva ou inferencial — que
“busca capturar informações que facilitam a identificação de indivíduos cuja
presença e ação corpórea era invisível às tecnologias de observação direta no
lugar e no tempo no qual ocorreu.” Idem, p. 4.
9
O olhar associado a estas tecnologias de bio-vigilância consente mesmo em
inferir aspectos ignorados de elementos esparsos e evanescentes: gestos do
corpo ou do rosto, movimentos dos lábios, traços involuntários, rastros invisí-
veis, cores corpóreas, nos quais, entretanto, percorre a intencionalidade talvez
oculta ao próprio autor. Observar coloca-se em linha direta com identificar.
10
Williams e Johnson revelam como a molécula do DNA é tanto “do corpo”,
quanto “é o corpo”, marcando cada ser humano e expondo-o a uma vigilância
contínua. “Ela captura os indivíduos com a ameaça de uma exposição perma-
nente, alcançando-a, não através do encarceramento, mas através da dispersão

139
8
2005

[projetando] a sombra perene de um testemunho sempre disponível.” Robin


Williams e Paul Johnson, 2004, op. cit., p. 12.
11
Paulo Vaz; Fernanda Bruno, 2003, op. cit., p. 287.
12
Nancy D. Campbell. “Technologies of Suspicion. Coercion and Compassion
in Post-disciplinary Surveillance Regimes” in Surveillance & Society, II, n.1,
2004, p. 79. “As tecnologias de suspeita convertem a tática da individualização
em um enquadramento mais amplo que coloca sob mira grupos de populações
com base não no que fazem, mas naquilo que poderiam fazer.” (p. 85).
13
David Lyon. La società sorvegliata. Milão, Feltrinelli, 2002, p. 8. A referência é
claramente a Max Weber, para quem a declinação combinada de saber e disci-
plinamento qualifica o agir administrativo racional.
14
David Lyon. L’occhio elettronico. Milão, Feltrinelli, 1997, respectivamente p.
17 e p. 16.
15
David Lyon, 2002, op. cit., p. 10. “Mais as pessoas são agrupadas em catego-
rias e classificadas pelos sistemas de vigilância, mais elas são ordenadas e subdi-
vidas em grupos em cujo âmbito existem características comuns” (p. 91), re-
compondo em tal modo uma identidade fragmentada através da identificação
com esses sistemas de controle que afirmam em chave positiva a ilusão da troca
contratual liberdade/segurança.
16
A expressão é de Stefano Rodotà. “Prefazione”, in David Lyon, 2002, op.
cit., p. VIII.
17
David Lyon, op. cit., 2002, p. 204. A digitalização do passaporte teria o
efeito instantâneo de passar de um sistema de verificação “um-a-um”, ou seja,
entre operador de fronteira e passageiro, para aquele “um-muitos-um”, ou seja,
entre operador de fronteira, e o conjunto de todos os dados biométricos de
cada passageiro arquivados eletronicamente. “Essa nova forma de vigilância
funda-se sobre a aquisição automática dos traços faciais dos indivíduos e das
suas condutas “anormais”, através da disponibilidade de sensores e esquemas
automáticos, que podem implicar riscos de descriminação” (“Art. 29 Data
Protection Working Party” in Opinion 4/2004 on the Processing of Personal Data
by Means of Vídeo Surveillance, pp. 4-5, 11750/02/EM WP89 de 11/02/2004).
18
David Lyon, op. cit., 2002, p. 133. Dilatando Solzenicyn a uma dimensão
planetária, ver Estanislao Oziewicz, “Should lifting on global gulag set up to
fight ‘war on terror’” in The Globe & Mail, 13 maggio 2004, p. A14.
19
David Garland. La cultura del controllo. Milão, Il Saggiatore, 2004, p. 225.
20
Para uma literatura sobre o assunto, ver Sandro Mezzadra. Diritto di fuga.
Verona, Ombre corte, 2001; Ermanno Vitale. Ius migrandi. Torino, Bollati
Boringhieri, 2004.

140
verve
Vigiar e expelir: bio-fronteiras da individuação...

RESUMO

Abordagem da concepção político-jurídica de fronteira nas práti-


cas sociais de bio-vigilância eletrônica e de controles biométricos,
seu funcionamento no interior das sociedades de risco e seu im-
pacto na produção de identidades sujeitadas.

Palavras-chave: vigilância eletrônica, controle biométrico, indivi-


duação.

ABSTRACT

Perspective on the political and legal conceptions of border in the


social practices of electronic bio-monitoring and biometrical con-
trols, its functioning within risk societies and its impact in the
production of subjected identities.

Keywords: electronic monitoring, biometrical control, individuation.

Recebido para publicação em 4 de julho de 2005 e confirmado em


28 de agosto de 2005.

141
8
2005

142
verve
As damas

as damas

christian ferrer *

A de Duchamp foi uma viagem idiota. Isto é, sem ob-


jetivo nem rumo, uma viagem para qualquer lugar, por
isso para Buenos Aires. Chegou num barco a vapor, junto
com uma dama — Ivonne Chastel, sua esposa. Dele só
se sabia que era um “artista” que um tempo atrás tinha
instalado um mictório numa galeria de arte, e que com
esse simples roque tinha chutado o tabuleiro, como ape-
nas os reis e os bufões sabem fazer. Agora sabemos que
esse homem ainda jovem era um grande artista, ou tal-
vez um grande bufão, e que estava em seu melhor mo-
mento. E de repente, zás, em Buenos Aires, onde não
conhecia ninguém, salvo os familiares de um amigo
parisiense que dirigiam um prostíbulo. “Gente simpáti-
ca”, segundo os descreveu em sua correspondência.
Marcel e Yvonne tinham deixado Nova York, ela inteira
um só arranha-céus, para ir a Buenos Aires, da que
sabiam apenas o que cabe num sinal de interrogação. A
viagem não teve incidentes, não sofreram de enjôos e
as estadas nos portos de passagem foram breves. Assim

* Professor na Universidade de Buenos Aires.

verve, 8: 143-148, 2005

143
8
2005

também, de ponta a ponta, movimentam-se os bispos e


as torres, abrindo-se casas no tabuleiro.
Por acaso fugia da Primeira Guerra Mundial? Não é
muito provável: estava longe dos acontecimentos. Fu-
gia da fama? Era escassa ainda, não mais do que um
escândalo inofensivo numa exposição. Também, em
bares boêmios e em inaugurações nunca falta uma cri-
ança terrível — coisa que ele nunca foi. Para que veio
então? Mistério... Nenhum mistério: foi uma viagem
idiota. Não cabe outra explicação. Uma viagem porque
sim, uma viagem porque não. Dizem que em Buenos
Aires não teria feito nada de nada, ou talvez trabalhara
em alguns slides estereoscópicos. Dizem também que
lá teria procurado deter a queda do cabelo com toda sor-
te de experimentos capilares, ou ainda jogara xadrez
ininterruptamente. Por certo, não falava espanhol, mas
isso não foi obstáculo, pois o tabuleiro é perfeitamente
mudo. Além disso, Duchamp tinha um rosto inexpres-
sivo, assim como a maior parte dos enxadristas.
Durante sua estada não aconteceu muita coisa: ne-
vou na cidade pela primeira e única vez em sua histó-
ria, o presidente se chamava Hipólito Yrigoyen, estrea-
ram dois filmes argentinos, Buenos Aires tenebroso e A
última traição,1 o jovem Borges redigiu alguns versos co-
munistas, fez muito calor nesse verão de 1919, e no
mês de janeiro uma greve que foi reprimida a sangue e
fogo se encerrou com oitocentos mortos e três mil feri-
dos. E pouco mais. Duchamp diz ter comido bem, ter ras-
pado a cabeça por completo, ter enviado um presente de
casamento para sua irmã, ter tirado uma foto junto a
uma cacatua, e não ter encontrado o menor sinal de
vanguardismo estético no país. Também não pôde en-
contrar rastros de sua amiga Gertrudis Lowy, aliás Mina
Loy, poeta e pintora, a quem ele apreciava e que sabia
estar em Buenos Aires esperando pela chegada de seu

144
verve
As damas

esposo Fabien Avernarius Lloyd, conhecido como Cra-


van, a quem apreciava muito menos. Muitos anos mais
tarde Duchamp seguiria enviando poemas a Mina, que
certa vez fora musa — isto é, dama — de seu amigo Man
Ray e ao mesmo tempo autora de um manifesto femi-
nista. Cravan era dadaísta e poeta, boxeador também, e
dizia ser sobrinho de Oscar Wilde. Com sua esposa Mina
tinham viajado anteriormente pela Argentina, Peru,
Brasil e México, pagando comida e traslado por meio de
exibições de pugilato e, já no Porto de Veracruz, separa-
ram-se e marcaram encontro em Buenos Aires, onde
Mina Loy, grávida, esperou por ele durante muitos dias
e muitas noites. Aparentemente, Cravan teria embar-
cado num veleiro com rumo desconhecido, ou talvez não,
não se sabe bem.
No começo, Duchamp pensou em jogar xadrez à dis-
tância por meio de cabogramas; depois, pensou que isso
poderia ser feito mediante selos adesivos com as peças
impressas; no final se inscreveu num clube local e tam-
bém desenhou um tabuleiro e torneou ele mesmo uma
e cada uma das peças necessárias, as brancas e as pre-
tas, com exceção do cavalo, que foi feito por um artesão
local. De todas as peças do xadrez, o cavalo é a mais
imprevisível: corcoveia, arremete, improvisa e se des-
via num instante. Parece obra do capricho, mas terá
seus motivos, tanto como Duchamp os teve quando des-
de Buenos Aires enviou para sua irmã um objeto pere-
cível chamado “ready-made desgraçado”, destinado a ser
despedaçado pelo tempo e a chuva. Era um presente de
casamento. Suzanne Duchamp casava-se com Jean
Crotti, o marido anterior de Ivonne Chastel, a esposa de
Marcel. Há vaivéns como este no tabuleiro, e mesmo
que no jogo não costumem ser muitos os finais felizes,
alguns rivais acabam como casais. Também, uma ami-
ga de Duchamp tinha lhe dito que na Argentina “o im-
portante não é a felicidade, mas o casamento.”

145
8
2005

Essa amiga se chamava Katherine Dreier. Era mais


do que isso: era sua cliente, sua patrocinadora e sua cúm-
plice. Uma dama branca. E ambos eram membros de um
grupo de conspiradores chamado A Sociedade Anônima, cujo
emblema era um cavalo desenhado por Duchamp. Kathe-
rine era, além disso, milionária e sufragista, e havia ido à
Argentina para saber da condição social e política das
mulheres dos pampas. Um ano depois publicaria uma
memória da viagem. Cinco meses na Argentina do ponto de
vista de uma mulher. Esse era o título do livro e por ele
sabemos que Katherine Dreier considera o clima argenti-
no relaxante e mortal para o espírito, que as mulheres
saem para passear com damas de companhia e que isso é
resultado da má influência dos mouros trazida pelos con-
quistadores espanhóis, que presenciou o desmantelamen-
to da fonte das nereidas de Lola Mora, que concorreu ao
Corso de Flores, que lhe causou estranheza descobrir que
os homens portenhos passavam pó-de-arroz no rosto, e que
também foi a muitos locais socialistas e de beneficência.
Seus dias transcorreram entre curiosidades, ao passo e
passeios proselitistas, e disso não tirou nada para si. Dir-
se-ia que foi outra viagem idiota. Quando Katherine par-
tiu de Buenos Aires num barco a vapor, levou consigo uma
grande quantidade de folhas escritas, um estereoscópio e
uma cacatua. Marcel Duchamp a acompanhou até o porto
e se deixou fotografar com o pássaro no ombro, cujo nome
era “Koko”.
É raro que os peões cheguem a protagonizar jogadas
estelares no xadrez. Para eles estão reservados os maio-
res esforços, o trabalho sujo, são a carne de canhão. E cos-
tumam passar desapercebidos. “Buenos Aires não exis-
te”: é o que Duchamp escrevera a um de seus correspon-
dentes em novembro de 1918. E no início de janeiro de
1919 escreve a outro: “Só é possível ir ao teatro”. Nem
isso, porque nos dias que se seguiram Buenos Aires esta-
ria revirada, bairros inteiros tomados por grevistas, guar-

146
verve
As damas

das armados em todas as esquinas, ataques a lares ju-


deus, e uma multidão anarquista enfrentando o exército
e a polícia e disposta a estabelecer um mundo sem Amo e
sem Deus. Quando terminou a jornada, havia feridos e
mortos por toda parte. Em 13 de janeiro Duchamp confia a
uma amizade epistolar: “sinto-me como um prisioneiro
de guerra, pois o uniforme dos soldados argentinos é igual
ao dos alemães”. O que tinha acontecido seria conhecido
como a Semana Trágica de Buenos Aires, e Katherine
Dreier transformou-se em improvisada cronista do levan-
tamento. Nos diz que a cidade estava em guerra, que os
grevistas destruíram incontáveis lâmpadas elétricas e
lâmpadas de petróleo, que as ruas eram bocas de lobo, que
o cortejo fúnebre dos primeiros anarquistas mortos foi al-
vejado por uma rajada de balas vinda de uma igreja, e que
o fogo foi respondido com fogo, que se importaram trezen-
tos fura-greve japoneses, que não houve jornais, e que ela
percorreu esses dias entre o Plaza Hotel, o mais luxuoso
da cidade, e o local da Federação Operária da Agulha. Por
certo, a mulher tomou partido pelas peças negras, não pela
chusma da baioneta. Décadas mais tarde, quando lhe per-
guntaram por que o rei torneado em Buenos Aires não
estava coroado com uma cruz, Duchamp respondeu: “Essa
foi a minha declaração de anticlericalismo.”
Ivonne Chastel abandonou Buenos Aires em março de
1919, e em abril zarpou Katherine Dreier, e em meados
de junho foi embora Marcel Duchamp. Atrás ficou Mina
Loy, perdida no tabuleiro e chamando inutilmente Cra-
van, o esposo perdido para sempre no Caribe azul.

Tradução do espanhol por Natalia Montebello.

147
8
2005

Nota
1
Título original: El último malón. N.T.

RESUMO

A passagem de Marcel Duchamp por Buenos Aires, no início do


século XX, é uma experimentação da analítica histórica que se
interessa pelo detalhe, abolindo demarcações teóricas para inves-
tir em existências e encontros.

Palavras-chave: Marcel Duchamp, dadaísmo, anarquismo.

ABSTRACT

Marcel Duchamp’s days in Buenos Aires, in the beginning of the


20th century, is an experimentation of historical analysis that is
interested in the detail, abolishing theoretical boundaries to in-
vest in existences and encounters.

Keywords: Marcel Duchamp, dadaism, anarchism.

Recebido para publicação em 24 de maio de 2005 e confirmado em


6 de junho de 2005.

148
verve
a alma paradoxal da casa

a alma paradoxal da casa

tania mara galli fonseca*

“(...) os lagos exercem um curioso fascínio, não se sabe


bem qual... Muitas pessoas, numerosas mesmo, devem ter
ido ali, sozinhas, de quando em quando, de uma época
para outra, a fim de soltar seus pensamentos na água, fa-
zendo-lhe uma indagação, conforme aconteceu a uma de-
las no final de tarde deste verão. Talvez fosse aquela a
razão do fascínio — que o lago encerrasse algo em suas
águas, fantasias de todos os gêneros, queixas, confidênci-
as, não impressas nem expressas em voz alta senão em
estado líquido, flutuando uma em cima da outra, quase
desencorpadas.
Nós nos acercamos do lago e afastamos os juncos para
avistarmos mais fundo, através dos reflexos, através dos
rostos, através das vozes desde a tona ao leito. E ali, em-
baixo do homem que esteve na feira; e da moça que se afo-
gou e do menino que avistou a carpa; e da voz que gemeu

* Psicóloga, Doutora em Educação, Professora do Pós-graduação em Psicolo-


gia Social e Institucional da UFRGS. Coordenadora do Grupo de Estudos
“Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar” da UFRGS.
verve, 8: 149-159, 2005

149
8
2005

ai, de mim! Havia sempre alguém mais, sempre mais um


rosto, outra voz”.
Virgínia
Woolf
Toda casa contém alma. Aliás, verificamos mesmo que
nossa suposição tende a se alastrar, sendo que as cida-
des, os países, as montanhas, os lagos, o céu, o dia e a
noite, enfim, o mundo parecem-nos dotados de uma espé-
cie de vida interior que se expressa em múltiplas configu-
rações, denotando seus mutantes e passageiros estados.
Nosso olhar procura atravessar as espessuras faceta-
das dos homens e de seus objetos, e ir em busca dos mes-
mos como corpos que propulsionam e são propulsionados
por forças cuja perspectiva é expandirem-se e prolifera-
rem-se. Em cada corpo, uma vida pulsa, ainda sem forma,
não criada, vida sem qualidades e ainda não envelopada,
tão somente de ninguém, mas que pertence ao vazio infi-
nito e ao devir sem fim. Vida de potências selvagens, vida
distinta da experiência que se traduz como impessoal e
pré-individual e se coloca como plano de imanência que
escapa aos sujeitos e aos objetos. Vida definida pelo artigo
indefinido, apenas Uma vida, singularidade pura, vazios
que estão em toda a parte, “em todos os momentos que
este ou aquele sujeito vivo atravessa e que esses objetos
vividos medem: vida imanente que transporta os aconte-
cimentos ou singularidades que não fazem mais do que
se atualizar nos sujeitos e nos objetos. [ ...] Ela não sobre-
vém nem sucede, mas apresenta a imensidão do tempo
vazio no qual vemos o acontecimento ainda por vir e já
ocorrido, no absoluto de uma consciência imediata.”1
Tratamos aqui de uma dimensão de virtualidades, a
qual não falta realidade e que se envolve em um processo
de atualização a seguir o plano que lhe dá sua realidade
própria. Suas forças atualizadas, pois, em objetos e indiví-

150
verve
a alma paradoxal da casa

duos, em estados de coisas e em estados vividos, manifes-


ta sua existência desde um milieu e não desde uma trans-
cendência superior. Sua formalização sempre faz apare-
cer o par indivíduo-meio e nos leva a afirmar que, em
nossa concepção, corpo e alma se encontram, portanto,
grudados e implicados em reciprocidades. Não existem a
não ser através das conexões do encontro. A configuração
que os torna apreensíveis aos nossos sentidos resulta de
uma resolução parcial, precária e provisória de um con-
junto de forças em tensão que atuam no seio de sua ma-
téria, fazendo-a desenvolver-se segundo regras de um do-
mínio imperceptível, molecular, instantâneo e quântico.
Como sistemas tensionados, supersaturados, acima do
nível da unidade que não consiste apenas em si mesmos;
nós próprios e o nosso mundo devem ser “calculados” como
termos de uma gênese invertida, conforme nos faz ver
Gilbert Simondon2 quando alerta para a existência de um
primeiro termo, o princípio que traz em si o que explicará
que o indivíduo seja indivíduo.
A reversão da tendência substancialista que considera
o ser como uma unidade dada por si própria, fundada sobre
si mesma, inengendrada, leva-nos a olhar para o mundo e
os homens como realidades relativas, que, mesmo depois
de sua individuação, não esgotam de uma só vez os poten-
ciais daquele plano virtual, que neles opera como um per-
manente Fora entranhado nas íntimas dobras de sua inte-
rioridade. Fora e Dentro, Forças e Formas co-existem em
permanente tensão, impulsionando-nos para que nosso
olhar venha ultrapassar as evidências expressas na con-
cretude do mundo e de nós mesmos. Precisamos nos des-
locar das posições referidas a identidades fixas e inertes.
Nosso existir se constitui por sucessivos e sobrepostos des-
dobramentos, sendo tecido na lógica do finito-ilimitado,
sendo certo supor que o morrer constante de formas e es-
tados torna-se a condição mesma do nosso próprio viver
como corpos-de-passagem. É desde este ponto que preten-

151
8
2005

demos focar a questão da alma da casa, considerando-a


como a própria ação do devir na morada do ser.
Nossa abordagem pretende ultrapassar a afirmação
aparentemente ingênua e psicologizante que enfoca a
alma da casa enquanto reprodução ou projeção de uma
natureza humana ou de um psiquismo desencarnado. Esta
aparente dedução será um equívoco ao nosso propósito.
Queremos frisar a noção de alma, tal como nos ensina
Walter Benjamin: enquanto sensibilidades, conhecimen-
tos de si, construção de alteridades produzidas historica-
mente e que se fazem presentes nas tramas da cultura,
do cotidiano, nos minúsculos espaços da ação humana,
como nos gestos, nas articulações e sentidos dos olhos,
com as mãos no ato do trabalho, nas inquietações produto-
ras de sonhos, utopias e memória.3
Nesta perspectiva, uma casa ultrapassa a possibilida-
de de ser lida como um cenário onde transcorre a vida de
sujeitos plenos e cheios de si. Quando constituímos uma
casa como território existencial, ela pode vir a ser olhada
como campo paradoxal onde se tecem sensibilidades a
partir dos diversos enfrentamentos de forças que ali cir-
culam. Não basta que a consideremos como um objeto ar-
quitetônico, uma vez que nela ressoam forças de um ver-
dadeiro universo, pequeno-grande mundo urdido pelos fios
da memória e da imaginação, fios feitos de afecções, teci-
dos e esgarçados no desenrolar-se de um complexo espa-
ço-tempo de singularidades contraídas.
Espaço de intensidades que alimentam o desejo de se-
rem distendidas e habitadas, espaço que não apenas aloja
o inconsciente, mas o produz, tornando-se sua toca, confi-
gurada ao modo-toupeira, ou seja, escavada com movimen-
tos de seu próprio corpo. Casa é cela e é mundo, clausura
e abertura ao Fora. Como uma espécie de armadura, su-
pomos que pode nos fornecer o indispensável amparo em
nossa errância rumo ao infinito, estranho e desmedido

152
verve
a alma paradoxal da casa

“lá fora”. De seu interior, podemos buscar um tipo de sur-


dez para o exterior, fechando suas portas e janelas com
cuidado. E é quando talvez possamos nos sentir transbor-
dando de um fora que se eleva e cresce em nós, que não
nos concede mais refúgio, porque no silêncio do “estar em
casa”, vazamos para fora de nós mesmos e, já não agüen-
tando mais, vemo-nos expulsos de nosso próprio coração.
Como explicar a potência transformadora do “estar em
casa” que nos desloca, colocando-nos como estrangeiros
em nossa própria casa? Como compreender o paradoxo de
que é na profundeza de nossa superfície que viemos a es-
cavar o mais profundo labirinto que nos habita? Como su-
portar esta torção em nos vermos enervante e simultane-
amente enroscados nas posições de habitante e de habi-
tat?
É chegado o tempo de refazermos a imagem da casa
burguesa que ocupa o nosso pensamento atual e que, nos
termos de Walter Benjamin,4 é definida como uma cápsu-
la, um estojo, na medida em que acomoda o indivíduo e
seu pertences (...) lugar de estabilidade, de transparência
das relações (...), mundo exclusivo, dotado de valor moral
bem mais elevado do que o bem mais atribuído ao espaço
cidade. Refazer sua imagem comportaria, portanto, em
visualizá-la não apenas por suas funções de moradia, lu-
gar de encontro com a família, como “ninho protetor”. Re-
imaginá-la enquanto território existencial implica consi-
derar que à sua arquitetura se aderem outros elementos
de natureza heterogênea que a adensam e compõem sua
consistência. Sons, cores, texturas, gestos, gostos, sujei-
tos, materiais e equipamentos, tecnologias, são elemen-
tos capturados num agenciamento que os superpõem e
articulam, fazendo-os existir não mais como sucessão, mas
os tomando uns nos outros, ramificando-os em enuncia-
ções maquínicas, em sínteses de heterogêneos.5

153
8
2005

Em toda a casa, habita um corpo-sem-órgãos, atributo


de potências pré-individuais e virtuais que se constitui
como o avesso, o duplo dos corpos. Forças e formas en-
trelaçadas e em movimentos tensionados constituem
linguagens, fazem da casa um verdadeiro corpo-a-corpo,
transformam-na em uma poderosa usina de cujo caos pode-
se atingir o subterrâneo, o sem-fundo.
Habitada por forças que a territorializam e desterritori-
alizam, a casa constitui-se no entre, nos vacúolos dos aco-
plamentos das matérias de natureza diversa, e uma vez
considerada rede associativa, tem sua alma, sua consis-
tência colocada in progress e concernente aos modos pelos
quais seus componentes se agenciam uns aos outros e
suportam, outrossim, os fluxos das passagens e de alter-
nância. Desta maneira, podemos dizer que o dentro da
casa se mantém sempre em dinamismo às custas de suas
relações com o próprio Fora que constantemente a tensi-
ona. Em uma casa, coloca-se em jogo não um centro, um
tronco ou uma raiz agenciadores, posições tomadas como
de comando superior. Não podemos impor-lhe uma boa for-
ma, nem de fora, nem de cima, mas antes uma articula-
ção de dentro. Rede de relações e conexões não-lineares,
não de um centro a outro, mas de molécula a molécula,
ingineering molecular não definida por um começo de onde
derivaria uma seqüência linear, mas por densificações,
intensificações, reforços, recheaduras... Estado de devir,
molecular e não apreensível pela percepção trivial, produ-
tor de uma linguagem das forças, cuja abordagem nos des-
loca, então, para o domínio das pequenas percepções.6
Percepções não percebidas, inconscientes e microscó-
picas, confusas e fracas em suas partes, mas claras e dis-
tintas no seu conjunto. Infinitesimais, imperceptíveis por-
que muito pequenas para serem percebidas, as pequenas
percepções recobrem as descontinuidades aparentes en-
tre as percepções de um estado a outro, formando o próprio

154
verve
a alma paradoxal da casa

tecido das formas em devir. “As pequenas percepções, como


diz Leibniz, [...] compõem nuvens, ‘poeiras’. Eu prefiro
chamar essas poeiras ‘atmosferas’. Porque as pequenas
percepções dão impressões confusas embora globais e
em movimento constante; antes de compor as macroper-
cepções — antes que as miríades de pigmentos de amare-
lo e de azul que agitam, se misture para definir o verde,
constituem uma tendência anunciada e pressentida no
turbilhão das pequenas percepções: é isto, a atmosfera.”7
A atmosfera da casa coincide com sua própria alma,
apontando-nos um vetor intensivo, uma tendência das
forças em movimento. Produzida por tensões entre mi-
cropercepções, a atmosfera resulta dos investimentos de
afetos dos corpos e quando se considera a infinidade de
elementos e de causas infinitesimais que concorrem para
a sua gênese, quando pensamos que bastaria a ausên-
cia ou o desvio de um deles para tudo falhar, nosso pri-
meiro movimento é o de vigiar esse exército de peque-
nos operários por um contramestre experiente, que re-
pararia a cada instante os erros cometidos, corrigiria os
efeitos das distrações, reporia as coisas no seu lugar.8
A alma da casa se desdobra constantemente num
processo de criação. É produzida por um modo que dife-
re da realização de um plano, pois se renova incessan-
temente e faz com que o seu futuro não possa se deli-
near como uma idéia apriorística. Os desdobramentos
da alma da casa não prosseguem em movimentos para
a frente, e apesar da existência de linhas tendenciais
que orientam a marcha dos fluxos, entre elas corre uma
multidão de vias secundárias nas quais, multiplicam-
se os desvios, as paragens e os recuos.
Desta maneira, podemos dizer que as portas de uma
casa permanecem sempre escancaradas para o futuro,
abertura para o Fora e para a criação que prossegue infin-
dável. A alma de uma casa sempre tende a ir além de si

155
8
2005

própria. A dissonância e a mobilidade constituem sua


regra. Nosso desejo de torná-la inteligível, previsível e
governável, não nos faz, entretanto, satisfeitos com sua
constituição como um organismo dinâmico e dotado de
vida. Queremos impor-lhe uma funcionalidade, repar-
timo-la em órgãos funcionais, fixando-lhe e especi-
alizando seus usos e sentidos, o que subtrai a potência
de seus possíveis devires. Nesta operação, nosso que-
rer se expressa em um ordenamento e organização que
evocam inércia e passividade. Tornamos inerte aquilo
que é vivo, subtraindo-lhe o movimento e as tensões
que lhe são imanentes.
Uma casa é depositária e produtora de vida. Através de
seus movimentos e direções, ela concorre para fazer evo-
luir a própria vida, operando como um transportador de
forças vitais que nela se implicam e tomam consistência.
Compara-se a um imenso reservatório de energias, cujos
jatos, cada um deles, podem ser tomados como expressões
de suas almas, de suas atmosferas, enfim, linguagem de
suas forças. Coisas e estados não passam de pontos de
vista do nosso espírito sobre o devir. Não há coisas, ape-
nas ações. Uma casa, enquanto sistema dinâmico, com-
porta-se, portanto, como uma máquina de agir que se re-
constrói a cada ação como se fosse de borracha e pudesse
mudar a cada instante a forma de todas as sua peças.
Tornada, historicamente, em aparelho da vida privada,
sede da esfera íntima e pessoal em oposição à pública e
coletiva, a imagem predominante de casa que ocupa nos-
so imaginário nada tem a ver com as propriedades deste
sistema de forças que acabamos de registrar. Forjada para
abrigar-nos do horror do caos e da noite, ela também é
vista como elemento de fixação dos indivíduos nômades,
tornando-os localizáveis e visíveis ao controle social. Idea-
lizada como porto seguro ao transcurso da vida de seus
domiciliados, ela, paradoxalmente, torna-se morada para

156
verve
a alma paradoxal da casa

o desenrolar de múltiplos processos e devires. Como ir-


mãs-siamesas, a casa do imaginário e a casa das forças
vivas, não se amam, como nos diria Calvino em As Cida-
des Invisíveis: “As duas cidades gêmeas não são iguais,
porque nada que acontece em Valdrada é simétrico: para
cada face ou gesto, há uma face ou gesto correspondente
invertido ponto por ponto no espelho. As duas Valdradas
vivem uma para outra, olhando-se nos olhos continuamen-
te, mas sem se amar.”9
Se é verdade que o estilo de nossos atos compõe o es-
paço que inventamos, e que este deve ser concebido como
conjunto indissociável de coisas e de ações, temos de con-
vir que nossa casa, como moradia, reflete-se tanto como
produto quanto produtora de nossos modos de existir.
Constituída como um dentro em permanente acoplamen-
to com os corpos que a atravessam e com a exterioridade
que a circunscreve, uma casa pode também se revelar
como tempo, ultrapassando, assim, o seu caráter espaci-
al strictu sensu. Casa-máquina, inseparável do que pode
vir a produzir como modo de subjetivação contemporâ-
neo. Expressão de uma história de saberes e de poderes,
os modos de morar, a organização dos espaços e do habi-
tat correspondem a estratégias geopolíticas e a implan-
tações econômico-políticas. Para além de sua configura-
ção como máquina de morar, uma casa sempre possui o
seu duplo invisível, encontrando-se nele imersa como um
corpo em uma nuvem de poeiras, cujos infinitesimais
grãos se acoplam e tomam-se uns nos outros em oblí-
quas conexões. O que nos afeta em uma casa é a sua
atmosfera criada a partir das tensões entre moléculas
imperceptíveis e que se encontram em constante movi-
mento em busca de uma configuração. Produtora de al-
mas, uma casa também se auto-produz, escavando de si
elementos que contornam o vazio e os silêncios de seu
espaço-tempo.

157
8
2005

Sim, uma casa possui não só uma, mas variadas al-


mas. Almas alegres, almas tristes, abertas, soturnas.
Elas, apesar de invisíveis, são as intensas presenças que
lhe conferem sentido. Mergulhar em sua superfície, bus-
cá-la naquilo que escapa ao olho, pode nos tornar cúm-
plices do reencantamento do concreto e de nossa própria
transfiguração.

Notas

1
Gilles Deleuze. “A Imanência: uma vida” in: Revista Educação & Realidade, v.
27, n. 2. Porto Alegre, jul/dez 2002, p. 14.
2
Gilbert Simondon. “A Gênese do Indivíduo” in Cadernos de Subjetividade.
Tradução de Ivana Medeiros. Reencantamento do Concreto. São Paulo, Huci-
tec, 2003, pp. 99-117.
3
Luis Antonio Baptista. “As cidades da falta” in Saúdeloucura nº 6. Subjetivida-
de. São Paulo, Hucitec, 1997, pp. 170-182.
4
Walter Benjamin, Obras Escolhidas III in Silvia Carvalho Josephson. “Espaços
urbanos e estratégias de hierarquização” in Saudeloucura, n. 6. São Paulo, Ed.
Hucitec, 1997, p. 144.
5
Gilles Deleuze e Félix Guattari. “Acerca do Ritornelo” in Mil Platôs. Esquizo-
frenia e Capitalismo, v. 4. São Paulo, Ed. 34, 1997, pp. 115-170.
6
José Nuno Gil. A imagem-nua e as pequenas percepções. Lisboa, Relógio d’Água,
1996.
7
José Nuno Gil. Les petites perceptions. Texto digitado, p. 4, Tradução livre.
8
Henri Bergson. A Evolução Criadora. Rio de Janeiro, Ed. Delta, 1964.
9
Italo Calvino. As cidades invisíveis. Tradução de Diogo Mainard. São Paulo,
Companhia das Letras, 1990, p. 54.

158
verve
a alma paradoxal da casa

RESUMO

Nesse artigo, problematizamos a questão da imanência e do pré-


individual, que transporta acontecimentos e singularidades e po-
tencializa o ser. Concebemos o corpo como uma dimensão de virtu-
alidades e forças. Rompemos, pois, com a concepção dualista en-
tre corpo e alma. Além disso, discutimos sobre a alma da casa,
como a ação do devir na morada do ser. Pensamos a casa como um
campo paradoxal onde se tecem sensibilidades e forças diversas,
como um espaço que aloja o inconsciente e o produz, além de uma
produção de variadas almas. Assim, surge a potência do estar em
casa e, ao mesmo tempo, pode nos deslocar e nos colocar como
estrangeiros na própria casa. Desse modo, a alma da casa pode
se tornar um processo de transfiguração e criação.

Palavras-chave: Imanência, singularidades, devir.

ABSTRACT

On this article, we argue the question of immanence and pre-indi-


vidual, that carries happenings and virtualities and potencializes
the being. We understand the body as a dimension of virtualities
and powers. Thus, we break the dualist idea between body and
soul. Besides, we discuss about the home´s soul, like the action
of the becoming on the being´s home. We think the home like a
paradoxical field where the sensibilities and the several powers
are developed, such as a place where the unconsciousness stays
and where it´s produced, besides a production of several souls.
So, the potency of the home being happens, and, at the same time,
it may disjoint and joint us like strangers in our own home. In that
case, the home´s soul may become a process of transfiguration
and creation.

Keywords: Immanence, singularities, becoming.

Recebido para publicação em 26 de julho de 2005 e confirmado em


28 de agosto de 2005.

159
8
2005

tragédia em nietzsche e lúcio cardoso

silvana tótora*

Uma incursão no universo da literatura provoca o


pensamento para a aventura da invenção e resistên-
cia, destituindo-nos da segurança ilusória de um conhe-
cimento que se pretende verdadeiro. Postular a verdade
como um valor superior é um procedimento do pensa-
mento moral e das religiões que resultam em uma de-
preciação da arte como produção do falso e ilusório. Con-
tra essa tradição insurge-se Nietzsche, afirmando a po-
tência do falso. A estratégia dessa afirmação é liberar a
vida de qualquer julgamento moral, ou algum critério
de verdade transcendente.
Destituir a arte de tendências moralizantes, não im-
plica em concebê-la como neutra. É preciso perguntar,
neste caso, quais são os efeitos produzidos por uma obra
de arte, o que ela estimula e o que enfraquece em relação
aos valores. O artista e sua arte não são desprovidos de
sentido. Esse sentido pode ser o produto em si, ou um va-

* Professora no Departamento de Política e do PEPG em Ciências Sociais da


PUC/SP.
verve, 8: 160-186, 2005

160
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

lor para a vida, para algo desejável da vida. Situado o pro-


blema que se coloca para a produção artística, Nietzsche
afirma que “a arte é o maior estimulante da vida.”1
Nietzsche dispara contra a moral cristã e o pessimis-
mo do romantismo de seus contemporâneos que revelam
os sintomas de cansaço e decadência na depreciação da
vida. Para avaliar uma estética é necessário perguntar-
se o que motivou sua criação, se uma superabundância
de vida ou um estado de carência, de fraqueza, pois deste
modo pode-se divisar o sentido do pessimismo, da destrui-
ção ou da preservação de uma produção artística. O pes-
simismo da arte trágica é o da força ativa, uma força dio-
nisíaca ou de metamorfose, diferentemente do românti-
co. Pode-se interpretar a destruição, no primeiro caso, como
um desejo de devir, de mudança, “expressão de uma força
prenhe de futuro.”2 Contudo, destruir pode significar um
ódio contra todas as coisas existentes. Também o roman-
tismo tem um sentido de preservação, vingar-se do exis-
tente imprimindo-lhe uma marca da sua própria imagem.
Nietzsche atribui um sentido à arte trágica, diferen-
ciando-se de Aristóteles e de seus contemporâneos do
século XIX. Fiel a sua tese central de que a arte é uma
grande estimuladora da vida, Nietzsche diverge de Aris-
tóteles que encarava a tragédia “como um purgativo da
compaixão e do terror.”3 O expectador, por meio de uma
catarse, descarga patológica, se libertaria desses dois
afetos depressivos e prejudiciais aos seres humanos que,
dentre outros, são ativados em excesso pela tragédia. A
tragédia seria, então, uma purgação dos afetos indese-
jáveis, “uma descarga aliviadora.”4 Um outro efeito da
tragédia seria provocar nos expectadores uma exalta-
ção pela vitória dos bons e nobres princípios exprimidos
pela derrota do herói. Segundo Nietzsche, para inúme-
ros críticos, inclusive Aristóteles, as referências sobre
a tragédia não passam de considerações morais. Inter-

161
8
2005

pretar a tragédia sob esta perspectiva extra-estética


convém apenas àquelas naturezas pouco estéticas.5
Uma primeira implicação das considerações de
Nietzsche consiste em desvincular a arte, particular-
mente, o teatro trágico, da finalidade de melhorar o ho-
mem. Se a arte não tem esse objetivo e se, tampouco, é
neutra, qual o sentido que Nietzsche atribui à arte trá-
gica? Qual o estatuto da arte em relação à ciência?
Nietzsche em O nascimento da tragédia define a arte
como a expressão de um duplo impulso artístico da natu-
reza: o apolíneo e o dionisíaco.6 A arte trágica torna-se
relevante na análise do autor porque permite aproximar-
se desses dois impulsos da criação. Esses impulsos não
são forças externas que impulsionam o artista como um
sujeito em direção ao seu objeto como um produto, mas
são imanentes à criação artística. Esses mesmos impul-
sos da natureza manifestam-se fisiologicamente no ho-
mem independente de uma vontade consciente. O apolí-
neo e o dionisíaco correspondem à duplicidade sonho e
êxtase. Ambos desencadeiam no homem “forças artísti-
cas, cada qual, no entanto, de modo diverso: o sonho, as
de ver, do correlacionar, do condensar; o êxtase, as do
gesto, da paixão, do cântico, da dança.”7
O apolíneo é a produção da individuação, que se tra-
duz na multiplicidade das formas que compõem o real.
Em uma analogia com uma manifestação fisiológica, o
apolíneo corresponde ao sonho, que não se reduz ao es-
tado de sono, mas à potência poética de criação. A reali-
dade é produção, uma criação artística. Apolo seria a
divindade do mundo dos sonhos, da bela aparência, “em
cuja produção cada ser humano é um artista consuma-
do.”8 Contudo, Apolo não é somente uma divindade esté-
tica, mas, também, ética, pois estabelece linhas fron-
teiriças entre os seres singulares e medida das ações

162
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

pelo auto-conhecimento: “nada em excesso” e “conhe-


ce-te a ti mesmo.”9
A cultura apolínea legou as belas criações artísticas,
na arquitetura, escultura e na poesia épica. O mesmo
impulso artístico que se projetou em Apolo foi responsá-
vel pela criação do mundo dos Olímpicos, deuses que em
nada lembram “ascese, espiritualidade e dever”,10 mas
uma “fantástica exaltação da vida.”11 A invenção desses
deuses foi a estratégia dos gregos para vencer o pes-
simismo em relação à existência. “Os deuses gregos le-
gitimam a vida pelo fato de eles próprios a viverem.”12
Dionísio irrompe nesta cultura apolínea quebrando a
tranqüilidade de uma existência pautada pelo comedi-
mento e auto-conhecimento, ultrapassando os limites ao
romper as linhas fronteiriças e instaurar a hybris (o des-
mesurado). O dionisíaco como um mar infinito agita as
ondas em que navega tranqüilo um pequeno barco, ou
seja, impede que as forças de conformação singulares
apolíneas se congelem “em rigidez e frieza egípcias”, e
“que no esforço de prescrever às ondas singulares o seu
curso e o seu âmbito não fosse extinto o movimento do
lago inteiro.”13 O dionisíaco é a manifestação do outro
impulso da natureza, o da destruição das formas configu-
radas e da potencialidade de sua expansão. Como mani-
festação fisiológica o dionisíaco corresponde ao estado de
embriaguez ou êxtase.
Apolo o deus solar une-se a Dionísio, a obscura des-
medida da natureza que não irrompe sem um grau de
crueldade, prazer e dor. A arte trágica salva os gregos do
pessimismo, pois possibilita o encontro com o desme-
surado dionisíaco por meio da luta, perecimento e trans-
formações do herói trágico. Tudo que vive deve perecer
para continuar a vida. Os gregos experimentam o pra-
zer da existência, de múltiplas e diversas formas de vida,
que só são possíveis com a destruição. Mais do que ser o

163
8
2005

homem um artista torna-se uma obra de arte.14 A arte


trágica propicia aos gregos um encontro com as forças
dissolutórias dionisíacas da natureza figurada no herói
trágico e os homens descobrem uma justificativa esté-
tica à existência. Rompendo com a moral ou qualquer
parâmetro metafísico de verdade que possa corrigir ou
moldar a vida, Nietzsche dispara sua tese: “só como fe-
nômeno estético, podem a existência e o mundo justifi-
car-se eternamente.”15
O artista trágico glorifica a luta e a resistência do
herói frente as adversidades e diante da tragédia, afir-
ma Nietzsche, “o que há de belicoso em nossa alma fes-
teja as suas Saturnais.”16 Diferente do pecado cristão, o
Prometeu de Ésquilo comete um pecado ativo ao romper
os limites fronteiriços, fazendo emergir o titânico pelo
sacrilégio. Não se libera o infinito das forças vitais em
confronto sem cometer sacrilégio. Como eterno fluir de
forças, a vida não pode ser represada no limite da fini-
tude das formas individuadas. Trágico é o que não teme
a destruição para afirmar a vida. Ésquilo com o seu Pro-
meteu trai a sua própria descendência de Apolo com sua
ética do “nada em excesso” e apresenta o herói encar-
nando à desmedida dionisíaca. O dionisíaco e o apolíneo
são igualmente impulsos de criação, destruição e con-
formação respectivamente, o que implica situar a rea-
lidade como criação estética e, portanto, “tudo o que exis-
te é justo e injusto e em ambos os casos é igualmente
justificado. Isso é teu mundo! Isso se chama mundo!.”17
Dionisíaco é a afirmação da vida com alegria, até
mesmo diante do sofrimento. Nietzsche se define como
um filósofo trágico, e isto significa algo muito diferente
de um filósofo pessimista, pois trágico é dizer um sim
dionisíaco à vida sem exceção ou escolha, pois a vida é
para ser vivida com a arte do jogo da dança e do riso e
não corrigida ou justificada. Segundo Nietzsche, somente

164
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

Heráclito fora como ele um filósofo trágico por acreditar


na inocência do devir. O dionisíaco traduz-se no “lúdico
construir e desconstruir do mundo individual como eflú-
vio de um arquiprazer, de maneira parecida à compara-
ção que é efetuada por Heráclito, o Obscuro, entre a for-
ça plasmadora do universo e uma criança que, brincan-
do, assenta pedras aqui e ali e constrói montes de areia
e volta a derrubá-los.”18
A arte para Nietzsche é um estimulante para a vida,
porque, de um lado, revela a vida na sua essencialidade
como produção artística e, de outro lado, como artista da
sua própria vida o homem pode liberar os impulsos no
cultivo de si, ou numa ética de si que não se cristaliza
em normas universais, pois está aberta ao fluxo do de-
vir. Como artista da própria vida sabe livrar-se do peso
de uma existência humana mergulhada no círculo es-
treito de uma consciência atormentada por deveres,
responsabilidades e problemas de um cotidiano sufocan-
te. Nenhuma certeza, medida ou fundamento a arte nos
oferece, por isso está mais próxima da vida.
A arte quando situada no âmbito da vida se revela
superior à ciência, pois esta se mantém atrelada à bus-
ca dos fundamentos ou causas explicativas para os fe-
nômenos existentes e tem a pretensão de atingir todos
os abismos do ser, não somente conhecê-los, mas tam-
bém corrigi-los.
Romper os limites e violar as fronteiras é o sentido
do dionisíaco, bem diferente do “nada em excesso” da
cultura apolínea. O cuidado de si como uma estilística
de vida em nada se assemelha com a consciência de si
ou o “conhece-te a ti mesmo”. Não há nada a conhecer,
nem corrigir nas forças descomunais e infinitas que
atravessam o interior e o exterior dos corpos vivos. A
arte do artista e não a lógica da ciência libera essas
forças e estimula a vida pela potência de invenção. O

165
8
2005

apolíneo, em Nietzsche, é a forma artística da aparên-


cia do dionisíaco e não seu oponente. A cultura apolínea
com todo o seu comedimento e beleza, artificialmente,
represada repousa sob o abismo do desmesurado da na-
tureza. O apolíneo na cultura trágica foi a forma que os
gregos encontraram para viver o abismo do desmesura-
do com arte e beleza. Longe de manifestar uma resig-
nação ou uma conciliação com o existente, a alegria do
trágico advém de uma consciência do transitório das
formas existentes e da multiplicidade que se abre pelo
devir.
Em todas as teorias do trágico, seja a da catarse,
purgação das paixões por uma descarga violenta, seja
uma resignação, ou sublimação diante do sofrimento
da existência, Nietzsche responde denunciando nestas
posições um desconhecimento essencial: a tragédia
como um fenômeno estético. Deleuze interpreta, cor-
retamente, a designação do trágico em Nietzsche, tra-
ta-se “de uma forma estética da alegria, não uma forma
medicinal, nem solução moral da dor, do medo ou da
piedade.”19 A vida não se justifica pelo sofrimento à ma-
neira dos moralistas, seja encontrando nele uma razão
para postular a vida como culpada, como no cristianis-
mo, seja para demonstrar a sua falta de sentido como
na negação dos pessimistas. A tragédia seria neste caso
um sintoma de decadência, pois por meio da arte trági-
ca aprende a resignar-se diante do absurdo da vida, de-
sistindo da felicidade, da esperança e da vontade de vi-
ver. Ora, não estaria, neste caso, instaurada uma “arte
em que a própria arte se nega?”20 Nietzsche é um afir-
mador, e afirma a vida integralmente com alegria, mes-
mo no sofrimento. A alegria do trágico é acatar a vida
como um guerreiro, artista, ator e expectador estético
que experimenta em si sua superabundância de forças
com a leveza de um dançarino que se move no fluxo do

166
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

devir, o gosto pelo jogo onde só há vencedores e o riso


diante da seriedade dos inventores da moral.
No romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assas-
sinada,21 inúmeros sentidos de trágico podem ser divi-
sados por meio de diversas e distintas histórias prota-
gonizadas por seus personagens: um pessimismo des-
trutivo que alimenta um ódio em relação à existência
humana, exprimindo o dilema dramático de vidas apri-
sionada por princípios morais herdados do cristianismo
e de formas congeladas de uma sociedade presa às tra-
dições e avessas às mudanças; a alegria do trágico dio-
nisíaco que proclama a vida como tragédia. A força do
trágico, no sentido nietzscheano, revela-se na radicali-
dade com que o romance realiza o seu empreendimento
de destruição. Não se libera a vida sem a destruição das
formas de uma sociedade decadente, transvalorando os
seus valores morais e seu modo de constituir-se. Nada
há a reformar ou ser preservado. Alguns personagens
se oferecem em sacrifício para que a vida possa flores-
cer, sem preconceitos.
Uma obra e um autor não podem se reduzir à busca de
uma subjetividade que desvende a psicologia de seu au-
tor, tampouco, pretender deduzir de experiências ou vi-
vências pessoais ou mesmo dos traços sociológicos e his-
tóricos de uma época determinada. Uma obra não se ex-
plica por seu tempo, nem é a explicação dele, mas uma
invenção, porque nada tem a se explicar, pressupondo
que o infinito das forças e impulsos que percorrem os
corpos individuais e coletivos não se restringem a uma
dada conformação, seja de caráter histórico, seja no pla-
no da consciência. A arte, na medida em que não se pro-
põe a explicar, estaria mais próxima da realidade em flu-
xo.
Toda a linguagem, e não só a literária, é uma inven-
ção artística, pois opera com cortes perspectivísticos no

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2005

fluxo do devir. Um texto se abre a inúmeras perspecti-


vas. Não é o mesmo texto, a leitura também é uma in-
venção. Interpretar é seguir as forças que os impulsio-
nam, violentar as formas, dobrar, expor suas lutas, es-
tabelecer um corte. Cardoso é uma multiplicidade de
almas que não se deixam apreender por um nexo racio-
nal e que ressoam em seus personagens. Inúmeros são
os sentidos desse romance, mas podemos dizer que seu
criador encarna um deles, tornando-se um anjo exter-
minador.
O romance Crônica da casa assassinada compõe-se
de uma multiplicidade de linguagens, cartas, narrati-
vas, diários, depoimentos sem obedecer a nenhuma cro-
nologia. A temporalidade se desprende de uma seqüên-
cia linear, presente passado e futuro, para mergulhar
na descontinuidade do tempo do acontecimento.

Um anjo exterminador
Nina, um dos personagens centrais do romance, che-
ga a Chácara dos Meneses para quebrar a tranqüilidade
de uma paisagem e de uma casa que abriga uma famí-
lia do interior de Minas, imobilizada por hábitos e cos-
tumes tradicionais. A hostilidade manifesta-se logo na
sua chegada, particularmente, por Demétrio, o chefe, o
patrão, o irmão mais velho, expressão de uma família
despótica erigida sob o orgulho do bem da posição e do
dinheiro.22 Nina vem do Rio de Janeiro como esposa de
Valdo, irmão de Demétrio. Para ela, Valdo “representa-
va muitas coisas que jamais tivera: uma família, casa,
uma educação que não conhecia.”23 A casa dos Mene-
ses era tão forte em seus hábitos e costumes e, por isso
mesmo, ficava tão frágil diante do menor contratempo
que quebrasse seu ritmo repetitivo submetido a uma
lei geral que a governava. Nina inconscientemente, pela

168
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

sua simples presença, ferira de morte aquele mundo,


artificialmente, represado. Despreparados para qualquer
mudança, ou melhor, resistentes a elas, porque não
sabem viver de modo diferente, os Meneses se sentem
sob um regime de ameaça, pressentindo a todo instan-
te a irrupção de um acontecimento extraordinário. Desde
o início os Meneses “souberam que se achavam diante
de um anjo exterminador”,24 afirma Timóteo.
Nina em contraste com Ana, esposa de Demétrio,
jamais se adaptara aos costumes da casa, vivia, segun-
do depoimento de Valdo, “como uma perpétua excres-
cência, sempre pronta a partir, voltando sempre.”25 Par-
tir com a promessa de não mais voltar e depois de um
intervalo longo, como na sua primeira partida em que
permaneceu por quinze anos afastada da Chácara, de
Valdo, da família e de seu filho, ou por um curto espaço
de tempo, quinze dias, Nina retornava. Sua mobilidade,
beleza e maneiras de vestir, sua independência hostil
a qualquer proteção, seu impulso para o amor e o prazer
sexual, tudo contrastava com aquela paisagem de tradi-
ção, decadência e contenção dos afetos de alegria e pra-
zer da existência.
Nina pressente o quanto sua presença é nefasta, por
representar uma vida diferente para aquela família que
renunciara à vida em prol da preservação de valores de
uma tradição e dignidade de costumes decadentes. Não
se podem expandir as forças ativas de afirmação das
potências da vida diante de vontades tão poderosas de
conservação e uniformização. As forças reativas, inca-
pazes de agir são, contudo, fortes em obstaculizar as
potências afirmativas criadoras do novo.
O destino de Nina é traçado logo no início do roman-
ce quando é narrada sua agonia de morte. As vidas e as
mortes dos personagens mantêm a tensão do romance.
O sofrimento de Nina e de Ana em seu leito de morte,

169
8
2005

explicitam tormentos e suplícios que acompanham a


morte na perspectiva do cristianismo.26 Fenômenos fi-
siológicos são logo moralizados em termos de salvação
ou danação. A dualidade corpo e alma cristã se mani-
festa no desprezo pelo corpo, sua mortalidade e nos tor-
mentos do espírito diante de uma condenação eterna.
Como é preciso livrar-se dessa atmosfera sufocante de
punição e recompensas!
O corpo de Nina que experimentara tanto prazer, vi-
olando regras e ultrapassando os limites fronteiriços é
atacado por uma moléstia que inspira repugnância. Sua
doença condena seu corpo a corroer-se e exalar um odor
de mau cheiro que afugenta quem dele se aproxime.
Em vida seu corpo expirava um perfume que despertava
desejo e paixões. Quando lança o seu último suspiro
serve a todo tipo de violências proferidas com as mais
distintas finalidades. Livrar-se o mais rápido possível
do corpo de Nina e seus pertences como se livra de uma
doença contagiosa foi o procedimento empregado por
Demétrio e sua esposa Ana.
Nina, Timóteo e Ana são os personagens que prota-
gonizam as mais intensas cenas da tragédia do roman-
ce. Nina pela sua simples presença provoca a cada mo-
mento um novo acontecimento que abala a fixidez de
uma casa já corroída pelo tempo e precipita a sua des-
truição. Seus atos não são premeditados com tal fito mas,
tão somente, deixa fluir os impulsos que caracterizam
uma natureza desejosa de vida. Ativa os sentidos e pai-
xões que quebram a paz daqueles que não sabem lidar
com nada vivo, que são apenas atores de um enredo que
acostumaram a representar. Para esses mortos-vivos,
Nina era o fermento da decomposição, um mal a ser
extirpado.
Nina deixa a casa, pela primeira vez, grávida, acusa-
da por Demétrio de envolvimento com o jovem jardinei-

170
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

ro Alberto, desencadeando a tentativa de suicídio de seu


esposo Valdo. Nina retorna após 16 anos para encontrar
seu filho André, que fora trazido por Ana quando recém
nascido para ser criado na Chácara. André nunca vira a
mãe, os Meneses cuidaram de apagar qualquer vestígio
que lembrasse sua passagem pela Chácara, ou mesmo
a sua existência. André é tomado pela presença da mãe
por sentimentos que nunca dantes havia experimenta-
do. Logo percebe a diferença entre ela e o círculo limita-
do de sensações que as pessoas que o rodeavam emiti-
am. Nina quando comparada por André às outras pes-
soas que o cercavam o fez perceber quão largo e
venturoso é o ar de seu espaço diante do clima fechado
que o rodeou até então.27
Nina despertou em André, pela primeira vez, o dese-
jo e o amor por uma mulher. Ao tocá-la em uma noite
no jardim, André sentiu ativar no corpo de Nina “a ocul-
ta energia que lhe vitalizava o ser, e o entusiasmo de
que era dotada para todas as febres e todas as loucuras
do amor.”28 Nina não bloqueia seu desejo e conduz An-
dré para um Pavilhão, uma velha construção que há
muito tempo achava-se condenada, e que ninguém pe-
netrava em seu interior, dominada por ratos e baratas.29
André sente estar próximo de um acontecimento que
participava um tanto inconsciente, e “não podia deixar
de admirar aquela ciência da obscuridade.”30 No porão
em um sofá com cheiro de mofo e de morte, em meio a
ratos e baratas, André possui o corpo de Nina que tanto
desejara. Afaga e morde a carne que o concebera e sen-
te um prazer estranho e mortal.31 Nesta fusão de corpos
André extrai “sua primeira lição do amor, do seu abis-
mo.”32 O abismo que André experimenta é o encontro
com o desmesurado das forças dionisíacas.
Nina não teme levar André a violar os limites e ultra-
passar as linhas fronteiriças, desafiando as leis humanas

171
8
2005

e divinas. Tal como o Prometeu esquiliniano, Nina con-


duz André a cometer um sacrilégio, um pecado ativo, pois
para ela, como repete várias vezes, nada existe de mais
autêntico em uma pessoa do que o pecado. Cardoso em-
prega vários signos da moralidade cristã, a condenação da
carne, do prazer e da mulher como fonte do mal, levando-
os às suas últimas conseqüências. A punição de Nina com
uma doença mortal que começa pelos seios que, ao invés
de nutrir a vida em uma natural função materna, torna-
ra-se fonte do prazer sexual.
Na arte trágica o sofrimento e a infelicidade embora
presentes não se configura em castigo, punição bem me-
recida à maneira do cristianismo. Segundo Nietzsche, o
cristianismo “faz sofredora também a imaginação do so-
fredor de modo que este, em tudo que sucede de mau, sen-
te-se moralmente reprovado e reprovável.”33 Nina e André
não padecem desse duplo sofrimento, os diários de André
revelam lembranças de momentos de intenso prazer que
em nada lembram a culpa cristã. Não se atinge o êxtase
dionisíaco sem violentar as formas existentes e violar os
limites. Por isso, Nina convida André a cometer o grande
pecado. Dentre inúmeras formas de embriaguez ou êxta-
se, afirma Nietzsche, a “da excitação sexual é a mais an-
tiga e originária”. “O essencial na embriaguez é o senti-
mento de elevação da força e de plenitude. A partir deste
sentimento nos entregamos às coisas, as obrigamos a nos
tomar, as violentamos.”34
Ana, esposa de Demétrio o chefe da família Meneses, é
a mais impressionante personagem torturada pelo res-
sentimento em relação à vida. Ana convertera-se numa
Meneses por adoção. Expressa-se na forma de confissão
escrita, cujo fito, em suas próprias palavras, não é dirigir-
se a alguém, mas como descarga de si, uma forma de
esquecimento do ser gelado e triste que se tornara.35 De-
testa a si mesma, e sua figura exterior sem brilho, qual-

172
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

quer vaidade no cuidado com o corpo, com os trajes que


usa, no arranjo dos cabelos, exprimem a pouca considera-
ção consigo mesma e o sentimento de reforçar a pessoa
vil e mesquinha que é.36 O desprezo por si não implica,
tampouco, em qualquer condescendência com os outros,
pois, como diz, detesta igualmente a todos, não porque os
percebe melhores do que ela, mas sim porque, a seu ver
são igualmente “ridículos e desprezíveis.”37 Torturada por
uma consciência dominante confessa Ana, “esse ser no
fundo do espelho: move-se de um lado para outro, pisca,
sorri, mas está morto não ressuscita mais nem do lodo e
nem da fecundidade.”38
Segundo adverte Nietzsche, “devemos temer quem
odeia a si próprio, pois seremos vítimas de sua cólera e de
sua vingança. Cuidemos, então, de seduzi-lo para o amor
a si mesmo!.”39 Nina foi o alvo do mais profundo ódio de
Ana, por ter ela conseguido tudo que lhe fora vetado, o amor
de Alberto, de seu marido Demétrio, de seu cunhado Val-
do. Esse ódio era a única força que lhe fora reservada. O
ressentimento é uma forma de vontade de potência, uma
vontade de preservar a vida, um niilismo reativo, próprio
daqueles incapazes de expandir as forças ativas e a vonta-
de afirmativa da vida. Ana era um ser sem esperança de
ativar as forças de criação. Para ela o tempo era “feito de
uma irremediável permanência.”40
Nina experimentara o amor, e não se deixara dominar
por uma consciência que detêm a excitação sexual, trans-
formando-a de sensações regulares e necessárias em fonte
de miséria interior.41 Não desfruta dos prazeres de Eros
“os escravos de um hábito, de uma verdade, de um ensi-
namento que não ousamos destruir e nem ultrapassar.”42
Ana reconhece, em razão disso, que Nina a vencera. Con-
tudo, alimenta o desejo de vingança, apelando à Provi-
dência divina para que a castigue. Afinal, não fora o pró-
prio cristianismo que imprimiu a demonização de Eros? A

173
8
2005

doença que condenou Nina à morte, na perspectiva de Ana,


fôra uma punição divina, pois os maus sempre são puni-
dos, acredita Nina. Segundo Nietzsche, “não é próprio das
almas vulgares imaginar sempre mau um inimigo?”43
Ana amara Alberto, o jovem jardineiro. Dele só pôde
experimentar um único momento arrancado na calada da
noite, quando o surpreendeu após um encontro com Nina.
Ana beneficiou-se do que Nina ainda tinha deixado de de-
sejo no corpo de Alberto. Ana amara em Alberto, segundo
sua confissão, “a própria imagem da mocidade.”44 Desse
único encontro nascerá André, o filho que Ana nunca quis,
e que manteve como segredo só revelado em seu leito de
morte. Em Alberto Ana só desejava admirar sua mocidade
e liberdade e não uma descendência. A revelação de Ana
o autor reserva para o final do romance, quando nada mais
restou da casa, pois Valdo e André, após a morte de Nina,
sumiram no mundo sem nunca mais se encontrarem.
Cardoso instaura uma dúvida, por meio da confissão de
Ana, se Nina sabia ou não ser a mãe de André. O que Nina
realmente sabia era que André não era um Meneses, mas
filho de Alberto. Filho gerado por ambas, quem sabe em
uma mesma noite.
O suicídio de Alberto, esperado ansiosamente por Ana,
para que pudesse acusar Nina de tê-lo matado, provocou
em Ana um desmesurado arroubo de emoções, nunca
dantes experimentado. Ana se apodera do corpo de Alber-
to agonizante, corpo que nunca havia visto em sua nu-
dez, com arroubos de uma paixão desenfreada. Ana vai
compor junto ao cadáver de Alberto uma das imagens mais
fortes do sentimento de solidão.45 Alberto morrera no sofá
do porão do Pavilhão, que Nina mais tarde irá utilizar
para seus encontros amorosos com André. Ana jamais
perdoará Nina, não pelo seu incesto, ou seu amor, mas
por ter também se apropriado daqueles restos que guar-

174
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

dava para si como a prova do único instante que real-


mente existira.46
A experiência com o trágico, o desmesurado das forças
dionisíacas, para Ana, torna-se pesada demais, e se tra-
duz em pessimismo e desencantamento com a vida. Sua
perspectiva é de um peso insuportável quando enuncia: “o
fatal é a tendência da natureza humana para o abismo e a
desordem.”47 Sua vontade de nada constitui a outra face
da vontade de absoluto. A vida como tragédia exige uma
atitude de alegria com o encontro das forças desmesura-
das da vida, como um experimento que desafia os espíri-
tos inventivos e capazes de dançar sob o abismo. O artista
trágico, segundo Nietzsche, não pretende com sua arte,
“predispor contra a vida! Ele exclama, isto sim: ‘é o encanto
supremo, essa existência estimulante, cambiante, peri-
gosa, sombria e às vezes banhada de sol! É uma aventura
viver — tomem aí o partido que quiserem, ela sempre terá
esse caráter!’.”48 Invente, pois, uma arte que possibilite
tornar-se o artista da sua própria vida.
O pessimismo com o trágico no romance de Cardoso,
desdobrando-se em uma negação da vida e um desprezo
pela existência humana, é protagonizado por Ana de for-
ma dramática. Esse pessimismo revela uma existência
doente porque marcada pelo ressentimento, vingança e
descontentamento com as coisas do mundo, seguida de
uma incapacidade de invenção.

O inumano: a anarquia coroada


Timóteo é a mais fascinante produção artística de Car-
doso neste romance. O único traço de sua fisionomia que
o liga a uma identidade masculina é seu grande nariz.
Mas é também uma abertura para os múltiplos perfumes
que ativa seus impulsos para quebrar as grades de uma
prisão e romper os limites de uma única identidade. Ti-

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8
2005

móteo é a encarnação da tragédia como vontade de potên-


cia afirmativa da vida. Seu percurso explicita o grande
combate com o pessimismo trágico em relação à existên-
cia, represada na repetição de papeis fixos. O sim à vida
exige um grande não a essas formas que pretendem eter-
nizar uma existência dominada pelo poder das forças rea-
tivas de uma sociedade decadente.
Em sua trajetória Timóteo é a mais viva expressão do
jogo das forças em luta para afirmar a vontade de potên-
cia. Na produção de sua singularidade, Timóteo é o próprio
experimento vivo da necessidade de superação do huma-
no, como a jaula que aprisiona a existência a valores reli-
giosos e morais de verdade como medida de correção da
vida. A destruição dos Meneses para Timóteo, e com eles
tudo de humano e decadente que a sociedade representa,
tem um sentido de liberar as forças de criação. Tal pers-
pectiva é bem diferente de um pessimismo que desprovi-
do de esperança na melhora do homem, ou de qualquer
sentido para o sofrimento, ou da inevitabilidade da morte,
dispara as forças do ressentimento contra a vida como um
todo. Os Meneses estão mais próximos dessa última for-
ma. Desse modo é possível avaliar o tamanho do empre-
endimento de Timóteo.
Não se torna seu próprio legislador sem se cometer um
crime contra as leis de domínio comum de uma socieda-
de. Timóteo, dirigindo-se a Betty,49 expõe o drama das exis-
tências que desafiam às leis gerais do costume para afir-
mar sua diferença. Timóteo bem que tentou seguir um
caminho que o fizesse ser aceito pela sociedade, em suas
palavras, “apertava-me em gravatas, exercitava-me em
conversas banais, imaginava-me igual aos outros.”50 Mas
o impulso à diferença predominou sobre o da adaptação.
Em um gesto de transgressão e afronta aos modelos esta-
belecidos e tolerados, Timóteo passa a trajar-se com os

176
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

vestidos e jóias que se apoderara de sua falecida mãe e


maquiar seu rosto de forma exagerada.
A metamorfose de Timóteo é condenada ao limite do
seu quarto, só lhe é permitido uma liberdade de enjaula-
do. Seu gesto fora reduzido, segundo sua interpretação,
“na mania de um prisioneiro, e [suas] roupas, que deveri-
am constituir o [seu] triunfo, apenas adornam o sonho de
um homem condenado.”51 Os sentimentos de Timóteo são
recalcados em seu exílio forçado, e ele exprime a triste
condição de um homem sem poder expressar suas pai-
xões. Sua diferença recebe o tratamento que se dava aos
leprosos de exclusão e exílio, para a purificação da comu-
nidade. A exclusão do leproso simbolizava o desejo de uma
comunidade pura.52 André fôra proibido de entrar no quar-
to de Timóteo, com o argumento de tratar-se de uma mo-
léstia contagiosa. Nunca vira o tio que segundo lhe fize-
ram acreditar era um autêntico leproso.53 Esse também é
o sentimento que Timóteo experimentara quando pene-
trara na sala em que Nina se encontrava morta, pois as
pessoas se afastavam à medida que se aproximava como
se tratasse de uma doença horrível, de uma lepra.54
Timóteo é um autêntico simulacro, no sentido empre-
gado por Deleuze “uma imagem sem semelhança”55 que
subverte a ordem do modelo e suas cópias. Há no simula-
cro, segundo Deleuze, um devir-louco, um devir ilimita-
do”,56 por tratar-se não de uma variação do mesmo, mas
uma perspectiva diferencial esquiva ao que é igual, se-
melhante ou o Mesmo. Ao emergir, o simulacro destrói a
cópia e seu modelo para instaurar o caos que cria. O si-
mulacro “torna impossível a ordem das participações como
a fixidez da distribuição e a determinação da hierarquia.
Instaura o mundo das distribuições nômades e das anar-
quias coroadas.”57 Para Timóteo o sentido da destruição
dos Meneses é o de interceptar a reprodução do seme-
lhante, subvertendo aquele mundo de uma eterna repe-

177
8
2005

tição do mesmo, liberando os fluxos de criação. Timóteo


não representa um outro ponto de vista de uma mesma
história, mas de uma outra história que faz emergir a po-
tência recalcada do simulacro.
O cadáver de Nina descerrara a porta de sua prisão, diz
Timóteo.58 Era este o momento oportuno para ele fazer
sua aparição pública, pois em torno do cadáver de Nina
encontrava-se toda a sociedade local. Particularmente,
estava presente o barão, cuja visita Demétrio fizera, ao
longo de sua vida, seu principal objetivo, porque, para ele,
simbolizaria o prestígio da família Meneses. Foi um au-
têntico acontecimento sua entrada na sala, quebrando a
monótona repetição de uma cena inúmeras vezes repre-
sentada. Valdo descreve a brutalidade da surpresa que
causou a entrada de Timóteo em uma rede carregada por
negros trajando vestes que não continham a imensidão
de seu corpo que transbordava. Colares de pedras precio-
sas, topázios e esmeraldas, que pertenceram à sua mãe,
cobriam o seu pescoço e enormes braços; jóias que a famí-
lia desconhecia o paradeiro, e que Timóteo se apoderara
como o único herdeiro. Bem pior que sua entrada, segun-
do Valdo, foi quando desceu da rede revelando seu desco-
munal corpo, seu cabelo comprido, arranjado em duas tran-
ças endurecidas pelo mau cuidado ao longo do tempo. Foi
um insulto, segundo Valdo, àquelas pessoas que se en-
contravam na sala, pois afirma ele, “os homens suportam
uma certa dose de grotesco, mas até o momento que não
se sentem implicados nele.”59
Timóteo caminha em direção ao caixão de Nina e es-
palha sobre seu corpo violetas. Em seguida ele vira-se e
detém-se sobre a figura do Barão, aquele que “concen-
trava todo o sonho, toda a ambição e todo o respeito de
Demétrio.”60 A pessoa do Barão expressa o quão grotes-
cas são as figuras que servem de modelo. Ele era um
homem atacado por uma compulsão de comer que o trans-

178
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

figurava, traduzindo uma revolta de um corpo condenado


à prisão dos costumes. Girando seu olhar, Timóteo mira
André que ele não conhecia, e em um gesto inesperado e
incompreendido por Valdo, que descrevia a cena, esbofe-
teia o cadáver de Nina. Após o que “um som inumano,
rouco, partiu-lhe dos lábios, coroando todo o cerimonial
que levava a efeito diante de nós”, diz Valdo. Timóteo tom-
ba ao chão atacado por uma “apoplexia” e é retirado da
sala. Com ele saem todos que estavam na casa, e desmo-
rona a representação de uma família arruinada econômi-
ca, socialmente e nos valores que desejava perpetuar. É o
fim dos Meneses.
Por que Timóteo esbofeteara Nina? O que a visão de
André provocara nele?
A chegada de Nina à chácara foi desde o início pres-
sentida por Timóteo como um acontecimento que abala-
ria de vez aquela família que insistia em permanecer fiel
a sua identidade, avessa a qualquer mistura. Em toda co-
munidade que se pretende pura, os contágios são avas-
saladores. Timóteo e Nina constituíam aqueles seres aber-
tos aos encontros felizes, pois somente as diferenças se
parecem. Não há entre eles julgamento recíproco, porque
não possuem um modelo que sirva de medida. As diferen-
ças são inapreensíveis às identidades ou modelos.
Timóteo trancado em seu quarto e em meio à obscuri-
dade experimenta o movimento de suas forças em direção
à metamorfose de seu corpo. Seu aspecto feminino ia per-
dendo a soberania de uma grande dama para transfigu-
rar-se em um corpo descomunal trajando restos do que
fôra pomposos vestidos. Nina ao regressar após dezesseis
anos o descreve “como um rebotalho humano, decrépito e
enxundioso, que mal conseguia se mover e que atingira
esse grau extremo em que as semelhanças animais se
sobrepunham às humanas.”61 Timóteo lamenta a longa

179
8
2005

ausência de Nina, temendo por uma derrota em seu in-


tento em destruir os Meneses.
Os Meneses e Timóteo não configuram diferenças que
possam coexistir. Trata-se de um mau encontro, uma for-
ma de decomposição, em que as potências afirmativas e
as forças ativas são obstruídas de realizar sua diferença.
Timóteo atribui a proveniência das forças de decomposi-
ção que atinge seu corpo à ausência da febre da paixão. “A
castidade, eis o que me devorava”, diz ele a Nina. “Mãos
castas, carne mansa”, temia que nada mais “fizesse ar-
der o sangue, e era sobre esta ruína mole que os Meneses
erguiam o indestrutível império da mentira.”62
Nina fora para Timóteo, desde o primeiro instante, um
acontecimento, uma força ativa que irrompe afirmando
sua potência sobre tudo que insiste em perpetuar-se. Es-
ses seres, diz Timóteo, “em qualquer sentido não demo-
ram nunca.”63 Nina na perspectiva de Timóteo, “era um
ser infenso às classificações, às dosagens de verdade hu-
mana.”64 O espírito fugidio que a animava jamais se dei-
xara escravizar. Sua morte arrastara Timóteo para fora
de sua prisão, não para despedir-se dela, como ele mesmo
afirma, não há despedidas entre os seres como eles, pois
os encontros não podem significar permanência, mas de-
sejos de mutação.
Em seu diário de memórias Timóteo relata o momento
em que vira Alberto, o jardineiro. Em uma das manhãs,
no raro momento em que permitia uma pequena entrada
de luz em seu quarto, fora tocado no coração ao avistar um
jovem belo que o seduzira pela pureza, a embriagues de si
mesmo e pela existência como um deus pagão.65 Alberto
não conhecera Timóteo, e quando olhava em sua direção
era para a imagem de Nina cuja janela era ao lado da sua.
Todas as manhãs Alberto trazia um maço de violetas, a
flor predileta de Nina, para pôr em sua janela. Timóteo
estendendo seu braço pegava para si as violetas destina-

180
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

das a Nina. “A mocidade tem o cheiro bom das violetas”,66


afirma Timóteo, mais tarde, junto ao caixão de Nina.
Timóteo experimentara, segundo ele, em relação ao
amor, um movimento de ultraje a si próprio, pois era do
tipo “que não sabe viver sem exaltação.”67 Suas roupas ex-
travagantes, seu corpo descomunal, seu martírio e sofri-
mento não deixavam de expressar um modo de elevar-se
em relação aos que o rodeavam. Os fortes praticam a cru-
eldade até mesmo contra si, para testar suas forças. Ti-
móteo enjaulado em meio a uma sociedade domesticada,
não pôde expandir suas forças e afetos, voltando-as contra
si. Por isso que afirma: “as roupas grotescas com que me
cingi, menos que um acinte aos outros pareceram-me
armaduras de chumbo e morte.”68
Segundo Nietzsche, “em todas as situações que lhe fo-
rem difíceis e dolorosas você terá uma pequena porta para
a alegria e um refúgio, mesmo se as suas próprias pai-
xões o acometerem. Abra o seu olho de teatro, o terceiro
olho que olha para o mundo pelos outros dois!.”69 É esse
terceiro olho que Timóteo aciona para vencer não só a
prisão a que o relegaram, mas as pessoas que materiali-
zam uma sociedade que ele deseja destruir. Timóteo cria-
ra para si um personagem teatral para agir como um ex-
pectador-ator do espetáculo da seriedade da existência
encenada por aqueles que o cercam.
Timóteo diante daqueles que se afastavam com a sua
presença como se fôra uma doença contagiosa, ao entrar
na sala em que Nina jazia em seu caixão, se voga acima
do tempo e da verdade como inumana correnteza de im-
pulso.70 Como inumano Timóteo sobrevoa o ambiente ul-
trapassando uma “humanidade pequena, sofredora, mu-
rada em suas deficiências como um gado sem nenhuma
possibilidade de fuga. Nenhum sopro de poesia.”71
Como não sucumbir e atolar neste lodo que atormenta
as vidas entregues à repetição miúda do cotidiano? Timó-

181
8
2005

teo reclama por um milagre, um acontecimento que in-


terrompa o círculo vicioso de mortos-vivos. Eis que se
depara com o moço das violetas. André que Timóteo nun-
ca vira antes se apresenta aos seus olhos como se fora
Alberto. Timóteo assim se expressa: “a eternidade que eu
havia reclamado com tão grande força abriu-se ante mim
enquanto um abismo de música me engolia.”72 Eis a ale-
gria do trágico, deparar-se com o desmesurado da vida.
A música é a forma artística de pôr-se sob o abismo
das forças dionisíacas. Não se trata de um conhecimento
da vida, ou uma descoberta, pois nada tem a se desco-
brir, mas sim a inventar.
Timóteo esbofeteia o cadáver de Nina como um gesto
que finaliza seu pacto de destruição dos Meneses e tudo
que eles representavam: o trágico dos depreciadores da
existência. Diante da eternidade da vida que agora se abre,
somente importa afirmá-la. A vida se mostra com a visão
de André como um eterno devir sempre aberta ao recome-
ço. Os Meneses não deixam herdeiro, pois André não é
um Meneses, mas o filho do moço das violetas, o jardinei-
ro.
“De dias úmidos e turvos, da solidão, de palavras sem
amor que escutamos, nascem conclusões, à maneira de
cogumelos: surgem numa manhã, não sabemos de onde,
e olham para nós, cinzentos e ranzinzas. Ai do pensador
que não é o jardineiro, mas apenas o solo de suas plan-
tas!”73

Notas
1
Friedrich Nietzsche. Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Marco Antonio Casa Nova.
Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2000, p. 82.
2
Friedrich Nietzsche. A gaia ciência. Tradução de Alfredo Margarido. Lisboa, Gui-
marães Editores, 1996, § 370.

182
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

3
Friedrich Nietzsche. Fragmentos finais. Tradução de Flávio R. Kothe. Brasília/São
Paulo, Editora UnB e Imprensa Oficial do Estado, 2002, p. 153.
4
Friedrich Nietzsche. O nascimento da tragédia. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo,
Companhia das Letras, 1998, p. 132.
5
Idem, p. 132.
6
Ibidem, p. 32.
7
Friedrich Nietzsche, 2002, op. cit., p. 151.
8
Friedrich Nietzsche, 1998, op. cit., p. 28.
9
Idem, p. 40.
10
Ibidem, p. 36.
11
Ibidem, p. 36.
12
Ibidem, p. 37.
13
Ibidem, p. 68.
14
Ibidem, p. 31.
15
Ibidem, p. 47.
16
Friedrich Nietzsche, 2000, op. cit., p. 83.
17
Friedrich Nietzsche, 1998, op. cit., p. 69.
18
Idem, p. 142.
Gilles Deleuze. Nietzsche e a filosofia. Tradução de António M. Magalhães. Porto,
19

Editora Rés, s/d. p. 29.


20
Friedrich Nietzsche, 2002, op. cit., p. 152. Trata-se da concepção de trágico em
Schopenhauer, segundo Nietzsche. Schopenhauer é um típico representante do
pessimismo romântico alemão do século XIX. Para esse autor a tragédia seria a
prova do pessimismo grego transposto para a arte. A dor da existência provocaria
uma espécie de resignação diante da vida e um “apartar-se da vontade”.
21
Lúcio Cardoso. Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1999. Foi publicado pela primeira vez em 1959, seguindo-se várias edições, com
traduções para o espanhol e o francês. Foi adaptado para o cinema em um longa
metragem com roteiro e direção de Paulo César Sarraceni, em 1971.
22
Idem, p. 409.
23
Ibidem, p. 72.
24
Ibidem, p. 463.
25
Ibidem, p. 412.

183
8
2005

26
Ver Friedrich Nietzsche. Aurora. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo,
Companhia das Letras, 2004, § 77.
27
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., pp. 253-254.
28
Idem, p. 264.
29
Ibidem, p. 266.
30
Ibidem, p. 267.
31
Ibidem, p. 268.
32
Ibidem, p. 268.
33
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit., § 78.
34
Friedrich Nietzsche, 2000, op. cit, pp. 70-71.
35
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 270.
36
Idem, p. 270.
37
Ibidem, p. 271.
38
Ibidem, p. 271.
39
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit. § 570.
40
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 271.
41
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit., § 76.
42
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 303.
43
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit., § 76.
44
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 309.
45
Idem, p. 183.
46
Ibidem, p. 271.
47
Ibidem, p. 285.
48
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit., § 240.
49
Betty era uma governanta dos Meneses, a única da casa que estabelecia contato
com Timóteo, até a chegada de Nina.
50
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 56.
51
Idem, p. 56.
52
Michel Foucault. Vigiar e punir. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis,
Editora Vozes, 1998, p.164.

184
verve
Tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardoso

53
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 250.
54
Idem, p. 481.
55
Gilles Deleuze. “Platão e o simulacro” in Lógica do sentido. Tradução de Luiz
Roberto Salinas Fortes. São Paulo, Editora Perspectiva, 2000, p. 263.
56
Idem, p. 264.
57
Ibidem, p. 268.
58
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 468.
59
Idem, p. 474.
60
Ibidem, p. 477.
61
Ibidem, p. 204.
62
Ibidem, p. 205.
63
Ibidem, p. 463.
64
Ibidem, p. 483.
65
Ibidem, p. 482.
66
Ibidem, p. 482.
67
Ibidem, p. 482.
68
Ibidem, p. 481.
69
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit., § 509.
70
Lúcio Cardoso, 1999, op. cit., p. 481.
71
Idem, p. 484.
72
Ibidem, p. 485.
73
Friedrich Nietzsche, 2004, op. cit., § 382.

185
8
2005

RESUMO

O encontro da filosofia de Nietzsche com a literatura de Lúcio


Cardoso provoca o pensamento para a resistência às potências
negativas do pessimismo da moral e a liberação das potências
afirmadoras da vida. Só como fenômeno estético a vida se justifica.
Na analítica do trágico e da tragédia em Nietzsche e Lúcio Cardo-
so explicitam-se as forças em combate, produzindo inúmeros sen-
tidos e diferentes histórias.

Palavras-chave: Tragédia, Nietzsche, Lúcio Cardoso.

ABSTRACT

The encounter between Nietzsche's philosophy and Lúcio Cardoso's


literature provokes thought to resist the negative powers of moral
pessimism and the liberation of powers that affirm life. In the
analytics of the tragic and the tragedy in Nietzsche and Lúcio
Cardoso, forces of combat become explicit, producing several me-
anings and different histories.

Keywords: Tragedy, Nietzsche, Lúcio Cardoso.

Recebido para publicação em 16 de novembro de 2004 e confirma-


do em 7 de fevereiro de 2005.

186
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

amigos e personagens anarquistas de


eugene o’neill

pietro ferrua*

O assunto já foi tratado parcialmente em um artigo


meu,1 mas merece ser ampliado devido a preponderância
de várias pessoas na vida do autor norte-americano. Sur-
ge, de imediato, um problema metodológico: qual critério
adotar? A ordem cronológica seria interessante para o
estudo da evolução literária e política de sua obra, mas
não é fácil determinar em que momento todas as pessoas,
a seguir mencionadas, entraram no campo visual, na ima-
gem mental ou na intimidade de Eugene O’Neill. Sabe-
mos, sim, que quem “converteu” O’Neill ao anarquismo
foi Benjamin Tucker, mas não encontramos muitos tra-
ços da presença dele na obra teatral ou na vida particular
do autor. Por outra parte, quem o levou à livraria anar-
quista não teria já semeado o terreno? Seguir o princípio
da importância da pessoa também seria injusto: além da
inevitável subjetividade da escolha, é difícil determinar
uma relação entre o carinho que O’Neill tem para a pes-

* Professor emérito do Lewis Clark College, Portland, fundador do CIRA


(Centre International de Recherche sur l´Anarquisme), viveu no Brasil entre
1963 e 1969.
verve, 8: 187-212, 2005

187
8
2005

soa e o poder que a pessoa teve em sua imaginação. Isto


poderia ser até inversamente proporcional aos encontros
que ocorreram. O caso de Emma Goldman é típico: apesar
de ser uma grande inspiradora para O’Neill, ainda não foi
provado que eles tenham se encontrado pessoalmente,
mesmo tendo vários amigos em comum e de que a pre-
sença deles coincidiu temporariamente em Rochester,
New Jersey. Por via desta e outras dúvidas, e por não ter
tido acesso aos arquivos de ambos, resolvi adotar a esco-
lha da ordem alfabética dos nomes. Haverá muitos porme-
nores para guiar eventuais pesquisadores a estudar em
profundidade cada caso, pois cada um deles merece uma
tese. Digamos também, de antemão, que a lista não con-
tém todos os anarquistas com quem O’Neill lidou, porém
certamente aqueles que tiveram alguma influência par-
ticular.

Stella Ballantine Cominsky, 1886-1961


Esposa de um conhecido ator teatral, se distinguiu
nas primeiras peças de O’Neill estreadas na época do
Provincetown Theater, em Rochester. Era também irmã
de Saxe Commins (nome adaptado de Cominsky), dati-
lógrafo, editor e amigo fiel até a morte. Filha de Lena
Cominsky, irmã de Emma Goldman. Stella foi a sobri-
nha preferida de Emma, e quem conservou as cartas
que a tia lhe escrevia desde a prisão, nos Estados Uni-
dos, e mais tarde desde a União Soviética, o que per-
mitiu que Emma Goldman, anos depois, escrevesse as
próprias memórias.2 A afeição entre tia e sobrinha era
extraordinária. Emma escreve: “A mais radiante dos
quatro [ filhos de Lena ] era a pequena Stella, que foi
sempre meu raio de sol na cinza Rochester.”3 Stella
começou a se corresponder com “Tante Emma” com a ida-
de de sete anos. Tinha uma grande admiração pela tia,
que seria confirmada pelos fatos quando, por exemplo, foi

188
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

interrogada pela polícia sobre a perigosa tia subversiva.


Mais tarde Stella viveria com ela, em Nova Iorque, dizen-
do-lhe ter sido o sonho de toda sua vida. Além de ajudar a
tia na redação da revista Mother Earth, Stella tornou-se,
ela mesma, propagandista. Em algumas oportunidades co-
meça a tomar a palavra em público, como na campanha
contra o serviço militar, em 4 de julho de 1917, dia da
festa nacional norte-americana. Basta dizer que no testa-
mento Emma deixa sua coleção de livros, bem como sua
fazenda de Ossining, para Stella. Enquando Emma encon-
tra-se presa, Stella lança o Mother Earth Bulletin em sua
defesa.
Mas qual é a relação entre a devoção total de Stella por
Emma e sua amizade e influência sobre Eugene O’Neill?
Há muitas menções de Stella na correspondência de
O’Neill com sua segunda mulher e com o amigo Saxe, ir-
mão de Stella. Minha hipótese de trabalho é que a própria
Stella, coadjuvada mais tarde pelo irmão Saxe, serviu de
intermediária entre O’Neill e Emma Goldman, pois, ape-
sar da enorme influência que Emma teve em sua obra
teatral, por trás das personagens de Olga Tamiroff, na peça
The Personal Equation, de Rosa Parritt, em The Iceman Co-
meth e de Rosa ou Francina Daniello, em The Visit of Mala-
testa, ninguém chegou a provar que eles jamais tivessem
se encontrado, apesar de saberem um do outro e de coin-
cidirem em Rochester alguma vez.4 Considera-se que seu
irmão Saxe, também íntimo do escritor, tenha-o informa-
do sobre muitos acontecimentos, bem como Hippolyte Ha-
vel, que foi companheiro de vida de Emma durante algum
tempo, mas, pela proximidade em Rochester e os contatos
regulares, é lógico suspeitar que muitas confidências fo-
ram veiculadas por Stella. Há alguns fatos que são narra-
dos nas memórias de Emma, Living my Life. Entretanto, o
livro foi publicado muito depois destes fatos serem relata-
dos nas peças de O’Neill, como é o caso da travessia do
Atlântico de uma companheira anarquista fantasiada de

189
8
2005

marinheiro, Mollie Steimer, e da história de Gertie Vose,


mãe de um delator.
Agnes Boulton, segunda esposa de O’Neill, freqüentava
quase exclusivamente Stella Ballantine e Terry Carlin
quando seu marido viajava para as grandes cidades, e es-
sas separações, às vezes, duravam semanas. Com eles
falava durante horas e aprendia coisas que depois conta-
va pessoalmente ao marido e, talvez, na correspondência
diária que mantinham entre Rochester e Nova Iorque.

Alexandre Berkman, 1870-1936


Há um único encontro documentado entre Berkman e
O’Neill, e foram encontradas apenas três cartas de O’Neill
a “Sasha”. Seu conteúdo, porém, é suficiente para confir-
mar a admiração mútua.5 Estas três cartas estão publica-
das e tratam da tradução ao russo de algumas peças de
O’Neill. Há também o comentário de que os russos teriam
“roubado” três peças, sem que O’Neill reagisse, e ele igual-
mente nota, com ironia, que na União Soviética é consi-
derado um escritor proletário. O escritor russo que inter-
veio por O’Neill não é qualquer um, mas nada menos que
Anatoly Lunatcharsky, então Ministro da Cultura. O’Neill
pediu a Berkman que traduzisse ao russo sua peça Laza-
rus Laughed . Uma das outras peças “roubadas” seria The
Hairy Ape, patrocinada nos Estados Unidos pela IWW. Su-
põe-se que a terceira peça fosse The Personal Equation,
que trata de greves e discute estratégias políticas das vá-
rias esquerdas: a parlamentar, a reformista, a revolucio-
nária. O’Neill, por demais, é um dos poucos intelectuais
da esquerda norte-americana que sempre soube qual era
a distinção entre as ideologias contrastantes da esquer-
da, por ter sido amigo de John Reed e de Louise Bryant, e
ter lido relatos de Alexandre Berkman e Emma Goldman
sobre a deriva autoritária da República dos Conselhos.

190
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

Na carta de 29 de janeiro de 1922,6 além de sublinhar


que está imensamente grato por Berkman aceitar fazer a
tradução, rememora o único encontro deles uns anos atrás:
“Sim, faz muito tempo desde aquela noite em Romany
Marie.7 Mas eu tenho certeza que você não se lembra
de mim mais do que eu de você. Tenho uma nítida ima-
gem na minha cabeça desse dia. Eu tinha uma profun-
da admiração por você durante anos e aquele encontro
foi a realização de um desejo inesperado. E com relação
à minha fama (Deus nos salve) e sua infâmia, eu troca-
ria boa parte da minha por um pouco da sua. Não é tão
difícil escrever o que se sente como verdade. O difícil é
viver isso!”8
Trata-se de um depoimento, certamente sincero, de
um intelectual que já tinha se identificado como anar-
quista por meio da escrita sem, entretanto, nunca ter
tido a coragem ou a iniciativa de recorrer ao tipo extremo
de ação direta pela qual Berkman foi perseguido, não só
pela justiça, mas também por aqueles anarquistas que
achavam contraproducente o estilo de ação que ele prati-
cava. Evidentemente, O’Neill não compartilhava deste pre-
conceito.

Terry Carlin (Terence O’Corolan), 1855-19339


Pouco se sabe da vida deste irlandês, companheiro de
bebedeira de Eugene O’Neill. Não deixou nenhum traço de
existência nas crônicas judiciais — raros são os anarquis-
tas que não tiveram nenhum processo ou não conhece-
ram a prisão — nem nos anais literários. Portanto, bem
antes de inspirar um dos personagens mais importantes
do teatro de O’Neill, Larry Slade, em The Iceman Cometh, já
tinha sido personagem literário de Mable Dodge, e prota-
gonista de um romance de outro escritor anarquista co-
nhecido, Hutchins Hapgood, em The Anarchist Woman. Ao

191
8
2005

que se sabe Terry não escreveu nenhum livro nem reali-


zou nenhum gesto extraordinário. Há somente menção a
uma palestra no Ferrer Center de Nova Iorque, na sede em
que morou durante algum tempo, e a algumas colabora-
ções para os jornais de Tucker e de Havel.10 Houve, po-
rém, quem chegou a dizer que Terry foi quem mais influ-
enciou O’Neill nas suas escolhas políticas, filosóficas e
estéticas.11
O’Neill não só o celebrou como personagem, mas tam-
bém demonstrou sua gratidão de maneira concreta. Junto
com Hapgood e a própria irmã de Carlin, proveu durante
anos a subsistência do velho amigo. Além de várias tes-
temunhas disso, temos também um comprovante legal,
uma carta que o escritor mandou a seu advogado, Harry
Weinberg, que foi também advogado de Emma Goldman e
de muitos anarquistas norte-americanos. Na carta,
O’Neill expressa sua decisão de aumentar a pensão men-
sal que estava encarregado de pagar a Terry com o dinhei-
ro da cobrança de seus direitos autorais. Datada de 11 de
junho de 1933,12 eis seu conteúdo parcial: “Por mim tudo
bem os 15 a mais para o Terry. Tenho pensado muito
nele. O ideal para ele — cá entre nós, pelo que sei ele
ficaria ofendido com a sugestão — seria uma casa —
não caridade, mas um lugar decente que eu pudesse
pagar um valor razoável e saberia que ele estaria sendo
bem cuidado...”13
Terry trabalhou, quando jovem, como curtidor de pe-
les, e foi também inventor. Certo dia brigou com seu
chefe e nunca mais quis trabalhar. Tornou-se um pa-
rasita social, talvez genial, como o foram o “Nouveau de
Rameau”, de Diderot e o “Nouveau de Wittgenstein”, de
Thomas Bernhard. A intuição de Carlin consistiu so-
bretudo em entrever o gênio de O’Neill, inspirá-lo e em-
purrá-lo a superar-se a si mesmo. As conversas nietzs-
chianas, antes, durante e depois de farras interminá-

192
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

veis, formarão parte dos diálogos de The Iceman Cometh


e de outras peças também.
Na correspondência entre Agnes Boulton e O’Neill, du-
rante suas ausências periódicas de Rochester, há inú-
meras menções a Terry Carlin: veio ler os jornais, brin-
cou com a criança, acompanhou-a em festas, aconselhou
isso e aquilo. Terry viveu num quarto de despejo que a
família O’Neill lhe forneceu, comia com eles, comparti-
lhava tudo. Se às vezes atrapalhava ou impedia a intimi-
dade do casal, as queixas eram passageiras e jamais hou-
ve uma briga. O que ficou dele nas lembranças de quem o
conheceu e teceu algum comentário, foi a grande capaci-
dade de beber, mas também a grande disponibilidade e a
insistência com a qual empurrava O’Neill para que escre-
vesse, publicasse, se impusesse. Foi Carlin quem levou
O’Neill à casa de Hutchins Hapgood, primeiro leitor em
voz alta das peças do futuro Prêmio Pulitzer. Nesta casa
nasceu o Provincetown Theater, que no começo se chama-
va Wharfhouse Theater.
Na peça The Iceman Cometh, transformado em Larry Sla-
de, Terry Carlin se impõe até o fim com sua forte persona-
lidade. Sua figura domina a peça com seu cinismo, seu
egoísmo, sua brutalidade de linguagem e de pensamento,
mas também com sua lucidez e sua inteligência. Foi as-
sim que o autor criou uma das personagens mais podero-
sas de sua obra.

Saxe Commins (pseudônimo de Isidore Cominsky),


1891-1958
Irmão de Stella Ballantine e sobrinho de Emma
Goldman, entrou na vida de O’Neill como dentista. Não
somente o tratou sem cobrar por isso, como também o
hospedou durante duas semanas em sua casa, onde co-
nheceu toda a família, da qual conservou uma lembran-

193
8
2005

ça imperecível. Estrearam juntos as primeiras peças


em Rochester, no Provincetown Theater. Saxe se tor-
naria seu grande amigo e confidente. Foi também seu
editor, na Random House, onde também cuidou de au-
tores famosos, como William Faulkner, W.H. Auden,
Isaak Dinesen (Karen Blixen), Sinclair Lewis, Irvin
Shaw. Também lecionou na prestigiosa Columbia Uni-
versity, onde se tornou amigo de Albert Einstein.
Não foi só o sobrinho predileto de Emma Goldman,
mas também, durante algum tempo, redator de The Mo-
ther Earth. Quando O’Neill, nas vésperas da Segunda
Guerra Mundial, começou a escrever The Visit of Mala-
testa, foi a Saxe a quem se dirigiu para que lhe procu-
rasse velhas publicações anarquistas, para documen-
tação, pois sua coleção ficara nas Bermudas, aonde não
retornara depois da separação de Agnes Boulton, sem
nunca recuperá-la.
Os dois amigos se afastaram devido a um desenten-
dimento de Saxe com a terceira esposa de Eugene, Car-
lotta Monterey. O’Neill era psicologicamente dependen-
te dela, e Carlotta aproveitou o fato para isolá-lo sempre
mais, até afastá-lo dos amigos de juventude, segundo
ela todos anarquistas e parasitas.
A viúva de Saxe, Dorothy Commins, pianista e escri-
tora, reuniu parte da correspondência trocada entre os
dois amigos, o que resultou no livro Love and Admiration
and Respect. Este título derivou da dedicatória que O’Neill
lhe autografou na cópia da peça The Iceman Cometh, quan-
do foi publicada.
Cabe lembrar que o próprio Saxe datilografou o ma-
nuscrito e pediu à esposa que compusesse a música de
cena para a estréia.
Quem tentou salvar O’Neill das garras de Carlotta Mon-
terey, enloquecida no fim da vida, foi o casal Commins.

194
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

Foi a eles que O’Neill se dirigiu quando precisou de ajuda.


Foram eles que cuidaram de sua saúde, de seus negócios
e até de explicar para Oona O’Neill Chaplin que Carlotta
era culpada de esconder suas cartas ao pai e de destruir
muito da correspondência vinda dos amigos do passado.
Carlotta escondera também a correspondência de Eugene
Jr., filho do primeiro casamento de O’Neill, fato que preci-
pitou uma tragédia, pois Eugene Jr. pedira a O’Neill que o
ajudasse a pagar uma prestação de hipoteca e nunca ob-
teve resposta, o que o levou ao suicídio.
Em outro livro14 Dorothy prova que O’Neill foi ligado
durante toda sua vida a Saxe, não só por gratidão, mas
por profunda amizade. Eis dois trechos significativos:
“Tenha certeza e venha! Vê-lo outra vez valeria mais
que um oceano de remédios.”15 e, em 2 de março de 1941:
“Venha se puder. Será um ato de caridade, seria um
favor para nós tê-lo aqui.”16 O último encontro documen-
tado entre Saxe, Dorothy e Eugene aconteceu em 16 de
maio de 1951, depois do afastamento provocado por Car-
lotta, e pouco antes da morte de Saxe.

Dorothy Day, 1897-1980


Nos anos da vida boêmia em Nova Iorque, Dorothy e
Eugene faziam parte do mesmo grupo de farristas e no-
tívagos. Algumas fontes17 reportam que Eugene estava
apaixonado por ela, outras,18 que teria sido ela quem
tentara seduzi-lo. Dorothy escreve que ele a cortejou e
ela o recusou.19 Ao que parece, nunca houve uma rela-
ção sexual entre eles, mas resta a possibilidade de um
amor “platônico” e a certeza de uma grande amizade e
estima mútuas. Passaram várias noites no mesmo quar-
to e até na mesma cama, vestidos, com ou sem teste-
munhas, e, invariavelmente, ambos bêbados.

195
8
2005

Dorothy acabou vivendo com outro anarquista, Fors-


ter Betterham, com quem teve uma filha. Mantiveram
uma união livre, até Dorothy converter-se ao catolicis-
mo. Uma forma particular de catolicismo, embebida de
anarquismo, cujas origens filosóficas se encontram no
pensamento de Emmanuel Mounier, teórico do perso-
nalismo e diretor da revista francesa Esprit. O mediador
foi Peter Maurin (Pierre Maurin), fundador, com ela, do
movimento conhecido como Catholic Worker. Estranha
combinação entre catolicismo e anarquismo,20 este mo-
vimento, que ainda continua ativo apesar do falecimento
de seus fundadores, publica um jornal mensal no qual
coexistem retratos de santos ao lado de retratos de Sac-
co e Vanzetti e de Kropotkin. Compreende também uma
rede de “Casas de Hospitalidade”, onde qualquer um —
vagabundos, desempregados, foragidos, prostitutas, dro-
gados — que precise de um banho, um prato de sopa,
uma cama ou uma palavra de conforto, é bem-vindo. Os
membros do movimento, entre os quais padres e freiras
que se definem anarquistas, vivem pobremente, em
comunidade e recusam o pagamento de impostos, a
prestação do serviço militar e a obediência ao Estado.
Paradoxalmente, alguns biógrafos atribuem a conver-
são de Dorothy Day, do anarquismo ateu ao anarquismo
católico, à leitura pública e inspirada que Eugene O’Neill,
ateu militante que, entretanto, escreveu várias peças
de conteúdo religioso, fez do poema The Hound of Haven,
de Francis Thompson. Dorothy Day escreveu e publicou
vários livros de memórias, e em cada um lembra sua
amizade com o dramaturgo. Inclusive revela que Eugene
O’Neill, Max Bodenheim e ela escreveram juntos um po-
ema em 1918, no Jimmy Wallace’s Saloon, que foi destru-
ído num incêndio. Acontecimento interessante, pois an-
terior ao mesmo jogo conhecido como le cadavre exquis,
praticado pelos surrealistas franceses a partir de 1924.

196
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

Mabel Dodge, 1879-1962


Mabel nasceu Ganson, tornou-se Evans com o primei-
ro casamento, Dodge em 1905. Com o terceiro marido pas-
sou a se chamar Sterne e, em 1923, após o quarto casa-
mento, Lujan. O nome foi modificado para Luhan, e hoje,
nos anais literários e nos livros de referência, é mais co-
nhecida com o nome composto de Mabel Dodge-Luhan.
No meio anarquista tornou-se conhecida graças ao sa-
lão literário que abriu no Greenwich Village de Nova Ior-
que, por volta de 1912. Nas reuniões semanais das quar-
tas-feiras estão geralmente presentes Margaret Sanger,
Hutchins Hapgood e Emma Goldman, entre outros. Mabel
organiza grandes manifestações de protesto por razões sin-
dicais — a famosa greve de Paterson de 1913 —, mas tam-
bém está interessada nas vanguardas artísticas, e apóia o
Armory Show, que teve uma repercussão enorme na cul-
tura norte-americana do começo do século XX. Em 1913
dedica o poema My beloved ao anarquista Hutchins Ha-
pgood, e Emma Goldman o publica em sua revista Mother
Earth.
Eugene O’Neill conheceu e freqüentou Mabel quando
era a companheira de John Reed, antes deste se tornar
amante de Louise Bryant, com quem Reed mais tarde se
casaria, e com quem O’Neill teve um romance.
Mabel Dodge foi provavelmente apresentada a Eugene
O’Neill por Terry Carlin, que ela adorava, e a respeito de
quem também escreveu em seus livros. Em Rochester,
fazia parte do grupo que animava o Provincetown Theater,
onde peças de Saxe Commins, de O’Neill, de Hapgood, dela
mesma e de outros foram estreadas.
Intelectual aclamada, tornou-se personagem literária
de vários autores, dos quais o mais importante foi D.H.
Lawrence, que a introduziu no The Plumed Serpent e em
St.Maurant. The Man who Died. Carl van Vechten também

197
8
2005

a retratou no romance Peter Whiffle: His Life and Works, no


qual se transforma na personagem de Edith Dale. Mabel
alimentou também a figura de Mary Kettridge, no roman-
ce Venture, de Max Eastman. Enfim, Jacques-Emile Blan-
che a apresenta como Giselle, no romance Aymeris, e o
mesmo autor, também pintor, fez um retrato seu em 1911.
Dela há vários retratos artísticos fotográficos, como o de
Gertrude Stein.
No acervo da Biblioteca Beinecke, da Universidade de
Yale, encontram-se onze cartas de Alexandre Berkman,
cinco de Emma Goldman, 278 escritas por Hutchins Ha-
pgood e sua esposa, Neith Boyce, mas, infelizmente, só
duas de Eugene O’Neill. A coleção não é completa devido
ao ciúme retrospectivo de um dos maridos de Mabel, Ster-
ne, que queimou a maior parte de sua correspondência,
sempre que fosse de proveniência masculina “suspeita”.
Eugene O’Neill, depois de se casar com Agnes Boulton,
foi viver na casa que pertencera a Mabel Dodge, e que o
pai de O’Neill, ator famoso, comprou para o filho e sua fa-
mília. As relações entre Mabel Dodge e O’Neill parecem
ter enfraquecido quando ela saiu de Rochester e se esta-
beleceu no Novo México, interessando-se por tradições
dos indígenas norte-americanos. Então também O’Neill
parte para as Bermudas, suas atividades teatrais se mul-
tiplicam e ele se isola sempre mais.

Christine Ell (Hovden) (Lewis)21


Talvez devido a sua infância infeliz — durante a qual
foi explorada, maltratada e seduzida —, sabe-se pouco da
vida de Christine. Ao chegar aos Estados Unidos, há quem
diga que trabalhou nos campos, ou quem diga que viveu
entre as prostitutas. Estava à beira do desespero quando,
em Denver, foi escutar uma palestra de Emma Goldman
que a deixou entusiasmada. Apresentou-se à conferen-

198
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

cista e contou-lhe a própria vida. Além de lhe explicar o


anarquismo, Emma ensinou-lhe também algo sobre a dig-
nidade de ser mulher. Emma convidou-a a se estabelecer
em Nova Iorque, onde não só Christine se reerguera, como
também encontrara logo trabalho, no restaurante de Polly
Holliday, como cozinheira. Logo tornou-se gerente de um
restaurante que George Cram Cook, muito ligado a O’Neill,
abrira no segundo andar do Provincetown Playhouse. Foi ali
que Eugene encontrou Christine, primeiro como freguês,
depois como amigo e até admirador — chegou a chamá-la
de “Cristo fêmea”. Quem também admirava Christine era
Charlie Chaplin, freqüentador dos mesmos locais, que
achava que ela tinha grandes qualidades mímicas.
O’Neill a imortalizou na personagem de Anna Christo-
pherson, dita Anna Christine, que teve um enorme su-
cesso teatral e também cinematográfico. Segundo um bi-
ógrafo,22 ela também inspirou as personagens de Josie
Hogan, em A Moon for the Misbegotten e de Cybel, em The
Great Good Brown. O’Neill teve um breve caso com Chris-
tine, que o apresentou a Agnes Boulton, com quem veio a
se casar depois de seis meses.

Mary Eleanor Fitzgerald, “Fitzi”, 1877-1955


Eugene tinha uma grande confiança na capacidade
artística e organizativa desta conhecida militante anar-
quista quando ela assumiu a responsabilidade do Pro-
vincetown Theater, em Rochester. Fitzi foi companheira
de vida de Alexandre Berkman, administradora de Mo-
ther Earth, amiga, correspondente e confidente de Emma
Goldman. Nos arquivos de Fitzi, depositados na bibliote-
ca da Universidade de Wisconsin, em Madison, encon-
tram-se numerosas cartas de Emma Goldman, Ben Reit-
man, Alexandre Berkman, Eugene O’Neill, bem como
os programas do grupo teatral da Provincetown Playhou-

199
8
2005

se, dirigido por William Cram Cook. Fitzi e Stella Ballan-


tine conservaram cuidadosamente todas as cartas que
Emma Goldman lhes escrevia desde a prisão nos Esta-
dos Unidos, ou desde a Rússia, depois da expulsão de-
cretada pelas autoridades norte-americanas. Isto per-
mitiu que Fitzi escrevesse suas memórias, o que aca-
bou de fazer em Saint-Tropez, em 1931.
Fitzi foi também co-editora do jornal anarquista The
Blast, lançado em San Francisco por Berkman. Depois
que a publicação foi proibida, Fitzi volta a Nova Iorque,
onde participa ativamente na Liga contra a conscrição
para a guerra e, logo em seguida, é nomeada secretária
da Liga para a anistia, em favor dos presos políticos.
Quando começa a trabalhar para a companhia tea-
tral de Rochester, ainda participa ativamente na cam-
panha para salvar Bill Mooney da cadeira elétrica.
Fitzi teria gostado de visitar Alexandre Berkman e
Emma Goldman na União Soviética, mas as autorida-
des norte-americanas lhe recusaram o passaporte.
Quando finalmente o obtém, eles já estão exilados. O
encontro acontece então em Londres, para onde Fitzi
levou a peça de O’Neill, Emperor Jones, com o ator ne-
gro Paul Robeson como protagonista. Grande organi-
zadora em qualquer empreendimento, Fitzi contribui
muito para a divulgação do teatro de O’Neill. Quando
ele não queria assistir aos ensaios de suas peças, de-
legava a ela tomar todas as decisões. Essa bela e gran-
de amizade acabou quando O’Neill se casou com Car-
lotta, pois Fitzi, sendo muito amiga da abandonada
Agnes, não mandou votos na ocasião desse seu ter-
ceiro casamento. Muitos anos depois, porém, quando
Fitzi ficou hospitalizada, telefonou para O’Neill, pedin-
do-lhe ajuda para financiar uma operação, e ele en-

200
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

viou imediatamente um cheque para cobrir as despe-


sas.

Emma Goldman, 1869-1940


Até hoje não encontrei nenhuma prova de relações
pessoais entre Emma Goldman e O’Neill, apesar de
terem coincidido algumas vezes nos mesmos lugares,
por exemplo, na cidade de Rochester, onde residiam
as irmãs de Emma com toda a família. Sabemos, po-
rém, que O’Neill conhecia a obra escrita de Emma,
que ela publicou uma poesia dele na revista Mother
Earth, e também que Emma fez palestras sobre o tea-
tro de Eugene.
O’Neill estava a par de tudo o que se dizia a respei-
to de Emma, por intermédio de Stella Ballantine, Mary
Eleanor Fitzgerald, Hippolyte Havel, Saxe Commins e
alguns outros que a freqüentavam assiduamente.
Emma inspirou a O’Neill três dos retratos femini-
nos mais empolgantes de sua obra. O distanciamento
criou, porém, uma idealização da revolucionária rus-
sa. O’Neill construiu o mito da mulher anarquista que
nem sempre corresponde nem à vida nem ao pensa-
mento de Goldman. Na primeira das três peças anar-
quistas que O’Neill concebeu, The Personal Equation,
a personagem de Olga Tamiroff representa só em par-
te a personalidade da anarquista admirada pelo au-
tor. Há, por exemplo, uma mistura de acontecimen-
tos: Olga que se fantasia de marinheiro para poder
viajar com a tripulação de um navio, poderia ter sido
inspirada por um acontecimento autêntico, mas que
ocorreu não com Emma Goldman e sim com Mollie
Steimer, também judia, russa e anarquista, mas bem
mais jovem. Emma teve tempo de conhecê-la e de ad-
mirá-la, e fala dela em suas memórias. O’Neill já ti-

201
8
2005

nha escrito a peça quando foi publicado Living My Life,


mas, como disse acima, não faltavam intermediários,
amigos comuns anarquistas que mantivessem o dra-
maturgo em dia sobre o que acontecia nos bastidores do
movimento anarquista de Nova Iorque.
A mãe de Don Parritt, no The Iceman Cometh, tampou-
co corresponde à figura de Goldman. Gertie Vose,23 que
a inspirou, foi, sim, uma anarquista conhecida naquele
tempo, mas Emma a denunciou abertamente como “trai-
dora”, por ter permitido que o filho se insinuasse nos
ambientes anarquistas de Nova Iorque, a serviço da po-
lícia, para ajudar a justiça a prender dois companheiros
foragidos, suspeitos de terem ajudado os irmãos McNa-
mara a cumprir um atentado contra a sede do Los Ange-
les Times.
Finalmente, na peça nunca concluída, The Visit of
Malatesta, há também uma personagem que tem traços
de Emma Goldman, porém muitos outros que em nada
se aproximam dela...
Minha conclusão é que O’Neill, que conheceu mui-
tas mulheres anarquistas, fundiu as qualidades de to-
das e criou uma figura arquetípica, que toma algo da
realidade para fabricar um mito que a supera e que,
graças a seu gênio artístico, se sobrepõe a ela. Nas no-
tas e cadernos de O’Neill encontram-se as abreviações
“E.G.”. É uma pista que deve ser seguida, e pelo menos
um autor a examinou em profundidade, antes de mim,
pesquisando o assunto para uma tese de doutorado, pu-
blicada por Virgínia Floyd.24 A tese também conclui que:
a) E. G. não pode ser senão Emma Goldman; b) não há
prova de que os dois autores tenham se encontrado na
vida real, e c) Goldman não foi senão a maior fonte de
inspiração.

202
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

Hutchins Hapgood, 1869 - 1944


Anarquista tostoiano muito ligado a O’Neill. Compar-
tilharam amizade e admiração pelo anarco-individualis-
ta stirneriano irlandês Terry Carlin, e constituíram um
fundo comum para ajudá-lo financeiramente até a mor-
te, com contribuições de três pessoas, que se saiba: a
irmã de Carlin, Hapgood e O’Neill. Hapgood foi muito de-
terminante para a carreira teatral do futuro Prêmio No-
bel. De fato, foi na casa dos Hapgood em Rochester que
nasceu a companhia do Provincetown Theater, que no iní-
cio se chamava Wharfhouse Theater. Esse grupo contava
com a adesão, entre outros, de Neith Boyce, George Cram
Cook, Susan Gaspell, John Reed, e foi o próprio Hapgood
quem leu em voz alta a primeira peça de O’Neill, a pedido
de Terry Carlin, que se gabava de conhecer alguém que
tinha uma mala cheia de manuscritos de peças inéditas.
Hutchins Hapgood já tinha escolhido a figura de Ter-
ry como personagem importante de seu romance An
Anarchist Woman, e confiou no julgamento de Carlin.
Assim nasceu a fama de O’Neill, que muito rapidamen-
te superou à dos outros membros do grupo teatral. Em
poucos anos, a companhia foi de Rochester para a gran-
de metrópole e do Provincetown para o Greenwich Villa-
ge, de onde, para chegar à Broadway, bastava só um
passo, que foi velozmente cumprido. O’Neill não tardou
a ganhar uma série de prêmios Pulitzer e se impôs na
vida artística e intelectual do país como o dramaturgo
mais original do teatro norte-americano.
Hutchins Hapgood foi muito ativo na comunidade
anarquista de origem hebraica, no movimento anar-
co-sindicalista e na Associação Francisco Ferrer. Co-
laborou nas causas de Emma Goldman, e inclusive se
desligou do Clube Liberal, porque seu diretório não que-
ria aceitar a revolucionária russa entre seus mem-
bros.

203
8
2005

De Nova Iorque, O’Neill escreveu em uma carta a


sua segunda mulher, Agnes Boulton, em 12 de janeiro
de 1911: “Aprendi a gostar de Hutchins. Ele é ótimo.”25
Além de se encontrarem amiúde em Rochester, Ha-
pgood e O’Neill freqüentavam os mesmos locais em Nova
Iorque — Hell Hole, Polly’s, Romany Marie —, e os mes-
mos amigos — Terry Carlin, Hippolyte Havel, Christine
Ell, entre outros. Teria sido Hutchins quem mandara o
dinheiro da viagem de volta para Terry Carlin, quando
este se encontrava na Inglaterra, e que o apresentou a
O’Neill.
No livro A Victorian in the Modern World, encontram-
se várias fotografias de Hapgood com Hippolyte Havel,
com Carlin e uma com O’Neill — e seu filho Shane —,
com John Reed e com Ernest Hemingway. Além dos dois
títulos já mencionados, Hapgood escreveu e publicou
outros livros: The Spirit of the Ghetto, Types from City Stre-
ets, The Autobiography of a Thief, The Spirit of Labor, Fire
and Revolution, The Story of a Lover etc. Foi também cola-
borador do semanário anarquista Freie Arbeiter Stimme
— um jornal em idish com difusão de 7.000 cópias, que
circulou por quase um século — e da publicação mensal
Freigesellschaft.

Hippolyte Havel, 1871 - 1950


Anarquista checo, que Emma Goldman conheceu em
Paris e por quem ela se apaixonou. Foi ela que o trouxe
aos Estados Unidos. Já ativo na Europa, com uma longa
história de processos, continuou militando no movimen-
to norte-americano como colaborador das publicações
existentes — Mother Earth, Open Vistas, Man!, Freedom
—, ou como fundador de algumas, tais como: Revolutio-
nary Almanac, Social War, Free Society, Anarchist Soviet
Bulletin etc. Editou obras de Emma Goldman, Voltairine

204
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

de Cleyre, Errico Malatesta, Bakunin etc. Fez parte da


seção americana da Comissão Internacional de Rela-
ções Anarquistas. Ocupou-se da Labadie Collection, fun-
dada por Agnes Ingles e arquivada na biblioteca de pes-
quisas da Universidade de Michigan, em Ann Arbor. Ali
há notas autográficas que comentam suas visitas em
1929, e duas cartas — de 20 de outubro de 1935 e de 5
de abril de 1943 — de Agnes Ingles para Havel, pedindo-
lhe informações biográficas.
O que se sabe de Havel não corresponde necessaria-
mente ao retrato que dele traça O’Neill em The Iceman
Cometh. Porém, em primeiro lugar, uma peça teatral ou
uma obra literária não podem ser consideradas documen-
tos históricos fiáveis e, em segundo lugar, as pessoas
mudam. O Hugo Kalman da peça talvez se assemelhe ao
Havel de 1913 a 1916, quando o autor freqüentava o as-
sim dito Hell Hole. Que Havel bebia demais, na época, é
conhecido. Os biógrafos de O’Neill relatam uma conversa
entre ele e Dorothy Day a propósito de Havel, que ela jul-
ga ser um parasita e um vagabundo. O’Neill o defende, e
não é o único. O escritor Theodore Dreiser é da opinião
de que uma pessoa como Havel teria que ser ajudada
pela comunidade devido à impossibilidade de defender a
si mesmo. Fotografias da época mostram Havel junto a
Hapgood, a Hemingway, a O’Neill, vestido limpamente,
ativo, normal, e não caricatural, como na peça. A conclu-
são poderia ser que O’Neill o acolheu no auge de uma
crise, provocada provavelmente por motivos sentimen-
tais, ou talvez, também, Havel tivesse uma dupla perso-
nalidade. Na vida real, qualquer que fosse a crise, ele
deve tê-la superado, pois viveu ainda cerca de trinta anos,
continuando a divulgar o anarquismo.
Não confundamos, portanto, arte e realidade, e con-
vençamo-nos que, ainda não retratado de maneira lison-
jeira, o Kalman-Havel preencheu um papel delicado, an-

205
8
2005

tipático talvez, porém importante no equilíbrio da peça.


Como já foi dito no artigo anterior,26 a atmosfera negati-
vista da peça não é senão um estratagema teatral.

Benjamin Tucker, 1854-1939


Cronologicamente, foi um dos primeiros anarquis-
tas com quem O’Neill cruzou em seu caminho durante
a juventude. Sua vida intelectual mudou a partir do dia
em que pôs os pés na loja The Unique Bookshop. O título
do sebo não deve induzir a pensar que o adjetivo “úni-
co” seja necessária e exclusivamente uma referência
ao Único de Max Stirner. A palavra pode ser também
uma alusão à singularidade, à raridade. Tucker não foi
exatamente um anarco-individualista ortodoxo: acre-
ditava na sociabilidade. Apesar de não violento, foi aberto
a todas as escolas do anarquismo e, na livraria ou em
suas revistas, sempre convidou partidários de todas as
tendências do anarquismo para que se expressassem,
e sempre os comentou. Tomou posição em favor de Walt
Whitman, então vilipendiado e de Oscar Wilde, recém
processado. Se correspondeu com George Bernard Shaw,
e fez conhecer sua obra nos Estados Unidos.
Os biográfos de O’Neill insistem sobre o fato de que
os grandes descobrimentos do futuro autor teatral fo-
ram Nietzsche e Stirner, o que é parcialmente confir-
mado pelas discussões com Terry Carlin e Saxe Com-
mins. A própria Agnes Boulton, em suas memórias,27
confirma que O’Neill lia muito Nietzsche. Isso não me
convence totalmente, pois, se assim fosse, onde teria
encontrado os argumentos da primeira peça anarquis-
ta que escreveu, naquela época? Trata-se de The Perso-
nal Equation. Não são idéias nietzscheanas ou stirneri-
anas os argumentos expostos na peça, mas argumen-
tos sindicalistas revolucionários. Assuntos como

206
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

sabotagem, greve, ação direta, propaganda pelo fato,


anti-militarismo, luta de classe, união livre etc., que
indicam conhecimentos mais pormenorizados do que
aqueles que a crítica oficial nos oferece. Que O’Neill
tenha começado a escrever — ainda que bem mais tar-
de mas nesse mesmo espírito — uma peça sobre Mala-
testa28 é significativo.
Não só não se trata de um individualista stirneria-
no, como também de um anarco-comunista que aceita
a violência revolucionária.
Quando, em 1937,29 O’Neill pede a Saxe Commins
que lhe procure obras anarquistas — que ele quase cer-
tamente tinha quando se mudou para as Bermudas,
mas que jamais recuperou, depois de deixar a casa para
Agnes Boulton e os dois filhos —, não se expressa de
maneira vaga, mas menciona alguns nomes: Bakunin,
Kropotkin, Goldman. E esclarece seu intuito, “ou qual-
quer livro de Emma.”30 Depois explica: “Talvez eu man-
de um de meus personagens do Ciclo trazer para ele
uma sociedade ideal que seria parecida com o Anar-
quismo ou Sindicalismo.”31

***

Esta galeria de amigos e personagens anarquistas


não é, naturalmente, completa. Dela ficaram excluídas
pessoas cuja adesão ao anarquismo foi episódica, ou não
pôde ser suficientemente pesquisada por falta de docu-
mentação. Entre as omissões importantes há a das se-
guintes pessoas:
George Bellows, com quem Eugene compartilhou um
quarto, nos anos de juventude, e que quis pintar seu
retrato, mas não conseguiu pois a morte sobreveio quan-

207
8
2005

do recebeu a autorização; Maxwell Bodenheim, poeta li-


bertário e companheiro de farra; Neith Boyce, a inteli-
gente e talentosa companheira de Hutchins Hapgood;
Louise Bryant, amante de O’Neill, esposa de John Reed,
amiga de Emma Goldman; Dorothy Commins, esposa de
Saxe, compôs música para as peças de O’Neill; George
Cram Cook, autor do “Hino de batalha dos trabalhado-
res”; Theodore Dreiser, famoso romancista, freqüenta-
dor dos mesmos grupos; Joe Driscoll, que documentou
O’Neill sobre a greve dos portuários de Liverpool; Susan
Glaspell, membro da equipe do Provincetown Theater; Sa-
dakichi Hartaman, ligado à boemia anarquista e às van-
guardas artísticas; Louis Holladay, que inspirou parci-
almente a O’Neill a personagem de Don Parritt; Polly
Holladay, companheira de vida de Hippolyte Havel e irmã
de Louis; Louis Kantor, Kalonyne, autor das primeiras
críticas das peças de O’Neill; Manuel Komroff, co-funda-
dor do Centro Ferrer e um dos editores de O’Neill; Joseph
James Martin, que introduziu O’Neill na problemática
anarcosindicalista; John Reed, comunista, mas também
membro do sindicato IWW, e que apoiou muitas campa-
nhas anarquistas, anti-militaristas, progressistas; Ma-
rie Yuster, conhecida como “Romany Marie”, ou Mrs. Mar-
chand, uma cigana que na sua casa de chá dava comi-
da e bebida fiado para todos, inclusive O’Neill, ativa em
muitas causas anarquistas, gerente da Escola de Arte
do Centro Ferrer de Nova Iorque. Foi ela quem apresen-
tou Ariel a Will Durant, encontro que acabou em casa-
mento. E outros mais.
Durante toda sua vida, O’Neill esteve rodeado de com-
panheiros anarquistas, e o progressivo afastamento da
maioria deles foi devido a sua terceira esposa, essen-
cialmente uma burguesa, mas sobretudo uma mulher
de um psiquismo instável, ciumenta e possessiva, con-
troladora e dominadora, que o castrou intelectual e ar-

208
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

tisticamente nos últimos, agitados, dez anos de sua


vida, durante os quais houve entre eles uma alternân-
cia de separações e reconciliações.
Segundo os biógrafos, foi ela a razão principal do re-
púdio dos filhos, com as graves conseqüências conhe-
cidas. O’Neill, apesar ou devido à sua genialidade, ti-
nha um ponto fraco, o sexo, diante do qual sucumbia
totalmente. Poderia ter reagido — e o fez, em algumas
circunstâncias —, mas a tragédia do alcoolismo, das
drogas e do suicídio no seio do círculo familiar, assim
como entre os amigos íntimos, fizeram com que não
soubesse reagir, senão por meio da sublimação artísti-
ca. Quem sabe se sem isso sua vida, pior, sua obra, não
teria sido totalmente banal... São assim as coisas, e
não como nós, leitores, espectadores, companheiros de
ideal, gostaríamos que pudessem ter sido. A glória tem
seus custos imprevisíveis.

Notas

1
Pietro Ferrua. “Anarquismo na vida e na obra de Eugene O’Neill”, in Verve, 7. São
Paulo, PEPGCS-PUC/SP, Nu-Sol, 2005, pp. 226-243.
2
Emma Goldman. Living My Life. New York, Knopf, 1934. Escrito na França,
numa casa em Saint-Tropez financiada por Peggy Guggenheim.
3
“The most radiant of the four [Lena’s children] was little Stella, who had always
been my sunbeam in grey Rochester.” Todos os trechos com transcrições no original
foram traduzidos do inglês por Andre Degenszajn.
4
Além de visitar a família várias vezes, ela residiu durante um mês em Rochester,
quando saiu da prisão. Em suas memórias, menciona uma dúzia de nomes de
companheiros e simpatizantes que faziam parte do grupo de O’Neill. Faltam só os
nomes dele, da esposa e de Terry Carlin.
5
A três cartas de O’Neill a Berkman se encontram nos arquivos do Instituto
Internacional de História Social, em Amsterdã, enquanto o restante da cor-respon-
dência de O’Neill está distribuída em 35 bibliotecas norte-americanas e em uma
biblioteca nas Bermudas, onde O’Neill viveu alguns anos.

209
8
2005

6
Ver Eugene O’Neill. Selected Letters of Eugene O’Neill Travis Bogard e Jackson B.
Bryer (org.). New Haven/Londres, Yale University Press, 1988, pp. 232-33.
7
“Romany Marie” era o nome de uma casa de chá onde se reuniam os anarquistas,
no Greenwich Village. O nome vinha do pseudônimo da gerente, Marie Yuster,
uma cigana anarquista, que foi casada com um tal de Marchand. Ela foi gerente da
escola de Arte do Centro Francisco Ferrer de Nova York, onde ensinaram ou
estudaram artistas famosos, como Robert Henri, George Bellows, Joan Sloan,
Marcel Duchamp, Man Ray etc.
8
“Yes, it was a long time since that night at Romany Marie. But I am quite sure that
you don’t remember me better than I do you. I have a very clear picture of in mind
to this day. I had a very deep admiration for you for years, and that meeting was sort
of an unexpected wish fulfillment. As for my fame (God help us!) and your infame,
I would be willing to exchange a good deal of mine for a bit of yours. It is not so
hard to write what one feels as truth. It is damned hard to live it!”
9
Segundo Paul Avrich, sempre muito documentado, a data do falecimento seria
1934. Ver também a nota seguinte.
10
Em Anarchist Voices. An Oral History of Anarchism in America. Princeton, N.J.,
Princeton University Press, 1994, o autor menciona algumas colaborações de Terry
Carlin publicadas no periódico anarquista de Tucker, Liberty, e no de Hippolyte
Havel, Revolt.
11
Arthur & Barbara Gelb. O’Neill. New York, Harper & Brothers, 1962, p. 286.
12
Ver O’Neill, 1988, op. cit., pp. 415-416.
13
“The extra 15 for Terry is okay with me. I’ve been thinking about him a lot. The
ideal thing for him – between us, for I know he’d be offended by the suggestion –
would be a Home – not charity but a decent place where I could pay a reasonable
amount monthly and know he was getting real care...”
Dorothy Commins. What is an Editor? Saxe Commins at Work. Chicago/London,
14

Chicago University Press, 1978.


“Be sure and conme! Seeing you again would be worth more than an ocean of
15

medecine.” Dorothy Commins, 1978, op. cit., p. 188.


16
“Come out if you possibly can. It will be a chariytable act, a boon to us to have
you here.” Idem, p. 196.
17
Ver Gelb, 1962, op.cit., pp. 358-362.
18
Agnes Boulton, Part of a Long Story. Garden City, Doubleday, 1958.
19
E.G. and E.G.O. : EMMA GOLDMAN AND "The Iceman Cometh" by Wini-
fried L.Frazer (Gainesville: The University Presses of Florida, 1974).

210
verve
Amigos e personagens anarquistas de Eugene O’neill

20
Mantive correspondência, durante os anos 50 e 60, com um deles, Ammon
Hennacy, autor de Autobiography of a Catholic Anarchist. New York, Catholic Worker
Books, 1954, que pretendia ser mais anarquista do que os anarquistas tradicionais,
pois, por exemplo, recusava-se a pagar impostos ao Estado.
21
Nascida na Dinamarca ou na Suécia, cresceu na Inglaterra e emigrou para os
Estados Unidos; não são conhecidos outros dados sobre sua vida.
22
Ver Gelb, 1962, op.cit., p. 362.
No manuscrito da peça, Gertie Vose chama-se Emma. Ver Judith E. Barlow. Final
23

Acts. The creation of Three Late O’Neill Plays. Athens, University of Georgia Press,
1985.
24
Ver Winifried L.Frazer. E.G. and E.G.O. Gainesville, University Presses of
Florida, 1974.
25
“I have grown to love Hutchins. He is a peach”.
26
Ver Pietro Ferrua, 2005, op. cit..
27
Ver nota 14.
28
Ver “TheVisit of Malatesta”, in Eugene O’Neill. The Unfinished Plays. Edited and
annotated by Virginia Floyd. New York, Continuum, 1988, n.8, pp. xxviii-213.
29
Carta de junho, da Califórnia, na página 179 de “Love and Admiration and
Respect”, in The O’Neill Commins Correspondence. Dorothy Commins (org). Du-
rham, Duke University Press, 1986.
30
“Or any book of Emma’s”.
31
“I might have one of my characters in the Cycle dope out for himself an ideal
society which would be similar to Anarchism or Syndicalism.”

211
8
2005

RESUMO

O artigo percorre existências que descrevem encontros com o dra-


maturgo Eugene O’Neill, numa cartografia que investe no olhar
histórico que se dirige à invenção de relações livres.

Palavras-chave: Teatro, anarquismo, Eugene O’Neill.

ABSTRACT

The article deals with existences that describe encounters with


the play writer Engene O’Neill in a cartography that invests in the
historical perspective that aims at inventing free relations.

Keywords: Friends, theatre, anarchism, Eugene O’Neill.

Recebido para publicação em 4 de julho de 2005 e confirmado em


28 de agosto de 2005.

212
verve

213
8
2005

cartografias da experiência militante

stéfanis s. caiaffo*

A geografia afetiva
Primeiro ponto para um programa vital: percorrer tua
metrópole a esmo, sem que tenhas trajeto pré-definido e
sem que tragas um mapa à mão. Para tal programa, uma
sugestão descartável seria encheres o tanque, ou pega-
res o primeiro coletivo, ou dobrares a primeira esquina,
ou simplesmente dares o primeiro passo; enfim, dar-te
logo ao caminho, aquilo que só adquire sentido a partir do
movimento. Posto a caminho, traça teu percurso pelo tempo
que considerares suficientemente confortável ou pruden-
te, tempo-limite; quando chegares neste momento remo-
to de tua errância e estiveres sobre teu tempo-limite, fa-
cilmente estarás cara a cara com a amplitude da metró-
pole que teu discernimento consegue suportar, estarás
corpo a corpo em zonas de confronto direto com aquilo que
te angustia ou fascina, sensações-limite que ostentas
entre determinadas geografias urbanas. No ponto remoto
de tua errância, sobre as fronteiras do considerado confor-
tável ou prudente, aí estarão não só as bordas de tua car-

* Mestre em Psicologia pela PUC/RS e doutorando em Psicologia pela UERJ.

verve, 8: 214-229, 2005

214
verve
Cartografias da experiência militante

tografia da metrópole em seus territórios de aço e concre-


to; não só as bordas da tua cartografia cognitiva, teus ter-
ritórios de discernimento, visibilidade e direcionamento;
estarão também as bordas afetivas de tua cartografia em
suas intensidades invisíveis, ali onde as sensações, seus
potenciais e limiares, transformam-se em inevitáveis
curvas de deriva no cotidiano de tua experiência.
A geografia, além de uma geografia física e cognitiva, é
também uma geografia afetiva; matéria, física, semiótica
e intensiva; é na mais contundente co-extensão entre
estes três estratos que poderemos pensar tanto uma ex-
cursão topográfica nos relevos da cidade quanto uma in-
terpretação dita política sobre os corpos e liames que os
preenchem. O movimento que a metrópole percorre em
sua apropriação e distribuição no terreno, assim como os
diferentes dispositivos materiais e lógicos dos quais a
metrópole lança mão para existir, todos os seus territórios
de concreto e discernimento, tudo isso só pode ser com-
preendido em co-extensão com os movimentos afetivos que
lhe são ou foram correspondentes.
Para cada conjunto de encontros e desencontros com
as ruas e alamedas, as praças, parques ou passeios, as
casas e prédios; para cada conjunto de encontros e desen-
contros com suas inscrições, nomes e signos populares;
para cada conjunto de encontros e desencontros entre as
velocidades, sentidos e desvios da metrópole; para cada
um desses conjuntos, todo um conjunto de encontros e
desencontros com os campos semióticos e afetivos que
lhes são co-extensivos, encontros e desencontros com as
diversas zonas intensivas e as diferentes matérias de
expressão que preenchem nosso campo, diferentes pos-
sibilidades sensitivas e enunciativas que irrompem
sobre e arrebatam completa ou parcialmente cada um de
nossos corpos. São estas diferentes possibilidades sensi-
tivas e enunciativas, assim como sua conseqüente orga-

215
8
2005

nização num corpo estendido em aparatos e objetos mate-


riais, o que configura a complexidade de um campo a par-
tir do qual tanto cada individualidade quanto a própria re-
alidade ganharão consistência e espessura.1
Na geografia afetiva encontramos as sensações e as
intensidades, e é esta dimensão sensorial do corpo que
força-nos a territorializar cotidianamente uma nova exis-
tência, um corpo que acabe por se expressar também cog-
nitiva e fisicamente. O corpo é uma forma de resposta às
sensações inéditas que em nós se inscrevem quando en-
tramos em contato com as diferentes situações nesta nos-
sa errância a meio caminho, o modo de vida como uma
resposta àquilo que Suely Rolnik2 chama de marcas.
As marcas são estados inéditos que são inscritos na
experiência do corpo, estados de desassossego que ele vai
sentindo à medida que entra em contato com as diferen-
tes configurações dos fluxos de desejo, com as diferentes
tramas de intensidades e os diferentes vetores de força
que agenciam e compõem as situações e acontecimentos
de uma errância. Cada uma das marcas inéditas que vão
sendo inscritas neste corpo acaba por demandar uma ou-
tra articulação que a possa existencializar, dar-lhe um
território existencial a partir do qual este mesmo corpo
ganhará movimento.
Somos obrigados a pensar; o pensamento não é algo
dado ou evidente, mas um acontecimento raro, cujo sinal
aponta para o descontínuo em determinada trajetória de
vida: a cognição torna-se pensamento somente quando o
pensar ocorre de maneira diferencial, dando resposta a
um conjunto intensivo e inédito de afetos e sensações. Da
mesma forma, o ato somente pode ser chamado como tal
quando se apresenta como a elevação do diferencial, fi-
cando todo o resto dotado somente do poder de permanên-
cia. Na gênese do viver está sempre presente a dinâmica
de um devir, um constrangimento à produção de uma di-

216
verve
Cartografias da experiência militante

ferença; somos constantemente coagidos à elevação do


diferencial, mesmo que nossa insistência seja ainda não
saber aceitar ou lidar com a liberdade e a responsabilida-
de que isso acarreta.
Quando a dimensão intensiva demanda cotidianamen-
te o trabalho de produção de novos territórios existenci-
ais, ela demanda nada menos do que a produção cotidiana
de uma subjetividade, todo um complexo modo de vida; ela
demanda, por constrangimento ou por acaso, a produção
da metrópole. De acordo com as diferentes configurações
deste campo no qual estamos inscritos, nosso plano de
imanência, somos forçados a produzir tanto uma escultu-
ra viva de si3 quanto uma realidade do fora, dando a este
conjunto uma especial e necessária consistência vital e
material, um conjunto de liames e relações que procura-
mos estabelecer para a produção e a nossa inscrição na
realidade.
A metrópole é constantemente transversalizada por este
cartograma rizomático4 das intensidades, cartograma que
teima em não respeitar os conjuntos de áreas loteadas, os
limites de velocidade, os sentidos da circulação e as pala-
vras de ordem das organizações oficiais. As sensações e
intensidades, em sua virtude dissidente, forçam-nos a ins-
crever nosso corpo na metrópole sempre diferentemente.
Para perceber este movimento só é necessária uma longa
preparação.

A resistência e o desatino
De que forma poderemos explicar o desatino das me-
trópoles contemporâneas, desatino esse que é expresso
no embotamento da alteridade em egoísmo, da gentile-
za em paranóia, da força em violência, da suavidade em
truculência e da produção em exploração? De que forma
poderemos explicar todo este embotamento das indivi-

217
8
2005

dualidades radiantes em individualismo mesquinho e


parasitário? De onde surgiu o enxugamento da potên-
cia diferencial do pensamento em slogans e refrões, em
palavras de ordem e imagens tendenciosas que signifi-
cam o negativo absurdo do autoritarismo, do controle e
da escravidão? De que forma poderemos compreender o
definhamento da arte da sociabilidade neste pacto soci-
al capitalista que vigora, ecologia que tudo suga e es-
preme num mesmo equivalente geral mercantilista, bu-
raco negro da miséria existencial?
Hoje em dia, entre as alegrias do marketing, por in-
termédio de êxtases e espasmos sofridos com os leves
choques telemáticos e cibernéticos dos suportes midiá-
ticos, desliza então nosso corpo pela vida, eterno entre-
as-prateleiras de produtos e identidades, acoplando de-
sejos e força ao sistema, movimentando suas agonizan-
tes engrenagens fabris ou estatais e traficando senhas
e cifras sob o guarda-chuva das grandes redes. Tudo isso
para entrar no céu com o diploma de empreendedor bem
comportado.
Na roda do capitalismo pós-industrial, os corpos es-
tão conectados a diferentes mercados, em geral mer-
cados que tratam materialmente de seus modos de
ser e viver, de utensílios ou serviços que economi-
zam ou maximizam as forças do empreendedor bem
comportado, prometendo a redenção final de suas an-
gústias: sensações seguras, identidades prêt-a-porter,
implantes e desfrutes frugais, paz e guerra televisio-
nadas, alimentação laboratorial e balanceada, planos
de saúde que não processam e ainda atendem segu-
ros privados de casa, carro, aposentadoria, contra ter-
ceiros, de morte ou vida. Tudo isso pago nas suaves
prestações de uma dívida infinita, justamente no
modelo kafkaniano de O processo.

218
verve
Cartografias da experiência militante

Investe-se por toda a vida, e mesmo para além dela:


procura-se a redenção do corpo na sua conjugação com
a eternidade, e a busca capital que se inaugura é a eter-
na insegurança de perecer, virar carcaça; as cirurgias
plásticas mostram apenas o mais leve sintoma de uma
epidemia generalizada, cujas formas de mercantiliza-
ção da vida e da eternidade vão no caminho que começa
na engenharia genética e termina no congelamento ou
na clonagem de humanos, toda uma reinvenção pós-
humana da concepção.5
É no agregado de empreendedores bem comportados
que está ligada nossa idéia de metrópole, sua marola
bem sucedida, seus talheres bem dispostos, interven-
ções cirúrgicas, jaquetas metálicas e estofados sintéti-
cos; todo seu cotidiano entre ciborgues: estranha forma
de gostar da metrópole como máquina da imagem e do
dinheiro, lubrificada pelo néctar azedo que é servido por
atendentes mestiços, mistura de sangue, suor e coque-
téis híbridos. O empreendedor bem comportado é aque-
le que congrega e se justifica por meio da grande roda
da fortuna, movimento que, como hipótese ou promes-
sa, percebe e se apresenta tanto como a única metrópo-
le possível quanto como a única iniciativa inclusiva. É
nesta roda movimentada cotidianamente por muitos,
mas especialmente por ninguém, que acharemos a prin-
cipal turbina do autoritarismo na metrópole contempo-
rânea.
A movimentação da turbina é, propriamente, o prin-
cipal objetivo deste autoritarismo na metrópole, mas
para isso é necessário que se erga uma força unicista
desde os confins do mundo, agregando energia difusa de
uma grande massa dispersa. A turbina está em todos os
lugares, na mão de empreendedores bem comportados
conectados às redes de mercado, mas com ninguém em
especial; entre6 as pessoas. O autoritarismo neste novo

219
8
2005

arranjo, expressa-se nas escolhas e pressões que se vi-


vem no cotidiano, a quase totalidade delas opondo uma
dualidade na qual todos devem posicionar-se: ou também
tornar-se um empreendedor bem comportado, e para isso
ajudar no funcionamento da turbina, permitindo valer e
continuar a cinética da máquina despótica; ou tornar-se
persona non grata, espécie de cidadão destinado a padecer
na marginalidade, na indiferença e no obscurantismo,
senão na raiva explícita impingida às bordas e linhas de
escape do sistema.
Hoje em dia, dada a hegemonia do pacto, nossas an-
tigas questões acerca da liberdade, pelo menos as que
diziam respeito à sua expressão e vivência cotidianas,
essas deixam de figurar entre as discussões gerais;
acreditamos agora que a liberdade já tenha sido levada
o suficiente adiante, pelo menos até o ponto onde não
se torna caso de intervenção policial, jurídica ou mili-
tar. Já pressuposta, somente resgatamos a liberdade em
discussão quando do julgamento ou da intervenção nas
suas bordas e nos seus limites.
Na teleologia do capital, as bordas e limites de nossa
liberdade parecem tão maleáveis quanto pudermos ima-
ginar, e sua distensão constante é um dos motes favori-
tos dos vídeo-clipes e slogans que produzimos e acompa-
nhamos no chapante discurso do marketing, numa es-
pécie de ego trip.
Não temos mais cara-de-pau de dizer que somos opri-
midos, se bem que ainda nos saibamos suficientemen-
te sugestionados. É quando a pedra no teu sapato, tendo
por demais estragado teu caminhar, acabará te levando
enfim à revolução dos confortos. Nossa principal luta é
contra o submisso-em-nós, e não contra quaisquer ou-
tras figuras institucionais, ideológicas ou esotéricas. A
experiência força-nos constantemente a diferir, e cons-
tantemente reinventa, atualiza ou extrapola os pactos

220
verve
Cartografias da experiência militante

vigentes. Os tentáculos do capital operam sempre na


busca destas novas invenções e destas novas matérias
de expressão, elementos que deverão integrar como ten-
dência aceita ou marginal em seus próprios circuitos
de sugestão.
Vemos que a resistência é anterior à captura, e tem
mais positividade; ao contrário do que muitos teimam
afirmar, tomados de nostalgia medieval, isso torna a
metrópole contemporânea um terreno fértil para deser-
ções e levantes: um campo constantemente reaberto
para que, para além das bordas e trajetos, das palavras
e dos afetos capitalistas, adquiram consistência bordas
maleáveis e trajetos mutantes que recorram à metró-
pole diferentemente, outras palavras e afetos que tam-
bém não se deixam rastrear; toda uma linha do tempo7
da vida que se reabre constantemente.
Quanto à questão das estratégias de resistência e de
sua implicação com a produção de diferença, cabe dizer
que, contra o desatino da metrópole contemporânea, so-
mente a reinvenção da própria metrópole será suficien-
te. Esta reinvenção, inclusive, não diz respeito somente
à nova metrópole e suas geografias físicas, mas também
às próprias estratégias que buscarão recriá-las. Reinven-
tar a metrópole deve significar mais do que reinventar
nossos modos concretos; deve significar a reinvenção dos
liames e relações que ali produzimos, e também a rein-
venção do nosso modo de lidar com a própria vida como
produção.
Se ainda é difícil entender as estratégias de resis-
tência também por este caminho, é porque as práticas
da efígie-esquerda sempre investiram nas homogeni-
as, assim como na teologia dos organogramas, nas dou-
trinas cimentadas por axiomas esvaziados e nas roti-
nas pré-concebidas das massas. Além disso, lhes é mais
familiar a interpretação desde o ponto de vista da pas-

221
8
2005

sividade — o conjunto de teorias acerca da nossa alie-


nação sob pesada repressão e dominação servem aqui
de atestado. É fundamental que façamos a genealogia
de seus protestos, desmembrando-a na direção de uma
apologia da produção.

Apologia da produção
Enquanto continuarmos presos aos mesmos referen-
ciais, às mesmas questões já tanto pisoteadas e ao mes-
mo tipo de alternativas que daí sempre emergiram, é
certo que não teremos nem mesmo as condições ne-
cessárias para achar qualquer tipo de solução que faça
fomentar a resistência; e isso para não ter que afirmar,
já neste momento, que este tipo de solução, na forma de
uma resposta unitária e messiânica, talvez nem mes-
mo venha ou precise existir. A questão é deixar de lado
o fetiche que produzimos em torno do sempre-o-mesmo,
daqueles mesmos problemas e soluções, das mesmas
doutrinas, idéias e práticas que atravessam uma vida
como se fossem imunes, um vício de recorrência.
Ao contrário, devemos sempre ter o cuidado de incor-
porar e produzir outros e novos desafios, tomando os
encontros como possibilidades de reformulação constan-
te de nossas questões, principalmente as consideradas
fundamentais. Não é questão de retornar sempre às
mesmas perguntas para procurar respondê-las de outra
forma; nunca se chegará a lugar nenhum somente re-
pisando as mesmas antigas questões. É necessário sair
delas, superar antigas perguntas. Quando nossas ques-
tões ou nossos problemas são mal formulados ou já se
tornam senis, não há forma possível de extrair deles
uma solução potente.
Falar em resistir pode ser traduzido como agir com
o intuito de superar, suplantar ou, no mínimo, sabo-

222
verve
Cartografias da experiência militante

tar as formas de sociabilidade que maculam a metró-


pole contemporânea. De forma geral, porém, podemos
dizer que o problema da resistência não pode ser con-
siderado como um problema simplesmente contra-ca-
pitalista. Da mesma forma, também não é recomen-
dado que o problema da resistência seja considerado
um problema propriamente comunista ou socialista.
Podemos dizer que, caso tivéssemos que optar por al-
gum tipo de doutrinarismo ou idealismo — ou algum
tipo de doutrinador ou idealista —, optaríamos pela pi-
rataria como não-doutrina e pelo pirata como seu li-
vre navegador.8
Que me desculpem aqueles de opinião divergente
— que são muitos e bastante coesos, por sinal —, mas
é necessário afirmar que foi de posse destes tipos de
doutrinarismos e idealismos cultivados por muitos dos
espectros da efígie-esquerda que não encontramos sa-
ídas para os obstáculos a uma livre expressão do tra-
balho da resistência. Por este motivo, mais do que não
se identificar nestes lugares, é também contra eles
que uma resistência inventa outras formas de vida; e
rasga sua lista de questões.
A resistência é afeita à geografia afetiva e, nesse
caso, tanto a história quanto o homem são definidos
mais pela sua descontinuidade do que pela sua conti-
nuidade. Enfatizando tanto a geografia quanto os corpos
como derivados de um constante jogo de forças, propõe-
se um tempo sempre aberto e novo, tempo que avança
em saltos, quebras, cortes e desvios; acontecimentos a
partir das diferenças de potencial entre forças hetero-
gêneas e dispersas; e efeitos de proliferação destas for-
ças em novas forças heterogêneas e dispersas pela
metrópole.
É importante dizer que nesta operação rizomática que
transversaliza a metrópole, muitas forças são mesmo

223
8
2005

invisíveis. Nem sempre sabemos sob efeito de quais for-


ças estamos, sob quais efeitos somos levados a percorrer
nosso caminho. Passamos o nosso tempo a derivar entre
estas forças, procurando possibilidades de arrumá-las em
territórios existenciais, sempre fugidios e precários. Ao
passo que novos arranjos e arrumações se produzem;
necessária e cotidianamente temos uma abertura e um
repuxo para outra composição das tensões entre perma-
nências e resistências; e assim por diante, corriqueira
e constantemente, em tensões de territorialização e des-
territorialização como processos em correlação. O traba-
lho da resistência como o arranjo das linhas de determi-
nada geografia numa corporeidade, assim, é um traba-
lho permeado por alto grau de involuntarismo.

Protomutantes9
Contra aquela espécie de maçonaria capitalista, mas
também contra a tristeza militante, é preciso reinven-
tar no cotidiano a prática dissidente, uma nova postura,
uma nova forma de preguiça e indolência, de vadiagem
e vagabundagem criativas.10
Se o capital hoje corre com mais pressa, é porque a
multiplicidade da resistência o força a fazê-lo; e justa-
mente no ponto onde o capital adquire sua maior pos-
sibilidade de deslizamento e rarefação, atingindo sua
maior possibilidade de preenchimento, é justamente aí
que já começa a desabar da maneira mais estúpida. O
capitalismo contemporâneo apresenta-se burro de ga-
nância; seu esfumaçar-se o faz constantemente perder
os controles que pretende em si mesmo. E a culpa passa
a ser mesmo nossa, porque somos nós mesmos os seus
frágeis ancoradores.
Os militantes estão ainda perdidos entre os vinis
empoeirados que cantam operetas cubanas ou soviéti-

224
verve
Cartografias da experiência militante

cas, e nem parecem perceber que Che Guevara já vai


virando personagem de novela das nove; enquanto isso,
seus quadros de governo agenciam conexões misterio-
sas, querendo ou ocupando com ternos bem passados as
pompas e teatros da cúpula estatal, retirando dali o que
pensam ser devido depois de seus tantos anos de sacri-
fício moral e cívico. Ademais, a máquina toda permane-
ce bucha de canhão na recuperação precária dos estra-
gos cotidianos que o capital provoca mundialmente.
É na problemática da produção de diferença que po-
deremos situar tanto o desatino da metrópole capitalis-
ta quanto as possíveis estratégias criativas de insur-
reição no rumo de uma nova cidade; é nas operações
em torno desta produção de diferença que poderemos
encontrar tanto os mais ardilosos dispositivos de funci-
onamento do capitalismo contemporâneo quanto as mais
eficientes estratégias de resistência para os dias de
hoje.
Convém sempre lembrar a lucidez de pensadores
como Etienne de La Boétie,11 para quem o problema prin-
cipal não é aquele antigo, sobre quem nos oprime ou
como o faz. Para ele, nosso problema é nossa servidão
voluntária. Este pensamento aponta radicalmente para
nossa liberdade e para a nossa autonomia e aponta tam-
bém um dado importante acerca da militância que te-
mos na metrópole: se nós mesmos produzimos os siste-
mas nos quais vivemos, e precisamos sempre falar em
primeira pessoa quando o assunto diz respeito à nossa
vida coletiva, quem senão nós mesmos inventará nos-
sos novos pactos de liberdade?
São muitos os protomutantes13 perdidos entre esta
massa de comunistas; muitos mais estão perdidos en-
tre as hordas capitalistas. São nascidos e criados, psi-
quiatrizados, psicanalisados, militarizados, bacharela-
dos, empregados, aposentados e assassinados; são pro-

225
8
2005

tomutantes julgados em posse para o bem do grande


esforço de mover a roda da fortuna ou uma revolução
cronometrada, protomutantes cujo principal sintoma
costuma ser o alto grau de conivência ou o desespero do
descaminho. Estão perdidos por todos os lugares, e são
corpos sensíveis e agitadores habitando uma carcaça
de gente cansada, o fôlego dos trabalhadores, o sono de
estudantes, o estômago dos militantes e o tempo hostil
dos desocupados e desempregados; ricos, pobres, reme-
diados ou favelados. Ou ainda protomutantes com seus
corpos em revolta, corpos batedores ou errantes, pedin-
tes e salafrários. Talvez corpos narcotizados de infor-
mação, drogas sintéticas e apliques. Alguns mesmo bur-
gueses e cruéis.
A grande onda dissidente abaterá esta confusa me-
trópole contemporânea? Terá sido a onda dissidente
anestesiada nas alegrias do marketing e sob o peso ver-
melho dos martelos e foices oficiais? Burlar a metrópo-
le contemporânea no rumo de uma nova sociabilidade
só pode significar a deserção de seus circuitos autoritá-
rios, para além dos quais haverá a possibilidade de pro-
duzirmos experiências originais e singulares no cotidi-
ano, experiências nas quais o desejo encontre canais
para ser efetuado e expresso. Se ainda há algum senti-
do na palavra utopia, e não há porque descartá-la, este
sentido deve remeter a uma atitude presente aberta-
mente ligada à intensificação da experiência aqui e
agora. Não haverá uma utopia que não tenha tradução
na dinâmica genuína do nosso cotidiano.
Há um protomutante em potencial em cada corpo
sedado ou transtornado; há um grande basta entalado
em muitas gargantas e muita energia a usinar. É entre
todos estes protomutantes que há novas sensibilidades
estéticas; e é no resgate dos seus corpos sensíveis que
poderemos entender uma utopia contemporânea, assim

226
verve
Cartografias da experiência militante

como as sutilezas e as gentilezas das suas práticas e


linguagens. Falta-nos acreditar nas possibilidades.
E então chutaremos o balde desta estúpida hipocon-
dria.

Notas

1
Neste ponto, são especialmente interessantes os escritos situacionistas acerca
da cidade. Uma ótima compilação destes textos, antes dispersos, pode ser
encontrada em: Paola B. Jacques (org.). Apologia da Deriva: escritos situacionistas
sobre a cidade. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003.
2
Ver Suely Rolnik. “Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estéti-
co/política no trabalho acadêmico” in Cadernos de Subjetividade. v. 1, n.2. São
Paulo, Núcleo de Estudos da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-
Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP, 1993, pp. 241-251.
3
Michel Onfray, no projeto de um materialismo hedonista, utiliza a escultura
como modalidade de trabalho a ser levada em conta quando da formulação de
um modo de vida, oferecendo o corpo e a escultura como forma de cuidado de
si. Ver especialmente Michel Onfray. “Estética: pequena teoria da escultura de
si” in A escultura de si: a moral estética. Rio de Janeiro, Rocco, 1995, pp.65-101;
Michel Onfray. “Corpo” in A arte de ter prazer: por um materialismo hedonista. São
Paulo, Martins Fontes, 1999. pp. 99-225.
4
“Um rizoma pode ser rompido, quebrado em algum lugar qualquer, e também
retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas. É impos-
sível exterminar as formigas, porque elas formam um rizoma animal do qual a
maior parte pode ser destruída sem que ele deixe de se reconstruir. Todo rizoma
compreende linhas de segmentaridade segundo as quais ele é estratificado,
territorializado, organizado, significado, atribuído, etc.; mas compreende tam-
bém linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no
rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a
linha de fuga faz parte do rizoma.” Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mil Platôs:
capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo, Editora 34, 1995, p.18.
5
Ver Paula Sibilia. “Natureza” in O Homem Pós-orgânico: corpo, subjetividade e
tecnologias digitais. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002, pp. 111-156.
6
“O meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem
velocidade. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de
uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movi-

227
8
2005

mento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que
rói suas duas margens e adquire velocidade no meio.” Gilles Deleuze e Félix
Guattari, 1995, op. cit., p. 37.
7
O tempo, aqui, não pode ser confundido com o horário contado em horas,
minutos, segundos e suas frações. A noção de tempo, quando fixada de acordo
com estas divisões, apresenta-se submetida à rigidez do mensurável e à mate-
mática do concreto. Entendemos a dimensão do tempo, assim como propôs
Henry Bergson, como a duração relativa e precária da vida em sua dimensão
sempre criativa, em sua evolução criadora; este tempo como duração relativa,
por diferentes e sucessivas acelerações e velocidades, marca a essência do corpo
como devir e a substância do real como movimento, processualidade. Ver
Henry Bergson. “Sobre a evolução da vida: mecanismo e finalidade” in A
evolução criadora. Rio de Janeiro, Delta, 1964, pp. 41-120.
8
Ver Hakim Bey. TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo, Conrad, 2001.
9
O termo protomutante foi cunhado por Thomas Hanna e posteriormente
atualizado por Roberto Freire na caracterização do personagem Coiote, no
romance homônimo. Ver: Thomas Hanna. Corpos em revolta (uma abertura para o
pensamento somático). Rio de Janeiro, Edições Mundo Musical, 1972; Roberto
Freire. Coiote. São Paulo, Sol e Chuva, 1997.
10
Guy Debord e Hakim Bey apresentam as novas formas de militância mesclan-
do a ação política e a insubmissão com o terrorismo poético e a vagabundagem
criativa; contribuem para pensar a revolta e a dissidência como virtudes hedo-
nistas. Ver Guy Debord. Panegírico. São Paulo, Conrad, 2002; Hakim Bey “Caos:
os panfletos do anarquismo ontológico” in CAOS: terrorismo poético e outros
crimes exemplares. São Paulo, Conrad, 2003.
11
Ver Etienne de La Boétie. Discurso da servidão voluntária. São Paulo, Edições
Sabotagem, s.d.

228
verve
Cartografias da experiência militante

RESUMO

Um artigo sobre o corpo, suas matérias física, semiótica e intensi-


va; sobre o corpo e suas conexões entre política, estética e resis-
tência; sobre o corpo e suas possibilidades de liberdade nos tem-
pos do capitalismo contemporâneo e seus novos meios de autorita-
rismo; sobre o corpo e a tristeza comunista.

Palavras-chave: corpo, resistência, militância.

ABSTRACT

An article on the body, its physical, semiotic and intensive mat-


ters; on the body and its connections among politics, aesthetic
and resistance; on the body and its possibilities of freedom in
times of contemporary capitalism and its new ways of authoritari-
anism; on the body and the communist sadness.

Keywords: body, resistance, activism.

Recebido para publicação em 18 de julho de 2005 e confirmado em


28 de agosto de 2005.

229
8
2005

estilo de vida e a verdade: o exercício


ético do hipócrita e do cínico1

tony hara*

A verdade tem sua história. O sujeito tem sua histó-


ria. Chegamos ao ponto em que estamos não por habili-
dade de firmes timoneiros, mas sobretudo, arrastados
pelas ondas do acaso, pelo desespero da deriva e pela
força da crueldade e dos improvisos. O impacto dessas
críticas de Nietzsche ao estatuto da verdade e do sujeito
até hoje nos causa espanto. Nada é verdadeiro em si;
todo ensaio ou tentativa são permitidos. Não há restri-
ção moral que impeça a realização das múltiplas expe-
rimentações possíveis em nossa existência e em nosso
próprio corpo.
Esse diagnóstico do pensamento moderno e os novos
caminhos abertos pela filosofia nietzschiana afetaram a
obra de Michel Foucault, como ele mesmo afirma em di-
ferentes momentos de sua trajetória intelectual. Em uma
entrevista publicada em 1983, por exemplo, Foucault sin-
tetiza os temas que o influenciaram de maneira decisi-

* Jornalista e Doutor em História da Cultura pela Unicamp. Professor no


Departamento de História na UEL/PR.
verve, 8: 230-241, 2005

230
verve
Estilo de vida e a verdade: o exercício ético...

va: “Eis o ponto em que a leitura de Nietzsche implicou,


para mim, uma ruptura: há uma história do sujeito as-
sim como há uma história da razão, e desta, a história
da razão, não se deve exigir o desdobramento até um
ato fundado e primeiro do sujeito racionalista.”2
Daí a importância do recurso à história, do dedicado
estudo sobre as condições que tornaram possível a emer-
gência de um pensamento, assim como o seu modo de
constituição. A história, ou o método genealógico, diz
Foucault, “tem por função mostrar que o que é jamais
foi, ou seja, é sempre na confluência dos encontros, dos
acasos, no curso da história frágil, precária, que são for-
madas as coisas que nos dão a impressão de serem as
mais evidentes.”3
O trabalho intelectual de desmontar e reavaliar as
evidências visa alterar a maneira de refletir a relação do
sujeito com a verdade. Para Foucault, cabe ao pensamen-
to — através do recurso à história — problematizar a nossa
relação, ou se quiser, a nossa vontade de conhecer a ver-
dade. Essa tarefa é bem mais urgente e preciosa do que a
busca de uma definição ou distinção do que é verdadeiro
e do que é falso em nossa atualidade. É por esta razão
que ao comentar os vínculos existentes entre Nietzsche
e Foucault, o filósofo Gilles Deleuze destaca a questão da
crítica da verdade como algo que tocou profundamente a
pesquisa foucaultiana. “A verdade — afirma Deleuze —
não supõe um método para ser descoberta, mas procedi-
mentos, mecanismos, processos para querê-la. Temos
sempre as verdades que merecemos, em função dos pro-
cedimentos de saber, dos mecanismos de poder, dos pro-
cessos de subjetivação ou de individuação de que dispo-
mos.”4
Nesta sentença de Deleuze reconhecemos alguns dos
célebres trabalhos de Foucault: os mecanismos e proce-
dimentos que possibilitaram dizer a verdade sobre o

231
8
2005

sujeito louco foram analisados na História da Loucura;


as astúcias do poder e do saber que tornaram possível o
discurso sobre o sujeito doente, no Nascimento da Clíni-
ca; o caso do sujeito criminoso e do sistema punitivo
foram expostos no livro Vigiar e Punir. Essas pesquisas,
segundo o próprio autor, enfatizaram as técnicas de do-
minação, as tecnologias do poder e o processo de disci-
plinarização do corpo social e individual.
No início da década 80, do século XX, Foucault anun-
ciou, como já sabemos, uma mudança, um desvio, uma
nova experimentação em seu processo de criação. O alvo
de sua curiosidade passaria a ser as tecnologias de si,
os processos de subjetivação. As tecnologias de si inte-
ragem com as tecnologias do poder e são fundamentais
para a avaliação, o entendimento da constituição do
sujeito na civilização ocidental. Como declarou Foucault
em um seminário que teve a participação de Richard
Sennet, “Em toda cultura esta tecnologia de si implica
uma série de obrigações com a verdade, descobrir a ver-
dade, ser iluminado pela verdade, dizer a verdade. To-
das são consideradas importantes tanto para a consti-
tuição quanto para a transformação de si.”5
A crítica da verdade elaborada por Nietzsche se trans-
forma no ato de pensamento de Foucault em algo inusi-
tado e ao mesmo tempo inquietante. A relação que o su-
jeito estabelece com a verdade é que define o estilo de
vida, o modo de existência do sujeito. As novas possibili-
dades de vida, portanto, passam necessariamente pela
reavaliação do jogo que o sujeito estabelece com a verda-
de, com o discurso verdadeiro. Em termos mais rudes
poderíamos dizer que o estilo de vida de um sujeito é de-
terminado pela força, pela vontade (ou pela ausência de
força e de vontade) de elaborar a sua própria verdade. E,
mais ainda, de viver de acordo com o discurso verdadeiro
forjado, lapidado, criado ao longo de toda a existência.

232
verve
Estilo de vida e a verdade: o exercício ético...

A partir dessas idéias é possível experimentar e en-


saiar aqui o esboço de duas caricaturas, de duas más-
caras que levam ao exagero dois modos de se relacionar
com a verdade. Uma das caricaturas conceituais é fácil
de reconhecer na atualidade em que vivemos. Os hipó-
critas — aqui entendido no sentido original grego, isto
é, sujeitos ligados a uma encenação, atores de uma peça
teatral — arvoram-se em palanques, púlpitos ou pica-
deiros midiáticos a fim de atrair o público e cativá-lo por
meio da encenação de discursos verdadeiros.
Há um instinto predominante no ator que, segundo
Nietzsche, encontra prazer na dissimulação. A exces-
siva arte da adaptação transborda no corpo do ator. Ao
traçar ligeiramente a genealogia desse instinto Nietzs-
che reconhece que ele se desenvolveu entre os subju-
gados, entre os dominados que “deviam docilmente cur-
var-se às circunstâncias, sempre ajustar-se de novo a
novas condições, sempre mudar de atitude e expressão,
tornando-se gradualmente capazes de virar o casaco se-
gundo qualquer vento.”6 Essa faculdade é exercitada tan-
to pelos artistas como pelos diplomatas, publicitários e
literatos que ocupam a tribuna da imprensa para repre-
sentar o papel de “especialistas”.
O hipócrita tem como missão manter ocupada a pla-
téia, distraí-la ao percorrer num cenário adequado as
cores e os sons da aflição e dos desejos humanos. Ele
continua dependente, sujeitado, subjugado, não mais por
senhores, mas pelo público, pela massa. O hipócrita, para
usar aqui mais uma caricatura, é escravo do estulto. O
estulto, explica Foucault, caracteriza-se por estar tão
aberto ao mundo exterior que se torna incapaz de sepa-
rar, discriminar, hierarquizar as representações do
mundo exterior daquelas que são formuladas por suas
paixões, seus desejos, seus hábitos de pensamento, suas
ilusões...7 Isto é, o estulto é aquele espectador errante e

233
8
2005

fruidor, como diz Nietzsche, que circula excitado pela


grande feira universal. Cercado por informações, ape-
los, anúncios e luzes, o sujeito moderno, o estulto, de-
grada-se em meio às diversas seduções que não vivifi-
cam seus instintos e suas forças vitais.
O hipócrita oferece ao seu novo senhor uma dose de
ebriedade, uma dose de consciência moral que o confor-
ta e o consola. É por esta razão que a encenação do dis-
curso verdadeiro provoca, não raras vezes, um certo
abrandamento, um certo alívio das dores da existência.
Dito de outra maneira, o hipócrita gera um tipo de co-
nhecimento que transforma o intolerável em algo su-
portável. A simulação do discurso verdadeiro cria uma
ocasião, uma cena propícia para que o estulto se indig-
ne momentaneamente. A indignação é um efeito que
altera o ritmo cardíaco e o metabolismo do estulto. É
como se fosse uma corrente elétrica que atravessasse
o espírito, dinamizando-o, tonificando-o artificialmen-
te. O enfezamento, porém, não altera o ser do sujeito,
não contribui em nada para a modificação, para a trans-
formação do sujeito, pois a indignação se esgota nela
mesma. É uma forte emoção que se esvai para dar lugar
a um novo estímulo que é sempre o recomeço da ence-
nação. É no abrir e fechar das cortinas, das páginas dos
jornais que o estulto é adestrado, conduzido a suportar o
intolerável.
O discurso verdadeiro para o hipócrita é, portanto, um
artifício, um belo e estudado figurino que lhe permite
manipular, convencer, persuadir e explorar certos ter-
ritórios da alma do estulto em benefício próprio. É inte-
ressante destacar que esse figurino focado por um inte-
ligente jogo de luzes faz com que a platéia esqueça que
diante dela se apresenta um servo disfarçado de senhor.
Talvez não seja incorreto dizer que esse jogo de luzes e
de saberes é o que Deleuze chamou de marketing, isto é,

234
verve
Estilo de vida e a verdade: o exercício ético...

um instrumento de controle social que forma a raça im-


pudente de nossos novos senhores.8
No extremo oposto encontra-se a figura do cínico, aqui
entendido também no sentido original grego. O retrato do
filósofo cínico esboçado por Epicteto é bastante esclare-
cedor e nos ajuda a evitar certas confusões: “Vida cínica
é se devotar totalmente à filosofia e a esta forma extre-
ma, militante, da filosofia em que consistia o cinismo, a
saber: partir, partir com a veste do filósofo e, de cidade
em cidade, interpelar pessoas, sustentar discursos, apre-
sentar diatribes, oferecer um ensinamento, sacudir a
inércia filosófica do público.”9 Trata-se, portanto, de um
modo de filosofar que implica obrigatoriamente na elabo-
ração de um estilo de vida, pois o intenso exercício do
pensamento que anima o filósofo deve se realizar na pró-
pria existência.
Um manto sujo e surrado são as suas vestes, o seu
único figurino. As barbas longas igualmente sujas e a
vida nômade são marcas, traços visíveis do desapego e
do despojamento desejado pelos cínicos. Todos os bens
que possui, ele pode carregar em seu alforje. É uma vida
de pobreza reivindicada, ativa, e, nas palavras do filóso-
fo Frédéric Gros, “não se trata apenas de desapegar-se
dos bens materiais, mas de recusá-los de modo agres-
sivo. Essa busca ativa do despojamento vai até a aceita-
ção da humilhação, da mendicância, e mesmo uma exal-
tação da preguiça e da sujeira, contra todos os cânones
gregos, de modo que a existência pura do filósofo se
transforma em uma vida infame.”10
O desapego fazia com que eles se dedicassem àquilo
que era fundamental, a saber, o cuidado consigo mes-
mo. Além disso, a situação de não “dever” nada a nin-
guém, de não estar apegado a nada era uma condição
para que o filósofo pudesse falar, imprecar, rogar o que
bem entendesse, sem amarras, restrições ou censuras.

235
8
2005

Esses oradores nômades tão estranhos à nossa sensibi-


lidade moderna e politicamente correta sentiam um
certo prazer, ou melhor, cultivavam a arte de ser desa-
gradáveis. Eles sabiam que muitas das convenções e
normas sociais que se obedecem automaticamente, são
inúteis e desnecessárias à vida verdadeira e, por esta
razão, transgrediam as regras sem culpa ou lamenta-
ção. Eles reconheciam e atacavam também um certo
tipo de erudição que só tornava a vida mais pesada, o
que não quer dizer mais profunda.
O grande desafio, a grande promessa e lição do cínico
é viver o discurso verdadeiro. Isto é, constituir uma éti-
ca do indivíduo que colabore na transformação do dizer
verdadeiro em uma atividade, em uma prática de vida.
O cínico buscava fazer da própria existência o ponto de
incandescência máxima da verdade. Aqui não se procu-
rava uma harmonia, uma paciente regulação entre vida
e verdade, como desejavam os filósofos estóicos estuda-
dos por Foucault no âmbito da cultura de si. Tratava-se
de transformar, de maneira bruta e até agressiva, as
verdades conhecidas por muitos em ação efetiva. Esse
desafio ético visava transformar em carne e em san-
gue, isto é, visava incorporar as verdades recebidas pela
tradição e reinventadas pela imaginação e pela medita-
ção.
A ação intempestiva dos cínicos é indissociável da
relação entre o sujeito e a verdade estabelecida pela
filosofia grega na época clássica. Para os gregos, explica
Foucault, a legitimidade e a validade de uma opinião se
manifestavam na correspondência visível que se esta-
belecia entre o dizer e o fazer. É por esta razão que o
acesso à verdade exigia uma transformação do sujeito,
uma espécie de provação e de elevação moral, já que o
critério para avaliar a veracidade de um discurso era
exterior ao próprio procedimento de enunciação. Em

236
verve
Estilo de vida e a verdade: o exercício ético...

outras palavras, o que comprova a veracidade de um dis-


curso não é sua coerência interna, sua lógica intrínse-
ca, mas o efetivo experimento, a vivência das verdades
que são ditas e proferidas em um discurso. A verdade
emerge quando existe uma correspondência, uma ade-
quação plena entre a fala do sujeito e a sua conduta,
entre o que se diz e o que se faz.
O pensamento moderno, como sabemos, alterou ra-
dicalmente essa maneira de avaliar o discurso verda-
deiro. O ‘conhecimento pelo conhecimento’, eis a fór-
mula que adotamos para reconhecer a verdade. Não se
exige mais as transformações, as modificações do su-
jeito para que ele seja capaz de acessar a verdade, ao
contrário, o sujeito moderno é capaz de verdade por in-
termédio do conhecimento puro e simples, e isto lhe
basta. A conseqüência disto — afirma Foucault — “é que
o acesso à verdade, cuja condição doravante é tão-so-
mente o conhecimento, nada mais encontrará no co-
nhecimento, como recompensa e completude, do que o
caminho indefinido do conhecimento. Aquele ponto de
iluminação, aquele ponto de completude, aquele momen-
to de transfiguração do sujeito pelo ‘efeito de retorno’ da
verdade que ele conhece sobre si mesmo, e que transi-
ta, atravessa, transfigura seu ser, nada disto pode mais
existir.”11
A questão é que o “Conhece a ti mesmo” tão caro ao
pensamento grego passou a significar no pensamento
moderno, como sugere Nietzsche, “Deixa de interessar-
te por ti! Torna-te objetivo!”12 A verdade não será mais
capaz de transfigurar o sujeito, não servirá para uma
modificação da maneira de ser, do modo de existência
de um indivíduo. Ao invés do sujeito ser afetado e meta-
morfoseado pela verdade, ele se tornou mais um objeto
do discurso verdadeiro. Daí a grande dificuldade de cons-
tituir-se, de elaborar na atualidade uma ética do indiví-

237
8
2005

duo, pois até mesmo o conhecimento de si transformou-


se em um objeto do conhecimento científico. As pesqui-
sas de marketing, essas sondagens científicas dos de-
sejos e das vontades do público, expressam nitidamente
o nosso desinteresse por nós mesmos. A eficácia e o
sucesso das linhas de montagem de desejos só podem
acontecer em uma cultura na qual o indivíduo se en-
contre brutalmente reduzido, transformado em mero
objeto, sem poder sobre a sua própria subjetividade.
Na atualidade, no senso comum, muitas vezes con-
fundimos a figura do cínico com a do hipócrita. Abste-
mo-nos do erro. São figuras distantes eticamente. O cí-
nico, como define de forma lapidar Frédéric Gros, quer
“tornar diretamente legível no corpo a presença explosi-
va e selvagem de uma verdade nua, de fazer da própria
existência o teatro provocador do escândalo da verda-
de.”13 Viver aquilo que se conhece e se reconhece como
verdadeiro, eis a admirável ambição do cínico. E isto não
se confunde com o desejo do hipócrita, do ator que dese-
ja em última análise persuadir o seu interlocutor por
meio de um discurso bem elaborado, bem tramado e, tal
como a teia de aranha, envolver a presa e capturá-la. O
hipócrita precisa dar vazão à sua enorme capacidade de
adaptação e, por isso, dispõe dos discursos verdadeiros
para conquistar os aplausos no teatro da vida. Não tem
a pretensão de transformá-los em carne, de tornar legí-
vel no corpo a presença da verdade, mas antes, usá-la
como um belo e espetacular figurino.
Por fim, uma última observação. O cínico pratica sem-
pre uma auto-experimentação, pois a pergunta funda-
mental é: até que ponto meu corpo, minha existência
suporta a verdade? O corpo se transforma nesse caso
em um laboratório, em um território experimental onde
se aplica e se testa de forma radical o discurso verda-
deiro. O lance do hipócrita é experimentar a verdade

238
verve
Estilo de vida e a verdade: o exercício ético...

nos outros. Ele conduz a platéia a determinadas experi-


mentações ao simular certas dores, aflições e conflitos
humanos. Dito de outra maneira, o cínico se esforça
para guindar o sujeito — por um exemplo radical que é a
sua própria vida —, do estado de estultice. Já o hipócrita
luta pela manutenção desse estado, pois nele ele é o
senhor.
Nesta época louca e das mais interessantes em que
o hipócrita se torna nosso senhor e soberano, a energia
de construir é, segundo Nietzsche, paralisada. O ator
nada constrói, não é capaz de elevadas promessas de
futuro e, muito menos, tem a coragem necessária para
honrá-las. O que não será mais construído no Império
dos Hipócritas, Nietzsche anunciará de forma provoca-
tiva e ao mesmo tempo solene: “Em poucas palavras —
ah, sobre isso haverá silêncio por muito tempo! —, o
que doravante não mais será construído, não pode ser
construído, é — uma sociedade no velho sentido da pa-
lavra; para construir tal edifício falta tudo, a começar
pelo material. Nós todos já não somos material para uma
sociedade: eis uma verdade cuja hora chegou!”14 Eis uma
verdade dissimulada pelos nossos senhores; eis a razão
de nossa ruidosa alegria ao maquiar o cadáver que a
história nos legou.

Notas

1
Texto apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História, promovido pela
Associação Nacional de História (ANPUH).
2
Michel Foucault. Manoel Barros da Motta (org.) Arqueologia das ciências e
história dos sistemas de pensamento. Ditos e escritos II. Tradução de Elisa Montei-
ro. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2000, p. 312.
3
Idem, p. 325.

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8
2005

4
Gilles Deleuze. Conversações, 1972-1990. Tradução de Peter Pál Pelbart. Rio
de Janeiro, Ed. 34, 1992, p. 145.
5
Michel Foucault & Richard Sennet. “Sexualidad y Soledad” in Foucault y la
ética. Buenos Aires, Editorial Biblos, 1988, p. 174.
6
Friedrich Nietzsche. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São
Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 263.
7
Michel Foucault. A Hermenêutica do Sujeito. Tradução de Márcio Alves da
Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo, Martins Fontes, 2004, p. 162.
8
Gilles Deleuze, 1992, op. cit., p. 224.
9
Epicteto apud Michel Foucault, 2004, op. cit., p. 171.
10
Frédéric Gros. Foucault: a coragem da verdade. Tradução de Marcos Marcionilo.
São Paulo, Parábola Editorial, 2004, p. 164.
11
Idem, p. 23.
12
Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro.
Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 1992, p.
69.
13
Idem, p.163.
14
Friedrich Nietzsche, 2001, op. cit., p. 253.

240
verve
Estilo de vida e a verdade: o exercício ético...

RESUMO

Este artigo apresenta dois diferentes modos de dizer a verdade e


de afirmar a vida, através da máscara do hipócrita e do filósofo
cínico.

Palavras-chave: Verdade, filosofia cínica, hipócrita.

ABSTRACT

This article presents two differents ways of saying the truth and
affirming the existence through the mask of hypocrite and of Cynic
philosopher.

Keywords: Truth, Cynic philosophy, hypocrite.

Recebido para publicação em 26 de julho de 2005 e confirmado


em 28 de agosto de 2005.

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8
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a aposta por uma teoria da


abolição do sistema penal1

louk hulsman e jacqueline bernat de celis*

Torna-se difícil a auto afirmação a partir de um rótu-


lo negativo: o abolicionista do sistema penal sente em
sua própria pele esta dificuldade específica quando é obri-
gado a justificar sua recusa pelo sistema estabelecido
como passo prévio para obter uma legitimidade e poder
falar da sociedade sem sistema penal entendida como
essencialmente portadora de positividades.2 O abolicio-
nista vislumbra uma sociedade na qual o sistema esta-
tal, criado já faz dois séculos, não tem mais justificati-
va. O fato de que este sistema exista o obriga, porém, a
se pronunciar previamente sobre as razões pelas quais
deseja descartá-lo. De forma definitiva, trata-se de uma
imposição saudável que lhe permite unir seus esforços,
de uma maneira realista, aos numerosos pesquisado-

* Louk Hulsman é Professor Emérito da Universidade de Roterdan e integran-


te dos seguintes foros internacionais: Nações Unidas, Conselho da Europa,
Sociedades de Direito Penal e Criminologia. Jacqueline Bernat de Celis é dou-
tora em direito e criminologia e pesquisadora no Centre de Recherches de Politique
Criminelle de Paris.

verve, 8: 246-275, 2005

246
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

res que hoje desenvolvem trabalhos nos quais se coloca


em questão a “justiça penal” e, ao mesmo tempo, convi-
dar pensadores e profissionais a superarem o patamar
das comprovações para trabalharem expressamente na
elaboração de uma lógica alternativa que não se dete-
nha na mera crítica do sistema penal, mas que se com-
prometa na redefinição dos problemas. É desta forma
que o termo abolição contém, em última instância, um
tipo de pensamento ativo, e também uma perspectiva
cognitiva crítica e um movimento criador de liberdade.
Tentaremos apresentar aqui os fundamentos e os pro-
blemas deste posicionamento.3

I. Fundamentos da teoria da abolição do sistema penal


A dupla fundamentação da perspectiva abolicionista
se mostra a partir de duas proposições complementa-
res:
1) o sistema penal, longe de resolver os problemas
que se propõe enfrentar, cria outros novos: é, de fato,
um mal social;
2) mecanismos paralelos de solução de conflitos mos-
tram que uma sociedade sem sistema penal já existe, aqui
e agora.
Reconhecer a existência deste fato, e permitir que
se desenvolva, converteria o sistema penal em algo ob-
soleto. Examinemos de perto estas proposições.

1) O sistema penal é um mal social


Pesquisas realizadas na área das ciências humanas
puseram em destaque, alguns anos atrás, um fato mui-
to importante: o sistema penal, em seu funcionamento
real, não responde, de maneira alguma, aos objetivos

247
8
2005

que lhe são designados.4 Acredita-se que o sistema pe-


nal é o resultado de um processo político e jurídico bas-
tante elaborado e coerente que o mantém sob constan-
te controle. Acredita-se, também, pelo menos nas de-
mocracias ocidentais, que o sistema penal é o
instrumento indispensável de uma justiça que protege
ao mesmo tempo os direitos do homem e os valores que
tais regimes proclamam como essenciais. Porém, nada
disto corresponde à realidade.
O sistema penal é, de fato, uma máquina burocráti-
ca cujas subestruturas, atuando cada uma por seu lado,
produzem decisões irresponsáveis. O sistema penal
menospreza as pessoas concretas, expropriando-as dos
seus problemas, já que trabalha sem elas e contra elas.
A teoria abolicionista proporciona uma análise bem
fundamentada destas duas críticas primordiais dirigi-
das contra o sistema penal:
a) O sistema penal é uma máquina burocrática.
Já em 1975, um documento de trabalho elaborado nas
Nações Unidas, para o V Congresso para a prevenção do
crime e o tratamento dos delinqüentes, sublinhava que está
sendo considerado como algo coerente e lógico “um sis-
tema” que “não atua realmente como tal sistema” e que,
levando em consideração sua estrutura, não pode ofe-
recer a coesão que habitualmente lhe é conferida.5
O pretenso “sistema de justiça criminal” está de fato
conformado por sub-sistemas hierárquicos que perten-
cem a corpos diferentes, por sua vez ligados de modos
diferentes ao poder central, cujas regras profissionais
— a deontologia, os critérios de atuação, as orientações
ideológicas — desenvolvem-se com independência umas
das outras. Não existindo nenhum tipo de coordenação
específica, dificilmente é possível exigir dessas subes-
truturas que assumam em conjunto os excelsos objeti-

248
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

vos que o discurso oficial designa ao sistema penal: lu-


tar contra a criminalidade, fazer justiça, proteger, ao
mesmo tempo, os direitos dos indivíduos e os da socie-
dade etc. Diversas pesquisas realizadas em diferentes
âmbitos mostram entretanto que a polícia, a magistra-
tura, a administração penitenciária, e outras institui-
ções que participam, direta ou indiretamente, da justi-
ça repressiva, são movidas antes de mais nada por obje-
tivos internos que interessam aos corpos a que perten-
cem: prestígio do corpo, bem-estar de seus membros,
procura de um certo equilíbrio na hora de realizar as
tarefas que lhe são designadas etc.
Por outro lado, a enorme divisão de trabalho que se
conserva na sucessão de pequenas funções atribuídas
a cada um dos agentes que intervém no processo penal
mostram até que ponto a compartimentalização e a pro-
fissionalização desumanizam esse processo, servindo
de fachada que se instala entre o interessado e os en-
carregados de fazer transitar “seu assunto” de uma fase
para outra. É verdade que este é um traço característico
de todas as grandes organizações burocráticas de nos-
sas sociedades industriais, mas também é verdade que,
na medida em que prepondera no interior de um siste-
ma cujo primeiro objetivo é impor castigos, um tal funci-
onamento gera conseqüências às que convém dedicar
particular atenção: ninguém governa nem controla esta
máquina penal concebida para produzir sofrimento, nin-
guém pode se sentir responsável desse sofrimento, nem
impedir que aconteça num ritmo que somente merece
o qualificativo de demencial, já que na França, por exem-
plo, o sistema penal manda para a prisão mais de cem
mil pessoas por ano. Isto é, estigmatiza por ano, se leva-
mos em consideração as famílias afetadas, perto de meio
milhão de pessoas.

249
8
2005

b) O sistema penal opera mediante mecanismos re-


ducionistas dos problemas humanos.
O sistema penal transforma os acontecimentos vivi-
dos em problemas abstratos. Funciona a partir de filtros
de interpretação estereotipados que uniformizam, re-
duzem e deformam a realidade. O mesmo rótulo serve
para perseguir acontecimentos muito diferentes: um
roubo com arrombamento numa escola vazia é pouco pa-
recido ao que se comete na casa de uma pessoa de ida-
de ou que mora sozinha. Um comportamento agressivo
dentro de uma família guarda pouca relação com um
ato violento perpetrado no contexto anônimo de uma rua.
O sistema penal, na medida em que retira de seu con-
texto pessoal e social o que persegue, o priva de sua
densidade existencial, de uma tal maneira que em últi-
mo termo atua sobre falsos problemas, prisioneiro de
um universo conceitual que não tem nada a ver com a
realidade vivida.
Ainda, o sistema penal, já que sua vocação consiste
em designar os culpados para castigá-los, não só rein-
terpreta os acontecimentos dos quais se ocupa, lançan-
do mão de um rótulo rígido, mas produz, ao mesmo tem-
po, uma resposta estereotipada: a estigmatização do au-
tor selecionado para ser castigado.
O sistema penal se vê obrigado a castigar, quando há
muitas outras formas possíveis — e geralmente melho-
res — de responder a um acontecimento desagradável
ou doloroso. Consideremos, por exemplo, o caso da mu-
lher que sofre maus-tratos. Condenar e encarcerar o
marido é a única resposta possível? As mulheres que de
fato padecem estas situações já encontraram outras res-
postas possíveis, como dirigir-se a um centro de prote-
ção, associar-se ou reunir-se com mulheres que se en-
contram na mesma situação, aprender técnicas de au-

250
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

todefesa, abandonar o lar, recorrer a uma terapia fami-


liar com o marido e os filhos, enfim, lançar mão de me-
didas alheias ao sistema penal.
A teoria abolicionista identificou pelo menos cinco
modelos de “resposta” a uma situação que o interessado
considera que não deve continuar suportando, e que foi
provocada por uma pessoa responsável:6 o modelo puni-
tivo e também os modelos compensatório, terapêutico,
conciliatório e educativo. Praticamente, o sistema pe-
nal conhece apenas o modelo punitivo. De fato, todas as
“medidas” diferentes da “pena” que se aplicaram no in-
terior do sistema repressivo estatal, e que pretendiam
ser educativas ou terapêuticas, nunca chegaram a per-
der, sabemos isso hoje, seu caráter angustiante e deson-
rado. Sem dúvida, isso se explica pela própria gênese do
sistema penal, que foi idealizado numa época de transi-
ção entre a sociedade religiosa e a sociedade civil, e
que continua sendo devedor do modelo escolástico, ra-
zão pela qual aparece também impregnado da cosmolo-
gia medieval. Uma verdade definida definitivamente e
imposta de cima, juízes encarregados de distribuir uma
justiça tão absoluta quanto serena, um determinado
sofrimento imposto como réplica a atos considerados
maus que se devem “purificar”, uma filosofia manique-
ísta que divide os homens em bons e maus, em inocen-
tes e culpados, tal foi sempre, e ainda é, a lógica do sis-
tema penal vigente em nossas sociedades, que não é mais
do que a lógica do Juízo Final, na qual o Deus onipre-
sente, onisciente e justiceiro dos escolásticos foi subs-
tituído pelo código penal e o tribunal de cassação.
Somamos às duas acusações fundamentais que já
colocamos contra o sistema punitivo estatal — ninguém
o controla e atua em relação a problemas que ele mes-
mo cria — outras que culminam sua deslegitimação.
Enumeremos algumas.

251
8
2005

Está claro que o sistema penal se aplica sobre a faixa


mais pobre ou mais vulnerável da população, enquanto
que uma das razões de sua instauração no final do sé-
culo XVIII foi, precisamente, acabar com a utilização
arbitrária e abusiva da força dos poderosos contra os fra-
cos. O sistema penal atua, de fato, como um instrumento
em mãos das forças com poder, que produz a marginali-
zação social dos elementos indesejáveis, supondo as-
sim a invalidação da afirmação teórica segundo a qual
a justiça deve ser igual para todos. Em oposição a sua
vocação democrática, o sistema penal reforça as desi-
gualdades sociais.
Por outro lado, este sistema intervém com violência
na vida dos cidadãos. O sofrimento imposto àqueles que
são condenados pelo sistema — um de cada quatro ou
de cada cinco são enviados para a prisão — tende a ser
geralmente minimizado. E isso é assim, em grande par-
te, porque o sofrimento se aplica, como acabamos de lem-
brar, sobre uma população da qual não estão próximos,
nem psicológica nem socialmente, aqueles que fazem
as leis e aqueles que as aplicam. O homem encarcera-
do se vê privado de muito mais do que da liberdade. A
preocupação pelos “direitos do homem” fica do lado de
fora das prisões. Do lado de dentro, os condenados são
abandonados, sem recursos, em mãos de uma adminis-
tração onipotente, que tem reconhecido o direito de fun-
cionar na base do segredo. Pois bem, esses bens e esses
direitos, junto à liberdade, que são suprimidos dos pre-
sos a despeito das declarações mais solenes, coincidem,
justamente, com os valores primordiais da civilização
ocidental: o direito à promoção pessoal decorrente da
educação permanente e contatos interpessoais respon-
sáveis e enriquecedores; o direito de ter uma família e
assumir em relação a ela as próprias responsabilida-
des; o direito à saúde; o direito a uma vida afetiva e
sexual digna; o direito a condições de trabalho não hu-

252
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

milhantes; o direito a espaços de intimidade pessoal etc.


O criminologista norueguês Nils Christie sublinha in-
sistentemente, e com toda razão, este aspecto tantas
vezes esquecido do problema: em nossas sociedades oci-
dentais, nas quais o nível geral de vida material, cultu-
ral e espiritual das populações tende a crescer, o encar-
ceramento punitivo se transformou em um castigo bár-
baro, desmedido, com o aparecimento de uma distância
insuportável entre aqueles que são objeto de condena-
ção e a condição considerada normal ou desejável pelo
cidadão de um Estado de Bem-estar. O castigo penal é
anacrônico.7
O sofrimento dos encarcerados é um mal absoluto,
porque é estéril. Há sofrimentos que permitem um de-
senvolvimento pessoal e que fazem dos que padecem
pessoas melhores. Mas todos os observadores concor-
dam em afirmar que nunca é criativo o fato de isolar
grupos de homens para obrigá-los a vegetar juntos, arti-
ficialmente, num universo que se esforça por infantili-
zar e alienar, que se empenha em não humanizar e
não socializar. Este sofrimento é um absurdo.

2) Uma sociedade sem sistema penal já existe


Da mesma maneira que foi necessário vencer a for-
ça da gravidade para explorar o mundo exterior à terra,
é necessário sair da lógica do sistema penal para poder
conceber uma sociedade sem ele. Os conceitos e a lin-
guagem do sistema penal nos fixam em seu território,
razão pela qual é preciso fazer um esforço mental consi-
derável para conseguir desligar-se deste campo de gra-
vidade.
Com ou sem intenção, ao falar de “crime” ou de “de-
lito” surge imediatamente uma imagem: a imagem de
um sujeito culpado. Se, ao contrário, se utiliza o termo

253
8
2005

“acontecimento”, a expressão “situação-problema” ou


qualquer outra expressão de significação neutra, se abre,
então, um espaço em que podem coexistir interpreta-
ções diversificadas. Ao substituirmos os termos “delin-
qüente” e “vítima” pela expressão “pessoas envolvidas em
um problema”, evitamos que mentalmente se outorguem
a essas pessoas rótulos preconcebidos que limitam sua
liberdade de consciência e as transformam, ipso facto,
em adversários. Deste modo se abre um âmbito no qual é
possível encontrar respostas muito diferentes às do mo-
delo punitivo. Apenas quando se abandona a dialética pe-
nal é possível libertar-se do ciclo “delinqüência-prisão-
reincidência-prisão” que se apresenta como indestrutí-
vel na lógica penal. Somente assim as pessoas que caem
nas redes do sistema deixam de ser consideradas seres
diferentes, como uma espécie de grupo infra-humano da
sociedade que não pára de crescer e para o qual não res-
ta outra saída a não ser a marginalização. É a partir des-
te momento que é possível imaginar reformas sociais ca-
pazes de fazer menos freqüentes e menos pesados certos
problemas interpessoais indesejáveis — para além das
preocupações com a “prevenção”, cujo referencial conti-
nua sendo ainda as definições do código penal.
O viajante que aceita adentrar nos territórios exte-
riores à órbita de gravidade do sistema penal deve sa-
ber, porém, que se arrisca a uma surpresa: descobrir
que esse sistema do qual tanto se fala e que, como su-
blinhamos insistentemente, constitui um mal social e
uma aberração, ocupa-se unicamente de uma ínfima par-
te das situações teoricamente “criminalizáveis”.
No seio da população de um determinado país, e pen-
sando no volume considerável de problemas interpesso-
ais sentidos a todo momento, muito poucos são trata-
dos, na realidade, com a mecânica repressiva, ora por-
que muitos não entram no sistema, ora porque são

254
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

colocados no âmbito da sua competência formal, ora por-


que são apropriados por outros mecanismos de resolu-
ção de conflitos. Observemos isto de perto.
a) Problemas classificados como de caráter penal não
entram, de fato, no sistema repressivo.
Foram as pesquisas de sociologia penal que puseram
em destaque um fenômeno que é classificado pela ótica
penal como “a cifra negra” (fazendo referência aos ca-
sos que deveriam passar pelo sistema, mas que de fato
lhe escapam). Da perspectiva abolicionista preferimos
considerar este fenômeno enquanto evidência do cará-
ter claramente irrisório do sistema penal, evidência de
que este sistema não é, de maneira nenhuma, indis-
pensável para nossa sociedade, em contraste ao que o
discurso oficial profere.
Neste sentido, se produz uma série de observações
convergentes: concretamente, as pesquisas de vitimi-
zação mostram que um número muito elevado de atos
teoricamente passíveis de punição não são sequer de-
nunciados à polícia;8 ainda, os estudos sobre os meca-
nismos dos quais se alimenta o sistema penal revelam
que, em primeiro lugar, a polícia e, em segundo, o Mi-
nistério Público (nos sistemas da Europa) acolhem ape-
nas um número reduzido dos “casos” que lhe são desig-
nados,9 de tal maneira que o exame crítico das estatís-
ticas que fazem referência às condenações penais
permite observar que para pequenos assuntos de com-
provada freqüência o volume de condenações é pratica-
mente insignificante.10
Podemos, portanto, perguntar-nos o que acontece com
os problemas dos quais o sistema penal não se ocupa,
ainda que sejam de sua competência. É inquestionável
que numa porcentagem elevada de casos as vítimas não
fazem a denúncia devido a sentimentos negativos, como

255
8
2005

o medo de represálias, ou a convicção de que “a justiça”


será impotente para resolver estes casos. Em contra-
partida, outros que denunciam seu problema diante da
polícia são obrigados a lamentar que seu caso, ao ser
interrompido pelos encarregados de realizar os trâmites,
não encontra um eixo na via penal. Na realidade, uma
análise um pouco mais profunda das situações nas que
se encontram aqueles que não recorrem à justiça mos-
tra que os problemas classificados como de tipo penal,
que não chegam a alimentar as engrenagens do siste-
ma, permanecem à margem devido, normalmente, à von-
tade expressa das pessoas diretamente envolvidas.
É possível afirmar que muitas vezes a vítima de um
acontecimento funesto não pede contas a ninguém por-
que não considera que exista um autor culpável ou res-
ponsável por ele. Alguns exemplos muito simples per-
mitem compreender a diversidade de reações que apa-
recem diante de um caso deste tipo. Quando alguém
morre numa mesa de operações, não raro se escuta:
“foi um acidente”, ou também: “Deus assim o quis”, en-
quanto que se escutam, da mesma maneira, vozes que
denunciam uma responsabilidade profissional. Se al-
guém morre por overdose de medicamentos, se compõe
um concerto parecido de interpretações divergentes:
para alguns “sua hora chegou”, e aceitam o aconteci-
mento como se fosse uma fatalidade, outros condenam
que o paciente ingerisse por erro a dose mortífera, e
não faltam aqueles que suspeitam que o interessado
decidira acabar voluntariamente com sua vida, coisa
que alguns aprovarão e outros considerarão condená-
vel. No caso de que alguns acreditem que um parente
ou uma pessoa próxima ajudara o doente a morrer, apa-
recerá uma divisão de opiniões entre aqueles que acu-
sarão a esse terceiro de “ajudar ao suicídio”, de “omis-
são de assistência a uma pessoa em situação de risco”,

256
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

e aqueles que considerem esta ajuda um gesto de va-


lentia, um serviço enorme prestado em nome da ami-
zade. A teoria abolicionista colocou, assim, em evidên-
cia uma espécie de tipologia dos marcos de referência
para classificar as interpretações que geralmente se
produzem em relação a uma experiência vivida.11 Uma
primeira classificação distingue os marcos naturais e
sobrenaturais dos marcos sociais de interpretação. Em
um marco natural o acontecimento é pensado como um
acidente. No interior dos marcos sociais de interpreta-
ção é possível distinguir um prisma social de caráter
estrutural e um prisma social de caráter pessoal. No pri-
meiro caso, o acontecimento é atribuído a uma estrutu-
ra social e, portanto, a resposta passa principalmente
por uma reorganização social. No segundo, o aconteci-
mento é atribuído a uma “pessoa” ou a um “grupo perso-
nalizado”. No interior deste último prisma distinguimos
tipos de interpretação que se resumem em cinco mode-
los de resposta: punitivo, compensatório, terapêutico,
educativo e conciliatório.
Nesta linha, que desloca a interpretação dos fatos
para a iniciativa dos interessados, é possível afirmar
que, em uma grande quantidade de casos, as pessoas
implicadas em atos que a lei penal considera puníveis
não encontram nisso nenhum tipo de problema que
mereça ser resolvido por meio de uma intervenção cri-
minalizante.12 Como já comprovamos muitas vezes, o
insulto, a calúnia, a violência em palavras ou gestos,
determinados comportamentos sexuais, o abuso do po-
der ou da autoridade, assim como outros atos que se
produzem com freqüência em nosso meio social, e nos
quais podemos julgar o papel de vítima ou de autor, po-
deriam ter provocado uma ação penal se o nosso parâ-
metro fosse as regras formais do sistema, ainda que, na
grande maioria dos casos, não se lance mão deste re-

257
8
2005

curso. Se a maior parte dos problemas fosse resolvida


unicamente por via penal, a vida social seria pratica-
mente impossível.
Sem negar a existência — compreensível — de ca-
sos nos quais os sentimentos de retribuição são explici-
tamente, e por vezes violentamente, expressados, pes-
quisas coincidentes realizadas em diferentes países a
partir de uma ótica de vitimização, mostram que as pes-
soas que se consideram vítimas de uma desgraça — que
pode ser atribuída, segundo elas mesmas, a um indiví-
duo concreto, não recorrem normalmente à via penal; de-
sejam geralmente obter reparação, mais do que saber
que se castiga ao autor, isto é, desejam entrar num pro-
cesso de conciliação.13 Ligam-se assim, sem saber, a uma
tradição ancestral: a distinção entre assuntos civis e
assuntos penais não existe nas sociedades “naturais”,
e só apareceu tardiamente no Ocidente.14 Esta distin-
ção jurídico-política não recobre nenhuma “natureza”
particular dos problemas em questão, e as pessoas viti-
mizadas a ignoram saudavelmente, como veremos a
seguir.
b) Os problemas classificados como civis ou conside-
rados enquanto tais na prática.
Como já dissemos, só uma pequena proporção dos
fatos definidos pela lei penal como criminais ou delitu-
osos são realmente perseguidos e condenados. Isto de-
veria suscitar uma primeira questão — inquietadora —
por que isto acontece? Mas a esta pergunta se soma ou-
tra, que incrementa a perplexidade do observador avi-
sado: por que o legislador (e a jurisprudência) subme-
tem à lei penal determinados tipos de atos ou comporta-
mentos em lugar de outros?15 Ao observar com cuidado,
comprova-se que um número importante de fatos que
poderiam ser objeto da intervenção do sistema penal —

258
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

em virtude das orientações que parecem guiar a ativi-


dade criminalizante do poder — na realidade não o são.
O âmbito civil abraça níveis e zonas extraordinaria-
mente determinantes e variadas da atividade e das re-
lações interpessoais, nas quais importantes aconteci-
mentos vitimizantes são observados, a partir de uma
aproximação não estigmatizante, pelas pessoas que apre-
sentam uma demanda contra alguém, apelando para o
princípio da responsabilidade denominada “civil” e para
a noção de risco.
Naqueles setores que têm um grande peso econômi-
co na vida da nação é muito raro se recorrer à via judi-
cial, e mais raro ainda o sistema penal entrar em ação.
Os importantes problemas alfandegários, financeiros,
fiscais e ecológicos que surgem no mundo dos negócios
são habitualmente resolvidos pela via da negociação,
da transação e da arbitragem, com o consentimento, e
por vezes a proposta, das administrações públicas en-
volvidas.
Os acidentes de trabalho são classificados em princí-
pio, pelo menos em alguns países europeus, como pro-
blemas civis regulamentados pela Segurança Social. Os
problemas que se referem aos contratos e às condições
de trabalho figuram também entre os problemas deno-
minados civis.
Em que se diferenciam os problemas tratados pela
“via civil” daqueles tratados pela “via penal”? A mentali-
dade jurídica sabe ser criativa para justificar as clas-
sificações do direito positivo; mas nenhum critério pode
lutar com a observação dos fatos.
Os acidentes de trabalho, que produzem na França
3.000 mortes e mais de 300.000 incapacitações perma-
nentes de trabalho por ano, apresentam uma variante
de extrema gravidade para as famílias afetadas. As práti-

259
8
2005

cas conciliatórias, evocadas em relação ao “mundo dos


negócios”, recobrem atividades eventualmente mui-
to vitimizantes para grupos importantes da população
e, por vezes, para a coletividade nacional considerada
em seu conjunto. O fato de que esses problemas pos-
sam ser resolvidos pela “via civil” mostra que a im-
portância do dano ocasionado não permite situar um
acontecimento a priori no campo do penal, nem deli-
mitar este âmbito. Um pretendido “valor essencial”
que deveria ser resguardado por cima de tudo tam-
bém não permite realizar esta delimitação. As três
quartas partes das pessoas atualmente presas na
França estão presas — ou estarão, já que 53% são
detenções preventivas — porque se apropriaram de
alguma espécie de bem que pertencia a outro.16 Pode-
mos verdadeiramente comprovar que um “valor supe-
rior” a todos os outros foi infringido por estes deten-
tos? É sem dúvida desagradável, e por vezes doloroso,
ser privado dos bens próprios, mas não somos muito
mais profundamente atingidos por outros aconteci-
mentos que não entram no circuito penal como, por
exemplo, os problemas que afetam nossa condição de
assalariados, ou por aqueles que surgem no casal ou
no interior das famílias?
A inexistência de uma noção ontológica do crime (ou
do delito), isto é, o fato de que não seja possível reconhe-
cer nos comportamentos atualmente definidos como pu-
níveis uma natureza intrínseca específica, fica evidente
quando o Poder se propõe deslocar um setor inteiro do
campo jurídico para outro em função dos interesses so-
cio-políticos em jogo.17 Mostra que tudo poderia ser civili-
zado se existisse uma vontade política para tanto. É pre-
cisamente isto que reivindicam os abolicionistas do sis-
tema penal.

260
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

II. Problema de fundo na teoria da abolição do siste-


ma penal
Quando se considera o sistema penal um mal social
e quando se percebe que há áreas de sociabilidade que
se desenvolvem à margem deste sistema, como não de-
sejar sua total supressão?
Façamos o esforço de evitar um certo vocabulário
ascético que tende a esconder a realidade. Como já as-
sinalou Nils Christie, quando se fala de “pena privativa
de liberdade”, de “responsabilidade de tomar conta de
alguém”, ou de “internos” esquece-se daquilo que de fato
se está tratando. Chamemos, então, as coisas por seu
nome (penas, administração penitenciária e presos) e ten-
temos sair do discurso puramente ideológico para nos
colocar as verdadeiras questões, aquelas que faz tanto
tempo que a sociologia penal formulou, e diante das quais
responde com suficiente clareza para produzir dor e ver-
gonha. Por exemplo estas: Quem está na prisão? Por
quais motivos? Por conta de quais mecanismos de discri-
minação? Qual o significado da detenção para os homens
e as mulheres encarcerados em nossas prisões, nas
condições em que elas se encontram? Por que as pessoas
encarceradas em nossas bastilhas de hoje são privadas
dos direitos humanos? Como explicar a estranha impo-
tência dos poderes políticos diante da inflação de textos
punitivos e o aumento de condenações que pressupõem
“penas privativas de liberdade”, quando estes mesmos
poderes políticos reafirmam a sua vontade de fazer da
reclusão no cárcere a medida excepcional de um siste-
ma penal que seria em si mesmo o último ratio da justi-
ça oficial?
A história nos ensina que não adianta pretender “hu-
manizar” a prisão e que não se muda de sistema sim-
plesmente retocando os objetivos da pena, sua duração,

261
8
2005

seus fundamentos teóricos ou suas modalidades. O sis-


tema penal, da forma que hoje ele é, não pode ser mais
do que uma máquina produtora de sofrimentos inúteis,
tão sobrecarregado por seus mecanismos burocráticos
e estereotipados que despreza os reais protagonistas.
Se verdadeiramente se deseja sair de uma situação
esgotada, se pretende-se com seriedade que este siste-
ma deixe de gerar um mal que muitos, honestamente,
desprezam, é necessário imaginar outra coisa. É isso
que pretendem fazer com o sistema penal os partidários
da abolição que se propuseram, a longo prazo, alcançar
seu desaparecimento e, a curto prazo, evidenciar suas
partes. Para consegui-lo trabalham no interior de um
novo marco conceitual, que tentaremos precisar em se-
guida e que terá alguns efeitos previsíveis na dinâmica
social.

1. O novo marco conceitual


Para o abolicionista do sistema penal, o primeiro passo
não é reformar os textos legais, e sim instaurar outras
práticas capazes de conduzir a uma visão diferente da
sociedade e dos conflitos interpessoais que na atualida-
de se amarram e se desamarram.18 Certamente, é im-
portante conseguir reformar os textos legais numa li-
nha de um máximo de descriminalização, já que estra-
tegicamente é impossível, a curto prazo, pensar em seu
desaparecimento puro e simples, mas também é neces-
sário trabalhar a longo prazo e, neste sentido, o que pro-
põem os abolicionistas?
O marco conceitual dominante, posto de lado pela pró-
pria política criminal, pelas legitimações do sistema
penal e, também, pela criminologia, pressupõe uma no-
ção ontológica do crime. A criminalização primária tenta
definir quais são os comportamentos que respondem a

262
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

esta realidade, enquanto que a criminalização secun-


dária tenta reprimi-los. A teoria abolicionista, por sua
vez, negando a existência de uma noção ontológica do
crime, tenta extrair as conseqüências desta negação.
Por outro lado, pretende-se, assim, descartar qualquer
tipo de esquema conceitual que elimine a experiência
vivida pelas pessoas diretamente implicadas em uma
situação de vitimização. Estes pontos essenciais per-
mitem colocar alguns pontos de apoio na procura do dis-
curso alternativo que tentamos elaborar. Poderiam ser
assim enumerados os pressupostos básicos da lógica que
postulamos:
a) Nenhum acontecimento que implique em vítimas
é atribuído por adiantado a um autor culpado.
b) As situações que colocam problemas — a pessoas
individuais ou a coletivos19 — podem servir de circuns-
tância para uma intervenção externa às pessoas nelas
implicadas, unicamente no caso de que elas o peçam.
c) As soluções específicas que devem resolver ou tor-
nar viáveis as situações-problema não são predetermi-
nadas: a escolha do modelo de resposta a ser adotado
corresponde aos interessados.
d) Os conflitos produzidos no interior de um grupo de-
vem ser preferencialmente resolvidos no interior desse
grupo.20 Quando uma pessoa envolvida numa situação
problema deseja solucioná-la com ajuda de uma inter-
venção externa pode, porém, recorrer ora a uma media-
ção psicologicamente próxima, ora a uma justiça oficial
que adote o estilo civil de resolução de conflitos.21
e) Quando em uma situação-problema não aparece
nenhum recurso concreto para viabilizá-la, devem ser
produzidos um apoio e propostas de reconciliação que
ajudem a vítima a superar a dita situação.

263
8
2005

O abandono dos esquemas mentais próprios do siste-


ma penal — que aparecem esboçados nestas propostas
— repousa num processo sobre o qual convém sublinhar
sua originalidade. O abolicionista pretende problemati-
zar a noção de crime (ou de delito), provocar uma revira-
volta radical em relação ao sistema penal e procurar
apoio numa noção flexível e possível de ser aplicada a
qualquer tipo de conflito interpessoal que demande so-
luções: nos referimos à noção de situação-problema.22
O abolicionista não pretende atuar, como acontece
com a maior parte dos reformadores, no momento da
fase final do sistema, quando, depois de ter atravessado
todas as seqüências anteriores, o incriminado se con-
verterá irremediavelmente em um excluído. O abolicio-
nista, na medida em que está convencido de que as pes-
soas apanhadas pelo sistema penal sofrem sempre um
processo de degradação (inclusive saindo absolvidos), não
intervém como um aval quando tudo já foi decidido, e
sim previamente tenta, por todos os meios, evitar que as
pessoas entrem no sistema penal.
A utilização privilegiada da noção de situação-proble-
ma, que implica numa rejeição ao conceito legal de cri-
me (ou de delito), permite adotar uma postura de exteri-
oridade que caracteriza a perspectiva abolicionista.
Destaquemos que a noção de situação-problema não
foi proposta para substituir a noção de crime, como se se
tratasse de procurar uma chave melhor para abrir a
mesma fechadura. Em oposição à noção de crime, da for-
ma em que esta é utilizada no sistema penal, a de situ-
ação-problema aparece como um conceito aberto que
deixa nas mãos dos interessados a possibilidade de es-
colher o marco de interpretação do acontecimento, as-
sim como a orientação que deve levar a uma possível
resposta. Pretendemos também evitar que novas estru-

264
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

turas, em último termo bastante próximas do sistema


penal, sejam introduzidas graças a um nome diferente,
por exemplo, com o pretexto de terapia ou de educação.
O abolicionista se apóia nas observações que desta-
camos antes, isto é, na idéia de que um grande número
de situações que entram atualmente no raio de ação do
sistema penal não têm motivo para serem contempladas
como situações que precisam de uma intervenção externa.
Em uma sociedade sem sistema penal não apenas fato
algum, comportamento algum, será definido e rotulado
previamente como fato punível (crime ou delito), mas
também nenhuma situação será considerada previa-
mente um problema a resolver até que os interessados
se pronunciem.
Conceber, pois, uma sociedade sem sistema penal
não significa de maneira alguma forjar um sistema de
substituição que preencheria os moldes nos quais se fun-
dava o sistema retirado. A sociedade sem sistema pe-
nal supõe, sim, o contrário: que nenhuma intervenção
externa terá modo de existir sem a demanda expressa
das pessoas interessadas, já que, em última instância,
delas depende a solução do conflito.

2. Em direção a uma nova dinâmica da vida social


As vantagens do delineamento abolicionista nos pa-
recem evidentes: em primeiro lugar, obviamente, se su-
prime drasticamente o mal social que representa o sis-
tema penal, do qual nos ocupamos extensamente em
outros trabalhos; mas, além disso, se produzirão por deri-
vação outras conseqüências positivas da nova prática.
Considerar uma situação em suas múltiplas dimen-
sões, e não como um ato e seu ator imediato: deste modo
se desvanece a idéia de que a única solução está na

265
8
2005

intervenção direta na vida desse ator. É possível tentar


influenciar em outros fatores que puderam contribuir
para a existência desta situação. Por exemplo, é possí-
vel que a única medida para evitar os acidentes nas
estradas não passe pelo castigo aos condutores. Em al-
guns países se começa a aplicar uma política de preven-
ção, no sentido neutro do termo (sem referência ao pe-
nal), modificando os traçados das estradas, impedindo a
comercialização de determinados tipos de veículos e
regulamentando de outra maneira a circulação ou as
permissões para dirigir. Com isto se espera fazer baixar
a crescente curva de acidentes. Um caso muito dife-
rente, mas que pode servir de ilustração, é a política de
não dramatização de determinados atos que na atuali-
dade os meios de comunicação tendem a apresentar
como muito freqüentes, o que poderia fazer diminuir o
sentimento de insegurança e criar um contexto social
mais saudável, no qual os riscos reais poderiam ser ava-
liados, perdendo-se o medo fantasma e sendo possível,
deste modo, fazer frente aos verdadeiros problemas.23
Somos conscientes de que pelo fato de descriminali-
zar um ato este não deixa de ser problemático, mas o
fato de não enquadrá-lo como um ato punível por princí-
pio permite muitas vezes que apareçam outras dimen-
sões do problema: nos países nos quais o aborto não é
penalizado, as mulheres que decidem abortar sabem que
podem experimentar problemas psicossomáticos, e os
dependentes químicos são mais conscientes do fenôme-
no de dependência que pode brecar o desenvolvimento
de suas atividades ou seu enriquecimento pessoal. Em
todo caso, a descriminalização outorga aos interessa-
dos a possibilidade de colocar explicitamente seus pro-
blemas, de consultar outras pessoas para obter conse-
lhos úteis etc. A supressão da ameaça penal criou uma
situação positiva de maior diálogo e solidariedade.24

266
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

Quando uma situação conflitiva se apresenta neste


marco de tolerância, os grupos aos que pertencem os
interessados (família, igreja, empresa, associações e
outros) podem desempenhar um papel primordial, como
já acontece com os problemas que não foram tragados
pelo sistema penal. Pois bem, a sociedade sem sistema
penal requereria, sem dúvida, a multiplicação de pe-
quenas instâncias de mediação flexíveis e especializa-
das que estão muito presentes nas sociedades “natu-
rais” e que estão sendo recuperadas com êxito em algu-
mas regiões do mundo.25 Estas instâncias diferem do
conciliador, na medida em que não são árbitros que
impõem uma solução, mas pessoas que tentam ajudar
os interessados a compreender sua situação e a encon-
trar, eles mesmos, a solução. O mediador é uma perso-
nagem que é necessário promover em nossas socieda-
des de tecidos flexíveis. Uma sociedade na qual se acei-
tasse prazerosamente a mediação, na qual as pessoas
tentassem assumir solidariamente seus problemas,
apresentaria traços mais acolhedores e cálidos que aque-
les das sociedades que nós conhecemos, nas quais a mo-
nopolização da justiça pelos mecanismos oficiais incita
os cidadãos a descarregar nestes mecanismos questões
que unicamente eles podem, na realidade, resolver de
um modo satisfatório (se é que existe uma solução).
Efetivamente, alguns problemas, sublinhemos uma
vez mais, não têm solução, e o exacerbado poder que se
confere em nossas sociedades aos sistemas oficiais de
justiça contribui, sem dúvida, para promover a crença
nas soluções milagrosas que esta poderia dar. Em uma
sociedade na que se desse maior importância às media-
ções naturais, as pessoas atingidas por um acontecimen-
to vitimizador estariam menos tentadas a acreditar nes-
sas soluções milagrosas e começariam desde muito cedo
a realizar sobre si mesmas o indispensável trabalho de

267
8
2005

amadurecimento que lhes permitiria assumir as adver-


sidades.
Não se trata, obviamente, de suprimir a idéia de res-
ponsabilidade pessoal, que poderia muito bem ser as-
sumida em algum momento do processo de mediação do
qual falamos. Também não se trata de privar os inte-
ressados de recorrer aos mecanismos do Estado, na
medida em que desejem beneficiar-se de uma garantia
oficial, ou também em situações de crise, mas não é
este o momento de aprofundar todos esses pontos.26 As-
sinalemos simplesmente que o abolicionista do siste-
ma penal que, como ficará claro, não idealiza o âmbito
civil designando a ele uma função substitutiva, vê no sis-
tema penal um último recurso do qual poderá lançar
mão quando se considere indispensável a mobilização
de uma força física procedente do monopólio estatal, que
por sua vez não é objeto de contestação por parte do abo-
licionista.
A abolição do sistema penal não implica também no
desaparecimento de todas as medidas de pressão das
que a polícia dispõe atualmente, e sim numa reorgani-
zação de sua utilização. Não se trata de responder às
necessidades de um procedimento criminalizante, mas
de fazer frente às necessidades de uma situação proble-
ma concreta. Estas medidas de coação deveriam ser
submetidas a diferentes tipos de controle. No interior
destes controles, a posição do juiz, como guardião efeti-
vo dos direitos humanos, é, numa perspectiva abolicio-
nista, redefinida e reforçada. O abolicionista, em ter-
mos gerais, convida o conjunto do corpo de polícia e dos
magistrados a passar para uma situação muito mais
gratificante que a que ocupam atualmente quando tra-
balham no sistema penal. É este um aspecto capital
desta nova perspectiva.

268
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

Esta lógica alternativa que propomos tem possibilida-


des de ser favoravelmente acolhida pelos meios especi-
alizados e pela opinião pública? Pode parecer impruden-
te esperar que isto seja assim, se levarmos em conside-
ração a força da inércia e as resistências psicológicas
que fazem ainda que se manifeste a necessidade de um
sistema penal, eventualmente reduzido a uma expres-
são mínima. Estas reações repousam, porém, sobre um
falso consenso, e certos sinais antecipadores de um des-
contentamento mostram que é importante elaborar uma
teoria da abolição para o momento em que forças impor-
tantes e convergentes percebam que este é um objetivo
do futuro.
O defensor da abolição do sistema penal em sua posi-
ção teórica se afirma, sem dúvida, claramente frente a
todos os revisionismos e reformismos, mas não é em pri-
meiro termo um ideólogo. Depois de chegar a esta posi-
ção pelas vias realistas da observação empírica e cientí-
fica, continua sendo um homem da rua, solidário com
todos aqueles que são esmagados pelo sistema penal,27 e
disposto a trabalhar com os pesquisadores, gestores, pe-
nalistas e outras pessoas que desaprovem este sistema.
Numerosas equipes de pesquisa vêm orientando seus
trabalhos, já faz alguns anos, numa direção que permi-
te que hoje se fale da “não evidência do penal”, como
também programar toda uma nova série de pesquisas
destinadas a fundamentar este diagnóstico de maneira
inequívoca.28 Outras pesquisas, realizadas a partir dos
acontecimentos vitimizantes, contribuem também para
mostrar a viabilidade de uma sociedade sem sistema
penal que para nós, como mostramos, já existe na atua-
lidade.29 Umas e outras preparam o momento em que
será possível e indispensável aos olhos de todos uma
reinterpretação global do setor normalmente chamado
de política criminal.

269
8
2005

Se fizermos referência à opinião pública, já são mui-


tos os que percebem os aspectos nefastos e as contradi-
ções, para não dizer o absurdo total, do sistema penal.
São levantadas atas, denunciados escândalos, inicia-
dos movimentos, esporádicos ou organizados, que expres-
sam uma inquietação popular em relação aos presos e
às vítimas; sindicatos de magistrados, de advogados, de
especialistas que trabalham no campo do para-penal e
do para-penitenciário; por exemplo, sindicatos dos fun-
cionários penitenciários, põem em evidência, nas suas
publicações, a crise de consciência que vai ganhando
terreno lentamente entre todos aqueles encarregados
de fazer funcionar o sistema penal.
Ainda não sabemos se as dúvidas e expectativas que
manifestam estes vários movimentos chegarão a diluir-
se para poder colocar claramente o que denominamos o
verdadeiro debate.30 Portanto, é urgente que exista uma
vontade política que se atreva a questionar os velhos con-
dicionamentos sobre os quais descansa um sistema
defasado e que se preocupe em implementar reformas
sociais adaptadas à mentalidade e às necessidades de
nossa época. Contribuir para que esta se torne realida-
de constitui, talvez, uma das principais apostas na atu-
alidade para os defensores da teoria da abolição do sis-
tema penal.

Tradução do espanhol por Natalia Montebello.

Notas
1
Este artigo foi publicado na Revue de l’Université de Bruxelles (1-2, 1984, pp. 297-
317) numa edição monográfica dedicada à “razão penal”. Publicado em espanhol
pela revista espanhola Archipiélago Nº 3, em um dossiê sobre “O peso da justiça”, em
1989.

270
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

2
Isto não significa que com o desaparecimento do sistema penal desapareçam as
dificuldades ou se resolvam determinados problemas que coloca a sociedade civili-
zada: exclusões, desigualdades, relações de força entre as pessoas e os grupos etc.
3
Uma apresentação abrangente do abolicionismo pode ser vista em Louk Huls-
man e Jacqueline Bernat de Celis. Peine perdues, le système pénal en question, Le Centu-
rion, Paris, 1982 (o livro foi traduzido para o espanhol com o título Sistema penal y
seguridad ciudadana: hacia una alternativa, Ariel, Barcelona, 1984). [A publicação em
português, Penas perdidas: o sistema penal em questão. Tradução de Maria Lúcia
Karam. Niterói, Luam, 1993, encontra-se esgotada aguardando nova edição.
N. E.]
4
Fique claro que distinguimos explicitamente o sistema de seus administradores:
polícia, tribunais, prisões... Nossa reflexão política se dirige contra o próprio siste-
ma, na medida em que funciona à margem das pessoas que o fazem atuar.
5
Ver U.N. Publications, New York, 1975. Conference Paper A/Conf. 56/4, p.16.
6
Muitos acontecimentos vitimizadores não são imputados a um autor mal-intenci-
onado, mas são interpretados por outros marcos de referência.
7
Nils Christie. Limits to Pain. Oxford, Martin Robertson, 1981.
8
É possível admitir, em termos gerais, que menos de 1% dos fatos “criminalizáveis”
é denunciado à polícia. Contrariamente ao que se poderia pensar, os que não se
denunciam não são pequenos delitos, e sim casos sérios, inclusive muito graves. O
estudo deste fenômeno tende a sistematizar-se nos Estados Unidos, no Canadá e
em certos países da Europa, como nos Países Baixos. Uma pesquisa de vitimização
realizada na Alemanha, entre funcionários de uma grande empresa, apresentou este
resultado surpreendente: entre 800 atos teoricamente puníveis, atestados por esses
funcionários, somente um foi denunciado à polícia.
9
Consultar especialmente o livro de P. Robert e C. Faugeron. Les forces cachées de la
justice. Paris, Le Centurion, 1980. Destacamos, também, que os critérios para filtrar
os fatos castigáveis não permanecem constantes. Os trabalhos do L.A. 313 (antigo
Serviço de estudos penais e criminológicos) de Paris mostram concretamente que deter-
minados fatos entram ou não no aparato penal em função da sua capacidade de
trabalho em um dado momento. Quando a máquina penal não pode absorver os
casos que lhe são enviados, os expulsa. Ainda por cima, os critérios de seleção dos
fatos considerados puníveis não são os mesmos em cada jurisdição, como tampouco
para um mesmo tipo de delito, o que supõe uma negação prática da descrição
teórica da lei penal. Por exemplo, no Tribunal de Paris o sistema penal acolhe os
assuntos rotulados como “roubo” numa porcentagem muito maior se o autor não
tem domicílio fixo, se não tem trabalho ou se é um estrangeiro que não regularizou
sua situação administrativa, todos critérios alheios à lei penal.
10
Por exemplo, nos Países Baixos houve apenas 600 condenações por abuso de
confiança em 1980, enquanto que as situações deste tipo são extraordinariamente

271
8
2005

freqüentes na prática. (Ver Louk Hulsman e Jacqueline Barnart de Celis, 1982,


op. cit., p. 81).
11
Ver Ver Louk Hulsman e Jacqueline Barnart de Celis, 1982, op. cit., pp. 94 e ss.
12
As pesquisas de vitimização realizadas periodicamente nos Estados Unidos mos-
tram que quase ninguém se reconhece vítima de atos de violência “criminal” na
família, enquanto que, na prática, os serviços sociais mostram a freqüência destes
atos violentos. É possível inferir disso que aqueles que padecem desses atos, apesar
deles representarem um grande peso em suas vidas, optam por pensar que uma
intervenção criminalizante não resolveria de maneira alguma seu problema.
13
Consultar J. Bernat de Celis. “L’experience du service d’accueil des temoins et
victimes du Tribunal de Paris” in Revue de Sciences Criminelles, 3, 1981. Tais consta-
tações mostram com clareza até que ponto há extrapolação em se defender a
necessidade de um sistema punitivo que assumisse os sentimentos de pretensa
vingança de todas as vítimas. Insistamos, porém, em que a teoria abolicionista não
descarta o modelo punitivo de reação social, e sim descarta a materialização que
dele faz um sistema estatal, completamente alheio aos modos de sanção aplicados na
sociedade. De fato, há muitas outras maneiras de experimentar como castigo
determinadas reações, especialmente no marco do sistema civil. Ver Louk Huls-
man e Jacqueline Barnart de Celis, 1982, op. cit., p. 154.
14
A partir do século XIII se consagrou um poder crescente do Estado no processo
penal, que produziu como efeito mais característico o distanciamento das vítimas.
15
A sociologia penal fala de criminalização primária para designar comportamentos-
tipo que devem ser submetidos ao direito penal e de criminalização secundária ao
referir-se à atividade que tem por objetivo selecionar os casos concretos para enviá-
los ao sistema penal.
16
A estatística foi realizada segundo os critérios oficiais do Poder. Por que apropri-
ar-se de maçãs numa banca é punível sob a classificação de roubo, enquanto que não
pagar uma dívida continua sendo assunto civil?
17
O Ministro de justiça francês, numa entrevista televisionada em 1983, insinuou
que estava sendo estudada a possibilidade de transferir todos os contenciosos para
o âmbito do civil. Como se sabe, é nesse campo onde surgem numerosos e impor-
tantes litígios e, apesar de que a maior parte dos problemas de trânsito automo-
tivo é resolvida através de multas administrativas ou através de seguros, os
“casos” que são designados, mesmo assim, ao penal representam um volume
tão importante que ameaçam obstruir a máquina repressiva. Convém, então,
prestar atenção à confirmação eventual de uma notícia cuja importância parece
não ter sido muito bem captada pelos meios de comunicação, já que passou
praticamente desapercebida.
18
Se não lhe damos especial atenção, deixamos que funcione um sistema
totalmente inapto para os problemas contemporâneos, na medida em que se

272
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

baseia em uma visão já superada da sociedade. Os autores dos códigos, e entre


eles os dos códigos vigentes, ignoravam de que maneira se estrutura um ser
humano, como se adquire um comportamento ou se estrutura a relação como
o outro. Desconheciam a enorme complexidade sócio-política e técnica de
nossas super-estruturas industriais ou pós-industriais. Não podiam imaginar
o tipo de relações que se estabeleceriam entre os homens e as mulheres que
viveriam na sociedade posterior a Marx e a Freud, no século dos movimentos
feministas, das correntes ecológicas e das reivindicações regionalistas. Empe-
nhar-se em conservar códigos de fundamentos anacrônicos equivale a conde-
nar-se a reorganizações sem solidez e a reformas sem sentido.
19
Não desconhecemos que o Ministério Público deve representar o interesse das
coletividades ou da coletividade, mas justamente criticamos a esse órgão especi-
alizado que não pode desempenhar essa função de um modo satisfatório, já que
não possui a experiência pessoal dos problemas colocados, e se mantém desli-
gado da realidade vivida. Quando falamos de coletividade fazemos referência aos
grupos diretamente envolvidos numa situação problema. Nos referimos, por
exemplo, às pessoas prejudicadas pela poluição, ou aos habitantes de um bairro
ou de um município que sofrem repetidos ataques contra bens pessoais ou
coletivos.
20
Seguindo alguns criminologistas, poderia se falar em “tribos” para fazer
referência, por exemplo, ao mundo empresarial, a um clube de ciclismo, ou a
um bairro que possui uma vida comunitária... No extremo oposto, o Estado,
que não representa nenhum grupo natural, não pode ser assimilado a nenhuma
comunidade de vida.
21
O termo “civil” não pode ser entendido no sentido estrito, com uma signifi-
cação jurídica. Pensamos que ele está implícito em determinados procedimen-
tos administrativos.
22
Precisemos, porém, que num primeiro momento situamos nossa análise no
que o sistema penal denomina como “delinqüência tradicional”: acontecimen-
tos que atingem às coisas e ao patrimônio, à segurança das pessoas frente às
agressões, à segurança domiciliar etc., acontecimentos nos quais geralmente
existe uma vítima conhecida, e que constituem a causa, ao mesmo tempo, da
maior parte das condenações a prisão. Daqui o interesse específico que apresen-
tam para nós.
23
As técnicas suscetíveis de modificar os caracteres físicos e o contexto psico-
lógico do entorno são ampliamente analisadas no importante Rapport sur la
decriminalisation (Comitê Europeu para os Problemas Criminais, Estrasburgo,
1980).
24
A extensão deste texto não nos permite entrar em todos os detalhes. Ouvi-
mos sempre a reclamação de que a descriminalização não seria uma medida tão
positiva para a “grande criminalidade”. Lembremos que o que se denomina

273
8
2005

“crime” no sistema penal é sempre uma questão de definição. Assim, se um


policial mata alguém, sempre se trata de um “acidente”, enquanto que se o
autor de um assalto mata alguém sempre será um homicídio ou um assassinato.
Um exemplo significativo referido a fatos graves pode nos fazer refletir: quan-
do os molucanos seqüestraram um trem nos Países Baixos e fizeram alguns
reféns, um morreu. Muitos anos depois , os antigos reféns continuam visitando
os molucanos na prisão. Sua forma de interpretar o acontecimento não coinci-
de, portanto, com a do público em geral, externo a ele, que o percebe pela ótica
penal. Lembremos também que, no que se refere a acontecimentos irremediá-
veis, desejamos que sejam postos em prática processos de reconciliação que
atualmente não existem. O sistema penal deixa no abandono, ao contrário, as
vítimas de atos gravemente vitimizantes.
25
Concretamente na Califórnia. Algumas associações começam a fazer o mes-
mo na França, por exemplo S.O.S. Agressions-Confilcts, associação de ajuda a
vítimas e de mediação nos conflitos entre pessoas (108 rue de Vaugirad, 75006
Paris).
26
Ver Louk Hulsman e Jacqueline Barnart de Celis, 1982, op. cit.
27
Isto é, os condenados, as vítimas, os agentes do sistema e, por último, toda a
sociedade, que sofre sem saber, devido à confiança que entrega a um sistema
inadequado.
28
P. Robert. Informe científico do L.A. 313 (antigo Serviço de Estudos penais e
Criminológicos, Paris e na atualidade CESPID, Centro de Investigações Socio-
lógicas sobre o Direito e as Instituições Penais).
29
Concretamente, as realizadas pela Escola de Criminologia de Montreal.
30
Este debate também não está politizado. Partidos de direita e de esquerda
estão, é verdade, em desacordo sobre o objetivo penal, sobre algumas questões
de método e sobre o lugar que devem ocupar os direitos humanos no aparelho
repressivo, mas uns e outros permanecem na ótica penal, de forma que se
encontram no discurso político atual os mesmos eixos intangíveis sobre os
quais giraram nos discursos políticos desde o começo do século. O debate se
beneficiou pouco da contribuição dos criminologistas modernos, e raramente
estes temas entram em relação com outras questões políticas que separam os
partidos do governo dos da oposição. Ninguém põe em questão o sistema penal
enquanto tal, o modo de concebê-lo e de colocá-lo em funcionamento, como
também o marco de referência que interliga os aparelhos constitutivos de sua
infra-estrutura. Se o debate chegasse a ser politizado, o problema de fundo que
tentamos esboçar aqui ficaria, sem dúvida, em evidência.

274
verve
A aposta por uma teoria da abolição do sistema penal

RESUMO

O abolicionismo penal é apresentado como problematização perti-


nente do sistema de justiça penal, frente, não só a este sistema e
sua lógica anacrônica, como também frente ao reformismo que o
preserva sob o argumento da atualização. O ponto de vista do
abolicionismo é desenhado como exterioridade que redimensiona a
prática universalizante da criminalização enquanto situações pro-
blema, que demandam a participação dos envolvidos.

Palavras-chave: abolicionismo penal, justiça penal, situação pro-


blema, vitimização.

ABSTRACT

Penal abolitionism is presented as problematization within the


system of criminal justice before, not only this system and its
anachronic logic, but also before reformism that preserves it un-
der the argument of updating. The perspective of abolitionism is
designed as an exteriority that reshapes the universalizing practi-
ce of criminalization as situations-problem, which demand partici-
pation of those involved.

Keywords: penal abolitionism, criminal justice, situations-problem.

Indicado para publicação em 8 de março de 2004.

275
8
2005

a grandiloqüência da tolerância, direitos


e alguns exercícios ordinários

salete oliveira*

O que dizem os pequenos


“Manhãs cinzentas da tolerância”. É o título de um
brevíssimo texto de Michel Foucault, publicado em Pa-
ris, pela primeira vez, em 1977.1 Texto ínfimo. Coloqui-
al. Cotidiano. Discorre em instantes, calcinando seu
mote: o filme Comizi d’amore de Pasolini, filmado na Itá-
lia em 1963 e exibido em 1965. Quinze anos depois, Fou-
cault retorna às cenas captadas na espontaneidade das
ruas de Bolonha, lá onde o diretor arremessa questões
sobre amor e sexo; deixa correr solto o que cada um vai
fazer com elas. Pasolini na edição final prefere começar
pelos pequenos, com os pequenos. Cenas de crianças
abrem o filme. Foucault as revisita, interfere nelas.
“De onde vêm os bebês? Da cegonha, de uma flor, do
Bom Deus, do tio da Calábria. Mas observem melhor o
rosto desses guris: eles nada fazem para dar a impres-

* Doutora em Ciências Sociais e pesquisadora no Nu-Sol, professora-pesquisa-


dora na PUC/SP pelo Prodoc-CAPES.

verve, 8: 276-289, 2005

276
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

são de que acreditam no que dizem. Com sorrisos, si-


lêncios, um tom longínquo, olhares que espreitam à di-
reita e à esquerda, as respostas a essas perguntas de
adulto têm uma docilidade pérfida: elas afirmam o di-
reito de guardar para si o que se gosta de cochichar. A
cegonha é uma maneira de zombar dos grandes, de lhes
pagar na mesma moeda; é o sinal irônico, impaciente
de que a pergunta não irá mais longe, de que os adultos
são indiscretos, que não vão entrar na roda, e que o ‘res-
to’, a criança continuará a contar para si mesma.”2
Não se trata de um inquérito, grandiloqüência do
verdadeiro no procedimento, tampouco de uma confis-
são, silêncio grandiloqüente da verdade. Apenas um
espasmo, um espanto. Algo de um infame desconcerto.
Isto não é um preâmbulo.

O que fala a grandeza


Paris, 16 de novembro de 1995, Os Estados Membros
da Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e Cultura, em ocasião da 28ª Conferência Ge-
ral da UNESCO, aprovam a Declaração Geral de Princípi-
os sobre a Tolerância.3
O documento é de uma sobriedade impecável, como é
próprio da grandiloqüência. “Aprovam e proclamam sole-
nemente”. Das letras, sílabas, palavras e frases e artigos
e incisos e parágrafos que não deixam a menor dúvida
que foram pensados, calculados, negociados, mediados
para tornar-se algum tipo de fala capaz de abarcar uma
base maior do passado e proferir seu investimento na
cultura da posteridade.
Não à toa — apesar de ser um documento curto, com
apenas seis artigos —, seu preâmbulo ocupa mais de um
terço da íntegra do texto e estrutura-se em dez etapas.

277
8
2005

Interessa, neste momento e para esta discussão es-


pecífica, abordar, tão somente, o preâmbulo em vez dos
artigos. Pois, se eles se completam no conjunto do docu-
mento sob a forma de um todo uníssono e solene — como
almejam os teóricos do direito —, imprimindo à refe-
rência jurídico-política uma harmonia equilibrada en-
tre começo, meio e fim — como desejam os teóricos da
soberania — demorar-se no preâmbulo, às suas pala-
vras circunscritas, implica, na análise pontual, duas rup-
turas analíticas: dessacralizar a aura da lei e fraturar a
inocência dos direitos.
A dessacralização e a fratura, neste caso, compõem
os movimentos desta análise e possibilitam ao longo do
texto explicitar como a lei, da mesma maneira que sem-
pre exige um porteiro à sua entrada, reproduz em sua
gramática a sintaxe da sujeição. Seja na regularidade
tediosa dos preâmbulos que, indefinidamente, prenun-
ciam suas prescrições — o mundo dos direitos. Seja no
endereçamento a ela própria, quando refaz o circuito de
sua presença e lembrança — a naturalização de seu
discurso rarefeito. Seja no investimento de poder do seu
destino maior transcrito em exercícios ordinários, os
alvos menores — educar crianças e jovens para a obedi-
ência.
“A primeira presença”, palavras do preâmbulo da De-
claração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezem-
bro 1948. “Tendo presente que a Carta das Nações Uni-
das declara ‘Nós povos das Nações Unidas decididos a
preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra,
[...] a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do ho-
mem, na dignidade e no valor da pessoa humana, [...] e
com tais finalidades a praticar a tolerância e a conviver
em paz como bons vizinhos’.”
“A primeira lembrança”, palavras do preâmbulo da
Constituição da UNESCO, de 16 de novembro de 1945.

278
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

“Lembrando que no Preâmbulo da Constituição da UNES-


CO se afirma que ‘a paz deve basear-se na solidarieda-
de intelectual e moral da humanidade’.”
“A segunda lembrança”, trechos dos artigos 18, 19 e
26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.
“Lembrando também que a Declaração Universal dos Di-
reitos do Homem proclama que ‘Toda pessoa tem direito
à liberdade de pensamento, de consciência e de reli-
gião’ (art. 18), ‘de opinião e de expressão’ (art. 19) e que
a educação ‘deve favorecer a compreensão, a tolerância
e a amizade entre todas as nações e todos os grupos
étnicos ou religiosos’(art. 26).”
“A enumeração pertinente”, elenco de instrumentos
internacionais de respaldo. “Tendo em conta os seguin-
tes instrumentos internacionais pertinentes, notada-
mente: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políti-
cos; o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, So-
ciais e Culturais; a Convenção Internacional sobre a
Eliminação de todas as Formas de Discriminação Raci-
al; a Convenção sobre a Prevenção e a Sanção do Crime
de Genocídio; a Convenção sobre os Direitos da Crian-
ça; a Convenção de 1951 sobre o Estatuto dos Refugia-
dos, seu Protocolo de 1967 e seus instrumentos regio-
nais; a Convenção sobre a Eliminação de todas as For-
mas de Discriminação contra a Mulher; a Convenção
contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cru-
éis, Desumanos ou Degradantes; a Declaração sobre a
Eliminação de todas as Formas de Intolerância e de Dis-
criminação fundadas na religião ou na convicção; a
Declaração sobre os Direitos das Pessoas pertencentes
a minorias nacionais ou étnicas, religiosas e lingüísti-
cas; a Declaração sobre as Medidas para Eliminar o Ter-
rorismo Internacional; a Declaração e o Programa de
Ação de Viena aprovados pela Conferência Mundial dos
Direitos do Homem; a Declaração de Copenhague e o

279
8
2005

Programa de Ação aprovados pela Cúpula Mundial para


o Desenvolvimento Social; a Declaração da UNESCO
sobre Raça e os Preconceitos Raciais; a Convenção e a
Recomendação da UNESCO sobre a Luta contra a discri-
minação no Campo do Ensino.”
“A segunda presença”, equação integradora-comemo-
rativa. “Tendo presentes os objetivos do Terceiro Decê-
nio da luta contra o racismo e a discriminação racial,
do Decênio Mundial para a educação no âmbito dos di-
reitos do Homem e o Decênio Internacional das popula-
ções indígenas do mundo.”
“A consideração recomendada”, preparativos para
comemoração a ser implementada. “Tendo em conside-
ração as recomendações das conferências regionais or-
ganizadas no quadro do Ano das Nações Unidas para a
Tolerância conforme a Resolução 27C/5.14 da Confe-
rência Geral da UNESCO, e também as conclusões e as
recomendações das outras conferências e reuniões or-
ganizadas pelos Estados membros no quadro do progra-
ma do Ano das Nações Unidas para a Tolerância.”
“O alarme”, comportamentos que ameaçam a conso-
lidação da paz e da democracia e impedem o desenvolvi-
mento. “Alarmados pela intensificação da intolerância,
da violência, do terrorismo, da xenofobia, do nacionalis-
mo agressivo, do racismo, do anti-semitismo, da exclu-
são, da marginalização e da discriminação contra mi-
norias raciais, étnicas, religiosas, e lingüísticas dos
refugiados, dos trabalhadores migrantes, dos imigran-
tes e dos grupos vulneráveis da sociedade e também pelo
aumento dos atos de violência e de intimidação cometi-
dos contra pessoas que exercem sua liberdade de opi-
nião e de expressão, todos os comportamentos que ame-
açam a consolidação da paz e da democracia no plano
nacional e internacional e constituem obstáculos para
o desenvolvimento.”

280
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

“O destaque”, papel dos Estados membros. “Ressaltan-


do que incumbe aos Estados membros desenvolver e fo-
mentar o respeito dos direitos humanos e das liberda-
des fundamentais de todos, sem distinção fundada so-
bre a raça, o sexo, a língua, a origem nacional, a religião
ou incapacidade e também combater a intolerância.
“A decisão universal”, medidas para a promoção da
tolerância. “Decididos a tomar todas as medidas positi-
vas necessárias para promover a tolerância na nossa
sociedades, pois a tolerância é não somente um princí-
pio relevante mas igualmente uma condição neces-
sária para a paz e o progresso econômico e social de
todos os povos.”
O preâmbulo do preâmbulo. Preâmbulos sobrepostos.
Falas respaldos. Discurso-sustentação. Discurso-garan-
tia. Discurso-suporte-institucional.4
Ainda que o preâmbulo da Declaração de Princípios
sobre a Tolerância se subdivida em dez etapas, as quatro
primeiras alinhavam o suporte institucional em um tríp-
tico discursivo.
“A primeira presença” e “a segunda lembrança”, extra-
ídas da carta maior da ONU que encerra, emblematica-
mente em 30 artigos, os direitos humanos é retomada na
declaração sobre a tolerância, formando um duplo indis-
sociável, a lembrança presente que conecta a instituição
maior à maioridade humana, constituindo o vértice supe-
rior do tríptico ; “a primeira lembrança”, extraída da mis-
são da UNESCO no ato de sua criação, ao alinhavar ciên-
cia, paz e moral da humanidade compõe o segundo vérti-
ce; por fim, o último vértice do suporte institucional se
configura na “enumeração pertinente”, elenco de pactos,
convenções, declarações e recomendações norteadoras de
temas específicos que são estendidos enquanto zona de
conexão com o princípio político e moral da tolerância.

281
8
2005

O tríptico do suporte institucional se comunica, direta-


mente, com a última etapa do preâmbulo, “a decisão uni-
versal”, na qual se estabelecem as duas vias edificantes
da tolerância — um princípio e uma necessidade — no
investimento da construção da paz. Não à toa, a declara-
ção de 1995 da UNESCO inicia-se com as palavras do pre-
âmbulo da Declaração da ONU de 1948, referindo-se à cons-
purcação preventiva dos flagelos da guerra.
Ao lembrar que a política de tolerância é uma política
de Estado e ao se considerar que a política é a guerra pro-
longada por outros meios, como apontou Foucault,5 diante
da afirmação da tolerância como princípio e necessidade,
percebe-se que o investimento político na tolerância tor-
na-se condição hierárquica, seletiva e maior para a segu-
rança da própria política que, em nome da defesa de direi-
tos, administra os graus de justiça de suas violações como
possibilidade de perpetuar sua própria sobrevivência sob o
respaldo da prevenção. O mundo dos direitos refaz a vida
da política. Assim como “o alarme” — sétima etapa do pre-
âmbulo —, perpetua, na grandiloqüência da referência
jurídico-política, a tolerância — valor assimétrico —, e re-
dimensiona “o equilíbrio dos medos”, deixando intocado o
intolerável.
“Trata-se aqui de agudizar o intolerável nos feitos dos
poderes e nos hábitos que os ensurdecem, de fazê-los apa-
recer naquilo que eles têm de pequeno, de frágil e, por
conseguinte, de acessível... modificar o equilíbrio dos me-
dos, não para uma intensificação que terrifica, mas por
uma medida de realidade que, no sentido estrito do termo,
‘encoraja’.”6
Contudo, no discurso de suporte da grandiloqüência o
tom de reverência solene aos esforços de construção de
uma cultura da paz, assentada no aprendizado da lei e dos
direitos, redimensiona o equilíbrio dos medos tão caro à
educação para a obediência.

282
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

Exercícios ordinários da grandiloqüência


Há dez anos atrás, a ONU e a UNESCO escolheram o
grande tema emblemático para celebrar seu cinqüente-
nário: a Tolerância. Não é fortuito que a Declaração de Prin-
cípios sobre a Tolerância tenha sido promulgada no mesmo
ano. Contudo, 1995 não só foi marco da data cívica inter-
nacional que delimitou o Ano Internacional da Tolerân-
cia, como se constituiu em um momento de demarcação
para o fomento de uma rede internacional capaz de esta-
belecer conexões locais e regionais, espalhadas pelo pla-
neta, fundamentadas nas diretrizes traçadas pela Unida-
de da Tolerância da UNESCO, instituída, oficialmente, a
partir de então.
Interessa nesta discussão tecer alguns breves aponta-
mentos acerca das diretrizes traçadas no âmbito da edu-
cação para a tolerância. Seus delineamentos tiveram iní-
cio em 1994 com a elaboração de um “Guia Didático” de
educação para a paz, os direitos humanos e a democracia,
cujo principal objetivo respondia às linhas gerais de pro-
moção de uma “cultura da paz”. Este “Guia Didático” teve
um papel duplo. Não só fez parte dos preparativos para a
comemoração do Ano Internacional da Tolerância — con-
fiados à divisão de filósofos da UNESCO —, como foi um dos
produtos que veio a se constituir em referência de escopo
temático ao texto da Declaração de 1995. Durante os pre-
parativos, ao melhor gosto de Kant, o conselho de filósofos,
promoveu uma série de encontros nacionais e regionais
em sintonia com os sete encontros internacionais que,
no período de setembro de 1994 a outubro de 1995, volta-
ram-se para a elaboração do texto da Declaração que deve-
ria estar norteada por alguns temas gerais: tolerância,
diversidade cultural, multiculturalismo, diálogo religioso,
e destaque para a educação.
Neste escopo temático a educação para a tolerância
mostra-se como o elemento norteador discursivo no cam-

283
8
2005

po das mais variadas vertentes de defesa dos direitos e da


tolerância, associadas ao que, oficialmente, foi eleito como
tema transversal: o pluralismo — capaz de congregar a
neutralidade do relativismo cultural à harmonização dos
interesses conflitantes do multiculturalismo.7
Para tanto, a arma comum contra a intolerância resi-
de no espírito da reforma que é, em si, animador privilegi-
ado das soluções e se equaliza aos princípios que regem os
valores universais reafirmados pela ONU, em 1948.
As diretrizes da UNESCO conectadas às redes criadas
e ao papel específico da UNICEF concluem a respeito de
sua ação e direcionamentos propostos que a ciência e a
tolerância são os melhores benefícios da civilização, logo,
cabe investir em um instrumento e aparato educacional
que conjugue o fazer científico e os deveres da consciên-
cia.
A implantação da Rede das Américas para a Tolerân-
cia e a Solidariedade no Brasil, em 1997, conecta-se à
UNESCO, por meio de sua Unidade para a Tolerância, e
tem seu secretariado instalado na Universidade de São
Paulo, ocorrendo simultaneamente ao Seminário Inter-
nacional Ciência, Cientistas e a Tolerância. A partir de
então, a rede passa a se associar a outras redes regionais
e aceita a adesão de entidades e pessoas que desejarem
colaborar ou participar, sendo que sua aceitação será sub-
metida ao julgamento do secretariado.
Na ocasião do Seminário foram impressos cartazes de
divulgação e um jogo de exercícios para medir o grau de
tolerância em crianças e jovens, a partir de material di-
dático, fornecido pela UNICEF — proveniente da II Confe-
rência Iberoamericana sobre a Família. O material didá-
tico desdobra-se em três aportes específicos que se relaci-
onam entre si, como, também, retraduzem a grandilo-
qüência da Declaração Universal dos Direitos Humanos,

284
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

da Declaração de Princípios sobre a Tolerância e da Conven-


ção sobre os Direitos da Criança sob a forma de “instrumen-
to pedagógico ordinário”.8
A base para os aportes deste instrumento ordinário in-
titula-se: Pensemos um mundo diferente a partir dos direitos
da criança: escuta meus direitos e ensina-me meus deveres.
Seu elenco geral descrimina 4 temas, que por sua vez, se
subdividem em prescrições subjacentes aos significados
específicos atribuídos a cada tema geral.9
“Sobrevivência. ‘Qualidade de vida’: Quero viver. Cres-
cer como você. Ter um lar, uma escola, bons alimentos,
amigos, jardins e parques, pessoas que se preocupem com
minha saúde... E estarei muito melhor!
Desenvolvimento. “Amor”: Necessito que me ajudem a
desenvolver minha segurança interior, conhecer minhas
qualidades e aceitar minhas limitações. Necessito de
meus pais. Dos dois. Necessito que me queiram e que me
cuidem. Se isto para eles for difícil, ajudem-nos. E se eles
não podem cuidar de mim, ou caso eu não tenha família,
procurem-me um lar onde eu possa crescer feliz. “Educa-
ção e brinquedo”: Ensina-me a pensar, a brincar, a dialo-
gar, a desfrutar, a ser crítico. Desperta meus sentimentos
de solidariedade e respeito. Educa-me para a paz. Tam-
bém para respeitar a natureza e a vida. Para que junto
com os outros colabore para um mundo melhor. “Cultura,
religião e idioma”: Permita-me aprender. Que a vida seja
uma oportunidade em que não só o êxito material seja
importante. Ajuda-me a valorizar minha cultura, a ter
minha religião, a manter a língua de meus pais e avós.
Somos iguais... e diferentes! Aceita-me como sou e edu-
ca-me segundo minhas capacidades e minhas necessi-
dades.
Proteção. “Identidade”: necessito ter um nome e uma
nacionalidade, desde o meu nascimento, e ser registrado

285
8
2005

para ser eu mesmo! “Igualdade”: Já sabes. Somos de ra-


ças, nacionalidades e grupos sociais distintos... Mas todos
somos crianças... e até os dezoito anos! “Ajuda”: Se tenho
fome, se estou triste, se sofro, se estou enfermo, ajuda-
me. “Denúncia”: Abandono, exploração, maus-tratos, hu-
milhação... Não o permitas. Denuncia-o!
Participação. “Expressão”: Escuta-me e ensina-me a
escutar. Deixai-me expressar minhas opiniões. leva-me
em conta. Dá-me a oportunidade de ser pessoa, respei-
tando-me. Assim, , quando grande poderei dizer o que pen-
so e sinto, sem medo. “Compartilhar”: Ensina-me a com-
partilhar: Deixa que me junte aos outros para brincar e
aprender a ser solidário. Assim, quando grande participa-
rei e saberei resolver os problemas junto com os outros.
“Informar”: Ajuda-me a saber o que se passa no meu bair-
ro, minha cidade, nosso planeta. Fomenta minha capaci-
dade crítica frente aos meios de comunicação.”
É possível perceber, a partir do material exposto acima,
o deslocamento realizado no discurso da grandiloqüência
transposto ao discurso ordinário. Não se diz coisas dife-
rentes. O dito continua universal. As prescrições de direi-
tos proferidas solenemente no referencial jurídico político
se mantém.
Contudo, há uma nuance sintática no interior da mes-
ma gramática da sujeição. O tom constitutivo e edificante
que nas Declarações, Convenções, Recomendações e Pac-
tos legais apresenta-se sob a forma de plural majestático,
enunciando seu poder institucional de maioridade e re-
presentação universal, no instrumento pedagógico, diri-
gido a crianças e jovens, não só assume a forma de ins-
trumento ordinário — comum, fácil, corriqueiro, feito para
ser usado e abusado no dia-a dia, incorporado ao discurso
cotidiano, banalizado no corpo e na mente — como o que
era plural majestático vira um ditado de representação
de quem fala, no qual o discurso é pronunciado em tom

286
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

de prece, de oração, dirigida a um superior abstrato que


ganha o estatuto adulto de todos e de qualquer um.
A reprodução infantilizada da prece adulta deve ser re-
citada pelos “pequenos”, alocados pelo discurso da grandi-
loqüência na condição de subordinados cuja compreensão
subalterna deve corresponder a uma linguagem, também,
infantilizada.
A grandiloqüência não está apenas no referencial jurí-
dico mas na realidade histórico-política mais próxima, na
ordem do dia, no ordinário da história. Assim como são
precisos exercícios ordinários para que uma cultura gran-
diloqüente subsista e sustente relações assimétricas: a
tolerância como princípio e necessidade para o mundo de
direitos.
Muito distante da cena de abertura do filme de Pasoli-
ni. E quando Foucault a estanca não é para transformá-la
em mecanismo de lirismo, mas tão somente para deslo-
car o olhar para crianças concretas e o que elas dizem
quando solapam a tentativa de transformá-las em infân-
cia e juventude para a lei e seus especialistas. Entretan-
to, Foucault atenta, ainda, para outro detalhe que faz dos
registros da câmera de Comizi d’amore um documento não
negligenciável como expressão de uma das procedências
de um presente que cultua a tolerância re-atualizada, re-
formada. Afinal, os adultos no filme — diferente das crian-
ças —, quando surpreendidos por questões de amor e sexo
respondem em termos de direitos.

Notas
1
Michel Foucault. “As manhãs cinzentas da tolerância” in Manuel Barros da
Motta (org.) Estética: Literatura, pintura e cinema. Ditos e escritos III. Tradução
de Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2001,
pp. 371-373.
2
Idem, p. 371.

287
8
2005

3
Os trechos utilizados aqui foram retirados da íntegra do texto da Declaração de
Princípios da Tolerância, cuja tradução do francês para o português foi feita pela
Profª. Dra. Odete Medavar (Faculdade de Direito-USP), realizada por inicia-
tiva da Universidade de São Paulo, por ocasião do Seminário Ciências, Cientis-
tas e Tolerância e publicada originalmente pela FFLCH-USP em 1997. Por
ora, atenho-me a trechos presentes no preâmbulo.
4
Discurso é prática, como já apontou Michel Foucault, ver em especial,. A
ordem do discurso. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo, Edições Loyo-
la, 1996. Utilizo-me de sua reflexão acerca da vontade de verdade apoiada
sobre o suporte institucional. Ainda que Foucault aponte nesta discussão su-
portes ligados à literatura, práticas econômicas, sistema penal e pedagogia, a
discussão tecida aqui se concentra nos dois últimos.
5
Ao trabalhar com esta hipótese, Foucault a desdobra em três dimensões, a
primeira na qual a função do poder político reinsere sem cessar uma relação de
força, em uma espécie de guerra silenciosa, nas instituições, linguagens e cor-
pos; uma segunda na qual se instauram no interior da paz as lutas do poder, com
o poder e pelo poder, ressaltando que quando se escreve a história da paz e de
suas instituições está se escrevendo a história de outras guerras; por fim a
terceira dimensão cuja decisão final provém da guerra na qual a prova final
provém de uma eqüalização entre armas, juízes e política. “O fim do político
seria a derradeira batalha, isto é, a derradeira batalha suspenderia afinal, e afinal
somente, o exercício do poder como guerra continuada.” Michel Foucault. Em
defesa da sociedade: curso no Collége de France (1975-1976). Tradução de Maria
Ermantina Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 23.
6
Michel Foucault, Apud. George Gros (org.) Foucault, a coragem de verdade.
Tradução de Marcos Marcionilo. São Paulo, Parábola Editorial, 2004, p. 24.
7
A este respeito ver Zélia Maria Mendes Biasoli-Alves e Roseli Fischiman
(orgs.). Crianças e adolescentes: construindo uma cultura da tolerância. São Paulo,
Editora da Universidade de São Paulo, 2001. Publicação das discussões tecidas
no Seminário Internacional Ciência, Cientistas e a Tolerância (USP/UNES-
CO), ocorrido em São Paulo, em novembro de 1997, marcando no Brasil a
criação da Rede das Américas e Caribe para a Tolerância e a Solidariedade,
integrando-se às Redes regionais da Unesco do Mediterrâneo e Mar Negro
(Barcelona), Pacífico Asiático (Kwainju) e África (Dakar).
8
Este material, também, faz parte do anexo da publicação do Seminário Inter-
nacional Ciência, cientistas e a tolerância. Zélia Maria Mendes Biasoli-Alves e
Roseli Fischiman (orgs.). Idem.
9
No material impresso cada tema vem acompanhado de uma ilustração que
reproduz sob a forma de desenho infantilizado a imagem de representação
atribuída a cada significado.

288
verve
A grandiloquência da tolerância, direitos e...

RESUMO

Os princípios da tolerância acoplados à Declaração Universal dos


Direitos Humanos formando um contínuo em nome da paz que arti-
cula a política como guerra prolongada por outros meios. O tom
grandiloqüente das declarações universais precisa de desdobra-
mentos ordinários.

Palavras-chave: tolerância, declarações universais e abolicionis-


mo penal.

ABSTRACT

The principles of tolerance attached to the Universal Declaration


of Human Rights, which compose a continuance on behalf of peace
that articulates politics as war continued by other means. The
grandiloquence of universal declarations needs ordinary conse-
quences.

Keywords: tolerance, universal declarations, penal abolitionism.

Recebido para publicação em 9 de maio de 2005 e confirmado em 6


de junho de 2005.

289
8
2005

290
verve
Do sul, existências anarquistas irrompem

Resenhas

do sul, existências
anarquistas irrompem natalia montebello*

Osvaldo Bayer. Los anarquistas expropiadores. Buenos Ai-


res, Planeta, 2003, 275 pp.

Uma navalha. A pele se rasga, nervos à flor da pele, a


pele se estremece, e é na pele que tudo balança. Uma
questão de pele, e não há espaço para dúvidas filosóficas
ou para dívidas existenciais. Escrever pode ser muito pe-
rigoso, como a vida. Há vida na escrita, ou melhor, há uma
escrita que é viva, que palpita e desliza sobre as linhas e
que num assalto surpreende.
Histórias de mocinhos e bandidos não são histórias de
crianças, são histórias de adultos, muito adultos, embebi-
dos e adormecidos em suas convenientes e seguras mai-
oridades. As histórias de crianças são cruéis, rápidas, não
são fábulas, prescindem da moral da história. Também é

* Doutoranda em Ciências Sociais, PUC/SP, pesquisadora no Nu-Sol e bolsista


CNPq.
verve, 8: 291-295, 2005

291
8
2005

arriscado ler histórias de crianças, ser criança e esque-


cer as conveniências. Tudo parece meio desastrado, os
cálculos não resolvem nenhuma equação, não resolvem
nada, nada se explica. Nada tranqüiliza. E, dentre todo esse
desarranjo, vidas estremecem, rasgam, balançam, assal-
tam, explodem. Cálculos errados, pressas imensas, exis-
tências transbordam. Alguns julgam, outros escancaram.
Os que duvidam e sobem ao muro já deram sua sentença,
assinaram embaixo. A sua neutralidade consagra a moral
da história. São adultos, acatam.
Os que defendem: a ordem, os direitos, a humanidade,
a idéia do próximo, a propriedade. Os que clamam: o sul,
existências anarquistas irrompem por segurança, por tran-
qüilidade, por ordem. Os que se conformam: com o que
têm, com os que têm, com o que há. São todos bons. Ten-
tam entender, perdoar, corrigir, educar, aceitar. As linhas
rígidas da história demarcam seus limites, e há sempre
uma moral que lembra o que deve ser feito, o que deveria
ter sido feito, o que fazer, para não correr riscos, para não
se dar mal. São as verdades que erguemos de nossas fá-
bulas. Viver em paz! Desígnio de morte, palavras adultas
para corpos intactos.
Uma criança diz: agora! Isto é insuportável. O que pa-
rece para muitos um preço justo, convulsiona alguns cor-
pos numa revolta física, desmesurada... insuportável. Cri-
anças que usam as unhas e os dentes e devem ser do-
mesticadas. Nunca mais ser criança: viver em paz.
Expropriadores: anarquistas expropriadores são um pro-
blema. Um problema de ordem, para os donos da verdade.
Sua propriedade também está ameaçada. Um problema
de princípios, para os que procuram por um bem maior. O
agora! lhes é inconveniente. Um problema de comporta-
mento, para os que tentam entender. Eles sempre che-
gam atrasados. Um problema de segurança, para os que
falam em nome de todos. Estes estão felizes. Um problema

292
verve
Do sul, existências anarquistas irrompem

requer uma solução: todos estão sempre dispostos a con-


formar as milícias dos bem-intencionados. Lemos, aqui,
histórias. A história e suas soluções para os que julgam.
Expropriadores não constróem uma sociedade melhor,
não preparam um futuro para humanidade, não tornam
este mundo um lugar mais confortável. Não resolvem ab-
solutamente nada. Incomodam adultos, mocinhos e ban-
didos.
Erram a hora, erram os números, erram os caminhos,
nunca erram o alvo. Correm, atiram, explodem, gritam,
escondem-se, enganam-se, nunca se entregam. Não ne-
gociam, não pactuam, não sacrificam. Assaltam o metrô,
os bancos, a delegacia, sem mediações. Não são heróis.
Há um ritmo alucinado nas histórias que não nos dá o
benefício do julgamento. Não estamos aqui para enten-
der. Esta escrita não nos diz a verdade, não nos preserva
do incômodo de estar entre, de deslizar com. Se você sen-
tir tontura, se seu estômago começar a embrulhar, se seus
nervos arrepiarem...
Não se está diante da vida, não estamos diante da vida,
se estamos vivos. Julgar: temos de nos colocar diante, fora,
sobre, tanto faz, há uma negação, mais ainda, um despre-
zo pela vida que, com muita sutileza, escorrega em inú-
meras linhas, sempre em busca da verdade. Dessas li-
nhas temos muito, inúmeros amontoados de livros que
subscrevem a farta história da interpretação, do julgamen-
to elegante e erudito, em nome da humanidade, dos valo-
res que erguem, com soberba, uma humanidade que não
respira, que não transpira, que não exala, que nem fede
nem cheira.
Ao dizer a verdade faz-se um julgamento. Busca-se uma
realidade que responda à sanção moral, do bem e do mal, e
de qualquer tom entre um e outro. Assim se faz a história,
e se preserva o caminho contínuo que leva a uma e mais

293
8
2005

uma concessão. E entre o que se diz e o que se silencia, a


vontade de nada mantém tudo no seu devido lugar. Diante
de fatos, há de se ser a favor ou contra. Quanta besteira!
A história do anarquismo consola ou assusta bem-in-
tencionados ou carolas de qualquer índole. Olhos e ouvi-
dos domesticados encontram as palavras certas naqueles
amontoados de livros. Olhos e ouvidos vivos, atentos, in-
convenientes, loucos, para ver e ouvir, loucos para viver,
loucos, desfrutam de palavras que escapam às interpreta-
ções da história, que transbordam as linhas contínuas e,
insurretas, nada explicam, nada resolvem, nada determi-
nam. Alguns livros rasgam a calma da leitura instruída.
Não se trata de uma história do anarquismo. Há histórias
de anarquistas que incomodam, que subvertem a lógica
das causas, que, a despeito dos muitos artifícios a disposi-
ção, não se inscrevem na história, não resultam em sín-
tese alguma.
Não lemos Los anarquistas expropiadores para enten-
der a história do anarquismo, para entender história al-
guma ou coisa alguma, leio este livro e penso o presente,
penso seriamente, sem conceitos para-qualquer-tempo-
ou-lugar. Pensa-se assim ao pular da cadeira, a cada res-
piro, a cada tanto de ar e a cada gesto, a cada reação física
que, a olhos atentos, provoca. Aos vivos interessa a vida,
não uma interpretação, nem mesmo uma narrativa (en-
quanto tal, mais uma interpretação), interesso-me por este
livro a cada arranhão na minha pele, nos meus nervos, e
não há metáfora possível.
A primeira metade do século XX dá cambalhotas, entre
nomes e lugares mais ou menos estranhos, mais ou me-
nos famosos. Incontáveis, porque não são cifras. Se desli-
zamos entre estas linhas que nos preservam de um julga-
mento, também nos vemos entre problematizações que
se projetam dos tempos, dos lugares e dos nomes: da sepa-
ração, explícita e, portanto neste caso, política, entre os

294
verve
Do paleo ao neo-liberalismo: a empresa com alma

anarquistas pacifistas e os anarquistas expropriadores; do


anarquismo como prática que, num determinado momento,
responde, efetivamente, a uma demanda de organização
das práticas de trabalhadores; do anarquismo como movi-
mento de fluxos, de estrangeiros e de práticas de sociabi-
lidade resultantes de deslocamentos, ou melhor, inseri-
das em geografias inventadas por estes deslocamentos,
físicos e, ao mesmo tempo, de vontades... Invenções anar-
quizantes que irrompem de um sul que nos é tão próximo
quanto surpreendente. Teorias a parte, histórias para in-
teressados.
Osvaldo Bayer nasceu em 1927, em Santa Fe, escritor,
jornalista, cineasta. Anarquista de muitos amigos, de olhos
azuis, que sabe sorrir.

do paleo ao neo-liberalismo: a empresa com alma


paulo-edgar almeida resende*

Maurício Tragtenberg. Administração, poder e ideologia. 3a


edição revista. São Paulo, Editora UNESP, 2005, 236 pp.

Maurício Tragtenberg, leitor arguto da literatura em tor-


no de grandes empresas capitalistas, na segunda metade
do século XX, conduz-nos, via contrastes, a envolvente
debate sobre questões cruciais. Selecionamos algumas.
Extrai dos clássicos da administração seu estranhamen-

*
Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Coordenador
do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional (NACI) da PUC/SP.

verve, 8: 295-301, 2005


295
8
2005

to, seu rotineiro humor mal humorado diante de ideólogos


da grande corporação. Acompanha pari passu a alteração
anunciada da teoria e da prática do Estado e da proprieda-
de privada na versão dos bestsellers estadunidenses. Como
vademecum, seu texto nos conduz pela vegetação rasteira
de ideologias legitimadoras da nova dinâmica, extensiva
e intensiva, da estrutura de poder, dos processos decisóri-
os que imbricam interesses de acionistas, técnicos e ope-
rários, pela me-diação dos managers. Consolida-se a pro-
clamada república econômica capitalista, com a preten-
são de transitar da fase do barão assaltante para a empresa
de responsabilidade social. O capital, na sociedade anôni-
ma por ações, pulveriza-se com a multiplicação de seus
donos, sem perder o aprumo, embora os capitalistas ce-
dam visibilidade para o executivo de empresa.
O grande desafio para o analista é processar o poder de
controle, por delegação, em relação à estrutura proprietá-
ria. O fornecedor de capital cede a responsabilidade de di-
reção a técnicos especializados. Não se lida, portanto, com
a propriedade em seu sentido clássico, pese à defasagem
da lei, que não o registra. As relações jurídicas entram
em dessintonia com o desenvolvimento socioeconômico
da corporação moderna. Com efeito, na reterritorialização
da grande corporação, a formalização demanda a comple-
xa solução de compromisso entre acionistas, gerentes e
diretores. Não só os primeiros se tornam acionistas, em
diferentes proporções, com alguma margem de participa-
ção simbólica estendida até os próprios operários, para além
de seus salários. O invólucro clássico da propriedade pri-
vada, nos parâmetros do paleo-liberalismo, não recobre a
atual valorização da mediação gerencial. Em que pese a
hegemonia das relações consangüíneas das holdings, dos
Rockfeller, dos DuPont, a propriedade chega a ser proposta
como empresa corporativa, como suposta alternativa à pro-
priedade privada. Nesta ditadura da indústria, a empresa,
como organização social, busca tornar-se juridicamente

296
verve
Do paleo ao neo-liberalismo: a empresa com alma

uma instituição. Impessoaliza a propriedade, segundo Ra-


thenau, à semelhança do Estado. Os nichos empresariais
se comporiam à imagem de partidos políticos ou de deno-
minações religiosas. Vale dizer, a corporação busca mos-
trar-se não apenas como estando a serviço de seus donos,
mas da sociedade, pelo fato de seus controladores atua-
rem de forma tida como neutra e tecnocrática, o que desa-
guaria em autêntica política pública. O grupo de controle
desenvolveria um tipo de racionalidade que incluiria de-
terminações socioeconômicas no mundo dos negócios, a
ponto deste se confundir com a economia estatal. Com tal
raciocínio, a bondade, a eticidade, aninham-se e se ali-
nham com a expansão das grandes corporações.
Registram-se tensões, contradições secundárias, cor-
porações que encontravam parceiros na Alemanha nazis-
ta, na ótica dos governos aliados divisava-se o inimigo.
Mas, tendencialmente, os ideólogos da grande corporação
se esmeram em exaltar nela as implicações éticas e os
fundamentos legais, o que garantiria a harmonia de inte-
resses no âmbito da sociedade global. A grande empresa,
ao assumir características comunitárias, independente-
mente do regime socioeconômico vigente, embora sob o
invólucro privatista, tende a influir na totalidade do soci-
al. A medida que o acionista passa e a empresa permane-
ce, ela suscita a profissão de fé militante na corporação de
parte dos white collars. A união de burocratas, técnicos,
gerentes, com a cooptação de operários, superaria a luta
de classe.
Com tais convicções, formula-se a ideologia neo-capita-
lista, cuja função é de legitimar o status quo. Nega-se a
existência de excluídos, à medida que, pela via da filantro-
pia e do paternalismo da grande corporação, realiza-se o
socialismo sob o capitalismo. A gerência, segundo seus ide-
ólogos, não se compromete apenas com a lucratividade,
mas também com a produção de conhecimentos, com o

297
8
2005

financiamento de pesquisa científica, com as universida-


des, o que redunda em compromisso com o bem comum.
O que equivale a dizer que todos os que habitam a corpora-
ção devem a ela lealdade organizacional.
Enquanto instituição, a empresa com alma articula a ele-
vação da taxa média de lucro com sua função social. A
estrutura federativa é o desenho de tal sociedade global,
em que cidadãos são os que mantêm vínculos trabalhis-
tas com a corporação e residentes os que detêm vínculos
comerciais com ela. A opinião pública seria o juiz da em-
presa com alma. Para os ideólogos mais conservadores, o
próprio mercado manteria os limites de poder da empre-
sa, sem necessidade imediata de apelo a preceitos éticos.
Para os juristas clássicos, legitimadores profissionais das
relações capitalistas de produção, a sociedade por ações
não é de pessoas, mas de capitais. O acionista proprietá-
rio é desvestido de personalidade moral, atribuída à socie-
dade.
Maurício divisa em Weimar, com Rathenau e Neu-
mann, premissas de que se valerão o nazismo e as teori-
as contemporâneas da corporação com alma. Sem perder
seu caráter privatista, a grande empresa antecipa a eco-
nomia planejada, a ponto de permitir a comparação feita
por P. Drucker entre empresas na URSS e a General Mo-
tors. O lucro se transmuda em salário de superintendên-
cia, fruto do trabalho do capitalista.

O avesso da grande corporação


Bem ao estilo do autor, atento ao paradigma neo-liberal,
levantados os traços básicos de tal ideologia, ele procede à
subversão da vertiginosa lógica do capitalismo da segunda
metade do século XX.

298
verve
Do paleo ao neo-liberalismo: a empresa com alma

O grande obstáculo para a realização da empresa-comu-


nidade é a efetiva participação operária nos processos de-
cisórios. Na medida em que a direção da corporação é ca-
pitalista, somente poderá ser anti-social e privatista. Mau-
rício busca desvelar a manipulação das contradições: a
estrutura hierárquica da empresa, a sa-cralização da che-
fia, a impessoalidade organizacional, a racionalidade ver-
ticalizada equivalem à moral fechada de que fala Bergson.
À prova de intrusões, contestações, a relação hierárquica,
conservadora por natureza, traz elementos de magnificên-
cia e destina-se a manter o existente. A política de rela-
ções humanas, excessivamente polida, para ser honesta,
visa agir sobre indivíduos e grupos. Provoca neles atitu-
des que convêm à empresa. O chefe autoritário é aconse-
lhado a não ser diretivo, para acentuar a integração, pri-
vilegiando o conformismo. É uma empresa educadora, tem
valor formativo. Cabe à direção agir sobre. O vocabulário
psicologizante é recorrente no serviço social. Diálogo, par-
ticipação para a mão-de-obra são apelos para maior produ-
tividade. Sacralizada a empresa como instituição com fun-
ção social, a literatura moralizante lhe serve para coló-
quios e seminários. Os executivos se mostram imbuídos
de papel semi-missionário, portadores da mensagem de
verdade. Enquanto família extensa, a empresa transfor-
ma as relações sociais em relações pessoais, já que as
classes sociais inexistem e sim as pessoas, alocadas em
funções. Os conflitos são tidos como exteriorização de ten-
sões internas, a serem trabalhadas pela psicanálise, con-
dimentada para uso do capital.
Maurício define então as relações humanas daí decor-
rentes como dinheiro. Teoria, prática e ideologia pressu-
põem a dinâmica de grupo e se avaliam sociometricamen-
te. Pressente-se a influência de Durkheim, o sociólogo da
ordem. Ao conflito, contrapõe-se a coesão social. À oposi-
ção de classes, opõem-se a representação corporativa, a

299
8
2005

consciência coletiva, o consenso. A questão social, posta


enquanto problema moral, tenta obscurecer a luta pela
redistribuição de renda e poder. Coesão, integração, or-
dem são os pilares do edifício sociológico de Durkheim,
com seu jargão atualizado na bandeira brasileira e em
toda uma teoria da administração, oficializada em cur-
rículos universitários. Caberá aos psicólogos plantonistas
nas grandes corporações o surgimento do conceito de en-
genharia social, consultorias por empresas especializa-
das. Ao homem econômico de Taylor contrapõe-se o homem
psicológico de Mayo. A preocupação é com as boas relações
humanas no lugar de aumentos salariais ou diminuição
da jornada de trabalho. É o narcótico do grande demiurgo,
em reação ao sindicalismo operário. Portanto, a empresa
não é só local físico onde o trabalho excedente cresce, às
expensas do necessário, e palco da ocultação da oposição
de classes. Para Maurício é também cenário da inculca-
ção ideológica. Nesse sentido, ele a divisa também como
aparelho ideológico, com a função de operar a psicomani-
pulação, ou seja, não só a mais-valia é extraída do traba-
lho. Há a perda do seu ser, de seu poder social.
Por último, mas não em último lugar, em passagens
menos extensas, mas igualmente primorosas pela argú-
cia do raciocínio, Maurício não se furtou de aproximar a
concepção leninista de movimento dirigido a partir do Es-
tado Maior central, com nova modalidade de opressão do
operariado. A afirmação da autoridade superior aos conse-
lhos operários, aos comitês de base ou de quarteirão, a
grupos revolucionários autônomos, acaba do mesmo modo
que a opressão patronal. Proudhon já prevenira Marx de
que o operariado ou se libertava com suas próprias per-
nas, ou estaria sujeito a nova modalidade de dominação.
Bakunin expressou-o na Primeira Internacional, taxando
a iniciativa vanguardista de socialismo autoritário. Lê-
nin, em O Que Fazer?, explicitou a vertente socialista do
centralismo democrático, que tanto preocupou Rosa Lu-

300
verve
Mauricio Tragtenberg

xemburgo. E o movimento operário no Brasil acaba de ex-


perimentar os desvios do baronato que o penetrou, com
discurso pronto e muito apetite de poder. Este acréscimo
final tem a ver com textos mais extensos de Maurício Tra-
tenberg, crítico persistente de qualquer tipo de centralis-
mo, seja de direita, seja de esquerda. Dentro e fora da Uni-
versidade.

mauricio tragtenberg antonio josé r. valverde*

Maurício Tragtenberg. Sobre educação, política e sindicalismo.


3ª edição revista. São Paulo, Editora UNESP, 2004, 215 pp.

Proverbialmente se diz, com razão, que a melhor ho-


menagem a um Autor é a leitura de sua obra. Ora, ler e
reler Maurício Tragtenberg, em textos que viajam no exí-
guo tempo de vinte e poucos anos, é dever de todo estudio-
so interessado em entender o mundo contemporâneo e a
situação brasileira para além dos modismos e aplausos da
sociedade do elogio mútuo e do ato de incensar os pares
acadêmicos, com repercussão na imprensa menos avisa-
da.
Avesso a elogios, Tragtenberg, em arresto fino de leitu-
ras precisas e oportunas de clássicos da filosofia política,
da literatura, da história, da educação e da sociologia, cons-
truiu uma obra que tem resistido às intempéries do mun-
do intelectual. O segredo da resistência é a combinação
de finesse de espírito, sem pedantismo e com muita clare-

*Professor Titular do Departamento de Filosofia da PUC/SP e Professor do


Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da EAESP da FVG-SP.

verve, 8: 301-307, 2005


301
8
2005

za e precisão no argumentar, e de análises expressas com


concisão e profundidade, que pos-sibilitam enxergar atra-
vés das aparências e das redes espetaculares da socieda-
de pós-industrial.
Se, para a geração dos que estão hoje com pouco mais
ou pouco menos de cinqüenta anos, Tragtenberg dispensa
apresentações, para os mais jovens é preciso explicitar a
intrincada tessitura teórica de sua obra, urdida entre a
perspectiva marxista-libertária e a trama da sociologia
“compreensiva” weberiana.
O livro em tela é uma antologia de textos organizada
pelo próprio autor, em 1982, e a presente edição encontra-
se revista e compõe a Coleção Maurício Tragtenberg, da Edi-
tora Unesp, sob direção do Prof. Evaldo Amaro Vieira. A par
da altura intelectual com que se movimenta, ao circular
por pensadores como Lobrot, Establet, Bourdieu, Benjamin,
Goffmann, Weber, Horowitz, Selznick, Francisco Ferrer,
Maria Lacerda de Moura, Kropotkin, e mesmo deixando de
citar nominalmente Althusser e Foucault, dos quais há
remissões disseminadas em não poucas passagens, o que,
em princípio, aponta para o público acadêmico e professo-
res em geral, porém, vencidas as aparências e recorrên-
cias mais imediatas, descobre-se que o livro é, virtual-
mente, destinado a jovens universitários, dadas as indi-
cações e recorrências precisas para tal em várias
passagens. Desde o desvelar dos meandros sutis da “uni-
versidade antipovo” até a análise da participação estudantil
nas esferas políticas de par com a representação discen-
te.
Composto de quatorze artigos, da reprodução de um
debate e de dois depoimentos, o livro é um marco relevan-
te na obra de Maurício Tragtenberg. Se o fato de sermos
“ainda hoje desterrados em nossa terra” e os processos de
atualização pelo alto, em vários níveis e momentos da his-

302
verve
Mauricio Tragtenberg

tória pátria, sob capa porosa do capitalismo monopolista


tardio, têm dificultado o entendimento do cerne dos pro-
blemas materiais e culturais da nação brasileira, o sobre-
vôo pontualíssimo de Tragtenberg, operado pelas análises
e pelas críticas à educação, à política e ao sindicalismo,
revelam o lado menos aparente, porém consistente dos
fundamentos da ordem social, em vigor nos anos setenta,
e em perspectiva para os ulteriores.
Em verdade, nomear os quatorze textos como artigos
não corresponde, precisamente, à estrutura dos mesmos.
Tragtenberg apresenta muitos deles na forma de ensaio,
dada a abrangência de perspectivas abertas, a liberdade
com que aborda as idéias e os temas mais contundentes.
Como gênero literário, tão caro a alguns intelectuais bra-
sileiros dos mais expressivos — Sérgio Buarque de Holan-
da, Antonio Candido —, o ensaio não escapou a Tragten-
berg.
Dada a densidade das idéias apresentadas, o acúmulo
de constatações e de entrecruzamentos de fatos e de dou-
trinas decompostas desde sua face oculta até a explícita,
mais a capacidade de síntese do autor, e como um dos
segredos da técnica de resenhar é insinuar mais que
mostrar ou demonstrar, efetivamente, lançarei luz em
alguns capítulos do livro e outros ficarão à sombra, à espe-
ra do leitor atento.
O primeiro, “A delinqüência acadêmica”, que poderia
conter o subtítulo de “A traição dos intelectuais”, é uma
bomba–relógio de efeito imediato e retardado a destruir
crenças silenciosas e pré-críticas acerca dos reais inte-
resses da produção do conhecimento nas Universidades,
dos sinuosos caminhos da burocracia acadêmica e dos
entornos, sempre a privilegiar os meios em detrimento
dos fins. O demolidor artigo, aparentemente, é a transcri-
ção ipsis litteris da longa entrevista cedida por Tragtenberg
ao jornalista Laerte Ziggiati, constante da edição do ca-

303
8
2005

derno cultural “Folhetim”, da Folha de São Paulo, de seis


de agosto de 1978. O título, calcado no substantivo delin-
qüência, traz à cena universitária o ato de cometer falta,
crime e delito moral. Por não se tratar de uma premissa
edulcorada, as decomposições de intenções e de resulta-
dos da produção universitária andam de par com interes-
ses escusos e estranhos à Universidade. À pergunta: “o
conhecimento a quem e para que serve?” desvela cama-
das e núcleos do que o sistema de mandarinato acadêmi-
co e seu séquito melhor produzem, aquém de qualquer
responsabilidade social.
Ao final do texto em pauta, Tragtenberg, ao posicionar-
se contra os desmandos acadêmicos e sua aparência de
“cemitério de vivos” pela capitulação burocrática e mer-
cantilista, propõe a “autogestão pedagógica”, que “teria o
mérito de devolver à Universidade um sentido de existên-
cia, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa
motivação participativa e não no decorar determinados ‘cli-
chês’” (pp. 18-19). E conclui: a “participação discente não
se constitui num remédio mágico aos males acima apon-
tados, porém a experiência demonstrou que a simples pre-
sença discente em colegiados é fator de sua moralização”
(p. 19).
O segundo capítulo, “O saber e o poder”, deriva do em-
brião lido num final de tarde de sábado, dia 15 de julho de
1978, durante o encerramento do encontro anual da SBPC,
no saguão da História da USP. O encontro funcionou como
desagravo de intelectuais, de profes-sores e de estudan-
tes, frente à ordem político-social imposta pelos militares.
A SBPC encarnava, naquele momento, parte destacada da
consciência crítica da chamada “sociedade civil”. Como
nossa memória é seletiva por excelência, fatos marcan-
tes tornam-se indeléveis: naquela mesma tarde o Prof.
Evaldo Amaro Vieira lia seu texto “Estado e Política Soci-
al”, publicado pela revista Educação & Sociedade.

304
verve
Mauricio Tragtenberg

Em verdade, “O saber e o poder” contém uma crítica


pontual da sociologia, pelo viés do funcionalismo e, por
extensão, questiona a antropologia e segmentos da admi-
nistração de empresas, sem esquecer o papel do politólogo
e seu par complementar, o banco de dados, ao tracejar o
comprometimento do intelectual por dispor de seu conhe-
cimento em favor do que chama de “complexo militar-in-
dustrial-acadêmico”. Tragtenberg desconfia da cobertura
dada pelo “ideal de neutralidade ante valores”, em curso
desde a concepção de ciência inventada e sintetizada por
Francis Bacon, o pai do materialismo moderno como quer
Engels. Tragtenberg afirma que na realidade, “esse apoli-
ticismo converte-se na ideologia da cumplicidade trustifi-
cada” (p. 23). E arremata afirmando que “o cultivo de ideo-
logia livre de valores é paralelo à despreocupação sobre as
implicações éticas e políticas do conhecimento” (p. 23). O
que reforça a constatação de que há “um processo de mili-
tarização das ciências sociais paralelo ao desenvolvimen-
to da superespecialização e ao intelectualismo” (p. 23).
Como exemplo, relembra, dentre outros, o Projeto Came-
lot, que dispunha de milhares de dólares destinados ao
estudo das “causas das mudanças sociais e prevenir sua
ocorrência” (p. 24), em países da África e da Ásia.
Com verve e acuidade, Tragtenberg prenunciou os tem-
pos atuais, em que os cursos universitários valem menos
pelo caráter de conteúdo e mais por apelos performáticos.
Contudo, o ensaio “O saber e o poder” alude, em algumas
passagens, ao livro de Chomsky e Herman, Bains de sang
constructifs dans le sang et la propagande.
Em “Escola como organização complexa” há um inven-
tário histórico-político dos aspectos educacionais dos últi-
mos quinhentos anos na sociedade ocidental, com o zoom
voltado para os dias atuais, desde o interesse pela forma-
ção de letrados no século XVI para servir às burocracias
mercantilista, eclesiástica e estatal modernas, aditadas

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do voto de obediência introduzido pelos jesuítas até a esco-


la como aparelho ideológico de Estado, no presente.
Cedendo à má comparação e sob gêneros diferentes,
ensaio e conto, o texto de Tragtenberg lembra, às avessas,
A teoria do medalhão, de Machado de Assis. No conto, um
pai apresenta ao filho, que completa vinte e um anos, o
modo de vencer na vida sem fazer força, apenas facilitando
para si o movimento subliminar das mais oportunas ma-
zelas da cultura brasileira, em curso na corte do século
XIX. Se no conto o substrato da “estória” é tornar-se meda-
lhão, no ensaio de Tragtenberg são os aparatos burocráti-
cos educacionais, tomados como dispositivos para a as-
censão e os atos capazes de transformar-se em tecnocra-
ta, que sobressaem na análise. Para tanto, Tragtenberg
atenta para os movimentos de inculcação ideológica, de
formação da “força de trabalho”, de contribuição de “repro-
dução material da divisão em classes” e de manutenção
da reprodução das “relações de dominação”, basilares da
“reprodução das relações sociais de produção”, sob o apa-
relho escolar.
O texto “Aplicação das teorias de Weber, Selznick e Lo-
brot à educação”, de 1978, de saída traz afirmações que
não deixam dúvidas sobre a relação entre administração
e Universidade. “Administrar acima de tudo no Brasil é
vigiar e punir. Administrar acima de tudo é PODER. Como
qualquer poder, o burocrático tende à expansão. A univer-
sidade é uma instituição dominante, além disso, ligada à
dominação. Até hoje, a universidade brasileira formou
assessores de tiranos, é o antipovo. Criada para produzir
conhecimento, ela se preocupa mais em controlá-lo” (p.
71). Como o texto é curto, na seqüência, rapidamente, o
autor debulha essas constatações, sob o peso dos teóricos
anunciados no título.
Ao final da leitura, o verbo e o substantivo que sobres-
saem são: refender — lavrar em relevo; tornar a fender —;

306
verve
Da desobediência como prática política

e refendimento — ação de refender; trabalho de escultura


em alto relevo. Reler Maurício Tragtenberg, passados vin-
te e poucos anos, é como reanimar o ato do escultor que
faz brotar da matéria bruta da história a interpretação
aguda de que as idéias e as organizações podem encobrir
e inculcar como verdades, aparentemente, naturais.
A obra em tela mantém a contundência e a força da
primeira leitura.
Tragtenberg, que logo após a eleição de Erundina de
Souza, em 1988, para prefeita de São Paulo, escreveu o
texto crítico “A estrela branca e a estrela vermelha”, salvo
engano, inédito até hoje, em que analisara o possível des-
tino trágico do PT, num tempo em que grande parte da
esquerda e da inteligenzia nacional, esforçava-se para pro-
jetar um futuro promissor e vitorioso para o partido. Se
vivo fosse, frente ao pastiche político atual provocado pelo
mesmo partido, não conteria as gargalhadas e a tristeza.
Pequeno e estranho é o mundo da política!

da desobediência
como prática política acácio augusto

Iza Salles. Um cadáver ao sol. A história do operário


brasileiro que desafiou Moscou e o PCB. Rio de Janeiro:
Ediouro, 2005, 221 pp.

Antonio Bernardo Canellas desde muito jovem se en-


volveu com as lutas operárias no Brasil. Aos dezessete
anos, trabalhando como tipógrafo linotipista, participava

*Estudantes de Ciências Sociais na PUC/SP, integrante do Nu-Sol e bolsista CNPq.

verve, 8: 307-312, 2005

307
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2005

da produção de jornais que tinham como objetivo dar va-


zão às lutas empreendidas pelos trabalhadores, rivalizar
com a imprensa burguesa, explicitar os usos e abusos das
autoridades policiais locais e, em um momento específi-
co, ironizar a participação do Brasil na I Guerra Mundial
com uma campanha com contra a guerra, as armas e o
nacionalismo. Isto lhe rendeu sérios problemas com as
autoridades, mas também, ótimas piadas sobre Olavo Bi-
lac.
Foi andando com os anarquistas, nesta época, que Ca-
nellas talvez tenha sedimentado o que seguramente foi
seu principal aprendizado político, a desobediência, práti-
ca que, mais tarde, exercita em meio a IV Internacional
Comunista (1922) diante de uma das mais aclamadas
autoridades internacional do comunismo na época, Leon
Trotsky.
É da vida deste anarquista, convertido ao comunismo
pela euforia causada com a revolução russa em alguns
militantes do movimento operário brasileiro, que trata o
livro da jornalista e ex-militante da Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), Iza Salles. Não se trata de exata-
mente uma biografia de Canellas — que vai a Moscou aos
24 anos —, mas de sua atitude corajosa diante da ditadura
de Lenin, que na época era aclamada pelos comunistas do
mundo, não sendo alvo de uma crítica sequer proveniente
dos meiosrevolucionários, salvo a contumaz crítica dos
anarquistas e de alguns poucos comunistas revolucioná-
rios, não menos corajosos que Canellas, como Rosa Lu-
xemburgo, que o centralismo democrático não suportava.
Salles tomou conhecimento da história de Canellas no
começo da década de 1980 enquanto se encontrava exila-
da na Itália. Indica, quase de maneira despercebida na
abertura do livro, que refazer a história de Canellas e de
sua ida à IV Internacional Comunista seria uma outra

308
verve
Da desobediência como prática política

maneira de refletir sobre sua própria experiência como


militante de esquerda durante a ditadura militar de 1964
no Brasil. Escreve, então, um livro-carta a um amigo dis-
tante questionando-o de como ele não havia percebido
antes que seu entusiasmo pelo bolchevismo acabaria em
um processo de perseguição, logo ele que havia se forma-
do um socialista em meio às experiências libertárias no
Brasil.
Para mostrar isso a Canellas, ou para qualquer outro
que ainda veja no stalinismo uma distorção abjeta do bol-
chevismo ou marxismo-leninismo, Salles dedica-se na
primeira parte do livro a fazer um relato histórico das di-
vergências entre anarquistas e comunistas nos meios
operários. Nas críticas de Bakunin a Marx no interior da I
Internacional dos Trabalhadores (AIT), vê o prelúdio do que
seria mais tarde a revolução bolchevista conduzida por
Lênin e Trotsky. Sublinha a pequena influência das idéi-
as de Marx e Engels entre os operários europeus até 1872,
de maneira que só após o malogro da Comuna de Paris
(1871) que ganha vulto a tese — de influência blanquista
— de ditadura do proletariado defendida pelos dois no Ma-
nifesto Comunista (1848).
O livro é resultado de uma pesquisa cuidadosa e rigoro-
sa realizada por Sallles no Brasil, na Itália e na França
durante dez anos. Após rescrever, brevemente, a história
do conflito na AIT — tema de numerosos volumes de his-
tória, sociologia e política — a autora refaz o quadro das
lutas operárias vividas no Brasil do começo do século XX
para introduzir a singular história de Canellas. O nome do
quinto capítulo já indica qual foi o erro deste militante
operário, Uma idéia fixa. O que levou Canellas a se conver-
ter ao comunismo foi sua sensibilidade ao que se chama-
va na época de questão social. Isto o impeliu a acreditar
que só uma revolução seria capaz de resolver essa ques-
tão de uma vez por todas, e ao ter notícias de que os russos

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8
2005

haviam saído vitoriosos de uma verdadeira revolução pro-


letária acreditou que só o bolchevismo seria capaz de
realizar sua idéia fixa de emancipação humana.
Mas Canellas se mantém em estado de revolta. É o
que permite a autora sustentar que apesar de convertido
ao comunismo ele ainda é, em sua atitude, um anar-
quista. Em sua volta ao Brasil traz informações sobre o
congresso: suas divergências com o Comitê Central, sua
indolência diante de Trotsky (“Um aparte, camarada
Trotsky”) em relação à problemática questão do PC fran-
cês e sua briga com os companheiros argentinos. Seus
companheiros no Brasil, especialmente o amigo Astrojil-
do Pereira, ao verem que a postura de Canellas acarreta-
ra a não inclusão do PCB como seção brasileira da Inter-
nacional Comunista, apressaram-se em atacá-lo e a re-
conhecer todas as represálias e entraves burocráticos
sofridos por Canellas em Moscou como necessários.
A partir daí o PCB derrama sobre Bernardo todo pa-
lavrório constituído pelas ciências humanas acerca dos
anarquistas e incorporado pelo discurso marxista: lou-
co, doente, intempestivo, pequeno burguês, individua-
lista, megalomaníaco, histérico, indolente, etc, etc e
etc. Palavras que são usadas largamente no livro-rela-
tório escrito pelo PCB (de provável autoria de Astrojildo
Pereira e Octávio Brandão), que parte do princípio que
Canellas é um cadáver a ser dissecado neste relatório
que lançando mão da clássica pretensão das ciências
humanas em querer ter estatuto de ciências biológi-
cas. Este relatório-dissecamento é o coroamento de
uma série de perseguições que Canellas sofreu por
parte dos seus ex-camaradas. Sua situação agravou-
se a partir da declaração do estado de sítio proclamado
pelo governo Artur Bernardes, que lhe rendeu noventa
dias de prisão sem o menor apoio dos PCB e sob temor

310
verve
Da desobediência como prática política

de ser enviado ao campo de concentração de Clevelân-


dia do Norte no Acre.
Uma história como de Canellas mostra a que ponto
pode chegar homens possuídos por uma idéia: tornam-
se serviçais encarniçados de um ideal que pretende ser
tudo em tudo. Este o traço marcante das revoluções e
dos revolucionários do sáculo XX que afoga a atitude
corajosa do homem revoltado — como nos mostrou Ca-
mus seguindo as reflexões da filosofia de Max Stirner e
da literatura de Dostoievski — também foi a marca dos
perseguidores de Canellas, este homem em estado de
revolta.
Desta maneira, é possível notar, ao acompanhar a
trajetória de Canellas, que a atitude diante de uma si-
tuação limite possui uma potência desestabilizadora
muito maior do que a identidade política apresentada
por quem fala. Em situações como as vividas por Cane-
llas, o que está em jogo não é expressão de um estado
civil ou de um estatuto político, mas joga-se com a capa-
cidade de agir com coragem diante de uma tentativa de
ser subjugado.
Salles escreve que Canellas, desde de muito jovem,
possuía uma franqueza que beirava a ingenuidade. Se-
ria mesmo ingenuidade? Comunista ou anarquista ele
não queria era fazer parte da “tribo do nhô-sim”, da qual
fazia parte, segundo seu humor contumaz, seus ex-ca-
maradas de partido a dizer sim senhor para todas as re-
soluções vindas de Moscou.
Canellas lança mão de um pressuposto de isonomia
entre socialistas (camaradas), que é interpretado como
traição pelos companheiros de PC e por Moscou, como
recurso para se manter fora desta tribo e poder falar
livremente. Nisto não havia ingenuidade, havia clare-
za de uma postura que Canellas seguramente apren-

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deu quando ainda andava entre os anarquistas: a certe-


za de que mesmo vivendo ainda sob a idéia fixa da uto-
pia de uma emancipação humana, esta realização nun-
ca será possível sem uma prática de liberdade no pre-
sente que implica, sobretudo, falar livremente. Canellas
sabia disso, e expressa-a nesta passagem em que co-
menta sua situação no interior da internacional: “Como
minha posição moral não dependia da Internacional e
nem minha situação material de cargos no partido e,
desta forma, me encontrava numa situação privilegia-
da de independência, pude enfrentar a hostilidade dos
bem-aventurados seguidores do pensamento oficial, que
existem em todos os lugares e todas as eras” (p.128).
Passado o problema com o PCB, Canellas funda um
novo jornal onde continua a expressar as idéias que lhe
são de acordo até sua morte. Atrojildo Pereira, morre na
miséria, no ostracismo político e mendigando, sem su-
cesso, um cargo qualquer na burocracia do Partido. Oc-
tavio Brandão — seu outro perseguidor no Brasil e rela-
tor de sua expulsão — após uma saída breve do PCB,
para fundar a União Democrática Nacional (UDN), faz a
autocrítica de acordo com as ordens de Moscou, e volta
ao PCB para logo em seguida ser atropelado por Luís
Carlos Prestes e cair, também, no ostracismo político.
A coragem decidida de Canellas que o levou a ser
visto como um traidor do Partido nunca lhe rendeu divi-
dendos, tampouco o levou ao caminho político de reali-
zação da sociedade ideal. No entanto, ela possibilitou a
experiência de uma ação política livre independente.
Este livro sobre Canellas afirma que a desobediência é
um acontecimento surpreendente em qualquer situa-
ção, provocando fissuras irreparáveis, e, por isso, insu-
portável para chefetes de direita e de esquerda.

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NU-SOL
Publicações do Núcleo de Sociabilidade Libertária, do Programa de
Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

hypomnemata
Boletim eletrônico mensal, 1999-2005

vídeos
Libertárias, 1999
Foucault-Ficô, 2000
Um incômodo, 2003
Foucault, último, 2004

CD-ROM
Um incômodo, 2003 (artigos e intervenções artísticas do Simpósio Um
incômodo)

Coleção Escritos Anarquistas, 1999-2004

1. a anarquia Errico Malatesta

2. diálogo imaginário entre marx e bakunin Maurice Cranston

3. a guerra civil espanhola nos documentos anarquistas C.N.T.

4. municipalismo libertário Murray Bookchin

5. reflexões sobre a anarquia Maurice Joyeux

6. a pedagogia libertária Edmond-Marc Lipiansky

7. a bibliografia libertária — um século de anarquismo em língua portu-

guesa Adelaide Gonçalves & Jorge E. Silva

8. o estado e seu papel histórico Piotr Kropotkin

9. deus e o estado Mikhail Bakunin

10. a anarquia: sua filosofia, seu ideal Piotr Kropotkin

11. escritos revolucionários Errico Malatesta

12. anarquismo e anticlericalismo Eduardo Valladares

13. do anarquismo Nicolas Walter

14. os anarquistas e as eleições Bakunin, Kropotkin, Malatesta, Mirbeau,

316
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Grave, Vidal, Zo D’Axa, Bellegarrigue, Cubero

15. surrealismo e anarquismo Joyeux, Ferrua, Péret, Doumayrou, Breton,

Schuster, Kyrou, Legrand

16. nestor makhno e a revolução social na ucrânia Makhno, Skirda,

Berkman

17. arte e anarquismo Ferrua, Ragon, Manfredonia, Berthet, Valenti

18. análise do estado — o estado como paradigma do poder Eduardo

Colombo

19. o essencial proudhon Francisco Trindade

20. escritos contra marx Mikhail Bakunin

21. apelo à liberdade do movimento libertário Jean-Marc Raynaud

22. a instrução integral Mikhail Bakunin

23. o bairro, o consumo, a cidade... espaços libertários Bookchin, Boino,

Enckell

24. max stirner e o anarquismo individualista Armand, Barrué, Freitag

25. o racionalismo combatente: francisco ferrer y guardia Ramón Safón

26. a revolução mexicana Flores Magón

27. anarquismo, obrigação social e dever de obediência Eduardo Colombo

28. Bakunin, fundador do sindicalismo revolucionário Gaston Leval

29. Autoritarismo e anarquismo Errico Malatesta

Livros

Edson Passetti e Salete Oliveira (orgs.). A tolerância e o intempestivo. São


Paulo, Ateliê Editorial, 2005.

Edson Passetti (org.). Curso livre de abolicionismo penal. Rio de Janeiro,


Editora Revan/Nu-Sol, 2004.

Edson Passetti (org.). Kafka-Foucault, sem medos. São Paulo, Ateliê Editorial,
2004.

Mikhail Bakunin. Estatismo e anarquia. São Paulo, Ed. Imaginário/Ícone


Editora/Nu-Sol, 2003.

Pierre-Joseph Proudhon. Do Princípio Federativo. São Paulo, Ed. Imaginário/


Nu-sol, 2001.

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8
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Verve aceita artigos e resenhas que serão analisados pelo Con-


selho Editorial para possível publicação. Os textos enviados à re-
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para identificá-lo em nota de rodapé.

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nhas — em português e inglês — e de três palavras-chave (nos
dois idiomas).

Notas explicativas:

As notas, concisas e de caráter informativo, devem vir em nota


de fim de texto.

Citações:

As referências bibliográficas devem vir em nota de fim de texto


observando o padrão a seguir:

I) Para livros:

Nome do autor. Título do livro. Cidade, Editora, Ano, página.

Ex: Max Stirner. O falso princípio de nossa educação. São Paulo,


Imaginário, 2001, p. 74.

II) Para artigos ou capítulos de livros:

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verve

Nome do autor. “Título” in Título da obra. Cidade, Editora, ano,


página.

Ex: Michel de Montaigne. “Da educação das crianças” in En-


saios, vol. I. São Paulo, Nova Cultural, Coleção Os pensadores,
p.76.

III) Para citações posteriores:

a) primeira repetição: Idem, p. número da página.

b) segunda e demais repetições: Ibidem, p. número da página.

c) para citação recorrente e não seqüencial: Nome do autor,


ano, op. cit., p. número da página.

IV) Para resenhas

As resenhas devem identificar o livro resenhado, logo após o


título, da seguinte maneira:

Nome do autor. Título da Obra. Cidade, Editora, ano, número


de páginas.

Ex: Pierre-Joseph Proudhon. Do Princípio Federativo. São Pau-


lo, Ed. Imaginário, 2001, 134 pp.

V) Para obras traduzidas

Nome do autor. Título da Obra. Cidade, Editora, ano, número


de páginas. Tradução de [nome do tradutor].

Ex: Michel Foucault. As palavras e as coisas. São Paulo, Mar-


tins Fontes, 2000. Tradução de Salma T. Muchail.

As colaborações devem ser encaminhadas por meio eletrônico


para o endereço verve@nu-sol.org salvos em extensão rtf. Na impos-
sibilidade do envio eletrônico, pede-se que a colaboração em dis-
quete seja encaminhada pelo correio para:

Revista Verve

Núcleo de Sociabilidade Libertária (Nu-Sol), Programa de Estudos


Pós-graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Rua Ministro
Godói, 969, 4o andar, sala 4E-18, Perdizes, CEP 05015-001,
São Paulo/SP.

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