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LER FREUD

Q7L Quinodoz, Jean-Michel


Ler Freud : guia de leitura da obra de S. Freud / Jean-Michel Quinodoz ;
tradução Fátima Murad. – Porto Alegre : Artmed, 2007.
328 p. : il. ; 25 cm.

ISBN 978-85-363-0866-1

1. Psicanálise. 2. Freud, Sigmund S. I. Título.

CDU 159.964.2(036)

Catalogação na publicação: Júlia Angst Coelho – CRB 10/1712


LER FREUD Guia de leitura da obra de S. Freud

Jean-Michel Quinodoz
Membro Didata da Sociedade Suíça de Psicanálise.
Membro Honorário da Sociedade Britânica de Psicanálise.

Tradução:
Fátima Murad

Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:


David E. Zimerman
Médico psiquiatra. Membro efetivo e psicanalista didata da Sociedade
Psicanalítica de Posto Alegre (SPPA). Psicoterapeuta de grupo.

2007
Obra originalmente publicada sob o título:
Lire Freud
ISBN 2-13-053423-6

© Presses Universitaires de France, 2004

Capa
Gustavo Macri

Preparação do original
Rubia Minozzo

Leitura final
Carla Rosa Araujo

Supervisão editorial
Mônica Ballejo Canto
Projeto gráfico
Editoração eletrônica

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à


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PRINTED IN BRAZIL
SUMÁRIO

Nota explicativa ..................................................................................................................................... 07


Ler Freud ................................................................................................................................................ 09
Quadro cronológico .............................................................................................................................. 15

I. DESCOBERTA DA PSICANÁLISE (1895-1910)

Estudos sobre a histeria, por S. Freud e J. Breuer (1895d) ................................................................ 19


Cartas a Wilhelm Fliess (1887-1902) ..................................................................................................... 31
“Projeto para uma psicologia científica” (1950c [1895] ...................................................................... 35
“As neuropsicoses de defesa” (1894a), “Sobre os fundamentos (...)
‘Neurose de angústia’” (1895b), “Observações adicionais sobre as neuropsicoses
de defesa” (1896b), “A sexualidade na etiologia das neuroses” (1898a),
“Lembranças encobridoras” (1899a) .............................................................................................. 41
A interpretação dos sonhos (1900a), Sobre o sonho (1901a) ............................................................. 47
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901b) ............................................................................... 57
Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905c) ........................................................................ 63
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905d) ............................................................................ 71
“Fragmento da análise de um caso de histeria (Dora)” (1905e) ......................................................... 81
Delírios e sonhos na “Gradiva” de Jensen (1907a) ............................................................................. 89
“Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (O pequeno Hans)” (1909b) .......................... 95
“Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O homem dos ratos)” (1909d) ............................... 105
Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci (1910c) ............................................................. 111

II. OS ANOS DA MATURIDADE (1911-1920)

“Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia


(O caso de paranóia: O presidente Schreber)” (1911c) ............................................................... 117
Escritos sobre a técnica psicanalítica (1904-1919) ........................................................................... 125
Totem e tabu (1912-1913a) ................................................................................................................. 137
“Introdução ao narcisismo” (1914c) .................................................................................................. 145
Artigos sobre metapsicologia (1915-1917), Lições de introdução à psicanálise (1916-1917) ......... 153
“História de uma neurose infantil (O homem dos lobos)” (1918b) ................................................... 175
O estranho (1919h) ............................................................................................................................. 185
“Uma criança é espancada” (1919e), “A psicogênese de um caso
de homossexualidade numa mulher” (1920a) .............................................................................. 191
vi Sumário

III. NOVAS PERSPECTIVAS (1920-1939)

Além do princípio do prazer (1920g) .................................................................................................. 205


Psicologia de grupo e a análise do ego (1921c) ............................................................................... 215
O ego e o id (1923b) ........................................................................................................................... 225
“O problema econômico do masoquismo” (1924c) .......................................................................... 233
Inibições, sintomas e ansiedade (1926d) ........................................................................................... 239
O futuro de uma ilusão (1927c), A questão da análise leiga (1926e) ................................................ 249
O mal-estar na civilização (1930a), Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933a) ......... 257
“Neurose e psicose” (1924b), “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1924e),
“A negativa” (1925h), “Algumas conseqüências psíquicas da distinção anatômica
entre os sexos” (1925j), “Fetichismo” (1927e), “A divisão do ego no processo
de defesa” (1940e[1938]), Esboço de psicanálise (1940a [1938]) .............................................. 265
“Análise terminável e interminável” (1937c), “Construções na análise” (1937d) .............................. 277
Moisés e o monoteísmo (1939a) ........................................................................................................ 287
Ler Freud hoje? ................................................................................................................................... 297

Anexo .................................................................................................................................................... 299


Bibliografia ........................................................................................................................................... 301
Índice onomástico ............................................................................................................................... 315
Índice remissivo .................................................................................................................................. 319
NOTA EXPLICATIVA

TÍTULOS

Os livros são apresentados em itálico, Os artigos são apresentados com letra


por exemplo: normal, entre aspas, por exemplo:
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana ou “Introdução ao narcisismo” ou “INTRO-
SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA VIDA CO- DUÇÃO AO NARCISISMO”
TIDIANA

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

O nome de Freud é seguido da data da Quando a data de publicação não cor-


primeira edição da obra estudada, com refe- responde à data em que foi escrita, indiquei
rência à cronologia publicada em Freud- em primeiro lugar a data da publicação, se-
Bibliographie mit Werkkonkordanz (I. Meyer- guida da data de redação entre colchetes, por
Palmedo e G. Fichter, S. Fischer Verlag, 1989) exemplo: Esboço de psicanálise (1940a [1939])
e na Standard Edition, por exemplo: Sobre a
psicopatologia da vida cotidiana (1901b)

CITAÇÕES: PÁGINAS DE REFERÊNCIA ÀS OBRAS DE FREUD


As páginas de referência contêm em geral rente de textos freudianos, a segunda – [132] –
duas cifras: (p. 235 [132]). A primeira cifra – p. remete aos tomos já lançados de Œuvres
235 – remete às páginas de uma tradução cor- Complètes de Freud, Psychanalyse [OCF.P].

QUADROS

BIOGRAFIAS E HISTÓRIA

Elementos da vida pessoal de Freud em relação à obra estudada, assim como a biografia de alguns de
seus primeiros discípulos, situados no contexto histórico da época.

PÓS-FREUDIANOS

Principais contribuições pós-freudianas inspiradas na obra estudada.


8 Jean-Michel Quinodoz

CRONOLOGIA DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Menção aos principais conceitos introduzidos por Freud à medida que vão aparecendo no curso de suas
obras, de maneira a fazer sobressair uma história das idéias.

EVOLUÇÃO DOS CONCEITOS FREUDIANOS

Estudos longitudinais de alguns conceitos freudianos essenciais que se desenvolveram ao longo de várias
décadas, como o complexo de Édipo ou a transferência.
Ler Freud 9

LER FREUD

O RESULTADO DE UM TRABALHO PESSOAL E COLETIVO

Ler Freud constitui o resultado de um longo é ainda uma obra fundada em meu conhecimen-
percurso, ao mesmo tempo pessoal e coletivo. to da língua alemã. A leitura dos textos origi-
Trata-se, antes de tudo, de uma obra fundada nais de Freud me permite saborear a simplici-
em meu encontro pessoal com a psicanálise e dade da língua que ele utiliza, porque privile-
em minha longa experiência de psicanalista na gia as expressões correntes e evita os neologis-
prática privada, com pacientes que buscam uma mos. Na verdade, procurei escrever no mesmo
cura clássica, no divã, geralmente à razão de espírito a fim de tornar as idéias de Freud aces-
quatro sessões semanais. Minha experiência clí- síveis ao maior público possível, ciente de que é
nica mostrou-me que as idéias de Freud são teo- possível escrever com clareza e respeitando ao
rias vivas que esclarecem o trabalho cotidiano mesmo tempo a complexidade das idéias que
com nossos pacientes e que ainda hoje inspiram se expõem. Finalmente, Ler Freud é o desfecho
os psicanalistas. Ler Freud é igualmente uma obra de um seminário de leitura cronológica da obra
fundada em meu conhecimento de diferentes de Freud, que teve início no contexto da forma-
correntes psicanalíticas pós-freudianas contem- ção de futuros psicanalistas no Centro de Psica-
porâneas. Tive a oportunidade de constatar sua nálise Raymond Saussure, em Genebra, ativida-
diversidade e riqueza graças aos contatos que de que prossigo até hoje. Visto que esse se-
estabeleci com vários colegas no contexto de minário me serviu de base tanto para o conteú-
minha atividade de redator do The International do da obra quanto para sua forma, pareceu-me
Journal of Psychoanalysis para a Europa. Ler Freud importante relatar essa experiência de grupo.

VÁRIAS MANEIRAS DE LER FREUD

A obra de Freud é imensa e complexa. Seus os textos de Freud se prestam particularmen-


trabalhos psicanalíticos preenchem sozinhos 24 te bem a uma leitura “talmúdica”, isto é, a uma
volumes, sem contar seus trabalhos pré-psica- análise do sentido de cada frase, ou mesmo
nalíticos e sua correspondência, que preenchem de cada palavra, relacionando-as com outros
mais de uma centena de volumes. Como ter textos. Contudo, com esse tipo de abordagem,
uma visão de conjunto de uma obra tão rica? o leitor precisará de muitos anos para concluir
Há várias maneiras de ler Freud, cada uma esse programa.
com suas vantagens e seus inconvenientes, Pode-se ler Freud também de maneira cro-
mas elas são complementares. Pode-se ler nológica, isto é, ler sucessivamente seus prin-
Freud de uma maneira pontual, selecionando cipais estudos psicanalíticos, dos Estudos sobre
“à la carte” um artigo ou um livro, ou esco- a histeria, publicados em 1895, até Esboço de psica-
lhendo um tema e as obras relacionadas a ele. nálise, redigido em 1938, um ano antes de sua
Uma abordagem de tipo pontual tem a vanta- morte. Ler as obras de Freud na ordem de pu-
gem de examinar uma obra nos detalhes, de blicação, sem se deter demais, permite ao lei-
se deter muito tempo nela, na medida em que tor perceber a evolução de seu pensamento ao
10 Jean-Michel Quinodoz

longo das décadas. Para realmente tirar pro- Quer se leia Freud de maneira pontual, quer
veito de uma leitura cronológica, considero se leia de maneira cronológica, essas duas abor-
importante que, desde o início, se estabeleça dagens não se opõem, ao contrário, comple-
um limite de tempo, mesmo que esse tipo de mentam-se, pois elas mostram, cada uma a seu
abordagem não permita consagrar a cada obra modo, como Freud revisa constantemente suas
a análise detalhada que ela merece. O objetivo formas de ver, aproveita suas hesitações e leva
é que o leitor não perca a visão de conjunto, em conta a experiência clínica para aprofundar
pois, quando se consegue ter uma vista pano- suas descobertas. É claro que uma pessoa pode
râmica da obra freudiana, descobre-se que, lançar-se sozinha em uma tal empreitada, mas
muitas vezes, as diversas correntes psicanalíti- isso exige muito tempo e perseverança até com-
cas privilegiam certos aspectos em detrimento pletar o ciclo e chegar a uma visão de conjunto
de outros. Constata-se ainda que essa focali- da evolução do pensamento de Freud. É por
zação tende a se estreitar à medida que é trans- isso que, a meu ver, essa experiência no âmbi-
mitida de geração a geração, com o risco de obs- to de um grupo de leitura, que permita um es-
curecer cada vez mais outros aspectos da obra forço sustentado a longo prazo, é muito mais
de Freud igualmente preciosos. estimulante.

LER FREUD: MODO DE USAR

Uma empreitada insana? G. Fichter e S. Fischer Verlag, 1989) e na Standard


Edition. Quando a data de publicação não
Durante muito tempo, não me ocorreu a corresponde à data em que foi escrita, segui a
idéia de escrever um livro apresentando o prática que recomenda indicar antes a primeira
conjunto da obra de Freud, o que me parecia e depois a data de redação entre colchetes, por
uma empreitada descomunal. Além disso, eu exemplo: Esboço de psicanálise (1940a [1939]).
não imaginava como se poderia transpor a um Alerto os leitores que na tradução em língua
texto escrito a abordagem que constitui a ori- francesa das Œuvres Complètes de Freud, Psycha-
ginalidade do seminário que coordeno – uma nalyse, adotou-se a ordem inversa, o que modi-
abordagem dos textos freudianos ao mesmo fica a ordem cronológica mais usual.
tempo cronológica e em rede. Até que um dia
pensei em utilizar simultaneamente a tipogra-
fia, o grafismo, a paginação e a cor para re- Texto introdutório
presentar visualmente a combinação de uma Cada capítulo é introduzido por um subtí-
abordagem em rede e de uma visão cronoló- tulo evocativo e por uma breve apresentação
gica da obra de Freud. Essa maquete gráfica da obra estudada. Minha intenção é oferecer
me permitiu aplicar a cada capítulo o módulo um apanhado do conteúdo do capítulo e situar
de uma sessão consagrada à obra. a obra sinteticamente em relação ao conjunto
dos trabalhos freudianos.
O módulo de organização de cada capítulo
Biografias e história
Título do capítulo
Esse quadro apresenta os elementos refe-
Cada capítulo, salvo exceção, contém o títu- rentes à vida pessoal de Freud em relação à
lo de apenas uma obra de Freud. Para diferenciar obra estudada, assim como o contexto históri-
entre um livro e um artigo, coloquei os artigos co. Destaquei as principais influências que cir-
entre aspas. O nome de Freud é seguido da data cundaram a redação da obra. Inclui nessa ru-
da primeira edição da obra estudada, em refe- brica uma curta biografia dos mais importan-
rência à cronologia publicada em Freud-Biblio- tes discípulos contemporâneos de Freud, as-
graphie mit Werkkonkordanz (I. Meyer-Palmedo e sim como de seus principais pacientes.
Ler Freud 11

Descoberta da obra Desatar o fio condutor da obra


Referências Como apresentar uma obra sem ser simplifi-
Para cada obra estudada, indiquei quase cador ao resumi-la e, ao mesmo tempo, sem
sempre dois textos de referência entre as tradu- ser enciclopédico, abarrotando o leitor de refe-
ções disponíveis em língua francesa. O primei- rências? Diante desse dilema, optei por apre-
ro texto de referência é aquele de onde extraí as sentar cada obra de maneira a despertar a curio-
citações de Freud indicadas em itálico: trata-se sidade do leitor, para que deseje ler o texto com-
de traduções publicadas na “Bibliothèque de pleto, ou no original, ou em uma tradução. Pro-
Psychanalyse” (Presses Universitaires de Fran- curei também comunicar o essencial, expres-
ce), na coleção “Connaissance de l’inconscient” sando-me em uma linguagem simples e o mais
e “Folio, Essais” (Gallimard), e ainda na “Petite próxima possível da cotidiana.
Bibliothèque Payot”. Quando o texto estudado Acompanhando o texto de Freud, encon-
aparece em um dos volumes já lançados das tra-se um pensamento em constante evolução,
Œuvres Complètes de Freud, Psychanalyse (ou que abandona uma idéia anterior por uma
OCF.P), indiquei entre colchetes um segundo nova e depois retorna à primeira, mesmo que
texto de referência. essas posições sejam contraditórias. A leitura
Assim, as páginas de referência contêm em do texto original nos faz perceber também a
geral duas cifras: (p. 235 [132]). A primeira ci- que ponto a obra de Freud estimula nossa pró-
fra – p. 235 – remete às páginas de uma tradu- prias reflexões e evoca outras e constitui ver-
ção corrente de textos freudianos, a segunda – dadeiramente uma obra “aberta” no sentido
[132] – remete aos tomos já lançados de Œuvres de eco, como mostrou A. Ferro (2000). Freud
Complètes de Freud, Psychanalyse [OCF.P]. escreve como um explorador que descobre
O leitor encontrará na bibliografia as refe- paisagens desconhecidas, anota suas impres-
rências correspondentes aos volumes de sões de passagem, faz um esboço em seu ca-
Sigmund Freud, Gesammelte Werke (Frankfurt derno e, às vezes, se detém por mais tempo
am Main: Fisher Verlag) e de The standard para armar seu cavalete e fixar a paisagem em
edition of the complete psychological works of uma obra-prima.
Sigmund Freud (London: The Hogarth Press
and the Institute of Psychoanalysis).
Privilegiar uma abordagem clínica

Ao redigir Ler Freud, privilegiei igualmen-


Que textos de referência eu
te uma abordagem clínica tanto na minha pró-
deveria escolher?
pria leitura de Freud como nos diversos es-
Para cada obra, existem muitas traduções clarecimentos. Acho importante ter sempre
disponíveis em língua francesa em diversas em mente que a psicanálise não é simplesmen-
edições, com datas diferentes, por tradutores te uma teoria e um método de pesquisa do
diferentes. Além disso, as Œuvres Complètes psiquismo humano, mas é sobretudo uma
estão em fase de publicação pelas Presses abordagem clínica e técnica que ainda hoje
Universitaires de France, e até agora só foi permite a inúmeros pacientes resolver confli-
lançada pouco mais da metade. Para fazer essa tos inconscientes que não conseguiriam resol-
difícil escolha, apoiei-me na experiência ad- ver por outros meios.
quirida com o seminário, levando em conta a
constatação de que os participantes utilizavam Cronologia dos conceitos freudianos
preferencialmente os livros de bolso e as edi-
ções em brochura, por razões econômicas, mas Ao final de cada capítulo, mencionei os
também porque elas têm uma linguagem mais principais conceitos que aparecem na obra es-
acessível. tudada, na medida em que Freud lhes atribui
12 Jean-Michel Quinodoz

o estatuto de um verdadeiro conceito psica- mais importantes, como o complexo de Édipo,


nalítico. Mas essa maneira de apresentar um a transferência e alguns outros.
conceito situando-o em um período determi-
nado da evolução de Freud não deixa de ser
Pós-freudianos
problemática. Por um lado, é quase sempre
arbitrário fixar um momento preciso em que Nessa rubrica, mencionei os principais de-
um conceito aparece em uma obra de Freud. senvolvimentos das idéias de Freud feitos por
Quando se faz uma leitura retrospectiva, des- seus discípulos imediatos e pelos principais psi-
cobre-se que Freud descreveu fenômenos que canalistas que o sucederam até os nossos dias.
correspondem a um conceito psicanalítico Para evitar que o leitor se perca em um excesso
muitas vezes e em momentos diferentes e que de referências bibliográficas, limitei minhas es-
só mais tarde ele atribui um estatuto de con- colhas às contribuições fundamentais, mencio-
ceito a esse fenômeno. Por exemplo, o termo nando de passagem algumas referências que me
“transferência” já aparece em Estudos sobre a tocam mais diretamente. Os desenvolvimentos
histeria, em 1895, mas apenas 10 anos depois, pós-freudianos mostram como certas noções
em 1905, será definido como conceito psica- esboçadas por Freud foram retomadas em se-
nalítico, com o caso Dora. guida por uma ou outra corrente de pensamento
e enriquecidas por aportes inovadores. Nesse
espírito, privilegiei uma abordagem internacio-
Evolução dos conceitos freudianos nal, com o objetivo de dimensionar a diversi-
Alguns conceitos freudianos essenciais fo- dade de correntes atuais entre os psicanalistas
ram desenvolvendo-se ao longo de várias dé- pertencentes à Associação Psicanalítica Interna-
cadas. Por essa razão, dediquei um quadro aos cional fundada por Freud.

UM SEMINÁRIO DE LEITURA CRONOLÓGICA DA OBRA DE FREUD

Gostaria de fazer uma breve apresentação nário, baseada na comunicação informal das
desse seminário para mostrar o trabalho que reflexões de cada um a partir de uma leitura
foi produzido durante mais de 15 anos, pois individual, não me atraía. Tive então a idéia
foi ele que me forneceu o ponto de partida para de propor que cada participante contribuísse
redigir Ler Freud. Devo esclarecer que a forma para esclarecer a obra estudada de diferentes
que adotamos nesse seminário é apenas uma perspectivas – biografia, história das idéias,
entre tantas outras possíveis e que cabe a cada desenvolvimentos pós-freudianos, etc. Imagi-
um encontrar a maneira que lhe convém de nava que esse método de trabalho ajudaria a
abordar a leitura das obras freudianas. completar a leitura da obra de Freud graças a
uma dupla abordagem: um estudo cronológi-
Uma abordagem ao mesmo tempo co de seus textos, não linear, e uma aborda-
cronológica e em rede gem em rede. Esse projeto me agradou e achei
que valia a pena topar o desafio, com a condi-
A aventura começou em 1988, quando a ção de que os participantes interessados esti-
idéia de um tal seminário partiu de um grupo vessem dispostos a aceitar o método de traba-
de candidatos de nossa Sociedade que esta- lho que eu lhes propunha.
vam à procura de psicanalistas formadores
que aceitassem coordenar um seminário de A importância do esquema do seminário
leitura cronológica da obra de Freud. Esse
desafio me animou: julguei que eu mesmo Aos poucos fui me dando conta da impor-
aprenderia muito coordenando um seminá- tância do esquema em que se desenvolve um
rio, pois embora lesse Freud assiduamente até seminário de leitura cronológica, depois que
então, fazia isso de maneira pontual e sem percebi que parte do êxito do seminário depen-
ordem. Mas a forma habitual de um tal semi- de disso. Por exemplo, considero essencial que,
Ler Freud 13

desde a primeira sessão do seminário, os parti- liza uma das traduções correntes em lín-
cipantes sejam informados do programa dos gua francesa, e outros lêem ainda em in-
próximos três anos para que tenham uma idéia glês, em italiano ou em espanhol. A di-
da forma e da duração do trabalho que os aguar- versidade de traduções dá uma idéia da
da. Dividi as principais obras de Freud em três complexidade de questões que enfren-
períodos para serem lidas ao longo de três anos, tam os tradutores de Freud.
e retomei esse plano de trabalho em Ler Freud. O – A redação de uma rubrica: cada participan-
seminário realiza-se a cada 15 dias, o que te redige na sua vez um texto curto, no
corresponde a cerca de 15 sessões por ano, e cada máximo de uma página (cerca de 300 pa-
sessão dura uma hora e meia. O número de par- lavras), reportando-se a uma das seguin-
ticipantes geralmente é de 16 a 18, e o seminário tes rubricas: (1) “Biografia e história”: bre-
funciona em grupo fechado, isto é, não aceita- ve apresentação da vida de Freud em re-
mos mais ninguém depois de iniciado o proces- lação à obra estudada, situando-a no
so. A sessão de apresentação do programa per- contexto histórico. (2) “Cronologia dos
mite que os participantes se engajem com co- conceitos freudianos”: destacar na obra es-
nhecimento de causa e que avaliem se estão dis- tudada os conceitos introduzidos por
postos a dedicar o esforço necessário para atingir Freud à medida que aparecem, de ma-
um objetivo importante e a sentir prazer nisso. neira a fazer sobressair uma história das
idéias. (3) “Pós-freudianos”: seleção das
Participação ativa de cada um principais contribuições pós-freudianas
na obra estudada, em uma perspectiva
É igualmente essencial que cada partici- ao mesmo tempo histórica e internacio-
pante sinta que esse seminário lhe pertence, nal. (4) “Minutas do seminário”: redação
que não é um curso ex cathedra e que meu pa- do resumo da discussão que será distri-
pel se limite a acompanhá-los em seu percur- buído na sessão seguinte.
so por esse período limitado de três anos. Essa
participação implica, ao mesmo tempo, um A exposição do trabalho pessoal é feita
trabalho individual e uma coletivização. Ao durante a sessão do seminário. Esta geralmen-
longo do processo, percebi que quanto mais te começa com informações breves e com a dis-
se pede uma participação ativa para a cons- tribuição dos textos das diversas rubricas. Em
trução do seminário, mais os participantes o primeiro lugar, o participante lê em voz alta a
valorizam e tiram proveito dele. Isso se tra- rubrica consagrada à biografia de Freud, apre-
duz nas poucas ausências e, no caso de impe- sentação que é seguida de uma curta discus-
dimento, no fato de a pessoa ter a preocupa- são. Em seguida, depois que outro participante
ção de me informar de sua ausência e de cui- lê publicamente a rubrica dedicada aos con-
dar ela própria de arranjar um substituto para ceitos freudianos, inicia-se uma discussão ge-
o trabalho que deveria apresentar. ral e aberta. Dura cerca de 15 minutos e, em
O trabalho pessoal implica as seguintes geral, é muito animada. Se a discussão demo-
atividades: ra a deslanchar, vou chamando um por um
para que coloque uma questão que ele colocou
– A leitura da obra escolhida: espera-se que a si próprio a propósito do texto, a fim de
cada um tenha lido por conta própria, reativar a discussão geral. Na última parte do
antes de uma sessão, a obra que está no seminário, um terceiro participante lê em voz
programa e que coloque suas indaga- alta a rubrica dedicada às contribuições dos
ções durante a discussão. pós-freudianos, apresentação que é seguida de
– A livre escolha da tradução: cada um é li- novos comentários e de uma retomada da dis-
vre para escolher o texto na língua que cussão geral. Em outro texto, descrevi detalha-
desejar e na tradução que preferir. Al- damente as etapas de uma sessão do seminário
guns lêem o texto original em alemão, consagrado ao texto de Freud “Uma criança é
uma grande parte dos participantes uti- espancada” (J.-M. Quinodoz, 1997b). O tem-
14 Jean-Michel Quinodoz

po muito curto dedicado a cada sessão consti- nhecimentos, pois o trabalho coletivo permite
tui, paradoxalmente, um fator estimulante, que cada participante aprenda a se ouvir e a
pois as pessoas precisam pensar antes e expor ouvir o que o outro tenta expressar e que evo-
de forma condensada as reflexões que deci- lua no contato com todos. É uma maneira de
dam comunicar ao grupo. estar mais à escuta de Freud e de poder avaliar
a diversidade de pontos de vista.
Tive a demonstração do papel estimulante
Exigências elevadas: fator dinâmico que desempenham as exigências relativamente
elevadas em favor do bom funcionamento do
Tenho consciência de que não é pouco pedir
grupo quando renunciei a impô-las por ocasião
aos participantes que não apenas leiam a maior
do segundo ciclo de três anos. Na primeira ses-
parte das obras de Freud cada um por si, como
são desse segundo ciclo de seminário, um partici-
também exponham suas reflexões e façam as pante opôs-se à forma de trabalho que eu propu-
pesquisas necessárias para a redação de uma das nha, criticou-a veementemente e se recusou a
rubricas. A preparação das sessões requer uma entrar em uma tal “maratona”, conforme seus
grande disponibilidade, retirada do tempo re- termos. Eu ainda não estava convencido da
servado a uma vida profissional em geral já pertinência das exigências do seminário e sub-
muito cheia, assim como da vida privada e fa- meti a questão ao voto. A oposição de apenas
miliar. Esse esforço só é possível se os encontros um conseguiu a adesão de outros, e acabei acei-
são também um momento de prazer comparti- tando, a contragosto, que os participantes deixas-
lhado. Além disso, para que se conheçam me- sem de realizar um trabalho pessoal de elabora-
lhor fora das reuniões de trabalho, propomos ção de rubricas; o único texto escrito que conse-
um encontro todo final de ano em um “bufê ca- gui obter foram as “minutas do seminário”.
nadense”, uma reunião festiva para a qual são Contudo, mantive o seminário. Durante esses
convidados cônjuges e parceiros. três anos, a discussão geral foi a mais prejudica-
As exigências impostas pela participação da, pois geralmente demorava a se instalar:
ativa de todos revelaram-se um fator decisivo mesmo que todos tivessem lido atentamente os
na dinâmica que vai instalando-se ao longo textos de Freud, eu sentia que para criar um es-
dos encontros. Esse “plus” de participação a pírito de grupo faltava a estrutura de pensamen-
serviço da construção do seminário cria um to que vai construindo-se pouco a pouco ao lon-
clima afetuoso no tempo delimitado que com- go do tempo, graças principalmente ao esforço
partilhamos, sabendo que vamos nos separar pessoal que requer a redação de uma rubrica e
dali a três anos. Em última análise, o seminá- sua exposição. Se voltasse atrás hoje, eu não ce-
rio proporciona mais que um aumento dos co- deria como na época, por falta de experiência.

AGRADECIMENTOS

Devo agradecer em primeiro lugar aos tin Jeanneau, Christoph Hering, Juan Manza-
participantes do “Seminário de Leitura no e Paco Palacio, que se deram ao trabalho
Cronológica da Obra de Freud”. Sua partici- de comentar meu manuscrito, assim como a
pação ativa durante as discussões e as contri- Maud Struchen que preparou a bibliografia.
buições pessoais acumuladas desde 1988 me Enfim, last but not least, dedico Ler Freud a
serviram de base em parte para redigir a ru- Danielle, que foi quem primeiro me encora-
brica “Biografias e história” e aquela dedicada jou a me lançar nessa aventura.
aos “Pós-freudianos”. Senti-me obrigado a Para concluir, desejo uma boa jornada ao
mencionar seus nomes em anexo para expres- leitor, lembrando que ler um guia jamais subs-
sar-lhes meu reconhecimento. Agradeço igual- titui a viagem!
mente a Hanna Segal, André Haynal, Augus-

Jean-Michel Quinodoz
QUADRO CRONOLÓGICO – SIGMUND FREUD (1856-1939)

Referências biográficas Publicações

1856: no dia 6 de maio de 1856, nascimento de Freud em Freiberg (atual Repú-


blica Tcheca)
1860: chegada a Viena da família Jakob Freud
1873: início dos estudos de Medicina de Sigmund
1876-1882: assistente no Instituto de Psicologia de Viena (Pr. E. Brücke) Publicação sobre a descoberta dos testículos da enguia (1877)

1880: encontro com Dr. Joseph Breuer


1881: título de doutor em medicina – Breuer trata Anna O.
1882: noivado com Martha Barnays
1883-1884: pesquisas sobre a cocaína Publicações sobre a cocaína (1884)
1885: título de Privat-Docent – estadia com Charcot em La Salpétrière, Paris
1886: instalação em consultório privado em Viena – casamento com Martha Barnays
1887: nascimento de Mathilde – encontro com Wilhelm Fliess, Berlim Cartas a Wilhelm Fliess (1887-1902)
1888: 1877-1883: Publicações sobre células nervosas (peixe)
1889: nascimento de Martin – estadia em Bernheim, Nancy 1888-1893: Diversos artigos sobre a hipnose

1890-1891: mudança para Berggasse 19, Viena – nascimento de Oliver “Estudo sobre a afasia” (1891b)
1892: nascimento de Ernst “Paralisias cerebrais infantis” (1891c)
1893: nascimento de Sophie “Comunicação preliminar” (Freud e Breuer, 1893)
1894: “As neuropsicoses de defesa” (1894a)
1895: nascimento de Anna – primeiro sonho (“a injeção de Irma”) Estudos sobre a histeria (1895d) – “Sobre os fundamentos para destacar da
neurastenia uma síndrome específica denominada ‘Neurose de angústia’” (1895b)
1896: morte de Jakob Freud, pai de Freud – ruptura com Breuer “Projeto para uma psicologia científica” (1950c [1895])
1897: início da auto-análise (1896-1902) – abandono da teoria da sedução “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” (1896b)
1898: Édipo Rei, Hamlet “A sexualidade na etiologia das neuroses” (1898a)
1899: “Lembranças encobridoras” (1899a)

1900: tratamento de Dora (Ida Bauer) A interpretação dos sonhos (1900a)


1901: primeira viagem a Roma, com seu irmão Alexander Sobre o sonho (1901a)
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901b)
1902: funda a Sociedade das Quartas-Feiras – encontro com W. Steckel e A. Adler
1903: título de Professor extraordinário, Faculdade de Medicina, Viena
1904: começa a ser reconhecido internacionalmente Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905c)
1905: encontro com O. Rank Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905d)
1906: “Fragmento da análise de um caso de histeria (Dora)” (1905e)
1907: encontro com C. G. Jung, K. Abraham, M. Eitigon Delírios e sonhos na “Gradiva” de Jensen (1907a)
1908: encontro com S. Ferenczi. E. Jones, H. Sachs, P. Federn
Continua
Ler Freud 15
QUADRO CRONOLÓGICO – SIGMUND FREUD (1856-1939) (Continuação)

Referências biográficas Publicações

1909: Sociedade Psicanalítica de Viena – encontro com o pastor O. Pfister “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (O pequeno Hans)” (1909b)
“Notas sobre um caso de neurose obsessiva (O homem dos ratos)” (1909d)
1910: fundação da Associação Psicanalítica Internacional (API) Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci (1910c)
1911: conflito na Sociedade de Viena – defecção de Adler “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia
(O caso de paranóia: o presidente Schreber)” (1911c)
1912: fundação do “Comitê secreto” – defecção de Steckel Escritos sobre a técnica psicanalítica (1904-1919)
1913: encontro com Lou Andreas-Salomé – ruptura com Jung Totem e tabu (1912-1913a)
1914: início da Primeira Guerra Mundial – mobilização de Martin e Ernst “Introdução ao narcisismo” (1914c)
16 Jean-Michel Quinodoz

1915: análise de Ferenczi com Freud (em três partes, 1914-1916) Artigos sobre metapsicologia (1915-1917)
1916: mobilização de Oliver Lições de introdução à psicanálise (1916-1917)
1917:
1918: fim da guerra – 1ª análise de Anna com seu pai “História de uma neurose infantil (O homem dos lobos)” (1918b)
O estranho (1919h)
1919: suicídio de Tausk – morte do mecenas A. von Freund “Uma criança é espancada” (1919e)
“A psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher” (1920a)

1920: morte de sua filha Sophie – Jones funda The International Journal of Psychoa- Além do princípio do prazer (1920g)
nalysis Psicologia de grupo e a análise do ego (1921c)
1921:
1922:
1923: primeira operação do câncer O ego e o id (1923b)
1924: Rank publica O traumatismo do nascimento “O problema econômico do masoquismo” (1924c)
1925: morte de Abraham – morte de Breuer
1926: 70 anos de Freud – defecção de Rank – chegada de M. Klein à Londres Inibições, sintomas e ansiedade (1926d)
A questão da análise leiga (1926e)
1927: Congresso de Innsbruck O futuro de uma ilusão (1927c)
1928:
1929: início da Grande Depressão econômica mundial

1930: morte da mãe de Freud aos 95 anos – Freud recebe o Prêmio Goethe O mal-estar na civilização (1930a)
1931: crescimento do anti-semitismo na Áustria e na Alemanha
1932: Congresso de Wiesbaden
1933: morte de Ferenczi – ascensão ao poder de Hitler Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933a)
1934:
1935: Escritos sobre a negação da realidade e clivagem do ego (1924-1938)
1936: 80 anos de Freud – encontro com R. Rolland
1937: falecimento de Lou Andreas-Salomé “Análise terminável e interminável” (1937c)
1938: ajudado por Jones e Marie Bonaparte, Freud deixa Viena rumo a Londres “Construções na análise” (1937d)
1939: morte de Freud em Londres em 23 de setembro de 1939, aos 83 anos Moisés e o monoteísmo (1939a)
Esboço de psicanálise (1940a [1938])