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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL
PROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO

Adrianyce de Sousa

Lukács no debate
do Serviço Social brasileiro

Rio de Janeiro
2010
2

Adrianyce de Sousa

Lukács no debate
do Serviço Social brasileiro

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Escola de


Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial
para a obtenção do título de Doutor em Serviço Social

Orientador: Prof. Doutor José Paulo Netto

Rio de Janeiro
2010
3

Lukács no debate
do Serviço Social brasileiro

Adrianyce de Sousa

Tese de Doutoramento submetida à comissão julgadora nomeada pelo Programa de


Pós-Graduação da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, como parte integrante dos requisitos necessários à obtenção do grau de
Doutor.

Aprovada por:

________________________________________
Orientador: Prof. Doutor José Paulo Netto

________________________________________
Prof. Doutor Ronaldo Coutinho

________________________________________
Profa. Doutora Carina Moljo

________________________________________
Profa. Doutora Yolanda Demétrio Guerra

________________________________________
Profa. Doutora Mavi Rodrigues Pacheco

Rio de Janeiro
2010
4

S725 Sousa, Adrianyce de.


Lukács no debate do serviço social brasileiro / Adrianyce de
Sousa. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.
258f.

Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola


de Serviço Social / Programa de Pós-Graduação em Serviço Social,
2010.

Orientador: José Paulo Netto.

1. Serviço social - Brasil. 2. Lukács, György, 1885-1971.


3. Marxismo. I. Netto, José Paulo. II. Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Escola de Serviço Social.

CDD: 361.981
5

A José Paulo Netto,


por estabelecer uma ponte
nesse meu, ainda longo caminho até Lukács.
Entre meu presente e esta tradição que eu reivindico,
a sinalização duradoura para um horizonte futuro
cada vez mais solidamente lukacsiano.

A Dennise Wyvyanne,
In memoriam,
A certeza do quanto
ainda temos que lutar
para que as mulheres
não sejam vitimas
da opressão arraigada
e enraizada em nossa sociedade.
6

AGRADECIMENTOS

A amizade é um amor que nunca morre


- Mário Quintanda

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas
pela pupila... Tem que ter brilho questionador e tonalidade
inquietante... Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há
de pior em mim...Para isso, só sendo louco... Escolho meus amigos pela
cara lavada e pela alma exposta... Não quero só o ombro ou o colo,
quero também sua maior alegria... Amigo que não ri junto não sabe
sofrer junto... Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade
seriedade... Tenho amigos para saber quem eu sou... Pois os vendo
loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei
de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.
- Oscar Wilde
7

A Daniela Neves

Para você reservei minha palavra escancarada repleta do meu


tesão, da minha paixão, do meu amor e de tudo o que de melhor há em
mim. Afinal em uma década é você e, somente você, que compartilha
tudo: as angústias, as inquietações, as dúvidas e as alegrias em meio à
correria desta vida. E, com quem, todo este processo foi vivido e
revirado.

Aos trabalhadores brasileiros,


Que possibilitaram, indiretamente, meu ingresso e manutenção na
Universidade Pública, gratuita, de qualidade e laica.

A minha família,
Estela, Acácio e Cristina.
Minha raiz que entre tantas voltas que minha vida deu é sempre meu
lugar.

A família Neves de Sousa,


Pela acolhida, respeito e amor. Amo fazer parte dessa família.

A Daniel Neves,
Meu cunhado e irmão para quem todos os meus segredos são revelados.

A Letícia Batista
Pelo orgulho que tenho de ser sua amiga. Pela delicadeza e certeza do
nosso amor. Eterna convicção de que nossa amizade é um lindo
entrecruzar de nossas vidas, sonhos, projetos e vontade de ser feliz.
8

A Nicolas,
Meu sobrinho lindo. Que este mundo que te recebe se torne um pouco
melhor, com sua vinda.

A Thaís Batista
Por compartilharmos convicções com amor.

A Fernando Velloso
Meu irmão que escolhi e conquistei para a vida. A você sempre meu
respeito e admiração “bolchevique” e meu amor escancarado.

A Rodrigo Marcelino,
Pelo novo reencontro com a certeza de que não precisamos mais mexer
em nada, nossa amizade é! E por isso sou imensamente feliz.

A Leandro,
Meu padrinho, pessoa que amo muito e que me faz sentir privilegiada
por tê-lo em minha vida.

A Ranieri Carli,
Por uma amizade muito singular.

A Antonio
Ao amigo, agradeço o encontro sereno, lindo e delicado com minhas
raízes, e por todas as coisas lindas que vivemos e somos quando
estamos juntos.
Ao livreiro, agradeço pela unidade nas nossas pequenas diferenças.
E, pela compreensão e descontos dados a uma bolsista sempre sem
dinheiro que buscava montar uma biblioteca Marxiana/Lukacsiana.
9

A MaryLúcia,
Minha irmã, minha amiga e meu exemplo. Obrigada por ser na minha
vida sempre e hoje o ponto de reflexão, de critica e autocrítica.

A Joseane,
Pela força e determinação que admiro, e pela amizade e amor que se
atualiza a cada dia.

A Marlise Vinagre,
Entre o 407 e o 104 da Silveira Martins, quanta coisa linda e preciosa
foi compartilhada. Uma amizade que comporta tantas facetas... Entre
amigas, entre mãe e filha, entre colegas de profissão.

A Lúcia Soares,
Porque os ventos que sopraram e trouxeram você para minha vida
estavam carregados de poesia e muita emoção, por isso, para uma
amizade como a nossa muito pouco se diz, porque todo o resto é sentir.

A Bruno Lima Patrício,


Pela conquista mútua, pelo amor, e, cuidado. Agora, não temos
dúvidas da nossa fraternidade.

A novos amores, uma família mesmo, em processo de construção:


William, Juci, Arnaldo, Deise, Isabel, Érica, Estela, Jussara, Rose e
Thiago, Lucinha, Amaro, Júnior...

A Esther Lemos,
Pela sua doçura, e pelo jeito meigo de dizer coisas certas.

A Cleir Marconsin,
Pelo amor e pela solidariedade. E, como você mesma diz “um amor
desde a primeiro momento”.
10

A Rosenária Ferraz,
Pela sensibilidade que compartilhamos e que só se explica nas páginas
dos poetas.

A cidade do Rio de Janeiro,


Por dilatar todos os meus poros com sua beleza e desigualdade
extrema.

A Luisa e Eurico, (e agora a pequena Clara),


Por nos acolherem, e por todas as coisas que vivemos. Uma linda e
especial amizade nascida em terras além mar, mas que navega muito
mais que isso.

A Juca e Martha,
Pela gentileza e carinho. E pelas maravilhosas conversas e trocas.

A Alcina,
Pelo compromisso e seriedade na condução do meu estágio em
Portugal, mas fundamentalmente porque é uma pessoa maravilhosa!

A Rosa Tomé
Por todos os momentos felizes em Coimbra, compartilhados com muito
carinho.

A Ana Maria, Paola e Laura,


Sicuramente non potrò mai ringraziare tutti voi: solidarietà, l'affetto
che abbiamo ricevuto. Per vedere Roma attraverso gli occhi di voi. Ed
essere accettati in questa famiglia!!!!

A Alfredo
Da una dolce e sincera amicizia che uniscono l'Italia e il Brasile, oggi
e sempre.
11

A José Paulo Netto,


Por marcar profundamente minha formação intelectual, pelas nossas
conversas e, pelas nossas engraçadíssimas e, às vezes, duras
divergências. Mas principalmente, porque mutuamente, nos
permitimos a construção dessa amizade.

A Leila Escorsim,
Pelo cuidado e respeito de nossa amizade e, neste momento: pela
infindável e amabilíssima atenção.

A Cleusa Santos,
Por uma amizade sem “frescuras”, simples. Mas finamente
construída.

A Carlos Montaño
Por todas as batalhas juntos “no” pós-graduação, pela amizade e,
carinho.

A Yolanda Guerra
Pela amizade cuidadosa e generosa, que já vai aí em longa data.

A Ronaldo Coutinho
Pela paciência e amizade revolucionária e pela atenção.

A Ivanete Boschetti e Elaine Behring,


Pelo apoio, amizade e carinho. Uma amizade compartilhada entre a
Chapada e o Mar.

A Adriane Tomazelli, Fernando e Belinha,


Pela solidariedade indescritível e por me possibilitarem compartilhar a
família de vocês, tornando menos árido o planalto central.
12

A Rosa Stein,
Pela delicadeza que como tal, só os ipês que florescem em Brasília.

Aos colegas da pós-graduação da UFRJ,


Por compartilhar as dificuldades e delícias deste percurso em que
nossas vidas se cruzaram, valeu demais.

Aos professores do Programa de Pós-graduação da UFRJ,


pelo aprendizado e crescimento em meio a tantas diversidades
intelectuais e políticas.

Aos funcionários da Pós-graduação da UFRJ,


Luiza, “Fabinho” e Sérgio,
O que seria de nós sem vocês!!!!!

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior –


CAPES,
Pela gestão dos recursos que propiciaram a minha participação no
Programa de Doutorado no País com Estágio no Exterior – PDEE.

Ao Instituo Superior Miguel Torga – ISTM


Na figura da professora Alcina Martins, pelo irrestrito apoio
acadêmico na realização do Programa de Doutorado no País com
Estágio no Exterior – PDEE.

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro –


FAPERJ.
Pela gestão dos recursos que propiciaram minha Bolsa de Aluno Nota
-10.
13

Resumo

O presente estudo apresenta uma análise da incidência do pensamento de G.


Lukács no debate teórico do Serviço Social brasileiro. Rastreamos a recorrência
a Lukács nos debates profissionais suficientemente documentados, entre os anos
1980 e os primeiros anos da presente década. À exceção do debate da
metodologia – que, no nosso entendimento, dá-se num claro confronto com o
ainda arraigado endogenismo da profissão -, os debates nos quais localizamos
uma presença de Lukács realizam-se já pela concretização do ponto de vista
teórico-político dos avanços conseguidos a partir da “intenção de ruptura”. O
núcleo articulador de nossas análises é o debate da natureza da profissão, a
partir do qual se articula o debate do Serviço Social como trabalho, da categoria
mediação, da “crise de paradigmas” e o debate da ética. Tentamos situar esses
debates em sua emergência e em seu desenvolvimento nas conjunturas sócio-
históricas em que ocorreram e, sobretudo, relacionando-os aos problemas
próprios com que se defrontava o Serviço Social (as necessárias revisões
curriculares dos anos 1980 – o “currículo mínimo” – e 1990 – as “Diretrizes
Curriculares”, a revisão do Código de Ética etc.).
14

Abstract

This study examines the impact of the thought of G. Lukács in the theoretical debate of Social Work
in Brazil. We examined the recurrence Lukács discourse professionals sufficiently documented,
between 1980 and the early years of this decade. Except for discussion of the methodology, which
in our view, there is a clear confrontation with the still seated on the local profession, debates in
which, we locate a presence of Lukács held since the completion of a theoretical and political
advances achieved from the "intention to break.". The core articulator of our analysis is the
discourse of nature of the profession, from which integrates the discussion of Social Work as a
work, of mediation category, the “crisis of paradigms”, and the discussion of ethics. We try to situate
these debates in its emergence and its development in socio-historical conjunctures in which they
occurred and, in particular, relating them to the problems of its own which it has encountered its
own Social Services (the necessary curriculum revisions of the 1980s - the "minimum curriculum "-
and 1990 - the" Curriculum Guidelines ", the revision of the Code of Ethics, etc..).
15

Riassunto

Questo studio esamina l'impatto del pensiero di G. Lukács nel dibattito


teorico del Servizio Sociale in Brasile. Abbiamo esaminato il Lukàcs
reiterazione dibattiti professionisti sufficientemente documentate, tra il 1980
e i primi anni di questo decennio. Fatta eccezione per la discussione della
metodologia, che a nostro avviso, vi è un confronto chiaro con l'ancora
seduto sulla professione locali, dibattiti in cui si individua una presenza di
Lukács ha dato il completamento di un progresso teorico e politico realizzato
dalla volontà di "rompere". Articolatore base della nostra analisi è la
discussione della natura della professione, dal quale integra la discussione
del lavoro sociale come la categoria di mediazione, la “crisi dei paradigmi” e
la discussione di etica. Cerchiamo di collocare questi dibattiti nella sua
nascita ed il suo sviluppo socio-congiunture storiche in cui si sono verificati
e, in particolare, mettendoli in relazione con i problemi del proprio che ha
incontrato i suoi propri servizi sociali (le revisioni necessarie curriculum
degli anni 1980 - il curriculum "minimo "- e il 1990 - le" Linee guida
Curriculum ", la revisione del Codice Etico, ecc.).
16

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...................................................................................................................17

CAPÍTULO I: Serviço Social e Marxismo no Brasil.......................................................23


1.1. As bases para a ruptura com o Serviço Social tradicional.......................................25
1.2. A intenção de ruptura..................................................................................................62
1.3. A ruptura teórica do Serviço Social: a incorporação do marxismo........................67

CAPÍTULO II: G. Lukács no Brasil ................................................................................75


2.1. Lukács, pensador marxista.........................................................................................77
2.2. A recepção de Lukács no Brasil..................................................................................91

CAPÍTULO III: Lukács e o debate teórico do Serviço Social no Brasil......................127


3.1. Lukács no debate da metodologia............................................................................131
3.2. Lukács no debate ídeo-teórico da profissão............................................................144
3.2.1 A nova contextualização no debate profissional.............................................156
3.2.2. Lukács no debate sobre o Serviço Social como trabalho...............................168
3.2.3. Lukács e a determinação dos limites profissionais........................................184
3.3. Lukács e o debate sobre a mediação........................................................................200
3.4. Lukács no debate aberto pela “crise de paradigmas”............................................207
3.5. Lukács no debate sobre a ética.................................................................................218

CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................... 227

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA.................................................................................235
17

INTRODUÇÃO
18

O título deste trabalho anuncia a sua problemática - o que o intelectual


comunista G. Lukács tem em relação com/ao debate do Serviço Social. Com
certeza, tudo. Desde que o Serviço Social, como profissão socialmente
determinada nas relações sociais vigentes, acumulou esforços ídeo-teóricos que
levaram à ruptura com o conservadorismo profissional, passando a situar
centralmente em seus debates a tradição marxista, nós podemos mesmo é
perguntar: por que não Lukács?
Dentro dos debates profissionais, o campo de interlocução com o
marxismo foi amplo: de Marx (positivisticamente sem Marx), nas versões de
Althusser e M. Harnecker, a Gramsci, retornando então ao (próprio) Marx e...
chegando em Lukács. Então, por que não Lukács? O pensador húngaro morreu
convicto da possibilidade e da necessidade da renovação do marxismo, escreveu
monumentais e importantes obras acerca da crítica literária e estética e de
exegese filosófica; trabalhou, pouco antes de sua morte, mais de dez horas por
dia para elaborar a sua Ontologia do Ser Social. O pensador Lukács: um convicto
de que uma nova cultura só pode existir se homens e mulheres conscientes forem
capazes de assimilar, crítica e criadoramente, a herança que encontram diante de
si. E, por isso, como a interlocução entre Serviço Social e marxismo é ainda
recente, se comparado com esta tradição, o que essa relação pode nos oferecer?
Para nós, Lukács é sem dúvida um pensador que arranca de Marx e nos
possibilita uma teoria ontologicamente fundada – e, na medida em que a tradição
marxista passa entre os profissionais de uma abordagem epistemológica para
uma abordagem ontológica do pensamento marxiano, precisamos mesmo nos
apropriar de Lukács.
Mas há mais: o momento em que a vanguarda do Serviço Social está
preocupada em entender a realidade social em que se insere a sua atividade é o
mesmo momento em que as pesquisas acadêmicas estão cada vez mais
destituídas de uma crítica radical e contundente. Vê-se, nos debates acadêmicos,
hoje, uma predominância do vale-tudo, no qual a referência à sociedade como
totalidade foi substituída pelos estudos monográficos; a concatenação entre os
19

diversos fenômenos da vida social cedeu lugar às análises que fragmentam a


realidade; a determinação da estrutura social sobre os demais planos do real
desapareceu nos estudos sobre o cotidiano indiferenciado (Frederico, 1997,
p.179). Neste sentido, a interlocução com Marx e, G. Lukács fornece, para o
espectro de profissionais progressistas do Serviço Social, subsídios importantes
para uma crítica radical do instituído e para estabelecer as devidas mediações
destes pensadores com a profissão e seus debates.
Mas se o eventual leitor ainda está se indagando acerca da relação
mesma de uma profissão como o Serviço Social e o marxismo, basta que
mencionemos aqui que todas as polêmicas relevantes travadas na profissão na
busca de sua consolidação e de sua ruptura com o conservadorismo foram
marcadas pelo pensamento marxista. Quando esta categoria profissional
apropriou-se desse referencial teórico-metodológico, ela passou a situar
precisamente o seu movimento a partir das relações sociais. Esta compreensão
permitiu que outras questões pudessem aparecer como importantes, na medida
em que se rompe com o endogenismo, mas, além disso, possibilitou à categoria
profissional explicitar para a sociedade a sua auto-imagem, a sua direção política
e seu corpo de valores e normativas e os elementos que demarcam a sua
intervenção prático-operativa. Neste sentido, o eixo do seu projeto profissional (o
“projeto ético-político do Serviço Social”) é prospectivamente articulado com o
projeto societário de eversão dos marcos do capitalismo - e, claro, o seu núcleo
articulativo está frontalmente colidente com a sociedade capitalista e ela, para
garantir seu projeto profissional, engrossa o caldo das diversas lutas nos diversos
espaços de sua atuação, de maneira mais crítica e mais qualificada.
Posto isto, entendemos que esta relação - Serviço Social e G. Lukács -
deve ser especificada. Aqui se trata mesmo de uma pesquisa sobre o universo
ídeo-teórico da profissão, que está fundamentalmente voltada a analisar incidência
do pensamento de G. Lukács no debate teórico do Serviço Social brasileiro.
Neste sentido, o campo no qual se move este trabalho é de natureza
crítico-teórica e as suas fontes básicas foram as documentações primárias de
Lukács, em sua produção da maturidade, a produção de seus comentadores e na
20

literatura profissional consolidada acerca dos debates da profissão. Recolheu-se a


documentação existente no Serviço Social brasileiro veiculada na revista Serviço
Social & Sociedade e em produções acadêmicas (teses/dissertações), bem como
nos livros publicados correlatos a este tema.
É fato que, sobre a relação entre o pensamento de Lukács e o debate
do Serviço Social, não existe nenhuma produção específica. Isto responde pelo
ineditismo desta tese, mas não responde pela sua relevância. Acreditamos que a
análise das questões anteriormente apontadas já seria uma contribuição para o
entendimento profissional, na medida em que elucidar a “herança cultural” ajuda a
construir explicações sobre o próprio fazer profissional; e também entendemos
que, neste tempo de pesquisas tão pouco afeitas à análise da realidade
profissional, nossa pesquisa pode contribuir com o seu debate atual, articulando e
refletindo sobre o quadro ídeo-teórico em que se deu essa relação (Lukács e
Serviço Social).
Dentro deste movimento, o pensamento de Lukács torna-se uma
contribuição que amplia, enriquece, fundamenta e reorienta as questões que
atravessam a profissão. Os debates que se processaram com a influência de
Lukács – e verificamos esta interlocução a partir dos finais dos anos de 1980 - são
importantes e articuladores. Basta que mencionemos, por exemplo, o debate do
Serviço Social como trabalho, aberto no seio profissional no marco das Diretrizes
Curriculares de 1996, e a fundamentação ético-filosófica que sustenta o Código de
Ética Profissional de 1993, ainda em vigor.
A tese aqui apresentada, reivindicando-se na tradição marxista, está
articulada em três capítulos.
No primeiro capítulo, explicitamos as condições sócio-históricas que
possibilitaram as bases objetivas para a ruptura com o conservadorismo no seio
profissional, permitindo que o marxismo se inscrevesse nos debates ídeo-teóricos
da profissão. Rompemos assim, com o seu conservador endogenismo e
articulamos o debate profissional com o desenvolvimento sócio-histórico brasileiro.
Somente depois dessa explicitação é que temos condições de demarcarmos o
movimento que possibilita ao marxismo se inscrever no horizonte teórico e ídeo-
21

político dos assistentes sociais. Por fim, tratamos mesmo das nuances da relação
entre o Serviço Social e o marxismo.
No segundo capítulo, situamos o lugar do pensador G. Lukács no
quadro geral do marxismo, bem como rastreamos o movimento de sua recepção
no Brasil. Este capítulo é fundamental para que destaquemos os nexos que
possibilitam a relação entre o Serviço Social e o pensamento de Lukács, bem
como, dada a sua relação com o movimento comunista oficial, lancemos luzes
para entender também a sua apreciação limitada por teóricos e intelectuais que
não provêm deste quadrante do espectro político.
No terceiro capítulo, que constitui o “núcleo duro” do nosso trabalho -
por isso, mesmo a sua introdução e o seu próprio desenrolar o tornam o maior
capítulo da tese –, analisamos a interlocução do Serviço Social com o pensamento
de Lukács. Destacamos os debates em que a influência de Lukács contribuiu,
polemizou e trouxe questões novas para o interior do Serviço Social. Aqui, nos
confrontamos com o debate da metodologia, o debate da profissão e do
entendimento do Serviço Social como trabalho; analisamos ainda a influência e
contribuição lukacsiana no debate em torna da categoria mediação, das polêmicas
que se instauram com a chamada “crise de paradigmas”, bem como o debate em
torno de ética, que possibilitou a elaboração do atual Código de Ética Profissional.
Este percurso nos permitiu rastrear as determinações e elementos
constitutivos da relação entre o debate teórico-político do Serviço Social e o
pensamento de G. Lukács, assim como lançarmos algumas luzes para o que
ainda está por vir.
Finalmente, gostaríamos de destacar que, para a realização dessa
pesquisa, contamos com o apoio institucional do Programa de Pós-Graduação em
Serviço Social da UFRJ; registramos ainda o importante apoio da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, que, por meio do
Programa de Doutorado com Estágio no Exterior – PDEE, nos possibilitou a
realização, em Portugal, de um estágio que foi fundamental para o levantamento
de fontes e estudos acerca do marxismo e do pensamento de Lukács, bem como
uma articulação com os debates do Serviço Social internacional. Agradecemos
22

também o apoio acadêmico do Instituto Superior Miguel Torga – ISMT e da nossa


orientadora nesta instituição, a professora doutora Alcina Martins. Destacamos,
igualmente, nosso agradecimento a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
do Rio de Janeiro – FAPERJ, pela gestão dos recursos que propiciaram a nossa
Bolsa de Aluno Nota -10.
23

CAPÍTULO I

SERVIÇO SOCIAL E
MARXISMO NO BRASIL
24

O objetivo deste capítulo é fornecer os elementos que nos parecem


essenciais para a compreensão da emergência do Serviço Social no Brasil, com
os traços ídeo-culturais que o peculiarizaram – o seu congênito conservadorismo,
tal como já apontado em larga bibliografia citada ao longo do texto. Tal objetivo se
complementa com o que é fundamental para o seguimento da nossa
argumentação: as condições gerais que permitiram a erosão da hegemonia
conservadora, própria ao Serviço Social tradicional. Por isto, detivemo-nos
longamente na derrocada do conservadorismo – e porque, para os interesses
desta tese, é no seu processo que o marxismo se inscreve no horizonte teórico e
ídeo-político dos assistentes sociais.
Por outra parte, a argumentação procurou não ceder minimamente ao
legado conservador ainda não liquidado – por isto, a nossa enfática insistência
numa análise “não endógena” da profissão, com o recurso a referências históricas,
sociológicas e econômicas para a contextualização da história do Serviço Social.
O andamento da argumentação, neste capítulo, tem como ponto de
partida a sinalização das condições sócio-históricas que possibilitaram a quebra
do monopólio ídeo-político conservador no interior da profissão. Em seguida,
mostramos como a modernização do Serviço Social no país expressou o
Movimento de Reconceituação na já consensualmente designada “intenção de
ruptura” – precisamente a vertente que emerge, entre nós, com a forte incidência
da tradição marxista.
25

1.1. As bases para a ruptura com o Serviço Social Tradicional

Para a nossa análise acerca da incorporação do pensamento


lukacsiano no Serviço Social brasileiro necessitamos, inicialmente, determinar as
condições que possibilitam a interlocução desta profissão com o pensamento
marxiano e marxista. Relação esta que, marcada por vertentes culturais
antagônicas (Cf. Netto, 1989), desenvolve-se de forma acidentada possibilitando
avanços e introduzindo no âmbito profissional polêmicas e problemáticas novas 1.
O entendimento2 da questão proposta requer, por sua vez, a superação
das leituras “endógenas” da profissão, que explicam por si/para si os elementos
que aparecem na constituição profissional (Cf. Iamamoto, 1995a). Para nós, ao
contrário, debater acerca da profissão, seus avanços, suas problemáticas, supõe
aprendê-la sob dois ângulos indissociáveis entre si: como atividade socialmente
determinada pelas circunstâncias objetivas que estabelecem limites e
possibilidades para a ação dos sujeitos que a compõem e como resultado da
ação e do pensamento dos sujeitos que a ela se dedicam e lhe atribuem
finalidades.
São estas determinações fundamentais que permitem explicar como a
categoria profissional apresenta-se permeada por diversas perspectivas político-
profissionais, que conferem distintos modos de interpretar a realidade. Em outras
palavras, significa dizer que a profissão não é um corpus isolado; muito pelo
contrário, na medida em que é socialmente determinada, nela se refletem as
configurações e ordenações próprias à sociedade.
Por outro lado, o fato de as profissões serem resultado dos processos
sociais macroscópicos não elimina o seu corpus teórico e prático, que condensa

1
Aqui basta mencionar a polêmica em torno do Serviço Social como trabalho, que
abordaremos no capítulo 03 desta tese.
2
Ao longo de toda esta tese, empregaremos entendimento em seu sentido usual
na língua portuguesa, sem qualquer alusão às suas acepções epistemológicas –
tal como na distinção alemã entre Verständ e Vernunft (intelecção, entendimento e
razão).
26

projetos sociais e articulam respostas aos mesmos processos sociais (Netto,


1996a, p. 89).
No caso do Serviço Social brasileiro, as perspectivas teórico-políticas -
que implicam dimensões metodológicas, éticas e técnico-operativas –
manifestam-se num embate que se situa entre a renovação e o conservadorismo.
As determinações que conformam as profissões não são apenas meros
panos de fundo, ao contrário são elementos que explicam sua gênese e suas
contradições internas. No caso do Serviço Social brasileiro, os elementos que
determinam a sua gênese estão ligados à conformação social brasileira das
décadas de 1920 e 1930, onde se generaliza o trabalho livre e, com isso, a
necessidade de controle social da exploração do trabalho. Este controle, por sua
vez, é marcado por uma particularidade, qual seja: a especificidade pela qual se
dá o desenvolvimento das relações capitalistas no Brasil.
Trata-se de uma formação social marcadamente não clássica 3, balizada
pelo forte traço da colonização, e pelo forte peso do escravismo. É este quadro
que demarca uma complexa articulação da dinâmica da economia e sociedade
brasileiras com o mercado mundial. Na medida em que as colônias constituíam-se
como estruturas produtivas integradas ao modo de produção capitalista, a
produção baseada no trabalho escravo serviu basicamente para adensar a
acumulação de capitais em países centrais de capitalismo avançado, demarcando,
dessa forma, a relação de subordinação e dependência da economia brasileira.
No Brasil - diferentemente das revoluções tipicamente burguesas, como
na França, por exemplo, que foi movida por ampla persuasão das massas
populares e efetiva supressão dos vestígios da estrutura feudal, o que implicou

3
É fato que dentro da tradição marxista, no Brasil, esta discussão é bastante
polêmica. O entendimento parte da idéia de que teríamos vivenciado aqui uma
passagem do sistema feudal para o capitalismo. Este equívoco encontra-se
presente e, foi dominante nas formulações do Partido Comunista Brasileiro e de
seus quadros intelectuais. A problematização dessa interpretação foi realizada
inicialmente por Caio Prado Júnior e posteriormente rigorosamente analisado por
Fernandes Fernandes. Contudo, no nosso entendimento, esta imprecisão não
diminui como muitos querem a contribuição expressiva dos militantes do Partido
Comunista, para os debates acerca da sociedade brasileira.
27

para essas formações sociais um processo no qual a luta de classes teve um


nítido caráter progressista no desenvolvimento capitalista, em seu conjunto
estrutural – verifica-se um processo lento de substituição do trabalho escravo, pelo
trabalho livre nas grandes unidades agrárias que articulam momentos de mudança
e de permanência. Como bem formulado por Mazzeo, nas colônias, o capitalismo
desenvolveu-se com especificidades próprias, determinado por uma lógica
inerente de amoldar-se (1997, p. 15) e constituir situações novas para a sua auto-
reprodução.
Este fenômeno de modernização conservadora (Moore Júnior, 1983)
explica justamente como no Brasil realizou-se uma articulação complexa de
adaptação ao capitalismo, com a permanência de importantes elementos da
antiga ordem. Logo, o país experimenta um processo de modernização capitalista
sem por isso ser obrigado a realizar uma revolução democrático-burguesa. Mais
do que isso, no processo brasileiro a burguesia brasileira conciliava-se com a
estrutura produtiva colonial, de modo a que isso não alterasse seu poder político
(Mazzeo, 1997, p. 133).
Contudo, o fato de o estatuto colonial introduzir processos componentes
do desenvolvimento do capitalismo, este último só será realmente alavancado
quando da criação do Estado Nacional. É na constituição do Estado Nacional,
mediante a negociação pelo processo de independência, com o surgimento de
novos agentes econômicos, com o desenvolvimento da divisão do trabalho, que se
redireciona a organização das relações de poder. Contudo, e aqui reside o ponto
nodal, esta inflexão, de um lado, não afeta a perpetuação da ordem social
dependente, subordinada e incapaz de promover a sua autonomia e, de outro,
marca-se fortemente a ausência de qualquer compromisso das elites para com as
massas populares.
Fernande (1976) explicita claramente este movimento quando afirma
que a marca da nossa formação social é tanto a heteronomia, ou seja, a
dificuldade da burguesia efetivar a construção do projeto nacional, uma vez que o
país está inserido na lógica do capitalismo internacional de forma subalterna,
como também o fato de que a democracia liberal não se realiza
28

revolucionariamente para o conjunto da sociedade, mas apenas para os


interesses específicos da própria burguesia.
Coutinho (1999), no devido entendimento do conceito de revolução
passiva de Gramsci, resume bem esse processo quando observa que o latifúndio
pré-capitalista e a dependência em face do imperialismo não se revelaram
obstáculos insuperáveis ao completo desenvolvimento capitalista no Brasil. De
fato, gradualmente e “pelo alto”, a grande propriedade latifundiária transformou-se
em empresa capitalista agrária e, por outro lado, com a internacionalização do
mercado interno, a participação do capital estrangeiro contribuiu para reforçar a
conversão do Brasil em país industrial moderno com alta taxa de urbanização e
uma complexa estrutura social.
A grande questão é que estes processos, ao invés de serem o resultado
de movimentos populares dirigidos por uma burguesia revolucionária que arrasta
consigo as massas camponesas e os trabalhadores urbanos - a transformação
capitalista tem lugar graças ao acordo entre as frações das classes
economicamente dominantes com total exclusão das forças populares e com a
utilização permanente dos aparelhos repressivos.
Nestes termos, efetiva-se uma estrutura de classes no Brasil alicerçada
numa cultura política que se expressa na estrutura estatal e cujos processos de
mudança são sempre acompanhados de conservação excluindo os setores
populares. Mais do que isso, se impregnam as várias estruturas sociais com uma
orientação do poder político sempre voltada para a realização de interesses
particulares. Este processo espraia na estrutura social um comportamento
particular da burguesia brasileira que reverberará em valores, ações sociais e na
relação com a coisa pública.
Interessa ainda observar que, no caso da sociedade brasileira, a
generalização do trabalho livre não significou, do ponto de vista sócio-cultural, a
ruptura com os valores que alicerçavam a escravatura. Ao contrário, este traço se
estenderá também para as relações de trabalho livre, na medida em que o Estado
utiliza-se da violência e do favor deletério (Mazzeo, 1997) sobre os trabalhadores
de uma maneira geral e, para as pessoas negras de uma forma particular na
29

medida em que se constitui uma inserção subalternizada imposta pela questão


racial. Em ambos os casos, se mantém intacta sua estrutura fundamental para as
massas populares, possibilitando golpes e contra-golpes constantes entre as
facções dominantes sem alterações do seu aspecto basilar.
Esta análise, na qual nos situamos, não serve, como entendem alguns,
para falar de um imobilismo popular ou, mais ainda, não serve para justificar a
crítica feita a esta interpretação marxista da formação social brasileira tida como
elitista, pois supostamente deixaria à margem os “protagonistas sociais” em suas
revoltas. Nem, muito menos, trata-se de desconsiderar o papel da classe operária
enquanto tal. Ao contrário, esse amplo campo que abrimos permite-nos situar
concretamente as determinações que comparecem no movimento da classe
trabalhadora em reação à exploração e expropriação do trabalho - na medida em
que, como afirmam Marx e Engels, é a burguesia que traz a morte de si própria
forjando as armas e criando os homens que irão impunha-las: a classe
trabalhadora moderna (1998, p.19). É este movimento que permite entender a
particularidade brasileira, como a continuidade reformada e como ela exerce um
peso sobre o protagonismo da classe trabalhadora, até quando sua luta não se
faça imediata e claramente aberta.
Precisamente, os anos 1920 e 1930 expressam claramente este
movimento. Ou antes disso, no final dos anos 1910, quando as lutas
reivindicatórias do proletariado revelavam seu total estado de penúria e na
mesma e contraditória medida a voracidade do capital por trabalho excedente. A
população operária se constitui – composta em sua maioria por imigrantes –
marginalizados socialmente dentro das cidades, cujas lutas centravam-se na
defesa do poder aquisitivo dos salários, na duração da jornada de trabalho, na
proibição do trabalho infantil e na regulamentação do trabalho de mulheres e
crianças e adolescentes, no direito a férias etc.
Aberto o flanco que mostrava o inconformismo de um proletariado à
beira do pauperismo, impulsiona-se daí uma crescente organização da força de
trabalho. Apesar de ter se mobilizado em torno da regulamentação da Lei de
30

Sindicalização em 1907, este proletariado sofrerá 4 com a instituição de leis


repressivas da atividade político-sindical urbana, visando, sobretudo, à expulsão
de trabalhadores estrangeiros por motivo de militância sindical 5. Ao mesmo
tempo, este elemento, aliado ao crescimento populacional, constitui-se como fator
objetivo que contribui no crescimento do movimento sindical e na capacidade de
mobilização dos trabalhadores.
Os setores burgueses ligados à agro-exportação não assumem a
existência da questão operária, uma vez que para este setor esse problema não
se constitui como essencial para a sua dominação. A burguesia industrial estará
fortemente sintonizada aos princípios do liberalismo do mercado de trabalho e do
privatismo da relação de compra e venda da força de trabalho como o
fundamento para a extração da sua taxa de lucro e da sua acumulação. Neste
sentido, as ações realizadas são marcadas pelo apoio explícito e, às vezes
velado, à repressão policial, mas também se utilizam das ações caridosas e
assistencialistas.
Dessa forma, dada a ausência de reconhecimento do Estado para a
necessidade de enfrentamento da “questão social”, as ações se efetivam através
da coerção e reparações tópicas, das quais muitas delas operacionalizadas pela
intervenção da Igreja Católica.
Neste processo, a Igreja vivia um processo de recristianização que
objetivava a criação de condições para que ela tentasse recuperar o espaço
perdido com a laicização do Estado após a instauração da República. Este
movimento, tal como nos sinalizam Iamamoto & Carvalho (1995b), era a forma de
a Igreja tentar superar a sua postura contemplativa. O movimento estava voltado
não só para o seu fortalecimento, mas para a organização e a qualificação de

4
Vale ressaltar que a fundação do Partido Comunista Brasileiro foi em 1922 e que
neste período também ocorreu à primeira revolta militar tenentista. Mais a frente
abordaremos de maneira mais aprofundada o desenvolvimento do Partido
Comunista Brasileiro.
5
Isto porque é à infusão da experiência sindical européia na vida operária
brasileira, via imigração, que impulsiona a crescente mobilização da força de
trabalho urbana.
31

quadros intelectuais laicos para uma ação missionária e evangelizadora na


sociedade.
Esta empreitada é uma clara contraposição tanto ao liberalismo como
ao comunismo, que neste momento colocavam-se como uma ameaça à sua
posição na sociedade. Tão verdadeira é essa afirmativa que este momento de
“reação católica” é respaldado em uma vasta rede de organizações difusoras de
um projeto de recristianização da ordem burguesa, sob o imperativo ético do
comunitarismo cristão, exorcizando essa ordem de seu conteúdo liberal. Ao
mesmo tempo, a Igreja luta pela legitimação jurídica de suas áreas de influência
dentro do aparato do Estado (Iamamoto e Carvalho, 1995b, p. 18). Os preceitos
que davam suporte ao processo estavam estabelecidos nas encíclicas papais
(Rerum Novarum e Quadragesimo Anno) e constituiam-se num elo importante que
atribui uma conformação moral e religiosa para o posterior enfrentamento da
“questão social”6.
6
A “questão social” é hoje um ponto central no debate do Serviço Social brasileiro.
A evidência clara disso são as articulações teórico-políticas que levaram a
configurar a “questão social” como um dos eixos centrais das Diretrizes
Curriculares do Curso de Serviço Social, aprovadas em 1996. Nelas está colocada
a ação interventiva da profissão sobre a “questão social”, como aquilo que
particulariza essa atividade profissional nas relações sociais de produção e
reprodução da vida social (Cf. Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social,
ABESS/CEDEPSS, 1997, p. 60). Esta centralidade, porém, não passa sem
polêmica, e, menos ainda, o próprio entendimento acerca do que seja a “questão
social”. Neste trabalho, referenciamos o entendimento que parte do pensamento
marxiano e da tradição marxista e que possibilita situar criticamente o termo
“questão social”. O termo remete necessariamente à pobreza acentuada e
generalizada na terceira década do século XIX (o pauperismo). Contudo, a
dinâmica desse pauperismo era radicalmente diversa àquela de anos anteriores,
marcados pela desigualdade entre ricos e pobres e que estava basicamente ligada
a um quadro de escassez geral, dado o baixo nível de desenvolvimento das forças
produtivas. Naquela marca histórica, como bem salienta Netto, a “questão social”
aparece como nova precisamente porque ela se produzia pelas mesmas
condições que propiciavam os supostos, no plano imediato, da sua redução e, no
limite, da sua supressão (2001a, p. 43). Em outras palavras, significa dizer que, a
“questão social” é resultado, da escassez produzida socialmente (ibidem, p. 46)
nos marcos do capitalismo. É a contradição resultante do movimento próprio do
capitalismo, como sistema que produz coletivamente a riqueza, desenvolvendo
amplamente as forças produtivas, mas com a riqueza socialmente gerada
apropriada privadamente. E, neste sentido, a “questão social” é parte constitutiva
do desenvolvimento do capitalismo, assumindo diferentes manifestações nos
32

É neste movimento da Igreja Católica que, desde as suas protoformas,


o Serviço Social brasileiro encontra-se imbricado ao ideário católico, que tanto
marca seu universo ídeo-político e teórico-cultural como envolve as suas
modalidades de intervenção com o traço caritativista (Netto, 1996b). É este
ideário, por exemplo, que está na base de fundação da primeira escola em 1936
em São Paulo. Ou seja, a primeira escola é o resultado da mobilização do laicato
em torno do projeto de recristianização, levado a cabo pela Igreja Católica entre

diferentes estágios de desenvolvimento do capital. Assim, a “questão social”


coloca-se como uma problemática mais ampla do que a sua manifestação
imediata (o pauperismo). O uso do termo “questão social” refere-se, pois, aos
desdobramentos sócio-políticos, a reação desse segmento pauperizado na luta
pela eversão da ordem social que a deflagrou, ou seja: a moderna sociedade
burguesa. Por outro lado, é precisamente no momento da revolução de 1848, que
a “questão social” é capturada duplamente pelas malhas do conservadorismo. Do
ponto de vista objetivo, na medida em que a burguesia encerra seu ciclo
progressista fechando qualquer medida que possa problematizar a ordem
econômico-social estabelecida e a propriedade privada dos meios de produção.
Do ponto de vista ideal, pois, como ressalta Netto, o termo passou a deslizar para
o vocabulário do pensamento conservador. O exemplo cabal pode ser encontrado
no conservadorismo confessional presente na Rerum Novarum, escrita por Leão
XIII em 1891, cuja influência nas décadas de 1920 e 1930 no Serviço Social
brasileiro é visível. Esta encíclica estabelece claramente a posição da igreja em
relação às condições dos operários. E tal estabelecimento se dá objetivamente na
contraposição ao socialismo considerando-o prejudicial àqueles membros a que
se quer socorrer e contrário aos direitos naturais dos indivíduos (...); E, na explicita
defesa da propriedade privada considerando que o primeiro fundamento a
estabelecer por todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo é a
inviolabilidade da propriedade particular. A conseqüência desse movimento é
medularmente a naturalização e a moralização da “questão social” o que implica
no plano prático-político o combate às manifestações da “questão social” sem
tocar nos fundamentos da sociedade burguesa (Netto, ibidem, p. 44). Ao mesmo
tempo, cria-se uma capa mistificadora ao termo. No caso do debate do Serviço
Social contemporâneo, verificamos a existência do entendimento marxiano e
marxista, que nos referimos anteriormente, presente nas elaborações de Netto
(2001a), Iamamoto (2001) e Mota (2008). Em outro pólo, existe a tendência a
debater a “questão social” como de responsabilidade do Estado, por meio das
políticas sociais. Daí entende-se a “questão social” não como resultado da
contradição entre capital e trabalho, que geram desigualdades, pobreza, etc. mas
como o embate político determinado por essas contradições; isto pode ser
observado em Pereira (2001) e Yazbek (2001). Um outro ramo do debate é aquele
que entende a “questão social” como exclusão social – e, por isso, uma questão
transhistórica, ou seja, presente desde sempre nas relações sociais, capitalistas
ou não. Nesta tendência, pode-se falar de uma “nova questão social”, que indica
33

as décadas de 1920 e 1930. Ao mesmo tempo, este processo traça o que seria a
relação de continuidade7 que efetivamente existe entre o Serviço social
profissional e as formas filantrópicas e assistenciais desenvolvidas desde a
emergência da sociedade burguesa (ibidem, p. 66).
Na medida em que a Igreja perdia sua hegemonia enquanto agência de
concepção de mundo capaz de refletir-se no movimento intelectual geral e no
controle de movimentos sociais, tendia a tornar-se uma casta de intelectuais
tradicionais com influência apenas em alguns setores mais subalternizados. Por
isso, a Ação Social torna-se um instrumento poderosíssimo que tem como grande
“inovação” a intervenção direta junto ao proletariado para afastá-lo das influências
subversivas.

uma “inadaptação” dos antigos métodos de gestão social para lidar com aquilo
que seria uma “nova questão social” gestada a partir das transformações
societárias das ultimas quatro décadas. Isso está expresso em Arcoverde (1999).
Assim, compreendemos que as proposições que não partem de um entendimento
crítico são incapazes de situar o fundamento da “questão social’ nas contradições
fundantes das relações sociais no capitalismo ou, como bem postula Netto
(2001a), a “questão social” como irremediavelmente imbricada com a sociedade
capitalista. Este pressuposto faz com que seja imperioso, para o debate que se
quer traçar dentro da perspectiva marxista, a problematização da existência do
sistema capitalista. Sem este substrato, trata-se tão somente de administração da
“questão social” e não a sua eversão.
7
Não é nosso objetivo discutir esta questão aqui, uma vez que ela será melhor
problematizada no desenvolvimento do texto, mas cabe deixar claro que no nosso
entendimento a profissionalização do Serviço Social não é uma decorrência
natural da evolução das suas protoformas (Vieira,1985). Partimos da
compreensão de que entre o Serviço Social profissionalizado e as suas
protoformas, ainda que se coloquem estes elementos de continuidade, o papel
decisivo é de rupturas que se instauram no processo de profissionalização.
Necessariamente, porque a profissionalização implica um agente de novo tipo. A
atividade profissional realiza-se não por motivações voluntaristas ou idealistas,
mas por meio de uma relação contratual que regula os meios necessários a
sobrevivência desse profissional. Noutros termos, trata-se da condição de
assalariamento que insere a atividade profissional na divisão social e técnica do
trabalho (Netto, 1996b e Iamamoto & Carvalho, 1995b). Por outro lado, é também
este elemento de continuidade que explica os equívocos das análises dos autores
que vêem das protoformas ao Serviço Social uma continuação natural. Pois os
elementos que expressam a continuidade ganham mais visibilidade por que há
uma instituição que desempenha papel crucial (Netto, 1996b) tanto no âmbito
teórico, como prático: que é a Igreja Católica. Uma tese extremamente instigante e
provocativa, sobre essa questão, comparece em Montaño (2000a).
34

Este movimento, tal como nos sinaliza Iamamoto (1995a), era a forma
de a igreja tentar superar a sua postura supostamente contemplativa. A tentativa
aqui era não só o seu fortalecimento, mas estava amplamente voltada para a
organização e qualificação de quadros intelectuais laicos que deveriam
desenvolver uma ação missionária e evangelizadora na sociedade.
Tão verdadeira é essa afirmativa que este momento da “reação
católica” é sustentado no desenvolvimento de uma vasta rede de organizações
voltadas à difusão deste projeto de recristianização da ordem burguesa 8,
claramente marcado pelo imperativo ético do comunitarismo cristão, e que
buscava eliminar dessa ordem seu conteúdo liberal. Ao mesmo tempo, a igreja
luta para garantir, dentro do aparato do Estado, a legitimação jurídica de suas
áreas de influência (Iamamoto, idem, p. 18).
Nestes termos, o que se põe na base dos primeiros objetivos político-
sociais do Serviço Social é um cunho expressamente humanista associado a um
conservadorismo restaurador9, que possibilitava uma contraposição tanto ao
8
Boa referência disso é o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo, que
surge em 1932 e estava voltado para a promoção da formação de seus membros
pelo estudo da doutrina social da Igreja, fundamentando sua ação nessa formação
doutrinária e no conhecimento aprofundado dos problemas sociais (Iamamoto &
Carvalho, idem, p. 173).
9
Não nos deteremos aqui, acerca de um importante debate que deve ser travado, primeiro acerca
do que seja conservadorismo, e segundo de como este está imbricado no Serviço Social como
profissão. Aqui nos cabe, a grosso modo, um esclarecimento do que entendemos quando falamos
de pensamento conservador. Para isso, estamos ancorados no amplo caldo de estudos que se
defrontaram com esta questão (Lowy 1989; Lowy e Sayre 1995; Coutinho 1972; Lukács 1968b;
Escorsim, 1997). A partir dessa bibliografia é possível postular que o pensamento conservador
acompanha a conformação da hegemonia burguesa desde a afirmação do seu conteúdo
revolucionário, particularmente o período que segue os eventos revolucionários desde 1789. Trata-
se mesmo de entendê-lo como uma expressão cultural particular de um tempo e um espaço sócio-
históricos marcados pela configuração da sociedade burguesa. De modo inconteste, o político e
pensador inglês do século XVIII, Edmundo Burke, com sua obra Reflexões sobre a revolução em
França, publicada em 1790 (Cf. Weffort, 1999), é considerado o fundador do conservadorismo
clássico, em virtude, especialmente, das suas formulações teóricas direcionadas ferozmente aos
revolucionários franceses, suas idéias, e ao processo da própria Revolução Francesa de 1789. O
autor denuncia os perigos da democracia abstrata, e questiona o racionalismo do movimento que
destrói a velha ordem, e principalmente a deslegitimação que esse processo revolucionário
empreende sobre os valores tradicionais do espírito da continuidade, da hierarquia social e da
propriedade, e da consagração religiosa da autoridade secular. Dessa forma, para combater os
valores centrais da Ilustração, o conservadorismo, na sua gênese, explicitou os seus fundamentos,
que permaneceriam basicamente inalterados ao longo de mais de um século. É após o período de
1848, marcado pelos processos intensamente revolucionários protagonizados pelos trabalhadores,
e a conseqüente reação burguesa a esse movimento, que o pensamento conservador sofre um
giro, alterando o seu significado sócio-político, mas sem modificar o seu papel normativo e
35

liberalismo como ao comunismo, que neste momento colocavam-se como uma


ameaça à posição da igreja na sociedade. Nessa medida, as ações desenvolvidas
pelo Serviço Social eram legitimadas por atividades realizadas junto às famílias e
aos trabalhadores empobrecidos, através da “base confessional” dada pela
doutrina da justiça e da caridade.
As pressões exercidas neste período pelo movimento operário no
sentido da conquista dos direitos civis e sociais, e a pressão das camadas médias
urbanas por maior participação política, foram os elementos que impulsionaram
um setor da oligarquia agrária dominante a colocar-se à frente da chamada
“Revolução de 30”. O triunfo desse processo significou a formação de um novo
bloco de poder, gestado ele mesmo contraditoriamente no interior do
desenvolvimento capitalista, que subalterniza a fração oligárquica ligada a
agricultura de exportação (economia cafeeira) e é marcado também por um
caráter “elitista” que continuava fazendo com que os setores populares
permanecessem marginalizados.
As tentativas de insurgência contra este processo são as justificativas
encontradas para a instauração da ditadura no Estado Novo. Marcadamente
repressivo e com suporte ideológico de tipo fascista expressa, como observa
Coutinho (1999), claramente uma revolução pelo alto, com seu duplo movimento:

prescritivo. Logo, o pensamento conservador, na sua diversidade, desloca-se da posição originária


reacionária de recusa às expressões culturais da burguesia e se massifica, após essa passagem
histórica, enquanto umas das expressões ideológicas da burguesia contra as lutas revolucionárias
do proletariado. Em resumo, originalmente, restaurador e anti-burguês, na reviravolta de 1848,
referida por Lukács, este caráter se transforma e o seu eixo passa a ser notadamente contra-
revolucionário. Deixa de ser uma manifestação ídeo-política contra a burguesia, para tornar-se
funcional no ataque desta ordem aos novos sujeitos revolucionários que se apresentam. Dessa
forma, o pensamento conservador concentra suas forças para combater e repudiar qualquer
revolução. O resultado dessa articulação é o positivismo cientificista da segunda metade do século
XIX, cujas bases fundam as modernas ciências sociais, que são consideradas por Lukács um
importante componente da cultura burguesa do período da decadência (sobre isso nos deteremos
no capítulo 03). O pensamento conservador volta-se, nesses termos, para a construção de um
conjunto de conhecimentos que buscam controlar e regular a dinâmica da vida social – mesmo que
pelo caminho de reformas limitadas à ordem burguesa – e, dessa forma, neutralizar a premente
ameaça da revolução proletária. Desse processo nasce, no conjunto das ciências sociais, a
chamada sociologia que é manifestação própria do conservadorismo pós-1848, e alimenta a veia
da especialização que colide frontalmente com a perspectiva de totalidade, necessária para
analisar e se contrapor teórico e politicamente à ordem burguesa (Cf. Lukács, 1981; 1968b).
36

um momento de restauração (na medida em que opera contra a possibilidade de


reação radical de baixo para cima) e um momento de renovação (na medida em
que muitas demandas populares são assimiladas e postas em práticas pelas
camadas dominantes). Por outro lado, as necessidades da indústria passam a
cada vez mais requerer uma ação externa que possa complementar a coerção
realizada nas relações de produção. Como bem formulado por Iamamoto &
Carvalho, é preciso eliminar o desnível entre a disciplina da fábrica e a liberdade
existente no meio operário entregue à sua própria sorte (1995b, p. 140). Trata-se
nada menos do disciplinamento para além dos muros da fábrica, da interiorização
da racionalização da ordem capitalista industrial. Ou, no dizer de Lukács, é a
forma como a troca de mercadorias e suas conseqüências estruturais são
capazes de influenciar toda a vida exterior e interior da sociedade (1969, p. 197).
É por isso que, neste período, ao conjunto de leis de proteção ao
trabalho (salário mínimo, férias pagas, direito aposentadoria) é acoplada uma
legislação sindical corporativista – inspirada na Carta del Lavoro 10 – que vinculava
os sindicatos ao aparelho estatal e anulava a sua autonomia. Associadas a esse
processo temos as ações assistencialistas, do empresariado e da igreja que,
mesmo por meio de mecanismos diferenciados, visavam abertamente o bom
comportamento dos operários, a vida social regrada e a limitação das greves.
Assim, a especificidade anteriormente posta da forma de se relacionar
com o trabalho da burguesia nacional fica evidente do ponto de vista dos direitos –
tal como se constata, exemplarmente, naquilo que Santos (1979) tão bem
configurou como cidadania regulada, que só torna “cidadãos” aqueles membros da
comunidade que se encontravam localizados em qualquer uma das ocupações
reconhecidas e definidas por lei. A extensão desta “cidadania” se faz, pois, via
regulamentação de novas profissões/ocupações e mediante ampliação do escopo

10
A Carta del Lavoro de 21 de Abril de 1927 representa um marco no processo de implantação na
Itália do regime fascista. Nela estavam expressos os princípios do Estado Fascista como
expressão da grandeza da Nação Italiana; exaltava-se o trabalho, em todas as suas formas, como
fator de produção e dever social. Apregoava ainda a conciliação dos interesses opostos de patrões
e trabalhadores por meio da subordinação aos superiores interesses da produção. Todas as
atividades se davam no Estado, nada fora ou contra ele. Assim, as associações profissionais
(sindicatos) tornaram-se instituições públicas a serviço do incremento da produção nacional e
supostamente comprometidas com a melhoria das condições de vida das massas trabalhadoras.
37

dos direitos associados a estas profissões, o que leva necessariamente a serem


considerados pré-cidadãos todos aqueles cuja ocupação a lei desconhece.
Concomitantemente a este processo, promulga-se nova lei de
sindicalização em 1931, distinguindo-se entre sindicatos de empregados e
empregadores e fixando a sindicalização por profissões. Tal legislação constitui
um retrocesso em relação à legislação anterior, que deixava a cargo dos
sindicatos o estabelecimento das definições de pertencimento ao mesmo.
Logo, a nova lei estabelece tanto quem pode pertencer ao sindicato,
como também o próprio funcionamento deste passa a depender de registro no
recém-criado Ministério do Trabalho11. E, nestes termos, todas as demandas
relativas a emprego, salários, renda e benefícios sociais ficavam na dependência
de um reconhecimento prévio do Estado das legitimidades da categoria
demandante. O Estado canaliza para si os interesses conflitantes das frações dos
setores dominantes e dos setores populares, de modo a discipliná-los, em nome
da harmonia social e do desenvolvimento.
Sendo esta observação verdadeira, é possível então entendermos
porque após 1945 tratava-se de administrar uma ordem relativamente
democrática, em termos políticos, em um contexto social e econômico
extensamente regulado (Cf. Santos, 1979). Dentro desta lógica, no corpo do
Estado corporativista, começam a se desenvolver órgãos e instituições
assistenciais. Estas instituições constituíam-se principalmente como resposta ao
ressurgimento político do movimento operário – que havia sido desarticulado
posteriormente à liquidação da Aliança Nacional Libertadora (1935) – e que se
reorganiza em torno da luta antifacista.

11
O decreto 22.132 de 25 de novembro de 1932, em seu artigo primeiro, fixava
que só podiam apresentar reclamações trabalhistas perante as Juntas de
Conciliação e Julgamento os empregados sindicalizados, ou seja, os
trabalhadores cuja ocupação fosse reconhecida por lei. Já o decreto 23.768, artigo
quarto, de 18 de Janeiro de 1934 estabelecia que só podiam gozar de férias os
trabalhadores sindicalizados. Colocado a isso, tem-se a Lei dos Dois Terços, que
foi a forma do Ministério do Trabalho de isolar a liderança anarquista do
movimento operário, na medida em que identifica sua mobilização como tumulto
provocado por estrangeiros, e, acelera a renovação da força de trabalho a partir
do aproveitamento da inversão de fluxos migratórios.
38

Neste sentido, a marca das relações entre a burguesia e o proletariado,


e que se expressa no Estado Corporativo, do ponto de vista do assistencialismo,
aparece em duas ações principais: 1) A legalização, pelo decreto lei nº 525 de
1938, do Conselho Nacional de Serviço Social – CNSS, que advém de uma
comissão informal criada em 1935, composta por representantes da sociedade
que, como órgão consultivo, indicava o destino das subvenções governamentais
para as obras sociais, políticas sociais a serem desenvolvidas, bem como opinava
quanto à concessão de subvenções governamentais às entidades privadas (Cf.
Iamamoto & Carvalho, 1995b); 2). A criação, em 1942, da Legião Brasileira de
Assistência – LBA, coordenada pela primeira-dama para atender às famílias de
“pracinhas” envolvidos na guerra e que tinha como finalidade precípua mobilizar a
opinião pública em torno do envolvimento do país na guerra. Depois de 1946, esta
instituição passa rapidamente a atuar em várias frentes da área de assistência
social, dedicando-se, entre outras, à maternidade e a infância. Na distribuição dos
benefícios, segundo Faleiros (2000), predominava o assistencialismo, numa
junção de obras de caridade, na maioria religiosa, com ações das primeiras-
damas.
Tratava-se, pois, de uma lógica reformista das transformações postas
em movimento pela própria dinâmica do capitalismo no processo de
desenvolvimento das forças produtivas, que buscava, para se reproduzir,
organizar harmonicamente instituições e ações para desenvolver o capitalismo
pelo capitalismo. Noutros termos, é evidente que neste período o desenvolvimento
do capitalismo no país aprofunda sua forma própria, que diz respeito a como se
integra o novo com o velho, perpetuando a dependência externa e conservando
internamente relações sociais reguladas.
O Estado, resultante do movimento das classes, incorporou
seletivamente as projeções destas classes, e no caso do operariado incorporou-as
para esvaziá-las e tutelá-las, direcionando a busca de sua legitimidade na
necessidade de conter conflitos sociais dentro de limites que não
comprometessem o desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Assim, a
particularidade brasileira faz-se sentir de maneira cristalina: um assistencialismo
39

que satura as relações sociais no Brasil, que ganha novas roupagens, novos
incrementos e investimentos, e que se realiza alternando, ou em alguns
momentos, simultâneamente, a repressão aberta ou indireta às demandas da
classe trabalhadora12.
É dentro desta lógica que, nos anos 1940, estrutura-se um espaço
sócio-ocupacional que requer agentes técnicos que possam gerir e executar ações
para as instituições e órgãos estatais e privados. Esta demanda explica o
aumento, neste período, das diversas escolas de Serviço Social nas capitais dos
Estados13, que passam a formar assistentes sociais que são absorvidos na malha
estatal de instituições assistenciais14.
Este movimento expressa de forma inequívoca a ruptura operada com
as protoformas, que analisamos anteriormente, qual seja: na emergência
profissional do Serviço Social, não é este que se constitui para criar um dado
espaço na rede sócio-ocupacional, mas é a existência deste espaço que leva à
constituição profissional (Netto, 1996b, p. 69). O profissional se insere
interventivamente em atividades cuja dinâmica, organização, recursos e objetivos
são determinados previamente e independem de seu controle. Conforme Netto
(ibidem), podemos observar que a ruptura que aqui se realiza é de duplo sentido:
primeiro porque muda a condição do agente, que agora se inscreve no circuito de
compra e venda de sua força de trabalho (torna-se um profissional assalariado); e,

12
Esta é a forma da burguesia nacional relacionar-se com trabalho e que nos permite entender a
particularidade assumida pela Política Social brasileira e em particular as dificuldades para a
constituição da assistência como política social pública na década de 80, e sua manutenção
enquanto tal na atualidade, quando a burguesia e o capitalismo já se encontram altamente
complexificados.
13
De acordo com Iamamoto & Carvalho (1995b) o I congresso Brasileiro de
Assistentes Sociais realizado em 1947 contou com a representação de quatorze
Estados no evento.
14
Cabe observar, porém, que no caso de algumas instituições mais consolidadas,
como é o caso dos Institutos e Caixas de Pensões e Aposentadorias, o
profissional de Serviço Social não é imediatamente incorporado. Uma vez que,
quando surgem as primeiras escolas de Serviço Social, estas instituições já
possuíam um quadro de funcionários burocráticos que exerciam funções
semelhantes as que poderiam ser desenvolvidas por um Assistente Social. De
acordo com Iamamoto & Carvalho (1995b), são as grandes instituições
implantadas posteriormente à criação das primeiras escolas de Serviço Social que
mais integram em seus quadros este profissional.
40

em segundo lugar, ocorre um giro no significado social da sua ação, cujo sentido
novo tem significação na reprodução das relações sociais.
Nestes termos, o Serviço Social se desenvolve como um produto típico
da divisão social e técnica do trabalho e por isso rompe com as suas protoformas.
Contudo, como Netto (ibidem) nos chama atenção, um novo agente profissional
não se cria do nada. O novo agente sempre começa por refuncionalizar
referências e práticas preexistentes e, mesmo quando estas são conformadas
pelo novo agente, isso não implica necessariamente na supressão do caldo ideal e
institucional-organizativo preexistente. Eles podem coexistir. E no caso do Serviço
Social brasileiro esta continuidade se manifestou claramente. Até porque, no
nosso entendimento, esta continuidade encontrava eco ídeo-político no
assistencialismo/clientelismo/paternalismo que marcam a forma particular
das relações sociais brasileiras que permeavam o Estado no trato com a
“questão social”. Mais ainda, do ponto de vista do universo ídeo-politico
teórico-cultural, esta será a tendência dominante 15, neste momento, do
Serviço Social: uma junção do conservadorismo-restaurador católico,
anteriormente explicitado, com o reformismo conservador.
Esta junção encontra também sua explicação na influência exercida
tanto pelo Serviço Social norte-americano como pelo europeu 16. Ambos, não
desconsiderando a diferencialidade efetiva que os peculiariza 17, podem ser
15
Não estamos com isso afirmando que este seja o único vetor que opera no
universo ideal do Serviço Social, de modo a perder a processualidade e
contradição do processo. Neste momento, este vetor é o que hegemoniza o
processo.
16
De acordo com Netto, este duplicado sincretismo rebate sem nenhuma crítica de
fundo no desenvolvimento do Serviço Social profissional. Deu-se por supostos que
estes referenciais axiológicos, independentemente do arsenal heurístico e dos
procedimentos operatórios, é que garantiam a legitimidade, a orientação e o
sentido da intervenção (1996b, p. 123-124).
17
De acordo com Netto (idem), nas fontes ideológicas das protoformas e da
afirmação inicial do Serviço Social europeu, dado o anticapitalismo romântico
(sobre isso nos deteremos mais à frente), há um vigoroso componente de apologia
indireta do capitalismo; nas fontes norte-americanas, nem desta forma a ordem
capitalista era objeto de questionamento. Na angulação própria da apologia
indireta, a moldura da intervenção é, basicamente, ético-moral em duas direções:
na do ator da intervenção (que deve restaurar a ordem perdida) e na do processo
sobre que age (que deve ser recolocado numa ordem melhor). Onde não há
41

vinculados numa mesma e ampla perspectiva teórico-cultural: a do pensamento


conservador, marcado por traços positivistas, pragmáticos e empiricistas (Cf.
Netto, 1996b).
Este quadro teórico-cultural (o do pensamento conservador) se
expressa na profissão, tanto numa apreensão instrumental das relações sociais
restringindo a visão teórica dos profissionais ao campo da verificação e da
experimentação, como conferirá à mesma um caráter centrado no fazer técnico-
interventivo voltado à busca de metodologias de ação.
A legitimidade da profissão, frente ao Estado, neste período é
conseguida pela sintonização das suas respostas à manutenção do instituído.
Este processo coloca em movimento, dentro da profissão, inicialmente, uma
profunda ambigüidade: a de atribuir, como objetivo para ação de seus agentes, a
humanização das condições de vida e de trabalho da “clientela”, e, de outro, um
claro enquadramento da mesma dentro dos fundamentos da produção e
reprodução das desigualdades sociais próprias à ordem burguesa. Em outras
palavras, como bem formulado por Iamamoto, os efeitos assumidos pela ação
profissional efetivam-se como negação dos propósitos humanitários que a
orientam, consubstanciando assim uma defasagem entre os propósitos e
resultados da ação, entre teoria e prática (1995a, p.28).
Dessa forma, na base da institucionalização e consolidação da
profissão no país, verificam-se respostas voltadas fundamentalmente ao
atendimento dos interesses da burguesia no marco do capitalismo monopolista.
Neste movimento, a profissão efetiva predominantemente aquilo que Iamamoto
denominou de um arranjo teórico-doutrinário (idem, p.21), caracterizado por um

ponderação da apologia indireta, o reformismo profissional é modernizador: a


intervenção tem por objetivo um padrão de integração que joga com a efetiva
dinâmica vigente e se propõe explorar alternativas nela contidas – a ordem
capitalista é tomada como invulnerável, sem o apelo a parâmetros pretéritos. A
moldura da intervenção se desloca visivelmente: o ator profissional é um prestador
de serviços, que reclama uma remuneração e se apresenta como portador de uma
qualificação técnica – sua intervenção é exigida pela natureza mesma da ordem
vigente, cuja estrutura profunda é invulnerável e, deste ponto de vista, só deve ser
objeto de juízos de fato (idem, p. 112-113).
42

discurso humanista com suporte técnico científico que fortalece, na profissão, o


caminho do pensamento conservador pela mediação das Ciências Sociais 18.
Contraditoriamente, esta ambigüidade ganha caráter corrosivo
posteriormente quando a profissão entra em contato com o pensamento marxista,
e também na própria contradição que se expressa nas exigências feitas pelos
projetos antagônicos das classes em disputa na sociedade, possibilitando à
profissão problematizar e posteriormente intentar romper com o projeto a que
estava originalmente articulada para servir, tornando-se permeável e passando a
expressar em seu interior outros projetos que se expressaram mais abertamente
com o processo de renovação profissional.
Antes, porém, cabe realizarmos ponderações acerca da nova ordem
internacional que sucede à Segunda Guerra Mundial, e suas implicações para a
profissão. Precisamente o contexto do capitalismo monopolista e da guerra fria,
quando surgem novas tendências dinâmicas para o processo de consolidação e
desenvolvimento do capitalismo no Brasil, especialmente a partir dos anos 1950,
quando a burguesia brasileira adere ao chamado “desenvolvimento com
segurança”. Leia-se: a postura dos países capitalistas centrais (sob a hegemonia
norte-americana) de reprimir os protestos contra as iniqüidades econômicas,
sociais e políticas, conjurar a ameaça comunista, deprimir fortemente as
estruturas políticas das sociedades hospedeiras. Com isso, negligenciam-se os
requisitos igualitários, democráticos e cívico-humanitários da ordem competitiva.
Agora se tratava de, na periferia, impedir qualquer conciliação concreta entre
democracia, capitalismo e autodeterminação (Fernandes, 1976, p. 254).
Fernandes (idem) chama atenção para o fato (econômico, cultural e
político) causado pelo advento do “socialismo num só país”, que, com todas as
suas limitações, não deixava de ser um significativo contraponto histórico. Ou

18
Neste momento, a relação com as Ciências Sociais realiza-se de maneira
marginal e lateralizada. Muito mais como desaguadouro destas ciências do que
numa relação de interlocutores. Como Netto (1998) bem observa, entre os anos
quarenta e sessenta, a notabilidade pública destes profissionais frente a
autoridades e políticos e entre segmentos e instituições da sociedade civil refere-
se à competência e eficiência prático-social. O giro nesse processo só aparecerá
no processo de renovação do Serviço Social que aludiremos mais à frente.
43

seja, colocava na pauta a possibilidade de um outro padrão civilizatório


alternativo. Isto torna necessário, para os países capitalistas, o acirramento de
disputa pelas fronteiras e pela partilha do mundo, numa disputa inter-imperialista,
uma vez que as nações periféricas, como fonte de matérias-primas, essenciais ao
desenvolvimento econômico do capitalismo, viram-se, extensa e profundamente,
incorporadas à estrutura, ao funcionamento e ao crescimento das economias
centrais como um todo (Fernandes, idem, p. 253). Deste processo, resulta uma
forma predatória de incorporação da periferia, porque, até como bem formula
Fernandes (idem), isso era possível porque essas economias hospedeiras
possuíam estruturas altamente vantajosas, já que não dispunham de mecanismos
reativos de autodefesa (idem, p. 252).
Assim, o fim da Segunda Guerra inaugura, por assim dizer, uma nova
era, na qual a luta do capitalismo por sua sobrevivência desenrola-se em todos os
continentes, até porque onde não existiam revoluções socialistas vitoriosas,
existiam fortes movimentos anti-capitalistas e/ou antiimperialistas em ascenso,
jogando na direção da emancipação nacional - por isso, a disputa pelas fronteiras
era fundamental: onde a oportunidade não fosse aproveitada ou fosse perdida,
poderia dar-se o alargamento das fronteiras do “campo socialista”.
Nesse sentido, não se tratava apenas de transferir padrões de
desenvolvimentos próprios à ordem monopólica das economias centrais para as
economias periféricas - tratava-se de uma definição política dessa periferia. No
dizer de Fernandes (1976), sem estabilidade política não haveria cooperação
econômica, ou seja, era preciso que as economias periféricas colocassem “a casa
em ordem”; por outro lado, este movimento exigiria também uma “contrapartida”
dos países centrais. Projetos de assistência de toda ordem - quer fossem
econômicos, financeiros, tecnológicos, outros podiam ser policial-militar,
educacionais, enfim tratava-se de direcionar politicamente a inserção das
economias periféricas na nova onda do capital, e para isso era necessário
fortalecer as burguesias das nações periféricas.
A relação brasileira com esse movimento foi adaptativa, constituindo-se
como pólo dinâmico na periferia do mundo do capital. Para Fernandes (1976), é
44

na década de cinqüenta que podemos localizar uma segunda tendência de


irrupção do capitalismo monopolista como realidade histórica propriamente
irreversível, pois, nesta fase não se tratava mais apenas de intensificar o
crescimento do capitalismo monopolista no exterior, mas de se incorporar a este
crescimento.
De acordo com Fernandes, esta transformação ocorreu devido a três
elementos distintos: primeiramente, o que seria uma decisão externa de alocar no
Brasil um volume de recursos suficientes para deslocar os rumos da revolução
econômica em processo no país. Em segundo, como conseqüência direta do
anterior, um deslocamento empresarial que iria implantar dentro do país o
esquema da organização e do crescimento econômicos intrínsecos à grande
corporação. Em terceiro lugar, o que seria uma decisão interna de levar a cabo a
referida transformação (idem, p. 256). Cabe ainda observar, como formulado por
Fernandes, que essa decisão interna cristaliza-se aos poucos depois da
Revolução de 30; fixa-se de maneira vacilante, no fim da década de cinqüenta, e
de 1964 em diante ela se converte no principal dínamo político de todo o
processo.
É essa decisão interna que cria a ilusão de que, de um lado, se poderia
resolver dentro da ordem os problemas econômicos, sociais e políticos herdados
do período neocolonial e, de outro, que a depressão do poder econômico da
iniciativa privada interna e do Estado seria transitória.
É neste quadro, que se gesta o mote ideológico, político e social do
“desenvolvimentismo”, de que “todos devem contribuir e fazer a sua parte para o
crescimento do país”19. Para a profissão de Serviço Social, isto é observado na
consolidação da interação entre as influências do Serviço Social europeu e norte-
americano, na medida em que este último oferecia uma pauta programática para

É dentro deste espírito que se realizou no Brasil do I Seminário Latino-Americano


19

de Desenvolvimento de Comunidade em 1951. Uma panorâmica descritiva sobre


o tema encontra-se em Souza (1993).
45

a organização e o desenvolvimento da comunidade 20, e o europeu oferecia uma


abrangente cobertura valorativa, derivada da retórica do “bem comum”.
Transcendendo a esses elementos, de acordo com Netto (1996b),
existem ainda dois outros, novos, que singularizam a inserção do
desenvolvimento de comunidade na pauta do Serviço Social brasileiro 21. Um
primeiro que diz respeito a uma diferenciação na funcionalidade profissional a que
os profissionais se atribuíam. Trata-se do arrogar-se uma função societária, qual
seja: a de agentes das mudanças sociais22, postas como indução de modificações
no meio social imediato para dinamizar um padrão novo de integração à dinâmica
capitalista (Netto, idem, p. 126). Ao assistente social, situado como “agente de
mudança”, torna-se difícil dissimular seu pertencimento de classe, bem como

20
E, como exemplo tem-se a introdução, em 1944, na grade curricular da Escola
de Serviço Social de São Paulo, da disciplina Organização de Comunidade.
Posteriormente, esta disciplina será integrada às demais escolas de Serviço
Social.
21
Cabe destacar que esta diferencialidade não é um “privilégio” brasileiro. Torna-
se uma particularidade brasileira, historicamente determinada pela sua inserção
nas problemáticas e tensões latino-americana. Isso é muito bem observado por
Castro, quando o autor demarca que a dramática condição do nosso continente,
por exemplo, não poderia encontrar respostas apropriadas sobre as premissas
emanadas dos procedimentos de organização de comunidade gestados nos
Estados Unidos (Castro, 1987, p. 139). Para os assistentes sociais norte-
americanos, a concepção sobre a organização de comunidade era marcada
profundamente pelo trato conferido à questão social pela perspectiva funcionalista,
o que acabava por acarretar uma definição de organização de comunidade como
um campo de prática semelhante ao de casos ou grupos (Robert Lane apud
Castro, 1987, p. 137).
22
O grande guarda-chuva geral que abarcava o embasamento teórico que
sustentava esta concepção de “mudança social” foram, com certeza, as teorias
funcionalistas norte-americanas (Ammann, 1991a; Castro, 1987), que abordavam
a comunidade como uma unidade constituída de partes interdependentes que
deviam colaborar para o equilíbrio do todo. Este é o resultado do traço marcante
da influência do Serviço Social norte-americano no Serviço Social brasileiro. Mas
não só. Ammann (1991a) destaca ainda influências positivistas comteanas, a
presença do pensamento de Parsons. Isto já dá um panorama do engessamento
teórico na compreensão desse processo. Netto (1996b) destaca ainda que não se
pode menosprezar o influxo das teses keynesianas presentes na CEPAL e seus
enfoques sobre o fenômeno do subdesenvolvimento, nem a influência das teses
do planejamento democrático presentes em Mannheim. E ainda a relação deste
problema com as teses defendidas por alguns nomes do ISEB, como Hélio
Jaguaribe.
46

mascarar o próprio conflito de classes e suas refrações no interior da profissão. O


recurso aos valores tradicionais do “bem comum” não podia dar conta das
problemáticas que estavam postas na base da inserção sócio-ocupacional do
assistente social em conexão com as instituições governamentais.
Neste processo, sobressai-se a figura do técnico-administrativo
independente e acima das classes que deve racionalizar e controlar os
instrumentos que viabilizam a mudança. Do ponto de vista objetivo, ainda que os
suportes originais a que estava ligado o profissional fossem profundamente
mistificadores, ele também abre a via para a ampliação das preocupações para
além do espaço microssocial, bem como amadurece o setor profissional na
medida em que o coloca em contato com outros protagonistas (as equipes
multiprofissionais) e outras instâncias (núcleos administrativos e políticos do
Estado).
Aqui comparece o elemento contraditório que, ao mesmo tempo em
que garante legitimidade profissional para a execução de ações conectadas com
a realidade posta para a profissão, gesta as bases que seriam o germe para a
erosão do Serviço Social tradicional. Nesta postura, nem sempre elaborada
teórica e estrategicamente, as novas energias profissionais dirigiam-se para as
formas de intervenção (e de representação) que apareciam como mais
consentâneas com a realidade brasileira que as já consagradas e cristalizadas
nos “processos” que o identificavam historicamente (o Caso e o Grupo) (Netto,
1998, p. 138).
Contudo, ainda aqui, os elementos de continuidade com o amálgama
anterior se fazem sentir, na medida em que os projetos de desenvolvimento e sua
lógica desenvolvimentista, a que nos referimos anteriormente, são refratados para
dentro da profissão com a noção da promoção social, que é o segundo elemento
novo que, para o autor, singulariza este momento profissional.
O diferencial aqui verificado, segundo Netto (idem), diz respeito a um
entrecruzamento entre a perspectiva anteriormente existente na profissão, de um
promocionalismo ligado ao humanismo cristão tradicional (lembremos o
neotomismo e seu enfático alicerçamento na “pessoa humana” e no “bem
47

comum”) e as teorias de “mudança social” presentes no funcionalismo norte-


americano, com a lente especial da inspiração lebretiana 23. Neste sentido, opera-
se um sincretismo que, para Netto, converte o desenvolvimentismo em ideologia
do promocionalismo (idem, p. 128) dentro da profissão e que garante o seu
enquadramento cultural-ideológico e prático.
O corte aqui operado, conforme nos aponta Netto (1996a, 1998), com
as concepções anteriores é justamente o fato de a vinculação social do
profissional passar a ser apreendida enquanto conexão entre as solicitações, o
saber e a inserção institucional, muito distante ou pouco próprio à função do
apostolado que está presente na sua gênese. Em outras palavras, trata-se de
uma necessidade de a profissão se conectar com as mudanças em curso da
sociedade, e cujo alienação em face das mesmas poderia levar a um estatuto de
segundo plano da profissão; também implica neste processo uma necessidade de
aperfeiçoamento conceitual, técnico, científico e cultural dos profissionais e a
reivindicação de funções não apenas executivas na programação e
implementação de projetos de desenvolvimento (CBCISS apud Netto, 1998, p.
139).
Como Netto bem resume, trata-se de três elementos fundamentais
para entender o desenrolar posterior das questões profissionais: a dissincronia
com as “solicitações” contemporâneas, a insuficiência da formação profissional e
a subalternidade executiva (ibidem). Nestes termos, podemos localizar nos
processos sociais postos em curso ao largo dos anos cinqüenta na sociedade
brasileira, e na necessidade do Serviço Social latino americano e brasileiro de
conectar-se a estes fenômenos de maneira mais qualitativa, os elementos que
sinalizam para a erosão do Serviço Social tradicional. Os fatores de fundo desse
processo vão, com certeza, para além da profissão e se localizam na dinâmica

23
Louis-Joseph Lebret, economista e padre católico dominicano francês, criou em
1942 o centro de Pesquisas e ação Econômica “Economia e Humanismo”, voltado
a trazer para dentro da Igreja o debate em torno das questões do
subdesenvolvimento e da necessidade de solidariedade com os países pobres.
Nos anos cinquenta, o Pe. Lebret passou a influir fortemente sobre setores
católicos progressistas brasileiros, inclusive através de sua presença no país.
48

sociopolítica brasileira, mas a sua fermentação interna já se faz sentir mesmo nos
anos cinqüenta.
É, todavia, justamente nos anos sessenta que - na maioria dos países
em que o Serviço Social já se institucionalizara como profissão - desenvolvem-se
internacionalmente as condições históricas que induzem ao questionamento deste
Serviço Social que, neste processo, passa a ser designado como Serviço Social
tradicional.
Estas condições históricas dizem respeito ao acirramento das
contradições presentes no processo anteriormente apontado. Ou seja, tem-se o
exaurimento do padrão de desenvolvimento capitalista até então operado: o das
“ondas longas” de crescimento, “os anos gloriosos”, que vinham desde o fim da
Segunda Guerra Mundial e realiza-se na periferia, em especial na América Latina,
o questionamento do desenvolvimento dependente com visível ampliação do
antagonismo entre capital e trabalho (voltaremos a isto no Capítulo 03).
Neste processo, a expansão da “questão social” toma formas cada vez
mais complexificadas. Ao conteúdo das demandas econômicas - presentes nas
lutas dos trabalhadores para direcionar as cargas de desaceleração do
crescimento econômico e nas táticas de reordenação dos recursos das políticas
sociais dos Estados burgueses – entrecruzam-se outras demandas sociais e
culturais de categorias específicas. Agora são mulheres, jovens, negros,
emigrantes, homossexuais, que postulam questões referentes aos rumos do
desenvolvimento social (a degradação ambiental, o inchaço das cidades), aos
direitos emergentes (lazer, educação permanente) etc. Nas suas variadas
expressões, estas demandas punham em questão a racionalidade do Estado
burguês, suas instituições e, no limite, negavam a ordem burguesa e seu estilo de
vida. Em todos os casos, o que estava em jogo neste redimensionamento da
atividade política, com seus “novos” sujeitos e com suas “novas” 24 armas, era o
recolocar na agenda as ambivalências da cidadania fundada na propriedade
privada (Cf. Netto, 2005, p. 07).

24
Mais à frente problematizaremos as contradições presentes nos movimentos dos
anos sessenta, em especial sua marca no Maio de 1968 e na conjuntura
internacional, de que a voga pós-moderna é herdeira.
49

Na América Latina, este processo assume peculiaridades advindas


justamente da particularidade que vimos enfatizando até aqui, ou seja: da sua
inserção subordinada na movimentação do capitalismo internacional. Mas não só:
principalmente acirram-se as necessidades dos setores subalternos em reverter o
estilo da dominação burguesa própria a esses países. Ela (a dominação
burguesa) reflete a situação comum das classes possuidoras e privilegiadas e não
a ânsia de democratização, de modernização de algum setor burguês mais
avançado. Por isso, como diz Fernandes (1976), reproduz-se muito mais “o
espírito mandonista oligárquico” do que outras dimensões da mentalidade
burguesa. Este refundar próprio das funções e do significado histórico da
dominação burguesa, como e enquanto dominação de classe, faz com que em
momentos de crise a crise do poder burguês, e nos anos sessenta isso é muito
sintomático, apareça como uma crise de adaptação da dominação burguesa às
condições econômicas que se criaram graças ao desenvolvimento capitalista
induzido de fora. Por isso, as lutas que se fizeram dentro do campo
progressista, na América Latina, têm ora conjugado, ora isolado um forte
cunho antiimperialista, que em determinados quadros pôde estar associado
também a um cunho anticapitalista.
Ao mesmo tempo, e isso é paradoxal, não podemos negar que mesmo
que estes setores progressistas ficassem apenas numa luta antiimperialista, por
si só, esta luta já contribuía para fazer cair à máscara do desenvolvimentismo
nos espaços do então chamado Terceiro Mundo, demonstrando que a suposta
tentativa de promover “desenvolvimento social” - nessas sociedades de passado
colonial com recente e desigual processo industrializante - esbarrava fortemente
nas estruturas político-sociais restritivas mediante as quais as elites viabilizavam
a exclusão econômico-social dos setores subalternizados. Com isso, o caldo de
fermentação a que estas sociedades estavam submetidas era de tal ordem que
punha em jogo a própria estrutura social e ganhava supostas magnitudes
revolucionárias para o quadro mais geral das sociedades mais desenvolvidas às
quais estavam umbilicalmente atreladas.
50

É neste ínterim que se gestam para o Serviço Social


internacional25 as condições que tanto dão suporte para o questionamento
do Serviço Social tradicional26 como explicam as facetas27 assumidas por
este movimento na América Latina e no Brasil por este se tratar de uma
resposta em face das expressões concretamente situadas da “questão
social” em suas especificidades assumidas nos países periféricos. Para
Netto, neste momento, as primeiras respostas renovadoras 28 permitiram constelar
uma espécie de grande união contra o tradicionalismo.
Todos aqueles assistentes sociais que estavam
convencidos da necessidade de contribuir profissionalmente

25
Vale ressaltar que na Europa Ocidental, na segunda metade da década de
sessenta, verifica-se o surgimento desta renovação nas contribuições críticas
francesas veiculadas na revista Champ Social, com posterior aprofundamento na
análise realizada por Verdes-Leuroux (1978) e nas críticas britânicas,
exemplificadas na obra de Corrigan e Leonard (1979). Na América do Norte,
influxos da renovação comparecem, no Canadá, no trabalho de Renaud (1978) e,
nos Estados Unidos, no surgimento do “Serviço Social radical” (Galper,1986).
26
Netto (1981a) estabelece uma distinção entre Serviço Social “clássico” e Serviço
Social “tradicional” que avaliamos pertinente para esclarecer os termos do debate.
Para o autor, o Serviço Social “clássico” diz respeito às fontes do Serviço Social,
ou seja, a sistematização do exercício profissional tal como foi postulado
sistematicamente pelos agentes profissionais. É o caso, por exemplo, do trabalho
de Mary Richmond. O “Serviço Social tradicional” diz respeito à prática empirista,
reiterativa, paliativa e burocratizada, que os agentes realizavam na América
Latina.
27
Iamamoto e Netto (1995c) chamam-nos atenção para o reducionismo analítico e
para a reiteração de dilemas presentes na Reconceituação. Um deles em especial
e que por isso ressaltamos nesta nota diz respeito à homogeneização da América
Latina, que foi uma das marcas da Reconceituação e que foi resgatada nos
supostos do “Serviço Social Alternativo” - este promovido pelo Centro
Latinoamericano de Trabajo Social (CELATS), que era o organismo de
cooperação técnica internacional vinculado à Asociación Latinoamericana de
Escuelas de Trabajo social (ALAETS). Este reducionismo analítico está
prioritariamente presente na produção do CELATS no que se circunscreve como
sendo o popular. Para o CELATS, o Serviço Social só pode propor-se como
‘alternativo’ na medida em que se constitui como parte de uma alternativa popular
para a ordem social (CELATS apud Iamamoto e Netto, idem, p. 134).
28
As primeiras tentativas de elaboração de uma história latino-americana do
Serviço Social encontram-se presentes nas obras de Ezequiel Ander-Egg e
Herman Kruse (1970), que estiveram à frente da chamada “Geração 65” que
inaugura o Movimento de Reconceituação. Para uma sinalização crítica dessas
tentativas, alguns elementos comparecem em Castro (1987).
51

para as mudanças sociais requeridas para superar o quadro


de subdesenvolvimento vincularam-se na luta contra o
“Serviço Social tradicional” (Netto, 2005, p. 09-10).
É dos impactos das respostas renovadoras – que haverão de constituir
o “movimento de reconceituação” a que nos referiremos adiante - que se torna
possível o posterior tratamento histórico da profissão situando-a de maneira
crítica e analítica, entendendo as conexões e interações entre o Serviço Social e
as determinações sócio-históricas nas quais ele está circunscrito. Esta afirmação,
porém, não quer dizer, que a historiografia tradicional tenha desaparecido, mas
tão somente serve para mostrar a importância da reconceituação 29 no sentido de
abrir o terreno profissional para um tratamento histórico mais enraizado nas
relações sociais.
De acordo com Netto (idem), o Movimento de Reconceituação foi
tensionado por dois grandes segmentos 30 que entendemos como herdeiros de
seu cerne desenvolvimentista. Um primeiro, a modernização, voltado a tornar o
Serviço Social compatível com as demandas macrossocietárias e projetos
desenvolvimentistas de planejamento social; e um segundo, a ruptura, voltado
para um corte com os setores tradicionais 31, que significava abertamente um
projeto de intervenção social que vinculava a profissão com projetos de
ultrapassagem das estruturas sociais de exploração e dominação.
Ademais estas diferenciações32 fundamentais presentes no Movimento
de Reconceituação, o que o torna algo tipicamente latino-americano é justamente
a particularidade do contexto latino-americano, que analisamos anteriormente e
que se faz notável no interior deste movimento. Ou seja, a sua particularidade é a

29
Há uma larguíssima bibliografia com análises significativas acerca deste tema.
Lembremos somente Palma (1977), Faleiros (1987), Martinelli (1995), Netto
(1996a, 1998), Iamamoto (1995a, 1995b), Castro (1987), Quiroga (1991).
30
Não queremos com essa afirmação nos distanciar do entendimento de que o
Movimento de Reconceituação foi marcadamente heteróclito, apresentando tanto
na sua gênese como no seu processo de desenvolvimento uma mescla de
tendências heterogêneas conflitantes.
31
Este amplo processo de revisão da profissão deu-se em diferentes níveis
(teórico, metodológico, operativo e político), e possibilitou também uma
aproximação com outras matrizes teóricas, entre as quais o marxismo.
32
Estas são tratadas pormenorizadamente, especialmente, em Faleiros (1987) e
Netto (1998).
52

particularidade das contestações próprias ao continente em sua inserção


periférica na lógica capitalista geral. Faleiros (1987) expressa com clareza este
movimento quando afirma que
Nessa conjuntura é que é preciso situar o movimento de
reconceituação, não como um projeto isolado e
vanguardista, mas como um processo vivo e contraditório
de mudanças no interior do Serviço social latino-americano.
A ruptura com o Serviço Social tradicional se inscreve na
dinâmica de rompimento das amarras imperialistas, de luta
pela libertação nacional e de transformações da estrutura
excludente, concentradora, exploradora (idem, p. 51 - grifos
nossos).
Esta afirmativa revela, pois, aquele que seria o traço mais marcante,
não o único, mas porque não dizer hegemônico, do Movimento de
Reconceituação, qual seja: a sua dimensão político-ideológica. Esta, até mesmo
para os setores33 do movimento que não colocavam no centro da questão o
substrato do mundo burguês, indicava uma crítica aos valores do Serviço Social
tradicional. Ou, no dizer de Quiroga, este movimento reuniu diferentes correntes
de pensamento, que tinham entre si um ponto de convergência inicial: o fato de
serem contestatórias de um Serviço Social marcado pelo seu posicionamento
mantenedor do status quo (1991, p.87).
Durante sua fase de apogeu, que vai dos anos de 1965 (marcando a
inauguração com o Seminário Regional Latino-Americano de Serviço Social
realizado em Porto Alegra (RS) e cujos nomes mais expoentes foram Ezequiel
Ander-Egg, Herman Kruse, Natálio Kisnerman, Seno Cornely e Maria Lúcia de
Carvalho da Silva) a 197534 (quando este processo foi cerrado pela repressão

33
Netto (1981a) possui um texto na Revista Serviço Social e Sociedade nº 05 que
revela que este entendimento do eixo político-ideológico como sendo central no
Movimento de Reconceituação é reconhecido até pelos seus opositores. Faz isso
quando aponta as diversas críticas conservadoras feitas ao Movimento de
Reconceituação, que vão desde ao fato de a reconceituação conduzir a uma
insegurança e a uma desorientação; a uma impossibilidade do movimento de
reconceituação em não encetar uma prática profissional sistemática. Estas e
outras teses são refutadas analiticamente por Netto neste texto.
34
A Reconceituação, até acerca de sua cronologia, engendra polêmicas. Numa
coletânea de textos que analisam materiais acerca do Movimento de
Reconceituação, coordenados por Silva e Silva (2002), apresenta-se o que seria a
identificação de uma concepção restrita e uma concepção processual acerca da
53

que se abateu sobre os setores latino-americanos mais progressistas, dada a


instauração de ditaduras, primeiramente no Brasil, e posteriormente em todo o
Cone Sul), a marca é da forte crítica política, pouco ou quase não articulada a
uma crítica dos substratos ideo-teóricos; e, quando esta se realizou, ocorreu de
uma forma extremamente problemática35.
Quiroga (1991) coloca-nos abertamente este entendimento quando
afirma que esse processo não rompe radicalmente com uma herança

cronologia da Reconceituação. Esta identificação é extraída das obras, entre


outros, de Netto (1981, 1998), sendo que dizem respeito respectivamente ao
entendimento da Reconceituação como um momento histórico com circunstâncias
bem determinadas e uma abordagem processual que atesta no desenvolvimento
desse processo numa renovação que assume três direções (perspectiva
modernizadora, reatualização do conservadorismo e intenção de ruptura). No
nosso entendimento, o movimento de Reconceituação deve ser entendido dentro
do que seria esta concepção restrita e, aqui, partimos dessa concepção, por tratar-
se de um marco referencial preciso da história do debate profissional, circunscrito
nos limites de uma dada conjuntura, especificamente as décadas de 60 e 70,
constituindo-se num evento delimitado na história profissional na América Latina e
Brasil. Por outro lado, acreditamos que Netto (2005), em um texto recente que faz
um balanço do Movimento de Reconceituação depois de quarenta anos, coloca
elementos que possibilitam fortalecer tanto o seu entendimento acerca desse
movimento como acaba por fortalecer o encaminhamento por nós aqui demarcado
- uma vez que Netto (idem) nos fala da inconclusividade do Movimento de
Reconceituação asfixiado pela maré montante das ditaduras latino-americanas.
Em suas palavras, a Reconceituação não pôde desenvolver suas possibilidades
concretas e seus limites eventuais – nesse sentido, manteve-se como um capítulo
inconcluso de nossa história profissional. Mas esta inconclusividade não fez do
movimento algo intransitivo, que não remeteria mais que a si mesmo. Ao
contrário, durante mais de dez anos, na seqüência da década de 1970, a parte
mais significativa do espírito renovador da Reconceituação, processado
criticamente, alimentou o que houve de mais avançado no processo profissional
latino-americano (Netto, idem, p. 14-15). Com este entendimento, nosso trabalho
se distancia de concepções como as elaboradas por Faleiros (1987), para o qual,
na medida em que a Reconceituação é um processo vivo, torna-se atual. Por isso,
a Reconceituação, para este autor, enquanto processo, não acabou, chegando a
hora do seu amadurecimento no confronto com as concepções neoconservadoras
e neoliberais que ainda querem restaurar o tecnocratismo sob o manto da
participação limitada (Faleiros, idem, p. 67).
35
Entre nós, mas com expressão no debate latino-americano, encontramos o
esforço de Faleiros que, em 1972, tenta estabelecer uma relação entre o
significado político do Serviço Social tradicional e os fundamentos positivistas que
sustentavam as suas representações teóricas. Para o autor, tratava-se de
demarcar como a racionalidade positivista estava conectada a uma lógica de
54

conservadora, balisada pela matriz positivista e irracionalista, predominante na


história do Serviço Social. Por isso, a autora nos traz uma reflexão extremamente
conseqüente, e que tem claras implicações para pensar os fatores que explicam
a aproximação tardia da profissão com o debate marxista, bem como a
incorporação inviesada deste (que abordaremos mais a frente nesta tese);
quando postula claramente que a Reconceituação levou a uma ruptura política
que não foi acompanhada por uma ruptura teórica com essa herança
conservadora (Quiroga, idem, p. 88).
No Brasil, os impactos do Movimento de Reconceituação assumem um
perfil peculiar, porque peculiar é a década de sessenta entre nós. Na entrada
desta década, ocorre no país um movimento reacionário abertamente sustentado
pelos Estados Unidos, que derruba, em abril de 1964, o governo constitucional de
João Goulart. No dizer de Sodré (1997), o regime de 64 é resultante de uma
composição de forças que isolou e derrotou politicamente as forças populares,
para depois impor-se pelo uso das armas e da violência policial repressiva,
articulando o controle do poder pela absoluta submissão ao imperialismo.
Num claro movimento de contra-revolução preventiva, dado o quadro de
articulação de diversos movimentos de libertação nacional e social, os militares
operam uma política interna e externa de segurança nacional que tinha como
baliza central uma militância anticomunista e um compromisso de alinhamento a
Washington. Fernandes (1976) dá-nos analiticamente a exata medida da
especificidade desse processo para o país. Trata-se de uma luta da burguesia que
dominação à qual o Serviço Social, enquanto prática profissional, mostrava-se
adequado e imbricado. Por isso, afirmava que a lógica da dominação,
conservadora e estática, baseia-se na idéia do continuísmo, no método da
positividade, no universo da experiência, limitada ao controle dos fatos
observáveis (Faleiros, 1997, p.65). Em outro momento, coloca que o Serviço
Social, ao buscar o melhoramento da sociedade pela correção de certos desvios,
justifica essa melhora pela evolução, pela modernização, pela integração de
certos elementos desviados num todo harmônico (Faleiros, idem, p. 66). Contudo,
a obra revela um traço típico deste momento: dado o empobrecimento na
incorporação do marxismo, que neste passava por Althusser, as análises acerca
do positivismo recaíam na dicotomia metafísica/dialética presente em Engels e tão
significativamente criticada em Lukács em História e Consciência de Classe, de
1923.
55

está voltada não mais, ou apenas, para a consolidação de vantagens de classe ou


para a manutenção de privilégios. Entre nós, existe uma luta da burguesia
enquanto classe e do capitalismo enquanto sistema econômico, político e social
contra toda e qualquer alternativa à sua dominação.
É dessa forma que 1964 coroa este movimento, porque, como bem
analisou Fernandes (idem), é neste período que as forças produtivas da indústria,
através de uma maciça intervenção do Estado, desenvolvem-se imensamente,
com o objetivo de favorecer a consolidação e a expansão do capitalismo
monopolista. Mais do que isso: esse regime levou as últimas conseqüências a
orientação estabelecida no período Kubitschek, recebendo maciça entrada de
capitais estrangeiros e a saída maciça de seus lucros e o crescimento acelerado
do endividamento externo. Na verdade, assustada com as ameaças da esquerda,
a burguesia aceitou liderar o golpe que liquidou com o “regime democrático” aqui.
Vale ressaltar que, nesse processo, o Estado nacional não é uma peça
menor. Ao contrário, ele é o verdadeiro dínamo do poder burguês, na medida em
que os meios privados de dominação de classe são insuficientes e as funções
convencionais do Estado democrático burguês seriam insuficientes, considerando
a violência do processo de adaptação às demandas do capitalismo monopolista.
Daí que decorre entre nós aquilo que Behring (2003) chamou de uma exitosa
domesticação particularista do Estado e o exercício egoísta e irresponsável de
uma liberdade de classe. No dizer de Fernandes (1976), o Estado adquire
estruturas e funções capitalistas, avançando, através delas, pelo terreno do
despotismo político não para servir aos interesses gerais da nação decorrentes da
intensificação da revolução nacional - mas para satisfazer o consenso burguês do
qual se tornou instrumental e para dar visibilidade histórica ao desenvolvimento
extremista do capitalismo monopolista na periferia.
Nesse sentido, não há lugar para o idealismo burguês e o que se efetiva
é aquele traço peculiar, que já enfatizamos ao longo deste item, ou seja: o fato de
o desenvolvimento capitalista aqui não se operar contra o atraso, mas repondo-o
em patamares mais complexos; um poder que se realiza internamente com a
exclusão e o silenciamento dos protagonistas sociopolíticos de resistência,
56

derivando daqui uma inconclusa socialização política; e o importante papel do


Estado na desarticulação ou repressão dos setores da sociedade que expressam
os interesses das classes subalternas.
Ora, são justamente estes elementos fundamentais que estão em
questionamento na entrada dos anos sessenta. E estão por condições
objetivamente gestadas no interior do desenvolvimento do capitalismo brasileiro,
que, a partir de 1956, por meio da acelerada industrialização 36, alçou-se a um
padrão diferencial de acumulação. Basta que mencionemos aqui a implementação
do Plano de Metas que, reorganizando as relações entre Estado, capital privado
nacional e a grande empresa transnacional concedeu a esta última significativos
privilégios37. Este rearranjo até o final dos anos cinqüenta tinha um suporte
político, que começa justamente a ser questionado com a presença de Goulart no
executivo e com articulação popular (amplas camadas trabalhadoras urbanas e
rurais, segmentos pequeno-burgueses de camadas intelectualizadas, parcelas da
Igreja Católica e da Forças Armadas) em torno das reformas de base. E ainda que
esta articulação não colocasse em xeque imediatamente a ordem capitalista 38,
trazia para a cena um fato novo na vida do país. (Cf. Netto, 1998).
A grande questão é que, dada a resistência da ordem conservadora da
cidadania regulada, o conflito resolveu-se pelo rompimento da democracia
limitada (Cf. Santos, 1979). O processo ditatorial de 1964 tratava de reformular
instituições em que se processavam a acumulação e a distribuição compensatória
agora pela via autocrática. Assim, o que se concretiza é uma forte dissociação
36
Para Fernandes (1976), este era um elemento imperativo na medida em que, no
fundo da crise do poder burguês, o que se encontrava era a necessidade histórico-
social da adaptação da burguesia brasileira ao industrialismo intensivo e não de
promover a revolução nacional; o que ela pretendia era uma evolução que
agravava o desenvolvimento desigual interno e intensificava a dominação
imperialista externa (ibidem, p. 319). A saída da crise, para a burguesia, não
visava, segundo o autor, à autonomia do desenvolvimento capitalista nacional. Ao
invés, visava à autonomia das classes e dos estratos de classe burgueses dentro
da sociedade de classes brasileira e a possibilidade que eles teriam de chegar ao
fim da transformação capitalista sem remover a situação de dependência.
37
Importante obra para o estudo desse processo está presente em Mello (1984).
38
Este nosso entendimento não implica o desconhecimento da existência de
conteúdos revolucionários, marcadamente classistas, presentes e encampados
pelo movimento operário e sindical.
57

pragmática entre desenvolvimento capitalista e democracia; ou (...) uma forte


associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia (Fernandes,
1976, p. 292).
Dessa forma, este é o quadro, em linhas gerais, que se desenvolverá
durante todo o processo ditatorial. Este expressa que, mesmo registrando-se
institucionalizações de várias naturezas 39, ao longo do desenvolvimento e
consolidação do capitalismo no Brasil tem-se uma prática social própria de como a
classe burguesa se relaciona com o trabalho e de como a repressão e o
assistencialismo foram direcionando os segmentos populacionais aviltados pelo
processo de desenvolvimento do capitalismo. Até porque cabe enfatizar que o
peso histórico da ditadura também deve ser situado naquilo que Netto (2005)
chamou de uma desmemória significativa, ou seja, o impacto que ela opera para
as gerações seguintes no sentido das tentativas empreendidas para apagar da
história tudo aquilo que trazia as marcas de democratização e projetos societários
avançados.
Este impacto ganha relevo quando se analisa como o processo
autocrático burguês esteve assentado numa política cultural funcional ao seu
projeto modernizador. Netto (1998) nos chama atenção - a partir do ensaio de
Astrojildo Pereira, escrito nos anos 40 40 - para o fato de que a implementação de
uma política cultural qualquer requer necessariamente o equacionamento de
problemas que dizem respeito e estão ligados ao âmbito da reprodução social
(alfabetização, escolarização, direito ao trabalho etc.). Neste sentido, para que
uma política cultura mobilize uma vontade e uma estratégia de classe ela

39
E estas se registram especialmente no momento em que a ditadura começa a
experimentar o seu tensionamento nos anos setenta. Por exemplo, em 1973 a
previdência social é ampliada para os trabalhadores autônomos. Em 1974, cria-se
a renda mensal vitalícia destinada a beneficiar o segmento idoso acima de 70
anos e desprovido de condições materiais de sustentação. Cria-se o Ministério da
Previdência Social, que engloba a LBA, a FUNABEM – Fundação para o bem-
estar do menos e a CEME – Central de Medicamentos e a DATAPREV- Empresa
de Processamento de dados da Previdência Social. Surgem também, sob a
ditadura, o FUNRURAL - Fundo do Trabalhador Rural para a Previdência e o BNH
– Banco Nacional de Habitação.
40
Este se encontra publicado na Revista Temas de Ciência Humanas nº 04 de
1978.
58

necessariamente precisa buscar o que seria o enquadramento (via Estado) da


esfera da cultura e isto significa um ônus social muito grande. Mas este
empreendimento efetivamente aconteceu,
O Estado autocrático burguês criou as condições para a
emergência, no Brasil, de uma indústria cultural, concentrada
e monopolizada, fazendo do espaço nacional um mercado
unificado onde se enfrentam uns poucos monopólios que
dominam e manipulam a produção e a distribuição de uma
cultura de massas com as conhecidas características de
conformismo e alienação (Netto, idem, p. 49).
É neste sentido que a ditadura vem conformar um movimento, já
próprio das classes dominantes, de estreitar o espaço para tendências culturais
de fundo crítico, relegando-as, em alguns casos, a uma aberta marginalidade.
Para Netto (idem), uma das linhas centrais da política cultural da autocracia
burguesa, que tipifica o movimento de modernização conservadora, é justamente
a ampliação e adensamento dos mecanismos voltados a manter o caráter elitista
dessa política. Não se tratava, segundo o autor, apenas da reprodução desse
caráter elitista do processo cultural; tratava-se, ao mesmo tempo, de enfrentar as
tendências que tentavam romper com a mesma. Justamente por isso, no primeiro
momento, na passagem dos anos cinqüenta aos sessenta, tratou-se de reprimir
as vertentes que apontavam para a ultrapassagem desse viés elitista. Num
segundo momento, de 64 em diante, tratava-se de alentar as tendências que ou
garantiam uma efetiva dominação, ou, a sua legitimação ideal.
Como parte integrante desse processo, cabe uma rápida nota acerca
do sistema educacional, na medida em que a compreensão da sua
funcionalização tem rebatimentos diretos na renovação do Serviço Social
brasileiro. É precisamente entre 1968 e 1969 41 que o regime instaura o seu
modelo educacional congruente com seu modelo econômico. Este movimento
acentua claramente a modernização conservadora que vimos até aqui
explicitando, uma vez que, como bem esclarece Fernandes (1975), a reação
conservadora optou por tomar a liderança política da reforma universitária,
41
Neste período, verifica-se a explosão das manifestações estudantis. Este
movimento apresenta um efeito catalizador Netto (1998) extremamente
preocupante para o regime autocrático burguês, sendo o elemento que faz com
que, para o regime, a questão educacional assuma caráter prioritário.
59

incorporando bandeiras de professores e estudantes de forma a direcionar seus


resultados. Ao proceder desse modo, rompia, naturalmente, com o padrão da
escola superior herdado do passado. Mas conquistava uma posição que lhe
permitia dirigir a reforma universitária de acordo com os interesses, as
conveniências e os valores da atual situação conservadora. No dizer de
Fernandes (idem), as antigas tradições da escola superior não iriam morrer: sob o
controle conservador da reforma universitária, elas renasceriam das cinzas e
empolgariam, na era da universidade, o domínio dos espíritos (idem, p. 58-59).
Fator extremamente importante e que traz luzes para os processos
contemporâneos é identificar neste movimento, além da submissão - do ensino
superior à política educacional da ditadura – ao interesse do grande capital que
conteve o acesso à graduação e reduziu a alocação de recursos públicos que
foram canalizados para o investimento em áreas prioritárias aos monopólios,
também o fato de a educação superior transformar-se no grande negócio de
investimentos para a iniciativa privada. Por isso, Netto enfatiza que o “saldo” mais
significativo da ditadura foi à acentuada degradação da rede pública, paralela a
uma inédita escalada privatizante (1998, p. 63). O impacto social disso é de toda
ordem, na medida em que se esvaziam da universidade os quadros contraditórios
e tensos que ligam esta instituição ao movimento das classes sociais e conforma o
ensino superior na produção de quadros limitados à racionalidade formal-
burocrática e à voga do estruturalismo.
Estas rápidas observações são necessárias para compreender o
elemento de peculiaridade que marca os impactos da Reconceituação no Brasil,
de modo que a ditadura colocou condições novas para as práticas e
representações profissionais. Tão verdadeira é esta afirmativa que, segundo
Netto, a renovação do Serviço Social, no Brasil, mesmo que não possa se reduzir
os seus múltiplos condicionantes às constrições do ciclo ditatorial, é impensável,
tal como se realizou, sem a referência à sua dinâmica e a sua crise (idem, p. 116).
Excetuando a experiência de Belo Horizonte, de que resultou o célebre “Método
BH” (a que nos referiremos adiante), a renovação entre nós reduz-se
praticamente à incorporação de vetores desenvolvimentistas (Netto, 2005).
60

Justamente porque, de um lado, o segmento mais crítico do movimento de


reconceituação brasileiro foi silenciado pelo golpe militar de 1964; de outro, o
impacto da política cultural da ditadura efetua uma corte da ligação profissional
com os setores mais progressistas da sociedade.
Neste sentido, dada a sua dialética de modernizar conservando, a
ditadura, por meio de discursos e ações governamentais joga claramente na
validação e no reforço do Serviço Social tradicional (Netto, 1998, p. 117) que na
década de cinqüenta, no Brasil, respondeu por todos aqueles elementos
diferenciais ligados ao desenvolvimentismo que abordamos anteriormente. Para
Netto (ibidem), esta validação conferia o atendimento de necessidades em duas
vias: uma, que reforçando os traços subalternos da profissão, garantia um
contingente expressivo de profissionais executores das políticas sociais
localizadas; e outra, que controlava setores profissionais possivelmente
conflituosos com os meios e objetivos das estruturas organizacional-institucionais
em que se inseriam tradicionalmente os assistentes sociais. Nestes termos,
hegemonizou-se a idéia de adequar a profissão às exigências institucionalizadas
da autocracia burguesa. Desta forma, evidencia-se uma manutenção das
modalidades de intervenção e (auto) representação profissionais presentes desde
os anos cinqüenta até cerca de 1975.
Esta afirmação, porém, não deve levar ao equívoco de pensar que a
autocracia burguesa apenas reafirmou estes elementos. Na medida em que seu
movimento imanente instaurou condições novas, sobretudo na reorganização do
Estado e nas modificações significativas operadas sob o comando do grande
capital, que apontamos anteriormente, opera-se uma expressiva reformulação do
cenário do Serviço Social; e é esta reformulação que torna a profissão, de um
lado, compatível com as exigências próprias a autocracia, e de outro, consolida
um perfil profissional diverso daquele sintonizado exclusivamente com o
tradicionalismo. Para Netto (idem), esta reformulação se dá em dois níveis
diferenciados, mas extremamente imbricados.
Um primeiro se refere à prática profissional, pois, sob a autocracia
burguesa, engendrou-se um mercado nacional de trabalho, macroscópico e
61

consolidado para os assistentes sociais (Netto, idem, p. 119). O desenvolvimento


das forças produtivas operadas neste período, haja vista a industrialização
pesada, acentuou ainda mais as refrações da “questão social”, que passaram
amplamente a serem administradas pelas políticas setorializadas do Estado 42
ditatorial. Tem-se uma refuncionalização do sentido das políticas e, com isso, a
necessidade de um corpus organizacional encarregado de planejá-las e executá-
las; daí uma necessidade do aumento quantitativo do contingente dos quadros
técnicos do Serviço Social.
Neste sentido, a demanda contém em si uma nova teleologia, a da
compatibilização do desempenho profissional com as normas, fluxos, rotinas e
finalidades próprios a uma racionalidade “moderna”, no sentido do seu controle e
da sua verificação por meio de critérios burocráticos administrativos, das
instâncias hierárquicas. De acordo com Netto, são essas exigências que criam o
vetor de erosão do Serviço Social tradicional, pois elas implicaram num
dimensionamento técnico-racional – quer no nível de legitimação das práticas,
quer no nível da condução – que derruía os comportamentos profissionais
impressionistas, fundados conseqüentemente em supostos humanistas abstratos
e posturas avessas ou alheias às lógicas da programação organizacional (idem,
p. 123).
O segundo nível, intimamente imbricado ao primeiro, refere-se à
formação (Netto, idem, p. 124). Na medida em que a autocracia burguesa
demanda um novo perfil profissional, reclama-se uma refuncionalização das
agências de formação, elas mesmas já tensionadas pela política
refuncionalizadora e expansionista da ditadura para o ensino superior, a que
aludimos anteriormente. Contudo, diferente de outras profissões que têm sua
formação igualmente reconfigurada, este processo significou para a formação em
Serviço Social a sua inserção no circuito universitário. As escolas isoladas de
Serviço Social passam a compor os complexos universitários. Isto explica, de um
42
Cabe ressaltar que, neste período, principalmente a partir do final dos anos
sessenta, com o crescimento industrial e o milagre econômico e com uma clara
necessidade de controle da força de trabalho, o mercado profissional nacional
passa a ser dinamizado por um outro setor, até então residual para a inserção do
Serviço Social: o setor empresarial.
62

lado, a fragilidade dessa formação frente às configurações do ciclo ditatorial, e, de


outro, explica a pouca capacidade de filtragem frente ao vazio intelectual que
assolava as disciplinas universitárias, em especial às disciplinas vinculadas às
ciências sociais (sociologia, psicologia social, antropologia) já conformadas pelos
quadros limitados da racionalidade formal-burocrática (positivista-funcionalista) e
pelo estruturalismo.
Assim, evidencia-se que a modernização conservadora constitui-se na
primeira expressão do movimento de renovação profissional e está fundada
claramente como a face mediatizada, por todos os elementos até aqui
sinalizados, da autocracia burguesa. Esta perspectiva foi afirmada e cristalizada,
respectivamente, pelos Documentos resultantes dos Seminários de Araxá
(ocorrido em 1967) e Teresópolis (ocorrido em 1970) 43, e sua funcionalidade fica
claramente expressa na ausência de crítica direta ao regime que os contextualiza.
Contraditoriamente, como bem analisado por Netto (1998), ao
refuncionalizar a contextualidade da prática profissional e ao redimensionar as
condições da formação dos quadros, por ela responsáveis, o regime autocrático
burguês deflagrou tendências que continham forças capazes de apontar para o
cancelamento da sua legitimação. Nas palavras do autor, instaurando condições
para uma renovação do Serviço Social de acordo com as suas necessidades e
interesses, a autocracia burguesa criou simultaneamente um espaço onde se
inscrevia a possibilidade de se gestarem alternativas às práticas e às concepções
profissionais que ela demandava (Netto, idem, p.129).
Ainda segundo Netto (ibidem), podemos sumariar esta
contraditoriedade em alguns aspectos fundamentais. Um primeiro, colado à
culminação do processo de laicização, iniciado nos finais da década de cinqüenta,
que encontra sustentáculo efetivo com a modernização conservadora. Essa
laicização ampliada, se assim podemos chamá-la, efetiva uma ruptura com a
direção consensual que predominava na profissão até a abertura dos anos
sessenta. Instaura-se, assim, um pluralismo que abarcará as esferas teóricas,
ideológicas e políticas. São herdeiros deste pluralismo tanto o deslocamento,

43
A análise criteriosa destes documentos encontra-se em Netto (1998).
63

operado pelos Seminários de Sumaré 44 e Alto da Boa Vista, da perspectiva


modernizadora, como a reatualização do conservadorismo. Num plano mais
progressista, a intenção de ruptura também se beneficiou desse pluralismo, na
medida em que somente quando este passa a ser viabilizado internamente na
profissão, pelas condições estruturantes da autocracia burguesa, é que se podem
gestar os elementos para o questionamento do conservadorismo profissional.
A compatibilização profissional para o atendimento de demandas
prático-operativo requereu, dadas as especificidades postas em processo, uma
solidificação das elaborações ideais, voltadas a uma validação teórica. Esta se dá
tanto num processamento que remete à diferenciação de concepções
profissionais advindas da instauração do pluralismo e que implica num recurso a
matrizes teórico-metodológicas alternativas como numa contingência articuladora
dos debates teórico-metodológicos da profissão com as discussões presentes no
circuito universitário, em especial com o conjunto das ciências sociais. É este
processo que, contraditoriamente, abriu a via para a constituição, na profissão, de
segmentos de vanguarda inseridos na vida acadêmica e voltados à investigação e
a pesquisa.
É dessa forma que as questões postas até aqui vão configurar um
quadro geral dos acúmulos de cunho teórico, político e ideológico para a
profissão, matizando as contradições inerentes ao processo que possibilitam que
o Serviço Social ponha em xeque a perspectiva modernizadora. Ao mesmo
tempo, dado o imbricamento de toda ordem dos estratos profissionais, em suas
diversas dimensões, com a autocracia burguesa; o questionamento efetivo da
perspectiva modernizadora só ganha substrato quando o próprio regime que lhe
deu sustentáculo começa a entrar em crise (Netto, 1998). Por esse motivo, é
somente na segunda metade dos anos 1970 que se faz sentir no Brasil a

44
É neste encontro que a professora Creusa Capalbo realiza duas intervenções
orais, uma relativa a Algumas considerações sobre a fenomenologia que podem
interessar ao Serviço Social e outra intitulada Considerações sobre o pensamento
dialético em nossos dias. Nesta última intervenção, a professora, sem muita
sustentação teórica, expõe a questão do método dialético na tradição marxista, a
questão do Estado, da hegemonia, dos intelectuais e do bloco histórico segundo o
pensamento de Antonio Gramsci (Cf. Simionato, 1995).
64

repercussão das tendências que, na Reconceituação, apontavam para uma crítica


radical do tradicionalismo. Neste sentido, essas ressonâncias tornam-se cada vez
mais expressivas quanto mais avançam as forças democráticas na cena política
nacional.

1.2. A “intenção de ruptura”

Para pensarmos a processualidade da intenção de ruptura, precisamos


situá-la inicialmente condicionada, e posteriormente alargada, pelas inflexões da
autocracia burguesa. Como sinalizamos anteriormente, é no desenvolvimento,
consolidação e erosão da autocracia burguesa que se explicam, no plano geral,
as peculiaridades assumidas pelos rebatimentos do Movimento de
Reconceituação no Brasil, como também o que aqui chamamos de
processualidade da intenção de ruptura - na medida em que ela manifesta a
intenção de romper, por meio de uma crítica sistemática, com o Serviço Social
tradicional em seus suportes teóricos, metodológicos e ideológicos – numa
conjuntura nacional e profissional extremamente fechada a vetores progressistas
e críticos. Tão significativa é esta perspectiva frente ao quadro de modernização
conversadora dominante na profissão que Netto chega mesmo a dizer que, das
tendências renovadoras brasileiras, é a perspectiva da intenção de ruptura a que
mais proximidade teve com o espírito crítico da reconceiptualização (1998, p. 247
– nota 283).
Por isso, entendemos que a apresentação, elaborada por Netto (idem),
da intenção de ruptura em três momentos diferenciáveis é extremamente
pertinente para pensar a sua processualidade. Mais ainda, é esta processualidade
que explica o condicionamento sociopolítico que marca a interação tardia entre
esta vertente mais crítica do Serviço Social brasileiro com as vertentes
contestadoras da Reconceituação latino-americana. Para Netto (idem), trata-se de
um movimento interativo invertido posto que, quando por volta de 1975 se abrem
65

as vias para a absorção45 pelo Serviço Social brasileiro dos contributos críticos da
reconceituação, estes já estão vivenciando a crise, nos seus países de origem, de
seus suportes sóciopolíticos. Basta mencionarmos a derrocada da Unidade
Popular Chilena, em setembro de 1973 e a instauração da ditadura na Argentina
em março de 1976. Dessa forma, a intenção de ruptura apresenta os momentos:
da sua emersão, da sua consolidação acadêmica e do seu espraiamento sobre a
categoria profissional (Netto, idem, p. 261).
No que diz respeito à sua emersão, esta pode ser demarcada entre
1972 e 1975 no trabalho dos profissionais da Escola de Serviço Social da
Universidade Católica de Minas Gerais, os quais formularam o “método de Belo
Horizonte” 46
, conhecido como Método BH. Mesmo constituindo-se como a
primeira formulação47 brasileira da intenção de ruptura - balisada por uma
proposta crítica no âmbito teórico-prático do tradicionalismo profissional e de
caráter global, apresentando propostas alternativas para o plano teórico-
metodológico, da intervenção e da formação –, ela permanecerá marginalizada no
país48 até o final da década de 1970, sendo seu processo de constituição

45
Aqui já se verifica o acesso aos materiais divulgados pelas editoras portenhas
Ecro e Humanitas, com textos de Ander-Egg, Kruse, Kisnerman e Boris Lima. E é
de dezembro de 1976 o surgimento da revista Acción Crítica, do CELATS.
46
Para o maior aprofundamento acerca do caldo cultural que viabiliza que Belo
Horizonte constitua-se num espaço social adequado a expressão desse projeto de
intenção de ruptura, ver Netto, 1998.
47
Esta experiência, que se realizou nos anos mais obscuros da ditadura - o
estágio do militar-fascismo - desmistifica a idéia de que nesse período era
impossível qualquer resistência, por menor que ela fosse. Nestes termos, a
elaboração do método B.H. é a prova cabal que faz cair por terra este mito.
48
Interessa sinalizar, como bem observado por Netto (1998), que este insulamento
era localizado na fronteiras nacionais. No contexto da América Latina, essa
perspectiva foi alvo de intenso debate junto às vanguardas contestadoras da
profissão. A exemplo disso, basta mencionarmos a sua difusão já no Seminário
Latinoamericano para Profesionales en Trabajo Social, realizado em Ambato,
Equador em julho de 1971. Este fenômeno se explica facilmente pelo quadro
sociocultural que marcam os anos da sua emersão, e que por nós já foi sinalizado.
66

interrompido com a demissão49 de seus principais formuladores. Instauram-se


assim, as circunstâncias institucionais que impedem a sua continuidade.
A curta durabilidade objetiva dessa experiência não diminui seu
ineditismo para o Serviço Social brasileiro, nem o impacto posterior que projetará
para a profissão em seu desenvolvimento no marco democrático. Na tríade dos
documentos centrais da reflexão do grupo (A prática como fonte de teoria; Uma
proposta de reestruturação da formação profissional e Análise histórica da
orientação metodológica da Escola de Serviço Social da Universidade Católica de
Minas Gerais) encontra-se o caráter amplo de suas formulações e mais ainda a
tônica que acompanhará os avanços posteriores da intenção de ruptura.
Particularmente, trata-se da sua base teórica e ideopolítica (Netto, 1998) que
fundamenta e historiciza a análise do objeto e objetivos profissionais, e, ao fazê-lo
repudia a assepsia ideológica e o transclassismo 50 tão necessário para o
tradicionalismo profissional.
Nestes termos, dados os traços de sua constituição e o eixo de
encaminhamento de suas preocupações, evidencia-se que a sua constituição está
fortemente vinculada ao resgate crítico das tendências presentes no pré-64, bem
como das correntes progressistas e de esquerda que fermentaram a cena pública
até 68-69, e toma forma por meio de quadros docentes e profissionais cuja
formação se dera entre as vésperas do golpe e a fascistização assinalada pelo AI-
5. Para Netto (idem), esta perspectiva da intenção de ruptura expressava
geneticamente, no plano do Serviço Social, as tendências mais democráticas da
sociedade brasileira próprias da década de sessenta.

49
Não existe uma documentação que aborde claramente o contexto dessa crise. À
época, os professores e a coordenação encaminham uma Carta Aberta que,
segundo Netto (1998), pouco esclarece seu processo. Contudo, pensamos que
dada a intervenção ditatorial junto aos quadros universitários nesse período, se
isto não esclarece, pelo menos contextualiza o quadro vivenciado na universidade
em geral e em Belo Horizonte em especial.
50
É claro, como bem analisa Netto (1998), que estes elementos não passam sem
problemas - tanto que este autor procede a uma crítica dos problemas de maior
gravitação. Contudo, estes não diminuem a significância inaugural (leia-se da
demarcação política) desse processo para o Serviço Social brasileiro. .
67

É este caldo cultural e ídeo-político que possibilita – dado o seu nítido


caráter de contraposição política à ordem instituída – que a profissão se depare
com as tensões sociais, não apenas no movimento de conformá-las e adequá-las,
mas expressando-as internamente e favorecendo, assim, o reconhecimento da
dimensão política como parte do corpus profissional. Neste sentido, todos estes
elementos, em especial este último, para o entendimento interno da profissão,
concorrem para que a perspectiva da intenção de ruptura movimente-se por meio
de um caráter de oposição à autocracia burguesa (Netto, idem).
Isso fica expresso nos seus referenciais teórico-culturais, que negavam
as legitimações autocráticas quer no plano profissional, com objetivos que se
chocavam com o perfil do profissional requerido pela modernização
conservadora; quer no plano político, alicerçando-se em concepções de
participação social e cidadania que eram avessas às da institucionalidade da
ditadura. Ao mesmo tempo, ao referenciar uma crítica ao processo autocrático
burguês, estabelece os meios para realizar uma crítica aos vetores profissionais
que se “abstiveram” de fazê-lo. Dessa forma, as suas projeções continham e
apontavam para a necessidade de uma crítica tanto à modernização
conservadora como à reatualização do conservadorismo.
É este quadro acima delineado que explica o insulamento inicial desta
perspectiva no âmbito da universidade. Na medida em que o clima próprio ao
período militar-facista tornava inviável o desenvolvimento do projeto da ruptura no
âmbito da prática profissional estrita, tanto na área estatal como na privada,
estreitava-se o terreno para inovações prático-profissionais de ruptura. Em outra
face, colocando-se inicialmente como produto universitário, é este espaço que
torna possível o desenvolvimento e a interação intelectual 51 dos assistentes
sociais, agora “livres” das demandas imediatas da prática profissional, com outras
áreas de saberes.

51
Netto ressalta ainda que é este movimento que permite às tendências
vinculadas a intenção de ruptura tanto uma interlocução nova entre assistentes
sociais e profissionais das ciências sociais e humanas como uma relação prático-
operativa inovadora com os usuários de seus serviços (1998, p. 251 – nota 287).
68

Assim, são estes elementos que configuram, na processualidade da


intenção de ruptura, a sua consolidação acadêmica. Pois ela vai se dar na medida
em que a conjuntura sócio-política inviabilizava sua operacionalização em outros
espaços e na medida em que a universidade, ainda que enquadrada e
amordaçada, apresentava-se como um espaço “mais seguro” para o
desenvolvimento da intenção de ruptura.
Não é desnecessário enfatizar que, neste período, acentua-se a
neutralização da educação e amplia-se o esvaziamento a que a universidade – do
ponto de vista da sua retroalimentação social, limitando seus trabalhos aos muros
acadêmicos e esvaziando seus sentidos na lógica formal-burocrática – estava
submetida. Mais, a universidade foi alvo de intervenção direta no período ditatorial
em questão, que redundou em demissões e perseguição de seus quadros.
Neste sentido, não se podem supor facilidades (mesmo que se tenham,
por exemplo, desenvolvido pesquisas e elaborações que na profissão
apresentavam-se extremamente débeis) para o desenvolvimento da intenção de
ruptura nos muros universitários. Antes, devemos falar em maior permeabilidade
da universidade, dada a sua estrutura, até em termos de um “marxismo
acadêmico” tão afeito às ciências sociais da época e de hoje, que suprimem
dessa teoria seus três eixos basilares: a teoria do valor trabalho, a ortodoxia do
método e a perspectiva da revolução. A existência deste discurso teórico
formalmente de esquerda acabou por cumprir a função de uma apologia indireta,
pois, como bem observa Netto, tanto exercitou-se uma contestação abstrata do
regime autocrático burguês quanto, por isso mesmo, ofereceu a este uma
possibilidade de legitimação pelo aparente pluralismo que sugeria tolerar (1998, p.
66).
Dessa forma, ainda que a consolidação acadêmica não passe sem
problemas, ao mesmo tempo ela é extremamente importante para dar
sustentação às forças profissionais que explodirão com a erosão da ditadura, na
media em que é a ela que se debita, explícita ou discretamente, a remissão à
tradição marxista52.
52
Como veremos no próximo item, essa relação deu-se de maneira tensa e
sinuosa.
69

Este quadro, explica aquilo que Netto (idem) configurou em dois


patamares expressivos desta consolidação acadêmica: um que vai até a abertura
dos anos 80 e se constitui como uma análise crítica das principais propostas de
renovação profissional em geral; ou seja, está centrado numa abordagem mais
crítico-analítica. E um segundo, que cobre o primeiro terço da década de 1980 e
que, balizando-se pelos ganhos desse primeiro momento, avança para
elaborações mais crítico-históricas apoiadas nomeadamente nas concepções
teórico-metodológicas, colhidas em suas fontes originais.
Assim, criam-se as condições teórico/políticas para se pensar
criticamente o Serviço Social, de modo que se constitui uma maioridade
intelectual e teórica da perspectiva de ruptura. Segundo Netto (1998), são
justamente estes dois momentos diferenciáveis - o da sua emersão, o da sua
consolidação acadêmica - que possibilitam a intenção de ruptura agregar forças
para o seu terceiro momento: o do espraiamento para o conjunto social. Este se
abre por volta de 1982-1983, favorecido pelo clima de transição democrática,
dado o seu visível caráter de oposição à ordem instituída, e assinala a inserção
das posições vinculadas à intenção de ruptura em todas as instâncias da vida
profissional nos debates da categoria, dando o tom da produção intelectual e
atingindo as organizações representativas dos assistentes sociais.

1.3. A ruptura teórica do Serviço Social: a incorporação do


marxismo

As questões pontuadas até aqui nos permitem chegar a um ponto


extremamente importante para o encaminhamento desse trabalho, qual seja: o
contexto em que se realiza a interação entre o Serviço Social e a tradição
marxista - posto que é no bojo da emersão e desenvolvimento da intenção de
ruptura que podemos demarcar esta aproximação. Cumpre-nos agora analisar,
minimamente, as condições efetivas desse processo, suas determinações e suas
problemáticas e diversidades específicas.
70

O marco inaugural da emersão da intenção de ruptura, o “Método BH”,


o é também para pensar a relação entre Serviço Social e marxismo, bem como
aquela que poderemos considerar a problemática central dessa interação, qual
seja: o viés da tradição marxista a que ela está vinculada. Esta é uma tônica
presente no desenvolvimento dessa relação, posteriormente superada quando o
recurso ao legado marxiano se efetiva, mas que contém um elemento que se
contemporaneiza - o fato de se efetivar por meio de um hiato que se realiza entre
a elaboração teórico-metodológica e política e sua instrumentação técnico-
operativa.
Este hiato, ainda que idealmente pareça marcar o horizonte
profissional, mesmo sob a lente marxista, acaba reafirmando uma séria dicotomia
entre a teoria e prática, na medida em que desde seus primeiros ímpetos no
Serviço Social o marxismo serviu para justificar um forte traço de militantismo,
caucionado no que seria a aposta em uma prática transformadora.
Ao mesmo tempo, esta perspectiva marxista no Serviço Social só
ganha substratos profissionais quando o caldo conservador que a precedeu é
posto efetivamente em xeque. Ou seja, é somente quando o conservadorismo é
colocado em questão, pela conjuntura histórico-social refletida no interior da
profissão, que se criam as condições para que o Serviço Social brasileiro possa
pensar-se histórico-criticamente. Este movimento é marcado pela obra de
Iamamoto e Carvalho, com posterior desdobramento na literatura profissional,
efetivando aquilo que consideramos a real ruptura com o tradicionalismo que se
dá no campo teórico, com a incorporação do marxismo.
Santos (2007) nos apresenta interessante categorização para
pensarmos as nuances das aproximações sucessivas entre o Serviço Social e o
marxismo. O primeiro momento dessa aproximação, chamado pela autora como
apropriação ideológica do marxismo, é aquele que diz respeito, naquilo que já
está consagrado na bibliografia53, com o período fortemente marcado pelo peso
das necessidades ídeo-políticas, com reduzida exigência teórica e por isso
fortemente instrumental. Ou seja, opera-se pela via da militância política. Neste

53
Conferir Iamamoto (1995a), Netto (1998) e Silva e Silva (2002).
71

momento, dado o clima da época, a instrumentalização era a forma para legitimar


estratégias e táticas (Netto, 1998, p. 268), sendo essa a sua conseqüência mais
forte.
Tais elementos, numa mescla paradoxal, estão presentes na
experiência de Belo Horizonte. Na medida em que ela encerra efetivamente a
primeira interlocução mais sistematizada da intenção de ruptura com o marxismo,
ela se faz não referenciando as fontes originais (o pensamento marxiano) e sim
uma certa tradição marxista, que à época respondia por uma vulgata de
marxismo. O aparente paradoxo reside, para a intenção de ruptura, na
necessidade de sua explicitação política sem a explicitação acerca do padrão
societário que se deseja referenciar. Ou seja, é uma elaboração marxista que
carece de uma projeção socialista e que mesmo sem esta projeção traz para o
seio do universo profissional, por meio dos objetivos de transformação social que
se propunha, uma legitimidade que só pode ser posta como perspectiva histórica
de enquadramento do projeto de profissão e não seu, na linguagem da
documentação belo-horizontina, objetivo-meta (a transformação da sociedade).
Nesse momento, como travejamento dessa estrutura teórico-
metodológica, recolhe-se da tradição marxista o visceral empirismo que se escora
em extratos do maoísmo e lhe dá uma iluminação teórica via redução do arsenal
marxiano ao epistemologismo de raiz estruturalista – donde a reiteração de
discussões sobre idealismo, materialismo, ciência e ideologia, teoria e prática
(Netto, 1998, p. 268).
Assim, o que aqui se verifica é um claro impacto de uma versão
reducionista do marxismo. Nesta concepção, a obra de Marx aparece como uma
sociologia científica que desvenda o mecanismo da evolução social a partir da
análise da situação econômica 54 (ibidem). Neste processo, a obra de Marx
54
Isto evidencia a importância de História e Consciência de Classe. Nesta obra,
Lukács estabelece um claro confronto contra as concepções teóricas da II
Internacional e o faz sob uma argumentação que resguarda com fidelidade a
especificidade da teoria marxiana, qual seja: não se trata da dominância dos
motivos econômicos na explicação histórico-social, mas no princípio metodológico
de considerar a totalidade. Por isso, nesta mesma obra, sua brilhante formulação
de que em matéria de marxismo, a ortodoxia se refere antes e exclusivamente ao
método (Lukács, 1969, p. 64).
72

aparece totalmente destituída de sua relação contraditória e dialética com a


filosofia.
Nestes termos, revela-se um corte extremamente positivista que
comparece na obra dos teóricos da social-democracia e que, na prática política,
acabava por legitimar um evolucionismo sócio-político sustentado pela noção da
inevitabilidade da transição socialista. Mais que isso, evidencia-se uma clara
ruptura entre o sujeito e o objeto da prática social, uma interdição do âmbito da
práxis e uma aceitação imediata do social como um dado, na medida em que a
realidade – inevitavelmente destinada ao socialismo – aparece sem uma
legalidade própria e independente da intervenção da prática sócio-humana.
Dessa forma, a implicação desta “filtragem” para a profissão é clara: a
aproximação não se dá por meio das fontes marxianas, mas especialmente por
divulgadores, como é o caso (em níveis muito diversos) de Althusser e M.
Harnecker. A unilateralidade desta apreensão encontra uma base fértil, num
momento profissional em que se tencionava efetuar uma ruptura com a
neutralidade técnica. No dizer de Quiroga,
É interessante notar que esse processo não rompeu
radicalmente com uma herança conservadora, de cunho
positivista e irracionalista, predominante, historicamente no
Serviço Social, o que vai constituir-se num dos fatores
explicativos da aproximação tardia da profissão ao debate
do marxismo e à sua incorporação, por via de um marxismo
positivista, suavizado nos moldes de Althusser e Harnecker.
Pode-se, portanto, concluir que a reconceituação levou a
uma ruptura política que não foi acompanhada por uma
ruptura teórica com essa herança conservadora (1991, p.
88).
O segundo momento dessa aproximação é o que Santos (2007) chama
de apropriação epistemológica, marcado pelas elaborações que passam a
recorrer às fontes mais originais. Neste, abrem-se as condições efetivas para
fissuras na tônica dominante na profissão. Então, o quadro da transição
democrática repõe a política e a história como objetos práticos inelimináveis e
possíveis de reflexão e, ao mesmo tempo, a elaboração passa a incorrer as
fontes mais originais.
73

O caráter inaugural desta perspectiva vai se dar na obra de Marilda


Iamamoto e Raul de Carvalho. Aqui o caráter inaugural, para a profissão, reside
na justa compreensão que tem da postura teórico-metodológica marxiana. O eixo
central da obra é a recusa a uma leitura interna do Serviço Social – que buscava
a sua especificidade no seu objeto, objetivos, procedimentos e técnicas – e que
passa a uma abordagem da profissão como instituição própria da ordem social
burguesa. Procura, pois, compreender o significado social do exercício
profissional em suas conexões com a produção e a reprodução das relações
sociais na formação social vigente na sociedade brasileira (Iamamoto e Carvalho,
1995b).
Esta obra também coloca em debate uma questão central. Não se trata
tão somente de efetivar uma abertura conseqüente para a abordagem histórica da
profissão, restringindo-se à análise de sua origem e de sua evolução; ao
contrário, ela acaba por constituir-se como uma perspectiva que pensa a
profissão em sua totalidade, abrindo a via para o debate crítico acerca do
positivismo e do conservadorismo no seio profissional. Ou seja, desobstrui-se o
canal para pensar como certas características da profissão vêm se repondo ao
longo do desenvolvimento profissional tanto do ponto de vista da elaboração
teórica como da prática.
Neste sentido, tal obra expressa uma afirmação e aprofundamento da
perspectiva da ruptura, mas efetivamente esta só conseguirá se materializar
numa hegemonia em processos profissionais posteriores; ao mesmo tempo, os
pontos expressivos deste debate vão ser verificados em torno das disputas que
articularam o Código de Ética Profissional 1986 e na formação profissional, mais
precisamente no currículo de 198255·.

55
O marco para a gênese desses debates pode ser verificado no III Congresso
Brasileiro de Assistentes Sociais, de 1979. Neste evento, a profissão publiciza a
sua ruptura com a prática conservadora e volta-se à articulação com os setores
populares; criam-se também os mecanismos de articulação nacional da entidade.
Pouco antes, em 1978, surgira a Comissão Executiva Nacional de Entidades
Sindicais de Assistentes Sociais (CENEAS), que passou a articular as entidades
de base em nível regional no sentido de construir um sindicalismo autêntico de
luta, fora dos moldes vigentes, sem vínculos com o Estado. Em 1983, foi abolida a
CENEAS para a criação da Associação Nacional dos Assistentes Sociais (ANAS),
74

O debate em torno do código de 1986, na profissão, foi viabilizado


objetivamente pela redemocratização da sociedade brasileira e nutriu-se do
amadurecimento da intenção de ruptura, acima mencionado. Existe neste
momento uma visível influência do pensamento gramsciano (a que voltaremos
adiante), que favorece dentro do corpo profissional tensões com relação à sua
opção política, iniciando-se, assim, a possibilidade de construção de um novo
ethos.
Contudo, do ponto de vista da produção sobre a ética, evidencia-se
que a concepção de ética, presente nos códigos anteriores 56, permanece
praticamente inalterada em suas bases de sustentação. No dizer de Barroco, há
uma subordinação imediata da ética à política, da ética à ideologia (2001, p. 170).
Para a autora, ainda que nesse momento não se tivesse produzido uma literatura
sobre a ética, existiam bases teóricas para superar a concepção tradicional;
contudo, isso não se explicitou no Código de 1986 (voltaremos à questão da ética
no próximo capítulo).
Do ponto de vista da formação, só é possível entender suas
especificidades se acentuarmos o novo protagonismo da Associação Brasileira de
Ensino em Serviço Social – ABESS 57, que se faz sentir nos inícios da década de

em uma conjuntura importante para a classe trabalhadora, com a fundação da


Central Única dos Trabalhadores - CUT. Em 1994, a ANAS é extinta e a maioria
da categoria deliberou que se filiaria à CUT; grosso modo, o argumento que
sustentou esta filiação baseava-se no entendimento de que existia apenas uma
classe trabalhadora e que os trabalhadores deviam organizar-se conforme o ramo
de atividade em que estão inseridos, abdicando de um sindicato corporativo. Essa
opção foi uma tentativa de ampliar o movimento e de fortalecer a luta dos
trabalhadores, entendendo que a configuração por categoria maximizava o
corporativismo. Uma análise detalhada deste processo pode ser obtida em
Abramides e Cabral (1995).
56
O primeiro Código de Ética da profissão foi formulado em 1947 e encontrava-se
impregnado de valores cristãos. Os Códigos de 1965 e de 1975 também mantêm
essa direção mas, segundo Barroco (2001), já apontam alguns elementos
diferenciados. Os códigos de ética profissional encontram-se reunidos numa
Coletânea de 2003 organizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Ética –
GEPE do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade
Federal de Pernambuco.
57
As discussões acerca da formação profissional vão verificar-se já em 1975 quando a ABESS
promove uma ampla discussão na XIX Convenção Nacional da entidade. Esta discussão é
aprofundada em 1977, na XX Convenção Nacional que deliberou sobre a elaboração de uma
75

1970. Esta entidade passou a elaborar e reformular o currículo do curso de


Serviço Social, capacitando docentes, estimulando a criação de programas de
pós-graduação e incentivando a produção científica, especialmente com a criação
do Centro de Documentação em Políticas Sociais e Serviço Social – CEDEPSS
como órgão acadêmico de divulgação e incentivo de pesquisas na área. Além
disso, o próprio protagonismo do Serviço Social no contexto universitário, o
surgimento da pós-graduação com significativo aumento da produção teórica, da
busca de alternativas para capacitação continuada para os profissionais em
exercício profissional; o avanço do movimento estudantil de Serviço Social como
força expressiva de construção do projeto de formação profissional e a
participação articulada das entidades representativas da categoria (ABESS,
CFAS, CRAS’S, ENESSO) foram decisivos para o processo de revisão curricular
e possibilitaram uma ampliação da compreensão do mesmo, que passou a ser
entendido para além da constituição da grade curricular. O debate articula-se
mediante as dimensões fundamentais para a constituição de um projeto
educacional que tivesse como suposto a indissociabilidade do ensino, pesquisa e
extensão. Daí o processo de revisão curricular ter-se efetivado a partir de um
amplo debate e mobilização de professores, alunos e profissionais. Estes foram
marcados por divergências teórico-políticas que terão fortes repercussões na
constituição e compreensão profissional acerca da formação nos anos 80.
Todo o processo acima sumariado fica expresso nas Diretrizes
Curriculares de 1982, mas a centralidade do debate realizado à época vai ser a
segmentação da profissão pensada a partir da sua história, da sua teoria e do seu
método. Ao mesmo tempo, este período também é vincado por uma série de
questionamentos com relação ao caráter formalista e instrumentalizador da
formação profissional, por uma tentativa de superação 58 da proposta de formação

proposta para o novo currículo. Esta proposta foi aprovada em 1979, na XXI Convenção Nacional,
em Natal, tendo ainda sido tema central na XXII Convenção realizada em 1982, cujo tema era “A
formação profissional do Assistente Social no Brasil”. No movimento estudantil, a discussão acerca
da formação profissional se deu nos Encontro Nacional de Estudantes de Serviço Social - ENESS,
sendo a reforma curricular de 1982 tema central, especificamente no I e no II ENESS.
58
As gestões da ABESS (desde 1998, Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço
Social – ABEPSS) de 1981-1983 e 1983-1985 demarcaram claramente a preocupação da entidade
com a questão da formação profissional. Sob estas gestões realizou-se uma pesquisa, iniciada em
1982, sobre “A formação profissional do Assistente Social no Brasil: determinantes históricos e
76

profissional encetada no Currículo de 1970, de caráter extremamente cientificista


dentro dos moldes desenvolvimentista, e que tinha como preocupação central
aperfeiçoar e criar instrumentos para o Serviço Social.
Contudo, os setores que tinham interlocução com o marxismo, neste
período, acabaram por apropriar-se dele como um “modelo”, de modo que a
profissão foi, predominantemente, pensada a partir de seus componentes
constitutivos “em si”. Assim, apesar dos avanços consolidados na profissão, a
revisão curricular de 1982 não conseguiu superar totalmente o tradicionalismo
pragmático. Isto levou a um distanciamento profissional da realidade social em
que estava inserido, pois, sem uma real apreensão das problemáticas que
permeavam o Serviço Social, desconstruiu-se, na mesma medida, a possibilidade
de um fazer profissional capaz de mediar as categorias de análise e os objetos da
prática, no cotidiano do exercício profissional (Cf. ABESS, 1997).
Neste sentido é que a forte marca desse processo vai ser uma
discussão em torno da “metodologia”. Esta aparece nas diversas posições
expressivamente postuladas no Caderno ABESS número 03. Um setor apoiava a
idéia de um estatuto teórico-metodológico próprio ao Serviço Social. Este
argumento era sustentado no entendimento de que, na prática profissional, o
assistente social elaborava materiais teóricos que dela decorrem, mas ao mesmo
tempo a subsidiam. Outra posição defendia o Serviço Social como equivalência
de uma práxis política, cuja função na divisão social do trabalho seria a realização
de um trabalho político para o qual os serviços sociais eram o meio. Verifica-se
assim que, nestas duas posturas, incorrem-se equívocos tanto do entendimento
da especificidade da teoria e da prática, bem como se situa de forma equivocada
a inserção do Serviço Social na divisão social do trabalho (também voltaremos a
esta questão no capítulo 03).
Para Santos (2007), a superação deste segundo momento vai se dar
no que a autora denominou de apropriação ontológica da vertente crítico-dialética
- recente no debate profissional, datando da década de 90 e que pode ser,

perspectivas”. A XXIV Convenção de ABESS também explicita claramente o processo de


redefinição da entidade, que passa a ampliar a discussão da formação profissional tanto para as
unidades de ensino como para a própria categoria.
77

segundo a autora, constatado em pelo menos três debates centrais: a formulação


do Código de Ética Profissional de 1993, a Lei de Regulamentação da Profissão e
a Revisão Curricular de 1996.
Para a autora, neste momento é possibilitado o desvelamento de
questões fundantes para a ruptura com o conservadorismo (Santos, idem, p. 78),
pois se extrapola a endogenia da década de 1980, permitindo que se situe a
sociedade como o centro do debate profissional. Então, captam-se as mediações
que estavam, em grande parte, ausentes no momento anterior e que passam a
ser sistematizadas nos valores, princípios e direção política que balizam o projeto
ético-político profissional.

CAPÍTULO II
78

G. LUKÁCS NO BRASIL

É indispensável, a nosso juízo, para situar a incidência de Lukács no


debate profissional do Serviço Social brasileiro, estabelecer – após a
determinação do lugar do pensador húngaro no quadro geral do marxismo - os
marcos mais amplos da sua inserção na cultura brasileira. Este é o objetivo do
presente capítulo.
Cumpre assinalar que, para tanto, fomos obrigadas a tematizar um
amplo leque de questões. A razão disto não se encontra numa qualquer tentativa
de “revisão bibliográfica”, alheia ao espírito do capítulo; foi uma exigência do
nosso próprio objeto – seria pouco fundada, por exemplo, uma análise que não
levasse em conta os percalços da história do Partido Comunista, ou as relações
da herança deste no momento em que novos interlocutores surgem na cena
brasileira (no caso específico, o Partido dos Trabalhadores) se quiséssemos
compreender as (des)venturas do marxismo no Brasil e, especialmente, no nosso
79

Serviço Social. Por outra parte, a vinculação indissolúvel entre Lukács e o


movimento comunista oficial (geralmente representado pelo Partido Comunista)
influi expressivamente na sua apreciação limitada por teóricos e intelectuais que
não provêm deste quadrante do espectro político.
Também cabe sublinhar que a nossa abordagem da “recepção de
Lukács no Brasil” foi dirigida para atender ao interesse de pensar a sua incidência,
especificamente, no Serviço Social. Por isto, deixamos de lado a sua “recepção”
em domínios particulares (que, diga-se de passagem, escapam ao nosso
conhecimento) – como, por exemplo, a crítica literária e estética ou a exegese
filosófica.

2.1. Lukács, pensador marxista

Gyorgy Lukács é, sem sombra de dúvidas, o maior pensador marxista


do século XX. A despeito da hostilidade de seus mais ácidos críticos 59, sua obra
foi capaz de penetrar a essencialidade de seu tempo histórico-social criando
efetivamente aquilo que foi uma das grandes preocupações do filósofo húngaro -
uma ponte60 (no nosso entendimento, uma ponte revolucionária) fundamental
entre o passado e o futuro.
A crítica radical direcionada aos ideólogos da burguesia e às
vulgarizações do pensamento marxiano explicam um lado da sua rejeição
contemporânea. Mas não só. A recusa do efêmero e do fenomênico que serão
59
Adorno, um desses críticos, em carta endereçada a Lucien Goldmann, acusa
Lukács de ter renunciado à “autonomia” de seu pensamento ao renegar suas
obras de juventude (apud Tertulian, 2002, p.28).
60
Parafraseamos aqui a frase final do “prólogo”, datado de novembro de 1963, que
Lukács redigiu para uma nova edição do seu Goethe e seu tempo.
80

entronizados pelos pós-modernos, seu rigor metodológico que arranca de Marx e


aponta a totalidade como categoria central para a análise que ele sustenta
ortodoxa61, explicam o outro lado daquilo que Netto (2004) tão bem qualificou
como o terceiro exílio de Lukács, que se dá em tempos marcados por um
relativismo extremo, suportados numa ampliação também extrema das
fragmentações especializadas dos saberes. Um tempo em que intelectuais
desfrutam de prestígio e trânsito nas Ciências Sociais, por meio de análises que
apenas suspeitam da distinção entre aparência e essência (Santos, 2003).
Neste quadro, um intelectual como G. Lukács, que nunca fez
concessões no que tange à solidez e profundidade de seus escritos, só poderia
colidir frontalmente com essa ambiência cultural. Especialmente colidente é sua
obra elaborada a partir de 1930 e que tem seu apogeu na monumental Estética e
na Ontologia do Ser Social - ou seja, a obra articulada a partir da sua impostação
ontológica (Netto, 2004a, p. 142).
Mas há mais um lado desse exílio, no nosso entendimento, que arranca
dessa ambiência cultural e explica porque, dentro mesmo do interior da esquerda,
esse pensador não goza de grande prestígio na atualidade. É que desde que se
assumiu marxista, a sua teoria sempre esteve atrelada à práxis revolucionária.
Lukács ingressa no Partido Comunista em 02 de dezembro de 1918 e deste será
excluído, em 1957 – mas ele sempre insistiu em retornar, o que ocorreu em finais
dos anos sessenta. E ainda que este percurso seja marcado por autocríticas
insinceras, equívocos de táticas e estratégias, Lukács sempre subordinou
conscientemente todos os seus interesses particulares frente àquilo que ele
considerava bem maior do que ele próprio, e sua obra: a luta em defesa da
realização objetiva e consciente do homem. Nesse sentido, o Partido Comunista 62

61
Contemporaneamente, os pensadores pós-modernos (numa interpretação nada
original) generalizaram a identificação ilegítima entre ortodoxia e dogmatismo.
Aqui sempre nos referiremos ao entendimento lukacsiano de ortodoxia tal como
postulado em História e Consciência de Classe, em 1923 - ou seja, no marxismo,
a ortodoxia se refere exclusivamente ao método (Lukács, 1969, p. 02).
62
Numa entrevista concedida a José Chasin e publicada na revista Ensaio,
número 13, István Mészáros retoma o entendimento de Lukács exatamente
nesses termos. Recordando sua entrada no Partido Comunista Húngaro, sob forte
persuasão de Lukács, Mészáros diz que houve uma discussão sobre isso com
81

assume um papel fundamental para o filósofo, na medida em que estar nas suas
fileiras significava defender a existência do único Estado Socialista – a então
União Soviética – e, neste processo histórico determinado, defender a viabilidade
do próprio socialismo.
Referindo-se à ascensão de Hitler e a preparação de sua guerra para
aniquilar o socialismo, disse Lukács:
Para mim sempre foi óbvio que toda decisão a ser tomada
estava subordinada a essa situação, até mesmo o que me
era mais caro, a obra mesma da minha vida. Eu considerava
que a tarefa principal da minha vida consistia em utilizar
adequadamente a concepção marxista-leninista naqueles
campos que dominava, em fazê-la progredir na medida em
que isso fosse imposto pela descoberta de novos dados.
Mas porque no centro do período histórico em que se
desenvolvia a minha atividade se encontrava a luta pela
existência do único Estado socialista – e, portanto, do
próprio socialismo - eu subordinava naturalmente todas as
minhas tomadas de posição (inclusive em relação a minha
obra) à necessidade do momento. Contudo, isso jamais
significou uma capitulação diante das tendências ideológicas
que se constituíram, se propagaram e, finalmente, se
dissolveram no curso dessa luta (...). Vi-me assim obrigado a
travar uma espécie de luta de guerrilha em defesa de minhas
idéias científicas, ou seja, tornar possível a publicação de
meus trabalhos recorrendo a citações de Stalin etc. e de
neles exprimir, com a necessária cautela, a minha opinião
dissidente tão abertamente quanto o permitia a margem de
manobra possível nas diferentes conjunturas daquele
momento histórico. Por causa disso, tive algumas vezes de
me calar. (...) A um comunista convicto caberia apenas dizer:
Certo ou errado, é o meu partido (2008, p. 43-44).
Para o filósofo húngaro, um ponto fundamental que ele mesmo explicita
em seu esboço autobiográfico intitulado Meu Caminho para Marx, publicado em
1933, é que a relação com Marx é a verdadeira pedra de toque de todo intelectual
que leva a sério o esclarecimento da sua própria concepção de mundo e do
desenvolvimento social, particularmente a situação atual, a sua inserção nela e
seu posicionamento frente a ela (Lukács, 2008, p. 37 – grifos nossos).

Lukács e foi ele mesmo que, em parte, me persuadiu. Essa era justamente sua
posição: o único meio de intervir de modo eficaz e positivo era através da
mediação do partido (Mészáros, 1984, p. 18).
82

E mais à frente, complementa: a seriedade, o escrúpulo e a


profundidade que dedica a este problema indicam se e em que medida o
intelectual pretende, conscientemente ou não, furtar-se a uma clara tomada de
posição em face das lutas históricas contemporâneas (Lukács, idem – grifos
nossos).
Assim, e tal como posto por Marx (1999, p. 14) na XI Tese sobre
Feuerbach, de 1845-46, Lukács não se limitou a interpretar o mundo, a ele o que
importou foi sua transformação. O conhecimento da realidade como mera retórica
academicista, que pouco ou nada apanha da essencialidade dos fenômenos e,
justamente por isso, não pode apontar para a sua superação é avessa à
intervenção teórico e ídeo-política de Lukács. Em outras palavras, a tomada de
posição frente ao mundo, ainda que para alguns essa posição não aparecesse
clara, foi para esse intelectual/militante a escolha clara da dialética materialista e
do Partido Comunista63.
Este traço tão significativo não ganha a cena principal para seus
críticos. Ao contrário, temos a inversão desse traço e o que ganha sempre
audiência entre os críticos de direita e esquerda é a suposta “capitulação” ao
stalinismo, o suposto “enquadramento” político-partidário de Lukács e uma
suposta recusa do pensamento revolucionário de Marx e Engels, dada a sua
defesa da teoria do “socialismo num só país”. Com certeza, uma visão pouco ou
nada isenta de preconceitos, principalmente por se tratar de um militante, que
como bem lembra Netto, jamais foi um intelectual bafejado por favores de
qualquer espécie, jamais teve seus pontos de vista incorporados às constelações
ídeo-culturais “oficiais” (1981b, p. 143).
Consideramos que a análise da obra de um pensador como Lukács
deve ser travejada por forte compromisso do analista com o entendimento do
momento histórico de que emerge. Ou, como bem expresso nas palavras de
Netto, a verdade da obra lukacsiana só é passível de ser tomada estabelecendo-

63
Não há dúvidas de que essa opção lukacsiana de pertencer a todo o custo no
Partido, que em seu caso muitas vezes foi um custo pessoal de isolamento e
prisão, deixou marcas significativas em sua obra, chegando até mesmo a
elementos limitantes.
83

se seu tempo e seu modo (1981b, p. 30). Isto porque, para o próprio Lukács, o
desenvolvimento do seu pensamento se fez numa conjunção complexa do
confronto singular com a realidade e a revisão sistemática dos limites e avanços
de seu próprio pensamento 64, mas que não se esgotava na esfera da
singularidade na medida em que sempre aponta para uma superação de si, mas
fundamentalmente para uma superação da ordem do capital e sua reprodução no
âmbito das relações sociais.
No fundo, para Lukács sempre importou entender como se movimentam
esses elementos da reprodução do capital no âmbito das relações sociais
capitalistas que amesquinham as potencialidades de desenvolvimento do humano,
como consciente de si, livre e atuante no desenvolvimento social. E, neste sentido,
não canonizamos Lukács como o “quarto clássico do marxismo” pois, para nós,
isso seria apenas uma defesa apaixonada, mas reivindicamos o reconhecimento

64
Isso fica evidente no texto de 1933, já citado, Meu caminho para Marx. Aqui, o
pensador analisa suas aproximações ao marxismo e localiza precisamente como
os limites de seus pressupostos ideológicos limitavam a sua compreensão de
Marx - o que, para o próprio pensador, foi um longo caminho com vários
momentos, quer porque estava impregnado de neokantismo, quer porque estava
muito focado em Simmel, quer porque Weber o influenciou significativamente,
quer porque se centrou em Hegel para entender Marx. Em suas palavras, isso fica
nítido: é certo que suspeitava fortemente do idealismo extremo (...), uma vez que
não conseguia conceber de que modo o problema da realidade poderia ser
definido considerando-a simplesmente como uma categoria imanente da
consciência. Entretanto, isto não me induziu a nenhuma conclusão materialista,
mas a uma aproximação àquelas tendências filosóficas que pretendiam resolver
esse problema de forma irracionalista-relativista, até mesmo com matizes
místicos. (...) A filosofia do dinheiro de Simmel, bem como os textos sobre o
protestantismo, foram os meus modelos para uma “sociologia da literatura” na
qual elementos provenientes de Marx também estavam presentes, mas tão
diluídos e empalidecidos que mal se reconheciam (Lukács, 2008, p. 38). No
prólogo de 1967 que o pensador redige para a segunda edição autorizada de
História e Consciência de Classe, expressa lindamente esse reconhecimento
quando se indaga: se foi permitido a Fausto abrigar duas almas em seu peito,
porque não é possível comprovar, em um homem por demais normal, mas em
meio a um mundo em crise, que salta de uma classe a outra, o funcionamento
simultâneo e contraditório de tendências intelectuais contrapostas ? Eu, pelo menos e
na medida em que consigo recordar aqueles anos, encontro em meu mundo mental da época
tendências simultâneas da assimilação do marxismo e do ativismo político, por um lado, e por
outro, uma constante intensificação de problemáticas éticas puramente idealistas (Lukács, 1969,
p.X).
84

de uma faticidade: a linha de continuidade profunda que ele mantém com o


pensamento de Marx. E, no sentido mesmo do que formula Mézáros, o destino
de Lukács está atado estreitamente ao destino de Marx (1984, p. 09).
Acreditamos que é justamente essa linha de continuidade que marca a
o pano de fundo da negação que é feita contra Lukács, posto que a questão que
se coloca na contemporaneidade é justamente um Marx supostamente em desuso
e a necessidade de superação da ordem burguesa que parece ter virado uma
lembrança distante.
Neste quadro, um pensador como Lukács, que pensou e formulou no
eixo problemático de crise tanto do capitalismo como, fundamentalmente, de crise
política do socialismo, articulando a dialética e a revolução como única
possibilidade de ruptura às amarras do capitalismo e para a realização do homem
inteiro, estaria fadado ao exílio, uma vez que no momento contemporâneo a
classe trabalhadora vivencia em âmbito mundial um recuo face ao avanço do
capital e de sua apologia; e a experiência do “socialismo realmente existente” é
amplamente negada pela direita, que a quer enterrar, e pela esquerda, que a quer
“simplesmente” esquecer.
Em especial, dois intelectuais contribuíram sobremaneira para esse
preconceito a que está submetida à obra de G. Lukács, como também avaliamos
que suas colocações sintetizam os elementos principais que constituem a crítica
vigente. Trata-se de Lucien Goldmann e Perry Anderson.
Ainda que o primeiro tenha sofrido forte influência de um momento
constitutivo do pensamento de Lukács (aquele anterior a 1929), suas análises,
assim como as de Anderson, sintetizam a tônica geral da crítica que hoje se
atualiza na maré montante contra-revolucionária do tempo presente que aludimos
anteriormente. Uma crítica que, embevecida pela superficialidade dos fatos, tenta
derruir a obra lukacsiana e postula que sua opção política - entendida como
“adesão ao stalinismo” - o distanciou das questões ligadas à luta direta do
proletariado e o levou a um “refúgio” nos campos mais “neutros” da cultura e da
arte. Daqui decorrem afirmações de “elitismo”, “cooptação” etc.
85

Lucien Goldmann tanto contribuiu com a prática das periodizações ao


contrapor o Lukács pré e pós-marxista, como para o “rótulo” da existência desse
que seria o “período stalinista” na obra de Lukács. Em sua resposta às críticas
recebidas pela obra Le Dieu Caché, publicada em 1955, Goldmann postula
claramente a distinção de três períodos, por ele, “facilmente delimitados” na obra
do pensador húngaro,
1º O período pré-marxista, no qual se insere o escrito de
inspiração kantiana intitulado Métaphysique de la Tragédie; o
2º período, mais tarde repudiado por Lukács, a que chamarei
de marxista-revolucionário. Foi durante este período que
Lukács escreveu e publicou um livro que, segundo penso,
desagrada ao autor o artigo em questão e que, apesar de
não o aprovar integralmente, considero não só como a mais
importante obra de filosofia marxista em geral, como ainda a
obra filosófica mais importante do século XX. Esse livro
intitula-se Histoire et Conscience de Classe; e um 3º período
que pode se chamar stalinista (...) pela minha parte
considero que a obra de Lukács correspondente a tal
período merece fortes reservas, não deixando por isso de
ser a mais importante de todas quantas surgiram sob a égide
do marxismo estalinista (1972, p. 115-116 – grifos nossos).
Essa periodização demarca o pensamento lukacsiano como assinalado
apenas por rupturas que obscurecem os elementos de continuidade e outros que
que, embrionários, foram ulteriormente desdobrados na linha de evolução e
desenvolvimento do pensador húngaro. E ainda que Goldmann tenha contribuído
com estudos importantes acerca da obra de Lukács, o que fica de herança é
justamente esse simplismo e aligeiramento que contribui para a vulgarização e
deformação do pensador de Budapeste.
Netto observa precisamente que essa periodização goldmanniana
contribui para perder as nuances que, por exemplo, revelam que a caracterização
ligeira do período “pré-marxista” contribui para o entendimento equivocado de que
nessa fase o pensamento de Lukács seria ideologicamente homogêneo (ibidem).
Tão equivocado é esse entendimento da homogeneidade nesse momento que
apenas o título do ensaio de Leandro Konder (1977), sobre esse período “pré-
marxista”, já revela a riqueza multifacética dos dilemas lukacsianos. Konder nos
fala de rebeldia, desespero e revolução no jovem Lukács, ou seja, um homem
86

tensionado enérgica e apaixonadamente pela repulsa à sociedade burguesa,


determinada historicamente no império austro-húngaro, e cujo desespero em face
desse mundo só o impulsionava, naquele momento, para saídas messiânicas.
Mas, sem prejuízo dessas saídas, o que fundamentalmente importa é que os
limites da ordem burguesa e a necessidade de superá-la sempre estiveram
presentes no pensamento de Lukács - ao longo da evolução lukacsiana, a forma
dessa superação é que sofreu variações, a partir da própria constituição interna do
pensamento de Lukács e sua capacidade de se apropriar dos fenômenos de seu
tempo.
Também se perdem as nuances que, no período caracterizado como
“marxista-revolucionário”, revelariam uma reorientação na vida mental de Lukács
(Netto, 1981, p. 27), marcada pela apropriação da legalidade fenomênica e cujo
processo analítico é pautado nuclearmente pelas categorias de totalidade e
historicidade.
De outra ordem, mas não menos problemáticas, são as considerações
de Anderson acerca do pensamento de Lukács, realizadas a partir de suas
análises sobre o marxismo ocidental65. No livro intitulado Considerações sobre o
marxismo ocidental, Anderson identifica o que seria, no interior do marxismo, um
giro nas perspectivas e interesses econômicos e políticos para assuntos
estritamente filosóficos. Para o autor, esse marxismo europeu significaria um
abandono das problemáticas centrais da teoria marxista – abordada pela “tradição
clássica” constituída por Marx, Engels, Lênin, Rosa – com forte apartação desse
“marxismo ocidental” da prática política.
Ainda que a proposta aqui não seja de uma crítica substantiva a todos
os problemas levantados pela obra de Anderson, mas como esses se
consubstanciam na crítica rasteira ao pensamento de Lukács, e ainda assim de
grande repercussão, cabe observar o limite dessa contraposição feita pelo autor
entre o marxismo clássico e o que seria a “quarta geração” do marxismo por ele

A expressão marxismo ocidental aparece pela primeira vez em 1955, no livro de


65

Maurice Merleau-Ponty intitulado As aventuras da Dialética. Cf. Merquior (1987) e


Anderson (1989).
87

analisada - composta por pensadores como Lukács, Korsh, Gramsci, Horkheimer,


Della Volpe, Marcuse, Lefebvre, Adorno, Sartre, Goldmann, Althusser e Colletti.
Anderson estabelece um termômetro histórico (o termômetro do
materialismo dialético) que mede a eficácia e a efetividade do “marxismo
ocidental” face às respostas dadas no seu tempo histórico. Dessa forma, no nosso
entendimento, ele efetiva o que ele mesmo critica, uma brusca separação entre a
teoria e a prática, na medida em que reifica o parâmetro de análise e hipostasia
seus resultados. Cria ele o quadro do “verdadeiro” marxismo e do “verdadeiro”
marxista aquele, que no calor da hora, deve necessariamente garantir uma
atuação política eficaz e uma elaboração teórica eficiente.
Em suas palavras, mencionando o caso de Lênin, diz Anderson:,
Coube a Lênin a elaboração sistemática de uma teoria
política da luta de classes, tanto ao nível organizacional
como tático. A grandeza de sua obra nesse terreno foi tal que
transformou para sempre toda a arquitetura do materialismo
histórico. Antes de Lênin o universo político propriamente dito
permanecia praticamente inexplorado no âmbito da teoria
marxista. Num espaço de cerca de vinte anos ele criou os
conceitos e métodos necessários para a condução de uma
vitoriosa luta pelo poder na Rússia (1989, p. 24).
Ainda que também visualizemos tamanha profundidade de realização
singular-particular-universal em Lênin, não podemos transladar seu “exemplo” –
assim apresentado por Anderson - para as situações concretas postas aos
intelectuais do considerado “marxismo ocidental”. Situações que remetem a um
quadro que coloca determinações novas, tais como: as limitações impostas pela II
e III Internacionais, o refluxo dos processos revolucionários, a forma de realização
do socialismo na Rússia.
É essa desconsideração da concretude histórica que permite a
Anderson afirmar que os marxistas ocidentais, e entre eles Lukács, ainda que não
tenham aceitado plenamente o stalinismo, nunca se colocaram ativamente contra
ele. Em suas palavras,
Pode-se dizer que, para todos esses teóricos, o movimento
comunista oficial representava o pólo central, e em alguns
casos o único, de relacionamento com a política socialista
organizada, quer eles a aceitassem ou não. Dentro do
quadro desse relacionamento, duas opções poderiam ser
88

adotadas. Na primeira, o teórico poderia entrar para um


partido comunista e aceitar o rigor de sua disciplina; neste
caso ele poderia adquirir um determinado nível de contato
formal com a vida da classe operária nacional (a qual, apesar
de tudo, o Partido estava inevitavelmente ligado) e, ao
menos, continuidade filológica com os textos clássicos do
marxismo e leninismo (cujo estudo era obrigatório dentro do
partido). O preço dessa proximidade, por mais relativa que
ela fosse, à realidade do dia-a-dia da luta da classe
trabalhadora era o silêncio sobre sua verdadeira direção.
Nenhum intelectual (ou trabalhador) membro de um partido
comunista de massas nesse período que não tivesse
ligações com a sua liderança podia fazer qualquer
pronunciamento independente, por mais insignificante que
fosse, sobre questões políticas relevantes, a não ser da
forma mais velada possível (Anderson,1989, p. 65).
Por outro lado, a crítica feita por Anderson, do deslocamento das
perspectivas e interesses econômicos e políticos para assuntos ditos por ele como
estritamente filosóficos66, em suas palavras, um silêncio premeditado do marxismo

66
Anderson, na medida em que enfatiza o estritamente filosófico, por isso sua
ênfase também na questão da linguagem, acaba por cometer o mesmo equívoco
por ele criticado no “marxismo ocidental”, na escala em que estabelece uma
distinção puramente formal entre a teoria e a prática, dissolvendo o que
peculiariza a teoria na práxis. Ou seja, tem uma concepção redutora da teoria, na
medida em que apresenta a filosofia como mera abstração e fuga daquilo que
para ele é central, o abismo entre o pensamento socialista e o terreno da
revolução popular (Anderson, idem, p. 82). Nesse sentido, por exemplo, ainda que
um pensador como Karl Korsch apresente em sua obra Marxismo e Filosofia, de
1923, uma carência de mediações mais substantivas entre a relação teoria e
prática, contribui significativamente para alertar claramente a incompreensão,
própria do marxismo vulgar, da relação entre a ciência fundada por Marx e Engels
e a filosofia. E mais: demarca claramente os elementos que separam a “ciência do
proletariado” e aquilo que é elaborado no âmbito das disciplinas parcializadas e
autônomas. Em Anderson, temos uma visão que parece apontar para que todo
marxista priorize participação teórica e prática diretamente relacionada com a luta
de classes. No limite, se este entendimento é pertinente, até os estudos que se
façam no âmbito da cultura, por exemplo, só teriam sentido para Anderson se
vinculados na direção da luta do proletariado. Nesse sentido, a legalidade objetiva
dessas esferas se vê, no nosso entendimento, séria e metodologicamente
comprometida. Vale recordar, aqui,a lição de Korsch:, a economia burguesa
pertence, tanto quanto as relações materiais de produção, ao todo da sociedade
burguesa. Mas a ele pertencem, igualmente, as representações jurídicas e
políticas e seus objetos aparentes, que os juristas e os políticos burgueses (...)
tomam como essências autônomas. E àquele todo também pertencem,
finalmente, as ideologias de um nível mais elevado, a arte, a religião, e a filosofia
89

ocidental naquelas áreas fundamentais para as tradições clássicas do


materialismo histórico, quais sejam: o exame das leis econômicas do
funcionamento do capitalismo como modo de produção, a análise da máquina
política do Estado burguês e a estratégia da luta de classes necessária para
derrubá-lo (Anderson, idem, p. 67) – tal crítica coloca, no nosso entendimento,
uma compreensão que opera no sentido de uma absolutização das esferas
econômicas e políticas, desconsiderando o que Lukács tão bem sinalizou, já em
1923, contra todas as formulações teóricas da II Internacional, ou seja, que ao
nível metodológico é a categoria da totalidade a pedra angular da gnose social.
Mais ainda: uma leitura atenta de História e Consciência de Classe
revela claramente que, então, para Lukács, está posto como movimento do
capitalismo tardio - para evitar as crises e garantir a dominação dos monopólios -
a racionalização do setor do consumo para que se crie um amplo sistema
destinado a manipular a vida dos indivíduos. Ou seja, gerada no nível econômico
a manipulação desborda para outras esferas como a cultura, a ideologia. Nesse
sentido, não há como dizer que o pensador húngaro abandone as leis econômicas
do funcionamento do capitalismo como modo de produção; ao contrário, o que
temos é um enriquecimento dessa determinação fundamental pensada a partir de
uma análise da totalidade dos fenômenos que a conformam. Dito de outra forma, a
determinação econômica só pode ganhar relevo quando adquire significado ao
possibilitar compreender as mediações específicas nos vários campos da
atividade humana. Dessa forma, o que a afirmação de Anderson opera é uma
perda da particularidade histórico-concreta como fermento para a análise desses
processos, ainda que Anderson reivindique o trato dessa particularidade.
Mais ainda, como sub-argumento que supostamente mostra a
conseqüência direta do deslocamento, e que no nosso entendimento está
intimamente relacionado ao limite do pragmatismo do qual padece Anderson,
aparece à questão da linguagem. Para ele,

da sociedade burguesa (...). Constituem todas, em conjunto, a estrutura espiritual


da sociedade burguesa (...). A crítica social revolucionária do socialismo científico,
materialista e dialético, que incide sobre a totalidade da realidade social, deve
criticá-las a todas na teoria e revolucioná-las na prática (Korsch, 2008, p. 62-63).
90

A natureza secundária do discurso desenvolvido nestes


trabalhos (leia-se, dos marxistas ocidentais) – mais sobre o
marxismo do que propriamente marxista – teve um corolário
adicional. A linguagem em que foram escritos acabou
tornando-se crescentemente especializada e inacessível.
Durante um período histórico inteiro, a teoria transformou-se
numa disciplina esotérica cuja linguagem altamente técnica
era a medida da sua distância política. (...) O próprio excesso
de complexidade verbal acima do mínimo necessário era o
indicador de sua distância de qualquer prática popular (idem,
p. 80-81 – grifo nosso).
É interessante observar como Anderson compara os escritos de Marx
com os escritos dos “marxistas ocidentais” e afirma que ainda que a obra de Marx
não fosse fácil para os leitores de seu tempo, Marx fazia um esforço de apresentar
seus textos da maneira “mais simples”. Por outro lado, acusa que o esoterismo
peculiar da teoria produzida no interior do marxismo ocidental assumiria múltiplas
formas: em Lukács, uma pesada e obscura dicção, carregada de academicismo
(Anderson, ibidem). Claramente, o que está subjacente aqui é uma restrição do
contributo marxiano e lukacsiano à forma. Se entendemos que essa consideração
é em parte pertinente – Marx e o próprio Lukács, apresentam uma forma de
exposição nem sempre tão imediatamente “fácil” para o leitor comum -, contudo, o
que Anderson menospreza aqui de fato é a natureza mesma da teoria assim
apresentada.
Para outro analista,
Aquilo que, na reflexão produzida sobre o patamar sócio-
histórico da disjuntiva entre reivindicação revolucionária e
derrota socialista na Europa Central e Ocidental, poderia
peculiarizar o marxismo ocidental consiste precisamente na
recusa de uma concepção ontológica (no sentido do velho
Lukács) da teoria social de Marx (...). Este cariz não-
ontológico e/ou antiontológico articula a teorização própria
do marxismo ocidental, respondendo pela antropologização
que é característica das suas construções ideais (...) (Netto,
1996c, p. 09).
A perda desse elemento analítico fundamental só é possível porque os
parâmetros utilizados para definir e redefinir os pensadores que gravitam no
marxismo ocidental são muito imprecisos e muito ambivalentes. Ainda assim, a
tese de Netto é polêmica neste sentido, porque cabe assinalar que esses
91

parâmetros usuais não dão conta - em face da crise proletário-revolucionário e do


avanço e manutenção da ordem burguesa, e, no marco desse antiontologismo que
marca seu norte teórico - de dois elementos fundamentais: a referência exclusiva
pela imanência teórica e/ou a projeção utópica da possibilidade da revolução
(Netto, idem, p. 10).
O primeiro derivou num culturalismo que acaba reivindicando uma
inspiração marxiana sem Marx, pois torna essa referência como algo apenas
concernente ao “mundo das idéias”, subtraindo de Marx aquilo que é um elemento
fundante de sua elaboração, que é a perspectiva revolucionária. Aqui Marx se
torna um membro clássico da abordagem sociológica que, destituído o caráter
eversivo de seu pensamento, se torna palatável para ambientes acadêmicos. O
segundo tendeu a revigorar o anticapitalismo romântico, incorporando elementos
messiânicos, e onde a perspectiva revolucionária perde o seu substrato
histórico/concreto/objetivo (Cf. Netto, ibidem).
Por tudo o que até aqui tem sido colocado, verifica-se que, em face
desses dois elementos, Lukács só poderia se manter contrário ao “marxismo
ocidental”, principalmente pela sua linha de continuidade profunda com o
pensamento marxiano, que vai se dar, entre outras razões, fundamentalmente
pela compreensão ontológica da teoria marxiana e sua conseqüente e profunda
utilização em obras como as citadas Ontologia do Ser Social e Estética. Por outro
lado, como vimos pontuando ao longo dessas páginas, até mesmo na sua dita
fase “marxista-revolucionária”, o pensamento de Lukács passa por processos de
superações dialéticas, que colocam, por exemplo, em evidência alguns limites
presentes na obra de 1923, que é considerada a obra que o vincula ao “marxismo
ocidental” (limites que o próprio Lukács rastreou e analisou).
Esses limites67 não infirmam o caráter seminal da obra como chave
heurística para pensar: 1) o substrato hegeliano orgânico e indissolúvel na obra de
Marx; 2) seu brilhante desdobramento da categoria de reificação a partir da

67
Sobre tais limites, cf. o prólogo já referido de Lukács à segunda edição
autorizada de História e consciência de classe.
92

categoria de fetichismo; 3) primeiro momento de reação crítica de Lukács em face


da sociologia68.
Ainda que, como Netto, se verifique claramente que História e
Consciência de Classe antecipe o marxismo ocidental ao rechaçar de plano
qualquer impostação teórica ontológica (1996c, p. 14), essa mesma obra
lukacsiana, respaldada pelos acontecimentos em curso à época, não aponta para
imobilismo, nem para a impossibilidade da revolução; ao contrário, afirma, no calor
da hora, uma vontade subversiva, e neste sentido, mais uma vez se revela fiel ao
legado marxiano. Fidelidade que nem todos os marxistas ocidentais podem (e/ou
pretendem) reivindicar (Netto, idem, p.15).
Assim, é o movimento dialético mesmo que explica o processar do
pensamento de Lukács, na medida em que este só pode ser entendido a partir da
unidade entre a continuidade e descontinuidade, mais precisamente o movimento
de superação/conservação de um momento anterior, mas com um grau de
complexidade crescentemente maior. De fato, em nenhum grande pensador
contemporâneo registra-se uma verdadeira ruptura intelectual que realize a
negação do seu passado. Para esses pensadores, o que podemos sinalizar é uma
mudança qualitativa que mantém a síntese original que estrutura dialeticamente
todas as suas sucessivas modificações. Nas palavras de Mészáros:
As principais linhas esquemáticas de uma idéia sintetizadora
fundamental podem estar presentes, ou melhor: têm que
estar presentes, na mente de um filósofo quando este
desenvolve, num escrito determinado, algumas de suas
implicações concretas em contextos particulares. É evidente
que uma tal idéia pode experimentar mudanças relevantes;
os próprios contextos particulares requerem constantes
reelaborações e modificações, de acordo com as
características específicas das situações concretas que há
de levar em conta. Mas nem mesmo uma conversão genuína
do “idealismo” ao “materialismo” implica necessariamente
que se rechace ou reprima radicalmente a idéia sintetizadora
original (Mészáros, 1973, p. 47-48).
Logo, entendemos que qualquer esforço de análise do pensamento
lukacsiano deve remeter necessariamente a continuidades e descontinuidades
que explicam muito mais do processo singular de formação desse pensador que,
68
Acerca da concepção que Lukács sustenta da sociologia, cf. Netto (1981b).
93

ainda que ora rebelde ora desesperado, sempre teve no horizonte os limites da
realização humana nos marcos da prática socioeconômica da burguesia. Em
outras palavras, entendemos que existe uma lógica interna que articula o
intelectual e militante G. Lukács: a superação da ordem burguesa, a atualização
do contributo marxiano e a utilização da dialética para pensar os problemas de seu
tempo.
Dessa forma, neste tempo contemporâneo, marcado pelo presentismo,
que tem por fundamento um sentido contra-revolucionário que corta e reconfigura
o caldo cultural humanista que fermentava a sociedade – que, no dizer de
Hobsbawm (1995), trata-se de uma “destruição do passado” e dos mecanismos
sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas -, como
mensurar o ônus para um militante que optou por fazer a sua luta por dentro do
movimento comunista real69?
Na esquerda mundial, os anos pós-60 instauraram uma associação
falsa e perigosa entre marxismo/stalinismo/comunismo70. Toma-se a realização
histórico-precisa da União Soviética - com sua dominância da fração stalinista no
Estado-partido soviético, a transformação da Internacional Comunista em seu
instrumento e a vulgata do marxismo-leninismo como o marxismo – como sendo a
realização do comunismo e seu ocaso como sendo o ocaso da tradição marxista e
da teoria marxiana (Cf. Netto, 2001b). Negando essa “antiga” esquerda, nasce
69
Ganha importância, aqui, o estudo das relações entre o stalinismo e a obra
lukacsiana. Uma mais que suficiente bibliografia que trata desta questão é
arrolada por Netto, na sua introdução a Lukács (2008).
70
Todos as críticas políticas a Marx estão ligadas a etapas percorridas pelo
movimento operário. No início da década de 1850, os adversários de Marx falam
de um partido de Marx (Haupt, 1983, p. 349). Entre 1853 e 1854, na polêmica
entre os seguidores de Weitling e Marx, surge a qualificação de marxiano para
designar Marx e seus cegos seguidores (ibidem). A palavra marxiano será
amplamente usada na polêmica de Bakunin contra Marx; nela, ‘marxiano’ é
sinônimo da dinastia dos ‘marxidas’ e ‘marxistas’ e serve mais para acusar Marx e
seus partidários, do que para definir-lhes as idéias (ibidem). O tom polêmico deste
termo atenua-se no início de 1880, no mesmo processo em que se consolida, a
despeito das resistências de Marx e Engels, o termo social-democracia, que se
destinava a substituir o termo ‘comunismo’ (ibidem, p. 354). O termo marxismo
aparece já em 1882, num panfleto de Paul Brousse intitulado ‘O marxismo na
Internacional’; contudo é divulgado e passa a circular graças a Kautsky.
94

uma “nova” esquerda, mais flexível, menos “autoritária” que surge como
“contraponto” às formas anteriores, ditas totalitárias, ao mesmo tempo em que
surge um profundo pessimismo político que desacredita os “velhos” agentes
políticos (o partido e o movimento operário em particular).
Com isso queremos demarcar que o exílio de Lukács no tempo
presente encontra seu cerne em elementos particulares de desenvolvimento do
pensamento lukacsiano mas, ao mesmo tempo, deita raízes na maré contra-
revolucionária, de forte presença do pensamento pós-moderno, que decreta o fim
da modernidade e de seus eixos articuladores, questões sobre as quais Lukács se
confrontou na sua experiência singular e se debruçou analiticamente para
compreender e transformar o seu tempo – e, ao fazê-lo, nos oferece a genuína e
radical ponte, aquela erguida pela leitura feita da realidade própria ao pensamento
marxiano: o projeto concreto de uma teleologia sócio-histórica radicalmente
antropológico-humanista (Netto, 1981, p. 52).

2.2. A recepção de Lukács no Brasil

A divulgação do pensamento de G. Lukács no Brasil não pode ser


pensada desarticulada de sua relação com o Partido Comunista. Especificamente
essa relação deu-se, sobretudo com divulgação da obra lukacsiana pela política
cultural do Partido Comunista (Frederico, 1995). E mesmo depois, com a crise
político-ideológica do partido, alguns de seus ex-quadros continuaram efetivando a
divulgação de Lukács, alimentando, assim, novas gerações de novos militantes,
agora de vários espectros políticos da esquerda brasileira.
Ao mesmo tempo, estabelecer tal relação é pensar também nas
determinações histórico-objetivas que levaram à formação do Partido Comunista
no Brasil, e daí entender a sua ênfase fundamental na elevação cultural da política
(Cf. Mazzeo, 1999). E, neste sentido, para nós, importa entender por que, num
dado momento – na medida em que o Partido Comunista brasileiro sempre teve
desde a sua fundação uma forte ênfase no desenvolvimento de uma política
95

cultural -, se decodificou a apropriação e divulgação do pensamento de Lukács


como sendo um dos elementos constitutivos da sua política cultural.
Ainda que não seja nosso objetivo aqui analisar profundamente a
formação do Partido Comunista - até porque um lastro importante de intelectuais
sérios debruçou-se sobre a sua formação e problemáticas centrais 71 – cabe
abordar alguns elementos para clarificar as conectividades que estamos
apontando.
A constituição do Partido Comunista no Brasil é fruto das significativas
alterações que ocorriam no Brasil, no processo de modernização de um
capitalismo que até então estava alicerçado fundamentalmente numa base
agrária72. A constituição de centros urbanos, ainda que superconcentrados em
São Paulo e no Rio de Janeiro, e um aumento do fluxo imigratório 73 possibilitam as
bases da nascente indústria brasileira e, das movimentações operárias que
passam a refletir as modificações que ocorriam na base material da sociedade
brasileira.
Esse proletariado em formação sofre forte influência, principalmente,
dos ideais anarquistas, trazidos da Itália, da Espanha, e de Portugal pelos
imigrantes. Essa influência será hegemônica de 1906 até precisamente 1917.
Ainda que, na sequência deste processo, em 1922 se dê a organização do PCB 74,

71
Basta citarmos, entre outros, Leandro Konder (1980a), Ronald H. Chilcote
(1982), Sheldon Leslie Maram (1979). Lembramos ainda a belo material
iconográfico da Memória Fotográfica do PCB (1922-1982), publicada em 1982 e
organizada por José Antonio Segatto, José Paulo Netto, José Ramos Neto, Paulo
Cesar de Azevedo e Vladimir Sacchetta.
72
Ver capítulo 01 dessa tese.
73
Cabe observar que, com o desenvolvimento dos centros urbanos, o processo
migratório também sofre forte incremento na medida em que as pessoas
começam a abandonar as áreas estagnadas do país.
74
Diversas foram as tentativas para a criação de um Partido Comunista no Brasil;
cabe citar algumas delas, mas entendendo que o que as viabiliza é a conjugação
de fatores que estamos apontando ao longo desse ponto. Em 1918, no Rio
Grande do Sul, temos a Liga Comunista de Livramento; Em 1919, em Porto
Alegre, o Centro ou União Maximalista (o nome é alterado em 1921 para Grupo
Comunista de Porto Alegre; em 1919 forma-se um Partido Comunista do Brasil no
Rio de Janeiro (de inspiração anarquista); Ainda em 1919, os anarquistas de São
Paulo constituem um Partido Comunista. Em 1921, formou-se o Grupo Comunista
do Rio de Janeiro para organizar um partido comunista nacional e avaliar os
96

as manifestações e greves75 do período têm forte participação e contribuição dos


anarquistas.
Contudo, apesar de serem quantitativamente significativas, essas
movimentações careciam de continuidade organizativa para o operariado. E,
fundamentalmente, os anarquistas não conseguiram elevar essas movimentações
operárias espontâneas ao patamar de uma organização política que pudesse
transcender as reivindicações meramente econômicas (Mazzeo, 1999, p. 18).
O conjunto dessas manifestações possibilitará um acúmulo ideológico e
político que criará as condições e possibilidades de realização das grandes greves
operárias de 1917, que, paradoxalmente, constituirão o princípio da crise do
anarquismo na direção do movimento operário brasileiro (ibidem).
À época, tem-se um claro confronto entre o crescimento industrial e as
condições de vida precárias a que estavam submetidos os operários com
baixíssimos salários, longas jornadas de trabalho, com duração entre 10 e 12
horas, e, em paralelo tem-se um aumento do custo de vida, notável nos preços
dos gêneros alimentícios. Nesse quadro, estoura a greve em 1917, numa fábrica
de tecidos da Mooca, em São Paulo, e recebe ampla solidariedade de outras
cidades do interior de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Apesar de ter sido vitoriosa 76, a greve contribuiu, como mencionamos
anteriormente, para demonstrar as deficiências e a falta de continuidade no
trabalho político-organizativo dos anarquistas e, ao seu término, significou forte
repressão sobre as lideranças da greve e sobre os sindicatos.
princípios do Komintern. Esse grupo influencia a formação de grupos similares em
Recife, Juiz de Fora, Cruzeiro, São Paulo, Santos e Porto Alegre. Desse
movimento em 1922 culmina o estabelecimento formal do Partido Comunista
Brasileiro (Chilcote, 1982, p. 54-56).
75
Em 1905, no Rio de Janeiro e em São Paulo ocorreram movimentações dos
metalúrgicos portuários e trabalhadores do gás que reivindicavam a redução da
jornada de trabalho. Em 1906, tem-se a greve dos tecelões e os ferroviários, e, a
greve dos sapateiros do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Em 1907, tem-se
uma concentração de greves nos setores produtivos de São Paulo, Rio de Janeiro
e Rio Grande do Sul. De 1903 a 1916, nas principais cidades do Brasil, ocorreram
84 greves (Cf. Mazzeo, 1999).
76
Para Chilcote o anarquismo ajudou a luta da classe operária na conquista de
reformas moderadas, expressas, para o autor, na jornada de oito horas e
aumentos salariais (1982, p. 51).
97

O vulto assumido pela greve e os limites do anarquismo explicitam o


surgimento de novas necessidades em torno da organização e da estrutura
política do movimento. Tal como ressaltado por Lukács, referindo-se à obra Que
fazer?77, Lênin mostra, em relação à espontaneidade dos movimentos econômicos
da classe operária, que lhes falta precisamente a consciência das mais amplas
conexões sociais das finalidades que embasam a imediaticidade (Lukács, 1966c,
p.76).
Nesta perspectiva, a realização histórica do movimento coloca os limites
das suas formas de organização até então elaboradas pelas lideranças. Mazzeo
resume precisamente os limites dos anarquistas na condução do movimento
operário. Em suas palavras,
Marcam decisivamente a crise da hegemonia anarquista no
movimento operário brasileiro: 1) a espontaneidade da greve
(...) e, ao mesmo tempo – e o que a diferencia -, sua
extensão a outras categorias de trabalhadores bem como
sua imensa repercussão na sociedade (...) 2) a dificuldade
do “comando de greve” em organizar uma enorme massa de
trabalhadores disposta a levar suas reivindicações; (...) 3) o
saldo político da greve foi mínimo e mesmo assim não se
consolidou (Mazzeo, 1999, p. 20-21).
Sendo esse o marco de crise da hegemonia anarquista, não podemos
deixar de demarcar aquilo que Konder expressou muito bem: o fato de que ainda
que possamos enxergar claramente os limites postos nesse processo, a atuação
desses anarquistas representou no final do século XIX e nas duas primeiras
décadas do século XX uma lufada de ar fresco – saudavelmente plebeu - na
atmosfera elitista estagnada da política brasileira (Konder, 1980a, p. 29-30). Ao
mesmo tempo, é esse o contraponto histórico-político que permite posteriormente
aos comunistas - muitos provindos dos quadros anarquistas - uma identidade
própria forjada inicialmente nas polêmicas que travam com esse anarquismo 78.
77
Em Que fazer?, Lênin observa justamente a necessidade de distanciamento das
relações imediatas que se estabelecem entre o trabalhador e o patrão, de modo
que é necessária uma visão global da sociedade que só pode ser alcançada por
meio da reflexão científica (Lênin, 1986).
78
Konder chega mesmo a dizer que os anarquistas encaravam os marxistas como
renegados, que se punham ao serviço da tirania. E os comunistas viam nos
anarquistas a encarnação daquilo que eles próprios tinham sido até a véspera:
exatamente por se sentirem pouco seguros, no íntimo, quanto a assimilação de
98

Contudo, o outro e grande elemento significativo para a constituição dos


comunistas e do Partido Comunista no Brasil é, sem dúvida, a Revolução Russa
de 1917 e a fundação da Internacional Comunista - Kommunistische Internationale
, também conhecida como Terceira Internacional e pelas siglas Komintern e IC -
79

em março de 1919 (Cf. Chilcote, 1982).


Esta influência, juntamente com os acontecimentos precursores
mencionados anteriormente, culminou no estabelecimento formal do PCB e na
convocação de seu primeiro congresso, realizado de 25 a 27 de março de 1922.
Neste congresso, examinaram-se e aprovaram-se as “21condições” da Komintern
e os estatutos do partido.
Assim, evidencia-se que a formação do Partido Comunista no Brasil
surgiu das cisões e fusões de movimentos ideológicos similares, cujo rumo
dependia grandemente dos acontecimentos internacionais e esse elemento, da
dependência dos acontecimentos internacionais, é um determinante importante
para que o Partido, ainda que fundamentalmente centrado numa ação
revitalizadora da política na constituição de uma vanguarda organizada, ao
mesmo tempo, empreendesse uma leitura da realidade brasileira clivada de
esquemas doutrinários previamente elaborados que destituíam o Partido de
elementos analíticos importantes para entender a particularidade que
conformava a realidade nacional e a classe operária brasileira (Cf. Konder,
1980a; Chilcote, 1982).
E, na medida em que não compreendiam a estrutura da
classe operária brasileira, da qual ambicionavam tornar-se a
suas novas concepções, os comunistas fustigavam com exasperada paixão
aqueles que defendiam as posições por eles recém-abandonadas (idem, p. 35).
79
O ingresso do PCB na Internacional Comunista deu-se depois da resolução do
“caso Canellas”. Antonio Bernardo Canellas, era operário gráfico eleito membro da
comissão central executiva do PCB e foi escolhido para representar o Partido no
IV Congresso da Internacional Comunista, realizado em dezembro de 1922. No
Congresso, Canellas defendeu teses de reformistas franceses e anarquistas,
chegando mesmo a declarar que o Partido tinha um gênero de socialismo neutro
moralmente e que por isso, tinha com membros maçons, protestantes e católicos
(Cf. Pacheco, 1984, p. 93). Em 1924, a Internacional Comunista envia Rodolfo
Ghioldi para estudar a situação interna do Partido no Brasil, e este elabora um
relatório onde está escrito que o mal havido em Moscou devia-se a Canellas e não
ao PCB (Mazzeo, idem, p. 94).
99

vanguarda atuante e eficaz, os comunistas perdiam a


capacidade de aprofundar seus vínculos reais com ela,
forjando, então, no plano da doutrina, vínculos simbólicos
(Konder, idem, p.40).
Contudo, cabe aqui ressaltar a pertinente observação de Mazzeo
(idem), quando este destaca que não podemos ceder a formulações mecanicistas
que pontuam que as formulações do PCB realizadas entre 1922 e 1927 eram
apenas resultados da interferência direta do Komintern. Ainda que isto estivesse
posto, por exemplo, quando o Partido assumia a noção da revolução em “etapas”,
conforme a qual a revolução brasileira tinha caráter “democrático-pequeno-
burguesa”, revelava ainda um outro elemento de relação com as tese da IC: a
defesa da necessidade de incorporar os movimentos burgueses e pequeno-
burgueses80 de caráter nacionalista ao bloco operário e camponês. Já a tese
defendida por Octávio Brandão, em Agrarismo e Industrialismo, era da disputa
interimperialista no Brasil entre Inglaterra e Estados Unidos e mostrava uma
burguesia industrial cooptada pelo projeto do imperialismo norte-americano. Ainda
assim, com os eixos centrais da IC presentes na elaboração dos comunistas, o
que nos parece interessante é que são visíveis as influências das resoluções do
IV Congresso81, que acentuava a necessidade da independência do proletariado

80
A partir dessa diretriz, o PCB organiza o Bloco Operário, com o objetivo de
construir uma frente proletária para as eleições parlamentares. Na plataforma do
Bloco estava colocada a manutenção de uma política independente da classe
operária, a crítica à plutocracia, a luta contra o imperialismo, o reconhecimento da
União Soviética e a anistia para os prisioneiros políticos (Cf. Chilcote, idem).
81
O IV Congresso, de dezembro de 1922, mantém o elemento de continuidade da
política de frente única, na qual a ação dos comunistas nos países de capitalismo
desenvolvido era priorizada e sustentada pelo entendimento de que a ação dos
comunistas com as massas avançadas do movimento criava as possibilidades de
tirá-las das influências reformistas. Ao mesmo tempo tem-se, neste Congresso, a
observância do problema nacional e colonial, com ênfase nos movimentos
nacionais do Oriente e era voltada para aqueles movimentos de libertação na luta
democrática e antiimperialista e ao problema agrário, de modo que o problema da
revolução colonial é definido como nacional e democrático-burguês. Está
claramente estabelecido, no IV Congresso para os países coloniais ou
semicoloniais, criar um núcleo do Partido Comunista que represente os interesses
gerais do proletariado e apoiar com todas as forças o movimento revolucionário
nacional contra o imperialismo, tornar-se vanguarda desse movimento e fazer
emergir o movimento social no interior do movimento nacional (Agosti apud
Mazzeo, idem). O V Congresso, realizado em junho/julho de 1924, após a morte
100

em face da pequena burguesia nacionalista e das alianças com a burguesia


“progressista” e antiimperialista, num período em que no MCI, vigoravam as
formulações do V Congresso (ibidem, p. 56).
Essa configuração será reelaborada, a partir do III Congresso do PCB,
que sofrerá interferências mais incisivas da IC, possibilitadas pela realização da I
Conferência dos Partidos Comunistas Latino-Americanos, em junho de 1929, a
instalação do Secretariado Sul-Americano da IC, a publicação do periódico
Correspondência Sudamericana, que começa a circular em 1926. O Komintern,
face à estabilização capitalista que gerava uma baixa dos movimentos
revolucionários da Europa, exercerá o enquadramento e homogeneização das
estruturas organizativas dos Partidos Comunistas. O impacto disso, para a
América Latina, foi sem dúvida a marginalização de pensadores e militantes latino-
americanos e de suas formulações voltadas para pensar a especificidade latino-
americana82.
Como observa Lowy, se ao mesmo tempo em que tínhamos
pensadores como Mella e Mariátegui, capazes de elaborar um pensamento
independente e criativo, o comunismo latino-americano começou a ver o
desenvolvimento de outro tipo de líder no final da década de 1920. Esses
dirigentes estavam ligados muito mais diretamente a um ponto de vista político e
intelectual do aparelho do Komintern de Stalin, cujas variações seguiram com uma
fidelidade exemplar (Lowy, 2003, p. 20). Nesse quadro, institui-se a viragem à
stalinização do Partido Comunista do Brasil, e, em face da derrota na China, o

de Lênin, opera um deslocamento dos debates para os problemas nacionais da


Europa, secundarizando o Oriente, e, apesar de reafirmar a luta antiimperialista
para os países colônias, o faz a partir de um reducionismo teórico, na medida que
o aprofundamento da subordinação da IC à construção do socialismo num só país
e o desconhecimento das particularidades históricas das formações sociais,
altera-se com isso a teoria do nacionalismo revolucionário que fica submetida à
incorporação de frações burguesas e parte da pequena burguesia ao bloco
operário e camponês (Agosti apud Mazzeo, idem, p. 42-43).
82
No II Pleno do Comitê Central do PCB, renegam-se as teses do II e III
Congressos do Partido e Astrojildo Pereira e Octávio Brandão são afastados da
direção partidária, sendo iniciado o processo de “proletarização”, leia-se: a
presença física dos operários nos órgãos dirigentes, considerada fundamental
para combater os “perigos de direita”.
101

Komintern criticará de maneira extremamente dogmática qualquer relação entre os


Partidos Comunistas e os movimentos revolucionários de extração pequeno-
burguesa83.
Para Konder, a contrapartida desse doutrinarismo abstrato será o
golpismo (idem, p. 43), fermentado pelos impactos da Revolução de 30, que
desacredita para amplas áreas da população as instituições políticas brasileiras.
Assim, e com o ingresso de Luiz Carlos Prestes no PCB em 1934, em Moscou 84,
aumentam internamente as crenças em torno das possibilidades de um levante
armado. No contraponto, o crescimento do movimento integralista no Brasil, e a
ascensão de Hitler na Alemanha em 1933, criavam um cenário da “necessidade
de ação imediata”. Isso fica claramente explicito na “Carta Aberta” de Prestes
publicada em 1935; dizia ele:
(...) A situação é de guerra e cada um precisa ocupar o seu
posto. Cabe à iniciativa das próprias massas organizar a
defesa de suas reuniões, garantir a vida de seus chefes e
preparar-se ativamente para o momento do assalto. A idéia
do assalto amadurece na consciência das grandes massas
(Prestes apud Konder, idem, p.45).
Apesar da linha sectária, revigorada então pelos determinantes
históricos, também se impõem - dada essa fermentação da política nacional e
internacional - alianças ao PCB para fora dos segmentos do proletariado, e, na
medida em que há uma crescente radicalização política com seguidos conflitos de
rua que opunham fascistas e antifascistas, ofereceram-se as condições para uma
ampla aglutinação de forças nacional-populares, que iriam desembocar na

83
A Conferência dos Partidos Comunistas, ligados ao Secretariado Sul-Americano
da IC, realizada em 1930, em Buenos Aires, exercerá forte pressão sobre o PCB.
O Partido será alvo de crítica quanto ao seu “direitismo”, a concepção da
revolução “democrático pequeno-burguesa” de Octávio Brandão será taxadas d
“menchevista, antileninista e anti-marxista”, além de severas críticas às resoluções
do III Congresso do Partido, principalmente a teoria da “terceira revolta” - que
acreditava estar por eclodir a terceira revolta militar em continuidade as ocorridas
em 1922 e 1924 – vista como colocando o Partido à espera de um novo levante
Tenentista (Pacheco, 1984).
84
A aproximação da IC com Prestes se deu, segundo Mazzeo, num contexto
individual e feita à revelia do PCB. Apesar de contar com o apoio do Komintern,
Prestes só entra no Partido por meio de ordem expressa de Manuilski – então
responsável, na IC, dos assuntos da América Latina (idem, p. 58).
102

formação da Aliança Nacional Libertadora – ANL (Del Roio, 2003, p. 108), cujo
apoio ao Partido não custará alterações na linha da frente única desenhada por
ele e pela IC. Ao contrário, tem-se aqui o espaço para a exacerbação do elemento
de “crença no processo insurrecional” do qual nos fala Konder, e que terá seu
ponto de auge com a insurreição de Natal em 1935.
Este movimento, ao invés de servir à revolução acabou –
independentemente da vontade dos que o conduziram – possibilitando as
condições histórico-políticas favoráveis para que as forças políticas conservadoras
se articulassem em torno de
Getúlio Vargas, criando um clima favorável à instauração do Estado Novo em
1937. O Estado, dada a sua forte relação com o nazi-fascismo, empreenderia
sobre o Partido (e não só) uma violenta e brutal repressão 85, que levou à prisão de
quase todos os integrantes da sua direção.
Somente entre 1941 e 1942 é que os grupos comunistas voltam a se
rearticular, e já o fazem sob o signo de algumas divisões. Fundamentalmente, três
grupos principais articularam a reconstrução do PCB: dois de São Paulo e um
terceiro, que constituiu a Comissão Nacional de Organização Provisória – CNOP.
Em 1943, a realização da Conferência da Mantiqueira, iniciativa da CNOP,
rearticulou os militantes e definiu sua política de apoio ao governo Vargas contra o
nazi-fascismo e a reorganização do PCB. Em 1945, em face da vitória de uma
ampla coligação de nações (União Soviética, Estados Unidos, Inglaterra, França
etc.) que se formaram contra o nazi-fascismo, criaram-se condições adversas para
os regimes de direita em todo o mundo. Também no Brasil urge a necessidade de
democratização, acarretando abalos fortes à estrutura do Estado Novo.
Vargas, desde 1944, abandonado por setores importantes das classes
conservadoras, procurou mobilizar os trabalhadores, permitindo, por exemplo, a
organização do Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT) e sinalizou para

85
Pacheco destaca a brutalidade policial durante o Estado Novo, no qual a prática
da delação oficializada e remunerada atingiu proporções altíssimas. Era notória a
relação entre as pessoas ligadas aos órgãos de segurança com o nazi-fascismo,
ocorrendo estreita colaboração entre estas e a Gestapo (idem, p. 178).
103

mudanças na estrutura sindical coorporativa fixada na Consolidação das Leis


Trabalhistas.
Neste momento, o Partido havia lançado as bases de uma linha política
que, marcada pela absorção das diretrizes do VII congresso da IC 86, só terá como
ponto não sincrônico o Manifesto de Agosto (1950). Aquela linha diz respeito à
política de amplas alianças de classes (Cf. Chilcote, idem; Mazzeo, idem). Assim,
o norte aqui não era mais a tese da classe contra a classe, mas a política das
frentes populares que englobavam a genérica demarcação dos setores
democráticos, dentre os quais estava a burguesia “nacional”. Como observa
Mazzeo,
Esses aspectos eram tidos como fundamentais, dentro da
concepção tática para a construção da primeira “etapa” da
revolução, cujo caráter seria “nacional democrático-burguês”,
momento em que o proletariado não deveria ter a hegemonia
política, o que significava também abandonar a antiga linha
de independência de classe (1999, p. 71).
Nesse sentido, e marcadamente preocupado com os riscos de um
tumulto que afastasse o processo democratizador dos caminhos institucionais 87,
os comunistas apoiaram a campanha da Constituinte com Getúlio e lutaram pela
legalidade, pela anistia geral aos presos políticos e pelo envio de tropas brasileiras
para lutar juntamente com o povo soviético. Ao mesmo tempo, como destaca
Pacheco (1984), em que os comunistas se colocavam favoráveis ao governo,
ignoravam as reivindicações econômicas da classe operária. Com a palavra de
ordem “apertar o cinto”, os comunistas se manifestavam contrários às greves e
buscavam soluções para esses conflitos em apelos dirigidos diretamente ao
governo.
Do ponto de vista do próprio Movimento Comunista Internacional,
revela-se a confusão desse período, na medida em que a política desenvolvida

86
O VII Congresso (1935) será também o último da IC, pois o Komintern foi
dissolvido em maio de 1943.
87
Konder (1980a) destaca em várias passagens as intervenções de Prestes dentro
desse então espírito do Partido. Como exemplo, podemos destacar a publicação
em O Globo, de 1945, de um texto no qual Prestes coloca claramente que se o
país não fosse democratizado imediatamente, o caos será inevitável e as
insurreições mais desastradas e perigosas se sucederão (ibidem, p. 54).
104

por Moscou era de colaborar, dentro da ordem capitalista, com a reconstrução do


pós-guerra; por outro lado, a dissolução do Komintern, em 1943, gerou tal grau de
perplexidade que alguns Partidos Comunistas também propuseram suas
autodissoluções88. Para todos os Partidos no mundo, transladar mecanicamente
aquilo que foi definido no VII Congresso da IC significou forte grau de
institucionalização.
Ainda assim, internamente, a burguesia brasileira autocrática e golpista,
mesmo em face da política do PCB de uma unidade ampla para a consolidação da
democracia, só visualizava o expressivo quantitativo do PCB e sua influência no
movimento sindical como uma ameaça importante. Nesse sentido, coube-lhe, de
um lado, tomar as rédeas do processo, dando o golpe em 29 de outubro e, ao
mesmo tempo, acabar com as ameaças, colocando, depois de um processo de
isolamento, o PCB na ilegalidade.
Mais uma vez pelo “alto”, a burguesia empreende o processo de
“redemocratização”, com forte intervenção nas organizações sindicais,
“expurgando” os elementos supostamente de esquerda do Ministério do Trabalho,
proibindo o MUT. Nesse processo, cabe mesmo a compreensão de Mazzeo no
sentido de uma implantação da legalidade burguesa:
A configuração da legalidade burguesa e não da democracia
plena está no fato de que a própria ‘redemocratização’ não
rompe com a autocracia burguesa. Articulada pela habilidade
histórica dos políticos burgueses, a ‘redemocratização’
realizou-se ‘pelo alto’, cooptando os setores populares, que
se organizavam em grupos políticos incipientes. Uma vez
estruturada a transição e a legitimação do processo,
novamente as organizações populares seriam postas à
margem, como ocorreu com a cassação do PCB e de sua
bancada. O mais revelador dessa legalidade burguesa está
na manutenção das formas de controle sindicais que
permaneceram ao sabor dos mecanismos de repressão e da
CLT (...). Em realidade, essa legalidade burguesa nada mais
é do que o próprio liberalismo amputado e às avessas, com
origem na sociedade colonial, lógica e historicamente
reelaborado, sem, no entanto, perder o ranço autocrático,

88
Esse processo ficou conhecido como browderismo, pois Earl Browder, então
secretário geral do PC dos Estados Unidos, face aos acordos entre EUA e URSS,
propõe a dissolução do partido e sua transformação numa associação política.
105

típico de uma burguesia débil que nasceu, cresceu e se


multiplicou na esteira da contra-revolução permanente
(1995, p. 38 – grifos nossos).
Posto na ilegalidade por Dutra, com apoio expressivo do Congresso
Nacional e pressionado por suas bases, o PCB opera uma guinada a esquerda,
que não será definitivamente, como postula Mazzeo (1999), apenas como um
hiato. Em 1948, o Partido lança o Manifesto de Janeiro, no qual faz uma dura
autocrítica de seus posicionamentos, reformulando o espectro das suas alianças,
dando agora mais ênfase no proletariado, o campesinato e setores da pequena
burguesia. O Partido também explicita com mais clareza o caráter do capitalismo
brasileiro e sua relação subordinada ao imperialismo (ibidem, p. 75).
Posteriormente, no Manifesto de Agosto privilegia-se a centralidade operária na
construção da democracia e na ruptura com as formas institucionais da autocracia
burguesa. Para Mazzeo,
Essa perspectiva apontava para uma interpretação
particularizada da realidade histórico-social do Brasil, e tinha
em si, potencialmente, a possibilidade de superação da
formulação genérica de construção da “etapa” da revolução
democrático-burguesa precedendo a prolataria. É nesse
sentido que essa formulação aproximava-se da realizada por
Lênin, quando analisava as tarefas do proletariado russo na
revolução democrática89 (idem, p. 76).
Com esse entendimento, a proposta da “Frente Democrática de
Libertação Nacional” estava associada aos seguintes pontos programáticos:
governo democrático e popular emanado diretamente do povo; nacionalização dos

89
Para Lênin, no texto Duas Táticas da Social-democracia na Revolução
Democrática, a peculiaridade do capitalismo tardio com tradição autocrática coloca
para o proletariado e seus aliados a tarefa da realização da revolução
democrática. Para ele, pensando a perspectiva da revolução burguesa na Rússia,
(...) as forças sociais reais que se confrontam com o tzarismo (que é uma força
real e tangível para todos) (...) essas forças não podem ser a grande burguesia,
os latifundiários, os fabricantes (...) vemos que eles nem sequer desejam uma
vitória decisiva. Sabemos que são incapazes, por sua posição de classe, de
desenvolver uma luta decisiva contra o tzarismo: para ir a luta decisiva, a
propriedade privada, o capital, a terra, são um lastro demasiado pesado (...). Não,
a força capaz de obter a ‘vitoria decisiva sobre o tzarismo’ só pode ser o povo, isto
é, o proletariado e os camponeses (...). ‘A vitória decisiva da revolução sobre o
tzarismo é a ditadura democrática do proletariado e do campesinato’ (Lênin, 1986,
p. 410-411).
106

bancos e empresas estrangeiras; nacionalização do subsolo com nacionalização


do comércio interno; ensino público e gratuito com o incentivo às atividades
cientificas; controle popular as forças armadas (Cf. Mazzeo, idem). Ao mesmo
tempo, neste processo o Partido também, e dado o forte ranço de seu
desenvolvimento até ali, não conseguiu ser flexível no sentido da condução
política de seu projeto. E ainda que se verifiquem aí concepções e elementos
importantes, a ação política foi movimentada por um forte sectarismo 90.
Contudo, diferente de Konder (1980a), que, no nosso entendimento, dá
uma ênfase excessiva no elemento de sectarismo, outros elementos também se
agregam aqui para explicar o decréscimo da inserção social do Partido. Não
podemos desconsiderar elementos já pontuados anteriormente, como é o caso da
política de conciliação mantida pelo partido, como sendo importantes para o
afastamento dos trabalhadores do PCB e o peso da ilegalidade e da repressão da
qual o partido foi alvo (a proibição da imprensa oficial do Partido é um bom
exemplo). De outra parte, há também, como destaca Mazzeo (idem), o fato de que
as potencialidades postas em movimento no interior do Partido não foram
seguidas de uma reestruturação teórica que possibilitasse superar os
entendimentos superficiais da realidade brasileira91.
Assim,
A ausência de continuidade do núcleo dirigente, a forte
presença de um marxismo vulgarizado e absorvido
inicialmente por intermédio do Komintern e, posteriormente,
pelo viés stalinista que irá agregar-se ao tenentismo – no qual
também estavam disseminados os conceitos positivistas (...)
– aliado à marcante presença de uma burguesia
intelectualizada, impregnada por uma razão pragmático-
positiva, nos permitem alcançar os nexos explicativos da
90
Konder (idem) destaca claramente isso, principalmente quando dá ênfase no
artigo de Osvaldo Peralva, publicado em março de 1951, na Revista Paratodos.
Nesse artigo, o autor acusa quase todos os intelectuais não comunistas de
traidores e vendidos.
91
Quanto a isto, cabe mencionar as análises sobre a questão agrária, na qual o
Partido mantinha o entendimento da existência de relações semifeudais no país. A
exceção aqui é Caio Prado Júnior, que opera uma crítica de fundo ao
entendimento no Brasil de relações feudais de produção, como também
demonstrava a inexistência de uma burguesia autônoma no Brasil e na América
Latina (Cf. Júnior, 1977).
107

debilidade das formulações teóricas do PCB, assim como as


oscilações – ora à direita, ora a esquerda – de suas diretrizes
políticas (Mazzeo, idem, p. 81-82).
Após a realização do IV Congresso do PCB, em novembro de 1954, o
Partido começa a se distanciar do Manifesto de Agosto, em face do suicídio de
Vargas no Brasil e da política de colaboração com os governos burgueses do
Movimento Comunista Internacional. Então, o PCB começa a rever sua linha de
confronto com outras forças políticas (em especial, os trabalhistas), ampliando
assim – e a contrapelo do Manifesto de Agosto - o espectro das suas alianças
políticas.
Por outro lado, com certeza, o maior impacto aqui (e não só), após a
morte de Stálin, será a realização do XX Congresso do PCUS e o relatório de
Kruschev. Este, mesmo sendo uma peça de limitado valor científico, de escassa
profundidade historiográfica, possuiu inegável coragem (Konder, idem, p.98). O
fato é que se aceleram as alterações já em processamento na URSS e que
também acentuam a crise do marxismo-leninismo oficial (Cf. Netto, 2001b).
O impacto do XX Congresso sobre os comunistas de todo mundo foi
inegável. Precisamente sobre o PCB, chama-nos atenção Konder (ibidem) para o
fato de que o Partido ficou em silêncio sobre o acontecido durante sete meses. A
própria autenticidade do documento (o Relatório de Kruschev) foi questionada,
quando esta já tinha sido reconhecida pelos Partidos Comunistas ocidentais. O
que não se pode deixar de enfatizar é o impacto sobre os militantes de tal
situação. O depoimento de Agildo Barata, citado por Konder com extrema
sensibilidade, revela o peso desse processo para o caso desse militante, por
exemplo, que teve um derrame de bílis após estar convencido de que o
documento era mesmo verdadeiro.
Paradoxalmente, é essa crise que conformará, no entendimento de
Mazzeo (idem, p. 83), um grupo dirigente tardio para no PCB. Para o autor, e em
face de todas as considerações feitas até aqui, evidencia-se que após a
destituição de Pereira e de Brandão – primeiro grupo dirigente do Partido – o PCB
não havia conseguido constituir um grupo dirigente mais estável, fato que só se
108

resolverá depois da crise provocada pelo relatório Kruschev e que irá dar a
sustentação política ao Partido até sua outra grave crise de 1992.
Depois da autocrítica de 195692, e dos processos de disputa interna,
conforma-se a linha de ação do Partido, que já aparece na Declaração de Março
de 1958. Neste documento, o capitalismo brasileiro passa a ser entendido como
em condições de um desenvolvimento autônomo face ao imperialismo, e, nesse
sentido, o capitalismo constituía-se tanto como elemento progressista que alterou
a vida nacional como possibilitaria a ampliação dos espaços democráticos da
sociedade. Dessa forma, para o Partido, havia uma contraposição entre a
burguesia nacional e progressista e os segmentos ligados historicamente ao
imperialismo norte-americano. Neste quadro, já que se dá socialmente um
contexto de favorecimento do progresso democrático, o Partido, conclui pela ação
legal e pacífica para o socialismo93.
Claramente exposto no Documento de 1958 está a proposta da Frente
Nacionalista:
As tarefas impostas pela necessidade do desenvolvimento
independente e progressista do país não podem ser
resolvidas por nenhuma força social isoladamente. Disto
decorre a exigência objetiva da aliança entre todas as forças
interessadas na luta contra a política de submissão ao
imperialismo norte-americano. A experiência da vida política
brasileira tem demonstrado que as vitórias antiimperialistas e
democrática só puderam ser obtidas pela atuação em frente
única daquelas forças (Konder, idem, p. 105).
Dessa forma,
Desloca-se, o fulcro da política do PCB, que deixava de
priorizar a base material da sociedade – a luta econômica
politizada -, travada na disputa pela hegemonia do
movimento sindical, para favorecer o campo das alianças,
sudordina a luta do proletariado ao politicismo de viés liberal

92
Na Imprensa Popular, em 19 de outubro de 1956, o PCB publica um documento
em que reconhecia que infringira os princípios do marxismo (...) ao deixar de
apreciar com espírito crítico tudo que provinha de Stálin, do PC da URSS e da
URSS (Konder, idem, p. 103).
93
No documento de 1958 está posto: os comunistas tudo farão para alcançar os
objetivos vitais do proletariado e do povo por um caminho que, sendo de luta
árdua, de contradições e de choques, pode evitar o derramamento de sangue na
insurreição armada ou na guerra civil (Konder, ibidem).
109

e institucionalista. Essa formulação do grupo dirigente tardio


configurava-se nitidamente como gradualista, na medida em
que a hegemonia do proletariado seria conseguida mediante
graduais conquistas democráticas, que estariam sendo
favorecidas pelo desenvolvimento econômico do país
(Mazzeo, idem, p. 85).
Assim, fica evidente que a tentativa de atualização teórica do
partido continuou padecendo do seu eixo mais limitante – o etapismo – e,
mais ainda, a democracia tomada genericamente impedia os comunistas de
verem o real significado das conquistas democráticas sob o capitalismo em
seu radical limite liberal. Este é o elemento que permite entender o
descompasso entre o entendimento do Partido e o golpe militar de 1964,
pois, na medida em que apostava no desenvolvimento autônomo do
capitalismo nacional, o Partido não conseguia vislumbrar justamente a
necessidade de aprofundamento dos laços burgueses com o imperialismo,
como a forma própria para o amadurecimento do sistema capitalista, de
inserção periférica do país94, ao mesmo tempo em que isso implicava
necessariamente em reafirmar sua própria consolidação por meios
autocráticos totalmente apartada dos setores populares.
É dentro desse contexto social e político entre o final dos anos de 1950
e instauração da ditadura no país que podemos falar da inserção e do início do
debate em torno do pensamento de G. Lukács no Brasil. E, como pontuamos
inicialmente, a divulgação da obra lukacsiana se deu articulada pela política
cultural do Partido Comunista (Frederico, 1995 95). Isso não quer dizer que Lukács
não fosse até então conhecido entre nós pois, como o próprio Frederico destaca,
já nos anos 1940 alguns imigrantes e acadêmicos cultos (como Otto Maria
Carpeaux, Anatol Rosenfeld, Antonio Cândido) conheciam a obra de Lukács. Mas
o fato é que é dentro do marco dos debates da política cultural do PCB e dos
intelectuais ligados ao Partido que se dá a recepção de Lukács.

94
Ver capítulo 01 do presente trabalho.
95
O texto de Celso Frederico aqui abordado constitui-se a única produção que se
debruça sobre esse processo; por isso, ele se torna referência fundamental e
recorrente.
110

Também importa observar que essa recepção é recortada pelas


mesmas polêmicas e equívocos de posições existentes na Europa sobre a obra de
Lukács, principalmente aquelas já mencionadas anteriormente, de sua suposta
“capitulação stalinista”, de seu “reformismo” e de sua “renúncia à revolução” 96. Em
verdade, nem poderia ser mesmo muito diferente, uma vez que, como vimos
discutindo até aqui, grande foi o peso da dogmática stalinista sobre a realização
teórico-política dos PCs em todo o mundo e do PCB em especial.
Ao mesmo tempo, entendemos que é justamente no momento da
rearticulação do Partido em face dos impactos do relatório Kruschev e da crise
interna por ele gerada que se criam às condições para entender por que neste
momento se decodificou a apropriação e divulgação do pensamento de Lukács
como sendo um elemento importante da política cultural do Partido.
Para nós, o sentido é de uma tentativa de elaboração e renovação da
intervenção comunista para além das cartilhas stalinistas, ainda que, de fato,
como mostramos anteriormente, os ranços mais limitantes dessa política não
tenham sido superados, sendo, ao contrário, reformulados. Mas é verdade que
os militantes do Partido buscavam uma apropriação do marxismo que não
passasse pelas “três leis da dialética”, “cinco modos de produção”,
entendimentos esses forjados na vulgata stalinista e que eram altamente
reducionistas do arsenal categorial marxiano.
Dessa forma, aquela reivindicação principal do substrato filosófico-
hegeliano presente na obra de Marx, e que é apresentada na idéia de
marxismo ocidental como um desvio do fundamento revolucionário das
propostas políticas de Marx, aparece para intelectuais PCB como estratégico
para renovar o marxismo no e do Partido, e, nesse sentido Lukács e sua
obra colocavam-se como um ponto de inflexão que possibilitaria ao Partido
esse renovar de suas posturas na disputa voltada para a formação de seus

96
Como bem observa Frederico (idem), o contato inicial dos comunistas com as
idéias de Lukács se deu em 1959, na edição brasileira do ensaio de Bela
Fogarasi, na Revista Problemas da Paz e do Socialismo, nº 04, intitulado “As
concepções filosóficas de Georg Lukács”. Nesse texto, Fogarasi defende
intransigentemente o stalinismo, mostrando as supostas deturpações
“revisionistas” de Lukács em relação à doutrina oficial.
111

quadros e na disputa de seu projeto ídeo-político e cultural na sociedade


brasileira.
Frederico resume esse movimento, ainda que, como mostraremos mais
à frente, discordemos de alguns pontos de sua argumentação. Ele dirá:
A política cultural de orientação luksciana inseria-se num
quadro estratégico. Inicialmente voltava-se contra o passado
imediato dos comunistas, expresso na petrificação da teoria
dos manuais soviéticos, que continuariam, durante longo
tempo, servindo de base para a educação dos quadros
partidários. No plano artístico, permitia a crítica da
experiência proletkult dos CPCs da União Nacional dos
Estudantes e do zdanovismo incrustado na tradição do
partido. Finalmente, a política cultural de extração lukasciana
seria o instrumento intelectual para se disputar a hegemonia
junto à intelectualidade e aos produtores artísticos (idem, p.
190).
Nesse sentido, para nós, importa o fato de que - e, nisso nos
distanciando da tônica hoje dominante -, apesar de todos os problemas que
possam ser analisados no desenvolvimento e atuação do Partido no país,
não se pode neglicenciar a importância do mesmo, como contraponto real à
direita aqui enraizada, e a explicitação, ainda que nem sempre conseqüente
na teoria e ação política, dos limites impostos à sociabilidade pela forma de
realização própria do capitalismo e da particularidade do nosso, em especial.
Por outro lado, também compreendemos que a forma e o contexto no
qual o debate de Lukács se deu, contribuiu, no nosso entendimento, para
que, posteriormente, com a crise do regime autocrático, a sua efetividade
como pensamento social capaz de explicar e contribuir, para os debates
sobre a realidade, mostrassem aparentemente o seu anacronismo.
Observemos, pois, essas questões mais de perto.
Para Frederico (idem), a Declaração de Março de 1958 coloca pela
primeira vez a centralidade da questão democrática na construção do socialismo,
rompendo assim com a estratégia insurrecionalista e com o dogmatismo
fomentado pela importação de modelos teóricos. Estes elementos já foram
problematizados por nós, na medida em que observarmos os limites do
entendimento democrático aí formulado. Mas a questão que se coloca para o
112

autor, e que, no nosso entendimento, se aproxima do entendimento de Konder


(idem), é uma compreensão que parte exclusivamente da democratização, que
passa também a se desenvolver internamente também no Partido, em seus
métodos e no trabalho político desenvolvido, como sendo o elemento central da
política cultural empreendida pelo Partido nesse período.
Frederico (1995) complementa essa argumentação explicitando que
esse processo vivenciado pelo Partido encontra fomento significativo no fato de
que, em face do fechamento das portas à participação política institucional, dado o
golpe de 1964, é na resistência cultural que vão se aglutinar os opositores ao
regime. Nesse sentido, Frederico enfatiza que a contestação inicial ao regime foi
feita basicamente pela intelligentsia radicalizada, num momento dramático em que
a classe operária encontrava-se desmobilizada e sofrendo uma repressão que os
donos do poder não ousavam estender a classe média intelectualizada (idem, p.
188). Com certeza, esse elemento é fundamental, principalmente se pensarmos a
resistência do movimento estudantil, ocupando as ruas do país e enfrentando o
regime.
Contudo, entendemos que existe um outro elemento importante, e que
não é abordado pelos autores em questão, que foi anteriormente sinalizado aqui e
que é fundamental para esse momento do Partido. Trata-se da constituição do
grupo dirigente tardio que, no nosso entendimento, possibilita ao Partido a
constituição de um núcleo diretivo, que passa a realizar uma ação de
continuidade, acumulação e centralidade teórica. Esse movimento, também já
pontuado criticamente por nós, pode ser questionado quanto ao seu sentido real
de ruptura com a dogmática stalinista, mas não pode ser desvalorizado como
elemento importante desse processo.
Com isso, podemos aqui retomar uma outra idéia pontuada no início de
nossas considerações: o fato de, para o PCB, sua constituição como
vanguarda da classe operária está necessariamente implicada numa
profunda articulação com a sua política cultural. Na verdade, podemos mesmo
dizer que sua intervenção e direção dessa política sofreu diretamente com os
113

processos internos do próprio partido, mas ela não pode ser pensada como
exclusiva aos anos em que dominou a autocracia no país desde 1964.
Isto porque está na base do entendimento revolucionário, e nisso os
Partidos Comunistas são seus fiéis herdeiros, do entendimento do Partido como
sendo mediador entre o espontâneo e o teleológico, trazendo para as
movimentações criadas na cotidianidade pelo movimento operário a preocupação
de articular uma unidade entre aquelas e as mediações fundamentadas pela teoria
social de Marx. O que não quer dizer, como vimos mostrando ao longo desse
ponto, que, nesse movimento, o PCB tenha conseguido efetivamente estabelecer
os vínculos entre a universalidade da Teoria Social de Marx e a realidade
específico-particular em que atuou. Assim como todos os Partidos Comunistas
acabaram fazendo, o PCB também transformou os referenciais da teoria social de
Marx em modelos dogmatizados e estáticos de ação e reflexão. Contudo, é
inquestionável o entendimento da necessidade da formação cultural e da
direção dessa formação para os trabalhadores como sendo uma tarefa do
Partido.
No passado, A Tribuna Popular foi um bom exemplo disso. Mesmo
sendo um jornal popular, publicava uma seção semanal de três páginas sobre
cultura. Em suas páginas saíram poemas de Manuel Bandeira e Carlos
Drummond de Andrade e ainda, e até, de Bertolt Brecht. E, como enfatiza Konder
(idem)97, esse respeito não se direcionava apenas aqueles que eram
simpatizantes ou quadros do Partido, também se tinham ali Gilberto Freyre, Luiz
Jardim, José Lins do Rego e Sérgio Buarque de Holanda.
Nesse sentido, com o redirecionamento do Partido a partir de 1958,
mesmo antes já se tem ali o elemento da política cultural como sendo
constante na atuação do Partido. O que se modifica em seu processamento
é seu direcionamento, e no período em questão, no nosso entendimento, ela
se torna mais substantiva na medida em que o Partido consegue articular
97
Konder lembra que quando a crônica de Carlos Drummond de Andrade
intitulada “Meditação do Eleitor 3144”, sofreu censura e foi publicada com cortes
na Folha da Manhã, de São Paulo, a Tribuna Popular estampou-a na íntegra e o
Partido se orgulhou de estar defendendo na prática a liberdade de expressão do
pensamento (idem, p. 60).
114

seu grupo dirigente tardio. Especialmente para esse período, a linha


desenvolvida pelo PCB encontrava certa familiaridade com as Teses de Blum de
192998, e isso possibilita uma aproximação do PCB ao pensamento lukasciano. Ou
seja, o Lukács e a política visto pelo Partido confluíam no sentido das frentes
populares e da relação com a democracia burguesa. Mas, como o pensamento de
Lukács é atravessado por esse movimento, onde seus eixos de força
fundamentais não são postos de imediato para aqueles que não detêm a
integralidade de sua obra e de sua evolução, isso torna explicável a constituição
dessa compatibilidade. Ou seja, sua posterior “incompatibilidade” não encontra
sua gênese na obra de Lukács, mas nas ações políticas do próprio Partido. Nesse
sentido e com esse recorte Lukács se encaixava na linha adotada pelo PCB.
Mas entendemos que esse não é o único determinante, na medida em
que se distanciar da escolástica stalinista torna-se uma necessidade para o
Partido após o relatório Kruschev. Logo, esse distanciamento implica
necessariamente para o próprio Partido e seus quadros uma (re) apropriação do
marxismo. Na medida em que, neste momento, a linha adotada pelo Partido era a
ação legal e pacífica para o socialismo, agora sustentado por um grupo dirigente
tardio, porém articulado, a política cultural do Partido ganha fôlego e destaque.
Nesse quadro, podemos mencionar, sob o patrocínio do Partido, o
lançamento já em 1958 da Revista Estudos Sociais dirigida por Astrojildo Pereira e
secretariada por Armênio Guedes e que se apresentava como uma revista de
“tendência marxista” e que tinha como objetivo 99, para corrigir essa deficiência da
ausência de marxismo intervir democraticamente ao lado de outras correntes do
pensamento, estimular a polêmica tanto entre marxistas como dos marxistas com
representantes de outras correntes de pensamento (Cf. Konder, idem). Ou seja, a

98
A familiaridade a que nos referimos aqui (e é preciso dizê-lo, uma vez que os
contextos húngaro e brasileiro nada tinham em comum, assim a natureza do
documento político lukacsiano diferia das projeções do PCB) remete
especificamente à concepção de uma ampla frente democrática como
necessidade política imediata.
99
Estava posto no editorial do primeiro número: o marxismo entre nós foi algo em
si mesmo fechado e dogmático, e não chegou a ser, ou foi apenas em mínima
proporção, um instrumento de investigação (Konder, idem, p. 110).
115

busca aqui é do próprio redescobrimento do marxismo, para além do recorte


stalinista.
Em suas páginas, em 1959, em seu número 05, publica-se em língua
portuguesa o prefácio de A destruição da razão, que aparece com o título “O
irracionalismo – fenômeno internacional do período imperialista”. Em 1963, no
número 17 da Revista, apresenta-se um ensaio de Lukács sobre Dostoiévski,
traduzido por Élio Gaspari, na época assinada com o pseudônimo de Élio
Parmigiani100. E um ensaio de Leandro Konder de clara influência lukacsiana
intitulado Alguns problemas do Realismo Socialista. O último número da Revista,
que circulou em fevereiro de 1964, publicou o texto de Lukács, Carta sobre o
Stalinismo, no qual o autor ajusta suas contas com o dogmatismo político e
teórico.
Nesse espírito mesmo de renovação, com forte apoio do partido, a
apropriação e a divulgação da obra de Lukács se torna fortemente militante e
operada especialmente por jovens 101 (Frederico, idem, p. 190). E isso é expressivo
no boom das publicações de Lukács, sobre Lukács ou sob a influência de Lukács.
Em 1965, a editora Civilização Brasileira, dirigida pelo intelectual
comunista Enio Silveira, publicou uma antologia organizada por Leandro Konder
intitulada Ensaios sobre Literatura e que contava com uma gama de textos de
Lukács traduzidos por Leandro Konder, Giseh Vianna Konder, Luís F. Cardoso,
100
Cabe destacar, com base na pesquisa de Frederico (idem), que também nesse
período temos a publicação: em 1960, do importante livro do intelectual marxista
Nelson Werneck Sodré História da Literatura Brasileira, no qual o historiador
incorpora as idéias de Lukács para a análise de nossa história literária; do ensaio,
de 1963, de José Chasin, intitulado A sociologia do conhecimento de K.
Mannheim; e já 1962, sob influência de História e Consciência de Classe, Michael
Lowy publica na Revista Brasiliense, número 41, o artigo Consciência de Classe e
Partido Revolucionário; o mesmo Löwy, em parceria com Sara Chucid, realiza
uma pesquisa sobre consciência política dos dirigentes sindicais, divulgada na
Revista Brasileira de Estudos Políticos número 13, de 1962, sob o Opiniões e
atitudes dos líderes sindicais metalúrgicos.
101
Os militantes comunistas lukacsianos eram bastante jovens. Carlos Nelson
Coutinho publicou seu primeiro trabalho sobre Lukács com dezesseis anos de
idade; José Carlos Bruni tinha vinte e três anos quando traduziu Existencialismo
ou marxismo? Com a mesma idade, José Paulo Netto publica artigos sobre
Lukács (Cf. Frederico, p.1996; Lessa e Pinassi, 2002 – Entrevista com Carlos
Nelson Coutinho e Leandro Konder).
116

Roberto Franco de Almeida, Élio Gáspari, Hilda Vieira Castro Merquior e Carlos
Nelson Coutinho. Em 1968, ainda pela mesma editora, é lançada a antologia
Marxismo e Teoria da Literatura, organizada e traduzida por Carlos Nelson
Coutinho, e o livro Introdução a uma estética marxista, em tradução de Carlos
Nelson Coutinho e Leandro Konder. Em 1969, tem-se a publicação das entrevistas
de Lukács feitas por Leo Kofler, W. Abendroth e H. H. Holz, que saiu sob o título
Conversando com Lukács, traduzida por Giseh Vianna Konder.
Em São Paulo, a editora Senzala, coordenada por José Chasin, em
1967 publica Existencialismo ou marxismo? com tradução e prefácio de José
Carlos Bruni. Também em 1969 é lançado, pela editora brasiliense Coordenada,
Realismo Crítico Hoje, em tradução de Hermínio Rodrigues.
Frederico (idem) destaca que o texto de Lukács com maior impacto nas
ciências sociais, tendo-o sido em vários cursos, foi A Consciência de Classe, um
dos capítulos de História e Consciência de Classe que teve tradução de Dirceu
Lindoso e publicado na antologia organizada por Antonio Roberto Bertelli, Moacir
Palmeira e Otávio Guilherme Velho intitulada Estrutura de Classe e Estratificação
Social, de 1966, pela editora Zahar, do Rio de Janeiro.
Na década seguinte, em 1979, em São Paulo, a Livraria Editora
Ciências Humanas, dirigida por Raul Mateos Castell, reedita Existencialismo ou
Marxismo? e dois capítulos da Ontologia do Ser Social, traduzidos por Carlos
Nelson Coutinho, ademais da obra de Michael Lowy sobre Lukács (Para uma
sociologia dos intelectuais revolucionários), posteriormente reeditada pela editora
Cortez sob o título A evolução política de Lukács: 1909-1929, pois, como o próprio
autor declarou nessa reedição, trata-se de um livro sobre Lukács (Lowy, 1998,
p.11).
Sobre a influência de Lukács, textos importantíssimos foram publicados.
Leandro Konder, por exemplo, continuou seu trabalho influenciado pelo pensador
húngaro e em 1967, pela editora Civilização Brasileira, dá à luz Os marxistas e a
Arte, no qual resenha as diferentes interpretações marxistas sobre o fenômeno
artístico (Cf. Frederico, idem). Carlos Nelson Coutinho, outro importantíssimo
divulgador de Lukács no Brasil, publica em 1972, o belíssimo livro O
117

Estruturalismo e a Miséria da Razão pela editora Paz e Terra; a temática central


do livro mostra afinidade com a política cultural do Partido, operando na tentativa
de contribuir com o desenvolvimento do pensamento social brasileiro. E, pela
editora L&PM, em 1980 Konder publica sua reflexão global sobre Lukács e sua
obra, no texto intitulado Lukács.
Outro importante divulgador da obra lukacsiana, José Paulo Netto
apresenta uma obra significativa voltada para os temas, questões e debates que
envolvem o pensador húngaro e seu arsenal categorial. Na Revista de Cultura
Vozes publicou em 1974, no número 06, ano 98, o artigo intitulado Lukács e a
Teoria do Romance; e no número 10, ano 70, de 1976, publicou A Teoria do
Romance do jovem Lukács. Pela editora portuguesa Seara Nova publicou em
1978 Lukács e a crítica da filosofia burguesa e também um longo prefácio à Carta
sobre o stalinismo. Em 1981, organiza o volume número 20 Lukács da Coleção
Grandes Cientistas Sociais, coordenada por Florestan Fernandes na Editora Ática,
para o qual escreveu uma preciosa introdução. A título de biografia, escreveu
sobre a produção do pensador húngaro o livro Lukács – o guerreiro sem repouso
publicado na Coleção Encanto Radical, em 1983, pela editora Brasiliense. Em
parceria com Maria do Carmo Brant de Carvalho, lançou em 1987 Para a crítica
da vida cotidiana publicado pela editora Cortez.
Frederico (idem) também nos destaca a importância de traduções
portuguesas da obra de Lukács, que possibilitaram o aumento da circulação do
pensamento deste autor no Brasil: A Teoria do Romance, pela editora Presença (e
que hoje já possui uma boa tradução para o português, publicada no Brasil, pela
editora 34, como parte da Coleção Espírito Crítico); a edição da correspondência
entre Lukács e Anna Seghers, com o título O escritor e o crítico (Publicações Dom
Quixote), a edição de História e Consciência de Classe, de 1978, pela editora
Escorpião (e que também já possui sua versão para o português de outra editora,
a Martins Fontes, que passou a circular em 2003).
Mas, sobretudo a partir das revistas é que se realiza a ampla divulgação
de Lukács e de seu pensamento. Depois do protagonismo de revistas como
Estudos Sociais, é por meio da Revista Civilização Brasileira, hegemonizada pelo
118

PCB, (Cf. Frederico, idem) que o Partido consegue massificar para o público o seu
front cultural. Como Frederico destaca,
A revista teve uma acolhida sem precedentes no meio
intelectual identificado com a resistência democrática
pregada em suas páginas, e um sucesso de público até
então desconhecido para uma publicação volumosa e
sofisticada. Além de resistir ao novo governo, a revista
procurava informar o leitor sobre a diversidade das correntes
marxistas existentes (idem, p. 193).
Nessa revista, têm-se as publicações de textos de Lukács tais como
Tragédia e tragicomédia do artista no capitalismo publicada no número 02 de
1965; Arte livre ou arte dirigida?, em seu número 13, de 1967; Carta sobre o
stalinismo, que foi (re)publicado em edição especial em 1967, em comemoração
aos 50 anos da Revolução Russa.
Na década de 1970, Carlos Nelson Coutinho, José Paulo Netto e
Leandro Konder102 continuam firmes, no auge da repressão e da censura, em seu
protagonismo na divulgação das idéias de Lukács. Agora a revista universitária de
Juiz de Fora Hora & Vez (posteriormente nomeada apenas de Hora) é que se
transformava no órgão de difusão das idéias de Lukács (Frederico, idem, p. 194).
Em suas páginas, de autoria de Carlos Nelson Coutinho, temos os artigos O
realismo contemporâneo na perspectiva de Lukács, As ambigüidades do último
Sartre; de José Paulo Netto temos Sobre o conceito de decadência, A
Correspondência Romain Rolland & Hermann Hesse, Crítica estruturalista ou
lukacsiana? e O estruturalismo em questão; de Leandro Konder Sobre Fernando
Pessoa. E ainda um texto de Agnes Heller, quando ainda reivindicava-se
lukacsiana, intitulado A estética de Georg Lukács.
No período compreendido entre 1977 a 1981, novamente um grupo de
comunistas se articula em torno da publicação de uma revista. Trata-se agora da
Revista Temas de Ciências Humanas, editada em S. Paulo por Raul Mateos
Castell. Em seu primeiro número, a declaração de intenções da revista deixa claro
um objetivo marcadamente lukacsiano de defesa da razão como um divisor de
águas e o combate ao ecletismo metodológico como um dever de militância

102
Entre os anos de 1966 a 1970, esses jovens intelectuais comunistas já vinham
atuando nas páginas do Suplemento Literário do Jornal Diário Mercantil (MG).
119

(ibidem). Frederico (idem) relata que mudanças no corpo editorial da revista


levaram ao afastamento desse projeto. Mas, ainda assim, Lukács é uma constante
em seus números. Aqui podemos citar: no número 01, Carta sobre o Stalinismo de
Lukács; no número 02, Kafka: pressupostos históricos e reposição estética de
Carlos Nelson Coutinho e Rebeldia, desespero e revolução no jovem Lukács, de
Leandro Konder; no número 03, Possibilidades Estéticas de História em
Consciência de Classe, de José Paulo Netto; no número 04, o fundamental texto
de Lukács intitulado As bases ontológicas da atividade humana; no número 05,
Comte e a decadência ideológica, de Luiz Sérgio Henriques; no número 06,
Lukács e a problemática da era stalinista, de José Paulo Netto; no número 07, de
Lukács, as Teses de Blum (extrato) – a ditadura democrática. Data deste mesmo
período, a publicação, em 1978, de uma significativa contribuição de José Chasin
– O integralismo de Plínio Salgado – em que é ponderável a incorporação de
teses lukacsianas para a compreensão de um importante momento da história
brasileira.
Nos anos de 1980, passa a ser editada em São Paulo, uma revista
dirigida pelo mesmo José Chasin103 chamada Escrita/Ensaio, que em 1984 passa
a se chamar somente Ensaio. O foco principal da revista era aglutinar os marxistas
na perspectiva lukacsiana. Dentre os textos por ela publicados, podemos destacar:
no número 08, Entrevista: Lukács; no número 09, Lukács: vivência e reflexão da
particularidade, de José Chasin e Sobre Lênin, de Lukács; no número 13, Tempos
de Lukács e nossos tempos, uma entrevista com István Mészáros.
Também nos anos 80, precisamente em 1986, novamente a
intelectualidade ligada ao PCB fundou nova revista em São Paulo, a Revista
Novos Rumos, que em seu número 01 publicou o texto de Lukács intitulado O
futuro e o presente da democratização; no número 04, Brecht e Lukács diante do
expressionismo, de Claude Prévost; no número 05, Elogio do século XIX e, no
número 13, Trabalho e Teleologia, ambos de G. Lukács.
Esse breve percurso possibilita uma medida para a fecundidade que se
deu entre a compatibilização que o Partido fez do seu front cultural com o
José Chasin afasta-se do Partido Comunista Brasileiro no final dos anos de
103

1970.
120

pensamento de Lukács. Isso possibilitou uma formação de quadros não só para o


Partido, mas, ao mesmo tempo, quadros duradouros na defesa e divulgação do
pensamento de G. Lukács.
O fato é que todo esse processo seria impensável sem a estrutura e
articulação do Partido no desenvolvimento de sua política cultural, voltado que
estava para a renovação do marxismo, como se essa fosse de fato a herança
fundamental que deveria ser reivindicada. Por isso, em vários momentos, ainda
que haja a predominância de Lukács, temos a interlocução e divulgação do
marxismo.
Assim, o peso do relatório Kruschev parece que foi no sentido mesmo
do questionamento teórico-político se o que vinha sendo feito até aquele momento
era marxismo ou não. O Partido respondeu a isso com um investimento fecundo
que infelizmente, como vimos, não chegou a se materializar em uma ação política
conseqüente, mas paradoxalmente, nunca como nesse período, o Partido esteve
tão em ebulição no sentido mesmo de questionamento do pensamento e da
sociabilidade burguesa. Os temas recorrentes em Lukács dão, pois, conta de
enfrentar as expressões complexas da consolidação do capitalismo no país em
campos até então pouco explorados na esfera da cultura, assumindo formas
importantes,
Ela [a divulgação de Lukács] insere-se no esforço de
renovação do marxismo pós-desestalinização; servia de
suporte teórico contra o irracionalismo (em especial a
filosofia existencialista que tanto prestígio teve entre nós na
década de 50 e no início dos anos 60) e, depois, contra o
formalismo, estruturalismo e positivismo (em voga nos anos
70); servia, também para reestudar criticamente a literatura e
servia finalmente, e em escala menos, para se pensar temas
da realidade brasileira (Frederico, idem, p. 190).
Postas essas questões resta-nos ainda nos confrontar com outro
elemento mencionado por Frederico que é a fuga da política strictu sensu para o
campo específico da política cultural. Diferentemente deste autor, não entendemos
que a jovem intelectualidade que teve papel fundamental para a divulgação de
Lukács o fez porque não conseguia emergir como uma alternativa de direção
dentro do PCB e ao invés da política strictu sensu, os intelectuais concentravam-
121

se especificamente no campo específico da política cultural. Assim, eles não


incomodavam a direção do partido e, em troca, garantiam sua autonomia de
trabalho (Frederico, idem, p.189). Para nós, há problemas nessa afirmação.
Primeiro, porque o Partido não fomentou, como o fez, a presença nas
editoras, jornais, cursos e palestras em entidades de massas, promovendo ao
máximo esses militantes, possibilitando que ficassem amplamente conhecidos
pelo público, desfrutando de notoriedade, apenas para que esses militantes não
“incomodassem” a direção. O fato é que, aqui, o Partido queria de fato investir
em seus quadros de modo que se pudesse romper com as cartilhas
stalinistas. Ou seja, há um movimento de renovação formativa do Partido.
Por outro lado, a idéia de que há uma fuga da política strictu sensu para
o campo específico da política cultural, no nosso entendimento se aproxima muito
da idéia apresentada nas teses dominantes sobre o marxismo ocidental, ou seja,
de recusa da luta política “efetiva” com centralidade nos debates filosófico-
abstratos.
Entendemos que no caso do PCB as bases de sua fundamentação
teórico-política foram implodidas depois do XX Congresso do PCUS. Assim sendo
- e ainda com o fato de nesse período a política do Partido ter sido a do não
enfrentamento de classe num aprofundamento do reformismo como já
mencionamos -, esse movimento significava muito mais uma tentativa de
refundação dos referenciais do Partido do que especialmente uma fuga. E, aí
sim, dentro desse entendimento, podemos localizar a idéia front cultural, como
demarca Frederico, no qual os comunistas estavam empenhados na renovação
do marxismo, na luta ideológica contra o irracionalismo (identificado com o
existencialismo) e na defesa do realismo na arte (1996, p. 127) e que possibilita
que nesse movimento a política cultural ganhe destaque, especialmente em um
contexto sócio-histórico de acirramento da ditadura.
O fato é que em face da ofensiva do governo restringindo cada vez mais
a liberdade de expressão, e na medida em que muitos intelectuais silenciaram em
face dos problemas e das questões postas na sociedade, sob as quais deveriam
se pronunciar, os comunistas lukacsianos não se calaram e mantiveram aceso o
122

militantismo que era congruente com a necessidade de renovação do marxismo,


de um pronunciamento marxista em face do momento brasileiro mais impregnado
de conformismo, instrumentalização. E não porque aqui fosse o locus “mais
seguro”, já que muitos foram presos, torturados e exilados, mas o fato é que essa
geração precisava dizer no que ela diferia da vulgata stalinista e essa é a herança
que precisava ser recomposta frente à sociedade - ao mesmo tempo em que essa
herança estava em constante tensionamento pelos processos em curso na
sociedade e paradoxalmente pelo rumo tomado pelo Partido desde 1958.
É inegável, porém, que isso não questiona o fato de o lastro lukacsiano
fomentado nesse período ter sido expressivo, fecundo e significativo. Mas resta-
nos saber então por que ele não vingou. Em face de tantos militantes comunistas
lukacsianos, por que Lukács não se enraizou entre nós? Frederico (idem) instiga-
nos quando constata que no momento em que foi possível aos militantes
lukacsianos confrontarem-se mais diretamente com as questões políticas, a maior
parte deles acabou por abandonar esse instrumental teórico-analítico.
Para lançarmos pistas para entender essa questão fundamental, cabem
algumas observações acerca da crise do regime autocrático e do PCB. Como já
mencionamos anteriormente, é com o regime autocrático que as forças produtivas,
através de uma maciça intervenção do Estado, desenvolveram-se imensamente,
favorecendo a consolidação e a expansão do capitalismo monopolista 104
(Fernandes, 1976). Contraditoriamente, é esse mesmo movimento que possibilita
o surgimento de uma classe operária moderna. Ao mesmo tempo, o
desenvolvimento das forças produtivas e a complexificação das relações sociais
de produção possibilitam a proletarização de um espectro de segmentos médios
que passarão a ter inserção e influência no movimento sindical. Nesse quadro,
ocorrem as manifestações operárias, na região do ABC paulista, e que tinham
como vanguarda os trabalhadores da metalurgia.
Este movimento operário, que se organiza no final dos anos de 1970,
coloca em xeque não apenas a política salarial e as relações trabalhistas mantidas
pelo governo, mas também o aspecto fundante da política econômica, obrigando

104
Ver Capítulos 01 e 03 desta tese.
123

dessa forma a burguesia a uma posição defensiva no contexto da auto-reforma


que o regime ditatorial se propunha.
Nessa perspectiva, as movimentações operárias contêm, em
si, um elemento de crítica objetiva (...) muito mais profundo
do que a realizada até aquele momento por uma oposição
cuja ação política limitava-se ao campo institucional,
definindo-a como luta contra o “autoritarismo”. Assim, as
mobilizações operárias acabam deslocando o eixo da luta
(...) retirando-a do plano meramente politicista e remetendo o
combate a uma dimensão mais ampla, incorporando em suas
bases outros aspectos (...) incluindo fundamentalmente sua
base econômica (Mazzeo, 1999, p. 158).
Dessa forma, esse movimento também passa a questionar, apesar de
não apontar para um claro projeto de transformação social, a necessidade de uma
contraposição à autocracia burguesa que não se restringisse apenas a política da
frente ampla sustentada pelos comunistas, apontando para a necessidade de uma
alternativa política mais classista. Na medida em que havia um grande
questionamento dos projetos e programas políticos das esquerdas (PCB, PC do
B), este movimento acaba aderindo, dada a necessidade de um instrumento eficaz
de intervenção política, à idéia de fundar um partido.
É importante destacar que, nessa movimentação, havia a
predominância de uma cultura política que privilegiava o espontaneísmo, em
detrimento de uma estrutura organizativa dotada de instrumentais teóricos que
pudessem nortear a ação operária (ibidem, p.160). Nesse sentido, ressalta-se que
as lideranças desse movimento não possuíam vínculos orgânicos com a esquerda
marxista. Dessa forma, o grande desafio que estava posto para o movimento
operário era o de sua atuação no quadro político aberto pela crise do regime
autocrático e de qual projeto alternativo que lhe faria o contraponto.
Neste contexto, o grupo dirigente do PCB, marcado pela não superação
das interpretações analíticas postas pelo Movimento Comunista Internacional, não
consegue captar a essencialidade das alterações do quadro político brasileiro,
expressas nas greves do ABC - ao mesmo tempo em que também não consegue
acompanhar os mecanismos postos em movimento pela autocracia burguesa para
garantir a transição pactuada para o governo civil de Tancredo Neves.
124

Assim, diante da nova realidade, o PCB segue prisioneiro da concepção


de frente ampla pluriclassista, dentro de um contexto político que necessitava de
uma direção oposta, que
Rompesse com aquela aliança de classes necessária no
passado, mas superada pela eclosão das movimentações
operárias, que se constituíam na expressão material do
esgotamento histórico do tipo de frente política estruturada
no MDB105. (...) O PCB tentou trazer o movimento operário
para a linha da unidade genérica, agindo contra uma
tendência histórica que se delineava no sentido da
possibilidade e necessidade de construção de um bloco
operário-popular, de nova qualidade, com programa distinto
e de caráter de classe definido. (...) O PCB defenderá a
manutenção da forma-partido-MDB que, mais tarde,
viabilizará a operação da transição pactuada, na perspectiva
de uma nova institucionalização da autocracia burguesa e
que possibilitará a “eleição”, pelo colégio eleitoral, de
Tancredo Neves e José Sarney (Mazzeo, idem, p. 170).
Nesse sentido, a marca da inflexão de 1958 no Partido se faz sentir
nitidamente, na medida em que o etapismo, imperou privilegiando-se o caminho
do pacto. Centra-se assim, na saída institucional dentro da ordem autocrática. A
busca pela renovação do marxismo não conseguiu garantir ao grupo dirigente
tardio a elaboração de um referencial e um instrumental analítico que
possibilitasse ao Partido uma ação política mais renovada e, no caso dessa
conjuntura específica, que fosse capaz de constituir um bloco popular aglutinado
fora da lógica autocrática burguesa. Assim, O PCB acabou sendo um dos
articuladores da Aliança Democrática e do acordo para eleger Tancredo e Sarney
(ibidem).
Em face desse quadro, retomamos a indagação de Frederico (idem):
afinal, como fica a militância que estava articulada em torno da política cultural de
traço lukacsiano que se desenvolveu a partir do golpe de 1964 e foi se
intensificando e renovando nos anos 70? Por que, no momento em que a
problemática política – com o início da democratização – pôde ser abordada
diretamente, o arsenal lukacsiano foi posto em segundo plano e substituído pelo
pensamento de Gramsci?
Sobre o Movimento Democrático Brasileiro,há informações suficientes em
105

Moreira Alves (1987).


125

A resposta dada por Frederico parte da “constatação” do caráter


episódico da reflexão lukacsiana no campo da teoria política. Em suas palavras,
das problemáticas incursões juvenis à retomada da política nos textos publicados
postumamente (...) há um longo hiato só preenchido momentaneamente por
entrevistas e rápidos comentários (Frederico, idem, p. 205) - ao contrário de
Gramsci, que fez da política o eixo de seu trabalho teórico.
De partida, e somente na tomada imediata dessa afirmação, é que
podemos considerá-la como razoável. Stricto sensu, Lukács não se debruçou
sobre a questão da política. Em uma de suas grandes obras, a Ontologia do Ser
Social, a reflexão específica sobre a política é realmente escassa. Em
comparação com Gramsci, Lukács contribui muito parcimoniosamente para a
análise das dinâmicas político-conjunturais.
No entanto, no nosso entendimento, a resposta de Frederico é muito
limitada. Para responder à provocativa questão que ele coloca, é preciso localizá-
la no contexto mais amplo que vimos sinalizando - a relação das idéias
lukacsianas com o Partido Comunista em seu esforço de renovação do marxismo.
Como já mencionamos anteriormente no item 01 deste capítulo, o
destino de Lukács está atrelado ao destino de Marx. Consideramos que o
pensador húngaro apanha a essencialidade da teoria marxiana, ou seja, o
entendimento acerca do processar da forma de realização do capitalismo, que
implica necessariamente, apontar para os limites que ela impõe à realização
humana bem como para as possibilidades de superação dessa ordem. Ora, o que
a vulgata stalinista fez foi justamente destituir do pensamento de Marx esse seu
caráter radical. Hegemoniza-se, como vimos demonstrando, no Movimento
Comunista Internacional, por meio do Komintern, para os Partido Comunistas de
todo o mundo um marxismo deformado em sua essencialidade ontológica. Dos
pensadores contemporâneos, Lukács é com certeza aquele para o qual a tarefa
de continuidade do pensamento marxiano em sua radical essencialidade mais se
colocou como problema teórico e político. E, em face da experiência da União
Soviética, e de sua relação direta com esses acontecimentos, foi ele o pensador
que mais se imbuiu na “renovação” mesma do marxismo.
126

Mas, como mencionamos anteriormente, o Partido Comunista Brasileiro


compatibilizou Lukács com sua política cultural, principalmente por se colocar, em
face do relatório Kruschev, a necessidade de renovação do marxismo. Em uma
correspondência trocada com G. Lukács, em 15 de Agosto de 1963, Carlos Nelson
Coutinho expressa claramente isso:
(...) Creio que suas obras fornecem, aos marxistas realmente
dialéticos, o melhor e mais inteligente desenvolvimento
desse pensamento. Por isso, lamento muito – tal como a
maioria dos intelectuais do meu país – as absurdas criticas
que um falso marxismo stalinista dirige contra o senhor, em
nome de uma ortodoxia dogmática. Felizmente, tudo indica
que os caminhos do marxismo contemporâneo não são de
modo algum os do stalinismo (...) Creia também que os
verdadeiros marxistas brasileiros o consideram símbolo de
uma vida realmente devotada ao comunismo e à elaboração
de um marxismo autenticamente criador (...) (Coutinho apud
Lessa e Pinassi, 2002, p. 143).
Nestes termos, a política cultural do PCB, para os seus militantes,
muito mais do que apenas colocá-la como focada no campo estritamente da critica
literária e das artes, significava mesmo um certo uso das idéias filosóficas como
ação e participação política. E na medida em que se tratava de formar quadros
numa nova herança cultural, nada mais significativo do que lançar mão de um
pensador para a qual, tal como abordamos anteriormente, fundamental.
Nesse sentido, como já pontuamos, não se trata de uma fuga para o
campo da cultura, mas de uma refundação da ação política marxista tendo na
cultura, em face da ditadura militar, seu veículo privilegiado. Ao mesmo tempo,
pensar que o debate em torno das artes e da estética não possue em si um
caráter corrosivo fundamental, é um grave equívoco. Quando falamos em termos
do pensamento lukacsiano o debate estético, da crítica literária, das artes não
cancela de maneira alguma a mediação e presença das classes sociais para a
reprodução do humano-genérico.
O fato é que o processo posto em movimento pelo Partido, leia-se: a
renovação do marxismo que se operou na entrada da ditadura e se desenvolveu
ao longo de toda a década de 70 pela veia lukasciana, de fato se processou. Mas
esse movimento abriu claramente uma contradição para a própria ação do Partido.
127

Pois, ainda que Lukács tenha sido de alguma medida compatibilizado com a
ação do Partido, à época, no que se refere a “frente ampla”, a renovação do
marxismo se realizou em torno de elementos potencialmente corrosivos para
o reformismo propalado pelo partido a partir de 1958. Isso porque o
entendimento da estética, da critica literária, remete necessariamente à realização
do gênero humano, que para Lukács não pode se dar plenamente nos marcos do
capitalismo. Nesse sentido, a crítica ao irracionalismo e ao estruturalismo remetia
necessariamente aos limites do marco burguês, em sua particularidade brasileira,
e de uma ação mais efetiva frente a ele. Ação essa que não se realizou
efetivamente pela intervenção do Partido.
O grupo dirigente tardio do Partido mostrava para seus militantes a
reedição das velhas formas pluriclassitas e se tornava impermeável à superação
desses referenciais. Ao mesmo tempo, quando a luta dos trabalhadores se coloca
sob outros matizes, no final dos anos 70 e início dos anos 80, e em face do não
avanço do Partido no entendimento dessa realidade, o pensamento de Lukács foi
colocado no mesmo patamar que Frederico coloca. Ou seja, em face da
necessidade “efetiva”, e com as possibilidades que se gestavam para o final do
regime autocrático, qual a resposta política de Lukács? Ou seja: ainda que grande
tenha sido a apropriação e divulgação de Lukács entre nós, ela ainda não tinha
sido exaustiva ao ponto de responder a essa questão. Ainda não se tinham aqui
amplamente divulgadas obras como a Estética e a Ontologia do Ser Social que, ao
mostrarem a centralidade do trabalho na constituição do gênero humano,
postulavam o homem como autor decisivo de si mesmo - ou seja, o caráter
radicalmente histórico e social do ser social e, que coloca a perenidade de
qualquer forma de organização social.
Até porque, nas entrelinhas, a pergunta em questão era como a
atualização do marxismo que se tentou realizar pode dar conta dessa realidade?
E, na busca de respostas mais “imediatas”, mais maleáveis e mais abertas, até
porque Lukács era um comunista ligado ao PC, em face do espontaneísmo dos
movimentos que estavam fervilhando na sociedade brasileira, em face da recusa
do grupo dirigente tardio em abandonar a estratégia pluriclassista, os militantes
128

passam a fazer parte daquele grupo de esquerda que querem “esquecer” e se


distanciar do stalinismo e de tudo o que ele representou, até as tentativas de
superá-lo como aconteceu no país durante a ditadura. Dessa forma, a adoção do
pensamento de Lukács não chegou a significar parte da constituição de uma
tradição marxista política mais duradoura.
Sobre essas questões, com certeza pesa ainda o fato destacado por
Netto (1998) e que diz respeito à intervenção da ditadura no “mundo da cultura” e
que teve duas conseqüências imediatas muito problemáticas. A primeira foi à
ultrapassagem de qualquer monopólio político-partidário da inspiração socialista
revolucionária, mas em condições extremamente negativas para a esquerda
(idibem, p. 110). Aqui se verifica justamente o elemento de espontaneísmo que
vimos mencionando anteriormente, na medida em que se constata a proliferação
de agrupamentos reivindicando-se revolucionários, de vida efêmera, e de
fundamentação muito limitada a versões políticas particulares da tradição
marxista. Nos termos de Netto, nesses segmentos de esquerda generalizou-se
uma cultura marxista de pacotilha, no seio da qual a petição voluntarista e
praticista gestou um simplismo intelectual que se mostra inteiramente vulnerável
(ibidem).
O segundo, já abordado por nós no primeiro capítulo, foi a emersão do
marxismo acadêmico (Netto, idem, p.111) que, de um lado, reforçou a substituição
das matrizes originais da teoria social revolucionária pela exegese de seus
comentaristas e/ou comentadores e, de outro o oportunismo teórico da crítica
abstrata que varia não a partir da determinação reflexiva, mas ao sabor das
conjunturas.
Como um outro ponto desse processo, temos também, na realidade
social, o enraizamento dos efeitos do irracionalismo e do estruturalismo reinantes
no Brasil nos anos de 1960 e 1970, na medida em o próprio marxismo “clássico”
começa a deixar de ser referência para uma intelectualidade que passa a
encontrar, nos temas ventilados pela filosofia existencialista e/ou estruturalista,
análises necessárias. Trata-se do complexo cultural que estava configurado na
base da nova esquerda surgida no final do regime autocrático.
129

Nesse contexto,
O realismo dialético de Lukács foi visto como antiquado e
pouco útil à impaciência revolucionária de uma pequena-
burguesia intelectualizada, anciosa por fazer uma revolução
radical capaz de modificar não só a economia, mas,
principalmente, a superestrutura da sociedade (...) no refluxo
ocorrido no pós-68 consolidou-se a tendência irracionalista,
que teve, como contraponto, a efêmera ascensão do
formalismo estruturalista e de sua versão marxista em
Althusser. Tanto numa quanto noutra, a ruptura com o
legado hegeliano desconsiderava todo o projeto lukasciano.
Mesmo no período posterior, o da abertura política, o
irracionalismo ganhou novas roupagens e permaneceu
influente junto a vastos segmentos da esquerda
intelectualizada, enquanto o lugar ocupado
momentaneamente por Althusser passou a sê-lo por uma
interpretação antileninista de Gramsci (Frederico, 1995,
p.217).
E já em 1972 no prefácio do livro Realismo e anti-realismo na literatura
brasileira, está posto:
Curioso equívoco cerca hoje a figura de Georg Lukács no
Brasil. Traduzido e divulgado entre nós a partir de 1965,
suas idéias encontraram num primeiro momento grande
receptividade. No bojo dos acontecimentos que reorientaram
os rumos da sociedade brasileira, nossa vida intelectual e
acadêmica sofreu profundas alterações, aos poucos foi
sendo readaptada segundo as novas exigências que se
impunham. Com a substituição de temas e preocupações,
desenvolveu-se entre nós um precoce e sintomático
desinteresse pela obra de Lukács, num momento em que
apenas começava a se conhecida (Coutinho,1974, p. IX).
Nesse sentido, a incompatibilidade é justamente do viés classista
presente na obra de Lukács com o caldo cultural que se desenvolve no país
depois do fim do regime autocrático. A potencialidade radical desse pensamento
não é compatível com a política cultural do PCB, Partido que não conseguiu
realmente se renovar. Ao mesmo tempo, o próprio quadro social então aberto no
Brasil coloca o deslocamento e a ruptura cultural com o movimento comunista. E,
na medida em que os movimentos populares então em ebulição buscavam um
outro tipo de referências que não mais aquelas do papel da teoria revolucionária
para o movimento de massas, Lukács infelizmente passa a não ser mais a
referência viva.
130
131

CAPÍTULO III

LUKÁCS E O DEBATE TEÓRICO DO


SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

A interlocução do Serviço Social com o pensamento de Lukács – objeto


central deste capítulo - é recentíssima e pode ser datada a partir da metade dos
anos de 1980. Do ponto de vista mais geral, ela se beneficiará diretamente do
132

movimento da intenção de ruptura, consolidando-se esse movimento muito mais


num avanço no plano ídeo-político frente ao conservadorismo (Cf. Netto, 1996a,
p. 111).
O final dos anos de 1980 significa, para o Serviço Social brasileiro, uma
importante ampliação do seu espectro de tendências ídeo-políticas que se torna
largo, expressando o tensionamento contemporâneo da vida social brasileira. A
demanda da sociedade brasileira por democratização faz-se sentir no seio
profissional por meio também da democratização da relação no interior da
categoria, legitimando o direito a diferença ídeo-política (Netto, idem). Mais do
que isso, a profissão finaliza os anos 80 como uma profissão relativamente
consolidada106, com maturidade na elaboração teórica e portadora de uma
especialização própria de profissões amadurecidas: a criação de um segmento
diretamente vinculado à pesquisa e à produção de conhecimentos (ibidem, p.
112); quer dizer, constitui-se uma intelectualidade no Serviço Social brasileiro.
O traço marcante deste processo, conforme verificamos anteriormente
e ademais dos equívocos verificados, foi o fato de esta produção ser dominada
pela influência da tradição marxista. Mais ainda, todas as polêmicas relevantes
travadas na profissão na busca de sua consolidação e de sua ruptura com o
conservadorismo foram marcadas pelo pensamento marxista.
Contudo, o pensamento lukacsiano só passa a ser apropriado pelo
debate teórico da profissão na passagem dos anos 1980 aos anos 1990, no

106
No plano da formação eram cerca de 70 unidades de ensino que estavam em
funcionamento e, poucos estados da federação não contavam com escolas de
Serviço Social. A pós-graduação implantada na primeira metade da década de
setenta, encontrava-se firmada em sete universidades e, em sentido lato,
registrava experiências importantes. Do ponto de vista da chamada produção
cientifica, o Serviço Social mostrava dinamismo estimulante: não só tinha na
academia um espaço efetivo de elaboração, como já dispunha de uma bibliografia
própria (...) e mantinha, além de publicações intermitentes, e alguns órgãos
universitários, uma revista profissional com periodicidade regular, circulando
nacionalmente há mais de uma década (...) também a corporação profissional,
com um contingente estimado em mais de sessenta mil assistentes sociais,
registrava ganhos quer, na representação junto aos organismos estatais – com a
dinamização dos seus Conselhos Federal e Conselhos Regionais – quer, na sua
experiência associativa enquanto vendedora de força de trabalho (Netto, 1996a, p.
106-7-8).
133

nosso entendimento diretamente vinculado àquele momento sinalizado por nós no


capítulo 01, em que Santos nos fala de uma apropriação ontológica da vertente
crítico-dialética. E que significa fundamentalmente um tratamento
substantivamente mediatizado em face dos compromissos profissionais
assumidos em face dos usuários e que estão balizados no projeto ético-político
profissional (Santos, 2007, p. 79). Ou seja, no nosso entendimento, na
decodificação no interior profissional do que seja a profissão, o foco de sua
intervenção e os compromissos político-profissionais se impõem a partir
dessa delimitação.
No dizer de Santos, os valores e princípios são a expressão do que
seja o compromisso com os usuários dos serviços nas esferas propriamente
profissional. E a apreensão dessas mediações apresenta dois pressupostos
basilares: a concepção da profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho
capitalista e do seu objeto como sendo as diversas expressões da “questão
social” (idem, p. 79).
Nesse ponto, identificamos uma polemização de fundo lukacsiano em
torno do entendimento do que seja a profissão e que, no nosso entendimento, vai
se dar em dois momentos profissionais. O primeiro no entendimento de profissão,
balizada na obra Capitalismo Monopolista e Serviço Social, de José Paulo Netto
publicada em 1992, e no debate que deriva da elaboração das Diretrizes
Curriculares de 1996, entre as elaborações de Marilda Iamamoto e Sérgio Lessa
em torno do significado da categoria trabalho.
É claro, como vamos abordar adiante, outros temas também serão
cortados pelo fundo lukacsiano. É o que identificamos no debate da metodologia,
da mediação e os debates conexos à retórica acerca da “crise de paradigmas”,
mas, no nosso entendimento, esses debates (próprios, respectivamente, dos anos
1980 e 1990/2000) são derivações do que se trava no mais substantivo debate
profissional que é o entendimento de profissão e o foco da atuação profissional.
O debate em torno do Código de Ética Profissional – este, próprio da
entrada dos anos 1990 - ganha outra significação, na medida em que, no marco
do estabelecimento do que seja a profissão, e com base nos avanços da intenção
134

de ruptura, a tomada de posição política e a recusa da neutralidade qualificam os


parâmetros e valores da ação profissional.
Por outro lado, pensar a relação e contribuição de Lukács no Serviço
Social é pensar também aquilo que já abordamos anteriormente sobre Lukács e
seu exílio no momento contemporâneo, na medida em que a profissão também
será atravessada pela reatualização do conservadorismo presente no âmbito das
relações sociais e que se decodificará no interior da profissão.
Primeiramente, porque o amadurecimento profissional com base na
apropriação do marxismo não significou a superação do conservadorismo no
interior da categoria profissional; ao contrário, como veremos mais à frente, no
tensionamento das forças sociais que dão sustentação ao segmento marxista na
profissão, o conservadorismo se reacenderá sob novas facetas (pós-modernas).
Netto dirá claramente que o que se processa na base desse processo é um
hiperdimensionamento (1996a, p. 1112) da magnitude dessa ruptura. Em suas
palavras, a dinâmica das vanguardas profissionais, altamente politizadas, ofuscou
a efetividade da persistência conservadora e, mais à frente, concluirá,
As correntes profissionais inspiradas na tradição marxista
ganharam tal credibilidade que seus oponentes foram
compelidos a uma extrema cautela defensiva; a resistência
à tradição marxista, fundamente arraigada em ponderáveis
segmentos da categoria, não se reduziu – simplesmente
não encontrava condições para se manifestar franca e
abertamente (ibidem).
Em segundo lugar, o enquadramento histórico contemporâneo é da
lógica excludente e destrutiva do capitalismo, aprofundada no processo de
mundialização e de ofensiva ideológica neoliberal, de impactos brutais
particularmente para a periferia do capitalismo. Como vimos, este movimento é
agravado pelas derrotas da esquerda em suas respostas ao movimento do
capital. O colapso do “socialismo real” foi amplamente divulgado, pelos teóricos
da burguesia, como a crise do legado teórico de Marx. Neste sentido, para a
profissão, o recurso ao pensamento marxiano e a tradição marxista se dá num
momento em que diversos setores da intelectualidade migraram para o ideário da
ordem. E, no meio universitário, nem mais o marxismo acadêmico é bem-vindo.
Se Marx é banido dos centros acadêmicos, rechaçado como “paradigma”
135

anacrônico, totalitário, o que se dirá de Lukács e seu “suposto histórico


stalinista”...
Assim, com base nessas observações, é possível rastrearmos as
determinações e elementos constitutivos da relação entre o debate teórico-político
do Serviço Social e o pensamento de G. Lukács.

3.1. Lukács no debate da metodologia

Como vimos demonstrando ao longo do capítulo 01, no marco dos


anos de 1980, apesar da interlocução da profissão com o marxismo, esse
processo ainda não vai se expressar de maneira efetiva na superação do
tradicionalismo-pragmático encravado na história profissional. O peso do
marxismo como um “modelo” não possibilita o estabelecimento das mediações
que conformam o campo da atuação profissional e das categorias de análise.
Esse carecimento era expresso claramente na endogenia que dominava o debate
profissional, fazendo com que a centralidade do debate realizado à época
resvalasse numa segmentação da profissão pensada a partir da sua história, da
sua teoria e do seu método. Especialmente, é em torno do debate da metodologia
que temos a forte marca desse processo.
É bem verdade que o pragmatismo presente no desenvolvimento
profissional restringiu a ação profissional, voltando-a sempre para patamares de
eficácia e eficiência. Mas esse desenvolvimento profissional está necessariamente
conectado ao trato oferecido à “questão social” pela lógica burguesa, que se dá
sempre - não pela integralidade do fenômeno nem pela sua causa fundante, que é
a exploração do trabalho pelo capital – mas pela fragmentação das suas
manifestações, centrando-se na sua superficialidade. Isto é o que permite, como
abordamos no capítulo 01, que ocorra uma individualização dos problemas
sociais, bem como uma responsabilização dos indivíduos pela sua situação (Cf.
Iamamoto, 1995b; Netto, 1996b).
136

É por meio desse determinante social que a ação profissional sobre as


refrações da “questão social” vai e operar por meio de uma lógica da adequação
de comportamentos que recorre a uma decodificação da intervenção profissional,
que Montaño (2000b) bem configurou como uma trilogia metodológica que se
diferenciava segundo o sujeito para a qual se destinava: tínhamos o Serviço Social
de Caso, o Serviço Social de Grupo e o Serviço Social de Comunidade – todos
combinando, heteroclitamente, fundamentos positivistas e funcionalistas.
Nessa “metodologia” tradicional, o método dizia respeito a uma pauta
de procedimentos comuns que envolviam o processo de investigação, diagnóstico,
planejamento, execução e avaliação. No caso brasileiro, os exemplos dos
“modernizantes” Documentos de Araxá e Teresópolis são expressivos (Cf. Netto,
1998).
Durante a Reconceituação, aparecem duas propostas de inspiração
dialética, o “Método de B.H.”, que abordamos anteriormente, e o “Método de
Intervenção na Realidade”, formulado pelo venezuelano Boris Alexis Lima em
1975. Como destaca Montaño (idem), essas duas formulações se diferenciam
fundamentalmente das anteriores na medida em que apresentam dois aspectos
originais: a perspectiva de classe (leia-se aqui: da classe trabalhadora) e a
participação dos sujeitos no processo de conhecimento. Ainda assim, apesar de
significativos, pois esses elementos apontam para um maior compromisso com a
realidade, não são suficientes para superar a segmentação típica desses
enfoques, quais sejam: ciência/técnica, teoria/prática.
Esses dois momentos da abordagem da metodologia - a trilogia
metodológica e a pauta de procedimentos comuns - estão na base dos debates
que ocorrem em torno do Currículo Mínimo para o Curso de Serviço Social,
consensuado na ABESS em 1979 e aprovado em 1982 pelo então Ministério da
Educação e Cultura, especialmente no que diz respeito à matéria Metodologia do
Serviço Social. E é já aqui que podemos dizer que comparecem duas
intervenções balizadas por uma concepção marxista-ontológica de clara influência
lukacsiana: a de Ivo Tonet e José Paulo Netto.
137

Ambas foram, para sua explicitação no interior da profissão,


favorecidas pela anterior abertura ao marxismo operada, apesar de todos os seus
vieses, pelo marxismo acadêmico. E, em segundo lugar, pelo fato de que se trata
de duas intervenções cujos autores possuem uma interlocução com o marxismo
que não passa pela primeira apropriação do marxismo pelo Serviço Social, cujos
limites foram tematizados anteriormente.
Ivo Tonet, filósofo e professor do Departamento de Filosofia
Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e já fizera parte do grupo que se
articulou em torno de José Chasin107. José Paulo Netto, por sua vez, era membro
do Partido Comunista Brasileiro e um dos militantes lukacsianos envolvidos na
renovação do marxismo proposta pela política cultural do Partido. Nesse sentido,
verificamos que em ambos os casos evita-se fundamentalmente os
enviesamentos, anteriormente mencionados, presentes no Serviço Social em sua
apreensão epistemológica do marxismo (Cf. Santos, 2007 e Cap.01 dessa tese).
A contribuição de Tonet está publicada na revista Serviço Social &
Sociedade, número 15, de 1984 e incidiu, sobretudo, na discussão dos
fundamentos filosóficos108 do Currículo Mínimo de Serviço Social.
Neste texto, o autor localiza claramente como a perspectiva tradicional
presente no Serviço Social limita a profissão, fechando-a numa visão de homem e
sociedade compatível e funcional com o movimento e a lógica do capitalismo.
Para o autor, esta limitação pode ser identificada em três problemas centrais. O

107
Basta lembrarmos que ele participa, em 1984, da importante entrevista
realizada com István Mézáros. Esta foi publicada na revista Ensaio, número 13,
intitulada Tempos de Lukács e Nossos Tempos. Foi coordenada por José Chasin
e envolveu também Narciso Rodrigues Júnior, Ester Vaisman, Norma Casseb e
Sérgio Lessa.
108
Recordemos a importante contribuição, também no campo da filosofia, que foi
dada por Antonio Geraldo de Aguiar, professor da Faculdade de Serviço Social de
Lins e da Faculdade de Ciências da Fundação Educacional de Bauru. Este autor
publicou também na revista Serviço Social & Sociedade, número 15, um artigo que
versava sobre A filosofia no Currículo de Serviço Social. Neste artigo, o autor faz
uma interessante pesquisa que faz um balanço das correntes filosóficas que
influenciaram o Serviço Social até aquele momento e, de como essas correntes se
expressaram na construção das disciplinas ministradas na formação do Assistente
Social. Como o nosso foco aqui, é o debate lukacsiano não nos deteremos sobre a
contribuição de Antonio Geraldo de Aguiar.
138

primeiro deles remete ao idealismo: segundo Tonet, sua operação básica consiste
no fato de conceder ao conceito – que é uma generalização a partir de objetos
individuais – o estatuto de realidade ontológica fundante do ser dos objetos
individuais (idem, p. 22). Ou seja, ao autor chama atenção para o fato de que a
operação realizada em termos ideais corta o conceito de sua base empírica,
passando-se a trabalhá-lo como se ele fosse uma realidade. Neste processo, não
há mediação entre o singular e o universal e a realidade concreta passa a ser
medida pelo grau em que ela se adequa ao conceito.
O segundo problema elencado pelo autor diz respeito ao positivismo,
que consiste em rejeitar a ontologia para aceitar como real apenas o fenômeno, o
dado empírico e a generalização das suas regularidades denominadas de leis
(Tonet, idem, p.23). Ou seja, o autor é radical em determinar o fato de que nos
marcos da análise positivista o interesse se centra no modo como as coisas se
processam sem contradições - ocorrendo apenas desvios, disfunções. Nesta
concepção, na medida em que a sociedade é regida por leis idênticas às da
natureza, convertendo a teoria e a história num “relato imparcial dos fatos”, o
homem não é sujeito do processo histórico; ao contrário, ele é indivíduo
atomizado frente à sociedade.
O último problema diz respeito ao humanismo abstrato, que atribui ao
homem uma essência imutável, pré-existente à sua objetivação histórica,
passando imediatamente do singular ao universal, eliminando as particularidades
como acidentais (Tonet, idem, p.24). O mote aqui é o da elevação da essência
humana, que é genérica, e torna-se o fundamento do valor absoluto do indivíduo,
independente de quaisquer circunstâncias históricas.
Com base nessas ponderações, Tonet enuncia o fato de que o Serviço
Social tradicional e embebecido nesses três pilares só poderia ter como função
azeitar a máquina do sistema capitalista (idem, p.25). E o assistente social só
poderia também se encontrar diante do indivíduo como um átomo impotente. Em
suas palavras,
O objetivo da ação social é sempre o desenvolvimento do
chamado “homem integral”, mas, diante da insolúvel
contradição entre esse ideal e as estruturas sociais
139

naturalizadas, termina-se por conseguir para o homem,


mesmo que seja através de ações coletivas, um lugarzinho
ao sol para garantir a sua precária sobrevivência (Tonet,
ibidem).
Em face do exposto, Tonet apresenta com precisão o elemento de
superação necessário que deve ser operado para superar estes problemas, qual
seja, a apropriação marxiana na sua perspectiva onto-metodológica, que
permitiria entender a realidade social como uma totalidade. Dizer que a
realidade social é uma totalidade não significa que ela seja um aglomerado de
partes justapostas, imutável na sua estrutura, mas sim um complexo de
determinações coerentemente organizadas; as partes ganham seu sentido em
relação ao todo (Tonet, idem, p. 27).
Assim, essa intervenção foi importante, de um lado, porque explicitou
claramente que a superação do Serviço Social tradicional só seria possível por
meio de uma apropriação marxiana na perspectiva onto-metodológica. O que em
si já significava sinalizar as condições para a superação, no sentido mesmo de
reelaborar, à luz da totalidade social, das formulações vigentes sobre
relação teoria/prática, bem como a superação do apriorismo metodológico
que estava na base do Serviço Social tradicional – quanto a essas questões, nos
deteremos mais à frente. Por outro lado, as colocações de Tonet, na medida em
que analisou criticamente as correntes filosóficas que influenciavam o Serviço
Social, afirmam a necessidade de reformulação da disciplina de
Fundamentos Filosóficos do Serviço Social. Ademais, ao mesmo tempo, como
postula Barroco (2001), o autor, ao questionar esses fundamentos filosóficos,
abria a via de possibilidades para, no debate ético (a que voltaremos adiante),
superar o entendimento de que a remissão a valores universais ou ao humano-
genérico fosse uma abstração negadora da história e das classes sociais ou de
que a opção de classe conduziria necessariamente a uma moralidade positiva.
A contribuição de Netto, no debate da metodologia, foi apresentada em
dois textos, um na revista Serviço Social & Sociedade, número 14, publicada em
1984, e outro no Caderno ABESS, número 03, 1989 e possibilitou, no nosso
entendimento, a introdução no debate profissional de questões significativas que
ainda não se faziam sentir no interior da profissão. Referimo-nos, aqui,
140

especialmente a uma crítica contundente ao estruturalismo109. Ao mesmo tempo,


tais textos realizaram significativa polarização da tônica do debate presente no
Serviço Social tradicional. A ordem das questões levantadas pelo é autor, ao
longo desses textos, é múltipla e, no nosso entendimento, complementar - por
isso, requer de nós uma apreciação mais detalhada.
No texto da revista Serviço Social & Sociedade, a ênfase se dá em
mostrar os limites presentes no que o autor chamou de alternativa eclético-
restauradadora e a solução modernizante. A primeira enfeixada, nas três
modalidades de intervenção profissional (caso, grupo e comunidade), remete a
âmbitos de intervenção restritos e institucionalizados; a segunda, na falsa
tentativa de romper com esse passado, se apresenta - e o autor destaca isso -
como a construção do “modelo” próprio e “científico” que compatibilizaria a
profissão com as ciências sociais. O contraponto estabelecido por Netto vai se dar
justamente na medida em que ele estabelece que, para o lastro profissional em
questão, a via de ruptura só pode se dar por meio do corte com essas
proposituras (1984, p. 14).
No âmbito profissional, este corte só pode ocorrer num duplo
movimento. O primeiro: reconhecer que o Serviço Social não tem metodologia
própria e carece de teoria específica, o que não quer dizer que não possua um
estatuto profissional pertinente e definível segundo as injunções sócio-históricas
(idem, p. 13). O segundo, que também está presente em Tonet, mas dito de outra
forma, é o resgate da teoria social com todas as suas implicações. E isto é
importante porque nesse momento o autor sinaliza justamente para os
condicionalismos do pensamento conservador, bem como para a necessidade da
desmistificação das ciências sociais. Em suas palavras,
Erradicar de vez toda a falsa identificação de teoria social
com ciência, suprimindo as vinculações com o positivismo e
todas as suas ulteriores derivações, restaurando a
inspiração marxiana, é eliminar o conjunto de equívocos
acumulados em décadas (...) em outras palavras equivale a
109
Pensemos que aqui a produção de Carlos Nelson Coutinho O Estruturalismo e
a miséria da razão, já havia sido publicada desde 1972 e, além de bater
fortemente no estruturalismo esclarecia os dilemas e insuficiências do
racionalismo formal contemporâneo.
141

determinar que no plano teórico, que o método é questão


da teoria social e não problema particular desta ou daquela
“disciplina” (...) avia de ruptura nesta ótica, ultrapassa todo
o acervo das chamadas ciências sociais e investe na
desmontagem dos seus fundamentos e legitimações (...) e
repõe o Serviço Social como atividade profissional cuja
especificidade não tem legalidade “teórica” ou “científica”,
mas provém da institucionalização de uma dada atividade
pelos canais da divisão social do trabalho (idem, p. 14)
Os elementos apontados aqui, no nosso entendimento, são
substanciados significativamente no texto dos Cadernos ABESS, na medida em
que o autor explicita claramente que os procedimentos da suposta metodologia do
Serviço Social, de um lado, estão conectados à tendência mais geral do
racionalismo contemporâneo que arranca do neokantismo e que concebe a
análise dos fenômenos a partir de sua expressão empírica (...). O que conduz à
formulação lógico-abstrata de um modelo ou paradigma compreensivo dos
processos que eles sinalizam (Netto, 1995c, p.143); por outro lado, esclarece as
diferenciações fundamentais entre este tipo de racionalismo frente à vertente
crítico-dialética. Fundamentalmente, e no entendimento inverso, de que para esta
última a reflexão teórica não constrói um objeto - ao contrário, ela reconstrói
o processo do objeto historicamente dado.
Aqui também, tal como em Tonet, insere-se no debate profissional a
necessidade de se remeter à problemática marxiana da totalidade, desenvolvida
especialmente por Lukács, quando este autor formula o entendimento de unidade
e não de identidade entre teoria e prática. E, no mesmo processo, explicita que
até esse momento a profissão gravita em um debate que se dá de maneira
redutoramente epistemológica, pois estabelece o método a priori, e não numa
perspectiva ontológica, como é o constitutivo da base do pensamento de Marx e
do qual Lukács é legatário.
Assim, o debate que está posto aqui é claramente lukacsiano.
Convém-nos então esclarecer o que é teoria, método e cientificidade em Lukács e
que comparecem aqui reivindicadas nas elaborações de Tonet e Netto, bem como
o significado dessas considerações para o momento referido do Serviço Social.
142

Como vimos demonstrando, as formulações metodológicas do Serviço


Social, no pressuposto do que seria a área “específica” da profissão delimitada
pela sua teoria e seu método, efetivavam na verdade um recorte da totalidade
social. Esse “recorte” é reproduzido no interior da profissão na medida em que
ele vem na esteira mesma do próprio surgimento das ciências sociais particulares.
É na própria origem dessas ciências que Lukács localiza um núcleo problemático
fundamental.
Para o pensador húngaro, tal núcleo emerge no processo em que se
instaura a decadência ideológica da burguesia, que passa a operar a partir de
1848, em face das lutas do proletariado, não mais como uma classe
revolucionária e sim conservadora110. Neste marco, para Lukács, a sociologia
surge como autônoma na medida em que o estudo das leis e da história do
desenvolvimento social se dá desenraizado das suas determinações econômicas
(Cf. 1968b). Torna-se a sociologia formalista e incapaz de investigar as reais
conexões causais da vida social. Nas palavras de Lukács,
O fato de que as ciências sociais burguesas não consigam
superar uma mesquinha especialização é uma verdade,
mas as razões não são apontadas. Não residem na
vastidão da amplitude do saber humano, mas no modo e na
direção do desenvolvimento das ciências sociais modernas.
A decadência ideológica da burguesia operou nelas uma
tão intensa modificação, que não se podem mais relacionar
entre si, e o estudo de uma não serve mais para promover
a compreensão da outra. A especialização mesquinha
tornou-se o método das ciências sociais (1968b, p. 64).
É sobre esta base que o limite da análise passa a ser a aparência dos
fatos, pois os teóricos evitam cada vez mais entrar em contato diretamente com a
realidade, colocando ao contrário, no centro de suas considerações, as disputas
formais e verbais com as doutrinas precedentes (idem, p. 52).
Essa segmentação dos conhecimentos e sua apartação da esfera
econômica realiza um movimento fundamental para a manutenção da ordem
110
Marx é categórico neste entendimento quando afirma, no Dezoito Brumário de Napoleão
Bonaparte, que a burguesia tinha a exata noção do fato de que todas as armas que forjara contra o
feudalismo voltavam seu gume contra ela, que todos os meios de cultura que criara rebelavam-se
contra sua própria civilização, que os deuses que a inventaram a tinham abandonado (1976, p.
255).
143

burguesa, qual seja: a naturalização das relações sociais no marco burguês. Por
isso, é preciso liquidar todas as tentativas que se voltem à compreensão das
verdadeiras forças motrizes da sociedade (Lukács, ibidem). Assim, o
conhecimento que se forja na segmentação da realidade resulta necessariamente
em respostas também segmentadas que, no máximo, podem (re) arrumar o que
está posto. É neste processar que, para a concepção burguesa de mundo, a
história é naturalizada e as ações humanas, por mais positivas que possam vir a
ser, não são capazes de modificá-la. Logo, no mundo burguês, as
possibilidades humanas de realização da história ficam limitadas ao
horizonte do fenomênico, onde apenas este patamar é passível de
modificações.
No caso do Serviço Social, sua intervenção como atividade profissional
se dá justamente no nível das refrações realizadas, pela ordem burguesa, nas
respostas a “questão social”. O que implica que as respostas aqui se dão,
justamente por essa determinação, de maneira superficial e pontual (Cf. Netto,
1996b). Não é facultado à profissão o defrontar-se com a integralidade da
“questão social” porque, primeiramente, ela já aparece recortada para a
intervenção do Estado burguês 111 - o confrontar-se com ela na sua integralidade
significaria confrontar-se com o fenômeno que está na base de sua existência: a
exploração do trabalho pelo capital, ou seja, coloca em xeque a própria ordem –
e, em segundo lugar, porque o entendimento sobre essa processualidade já vem
também recortado pelas ciências sociais. Assim, esta “questão social” só pode ser

111
Netto analisa fecundamente essa determinação quando explicita que enquanto
intervenção do Estado burguês no capitalismo monopolista, a política social deve
constituir-se necessariamente em políticas sociais: as seqüelas da “questão
social” são recortadas como problemáticas particulares (o desemprego, a fome, a
carência habitacional, o acidente de trabalho, a falta de escolas, a incapacidade
física etc) e, assim enfrentadas (Netto, 1996b, p. 28). Guerra também chama
atenção para essa questão, quando afirma que esta forma de conceber e explicar
os processos sociais, peculiar ao “racionalismo burguês moderno” posta nas/pelas
políticas sociais, repercute na intervenção profissional dos assistentes sociais, já
que estas se constituem na base material sob a qual o profissional se movimenta
e, ao mesmo tempo, atribuem contornos, prescrições e ordenamentos à
intervenção profissional (Guerra, 2002, p. 137).
144

abordada destituída de determinantes econômicos e políticos, e pensada


exclusivamente como o social. Assim, nos termos bem formulados de Montaño,
As pautas metodológicas de intervenção profissional que
seguem esta racionalidade segmentadora / naturalizadora /
deshistorizadora da realidade não conseguem se distanciar
deste tipo de resposta a “questão social”, repondo
constantemente os substratos positivistas, estruturalista,
sistêmico e/ou funcionalista na forma de conhecer e na
modalidade de operar o Serviço Social (2000b, p. 16).
Por isso, afirmamos anteriormente que se trata, para essas formas de
intervenção, de um método a priori, determinado independente do objeto real na
medida em que não se está em condição, nem se acredita que seja possível, de
captá-lo na sua integralidade.
Diferentemente, o que está posto em Marx e que é originalmente
enriquecido por Lukács, é uma relação entre método e ontologia (Cf. Lessa,
1999): relação teórica do sujeito (pesquisador) com o objeto (a realidade),
histórica, determinada e desnaturalizada. Logo, o conhecimento balizado por essa
perspectiva é um processo de aproximação historicamente determinado, da
consciência ao ser-em-si, sem que isso implique na postulação da possibilidade –
quanto mais da efetividade – da identidade sujeito-objeto (Lessa, idem, p. 142).
Ou seja, o que dá complexidade à totalidade é seu substrato material-histórico e,
por isso, a totalidade constitui a categoria metodológica prioritária, justamente
porque ela é fundada ontologicamente.
Está posto em Marx 112, e profundamente resgatado em Lukács, que a
gênese do homem e da mulher, a constituição desse ser social, ou desse ser
natural que se humanizou, só pode ser buscada na produção material da vida.
Quer dizer, no intercâmbio do homem com a natureza, e dos homens entre si,
tendo como mediação que objetiva este intercâmbio o trabalho.
Nesse sentido, está aqui claramente implicado que qualquer
conhecimento acerca do ser social só pode se dá por meio do conhecimento das

112
Como bem explicitado por Marx e Engels, na Ideologia Alemã, o primeiro
pressuposto de toda a história humana é naturalmente a existência de indivíduos
humanos vivos. O primeiro fato a constatar é, pois, a organização corporal destes
indivíduos e, por meio disto, sua relação dada com o resto da natureza (1999, p.
27).
145

formas históricas de organização do trabalho 113 e da vida social. Ao mesmo


tempo, e igualmente importante, é o fato de que a objetividade tem prioridade
ontológica em relação à consciência 114, o que significa dizer que o ser social
existe independente de ser conhecido corretamente ou não.
Para a apreensão dessa totalidade em sua complexidade e
historicidade, ou seja, na sua estrutura, seus fundamentos e seu movimento,
impõe-se a exigência mesma da realidade 115 como o objeto a ser estudado. Ou
seja, diferentemente do que está posto nas metodologias que pretendem deduzir
113
É o processo de trabalho que complexifica o ser social, e esta complexificação
remete a problemas e necessidades que não podem ser resolvidas no interior do
mesmo. Daqui resulta a gênese de outros complexos, cuja função é a
resolutividade das questões postas, originando outras esferas do ser social - como
é o caso da educação, da política, do direito, das artes. Logo, na ontologia
marxiana o ser social é uma totalidade complexa que não pode ser limitada
apenas aos atos do trabalho, mas é este último - que por ser o momento
ontologicamente fundante da processualidade do ser social - que o singulariza. É
peculiar aos atos de trabalho remeter sempre e necessariamente para além deles
mesmos, uma vez que sua essência referencia a possibilidade de produzir mais
do que o necessário à reprodução daquele que realiza o processo de trabalho.
114
E aqui, como querem aos (anti) marxistas de plantão, não se trata de que em
Marx e Lukács a consciência seja algo menor. Ao contrário, em seus estudos
Lukács avança, tendo sempre como referência as indicações de Marx. Em seu
escrito As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem (1978a),
ressalta que diferentes modos de interpretar a posição ontológica - onde todo
existente deve ser sempre objetivo, ou seja, deve ser parte movida e movente de
um complexo concreto - levaram à falsa idéia de que Marx subestimava a
importância da consciência com relação ao ser material; ou, no entendimento
habermasiano, de que Marx não atentou devidamente para as pertinências da
dinâmica entre trabalho e interação, limitando a racionalidade da ontologia
marxiana a uma razão teleológica ou estratégica (Cf. Netto, 1994). Lukács
assevera que, para uma filosofia evolutiva materialista (como a de Marx) entender
a consciência como um produto tardio do desenvolvimento do ser material, esta
não é jamais necessariamente um produto de menor valor ontológico (Lukács,
1978a, p. 03). Ao contrário, para Lukács é justamente na delimitação materialista
entre mundo natural e ser social que Marx confere à consciência papel
extremamente decisivo. Não há em Marx nenhuma redução das objetivações ao
trabalho e nem uma derivação mecânica das objetivações ao mesmo. O processo
de trabalho é tão-somente a objetivação ontológica primária; ineliminável, que
comporta outras objetivações e delas se realimenta.
115
Lessa tem um exemplo muito peculiar para ilustrar esse entendimento, diz ele,
o vírus da peste bubônica, que dizimou a população européia na Idade Média, não
perdeu nem um pouco da sua objetividade pelo fato de, então, não ser conhecido
pelos homens (1999, p.143).
146

o real a partir de categorias e conceitos meramente lógicos - sendo a realidade


mais realidade quando se enquadra perfeitamente nessa lógica -, é a realidade
(aqui, objeto a ser conhecido) quem determina os fundamentos, as categorias e o
método que permitirá a sua decodificação teórica.
Esse processo, em termos marxiano-lukacsianos 116 vai se dá pelo
método das duas vias (Lessa, idem). Este método, que arranca da
fenomenalidade e de suas representações imediatas dadas à consciência, efetua
a busca de elementos até então desconhecidos e referidos ao objeto em questão.
Neste momento, coloca-se em movimento uma busca de descobertas de
elementos que envolvam o objeto. Esses elementos serão verdadeiros, mas
certamente parciais porque não permitem reproduzir, na consciência, a totalidade
no interior da qual se articulam em complexo (Lessa, idem, p.163). Então, temos
que caminhar para o acúmulo de abstrações que sejam isoladoras e que
possibilitem dar um salto na pesquisa realizada. De posse dessas abstrações
isoladoras, é possível sintetizar esses elementos em uma representação do todo
que não é idêntica àquela posta no início do processo; agora se trata de uma
representação qualitativamente diferente, rica, viva, pulsante, porque agora é
síntese de múltiplas determinações (Marx, 1978, p.116). A teoria, neste sentido,
deve reproduzir a particularidade da refração do movimento da totalidade social,
de tal modo que as categorias exprimem, portanto formas de modo de ser,
116
Cabe aqui a importante observação de Lessa (1999) quando este esclarece a
importância desse tema para Lukács. Diz-nos Lessa: existem vários indícios de
que a exploração dos delineamentos metodológicos deixados por Marx ganha
riqueza à medida em que Lukács evoluiu em direção à formulação de uma
concepção ontológica mais acabada, podendo então radicar em um solo
ontológico mais denso suas considerações acerca do método. Assim, por
exemplo, as reflexões acerca da lógica da particularidade estética, se comparadas
a algumas passagens da Ontologia, exibem algumas nuanças que deveriam ser
melhor exploradas para podermos ter uma idéia mais clara da evolução de
Lukács. Por exemplo, as dificuldades que na obra Estética emergem da assim
denominada, ainda que não por Lukács, “teoria das abstrações”, se estão
presente na Ontologia – o que já é uma questão – certamente não exibem a
mesma forma. Muito provavelmente, a articulação da lógica da particularidade
com uma concepção radicalmente histórica tanto da essência como do fenômeno
– explícita e plenamente desenvolvida na Ontologia mas, talvez apenas germinal
na Estética – tenha introduzido flexões importantes em como o Lukács trata o
problema (Lessa, idem, p.160).
147

determinações da existência (Marx, idem, p. 121). E é isso que torna o método


das duas vias o mais adequado para a análise da realidade. Porque
O fundamento ontológico desse procedimento metodológico
está em que, por ser o real um complexo de determinações,
uma síntese em totalidade dos “elementos simples”, a
subjetividade apenas pode representá-lo se for capaz de
reproduzir, na esfera gnosiológica, a síntese em totalidade
dos seus “elementos simples”: das “abstrações isoladoras”
deve-se conquistar a representação sintética da “totalidade
real” (Lessa, idem, p.166).
Por isso, carecendo dessa processualidade, o debate profissional se
centrou numa elaboração segmentada do que seja teoria e prática. Aqui,
incorporar uma teoria à prática profissional significou reduzi-la a mera
sistematização117 e diagnóstico (de base puramente instrumental e situacional)
(Cf. Montaño, 2000b). Na mesma medida, dar centralidade à prática significou
transladar o método referido para a construção teórica para o nível de um método
de intervenção na realidade, ou seja, o conhecimento voltado para a sua mais
imediata implementação prática. A conseqüência desses procedimentos, Montaño
resume-a muito bem:
O conhecimento critico é separado das possibilidades de
intervenção transformadora; a ação prática interventiva é
isolada de qualquer possibilidade critica de conhecimento; a
práxis se reduz a prática cotidiana, imediata; a teoria social
se esgota em abstrações; e a teoria específica do Serviço
Social se reduz a conhecimento operativo (idem, p.17).
É na ausência do amadurecimento crítico-reflexivo dessas questões e
suas devidas decodificações para o debate profissional e ainda com a
predominância das problemáticas que vimos abordando até aqui
(segmentações /deshistorização/despolitização) que se processa a problemática

117
Netto (1995) observa claramente que a sistematização da prática aparece como
uma dupla requisição. De um lado, ela otimiza a intervenção prática na medida em
que organiza e generaliza entre os assistentes sociais pautas de procedimento
profissional, reconhecidas como tais e transmissíveis via formação institucional
(idem, p.150); de outro, a partir do corte de um objeto a elaboração teórica
desenvolveria a constituição de um saber específico (Netto, ibidem). É daqui,
como observa Montaño (idem) que se estabelece o conhecer para atuar e, que
Netto brilhantemente sistematizou mostrando como a elaboração formal-abstrata
dos padrões mais regulares e reiterativos da prática tende a surgir como produto
teórico (Netto, ibidem).
148

do debate metodológico, como expressão na profissão das limitações que


operavam quando ela era pensada a partir de si mesma e que não deixava
ventilar, em termos de avanço, no interior profissional aquilo que independente
dos equívocos aí registrados significou o referenciar-se do Serviço Social pelas
ciências sociais ou pela tradição marxista.
Dito de outra forma, o movimento já iniciado de se situar fora do
Serviço Social (ou seja: a superação da endogenia), a partir do debate com as
ciências sociais e com a tradição marxista, ainda não conseguia se expressar no
interior da profissão de modo a pensá-la para além de si mesma e, com as
devidas ponderações, entre o que seria a produção do Serviço Social e a
elaboração própria das ciências sociais e da tradição marxista. Mais ainda,
antecipando aqui um elemento importante e articulador da tese que estamos
desenvolvendo, como a apropriação do marxismo nesse momento era ela
também limitada a “modelos”, o recurso à totalidade não se fazia sentir no
debate do Serviço Social de modo a que pensar a profissão remetesse
necessariamente a seus condicionamentos e determinações postos a partir
da totalidade das relações em que estava inserida.

3.2. Lukács no debate ídeo-teórico da profissão.

Como viemos demonstrando ao longo de todo o item anterior e no


capítulo 01 desta tese, avanços significativos estavam em processamento no
interior da profissão, mas, ainda não se faziam sentir como diretriz teórico-politico
hegemônica capaz de consubstanciar esses avanços claramente como um projeto
profissional. Ou seja, um projeto que fosse capaz de apresentar agora não apenas
uma imagem, como aquela que aparecia da profissão até a metade dos anos de
1970, mas uma auto-imagem, na medida em que aqui poderia expressar também
o sentido de (re) fundação dado pelos profissionais 118 àquilo que estava na base

Isso fica expresso, por exemplo, na realização do III Congresso Brasileiro de


118

Assistentes Sociais que ocorreu, em São Paulo, em 1979. A referência a este


Congresso depois de sua realização passou a ser feita como O Congresso da
149

dos processos de transformação interna, e que se operava na escala em que


buscavam romper com o conservadorismo.
O caráter inaugural desta perspectiva vai se dar, do ponto de vista
teórico, na obra de Marilda Iamamoto e Raul de Carvalho publicada em 1982, que
foi parte de um projeto de investigação do Centro Latinoamericano de Trabajo
Social – CELATS sobre História do Trabalho Social na América Latina. Aqui o
caráter inaugural, para a profissão, reside, como vimos, na justa compreensão
que tem da postura teórico-metodológica marxiana (Netto, 1998, p. 292).
Esta compreensão torna-se possível porque, como se evidencia ao
longo de todo o livro, recorre-se diretamente a obra marxiana 119, e a partir dela
situa-se claramente o processar e proceder da lógica do sistema capitalista. Isso
estabelece um claro e significativo diferencial com o que vimos mostrando
anteriormente, em que essa preocupação estava ausente do debate profissional
porque a tendência era mesmo a naturalização das relações sociais dadas, sem
nenhuma problematização acerca do significado social da sua vigência. Nesse
sentido, está claramente posto que o processo de produção capitalista expressa
Uma maneira historicamente determinada de os homens
produzirem e reproduzirem as condições materiais da
existência humana e as relações sociais através das quais

Virada. Neste evento, a profissão publiciza a sua ruptura com a prática


conservadora. Destitui-se da mesa de abertura do evento, os representantes
oficiais, e àquela passa a ser composta por representantes dos setores populares,
numa clara explicitação do compromisso assumido a partir daí. Criam-se também
os mecanismos de articulação nacional das entidades profissionais da categoria.
Em 2009, o Conselho Federal de Serviço Social - CFESS promoveu em São Paulo
um evento em comemoração aos 30 anos do Congresso da Virada.
119
Netto demarca claramente isso quando afirma que entre os autores do Serviço
Social Iamamoto é o que mais apropriadamente recorre às fontes originais
marxianas. Na sua competente leitura de Marx, ressalta um elemento nuclear: ela
conjuga com segurança os textos “maduros” com as obras “de juventude”
(especialmente os Manuscritos de 1844, mas ainda A Ideologia Alemã),
recusando com firmeza as tolices referentes ao “corte epistemológico” (Netto,
1998, p. 291). Iamamoto num texto recente, no qual faz um balanço do livro em
questão afirma: esse texto inaugura, na arena do Serviço Social brasileiro, uma
abordagem sistemática sobre a produção e reprodução das relações sociais com
base em um tratamento da teoria marxiana, apoiada no conjunto de sua obra
principal – O Capital – até então ausente da produção acadêmica da área no país
(Iamamoto, 2007, p. 252).
150

levam a efeito a produção. Neste processo se reproduzem,


concomitantemente, as idéias e representações que
expressam estas relações e as condições materiais em que
se produzem, encobrindo o antagonismo que as permeia.
Assim, a produção social não trata de produção de objetos
materiais, mas de relação social entre pessoas, entre
classes sociais que personificam determinadas categorias
econômicas (Iamamoto e Carvalho, 1995b, p. 30).
A base da interpretação aí posta está claramente demarcada pela
concepção acerca da produção que, como explicitado na citação acima, remete a
um entendimento de produção que é produção e reprodução. Do entendimento da
produção como sendo realizada socialmente, ou seja, como uma atividade social
(Iamamoto e Carvalho, 1995b, p. 29), os procedimentos dos autores desenvolvem
a especificidade histórica da ordem burguesa, cujas relações sociais perdem a sua
real processualidade através dos mecanismos de reificação 120 que ela engendra.
Por isso, a preocupação dos autores em precisar teoricamente elementos
fundamentais que articulam e mantêm a produção capitalista e, neste
desenvolvimento, se trata mesmo de apresentar pela primeira vez, para um
público pouco conhecedor nesse período, categorias marxianas fundamentais,
como é o caso da mercadoria e de todas as tensões que se gestam a partir dela
(valor de uso, valor; qualidade, quantidade; particularidade, universalidade,
trabalho útil e abstrato), bem como os dilemas do valor e o fenômeno daqui
decorrente, o fetichismo da mercadoria.
A análise postula que o capital, como essa relação social que dinamiza
e dá inteligibilidade ao processo social em sua totalidade, só pode ser
compreendido enquanto tal na medida em que supõe necessariamente o trabalho
assalariado, pois a condição histórica para o surgimento do capital e o
pressuposto essencial para a transformação do dinheiro em capital é a existência
no mercado da força de trabalho como mercadoria (Iamamoto e Carvalho, idem, p.
39). Ao mesmo tempo, a análise, ancorada no desenvolver de Marx sobre as

120
É pertinente destacar que, a construção dos autores baseia-se numa
articulação entre a problemática da alienação e as formulações acerca do
fetichismo, e que esta relação foi postulada corretamente tal como afirma Netto
(1998), mas isso também revela que a autora aqui não tinha se apropriado da
formulação da reificação formulada por Lukács em 1923.
151

metamorfoses do capital, considera fundamentalmente a problemática do


processo de trabalho. A definição deste se dá por meio de uma citação direta de
Marx que explicita que,
(...) no processo de trabalho a atividade do homem
consegue, valendo-se do instrumento correspondente,
transforma o objeto sobre o qual versa o trabalho, de acordo
com o fim perseguido. Este processo desemboca num
produto. Seu produto é um valor de uso, uma matéria
oferecida pela natureza e adaptada às necessidades
humanas mediante uma mudança de forma. O trabalho se
compenetra e confunde com os objetos. Materializa-se no
objeto, à medida que este é elaborado. E o que no
trabalhador era dinamismo é, agora, plasmado no produto,
quietude. O trabalhador é o tecedor e o produto tecido (Marx
apud Iamamoto e Carvalho, idem, p.39-40).
Contudo, os autores têm clareza de que esta é a característica de
qualquer processo de trabalho considerado nos seus elementos gerais (Iamamoto
e Carvalho, idem, p.40); por isso, explicitam a especificidade que o processo de
trabalho assume quando pensado a partir das características que o determinam
na sociedade capitalista, ou seja, na medida em que o capital domina os meios, a
forma de realização do trabalho - o próprio trabalho como força produtiva e o
produto do trabalho são propriedades do capitalista.
Na medida em que produção é produção e reprodução, para os
autores a constituição das classes sociais é postas a partir dessa determinação.
Em suas palavras, o processo de produção capitalista é um processo de relações
sociais entre classes (ibidem, p. 53). Ou seja, demarca-se claramente que a
aparente transformação das relações sociais em relações entre coisas é uma
inversão inerente e própria ao processo de produção e reprodução do capital e
que se ergue sobre a fonte criadora do valor que é o trabalho.
Neste sentido, a argumentação apresenta um elemento fundamental
que é o caráter de dominação e exploração 121 que o capital exerce sobre o

121
Nas palavras dos autores, concomitantemente à reprodução da dominação,
recriam-se, também, as formas sociais mistificadas que encobrem a exploração.
Têm por função apresentar a desigualdade entre classes como normais, naturais,
destituídas de conflitos e contradições. Estas formas ideológicas são as
aparências através das quais as relações antagônicas se manifestam (Iamamoto e
Carvalho, idem, p. 67).
152

trabalho, que se desenvolve a partir e por meio da inserção mesma dos


trabalhadores, como força de trabalho, nas engrenagens da produção de
mercadorias. O trabalhador produz e reproduz o capital; produz e reproduz a
classe capitalista que o personifica, em fim, cria e recria as condições de sua
própria dominação (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 55). 122
Destaca-se o fato de os
autores localizarem claramente na exata ótica marxiana a lei geral da acumulação
capitalista, ou seja, o fato de que quanto mais o capital se move no sentido da
ampliação da sua acumulação, mais proporcionalmente ele também desenvolve
nesse processo a ampliação da miséria. Com uma citação direta de Marx, os
autores afirmam,
A produção capitalista não só reprodução da relação; é sua
reprodução numa escala sempre crescente, e, na mesma
medida em que, com o modo de produção capitalista se
desenvolve a força produtiva social de trabalho, cresce
também frente ao trabalhador a riqueza acumulada, como
riqueza que o domina, como capital (...) e na mesma
proporção se desenvolve por oposição sua pobreza,
indigência e sujeição subjetiva (apud Iamamoto e Carvalho,
idem, p. 63).
O movimento operado pelos autores denota uma perspectivação
totalizante das relações sociais, que não se limita ao que está posto na
imediaticidade dos processos sociais na ordem burguesa, mas na sua dinâmica
essencial e estruturante; por isso arranca-se daqui para plasmar também aquilo
que se coloca no âmbito das relações políticas e ideoculturais (Cf. Netto, 1998).
Entende-se aqui que a reprodução ampliada da dominação é um processo
eminentemente político, em que as classes dominantes têm no Estado o
instrumento privilegiado do exercício do seu poder no conjunto da sociedade
(Iamamoto e Carvalho, idem, p. 67), ao mesmo tempo em que são as formas
mistificadas que encobrem a exploração, pois têm por função apresentar a
desigualdade entre classes como normais, naturais, destituídas de conflitos e

122
Netto chama atenção para a importância dessa especificação da relação entre o capital e o
trabalho, pois, para o autor, a localização dessas relações como relações de exploração garante
que ao caráter progressista e revolucionário historicamente dado, da produção capitalista, seja
articulado a sua necessária contrapartida, que é a barbárie. E, para Netto, essa explicitação é
importante porque a análise se coloca nas antípodas de qualquer eticismo (1998, p. 294).
153

contradições. Estas formas ideológicas são as aparências através das quais as


relações antagônicas se manifestam (ibidem).
Este é a angulação do processo social do ponto de vista da totalidade
e o recurso ao arsenal categorial marxiano que demarca o caráter inaugural e que
possibilita aos autores pensar o Serviço Social de modo novo: na recusa clara de
uma leitura interna do Serviço Social. Isto significa tanto não buscar a
especificidade profissional no seu objeto, objetivos, procedimentos e técnicas,
como não entendê-la apenas abordando a sua institucionalidade como
epifenômeno da ordem social burguesa123 (Cf. Netto, 1998). A perspectiva de
análise que se coloca então para pensar a profissão é referenciada no contexto de
aprofundamento do capitalismo no país, pois o suposto da análise é justamente o
fato de que a apreensão do significado social da profissão só pode ser
compreendido em sua inserção na sociedade, pois ela se afirma como instituição
peculiar na e a partir da divisão social do trabalho. Precisamente,
Como profissão só existe em condições e relações sociais
historicamente determinadas, é a partir da compreensão
destas determinações históricas que se poderá alcançar o
significado social desse tipo de especialização do trabalho
coletivo (social), mais além da aparência em que se
apresenta em seu próprio discurso, e, ao mesmo tempo,

123
Nas palavras dos autores, a reflexão teórica sobre o Serviço Social no
movimento de reprodução da sociedade não se identifica com a defesa da tese
unilateral que tende a acentuar, aprioristicamente, o caráter “conservador” da
profissão como esforço e apoio ao poder vigente. Não significa, ainda, assumir a
tese oposta, amplamente divulgada no movimento de Reconceituação, que
sustenta, a nível de princípio, a dimensão necessariamente “transformadora ou
revolucionária” da atividade profissional. Ambas as posições acentuam apenas e
de modo exclusivo, um pólo do movimento contraditório do concreto, sendo neste
sentido, unilaterais. Não se esgota a análise da profissão na afirmativa
mecanicista que, sustentando ser o Serviço Social um dos instrumentos a serviço
de um poder monolítico, conclui estar a profissão necessariamente fadada a
constituir-se num reforço exclusivo do mesmo. Por outro lado, o voluntarismo que
impregna a posição oposta, ao considerar o Assistente Social como “agente de
transformação”, não reconhece, nem elucida, o verdadeiro caráter dessa prática
na sociedade atual. Ao superestimar a eficácia política da atividade profissional,
subestima o lugar das organizações políticas das classes sociais no processo de
transformação da sociedade, enquanto sujeitos da história; por outro lado, parece
reconhecer a realidade do mercado de trabalho (Iamamoto e Carvalho, idem,
p.74).
154

procurar detectar como vem contribuindo, de maneira


peculiar, para a continuidade contraditória das relações
sociais, ou seja, o conjunto da sociedade (Iamamoto e
Carvalho, idem, p. 16).
Localizando a divisão social do trabalho 124 - e as suas expressões, a
segmentação entre teoria e prática, entre ciência e técnica - como fruto da
crescente divisão do trabalho intelectual e manual que se desenvolve à medida
que se aprofunda o capitalismo e que passa a demandar novos necessidades
sociais e novos impasses, é possível aos autores garantir esse objetivo de
“localizar” o espaço profissional do Serviço Social e como se dá a intervenção do
agente profissional nas relações sociais: ou seja, passa-se a exigir profissionais
especialmente qualificados aptos a tender essas demandas a partir dos
parâmetros de racionalidade e eficiência inerentes à própria ordem burguesa.
É claro, como destacado pelos autores, que se busca entender a
profissão sob dois ângulos, que são considerados como expressões do mesmo
fenômeno, quais sejam: a profissão representada na e pela consciência de seus
agentes, cuja manifestação se dá no discurso teórico-ideológico sobre o exercício
profissional; e a atuação profissional como atividade socialmente determinada
pelas circunstâncias sociais objetivas, que condiciona e mesmo ultrapassa a
vontade e/ou consciência dos agentes individuais. Essa relação é entendida pela
sua contraditoriedade e não pela sua coincidência.
Procura-se, pois, compreender o significado social do exercício
profissional em suas conexões com a produção e a reprodução das relações
sociais na formação social vigente na sociedade brasileira (Iamamoto e Carvalho,
1995b). O esforço aqui direcionado para captar essas conexões tem como
referência o entendimento da profissão como um dos elementos que participa da
reprodução das relações de classes e do relacionamento contraditório entre elas
(ibidem, p.71).
Mais precisamente, se trata mesmo de reconhecer a dimensão
contraditória da própria ação profissional, fundamentada na medida em que a

Para a análise de algumas lacunas apresentadas no entendimento dos autores


124

acerca da divisão social do trabalho, remeter-se a Netto (1998).


155

prática profissional se inscreve nas intermediações entre as classes sociais


fundamentais, e de suas frações na luta pelo poder e pela hegemonia.
Como as classes sociais fundamentais e suas personagens
só existem em relação, pela mútua mediação entre elas, a
atuação do Assistente Social é necessariamente polarizada
pelos interesses de tais classes, tendendo a ser cooptado
por aqueles que têm uma posição dominante. Reproduz
também, pela mesma atividade, interesses contrapostos que
convivem em tensão. Responde tanto a demandas do capital
como do trabalho e só pode fortalecer um ou outro pólo pela
mediação de seu oposto. Participa tanto dos mecanismos de
dominação e exploração como, ao mesmo tempo e pela
mesma atividade, da resposta às necessidades de
sobrevivência da classe trabalhadora e da reprodução do
antagonismo nesses interesses básicos da história. A partir
dessa compreensão é que se pode estabelecer uma
estratégia profissional e política, para fortalecer as metas do
capital e do trabalho, mas não se pode excluí-las do contexto
da prática profissional, visto que as classes só existem inter-
relacionadas. É isto, inclusive, que viabiliza a possibilidade
de o profissional colocar-se no horizonte dos interesses das
classes trabalhadoras (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 75).
É na precisa caracterização dessas determinações que é possível aos
autores captarem os núcleos constitutivos do processo de configuração da
profissão. E aqui comparece outro importante elemento desse caráter inaugural da
obra, que juntamente com os anteriores, contribui significativamente para o
entendimento da profissão: a relação da institucionalização da profissão e sua
relação com as respostas formuladas pelo Estado em face da “questão
social”. Em outras palavras, é na passagem do capitalismo concorrencial ao
monopolista, em que emerge a chamada “questão social” demandatária de uma
intervenção sistemática do Estado, mediante as políticas sociais que incidem
sobre o conjunto das camadas trabalhadoras, incluindo ai o exército de reserva; é,
nessa intervenção que se gesta a necessidade social que justifica esse tipo de
profissional especializado.
Nesse sentido, a “questão social” é definida como sendo,
A expressão do processo de formação e desenvolvimento da
classe operária e de seu ingresso no cenário político da
sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por
parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no
156

cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado


e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de
intervenção, mais além da caridade e da repressão (...)
(Iamamoto e Carvalho, idem, p. 76)
No caso brasileiro, a particularidade desse processo é captada, como
diz Netto (1998), de maneira extremamente arguta quando os autores destacam
que a passagem do caritativismo filantrópico à intervenção profissional
institucionalizada dá-se historicamente quando ocorre a centralização e
racionalização da atividade assistencial e de prestação de serviços pelo Estado, à
medida que se amplia o contingente da classe trabalhadora e sua presença
política na sociedade. É esse entendimento também que dá inteligibilidade para
situar a natureza dos serviços sociais, mostrando como eles, apesar dirigidos à
classe trabalhadora, interpretam os interesses dessa classe sob a ótica dos
grupos que controlam o Estado. Nesse sentido, os autores mostram uma
pluricausalidade que comparece nos serviços sociais:
Parte do valor criado pela classe trabalhadora e apropriado
pelo Estado e pelas classes dominantes é redistribuído a
população sob a forma de serviços (...). O Estado e as
classes patronais incorporam e encampam como suas uma
série de reivindicações da classe trabalhadora (...) tais
reivindicações, ao serem absorvidas pelo estado e pela
classe patronal, através de suas organizações privadas,
passam a ser devolvidas aos trabalhadores sob a forma de
benefícios indiretos (...) o que é direito do trabalhador (...) é
manipulado de tal forma, que se torna um meio de reforço da
visão paternalista do Estado (Iamamoto e Carvalho, idem, p.
92-93).
A afirmação profissional, nesse quadro, dá-se numa disjunção entre
legitimação da intervenção e remuneração, pois embora trabalhe com a situação
de vida dos trabalhadores não é por eles diretamente solicitado (p. 84). Nesse
sentido, não se pode pensar a profissão no processo de reprodução das relações
sociais independentemente das organizações institucionais a que se vincula, sob
pena de se cair no equívoco de entender a atividade profissional como encerrada
em si mesma e seus efeitos como derivados apenas da atuação profissional. Por
isso, o significado social da profissão só pode ser pensado nas relações sociais e
por meio dos mecanismos de sua contínua reprodução, ou seja,
fundamentalmente como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do
157

controle social e na difusão da ideologia da classe dominante junto à classe


trabalhadora (Iamamoto e Carvalho, idem, p.94).
Esse aspecto é localizado claramente no lugar que o caráter
contraditório desse processo assume, na medida em que não se trata apenas de
criar condições favorecedoras para a reprodução da força de trabalho, que tem
resultado direto para a reprodução do capital, bem como o reforço da condição de
dominação; também participa das respostas às necessidades legítimas de
sobrevivência da classe trabalhadora, tal como postulado no entendimento dos
serviços sociais. Esse movimento revela também algo de fundamental
importância: o fato de o Serviço Social, e nesta obra tal formulação é claríssima,
não ser uma profissão que se inscreve entre as atividades diretamente
vinculadas ao processo de criação de produtos e valor.
Embora não ocupe uma posição na produção stricto sensu,
como o que ocorre com outras profissões de caráter técnico,
isto não significa seu alijamento da produção em sentido
amplo. Ora, o alvo predominante do exercício profissional é
o trabalhador e sua família. É dele ou, mais precisamente,
de sua força de trabalho em ação, que depende não apenas
a transferência do valor contido nos meios de produção ao
produto, mas a criação de novos valores os quais são
realizados através da venda das mercadorias. Mais
explicitamente: a força de trabalho em ação é a fonte de toda
a riqueza social. À medida que o exercício do Serviço Social
está circunscrito dentro do contexto referente às condições e
situação de vida da classe trabalhadora, encontra-se
integrado ao processo de criação de condições
indispensáveis ao funcionamento da força de trabalho, à
extração da mais-valia. Embora a profissão não se dedique,
preferencialmente, ao desempenho de funções diretamente
produtivas, podendo ser em geral, caracterizada como um
trabalho improdutivo (...), participa ao lado de outras
profissões, da tarefa de implementação de condições
necessárias ao processo de reprodução no seu conjunto,
integrada como está à divisão social e técnica do trabalho. A
produção e reprodução capitalista inclui, também, uma gama
de atividades, que, não sendo diretamente produtivas, são
indispensáveis ou facilitadoras do movimento do capital. (...)
Embora não sejam geradoras de valor, tornam mais eficiente
o trabalho produtivo, reduzem o limite negativo colocado à
valorização do capital, não deixando de ser uma fonte de
lucro. (...) Existem ainda, muitas atividades caracterizadas
158

por se dedicarem, especialmente, à criação de bases para o


exercício do poder de classe, que tem sua expressão
máxima no Estado. São atividades diretamente vinculadas
ao controle político-ideológico e/ou repressivo (...). Deste
ponto de vista são funções cujo significado econômico está
subordinado a seu caráter político determinante. (...) Em
outros termos: tratam de centrar esforços na busca de um
equilíbrio tenso entre capital e trabalho, na árdua tarefa de
conciliar o inconciliável (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 86-
87).
Com base em todo o movimento operado pelos autores, a derivação
daqui é, pois, articulada em elementos já pontuados. Trata-se do modo como se
organiza a produção que determina aparências ratificadoras de seu
funcionamento, que tendem a encobrir as relações desiguais em que se
sustentam. No dizer dos autores, o modo capitalista de pensar supõe um modo
capitalista de pensar (ibidem, p. 107).
Neste sentido, ganha destaque o entendimento de controle social,
inspirado em Mannheim125 - para o qual o controle diz respeito à forma como é
exercida a pressão social (leia-se imposição) orientada para a conformação dos
agentes sociais à organização social vigente da sociedade e ao poder de classe.
Este controle, assim entendido, não se refere apenas ao controle governamental e
institucional. É exercido também nas relações diretas, expressando o poder de
determinados agentes sociais sobre o cotidiano de vida dos indivíduos, reforçando
a internalização de normas e comportamentos (Iamamoto e Carvalho, idem, p.
109). É entre esses agentes institucionais que os autores localizam o profissional
de Serviço Social.
A partir desse entendimento, de que a difusão e reprodução da
ideologia é uma das formas de exercício do controle social, duas dimensões da
ação do assistente social ganham destaque: a linguagem e o cotidiano126.
A linguagem está articulada ao entendimento do profissional de Serviço
Social também como um intelectual 127. Nesta atividade intelectual, os autores
localizam dois graus diferentes: ‘os criadores dos valores, das ciências, artes e
125
Netto precisamente observa este elemento essencial, de como, ao tratar dos
elementos ideoculturais, os autores gravitam para um enfoque alheio a inspiração
marxiana (1998, p. 299 – nota 400).
126
Para o entendimento de cotidiano também vale a observação da nota 83.
159

filosofia’ e os ‘administradores e divulgadores da riqueza intelectual existente,


tradicionalmente acumulada’, e nessa última localizam o Assistente Social. É
nesse entendimento que a linguagem ocupa o lugar de instrumento privilegiado da
ação (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 115). Ao mesmo tempo, o Assistente Social
atua nas expressões concretas das relações sociais no cotidiano 128 de indivíduos
ou grupos (ibidem, p.116). Tem, assim, por meio dessa prática direta junto aos
setores populares, condições potencialmente privilegiadas de apreender a
variedade das expressões da vida cotidiana (ibidem) - e esta proximidade, aliada a
uma bagagem científica, possibilita ao profissional superar o caráter pragmático e
empirista que não raras vezes caracteriza sua intervenção, podendo obter uma
visão totalizadora da realidade desse cotidiano.
Os autores reafirmam que essas características, apontadas na prática
profissional, são recuperadas pelos representantes do poder no sentido da
interferência e controle de aspectos da vida cotidiana da classe trabalhadora,
utilizando-se da mediação desse intelectual. Tendo por base os elementos de
contraditoriedade explicitados pelos autores, chega-se ao claro entendimento de
que, a partir do jogo de forças sociais presentes nas circunstancias de seu
trabalho, pode o profissional limitar-se a responder as demandas do empregador,
confirmando-lhe sua adesão, ou pode reorientar a prática profissional a serviço

127
Está claramente posto na obra, o entendimento de intelectual elaborado a partir
de Gramsci para o qual, na leitura dos autores, essa categoria não constitui um
grupo autônomo e independente das classes fundamentais; ao contrário tem o
papel de dar-lhes homogeneidade e consciência de sua função, isto é, de
contribuir na luta pela direção social e cultural dessas classes na sociedade.
Trata-se de “organizador, dirigente e técnico” que coloca sua capacidade a serviço
da criação de condições favoráveis à organização da própria classe a que se
encontra vinculado (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 87-88). Além, da atividade
técnica propriamente dita, executa um trabalho organizativo e articulador das
“massas” aos grupos sociais a que se encontram ligados.
128
O entendimento de cotidiano aqui balizado tem suporte em H. Lefebrev e Jose
de Souza Martins, e está definido como não reduzida aos aspectos mais
aparentes, triviais e rotineiros. O cotidiano é a expressão de um modo de vida,
historicamente circunscrito, onde se verifica não só a reprodução de sua base,
mas onde são gestados os fundamentos de uma prática inovadora. Assim, o
cotidiano não está apenas mergulhado no falso, mas referido ao possível. A
descoberta do cotidiano é a descoberta das possibilidades da transformação da
realidade (Iamamoto e Carvalho, idem, p.116).
160

dos interesses e necessidades dos segmentos majoritários da população


consolidando junto a eles novas fontes de legitimidade para o Serviço Social.
As pontuações feitas até aqui nos permitem, neste primeiro momento,
explicitar claramente o caráter inaugural, do ponto de vista teórico, que a obra de
Iamamoto e Carvalho representa (Netto chega mesmo a afirmá-la como a
consolidação da intenção de ruptura no plano teórico-crítico). Trata-se, como
sinalizamos, alicerçada no necessário entendimento do Serviço Social segundo a
perspectiva da totalidade, de precisa análise da ordem social burguesa que leva a
inserir a profissão no âmbito das relações sociais contraditórias gestadas a partir
do movimento das classes sociais. Ou seja: apóia-se numa clara angulação de
classe, que supera o Serviço Social neutro e naturalizador das relações sociais.
Ao mesmo tempo, a superação dessa neutralidade leva a considerar
fundamentalmente o caráter contraditório da própria profissão, que passa a ser
entendida como próprio a ela desde a sua institucionalização e que a tensiona
internamente.
Cumpre-nos agora um duplo movimento: primeiro, localizar os
elementos aqui presentes que serão encampados no projeto profissional, já em
gênese na conjuntura precisa da transição democrática, e acreditamos que isso se
efetiva não só pela critica que opera ao tradicionalismo profissional, mas porque
vai mesmo ao encontro do reordenamento do espectro político da sociedade e
com o qual a profissão irá se relacionar. Segundo: identificar os elementos que
daqui comparecem ou não para o debate que se trava do início dos anos 1990 e
ao longo dos anos 2000 sobre o entendimento do Serviço Social como trabalho.

3.2.1. A nova contextualização no debate profissional

Tal como Marx postulou em 1844, de maneira precisa, na Crítica da


Filosofia do Direito de Hegel (Introdução), não basta que o pensamento tenda
para a realização; a própria realidade deve tender para o pensamento (1977,
p.09). No caso do Serviço Social, este processar se realizou claramente, pois as
161

fissuras na tônica dominante na profissão, das quais a obra de Iamamoto e


Carvalho de 1982 são a expressão teórica, só puderam ser absorvidos
posteriormente como elementos-força e claramente articuladores do projeto
profissional quando se põe na sociedade brasileira o inteiro quadro da “transição
democrática” e seus desdobramentos.
Como abordamos anteriormente, o processo em torno da transição para
a democracia no Brasil foi um forte recuo da contra-revolução burguesa para não
perder nada de substancial em face do movimento dos trabalhadores e dos
movimentos sociais em (re) articulação na sociedade. Nessa direção, a
“distensão” e abertura são controladas pelo alto comando militar que, no período
seguinte, arquiteta a transição conservadora, materializada na Aliança
Democrática, entre 1984 e 1989, resultado do pacto das elites, como já
observamos.
Do ponto de vista da reação a esse processo, mencionamos também o
início das mobilizações operárias surgidas no ABC paulista já em 1977 e em torno
das quais passam a se articular outros movimentos, como o dos camponeses,
estudantes, intelectuais129 que passam a se aglutinar nesse espectro
oposicionista. Cabe destacar agora que a emergência desses movimentos coloca
em cena outros níveis de reivindicações, no nosso entendimento, significativas em
face da necessidade de ruptura com o regime autocrático, mas que
contraditoriamente também trazem em si elementos para alimentar a ofensiva
capitalista sobre o trabalho na entrada dos anos de 1990, no país.
Num primeiro momento, a ênfase é mesmo pela autonomia desses
movimentos (em face do Estado e dos partidos) e pela exaltação daquilo que
apresentamos anteriormente como limitação, o seu caráter espontâneo, que agora
aparece amplamente valorizado. Neste quadro, dada a incapacidade do PCB em
se renovar face essas novas determinações, aprofunda-se um quadro social no

129
Podemos mencionar aqui a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a
Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e os setores progressistas da Igreja que
passam a ter presença marcante, com forte presença da Igreja por meio das
comunidades eclesiais de base.
162

Brasil que coloca um deslocamento e uma ruptura cultural com o movimento


comunista.
Neste contexto, ganha fôlego e coro a crítica aos chamados “métodos
da esquerda tradicional”, identificada e reduzida, no nosso entendimento, a
vulgata marxista-leninista. Aqui o que vemos é que, gradualmente, a organização
partidária é substituída pela organização entendida como “popular” 130.
Nesses termos, ainda que no nosso entendimento a ampliação desse
campo de contestações em face da transição dentro da legalidade burguesa tenha
sido importante para explicitar as mazelas gestadas ao longo do período em que
durou a autocracia burguesa, ao mesmo tempo encontramos aqui já em
desenvolvimento elementos anti-progressistas, que levarão mais à frente a
desarticulação e pulverização das demandas necessárias em especificidades
cada vez mais particularistas e vale aqui a redundância - ou seja, totalmente
desarticuladas de bandeiras mais profundas de questionamento da reprodução do
sistema capitalista. Ensimesmadas e pulverizadas, essas especificidades acabam
por ser funcionalizadas nas engrenagens do capitalismo.
É nesse quadro e sob a influência contraditória dessas configurações
que se cria o Partido dos Trabalhadores – PT131, como o partido para o qual
130
A exemplo, podemos citar, a pesquisa realizada por Ammann sobre o
movimento popular de bairro. Nesta pesquisa está claramente explícita, na fala
das lideranças comunitárias, esta tendência: devemos ficar longe do partidarismo,
porque aquilo visa muito a promoção e o interesse pessoal e assim esquece os
interesses comunitários. Cada um tem que deixar seus ideais partidários antes de
entrar pela porta da Associação. Da porta para dentro cada um é morador e não
político (1991b, p.126). Entendimentos como esse são levados a enéssima
potência no entendimento dos “novos movimentos sociais” em autores, por
exemplo, como Alan Touraine para o qual os novos movimentos sociais se
diferenciam justamente pelo entendimento de que o foco da ação não deva ser a
relação capital e trabalho. Ao contrário, para o autor a ênfase é na coletividade,
autônoma e autogestionada que não necessita, na verdade prescinde, da
mediação partidária, pois são esses novos movimentos entendidos como
fomentados na base, quebrando com a estrutura “hierarquizada” da vanguarda
partidária (1970).
131
Neste momento, já se manifestam no PT o caldo de cultura espontaneísta, as
concepções “basistas” que foram herdadas dos setores sindicalistas que
constituíam o núcleo de sua articulação política e o “voluntarismo” herdado das
organizações de esquerda que o compuseram, incluída aí a Igreja progressista
(Cf. Mazzeo, 1999, p. 172). Para uma aproximação competente à história do PT,
163

passaram a convergir parte dessas demandas agora aglutinadas num amplo e


complexo campo democrático-popular: de luta pelas liberdades democráticas, pela
ampliação dos canais de participação na sociedade civil e pelas realizações
sociais que até então a burguesia nacional não tinha efetivado.
Por outro lado, não podemos desconsiderar um elemento determinante
que contribui diretamente para o aumento da pressão exercida nesse período -
sobre a transição lenta, gradual, segura, nos termos de Florestan e levada a cabo
pelos militares - e que será direcionada em 1984 para as diretas-já. Trata-se do
problema do agravamento do endividamento externo e suas conseqüências a
partir de 1979. A chamada “crise da dívida” do início dos anos 1980 teve efeitos
deletérios sobre a América Latina e o Brasil. A pressão exercida pelos Estados
Unidos, dada a reorientação de sua política econômica em busca da hegemonia
do dólar, aumentou ainda mais a heteronomia dos países latino-americanos.
Nesse período, das taxas de juros baixas passou-se de um percentual de 19% em
1981, para 27,5% em 1982 (Toussaint apud Behring, 2003, p. 132), o que
acarretou uma explosiva transferência de divisas em prazos curtos, acompanhada
de queda das exportações de matérias-primas. Nas palavras de Behring,
Ocorreu um verdadeiro estrangulamento da economia latino-
americana, a qual entre 1980 e 1985, obteve indicadores
catastróficos, a exemplo: investimento interno bruto em
queda de 26,9%; PIB per capita em queda de 8,9%; fluxo de
importações em queda de 41,0%; e um crescimento médio
do PIB de 2,3% entre 1981 e 1985, ou seja, pífio (ibidem).
A busca desenfreada de saldos comerciais para cobrir a dívida, a partir
da prioridade para as exportações, coincidiu com uma profunda recessão na
região. O resultado desse processo, na chamada “década perdida”, foi uma opção
pela emissão de títulos que elevou os juros e um incrível processo inflacionário.
No caso brasileiro, saltou-se de uma inflação anual de 91,2% em 1981 para
217,9%em 1985 (Kucinski & Brandford apud Behring, idem, p. 134). Os ônus
sociais desse processo são, pois, imensos: crise dos serviços sociais públicos,
desemprego, informalização da economia, favorecimento das exportações em
detrimento de investimento nas necessidades internas. Ou seja, tal como

cf. Iasi (2006).


164

analisado no capitulo 01, o processo de heteronomia mais uma vez exacerba as


características particulares do país.
A “Nova República”, que se impõe por meio do Colégio Eleitoral, em
face das forças dos trabalhadores e populares articuladas, constituiu-se nesse
quadro a forma encontrada pelas elites nativas de substituir o regime militar de
modo a garantir uma roupagem mais democrática à sua dominação. Para
Fernandes,
O movimento das Diretas-já revelou uma radiografia da
sociedade brasileira assustadora para as tradições culturais
das elites, mostrando uma inquietação social mais forte que
em 1964 (...) O colégio eleitoral foi a saída institucional para
assegurar o controle conservador da redemocratização,
numa espécie de contra-revolução, se é observado o
aspecto no qual as elites no Brasil sempre tiveram uma
profunda unidade política: conter a emancipação dos
trabalhadores (1986, p. 22).
O discurso “mudancista” tenta captar as bandeiras postas pelo
movimento dos trabalhadores de modo a garantir o mínimo de respaldo popular ao
processo político. Num primeiro momento 132, como ressalta Behring (idem),
prevaleceu na equipe econômica uma orientação direcionada para o Estado como
sinalizador e promotor de estratégias voltadas para o crescimento econômico, por
meio de priorização da modernização do parque industrial, reformas e resgate da
dívida social. Contudo, a partir de 1987, com o fracasso do Plano Cruzado, e a
incapacidade dos órgãos estatais de operacionalizar o plano dada a dificuldade de
conciliar os contraditórios e conflitantes interesses e segmentos de classe, a
orientação de 1985 foi abandonada. Sarney passa agora a adotar crescentemente
os cânones do liberalismo como via de modernização da indústria,
desvencilhando-se das constrições impostas pelos compromissos da Aliança
Democrática e governando com ‘gente sua’ (Behring, idem, p. 140).

132
Bravo destaca algumas das conquistas alcançadas nesse primeiro momento da
transição. Reestruturação e da autonomia políticas às capitais estaduais e aos
municípios considerados anteriormente de segurança nacional; a legalização dos
partidos comunistas; a criação do Ministério da Reforma Agrária, com o objetivo
de iniciar o processo de democratização da propriedade da terra; o processo de
remoção do ‘entulho autoritário’ e o estabelecimento de novas relações com os
movimentos sindicais (1996, p.64).
165

Pode-se dizer que, do ponto de vista político, as disputas mais


significativas do processo de transição se deram em torno da elaboração da nova
Constituição, e não é para menos, uma vez que aqui se tratava mesmo de definir
os princípios políticos que dariam forma à organização de poder do Estado e às
relações entre Estado e sociedade civil.
Para os setores progressistas articulados e voltados a imprimir avanços
nesse processo, era necessário criar as bases jurídico-institucionais que
possibilitassem abrir flancos ou mesmo reverter o quadro de extrema exploração e
dominação que estava na base da manutenção do poder da burguesia. E, nesse
sentido, o resultado que estará posteriormente expresso na Constituição de 1988
será o quadro mesmo da correlação de forças no país, no qual alguns avanços
significativos são conseguidos na esfera social, principalmente aqueles
relacionados com a demanda por políticas e serviços públicos de habitação e
saúde133, mas em outros, como é o caso da questão da terra, continuaremos no
campo de puro reacionarismo.
No quadro de decomposição da Aliança Democrática, o governo
passa a ter sua base de sustentação nos diversos partidos aglutinados no
“Centrão” (Cf. Bravo, 1996) e sua opção é claramente para o centro-direita e
direita e, em oposição, constitui-se um grupo de vanguarda progressista da
Constituinte, que estava alicerçado na articulação de diversos parlamentares de
partidos como PT, PDT, PC do B, PCB e até do PMDB.
Nesse contexto, a recusa no meio profissional do conservadorismo,
sinalizado na intenção de ruptura, se encharca de substrato histórico-político, uma
133
Por meio da articulação dos movimentos sociais e dos partidos políticos consegui-se introduzir
na Constituinte o conceito de seguridade social articulando as políticas de previdência, saúde e
assistência e dos direitos vinculados a elas; ampliação da cobertura previdenciária aos
trabalhadores rurais, agora no valor de um salário mínimo e, o Beneficio de Prestação Continuada
(BPC) para idosos e pessoas portadoras de necessidades especiais; novo estatuto dos municípios
como autônomos; conselhos paritários de políticas e de direitos; a saúde foi pensada com grande
influência do movimento de Reforma Sanitária com sua proposição do Sistema Único e
descentralizado de Saúde (SUDS). Por outro lado, a Federação Brasileira dos Hospitais e
Industrias Farmacêuticas conseguiu assegurar sua participação no SUS. Na previdência houve
ampliação de direitos (licença maternidade de 120 dias, extensiva aos trabalhadores rurais e
empregadas domesticas, redução do limite da idade 60 anos para homens e 55 para mulheres). A
intervenção do Movimento em defesa dos direitos de crianças e adolescentes inscreveu a
perspectiva da criança como prioridade absoluta e a inimputabilidade penal abaixo de 18 anos, o
que se desdobrou no Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990 (Cf. Behring e Boschetti,
2006).
166

vez que passa a repercutir no corpo profissional a disputa entre projetos


societários diferentes, que se confrontavam no movimento das classes sociais. No
dizer de Netto, no trânsito dos anos 70 aos 80 a problematização do
conservadorismo se situou num nível diferente, na escala em que coincidiu com a
crise da ditadura brasileira (Netto, 2006, p. 149).
As aspirações democráticas e populares, irradiadas a partir dos
movimentos sociais e dos interesses dos trabalhadores, foram incorporadas e até
mesmo intensificadas pelas vanguardas do Serviço Social - verificaram-se no
redimensionamento da sua organização profissional e na sua inserção nos
movimentos em processamento nesse marco.
É neste quadro que essas vanguardas, mobilizadas e envolvidas com
os setores democráticos na resistência à ditadura, na tônica daquilo já abordamos
de um quadro de distanciamento do movimento comunista no país, na arena
política afinarão sua relação com o Partido dos Trabalhadores – PT 134. No dizer de
Netto, a atmosfera política de que resultou o nascimento do PT foi a mesma de
que se embeberam segmentos profissionais sem cujo protagonismo o ulterior
projeto ético-político seria impensável (2004b, p. 22).
Basta mencionarmos aqui que, já em 1979, no III Congresso Brasileiro
de Assistentes Sociais, o então dirigente sindical Luís Inácio Lula da Silva se fez
presente. E nos anos imediatamente seguintes, da vanguarda que conduziu o
processo da “virada” importantes lideranças se articularam partidariamente ao
PT135.
Dessa forma, ao longo dos anos de 1980, os embates no plano da
organização da categoria, por exemplo, estiveram fortemente vinculados aos
esforços do PT para consolidar o que seria um novo sindicalismo (Cf. o capítulo
01). Com isso, está na base dos debates e correlações de força entre os setores
profissionais progressistas aquilo que está no seio do que se convencionou

134
Cabe aqui, incorporarmos a importante observação de Netto (2004b) que
destaca o elemento de autonomia em face desta relação. O projeto-profissional
em gestação ao longo dos anos 80 e consolidado em 90, se alimenta da relação
de parceria que estabelece com o Partido dos Trabalhadores, mas garante
autonomia em face do mesmo.
135
Recorde-se aqui o exemplar caso de Luiza Erundina de Souza.
167

chamar de “nova esquerda”, ou uma cultura política de tipo propositiva, que busca
fundamentalmente uma outra interlocução com o poder público, com o Estado.
Nestes termos, e em face das disputas em torno da Constituinte, e do que
conseguiu se consolidar em termos de avanços na Constituição de 1988, tal como
já abordamos, o PT se torna um parceiro relevante, naquilo que se tornou uma
programática importante no seio profissional: a defesa das políticas de caráter
estatal e universal, garantidoras e ampliadoras de direito de cidadania.
Com base nessas questões, podemos agora articular os elementos
antecipados por nós no início da abordagem desse debate. No nosso
entendimento, neste momento, a obra de Iamamoto e Carvalho alcança outro
patamar, não só porque efetiva como crítica, já em 1982, àquilo que se
processa do ponto de vista político-prático durante toda a década: a crítica
do conservadorismo profissional, localizando-o e sintonizando-o na
totalidade das relações sociais. Mais: implica aí um pensar a profissão para
fora de seus muros - entendemos que, ao longo da década, esse movimento
se efetiva claramente também do ponto de vista prático, naquilo que já
mencionamos, da ampla articulação dos setores profissionais com o
movimento dos trabalhadores e movimentos sociais.
Mas a sua receptividade, que consagrará a obra no senso comum
profissional como a “bíblia da profissão”, reside a nosso ver também no fato de
ir mesmo ao encontro do reordenamento do espectro político da sociedade,
do qual a profissão irá se nutrir. Em outras palavras: a obra de Iamamoto e
Carvalho é, por assim dizer, condizente com o espírito desse tempo. E, do
ponto de vista do núcleo categorial central da obra, ainda que ele não seja
fundamentalmente articulado por categorias do pensamento gramsciano, da
obra de Iamamoto e Carvalho podem se extrair elementos que possibilitam o
estabelecimento dessa relação136. Da necessidade de decodificação e

136
Vale ressaltar também que neste processo de reavaliação da esquerda sobre a
realidade brasileira, dá-se num momento mesmo em que o pensamento de
Gramsci ganha um tratamento mais coerente e sistemático, ao mesmo tempo em
que também serviu para vários malabarismos teóricos. Alguns dos promotores
dessa nova inserção qualificada de Gramsci na arena brasileira forma intelectuais
vinculados ao PCB (exemplos como de Marco Aurélio Nogueira e Carlos Nelson
168

entendimento das formas de intervenção profissional em face do compromisso


político que começa a delinear-se ao longo dos anos 80; dada a articulação
político-partidária para a qual converge a vanguarda dos profissionais; em face
mesmo das características dos movimentos sociais e dos trabalhadores que se
desenvolveram no país, e que já vimos pontuando ao longo desse item, elementos
do pensamento de Gramsci137 ganham relevo e destaque para as decodificações
profissionais que se constituirão na base do projeto ético-político profissional.
Simionato, autora que escreveu a mais importante obra disponível na
literatura profissional sobre Gramsci e sua relação com o Serviço Social, a
contribuição de Iamamoto e Carvalho apresenta apenas algumas recorrências ao
Gramsci de ‘Americanismo e Fordismo’ e, mais especificamente, à questão dos
intelectuais (Simionato, 1995, p. 184). No entanto, o que estamos argumentando
aqui é que, a partir do entendimento dos processos políticos em curso na
sociedade brasileira e no Serviço Social e na confluência desses processos, a
obra de Iamamoto e Carvalho abre a via para o estabelecimento da relação
Gramsci/Serviço Social, na medida em que a obra antecipa precisamente a
dimensão da relação política inerente à profissão e isso só foi possível devido
à nova concepção de profissão estabelecida pelos autores.
Quando se estabelece
A consideração do Assistente Social como um intelectual
subalterno situa [-se], necessariamente, a reflexão de seu
papel profissional numa dimensão eminentemente política,
estando em jogo o sentido social da atividade desse agente.
Coloca de frente a indagações como: a quem vem servindo
Coutinho). O grupo que defendia as idéias gramscianas como eixo de uma nova
teoria para o socialismo é considerado como uma ala de direita e, afastado dos
postos de direção do partido o que levou a uma saída, desses militantes, do PCB
e, a vinculações a outros partidos como o PMDB e o PT (Cf. Simionato, 1995).
137
Não nos determos aqui na introdução do pensamento de Gramsci no Brasil,
pois não é esse nosso objetivo. Nos anos de 1930 já se registra a tradução do
texto de Romain Rolland Os que morreram nas prisões de Mussolini cujo teor é
um manifesto para a libertação de Gramsci dos cárceres fascistas, mas cabe notar
que o pensamento gramsciano começa a circular mais amplamente no Brasil, nos
anos 1960. Mas, de fato já, em 1966, com a tradução de parte da obra de Gramsci
por iniciativa de Carlos Nelson Coutinho, Leandro konder e Luiz Mário Gazzaneo o
pensamento gramsciano começa a transitar no debate acadêmico e nos partidos
de esquerda.
169

esse profissional, que interesses reproduz, quais as


possibilidades de estar a serviço dos setores majoritários da
população?(Iamamoto e Carvalho, 1995b, p. 89).
Dessa forma, o foco é colocar a ênfase na contradição presente na
ação profissional, entendendo-a como imanente e eminentemente política, e daqui
arranca-se para uma disputa em torno da opção política feita pelos profissionais.
Ou seja,
No desempenho de sua função intelectual, o assistente
social, dependendo de sua opção política, pode configurar-
se como mediador dos interesses do capital ou do trabalho,
ambos presentes, em confronto, nas condições em que se
efetiva a prática profissional. Pode-se tornar intelectual
orgânico a serviço da burguesia ou das forças populares
emergentes; pode orientar a sua atuação reforçando a
legitimação da situação vigente ou reforçando um projeto
político alternativo, apoiando e assessorando a organização
dos trabalhadores, colocando-se a serviço de suas
propostas e objetivos (Iamamoto e Carvalho 1995b, p. 96).
Esse entendimento coloca claramente que todos os espaços de
inserção do Assistente Sociais são balizados por essa contradição fundamental,
ou seja, como passíveis de disputa, terrenos onde se localizam correlações de
forças na busca de imprimir aí os interesses daqueles para os quais se destinam
os serviços. Articulamos aqui, também, o entendimento do cotidiano apresentado
pelos autores, pois ele não é apenas o nível da vida social onde não se verifica
apenas a reprodução de suas bases, mas onde são também gestados os
fundamentos de uma prática inovadora (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 116). Ao
mesmo tempo, isso não equivale a transferir automática e necessariamente para o
âmbito de sua realização a transformação social, embora já esteja aqui claramente
colocado: reforçando a legitimação da situação vigente ou reforçando um projeto
político alternativo. E tal como abordamos anteriormente (Cf. capítulo 01), a
constituição desse projeto alternativo se dá não na profissão.
Também já está postulada, pelos autores, aqui, a ampliação dessas
disputas amplificadas para o âmbito do Estado, na medida em que este se vê
obrigado a incorporar ainda que subordinadamente alguns dos interesses das
classes subalternas como condição mesma de sua legitimação. Para os autores,
170

As relações sociais explicam, pois, o Estado. Na prática da


dominação política deve ser considerado, ainda, o conjunto
de meios de direção moral e intelectual de uma classe sobre
o conjunto da sociedade, ou seja, a forma pela qual é
possível realizar sua hegemonia, ultrapassando as entidades
estritamente governamentais, para abarcar a própria
sociedade civil. Configura-se ai o que Gramsci denomina de
‘Estado Integral’ ou ‘ampliação do Estado’ (Iamamoto e
Carvalho, idem, p. 82).
Nesta ótica, o Estado adquiriu especial relevo para a compreensão do
caráter da demanda e das fontes de legitimidade profissional que podem ser
direcionadas para estar a serviço dos setores majoritários da população, na
medida em que, como os autores bem compreendem, os serviços sociais
comportam tanto uma forma transfigurada de parcela do valor criado pelos
trabalhadores e apropriado pelos capitalistas e pelo Estado, que é devolvido a
toda a sociedade, quanto a notação de que as políticas sociais e suas ampliações
são conquistas dos trabalhadores, o que confere a elas importância estratégica
também no âmbito dessa disputa. Ou seja, os serviços sociais respondem a
demandas legítimas, à medida que são muitas vezes temas de lutas político-
reinvindicatórias da classe trabalhadora no empenho de terem seus direitos
sociais reconhecidos, como estratégia defesa de sua própria sobrevivência
(Iamamoto e Carvalho, idem, p. 103).
Por último, também aqui se encontra a possibilidade da superação da
via do voluntarismo - seja ele cristão, ou mesmo marxista - , na medida em que se
situa o Serviço Social como uma profissão inserida na divisão social e técnica do
trabalho, sob o regime do salariato. Esse elemento redimensiona uma medição
importante da relação profissional com a luta sindical, no processo de organização
da categoria profissional pela defesa de seus direitos trabalhistas e reivindicações
salariais que, como já abordamos, vai se dar no compasso dos debates cutistas.
Mas cabe aqui observar, como destacamos antes, que o assalariamento não
equivale aqui à equalização da profissão a uma atividade vinculada à criação de
produtos e de valor (Iamamoto e Carvalho, idem, p. 86) - a profissão está
localizada na esfera da reprodução. Contudo, a tônica dos anos dos 1990, no
171

debate profissional, será o entendimento de Serviço Social como trabalho e não


mais como prática profissional. Como acontece esse giro?
No nosso entendimento, nessa conjuntura do final dos anos de 1980 e
início dos anos de 1990, está colocada para a profissão a necessidade de
construir articulações e consensos que serão fundamentais para a
construção do projeto profissional. Entendemos que, neste período, já estão
dados socialmente os grandes eixos que serão decodificados teórico-praticamente
na profissão e que foram palco do situar-se politicamente da profissão: a questão
social, a política social como defesa de direitos e o trabalho.
No caso do trabalho em especial, o processar da década de 1980
trouxe para o âmbito profissional uma relação entre a classe trabalhadora e a
profissão - não de exterioridade, ou apenas “complementar”, no sentido de a
profissão contribuir do ponto de vista da sua prática para impulsionar ou favorecê-
la, mas de pertencimento, e isso está posto na obra de Iamamoto e Carvalho.
Acreditamos, porém, que articulação em torno do Serviço Social entendido como
trabalho tenha se dado primeiramente ainda nesse campo de estabelecimento e
ou identificação da pauta político-profissional.
Mais precisamente, trata-se do momento em que a inserção periférica
do país põe em movimento o desenvolvimento de políticas neoliberais e suas
conseqüências deletérias para os trabalhadores. O contexto da crise estrutural do
capital vivida nos anos de 1970, dada a queda da demanda global e a erosão
visível da taxa média de lucros, revela o caráter estruturante assumido pelo
neoliberalismo, qual seja: a busca para recuperação da rentabilidade do capital
realiza-se necessariamente com a acentuação da exploração do trabalho. Daqui
decorre tanto uma recomposição do exército industrial de reserva como um brutal
ataque aos direitos sociais, agora mistificados sob o discurso de que são “custos
sociais”.
Em face desse processo, para a vanguarda profissional o caráter
político-estratégico da sua afirmação está em defender o trabalho, como atividade
humana fundamental, distanciando-se dos apologetas do capital, para os quais o
desenvolvimento tecnológico suprime a centralidade do trabalho; ao mesmo
172

tempo, defender o trabalho é operação que se conecta a todas as trincheiras de


resistência à voga neoliberal. Esse ponto é tão mais estratégico quando
referenciamos que todos os espaços profissionais são tensionados na era
neoliberal: ou seja, do ponto de vista objetivo, a atuação profissional é afetada
diretamente pela precarização das relações de trabalho, pela
desresponsabilização do Estado em face das políticas públicas, da perda de
direitos etc.
Esta preocupação, do ponto de vista também formal, encontra
justificativas no bojo de questionamentos operados a partir dessas transformações
societárias acerca da existência e/ou centralidade do trabalho na sociedade
capitalista contemporânea, na medida em que se difunde o discurso de uma
“crise” e/ou “fim” da sociedade do trabalho. Esta preocupação é bem explicita nas
elaborações mais recentes de Iamamoto, em que, ela mesma, indaga: colocar o
trabalho como foco da consideração do exercício profissional poderia ser hoje
questionado: por que o privilégio do trabalho, quando já foi amplamente anunciada
a crise da “sociedade do trabalho”, com a crescente redução da capacidade de
absorção do mercado de trabalho e a ampliação do desemprego? Não seria essa
uma tentativa melancólica de retorno a um passado perdido?(1998, p. 85-6) Para
estes questionamentos, a autora responde: o sofrimento derivado do trabalho
alienado ou da falta de trabalho continua polarizando as vidas da maioria absoluta
dos cidadãos e cidadãs na sociedade contemporânea. Tal afirmativa não implica
secundarização das mudanças observadas nas feições e formas assumidas pelo
trabalho social, ou seja, de suas metamorfoses (Iamamoto, idem, p. 88).
Compreendemos, nesta conjuntura, o giro que Iamamoto opera em sua
elaboração, passando da consideração do Serviço Social como prática profissional
à sua consideração como trabalho – giro que, expressando-se privilegiadamente
na obra de Iamamoto, denota um fenômeno profissional e social muito mais
amplo. Defender o trabalho, desde o território do Serviço Social, então, não
defender algo exterior à profissão, mas algo que articula diretamente os setores
profissionais - porque o Serviço Social é tomado como trabalho. Ou seja, defende-
173

se a própria profissão e os rebatimentos que nela se expressam das


transformações em curso.
Nesse sentido, em nosso juízo, essa conjuntura do final dos anos 1980
e início dos anos de 1990 é paradoxal: de uma parte, a roda da história parece
favorecer revivescências do conservadorismo profissional; de outra, o acúmulo da
categoria profissional permite-lhe resistir a esse movimento, com o
estabelecimento de uma pauta realmente de esquerda e necessária para a
profissão. Daqui emerge a necessidade e a possibilidade de uma
decodificação profissional, teórico, prático-normativa que fosse ela mesma
contempladora de várias perspectivas que estavam em processamento no
campo progressista. Explicam-se, pois, em tempos de regressão sócio-política,
os grandes avanços profissionais que consubstanciam o que se convencionou
chamar de projeto ético-politico profissional, concretizados na elaboração do
Código de Ética Profissional de 1993, na Lei de Regulamentação da Profissão e
na Revisão Curricular que resultou na construção das Diretrizes Curriculares de
1996. Não poderemos dada a riqueza desse processo, e também porque não é
este nosso objetivo, nos deter em todos esses elementos; remeter-nos-emos a
eles de maneira sintética. Por agora, importa abordar o debate do trabalho, que
comparece nas Diretrizes, e sua polarização com a perspectiva lukacsiana de
Sergio Lessa e seu grupo.

3.2.2. Lukács no debate sobre o Serviço Social como trabalho

A segunda polarização lukacsiana – a primeira, como se viu, disse


respeito à questão metodológica -, que comparece no debate da formação
profissional, no final dos anos 90 e na entrada do presente século, gira em torno
da questão do trabalho.
174

As Diretrizes Curriculares aprovadas em 1996 138, que contaram com o


aporte de docentes (inclusive a professora Marilda Villela Iamamoto) de várias
unidades acadêmicas do país, estão centradas em três núcleos de
fundamentação: núcleo de fundamentos teórico-metodológicos da vida social;
núcleo de formação sócio-histórica da sociedade brasileira e núcleo de
fundamentos do trabalho profissional.
Na tentativa de superar os equívocos presentes nos anos 1980, as
Diretrizes buscam articular o leque teórico-metodológico dos compromissos
fundamentais estabelecidos pelas vanguardas profissionais desde o “Congresso
da Virada” (o III CBAS) com um acompanhamento da dinâmica societária em
curso. Neste movimento, o salto que se elabora é o de enfrentar reflexivamente
as dimensões estratégicas e técnico-operativas do trabalho profissional, voltado
para decifrar as refrações da questão social no cotidiano da vida social. O
estatuto profissional, nesse sentido, é apresentado como – reiterando as
colocações de Iamamoto e Carvalho, de 1982 - uma especialização do trabalho.
Com isso, objetiva-se aqui também demarcar a centralidade contemporânea do
trabalho, na produção e reprodução da vida social nas relações historicamente
particulares que a sustentam.
Este entendimento levou a demarcar a “questão social” 139 como a base
de fundação do Serviço Social na sociedade capitalista. Assim, do ponto de vista
138
O processo de revisão e implantação curricular 98/2000 foi aprovado e encaminhado ao
Conselho Nacional de Educação como proposta de "Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço
Social", na conformidade com a Lei 9.394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
promulgada em 20 de dezembro de 1996. Iniciou-se na XXVIII Convenção Nacional da ABESS
ocorrida em Londrina (PR), em outubro de 1993. Foi fruto da realização, para a sua construção, de
cursos, oficinas regionais e nacionais. Entre 1994 e 1996, foram realizadas 200 oficinas locais, 25
regionais e 02 nacionais (Cf. ABESS; 1997, p.58). A interlocução estabelecida com o currículo de
1982 foi o ponto de partida necessário para repensar a formação do Assistente Social. Mediante os
impactos das transformações sociais à época, na sociedade brasileira, bem como no sentido de
superar os limites postos no currículo de 82, no que diz respeito a interligar as dimensões
constitutivas da formação, ou seja, o rigor teórico-metodológico, ético-político e técnico-operativo
aproximando o profissional da realidade social. Vale demarcar que esta proposta que foi
referendada pela Comissão de Especialistas de Ensino em Serviço Social, junto a Secretaria de
Ensino superior – SESU do Ministério da Educação e do Desporto - MEC, foi encaminhada ao
Conselho Nacional de Educação, onde sofreu uma forte descaracterização. A forma final assumida
pelas Diretrizes no texto legal, e homologadas, em 04/07/2001 descaracterizou a direção social da
profissão no que se refere aos conhecimentos e habilidades preconizados. Essa total flexibilização
da formação acadêmico-profissional, que se expressa no estatuto legal, é condizente com os
princípios liberais que vêm presidindo a orientação para o ensino superior n, estimulando a sua
privatização e submetendo-o aos ditames da lógica do mercado (Iamamoto, 1998, p. 19 – nota 03).
175

do currículo, a sua unidade gravita em torno da concepção do Serviço Social


como trabalho e do seu objeto como sendo as diversas expressões da “questão
social”. O documento assume claramente que a profissionalização do Serviço
Social é uma especialização do trabalho 140 e que sua prática, como concretização
de um processo de trabalho, tem como objeto as múltiplas expressões da
“questão social” (ABESS, 1997, p. 66).
Ao abordar o exercício profissional como trabalho, defende-se a idéia
de uma superação da visão focalista da prática profissional (Iamamoto, 1998, p.
94). Para Iamamoto,
transitar do foco da prática ao trabalho não é uma mudança
de nomenclatura, mas de concepção: o que geralmente é
chamado de prática corresponde a um dos elementos
constitutivos do processo de trabalho que é próprio ao
trabalho. Mas para existir trabalho são necessários os
meios de trabalho e a matéria-prima ou o objeto sobre o
que incide a ação transformadora do trabalho (1998, p.95).
Nas Diretrizes Curriculares, na explicitação do conteúdo do Núcleo de
Fundamentos do Trabalho Profissional, aparece claramente que
O conteúdo deste núcleo considera claramente a
profissionalização do Serviço Social como uma
especialização do trabalho e sua prática como
concretização de um processo de trabalho que tem como
objeto as múltiplas expressões da questão social. Tal
perspectiva permite recolocar as dimensões constitutivas do
fazer profissional articuladas aos elementos fundamentais
de todo e qualquer processo de trabalho: o objeto ou
matéria-prima sobre a qual incide a ação transformadora,
os meios de trabalho – instrumentos, técnicas e recursos
materiais e intelectuais que propiciam uma potenciação da
139
É válido ressaltar que nos debates que se promoveram em torno das diretrizes,
diversas propostas se apresentaram em relação ao que poderia ser o objeto da
profissão. Dentre elas a proposta da proteção social, política social. Com isso,
mesmo compreendo que existem problemáticas no entendimento norteador das
diretrizes, é importante destacar que neste momento a direção social esteve
tencionada e houve uma forte correlação de forças para dar o norte ao processo
de revisão curricular. Assim, entendemos que frente às perspectivas mais
conservadoras, a direção impressa no currículo constitui-se num avanço
significativo.
140
Daqui derivaram-se diversos artigos e produções em torno do processo de
trabalho do assistente social. Isto pode ser verificado na revista Serviço Social &
Sociedade entre os números 50 a 60, o que abarca quase todos os anos 90.
176

ação humana sobre o objeto; e a atividade do sujeito


direcionada por uma finalidade, ou seja, o próprio trabalho
(ABESS, 1997, p. 66).
Assim, verifica-se que na profissão incorporam-se as dimensões
fundamentais e constitutivas de todo e qualquer processo de trabalho. Ou seja, o
exercício profissional passa a possuir um objeto ou “matéria-prima”, instrumentos
e técnicas e uma teleologia que é imputada pelo profissional.
Este debate, ao longo da implementação das Diretrizes nas unidades
de ensino em todo o Brasil, ganhou imensa visibilidade. Diversas palestras e
eventos realizaram-se no sentido de ajudar as unidades de ensino na construção
de seus currículos mínimos.
Neste processo, dadas as dificuldades encontradas pelos profissionais
e professores141, diversas polêmicas permearam tanto o campo progressista da
profissão como os campos mais conservadores, que, dado o quadro social, que
aludimos anteriormente, começam a se reorganizar sob a capa do pensamento
pós-moderno (sobre este nos deteremos mais à frente). Em tais polêmicas
incidiram as discussões lukascianas de Sérgio Lessa, na liderança de um grupo
de docentes de Alagoas.
Em 1996, Lessa publicou na revista Serviço Social & Sociedade, nº 52,
o texto “A centralidade ontológica do trabalho em Lukács” (Lessa, 1996). Neste
material, o autor explicita todas as determinações que comparecem no
metabolismo do homem com a sociedade e como o trabalho possibilita tanto a
reprodução singular como genérica do homem. Ao fazê-lo, o autor esclarece
como o processo reprodutivo das sociedades se complexifica na medida em que
ocorre o desenvolvimento das forças produtivas. Na escala em que o trabalho é
uma relação que se estabelece também com outros homens, articula-se a partir
dele uma série de complexos sociais que se tornam importantes para a
reprodução social dos indivíduos. De fato, neste texto, o autor tratou de explicitar

141
Em 2004, o número 08 da revista Temporalis que se centrou no Ensino do
trabalho profissional: desafios para a afirmação das diretrizes curriculares e do
projeto ético-político sinaliza a diversidade de encaminhamentos dados à questão
pelas unidades de ensino.
177

o caráter ontológico do trabalho, não se envolvendo, pelo menos diretamente,


num debate em torno do Serviço Social como trabalho 142.
Coube a Gilmaísa Macedo da Costa, em sua Dissertação de Mestrado
defendida em 1999, sob a orientação do professor Sérgio Lessa, a primeira
formulação em torno do entendimento de que Serviço Social não é trabalho. Neste
texto acadêmico - Trabalho e Serviço Social: debate sobre a concepção de
serviço social como processo de trabalho com base na Ontologia do Ser Social 143
-, a autora realiza um aprofundado estudo que parte da concepção ontológica de
trabalho para, em seguida, situar o Serviço Social como complexo ideológico.
Para a autora, no devido entendimento das categorias lukacsianas, o
trabalho é a categoria central do mundo dos homens. Do trabalho emergem outros
complexos e práxis sociais, gerando um desdobrar de novas necessidades e
possibilidades. Desse entendimento a autora infere que
O caráter do trabalho como atividade fundante do ser social
não significa a redução da práxis humana ao trabalho, mas
que outras práxis igualmente importantes se desdobram a
partir dele no interior da malha de mediações que constitui o
processo de reprodução social (Costa, 2000, p. 100).
Com isso, a autora quer destacar que o ser social – na expressão do
Lukács da Ontologia do ser social - é um complexo de complexos e que, além do
trabalho, se fazem presentes outros complexos sociais como a fala,
comportamentos, explicação sobre o mundo. Ao mesmo tempo, a autora enfatiza
que a compreensão ontológica do trabalho distingue a especificidade do ser social
face às determinações biológicas. Pelo trabalho, o homem (sociedade) transforma
a natureza e a submete às suas necessidades de reprodução material. Contudo, a
autora cuidadosamente destaca que,

142
Em 2002, realizou-se Maceió o Colóquio Regional de Assistentes Sociais. A mesa de abertura
deste evento, composta pelos professores Sérgio Lessa e José Paulo Netto versou sobre o
Serviço Social como trabalho e, os dois conferencistas, foram ali enfáticos na defesa de que o
Serviço Social não é trabalho. Pensamos que esse se constitui no marco aberto da polêmica. Mas
deste evento não se teve nenhuma publicação que registrasse a posição dos autores.
143
Utilizaremos como referência aqui o texto publicado na revista Temporalis
número 02 intitulado A aproximação ao Serviço Social como Complexo Ideológico,
pois, consideramos que ele apresenta um resumo de todos os elementos que
autora pontua na dissertação.
178

Neste sentido originário e restrito, o trabalho realiza o


intercâmbio orgânico entre homem e natureza, um processo
de objetivação pelo qual o homem ao dar origem a novos
objetos materiais produz a si mesmo como ente humano.
Assim, o trabalho não só funda a história humana como se
caracteriza pela incessante criação de coisas novas, de
novas realidades (Costa, idem, p.101- grifos nossos).
Vale destacar, como a autora enfatiza, que o caráter decisivo desse
novo objeto reside justamente no fato de ele, ao ser algo produzido pelo homem,
constituir um objeto impossível de brotar espontaneamente da natureza. Ao
mesmo tempo, sublinha que as práxis sociais que se gestam a partir do trabalho
adquirem importância cada vez maior na constituição dos indivíduos e da
sociedade.
A partir destas idéias-força, a autora concebe o ser social como um
complexo composto por ato teleológicos de natureza primária e secundária, que
se encontram em íntima determinação reflexiva. Ou seja, da troca orgânica com a
natureza têm origem novas posições teleológicas que possibilitam a constituição
de complexos sociais parciais que tornam a relação entre o homem e a natureza
cada vez mais mediatizada. Na esteira de Lukács, a autora localiza esses
complexos sociais parciais como posições teleológicas secundárias. Nas palavras
da autora, essas posições dirigem-se para outros fins que não se conectam
diretamente a produção material (...) mas cumprem um importante papel, tanto na
reprodução e manutenção da esfera econômica, como na reprodução da
sociedade como um todo (Costa, idem, p.104).
As posições teleológicas secundárias são, por sua vez, o solo
ontológico no interior do qual surge e se desenvolve o complexo ideológico no
contexto da totalidade social. O complexo ideológico contém elementos
importantes para o processo de reprodução social que se desenvolvem
concomitantemente ao trabalho, sendo decisivos no desenvolvimento do ser
social.
Ancorada no entendimento lukacsiano de ideologia, a autora sinaliza
que esta, em Lukács, não se refere à ilusão dos sentidos, ou algo como um
pensamento falso; ela, na verdade, comporta três dimensões: tem suas
determinações concretas no cotidiano mais imediato, serve para tornar a prática
179

humana consciente e operativa e se dirige para dominar conflitos (que se


articulam à noção ontológico-prática de ideologia como função social). Ou seja,
No processo histórico, a ideologia adquiriu sentido negativo
por essa função na luta de classe. Mas em linhas gerais, é
um complexo social que não tem necessariamente sentido
negativo, pois é parte integrante do processo de constituição
do gênero humano. Pode contribuir tanto para conservar
como para modificar o real, pode manifestar-se de forma
alienada como obstáculo ao desenvolvimento humano ou
como contribuição a dinâmica desse processo (Costa, idem,
p.110).
Feitas essas considerações, a autora estabelece sua compreensão do
Serviço Social. Para ela, o Serviço Social não pode se constituir como trabalho,
porque o trabalho entendido no sentido ontológico compreende todo o intercâmbio
orgânico com a natureza que funda todas as determinações da história humana.
Consequentemente, o Serviço Social, assim como os outros atos humanos
distintos do trabalho, só pode ser compreendido como posição teleológica
secundária (Costa, ibidem).
Segundo a autora, esta compreensão não contradiz o fato de ter a
profissão origem na divisão social do trabalho, pois algumas atividades inscritas
na divisão social e técnica do trabalho não possuem como finalidade direta a ação
sobre a objetividade material. Ou seja, outras atividades como o direito, as
atividades artísticas, a educação se originam dessa divisão, mas têm funções
distintas do trabalho.
Nesse sentido, o campo de ação da profissão foi marcado desde a sua
origem por lidar com as mais distintas expressões cotidianas das contradições
geradas pelas relações sociais capitalistas, ou seja, expressões da “questão
social”. Assim, para a autora, o campo típico da ação profissional é o campo das
relações sociais. Mais precisamente, opera como práxis social que visa atingir a
consciência de indivíduos e grupos com vista à continuação da vida em sociedade
(ibidem, p.112).
O Serviço Social constitui um complexo ideológico porque se
caracteriza como posição teleológica secundária e porque exerce uma função nos
conflitos humanos-sociais. As ações profissionais incluem atos teleológicos
180

voltados ao cotidiano para resolução de conflitos cotidianos mais imediatos 144. Mas
também produz em seu interior generalizações que não se situam no âmbito dos
conflitos cotidianos mais imediatos. Assim sendo, a autora entende que
Pelos caracteres específicos apresentados pela profissão,
capazes de distingui-la de outras, o Serviço Social pode ser
entendido como um complexo que se movimenta na fronteira
entre a ideologia restrita e a ideologia pura (Costa, idem,
p.115).
Na seqüência das discussões desencadeadas em torno de trabalho e
Serviço Social, em 2007 Sérgio Lessa publica o livro Serviço Social e Trabalho:
porque o Serviço Social não é trabalho 145. O autor desenvolve um conjunto de
argumentações que bebem da mesma fonte de Gilmaísa Macedo da Costa, mas
que apontam para outros elementos. A sua tese central gravita em torno do
entendimento do que é trabalho, da distinção entre trabalhadores e operários, para
responder se o Serviço Social é trabalho ou não. Na sua resposta, configura uma
duríssima critica a essa relação estabelecida na profissão (Serviço Social/
Trabalho) por considerar que ela leva à perda do sujeito revolucionário com o
conseqüente rebaixamento do horizonte político da profissão.
Para o autor, o correto entendimento da centralidade ontológica do
trabalho possibilitou a Marx elucidar como os homens produzem todas as relações

144
Os exemplos dados pela autora são elucidativos. As atribuições do Serviço
Social junto às políticas sociais situam-no na fronteira da relação conflituosa entre
as ações do Estado e os usuários do serviço (...) Ainda assim, as respostas
elaboradas pelo Serviço Social (...) divergem muitas vezes dos objetivos
institucionais tornando-se, por vezes, instrumentos de criticas as finalidades
previamente definidas (...) na iniciativa privada a atuação se aproxima mais da
base econômica (...) diz respeito a interpenetração de complexos ideológicos e
reações dos homens na esfera da atividade econômica propriamente dita (...)
também age junto a movimentos sociais, caracterizando atos teleológicos mais
próximos da política (Costa, idem, p.113-114).
145
Desde 1999 Sérgio Lessa ingressou nesse debate. O livro é a articulação e reunião de um
conjunto de textos publicados de 1999 a 2005, são eles: Em 1999 - O processo de
produção/reprodução social publicado no Caderno de Capacitação em Serviço Social e Políticas
Públicas; Em 2000 - Serviço Social e Trabalho: do que se trata? Na revista Temporalis número 02,
e, Serviço Social, Trabalho e Reprodução na revista Serviço Social e Movimento Social da
Universidade Federal do Maranhão; em 2001 Contra-revolução, trabalho e classes sociais na
revista Temporalis número 04; Em 2005 - Centralidade ontológica do trabalho e centralidade
política proletária na revista Lutas Sociais v.13/14. Como o autor mesmo formulou no prefácio, eles
foram inicialmente publicados separados, dado o andamento do debate e principalmente a sua
urgência (Lessa, 2007).
181

e complexos sociais e, ao fazê-lo, tornam-se capazes de localizar a


transitoriedade da sociabilidade humana erguida nos marcos burgueses. Lessa
localiza aí o elemento fundamental do projeto revolucionário: a demonstração da
possibilidade de superação do capital. Para o autor, reside aqui a primeira questão
decisiva que o debate de Serviço Social como trabalho perde de vista. Para ele,
Ao cancelar o que o trabalho tem de específico, isto é,
cumprir a função social de transformar a natureza em meios
de produção e subsistência, dissolve-se o trabalho em um
enorme conjunto de práxis e, conseqüentemente, cancela-se
a tese marxiana de ser o trabalho a categoria fundante do
mundo dos homens. E com esse cancelamento, está
liminarmente revogada a demonstração de como a essência
humana é construto puro e exclusivo da ação dos seres
humanos e, conseqüentemente está revogada a
demonstração por Marx da possibilidade e da necessidade
históricas da revolução proletária (Lessa, 2007, p.28).
Na seqüência, reafirma o autor que, para Marx, o trabalho é o
intercâmbio orgânico do homem com a natureza e que funda a reprodução social.
Estas duas categorias se põem em relação de determinação reflexiva na medida
em que não há trabalho que não seja um ato de reprodução da sociedade e, por
outro lado, sem o trabalho nenhuma reprodução social seria possível (Lessa,
idem, p.41). Nesse sentido, o autor argumenta que o desenvolvimento das forças
produtivas sob o comando do capital leva a uma crescente divisão do trabalho,
com uma distinção cada vez maior entre as atividades. Logo, tem-se uma enorme
gama de “profissões”, de atividades e especializações que cumprem a função
anteriormente concentrada no burguês.
Dessa forma, para o autor cabe entender o que as especifica. Há aqui
duas questões se colocam essencialmente. A primeira diz respeito à função
social. Para Lessa, com base em Marx, ao trabalho cabe a produção dos meios
de produção e de subsistência; às outras formas de práxis cabem as funções
preparatórias (as mais diversas) indispensáveis a realização dos atos do trabalho
historicamente necessários (Lessa, idem, p.41). Ou seja, de um lado, as práxis
sociais que não são trabalho exercem uma função distinta do trabalho, realizam e
reproduzem as relações dos homens entre si e não dos homens com a natureza;
182

de outro, ao interferirem sobre a consciência dos indivíduos, o que se desencadeia


são posições teleológicas e não processualidades naturais.
Para o autor, a incompreensão dessas questões leva necessariamente
a um obscurecimento da realidade das classes sociais e das funções que exercem
na reprodução social, a partir do local que ocupam na estrutura produtiva da
sociedade. Trata-se aqui, claramente, de demarcar a diferença entre o
proletariado e os demais trabalhadores assalariados. Ou seja,
Temos aqueles trabalhadores que, ao produzirem a mais-
valia, produzem também toda a riqueza da sociedade (os
proletários da cidade e do campo). Temos aqueles outros
assalariados que não transformam a natureza, mas também
produzem mais-valia (os professores). Esses dois tipos de
trabalhadores que produzem mais-valia Marx denominou de
‘trabalhadores produtivos’. Ao lado deles há aquela enorme
parcela que não produz mais-valia: os funcionários públicos,
os empregados diretos dos burgueses na administração de
seus negócios, os assalariados do comércio e dos bancos. A
esses Marx chamou de ‘trabalhadores improdutivos’ (Lessa,
idem, p.57).
É então que o autor argumenta para distinguir o assistente social do
operário. Ele discerne inicialmente o foco da ação, ou seja, os assistentes sociais
atuam sobre as relações sociais cuja forma e conteúdo depende das reações dos
indivíduos a cada fato histórico, tal como postulado por Costa (2000). Já o
operário atua sobre uma matéria que se comporta segundo leis fixas. Daqui
decorre o fato de os conhecimentos e habilidades requeridos a cada um serem
completamente diferentes.
Por isso é impossível trazer para a práxis dos assistentes
sociais a ‘instrumentalidade’ da práxis operária. Denominar
de matéria-prima os indivíduos e as relações sociais a serem
transformados é considerar como ‘coisas’ o que são
pessoas. E, também inversamente, pensar que as ‘coisas’
possuem propriedades de pessoas (Lessa, idem, p.69).
Portanto, o assistente social não trabalha como o operário, e as
ações que desenvolve o distinguem fundamentalmente do operário. O único ponto
que seria de proximidade é a forma da inserção no mercado de trabalho, ou seja,
o fato de serem assalariados.
183

Então, o autor conclui que a identificação entre Serviço Social e trabalho


tem sérias implicações político-ideológicas. A primeira remete à perda da
centralidade do trabalho como fundante do mundo dos homens, na medida em
que se o Serviço Social é trabalho, todas as outras práxis humanas também o são.
Cai por terra a distinção entre as atividades de organização e de produção. A
segunda remete ao fato de que se identificarmos todas as práxis voltadas à
organização da sociedade com a transformação da natureza, todos aqueles que
realizam toda e qualquer atividade podem ser considerados trabalhadores, ou
seja, todos os assalariados fariam parte da mesma classe social.
Para Lessa, removida a distinção entre a produção e organização,
cancelamos o caráter fundante daquela para com esta e cancelamos também a
distinção entre as classes (...) nesse sentido estão perdidos tanto a luta de
classes quanto o projeto revolucionário de cunho marxiano (idem, p.84).
Em face de todas as questões aqui apresentadas, não temos dúvida de
que a intervenção lukacsiana feita por Sérgio Lessa e seus companheiros da
UFAL introduz um novo registro teórico neste debate - no nosso entendimento, até
antecipador de uma problemática que só se colocará depois no processo mesmo
de implementação das Diretrizes nas unidades de formação acadêmica de todo o
país. Mais ainda, uma polêmica que se estabelece dentro do campo progressista
e, que sinaliza problemas que devem ser enfrentados de modo a salvaguardar os
avanços profissionais conseguidos até então, num momento mesmo em que as
ciências sociais como um todo estão curvadas a análises funcionais e muitas
vezes de pura e simples apologia da ordem. Como o próprio Lessa formulou, e no
nosso entendimento muito adequadamente, o conjunto de problemas e questões
que o Serviço Social se coloca o retira da “subalternidade” teórica em relação aos
outros ramos das ciências sociais. Não porque possa vir a substituí-las, mas
porque - e nós acrescentaríamos: em face do seu posicionamento ideo-político - o
Serviço Social deixou de encontrar nessas ciências sociais os únicos substratos
para as suas reflexões e investigações.
No nosso entendimento, na medida em que do caldo de acúmulos dos
anos 80 e 90 postulou-se uma vinculação entre o projeto profissional e um projeto
184

societário que propõe a construção de uma nova ordem, sem


exploração/dominação de classe, etnia e gênero (Netto, 2006, p. 155), está posta
para a profissão a necessidade, já apresentada em 1982 por Iamamoto e
Carvalho, de remeter-se o entendimento profissional sempre condicionado para
além de si mesmo e, ao se confrontar com as relações sociais, a postura não é
mais da neutralidade - é da análise, da denúncia, da intervenção que contribua
para mostrar os limites, as contradições e o nível de barbarismo presente nas
relações sociais erguidas nos marcos do capital. Análise, denúncia, e intervenção
estas que hoje, no tempo presente, poucos setores e/ou categorias profissionais
estão fazendo.
Por isto, no marco dos anos 1990, quando se traz para o interior do
debate profissional o grande nexo de problematizações que estavam postas na
sociedade em torno do trabalho, mais uma vez a profissão confirma em seu seio
um aprofundamento dos compromissos profissionais assumidos na ruptura com o
conservadorismo, sintonizando-se finamente com o caráter político-estratégico
que esta defesa tem para os campos progressistas e de esquerda.
Contudo, a decodificação desses compromissos no interior das
Diretrizes Curriculares e, posteriormente, na implementação que delas foi feita
pelas unidades de formação acadêmica, a nosso ver, não deixa dúvidas de que o
grande desafio que está posto para o Serviço Social na contemporaneidade é o
repensar da proposta garantindo a continuidade de seus avanços, mas
enfrentando claramente suas lacunas e incorreções e estabelecendo
fraternalmente um debate claro, explícito e conseqüente acerca de suas
polêmicas.
Neste sentido, para nós, a obra de 1982 de Iamamoto e Carvalho
ganha destaque, na medida que os autores têm clareza de que as características
gerais de todo processo de trabalho não explicam a especificidade assumida pelo
processo de trabalho a partir das características que o determinam na sociedade
capitalista e o fundamento da mistificação que daqui se gesta.
Este entendimento preciso, na nossa avaliação, é perdido quando da
elaboração das Diretrizes, ainda que lá esteja devidamente formulado o caráter
185

ontológico do trabalho. Pois, tal como destacamos anteriormente nas Diretrizes


Curriculares, na explicitação do conteúdo do Núcleo de Fundamentos do Trabalho
Profissional, aparece claramente, a profissionalização do Serviço Social como
uma especialização do trabalho e sua prática como concretização de um
processo de trabalho. Tal perspectiva permite recolocar as dimensões
constitutivas do fazer profissional articuladas aos elementos fundamentais de
todo e qualquer processo de trabalho: o objeto ou matéria-prima sobre a qual
incide a ação transformadora, os meios de trabalho – instrumentos, técnicas e
recursos materiais e intelectuais que propiciam uma potenciação da ação humana
sobre o objeto (ABESS,1997, p. 66).
Em outras palavras, a ação do assistente social concretiza um processo
de trabalho que, para se colocar em movimento, articula todos os elementos
fundamentais de todo e qualquer processo de trabalho (objeto, matéria-prima,
meios de trabalho). Aqui, para nós, comparece uma outra problemática. A
pertinente articulação que se faz entre a existência e a necessidade social de uma
prática profissional como a do Serviço Social com a existência, amplificação e
refrações derivadas da “questão social” acaba sendo subtraída de seu potencial
crítico-reflexivo para a prática profissional e para a manutenção em seu interior de
articulações fundamentais em torno das análises de superação das mistificações e
dos processos de exploração próprios ao sistema capitalista. Como estava posto
em 1982, a acumulação da miséria é proporcional ao capital (Iamamoto e
Carvalho, 1995b, p. 62). Esse entendimento é abstraído no momento em que a
“questão social” é colocada como o objeto de intervenção do “trabalho” do
Assistente Social. Ela – a “questão social” - se torna um dado administrável e
destituído de seu caráter fundado na exploração quando ela precisa ser
decodificada como “objeto” - essa decodificação não se dá na sua gênese e no
elemento que garante a sua reprodução ampliada, mas no seu fenômeno aparente
e recortado nas suas refrações: o idoso, a criança, o adolescente etc.
186

Em 1998, na obra O Serviço Social na Contemporaneidade 146,


Iamamoto, com o intuito de contribuir com a implementação das Diretrizes,
massifica para o conjunto dos profissionais justamente os núcleos problemáticos
das mesmas Diretrizes. Nesta obra, está claramente posto que a questão social é
a base de fundação sócio-histórica do Serviço Social, a prática deve ser
apreendida como trabalho e o exercício profissional inscrito em um processo de
trabalho (1998, p.59).
Todavia, para Iamamoto, a conclusão de entender o Serviço Social
como prática o coloca como centro e os demais condicionantes dessa prática são
tratados com externalidades em relação a ela (Cf. Iamamoto, idem, p.61). Nesse
sentido, a afirmação que fizemos anteriormente é pertinente: para Iamamoto,
tratava-se mesmo de entender Serviço Social como trabalho para que sua relação
com os trabalhadores não fosse exterior, com o que se articulariam político-
ideologicamente os compromissos profissionais constitutivos do projeto
profissional.
Desse entendimento de Serviço Social como trabalho deriva que
qualquer processo de trabalho implica uma matéria-prima ou objeto sobre o qual
incide a ação do sujeito; meios ou instrumentos de trabalho (...).Ficam, pois as
seguintes questões a serem respondidas: qual é o objeto de trabalho do Serviço
Social? Como pensar as questões dos meios de trabalho do Assistente Social?
Como pensar a própria atividade e/ou o trabalho do sujeito? E qual é o produto do
trabalho do Assistente Social? (Iamamoto, idem, p.61-62).
Todo este largo elenco de questões problematizou a implementação
das Diretrizes. Estamos convencidas de que motivado para responder a essas
questões um significativo corpo de profissionais, professores e estudantes
participaram ativamente do processo de implementação ao longo de toda a
década de 1990147, realizando incontáveis oficinas regionais, seminários para
aprofundamento do entendimento de “Questão Social” e de “Trabalho”. Também
146
A parte desse livro, aqui abordada, foi publicada pelo Cress do Ceará, com o
título O serviço social na contemporaneidade: dimensões históricas, teóricas e
ético-políticas. Foi transcrita a palestra que a professora na ocasião deu para
facilitar e contribuir com o processo de implementação das diretrizes curriculares
no curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará – UECE.
187

não temos dúvida de que as dificuldades postas na concretização e


desdobramentos desses entendimentos em ementas e em disciplinas podem ser
hoje detectadas depois da realização, entre 2005 e 2007, da pesquisa que avaliou
o “estado da arte” da implementação das Diretrizes148.
Exemplifica tais dificuldades o rol de disciplinas constituídas nas grades
curriculares em todo o país, demonstrando os equívocos do entendimento desse
debate. Como revela a pesquisa, diversas são as configurações e definições das
disciplinas constitutivas do Núcleo de Fundamentos do Trabalho Profissional
(Introdução ao Processo de Trabalho no Serviço Social, Processo de Trabalho do
Serviço Social, Processo de Trabalho e Serviço Social, Processo de Trabalho na
Educação). Os resultados da pesquisam mostram que o uso da categoria trabalho
se deu significativamente sem aportes teóricos e as mediações necessárias,
fazendo com que a relação que se estabeleça, mesmo para contemplar a
perspectiva das diretrizes, seja superficial – de fato, aparta-se da categoria
processo de trabalho a teoria do valo-trabalho (Cf. Mota, idem).
Dessa forma, entendemos que ainda no debate em processamento
temos que nos confrontar diretamente com o essencial. O processo de trabalho
não é mera abstração que possa ser apartada de toda processualidade e
particularidade histórica que estão postas na sociedade capitalista. Marx não nos
fala apenas de processo de trabalho - ele nos fala do processo de valorização e
diz claramente que o processo de produção capitalista é unidade do processo de
trabalho e processo de valorização (Marx, 1980, parte terceira, cap. V).
Está posto para Marx, e retomado mediatizadamente em 1982 por
Iamamoto e Carvalho (1995b), que só nessa condição de localização da
147
Ainda que, como oportunamente registre Mota (2000a), entre a formulação do
Núcleo de Fundamentos do Trabalho Profissional, aprovado em 1996 e, o texto
final encaminhado ao MEC em 1999, constem inflexões nas formulações teóricas,
nas epígrafes e no ementário das matérias/tópicos de estudo, consideramos de
maior impacto sobre o debate dos profissionais a obra de Iamamoto lançada em
1998 que apresentamos acima. E, como Mota também reconhece que as
mudanças se tornaram problemáticas porque os argumentos que as ampararam
não foram pedagogicamente trabalhados e divulgados (2000a, p. 66).
148
Cf. Mota (2000a) e especialmente o CD produzido pela ABEPSS em 2008 sob o
título “Pesquisa avaliativa da implementação das Diretrizes Curriculares do Curso
de Serviço Social. Relatório final”.
188

especificidade que o processo de trabalho assume na ordem burguesa é que


podemos localizar toda a mistificação que esta sociabilidade engendra. Não
entender Serviço Social como trabalho não leva à sua diminuição, mas ao mesmo
tempo entender a profissão como trabalho gera mais erros e equívocos de análise
porque do ponto de vista marxiano se trata mesmo de um equívoco essa
equiparação, na medida em que trabalho e sua forma de realização nos marcos
burgueses não se confundem. Em segundo lugar, porque não é o trabalho posto
em sua realização plena que se desenvolve na sociedade capitalista - é o trabalho
alienado que leva o homem a não se reconhecer no produto de seu próprio
trabalho. Enfim, porque entre o trabalho e todas as outras objetivações humanas
existe muito mais do que sonha a vã filosofia. Por isso precisamos nos (re)
apropriar do sentido mesmo do que é a categoria práxis.
Deve-se distinguir entre as formas de práxis voltadas para o
controle e a exploração da natureza e das formas voltadas
para influir no comportamento e na ação dos homens. No
primeiro caso, que é o trabalho, o homem é o sujeito e a
natureza é o objeto; no segundo, trata-se de relações de
sujeito a sujeito, daquela formas de práxis em que o homem
atua sobre si mesmo (Netto e Braz, 2006, p. 43-44).
O caminho que aqui está aberto é o da prática profissional localizada
com um tipo de práxis. E podemos retomar a justificativa de Iamamoto em 1998 e
dobrá-la sobre si mesma: a noção de prática profissional não é exterior, como
formulado pela autora empobrecidamente, como se a prática se colocasse no
centro e os demais condicionantes dessa prática como externalidades. Não é o
localizar da prática profissional como trabalho que possibilita o necessário
processo de saída da profissão de si mesma, mas o entendimento da dimensão
política que ela ocupa ao ser posta como prática, no tipo de práxis que se refere à
relação dos homens e mulheres entre si, e por isso mesmo no centro do elemento
fundamental - a reprodução das relações sociais, que é a reprodução da
totalidade do processo social, a reprodução de determinado modo de vida que
envolve o cotidiano da vida em sociedade, o modo de viver e de trabalhar, de
forma socialmente determinada, dos indivíduos em sociedade – envolvendo, pois,
a reprodução do modo de produção (Iamamoto e Carvalho, 1995b, p.72). Ou seja,
se localizarmos precisamente a prática profissional neste locus em nada
189

perdemos em termos das lutas e dos compromissos profissionais assumidos como


fundamentais.
Por isto, consideramos fecundas algumas das colocações presentes em
Lessa e Costa que dizem respeito à função social da ação tal como a apresentada
e que se distingue ontologicamente em relação à função social do trabalho 149. Ao
mesmo tempo, precisamos recolocar na pauta dos debates o impacto da ação
profissional sobre o cotidiano, ação que, aliás, remete para além dele. E aqui a
citação de Iamamoto e Carvalho é atual: nosso movimento não está voltado para
sustentar uma posição intermediária e conciliatória de tendências opostas
(capital/trabalho), mas estão inscritas na preocupação de recuperar, na análise
dessa expressão da prática social, o caráter da diversidade do movimento
histórico (1995b, p. 74).

3.2.3. Lukács e a determinação dos limites profissionais

O leitor atento deve ter observado que, ao discutir Lukács e o entendimento


de profissão, até o momento não mencionamos a intervenção do professor José
Paulo Netto, com sua obra Capitalismo Monopolista e Serviço Social – que
constitui a primeira parte de sua tese de doutoramento 150 –, publicada em 1992 e
que é visível e visceralmente uma obra de inspiração lukacsiana.
Isto se deve a dois motivos. No nosso entendimento, a intervenção do
professor Sérgio Lessa é, como vimos, uma polarização à tendência hegemônica
no Serviço Social. Ela se constitui mesmo como um contraponto que dá
visibilidade a um outro entendimento do mesmo processo - mas que, para nós, só
consegue se consubstanciar como um contraponto, passando a problematizar
efetivamente o debate que vinha sendo realizada no interior da profissão quando o
149
Não cabe aqui ir além do conteúdo teórico das contribuições feitas a este
debate por Lessa; cabe ressaltar, todavia, que nossa convergência teórica com
parte das suas idéias não implica uma solidariedade com as inferências político-
profissionais que nosso interlocutor extrai de seu arcabouço teórico.
150
A segunda parte da tese foi publicada com o título de Ditadura e Serviço Social
– uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64.
190

processo de implementação das diretrizes começa a apresentar dificuldades em


torno da questão. No caso da obra do professor José Paulo Netto, acreditamos
que mesmo considerando-a complementar, como é o nosso caso, à obra de 1982
de Iamamoto e Carvalho, não é como esta incorporada pela vanguarda
profissional e pela categoria. Algumas partes da obra são incorporadas e
referenciadas amplamente: o primeiro capítulo, sobre o capitalismo monopolista,
que versa sobre a emergência do Serviço Social e sua relação com a questão
social e o Estado no capitalismo dos monopólios, assim como a parte que discute
o serviço social no Brasil no período da autocracia burguesa. A nós nos parece – e
a recente obra de Iamamoto confirma isso – que o entendimento de profissão
contido no segundo capítulo da obra de Netto é um nó para os assistentes sociais.
Em outras palavras, o entendimento de profissão aí contido, ainda que no nosso
entendimento pertinente e complementar aos contributos de 1982, não ganha
corações e mentes no Serviço Social, e por isso mesmo, ainda que tenha sido
publicada no início dos anos 1990, suas formulações – repetindo: no que se refere
à profissão - não ganham grande visibilidade no interior do corpo dos debates
profissionais. Põe-se, pois, a pergunta: por que isso acontece?
O objetivo de Netto é analisar o estatuto profissional do Serviço Social a
partir de uma dupla determinação: as demandas postas socialmente à profissão e
as reservas de forças teóricas e prático-sociais acumuladas por ela, capazes ou
não de responder a essas demandas externas. A tese defendida pelo autor é de
que da natureza sócio-profissional do Serviço Social, dada a carência de um
referencial teórico crítico-dialético, decorra um exercício profissional
medularmente sincrético (1996b, p.88). Em suas palavras,
O sincretismo nos parece ser o fio condutor da afirmação e
do desenvolvimento do Serviço Social como profissão seu
núcleo organizativo e sua norma de atuação. Expressa-se
em todas as manifestações da prática profissional e revela-
se em todas as intervenções do agente profissional como tal.
O sincretismo foi um princípio constitutivo do Serviço Social
(Netto, idem-grifo nosso).
Para o autor, essa estrutura sincrética da profissão tem três
fundamentos objetivos: na essência mesmo do seu universo problemático original,
ou seja, a “questão social”, que se apresentou como núcleo de demandas
191

histórico-sociais; o horizonte de seu exercício profissional, leia-se o cotidiano; e a


sua modalidade específica de intervenção, que é a manipulação de variáveis
empíricas.
As demandas que estruturam a requisição profissional advêm, de
acordo com Netto, da multiplicidade problemática engendrada pela “questão
social”, enquanto complexo de problemas e mazelas intrínsecos à ordem
burguesa consolidada e madura - mais expressamente, quando o ingresso no
estágio imperialista leva a “questão social” a se refratar para o campo imediato de
antagonismos que a materializava, ou seja, o universo fabril. Tratou-se mesmo de
um movimento correlato porquanto na medida em que se realiza a expansão
monopólica do capital, mais aumenta a expansão das problemáticas relacionadas
à “questão social”. Neste momento histórico específico, em que as refrações da
“questão social” são amplificadas e espraiadas a toda a tessitura social, torna-se
possível o social seja recortado um setor legítimo para a intervenção profissional.
É o Estado que, refuncionalizado151 pela classe burguesa, passa a
responder de maneira mais significativa às amplificações das problemáticas
relacionadas à “questão social” e, ao fazê-lo, manipula as referidas respostas pela
via da fragmentação. Por meio das políticas sociais opera-se de maneira extensiva
o destrinchar da “questão social”, tomada a partir de sua fenomenalidade e
tornada “problemas sociais” isolados passíveis de tratamento pelas
“especializações” da divisão social do trabalho, como é o caso do Serviço Social.
Para os profissionais, dada essa mecânica estabelecida no jogo institucional,
aparece uma ineliminável heterogeneidade de situações, que são formalmente

151
Significa mesmo dizer que um componente, mesmo amplo, de legitimação é
plenamente suportável pelo Estado burguês no capitalismo monopolista; e não
apenas suportável como necessário para que ele possa desempenhar sua
funcionalidade econômica. Netto expressa isso de maneira fundamental, diz o
autor demandas econômico-sociais e políticas imediatas de largas categorias de
trabalhadores e da população podem ser contempladas pelo Estado burguês no
capitalismo monopolista não significa que seja a sua inclinação “natural”, nem que
ocorra “normalmente” – o objetivo dos superlucros é a pedra de toque dos
monopólios e do sistema de poder político de que eles se valem; entretanto,
respostas positivas a demandas das classes subalternas podem ser oferecidas na
medida exata em que elas mesmas podem ser refuncionalizadas para os
interesses diretos e/ou indireto da maximização dos lucros (Netto, 1996b, p. 25).
192

homogeneizados pelos procedimentos burocrático-administrativos que se realizam


no âmbito institucional. Nestes termos,
A problemática que demanda a intervenção operativa do
assistente social se apresenta, em si mesma, como um
conjunto sincrético; a sua fenomenalidade é o sincretismo –
deixando na sombra a estrutura profunda daquela que é a
categoria ontológica central da própria realidade social, a
totalidade152 (Netto, idem, p.91).
O segundo elemento do sincretismo aparece associado a essa
heterogeneidade aludida, mas não pode ser tomado unilateralmente, porque,
como o próprio autor destaca, essa problemática comparece para uma gama de
outras profissões. Por isso, ganha relevo o horizonte em que se exerce a atividade
profissional, ou seja, as objetivações humanas relativas à esfera do cotidiano.
Aqui, objetivamente, estamos num campo de análises de um
entendimento fundamentalmente lukacsiano sobre essa esfera, mas derivada para
pensar a prática profissional. Esta esfera – o cotidiano -, tomada corretamente, no
nosso entendimento, é demonstrada como insuprimível da vida em sociedade, o
que não significa que seja a-histórica, mas que é o locus onde a reprodução do
gênero humano se encontra velada, pois a superficialidade extensiva é uma de
suas determinações fundamentais.
Tem-se aí uma gama de fenômenos que comparecem em cada
situação precisa, mas, para o exercício profissional, não se estabelece uma
relação que os vincule (Cf. Netto e Carvalho, 1996). Ao mesmo tempo,
determinado historicamente, o cotidiano assume uma funcionalidade específica na
sociedade burguesa - na medida em que a reificação típica a essa ordem tem se
universalizado por meio da forma mercadoria e saturado todas as esferas da vida
dos homens e mulheres. Pelo cotidiano, essa entronização se dá de forma quase
invisível. Em outras palavras, trata-se mesmo do processo pelo qual, na
imediaticidade da vida social, universalizam-se os processos de alienação que

152
Vê-se que aqui mais uma vez o autor introduz no debate profissional agora com
um campo mais amplo de determinações na medida em que está analisando a
natureza da profissão e sua forma de realização, a questão da totalidade, tal como
a conceitualizou Lukács (Cf.Netto, idem, p.91 – nota 20).
193

estão comportados na mercadoria e que passam a dominar a totalidade das


relações de produção e reprodução (Cf. Netto, 1981c, esp. pp. 81-82).
Logo, o cotidiano como locus do fazer profissional coloca para a
intervenção profissional os mesmos condutos da cotidianidade, o que significa
que, dada a heterogeneidade ontológica do cotidiano, o encaminhamento técnico
e ideológico não favorece processos de suspensão ou operações de
homogeneização. E, dessa forma, a profissão adquire aí uma funcionalidade
particular, na medida em que organiza esses componentes heterogêneos,
manipulando-os planejadamente, e ressituando-os no âmbito desta mesma
estrutura do cotidiano (Netto, idem, p. 92).
Assim, a modalidade específica de intervenção do Serviço Social, ou
seja, a manipulação de variáveis empíricas de um contexto determinado, casa-se
perfeitamente com o aparente sincretismo que recobre os fenômenos derivados
da problemática da “questão social”. Essa intervenção social, assim posta, só
pode demandar um tipo de conhecimento que seja ele mesmo instrumentalizável.
Em outras palavras, o que essa intervenção manipuladora reclama são
paradigmas explicativos aptos a permitirem um direcionamento de processos
sociais tomados segmentarmente (ibidem, p. 94). Nesse sentido, do sincretismo
derivado do espaço sócio-ocupacional temos um sincretismo que se estende para
o âmbito ideo-teórico. Está, pois, aberto o flanco para o referencial teórico-cultural
que funda as ciências sociais particulares, com seu pragmatismo e empirismo,
caucionado na lógica forma-abstrata que interdita a possibilidade de os homens se
reconhecerem como sujeitos históricos pela via das teorias sociais. Netto repõe
novamente, em bases mais aprofundadas, o debate da decadência ideológica da
burguesia e o limite das “ciências sociais” que nela se inserem como o espelho da
cisão das relações sociais em objetos segmentados tal e como a divisão social do
trabalho os “constrói”.
Antes de prosseguir, cabe já indicar o que está nitidamente desenhado
nas teses de Netto (e que, em nosso entender, ajuda a explicar a já mencionada
incorporação parcial e seletiva dessas teses pelos assistentes sociais): o autor
explicita os limites profissionais do Serviço Social. Esta determinação, que rompe
194

quer com o messianismo quer com o fatalismo profissionais, é um elemento


extremamente incômodo para quaisquer celebrações.
Retomemos nossa argumentação. Com base nas inferências que faz, o
autor postula a determinação entre o sincretismo e a prática indiferenciada. Na
ausência de uma concepção teórico-social matrizada pelo pensamento crítico-
dialético, Netto verifica que a profissionalização altera de modo significativo a
inserção sócio-ocupacional do assistente social, mas fere muito pouco a forma da
estrutura da prática profissional interventiva em relação com a prática filantrópica.
Ou seja, mesmo a profissionalização tendo criado um ator novo, cuja prática é
articulada por um sistema de saber e vinculada a uma rede institucional, a
intervenção desse profissional não se altera (Netto, idem, p. 96).
Nesse sentido, para o autor, a estrutura da prática interventiva no
tocante à sua operacionalidade reveste-se de uma aparência indiferenciada, que é
similar às suas protoformas. Isso se explica por dois elementos fundamentais e
que se processam no movimento mesmo da realidade, ou seja, extrapolam a
prática profissional, quais sejam: as condições para a intervenção sobre os
fenômenos sociais na sociedade burguesa consolidada e madura e a
funcionalidade de seu Estado no confronto com as refrações da “questão social”
(ibidem).
No primeiro ponto, trata-se de dar ênfase ao movimento da sociedade
burguesa, que se apresenta impregnado de imediaticidade e positividade. Ou seja,
o padrão de emergência das suas relações é o padrão do fenomênico. Este
elemento coloca um brutal obscurecimento dos problemas de fundo que são
constituintes do movimento social real. Por isto, no plano intelectual e técnico, sem
uma referencialidade crítico-dialética, não se superam as regularidades
epidérmicas da ordem burguesa. Em outras palavras,
no plano da articulação teórica, [a prática profissional]
ultrapassa o senso comum com uma formulação sistemática,
entretanto sem desbordar o seu terreno; no plano da
intervenção, clarifica nexos causais e identifica variáveis
prioritárias para a manipulação técnica, desde que a ação
que sobre elas vier a incidir não vulnerabilize a lógica
medular da reprodução das relações sociais (Netto, idem, p.
97-98).
195

No segundo ponto, trata-se de revelar o caráter mesmo de que se


revestem as políticas sociais sob o aparato do Estado burguês, cuja intervenção
tende a ressituar sobre bases mais ampliadas as refrações da “questão social”,
mas nunca pode promover a sua eversão. Nesse sentido, sendo o exercício
profissional indissociável das políticas sociais, ou seja, nas condições dadas pelos
parâmetros que balizam a sua operacionalização, o máximo que se obtém com
seu desempenho profissional é uma racionalização de recursos esforços dirigidos
para o enfrentamento das refrações da questão social (Netto, idem, p. 99).
Dessa forma, os limites apontados pelo autor não são endógenos nem
pertinentes apenas ao exercício do Serviço Social 153. Mas aparece como sendo
endógeno à profissão, na medida em que a sua funcionalidade sócio-profissional é
demarcada pelo tratamento das refrações da questão social. Nestes termos, a
especificidade profissional converte-se em incógnita para os assistentes sociais: a
profissionalização permanece um circuito ideal que não se traduz
operacionalmente (Netto, idem, p.100). A mais nítida conseqüência dessa
peculiaridade operatória, ou seja, do sincretismo prático-operatório, é justamente a
aparente intervenção indiferenciada do assistente social e a sua aparente
polivalência.
É próprio da prática que se toma sincreticamente não
somente a sua translação e aplicação a todo e qualquer
campo e/ou âmbito, reiterando procedimentos formalizados
abstratamente e revelando a sua indiferenciação operatória.
Combinando senso comum, bom senso e conhecimentos
extraídos segundo prioridades estabelecidas por via da
inferência teórica ou de vontade burocrático-administrativa;
legitimando a intervenção com um discurso que mescla
valorações das mais diferentes espécies, objetivos políticos
e conceitos teóricos; recorrendo a procedimentos técnicos e
a operações ditadas por expedientes conjunturais; apelando
a recursos institucionais e a reservas emergenciais e
episódicas – realizada e pensada a partir desta estrutura
heteróclita, a prática sincrética põe a aparente polivalência.
Esta não resulta senão do sincretismo prático-profissional:
nutre-se dele e o expressa em todas as suas manifestações
(Netto, idem, p.102-101).

O autor destaca aqui este universo como pertinente a todas aquelas profissões
153

que estão envolvidas nas políticas sociais.


196

Postas essas questões, localizamos no entendimento postulado da


prática indiferenciada aquele que seria o nó problemático a que nos referimos
anteriormente. Na nossa ótica, das formulações de Netto extrai-se uma
compreensão, a nosso ver equivocada, de que suas formulações são como um
circuito fechado, que não possibilita saídas profissionais em face da positividade
burguesa. Dessa forma, tendo como horizonte os compromissos ídeo-políticos já
demarcados anteriormente, que passam a compor o quadro gravitacional da
profissão no final dos anos 80 e início dos 90, a problematização dos elementos
constitutivos e constituintes da profissão apresentados por Netto - e, tomados a
partir daquele entendimento - não se torna, pois, pertinente para os assistentes
sociais. É isso o que explica, a nosso ver, que o fato de, no marco dos debates
profissionais dos anos 90, esta concepção de profissão não ter sido incorporada
ou tomada intensivamente como um referencial contributivo para aqueles debates.
A releitura da produção recente do Serviço Social, elaborada por
Iamamoto (2007), corrobora essa nossa idéia. Ao dialogar com a obra de Netto, a
autora pontua alguns elementos que explicariam essa interpretação corrente. O
mais curioso é que comparando a obra de 1992, em questão, com o texto
publicado pelo autor na revista Serviço Social & Sociedade, número 50 (Netto,
1996a), no qual Netto se debruça sobre as problemáticas postas à profissão no
século XX, Iamamoto detecta uma inflexão no pensamento do autor - algo com o
que também não concordamos.
Para Iamamoto, a idéia da natureza profissional medularmente
sincrética, tal como apresentamos acima, amarra toda a análise da profissão ao
fenômeno da reificação. E, apesar de o autor circunscrever o marco da
caracterização da profissão até os anos 60, no entendimento da autora a análise
extrapola aquele lapso temporal. Segundo ela, incide sobre a própria natureza do
Serviço Social na sociedade burguesa, pois o sincretismo deriva da reificação.
atribuindo uma dimensão de universalidade a análise (Cf. Iamamoto, 2007, p.
267).
A primeira questão que ela levanta é de ordem teórico-metodológica.
Questiona como Netto pode indicar a natureza de uma especialização do trabalho
197

a partir da aparência em que se manifesta sem antes decifrar o que se oculta por
trás da forma reificada em que se mostra e que determina e efetiva sua natureza
sócio-histórica (Iamamoto, ibidem). Como pontuamos anteriormente, Netto não
indica a natureza do Serviço Social como especialização do trabalho a partir da
aparência com que se reveste, pois se assim o fosse não estaria claramente
formulado o entendimento que subjaz à necessidade e à demanda por esse tipo
de profissão. Especificamente, e tal como também formulado em termos bem
similares em Iamamoto e Carvalho (1995b) 154, a natureza do Serviço Social como
especialização na divisão social e técnica do trabalho tem por fundamento o
movimento real mediante o qual, através das políticas sociais, se opera de
maneira extensiva o destrinchar da “questão social”, tomada a partir de sua
fenomenalidade e tornada problemas sociais isolados passíveis de tratamento
pelas “especializações” da divisão social do trabalho, como é o caso do Serviço
Social.
Nas palavras de Netto, ao cuidar da requisição profissional do
assistente social:
Um tal mercado de trabalho não se estrutura, para o agente
profissional mediante as transformações ocorridas no interior
do seu referencial ou no marco da sua prática – antes, estas
transformações expressam exatamente a estruturação do
mercado de trabalho; na emergência profissional do Serviço
Social, não é este que se constitui para criar um dado
espaço na rede sócio-ocupacional, mas é a existência desse
espaço que leva à constituição profissional (...) não é a
continuidade evolutiva das protoformas ao Serviço Social
que esclarece a sua profissionalização, e sim a ruptura com
elas, (...) pela instauração independentemente das
protoformas de um espaço determinado na divisão social (e
técnica) do trabalho (1996b, p. 69).
Por outro lado, o que se oculta por traz da forma reificada que aparece
é justamente a fragmentação, que deve necessariamente se processar para não
colocar em xeque a ordem burguesa. O diferencial postulado por Netto consiste

154
Em Iamamoto e Carvalho está posto o desenvolvimento das forças produtivas e
as relações sociais engendradas nesse processo determinam novas
necessidades sociais e novos impasses que passam a exigir profissionais
especialmente qualificados para o seu atendimento, segundo os parâmetros de
“racionalidade” e “eficiência” inerentes à sociedade capitalista (1995b, p. 77).
198

justamente em entender que é o caráter fragmentário do trato da questão social


que põe a mistificação e pois, neste caso, a profissão passa a operar sobre uma
mistificação e, na ausência tanta vezes enfatizada por Netto, de um referencial
critico dialético, ela só tende a reproduzir essa mistificação, porque não consegue
sequer compreendê-la. O universo para pensar a profissão não pode ser posto
para além do alienado porque a realidade mesma e não apenas o pensamento
apresenta essa determinação.
O que não quer dizer que em Netto se processe uma opacidade sobre a
luta de classes na resistência à sociedade do capital (idem, p.269) - tal como
formula, num segundo momento, Iamamoto. Mais do que isso: para a autora,
Netto apresenta uma visão cerrada da reificação – forma assumida pela alienação
na idade do monopólio – e a alienação tende a ser apreendida como um estado e
menos como um processo que comporta contratendências, porque as
contradições das relações sociais são obscurecidas na lógica de sua exposição
(Iamamoto, ibidem). Para a autora, o circuito da análise se fecha alimentando o
fatalismo (idem, p.271). A autora localiza no entendimento do cotidiano analisado
por Netto, sob a influência teórica de Lukács, o ponto de partida que gera esse
fatalismo.
É bem verdade, tal como abordaremos adiante, que, em Lukács
(1966a), o cotidiano é marcado pela heterogeneidade, só passível de ser
superada por meio dos processos suspensivos que são possibilitados pelo
trabalho criador, a arte e a ciência. Mas Netto arranca da heterogeneidade para
pensar como ela se coloca como um condicionante mesmo, o que não deve ser
entendido como cerceamento de possibilidade para a ação profissional. A ênfase
de Iamamoto em aludir ao fatalismo leva-a a não dimensionar a importância da
afirmação de Netto, quando este observa que, manipulando planejadamente e
ressituando no âmbito da estrutura do cotidiano a intervenção do Serviço Social, a
ação profissional casa-se perfeitamente com o aparente sincretismo que recobre
os fenômenos derivados da problemática da “questão social”. A riqueza e
potencialidade política aqui contida reside justamente na exata medida do
entendimento preciso do fenômeno que, não aprisionado pelo otimismo da
199

vontade, remete, por meio do pessimismo da razão, a localizá-lo como passível de


resolução não no interior dos marcos profissionais, mas na ordem própria que o
põe em movimento. Pois, para o autor é uma postulação muito clara
a funcionalidade da política social no âmbito do capitalismo
monopolista não equivale a verificá-la como uma decorrência
natural do Estado burguês capturado pelo monopólio. A
vigência deste apenas coloca a sua possibilidade – sua
concretização (...) é variável nomeadamente das lutas de
classes (...) é de se registrar que as lutas e confluências dos
protagonistas não se encerram na formulação – a
implementação das políticas é outro campo de tensões e
alianças, onde freqüentemente jogam papel não desprezível
categorias técnico-profissionais especializadas (Netto, idem,
p. 30 –grifos nossos).
No nosso entendimento, o que restringe o entendimento de Iamamoto
sobre a questão é justamente a sua compreensão do cotidiano, extraída da obra
de H. Lefebvre, que sinalizamos já lá em nossa análise da obra de 1982 como
problemática. Para Lefebvre, o movimento operado na sociedade burguesa se dá
em termos de uma apropriação155 da esfera do cotidiano, pela burguesia, como
parte de uma estratégia de classe. Esta apropriação aparece na medida em que,
segundo o autor, o mundo burguês tanto está pautado em objetos efêmeros como
também em motivações crescentemente suscitadas na efemeridade- tem-se,
segundo ele, uma exploração racionalizada, embora irracional como
procedimento, do cotidiano (1991, p. 92).
Reconhecemos que a tese de Lefebvre - fundamentalmente no que diz
respeito a como as necessidades são delineadas já e na medida para serem
previstas, programadas e dirigidas - é significativa e rica. Contudo, no nosso
entendimento, trata-se não de uma apropriação, mas de uma manipulação, como
Netto aponta, da esfera do cotidiano. A polêmica aqui não é meramente
conceitual.
Diferente da noção de apropriação - que aparece como um movimento,
este sim, mais cerrado -, a noção de manipulação do cotidiano remete-nos tanto a
uma espontaneidade (que se verifica no consumo, na moda - e esta é muito bem

155
Para Lefebvre apropriação é captar as pressões alterando-as e transformando-
as (Cf.1991, p. 97).
200

sucedida na sociedade capitalista) como a uma condição de possibilidade (que


não se converte automaticamente em realidade) de superar os processos
manipuladores. Ou seja: não se podem manipular todos os homens e mulheres
para todo o sempre. Aliás, a humanidade sempre encontrou formas adequadas
para rebelar-se contra as formas concretas de manipulação (Heller, 2002, p. 337)
Logo, a manipulação remete necessariamente a entender as condições histórico-
concretas de sua realização.
A manipulação impede as decisões individuais (morais) nas
questões que afetam a concepção de mundo ou da política,
plasma as habilidades e ideologias que servem ao sistema
vigente sem pô-lo em discussão (...) substitui os velhos
mitos, por novos mitos (...) vigia a vida privada dos
particulares, liquidando sua esfera privada (...) (Heller, idem,
p. 338).
Contudo, mesmo que hoje esta manipulação seja extensiva a grande
parte das esferas do ser social, tal como bem destacado por Netto, esta
manipulação do cotidiano está assentada numa determinação fundamental, qual
seja: dadas as suas características, o cotidiano, que é insuprimível, é o nível da
existência social que mais se presta à alienação. Porém, isto não significa dizer
que ele seja necessariamente alienado (Cf. Heller, idem). Em outras palavras, o
que queremos deixar claro é que, na medida em que o cotidiano alienado é uma
determinação histórico-particular, a superação deste estado de coisas refere-se
não à superação do cotidiano, mas à superação da sua forma histórico-particular:
a manipulação burguesa. E este elemento está perfeitamente demarcado nas
determinações presentes na análise de Netto sob inspiração de Lukács.
Na seqüência, Iamamoto se defronta com a questão da prática
indiferenciada. Para a autora, as determinações sócio-históricas das respostas
profissionais e suas distintas possibilidades de configuração ficam obscurecidas
(idem, p. 274) na elaboração de Netto. Cumpre observar que mesmo a autora
remetendo aos dois elementos postulados por Netto e já pontuados por nós
anteriormente - as condições para a intervenção na sociedade burguesa marcada
pela positividade e a funcionalidade do Estado em face da “questão social” -, para
ela o leitor fica sem resposta para qual a especificidade da profissionalização.
201

Entendemos que a resposta, deu-a Netto com a captura contraditória de


em como nesse processo se realiza um movimento de continuidade e ruptura. A
continuidade se refere ao universo ídeo-político e teórico-cultural que se apresenta
no pensamento conservador e que é refuncionalizado sob o mote das ciências
sociais particulares (positivismo), por ser este mais “fecundo” para a fragmentação
instituída no trato da “questão social”. Cabe ainda aqui, no elemento de
continuidade, a observação de Netto segundo a qual um novo agente profissional
não se cria a partir do nada - constitui-se num largo tempo, refuncionalizando as
referências e práticas preexistentes, podendo conservá-los por largo prazo (Netto,
idem, p. 67) e criando para observadores pouco atentos a ilusão de estar se
verificando um mero desenvolvimento imanente (ibidem).
A ruptura se opera com o desempenho de papéis executivos em
projetos de intervenção profissional, cuja funcionalidade real e efetiva está posta
por uma lógica e uma estratégia que independem da sua intencionalidade (Netto,
idem, p. 68). Objetivamente, a ruptura ocorre com a condição do agente e o
significado social da sua ação. O agente inscreve-se numa relação de
assalariamento e a significação passa a ter sentido novo na malha de reprodução
das relações sociais, ou seja, na dinâmica da ordem monopólica. É este
movimento que fecha o circuito, se assim podemos falar da análise de Netto, pois,
A constituição do mercado de trabalho para o assistente
social pela via das políticas sociais (...) é que abre a via para
compreender simultaneamente a continuidade e ruptura
antes aludida (...). De uma parte recuperam-se formas já
cristalizadas de manipulação dos vulnerabilizados (...). De
outra, com a sua reposição no patamar das políticas sociais,
introduz-se-lhes um sentido diferente: a sua funcionalidade
estratégica passa a dinamar dos mecanismos específicos da
ordem monopólica para a preservação e controle da força de
trabalho (idem, p. 71).
Assim, Netto destaca um elemento de fundamental importância para
seu entendimento de profissão. Para ele, o Serviço Social não é uma possibilidade
posta somente pela lógica econômico-social da ordem burguesa: é dinamizada
pelo projeto conservador que contempla as reformas dentro desta ordem. Seu
travejamento ídeo-politico original não deixa dúvidas (...) – tende, tal como
formulado por Iamamoto e Carvalho (1995b), ao reforço dos mecanismos do poder
202

econômico, político e ideológico no sentido de subordinar a população


trabalhadora às diretrizes das classes dominantes. E, nesta determinação, a
conexão entre o Serviço Social e o protagonismo proletário é uma conexão
reativa. Mas o autor destaca como a base da profissionalidade as políticas sociais:
são elas um terreno de confronto, tensionadas pelas contradições e antagonismos
que as atravessam; a prática do Serviço Social tem aberta a possibilidade para
que rebatam no seu referencial ideal os projetos dos vários protagonistas sócio-
históricos (...). A opção por um tratamento privilegiado a qualquer um deles,
porém, não é função de uma escolha pessoal dos profissionais – ainda que a
suponha, é variável da ponderação social e da força polarizadora dos
protagonistas mesmos (Netto, idem, p. 75-76).
Em nosso entender, as observações feitas até aqui já nos servem para
problematizar a tese de uma inflexão no pensamento de Netto presente e
elaborada no texto de 1996 Transformações Societárias e Serviço Social – notas
para uma análise prospectiva da profissão. Não porque o autor não possa
abandonar alguns elementos, mas porque consideramos que o núcleo central
continuou inalterado. Mais precisamente, o autor põe em movimento aquilo que
postulou em 1992: na ausência de um referencial crítico-dialético, o Serviço Social
não conseguiu se liberar do sincretismo que está na base de sua
profissionalização: agora, para o autor, o que está se pondo é a questão: em face
do referencial crítico-dialético o Serviço Social consegue romper com o seu
travejamento ídeo-político original?
É inegável que, como diz Iamamoto, este texto é muito mas rico em
termos dos dilemas contraditórios da história do tempo presente. Mas não
corroboramos a idéia da autora de que o diferencial está na saliência da dimensão
contraditória das relações sociais e, conseqüentemente, das respostas
profissionais no seu âmbito – não apenas como um braço da reprodução da lógica
reificada do capital – mais permeável a uma direção social estratégica contra-
hegemônica (2007, p. 281). Em síntese, para a autora, aqui a profissão é
permeada pela luta de classes e esta determinação aparece diluída na obra
anterior de Netto.
203

Em nosso juízo, tais conclusões são equivocadas. Para Netto, a


profissão sempre foi, e o demonstramos, atravessada pela luta de classes, mas
pra ele na medida em que a relação com o proletariado é reativa, a variável da
ponderação social e da força polarizadora dos protagonistas mesmos é que se
expressa no interior do corpo profissional e claro que as mudanças profissionais
captadas pelo texto de 1996 não podem ser debitadas apenas à presença de
bases sociais da categoria voltadas a uma direção contra-hegemônica informada
pela tradição marxista e responsável pela renovação cultural - e o próprio texto em
si revela isso, ao esclarecer como mais uma vez as mudanças operadas na
produção capitalista redimensionam o Estado, que, para o autor, mantém seu
caráter de classe (1996a, p. 99), e isso implica novos rebatimentos no interior da
profissão.
Assim, para nós, o autor concretiza aquilo que já estava posto em 1992,
quando afirma que
A década de oitenta consolidou, no plano ídeo-político, a
ruptura com o histórico conservadorismo do Serviço Social.
(...) Essa ruptura não significa que o conservadorismo foi
superado (...) significa apenas que – graças aos esforços
que vinham, pelo menos, de finais dos anos setenta e no
rebatimento do movimento da sociedade brasileira –
posicionamentos ideológicos e políticos de natureza crítica
e/ou contestadora em face da ordem burguesa conquistaram
legitimidade para se expressarem abertamente (...) Numa
palavra, democratizou-se a relação no interior da categoria e
legitimou-se o direito à diferença ídeo-política. Entretanto,
(...) na imediaticidade das expressões da categoria, a
magnitude dessa ruptura foi hiperdimensionada (...). A
dinâmica das vanguardas profissionais, altamente
politizadas, ofuscou a efetividade da persistência
conservadora (...). O conservadorismo nos meios
profissionais tem raízes profundas e se engana que m o
supuser residual (Netto, 1996a, p.111-112).
É por isso, também, que o autor dá tanto destaque à maioridade do
Serviço Social no Brasil no domínio da elaboração teórica (Netto, idem), pois, para
ele, dados os acúmulos, é possível tornar inteligível e apreender o sentido das
transformações societárias em curso, mas isso não elimina o confronto imediato
no campo profissional que estará posto pela demandas do mercado de trabalho e
204

sua funcionalidade ao projeto burguês que ganhava hegemonia à época do


Governo de Fernando Henrique Cardoso. Uma vez que, como o próprio autor
sublinha, num país, como o Brasil, que complexifica e intensifica cada vez mais as
mazelas sociais, uma profissão como o Serviço Social tende a ter a manutenção
por sua demanda, o que diferencia o momento de analise do texto em relação ao
de 1992 é que está aberta a possibilidade da elaboração de respostas mais
qualificadas (do ponto de vista operativo) e mais legitimadas (do ponto de vista
sociopolítico) - e isso só será convertido em ganhos, para Netto, se o Serviço
Social puder antecipá-las, com a análise de tendências sociais que extrapolam as
requisições imediatamente dadas no mercado de trabalho (idem, p. 124).
E, como bem observa Iamamoto (2007), o autor não incorpora a
categoria trabalho para pensar a ação do assistente social. E mais uma vez aqui
para nós a linha de continuidade com o primeiro texto é visível:
O Serviço Social não desempenha funções produtivas, mas
se insere nas atividades que se tornaram acólitas dos
processos especificamente monopólicos da reprodução (...)
Tais atividades, no caso do Serviço Social, configuram um
complexo compósito de áreas de intervenção, onde se
entrecruzam e rebatem todas as múltiplas dimensões das
políticas sociais e nas quais a ação profissional se move
entre a manipulação prático-empírica de variáveis que
afetam imediatamente os problemas sociais (...) e a
articulação simbólica que pode ser constelada nela e a partir
dela (Netto, 1996b, p. 72-73).
Esse entendimento é claramente reforçado, demarcando inclusive
claramente que a natureza da profissão é ideopolítica, quando o autor reflete
sobre o perfil profissional que se pretende assegurar, indicando a existência de
duas possibilidades:
O técnico bem adestrado que vai operar instrumentalmente
sobre as demandas do mercado de trabalho tal como elas se
apresentam ou o intelectual que, com qualificação operativa,
vai interferir sobre aquelas demandas a partir da sua
compreensão teórico-crítica, identificando a significação, os
limites e as alternativas da ação focalizada (Netto, 1996a,
p.126).
Nossas observações não constituem um arrazoado em defesa do
pensamento de Netto, mas uma explicitação interpretativa daquilo que nele está
205

contido, que consideramos fundamental como núcleo articulador coerente, que


não se espraiou para o conjunto da categoria pelas razões já mencionadas e que
não se adequa àquela concepção elaborada por Iamamoto. E se de defesa se
trata, não diz respeito tanto à argumentação de Netto, mas aos seus pressupostos
lukacsianos – em especial categorias como reificação, cotidiano etc. – que, em
nosso entender, abrem imensas e fecundas possibilidades para a análise do
debate ídeo-teórico do Serviço Social contemporâneo.

3.3. Lukács e o debate sobre a mediação

Tal como já indicamos, os debates em torno da categoria mediação, da


instrumentalidade etc. só adquirem significado a partir do seu enquadramento
sócio-histórico, sua inserção nos avanços profissionais em face do
conservadorismo - que estamos abordando e problematizando ao longo desse
capítulo. Podem ser vistos como derivações do confronto maior com o
conservadorismo, o que não quer dizer que não sejam significativas e
importantes; para nós, é somente no momento em que a categoria profissional
rompe com o endogenismo e entende-se determinada pelas relações sociais que
ela pode ampliar seu campo de compreensão sobre seus próprios condicionantes
e possibilidades internas em respostas ao contexto social em que está inserida.
Ao determinar o entendimento de profissão, a partir do referencial teórico-
metodológico marxiano e marxista, as problemáticas que a profissão se colocam
passam também a remeter a outros níveis de complexidade. Na nossa ótica, é
isto o que explica os debates sobre a mediação, a instrumentalidade e a “crise de
paradigma” - sendo que, para nós, estes dois últimos devem ser postos no marco
mais geral da discussão sobre a razão moderna e a racionalidade burguesa.
No debate em torno da mediação, identificamos claramente que ele se
constitui como claramente datado - no sentido que sua motivação vem mesmo no
bojo dos processos que estavam em movimento no interior do corpo profissional
Esse argumento comparece em Pontes, quando ele formula que a alta
206

complexidade do objeto do Serviço Social (...) porque enredado em uma teia de


mediações intrínsecas a ordem burguesa, contém dificuldades que obstaculizam
as possibilidades de seu pleno desvendamento, o que conseqüentemente tem
deixado à mostra as fragilidades e limites nos quadros conceituais até então
construídos pelos assistentes sociais (Pontes, 2002, p. 18). Mais à frente, o autor
diz ainda que,
especificamente para o papel metodológico, sem perder de
vista sua inseparabilidade da teoria, verifico que muitos dos
descaminhos da incorporação da tradição marxista no
Serviço Social, em particular referentes à chamada
dimensão política da profissão, ou a já citada
superestimação das possibilidades político-profissionais,
sem dúvida também resultaram do entendimento
esquemático ou empobrecido de categorias do método
dialético, tais como realidade-necessidade, possibilidade,
superação, mediação, particularidade. Ressalvo que este
problema só pode se apreendido na sua dimensão
ontológica, porque sua simples apreensão intelectiva, apesar
de necessária, não é suficiente (Pontes, 2002, p.24).
Em face dessas colocações, o movimento do autor é duplo;
primeiramente, volta-se para a conceituação teórica da categoria mediação e, em
seguida, aborda como essa categoria contribui para o plano teórico-cognitivo e
interventivo do Serviço Social. Este último movimento em nosso entender,
constitui uma tensão na elaboração do autor, que retomaremos mais à frente. Por
agora, cabe destacar que em Pontes (1989, 1999, 2002), para essa empreitada,
verificamos um forte recurso ao pensamento lukacsiano.
O ponto de partida de Pontes (2002) é obviamente lukacsiano, na
medida em que busca compreender, tal como formulado por Lukács, a mediação
como uma categoria objetiva, ontológica, que tem de estar presente em qualquer
realidade independentemente do sujeito (Lukács, 1979a, p.90). A partir daí, o
autor preocupa-se em captar a dinâmica e o papel da categoria mediação no
método dialético marxiano. E, na medida em que se remete ao método, aponta
necessariamente para os traços medulares da ontologia materialista marxiana.
Para Pontes, a teoria social de Marx pode e deve ser configurada como
uma ontologia do ser social, porque seus enunciados concretos, de um lado, se
referem diretamente a um certo tipo de ser e, de outro, por se apoiarem no
207

movimento próprio das categorias do real não em conceitos meramente ideais e


lógicos, asseguram às categorias o estatuto de formas de ser, modos de
existência – elas reproduzem idealmente aquilo que existe realmente (Cf. Lukács,
1979b). Para Pontes, esse entendimento é fundamental porque permite a
essência mesma que configura o método (idem, p. 65).
Aqui está claramente posto o distanciamento em face do idealismo
hegeliano, na medida em que as representações que se constituem na mente
humana são compreendidas como reflexos do real captados como representações
na consciência, mas que ainda assim não esgotam o ser, porque é próprio dele
um nível de dinamicidade que a capacidade humana de apreendê-lo se dá
tendencialmente (Cf. Pontes, idem; Lukács, 1979b). Em outras palavras, trata-se
de compreender que existe uma prioridade ontológica do objeto em face do sujeito
e, dessa forma, o movimento operado pela razão para capturar o real e o
movimento da realidade não coincidem (Pontes, idem, p. 60).
Pontes destaca que este pressuposto metodológico assenta num
elemento primordial que o antecede, que é o primado da produção e reprodução
da vida e que tem no trabalho a principal mediação entre o homem e a natureza e
entre o homem e a própria sociedade (ibidem). É nessa relação que se criam
novas categorias sociais, as quais vão pouco a pouco se impondo em face do ser
natural - ou seja, o homem, por meio de sua atividade, vai fazendo prevalecer as
determinações sociais sobre as naturais.
Esta forma de compreensão do movimento das categorias permite ao
autor destacar, com base na elaboração de Netto, conforme ele mesmo reconhece
(Pontes, 2002, p.67), duas características fundamentais do método marxiano: ser
histórico-sistemático e estrutural. A primeira diz respeito ao fato de o método
remeter necessariamente à gênese dos fenômenos que analisa, arrancando da
empiria para localizar a raiz histórica da sua constituição. Nas palavras de Pontes,
a concepção dialética determina a intenção e a ação de compreender as
condições que engendram os processos históricos e os sujeitos desses processos
nas suas particularidades e potencialidade (idem, p. 66). A segunda remete ao
método como estrutural, na medida em que ele busca captar a configuração
208

particular do objeto na organicidade interna e nas mediações que o articulam à


totalidade concreta. O autor avança, assim, colado no entendimento lukacsiano,
que ele considera uma ampliação e um detalhamento filosófico da concepção de
totalidade (Pontes, idem, p, 73), extraindo de Lukács o entendimento da totalidade
como sendo um complexo constituído de complexos subordinados. Como se sabe,
para Lukács,
(...) todo ‘elemento’, toda parte, é também aqui um todo; o
‘elemento’ é sempre um complexo com propriedades
concretas, qualitativamente específicas, um complexo de
forças e relações diversas que agem em conjunto. Essa
complexidade, porém, não elimina o caráter de ‘elemento’:
as autênticas categorias econômicas são, precisamente em
sua complexidade e em sua processualidade, cada uma a
seu modo e cada uma em seu posto, algo de efetivamente
‘último’, algo que pode certamente ser ulteriormente
analisável, mas não ulteriormente decomposto na realidade
(1978b, p.40).
O método, dados esses pressupostos, emerge no próprio movimento do
real para justamente guardar o máximo de fidelidade a tal movimento- e, por isso,
o conhecimento é sempre tendencial, aproximativo e multilateral. Os campos em
que se move a totalidade concreta, destaca Pontes, são campos de forças
contraditórias, cortadas pela negatividade. É a negatividade que, no interior dos
complexos totais, responde pela permanente tensão entre os vetores que
contribuem para manter a reprodução dos complexos e aqueles que sinalizam no
sentido de negar essa reprodução. Dessa forma, o movimento que resulta dessa
processualidade, a que a totalidade concreta está submetida, constitui uma dada
legalidade social. Logo, a possibilidade para que se apreenda a legalidade social,
só pode se dar por meio das mediações que estruturam o ser social. Como Pontes
observa,
A mediação aparece neste complexo categorial com um alto
poder de dinamismo e articulação. É responsável pelas
moventes relações que se operam no interior de cada
complexo relativamente total das articulações dinâmicas e
contraditórias entre as estruturas sócio-históricas. Enfim, a
esta categoria tributa-se a possibilidade de trabalhar na
perspectiva de totalidade (idem, p. 76).
209

Nesse sentido, o autor explicita as duas dimensões componentes da


categoria mediação: a sua dimensão ontológica, na medida em que ela é um
componente estrutural do ser social, e a sua dimensão reflexiva, que não é uma
forma de ser, mas o movimento da razão 156 que recebe o impulso do real e que,
através da negatividade, é capaz de destruir a imediaticidade ultrapassando a
aparência dos fatos (Cf. Pontes, idem, p. 76 a 82).
Na medida em que a legalidade do ser social se particulariza
diferenciadamente em cada parte do seu complexo dinâmico é que se opera o
movimento da singularidade à universalidade, mediatizado pelo particular. Vê-se o
autor claramente sintonizado com as determinações lukacsianas:
Se nós consideramos corretamente o movimento dialético do
universal ao particular e vice-versa, devemos observar que o
meio mediador (a particularidade) pode ainda menos ser um
ponto firme, um membro determinado, e tampouco dois
pontos ou dois membros intermediários, como diz Hegel
criticando o formalismo da triplicidade, mas sim, em certa
medida, um inteiro campo de mediações, o seu campo
concreto e real que, segundo o objeto ou finalidade do
conhecimento, revela-se maior ou menor (Lukács, 1978b, p.
113).
Logo, a partir de Lukács, Pontes dá à particularidade a mesma ênfase,
sendo que este campo de mediações vitaliza, na esfera da singularidade, as leis
tendenciais da universalidade ou, em termos claramente lukacsianos: o particular
representa aqui, precisamente, a expressão lógica das categorias de mediações
entre os homens singulares e a sociedade (Pontes, idem, p.93). Assim, para
Pontes,
Sendo a totalidade ‘complexo de complexos’, cada complexo
tem sua existência mediatizada com os demais. Portanto
para insistir no caminho metodológico ‘das aproximações
sucessivas’, é imperativo apreender também as mediações
que vinculam e determinam esses processos. Essas últimas

156
O movimento do autor em destacar o pensamento que se eleva do intelecto à
razão é claramente lukacsiano. Lukács afirma rigorosamente na atitude da razão
se expressa uma relação com a realidade que corresponde à essência dessa, à
consciência de que a realidade antes de mais nada constituída por complexos
dinâmicos multifacéticos e por suas múltiplas relações dinâmicas, enquanto o
intelecto é capaz de captar apenas o fenômeno imediato e suas reproduções
abstratas (1978b, p. 79).
210

mediações são de caráter estritamente ontológico e


inescapavelmente têm que ser apreendidas no seu devir
histórico (idem, p.87-88).
Torna-se óbvio que o recurso e a fundamentação do autor se dão
substancialmente a partir das contribuições lukacsianas e são apreendidas com
clareza e rigor teórico. Resta-nos agora observar como o autor introduz, esse
debate no âmbito do Serviço Social – onde, para nós, verifica-se um
desdobramento problemático.
Do ponto de vista teórico, Pontes considera que a categoria
mediação é um símbolo teórico-metodológico que representa a viragem ocorrida
na profissão a partir dos anos 1980 (Cf. idem, p. 157). Para fazer essa afirmação,
o autor se vale de toda a problemática, e já abordada nesta tese, referente à
incorporação do marxismo vulgar e que conferia à ação do profissional o caráter
de transformação social, localizando nas instituições (que concentravam
majoritariamente a prática profissional) um espaço monolítico pouco afeito ao
projeto das classes subalterna. Especial destaque o autor confere à obra de
Iamamoto e Carvalho de 1982, já analisada aqui por nós - e aqui corroboramos o
entendimento apresentado por Pontes, que a considera um caso exemplar do uso
implícito da categoria mediação (...) onde os autores logram êxito analítico
capturando as mediações ontológicas que tensionam o tecido das relações sociais
capitalistas (...) e a estrutura contraditória da profissão em face das relações
capitalistas de produção (idem, p. 159).
Nesse sentido, na nossa compreensão, a colocação de Pontes quanto
à potencialidade da categoria mediação tomada como categoria reflexiva, pensada
a partir de um movimento da razão voltado a reconstrução ideal dos processos
reais na perspectivação da totalidade, é importante para pensar a particularidade
histórico-social da profissão.
No entanto, na medida em que a mediação é uma categoria de caráter
relacional, pensar a particularidade da profissão é sempre remeter a sua inserção
às relações sociais e às demandas que lhes são postas socialmente. A profissão
é, portanto, um elemento compósito da reprodução ampliada das relações sociais,
em face de conjunturas e necessidades precisas. Neste sentido, rigorosamente, a
211

profissão deve, pois, ser localizada ela mesma no campo mediações dos
processos sociais reais. A nosso ver, é esse elemento que “desaparece” na
construção do autor (inclusive nas suas elaborações posteriores, como em
Pontes, 2000), ainda que o autor se preocupe abertamente com esse equívoco
quando pensa a mediação como categorial central da intervenção social. Ele
assevera que
O profissional de Serviço Social atua com e nas mediações
(...) e que o assistente social não é uma das mediações ou
um mediador no fazer do Serviço Social (...), mas sim um
articulador e potencializador de mediações. Numa palavra,
ele atua nos sistemas de mediações que enfibram as
refrações da ‘questão social’ constitutivas das demandas
sociais à profissão (Pontes, idem, p. 177).
Ainda que esta afirmação seja estratégica para que, no fazer
profissional, o assistente social, em seu espaço de trabalho, não dê como
pressuposta a imediaticidade com a qual aparecem para ele as pessoas, os
projetos, as situações – leia-se: refrações da ‘questão social’ -, com que se
defronta em seu cotidiano profissional, ainda assim o autor formula um quadro
esquemático de referências para reconstrução de mediações em Serviço Social
(2000, p. 44). Que a mediação operada para conhecer a realidade em sua
complexidade possa ser tomada pelo profissional na sua dimensão reflexiva, até
aqui estamos de acordo; a incorporação da totalidade como requisição para o
conhecimento da ação profissional favorece a compreensão sobre a
funcionalidade e o lugar ocupado pela profissão nas relações sociais. Parece
colocar-se aqui, quase como pressuposto, que todo Assistente Social deva, para
ser critico, elaborar conhecimento teórico. Isso está claramente apresentado
quando Pontes afirma que
a particularização de um campo de mediações, rico em
determinações e pleno de significado histórico possui um
enorme potencial heurístico para a prática profissional do
Assistente Social, em face de uma dupla dimensionalidade:
conhecimento-intervenção. (...) Assim, esse movimento que
o sujeito (conhecedor e interventor) opera articulando
representações ideais e observações empíricas (movimento
intelectivo-ontológico),que o sujeito cognocente/interveniente
opera primeiro na razão e depois na realidade (ação),
permite a (re) construção do objeto de intervenção
212

profissional. Em outras palavras, a compreensão e


apreensão das legítimas demandas sociais se expressam na
particularização dos vários sistemas de mediações
presentes (2000, p.48).
Aqui, claramente, o autor não distingue o conhecimento teórico da
sistematização da prática e acaba debitando ao profissional atribuições que
exigem recursos, tempo e até mesmo qualificação teórica que, em muitos casos,
não podem ser realizadas no trabalho cotidiano diário. O autor perde de vista,
assim, que a sistematização da prática remete à elaboração de um conhecimento
situacional. No dizer de Montaño,
o profissional de campo não produz teoria, mas – usando
criticamente os conhecimentos teóricos já acumulados para
explicar a estrutura e dinâmica do fenômeno com o qual se
enfrenta, em uma perspectiva de totalidade, articulada a
fenômenos mais amplos e complexos – elabora um
conhecimento situacional (diagnóstico) para intervir critica e
efetivamente nos processos, então esta atividade não é
subordinada ou subalterna a atividade ‘científica’, elas se
comportam como complementares (2000b, p. 19).
No âmbito interventivo, aquela produção de conhecimento mediato tal
como reclamada por Pontes, com todo o seu grau de complexidade, nem sempre
é possível. Isso não significa dizer que este entendimento desqualifica a atividade
interventiva do profissional: apenas, e tal como já discutido no debate acerca da
produção de Netto, o cotidiano coloca limites e condicionantes para o exercício
profissional. Por outro lado, na medida em que hipoteca na (re)construção do
objeto este procedimento lógico-ontológico, entendemos que ainda estamos no
universo da dimensão reflexiva da categoria mediação e não se esclarece o que é
uma ação profissional que opera com mediações.

3.4. Lukács no debate aberto pela “crise de paradigmas”.

Tal como vimos demonstrando até aqui, os avanços conseguidos no


seio profissional expressam claramente o movimento operado na sociedade
brasileira e a relação que a profissão consegue estabelecer com os setores
213

sociais mais progressistas. Contudo, desde a década de 1970 157 o mundo vivencia
um processo de reestruturação e restauração capitalista que exige um “ajuste
estrutural” inerente ao movimento contemporâneo do capital, operado em dois
níveis, interligados mas dispondo de relativa autonomia: o primeiro, balizado na
esfera da produção pela chamada reestruturação produtiva e por um novo regime
de acumulação mundial predominantemente financeiro, e que – e este é o
segundo nível -, do ponto de vista político, reclama o chamado neoliberalismo,
cuja essência é o afastamento dos obstáculos à circulação do fluxo de
mercadorias e dinheiros, pela via da contra-reforma do Estado (Cf. Behring e
Boschetti, 2006).
Estes dois processos articulados garantem ao capital fundamentalmente
uma reatualização da sempre existente tensão entre o monopólio e a competição,
entre centralização e descentralização. No dizer de Harvey (1992), não é que o
capitalismo agora esteja desorganizado - ao contrário, trata-se agora da maneira
como o capitalismo se torna organizado através da dispersão e da mobilidade
geográfica.
O projeto neoliberal, oriundo da estratégia internacional do capital,
propõe e efetiva uma política econômica monetarista com ampla privatização de
empresas estatais, em que "Estado mínimo" e "máximo de mercado" são
elementos fundamentais para a plena soberania do capital.
Na América Latina, a execução do receituário neoliberal (disciplina
fiscal, estabilidade monetária, redução de gastos públicos, reforma tributária,
liberalização financeira e comercial, alteração das taxas de câmbio, investimento
direto estrangeiro sem controle social e/ou político, privatizações e
desregulamentação) implicou e tem implicado conseqüências totalmente nefastas
para a maioria da população, provocando aumento do desemprego, destruição
dos postos de trabalho não-qualificados, redução de salários, contenção de gastos
com as políticas sociais e diminuição do investimento público.
157
Os primeiros governos expoentes desta reestruturação política foram Thatcher
(Inglaterra, 1979), Reagan (Estados Unidos, 1980), Khol (Alemanha, 1982) e
Schlutter (Dinamarca, 1983). É claro que, como demonstra Anderson, o
neoliberalismo esteve presente como eixo programático em quase todos os
governos eleitos na Europa Ocidental na década de 1980 (Cf. 1995).
214

No caso brasileiro, a heteronomia e amesquinhamento visceralmente


antidemocrático e conservador da burguesia brasileira são amplificados pela
lógica neoliberal. Aqueles padrões universalistas e redistributivos de proteção
social, configurados e garantidos minimamente na Constituição de 1988, foram
fortemente descontruídos. Voltado para as estratégias de extração dos
superlucros, e sob o argumento da crise fiscal do Estado, transformando as
políticas sociais em ações pontuais e compensatórias, o processo de privatização
foi explicitamente induzido nos setores de utilidade publica (saúde, previdência e
educação) (Cf. Behring e Boschetti, 2006). Aliado a esse ataque sistemático aos
direitos sociais, a contra-reforma do Estado brasileiro, como bem formulado por
Behring (2003), fragiliza o trabalho, sua organização e suas conquistas.
Em face desse quadro de reestruturação do capitalismo em âmbito
mundial os apologetas propalam o “fim do trabalho”, “o fim da história” e a “crise
dos paradigmas”. A realidade, aqui, é que, no quadro sócio-histórico das
transformações contemporâneas, na tentativa de explicação legitimadora da
“suposta” nova realidade em constituição, decreta-se a necessidade de
afastamento das clássicas representações teóricas da realidade. Na pretensa
“crise da modernidade” inscreve-se a idéia de “crise dos paradigmas” de análise –
em razão da qual todas as “metanarrativas” perderiam a sua validade frente às
mudanças societárias. Numa palavra: o alvo fundamental dessa empreitada é o
marxismo.
Nesse contexto, no momento em que o Serviço Social brasileiro
movimenta-se para a consolidação interna da sua ruptura com o
conservadorismo, no mesmo processo, o país e o mundo começam a viver uma
onda (neo)conservadora imbricada aos reajustes do capitalismo em âmbito
mundial. Essas expressões já se fazem sentir na profissão quando dos debates
acerca da elaboração das Diretrizes de 1996.
De acordo com Santos (2000), a deliberação pela revisão curricular
evidencia que esta teve seu primeiro impulso na chamada “crise de paradigmas”
das ciências sociais. Os indícios sistematizados de tal rebatimento começam a
despontar na profissão a partir de 1991, com os trabalhos priorizados pela gestão
215

89/91 da então Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social - ABESS


relativos à pesquisa e produção do conhecimento no Serviço Social e sua relação
com a prática profissional. O Caderno ABESS nº 05 (ABESS, 1995) possibilita a
emersão deste debate - da chamada “crise de paradigmas” das ciências sociais,
da crise do marxismo e da necessidade do pluralismo - nos meios profissionais.
Iniciada a revisão curricular, as primeiras questões foram sendo
apresentadas nos vários debates ocorridos nas oficinas nacionais e locais
realizadas em todo o Brasil e promovidas pela ABEPSS. Durante os anos de 1993
a 1995, várias foram as polêmicas centradas sobre a validade ou não do
marxismo para explicar os novos fenômenos contemporâneos. Nestes termos, a
direção social estratégica alicerçada no ponto de vista teórico-metodológico do
marxismo viu-se tensionada com a introdução, na pauta, dos debates
profissionais, pelo pressuposto da “crise de paradigmas”.
A crítica ao marxismo se dá pela principalmente (mas não só)
epistemologia, na medida em que o marxismo é tratado como mais um paradigma
- o “paradigma marxista”-; subtraem-se dele os elementos que até agora vimos
ressaltando como fundamentais: seu caráter ontológico, sua perspectiva
revolucionária e destrutiva da ordem burguesa, a totalidade. Assim, o acervo onto-
categorial é reduzido e limitado. E, mais ainda, balizado pela vulgata marxista que
se desenvolveu nos movimento comunista e foi incorporada na profissão pelos
manuais, como já analisamos, a tradição marxista torna-se equivalente ao
pensamento marxiano; nesta falaciosa identificação, o pensamento marxiano é
tratado como se sua expressão adequada estivesse contida na vulgata
dogmática.
Santos nos fornece um interessante quadro quanto às formulações
diretas e às vezes veladas das críticas feitas à incorporação do marxismo pelo
Serviço Social. A autora elenca três blocos de argumentação neste inquisitorial.
O primeiro seria o daquelas que pretendem “complementar” o marxismo com
outras perspectivas. Esclarece a autora: Não fazem críticas diretas ao marxismo,
embora incorporem a lógica do fragmento; através do sincretismo se permitem
conjugar ambos os referenciais ampliando seu ‘olhar’ sob o objeto e, portanto,
216

mantêm uma confortável posição sem rupturas (Santos, 2007, p. 98) com a
vertente hegemônica na produção teórica da profissão. Aqui a autora destaca
como exemplo a professora Maria Lúcia Martinelli.
O segundo grupo seria o daquelas argumentações que, em se dizendo
marxistas, efetuam “criticas de dentro”. Nota Santos: Parecem estar envolvidos
em uma disputa mais franca pela hegemonia em seu interior. Sua fração de
cautela está expressa na sincrética manutenção discursiva do ponto de vista da
totalidade somado à defesa do pluralismo metodológico (ibidem). Aqui a autora
destaca intervenções como Vicente de Paula Faleiros, Alba Maria Pinho de
Carvalho e Suely Gomes Costa.
O terceiro grupo diz respeito àquelas que, colocando-se fora das duas
outros, opera as criticas tal como na segunda, mas explicitamente como sendo
externas ao marxismo. Privilegiam o fragmento como nível privilegiado de análise
e (...) dinamizam de forma contundente aqueles vetores anti-modernos da
constituição ídeo-teórica da profissão (Santos, idem, p. 99). Têm-se aqui autores
como Pedro Demo, Aglair A. Setúbal, Raquel de Matos Lopes Gentilli.
A intervenção da professora Alba Maria Pinho de Carvalho exemplifica
claramente a complexidade que se põe para a perspectiva marxista no Serviço
Social em face desse debate. Sob a capa do pluralismo metodológico, mas com
nítido suporte nas proposições pós-modernas de esgotamento da modernidade,
claramente postula a impossibilidade de o marxismo dar conta das ditas “novas“
questões da sociedade. Nesses termos, entendemos que esse grupo, o segundo
na referência de Santos (2007), chega mesmo a se configurar como um grupo de
ex-marxistas que migraram para o território do pensamento pós-moderno, pois
qualquer abordagem do e no marxismo que se opera apenas no campo da
epistemologia já deriva em uma ruptura ontológica.
Veja-se o que diz Carvalho:
As novas configurações da realidade em transformação
colocam o desafio de se buscar novos caminhos analíticos,
novas tendências explicativas. E nessa busca do novo, os
pesquisadores em ciências sociais hoje reconhecem e
declaram a impossibilidade do pesquisador fechar-se
hermeticamente num único paradigma, qualquer que seja
217

ele: um velho paradigma ou um paradigma clássico como,


por exemplo, o funcionalismo, o marxismo ou os novos
paradigmas de abordagens culturalistas, de análise do
cotidiano ou do imaginário (...) na busca do diálogo entre
teorias, recoloca-se, então, como um dos pontos centrais
do debate, a vitalidade do marxismo (...) o importante, o
saudável é o que atualmente, o debate vem apontando, de
fato, para a possibilidade do diálogo do marxismo com os
outros paradigmas contemporâneos (Carvalho, 1995, p. 49-
50).
Em torno desse debate de “crises de paradigma”, verificamos outra
gama de contribuições lukacsianas, pela intervenção de Tonet e, num segundo
momento, no debate da razão moderna, que comparece nas elaborações de
Netto e Guerra.
Para Tonet, a idéia de uma “crise de paradigmas” está caucionada pela
forma equivocada de analisar-se a relação da realidade com a produção teórica.
Para o autor, neste debate, admite-se que as transformações ocorridas na
realidade social exercem influência sobre a produção teórica, mas rejeita-se
categoricamente qualquer tipo de relação que se julgue ferir a autonomia relativa
das idéias. Que o conceito de autonomia relativa possa ter significados
radicalmente diversos, sequer é aventado (1993, p. 106).
Com este entendimento, o autor processa pertinentes considerações
acerca da fundamental diferenciação entre a perspectiva gnosiológica e a relação
da perspectiva ontológica para a compreensão da relação entre as idéias e a
realidade objetiva, na medida em que, na primeira, a ciência comparece como a
produção de um sujeito autônomo, que apesar de sofrer variadas influências
(econômicas, políticas, sociais etc.), não é direta, nem mecânica, nem
causalmente determinado por elas. A autonomia relativa aparece, então, como
problemas internos ao conhecimento e a relação com a realidade externa, apesar
de existir e ser forte, não é uma relação íntima, essencial. Neste sentido, o autor é
radical ao enfatizar que a perspectiva gnosiológica oculta o sentido mais essencial
do conceito de autonomia, na medida em que esta relação autônoma entre as
esferas é tratada como uma relação de exterioridade - e esta crítica profunda é
claramente contraposta às teses apresentadas por Carvalho.
218

Com outro pólo de centralização, mas, no nosso entendimento,


finamente sintonizado com as questões pontuadas por Tonet, Netto (1995b) parte
da idéia de que a polêmica acerca dos paradigmas, que rebate nos saberes
sociais teóricos, teve uma tematização intensa em outros domínios de
conhecimento, especialmente na física158 e se efetiva com uma transferência para
o debate da área social abrindo, assim, a via para um quadro problemático. Para
o autor, invés de tratar o debate na área social como um influxo da controvérsia
na Física, deve-se procurar uma abordagem que o apreenda particularmente
como polêmica própria dos conhecimentos referidos à sociedade (idem, p. 09).
Com isso, o autor efetiva uma virada que coloca no centro da polêmica
o positivismo nas ciências sociais e seus profundos limites analíticos para pensar
a realidade. Mais claramente, pontua elementos centrais para a crítica da
Modernidade que já se revela naquele momento e que tornam as análises de
Carvalho sintomáticas, qual seja: a falsa noção de uma pós-modernidade. Neste
sentido o autor afirma:
A controvérsia paradigmática a que se faz referência nos
dias de hoje contém dados inéditos; ela não se desdobra
como continuidade da crítica contida nas vertentes da
tradição marxista e nas derivações do historicismo. Se
houvesse que buscar precedentes para a controvérsia
158
O autor particularmente aqui está se referindo à polêmica acerca dos
paradigmas, que nos anos 50 e 60 comparecem no interior da Física e que
rebatem na elaboração da chamada Nova Filosofia da Ciência. A elaboração, que
mais caracteriza este debate é publicada em 1962 por Thomas Kuhn, na sua
célebre monografia A Estrutura das revoluções científicas. Para Kuhn, o
paradigma aparece como uma constelação que compreende globalmente leis,
teorias, aplicações e instrumentos e, que oferece um modelo que engendra uma
tradição particular de investigação científica, dotada da especial coerência.
Quando este paradigma é afirmado e tornado hegemônico numa comunidade
científica determinada, todas as atividades de pesquisa e investigação que se
operam tendo-o por suporte constituem a ciência normal. Logo, essas regras são
tomadas como consensuais e necessárias e só podem ser substituídas quando,
com a insurgência de novos fenômenos, surge um novo paradigma para explicá-
las. No entanto Kuhn demarca que, uma teoria científica somente é considerada
inválida quando existe uma alternativa disponível para substituí-la (idem, p. 107).
Em outras palavras, com o comprometimento da capacidade resolutiva deste
paradigma, abre-se uma crise que desencadeia uma revolução científica na qual
um paradigma antigo é totalmente ou parcialmente substituído por um novo
incompatível com o anterior, ou seja, leva à passagem a outro paradigma.
219

atual, talvez o mais justo fosse rasteá-la em alguns vieses


do irracionalismo que se estruturou na esteira do circuito
que, conforme Lukács d’ A destruição da razão, vai do
velho Schelling a Nietzsche, passando por Kierkegaard e
rebatendo forte em expressões do existencialismo deste
século (nomeadamente em Heidegger). Porque, agora, o
que se põe em questão não é somente a racionalidade
limitada própria ao paradigma positivista – agora, o que
parece estar em jogo é a racionalidade do projeto de
modernidade (Netto, idem, p. 11- grifos nossos).
O autor é claríssimo: o que está na base desse processo é a premissa
de que há uma crise que se constitui a partir do que seria a falência das
promessas da Modernidade em seu projeto histórico-iluminista de controle
racional da natureza e da sociedade para emancipação e liberdade dos homens e
mulheres.
Netto sustenta, conforme sinalizamos anteriormente, que as ciências
sociais - estas mesmas dignas de observações críticas que realizaremos mais
adiante - são permeadas por polêmicas próprias que se referem aos
conhecimentos acerca da sociedade. O tom mais expressivo dessas polêmicas, tal
como nos chama atenção Netto (idem) é em torno da vertente positivista (iniciada
por Augusto Comte e consolidada por Émile Durkheim). Nesta vertente, dada a
relação de exterioridade que a mesma estabelece entre sujeito e objeto, a tomada
dos fenômenos sociais como causais e unilineares confere à pesquisa social
também esta causalidade e unilinearidade, abrindo a via para o deslocamento dos
padrões de investigação das ciências da natureza para a investigação social –
propiciando, nesta perspectiva, a constituição da ciência social. É patente nesta
vertente a tendência de naturalizar a sociedade, o que representa uma clara
adaptação à sociedade burguesa. Na assertiva de Netto,
(...) ao naturalizar o social, esta tradição estabelece
nitidamente a inépcia dos sujeitos sociais para direcioná-los
segundo seu projeto - mais exatamente, estabelece a sua
refratariedade à razão e à vontade dos sujeitos sociais: a
sua variabilidade obedece a regularidades fixas que
escapam substantivamente à intervenção consciente dos
sujeitos históricos; o social como tal aparece como uma
realidade ontologicamente alheia a esses. Que, assim,
recebe uma sanção teórica e consagração cultural da
impotência dos sujeitos e protagonistas sociais em face dos
220

rumos do desenvolvimento da sociedade - não só uma


legitimação do estabelecido como, principalmente, uma
predisposição para aceitar a sua evolução seja em que
sentido for (1996b, p. 40).
Dessa forma, diz o autor, dada a diversidade de implicações desta
vertente, desde a sua constituição mesma tem sido alvo de diversas críticas. A
mais sólida de todas é aquela operada pela tradição marxista. Entretanto, a crítica
à vertente positivista não é constituída apenas pela corrente da tradição marxista,
embora seja a mais radical e contundente; no próprio historicismo alemão, em
autores como Weber, Husserl, Dilthey também encontraremos uma implícita crítica
ao positivismo (Cf. Lowy, 1987, Netto, 1995b).
Para nós, o que importa explicitar é que desde o final do século XIX o
questionamento dos veios explicativos é uma tônica presente nas ciências sociais,
o que nos leva a destacar que esta não se constitui uma polêmica recente nas
mesmas. Contudo, e isto é o que queremos enfatizar, o debate hoje vigente e
propalado pelos pós-modernos extrapola o patamar da “razão miserável”
(Coutinho, 1972) e desborda numa destruição da razão, como Lukács (1959)
analisou classicamente.
Aqui, neste ponto, entendemos que em face das disputas teórico-ídeo-
políticas que se apresentavam no corpo profissional, já explicitadas, o movimento
operado por Guerra para compreender a constituição da instrumentalidade do
Serviço Social acaba por realizar uma contribuição referente ao debate mais geral
de defesa da razão e da sua fundamentação ontológica num quadro de
questionamento do marxismo.
A autora parte do entendimento da razão no sentido já abordado quando
analisamos o debate da mediação - a razão entendida como aquela que torna
inteligível os fatos e eles são, pois seus fundamentos. Nas palavras de Guerra, a
razão é
Uma condição ou momento do pensamento que busca
apreender a realidade como movimento e por isso tem que
caminhar de abstrações mais simples dadas pelo intelecto,
no sentido de determiná-las por meio das mediações que
vinculam os fatos a determinados processos, saturados de
determinações (2002, p. 44).
221

A dimensão da racionalidade é apresentada pela autora na sua


processualidade dialética, que é expressão mesma da realidade. Neste sentido,
Guerra pontua claramente a potencialidade da razão dialética em superar a
restrição da razão na ordem burguesa à sua dimensão manipulatória e
instrumental159. A autora opera e atualiza este movimento quando afirma que o
ponto arquimédico do debate sobre a crise de paradigmas que se configura nos
nossos dias é a oposição entre civilização e barbárie (Guerra, idem, p. 71).
Existe, para a autora, uma inadequação no próprio conceito de
paradigma, quando aplicado às ciências sociais. Para ela, tal conceito constitui-se
como inadequado por três ordens de questões. Uma se refere ao fato de que na
tradição marxista, a unidade estabelecida entre ciências naturais e ciências
sociais não dissolve as diferenças (ou diversidades) entre elas (Guerra, idem, p.
81). Tal afirmação sustenta-se na concepção marxiana da relação entre natureza
e sociedade que se encontra mediada pelo processo de trabalho. No processo de
trabalho estão presentes determinações que distinguem o ser social do ser
natural. Em Marx está explicitado que o primeiro ato humano se efetiva na relação
que os homens estabelecem com a natureza, o que implica dizer que na base de
constituição das categorias sociais estão as categorias naturais. Vale ressaltar que
à medida que o homem se socializa, mais se afasta da natureza, superando,
assim, sua relação originária e imediata com a mesma. Entretanto, na medida em
que o distanciamento entre natureza e sociedade constitui o processo histórico,
este mesmo processo expressa a unidade entre homem e natureza, e tão explicito
é isso que em Marx é patente o reconhecimento de uma única ciência que abarca
ao mesmo tempo natureza e sociedade, qual seja: a ciência da história. O que, por
outro lado, não significa dizer, como bem sinalizado por Guerra, que em Marx não
haja distinção entre o modo de ser e de se constituírem objetos naturais e objetos
sociais e o método utilizado no seu conhecimento. Para a autora, Marx

159
Sobre isso a autora demonstra claramente como o pensamento analítico-formal
fornece, ao mesmo tempo, uma forma muito precisa de interpretar e chancelar o
sistema capitalista, ao mesmo tempo em que fornece procedimentos esses
mesmos instrumentais e manipulatórios para atuar sobre ele (Cf. Guerra, idem,
57-65).
222

concebe que é o objeto que prescreve o caminho que


conduz ao seu conhecimento: é a singularidade do objeto
que determina o encaminhamento metodológico, do mesmo
modo que a escolha do método não se reduz ao arbítrio do
sujeito, mas constitui-se na angulação mais adequada à
apreensão da estrutura do objeto pelo sujeito. Se a
sociedade possui estrutura, natureza e dinâmica específica,
o estatuto teórico da análise não pode ser o mesmo que o da
natureza. Estabelece, deste modo, a distinção entre os
métodos do conhecimento aplicado à natureza e à
sociedade (Guerra, idem, p. 82).
Concordamos com a argumentação da autora, dado que essas
aproximações nos permitem reconhecer a relação de continuidade e ruptura que
Marx estabelece entre ciências da natureza e ciências sociais: ambas possuem
objetos - postos pelo movimento da realidade - métodos de interpretação distintos,
utilizando-se de categorias lógicas na sua reflexão e pautando-se numa
determinada e diferencial relação entre sujeito e objeto.
O segundo ponto relevante colocado por Guerra é o fato de o
desenvolvimento das ciências sociais só ter se tornado possível a partir do
surgimento da forma social, até então mais desenvolvida, qual seja, a sociedade
capitalista (idem, p. 84). Este fato não coloca as ciências sociais numa relação de
inferioridade diante das ciências naturais, mas, ao contrário, demonstra o
condicionamento histórico e transitório do conhecimento.
O terceiro e último ponto levantado pela autora vincula-se à tendência
consensualista posta na noção de paradigma, pois, para Guerra, se os consensos
em torno de princípios e leis podem ser estabelecidos no âmbito das ciências
naturais, conforme a história demonstra, o mesmo não ocorre nas ciências sociais.
Nestas, a perspectiva do consenso é não apenas impossível, como indesejável.
A partir do exposto, fica evidente que a discussão de paradigmas, tal
como desenvolvida nas ciências naturais, não pode ser transladada às ciências
sociais; configura um equívoco tanto o trato das ciências sociais como
paradigmáticas quanto a conseqüente polêmica acerca de uma “crise
paradigmática” no seu interior.
Neste sentido, acreditamos que, ademais trazer uma contribuição
fecunda acerca do debate sobre a “crise de paradigmas” e sua relação com as
223

ciências duras, Netto e Guerra, cada um com a especificidade do debate


realizado, abrem a via para um movimento com dupla importância: de um lado,
sinalizam que o debate de “crise de paradigmas” no Serviço Social vem na esteira
de influxos, já neste momento, de vertentes pós-modernas na profissão e que
confrontam a aproximação da profissão com o marxismo; por outro lado, sinalizam
as potencialidades de enfrentamento à idéia de pós-modernidade, que podem ser
travadas no Serviço Social, a partir da perspectiva lukacsiana.

3.5. Lukács no debate sobre a ética

O debate em torno da Ética e sua posterior decodificação profissional


realizada na elaboração do Código de Ética Profissional de 1993 são expressivos
dos avanços profissionais realizados entre os finais dos anos 1980 e durante os
anos de 1990.
Entendemos que este movimento ganha significação, expressividade e
profundidade na medida em que os sujeitos profissionais conseguem estabelecer
uma compreensão de profissão que não se funda em si mesma, nem se explica
por e a partir de si. A abertura da profissão para pensar possibilidades e limites
postos nas relações sociais amplifica o entendimento profissional e abre o campo
para que a diversidade social possa ser primeiramente identificada e depois
expressada no interior do corpo profissional. Esse movimento, associado aos
avanços e aprofundamentos teórico-organizativos da tendência da intenção de
ruptura, possibilita uma tomada de posição política e uma recusa da neutralidade
que não pode prescindir de, antes exige, uma fundamentação filosófica para os
parâmetros e valores da ação profissional. Ou seja: por meio da explicitação
político-ideológica da ação profissional é possível avaliar, e neste momento
trata-se de uma avaliação crítica, as implicações ético-políticas da ação
profissional.
O giro aqui operado é perfeitamente sinalizado por Barroco, pois se
trata de superar a subordinação imediata da ética à política, da ética à ideologia
224

(2001, p. 170), tais como estas subordinações se apresentaram, especialmente,


no Código de Ética Profissional de 1986 160
.
Na medida em que a crítica à orientação ética tradicional, no Código de
1986, efetua-se através do desvelamento político-ideológico e como, ainda aqui,
não está solidamente alicerçada a apropriação ontológica do pensamento de
Marx, a adoção de uma nova postura acaba por enfatizar a mesma dimensão
abstrata, presente no ethos tradicional, agora com sinal trocado. Pois a ética
permanece implícita na opção político-ideológica correspondente às interpretações
dominantes da ética marxista vulgar e do ethos militante dos anos 60/70 (Cf.
Barroco, idem, p. 173-174). Nesse sentido, Barroco (2001) chama a nossa
atenção para o fato de a concepção de ética, presente nos códigos anteriores,
permanecer praticamente inalterada em suas bases de sustentação até o Código
de 1986.
O que está posto em 1986 é que, do ponto de vista da ética, os avanços
conseguidos no seio profissional pela relação com o pensamento marxista e pelas
movimentações da sociedade consubstanciaram-se diretamente no sentido do
compromisso político com as classes subalternas; porém, só chegam a se
constituir como orientadores de um novo ethos que expressa a moralidade do
projeto de ruptura (Barroco, idem, 170). Por esse motivo, no código de 1986 a
concepção ética mecanicista deriva diretamente, sem as devidas mediações, a
moral da produção econômica e dos interesses de classe. Em outras palavras, no
código em questão não está expressa a devida decodificação - para os marcos
profissionais - dos valores com os quais a profissão se compromete. Assim, tendo
como objetivo o compromisso com a classe trabalhadora, aparece aqui claramente
uma compreensão de que a opção de classe por si só conduz a uma moralidade
positiva. Por isso, Barroco é enfática ao destacar que:
Na medida em que este dever ser é tratado como
necessidade, adquire um sentido apriorístico que subordina
as transformações ético-morais à opção político-ideológica,

160
O primeiro Código de Ética da profissão foi formulado em 1947 e encontrava-se
impregnado de valores cristãos. Os Códigos de 1965 e1975 igualmente mantêm
essa direção, mas, segundo Barroco (2001) já apontam alguns elementos
diferenciados.
225

o que (...) não contempla as contradições e peculiaridades


das escolhas éticas (idem, p. 173).
Por outro lado, além da tomada de posição política em face da
neutralidade, verifica-se também, na seqüência do Código de 1986, o
aprofundamento dos estudos, em âmbito profissional, com recursos à filosofia,
desdobrando-se em teses e artigos voltados à reflexão sobre o método crítico-
dialético, a cultura, a alienação, a práxis etc. Estes estudos, no nosso
entendimento, além de fornecerem subsídios para a discussão ética 161,
reforçaram o resgate da herança filosófica de Marx e, com isso, o recurso ao
pensamento lukacsiano ganha relevância. Neste sentido, o Código de 1986
demarca uma importante ruptura política com o tradicionalismo profissional, mas
apresenta, já na primeira metade da década seguinte, certo anacronismo em face
dos debates que fermentavam no Serviço Social brasileiro.
O debate em torno da ética profissional que culminará na reelaboração
do Código de 1986 é tributário das conquistas acumuladas no âmbito da
profissão, mas também se torna impensável sem a conjuntura social das
mobilizações que movimentaram a sociedade, frente à assustadora onda de
desmandos com os recursos e verbas públicas pelo uso de meios ilícitos que
levam, pelo mote de reivindicação da ética na política162, ao impeachment do
presidente Collor de Melo em 1992.
São essas condições sócio-econômicas e ídeo-políticas dos anos de
1990 que colocam para a profissão a problemática de resposta a essa conjuntura,
conservando os avanços e conquistas efetivados até então. E é assim que, neste
quadro, a questão da ética se coloca como tema emergente no debate
161
De acordo com Barroco, em termos da produção ética balizada em estudos de
cunho filosófico, verificam-se as reflexões de: M. H. de A. Lima (1994); V. L. Forti
(1992) e das integrantes da comissão Nacional de Reformulação do Código de
Ética de 1993, Paiva e Sales, cuja produção encontra-se em Bonetti et alii
(orgs.,1995), bem como a Dissertação de Mestrado de Sales, intitulada Marxismo,
Ética e Socialismo orientada por Carlos Nelson Coutinho e defendida em 1993
(Barroco, idem, p. 181).
162
Barroco (idem) destaca que as mobilizações em torno da ética na política
possibilitam que a questão ética se popularizasse, passando a se constituir em
tema privilegiado de encontros, cursos e publicações, que não estavam
concentrados apenas num público intelectualizado, mas que se fez massivo nos
meios de comunicação de massa.
226

profissional, entre 1992 e 1993 (Cf. Barroco, idem) e, que em face dos impactos
do neoliberalismo no país demandam a resposta a um questionamento central:
como viabilizar o compromisso profissional em condições tão adversas? E, do
ponto de vista da ética, como traduzir os valores na particularidade da ação
profissional?
Aqui, claramente, o movimento profissional dá-se no sentido da
determinação teórico-política, elencando os compromissos e a pauta profissional
em face da realidade, podendo-se, então, estabelecer os valores e referências
éticos pertinentes a essa pauta. É nestes termos que, no debate sobre a ética e
sobre o Código de Ética Profissional, a contribuição lukacsiana se fez presente,
na medida em que a grande determinação teórico-política, neste âmbito, refere-se
exatamente à defesa do trabalho. Se, como insinuamos ao tratar da elaboração e
da discussão das Diretrizes Curriculares, as formulações extraídas de Marx
acerca do trabalho foram objeto de polêmica e debate, com uma menor incidência
da contribuição lukacsiana, aqui, no debate da ética, foi inequívoca a recorrência
às concepções abrigadas na Ontologia do ser social e em autores que guardavam
intensas relações com o pensamento do seu autor 163.
É certo que tais recorrências ao pensamento de Lukács se realizaram
em âmbito localizado – o da ética stricto sensu. Contudo, quando inserimos este
debate no conjunto das discussões que vieram em curso desde o início dos anos
1980 – e que sumariamos nas páginas precedentes -, em especial aquelas que
tiveram por centro a caracterização da profissão, verifica-se que a limitação ao
tema da ética não restringiu o impacto da influência lukacsiana. De fato, foi neste
terreno que as idéias de Lukács ressoaram mais visivelmente para os assistentes
sociais: a fundamentação teórico-filosófica dos princípios do Código de 1993,
formulada depois de encontros e seminários realizados em vários pontos do país,
está obviamente ancorada nas teses lukacsianas e foi explicitamente apresentada
como tal. Mas esta limitação ao espaço ético não foi restritiva pela própria
natureza da tematização lukacsiana da ética: na medida em que esta arranca de
uma concepção do ser social como fundado no trabalho (e, pois, na sua
Basta pensar na recorrência, verificável na obra de Barroco (2001), a textos de
163

Agnes Heller.
227

historicização, envolvendo as questões da alienação, da reificação, da ideologia,


da reprodução social etc.), toda a concepção ética de Lukács mobiliza o arsenal
de categorias que o pensador húngaro extrai de Marx. Em poucas palavras: se o
impacto de Lukács se visibiliza claramente no debate da ética, seus pressupostos
e suas implicações irradiam-se das questões de método aos problemas ídeo-
políticos.
Pode-se registrar aqui uma aparente contradição, se levamos em conta
o conjunto dos debates dos anos 1980/2000 e seus resultados no corpus teórico e
ídeo-político do Serviço Social brasileiro: a ressonância de Lukács na
fundamentação da ética profissional não tem paralelo à sua ressonância na
fundamentação e elaboração, por exemplo, das Diretrizes Curriculares.
Contradição aparente ou não, esta constatação é factual – e só indica, a nosso
ver, o desenvolvimento desigual dos diversos elementos constituintes do nosso
Serviço Social. Formulado em outros termos: o Lukács “filósofo” rebateu mais
amplamente entre nós que o Lukács “ontólogo do trabalho”.
Dois são os sentidos que demarcam esta formulação com a influência
lukacsiana. O primeiro, na própria reflexão sobre a ética em geral, e, que para o
debate profissional, possibilita a superação do marxismo vulgar – e este processo
se consolida neste quadro histórico -, voltando-se às análises para a apropriação
do pensamento marxiano e marxista nas suas fontes, ampliando a necessidade e
o acesso a recursos que garantem a natureza do método-dialético e o
alargamento do universo sobre o qual ele pode ser operacionalizado. Estes
estudos, no nosso entendimento, além de fornecerem subsídios para a discussão
ética, reforçaram o resgate da herança filosófica de Marx e, com isso, o recurso ao
pensamento lukacsiano ganha relevância.
Dessa forma, a centralidade ídeo-político assumida, no âmbito
profissional, em torno do trabalho, que se colocou para a vanguarda do Serviço
Social em face do contexto social da época levou compulsoriamente a instâncias
da processualidade social mais ampla. Na mesma medida, a ética fundada em
Marx remeteu necessariamente para uma radical criticidade e para a
compreensão que se pauta pela perspectiva da totalidade e que em termos de
228

valores se sustenta na liberdade e na emancipação humana. Em verdade, esta


ética reclama, mesmo, a eliminação da alienação, da exploração e das formas
reificadas de viver moralmente: ou seja, reclama uma outra sociabilidade que seja
ela mesmo capaz de gestar valores humano-concretos. Como bem observa Netto,
evidentemente, essa ética só interessa aqueles que perseguem um objetivo que
ultrapasse os quadros da ordem vigente (1991, p. 18).
Assim, é o recurso ontológico ao pensamento marxiano, com a
interlocução lukacsiana, que permite a decodificação - para o meio profissional -
dos princípios e valores-sínteses entre os avanços até então conseguidos e aquilo
que a profissão, permeada pelas problemáticas postas no início dos anos de 1990
e já voltada a concretizar seu entendimento a partir das relações sociais, começa
a demarcar como o projeto profissional articulador e definidor das projetivas que
deveria encampar. Não apenas como aprofundamento da intenção de ruptura, no
sentido de resguardar os avanços até então conseguidos, mas estabelecendo
novos rumos. Com isso fica claro por que, ainda que já em 1980 tenhamos a
importante contribuição lukacsiana em torno do debate da metodologia no Serviço
Social, ela não tenha possibilitado, naquele momento, um interesse maior pelas
elaborações do pensador húngaro entre nós. Pois ali se tratava ainda de disputas
que, internas ao marco profissional, não conseguiam efetivamente materializar o
significado em termos teórico, ético-valorativo e prático-operativo da intenção de
ruptura, num claro confronto com o ainda arraigado endogenismo. É somente no
momento em que o debate teórico, motivado pelos questionamentos ideo-politicos
da profissão, e balizado pelo recurso ao pensamento marxiano, consegue
elaborar a clara demarcação da intervenção profissional e do seu entendimento a
partir da sociedade que o pensamento lukacsiano pode ser devidamente
apreciado.
No caso do Código de 1993, isso é exemplar. E, para nós, este é o
segundo sentido da influência lukacsiana a que fizemos referência inicialmente,
ou seja, sua expressão no próprio código (Cf. Barroco, idem). Dessa forma, como
bem expresso por Barroco,
o recurso à ontologia social permitiu decodificar eticamente
o compromisso com as classes trabalhadoras, apontando
229

para a sua especificidade no espaço de um código de ética:


o compromisso com valores ético-políticos emancipadores
referidos à conquista da liberdade (Barroco, idem, p. 200)
Neste sentido, a apreensão ontológica do marxismo vai possibilitar
captar as mediações que estiveram, em parte, ausentes nos processos
profissionais anteriores e no caso do código vão comparecer explicitamente. O
processo de revisão do código de 1986 tem como pressuposto a consolidação do
projeto profissional nele evidenciado, numa perspectiva de superação, garantindo
suas conquistas e ao mesmo tempo superando as suas debilidades.
A revisão a que se procedeu, compatível com o espírito do
texto de 1986, partiu da compreensão de que a ética deve
ter como suporte um a ontologia do ser social: os valores
são determinações da prática social, resultantes da
atividade criadora tipificada no processo de trabalho. É
mediante o processo de trabalho que o ser social se
constitui se instaura como distinto do ser natural, dispondo
de capacidade teleológica, projetiva, consciente; é por esta
socialização que ele se põe como ser capaz de liberdade
(CFESS, 1993).
Com isso, é pela clara identificação da centralidade do trabalho para a
produção e reprodução social que aquele entendimento da profissão a partir da
sua inserção nas relações sociais, como formulado por Iamamoto e Carvalho
(1995b) e com todas as questões postas sobre esse processo a que nos
referimos anteriormente, que o Código de 1993 fundamenta as ações ético-morais
tendo por elemento primário o trabalho e, a partir dele, o desenvolvimento das
objetivações sociais e das capacidades que remetem à consciência e à liberdade,
esta assumida como valor central.
O Código de 1993 torna-se, pois, a primeira e mais profunda
interlocução do Serviço Social com o pensamento lukacsiano; contudo, como já
formulamos anteriormente, retomado especialmente como fundamentação
apenas “filosófica”, não será tomado como interlocução importante para a
fundamentação nos processos posteriores que levaram à formulação das
Diretrizes de 1996 e, comparecerá então em contrapontos específicos, o que não
os torna menos importantes, em debates complementares ao entendimento de
profissão.
230

Ainda assim, quando, a partir de 1998, o Código de 1993, a Lei de


Regulamentação da Profissão e as Diretrizes Curriculares de 1996, são tomados
pela categoria profissional como os marcos da materialização efetiva dos novos
rumos profissionais e a serem articulados como os parâmetros do projeto ético-
político profissional, tem-se a convivência do ponto de vista ético, de clara
fundamentação lukacsiana, e do ponto de vista ídeo-teórico em que é parca a sua
influência.
Ao mesmo tempo, como o projeto ético-político profissional extrai
daquele tripé seu núcleo projetivo, é também lukacsiano, na medida em que
recolhe e articula do Código de Ética de 1993 seus princípios fundamentais.
Como destaca Netto, o núcleo central do projeto é a liberdade como um valor
central (2006, p. 155). E, na medida em que a liberdade é aqui entendida
historicamente, como possibilidade de escolha entre alternativas concretas, o
cerceamento da liberdade ou a sua não realização dada à particularidade
histórica posta pela ordem burguesa, remete, pois, para a necessária superação
desta ordem. Aqui, claramente a decodificação mediatizada da profissão revela a
instauração do que se faz novo, e para nós corretamente localizado: que a
profissão apreende que seu projeto profissional não se confunde com um projeto
societário de ruptura com a ordem, mas que em seu marco profissional a
decodificação dessa relação se dá na medida em que se localiza precisamente a
necessidade da constante crítica teórica e política da produção e reprodução
social própria da ordem burguesa.
Neste sentido, o núcleo do debate é a liberdade e não é a democracia,
ainda que esta última seja abordada como socialização da participação política e
socialização da riqueza socialmente produzida (Netto, ibidem). A opção que
deriva legitimamente desta interpretação do projeto ético-político é a de vinculá-lo
ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação-
exploração de classe, etnia e gênero (CFESS, 1993). E, assim, fica evidente
quem são, ou pelo menos deveriam ser, os parceiros dos profissionais: o
movimento classista dos trabalhadores, os movimentos sociais democráticos, os
setores de esquerda e progressistas da sociedade.
231

Nesse sentido, a defesa intransigente dos direitos humanos, da


equidade, da justiça social, assumem valor estratégico na explicitação de seus
limites de realização na ordem burguesa. Ao mesmo tempo, o lugar desse
compromisso no âmbito profissional é decodificado claramente em competência e
aperfeiçoamento para garantia da qualidade dos serviços prestados, que remetem
à esfera da intervenção profissional. E isso, no nosso entendimento, não significa
eversão da ordem dentro dos marcos profissionais, mas referencia
necessariamente mecanismos e organizações que extrapolam a profissão. E
atualiza também a necessidade e constante reflexão do lugar e do impacto da
prática profissional, levando sempre em conta os limites e reais possibilidades
que estão postas para ela.
Sendo assim, explicita-se claramente uma direção social estratégica
(Netto, 1996a) frontalmente colidente com a hegemonia do capital, à época em
curso e atualmente amplamente consolidada. Logo, o que na compósita cultura
profissional sustenta essa direção são matrizes não apenas antagônicas ao
conservadorismo mas ainda expressamente colidentes com as bases
epistemológicas do pensamento pós-moderno (ibidem, p. 117).
232
233

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das


armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder
material, mas a teoria converte-se em força material quando
penetra nas massas (Karl Marx).
234

Chegar ao fim de uma pesquisa e de sua análise - quando nossos


esforços intelectuais são direcionados pela rigorosa concepção onto-metodológica
marxiana - é sempre assumir que o estudo realizado apresenta um caráter
aproximativo, no sentido de não esgotar a questão em foco. Por outro lado,
esperamos que o que se desenvolveu nesta tese possa contribuir criticamente
com o quadro do debate atual, trazendo novos elementos e sinalizando para
novas pesquisas e estudos.
A tese que foi desenvolvida ao longo destas páginas teve como eixo
central a incidência do pensamento de G. Lukács no debate teórico do Serviço
Social brasileiro.
Inicialmente, quando ingressamos no Programa de Pós-Graduação em
Serviço Social da UFRJ, nos propusemos a fazer uma investigação acerca de
como os influxos do pensamento pós-moderno, no Serviço Social, poderiam ser
problematizados a partir do recurso ao pensamento marcadamente ontológico de
G. Lukács. Nosso envolvimento e nossa militância com as questões da categoria
profissional tornavam-nos cada vez mais preocupadas com os impactos da
influência do pensamento pós-moderno na profissão, principalmente no que diz
respeito à contraposição que este pensamento significa para os avanços teórico-
políticos consubstanciados a partir da direção social estratégica que se formula na
profissão por meio da apropriação do marxismo. Considerávamos importante para
complementar este estudo um mapeamento que nos permitisse estabelecer a
relação do pensamento de Lukács e o Serviço Social.
Contudo, quanto mais nos aprofundávamos na leitura dos textos sobre a
profissão e sua relação com o marxismo, menos verificávamos articulações que
respondessem a essa presença de Lukács. Dessa forma, aquilo que era
complementar, mas não menos importante, passou a ser central nas nossas
investigações. Ainda mais porque não existe na literatura profissional
contemporânea uma obra que trace o quadro teórico-político sobre o qual as
235

idéias de Lukács rebateram no Serviço Social, contribuição esta que acreditamos


ser a da presente tese.
A pós-modernidade, e todos os seus engodos não foi, assim,
abandonada... Ela, futuramente, se tornará um desdobramento daquilo que, em
outra oportunidade, já pensamos em estudar: as contribuições do pensamento
lukacsiano para a critica do pensamento pós-moderno e as contributos possíveis
desta crítica lukacsiana para contrapor ao pós-moderno no Serviço Social.
Nesta tese, procuramos situar o quadro teórico-político do Serviço
Social sobre o qual as idéias lukacsianas rebateram. Para tanto, a nossa
exposição teve início quando retomamos os fios históricos da constituição
profissional no Brasil, relacionando-a aos processos de fundo da nossa formação
econômico-social. E o fizemos (recuperando as indicações bibliográficas que nos
parecem as mais credibilizadas) porque é a devida explicitação das determinações
postas à profissão pela sua inserção nas relações sociais que permite explicar, de
um lado, as condições nas quais pôde emergir no Serviço Social brasileiro um
processo de renovação no marco do qual se explicitou um empreendimento que
visava à ultrapassagem do seu lastro conservador; e, de outro, permite explicar a
evolução mesma deste empreendimento, configurada na afirmação da tendência
“de intenção de ruptura”, que teve o aporte do pensamento marxista que desde
então se constitui uma interlocução constante nos debates profissionais.
Posta esta interlocução, teóricos da profissão (subsidiados pela
contribuição de intelectuais que passaram a trabalhar em áreas conexas às do
Serviço Social, especialmente professores que ingressaram em algumas de
nossas unidades acadêmicas) trouxeram as idéias de Lukács para o campo
profissional, de modo a enriquecer, matizar e reorientar as polêmicas que o
atravessam.
Ao mesmo tempo, evidenciamos que para situar a recuperação do
pensamento de Lukács, por alguns segmentos profissionais, implicava resgatar o
perfil marxista do pensador húngaro, principalmente naquilo que consideramos e
apresentamos como fundamental: a sua linha de continuidade profunda com o
pensamento de Marx. Mas não só; a presença do pensamento lukacsiano na
236

cultura brasileira tem, por assim dizer nome e endereço. E, nos dias de hoje, é
importante que se diga isso: ela vem articulada na relação que este pensamento
tem com o movimento comunista. Afinal, Lukács não foi simplesmente um filósofo,
ele foi um militante comunista convicto. No Brasil, a divulgação da obra lukacsiana
se deu articulada pela política cultural do Partido Comunista Brasileiro. Tornou-se
então importante, para nossa análise, detectarmos o perfil marxista do pensador
húngaro e o processo da recepção de sua obra no Brasil.
A partir desses elementos contextuais, dedicamo-nos a rastrear a
recorrência a Lukács nos debates profissionais suficientemente documentados,
entre os anos 1980 e os primeiros anos da presente década. Para nós, à exceção
do debate da metodologia (que, no nosso entendimento, dá-se num claro
confronto com o ainda arraigado endogenismo da profissão), os debates nos
quais localizamos uma presença de Lukács realizam-se já pela concretização do
ponto de vista teórico-político dos avanços conseguidos a partir da intenção de
ruptura.
Por isso, apresentamos como problemática articuladora da influência
de Lukács no debate do Serviço Social o que se travou em termos do
entendimento de profissão. Ou seja, é somente no momento em que o debate
teórico, motivado pelos questionamentos ídeo-politicos da profissão, e balizado
pelo recurso ao pensamento marxiano, consegue elaborar a clara demarcação da
intervenção profissional e do seu entendimento a partir da sociedade, que o
pensamento lukacsiano pode ser devidamente apreciado. E, com isso localizamos
dois contributos: no entendimento de profissão, balizada na obra Capitalismo
Monopolista e Serviço Social, de José Paulo Netto, no sentido da demarcação
dos limites profissionais; e nas discussões travadas fundamentalmente por Sérgio
Lessa, acerca das formulações de Marilda Iamamoto em torno do significado do
Serviço Social como trabalho - e, neste ponto lançamos algumas pistas sobre
algumas das imprecisões desse debate. O debate da ética, por sua vez, revela,
do ponto de vista ético-valorativo, uma importante contribuição lukacsiana, que
expressa mesmo as derivações e aprofundamentos balizados a partir da intenção
de ruptura.
237

Os debates derivados da problematização acerca da “crise de


paradigmas” e sobre mediação são tomados como pontos que arrancam daquele
núcleo articulador (o debate da profissão). Tentamos situá-los em sua
emergência e em seu desenvolvimento nas conjunturas sócio-históricas em que
ocorreram e, sobretudo, relacionando-os aos problemas próprios com que se
defrontava o próprio Serviço Social (as necessárias revisões curriculares dos
anos 1980 – o “currículo mínimo” – e 1990 – as “Diretrizes Curriculares”, a revisão
do Código de Ética etc.).
Nestes termos, da análise que levamos a cabo é possível derivar
algumas afirmações:
• Primeira: o marco temporal a partir do qual o pensamento lukacsiano
rebate com relevo no debate do Serviço Social brasileiro: ainda que já
referenciado desde os anos 1980, é com certeza nos anos posteriores a 1990 que
ele melhor se concretiza.
• Segunda: o Serviço Social possui uma importante contribuição acerca
do entendimento profissional já formulada em termos lukacsianos, na obra
Capitalismo Monopolista e Serviço Social, que precisa ser (re)visitada naquilo que
consideramos uma análise profícua dos limites da ação profissional nos marcos
capitalistas, especialmente no que se refere ao locus da intervenção profissional,
ou seja, o cotidiano. Este elemento é atualíssimo para pensar os desafios do
presente principalmente no que seriam os influxos pós-modernos.
• Terceira: a contribuição lukacsiana que polarizou o debate do Serviço
Social como trabalho foi importante para ampliar, dentro do campo progressista o
leque do debate, mas este ainda está em aberto e precisa ser aprofundado.
• Quarta: a incidência mais substantiva do pensamento lukacsiano no
debate profissional brasileiro manifesta-se no processo de revisão do Código de
Ética de 1986; a fundamentação ético-filosófica que é oferecida para o Código de
Ética aprovado em 1993 é de nítida inspiração lukacsiana e possibilita que outros
debates - como alienação e reificação - sejam trazidos de maneira mais
substantiva para a profissão. Por outro lado, dadas as condições em que se levou
a cabo a revisão do Código de Ética de 1986 – envolvendo uma participação
238

praticamente inédita da categoria profissional, em sessões de discussão e debate


realizadas por todos os CRESS -, foi neste processo que o reconhecimento da
obra lukacsiana como objeto legítimo da atenção dos assistentes sociais se tornou
mais amplo.
• Quinta: considerados os acúmulos destas duas décadas de
interlocução, gestaram-se, nos espaços de produção teórica (fundamentalmente
acadêmicos) do Serviço Social brasileiro núcleos de pesquisa e investigação que
passaram a reivindicar explicitamente a inspiração lukacsiana (situados
especialmente na PUC-SP, na UFAL e na UFRJ).
• Sexta: também em decorrência de tais acúmulos, ampliou-se a
interlocução de segmentos profissionais com intelectuais de outras áreas e/ou
formações acadêmicas (recorde-se a interação com figuras como Carlos Nelson
Coutinho, Sérgio Lessa, Ricardo Antunes), bem como a obra de autores, de algum
modo vinculados a Lukács, alheios até então ao universo dos assistentes sociais
(István Mészáros, Agnes Heller).
Cabe-nos agora retomar dois traços que marcam decisivamente a
interlocução do Serviço Social brasileiro com a obra de Lukács.
O primeiro diz respeito à efetiva resistência que a obra do pensador
húngaro encontra neste ambiente – e que responde, efetivamente, pelo que
julgamos ser uma limitação que só traz perdas ao nosso debate teórico-
profissional. Trata-se de uma resistência alimentada, em primeiro lugar, pelo
acúmulo de preconceitos em face de Lukács, quase todos resumíveis na (falsa)
qualificação do seu pensamento como “fechado”, “dogmático” e/ou “stalinista”
(diga-se de passagem, esta resistência não se restringe ao Serviço Social, mas é
generalizada nos círculos oficiais das ciências sociais e, quase sempre, funda-se
num anti-marxismo primário).
O segundo traço tem outra natureza e outra abrangência, de
implicações macroscópicas. A estrutura e o sentido da obra lukacsiana colide
frontalmente com o “espírito do tempo” atual – para indicar apenas um elemento
desta colisão, fiquemos na essência ontológica do pensamento lukacsiano: ela é
incompatível com a ambiência social e acadêmica contemporâneas, nutridas seja
239

pelo irracionalismo vulgar, pelo (neo)positivismo rasteiro ou pelas concepções


pós-modernas. Este “espírito do tempo” remete à conjuntura histórico-ideológica
aberta após a década de 1970, onde a ofensiva ideológica do capital (de que a
retórica neoliberal é a dimensão mais evidente) conjugou-se com a crise do
“socialismo real” para colocar o histórico sujeito revolucionário (o proletariado)
numa posição defensiva e para instaurar uma quadra de nítido espírito contra-
revolucionário.
É perfeitamente compreensível, pois, que a interlocução do Serviço
Social (área diretamente impactada por este “espírito do tempo”) com o
pensamento lukacsiano não apresente, como resultado, uma apropriação
substantiva do conjunto de fecundas contribuições que o Serviço Social pode
extrair dele. Igualmente, não pode surpreender que os círculos lukacsianos, no
meio profissional, sejam quantitativamente residuais.
Estamos convencidas, no entanto, que esta conjuntura é transitória –
certamente será revertida, na medida em que seguramente também serão
revertidas as bases sócio-políticas e materiais que sustentam o mencionado
“espírito do tempo”. Por isto mesmo, não nos contentamos com um simples
balanço do que até agora foi a interlocução do Serviço Social com a obra do
pensador húngaro.
Pela magnitude da contribuição, estritamente teórica, que Lukács pode
oferecer ao debate do Serviço Social – magnitude que se relaciona à decifração
teórica de complexos categoriais essenciais ao Serviço Social, como os referentes
à vida cotidiana, à reprodução social, à ideologia etc. -, entendemos que cabe aos
assistentes sociais que tiveram/têm acesso à sua obra prosseguir na batalha das
idéias, estudando o seu pensamento, divulgando-o e submetendo-o à crítica e,
sobretudo, instrumentalizando-se para, com ele, enfrentar os debates
contemporâneos que afetam a nossa profissionalidade.
O futuro de um Serviço Social tal como prospectado nos marcos do
chamado projeto ético-político profissional não será garantido sem o recurso ao
pensamento de Lukács – esta é a nossa convicção teórica mais arraigada. E como
estamos comprometidas com o espírito deste projeto, entendemos que é urgente
240

reunir todos os esforços e todas as energias para que o contributo teórico de


Lukács seja incorporado nos debates da profissão como uma herança a que não
podemos (nem queremos) renunciar.
É evidente que, para tanto, é necessário recusar qualquer entronização
de Lukács como um pensador capaz de oferecer soluções a qualquer e todo tipo
de problema. Lukács não pode nem deve ser empregado para caucionar
argumentos de autoridade. Esta não é a sua herança; a herança lukacsiana é a da
crítica radical, da investigação ontológica sem apriorismo, do enfrentamento ídeo-
teórico mais comprometido com o conceito (ontológico) de verdade. E, não se
pode esquecer, com a luta sem quartel contra a ordem do capital.
Nosso esforço, registrado nesta tese, para resgatar o que já existe, nos
debates do Serviço Social brasileiro, desta herança, expressa de algum modo nos
debates que examinamos, é a nossa primeira contribuição no sentido de fazer,
efetivamente, de Lukács um nosso companheiro de viagem.

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