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PODER JUDICIÁRIO

JUSTIÇA FEDERAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA


SEÇÃO JUDICIÁRIA DO CEARÁ – 3A VARA FEDERAL

PROCESSO: 0009465-50.2013.4.05.8100
AUTOR: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
REQUERIDO: ARGEMIRO GUIDOLIN FILHO (BARRACA CROCOBEACH)
OUTRAS PARTES: IBAMA, MUNICÍPIO DE FORTALEZA E ESTADO DO CEARÁ

DECISÃO: DESCUMPRIMENTO DA ORDEM JUDICIAL

1 Relatório

A presente ação civil pública, ajuizada pelo Ministério Público Federal


contra ARGEMIRO GUIDOLIN FIHO, tem por objetivo determinar que o requerido,
proprietário de barraca de praia (CrocoBeach), se abstenha, por si ou por seus
prepostos, de impedir, por qualquer meio, o acesso e o trânsito de pessoas à área de
praia em frente ou circundante ao seu estabelecimento – Barraca CrocoBeach.

Em fevereiro de 2014, foi concedida antecipação de tutela (fls. 118/121),


"para que o promovido e seus prepostos da barraca Crocobeach se abstenham de
impedir o acesso e o trânsito de pessoas à área de praia e ao mar, correspondentes ao
seu estabelecimento, bem como se abstenham de impedir a comercialização de
produtos não concorrentes com os da barraca Crocobeach, oferecidos por
vendedores ambulantes, assim como a compra de produtos comercializados pela
barraca, sob pena de multa diária de R$ 5.000,00".

Após ter sido realizada instrução em que os fatos narrados na inicial


foram confirmados por testemunhas, foi proferida sentença em fevereiro de 2017,
confirmando a antecipação de tutela antes deferida (fls. 178/182).

No fundamento da decisão foi consignado o seguinte:

"Ressalte-se que eventual fiscalização da atividade de ambulante, mesmo


no interior da barraca de praia, não pode ser realizada manu militari pelo
particular. Cabe à municipalidade exercer a fiscalização da referida atividade e,
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se for o caso, coibir o comércio ilegal. Ao particular é tão somente facultado o


direito de comunicar eventual atividade ilícita ao poder público, mas jamais
substituir o poder de polícia que uma atividade tipicamente estatal.

Dessa forma, em observância aos referidos preceitos legais e ante os


ponderáveis elementos presentes nos autos que indicam a ofensa ao direito
de livre locomoção dos cidadãos em faixa de praia, bem como indícios de que
tal prática vem sendo continuamente reiterada pelo promovido e seus
prepostos, atentando contra direito fundamental consubstanciado na
Constituição da República, há de ser deferida tutela judicial a fim de assegurar
a livre locomoção de quaisquer cidadãos na faixa de praia e no acesso ao mar,
inclusive dos vendedores ambulantes, sem que sejam molestados no direito
de exercer sua atividade profissional e comercializar seus produtos, quando
não concorrentes com aqueles vendidos pela barraca Crocobeach.

Nesse sentido, a tutela de urgência já concedida (fls. 118/121), há de ser


confirmada em todos os seus termos. O valor da multa aplicada (R$ 5.000,00)
é perfeitamente compatível e proporcional se for levada em conta o
faturamento diário da barraca de praia. Além disso, a decisão é clara quanto à
obrigação de fazer, na medida em que proíbe que o demandado impeça o
acesso e o trânsito de pessoas à área de praia e mar correspondente ao
estabelecimento, bem como a comercialização de produtos oferecidos por
vendedores ambulantes.

Obviamente, eventual alegação de descumprimento da decisão judicial há


de ser provada por quem alega e, caso fique comprovado que o requerido
continua impedindo o livre trânsito de ambulantes no interior do seu
estabelecimento, a multa há de ser aplicada tal como já prevista".

O dispositivo da sentença, por sua vez, recebeu a seguinte redação:

"Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE O PEDIDO, mantendo os efeitos


da Tutela de Urgência já deferida, para que o promovido e seus prepostos
da barraca Crocobeach se abstenham de impedir o acesso e o trânsito de
pessoas à área de praia e ao mar, correspondentes ao seu
estabelecimento, bem como se abstenham de impedir a comercialização
de produtos não concorrentes com os da barraca Crocobeach, oferecidos
por vendedores ambulantes, assim como se abstenham de negar aos
vendedores ambulantes a compra de produtos comercializados pela
barraca. Fica mantida a multa diária aplicada, no montante de R$
5.000,00".
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Durante o processamento dos recursos, o Ministério Público Federal


apresentou petição (fls. 256/257 e documentos), em que alega o descumprimento da
sentença. Como prova do alegado, juntou vídeo em que se comprova a violência
contra ambulantes praticada por seguranças da barraca Crocobeach.

Intimado para se manifestar sobre a referida petição, o requerido alega


que houve apelação contra a sentença judicial e que não há prova de que a agressão
mostrada no vídeo fora praticada por funcionários da Crocobeach. Na oportunidade,
apresentou cópias de fotografias que demonstram que os vendedores ambulantes
podem atuar livremente tanto na área de praia quanto no interior da barraca.

É o que havia a relatar. Passo a decidir sobre o alegado descumprimento


da ordem judicial.

2 Fundamento

A questão a ser decidida é simples: o que está em jogo é saber se houve


descumprimento da ordem judicial que determinou que o requerido se abstivesse de
impedir o comércio ambulante nas áreas de livre circulação da barraca Crocobeach.

Inicialmente, é preciso que se diga que a interposição do recurso contra a


sentença não é capaz de impedir que a decisão judicial surta seus efeitos. Em
primeiro lugar, porque, em verdade, o descumprimento se refere não só à sentença,
mas também à decisão que antecipou a tutela e que está em vigor desde fevereiro de
2014. Em segundo lugar, porque o recurso de apelação na ação civil pública não
possui o efeito suspensivo automático, que é medida excepcional a ser analisada pelo
juiz a pedido da parte (artigo 14, da Lei 7.347/85).

Diante disso, é inegável que a ordem judicial que determinou que o


requerido se abstivesse de impedir a prática do comércio ambulante na barraca
Crocobeach está em pleno vigor. Resta saber se foi descumprida.

O vídeo apresentado pelo Ministério Público Federal não deixa a menor


dúvida de que há uma política oficial adotada pela barraca de praia para impedir a
atuação de ambulantes. Os seguranças que praticam a agressão estão claramente
orientados a impedir que os ambulantes exerçam a atividade comercial naquela área,
o que constitui um clara afronta ao comando judicial.

Ressalte-se que o requerido não questionou a autenticidade do vídeo.


Apenas alegou que não há provas de que o vídeo fora gravado na barraca
Crocobeach, nem que os seguranças que aparecem na imagem seriam funcionários
contratados pelo requerido.
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Ocorre que a própria barraca, em nota à imprensa, admitiu que os


seguranças seriam seus colaboradores. Confira-se:

"Passada a surpresa do ocorrido e tendo a Crocobeach tomado


conhecimento da situação, estamos trabalhando junto às autoridades
competentes para responsabilização dos envolvidos.

Visando alcançar justiça e uma solução satisfatória à sociedade, a


Crocobeach afastou todos os colaboradores alcançados pela filmagem
do dia 22/04/2017.

Independente dos esclarecimentos e da apuração dos fatos, repudiamos o


acontecido no sábado, assim como toda atitude da mesma natureza.
Desde já nos solidarizamos e lamentamos o acontecido.

A Crocobeach pauta seu trabalho no respeito e na dignidade das pessoas,


portanto não faz parte da nossa orientação e filosofia atos como o
presenciado no último final de semana." (nota divulgada no Jornal O Povo
em 24/4/2017 - destacamos).

Como se observa, o vídeo apresentado pelo Ministério Público Federal


comprova que o ato de agressão contra o ambulante foi, de fato, praticado por
seguranças contratados pela Crocobeach, em uma clara violação da ordem judicial já
mencionada. Desse modo, como consequência desse descumprimento, só resta
aplicar a multa já fixada no comando decisório.

A decisão judicial fixou uma multa diária de R$ 5.000,00 em caso de


descumprimento da ordem. Por conta disso, pediu o Ministério Público Federal que a
multa diária seja fixada a partir do dia 22 de abril de 2017 até a data do efetivo
pagamento.

A meu ver, a aplicação da multa no valor pretendido pelo Ministério


Público Federal mostra-se desproporcional, pois implicaria, na prática, na exaustão
econômica do requerido. Além disso, não é razoável pensar que o descumprimento
perdurou de modo contínuo e persistente todos os dias da semana, no período
apontado na petição. Embora o fato filmado não pareça ser uma situação isolada, é
difícil precisar, com um grau elevado de certeza, os dias exatos em que a ordem
judicial foi, efetivamente, descumprida.

Diante disso, só resta arbitrar, por estimativa, um valor que cumpra os


dois efeitos pretendidos com a fixação da multa diária: (a) punir o requerido pelo
descumprimento e (b) dissuadi-lo a não repetir a prática.
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Nesses termos, o valor de R$ 30.000,00 pelo descumprimento da ordem


judicial mostra-se razoável, sem prejuízo das aplicação das demais sanções nas
esferas criminais, civis e administrativas que, conforme informou o Ministério Público
Federal, já estão sendo devidamente apuradas.

3 Dispositivo

Ante o exposto, DEFIRO PARCIALMENTE O PEDIDO DO MINISTÉRIO


PÚBLICO FEDERAL para fins de aplicar a multa de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) pelo
descumprimento da ordem judicial, devendo tal multa ser executada de imediato.
Intime-se o requerido para pagá-la no prazo de 5 dias.

Após, prossiga-se com o processamento do feito.

Expedientes necessários.

Fortaleza, 31 de maio de 2017

GEORGE MARMELSTEIN LIMA


Juiz Federal da 3ª Vara Federal/CE