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Entre 1930 e o fim dos anos 1950, se forma este pensamento econômico, com destaque para

três expoentes principais: Roberto Simonsen, Caio Prado Júnior e Celso Furtado.

Tais autores vão apresentar respostas diferentes para perguntas comuns da época, dentre as
quais talvez a principal seja: por que tomaram rumos tão distintos 48 Brasil e Estados Unidos?
Se ambos tiveram uma origem histórica comum na colonização americana pelos europeus,
qual seria a razão dos EUA se firmarem como a principal nação industrial do século 20,
enquanto o Brasil era uma das maiores áreas atrasadas, subdesenvolvidas ou dependentes do
mundo?

RESPOSTA: A principal distinção talvez seja a caracterização da economia colonial brasileira


como capitalista, se opondo às teses feudais prevalecentes. Escapando à forma jurídica da
propriedade da terra, vão buscar na estrutura produtiva, nas relações comerciais e nas
relações sociais de produção elementos que definam a economia colonial. Neste sentido,
fazem história econômica no intuito de captar a formação da economia brasileira.

HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL 1500-1820. Roberto C. Simonsen. Edições do Senado


Federal – Vol. 34. Brasília – 2005

Periodo de colonização - INICIO

Simonsen atribui à colonização americana o caráter de empreendimento capitalista com a


preocupação mercantil do lucro. Argumenta que o feudalismo era um regime político que
gerava um entrave à expansão econômica, e encontrava-se já desestruturado pelo grande
comércio europeu realizado no mediterrâneo. A expansão marítima seria um fator de
consolidação dos Estados nacionais nascentes e de suas economias nacionais, coincidindo a
descoberta do Brasil com a Revolução Comercial.

A concorrência entre os Estados capitalistas teria originado a descoberta acidental da América,


na tentativa de alcançar a Ásia por uma rota alternativa. Nessa empreitada Portugal havia
garantido seu pioneirismo costeando e contornando o continente africano, rompendo, com
isso, o monopólio comercial exercido por Veneza até então. No encalço dos portugueses, os
espanhóis tomaram sentido oposto na esperança de contornar o globo terrestre e chegar à
Ásia, deparando-se com a América. Foram depois seguidos neste trajeto por portugueses,
ingleses, franceses e holandeses, que se espalharam em diferentes pontos do novo continente.

Assim, a motivação dominante na exploração da América teria sido, segundo o autor, de


ordem econômica, visando ao lucro comercial. Entretanto, mesmo partindo de um objetivo
comum, os países europeus instituiriam suas colônias na América em condições e com
resultados bem distintos. Os domínios espanhóis tiveram sua colonização assentada na
exploração dos metais preciosos e na utilização do trabalho servil das populações autóctones.
Nos Estados Unidos a colonização só teria início no século 17, quando as disputas religiosas na
Europa motivaram um grande fluxo migratório para o norte do continente americano, em
condições de clima, produção e riquezas naturais semelhantes às da Europa. Já no Brasil as
características iniciais da colonização foram bem diferentes:
No Brasil, sem encontrar, a princípio, os metais preciosos, compelidos, por circunstâncias
que teremos a oportunidade de analisar, a ocupar efetivamente a terra, foram os
portugueses forçados a recorrer à agricultura, a fim de assegurar a base e o rendimento da
nova colônia. Deparando um meio pouco atraente ao elemento europeu, e adstrito a
produções tropicais, para aqui trouxeram uma grande massa de população africana, que se
reuniu à população autóctone, povo primitivo, ainda na idade da pedra polida. Com tais
elementos, o diminuto contingente de brancos formou uma civilização inteiramente nova,
em ambiente reconhecidamente difícil. Mera colônia de exploração, a princípio, colônia
mista de povoamento e de exploração mais tarde [...]. (SIMONSEN, [1937] 1978, p.33)25
HISTORIA ECONOMICA DO BRASIL 1937

Não encontrando no Brasil qualquer tipo de comércio organizado pelos povos nativos,
Portugal estabeleceu algumas poucas feitorias a fim de possibilitar um fluxo rentável de
mercadorias para o reino. Embora sem o mesmo volume de comércio, as feitorias seguiam os
moldes adotados anteriormente na costa africana e na Ásia. Simonsen dá pouquíssima atenção
à extração do pau-brasil, considerado um ciclo pouco relevante na vida econômica da colônia,
que teria dado, inclusive, prejuízo a Portugal.

Os motivos que levaram Portugal a ocupar efetivamente o território brasileiro foram a ameaça
das demais nações européias sobre a posse das terras americanas e a perspectiva de encontrar
metais preciosos. A ocupação seria feita no modelo já empreendido pelos portugueses nas
ilhas atlânticas: concessão de capitanias para produção em larga escala de produtos tropicais,
especialmente o açúcar. O autor se mostra convicto quanto ao caráter capitalista das
capitanias hereditárias, negando qualquer tipo de traço feudal na iniciativa da coroa
portuguesa. Ou seja, tratava-se de adotar “processos caracteristicamente capitalistas” para a
ocupação efetiva do Brasil, uma vez que as concessões de terras e de direitos políticos
especiais aos donatários teriam servido como um incentivo ao investimento nesta empresa de
alto risco e lucro incerto. Seguia, de resto, a orientação geral que, desde 1500, D. Manuel –
“um autêntico capitalista” – aplicava em sua política de navegação e no regime de monopólios.

A coroa portuguesa adotou, então, uma política defensiva, se aliando a Inglaterra através de
uma série de acordos comerciais, cujo termo principal consiste no Tratado de Methuen
assinado em 1703.

Assegurava-se o mercado português à produção têxtil inglesa e, em contrapartida, se facilitava


a entrada de vinhos portugueses no mercado inglês. Sendo os tecidos de lã o principal produto
industrial de exportação da época, obteve a Inglaterra grande saldo comercial com Portugal.
Assim, o ouro brasileiro veio garantir o funcionamento do tratado e financiar os déficits
portugueses. Simonsen avalia que tal medida acabou com a indústria têxtil nascente em
Portugal, transformando-o em mero intermediário comercial entre Brasil e Inglaterra.