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Alberto da Cunha Melo

I quando ouvimos pronunciar rudes e brancas como a túnica


o nosso nome, uma palavra. que os pescadores te ofertaram.
Escrevo de cabeça baixa
por que levantá-la depois? Dá-me novamente a esperança Senhor, estou cansado, senta-te
Não o faça para ser visto de transmitir todas as coisas aqui, é tua vez agora.
pelos que passarem na estrada. novas, que a noite me disse Vem terminar o doloroso
ou que teus anjos me disseram. poema, que enfrenta as estrelas.
Viver na mesma posição
mas deixando a alma sair Faltam somente para o fim
pelos olhos e pela boca, III duas estrofes corriqueiras,
como água a jorrar de uma estátua. e hás de encontrá-las para o filho
Quando pela noite repleta insone, operário três vezes.
Este é o tempo em que Deus regressa de teus chamados, nas pequenas
pelos quatro cantos da casa. vozes distingo tua voz Nada em troca receberás
Vem desenterrar o poema que me ensina a falar do tempo. a não ser um outro pedido
do meu corpo e gritar comigo. de palavras, de outras palavras:
E certa noite me disseste matéria, prima do poema.
Recebe-o diante do espanto uma palavra que sufoca
dos amigos que não o vêem, todas as outras, mas não posso
tenho gestos incompreensíveis pronunciá-la antes do sol, V
e digo coisas já remotas:
antes que a vida amadureça Deixaste-me um momento. Agora
Senhor, protege meu poema as esperas mais dolorosas, ergo os braços para acender
e obscurece com tua sombra antes que morram de vividas velhas lanternas que não mostram
os versos mortos, as palavras as pequeninas locuções. o perdido vocabulário.
que sobram, o tempo perdido.
Seguro teu retrato: a túnica Longe de ti o meu poema
inexistente já se move vai esfriando como os rios
ao vento do postal, com sombras. de outros países, vai freando
II Tua voz é mais verossímil, gelado, no meio da página.

Senhor, dá-me a palavra brisa, surge como o vento noturno Pergunto agora pelos ventos
irmã das fontes, dá-me agora que trouxe a página perdida, arrogantes dentro da noite,
qualquer palavra que suavize e que me fez continuar pergunto agora que umedeço
a minha vida, para sempre. a luta, o poema parado. em vão o gesso do papel.

Dá-me uma canção que me salve Sem ti, entrego-me de todo


no tempo em que as canções morreram, às exigências do meu tempo,
para tocá-la no piano e começo a estender a folha
velho, cada noite mais alto. IV vazia aos outros companheiros.

Cobre várias vezes com a gaze Talvez as palavras se esgotem Quando decidires voltar
de tuas nuvens o vocábulo neste poema, e aqui terminem. na alta madrugada, verás
ferido (como eu) na cidade Mas tenho a mesa iluminada o teu filho ainda parado
dos cegos, pisado por eles. ainda, não me abandonaste. no último verso que ditaste.

Levanta as brancas persianas Estás tão perto que me assusto


sobre a manhã - que começa ao tocar nas cortinas: todas
VIII
VI Se escuto apenas o rumor
Ó eterno regressar de Deus da chuva  não está chovendo.
Tocam-me de repente o rosto sobre os seres noturnos, todos. Só chove quando estou molhado
as lufadas de luz. Eu nada Troco de roupa e de linguagem e a planície despovoada.
vejo mas estou incluído para receber-te de novo.
no tempo, na manhã que chega. Então desenrola o poema
Ir e voltar de tantas luzes tépido, cobre-me com ele:
Voltaste como um grande amigo matutinas, de grandes tédios o cobertor impermeável
e por trás de mim colocaste roendo, como cães danados, contra o tempo, tempos depois.
as tuas mãos sobre os meus olhos, homens acuados no tempo.
mas não foste reconhecido. Já não podemos confiar
Verão e inverno revezados no sol, um crédito suspenso,
Pouco depois, quando as palavras sobre as cercas insuportáveis e perco todo o meu verão
fluíram fáceis, novamente, que avistamos do mesmo ponto, conferindo meus agasalhos.
eu compreendi que estavas perto à mesma hora, há longas épocas.
e meu poema foi crescendo. Chuvas de pedra, são teus anjos
O cansativo e apaixonante nos baleando das sacadas.
Ó vento conterrâneo! ó núvem! viver, cruzes acetinadas. Chuvas de pedra, são teus anjos
passai depressa para os outros Ó sonho-atleta que venceste sublevados, quebrando as telhas.
poetas, mais necessitados todas as lutas conhecidas.
e mais sozinhos do que eu. Quero estar longe, muito longe
Competição no grande céu desse começo de revolta,
Põe-se a meu lado quem defende de nuvens e andorinhas: todos numa estrada onde lá em cima
da malcriada ventania se viraram para o poeta não há céu  estrada do céu.
o meu poema crepitando vivo, mas ele te apontou.
como chama em cima da mesa.

X XIII
VII
Sei que falo destituído Por que levarei adiante
De novo mergulhei a pena de todas as conquistas do tempo, este poema ameaçado?
na água, deixaste-me de novo. ainda tenho as asperezas Por que levarei esta vida
A cesta de papéis à espera de certas coisas intocadas. tão ameaçada também?
do poema que não nasceu.
Essas novas escavações Poesia, poema, por quê?
É tarde para desmanchar devem chegar até meu corpo. Disso tudo possuis, senhor,
a pose e tirar a gravata, Escuto apenas as pisadas a chave no bolso da túnica
tudo já foi fotografado dos amigos na superfície. ou deste a algum anjo a resposta?
de muito perto, por teus anjos.
Preciso ser tocado, ainda Seminovas meditações
Cheio de fogo e petulância que meu corpo de areia solta sobre a palavra. Nós falávamos
assinei o poema. Nem seja comido pelos ventos longamente de nossa angústia
de leve toquei o teu nome, ao ficar em cima da terra. e eu tentava falar mais alto.
Senhor, no teu ombro de névoa.
Puseste minha voz sumida Poemas ditos e no fim
Saí de casa desviando numa sala subterrânea, fazíamos o mesmo trajeto.
todas as brisas para mim, dá-me forças para cavar Nossas mães e nossas irmãs
e fechei a única janela por dentro e irromper num jardim, olhavam-nos: “tudo perdido”.
do companheiro sufocado.
ou a certeza de que serei Quando as vozes ultrapassadas
Dentro das brisas de setembro por um milagre descoberto, falavam de tua existência,
tua presença era demais, quando os amigos resolverem nós escutávamos calados,
e foi bom que me abandonasses plantar aqui uma roseira. pensando em novas descobertas.
um pouco, antes que eu te perdesse.

XII
XXI
XVIII
XIV Somente uma tranqüila réstia
Agora mesmo perguntaram de teu vulto ainda consegue
O poema ataca de notie porque eu, altas horas do Século, tocar-me a vida neste instante,
os seres desarmados. Com tal como um cão retardatário, e iluminar o meu poema.
requintes de perversidade, venho arranhar a tua porta.
ele aproveita a tua ausência. E o que há de limpo, o que há de luz
Acharam fora de propósito (merecida, apesar de tudo)
Vem equipado, traz nos ombros a maneira como me arrosto entram pela telha quebrada
os instrumentos da tortura, contra tua túnica, rasgando-a ou pela porta semi-aberta.
as palavras que não desistem cheio de furioso amor.
de entrar à força no meu sonho. Uma réstia na minha face,
Não sabem que te peço a nova atuante, imperceptível,
O teu ser é impronunciável beleza despreocupada, dá-me por alguns momentos
e estou cercado de palavras antes a qual este meu poema grandes vantagens sobre o mundo.
que procuram, a todo custo, será simples mata-borrão.
passar à frente do teu nome. Eu não preciso de teu sol
Que busco pegar a palavra inteiro, sobre a minha casa,
A minha voz dentro da sombra entre muitos homens na estrada: basta que venhas clarear
é revesada  escuto passos despi-la dentro do ataúde por alguns instantes a página.
e sei que algo me levará e fecundá-la novamente.
daqui a pouco, não teus anjos. E levantarei nessa hora
E nem ao menos compreendem a canção que todos disseram
Ainda é noite e sou jogado minha devida gratidão estar perdida, e está apenas
às pedreiras do desencanto, à grande voz que nomeou emperrada dentro de mim.
ao trabalho forçado, às grandes antes de mim todas as coisas.
injunções do tempo sem Deus.

XIX XXII
XVI
A manhã não deve surgir A multidão que me jogou
Senhor, este poema sabe antes de meu poema acabar, nesta aldeia tão afastada
o número certo de mortos: antes de encontrar a palavra não sabia que aqui estavas
acaba de ler os jornais certa, para o dia seguinte. à minha espera, há tanto tempo.
do dia, e não está contente.
Este poema é a resposta Todas as coisas arrastadas
Olha teus anjos, mas não perde que pedi e nunca me deram, com sacrifício para o quarto:
de vista as patrulhas que rondam é o outro braço que faltava desta noite não sairá
as alamedas do teu reino, para agarrar minha esperança. uma só palavra vazia.
como disse, desencantado.
Egresso de uma vida comum Tudo que havia para ser
Entra furioso no templo e aparentemente perdida, levado o vento já levou,
para pedir-te explicações, soube atingir o ponto alto e só resta o que restará
e tocar os sinos mais altos (não muito alto) do que sou. por muitos anos sobre a Terra.
e provocar tua inocência.
Escadas retorcidas, trechos Cabe-me apenas a meu jeito
Volta sem flores do mercado de desespero organizado copiar tudo que encontrei
(para não falar noutra coisa e previsões, as mais absurdas, germinando em volta dos templos
que magoa a forma discreta emergem salvas como solhas. mortos, à minha revelia.
de acusar o tempo que passa).
Que esta vida e minhas palavras Aceitar a bandeira branca
Segue furtivo e camuflado sejam pedra na superfície: da página, lutar por ela,
como um lagarto, pelas folhas: sejam flores, mas endureçam e plantá-la nos pontos altos
Senhor, este poema sabe na hora de serem arrancadas. de minha vida até aqui.
de tudo, e não pode dizer.
XXIII XXV
O teu filho distanciado
Conheço minha letra, escrevo Como um vento muito pesado, da própria época não sabe
para mim, escrevo à vontade. cheio de lágrimas e cinzas, se é ontem ou se é amanhã,
Mas cada dia sou de mim o poema vai saqueando qual o tempo que é, e que perde.
mesmo, um diferente leitor. a paz, o campo de algodão.
Julga às vezes pronunciar
Palavras lidas e vividas, Mas não sabia que este mundo a oração que foi omitida.
as únicas pronunciadas, precisasse tanto de música, Mas desde quando o berro humano
e tudo seguirá o curso e que voltasse a ser um disco, te chama, entre pilhas enormes?
imprevisível das crianças. agora um disco musical.
A Torre de Babel, de livros,
Minha voz é o vocabulário Estou liberto para ser precipitada sobre a úmida
pobre ou rico deste momento. devorado pela palavra. terra dos grandes alagados,
Só meus sonhos serão forçados Que houve contigo que me deixas onde os homens baixo morreram.
a ver muito além de mim. esquecer-te rapidamente?
Meu desespero submisso
Mas tudo cresce sob a tua Não tarda que eu tome o partido parte a coleira de repente:
luminosa supervisão. do companheiro descuidado, Dá-me a força de dominá-lo
Cabes em todos os poemas que julga poder enfrentar ainda, pela última vez.
dos três tempos imaginados. sozinho um poema no mundo.
É o dedo inútil me acusando
Novas idéias, novas formas Daqui a pouco sairei diante de ti, que me conheces.
por todo lado me comprimem: empurrando minhas palavras: Pobre Terra, forca florida,
mas eu defendo minha dor animais velhos, que só andam razão de ser e de chorar.
e saio vivo da cidade. quando sentem tua presença.

XXVI
XXVII
XXIV A cem quilômetros por hora,
Sob a chuva de outra estação solto a direção do automóvel,
De repente, surge a vontade estas mangueiras não florescem: para escrever alguma coisa
de ficar nesta rua clara, lenta e definitivamente mais urgente que minha vida.
e comungar as alegrias me levantas, Senhor do Tempo.
que sobem, bolas coloridas. Devo portanto utilizar
Crescerão apenas as frutas o vocabulário econômico
É a festa da grande estação que o ramo triste suportar. do Século: é proibido
explodida em setembro, quando Todas as demais cairão amar, fumar, pisar na grama.
todos se dirigem à praia verdes, na pocilga assanhada.
e me acenam dos caminhões. Mas gostaria que restasse
Vamos suportar a demora algum tempo para dizer
Meu verso curto é pequenina de Deus, a Poesia: longa no poema as palavras súbitas
trena medindo o horizonte, espera, longa paciência de recompensa e remissão.
e é cansativo colocá-lo ante os olhos que tudo viram.
tantas vezes na superfície. Ó meu Deus, eu quero escrever
Não tocarei as campainhas a minha vida, não teu Céu.
Ó semicírculo do mar, de prata, mas com meus poemas Eu estou só e enlouquecido
arco voltaico do verão, te alcançarei, Forma Azulada, como as ovelhas mais longínquas.
não saberei ainda o que quando chegar a grande época.
falta, neste bojo de luz. Dá pelo menos a esperança
Nem amaldiçoarei os pássaros de terminar o doloroso
Sei tão somente retirar de minha espécie (não teus anjos), poema. Dá isso a teu filho,
do bolso o bloco de papel, mas aprenderão a cantar caído, e coberto de sal.
e anotar com as últimas tintas com humildade os supremos cantos.
do teu sol o sono do tempo.
XXVIII
XXIX
Na vigésima oitava parte incidindo sobre meu sonho. todas as outras que me deste.
de meu poema estou perdido:
velhas palavras, como dentes, Tua luz vai forrando tudo: Entretanto, nem mesmo isso,
apodrecem na minha boca. cai como a chuva e vai tornando posso sozinho conseguir:
navegável, por muito tempo, Dá-me, Senhor, essa palavra,
Sabes de cor as pretensões este meu rio pequenino. antes que chegue o último verso.
impublicáveis de teu filho:
o original que tens na mão Que ela se espalhe como as brisas
é cópia de um rebanho inteiro. XXX dentro das minas, de repente,
e una-se sólida na hora
Aos gritos, mas cheio de amor Senhor, nesta manhã de outubro, em que apertar a tua mão.
apesar de tudo regressas ainda com o jeito de quem ia
com teus mapas acompanhados reiniciar longa viagem, Quero morrer, quero alcançá-la,
de asas do último modelo. meu poema chegou ao fim. e já começo a persegui-la
como se fosse uma serpente
E me apronto para escrever Agora todo meu trabalho que fugisse com minha morte.
como se fosse viajar é procurar uma palavra
à noite, com tua lanterna que te agradeça humildemente

Oração pelo Poema.

Oração pelo Poema. Recife: UFPE, separata da revista Estudos Universitários, 1969. /Dois Caminhos e uma Oração, editora
A Girafa, 2003. Orazione per il Poema. Besa (Jan. 1 2012). Language: Italian. ISBN-10: 8849708548. ISBN-13: 978-
8849708547. Edição bilingue.

Viste o novo site do poeta www.albertocmelo.com

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