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Relações estéticas[1]

Marcia Tiburi

O que esperamos quando vamos ao cinema? Que o filme seja bom, nos
divirta, nos ensine, nos comova. Esperamos uma experiência estética, ou
seja, um conjunto de sensações com significado. Queremos sentir, mas não
basta, queremos também entender. O prazer com um filme é algo que surge
desta combinação entre sensibilidade e entendimento. Sem este último não
existe prazer. Após a projeção do filme usamos o veredicto espontâneo
“gostei” ou “não gostei” para definir se o filme é bom ou não. Se vimos o
filme acompanhados pode até surgir alguma discussão em torno das razões
e emoções de tais juízos, mas em geral cada um se apega ao próprio prazer
sentido para justificar seu julgamento. É claro que julgamentos, sejam de
críticos ou de pessoas em geral não fazem de um filme melhor ou pior. Mas
precisamos disso na tentativa de entender o que vimos. Mas a experiência
estética é ainda mais que isso.

Além do julgamento que advém do prazer ou desprazer, a experiência


estética é também o efeito que uma obra produz em nós. A diferença desta
forma de experiência estética com as demais é que nos tornamos, por meio
delas, mais atentos e sensíveis, ou mais desatentos e fechados ao mundo
que habitamos. Olhando bem, a experiência estética faz parte de todos os
aspectos da nossa vida.

É curioso como este nosso desejo de julgamento se aplica também às


relações que temos com seres humanos. Raramente alguém deseja uma
experiência que não seja prazerosa com uma pessoa, seja amigo, seja colega,
seja um amor. Não temos relações éticas com as pessoas porque nos
apegamos, sobretudo, a percepções estéticas. Queremos ser convencidos a
todo momento de que aquela pessoa com quem vivemos ou partilhamos
momentos é alguém que nos agrada. Deste saber bastante banal é que as
pessoas tiraram a idéia de que é preciso agradar para serem queridas e
desejadas. Se sentimos prazer com alguém somos imediatamente
convencidos de seu significado, de sua importância. Assim também queremos
ser vistos. O bom arranjo entre forma e conteúdo, entre aparência física e
discurso, nos faz ver a pessoa como uma obra de arte, um filme bem feito,
denso e curioso a passar diante de nossos olhos.

A cultura da superficialidade

Tanto num filme de terror ou numa comédia banal, quanto numa película
mais elaborada intelectualmente, o que queremos é que algo nos dê prazer.
Do mesmo modo, queremos uma pessoa que nos entretenha ou nos agrade.
O que não ponderamos é que arte nem sempre agrada. Muitas vezes ela
provoca, como nas obras de arte contemporânea, uma abertura ao
insuportável. Por isso, tantas exigem de nós que nos tornemos intérpretes
sérios, cuidadosos e atentos, sob pena de simplesmente fugirmos das
experiências propostas. Do mesmo modo, as pessoas são bem mais
complexas do que o que delas podemos saber. Por isso também muitos
preferem fugir dos que conhecem, mas também dos que não conhecem.
Porém, este tipo de atitude não nos deixa longe de contradições. Junto deste
comportamento hoje em dia comum, cresce a queixa da solidão e da
dificuldade de relacionamento.

Quem está disposto a realmente respeitar a novidade aberta pelo outro? Em


geral as pessoas só querem das outras a superfície e, por outro lado, quando
a cultura da superficialidade vira regra, queixam-se de que não exista nada
mais sob a máscara. Mudar de percepção seria como aprender a assistir
filmes intelectualmente mais complexos. Ou livros mais exigentes.

O prazer de não pensar

A idéia da beleza sempre dependeu deste ideal do prazer. Para muitos não
há como ver sentido longe dele. Kant falava da beleza como aquilo que agrada
sem que precisemos pensar por que agrada. Coisas sem significado não
podem agradar. Ele mesmo percebeu que há muita coisa que não produz um
prazer imediatamente agradável, mas mesmo assim funciona aos sentidos
humanos. Kant, que não entendia de arte, pensava no belo da natureza. Belas
eram as mulheres, as paisagens tranqüilas com riacho e flores. Pensava,
porém, no encanto estranho que sentimos com as tempestades de raios ou a
visão do imenso deserto, do mar aberto. Explicou isto pelo sentimento do
sublime, pelo qual entendia uma mistura de prazer com desprazer em que o
significado da coisa vista jamais era plenamente alcançado. O sentimento do
sublime mais do que a sensação de algo agradável provocaria o respeito. Por
isso justificava que a natureza dos homens era nobre, enquanto a das
mulheres era bela. Aqueles deviam motivar o respeito, enquanto estas
apenas o agrado.

Tudo isso no mostra o quão delicado é julgar e emitir juízos sobre as coisas
e as pessoas. Infelizmente vivemos uma cultura da leviandade em relação às
interpretações. E tudo isso porque não somos bons leitores do que vemos,
do que ouvimos, do que nos dizem. Certamente somos também desatentos
à nossas próprias opiniões. Contentamo-nos em gostar e desgostar como se
isso fosse a base legítima de uma relação na ordem pública, onde se exigem
argumentos tantos quando é o caso de colocar uma novela no ar, uma
exposição de pinturas ou um filme em cartaz. Interpretamos a vida com base
em nossos pré-conceitos, raramente questionando os reais motivos que nos
impelem a dizer isto ou aquilo de algo ou de uma pessoa. Raramente temos
atenção ao que realmente se dá à nossa volta. As obras de arte hoje em dia
servem para nos ensinar a atenção à nossa própria interpretação. Neste
sentido elas nos ensinam a cuidar de todo o campo de nossas relações. Elas
exigem que nos tornemos atentos. Talvez quando formos atentos, possamos
O que é bonito para mim?[1]
Marcia Tiburi

Em nossos dias o sentimento do belo foi reduzido à mera apreciação de


mercadorias. Ninguém se preocupa com o que é “belo” para si mesmo, ou
com o que “parece belo”. Dizemos que algo é bonito sem muita reflexão. Sem
grandes investigações internas e pessoais sobre o modo como “eu mesmo”
sou capaz de formular este juízo sobre alguma coisa ou mesmo uma pessoa.
Como posso julgar a beleza de algo? E como posso dizer que alguém é ou
não belo, ou “bonito”? Esta questão nascida com a cultura até hoje não foi
resolvida.

Terceirizamos a beleza há muito tempo. Por um lado porque nunca foi fácil
tê-la. Por outro lado, não foi simples dizer o que ela era e definir seu rumo.
Até hoje padecemos da confusão em relação a um parâmetro. Cada época
inventou o seu. E sempre evitamos uma apreciação original que parta da
sensibilidade própria a cada um. Por isso, tantos de nós pedem desculpas
quando, em exposições ou diante de um filme mais complexo, percebem que
“não entendem de arte”. Mas tentaram entender?

Decidir sobre a beleza ou usá-la é algo que não fazemos sem o aval de
especialistas. Chamamos os filósofos, os críticos, e até os artistas que nem
sempre conhecem as teorias da arte. É claro que ninguém precisa conhecê-
las. O público leigo também não tem esta obrigação. Porém, enquanto isso,
os especialistas comandam o gosto coletivo e individual, definem o que é o
bom e o mau gosto. Aquele que determina o gosto é dono de um poder
importantíssimo. Ele administra o reino da aparência e, com ele, do desejo
das pessoas pelas coisas. Mas se alguém administra meu desejo estou
perdendo de fazer algo importante na vida.

Os gregos representavam Afrodite, a deusa da beleza, como uma bela jovem.


Junto dela aparecia Eros, o deus do amor, na forma de um querubim a portar
uma flecha e de olhos vendados sempre pronto a ferir aquele que, encantado
pela beleza, mirava-a perplexo. A beleza sempre esteve junto do amor e foi
a sua maior isca. Até hoje, ela desperta paixões naturais ou, bem
administrada é capaz de produzi-las.

Querer a beleza, decidir sobre ela

Todos querem a beleza. Até hoje, quem consulta o galerista para saber que
obra de arte acompanhará a decoração das paredes, até quem segue as dicas
de um cabeleireiro, passando por quem se veste de acordo com a moda e faz
a ginástica indicada, todos somos reféns de padrões estéticos que não
elegemos, mas pelos quais pagamos o preço. No pacote vem o direito de não
precisar decidir. E não se trata de uma obrigação da qual nos desincumbimos.
Mas de um direito que não desejamos. E, mais do que um gosto que
perdemos, é porque perdemos justamente “o gosto”, a capacidade da
apreciação estética que sustenta a sensibilidade e evita a anestesia geral para
o prazer e também para o sofrimento em relação a si mesmo e o outro.
De um lado temos, em nossa vida cotidiana, que decidir sobre a beleza das
coisas. É difícil pensar que algo seja belo independente de seu valor de
mercado, seja o mercado dos bens materiais, dos objetos de decoração, das
roupas, da arquitetura, dos carros. Se todos querem as coisas belas pagam
pelo belo e o obtém. Hesíodo, o poeta grego, conta que as musas diziam que
“o que é belo é caro, o que não é belo não é caro”. Talvez o valor neste caso
não fosse o da riqueza material apenas, mas também espiritual. Neste ponto,
o único sofrimento em relação ao alcance do belo é o do poder de compra de
cada um. Mas isso não reduz o sentido do que é realmente “belo” para cada
um de nós?

A beleza de nossos corpos

De outro lado, além de julgar a beleza das coisas, há um julgamento sobre a


beleza que se dirige ao corpo de cada um. Acostumamos a pensar a beleza
de nossos corpos também dentro de um mercado que, tanto quanto a medida
e a forma dos objetos em geral, também estabelece a forma dos corpos. Mas
o corpo humano não pode ser pensado como uma coisa. Isto seria reduzi-lo
a objeto que podemos manipular, trocar e vender: a conseqüência seria a
legitimação da prostituição, da escravidão e até da tortura.

As obras de arte nos ajudam a recriar sentimentos

A padronização do gosto atual sobre nossos corpos é proporcional à


desvalorização de nosso sentimento para o belo. É o próprio valor do belo e,
antes dele, o valor do sentimento que ruiu em nossa sociedade. É claro que,
diante disso, o corpo de cada um é esquecido por ele mesmo.

A desvalorização do sentimento do belo em favor de sua aplicação à mera


qualidade das coisas que podem ser vendidas ou compradas mostra o declínio
da subjetividade nos dias de hoje. As obras de arte ainda nos ensinam o
gosto. Quem tem paciência para a contemplação ou coragem para o desafio
que elas implicam poderá descobrir a sutileza da experiência estética. A
experiência com o olhar ou a audição, e também com a gustação, o olfato e
o tato, podem nos ajudar a chegar mais perto das coisas e descobrir nelas a
“beleza”, ou seja, aquilo que nelas nos toca e tem a chance de colocar poesia
em nossa vida e nos salvar das meras mercadorias.
Arte e Filosofia
O que é sensibilidade?
Marcia Tiburi

Chamamos sensibilidade ao conjunto de nossos sentimentos e sensações e


ao modo como os experimentamos.

Nossa sensibilidade pode ser mais bruta ou mais elaborada. Podemos,


entretanto, dizer que alguém não tem sensibilidade. Neste caso, nos
referimos às pessoas que denominamos de “frias” e que, em geral, pensamos
ser aquelas que fazem um uso mais assíduo da razão. Usamos a metáfora da
frieza em oposição à outra bem conhecida, a que se refere ao calor dos
sentimentos. Assim expressamos que os sentimentos aproximam, enquanto
a razão afasta; eles aconchegam, enquanto ela põe limites. O sentimento é,
por sua vez, o mais íntimo de cada um, algo que não se pode comunicar, por
isso, os artistas procuram “expressões” para eles. O esforço de compreensão
dos sentimentos é sempre poético e intuitivo.

A clássica oposição entre razão e sensibilidade, que culminou na filosofia e


na literatura dos séculos XVIII e XIX, é o fruto da necessidade de
sistematização das faculdades humanas, mas também obedece a um fator
antropológico que coloca a razão como hierarquicamente superior aos demais
atributos e capacidades humanos.

A sensibilidade envolve também a questão das sensações. Sensação é a


informação que os sentidos recebem do mundo exterior ao corpo. Os gregos
usavam a palavra Aisthesis para significar a sensação em geral ou a
capacidade de perceber. Depois, e ao longo da tradição filosófica, tais
informações seriam trabalhadas pela razão capaz de recolher os dados
confusos e elaborar conceitos e juízos a partir deles. Platão pensava que a
sensação era uma capacidade humana insuficiente para o alcance da
verdade. Baumgarten usará o termo dos gregos para fundar no século XVIII
a disciplina chamada “Estética” que se ocupará, segundo ele, do
conhecimento dos sentidos.

Sensações são o que podemos conhecer por meio de nossos sentidos, ou


seja, o que sabemos, em última instância, por meio de nosso corpo. Por isso,
podemos pensar que o corpo inteiro, e não apenas os tradicionais cinco
sentidos, é um lugar de conhecimento. Todavia, podemos não prestar
atenção ao que informam os sentidos, em outras palavras, ao que diz o nosso
corpo. Por exemplo, não costumamos prestar atenção ao que ocorre conosco
quando dançamos. Sensibilidade é também a capacidade de perceber e
interpretar as nossas sensações.

Os filósofos antigos já procuravam explicações para o mistério da sensação


tão importante também para os modernos e até hoje, para nós. As sensações,
como os sentimentos, também foram desvalorizadas. É com os filósofos que
tem a razão como instrumento de trabalho na compreensão do mundo que
temos a fundamentação do preconceito contra a sensibilidade. O trabalho do
conceito com o qual se ocuparam resultou em falta de atenção à produção da
sensibilidade. Mas nem todos foram desatentos a isso: Rousseau, no século
XVIII falava que era preciso formar o homem sensível para que ele pudesse
ser racional. É preciso, neste ponto, saber da importância da “educação
artística” que mais do que um treinamento para as artes deve ser um trabalho
na formação da sensibilidade baseada na atenção aos sentidos, aos
sentimentos e ao corpo.

Tal posição é a que devemos defender hoje: a sensibilidade é uma categoria


do conhecimento e uma categoria política. Ela é a base, a via de acesso ao
mundo externo ao nosso corpo, o modo como se estabelece nossa relação
com as coisas, justamente por ser um modo como experimentamos nosso
corpo e os demais corpos. É o modo como olhamos para as coisas, como
ouvimos, mas também como as pensamos.

O que melhor resume a sensibilidade é que ela é uma capacidade de ter


atenção às coisas, o modo como nos dispomos ao que não somos e não
conhecemos. O uso da razão, a produção do pensamento, depende desse
gesto inicial de disposição, que envolve silêncio, a boa passividade e a escuta.
O esforço de cada um, de todos os seres que sentem e usam a razão (sejam
profissionais das artes, da filosofia, ou não), deve ser o de reunir, estabelecer
pontes, reintegrar as capacidades. Toda nossa relação com a natureza e com
o outro – além da relação com nosso próprio corpo, nosso próprio eu -
depende deste esforço de integração do que está separado.

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