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J O H N M I C K L E T H WA I T

& ADRIAN WOOLDRIDGE

A Q UA R T A
REVOLUÇÃO
A C O R R I DA G L O BA L PA R A R E I N V E N TA R O ESTADO

Tr a d u ç ã o d e
Miguel Freitas da Costa
2
ÍNDICE

INTRODUÇÃO 11
O Leviathan e os seus descontentes 15
Porque tem de mudar 25
Porque importam as ideias 29

PRIMEIRA PARTE – AS TRÊS REVOLUÇÕES E MEIA

CAPÍTULO 1 – Thomas Hobbes e a Ascensão do Estado-Nação 37


O nascimento do Leviathan 38
A construção do Leviathan 44

CAPÍTULO 2 – John Stuart Mill e o Estado Liberal 59


Um liberal a favor do Estado grande? 68
Esquerda volver 71

CAPÍTULO 3 – Beatrice Webb e o Estado-providência 79


A Nova Jerusalém 88
O sonho global 92

CAPÍTULO 4 – O Paraíso Perdido de Milton Friedman 97


A crise do Estado-providência 103
O ricochete 107
A revolução que triunfou pela metade 114

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

SEGUNDA PARTE – DO OCIDENTE PARA O ORIENTE

CAPÍTULO 5 – Os Sete Pecados Mortais – e Uma Grande Virtude –


do Governo da Califórnia 121
1. De um outro século 123
2. A doença de Baumol 126
3. A lei de Olson 127
4. O Estado hiperativo 132
5. Matemática incerta 135
6. Àqueles que têm, mais lhes será dado 139
7. Paralisia política e bloqueio partidário 142
Apresentamos-lhe o maior problema de todos: nós 145
… E uma grande virtude 146

CAPÍTULO 6 – A Alternativa Asiática 151


Um amor inevitável 152
Uma ama elitista – mas magricela 155
A delícia de uma boa ordem social 163
O Leviathan como capitalista-chefe 168
Do maoismo à meritocracia 175
A contas com o consenso de Beijing 183

TERCEIRA PARTE – OS VENTOS DE MUDANÇA

CAPÍTULO 7 – O Sítio Onde o Futuro Aconteceu Primeiro 189


Já vi o futuro e é loiro 195
A reversão de Baumol? 199
O futuro é cinzento, não vermelho 203
Ficar com o bolo e comê-lo 206

CAPÍTULO 8 – A Reparação do Leviathan 209


As quatro terríveis premissas 212
É realmente bastante difícil 216
Porque pode ser diferente desta vez 219
O nó da questão 221
Arranjaroestado.com 229
As delícias do pluralismo 233
O encanto da diversidade 236
Rumo ao localismo 238
Uma pitada de experimentação 241

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

CAPÍTULO 9 – Para Que Serve o Estado? 245


A política da liberdade 247
O paradoxo do Leviathan 251
A sobrecarga e os seus descontentes 252
Aliviar o fardo 256
Que usem outros as pratas 258
Capitalismo de compadrio à beira do Potomac 261
Aparar direitos sociais 265
Acorda, Maggie 271

&21&/86®2²2'pÀFH'HPRFUiWLFR 275
Mil anos depois, um bom século 278
A necessitar seriamente de uma remodelação 280
Da disfunção democrática ao mal-estar democrático 286
Capitalismo, globalismo e democracia 288
Reequipar e rever 290
8QLGRVQRÀQDO 294

NOTAS 297
AGRADECIMENTOS 313
ÍNDICE REMISSIVO 315

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

10
INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO

Enterrada num subúrbio de Xangai, perto da fumarenta Estra-


da de Circunvalação Interior daquela cidade, a Academia Chinesa
de Liderança Executiva de Pudong (China Executive Leadership
Academy Pudong – CELAP) parece um estabelecimento de na-
tureza militar. As vedações que rodeiam o enorme complexo têm
arame farpado e há guardas ao portão. Mas para quem entra no
recinto procedente da rua que tem o curioso nome de Expec-
tativas Futuras é como entrar numa Harvard redesenhada pelo
Dr. No. No meio ergue-se um enorme edifício vermelho-vivo,
com a forma de uma secretária, tendo ao lado um tinteiro escar-
late igualmente monumental. À volta disto, espraiando-se por uns
42 hectares de terreno, há lagos e árvores, bibliotecas, campos
de ténis, um centro desportivo (com ginásio, piscina e mesas de
pingue-pongue) e uma série de edifícios baixos castanhos com
camaratas, todos desenhados para terem o aspeto de livros aber-
tos. A CELAP chama a isto «campus», mas a sua organização é
disciplinada, hierárquica e prática demais para ser uma universi-
dade. A gente da terra está mais perto de acertar quando lhe cha-
ma «Escola de Formação de Quadros», pois é uma organização
apostada em dominar o mundo.

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

Os estudantes da academia de liderança são os futuros gover-


nantes da China. Os dormitórios de aspeto igualitário mascaram
uma rígida escala hierárquica, com suítes para os mais importan-
tes visitantes de Beijing. E como noutras tentativas de supremacia
mundial, há um elemento de desforra. O pessoal da CELAP lem-
bra-nos que há 1300 anos a China imperial instituiu um sistema de
exames destinado a selecionar para a função pública os melhores
de entre os jovens. Durante séculos, esses «mandarins» administra-
ram o Governo mais avançado do mundo, mas no século XIX os
EULWkQLFRVHRVIUDQFHVHV HSRUÀPRVDPHULFDQRV URXEDUDPRVHX
sistema – e melhoraram-no. Um melhor governo foi, desde então,
uma das grandes vantagens do Ocidente. Agora, os chineses que-
rem reaver essa vantagem.
Quando a academia de liderança foi instituída, em 2005, o presi-
dente Hu Jintao explicou com todas as letras o seu objetivo: «Para
fazer da China uma sociedade moderna e próspera em todos os
aspetos e desenvolver um socialismo de características chinesas é
urgente para nós lançar programas de formação em larga escala
SDUDPHOKRUDUVLJQLÀFDWLYDPHQWHDTXDOLGDGHGRVQRVVRVOtGHUHVª
Em vez de se concentrar na doutrinação como as escolas do parti-
do, a CELAP e as suas irmãs mais novas de Jinggaushan (CELAJ)
e Yan’an (CELAY) foram concebidas para serem lugares práticos.
O discurso é o do alavancamento das aptidões, do reforço de uma
atitude mental global e da melhoria das capacidades de apresenta-
ção. Tudo isto é destinado a complementar o que se passa nas es-
colas do partido. Mas o facto de a CELAP estar sediada em Xangai
enquanto as escolas centrais do partido são em Beijing acrescenta
um frisson competitivo. Quando um formando de Pudong explica
que a escola do partido se centra no «porquê» enquanto a CELAP
olha para o «como», não há qualquer dúvida sobre a questão que
ele considera mais importante para o futuro da China. Se a CELAP
tivesse um lema, poderia ser o par de versos de Alexander Pope:

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INTRODUÇÃO

«Podem os insensatos das formas de governo disputar/Mas é me-


lhor governo o que melhor administrar.»
Movidas pelo desejo de «melhor administrar», cerca de 10 000 pes-
soas por ano frequentam os cursos da escola, 900 delas pela primeira
vez. Alguns chegam H[RIÀFLR: qualquer burocrata que tenha acabado
de ser colocado à frente de uma empresa do Estado, um governa-
dor a quem foi entregue uma província para dirigir ou um embaixa-
dor a caminho de um novo posto é enviado a Pudong para fazer um
refrescamento dos seus conhecimentos. (Espera-se que, em sinal de
agradecimento, os embaixadores ofereçam à biblioteca um livro que
simbolize a sua nova colocação. O homem que mandou o Rough Guide
to Nepal terá algumas explicações a dar.) Em termos mais gerais, um
curso na academia de liderança tornou-se um troféu a colecionar por
qualquer burocrata ambicioso. Espera-se de todos os funcionários pú-
blicos chineses que, de cinco em cinco anos, marquem presença em
três meses de formação, ou seja, 133 horas por ano. As candidaturas
aos cursos da CELAP são o triplo das vagas e os candidatos proce-
GHPQDVXDPDLRULDGDVÀOHLUDVGRVGLUHWRUHVJHUDLVDGMXQWRVTXHVmR
DTXDUWDFDWHJRULDPDLVDOWDQDFODVVLÀFDomRGRVLVWHPDFKLQrV
As duas perguntas mais frequentes, diz um dos professores, são:
«O que funciona melhor?» e «Pode ser aplicado cá?». Um curso tí-
pico compõe-se de três partes, com as aulas a darem rapidamente
lugar a trabalho de campo, com os mandarins a serem mandados,
primeiro, para o terreno estudar coisas que possam ser úteis, e, de-
pois, com a discussão de como as aplicar. Os temas variam do rela-
tivamente pequeno, como por exemplo a maneira mais conveniente
de demolir casas para construir infraestruturas, ao monumental,
como desenhar o sistema de pensões mais equitativo. O apetite de
ideias é voraz: ideias provindas de negócios locais (há 200 centros
de estudo de campo no delta do rio Yangtzé, incluindo um mini-
-campus da CELAP na cidade de Kunshan); ideias oriundas de várias
universidades nacionais; ideias dos pensadores de gestão ocidentais.

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

Quando os chineses modernizaram a sua economia, viraram-se


para o Ocidente em busca de inspiração e a academia de liderança
continua a enviar gente a Silicon Valley para ver as inovações. O go-
verno é uma história diferente. Diz-se que a CELAP é «a Kennedy
School da China» e Joseph Nye, antigo diretor da Kennedy Scho-
ol of Government de Harvard, já deu aqui uma conferência. Mas
há também a sugestão de que Harvard é um bocadinho teórica de-
mais para o que a China precisa neste momento. O que se requer
não são exemplos históricos, quanto mais exemplos históricos que
celebrem as virtudes da democracia ou do soft power. O objetivo da
&(/$3pSURYLGHQFLDUXPJRYHUQRHÀFLHQWHDTXLHDJRUDIRUQHFHU
cuidados de saúde baratos e escolas disciplinadas. E desse ponto
de vista há lugares melhores para onde olhar do que uma América
paralizada – entre os quais se destaca Singapura.
A Cidade-Estado pode ser minúscula, mas tem conseguido a
maior parte das coisas que os chineses querem do governo – esco-
ODVGHQtYHOLQWHUQDFLRQDOKRVSLWDLVHÀFLHQWHVOHLHRUGHPSODQHD-
mento industrial – com um setor público que proporcionalmente
é metade do da América. Para os chineses, é o Silicon Valley do
governo. Até a ideia que está no cerne da CELAP – a formação
de quadros de elite – se baseia num modelo singapurense, embora
os chineses se gabem de que as suas exigências são mais pesadas.
Não é, assim, surpreendente que a academia de liderança exiba
FRPRUJXOKRIRWRJUDÀDVGDVVXDVÀJXUDVJUDGDVDDVVLWLUHPDUHX-
niões em Singapura e do criador de Singapura, Lee Kuan Yew, de
visita ao campus.
A academia de liderança pode parecer, por vezes, um tanto có-
mica. Os seus dirigentes atrapalham-se um bocado a tentar explicar
porque é que certas ideias de governo que funcionam bem no es-
trangeiro, como a democracia e a liberdade de expressão, não ser-
vem na China por «motivos culturais». Um dos seus professores cita
um provérbio sobre umas laranjeiras que são doces «só na margem

14
INTRODUÇÃO

sul do rio». A corrupção em Washington é denunciada em termos


tonitruantes sem olhar ao facto de que a fortuna conhecida dos 50
membros mais ricos do Congresso Nacional do Povo chinês é de
95 mil milhões de dólares – 60 vezes a riqueza combinada dos 50
membros mais ricos de um Congresso americano escrutinado com
muito maior severidade.1 Os sítios locais da Internet estão cheios
GHKLVWyULDVGHLQHÀFLrQFLDHSHFXODWR'HUHVWRDUD]mRGDH[LVWrQ-
cia da CELAP é que os chineses sabem que têm de fazer melhor.
No entanto, em termos gerais, a reação correta de qualquer po-
lítico ocidental de visita à CELAP é semelhante à de um industrial
ocidental de visita a uma fábrica de Xangai há duas décadas: es-
panto e talvez um certo grau de medo. Tal como há duas décadas
a China se propôs deliberadamente refazer a arte do capitalismo,
está agora a tentar refazer a arte de governar. A principal diferença
é que os chineses acreditam que hoje em dia há muito menos a ga-
nhar em estudar a governação ocidental do que achavam que havia
em estudar o capitalismo ocidental.

O Leviathan e os seus descontentes


A CELAP pode ser extraordinária, mas não é de modo nenhum
única. À volta do mundo, de Santiago a Estocolmo, os políticos e
burocratas mais inteligentes também vasculham o mundo em busca
GHLGHLDV$UD]mRpVLPSOHVRSULQFLSDOGHVDÀRGDSUy[LPDGpFDGD
será o de reformar o Estado.
Em The Federalist Papers, Alexander Hamilton instava os seus
compatriotas americanos a decidirem «se as sociedades humanas
são ou não são realmente capazes de estabelecer um bom governo
SHODUHÁH[mRHSHODHVFROKDRXHVWmRGHVWLQDGDVDGHSHQGHUSDUD
sempre nas suas constituições políticas do acidente e da força»2. As
suas palavras são igualmente verdadeiras hoje. Os países que con-
seguirem um «bom governo» terão uma razoável hipótese de for-
necer aos seus cidadãos um padrão de vida decente. Os países que

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

não o conseguirem estarão condenados ao declínio e à disfunção,


da mesma maneira que os chineses em tempos estiveram.
O Estado está a ponto de mudar. Está no ar uma revolução, mo-
vida em parte pela necessidade que advém da escassez de recursos,
pela lógica de uma renovada concorrência entre os Estados-nação
e também pela oportunidade de fazer melhor as coisas. Esta Quar-
ta Revolução em matéria de governo mudará o mundo.
Porquê chamar-lhe uma quarta revolução? Desde logo para lem-
brar que o Estado pode mudar drasticamente. A maior parte de
nós no Ocidente só conhece um modelo – o Estado democráti-
co cada vez mais generalizado que tem dominado as nossas vidas
desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o que se passou até
então conta uma história diferente. De resto, a Europa e a Amé-
rica ganharam a dianteira precisamente porque estiveram sempre
a mudar. O Estado esteve empenhado num contínuo processo de
PHOKRUDPHQWR2OKDQGRSDUDWUiVRXWURVSRGHULDPLGHQWLÀFDUG~-
zias de pequenas revoluções, tais como a «revolução no governo»
de Thomas Cromwell, na Inglaterra dos Tudor, ou a reforma das
pensões de Otto von Bismarck, na Alemanha do século XIX. Neste
OLYURVLPSOLÀFDPRVHGHIHQGHPRVTXHR(VWDGRRFLGHQWDODWUDYHV-
sou nos tempos modernos três grandes revoluções e meia.
A primeira teve lugar no século XVII, quando os príncipes da
Europa construíram Estados centralizados que começaram a dis-
tanciar-se do resto do mundo. Nos anos 40 do século XVII, quan-
do um monárquico a monte chamado Thomas Hobbes produziu
a sua anatomia do Estado sobre o pano de fundo da Guerra Civil
Inglesa, havia boas razões para crer que o futuro estava na China
ou na Turquia. Hobbes decidiu dar ao Estado, que ele considera-
va a única resposta à maldade, brutalidade e brevidade da vida do
Homem, o nome de um monstro bíblico, Leviathan. Mas que bem-
-sucedido o monstro veio a revelar-se! A rede europeia de monstros
concorrentes vomitou um sistema de governo sempre a melhorar:

16
INTRODUÇÃO

os Estados-nação tornaram-se impérios comerciais, depois demo-


cracias liberais empresariais. A luta pela ascensão política e econó-
mica foi muitas vezes uma trapalhada sangrenta – a Grã-Bretanha
travou guerras com praticamente todos os países da Europa Oci-
dental –, mas essa competição garantiu também que o Ocidente
deixasse para trás outras regiões do globo.
$VHJXQGDUHYROXomRWHYHOXJDUHPÀQVGRVpFXORXVIII e no século
XIX. Começou com as revoluções americana e francesa e acabou por
alastrar a toda a Europa, à medida que os reformadores liberais subs-
tituíram os sistemas de patrocínio real – a «Velha Corrupção», como
era conhecida em Inglaterra – por um governo mais meritocrático e
responsabilizável. Concentramo-nos nas manifestações britânicas desta
revolução porque os seus irmãos gémeos mais conhecidos têm mais
distrações – a Revolução Francesa degenerou num banho de sangue,
enquanto a americana teve a peculiar virtude de ter um continente
inteiro com que trabalhar – e em parte porque é a era vitoriana a que
parece mais relevante hoje em dia. Os liberais ingleses pegaram num
velho sistema decrépito e reformaram-no de dentro dando prioridade
jHÀFLrQFLDHjOLEHUGDGH©5RXEDUDPªj&KLQDDLGHLDGHXPIXQFLR-
QDOLVPRS~EOLFRSURÀVVLRQDOVHOHFLRQDGRSRUPHLRGHH[DPHVDWDFD-
ram o amiguismo, abriram os mercados e restringiram os direitos do
Estado a subverter a liberdade. O «Estado guarda-noturno» propug-
nado por gente como John Stuart Mill era ao mesmo tempo mais re-
duzido e mais competente. Muito embora o tamanho da população
britânica crescesse em cerca de 50% de 1816 para 1846 e os vitorianos
melhorassem muitos serviços (incluindo a criação da primeira força
de polícia moderna), as receitas do Estado em impostos caíram de 80
milhões de libras para 60 milhões.3 E reformistas posteriores como
William Gladstone continuaram à procura de maneiras de «poupar
cotos de vela e raspas de queijo, a bem do país».
No entanto, como acontece muitas vezes, uma revolução pre-
parou outra. Ao longo de toda a segunda metade do século XIX, o

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

liberalismo começou a questionar a tese do Estado reduzido que


estava na sua raiz: de que serve a liberdade, interrogavam-se Mill e
os seus seguidores, ao trabalhador que não tem instrução ou cui-
dados de saúde? E se esse homem (e eventualmente mulher) me-
recia o direito de voto, e seria iliberal pensar o contrário, então a
instrução tinha de ser ampla e ambiciosa. E se os Estados estavam
em competição uns com os outros – e era crescentemente esse o
ponto de vista quando Bismarck moldava a Prússia como grande
potência –, então decerto triunfariam aqueles que educassem me-
lhor os seus trabalhadores.
Assim, uma vida melhor para todos os cidadãos tornou-se parte
do contrato com o Leviathan. Isso abriu o caminho à aberração do
comunismo, mas também à terceira grande revolução: a invenção
do moderno Estado-providência. Também este mudou muito em
relação ao que os seus fundadores, como Beatrice e Sidney Webb,
imaginaram; mas é nesse Estado que nós, no Ocidente, hoje vive-
mos. Na Europa Ocidental e na América tem dominado sem con-
testação desde a Segunda Guerra Mundial – exceto durante os anos
80 do século XX, em que Margaret Thatcher e Ronald Reagan, ins-
pirados por pensadores liberais clássicos como Milton Friedman,
temporariamente detiveram a expansão do Estado e privatizaram
os altos comandos da economia. Alcunhamos isto de meia revolu-
ção porque, embora remontasse a algumas das ideias fundadoras
da segunda revolução «liberal», acabou por não fazer nada para re-
verter a dimensão do Estado.
As voltas e reviravoltas de cada revolução, como veremos, foram
VLJQLÀFDWLYDV2TXHpFODURWRGDYLDpTXHQRV~OWLPRVDQRVD
Europa e a América foram a única fonte de ideias novas sobre o
Estado. Nem todas funcionaram bem mas, mesmo nos seus desvios
mais grotescos do fascismo e do comunismo, o Ocidente continu-
ava a esforçar-se, pelo menos na teoria, em forjar o futuro. O resto
do mundo ia atrás. Chineses e russos seguiram o marxismo. A Índia,

18
INTRODUÇÃO

quando se tornou independente, em 1947, abraçou o fabianismo


ao mesmo tempo que ateava fogo ao imperialismo britânico. Na
América Latina, a despeito da relação de amor-ódio com os gringos
de el norteDVHFRQRPLDVGDUHJLmRÀ]HUDPXPDYDQoRFODXGLFDQWH
há duas décadas quando abraçaram na sua maior parte «o consen-
so de Washington» (uma frase inventada por John Williamson para
VLJQLÀFDUXPDFRPELQDomRGHPHUFDGRVDEHUWRVFRPXPDSUXGHQ-
te gestão económica). Mesmo em Pudong existe o reconhecimento
de que, até recentemente, o modelo ocidental representou o padrão
ouro da modernidade.
A liberdade e a democracia têm sido centrais para tal. A ascensão
do Estado ocidental não foi só uma questão de organizar um fun-
cionalismo público competente. Até o monstro de Hobbes, como
veremos, era perigosamente liberal para ser proposto por um adep-
to da realeza, pois o Leviathan assentava na noção de um contrato
social entre governantes e governados. Os liberais vitorianos viam
um Estado bem dirigido como requisito prévio da emancipação
individual. Os seus sucessores fabianos viam o Estado-providên-
cia como requisito prévio da realização individual. À medida que
se expandiu, o Estado ocidental tem tendido a dar mais direitos às
pessoas – o direito a votar, o direito à educação, aos cuidados de
saúde e aos apoios sociais. Coisas como o acesso à universidade,
que há um século era considerado um privilégio de homens bran-
cos ricos, são vistas agora como um serviço público, nalguns casos
um direito gratuito de toda a gente.
O Estado ocidental é agora, no entanto, associado a um outro
traço: o inchaço. As estatísticas contam parte da história. Na Amé-
rica, a despesa do governo subiu de 7,5% do PIB em 1913 para
19,7% em 1937, para 27% em 1960, para 34% em 2000 e para 41%
em 2011. Na Grã-Bretanha, subiu de 13% em 1913 para 48% em
2011, e a percentagem média em 13 países ricos trepou de 10% para
cerca de 47%.4 Mas estes números não captam totalmente o modo

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

como o Estado se tornou parte do tecido das nossas vidas. O Levia-


than da América reivindica o direito de nos dizer por quanto tempo
precisamos de estudar para sermos cabeleireiros na Florida (dois
anos) e o direito de monitorizar o nosso correio eletrónico. Também
obriga os hospitais americanos a obedecer a 140 000 códigos nas
maleitas que tratam, incluindo um para os danos resultantes de ser
atingido por uma tartaruga. O governo costumava ser um parceiro
ocasional na nossa vida, o contraente no outro lado do contrato de
Hobbes, o guarda-noturno que olhava por nós no de Mill. Hoje é
uma ama omnipresente. Em 1914, «um inglês sensato, cumpridor
da lei, podia passar a vida inteira sem quase dar pela existência do
Estado, para além da estação de correios e do polícia», observou
uma vez o historiador A. J. P. Taylor. «Podia viver onde quisesse e
como quisesse… Em termos gerais, o Estado agia apenas para ve-
lar por aqueles que não podiam velar por si mesmos. Deixava em
paz o cidadão adulto.» Hoje, o inglês sensato, cumpridor da lei, não
pode passar uma hora, quanto mais uma vida inteira, sem reparar
na existência do Estado.
Tem havido tentativas periódicas de travar o agigantamento do
Estado. Em 1944, Friedrich Hayek, com The Road to Serfdom (O Ca-
minho para a Servidão), avisou que o Estado estava em risco de es-
magar a sociedade que o dera à luz. De então para cá este tem sido
um tema importante para os políticos conservadores. Em 1975, o
atual governador da Califórnia, Jerry Brown, numa anterior encar-
nação, decretou uma «era de limites». Esta preocupação com os «li-
mites» remodelou profundamente o pensamento sobre o Estado
na década e meia seguinte. Nos anos 90 do século XX houve gente
tanto de esquerda como de direita que assumiu que a globalização
iria aparar o Estado: Bill Clinton proclamou que a era do Estado
gigante tinha acabado. Na realidade, o Leviathan tinha apenas fei-
to uma pausa para tomar fôlego. O Estado depressa recomeçou a
crescer. George W. Bush aumentou o tamanho do Governo dos

20
INTRODUÇÃO

Estados Unidos mais do que qualquer outro presidente desde Lyn-


don Johnson, enquanto a globalização apenas aumentou a ânsia das
pessoas por uma rede de segurança. Mesmo levando em conta os
seus recentes contratempos, o Estado ocidental é mais poderoso do
que qualquer Estado na história e mais poderoso, de longe, do que
TXDOTXHUHPSUHVDSULYDGD$:DOPDUWSRGHWHUDPDLVHÀFLHQWHFD-
deia de distribuição do mundo, mas não tem o poder de prender as
pessoas ou cobrar-lhes impostos – ou escutar os seus telefonemas.
O Estado moderno pode matar pessoas do outro lado do mundo
com o toque de um botão – e assistir em tempo real.
+i SRGHURVDV UD]}HV GHPRJUiÀFDV H HFRQyPLFDV SHODV TXDLV
muita gente pensa que o Estado continuará a crescer. Os direitos
crescem à medida que as populações envelhecem. Os governos
dominam áreas da economia, como a saúde e a educação, que são
resistentes a melhorias da produtividade.
Mas a outra razão para o alastramento do Estado é política. Es-
querda e direita têm lisonjeado os seus apetites, a primeira cantando
os louvores de hospitais e escolas, a segunda dedicando serenatas às
prisões, às forças armadas e às forças de polícia, e ambas criando re-
gulamentos como se fossem confetes. O apelo a que «tem de se fazer
alguma coisa», isto é, que tem de ser criado mais um regulamento ou
mais um departamento, vem tantas vezes da Fox News ou do Daily
Mail como da BBC ou do New York Times. Apesar de toda a preo-
cupação com os «subsídio-dependentes» e as «rainhas da assistência
social», a maior parte da despesa do Estado é sugada pelas classes
médias, muitas delas conservadoras. Os eleitores sempre votaram a
favor de mais serviços; do que se queixam algumas pessoas é de pa-
gar mais por eles do que as outras. O cartaz apócrifo num comício
do Tea Party avisando o «Monstro» para «tirar as mãos do meu Me-
dicare» resume a hipocrisia dos americanos a respeito do Estado.
Para o melhor ou para o pior, a democracia e a elefantíase têm
andado de mãos dadas. O negócio dos nossos políticos tem sido o

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A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

de nos dar mais daquilo que queremos – mais educação, mais cui-
dados de saúde, mais prisões, mais pensões, mais segurança, mais
direitos. E no entanto – eis o paradoxo – não estamos contentes.
Tendo sobrecarregado o Estado com as suas exigências, os vo-
tantes estão furiosos por isto funcionar tão mal. De Seattle a Salz-
burgo, a preocupação é a de que o sistema que tem servido tão
bem o Ocidente se tenha tornado disfuncional, que, para usar uma
frase das organizações de sondagens, as coisas estejam «fora dos
trilhos», que as nossas crianças vão viver vidas mais humildes do
que as nossas. Na América, o Governo Federal tem menos apoio
do que Jorge III à época da Revolução Americana: apenas 17%
GRVDPHULFDQRVGL]HPTXHFRQÀDPQR*RYHUQR)HGHUDOPHQRVGH
PHWDGHGRVYHULÀFDGRVHPHXPTXDUWRGRVUHJLV-
tados nos anos 1960.5 O Congresso recebe regularmente uma taxa
de aprovação de 10%. A militância nos partidos políticos desmoro-
QRXVH1D*Um%UHWDQKDPHQRVGHGDSRSXODomRHVWiÀOLDGD
num partido político. O número de Tories declinou de 3 milhões
nos anos 50 do século XX para 134 000 hoje, um desempenho que
teria posto qualquer empresa privada nas mãos de um administra-
GRUGHIDOrQFLDV1RV(8$KiDJRUDPDLVJHQWHTXHVHLGHQWLÀFD
como independente do que como republicano ou democrata. Os
únicos políticos com sangue na guelra parecem estar nos extremos
– gente que não quer nenhum Estado ou se recusa a aceitar quais-
quer reformas ou atribui a culpa de todos os males aos imigrantes
ou aos banqueiros ou à União Europeia.
A deriva para os extremos não é surpreendente dada a incapacida-
de do centro para enfrentar a realidade. Basta pegar nas duas maiores
FULVHVGRVJRYHUQRVRFLGHQWDLVDWUDSDOKDGDÀQDQFHLUDDPHULFDQD
e a euroderrocada, e ver os políticos centristas a comportarem-se
como avestruzes. Quanto à primeira, os economistas concordam na
sua maioria em que a solução requer uma combinação de cortes na
despesa e subidas de impostos. Os economistas discordam apenas

22
INTRODUÇÃO

talvez quanto à respetiva proporção. Na maioria dos «ajustamen-


WRVÀQDQFHLURVªEHPVXFHGLGRVQRXWURVSDtVHVRVFRUWHVWrPIHLWR
a maior parte do trabalho, mas nunca o trabalho todo. No entanto,
nas últimas eleições presidenciais americanas, todos os candidatos
republicanos, sem exceção, rejeitaram a ideia de qualquer espécie
de aumento de impostos. «Nem mais um tostão» era o refrão uni-
versal. Os democratas eram só ligeiramente menos insanos na sua
granítica recusa de considerar qualquer redução de direitos sociais.
Poderá argumentar-se que talvez os americanos ainda tenham
DOJXPWHPSRSDUDLJQRUDUDUHDOLGDGHÀQDQFHLUDDHXURFULVHHP
FRQWUDVWHMipJUDÀFDPHQWHUHDO9HMDPVHQRHQWDQWRDVHOHLo}HV
nas três maiores economias da zona euro. A contenda de França
em 2012 foi um exercício de negação, sem que Nicolas Sarkozy ou
François Hollande alimentassem qualquer ideia de cortes no que se
tornou o Estado mais inchado do continente. Em 2013, apesar de o
seu país estar a sofrer a pior crise registada desde o pós-guerra, um
em cada quatro italianos não se maçou em ir votar – e mais de me-
tade dos que foram escolheram ou Beppe Grillo, um antigo cómi-
co, ou Silvio Berlusconi, um palhaço congénito. Ninguém acusaria
Angela Merkel de farsante, mas até a sua fácil vitória na Alemanha
em 2013 foi uma recusa nacional de enfrentar a realidade, pensando
que a eurocrise era um problema do sul da Europa com os aforra-
dores alemães a terem de apagar o fogo. Ninguém discutiu o facto
de os bancos alemães ainda estarem de pé apenas porque os seus
devedores do sul tinham sido resgatados.
Há algumas razões mecânicas para este cambaleio até ao limite
GDUD]mR1RV(8$DWUDÀFkQFLDFRPRVFtUFXORVHOHLWRUDLVGHL[RX
muitos distritos congressionais nas mãos de extremistas enquanto
na União Europeia o sistema de governação é um labirinto de irres-
ponsabilização. Mas o facto é simplesmente que os eleitores – sejam
bávaros furiosos com os italianos preguiçosos que vivem uma dolce
vita à custa dos seus euros ou gregos furiosos com a austeridade da

23
A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

Sra. Merkel – estão frustrados com o sistema. Estão mesmo dana-


GRV-iQmRDJXHQWDPPDLV22FLGHQWHSHUGHXDVXDFRQÀDQoDQD
maneira como é governado.
O mesmo se pode dizer do mundo emergente. Após uma déca-
da de crescimento espetacular nos mercados emergentes, muitos
têm agora o seu próprio debate sobre governação. Os pequenos
príncipes chineses têm consciência de que haver mais progresso de-
pende agora de melhorar o Estado, não apenas de abrir os mercados.
E, como os seus pares da Índia, veem-se confrontados com a con-
sequência desses mercados mais livres – uma classe média instruída,
cada vez mais farta de um Estado obsoleto, muitas vezes corrupto.6
1R%UDVLORVPDQLIHVWDQWHVÀ[DUDPVHQDFRUUXSomRXPHPFDGD
quatro brasileiros diz que pagou subornos. Na Turquia, a queixa
é a da arrogância por parte do primeiro-ministro, Recep Tayyip
Erdogan, que age mais como um sultão do que como um demo-
crata. Gurcharan Das, um arguto comentador indiano, aponta que
não há muito os seus compatriotas estavam dispostos a proclamar
que «a Índia cresce durante a noite enquanto o governo está a dor-
mir». Agora, tomam consciência de que a Índia não pode continuar
a crescer enquanto as suas escolas forem de segunda e as estradas
estiverem cheias de buracos.70HVPRD&KLQDQmRWHPÀFDGRLPX-
ne: a frustração com as más escolas tanto se sente em Cantão como
na Praça Tahrir ou nas favelas de São Paulo.
Portanto, tanto no Ocidente como no mundo emergente, o Es-
tado está metido em sarilhos. O mistério está em haver tanta gente
a assumir que é pouco provável uma mudança radical. O status quo,
com efeito, é a opção menos provável. Como secamente observou
uma vez o economista Herbert Stein: «Se uma coisa não pode con-
tinuar para sempre, para.» O Estado terá de mudar drasticamente
de forma ao longo das próximas décadas. No mundo emergente
acabou a era de crescer durante a noite. No Ocidente a era do mais
HVWiDFKHJDUDRÀP(VWiQDKRUDGD4XDUWD5HYROXomR

24
INTRODUÇÃO

Porque tem de mudar


Porque há de ser diferente esta época? Dominar o Leviathan será
JOREDOPHQWHRFHUQHGDSROtWLFDSRUXPDFRQÁXrQFLDGHWUrVIRU-
ças: a falência, a concorrência e a oportunidade. O Ocidente tem
de mudar porque está a falir. O mundo emergente precisa de se re-
formar para continuar a caminhar em frente. Há uma competição
global, mas é uma competição que se baseia tanto nas expectativas
como no medo: há maneiras de governar melhor.
$GtYLGDHDGHPRJUDÀDVLJQLÀFDPTXHRJRYHUQRQRPXQGRULFR
tem de mudar. Mesmo antes de ruir o Lehman Brothers os governos
ocidentais estavam a gastar mais do que arrecadavam. O governo
dos Estados Unidos teve saldos positivos apenas cinco vezes desde
1960; a França não tem nenhum desde 1974-75. A crise só fez au-
mentar a dívida, pois os governos endividaram-se, com toda a razão.
Em março de 2012 havia uns 43 biliões de dólares de obrigações do
Estado em circulação,8FRPSDUDGRVFRPDSHQDVELOL}HVHPÀQV
de 2001. Isto é apenas uma fração das verdadeiras responsabilidades
dos governos ocidentais se contarmos com as pensões e as presta-
ções de saúde. Os números de muitas cidades são ainda piores: San
Bernardino, na Califórnia, e Detroit, no Michigan, declararam-se em
bancarrota por causa destas obrigações fora do balanço.
E quem vai pagar isto tudo? Na «velha Europa», por exemplo, a
população em idade de trabalhar atingiu o seu pico em 2012, com
308 milhões – e prevê-se que decaia para 265 milhões até 2060.
Estes trabalhadores terão de sustentar cada vez mais pessoas de
idade. O rácio de dependência da velhice (o número de pesso-
as com mais de 65 anos em relação ao número de pessoas entre
os 20 e os 64) subirá de 28% para 58% – e isto é assumindo que
a União Europeia deixa entrar um milhão de jovens imigrantes
por ano.9 Do outro lado do Atlântico, a América continua a taxar-
-se com impostos de país de Estado pequeno e a gastar como se
fosse grande enquanto esconde as suas verdadeiras responsabili-

25
A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

dades usando táticas que fariam corar Bernie Madoff. Com os ba-
by-boomers a envelhecer, o Gabinete do Orçamento do Congresso
calcula que a conta dos benefícios sociais só por si crescerá 60%
DRORQJRGDSUy[LPDGpFDGD2VHXGpÀFHSRGHVHUVXVWHQWiYHO
agora, mas os Estados Unidos têm de fazer uma escolha: puxar
as rédeas a esses direitos, subir os impostos até níveis extraordi-
nários ou tropeçar de crise em crise.
De seis em seis meses o Fundo Monetário Internacional publi-
FDRVHXEROHWLPÀQDQFHLURQRTXDOD7DEHOD(VWDWtVWLFDWHPR
excitante título de «Economias Avançadas: Necessidades de Ajus-
tamento Indicativas na Base dos Objetivos de Endividamento a
/RQJR3UD]RªDVXDFROXQDÀQDOID]XPDHVWLPDWLYDGHPDLVRX
menos quanto, uma vez contabilizada a despesa relacionada com
o envelhecimento, os governos precisam de cortar nos custos ou
aumentar nas receitas em ordem a baixar a sua dívida para níveis
razoáveis até 2030. Na América, o número é 11,7% do PIB, no
Japão é 16,8% e a média no total dos países do G20 é de 9,3%.
Podemos discutir algumas das exigências do FMI em relação a de-
terminados países. Alguns economistas pensam que se mostra duro
demais com a América, por exemplo. Argumentam que o FMI es-
tabelece um objetivo desnecessariamente ambicioso para a redução
da dívida do Estado (60% do PIB) e sublinham que uma pequena
alteração quer nos números do crescimento quer na receita dos
impostos faria uma grande diferença nas perspetivas da América.10
Mas as duas décadas passadas da história política da América su-
gerem que seria insensato apostar na capacidade do país para subir
os seus impostos. E mesmo que os números de alguma maneira
possam ser equilibrados, sem sérias reformas do seu setor público
a América tornar-se-á num «conglomerado de seguros protegido
por um grande exército permanente»,11 com todo o dinheiro a ir
para direitos sociais e Defesa, não sobrando nenhum para educa-
ção ou qualquer outra coisa.

26
INTRODUÇÃO

No futuro previsível a ocupação do Estado ocidental será a


de tirar coisas – muito mais coisas do que a maior parte das pes-
soas julga. Nalguns lugares, onde os governos conseguiram ad-
PLQLVWUDUDVVXDVÀQDQoDVHVSHWDFXODUPHQWHPDOFRPRD*UpFLD
e algumas cidades americanas, essa retirada foi já dramática: em
San Bernardino o advogado da cidade aconselhou as pessoas a
«trancarem as portas e carregarem as suas armas» porque a cida-
de já não se podia permitir ter polícia. Mesmo os políticos euro-
peus mais consensualistas reconhecem que alguma coisa tem de
mudar: a estatística favorita de Angela Merkel é a de que a União
Europeia representa 7% da população do mundo, 25% do PIB
mundial e 50% das despesas sociais.12 Mas as políticas de intro-
dução da mudança serão sangrentas, pondo em liça governos sem
dinheiro que têm de cortar serviços contra eleitores agastados que
querem manter os seus direitos sociais e contribuintes que querem
receber mais em troco do seu dinheiro, contra poderosos sindica-
tos do setor público que querem preservar os seus privilégios. Se
milhões de franceses saíram à rua quando o presidente Sarkozy
elevou a idade da reforma de 60 para 62 anos, Deus sabe o que
acontecerá quando François Hollande ou o seu sucessor for for-
çado a elevá-la para os 70.
Esta batalha irá direita ao coração da democracia. Os políticos
ocidentais adoram gabar as virtudes da democracia e urgir os ou-
tros países, do Egito ao Paquistão, a abraçá-la. Argumentam que
«uma pessoa, um voto» é a cura de tudo, da pobreza ao terrorismo.
Mas a prática da democracia no Ocidente está a divergir cada vez
mais do ideal, com o Congresso do Estados Unidos poluído pelo
GLQKHLURHSHORIDFFLRVLVPRRVSDUODPHQWRVHXURSHXVDÁLJLGRVSHOD
deriva e o público em geral crescentemente descontente. A verdade
SRXFRHGLÀFDQWHpTXHDGHPRFUDFLDRFLGHQWDOVHWRUQRXEDVWDQWH
ÁiFLGDHHVWDIDGDTXDQGRVHGHGLFDYDSULQFLSDOPHQWHDGDUFRLVDV
Os grupos de interesses (incluindo muitas pessoas que trabalham

27
A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

para o Estado) têm-se mostrado notavelmente bem-sucedidos em


sequestrar os governos. O exemplo do Japão é assustador: durante
décadas não conseguiu remediar o seu sistema político esclerótico
HQTXDQWRDVXDHFRQRPLDGHÀQKDYD$8QLmR(XURSHLDSDUHFHHV-
tar a seguir uma trajetória similar.
Se a falência é o primeiro incentivo da mudança no Ocidente, a
concorrência é o segundo. Por muitas frustrações que o governo
lhe faça sentir, o mundo emergente está a começar a produzir algu-
mas ideias chamativas, erodindo de caminho a vantagem competi-
tiva do Ocidente. Para quem tenta discernir o futuro dos cuidados
de saúde, a tentativa da Índia para aplicar as técnicas da produção
em série aos hospitais é parte da resposta, tal como o sistema bra-
sileiro de transferências condicionais de dinheiro é parte do futuro
da assistência social. Mas a questão vai mais fundo do que isso. A
Ásia de orientação chinesa oferece um novo modelo de governo
que põe em causa dois dos valores mais caros ao Ocidente: o su-
frágio universal e a generosidade de cima para baixo (top down). Esta
«alternativa asiática» é uma estranha mistura de autoritarismo e Es-
tado pequeno, cujo melhor símbolo é Lee Kuan Yew, que há muito
governa Singapura. Tem sido um severo crítico da democracia de-
senfreada do Ocidente, mas também do seu Estado-providência,
que compara com um buffet em que se pode comer tudo o que se
quiser: coisas que deviam ter visado os pobres, tais como propinas
universitárias gratuitas e cuidados de saúde gratuitos para os mais
velhos, tornaram-se direitos da classe média, empolados e insusten-
táveis. E a China está a tentar seguir o exemplo de Singapura em
vez do do Ocidente, tanto no que respeita ao Estado social como
no referente à democracia. Nos últimos dois anos alargou a cober-
tura das pensões a mais 240 milhões de pessoas do campo, bas-
tantes mais do que o número de pessoas cobertas pelo sistema de
pensões públicas da América, mas também quer claramente evitar
os excessos americanos.

28
INTRODUÇÃO

É fácil encontrar falhas no modelo asiático – e neste livro re-


IHULPRVPXLWDVGHODV6LQJDSXUDpPXLWRSHTXHQD$HÀFLrQFLDJR-
vernamental da China desconjunta-se ao nível local. Até agora o
mundo emergente não tem aproveitado a oportunidade de dar sal-
tos em frente que a tecnologia lhe tem oferecido. O Brasil encami-
nha-se para uma crise das pensões ao lado da qual até as da Grécia
e de Detroit serão uma brincadeira de crianças. A Índia poderá ter
uns quantos dos mais inovadores hospitais do mundo, mas tem al-
gumas das piores estradas e alguns dos políticos mais preguiçosos.
Mas não nos deixemos enganar e ser levados a pensar que o mundo
emergente está muito atrás de nós. Os burocratas da CELAP têm
razão: os dias em que o Ocidente tinha o monopólio do governo
inteligente passaram há muito.
Isto aponta para a terceira força: a oportunidade de praticar um
«melhor governo». A crise do Estado ocidental e a expansão do
Estado emergente estão ambas a chegar a um momento auspicio-
so: as novas tecnologias oferecem uma hipótese de melhorar dra-
maticamente a governação, mas também obrigam a colocar velhas
questões, como a mais básica de todas: «Para que serve o Estado?»
Tal como nas revoluções anteriores, a ameaça é clara: bancarrota,
extremismo, deriva. Mas também é clara a oportunidade: a possi-
bilidade de modernizar uma instituição que carregámos com um
excesso de responsabilidades.

Porque importam as ideias


Como deveria ser alterado o Estado? Pensamos que qualquer
resposta tem de envolver duas coisas – uma radicada no pragma-
tismo e a outra em princípios políticos.
A resposta pragmática, que gente de todas as persuasões deveria
adotar, assenta em melhorar a gestão e tomar as rédeas da tecno-
logia, em particular da tecnologia da informação. Cinquenta anos
atrás as empresas sofriam do mesmo inchaço de que sofre o governo

29
A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

agora. As empresas mudaram drasticamente desde então, emagre-


FHQGRFRQFHQWUDQGRVHHHOLPLQDQGRFDPDGDVVXSpUÁXDV2PHV-
mo podem fazer os governos. O Estado ainda está preso na era da
integração vertical, quando Henry Ford pensava que fazia sentido
ser dono das ovelhas cuja lã era usada no estofo dos assentos dos
seus carros. Os governos não têm jeito nenhum para espalhar boas
ideias. Não há nenhuma boa razão para que as escolas da Califór-
QLDVHMDPPXLWRSLRUHVGRTXHDVÀQODQGHVDVRXDVVLQJDSXUHQVHV
dando-se particularmente o caso de a Califórnia gastar muito mais
dinheiro por aluno. Se todas as escolas secundárias dos EUA fos-
VHPWmRERDVFRPRDVGR0DVVDFKXVHWWVRV(8$WHULDPÀFDGRHP
TXDUWROXJDUHPOHLWXUDQDFODVVLÀFDomR3,6$GHHHPGpFLPR
OXJDUHPPDWHPiWLFDHPYH]GHWHUHPÀFDGRUHVSHWLYDPHQWHHP
décimo sétimo e vigésimo sexto. Em Itália, Trento teve uma das
PDLVDOWDVFODVVLÀFDo}HVHPPDWHPiWLFDPDVD&DOiEULDHVWDYDGRLV
anos atrás. Os governos também são péssimos a manterem-se a si
próprios sob controlo: pensem nos milhares de páginas das refor-
PDVÀQDQFHLUDV'RGG)UDQN2XOLPLWHPVHDROKDUSDUDRVQ~PH-
ros. O Gabinete Nacional de Estatística da Grã-Bretanha calculou
que a produtividade no setor privado de serviços aumentou 14%
entre 1999 e 2013. Em contraste, a produtividade do setor públi-
co caiu 1% entre 1999 e 2010. Os governos precisam de aprender
com as melhores práticas muito da mesma maneira que nos anos
80 do século XX as empresas que antes se iam alargando aprende-
ram com o método de produção da Toyota.
A tecnologia tem um potencial ainda maior do que a gestão.
A Internet revolucionou tudo aquilo em que tocou, do negócio dos
jornais ao retalho. Seria estranho que não revolucionasse também
o Estado. A revolução das Tecnologias da Informação (TI) está a
roubar ao Estado aquilo que era uma das suas grandes fontes de
poder – o facto de possuir mais informação do que quem quer
que fosse. Esta revolução é também parte de uma possível cura da

30
INTRODUÇÃO

«doença dos custos de Baumol». William Baumol, um economis-


ta americano, defendeu que era impossível reduzir o tamanho do
Estado porque estava concentrado em áreas de trabalho intensivo,
tais como os cuidados de saúde e a educação, onde a despesa con-
WLQXDUiDVXELUPDLVGHSUHVVDGRTXHDLQÁDomR$SURGXWLYLGDGHQR
setor público tem sido, de facto, miserável. Mas os computadores
e a Internet estão a começar a fazer pelos serviços o que as má-
TXLQDVÀ]HUDPSHODDJULFXOWXUDHSHODLQG~VWULD3RGHPRVYHUKRMH
de borla no nosso iPad os melhores professores do mundo em
vez de termos de pagar bem para ouvir gente medíocre em salas
de aula malcheirosas.
A defesa da causa de uma melhor gestão devia ser completa-
mente apolítica. Quem não acredita em proporcionar às crianças
um bom princípio de vida? Ou às pessoas de idade uma aposenta-
ção decente? É pouco provável que possa ser assim porque o pri-
meiro obstáculo à modernização são muitas vezes os sindicatos do
setor público, sejam os professores na América, sejam os ferroviá-
rios em França, que estão intimamente aliados com partidos da
esquerda. Na verdade, a esquerda tem mais a ganhar do que a di-
reita em melhorar a gestão do Estado, pela simples razão de que a
esquerda investe mais esperança na capacidade dos governos para
melhorar a vida das pessoas. Não pode fazer sentido para pessoas
que acreditam na benevolência do Estado impedir os governos de
contratar as melhores pessoas (ou despedir as piores) ou permitir
que a máquina governamental seja dominada pelos interesses espe-
ciais. Considerem este facto alarmante que veio a lume na América
durante a febril discussão nacional sobre o falhado lançamento do
Obamacare: 94% dos projetos federais de TI ao longo dos últimos
dez anos fracassaram – mais de metade foram adiados ou ultra-
passaram o orçamento e 41,4% falharam completamente. O Pen-
tágono gastou 3 mil milhões de dólares em dois sistemas de saúde
que nunca funcionaram devidamente. Falharam em parte porque

31
A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

as rígidas regras de contratação de pessoal do governo impediram


o emprego de especialistas em TI e em parte porque as regras ain-
GDPDLVUtJLGDVGHFRQWUDWDomRGHVHUYLoRVH[WHUQRVVLJQLÀFDPTXH
está cativa dos poucos fornecedores que têm recursos para estudar
as 1800 páginas de terminologia jurídica do Regulamento de Aqui-
sições Federais. Se a esquerda toma a sério a sua defesa do Esta-
GRSUHFLVDGHFRPHoDUDWHQWDUWRUQiORRPDLVHÀFLHQWHSRVVtYHO
O futuro do Estado, porém, não se resume a uma melhor gestão.
Haverá um ponto em que terá de ser tomada uma decisão mais im-
portante. Por muito bem que se faça funcionar o atual Estado, so-
mos confrontados com a questão de saber qual o tipo de Estado que
devemos ter. Para que serve o Estado? Essa pergunta está no cerne
de um velho debate – um debate que desapareceu durante a fase da
democracia moderna do «comam tudo o que forem capazes de co-
mer». Para Hobbes, o Leviathan existia para proporcionar segurança.
Para Mill e para o radical Thomas Paine, a resposta era a liberdade.
Para os fabianos, era o bem-estar da humanidade. Mas todos estes
pensadores julgavam que precisávamos de tratar da grande questão
antes de passar aos pormenores práticos. Agora essas questões são
discutidas só de forma segmentada. Os políticos modernos são como
arquitetos a discutirem sobre o estado de cada divisão numa casa que
está a ruir, correndo para arranjar uma janela aqui ou dar uma nova
mão de pintura acolá, sem nunca considerarem o desenho de todo o
edifício. Precisamos de olhar para o desenho de toda a estrutura – e
também de pensar intensamente sobre o papel apropriado do Esta-
GRQXPDVRFLHGDGHHPUiSLGDPXGDQoDH[DWDPHQWHFRPRÀ]HUDP
os vitorianos nos alvores da moderna era democrática.
Nesta grande discussão, os autores devem admitir que têm um
marcado preconceito: vimos de uma publicação radicada no libe-
ralismo clássico, que geralmente dá um alto valor à liberdade do
indivíduo (e que, diga-se de passagem, foi fundada na época dessa
reinvenção vitoriana). Somos, em termos gerais, a favor de um Es-

32
INTRODUÇÃO

tado mais pequeno. Pensamos que parte da compreensão do que


correu mal é reconhecer que os Estados têm de ser mantidos em
respeito; que são muitas vezes uma ferramenta romba; que, deixa-
dos aos seus próprios expedientes, se expandirão inexoravelmente.
Mas este é um preconceito que deve ser posto à prova pelos fac-
tos, não um dogma.
Assim, não aceitamos a ideia libertária de que o Estado é no
melhor dos casos um mal necessário. Estado a menos é mais peri-
goso do que a mais: era preciso ser doido para preferir viver num
Estado falhado como o Congo, onde a ausência do Leviathan tor-
na a vida verdadeiramente «repugnante, animalesca e curta», do
que num Estado grande e bem governado como a Dinamarca. Ao
pagar bens públicos como a educação e os cuidados de saúde, os
JRYHUQRVSRGHPDXPHQWDUDVXDHÀFLrQFLDDVVLPFRPRRQRVVR
bem-estar. O sistema de saúde supostamente «privado» dos EUA
custa mais em impostos aos seus habitantes e fornece pior saúde
do que o sistema público sueco. Uma das razões pelas quais a Ale-
manha é muito mais bem-sucedida do que a Grécia é que tem um
Estado bem-sucedido que é capaz de recolher impostos, fornecer
serviços e granjear respeito. O mesmo se poderia dizer de Singa-
pura comparada com a Malásia, da China com a Rússia ou do Chi-
le com a Argentina.
O Estado pode, portanto, ser um instrumento de civilização.
Mas não aceitamos a ideia progressista de que não há nada de mal
no Estado que «mais Estado» não possa resolver. Talvez haja uma
razão pragmática para usar a despesa pública no curto prazo para
evitar que uma economia se afunde na recessão. Mas não há ma-
neira de fugir à necessidade de domar o Leviathan a médio prazo.
O moderno Estado sobrecarregado é uma ameaça à democracia:
quantas mais responsabilidades o Leviathan assume pior se desem-
SHQKDGHODVHPDLVLUDGDVÀFDPDVSHVVRDV²RTXHVyVHUYHSDUD
exigirem ainda mais ajuda. É este o círculo vicioso da política pro-

33
A Q UA RTA R E VO LU Ç Ã O

gressista. Mais fundamentalmente, o Estado moderno é também


uma ameaça à liberdade: quando o Estado nos tira metade do que
produzimos, quando impede as pessoas de ganhar a vida a fazer
tranças sem uma licença dispendiosa, quando dita a raça e o géne-
ro das pessoas que podemos empregar, quando convoca poderes
draconianos para travar «guerras» contra o terror, os motoristas em
excesso de velocidade e a marijuana, então começou a tornar-se um
amo em vez de um servidor. O Leviathan tem de ser domado. Tem
de ser posto sob controlo.
«Ainda não estamos, por enquanto, a dançar ao ritmo de uma
nova música», disse uma vez John Maynard Keynes de uma outra
grande mudança. «Mas há uma mudança no ar.»13 Isto também é
hoje verdade. São as democracias ocidentais que têm a melhor hipó-
tese de reagir à mudança: a democracia proporciona aos governos
PDLRUÁH[LELOLGDGHXPDPDQHLUDGHRXYLUDVSHVVRDV$PXGDQoD
deve ser em direção a uma maior liberdade e a democracia é a mais
livre forma de governo. Mas é também o Ocidente que corre os
maiores riscos. Ouvir as pessoas foi uma das razões pelas quais o
2FLGHQWHÀFRXWmRVREUHFDUUHJDGRHRVSROtWLFRVVHQWHPVHWHQWDGRV
a impor ao Estado cada vez mais obrigações. A democracia, neste
momento, parece estar a cavar a sua própria sepultura. Se o Ociden-
te dará agora ouvidos aos seus melhores ou aos seus piores instin-
tos é a questão que determinará o resultado da Quarta Revolução.

34
THOMAS HOBBES E A ASCENSÃO DO ESTADO-NAÇÃO

PRIMEIRA PARTE

AS TRÊS REVOLUÇÕES E MEIA

35
AS TRÊS REVOLUÇÕES E MEIA

36
THOMAS HOBBES E A ASCENSÃO DO ESTADO-NAÇÃO

Capítulo 1

THOMAS HOBBES E A ASCENSÃO


D O E S TA D O  N A Ç Ã O

Porque se adiantou o Ocidente ao resto do mundo nos últimos


300 anos? E porque foi pioneira a Europa Ocidental, uma mera
probóscide de terra na ponta da massa terrestre euroasiática, em
tanto do que distingue o mundo contemporâneo? Os historiadores
têm procurado uma resposta a esta pergunta em toda a espécie de
lugares: da lei romana, que estabeleceu os direitos de propriedade,
à religião cristã, que promoveu o universalismo moral. Mas uma
grande parte da resposta reside no aparelho de governo.
Uma história completa de como o Ocidente estabeleceu a sua
liderança na construção do Estado seria uma empresa monumen-
tal: a grande história do Estado de Samuel Finer, que ele deixou
inacabada à sua morte, enche 1701 páginas.1 Aqui, decidimos pôr
de parte qualquer tentativa de sermos exaustivos: o nosso plano é
FHQWUDUPRQRVQDVWUrVJUDQGHVUHLQYHQo}HVTXHGHÀQLUDPRJR-
verno no Ocidente e contemplar essas reinvenções pelo prisma de
três grandes pensadores: Thomas Hobbes (um anatomista do Es-
tado-nação que também abriu o caminho ao Estado Liberal), John
6WXDUW0LOO RÀOyVRIRGR(VWDGR/LEHUDOTXHWDPEpPDQWHFLSRXR
Estado-providência) e Beatrice Webb (a madrinha do Estado-pro-
YLGrQFLDTXHWDPEpPSHUVRQLÀFRXRVVHXVH[FHVVRV 1RVpWLPR

37
AS TRÊS REVOLUÇÕES E MEIA

capítulo, examinamos a meia revolução contra o Estado através


de Milton Friedman, cujas ideias tiveram tão grande impacto em
Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Esses pensadores ocuparam
posições diferentes no espectro que vai da teoria à prática. Hobbes
TXHULDSURGX]LUXPDÀORVRÀDGDSROtWLFD2V:HEETXHULDPPX-
dar o mundo. Mill e Friedman ocuparam uma posição intermédia
– produziram obras profundas de economia política, mas desem-
penharam também um papel ativo na política, Mill como membro
do Parlamento e Friedman como conselheiro de presidentes e pri-
PHLURVPLQLVWURV0DVDWHRULDÀORVyÀFDGH+REEHVDFDERXSRUWHU
um profundo impacto na natureza do Estado enquanto o incan-
ViYHODWLYLVPRGRV:HEEDVVHQWRXHPÀUPHVDOLFHUFHVÀORVyÀFRV
E todos os quatro (ou quatro e meio, se contarmos Sidney como
meio) deram respostas incrivelmente diferentes à questão que está
no coração deste livro: para que serve o Estado?
Por isso não pedimos desculpa pelo facto de nos concentrar-
mos em gente de ideias. Desculpamo-nos um bocadinho pelo
facto de os primeiros três destes pensadores serem britânicos
e o quarto estar associado intimamente a um primeiro-ministro
britânico. A Grã-Bretanha fornece a espinha dorsal desta parte da
nossa história e foi pioneira de muitas das ideias que discutimos,
boas e más. Nenhum outro país fornece um melhor exemplo dos
movimentos do Estado ocidental ao longo dos últimos 400 anos.

O nascimento do Leviathan
É difícil datar o início de qualquer grande mudança. Virginia
Woolf disse-o memoravelmente no seu ensaio sobre o advento do
modernismo:

Em dezembro de 1910, ou por aí, o caráter humano mudou.


Não estou a dizer que uma pessoa saísse, como quem sai para o
MDUGLPHYLVVHTXHOiWLQKDÁRULGRXPDURVDRXTXHXPDJDOLQKD

38
THOMAS HOBBES E A ASCENSÃO DO ESTADO-NAÇÃO

WLQKDSRVWRXPRYR$PXGDQoDQmRIRLV~ELWDHGHÀQLGDFRPR
nesses casos. Mas que houve mudança, no entanto, lá isso houve; e
visto que temos de ser arbitrários vamos datá-la de cerca de 1910.2

Seguindo o mesmo critério, datemos de maio de 1651 o mo-


mento em que o pensamento político mudou.3 Pois foi nessa altura
que Thomas Hobbes publicou o seu Leviathan e foi com a publica-
ção do Leviathan que nasceu o conceito moderno do Estado-nação.
Hobbes não foi o primeiro a basear a sua teoria política numa
visão realista da natureza humana: essa honra pertence a Nicolau
Maquiavel. Nem foi o primeiro a basear a sua teoria num raciocínio
dedutivo: reconheçamos que esse foi Tomás de Aquino. Nem foi,
ainda, o primeiro a centrar-se no Estado-nação em vez de na Cida-
de-Estado ou na Cristandade: esse prémio vai para Jean Bodin. Mas
Hobbes foi o primeiro a juntar essas três coisas num único volume.
E foi o primeiro a acrescentar-lhes a ideia explosiva de um contra-
to social entre governantes e governados. Se o Estado moderno é
uma das grandes produções do engenho humano, então tem no
Leviathan o seu apropriado documento fundacional.
A ideia nuclear do Leviathan é a de que o primeiro dever do Es-
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– aquele que resgata o homem da infelicidade e torna a civilização
humana possível. Hobbes chegou a esta conclusão por uma lógi-
ca implacável. Desmontou a sociedade nas partes que a compõem
quase da mesma maneira que um mecânico desmontaria um carro
para descobrir como funciona. Fê-lo perguntando a si mesmo o que
seria a vida num «estado de natureza». Hobbes não tinha paciência
para a ideia de Aristóteles de que o homem era por natureza um
animal social. Pelo contrário, pensava que o homem era por natu-
reza um pequeno átomo de ego, puxado para um lado pelo medo
e para o outro pela cobiça. Nem tinha nada a ver com a noção
feudal de que os homens eram habitantes de papéis sociais pré-

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AS TRÊS REVOLUÇÕES E MEIA

-determinados, destinados pela natureza para dar ordens, se tives-


sem nascido com sorte, ou cortar lenha e tirar água, se não tivessem.
Os homens, argumentava, não são levados a associar-se uns com
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por temerem pela sua segurança. No estado de natureza de Hobbes,
os homens estão constantemente a tentar levar a melhor uns sobre
os outros, cativos de uma «guerra de todos contra todos» e con-
denados a uma vida «repugnante, animalesca e curta». «Isto não é
um retrato do homem com “mazelas e tudo”», observou uma vez
um conservador americano moderno, George Will. «Era tudo ma-
zelas.»4 A única maneira de escapar a uma guerra civil permanente,
alegava Hobbes, é renunciar aos nossos direitos naturais a fazer o
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cujas opiniões são a verdade e cujas ordens são a justiça – o Big
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neste «Leviathan»: isso ameaçaria devolver o homem às «desgraças
da vida sem governo». O único direito que o indivíduo conserva é
o direito de salvar a sua vida em circunstâncias extremas: dado que
o propósito do Estado é proteger a vida, não podemos consentir
ao Estado que nos liquide.
Por muito rigor lógico que tivesse, o argumento de Hobbes era
também emocional, moldado pelas suas experiências pessoais. Ti-
nha todas as razões para perceber como uma vida ordeira se podia
dissolver em caos e barbárie. Hobbes nasceu prematuramente em
1588, quando a sua mãe foi aterrorizada a ponto de perder o juízo
pela combinação de um violento temporal e do boato sem funda-
mento de que a Armada Espanhola tinha desembarcado. (Hobbes
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cheu-se de tal medo que deu à luz gémeos: eu e, junto comigo, o
medo».5) O pai dele era um clérigo de pouca instrução que ocupa-
va uma das posições mais pobres do Wiltshire, passava mais tempo

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