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ISBN: 978-85-65957-08-3

Aimée Schneider
Alan Dutra Cardoso
Gabriel Gaspar
Julia Passos
Luaia Rodrigues
Maria Isabel Boselli
Vanessa Ferreira
(Orgs.)

Anais da 5ª Semana de História da

Universidade Federal Fluminense

Rio de Janeiro
Anpuh-Rio
2018
ANAIS DA 5ª. SEMANA DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
28 DE AGOSTO A 1º. DE SETEMBRO DE 2017

Ficha Catalográfica

900 Semana de História da Universidade


Federal Fluminense, 5: 2018: Niterói,
RJ.

Anais da 5ª Semana de História da Universidade Federal


Fluminense [livro eletrônico]. – Rio de Janeiro: Anpuh-
Rio, 2018.

1075 p.

ISBN: 978-85-65957-08-3

1. História - Congressos. I. Scneider,


Aimée. II. Cardoso, Alan Dutra. III.
Gaspar, Gabriel. IV. Título.

Os organizadores e autores se responsabilizam pelas ideias apresentadas na obra.


ANAIS DA 5ª. SEMANA DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
28 DE AGOSTO A 1º. DE SETEMBRO DE 2017

TRADUÇÃO E ILUSTRAÇÃO NO BRASIL JOANINO:

NOTAS INTRODUTÓRIAS SOBRE A VERSÃO PORTUGUESA DO


“ENSAIO SOBRE A CRÍTICA” DE ALEXANDER POPE (1810)

Gabriel de Abreu Machado Gaspar1

A little learning is a dangerous thing

Alexander Pope2

Em 1810 e 1811 vieram a luz pela Imprensa Régia no Rio de Janeiro duas traduções do
“Ensaio sobre a Crítica” e os “Ensaios Morais” de autoria do poeta inglês Alexander Pope 3.
Estas obras foram traduzidas por D. Fernando José de Portugal, Conde e Marquês de Aguiar e,
à época, Secretário de Estado dos Negócios do Reino. Estas, contudo, não foram as primeiras
vezes que Pope foi publicado em língua portuguesa. A primeira tradução portuguesa de uma de
suas obras, o “Ensaio sobre o Homem”, data de 17694. Até o ano de 1810, foram publicadas e
traduzidas um total de onze obras do poeta inglês.

Partindo do pressuposto de que “todos os grandes intercâmbios culturais na História


envolveram tradução” e de que “a tradução dos textos foi central para os grandes movimentos
culturais da Europa moderna: o Renascimento, a Reforma, a Revolução Científica e o

1
Graduando em História pela Universidade Federal Fluminense. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. E-
mail de contato: machado.ga18@gmail.com
2
POPE, Alexander. An Essay on Criticism. In: POPE, Alexander; ROGERS, Pat (org.). Alexander Pope. The
Major Works. Including The Rape of The Lock and the Dunciad. Nova York: Oxford University Press, 2008. p.
24, verso 215, grifos no original.
3
POPE, Alexander. Ensaio sobre a crítica. Traduzido em portuguez pelo Conde de Aguiar. Com as Notas de José
Warton, do Traductor, e outros; e o Commentario do Dr. Warburton. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810;
POPE, Alexander. Ensaios Moraes de Alexandre Pope em Quatro epístolas a diversas pessoas traduzidos em
portuguez pelo Conde de Aguiar. Com as Notas de José Warton, e do Traductor. Rio de Janeiro: Impressão Régia,
1811.
4
Trata-se da obra POPE, Alexander. Ensaio sobre o homem, poema filosófico de Alexandre Pope, traduzido do
original inglez na língua portuguesa. Por. A. Teixeira. Lisboa, Off. Anotnio Vicente da Silva, 1769. Cf.
LOUSADA, Isabel. Para o estabelecimento de uma Bibliografia Britânica em Português (1554-1900). Tese
(Doutorado) – Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1998.

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Iluminismo”5, Peter Burke e Po-chia Hsia propõem uma “História Cultural da Tradução”, um
diálogo entre os Estudos da Tradução e a História Cultural6. Nesse sentido, é central para este
trabalho a perspectiva da “adaptação de ideias e textos conforme eles passam de uma cultura
para outra”7. Disso decorre a necessidade de se situar os textos traduzidos tanto no seu contexto
cultural quanto em seu contexto de tradução. Esta visão procura oferecer respostas para seis
questões: “quem traduz? Com que intenção? O quê? Para quem? De que maneira? Com que
consequências?”8.

O objetivo deste trabalho é oferecer respostas introdutórias a algumas das questões


propostas por Burke por meio da análise do Prefácio de D. Fernando José de Portugal à sua
tradução portuguesa do “Ensaio sobre a Crítica” de Alexander Pope.

ALEXANDER POPE E O “ENSAIO SOBRE A CRÍTICA”

Alexander Pope nasceu na Inglaterra em 21 de maio de 1688 e mudou-se para Londres


em 17059. Logo publicou as “Pastorals” em 1709 e, dois anos depois, em 15 de maio de 1711
trouxe a luz “An Essay on Criticism”10. O “Ensaio sobre a Crítica” foi seu primeiro grande
trabalho independente e publicado de forma anônima. Segundo Paul Baines, “much of this
poem is delivered as series of instructions, but the opening is tentative, presenting a problem to
be solved: ‘Tis hard to say, if greater Want of Skill/Appear in Writing or in Judgin ill’” 11. Ao
longo da obra, o poeta inglês enfatiza a oposição entre poesia e crítica, verso e prosa, paciência
e senso.

5
BURKE, Peter. Culturas da tradução nos primórdios da Europa Moderna. In: BURKE, Peter & PO-CHIA
HASIA, R. (orgs.). A tradução cultural nos primórdios da Europa Moderna. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p.
17.
6
BURKE, Peter & PO-CHIA HSIA, R. Introdução. In: ___. (orgs.). A tradução cultural nos primórdios da Europa
Moderna. São Paulo: Editora Unesp, 2009. p. 9.
7
BURKE & PO-CHIA HSIA, op. cit., 2009. p. 9.
8
BURKE, op. cit., 2009. p. 17.
9
Para uma biografia completa de Alexander Pope, ver o clássico MACK, Maynard. Alexander Pope: A Life. New
Haven: Yale University Press, 1988.
10
ROSSLYN, Felicity. Alexander Pope: A Literary Life. Nova York: Palgrave Macmillan, 1990. p. xi-xii.
11
BAINES, Paul. The Complete Critical Guide to Alexander Pope. Londres: Routledge, 2000. p. 49.

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Entre os contemporâneos, este Ensaio gerou grandes polêmicas e no mesmo ano de sua
publicação apareceram as primeiras críticas. Em defesa, Joseph Addison escreveu no Spectator
de 20 de dezembro de 1711:

we have three Poems in our Tongue, which are of the same Nature, and each
of them a Master-piece in its kind; the Essay on Translated Verse [Wentworth
Dillon, 1684], the Essay on the Art of Poetry [John Sheffield, 1682], and the
Essay upon Criticism [Alexander Pope, 1711]”12.

A tradução completa da Ilíada de Homero em Maio de 1720, segundo John Barnard,


estabeleceu Pope como “the major living Augustan poet”13. Mais de uma década depois da
publicação, Voltaire escreveu em uma carta que considerava Pope “the best poet in England
and at present in the world” e que seu Ensaio sobre a Crítica era superior à Arte Poética de
Horácio14.

Em 1736, Pope empreendeu um trabalho de revisão para a primeira publicação completa


de seus trabalhos e dividiu o poema em três seções, com subseções que resumiam cada
segmento do argumento15. Através desta organização, que reproduzo a seguir, é possível
perceber seus argumentos e sua reflexão lógica:

Parte I. INTRODUCÇÃO. He um grande feito tanto o julgar como o escrever


mal, e qual seja mais prejudicial ao publico, vers. 1. O verdadeiro gosto raras
vezes se acha, assim como o verdadeiro gênio, vers. 9 – 18. A maior parte dos
homens nascem com algum gosto, sendo delle privados pela falsa educação,
vers. 19 – 25. Multidão de críticos, e as causas disso, vers. 26 – 46. Devemos
estudar o nosso próprio Gosto, e conhecer os seus Limites, vers. 46-67. A
Natureza a melhor guia do juízo, vers. 68-87. Adiantada pela arte, e pelas
Regras, que são a Natureza reduzida a methodo, vers. 88. Regras derivadas da
pratica dos Antigos Poetas, vers. 88 – 110. Por isso deve o Critico
necessariamente estudar os Antigos , particularmente Homero, e Virgílio ,
vers. 120 – 138. Das Licenças, e uso, que os Antigos delias fazião , vers. 140
– 180. Reverencia devida aos Antigos, e seu louvor, vers. 181, etc.

Parte II. CAUSAS, que se oppoe ao verdadeiro juízo, I. A Vaidade, vers. 28.
II. A Sciencia Imperfeita, vers, 215. III. O Julgar por partes, e não pelo todo,
vers. 233 – 288. Críticos somente em engenho, linguagem, e versificação ,
vers. 288, 305, 389, etc. IV. São assas difficeis de se contentarem, ou assás
propensos a admirarem-se , vers. 384. V. A Parcialidade, – Demaziado amor

12
Joseph Addison, The Spectator, no. 253, 20 December 1711, ed. D.Bond (1965), ii. 481–6 apud BARNARD,
John (ed.). Alexander Pope: The Critical Heritage. Londres: Taylor & Francis e-Library, 2005
13
BARNARD, John (ed.). Alexander Pope: The critical Heritage. Londres: Taylor & Francis e-Library, 2005. p.
7.
14
Voltaire, extract from letter to N.C.Thieriot, 26 October 1726, Voltaire s Correspondence, ed. T.Besterman
(Geneva, 1953–65), ii. 36 apud BARNARD, John (ed.). Alexander Pope: The Critical Heritage. Londres: Taylor
& Francis e-Library, 2005, p. 155.
15
Cf. BAINES, op. cit., p. 50.
POPE, Alexander. The Works of Alexander Pope, esq. Londres:

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a huma Seita, – Aos Antigos ou Modernos , vers. 394. VI. A Preoccupação,


ou Prevenção , vers. 408. VII. A Singularidade, vers. 424. VIII. A
Inconstância, vers. 430. IX. O Espirito de partido , vers. 45â, etc. X. A Inveja,
vers. 468. Contra a inveja, e em louvor do bom génio , vers. 508, etc. Quando
devem os críticos usar principalmente de severidade, vers. 526. etc.

Parte III. REGRAS para o Critico dirigir as suas maneiras, I. A Candura, vers.
563. A Modéstia, vers. 566. A Boa Educação, vers. 572. A Sinceridade, e
Liberdade de conselho, vers. 578. II. Quando o conselho de qualquer se deve
restringir , vers. 584. Caracter de hum Poeta incorregivel , vers. 600; e de hum
Critico impertinente , vers. 610, etc. Caracter de hum bom Critico, vers. 629.
Historia da Critica, e caracteres dos melhores criticos, Aristóteles, vers. 645.
Horácio, vers. 653. Dionizio , vers. 665. Petronio , vers. 667. Quintiliano, vers.
670. Longino, vers. 675. Da decadência da Critica, e seu restabelecimento.
Erasmo , vers. 693. Vida , vers. 705. Boilcau, vers. 714. Lord Roscommon etc
, vers. 725. Conclusão16.

Quanto ao contexto de produção, é preciso situar o “Ensaio sobre a Crítica”, sobretudo,


no que Paul Hazard chamou de “crise da consciência europeia”. Deste período, entre 1680 e
1715,

tão denso e carregado que parece confuso, partem claramente os dois grandes
rios que atravessarão todo o século: um, a corrente racionalista; o outro,
minúsculo no começo mas que mais tarde transbordará de suas margens, a
corrente sentimental. E como se tratou, durante essa mesma de crise, de
abandonar os domínios reservados aos pensadores para ir na direção da
multidão, para alcança-la e convencê-la; e como foram atacados os princípios
dos governos e a própria noção de direito, como foram proclamadas a
igualdade e a liberdade racional do indivíduo; como já se falava alto e bom
som dos direitos do homem e do cidadão, reconheçamos ainda que quase todas
as atitudes mentais que em seu conjunto levarão à Revolução Francesa foram
assumidas antes do final do reinado de Luís XIV17.

Se num primeiro momento deste processo a hegemonia intelectual parecia estar destinada à
França, uma rival aparece no norte: a Inglaterra. O reino da revolução científica de Newton, da
nova filosofia de Locke e das belas letras de Addison, Steele, Swifit, Pope e Prior18.

Robert Darnton propõe delimitar a Ilustração como um movimento dotado de uma causa
que precisa “ser situado no tempo e circunscrito no espaço: Paris na primeira parte do século
XVIII”19. Contudo, esta visão da Ilustração enquanto fenômeno tipicamente francês foi
contestada por Roy Porter, ao afirmar que se trata de uma teleologia dos historiadores uma vez

16
“Summario Do que contem este Ensaio”. POPE, Alexander. Ensaio sobre a crítica. Traduzido em portuguez
pelo Conde de Aguiar. Com as Notas de José Warton, do Traductor, e outros; e o Commentario do Dr. Warburton.
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810.
17
HAZARD, Paul. A Crise da Consciência Europeia, 1680-1715. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2015. p. 449.
18
Cf. HAZARD, op. cit., p. 79.
19
DARNTON, Robert. Os dentes falsos de George Washington. Um guia não convencional para o século XVIII.
São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 18.

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que identificam que a tarefa deste movimento era de derrubar o Antigo Regime e construir um
mundo livre.

Como os pensadores ingleses estavam longe de ser “democráticos”, “céticos”, “ateístas”


e, sobretudo, “revolucionários”, estudiosos consideraram que a “eighteenth-century England
was not enlightened”20. Segundo Porter, a Ilustração inglesa foi marcada por seu pragmatismo,
não apenas em um sentido mundano, mas principalmente na busca pela felicidade e erradicação
do egoísmo. E daí decorre o principal dilema da Ilustração Inglesa, “achieve individual and
group fulfilment with the familiar social frame”21. Por isso, a luta contra o poder central não
estava no foco dos ilustrados ingleses. Eles estavam mais interessados na própria prática do
homem em sociedade.

Na literatura, o século XVIII foi a época da prosa combativa e carregada de ideias


filosóficas, morais e religiosas. A poesia remetia ao antigo, à oração. Era inteligente, mecânica,
seca. Os novos espíritos da época, “que se gabavam de nada respeitar, de odiar os preconceitos
e a superstição, tornavam-se imitadores quando se tratava de literatura”22. Nesse sentido,
reverenciavam os antigos e não ousavam desobedecer às poéticas de Horácio e de Aristóteles.
Pope discordava. Esse “digno sucessor de Boileau”, como bem caracterizou Paul Hazard,
ofereceu ao mundo “uma nova Ars Poetica”23. Em Pope, “dois homens coexistem e nem sempre
se entendem; chegam mesmo a contradizer-se”24.

Um deles é impetuoso, impaciente, irritado e se revolta contra os críticos. O outro,


“clássico”, disciplinado, racional, “anuncia preceitos, dogmas” e “diz ser preciso seguir a
natureza, a infalível natureza, pura luz, raio divino; mas que deve se seguir essa natureza
imutável e universal guiado pela razão”25. Em suma, mesmo “muito orgulhoso dessa galeria de
ancestrais a quem reverencia, Pope, voltando-se para os escritores de seu tempo, pretende reagir
e ele próprio comandar”26. Nesse sentido, o Ensaio sobre a Crítica de Alexander Pope apresenta,

20
PORTER, Roy. The enlightenment in England. In: PORTER, Roy & TEICH, Mikulás (orgs). The Enlightenment
in National Context. Cambridge: Cambridge University Press, 1981. p. 6.
21
PORTER, op. cit., p. 16.
22
HAZARD, op. cit., p. 340.
23
HAZARD, op. cit., p. 354.
24
HAZARD, op. cit., p. 354.
25
HAZARD, op. cit., p. 355.
26
HAZARD, op. cit., p. 355.

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por um lado, resquícios da tradição antiga da arte poética e, por outro, representa, no campo
literário, aspectos modernos desta “crise de consciência europeia”.

POPE CRUZA O ATLÂNTICO

Se as ideias contidas no “Ensaio sobre a Crítica” de Pope não atravessaram o Atlântico


juntamente como seu contexto original, faz-se necessário situar a versão portuguesa em seu
novo espaço de publicação. Os ventos de mudanças do Século das Luzes começaram a chegar
em Portugal desde o reinado de D. José I, de 1750 a 1777. Ainda que, como salientou Lúcia
Bastos Pereira das Neves, seu principal ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, tenha
adotado uma política regalista, ele “possibilitou assim que as Luzes se difundissem em Portugal,
ainda que de um modo bastante atenuado”27. As medidas do Marquês de Pombal foram, escreve
ela, “fundamentais para moldarem os principais aspectos da Ilustração portuguesa”28.

Além de suas mudanças no plano econômico, merece destaque, sobretudo, a Reforma


na Universidade de Coimbra, em 1772, através da imposição de um novo estatuto para o ensino
superior29. Tal reforma transformou a Universidade em um novo espaço que “serviu como
poderoso instrumento de unificação ideológica, assegurando, apesar de algumas nuanças, a
unidade da cultura política”30.

A ascensão de D. Maria I ao trono em 1777 e a regência extraoficial do príncipe D. João


a partir de 1792 foi marcada pela indicação de Rodrigo de Sousa Coutinho à pasta dos Domínios

27
NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e constitucionais. A cultura política da independência
(1820-1822). Rio de Janeiro: Editora Revan, 2003. p. 28.
28
NEVES, op. cit., p. 29.
29
Para um panorama das medidas econômicas e políticas de Sebastião José de Carvalho e Melo, ver: MAXWELL,
Kenneth. Pombal e nacionalização da economia luso-basileira. In: ____. Chocolate, Piratas e outros Malandros.
São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999, p. 89-123.; MAXWELL, Kenneth. Marquês de Pombal: paradoxo do
iluminismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1996.; FALCON, Francisco José Calazans. A Época Pombalina:
política econômica e monarquia ilustrada. São Paulo: Ática, 1993.; SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de. A
economia do império português no período pombalino. In: FALCON, Francisco & RODRIGUES, Claudia. A
“Época Pombalina” no mundo luso-brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.
30
NEVES, op. cit., p. 33. Para uma análise mais detalhada das reformas pombalinas no âmbito da instrução,
considerando seus fundamentos teóricos e as mudanças na Universidade de Coimbra e nos chamados estudos
menores, ver VILLALTA, Luiz Carlos; MORAIS, Christianni Cardoso de; MARTINS, João Paulo. As reformas
pombalinas e a instrução (1759-1777). In: FALCON, Francisco & RODRIGUES, Claudia. A “Época Pombalina”
no mundo luso-brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.

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Ultramarinos31. Ilustrado, afilhado de Pombal e com experiência no exterior, a principal


preocupação do Ministro

tornou-se a de manter, através da criação de um império luso-brasileiro, a


colônia do Brasil ligada a Portugal, do qual este seria o centro comercial e
aquela, o corpo produtivo, mas em condições de igualdade social com a
metrópole e liberada, enfim, da maior parte dos entraves característicos do
sistema colonial32.

D. Rodrigo articulou um amplo programa de “luminosas reformas” para o reino


português. Neste programa, os domínios ultramarinos assumiram notável importância, pois
constituíam, nas palavras de d. Rodrigo, “a base da grandeza do nosso augusto trono”, uma vez
que, sem eles, Portugal “seria dentro de um breve período uma província da Espanha”33. Nesse
sentido, este programa foi marcado pela consciência da indissolubilidade do Império Português
enquanto uma unidade política. Esta

ideia de Império luso-brasileiro não nasceu, pode-se argumentar, de uma crise


econômica do sistema colonial, mas, sim, de uma arguta percepção,
propiciada pelas Luzes, das novas condições políticas e mentais da segunda
metade do século XVIII, aguçada pela independência das treze colônias
inglesas da América e, posteriormente, pela Revolução Francesa, no seio de
uma reduzida elite governamental, liderada por Rodrigo de Souza Coutinho34.

Com a chegada da Corte ao Brasil em 1808 e a manutenção da figura de D. Rodrigo até


sua morte, em 1812, as atividades ilustradas continuaram, agora no Brasil35. Uma das primeiras
obras publicadas por essa instituição foi justamente a versão portuguesa do Ensaio sobre a
Crítica de Alexander Pope, traduzida por Fernando José de Portugal e Castro. Após cursar Leis
na Universidade de Coimbra, d. Fernando atuou como membro do Tribunal da Relação do Porto
e desembargado da Casa de Suplicação de Lisboa.

De forma semelhante ao irmão, que anos antes havia governado a Capitania da Bahia,
d. Fernando foi para lá indicado em 1788, posto em que atuou até 1801, ano de sua nomeação

31
Dados biográficos e informações sobre a trajetória de Rodrigo de Sousa Coutinho podem ser encontrados em:
SILVA, Andrée Mansuy-Diniz. Uma figura central da Corte Portuguesa no Brasil: D. Rodrigo de Sousa Coutinho.
In: MARTINS, Ismênia & MOTTA, Márcia (Orgs.). 1808 – A Corte no Brasil. Niterói: Editora da UFF, 2010.
POMBO, Nívia. Dom Rodrigo de Sousa Coutinho. Pensamento e ação político-administrativa no Império
Português (1778-1812). São Paulo: HUCITEC Editora, 2015.
32
NEVES, op .cit., p. 31.
33
Citado por Maxwell, A Devassa..., p. 329.
34
NEVES, Guilherme Pereira das. Como um fio de Ariadne no intrincado labirinto do mundo: a ideia do império
luso-brasileiro em Pernambuco (1800-1822). Ler História, Lisboa, nº 39, 2000. p.. 56.
35
Cf. DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Aspectos da ilustração no Brasil. In: ____. A interiorização da metrópole
e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2009. p. 67-69.

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para vice-rei no Rio de Janeiro36. Retornando a Portugal em 1806, atuou brevemente como
presidente do Conselho Ultramarino, mas, com a vinda Corte para o Brasil, assumiu e
conservou o cargo de Ministro de Estado do Príncipe Regente na América até o seu falecimento,
em 181737.

No Prefácio de sua tradução, D. Fernando afirma que após as traduções da Ars Poetica
de Horácio, da Poética de Aristóteles e da Arte Poética de Boileau, pensou

que seria tão bem hum serviço útil, e proveitoso verter em vulgar o Ensaio
sobre a Crítica de Alenxandre Pope, hum dos Poetas Inglezes mais correctos,
para os que desejão saber as regras, e preceitos de escrever bem em verso, e
julgar com acerto das composições poéticas, as podessem mais facilmente
apprender, lendo esta obra em nada inferior aquellas em mesmo gênero38.

Depois disso, o tradutor passa a apresentar um breve histórico da obra, desde o ano de
sua publicação até sua própria divisão interna. Outro aspecto importante ressaltado por D.
Fernando foi a recepção do Ensaio quando de sua publicação original. Sobre isso, ele comenta
que “logo que este Ensaio sahio á Luz, vários críticos o censurarao injustamente” e se refere,
por exemplo, a John Dennis. Apenas um mês após a publicação original do Ensaio, Dennis
escreveu “Reflections Critical and Satyrical, upon a late Rhapsody, call’d, an Essay upon
Criticism”, em que atacava tanto a obra quanto o seu autor39. A respeito das críticas, D.
Fernando afirma que eram “diferentes opusculos cheios de mordacidade, de jocosidade, e
motejos, querendo mostrar, que os preceitos erão falsos, ou triviaes”40. Ele também cita
comentários de Addison, Voltaire e Samuel Johnson sobre a obra.

Após comentar sobre as versões francesas e alemãs do Ensaio, D. Fernando apresenta


as discussões da época sobre a Tradução e afirma que “muito se tem questionado sobre as
traduções livres, e literais; e qual o melhor methodo de traduzir um Poeta, se em verso, se em
proza”41. Ele comenta as opiniões de diferentes letrados e tradutores do período moderno, como

36
Os trabalhos sobre sua atuação enquanto governador da Bahia são escassos e único que aborda o assunto é o de
REISEWITZ, Mariane. Dom Fernando José de Portugal e Castro: prática ilustrada na colônia (1788-1801.
Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
37
Para completa discriminação de seus cargos e ocupações ver: LIMA, Oliveira. Dom João VI no Brasil. Rio de
Janeiro: Topbooks, 2006. p. 125-129.
38
PORTUGAL, Fernando José de. Prefação. In: POPE, Alexander. Ensaio sobre a crítica. Traduzido em portuguez
pelo Conde de Aguiar. Com as Notas de José Warton, do Traductor, e outros; e o Commentario do Dr. Warburton.
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1810. p. I.
39
Cf. BAINES, op. cit., p. 13.
40
PORTUGAL, op. cit., p. II.
41
PORTUGAL, op. cit., p. VIII.

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Charles Batteaux, francês e tradutor de Epicuro, Aristóteles e Horário; Anne Dacier, tradutora
de Homero; o abade Desfontaines, autor da versão francesa de Virgílio, dentre outros. A
discussão girava em torno da forma de traduzir uma obra poética, se em verso ou em prosa. Ao
fim, ele conclui que

em ambas estas espécies de versões há inconvenientes, e das obrigações de


hum Traductor se podem facilmente conhecer onde se encontrão maiores. A
essência das traducções consiste principalmente na fidelidade, e na exacção;
e neste ponto se podem comparar com a História42.

Para resolver a questão, Fernando José de Portugal recorre à obra de Noel-Ettiene


Sanadon, padre e tradutor francês que viveu entre 1676 e 1733. Segundo D. Fernando, no
Prefário à sua tradução de Horácio, o padre francês defende que “a tradução de hum Poeta feita
em prosa terá toda a perfeição, que póde ter, quanto á fidelidade”43. Deste modo, o tradutor
português reconhece que “só me propuz fazer huma traduccção fiel, e bastantemente litteral,
deste Ensaio, quanto permite o gênio da Lingoa”44.

Por fim, D. Fernando trata das diversas edições das obras de Pope e se refere à edição
de nove volumes feita por Joseph Warton em 1797 e a de dez volumes feita por Gilbert
Wakefield em 1806. Quanto à sua tradução, ele afirma que

quanto ao Texto, que vai defronte da versão, segui quase sempre a edicção de
Warton; e traduzi as Notas, e ilustração, cortando, ou omitindo algumas
insignificantes, ou que não quadravão com os princípios da nossa Religião45.

Ao afirmar que suprimiu e omitiu trechos insignificantes ou que não se enquadravam aos
princípios da fé católica portuguesa, D. Fernando admite ter feito alterações no texto original e
em sua tradução.

***

Se este artigo apresentou mais questões do que pudemos responder, deve-se,


principalmente, ao fato de se tratarem de notas introdutórias a um objeto de estudo recente. Nas
últimas décadas, surgiram diversos estudos pioneiros sobre a história dos livros e da leitura na
Ilustração luso-brasileira, que enfatizavam sobretudo a circulação de livros e as práticas da

42
PORTUGAL, op. cit., p. VIII-IX.
43
PORTUGAL, op. cit., p. IX.
44
PORTUGAL, op. cit., p. X.
45
PORTUGAL, op. cit., p. XII.

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ANAIS DA 5ª. SEMANA DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
28 DE AGOSTO A 1º. DE SETEMBRO DE 2017

leitura46. Poucos, contudo, se debruçaram sobre a questão das traduções e seu papel na
circulação de ideias no contexto da Ilustração luso-brasileira.

A análise do Prefácio escrito por Fernando José de Portugal e Castro à versão portuguesa
do “Ensaio sobre a Crítica” lança luz sobre vários aspectos referente à própria atividade
intelectual de um homem ilustrado de sua época. Em primeiro lugar, aponta para um profundo
conhecimento da literatura inglesa e, sobretudo, da obra de Alexander Pope. Em segundo,
mostra-se a par das grandes discussões sobre o modo correto de se traduzir uma obra, se em
verso ou em prosa.

Por fim, D. Fernando, revela ter suprimido trechos do Ensaio de Pope considerados por
ele inadequados à fé católica do reino português. Que trechos foram esses? Quais aspectos do
“Ensaio sobre a Crítica” este ilustrado português considerou ofensiva à religião católica? Estas
já são questões para um outro artigo...

46
Podemos citar, dentre outros, os trabalhos de NEVES, Lúcia Maria Bastos. O comércio de livros e a censura de
ideias: a atividade dos livreiros franceses no Brasil e a vigilância da Mesa do Desembargo do Paço. Ler História,
Lisboa, n. 23, p. 61-78, 1992. VILLALTA, Luiz Carlos. Reformismo ilustrado, censura e práticas e leitura: usos
do livro na América portuguesa. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo,
1999. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Livro e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). Revista de História, São
Paulo, n. 94, p. 441-457, 1973. ALGRANTI, Leila. Livros de Devoção, Atos de Censura - ensaios de história do
livro e da leitura na América Portuguesa. São Paulo: Hucitec, 2004.

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