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O AUTO DA BARCA DO INFERNO de GIL VICENTE

Intenção do autor

Não é por acaso que Mestre Gil classifica o Auto da Barca do Inferno
como sendo uma «moralidade». De facto, a peça tem uma forte componente
didática, dado que propõe uma reflexão em torno das ideias de Bem e de
Mal, denunciando os vícios de todas as camadas sociais, não poupando os
ricos, nem mesmo a própria Igreja.
Ao colocar em cena um leque diversificado de personagens, Gil Vicente
segue, recorrendo à caricatura, a máxima latina ridendo castigat mores, isto
é, a rir se castigam os costumes. Deste modo, através do cómico e da
diversão, o dramaturgo pretende alertar para a crescente crise de
valores que a sociedade de então atravessava.
A este respeito. Paul Teyssier afirma: «A Barca do Inferno é uma peça
de riqueza excecional, desenrolando-se em vários planos e dilatando-se em
várias dimensões. É uma evocação de certos tipos sociais do Portugal
quinhentista. É também uma sátira feroz contra os grandes e os poderosos —
o aristocrata orgulhoso, o frade dissoluto, o juiz corrupto — mas não poupa
os pecadores de condição mais modesta. Ao mesmo tempo que uma
meditação terrificante sobre os mistérios do Além, é uma peça de franca
comicidade.»

Mário Fiúza, in Análise do Auto da Barca do Inferno