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Movimento - Ano III - N.

4 - 1996/1

Reflexão sobre a História da


Educação física no Brasil1
UMA ABORDAGEM HISTORIOGRÁFICA

*Victor Andrade de Melo

Nos últimos anos, tem sido possível no entanto, ser perceptíveis discussões e re-
observar um significativo aumento nas preo- flexões relativas à qualidade, natureza e espe-
cupações relativas à história no âmbito da Edu- cificidades dessa produção. Desde Américo
cação Física brasileira. Depois de anos viven- Neto e Laurentino Bonorino5, passando por
do quase exclusivamente dos estudos do pro- Inezil Penna Marinho e chegando às obras da
fessor Inezil Penna Marinho2, a partir da dé- década de 80/90, não se tem privilegiado dis-
cada de 80 um crescente número de iniciati- cussões que procurem compreender como essa
vas ligadas à História da Educação Física são história tem sido escrita, o que, no meu ponto
destacáveis. Entre outras: a obra do professor de vista, pode estar contribuindo para a cons-
Lino Castellani Filho3 encontra-se entre as trução desordenada da História da Educação
mais lidas na Educação Física brasileira; exis- Física no Brasil, dificultando um salto de qua-
tem dois cursos de pós-graduação stricto sensu lidade dessa produção e minimizando as con-
em Educação Física que possuem linhas de tribuições que pode conceder para o estudo e
pesquisa específicas para discutir a história compreensão da Educação Física brasileira.
(Universidade Gama Filho e Universidade Es-
tadual de Campinas), além de muitos profissi- Em estudos anteriores, tentei, intro-
onais de nossa área cursarem suas pós-gradu- dutoriamente, desenvolver algumas reflexões
ações em universidades que possuem linhas no sentido de encaminhar essas discussões,
dedicadas à História da Educação (como na seja fazendo uso da própria história de nossa
Pontifícia Universidade Católica - São Pau- história6, alertando para a necessidade de pre-
lo); existe um grupo de estudos sobre História encher inúmeras "lacunas históricas"7 ou pro-
do Esporte, Educação Física e Lazer, reconhe- pondo e demonstrando as possibilidades de
cido pelo Conselho Nacional de Pesquisa, fun- alternativas metodológicas8. Aqui, neste estu-
cionando na Universidade Estadual de Cam- do, pretendo aprofundar e sistematizar essas
pinas; além disso já foram realizados três en- reflexões a partir de uma análise do atual mo-
contros nacionais específicos para discutir o mento dos estudos históricos na Educação Fí-
assunto4. sica brasileira. Para isso, faço uso primordial
das coletâneas dos dois primeiros encontros
A esse aumento de preocupações rela- nacionais específicos de história, e também das
tivas à história, refletido diretamente no au- produções na área de História da Educação
mento da produção científica, não parecem, Física, sejam livros, trabalhos apresentados em

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congressos nacionais e capítulos de livros/ sibilidade de análise dos aspectos ideológicos,


monografias que tive acesso. Devo também mas considero que é possível inferir e desven-
explicitar que estou bastante influenciado pe- dar tais aspectos no interior das opções meto-
las idéias de Mirian Jorge Warde (1990) acer- dológicas/epistemológicas. Como opção de a-
ca dos problemas na História da Educação, nálise, então, sem a preocupação de filiar-me
embora em determinados momentos venha a incondicionalmente, considero-me influencia-
optar por caminhos diversos na análise. do pelos movimentos de redimensionamento
da história9, principalmente suas considerações
Assim este trabalho pretende ser um a partir da década de 60.
estudo historiográfico, acreditando que a
historiografia não é somente o reflexo da His- Quero, antes de mais diretamente me
tória, mas deve ser uma análise epistemológi- reportar à História da Educação Física, fazer
ca e ideológica que vai permitir o retomar e o algumas ressalvas. A justificativa pautada na
redimensionar dos caminhos dos estudos his- recência de nossos estudos na área de histó-
tóricos, apontando possíveis problemas e pos- ria, que explicaria seu desenvolvimento ainda
A esse aumento sibilitando o "arriscar" de sugestões. Warde embrionário e sua fragilidade metodológica,
de preocupações {op.cit.) esclarece que os conceitos de além de comprovar o desconhecimento de
historiografia não são unânimes entre os his- nossa produção, principalmente das décadas
relativas à de 40 a 60, não pode servir para obliterar a
toriadores, estando diretamente ligados aos
história, refletido seus conceitos de História; mas, em geral, en- necessidade imperiosa de superação qualita-
diretamente no tre os historiadores antipositivistas, a historio- tiva. O respeito e a consideração pelo que foi
aumento da grafia tende a ser definida "não como reflexo produzido até os dias de hoje não podem subs-
especular da História, porque a ela são dele- tituir ou impedir a rigorosa crítica permanen-
produção te (tão rigorosa quanto possível for) que deve
científica, não gadas funções específicas, cujos resultados
devem repercutir na própria História" (p.4). ser efetuada.
parecem, no
entanto, ser Este estudo não pretende, logo, ser um Ressalvo também que, não sendo his-
levantamento de autores, obras e seus resu- toriador de profissão e só recentemente me
perceptíveis
mos. Sem descartar a priori a importância des- tendo iniciado nos exercícios e meandros da
discussões e história/História, tenho consciência de minhas
sa iniciativa, inclusive porque de alguma for-
reflexões relati-
ma possibilita conhecimento de nossa produ- limitações no que se refere ao estudo da
vas à qualidade, ção no campo da História, aqui pretendo, fun- historiografia. Assim sendo, minhas conside-
natureza e damentalmente, identificar as especificidades rações podem ser precárias, mas com certeza
epistemológicas no atual momento de nossos não pretendem ser menos rigorosas e funda-
especificidades
estudos históricos, apontando, a partir daí, su- mentadas. Sua complementação deve dar-se
dessa produção. no próprio exercício dos que se têm dedicado
gestões, vislumbrando a possibilidade de in-
terferir e influenciar nos caminhos a serem tri- ao estudo de nossa história, a partir de suas
lhados a partir de então. Primordialmente, pre- vivências práticas enquanto historiadores e de
tendo identificar como se tem dado a vin- estudos teóricos na área.
culação de nossos estudos com as teorias e
discussões na área de História e como, a par- Embora não se possa negar o avanço
tir daí, tem-se dado o elencar e o utilizar de qualitativo e quantitativo dos estudos históri-
procedimentos metodológicos. cos em nossa área, não se pode deixar de per-
ceber alguns problemas, principalmente de
Desde já, considero que as escolhas, ordem metodológica/epistemológica. Penso
intencionais ou não, de ordem metodológica/ que existam reconstruções e reformulações a
epistemológica têm um peso fundamental na serem executadas e aqui pretendo apresentar
escrita da história. Isto é, embora a identifica- algumas dessas possibilidades, obviamente a
ção das tendências políticas do historiador não partir de meu ponto de vista historiográfico e
seja abandonável, suas escolhas de técnicas de minha visão de História, não tendo a pre-
narrativas e formas de análise têm implicações tensão de determinar, de forma definitiva, os
sociais e políticas claras. As percepções ideo- empreendimentos que devem ser efetuados.
lógicas tornam-se, então, mais sutis e mais in-
teriores ao campo de conhecimento da Histó- Warde (op.cit.), refletindo sobre a His-
tória da Educação, afirma que o presentismo
ria (Hunt, 1992). Assim não abandono a pos-

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pragmatista ocupou espaço central nos estu- tuação semelhante, no que se refere a sua uti-
dos da área, espaço até mesmo maior que o lidade como justificativa do presente, por
positivismo. Ao proceder uma análise em exemplo, em capítulos introdutórios de alguns
nossa área, parece confirmar-se procedimen- estudos, muitas vezes dedicados a um estudo
to semelhante. E interessante perceber que a histórico. Normalmente desconexos do con-
História foi/é utilizada fundamentalmente a texto central dos estudos, a presença desses
partir de sua utilidade para justificar o pre- capítulos normalmente se dá na tentativa de
sente, a partir de uma compreensão linear de mostrar que o problema levantado nada mais
causa e conseqüência em que o presente nada é que reflexo do passado. Além dessa contro-
mais é que o reflexo e a soma do que ocorreu versa impropriedade teórica, esses capítulos,
no passado. inclusive por não serem o alvo central do es-
tudo, recebem uma atenção menor por parte
Creio ser interessante refletir sobre a do autor, apresentado sem uma reflexão
presença da História na Educação Física historiográfica mais profunda, reproduzindo
brasileira. Na formação profissional, por inclusive os esquemas históricos tradicionais,
exemplo, percebemos a presença de cadeiras normalmente justificada "por ser somente um Na verdade,
ligadas à História da Educação Física desde capítulo introdutório". penso que a
os primeiros currículos e primeiras História da
escolas/cursos de formação'0. Mas qual seria Assim esses capítulos introdutórios não
o sentido dessa cadeira no conjunto de contribuem nem com o entendimento do pro- Educação Física
outras como fisiologia, anatomia, ginástica e blema central do seu estudo, nem com a His- precisa encontrar
desportos? Em geral, na formação profis- tória da Educação Física, contribuindo antes sua definição e
sional em nossa área, as disciplinas encon- para sua desorganização e desorientação. Es- seu espaço,
travam-se divididas em teóricas e práticas, ses capítulos, se não têm sentido no conjunto
da obra e se não merecem uma preocupação abolindo a
podendo também observar-se que as disci-
plinas práticas eram divididas em médicas e maior, podem ser perfeitamente retirados e/ compreensão de
não-médicas11. A cadeira de História da ou utilizados no interior das considerações em que todo
Educação Física era considerada teórica geral. Não há nada que obrigue ou impeça a amontoado de
não-médica, embora, algumas vezes, fosse existência de um capítulo inicial dedicado à datas e fatos,
ministrada por médicos12. história, mas, caso exista, deve receber o mes-
mo cuidado que os outros e partir de uma cui- colocados em
Independente da dicotomização teo- dadosa reflexão teórica historiográfica. qualquer
ria-prática, as disciplinas tinham em comum momento, mesmo
o fato de serem orientadas diretamente para Na verdade, penso que a História da que seja com uma
a formação de um profissional inicialmente Educação Física precisa encontrar sua defini-
pretensa
considerado mais como um técnico do que ção e seu espaço, abolindo a compreensão de
que todo amontoado de datas e fatos, coloca- abordagem
como um professor (Faria Júnior,1987;
Melo, 1995). Assim as disciplinas estavam dos em qualquer momento, mesmo que seja crítica, é história.
preocupadas em dar conhecimentos aplicá- com uma pretensa abordagem crítica, é histó-
veis na prática que tivessem utilidade ope- ria. A História da Educação Física precisa
racional direta. E interessante observar, tam- encontrar uma especificidade e uma qualida-
bém, que um prestígio diferenciado era des- de que a destaque, e isso deve ser preocupa-
tinado às cadeiras, gozando de maior pres- ção central daqueles que estudam mais siste-
tígio as cadeiras teóricas e médicas13. A ca- maticamente a história, construindo exemplos
deira de História da Educação Física ocu- também para aqueles que eventualmente fa-
pava um lugar intermediário, já que, embora zem seu uso.
fosse teórica, era não-médica. Era uma
eminência parda das disciplinas médicas, in- Parto de uma premissa principal: a His-
clusive por ser considerada de "uma utili- tória da Educação Física precisa romper quais-
dade prática menor". Nesse contexto, sua quer fronteiras e resistências, descobrindo seu
utilidade estava exatamente em encontrar lugar no vasto campo de conhecimento da
justificativas para o presente, referendando História. Isto é, a História da Educação Física
os projetos de educação física emergentes. é antes de tudo História, e seu lugar na Educa-
ção Física está em, utilizando os referenciais
Hodiernamente, é possível perceber si- e constructos teóricos da História, ter a Edu-

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cação Física como objeto de estudo. A Histó- Partindo dessa premissa, nesse momen-
ria da Educação Física, no momento que tem to, as preocupações metodológicas/episte-
a Educação Física como objeto de estudo, con- mológicas devem ocupar lugar central nos es-
tribui para as discussões pertinentes a esta, tudos históricos em nossa área. A História tem
mas, para isso, faz uso da História. Penso que caminhado notoriamente e redimensionado
a História da Educação Física seja uma das constantemente seu campo e forma de atua-
especializações da História, se considerado o ção,16 e as possibilidades abertas nesse pro-
aspecto temático'4. cesso parecem ainda não ter sido considera-
das profundamente no âmbito de nossos estu-
Enquanto estudo de um dos temas do dos. Ao orientar nossa produção histórica em
campo de conhecimento da História, um dos consonância com o momento historiográfico
elementos da multiplicidade do real históri- em geral, ampliando nossas possibilidades teó-
co, a História da Educação Física também tem rico-metodológicas, devemos ter cuidado para
Enfim, é a contribuir com a História, não só por apon- que não venhamos a aceitar passivamente as
tar novas possibilidades temáticas, mas com "novas propostas", acreditando que, por si só,
fundamental são suficientes para redimensionar o campo
a utilização de procedimentos metodológicos
que e reflexões; não só contribuindo para a com- de estudo da História da Educação Física no
preocupações preensão da complexidade histórica, como Brasil. Antes devemos estar atentos às possí-
quanto à também com novos procedimentos para efe- veis críticas a essas "novas propostas", fazen-
tivar essa compreensão. Os estudiosos da do um "desconfiado" uso, sempre prontos a
fragmentação da questionar suas reais contribuições17.
Educação Física História da Educação Física não devem des-
conhecer que
não venham a Um exemplo da carência dessas preo-
impedir a No momento, a história do Brasil parece defrontar-se cupações pode ser encontrado na utilização de
História
com um enorme desafio. É preciso encontrar uma so- fontes. Ao analisarmos os trabalhos ligados à
lução para um problema complexo: a produção histó- História da Educação Física nas décadas de
da Educação rica deve aproveitar toda a experiência existente (do
ponto de vista teórico-metodológico, do ponto de vista 80/90, correndo o risco das generalizações,
Física de se do trabalho crítico das fontes, etc.) (Borges, 1993, uma constatação básica parece clara: a utili-
p.82).
desenvolver no zação quase que exclusiva de fontes de natu-
seio da História, A História da Educação Física terá reza idêntica. Nesses estudos, é fácil perceber
também, nesse esforço de delineamento, que que o documento escrito tradicional é o prio-
já que isso não
lidar com os problemas relativos à indefi- ritariamente utilizado, não sendo possível per-
significará o ceber grandes iniciativas no uso de fontes de
nição do campo de conhecimento da Edu-
abandono da
cação Física. Não descartando essas discus- natureza oral, iconográfica, músicas e fontes
Educação sões, nem a contribuição da História para literárias. A utilização de fontes involuntárias
Física, antes o elas, uma solução momentânea estaria em é bem pequena, bem como de fontes primári-
explicitar os limites que vem a considerar as18. A maioria dos estudos vale-se de autores
contrário, a
como Educação Física. Penso que um ca- consagrados na década de 8019. O uso de fon-
potencialização tes anteriores a 1950/1960 não é comum. Mes-
minho seja delimitar o que é interessante
de sua para o estudo da própria definição da Edu- mo em se tratando de uso primordial de fon-
contribuição cação Física e de suas fronteiras móveis tes escritas, não se percebe grande utilização,
como objeto de interesse. Particularmente, por exemplo, de periódicos20.
por exemplo, não penso em dispensar a
priori o esporte e mesmo outras manifesta- Longe de afirmar que tais fontes e re-
ções da cultura corporal15, como o teatro, ferenciais não servem para o estudo da nossa
desde que sua relação se dê no âmbito do história, creio que a utilização de fontes mais
interesse da área de Educação Física. diversas, mais primárias e de outra natureza
podem contribuir para evitar unanimidades ou
Enfim, é fundamental que preocupa- dicotomizações na forma de interpretar nossa
ções quanto à fragmentação da Educação Fí- história, tornando-a de compreensão mais
sica não venham a impedir a História da Edu- múltipla.
cação Física de se desenvolver no seio da His-
tória, já que isso não significará o abandono Também é preciso que estejamos mais
da Educação Física, antes o contrário, a poten- atentos à nossa própria história e às "lacunas"
cialização de sua contribuição. ainda existentes nela. Não podemos deixar de

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descobrir e estudar novas "lacunas", além de obliterem a especificidade de sua contribui-


redescobrir e reestudar, sobre novas óticas, ção. É comum que a história seja uma seqüên-
antigas constatações. Aproveito para ressaltar cia de novas leituras do passado, plenas de
que os fatos e as datas, os acontecimentos, têm perda e ressurreição, falhas de memória e re-
adquirido um novo sentido e importância para visões, ocasionadas pela busca incessante da
muitos historiadores. As críticas à cronologia verdade e da objetividade. Talvez um pouco
já foram relativizadas, e percebe-se cada vez mais de desconfiança e um pouco menos de
mais novas formas de narrativa que conside- linearidade e unanimidade nos possa ser mui-
rem essa importância21. Creio que estamos to útil. Trabalhar um pouco mais as contradi-
correndo o risco de estar escrevendo nossa ções, nas fronteiras, com as ambigüidades e
história sem conhecer o que já foi escrito até inexatidões, que, segundo Paul Ricoeur, são
então: equívocos bem fundamentados que caracteri- Mas, de
zam e justificam o difícil trabalho do historia- qualquer forma,
Não é cabível, por exemplo, que estudos que se preten- dor.
dam históricos sejam arquitetados com base no desco- penso que um
nhecimento do que já foi produzido na área sobre os bom começo está
mesmos temas já escolhidos. (Warde, op.cit, p.6) A história só é história na medida em que não consente
nem no discurso absoluto, nem na singularidade em, como tentei
absoluta...a história é essencialmente equívoca, no sen-
Devemos também estar atentos para tido de que é virtualmente evenementielle e virtual- apontar neste
não confundir uma compreensão histórica que mente estrutural...a história quer ser objetiva e não estudo, orientar
pode sê-lo. Quer fazer reviver e só pode reconstruir.
tenha direta ligação com a vontade de trans- Ela quer tornar as coisas contemporâneas, mas, ao os caminhos da
formar e interferir na realidade social com mesmo tempo, tem de reconstituir a distância e a pro-
outra que a confunda com empenho político a fundidade da lonjura histórica. (Ricoeur apud. Le Goff, História da
op.cit., p.21) Educação Física
priori. Esse esforço deve estar aliado a outro
no sentido de repensar a relação entre a histó- Não me sinto seguro, ainda, para, como
em consonância
ria que estamos escrevendo e aquela vivida, Warde (op.cit), fazendo uma analogia com a com o
ocorrida. Penso que a relativização da verda- História da Educação, afirmar que se deve desenvolvimento
de não pode significar o abandono de sua bus- optar pelo
ca, nem tão pouco a substituição de uma ver- do campo de
dade estabelecida por outra a ser aceita a par- conhecimento da
Racionalismo e o realismo de uma epistemologia que
tir de então. Ao reconhecermos a possibilida- indica o abandono da tese das ciências da educação História. Penso
de de certas regularidades, não podemos cor- em nome de uma ciência unitária dos fatos humanos
e que aponta na direção da História como ciência so- que é necessário
rer o risco de sermos deterministas ou linea- cial total. (Warde, op.cit, p.9) encarar essa
res ao extremo. Saídas para isso podem estar
numa consideração mais profunda das dife- possibilidade, sob
Mas, de qualquer forma, penso que um
renças e na constante preocupação com o afas- bom começo está em, como tentei apontar nes- o risco de
tamento entre "história vivida" e "história es- te estudo, orientar os caminhos da História da dificilmente
crita", que pode impedir que nosso exercício Educação Física em consonância com o de- aproximar-se
acabe inserindo-se no campo da filosofia da senvolvimento do campo de conhecimento da mais
história22. História. Penso que é necessário encarar essa
efetivamente do
possibilidade, sob o risco de dificilmente apro-
Com muita freqüência, os historiadores fazem, incons- ximar-se mais efetivamente do alcance de seus alcance de seus
cientemente, sem saber, teoria ou ideologia em seu
trabalho, e é preciso tomar consciência ou fazer com objetivos e contribuições para a Educação Fí- objetivos e
que se tome consciência desse latente teórico. (Le Goff, sica brasileira. contribuições para
1990, p.5.)
a Educação Física
Por fim, creio que os estudos históri- REFERENCIASBIBLIOGRÁFICAS________ brasileira.
cos têm muito a contribuir para a Educação
Física brasileira, permitindo interpretações de BONORINO, Laurentino et al. Histórico da
seus processos e caminhos no decorrer do tem- Educação Física. Vitória: Imprensa Ofi-
po, lançando luz nas discussões contemporâ- cial, 1931.
neas e, diriam alguns, até mesmo contribuin-
BORGES, Vavy Pacheco. O que é História.
do no perspectivar do futuro. Mas é perigoso
São Paulo: Brasiliense, 1993.
que, para isso, venha a coadunar com uma
perspectiva linear causa-conseqüência ou a BURKE, Peter. A Escola dos Annales. São
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NOTAS ________________________________ nal de História do Esporte, Lazer e Educação Fí-
1 sica. Ponta Grossa: UEPG, 1994; MELO, Victor
Neste estudo, o termo História da Educação Físi Andrade, DINI, Patrícia. Novos e antigos documen-
ca quer significar uma área de estudos. Explico isso tos para a História da Educação Física no Brasil:
para que não se confunda com o termo "história da um levantamento na Biblioteca Nacional. Revista
Educação Física", que cunhado com inicial minús Brasileira de Ciências do Esporte, volume 17, nú-
cula, quer significar os acontecimentos ocorridos mero 1, set/95.
nesse corte institucional. 9
2 Exemplifico alguns desses movimentos: a influ
Maiores informações sobre a obra do Prof. Inezil ência do marxismo, os movimentos de redimensio
Penna Marinho e sua contribuição para os estu namento da influência do marxismo sobre uma óti
dos históricos na Educação Física brasileira po ca mais cultural, o movimento da Escola dos
dem ser obtidas em "MELO, Victor Andrade. His Annales em todos os seus momentos e, mais recen
tória da História da Educação Física no Brasil: temente, a História Cultural. Considerando as di
perspectivas e propostas para a década de 90. ferenças, aponto algumas relevâncias desses mo
Revista Brasileira de Ciências do Esporte, volu vimentos: a negação dos limites sacralizados das
me 16, número 2, jan./1995" e "MELO, Victor ciências sociais; a preocupação com uma história
Andrade. O Professor Inezil Penna Marinho e a problema; a preocupação com as repercussões da
História da Educação Física no Brasil. Anais do história no presente; a preocupação com o sujeito;
V Simpósio Paulista de Educação Física, Rio a preocupação com as minorias.
Claro, UNESP, 1995". 10
Maiores informações podem ser obtidas no estu
3
CASTELLANI FILHO, Lino. Educação Física do de Melo (1995, op.cit).
no Brasil: a história que não se conta. Campinas: " Maiores informações podem ser obtidas em
Papirus, 1988. "MELO, Victor Andrade. Escola Nacional de Edu-
4
O I Encontro Nacional de História do Esporte, cação Física e Desportos: uma possível história.
Lazer e Educação Física foi realizado em Campi Dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP,
nas (1993); o segundo encontro foi realizado em 1995."
Ponta Grossa (1994); e o terceiro, em Curitiba 12
Por exemplo, o Dr. Aluísio Aciolli foi o primeiro
(1995). Esse Encontro possui a peculiaridade de professor responsável pela cadeira na Escola Na
publicar todos os trabalhos na íntegra, facilitando, cional de Educação Física e Desportos.
assim, a análise do material produzido. 13
Maiores informações podem ser obtidas no estu
5
Américo Neto foi professor da cadeira "História do de Melo (1995, op.cit).
da Educação Física" na Escola de Educação Física 14
Maiores informações relativas às especializações
de São Paulo desde sua criação, em 1924. da História podem ser obtidas no estudo de Ciro
Laurentino Bonorino foi um dos autores responsá Flamarion Cardoso (1990).
veis pelo primeiro livro publicado sobre o assunto 15
Aqui não vou entrar em discussões maiores so
no Brasil, "Histórico da Educação Física" (1931).
bre o conceito de cultura corporal, termo que ulti
Bonorino foi também um dos precursores e orga
mamente tem sido muito utilizado na Educação
nizadores da Educação Física no Estado do Espíri
Física brasileira, mas penso que deva merecer mai
to Santo
6
ores estudos relativos a sua definição.
Melo (1995, op.cit.). 16
Entre outros, aponto os questionamentos à epis-
~: MELO, Victor Andrade de. Turfe: o 'sport' bra- temologiaracionalista-científica-objetiva, o aban
sileiro do século XIX. In: MEZZADRI, Fernando dono da dimensão macroexplicativa, a possibili
Marinho. Coletânea do III Encontro Nacional de dade de utilização de novos objetos, o surgimento
História do Esporte, Lazer e Educação Física. de novos temas, a recuperação da dimensão subje
Curitiba: UFPR, 1995; MELO, Victor Andrade de. tiva, a relativização do conceito de verdade, a crí
Primórdios da Educação Física escolar: uma revi- tica à tradição marxista ortodoxa, a crítica à
são inicial da literatura. Anais do I Congresso Na- linearidade evolutiva do processo histórico, a uti
cional de Ensino Fundamental, Rio deJaneiro, Co- lização da crítica literária.
légio Pedro II, 1995. s MELO, Victor Andrade. 17
Maiores informações sobre críticas e ressalvas
Arte popular e novas sobre o "novo" podem ser encontradas em Michel

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Movimento - Ano III - N. 4 - 1996/1

Zaidan Filho (1989) e Sílvia Petersen (1992). historiador, para os jovens e para o grande público
18 (p.7).
Ver o conceito de fontes voluntárias/involuntárias,
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bem como primárias/secundárias em Cardoso Segundo Le Goff (op. cit.), a filosofia da história
(op.cit.). ...tendência, nas suas diversas formas, para levar a
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Os autores mais citados são Lino Castellani Fi explicação histórica à descoberta ou à aplicação de
lho (1988); Carmem Lúcia Soares (1990,1994); uma causa única e original, para substituir o estudo
pelas técnicas científicas de evolução das socieda-
Ademir Gebara (1989) e Mauro Betti (1991). des, sendo essa evolução concebida como abstração
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A discussão acerca de fontes/documentos na baseada no apriorismo ou num conhecimento muito
Educação física brasileira encontra-se melhor de sumário dos trabalhos científicos (p.19).
senvolvida no estudo de Melo e Dini (1995, O autor, longe de negar a priori a filosofia da his-
op.cit.). Também no estudo de Melo (1994, op.cit.), tória, chama atenção para o fato de que, como não
pode-se encontrar discussões dessa natureza. é histórica, muitas vezes acaba por desvirtuar e
21 ideologizar o conceito de História. Acredita, en-
Peter Burke (1992) resume bem as discussões
que se tem estabelecido no interior da História: tão, que a História deva introduzir, por outras vias
que não a ideologia e respeitando a imprevisi-
A oposição tradicional entre os acontecimentos e as
estruturas está sendo substituída por um interesse por bilidade do futuro, o horizonte do futuro na refle-
seu inter-relacionamento, e alguns historiadores estão xão.
experimentando formas narrativas de análise ou for-
mas analíticas de narrativa (P.30).
UNITERMOS
Também Jacques Le Goff (1990) crê que a crono-
logia... História da Educação Física; Historiografia
...continua sendo um conjunto de referências que sem
dúvida deve ser enriquecido, flexibilizado, moderni- *Victor Andrade de Melo é Mestre em Educação
zado, mas que permanece fundamental para o próprio
Física pela UNICAMP.

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