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Versão do Professor

Aula 1 – Proposta de Plano de Aula

O presente plano de aula pode levar de 5 a 6 horas-aula para ser desenvolvido, tudo
dependerá do trabalho de debate realizado por cada professor e o nível de participação dos
alunos. Vocês podem observar que, apesar de estarmos falando de disciplinas diferentes, as
habilidades conversam entre si e convergem para um mesmo ponto: a reflexão sobre a
necessidade de um fazer colaborativo para a obtenção de políticas públicas eficientes para a
gestão dos recursos hídricos e a manutenção da vida na Terra.

1º Momento

Em um primeiro momento, reúna os alunos em pequenos grupos e apresenta a charge


abaixo:

Texto 1

Após a apresentação da charge, solicitar aos mesmos que, durante 15 minutos, debatam e
registrem qual o tema proposto pelo construtor da charge, bem como qual a crítica apresentada
pelo mesmo. Em seguida, compartilhe com a sala o que cada grupo formulou.

2º Momento

Verificaremos que os alunos apontarão para a falta de água e as promessas comuns feitas
pelos políticos. Nesse momento, faz-se interessante apresentar os seguintes trechos dos textos
escritos “Lar do Desperdício” e “Falta de água no organismo gera doenças”, associados a uma
segunda charge. (textos 2, 3 e 4)

Você pode tanto pedir que um aluno leia, ou mesmo, você pode ler para a sala. Estes
textos serão importantes para estabelecer um paralelo entre as questões políticas, sociais,
culturais e de saúde que estão aliadas à temática água.
Texto 2
“Lar do desperdício
De acordo com as Nações Unidas, crianças nascidas no mundo desenvolvido consomem
de 30 a 50 vezes mais água que as dos países pobres. Mas as camadas mais ricas da população
brasileira têm índices de desperdício semelhantes, associados a hábitos como longos banhos ou
lavagem de quintais, calçadas e carros com mangueiras.
O banheiro é onde há mais desperdício. A simples descarga de um vaso sanitário pode
gastar até 30 litros de água, dependendo da tecnologia adotada. Umas das mais econômicas
consiste numa caixa d'água com capacidade para apenas seis litros, acoplada ao vaso sanitários.
Sua vantagem é tanta que a prefeitura da Cidade do México lançou um programa de conservação
hídrica que substituiu 350 mil vasos por modelos mais econômicos. As substituições reduziram de
tal forma o consumo que seria possível abastecer 250 mil pessoas a mais. No entanto, muitas
casas no Brasil têm descargas embutidas na parede, que costuma ter um altíssimo nível de
consumo. O ideal é substituí-las por outros modelos.
O banho é outro problema. Quem opta por uma ducha gasta até 3 vezes mais do que
quem usa um chuveiro convencional. São gastos, em média, 30 litros a cada cinco minutos de
banho. O consumidor - doméstico, industrial ou agrícola - não é o único esbanjador. De acordo
com a Agência Nacional de Águas, cerca de 40% da água captada e tratada para distribuição se
perde no caminho até as torneiras, devido à falta de manutenção das redes, à falta de gestão
adequada do recurso e ao roubo.
Esse desperdício não é uma exclusividade nacional. Perdas acima de 30% são registradas
em inúmeros países. Há estimativas de que as perdas registradas na Cidade do México poderiam
abastecer a cidade de Roma tranquilamente.”

Texto 3
“(...) Falta de água no organismo gera doenças

Você sabia que muitas pessoas têm problemas de saúde provocados pela falta de água no
organismo, e sem saber vivem tomando remédios, gastando dinheiro e se intoxicando com
drogas, tentando curar esses problemas, sem conseguir. Na verdade precisam de água e não de
remédios. Somente tomando bastante água poderão resolver seus problemas de saúde. Será que
você está entre as pessoas que bebem pouca água?

Beber Bastante Água


O seu corpo é formado de 65% de água. E essa água precisa ser renovada continuamente,
a cada hora. Todo funcionamento do seu organismo depende de água:
As reações químicas
A respiração
A circulação
O funcionamento dos rins
A desintoxicação
A digestão
Os sistemas de defesa
A pele
Quando falta ou existe pouca água no corpo, todo o funcionamento do organismo fica
prejudicado. Beber bastante água todos os dias, faz com que o organismo fique mais equilibrado,
mais resistente, funcionando melhor em todas as áreas, e também contribui para a cura de
qualquer problema de saúde existente.
O corpo não possui condição de armazenar a água, por isso a quantidade de água perdida
a cada 24 horas deve ser reposta para manter a saúde. Na maioria dos casos, recomenda-se
diariamente, para os adultos, beber uma quantidade de 2,5 litros por dia.”

Texto 4

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Depois de realizarmos a leitura dos quatro textos, faremos questionamentos abertos aos
alunos.

Para evitar a bagunça e a desordem, seria interessante dispor os alunos em círculo, sob a
proposta de roda de conversa.

Apresentar as seguintes questões:

A água é importante para a manutenção da vida na Terra? Qual sua importância de acordo
com o que vimos até agora?

Deixar que eles pontuem amplamente.

Questionar, em seguida, de quem é a responsabilidade sobre a gestão e preservação dos


recursos hídricos.

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3º Momento

Neste terceiro momento, assista com os alunos os vídeos “série especial do SBT...” e
“carta de 2070...”, após, solicitar aos mesmos que voltem aos seus grupos, pois deverão
sistematizar o seu conhecimento. Para tanto, entregará a estes a tabela abaixo, a qual deverão
completar de modo a deixar claro que conseguiram (ou não) depreender o cerne das discussões.
O preenchimento da tabela deve ser monitorado e mediado por você, Mi. Uma vez que os alunos
podem apresentar dúvidas quanto a como preencher cada uma das lacunas.

Preencherei algumas linhas para que sirvam de norte para a orientação a ser dada aos
alunos.

Ação da
Problemas Consequências que Gerarão Ação do
População
Associados Marcas Históricas / Governo para a
Causa(s) para a
ao Tema Fatores de Risco à Resolução do
Resolução
Água Manutenção da Vida Humana Problema
do Problema
Construção
Implantação de
Descarte de Sistemas
Poluição de Sistema de
incorreto de Destruição das Nascentes de Captação
Nascentes Tratamento de
esgoto de Esgoto
Esgoto
(Ex.: fossas)
Políticas de
Fim dos Reservatórios de Água, Incentivo às
Escassez de Redução do
Desperdício Desidratação, surgimento de Pessoas que
água consumo
doenças diversas reduzem seus
gastos
Mobilizar-se
para cobrar Criação de
Morte de Grande Parte da do governo Campanhas de
Escassez de Falta de
População, ações mais Conscientização
Alimentos Irrigação
Desnutrição rígidas o uso sobre o
dos recursos Consumo
hídricos
Emissão de Protestos e Criação de
agrotóxicos Morte da Vida Animal e Vegetal, Manifestações Sistema mais
Poluição de de Intoxicação, surgimento de de Repúdio / rigoroso de
Rios plantações doenças dermatológicas e Denúncia aos punição a
à beira dos mutações genéticas órgãos criminosos
rios responsáveis ambientais

Obs.: a tabela acima configura o exercício prático de sistematização do conhecimento. Por meio
dele, será possível aferir se eles entenderam ou não e depois registrar a nota. Os alunos não
precisam, obrigatoriamente, preencher todos os quadrantes. Com certeza, terão dúvida em
relação a alguns aspectos. Porém, no momento da socialização dos trabalhos, você pode sugerir
que o grupo colabore de modo a completar as lacunas existentes.
Cabe salientar também, que um mesmo problema pode ter várias causas, consequências e
possibilidades de intervenção. Sendo assim, o aluno pode registrar mais de uma vez a mesma
problemática, mas apresentando outras variantes nos quadros complementares. O interessante é
eles pararem para pensar e tentarem associar todos os fatores discutidos em única tabela.

4º Momento

Nesta última etapa, você fará a montagem de uma tabela ampliada em uma
cartolina, apresentando as melhores propostas criadas por cada grupo. Bem como a associação
desta a um mural com as atividades resultantes do 3º momento. Isto deverá ser guardado para
me dar depois.
Anexo 1

ÁGUA: UMA QUESTÃO PARA O MUNDO TODO

Tal como no Nordeste brasileiro, há diversos pontos do mundo em que a escassez hídrica é motivo de êxodo
da população e alvo de políticas públicas. Em termos globais, a oferta de água corre o risco de entrar numa
crise profunda, pressionada cada vez mais pelo crescimento demográfico, pelas mudanças climáticas, pela
contaminação de fontes e pelo desperdício. A crise é menos uma questão de insuficiência real, e mais de
mau gerenciamento do uso dos recursos hídricos. A falta de água afeta não só a saúde humana, mas também
o desenvolvimento socioeconômico da sociedade e o rumo das relações entre nações.
Diante do cenário em que a escassez hídrica atinge 11% da população mundial, a Unesco (entidade da ONU
voltada para a educação, a ciência e a cultura) declarou que 2013 é o Ano Internacional de Cooperação pela
Água. A iniciativa tem o objetivo de alertar para a necessidade de administrar melhor as fontes de água, que
estão sendo afetadas pelo aumento do consumo e pelo uso desequilibrado desse recurso fundamental. As
perspectivas são preocupantes: a ONU estima que, se as políticas em relação à água não mudarem, 1,8
bilhão de pessoas estarão vivendo em zonas muito secas e dois terços da humanidade estarão sujeitos a
alguma restrição no acesso à água em 2025.
Crise silenciosa
O planeta já enfrenta uma crise de abastecimento de água, apesar de isso não significar que o líquido esteja
diminuindo. A água que circula por mares, rios e lagos, que está guardada nos depósitos subterrâneos e nas
calotas polares, como gelo, ou que circula em forma de umidade pela atmosfera, tem um volume quase
constante, que demora milhões de anos para ser alterado. Essa quantidade quase não se altera pois a água
está em eterno processo de reciclagem natural: evapora, desaba como chuva, escorre para o fundo da terra e
retorna para a superfície, de onde volta a evaporar, no chamado ciclo da água. Por isso, a água é um recurso
renovável.

Afora uma pequena parcela que, quando desmembrada pelos raios solares em hidrogênio e oxigênio, deixa a
atmosfera do planeta, a água que hoje usamos para matar a sede e para o banho é composta das mesmas
moléculas que formaram os mares em que nadaram os primeiros peixes, as chuvas que molharam os
dinossauros e o gelo que recobriu grandes partes do planeta nas eras glaciais. Mas um recurso renovável não
se mantém, necessariamente, inesgotável e com boa qualidade todo o tempo. Tudo depende do equilíbrio
entre a renovação e o consumo.
Existem fatores naturais que limitam o volume de água disponível para os seres humanos. Muitos povos
vivem em zonas áridas, e mesmo regiões ricas em recursos hídricos podem passar esporadicamente por
secas que afetam os mananciais. Isso sempre foi assim. A diferença, na situação atual, é que enfrentamos
uma ameaça de escassez crônica de proporções globais cuja grande causa é a atividade humana. O consumo
crescente e o desperdício, a contaminação dos mananciais e as alterações climáticas que a Terra está
passando desequilibram a relação entre a oferta e a demanda de água doce em boas condições para o uso do
ser humano.
Avaliar o volume total de água no planeta é uma ciência pouco exata. Os especialistas reconhecem que
muitos dados são pouco confiáveis e os números podem variar. Ainda assim, a estimativa sobre o volume de
água potável a que o homem tem acesso apresenta valores bem aceitos na comunidade científica. Esses
valores demonstram que, apesar de a Terra ter três quartos de sua superfície submersos, a parcela de água à
disposição da humanidade é, em relação ao volume total, muito pequena.
Do total de 1,39 bilhão de quilômetros cúbicos de água que revestem o globo, apenas 2,5% são de água
doce. Além disso, a maior parte da água doce não está ao alcance do homem – está congelada nas geleiras e
calotas polares ou escondida em depósitos subterrâneos. A quantidade de água a que o homem tem acesso
fácil – a superficial, de rios, lagos e pântanos – é de, no máximo, 0,4% da água doce existente no mundo.
Contamos com isso para matar a sede, cuidar da higiene, gerar energia e produzir alimentos e bens
industriais. No fim das contas, é água mais do que suficiente. Mas, segundo a ONU, uma a cada nove
pessoas no mundo não tem acesso à água potável em quantidade necessária para garantir sua saúde, nem um
padrão de vida que reflita um bom desenvolvimento social e econômico.
Causas da escassez
Se o problema não é a quantidade, então o que está causando uma crise global de água? A resposta é a
combinação de diversos fatores: o crescimento populacional, a expansão do consumo associada à melhoria
dos padrões de vida, mudanças alimentares, aquecimento do planeta e mau gerenciamento estão aumentando
as pressões sobre o abastecimento local e mundial de água. Essas variáveis passam por mudanças rápidas e
muitas vezes imprevisíveis. A população mundial cresce aceleradamente. Em 1950, éramos 2,5 bilhões de
pessoas, e, em 2011, 7 bilhões. Segundo as estimativas da ONU, passaremos a 8,3 bilhões em 2030 e a 9,3
bilhões em 2050. Os efeitos desse aumento populacional é sentido em várias regiões.
O crescimento demográfico não significa apenas mais torneiras, descargas sanitárias e chuveiros nas
residências. Significa, principalmente, que as sociedades precisam gerar mais energia e produzir cada vez
mais, tanto no campo quanto nas fábricas (veja infográfico). Os cálculos indicam que precisaremos de 60% a
mais de energia vindas de hidrelétricas e de outras fontes renováveis. O desenvolvimento industrial e
agropecuário é hoje responsável pelo consumo de 90% de toda água usada pela humanidade. E, quanto mais
rica é uma população, maior é o consumo de água por pessoa, tanto no uso doméstico quanto por meio de
sua alimentação e seu modo de vida. Com mais gente, prevê-se que, em 2030, a demanda por comida
aumentará em 50% em todo o planeta.
A disparidade entre o consumo de água por ricos e pobres expressa uma perversa lógica de mercado. À
população carente sem acesso ao serviço de fornecimento de água restam duas tristes opções: ou longas
caminhadas diárias até poços e reservatórios, ou a compra de água de fornecedores particulares – agueiros
ou caminhões-pipa. Nas duas situações, os prejuízos econômicos e sociais são imensos: estima-se que os
africanos gastem 40 bilhões de horas a cada ano só no trabalho de coleta de água em pontos distantes e de
transporte para suas casas.
Mau gerenciamento
Talvez o maior exemplo de como a ação humana interfere na água disponível no planeta esteja na Ásia
Central, no Mar de Aral. Significa “mar das ilhas”, mas hoje pouco restou do corpo de água que dava nome
ao local. Encravado entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, o Aral era o quarto maior lago do mundo até 1960,
ocupando uma área de 68 mil quilômetros quadrados – o equivalente a cerca da metade do Ceará. Hoje, não
restam nem 10% de sua área original. O desastre é fruto de projetos muito mal concebidos na época da
União Soviética: as águas dos Rios Amu e Syr, que alimentam o Aral, foram desviadas para irrigar lavouras
em extensões desérticas daquela parte do mundo. Em pouco tempo, o lago começou a ver suas águas
recuarem, numa dinâmica que não parou mais.
Além de supersaturada de sal, a água que resta está bastante poluída por agrotóxicos oriundos das lavouras
nas proximidades. Em condições tão adversas, todo o ecossistema do Aral ficou comprometido, e o clima
próximo tornou-se mais desértico. As antigas ilhas surgiram na paisagem como cumes de áridas montanhas.
A insalubridade afeta a saúde humana. Arrastada pelos ventos, a areia poluída do leito seco espalha-se por
quilômetros, afetando as populações. Como resultado, aumenta a incidência de doenças respiratórias, de
fígado e dos rins e os casos de câncer.

Os especialistas consideram impossível devolver ao Aral a configuração e as características de 50 anos atrás.


Mais fácil é corrigir a salinidade e a poluição em algum bolsão, isoladamente. O Cazaquistão realizou uma
experiência no lago norte em 2005, construindo um grande dique para reter a água no que restava do mar.
Com a ação, o nível da água subiu e a salinidade caiu. Os peixes voltaram e, com eles, a pesca – atividade
econômica que garante a sobrevivência de comunidades locais. Para os lagos no sul, as perspectivas não são
tão boas. É que as obras, muito maiores, exigem dezenas de bilhões de dólares e dependem de acordos
difíceis de se concretizarem entre as nações que dividem a Bacia do Rio Amu.
Fontes de conflitos
O exemplo do Mar de Aral revela uma das facetas da crise global de água, pois as necessidades econômicas
acirram, cada vez mais, disputas pelo precioso líquido. O principal foco de briga está nos rios e bacias
compartilhados por dois ou mais países. Essa foi uma das motivações do Ano Internacional de Cooperação
pela Água. A palavra “cooperação” ganha um caráter estratégico: a ONU espera que as sociedades
desenvolvam mecanismos de ação compartilhada para manejar as fontes hídricas capazes de gerar benefícios
econômicos e melhorias no padrão de vida das populações envolvidas. Além disso, o termo não deixa de ter
um apelo pacifista, à medida que os conflitos pelo controle das fontes de água são uma realidade em vários
pontos do planeta.
Um exemplo é o Rio Nilo, que, ao atravessar o Deserto do Saara, é a base da vida no Egito há milhares de
anos. Antes de atingir o território egípcio, suas águas atravessam diversos países, como o Sudão, a Etiópia e
o Quênia. As águas podem ser afetadas por barragens, uso excessivo ou poluição na parte superior da bacia
antes de chegar ao Egito. As políticas de gestão do Nilo, por isso, são assunto importante na relação entre o
Egito e seus vizinhos.

No mundo, existem mais de 200 aquíferos localizados em subterrâneos de mais de uma nação, como o
Guarani – que se estende sob o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Há mais de 260 bacias hidrográficas
transnacionais, que abrangem 148 países e 40% da população mundial. Os especialistas estimam que, se tais
recursos não forem bem manejados em conjunto pelas nações envolvidas, pode-se criar um contingente de
100 milhões de migrantes nas próximas duas décadas. Avaliam também que, no século XXI, a água pode ser
o principal deflagrador de guerras.
O Instituto Pacífico, especializado no tema, contabiliza mais de 50 episódios de confronto militar, revoltas
populares ou ataques terroristas relacionados ao acesso à água, entre 2000 e 2012.
O atual conflito na Síria tem como um dos panos de fundo a disputa pela água. Depois que Bashar al-Assad
assumiu, em 2000, passou a favorecer os grandes fazendeiros, que acumularam terra e extraíram do subsolo
a água sem qualquer controle, reduzindo as reservas hídricas do país. As dificuldades para manter as
lavouras acabou por expulsar pequenos agricultores do campo, e a seca que atingiu o país entre 2006 e 2011
acentuou o êxodo rural. Os centros urbanos incharam, e o governo não conseguiu prover serviços adequados
a uma massa de crianças que chegava ao início da vida adulta com grande descontentamento com a situação,
quando o conflito começou.
Um dos casos mais persistentes de disputa pela água, que também envolve a Síria, é a tensão permanente, há
décadas, entre o país e Israel, na disputa pelas Colinas de Golã, região síria ocupada militarmente pelos
israelenses em 1967. Além da importância militar, em função de estarem em um terreno elevado, as colinas
abrigam as nascentes do Jordão, o principal rio da região. As águas do Jordão são de uso vital para as
populações da região, inclusive para palestinos, que dependem de Israel para ter acesso a elas. A
preocupação aumenta, pois o Rio Jordão vem perdendo volume de água, e as margens do Mar Morto, onde
ele deságua, estão recuando.
Questão de saúde

HAITI DOENTE - Menino de Porto Príncipe compra água: a epidemia de cólera, doença transmitida por
água contaminada, matou mais de 8 mil pessoas desde 2010

Crédito: Marco Dormino/UN Photo/UNICEF


Uma das bases da vida humana, o acesso à água de boa qualidade está diretamente ligado à saúde. A ONU
considera que desenvolvimento socioeconômico e água são fatores interdependentes. Sem água, não é
possível sobreviver. Mas o excesso dela também atrapalha: enchentes forçam pessoas a deixarem suas casas,
além de transmitirem doenças. Sem água limpa, a população adoece. E sem saúde, as crianças têm
dificuldade em aprender e os adultos, em trabalhar. Forma-se um círculo vicioso: sem trabalho e
aprendizado, uma população permanece subdesenvolvida e pobre – o que contribui para mais desinformação
e maior incidência de doenças. Estima-se que, no mundo todo, mais de 700 milhões de pessoas não tenham
acesso à água potável e 2,3 bilhões careçam de esgoto tratado.
A água transmite ou está relacionada com a transmissão de diferentes tipos de enfermidades, divididos em
quatro grupos de acordo com os tipos de transmissão:
 Águas fluviais contaminadas: transmissão direta por meio da ingestão ou contato com água não
tratada. Exemplo: a diarreia, que mata mais de 2 milhões de pessoas a cada ano.
 Contaminação por falta de água: acontece quando a quantidade de água disponível não é suficiente
para a higiene pessoal. Exemplo: a diarreia.
 Doenças causadas por agentes patogênicos, pelo consumo de alimento contaminado ou pelo contato
interpessoal: são transmitidas por organismos que vivem na água ou precisam dela em seu ciclo de vida.
Exemplo: a esquistossomose, que afeta 200 milhões de pessoas a cada ano.
 Contaminação por hospedeiros: são transmitidas por insetos que têm seu ciclo de vida ligado à água.
Exemplos: a dengue, a febre amarela e a malária. Juntas, essas doenças causam 1,5 milhão de mortes por
ano no mundo.
As maiores vítimas das doenças são as crianças de países pobres e em desenvolvimento: do total de pessoas
que morrem anualmente de diarreia, 90% têm abaixo de 5 anos. Mesmo quando não causa a morte
diretamente, a água contaminada provoca enfermidades que debilitam o indivíduo, tanto física quanto
mentalmente. É o caso da esquistossomose, que retarda o crescimento e afeta a capacidade de aprendizagem
das crianças.
Para quase todas as doenças, a contaminação poderia ser evitada com água limpa e uma rede de tratamento
de esgoto. A difusão de hábitos de higiene, o monitoramento de represas e o cuidado com a limpeza de
vegetações aquáticas e controle de pântanos também são mecanismos de combate à difusão dessas
enfermidades. Essas medidas fariam a mortalidade infantil diminuir drasticamente no mundo e, como
resultado, haveria o aumento da expectativa de vida da população mundial.
A solução da crise de água em toda sua extensão – enfrentamento de secas, medidas contra a desertificação e
as enchentes, gerenciamento adequado das fontes hídricas – exige investimento maciço de recursos com
objetivo de ampliar o acesso universal aos serviços de fornecimento de água e saneamento, além de acordos
efetivos entre países para a cooperação no uso da água. Os especialistas apontam também a necessidade de
mudança nos padrões de produção e consumo, para evitar o desperdício de água nas esferas doméstica,
industrial e agropecuária.

Fonte: Almanaque Abril https://almanaque.abril.com.br/materia/um-problema-que-afeta-a-todos