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Direitn (lo ("rrilfi/t, - Inlrodlhjãn -' Jusé Suuõcs 1':llriL'iu

ESTUDOS SOBRE O NOVO


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Sede: Avenida de Berna. :'l1~R/(" Esq. lO."() Lí"h(I;1 Armazém: Altu du Eirn. 11," 17
TeI: 7~.115X5 Fax' 7%0747 :!.670 Hucclus - Lourcs
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NOTA PRÉVIA

Dada a necessidade de fornecer aos Alunos da Disciplina de Direito


Processual Civil - [ da Faculdade de Direito de Lisboa um texto actualizado
sobre li nova legislação processual civil, publiquei. durante o ano lectivo de
1995/1996. a primeira versão destes "Estudos sobre o novo Processo Civil".
Apresenta-se agora a um público mais vasto uma edição substancialmente
remodelada e alimentada da mesma obra.
Agradeço à Mestra Paula Costa e Silva a disponibilidade que sempre
manifestou paru discutir muitos dos aspectos da nova legislação processual
civil, bem como as valiosas sugestões que deu sobre os mais variados temas
abordados nesta obra. Aos meus Assistentes das Disciplinas de Introdução ao
Estudo do Direito e de Direito Processual Civil - I no ano lectivo de 1995/1996
são igualmente devidos agradecimentos públicos, dado que. sem a sua
compreensiva colaboração, não me teria sido possível encontrar algum do
tempo indispensável para a realização deste trabalho.
Na elaboração desta obra, pôde ser considerada a jurisprudência disponível
até Novembro de 1996. Sempre que nela se cite um preceito legal sem a
indicação da sua proveniência, entende-se que ele pertence ao Código de
Processo Civil na versão dos Decretos-Leis nOs 329-A/95, de 12/12, e 180/96,
de 25/9.
(

Introdução à reftmna 9

I.

INTRODUÇÃO
 REFORMA PROCESSUAL CIVIL

§ 1(l.

Aspectos gerais

L Alteração legíslativa

I. Àmbim

H.O Código de ProcessoCivil agora reforrnulado pelos Decretos-Leis


nOs 129-A/95, de 12112 (publicado no suplemento ao Diário da República,
I Série-A, OÔ 28SNS) e IgO/96, de 25/9 (publicado no Diário da República,
I Série-A, n" 2'23/(6), foi aprovado pelo Decreto-Lei n° 29.637, de 2.8/511939.
No entant«, apesar da sua já cinquentenária vigência, () Código de Processo
Civil .só tinha sido objecto, atéao presente, de UIlHl revisão global: a que. foi
realizada pelo Decreto-Lei n" 44,129. de .28/12/1961. .
Para além desta revisão, o Código de Processo Civil só tinha sofrido
algumas alterações específicas. devendo destacar-se, pela sua importância,
aquelas ;que foram introduzidas, na sequência da entrada: em vigor do novo
Código CiviL pelo Decreto-Lei n° 47.690, de 11/5/1967, as que resultaram do
Decreto-Lei n° 242/gS, de 917, e, mais recentemente, aquelas que foram
realizadas pelq Decreto-Lei n" 39/95, de 15/1, quanto ao registo da prova.
Entretanto eliminadüs do Côdigü de Processo Civil tinham sido as matérias
relativas à arbitrugern voluntária. que passaram a ser reguladaspela Lei da
Arbitragem Voluntária (Lei n" 31/86, de 29/8), assim como aacção de despejo,
agora regulada nos anos 5SO a <51 dó Regime do Arrendamento
0
Urbano
(aprovado pelo art° I o OL 312-8/90, de 15/1 O), e o processo especial de
liquidação em be nefíci o de credores, substituído pelo Código dos Processos
Especiais de Recuperação di' Empresa e de Falência (aprovado pelo art" I"
DL 13219\ de. 23/4).
la Introdução à reforma Introdução à reforma 11

b. Os Decretos-Leí~nos329-A/95, de 12/12, e 180/96, de 25/9, operaram 2. Sisrcrnanzação


a mais profunda revisão até.agora realizada no Código de Processo Civil, Esta
reforma possui antecedentes que convém conhecer. Em Fevereiro de J 995, o a. O Decreto-Lei n" 329-A/95, na versão do art" 4° DL 180/96, comporta
Ministério da Justiça colocou à discussão pública um Projecto de Revisão do vinte e oito artigos, assim repartidos: o art" l° introduz múltiplas alterações ao
Código de Processo Civil (I). Anteriormente, tinhamsido publicitados dois Código de Processo Civil; o art" 20 adita alguns artigos ao mesmo diploma
Anteprojectos - um em 1988 e o outro em 1993 -, mas aquele Projecto não pode legal: o art" 3° revoga vários preceitos do Código de Processo Civil (31; o
ser considerado o desenvolvimento, nem sequer o aperfeiçoamento, de nenhum art" 4 n° I, concede uma nova redacção ao art° 1696°, na I, CC e o n° 2 do
0
,

delesrna SUa base encontram-se antes as chamadas Linhas Orientadoras da mesmo preceito revoga o art" 20 CC e, portanto, o valor dos assentos como
ova Legislação Processual Civil, que foram divulgadas em 1993 (2,. Depois fonte do direito; o art° 5° revoga o art" 260, al. b), LOTJ; os anos 60 e ]O, 90 a
da autorização legislativa concedida pela Lei n° 33/95, de 18/8, O Decreto-Lei 16° e 18° a 29 contêm várias disposições finais e transitórias; finalmente, o
0

n" 329-A/95 aprovou, com ligeiras alterações em relação ao referido Projecto, art° 17° contém regras específicas quanto à revogação imediata do recurso para
uma nova versão do Código de Processo Civil. O art? 160, n" I, DL 329-AJCJ5 o tribunal pleno e às suas consequências quanto aos recursos pendentes.
fixou o dia I de Março de 1996 para a entrada em vigor da nova redacção do É a seguinte a sistematização do Decreto-Lei na 180/96: O art" 10 altera
Código de 'processo Civil. vários artigos do Código de Processo Civil. alguns deles na versão dó art" 1°
A mudança goventativaentretanto verificada viria a reflectir-se, de modo DL 329-A/95; o art" 2° adita alguns preceitos ao Código de Processo Civil; o
significativo, 'na revisão do Código de. Processo Civil. Ao mesmo tempo que art° 3° revoga vários artigos do Código de Processo Civil; o art" 4° dá
se preparavam novas alterações a esse diploma, o art" ['0 L 6/96, de 29/2, deu nova redacção a alguns artigos do Decreto-Lei n° 329-A/95; o art" SO revoga
nova redacção ao art" 16° DL 329"A/95, adiando a entrada em vigor da nova o art" 8° DL 329-A/95;o art" 6° adita vários preceitos ao Decreto-Lei
ó
versão do Código de Processo Civil para 15 de Setembro de 1996; o art? 5 n° 329-A/95: finalmente, o art° 7° rectifica algumas inexactidões tanto do
L 2,8/96, de 2/8, adiou de nOVOesse início de vigência para o dia 1 de Janeiro
próprio Decreto-Lei n° 329-A/95, como da republicação, anexa a esse diploma,
de 1997. As novas alterações ao Código de Processo Civil constam do Decreto-
do Código de Processo Civil.
-Lei n° J 80/96, de 25/9, elaborado Com base-na aütorização concedida pela Lei
n° 28/96, de 2/8, e cujoãrt? 4° voltou a dar uma nova redacção ao art" 16° b. A reforma procurou manter, sempre que tal se mostrou possível, o
DL ?r29-A/95, no qual se estabelece o dia I de Janeiro de.1997cumo a data tratamento das matérias nos mesmos artigos da anterior versão do Código de
da (:ntradª em vigor danova versão desse Código. Processo Civil. Assim, é possível encontrar, na maior parte dos casos, as
c. A reforma processual civil foi completada com a aprovação do 'novo mesmas matérias nos mesmos preceitos, ainda que, naturalmente, com as
Código das Custas Judiciais pelo Decreto-Lei n° 224-A/96" de 2611 I. A data inovações introduzidas pela reforma.
da entrada em vigor: daquele Código e deste diploma êigualmente I de Janeiro Esta também procedeu a algumas alterações de ordem sistemática no
de 1997 (art" 18° DL 224-A/96).. Código de Processo Civil. As mais importantes revogações operadas naquele
O novo 'Código das Custas Judiciais encontra-se dividido em' nove títulos: Título r. "Custax Código pelo art" 3° DL 329-A/95 respeitam ao recurso para o tribunal pleno
cíveis" (arIÓ" 1° a 73°); Título li, "Custas criminuis (artOs 74° a 101·); Tííulo m. "Multas (art?s 763 a 770° CPC/61), ao processo de venda e adjudicação do penhor
0

processuais" (artOs. 1.02° 11 104°); Título IV. "Actos av,ulsos"(árt"s 105° a: I LO°):Título V. "Juros (art?s 1008 a 10 12° CPC/61), aos meios possessórios (art''s 1033° a 1043°
0

de mora' (arr's ,li 1° ull J"): Titulo VI, "Pagamento coercivo das custas e multas" (:;ortOs,I 14° a CPC/61 ), à posse ou entrega judicial (art°sl 044° a 1051° CPC/61) e às acções
12)°); Título Vil, "Serviços de tesouraria' (lutO) 124° a 145°); Título vm. "Cofres' (art°~ 146
0

de demarcação (art''» 1058° a J 0620 CPC/(1). O art" 30 DL 180/96 revogou o


a 141$°);.Tftufó IX. "DIsposições finais" (art'\ 149 li 151°),
0

regime do incidente de falsificação (art°s 360° a 370° CPC/61).


(i, Contendo algumas observaçõescrtricas sobre o Projecto divulgado em Fevereiro de 19,95,
cfr. M, Teixeira de Sousa. Apreciação de alguns aspectosdu "Revisão do Processo Civil - i.11A circunstância dc o referido diploma ter introduzido modificações isoladas em variadtssimos
Projecto". ROA 55 (19<)5). ei53 SS,~ Lebre de Freitás. Revisão: do Processo Civil. ROA 55 (1'195). institutos processuais impressionou ncgauvamcntc Antunes Yurela. que () chegou a qualificar
417s$" como um "monstro lcgislarivo": clr. AI/IIII/C's varelo. Os tribunais judiciais. a jurisdição voluntária
BOA 2/93, 5 I ss..
'(2) e as conservarórins do registo civil. RU 128 (199511996), ]3{),
( r r
InrrodliçülJ à refi!rnIlI. Introdução à reforma 13
J2

Muitas matérias foram globalmente reformuladas. É o que uconlece com pelo art" 4", n° 2, OL 329-A/95) é imediatamente aplicável, o que significa que
0

o regime da citação (arr's 23jO a 252°~A), a intervenção de terceiros (arlOs 320 essa revogação opera sem qualquer dependência da entrada. em vigor do
0
a 349~),. os embargos de terceiro {artOs 351 a 359°),U8 providências cuutelares Decreto-Lei n? 329-A/95. Verificou-se, assim, a situação algo estranha de os
(arr's 38 I° a 427°), a impugnaçâo da genuidade de documento e allixão da sua assentos se terem tornado processualmente inadmissíveis mesmo antes de ser
autentjcidade ou força probatória (artOs 5440 a 551°-A, regime que substitui o eficaz a revogação do preceito (que é o art° 2" Ce) que os legitimava como
incidente de falsidade que constava dos art°s 360° a 370° CPC/61). o processo fonte do direito.
sumário (artOs 783° a 792°), a penhora (art?s 821°a 832") e alguns aspectQs do
.Sucedeu que . como infelizmente. acontece com alguma frequêrtciu - o suplemento do
seu regime (art°s 833° a 840°, 8480 a 851 ° e 856"a. 863°-B l· a convocação de
Diárip da Repúblicaem que foi publicado II Decreto-Lei n" 329-A/95 só foi distribuído nos
qedorese a verificação de Créditos (artOs 864° a 871 "l, li venda judicial
dias 3 ·C 4 de Janeiro. de 1996,.0 que pode colocar o problema da incidênciada revogação
(art"s 882" a 888") e alguns pontos do seu regime (art°s 894° a 907"), os recursos constante do art" Ir DL 329·A/9.5 sobre .OS recursos eventualmente .inrerpostos. entre a. data
na acção execntiva (art"s 922" e 9230) e o processô sumárlode execução para dessa revo.gaçà\) e ;1 da dist6bpiç;lo do jornal oficial. A devida tutela dás expectativas das
partes antes tia possibilidade do conhecimento da lei nova impõe a adrnissibilidade desses
pagamento de quantia certa (artOs 924° a 92:r).
recursos.
No âmbito dos processos especiais, as principais alterações íncidlram
sobre o processo de .interdição e inabilitação (artOs 944° a 954"), a prest<[ção
Em substituição da uniformização jurisprudencial através do recurso para
de caução (deslocada dos art''s 41go a 4450 CPC!61 para ôs art"s 98 J ti a 990").
o tribunal pleno e do proterimento dos assentos, ~ parte-cabe apenas, na nova
o reforço ou substituiÇão dehipoteca, çonsignação de retJdimen(os ou penhor
regulantentação, a faculdade de requerer que o julgamento do recurso de revista
(art0s 991 (la 997°), as acções de arbítramento (art''s 1052° a. I 057''), a revisão
de sentenças estrangeiras (anOs 1098° a 1102"), a liquidação em beneflefo dos
ou deagravo em2a Instância se faça com a Intervenção do plenãríc das secções
cíveis do Supremo (art''s 732°-A, n'' 1, e 762°, n" 3). Deve notar-se, noentanto,
sócios (art''s 1123 a 1130°) e do Estado (art''s 1132° a 1134°), o processo de
0

que ri eficácin imediata da revogação dos anos 7630 a 7700 CPC/61 antes da
divórcio litigioso (artOsl40r e 1408°) e ainda sobre váriosaspeclos rela-
0 entrada em vigor do Decreto-Lei n° '329,A/95 retirou â parte a faculdade de
tivos ao exercício de direitos sociais (artOs 1479 a 150 I"). NtlVO é também o
interpor o recurso para o tribunal plen.o, mas não Ihe. ofereceu a faculdade
processo especial de determinação do óbjectQdo litígio a submetera arbitI"<lgen)
de, em alternativa, solicitar o julgamento ampliado.
(artOs 1508° a 15JOO). Da eficác]a imediata .da revogação do recurso para o tribunal pleno edos
assentos sãó excluídos os recursos interpostos à data. da revogação dos
lI. Eficácia revogatória art°s763°a 770°Ç.PC/61 (art? nó,
nOI in fine, DL 329-A/95). Mas os acórdãos
que vierem a ser proferidos nesses recursos passam a ter, segundo o disposto
no art" 17 n° 3, DL329-A/95.
0
, o mesmo v.alor daqueles que são proferidos na
I. s/acatio legis
nova revista ampliada. Destasolução resultou. UlTIá, antecipação (relativamente
Os Decretos-Leis fiOS 329-A/95 e 180/96 revog.araI1l, expressa ou à data da entrada em vigor (lo Decreto-Lei n" 329-A/95) da revista ampliada
tacitamente, inürneros preceitos da amiga versão do Código de Processo Civil. como modo de uniformização de jurisprudência.
En1 regra. essa revogação opera simultaneamente com a entrada em vigor da
nova versão do Código de Processo Civil, a. qual, no]' termos do urt" 16° Após II entruda em vigür do art" 17", n" 3, DL 3;29-A/95. deixou de ser posslvel () recurso
para o pleno requerido. antes dessa vigência. pelo Ministério 'Público nos lermos do art" 770·
DL 329-A/95, se verifica em J de Janeiro de 1997.
crC/1i I: STJ - ~()14/ I 991i, CJ/S 9f,12.~. A soluçãoparece discutível.

2. Eficácia imediata b. Igualmente independente da entrada em vigor do Decreto-Lei


n° 3"29-AI95 e, por isso, operante antes. desfiá vigência éa conversão do valor
a. Nos termos do art" 17°,. na I, DL '329-A/95, a revogação dos arl"s 763°
dos. assentos estipulada no art" 17°, n° 2, DL 329-A/95: segundo este preceito,
a 770" CrC/61 (realizada pelo art" 3Q ÓL 529-AJ95) e doart" 2" CC (efectuada
14 introdução à refonna
tnrrodução li reforma 15

os assentos já proferidos passam a ter o valordos ucórdãos de uniformização


2. Aplicação imediata
de jurisprudência.

Menetes Cordeir(Jdcfentle.o 11 inoonstitucionulidude orgânica do ar'!" 17'; .. li' 2. 2. I. Generalidades


DL 329-AI95, com o argumento de que ele não se encontra coberto por qualquerautorização
lcgislutiva: clr. Mel/eH!.I' Cordeiro: Vendacom reserva de propriedade I Incorporação de Nemtodas ás matérias se submetem ao regime transitório. geral definido
elevadores / Novo regime dos assentos I Acórdão do Pleno do Supremo Tribunal de Justiça
no.art" 16° DL 329-A/95. Há que contar igualmente Com as inúmeras excepções
de ~ I de Janeiro de 1996, ROA 56 (199.6). 307 SS.; M<'l1('~e.' Cordeiro. Da inconstituciona-
lidade da revogação dos assentos, in .forlie Mirando (Org.j, Perspectivas Consntuciunuis I Nos
que definem situações de aplicação. imediatados regimes constantes da nova
20 Anos da Constituição de 1976 I (Coirnbra 1996). 799ss.: em resposta a Me"e~<,.' COid"I/'O. versão do Código de Processo Civil, Refira-se que muitas destas excepções são
clr, M. Teixeira de Sou.m, Sobre a. constitucionalidade daconversão dq valor dos assentos I consequência do pdncfpio tempus regit actum (art° 142'7, n° J).
I Aponturnentos para uma discussão. ROA 56 (1996), 7('j7 ss..

2.2. Acess» à justiça


Hl. Aplicação no tempo ex. lege
a. A reforma procurou afastar, através de várias alterações, os obstáculos
ao tacesso à justiça por motivos eCQJlOmlCOs(cfr. art" 20°, n° I, CRP).
I. Aplicação futura Compreende-se que as alterações motivadas PQr esse intuito sejam imedia-
tamenteaplicáveis aos processos pendentes, A~sin1.é de aplicaçãoimediata a
QU<l,!1l()à aplicaçãç 110 tempo da ler processual civil, a regra é a tnesma es~ek J')roceSS(lS,PQr imposiçãO d(ls arC$ J ~o e lAti DL 329~AI95. a revogação
que vale na teoria geral do direito (cft. arr" 12". nOI, tC): a lei nova .6 de dà~ disposiçõcx referentes à cu:;ta:; que imponham a contagcrn do processo 00
aplicação imediata aos. processos pendentes, mas não p,ossui.qualquer eficãcia de quaisquer incidentes nelesusdtadús durante a sua pendênciaou que
retroactiva (4). DI!- submissão a esta regra exceptua-se, evidentemente. o caso estabeleçam preclusões de natureza processual. como consequência do não
de a lei nova ser acompanhada. de .nOrmas de direito transitório ou de para ela pagamento arempado de quaisquer preparos ou custas. Trata-se de disposições
valer uma norma transitória. como sucede, por exemplo, quanto à importante que, sob <I inspiração da garantiaconstitucional do acesso ao. direito .e aos
regra que ériuncia o prindpio (t!mj1üs regi; actum (art" 142°, n° I) nu que tribunais (art" 2(t, n" I, CRP), visam eliminar os obstáculos de ordem
determina aperpetu{Uió iurlsdíctiuni.\; (art? 18°, n° 2, LOTJ}. económica no aCesso à Justiça.
O art" 16°DL 329·Al9~ (na redacção dada pejo art" 4" DLI80J96) contém, Com .â mesma finalidade de nãocrlar obstácuios econórnicosao acesso li
quanto à aplicação no tempo da nova versão do Código de Processo CiviL a justiça, Qârt"21" DL 329-A/95 contém 'uma importante regra: esse preceito
seguinte regra: a nova versão do Código de Processo Civil só se áplicél. em estabelece que é aplicãvelaos processos pendentes o disposto no art" 280°
princípio, aos processos instaurados após I de Janeiro de 199,7,ou seja, àqueles quanto ao tncurnprirnento de obrigações fiscais. bem corno a revogação dos
processos cuja petição inicial ou equivalente seja, recebida na secretaria do arr's 281\ 282° e 551 ° CPC/61, possibilitando ainda que a parteinreressada
tribunal após essa data. Isso significa que-em reg!"~,as novas disposições legais requeira o prosseguimento da. instânciasuspensa segundo. o regime anterior ou
não são aplicéveisaos prQçe~~()s que se encontrem pendentes em I de Janeiro a consideração da prova documental afectada, nesse mesmo regime, pelo
de 1997. incumptirnento das leis fiscais.

14' Sobre os. problemas


da aplicação 1)0 tempo das leis processuais civis. ch'. Ctusset-Marchaí, b, Importa ainda acrescentar' que, segundo o. art" 4°, n° L DL 214-A/9Q,
L'upplication duns lc ternps lI!'!s lois de droitjudiciaire civil (Bruxellcs 19H3k princ. 16'1 ss.: de 26/11. Q novo Código das Custas .Judiciais é aplicável aos processos
Cupponi, L'upplicazione neltempo del diriuo processualc civile, RTPPÇ 4X ('11)')4). 43-1 Ss..: pendentes em I de Janeiro de 1997, salvo no que respeitaà determinação da
mais anrigo, musuindu com muito .intercsse. ctr. Si,,#. Die Einwirkung VII.11 Ânderungcn
taxa de justiça, custas. e multas decorrentes. de decisões transitadas em julgado
ilvilprozessLiülcr Normen.uuf schwehendc Verfuhren, ZZP 65 (1953), 34l)s,~ ..
e aos prazos de pagamento de preparos, custas e multas que estejam em curso.
r r r
1.6 Introdução à rejorma _____ Introdução à reforma 17

o art" 4°, n° 2, DL 224-A/96 dispõe que, nesses mesmos processos, são de ao processo pendente não ser aplicável a nova versão do Código de Processo
isentos de custas os recursoscom subida diferida que não ohegucrn a subir Civil, os.prazos processuais que, nele se iniciem depois de 1 de.Janeiro de, 1997
(cfr. art" 735'\ n° ;2) ou que, tendo subido com o recurso dorninãntc, fiquem Sêgúem 1;). estabelecido na nova versão do Código de Processo Civil, que.nssim,
desertos (cfr. anos .291°, n" 2, e 690°, nQ 3). Finalrnente, oart" 4°,n° 3, é de <WlipçãO imediata aesses prllZOS. Uma das novidades desteregimeéa
DL 224-A/96 estipula que. nos processos pendentes em I de Janeiro de 1997, regra daçOiltinuigade do prazo, que se encontjj; estabelecida no art" 144°,
o recorrente em processo cível que não alegue no tribunal recorrido deve pagar n° I: O prazo processual é contínuo, suspendendo-se apenas durante as férias
a taxa de justiça inicial no prazo de 10 dias a contar da. data da distribuição judiciais, salvose a sua duração for igual. ou superior a seis meses ou se tratar
no tribunal de recurso. de. actos a praticar em processo que a lei considere urgentes. Por exemplo: se,
num processo ordinário, o prazo de contestação começara correr depois de
1 de Janeiro de 1997. esse prazo é de 30 dias (arte;486°, n" 1) e é contudo nos
2.3. Prazos processuais
termos do art" 144°, n° I,
a, O regime transitório sobre 0.8 prazosé distinto para aqueles que já se
c. Relativumente aos prazos processuais respeitantes a actos processuais
encontram em curso. ou fixados em '1 de Janeiro de 1997, para aqueles que
que deixam de estar previstos na nova versão do Código de Processo Civil, à
apenas se iniciam depois dessa, data e, finalmente, para aqueles que se referem
sua duração é adaptada segundo a tabela constante do art" 60 DL 329,A/9S
a actos processuais que foram SUprimidos na nova versão do Código de
(art° 18°, n° 3, DL 329-A/95). Isto é, aplica-se-lhes o novo regime de contagem,
Processo Civil. Importa considerar cada uma destas situações,
mas a sua duração é determinada de acordo Com a referida tabela. Por exemplo:
Segundo o disposto no art" 18°, n? I, DL 329-A/9S, os prazos processuais
'O prazo para à dedução do incidente de falsidade (que foi suprimido pelo
que, ern 1 de Janeiro de 'J 997, se encontrem emcurso ou já tenham sido fixados
art" JO DL 180196) é de 8 dias .(art" 360°,. n° I, CPC/6J), mas é adaptado, quanto
por decisão judicial, continuam a reger-se pelas normas anteriores. incluindo
à sua duração, nos termos do art06~, nOI. aI. b), DL 329-AI95, ou seja, passa
as que respeitam ao modo da sua cojuagem, o que significaque esses
a ser de '10 dias contínuos.
prazos se suspendem durante as férias, sábados, domingos e dias feriados
(cfr, art" 144°, nO}, CPC/61). Esta solução afasta o regime geral que consta
doart" 297d,ti°s 1 e 2; ce. pois que, como a esses prazos se continua a aplicar 2..4. Procedimentos cautelares
a lei antiga, não se vedfica,quantoa eles, qualquer sucessão de leis 110 tempo. Aos procedimentos cautelares requeridos na pendência da lei nova, ainda
Apesar da sobrevigência da lei antiga relativamente aos prazos que, em que como. incidente.de acções já pendentes em I de Janeiro de 1997, aplicável
é

1 de Janeiro de 1997, se encontrem em curso ou já tenham sido fixudos pelo o regime novo (art" 22" DL 329-A/95) . Portanto, O que releva a data doé

tribunal, o art" 18", n" 4" DL 329-A/95 detetmilül que a esses prazos é aplicável requerimento da providência cautelar e não O dainstauração da respectiva acção
O novo regime que consta dosart''s 1450 (nomeadamente, no que respeita à de que CS$.aprovidência é dependente.
prática doado fora de prazo), 146", 11" 1 (noção de justo impedimento), e 150°,
n" I (entrega ou remessa a jufzo de peças processuais). Dado o disposto no
2.5. Citação
art" 186, n'' 5, DL 329-A/95, as partes podem prorrogar; mediante 'acordo,
esses prazos por Uma única vez e por igual período (art? 147°,n" 2) e podem O regime transitório da citação é distinto para o caso em que o acto ainda
acordar na suspensão da instância por prazo não superior a seis meses 'não foi ordenado e para aquele em que ela já foi ordenada, mas ainda não se
(art" 279°, n° 4). encontra realizada. Nos processos pendentes em que ainda não haja sido
ordenada a citação, aplica-se o regime do acto de citação estabelecido na lei
b. Quanto aos prazos processuais quese iniciem, em processos pendentes. nova (art" 19°, n" I, DL 329-A/9S). Portanto, são-lhe aplicáveis, por exemplo,
no domínio da lei nova, é aplicável, o que nesta se estabelece quanto ao modo o regime de dispensa de prévio despacho judicial (art" 234", nOs I e 4) e de
de contagem e à respectiva duração (art" 18°, n" 2, DL 329-A/95). Assim.apesar indeferirnento lirninar (art" 234°-A), a regra de que a citação se faz por via
18 lntrudução ii reforma
Introilução (I reforma 19

postal (art° 233°,. n° 2, al. a)) e a possibilidade da sua realização pormandatârio


mandante e .que se designará logo data para a realização do acto ou audiência,
judicial (art" 233°, n" 3).
comdispensa daobrenção do prévio assentimento do mandatário Ialtoso.
Quanto aos processos em que já haja sido ordenada a citação pessoal, rege
o art" 19°, n° 2, DL 329-N95: a autor pode, se aquela se não mostrar efectuada,
no prazo de 30 dias após o despacho que a tenha determinado, requerer que 2.9-. lnstrução
se proceda à citação nos termos da. nova versão do Código de Processá Civil
Dispõeo art" 23°, n° I, DL 329-A/95 • que, às provas propostas em prazo
(o que possibilita o uso da via. postal, art" 233°,. n" 2, al. a»,aplicundo-se
iniciado após I de Janeiro de 1997, bem como a quaisquer diligências
aindaas disposições .da lei nova que regulam a prática i; o valor doucto instrutórias oficiosamente ordenadas após essa data, é aplicável o regime de
(cfr., respectivamente, art''s 234° a 25 I° e 195°.(1 198°), bem como a dilação dircitoprobatórin constante da nova versão do Código de Processo Civil,
concedida ao citando (cfr, art" 252°-A). Esta regra tem um importante alcance. nomeadamente O disposto nos attOs 181°, o" 4 (comparência na audiência
pois que permite que, em todos os processos pendentes em t de. Janeiro de 1997 final, por determinação oficiosa do tribunal, de quem devia prestar o depoi-
em que ainda não foi conseguida a citação do réu, se volte. a. tentar a sua mentoutravés de carta que 'nua foi cumprida), 512°-A (alteração do l"olde
realização segundo o novo regime. testemunhas) e 647° (antecipação da audiência final nas acções de indemni-
zação).

2A Notificações
O novo regime é igualmente aplicável â. prova documental apresentada em
juízo após I de Janeiro de 1997 (art" 2:3°, n" 2, I)L 329-A/95). Desta regra
Às notificações em processos pendentes, cujoexpediente seja reme- resulta. por exemplo .. a aplicação imediata da nova regulamentação sobre a
tido após I de Janeiro de 1997, é aplicável odispostonos art''s 253°:a 260Q irnpugnação da genuidade do documento e a ilisão da sua autenticidade ou força
(art" 19°, n" 3, DL 329-A/95). prob;ltQJia(crr.art°~ .544° a, .551 O_A),

2.7. Marcação de diligências 2.10.. Registo das audiências.

À marcação ffe diligências que se realize após I de Janeiro de 1997 é É aplicávelaos processos de natureza civil, que se encontrem pendentes
aplicável o disposto no ártO 155° (art" 20°, n° I, DL 329-A/95). ISI-\osignifica em quaisquer tribunais em I de Janeiro de .1997, o disposto no Decreto-Lei
nomeadamente que essa marcaçãodeve resultar, tanto quanto possível, de ti" 39/95. de 15./2, sobre o registo das audiêrtcias (art" 24" PL 329-A/95).
prévio acordo entre o tribnnale os mandatários judiciais (art" 155°, n° I) e que. Portanto, este preceito torna imediata e globalmente aplicável aos processos
se a marcação não tiver sido realizada mediante acordo, 0& rnandatários judiciais pendentes em I de Janeiro de. 1997 o regime de gravação das audiências;
impedidos em consequência de outro serviço judicial já marcado devem revogando. assim, a aplicação escalonada que se previa no art° t 2°, n° 3,
DL '39/95.
comunicar o facto ao tribunal, no prazo de 5 dias, propondo datas ulter-
nativas, após contacto cOJTIOS restantes mandatários interessados (art" 155" ..
n° 2). 2.11. Impugnação das decisões

Segundo o estabelecido 110 art" 25°, n° 1, .DL 329-A{95. o I1QVO regime


2.8. Adiamento de actos ou audiências legal é aplicável aos recursos interpostos de decisões proferidas após I de
Janeiro de (997, com excepção do preceituado nos art°s 669°, nOs2 e } (pedido
É aplicável aos adiârnenros de actos ou audiênci~ls que najam sido
de reforma da sentença baseado em lapso manifesto), 670° (processamento da
marcados mediante prévio acordo entre. o tribunal e os mandatários judiciais o
arguição de nulidade da sentença ou do pedido de aclaração ou reforma), 7'2.5°
disposto no att065 1°, n° I, a], c) (art" 20°; .n" 2, DL 329-A195). Desta remissão
(reoursope» saltum pata o Supremo), 754'\ n" 2 (exclusão do agravo da decisão
resulta que, se faltar algum dos advogados, tal. facto será. comunicado ao
I'

Introdução tl reforma 21
20 Introdução. li reforma

porém, ao juiz optar entre a, venda judicial mediante propostas em carta fechada
confirrnatória da Relação), A decisão recorrida após 1 de Janeiro de 1997 pode (cfr, anos 886°,11°2., e 889° a 90 1°)ou a arrernatação em hasta pública, situação
provir de um tribunal de I a instância ou de uma das Relações. pelo que, neste em que são uplic.;ávei~as disposições revogadas sobre tal modalidade de venda
último caso, aplica-se-lhe o novo âmbito da revista e do agravo em 2áinstâl1c1a (dr. art''s 8890 a 9050 CPC/61).
(cfr. artOs721°, n° I, e 754°, n° I).
Procurou-se salvaguardar as expectativas das partes quanto à adrnissi-
2,14, Mormória forçada
bilidade do recurso segundo a lei vigente no momento clã propositura da acção.
É isso que justifica que o art'' 2SO, n° I, DL 329-A/95 exceptue da aplicação Segundo o arr" 27° DL 329-A/95, é aplicável às causas pendentes em
imediata da nova regulamentação dos recursos o preceituado no art" 754°, I de Janeiro de 1997 a nova redacção dada ao art" 1696 cc pelo art" 4", n° I,
nOs2 e 3. Nesta hipótese, verifica-se uma sobrevigência da versão antiga do DL 329-A/95, Isto significa. que a supressão da moratória forçada (que existia
Código de Processo Civil, pelo que, se o recurso era admissível com base na quando, numa execução por urna dívida. daexclusiva responsabilidade. de Um
lei vigente no momento da propositura da acção, ele .continua a sê-lo após .a dos cônjuges, fosse penhorada a menção nos bens comuns) é imediatamente
entrada em vigor da nova versão. aplieáve) às execuções Pendente, em I de J aneiro de 1997.
Assil11, enquanto, segundo o regime anterior, se, numa execução para
2.12. Valor da decisão pagamento de um.dívida da exclusiva responsabilidade docônjuge executado,
fossem nomeados à penhora bens comuns, a execução destes ficava suspensa
OartO 25°, n° 2, DL 329-A/95 estipula que às decisões penais proferidas até à dissolução, declaração de .nulidade ou anulação do casamento ou ao
após I de Janeiro de 1997 é aplicável o disposto nos art°s 674°cA e 674°-8. decretarnento da.separação judicial de pessoas e bens ou só de bens (art" 825",
Portanto; essas decisões, possuem, numa posterior acção civil. a eficácia n° I, CPC16 I I, agora, segundo a nova regulamentação, o. exequente pode
estipulada nOSarr's 674°-A e 674°-B. nomear penhora bens comuns do casa), desde que peça a citação do cônjuge
à

do executado para requerer a separação de bens (art" 825°, n° I), e a execução


2.13. Acção executiva desses bens só fica xuspensa até à partílha (art" 825°, n" 3).

Aos procedimentos de natureza declarativa enxertados em execuções


pendentes e que devam ~r::rdeduzidosna sequêncra de ptazos Inicladosapés IV, Aplic~çào imediata ex voluntate
I de Janeiro del997saQ mteirarnente aplicáveis as disposições da lei nova,
incluindo as referentes ao novo processamento do processo declarativo
I. Adequação do procedimento
ordinário, sumário ou sumaríssirno (art" 26°, n° I, DL 329-A/95). Esta previsão
abrange, por exemplo, os embargos de executado (art"s 1112°aS 18°, 926°,
Oart" 28", n° .I. DL 329-A/95 permite que, nos processos declarativos que
n" I, 929° e 933°, nOs 2 e 3) e os embargos de terceiro (artes 351 ti a 3'59°),
sigam a forma ordinária ou sumária (não, portanto, nos processos sumarfssimos,
O art026°, n" 2, DL 329-A/95 determina que às,penhoras ordenadas após
nem nos processosespeciais) e que, em I de Janeiro de 1997"não estejam ainda
I de Janeiro de 1997 é aplicável o disposto nos art''s 8210 a 832° (bens que
conclusos para elaboração de despacho saneador, as p.artespússam, de' comum
podem ser penhorados) é;. 837°-A li 863°·B (relativos à averiguação oficiosa de
acordo, requerer quê, findosos articulados, se realize uma audiência preliminar,
bens penhoráveis e á() dever de cooperação do executado, bem corno à penhora
seguindo-se, conforme os casos, o disposto nos art'x 508° a 508"-B ou no
de imóveis. de móveis e dedireitos).
art'' 78T", Essa aplicação, convencional estende-se à. tramitação posterior .da
No urt" 26°, 11° 3, DL 329-A/95 dispõe-se que, nas execuções que, em
causa c aos incidentes e procedimentos cautelares que nela venham a ser dedu-
I de Janeiro de 1997, se encontrem pendentes, sem que se hajam ordenado nll
zidos, sem prejufzo; como se compreende, da validade e eficácia dos actos
iniciado as diligências necessárias para a realização -do pagamento, silo
praticados ao abrigo das disposições legais anteriormente vigentes (art" 28°,
aplicáveis as disposições da lei nova (cfr, artas 872° a 91IQ).incumbihOo,
Introdução à reforma 23
22 Introdução li reforma

2. Solução
n° 2, DL 329-A/96). Cumpre ao juiz, no entanto, adequar o processado segundo
os termos previstos no art" 26SO-A, de modo a obstar a que a imediata aplicação Particularmente questionãvel é a aplicação das normas respeitanres à
da lei nova possa implicar quebra de harmonia ou de unidade entre os vários adrnissibilidude do processo, isto é, aos pressupostos processuais, sempre que
actos ou fases do processo (art" 28°. n" 4, DL 329-A/95). a lei nova venha considerar preenchido um pressuposto que faltava no domínio
Na decisão dos incidentes da instância inseridos em acções em que as da lei antiga. As opções são as seguintes: - se não se considera a lei nova
partes optaram pelo novo procedimento, deverão considerar-se as alterações imediatamente aplicável, aceita-se o proferirnento de uma absolvição da
legais que impliquem convolação para incidente diverso do indicado pelo reque- instância, mas não se pode evitar que o autor instaure de imediato uma nova
rente, com aproveitamento do processado e respeito das garantias das panes acção idêntica à anterior (cfr. art° 289°. n" I); - se, pelo contrário, se aplica de
(art" 28°, n° 3, DL 329-A/95). Assim, se, por exemplo. o autor. durante a vigên- imediato a lei nova, obsta-se quer à absolvição da instância, quer à eventual
cia da antiga redacção do Código de Processo Civil, tiver arguido a falsidade propositura de uma nova acção. Esta última é a solução claramente preferível,
de um documento através do respectivo incidente (arr's 3600 a 366° CPC/61), até pela perspectiva dos interesses do réu, que não corre o risco de ser
à apreciação dessa falsidade aplica-se agora o disposto no arr''s 544° a 551°, demandado em duas acções seguidas com o mesmo objecto.
Suponha-se. por exemplo. que, em I de Janeiro de 1997. está pendente
2. Renovação da instância uma acção proposta por uma sociedade irregular; essa sociedade não possui
personalidade judiciária activa segundo a antiga versão da lei processual civil
Nos processos declarativos ordinários e sumários, pode a parteinteressada. (art" 8°, n" I. CPC/61). mas possui-a segundo a nova regulamentação (art" 6°,
no prazo de 30 dias a contar do trânsito em julgado da decisão final, requerer al, dj); deve entender-se que, nesse processo pendente, cessou essa falta de
a renovação da instância, desde que seja sanável a falta de qualquer pres- personalidade judiciária. Outro exemplo: admita-se que, em I de Janeiro
suposto processual, que. nos termos da lei nova, pudesse ser sanada (an° 29" de 1997. está pendente uma execução baseada num documento particular
DL 329-,A.l95). Assim. se, por exemplo, o réu foi absolvido da instância assinado pelo devedor, mas não reconhecido por notário; este documento não
com fundamento na falta de personalidade judiciária da sucursal demandante era título executivo segundo a versão do Código de Processo Civil vigente no
(artOs 493°, n" 2, e 494°., na I, al, c), CPC/61), a respectiva administração prin- momento da propositura dessa execução (art" 51°, n" I, CPC/61), mas é-o
cipal pode requerer a renovação da instância e ratificar ou repetir o processado segundo o novo regime dos títulos executivos (art" 46°, al. c»; deve considerar-
pela sua sucursal (arr08°). -se que esse documento passa a constituir título executivo suficiente nessa
execução pendente (cfr. Assento/STJ 9/93, de 18/12 = BMJ 431, 19).

V. Aplicação imediata doutrinária Defendendo a npl icação imediata da lei nova sobre a exequibilidude dos documentos
particulares. clr. também STJ - IH/2119R6, BMJ 354. 467; RC - 1.5112/19&7. BMJ 372.4R3:
STJ - 9/2/t9~H\. BMJ 374. 395; COn1flL, STj . 2011011988. BMJ 37X. 440.
I. Problema

Os art''s 13° a 29° DL 329-A/95 contêm diversas regras de direito VI. Adaptações noutra legislação
transitório quanto à aplicação da nova versão do Código de Processo Civil.
Pode discutir-se, na entanto, se a enumeração dessas regras significa que não
existem quaisquer outras possibilidades de aplicação lrnediara da nova I. Prazos processuais
regulamentação legal ou se, para além delas, subsistem outras hipóteses de
Vária legislação utiliza o direito processual civil C0l110 lei subsidiária, pelo
aplicação imediata da lei nova. Parece dever entender-se que esse enunciado
que a introdução de modificações naquele direito pode provocar a necessidade
das situações de aplicação imediata da nova lei processual não esgota todas as
de proceder a adaptações naquela legislação. Dado o regresso à regra da
hipóteses possíveis.
lntrodução ri reforma 25
24 Introdução li reforma

nos meios acadêmicos, nos varies sectores das profissões forenses e na


continuidade dos prazos determinado pelo art" 144°, n" I, o art" 6", n" I, população em geral. se formou sobre a indispensabllidade de uma reforrnulação
DL 329-A/95 fornece uma tabela para a adaptação dos prazos processuais global do processo civil português (5). As soluções fornecidas pelo Código de
estabelecidos nessa legislação quandoainda vigorava a regra da contagem Processo Civil de 1939" que. em si mesmo, representou um avanço notável
descontínua (art" 144°, n'' 3, CPC/61). Note-se, todavia, que essa. adaptação não relati varnente ao anterior Código de 1876- talvez se mostrassem adequadas a
abrange o processo constitucional (art" 6°, n° 2,DL 329-A/95) e que, para lima sociedade pouco industrializada e com uma classe média ainda pouco
efeitos do processo penal, se rnantémem vigor a regra da descontinuldude na expressiva, mas tornaram-se progressivamente desajustadas perante a litigio-
contagem dos prazos processuais (art" 6°, n" 3, DL 329-A/(5). sidade de massas que foi incrementadapelo crescimento económico e as suas
repetidas crises, pela expansão da classe média e das relações de consumo e
pela liberalizaçâo das relações sociais e problemas colaterais (6).
2. Remissões

Alguma legislação serve-se, na previsão ou cstatuição das suas normas, é. importante conhecer alguns aspectos quantitativos da litigiosidade civil em Portugal.
De um recente e muito interessante estudo. podem retirar-se alguns dados significativos sobre
de conceitos processuais ciVIS. Peranté as alterações introdu/idas pelos essa litigi()sidade: - o número de processos cíveis entrados por 10.000 habitantes passou de 89,1
Decretos-Leis n~s 329-A195 e 1$0/96, houve a necessidade de adaptar as em 11)70para 3.15.8 em 1993'7', o que significa um aumento de cerca de 350%; " entre 1974 e
remissões efecruadas por essa legislação para o novo processo .civjl.Essll ê a 1993 (portanto, durante. 20 anos), apenas em dois anos (1986 e 1990) não houve acumulação
função dós artOs 9" a 116 DL 329-A/95, Assim, as remissões corrstanres de de pl'llCCSSOS "", isto é. não se verificou excesso dos processosentrados sobre os findos; - em
1l)'iJ, as acções declarativas representavam 56,6% do total das acções cíveis, enquanto as
legislação avulsa para processos. especiais eliminados têm-sepor feitas para o
acções executivas não excediam os 34,7%, os inventário, se ficavam pelos 3,8%, os processos
processo comum apropriado (art" 11° DL 329-A/95); as remissões feitas para tutelares cíveis pelos 4,7% e os processos de liquidação de patrimónios pelos 0 ..1% (91;- em 1993,
o processo executivo sumaríssimo consideram-se realizadas para. o processo dentro das acções cíveis. as mais frequentes foram as acções relativas li (lívidas, que
executivosumárío (art" 9° DL 329~A/95), o quedecorre da supressão da acção representaram 65.2% do total. das quais 60,8% terminaram com a condenação do réu no
pedido; seguiam-se as ucçõcs de divórcio e separação, que atingiram 10,4% do total (11'11; - cerca
executiva surnarrssima (cfr. art" 465"); f'inalmentecas remissões feH,\s em
de metade elas acções civis possuem valor Igualou inferior a 250 contos 11l1,isto é, seguem,
quaisquer óutro« diplomas legais para a arrernaração vem hasta pública
consideram-se éfectuadas para a venda mediante propostas em carta fechada
(art" 10° DL 329-A/95), que éa modalidade de venda que, em regra, deverá '.;1 As fundadas preocupações da classe da advocacia sobre o estado do processo civil encontram-
ser utilizada na acção executiva (cfr. art?s 8860 e 8890 a 901°). -se bem expressas nas várias intervenções proferidas no 111 Congresso dos Advogados
Portugueses (Porto. 25-28/l O!l 9<)0): er-. Terceiro Congresso dos Advogados Portugueses J
/ Rclutorios " COI1lUl/iCI/\,lks (Porto 1990), 473 SS.; idênticas preocupaçõexsohressaem das
conclusões do IV Congresso (Funchal, 18"21/511995): ctr. BOA 3/95, 23 ss ..
§ 2". ,(>I Sobre alguns interessantes aspectos quantitativos da lirigiosidade em Portugal. cfr. B. Sousa
Sal/los / Maria M. Leitão Marque.l· I João Pedroso I P. Lopes Ferreiro, Os tribunais nas
Orientações fundamentais sociedades conternporâneus 1 O caso português (Porto 1996), 125 SS.; em geral, cfr, Merrvman,
Population, civil liligatio" and legal science, Studi in onere di Vittorio Denti I (Padova 1994),
IXI ss .. Sobre evolução económica portuguesa, cfr., v. li" Pedro l.ains, O Estado e a
industrial izução em Portugal. 1945-1990, Análise Social 128 (1994), 923 SS.; Silva Lopes,
I. Propósitos A economia portuguesa desde 1960, ;11 Antônio Barreto (Org.), A Situação Social em Portugal,
1960-1<)9;; (Lisboa 1996).23:\ SS ..
,71 H. SOl/.'" SW/II).I· et ai .. Tribunais, 110.
(,/ fJ. SOl/.'" SI/JI"'.I· 1'1 a!.. Tribunais, 110.
I. Enquadramento
f!)) H .. )'OllSU SlIl/{O.\' eí al., Tribunais, 126.
"'" B. '<;0".\'(/ SII/I/(JS 1'1 ai.. Trihunais. 131 s. e 173.
a. O diagnóstico dos múltiplos problemas, que afectam a justiça portuguesa ,,) I 8, Sonsa Santos 1'1 ai.. tribunais, 14R.
encontra-se há muito realizado. Indiscutível é também o amplo consenso que.
tntroduçâa à reforma 27
26 lntrodução à reforma

dotribunal. o processo justl) (publicidade das audiências e princípio do contrndirório), a durnção


em Tl'gra, a forma do processo sumurissimo: - a média de 198':J-IIN) mostra que 54,1% düs razoável do prqccsso c li motivação das decisões judiciais' (141,
autores das acções déclawtivils são pessoas colectivas c que 72"", uns réus são pCSS<HIS
singulares 1121,

2, Concretizução
b,be uma legislação processual civil espera-se que ela permita uma
rápida realização do direito material através dos tribunais e, quando for esse o Da qualificação
dos tribunais como õrgãos de soberania (de art" 113ô,
caso, uma adequada solução dos. litígios e um pronto restabelecirnento da paz n" I. CRP) decorre que o processo reflecte necessariamente as relações entre
jurídica, Justiça e eficiência devem seras orientações fundamentais de qualquer o Estado co indivíduo e a posição tio Estado permite .a sociedade ou, mais
legislação processual ci vil. É claro, no entanto, que elas não possuem a mesma concrerarncnre, perante o indivíduo e os grupos, organizadosou inorgânicos,
importância e' não podem ser equiparadas na mesma categoria: a.justiça é um que nela se formam, Não pode admirar, por isso, que as ideologias políticas
valor sobre o qual não se pôde transigir; a eficiência e
UI1)avariável-que importa subjacentes ü organização do Estado tenham um reflexo directo na. posição do
utilizar numa medida que não .afecte o valor da justiça, o
ideal é que esta juiz (isto é, do órgão de soberania) perante as partes da acção (ou seja, os
eficiência seja; ela mesma. um instrumento para alcançar a justiça, pois que a indivíduos e os grupos), Enquanto uma ideologia de .índole liberal tende a
obtenção desta não deve ser frustrada nem por uma morosidade processual que colocar o juiz numa posição passi 'la, QUde mera reacção perante a actuação das
atrasa a decisão da causa até à fronteira da denegação de justiça, nem por uma partes, umaideologia de carácternão Jiberal (seja ela de inspiração autoritária
complexidade do processo que canaliza o trabalho do tribunal e o esforço das ou decariz democrático e social) não hesitará em atribuir ao juiz um papel
partes para a resolução e a superação das questões processuais e não para. a interventor na condução do processo e na procura da solução.do conflito (15),
apreciação e discussão do mérito da causa. É clara a opção ideológica da reforma, No preâmbulo do Decreto-Lei
Assim, Orná reforma do processo civil deve orientar-se. nos tempos n° 329-A/95 explicitam-se as "linhas mestras'; que presidiram à reforma agora
actuais, pelos seguintes objectivos gerais: -a justiça da resolução dos conflitos realizada no processo civil, nacional, Destacam-se as duas seguintes: - a dis-
sociais, o que exige Uma decisão rápida; oporturta e adequada composição
à
tinção entre Os princípios estruturantes, que se referem aos valores fundamentais
do litígio; - a eficiência da actividade os sujeitos processuais, que deverá ser do proCeSsO civil, eas regras de natureza instrumental, que definem o funeio-
atingida através da subordinação da actuação das partes e do tribunal a um nameruo dosisterrta procesSlIal; ~a garantia daprevalência do fundo sobre fi
princípio de colaboração ou de cooperação! O), A prossecução dcstcsobjeetivos formá e,pot\anto,a orientação pela verdade material, que se procura alcançar
corresponde certamente ãs expectativas tanto dos, profissionais do foro, que atravé~ da concessão ao juiz de um papel mais interventore da submissão da
esperam uma lacilitação do diálogo processual, uma diminuição dosaspecto~ actuação do. tribunal e das partes 11 um princípio de cooperação. Trata-se do
formais e um aligeiramento da carga burocrática, como da população em geral. primeiro esforço de ruptura com algumasdas tradições napoleõnicas e liberais
que deseja uni mais fácil acesso ao direito, mais .celeridade nas deoisões dos do processo civilnacional, em especial quanto ao âmbito-da disponibilidade
tribunais e menos custos do processo. das partes sobre o processo e ao predomínio da di~c.lIssãv escrita. sobrea eral,

Tem interesse referir que a ·ComÍ.iw/" do Codiga Processual Europeu; que, \:111 Fevereiro
de I':J90, foi encarregada pela Comlssãodas Comunidades Europcius de elaborar um-estudo sobre IIJ.lCfr. SI01'I/I(', Rapprochernenrdu Droit Iudiciaire de lUnion européenne J Approximation
aaproximução do direito processualnos então doze Estedos-membros. definiu como printl()iü;; of Judiciury Law in ihe Europeun UniOIl (Dordrecht I'Bos(on.l London 1994),30 e 64.; sobre o
e 'aspirações da SÚ';i ucuvidadc os seguintes: o pri'licípio dispositivo, o acréscimo da eficiência, assunto, d;r. Kératnens, Procedural .Harmonization in Europe, ArilJCompL 43' (,199.5),.401 SS,;
o mais fácilaccxso 11 justiça, a redução dos custos do processo, a independência e imparcialidade flm/r, Dic Vorschluge der Kommission fUI' cin europüisches Zivilprozeêgesetzbuch - das
Erkcnntuisvcrtuhrcnv Zz.l' 109 (1996),271 SS..
II~> Sobre o lugarpnrulelo da relação entre a admínístração pública e o cidadão, clr.. com muito
interesse, v. Pereira (/(1 Silva, Em busca doucto.adruinistrativo perdido (Coimbra 1996),38 ss.;
B, Sousa S{//1f(J,\' ct (JI,,-TriblHíais, 234,
(12) para uma perspectiva histórica do Estado liheral, cfr. .M. Glória Dias Garcia. Da Justiça
Sobre um "programa básico" da campanhaem prol da efeciividadc di, procexsu, ctr. RlIr!J",1:/I
113> Administrutiva \:111 Portugal ," Sua origem e evolução: (Lisboa 19':J4), 263 SS,.
Moreira. Elctividade do processo C técnica processual, Ré". Forense J29 (llj9Si. 91 ss"
I '

introdução à reforma 29
28 lntrodução li reforma

b. É curioso verificar que, em alguns dos seus aspectos eSSenCI<IIS, a


e de uma primeira actualização segundo as modernas "correntes do tempo c reforma agora realizada se enquadra completamente na linha evolutiva iniciada
do espírito no processo' (Ifi). pela revisão da legislação processual civil encetada pelos Decretos nOs 12.353.
de 12/9/1926, e 12.488, de 14/10/1926, e que se viria a corporizar no Código
de Processo Civil de 1939. Essa legislação, elaborada por A/berto dos Reis sob
JI. Realizações a manifesta influência do combate de Chiovenda pela oral idade, imediação e
concentração do processo (17), tem plena continuidade na relevância que a
reforma concede, por exemplo, à audiência preliminar (art'ts 508°-A e 508°-8).
1. Enunciado geral
Outras linhas de torça da reforma não se reconduzem ao legado chio-
a. A reforma do Código de Processo Civil realizada pelos Decretos-Leis vendiano c são verdadeiramente inovatórias no processo civil português. É o
nOs 329-A/95 e 180/96 mostra que as "linhas mestras" referidas no preâmbulo caso dos importantes princípios da igualdade substancial e da cooperação entre
daquele primeiro diploma estiveramefectivamente subjucentes às alterações o tribunal e as partes, estabelecidos, respectivamente, nos art°s 3°_A e 266°,
realizadas: aquelas linhas obtiveram tradução em muitas das soluções pro- nOs I e 2. A tarefa de assegurar, através da acti vidade assistencial do juiz, uma
jectadas e enforrnaram a meus legislatoris em muitas das modificações igualdade substancial entre as partes é uma preocupação oriunda do socialismo
introduzidas. Talvez nem sempre as soluçõex coucretas reflictam. parti- jurídico oitocenrista, especialmente defendida, na área processual, pelo social-
cularmerue na sua formulação, a concisão necessária e adequada a um texto -democrata austríaco Anton Menger (1M) e transposta pelo grande reforrnador
legislarivo, talvez nem sempre se tenha resistido à tentação de regulamentar o FWI1: Klein para a Zivitprozeiiordnung austríaca de 1895 (19).
pormenor e o casuístico. talvez em alguns pontos se pudesse ler ido mais fundo
nas modificações introduzidas, talvez tenham ficado por tratar algumas matérias
igualmente carecidas de actualização, mas, apesar de tudo isto. é indiscutível 2. Direito jurisprudencial
que, na generalidade, a reforma agora realizada merece ser enulieclda c
aplaudida, Nota-se que, em comparação com a anterior versão, o novo texto do
Não deixa; contudo, de ser paradoxal que a consagração em Portugal de Código de Processo Civil serve-se. mais frequentemente, na redacção dos seus
algumas das soluções do processo civil características do Wef!c,re State só tenha
acontecido num momento em que. antes mesmo de este ter alguma vez 117, Clr. Albcrto tlo« Reis. Breve Estudo sôbre a Reforma do Processo Civil c Comercial
conseguido uma expressão completa nasoeiedade portuguesa, se prognostica (Coimhru 1927). VIII ". c 184 sx. (= Albertt) dos Reis. Breve Estudo sôbrc a Reforma do
a crise e a falência desse sistema. É assim inevitável que o futuro da reforma Processo civil c comercial 2 (Coimbra 1929). X ss. e 402 ss.): clr. também. com especial
e do processo civil que ela introduziu esteja em muito dependente de factores interesse. C/'ÍlII'('I/(III. Le rifurrne processual i e le correm i dei pensicro moderno. ;11 Chiovenda.
Saggi di Diriuo Processuale Civile 1 " (Milano 1993).379 SS.: Chiovenda, Lo stato attuale dei
que lhe são exógenos, quer num plano ideológico e cultural, quer num âmbito
processo civile in Italia c il progeuo Orlando di ritorrnc processuali, iu Chiovenda, Saggi I R.
económico e social. 395 ss.. Denti, Giustizia civile, 32 SS. chama a atenção rara a influência que o filósofo c
reformudor jnglê~ .Ierelll.\' Bentluun e a experiência do triat anglo-saxônico assumiram na
formação do pensamento de Chiovenda.
"x, Menger. Das hürgerliche Rccht und dic besitzlosen Volksklussen (Wien 1890); ctr. também
Recorre-se ..uo ntulo da célebre conferência proferida por Frtni; st-.«. na Funlhl,'iio Gehe.
(1(,>. /)1'111;. Giusuzia civile, 26 SS.: Turello, Dortrine. 17 ss ..
em '9 de Novembro de 1901:' "Zeit- und Geistcsstrõmunuen im Preze-se" (cfr. Klcin. Rcdcn. li')) Ctr .. por exemplo. Klein, Pro futuro. Betrachtungen übcr Probleme der Civilprozeílreíorm
Vortrügel Aufsãtze, Bricfc I (Wien 1(27). I í7 ss. t= KI<'in. Zcii- und Geislcssfriimungcri im in Ocsierreich. (Leipzig / Wien IX9t); algo crítico perante o legado de Klcin, cfr, Cipriuni. Nel
Prozesse 1 (Frunkfun arnMuirt 195B»). Sobre as caractcrísucas do processn civi] unpuleúnico, ccntcnario dei Regolamcnto di Klcin (11 processo civile tra libcrtà e autorità), RDP 50 (1995),
clr. a muito interessante. obra ,I~ 1'1(/,,,1/0. Dntrrine dei processo civilc / St udi ,\(·,rici xull •• 977 ss .. A Fran; KIl'Í1l cstariu reservado ainda um outro papel histórico: seria ele que. na
Iormazionc dei diriuo processualc civile (Bnlligna 19991. 15 s.; iambém vo» C(/l'lIeg"lII. His- qualidade de representante du Áustria, assinaria 11 tratado de Saint Germain de 10 de Setembro
rory of Europeun Civil Procedurc, lnt. Enc. Cornp. Law XVI/2. S7 SS.: /)ell/i. La giustizia civilc de 1919. que determinou a dissolução do Império Austro-Húngaro.
/ Lczioni introduuivc (Bologna 19H9). 18" ..
lntroduçãa ti reformo 31
30 11/.1 rodução li reforma

do tribunal, em especial como consequência dos princípios da cooperação


preceitos, de conceitos indeterminados e de cláusulas gerais. Lembre-se, a par (urt" 266°. n° I) e da igualdade substancial das partes (art° 3°-A).
de outros que transitaram da anterior redacção, a "manifesta desnecessidade" Muito há ainda a melhorar nesta área, tanto no aspecto da formação dos
(arr's 3°, n" 3, e 20r), a "igualdade substancial das partes" (urt" 3°_A), a "justa magistrados e da sua contínua c permanente actualização. como IiO do aumento
composição do litígio" (art°s 31°, n° 2, 265°, n° 3, 266°, n° L e 5 19"·A, n° I); do número de tribunais (mesmo de segunda instância) e respectivo apetre-
a "dúvida fundamentada sobre o sujeito da relação controvertida" (art" 31 °_8),
charncnto quanto a pessoal. instalações e meios técnicos. Também não devem
o "inconveniente grave" para a parte (art" 99°, n° 3, aI. c», o "prudente urbítrio" ser esquecidos alguns aspectos da regulamentação relativa à organização
do tribunal (art''s 156°, n° 4. e 824°, n" 2), o "embaraço grave ao andamento judiciária e a necessária reponderação de algumas das soluções fornecidas
da causa" (art" J 690, n° 3). o "normal prosseguimento da acção" (art" 265". pela (ainda) demasiada complexa Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais (Lei
n? I), os "esclarecimentos C .. ] pertinentes" pedidos às partes (art" 266°, n" 2), n° 38/87. de 23/12).
a "dificuldade séria em obter documento, ou informação" (urt" 266°, n" 4). a
"recíproca correcção" dos intervenientes no processo (art° 266"-B, n° I), as 2. Reforma das mentalidades
"expressões desnecessária ou injustificadamente ofensivas da honra ou do bom
nome" da parte (art" 266°-8, n" 2), os "justificados obstáculos ao início pontual Também não pode ser esquecido que, mesmo a mais perfeita das
das diligências" (are 266°-8, n° 3), o "risco sério [dlo fim ou [dlu eficácia da legislações processuais, não logrará obter qualquer êxito se as suas inovações
providência" (art" 385°, n" I), o "motivo ponderoso que impelde] ou dificultla] e desideratos não forem acompanhados por um aggiornaniento das menta-
anormalmente .ao réu QU ao seu mandatário judicial a organização da defesa" lidades dos profissionais do foro. Há que, provavelmente, reforrnular hábitos
(arr" 486°~ na 5), asv'insuficiências ou imprecisões lia exposição ou concre- de trabalho e abandonar rotinas adquiridas. mas 'há, acima de tudo, que
tização ela. matéria de facto alegada" (art" 508°, na 3; cfr. art" :i08°-A. na I. compreender que fi filosofia da reforma só se traduzirá numa justiça mais célere,
al. c», a "manifesta simplicidade" na apreciação de uma excepção dilatória ou económica e segura (20) se os magistrados, advogados, solicitadores e funcio-
do mérito da causa (art" SOso-E, n° I, aI. b)), o "manifesto lapso O() juiz nários judiciais se empenharem conjuntamente nessa imperiosa tarefa.
na determinação da norma aplicável ou na qualificação jurídicu dos fucros' Conforme refere Fasching . uma reforma do processo é, antes do mais, uma
(art" 669°, n" 2, al, a», a "prudente convicção [do tribunaljacerca de cada. facto' reforma das pessoas que actuam em processo 121 I.
(art" 655 n° I), o "recurso
0
, r... ] manifestamente infundado" (art° 705°) e A nova legislação processual civil apela acentuadamente à auto-
"a especial complexidade dacausa' (att" 787°). -responsabiliz ação dos vários agentes do processo. Só nessa base se pode
Estes conceitos indeterminados e estas cláusulas gerais apelam. natural- compreender, por exemplo, a faculdade; agora concedida às partes, de soli-
mente, a um esforço valorativo dos tribunais na sua concrctização. Isso significa citarem a prorrogação dos prazos para a apresentação dos articulados
que o direito processual civil se tende a tornar, num significativo âmbito da. (art°s 486°. nas 5 e 6. e 504°). Mas a ela está igualmente subjacente uma
sua aplicação, num direito jurisprudencial. forte componente de responsabilização desses agentes: é isso que justifica, por
exemplo, a condenação da parte que tiver omitido gravemente o dever de
cooperação como litigante de má fé (art" 456", n" 2, aI. c)). É, aliás, salutar
lU. Condições para a cultura judiciária nacional que a responsabilidade profissional seja
realmente actuada e exigida, quer na relação do mandatário judicial com o
constituinte, quer naquela que se estabelece entre o juiz e as partes.
I. Condições materiais
I"" Na triologia referida (e desejada) por PI!.\'.'IIa jI((~, O trfplice ideal da Justiça célere.
Nenhuma reforma do 'processo civil poderáalcançat sucesso se a económica e segura ao alcance <lo legislador processual mudemo. ROA 3] (19n), 167 ss..
1211 Fa.\'dJil/g. Prozeüprinzipien uud Relorrn dcs Zivilprozcsscs. ;1/ Holler I Berchtolt! I Fasching I
organização judiciária não conseguir responder. em qualidade e quantidade. ao
I B(I""~()1I1 Berrei I Schneider. Verfahrensgrundsãtze . Verfuhrcnsrcformcn im õstcrreichischen
que lhe é exigido. Isso é particularmente importante numa nova legislação
Recht (Heidelberg I Kurlsruhc 1980). 73 = FG Fasching (Wien 1993). 144.
processualque apela frequentemente aos poderes assistenciais e discricionários
r- r

Principios estruturantes 33

lI.

OS PRINCÍPIOS ESTRUTURANTES
DA NOVA LEGISLAÇÃO PROCESSUAL CIVIL

§ 1".

Acesso à justiça

I. Direito à jurisdição

o art" 10 PUDH estabelece que "toda a pessoa tem. direito, em plena


0

igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um


tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou
das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja
deduzida", Algo de semelhante se dispõe no art" 140, na I, PIDCP: "Todos são
iguais perante os tribunais de justiça. Todas as pessoas têm direito a que a sua
causa seja ouvida equitativa e publicamente por um tribunal competente,
independente e imparcial, estabelecido pela lei, que decidiráquer do bem
fundado de qualquer acusação em. matéria penal dirigida contra elas, quer das
contestações sobre O~ seus direitos e obrigações de carácter civil l.·; l",
Finalmente, o art" 6 na I, CEDH estabelece que "qualquer pessoa tem direito
0
,

a que a sua causa seja examinada, equitativa e publicamente, num prazo


razoável por um tribunal independente e imparcial, estabelecido pela lei, o qual
decidirá. quer sobre a determinação dos seus direitos e obrigações de carácter
civil, quer sobre o fundamento de qualquer acusação em matéria penal dirigida
contra ela [... ]". Todos os preceitos citados atribuem um direito à jurisdição
ou de-acesso à justiça (I l,

11) Sobre estas Convenções internacionais. cfr. Comoglio, I mudeJli di garanzia costituzionale
deI processo, Studi in Onere di Vittorio Denti [ (Padova 1994). 30H ss.; sobre aquele direito.
cfr. Comoglio, La gurunzia costituzionale dellazione ed il processo civilc (PadOV<I 1970),
97 ss. c Ilil SS.; Trorker, Processo Civi lee Costituzione (Milano 1974), I li I ss.: Lopes do Rego,
Acesso ao direito.e aos tribunais, in Estudos sobre 'a jurisprudência do Tribunal Constitucional
(Coimbra 1993),91 ss.inuma perspectiva sociológica. cfr. S. S(J/1Sfl Santos, Pela mão de Alice I
IOstH;ial e" político na pós-modemidade (Porto 1994). 141i 5S ..
Principios estruturantes 35
34 Princípios estruturantes
----~--~----------~------~------------------

dadas pela reforma do Código de Processo Civil a cada um destes pro-


Este direito de "cesso à justiça sem qualquer discriminação por motivos
blemas.
económicas é uma consequêrrcia do Estado. social de direito LJuese encontra
consagrado no art" 2° CRP C.'I. O acesso à justiça não é. aliás, o único direito
fundamental que deve ser assegurado ao cidadão na. área da. protecção dos 2. Obstáculo económico
direitos: adequadamente, o art'' 20°, n" I. CRP atribui .. a parda garantia
de acesso .aos tribunais, uma garantia de acesso aopróprio di reiro , Sem este A garantia do acesso à justiça. para ser efectiva, pressupõe a não
"direito ao direito", lt garantia do acesso aos tribunais podetta tornar-se vaúa discriminação por insuficiência de meioseconórnicos (art° 2(}0, .0°1 ;/1 fine,
e ilusória, dado que não importa criar as condições para aceder àp~ ttjljunais CRP) .. O ;.trt°6° DL 387-B/87 garante, no âmbito da protecção jurídica, o
$e,síttluJrai)e.àmentê, não se POSSIbilitar O conhecimento dos direitosque se chamado apoio judiciário, o qual compreende a dispensa, total ou parcial, ou
podem defender através desses órgãos. Nesta perspectiva. percchc-se que. nos o difcrirnento cio pagamento de taxas de justiça e de custas. assim como a
termos do art" 20°, n" 2. CRP, a garantia do acesso ao direito en~olva o isenção do pagamento dos serviços do advogado ou solicitador (art" IS°, 11" I.
direito à informação e consulta jurídicas e, em caso rle necessidade, .ao DL 387-B/1I7). Este apoio judiciário destina-se a evitar que os custos
patrocínio judiciário e que o arr" (l DL 3g7-B/g7. de 29/12.englpljç Q direito relacionados com o processo sejam util izados pela parte economicamente mais
à consulta jurídica e ao patl'odÍnio judiciárip num f1i;:üs vasto direlt(l à prQtécçao poderosa como um meio de pressão Sobre <I parte ii1ai::; fraca.
jurídica, A reforma introduz várias alterações dominadas pela preocupação de não
dificultar o acesso à justiça por motivos econórnicos e justificadas pela garantia
do acesso ao direito e aos tribunais estabelecido no art° 20° ,n° I, eRP.
11. Garantias do acesso à Justiça Paradigrnãtico ti esse respeito é o novo regime relativo aos reflexos do
incurnprimento das obrigações tributárias em processo: - a falta de demons-
I. Generalidades tração pelo interessado do cumprimento de obrigações de natureza tributária
não obsta ao recebimento ou prosseguimento de qualquer acção, salvo no caso
Quando considerada na perspectiva do acesso ~I justiça, qualquer reforma
de transmissão de direitos operada no próprio processo (art° 280°, n° I);
do processo civil deve orientar-se para a. eliminação dos obstáculos que
- o incurnprirnento de quaisquer obrigações tributárias não impede que os
impedem, ou, pelo menos. dificultam, esse. acesso" Cuppelteití considera os
documentos aelas sujeitos sejam valorados como meios de prova, sem prejuízo
seguintes obstáculos ao acesso à justiça: - o obstáculo econémico, se os inte-
da participação das infracções verificadas pelo tribunal (art" 280°, n? 2); -
ressados não esti verem em condições de aceder aos 'tribunais porcausa da sua
finalmente, quando se trate de acções fundadas em actos provenientes do
pobreza; oobslácUlo
-c otganizatório, porque ,a rutcla de certos interesses
exercício de actividades sujeitas a tributação e o interessado não haja demons-
colectivos ou difusos impõe urna profunda transformaçãonas regras e insti-
trado o cumprimento de. qualquer dever fiscal, a secretaria deve comunicar a
lutos tradiciorrais do. direito processual; - finalmente, o obstãculo propriu-
pendência da causa e o seu objecto à administração fiscal, sem que o andamento
mente processual, porque os tipos tradicionais de processo süo' inade-
regular do processo seja suspenso (art" 280°, áO 3). Pode assim concluir-se que
quados para algumas tarefas de tutela nl. Importa verificar quais as respostas
o incumprimento das obrigações fiscais não afecta o exercício de qualquer
l~' N~ jurisprudênclu vonstinrclonal. cfr ... com muito interesse, Te- 161i<l3 (9t:lIr<)<)~), direito ou faculdade ou O cumprimento de qualquer ónus numa acção pendente.
DR.II - [0/4/1993. 3868 ~ I3MJ424. 179; sobre a eórnputibilidade da gar<lnlia do acesso à,
justiça.com as CLLqaSprocessuais. ctr. TC -49/92 (29iI!ll)92). DR.II - Il/óll'J92. 5192(39) = Signil'icutivu é tumbéma revogação pcio artO)O DL 329-Al'J5. de 12/12, dos 'inúmeros
= AcTC 21, IR7: TC -161193 (91.2/1993). DR.II ~ 10/411993, 3X61\ = AI:TC 24.3<)1; preceitos que sancionavam com consequências processuais o incumprimento de deveres fiscais:
rc - 409/94 (171511<)94). DR, II '·5/9/1994. 9251 ~BMJ 437, 12x: Te - 40\)/94. Dt<. foi o que sucedeu com os anos 281" .. 2H2". 287', aI. I), 289°. n" 3. 467°, n? 3. e 55 I" CPC/6.1.
fi - 5/911994. 9251 :o BMJ 437. 12>}. Segundo oart'' 14'. nÓ\' DL 3'29-A/95. consideram-se revogadas, com pequenas excepções. as
13} Cfr. Cappellett], L'accesso alia giustizia ela responsabilità dei giurist,l ncllu nostru. cpoca, disposições relativas a custas que estabeleçam comi nações ou preclusõcs de natureza processual
Studi in Onore di ViIW(ÍO Dcnti r (Padova 1.99'4).274 (= Ctí/1fJelll'ui. Dimensioni dcllu giustizia como consequência do não pagamento de' quaisquer preparos ou custas.
nellexocietà contemporanec (Bolugna 1994).; SI ,.
Principias estruturantes 37
:36 Princípios estruturantes

aliás. não pode deixar de acontecer, sob pena de regresso ao velho esquema
3. Obstáculo organizatério das actionrs -. os processos especiais previstos na lei só abrangem certas
situações particulares; o que significa que a grande. maioria das acções propostas
o art° 2f/,Á regula a legitimidade para as acções e procedimentos em tribunal é relcgada para a trarnitação comum (cfr, art" 460°, n° 2). Pode
cautelares destinados à tutela de interesses difusos.icorno os que se referem à assim acontecer que não exista qualquer tramitação especial aplicável. ao caso
saúde pública, ao ambiente e qualidade: devida, ao património cultural. ao e que o procedimento comum, que então deveria sei' seguido, se mostre desa-
domínio público e ao consumo de bens eserviços. Esse preceito reconhece dequado à regulamentação da acção; pode igualmente suceder que a tramitação
legitimidade para essas acções e procedimentos a qualquer cidadão ntl gozo dós especial aplicável seja, relativamente à acção concreta e à tutela que se pretende
seus-direitos civis e políticos, às associações e fundações defensoras dos obter. inadequada ou insatisfatória. A desadaptação formal pode atingir. por
interesses em causa, às aurarquias.Iocais e ao Ministério Público, tudo, porém.
isso. tanto o processo COIllUIll aplicável na falta de qualquer processo especial,
nos termos previstos. no diploma regulador do exercício da acção popular. Esta corno o próprio processo especial que se encontra previsto na lei para o caso
acção encontra-se prevista t10 árt" 52°, n" 3, CRP e o diploma que a regula é a
concreto.
Lei n° 83/95; de 31/8.
O art° 26°-A contém apenas uma norma remissiva para a lei regula-
b. Este problema foi solucionado no ordenamento português por duas vias
mentadora da acção popular, rnns.einda assim, apresenta a vánlageil1 de íntegra r
diferentes: - quantoà acção popular para a defesa dos interessesdifusos, que
no âmbito do processo civil a legitimidade popular, isto é,alegitimidade
Sé encontra prevista no art" 52° .. n° 3. CRP, o respectivo diploma regula-
para a defesa dos interesses difusos através da acção popular previ~ta. no
mentador (a já referida Lei n° H3195) instituiu uma tramitação especial. que
art" 52°, n" 3, CRP. Esclareça-se, a. propósito, que, nos termos do art" 12",
consta dos seus art''s 13° a 20°; - quanto à generalidade das acções civis. o
n02,L 83/95, a acção popular civil pode revestir qualquer das formas previstas
art" 265°-A veio consagrar, de forma inovadora, um designado princípio da
no Código de Processo Civil,pelo que essa legitimidade abrange qualquer
adequação formal.
acção ou procedimenroadmisRívelna, área processual ci vi I.
Segundo o art" 265°-A, quando a trarnitação processual prevista na lei não
se adequar .às especificidades da causa, o juiz deve, mesmo. oficiosamente.
4. Obstáculo processual determinar, depois de ouvidas as partes. a prática dos actos que melhor se
ajustem ao fim do processo e definir as necessárias adaptações no seu
a. Ao processe é conãtüral Um certo forrnalismo .. Ainda que hoje não Já procedimento. Deve entender-se que a iniciativa da adaptação pode pertencer
se lenha sobreesse formalisrno o mesn'!.oentUsiasmo que )hering manifestou. quer ao juiz, quer a qualquer das partes. A adaptação pode consistir tanto na
na sua conhecida' afirmação de que "l). forma é a inimiga jurada ÔQ arbítrio. a realização de actos que não estejam previstos na trarnitação legal e que se
irmãgérnea da liberdade" (4), é certo que não se pode pensar um processo sem mostrem indispensáveis ao apurarnento da verdade e ao acerto da decisão. como
um procedimento, isto é, sem um conjunto ordenado e sequencial de actos na dispensa de actos que se revelem manifestamente inidóneos para o fim do
processuais. processo.
O processo declarativo segue uma tramitação, comum ou especial, fixada O art" 265"-A não o diz, mas é claro que a trarnitação sucedânea tem de
pela lei (cfr. art" 460'''; n? I); Abandonada qualquer correspondência entre '0 respeitar estritamente a igualdade das partes (cfr. art° 3°_A) e, em particular, o
direito subjectivo e a respectiva actio, são fundamentalmente rnotivos ligados princípio do contraditório (cfr. art" 3°, tios 2 e 3 I" parte). Mesmo que, como
à necessidade prática de adaptar a tramitação processual a cenas situações o art° 265°-A, o exige, a parte tenha sido previamente Duvida. ela não fica
especificas que conduzem à previsão de certos processos especiais; Mas - como. impedida de invocar o desrespeito daqueles princípios na tramitação suce-
dânea. A prática ou a omissão de um acto que implica a ofensa daqueles
princípios traduz-se numa nulidade processual (art02010, n° I), pois que
,4)Jhcring ; Geist des romischcn Rechts aufden verschicdenen Stufen scincr Entwicklung. são directamente violados os preceitos que os consagram (art'is 3°, nOs 2 e 3
U/2 J (Leipzig 1875). 47L
Princípios estruturantes 39

38 Princípios estruturant es

Algo se avançou, através da reforma, neste sentido. Na sequência do


disposto no art" 2009°, n° I, al. a), CC, estabeleceu-se expressamente no
la parte, e 3°_A) e essa violação influi certamente no exumeou decisão da
art'' 470°, n° 2, que, no processo de divórcio ou separação litigiosos (que
causa.
continua a ser um processo especial. art°s 140T e 1408°), é admissível n
dedução de pedido tendente à fixação do direito a alimentos. Portanto, O
Convém deixarv.a propósito. uma nota de direito comparado. Algumas re[urma» recentes
art" 470°. n° 2. admite a curnulação de um pedido a que corresponde a forma
do processo civil têm concedido .ao juiz. não a possibilidade' dç adequar a torma processual, mas
à faculdade de optar, num processo pendente, entre v.irias trurnitações ulternutivos. procurando- especial (o pedido de divórcio ou de separação) com outro para o qual deve
-se obter uma maior celeridadc na marcha do processo. Assim. o direito francês prevê três' ser utilizado o processo comum (o de alimentos).
rramitaçõcs pussíveix em primeira instância; , se o presidente do tribunal considera que a causa Mais extensa é a alteração introduzida no art" 31°, n° 2. aliás, igualmente
está pronra para a apreciação sobre o mérito. envia-a.imediaramcntc para a nudi~.lld'a (urt" 760
aplicável à curnulação objectiva simples (art" 470°, n° 1 in fine). O art° 31°,
NCPC)~ -. se isso 040 suceder. segue-se a instruction dcvant te jllgC' d« la II~i.'i~ rn étllf "(a.rlos 762
e 76J ss. NCPC): - nos casos de urgência, () presidente do tribunal pode aurorizar o aUt(ir-à n° 2. estabelece, no domínio da coligação, que, quando aos pedidos corres-
(I:t.vi.~IIt!r [" d~rt!lIdettr ti jourfix« (arl"788' NC?C). No direito alemão. concede-se :10 presidente pendam formas de processo que, embora diversas, não sigam uma tramitação
do tribunal a possibilidade de escolher entre o tratamento oral da causa numa audiênciu prelinlhült manifestamente incompatível, o juiz pode autorizar a cumulação, sempre que
({rii"",. <'rxll'i Tcrntin) ou num procedimento prcpurutóriu escrito (srhriji1id1i,,'i l'or\'jlJ:!áhrl'lI) exista um interesse relevante ou quando a apreciação conjunta das pretensões
(~ 272 ('2) Z~O).
for indispensável para a justa composição do litígio. Esta solicitação pode ser
feita por qualquer das partes com qualquer dos referidos fundamentos .. Nesta
c. Se o juiz fixar, depois de ouvídas as partes. uma tramitução sucedânea
hipótese, incumbe ao juiz adaptar o processado à curnulação autorizada
nos termos do mIO 265°-A, não pode ser praticado nem omitido nenhum acto
(art" 31°. n° 3). o que parece que deve ser feito com observância das condições
desse novo procedimento. As consequências dessa pratica ou omissão levantam
previstas no arr' 265°-A e, portanto, com a prévia audição das partes.
alguns problemas, A cláusula geral constante do art° 20 I ".n° 1. conrinuaa
referir apenas, como CaUSa de nulidade processual, ,I
prática de um acta não
admitidopela lei OUa omissão de.um acto ou formalidade prescrita pela lei,
§ 2°.
nada escíarecendoquanto 11 situação de violação da trarnitação fixuda nos
termos do art" 265°-A. Parece. ncentanto, que. 'basta urna interpretação
extensiva do art" 201 n0 i, para resolver o problema, dado que, a partir da
O,
Garantias do processo justo
entrada em vigor do novo regime processual Civil, este preceito passoun prever
menos do que. devia (devia prever qualquer vlulação da tramitaçà(j processual
e só refere. aquela que infringe o
procedirnentn Iegal). As~im, ter-se-à de I. Direito ao processo justo
entender que a violação qa tranJi!ação sucedânea é igúalmcnteeausa de.
11U lidad e, processual, Não basta assegurara qualquer interessado o acesso à justiça: tão impor-
tante como esse acesso é garantir que o processo a que se acede apresenta,
d. Nas hipóteses de cumulaçâo de vários objectos processuais numa quanto à sua própria estrutura, garantias de justiça. Este direito ao processo
mesma acção, o problema da inadequação formal surge numa outra vertente: justo (Jair trial; fair hearing; encontra-se expressamente consagrado no art" 10°
sempre que uma certa situação da vida jurídica comporte aspectos a DUOH, no art" 14°, n° I, PIDCP e no art" 6°, n° I, ÇEOH m, Todos estes
que, quando considerados parcelarrnente, correspondam processos comuns preceitos atribuem o direito a um julgamento equitativo, que, aliás, eles próprios
e vcspeciais ou diferentes processos especiais, coloca-Se o problema de
saber se essa diferença formaldeve impedir o seu tratamento unitãrio num 151Sobre () art" 60 CEDH e o processo. civil, cfr. Schumann, Menschenrechtskunvention und
mesma processo. É evidente .que desejável.é que motivos formais não Zivilprozelí, FS Karl Hcinz Schwab (Münchcn 1990).449 SS.; Matscher, Der Eint1ufl der EMRK
impliquem um desmembramento de.urna mesma situação jurídica por vários auf den Zivilprozeü, FS Wolfrarn Henckel (Berlin I New York 1995), 593 ss ..

processos,
Princípios eSlrulurwlfes 41
,----------------------~
40 Princípios i'SlrUWf'Wl!eS _

(art°s 1220 a 125°), escusas (art?» 1260 e I :\30) e suspeiçõcs (art?» 127° a 1]3°).
concretizam nas garantias de imparcialidade e de independência do tribunal A par destas garantias, mantêm-se ainda aquelas que estão referidas no art" 7 0

(art" 10" DUDI-I: art? 14°. nOI, PIDCP; art" 6°, n" I, CEDl-l), de igualdade das EMJ c que decorrem da relação de parentesco ou de afinidade entre o juize
partes (art" 10 DUDH; art° 14°, n° I, PlDCP), de publ icidade das audiências
0 Utll outro juiz. um magistrado do Ministério Público ou um funcionário de
(art" 10° DUDH; arr" 14°', n° I, PTDCP; art" 6°, n" I, CEDH), do juiz legal pu justiça do mesmo tribunal ou da sua anterior qualidade de representante do
natural (art" 14°, na I, PIDCP; art" 6°, n" I, CEDH) e de proferimento da decisão Ministério Público no mesmo tribunal ou de advogado no mesmo círculo
num prazo razoável (urt? 6".>n° I, CEDR), judicial.
Estes princípios são, todos eles. susceptíveis, de moldar l) regime Constitui ainda urna garantia das partes a chamada independênciainterna
processuall'". Assim, é indispensável garantíráqucle que recorre aos tribunais do juiz 171, Refere-se esta às influências a que o juiz está sujeito pela sua origem,
(ou que recebe o necesxárioapoio par" poder .a eles recorrer) um julgamento educação ou processo de socialização. Assim, se não possível - nem desejável
é

por um órgâoIrnparcial, uma plena igualdade das partes, o direito ao contra- - que o juiz esteja afastado das correntes sociais e culturais do Seu espaço e
ditório, uma duração razoável da acção, a publicidade do processo é <I tempo, é imperioso que ele saiba assumir um comportamento público que não
efecrivação do direito à prova. A reforma processual civil introduziu ulgumas favoreça a perda da sua imparcialidade, É este aspecto da independência interna
inovações em todos estes aspectos, que importa passar a ana] isur. que justifica a proibição da prática de actividades político-partidárias de carácter
público e de ocupação de cargos políticos pelos magistrados judiciais em
exercício de funções (urt" I l° EMJ), bem como a proibição do desempenho
lI. Imparcialidade do tribunal pelos mesmos de qualquer outra função pública ou privada, salvo as funções
docentes ou de investigação jurídica, desde que não remuneradas (art" 21 g",
n° 3, CRP; art" 13° EMJ).
I. Critérios

A administração dajustiça não é pensável sem 'um tribunul independente


2, Modificações
e itnp,irCÍ<iJ: a imparcialidade do tribunal constitui um requisito fundamental
do processo jll~W (cfr. art" 10° DUDH; are 14°, nO I, PIDCP; art" 6P, n" I. As alterações agora introduzidas pela reforma nas garantias de
CEDH), As garantias de imparcialidade do tribunal podem ser vistas, quer COliJO imparcialidade do tribunal foram as seguintes: - no art" 122°, n° I, a!. h), foi
garantias do tribunal perante terceiros, quer como garantias das partes perante acrescentado. na sequência do que se encontra estabelecido no art? 620°, n" I,
o tribunal.' Naquela primeira perspectiva, as garantias de imparcialidade e da regra da proibição da utilização pelo juiz do seu conhecimento privado,
costumam classificar-se em materiais e pessoais: as gar,llltias materiais um novo motivo de impedimento, que é a circunstância de o juiz ter deposto
respeitam à liberdade do tribunal peranteinstruções ou quaisquer intromissões ou ter de depor como testemunha no processo; " na al. i) dei mesmo art" 122°,
de outros órgãofi do E~t,ld(j (att" 20Qo CRP;qrtO 4°, n .1, EMJ); as garantias Q

n° I, prevê-se que o juiz deve considerar-se impedido quando qualquer das


Pé$soais pf(m~gem O juiz em concreto: são elas uirresponsabilidude (un'' 5° causas de. impedimento se verifique, não em relação a ele próprio, mas quanto
EMJ) e a inarnovibilidade (art" 6° EMJ). a pessoa que com ele viva em economia comum, Este impedimento é
Na perspectiva das partes, as garantias de imparcialidade referem-se Ü igualmente aplicável nos tribunais colectivos (art" 124°, n° 4) e aos repre-
independência do juiz e à sua neutralidade perante o objecto da causa. A nova sentantes do Ministério Público e funcionários da secretaria judicial (art" 125'1,
legislação processual civil conserva, quanto a estas, garantias de Imparcialidade nOs I e 2).
do tribunal, a diferenciação, talvezdemasiado complexa, entre impedimentos
,71 Zwcigcn, Zur inneren Uuabhãngiukcu dcs Richters, lOS Fril1. VOI1 Hippci (Tübingen 1%7),
1('1 Sobre a influência dos principio» (não escritos) no regime processual. cfr. lsunk Me;,'!" ..
711 SS.: W(/SSUIII«nn. Dic nchtcrlichc Gcwalt / Macht und Verantwcrtung dcs Richters in der
modcmcn Gcscllschult (Heidelberg 19~5). 85 ss..
Auflôsung des gescbriebcnen Rechtx durch altgerneiuc Prinzipiennormen (Zürich 1')'1,\), 1,\ 'S,

c 25 SS"
Princípios estruturantes 43

42 Princípios estruturantes

contrapurte. porque esta pode obter uma sentença favorável, mesmo que nada
prove no processo (cfr. art° 516°). Assim, nem sempre é possível obter lima
Hl, Igualdade das partes igualdade substancial entre as partes.

Deve notar-se. a propósito. que ~l reforma, apesar de não ter suprimido - como, aliás. Mio
I. Enunciado
podia· Iodos os íuctores de desigualdade subsrancial entre as partes. atenuou a imposição dessa
desigualdade pela lei. Foi certumcntc essa a intenção subjaccntc à. extensão do benefício da
Arribas as partes devem possuir os mesmos poderes, direitos, ónus e pror'roga,ão do prazo de contestação de que goza o Ministério Público (art" 4X6°, n" 4) a qualquer
deveres, isto é, cada uma delas deve situar-se numa posição de plena igualdade das partes (urt'' 4H6". n")) ('/'.
perante a outra e arnbas devem ser iguais perante o tribunal. Esta igualdade
das partes, que deve ser assumida como uma concretização do princípio da Por outro lado, devem ser respeitadas todas as situações de igual-
igualdade consagrado 110 art" 13"CRP, é agora Um principio processual com dade formal entre as partes determinadas pela lei processual. Assim, por
expressão legal no art" JO-A (81. Este. preceito estabelece que o tribunal deve exemplo, perante o número taxativo de articulados no processo declarativo
assegurar, durante todo o processo, um estatuto de igualdade substancial das (cfr. art''s 467°. 4g6°. 502°. 503°, 506°. 783°, 793° e 794°), não se pode conceder
partes, desígnadamerne no exercício de faculdades.rno uso dos meios de defesa a uma das partes um articulado suplementar. ainda que, dada a notória diferença
e na aplicação de corninações oude sanções processuais. A determinação do de qualidade entre eis articulados de cada uma das partes, ele fosse necessário
sentido deste art" 3"-A levanta, contudo; algumas 'dificuldades. paraasseguraruma igualdade substancial entre elas. Do mesmo modo, há que
respeitar os prazos imperativos, definidos em abstracto para ambas as partes,
quanto, por exemplo. à apresentação do rol de testemunhas, ao requerimento
2. Significado
de outras provas ou à alteração dos requerimentos probatórios (art°s 508°.,A,
n° 2. al. a), c 512°, n" I), às alegações de direito. (art° 657") ou às alegações de
:t I. Limites à igualdade recurso (al·tOs698°, n° 2. 724", n" I ,743°,nos I e 2, e 760°, na J), Finalmente,
Umprimeiroproblema suscitado pelo arte 3°-A e pela referida Igualdade .há que observar alguns preceitos que visam directamente a igualdade formal
substartcial entre a~ partes é .0 de que nem sempre é viável assegurar essa entre as partes (cfr. arl°s 42°, n° 2, e 512°-A, n" I). Portanto, também neste
igualdade. Em certos casos, não ê pO$sível ultrapassar certas diferenças campo não existe qualquer possibilidade de assegurar uma igualdade substancial
substanciais na posição processual das partes; noutras hipóteses, não possível é
entre as partes.
afastar certas igualdades formais impostas pela Lei.
A posição processual das partes é, em muitos dos seus aspectos, 2.2. Conteúdo preceptivo
substancialmente distinta. Por exemplo: o autor escolhe, normalmente segundo
a. O art" 3"-A tem corno destinatário o tribunal, pois que é a este órgão
o seu arbítrio, o momento da prõpesitura daacção e o réu tem sempre um Nato
que o preceito atribui a função de garantir a igualdade substancial das partes.
limitado para a apresentação da sua defesa (ainda gue seja, o resultante da
Mas. esta função pode ser entendida de duas formas bastante distintas: - se essa
prorrogação referidano art" 486°, n" 5), o que origina uma desigualdade
função for concebida com um conteúdo positivo, aquele preceito impõe ao
substancial entre as partes a favor doautor; em contrupartida, ao-autor cumpre
tribunal o dever de promover a igualdade entre as partes e de, eventualmente,
satisfazer todos Os pressupostosprocessuais " tnesmo aqueles gue respeitam ao
auxiliar a parte necessitada: - se, pelo contrário, essa função for entendida com
réu -, pelo que, quanto a este aspecto, éaparte activa quese encontra numa
um conteúdo negativo, só se proíbe que o tribunal promova adesigualdade entre
posição desfavorecida perante o demandado; finalmente, qualquer das partes
as partes. Importa verificar em que sentido () art" 3°_A deve ser interpretado,
onerada com.aprova encontra-se substancialmente desfavorecida perante a sua
('I, Sobre este prohlema. clr. Lebre de Freiras. A igualdade de armas no Direito Processual Cívil
(H,Sobre a relevância constitucional da igualdade das partes. cfr. Te - 516/93 (26IfO(l993). português. Dir. Ic4 11992).617 ss ..
DR, Il - 1911/1994, 52()= 13MJ 430, 179: rc -
529/94 cnflJ/ltJ94). DR. 11- 2IJ/I 2/1 lJ94,
12912 = BM] 439. 243.
j-

Principios estruturantes 45

44 Principias estruturantes

partes, infringe o dever de assegurara igualdade substancial entre elas se a não


notificar para corrigir O vício.
o direito português concede ao tribunal certos poderes instrutórios
Este conteúdo positivo do princípio da igualdade substancial das partes
(cfr, arros 53SO, n'"}, 612°, n° I, 622°, 645°, n" 1, e 653°, n° I) e inquisitórios:
permite, ;lliás, colrnatar uma lacuna patente na nova versão do Código de
quanto a estes últimos, resulta do disposto nos ares 264°, n" 2, e 265°, n° 3,
Processo Civil: o art? 266°, n" 2, prevê o dever de o juiz se esclarecer perante
que o tribunal pode investigar e considerar os factos instrumentais relevantes
as partes, mas só parcialmente se encontra na lei uma previsão quanto ao dever
para. a décisãe da causa. Ma« () uso destes poderes instrutórios e inquisitórios
de o juiz as esclarecer sobre assuntos que a elas digam respeito (o chamado
é orierrtad», nãopela necessidade de obter a igualdade entre as partes, mas pela
Hinweispjlicht ou Fragepflichi consagrado no § 139 ZPO) (11 I. Do conteúdo
de procürar ptoferír uma decisão de acordo ecma realidade. das C.ÜiSlIS.lVtesrnp
positivo do princípio da igualdade substancial das partes decorre que o tribunal
que, p~)r exemplo, a testemunha que o juiz pretende ouvir .oficiosarrtenre
deve elucidar qualquer das partes, se da informação veiculada depender a
(art" 645°, n° 1) pos~a provar um facto favorável à Parte mai~ forte, ,linda assirn
efectiva igualdade processual delas em juízo.
o juiz não deve deixar de a COnvocar pata depor em juizo, O dever de procurar
Entendido desse modo, O princípio da igualdade substancial não choca
a verdade sobrepõe-se ao dever assistencial do juiz perante. qualquer das partes,
com o princípio da imparcialidade do tribunal. Esta imparcialidade traduz-se
oque demonstra que os poderes instrutórios e Inquisitórios não são concebidos
numa independência perante as partes, mas, no contexto do princípio da
corno meios de promover a igualdade substancfal entre elas.
Igualdade, imparcialidade não ésinónirno de neutralidade: a imparcialidade
MaS: isto signifÍéa apenas que a expressão 0..0 princípio da igualdade deve
impõe que o juiz auxilie do mesmo modo qualquer das partes necessitadas ou,
serptücurada TÇ)radaqueles p.oderes instrutórios ou inquisirérios, ~)que de modo
dito de outra forma, implica, verificadas as mesmas condições, o mesmo auxílio
algurrrcxolui úrn\lmplo carnpodeaplíçaçâo de$se princípi().E~la aplieaçã(j
a qualquer delas; a neutralidade determina a passividade do juiz perante a
verifica-se tamono referido conteúdo positivq,que impõe U(J tribunalurn dever
desigualdade substancial das partes. Portanto, o juiz não tem de ser neutro
de construir a igualdade entre as partes, como no conteúdonegativo; que O
perante as situações de desigualdade que existam ou que se possam criar entre
proíbe de. originar, pela sua conduta, uma desigualdade entre as partes.
as partes, mas deve ser imparcial perante elas, dado que, quando tal se
justifique, deve auxiliar qualquer delas.
b, A réferêncínà igualdade substancial que consta do art" 3 -A não pode
Q

I'lQstetgár os vitro!; regimes impenüivos defínidos na lei, que origihaÍll


c .. O conteúdo negativo do princípio da igualdade substancial destina-se
desigllá1dades substanciais ou qlle se bastam êOmigu;:tldàde~ formais. Quer
a impedir que o juiz crie situações. de desigualdade substancial entre as partes.
dizer: a ígüaldade substancial alg:Q qüe não pode serulcançadu
é .• utruvés da
Assim, por exemplo, esse princípio obsta a que o tribunal fixe, para cada uma
sllpressâ.o dos fadores de igualdade formal, mils attuvês de um auxíliü
das partes, prazos diferentes parao exercício da mesma faculdade ou o
suplementar a favor da parte carenciada do auxílio .. Bssaigualdadesnbstancial
cumprimento do mesmo ónus.
não é obtida através de um minus imposto a uma das partes, mas de um maius
concedido à parte necessitada. Nas palavras sugestivas de Vollkol/1mer, a
"igualdade formal perante o juiz" necessita de .ser completada pm urna 2:3. Critério de decisão
"igualdade substancial através do juiz" (10). Àssim, o dever d.e assegurar a
a .. Particularmente discutível é saber se a igualdade substancial entre as
igualdade substancial das parte& terã apl)cüção sempre que a Ieiimponha uma
partes também deve ser um critério de decisão do tribunal, Ou seja, determinar
mtervençãcassistencial do tribuna1.. Por exemplo: o art? 508", 11"~l, al, b), 2.
se, para obter a igualdade substancial referida noart° 3°_A, o juiz pode proferir
e 3,. permite que o juiz convide as partesaapei'feiçoarem os seuB attícülaqqs;
uma decisão cujo conteúdo seja definido pela situação de desigualdade entre
se detectar uma insuficiência ou imprecisão num dos articuladosde uma das
"l.iHouve a.oportunidndc de chamar a atenção para esta falta, já detectada no Projecto difundido
(lO; VúllkiJínmer, Der Grundsatz.der Waffenglcichheit im Zivilprozef " eine neue Prozcüma- em Fevereiro de 1995: cfr. M. Teixeira de SOllSO. Apreciação de alguns aspectos da «Revisão
xirne ? -, FS Karl Hcinz Schwub (München 1990). 520: cfr.Wass<'rlllulIlI. DeI' SOZIUIe do Processo Civil - Projecto». ROA 55 (1995). 362; cfr, infra, § 3°. 11. 3..
Zi vilprozcü / Zur Theorie und Praxis des Zivilprozesses im sozialcn Rcchtsstaait Ncuwied I
I DaUl1stadtI978), 68 ss. e 84 ss ..
Principios estruturantes 47
46 Principios estruturantes

multitacetado: ele atribui à parte não só o direito ao conhecimento de que contra


as partes ..Parece que tudo depende de urna expressa previsão legal que permita ela foi proposta uma acção ou requerida uma providência e, portanto, um direito
que a decisão considere esses factores. de desigl1aldacte, à audição antes de ser tomada qualquer decisão, mas também um direito a
Quanto às decisões sobre o mérito da causa, elas sãü determinadas pelos conhecer todas as condutas assumidas pela contraparte e a tomar posição sobre
critérios resultantes da lei ou que por ela sejam permitidos, comoa equidade elas, ou seja, um direito de resposta.
(art" 4° CC) e a discriclonariedadeprópria dos processos de jurisdição
voluntária (art" 14 J 0°), Assim. o tribunal só pode introduzir na SU,! decisão as 2. Direito ü audição prévia
correcções que a lei permita ou que resultem dequalquer daqueles critérios
formais de decisão. Por exemplo: o srt" 494° CC permite que. quando 11 o direito à audição prévia encontra-se consagrado no art" 3°, n° I in fine,
responsabilidade do lesante se funde em mera culpa, a indemnização possa ser embora possa sofrer as excepções genericamente previstas no art° 3°, n" 2:
fixada, eqüitativamente, em montante inferior ao que corresponde ao, danos assim. num procedimento cautelarcomum, o tribunal só ouvirá O requerido se
causados, desde que o grau de culpabilidade do agente, a situação económica a audiência não puser em risco sério o fim ou a eficácia da providência
deste e do lesado e as demais circunstâncias do caso o justifiquem. (art" 385°, n° I); a restituição provisória da posse e o arresto são decretados
Quanto às decisões de forma, a solução é semelhante sempre que uma sem a audiência da parte requerida (art"s 394° e 408°, n° I). É ainda o direito
previsão legal permita asua adaptação à situação concreta das partes., Encontra- à audição prévia que justifica todos os cuidados de que há que revestir a citação
-se um exemplo de uma tal previsão no art" IAY, n° 7: o juiz pode determinar do réu e a tipificação dos casos em que se considera que ela falta (art° 195°)
a redução ou dispensa da multa pela prática deum acto fora do prazo nos casos ou é nula (art° 198°, n° I) e que está subjacente à possibilidade de interposição
de manifesta carência económica da parte ou quando O respectivo montante se do recurso extraordinário de revisão contra uma sentença proferida num
revele manifestamente, desproporcionado. processo em que tenha faltado a citação ou esta seja nula (art" 771°, aI. f» e
de oposição e anulação da execução com base nos mesmos vícios (art?s 813°,
b. Mais duvidoso é determinar se O art" 3°-A também pode serentendldo al, d), e 921").
corno permitindo o proferimento de uma decisão cujo conteúdo 'lHcndc .à
situação de desigualdade substancial das partes. Suponha-se que (J juiz aplicu
a uma das panes urnamulta nurn determinado montante' e que .. depols dissü, 3. Direito de resposta
deve aplicar àoutraparte, por um. comportatnentotdêntico desta, uma outra
a. O contraditório não pode ser exercido e o direito de resposta não pode
multa; 'Pode discutir-sese esta segunda multa. deve possuir um quantitativo
ser efectivado se .1 parte não tiver conhecimento da conduta processual da
idêntico à primeira ou se' este montante. deve ser corrigido (para mais ou para
contrapartc. Quanto a este aspecto, vale a regra de que cumpre à secretaria
menos) de acordo com u situação económica da parte. A resposta éespe-
notificar oficiosamente as partes quando, por virtude de disposição legal, elas
cialmente melindrosa, mas o art? 3°-A parece impor que, na aplicação dessa
possam responder a requerimentos, oferecer provas ou, de um modo geral,
sanção prõcessualvo juiz atenda à desigualdade econórniea das partes c.
exercer algum direito processual que não dependa de prazo a fixar pelo juiz,
portanto, defina o montartte.da multa deacordo COI11 as capaeidades eeonómicas
nem de prévia citação (art" 229°, n° 2). Concretizações desta regra constam dos
OOS litigantes.
artOs 146°. nO5. 174°, nO I, 234°, n° I. 542 e 670°. nO L
0

IV. Garantia do contraditório b. O direito de resposta COnsiste na faculdade, concedida a qualquer das
partes, de responder a um acto processual (articulado, requerimento. alegação
ou acto probutório) da contraparte. Este direito tem expressão legal, por
I. Generalidades
exemplo, no princípio da audiência contraditória das provas constante do
o direito ao contraditório - que é, em si mesmo, uma decorrência do art" 517°,
princípio da igualdade das partes estabelecido no art" 3°-A - possui um conteúdo
Princípios estruturantes 49
48 Princípios -estruturantes

v. Duração razoável do .processo


A reforma acentuou a relevância concedida à garantia do contraditório na
vertente de direito de resposta. O art" 3°, n° 3 1" parte, impõe ao juiz, de t110dQ
prõgramâtico..o dever de observar e fazer cumprir, ao longo de todo O processo, f. Causas da morosidade
o princípio do contraditório. Significativa é também, quanto a este aspecto, a
O processo civil português comunga de urn mal de que padecemos
supressão dos processos sumários e snrnaríssimos como processos cnminatórios
processos jurisdicionais em muitas outras ordens jurídicas: élento e moroso til!.
plenos (art''s 784" e 794°, n° I): neste caso; não é o contraditório que se garante,
As queixas contra a morosidade da justiça. não são uma originalidade
mas as conseqüências do seu nãoexercício que seatenuam.
portuguesa i 1;11, mas. tal não pode fazer esquecer que toda a demora no julga-
Além disso, são várias as novas h..or/l1.asque contêm expressamente uma
mento da caüsu constitui um factor de injustiça para aparte vencedora. Uma
garantia do contraditório: -Jparte. que não puderresponder à uma excepção
justiça tardia ~ melhor do qüel1 denegação dela, mas nunca será a justiça
deduzida no último .articulado adrrrissível, pode responder a ela na audiência
devida ..
preliminar ou noinício da audiência final (art" ]0, n° 4); " o tribunal pode
A lentidão processualencontra causas-endégenas e exógenas. COmo Causas
considerar na decisão os factos que sejam complemento ou concretização de
endógenas podem ser referidas, tomando corno parârnetro o processo civil
outros quea parte haja. oportünarüente alegado e resultem da instrução e
português no seu estado anterior à reforma, as seguintes; a excessiva passi-
discussão díl causa, desde que, entre outros factores, tenha sido facultado o
vidade - se não Iegal.rpelo menos real - do juiz da acção; a orientação da
contraditório à parte contrária (art" 264°, n° 3); - o juiz, sempre que solicite
actividade das partes, não pelos fins da tutela processual, mas por razões
esclarecimentos a uma das partes, deve dar conhecimentoã outra dos resultados
frequentemente dilatórias (14); alguns obstáculos técnicos, como os crónicos
da diligência (art? 266°, n° 2); - os factos que são objecto de esclarecimento.
atrasos na cítação do réu e· a demora 110 proferirnento do despacho saneador
aditamento ou correcção a convite do juiz ficam sujeitos à coruraditoriedade
devida às dificuldades inerentes à elaboração daespeclficação e do questionário.
da contraparte (art" 508°, n" 4; a mesma regra vale quamo ao aditamento ou
Outras causas da morosidade processual são exteriores ao próprio processo:
esclarecimento das conclusões na petição de recursnarr' 690°, n" 5); - o relator,
falta de resposta dos tribunais ao crescimento exponencial da Iitigiosidade, dada
antes de submeter à conferência a. reclamação de uma das partes, deve ouvir a
parte contrária (art" 700°, n° 3); - se uma daspartes requerern recurso per
,I exiguidade cios meios disponíveis; maiorcomplexídade do direitomaterial e
crescente uso nele de conceitos indeterrninados e de cláusulas gerais, cuja
saltum. para o Supremo, Q juiz deverá ouvir a outra parte (art" 725", n° 2);- no
cónCrétliaçãó é implicitamente diferida para a esfera jurisdicional.Uü; final-
processo sumário, a audiência preliminar só se realiza se tal for determinado
mente, deficiências lia preparação técnica dos profissionais forenses.
pela especial complexidade da causa ou pela necessidade de assegurar o
Uma conseqüência da morosidade dá justiça .o recurso cada vez mais
é

contraditório (art" 78T).


frequente-às providências cautelares como forma. de solucionar os litígios,
especialmeníe quando elas podem antecipara tutela definitiva ou mesmo vir a
Sobre outras expressões do contraditório, especialmente no processo declarativo,
cfrvart'ts 207ó, 234°.A, rios j e 4, 324°, o" 2, 326", ilo 2, 331°, n" 2, 336°, n~ ). ,H6°~ nO I,
U~. Sobre li morosidade da Iitigiosidade e as suas causas, cfr, 8. SOJ1saSantos/ Maria M. Leitão
a!. aO), 480°, 41\6°, n° I, 502°, 503°, 506°, 0° 4, 507°. n02, 5( s-, nOs I e 2, 526°, 548°,
M(lrql.(l'''- I JOGO Pedroso / P. Lopes. Ferreiro, Os tribunais, nas sociedades contemporâneas I
561~, nO I, 578", n" 1,65 l°, 0° I, al. b), 670·, n" I, 688°. n° 4, 69Xo, nOs 3 e 5. 702°,
1.0 caso português (Porto 1996),387 5S .•
n° 2, 774°, .n" 3, 783° e 794°. Urna excepção-à regra do contraditório éncontra-sç também nu
(1.11 Cfr., por exemplo; Henke, Judicia perpetua odert Warum Prozesse.so Iange dauern, ZZP 8.3
art" 486°, n° 5.
(1970), t 25 !;s.. que; apresenta exemplos históricos muito curiosos sobre o com bale milenar contra
a moroxidudé processual; sobre uma análise económica da morosidade processual, cfr, Adams,
c. A violação do contraditóric inclui-se na clãusulageral sobre as nuli- Õkonomischc Analyse des Zivilprozesses (Kõnigstein/Ts. 1981.),.57 5S ..
H •• '. Hcnke, Judicia perpetuu, 146; Fasching, Rechtsbehelfe zur Verfahrertsbeschleunigung,
dades iprocessuais constante do art° 20 l", n" 1; dada a importância do
FS Wrrlfram Henckel (Bérlin / New York 1995), 162.
contraditório, é Indiscutível que a sua inobservância pelo rrlbunal é susceptível
fll! VoJlk!J11IJ111?1" Die. lungc Dauer der Zivilprozesseund ihre Ursuchcn, ZZP 8.1 (1968), l18~
de influir no exame ou decisão da causa. Uma concretizaçãu desta regra Fasching, Verfuhrensbeschleunigung, J62.
encontra-se no art" 277", n° 3.
Principios estnilurcll/les. 51

50 Princípios estruturantes

à evolução do processo eàs ccnttngências nele surgid(ls . Foi certamente com


esta intenção que () arr" 264°, nOs 2 e 3, passou. u permitirque o tribunal
dispensá-Ia. Por exemplo: o possuidor que quer obter a restituição da.coisa,
considere os fuctosinstrumcntaise complementares surgidos durante a iriStt~iÇão
colocado perante a situação de só à vira consegui!' no termo de um longo e.
G ,di~cussao da causa, Refira-se ainda que, na nova definição do justo
demorado processO, tenderá a requererde imediato .a sua el)lréga através dl.l
impediJlien!b como o cvênt.ô não imputável à parte nem aos seus representantes
providência cautelar de restituição provisóriadaposse (art" 393").
Ou rnandatãrios Cart° 1.46'\ 11" 1l, parece ter-se ensaiado algum apelo à diligência
devida corno critério de àferiçãó do efeito preclusivo.
2. Soluções contra a lentidão A refoPM tf\tnbémt,çetHlIOu .OS podete~ <lê conduçãu do processo
atribuídos. aojuiz, os quais, entre outra$ finalidades, devem ser utilizados para
a. São várias as vias habitualmente seguidas (ou tentadas) para obviar à prosseguir uceleridade processual. O art" 26·So, n" I, eRtabelece qUG Cumpre
morosidade processual. Salientam-se, entre elas, as seguintes soluções: o ao juiz, sem prejuízo do ónus. de impulso imposto às partes, providenciar pelo
estabelecímehto entre as fases do processo, oU mesmo nó seu interior, de regras audamentõ regular e célere do processo, promovendo oficiosamente .as
de preclusã«, que obstam a qUe um aqW. omitido pOSS;1 vir à ser reAlizado fora diligências necessaria.~aonormal prosseguimento da acção e recusando o que
do seu momento legalmente fixado; o reforçe dü contrclo do juiy. sobre O Ior imPGttiilent~ ou meramente dilatório.
processo; a concentração do processo numaaudlência na qual a causa possa Firi"hnel\t~,l.I ret"bí'ma promoVeu a cQnCehttação da fase da condensação
ser discutida e, eventualmente, decidida. Há que recordar que, a par destas numu uudiêJ)ciaptelimiriar.,.que é ptepü(ada nos termos definidos no art" 508"
soluções, alguns instrumentos processuais visam ríeliberadamente, acelerar e que .se realiza C(1l11 as finalidades previstas no art" 50go-A, nOs I e 2. Da
a realização do direito: pense-se. por exemplo.inaadmrssibi lidade de provi- introdução desta audiência preliminar muito se pode eSpe,tar quanto a celeridade
dências cautelares de carácter antecipatório (como, por exemplo, os alimentos processual. Ela permite realizar todas as funções que Pritz. Buur; numa
próvisórtosvart" 399", 1i0 1), nó efeito devoluúvo do recurso e na énnscqUel1té contribuição q\:le~e vida a mostrar precursora de importantes mudanças
exequibilidade provisótiâdà declSaO recorrida (art" 47°, n" I) c ainda 1)(1 1egislatl vas, .çún~ider()lJ in&ipensáveisa uma tal audiência: o debate e decisão
qualifioaçao de oe,r(08 documel}toseXttajuôkiujs corno t(tulo eXeçütiyq (úrt" 46", sobre nSPrésSllPOSto.~.proc:eS!lúái$ Ütrt" 508°-A., n° I, oys b) e d)}, a organização
aJ"sb)u d)). eseIç:çção d(Js f(\Ct()s l.Ii"ticula(lQs.(át1g 508",A, tio 1, al's c) e e»), a tentativa de
conciliüçuo das pl.lrtes (art" 50S"-A, 1:1"l, a]. a) ea decisaQsõbrG os factos
b. Certas reformasrealizadas nalgumas ordens Jurídicas estrangeiras têm carecidos de prova {art" SU8°-A, n° I ,AI, e) (IR).
acentuado o âmbito da preclusão dos actos processuais: recorde-se a Verein-
[achungsnovelle alemã de 1976 (16) ea mais recente revisão italiana iniciada Ç. Paralelamente a estas.soluções de âmbito geral, são várias as. alterações
em 199ü e
Completada em 1995 (17i, A recente reformapõrtuguesa, pelo introduzidaseom o nítido intuito de facilitar a tranritação da causa ou de, pelo
contrário, tiã~) acentuou a irnpórtâl1cia desse efeiw preclusivo. Eseolhcu-sc. rrrenos, não fi difittdtar.Re.cordem-seas novas regras. quanto renúncia do
à

quanto a esta matéria, ..a odentíl.ção acettadlj. O processo civil português não tliÜndato· jVdiCial (art° 39",1.1° 3), ti utilitaçãó da via postal na citação pessoal
carecia de qualquer reforço doefeitopreclllSivo, anteBneçessitava de alguma (art" 233", n" 2, ill.(I)) eà <ldmi.ssibilidàde da citaçuQ por rnandatãrio judicial
flexibilização nomeadamente quanto ao momento da alegação pelas partes dos (art? 23}0, nO.3), àe.x.clu~ão da çitaçuü edítal nc incidentede rntervénçãn
factos relevantes, de molde a assegurar que essa apresentação se possa adaptar acessória (aflOs 332°, n? 2) e ao ptossGgulmento da. Acção passados três meses
1161 Sobre a Verçinjil<-lumgS!l<!v(!lle e
eficácia preclusiva por ela, introduzidu.vfr. Rp.\·('I11J('I:~ I
,I
sobre a data da dedução desse íncidente, mesmo que não se mostrem realizadas
/ Schwah / G()//II"Uíd, Zivilprozessrecht I~ (Müt\chenI99.3). 16e 38Ü SL todasas citações (art" 3339.), à não utilização-da citação edital naeprovidêacias
<171 Cfr. 'Colesanti, 11. processo di cognizione nellu riforrna deI 1990 .. RDP 47 fi 9931. 57 ss.:
Biavati, Iniztaüva delle purti e processo a preclusioni, RTDPC$Ü ( 19(6), 477 ss.; "lÚi",fa /
I Cipriani. Prcvvedimcmi urgcnti pcril processo civilc (Padov« 19(3). 70. ss.: Turzia. Lineameuti ilKI .cn. Buur, Wegczu cincr Konzentrutlonder mündlichen Verhandlung im Pr()Z.eJ}(8çrlin
dclnuovo processo di. cognizione (Milano )996),78 SS.; Bucc] I Crcscenzi I ftll1l/'Í<:<i. Manualc 19661. 19 ss..
Pratico delle Ritorma JetPt()cessúCivile ~ (Padovu 19<)5): ('Oi/SI)/" / Luiso / .)oSS(//lI.
Comrncntarioaila Riforma del Processo Civile (Milano 199M, 135 ss ..
Principios estruturuntes 53
52 Principias estruturuntes

dirigida 11 Comissão Europeia dos Direitos do Homem (art° 2SO, n" I, CEDI-I),
para que esta solicite a apreciação da violação pelo Estado português. da
cautelares (art" 385°, n° 3) e ainda à antecipação da audiência final (art° 6470
,

n" I),
garantia da decisão do processo num prazo razoável pelo Tribunal Europeu Jüs,
Direitos do Homem (art°s 44" e 48°, n" I, CEDH) e, se for o caso, a atribuição
Também no âmbito dos recursos se instiruíram medidas destinadas a
ao lesado de uma reparação adequada (art" 50° CEDHj,
combater a morosidade processual. Assim, o juiz a qlio pode rectificar as
nulidades da decisão (art°s 668°, na 4, 716°, na I. e 752 na 3) e o lapso
0
,

manifesto sobre matéria de direito ou de facto (art°s 669 na 4, 716°, n" I, c


0
,

752°, n° 3), o recurso pode ser decidido Iiminarmente pelo relator se a questão VI, Publicidade do processo
suscitada já ti ver sido apreciada de modo uniforme e reiterado pela juris-
prudência OU se essa for manifestamente infundada (artOs 700°, na J, aI. g), 70 I 0,
I, Âmbito
na 2, e 705°), os vistos podem ser dispensados Ou substituídos pela entrega de
cópia das peças processuais relevantes para a apreciação do recurso, se a o processo civil é - diz enfaticamente o art° 167''', n° I - público.
natureza das questões a decidir ou. a necessidade de celeridadedo julgamento A publ icidudc do processo tornou-se possível com a introdução da oralidade e
o aconselharem (art" 707 n° 2), a Relação pode, em regra, substituir-se ao
0
, continua a possuir a justificação tradicional: ela é um meio para combater o
tribunal recorrido na apreciação das questões de que este não conheceu arbítrio e assegurar a verdade e a justiça das decisões judiciais (19). A essa
(art" 715 n° 2), em certas condições é admissivel o recurso pcr saltum para o
0
, publicidade estão subjacentesos princípios fundamentais do Estado de direito,
Supremo (art" 725 e, finalmente, não é admitido recurso de agravo do acórdão
0
) nomeadamente a possibilidade de um controlo popular dos órgãos que • como.
confirrnatério da Relação de decisão interlocutória proferida em ta instância sucede com os tribunais - exercem poderei; de soberania (cfr. art" 113 n" I, 0
,

(art" 754°, nOs 2 e 3). CRP). É nesta perspectiva que se deve entender a garantia da publicidade das
audiências dos tribunais. que se encontra consagrada. no art° 209 CRP e no 0

art" 656°, n° I, bem comca garantia do acesso aoseutcs por todos os


3. Meios de reacção
interessados estabclccida noart" 1.67°, 110 2.
OartO 2°; na I, atribui à parre o direito de obter, num prazo razoável, a
decisão dacausa, o quesignifica que o Estado tem o dever de disponibilizar 2, Publicidade das audiências
os meios necessários paraasségurat a celeridade na administração da justiça.
Assim, a concessão deste direito à celeridade processual possui, para além de a, A publicidade das audiências dos tribunais constitui uma importanle
qualquer âmbito prograrnático. um sentido preceptivo bem determinado, pelo garantia numa dupla dimensão: em relação às partes, ela assegura a possi-
que a parte prejudicada com a falta de decisão da causa num prazo razoüvel bilidade de um controlo popularsobre as decisões que as afectam directamente;
por motivos relacionados com os serviços de administração da justiça tem relativamente ~I opinião pública, essa publicidade permite combater a descon-
direito a ser indemnizada pelo Estado de todos os prejuízos sofridos. Esta fiança na administração da justiça (20).
responsabilidade do EStado é objectiva, ou seja, é independente de qualquer A publicidade das audiências é, no entanto, excluída quando circunstâncias
negligência ou dolo do juiz da causa ou dos funcionários judiciais. ponderosas o aconselhem, Esses motivos encontram-se constitucionalmente

No Acórdão/S'I'J 13/96, de 26/1 I, definiu-se que '''(1 tribunal não pode, nos termos d(1
artigo (,61°, n° I. 1 ... 1. quando condenar em dívida de valor, proceder oficiosamente à sua ti·)! Numa perspectiva crítica sobre a valia. do princípio da publicidade; cfr. Kõb], Die
actualização em montante superior ao valor do pedido do autor", Portuntu, nâu pode ser utilizada OfTcntlichk..,õt des Zivilprozcsscs. einc unzcitgumilíic Form. FS Ludwig Schnorr von Carolsfcld
uma acruulização li/Ira petitum para compensar o atraso no protcrimenro da decisão .Iinal. CKüln 1 Herl in I 13011111 Münchcn 1972).241 xs..
,!(J, Sobre a quantiticação desta desconfiança em Portugal. cfr. n. Sousa SaI/lO," / Maria M. LeiràtJ
Marque'.< / Iruin I'",,/'OS{} / P. /"y>e.< Ferreiru, Tribunais, 503 SS"
Para obter a indemnização dos prejuízos causados pelo atraso no profe-
rirnento da, decisão tem sido utilizada, com alguma frequência. a petição
Ptt'llâpios estruturantes 55
54 Princípios es/rLl/u/'_il_I1c-1..ce,_I· _

sibilidade da. .sUÜ transmissão por meios radiofónicos.ou televisivos, P91s que
tipificados (art" 209 CRP) e são repetidos no respectivo
0
preceito da lei aquela publicidade não tem de ser rnediática, e que na resolução do problema
ordinária (art" 6S6°, n" 1): são eles a salvaguarda da dignidade das pessoas e importa especialmente ponderar a conjugação dos direitos à imagem e à reserva
da moral pública ea garantia do normal funcionamento da audiência. Estes da vida privada dos intervenientes na audiência (art" 26°, n° I, CRP) com O
fundamentos, embora mais sintéticos, correspondem grossa modo àqueles que direito à informação de terceiros (art" 37°, n" I, CRP). Recorde-se também que
estão previstos no art" 14°, n" J, PIDCP e no art" 6", n" I, CEDH: as audições o art" 6°. n" I, CEDH permite que o acesso à sala de-audiências seja proibido
à porta fechada podemser determinadasseja no interesse dos bons costumes, à imprensa ou ao público, o que leva ti entender que, mesmo que Se mantenha
da ordem pública ou da segurança naciona] de Lima sociedade democrãtica, seja a publicidade da audiêncià, é admissívél excluir a presença da comurticaçãr;
quando a protecção da vida privada das partes o exija seja ainda quando o social QU - o que será certamente mais razoável, restringir a forma de divul-
tribunal o considerar absolutamente necessário para a boa administração da gação urilizadapor esta.
justiça. O direito português exige expressamente que a decisão de excluir li
publicidade da audiência seja devidamente fundamentada (art" 2Ü9° 'cRP;
an° 656°, nOI l, 3, Acesso aos autos

h. Pode p~rgllntar-se se a regra da publicidade das audiências vale A publicidade do processo implica o direito, reconhecido a qualquer
igualmente para a audiência prelinlinar (art" .)08°~A), A resposta deve ser pessoa capaz de ex(jt'c~r o mandato. judicial ou a quem nisso revele um ipteresse,
negativa. A audiência preliminar procura realizar váriasfinalidades primordiais: atendível. de exame e CCílis(Jltao()~ autos na secretaria do tribunal e de obtenção.
-obter a conciliação das partes (att" S08°-A, n° La!. aj); - preparar o conhe- de cópias ou certidões de tjuaisquer peças nele incorporadas pelas partes
cimento Imediato do mérito da causa (adO S08°-A, n° I ,aI. b»); - concentrare (art? 167°, n" 2), Este acesso aos autos é, porém, Iimitadonos casos em que a
ordenar a matéria de facto (art? 50go-A, nq I, ai"" c) c .e»); - promover várias divulgação do seu conteúdo possa causar dano à. dignidadedas pessoas, à
diligências instrutórias (ãtt 50S"-A, nó Z). Não se, nenhuma destas finalidades
Ó
intimidade da vida privada. ou familiar ouà moral pública ou pÔr emcausa a
exigeasüüpublioldade, tomo esta .. poderiaaté ser corrtraproducente para eficácia da decisão .a proferir (art9 1680, n° I). Corno exemplos das pri-
algumas delas; pensé"se, pOI'exémplo, na mainr dificuldadeem obter a conci- meiras situações podem referir-se 0S processos de anulação de casamento,
liação entre as partes perante um público a~sisten\e do que em resultado de uma divórcio, separaçã« de pessoase beus e
os respdtfl.ntes q.oestabelecimento ou
actividade de mediação desenvolvida pelo juiz da causa. jrnpugnação da paternidade (art? 168°, n° 2, al. (1)); osprcçedirnentos cautelares
em que () requerido. não deve ser ouvido antes do decretamento da providência
c, Há que reconhecer que, quanto à publicidade das audiências dos (cfr. art"!> 385°, n" I, 394° e 408'" n° L) constituem exemplo da hipótese em
tribunais, o problema não reside, hoje em dia, tanto no acesso do público a essas que a publicidade é susceptível de afectar a eficácia da decisão a proferir
audiências, como lia admíssibílídade do seu registo para transmissão, simultânea (art" 168°, n° 2, al. b)).
ou dl feri da, pelosrneíosradiofónicos ou televisi vos, É um problema que tem
a maior actualidade e quecoloca neeessariamente a questão, tão inquietante e
incómoda quanto irrespondível, de saber SeQ resultado de um julgarnenro que
teve lima publicidade rnediática Seria exactamente o mesmo seda não tivesse
existido.
Para esse problema espera-se ainda Uma necessária clarificação legal (21), cfr. também OS relatõrios nacionais sobre Justice and Mass Media da Confereuce oftlu: Cnie]
Certo é queda publicidade das audiências não decorre, sem mais, a adrnis- Jus/ices 01'Ilte S/lpri'tlle ('OU1'1.\'(//1(1 Attorney-Generals of lhe Countries o] the European Union
(Lisbon. l Sth to lhe 21sl May. 1994); DDC 5'!/6() (1994), 43 ss.: na área QÜ processo penal,
1211 Sobre a discussão do terna nu República Federal Alemã, cfr.W()lf~ Gerichtsbcrichterstuttung Rodrigues da CO,'(/(. Publicidade do julgumento penal e direito de comunicar. RMP ~7 (1994).
- küníiíg "live't im Fernschcn". ZRP 1994, 187 ss.: Kllo/hi! I W{/lId.eI, "Angeklagt vor laufeuder 53 SS..
Kamera, ZRP 1996, 106 xx.: Huf]. Justiz uncl OITenllichkeit (Beriin I New York 19li6), 26 SS.:
r
/

Princípios estruturantes 57
56 Principias estruturanies

de qualquer das partes. a prestação de informações relativas à identifi-


VII. Direito à prova cação, residência. profissão, entidade empregadora ou situação patrirnonial
de alguma delas. Como se compreende, as informações obtidas .serãoutili-
zadas na medida do estritamente indispensável e não podem ser injus-
1. Consagração tificadamente divulgudas, nem constituir objecto de ficheiro nominativo
(art" 5l9°-A. n" 2).
à. A prova é a actividade destinada à formação da convicção do tribunal
sobre a realidade dos factos controvertidos (cfr. art? 341 ° CCl, isto é. dos
factos que constituem a chamada base instrutória (cfr. art?s 50go-A, n° I.
2. Limites
al. e), 50Bo-E, n° 2, e 511ó, o" 1). Essa actividade incumbe à parte onerada
(cfr. art" 342° CC), que não obterá uma decisão favorável se não satisfizer esse a. O direito à prova contém limites impostos pela protecção de direitos
ónus (art" 516°; are 346° CC). de terceiros: aquele direito cede perante direitos de terceiros que mereçam do
Para cumprir o ónus da prova, a parte tem de utilizar um dos meios de ordenamemo jurídico uma tutela mais forte, Em geral, os limites. do direito à
prova legal ou contratualrnente admitidos ou não excluídos por convenção das prova consubstanciam-se nas chamadas provas proibidas, que podem ser tanto
partes (cfr. art" 345° CC). Dada a importância do cumprimento do ónus da provas que são materialmente lícitas mas processualmente proibidas, como
prova para o proferimento de uma decisão favorável à parte onerada e acen- provas que são material 'e processualmente proibidas.
tuando os deveres correlativos que decorrem desse ónus para a contra parte e
para terceiros, costuma falar-se de um direito à prova (22). Este direito é
b. Algumas provas são materialmente lícitas, mas. apesar disso, não são
habitualmente deduzido, para a generalidade dos processos jurisdicionais, do
processualmente admissíveis .. Estas provas podem conduzir .a uma proibição de
disposto no art" 6°, n° 3, al, d), CEDH, que- garante ao acusado o direito de
produção oude valoração. Constitui exemplo da primeira situação (proibição
interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de acusação e obter a convo-
de produção) a apresentação de- testemunhas em número superior ao 'legal-
caçãoe o interrogatório das testemunhas de defesa nas mesmas condições
mente admitido (art" 632°, n° 3) 00 a utilização da prova testemunhal para a
daquelas (23).
demonstração de urna declaração negocial que haja de ser reduzida a escrito
(urt" 393°, n" T, CC).
b, Este direito à prova também mereceu alguma arenção ua reforma
Noutros casos, a prova pode ser produzida num processo, mas não
do processo civil. Particularmente significativo é o poder assistencial que o
pode ser valorada numa outra acção. Assim, pnr exemplo, os depoimentos e
n" 4; atribui ao juiz: sempre que alguma das partes alegue uma
Q
art" 266 ,
arbitrarnentos realizados num processo não valem como tal num segundo
justifieada dificuldade séria em obter um documento ou uma informação que
·processo que ofereça às partes maiores garantias quanto à produção da prova
sejam necessários para o eficaz exercício de uma faculdade ou o cumprimento
(urt" 522°, n° I): as declarações prestadas no processo de averiguação oficiosa.
de um ónus ou dever processuais, o juiz deve, sempre que tal lhe seja possível,
de maternidade ou paternidade não podem ser utilizadas numa posterior acção
providenciar pelo suprimento do obstáculo.
de reconhecimento (artOs 1808° e 1868° CC). Nestes caso, verifica-se apenas
Igualmente importante é a dispensa de confidencialidade de dados que se
uma proibição de valoração da prova.
encontrem na disponibilidade de serviços administrativos. Segundo se dispõe
no art" 519°-A, n" I·, O juiz pode determinar, oficiosamente ou a requerimento
c, Outras provas sãnrnateri alrnenteproibidas e, portanto, ilícitas. São
(22, Cfr., v.. g:. Perrot, Le droit à 1'1 pr€uvc,in f1aj""U1<·;d. EfIekti vcr Rcchsrsscbutz uni! exemplos de provasilícitas todas aquelas que são obtidas através dos métodos
vcrfassungsrnüüigc Ordnung (Bieletcld 198:1), 95 ss.: Koime}, O'IS Recht uuf Bewcis im previstos no arr' 32", n" 6, ·CRP ou no art" 519°, n° 3, como a utilização de urna
Zivilverfahren (Bem 1992), passim. testemunha que escutou indevidarnente uma conversa telefónica ou que actuou
(2.1) cn.. li. g., watter, Le droit à la preuve au regard de la Cnnventíon Européennc dcs Druits
como detective particular, a apresentação de um diário íntimo da contraparte,
de I'Hornme (CEOH) er de la Constitution Fédéralc Suissc, in Studi in onere di Viuorio Denti
[ (Padova 1994). 6R4 ss.; Kofmel, Rccht auf Beweis, 29 ss ..
Principias estruturantes 59
58 Principios estruturantes

reflictam as concepções fundamentais sobre as relações entre os indivíduos e


o desrespeito da intimidade e da dignidade da pessoa humana e a violação do o Estudo. Essas relações devem, aliás, ser entendidas num duplo .sentido: trata-
segredo de Estado, profissional ou de funcionário. -se da posição do Estado perante o .indivíduo, e., portanto, da medida da
intervenção do Estado, através do tribunal, na autonomia do indivíduo; mas
o art" 519'. n" 4, considera aplicáveis ao processo Civil as condições definidas no process« trata-se também da posição do indivíduo perante o Estado, pois que a parte que
penal quanto à legitimidade da escusa c à dispensa do 'segredo de Estudo e profissional. decide recorrer aos tribunais aceita submeter-se ao julgamento do poder
A remissão é feita para os an's '13~" e 137" CPP. Segundo o arr" 135'. n" '2. CPP. é ao juiz perante [urisdiciona] 1'24) . .
o qual' se tiver suscitado o incidente que 'compete proceder às averiguações necessárias para
apreciar a legitimidade da escusa baseada no segredo profissional. O art" 135'. n" J. CPP permite
É assim natural que, hisroricamente, o papel do juiz no processo e a sua
que o tribunal superior àquele onde o rncidenre se tiver suscitado. possa impor. com base relação com as partes tenha variado de acordo as ideologias dominantes na
no princípio do interesse preponderante, a quebra desse segredo (cfr., 1'. g .. RL, 17/1/1995. organização do Estado: ' o liberalismo clássico, de inspiração burguesa e
CJ 95/1. t54). Quanto ao segredo de tstlldo. de deve ser confirmado, no pruzo de 30. dias. por capitalista. construiu um processo dominado pelas partes e caracterizado pela
intcr médio do Ministro da Justiça: "C; esse prazo for ultrapassado sem S~ ter obtido aquela
passividade do juiz; - as vãrias ideologias não liberais, sejam elas de carácter
confirmação, o testemunho deve ser prestado (art" 137", n" \ CPP).
autoritário ou de orientação democrática e social, conduzirama um processo
submetido ou, pelo menos, cornparticipado pela actividade. do juiz i25). Sin-
As provas ilícitas são, em regra, insusceptíveis de ser valoradas pelo
tornárica é também. relativamente a este aspecto, a evolução ideológica quanto
tribunal, isto é, não podem servir de fundamento a qualquer decisão judicial.
Mas, quanto ao real âmbito destas provasinsusceptíveis de valoraçâo, parece à posição do particular perante o Estado e:os tribunais: tendo-se partido, numa
haver que distinguir entre aqueles meios de prova cuja produção é, ela própria, óptica liberal, de um direito de acção que o indivíduo faz valer contra o Estado,
um acta Ilfcito (é o caso das provas previstas no art" 32", n° 6. CRP no e evoluiu-se, posteriormente, em consonância com os princfpjos ido Estado
social de direito. para a garantia, :que deve ser asseguradapelo Estado, do
art" 519", n" 3) e aquelas provas cujaprodução não representa, em s'i mesma,
acesso à justiça caos tribunais (cfr. art" 20°, n° J, CRP).
qualquer ilicitude, Assim, se, por exemplo, a apresentação em juizo de um
As características .do processo liberal, dominado pela passividade judi-
diário Íntimo (mesmo que legitimamente obtido pela parte) representa uma
ilicitude que obsta à sua valoraçâocomo meio de prova, jáa junção de um cial, são essencialmente as seguintes: - às panes é concedido o 'controlo sobre
documento furtado não constitui, em si mesma, uma ilicitude, pelo que nada o processo e os factos relevantes pata resolução do litígio e é rninimizadoo
obsta à sua valoração no respectivo processo, corttributo do jujz e de terceiros para essa resolução; - a decisão requer apenas.
uma lcgitirnação dependente da observânciadas regras e dos pressupostos
processuais. Em contrapartida, são as seguintes as linhas essenciais do pro-
cesso submetido ao activisrno judiciário: - as partes repartem com o tribunal
§ 3",
o domínio sobre () processo e elas próprias são consideradas unia fonte de
informações relevantes para a decisão da causa; - ,~spartes e terceiros estão
Novo modelo processual obrigados il um dever de cooperação com o tribunal; -a Iegitimação da decisão'
depende da sua adequação substanciale não apenas da sua correcção formal;
I. Premissas gerais - as regras processuais podem ser afastadas ou adaptadas quando não se
mostrem idóneas para a justa composição do litígio.

I. Bases ideológicas
'""I SWfIIll'. L~ proces <lu procés. Studi in onore di Viuorio Denti I (Padova t994), 226 qualifica
o processo jurisdicional não é imune à ideologia política, antes é mesmo essa aceitação C0l110 um "acta anti-revolucionãric".
profundamente influenciado por ela. A circunstância de esse processo decorrer (2.'1Clr. a obra fundarncntal de Damasku, The Faces 01" Jusiice and State Authority (New
perante um tribunal e de, por isso, colocar as partes em contacto directo com H:LVCl) Il)H7). pussim: crr. também Cappetlcni, Processo e ideologie (Bologna 19(9),3 sx.,
um órgão de soberania (cfr. art° I 13°, n° I, CRP) determina que nele se
Principias estruturantes 61

60 Principios estruturantes

real idadc. A esta correspondência da decisão com a real idade ex traprocessual


pode chamar-se legitirnação externa 127).
2. Condições sociais
A evolução histórica. e, doutrinária dos processos jurisdioionais mostraque
Além de acompanhar as ideologias políticas (e de por elas ser condi- a legitimação interna das decisões processuais. tem vindo a ser progressivamente
cionado). o processo jurisdicional também n5.0 é imune às condições sociais. substituída pela preocupação de lhes .assegurar uma legitirnação externa. Todo.
Diferentes condições exigem, naturalmente, diferentes soluções processuais. o desenvolvimento histórico e doutrinário do processo jurisdicional o mostra:
Uma produção e um consumo de massas, a necessidade da rápidá Circulação a oral idade. ti imediação e a concentração, numa primeira fase, e a concessão
de capital e bens, a progressiva complexidade das sociedades modernas e das ao tribunal de poderes instrutórios e inquisitérios e o favorecirnento do diálogo
relações humanas, os princípios de justiça social que dominam os tempos entre os sujeitos processuais, numa segunda. são. alguns -dos aspectos do con-
.actuais, a própria explosão de litigância que caracteriza as sociedades actuais tinuado esforço para aproximara decisão' processual da realidade das coisas ..
- tudo isto cria especiais exigências ao processo civil. Procura-se um processo do qual resulte uma decisão legitimada externamente,
o que exige que o tribunal possa assumir um papel inrerveruor, as partes possam
adaptar a suaargumentação às necessidades do discurso e os corrscnsos possam
3. Legitirnação processual coexistircom a controvérsia.

a. O processo é poder. Nas sociedades modernas, submetidas ao poder b. O Estado social de direito que se encontra plasmado no art" 2"CRP
político do Estado e organizadas em torno deste; Q poder jurisdicional dos juízes pressupõe uma democracia económica, social e cultural. O processo juris-
é expressão da posição que o sistema jurídico lhes concede para a. resolução dicional não pode deixar de reflectir essas preocupações sociais e de ser
dos confl iros de interesses públicos e privados (cfr. art° 205°, n" 2. CRP). Isto impregnado por lima concepção social: a solução dos conflitos não éuma
reconduz a análise para o problema da legitimação do processo jurisdicional .. matéria do mero interesse dos litigantes e estes não devem ser tratados como
ou seja, para a adequação da instituição processual para realizar os fins que o titulares abstractos da situação litigiosa, .masantes como indivíduos concretos
Estado e a sociedade lhe atribuem (261. COIÍl necessidades a que o direito e o processo devem dar resposta. Como referia
Os processos jurisdicionais de natureza declarati vu destinam-se a obter com notável visão Fran; Klein,àO sentimento popular é mais estranha a
Ó proferimento de uma decisão pelo tribunal. A correcção desta decisão indiferença do tribunal perante-a ameaça da ofensa ou a violaçãõ do direito de
depende da sua coerênciu com as premissas de facto e de direito que foram um indivíduo do que um maiorernpenharnento do tribunal na resol.U.çUüdo
adquiridas durante o processo e da própria não contradição entre essas litlgio (2~).· .

premissas, se essa decisão for correcta, será possível encontrar na sua Ó Estado social de direito representa um compromisso entre a esferu do
fundamentação aquelas premissas ou, pelo menos. reconstitui-Ias a partir dela. Estado e a d(1 sociedade, dos grupos e dos indivíduos. Também este com-
A esta coerência da decisãu com as suas premissas pode chamar-se lcgirimaçâo promisso se reflecte em vários aspectos dos modernos processos jurisdicionais.
interna. É ele que justifica o fim dornonopólio da justiça estadual, o pluralisrno de
Esta legitirnação assegura a coerência da decisão com as suas premissas, formas de resolução dos litígios e a. crescente importância da resolução
mas nada garante quanto à verdade ou accitabi lidade dessas premissas e.
portanto, daquela decisão: do facto de esta ser coerente com as suas premissas
1m Distinguindo entre a justificução interna e a externa das decisões jurídicas. ctr., por exemplo.
não se segue que ela corresponda à realidade das coisas, pois que, para tal, é Alexy. Díc logische Analyse juristischer Entscheidungen. in Alexy. Rccht, Vernunft. Dirkurs
necessário que estas premissas estejam, elas próprias. de acordo COm tal (Frankfurt arn Main 1')\15).,17 S.,
"XI Klrin. /'cil- unr! Geistesstrõmungen ';;11 Prozesse, in Klein. Reden, Vortrage / Aur~UI7.c. Bricfe
I (Wicn IlJ27), 129 (= Klein, Zeit- und Geistcsstrõmungen im Prozesse ? (Frankfurt am Mairi
IlJ.'iX). IX): sohrc o welfure Modet o] Procedure . cfr. Capnetteüi I Garth, lntroduction - Poli-
116.Sobre a lcgu imução, c tr., com muito interesse. Habernuis, Lcguimuuonsproblcme im cies. Trcnds and lutas in Civil Procedure. lnt. Enc. Cornp. Law XVl/l, 65 ss ..
modernen Sruat, in Habrrmas. Zur Rckonstruktion dcs Historischen Materiulismus (Frankfurt
11m Main 1976).271 ss ..
Princípios estruturantes 63

62 Princípios estruturantes

resultar de uma má fé subjectiva, se ela é aferida pelo conhecimento ou não


ignorância da parte. ou objectiva, se resulta da violação dos padrões de
alternativa de conflitos (Alternutive Dispute Resotution, ADR), nomeadamente
comportarnenin cxigíveis. Segundo o. art" 456°, n" 2 proémio, essa má fé.
através da arbitragem, da mediação e de várias formas de conciliação, tanto
pressupõe qupr () dolo, quer - O que constitui importante inovação - tão-só a
preventivas, como reguladoras (29).
negl igência grave. Comparativamente ao. regime anterior (cfr. art?s 456", n" 3,
A preocupação de coadunara estrutura e os fins do processo civil com
e 457°, n° I, al. b), CPC/61) e à corrente maioritária da jurisprudência (31),
os princípios do Estado socialde direito e de garantir uma legitimação externa
alargou-se justificadamenteo âmbito da má fé processual aos casos de
às decisões do tribunal esteve igualmente presente na reforma do processo civil.
negligência grave. Basta, assim, uma falta grave de diligência para justificar a
Foram três as linhas essenciais que a reforma escolheu para prosseguir essa
má fé da parte.
finalidade; a sujeição do processo a um princípio de cooperação entre as partes
Qualquer das' referidas modalidades da má fé processual pode ser
eo tribunal, a acentuação da inquisitoriedade do tribunal e a atenuação da
substancial ou instrumental: - é substancial se a parte infringir o dever de hão
prec1usão na alegação de factos e, finalmente, a prevalência da decisão relativa
formular pretensão ou oposição cuja falta de fundamento não devia ignorar
ao mérito sobre a decisão de forma.
(art° 456ó. n° 2, ai. an. alterar a verdade dos factos ou omitir factos relevantes
para a decisão da causa (art° 456°, n" 2, al. bj), isto. é, violar o dever de
11. Cooperação intersubjectíva verdade \J~): ~ é instrumental 'se a parte tiver omitido, com gravidade, o dever
de cooperação. (arr" 456°, n° 2, al. c)) ou tiver feito do processo ou dos meios
processuais um uso manifestamente reprovável, com o. fim de conseguir um
I. Generalidades objectivo ilegal, impedir a descoberta da verdade, entorpecera acção da justiça
ou protelar, sem fundamento sério, o trânsito em julgado da decisão (art" 456°,
o art" 266°, nÓ I, dispõe que, na condução e intervenção no processo, os
n° 2, al. d); cfr. também art? 72pÓ).
magistrados, os mandatários judiciais e as próprias partes devem cooperar entre
si, concorrendo para se obter, com brevidade e eficácia, a justa composição do
Não se esgotam nesse enunciado todas as hipóteses possfveis de má ré processual. IgQ9rada
litígio. Este importante princípio daccoperação destinu-se <I transformar o doordenamcnto proccsxual cominuna ser a Véni.-irkllug (ou suppressi», na traduçüo de Mene:.es
processo civil numa "comunidade de trabalho" Ll0, e a responsabi lizar as partes Corddro :n,h), isto J. o comportamento reiteradoda 'parte que conduz 4 contraparte a confiar que
e o tribunal pelos seus resultados. Este dever de cooperação dirige-se quer as uquclu, não recorrerá aq process» ou nele pão fará uso de UIlW certa fuculdade (14"

partes, querao tribunal, pelo que importa algumas consequêncius quantoà


posição processual .das partes perante o tribunal, deste órgão perante aquelas Á má ré processual obriga a parte ao pagamento de uma multa e, se a parte
e entre todos os sujeitos processuais em comum. conrrária o pedir, de uma indemnização (art" 456°, n° I). Esta indemnização
pode consistir" segundo a opção. do juiz (art" 457°, nOI; al. b) 2" parte), no
reembolso das despesas a que a má fé do litigante tenha obrigado a parte
2. Posição das partes contrária, incluindo os honorários dos mandatários ou técnicos (art" 457""
n° I, al. aj), ou no reembolso dessas despesas e na satisfação dos restantes
a. O dever de cooperação assenta, quanto às partes. no dever de litigância
de boa fé (cfr. art" 266°-A). A infracção do dever do /ul/1eSII' procedere pode
(.\11 Cfr., I'. s., RP - 26/211990. BMJ 394, 528: STJ - 16/4/1991. ActJ 18 (1992). 17; RP-
129, Cfr., por exemplo. Blankenburg / Gottwaid / SI!"('I/'I'''/ (ed.), Altcrn.nivcn in <ler Ziviljustiz 14/11/1994, CJ 94/5.264.
(Küln 1(82). passim; Alpa, Résolution extrajudiciaire des confliis. R.LD'(~, 45 lI99J). 755 ss.; '-'1, Sobre este dever, clr. KIIII"(///O. Wahrheits- und Prozeêfürderungspflicht aís Vcrhaltcnspflicht
Chiarioni, La conciliazionc stragiudizialc COIll,C rnezzo altemtuivo di rixoluzionc dclle dispute. der Partcicrí gegeueinander, FS Woltrum Henckel (Berlin I Ne\V York 1995).411 SS ..
RDP 51 (1996), 694 S5.; Hehn, Nicht gleich vor den Richtcr. .. / Mcdiarion und reclusfõrmliche I',"~ M<:II(,~<',\' Cord •.iro; Da boa fé no Direito Civil ti (Coirnbra 19~5). 797.
Kontliktregelung (Bochurn 1996). passim; sobre a "desrcgulação' dos processos jurixdicionais. t}4' Sobre a Verwirkung em processo. cfr. Zeis.v, Die arglistigc Pruzesspartei (Berlin 1967).
cfr. Lindblom, La privatizzuzionc dclla giustiziu: nsservuzioni circu alcuui rcccnu sviluppi uel 123 ss.: KO/I~.l'I1. Rcchtsverhãltnisse zwischen Prozeüparteien (Berlin 1976).254 ss..
diritto processuule americano e svedcsc.'RTDI'C 49 (1995), \]g5 ss.
1)/)' Cfr, W(/.uer!J101l1l,Der soziate Zivilprozcli, 97 s~..
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Princlpios estruturantes 65
64 Princípios estruturantes

3. Posição do tribunal

prejuízos sofridos pela parte contrária. corno consequência directa ou indirecta


da má fé (art? 457°,p" I; a!. bj), 3.1, Generalidades

b. O dever de cooperação das. partes estende-se igualmente à importante Existe um dever de cooperação das partes com O tribunal, mas também
área da prova. O art" 519°, n" I, estabelece, na sequência do direito do tribunal há um idêntico dever de colaboração deste órgão com aquelas, Este dever (tratá-
à coadjuvação de outras entidades (art" 209°, :{lo3; CRP), quetodas.as pessoas, -se, na realidade, de um poder-dever Ou dever funcional) desdobra-se, para esse
sejam ou não partes na causa, têm o dever de prestar a sua colaboraçãopara a órgão. em quatro deveres essenciais:' - um é o dever de esclarecimento, isto é,
descoberta da verdade, respondendo ao que lhes for perguntado, submetendo- o dever de o tribunal. se esclarecer junto das partes quanto às dúvidas que tenha
-seàs inspecções necessárias, facultando o que forrequisitado e praticando os sobre as suas alegações, pedidos ou posições em juizo (cfr. art" 266°,no 2), de
aCIOs que forem determinados. Este dever de colaboração é independente da molde a evitar que a sua decisão tenha por base a falta de informação e não a
repartição tio ónus da prova (cfr. artes 342 a :345° CC), isto é, vln'cula mesmo
0
verdade aputada;- um outro é o dever ele prevenção, ou seja. o dever de ,o
a parte que não está onerada COm a prová. tribunal prevenir lís partessobre eventuais deficiências ou insuficiências das
A recusa da colaboração devida pelá parte implica uma de duas con- suas alegações ou pedidos (cfr. art''s 508°,n° I; al. b), 508°~A; nO I, al. c), 690°,
sequências: - se a parte recusar a SUa própria colaboração, o tribunal aprecia na 4, e 70 I 0. n" I); - o tribunal tem também o dever de consultaras partes,
livremente, para efeitos probatórios, o valor desse comportamento (art" 5 I 9°, .sernpre que pretenda conhecer de matéria de. facto ou de direito sobre a qual
n° 2 1a parte); - se a violação do dever de colaboração resultar da circunstância aquelas não tenham tido a possibilidade de se pronunciarem (cfr. art" 3°, n° 3),
de a parte ter culposamente tornado impossível. a prova à contraparte onerada, porque, por exemplo, o tribunal enquadra juridicamente a situação de forma
O ónus da prova inverte-se, ou seja, é sobre essa parte que passa a recair o ónus e
diferente daquela que a perspectiva das partes ou porque esse; órgão pretende
da prova (art" 519°, n° 2 in fine; art" 344°, n° 2. CC). Como o dever de conhecer oficiosamente certo facto relevante para a decisão da causa; -
colaboração pode recair sobreapartc que nãoestá onerada com aprova do finalmente. li tribunal tem. o dever de auxiliaras partes na remoção das difi-
facto, esta inversão do ónus da prova pode implicar, com base na regra dp.11011 culdades ao exercício dos seus direitos ou faculdades ou no curnprirnento de
liquet (cfr: art° 516°;artO 346" CCJ. () proferimentode uma decísã« de mérito ónus ou deveresprocessuais (Cfr,art° 266°,.1:)° 4).
contra a parte à qual não cabia inicialmente a demonstração do factu,
3.2. Dever de esclarecimento
c. O dever de cooperação da parte tambémencontra expressão .na ;lCÇUO
executiva: se o .exequente tiver dificuldade em identificar ou !ocaliz,lr os bens O dever de esclarecimento implica um dever recíproco do tribunal perante
penhorãveisdo executado. o tribunal pode determinar que este preste todas as as partes e destas perante aquele órgão: o tribunal tem o dever de se esclarecer
Informações indispensáveis fi realização da, penhora. sob a comi nação de ser junto das partes e estas têm o dever de o esclarecer (cfr ..art" 266°"A). Encontra"
litigante de má fé (art 837°cA.
Ó
considerado n° 2). -se consagrado, quanto ao primeiro aspecto. no art" 266°, nQ 2:. ojuiz pode, em
qualquer altura do processo, ouvir qualquer das partes, seus representantes ou
d. Por ser contrário à efectivação e ao espírito dos princípio da coope-
mandatários, judiciais, convidando-os a fornecer os esclarecimentossobre a
ração, bem corno ao princfpie da correcção recíproca previsto no art" 266°-8.
matéria de facto Ou de direito que se afigurem pertinentes e dando-se
deve considerar-se tacitamente revogado o Decreto-Lei na 330/91, de 5/9,
conhecimento â outra parte dos resultados da diligência. O segundo do .s
quanto à dispensa de justificação di! falta de advogado a um neto judicial. Um
referidos aspectos (dever de esclarecimento do tribunal pelas partes) está.
tal diploma de cariz manifestamente corporativo é inconciliável com a vigência
previsto no art" 266°, na 3.: as pessoas às quais o juiz solicita o esclarecimento
dos referidos princípios. Aliás" oart" 1.55°, nOs 2 e 5, impõe que, quando a
são obrigadas a comparecer e aprestar os esclarecimentos que lhes forem
marcação da diligência não tenha resultado de prévio acordo entre o juiz e os
pedidos, salvo sé tiverem uma causa legítima para recusar a colaboração
mandatários das partes. QS mandatários impedidos em consequência de outro
serviço judicial já marcado devem comunicar o facto ao tribunal.
Princípios estrutúrantes 67
~----~--~~~~~----~~------------
66 Principios .estruturantes

tenham. tido ~ possibilidade de se pronunciarem sobre ela. O escJJtm deste


preceito é evitar à.~ chamadas "decisões surpresa", isto .U!;decisões proferidas
ê,
requerida, Deve considerar-se legitima a recusa baseada em qualquer das
círaujtstâncias refetidas 110 art" 5 J 9°, 1)" 3. sobre matéria de; conhecimenrooficioso serrra .sua prévia discussão pelà~
partes 137)~
Este dever de consulta mantém-se durante toda a tramitação da causa.
3.3. Dever de prevenção Assim, se, por exemplo, o Supremo entender que a decisão de facto proferida
pelas instâncias é insuficiente 'para permitir a aplicação do regime jurídico que
O dever de prevenção é um dever do tribunal perante as partes com uma
considera aplicável ao caso (árt°!j 729<>,n'' 3, e 730°; n" J). esse tribunal deve
finalidade assistencial, pelo que não implica qualquer dever recíproco das. partes
ouviras partes antes de definir o novo enquadramento jurídico da questão sub
perante o tribunal, O dever de prevenção tem urna consagração no convite ao
iudice.
aperfeiçoamento pelas partes ç!o$seu$ articulados (art?» 508°, nó l,aI. ·b), e
508°-A,. n" I, ai. c)) Ou das conclusões das suas alegações de recursotarr's 690°,
n"4, e 70 I 0, n" I). Aquele primeiro convite deve ser promovido pelo tribunal :\.5. Dever de auxílio
sempre que o articulado enferme, de irregularidades (art? 508°,no 2) ou mostre
O tribunal temo dever de auxiliar as partes na superação das eventuais
insuficiências ou imprecisões na matéria de factoalegada (art" 508°, n° 3).
dificuldades que impeçam oexercício de direitos ou faculdades ou o cum-
Mas o dever de prevenção tem um âmbito mais amplo: ele vale gene-
primento de ónus pu deveres processuais. Assim; sempre que alguma das partes
ricamente para todas as situações em que o êxito da acção a. favor de qualquer alegue justificadarnente dificuldade.séria em obter documento ou informação
das partes possa ser frustrado pelo uso inadequado do processo. São quatro as que condicione o eficaz exercício de uma faculdade. ou o cumprimento de um
áreas fundamentais em que a chamada: de atenção decorrente dó dever de ónus ou dever processual, ojuiz deve, sempre que possível, providenciar pela
prevenção se justifica: a explicitaçâo de pedidos pouco claros, ocarácter lacunar remoção do obstãculo (art'' 266<>, n" 4~sobre um idêntico dever de auxilio,
da exposição dos factos relevantes, a necessidade de adequar o.pedido for- cfr. também arr''s 5.1ÇI.ocA, n? I, e 837"~A, n'' 1).
muladoà situação concreta e a sugestão de uma certa actuação. (J.~). Assim, por
exemplo, O tribunal tem o dever de sugerir a especificação deum pedido
indeterminado, de solicitar a individualização das. parcelas de um montante que 4. Posição comum
sóé globalmenre indicado, de referir as lacunas na descrição de um facto, de
se esclarecer so.bré Se a partedesistiu do depoimento de uma testemunha O princípio da cooperação também se manifesta na posição recíproca de
jndicadil ou apenaS se esquece\l dela ti de convidar a parte a provocar a qualquer dos-sujeitos processuais perante todos os demais. Assim, por exemplo,
intervenção de um terceiro (çfr. art" 265°,.n() 2) (~(j)i !ooêls Os íntervenientes no processo devem agir em conformidade COm um dever
decorrecção e de urbanidade (art" 2.66°cB, n° I) e a marcação do dia e hora
de qualquer diligência deve r~~ultar de acordo entre o juiz e osmandatários
3.4. Dever de consulta judiciais (arIOI55°, n° I).

O dever de consulta é um dever de carácterassistencial do tribunalperante


~$ partes. Este dever ertcontra-se estabelecido no art" 3", n" 3: salvo no caso 5. Violação da cooperação
de manifesta desnecessidade, o tribunalnão pode decidir uma questã« de direito
ou de facto, mesmo que seja deconhecimento oficioso; sem que as partes a. O princípio da cooperação determina, corno se viu, R imposição ao
tribunal, além de Um dever de auxílio, dos deveres 'de esclarecimento, de
(W Cfr. Peters, Richterliche Hinwcispflichten und Beweisinitiutiven im Zivilprozcü (Tübingcn
1983). 122 ss.: MijnchKommZrO / Peters, li 139 24 ss.; Luumen, Das Rechtsgcsprãch i111 \.111Sobre II necessidadeda audição da parte. antes da sua condenação como Iitigante de má fé.
Zivilprozef (Kõln / Bcrlin / Bonn / München 1984),202 SS... ctr. TÇ - 440/94(7/6/1994), DR, li - 1/9/1994.9140 = 13M.J 438, 84.
iJ~) Sobre estes e outros exemplos, cfr ..MünchKommZPO I Pelas. § I:W í R e 24 ss.: Ro.w'lIhefg /
/ Sehwah / 'Gonwald. ZP.~ 15, 429 s..

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Princípios estruturantes 69
68 Principios estruturantes

na 2, al. cj), Aquela gravidade da Qmj~S;i..ododeverde cooperaçãopressupõe


prevenção e de consulta. Coloca-se então a questão de saber quais as con- o dolo ou a negligência grave da parte (art" 456°, n" 2 proémio),
sequências que resultam da. omissão pelo tribunal de qualquer destes deveres.
O problema particularmente complexo, porque a previsão destes deveres nem
é

sempre é uma situação completamente definida na lei.• antes faz apelo, em


muitos casos, a uma ponderação do tribunal. Por exemplo: o dever de consulta Ilf, Objecto do processo
implica que o tribunal ausculte as partes antes de apreciar uma matéria de
conhecimento oficioso que não foi previamente discutida pelas partes, mas essa
aUSCUltaçãoé dispensável em caso de manifestadesnecesaidade (art° 3°, n° 3); 1. Generalidades
o dever de prevençãáquantoâs insuficiências da exposição dos factos nos
articulados das partes (art~s 508", n" .l, al, b), e 508"~A, n° 1, al. c)) pressupõe o processo civil é regido, quanto à relevância da Vontade das partes, pelo
que o tribunal, como tarefa preliminar, detérmine, através do seu prudente princípio dispmitivo e da disponibilidade privada: aqueleprimeiro ª§$çgüra a
arbítrio, se se verificam aquelas insufkíêneiM. autonómia das partes na definição dos fins que elas procuram obter .através da
Assim, alguns desses deveres de cooperação assentam numa previsão acçãn pendente; este último determina o domínio das partes sobre osfactos a
"fechada", que não deixa ao tribunal qualquer margem de apreciação quanto à alegar e os mélos de prova a utilizar para conseguir aqueles objectivos, Pode
sua verificação; outros, pelo contrário, decorrem de umaprevisão "aberta", que di..zer-se que (j princípio dispositivo representa a autonomia na definição dO$
necessitá de ser preenchida pelo tribunal de acordo coma sua ponderação. Esta frrrs pro~seguid()s nop.roceSs~}e que oPdncípíoda disponibilidade objectiva
distinçâQ é importante quanto .a08 efeitos do não cumprimento dos referidos assegura o domínio da$ partes 8obt.e 0$ meios de osalcançar,
deveres ..Se o deVer for estabelecido por urna previsão "fechada"> isto é, se a O âmbitodos poderes. do ttibl!\1al e daspartes telativame.tlte à. matéria de
situação em que ele tem de $etobserVado não deixar ao tribunal qualquer facto. relevante para a apreciação da causa constitui um dos aspectos essenciais
margem de. apreciação -,. a sua omissão cOl1stituiumanl.jJidilde processual, se, de qualquer regime processual n~l.A orientação, segundo. a qual o proce::;sb $ê
como em regra sucederá, essa irregularidade puder intluÍr no exame ou decisão enCO\1ttana total. e completa disponibilidade das partes e, como correlativc
da causa (art" 201°, n" I). cje$$edomíniod.ol> particulares, de. acordo com a qual o tribunal deve assumir
Diferentemente, se o dever resultar de uma previsão "aberta", deve um;\posição puramente passiva, encontra-se há muito ultrapassada no ambiente
entender-se que a determinação da situação que o impõe cai no âmbito da da doutrina ptbçeS$i.JalCíviJ (39), A repartição de tarefas entre as partes e o.juiz
dísericionariedade do tribunal, pelo que a sua omissão não produz qualquer resumida no brocardo Da mihi}acra, daba tibi ius lá não vale. hoje de modo
nulidade processual. Se, por exemplo, o tribunal considerar que () articulado absoluto.
da parte não necessitá de qu,tlquer correcção ou cortcretização e se, por isso,
se abstiver de convidar a parte 11 aperfeiçoá-lo. essa omissão não é susceptível
de originar uma nulidade processual, Note-se, no entanto, que esta ponderação
não é slnónlmo de arbítrio: o tribunal, se entender que necessita de ser
nXiSóbré a evolução históric» da ternática, cfr. Bomsdor], Prozebrnaxirnen und Rechts-
esclarecido ou quc deve prevenir ou consultar as partes, não tem qualquer opção
wlrklichkcit (Bcrlin 1971) .. 23 ss., 66 S$., 98 SS.. 159 ss. e 193 SS.; CaPl'eitétti/ Garth, Inlro-
entreexercer ou não o dever. ductlon,27 SS,.
n'l)Sübte á valoração dó Verhandlttllgsmaxime, cfr., por exemplo, We~yers, Ober Sinn und
No sentido de que a omissão de um poder discriciouãrio implica urna nulidade secun- Grenzen der Verhandlungsrnaxlme im Zivilprozess, in Dogmatik und Methode I JosefEsserzum
dária ou relativa (cfr. art" 20 I 0. n" J), cfr.RC - 2S/611994. 8MJ 43g, 567; RE - 291911994. 65~ GcburtstagrKrenberg/Ts. 1975). 193.ss.; Cal'pellettj/lol(Jjviçz..P\lblic Interest Parties and
BM1439,667. lhe ActiveRoleof lhe Judge lo Civil Litigation (Milano I New York 1975), 157 SS.; Bettermann;
Hundert Jahrc Zivilprozeêordnung - Das Schicksaleiner Iiberalen Kodifikatiol),ZZP 91 (1978),
b. A violação do dever de cooperação pela. pa.rte constitui,qua\1Ó<l seja 385 SL

grave, uma das situações que a lei tipitica COmOm::í.fê processual (art" 456",
Princípios estrulurantes 71

70 Principios estruturantes

sabilidade civil derivada de um acidente de viação provocado por um motorista


2. Factos relevantes de uma empresa de transportes (cfr. art" 503° CC), a distinção pode traçar-se
do seguinte modo: os fuctosessenciais são aqueles que integram os pres-
supostos dessa responsabilidade (a direcção efectiva doveículo, a sua utilização
2.1. Generalidades
no próprio interesse e os danos provenientes dos riscos próprios do veículo):
a. A reforma ocupou-se expressamente do problema. da aquisição dQs como facto complementar pode ser considerada a condução do veiculo.pelo
factos relevantes rió disposto no arf264O, com o claro intuito de aumentar QS motorista no exercíciodas suas funções; são factos instrumentais aqueles que
poderes do tribunal sobre a matéria de facto e de flexibilizar a sua alegação indiciam aqueles pressupostos e este exercício.
pelas partes. Corno resulta doesnrbelecido no art" 264°, a solução legal baseia- Outro exemplo: numa acção dedlvórcío litigioso baseada no adultério de
-se numa distinção, talvez demasiado esquemática, entre factos essenciais, um dos cônjuges (cft, artOs 1779°, n° I, e 1672° CC), o facto que constitui esta
instrumentais e complementares ou concretizadores: - os faeros essenciais são violação dos deveres conjugais é o facto essencial, o comprometimento da vida
aqueles que integram a causa de pedir ou o fundamento da excepção e cuja em comum resultante da gravidade e reiteração dessa violação é um facto
falta determina a inviabilidade da acção-ou da excepção; - os factos instru- complementar e Os facios instrumentais são aqueles que indieiarn essa violação
mentais, probatériosou acessórios são aqueles que indiciarn os factos ess~ndai's (como, pnrexernplo, acircunstância de Q cônjuge rer passado um fim-de.
e que podem .ser utilizados puta a préiva indiciárla destes últinws;l4J)); - final- -sernana com Ut11 terceiro num hotel),
mente, os factos complementares ou cot1cretizadores sãp aqueles cuju falta não Um 'outro exemplo ainda: na acção de despej» destinada a obter lI. dernincia
constitui motivo de invíabíliçlade: di\ acção 00 da excepção, mas que participam do arrendamento por necessidade da casa para habitação pr6pria há...mais de
de uma causa de pedir ou de. uma excepção complexa e que,por isso, são um ano, (cfr. arr' 71°, n° I, aI. b), RAU), são factos essenciais aquelesdos quais
indispensáveis à procedência dessa acção ou excepção. decorre aquela necessidade (como a mudança do local de trabalho), é um facto
A cada um destes factoscorresponde uma função distinta: - os fados complerneruar a carência da. habitação há, pelo menos, um ano e são factos
essenciais realizam uma Junção eonstitutivado direito invocado pelo autor Ou instrnmentuis O~ que permirem demonstraraquela necessidade e este prazo.
da excepção deduzida pelo r~u: sem eles não se encontra individual izado esse Finalmente. mais um exemplos num" acção de reivindicação baseada na
direilb ou excepção, peló que a falta da suá alegação pelo autordetermina ,I. usucapião (cfr. art" 1287° ÇC). o tempoóecessârio à constituição desSê. título
ineptidão da petição ll1íCial portnexistência de causa de pedir (urt" 10;3°, n02, de aquisição constitui um facto essencial, a boa fé do possuído} (cfr., 1'.$.,
al. aj); - os facroscomplemcntarcs possibilitam, em conju~ação c0l11 os fuctn: art° J 294°, aI. a), CC) é Ulll facto complementar esãofactos instrtpneoqis
essenciais de que são complemento, a procedência ela acção ou da, excepção: aqueles através dos quais se pode demonstrar aquele lapso de ternpo e esta
sem elesa acção ou a excepção não pode ser julgada procedente; - por fim, posse, de boa fé ..
os fados instrumentais destinam-se a ser utilizados numa função probatória dos
factos essenciais ou complementares. Importa acentuar que esta classificação
:2.2. Pactos principais
não assenta num critério absoluto, mas .relatlvo: um mesmo facto pode ser
essencial em relação a um certo objecto e' complementar ou instrumental A procedência da acção ou da excepção pressupõe certosfactos; OS factQS
perante \lm outro objecto: por seu turnovum facto é sempre complementar ()U
necessários a essa procedência podem ser designados por factos princípai$;
instrumental em relação li. um certo facto essencial. EsresFactoscnglobam.ma terminologia do arr' 2.64°, os factos essenciais e Os
factos complementares, cuja distinção se traça do seguinte modo: - os factos
b. A distinção entre os. factos essenciais, complementares c instrumentais essenciais são aqueles que permitem individualizar a situação jurídica alegada
pode ser concretizada em alguns exemplos. Assim, numa acção de respon- na acção ou na excepção; - os factos complementares são aqueles que são
indispensáveis à procedência dessa acção ou excepção, mas não integram o
I''', Próximo desta definição. mas distinguindo.jros factos instrumentais. entre [actos prubatóriox
núcleo essencial da situação jurídica alegada pela parte.
e acessórios, cfr. Lebre de Freilas.lnrr()duçãoao Processo Civil! Conceito cprincipioxgernis
i, luz do Código revisto (Cormbra 1996). 136.

( .
r

Principios estruturaiues 73
72 Principias estruturuntes

deduz, com base nessas regras, () Jacto presumido. Podem ser qualificados como
O~ factos essenciais são necessários à identificação da situação jurídica factos instrumentais aqueles que constituem a base das presunções judiciais,
invocada pela parte e, por isso. relevam, desde logo, nu viabilidnde da acção ou seja, aqueles que permitem inferir, através de regras de experiência, o facto
ou da excepção: se os factos alegados pela parte não forem suficientes para se principalconstante da base instrutória (cfr. ârtOs 508°-A, n" I, aI. e), e 508"-8,
perceber qual a situação que ela faz valer em juízo (qual O crédito Ou qual a n" 2). Por exemplo: o autor invocou, numa acção de indemnização por acidente
propriedade, por exemplo), existe um vício que afecla a viabilidade da acção de viação" o excesso de velocidade do automóvel conduzido pelo réu; qualquer
ou da excepção. Os factos complementares não são necessários à identificação facto através do qual se possa deduzir esse excesso - COmo os danos causados
da situação jurídica alegada pela parte, mas são indispensáveis à procedência no muro em que o automóvelembateu ou o rasto deixado pelo veículo durante
da acção ou. excepção. É por isso que, quando respeitante ao autor. a falta de a tentativa de evitar o acidente - constitui um facto instrumental daquele facto
alegação dos factos essenciais se traduz na ineptidão da petição inicial por principal.
inex istência de causa de. pedir (art" 193", n° 2, aI. a» eque a ausência de Um Bastante mais difícil é determinar se os factos que integram a base das
facrocomptementar não implica qualquer inviabilidade ou ineptidão, más presunções legais também podem ser qualificados como instrumentais. Deve
importa a improcedência da acção. evitar-se uma resposta axiornãtica a esta questão, 11l<t'S existe, pelo menos, uma
hipótese -ernque os factos que constituem a base de Uma presunção legal nunca
podem ser qualificados como instrumentais: aquela em que esses factos se
2.3. Factos instrurnentais
referem à própria causa de pedir. Assim, por exemplo, não é possível qualificar
a. Os factos instrumentais são utilizados para realizar a prova indiciária corno facto instrumental a posse da qual se 'presume a tirularidade do COrres-
dos factos principais, isto é, esses factos são aqueles de cuja prova se pode pondente direito (cfr. art" 1268°, n° 1, CC) ou a comunhão duradoura de vida.
inferir a demonstração dos correspondentes factos principais. Portanto, o âmbito em condições aruilogas às dos cônjuges durante. o período legal de concepção
de aplicação dos factos instrumentais coincide com o da prova indiciária, pelo da qual se presume li, paternidade (cfr. art° 1871°, n" I, ·al. c), CC). Em concreto:
que esses factos não possuem qualquer relevância na prova histórica ou ainda que se entenda que nau se verifica qualquer alteração na causa de pedir,
representativa. Assim, por exemplo, o autor que quer provar o excesso de o autor não pode passar a invocar, em vez da presunção baseada tia posse
velocidade do veículo que causou o acidente pode utilizar uma prova repre- (cfr, art" 1268°, n° I. CC), a presunção decorrente, do registo (cfr, art" 7° CRegP)
sentativa ou uma prova indiciária: se requerer o depoimento de uma testemunha e não pode substituir o concubinato duradouro entre a mãe e o pretenso
sobre a velocidade a que o automóvel circulava, não se socorre de qualquer pai (01'1'. art" 1871°, n" 1,. al, c), CC) pela. existência de um escrito do pai
facto instrumental, pois que ela é chamada a depor sobre o próprio facto que (cfr. art" 1871 D, n° I, al. i», CC).
constitui o objecto da prova; se, pelo contrário. o autor requerera prova pericial
para determinar, em função do estado em que ficou o veículo, a velocidade
a que ele circulava no momento do acidente, aquela parte utiliza um facto
instrumental (que é o estado do automóvel depois do acidente) para demonstrar
3. Disponibilidade e oficiosidade
o objecto da prova (que é o referido excesso de velocidade).

b. A coincidênci a dos factos instrumentais com o âmbito da prova


indiciária levanta um problema. Em geral, a prova indiciária pode assentar 3.1. Factos principais
numa presunção judicial ou natural (cfr. art" 351 ° CC) ou numa presunção
legal (cfr. art° 350° CC). Importa verificar se pode ser qualificado como facto Assente a distinção entre factos essenciais, complementares e instru-
mentais, o regime. legal é o. seguinte: - incumbe àspanes alegar os factos
instrumental não só aquele que constitui a base de uma presunção Judicial, mas
também aquele em que assenta uma presunção legal. essenciais que integram a causa de pedir ou que fundamentam a excepção
(art° 264°, n" I); - () tribunal. pode considerar os factos complementares que
As presunções judiciais são aquelas em que a inferência do facto presu-
mido assenta em regras de experiência, isto é, são aquelas em que o tribunal
Principios estruturantes 7S
74 Princípios estruturantes

Na verdade, o art" 295°. fiO 3. estabelece que incumbe ao juiz realizar ou


resultem da instrução e discussão da causa, desde que a parte Interessada ordenar, mesmo oficiosamente, todas as diligênciasríecessãrias ao apuramento
manifeste Vontade de deles se-aproveitar eà parte contrária tenha sido facultado, da verdade e à justa composição do litígio, quanto aos factos de que Ibe é IIciro
quanto a eles, o exercício do contraditório (art" 264°, n" 3); - o tribunal pode conhecer. Ora, estes poderes instrutõrios estendem-se aos factos ríecessário» .ao
considerar. mesmo oficiosamente, os. factos instrumentais que resultem da apuramerno da verdade (cfr., v. g., art''s 535°, n° 1.552°, na I, 612°, n° 1, 645°,
instrução e julgamento da causa (art" 264°, n° 2). Deste enunciado resulta n" .I ,c 653°, n° I )ou à Justa composição do litígio (cfr., v. K,. art" 519°-A,
claramente que a disponibilidade objectiva vale quanto aos factos essenciais e n° I l, o que significa que esses poderes não se restringem aos Jactos alegados
aos factos complementares, pois que o tribunalnão os pode considerarquanto pelas partes, Os factos sobre os quais o tribunal pode exercer estes poderes
àqueles primeiros, Se eles não forem alegados pelaspartes e, quanto U c.ste$' inquisitórios coma finalidade de apurar a verdade ou de obter a justa com-
últimos, se aparte 'interessada.não manifestar vontade de seuproveitar deles. posição do litígio. são preci sarne rue OS factosinstrumentais, Assim interpretado,
Portanto, os factos principais estão sujeitos à disponibilidade das partes. o art" 264°, n" 2, mostra guese admite, quanto aos facrosinstrumenraís, uma
inquísitoriedade que, em princípio, se nega quanto aos factos principais " uma.
posição que, aliás! ja se procurou .defenderem face do direito anterior (41',
3.2. Factos instrumentais

Quanto aos factos instrumentais, há que reconhecer que não é totalmente 3.3. Poderesinstrutórios
claro o âmbito dos poderes que são. concedidos ao tribunal pelo an° 264°,
n" 4. É certo que este. preceito e$tiplIla que o. tribunal pode considerar oficio" A reforma não introduziu qualquer alteração significativa quanto ao âmbito
samente os factos instrumentais; mas isto tanto pode significar que, se os factos dospoderes instrulôrios do tribunal. O urt" 265°, n"3 {que equivale substan-
surgirem na instrução e discussão da causa, o tribunal pode considerá-los na ciulmentc ao art" 264°, n° 3, CPC/61 ) dispõe que incumbe ao juiz realizar ou
sua decisão ainda que nenhuma das partes. o requeira, corno querer dizer ordenar, mesmo oflciosamente, todas asdiligências necessárias ao. apuramento
que o tribunal pode promover, por iniciativa própria, a investigação desse!', da verdade c àjusta composição do. litígio, quanto aos factos de que lhe. é lícito
factos durante ainstrução e discussão da causa. Embora a redacção do preceito conhecer. Os tactos sobre os quais o. tribunal possui poderes instrutórios
suscite dúvidas, pareceser esta última a solução preferível, pelo que h:á que' são não sóos factos instrurrtentais alegados pelas partes ou Investigados pelo
entender que o tribunal possui poderes inqlliSltÔrios sobre 0$ f;)e1os instru- tribunal. como os factos prindpai~ alegadq~ pelas partes ..
mentais.
Nestes pdJdcsinstru!õrills dotribunal cabe, por exemplo, o de utilizardados confidenciais
N~ redacção fomecidu pelo ar 10 10 DI.-e 329-A(95, de 12112; o sentido do art" 264°; n~'2.
(art" 519°~A. n" 1). de rcquisitnr documentos (J\tt·535~, '0° IJ" de realizar a inspecção judicial
(art" 612°, n° I). de inquirir testemunhas no local da questão (a 11° 6220). de ordenar ti. notificação
era inequívoco: estabelecia-sé nela expressamente 'um poder inquisitório uií tribunal sobre OS
de pessoaque .não foi oferecida COIIlO testemunha (mIO 645°, n'' I) e de ouvir as 'pessoas que
fuctos instrumentais;
entender-e ordenar as diligências' para o seu esclarecimento [art" 6530, 110 1).

A favor do reconhecimento. de poderesinquisitórios.do tribunal sobre os


Da conjugação, entre os poderes inquisitórios atribuídos pelo art" 264'\
factos instrumentais pode invocar-se, antes do mais. a comparação entre
n02, e os poderes instrutórios estabelecidosI10art02()5°, n° 3. resulta o seguinte
os nÓs 2. e 3 do are 264": neste ultimo, concede-se ao tribunal o poder de
regime legal: os. poderes inquisiíórios respeitam exclusivamente. aos factos
considerar os factos complementares; mas sujeita-se esse poder •.~. condição
instrumentais (art" :264°, n" 2).;. os poderes de instrução referem-se tanto aos
de aparte interessada desejar o seu aproveitamento nu acção pendente: naquele
primeiro; atribui-se ao tribunal o poder de considerar os factos instrumentais i·lll Ctr. Pessoa v,,;:, Atcndibilidade <.!C factos não. alcgndosy Poderes instrutórios do.juizrríoderno
e não se submete o uso desse poder a qualquer condição .. É, no entanto. na (Coimbru 197X), 167 SS.: Antunes Vare/{/ I J. MiXI/el Bezerro l SlI/1lP{/;(} e NO!'l!, Manual de
conjugação entre os anos 264°, n'' 2. e 265°, n" 3, que se encontra o apoio mais Processo Civil-' (Coimbra 1985.), 415 S~.: M. Teixeira de SOl/SO, Introdução ao Processo Civil.
(Lisboa. 199.\). ~I s.,
firme para entender queo tribunal possui poderes inquisirórios sobre os factos
instrumentais.
( ,
r r c
Princípios estruturantes 77
76 Princípios estruturantes

não o da alegação da causa de pedir da acção ou do fundamento da


excepção.
factos principais, como aos factos instrumentais (art" 265°, n" 3),Portanto,
Deste t\lodo, os façtos inWumeJ1tais não estiío submetidosa qualquer ónus
quanto aOS factos instrumentais, o tribunal pode não só investigã-lcs, corno
de alegação nosarr.iculados. Aliás, como a alegaç~o dos factos instrumentais
ordenar quanto a eles asactividades in$ttutóriàs que sejam de sua iniciativa;
é umaaçrividade iustrutõria, esses Jactos, mesmo q\le sejam invocados nos
pelo contrário, quanta aos factos principais, b tribunal não possui poderes
articulados, podem sempre ser alterados enquanto for possível requerer OS
inquisitóI"Íos, pelo que, relativamente a eles, só pode ordenar as actividades
meios de prova (cfr, urtOs508°·A, n" 2,al. a), 512°, n° I, e 787°) ou alterar ou
Qfieios(j$ de inwução .legalmente permitidas.
aditar o rol de testemunhas (cfr, art''s 512 cA, n" I, e 787°). Portanto, mesmo
Q

que a parte invoque um facto Instrumental no seu articulado, elanão está


impedida de. usar qualquer outro facto na dernorrstraçãe do respectivo facto
4. Ónus de alegação
principal.
À regt4 segundo.u qual 0$ factos instrumentais nlí.O devem ser-alegados
4. L. Momento nos articulados deve abrir-se (jmaejÇcepçãQquàOm àqueles que respeitam à
meios de prova que devem ser oferecidos com essas peçàs processuais, çomq
a. Segundo o estabelecido no 11ft" 264°, n" 1, cilbe às pa,ftl'lSalegar os
é o caso dos factos para os quais é apresentada prova documental (art" 523°,
factos que integram a caasa de pedir e aqueles em que se baseiam as excepções:
n° I) e como sucede, quanto à .generalidade das provas, nos incidentes da
e.stes factos devem .ser alegados l10S articulados das partes (cfr.artOs 467°,
instância. (art" 303", n° 1) e no processo sumaríssimo (art" 793°). Nestas
n° t, al. c), 489°, n" 1, 502°,. n° 1, 503°, n" I, 785", 786°, 793° e 794", n° I).
hipóteses, incumbe .á contraparte contestar, no articulado de .resposta, esses
Todavia, o art" 264°, n° I, não abarca a totalidade do ónus de alegação que deve
factosil1srrUmeTltáis e itiVócar as eventuais exeepções.probatórias oponíveis
ser cumprido nos articulados. Este ónus não se restringe à indicação da éa:u.sa
&$ provas apresentadas pela outra parte (cfr., quanto à prova documental,
de pedir ou do fundamento da excepção, ou seja, aosfactosesseTlêiais; de recai
arr's 544", r(S le2, e 546°,n"$ le 2: anos 372", 374°, 375°, n° 2, 318" e
sobre todos os factos neeessâríos àproéedêncla da acção ou da excepção, Ou
379"CC).
seja, sobre os factos principais,. Portanto, o art" 264°, n"), refere-se apenas a
Uma fracção doónus de alGgação que as partes devem cumprir nos seus
articulados. 4.2. Preclusão

Recorde-se qUl':o art" 3°,n 4,admitl': a hipótese de. na falta de articuladoprevisto


Q
na lel. a, A distinção entre factos esàenciais, cemplernentares .e instrumentais é
0$ factos neeéssários ao exercíciodo cóntraditôrioserem invocados naaudiência prefiminar (eleVqnte qtti1ntoa vários aspectos do rratamentO da matéria de facto em
ou final. processo. É o que sucede quanto ao regime da SlJi1 preclusão: o art0264°, na 2,
mostra que podem ser considerados factos instrumentais não alegados.e, qUaTlto
b. Ao contrário dos factos principais- que estão submetidos ao óntrsde aos factos complementares, é nítido que não existe em relação a eles qualquer
alegação nos articulados -,OS factos instrumentais destinam-se a $e( utilizados preclusão quando não sejam alegados nosarticulados, precisamente porque o
numa função probatóría ei por essa razão, não estão sujeitosa e$$e ónus. Seria art" 264'\ n" 3, permite a sua consideração quando eles só sejam adquiridos
incongruente com a s.uafunção prcbatória submetçr os factQsinstrumentais40 durante a instrução e discussão da causa. Há que analisaras reflexos desta nova
regime definido p.a.taO ónus de alegação dos facto$ principais, Assim, enquanto regu]amelJtaçâolega] sobre o regime da preclusão.
eStes úlrimos devem ser alegados nos articulados, porque sem eles não é
viável aucção ou a excepção ou estas não podem ser procedentes, os factos b. Os factos essenciais devem ser invocados nos articulados (cfr. art" 264°,
instrumentais só' realizam uma função probatória e, por isso, a suaalegação é. n" I), mas importa referir que, a sua omissão não implica necessariamente a
uma actividade de instrução que, quando for necessária, só deve ocorrer rto preclusão d4SU4 alegação posterior. O novo regime processual permite que o
momento processual adequado: esse momento é o da indicação ou requeri-
mento dosmeios de próva (cfr, art''s 508"-A, n° 2, ai. a), 512°, n° I, e 787"Ye
Principios estruturantes 79
78 Principias estruturantes

Por isso mesmo, a previsão do art" 264°, n" 3, só muito raramente será
tribunal, na fase da condensação, convide qualquer das partes a suprir as preenchida. A faltá de invncaçâo de qualquer facto principal nos articulados
insuficiências na exposição da matéria de facto verificadas nos seus-articulados. justifica que o juiz convide a partea Suprir essa insuficiência 01.1 imprecisão
na exposição da matéria de facto no despacho pré-saneador (art''s 508°, rrs L
(art''s 508", nOs I, al. b), e. 3, 508°-A, n° I, al. c), e 787°). pelo que, se a falta
aI. h). e 3, e 787°) e, guando esse convite não tenha sido realizado, aquela
de alegação do facto essencial não Implicar uma rotalininteligibijidade da causa
omissão ainda pode ser suprida durante a Tealização da audiência preliminar
de pedir ou do fundamento da excepção, essa omissão ainda pode ser sanada
(anOs 508°-A, .n° I. al, c), e. 787°). Portanto, para além da situação em que se
nesse momento,
verifique uma mudança no enquadramento jurídico da acção depois da fase da
Apenas no regime .da alteração da causa de pedir se encontra alguma. abertura à condensação, serão taras as hipóteses em. que apenas na .instrução ou discussão
possihilidade de aparte alegar certosfucios em consequência da posição assumida pela da causa sedetecta a falta de um facto indispensável à procedência da acção
·contraparte. pois que essa :alteração é admissrvel na réplica. isto ·é. em resposta à contestação
(lu da excepção,
do réu, e na sequência de confissão leita pelo demandado c aceita pelo autor (urt" 273", n" I I.
Para além destas situações, não é possível alegar novas ca~IM1Sde pedir, Assim. porexemplo, n Note-sealrrda que a parté que pretender] reservar, por dolo ()U negligência
autor pode fundamentar a reivindicação na sua qualidade de herdeiro do anteriorpropricuiriô c' grave" a alegação de certo facto complementar para ainstrtrção ou discussão
na aquisição da propriedade por 'uxucupião. mas, se invocar apenas ..üquelllp(i,i~ãlJ sucessúriu. da causa não só deve ser condenada como litigante de má fé (art" 456°, n? 2,
hão pode, Perante Uma contestação do réu que não admite réplica (ctr, urt" 50;;!".n" 1), rlIS$<1(<l
al. b», como não se. pode sequer aproveitar desse facto. Valem aqui as razões
alegar aquela usucapião,
acima apontadas para a preclusão dos factos essenciais decorrente da má fé da
Mais discutível ésabersea alegação de um facto essencial depois dos parte.
articulados é possível mesmo que a parte tenha agido de má fé, ou seja, ainda
d. Relativamenteaos tactos instrumentais, o problema da preclusão equa-
que a omissão da invocação desse facto tenha resultado de negligência grave
ciona-se de modo diverso. estes factos não são nem constitutivos da sltuação
ou dolo da parte {cfr. artO 456°, n° 2, al. bj). Parece impor-se uma resposta
jurídica alegada pela parte, nem indispensáveis à procedência da acção OÚ da
negativa a esta questão, dado o disposto no. lugar paralelo da alegação dos
excepção. A sua função é apenas a de servir de prova indiciária dos factos
factos supervenicntes. Com .efeito, se estes factos só podem ser considerados
principais. pelo que o momento da sua relevância processual não é o da
se a sua alegação nãoatempada não for culposa (cfr; art" 50(;", n" 4), isto é,
alegação da matéria de facto, mas o da apresentação ou requerimento dos meios
se.iquãnto esses factos, s6 se admite uma invócaçãüextemporâneadeBdeque
à

ela não sejá eulposa, o O\e!itM há que concluir, por trí;iiQria de razão, quanto
de prova: e neste momento que devem ser invocados os factos instrumentais
que se pretende demonstrar com esses meios de prova (cfr, art"s 552°, n" 2,
aos factos essenciais, Assim, il alegação destes factos fora dos articuladossó
577°, n" I. 61:29.633° e 789"). Portanto, a precJu~ão da sua. alegação só ocorre
deve ser aceite quando a parte não tenha agido com negligência grave ou dolo.
quando não fpr possível indicar ou requerer os meios de prova (cfr., quanto
Portanto, a má fé da parte na omissão do facto essencial nos seus
ao processo ordinário e. su:mátto,<\ttO~ .508°-A, 11° 2; aí, a), 512°; n" J; e 787°)
articulados tem como consequência.alérn da sua condenação no pagamento de
Ou alterar os que anteriormente foram apresentados. 0\1 requeridos (cfr., quanto
uma multa e de urna indemnização à contraparte (art" 456°, nOI l, à inadrnis-
aos mesmos processos. artOs 512°-A, n" I,e 787°).
sibilidade da alegação posterior do facto, Neste caso, verifica-se uma.preclusão
decorrente da má féprocessual.
5.SeJecçao da.rnatéria ele facto
c.part° 264°, n° 3, demonstra que os factos complementares podem ser
adquiridos durante a ínstrução e discussão da causa, pelo que a omissão da
alegação.desses fados nos articulados não implica qualquer preclusão. Importa ), I, Âmbito da. selecção
acentuar, no entanto, que o art" 264", n° 3. não concede qualquer opção quanto
a. Uma outra consequêucia do, âmbito do ónus de alegação e de con-
ao momento da alegação desses factos, mas apenas a oportunidade de sanar
urnainsuficiência na alegação damatéria de facto que só foi detectada na testação definido na nova versão do Código de, Processo Civil respeita à
instrução e discussão dacausa.
r I~ r r c f

Princípios estruturantes 81

510

sabilidade do réu, mas antes os factos relativos a cada um dos pressupostos


dessa responsabilidade.
selecção da matéria de facto que se considera assente. e daquela que, por ser
Exceptuam-se desta regra aqueles casos em que o facto principal se
controvertida, deve integrar a base instrutoria (cfr. art''s 508"-A, n" I,aI. e), e
decompõe em factosparcelareainsusceptíveis de qualquer variação ouquan-
508°-B, n" 2). Dado que o tribunal pode considerar (e, como se viu, mesmo
tificaçâo. Admita-se, por exemplo,queo autor alega a pOSSede estado como
investigar) os factos instrumentais que resultem da instrução e ct.íscu8sãoda
fundamento da acção de investigação da paternidade; eSte facto principal
causa e dado que esses factos não estão sujeitos ao ónus dé<!leg().ção nos
decompõe-se em trêselementos - n.o~ni!IJ, (rat4ctu.s e fama (cfi; art" 1871",
articulados, aqueles. factos, considerados em S1mesmos, üãpdeyefll ser selec-
n° I, al, a), CC) -, pelo que, neste caso, é suficiente a selecção deSSa posseparg
cionados. nem como assentes (quando eventualmente tenham Sido alegados pelo
determinar que factos devem ser provados.
autor e não tenham sidO impugnados pelo réu), nem como controvertidos
(quando tenhamsido alegados por uma parte e impugnados pela outra) (42).
O Fundam,E!ntalnão é a posição do réu em relação ao facto instrumental, mas 5.,2. Meios de prova
perante o facto principal. Por isso, são possíveis duas situações: - se a contra-
parte impugnou o factoprincipal, estão igualmente impugnados ós respectivos LI. AtravQ~da selecção da base instcutóriaobtém-se a definição do objecto
factos instrumentais eventualmente alegados pelaoutra parte; " se-acontraparte dA prova (cff. ar!" 513°). No processo d.eclarativoorôinário e sumário, essa
não .impugnou o factoprincipal, este factoéônsidera,,~e admHidó POfªCQfÔO selecção ê reaJiza.dª nermalmenrena audiên<:taprelími@r (anOs 50&0~A,n° 1,
(arr's 490", n" 2, e 50S"), pelo que os factos instrumentais alegados, porque se a!' e), e 787")} S~3esta audiêncla não SE!realizar (cfr. arr's 50go-B, n° 1, e 78r),
destinavam apenas arêalizar' a prova do fi.1étoprincipal, tornam-se irrelevantes. aquela selecção êefectuada no despacho~aneador .(artOs 508"-B, n° 2, e
Estasituação marca, aliás, de forma muito significativa, uma diferença 787°). Se houver audiência preliminar, nela que deverão ser indicados ou
é

fundarrrernalentre aespecificação e.o questionário da antiga versão do.Código requeridos. os. meios de prova (art9s S08°-A, n" 2, aI. a), e 787"), mas, se essa
deProcesse Civil (cfrvart" 511°, n° I, CPC/6.1)e o novo regime de selecçãO audiência nãO se efectuar, E!.S$.es meios devem ser apresentados ou requeridos
dos factos assentes e controvertidos (artOsS08e-A, na J, aI. e), E!50go-B, n° 2): nos 15 dias $U bsequentesi1 notificação do despa<:lto.$ané().dQf(attOs S12'\ n" I,
enquanto para a especificaçãoe O questíonârio deviam ser s(1leç0Íonadostodos e 78TJ,
os factos (fossem eles principais ou instrumentais), ó .11~NO regime dE!SelE!CçãO Importa considerar, 110 entanto, que o\iir~it() positivo exige, quanto a todas
aplica-se somente aos factos ql1eas partes têm o ónUS de alegar nos seus as provasoonstituendasque podem ser indicadas ou requeridas depois da
articulados, isto é, em regra, ..3.08 (actos princiP4ls.Portanto, os factos ins- selecção da base instrutória, a explicitação dos factos que a parte pretende
trumentais,ainda que eventualmente a,Jegados nos articulados, não devem ser demonstrar com os respectivos meios de prova: é. assim no depoimento de
ÍIÍcl.uídos na base instrutótia,excepto quando tenham sido invocados conjun- parte (art" 552°,n° 2), na prova pericial (art" 5770, n'' 1), na inspecção judicial
tamente cem uma prova que deva ser oferecida nos articulados. (art"6 J 2") enaprova testemunhal (attOs304°, 11." I, .633°e 789°). Por exemplo:
dadaé limitação d;;JstestemLJnhasque podem ser utilizadas para a prova de cada
b. Os factosprincipais podem apresentar diferentes graus deabstracçâo, facto (<:k anos 304°, n" 1, 633° ~ 789°), a,parte tem o ói1u.sde in.9icar OS fac~Os
ou seja, podem ser mais ou menos abstracroseonscants os conceitos jurídicos que ptetenôE! ptovar COn1 dE!terminada testem\lnltil,
a que se referem. Por exemplo: a celebração de Um contrat« qualificável Coma ReJativamente aE!$te!>fados, existe urna importante opção da parte: esta
compra e venda ê um facto mais abstractp do que a el)Í.regá ge uma quantia pode limitar-se a designar o facto principal seleccionado na baseinstrutõria
monetária para eventual pagamento de .lJl11acol$aadquirida. Em regra, devem como aquele que pretende demonstrar pelo meio de prova. apresentado ou
ser selecciõrrados como factos principais 0$ factos correspondentes a cada Um requerido, mas também pode indicar factosinstrnmentals como objecto desse
dQ$ elementos de urna previsão legal e não os factos respeitanteauumu meto de prova. Isto .15, .aparte pode optar entre umaprova histórica (ou
qualificação jurídica. Assim, por exemplo, não deve ser quesitada a respon- tepresentativa)ol.I Uma prova indiçii1ria do objecto da prova: 110 primeiro caso,
deve provar o próprio facto principal: no segundo, socorre-se da provaIndiciãría
(42) .ldenticamente. Lebre de Freitas, Introdução, 136.
Princípios estruturantes 83
82 Principies estruturantes

realização QOs actos necessários à regularização da instância ou, quando estiver


em causa alguma modificação subjectiva dela, convidando aparte a praticá-
desse facto através da prova de factos ínstrumentais. Por exemplo; o objecto
da prova é O eXCeSSOde velocidade Com que o réu conduzia O auromóvel que -los. Assim, por exemplo, o juiz. deve promover, mesmo oficiosamente, a
provocou O acidente; o autor pode realizar a prova desse excesso através de
intervenção ou citação do representante legítimo doincapaz (cfc.. aftOs. 23°,
uma testemunha que presenciou b acidente ou utilizar Os factos instrumentais
n'' L e 24°, n° I)e deve convidar a parte a promover a intervenção de um
terceiro cuja falta seja motivo de ilegitimidade (cfr. art" 269°, n° 1). Está
de cuja prova se pode inferir aquele facto (como o rasto da travagern do
veículo). Outro, exemplo: se, numa acção de despejo, o objecto da prov,! fora
sanação oficiosa das excepções dilatórias visa diminuir, tanto quanto possível,
falta de residência do locatário (cfr. art" 64°, n° I, al. h), RAU), a parte pode os casos (le ab~()lviçã() dainMânciei e favorecer, sempre que iSS9 seja viável, a
chamar uma testernunhaa depor sobre a ausência desse locatário ou. servir-se, apreciação do mérito.
como factos instrumentais, das contas da água e electricidade para demonstrar
que o imóvel tem permanecido desocupado. 2., Abandono U(Jdogrnada prioridade
A escolha de Uma destas alternativas pode ter uma grande Importância
prática: se, por exemplo, a parte indica a prQva testemunhal parei a dernons- a .. Segundo a doutrina tradicional, os pressúpostosprõcessuais devem ser
tração do facto principal constante da base instrutórta, não pode exceder os apreciados untesdo julgamento do mérito da causa (43). Ou seja, segundo esta
limites impostos pela lei pata as testemunhas que podem ser utilizadas para a orientação nunca é possível o proferirnento de urna decisão de mérito antes da
prova de um único facto (cfr, arf's, 304"', n" I, 633° e 789°); mas se ti parte i:\veriguuçãôd\l preenohlmento de todos Os pressupostos processuais. Essa
designar os factos instrumentais que pretende demonstrar através da prova posição redunda, assim, num dogma da prioridade da apreciação dos pressu-
testemunhal, pode utilizar esse número máximo-de testemunhaspara. cada um postos processuais.
desses factos, . Na valoração crítica deste dogma devem ser consideradas duas situações.
Uma primeira refere-se aos casos em qneqtribunal, 1]0 momento em que
b.bcumprimenlo do ónus de alegação dos factos Instrumentais que se conclui pelonão preenchimento dê um pressuposto processual, ainda não pode
pretendem demonstrar através das provas constituendasestá sujeito a preclusão: proferir qualquer decisão sobre omérito da causa por falta de elementos
esse ónus sÓ pode ser cumprido enquantoa parte puder indicar ou requerer suficientes, Unia segunda situação engloba aquelas hipóteses em
que Q tribu-
qualquermeio de prova (cfr.artOg 508°-A, n? 2, al, a), 512°, n" I, e 787°) ou
nal, no próprio momento em que aprecia a falta de um pressuposto processual,
modificar aqueles que j~ foram apresentados ali requeridos (efr, ~mos512°-A, está em cpnd\ções .de julgara acção procedente ou improcedente.
I1 I, e 787°). Mal> esta preelusãonãc
Q
significa que o tribunal não possa utilizar Na primeira situação ~ aquela em que o tribunal detecta. a falta do pres-
os poderesinquisitórios que lhe são concedidos pelo art" 264°, n" 2, pelo que suposto e ainda não pode, nesse momento, conhecer do mérito - justifica-se
esse órgão pode considerar qualquer facto Instrumental que surja durante a plenamente a solução ditadapelo dogma da prioridade. Neste caso! impõe-se
instrução e discussão da causa. Por exemplo: a testemunha foi chamada a depor que. o tribunal. conheça da falta do pressupostc e não aguarde pelapossibilidaôe
sobre um determinado facto instrurnentale, apesar de nada ter afirmado $obtê. de apreciar (J mérito pata se pronunciar sobreaadmissibilidade da acção. Por
:ele; mostrou conhecer um outro facto. instrumental do mesmo facto principal; exemplo: O tribunal ainda não pode considerar a causa procedente ou irnpro-
o tribunal deve considerar este outra facto instrumental. cedente, mas já tem elementos que lhe permitem concluir pela falta da sua
cornperência para apreciar a acção; deve julgar-se incompetente e recusar-se a
conhecer do mérito da causa.
IV. Prevalência da decisão de mérito
1• .11 Na doutrina portuguesa. cfr., por exemplo, Manuel de Andrade, Noções elementares de
I. Sanação das excepções dilatórias processo civil 5 (Coimbra 1979)" '745.; Alise/li") de ClIJII'O; 'Direito Processual Civil Dcclatat6rio
II (Cüjmbru I!JK2),7: Antunes Vare/a I J. Mig'lid Bererra I Sampaio e N/)ra.M~mral " 104;
O art°265°, n° 2, estabelece que o j:uizdeve providenciar. mesmo oficio- Castro 'Mendes, Direito Processual Civil I (Lisboa 1986). 104.

samente, pela sanação da falta dos pressupostos processuais, determinando a


r I r

Pril1cípio,~r:struturantes 85
84 Princípios estruturantes

deve valer para qualquer excepção dilatória: não é pelo facto de aexcep-
A situação é diferente quando o tribunal, no próprio momento em que se ção não ser sanável que, quando se verificarem as condições nele definidas,
certifica da falta de umpressuposto processual, verifica que os elementos do se deve obstar ao conhecimento do mérito da causa; além disso, mesmo que a
processo já são suficientes para conhecer do mérito da causa. Admita-se, por excepção seja sanável, não importa procurara sua sanação antes do pro-
ferirnento dá decisão de mérito, se a parte beneficiada com essa SMaÇaO for
exemplo, que o tribunal reconhece simultaneamente a falta de capacidade
judiciária do réu e a improcedência da acção; segundo o dogma da prioridade, a mesma que pode obter urna decisão de mérito favorável. Portanto; segundo
o tribunal deveria conhecer daquela incapacidade judiciária e abster-se de o disposto no art° 288°, n° 3, o tribunal pode pronunciar-se sobre o mérito
proferir uma decisão de mérito. É a razoabilidade desta solução, e, em geral, da Causa, ainda que se verifique uma excepção dilatória sanável Ou não
sanável.
a impossibilidade de uma pronúncia sobre o mérito sempre que falte um
pressuposto processual, que. há que questionar (44). c, A aplicação do art" 2880, .n" 3 2" parte, pressupõe uma distinção
entre :pressupostosprocessuals dispensáveis e não dispensáveis. Suponha-se
b, Recorde-sé a situação em análise: no momento em que o tribunal que falta a competência. absoluta (cfr: art" 101°): neste caso, o tribunal
conclui que falta. um. pressuposto processual é possrvel o conhecimento do nunca pode conhecer do mérito da causa, pois que importa respeitar a
mérito da acção. O que interessa discutir é se, neste caso, é admissivel que O especialização dos tribunais e a existência-de factotes de conexão Com a ordem
tribunal conheça do mérito apesar da falta do pressuposto, jurídica portuguesa. Por exemplo: ainda que o tribunal comum tenha acon-
A resposta a esta questão depende da função do pressuposto que não está vicçã,o de que o acto administrativo alegado pelo autor é. ilegal.iesse tribunal,
preenchido. Em gera], os pressupostos processuais podem realizar uma de duas que não é competente para apreciar essaifegalidade, não se. pode pronunciar
funções: esses pressupostos podem destinar-se quer a assegurar o interesse sobre ela. O mesmo pode ser dito se proceder a excepção dilatória de caso
pilblico.na boaadministração da justiça, quer a garantir o interesse das partes julgado: se o tribunal considerar que se verifica essa excepção (cfr, artÓs 497°,
na obtenção de uma tL!tela a!.iequada e útil. Assim, por exemplo, a competência 498 e 494'\ al. i», é claro que não pode voltar a pronunciar-se sobre o mérito
0

absoluta do tribunal, que ée $ua competência material, hierárquica e inter- da acção.


nacional (cfr; areI OJ 0) " é um preSSllpOSto que visa a protecção directa qe um Se, diferentemente, nao se encontra preenchido um pressupestõ processual
interesse público; o mesmo pode ser dito quanto ao pressuposto negativo que destinado a proteger interesses dâ$ partes, ilnpOrtil. verificat se O conhecimentO
é. a excepção de caso julgado (cfr, art"s 497°, 498° e 494°,aLi». Contudo, a do mérito podeser favorável-à pat(t;l que seria beneficiada coma protecçâo qUt;l
generalidade dos pressupostos processuais visa acautelar os interesses das resultariado preenchimento do pressuposto. Várias situações são possíveis.
partes, ou seja, assegurar que a parte possa defender con venientemente os seus porque cumpre conjugar o não preenchimento de pressupostos processuais
interesses em jufzo e não seja indevidamente incomodada com a propositura favoráveis ao autor ou ao réucom a possibilidade de pronúncia de uma decisão
de acções inúteis ou destituídas de objecto. de procedência ou de improcedência.
É para estas situações que o novo art" 288°, n° 3 2' parte, estipula que, Nalguns casos, a falta do pressuposto processualnão prejudica a parte,
ainda que a excepção dilatõria .subsista.jtão deverá ser prçferida a absolvição porque ela, mesmo que aquele se encomrassepreenchido, n&Q poderia obter
da instârrcia.quarrdo.jíestinando-se o pressuposto em falta a tutelaro interesse lima tutela jurisdicional mais favorâveLÉisso que SUCede sempre que falte ÍJm
de uma das partes, nenhum. outro motivo obste; no momento da sua apreciação, pressuposto queprotege os interesses do autor, mas a acção possa ser julgada
a que se conheça do mérito da causa e a decisão possa ser 'integralmente procedente, e sempre que não se encontre preenchido um pressuposto favorável
favorável a essa parte. Note-se que, segundo o sentido literal, o .art" 288°, ao réu, mas o tribunal possa julgar a acção improcedente. Em qualquer destas
n" 3, parece só se referir às excepções dilatórias sanáveis que se procurou sanar situações, segundo o disposto no ;art~ 288°, n° 3 2" parte, o tribunal pode
e não foram efectivamente sanadas. Todavia, a doutrina definida nesse preceito conhecer do mérito apesar da falta do pressuposto processual. Por exemplo: se
falta a capacidade judiciária do autor, o tribunal pode proferir uma. decisão de
(44)Sobre o dogma da prioridade e a sua crítica, ctr. M. Teixriru de Sousa. Sobre o sentido e a
função dos pressupostos processuais (Algumas reflexões sobre o dogma da apreciação prévia
procedência, porque, mesmo que essa incapacidade fosse sanada, O autor não
dos pressupostos processuais na acção declarativa), ROA 49 (1989), 85 S5..
Princípios estruturanies 87

86 Princípios estruturant es

§ 4°.
poderia obter Uma tutela mais favorável; ainda que falte o interesse processual
e ainda que, portanto, a acção seja inútil, o tribunal pode proferir uma decisão Regresso ao iudicium
de improcedência, porque essa decisão sobre o: mérito é a que melhor protege
os interesses do réu demandado.
O mesmo pode ser dito quando se verifica um pressuposto processual L Antecedentes
negativo. Suponha-se, por exemplo, que, no momento em que detecta a
excepção de litispendência (cfr: art''s 497°, 498 e 494°, al. i)), O tribunal está
0
A acentuaçãoda participação oral das partes e da cooperação entre os
em condições de proferir uma decisão de improcedência; nesse caso, não faz sujeitos processuais aumenta a dimensão retórica e dialéctica do processo.
sentido absolver o réu da instância (cfr. art'ts 493°, n" 2, e 494°, al. ij), É curioso verificar que esta situação não constitui uma novidade na história
justificando-se antes que, de acordo com o estipulado no art" 2R8°,. n° 3 2' parte, dos processos judiciais, mas antes um retorno a uma velha tradição,
O tribunal absolva o réu do pedido. Até ao século XVII, utilizava-se a expressão iudicium (ou OI'dQ iudi-
A situação é, no entanto, diferente quando falta Um dos pressupostos ciariusi para designar o que hoje se chama processo. A lógica subjacente ao
destinados a acautelar OS interesses da parte eo tribunal não pode proferir uma iudicium era a retórica aristotélica ~ a acri vidade do tribunal e das partes
decisão favorável a essa mesma pune. Neste caso, de acordo corri o critério orientava-se por uma merodologia tópica, isto é, colocava o.problema no centro
fornecido 'Pelo art" 288°, n" 3 2" parte, ainda que o tribunal tenha elementos da discussão {451. O iadidunlseguia a lógica. do diálogo e.. por isso, fundava-
pata conhecer do mérito, não o deve fazer, porque essa decisão prejudicaria a -se numa "ordem isonómica'', ou seja, num princípio de igualdade entre todos
parte que seria beneficiada com o preenchimento do pressuposto em faltá. os sujeitos processuais, porque só entre 'iguais é possível o diálogo. Como
Admita-se, por exemplo, que o tribunal verifica queo réu é incapaz e que os consequênciu do diálogo e da lógica da argumentação a ele subjacenre, o juiz
elementos do processo permitem proferir uma. decisão de procedência favorável julgava secunduni conscientium:
ao autor; nesta situação, O tribunal não deve julgar a acção procedente, porque Depois do século XVII, por influência das novas orientações lógicas
não se encontra preenchido umpressuposto cuja finalidade específica é a . especialmente, a lógicaanti-aristotéfica e, axiornãtica construldapor Petrus
protecção dos interesses daquele réu eoujo preenchimento poderia conduzir a Ra!IJIIS (QU Pierrc de /0 Ramée (4(]) " do cattesianismoe, mais tarde, do
uma OUtra decisão sobre o mérito. jusnaturaltsrno e do iluminismo, perdeu-se essa dimensão retórica do processo.
Este passa a assentar numa distinção rigorosa entre a questão de facto e de
d, OattÔ 288Q" nÓ 3, refere-se aos pressupostos processuais eàs excepções direito, cuja conjugação se verifica apenas nas premissas do silogisrno judi-.
dilatórias, pelo que se pode perguntar se um idêntico regime deve valer quanto ciário. Nos parâmetros da decisão do juiz, a subsunçãoprevalece sobre a
aOS pressupostos de actos processuais. A resposta deve ser negativa, porque a ponderação. ou seja, a racionalidade suplanta a razoabilidade,
consequência da falta dopressuposto do acto processual é a ineficácia do acta Sintomaticamente. em vez da expressão iudiciuni, utiliza-se preferen-:
e o tribunal nunca pode decidir como se o acto não fosse ineficaz, Suponha- cialmente, daí em diante, o vocãbulo processus. COlUO reflexo do abandono da
-se, por exemplo, que o tribunal verifica que falta O patrocínio judiciário
obrigatório do réu na contestação (cfr. art° 32°, n° I); a consequência dessa falta (45) Sohre este aspecto c o que se segue. cfr. Plrardi, Processo civile l c) Diriuo moderno.
de patrocínio é a ineficácia dessa defesa (art" 33°), pelo que o tribunal não Pode EncD :l/i (191;7). 101 ss.: Giuliani. L "ordo judiciurius mcdiovale (Riftessioni -su un modello puro
decidir como se a contestação fosse eficaz e como se não verificasse a revelia di ordine isonornico). ROP 43 (198K), 59& SS.: Giuliani, La logique de la controverse dans ia
do réu. Portanto, a decisão de mérito nunca pode ignorar a ineficácia do acto. proeédure judiciairc. in. r 'Gil (Org.), Controvérsias científicas e filosóficas (Lisboa 1990),
31 '>I.: Giuliani, Lc rôlc du "fait» duns la controversc (à propos du binôrne «rhéiorique "
nem superar às suas conseqüências.
procédurc judiciaire» l, APh,tDr 39 (19'15), 229 SS •.
I~') Sobre a obra de Prtrus Rumus, cfr. W. Kneale / M. Kneale, O desenvolvimento da lógica
(Lisboa 1972). :l()!>ss ..
r

Princípios estruturantes 89
88 Princípios estruturantes

Esta abertura à retórica e à dialéctica também se nota no elemento lin-


concepção dialéctica e retórica do processo, perde-se o seu carácter "dialógico", guístico da reforma. Basta lembrar, a esse propósito, o frequente recurso a
torna-se yrevalecente o processo escrito e aumenta a irnportânciadas provas cláusulas gerais e a conceitos indeterminados, (;0111<) a "igualdade substancial
das partes" (art" }O_A), o "prudente arbítrio" (artOs 156°, n° 4, e 824\ n° 2), a
pré-constituídas e legais e, consequenternente, diminui a relevância das provas
"prudente convicção acerca de cada facto" (art" 655°,n° I) ou "a especial
constituendas elivres. O iudicium subsiste apenas com o sentido dê uma mera
sequência de actos processuais. complexidade da causa" (art" 787°). A ponderação e a razoabilidade, que são
elementos indispensáveis à concretização destas cláusulas gerais e conceitos
Simultaneamente, a apropriação estadual do processo judicial reflecte-se
indeterminados, tornam-se importantes parâmetros de decisão.
na posição do juiz. Da estadualidade do processo decorre uma posição
Até à sua recente reforma, D processo civil português encontrava-se
dominante e de superioridade do juiz perante as partes e uma cada vez mais
acentuada função burocrática do juiz. O processo passa a estabelecer-se numa estruturado em torno de uma racional idade. instrumental, isto é, a sua regu-
base hierárquica e a basear-se numa "ordem assimétrica'' entre as partes e o lamentação tinha por finalidade essencial permitir a obtenção de certos
objectivos pelas partes processuais (a procedência ou improcedência da causa)
juiz. O juiz não dialoga com as partes, pelo que só pode julgar secundum
aliigata. et probata. e pelo tribunal (o proferirnento de uma decisão, mesmo que não fosse de
mérito). Com a readquirida dimensão retórica e dialéctica, esse processo
orienta-se agora em torno de uma racionalidade comunicativa e privilegia o
11. Concretização diálogo entre os sujeitos processuais. A lógica da informação e da cooperação
sobrepõe-se à lógica da disputa e da estratégia.

Há que recuperar a dimensão dialéctica é retórica do processo, ou seja,


importa regressar às boas tradições do iudicium (47). Aliás, esta dimensão nunca
foi compÍetamente abandonada: lembre-se a subsistência da expressão de índole
retórica "questão" ou "questões", aliás empregue no próprio texto legislativo
(cfr., v, g. í artOs 659(\ n'"}, 6600 e 668°, n° J, al. di).

Sobre 1.1 USQ pela lei da, expressão "questão" ou "questões", cfr, também lutOs 3", n" 3
('qüés15es de direito ou de facto"), 3,2", nOs 2 e 3, 646". n° 4; e 725°. n" I C'queslÕ\!s de direito"),
511", h".l ("ques.tãô de direito:"), 646°, \1" 3 ("questaQ de facto"). 96° ("questões incidcntais"),
97° ("questões prejudiciais"); 98,' ("questões reçonvenciQnais") e 751" ("questões prévias").

É imprescindível que o processo acompanhe as tendências não formalistas


e não conceptualistas dominantes na moderna rnetodologia jurídica. Para isso,
torna-se necessário substantivar a posição do juiz e colocá-lo no centro da
controvérsia. É igualmente indispensável que o processo recupere algo do
carácter isonómico entretanto perdido e comporte meios que favoreçam o
diálogo entre os sujeitos processuais, A com participação das partes e a coope-
ração recíproca entre o tribunal e as partes são valores que substituem, com
vantagem, a oposição e o confronto. Como se verificou, a reforma do processo
civil inovou significativamente em todos estes aspectos.

(4'1) ror razões algo aproximadas, também Carne/til/i. Torniarno ai «giudizio», ROr 4/1 (1,949),
165 ss. propunha um idêntico regresso.
Competência internacional legal. 91

ru,
O NOVOREGIMEPO PIRElJ:OPORTUGUÊS
SOBRE A COMPETÊNCIA INTERNACIO~AL LEGAL

§ 1°.

Observações preliminares

1. Finalidade do estudo

A nova redacção concedida aos art"s 65" e 65°-A em matéria de


competência internacional directa pela reforma processual civil justifica uma
comparação. com o regime quer-quanto a essa mesma ternática, se encontra h.a
Convenção de Bruxelas e de Lugano sobrea competência judiciária e a
execução de decisões em matériacivil e comercial. Assim, depois de uma breve
referênciaà função e limites das regras relativas à competência internacional,
propõe-se uma comparação entre alguns aspectos que constam da nova
regulamentação interna sobre a cornpetência.internacional Iegal e o regime que
quanto a eles. se contêm naqueles instrumentos convencionais .

.A recente reforma do direito internâcionál privado Italiano evitou, de formá muito


interessante, qualqucrdivergênciuentre o regime da.Convenção de Bruxelas e o direito. interno,
estabelecendo. no art" )", n" 2, da Lei n~ '218, <li;:31/511995, que, na aferiç~o da competência
internucional dos tribunuls italiunos e nó âmbito da aplicução material daquela Convenção, nl>
regras desta valem mesmo que o réunão tenha domicílio num Estado-membro, o que significa,
além do mais. quesão recebidas pela ordem jurídica italiana todas as competências especiais
previstas Iléi;~a tÜllvenç5.b. Sobre esta "recepção material" da Convenção de Bruxelas, cfr.,
comentando aquele prcccíío. Lucratt«, ROIPP 31. :(1995), 928 c 9.32 ss.;Çalllpeis I De Pauli,
La proccduru civlle .internazionnle. 2 (Pudova 1996), 136 ss.; sobre esta sehr geschiG'kle Losung;
cfr. também Wá.lfer.. Reforrn des inrernationalem Zivilprozeêrecbts In Italien, ZZP 109 (1996),
125s ..

U. Âmbitn doregírne

Importa chamar a atenção para um aspecto essencial; que deve estar


presente lia com(Jreensão da exposição subsequente. Refere-se ele à. cir-

!
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I r r r:

Competência internacional legal 93

92 Competênciainternacional legal

petênciaIntcrnacional directa, às quais cabe determinar, em cada uma das


jurisdições comas quai» o litígio tem contacto, se os tribunais de alguma delas
cunstância de. que a comparação relativa aos. regimes instituídos na Convenção
são competentespara resolver O COnflito. Essas ft:gqS. são. por isso, verdadeiras
de Bruxelas e na Convenção de Lugano,por um lado, e no direito .interno
normas de conflitos, semelhantes na função que desempenham às regras
português, por outro, deve considerar uma importante diferença quanto à
próprias do Direito Internacional Privado.
extensão de cada um deles. Aquelas convenções regulam simultaneamente
As regras relativas.à COl11petêpcia internacional utilizam certos elementos
a competência directa e o teconhecimento eexequatur de decisões estran-
de conexão para determinar a Jurisdição nacional competente: Esses elementos
geiras (cada lima delas constitui Um dos rarosexemplos de uma conventlon
podein ser, porexemplo, o domicílio de uma das partes, o lugar de cum-
double), pelo que as' regras de competência que constam delas valem tanto para
primento da obrigação ou o da ocorrência do facto .ilícito. Coloca-se então o
o tribunal {lo foro, como para O tribunal de qualquer outro Estado-membro no
problema de saber como se prcõede.ã-quahficação desses elementos de
qual seja requerido o reconhecimento e a execução da sentença proferida, Isto
conexão, sendo duas as orientações ,po$síveis: de acordo Com uma delas, esses
é, o tribunal que emitiu a. decisão, quando a sua competência foi aferidapela
elementos são qualificados pela lex fori, isto é, pela lei do Estado onde li acção
Convenção de Bruxelas ou de Lugano, é sempre, para o tribunal de qualquer
está pendente; segundo uma outra orientação, esses elementos devem ser
outro Estado-membro ao qual for solicitado o reconhecimento ou a execução
qualificados pela lexcausae, ou. seja, por uma lei que é determinada pelas
da decisão proferida, o tribunal internacionalmente competente,
normas de conflitos do foro. A orientação dominante .é a que prefere a
Em contrapartida, as regras do direito interno português, que não possuem
qualificação dos elementos de conexão pela lex Jori (I), pelo que, para
qualquer Jntuito de harrnonização legislativa e que, por isso, não se podem
determinar se, por exemplo, o réu tem domicílio no Estado do foro, recorre-se
impor aos tribunais estrangeiros, SÓ fixam a competência d05 tribunais
ao seu próprio dir~itó interno. Desta regrac.óstuilia excepcionar-se a
portugueses, pelo que o tribunal estrangeiro ao qual for requerido o reconhe-
qualificação dos elementos de conexão que são utilizadosnas convenções.
cimento ou a execução de uma, sentença proferida em Portugal não está
internacionais: de molde a assegurar a aplicação uniforme das regras
vinculado a aceitar a competência do tribunal português que a emitiu, Segundo
convencionais em todos os Estados-membros e a esbater as particularidades dos
oseu direito interno, o tribunal português pode não ser o competente para a
direitos nacionais, prefere-sehabitualmente uma qualificação autónoma desses
apreciação do litígio.
elementos, ou seja, uma qualificação independente de qualquer relação com os
direitos internos dos Estados (2).

§ 2''.
2. Normas de recepção
Competência internacional
As regras sobre a competência internacional não são, consideradas em si
mesmas, normas de competência, porque não se destinam a aferir qual o
I. Função tribunal concretamente competente para ,apreciar o litígio, mas apenas a definir
a jurisdição na qual se determinará, então com o recurso a verdadeiras regras
I. Normas de conflitos de competência, qual o tribunal competente para essa apreciação. Dada esta

As facilidades de .deslocação de pessoas, bens e capitais potenciam q


surgimento de lltígios que apresentam, através quer das partes interessadas, quer III Cfr. Schack, Intemutionales Zivilverfahrensrecht 2 (München 1996), 17 s.; Nagel, Inter-
do seu próprio objecto, conexões com várias ordens jurídicas. Quando emerge nationales Zivilprozeürecht J (Münsterl991 l, 5,
um desses litígios plurilocalizados, coloca-se o problema de determinar qual (~) Schack: lnt, Zi,vilVR 2. 18; no âmbito da Convenção de Bruxelas, cfr. rr - 14/10/1976 (LTU
v, Eurocontroh, CJTJ 1976. )541,
o tribunal que, no âmbito das várias ordens jurídicas envolvidas, tem
competência para o dirimir. Esta selecção incumbe às regras sobre a com-
Competência internacional legar 95
94 Competência internacional legal

§ 3°.
função, as normas de 'competênciainternacion;rlpodem ser designadas por
normas de recepção, pois que vlsamsomeute facultar o julgamento de um certo
Regimes instituídosr
observações gerais
litígio plurilocalizado pelos tribunais de uma jurisdição nacional (3). É esta a
estrutura da generalidade dos critérios que constam do art" 65°, n" I, e, de muitas
das regras contidas nos ates Zo a 24° CBrux. / Cl.ug.
I. Convenção de Bruxelase de Lugano

I. Principlosgeruis
11. Limites
Importa começar por delimitar O campo de aplicação material da Con-
Para orientar a escolha .da jurisdição competente para resolver o conflito venção de Bruxelas e de Lugano. Estas convenções só se aplicam em matéria
plurilocalizado não existem na comunidade Internacional regras fixas e. menos *
civi I e comercial (art" 1°; I° I a parte Clsrux / Cl.ug), ainda assim com excep-
ainda, uniformes. Apenas se pode esperar que - parafraseando o imperativo ção das questões relativas ao, estado e. à capacidade das pessoas singulares, aos
categórico kantianó- cada Estado actue de tal forma que os critérios definidores regimes rnutrimoniuis (ou seja, aos regimes de bens resultantes do casamento),
da Sua competência Internacional possam valer simultaneamente como prin- aos testamentos e sucessões.às falências. concordatas e a outros processos
cípios de uma legislação universal. Quer isto dizer que cada Estado pode análogos, à segurança social e,finalmente. à. arbitragem (art? í a, § 2°, CBrux./
determinar quais os elementos de conexão que considera relevantes pará rCLug). Além disso, estãoexptessamente excluídas do âmbito dessas
abrir a sua Jurisdição ao julgamento' de litígios plurilocalizados. Esses ele- convenções as rnutéria» fiscais, aduaneiras e administrativas (art" 1°. § .1 °
mentos podem ser escolhidos pela lei do Estado, mas também é frequente z- parte; CBrux. / CLug) (5),
que Se reconheça relevância à vontade das partes nesta matéria: é esse o caso Quanto ao âmbito subjectivo dessas convenções em matéria de tom-
da competência internacional convencional (çt'r. art" 99°; art" 11" CBrux / petência directa, importa ter presente que elas se aplicam sempre que o
/ CLog), demandado tenha. domlcílin ou sede num dos Estados-membros. Com efeito,
Da inexjstêI)Qja, de regtu'i ~I)ifotmes sobren repartição da competência .são três os princípios fundamentais que órientam jaestabeleclmento da.
internaclonalnâo.sesegue que todaa ç()nexãQ seja aceitável (4). Proscritas $~Q compétêncin dlrecta uessas cOTlvenções: " se e réu tiver doruleílleóu sede num
as chamadas competênclus exorbitante», i~t9 é, i1quela.~ que utilizam um Estado~lnelllbrlJ,é1eve( em regra, ser
demandado nos tribunais desse Estado
elemento de conexão com ajurisdição nacional que, por não estabelecer 01114 (arr" 2 Cflrux' I .cLug); , se urna pessoa esti'ver domiciltada
0
num Estado-
relação suficientemente forte com aquela ou mesmo por assentar num critério -membro.upenas pode ser demandada nos tribunais de um outro Estado quando
arhltrádo, não deve justificar a atribuição de competênciainlernacional. Muito os tribunais deste último forenrcornpetentes por força de algum cios critérios
conhecida como exemplo de competência exorbiranre é a regra estabelecida no -especiais enunciados nas convenções (art° 3°, § 1°, CBrux I CLug), o que
art" J4Cc: um Cidadão estrangeiro, ainda. que não residente em França, pode significa que o réu pode. sempre ser demandado no Estado do seu domicílio,
ser demandado nos tribunais franceses, para cumprimento das obrigações por mas, se relevar urna das competências especiais. o autorpode optar por utilizar
ele assumidas em França ou no estrangeiro CQm um francês. urna destas competências; - finalmente, se o réu não tiver domicílio num
Estado-membro. a competência é regulada pela lei do Estado do foro, isto é,
pelo seu direito interno, ressalvando-se' â observância da competência exclusiva

(}1 Cfr. M. Teixeira de. Sousa. A competência declarativa dos tribunais comuns (Lisboa Í994). (') Cfr •.M. Teisrira de SOI/.\"(! / D. !l4Qurll Yicente, Cornenufrio ãConvençãode Bruxelas (Lisboa
41 55 .• 19(4); 2:? SS. c M ss..
(4) ce. F. A. Man», The Docuine of Jurisdiction ln International Law,Rcc. cours III
( 1964-1), 46 s..

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Competência internacional legal 97

96 Competência internacional legal

u. Direito interno português


definida no art" 16° CBrux I CLug (art" 4°, § 1°, CBTUX/ CLug) e daquela que
resulta de um pacto de jurisdição (art" 17" CBrux / Cl.ug), I. Modificações

o art" 65", n" I, vem introduzir algumas modificações na regulamentação


da competência internacional. As mais salientes são as duas seguintes: do
2, Competências especiais elenco dos critérios aferidores da competência internacional é eliminado o
chamado critério da reciprocidade, que se encontrava consagrado na aI. c) do
As principais competências especiais que o dernandante pode utilizar, n° I do art? 65° CPC/6.I; nesse mesmo elenco 'é introduzido um novo critério
em alternativa com a competência do domicílio do demandado (cfr. art" 2° de deterrninação da competênciainternacional, que é o critério do domicílio
CBrux / Cl.ug), são as seguintes: - em [matéria contratual, é competente o do réu, previsto na nova aI. a) do n° 1 do art" 65°. Assim, há que considerar
tribunal do lugar onde a obrigação que serve de fundamento ao pedido foi actualmente, como critérios, aferidores da competência internacional dos
ou devia ter sido cumprida (art" 5°, n° I, CBrux / Cl.ug); • quanto à obri- tribunais portugueses, os seguintes quatro: o critério do domicílio do réu
gação alimentar, tem competência o tribunal do domicílio ou da residência (art" 65°, n° I, al, a)), o critério da exclusividade (art° 65°, n° 1, al. b», o critério
habitual do credor (art? 5°, n° 2, CBrux. J Cl.ug); - em matéria extracon- da causalidade (art" 65, tio I, aI. c)) e o critério da necessidade (art" 65°, n° I,
tratual, é competente o tribunal do lugar onde ocorreu o facto danoso al. d)).
(art" 5°, n" 3, CBrux I CLug); - Q segurador domiciliado no território de um
Estado-membro pode ser demandado nos tribunais desse Estado ou no A reforma italiana sobre o direito internacional privndo reafirmou e ampliou, como factor
de atribuição UÜcompetência intcrnucional, o critério do. dornicflio do demandado; cfr. art" 3',
tribunal do lugar em que Q remador do seguro tiver o seu domicílio (art" 8",
n" I, da Lei n'' 2'18, de 31/511995; em comentário a este preceito, cír. Lllaarl()~ RDJPP 31 (1995),
§ l°, nOs I e 2; CBrux / CLug); - o consumidor pode instaurar uma acção 924 ss..
contra a outra parte no contrato quer nos tribunais do Estado do seu domi-
cílio, quer nos tribunais do Estado do domicílio da contraparte (art° 14°, to, * A supressão do critério da reciprocidade é salutar.jíado qu~ ele tinha por
CBrux / CLug) (6). base um princípio de retorsão e cnncedia um benefício injustifjcado aos
Na Convenção de Bruxelas e de Lugano estipula-se a competência nacionais portugueses m, mas a introdução do novo critério do domicílio do
exclusiva, qualquer que. seja o domicílio do réu (portanto, mesmo que o réu demandado e a construção doutrinária do critério da exclusividade justificam
tenha domicílio num Estado que nãoé membro dessas convenções), quanto a alguma atenção. Sobre eles recaem as reflexões seguintes.
acções referidas a direitos reais sobre imóveis ou a arrendamento de imóveis
(art" 16.°, n° l , aI. a), CBrux / Cl.ug), à validade, nulidade ou dissoluçãode
sociedades ou outras pessoas colecti vas ou às decisões dos seus órgãos 2. Concretização
(art" 16°, n° 2, CBrux f CLug), à validade de inscrições em registos públicos
(art° 16.°, n° 3, CBrux / CLug), à inscrição ou validade de patentes, marcas, a. Como já se referiu, o art" 2°, § 1°; CBrux I CLug estabelece ao regra de
desenhos e modelos (art? 16°, n" 4, CBrux / CLug) e, finalmente, para as que as pessoas dorniciliadas no território de um Estado contratante devem ser
acções declarativas instrumentais da execução de decisões (art° 16.°, n° S. demandadas, independentemente da sua nacionalidade, nos tribunais desse
CBrux / CLug). Estado, só podendo ser demandadas. nos tribunais de qualquer outro Estado se,

m Cfr. Ferra OIlTÚll / Ferreiro Pinto, Breve apreciação das disposições do anteprojecto de
.código de processo civil. que regulam a. competência internacional dos tribunais portuguesese
() reconhecimento de sentenças estrangeiras, RDE 13 (1987), 34 s..

(6) Cfr. M. Teixeira de Sousa / D. Motim vicente, Comentário, ~6 SSo, 102 e I 10.
Competência internacional legal 99
98 Competência internacional legal

ero que os tribenaispcrtugueses são internacionalmentecornpetentes quando


o forem igualmente segundo qualquer dos vários critérios de competência
como se estabelece no art" 30, § I", CBrux / CLug, relevar algum dos critérios
territorial (constantes dos artOs 7':3" a 89")(9). Assim, considerando as relações
especiais de competência previstos nesses mesmos instrumentos convencionais,
possíveis entre o critério do domicílio do demandado e o chamado critério da
Portanto, a Convenção de Bruxelas e li CoüvençãO de LlIgaIiü,<lo imp<Wl!11,
coincidência. podet-ge-ia ser levada a concIüir que entreesses critérios se
Como regra, a compejêucla do tribUllal do domicílio do réu, orienram-sepela
poderiam e.stábelêCêr relações dê co.n.çurso,istcí é, que os tdbunaisportugüeses
protecção dos interesses ó(j demandado e dão expressão ao princípio actor
pOder(arliser internacionulmente CQtTipetélitespelaaplicação dequalquer dde&.
sequitur.f(mt!i1 rei,
Assim, há qUe concluir que, por forçado disposto no art" 2° CBrux.1 CLug
c. Para verif'icar se esta relação de concurso é realmente possíve], importa
e dentro do âmbito de aplicação material dessas convenções (definido no seu
começar por delimitar o verdadeiro campo de aplicação do designado critério
ar tO 1°), o critério do domicílio do réu vigora na ordem jurídica portuguesa
dacoincidêncla. O ~itéd() agora estabelecido no.arr' 659,1)° 1,.al. b), não pode
desde o início da vigência dessas convenções em Portugal (isto é, desde 1 de
ter a amplitude que lhe é habitualmente reconhecida,pois que ele S2..pgg.evllh:ç
Julho de 1992 {SI),mesrno quando o demandado nãó seja nacional de nenhum
para Os casos de ceínpetênciaexclusivados tribunais p.nttugueses. Quer dizer:
Bsrado-membro; a lttêlevância da nacionalidade do réu eSJ<ibe!ccidanQart" 2",
a referidacnincidência sé s\í jUstifica qUandêl se verificar l!ma das sitUações
§ :20, CBrux /CLug Impõe tj};ta$0Iuç50. Suponha-se, por eXel11plO,queo réu
dec())nperênçi<t eXclüslva previstas no art" 65°-A. Jlarafundamefitar esta
é um c.idadãoaügolano residente em Portugal; o art" 2"CBrllX I CLug atribui
orientaçã() pode utílizar"~tj., Mtes do mais, o próprio texto dú preceítoto
qOtTipetência aos tribunais portugueses para apreciar uma acção em que esse
art" 65~, 11° I, l11. b)., estabelece que os. tríbunals pottugueses são inter-
sujeito seja demandado. Deste modo, a introdução do critério do domicflio do
nacionalmente tümpetentes quando a acção deva serpropcsta em Portugal
réu pelo .art" 6SO .• n° .I, al, a), apenas pode relevar nos casos em que, apesar de
segundo os critérios de competência territorial; ora, apenas .nas hipóteses de
o demandado ter domicílio em Portugal, a,;a,ç.çãoesuí excluída do fimbil~~de.
competência exclusiva referidas no art" 65°-A a acção deve ser proposta em
aRlica.ç.@material da Convenção de BruXelas ou de Lugano (f!éO$e-se, pür
exelnplo,nurna MÇão de div6.rclo Ou de iI1veStigação da paternidade, mnba:;
a
Portugal, ou seja, apsnas rtelas o autor não dispõe, face dâ ordem jurrdicíl
pQrtuglléSU.de qualquer outro tdbuli.al intetnaçionalmente cothpet\ínte.
exclllÍdu$ daquele â:mbitoex VI doart" 1o,§ 4.'>' .no L CBrux I Cl.ug). Importa,
A favqr de~ta ir\tei'prétaçaQ doart" 65°, n° 1, al. h), vale igülilmértte. um
assim, verificar quala relevância, cQnSiderando sempre o seu âmbito residual
argumento telêol6.gicp, As regra$ de competência intemaçÍoUáI só desem-
perante a Convenção de Bruxelas e de Lugano, da introdução do novo critério
penham uma função útil quando alargam ou restringem a competência rerritorial
dodornicflio do demandado.
dos tribunaísde uma ordem jurfdica, isto é, quando visam atribuir-aos tribunais
daquela ordem uma competência que eles não possuem pelas regras da sua
b. Segundo o disposto no art" 65".,n° I, al, a), os tribunais portugueses
competência interna ou quando se destinam a restringir, no âmbito da
são internacionalmente competentes quando o réu ou algum dos rêLls tiver o
competência intemaclnnal, a competência terrttorial dos tribunais daquele
seu dOlÍ1icílioem tettitórto põrtuguês, excepto· ttat;lI1do-;;edeacçõe:-; relativas
ordenarnento, As s.íl1) , é inútil li êótlsagraçãó dê Uma êoInêidência entre a
li direitü$ reais nu pessoais de gozo sobre imóv\'tis situscm país estrl1ngeir~).
competência tertiwrit!le a êómpetência irtternacipmtl, pois que, mtjSmOsemela,
Corno se referiu, este eriJéri() CoeXiSte com o critério referido no art" 65",
os tripllll1iÍ$compeleflle$ eíht1)Z~Odo [etdl6riQs~oti\tnbém intçtnaç]ónalmente
nOl. al, b), segundo o qual os tribunais portugueses são internacionalmente
competentes llUi.
competentesquando a acção deva ser proposta em Portugal segundo as regras
de competência territoriaI estabeleci das na lei portuguesa. A conjugação destes
dois.critérios levanta alguns problemas que importa analisar. Cfr .. !'; k.. Albetlil tios Reis. Código de ProcessoCivllunntado I o (Coimbra 1948= R Coimbra
.t'il

19~()). I <)H:AllIllIU's Varcl« / J. Mig/lel Bezerra. iSa.mpa;o e N')r(1, Manual de Processo Civil 2
O critério que agora seencorura previsto noart? 6$°, n° I., aI. b), é (CüitlllWH 19H5). 200: Cas/r(i Mendes .. Direito Processual Civii r (Lisboa 1.986), 351 s.;
habitüalrneüte designado por crítédü da cõincidênciac definido cornoaquele M. Teixeiradr SIH/Sil. Competência. 48,
IIO! crr. M. Teixeira de Sousa, Competêucia, 46,

\&1 Cfr. Avisos nOs 94/92 e 95/92. de 1.On

(
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Conipetência internacional lega! ]0]

100 COMpetência internaciunul legul

uma dessas competências exclusivas é através do âmbito de aplicação material


A chamada dupla funcionalidade da competência territorial (11) assegura da Convenção de. Bruxelas. ou de Lugano, ta] como ele está previsto noseu
que um tribunal territorialrnente competente também o seja para apreciar um urt" I". Quer isso dizer que as competências exclusivas previstas no art? 6~o-A
Iitígioplurilocalizado, Por exemplo: o tribunal. do domicílio do autor, que é.
só se aplicam qualldoo objecto da acção for algum daqueles que estão
excluídos do âmbito materialdessas convenções.
no ordenamento português, o tribunal territorialrnente competente pata a acção
de divórcio (art" 75 Q
), possui competência para conhecer dessa acção, mesmo Dado que, na nova redacção do art" 6SO-A, houve a preocupação de seguir
que as suas partes sejam estrangeiras ou o demandado tenha domicílio no as hipóteses previstas no art" 16° CBrux / CLug, não são grandes as diver-
estrangeiro. Quando o elemento de conexão indica um tribunal territorialmente gências entre esses preceitos. Todavia, importa elucidar que, dentro do âmbito
competente, é indiferente se a acção comporta elementos de estraneidade. Por de aplicação material da Convenção de Bruxelas ou çJe Lugarto, prevalece
isso, Q critério consagrado no art" 65", n" I,al. b), s6 pode ter o sentido útil Sempre, perante quaisquer diferenças entre o estabeleeido noart" 16° cBrux I
de assegurar a competência internacional dos tribunais portugueses para .a / CLug e no art° 65°-A, O que se encontra disposto naquelas convenções. Não
apreciação das situações de competêrtoia exclusivaque estão previstas no são muitas us matérias qLic, no âmbito do processo civil. não estejam abrangídas
are 65°-A. Em vez da equívoca designação critério da coincidência, deve pela Convenção de Bruxelas Ou de Lugano e que, por isso, possam cair nfi
urílizar-seantes a. mais adequada expressão critério da exclusividade. competência exclusiva prevista no art° 65°-A. Urna vez que. essas convenções
Além disso, há que concluirque entre este critério da exclusividade não abrangem as questões relatjvülj ao estadoe à capacidade das pessoas
singulares, aos regimes matrimoniais, aos testamerrtos e às sucessões (art" 1°,
(cfr, art"65"., n° I, al, b) e o do domicílio do réu (cfr, art" 65". n" l.aLa))
não pode. haver qualquer relação de concurso, pois que o regime sobre a * 2", n" I ,CB.rux / CLug), é sempre possível a utilização da compejência
competência exclusiva a que aquele se refere (que consta do art" 65°,A) exclusiva prevista no arr' 65°-A, al. d), para as acçQ~s relativas aos regíst(ls
prevalece, como lex:specialis, sobre a regulamentação geral dá competência públicos de quaisquer direitos respeitantes a essas questões, Como dessas
internacional coÓstante das demais alíneas do art" 65°, n° I. Isto é, os critérios convenções também estão excluídos os processos de falência ou análogas
da exclusividade e do domicfljç do demandado Dão se referem a regula- (art" I", ..~ 2°, n° 2, Cbrux / Cl.ug), será. igualmente aplicável a competência
mentações susceptíveis de concorrerem entre $.1, porque aquele se reporta il exclusiva referida, para eSSeS processos, no art" 65<>-A, al. b).
situação especial de competência exclusiva dos tribunais portugueses e este Ai nda que. se descubram outras matéria«, n.aoserão muitas aquelas às quais
último à atribuição de competência internacional a ess-es mesmos tribunais seja aplicável, na área do processo civil, a compet~ncía exclusiva prevista no
segundo um critério que, em relação àquele, pode ser considerado geral. art? 65°-A e, portanto, não serão frequentes 0$ casos de aplicação do critério
da exclusividade previsto no art" 65°, n" I, al. bl É claro que é sempre possível
aplicar, fora do âmbito material da Convenção de Bruxelas ou de Lugano, .a
3. Competência exclusiva competência excluslvü do .art" 65°-A a questões. fiscais, aduaneiras on
udministrunvas ali referidas à segurança social (cfr. art" I", § 1° 2'parte, CBrux
a. tal corno se coloca, quantoao critério do domicílio do réu previsto no / Cl.ug), mas issosucederri normalmente fora do campo do processo civil e,
art" 65°, n" I, al. a), o problema da sua delimitação perante o idêntico critério por isso. não será agora discutido.
enunciado no art" 2" CBtux I Cl.ug, também quanto à competência exclusiva
b.Regra que - segundo parece - jamais terá qualquer possibilidade de
regulada no art" 65°-A se põe a questão da SU~I demarcação perante a mesma
aplicação na aferição da competência internacional directarlos tribunais
competência prevista no ar tO 160 CBrux I CLug. Dado que esta última é
portugueses éa que consta do art" 65°'-A, al.·a), preceito que se refere .à
independente do domicílio do demandado e, por isso, é aplicável mesmo que
competência exclusiva dos tribunais portugueses para as acções .relativas a
esse réu não tenha domicílio em nenhum Estado-membro (cfr. artOs 4°, ~ 1°. e
direitos reais ou pessoais de gozo sobre bens imóveis slros em território
}6" proémio Clírux I CLug), a única forma de delimitar a aplicação de cada
português.' Cornoo art" 16°, 119 1., Cflrux. / CLug é aplicável mesmo que o
demandado não tenha dornicílio emnenhum Estado-membro (cfr, art°s 4°,
(l í) Cfr Scl7I1Ck, Int. ZiviIVR". 92 s...
Competência intcrnacionol legal 103
102 Competência internacional legal

relativas aos arrendamentos celebrados para uso pessoal temporário por um


§ I"; e 16" proérnio Clsrux / Cl.ug), a regulamentação convencional é sempre período máximo de seis meses consecutivos, para as quais são competentes,
aplicável quanto a bens imóveis sitos em Portugal. em certas condições. os tribunais do Estado do domicílio do requerido, Assim,
A principal relevância desta verificação reside em que, enquanto no direito se, por exemplo, um alemão arrenda a um turista lima moradia no Algarve, urna
interno português, todas as acções sobre direitos pessoais ele gozo relativas a acção relativa a esse arrendamento pode ser apreciada nos tribunai» alemães
bens imóveis sitos em Portugal suo da competência exclusiva dos tribunais (arr' 16°. li" I. al. b), CBrux / Cl.ug), não podendo ser invocada contra esta
portugueses (art" 65ó-A, al, ar), a Convenção de Bruxelas e a Convenção de solução a competência exclusiva prevista no art" 65", n° I, aI. a).
Lugano admitem, pelo contrário, que certas acções referidas a arrendamentos
possam não ser julgudas nas tribunais da situação dós imóveis (art" 16°, n° I,
al. b), CBrux / CLugJ, No âmbito de aplicação material daquelas convenções
(cfr. art" 1.0 Cêrux / Cl.ug), deve ser essa a regra aplicável pelos tribunais * 4".
portugueses, o que implica que estes tribunais só podem reclamar a sua Regimes instituídos:
competência exclusiva para as acções relativas a arrendamentos de imóveis siios domicílio e sede
em Portugal nos lermos admitidos naquelas convenções e que não possuem
qualquer competência exclusiva quanto a outros direitos pessoais de gozo sobre
imóveis IDealizados em Portugal, I. Enunciado do problema
Daí que a regra constante do art" 65"-A, al, a), quanto aos direitos pessoais
de gozo só possa relevar no âmbito da competência indirecta tomo causa de Como. dentro do respectivo âmbito de aplicação material, a Convenção
recusa de reconhecimento de uma sentença estrangeira proferida num Estado de Bruxelas e a Convenção de Lugano são aplicáveis sempre que o réu tenha
que não seja membro da Convençõesde Bruxelas ou da Convenção de Lugano domicílio num Estudo-membro (art" 2° CBrux./ CLug), importa verificar' em
(cfr. art" 1096°, al. C)), Suponha-se, por exemplo, que um tribunal angolano que condições li 111'<1 pessoa se considera, para efeitos de aplicação dessas
profere uma decisão sobre um arrendamento de um imóvel siro em Portugal; convenções, domiciliada (ou sediadiJ) nutri Estado-membro. Também aqui h(t
como essa decisão não respeita a competência exclusiva. dos tribunais que prevenir que, em caso de divergência entre a aferição desse domicílio
portugueses imposta pelo art? 65"-A, al. a), essa decisão mão pode ser (ou.sede) pelas regras da Convenção de Bruxelas ou de. Lugano e pelas regras
reconhecida em Portugal (art" 1096°. al. c)). definidas pêlo direito interno português, prevalece aquela regulamentação
convencionat. Assim. O regime interno português quanto à determinação do;
c, .A mesma, restrição há que fazer quanto à aplicação da competência
domicílio ou sede para efeitos de aferição do tribunalcompetenre ~Ó é aplicável
exclusiva que, o art" 65 n" I, al. a), estabelece como limite à determinação
Q
,
nas acções que não estiverem abrangidas pelo âmbito de aplicação material das
da competência segundo o oritério do domicílio do demandado; esse critério
convenções (como acontece, por exemplo, com as relativas. ao estado das
não funciona quando - dispõe 'aquele preceito - se tratar de uma acção relativa
pessoas ou com os processos de falência, art" 1°. ~ 2°, nOs I e 2, CBrux J Cl.ug).
a direitos reais ou pessoais de gozo sobre imóveis sitos em país estrangeiro,
Também a esta competência exclusiva se sobrepõe, dentro do âmbito de
aplicação material da Convenção de Bruxelas e de Lugano (cfr. an"l" CBrux /
11. Domicílio das pessoas singulares
/ Cl.ug), aquela que se encontra definida no seu art" 16°,
A principal diferença sobre o estipulado quanto a essas acções sobre bens
imóveis nos art'x 65". n° I, al. a), e 65°-1\, al. a), por um lado. e no art" 16°, I. Convenção de Bruxelas e de Lugano
n° I, CBrux I Cl.ug, por outro, reside no seguinte: para o direito interno
português todas as acções sobre arrendamento de imóveis cabem na Como a aplicação da Convenção de Bruxelas e de Lugano depende da
competência cxclusi va dos tribunais da situação do imóvel; o art" 16", n" I, circunstância de o réu (qualquerque seja a sua nacionalidade) possuir domicílio
al. b), CBrux / CLug cxcepciona dessa competência exclusiva as acções

\ I
I ,
f I' f r- f r ( r r
Competência internucional legal 105

104 Competência internucional lega!

segundo ti critério da causalrdade (cfr.vart" 65°, n" I. al. c»


ou da necessidade
(cfr.ert? 65.°, n° I, al. d). Sempre que seja aplicável um destes criterios, só sç
num dos Estados-membros. houve a preocupação de fixar o critério deter-
fica a saber que os tribunais portugueses são, no seu conjunto, competentes
rninativo do domicílio das pessoas ~ingulareli. A sol.uçao propost}l encontra-se
no attOS2° CJ3rux I Cl.ug c aS$ema nos seg!Jintes critérios: para determinar
,I
para apreciar acção, mas não se determina qual o tribunal competente, quanto
ao território, paraessa apreciação, Essa função incumbe ao art" 85°, n° 3 \ 14r.
se uma parte tem domicílio no. tprrit6rio do Estado a cujçs tribunais foi
Este preceito dererruina que, se o réu tiver o domicílio e a residência em
submetida a questão, () juiz aplica o seu direito interno; para averiguar se a parte
P4í~ estrangeiro, serádernandado no tribunal do lugar em que se encontrar
tem domicílio noutro Estado-membro (ou seja, num Estado diferente do Estado
em Portugal (art" 85°, n" 3 la PAne). Surge, assim. o problema de saber qual a
do foro), o juiz aplica a lei desse Estado. Só parcialmente se seguiu a orientação
habitual nesta matéria, que. é a de qualificar o domicílio segundo a lexfári(12), lei pela qual o tribunal português afere o domiCí)iodo demandado num Estado
estrangeiro. Parece deveraplicar-se a essa aferição ;\ let: f(iri<151, Pelo que é
e
pois qUe a determinação do domicílio numoutro Estado realizad~l segundo a
pela lei portuguesa que se determina se o réu tem domicílio no estrangeiro: iSS0
lei deste e não segundo a lei do foro.
acontecerã se o réu tivera sua residência habitual fora do território nacional.
No otdeMlmênto jurídico ponuguê.s; o juiz afere o domicílio da partê em
A mesma orieutação deve ser segulda quanto à determinação do domicílio do
Portugal US;lOQQ o critério ccnstante do art'' ~2",n'' I, CC: a parte tem domicílio
autor em Ponugal ou nuestrarrgelró pata efeito de aplicação das outras
em Portugal se aqui tivera sua residência habitual (1.11. Este critério assenta
alternati vastett'etida$ nO art" 85°, n" 3.
numa conexão suficientemente intensa da pessoa como território nacional. pelo
quea falta de uniformização de que padecem nesta matéria a Convenção de
Bruxelas e a Convenção de Lugano não se traduz, no caso português, numa
atribuíção arbitrária ou exorbitante de competência Intemacional. Hl, Sede das pessoascolectivas

I. Convenção de Bruxelas e de Lugano


2. Direito interno português
Quanto à determinação da sede das. peS$o<\$c.olectivas, a Convenção de
Não seênéOhtta" no dií"eim de c:onfl(tos português, nenhuma norma quanto Bruxelas e a Convenção de Lugano propõem uma solução distintn daquela que
ao domicílio das peSSO(lSS)Ilgujates, nem sequer para efeitos de aferição da estabelecem para a determinação do domicílio das pessoas singulares: em vez
competência internacional dos tribunais pMwgueses. A integração desta lacuna, ele aferir a sede das. pessoas. colectivas pejo direito interno do respectivo
para.a qual falta Uma norma analógica aplicãvel, deve Jazer-se através da norma Esrado"meIIlbl'() (como acontece quanto ao domicílio das pessoas singulares,
criada pelo intérprete dentro do espírito do sisterna (art" l(JP, n° 3. CC), Q que <in";52° CBrux / CLug). o ar!" 53", § 1°2a parté:' CSruJi.1 CLug estabelece. que,
se traduz na aplicação, ern sede de direito dos-conflitos, do crilédo. da residência para detterminaressa Sede, o tdbÚnálaque foisubmetlda a questão deve .aplicar
habitual enunciado no art" 82" CC. as regras do seudireitoínternacioualprivado.
A determinação deste domicílio é importante, desde ]()g(), para a <.l,ferição Portanto, quanto ao direito português, há ql.le aplicar, quanto tt$sociedl\dt;:s
da cümpetência segunclQ o crüérjo do domicílio do der:nüm!ad() Can" 65° ...na 1, comerciais, o disposto no art" 3°, n" 1, esc, do qual resulta. o segtÚnte regime:
al, 11), Cjva,ndo a acção não caibano âmbitü material da COnvenção de Brnxelas estas sociedades têm corno lei pessoal a lei do E~tado onde se encontre situada
!)u de Lugano. Mas wmbém é relevante. parn a determil)açi!o do tribunal a sede principal efectiva da sua admlnistração, pelo que se consideram sediadas
territorialmente conlpctente quando OS tribunais portugueses forem competentes no tribunal dess.a sede efectiva; mas eonshíeram-se Igualmente sediadas em
Portugal as sociedades ql.lepos.suem sedeestatutãria no território nacional.
112')Cfr. Schack, In!. ZivílVR 1. 96.
Curiosamente. a consugração explfcita da rcsidênciu habitual emsubstituição dq domicílio
I \.lI 11-1) Assim -.M,. Telxcira de SOUSII, Competêuc!a. 55 s..
foi expressamente rejeitada pelos redactores ti" verxão inicial da Convenção IJc Bruxelas: Ii~) Assim. S,.lIíIi'L Int. ZivilVR '.97.
cfr. Jenard, Relatório sobre li Convenção relativa i\ cornperõncía judiciúrin « li execução de
decisões em matéria civil e comercial, JOC C189. de 1H1711990. 136 (IV. A. 3 .. 2.).
A competênciae lIS partes 107

106 Competência internacional lego!

QlJ,1hIO às demais pessoas colectivas; rege 9 disposto no art" 33°, n" L, CC: essas
IV.
pessoas consideram-se sediadas no Estado onde se encontre a sua sede principal
e efectiva.
APONT AMENTOS
SOBRE A COMPETÊNCIA E AS PARTES
1..Direito interno. português PA ACÇÃO DECLARATIVA

o art" 65", n° 1, dispõe que, para efeitos de .aplicaçã~) do criterio do


domicíl.io.do. demandado, se cbnsidera dorniciliada em Portugal a pessoa
colectiva cuja ~eçjeestatutâtia ou efectIva se localizeem território pqrtugllês CAPÍTULO I
ouque aqui lenha sucursal, agência, filial ou delegação. Importa começar por
referir que, tal como sucede quanto ao critério do. domicílindo demandado QUES'tÕES RELATlVASÀ COMPETÊNCIA
previsto 110 art" 6Y, na I, al, a), também aquela. norma de conflitos sobre a
determinação da sede das pessoascolectivas só é aplicável quando a acção não
cair no âmbito de aplicação. material da Convenção deBruxela» e de Lugano.
§ 1",
Apesar de o art" 65", n° 2, só pretender definir a sede para efeitos. de aplicaç(\ü
do critério do domicílio do. demandado, será o caso, porexemplo, da deter-
minaçãodà sede dapeS$()áOolectiva 0\1 r-;oojyelad(:j de.slinadlJ à aferição da Competência internacional:
Mtnpetêncla exclúsiva definida noarr" 65°-A, al, b),para os processos de direito interno
reouperação daempresa e qe .falêrlcJa.
A principal diferença entre e'sse regime interno e aquelequc resulta
daquelas convenções refere-se à ficção da sede das pessoas colectivas que têm
I. Normas de recepção
sucursal, ou equivalente. em Portugal. Enquanto, segundo o direIto internq
português, a acção pode ser proposta, em certos casos, no tribunal do, lugar
dasucursal ainda que a acÇão sejaproposta eontrâ a aqministraçãn principal
L Cara<.:teriz,ação
(CfL artº86 nO12" parte), no regime ela Convenção de Bruxelas e de.L,).Ig,mo
Ó
,

a.üCçã()~Õ pode ser propost» nó Estadô dá sede da sucursal quando ela respeitar a. As normas de competência internacionalservem-se de alguns elelhenl<)~
a um litígio relativo ü e.xpltJraçQudessa sucursal (art" 5°, n" 5, CBrux I CLug).. de conexão <;0111 aerdem jurídlca naátMal paraatríbuir competência (\0$
Esta exigênçia de quep. litígio respeite à exploração da sucursal mantém-se tribunaisd« foro para ocenhecimenro de urna cena questão, As normas de
mesmo nas acções relativas à matéria de seguros e de contratos celebrados pelos c()!lt1irosque defiMm as condiçõesemque os tribunais do fMO SUíJ competentes
consumidores, hipóteses em que. o benefício atribuído ao segurado, aotornador paran apreciaçãO dI':um obJecroque apresenta uma conexão com várias ordens
de seguro ou ao consumidor consiste em se considerar sediada num EstadQ- Jurídicas podem designar-se por normas de recepção. É essa a função dos vários
-memhro uma sucursal de uma sociedade que não tem sede ern nenhum, desses critérios enunciados no art" 65°, nOI.
Estados (artOs 8ó, § 2'" e 130, .~ 2°, CBt.ux I CLug). Estas normas de recepção definem a competência internacional dos
tribunais de uma certa ordem jurídica, Elas decol'refJi tanto da re.gra segundo
a qual, quando (J caso .etu apredu<,)iüiapreãentâ uma conexão re1t;vante corn Ull1l(
ordem jurídica, ()S seus tribunais devem ser competentes para a acção. como
f f

A competência e as partes 109

108 A competência li as portes

2. Função

do princípio de que, perante a existência de urna tal conexão, os tribunais As normas de recepçãQ..só determinam, através ela referida conexão, que,
daquela ordem não devem recusar à competência internacional, pois que isso os triburÍal7:de uma jurisdição nacional são competentes para apreciar uma.
pode equivaler a uma denegaçãode justiça, Note-se que a conexão com urna relação jurídica plurilocalizada ..Essas normas não são normas de competência,
certa ordem jurídica pode ser mais fraca do que aquela que determina a porque 'não a atribuem a um tribunal, antes se limitam a determinar as condições
aplicação do direito nacional ao caso sub iudice, porque não há qualquer em que unia jurisdição nacional faculta os seus tribunais para a resolução de
paralelismo necessário entre a atribuição da competência internacional e a um certo IitlgiQ com elementos internacionais, As normas de recepção preen-
aplicação da lei material do foro. chern, no âmbito processual, uma função paralela àquela que as. normas de
conflitos realizam no âmbito s.ubstaJ)tivo; estas determinam qual a lei aplicável
Isto não significa que esse paralelismo não possa existir ou não ~t.i'taté dcscjrivc! num
à. uma relação jurídica plurilocalizada (se a lei do foro eu urna lei estrangeira);
plano de iur« constiiuendo, Urna coincidência entrea competência internacional dos tribunais
portuguese; e a aplicação-por estes dá lei nacional ao julgamentoda -acção veriticu-sc, por aquelas. aferem se essa mesma 'relação pode ser apreciada pelos tribunais de
CXCl11pl<), naxacções relativas adireitos reais sobre imóveis sjros em território português uma certa ordem jurídica.
(cfr. art" 65"-A, al. a), em conjugação com o art" 46", n° J. CCi. bem corno sempre que, numa Por isso, depois de' a relação plurilocalízada ser recebida por uma
acção instaurada num tribunal português, seja irnposs ível determinar o conteúdo do direito
jurisdição nacional, tudo Q mais se passa nointerior dessa jurisdição e, portanto,
estrangeiro aplicável; pois qUI!, nesse C;IS\), U tribunal recorrerá :às regras do direito comum
português (art" 348", n° 3. CC),
no âmbito das regras da competência interna, O tribunal competente para
apreciar essa .retaçãopJ\JI'llocalíza.da;lfeté-se pelos critérios determinativos da
b . .A diferençâentre a çOlnpetêncit\ interna e à irtternncioríalconsistc no competência interna, em ra~da, da ~ia, do valQre do t~Eritódo
seguinte;~:lcol11petênçia, interna respeita às situações que,. na perspectiva da vigentes nessa ordem nacional. A designada competência iJ;nernaciQi.1al é, pois,
ordem jurídica portuguesa, não possuem qualquer conexão relevante tom outras a competência de um tribunal para apreciar uma relaçãojurídica com conexão
ordens jurídicas; a competência internacional refere-se aos casos queapre- com ordens jurídicas estrangeiras.
sentam uma conexão com outras ordens jurídicas, A\competência internacional
'A diferença entre o plano das normas .de recepção e O das normas de competência
dos tribunais portugueses. é, ,assim, a competência dos tribunais da ordem
interna dernonstru-secdesde logo, na .autoncm.ia entre a incompetênciarabsoluta) resultante
jurídica portuguesa para conhecer de situações. que, apesar de possuírem, na do hão precnchimentn da previsão de urna das normas de recep~ão pela situaçãosup iudice
perspectiva do õrdenarnento português, uma relação com ordens jurídicas (cftan° 10 IO)e uincompetênciu (relativa) proveniente da violação das regras aferidoras dó
estrungeirasv.apresentam igualmente uma conexão relevante coma ordem tribunal competente-em razão do valor da causa.rda forma <;19processo aplicável e da divisão
judicial do te'rti tério (cfr. «rt" I08°), Além disso, esse distinguo também se reflecte na adrnis-
jurídica portuguesa,
sibilidade de convcnçõexuue constituem unia norma de recepção (os designados pactos
Note-se que um caso concreto podeimplicar somente () funcionamento das
atributi vos de jurisdição (art" 99°) sem necessidade de definirem o tribunalinternamente
regras da competência interna, mas a aplicação das regras da competência competente (ou, caso tenha sido designado um tribunal competente - o de Lisboa, porexemplo
internacional nunca dispensa a aferição do tribunal internamente competente. -. sem que.<! proposituru da acção num outro tribunal português implique uma violação daquela
Suponha-se, por exemplo, que dois portul;lIt:ses dorniciliados .ern território convenção).

português se pretendem divorciar em Pcrtugal;.a situação conrerrde apenas com


a competência interna dos tribunais. portugueses, 'pelo que só têm de. ser
aplicadas as correspondentes regras de. competência relativas à acção de 3. Necessidade
divórcio. Em contrapartida.jse forem dois esparthóis, domiciliados em Espanha,
As normas de recepção SÓ são necesaãrlas quando as regras de
que se desejam divorciar em Portugal, i5.50 exige, primeiramente, a verificação
competência terrirorial não forem suficientes para atribuir competência a um
da competência internacional dos tribunais portugueses para a acção de divórcio
tribunal da ordem jurídica nacional OU quando elas se destinam à afastar a
e, depois, a análise do tribunal competente na ordem interna para essa mesma
competência decorrente dessas mesmas normas de competência territorial,
acção, ou seja, requer a conjugação da aferição da competência internacional
com a aplicação das regras sobre a competência interna,
A competência e as partes III

110 A competência e 1I,\ partes

a previsã« de urna das normas de recepção vigentes nessa ordem jurídica, mas
essa jurisdição não se considera a si própria. 'como a única competente para
Sempre que os tribunais de uma certa ordem sejam competentes, segundo as
julgar aquela questão.
regras da sua competência territorial, para apreciar uma certa acção, é, em
As normas de recepção têmpor função facultar a apreciação de uma
princípio.virrelevante que ela apresente qualquer conexão com uma ordem
situação plurilocalizada pelos tribunais de uma ordem jürídicapelo que nãoé
jurídica estrangeira: esta inferência da competência iuternaclonal das regras da
compatível com essa ratio legisque, conjuntamente com essa recepção, essa
competência territorial é consequência da chamada dupla funcionalidade da
ordem deixe de reconhecer competência aos tribunais das jurisdições estran-
competência territorial (11.
geirl\s com as quais aquela relação apresenta elementos de conexão, Seria pouco
Assim, nem sempre a circunstância de a-questão em apreciação se situar
razoável que essa ordem jurídica fizesse depender a concessão de competência
no âmbito da competência internacional (porqueo objecto em apreciação é uma
ál)~ seus tribunais da exigência de que, perante ela, nenhum outro tribunal
relação jurídica plurilocalizada) implica a utilização dos critérios expecfficos
estrangeiro permanecessecorno competente, E também seria estranho que a
da competência Internacional para a..atribuição de competência aos tribunais
atribuição de competência aos tribunais de uma certa ordem jurídica através
de uma certa. ordem jurídica. Para que haja necessidade de aferir a competência
de urnanorma de recepção impl icasse a negação de idêntica competência ti
internacional dos tribunais de um certo Estado, (é indispensável que se, verifique.
tribunais de outras jurisdições (para as quais, eventualmente, essa questão nem
um, de dois factotes:- que a conexão com a ordem jurídicanacional seja
sequer é considerada internacional, mas antes puramente nacional). Tudo isto
estabelecida através de um elemento que não é considerado relevante põr
justifica o sentido unilateral da aplicação das normas de recepção.
nenhuma das normas da competência territorial e que, portanto; não possa ser
atribuída competência aOS tribunais de um, certo Estado utilizando exclusi-
vamente as regras de competência territorial dos seus tribunais; - ou que o
5, Previsão
Estado -do foro esteja vinculado, por convenção internacional, a certas regras
de competência internacional. Ü, Quando a acção apresenta urna conexão objectiva, relativa ao objecto
Um problema delicado surge então: à de determinar a, medida da com- do processrr, ou $üpjectiY:J. referida às partes da causã, com uma ou várias
petência internacional que deve ser definidapelas normas de recepção. Num ordens jurídicas estrangeiras, pode ser necessário determinar a competência
plano abstracto, pode dizer-se que, nesta matéria, ideal é que exista uma
ó
internacional dos tribunais portugueses, ESsa aferição deve restringir-seãs
corrgruência entre a competêncta internacional directa e indirecta. MaS' convém situaçõesem que os tribunais portugueses não são competentes segundo as
dizer que, no planc Iegislativo, este equilíbrio entre ,a deftniçãcpor um Est4d() regras da. competência interna, pois que, como se verificou, só importa
da competência Internacionalprópria e o âmbito da competência, reconhecida averiguar a competência internacional quando os tribunais de uma certa ordem
por esse Estado aos tribunais de outro Estado está ainda longe dc ser obtido. jurídica não sejam competentes para apreciar uma relação jurfdica plurilo-
c#lizac!à seg\lridt'Hís<sUas rêgras de competência territorial. Essa éa função dos
critérios constantes do nrt? 65°, n° 1 (2),
4. Unilateralidade

As normas de recepção funcionam unilateralmente. Isto signlfica que essas


(21Sobre a. compelênoiaInlemacionat dos tribunais portugueses, cfr, Machaq,o Vil/e/a, 'Notas
normas Se limitam a facultar os tribunais de umajurisdição para â resolução sobre a competência inremacionalno novo :Código de Processo Civil. BFDUC t7 (194011941),
de Uma certa questão, mas hão definem que, pata essa. ordem jurídica, os. seus ;274 ss. e, IH (1942). 1 SS,; Barbos« de Maga/hUes, Estudos. sôbre (J novo Código de Processo
tribunais sãoos únicos competentes para julgar essa questão. Ou seja, essas Civil 11 (Coimbru 1'941): Buptistu Machado, La compétcnce internationale en droit portugais,
normas atribuem competência aos tribunais de urna ordem jurídica pam a BFDUC 41 (19.6.5),97 ss.: Ferrer Correia I Ferreira Pinto, Breve. apreciação das dlsposi-
ções do anteprojecto do Código de Processo Civil que regulam a competência imernucional
resolução de um certo litígio; mas não excluem a apreciação dessa mesma
dos tribunais portugueses e o reconhecimento de sentenças estrangeiras, RDE 13 (1987),
questão por um tribunal estrangeiro. A relação jurídica plurilocalizada preenche 25,s"

i I) CrI'., v, g" Schack, Internarionales Zivilvertahrensrecht i (München 1996), l)2 s ... /<::~:,::::T·t;;::>:\
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A competência e as partes 113

112 A competência e as partes

u. Critério da exclusividade
b. A competência legal internacional dos tribunais portugueses é detere
minada, segundo uma ordem decrescente de aplicação prática, pelos crité- I. Enunciado
rios da exclusividade (art" 65'" n° I, al. bj), do domicílio do réu (art" 65",
n" 1, al. aj), dacausalidade (art? 65", n° 1, aI. c») e da necessidade (art" 65", a. Segundo o critério da exclusividade.vaacção deve ser proposta em
n" I, aI. d», Portugal quando os tribunais portugueses sejam exclusivamente competentes
Estes critérios conjugam, em medida variável, diversos interesses, As patá a apreciação da causa CartOs 65°, n° L, al. b), e 65°· A)}, A competência
regras sobre a competência internacional directa devem darexpressãoaos Internacional resulta, assim, da coincidência com as regras de competência
interesses do Estado no julgamento, pelos seus tribunais, das questões que exclusiva constantes do art" 65"·A.
apresentam uma conexão relevante .corn a sua ordem jurídica, mas também Esta competência exclusiva é manifestação da protecção de determinados
devem respeitar os interesses dos indivíduos na proximidade. da justiça e ainda interesses através de uma reservade jurisdição e, portanto, de soberania. Nesse
os interesses da comunidadeinternacional numa distribuição .harmoniosa da sentido, ela é semelhante à reserva de ordem pública do Estado do
cornpetêncla dos tribunais estaduais. reconheci mente no processo de revisão dé sentenças estrangeiras (art" 1096°,
al. f).

6. Forum shopping b. Como a competência territorial é suficiente para atribuir aos tribunais
portugueses competência para o julgamento de acções que apresentam uma
A pluralidade de ordenarnentos jurídicos e de instrumentos de regula- conexão Com outras ordens jurídicas, o sentido do critérioconstante do art" 65°,
mentação da competência internacional favorece a existência de Vários tribunais n" 1,aI. b), não pode ser o de lhes conceder competência internacional erncasos
competentes para a apreciação de uma mesma causa: nas diferentes ordens em que eles já a possuíam por força das regras da competência territorial:
jurídicas funcionam outras tantas normas de recepção que atribuem competência se assim fosse, o referido critério seria totalmente inútil, O sentido prático do
internacional aos seus tribunais. Quando se verifico uma situação de COI1- critério constante do art" 65°, n" I,aI. b), é realmente o de definir, em con-
corrência de vários tribunais competentes, o autor procura instaurar a acção no jugaçao com as previsões do art" 65°·A, os casos de competência exclusiva dos
tribunalque se lhe apresente como o mais vantajoso ou. favorável: a essa tribuilai$ portugueses, isto .é, determinar assituações em que os tribunals
escolha do tribunal mais favorável costumá charrtar-se.wlg» depreeiativamente, portugueseS possuem uma competência exclusiva.
10ru·1/1. shopping,
São muitos os motivosque podem levar II parte a optar por um dos vários
2. Âmbito
tribunais competentes, em detrimento dos demais. Eles podem relacionar-se,
por exemplo, com o direito material aplicável (que pode variar consoante-as O art? 65°·A estabelece a competência exclusiva dos tribunais portugueses
regras de conflitos do foro), com a facilidade de reconhecimento da decisão para as seguintes situações: . acções relativas a direitos reais ou pessoais de
proferida na acção e ainda com os custos do processo. gozo sobre bens imóveis Silos em território português (art" 65°·A, al. a»; .
O forurn shopping é uma inevitabifidade decorrente da existência de vários processos especiais de recuperação da empresa e de falência, relativamente li
rribunaísinterríacionalmente competentes para a apreciação de uma mesma pessoas dorniciliadas em Portugal ou a pessoas colectivas ou sociedades cuja
questão. Por isso" o fenômeno só pode seratenuado " na medida em que tal sede esteja situada em território português (art° 65°·A, al. b»;· acções
parecer conveniente 'Ou desejável .~ através dos esforços de harrnonização referentes à apreciação da validade do acto constitutivo ou ao decretarnento da
Iegislati va. dissolução de pessoas colectivas ou sociedades que tenham a sua sede em
território português, bem como as destinadas a apreciar à validade das deli-
berações dos respectivos órgãos (art" 65°·A, aI. c)); . acções que tenham por
A competência e as partes Jl5

114 A competência e as partes

Para o direito internopçrnrguês - isto é, pata o aft" 6so-A, aI. a) - não resta,
por isso. qualquer campo de aplicação na detêrmina~aó do tribunal competente.
objecto principal a apreciação da validade da Inscriçã« em registos públicos
de quaisquer direitos sujeitos a regist() em Portugal (art" 65°·A, ul. dt).

Quanto a competênciaexclusiva para a declaração de falência ouinsolvência de pessoas


3. lnlpnrtânci a prática
colectivas cuja sede seencontre em .tcrritúrio português (art" 65",A.al. bj) .. impnrur observar
queda só se refere às pessoas colectivas ou sociedades .C()l11 sede em Portugal. pelo que o A relevância prática da competênciaexclusiva dos tribunais pt)ttugueses
preceito nãoabrangea situução prevista noart" 82". n".2: declaração-de falência de sucursal, residé no seguinte: como, nessa hipótese, ajurisdição portuguesa n~oacei.ta a
agência, filial, delegeção ou representação de pessoá colectiva estrangcirn.
cornpetên<;iü de nenhuma. outra jurisdição para apreciar a acçãocnenhutna
deci~ão profetidanumfl .l1l6sdi.~ãoestrangeira pode preencher as condições para
São vários os interesses que podem ser ponderadosnaéonsagraçlío ser ouse tomar eficaz na ordem jurídica portuguesa,
legislativa da competência exclusiva. A análise do art" 65"-A mostra. que, para Uma sentença proferida por um tribunalestrangeiro hão é,em princípio,
o legislador português, relevou fortemente a protécçao dos inlérésseK econó- imediatamente eficaz na ordem jurfdiça pormguesa, para que se lhe conceda
micas nacionais. São estes que justificam a competência exclusiva dos tribunais essa eficécia (como título executivo, por exemplo) é necessária a sua revisão
portugueses para as acções. relaÜvfI.sadireitos reais sobre Ín1Qveís(propriedade e confirmação, nos termos e nas condições dO correspondente ptocess.ode
fundiáriae bén'i dê ptódução, n()meadan1ente)~itosem temtório português revisão de sentençasestrangeiras (cfr.arf's I 094° a 1102°). Ora, do elenco dos
(art° 6.5"-A,aLa)) e para ÜS processos de recuperação da empresa c de falêncIa l'équi~itos ellHnc1adospelo art" I 096° para a concessão do eXéqu(.UI1Y à sentença
relativamente a pe$soa~ dorniciliadas em Portugal ou a pessoas colectivas ou e~trarl,geita corlstágúe essa decisão só pode ser confirmada pelo tribunal
sociedades cuja sede esteja situada em território português (art" 65°·A, al. b). português (que ê UQlâdasRelaç.õê~, art" 1095°) se provier de tribunal cuja
Refira-se ainda que, nesses casos, a lexcausaeéa lei portuguesa (cfr.,qQ;,tnto competência não ofenda a competência exclusiva dós tribunais portugueses
às acções sobre direitos. reais, art" 46'\ n" 1, CC),peh)qllesc pretendeu (art" 1096 aJ. c) ItI fine). Oeféito <lacompetência: e:xclusi.va ê, portant», o de
0
,

salvaguardar a aplicaçãodo direito portuguêspor tribunais nacionais. hnprrssihilirar a revisão e confirmação de uma Séríteüçaesttangeira proferida
numa acção para a qual a jurisdição portuguesa se consideta:e:xclusjyam~lJte
b, Importa observar, no entanto, que acompetência éxclusiva regühld,t no competente, O que é dito também vale para a hipótese c:iea competência
art" 65"-A só é aplicável nos casos que não forem oU não puderem ser excJu$jvâ do tribunal português ser concedida por um pacto de jurisdição
abrangidos pela idêntica competência prevista noart" J6" CB1'U)(I Cí.ug, Dado (df.· ate' 99"). .
que esta última competência. é hídêpendenté do dOÍÍliéfliododemandadoe, por S6 quando.a comperênc.ia dos tribunais portugueses for exclusiva para a
i!-;SQ, se verifica 1)1eSmO que esse réu não tenha domicílio em nenhum Estado- apreciação de. um deletmlnado ()bjecto Se:Jústifica à' recusa de. reconhecimento
-rnembro (cfr.ares 4", § 1°.,e 16" prcémio CBrux I Cl.ug), daí resulta que as da sentença estrangeira pfofetida sobreesse ohJectQ por um. tribunal que,
eompetências exclusivas previstas no ar!" 65°-A só são susceptíveis de. ser .segundo a jurisdição portuguesa, não é competente, Se:assjQl não suceder, a
aplicadas quando o objecto da acção for algum daqueles que estão exclu(d~1s jurisdição portuguesa, não podendo Jgnorar que a regr;1 ~ a existência de
do âmbito material dessas Convenções (cfr. artO I", § 2", CBru)(./ CLug). competências concorrentes, aceita a competência do tribunal esttangeito.peIQ
Por essa mesma razão, a regra que.consta do art" 65"·A;üL a}, quat1.tüà qüe qualquer decisão proferida nessas condições por esse órgão provém de
competência exclusiva dos tribunais portuglles.es para àS acções relativasa tdbumt1 cornpetênte segundo a. norma deconflitosda jurisdição portuguesa.
direitos reais ou pessoais de gozo sobre bens im6veis silOS em têrritórío
português não tem realmente gJJalquetPos~ível âmbito de aplicação. Dado que () prohlema era discutido, ria anterior redacção do art" l09()",al, c), CPC/61; no sentido
a competência eXclusiva prevista fiO art" 16°, n° I, CBrux I CLug é aplicável correspondente à actual yÇ(sUO do ltrl°I096°,al. cj.ictr. Castro Mendes, Alguns problemas sobre
mesmoque o demandado não tenha domicílio em nenhum Estado-membro revisãode sentença estrangeira, RFDW (J 965), J ()3 S5.; Ferrer Correia, O reconhecimento das
sentenças estrangeiras no direito brustleiroc no direito português, RU J 16 (.1983/1984)., Hí5 s,
(cfr. art''s 4", § 1°,.e 16° proérnio CBrux I CLug), é sempre a regulamentação
convencional aquela quc se aplica quanto a bens Imóveis ~itQs em Portugal,
r
- A competência e as partes 117

116 J\ competência e as partes

perante as regràs de: competência internacional çI;\5 Convenções ele Bruxelas e


= Ferrer Correia, Ternas de Direito Comercial e Direito Intemucional Privado (Cnimbra 19&9), de Lugano.É o que se vai procurar elucidar de seguida.
293 SS.; na jurisprudênciu, efr. S1'.1 - 1.6/5/1995, CJ/S, 95/2. 1\9; contra, propugnando a
bilateralização das normas de recepção. cfr., por último, Ana Maria Peralta. A Competência
Internacional Indirecta no Direito Português, in Ana Maria Peralta I Joã« Curad» Neve». 2_2. Competência territoriul
A Competência Intcrnacional lndirccta em Direito Processual Civil (Lisboa IYSgl. 60 S';.: Joã»
Curado Neves, Sobre li Competência Internacional Indirecta, in Alia Maria Prrulta !./'''1<.1 Curado a. Como a CÇ2rllp(:,têrlcia iQ~çt~nàsIonal s~) deve ser apreciad~,~,e) da
Neves, Competência Internacional, 125 ss .. apficação \1<\sregras dá competência territorial hão resultar 4. atribuição de
competência a um tribunal português (cfr. supra, 1.3.), () ctítério do domicílio)
lrrelevanteé também que a sentença estrangeira não provenha do. tribunal elo demandado (art" 65°, n° I, aLa)} só pode ser aplicado quando os tribunais.
estrangeiro rque ise considera, segundo as normas vigentes na respectiva portugueses não forem competentes segundo aquelas regras. Interessa verificar
jurisdição ou constituídas ex voluntate, exclusivamente competente para em que condições isso pode suceder.
apreciar a questão sobre a qual recaiu a decisão cuja revisão e confirmação é Os critérios territoriais podem ser especiais (cfr, arr's 73° a 84° e 89°)
requerida em Portugal. Desde que não haja violação da competência exclusiva ou gerais (artOs 85° a 87°): o 'Critério geral é o do domicílio do demandado
dos tribunais portugueses, é indiferente para a jurisdição portuguesa qual o (arrOs 85", n° I. e 86°, n" 2) ou dos demandados (art" 87", n° I). Àsslm,sç à
factor (legal ou convencional) de atribuição de competência ao tribunal que acção for aplicãve] o critério territorial geral C seda sua aplicação resultar a
proferiu .3 decisão revidenda (e que não é aquele outro que se tem P(Jf atribuição de competência à um tribunal poJ'tuguês,~stá de(erminadô.se01
exclusivamente competente) .. A proveniência da decisão revidenda de outro necessidade de aplicação do critériodo domicílio do réu, o tribunal que é
tribunal, que não aquele que possui uma competência exclusiva, não impede a. territoriul e internacionalmente competente . .Pot exemplo: .se o réu de uma acção
revisão e confirmação da sentença pelos tribunais portugueses. pois que, perante de declaração de nulidade de um contrate tiver domicílio em Portugal, é
a jurisdição portuguesa, deveter-se por precludida a invocação da eventual competente - tanto territorial, como internacionalmente - o tribunal do seu
incompetência do tribunal que proferiu aquela decisão, domicílio. (art" 85°, nÓ I). -Se, pelo contrário, a aplicação desse critério de
competência interna não a concedera um tribunal português (porque o réu. não
tem. domicílio em Portugal), essa competência também nunca poderá resultar
III. Critério do domicílio do réu do critério de competência imerfliIcionaId.Qdo.micíliô do demandado (art" 65".
n" I, a.L a)). Por exemplo: se O réu de utr1áàCçãO de anulação de Um contrato
nUa tem domicílio em territórioportuguês, a acção não pode ser proposta em
J. Enunciado
Portugal segundo o critério terri to ri aI .geral (art? 85°, n° I), mas tambémnão o
Segundo o critério do domicílio do réu, a acção pode ser proposta nOS pode ser de acordo com o critério do domicílio do demandado.
tribunais portugueses quando o réu ou algum dos réus tenha dornicüio em Portamo. quando a causa se inclui no âmbito do critério territorial geral.
território português,~alvo tratando-se de acções relativas a direitos reais a competência internacional nunca pode ser determinada pelo.crilério do
ou pessoais de gozo sobre imóveissltos em país estrangeiro (arr" 6S". n° I, domicílio do demandado, seja porque a. aplicação daquelecritérlo territorial
aI. a». rorna dispensável a aferição da competência internacional. seja porque,quarldo
é impoxsívelemprcgar o critério territorial, também é Irnpossfvelaplicar aquele
critério ele competência internacional.
2. Âmbito material
b. Se. () objecto da acção fizer funcionar um dos critérios territoriais
2.1. Generalidades especiais, também aqui são viáveis duas situações. Se da aplicação de um
desses critérios resu Ita a atribuição de competência a um tribunal português,
Importa delimitar o âmbito material do critério do domicílio do réu
(art" 65°, n° I, al. a» quer perante as normas de competência territorial, quer
A competência e as partes J 19
118 A competência e aspartes

pessoal temporário por um período máximo de seis meses consecutivos,


não importa averiguar a competência internacional deste tribunal segundo somente estas acções podem constituir um Iirnite à aplicação do critério do
nenhum dos critérios enunciados. no art" 65", n"LJ>or exemplo: S(\ a obrigação domicílio do réu previsto no arr' 65",n" I, ai. a).
que o autõr invoca como fundamento do Pedido de condenação do réu deve
ser cumprida em Portugal, é competente - tanto interna, como interna-
cionalmente - D tribunal português do lugar desse cumprimento (art" 74", n° I). 3. Âmbito pessoal
Se, pelo contrário, à situação concreta for aplicável um critério especial, mas
da sua aplicação não resultar a atribuição de competência a um tribunal
o art" 65°, n° 2, estabelece que.tpara efeitos da aplicação do critério do

português, justifica-se aferir a. competência internacional dos tribunais por-


domicílio do demandado, considera-se domicihada em Portugal a pessoa
colectiva cuja sedeestatutária ouefectiva se localize em lerrifóri9 português
tugueses pelo critério do domicílio do demandado (art? 65°, n" L ai. u»).
ou que aqui lenha sucursal, agência, filial ou delegação. Umaconeretização
Suponha-se, por exemplo, que o dano ocorreu noestrangeiro: nesta~ con-
desta últl'lm\ regra encontra-se no art" 86°, n" 2 2"' parte, no qual se admite a
dições, os tribunais portugueses não são competentes para apreciar a CO(-
propositura de umaacção contra a administração principal no tribunal da sede
respondenteacção deíndernnízação segundo o respectivo critério territorial
da .sucirrsal.
especial (cfr. art" 74°, n" 2), mas podem-no ser segundo o critério de com-
A determinaçâo dedornicílio em Portugal de Uma pessoa singular deve
petência internacional do domicílio do réu.
ser realizada através do critério estabelecido no art" 82°, n" I, CC:a pessoa
c. Assim, O critério de competência internacional do domicílio do considera-se domicrliadaernPortuga] se tiver a sua residência habitual em
demandado (art° 95°, n" 1., aI. a» nunca é aplicável quandoo seja o critério territririo português. Deste critério resulta que acorí)petência inti')rnncionillllão
territorial. de domicilio do. réu e também não pode ser aplicado quando Um pode ser aferida pelo critério do domicílio do réu (are 65~o,na I, al. a» se esta
critério territorial especial atribua competência a um. tribunal português. Em parte apenas se encontrar ocasionalmente em Portugal,
conclusão: o critério de domicílio do demandado (art" 65°, n° I,,al. a) só pó de
ser usado quando ao caso concreto for aplicável Um critério territorial especial
e da aplicação deste não resultar a atribuição de COmpetência a um tribunal IV. Critério da causalidade
português,
Segundo o critério da eausulidade, a acção pode ser instau.tManos
2.3 .. Regimes convencionais tribunais portugueses quando o facto que integra a causa de pedir, oualgum
dos factos que a constituem, tiver sido praticado em território português'
o critério do dornlcflio do réu estabelecido no art" 65", nÓ I, al, a), só pode (art" 65°, n" r. aLe)). Assim, por exemplo, os, tribunais portugueses são
relevar nos casos em que a acção está excluída do âmbito de aplicação material internacionalmeruecornperenres quando, apesar de o facto ilícito ter ocorrido
das Convenções de Bruxelas e de Lugano (pense-se) porexemplo, numa acção no estrangeiro .. parte dos danos se produziram em Portugal (RC - 23/1 0/ 1990,
de divórcio oudeinvestigação da paternidade.umbas excluídas daquele âmbito CJ 90/4.gJ) ou ocontratode seguro foicelebrado em território português
ex Vi do art" 1°, § 2°, .no I, CBrux) Cí.ug). (Assento/STJ 6/94, de 30/3 ;=;BMJ434; (1).
Alémdisso, a comperêncinexclusiva que o arte 65°, n" I, al. a). estabelece
como limite àdeterminaçãoda competência segundo o critério do domicílio Sobre o critério <la causalidade, ctr. STJ - 10/l2/1983, BMJ .324. 517: RL - 17/12/1\)85,
do demandado (acções relativas a direitos reais ou pessoais de gozo sobre IJI'yIJ359. 764: RL - 9/1/1990. CJ 90/1. 133; os tribunais portugueses são internacionalmente
competentes pelo critério da causulidadc para a acção deindemnização fundada em acidente de
imóveis sitos em país estrangeiro) não pode. operar no âmbito de aplicação
viação ocorrido <:111 Angolu no tempo da soberania portuguesa. dado que os factos que integram
material das Convenções de Bruxelas e de Lugano: nesta situação, a única a cauxa de pedir ocorreram em território nacional (SIJ· 30/6/l981. BMJ 308,203; 'cfr, também
competênciaexclusiva relevante éaquela que: se encontra definida no art" Hí" $TJ. L1/IIIl\lH6, BM] 361, 471); defendendo a não .aplicação do critérioquando o contrato
CBtuX ICLúg, Nomeadamente, como o art" 16°, n° I, ai. b l, CBrux I CLug túi celehrudo n\; estrartgciroêntre ausentes .•cfr. 511 c 24/1l/1 98\ BMJ 33 l , 46 L
apenas excepciona as acções relativasuosarrendnmenros celebrados para uso

r I
r 1 I r ,- 1- r, r' r r r í

A competência e as partes 121


120 A competênciae as partes

necessidade para o julgamento de uma acção de restituição de um mútuo


celebrado entre um português e um estrangeiro (ambos domiciliados no
V. Critério da necessidade
estrangeiro), se o país em que o contrato foi celebrado e onde devia ser
cumprldonaó conceder vistos consulares de permanência a cidadãos portu-
L Enunciado gUêseS.

Segundo o critério da necessidade, a acção pode ser instaurada nos


tribunais portugueses quando uma situação jurídica, que apresenta uma VI. Tribunal terrtturialmente competente
ponderosa conexão, pessoal ou real, com o território português, só possa ser
reconhecida em acção proposta nos tribunais nacionais. (art" 65° ,nó L.áL d) O).
Com esse critério procura-se obstar à denegaçãe de justiça decorrente da I. Critério da exclusividade
impossioilidilde d.e encontrar Um tribunal competente para i! àprecio.ção da
Pàrú analisar qual é o.tribunal térritorialmente competente quando os
acção: verifica-se então Um ree.nvio di! ccmpetênciaaos tribunais portugueses,
tribunais portugueses sãó irtrernacionalmente competentes segundo o critério
ela exclusividadt: (cfr .. art" 65'" n" I; al, b»), há que considerar cada uma das
2. Âmbito situaç.ões previstas JJ() art" ó$O-A,E)(ceptua~se desta análise a hip.ótese prevista
n()art065"~A, aLa), porque,éOll)o $e verificou, ela é sempre afastada pelo
O'critério da necessidade abarca não só a impossibilidade jurfdica, por regime constante do art" 16°, n" I. CBrux I Cl.ug.
inéxistêneia de tribunal competentepára dirimir o litígio em face das regras Assim, quanto aos processos. de recuperação da empresa e de falência, são
de competêneià internacional das diversas ordens jurfdicas comas quais competentes os tribunais da. situação do estabelecimento em que a empresa tem
ele apresenta uma conexão relevante, mal> tambéro a irnpossibilidade prá" a sua sede ouexerce a sua principal aetividade (art" 82Q, n° 1)..Quanto as acções
tica, derivada de. factos anómalos Irnpediiivos do funcionamento da juris- referentes à apreciação d[j vaHdade do aeto cO(lSÚtutiVüOll ao decretamento da
dição competente (RC - 3/511988, CJ 88/3, 60; contra, RC - 22/111l988., dissoluç1io de pes,'ioà$ coleçt(ws úu soçiedádes que tenham a $l1ilsede em
CJ 88/5, 75). território pcrtuguêsepara as acções d.esÜnadas aapreciar a vaHdade das
O exemplo mais mercante da impossibilidade Jurídica que fundamenta. a deliberaçõesdos respcçtivos órgãos (cfr, art" 65°~A, aLc)), são competentes
competência por reenvio é oque respeita aosconflitos jurisdicionais negativos, os tribunais da sua sede (art" 86°, n° 2 I" parte). Finalmente, quanto à$
isto é, às hipóteses em que nenhum dos tribunais das ordens jurfdicâs coro as acções que teriham como objecto principal a apreciação da validade da inscrição
quai$a situaçãc pluriloealizada estâ em contacto se consider\i competente. E$~e~ em registos públicos. de quaisquer direitos sujeitos a registo em Portugal
conflitospodem decotn:f do uso pelas várias ordens juríelICâs de diferentes (att" 65°-A, al. d), há. que conslderar vários regimes avulsos: assim, por
elementos de conexão: suponha-se, por exemplo, que um ordenamentn atribuí exemplo, para a rectificação judicial de um tegi$to predial écompetente O
relevância ao domicílio do réu e outro à. sua naclonalidade.se o réu não tiver tribunal de comarca da respectivo. conservatõria (art" 128°, (10 I, CRegP).
domicílio no Estado em cuja ordem jurídica releva esse factor e não for
nacional do Estado em que se.encontra. domiciliado, o autor não pode instaurar
a acção nos tribunais de nenhuma dessas ordens. L Critério do domicílio do réu
A competência internacional resultante dó critério da necessidade pode
Como o critét.io de}domicílio do demandado (art° <,.s0, nOI, al, al) sdé
igualmente fundamentat-.se numa impossibilidade prática. Por exemplo: os
susceptível de ser usado quando aocaso concreto for aplicável um critério
tribunais portugueses são 'intemacicnalmenre competentes pelo critério da
territorialespecial (cfr; art°~:;73° a 84 e 89°) e da aplicação deste não resultar
0

a atribuição de competência aum tribunal português (cfr, supra, m. 2..2.),está


(li Sobre o critério da necessidade, cfr. Ferrer Correia / MOI/tU Ramos, Um t.HSO de cornpe- excluída a hipótese de recorrer a qualquer desses critêrios para determinar O
tência internacional dos tribunais portugueses (Lisboa 199 J). 39 ss.; nu jurisprudência,
cfr, RL ~ 23/511978, CJ1S, 953: RC- ill:3/J9S6, CJ 86/2..5:3,
A competência e as partes 123

122 A competência (' as partes

§ to,
tribunal territorialrnente competente. Resta assim reconhecer que o art° 65°,
n° I, aI. a); também define o tribunal territorialmente competente e, portanto, Competênciaconvencional:
atribuir competência ao tribunal do domicílio do demandado. Suponha-se, por direito interno
exemplo, que o facto .ilfcito ocorreu no estrangeiro e que o réu tem domicílio
em Portugal; da aplicação do critério constante do art" 74°. n" 2, não resulta a
atribuição de competência a qualquer tribunal português; nesta eventualidade, I. Pactos de competência
é territorialrnente competente o tribunal do domicílio do demandado.

I, Noção
3. Critérios da causalidade e da necessidade
A competência convencional interna é determinada através de um pacto
Se' os tribunais portugueses forem internacionalmente competentes pelo de competência tpactum. de foro prorogandoy. Em regra, o pacto de com-
critério da causalidade ou da necessidade, também há que averiguar qual dos petência refere-se a urna questão que não apresenta qualquer conexão com
tribunais portugueses é o rertitorialmente competente. Para a determinação outras ordens jurídicas, mas isto não significa que não haja pactos de
deste tribunal $<1 podem ser utilizados critérios aos quais não possa ser competência referidos a relações jurídicas plurilocalizadas. Assim, é um pacto
concedida a dupla funcionalidade característica das normas sobre a competência de competência a convenção pela qual os contraentes definemcorno competente
territorial, porque, de outro modo, a competência inrernacional dl)s tribunais qualquer outro tribunal que não aquele que édeterminado pelas regras da
portugueses já teria decorrido desxa icumpetênc ia íerritorial. Está. nessas competência Interna conjugúveis com os critérios aferidores da competência
condições o art" 85°, n° 3. 'internacional. Também tem Os efeitos do pacto de competência a designação,
Assim, Se Q réu tiver domicílio e residência em país estrangeiro mas se pelas partes celebranres de um pacto de jurisdição (cfr. art" 99°), de um
encontrar em território português, é territorialmente competente o tribunal do determinado Tribunal português (o tribunal de Lisboa, por exemplo); nesta
local em que Se encontrar em Portugal (art" 85°, n° 3 I a parte). POJ exemplo: hipótese, a convenção vale como pacto de jurisdição quanto à atribuição
para a acção de divórcio propostapor um francês, dornic iliudo em Paris, de competência internacional aos tribunais portugueses e como pacto de
contra uma francesa que .se encontra no Funchal, com fundamento CI11 udul- competência relativamente à designação do tribunal internamente competente.
tério cometido em Portugal, é competente o tribunal de I" instância do
Funchal,
Se o réu tiver domicílio e residência em país estrangeiro c não se encontrar 2. Âmbito de incidência
emterritório português, é territorialmente competente o tribunal do domicílio
do autor (art085°; n" 3 2a parte). Por exemplo: para a acção de anulação de
o pacto de competência só pode incidir sobre a competência em razão do
valor e do território (art" 100 na 1). Por exemplo: um sujeito, dorniciliado no
0
,

um testamento instaurada por umportuguês domiciliado em Serübal contra um


Porto, celebra comum outro, dorniciliado na Covilhã,um contrato pelo qual
alemão residente em Hamburgo, com baseem coacção praticada em Portugal,
este último fica adstriro a entregar um automóvel em Lisboa, estipulando-se
é competente O tribunal de I I, instância de Setúbal.
que qualquer 'acção emergente desse contrato será julgada no tribunal do
Finalmente, se o réu tiver domicílio e residência em país estrangeiro c
domicílio do credor.
não se encontrar em território português e se o autor também tiver domicílio
São várias, no entanto, as _~_cç~e$ em relação às quais não é admissivel
em território estrangeiro, é territorialrnente competente o tribunal de Lisboa
a celebração de qualquer pacto de competência. São elas as acções relativas a
(art" 8.SO, n° 3 infinev. Por exemplo: para a acção de investigação da paternidade
direitos reais sobre imóveis, à responsabilidade civil extracontratual e em que
proposta por um português domiciliado em Paris contra um italiano residente
seja parte O juiz, seu cônjuge ou certos parentes, os processos de recuperação
em ROi1Hl, com fundamento em o acto de procriação ter ocorrido em Portugal.
é competente o tribunal de 1" instância de Lisboa.
A competência e as partes 125

124 A competência e (1,1 partes

precludida. conforme resulta do princípio enunciado art" 489°, n" J, a arguição


dessa excepção em momento posterior da tramiração da causa. Verifica-se,
da empresa e de falência, os procedimentos cautelares e as di ligências ante-
nesta eventualidade. a celebração tácita de um pacto, de competência, o que não
cipadas, a determinação do tribunal ad ljl.lenl c as acções executivas fundadas
contraria, todavia, a forma escrita exigida pelo arr" 100°,0° 2 I a parte, porque
em sentença proferida por tribunais portugueses ou destinadas a obter a entrega
a renúncia à arguição da excepção de incompetência relati va se realiza durante
de coisa certa ou a satisfação de dívida com garantia real (art°s 100°, nÓ I
a pendência da acção.
in fine, e 110°, n° I, al. a).

A redacção dada ali urt" 100°. n° I, pelo art" 1° DL 242/l\5. de 917. segundo a qual não 4. Et'eítos
são vúiidüs os pactos de competência que afastam a competência ierritorial nos casos referidos
no art" 10\)°. nO2" é aplicável 1<,convenções celebradas àntcs da entrada em vigor dessa alteração A competência convencional interna é vinculativa para as partes (art" 100°,
legixlati va: RB - 2811/1993, CJ 93f1, 267.
n" 3 l, pelo que a sua infracção determina a incompetência relativa do tribunal.
onde a acção foi indevidarnente proposta (art" 108°).

3. Requisitos 11. Pactos de jurisdição


e
a. O pacto de competência só válido se acompanhar a forma do contrato
substantivo, se este for formal, ou se tiver a forma escrita, se aquele for I. Noção e modalidades
consensual (art" I DO", n" 2). Masconsidera-se reduzido a escrito o acordo
a. A competência convencional internacional pode ser determinada através
constante de documento assinado petas partes ou o resultante de troca de cartas,
de. um pacto de jurisdição (art" 99°, n? I) (4). Esse pacto pode ser, quando
telex, telegramas ou outros meios de comunicação de que fique prova escrita,
considerado pela perspectiva da ordem jurídica portuguesa, atributivo ou
quer tais instrumentos contenham directamente o acordo. quer deles conste
privativo.
uma cláusula de remissão para algum documento em que ele esteja contido
O pacto é atributivo quando concede competência a um tribunal ou a
(anOs 1106• ti" 2 l~ parte" e 99°~ n° 4). Além disso, o pacto de competência deve
vários tribunais portugueses; a competência atribuídapede ser concorrente Ou
designar as questões submetidas à apreciação elo tribunal e () critério de
exclusiva. Por exemplo: 1II1J. cidadão canadiano concluiu no Canadá com um
determinação do tribunal ao qual é atribuída a competência (art" lO()". n" 2
cidadão português um contrato pe-Jo qual fica obrigado a entregar um quadro
2" parte).
em Montreal; as partes podem atribuir competência internacional. a Um tribunal
português para apreciação de uma acção relativa ao cumprimento desse
b. O pacto ele competência contém implicitamente uma renúncia
contrato.
antecipada - isto é, anterior à propositura da acção - à arguição da excepção
O pacto é privativo quando retira competência a um ou a vários tribunais
de incompetência relativa (cfr. art" 108°), pois que atribuída competência
é

portugueses e a atribui em exclusivo a um ou a vários tribunais estrangeiros


territorial a um tribunal que, sem esse contrato processual, não seria com-
(art" 99°, n" 2). Corno, segundo o disposto no art" 99°, iio 2 in fine, se. presume
petente. Essa renúncia exige. como requisito ad substantiam, a forma escrita
que a competência atribuída ao tribunal estrangeiro é COncorrente com aguda
(cfr. art" 100°, n° 2 I a parte), pois que condiciona as possibilidades de defesa
que resulta da lei para os tribunais portugueses, a atribuição de competência
do réu M. acção proposta naquele tribunal e, concretamente, exclui a invocação
da excepção de incompetência relativa. Contudo, como esta incompetência
relativa nem sempre é de conhecimento oficioso (cfr. art? 110", n° I), o tribunal (4, Sobre os puctos de jurisdição. cfr .. em especial, M: v, Ferreiro do Rocha, Competência
só a pode apreciar, nesse caso, mediante arguição do réu (art"s 109", n° I, e internacional c 'autonomia privada: Pactos prtvarivos e atributivos de jurisdição no direito
português e na COnvenção de Bruxelas de, 27·'1-1%8,RDE 13 (1987), 161 ss ..
495°). Deste 1110do, se o réu não excepciona a incompetência relativa no prazo
fixado para a contestação (cfr. art? 109°, n" I), o vício sana-se. ficando
A cO/llIJf:lência e as partes 1:7
"
------------~~----~.
126 A competência e as partes

envolva inconveniente gtayeparaa outra (art" 99ó, n" 3, al. cj), Este requisito
destina-se es.~cneialrnentc a salvaguardara posição da parte mais fraca: ao
aos tribunais estrangeiros só vale como um pacto privativo quando retirar a
exigir-Sé que a eleição do foro eorrespondaa u.minrere$seSêrlt! de ambas ou
competência legal concorrente dos tribunais portugueses. Por exemplo; uma
de. uma das parteseque, nesta úlrima hipótese, ele não envolva inconvenientes
sociedade búlgara celebra com um português um contràto pelo qual fica
graves para a outra, pretende evitar-se que a escolha recaia sobre um tribunal
obrigada a entregar. certa mercadoria em Lisboa; ,18 partes podem retirarã
com () qual acausaeas suas partes não possuam qualquer conexão relevante.
competência internacional.do tribunal de Lísbca para apreci;lção da acção de
cumprimento (art" 746, n" I) e atriblJí~laem exclusivõ aum tnbunal bülgaro;
b. O pacto de jurisdição não pode ofender a competência exclusiva
nesta hipótese, essa atribuIÇUo Vale C;omo pacto privativo da competência dos
dos tribunais portugueses (are 99", n" 3,al. d); sobre esta competência,
tribunais portugueses.
cfr. art" 65'\AJ. isto é,o pacto não pode privar os tribunais portugueses da sua
tülüpetêllcÜI exclusiva. Compreende-se que assim seja: se essa cornpetêncla é
b. É claro que, como o carácter atributivo ou privativo do pacto de
exclusiva, a 9rdem jllrídica portuguesa hão pode aceitar qualquer competência
jurisdição é definido em relação à ordem Jurídica portuguesa,.u validade de um
éontorrenJe de um tribunal estrangeiro,
desses pactos Moê vinculativa para os tribünals de ordens jllhdica~
Se as partes, através de uma convenção de arbitragem (cft, aft" 1° LAV),
estrangeiras. Assim, a validade do pacto que atribui competência aos tóbu.f1ai$
atribuírem competênciapara o julgamento de certo ]itígioou ttuestâo e1nergel1te
ponugueses não significa que os. tribunais estrangeiros afectl\dO$ deixerr; ipso
de uma relação jurídica plurtlocalizada a um tribunal arbitral (ful)ciónancl0eín
fact«, (lese considerar c;o01peteme$,. talcomo a priva9ão da competência
território. português ou no estrangeiro), é igualmente aplicável a.esse negócio
internaeional dos trib.I.II1ais portugueses .não a atribui necessariamenteaos
o requisito respeltantc :\ observâncta da competência exclusiva dos tribunais
tribunais estrangeiros. São. possíveis, por isso, situações, em que o pacto
pOfiuguéses (MIO 99", ti" 3, a\. d)),. Esta solução decorre da circunstância
atributivo origina um conflito positivo entre a competência internacional dos
de .aqoelil C(JI1Yénçàçj ürbítnilCotitetsi01ultanealljelllé. umpacto privativo de.
tribunaisportugueses c dos estrangeiros e outras em que um pacto privativo
jurisdição, dado q(.lctetira comperênciaacs ttibun(1ispottUguesés para apreciar
cria um semelhante conflito negativo.
esse mesmo objecto.

Em referência ,I estu submissão.da convenção de arbitragem que esuuui um tribunal arbitral


2. Âmbito de incidência Cl11 leit·íl6dtí português aoregime
t'lIIiClónallll() dos pactos privativos de jurisdição (ulém de.
nnturulmente. também dever ser observado o regime próprio. dessa convençâo), convém observar
o pacto de jurisdição só pode incidir sobre situações subjectivas que. no sistema legal uctuulmcnte vigente, u Plr.iÍeter internacional.da arbitragem édetermiuado,
disponíveis (àft~ 990, (lÓ j, al, a». Esta cól1díção é suficiente para póssihilitar não pelo lugar da. SU:l reulização, 1\Ul~pelo c:triÍcterd()scII objecto. pelo que, ainda que e feqtu ada
em PNlp.gal .. ·';.iI11etn;lt.:jon,d a arbitrugem .que $G ocupa de lítíghíi; oriundos dó comércio
a celebração de um pacto de jurisdição sobre .a generalidade d.as $itPaçõe~
intcrnaeional (art" 32" LAV).
patrimoniais,
c. O pacto deve
mencionar expressamente a jurisdição competente
No âmbito do direito marítimo internacional não são válido» os pacrosprivativos de
jurisdição (art" 7", n" I, L 351R6, de 419), excepro sê as partes forem estrangeiras c' s~ se tratar
(art"99", n" 3.. al. e) ínjllll!)).
A designação do tribunal competente (pertencente
de obrigação que, devendo ser cumprida em territôrioestrangeiro, não respeite a bens sitos. à ordern jurídica de.urna das partes, de.ambas ou de nenhuma delas) pode ser
registados ou matriculadosem Portugal (art" 7', n" 2. L :í5/!>6). Este preceito não é uplicávc] feita directamente; nesta eventualidade, as partes indicam um tribunal espe-
se, no caso c(jr1cte(ó.puder ser empregue o. art" 17" CBrux / CLlfg. cífito ú) tribuual de Lisboa ou de Praga. por exemplo}, Mas essa indicação
também pode ~~.r realizada 'indlrectatnente atraves de uma remissão para o
trlbunal que for çOO1petente~egllr1do as regras de competêncla vigentes na
3. Requisitos jurisdição .designada: nessa hipótese, as parte.~ designam glübülTneh,te. Os tri-
bunais de uma jurisdição (os tribunais portugueses ou checos,p(iteXemplo),
a. O pacto de juti~dição Só e válido Se for justificado por um interesse
sério de ambas as partes ou de uma delas, desde que, neste último caso, não
/-, r r r r (

A competência e as partes 129


128 A competência e.ilS partes

11. Incompetência.absoluta
A eleição do foto deve ser aceite pela lei do tribunal designado (art" 99°,
n" 3, al, b».Esta aceitação pelo tribunal designado da competência que lhe é I. Noção
concedida pelo pacto deve verificar-se tanto quando esse tribunal recebe uma
competência exclusiva, 'Como quando a competência desse tribunal é con- Sl.lgundoo disposto no art" 10 1°, a incompetência absoluta provém da
corrente com a de outros tribunais. Assim, esse requisito não se preenche se a infracção das regras da competência internacional legal (cfr. art"s 65" e
jurisdição a que pertence o tribunal indicado considera o tribunal ao qual é 65°~A) e da competência interna material (cfr. artOs 66°, 67" e 69°; art" 46°
retirada a competência como exclusivamente competente pura apreciara L()TJ) e hierárquica. (cfr, arr's 70°. 71" e 72°). A incompetência absoluta
questão sobre a qual foi celebrado o pacto de jühsdição ouadmite, relari- referida no art" 101" é., naturalmente, apenas aquela que se verifica noârnbilo
varnenteaessa mesma questão •.a competência exclusiva definida pela lê~fád do processó civil.
dessaoutra jurisdição. Nos demais casos; irreleca a posiçãe da lei dQ tribunal A lnc(>rtlpetênciairttertlacIQnal r<:suHa daimpóssibiJidade de incluir a
ao qual foi retirada a competência através do pacto de jurisdição. re.lação jt.IMíe~l plurHocaliz<\danaprevisão de lÍlJ1ada$nQrlJ1a!ide recepç:.ãôdo
art" 65°. A incúlt1petência hierárquica vetifica-se.se aacçâú é instaurada
d. O pacto. de jurisdição 89 é válido se constar de acorde escrito ou num tribunal de I" instância quando o devia ter sido na Relação ou no Supremo,
confirmado por escrito (art° 99°, n" 3, al. e)) .. Para este efeito. considesa-se ou vico-versu ..Finalmente, a incompetência material decorre dapropositurano
reduzido a escrito o acordo que consta de documentos. assinados pelas partes tribunal comum de uma acção da competência dos tribunais especiais ou da
ou que resulta de troca de cartas, telex, telegramas ou outros meios de comu- instauração de. uma acção num tribunal de-competência especializada incom-
nicação de que fique prova escrita, quer tais instrumentoscontenham direc- petente.
tamente oacordo, quer deles conste uma cláusula que remeta para algum
documento que Q coptetlha (art" 99°, n" 4).
2,. Mguiçã()
Corno a incompetênciaabsolula. decorrente da infracção das regras da
competência internacional é urna excepção dilatôria que o tribunal aprecia A.incompetêtlciá absülula resultante da infracção da competência. material
oficiosamente (cfr.artOs 102 n° 1,494°, af.a), e 49SOJ,não é configurável a
0
,
dl.le<)trenteda circunstânê.Íá d.e a.acção ter sido instaurada n,urtltribunaI juc!iciál
celebração tácita de um pacto atributivo .de jurisdição pela preclusão da quando o pevetia ter Sido pet'i,nte um outro tribunal judicial $6 pode ser argllida
invocação daquela excepção num processo pendente. pelas Partes e conhecida oficiosamente pelo tribunal até ao despacho saneador
ou, se este. não tiver lugar, até ao. início da audiência final. (art" 102", n° 2).
Isto é, como, nas vãriashipõleses de incompetência absoluta por violação
§ 3!). da competência material, ,'a menos grave éada propositura num tribunal
judicial de uma acção que deveria ter sido iMtaurada num 01111"0 tribunal
Modalidades da incompetência jtldici<\1 (pQr eXemplq; aacçâ.() é Jnsta\lfada num tr'ibunal CÍvel" ar t" 56 0

LOTJ - quando deVeria letsidopropoS!a num tribunal de.farnília _anos 60°


I. Enunciado e 61 LOT J). alei resninge o prazo de arglliçâo e. dê copl1ecÍll1ento de$sa
0

incompetência.
A incompetência é a insusceptihilidade de um tribunal apreciar deter- Diferentemente, a incompetência material que resulta do facto de a acção
minada causa que decorre. da circunstância de os critérios determinativos da ter sido proposta. num tribunal judicial quando o deveria ser num tribunal não
competência não lhe concederem a medida de jurisdição suficiente para essa judicial (por exemplo: a. acção foi instaurada num tribunalcomum, mas deveria
apreciação; Infere-se dá lei .a existência de três tipos de incompetência ler sido-proposta nuhl tribunaládmit1istrativo) pode ser arguida pelas partes e
jurisdicional: a incornpetêrtcia absoluta, a incompetência relativa e a preterição conhecida oficiosamente p~IQtribunal até ao trânsito ~mjulgado da decisão di?
de tribunal arbitral.
A compe!ência f as part~,~ 131
------------~~----------~
130 A C()iII/l2thw'ia e as partes

IIL Incompetênciardativa
mérito (art" I02",n" I). COnloestaincOnlpetência,lbsoluta é mais grave do que
a prevista 110 art" I02',,11" 2. alarga-se 9 prazo <Ia sua arguiçã« pelas partes e
do seu conhecimento pelo tribunal, 1. Noção

,L Qatt" .108° enuncia :.1$ situaçQe~ que uriginam aincompetência rela-


tlvarcstatnccrnpetêncta resultada Infracção das regras da competência
3. Apre(:)ação fU)1d;ldns no valur da causa (cfr. art° 68°; artOs 4]0 e 49° LOTI), na forma do
processo aplicável (cfr. art068°; art" 48° LOTJ), na divisão judicial do território
a.Se houverdespacho-de citação (cfr. art"134°, n" 4), a incompetência (cfr. arr's 7'3.0 a 95") ou decorrentes de um pacto de competência ou de
absoluta devese.t conhecida oficiosaruente no despacho liminar (artOs 105". jurisdição (dI'. arl"s 99" e tOOO).
n" 1, e 234"-{\, n° I l. O conlrecimerrto ofiQiúsb da incompetência ilbsül111a Note-se que li violação das regras de compelênchj 'territorial pode
é realizado, em regra, no despacho saneador (anOs 510°, n? li aLa}, c 494", vetificat~seI1ão SQ na competência internn quando são j)1f(-ingjd4s as regnls
i

al, a». qpe defil14rn,de entre QS vários tribunais, qua] qlerritOti41mente competente,
A .incompetência absoluta arguida pelas partes antes do despacho sanea- rn;lS tambémna cümpetênçia. jnternacjon41, É o que. sucede quando a acção não
dor pode ser julgada imediatamente ou iI· sua apreciação ser reservada for proposta no tribunal designadono pacto (atrlbutivo) de jurisdição e quando
para esse despacho (art" 103" 1" parte). Se essa incompcrôncia for invo- forem violadas as regras de competência territorial que determinam,em
cada depois Óés.se despacho, ela deve ser [ulgadaimedlutanrente (arl" I Ó3" coejugaçãn com as normas de eompetênciajnternacioual, qual o tribunal
2a parte). terrrtorialmentc competente.

Suscitada ()fki\lsahienl~a. questão .da cornpetênoia i1hso!u(Üdó tribuuulvincumbe- \:L Perante ()~ tribunais P()ftu.guêse~ .apena~ pode Jêlevar, qU411lo .3,
-lhe realizar ()U ordenar as diligências de pr()VI\. que se.. rn()~\relllIw,~"r.rias; RC' ~ ')11Olli)')().
13MJ 4ÓO.741. compctênciu ipterl1<ldol)alctirecta, a infracção de um P4ctO privntivo de
jud~diçl)(}. Esta violação verifica"sequando, apesar de as partes terem esti-
pulado a comperêrmla exclusiva de um tribunal estrangeiro para apreciar certa
b, O couhecirnenro da incompetência absoluta no. moutenrorío dcs-
questão. a acção vem a ser proposta num tribunal português. A violação de um
pacho decítaçãô determina o indeferimento llmínar xla petição inicial
pacto atributivo só pode ocorrer num tribunal estrangeiro, dado queessaofensa
(aftOS 105", n l.e .2.34°_A. n" I); se for apreciada
Ô
em momento posterior.
essa incomperêncin êO)ldl.l;,'; à absQlviçãô do réu da lnstânctu (urt° 105", só pode decorrer da. não propositura da-acção rro tribunal portugub ao qual foi
concedida acompetência internacional exclusiva.
n" I; cfrvart=s 288°, n° I, al. a), 494°, al. a), e 493°, n° 2). O Indefet"iJl1ento
liminar ou a absolvição da Tl1stâncianl)o vinculam o tribunal ondç a mCsl114
N()lc-scq~c uvicluçâudo pacto utributivu de ~()mpetênçiaeJid\lsiY<J4()stri.hu.na.i,.
acção venha a ser instaurada posteriormente (art" I O()D), excepto qnandno portugueses rel.cva na revisão.da sentença proferida por um tribunal estrangeiro. porque.vcnmo.
Supremo Tribunal de Justiça ou O Tribunal dos Conflitos decídtrern, no recurso nesse caso. ü. uccisãocmüngeira ofende essacompetência exclustvaelu nJ10 pode ser revistae
interposto da decisão da Relação. qual o tribunal competente para apreciar confirmada pelos (ríbun:\Ís portugueses (cfr; art" IO'}6", al. e).
e$~a acção (art" 107'\ nOs I c 2). Se tiver havido absolvição da instância, as
panes podem aé;ordar em aproveitar Os seusarticulados c. neste CilSO.. O autor
pode requerer tl reti1essa do processo plira u tribunal competente (nrt" 105'" 2. A[lreciuçãt)
n° 2).
à. CQofil'rnandoa diSpónib\!idad\'! das partés sobrea çomp.etência relativa
(cll •. (ltt" I ()O°), aCQrrespôndente incompetência não e. em princípio, de
Por não fazer sentido a fixação do tribunal cstrangeíro cornperente Ilà<J",,:1 configurada
no art" 107" ti situaçãode incompetência internneional: dL/l/her/o rios Reis, Comentátio ao conhecimento oficioso (art" 49,5°), Neste caso, a ineornpetência pode ser arguida
Código de Processo Civil .12. (Coimbra 1960). 324 ~..
r I

A competência e (/,\'partes 133


\32 A compelência e ,üs pari!!.\'

3. Decisão
ó
pejo réu no prazo da contestação (art" 109°; n? I; c.fr.MtOs 486", na I, 78J e
A decisão. de procedência sobre n incompetência relativa determina, ein
794°, n° I), O autor pode responder no articulado subsequente ou.• não havendü
regra, a remessa do procê.$$O para o tribunal competente (art" 111°, n" 3).
lugar a este, em articulado próprio, a apreseht;:tf nos 10 dtas ~eguinte~ U Exceptua-se ahipótesede a incompetência relativa resultar da violação de um
notificação da entrega 00 articulado do réu (art" 109 na 2} Cpnjun!ilfllcnte com
0
,
pacto privativo de jurisdição, dado que O tríbQnal português não pode enviar
a alegação da incompetência relativa, as partes devem apresentar as resptw!iv<ts
o processo para c tribunal estrangeiro competente: Ileste caso, a consequência
provas (art" 109°, n° 3), Produzidas estas, o tribunal decide qual é o trihunal desta excepção dilatôria, não podendn ser a rcf~rida remessa, é a absol vição
competente para a acção (art" 111°, n" 1). do réu da instância (art'' 111°, n" 3 in fines.
Como a reme~~a do proeesse para o tribunal. competente não exringuea
b. São várias as situações em que a inCompl";tênda tdativa é de instância (de anos 288°, 09 2,e 287", al. a» c, portanto, o processo continua
conhecimento oficioso. É o que sucede, nos termos do .art? I I ()O, .n" I, al. a), pendente, a .decisã() de re/1]essa é vinculativa para o tribunal para o qual ele é
nas acções relativas a direitos reais. sobre imÓveis; a tespollsabilidadl"; civil rernetido.Iart"
- S6
111°. na 2}. . o tribunal eonsiderarimprocedente
.
a alegação da
extraconrratual e naquelas em que seja parte o juiz, seu cônjuge Ou ce.rtok incompetência relativa, essa dec.isãüdete/J\)ina 11 preclusão de outros possíveis
parentes, nos processos de recuperação da empre$a e de fal~nÇia. n()s fundamentos de. incompetência do tribunal (art 11 I ",n" 2), o que significa
O

procedimentos cautelares e diligências antecipadas,11(l determlnaçàodo tribu\1ê.l1 que não se pode voltar a discutir a questão da cQrnpetêh<ji(l relativa, qual-
ad quem, bem como na acção executiva fundada em Kentença prof~ridap()r qlíer que sejao fundamento alegado pela parte.
tribunais portugueses .e nas acções executivas PAra entregude coisa certaou
por dívida com garantia real.
A incompetência relativa também é de conhecimento (Jficüj~(j. quando IV.Pr~tédção de rrilnrnal.arbttra!
decorra da infracção das regras da cornpetênciu respeltantes Q fotina do
processo ou ao valor da causa (art? 110°, n° 2), ou seja,. do disposto nos
artOs 48° e 49° LOTJ. Como a. competência em razão do valor daeausa I. Noção
(are 49~ LOTI) se reflecte na competência dotríbunal de círculo (cfr, art" 151"
A preterição de tribunal arbitral resulta da infracção da competência de
LO!1) e do tribunal singular (artO 830 LOT]), o art" 110°, n" 2,engloba
um tribunal arbitra! que tem cóinpetêrtcià exclusiva para apreciar um
Igualmente a violação da competência destes tribunais. Assim, a incompetência
determinado objecta, A pte~êríção pode verificãr-se quanto a um tribunal
deve ser conhecida ofídosamente quando, por exemplo, o trlbunalcompetente
arhitral necessário, quando foi proposta num tribunal comum umà acção que
seja o tribunal de círculo e a acção tenha sido proposta num tribunal de comarca
pertence á competência deum tribunal arbitral ímpostopor lei (cfl'. an° 15'15"),
ou quando seja competente uma vara cível eu acção tenha sido instaurada num
()u quanto a um trihunalarbitral voluntário, quando foi instaurada nüm tribunal
j!.IÍZ() cível,
cOl.nUl)1 uina acção que devia ter sido proposta num tribunaltarbitru]
Finà]mente,a incompetência relativa deve ser apreciada oficiosamente qJI1VC[1c.iOJlljc'op\'\]à~parte); (ofr,art" I ç LAV).
nos prOcessos em que não se verifique a citação do demandado ou requerido
(art" 110\ n" 1, al, b), ou seja, nos processos que não constam da lista do
art" 234°, n? 4, e nas causas que, por lei, devam correr como dependência de 2. Apreciação
OUltQ processo (art" 11.0°, n° I,al. c)), como sucede, por exemplo, com o
É distinto o regime da preterição de tribunal arbitra] necessano e
incidente de habilitação (art" 372°, n" 2).
voluntário. A preterição de tribunal arbitralnecessãrio é uma exqepção dilatória
de conhecimento oficioso (art"s 4949, al, j), e 495°) que conduz àabsolviçãü
dütçu da [nstância (art" 493", nP 2). A preterição de tribunal arbitral voluntârio
A competência e as partes

134 li competência e as partcs

uma das funções do caso julgado, há que reconhecer a vinculação do tri-


bunal arbitral 11 fixação da sua competência pela decisão absolutória do
é uma excepção dilatória que não é de conhecimento oficioso (art°s 494°.
tribunal judicial. evitando-se. deste modo, a coexistência de decisões'
al. j), e 495°), mas implica jgualrncnte a absolvição do réu da instância
contraditórias.
(art" 493 na 2).
0
,
Pode também invocar-se o paralelismo da apreciação da excepção de
Assirrr, se o réu não excepcionar a preterição detribunal arbitrul volun-
prererição de tribunal arbitra! voluntário com o disposto no art° 290°, na 2,
tário, verifica-se uma renúncia tácita à invocação dessa excepção dilatóriu. Se
preceito no qual se estabelece que, lavrando-se no processo o lermo do
essa renúncia fosse antecipada - isto é, anterior à propositura da acção -, ela
compromisso arbitral ou tendo-se junto .documento comprovati vo desse com-
requereria a revogação, em escrito assinado pelas partes. da respectiva
promisso. o tribunal aprecia a validade do mesmo e, sendo a decisão
convenção de arbitragem (art? 2°, n? 4. LA V).
procedente. remete as partes para o tribunal arbitral. Dificilmente se pode
defender que, nesta eventualidade, o tribunal arbitral não está vinculado à
3. Eficácia da decisão apreciação da validade c da aplicabilidade da convenção de arbitragem realizada
pelo tribunal judicial. O mesmo se deve concluir quando a apreciação efectuada
o problema da eficácia da decisão de absol vição da instância com pelo tribunal judicial se expressa na absolvição da instância com fundamento
fundamento na preterição de tribunal arbitra! voluntário (artOs 494 aI. j), e
0
• na preterição de tribunal arbitral voluntário.
493 na 2) paraa fixação da competência do próprio tribunal arbitra] preterido
0
, Por fim, se neste caso se verifica a vinculação do tribunal arbitral a uma
é uma questão muito delicada, Sendo aquela absolvição da instância urna decisão judicial. também há situações nas quais é o tribunal judicial que fica
decisão negativa sobre a competência do tribunal judicial, é questionável se essa adstrito a uma decisão arbitral. Suponha-se, por exemplo, que o tribunal arbitraí
decisão comporta o efeito positivo de vinculação do tribunal ürbitral ao se considera incompetente para apreciar determinado objecto: se for proposta
reconhecimento da sua competência para apreciar o mesmo objecto. A questão posteriormente no tribunal estadual uma acção com o mesmo objecto e se o
é especialmente difícil, porque, corno o art° 21 LA V atribui ao tribunal arbitral
Ó réu arguir a excepção de preterição de tribunal arbitral (não curando agora da
cornpcrêncin para decidir sobre a sua própria competência (é u conhecida regra eventual má fé processual desse demandado), o tribunal judicial não pode
da K(}l1fpetenz-Kompetcll':.). a vinculação do tribunal arbltral àquela decisão considerar-se incompetente com fundamento na validade ou aplicabilidade da
judicia] I:etim-lhe alguM dos seus pbdete~ de cognição. convenção de arbitragem àquele objecto. Constitui-se, assim, uma hipótese na
No entanto. existem suficientes motivos que justificam a vinculação do qual o tribunal estadual está vinculado à decisão de incompetência proferida
tribunal arbitralàque]a decisãode absolvição <Já. instância. A favor desta no proce~~o arbitra].
solução pode ser invocada a correlatividade existente entre a incompetência do
tribunal judicial e a competência do tribunal arbitral voluntário, dado que a
incompetência daquele tribunal estadual não se verifica sem que haja um
tribunal arbitral exclusivamente competente. É por isso que uma decisão sobre
<.i incompetência do tribunal judicial implica (c pressupõe) necessariamente a
competência exclusiva desse tribunal arbitral. Assim. a absolvição da instância
decorrente da preterição de tribuna! arbitral voluntáriodemonstru quc o tribunal
comum reconhece a validade da convenção de arbitragem e, portanto, a
competência do tribunal arbitral para apreciar aquele mesmo objecto,
Além disso. se o tribunal arbitral não estivesse vinculado a aceitar a
competência que a decisão do tribunal judicial lhe reconheceu. poder-se-ia criar
urna situação na qual nenhum dos tribunais (isto é. nem o tribunal judicial. nem
o tribunal arbitrul) se considerasse competente para a apreciação de um mesmo
objecto. Ora, corno a prevenção elo proferimento ele decisões conflituantes é
r r

A competência e as partes 137

136 Aç'()f1lpetência e ((.I' fia rtes

11°4. esc). Sobre a personalidade judiciária da freguesia e do município. cfr. artOs 27°. ,,0 I.
aI. e). e 51".11" I. ai. f), da Lei das Autarquias Locais (Decreto-Lei ,,0 IOO/K4. de 29/3. alterado
pelas Leis II"S 25/K5. de 12/H, 1~/91. de 12/6. e 36/91. de 27/7). Note-se ainda que todas as
pessoascnlcctivas públicas possuem personalidade judiciãria: é o caso da Região Autónoma dos
CAi>ÍTULO U Açores (RL - 26/1111985. CJ 8515, 92); sobre ti personalidade judiciária das câmaras municipais.
cfr, RL - 1.';/12/1994. BMJ 442, 251. e sobre a da Comissão Àdministranva dos Casinos do
Algurvc, cfr. RI:: . 2311/1996, CJ 9611. 292.
QUESTÕES R.ELATIVAS ÀS PARTES
b. Relativamente a estrangeiros, há que considerar o art" 26°, n° I, CC,
§ 1'>, segundo () qual o início e o termo da personalidade jurídica são fixados pela
lei pessoal de cada indivíduo, que é a lei da sua nacionalidade (art° 31°, n° I,
CC) ou, se o indivíduo for apátrida, a lei do lugar onde ele tiver a sua residência
Personalidade judiciária
habitual ou" se for menor ou interdito, () seu domicílio legal (art° 32°, n° I, CÇ).
Quanto às pessoas colectivas (excepto sociedades comerciais), a sua lei pessoal
I, Noção é a do Estado onde se encontra situada a sede principal e efectiva da sua
administração (art" 33°, n° I, CC) ou, se for uma pessoa colectiva internacional,
A personalidade judiciária é a susceptibilidade de ser parte processual a designada na convenção que a criou ou nos respectivos estatutos ou, na sua
(artÔ 5"', nÓ I )., SÓ pode ser parte processnalquem tiver personalidade judi- falta. a do país onde estiver a sede principal (art" 34° CC), As sociedades
ciária. comerciais têm como lei pessoal a lei do Estado onde se encontre situada a sede
principal e efectiva da sua administração (art" 3°, n° lia parte, CSC).

H. Critérios atrlburivos
3. Critério da diferenciação patrirnonial

1. Enunciado a. Segundo q critério da diferenciação patrirnoniul, a personalidade


judiciária é utribuída adererminados patrimónios autónomos (art" 6°). Assim,
A personalidade judiciária é atribuída em função do critério da coin-
têm personalidade judiciária a herança jacente e os patrimónios autónomos
cidência, dadiferenciação patrirnonial, da afectação do acto e da protecção de
semelhantes cujo titular nãoesteja determinado (art" 6°. aI. a». A herança
terceiros.
jacente é a herança aberta, mas ainda não aceite nem declarada vaga para o
Excluem-se cenas siruações especiais. corno, por exemplo. II dos comissões de traba- Estado (art" 2046° CC), ou seja, é a herança cujos titulares ainda não estão
lhadores, às quais o mIO I r I.. 46179. <.I" 12t9. atribui "capacidade judiciária activa c passiva". determinados, seja porque suo desconhecidos quaisquer sucessfvcis, seja porque
Axsim, limá comissão de trabalhadores pode instaurar uma acção para defesa dosseus direitos
os xucexsívcis ainda não a aceitaram. Nos patrimónios autónomos cuja titula-
c pode ser demandada relativamente a. actos por ela ,prati.eados.
ridade seja incerta podem englobar-se as doações a nascituros (arr's 952°,
n° I, CC), bem como os legados realizados aos mesmos (art" 2033", n° 2,
2. Critério da coincidência aI. a). CC).

a. De acordo com o critério da 'coincidência. a personalidade judiciária é Não estando ainda determinado se há ou não herdeiros quanto a certa herança, esta tem

concedida a todas as pessoas jurídicas. singulares ou colectivas (urt" 5", na 2). personalidade judiciúria. pelo que pode ser demandada na acção de resolução de um contrato-
-promessa celebrado pela sua autora: RL - 26/1111985. CJ X5/5, 92: a herança jacente pode
Assim, todo O ente juridicamente personalizado tem igualmente personalidade
instaurar uma execução para entrega de coisa certa contra os ocupantes de um prédio perten-
judiciária, activa ou passiva, cente ao acervo hereditário do de rujns e que não fora atempndamente entregue: RI': - 17/2/1994,
CJ 'J4I1. 2H2.
São pessoas colectivas as ussociaçôes e fundaçõescom pcrsonnlidadc jurídica (urt" 15~"
te). as sociedades comerciais (an° 5° esc) e i!S sociedades civis soo forma comcrciul t art" 'I".
A competência e as partes 139

13!l A competência e as portes

de Responsabilidade Limitada, regulado pelo Decreto-Lei n° 248/86, de 25/8


(clr. RL· 13/2/19<)2, CJ 92/1. 156).
b. Possuem igual mente personalidade judiciária as associações sem
personalidade jurídica e as comissões especiais (art" 6°, aI. b); cfr. art''s 159° e
<.S<..JC~·<'3
!-<(..v. ~ "",...,d..; J"".,b .\v c,'C,q " -:~
199° tC). as sociedades civis sob forma civil (art? 6°, nl. c): cfr. ari" 980" CC), 4. Critério da afectação do acto
as sociedades comerciais aindanão .registadas (arr" 6°, aI. d); cfr. urt" 5" eSC),
o condomínio resultante da propriedade horizontal, relativamente às acções Pelo critério da afectação do acto, têm personalidade judiciária as
que se inserem no âmbito dos poderes do administrador (art" 6°. alo c): sucursais, agências. filiais, delegações ou representações de uma pessoa
cfr. art" 1436° Ce), e ainda os navios (art" 6°. ul. 1'): cfr. art" 28° DL 352/86, colectiva relativamente a actos que por elas tenham sido praticados (art'' 7°,
de 21/1 O), n" I). Quer dizer: quem praticou o acto pode igualmente estar em JUIzo
quanto à acção que () tenha por objecto ou fundamento. Assim, por exemplo,
Tem personalidade judiciária. por \pr titular de um património diferenciado, uma comissão a filial de uma cadeia de supermercados possui personalidade judiciária para
de mclhorumentos de uma freguesia l5TJ . 10/7/1<)90. RMJ 399 . .456). Sobre Ul11a outra "itlla~'üo instaurar uma acção de pagamento de bens fornecidos a um cliente ou para
na qual ê reconhecida personalidade judiciária ao navio. cfr, a CIJI1""II("(/" lnternacunuü pura «
ser demandada pelos prejuízos causados pela sua não entrega. É claro que
Unificação de Cerras Regras em MtlIéria de Conhecimrnru dr Carga (estu Convençâo foi
concluída em Bruxelas em 25/8/1924, rendoPortugal aderido a da através tio Decreto-Lei a concessão dessa personalidade judiciária em nada atinge a personalidade
n° 19.857, de IX/5/193!. publicadoem 2/6119"3 I; o Decreto-Lei n° 37 .741("tI" 1/2/1950. tornou da própria pessoa colectiva, que continua a poder demandar e a ser deman-
a Convenção aplicável a todos os conhecimentos de carga emitidos em território português). dada.
A personalidade judiciária das sucursais, ou equivalente, de pessoas
Em certos casos, além dopatrimónio autónomo, podem ser demandadas colectivas estrangeiras - isto é, de pessoas colectivas com sede no estrangeiro
outras partes. Assim, os membros da comissão especial respondem pessoal e . é. comparativamente à situação descrita. mais ampla: ainda que a acção
b
solidariamente pelas obrigações contraídas em nome delarart" 200 , n? 2. CC) derive de facto praticado pela própria pessoa colectiva, aquelas sucursais têm
e pelas obrigações assumidas em nome das associações sem personalidade personalidade judiciária quando a obrigação tenha sido concluída com um
responde o fundo comum e, na sua falta ouInsuliciência. opatrimónio daquele português ou com um.estrangeiro domiciliado em Portugal (art" T, n° 2). Neste
ou daqueles que as tiverem Contraído OU dos restantes associados (art" 198", caso. apesar de () neto ter sido praticado pela administração principal e não pela
nOs 1 e 2. cci sucursal, atribui-se personalidade judiciária a esta última.

c. Quanto às sociedadescomerciais não registadas (çi'r,M(o 6'\ al. d l). há


queconsiderar o disposto nos art", 36" e 386 a 40° csc. .se
II sociedade ainda: Hl. Falta de personalidade judiciária
não estiver constituída, os sujeitos que criem a falsa aparência de que existe
entre eles um contrato de sociedade respondem solidária e ilimitadamente pelas
obrigações contraídas (art" 36°, n° 1, esC). -o mesmo acontece quando for 1. Sanaçâo e cessação
acordada a constituição de uma sociedade comercial e os sócios. iniciarem a
sua. actividade antes da celebração da escritura pública. pois que o art° 36", Quando a acção foi indevidamente instaurada pela ou contra a sucursal.
n° 2, esc manda aplicar a essa situação as disposições sobre sociedades civis. agência, filial. delegação ou representação, a falta da sua personalidade judi-
nomeadamente o art" 997°, nól, CC,que estabelece a responsabilidade pessoal ciária é sanável mediante a ratificação ou repetição pela administração princi-
é solidária dos sócios. Idêntica responsabilidade dos sócios existe no caso de pal dos actos praticados por aquelas entidades (art" 8°).
sociedades já constituídas, mas ainda não registadas (art°s 38°, 39° c 40° CSC).
Por aplicuçüu unulógica do disposto no art" KO, talvez ,e possa defender que. sendo
demandado um organismo do Estado sem personalidade judiciária. esta fulta pode ser sunarlu
d .. A enumeração constante do art" 6° não deve ser considerada tax ativa.
com a inrervençüo (lo Estado" a ratificação do processado.
Não se deve excluir que outros patrimónios autónomos também possam ter
personalidade judiciária: é o caso, por exemplo, do Estabelecimento Individual

( ,
A competência e as partes 141

140 ;\ competência e as partes

O que releva para essa aferição é a capacidade; de exercício quanto a esses


efeitos e não quanto à prática do acto que constitui ou integra o objecto. do
Quando aacção foi proposta pelo representante de. uma parte falecida ou
processo. Um exemplo ajuda a compreender esta distinção entre a capacidade
contra uma parte falecida, está falta de personalidade judiciária cessa com a
para produzir aqueles efeitos e a capacidade para praticar este acto: um
habilitação dos sucessores (art" 371") ou da herança jacente (art" 6°, al. a».
inabilitado pode aceitar uma doação Sem encargos (art" 951''' n° I, CC), mas,
como não tem capacidade para dispor do bem doado (art" 153", n° I, CC), não
2. Consequências da falta tem capacidade judiciária para uma acção de reivindicação desse mesmo bem,
porque um dos efeitos possíveis dessa acção é o reconhecimento de que a
A falta não sanada de personalidade judiciária é uma excepção dilatória propriedade do bem não lhe pertence.
rrorninada (art" 494", al. c» que é de conhecimento oficioso (art" 495°). Os seus Exceptuam-se do âmbito da incapacidade judiciária os actos que o incapaz
efeitos são os seguintes: - se houver despacho de citação (cfr. art" 234°, n" 4) pode excepcionalmente praticar pessoal e livremente (art° 10 na I in fine).
0
,

e se essa excepção não for sanável (cfr. art" 8 0


);ela justifica o indeferimento Assim, O menor pode estar em juízo em acções relativas às situações previstas
liminar da petição Inicial (art" 234°"A,n° I); - se a falta dê personalidade
no art" 1270 CCe o inabilitado tem capacidade judiciária nas acções respeitantes
judiciária for conhecida no despacho saneador, ela conduz à absolvição do réu a actos de administração não abrangidos pela sentença de inabilitação (art" í53°.,
da.instância (artOs 494°, al. c), 493°, n" 2, e 288°, n" I, al, c», mas, quando ela
n° t, CC).
'for sanável (cfr. art" 8°), o tribunal deve procurar, antes de proferir qualquer
absolvição da instância, que a administração principai realize essa 'sanação
(art" 265°, n" 2). 2. Estrangeiros e apátridas

A capacidade judiciária dos estrangeiros e apátridas (que depende, como


se viu, da sua capacidade de exercício, art" 9Q, n° 2) determina-se pela sua lei
§ 2°.
pessoal (art° 25 CC). Essa lei é a da sua nacionalidade
0
(art" 31°, n" I, te)
ou, no caso dos apátridas, a do lugar onde tiverem a residência habitual ou,
Capacidade judiciária
na hipótese da sua menoridade ou interdição, a do domicílio Iegal (art" 32",
n° I, CC),
J. Noção

A capacidade judiciária éa susceptibilidade de a parte estar pessoal c IH. Meios de suprimento


livremente em juízo ou de se fazer representar por representante volun-
tário (art° 9°, n° I). Assim, não possuem capacidade judiciária quer os que I. Assistência e representação.
podem intervir pessoal mas não livremente (os inabitirados), quer os que
não podem actuar nem pessoal, nem livremente (os menores e os interditos). A incapacidade judiciária é suprida mediante assistência e representação
(art" 10°, n° I). A assistência por curador supre a incapacidade dos inabilitados
(art" 153°, n° I, CC): a autorização do curador é necessária para os actos
11. Aferição praticados pelo inabilitado quando seja parte activa ou passiva, embora, corno
o inabilitado pode estar pessoalmenteem.juízo, ele possa intervir em qualquer
acção e deva ser citado quando seja réu (art" 13°, n" I).
I. Critério geral
A representação legá I do menor cabe aos progenitores ~art°sI24° e 1877 0

CC), ao tutor (ártOs 124" e 1921°, nO 1, CC) ou ao administrador de bens


A capacidade judiciária é aferida pela capacidade de exercício para a
produção dos efeitos possíveis decorrentes da acção pendente (art° 9°, n° 2).
A competência e as partes 143
142 A competência e as partes

representante for parteconjuntamente corn O representado (hipótese possível


(urt" 1922" CC). A representação legal do interdito incumbe ao tutor (art" 139 0 na situação prevista no art" 1846°; nOs J e 3, Cel.
CC). Se houver representação legal do inabilitado quanto à administração de
um património, a sua representação incumbe ao curador (ar!" 1.54",. n" I, CC). O. Em ulnbos o.s.. casos, a nomeação do curador provisório pode ser
requerida pelo Mini$terlopúblico. ou por qualquer parente sucessível, se o
incapJ\Z for uutor, (1) por esta parte, se o incapaz for réu (art" J ]0, n° 4).
2. Curador .ad filem O Minhtério Público deve ser ouvido, sempreque Mo seja o requerente
(art" I 1°, n" 5)c a nome;l9~() do cl'~aoqr 44 litem Compete ao juiz da causa
a. A representaçâo legal do-menor, interdito.eu ilü).bilitadQ pode caber a (arr' 11", nOs le 3).
Um curador M/irem (ou pl'oyjs6riQ),que e um representante cujos poderes estão
limitados a uma determ.inada11Cçâo. Utiliza-se 11fepre~entílção pelo. curadnr ad
litem em dois casos: quando o incapaz não tem representante legal (hipôtese 3; Sub-representução
prevista no art? 11°, n" I)e quando, apesar de-.o ler, ele estãimpossibilitado
de exercer a representação (situação regulada no art" I I~,n" 3 l. Como meio de suprimento da incapacidade judiciária importa ainda referir
a sub-tepresentação. Seo incapaz não deduzir oposição, a defesa incumbe
b. A Mmeaçãó 00 curador (/11 Uténl pode ser requerida quando o inca- a(j Ministério PublÍcü ou, seele representar o autor, a. um defensor oficioso
paz não tiver representante legal, sitü;1ção que pode se,' vertficada a.nte$ do (art" I3 nOs I e 2): ét! chamada sub-tepreSêiHação,
D
• Assim, antes de o réu
infcio da causa ou na sua pendência. Se a. parte for incapaz, 1J1e~i1i()de facto incapaz se çonsidet;1rna situaçao de revelíü (aliás, em regra, ioopenlllte,
(RC - 8/11/1994, BMJ 441, 409), não tiver representante legale a proposiíura ar[0485°. al. b}) por falta de contestação do seu representante legal, deve ser'
da acção for urgente, pode requerer-se ao tribunal da causa, paralelamente facultuda ao Ministério Público a possibilidade de deduzir QPosiçãq.
à solicitação de designação pelo tribunal competente do representante geral, a COIJ1Q <I sub-representaçãcpelo Ministéno Público ou. pelo defensor
r
nomeação de um curador provisérlo (art" I Q, n° I). Note-se que esta repre- ot'içio~() cessalogo que seja constituído mandatário judicial ao incapaz (art" 15°,
sentação pelo <;urador ad liten: podeseí; requerioil tanto pata fi parte activ.a, n° 3). pode eüncluiNe que o seu regime. nunca éinstitufdo se o incapaz tiver
como para aparte Pil$~iya, porque a falHt de representante legal dq réut,tmbém tnanul1t<Íriq judicial.
pçde ser incomPatível çom a. utgêncj;1 d;1acçãp.
Pode igualmente suceder que$Ó .110 momento dacitac;ão sedescubrn que
o réu é incapaz: nessa hipótese, é.norneado um eurador provisório dessa parte IV. Regime de suprimento
(ares 14~, n? J, e 242". n" 3). Ocurador provisório pode praticar os mesmos
actos que competiriam ao representante geral, mas as SU;1Sfunções cessam logo
I. Menores
que o representante nomeado possa ocupar a sua posiÇão no processo (atlós 11 ",
n" L,e 14", .hQ 2).
1J, Poder paternal
c. O curadorprovisório tª,llbém pode ser nomeado quando o representante
(ou os representantes) do incapaz estiver impossibilitado de exercer os a .. Nó~ trreneres, a incapacidade judiciária ê suprida pelo poder paternal,
seus poderes de representação, Isso pode: suceder em várias eventualidades: p(':);1 tutela ~...pelt\adtt1(nistraçâo dç bens (art°s 12.4" e. 1992P CC). (> poder
-quando, na pendência. da causa.cos progenitores nãoacordam na orientação paternal é exercido por all1pqs os progenitores (an° \90 I 0; nÓ l, ce), pelo que
da defesa dos interesses do menor representado (art<l 12", n'\ 2 e .3).; - quando ambos devem estar de acordo qU;lnto.à propositljrll da acção (art° 10", n";2) e
os iotet~ssê8 do inçapaz se opõem aos lnreresses do seu representante ou aQ~ am bos devem ser citados quando o. menor seja réu (art" 1Oo~ n" 3),. Se hou ver
interesses de outrq representado pelo mesm() representante (art" 1329°, 1')0 1; desacordo dos progenitores acerca dacunveniência de propor a acção, pode
ar tOs 1846", n" 3, 1881°, na 2, e 1956°, al, ç), GC); - fiQUll11ente. quundo o
A competência e as partes 145
144 A competência e as partes

1.2. Tutela
qualquer deles requere,' ao tribunal competente a resolução do conflito (art" 12°,
O menor fica sujeito \l tutela se os progenitores não puderem exerce)' o
n° I). Esse tribunal é o de família (art" 61°, n? I, al. d), LOTJ; art" 146°,
poder paternal (alto 1921 o ee). O tutor necessita de autorização judicial em
aLd), OTM) e o processo é o previsto no art° 184° OTM,
todas as xituações em que ela é exigida aos progenitores (art''s 1935°, n° I, e
Se no decurso da demanda se verificar desacordo entre os progenitores
1938°, n° I ,aI. a),Ce) e ainda para propor qualquer acção, salvo se ela for
acerca da orientação a dar à prossecução dos interesses do menor, qualquer
destinada ú cobrança de prestações periódica» ou se a demora na sua propositura
deles pode requerer ao tribunal, no prazo de realização do acto processual
for susceptível de causar prejuízos ao menor (art" 1938°, n° l, al. e), ee).
afectado pelo desacordo, que providencie sobre a furma de o incapaz ser nela
representado, suspendendo-se entretanto a instância (art" 12°, n° 2). Ouvido o
outro progenitor, quando só um deles for o requerente, e o Ministério Público, 1.3. Administração de bens
o juiz da causa decide de acordo com os interesses do menor, podendo atribuir
O administrador de bens (instituído nos casos previstos no arr" 1922° CC)
a representação do menor a só um dos progenitores, designar curador especial
tem OS mesmos direitos e obrigações do tutor (art" 1971°, n? I, Ce), pelo que
ou conferir a representação ao Ministério Público (art° 12°, n° 3). A contagem
necessita de autorização judicial nas mesmas situações em que dela carece O
do prazosuspenso reinicia-se com a notificação da decisão ao representante
tutor (art" 1938°, n" I. al's a) ee), eC),
designado (art" 12°, n" 4),
Se algum dosprogenitores tiver sido preterido na representação do menor
- isto é, se este for representado por um único deles -, o progenitor preterido
2. Interditos
deve ser notificado para que venha ao processo ratificar. no prazo fixado, os
actos realizados pelo outro progenitor (art° 23°, n° 3 I' parte). Se, nessa ocasião,
A incapacidade judiciária cÍos interditos é suprida pela tutela e peja
se verificar um desacordo entre os progenitores, aplica-se à resolução desse
administração de bens (art" 139° ec), cujos regimes ·são idênticos aos do
conflito o regime constante do art° L2° (art" 23°, n° 3 2' parte).
suprimento da incapacidade do menor.
b. Para determinados actos, os progenitores necessitam, conforme se
dispõe no art" 1889° cc, de autorização do tribunal (de família, art" 61°, n" I,
3. Inabilitados
al. g), LOTI; art" 146°, al. g), OTM). São eles, nomeadamente: - ti representação
do menor nas acções em que um dos efeitos possíveis seja a perda ou uneração
A incapacidade judiciária dos inabilitados é suprida através da curatela
de- bens do menor rart" 18890, n" I, al, a), CC); - a representação do menor
na transacção Ou na convenção de arbitragem referida aos mesmos actos
(anOs 153°, n" I, e 1.54°, n° I, cci Acuratela incumbe ao curador, que pode
intervir no regime de assistência ou de representação. O curador assiste o
(art" 1889°, n" I,. aI. o), ee) e ainda, por maioria de razão, na desistência e
inabilitado quanto aos actos de disposição de bens entre vivos e a todos o.s
confissão do pedido; - a representação do menor para convencionar ou requerer
demais actos que forem especificados na sentença de inabilitação (art? 153°,
em juízo a divisão de coisa comum ou a liquidação e partilha de patrimónios
rio I, ee); o curado r representa o inabilitado nos actos de administração do seu
sociais (art° 1889°, n° I, al, n), ee).
património (art" 154°, n° I. ee). Para instaurar quaisquer acções em
c. Se. houver necessidade de fazer intervir um menor numa causa pendente representação do inabilitado, o curador está sujeito ao regime do tutor do
e se não existir acordo dos progenitores, pode qualquer deles requerer a interdito (art" 15óo ee: cfr. art" 1938°, n" J, al's a) e e), ee).
suspensão da instância até à resolução do desacordo pelo tribunal competente Mesmo quando o inabilitado seja representado pelo curador, aquele
(art° 12°~n° 5), que é o de Família (art" 61°, n° L al. d), LOrJ; art° 146°, incapaz pode intervir na. acçãoproposta em seu. nome e deve ser citado quando
aI. d), OTM). A hipótese refere-se às situações de intervenção espontânea. seja réu (art" 13°. n" I). Em caso de divergência entre oeurador e o inabilitado,
tendo-se escolhido, algo criticavelmente, uma solução semelhante à do prevalece a orientação daquele representante (art° 13°, n° 2).
desacordo dos progenitores quanto à propositura da acção (cfr. art° 12°, n" I).
A competência e lIS partes 147

146 A cOll'lfler<'lrcia e as partes

de disposição estatutária, pela administração ou por quem por ela for designado
(art" 1630, n° I. CC). As sociedades em nome colecti vo e as sociedades por
§ 3°. quotas são representadas pelos gerentes (art''s 192", /)01. e 252 na I,
0
, csq,
as sociedades anónimas pelo conselho de administração (art" 405", na 1, esC)
Representação judiciária c as sociedades em cornandita pelos sócios cornanditados gerentes (artOs 470 0
,

na I. e 478° CSC).
Nas acções entre a pessoa colectiva ou a sociedade e o seu representante,
I. Noção aquelas entidades são representadas por um cur.ador ad [item (art" 21 na 2). 0
,

Este regime justifica-se pela impossibilidade de o representante assumir, nesse


A representação judiciária é arepresentação de entes que estão submetidos caso .. as suas funções de representação.
a uma representação orgânica ou que podem ser representados pelo Ministério
Público.
3. lncapazes c ausentes

Os incapazes e ausentes são representados pelo Ministério Público em


11. Regime-
todas as acções que se mostrem necessárias à tutela dos seus direitos e
interesses (art? 17 n" I; art" 5", n" 1, .al. :c), LOMP). A representação
0
, pelo
I. Estado Ministério Público cessa se. for constituído mandatário judicial do. incapaz O~I
ausente ou se. tendo.o respectivo representante Iegaldeduzidooposição a essa
o Estado é representado pelo Ministério Público, sem prejuízo dos casos representação. o juiz. ponderado o interesse do representado, a considerar
em que seja permitida a representação por mandatário judicial próprio (art" 20°. procedente (art° 17°. na 2: art" 50. na 3, LOMP).
na .Í) ou em que as entidades autónomas possam constituir advogado que
Intervenha no processo conjuntamente com o Ministério Público (art" 20°.
n" 2). Segundo o disposto no art" 4 na I. LOMP, o Ministério0
, Público é
4. Incertos
representado JiO Supremo Tribunal de Justiça pelo Procurador Geral da
Rcpüblica, lias Relações por Procuradores-Gerais-Adjuntos c nos tribunais de Quando a acção seja proposta contra incertos, por o autor não ter a
I" instância. por Procuradores da República e Delegados do Procurador da possibilidade de identificar os interessados directos em contradizer, eles são
Repúblicu. representados pelo Ministério Público (art" 16°, n~ I; art" 5°, na I, ai, c), LOMP),
excepto se. este representar oautor, caso em que é nomeado um defensor
A represéntação pelo MInistério Público não abrange a chamada 'adlninistra\~'tl indirecta oficioso para servir como agente especial do Ministério Público naquela
do Estado . ixto é. as pessoas colectivas que, embora realizundo tarcfus udministrativo«. agem
representação (art" 16°, n" 2). Bsta.represerttação cessa quando os citados como
com autonurnia administrativ. c financeim: RC c 1131J9XH.CJ HXI2, 50.
incertos se apresentarem para intervir como réus e a sua .lcgltfmidadese
encontrar reconhecida (art? 16°, na 3).
2. Pessoas colectivas e. sociedades

Sobre A representação das pessoas colectivas e das sociedades. há que


5. Pessoas judiciárias
distinguir entre as acções dessas entidades com terceiros e as causas entre elas
e o seu representante. Nas acções com terceiros, as pessoas colectivas e ilS As pessoas judiciárias - isto é, as entidades que só possuem personalidade
sociedades são representadas por quem a lei ,os estatutos ou o pacto social judiciária -são representadas da seguinte forma: - a herança jacente, por um
designarem (art" 210• na I), como. por exemplo. por uma comissão liquidatária
(STJ - 3/12/1991, SMJ 4J2; 394; STJ - 7112/1994. BMJ 442. 121). ou. na falta
A competência e as partes 149

148 A competência e as panes

11. Incapacidade judiciária strlcto sensu


curador (art" 22°: art" 2048°, n° I, CC); - as associações sem pcrsonali-
dade jurídica, pelo órgão da administração (art" 22°; artOI95°, n° I, CC); - I. Cusuísmo
as comissões especiais, pelos administradores (art" 22°; art" 2000 CC);
- as sociedades civis, pelos administradores (ar(022°; art" 996°, nUI, CC): - as A incapacidade judiciária stricta sensu pode verificar-Se relativamenteà
sociedades comerciais não registadas, pelas pessoas a quem as cláusulas do parte activa ou it parte passiva: quanto ao autor, essa incapacidade existe quando
contrato atribuam a representação (art? 22°); - o condomínio, pelo administrador o incapaz propõe uma acção sem à intervenção do seu representante legal QU
(art° 22°; art" 1437°, n° 2, CC); - ali sucursais ou equivalente. pelos directores, a assistência do seu curador; quanto ao réu; essa, 'incapacidade surge quando é
gerentes ou adrninistradores (art" 22°). proposta uma. acção contra um incapaz sem a indicação pelo autor do
representante legal ou do curador daquele demandad.o. Este ónus de indicar o.
representante legal do réu incapaz que é imposto ao autor é uma decorrência
do ónus de preenchimento dos pressupostos processuais: como lhe incumbe
assegurar todos esses pressupostos, cabe-lhe indicar o representante da parte
§ 4". passiva.

Incapacidade judiciária 2. Ereitos


e vícios da representação judiciária
a. Logo que o juiz se aperceba da incapacidade judiciária stricto sensu,
incumbe-lhe, oficiosamente e a todo o tempo, providenciar pela regulari-
zação da instância (art° 24°, n" I; cfr. também art" 265°, n" 2). Essaincapacldade
sana-se mediante a intervenção ou citação do representante ou do curador do
I. Incapacidade judiciária lato sensu
incapaz, (arr' 23°, n° 1).
Quanto à actividade exjgiqa ao tribunal para procurar obter a si1nação
o hão suprimento daincapacidadejudiciária pelo representante legal ou
desse vício, há que considerar duas situações (art" 24°,. n° 2):- seo vício afectar
pelo curador determina a. incapacidadesrrrcro sensu da parte. O suprimento
a parte, passiva, o tribunal deve ordenar a citação do réu em quem o deva
daquela incapacidade pode ainda ser afectadcpor urna Irregularidade de
representar, para que este ratifique ou renove o processado anteriormente; - se
representação, se o incapaz estiver representado ou assistido por sujeito diverso
o vício respeitar ii parte activa, o tribunal deve ordenar, para. esse. mesmo efeito;
do verdadeiro representante ou curador, ou por uma falta de autorização, se o
a notificação de quem a deva representar. A Incapacidade fica sanada se o
representante ou o curador do incapaz não tiver obtido a necessária autorização
representante do incapaz ratificar os actos anteriormente praticados. no processo
-judicial. A incapacidade judiciária stricta sensu encontra-se prevista. como
ou se os renovar no respectivo prazo (art" 23ó, rio 2).
tal, nos artOs 23°, n° I. e 494°, al, c); a irregularidade de representação nos
art''s 2)0, n° I, e 2886, n? I, al, c); a falta de autorização ou deliberação b. Se o representante não ratificar nem renovar os actos praticados; a
nos arlos 25°, nOI ,288°, n° 1. à). c). e 494°, al. d). incapacidade não se pode considerar sanada.Tmportando verificar quais as
A representação judiciária pode igualmente padecer de uma irregularidade cousequências daí decorrentes, Elas são distintas consoante o vício afecte a
de representação, se o Estado, à pessoa colectiva, á sociedade, () incapaz, o parte activa OU passiva.
ausente, o incerto ou a pessoa judiciária não estiver representada pelo ver, Se o representante do autor não sanar a incapacidade. o processo não pode
dadeiro representante, ou de uma falta de autorização ou deliberação. se esse continuar quando esse vício afectara própria petição inicial (que fica sem
representante não cuidou de as obter previamente. efeito): neste caso, releva a falta de um pressuposto processual e o réu deve
A competência e /1.•1' partes 151
150 A competência e (105, partes

de praticar o acto. É o q\H;1SUCede quando, por exemplo, Ó representante de uma


sociedade requer, sem a necessária deliberaçãosccíal, uma providência cautelar
Ser absolvido da instância (art''s 494", al. c}, 493°, n" 2,e 288°, n" I,a!. cj),
(RC- 11711086, C1 86/4,64).
Mas se o representante do réu nãosanar a incapacidade, então falta apenas
um pressuposto de um acto processual e a contestação e os demais actos
praticados pelo incapaz ficamsem efeito, pelo que se aplica ao incapaz, se 2. Efeitos
ele não tiver mandatário judicial constituído, o regime da sub-representação
(art" 15u, n" I). Se a parte estiver devidamente representada, mas o seu representante não
tiver obtido .alguma autorização OU deliberação legalmente exigida, o tribunal
Se O representante falecer ou ficar impossibilitado de exercer a 'representação, '~ ins- deve fixar oficiosamente. O prazo dentro 00 qual o representante. a (leve obter,
tância suspende-se até ao .conhecimcnto pela contraparte da designação de outro representante suspendendo-se entretanto a instância (artOs 25°, n° I, e 265°, n02; cfr., quanto
(art''s 176°, n" I, al. b)2'part~ c 21\4°, n" I, al, bl).
;10 tutor, art" 1940". n? 3, Cel. As, consequêrrcias da não sanação do vício são
distintas consoante ele afecte .ouutor ou o réu.
c. Se o incapaz for o autor e se o processo tiver sido anulado desde o
Se () yÍcionão (01' sanado e respeitar à parte activa, falta um pressuposto
início, o prazode prescriçãc ou de caducidade, mesmo que já lenha terminado
processual, pcllí. que o ,rélJê absolvido da instãncü~ (art"s 25", n .1 J~ parte" 494°,
Ó

ou termine nos dois meses subsequenteu anulação, não se considera


à
al. d), 493°, n" 2, e 2~$0. [\0 }, alo t:)). Se a falta, de autorização ou deliberação
completado antes de findarem essesdois meses (art" 14", n? '3). É o regime que
afecmr o represeniarrreda parte passiva e não for sanada, li. contestação fica
também resulta dos artrs 32r., n" 3,e 332°. J, eCo .,0 sem efeito, (urt" 25°, n° 22" parte) e o incapaz; beneficiada sub-representação
do Ministério Público se não tiver mandatário judicial constituido (art" 15°,
n'' I).
lU. Irregularidade de representação

L Casuísmo § 5"~

A irregularidade de representação verifica-se quando a parte, embora esteja Lítisconsórcíoínlclal:


representada ouassistidanãoc está pelo-verdadeiro representante nu curador, modalidades

2. Efeitos 1. Sistematização geral


o regime de sanação da irregularidade de representação é serüelhante ao
da incapacidade Judiciária stricto sensu, ral como o são os efeitos da sl)a não .I. Autonomia da legitimidade plural
sanação (artrs 23°' e 24°).
A pluralidade de partes que caracteriza o Iitisconsõrclocoincide. em
princípio, com uma pluralidade de titulares do objecto do processo (5,. Pode
IY. Falta de autorização ou deliberação assim dizer-se que, relativamente à legitimidade singular dos titularesdaquele
objecto" o Iitisconsórclo representa urna legitimidade, de segundo grau, isto é,

1. Casuísrno 151 Sobre o lirisconsórcin, cfr., IU\ doutrina portuguesa, Castro Mendes, Breves reflexões sobre
() conceito de liusconsõrcio. JF 19 (1955), 269 ss.t Palma C<II}o,\. 'Ensaio sobro olitisconsórcio
Verifica-se a falta de autorização ou deliberação quando p representante (Lisboa, 1956), 57 ss, c 14.9, ss,.

legal ou o curador do incapaz não as tiver obtido antes de propor a acção ou


c

.ti competência e as panes 153

152 A competência e as pa rtes

sivameute da vontade dos interessados, o Iitisconsórcio necessário é imposto


ao autor' Ou autores da acção.
urna legitimidade que se demarca, através de critérios específicos. entre esses
titulares, de molde a determinar as condições em que todos eles podem Ou
devem ser partes numa mesma acção. A legitimidade plural não Ç:, por isso, .3. Reflexo na Jícçãô
um conjunto ou somatório de legitimidades singulares, mas uma realidade COIl1
características próprias. Atendendo aos reflexos na. acção, o litísconsórciopodeser sim,gJzs ou
redpmc(j O lirisconsórcic simples é aquele em que a pluralidade de partes não
implica um aumento do número -de oposições entre as partes, Por exemplo,
2. Consumpção da ilegitimidade plural numa acção de reivindicação proposta contra dois réus existe apenas, apesar
dessa plurulidade passiva, uma únjca oposição entre o autor e os réus ..
A verificação de que os litisconsortes, oLi qualquer deles, não s~Q I~ O Iitisconsõrelo-recfproco é aquele em que a pluralidade de partes
do objecto do prOC.e$SQconsome a análise da legitimidade plural: se se conclui determinaum aumento do número de oposições entreelas.Por exemplo: numa
que essas partes não são titulares daquele objecto. não interessa analisar se é acção de divisão de coisa comum proposta I?or um comproprietário contra os
admissivel entre elas qualquer Iitiseonsórcio. Perante essa situação, o tribunal dois outros comproprietários verifica-se uma oposição entre cada um desses
.deve proferir uma decisão de improcedência relativa a todas ou a algumas das coruitulares C qualquer dosourrospois que o que for atribuído a um MIes não
:partes. Por exemplo: r» autor demanda dois devedores; um deles demonstra que podeser CQTlCeôidüa qualq.uer outro.
nada tem a ver com o crédito alegado pelo autor; o tribunal deve absolvê-lo
do pedido, A intervenção de um terceiro através do incidente de oposição (que se encontra prevista
nos a.r.l·S342°, ti" I. e 347°) deterrnina igualmente UD1 Iitisconsórcio recíproco: cfr. especialmente
:artU 0461'. n" 2..

I[ Classificações
4. Conteúdo da. decisão

I. Enunciado Atenderrdt) ao conteúdo da decisão, o litisconsórcio pode ser 'Unitário ou


simples, O litisçqm;l)fC:;io uni.tátio é aquele em que a decisão tem de ser uni"
o litisconsórcio é susceptível de várias classificações: pode-se classi- forme para todos os ljtisconsortes. Por exemplo: numa acção de anulação do
ficá-lo quanto à origem, ao reflexo na acção e ao conteúdo da decisão, ou seja.
casamento proposta contra ambos os cônjuges (cfr.ar(°s 1631 0, al. a), e 1639°.,
pode-se atender, nessa classificação, ao momento da proposituruda acção, as
na I. eC), a decisão (de procedência ou deimprocedência) tem de ser a mesma
consequêrrcias da sua verificação na acção, ao momento do proferimento da
para ambos os cônjuges.
decisão e aindaà posição dós \jtisê(Jn~ortei;, Dado que se referemú realidades
No litíscons6rcio simpl0s,pelo contrário, a decisão pode ser distinta para
disiintas.tessas classificações podem combinar-se entresl.
cada um dos litisconsortes. Por exemplo: se o credor instaurar uma acção contra
dois devedores conjuntos, pode ser proferida uma decisão eondenatória de um
Z .' Origem do lirisconsóreio dos demandados e uma d~d.~.ã.() absolutória do outro réu.

Quanto à sua origem, o litisconsórcio pode ser voluntário ou necessário.


No litisconsórcio .vóluntário, todos os interessados podem demandar ou ser
5. Posição ults panes
demandados, mas não se verifica qualquer ilegitimidade se não estiverem lodos Atendendo li posiçãe elas partes, o litisconsórcio pode ser conjunto OU
presentes em juízo. No litiseonsôrclo necessãrio, tod~)s os interessado« devem
subsidiário. O litisconsórcio conjunto verifica-se quando todos os litisconsortes
demandar ou ser demandados, originando a falta de qualquer deles uma situação
de ilegitimidade. Assim, enquanto o litisconsórcio voluntário decorre exclu-
.A competência e as partes 155
154 A competência e as partes

Assim. quando, PQr exemplo, o autor é credor de uma obrigação solidária. só


acti vos formulam conjuntamente o pedido contra odernundado ou quando o o Iitisconsórcio entre todos os. devedores soHdárlQ$ asse/1,l.u:aque a decisã« que
autor formula o pedido conjuntamente contra lodos os litisconsnrtes dernau- vier a .se.tpMúida Vale rdatiWmeilte. a (odos eles (an° 52.2° CC), Isto ~,se. o
dados. O litisconsórcio subsidiário pressupõe que o objecto da causa sóé credoc demandar apenaS um dos devedores solidários,ele pode o])ter a C(jJ1-
apreciado em relação a um litisconsorte activo ou passivo se um outro autor (iení,lção do réu na totalidade do crédito (arr's 512°, nOI, e 518 CC; art 27°, 0 0

ou réu não for .c(H)sider~ldü t1tular.a(;tivo üüpassiv(),. desse ll1esÍll() Qbjeclo, n° 2.), mas essa decisão condenatória não é oponfvelaos demais devedores
solidários (art" 522 CCl.
Q

Outros exemplos de litisconsórcio cQn1U!U; '1<\acção de investigação da maternidade ou


lII. Utiscons6rcio 'Voluntário
parentidadc..u decisão !lá produz efeitos contra os: herdeiros OU Itgmáriüs quando eles tenham
,ido demandados fart", I~ IY". n" .4. e J 873" 00); .n.a.acção proposta contra o devedor (QU fiador),
li decisão condenarória s6 produz Meiros contra (J fiador (oúdevedurjse este sujeito tiver sido
I, Critério üfetidot demandado (:ül'; I (135". n·~ Ic .4. te); sobre nutras situações de litiscousórcio vnluntário,
ctr. nr("s 497°. n" L S07°. n" 1.~2()O,649°. n° I. 6~O°, 1405°, n02 (cfr, RE "28/411.99+.,
Sempre que existe uma pluralídade de interessados, activosoupassivos,
BMJ 436, 46'h e 207W'-,n" I (cír. RC" 2312/1 Y94. BMJ 4Cl4. (92), ec.
opera,quanto n.C()lÍstltuiÇão de liÜ$cc)J1sôtclo. \.Im'l rêgrl\ de c()Ínc:idênçl:.\, p()is
q\.le a acção podê ser proPQsti). pot lodQf) essG~ tit~tlí,lI·C.~ou contra \q(lüs ele.~
(art" 27°, n° I I"p'írte). AS$itn, se .. por exemplo, füt'ém vários Os dcvcç!çlrcs de 3. Litisconsórcio conveniente
uma prestação, oeredor pode sempre demandá-los conjuntamentc (mesmo que
a obrigação seja solidária,.art<> 517°, nO I, CC). O J0:i1'con~rcio~Q~!1t~rÜt, No Iitisc()f1sórcio conveniente, a parte que o constitui visa alcançar uma
verifica-se por iniciativa da parte ou partes da causa: são os vários. interessados vantagem que não poderia obter sem essa pluralidade de partes, activas ou
que decidem instaurar a acção conjuntamente. é o autor da. acção .que resolve passivas .. Quer dizer: a constituição do litisconsórcio é uma condição indis-
propor àac.çã.ó contra vãrios réus e Cesse autor ou o réu que opta por promover pensável para. alcançar um certo resultado ou efeito.
li iríter\iençã.ó de .óutnls partes durante 11 pendênçút da úCÇU(h .são vários os motivas que podem deteruílnaf olitisconséreie collveÜiellle.
Apesar de o Iitisconsórcio voluntário se cncünt.tarna di$p())lihilidade d.as Este Iitiscoüsórcin veriflca-seemrelaçâo a ôbrigaçQesconjunms, poís que, $(:\11)
partes, que o podem constituir ou não, iS$onã(lsigiiifica que ..11 SU<1 constituição a panicipação de tpdps (}S credores ou deve(\()tes, a acçãos6 pode ser pro~
seja irrelevante, isto é. que a parteque o pode conformar possa consegvir os cedenre nu glltita"parte respeituilte ao sujeito presen\e em juizo (art" 2]0,
mesmos benefícios e vantagens com ou sem a sua conformação .. Basta atentar n" I 2' parte), Assim, por exemplo, seocredor dedofs devedores, no regime
nadiferença quanto ao âmbito subjectivo do caso julgado para se concluir que de eonjunção, instaurar a acção apenas contra um deles, só pode obter a
o litisconsórcio, mesmo quando voíuntãrio, não é .. normalrnente.Trrelevante ou sua condenação na respectiva quota-parte do montante da dívida (cfr. STJ -
indiferente, ao queaindaacresee que, nalguns casos. a produçãe de deter- 22/6/1982 .. BMJ 318, 447J,
minados efeitôs depende da presença. de cettns pártes 0111 jUÍÜh Assim, (j Verifica-se igualmente um caso dé litiscoll~orcioc:onvenieI1té nó cãso
Iitisc()nSórdo voluntário é comum q~lalld(! visa apenas esteilder o âl1lbiHl de urna dívidu comunicável entreeênjuges casado» no regime desepatação de
subjectivo do caso julgado;~. conveniente quando procura ,lssegürnl' li produção bens, pois que •.sem a dellHlllda de.ambos, não pode set obtida a tOtalidade dO
de certos efeitos. crédito e não podem.ser eXecutad()~ bens próprios do cônjuge não del11andadQ
(í,lrt"s .I691"e 1695", n"2, CC), Suponha-se um credor de uma dívida c()ntraíôa
por um dos cônjuges (casados segundo o regime de separação) para ocorrer
2. Litisconsúrcio comum
aos encargos normais da vida familiar; esta dívida é comunicável (art? 1691°,
N() Htisconsércio comum, a parte. que O conforma pretende apenas integrar n° I, ul., b), CC), mas, se a acção for proposta apenas contra um dos cônjuges,
determinados sujeitos no âmbito subjectivo do caso Julgado, numa situação em o credor só pode obter a condenação deste em metade do montante do cré-
que, sem a sua participação na acção. eles não ficariam abrangidos por ele.
r
í !

A competência e as partes 157

156 A contpetênciu e tis partes

b. As acções destinadas à efectivação de responsabilidade civil decorrente.


de acidente de viação devem ser instauradas contra a seguradora e o sujeito
dito e não pode vir a executar os bens próprios do outro cônjuge (art" 1695°,
civilmente réspon~ável,quando o: pedido formulado ultrapassar os limites.
n° 2, CC;),
fixados para o seguro obrigatório (art" 29°; n" L, al. b), DL 522/85, de 31/12;.
CfL RC" 14/5/1996. CJ 96/3. 10). Se o responsável for conhecido e não
Se os cônjuges forem casados segundo qualquer outro regime de hei)' (comunhão de, bens,
ou comunhão de adquiridos), ás acçõesrelativas à dívidas comunicáveis devem ser propllst:íS beneficiar de seguro válidoe eficaz, essas acções devem, em regra, ser
contra ambos os cônjuges (urt" 28°-A. n" 3 l. porque ,por essa 'dívida são responsãve is os bens propostas contra esse responsável e o Fundo de. Garantia Automóvel (art" 29°,
comuns do casal é. na fafw ou insuficiência deles. os bens próprios de qualquer dos cônjuges n° 6, DL 522/8j).
(urt" 1695°. n" I, CC).
1;',,, civilmente responsável. nos termos, do ati°29"; n" I, ;jLbl. DL 522/85, deve considerar-
-sé niHi '''li ocondutor do veiculo. mas também o dono deste que não prove a sua utilização
IV. Litisconsérclo necessário abusiva: RI? " 1lI5/199/í, (J 9613, 225: se for conhecida a identidade do condutor do veículo
causadordo acidente l' a do seu proprielário c seeste não tiverseguro valido 'e eficaz, o lesado
deve- dcrnandd-Ios conjuntamente '(fom o Fundo de Garantia Automóvel: RP - 101111995',
BMJ 443, 439. O art" '29°. nP I, al. b), nr. 522/K5 deve, por interpretação extensiva, ser
I. Critérios aferidores
aplicado {tS situações emque. emhora o pedido formulado naacção não ultrapasse os limites
fix.ildns pm'l o seguro nbrigutúrio. ti soma do montante, desse pedido COLn o das indemni-
No litisconsórcio necessário, todos Os interessados devem demandar 011
Zi1~ikspagas pela ~eg\lfauOr;I do autor lesado exceda aqueles limites: STJ -17/3/1994.
ser demandados. Os critérios que oríentam a previsão do litisconsôrcio BM.! 435, 797"
necessário são essencialmente dOIS: o critério da índisponibilidadc indivi-
dual (bu da disponibilidade plural) do objecto do processo eo critério da c, A jurisprudência, tem-se divididosobre oregimedo Iitisconsórcio
compatibilidade dos efeitos produzidos. Aquele primeiro critérlo tem expres- nas acções de preferência, Uma corrente maioriíãria, considerando que a
são no litiscorrsórcio legal e convencional: este último, noIitisconsôrcio referência iJ citaçãodos réus no art" 14109, n" I, CC indicia um litisconsórcio
natural. necessário, defende quê o preferente deve demandar o alienante e o adqui-
rente: cfr,•. I', S" S1J - 14/5/1991, BMj 407, 49$ := ActJ 19 (1992), 16 =
2, Litisconsórcio legal .RLJ t26 (199371994), 330 (c(jh) anotação concordante de Antunes Vare/a);
STJ - ,27/9/1994, BMJ 439, 50216Y.Ern sentido contrário, uh)á oútra orien-
tação entende que () vendedornão temdeser demandado, cfr., por exemplo,
2, I, Â mbito geral
RC - 17/7/1968, RLJ 10J (1968/1969),378 (cornunotação discordante de
a, O lirisconsórcio necessário legal é aquele que é imposto pela lei Antunes Varela); S1:J - 261111J980, RLJ 115 (1982/1983),28 (com anotação
(artOs 28°, n" I, e 28°-A). discordante de Va;: Serra); RC - 6/111994, BMJ 433,624,

Encontram-se exemplos de titisconsúrcio necessãriolcgul nos arlos 2&"-A (litisconsórcio No seütido Jil corrcme cfr. também
dominante, Ré - 1915/1 'pó, C) 7612, 281:
entre cônjuges), 371", 11" I (habiliraçãr; dos sucessores da purte Jalecida) e I m{)". n'' t (acçãiJ RC - l~/5nY77, CJ 77/3, f>9J; RC -
3//í/1977, CJ 7714,795;, RC • 101111\179, 13MJ 2g4, 28!h
deconslgnação Cl11 deposito) e ainda. .no âmbito substantivo. nos anos 419". n" I. CCicxerdcíq RC- 14/511985., 13MJ~47,Aú4"CJ~513, 72:, RC" 29/11 /I911H, BMJ 381. 754;RC - ?'OI6/1990,
do direito de preferência), 496", liO 2. CC (aççãóde indemnização de danos não putrirnunluis BMJ 39&.5118; RP' -2110/1990, BMJ 4()(), 725; SrJ - :24/l.0/llJ91. BMJ 41(). 719; ~P -
pormorte da. vítima: ~L - 617/1994. BMJ 439, 642), 50Uo. n" l. te (acç1l{l de resflllrtsàbilidade 7/1211\191. BMJ 407, 6J9: RP - 3111/1\lY2. Cl 9215. 205; defendendo a orientação contrária,
contra o comitente e o comissãrio), 535°. n'"}, ce (acção relativa a obriguções indivisfveis ' ' 111 cfr, também RE - 161211978, CJ 7H{2. 514; RC" 29/3/1978. CJ 78/2, 738'; RC - 14/10/1 98Q,
pluralidadc de credores}, 608" CC (ncção sub-rogutúria: cfr. RE - 7/3/1991" HMJ 405, 54ó). CJ ,80/4. 3ó: RI' - 4illfí9S1.13MJ :\21, 437: RL" :2315/1985. BMJ 354, 602: RE" 7/211991,
1410.", n" I, CC {;lÇçi).o de preferêuciu). 182:2°. n" I. e 18240', n" 2'. ce (acção de reconhecimento
da maternidade), 1846°. n" I, CC (acção de reconhecimento da paternidade) e 20';)I", n" I. ÇC ,~, Cfr. também Henriques da Graça. A legitimidade na acção de preferência, CJ 84/1. 29 ss.:
(exercíciu dedireitos da herança: cfr. RP -20/11\992. BM) 413. (13), AllcKat da tédaé~ão do Amlmés Ylir.e!a. An, ST1 - 3/311983, RLJ 120 ( 1987/1 9g8-), 22 ss ..
esc.
art" 257°, ,ti" 4, IIacção de destituição de urngerente deve-ser proposur contra ;i S(ickdal!c
e o gerente destituendo: ,RP - 7/6/1994, BMJ 438 .• 551.
A competência e as partes 159

158 A competência e as panes

de separação de bens (urt" I 682°-A. n° I. ce: cfr. STJ , 18111l995, 8M1 443.
282).
8MJ. 404, 528; também quanto ao lugar paralelo da acção pauliana sé entendeu que
o alienaote. não tem de ser demandado, podendo :J acção ser proposta apenas contra o Note-se que o litisconsórcio activo entre os cônjuges pode ser substi-
adquirente: STJ - 1011211991, BMJ 412, 406. Note-se que o urt" 2Ho-A. na versão do art" I" tuído pela proposituru da acção por um deles com o consentimento do outro
DL 329-A/95. de 1.2/12. estabelecia urna orientação concordante COIll li da jurisprudência. (art" 28ô-A, n" I l. o que constitui uma situação de substituição processual
maioriuiria. voluntária. Se II cônjuge não der o seu consentimento para a propositura da
acção, o outro pode supri-lo judicialmente (art" 28°-A. n'' 2), utilizando para.
A orientação majoritária 'merece acolhimento. A oponibilidude da pre- tanto [) processo regulado no art" 14,25".
ferência exercida pelo terceiro tanto ao alienante. como ao adquirente, justifica
que ambos devam ser demandados, ainda que só a este último seja pedida a
c. Relativamente fi demanda dos. cônjuges, o litisconsórcio é necessário
entrega da coisa.
quando o objecto do processo for um facto praticado por ambos os cônjuges,
uma dívida comurricável, um direito que apenas pode ser exercido por ambos
o titular de uma hipoteca constituída pelo comprador não tem de ser demandado na acção
de preferência: STJ " 17/311993. CJ 931'2. I L .
os cônjuges ou UIl1 bem que só por eles pode ser administrado ou alienado,
incluindo a casa de morada de família (art" 28°-A, n° 3). Podem referir-se, como
exemplos, as acções respeirantes a dívidas con traíd as. por ambos os cônjuges
2.2. Lirisconsórcioentre cônjuges
(art" ZW'-A, n" 3 l" parte: art" 1691 o,nol, aI. ai, CC), pelas quais respondem
a. Quanto ao litisconsórcio necessário entre os cônjuges, há que analisar os bens comuns do casal e. subsidiariarnente, os bens próprios de qualquer
O disposto no art" 28°-A, nOs I e 2 (acções que devem ser propostas por ambos dele~ (art" 1695", n" I, te), as acções referidas a dívidas contraídas por
os cônjuges) e 28°"A, n" 3 (acções que devem ser instauradas contra ambos um dos cônjuges mas pelas quais respondam os bens comuns' do casal e,
os cônjuges). Relativamente à propositura da acção, o litisconsórciu entre os subsidiariamentc. os bens pr6pri(r~ de qualquer dos cônjuges (art" :28°-1\,
cônjuges e
necessário quanto a direitos que apenas possam ser exercidos por n" ;l 2" parte; an" 1691°, n" I, alas b), c), O).e é), te). as acções rela-
ambos -ou a bens que só possam ser administrados ou alienados por eles, tivas a bens que apenas ambos Os cônjuges possam dispor (art" 28"-A,
incluindo a casa demorada de família (art" 28°-A, n° I). Para se saber quais n? 3. 3" parte; arr's 16K2". nOs I e 3, 16K2°-A e 1682°-8 CC: cfr., V.g.,;
são esses direitos e bens, há que distinguir entre asacçõesreluti vas a actos ele RP - 12/1/1993, Cj 93/1, 20m. Pode assim concluir-se.vque o Iitiscon-
administração e a <IClOS de disposição. sórcio passivo entre os cônjuges acompanha <I responsabilidade patrimonial
pelas dívidas e a disponibilidade substantiva sobre os bens em causa na
b. Nas acções relativas a actos de administração, o litisconsórcio activo acção.
é necessário quanto aos actos de administração extraordinária de bens comuns
do casal (art" J 6786, n° :3 infine, Ce). Assim, por exemplo, urna acção cujo () art" 2H"·,A, n" ~. aI} referir-se a divida', cmergenres de facto praticado por ~11l dos
cônjuges """ em que se pretende. obter '\II11a decisão suscepuvel de ser executada sobre bens
objecto seja o arrendamento de um bern comum por um prazo superior a seis
COIllII!), ou bens próprios do outro cônjuge, poderia levar a entender que. se o. autor não pre-
anos (que é um acto de administraçãoextraordinária, art" 1024°. n" I. Ce) só
iemlcr assegurar a execução desses bens, pode instaurar a acção apenas contra Ó cônjuge que
pode ser instaurada por ambos os cônjuges. Nas acções referidas a actos de contraiu a dívida, M,!, não assim; '0 princípio
é é o de que o litisconsórcio acompanha a.
disposição, o lijlsconsórcio activo é necessário quando o objecto do processo responsabilidudc patrimonia) pelo pagamento da dívida. peloque, se por esta forem rcxponsávcis
for, nomeadamente,um acto de disposição de bens móveis comuns adminis- I:>CIlS comuns uu bens próprios do cônjuge não 'contratante (art" 1,695" CC). devem ser
-dcrnandatlos ambux os cônjuges. O mesmo acontece quando O' bem integra (ou pode integrar)
trados por ambos os cônjuges (arr? 1682°, n" I, eC), de bens móveis utilizados
o putrirnóni« t:OIl1UI1l: assim. por exemplo, na acção de preferência relativa à compra. de um
conjuntamente por ambos os cônjuges na VIcia doméstica ou profissional imóvel deve demandar-se. além do adquircntc, ,) seu cônjuge, ainda que não outorgunrc na
(art" J 682°,. n° 3, al. a), CC), de bens móveis pertencentes exclusivamente ao respectiva escritura, se os CÚiljUgCS forem' casados no regime de cornuuhüo de bens ou .dc
cônjuge nãoadministrador (art' 1682°, n" 3. al., b), Ce), da casá de morada de "üquirit.los(STJ - 10/1211985. BMJ 352, 285).
família (art" 1682°-A, n" 2, ee) e ainda de bens imóveis próprios ou comuns
e de estabelecimento comercial, salvo se os cônjuges forem casados no regime
r r r r r r
A competência e as partes 161

160 A competência e as partes

4. Litisconsórcionatural
o htiseonsõroio necessário definido pelo art°Z8°·A, 0° 3, também pode:
operar depois da díS501ução, dedatªção denulid4dc ou anulação do c4sa- 4.1, Orientação legal
mento.T'ara tanto basta que o acto tel1ha$ido prat1cíld.o pelos ex-côujuges
a.. O lirisconsórcto necessário natural é aquele que é imposto pela
00 que, apeSar da cessação do casamento, ainda Mo .se tenha realizado realização do efeito útil normal da decisão do tribunal (art? 28", n" 2).
a partilha de bens entre e1é$..Em qualquer dos casos, podesuceder que A concretização deste referido efeito útil normal suscita muitasdificuldades,
também deva ser demaodadQ, se qualquer dosex-cõnjuge» ff3spüosáveis Podeentender-se queo lItiscOllsórcianaturálsó exi~te quando atGPartição
tiver contraído novü cas:;tmel1tO,o seu cônjuge actual, i10mea,damellte por- dos vários interessados pôr .acções dí~tint:;tsimpeçl\ Ul11acomposlçãq definitiv.a
que imp()ft:;tdelimimr 0$ bens do ex-cônjuge perante os bens do 110Vo casal (:jotre <\S partes dil.causa 171, Por exemplo: numa acção de diyi,são de CoiSa
ou os benspróprios do seu c.:Ôllj\lge(dI'. RL - I()/411981, BMJ 311, 4n == comum ~õa il1tervçnçâQde tod.O$os interessados pode compor definitivamente
:= CJ 81/2, 190), <.1situaçãoentre todos os corrrproprietãríos, porque qualquer divisão realizada
entre apenas alguns deles é necessariamente incompatível com uma nova
divisão entre quaisquer outros.
3. Litiseonsôrcio c.:(H1veoclonal Mas também pode defender-seque o liusconsórcio é natural não só quando
a repartição dos Interessados por .acções diferentes impeça a composição
o Jitisc.:on$órtio necessário convencional é aquele que é i rnposto pela definitiva enírea« partes, mas também g'üalld.Of.lrepartição dos lliteressadQs
estipulação das partes de um negócio jurídico (art" 28°, n° I); Para a [)i)t acções distlllttis PO~sltob.stata uma $oluçãQunifortn.e entre todos os .int~"
determinação do âmbíto deste Iitisconsórcio convencional há que analisar o tessados. M~jrl1.p()rexetTlplü. fla acção de allulação do testamento, a sentençª
regime das obrigações divisíveis e irrdivisíveis. ~l ptqferir ~ó produz o seU efeito útil normal coma intervenção de todos os
Sea obrigação for divisível, o Iitisconsôrcio ê, em princípio, voluntário, interessados, porque só essa participação comum assegura uma decisão
porque, se não estiverem presentes todos os interessados activos ou passivos, uniformeemte eles (STJ - 28/2/1975, BMJ 224, 235).
otribnnal conhece apenas da quota-'parte do interesse ou da responsabilidade
dos sujeitos presentes em jurzo (art" 27°,n° I 2" parte). Assim, quanto a uma b. Segundo a dettrrição.Iegal do artO2$Ó, nÓ2 2~ parte, O ekito útí! nor-
obrigação divisível, oIitisconsôrcio só é necessário se as partes estipularam que mal é ntingidó quando sobrevém urna regulação defihitivadasit\lü~ão concreta
o seu cumprimento apenas é exigfvel por todos os credores ou a todos os dasjlütté$ (e sóddas) quanto ;).0objeCto do processo. De:açotdo c(>m arnesmã
devedores. definição. o efeito útl.ll1orrn~1 pod~ser conseguidoninda que não estejam.
Quanto à obrigação indivisível, (por natureza, estipuluçâuTcgul nu presentes todos os interessados oudíto de outra forma, a ausência de um deles
convenção das partes), há que distinguir entre a plurulidade de devedores e a nem sempre constitui um obstáculo a que esse. efeito possa ser atingido: é o
de credores. Se. forem vários os devedores, O art" 53Y, n~ I, CC estlpula que que resulta do facto de nessa deflrriçãn xe admitir expressamente anão
o cumprimento só pode ser exigido de todos eles, pelo que, quantouesta vinculação de todos os interessados.
hipótese, vale um Iitisconsórcio necessáriu legal e, por isso, o caso não se pode Assim. deve concluir,$e que decorre do an° 28", 0.9 2, 2~ parte, qUe,oa.
enquadrar no litisconsúrcio corrvencional. Pelo contrário, se houver uma determinação do litiscousércio, relev.a ape.lla~a.evclltuálid.ad.e dea senn;nça não
pluralidade de credores, o art" 538°, n° I, ·CC dispõe que qualquer deles pode ç()mp()r d~fitiitivamente a sitlJação jurídica d.as partes, por esta poderse.r
exigir a prestação por inteiro, resultando daí que, na falta de estipulação das t(f~çJada pelu .soluçãü dada numa outra aqção entre optras partes. Deste modo,
partes, o Iitisconsórcio de vários credores de uma obrigação indivisível é o c.(itério legal impõe que, numa acção de divisão de uma coisa comum, seja
meramente voluntário. Por isso, relativamente a uma obrigação lndivisivel, Q
(7i Assim. }.1Wl1w! de Andrade, Signiflcudo da expressão "efeito útil. normal" da decisão, na
htisconsôrcionecessãrio convencional só se verifica ~e for estipulado que essa
doutrina dp litisconsércio. SeI 7 (1958),185 ss..
obrigação apenas pode ser exigida por todos os credores.
A competência e as partés i63
162 A competência e as partes

Mas, em consonância com a referida orientação jurisprudencial, O litis-

necessária a intervenção. de todos osinteressados (RP - 8/7/1982. CJ 82/4.2(5), consórcio natural tambémse impõe quando a presença em juízo de todos os
pois que qualquer outra divisão da mesma coisa afectará sempre a divisão inieressados seja necessária para garuntir Uma decisão un iforrne entre ele~, isto
efectuada na primeira acção; o mesmo se. pode dizer quanto a urna acção de é, quando a ausência. de qualquer dos interessados possibilite urna nova acção.
alteração da regulação do. poder paternal, que, quando seja proposta pelo sobre a mesma relação e possa originar decisões contraditórias entre eles
Ministério. Público, deve sê-lo. contra ambos os progenitores (Asxento/S'I'I (STJ - 9/2/1991. CJ 93/ I, 143). Segundo esta concepção, são exemplos de
6/95, de 10/ 10). Em contrapartida, esse critério não impõe o. litisconsórcio numa litisconsórcio natural as seguintes situações: a acção de declaração. de nulidade
acção de anulação. de um testamento, dado. que a sentença (absolutória ou da venda de um imóvel deve ser proposta po.r todos os herdeiros do vendedor
condenatória) proferidanuma acção entre alguns dos sucessfveis não é (RL - IH/2/1976, CJ 76/1, 239); a acção de declaração de nulidade, por
incompatível com qualquer outra decisão proferida numa acção com outras simulação. da alienação. de um lote de acções deve ser instaurada contra todos
partes (contra, STJ - 28/2/1975, BMJ 224, 235). os simuladores (STJ - 16/7/1985, BMJ 349, 405); a acção. de preferência deve
ser proposta por todos os contproprietãrios (RP - 3/4/198'6, BM! 356; 440;
4.2. Orientação. jurisprudencial contra. RC - 3/1 I/l9S I, CJ 81/5, 55): a anulação decontrato-promessa de
compra e venda deve ser requerida por todos os promitentes compradores
Importa reconhecer que a aplicação. jurisprudencial do regime do litis-
consórcio. natural tem seguido. uma orientação diversa daquela. que resulta da (STJ - 18/2/1988. BMJ 374; 4(0): na acção. na qual se pede à declaração de
Iei. Assim, de acordo com essa orientação, o. litisconsórcio natural verifica-se nulidade de um contrato de compra e venda é; necessário demandar todos os
quando, sem aparticipução de todos os interessados. não é possível uma. lntcrvcnicntes nesse negócio f'RC -17/4/1990, 13MJ 196, 447). Pode assim
composição definitiva dos .seus interesses, o. que corresponde indiscutivelmente dizer-se que a jurisprudência tem imposto o Iitisconsórcio natural quer por
à situação prevista no art" 28°, n° '2. Por exemplo, a acção de divisão de coisa razões de computibilidade lógico-jurídica, quer por motivos de coerência
comum tem de ser proposta por um ou vários cornproprieiãrios contra LOdos prática.
os-demais (RP - 8/7/1982, C.J 82/4, 205); a acção de prestação de contas deve . Esta orientação jurisprudencial é de duvidosa conjugação com a. definição
ser proposta por todos os interessados, porque li falta de qualquer deles pode legal doart° 2So, n° 2 2" 'parte, porque, segundo esta, o que releva é que a.
impedir que á decisão proferida seja definitiva (cfr., v. g .• nc -
10/5/1994, decisão entre as panes da acção (qlJaisquer que elas sejam) não possa ser
BMJ 437, ;'590); a acção de reivindicação de urna fracção autónoma de um afectada por 1I11Üt olltr,lprofetido, liUITIaoutra causa .e não que todos 0$
imóvel em propriedade. horizontal, com fundamento na sua ocupação. <:<)n10 interessados devam estar em juízo 01,1 que entre eles tenha de verificar-se uma
parte comum, pelos condóminos; tern. de ser proposta contra todos. eles (STJ • decisão uniforme. Além disso,aquel,a orientação pode defrontar-se com
15/1211981, BMJ 312.258 ::: RLJ 117 (1984/1985), 349 (com anotação algumas dificuldades práticas. Uma delas refere-se à possibilidade dó conhe-
concordante de Antunes Vare/a)): li acção. em que se pretende a declaração cimento oficioso de certas matérias. Suponha-se, porexemplo, que o tribunal,
de que o logradouro do prédio é parte comum deste (e não propriedade usando da faculdade. prevista no. art" 2860 ec, suscita oficioxarnente questão
à

exclusiva deum condórnino) deve ser proposta por todos os demais condóminos da nu] idade do aeto jurídico numa acção em que não são partes todos, os.
(RC -28/11/1989, BMl 391, 7(7); a acção de petição de herança indivisa tem interessados: de acordo com a orientação jurisprudencial sobre o litisconsórcio.
de ser proposta não só contra o possuidor dos bens, mas também contra o seu natural, essa nulidade só pode ser apreciada, mesmo. oficiosamente, com a
alienante (RP - J9/1/J990, BMJ 396,430); a acção intentada pelo Ministério presença de todos esses interessados (assim expressamente, STJ - 28/4/1987.
Público para alteração da pensão de alimentos devida a menor deve ser proposta BMJ 366, 488). () que cria um dilema de difícil solução: ou o tribunal deixa
não só contra () devedor dessa pensão, mas também contra o. progenitor que de apreciar essa nulidade pela falta de algum interessado na acção, oque se
tem a seu cargo a guarda do menor (Assento/S'TI 6/95, de 10/1 O). traduz numa importante restrição dos seus. poderes de conhecimento, ou o
Sobre o litisconsúrcio natural nas acções de prestação de contas. ctr. também S1'J • tribunal convida as partes fi promover a intervenção cios interessados ausentes
26/6119110, BMJ 298. 27<); RL - 2.8/11 Il 98.0. CJ 8015. 25: RP· IO/SII')!; .•. BMJ ~37. 412:
RE - 121711986. BMJ 360. 675: ST1· 9/211993. CilS 93/1,143.
r r r r f

A competência e as partes 165


164 A competência e as partes

igualmente unitãrio, porque a causa não pode ser julgada procedente quanto
(cfr. art° 265°, n° 2), o que significa colocar na disponibilidade delas a à um dos cornproprierãrios e improcedente quanto a qualquer outro. Outro
apreciação efectiva de uma matéria de conhecimento oficioso. exemplo: ~e váríoss.ói.:iQS de urna mesma sociedade propuserem autono-
mamente várias,tcções de anulação de urna mesma deliberação social
Quanto a este exemplo, importa ainda acrescentar o seguinte: o réu seriu a parte que deveria (cfr. arr" 59°, n° 1., eSC), todas elas devem ser apensadas naquela que
.ser convidada a promover li intervenção dos restantes interessados, porque seriaele que
tiver sido primeiramente instaurada (art" 60°, n° 2. CSC); este regime des-
beneficiaria com a absolvição do pedido decorrente daquela nulidade (cfr,'artQ 493°. nO 3): mas
se o réu se recusasse a promover aquela intervenção, o autor' deveria ser absolvido da instância, tina-se exactamente a assegurar uma. decisão uniforme entre todos os litis-
por ilegitimidade da parte passiva decorrenteda preterição deum lilisconsórcio necessário, quanto consortes.
.à refcridu nulidade (cfr, anOs. 494°., al. e), e 49jo. 11° 2). Este estranho resultado rnustra que .1 A extensão do caso julgado a terceiros é frequentemente determinada por
construção que a ele conduz não é aceitável.
razões relacionadas com ti coerência entre situações jurídicas (lu com a har-
monia entre contitulares de uma mesma situação. É por isso que, por exemplo,
o caso julgado favorável ao fiador beneficia o devedor (art" 635°, n° 2, CC)
V. Lltísconsõrcío unitário ou que (1 caso julgado a favor do devedor ou do credor solidário se estende
aos demais devedores ou credores (arr's 522° e 531 CC). Sempre que se. prevê
0

l. Enunciado uma tal extensão, admite-se um lítisconsórcio voluntário .•porque ela demonstra
que nem todos os interessados têm de estar conjuntamente em juízo, e unitário,
o litisconsórcio unitário é aquele em que a decisão do tribunal tem de ser porque, caso estejam, a decisão tem de ser uniforme para todos eles.
uniforme para todos os litisconsortes (8). Este Iitisconsõrciocorresponde a
situações em que o objecto do processo é um interesse indivixível, pelo que
sobre ele não podem sei' proferidas decisões divergentes, 3. Litisconsórcio necessário
A uniformidade da decisão relativamente aos litisconsortes pode resultar
quer da identidade doobjecto, quer de uma relação de prejudicialidade entre
o litisconsórcio unitário também pode ser necessário. Suponha-se que o
presumido paiinstaura, contra o filho ea mãe, uma acção de impugnação da
vários objectos. Quanto à primeira hipótese, pode dar-se como exemplo a
paternidade; esse lírisconsércic é necessário (art" J 846~, n° 1., eC)e unitário,
decisão proferida entre os sócios que propuseram a acção de anulaçãe da
porque essa acção de impugnação s.ó pode ser procedente ou improcedente
deliberaçãosocial ou entreos cônjuges demandados na acção de anulação do
simultanoamentecontrà ambos os demandados .
.casamento; relatlvamente.ã segunda, vale COrno exemplo a conformidade
Por VCZCi;, à origem necessária do litiseonsórclo fundamenta-se preci-
necessária entre a decisão condenatõria do devedor é do fiador e entre ti
samente na necessidade de garantir a uniformidade da decisãoentre todos os
crmdenação do causador do dano e da seguradora. Como se verifica', o
interessados, Não é difícil verificar que são várias às situações de litisconsórcio
litisconsórcio unitário pode conformar-se tanto em casos em que ele é volun-
necessário legal que se fundamentam na necessidade de assegurar uma decisão
tário, como em situações em que é necessário.
uniforme entre todos os interessados (cfr., v. g., artOs. 419°, n° I, 500°, n° I,
535'°, n° I, 1822°, nO 1,1824°, n° 2, (846°, n" I, e 2091°,no I, CC). Expressão
2. Litisconsórcio voluntário do Iitisconsércionecessário baseado na uniformidade da decisão é também o
Iitisconsórcio natural (art° .28°,n° 2).
São pensáveis situações de litisconsórcic unitário voluntário. Se, por Convêm acentuar, nó entanto, que nem todo O Iitisconsórcio necessário é
exemplo, vários c.prnproptietários propusetcm urnaacção de reivindicação unitário. P()I' exemplo; sI:] aspattes estipularam que a ç1íviúa só pode ser exigida
contraum detentor, o Htisconsórcio é voluntário, porque a acção podia ter sido de ambos os devedores e se, portanto, construíram uma situaçãnde litis-
proposta por um único dos cornproprietários (art" 1405°, n° 2, CC)" mas é consórcio necessário convencional (cfr, art° 28°, n° I), isso. não impede que,
IK) Sobre este Iitisconsórcio, cfr., em especial, Barbosa Moreirn, Liuxconsórcio unitário (Rio
se um dos devedores demandados puder invocar contra o credor a cxtinção da
1972).
A COI7IP,'Têl/cia e as purtes 167
l66 A CIIl111l1!Têni'ia e as portes

instaurar a acção de dívida e atribuir a umaa posição de credor principalea


sua quota-parte da dívida, um dos réus seja condenado e () outro seja absolvido outra a de credor subsidiúrio.
do pedido. No lado passivo, () litisconsorte süb~idiáriQ e o principal encontrar-se-ão
frequentemente numa situação de oposição mú(ua (cada uni deles considerando,
por exemplo, que o' outro é O responsável pelo acidente de viação). Nessu
4. Momento da relevância hipótese. o litisconsórcio subsidiário é rambémum 1i!isçonsôrciórecíprocü.

o litlsconsórcio unitário releva no momento do proferimcnrq da decisão


2. Extensão doutrináriq
(mesmo que seja parcial Ou ittterlocutúrra); pois que ele implica o proferimento
de uma mesma decisão pan( todos os litisconsortes. Note-se que o litisconsórcio A ildmi:ssibilidade do litisconsórcio subxidiário. colocao PNblenia de
unirárionão impõe. em si meSlliO,a presença de nenhum interessado em juízo saber se é sernprecx igfvel que um dos autores se apresente numaposição
(5$,0 depende exclusivamente do carácter necessárlo ou voluntário do I itis- subsi<lidria perante Um outro ouse é necessário que o autor defina tomo
consórcio), pelo que só háquegarantir a uniformidade da decisão relativamente subsiqiário um dO$ derrrandados, Isto é, 'importa averiguar se o autor, em vez
aos Iitisconsortes que se encontrem na acção no. momento do seu proferimento, de se colocar' numa PQsição subsidiária perante u(1) outro dernandante, se pode
EssesHtisconsortes podem nãoser as partesinioiuis da aéçãü,. quer porque apresentar numa relação de alternatividadé colli ele (lu se o àutot,em vez de
algumas delas se afastutam da acção. quer porque alguns terceirosIntervieram demandar um réu numa posição subsidiária. pode demalldar enlalternaüva
nela durante .a sua pendência. vários réus.
Não parece que' a .atribuição por um dos autores de LIl11a posição dê
subsidiuriedade perante um outro demandante ou que a. concessão pelo autor
VI. Lttísconsõrciosubsidíáríc e alternativo de urna idêntica posição a um dos demandadoscorresponda aurn ónus dessa
parte. Na mesma situação ele duvida Sobre o titular do objecto do processo
ltt'r.art° 31 °_8 ilífifle) .. pareceadrnisstvel quenenhum dós autores se coloque
L Previsão legal na posição de subsidiatit)dflde per'àrí.ti: o outro e que nenhum d\1s réus seja
qualificado COInO subsidiário, poderrdo antes Ü$ vários aütore~ oU rétrs .apré-
Segundo o disposto no art? 31"-B, admitida ufonnulação
é subsidiâriá do
sentar-se ou ser apresentados numa relação de altematividade,
mesmo pedido por autor ou contra réu diverso do que demanda ou demandado c
a título principal, desde que exista 11l11adúvida fundamentada sobre o sujeito
do objectodo processo. Isto significá que ê admissível tanto um lirisconsôrcic
§ 6<l.
em que U!Tl dos autoressõscrã recoülreçido corno titular activo de.uma situação
jurldica st) .um outro demandanje nfto o· for, cornouml it isconsórc io ern que se Litisconsõrcio inicial:
pede que um dos réussôseja condenado se a acção não for procedente quanto consequêncías
a Uni outro demandado.
Suponha-se, por exemplo, que, numa acção deinderunizcção decorrente
da colisão entretrês veículos. oautor não pode determinar qual dos demandados I. Constituição do litísconsórcio
foi o verdadeiro responsável pelo acidente; esse autor pode instaurar a acção
contra a seguradora de um dos condutores a títu!o principal .G. para a hipótese I, Iniciativa do autor
de II seu segurado nãó ser considerado responsável pcloucidente, formular o
mesmo pedido contra a seguradora do outro. O líusconsórcio subsidiário o litisconsórcio voluntário encontra-se nadisponibilidade da parte, que
também pode ser activo: se;. por exemplo, duas. sociedades pertencentes ao o pode constituir OLl não. Diferentemente, o Iitiscorrsõrcio necessãrio não
mesmogrllpo tiverem dúvidas sobre quem é o verdadeiro credor, arribas podem
I r r f

A competência e (1.1' partes 169


168 A competência e as fi(/ rtes

decisão de absolvição óainstândil (art" ;2690, n" 2), quer pelo cônjuge dcrnan-
peh)1ite qualquer opção da parte, pois que aacção tem de ser proposta por todos dado (art" 325°, n" I l,
ou contra topos O;; interessados, Importaassim determinar como pode uma parte
Na consideração de que a intervenção principal ~tócônjuge não dernandadoprovocada pelo
ultrapassar uma recusa dos dernais interessados em proporem, conjuntamente
cônjuge réu (art'' 325". 11" J) representa urna forrnu de sanução da ilegitimidade do cônjuge
com ela, U acção: tem-se entendido que essa parte pode instaurar sozinha a demandado parte-se 00 prineiplo de que li responsabilidade dos bens comuns do casal pelus
acção e, simultaneamente, requerer a intervenção principal, como autores, dos dívidax comunicúveis (arl' 16'15", h"l. CC)nJoes(á. na disporribilidade do credor. que, por issll,
demais interessados (art" 325°, n'' l rcfr. RC - J8f1211984,i3MJ 342., 446: não pode uccionur "penas 11m dos cônjuges, desistindo da garantiudad» pelu possibilidade de
RC - 11112/1990, CJ 9015, 67). executar ü parrimónio cOI1)PI1l.P;)t·çilldq de outra base e theg,lridü a diferentes conclusões,
ctr. Al1>ctl!i (li!s l,ú\" C6dlgüde Processo Civi) "J1qtaIJoI J (Coimbrn 1948). 454 s ..
A pluralidade de partes reJntivamenteàs quais o Iítis<;.oI1sorció éImposto
pode ser aetivaou passiva. Normalmente, () Iit!~c()tisÓl'cio é iI11P(lst() II um4
Nas demais situaçõe~ dê Iitiscot\S<ÍrciQneccssário, a ilegitimidade (activa
pluralidadc deauttlres ()U li um autor relativamente a uma plura\id4qe de réus.
ou passiva) é sanável mediante a inwrveoç;ão pí'iricipul provocada da parte cuja
Mas o Iiti~COn$órçio também pode ser Imposto a umnpluralidade de réus ou a
falta gema ilegitimidade (art°2('>9°, na I). Essa itttervellção é.admissivel mesmo
um réu quanto a. uma pluralidade de autores: é o que sucede quando a dedução
depois do trânsíto emjulgado do despachosaneador que apreciou a ilegi-
de uma excepção peremptória ou a apresentação de um bedidàTeeonvenCional /
timidade, situação em que a instância se (enOvl! Carf2Q()O,hO 2).
só é admissível por vários réus ou contra váríosautores. Nestescasos, () réu'
da acção deve solicitar a intervenção principal dos demals co-réüs OLi dos
restantes eu-autores (cfr. art" 32.5°, n" I).
U.PQ~jção dos Iitísconsortes

2. Efeitos da preterição
I. Distinção
a. Quanto aos efeitos da. sua não ennsrituição, no caso do llhseonsórcio
voluntário verifica-se apenas o desaprcveíternentodecertos benefíCiós ÔLI o art° 29° estabelece a seguinte diferença emte o litisconsõrcío vol unlário
vantagens, mas na hipótese do litixconsôrcionecessário cOhfürmil-se (l ilegi- ec nccesxtiriocnquuntono litisconsórcio nec.essãtio a$ partes se. apresentam
timidade da parte (activa ou passiva) que está em [uízo dexacompunhud« dos externümentêçomo uma iinica parte (art" 29° Ia patteJ, O() linsconsórcin
demaisIrueressados (cfr. ,ln° 28°, n° 1), Assim, se, I1UIl1,1 .siwaç50 de litis- vb!ul1t.át'io as partes mantêm uma posição de au(onomiu (;IrtO 29" 2" parte).
cO(lsôrcioconvenie!Ue, o credor demandar apenas um dos devedores conjvntos, Assim, segundo eSJe critério, as. partes de um Jitisconsótuio n.ecessári(jcQr)1.\.Jn-
ele só obtérna condenação do réu no cumprírnento da sua quota-parte (art"27°, gam de um <Je~tin~)comum e as de um lhisconsércío voluntário ri1allt~l1illtna
nOI 2" parte); pelo contrário, afalta de qualquer-parte, activa ou passiva, numa posição deautonomia,
hipótese de litisconsórcio necessário determina sempre a ilegitimidade da parte
ou partes presentes em j uízo (art" 28", n" I). 2. Concretizaçâo

b. A ilegitimidade proveniente da pretetiçàode litiscon~ôrci() necl:!ssál'i() A distinçiló estabelecida no urt" 29°justifícu os pjfetent0s l'égitnê$ que se
é sanável, embora haja que distínguiro IitisconsórCi() relativo ~\()S cônjuges das encontram n(\.!.eiell1 matéria de {alta de citação (urt" 197"), de separação
do
demais hipóteses. pedido JéconVencl!lh<t1 que envolve aintervenção de terceiros (art" 274°, n" 5),
No litisconsórcin entre Os cônjuges, a llegitimidaclcuctiva é.samível de confissão. de~istênçial)U transacção (art'' 298°), de aproveito do recurso
mediante a obtenção do consentimento do outro cônjuge ou o seu suprimento interposto pO.I'um dos litiljóôl1s0rtes(att" 683<1, n° I) e de exclusão pelo
(art" 28°_A,n° 2): a .ilegitimidade passiva é. sanável através du jntcr- recorrente de algum dos litisconsorres vencedores (art" .684", n° 1). Uma outra
venção principal do cônjuge não presente, provocado quer pelo autor da acção consequêncla.da autonomia entre os litisconsottes voluntãrios encontra-se no
(arr" 269Q, 11" 1), mesmo nos 30 dias subsequerues ao trânsito em julg.\do da
li competência e as partes 171

170 A competência r: as partes

Hl, Decisão daacção


decurso dós prazos processuais; que correm separadamente para cada uma das
partes. I. Critério legal

A autonomia dos litisconsortes voluntários possibilita qlle. umdelesseja testemunha de o art" '2<)0 estabelece que, no lirisconsórcio necessário, as partes se
urna comparte. <, <.jUC. cont(ldo.. só pode suceder rclutivnmente .u tactos sopre .,s quais o aprcsenrarnexrernamentc como uma única parte e que, no lirisconsórcio
litisconsorte não possa ser chamado a depor COl11o parte (arl"617°), voluntãriu, elas mantêm uma poslçãc de autonomia. Esta distinção parece
concretizar-se em algumas díspcsições avulsas. Assim, no litiaconsôrcio
A comunidade constituída pélaspnt.te~ de um 1iti:.;qjll,~qtCiü necessário voluntário.çada parte pode desistir ou confessar a quota-parte do pi:)dido ou
verifica-se também quanto aos pressupostos pr{jCessUl\Íf;,no sentido de que esse transigir sobre essa quota-parte (ar\" 2,98'\ n" 1), Q reéurso interposto por alg1üua
litiscOns6rck) exige que eles estqjam preenchidos em relação a. lodos os das p:lrtes venCÍdi\s não aproveita, em regra, aos nãp recorrentes (an° 683°i
nti~consOttes. Na verdade, se fultar um dos pressupostos que afecta um dos n°l)co recorrente pod~cxçluir do recurso alguma das partes vence-
!iti$con$ortcs·c se isso determinar a sua. absolvição da instância (por exemplo, doras(attO 6Mo. n" I);em ccntrapartlda, no litisconsôrcie necessário, a
pQtinçapacidade judiciária. do réu não sanada pelo autor, artQs 494°. a). c), e confissão. desistência ou ttansaeção só podem ser realizadas com a jnter-
288°, n" I. al. cj), 05 demais Iiriscnnsortes deverão ser ab5(1IViÔ1ispçJ.r venção de todos os Iíttsconsortes (nrt" 298", n° 2), o recurso interposto
ilegitimidade, dado que aquela absolvição os tnrrtouparres ilegítimas; Si:)Q por qualquer dos Iitisconsortes aproveita sempre aos demais (art" 683", n? I)
litisconsómio se verificar na parte activa, é o réu que di:)Yera ser aJjso)vidq da e. () recorrente nunca. pode excluir nenhum dos litiscõnsórtes vencedores
instância, com base najlcgitimidade dos .Mote$. (urt" 684", n" 1).
Aparclltemeí1te; e;;t~ regirnedetnonstra que, rlqljtiscon$órçío voluntãrl«,
a decisão podeser diVersa pam cada um .d()~ Iitisconsortes e que, no litis-
3. lrrelevâneia cOnSÓrcio neecs~;irio, tal nunca se pode verificar. Importa testar a correcção
desta conclusão.,
Nem sempre releva, quanto à posição recfproca das parte~jadhtinçãq
entre o.lifiseonsórclo voluntário e o necessário, Asshíl, por eJ\.emplü, as citações
e notificações devem ser realizad.as a cada um dos litjsGonsprtes, indepen- 2. Orientação doutrinária
dentérnentê deentre eles existir um Iitisoonsórcio voluntário ou necessárío
a. O ütisconsdroto unitário é aquele.am que.a decisão proferida pelo tri-
(cfr. ürlo J 9Jó proémio).
bunal tem de ser uniforme para lodos os Iitisconsortes, Como se verificou. esse
Aorige11J dl1(ítíscons6rcio também.élrrelevanre quanto.aoaprovelramentn
litisconsórcio é independente da sua origem veluntária ou necessádil, oque
da contestação de um dos litlscansortes, pois que esta aproveita sempreaos
decorre da eitcunstârrcia de a uniformidade da decisão entre os Uttscpnsortes
demais réus, .não relevando se o litísconsõrcio éneces.sârlo ou volumádo
não seI' condiCiOriada pela origem do lítiSÇon$ótcio"Pôrexemplo: o litis-
(art" 485". al. a». Idêntica extensão vale, por maioda de raz'ttü. pata O ca~() de
c()nsorciü necéss;irto c()nve·t1CiOnal entreos devedores (çfr. art" 28°, n° I) não
algum doslirrsconsortes não cumprir o ónus de impügnação (;1rIO 490°. n° I):
Qbsta. à ÍliVO(;<!ção pôr um dCl~s do pagamento da sua quota-parte; o litis-
também nesta hipótese o Iitisconsorte que llãoÍlnpug,l1Ou certo façto beneficia
consótç(ü VOluntariQ entre Os sócios nurnaucçãn de anulaçãode uma deli-
da sua impugnação por um outro réu.
beração social (cfr. art" 59°, n° I, esC) requer a uniformidade da decisão quanto
Também quanto à ptodução da prova pelas partes e àsua apreciação pelo
a todos, pois que a deliberação não pode ser válida quanto a uns e inválida
tribL(p.:íl,nâO há qUe distinguirerrtre o lirisconsórcio voluntário e o. necessário.
quanto a outros. Seria, por iSSQ, estranho que a lei procurasse assegurar a
A prova de um facto comum aos htisconsortes beneficia todos eles, excepto
uniformidadeda decisãoapenas 110 liÜscP(lsórcip tlece$.sárioe dól~de~jstissé
no caso deo facto ser confessado por um deles (art0353°. n° 2, c:;C), A apre-
sempre no litlsconsóróio voluntário, porqueo ]itiséonsórcio necessário pode nãu
ciação da prova de um facto é igualmente uniJátia para todos os litisconsortes
(cfr. STl - 27/J 11l990, BMJ 40 L, 536).
í

A competência e as partes 173

172 A competência e as partes

necessário. mas apenas aquelas elil que esse Iitiseonsórcio, além de necessário,
é igualmente unitário.
implicar a homogeneidade da decisão e o litisconsôrcio voluntário pode não a
dispensar. Finalmente. a exclusão de um dos litisconsortes recorridos pelo recorrente
(de art" 684", n" 1:23 parte) sóé pensável nos casos de Iitísconsórcio simples,
Assim, nos preceitos gue,se referem ao c()nt~údod~1 deçisã.o e que
ouseja, nâo éadrnissfvel nas hipóteses de litisconsórcio unitário. Se, por
procuram diferenciaras situações em que ela deve se)' uniforme para todos OS
exemplo, a sociedade demandada recorrer da decisão que anulou a deliberação
litisconsortes ou pode ser distinta para cada um deles, onde se fala ele
social, esse recorrente não pode excluir do recursoum dos sócios que propôs
Iitisconsórcio necessário ou voluntário, dever-se-ia antes falar de litisconsórcio
a acção, porquequalquer que venha a .ser a decisão do tribunal derecurso, ela
unitário ou simples. Esta verificação coloca o problema da possibilidade de
é sempre extensível a todos Os sócios (cfr. arr' 61°, n° 1, CSC). Assim, quando
correcção pelo intérprete das referências legais ao Iitisconsórcio necessário ou
o art" 684°, n° I 2a parte, exclui a restrição subjectiva do recurso a alguns dos
voluntário.
litisconsortcs vencedores quando o lirisconsorte for necessário, está realmente
a referir-seao litisconsórcio unltárlo.
b. O Intérprete não pode. considerar o pensamento legislativo que não
Em conclusão: o que releva para a aferição da extensão do recurso
tenha na letra da lei Um mínimo de correspondência verbal (art" 9°, n" 2, CC),
interposto aos. não recorrentes, e para a admissibilídadeda restrição subjectiva
pelo que não é possível considerar, sem mais, que, onde se fala de litisconsõrcio
do recurso a alguM dos lltisconsortes vencedores rtão é.a origem voluntária ou
necessário ou. voluntário, se. deve ler litisconsôrciounitárlo ou simples. Mas é
necessária do litisconsórcíe, más o seu Carácter unitário ou simples. Portanto,
legítimo procurar na. lei indícios de que, quando esta se refere ao Iitiscorrsõrcie
nos preceitos acima analisados (os arr's 683°, nOs I e 2, e 684°, n<>I), <1
necessário ou voluntário, se está verdadeiramente a referir ao litisconsórcio
referência, feita ao litisconsôrcic necessário ou voluntário deve entender-se
unitário ou simples.
corno realizada ao Iitisconsõrcio unitário.
Nesta perspectiva, é especialmente elucidativo o estabelecido no art" '683°,
n" 2, al. a), quanto à adesão ao recurso: esta adesão, que a lei só considera C. Nos termos do art" 298°, a legitimidade para a confissão, desistência
adrnissfvel no âmbito do litisconsórcio voluntário, requer que o interesse do ou transacção depende da origem voluntária ou, necessária do Iitisconsórcio,
aderente seja comum ao do. recorrente. Portanto, esse preceito refere-se, de Trata-se indiscutivelmente de um preceito que se refere ao. conteúdo da decisão
modo implícito, a um Iitisconsórcin voluntário unitário: ê afinal a uniformidade (neste caso, da decisão homologatória desses negócios, arr" 300°, n° 3), pelo
da decisão entre os litisccnsortes, decorrente do seu interesse comum, que que também sé pode perguntar se a .distinção nele traçada entre. o litisconsõrcio
justifica a adesão ao recurso, pelo que esta. não é admissível se o litisconsércio flecessário e (j voluntãrio não deve ser conv(jlada para a oposição entre o
não for unitário. Sintomaticamente.a extensão do recurso aos nãorecorrentes litisccnsórcio .utlitátio e simples,
nos casos referidos no art° 683ó, n° 2, alas b) e c), baseia-se explicitamente na O arr' 298°, rio I, estipula que, nos casos de litisconsórcio voluntário, é
dependência do interesse do não recorrente em relação ao interesse do livre a confissão, desistência e transacção por cada um dos Iítisconsortes,
recorrente ou num fundamento que é comum a todos' os devedoressulidários quando limitada ao interesse de cada um deles. É nítido que este preceito não
condenadosr oque também mostra que o verdadeiro fundamento dessa extensão se refere a qualquer' litisconsórcio voluntário, mas apenas àquele .ern que o
é o litisconsórcio unitário que se verifica entre todos os vencidos. Portanto,o interesse do litisconsorte é autonornizável do interesse das demais compartes,
art" 683", n° 2, não se Tefere a .qualquer litisconsõrcio voluntário. mas apenas isto é, ele respeita apenas ao Jitisconsórcio simples. Assim, a validade da
àquele que é unitário. confissão, desistênciaou transacção não depende do carácter' voluntário do
Também a extensão do recurso ao não recorrente que se encontra prevista litiscorrsõrcio, porque, ainda que ele seja voluntário, aqueles negócios não são
noart" 6$3",ri(j I, deve ser objecto de uma interpretação restritiva: este preceito adrnissíveis quandoo litisconsórcío for unitário. Suponha-se, por exemplo, que
estipula que o recurso interposto por um dos vencidos aproveita ao litisconsorte dois sócios propõem uma acção de anulação de uma. deliberação social; apesar
necessârio que nãoé recorrente, mas parece evidente que essa extensão só é de o litisconsórcio ser voluntário (cfr. art° 59°, n" I, CSC), nenhum dos autores
possível na medida em que O interesse entre os litisconsortes seja comum. pode desistir do pedido, porque a decisão da causa tem de ser uniforme para
Portanto, o art" 683'\ n° I, não engloba, todas as situações de .litiscousórcio
A competência e as partes 175
174 A clJlflpelêricia e as partes
------~-------------

acessória, prevista nos art"s 330° a 341°,e a intervenção principal, regulada nos
todos os autores, isto é, porque o Iitisconsórcio entreesses dernandantes é urt?s J20°,~1 329 e j42.°a 359°). Quanto à intervenção
0
principal, ela ainda
unitário. comporta duas subespécies: a intervenção principal stricto sensu (art''s 320\1
O art" 298°, n" 2. exclui a confissão, desistência 011 transacção proveniente. a 329°) c a 0P<1siçÍio(artÓs 342" a 359°).
ou concluída por um dos litisconsortes necessários. Também aqui se com,
Rclunvnmcntcà anterior versão do Código de Processo Civil. as principais alterações
preende que o critério de validade do negócio processual não deva ser () da
introduzidus pela reforma na regulamentação das ,intervençõesdé terceiros foram ti supressão
origem necessária do litisconsórcio, mas o da uniformidade da decisão, pelo da nomeação il at~ã" (:Irt'~320' a, 324" CPC/61), do chamamento it 'àu(oria(arIOs art?s 325" a
que esse preceito não deve ser interpretado corno referindo-se.u qualquer JN' CPCI(,I) c uochamamento i! demanda (art', 330' a 3;34' CPC/61), a introdução da
litisconsórcio necessário, mas apenas àquele que é unitário, A própria lei admite intervenção acessória provocada (ar"'s 330· a 333°), que possui uni âmbito de aplicação par-
cialíncnte coincidente Ci1n1.II untig» chamamento à autoria. e a trunsforrnação dosembargos de
a desistência do pedidcpor umdes litisconsortes nccessúrios: o art" .419°,
terceiro PU!)l" das IlH),lal.idlldes U[l oposição (art"s 351°,,359'). Mantêm-se na nova versão do
n" I. CC dispõe que, pertencendoo direito de preferência simultaneamente a Clldigo de Processú Civil ti intervenção principal (agora regulada nOS art"s 320° a 3,29°}, O
vários titulares, ele Só pode ser exercido em conjunto por todos, mas admite ass!sté,itia (art"s )35"a .341°) c a ,()pl);;içl(~ (art~s 342' a Q5<l"), ,
que algum deles declare, que não o quer exercer; se esta declaração for realizada
na acção pendente, configura-se um caso de desistência do pedido por um
litisconsorte necessário. Portanto, o critério para aferir a validade da desistência 2. Intervenção espontânea e provocada
e da confissão do pedido ou da rransàcção na qual intervém um únicodos
litisconsortes é o carácter unitário ou simples do liliscon~órçÍü, A intervenção principal ou acessória pode $er\):~[lQnlâne-ª, (cfr.art\>s 32Qo
a 324°, 335 a 341°, 342"a 3460 e 35 l" a 359°Y9l.L.PJ9Y9Qàda (cfr. art''s 325":á
0

329°; 330° a 3j3." e 341" a 350"). É, eSJ?,$?n1-~ne~se o: terceiro decide intervir


,I'{HI/l/e ;1'[((/ na acção pendente: é provocada,se o terceiro écharnado a intervir
§ 7°. por qualquer das partes da acção. A interyçIl~ª9....w:Qy.ocada pode destinar-se a
conseguira inclusão do terceiro no âmbito subjectivo do caso julgado da
Intervenção de terceiros decisão da acção (cfr; arr's 328°,332°, n° 4., e 349°. n" 2) ou a obter, além disso,
oauxflic da parte acessória na defesa a realizar na acção: (cfr.nrt" 330", n? 1).
Em certos casos, a intervenção provocada pode conduzir à substituição da parte
inicial pelo terceiro chamado (cfr" ,artÓs346°, n" I, e '350°, n"l) ou àexelusão
I. Modalidades
de uma parte inlcial (cfr. .art" 3.29°, n" 3).

l. [nt,;rvWo ace~ria e principal Quanto ao' Ministério Púhlico. prevê-se uma intervenção provocada ex lege -no ano 334',
n" L NQ proccs"" civil, diferentemente, do que acontece nó processo, de trabalho (cfr.1itIÓ 29·,
Estando pendente urna acção, pode nela intervir um terceirtigue mostre aI. h), CPT)" não se conhece qualquercaso de intervenção provocada pelo próprio, 'tribunal,
interesse em ser abrangido pelo caso julgado da decisão ou em opor-se à
apreciaçãc da causa favoravelmente a uma das partes e pode ser chamado a A lei não prevê ql+l\lquercaso em que a intervenção provocada CO[-
intervir nela um terceiro que qualquer das partes tenha interesse em incluir no responda a um dever das partes da acção, mas conhece várias situações em que
âmbito subjectivo do caso julgado da decisão. Esta intervenção (orna () terceiro uma intervençãoespontânease verifica na sequência do cumprimento pela parte
parte da causa e, consoante a posição que ele passa a ocupar nela, pode torná- do dever de, levaro conhecimento da pendência da causa a um terceiro
'4k!;lmá p2.rte acessória.iséo terceiro apenas assume li posição de auxiliar de 'interessado (lltisdenuntiatiD). Tal dever recai, por exemplo; sobre o locatário
um autor ou de um réu, ou uma ~rilieipal, se Q terceiro faz valer um (art" 103&". al, h), CC), Q comodatãrio (art" 1135°, aI. g),CC), o depositário
direito próprio ou Se lhe é exigido O cumprimento de urna prestação ou o (art" I i&7°, al. b), çC) e o usufrutuãrioIart" 1475° CC). .
reconhecimento de' Um direito, Há, assim, que distinguir entre a intervenção
r
Acmll{Jerênc;(/e as portes 179

178 A competência e as purtes

seja prejudicial relati varnente ü apreciação do direito de regresso contra o


terceiro.
assistentes podem fazer uso de qualquer meio de prova, mas, quanto à prova
Como a intervenção acessória provocada não permite que o terceiro
testemunhal, só podem completar o número de testemunhas facultado ~ parte
interveniente assuma 'a qualidade ele parte principal, .não é possível que o réu
principal (art" 339°; sobre esse número, cfr. art°s 632", 633", 7X9° e 796°,
ela acção formule qualquer pedido (mesmo SUbsidiário) ele condenação desse
n° 1). O próprio assistente pode ser chamado a prestar depoimento na acção
terceiro lia satísfação do seu direíto de tegressQ.Ú terceiro é chamado para
(ares 337°, n° 3, e 555°).
auxiliar o réu. na sua defesa e a ~W) actividade não pode excedera discussão
O assistente pode recorrer da decisão, quando esta o prejudique directa
das questõesque tenham repercussão na, acção de regresso que fundamenta a
e efectivamente (art" 680°, n" 2). A sentença proferida na causa constitui
intervenção (MtO 330°, n° 2). Com este chamamento, o demandado obtém não
caso julgado em rétação ao assistente, excepto sê este alegar e provar, na
só ouuxrlio do terceiro interveniente, como também a vinculação deste. último
acção posterior, que o estado do processo no momento da sua intervenção
à. decisão, de carácter prejudicial, sobre as questões de que depende o direito
(cfr, art" 336'" n" I) ou 11 atitudeda parte principal () impediram de Jazer
de regresso (art" 332°, n° 4). Portanto,a intervenção do terceiro não é
uso de alegações ou de meios ele prova que poderiam influir na decisão final
acompanhada de qualquer alteraçãono objecto da causa e, menos ainda, de
(art" 341 o,al. a)) Ou se mostrar que desconhecia a existência de alegações Ou
qualquer cumulaçãoobjcctiva.
meios ele prova susceptíveis de influenciar adecisão final e que o assistido não
Pela mesm» razão -.à qualidade de I)artl;: acessól'ia do tl;:fcelro i.t1u:rvenieilte
se socorreu deles intencionalmente ou por negligência grave (art" ~41 ", al. h».
., não é posstvel ti substituiçã« do demandado pelo terceiro chamado, Ambos
Deste modo, numa eventual acção proposta pela parte assistida c·qntra o
devem 'permanecer na, acção, O réu cornoparte principal e o chamado COIlll)
assistente, este não está impedidod.e invocar que a condenação daquela parte
parte acessória e seu auxiliar.
se ficou a dever a negligência irnputável a essa 111e:~mÜ pane,
'b, O campo ele uplicação da intervenção acessória provocada é. detere
Se o asxistido decair na acção. oassisrerrtexerá condenado .nurna quota-parte das custas a minado através .de uma dupla delimitação, negativa e positiva. Segundo o
cargo tíuquclec em proporç.ãq com a actividade Q4c tiver exercido no processo. mas nunca
disposto no art" 330°, n" 1 in fine, a intervenção acessória provocada não é
superior a um décimo (art" 452°).
admissivel quando o réu possa fazerlntervir o terceiro como parte principal.
Esta excepção refere-se. aOSCaSQ8 em ql1c Q réu tem a. possibilidade de chamar
3, Intervenção provocada a intervir o obtigado ao regresso comoparte principal e, portanto, de COO!i-
rituircorn ele um litisconsórcio sucessivo, pelo que, se aquela parte quiser
a. O réu que' tenha acção de regresso contra um terceiro, que o deverá fi\z~-lo Intervir na acção, deve escolher a intervenção principal provocada
indemnizar do prejuízo que lhe-cause a condenação na acção, pode chamá-lo (cfr, art" 325°, n° I). Suponha-se, por exemplo, que existem vários devedores
a intervir como parteacessória, desde que esse terceiro não possa intervir 11U
solidários e que só um deles é demandado, o que é admissfvel, porque o
acção como parteprincipàl (art" 330''.n''I). Se, por sua vez, o teroeiro chamado litisconsórcio entre eles é voluntârio (art° 27°,n" 2); o devedor demandado pode
provocar a intervenção principal dosoutros devedores (cfr, arr's 325°, nól, e
tiver direito de regresso contra Vm outro terceiro, pode provocar a intervenção
açessória deste último, e assim Sucessivamente (art" 332°, n" 3). 329",n" 1), pelo que não pode chamá-los aintervircomo panes acessórias.
Aintervençaoace~~ória provocada destina-se a permitir a participação de Outro exemplo, o credor pode demandar apenas o fiador (art" 64 J n° J 0,

um terceiro que é responsável pelos danos produzidos no réu demandado pela 1" pane, CC); CÜI110 o fiador pode fazer intervir o devedor comuparte
procedência da acçãocisto é, de um terceiro perante oqual este réu possui, na principal (art" q41°, n° t 23 parJe, CC; art''s 325°, n" I, e 329", n° I),
hipótese de procedência da. acção, um direito de regresso. Assim, para justificar aquele demandado não pode provocar a intervenção deste como parte aces-
esta intervenção não basta um simples direito de indemnização contra um sória.
Assim, o principal âmbito de aplicaçãoda intervenção acésséria provocada
terceiro; torna-seainda necessário que exista uma relação de conexão entre o
objecto dà, acção pendente e o da acçãq de regresso. (cfr. art" 331°, n" 2 ;11 coincide com o direito de regresso decorrente de urna relação conexa com o
[ineí: essa conexão estáassegurada sempre Cjue,o objecto da acção' pendente
A competência (1 as [nines 181
180 A competência e a~ partes

4. Intervenção do Ministério Público


objecto do processo. Quando entendido num sentido próprio, este direito de
Sempre que o Ministério Público devarmervir corno parte acessória,
regresso 'Pode decorrer de uma relação de garantia: imagine-se, por exemplo,
ser-Ihe-ã oficiosarnente notificadaa pendência da acção. logo que ains-
que o causador de um dano chama a intervir a companhia de seguros na qual tância se considere iniciada (art" 3341', n° 1.; sobre esse início, cfr. art" 267°,
cobriu o risco da sua actividade __Mas, num sentido amplo ou impróprio, Q n° I). O Ministério Público deve intervir acessoriamente quando, não devendo
direito de regresso também pode resultar de uma mera responsabilidade ser parte principal. (cfr, art? 5", n" I, LOMP), sejam interessados na causa as
baseada, por exemplo, num subcontrato, numa relação de contratos em cadeia regiões autónomas, as autarquias locais, outras pessoas colectivas publicas,
ou naevicção: St;t O dono da obra demandar o empreiteiro por defeitos da pessoas colectivas de utilidade pública, incapaze» e ausentestart? 5°" n" 4,
obra é se esta tiver sido realizada por um suberrrpreireiro, aquele demandado, al. a), LOMP). A falta de vista ou exame ao Ministérí.o Público constitui uma
Q
que tem um direito de regresso contra este último (cfr. art" I226 CC). pode nulidade processual de-conhecimento oficioso (art" 2D2°), que; no entanto, se
chamá-lo. a intervir como parte acessória; se '0 comprador demandar o vendedor considera sanada se. a entidade a que ele devia prestar assistência tiver feito
pela falta de entrega da coisa, este pode provocar a intervenção daquele que valer-os seus direitos atravésdo seu representante (art" 200°. n" I).; mas se a
lhe devia ter entregue atempadamente a coisa; finalmente, se um terceiro causa correr à revelia da parte que devia ser assistida pejo Ministério Público,
reivindicar-do comprador a coisa adqulrida, o vendedor pode ser chamado O processo é anulado a partir do momento em que devia ser dada. vista ou
a intervir nessa acção por aquele comprador, porque ele é responsável facultado o exame (art" 200°, nO.2).
pela restituição integral do preço e pelos danos causados a esteudquirente Compete-ao Ministério Público zelar pelos interesses que lhe estão
(artrs 894°, nO I, S98°. 8990 e 9000 te) .. confiados, exercer OS poderes concedidos à parte acessória (cfr. ares. 337 0
a
340°) e promover tique tiver por conveniente 11 d~f~sa 90S interesses-da parte
C. O chamamento do terceiro é deduzido pelo réu na contestação ou, se assistidaInrt" 3.34°,0° 2.:artO 6°L,QMP). Por isso, o Ministério Público pode
este não pretender contestar, no prazo em. que esta devia ser apresentada alegar n que se Ihe oferecer em defesa dos interesses da parte assistida
(art" 331 n" I; sobre -os prazos normais de contestação, cfr. art°s 4H6°. o" I,
0,
(art" 134°, n" 4) e pode recorrer da decisão proferida quando o considere
783° e 794°, n° I). Nunca se procede. à citação edital do terceiro, devendo o necessário à defesa do interesse' público ou dos. interesses dessa parte (art° 334d,
juiz considerar findo o incidente quando se certifique da inviabilidade da sua n° 3 influe). Para estas finalidades, o Ministéri« Público deve ser notificado
é{tação pessoal (art" 332°, 0."2);a5 preocupações de celeridade também para iodos os .actos e diligências e de todas as decisões proferidas no prOÇeS$O
justificam que, passados 3 meses sobre a data em que foi deduzido oincldente (al't6 334",0" 3 la parte).
sem que estejàtTirêàHzadas todas as citações, o autor possa requerer o
prosseguimento da acção (art" 333°). Se o incidente. se mantiver, ojuiz, depois
de ouvida a parte contrária, defere o chamamento quando, face às razões IIl. Intervençãopríncipal
alegadas, se convença da viabilidade da acção de regresso e da sua conexão
com a causa princjpal(are 331°, ]lo 2).
I. Generalldades
Se o chamamento for deferido (cfr. arr' ~) 1°, n" ~), o chamado é citado e
corre novamente a. seu favor o prazo pata. contestar (art" 3:12°, n° I). O cha-
Aintervellção principal {(dera sensu visa permitirá participação. de um
(art" 332?, n I 2a parte;
Q
mado tem a mesma posição processual doassistente terceiro que ti titular (activo OÚPU!)"SÍvo}de uma situação subjectiva própria,
cfr. arr's :337° a 340°) e a sentença proféridà constitui caso julgado quanto a mas panllçlaàalegada pelo autor ou pelo réu (art? 32 J 0; cfr, RP - 9/6/1994,
ele relativamente às questões de que depende Q direitõ de regresso invocado BMJ 43H, 551). Como a própria designação indica, essa intervenção visa obter
pelo autor do. chamamento (art" 332°. n" 4). a participação de uma parte principal, .que, como tal, goza de todos os direitos
reconhecidos a essa parte (ate 322". n° :2 l' parte).
A competência e CI.\" partes IR3
.182 A competência e as partes

relução de;dl~rnatividade com o réu inicial. Suponha-se. por exemplo,


2. Modalidades que. numa acção destinada â constituição de urna servidão de passagem
(cfr. art° 1550° çc). o réu invoca que, admitindo que o autor tem direito a essa
scrvidâo. ela deve ser constituída, não sobre o seu prédio, mas sobre o de um
2. J. Intervenção espontânea
vizinho, porque este sofrerá um menor prejuízo com a passagem (cfr, art" J 553 0

A intervenção principal stricto sensu pode ser espontânea ou provocada. CC); peranteesta defesa do réu, o autor tem interesse em provocar ti inter-
A intervenção espontânea é admissivel nas seguintes situações:" quando venção deste outro proprietário, pois que, se não o fizer, corre o risco de não
pretenda .intervir um terceiro que, em relação ao objecto da. causa, tenha um conseguir a constituição da servidão em nenhuma das acçõespropostas contra
interesse Igual ao do autor ou do réu e que, por isso, possa constituir com ele cada UID desses proprietários.
um litisconsórcio voluntário ou necessário (art" 320", al. a»; - quando o terceiro
que deseja intervir possa coligar-se com o autor nos termos do art" 30° (mas o art" .274". n" 4. 'admite a chamada. reconvcnção inierveniente ' "": se o pedido rccon-

não, por isso, no regime da coligação subsidiária do art° 31°-B) e não se vcncional envolver outros que. possam associar-se ao reconvinte ou no reconvindo.
sujeitos estes
xujcin», podem ser chamado» à instância rcconvencional atravéx da intervenção provocuda. Muito
verifique qualquer obstáculo a essa coligação (art" 320°, al. b); sobre esse.
estranha é. tudaviu, a absolvição da instância prevista no art" 274°, n" 5. quer porque dá tem
impedimento. cfr. art" 31°). A intervenção espontânea 'pode ser. por isso. ror tuudumcnto. não li- falta de qualquer pr.essuposto processual (lu seque, o não cumprimento
litisconsorcial oucoligatória. de llll1 ÚTiIIS processual. mas o inconveniente grave na realizução <la instrução, dis,:uss~O e
julgamento da causa C()J11 todos os interessados. quer ainda. porque ·elii pode incidir sobre o,,
autores do pedidoreconvcncioual. Além disso. pode suceder que os reconvintcs absolvidos da
2.2. Intervenção provocada instância. para não perderem 0, efeitos substantivos decorrentes da pendência da instância
rcconvcncionul. tenham til.! instuurar uma acção autónoma num prazo relativamente curto
a. A intervenção principal provocada éadmissfveL nas seguintes hipóteses: (ürt° 2X.9". n" 2; art?s J27°. nO I. " .132". n" I, CC), O que originu li pendência simultânen de duas
- quando qualquer das partes pretenda fazer intervir na causa um terceiro como acções sobre () meSi!lO objecto, . .
seu associado ou corno associado da parte contrária (ar!'! 325°, n" IJ, ou seja.
quando qualquer das partes deseje chamar um Iitisconsorte voluntário ou b. Conforme resulta do disposto no art" 1'29°; n° I la intervenção princi-
necessário: - quando o autor queira provocara intervenção de um réu subsi- pai provocadu pode ter por finalidade chamar a intervir um condevedor ouo
diário Contra quempretenda dirigir o pedido (art" :325°, n" 2). () qi;1~- segundo devedor-principal. Assim. a i.ilt,ervel1çãciprOVOC[ld~lpode ~et usada para
parece ..;deve serpossível tanto em situações de 'liriscunsórcio .. como ele (j devedor solidãrlo, demandado pela totalidade da dívida; fazer intervir os
coligação, porquearnbas cabem na previsão do art" 31 o_B. Quando a inter- outrox condevedores e para o fiador demandado chamar ao processo o devedor
venção provocada permite a integração de um litisconsórcio necessário. essa principal ou os outros fiadores. Note-se que, esse terceiro também pode ser
intervenção sana a ilegi limidade decorrente da sua falta (anOs 28°, n" I. e chamado a intervir por iniciativa do autor (art" 325:ó, n° I).
269ó, n° I) .. Quando o devedor solidário demandado pela totalidade da prestação
provoque a intervenção dos demais condevedores, a intervenção principal pode
Esta modalidade da intervenção principal pode estar ligada a uma rnoditicação da causa ainda cumprir uma outra finalidade: a de obter a condenação dos condevedores
de pedir. Suponha-se. por exemplo. que o autor instaura uma acção contra condutor de um
UIll
chamados na satisfação do direito de regresso 90 devedor tíemandado (art° 329°,
veículo em que pede uma indemnização pelos prejuízos sofridos num acidente de viação; se o
demandado alegur que conduzia o veiculo em nome de quem tinha a sua direcção efectiva e
n° 2), () que pressupõe, naturalmente. que o primitivo réu tenha deduzido o
que o utilizava no interesse deste. o autor pode provoc-ar a intervenção principal deste terceiro correspondente pedido no articulado ou requerimento em que solicita aquela
(art" 325'. 11" I) e pedir li sua condenação (eventualmente solidária'Colli a do réu iniciul, intervenção. Note-se que, se os vários devedores solidários (os iniciais e os
art" 50{)".n" J. te) naquela indemnização (cfr.rart" 503", n" I, te). subsequentes) forem condenados no pedido, é atribuído àquele .que satisfizer
o direito do credor além da parte que lhe competir. sem necessidade de qualquer
Apesar de o art° 325°, n° 2, só se referir, através da remissão para o
art" 31"-8, à intervenção de um réu subsidiário, parece dever entender-se que (111, M, Teixcira de Sousu, Partes. 17$.

tal chamamento também é adrnissível Se o réu chamado sé encontrar numa


A competência e as partes 185
184 A competência e as partes

3, Regime
pedido, um direito de regresso contra os outros condevedores (art" 524 CC), 0

a, A intervenção espontânea litisconsorcial (cfr, 'fin° 320°, al, (1») é

pelo que a função do art" 329", n" 2, é apenas a de permitir que o devedor
udrnissfvel em qualquer momento até ao trânsito em julgado da sentença
charnante obtenha um título executivo contra os condevedores intervenientes.
proferida na causa (urt" 322°, n" I 1.3 parte); a intervenção espontânea coliga-
tõriu (cfr. art" 320°, aI. b) só é admissível enquanto o interveniente puder
c, A intervenção principal provocada absorve algumas das funções que
deduzira.sua pretensão em articulado próprio (art°s 322°, n° 12" parte, e 32,3°,
tradicionalmente são atribuídas à nominatia aucto ris no âmbito das acções de
nOs I e 2).
reivindicação (funções que, .aliás, se enconrravam consagradas no art? 320. 0

Úíntervenientepode solicitar a sua intervenção em articulado próprio


CPC/6l). Dado que qualquer possuidor ou detentorrem legitimidade para ser
quandoela se realize.antesdo ptoférirnelllo 4() despa~ho sançadôr(attO 323°,
demandado nessas acções (art" 1311", n" I, CÇ), pode suceder que o autor
nO)). rfill~,~C; oprocesso nM cornportareste despacho (como sucede no
reivindicante demande um possuidor em nome alheio. Perante esta situação,
proçe.sso sumarfssimo), a intervenção pode ser realizada em articulado próprio.
esse possuidor está obrigado a avisar a pessoa em nome de quem possui da
'até ser designado dia. para discussão e julgamento em la instância e" se não
pendência dacausa (art''s 1038°, al. h), i 135", al. g), e I 187°,al. b), CC), mas,
houver audiência final, até ser proferida a sentença em la instância (art" 323°,
independentemente disso, abrem-se duas hipóteses: -s,e o possuidor demandado
na 2). Seaintervenção for posterior, o interveniente .deduzi-Ia-á em simples
não quiser reconhecer o autor comoo verdadeiro proprietário e, portanto. quiser
requerimentoIart'' 323<i, n" 3). Requerida aintervenção, o juiz, se não houver
discutir com ele a questão da titnlaridade d.ô direito, pode provocar a inter-
motivo para li rejeitarIirninermente, ordena a notificação de ambas as partes
venção do possuidor em nome próprio (alto 325",1)° I) e .constitulr C<1111 este,
para responderem, (aftO 324'" n° I), Posteriormente, () júiz decide da admis-
um Iitisconsércio passivo; " ~e aquele réu aceitaro autorcorno verdadeiro
sibi.lidadt1d,1 intervenção no despachnsaneador ou, se ç, processo não o
proprietário, pode provocar a. intervenção como opoenre da pessoa em nome
comportar ou já ti ver sido proferido, logo depois do decurso do 'prazo para a
de quem possui (art" 347°) e, em certas condições, pode solicitar a sua exclusão
resposta das partes (art" 324°, n° 4) ..
da causa (art" 350°, li" 2).
b, SalVO quando for necessária para assegurara legitimidade das partes
N~) preâmbulo do Decreto-Lel n" 32.9-A/95, de J2/12, aflrma-se que se "afigurul ... J
(urt" 269°, n° I), for passiva e tiver sidodeduzidapelo réu (art" 32.9°,n" 1) ou
imeiramcnte.justltícuda a eliminação, pura e simples. danomcução 11acção, sendo certoque tal
.incidente perdeu já, mesmo: no domfnio do direito vigente" sentido <! utilidude, portei'
se destinar a chamar O exequentee os demais credores [nteressadosà acção
desaparecido o pressuposto base essencial em que assentava: na verdade" 1 •.. [ não exi~tir{í proposrupor um outro credor contra o mesmo devedor executado (art" 869°,
nenhuma ilegitimidade passiva a ser suprida 1...• 1 através da nomeação 11acção". sendo, pOJ iss.\!. n" 2>1<1 intervenção provocada só pode ser requerida até ao momentoem que.
"maplicável a previsão contida no n" 3 do art" 322" rCPCJ6 i I - absolvição da instftncia.púr podia deduzir-se aIntervenção espontânea em articulado próprio (art" 326°,
ilegitimidade do' demandado, quando, não aceitando o autor a nomeação, o juiz. se convencer
n° I), )sIO é, dentro dosprazos referidos no art" 323°, nOs I e 2: em processo
de que ele possuiu (... 1 em nome alheio". Esta justificução simplifica dernasiudo .o problema.
É verdade ((ue o art" 131 I", nOI, CC atribui legitimidade passivapara 11aCçã1Jde; tcivindicaçãu ordinãrio e sumário, () chamamento do terceiro pode ser realizado 'até ao
.a qualquer detentor ou .possuidor, '0 'que, aliás, se compreende perfciiamcnte: " possuiullr ou despacho saneador e.. em processo sumarfssirno, até à designação do dia para
detentor é. alguém que se comportá COTT1() sé fosse titular do direito de fundo (cfr, art" 1251" te), <j audiência final. Depois de ouvida a parte contrária e de o tribunal ter
pelo que não é exigfvel que o autor reivindicante conheça que (J demandado. cnntrn todasas
apreciado a adrnissibifidade da intervenção (art? 326"; n" 2), o terceiro é citado
aparências, é afinalapenas um possuidor em nome alheio. Qque ján~q ç indiscutivc! ~. que;
perante a alegação pelo demandadode e
que ele somente um possuidor eM nome ulheio; li autor
(art" 327", n° 1). Ú terceiro pode oferecer umarticulado próprio ou declarar,
da acção possa recusar a 'intervenção do possuidor em nome próprio: era precisamente para dentro de prazo igual ao da contestação, que faz seus os articuladosdo autor
sancionar esta. recusa (lo autor da acção em aceitar discutir <I questão da propriedade com o ou do réu (art" 327°, n° 3; sobre esse prazo, cfr. arr's 486°, n" I, 783° e 794°;
possuidor em nome próprio, nomeado àacção pelo .p.ossuidoJ em nome alheio. que li art" 321°, n" i): se Q terceiro intervier no processo passado o prazo de contestação, tem
nO 3, CPC/61 estipulava a absolvição da instância deste possuidor demandado 111',
de aceitar os articulados da parte a que se associa e todos os actos e termos. já
processados (arr" 327°, n° 4),
(111 Assim, M. Teixeira de Sousa, Panes, 79.
r I.

A rontpetência e as partes Itl7


186 A competência e as partes

autor instaurar uma acção de cobrança de uma dívida, afirmando-se Como único
Se o terceiro chamado intervier no processo, a sentença aprecia o seu titular do respectivo direito de crédito, um terceiro; que se considera contitular
direito e constitui caso julgado em relação a ele (urr" }28°, n" I ),.Se isso não desse mesmo crédito, pode intervir nessa acção como opoente,
suceder, a sentença só constitui caso julgado quanto lf ele se da intervenção
resultar um litisconsórcio necessário activo ou passivo. um litisconsórcio
2. Modalidades
voluntário passivo, um litisconsórcio voluntário activo da iniciativa do réu ou
um Iirisconsórcio subsidiário passivo (art" 32R", n" 2).
2. I. Oposição espontânea

c" Pode suceder que aquele que foi chamado corno condevcdor solidário Quanto à iniciativa. '<I oposição pode quallficar-se como espontânea ou
se limite a impugnar asolidariedade
da obrigaçâo, não contestando o crédito provocada. A oposição espontânea é a que, se, verifica .pot iniciativa de um
do autor. Neste caso, se o primitivo réu também níio contesta!' esse crédito ou terceiro que pretende fazer valer, noconfronto de arnbas as partes, um direito
se o tribunal puder julgar procedente o pedido do autor. 'O litígio circunscreve- próprio incompatível com o pedido do autor ou do reconvinte (art" 342°, n" I).
-se, em termos subjectivos, ao demandado iniciale ao devedor interveniente. Por exemplo: numa acção de reivindicação, aquele que se considera proprietário
Se se preencherem estas condições, o primitivo réu é condenado no pedido no do prédio reivindicado pode intervir, sponte sua, como opoente; numa acção
despacho saneador e a acção prossegue apenas entre essa parte e o chamado de despejo, é udrnissível a intervenção de quem se arroga a qualidade de
pará se decidir a questão dá solidariedade e do direito de regresso contra o arrendatário do local em causa (~L - 21I10/l993, CJ 93/4, 153).
terceiro (art" 329°; n° 3),
2,2. Embargos de terceiro

IV. Oposição a. Os embargos de terceiro constituem unia. modalidade especial de


oposiçãoespontânea. Esses embargos destinam-se a permitira reacção de um
terceiro contra um acto judicial que ordena a apreensão ou a entrega de bens
1. Finalidades
e que ofendeu SUa posse ou qualquer direito incompatível com. a realização
a. A oposição (.interventio ad excludendunú destina-se a pcrmitrr a ou O âmbito dü diligência (art" 3.51°, n'' I). Suponha-se, por exemplo, que, numa
participação de um terceiro que é titular de lima situação subjectiva incorri- acção executiva, é penhorado um bem de um terceiro que não responde pela
parível com aquela que é alegada pelo autor ou pelo reconvinte (artOs J42°, dívida: este terceiro pode defendera sua propriedade sobre esse bem através
n" J, e 347°) (111. Além disso, a oposição serve igualmente para um terceiro de embargos de terceiro. O embargante que alega a violação da sua posse pela
reagir contra um acto, judicialmente ordenado, de entrega de bens. que ofende diligência judicial pode ser um possuidor em nome próprio (art° 1285° CC) ou
a sua posse (lU qualquer direito incompatível com a realização ou o âmbito da em nome alheio (cfr. arl°s 1037°, n'' 2, 1125°, n° 2, 1133", n° 2, e 11880. n° 2,
CC) (I~).
diligência: essaoposição efectua-se através dos embargos, de terceiro (art" 351",
na I). O opoeríte (ou O embargante) assume na instância a posição de parte
Relati vumcnre ao disposto l)O art" l()~7°, n" I, CPC/61, o âmbito dos embargos de terceiro
principal (Ül'los 344°. n" I, e 350°, n" 1).
definido pelo art" ~51°. n" I, apresenta unja diferença importante: enquanto no art" J03.7". n° ,L
CPC/61, OS embargos de terceiro eram configurados como um meio possessório, () art" 3:5J",
b. A oposição pode ser total ou parcial. consoante a incompatibilidade da
situação subjectiva alegada pelo opoente com aquela que é invocuda pelo autor.
I !.lI Sobre esta última situação. clr. t'olma Rumnlho, Sobre o fundamento possessório dos
Como exemplo de oposição parcial pode referir-se a seguinte hipótese: se o embargos de terceiro deduzidos pelo locatário, parceiro pensador. cornodutário e depositário,
ROA 51 (t 1)9 I). 649 SS.: na jurisprudência. clr. RE - 16/61191)4, BMJ 438, :575; contra à
possibilidade de o fiel depositário embargar de terceiro, cfr. RE - 21/4/1<)1)4. BMJ 436. 46T
\1.')Sobre a opoxição. cfr. Lopcs-Curdos», Incidentes. 157 ss.; Lo!.'"s "r! !i"so. Os incidentes de
intervenção de terceiros em processo civil. RMP 11) (i9X4J. 71 ss"
A competência e as partes 189

188 A competência e as purte«

peça LI SU,j citação para requerer a separação de bens (art" 825'\ n' j)~em
n" I. enquadra os embargos de terceiro corno um meio de defesa da posse ou de qualqué:' direito qualquer destas situações, o cônjuge do executado, que é terceiro relativamente
(\0terceiro afectado pela apreensão ou entrega da coisa. à execução, pode ernbargar para defender, no primeiro caso, Os seus bén,':j
próprios e, no segundo. os bens comuns.
Os embargos de terceiro também podem ser utilizados com uma função
preventiva, porque podem ser deduzidos antes da efccrivação da diligência Ü arl"X'25" ~ aplicâvel quer ao e,ISO em que a dívida é da exclusiva responsabilidade do
cônjuge executado (.situa,fí() em que respondem pela dívida os bens próprios desse cônjuge: e.
ordenada pelo acro judicial.rart" 359°, [lo 1). Contudo, os embargosde terceiro
'subsidiariamente. li .suu mcaçâu ,1(15 bens comuns. ~rtOI69i'>°, na I. CC), quer à hipótese em que
nunca são adrnissfveis relativamente à apreensão de bens realizada. no processo a dívida é da responsabilidadede ambos os cônjuges, mas o credor apenas possui título executivo
de recuperação da 'empresa e de falência (art'' 351 n" 2), porque li. restituição
0, cxrrujudicial contru um deles e. por isso. não pode penhorar os bens comuns que, em princípio,
e separação de bens es.tâ submetida neste processo a um regime especial deveriam responder "da dívida (cfr. art" 1695". n" I. CC), Assim entendido. a solução constante
(cfr, an"s 201° a 204" ePBRBF). do art" 82~" coincide COI1) a proposta ..realizada durante li Vigência da anterior versão do Código
de.Pmcesso Civil, de aplicar, porunaloglu.iàqucla última situação O regime previsto no então
urt" H25°. n" 2. CI'C/(,7:,·fr. Castro Mendes 1M. Teixeira de SOUSlI •. Direito daFamília (Lisboa
Dada a abertura dos enlbatgos de terceiro 11defesa da propriedutlercalizuda pelo anO]5 r". 1')90/1')9 I), 1)5: scmclhantemcnte. RI/i Pinto, 1\ penhora por dívidas dos cônjuges (Lisboa 1(93),
n" I. esses emburgos não são Q único meio de que um terceiro dispõe para 'fazq valer o seu ,~1 s" .. Fica em uberto a hipótese.de li cônjuge executado poder utilizar os embargos de executado
direito de propriedade sobre .oSbens indevidurnentepenhorudos numa acção cxccutivarconforme (cfr .. nomeudunrente, art.°,Sj2° a 818") para Iazer jnterviroseu .cônjügc naacção executiva e
resulta dosurt=s 910" ~ 91/". esse terceiro também podeutilizar 'I ac,'U() de reivindicação. iiwoCar.por essa viu. a, comunicabihdade da dívida.

b. Os embargos de terceiro só podem ser utilizados por urn sujeito que Nos termos do art" 864", ni? I. al. arl" parte, o cônjuge do executado deve
não seja ou não tenha sido parte. no processo DO qual é ordenada a diligência ser citado pata a execução se a penhora tiver recafdo sobre bens imóveis que
que ofende a sua posse ou o seu direito sobre os bens (cfr. art" 351 -. n° I). As o executado não possa alienar livremente(cfc art'' I 682°-A CC). Nessa
partes da acção não podenrujilizaros embargos detercei ro como meio de hipótese. o cônjuge do executado çleixa de ser ~ercejro pentnte .a execuçãú e,
impugnuçãoda decisão que ordenaa entrega oú a apreensão dos bcn». por ISso. só pode utilizar os meiosgerafs de opoSição à penhOT;:t (art" 864"-13;
sobre esses meios, cfr ..arr's 863°-A e 863°,,8).
Ú art" 1037".11" 1 2' parte, Cf'CI6IêSliplJlav<\ que "'(\ própriocondenadó ou .übrigad() pode
deduzir embargos de terceiro quanto aos bens que, pelo tjtulo da sua aquisição oupela qualidade
em que 'Os possuir, -nft,o devam ser ~tingioo~. peta diligência ordenada". lsso jusíificuvu que .. pof 2.3. Oposiçuo provocada
exemplo, o herdeiroexecutado por urna dívida .da herança pudesse em.bargar de: terceiro. se na
execução fossem penhorados bens que não pertencessem il herança (art? ~27". n"J .. CPC/61 L A. oposição provocada verifica-se por .iniciativa da parte passiva, sempre
Na nova versão do Código de Processo Civil a qualidade de terceiro é uferida exclusivameruc que ela esteja prontaasatisfazer o pedido do au@., mas tenha conhecimento
pela sua posição processual.só é terceiro .aqueleque não fpr parte na c.<iU'saem que é. ordenada de que um terceiro se arroga ou pode atrogapse U01 direito incompatível com
a diligência contru a qual se pretende reagir (cfr, art" 35 I", n'' I l. Esta suluçã» t.unbémjusufica
onovo meio-de nposição à penhora previstonos il'rl"S S63°-A, ul. c). e R64°-B.
o do autor (urt" 347°). Suponha-se, 1'91' exemplo, que qfnªulor propÔe,nl\ sUa
qualidade de herdeiro, uma acção de. cobrança de uma dívida; o réu, que :>ab(3
c. Qualquer doscônjuges pode defender através de embargos de terceiro, que um outro sujeito se considera o único herdeiro do mesmo falecido, pode
mesmo sem a autorização do outro, OS direitos sobre os bens próprios e os bens provocar a intervençãodesseterceirocomo opoente da pretensão do autor. Se
tiver sido deduzida reconvenção, a intervenção do opoente ao pedido recon-
comuns que hajam sido indevidarrrente atingidos pelá diligência ordenada
(art" 352°). Esta previsão vale tanto para a hipótese' em que a diligência é
vencional pode-ser provocada peloautor.
determinada num processo em que é parte o outro cônjuge. como para a Qualquer detentor ou possuidor dacoísa tem legitimidade para ser
situação em que essa diligência é ordenada num processo em que ê parte
demandado na acção de reivindicação (de art" 1311°; I,CC), mas são varias
qualqueroutro sujeito. Cabem naquela. primeira hipótese os casos em que, numa as. situações em que .se prevê que o demandado deva informar C) sujeito de quem
execução movida COntra um único dos CÔiljugeS,$[lo penhorados bens próprios adquiriu a sua posse da pendência .da Causa: é o que acontece quanto ao
do cônjuge não executado ou são penhorados bens comuns sem que () exequente

./
í

A competência e as pa rtes 191


190 A competência e as partes

nunca depois de esses bens terem sido judicialmente vendidos ou adjudicados


(arr" 353°, n° 2; sobre essa venda na acção executiva, cfr, artOs 886°á 911 o,e
locatário (art" 1038°, aI. h), CC), ao comodatário (art" 1135°, al. g), CC),ao
sobre a adjudicação na mesma acção, cfr. arlos 875° a 87X0).
depositário (art" J 187°, al, b), CC) eao usufrutuário (art" 1475" Ce). Seestes
possuidores estiverem dispostos a reconhecer o autor como verdadeiro pro-
N,\ petição de embargos, Q ernbargante deve solicitar .0 termo OU o
levaraamentcda diligência e pode requerer a restituição provisória da posse
prietário - o que implica a extinção da sua própria posse -, parece que eles
da coisa apreendidaou entregue (cfr, art" 356°); essa petição deve ser acom-
podem substituir o aviso ao suposto proprietário pela suá citação corno opoentc
panhada das respectivas provas (art" 353°, n" 2 in fine). Os embargos são
(cfr, art" 34r), Só realizando esse chamamento, o possuidor demandado
assegura a possibilidade da sua exclusão da causa (cfr. art" 350°. n° 2). processados por apenso il cal.Pla em que haja sido ordenado o acto ofensivo da
posse ou do direito do ernbargante (art" 353", n? 1). Se .Ó$ embargos tiverem
sido deduzidos em tempo c se não existirem outros fundamentos para o
3. Regime. indeferimentu da petição, abre-se uma fase introdutória na qual são realizadas
as di ligêucias probatórias necessárias para demonstrar a probabi lidade. sériada
3.1. Oposiçãoespontânea existência da posse ou dó direito invocado pelo ernbargante: se essa pro-
babilidãde não for det'f10riSttada,· osembargns são rejeitados (art" 354°). mas
Oopoente espontâneo deve deduzir a sua pretensão numa petiçãQ essa falia deprova nãoimpede que.o embargante possa propor a.acção em que
(art" 343°), mas a oposição espontânea sóé admitida enquanto hão estiver peça a decla ração da titularidade do direito que obsta à realização ou ao âmbito
designado dia para a discussão e julgamento da causa ern Ia instância ou. se o da diligência ou reivindique acoisa apreendida (art" 3S:n.
processo não a comportar, enquanto.não forprolerida a sentença final (art° J42°, O despacho que recebe I" os embargos determina a suspensão dos termos
n° 2). Se a oposiçãonão for lirninarmente indeferida, é ordenada ti notificação do processo em que se .inserern quanto aos bens a que respeitam e, se Ô
das partes da acção para contestarem o pedido do opoente em prazo igual ao cmbargarne o tiver requerido, a restituição provisória da possedesses I'rlesmph
da contestação (art" 344°, n" I; sobre esse prazo, cfr. arr's 486°, n" I, 783" e bens (;.lfIó 356"). Se osembargos forem recebidos, são notificadas para contestar
794°, n° I). Seguem-se os demais articulados correspondentes à forrna de as partes. primitivas, seguindo-se os termos dó processo ordinário ou sumário
processo da causa principal (art" 344°, n" 2) e.. findos eles, procede-se ao de declarução, conforme o valor dos embargos (art° 357", n" I; sobre li
saneamento e condensação, quanto à matéria do Incidente. nt)s termos dessa determinação desse valor. cfr, ai·e 31 JO).
forma de processo (art" 345").
Se alguma das partes reconhecer o direito dó opoente, o processo segue b. Quando os embargos se fundem 'apenas na invocação da posse do
unicamenteentre a outra parte e o opoente, tomando este li posição de autor terceiro sobre os bens apreendidos nu entregues, pode qualquer das partes
ou de réu, conforme a posição da contraparte (art" 346°., n° 1). Assim. se o autor prirnirivas, nacontestação dos embargos (cfr. are 357 ,nO I), pedir o reconhe-
Q

reconhecer a. pretensão do opoente, este fica a ocupar a posição daquela parte cimento quer do seu direito de propriedade sobre esses bens, quer de que tal.
activa; se esse reconhecimento for realizado pelo réu, o opoente assume a direito pertence .~ pessoa, contra quem a. diligência foi promovida (art° 357°,
posição de réu da acção. Se arnbas as partes impugnarem o direito do opoente, n° 2) Quer dizer; se os embargos se basearem na posse dos bens afectados pela
a instância segue entre as três partes': conforma-se então uni litisconsórcio diligência. qualquer das partes principais daacção pode invocar a chamada
recíproco, pois que ficam pendentes duas causas conexas, urna entre as panes exceptio dominii; através da qual faz valer um
direito de propriedade próprio
primitivas e uma outra entre o opoente e àquelas panes (}lftn 346°,lio 2). sobre esses. bens ou alega, no regime de substituição processual, que a
propriedade deles pertence à contraparte !l4). Se, por exernplov um terceiro
3.2. Embargos de terceiro invocar que é possuidor do bem penhorado e defender a sua posse através de

a. Os embargos de terceiro devem ser deduzidos nos 30 dias. subsequentes n~1 Sobre este problema, cfr, M. Teixeir« de SOIl.VO. Sobre a exceptio dominii na,' acções
r[JNsç~s~jrias C·n!!~ embargos de terceiro, ROA 52 (J 992'), 21 ss..
àquele em que ·a diligência que ofende a sua posse ou o seu direito sobre ás
bens foi efectuada ou em que o ernbargante teve conhecimento da ofensa, mas

).
Composição da acção 193
192 A competência c as partes

embargos de terceiro, o executado pode alegar que é ele próprio o propriclário


do bem e oexequente pode invocar que o seu proprietário é o executado: v.
qualquer das situações pode justificar a penhora decretada, A inVocaçàél da
exceptio dominii - que, aliás, deve ser feita através de um pedido reeon- AS FORMAS DE COMPOSIÇÃO DA ACÇÃO
vencional (art'' 214", n"$ 1 e 2, al. a) - impIH::a uma· i\ltetação no objecto dos
embargos: em vez de se discutirapenas a posse sobre a coisa, passa-se a
analisar a questão da sua proptiedilde. § 1'\
c, A sentença de mérítü proferida.nos embargos constiwi.casü julgado
Composição por negócio processual
quantoá exíStênciae titulatidüde do direito invocado pelo ernbargante ou do
direito tecqnhecidol1 qualquer das partes do processo principal através da
exceptio dominii (art" 3$9°). Isto significa que adquire força de caso julgado
1. Negócios processuais
material till1to il decisão que considera os embargos procedentes com base na
posse ou no direito invocado peloernbargante, como a decisão que os con$ideril
improcedentes por reconhecera fundamentação da .exL'eptio dominii alegad~i por I. Noção e efeitos
qualquer dos embargados.
a. O~ negoclOs prooessuars são o~ pegócios jurídicos queptodu:zetn
directamente efeitos. processuais, isto é; são OS actos processuais de car~cter
H. Oposição provocada
negocia! que constituem, modificam ou extinguem uma situação processual.
A oposição provocada pode ser requerida pelo réu dentro do prazo fixado Como actos de carácternegocia], os negócios processuais requerem não sé a
para a contestação (art" 347 2" parte). O terceiro é citado para deduzâr iÍ Sua
0 vontade de produzir a declaração negocíaltvontade de acção) e de através desta
pretensão (art" 348°),. aplicando-se, quanto ao mais, os termos prescrjt()~nos exprimir umpensamento (vontade dedeclataçâo),como tambéma vontade de
art°s 3430 a 3460 (art" 350°, n" I). Se o primitivo réu depositar a coisa oua produzir urncerte efeito (vontade de resultado) num ptoCesso pendente ou
quantia em litígio, o opoente assumea posição deréu e aquele demandado é I'UJIJt() , ESSe:> negócl<)!;. podem ~er unilateraiS ou bilaterais, falando-se, MiM
excluído da acçãO (art" 350", n" 2 I" parte); se não realizar esse depósito, o réu último cMO, de contratos processuais.
inicial só continua na. acção parn a final ser condenado a satisfazer a pretensão Os negócios proces~uais são expressão da autonomia d(i$ partes em
à parte vencedorã (are 350°, n" 2 2" parte). processo civil. É claro que essa autonomia só pode manifestar-se no âmbito
Se o terceiro chamado não deduzir qualquer pretensão na causa, as das normas dispositivas e está afastada. da área das regras injuntivas. ASSim,
consequências são as seguintes: -ise ele tiver sido ou dever cOJlsiderilf-Se por exemplo, axpartes não podem alterar as regras sobre a competência mate"
citado na sua própria pessoa e se não se verificar nenhuma das situações rial (ot'r. art"s 66° e 67 nem atribuir a um. doeumento um ValQr probarõrio
Ó
),

de inoperância da revelia (cfr, art''s 484°, nó I, e 485°), o réu é imediuta- di$tint(l do legalmétite fixado (cfr.àrt"s 37J~, .31.6" e 3779 CC), mas podem
mente condenado a satisfazer o pedido do aUtor (art" 349d,.í10 I) eü sentença celehrar UIÜ puctode corilpetêoGiil (artOI 00°), uma conY:én~â.o de arbitragem
proferida produz caso julgado quanto ao terceiro (art" 349'\ 11° 2), o que mostra (art" l" LAV) (,luUmil transacçâc (an° 293°, n° 2:ilrt° 12480 CC). É (i
que a nOta de dedução da oposiç~o pelo terceiro chamado determina o efeito disponibilidade sobre os efeitqs processuaisque afere a admis$ibilidade dos
c()minatótÍo da condenação do réu da acção; - se o terceiro não pudercon- negócios processuais.
siderar-se citado na sua própria pessoa ou se se verificar alguma das condi"
ções de inoperância da. revelia (cfr, art'ts 484°, n" I, e 485°), a acção pros. b, O~efeitos decerrentesdos negócio~ processuais podem Ser constitutivos
segue os seus termos, para que seja apreciada a títularidade do ditejtÜlitigiüsü Oll eXlimivos.,aconlecendo com. freqüênçiaqoee$sésnegócios produzem
(are 349°, n° 3).
I.

Composição da aeçdo 195


194 Composição do acção

decisão da causa: é o caso, por exemplo, ela admissão resultante da não


simu ltaneamente ambos aqueles efeitos. Por exemplo. um pacto de com- impugnaçâo pelo réu das afirmações de facto realizadas pelo autor na petição
petência, que define o tribunal exclusivamente competente (art° 100°), não só inicial. (cfr. art" 490°, n° 2), Também a falta da. prática de um acto processual
determina qual o tribunal competente, como também retira a competência a não pode, pela sua essência, possuir qualquer carácter negocial: é, por isso, que,
qualquer outro tribunal. É também normal que esse efeito extintivo só possa por exemplo. a revelia do réu (que consiste na falta dê contestação dessa pane)
ser realizado através da invocação da correspondente excepção. Por exemplo: não pOSSUI natureza negocial.
sê as partes excluíram a adrnissibilidade decerto meio de prova (art" j45°,
b. A desistência do pedido e da instância e a confissão do pedido são
n" 2; CC) é uma delas o utiliza na acção pendente, .a contraparte pode. invocar
negócios uni laterais, mas a transacção é.um contrato. Daí que a desistênCia e
a respectiva excepção probatória,
a confissão possam ser objecto de um contrato-promessa unilateralem que a
c. Os negócios processuais são aqueles que produzem efeitos de carácter parte ~e vincula a desistir do pedido ou da instância ou a confessar o pedido,
processual. Ma~ isso não significa que esses negócios só possam realizar Também a celebração de' transacção pode ser convencionada através de um
aqueles. efeitos, poisque eles também podem produzir efeitosobrigacionais. contrato-promessa bi lateral ou sinalagrnático.
Pense-se, por exemplo, no caso datransacção: este negócio (que visa compor Questão ele muito difícil soluçãoéa que consiste em determinar quais as
um litígio mediante recíprocas concessões das partes, art" 124So, n° 1, CC) consequências, que se produzem se o prornitente não desistir do pedido QU da
implica a modificação do pedido ou, mais frequentemente, a cxrinção .da instância ou não confessar o pedido, bem como se algum deles se recusara
instância (artQs 287", al. d), e 294"), mas também pode impor certas obriga- celebrar a transacção prometida. Embora a resposta seja discutjvel, parece dever
ções às partes, que podem incorrer, por isso, em responsabilidade eontratual entender-se que a parte interessadapode .socorrer-seda <iççãO de execuyão
(art" 798" te). espçclficark: contruto-prortressn (artO 8'30°, n° I, CC) e, simultaneamente,
solicitar a suspensão dai nsrâncla no processo em que devia ser invocada
a desistência, a confissão ou. a transacção (cfr, ares 276°, .n" I, al, c), e
2.Clás~ificações 279°).

a. Os negôéÍo$ processuais podem ser ,atendendo ao momento dá sua


conclusão, preparatórios OU intctloclttótio~;· aqueles primeiros S40 concluídos :\. Momento
ames da propositura da acção (cOnio,pbteXemplo. uni pacto de jurisdição ali
de competência, arr's 99° e 100°; artO 17° Cbrux / Cl.ug): - estes últimos são a. A desistência. e a. confissão do pedido podem ser realizadas em qualquer
realizados durante a pendência de uma causa (corno, por exemplo, a confissão momento da tramitação da acção (art" 2930, n" 1); o mesmo vale para: a
do pedido, art" 293°, n? I). transacção (art° 293°, n" 2). Ma!; esta regra sofre algumas derrogações qUà.nto
Nos negóciosInter locutórios, alguns deles destinam-se a conformar a à esses momentos (rei quem e a quo,
decisão do processo: é ocaso da desistência do pedido e da instância Momento c/c/ qlJelti da adrníssibilidade ela confissão do pedido é a citação
(artOs '293"; n" I, e '295°, n02), da confissão do pedido (tli'l°S 293°, n° I, e 294") do réu. Apesar de a acção .se considerar proposta logo que seja recebida a
e da transacção (artOs 293°, n" 2, e 294°). Dada esta sua função, esses negócios respecti va petição inicial na secretariatart" 267°, na I), 'os efeitos em relação
constituem causas de exrinção dainstância edo prosesso pendente ((lHOs 287°, ao réu só se produzem. em regra, a partir da citação (art" 267", na 2), pelo que
al. d), e 294°).. só após esse aeto o réu pode confessar o pedido. Quanto a participação do
demandado riumu transacção, a solução é distinta: dada a categoria subsrantiva
Sobre li desistôncia da instância é. do pedido rIOS processos de recuperação ,1.( elTlpresé, c.
desse negócio (art" 1148", n"l, CC), o réu pode intervir em qualquer tran-
de falência .. cfr. ano, 57°, 58° I' 107" CPEREl'.
sacção, que, se for realizada <tines da sua citação, é' ainda urna transacção
Pelo contrárlo, não são negócios processuais, por não revestirem qualquer extrajudicial.
carácter negocial, certos aCtQS processuais quê podem igualmente influir na
Composição da acção ] 97

196 Composição da acção

desistência da instância não esteja condicionada à aceitação dessa. parte, deve


b. Podem levantar-se algumas dúvidas sobre se os negócios processuais entender-se que ela é inadmissível sempre que a sentença proferida seja
podem Ser concluídos depois do proferlmcnto da decisão sobre o mérito da desfavonivelan autor. porque, de outra. forma, constituiria um meio de o autor
causa, embora, naturalmente, antes do trânslto em Julgad{)dessadecisão (sobre impedir li produção dos efeitos dessa decisão (cfr; STJ - 231711974, eMJ 239,
este, cfr, art" 677"). Restringlndo a anãlise às situações mais viáveis na Pl:átiça, 158= RLJ 108 (1975/1976), 326, com anotação concordante de Vaz Seml}
o que importa verificar é Se O autor pode desistir do pedido depois do
proferimento pelo tribunal de uma sentença absolutória, se o réu pode confessar
o pedido após a prolação de uma, sentença de condenação e se as partes podem 4. Sujeitos
transigir depois da pronúncia de uma sentença com qualquer desses conteúdos.
a. Os sujeitos da desistência, confissão e transacção são, em princípio,
A resposta deve ser negativa sempre que esses actos reproduzam o con-
as partes da acção. Mas há situações nas quais podem (ou até devem) parti"
teúdo da decisãoproterida, isto é, repitam o conteúdo desta (como sucede
cipar terceirosestranhos à acção. Assim.vpor exemplo, o cabeça-de-casal, que
quando, por exemplo, o réu confessa o pedido-que o tribunal considerou
instauroucontra o administrador da herança uma acção de prestação de
procedente), mas será, peloç(Wrário,positiva, se essa situação não se veüficar contas, só pode desistir do pedido acompanhado de todos os herdeiros, porque
(cfr., v, g" RP - 9/5/199ó, C) 96/J, 194). A JUStificação daquel" inndmls-
não.esüia exercerem juizo um direito próprio (RL- 19I6/L981, CJ 81/4, 76).
sibilidade errcontra-sena falta de interesse processual da parte (ou das partes,
Também nada impede que aspartes de uma transacção incluam nesta Um ou
no caso da transacção), pois que, por exemplo, não se descortina o interesse
mais terceiros (corno 110 caso em que um terceiro assume uma obrigação
do autor em desistir do pedido após o tribunalter reconhecido a inexistência
perante urna dàS partes) ou concluam através dela um contrato a favor dê
do direito por ele alegado. Pode defender-se, noentanto, 'a conversão dessa
terceiro (cfr. art" 443°, n° I, CC).
desistência, confissão ou transacção numa renúncia a interpor recurso ordinário
da decisãoproferida pelo tribunal (art" 68 I0; nós 2 e 3). Quer dizer: os negócios b. A desistência e a Confissão só podem provir de panes principais (autor
processuais que. repetem O conteúdo daquela decisão convertem-se num" OU réu) e, .se tiver intervindourna parte acessória na acção [cfr. arr's 330°,
renúncia ao recurso que a parte vencida podia interpor (efr, art" 680°, n" I). na I,. e J3SO, n° I), esta só pode celebrar uma transacção se dela também
participar a respectiva parte principal. A assistência nunca afectaa posição
Sobrea udmisxibilidade da desistência ou confissãc do pedido, tia lransaççã,u celebrada
após o proferimento. da sentcnça.icfr. também $,1'J - 31/511 '174,I3MJ :2:\7, :l()'I: STJ - 17/6/1<)87,
das partes principaisquanto fi liberdade de desistência, confissão ou tran-
BMJ ~68,,50~. sacção (art" 1411") , o que deve valer para todas as situações de intervenção
acessória.
c. Quanto à desistência da instância realizada após Q. proferimento da
decisão sobre o "mérito da causa, o problema ..é distinto, porqueesse acto nunca
pode reproduzirou repetir o conteúdo dessasentença-Diferente .~.também O 5. Extinçâo
enquadramento legal da questão, dado que, quanto a essa desistência, não se
encontra Un:Jpreceito semelhante ao nrt.o293° e, por isso, existe uma lacuna Os negócios processuais pelos quais as partes conformam a decisão da
quanto ao momento no qual o autor a pode realizar, causa podem extinguir-se por iniciativa. delas, observadas as condições
Como esta desistência depende da aceitação do réu quando sejarequerida
aplicáveis a qualquer neto negocial, Mas também há que considerar a relevância
depois do oferecimento da contestação (art" 296°, n° I), a solução, quanto à e os efeitos da.sentença homologatôrla desses negócios (art" 300°, n° 3). Assim.
admissibilidade dessa desistência após o proferimento da decisão de' mérito, depois dessa homologação, s6 a transacção pode ser revcgada, resolvida ou
varia, antes do mais, consoante o réu, que contestou, dê o seu consentimento rescindlnda, embora a sua ..extinção não afecte os efeitos processuais produ-
ou não aceite essa desistência. Naquele primeiro caso, a desistênciada instância. zidos (nomeadamente a extirrção d.a instância, aitOs287°, al, d), e 294°). O autor
parece admissívehrnas deve afirmar-se Q Contrário na outrã hipótese referida, que desistiu dó pedido ou da instânci a 00 o réu que confessou o pedido não
Além disso, mesmo que o réu não tenha contestado e,. portanto, ainda que a
Composiçüo da acção , 1\)7

198 Composição da ncçiio

desistência da instância hão esteja condicionada aceitação dessa parte, deve


entender-se que ela é inadmissível sempre que a sentença proferida seja podem revogar esses actos depois do trânsito em julgado da sentença horno-
desfavorável ao autor. porque, de outra forma . constituiria um meio de o autor logatória.
impedir a produção dos efeitos dessa decisão (cfr. STJ - 2317/1974, BMJ 239,
158 = RLJ 108 (1975/1976), 326, com anotação concordante de Va;:. Serra),
lI. Requisitos de validade
4. Sujeitos
.I. Requisitos gerais
a. Os sujeitos da desistência, confissão e transacção são, em princípio,
as partes da acção. Mas há situações nas quais podem (ou até devem) parti- a. A desistência, a confissão e a transacção devem ser apreciadas aten-
cipar terceiros estranhos à acção. Assim, por exemplo, o cabeça-de-casal, que dendo ~l sua qualidade como negócios processuais e COIllO actos jurídicos. Como
instaurou contra o administrador da herança uma acção de prestação de negócios processuais, elas deveriam exigir os normais pressupostos dos, actos
contas, só pode desistir do pedido acompanhado de todos os herdeiros, porque processuais (corno a capacidade e a representação judiciárius. o patrocínio
não está a exercerem juízo um direito próprio .(RL - 19/6/1981, CJ 81/4,76). judiciário e o interesse processual), Mas. corno se pode concluir especialmente
Também nada impede que as partes de uma transacção incluam nesta um ou da invalidade (substantiva) prevista nos art°s 300°, n° 5. e 30 I o, nO:; I e 3. esses
mais terceiros (como no caso em que um terceiro assume uma obrigação pressupostos só têm autonomia quando não. sejam consumidos pelos requisitos
peranteurna das partes) óu concluam através dela um contrato a favor de gerais dos actos jurídicos. Isto é, esses negócios processuais, quando não
terceiro (cfr. art" 443°, n" I; CC). são tipificados .corno negócios materiais - como sucede com u trunsucção
(urt" 1248", nÓ J, CC) -, são tratados, no seu regime, como os correspondentes,
b. A desistência e à confissão só podem provir de partes principais (autor negócios substantivos, produtotes de-idênticos efeitos (ou seja, como, por
ou réu) e, se tiver intervindo uma parte acessória na acção (cfr. arr's 330°, exemplo, o negócio unilateral de reconhecimento. de uma dívida, art" 45!$O,
n° L e 335", n° I l, esta só pode celebrar Uma transacção se ríela também n° J, cci
participar a respectiva parte principal A assistência nunca afecta a posição
das partes principais quanto à liberdade de desistência, confissão ou tran- b. Os negócios processuais que conformum a decisão da causa exigem os
sacção (art" 340°), o que deve valer para todas as situações de intervenção requisitos gerais de qualquer negócio jurídico; 'nomeadamente quanto aos
acessória. sujeitos, à vontade e sua exteriorização e ao objecto negocial, É por isso que,
por exemplo, é nula a desistência, confissão ou transacção cujo objecto seja
contrário à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes (art" 28()O. n° 2, CC),
5. Extinção Expressão. desse regime comum e
o disposto no art? 30 I 0, n" I: a confissão.
adesistência ea transacção podem ser declaradas nulas, ou anuladas comous
Os negócios processuais pelos quais as partes conformam a decisão da outros actos de idêntica natureza negocial, apenas com a especialidade deque,
causa podem extinguir-se por iniciativa delas, observadas as condições quanto à confissão. o erro, apesar de dever ser essencial. pode ser culposo.
aplicáveis a qualquer acta negocia!. Mas também há que considerar a relevância A esses negócios são, igualmente aplicáveisas disposições sobre a conclusão
eos efeitos da sentença homologatória desses negócios (art" 300°, n° 3). Assim, dos negócios (artOs 224° a 235° CC) e Sobre a sua interpretação eintegrução
depois dessa homologação, só a transacção pode ser revogada, resolvida ou (arr's 236 a 239°' CC),
0

rescindinda, embora a, sua extinção não afecte 0$ efeitos processuais produ-


zidos (nomeadamente a extinção da Instância, art''s 287°, aI. d), e 294°). O autor Na jurisprudência, cír. RP - 1511119gI., BMJ 303. 172, Refira-se 4ue a dcsculpabilidudc
que desistiu do pedido ou da instância ou O réu que confessou o pedido não não é um requisito geraI do erro. pois a lei só, ern certos Casos exige que ele seja desculpável
,,0
(islo é. exclui a relevância do erro culposo): cfr. ur!'\ '3.38". 476", n° J, 477", I, 16.16°, !.64Xo,
n" I, e 199()0, nÓ I. Ü\. c). Cc.
Composição da. acção 199
200 Composição da acção

A acção de nulidade ou de anulaçãopode ser instaurada após o trânsito


em julgado da sentença homologatoriu da confissão, desistência ou transacção b. A nulidade da confissão, desistência ou transacção, quando provenha
(art 3()[0. n" 2). Obtida essa declaração de nulidade ou anulação depois do
Q

unicamente da falta de. poderes do representante ou da insuficiência do man-


trânsito em julgado daquela sentença, a parte pode impugná-la no recurso dato, é sanável (o queconstitui uma situação excepcional relativamente ao
extraordinário de revisão (art" 771°. al, d) I. Se a fase rescindente da revisão regime.ncrmal da nulidade: ctr. art" 2R6° cci Sobre os modos: de obter
terminar Com o reconhecimento do fundamento invocado. segue-se a fase essa sanaçao.há que distinguir entre as situações que se reterem a um
rescisória, que consiste, nessa hipótese, numa nova instrução e julgamento da representante geral e aquelas que respeitam ao mandatário judicial. QW\f1t(l
causa, aproveitando-se apenas a parte do processo que o fundamento da revisão àquetasprimeiras, há que procurar o respectivo regimesubstantivo (corno, por
não tenha prejudicado (art" 776°, ai. é». exemplo, aquele que consta do art" 1'89,3° CC quanto aos uctos anuláveis dos
progenitores).
Quando li transacção seja nula, o direito de interpor recurso de revisão da sentença
Sea nulidade do negócio processual resultar da tafia de poderes do.
hOJnol'i!!"túria não GUJ\lGI no prazo de 5 anos a contar do proferimento da sentcnçu
h.o\1Hllo!!utoriüque S~ encontra previsto no art" 772'\ n" 2 .. gado que a. nulidadeéjnvncâvel a mandatãrio judicial ou da irregularidade do mandato, a sentença hnmolugatúriu
todo \l tempo por .qualquer interessado Um" 2R(ió CC): RI" ~ 2412/1994. CJ 941J. 244, é notificada pessoalmente ao mandante (ou ao seu representunte), podendo este.
nos 10 dias seguintes, declarar que não ratifica oacto do. mandauirio: senada
c, Numa situaçãoplurilocalizaõü, a formação do negócio processual é fizer, o aCt(l 6 havido por ratificado e a nulidade ccnsiderü-se sanada, ma:;, se
regulada pela.lei aplicável à substância do negócio (art" 356, n° 1, ce; ar!" 8°, O mandante declarar que não ratifica oacto do mandatârio, este nãoprodU:7.irá
o" I, CRoma). qualquer efeito em relação a ele (art" 30 I n° 3). Nesta hipótese, dispensa-se
0,

o recurso extraordinário de revisão (cfr, art077I°, al, e) infine), embora •. se


não houver ratificação do neg6cio,se deva aplicar à, tramitação subsequente
2. Representação
da causa, por analogia, o dispostono art" 776°, aI. c). Se faltar essa notificação.
o mandante pode socorrer-se desse recursoextraordi nário (art" 171 ", a I. ej) para.
a. Existem algumas especialidades quando a desistência, aconfissão ou
a transacção resultem de actos praticados por representantesde pessoas
obter aanulação da decisão bomologatória.
colectivas, sociedades, incapazes ou ausentes. Conforme djspÕéü art" 297";
es~cs representantes s.ô podem desistir, confessar ou transigir cOnloQsetV5liCjn l Legitimidade
dü âmbito e limites dos seus poderes de representação e, em alguns çi\$O!i.
precedendo uurorlzação especial. Como exemplo das situações em que a lei Quanto à legitimidade, há que observaras especialidadesimpostas pelas
exige ao representante legal uma prévia autorização judicial pode referir-se que situações de litisconsórcio, Quanto a elas, ti art" 298°, 11l> 1. estipula que, nos
os progenitores, quando sejam representantesjudiciais do filho.não podem. sem casos de litisconsórcio voluntário, é livre a .çonfi!:\s~o, desistência e transacção
uutorização do tribunal. negociar transacção (art" 18~'9ó. n? I, al. o),CC), por cada Um dos litisconsorres, quando limitada ao interesse de cada um qeles;
regime que, por maioria de razão, vale igualmente para-a desistência e a por sua vez, o art° 298°, n° 2, exclui a confissão, desistência nu transacção
confissão do pedido. A mesma autorização é exigida, em idênticas circuns- proveniente ou celebrada por um único dos litisconsortes necessários.
tâncias, tio tutor (an° 1938°, n° I, al. a)" Ce) e ao administrador de bens No entanto, a admissibil'idade destes negócios processuais não pode
(un° 1971". n° L CC), depender da origem voluntária nu necessária do litisconsórcio. O art" 298°.
Para que o mandatário judicial possa desistir, ..confessar ou celebrar tran- n? I, não se pode referir a qualquer litisconsórcio voluntário. mas somente
sacção, .é necessário que lhe sejam conferidos poderes Forenses espeCiais àquele em que cada um dos Iitisconsortes possui urn interesse üUlonomjzável
(art" 37°. n° 2)., Atendendo à importância. desses actos e dos seus efeitos, a lei perante oirttet'esse dos outros litiscónsortes, pelo que ele deve ser entendido
não os incluiu no âmbito dos poderes forenses gerais (cfr: are 36°, n° l )e exigiu como referindo-se realmente ao litisconsórcio simples (is~o é, não unirário). Por
para eles poderes especiais do mandatário. exemplo: 'apesar de o litisconsórcio entre os SÓCi1)Sque instauram uma acção
de anulação de uma deliberação social ser voluntário (cfr. art" 59", n" I, eSC) ..
1- 1- r 1- r 1- r
Composição dei acção 2UJ
202 COinpnsiçclo da acção
.~--~--~----------------
nenhum desses autores pode desistir do pedido, porque a decisão da causa tem
de ser uniforme para todoseles.
Uma mesma Jhdü;ponibiJidadeabsolutü afecta ll. acção de regulação do
Também sucede que nem todo o litisconsórcio necessário obsta 11
poder paternal, dado o caiá<.;terirrenünciável deste poder (art" 1882° CC).
participação de um único dos Iitisconsortes na confissão, desistência. ou
Assim, na <l.<.;çãode té.g\llação do exercício do poder paternal não é válida a
fransacção, pelo que o art" 298.'" n° 2, não se refere a todo o litiscousórcio
de$istênei,( do pedido (RL" 15/311983, BM] 332, 507); também é nula, pelo
necessário. max tão-somente àquele que, além de necessário, é unítáric, Pode
seu objecto, a transacção judicial. em que a mãe renuncia às prestações vencidas
mesmo encontrar-se u.riiexeIYiph) legal de uma desistência do pedido
dealimentos devidas pelo pai ao menor e este progenitor r~nLlnci4 ao direito
provenienté de um ünicQ dos litisconsorres necessários: se o direito de
de o visitar (RP - 91211978, CJ 78/t, 169; cfr. também, em referência a
preferência pertencer simultaneamenre a v;írios titulares, ele só pode ser
prestações vincendas, RP- 912/197$" C11812, 593),
exercido-dispõe oart" 4J 9", n° I, CC - pOr todos eles, mas admite-se que
algum deles declare que não o ptetendeexercer; se ~stâdecln,fação for emitida
<.;;Encóotram.se igualmenre algumas situa.çÕeli de irrdispunibilidade
dUNtntc .<t. pendência da acção, conforrna-se uma hipótese de desistência do
reJati va, Podemrefetir-se as acções de divórcio (ch. art° 1773 CC)e de 0

pedido realizuda por um litisconsorte necessãrio.


separaçãü judicial ele pessoa» e bens (cfr. art" I 79Y-A eC):nestas. acções.mão
sao a<.lmissívei~acontTssão do pedido e a transacção, rnaso autor PQde desistir
do pedido (artO 299", n° 2) ..Também na acção dealimentos não ~ adrnis~.íveI ,.
4. Disponit,i.lídade
desistência do pedido, excepto quanto a prestações vend<.las (cfr; a.tt°:ZOQ8",
a. A c(\J1fi~sãü, li dt;;;i$tê.Ijçi4 do pedidot; ttünsucção não são admissíveis
á
n° 1.,eC), mas Q réu pode confessar Ó pedido eas partes ppdem tran~igirquanto
relativamente a situações jurrdic4:sindisponívcL~ (mO 299°, n" l),i$IO é, a
ao seu montante (a ttánsacçao é ujua dáS p(lssfycis modalidades dn acordo
situações que não podem ser constituídas, modificadas ou extínras PQt vontade previ stc no att" 2012" CC) (2).
das partes (cfr. também, quanto à transacção, o art" 1249 Cel. Corno }j
0

Porque a. desistênci« (lo pedido leva à cxtinçã« do.direito ulegüdlÍ(ar!Ó 295". n" I) c porque
desistênciada instância não produz nenhum desses efeitos sobre o objecto do
a. lei .substuntiva salvaguarda (1 direito de os cornptoprietáriosnüo pennauecerernpara sempre
ptQeesl'iO (cJ r. art' 295",no 2), a indisponibilidade deste objecto nunca a excluí. naindivisão (art" 1412°. n" I, CCi, não é válida a desistência do pedidonaacçâo de divisão lle
coisa comum: RP - 1911/1977\ CJ 77/1,72. À.súJúçãÓ é duvidosadadóque (j ar!" 1412".1\" I,

Sobre ;rlgulllm; .5ituaç6c~ de indisponibilidude, ctr, art"s 731", n" 2, 1236", n" 2, n9Ró, CC admite à indivisibítidade convencional. () que demonstraque o direito (puicsrativo) àdivisão
iió 2. 1420". n" 2. 14óW\ n" 4, 1765°. 1]" 1.1882\ 20.03", n" 1. 210.1°. n"2,e 231 1 ,110 t, cc
0 li renunciãvcl por acro jurídico.

b. A indisponibil idade da. situação j urfdica pode ser absoluta. ou relativa: c. Os negócios processuais não podem ser celebrados pela parte quc,péla
~é absoluta sé a. sit\ü)Çã.ü nã{) admite. nenhumdes$es negóciosprocessuais; - é sua. quatidade.processual.não POSStÜ qualquer disponíbilidi\qe sobre \) objecto
relativ<í se for <ípll1issíVêl algum ou alguns desses negócios; do processo, Dado que () substituto processual não pode dispor desse objecto
Uma indlxponibilidade absoluta verifica-se, PQf exemplo, I1<íS4cçõe~ (porquenão é o séU tituIar ou nao o éell'lexd!Jsividade), essa parte não pode
de lnvestigação da maternidade (cfr.artO 1814" Ce) ou da paternidade desistir oucü!1f~li~ar (j Pêpido, nem celebrar transacção. Assim, na ncçãc de
(cfr. art" 1869 Ce). Dado .0 carácter irrenunciãvel
0
do estado de filho e a prestação de ctlh(asinstaur"da pelo cabeça-de-casal contra o administrador da
irrelevância da vontade paraa sua constituição, nessas acções não é admissível hern,nçlhaqttele não POde desistir do pedido sem estar acompanhado dos demais
nC111l\ desistência do pedido, nem a confissão do mesmo .. Por natureza, essas herdéiros(RL - 191611981, C1 8114, 76).
acçôêS Irão admitem transacção, porque a qualidade de filho não é susceptfvel
de ser nego(!iüda 1l1eç!ianle qualquercontrapartida (I I.
desistência e ri transacção rras acções de jnvcstigaçâo da paternidade. cfr. Paulo Cunha. As
(11 C6t1igo de Processo Civil I (Colmbr~
ldenticumcnte. elr. Albl'l'to dos Reis. Comentárioao acções de invesrigação !.lI' paternidade ilegítima e a transacção cxtrajudicihl, Di r, 6S (1935),
1044). 521 xs.: Castro Mendes, Direito Processual Civil I (Lisboa 1986), 215. ss.raccirando a 226 ss., 2Sg sS.e 290 ss.; em ctíticu, cfr. Eduarda Ralha. Acções em que Il~(1 ~ llvrenrcnrc
pcnnitidaa confissão, desistência ou transacção. RDES 12 (1965), 34 SS ..
121 Sobre outras situuções de indisponibilidade relativa, ctr. ClIS/Hj Mel/lh'.I'. DPC l. 225 ss ..
Composiçãodo acção 203
204 Composição da acção

.5. limites substantivos


b. NAda se refere na lei quanto ao controlo, nessa sentença homologutória,
Através da desistência, confissão ou transacção não é pqs~ível obter
dos pressupostos processuais. Parece haver que .distinguir duas situações.
efeitos, que só podem ser produzidos através de uma sentença judicial, Assim,
Alguns desses pressupostos valem agora como pressupostos dos próprios
por exemplo, atento o disposto no art" 63°, n" 2, RAU- quedetermina que
negócios processuais e são consumidos pelos: pressupostos desses negócios
a resolução do contrato fundada na falta de cumprimento por parte do
como actos jurídicos (pense-se, por exemplo; na capacidade judiciária da parte,
arrendatário tem de ser decretada pelo tribunal -, não é válida a transacção
art" 9°, n° I). Mas outros pressupostos processuais rnantêrna sua autonomia e
judicial que, no caso do não pagamento pelo arrendatário das rendas vin-
podem constituir um obstáculo ao proferimento da sentença hnrnnlogatôria
cendas, considera automaticamente resolvido o contrato de arrendamento
(que.excepto quandoreferidaã desistência da instância, é uma decisão sobre
(RL - 17112/1991, BMJ 412, 54J).
O merit(l): é es~e o caso, por exemplo, da. incompetência.absoluta.do tribunal
Esses negõcios são, todavia.cadmissfveis em casos em que osefeltos por
(art" 101°).
eles produzidos nãó poderiam ser obtidos no prépricprocesse pendente.
Suponha-se, porexemplo, que O autor reivindica a propriedade de um imóvel, c,Com o trânsito em julgado da sentença hornologatóriatart" 677°), a
apresentando COl110 título de aquisição um documento particular; a nulidade desistência, a.confissão ea transacção ficam cobertas pela força de caso julgado
desse ccruruto (açfOs 220° e 875° CC) não obsta à validade da confissão do dessa decisão. Mas este trânsito não obsta à adrnissibilidade da acção destinada
pedido (nomeadamente, porque-o contrato tiUO éa única forma de aquisição à declaração denu\idadeou à anulação de qualquer desses negócios (art" 30 1°,
da propriedade: cfr, art" I~16 CC),0
n° 2), nemImpede que, na oposição à execução baseada na J;e.11tcóça 'horno-
Iogatõria, o executado alegue qualquer d.as caü$á$ quedetermlnarn aquela
nulidadeouanulabilidade (art" 81.5",n° 2).
Ó. Forma e homologação

a. A desistência, a confissão -e ;l transacção podem fazer-se por termo no Hl; Análise casuística
processo ou, segundoas exigências de forma da lei substantiva, por documento
autêntico ou particular (art'' 300°, n° I); quantoà transacção exrrajudicial, o
J. D(:~jstênêi}! da instância
docurnerno uutêntico saé exigidoqunndo dela possa derivar algum efeito para
() qual seja requerida a escritura pública (art" 1250° CC). A transacção também a. A desistênCia da instância é o negqciQ l,lnililteral através do qual o autor
pode ser rcíta ~1I1 acta, quando resulte de conciliação obtida pelo juiz (art" 300°; renuncia à obtenção da tutela jurisdicional requerida. Esta desisiênda não marca
n" 4 la parte; cfr. art"s 50go-A, n" I, aI. a), 509°, n" I, e 652°, n" 2), qualquer posição do autor quanto à situação jurídica por ele alcgada em juízo.
Lavrado o respectivo termo Oll junto o documento, o tribunal examina se, pois que apenas significa que essa parte desiste de procurar tutelar essa situação
considerando o objecto e. as partesdo negócio, a desistência. aconfissão ou a no processo pendente.
transacção é válidn (art" 300°,n°.3 la parte). No caso afirmativo, o tribunal Por isso, a desistência da instância rião pode-referir-se a uma fracção dü
homologa o negócio processual e condena ouabsolve nos lenl1ÜS estipulados objecto da acç.ão:não é possível desistir da instância quant«. pnrexernplo, ti
pelas partesré esse o conteúdo da sentença homologuróría (art" 300.",n° 3 uma parte do montante da indemnização requerida. Quanto à desishê(lÇ'iá da
2" parte). Se a transacção tiver sido realizada em acta (cfr. art" 300°, n" 4), ° instância deum doslitisconsortes activos ou em relação a urn dos Iirisconsortes
tribunal. homologá-Ia-a por sentença ditada para ela, condenando a parte nos demandados, tal só é possível 1)0 caso de Iitisconsórcio simples (ou não
termos definidos naquele negócio (art" ~OO", n° 4 2a parte) ... unitário), mas, na hipótese de o efeito de caso julgado da decisão da causa se
A.sentença homologatóriu que aprecia uma transàcção não pode alterar os precisos termos estender li essa parte. demandada mesmo que se torne terceiro perante a acção,
que torarnobjccto deucordo tias panes: RL. 2.017/1979. CJ 19/4. 11.80. O mesmo vale quanto tal desistência. necessitará do seu consentimento se for realizada depois do
a qualquer uns HlItrps negócios processuais. oferecimento da contestação: é asolução que é imposta pela aplicação analógica
do art° 296°, n° 1.
[
[-

Composição da .acç(io 205


206 Composição da acção

b. A desistência da instância apenas faz cessar o processo pendente


(art" 295°, n" 2), isto é, extingue a instância sem nada definir quanto à situa- A desistência do pedido pode ser total ou parcial (arr' 293°, n° I), Além
ção jurídic4 alegada, Importa, assim, tutelar os interesses do réu quanto à disso, a extinção (ou constituição) da situação jurídica provocada pelá desis-
expectativa de obtenção de uma decisão de mérito favorável. É isso que tência do pedido' releva em todas as situações nas quais a existência desse
justifica que a eficácia da desistência da instância, quando seja requerida direito constitua uma questão prejudicial pata a apreciação de um outro objecto,
depois do oferecimento da contestação, fique dependente de .aceitação do Assim se decidiuno Assento/S'TJ - 15/6/1988 (DR, I - 1/8/1988 == BMJ 378,
réu (art° 296", n" I). Essa concordância deve ser cornünioadapelo réu ao 95):"0 desistente do pedido de simples apreciação prescinde do conhecimento
tribunal. do respectivo direito e, por ISso, o caso julgado impedi-lo-à de estruturar nele
Se o réu tiver formulado um pedido. reconvencional, parece não dever um pedido de condenação".
deduzir-se do seu consentimento para a desistência da instância urnasemelhante
desistência, dasuu parte, quanto à instância .reconvencional. Isso só sucederá
" por aplicação u!)alógica dodisposr» no art" 296°,n" 2 - quanctoa reconvençâo 3, Confissão do pedido
for dependente do pedido formulado pelo autor. Nos demais casos, deverá
a. A confissão do pedidoéo negócio unilateral pelo qual o réu reconhece
entender-se que a reconvenção subsiste após a desistência da instância.
o fundamento do pedido formulado pelo autor. A confissão pode ser total ou
c. Os efeitos da desistência da instância retroagem ao momento da parcial (art" 29)", ni> 1), Consoante o âmbito do reconhecimento realizado
propositura da acção, pelo que, em regrã, tudo se passa como se a acção nunca pelo réu.
tivesse estado pendente. Assim, extinguem-Se todosos efeitosproduzidos pela Parece também poder classificar-se a confissão do pedido atendendo à
pendência da causa e pelos actos' praticados durante essa pendência. Por posição assumida pelo réu. Segundo esse critério, essa confissão pode ser
exemplorse a causa repetia. uma acção idêntica e originava U01<l excepção de simples cucomplexa.>- é simples quando o réureconhece o pedido tal como
lirispcntíência (cfr. aftÓS 497°, n" 1, .e 498°), a desistência da instância deter- ele é formulado pelo autor; - é complexa quando o réu reconhece o pedido
mina a cessação dessa mesma excepção. Ressalva-se dessa destruição do autor, mas opõe-lhe um contra-efeito, Assim, verifica-se urna confissão
retroactiva o efeito interruptivo da prescrição provocado pela citação do réu complexa quando, por exemplo..o réu confessa ocrédito pretendido pelo autor,
(art" 323°, nOI, CC)ou pelo decurso de 5 dias apósa propositura da acção O1<lf\afirrna quesó o satisfará quando essa partecumprir a respecrivaprestação
(art" .313°, n° 2, CC): depois da desistência da instância, começa a correr um sih<ilagmátíca. AO contrário daconfissãp simples, esta confissão complexa
novo prazo prescricionala partir do.acto que provocou a interrupção (art" 327°, depende, atendendo aos seus efeitos, da aceitação do autor: éo que se pode
n° 2. cq, isto é, a contar da cita9ão, real ou ficcionada, do réu. extrair, por analogia, da regra da indivisibilidade da confissão de factos
(art° 360° CC).

2. Desistência do pedido b . .A confissão cio pedido implica. consoante seja total ou parcial, a
extinção ou a modificação da instância (art"s 2946 e 287°, ai. dj ), Deve
A desistência do pedido é o negócio unilateral através do qual o autor entender-se que essa extinção ou modificução é acompanhada do efeito
reconhece a f,il!a de fundamento do pedido formulado. Diferentemente da substantivo daquela (;on6$são, que é o reconhecimento, total ou parcial. da
desistência da instância, a. desistência do pedido representa o .reconhecirnento situação jurídica invocada pelo autor.
pelo autor de que a situação jurfdicaalegada não existe ou se extinguiu (ou, A confissão do pedido não pode ser submetida a qualquer condição. Mas,
no caso de uma acção de simples .apreciação negativa, de que a situação por quanto à confissão do pedido subsidiário (cfr, art" 469°, n° 1), deve entendere
ele negada realmente existe). A desistência do pedido extingue a situação -se que, normalmente, ela só vale para o caso de () pedido principal vir a
jurídica que o autor pretendia tutelar (arr' 295°, n" 1) (ou constitui a situação irnproceder.
que o autor' negava).
Composição da acção 207
208 Composição da acção

4. Transucção
§ 2°.
a. A transacção é o contrato pelo qual as panes previnem ali terminam
um litígio mediante recíprocas concessões (art" 1248°, n° I, CC). Quando as Composíçãopor revelia
partes previnem \1JTI litígio futuro (o que significa que não há qualquer acção
pendente) •.a transacção chama-se preventiva ou extrajudicial; quando as partes
terminam um litígio (entenda-se, quando põem termo a um processo pendente),
r. Noção
a transacção chama-se judicial.
A composição da acção pode ser decisivamente influenciada pela omissão
de uITÍ acto processual: trata-se da revelia do réu, que consiste na abstenção
b. A transacção pode, ser quantitativa ou novatória, qualquer delas definitiva de contestação,
'podendo abranger a totalidade do objecto do processo ou apenas uma parcela
deste, A transacção quantitativa é aquela em que as concessões recíprocas das Num sentido mais amplo (mas algo impróprio). H revelia significa a ornissâu de um acto,
processual ou a falta de cornparência em juizo: cfr.. por exemplo, arl°j; 266°. n° 3..400°, n" I,
panes sé traduzem numa modificação do quantum do objecto da causa. É o que 509°, n" 2, e 796", n" 2.
sucede quando. por exemplo. () réu admite pagar uma parte da quantia
pretendida pelo autor e este desiste de obter a condenação do réu quanto à sua A contestação - na qual o réu pode impugnar as afirmações do autor ou
totalidade ou quando o réu reconhece a propriedade do autor sobre uma parcela deduzir urnaexcepção (cfr. art" 4870,. TIO I) -éonstitui um ÓIl\1S da pà.ne,ó,âp
do terreno reivindicado pelo autor e este aceita a propriedade do réu sobre o existindo, assim, qualquer dever de contestar. Daí decorre que a revelia não
restante .. determina a aplicação ao réu de qualquer sanção (pecuniária, nomeadamente),
A transacção novatória é aquela em que as concessões mútuas entre às mas antes certas desvantagens quanto à. decisão da acção (concretamente, a
partes implicam a constituição, modificação ou extinção de direitos diversos diminuição, ou mesmo exclusão, da' probabilidade de uma decisão. favorável
do objecto do iitígio (art" 1248°, n° 2, CC). Assim, por exemplo, numa acção a essa parte).
de reivindicação com base na propriedade de um imóvel, as partes podem Testemunho. curioso db. dever de comparecimento (lo. ré